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FUNDAÇÕES
Teoria e prática
Editores
Waldemar Hachich, Frederico F. Falconi, José Luiz Saes, Régis G. Q. Frota,
Celso S. Carvalho e Sussumu Niyama
FUNDAÇÕES
Teoria e prática
Editores
Waldemar Hachich, Frederico F. Falconi, José Luiz Saes, Régis G. Q. Frota,
Celso S. Carvalho e Sussumu Niyama
FUNDAÇÕES: TEORIA E PRÁTICA
© Copyright Editora Pini Ltda.
Todos os direitos de reprodução ou tradução reservados pela Editora Pini Ltda.
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação [CIPJ
[Câmara Brasileira do Livro, SR Brasil)
Fundações : teoria e prática. — 2. ed. - - São
Paulo: Pini, 1998.
Vários autores.
Vários editores técnicos
Bibliografia.
ISBN 85-7266-098-4
1. Fundações
98-3216 CDD-624.15
índices para catálogo sistemático:
1. Engenharia de fundações 624.15
2. Fundações : Engenharia 624.15
Coordenação dc livros: Raquel Cardoso Reis
Projeto gráfico e serviços editoriais: d'AZ F.ditoração Eletrônica S/C Lida.
Paginaçào (2 4 ' edição ): Lúcia Lopes
Capa: Lúcia Lopes
Revisão: Roberto Carlcssi
Editora Pini Ltda.
Rua Anhaia. %4 - CEP OI 130-900 São Paulo. SP
1-Vnc:0l I 3352-6400-Fax OI l 3352-7587
Internet: www.piniweb.com- l£-mnil: manuais@pini.com.br
2 3 edição
9 a tiragem: 1 000 exemplares, abr/09
Este livro é fruto dc uma feliz combinação de idéias e estímulos
das diretorias dc duas associações: a ABMS, através do Núcleo
Regional de São Paulo, e a ABEF.
Alguns de nós temíamos inicialmente que o empreendimento
fosse por demais ambicioso. Afinal, ainda não existia no Brasil
um livro completo de Fundações. Reunir as contribuições dc muitos
autores era como tentar reger uma orquestra cujos músicos estivessem
espalhados pelo País. Para complicar, havia seis maestros...
Antes de mais nada, era necessário conseguir que os editores
tivessem uma visão mais ou menos consensual do livro. Em diversas
reuniões realizadas na sede da ABMS nacional os regentes
conseguiram uniformizar razoavelmente sua visão da obra. O conteúdo
deveria ser o estado-da-arte dc concepção, análise, projeto,
execução e monitoração de fundações no Brasil; seria um livro
com um significativo apelo prático, sem perder de vista a base
conceituai teórica. Quanto à forma, deveria ser um texto de referência
bastante completo, mas suficientemente articulado para atender
também a sua tão necessária utilização como livro didático.
O livro foi organizado em cinco partes e vinte capítulos. A primeira
parte é uma síntese dos fundamentos da Mecânica dos Solos,
indispensáveis ao exercício de uma boa Engenharia de Fundações.
A segunda parte trata das fundações em todas as suas
múltiplas facetas. Como obras de fundações são, em geral, acompanhadas
de escavações e contenções, a elas foi dedicada a terceira
parte. Da mesma forma, as obras complementarcs da quarta
parte são por vezes indispensáveis para a execução das fundações.
Finalmente, a quinta parte trata de um tema cada vez mais
essencial para preservar a competitividade: a qualidade, seus requisitos
c procedimentos.
A escolha dos músicos foi, talvez, a parte mais fácil da tarefa,
visto que a capacitação disponível no País era até muito maior do
que as possibilidades de acomodação no tamanho previsto para o
livro. A preocupação de obter colaborações as mais significativas
para a obra, viessem elas de onde viessem, levou ao convite a
autores das mais diversas regiões, apesar das dificuldades logísticas.
Ainda assim, desculpamo-nos pelas inevitáveis omissões.
Nossa preocupação com a qualidade das contribuições nos levou
a formar uma orquestra de verdadeiros solistas (não, este não
é um abominável trocadilho)! Nessas condições, é evidente que o
maestro (maestros, no caso) tem que exercitar plenamente as suas
— oxalá existentes! — habilidades no relacionamento humano,
posto que os solistas são músicos muito mais graduados e experi-
entes do que o próprio maestro, E este livro só foi possível graças
à enorme colaboração dos 50 autores que emprestaram seu brilho,
enorme talento e a indispensável transpiração para levar a
bom termo a tarefa solicitada pelos editores.
Escolhidos os músicos, era necessário transmitir a cada um deles
a sua partitura e uma idéia da partitura dos demais, bem como
tentar estimular o contato direto entre eles para a troca de idéias
sobre a interpretação da obra. Instruções mais ou menos pormenorizadas
foram redigidas c diversas reuniões foram promovidas
com grupos de autores, na tentativa de discutir com eles o tom da
obra. A presença dos autores a essas reuniões foi significativa mas
não total, exatamente devido às dificuldades logísticas e às limitações
de ordem econômica.
Alguns autores, porém, entusiasmaram-se tanto com o empreendimento
que até participaram de várias outras reuniões dos
editores, oferecendo desinteressadamente a contribuição valiosa
da sua experiência. A eles, os nossos agradecimentos.
Os prazos para entrega dos capítulos foram estabelecidos e começou
o que seria o primeiro ensaio. Pretendia-se então que um
segundo, tão extenso quanto o primeiro e fundamentado nos resultados
deste, ajudasse a eliminar eventuais
dissonâncias,
descompassos e, se possível, permitisse até mesmo compatibilizar
nuances subjetivas dc interpretação.
Alguns poucos autores cumpriram os prazos à risca. Muitos se
atrasaram um pouco. Alguns se atrasaram muito! Estávamos preparados
para essa situação e procuramos gerenciá-la de forma
flexível, pois bem sabíamos que as contribuições dos autores eram
fruto exclusivo da sua boa vontade, e que a responsabilidade da
obra os obrigava a significativos sacrifícios da sua rotina de trabalho
cu de lazer.
Adiamos ao máximo o final da primeira etapa e, em conseqüência.
fomos forçados a reduzir ao mínimo indispensável a revisão
compatibilizadora dos consultores da Comissão Editorial. Estávamos
cientes dc que isso redundaria cm um certo prejuízo para a
unidade da obra e para a articulação dos diversos capítulos.
Autores que haviam cumprido os prazos foram forçados a esperar
muito até obterem alguma manifestação da Comissão Editorial, que
tinha que aguardar a entrega das demais contribuições para tentar
promover uma melhor integração. Foi-lhes solicitado, em seguida,
que promovessem as alterações sugeridas pela Comissão Editorial
cm prazo extremamente exíguo. Em todas as circunstâncias
contamos com notável empenho e espírito de colaboração. Se às
vezes divergimos deles em algum "pianissimo" ou "staccato",
curvamo-nos em geral ao seu virtuosismo.
A obra começava a soar dc forma agradável, mas acima de tudo
era indispensável encontrar quem patrocinasse a primeira temporada.
Afortunadamente, encontramos um mecenas que, com espírito
nobre c grande desprendimento, percebendo o enorme valor
do projeto para o meio técnico e para a Engenharia Geotécnica
nacional, do alto dos seus quase 80 anos, mais dc 50 dedicados à
Engenharia, assumiu o patrocínio. A ele, nosso reconhecimento.
Esta magnífica obra de Engenharia de Fundações,
que ora vem a lume, procurou reunir
num único tratado, através das contribuições
dos nossos maiores especialistas, o que de
melhor se pratica no Brasil neste campo.
É portanto um marco da nossa Engenharia.
t
Para propiciar a fruição de suas excepcionais
qualidades, pelo meio técnico nacional e
principalmente pelo meio universitário, faziase
mister torná-la acessível ao público interessado.
Pelo alentado da obra, bem poucos poderiam
adquiri-la, a menos que houvesse um
patrocinador que, por amor e dedicação à Engenharia,
assumisse os ônus de sua impressão.
Este benemérito surgiu na pessoa do Sr.
Pelerson Soares Penido, diretor-presidente da
Serveng Civilsan S/A Empresas Associadas de
Engenharia, cujo perfil tentaremos esboçar a
seguir:
A personalidade do Dr. Penido se define
como a de um homem modesto, corajoso,
empreendedor. Enfim, possui as qualidades
de um líder.
O seu lema de trabalho é sempre concreto
e árduo, jamais utópico. Sempre transforma
suas idéias em realizações.
A sua força de líder, obstinado e
autoconfiante, arrosta qualquer perigo quando
se trata de defender o progresso.
A sua estrela sempre brilha e ilumina o
caminho dos que o seguem.
Mas o grande segredo do Dr. Penido, reside
em sua larga experiência no campo da
Engenharia.
A esse respeito, ele relata estórias interessantíssimas
de sua militância, desde a construção
dos túneis para a Segurança Nacional
e postos de observação dos fortes Jurubatuba,
Santa Cruz e São João no Rio de Janeiro no
tempo da Segunda Guerra Mundial, até a construção
do Porto do Itaqui, no Maranhão, passando
pela reforma da Escola Nacional de
Engenharia e construção de seu anfiteatro, da
capital de Goiás e da rodovia Anápolis-
Tocantins, além de muitas outras.
Ampliou seu campo de ação e hoje também
atua no setor imobiliário, no transporte
de passageiros, através da Empresa de Ônibus
Pássaro Marrom S/A, na pecuária e na
comercialização dc veículos.
De 1964 a 1965 ocupou com competência
o cargo de Secretário de Obras na Secretaria
de Serviços e Obras Públicas do Governo do
Estado dc São Paulo.
As pessoas que no futuro tiverem a felk
dade de computar esta notável obra de Engenharia
dc Fundações certamente haverão de
se lembrar que foi graças à bcnemerencia de
Pelerson Soares Penido, empresário emérito,
que esta magnífica obra pôde ser amplamente
divulgada.
4
ABMS-Associação Brasileira de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica
Diretoria (1994-1996)
Presidente:
Secretário:
Tesoureiro:
Secretário executivo:
Sussumu Niyama
Marcus P. Pacheco
Artur Rodrigues Quaresma Filho
Akira Koshima
Diretoria (1994-1996) do Núcleo Regional de São Paulo (NRSP):
Presidente:
Vice-presidente:
Secretário:
Tesoureiro:
Secretário executivo:
Waldemar Hachich
José Carlos Ângelo Cintra
Celso Santos Carvalho
Frederico Falconi
Régis G. Q. Frota
ABEF-Associaçao Brasileira de Empresas de Engenharia de Fundações e Gcotecnia
Diretoria (1993-1995)
José Luiz Saes
Roberto Carlos Nahas
Núncio Petrella
Juvenal O. Miller
José Carlos Peçanha
Presidente
Vice-Presidcntc
Secretário geral
Diretor
Diretor
Diretoria (1995-1997)
Clovis Salioni
Armando Caputo
Clovis Ashcar
Heitor Manrubia
Walter lório
Presidente
Vice-Presidente
Diretor de eventos
Diretor financeiro
Diretor de relações com o mercado
PREFACIO
VICVORF. B. DE MELLO
Prefaciar um livro dc iniciativa tão corajosa e valiosa constitui um desafio,
de lào grave responsabilidade quanto desejadamente útil seja a obra.
Relatar c registrar com crítica construtiva um passado, um acervo tão grande,
é indispensável; mormente num País-contincntc, jovem, incumbido de incorporar
a solos geologicamente muito diferentes os ensinamentos convencionais
teórico-práticos de outras geografias físicas e de idealizações acadêmicas. A falta
de um Livro Texto minimamente ajustado e adequado às necessidades locais foise
agravando de postergação em postergação, enquanto as pressões imediatistas
de construção foram sendo atendidas. Parece chegada uma hora propícia.
Não há Presente confortável nem Futuro fecundo sem conhecimento e
reconhecimento respeitoso das lições do Passado. Por outro lado. é necessário
enfatizar os males e riscos de uma consignação estática, numa condição
de dinâmica acelerada de revisões c avanços por todo lado.
Existe porventura alguma lacuna na Teorizaçào aplicável a Fundações? Existiria
porventura uma Teoria de Fundações que viesse a ser diferente e particularizada
para o Brasil, que não seja diretamente a mesma de todo o mundo?
Não. Portanto, a lacuna dc uma nova, renovada, síntese da Teoria de Fundações
c mundial, internacional, devido ao acelerado acúmulo de incrementos
de informações provido pelas incontáveis publicações de artigos técnicos. A
lacuna peculiar ao Brasil neste aspecto c liminar, da inexistência de um
bom livro dc texto, cm síntese crítica abrangente c em nosso idioma.
E quanto às Práticas empregadas c cm emprego atual no Brasil? Quanto ao
registro dc obras-tipo c obras notórias (Case Histories), frisemos... l>om. necessário,
fácil! Rcsguardcmo-nos, porém, da tendência dc gerar conceituação dc
que o que foi feito certo... podendo ser (e tendendo a ser) conservativo: portanto,
nào no nível mais econômico c no limiar aceitável da eventual impunidade.
Qual. então, a principal lacuna? A mesma que se registra cm todo o mundo de
vanguarda, e provavelmente em condição particularizada agravada entre nós. A
questão crucial é da INCOMPETÊNCIA DOS ENSAIOS. ÍNDICES E
PARÂMETROS. ACOPLADOS ÀS TEORIAS. DE FACULTAREM APRIMORAR
AS MÉDIAS E DISPERSÕES DAS PREVISÕES/COMPORTAMENTOS (Prediction
vs. Performance). Isto está sendo frustrantemente observado em todo o mundo;
e quiçá se descobriria persistir até mais fracativamcnte entre nós?
Fomos obrigados a aceitar como temporariamente validáveis para uso,
dcterministicamente, todo um conjunto dc pseudoverdades nominais de primeiro
grau dc aproximação, geradas principalmente nos notáveis centros
acadêmicos de Boston, Londres e Escandinávia. Fomos sabiamente educados
a acatá-las c usá-las com fé e fidelidade... até que pudessem ser revistas,
mediante dados aprimorados das realidades cm observação. Nào tivemos
condições de estímulo c apoio para questioná-las. revê-las, aprimorá-las,
salvo por iniciativas individuais e esporádicas.
Temos que rever duplamente: e por que não de uma só vez, aceitando
simultaneamente o DESAFIO de base de gerarmos nossos próprios ensaios e
índices? Por que continuaremos a ajustar nossa prática à prática desajustada
dos outros? temos proporcionalmente muito maior aversão a ensaios físicos,
de campo c de laboratório, em lugar de manipulações computacionais da
scrvilidade do computador e programa?
Interessante seria acrescentar dois capítulos, nos quais retrataríamos:
Ca) em Teoria, o que teria sido adotado se o presente livro estivesse sendo
escrito há 20 anos, em 1975, e há AO anos, cm 1955 (respectivamente próximos
a cada geração engenheiranda);
(b) em Parâmetros empregados (médias e dispersões) que avanços teriam
sido consignados e comprovados;
(c) cm Prática, que equipamentos e tecnologias teriam diferenciadamentc
constado nos mesmos decursos de anos. O que avançou mais? Não é na falta
de avanço colateral que a profissão se ressente da maior lacuna atual?
Estamos no limiar de um novo surto de entrada de equipamentos, técnicas
etc... da mercadologia globalizada intensa, que em parte despreza c suprime identidades
autóctones. Quais é que realmente nos serão úteis? Quanto custearemos
até descobrir a real utilidade prática? São tantas as desvantagens de estarmos retardados,
que lemos que duplicar esforços no sentido de acertarmos no atalho curto.
Fazem-me lembrar como bem pertinentes, para qualquer início, os comentários
deTerzaghi <cf INTERNAL REPORTdo Norwegian Geotechnical Institute: TerzaghPs
period in Turkey 1916-25) "The inventory of my laboratory included only an
empty cigar box, some kitchen ware of the collegc, and some ancient druggist
tools that I had bought ai the Bazaar". "AH the essential conclusions arrived through
my modest tests were confirmed, the proof for the old fact that the SUCCESS OF
A RESEARCH (theoretical) IS NOT DUE TO THE PERFECIION OF THE
TES7ING EQUIPMENT BUT IT RATHER DEPENDS ON THE TRUE MERIT
OF THE GUIDING IDEA". Em relacionando às enormes lacunas com que
ele se defrontou em Istambul com o colapso da Turquia em 1917-18, até
1924, das três VANTAGENS que ele ressalta no meio das vicissitudes, cabe
ressaltar "Thirdly, I had the shortage of available means and I was compelled
to experiment merely with the remedy of brain work forcing through
difficulties... the simple and inexpensive apparatus served so much better
for my purpose, for I could try several attempts without much loos of time
and rnoney... When one starts already with a complicated, expensive
apparatus, HE IS SLAVE OF HIS INSTRUMENT".
Finalmente cabe conclamar à prudência com relação ao limiar da nova era.
Conslitucionalmente imposta, relativa a Normas e Códigos: para todo um CON-
TINENTE, maior e internamente mais diferenciado do que toda a Europa... que
agora, após 16 anos de discussão e concessões, procura se reger por um código
comum, composto por códigos gerados c experimentados separadamente! Por
um lado, só cabe louvar os primeiros passos, há quarentena de anos, da introdução
traduzida (quase que só dos EUA) das principais Normas c Regulamentações.
Por outro lado, lembremo-nos que o louvável entusiasmo e energia da
juventude idealista e conscicnciosa não apaga o fato de que éramos nós mesmos.
aqueles jovens, muito menos experientes. Nas revisões ulteriores sucessivas,
em que grau, e de que forma, chegaram a ser incorporados os dados
(estatísticos) de NOSSA EXPERIÊNCIA, para ungir, com respingos de amadurecimento
cspccífico, nosso próprio esforço corajoso ultrapassado? Resguardcmo-nos
do ciclo vicioso previsível de sermos confrontados por leigos com nossos próprios
conhecimentos sempre insuficientemente certos perante o progresso.
Coragem, determinação e humildade! Cumprimento a iniciativa, nossas
Associações Profissionais e os autores, ilustres e esforçados na tarefa sempre
aprontada para ser sacrificada no afã de bem servir.
LANÇAMENTO DA PRIMEIRA EDIÇÃO, DURANTE O SEFE III (27 DE NOVEMBRO DE 1996)
A editora responsável pela publicação do livro, a casa de espetáculos
da primeira temporada, foi escolhida, além dos critérios
econômicos, pela sua tradição na área de Engenharia Civil e pelas
conseqüentes vantagens oferecidas para a ampla divulgação da
obra no meio técnico. Também ela se desdobrou para criar as
melhores condições possíveis dentro do exíguo tempo que lhe foi
atribuído.
O lançamento da primeira edição do livro, durante o III Seminário
de Fundações Especiais (SEFE III), foi talvez a primeira ocasião,
durante lodo o processo de criação, em que foi possível
reunir a quase totalidade dos autores. Um deles, nosso querido e
respeitado Carmo Yassuda, um dos solistas de primeiríssima grandeza
dessa nossa orquestra, já não pode estar conosco. Nossas
saudades!
Estamos certos de que cada um dos leitores (profissionais, acadêmicos,
estudantes) encontrará nesta obra no mínimo alguns
capítulos que lhe serão extremamente úteis e reveladores. Esperamos
que essas qualidades individuais o ajudem a relevar uma ou
outra falha na harmonia do conjunto.
São Paulo, novembro de 1996.
Os editores
Observação: as opiniões externadas, nestn data. em cada capitulo ou item, s;ío de responsabilidade
exclusiva dos respectivos autores, não refletindo necessariamente .1 posição
do Núcleo Regional de Süo Paulo da ABMS ou da ABEF.
ÍNDICE
INTRODUÇÃO
1 HISTORIA DAS FUNDAÇÕES | 1 7
ANTONIO DIAS FERRAZ NÁPOLES NETO
MILTON VARGAS
2 PROPRIEDADES DOS SOLOS | 51
CARLOS DE SOUSA PINTO
3 INVESTIGAÇÕES GEOTÉCNICAS | 119
ARTIIUR RODRIGUES QUARESMA
LUCIANO DÉCOURT
ARTUR RODRIGUES QUARESMA PILHO
MÁRCIO DE SOUZA SOARES DE ALMEIDA
FERNANDO DANZIGER
4 PRINCÍPIOS E MODELOS BÁSICOS DE ANÁLISE |
DIRCEU DE ALENCAR VELLOSO
PAULO EDUARDO LIMA DIi SANTA MARIA
FRANCISCO DE REZENDE LOPES
5 SEGURANÇA DAS FUNDAÇÕES E ESCAVAÇÕES
WALDEMAR HACIIICII
163
197
FUNDAÇÕES
6 CONCEPÇÃO DE OBRAS DE FUNDAÇÕES | 21 1
DIRCEU VELLOSO
FRANCISCO DE REZENDE LOPES
7 ANÁLISE, PROJETO E EXECUÇÃO DE
FUNDAÇÕES RASAS | 227
ALBERTO IIENRIQUES TEIXEIRA
NELSON SILVEIRA DEGODOY
8 ANÁLISE E PROJETO DE FUNDAÇÕES PROFUNDAS
8.1 ESTACAS | 265
LUCIANO DÉCOURT
8.2 TUBULÒES E CAIXÕES | 302
JOSÉ HENRIQUE ALBIERO
JOSÉ CARLOS ÂNGELO CINTRA
9 EXECUÇÃO DE FUNDAÇÕES PROFUNDAS | 329
9.1 ESTACAS MOLDADAS "IN LOCO" | 329
9.1.1 ESTACAS TIPO FRANKI | 329
CLÓVIS MARIO MOREIRA MAIA
9.1.2 ESTACAS ESCAVADAS SEM LAMA BENTONÍTICAI 336
FREDERICO FAI.CONI
NÉUO DESCIO FÍGARO
JOÃO MAITIIAS DE SOUZA FILHO
9.1.3 ESTACAS TIPO HÉLICE CONTINUAI 34S
WILUAM ROBERTO ANTUNES
HÉLVIO TAROZZO
9.1.4 ESTACAS ESCAVADAS COM LAMA BENTONÍTICA1348
JOSÉ LUIZ SAES
9.1.5 ESTACAS INJETADAS 1361
URBANO RODRIGUEZ ALONSO
9.2 ESTACAS PRÉ-MOLDADAS 1373
URBANO RODRIGUEZ ALONSO
9.3 TUBULÒES E CAIXÕES | 400
URBANO RODRIGUEZ ALONSO
SIGMUNDO GOLOMBEK
265
10 FUNDAÇÕES SUJEITAS A ESFORÇOS DINÂMICOS | 409
JOSfl MARIA DE CAMARGO BARROS
WAIDEMAR HAC!IICII
11 FUNDAÇÕES DE ESTRUTURAS
JAYMI: RICARDO DE MELLO
FRANCIS BOGOSSIAN
12 REFORÇO DE FUNDAÇÕES | 471
MAU RI GOTUEB
JAIME DE AZEVEDO GUSMÃO FILHO
OFFSHORE" 443
CONTENÇÕES
13 OBRAS DE CONTENÇÃO: TIPOS, MÉTODOS
CONSTRUTIVOS, DIFICULDADES EXECUTIVAS | 497
STELVIO M. T. RANZINI
A RS UNI O NEGROJR.
14 CONCEPÇÃO DE OBRAS DE CONTENÇÃO
JOSÉ LUIZ SAES
FI-RNANDO REDOVÇAS STUCCHI
JARfíAS MIUTIISKY
15 ANÁLISE, PROJETO E EXECUÇÃO DE
ESCAVAÇÕES E CONTENÇÕES | 537
JAIME DOMINGOS MARZIONNA
CARLOS EDUARDO MOREIRA MAFFEI
ARGIMIRO ALVAREZ FERREIRA
ARMANDO NEGREIROS CAPUTO
517
OBRAS COMPLEMENTARES
16 REBAIXAMENTO E DRENAGEM | 581
IVAN GRANDIS
LUIZ GUILHERME F. S. DE MELLO
17 TIRANTES I 603
CARMO T. YASSUDA
PAULO HENRIQUE VIEIRA DIAS
18 REFORÇO DO TERRENO | 641
MAURÍCIO ABRAM EM O
AKIRA KOSHIMA
ALBERTO CASATIZIRUS
QUALIDADE
OS AUTORES
19 REQUISITOS DA QUALIDADE DAS FUNDAÇÕES | 693
CLÁUDIO MIC! IA EL WOLLE
VERA FERNANDES IIAClIICII
20 VERIFICAÇAO DE DESEMPENHO | 723
SUSSUMU NIYAMA
NFJSON A OKI
PAULO ROBERTO CIIAMECKI
BIOGRAFIAS 755
INTRODUÇÃO 1 HISTÓRIA DAS FUNDAÇÕES 11 7
ANTONIO DIAS FERRAZ NÁPOLES / MILTON VARGAS
2 PROPRIEDADES DOS SOLOS | 51
CARLOS DIi SOUSA PINTO
3 INVESTIGAÇÕES GEOTÉCNICAS 111 9
ARTHUR RODRIGUES QUARESMA /LUCIANO DÉCOURT/
ARTUR RODRIGUES QUARESMA PILIIO/
MÁRCIO DE SOUZA SOARES DE ALMEIDA /
FERNANDO DANZIGER
4 PRINCÍPIOS E MODELOS BÁSICOS DE ANÁLISE | 1 63
DIRCEU DE ALENCAR VELLOSO / PAULO EDUARDO UMA DE SANTA MARIA /
FRANCISCO DE REZENDE LOPES
5 SEGURANÇA DAS FUNDAÇÕES E ESCAVAÇÕES | 1 97
WALDEMAR HACHICH
CAPÍTULO 1
HISTÓRIA DAS FUNDAÇÕES
1 .A - UMA BREVE HISTÓRIA DAS FUNDAÇÕES
ANTONIO DIAS FERRAZ NÁPOLES NETO
1.1 INTRODUÇÃO
A apresentação do histórico da matéria a que
uni livro se propõe, em seu capitulo inicial, obriga
a que este seja necessariamente conciso. Acontece
que fundações (ou infra-estruturas) são coisas que
não subsistem por si sós, são sempre fundações
de alguma coisa (superestruturas). Dai o histórico
condensado precisar, também necessariamente,
incluir algo sobre superestruturas, embora de maneira
mais singela e mais concisa ainda. Se, mais,
considerar-se que as práticas tanto de super como
de infra-estruturas sempre tiveram fone conotação
cultural, resulta claro, de tudo isso, que uma história
tia técnica das fundações deve ser mais
conceituai do que factual; no sentido de que, ligada
ã cultura do homem desde a pré-história, foi
formando seus conceitos como sínteses de toda
uma vasta e multimilenar experiência construtiva.
Este saber empírico foi se acumulando ao longo
dos tempos, e o fato de existirem, ainda hoje, muitas
de suas construcões, datadas de muitos séculos,
mostra o valor e a importância dessa experiência
acumulada. Sabemos que, salvo precursoras contribuições
tratando de pressões de terras (Vauban,
Bélidor e sobretudo Coulomb), só no século passado
tal experiência recebeu significativas contribuições
de ciências afins (mesmo sem esquecer
os valiosos subsídios gerais de sábiosVdo
Renascimento, como Leonardo e Galileu e até da
Antigüidade, como Arquimedes», e só neste século
XX foi cientificamente teorizada na engenharia.
A chamada Geotecnologia, como coroamento
de tudo isso e como parte da ciência e da arte do
engenheiro, é de nossos dias.
1.2 PRÉ-HISTÓRIA E HISTÓRIA ANTIGA
Mais sensível ao clima que outros animais do
Paleolitico, o homem procurou abrigar-se primeiro
em grutas e cavernas e, onde não existiam, tratou
de improvisar abrigos imitando-as, pois alguns
tinham os seus pisos a mais de 2 m abaixo do
nível do terreno adjacente, enquanto outros eram
escavações verticais, como poços rasos. Assim, é
provável que, no Neolítico, quando o homem que
na idade anterior já aprendera a lascar a pedra e.
agora sedentário, construiu suas primeiras cabanas.
já tivesse alguma noção empírica sobre a resistência
e a estabilidade dos materiais da crosta
terrestre. Tais choupanas eram de madeira, leves
portanto, mas quando construídas ã beira dos lagos,
sobre estacas elevadas — as pai a fitas —. devem ter
proporcionado idéias adicionais sobre a resistência
do solo. Cabanas feitas de pedra eram mais raras,
só onde não havia madeira ou em sítios batidos
por ventos intensos. Novas experiências devem ter
proporcionado as construções megalíticas da Idade
do Bronze, como as de Sronehenge. mas principalmente
nos zigurates dos suméiios e seus sucessores
na Mesopotâmia. Já antes, no Neolítico, o
homem usara principalmente a terra para construir
pequenos montes chatos e largos, em geral
para jazigos, conhecidos na Europr. como tumnli.
mas encontrados também nas Américas pré-históricas.
No Brasil, coisas semelhantes foram os
sambaquis ou casqueiros. Todavia, ainda no início
da Idade do Ferro, as construções de madeira eram
comuns, mas o fato importante da idade dos metais
foi que estes propiciaram as ferramentas para o trato
dos materiais e para perfurar o sob (encontradas
também entre os Incas), facilitando a introdução
das precursoras das estacas de hoje. A propósito das
palafitas, acredita-se hoje que não ficavam sobre estacas
dentro d água, mas sobre andas (espécie de "pernas
de pau") às margeas dos lagos, pois foram encontradas
várias de suas plataformas superpostas, sugerindo
reconstrução após ruptura uii apodrecimento
de suas pernas de sustentação. Essa prática de
superposição, mas como aproveitamento de algo já
feito, estendeu-se a fundações de obras da Antigüidade,
como se verá.
Nos antigos impérios do Oriente Próximo, os
materiais de construção passaram a ser o tijolo
cerâmico e a pedra, aquele na Mesopotâmia e esta
no F.gito. Os terrenos que recebiam suas construções
maiores e mais pesadas em geral cediam e as
construções miam ou eram demolidas, com po>terior
aproveitamento dos escombros, uma vez que
não havia fundações preparadas, como em épocas
mais modernas se passou a fazer. Assim, obras
como as de palácios e templos eram assentes sobre
fundações arrumadas com restos de outras estruturas
ou paredes, misturados com terra e tudo
socado. Assim, as edificações eram sucessivamente
colocadas umas sobre as outras, ou melhor, o resto
destas, resultando, no tempo, um escalonamento
de acordo com suas idades. Nào obstante, muitas
permaneceram ao longo dos séculos, a despeito
de certos arqueologistas opinarem que essas fundações,
tanto cm qualidade como em profundidade,
eram uma das características mais fracas da
técnica construtiva de então. Data dessa época,
cerca de 17 séculos A.C., o primeiro código dc
obras conhecido, ode Ha mura bi, rei da Babilônia.
Nele as deficiências construtivas já apontadas se
refletem nas duras penalidades a que estavam
sujeitos os construtores cujas obras fracassassem.
Dos impérios do Oriente Próximo, o seguinte seria
o dos hititas, que nada deixaram digno dc registro.
a não ser uma estrada calçada na Ásia Menor
e, como precursores, um tipo de fundação dc
blocos de pedra aparelhados e dispostos em camadas,
muito mais tarde usado pelos gregos com
o nome de ortostatos.
Dc um modo geral, cientes das dificuldades, principalmente
em terrenos fracos, procuraram os
antigos, onde era possível, como cm casas, aliviar
as estruturas sobre as fundações; estas iam desde
faxinas simples dc caniços até fundações feitas
com tijolos secos ao sol (tijolos crus, cm oposição
aos tijolos cozidos cm fornos que vieram depois)
assentados com barro, muitas vezes em mistura
com betume e mastique (Dcrry e Williams, 1%1).
Com o tempo descobriram que aqueles tijolos
podiam ser melhorados cm sua resistência (à tração)
bem como dc trincas de secagem, pela adição
dc palhas à sua massa (adobe), como também
que, intercalando os mesmos caniços entre
as camadas dc tijolos, o conjunto passava a funcionar
melhor como bloco, principalmente nos
recalques. Os tijolos também evoluíram, passando
a ser cozidos em fornos, como foi dito.
Um tipo dc construção que se encontra desde o
Paleolítico, estendendo-se pelo Neolítico e Antigüidade,
é o agrupamento dc habitações cm forma
circular, escavado às vezes até 1 m abaixo do
nível do terreno e com furos centrais ou periféricos
para os postes (às vezes, ossos de mamute)
que sustentavam o teto das cabanas. Nestes furos
as fundações individuais eram o próprio terreno
ou sobre pedras, o que depois evoluiu para paredes
de pedra de 60-80 cm de altura à volta das
cabanas, com fundações corridas, portanto, Este
estágio construtivo é curioso, pois se revela mais
como estágio cultural do que histórico, uma vez
que se estende desde restos encontrados na Europa
Ocidental, Chipre, Rússia, China, Japão, até
construções !>em mais modernas, bastante semelhantes,
dc índios sul-americanos e de lapòcs.
I.3.A. AS FUNDAÇÕES NA IDADE CLÁSSICA
Os gregos, a despeito da beleza de sua arquitetura,
pouco inovaram técnica e materialmente, a
nào ser no uso do mármore e da pedra calcária e
no trato das pedras em geral, pois se preocupavam
mais com a função das parles construtivas.
Suas primeiras culturas, a cretense e a miccnica,
diferiam em seus palácios, como o dc Cncssos,
que nào eram fortificados em Creta, potência insular,
mas o eram em Miccnas, no Pcloponeso.
Com isso os palácios crctenses eram ampliações
de suas casas, chegando estas ate três pavimentos,
fundadas sobre pedaços de pedras, paredes
de tijolos crus com pilares de pedras c demais
estruturas de madeira. Suas culturas seguintes continuaram
basicamente a usar os mesmos materiais.
madeira e pedra, esta quando nas fundações,
em blocos rústicos ou aparelhados. Datam dessa
época as primeiras estradas calçadas a pedra, canais,
aquedutos e pontes, estas dc madeira, algumas
com pilares de tijolos. £ de se notar que a
madeira continuou a ser material importante, mesmo
a partir do século VI A.C. quando a arquitetura
grega começou a brilhar com seus pórticos e
colunatas em seus palácios e templos travejados
com vigas dc pedra, mas com tetos de troncos
justapostos e cobertos por colchão dc terra. Entretanto
estes novos tipos construtivos eram
concentradores de cargas nas fundações, que passaram
a ser feitas de blocos superpostos, cujas
partes superiores, aparentes, eram os chamados
ortostatos. Estes se constituíam de duas ou três
camadas de blocos alongados de pedras aparelhadas
cm ângulos retos, justapostos e, em geral,
grampeados uns aos outros. A parte nào visível
era formada por pedras menos aparelhadas e misturadas.
por exemplo, com cascalho, mas o mais
importante é que os ortostatos proporcionavam
melhor distribuição das cargas nas fundações, ama
vez que suas juntas verticais desencontradas tendiam
a uniformizar as pressões, obviando, assim,
recalques diferenciais. As fundações menores, em
vez de serem corridas, tinham sapatas isoladas (almofadas
de pedra). Mas em lugares de terrenos
fracos as escavações recebiam, primeiro, uma camada
dc terra misturada com cinzas de carvão (e
até com este mesmo), uma camada de terra
apiloada, ou mesmo uma mistura de calcário mole
com pedregulho. Muito mais raras eram as fundações
cobrindo toda a área de construção, em geral
quando esta área era toda carregada. Nesse caso
eram formadas por camadas sucessivas de blocos
ou lajotas dc pedra apoiadas sobre uma camada de
fundo dc pedra e argila misturadas. Em alguns casos
usaram estacas dc madeira, cravadas por máquinas.
que se imagina sejam derivadas de máquinas
dc guerra, usadas para perfurar muralhas e portões.
Em Alexandria os gregos adquiriram mais a
herança das técnicas construtivas dos velhos impérios,
mas foi cm Roma que a técnica da construção
em geral e das fundações em particular avançou significativamente,
pois estas passaram a recelx.*r mais
cargas, em virtude de obras mais pesadas que as
dos gregos. Isto se deu com a introdução do arco —
herança etrusca — e da abóbada, a preparação do
cimento romano a partir da mistura de pozolana
com calcário, e daí o concreto, pela adição de
pedaços de pedra ou de tijolos cozidos. Este novo
material, o concreto, dadas suas excelentes condições
ile moldagem, passou nào só a ser empregado
cm fundações, como também na construçào
de arcos e domos, entre estes o do impressionante
Panteão de Roma (110-125 D.C.).
Os arcos permitiram a construção de imponentes
aquedutos e pontes que, juntamente com
portos e as celebradas estradas e fortifícaçòes romanas,
marcaram, pode dizer-se, o aparecimento
da engenharia civil e militar no mundo ocidental.
Ao contrário dos gregos que. com exceção
do historiador Heródoto, pouco escreveram
sobre construções, os romanos tiveram até um
tratadista (no reinado de Augusto) da matéria,
na pessoa do engenheiro militar e arquiteto
Vitrúvio ("De re architectura"). Sua obra traz,
em vários capítulos, interessantes passagens
sobre fundações, em que trata desde suas questões
mais simples como largura e profundidade
— esta maior do que aquela — até preocupação
com a distribuição de suas cargas, como a
inserção de uma base com diâmetro de 1,5 vez
o da coluna entre esta e a sua fundação, bem
assim entre esta e a parede que sustenta etc.,
denotando sempre preocupação com cargas
transmitidas ao solo e a resistência deste. Em
duas passagens, vê-se ter sido ele precursor das
fundações por abóbadas invertidas e da
compactação de terrenos fracos pela cravaçào
de estacas de madeira, bem como do uso de
ensecadeiras para construir fundações
subaquáticas. Tais ensecadeiras eram feitas de
uma dupla fila de estacas (de troncos de árvores,
mas dotados de ponta de ferro.», com o espaço
entre filas preenchido por argila amassada
em cestos de junco bem arrumados. A água interior
era esvaziada por rodas de alcatruzes. A
diferença do que hoje se faz está apenas no uso
de estacas-pranchas metálicas e de bombas, em
vez de rodas. As fundações e os pilares eram
construídos dentro delas com cimento pozolànico
e muitos desses pilares eram protegidos por corta-águas
a montante, para evitar o solapamento
de suas fundações por erosão. A construção de
fundações, primeiro com tijolos crus e depois cozidos,
devidamente travadas, e em seguida com
concreto de cimento, cresceu e culminou com fundações
como a circular do Coliseu, uma laje com
170 m de diâmetro, e a do Panteão, assente sobre
uma viga de fundação em forma de anel de concreto,
mais larga que as paredes, mas que mesmo
assim apresentou problemas, obrigando a reforços.
Os romanos, como os gregos, também usaram
estacas de madeira como fundações. Vitrúvio,
ao lado de varias recomendações, diz apenas que
deviam ser cravadas por máquinas.
Do ponto de vista da geotecnologia moderna é de
assinalar-se que tanto Vitrúvio (1 séc. A.C.), como Plínio
(I séc. D.C.) reconlieceram a existência do atiito nas
areias, principalmente nas de grãos angulosos.
1.4 A TÉCNICA NA IDADE MÉDIA E ATÉ O
RENASCIMENTO
Iodos os progressos técnicos alcançados durante
a idade clássica foram, infelizmente, bastante
descurados nos tempos medievais, tanto cm cuidados
com dimensões e situações, como com materiais.
Dai um número considerável de colapsos
(cm conseqüência de situações desfavoráveis) de
construções, a despeito da beleza de suas fachadas.
Muitas excederam a capacidade de carga de
seus terrenos de fundação e as que nào desapareceram
apresentam-se hoje danificadas por trincas
ou inclinações, ao passo que outras recalcaram
excessivamente. Menciona-se, por exemplo, que
em virtude das características puramente casuais,
principalmente das fundações dessas obras, as
corporações de construtores comumcnte só davam
garantia de, no máximo, dez anos contra riscos
de colapso. Esse declínio nas artes de construir
é, segundo certos historiadores, característica
marcante do que chamam de a idade das trevas
e que, na Inglaterra (Dcrry e Williams, 1961),
a fabricacào de tijolos foi virtualmente uma arte
perdida em favor da pedra. Outros dizem que o
melhor, no Ocidente, veio significativamente de
Constantinopla, isto é, da ininterrupta tradição
construtiva dos romanos. Exemplo: a igreja de
Santa Sofia. Também significativamente, manuscritos
de Vitrúvio (Marco Vitrúvio foi lio) foram
achados cm MM c publicados em 1486.
Entretanto, as construções medievais eram grandes,
como atestam seus castelos, e alguns progressos
sempre se verificaram. Em algumas dessas obras
de porte que tinham suas fundações sobre faxinas,
estas evoluíram para verdadeiros assoalhos de
madeira no fundo das escavações levadas até o
nível d água. Em outras obras, como pontes, cm
virtude mesmo dos problemas já referidos, os cuidados
de construção de fundações eram agora
facilitados pelo bombeamento das ensecadeiras,
pelos bate-cstacas acionados por iodas de pé ou
de água e também pelo uso do cimento pozolànico
italiano, impermeável. Onde a correnteza tornava
difícil a construção de pilares, optava-se por um
arco único, que assim foi aumentando de vão ate
70 m. Também progrediram as fundações sobre
estacas de madeira, principalmente em equipamentos:
por volta de 1250, Villard de Honnicourt inventou
uma serra para cortar cabeças dessas estacas
debaixo dágua e, em M50, Francesco Di
Giorgio projetou um bate-estaca já próximo dos
modernos.
Esses progressos foram se acentuando pelos fins
dos tempos medievais e em seu tratado De re
aetlificatoria", de M85, Alberti vai até a construção
de eclusas cm canais. Veio o Renascimento,
também no campo científico e então fulgiram os
gênios de Leonardo e Galileu. Leonardo da Vinci,
na arquitetura, na construção c até na engenharia,
apresentou projetos de bate-estacas e
ensecadeiras. Galilco Galilei, nào só reuniu tudo
que a ciência do século XVI tinha trazido para a
arte da construção, mas também pelos seus estudos
sobre a flexào de vigas acabou por fundar a
Resistência dos Materiais. O livro sobre técnicas
construtivas mais conhecido dessa época, escrito
por Philibert de 1'Orme ( 1561), tratava até de fundações
fluviais e marítimas e já se intitulava: invenções
para a boa construção e a baixo custo".
1.5 MARCOS ANTIGOS, MEDIEVAIS E
RENASCENTISTAS
Das construções que resistiram aos séculos, muitas
apresentam algum tipo de deformação causada
por suas superestruturas em suas fundações,
por deficiências destas, ou por condições desfavoráveis
em seus terrenos de apoio. Kérisel
(Kérisel. 19S5) aponta quatro situações gerais:solos
muito compressiveis, taxas de compressão do sole»
elevadas (500-1000 kPa), momentos de tombamento
nas superestruturas e conseqüente carregamento
excêntrico das fundações, e obras edi fica das em
cima de taludes naturais. As conseqüências foram
deformações como rachaduras, afundamentos
(recalques lotais), inclinações (recalques diferenciais)
e deslizamentos. Relacionam-se, a seguir,
alguns exemplos mais notórios, bem comt» cenas
condições supervenientes no tempo e no espaço.
Pirâmides — A maior existente, a de Quéops,
no Egito, está fundada sobre rocha e nào tem
recalques típicos, embora as camadas de pedra
mostrem ligeira eurvatura, atribuídas a deformação
elástica dc sua base. Antes dessa grande pirâmide
(150 m de altura), quatro outras foram
construídas: Saqquarah, Meidum e as duas
Dahsluir (sul e none). As duas primeiras foram
assentadas sobre rocha, tendo Saqquarah, nos seus
70 m de altura, seis seqüências de pedras fortemente
escalonadas. A pirâmide de Meidum, hoje,
é o resto do que teriam sido três formas anteriores
com 92 m de altura. É uma das pirâmides mais
estudadas. Já a terceira, Dahsluir Sul, foi fundada
sobre argila rija e sofreu deformações. Ela teria
sido uma nova tentativa de pirâmide perfeita, isto
é. com seus lados retos e nào em degraus, mas
acnhrm com redução dc altura (140 m :i 105 m) e
seus lados encurvados. Isso talvez tenha levado à
construção da Dahsluir Norte, uma pirâmide perfeita.
com dimensões mais modestas e fundada
sobre rocha. Essas quatro estruturas representariam
assim um desenvolvimento de cerca de um
século, a partir de 2700 A.C.. que se coroou com a
grande pirâmide de Quéops. As outras duas que
com ela são conhecidas como as três pirâmides
de Gizé (a primeira das sete maravilhas do mundo
antigo), respectivamente de Quéfrem e de
Miquerinos, são posteriores, nessa ordem, e menores.
Vale lembrar que se a pirâmide de Quéops
poderia ser considerada como a maior construcào
isolada antes do século XX, Sowers (Sowers, 1981),
apresenta a pirâmide de Tepanapa, cm Cholula,
no Vale do México, com quase o dobro na base,
mas cerca da metade da altura daquela pirâmide
egípcia. Condições de fundação menos favoráveis
no Vale? (Ver Nota 1, em 1.11).
Templos e castelos — F.m contraposição ac que
acaba de se ver, cita-se o pagode budista de Phra
Patliom Chedi (Tailândia, c. 30o A.C.): com seção
vertical aproximadamente triangular, 115 m de altura
e c. 5.000 MN de peso sobre uma base circular
de 158 m de diâmetro, fundado na argila mole de
Bangcoc, recalcou uniformemente 2.5 m. Dois outros
pagodes, estes em forma de torres, são de mencionar-se:
Suzliou (960 A.C.) e Longhua (977 D.C.),
ambos na China. O de Suzliou é inclinado, 'i7 m
de alto, c. 50.000 kN de peso, sobre base octogonal
de 5.2 ni de lado, fundado em argila de consistência
variável, cobrindo de 2,6 m a 5,8 m um talude
natural rochoso. Sua inclinação prossegue e, segundo
Kérisel (1985), a uma velocidade/ano •» vezes
a da Torre de Pisa. requerendo estabilização. O
pagode de Longhua, com 40 m de altura, embora
fundado em solo aluvial (representado por siltes e
argilas moles), com pressão admissível de nào mais
que 80 kPa, nào apresenta deformações. Em virtude
disso, na década de 50, foi feita uma investigação
restrita que revelou uma base de alvenaria de
tijolos sobre leito de madeira, este por sua vez sobre
estacas de madeira com reduzido espaçamento
e profundidade desconhecida. De acordo com
Kérisel (1985), esta seria uma das primeiras fundações
em faxina cobrindo toda a área de apoio e
ainda sobre estacas que se construiu no mundo. O
maior templo budista existente, Borobodur (.lava,
c. 800 D.C.), apresenta a peculiaridade de não só
se apoiar mas também encobrir um outeiro de tufo
t apeado por argila, através de terraços escalonados
e muros de arrimo. Teve problemas de estabi idade
devido ao clima chuvoso, principalmente com
os muros de arrimo e sua restauração, incluindo
drenagem adequada, foi custeada pela Unesco.cuja
equipe técnica incluiu, naturalmente, engenheiros
geotécnicos.
No Ocidente, devido a cargas excêntricas nas
fundações (mas às vezes também defeitos estruturais
como observa Kérisel (1985) sobre o colí.pso
das igrejas de Cluny III e Beauvais), são notáves as
deformações sofridas pelas Igrejas de Santa Maria
Ia Real dei Sur (Espanha), Vézeley (França) e Iiigia
Sofia (Istambul). Especial por suas características
geotécnicas, o mosteiro de York (Inglaterra), diz
Kérisel (1985), além de um subsolo bem conhecido,
apresentou problemas como o colapso da torre
principal, tombamento de paredes, recalques
diferenciais devidos tanto a altas concentrações
de cargas como a áreas pré-adensadas por construções
anteriores. Igualmente especial por sua posição
a 100 m dc altura sobre o topo e íngremes
encostas é a abadia do Monte Saint Michel (entre
a Normandia e a Bretanha). Suas fundações nào
são conhecidas, mas o monte é de granito
feldspático c granulito sobre os quais se apoiam,
do lado externo, notáveis muros de an imo de conirafortes,
maravilhas, como diz Kérisel (1985), que
parecem continuação das próprias encostas.
Torres e campanários — Muitas construções em
forma de torre eram. na maioria, campanários e,
por semelhança, minaretes e até obeliscos. Mais
sensíveis aos problemas construtivos já apontados,
várias dessas torres se inclinaram e muitas desabaram;
uma foi demolida em 1892 — a Torre Nova de
Saragoça, c.1500 D.C., altura de 56 m e inclinação
de 4,6%. O curioso com relação a esta torre é que
teve problemas estruturais, pois suas fundações
eram perfeitas. Das que ruíram. Kérisel (1985) cita
números impressionantes: de 200 só em Bolonha,
apenas 30 permaneceram; em Veneza, a mesma coisa
c também algo semelhante na Espanha. Todavia.
são as torres inclinadas as que despeitam mais
interesse geral, seja pelo resultado inesperado e
duradouro de sua construção, seja pela sua beleza,
como a de Pisa. Entretanto, o caráter instável de
muitas delas torna difícil a obtenção de dados, principalmente
de seus terrenos de fundação. Salxr-se,
por exemplo, que a taxa de inclinação da Torre de
Pisa aumenta quando se fazem sondagens nas suas
proximidades. Esses subsolos variam desde 5 m de
turfa até argilas firmes mas com lentes de gesso em
processo de dissolução. A primeira condição afeta
a torre da igreja de Santa Catarina em I lambuigo,
do XIII século, fundada sobre base de madeira suportada
por estacas de madeira que atravessam a
turfa até a areia subjacente; com sérios recalques e
inclinação de 6% foi subfundada em 1968. o que
estabilizou a inclinação e minimizou os recalques.
A segunda condição é a da Torre de Asinclli, do
ano de 1100 em Bolonha, com 97 m de altura e
base de 9 m x 9 m sobre bloco de fundação de 5 m
de altura e 10,4 m x 10,\ m e que se supõe sobre
estacas; sua inclinação é de 6.5 seg/ano. Sua vizinha,
a apenas 11 m de distância e metade de sua
altura, a Torre de Gerisenda já se inclinou, entretanto,
quase três vezes mais. Outras torres inclinadas
são: ainda na Itália, a Ghirlandina, em Modena,
do ano de 1099; com 88 m de altura e recalque nào
uniforme tem, em virtude disso, se inclinado até
2.6%; a Torre de Nevyansk, na Rússia; a tia catedral
e da igreja Marien em l.ubeck. Alemanha; e o campanário
de St. Moritz, na Suíça. Este. sobre talude
natural já com movimento extremamente lento (rastejo
ou "creep"), agravou esse movimento, sofrendo
a torre rotação e translaçào. Uma primeira tentativa
de sustá-la, com a construção de um grande muro
de pé de contrafortes, nào deu resultado. Uma segunda
foi a ancoragem desse muro por tirantes no
talude, apenas com sucesso parcial, pois a zona de
ancoragem, ela própria, está sujeita a movimentos.
O minarete Al-Halxla, em Mossul (Iraque, XI século),
com inclinação de 9% foi estabilizado através
de subfundação por estacas-raízes, a custo dc inclinações
adicionais durante a refundacão. Quanto a
obeliscos, o mais alto até hoje levantado (,M m). o
de Axum (Abissínia), sabe-se apenas que datai Io de
antes de Cristo, encontra-se tombado e paitido, sem
que se sailxi se desabou ou foi denulxido.
Torre de Pisa — Este famoso monumento,
construído lentamente de 1174 a 1350. apresentou,
já com cerca de 10 m de altira, inclinações
que, entretanto, pareceram se estabilizar em 1186.
enquanto os recalques continuavam lentamente.
Em 1838 a torre foi dada como em equilíbrio, o
que se mostrou ilusório, como se verá. Com 5^ m
de altura e 15.700 toneladas de peso, exibindo
excelente trabalho em pedra e em rejuntamentos
(o que, quando pobres, causou problemas em outras
obras inclinadas), foi, entretanto, deficientemente
fundada, apoiada a pouca profundidade,
através de uma fundação em forma de anel de 20
m de diâmetro sobre um depósito aluvial de areia
silto-argilosa, no qual descarrega mais de 5 kg/
cur (514 kPa, segundo Kérisel). Abaixo dessa camada,
uma outra de areia com lentes de argila
sobreadensada do lado sul. exatamente o lado das
inc linações predominantes, inclinações que, como
mostraram medições a partir de 1935. se dão também
em outras direções, parecendo, por vezes,
cíclicas. Ao mesmo tempo, essa rotação, hoje da
ordem dos 10%, ocasionou um recalque de cerca
de 3 m. A uns 8 m abaixo das fundações existe
argila a cujo adensamento também se atribuiu o
que vem acontecendo. Outra explicação, mais aceita,
é a falta de capacidade de carga da areia de
fundação, o que levou as autoridades a fazerem,
segundo Kiynine (Nota 2, 1.11), injeções de cimento
de alta resistência, mais de 1000 t. através
de 361 furos de 2", ainda segundo Krynine. Além
disso, uma vala aberta até quase 2 m de fundo ao
redor da torre mostrou a água tio lençol em movimento.
o que proporcionou outra explicação, que
seria a da erosão. Medidas mais recentes mostraram
movimento do terreno para SW nas vizinhanças
da torre e. ultimamente, arqueólogos descobriram
uma tendência a deslizamento na direção
«.Io leito soterrado de um canal nas proximidades.
De qualquer maneira, o bombeamento de água
do subsolo na área foi suspenso, o que restabeleceu
o nível tio lençol freático. Notou-se, então,
estabilização dos recalques, o que conduz à seguinte
constatação: antes, o momento de lombamento
aumentando com a inclinação e o recalque,
este concorria para aumentar o momento resistente
sobre a parte enterrada da toire, contribuin
tio. assim, para uma certa constância na velocidade
de inclinação; com a estabilização dos
recalques, o momento de tombaiv.ento continua
aumentando sem aquela contribuição resistente e
dai a tendência do terreno adjacente se mover
acompanhando a torre. A complexidade e a seriedade
tia situação do monumento têm motivado
seu estudo por parte de notáveis personalidades
geotécnicas e por vários grupos internacionais. Em
1972 foi feita uma competição internacional pela
estabilização tia torre, sem decisão, a despeito de
muitas propostas. Depois desse insucesso, constituiu-se
uma comissão italiana, presidida por M.
Jamiolkowski. atual presidente da ISSMFE (1995); esta
comissão vinha trabalhando na estabilização do monumento,
fechado ã visitação pública, quando, recentemente,
inesperado acréscimo da inclinação se
verificou. A situação foi reavaliada e iniciou-se um
amplo reforço estrutura-fundação, seguido de redução
controlada do recalque diferencial por indução
de recalque adicional do lado menos recalcado.
Veneza — Edificada sobre uma laguna com
espessos leitos de solos aluviais não adensados,
proporcionou uma notável experiência de construção
em solos moles, experiência que incluía,
assim, uma certa convivência com recalques elevados.
ao mesmo tempo que com cuidadosas
técnicas construtivas, mas relativamente simples
e baratas. Estas técnicas usavam até lançar novas
fundações sobre antigas, que cobriam áreas
assim já adensadas, e, em novos locais de fundação,
blocos escalonados sobre grupos de estacas
de madeira abaixo do nível dágua. Uma
estrutura que ficasse apoiada em ambos os sistemas
seria então logicamente isostática, por
causa dos recalques diferenciais. Duas construções
notáveis dessa cidade são os "campaniles'
de São Marcos e de Burano. Este, com 53 ni de
altura, e que se inclinou de até c. 5,8%, passou
por uma tentativa de estabilização em 1964; vinte
anos depois estava com 6,4%. O de São Marcos,
mais conhecido, com seus 98 m de altura, desabou
em 1902, devido a uma combinação de falhas
estruturais com fundações deficientes. Estas,
compostas de estacas de madeira, recobertas
por uma pranchada também de madeira, após
mil anos de serviço, estavam em tão bom estado
que as estacas foram conservadas na reconstrução
(Nota 3. 1.11), terminada em 1912, mas o
perímetro da nova fundação foi aumentado de
80%. Duas outras obras, também notáveis, são
as pontes de Rialto (1588-92) e dos Três Arcos
(1688). A primeira, mais conhecida, com vão único
de 26,4 m, teve os dois encontros de sua
abóboda cuidadosamente fundados: cada um deles
sobre \ 600 estacas curtas «) 15 cm, 3.3 m)
muito próximas e escalonadas em três grupos que
permitiam dar, a cada encontro, a inclinação necessária.
Já a segunda, apesar de erigida um século
depois, não teve o mesmo cuidado, de forma
que veio a sofrer restauração em 1979-80.
Foram utilizadas estacas-raízes o a perfuração foi
feita de cima e através da alvenaria dos dois encontros
e dos dois pilares dos três vãos (os laterais,
com 6 m cada, e o central, com 12 m). Foi,
assim, possível determinar o nível das fundações
originais, muito rasas, tanto nos encontros como
sob os dois pilares no fundo do rio, sobre uma
argila siltosa que, com 3 a 4 m, recobre um leito
arenoso, penetrado pelas estacas-ralzes.
Em épocas mais recentes, a extração de água do
subsolo em áreas industriais vizinhas, no continente,
levou Veneza a recalcar vários milímetros por ano, o
que foi contornado por legislação rigorosa, mas a cidade
teve de conviver com os lecalques havidos.
7.6 SÉCULOS XVII E XVIII
Este período se iniciou com importantes eventos
na engenharia em geral e na geotecnia em
particular. Apesar de Vauban, primeiro nome
ilustre do período, ter sido grande vulto d;i engenharia
militar, foi a partir de então que começou
a separação entre esta e a engenharia civil
(assim como, no século seguinte, estabeleceuse
nítida diferenciação entre engenheiros civis
e arquitetos). Os primeiros engenheiros civis reconhecidos
como tais foram os de pontes e calçadas
(1720, embora só mais tarde Smeaton viesse
a usar a designação), o que levou ã criação,
em 1747. da Ecole des Fonts et Chauisées
(como, no fim do século, com a Revolução, a
École Polytechnique). Mas, voltando a Vauban,
foi ele escolhido pelo rei como Comissário Geral
de Fortificaçòes. Levou as linhas de defesa
para fora e além dos muros das cidades, como
também desenvolveu nas fortificaçòes uma série
de plataformas para a artilharia. É fácil de
perceber a importância que passaram a ter os
muros de arrimo em fundações. Embora usados.
juntamente com os contrafortes, desde a
mais remota antigüidade a partir da
Mesopotâmia, e depois, na Grécia e em Roma,
eram construídos por sentimento fundado na experiência,
quanto a dimensões e profunidade.
Foi Vitrúvio, mais uma vez, quem primeiro escreveu
sobre eles, mas tratava-se de uma série
de recomendações, muito pertinentes, quanto á
sua escavação, assentamento, dimensões e
verticalidade, principalmente quando usados
como fundações, bem como a importância dos
seus contrafortes. Mas dezesseis séculos depois
e embora, antes dele. outros tenham escrito
sobre fortificaçòes, foi Vauban quem primeiro
visualizou a conjunção de ações entre solo e
estrutura de retenção e deixou escritos e desenhos
a respeito que, como observa Kérisel
(1985), constituíram o núcleo para os desenvolvimentos
que. sobre o tema, fizeram os engenheiros
dos dois séculos seguintes. A grande
experiência de Vauban foi adquirida na construção
de cerca de 300 fortificaçòes, umas poucas
das quais sobre argilas, onde experimentou
as dificuldades peculiares a esse material.
Vauban atuou também nos grandes trabalhos de
canais mandados fazer por Luís XIV. Mas nesse
tempo, em virtude de muitos colapsos de pilares
de pontes malfundados, os rios também ganharam
atenção e as fundações de pontes passaram
a ser feias em ilhas artificiais. Ora, estas
ilhas obstruíam o canal do rio de tal maneira,
que se voltou ao uso das ensecadeiras. Estas,
agora esgotadas por meio de bombeamento,
eram em seguida escavadas por dentro até o
nível de fundação dos pilares. Como variante,
de Labelye introduziu o uso dos caixões de
madeira que eram afundados para se assentarem
no leito do rio previamente nivelado por
dragagem. As primeiras camadas de fundação
eram, então, diretamente colocadas sobre o fundo
de madeira do caixão, enquanto as paredes
destes eram posteriormente recuperadas
No início do século XVIII. a experiência acumulada
até Vauban começou a ser teorizada, no
que seriam os primórdios da mecânica dos solos.
Esse período, que Skempton (Skempton, 1985)
chama de pré-clássico, caracterizado por teorias
empíricas sobre pressões de terra baseadas no
chamado ângulo de talude natural e no peso específico
do solo, apresenta nomes como, cronologicamente:
H. Gautier (1717), jâ separando claramente
os aterros animados em de areia pura,
"terra comum" (provavelmente solo misturado)
e argila, e acrescentando àqueles dois parâmetros
dos três tipos de solo a propriedade de serem
permeáveis os dois primeiros tipos e impermeável
o terceiro (argilas); B.F. Bélidor (1729) em
seu famoso livro "La Science des Ingénieurs...",
claramente dirigido tanto a engenheiros militares
como civis (republicado um século depois, em
1830, com simples acréscimos de notas de
rodapé), trata teórica e numericamente das pressões
de terra e amplia, com respeito a fundações
(possíveis ou não), os tipos de solo dados por
Gautier, começando por rocha, dividindo as areias
em soltas e compactas, as terras em secas e úmidas
e, depois da argila, lembra a existência de terrenos
turfosos, inadequados para fundações; F. Gadroy
(1746) tratou de pressões sobre muros, mas abordando.
pela primeira vez, as superfícies de
deslizamento e as fendas observadas à superfície
de aterros animados reais, que ele tentou
reproduzir em modelo em caixas cie areia mas de
dimensões reduzidas; J.R. Perronet (1769). primeiro
diretor da École des Ponts et Chaussées,
escreveu sobre pontes, mas também memória pioneira
sobre estabilidade de taludes de terra, distinguindo
jã taludes naturais e de aterros e apontando
o efeito da água sobre sua instabilidade. Por
extensão trata da resistência de atrito no
escorregamento e sua relação com tensões, e
implica a noção de que o ângulo de talude natural
é igual ao ângulo de atrito. Finalmente.
Rondelet (1770) fez ensaios com modelos de
muros de arrimo maiores que os de Gadroy, medindo
vários ângulos de escorregamento.
No tocante a fundações, Feld (Feld, 1948) opina
que sua técnica a esse tempo já estava bem
estabelecida e lembra que J. II. Lambert (1772).
baseado na observação e na experimentação, foi
o primeiro a tentar racionalizar o projeto de fundações
por sapatas e por estacas.
1.7 HISTÓRIA MODERNA ATÉ 1920
O que Skempton (1985) chama de período clássico
da mecânica dos solos se inicia, ainda em
1776, com Coulomb. Charles Augustin Coulomb,
notável engenheiro e físico, praticamente inaugurou
o que viria a ser, século e meio mais tarde,
a ciência da Mecânica dos Solos. É interessante
notar que a clássica equação igualando a resistência
ao cisalhamento s do solo à sua coesão c mais
a tensão normal o vezes o coeficiente de atrito
tg(p<\o mesmo solo na adaptação, ou resumo, que
Skempton (1985) faz do trabalho de 1773 (publicado
em 1776) de Coulomb (que usa esforços S e
N, em lugar de tensões e coeficiente dc atrito 0 é
a primeira equação tio ThcoreticalSoil Mechanics"
de Terzaghi (1943). A diferença é, como se sabe,
que Coulomb e seus continuadores trabalharam
em termos de tensões totais e Terzaghi introduziu
o conceito tle tensões efetivas, na década de 1920.
A teoria sobre pressões tle terras em muros de
arrimo. que Coulomb desenvolveu, anotou corretamente
que a cunha de escorregamento na superfície
deste nào era plana mas encurvada, entretanto
bastante próxima do plano para este ser usado
como simplificação; que o ângulo deste plano
com a horizontal nào era o de talude natural, mas
dependia do coeficiente de atrito do solo (que
podia ser reduzido pela umidade); que o solo, além
do próprio, também desenvolvia atrito contra o
muro, o que dava sobre este um empuxo nào horizontal
(simplificação) mas inclinado e que esse
empuxo potlia ser aumentado pula percolação
d'ãgua no material an imado. Seus sucessores nesses
estudos foram principalmente: G.C.M.R. Prony
(1802). que difundiu a teoria (razoavelmente
verificada em ensaios de modelos de 1.5 m de alto
de Mayniel em 1808); .f.F. Français (1820), estendendo
o estudo a solos coesivos sobre muros com
tardoz (face interna) inclinado e a taludes de escavações;
C.L.M.H. Navier (1833), que continuou as
indagações sobre solos coesivos, principalmente sua
estabilidade a longo prazo (com iniemperismo) —
hipótese c - Oc com a penetração d'água (expansão);
eJ.V. Poncelet (1840), que introduziu o sírnlx>lo
<p para o ângulo (ainda igual ao de talude
natural) cuja tangente era até então chamada de
coeficiente tle atrito / e deu especial atenção às
fundações do muro (capacidade de carga e profundidade
destas, aumentando o empuxo passivo).
Sobre fundações propriamente, Fekl (1948) cita
dois nomes, Moreau (1827) e Niel (1835), e dois
fatos: a) o uso tle estacas de areia (que substituíam
estacas tle madeira, cravadas e arrancadas) bem como
de colchões tle areia para adensar e aumentar a resistência
tle solos lodosos e argilosos; b) a pesquisa
de distribuição de pressões aplicadas no solo
(pelas deformações nele induzidas). Todos esses
estudos eram experimentais, incluindo até provas
tle carga.
No meio tio século, três nomes ilustres contribuíram
para o progresso da mecânica dos solos
tle então: Collin, Rankine e Darcy. Alexandre CoIIin
(1846) dedicou-se aos taludes não animados dc
argila — cortes e aterros — e foi o primeiro a reconhecer
a coesão t: como resistência-limite da-argila
na ruptura (a curto e a longo prazo, de acordo com
a inclinação do talude e a ação do tempo) (Nota
4, 1.11). W.J.M. Rankine (1859) desenvolveu uma
teoria do campo de tensões baseada no parâmetro
(p, que ele chama de ângulo de repouso, deixando
íf>(p -f para talude natural. A despeito de Collin,
dez anos antes, Rankine considera a coesão c como
algo temporário, destrutível pelo ar e pela água e
pelas seqüências congela mento-degelo dos solos.
Com base na citada teoria tio campo de tensões,
derivou as conhecidas expressões para os coeficientes
de empuxo. ativo e passivo, e uma fórmula
dando a capacidade de carga de uma fundação a
profundidade D, mas sem considerar sua largura
li. I: de assinalar-se que os desenvolvimentos referidos
acima, colocados por Rankine em seu
Manual de Engenharia Civil (de 1862 e que, segundo
Skempton, permaneceu em uso na Inglaterra
até bem dentro do século XX), só em 1915
vieram a receber a consideração da coesão ç, por
Bell (empuxos e capacidade de carga, esta a primeira
expressão que incluía ç). M.P.G. Darcy
<1856), ilastre engenheiro de Ponts et Chaussées,
estudou a percolação dágua nas areias e definiu a
permeabilidade destas através de seu coeficiente k.
No último quartel do século, trabalhos experimentais
de G.H. Darwin (1883) e analíticos de J.V.
Boussinesq (1876,1883) sobre areias soltas e densas,
tornaram claro que (p, agora chamado ângulo
de atrito interno, era variável nas areias, diferente
e em geral maior que o ângulo de repouso, que é
daquele apenas um caso particular.
Do campo teórico-expe ri mental para o de aplicação,
o inicio do século XIX, na Inglaterra, teve
vários engenheiros com notável intuição sobre
concepções que fariam, no futuro, parte da ciência
geotécnica. Rennie, por exemplo, construiu um
grande armazém sobre fundações "flutuantes". O
que foi chamado de "pai da geologia inglesa",
William Smith, era engenheiro civil, com trabalhos
marcantes principalmente na construção de canais.
E os progressos posteriores tia geologia levaram ã
abertura de poços que, por sua vez, ensejaram novos
conhecimentos sobre o subsolo.
Mas também no campo da prática dos materiais,
a engenharia civil registrou consideráveis progressos.
O início da revolução industrial firmou o uso
do tijolo cerâmico nas construções, além das argamassas
e do concreto, este especialmente nas fundações.
O renomado engenheiro John Sineaton,
construtor do farol de Eddystone — e que foi o
primeiro a usar. para si mesmo, o título de engenheiro
civil (1768) — descobriu que misturas naturais
de calcário impurificado por argila davam
um cimento impermeável como o pozolànico e o
usou nas fundações daquele farol. Isto até levou
a uma patente, em 179(>, com o nome de cimento
romano, alusão âs duradouras obras romanas na
13rítânia. A despeito de que misturas naturais para
a fabricação de cimento tenham sido usadas, por
exemplo, nos Estados Unidos, até fins do século
passado, principalmente em obras de canais, já a
partir de 1820, na Inglaterra, misturas empíricas
de cimento foram tentadas, até que Aspdin. em
Wakefield. obteve um cimento pela calcinaçâo da
mistura de um calcário mole com argila. Seu atual
nome de Portland vem da patente de 182-1, como
alusão ã sua semelhança, quando endurecido, à
pedra calcária de Portland (Dorset). O concreto
desse cimento foi usado para cobrir o leito do rio
Tâmisa, no local da passagem do primeiro túnel
subfluvia! do mundo, ali construído por M.I. Bmnel
em 1828. A teoria da mistura tio calcário e argila
para a fabricação de cimento foi estabelecida em
1839 por L.J. Vicat, que o chamou de cimento hidráulico
e o usou no porto de Cherburgo.
Mas foi na construção de fundações que o concreto
passou a ter enorme importância, provocando,
inclusive, progressos nos equipamentos usados.
Tal importância chegou ao máximo com o
advento do concreto armado que, como se sabe,
começou humildemente, na França, com a fabricação
porj. Monier, em 1848, de cubas tle concreto
reforçado, no interior, por malhas de ferro, para
a plantação tle laranjeiras. Seguiram-se desenvolvimentos,
na Inglaterra, com W.B. Wilkinson; na
Alemanha, com Wayss & Freitag e M. Koenin; na
França, pelo próprio Monier e, mais tarde, por E.
Coignet e F. Ilennebique; e, nos Estados Unidos,
com T. llyatt e E.L. Ransome. IX* tal forma que,
além da construção tle grandes edifícios e pontes,
o concreto simples, o ciclópico e o armado tornaram-se
o principal material tle fundação, pois até
os alicerces de tijolo-duplo para paredes tle casas
se assentam sobre lastro tle concreto.
Voltando â geotécnica teórica, se o fim do século
XIX foi a época da conceituaçáo definitiva tio
ângulo tle atrito interno <p, o inicio do século XX
voltou a dar primazia âs argilas com a procura de
sua definitiva caracterização como material
geotécnico e que se valeu, de início, dos estudos
tle base agronômica tle Atterberg, na Suécia. Esses
estudos, que se realizaram em torno de 1910,
começaram com uma classificação granulométrica
dos solos, ficando as argilas como sendo aqueles
solos com grãos menores que 2 }.i (ou 0,002 mm)
em diâmetro. Logo Atterberg reconheceu a insuficiência
desse limite para assinalar a propriedade
física característica das argilas — a sua plasticidade
— e estabeleceu os hoje conhecidos como limites
tle consistência, o inferior como o início do estado
nào-plástico e o superior como início do estado
fluido (aos quais, em 1921, Terzaghi chamou
tle limites tle plasticidade e de liquidez, respectivamente).
A diferença entre esses tlois limites, que
Atterberg chamou tle índice tle plasticidade, levou
a uma primeira classificação numérica tle comportamento
tios solos. Na mesma época começaram
estudos tle características mecânicas das argilas,
especialmente cisalhamento, incluindo ensaios
e análises tle rupturas, iniciados por Frontard e
Késal. Jean Frontard estudou a ruptura e fez en-
saios sobre materiais do dique de Charmes e Jean
Résal os incluiu no seu tratado "Empuxo das terras:
teoria das terras cocsivas", ambos em 1910.
Pouco depois, na construção de muros de cais
em Rosyth, Arthur Langtry Bell realizou os primeiros
ensaios em caixa de cisalhamento sobre amostras
de argila razoavelmente indeformadas (resultados
publicados em 1915). Em 1910, outro caso
de cais, este de ruptura em argila mole de Stibcrg,
no porto de Gotemburgo, levou K.E. Petterson e
S. Hultin ã primeira análise (no caso, retroanálise)
pelo método do circulo de escorregamento, hoje
conhecido como método sueco das "fatias verticais".
O curioso é que, a despeito de se tratar de
argila mole e dos trabalhos de Bell, na referida
retro-analise de Petterson-Hultin, c foi desprezada
e com isso chegaram a um ç) baixo para a argila
mole. Isso levou, em 1917, T.F. Hellan, do porto
de Trondheim, a sugerir o contrário, que a análise
se fizesse com base na coesào. Daí, a primeira
análise com <p = 0 foi feita por Wolmar Fellenius
em 1918. que depois generalizou o método para
incluir simultaneamente na análise ccç);e, como
tais análises são feitas para o estado limite de equilíbrio,
Fellenius sugeriu, em projetos, a introdução
de um fator de segurança S aplicado diretamente
aos parâmetros, isto é. c/s <_• tg<p/s. Os problemas
ile estabilidade, então verificados, não se
deram só em obras portuárias, mas também em taludes
de traçados de estradas de ferro, o que levou
ã criação, em 1913 na Suécia, da Comissão
Gcotécnica Sueca, da qual Fellenius fez parte. Registraram-se
ainda problemas de estabilidade de
taludes em obras de canais, como os do canal de
Kiel e tio canal do Panamá, como antes, na abertura
do canal de Suez.
1.8 A FASE CONTEMPORÂNEA
O período contemporâneo da história geotécnica
começa necessariamente com Karl Terzaghi, o pai
da Mecânica dos Solos. Ao longo dos tempos e
dos mais variados lugares e pessoas, os desenvolvimentos
— baseados na experiência, ganha em
tentativas, erros e acertos, em experimentos, interpretações
e teorias — acumularam-se de tal
modo c com tal vulto que, observa Pcck (IVck,
1985), a Mecânica dos Solos teria nascido mesmo
sem Terzaghi. Mas, ao contrário e lembrando as
belas palavras de Skempton no 6"' ICSMFE (Nota
5, 1.11), pode dizer-se que Terzaghi foi o homem
certo na ocasião certa para promover tal aparecimento.
não só por sua capacidade de liderança,
mas principalmente por sua envergadura como engenheiro,
geólogo e cientista, e a determinação
com que analisou criticamente todo aquele gigantesco
acervo empírico; partiu, em seguida, para
um programa de pesquisas destinadas a elucidar,
complementar e descobrir tanto quanto fosse necessário
para consolidar, em bases cientificas, os
conhecimentos de uma nova ciência da Engenharia.
Esse programa, estabelecido em 1919, foi desenvolvido
na primeira metade da década seguinte
no Robert College, em Constaniinopla, com
ênfase sobre as argilas, como vinha acontecendo
nos últimos vinte anos. E, então, a partir da
permeabilidade dessas argilas, caiacteristicamente
de baixo coeficiente e, portanto, lento processo
de percolação, tendo, assim, decisiva influência
sobre o fenômeno da compressibilidade das
mesmas argilas, que Terzaghi introduziu o estudo
desse fenômeno com o nome de adensamento
(consolidação^; bem como da sua influência sobre
a resistência ao cisalhamento cas argilas, com
a caracterização precisa do ângulo de atrito interno
cp e da coesão ç. Estes dois aspectos e mais a
sua descoberta do princípio das pressões efetivas
(parte das pressões normais totais aplicadas e absolvidas
grão a grão pela fração sólida do solo, a
outra parte sendo absorvida pela água intersticial)
(Nota 6. 1.11) que condiciona os dois fenômenos,
adensamento e cisalhamento, constituem os três
marcos básicos da moderna Mecânica dos Solos.
Acompanhando esses estudos experimentais, publicou
trabalhos em 1921 e 1923, eem 1924 apresentou
a sua teoria sobre o já referido adensamento
e o princípio das pressões efetivas no Congresso
Internacional de Mecânica Aplicada (Delft,
Holanda). Nesse mesmo ano, como coroamento
de tudo, concluiu o seu tratado fundador da nova
ciência,' Erdbaumechanik", publicado no ano seguinte
(1925) (Nota 7, 1.11). Já se nota neste
evidência do tratamento científico das questões
geotécnicas quando, por exemplo, aponta a coesão
como podendo ser real ou aparente esta desaparecendo
por total imersâo ou total secf.mento do solo.
No fim do mesmo ano de 1925 um resumo, sob
o nome de Principies of Soil Mechanics, foi publicado
cm oito artigos na revista "Engineering News
Record" (Nota 8, 1.11) e, em 1926, como livro,
pela McGraw-Hill, N.Y., sob o mesmo título. Estes
latos balizam tanto a segunda metade da década
ile 20, que Terzaghi passou nos Estados Unidos,
como a sua mudança de atividades visando ao
esclarecimento do campo profissional, principalmente
em fundações e geotécnica de estradas.
Nesta, a ênfase voltou-se para a classificação e
propriedades físicas dos solos, e naquelas em dois
trabalhos básicos: "Modem Concepiioiis
Concerning Foundation Engineering" (fins de
1925) e "The Science of Foundations" (1927) (Nota
9. 1.11). Aqueles três marcos básicos da Mecânica
dos Solos que apontamos acima (coesão, atrito
interno e pressões efetivas), Terzaghi apresentava
de maneira mais clara e acessível: os dois primeiros
como resistências de argilas e areias tipicas,
respectivamente; e, em vez de citar pressões efetivas,
aqueles conceitos que elas vieram revolucionar,
ou seja. tensâo-deformaçâo nos solos (propriedades
então chamadas "elásticas", como
compressibilidade-adensamento, para diferenciar
de propriedades limites na ruptura em estado "plás-
tico'); e permeabilidade nos solos (com os fenômenos
de percolação e capilaridade).
Mas, no tocante a fundações, a questão que evidentemente
interessa mais de perto é a das suas
ccndiçòes de suporte. O prcblema da capacidade
de carga dos solos tem sido, ao longo dos tempos,
praticamente abordado através de: a) pressões
admissíveis codificadas; b) provas de carga; e c) teorias
ou métodos de cálculo dessa capacidade. As
chamadas pressões admissíveis "tradicionais" foram
sempre baseadas na experiência da prática
pessoal ou coletiva (aqui. via de regra,
especificadas em códigos locais ou regionais) e
representam apenas valores gentis para solos típicos.
em casos "fora de dúvida", isto é, nào sujeitos
a limitações e peculiaridades localizadas. As
provas de carga, embora usando a aparência de
um método de experimentação direta, só têm hoje
valor auxiliar, em virtude das quase incontornáveis
dificuldades ligadas a dimensões, principalmente
da área de carregamento direto. Na fase pré-científica
da técnica, eram comuns placas de prova de 30
cm x 30 cm para atingir pressões expressivas com
cargas de reação moderadas e, em geral, um só
ensaio. Houve até uma tentativa (fórmula de
Housel) de cálculo de pressão admissível a partir
de parâmetros obtidos em. no mínimo, duas provas
e levando em conta nào só a compressão
(área), mas também o cisalhamento (perímetro)
produzidos no solo pela superfície carregada; mas,
ainda, com as limitações, diante das construções
reais, de área carregada, alcance em profundidade
e variações locais. Daí as tentativas que, desde
Rankine, se fizeram para calcular uma capacidade
de carga-limite e dividi-la por um fator de segurança.
Os métodos resultantes já comportam duas
limitações iniciais: a suposição de que o solo é
homogêneo e que a fundação é corrida ou contínua
(faixa carregada de comprimento indefinido)
para análise plana. A primeira tentativa, a de
Rankine, imaginava uma superfície de ruptura nào
contínua abaixo do corpo de fundação, portanto
irreal, e só aplicável a solos pulverulentos (só<p).
Foi visto também que, 60 anos após, Bell estendeu-a
a solos coesivos, introduzindo a coesão ç
na expressão da capacidade de carga. Vieram logo
antes e depois: Krey (1913) com seu círculo de
atrito (<p) e Prandtl (1920-24), cujo esquema sobre
ruptura plástica dc metais foi aproveitado com a
introdução do peso específico y do solo (c,ç>) e da
largura 2 b da fundação. Terzaghi, que em 1925
deduzira uma expressão para a capacidade de
carga a partir do equilíbrio de prismas ativos e
passivos definidos pela largura 2 b e a profundidade
zda fundação, em 1913 e em estudo detalhado
(Terzaghi, 1943) voltou ao esquema das superfícies
de ruptura contínuas, semelhantes à de
Prandtl, introduziu a noção de ruptura por
cisalhamento geral (solos densos, pouca deformação
antes da ruptura) e a da cisalhamento local
(solo fofo, deformação acentuada, antes da ruptura)
e fundação rasa e profunda, aquela sendo a
que se situa a profundidade em geral menor ou
no máximo igual à largura da fundação. Conside
rou ainda os casos de fundações com bases lisas
ou rugosas. Os resultados das análises levaram a
expressões dc três termos, cada um ligado a um
dos chamados fatores de capacidade tle carga: N t.,
N e N (cisalhamento geral) e N\. N\, c N/
(cisalhamento local), dependentes unicamente de
tp. Aqueles três termos contêm, respectivamente,
a coesão c, a profundidade z e a largura 2b da
fundação corrida. Para fundações rasas com comprimento
aproximadamente igual à largura «circulares,
quadradas e retangulares) a analise matemática
é mais complicada e Terzaghi adaptou com
coeficientes baseados na experiência disponível
os termos, para usar os mesmos fatores de capacidade
de carga. Para fundações profundas (por
exemplo: tubulòes), acrescentou à expressão da
fundação rasa um quarto termo igual à superfície
lateral da fundação profunda multiplicada por um
fator de atrito e adesividade, ambos laterais.
Mas fundações profundas são também as fundações
por estacas, cuja capacidade de carga foi,
igualmente e desde o princípio do século XX. procurada
por teorias sem sucesso, como a de Stern
(1908) e a de Dõrr (1922). Do ponto de vista estático,
Terzaghi estendeu o raciocínio, que acaba de
ser visto, sobre fundações profundas, às fundações
por estacas, englobando os três primeiros termos
sob a designação de resistência de ponta e o quarto
termo com o nome de resistência de atrito lateral.
lí claro que sendo aqueles três primeiros termos
já adaptados da teoria das fundações corridas
para as de forma circular ou quadrada, a sua extensão,
para estacas com seções circular (estacas
cilíndricas ou cônicas alongadas) e quadrada (estacas
prismáticas) é uma segunda aproximação, que
serve ao menos para estimar o limite inferior da
resistência de ponta, enquanto o atrito lateral é
medido, algumas vezes e sob forma dinâmica, em
ensaios de arrancamento ou estimado com base
na experiência local sobre os vários tipos de solo.
Este talvez seja ainda o melhor apoio para o cálculo
empírico, pois o atrito lateral varia, seja a
estaca de madeira, de concreto ou metálica, rora
disso, a única possibilidade é a da medida direta
da capacidade de carga até a ruptura, em uma prova
de carga da estaca. Do ponto de vista dinâmico,
desde há muito que st; tentou obtê-la usando dados
da cravaçáo e parâmetros baseados na teoria
do choque newtoniano e chegando às chamadas
fórmulas de estacas. As mais antigas são as de
Eytelwein (1820) e Sanders (1850). Da mais inconsistente,
a de Wellington (1888) ou fórmula
"Engineering News", como é conhecida, a:é a
menos inconsistente, a de Hiley (1925), todas elas
são teoricamente deficientes, como o demonstrou
Cummings (1940) (Nota 10, 1.11) e, em geral, usadas
apenas na comparação com a capacidade de
carga determinada pelos meios antes relacionados.
Do ponto de vista histórico, é interessante mencionar
que o fato hoje conhecido e explicado de
ter, em geral, um grupo de estacas uma capacidade
total inferior à soma das de suas estacas, já
fora há um século pressentida pelo engenheiro
de fundações americano Sooysmith (1896). Ainda
com respeito à capacidade de suporte e prova
de carga de estaca, mencione-se a invenção por
Lazarus White das estacas pré-ensaiadas uma a
uma, hoje mais usadas em trabalhos de
refundaçào. Mencione-se, por fim, que o receio
de uma estaca carregada, dada a sua esbeltez,
ficar sujeita a flambagem, principalmente se só
com resistência de ponta e cravada em solo mole,
já foi afastado pela análise, que mostrou ser remota
essa possibilidade.
Em duas de suas obras marcantes, já referidas,
do início da geotecnia moderna, Terzaghi, no ultimo
da série de 8 artigos publicados na
"Engineering News Record", advertia que são três
os requisitos para um bom uso dos novos conhecimentos:
um sólido apoio na teoria desses conhecimentos,
um sistema de classificação de solos
que permitisse uma correlação confiável entre
os fatos observados (os chamados histórico
de casos) e, como extensão deste, capacidade para
visualizar analogias simplificadas mas confiáveis
representando as complexas condições e os problemas
postos pela Natureza; e, em a "Ciência
das Fundações", com relação a estas, adverte que
seus problemas são de tal caráter que não permitem
um tratamento estritamente teórico-matcmático,
e que o único meio de contornar, de forma
eficiente, essa dificuldade consiste em identificar
o que aconteceu em casos anteriores e similares,
o tipo de solo nestes presente, o porquê das operações
realizadas darem tais ou quais resultados;
e que, finalmente, o acúmulo sistematizado de
conhecimentos empíricos assim adquiridos e verificados
através de adequada investigação do
solo permitirão que a engenharia de fundações
se desenvolva como uma ciência semi-empirica.
Todo o esforço que acabamos de ver continuou
em nível mundial e coroou-se em 1936 com a realização
na Universidade de I larvand (Cambridge, Mass.,
U.S.A.) do I Congresso Internacional de Mecânica
dos Solos e Engenharia de Fundações (I ICSMFE,
da sua designação em inglês). Este foi marcado
por três eventos memoráveis: os 300 anos de
Harvard, a inauguração oficial de um novo e importante
campo da ciência aplicada, como disse
seu fundador. Terzaghi, e daí a idéia da criação tia
sua sociedade internacional, hoje ISSMFE, que infelizmente
teve de aguardar 12 anos para ser instalada
em Roterdã (1948), em virtude da II Guerra
Mundial. No seu discurso presidencial de abertura,
significativamente chamado por seu autor de
"Relação entre Mecânica dos Solos e Engenharia
de Fundações", Karl Terzaghi falou do que era a
mecânica dos solos, dominada por teorias que
davam um tratamento puramente abstrato aos problemas
do comportamento dos solos, estes tomados
como materiais ideais, "cujas propriedades
podiam ser descritas em cinco linhas"; e o que
veio a ser a Mecânica dos Solos, e o conhecimento
intimo (resultante dos avanços :1a década desde
o "Erdbaumechanik") das múltiplas e complexas
propriedades dos diferentes tipos de solo. Para
descrever, continua Terzaghi, todís as importantes
propriedades práticas das terras, tais como a
natureza as produziu, necessitar-se-ia de um livro
"de bom tamanho". Aí está a explicação da mudança
radical e necessária daquelas teorias, cujas
falhas resultavam inexplicáveis (e eram por isso
chamadas de "atos de Deus"), para um conjunto
organizado e realista de conhecimentos. Para chegar
a isto, conta Terzaghi que decidiu, no fim da
segunda década deste século, fazer um levantamento
geral de tudo que a engenharia tinha publicado
sobre geotecnia a partir de 1850. Resultou,
diz ele, que todo material assim recolhido
continha menos informação positiva que a contida
nos dois primeiros volumes do I ICSMFE. E
dessa comparação advieram três notáveis mudanças:
uma grande melhoria na quartidade e qualidade
das informações sobre a observação de estruturas
em tamanho natural, a eliminação do crônico
antagonismo entre teoria e prática, e a substituição
da fé cega em regras e prescrições por
adequada evidencia. E, para continuar aproveitando
essas mudanças, três outras medidas: um
método de descrever o solo (.uma nomenclatura
qualificativa) de compreensão c portanto de aceitação
generalizada, observações racionais e
confiáveis não sujeitas a interpretações, e relatórios
a respeito contendo todos os fatores vitais do
relatado. Com um realismo e uma modéstia própria
dos verdadeiros cientistas e técnicos, Terzaghi
escreveu a propósito estas palavras de ouro: 4 Nossas
teorias serão substituídas por outras melhores,
mas os resultados de observações conscíenciosas
no campo ficarão como um patrimônio
duradouro de inestimável valor para a nossa profissão".
No tocante a fundações, os Anais do I ICSMFE
já trazem desde implementações de ensaios in
situ' como o do cone holandês ("deep sounding"),
variados estudos e aplicações sobre distribuição
de pressões no subsolo, adensamento e recalques
(pré-adensamento, adensamento secundário, por
subsidência, por pré-carregamcnto, por rebaixamento
do lençol d agua etc.), me horamento de
solos (injeções, eletroosmose) até solos expansivos,
solos congelados e dinâmica dos solos, incluindo
liquefaçâo e fundações de máquinas.
O interregno de 12 anos (1936-48) dos congressos
e da associação internacional geotécnicos não
afetou o desenvolvimento da especialidade que,
ao contrário, se estendeu pelo mundo. Em 1939.
Terzaghi publicou "Mecânica dos Solos — um
Novo Capítulo da Ciência da Engenharia" (Nota
11, 1.11), que em sentido oposto ao da "A Ciência
das Fundações" (de 1927, mas dirigido às bases
tecnocicntíficas), entretanto na mesma linha e a
despeito do título, foi dirigido á prática da nova
profissão. Mesmo a longa duração da II Guerra
Mundial, que tomou metade desse período, nào
tolheu aquele desenvolvimento, trazendo até novas
ações no estudo e na construcão das infraestruturas
rodoviária (que já se iniciara no fim da
década anterior) e aeroportuária, principalmente.
Terzaghi, que já era então o principal consultor e
o guia inspirador desse desenvolvimento, viajou,
por isso mesmo, pelo mundo inteiro (só nào esteve
na Austrália e na Antártida, diz Peck.). inclusive
mais de uma vez no Brasil (estabilidade de encostas
na Serra do Mar, metrô de São Paulo, conferências,
barragens). Em 1943, reunindo o que já
apresentara e mais todos os desenvolvimentos
havidos, inclusive novas proposições suas (como
a teoria gemi da cunha sobre pressões de terras
animadas, além de nova teoria sobre capacidade
de carga, como já visto), publicou o seu segundo
livro clássico. "Thcoretical Soil Mechanics" Terzaghi
(Terzaghi, 1943), e em 1948 (com Ralph B. Peck),
"Soil Mechanics in Engineering Practice", Oérzaghi
and Peck, 1948). Estes dois livros c mais o de
Donald W. Taylor (que, com Glenr.on Gilboy, foram
os fundadores da escola geotécnica do MIT),
também de 1948, "Fundamentais of Soil
Mechanics" (Taylor, 19i8;, cuidadosa e demorada
(700 páginas!) apresentação técnica de todos os
fundamentos da ciência geotécnica, esses três livros
marcam definitivamente o início da fase moderna
dessa nova ciência. Juntamente com esses
três pioneiros e preciso citar a extraordinária figura
de outro, Arthur Casagrande, por seu saber e
por sua capacidade de trabalho (que atingiu um
máximo com o otimismo revelado na convocação
e depois na organização do 1 ICSMFE, de que foi
secretario-geral com pleno sucesso, contrariando
o ceticismo de muitos, inclusive Terzaghi).
Casagrande, que esteve muitas vezes no Brasil
como consultor (é mesmo nome ligado ao desenvolvimento
da geotecnia brasileira, tendo sido
condecorado com a Ordem de Rio Branco) foi o
fundador da escola geotécnica de Harvard e recelx*u
de seus colaboradores uma homenagem de
reconhecimento, com a publicação do Casagrande
Volume (como Terzaghi já havia sitio antes homenageado
com o Terzaghi Volume, ou "From Thcory
to Practice in Soil Mechanics") (Nota 12. 1.11). O
livro de homenagem a Casagrande foi intitulado
de "Embankmcnt-Dam Engineering" (Nota 13,
1.11), mas além desse campo em que Casagrande
muito se distinguiu, o seu trabalho pioneiro c
posterior se estendeu a toda a Mecânica dos Solos
e aplicações. Nos seus vários escritos sobre
Fundações, por exemplo, encontram-se dois da
fase de consolidação científica dessa técnica: "The
Structure of Clay and its Impoiianct in Foundation
Engineering" (1932) e "Application of Soil
Mechanics in Designing Building Foundations"
(1942, com a colaboração de R.E. Fadum). O primeiro
foi publicado no "Journal" da Boston Society
of Civil Engineers (vol. 19, p. K>8-209) e o segundo
nos " Proceedings" da American Society of Civil
Engineers (ASCE.) (vol. 68, p. 1487-1520).
O ano de 1948 teve dois importantes eventos.
Em junho foi lançado o primeiro número de
"Géotechnique" pela The Geotechnical Society, de
Londres, graças aos esforços de R. Glossop e H.Q.
Golder. A sociedade nacional britânica publicou
mais três números semestrais que, com o primeiro.
constituíram o Vol. I (19-18-49). A partir do n u 1
do Vol. II (1950-51) a publicação passou para a
responsabilidade da Institution of Civil Engir.eens
(I.C.E.), também de Londres, que acrescentou ao
nome "Géotechnique" o subtítulo "The International
Journal of Soil Mechanics", como é até hoje (vol. XLV,
cm 1995). A partir do n-1 de março de 1952 (vol. III,
1952-53) a publicação tornou-se trimestral. Cutra
importante contribuição da 1CE foi a publicação da
"Bibliography on Soil Mechanics", de 1920 (mas
incluindo trabalhos importantes anteriores) até 1959;
na década de 60 apareceram as bibliografias sistemáticas
com fichários. ou resumos como os publicados
pela entidade geotécnica nacional da Alemanha.
O segundo evento dc 1918 foi o II ICSMFE, reunido
em Roterdã, Holanda. A prova de quanto a
especialidade avançou no período 1936-48 se traduz
por três vezes mais participantes que em 1936.
no I Congresso, e pelos trabalhos apresentados
em 7 volumes dos "Proceedings". No vol. VI destes
estão os Estatutos, então adotados, da
International Society of Soil Mechanics and
Foundation Engineering (ISSMFE). O fato cie a
sociedade adotar em seu nome, tal como no dos
seus Congressos internacionais, a menção â Engenharia
de Fundações mostra a importância
maior desta técnica como campo de aplicação da
Mecânica dos Solos. Os trabalhos apresentados
no II ICSMFE cobriram, tal como no 1, todo o campo
da geotecnia até então praticada, com destaque
para: 1) estudos e pesquisas (com ensaios)
de Skempton, e deste com Golder, sobre a resistência
ao corte das argilas saturadas, baseada só
na coesão (a chamada hipótese <p=0) e 2) para o
desenvolvimento de equipamentos de medidas
daquela resistência "in situ", como o chamado
ensaio de penetração contínua do já citado cone
holandês, hoje conhecido como CPT; e a apresentação.
por Carlson, do aparelho sueco então
designado por trado (ou ferramenta) rotatório e
que veio a ser o conhecido ensaio (de campo) de
paleias ("vnne test"), especial para nrgila.s meles.
Para a nossa geotecnia, é importante assinalar que,
se no I ICSMFE o Brasil, só apresentara uma inscrição
(a do eng. A.W.K. Billings, da antiga Light
òv- Power) e nenhum trabalho, já no II ICSMFE
enviou uma delegação chefiada por Odair Gr ilo,
inscrevendo onze participantes; e apresentou seis
trabalhos, três discussões e três informes sobre
laboratórios geotécnicos. Dos seis trabalhos, um
era de cunho regional. Este tipo de estudo foi
incentivado em geral por Terzaghi em seu discurso
dc abertura, quando disse: "... é tarefa dos
engenheiros de... e dos do Brasil prover-nos com
informações concernentes a solos residuais".
O III ICSMFE (Zurique e Lausanne, 1953; retomou
a discussão dos Estatutos da ISSMFH, em virtude
da experiência ganha em sua vigência de 5
anos e das propostas de emendas recebidas e aprovou
o texto definitivo dos mesmos estatutos, em
inglês e francês. Os trabalhos técnicos apresentados
revelaram importante continuação dos dois
Congressos anteriores, com duas sessões dedicadas
a fundações (diretas e por estacas), e assim os três,
segundo Folque (Folque, 1992) marcam o encerramento
do que ele chama de período clássico da
Mecânica dos Solos. Tantos foram os avanços deste
período, que é ainda Folque (1992) quem chama
a atenção para as primeiras tentativas de aplicação
da reologia na interpretação do comportamento
dos solos, apresentadas neste III ICSMFE.
O Brasil, além de irês discussões, voltou a apresentar
seis trabalhos, dos quais três eram sobre
solos residuais.
Mas fora tios Congressos e dentro desse período
»lássico, há ainda importantes fatos a mencionar.
O primeiro deles é o aparecimento da dinâmica
dos solos, quase contemporâneo da estática. A
propósito, Folque (1902) observa que, no mundo
fechado da antiga URSS, houve uma como que
simultaneidade com o mundo ocidental e cita duas
obras, em russo, de 1934: "Fundamentos de Mecânica
dos Solos", de Tsytowitcli, e "Fundamentos
de Dinâmica das Massas Terrosas", de Gersevanov.
De fato, nesta última os soviéticos já no I ICSMFE
apresentaram trabalhos, numa época em que, no
Ocidente, só a Degebo (sigla da antiga Associação
Alemã de Pesquisas em Mecânica dos Solos)
fazia estudos a respeito e nos quais se distinguiram
Lorenz, Hertwig e Ramspeck, entre outros, e
na URSS principalmente D.D. Barkan. Tais estudos,
então, já encaravam as vibrações no solo sob
o duplo aspecto de seus usos e aplicações, como
da proteção contra seus efeitos. Entre aqueles usos
e no tocante a fundações, a aplicação das ondas
elásticas do impacto de cravaçào no cálculo de
estacas (Kanschin e Plutalov, I ICSMFE) e no caso
da proteção, as vibrações produzidas pelas máquinas
e induzidas no terreno por suas fundações,
pelo risco de ressonância das freqüências naturais
deste com as daquelas máquinas. Barkan continuou
seus estudos e. em 1949. publicou seu livro
"Dinâmica de Bases e Fundações", hoje um
clássico no assunto, traduzido para várias línguas.
Outros precursores foram: na Inglaterra, Crockett
e Hammond; nos EUA, Tschebotarioff e Crandall;
e na Suíça. Bendel.
Outro campo de estudos abordado desde o 1
ICSMFE é o das fundações sob condições
especialíssimas, em grandes áreas de solos fracos,
das quais o exemplo típico é o da Cidade do México;
aí as construções históricas, fundadas sobre
argilas leves (Nota 14, 1.11) de estrutura floeulenta
e origem eólica (estendendo-se a centenas de
metros de profundidade), apresentam recalques
que hoje se medem por metros; as subest rim iras
modernas, que não se apóiam sobre estacas muito
longas, são fundações verdadeiramente flutuantes
sobre o solo, procurando minimizar-se os
recalques pela escavação tle uma quantidade (profundidade)
de solo de peso igual ao da estrutura
que nele se vai implantar. Estes trabalhos foram
relatados desde o 1 e o II ICSMFEs pelos ilustres
engenheiros mexicanos José Cuevas e Nabor
Carrillo, este estudando especialmente o problema
do afundamento da cidade pela retirada de
água subterrânea (Nota 15, 1.10. Outras cidades
que se fazem notar também pelo subsolo fraco
são: Boston, Nova Orleans, Bangcoc, Xangai, alem
de Veneza, como já foi visto; e. no Brasil, áreas do
Rio, Santos e Recife. (Nota 16, 1.11). Quando a
esse problema se junta o da extração de água para
fins domésticos ou industriais, a situação se agrava
e a National Geographic Society cita, além das
já referidas, cidades como Londres, Tóquio, Osaka,
Taipei e Mouston.
Fundamental como é para a implantação de infrae.struturas
confiáveis, o reconhecimento do subsolo
foi desde logo cogitado no período que estamos
considerando. Como as sondagens para fins
geotecnicos são, em geral, de profundidade moderada,
tratou-se de transformar as sondas geológicas
tle percussão num equipamento mais leve, principalmente
para uso em áreas urbanas e restritas. Ao
mesmo tempo, procurou-se tirar proveito da
amostraçáo que na mesma sondagem geotécnica se
faz por meio tle amostradores padronizados, cravados
por golpes tle peso padronizado, caindo de
altura também padronizada, para medir o que se
convencionou chamar tle "resistência à penetração ,
isto é, número de golpes do peso para uma penetração
também fixada, correspondente â capacidade
(comprimento interno) do amostrador. Essa medida,
hoje universalmente conhecida como SPT(de
"standard penetration test"), é a mais generalizada
(nào para obter parâmetros de cálculo, mas sim índices
comparativos tle consistência ou compacidade
dos solos penetrados) entre todos os ensaios de
campo. Além dos amostradores "de reconhecimento"
(amostras semideformadas), houve um notável
desenvolvimento de amostradores para a obtenção
tle amostras indeformadas, em que se distinguiram
Kjellman, Kallstenius (aigilas) e Bisliop (areias).
A referência básica para o que acaba tle ser
apontado é o trabalho tle H.A. Mohr, "Exploration
of Soil Condiiions and Sampling Operations",
publicada pela Universidade de Ilarvard em sua
"Soil Mechanics Series" n" 21, 1943 (esta é a 3 a edição;
houve antes a 2 a edição, em 1940, e a I a edição
em 193/), e a obra para consultas detalhadas é
0 monumental relatório (mais de 500 páginas) de
M. Juul Ilvorslev. "Subsurface Exploration and
Sampling of Soils for Civil Engineering Purposes",
publicado cm 1949 pela Watenvays Experimental
Station dos EUA e patrocinado, entre outros, pela
1 larvard e pela ASCE.
Entretanto, por mais cuidados que recebam em
sua extração, as amostras indeformadas ainda apresentam
a inevitável limitação representada pela
descompressão que experimentam ao serem retiradas
de sua posição natural, e daí a importância
dos ensaios "in situ". Começa-se lembrando as provas
de carga que foram melhoradas: as diretas no
terreno (placas de, no mínimo, 0,8m de lado ou
de diâmetro), as sobre estacas e até sobre fundações
acabadas, como tubulòcs (estas, executadas
como as anteriores, são todavia de montagem mais
difícil pelas grandes cargas tle reação que exigem)
Sobre os equipamentos, para medidas de campo,
|á mencionamos o cone (holandês, nào confundir
com o ensaio sueco tle mesmo nome, que é de
laboratório, quando mede a penetração de um
cone em queda livre sobre a amostra de solo, ou,
no caso tio chamado penetrômetro de bolso, o
cone é comprimido por uma mola), o chamado
ensaio CPT ide "cone penetration test"), e o de
paletas Cvane test"); outro aparelho bastante antigo,
pois sua idéia deve-se a Kõgler, no início da
década de 30, é o hoje chamado pressiômetro,
aperfeiçoado e depois introduzido (1956-57) por
Ménard, já no período que Folque (1992) chama de
moderno. E, falando tle equipamentos, nào se pode
esquecer um aparelho, também tio início do período
clássico, introduzido por Terzaghi: um simples
nível d'água, mas dotado de micrômetros (até
0,01 mm, confiável até 0,1 mm) e destinado à medida
de recalques das fundações em serviço — um ensaio
'a posteriori" tio projeto executado, destinado
à verificação deste, como taml^ém ao desenvolvimento
empírico-científico tias técnicas tle fundações.
Para concluir, dois fatos que certamente coroam
toda a intensa atividade de ensino, pesquisa e
desenvolvimento tio período clássico: 1) a total e
definitiva aceitação da nova ciência geotécnica,
tanto por parte das universidades (currículos e pesquisas),
como tios profissionais da engenharia; 2)
como conseqüência tlisso, a elucidação satisfatória
das dúvidas ainda existentes no mais difícil capítulo
da Mecânica tios Solos quando passa da teoria
para os solos reais — o da resistência ao
cisalhamento. Tal foi o resultado tle uma Research
Confercnce on Shear Strength of cohesive Soils",
especialmente convocada e realizada (já dentro
do chamado período moderno) na Universidade
do Colorado (Boulder, 1960). Os "Proceedings",
de quase 1.200 páginas compactas, dizem bem da
importância desse encontro nos anais tia Mecânica
dos Solos. Como já foi dito, Folque (199U,
considera o chamado período moderno começando
depois dc 1953 e se estendendo até o VII
ICSMFE (México, 1969). A razão, diz ele, é que
até este último "os Relatórios dos Congressos veicularam
informações fundamentais". Estes Congressos
foram o IV (Londres. 1957), V (Paris, 1961)
e VI (Montreal, 1965), até o VII. O período moderno,
continua Folque (1991), se caracteriza pela
"intensa procura tle teorizaçòes... com base nos
princípios fundamentais". Muito disso se viu no
IV Congresso (Londres), que Folque considera o
mais importante depois do I (1936); foi o último a
que Terzaghi presidiu, como sempre, com intensa
participação técnica, principalmente na parte das
fundações, particularmente importante nesse Congresso.
Milton Vargas foi Relator Geral da Divisão
III: "Techniques of Field Measurement and Sampling",
na qual o ensaio de penetração SPT foi tratado pela
primeira vez em nível internacional.
O ano de 1957 marcou também o surgimento
da Mecânica tias Rochas. Como a Geologia do engenheiro
já se fazia presente desde o I Congresso
(e especialmente no III), podia-se, agora, escrever
a expressão tle integração das ciências geotécnicas:
Mecânica dos Solas + Mecânica das Rtxlias + Geola
gia de Engenharia « Geotécnica.
O Congresso de Paris (V, 1961) continuou a apresentação
dos desenvolvimentos tle Londres, mas
agora, observa Folque (1992), em profundidade
no trato das matérias e em qualidade. Pela primeira
vez apresentou-se uma correlação entre as medidas
do SPT e do CPT e até entre o SPT e o coeficiente
tle compressibilidadc. Já na parte de estacas,
Milton Vargas ofereceu reparos à correlação
entre aquelas medidas e a capacidade de carga
das estacas. Para ele, SPT e CPT seriam, antes, índices
de propriedades dos solos. Entretanto, no VI
ICSMFE (Montreal, 1965), que foi uma espécie de
continuação tio anterior, o assunto voltou, desta vez
sobre uma correlação entre o CPT de ponta e o
módulo edométrico (também chamado módulo tle
deformação, uma espécie de "módulo tle elasticidade"
confinado dos solos) (Nota 17, 1.11). As fundações
voltaram também a ter boa presença, com três
painéis, um sobre capacidade dc carga, outro sobre
recalques e um terceiro dedicado a estacas. Aqui,
Ménard procurou correlacionar medidas do seu
pressiômetro com capacidade tle carga e recalques
de estacas. Mas taml >ém foram considerados temas
como comportamento tle grupos dc estacas a.rgas
nào verticais (especialmente horizontais) e interações
de estacas tle um mesmo gnipo; rui parte construti
va, por exemplo, cravação tle estacas [>or vibradores.
O VII Congresso, na Cidade do México c 1969]),
como que prenunciando novos tempos, teve
estruturação diferente dos anteriores, introduz ndo
sessões especializadas (19!) sobre assuntos como
"coeficiente tle segurança em geotecnia ", ao passo
que as sessões gerais «apenas 5) lóram dedicacias a
assuntos básicos. Por exemplo, a segunda: "Fundações
fie edifícios ein solos ardilosos", d:i qual foi
Relator Victor de Mello. Para se ter uma itleia dos
rumos que já se apresentavam, é interessante citar a
contribuição do ilustre engenheiro mexicano Emílio
Rosenblueth, que Folque (1993) classifica como "lição
magistral", sobre: as decisões em engenhara; o
caso particular da engenharia de fundações; um
enfoque racional da questão dos recalques; alternativas
de projeto; análise probabilística da distribuição
tle recalques; o problema da minimizarão das cust:>s.
O Congresso do México foi o último do período
moderno em que se tratou de questões fundamentais,
segundo Folque. A partir daí começa o que
ele chama de período atual, caracterizado por cres-
ccntc substituição daquelas questões por outras
mais particularizadas, já abordadas nu de múltiplas
abordagens. No período atual já se seguiram os
Congressos: VIII ICSMFE (Moscou, 1973>, IX (Tóquio,
1977), X (Estocolmo, 1981), XI (São Francisco,
1985), que celebrou o meio século desses
conclaves internacionais, o XII (Rio de Janeiro, 1989)
e já em nossos dias o XIII em Nova Delhi, janeiro
de 1994. Para a geotecnia brasileira, têm particular
significação o X, no qual Victor de Mello foi eleito
presidente da ISSMFE, e o XII, por ter sido realizado
no Brasil e pelo pesar que a todos causuu o fato de o
grande vulto da geotecnia, da engenharia e da cultura
universitária, Antonio José da Costa Nunes, presidente
da Comissão Organizadora, não ter podido
presidi-lo. falecendo logo depois. Por outro lado, a
grande satisfação de ver e ouvir outro vulto, Milton
Vargas, pronunciar a I leritagc Lecture" sobre a "Mecânica
dos Solos no Brasil" e a apresentação de Luciano
Découn. como Co-Relator especial, sobre o SPT, agora
(desde 1988) chamado de "International Reference
Test Procedure" (IRTP) (Nota 17. 1.11).
1.9 CONCLUSÕES
A História, não como simples descrição, mas
como registro, o quanto possível completo, dos
fatos imparcialmente analisados, tem sitio chamada
de "Mestra da Vida". Pois a História das Fundações
representa um magnífico exemplo dessa
asserçâo. Tanto que os chamados "histórico de
casos" têm sido apresentados em reuniões técnicas
gerais, como já foram objeto de congressos só
a eles dedicados. De resto, fundações elas próprias
têm igualmente sido objeto da I listória Geral: aparecem
na Bíblia (Lucas, 6,47-49; Reis, 7,9-10), como,
segundo Kérisel (1985), teve desde a mais remota
antigüidade um cunho religioso e até místico. No
caso particular das técnicas as fundações têm. em
sua história, uma fonte de ensinamentos no sentido
que a todos, leigos e técnicos, interessa: algo firme,
sólido, e não só auto-sustentável, mas capaz de sustentar
estruturas que sobre elas se colocam. Dizemos
colocam e não coloquem, porque elas sempre
recebem uma carga para sustentar e por isso são
chamadas de superestrutura, enquanto sua fundação
r, por vt-zes, chamada fie infra-esmitura. Se considerarmos
como infra-estrutura apenas a paite da estrutura
abaixo do nível utilizável, veremos que ela apenas
transfere para o seu apoio natural toda a responsabilidade
pela sustentação. É aquele conceito da
terra firme lembrado por Terzaghi no seu discurso
de abertura do I ICSMFE. Mas sabemos que infelizmente
nem toda terra é firme e. portanto, aquela
responsabilidade é, cm última análise, do engenheiro
de fundações. Para melhor avaliá-la, disponhamos
os cinco principais materiais de construção, â
semelhança do princípio da classificação das ciências
de Comte, na ordem (de 1 a 5) tia generalidade
decrescente para a complexidade crescente:
1. aço - 2. concreto - 3. madeira - 4. rocha -
S. solo. Aí, generalidade não tem significado abstrato
de amplitude ou extensão, mas concreto de
variedade de uso como material; essa ordem pode
ser, também, da artificialidade para a naturalidade
ou tia mobilidade para a sedcntariedade, ou da
simplicidade para a complexidade de constituintes.
P<»r se tratar de materiais de construção, pareceria
estranho que sua mais importante propriedade
— a resistência — se quebre em 3), no centro,
ficando a madeira entre dois mais resistentes. Na
verdade, a madeira aí representa a transição, exibindo,
por exemplo, grande variedade de uso, de
mobilidade e relativa simplicidade, de um lado, e
de marcante naturalidade, do outro lado. De um
lado e doutro a resistência é deciescente. Se se
insiste nessas questões é exatamente para mostrar
que, tio lado da complexidade, vemos claramente
se juntar a essa mesma complexidade a naturalidade
e a sedcntariedade, isto é, os dois materiais do
geotecnico — o solo e a rocha, já tL* si complexos
— devem, em geral, ser utilizados "in situ" e como
são, como a natureza os fez (Nota 18, 111). Dessa
complexidade final decorre o inehitável caráter
empírico-racional da ciência geotécnica e o cuidado
e responsabilidade redobrados com que tem
de se haver o engenheiro de fundações. Vemos,
também claramente, o valor da ajuda que a experiência
histórica traz ao profissional geotécnico e
que se traduz por: 1) necessidade absoluta de conhecimento,
tanto quanto possível completo, do
local da fundação, para evitar surpresas com variações
do subsolo e águas subterrâneas, bem como
dos percalços que as águas superficiais podem trazer
ao canteiro de obras; 2) ter em conta que
qualquer economia, no tocante ao anterior, pode
resultar em despesas muitas vezes maiores para
reparar o efeito de tais surpresas. Diante de I) e 2)
levar ainda em conta os riscos em geral fora da
área das fundações, como o de deslizamentos tio
terreno. Isso quanto às ações no local. Quanto às
ações tio engenheiro, temos, no projeto; 3) evitar
solicitações excessivas do solo de fundação, seja
na concepção da superestrutura, seja na da infraestrutura;
4) cuidado com as solicitações não verticais
(principalmente as horizontais), seja na super,
seja na infra-estrutura; 5) cuidado com as diferenças
de nível dos contatos subsolo-infra-estrutura
e daí 6) cuidado com a mesma diferença de nível
em relação às fundações vizinhas. Depois de tudo
isso e por estranho que pareça; 1) cuidado com o
excesso de segurança, principalmente em fundações
tle pontes, que pode levar a erosões e prejudicar
o escoamento da corrente. Gisos históricos
têm mostrado transtornos, por exemplo, com excesso
de estacas e, por vezes, algumas até inúteis.
O risco vai desde a proximidade entre estacas (mínima
de 3,5 vezes o diâmetro ou lado, de eixo a
eixo) até o emprego impróprio, de maneira ou
em locais tecnicamente contra-indicados; 8) cuidado
se for necessário projetar, para :» mesma construçào.
fundações de tipos diferentes (a que le-
vam muitas construções de cargas muito variáveis)
considerando, por exemplo, estacas de comprimentos
diferentes, espessuras variáveis de camadas
de apoio no subsolo etc., que podem levar a
sérios recalques diferenciais: 9) excesso de rigidez,
levando em conta juntas de articulação que
possam ser apenas temporárias e juntas de retração
ou de absorção de recalques diferenciais; 10) por
fim. avaliações incompletas de cargas quanto a
efeitos dinâmicos, superposição de esforços e
omissão de efeitos posteriores. Quanto ã execução,
os problemas que surgem são diferentes mas
tanto ou mais importantes, pois uma má execução
pode pôr a perder um bom projeto. Os cuidados
devem se voltar para: 11) no início dos trabalhos
secamento e drenagem do canteiro de serviço;
12) taludes instáveis ou escoramentos defeituosos
das escavações, às vezes impróprios; 13) métodos
pobres dc construção ou mão-de-obra dc
má qualidade; 1-1) defeitos de materiais de construcào;
15) erros geométricos dc implantação; 16")
subpressáo de lençóis d'água abaixo de camadas
dc argila, especialmente de pequena resistência,
que podem sofrer empolamento e até ruptura, e
cuidados nos bombeamentos d'água acima c até
o fundo das escavações; 17) nas fundações sobre
argilas, podem ocorrer prejuízos à qualidade destas
por demora entre o fim da escavação e o início
da concretagem; 18) efeitos externos, que vão desde
infiltrações e inundações até influência de raízes
de á:vore; 19) e, de modo mais geral, trabalhos e
modificações em áreas vizinhas. E, finalmente, em
contrapartida destas: 20) cuidado com a integridade
das construções vizinhas. Estes cuidados, as
características dos materiais da engenharia de construções
e a prática desta, em geral, foram
magnificamente sintetizados nesta advertência de
Terzaghi (Nota 19, 1.11). "Os projetos em concreto
e aço. bem como muitos outros ramos da engenharia,
podem ser praticados por homens experimentados
de forma rotineira. Em contraste, no campo
da geotécnica, cada novo trabalho envolve, ao menos,
alguns aspectos menores que são sem precedentes.
Estes aspectos nos mantêm alertas, a despeito
da extensão que possa ter nossa experiência
no espaço e no tempo, e a atração do inexplorado
nunca se desfaz."
Os fatos que vêm de ser apontados representam
a maior parte da experiência histórica disponível
para o engenheiro de fundações juntar à sua experiência
pessoal e, assim, desenvolver sua intuição
a respeito do comportamento do solo em problemas
geotécnicos. No trato destes, o são julgamento
deve guiá-lo tanto na aplicação como na
interpretação da teoria e seus resultados, sem nunca
perder cie vista que a Mecânica dos Solos nào é
uma ciência exata. Por ser scmi-empírica, foi ainda
Terzaghi que disse, certa vez. que se as suas
teorias lào forem simples, terão pequeno valor,
porque as propriedades dos solos reais são tão
complexas que os erros resultantes de suas avaliações
numéricas podem exceder de muito as imprecisões
das teorias simples; disse também que
teorias mais complicadas em soluções matemáticas
exigiam um gasto de tempo e de esforços completamente
desarrazoado. Hoje. em plena era do
computador, essa última parte de sua apreciação
pode estar superada, mas a inicial permanece válida.
Por isso todo o cabedal de recursos de cálculos,
agora tornado de fácil aplicação como: métodos
numéricos, métodos de rclaxacào. de elementos
finitos, relações constitutivas, incertezas e riscos
abordados por cálculos probabilísticos, se usados
devem passar pelo crivo do bom senso e do
espírito crítico. Porque estes são os fundamentos
dos trabalhos dos engenheiros e, em especial, dos
engenheiros de fundações.
1.10 BIBLIOGRAFIA
1 DERRY, T R . WILLIAMS. T I A Slioil I listory of Technology
New York/Oxford. Oxford Universiiy Press. 1961
2 FELD, JACOB • Early I listory and Bibliography of Soil
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Geotecnia. Lisboa. SPG. 1991/1093, n ,J 63. nov 1991; n J
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11"'. San Francisco, 1985. Golden Jubilee Volume A A
Balkema, Rotterdam/Boston, 1085.
5 PECK. R B. - The List Sixty Years. In: I.C S.M.F E.. 11". San
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Rotterdam/Boston. 1985.
0 SKEMPTON, A W. - A llistoiy of Soil Pioperties 17171927
I C.SM FE . 11*. San Francisco. 1985. Golden Jubilee Volume.
A A Balkema. Rotterdam/Boston, 1985
7 SOWERS, G.F. • The Fifteenth Terzaghi Lecture Tliere were
giants on the earth in those days. Journal of the
Geotechnical Engineeriníi Division. New York.
Proceedings, A.S.C.E . v.107, GT4. p. 383-419, Apnl. 1981
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10 TERZAGHI. K - Theorelical Soil Mechanics. New York.
John Wiley and Sons. 1943
i: TERZAGHI, K and Peck. R.B - Soil Mechanics in
Engineering Practice. New York, John Wiley and Sons.
1948.
1.11 NOTAS ADITIVAS AO TEXTO
1 Suuers lembra que nas construções arqueológicas das Américas
as fundações eram. em geral, simples,
exemplificando com as paredes cujos alicerces nào eram
muito mais largos que elas. Lembra, ainda. que. em x^'-
ral, a rocha estava a pouca profundidade É de recordarse
taml>ém que, tanto no hemisfério norte como sul. os
espanhóis apoiaram várias tle suas construções cm fundações
indígenas aproveitadas.
2 Krynine, DP - Soil Meclunics - Mc Graww-Hili, New York,
1941.
3 Jacoby. M S. and Davis, R.P. - Foundations ot Bridges and
Buildings Mc Graw-Hill, New York. 1941.
i Collin foi taml^ém, segundo A. Caquot ej Kérisel (Traite de
Mécanique des Sois. Gauthier-Villares, Paris. 1966). o
introdutor da caixa de cisalhamento no ensaio de corte
plano horizontal.
5 A W. Skcmpton. palavras de encerramento da sessão solene
dedicada ã memória de K.u! Tcr2aglu na abertura do 6' 1 '
ICSMFE. Montic.il, 1985 (Proceedings. v III p H3)
6 A pressão na água intersticial é. por isso. chamada de poropressão;
ou de pressão neutra, por não ter influência na
resistência ao cisalhamento.
II ESOPT. Amsterdam, 1982; e I.. Décourt, A Belincanta
e A R Quaresma F". "Brazilian Experience on SPT", vol
"Supplcmcntary Contributions". XII ICSMFE, Rio de Janeiro.
19«9 Recentemente (1995). a partir de uma idéia
original de S M T K.mzini. o SPT passou a SPT-T (SPT-
Torque). isto e. medida, após cravação, de momento de
torção do amostrailor, analisada por R;inzini, U R. Alonso
e L. Décourt no n" 511 da revista "Engenharia" de São
Paulo.
19 A movimentação e a melhoria constituem, no quadro geral.
exceções, especialmente cm fundações
20 Palavras finais do discurso inaugural do II ICSMFE. 1948,
Proceedings, v 6
21 Lançado por ocasião do XII ICSMFE (Rio. 1989). o De Mello
Volume : A tribute to Prol". Dr Victor F de Mello e uma
obra coletiva, coordenada pelos Eng Joié Eduardo Moreira
e Luciano Décourt.
7 Nome completo da obra: Erdbaumechanik auf
bodenphysikalischei GiundLige, von Dr. íng. KatI
Terzaghi Franz Deuticke, Leipzig und Wien, 1925.
8 Volume 95. novembro e dezembro de 1925. Há tradução em
português de Odair Grillo e Milton Vargas, publicada na
Revista Politécnica n"s 122. 126. 135. 136. 137. 138. 139
e 140 (1936 a 1942). e separatas da mesma Revista e do
I PT. (1942).
9 Respectivamente em. Journal, Boston Soe Civil Fng . v XII.
p. 397-423. 1925 e Proceedings Am. Soe Civil Kng. v
53. p 2263-2294, 1927.
10 Cummings. A.E. - Dynamic Pile • Driving Formulas - Journal
Boston Soe. Civ. Eng.. v. 27, p 6-27
11 Soil Mechanics - A New Chapter in Engineering Science -
Journal ln>t Civ. Eng., v. 12. p. 106-141.
12 John Wiley and Sons. New York, 1960 Editores Casagrande,
Skempton, Peck e Bjerrum.
13 John Wiley and Sons. New York. 1973. Editores HirSchfeld
e Poulos.
14 Chegam a pesar apenas 1.1 em relação A águj; <» volume
desta chega a três vezes o volume dos sólidos.
15 Junto à cidade, na antiga capital dos aztecasTenoclititlan. à
beira do lago Texcoco, construía-se sobre estacas de
madeira. É interessante recordar que os descobridores
espanhóis encontraram também á l>eira do lago Maracailx>
essas construções, que lembram as antigas palafitas. e
daí o nome que deram ao pais. Venezuela, ou seja. pequena
Veneza.
16 Em geral, zonas litorâneas e de baixadas. Os solos fracos
nem sempre estão á superfície.
17 O SPT e o CPT voltaram ainda a ser tratados, ein nível
internacional, no V CPAMSEF (V Congresso Pananiencano
de Mecânica dos Solos e Engenharia de Fundações, Por
tn Ri<-r>. 1971). em que Virtnr tle Mello (que |.« mt.m <h
questão em tese acadêmica de 1967) apresentou uni amplo
e documentado estudo conceituai e de aplicação.
Voltou criticamente ao assunto no IX ICSMFE (Tóquio.
1977)
18 No Brasil, o SPT e suas correlações têm sido uma questão
recorrente desde os primórdios da moderna luciatuta
geotécnica nacional, passando mesmo para o âmbito internacional
a paitir de l'>71 V.F.B de Mello, já citado, e
N.S. de Godoy, IV CPAMSEF. Porto Rico. 1071; N Aoki e
D A. Velloso, V CPAMSEF, Buenos Aires, 1975; A H
Teixeira. ISNRNE-ABMS, Recife. 1977: 1. Dècuurt e A R
Quaresma, VI CBMSEF, Rio de Janeiro, 1 4 >78 I. Décourt.
| CAPÍTULO 1 HISTÓRIA DAS FUNDAÇÕES
1 .B - HISTÓRIA DA ENGENHARIA DE FUNDAÇÕES NO BRASIL
MILTON VARGAS
1.12 INTRODUÇÃO
Durante a época colonial no Brasil, as construções,
segundo Katinsky"', podiam ser classificadas
em três tipos de obras: as destinadas a amparar
a produção colonial de exportação; as para
garantir a continuidade administrativa e social da
colônia; e as que tinham cm vista a satisfação das
suas necessidades internas. Ao primeiro grupo
correspondiam principalmente, a> obras relacionadas
com a indústria do açúcar e as precárias
instalações portuárias de exportação. Essas quase
sempre resumiam-se a plataformas, onde atracavam
pequenas embarcações, a remo, que transferiam
a carga aos navios, fundeados ao largo. Segundo
KatinsKy, Antonil, em sua obra clássica Cultura
e Opuléncia do Brasil", descreve os edifícios
principais dos engenhos de açúcar com as seguintes
palavras: "Nos engenhos maiores, os galpões,
geralmente retangulares, eram construídos com
pilares de tijolos queimados, onde se abrigavam,
em níveis escalonados, a moenda, as fornalhas e
as formas de purgar".
No segundo grupo estavam as fortalezas militares,
construídas ao longo da costa, e algumas delas,
nas fronteiras com as colonias espanholas; os
quartéis e os edifícios públicos; c as cadeias.
Katinsky, inclui nessa classe também as igrejas e
conventos; pois, diz ele, a igreja 6 o braço ideológico
da coroa portuguesa. Note-se que a construção
das fortalezas e das igrejas e mosteiros são as
que recebem o maior concurso de profissionais
especializados: oficiais militares, mestres de risco e
de obras e padres, versados em arquitetura; e têm
projetos necessariamente aprovados na metrópole
No terceiro grupo reúnem-se íis "obras civis": casas
de moradia, tanto dos ricos como dos pobres, casas de
comércio, armazéns e moinhos de farinhas, inclusive
igrejas mais pobres que não eram sujeitas à aprovação
superior. Nesses edifícios dominavam as técnicas locais
de taipas tanto de pau-a-pique. como de pilão.
Sobre as fundações dessas obras muito pouco
se sabe. além da tradição dos alicerces das obras
comuns, constituídas por pedras socadas em valas
escavadas ao longo das paredes. No trabalho
de Katinsky. acima citado há um desenho de uma
estrutura de madeira em gaiola, cujas paredes seriam
preenchidas com taipas, fundadas sobre curiosas
sapatas sob os pilares, designadas como nabos
(parecendo raízes de árvores?).
Um documento sobre a técnica das construções
de edifícios, durante o período colonial foi entretanto
publicado pelo monge beneditino Dom Clemente
Maria da Silva-Nigra ,2> . Trata-se da biografia
de frei Bernardo de São Bento, arquiteto
renascentista do Mosteiro de São Bento no Rio de
Janeiro, acompanhada pela "Declarações de obras",
de 1684, para a construção daquele mosteiro.
O item 6-1 dessas "Declarações" refere-se a Alicerces",
onde se especificam os preceitos para
construir o alicerce a partir de sua profundidade,
"cuja altura sempre deve ser, até achar dureza suficiente
em q. se fundem". Diz o arquiteto frei
Bernardo que já viu no Rio de Janeiro casas fundadas
em areia, em cava de cinco palmos de profundidade;
mas isso só se pode admitir em casas
comuns, construídas onde nào há água.
Segue dizendo: "Se o licerce for feito em
barranqueira, ou fralda de monte ... o seo licerce
ou parede necessitará de escarpa, para repuxo, e
resistência da terra ...". Depois de outras considerações,
refere-se a uma figura anexa ao texto, onde
se mostra a fundação de uma parede sobre um
terreno inclinado, em que a sapata tem a base
escalonada em degraus. É interessante que frei
Bernardo acrescenta uma nota chamando a atenção
para o fato de a figura exagerar a escarpa e
termina dizendo: "O que fica dito é doutrina do
famoso Luiz Seraó". Trata-se de Luiz Serrào
Pimentel, engenheiro militar português, que projetou
várias obras no Brasil. Viveu entre l6l3 e
1679. Seu nome é relembrado no livro "Methodo
Lusitano dc desenhar as fortificaçòes e Praças Regularcs
c irregulares, fortes de Campanha, e outras
obras pertencentes a Arquitetura militar: dividido
em duas Partes operativa e qualificativa",
publicado cm Lisboa em 1680, por Antonio
Crcsbeck de Mello. Um exemplar desse livro
existe no "Real Gabinete Português de Leitura",
do Rio de Janeiro.
Dom Clemente refere-se ainda ao fato de que
uma das obras estudadas pelo arquiteto frei
Bernardo de São Bento é o tratado "Arquitetura"
de Scbastian Scrlio, um arquiteto italiano
renascentista, mostrando assim que os métodos
construtivos da época da colônia, são os do
Renascimento — notoriamente decorrentes da arquitetura
romana de Vitrúvius.
1. í 3 AS PRIMEIRAS ATIVIDADES
GEOTÉCNICAS
Com a chegada da corte portuguesa ao Rio de
Janeiro, em 1808, é que são fundadas escolas de
ensino superior, além de bibliotecas, museus e jardins
botânicos. Com isso tem início a formação no
país de profissionais, cuja instrução é baseada cm
ciências. A engenharia civil e. com ela, as técnicas
de construção e fundações de estruturas são ensinadas
na Academia Militar. Somente em 1845 é que
aparece o ensino específico de Engenharia Civil,
na Escola Central, separada da Militar. Essa separação
torna-se total com a criação, cm 1874, da Escola
Politécnica, do Rio de Janeiro; e da Escola tle
Minas de Ouro Preto, cm 1876. Já no programa
anexo ao decreto de criação da Escola Politécnica,
as técnicas de fundações deveriam ser ensinadas
no l u ano do curso de Engenheiros Civis, na I a
Cadeira: "Estudo dos Materiais de Construção e sua
Resistência, Tecnologia das Profissões Elementares,
Arquitetura Civil". Ao correr do tempo essa
cadeira deu origem às disciplinas de Construção e
de Grande Estruturas, as quais vieram a constituir
as atuais: Mecânica dos Solos e Fundações.
Por outro lado, durante o século XIX apareceu
um grande interesse pelos estudos geológicos no
Brasil, principalmente em relação à mineração do
ferro. Testemunhos desse interesse são a publicação
em Paris, em 1827, do livro "Viagem
minera lógica na província de São Paulo", de autoria
dos irmãos José Bonifácio e Martim Francisco
Ribeiro de Andrade; e em 1833, do célebre tratado
de Eschwegc: "Pinto Brasiliense". Mas só com a
obra de Charles Frederick Hartt, "Geologia e Geografia
Física do Brasil", publicada em Boston em
1874, é que aparece a primeira Geologia do Brasil.
O interessante, sob o ponto de vista da engenharia,
é que, nesse livro, são freqüentes as referências
às investigações geológicas ao longo dos
traçados das estradas de ferro que estavam sendo
construídas na época no país. Estabeleceu-se assim
uma tradição nacional de correlação estreita
entre :i geologia e a engenharia civil no país, a
qual foi implementada pelo fato de nossa geologia
ter sido estudada pelos formandos da Escola
de Minas de Ouro Preto, onde a engenharia civil
era também ensinada, em conjunto com as disciplinas
geológicas e de minas. Assim, a Geologia
da Engenharia tem um início precoce no Brasil, já
em 1907, quando Miguel Arrojado Lisboa investiga
as formações geológicas ao longo do traçado
da E.F. Noroeste do Brasil; e em 1909 estuda geologicamente
os locais de construção de barragens
das Obras contra as Secas no Nordeste tio país.
Essa estreita correlação entre a engenharia civil
de solos e fundações e as investigações geológicas
não só perdurou como foi incrementada até
os nossos dias, como se verá a seguir.
A grande atividade de engenharia durante o
Império foi a da construção de estradas de ferro,
na qual o projeto e a construção «.Ias fundações
de aterros e das obras de arte estavam presentes.
Infelizmente referencias específicas a tais obras
aparecem muito pouco na literatura nacional. Uma
delas é a figura de um corte transversal do Viaduto
do Retiro U875.) na E.F. D. Pedrc II. reproduzido
na página 318 do livro de Pedro da Silva Telles,
"História da Engenharia no Brasil" que mostra
fundações em blocos, provavelmente de alvenaria
de pedra, em cavas abertas no provável terreno
firme (que na figura parece ser a rocha aflora nte
no leito do rio). Há vagas referências, por exemplo,
a construção dos aterros sobre os terrenos
moles da Baixada de Santos, para a linha Santos-
Jundiaí, que teriam sido construídos sobre estivas
de bambu. Há também notícias vagas sobre a fundação
da ponte sobre o rio Casque.ro, da mesma
estrada, que teria sido feita por meio de estacasparafusos.
Mas nada de preciso existe. O assunto
merece e está exigindo uma pesquisa dos documentos
técnicos da construção das nossas primeiras
estradas de ferro, se é que eles existem.
Problemas sérios de fundações apareceram, durante
o Império, nas construções dos cais de portos.
onde o terreno era freqüentemente mole. Talvez
isso explique o fracasso dos projetos portuários
da segunda metade do século XIX, no Brasil.
O único sucesso nessa época foi o das Docas da
Alfândega, no Rio de Janeiro, cujas obras foram
iniciadas em 1866, sob a direção de André
Rebouças. O cais, em alvenaria de pedra e cimento,
e fundado sobre estacas de madeira; o que
exigiu uma ensecadeira composta de estacas e
pranchas de madeira, surpreendentemente cravadas
com bate-estacas a vapor e inspecionadas por
meigulhadore.s com escafandros a ar comprimido'
Um testemunho de que já no final do século
passado havia um conhecimento da tecnologia de
solo por parte tios engenheiros civis brasileiros é
o caso das fundações do Reservatório dAgua do
Pedrcgulho, no Rio de Janeiro. Esse reservatório
era constituído por dois tanques, um a montante
tio outro, com uma diferença de nível de 5 m. O
tanque inferior, mais próximo tia encosta do morro.
foi concluído antes e inaugurado por D.Pedro
II, em 5 de maio tle 1880. No dia 24 de maio,
depois tle alguns dias de chuva, apareceram
fissuras em sua base c paredes, com perdas d água.
Ele então foi esvaziado. Há uma ata de reunião
dos engenheiros consultados sobre o acidente l<> ,
datada de 12 tle julho de 1880. Entre os presentes
estava o eng. Honório Bicalho, formado em matemática
pela Escola Militar e em engenharia na
"Ecolc des Ponts et Chaussées", de Paris. Não há
unanimidade nas conclusões dos engenheiros consultados;
fala-se em drenagem e subdrenagem do
terreno tle fundação e cm reforço, por contrafor-
tes, dos muros laterais; mas nada tle concludente,
exceto o parecer de Honório Bicalho que diagnostica
como causa do ocorrido recalques diferenciais
produzidos por "falta de homogeneidade
do terreno, proveniente provavelmente da decomposição
da rocha primitiva, o gneiss". Pelo que se
conhece atualmente, provavelmente a parte do
tanque inferior mais próximo do talude do morro
fora fundada sobre a camada superficial de solo
residual compressível c provavelmente colapsível,
pois que a ocorrência se deu após chuvas continuadas;
enquanto que a outra parte, mais afetada.
do talude repousava sobre solo de alteração
de gneiss menos compressível. E Honório Bicalho
conclui acertadamente: "A desigualdade de
recalque do terreno é. portanto, a causa geral a
que atribuir principalmente todas as fendas das
muralhas e do beion". Além disso, ele prevê a
conclusão do fenômeno, dizendo: "E estes serão
terminados quando os recalques do terreno tiverem
atingido o seu máximo".
Contudo, aparentemente, o engenheiro chefe
das obras de abastecimento d'água do Rio de Janeiro,
que era o prof. Borja de ò.stro, nào levou
em conta o diagnóstico preciso de Honório
Bicalho. Executou várias tentativas de reparo, até
que em 20 de março de 1881 reencheu o tanque;
mas. cm agosto seguinte, de novo as perdas d água
reapareceram. Borja de Castro renunciou então
ao cargo, e foi substituído pelo eng. Francisco
Bicalho <6> , irmão mais novo de Honório Bicalho,
diplomado pela Escola Central em 1871.
Francisco Bicalho. levando em conta o diagnóstico
de seu irmão Honório, resolveu conduzir a
obra, segundo as idéias desse. Verificou que, com
os dois enchimentos anteriores, os recalques da
zona de terreno de fundação compressível já dava
mostra de se estabilizar. Assim, recobriu com asfalto
tanto o fundo como as paredes do tanque,
separando as fendas e fissuras por onde havia perda
d água. Em dezembro de 1881, feitos esses reparos
e notando-se que os recalques diferenciais tendiam
a estabilizar-se, foram feitos sucessivos précarregamentos,
enchendo-se o tanque d'água e esvaziando-o
parcialmente, à medida que se faziam
determinações topográficas dos recalques diferenciais.
Em fevereiro de 1882, constatou-se a estabilização
definitiva dos recalques. O tanque foi então [x>sto
em operação normal, o que continua até hoje.
Já na década dos anos 50, do século passado,
tivera início no país a construção de edifícios com
tijolos, com o engenheiro francês Louis L. Vauthier.
Diretor de Obras da Província de Pernambuco. Logo
em seguida, em São Paulo, o engenheiro polonês
Cristino Wyzensk, após a ocorrência em 1850 de
um grande número de desabamentos de casas de
taipa, devido á excepcional enchente de 1850.
recomendara à Municipalidade o uso de tijolos na
edificação. I.ogo em seguida apareceu a utilização
de vigas e colunas de ferro importadas, principalmente
para a construção de varandas. Com a
vinda dos imigrantes europeus, tais tipos de construção
foram disseminados, principalmente em São
Paulo, para as indústrias ali instaladas por imigrantes.
No final do século, edifícios industriais, por
exemplo: os da Indústria Matarazzo, com tijolos
aparentes, são comuns. Os primeiros prédios de
estrutura metálica aparecem no Brasil, por volta
de 1870. O primeiro é o Mercado São José em
Recife, inaugurado em 1872. Uma construção que
reúne em si o uso do tijolo t importado da Inglaterra)
e a grande cobertura metálica das plataformas
é a Estação da Luz. em São Paulo, inauguraca em
1889. Vários outros grandes edifícios foram
construídos no Rio de Janeiro. São Paulo, Recife,
inclusive o Teatro Amazonas, em Manaus,
construído entre 1884 e 1896.
Todos esses edifícios vêm trazer a necessidade
de aprimorar a técnica de fundações. O tipo de
alicerce de pedra, em cavas no terreno, como especificado
nas "Declarações de Obras" do Mosteiro
de São Bento, anteriormente citadas, é substituído
pelas sapatas ou blocos de alvenaria de tijolos
ou de pedra, assentes sobre solo apiloado, no
fundo de cavas que deviam ter, pelo menos, um
metro de profundidade. O uso de sapatas corridas
de tijolos, sob as paredes, também de tijolos,
assentados sobre uma camada de argamassa de
pedra lançada no terreno apiloado do fundo de
cavas, é também corrente.
O uso de estacas de madeira, nas fundações de
edifícios sobre terreno mole, era conhecido porém
evitado. I lavia mesmo a idéia de procurar um
local onde o terreno fosse suficientemente "firme'
para suportar o edifício. Infelizmente notícias
ou crônicas sobre fundações em terrenos moles,
no caso de edifícios, está ausente na literatura técnica
nacional. Entretanto, alguns ensinamentos
sobre elas podem ser encontrados nas apostilas
da época, dos cursos das cadeiras de 'Construções'
das nossas Politécnicas. Nessas apostilas já
se aconselham pressões admissíveis para vários
tipos de terreno; provas de carga do tipo "mesa" e
fórmulas dinâmicas para previsão das cargas
admissíveis em estacas.
1.14 AS PRIMEIRAS OBRAS DE FUNDAÇÕES
Com o advento do concreto armado, nas primeiras
décadas do nosso século, a situação começa
a modificar-se, pois o concreto armado permite
já edifícios altos de cargas concentradas. Infelizmente
nào se tem notícias dos tipos de fundações
empregados nos primeiros edifícios altos
de concreto armado construídos no Rio de Janeiro
ou em São Paulo. Sabe-se, entretanto, que nos
anos 30 as estruturas de concreto armado já se
apoiavam sobre sapatas de concreto armado ou
blocos de concreto simples. As fundações prefun-
das eram de estacas dc madeira ou pré-moldadas
dc concreto armado capeadas por blocos de concreto.
Há a crônica das dificuldades apresentadas
para a construção do Edifício Martinelli, nos anos
20, em São Paulo; mas nào se conhece documento
algum que descreva tecnicamente esses trabalhos.
Sabe-se que, pelo menos, do lado da Rua Libero
Badaró, a fundação é direta sobre uma camada de
areia grossa argilosa, no nível do lençol freático.
Há notícias de uma prova de carga direta feita pelo
IPT, para comprovara pressão admissível; mas nào
se conhecem maiores detalhes. As fundações do
edifício da Noite, no Rio de Janeiro, construído na
mesma época, são ainda menos mencionadas na
nossa literatura técnica. A história da nossa engenharia
de fundações está necessitando de alguém
que investigue eventuais arquivos, porventura existentes.
sobre essas duas obras, de importância histórica
muito grande para a nossa engenharia.
Contudo há maiores detalhes no que concerne às
fundações dos cais dos nossos principais portos.
Santos e Rio, construídos no início do século. Em
1895, o cais do porto de Santos já contava com 2.300
m construídos como muralha de alvenaria de pedra,
sobre um maciço de concreto, apoiado em estacas
de madeira. Para a construção dessas fundações foi
necessário o auxílio de uma cnsccadeira de madeira.
Em 1909 seu comprimento já atingia 'i.720 m,
construídos e fundados da mesma forma '.
Em 1919 foi organizada a primeira empresa nacional
especializada em construções portuárias e
fundações a ar comprimido: a Companhia Nacional
de Construções Civis e I lidráulicas (Civilhidro),
sob a presidência de Domingos de Souza Leite e a
direção técnica de Artluir Rocha.
Uma firma internacional especializada em construções
portuárias e fundações por estacas se estabeleceu
no Rio de Janeiro em 1922: a Christiani
Nielsen Engenheiros Construtores S/A. Essa firma
executou entre 1927 e 28 um trecho adicional ao
cais do porto de Santos, que foi o primeiro cais
de concreto armado sobre estacas, com muro de
arrimo de estacas pranchas, realizado no Brasil.
Uma outra firma que se dedicou às obras portuárias
e suas fundações foi a Companhia de Mineração
e Metalurgia do Brasil (Cobrazil) fundada
em 1917 pelo eng. Antonio Leite Garcia.
A construção do cais do porto do Rio de Janeiro
foi iniciada em 1903. Tratava-se de um cais de
3.000 m entre o Arsenal da Marinha e o Canal do
Mangue. O projeto é do eng. Francisco de Paula
Bicalho, baseado em estudos básicos de Alfredo
Lisboa. A constniçào foi adjudicada à firma inglesa
C.H. Wolker cX: O. O projeto definitivo das fundações,
de autoria de Francisco Bicalho, foi por 134
caixões pneumáticos de 25 m de comprimento. Esses
eram metálicos e armados a seco; depois cravados
por meio de uma estrutura metálica montada
num pontão flutuante" 0 . Empregam-se caixões de ar
comprimido pela primeira vez no Brasil.
Em 1920, resolveu-se ampliar o cais do porto do
Rio, com a construção do cais do Caju; mas a construção
só se deu entre 1920 e 29. As fundações
desse cais foram realizadas pela Civilhidro, em
caixões de concreto armado, cravados a ar comprimido.
Em 19-18 o cais foi prolongado até a Ponta
do Caju; agora porém em cortina de estacas-pranchas
de aço a cargo da Cobrazil. O mesmo tipo de
construção foi adotado no Píer da Praça Mauá também
em 1948.
L'ma obra dc fundação por tubulões a ar comprimido,
já bastante descrita em nossa literatura
técnica, e a do porto de São Sebastião, construído
na década dos anos 30 pela Civilhidro.
1.15 CONTRIBUIÇÕES PIONEIRAS NA ÁREA
DE MECÂNICA DOS SOLOS
Na década dos anos 20 há uma verdadeira revolução
na engenharia brasileira, com c aparecimento
da pesquisa tecnológica. O primeiro instituto de
pesquisa tecnológica, fundado em 1922, foi a "Estação
Experimental de Combustíveis e Minérios",
no Rio de Janeiro; mas essa não trata de problemas
tecnológicos relacionados com fundações. Porém,
na mesma época, o Gabinete :ic Resistência
dos Materiais, da Escola Politécnica de São Paulo,
é transformado por Ary Torres, em 1926, no "Laboratório
de Ensaios de Materiais", destinado principalmente
a resolver problemas tecnológicos
concernentes ao concreto armado.
Em 1934, esse Laboratório foi transformado no
Instituto de Pesquisas Tecnológicas, anexo à Escola
Politécnica da USP. No IPT organiza-se uma
Seção de Estruturas e Fundações sob a chefia de
Telemaco van Langendonck, no qual Odair Grillo
é incumbido de ensaios de fundações. No Rio de
Janeiro, a "Estação Experimental" era transformada,
cm 1936, no Instituto Nacional de Tecnologia.
Em 1938. foi criada no IPT, por Cdair Grillo, a
Seção tle Solos e Fundações. Em 1940 no INT
aparece uma Divisão de Mecânica dos Solos, sob
a direção de Mario Brandi Pereira. Nos anos seguintes
vários órgãos de pesquisa de outros Estados
da Federação enviam engenheiros de seus
quadros para especializarem-se em Mecânica dos
Solos, no IPT Entre eles é justo destacar-se os nomes
de Mario Brandi, do Rio de Janeiro, que organizou
e operou o primeiro laboratório de solos
para barragem de terra, em Curema em 1938;
Casimiro Munarski, do Rio Grande do Sul;
Pelópidas Silveira, de Pernambuco; Hernani Savio
Sobral, da Bahia; e Samuel Chamecki, do Paraná;
os quais montaram e puseram em operação Seções
de Solos nos respectivos Estados.
Entretanto, antes disso já havia corvribuiçòes pioneiras
na área tle Mecânica dos Solos. A primeira
delas é a "Experimentação dos Terrenos para Estu-
cios de Fundação", publicada no Rio por Domingos
J. S. Cunha, professor de Materiais de Construção
da Politécnica do Rio, na Revista Brasileira
de Engenharia, em outubro de 1920. L'ma série
de artigos por Emygdio de Moraes Vieira foi
publicada entre 1926 e 1927, na Revista Brasileira
de Engenharia do Rio. tratando de tensões e deformações
em solos. Em 1930. Victor Ribeiro
Leuzinger defendeu uma tese sobre Mecânica dos
Solos, também na Politécnica do Rio. O eng. Antonio
Alves de Noronha publicou no Rio, em 1932.
o livro. "Fundações comuns de concreto armado".
Em 1935, um artigo sobre distribuição de pressões
no solo sob sapatas de fundações foi publicado
no Boletim n <J 1-1 do Instituto de Pesquisas
Tecnológicas de Sào Paulo, por Telemaco van
Langendonck. Em 1936, o prof. Mario Whately.
catedrático de Fundações e Grandes Estruturas da
Poli. de Sào Paulo, introduziu, no seu programa,
uma primeira parte sob o título "Noções de Mecânica
dos Solos".
Mas a primeira contribuição brasileira, em nível
internacional, que realmente influenciou o desenvolvimento
da Mecânica dos Solos foi a tese de
doutorado de All>erto Ortenblad defendida em 1926
no MIT, sobre a teoria matemática do adensamento
de depósitos de lama. Sumários dessa tese foram
publicados em Boston cm 1930" V) e em São Paulo,
em 1928 e 1932 U '".
Em 193H iniciaram-se as atividades da Seção de
Solos e Fundações do IPT., sob a direção de Odair
Grillo, tendo como assistentes Raimundo de Araújo
Costa. Othelo Machado e Milton Vargas. Essas atividades
visavam prover a engenharia civil paulista de
tecnologias que se faziam necessárias no momento,
em dois campos relacionados com :i engenharia de
solos: o da pavimentação de estradas de rodagem e
o do estudo de fundações de pontes e edifícios.
O primeiro problema foi abordado por meio de
um convênio com o Departamento de Estradas de
Rodagem do Estado de São Paulo. Tratava-se de introduzir
no Brasil a tecnologia dos pavimentos de
solos estabilizados e a teoria do dimensionamento
de pavimentos com base nos princípios da Mecânica
dos Solos. Essas tecnologias foram apresentadas
ao meio rodoviário, já em 1939. numa conferência
pronunciada no Automóvel Club do Brasil,
a convite da Comissão Executiva do VII Congresso
Nacional de Estradas de Rodagem, pelo eng
Odair Grillo"".
As investigações sobre pavimentos de solos estabilizados
foram intensas, mas não deram resultados
positivos pela simples razão de que o tráfego
nas nossas estradas já era de intensidade superior
ao que esse tipo de pavimento suportava. A
pavimentação das estradas e pistas de aeroportos
só foi resolvida quando surgiu a possibilidade de
utilização prática das bases de solo-cimento, com
revestimento asfáltico. O que só pôde ser realizado
economicamente após a instalação da nossa
primeira refinaria de petróleo, em Cubarão.
Para a solução do problema das fundações de
pontes rodoviárias e dc edifícios altos em São
Paulo, foi primeiro necessário projetar e construir
equipamentos de sondagens para a exploração do
subsolo com essa finalidade específica. O que foi
feito pela própria oficina mecânica do IPT com
base em desenhos e especificações trazidos dos
Estados Unidos pelo eng. Odair Grillo. Além disso
era necessário treinar turmas de sondadores
capazes de manejá-los. Isto foi feito durante o ano
de 1939, nas sondagens para estudos de fundações
de pontes rodoviárias do DER Depois disso,
o método foi empregado na exploração do subsolo
para fins de fundações de pontes sobre o rio Tietê
em Sào Paulo e de grandes edifícios nessa cidade.
Quando já suficientemente esclarecida e adaptada
ao meio nacional, a técnica foi divulgada em
publicação do IPT 1 "'.
O método de sondagem adotado foi o de percussão
com circulação de água, através de um tubo
galvanizado de 1" de diâmetro munido de ponta
cortante, pelo qual era injetada água de lavagem
no fundo da sondagem, simultaneamente com a
percussão. Essa água de lavagem subia entre esse
tubo, e o tubo de aço sem costura de 2" de diâmetro
que servia como tubo de revestimento da sondagem.
Ao subir, a água carreava consigo o material
escavado, o qual era depositado num tanque,
na superfície do terreno. A identificação do material
carreado pela água de lavagem era
desaconselhada. Para identificar o material atravessado
pela sondagem foi projetado um
amostrador barrilete de parede cortada, que descia
pelo tubo de revestimento, todas as vezes que
se notava, pela água de lavagem, uma mudança
de camada no solo. Havia a necessidade de se
quantificar a consistência ou a compacidade do
solo. Para isso recorreu-se à medida do número
de golpes de um peso de 60 kg. caindo de 75 cm
de altura, necessários para cravar o amostrador 30
cm no solo. Esse número de golpes foi
correlacionado, pela prática corrente dessas sondagens,
com a consistência das argilas e com a
compacidade das areias, conforme indicado no
artigo acima citado. Com variações de dimensões
e alguns detalhes, esse é o tipo de sondagem até
hoje utilizado no Brasil para fins de engenharia
civil de solos e fundações.
A utilização desse número — que veio em seguida
a ser chamado de "resistência à penetração"
— para a previsão das pressões admissíveis
em sapatas de fundação direta exigiu a padronização
do ensaio. As primeiras correlações entre um
amostrador padrão, tipo IPT, a ser cravado com peso
e altura de queda padronizado foram coligidas pelo
IPT e analisadas estatisticamente pelo prof. Ruy da
Silva Leme""; chegando a propor uma fórmula relacionando
a pressão admissível de sapatas sobre argila
em função da resistência à penetração.
Entretanto, quando foi fundada, em 19-H por Odair
Grillo, Raimundo de Araújo Costa e Othelo Machado a
Geotécnica S/A. primeira firma especializada em estudos
e projetos de solos e fundações, uma nova padronização
tinha por ela sido adotada. Com isso o número
N de resistência à penetração tomou dois significados:
N |RR e N m... Além disso, em 1948 apareceu,
num das primeiros livros de texto da prática de engenharia
de solos — o "Soil Mcchanics in
Engineering Practice", de Terzaghi e Peck —, um
terceiro método que veio a ser internacionalmente
conhecido como o "standard penetration test
e com ele um outro numero i\' Mn. É de se notar
que outros métodos diferentes, com aparelhagens
diferentes, apareceram, dai em diante, em vários
países; mas entre nós eram utilizados os três acima
citados.
Os anos das décadas de 50 foram de grande atividade
dos engenheiros da Geotécnica S/A para
náo só correlacionarem a resistência à penetração
com as taxas admissíveis dos terrenos de fundações,
como também correlacionarem os números
N w. com os js,^ «nxnx"'*» 7 ». Dessas investigações
resultaram conhecimentos precisos sobre a variabilidade
dos índices de resistência à penetração,
com as dimensões do amostrador, energia dos golpes
do martelo de cravaçáo c, também, com o
fato de que no método SPT a contagem dos golpes
só era feita depois de penetrar o amostrador
15 cm no solo. Assim a Geotécnica introduziu um
novo índice que era a relação entre os números
de golpes correspondentes aos 30 primeiros cm
de penetração, e os subseqüentes 30 cm, após os
15 cm iniciais, sem contagem.
Durante o í ü Congresso Internacional de Mecânica
dos Solos, realizado em Londres, em 1957, foi
nomeado um "Subcomité sobre Métodos de Ensaios
Estáticos e Dinâmicos tle Penetração", devido
ao fato de que já se fazia notória a diversidade
de métodos de ensaios utilizados nas várias nações
do mundo e a confusão tle resultados decorrentes
dessa diversidade. A finalidade do
Subcomité era a de procurar padronizar esses ensaios.
Havia um grupo europeu mais interessado
nos ensaios estáticos e um grupo americano, interessado
no S Mrr e similares.
Convém aqui lembrar que Gibbs e Moltz OK) , do
"U.S. Bureau of Reclamation", apresentaram nessa
mesma conferência de Londres, um trabalho
em que eles relacionavam :i densidade das areias
com o N M, (. Nesse trabalho volta-se à idéia original
da correlação da resistência â penetração com
a compacidade das areias e, portanto, abre uma
porta para correlacioná-la também simplesmente
com a consistência das argilas — medida por sua
resistência a compressão não drenada — e não com
a pressão admissível no terreno de fundação.
Embora as atividades individuais dos vários
membros desse Subcomité tenham sido intensas,
não se conseguiu consenso que levasse ã padronização
dos métodos. Contudo ficou patente que
havia uma diversidade alarmante de métodos de
ensaios de resistência â penetração tanto estáticos,
como dinâmicos. O mais impressionante era
que vários deles tinham o mesmo nome: porém,
devido â diversidade tle métodos, apresentavam
resultados diferentes, sem especificar as diferenças
de dimensões tios amostradores c processos
de execução do ensaio. Na conferência Internacional
de Paris, V ICSMFE, em 1961. isto ficou evidente.
Um exemplo de confusão tle resultados dos vários
métodos está num trabalho do prof. Meycrhof,
publicado no Jornal tle Mecânica tios Solos e Engenharia
de Fundações. ASCE, em 195ó <lv) . Nesse trabalho
Meyeriiof estabelece correlações entre capacidade
tle carga e recalque tle fundações diretas, porestacas
e resistências estáticas por ensaios de cone ou por
SPT Porém, na bibliografia percelxr-ss que ele estabeleceu
suas correlações cm função tle ensaios levados
a efeito por diferentes autores que, notoriamente, utilizavam
diferentes métodos de ensaio.
Chamando a atenção sobre a confusão entre os
diversos métodos de ensaios de penetração, apareceu,
também no Jornal de Mecânica dos Solos,
em 1965, o artigo de um tios primeiros usuários
do ensaio de resistência à penetração: eng. Gordon
F.A. Fletcher, denunciando o abuso da denominação
"standard penetration tests", como denominação
única tle diferentes métodos de ensaio 1 -"'.
Uma ulterior tentativa de correlação da capacidade
de carga das argilas e a resistência ã penetração.
pelo barrilete amostrador do tipo utilizado pela
Geotécnica, foi apresentada por Teixeira" 1 ' ao III
Congresso Brasileiro de Mecânica tios Solos, realizado
em Belo Horizonte em 1966. Ao se comparar
os resultados de Teixeira com os de Ruy Leme"" é
necessário levar em conta que os de Teixeira se
referem â correlação entre N M<; e a pressão tle ruptura
obtida em provas de carga direta, enquanto
que os de Ruy Leme se referem às pressões
admissíveis, segundo o Código de Boston, obtidas
também em provas de carga direta, além da diferença
tle amostradores e tle métocos tle medida.
Em 1967 Victor de Mello apresentou à Congregação
da Faculdade tle Arquitetura e Urbanismo
tia USP a sua tese para concurso de cátedra de
Mecânica dos Solos e Fundações'"'. Nessa tese,
além de um apanhado sobre o estado de conhecimentos
sobre os ensaios tle penetração, o autor
analisa os resultados obtidos nesses ensaios pela
firma Geotécnica, ria qual era uir dos diretores,
tecendo uma série tle conclusões próprias.
O prof. Victor tle Mello inicia sua tese, examinando,
em nível internacional, as tentativas de correlação
entre resistência à penetração SPT e resistência
a compressão não drenada em argilas. Encontra.
entre os vários resultados, uma extrema
variabilidade (vide figura 1 da Tese), a que ele
atribui, como causa, a diversidade da sensibilidade
das diferentes argilas. Por isso ele sugere a
realização de ensaios de compressão simples na
própria amostra recuperada para que em cada tipo
tle argila se faça uma correlação específica. Quanto
aos ensaios de penetração cm areias, o autor
insurge-se quanto a interpretações dadas a esse
tipo de ensaio pelo U.S. Bureau of Reclamation
(vide referência MK> ), insistindo que a correlação
direta é com o ângulo de atrito interno e, somente
através desse, com a densidade relativa tias areias.
Contudo há que se levar em conta também um
nítido efeito tle profundidade.
Aparentemente Victor de Mello considera que a
correlação direta do SPT é com a capacidade tle
carga do solo. De fato, ele diz textualmente nas
conclasões de sua tese: "Salienta-se que a resistência
à penetração tle amostradores mede um fenômeno
de capacidade de carga do terreno no
fundo do furo" Portanto, ele atribui valor às correlações
como provas tle cargas feitas no Brasil e
as compara com aquelas preconizadas porTerzaghi
e Peck (vide referências "" e Na figura 2 da
tese em questão aparece um gráfico, indicando
essa comparação. A comparação é desastrosa; talvez
devido :.os diferentes métodos tle medidas
tle resistência, diferentes amostradores. diferentes
tle como estimar pressões tle ruptura e
admissíveis e provas tle carga e, também, incertezas
e.n comc reduzir índices tle resistência à penetração.
pelos processos de medida do IPT e da
Geotecnica, em SPT. Além tle tudo é tle se chamar
a atenção o fato tle que o ensaio SPT é feito, no
campo, sem os cuidados especiais com que todo
ensaio tle solos deveria contar.
Diante do fracasso do Subcomité da I.S.S.M.F.E.
em padronizar os ensaios a penetração, três membros
do grupo americano desse Subcomité resolveram
chamar t atenção, em nível internacional,
da falta de padronização tle cada um dos vários
detalhes do ensaio SPT; a qual, na opinião deles,
era a causa de elevada variabilidade das correlações
entre os índices tle resistência ã penetração e
as pressões admissíveis em fundações diretas rasas
Para a quarta conferência panamericana de Mecânica
dos Solos, realizada em Porto Rico, em 1971,
Victor tle Mello tM apresentou um relatório tio
estado dos conhecimentos sobre o "Standard
Penetration Test". Depois tle analisar, com abundância
de detalhes, os vários fatores que
infuenciam a medida tio SPT, Victor de Mello aborda,
no último capítulo de seu relatório, uma súmula
das correlações em questão, para aplicação em problemas
da engenharia tle solos. Com esse propósito,
apresenta, para o caso das fundações rasas sobre
argila, o gráfico, correlacionando estatisticamente
pressões admissíveis ou de ruptura determinadas com
provas de carga diretas contra SPT. onde aparecem
as pesquisas de Leme e Teixeira, as quais são surpreender
temente diferentes.
No que concerne às areias Victor tle Mello, em
seu relatório, reporta-se ao clássico conceito de
Terzaghi e Peck, pelo qual o que determina a pressão
admissível tle sapatas sobre areia é o recalque.
Então se deveria estabelecer uma correlação entre
SPT e coeficientes de recalque, em prova de
carga padronizada. Mas como os recalques dependem
também das dimensões da sapata, haveria
que reduzir o recalque máximo, admissível na
maior sapata, para aquele que, na prova tle carga,
correspondesse à pressão admissível. Mas como a
densidade relativa dos depósitos de areia é. geralmente,
muito variável, essa correlação estatística é
tle variabilidade muito grande. Aliás o autor mostra
que isso acontece nos dois casos que cita: o
das areias de praias e dunas de Israel c o das areias
argilosas tle São Paulo. Nessas últimas os valores
das resistências à penetração, SP T, variam de 3 a 13
golpes. O valor médio tios coeficientes tle recalque,
medidos pelo autor, em provas tle carga com placas
tle 0,8 m de diâmetro, é 50,6 t/m 2 por cm; mas em
95% dos casos cm torno da média, esse coeficiente
varia tle 29,'i a 72,5 t/m' por cm. Num gráfico
anexo, observam-se. porém, valores extremos tle
casos individuais (que, no dizer do autor, são aqueles
que "interessam diretamente ao engenheiro em
face tle um problema específico"; que vão de 3 a
85 t/m ; por cm.
E possível admitir-se que, com esse relatório de
Victor de Mello, encerrou-se uma primeira fase
das investigações brasileiras sobre o ensaio de resistência
à penetração. Desde então, tanto os processos
tle medidas tio IPT como os da Geotécnica
foram paulatinamente substituídos pelo SPT Em
1970, a CESP já emitira uma especificação sobre
sondagens exigindo a adoção do SPT Em 1979 a
ABNT emitiu a norma MB-1211, "Execução de
sondagens tle simples reconhecimento dos solos"
(que em 1980 foi remunerada em NBR-6484). Nessa
norma o processo de sondagem, o amostrador e
o peso de bater são padronizados para a oblençào
da resistência â penetração SPT Desde então
as sondagens no Brasil são complementadas pela
medida tio "standard penetration test". Porém, as
investigações brasileiras sobre esse ensaio continuaram,
como serão relatadas adiante.
1. T 6 ATIVIDADES GEOTÉCNICAS EM SÃO
PAULO
Com a execução das sondagens e medidas de
resistência à penetração, cuja história foi relatada
no capítulo anterior até a década dos anos 70, a
Seção tle Solos e Fundações tio IPT e a Geotécnica
S/A acumularam uma apreciável experiência e acervo
de dados, não só sobre os parâmetros
geotécnicos dos solos de São Paulo e tle Santos,
como também sobre o comportamento tle fundações
de edifícios nessas cidades; pois em vários
desses foram instalados marcos profundos de referência
de nível, como também pontos para medida
de recalque, ao correr do tempo.
Dois casos ocorridos já na década dos anos 40
contribuíram enormemente para a divulgação da
necessidade de execução tle sondagens para o
projeto c execução de fundações de edifícios altos,
em São Paulo. O primeiro foi o caso das fundações
do Edifício do Banco do Estado, cm que a
moldagem de estacas de grande diâmetro no solo,
por meio de cravaçào de tubos de ponta fechada
i Kranki > através de argila rija, fez suspender o nível
ilo terreno cm cerca de 70 cm. Com isso as
estacas jâ moldadas foram tracionadas, rompendo-se
exatamente onde terminava a armadura do
fuste, junto às suas bases alargadas. Cinco provas
de carga mostraram cargas de ruptura das estacas
de apenas 90 t, quando se esperava cerca de 300
t. É que essas 90 t correspondiam apenas ao atrito
lateral do fuste. Porém, uma prova sobre a última
estaca cravada mostrou ruptura com 270 t; pois
essa última estaca não tinha sido tracionada e,
portanto, contava também com a resistência de
ponta. A solução do problema levou à cravaçào
tle mais de 400 estacas, entre as primeiras; porém
tendo-se o cuidado de pré-perfurar o terreno para
a moldagem dessas novas estacas.
O segundo caso foi o do Edifício da Companhia
Paulista de Seguros, na Rua Libero Badaró. A
construção do edifício iniciou-se em 1940, em base
a sondagens feitas somente de um lado do terreno;
pois no outro ainda havia um antigo prédio a
ser demolido. As estacas, também do tipo Franki,
foram projetadas em base às sondagens de um
único lado do terreno, com suas bases assentes
sobre camadas de argila rija, nào a atravessando
para evitar o que acontecera no Edifício do Banco
tio Estado. Portanto, fixou-se uma cota para a ponta
das estacas e nào se prestou atenção às suas
"negas". Aconteceu, porém, que na cota assim fixada.
do lado do terreno onde não tinham sido
feitas sondagens, havia uma camada de silte mole.
Talvez por acaso, só foram feitas provas de carga
em estacas moldadas no lado do terreno onde
havia sondagens. Essas mostraram resultados de
acordo com o previsto. O prédio foi então
construído c inaugurado em 1943. Logo após a
inauguração, medidas tle recalques feitas pelo IPT
mostraram que no canto esquecido do edifício,
onde havia a camada de silte mole, os recalques
estavam se acentuando mais rapidamente do que
os do outro lado. Daí poi diante esses recalques
progrediram aceleradamente, de tal forma que,
durante os últimos nivelamentos, o recalque do
primeiro ponto, nivelado pela manhã, no fim da
tarde já era cerca de 1 mm a mais. O prédio, devido
a esses recalques, saiu do prumo em cerca de
1 m; des a prumo esse perfeitamente visível em relação
às arestas dos prédios vizinhos.
A solução foi o congelamento dc; terreno; perfuração
de poços através do terreno congelado,
do lado da camada mole; preenchimento desses
poços com concreto para servir de tubulóes de
reforço de fundações, e instalação de macacos hidráulicos
tle grande capacidade de carga; entre
esses tubulóes e as colunas do prédio, para
reaprumá-lo. O que foi feito com todo o sucesso,
como relatado numa conferência do eng. Arnaldo
Villares, diretor da firma construtora do prédio, em
Londres" 1 ".
Uma conseqüência desses problemas de fundações
por estacas foi a introdução, em São Paulo,
nos meados da década dos anos -iO, das fundações
por tubulações pncumáticas da Civilhidro.
como alternativa para as fundações por estacas.
Vale a pena mencionar que sào dessa época os
estudos de fundações feitos pelo IPT, em duas grandes
obras relacionadas com o desenvolvimento
nacional. Os primeiros referem-se i localização e
escolha do tipo de fundação da ponte sobre o Rio
Grande, na Bolívia, da Estrada de Ferro Corumbá-
Santa Cruz de La Sierra, num terreno de areias
movediças, com cerca de 10 m de espessura, sobre
argilas expansivas. Os segundos, às fundações
da Usina Siderúrgica de Volta Redonda — onde
foram utilizados quase todos os tipos de fundações,
com exceção das pneumáticas; e onde se
apresentou pela primeira vez o projlema de fundações
sobre solos provenientes da alteração de
rocha. Um trabalho pioneiro sobre tal tipo de fundação
foi escrito por Nápoles Neto"' 0 , decorrente
da experiência adquirida por esse então engenheiro
do IPT em Volta Redonda. Os estudos e serviços
prestados pelo IPT em Volta Redonda foram
levados a efeito pelos engenheiros Nápoles Neto
e Paulo I.orena, os quais os relataram em publicação
do próprio IP'P í7 \
Ao terminar suas atividades pelo IPT em Volta
Redonda, na segunda metade da década dos anos
40 Paulo I.orena fundou outra firma especializada
em engenharia de fundações, em São Paulo: a
Sobral" S/A, que atuou intensamente nào só em
execução de fundações por estacas mas também
como consultora cm Geotecnia, inicialmente para
as fundações da expansão da Usina de Volta Redonda.
Desenvolveu desde então grande atividade
em Sào Paulo, no campo das fandações por
estacas, principalmente na área industrial.
Uma outra atividade do IPT na década dos anos
40 foi a da instalação de marcos profundos de
referência de nível com os quais fez a observação
ile recalques por meio de nível hidráulico de tipo
Terzaghi'*" em 18 edifícios de tipos diferentes, em
Sào Paulo. Os resultados das observações cm seis
desses prédios foram apresentados a 2 a Conferência
Internacional dc* Mecânica dos Solos, realizada
em Rotterdam, em 1948"'". Uma interpretação dessas
observações consta de um artigo publicado na
Revista Geotechnique 001 .
Na década dos anos 50, a Geotécnica S/A e o
IPT observaram recalques de edifícios altos, de
fundações diretas, ao longo da orla da praia em
Santos, onde, abaixo da camada superficial de areia,
há uma espessa camada de argila mole. Os resultados
da Geotécnica S/A foram publicados nos
anais da I a Conferência Panamericana de Mecânica
dos Solos, realizada no México, em 1959. São
três artigos de Teixeira sob as condiçces do subsolo
de Santos e os recalques observados'* 11 ^ <M) . O
último relata, pela primeira vez, a existência de
camadas de argila pré-adensada na Baixada
Santista. Num quarto trabalho apresentado à Conferência
do México, Teixeira e Pock discutem as
conseqüências dos recalques diferenciais dos edifícios
observados, sobre suas estruturas* 11 '.
As observações de recalques de edifícios em Santos,
feitas pelo IPT foram relatadas pelo eng. José
Machado, na Conferência Internacional de Mecânica
dos Solos. realizada em Paris em 196l m> .
Quanto às fundações sobre areia em Sào Paulo,
um relatório foi apresentado na mesma conferência
de Paris em 196l <v, \ descrevendo e discutindo
os recalques de sete edifícios: dois com fundação
direta, quatro sobre estacas e um último
com fundações por caixões pneumáticos sobre
um substrato de areia fofa, com uma tentativa de
adensá-la por meio de cravaçào dc estacas perdidas
cravadas com suplemento recuperável de comprimento
correspondente à profundidade dos caixões.
Os recalques desse último edifício acentuaram-se
consideravelmente, após a redação desse
artigo, e as fundações do edifício tiveram de ser
reforçadas. Numa discussão do eng. José Machado'
0 . durante o 2' Congresso Panamericano de
Mecânica dos Solos, realizado em Sào Paulo, em
1963, o comportamento dessa fundação foi apresentado
e analisado.
Uma súmula da experiência adquirida nas fundações
de edifícios em Sào Paulo e Santos, até
1970, foi apresentada pelo autor deste trabalho
no "Ciclo de Engenharia Civil" realizado pela Fundação
Alvares Penteado e pelo Centro de Engenharia
Civil da Escola Politécnica, em 1971 ,w .
Uma análise dos efeitos dos recalques diferenciais
sobre as estruturas desses prédios, além da
de Teixeira e Pock, para os edifícios de Santos, foi
apresentado, em 1973, na Conferência Regional
Sul-Americana sobre Edifícios Altos, realizada em
Porto Alegre, em 1973 <W> .
Uma grande atividade em fundações de estruturas
tinha-se desenvolvido na Baixada de Santos, a
partir da assistência do IPT, às Docas de Santos,
em fundações de obras portuárias, na década dos
anos 40. É de se destacar também as fundações
em estacas de aço profundas da ponte sobre o
canal do Casqueiro. na Via Anchieta, estudadas
pelo eng. Lauro Rios, em 1948, que iniciara sua
brilhante carreira de engenheiro de fundações, no
IPT. É de se notar aqui que foi também Lauro Rios
que projetou e executou essas fundações como
um dos sócios da firma Engenharia de Fundações
S/A, alguns anos depois.
Porém, essas obras alcançaram seu clímax com as
fundações da Usina Siderúrgica da Cosipa, em
Piaçaguera. No estágio inicial os edifícios da Usina
foram fundados por estacas de madeira que, pelo
seu grande número, remoldaram a argila mole que
constituía a camada superficial do solo, causando
sérios problemas de deslocamento das estiuturas.
Nos estágios seguintes de ampliação, visando evitar
tais deslocamentos, utilizaram-se estacas de aço,
cravadas até o embasamento de rocha gneissica.
O projeto das fundações das estruturas nos está
gios de ampliação da Usina foi dirigido pelo eng.
José A. Buschinelli, pela Themag Engenharia I.tda.
Finalmente, combinando sua própria experiência
adquirida em São Paulo com a internacional,
Victor de Mello desincumbiu-se brilhantemente tio
encargo de redigir o relatório de estado dos conhecimentos
na Conferência Internacional de Mecânica
dos Solos, realizada no México em 1V69 í4i> \
Já levando em conta a experiência brasileira sobre
recalques de edifícios, Victor de Mello apresentou
interessantíssimas conclusões sobre a previsão dos
recalques e seus efeitos sobre a estrutura na parte
que lhe coube do relatório do estado dos conhecimentos.
"Comportamento de Fundações e Estruturas",
apresentado na Conferência Internacional de
Solos, realizada em Tóquio, em 1977"".
1.17 ATIVIDADES GEOTÉCNICAS NO
RIO DE JANEIRO
No Rio de Janeiro a institucionalização das atividades
de ensaios e pesquisas de solos, na área
de fundações, dá-se em 1942, quando o eng. Paulo
Sá convida Mario Brandi Pereira para montar a
Seção de Solos do INT. Antes disso, atividades
laboratoriais de Mecânica dos Solos relativas í. fundações
nào foram registradas. Há que se referir,
entretanto, à primeira prova de carga sobre estacas
Franki, de grande capacidade de carga, realizada
no Rio de Janeiro, pelo IPT de São Paulo, em
1942, para as fundações do edifício do Instituto de
Resseguros do Brasil. Contudo já há, no Rio, grande
atividade no setor de pavimentação rodoviária
(em nível nacional) e pistas dc aeroportos (Aeroporto
Santos Dumont). Nessa área destacavam-se os nomes
dos engenheiros lcarahy da Silveira, na Comissão
de Solos e Fundações, da Secretaria de Vi ação e
Obras do Distrito Federal; o de Galileu Antenor de
Araújo, do Lalx>ratório Central do DNER; e o de Francisco
de Assis Basílio, iniciador das técnicas de solocimento,
na Associação Brasileira de Cimento
Portland. E dessas atividades que surge o nome do
então jovem engenheiro Jacques Medina, que viria a
tornar-se um lider das aplicações da Mecânica dos
Solos às técnicas rodoviárias.
O interesse geral pela Geotecnologia, no Ro, já
atingia entretanto tal nível que, em 1942. o Instituto
Nacional de Tecnologia promoveu, com enorme
sucesso, um "Symposium de Solos que se
constitui como primeira reunião nacional dos especialistas
em Mecânica dos Solos.
Contudo, as atividades geotécnicas, no Rio de
Janeiro, sempre foram mais exercidas por firmas
privadas especializadas do que por institutos de
pesquisa, principalmente no que tange às fundações
de estruturas. À parte as firmas dc constniçào
especializadas em obras portuárias, anteriormente
mencionadas, a primeira firma que se dedicara especificamente
a fundações, baseando-se em conhecimentos
de Mecânica dos Solos, foi a ' Estacas
Franki Ltda.", instalada no Brasil, em novembro
de 1935, com matriz no Rio de Janeiro. Sua atividade
em prol do desenvolvimento da Mecânica
dos Solos deve-se à visão esclarecida do seu diretor,
eng. PierreJ.A. Moreau. Já no início de 1940, a
Franki contratou o eng. Antonio José da Costa
Nunes para orientá-la nas questões de geotecnia.
Em 19-13, Moreau instituiu, no Rio e cm Sào Paulo,
"Bolsas de Mecânica dos Solos e Fundações" para
estudantes de engenharia. No Rio, os primeiros
bolsistas foram: Homero Pinto Caputo e Maria de
Lourdcs Campos Campeio. Em Sào Paulo, foram
eles Antonio Dias Ferraz Nápoles Neto e Heitor
Antunes Martins. Todos eles, com exceção do último,
que faleceu prematuramente, vieram a revelarse
entre os mais notáveis especialistas em solos no
Brasil. A Franki organizou também, no Rio de Janeiro,
um Laboratório de Ensaios, o qual, de 1952 a
55, foi orientado e chefiado por Fernando
Emmanucl Barata. Esse foi o início das atividades
daquele que viria a ser um tios grandes geotécnicos
cariocas.
Com essa organização, as atividades da Franki,
sob a direção técnica da Costa Nunes, não se restringiam
ã cravaçào de estacas. A empresa também
se dedicava a estudos e projetos de fundações
e obras de terra, nào só no Rio mas em todo
o território nacional. Dois notáveis projetos desse
tipo foram realizados na época. Um deles foi o
das fundações de um tanque de óleo da Cia. Docas
tle Santos, na Alcmoa, próximo de Santos'" 1 .
Trata-se tle uma laje delgada de concreto armado,
sobre drenos de areia, cravados com o equipamento
Franki, em terreno de argila orgânica mole
tia Baixada Santista. O tanque fundado sobre esse
conjunto laje-drenos foi pré-carregado é durante
1.300 dias. incluindo tempo tle pré-carregamento
e operação. A natureza do terreno no local desse
tanque tinha sido estudada exaustivamente pelo
IPT. A observação dos recalques e pressões neutras
foi feita pelo eng. Francisco Pacheco Silva, tio
IPT n,) . Aliás, foi Pacheco Silva que supervisionou
os estudos e observações geotécnicas na construção
dos aterros da variante Rio-Petrópolis, sobre
argila mole, onde tinham sido instalados drenos
verticais tle areia, no final da década dos anos 40.
Sobre as propriedades dessas argilas Pacheco Silva
publicou um trabalho nos Anais da ABMS, em
1951"".
Um segundo projeto de grande envergadura,
envolvendo investigações e estudos tio escritório
da Franki. no Rio, foi o da travessia do rio Guaíba,
em Porto Alegre. Os estudos e projetos foram feitos
na década dos anos 50, sob a direção tle Costa
Nunes, auxiliado pelo então recém-formado eng.
Dirceu de Alencar Velloso — que, naquela época,
ingressava na Franki e viria a substituir Costa Nunes
em 1959. Em 1957 Costa Nunes já apresentara ao
Congresso de Londres uma primeira notícia sobre
esse projeto: porém, foi no de Paris em 1061 que,
já agora com a colaboração de Dirceu Velloso, foi
apresentada uma descrição completa dessa grandiosa
realização da engenharia nacional. O trabalho
refere-se ao anterior, publicacio nos anais da
conferência internacional de Londres de
onde Costa Nunes descreve os cálculos e execução
tle estacas Franki, de grande comprimento,
tendo parte de sua altura livre e, portanto, sujeitas
a flambagem. Agora Costa Nunes e Dirceu
Velloso" 1 ", cm trabalho apresentado no Congresso
Internacional de Paris, descrevem a totalidade
dos trabalhos compreendendo quatro pontes e
aterros tle acesso, projetados sobre drenos de areia
e com bermas que foram iniciados em outubro de
1955 e inaugurados em dezembro tle 1958. O projeto
e a execução das estacas de fundação das
pontes e dos drenos de areia sob os aterros sào
da Estacas Franki Ltda. As investigações
geotécnicas foram feitas pelo Instituto Tecnológico
do Rio Grande do Sul e complementadas pela
Sondotécnica Engenharia de Solos S/A.
Uma outra notável obra, projetada e construída
pela Franki, sob a orientação de Costa Nunes, é a
do Edifício Marquês de Herval, no Rio de Janeiro*
Esse edifício comportava escavações, com
abaixamento tio lençol d'água para subsolos até 9
m de profundidade, e adjacente a fundações diretas
rasas de prédios antigos. Os serviços de escavação
e fundação a cargo de Franki, foram executados
em um ano, tendo sido entregue a obra, ao
nível do solo, em maio de 1953- O edifício foi
inaugurado no final de 1955.
Grande atividade de consultoria em fundações
tle edifícios no Rio de Janeiro, a partir tle 1945. foi
desenvolvida pela Geotécnica S/A que, como já
se disse, foi fundada em São Pau o e no Rio de
Janeiro por Odair Grillo. Raimundo tle Araújo Costa
c Othelo Machado, em 1944. Os primeiros trabalhos
dessa firma referem-se a furdações diretas
sobre terrenos comprcssíveis na Avenida Presidente
Vargas. Apesar da importância dessa concepção
de fundações, inéditas no Rio de Janeiro, infelizmente
nada foi publicado a respeito.
A segunda firma tio mesmo tipo fundada no Rio
tle Janeiro, em 19-19, por Mario Brandi Pereira e
Icarahy da Silveira, foi a Sermecso Ltda. A terceira
foi a Sondotécnica, fundada em 1952 por Antonio
José tia Costa Nunes c Javme Rotstein. Em 195" 7 ,
Costa Nunes deixa a Sondotécnica c funda, com
Fernando Sarto e Luciano Jacques de Morais, a
Tecnosolo. Foi, dirigindo essa firma, que Costa
Nunes desenvolveu originariamente a tecnologia
dos atirantamentos de solos, rochas e muros de
animo a qual foi de enorme utilidade, daí por
diante, na contenção tle deslizamentos de encostas,
estabilidade de taludes t: contenção de aterros.
Essa tecnologia foi estendida posteriormente,
taml>ém sob a orientação original de Costa Nunes,
à execução tle estacas perfuradas tle pequeno diâmetro
e longo comprimento.
Na década dos anos 5o. a obra mais relevante para
a engenharia nacional foi sem dúvida a construção
de Brasília. A exploração do subsolo e os estudos e
projetos de fundação dos edifícios foram feitos pelas
firmas cariocas acima mencionadas, sob a direção
e orientação técnica de Giillo, Costa Nunes e
Mario Brandi. Os solos de Brasília eram solos residuais
de arenitos e sihitos capeados por uma camada
superficial de colúvio, originário dessas mesmas
rochas. Isso exigiu fundações profundas com estacas
moldadas no solo. tais como as Franki, ou tubulòes
escavados a céu abeito; pois o lençol d'água era muito
profundo. Apareceram problemas de recalque devido
ao fato de que, em certos locais, ocorriam camadas
compressíveis abaixo das camadas fumes que tinham
servido como Ixise das fundações profundas. Infelizmente
nada foi publicado a respeito.
No início dessa década, é fundada no Rio de Janeiro,
destacando-se da Geotécnica, a Engenharia
de Fundações S/A, Engefusa, sob a direção de
Raimundo de Araújo Costa, Carlos da Silva e Lauro
Rios que. a partir de então, divide com a Estacas
Franki a liderança da execução de fundações no
país. Um exemplo notável de obras de fundações
executadas pela Engefusa e pela Franki foram as
da Refinaria de Petróleo Duque de Caxias, na Baixada
Fluminense. As extensivas investigações e
os projetos geotécnicos dessa obra foram levadas
a cabo pela Geotécnica S/A, chefiadas por Antonio
Tinoco Neto e Fernando F.. Barata. Nessa obra
foram cravadas estacas de diferentes tipos: prémoldadas
de concreto, metálicas, de madeira, mistas
e do tipo Franki. Além desses variados tipos
de estacas empregou-se, no porto da Reduc, fundações
por tubulòes a ar comprimido.
Pela atividade dessas firmas, sediadas no Rio, porém
com atividade em todo o território nacional, a
técnica de fundações no Brasil atingiu nível elevado,
como foi testemunhado por Costa Nunes í17> em
seu relatório ao Congresso Brasileiro de Mecânica
dos Solos, realizado em Recife, em 1958.
Desta forma, consolida-se no país a engenharia
de fundações, baseada em geotecnologias. Desde
então, o número de firmas especializadas em
fundações, assim como de engenheiros consultores.
continuou crescendo. Contudo as atividades
em solos e fundações diversificaram-se a partir
dessa época para as áreas tle contenção de encostas,
decorrentes de acontecimentos catastróficos
em Santos e Rio de Janeiro; construção de barragens
de terra em todo o território nacional; e projeto
e construção de "metrôs - ' do R?o e São Paulo;
cuja história é rica mas não cabe aqui ser relatada.
1. T 8 A MECÂNICA DOS SOLOS E A
ENGENHARIA DE FUNDAÇÕES
Durante a década dos anos 60 foi-se verificando
uma nítida separação das atividades dos engenheiros
geotécnicos, nas áreas de Mecânicí. dos
Solos e suas aplicações e de Engenharia de Fundações
É assim que se pode interpretar as palavras
do eng. Sigmundo Golombek, em seu relatório
"Estado atual da técnica brasileira sobre
Problemas Especiais e Construção de Fundações
(Em Geral)", apresentado no 4 a Congresso Brasileiro
de Mecânica dos Solos, realizado no Rio de
Janeiro, em 1970. Ele inicia seu trabalho dizendo:
"Nada tendo sido publicado no país, nos últimos
anos, no setor de fundações...". Ora, isso
pode ser interpretado como indicando uma falta
de publicações no setor específico da Engenharia
de Fundações; porquanto as publicadas sobre
questões de Mecânica dos Solos aplicada a
fundações, no Brasil, desde 1938 são inúmeras.
De fato seu relatório atx>rda a questão sob um ponto
de vista até então inusitado: o da realização específica
de projetos e obras de fundações, sob o ponto
de vista da engenharia. É possível, então, defender
a opinião que este relatório como que institui, no
país. a Engenharia de Fundações, como especialidade
autônoma da Engenharia Civil.
Aliás a atividade de Golombek, desde quando
pouco anos antes fundara o escritório "Engenheiros
Consultores Associados - Consultrix S/C I.tda.'
- tinha sido exatamente esta: a de atuar diietamente
na própria obra de fundações, como engenheiro
interessado em realizar a obra, mais do que
como investigador das propriedades de solos OU
do comportamento das subestruiuras.
Pertence a esse estágio do nosso desenvolvimento
a atuação de Dirceu Velloso. que sucedeu
a Costa Nunes na direção técnica da "Estacas
Franki" em 1952, e seu colaborador direto Nelson
Aoki. Foi do trabalho conjunto desses dois eminentes
engenheiros que surgiu o clássico método
de cálculo da capacidade de carga de estacas, justamente
designado como Método Aoki-Vellosc (W) .
Aliás, nessa época já se acumulara experiência
nacional sobre fundações por estacas e já aparecera
o interesse pela transferência de cargas ao
solo, através de sua ponta e seu fusie <m . A partir
daí é que se iniciam as provas de carga cm estacas
instrumentadas de forma a separar os quinl>òes
de carga transferidos ao terreno. l "m trabalho pioneiro
sobre tais medidas em "estacas-barretes" das
fundações de um silo vertical no porto de
Paranaguá foi apresentado no (> u Congresso Brasileiro
realizado no Rio. em 1978, por Velloso, Aoki
e Salomoni (V> \ Um outro trabalho sobre a mesma
questão foi apresentado por Costa Nunes, Mota
Novaes e Barbosa da Silva, na conferência
panamericana, realizada em Lima em 1979 csn . No
7 U Congresso Brasileiro, realizado em Recife, em
1982, foi dada atenção especial ao tema "Prática
de Fundações no Brasil", com apresentação e discussão
de cerca de quarenta trabalhos. Entre esses,
Gama e Silva, Mario Mori e Rodrigues de Castro
analisam o tema "Estimativa do Comportamento
das Estacas Escavadas de Grande Diâmetro". Apresentam
um método de cálculo para tal estimativa
c o comprovam com ensaio sobre estaca
instrumentada. Sobre a mesma questão Fontoura,
Pedro Paulo Velloso e Maria da Graça Pedrosa fazem
uma 'Análise da capacidade de carga de uma
estaca escavada, com instrumentação no fuste".
Também Costa Nunes e Fernandes discutem, na
mesma seção desse Congresso, "Aspectos relativos
ã interpretação dos resultados de prova de
caiga em estacas instrumentadas". Esses sào os
primeiros trabalhos sobre a verificação experimental
de transferência de carga ao solo por meio de
estacas instrumentadas.
Cabe aqui uma referência a uma das obras máximas
da engenharia brasileira, a Ponte Rio-Niterói.
projetada pelo Escritório de Engenharia Antônio
Alves Noronha em consórcio com projetistas ingleses.
A consultoria sobre as fundações dessa
ponte foi dada pelo eng. Raymundo de Araújo
Costa. Elas estão descritas no relatório "Estado atual
da técnica brasileira sobre problemas especiais
e construção de fundação (Em Geral)", apresentado
por Sigmundo Golombck no 4- Cobramsef. realizado
no Rio de Janeiro em 1V70.
Sobre os tubulóes de fundação dessa ponte, foram
realizadas provas de carga de até 2.000 t. A
primeira dessas deu origem ao desastre de 24 de
maio de 1970, no qual morreram os engenheiros
José Machado e Raul Arends, do IPT, e Nilson Viana,
do Consórcio Construtor da Ponte Rio-Niterói. Sào
esses os primeiros heróis-mártires da Geotccnia
Brasileira. As provas de carga seguintes foram executadas
pelo método de atiramento, desenvolvido
pela 'lécnosolo. Seus resultados foram apresentados
no IX Congresso Internacional, realizado em
Tóquio, em 1977.
A separação entre as áreas de Mecânica tios Solos
e de Engenharia de Fundações consolidou-se com a
fundação, em outrubro de 1980. da "ABEF - Associação
Brasileira de Empresas dc Fundações e Serviços
Geotécnicos Especializados", com a finalidade de
congregar empresas, principalmente dedicadas à
Engenharia de Fundações. Já em 1985 a ABEF promoveu.
em co!alx>raçáo com a ABMS, um Seminário
de Engenharia de Fundações Especiais, em Sào Paulo.
Os quatro volumes e mais uma separata dos anais
desse seminário"" contêm ampla informação sobre o
estudo das conhecimentos naquela época, atingido pela
Engenharia de Fundações nacional
1.1 9 O ENSAIO SPT NA ENGENHARIA DE
FUNDAÇÕES
Com os conhecimentos adquiridos sobre o comportamento
de estacas, ressurgiu a questão de prever
a transferência de carga por métodos mais baratos,
tais como o do SPT Decourt e Quaresma" 11
já tinham abordado a questão, durante o ò'- Congresso
Brasileiro. Na revista Solos e Rochas,
Rodrigues Alonso apresentou uma "Estimativa tia
Curva Carga-Recalque de Estacas a partir dos Resultados
de Sondagens à Percussão""". Trabalho
que foi complemenado pelo mesmo autor, em
1W3. por outro, publicado na mesma revista'*' 1 .
Nessa época ressurgiu a necessidade de se padronizarem
os ensaios de resistência à penetração.
Durante o Congresso Internacional, realizado
em Montreal em 1965, o Subcomitê de Resistência
à Penetração foi dissolvido. Entretanto, em
1974, a Sociedade Sueca decidiu organizar um
Symposium Europeu sobre Ensaios de Penetração
(ESOPT-lJ, do qual resultou um Subcomitê
que apresentou ao Comitê Executivo da Conferência
Internacional, realizada em Toquio, em
1977, um extenso relatório, contendo métodos de
vários ensaios de penetração, usados na Europa,
inclusive o SPT" 71 . Na Conferência Internacional,
realizada em Sào Francisco em 1985. ficou estabelecido
que o subcomitê resumiria seu trabalho a somente
quatro tipos de ensaios, cada um a ser feito
por grupos de trabalhos distintos. Entre esses estava
o SPT. em cujo grupo tle trabalho estava incluído o
brasileiro Luciano Decouif^1. Esse trabalho do comitê
europeu deu ensejo à convocação de um Simpósio
Internacional sobre Ensaios de Penetração (ISOPT-
1) que se reuniu em Orlando, em 1988 cw> . Historiando
todos esses conhecimentos e apresentando os respcctivos
métodos dos quatro ensaios anteriormente
selecionados, a Sociedade Sueca publicou, em 1989,
um opúsculo informativo''' 01 .
Durante a Conferência Internacional, reunida no
Rio tle Janeiro, Luciano Decourt apresentou o seu
relatório geral sobre o estado dos conhecimentos
a respeito do ensaio SPT, executado segundo o
"International Refercnce Test Procedure" como
proposto pelo Comitê da ISSMFE acima citado, do
qual ele faz parte"'". Neste relatório analisam-se
todos os fatores que afetam a medida da resistência
à penetração, no sentido de concluir que o SPT
deva ser executado inteiramente de acordo com a
padronização introduzida em níve internacional
pela ISSMFE. Além disso as correlações entre os
parâmetros tle projeto dos solos e o índice tle resistência
à penetração SPT devem obedecer a
quatro princípios estabelecidos por \Vroth <Wl e
Jamiolkowski" 4 *'.
1.20 EVOLUÇÃO DA ENGENHARIA DE
FUNDAÇÕES A PARTIR DE 1 960
A partir do inicio dos anos 6o, um outro tipo de
obras tle fundação tinha sido desenvolvido intensamente,
nào só no Brasil, como em vários outros
países da América Latina, onde a construção
hidroelétrica teve grande incremento. Trata-se das
fundações tle torres de transmissão cie energia elétrica.
No volume II, dos Anais tio Seminário de
Fundações, acima citado"", figura o trabalho do
eng. Ladislau Paladino, sobre as fundações da linha
tle alta-tensào (460.000 volts) da Usina dejupiá
a São Paulo, projetada pela Themag Engenharia
Ltda. Essas fundações foram projetadas e executadas
por tubulões escavados a céu aberto. Apresentaram-se
assim como as mais convenientes técnica
e economicamente aos solos porosos não
saturados <|ue ocorrem no interior do Centro-Sul
do pais.
Nas discussões seguintes foram apresentados os
tipos de fundações utilizados nas linhas de transmissão
da Cesp e de Furnas, bem como comentários
sobre seu comportamento. No Volume III tios
mesmos anais estão transcritos os amplos debates
havidos na mesa-redonda: "Fundações de Torres
de Transmissão", em que tomaram parte os engenheiros
Custódio Mota Pellegrini, Costa Nunes,
Ladislau Paladino, Fernando E. Barata, Rubens
Aschcar e Wolncy B. Medeiros. Uma ampla exposição
sobre fundações de torres submetidas ao
arrancamento. feita por Fernando Barata, encontra-se
em separata anexa aos anais do seminário
em questão'' 1 '.
Sobre os resultados de provas de carga e sua
comparação com métodos de cálculo, referentes
às fundações de torres das linhas da Cesp, o eng.
Celso Orlando, defendeu uma dissertação de
mestrado na Epusp, em 1989.
Por ocasião da Conferência Internacional do XII
ICSMFE. realizada no Rio de Janeiro, em 1989, a
ABEF publicou um relatório, a ser distribuído aos
congressistas, sobre os resultados obtidos em ensaios
realizados num campo experimental organizado
em concordância com a Escola Politécnica
da Universidade de Sào Paulo, para pesquisas de
campo, acompanhadas por ensaios de laboratório,
sobre fundações por estacas de diversos tipos.
além de trabalhos especiais de injeções de
colunas 'CJG) em alta pressão, muros diafragmas,
numa escavação experimental, c ancoragens de
alta capacidade. O solo mole onde todos esses
ensaios foram feitos é residual silto-arenoso
micaceo, denso a muito denso"'".
Em 1991, a Associação Brasileira de Empresas
de Fundações ABFE promoveu o Seminário de
Engenharia de Fundações Especiais - SEFE II. onde
foram apresentadas 60 contribuições publicadas em
Anais, pela ABMF e ABMS, sobre os seguintes temas:
Fundações e estabilização em encostas: aspectos técnicos.
executivos e sociais: Qualidade e economia
em obras de fundações; ensaios de campo e laboratório
em solos residuais; capacidade de carga de fundações
profundas com base em ensaios de campo e
laboratório. Nesses trabalhos foi apresentada uma
série de observações, ponderações e conclusões
sobre as tendências dominantes no setor de fundações,
a partir de 1980, quando esse setor adquiriu
uma notável autonomia no quadro da Geotecnia
nacional.
Cabe ressaltar aqui as sábias palavras do eng.
Sigmundo Golombek na palestra de abertura desse
Seminário: "Divagações de um engenheiro veterano".
que merecem a atenção dos especialistas
mais jovens em fundações sobre vários problemas
que afligem atualmente o projeto e a construção
de fundações no Brasil.
Julga-se necessário destacar dos valiosos trabalhos
apresentados na SEFE II aqueles referentes ao
Campo Experimental de Fundações instalado na
Escola Politécnica da USP. Como o terreno desse
campo experimental era de solos residuais de
gneiss, os resultados de todos os ensaios dependem
de ensaios de lalx>ratório sobre amostras retiradas
desse solo, cujas propriedades geotécnicas
sào particularmente intrincadas. Dai o interesse e o
valor do trabalho apresentado por Carlos Sousa
Pinto e José Jorge Nader, sobre tais ensaios"**. Além
dos ensaios de laboratório foram feitos ensaios de
campo para determinação do módulo dinâmico do
solo residual, conforme relatado em trabalhos apresentados
no SEFE II por José Maria de Camargo
Barros. Decourt e Quaresma apresentaram um trabalho
introduzindo, segundo sugestão de Stclvio
M.T. Ranzini. a medida, cm sondagens, do torque
necessário para, rodando as hastes e o amostrador,
medir a resistência de atrito entre solo e amostrador.
Num outro trabalho Decoun apresentou um método
para prever a capacidade de carga de estacas
que deslocam o solo, em base desse ensaio SPT
modificado. Foi ainda apresentado um trabalho
sobre análise da monitoração, através de equações
de ondas de estacas cravadas no mesmo campo
experimental por Ely Bernardi, Gislene Coelho
de Campos e José Roberto Alves Machado,
pelo método CAPWAPC. Faiçal Massad apresentou
três interessantíssimos trabalhos sobre análise
de transferência de carga de estacas, inclusive uma
estaca barrete, escavadas no solo do campo experimental
em questão. Desses trabalhos destaca-se
o primeiro"''*.
É de se enfatizar o valor das pesquisas realizadas
nesse Campo Experimental, por se tratar de
fundações sobre solos residuais de gneiss. Porém,
não se deve esquecer que essa linha de pesquisa
já é uma tradição na geotecnia nacional a partir
das fundações da Usina de Volta Redonda, na década
dos anos 40. No Rio tle Janeiro devem-se
destacar entre outras, nessa linha, as várias contribuições
de Sandro Sandroni, a partir de sua tese
de mestrado no Imperial College.
Um extenso relatório sobre os fundamentos da
aplicação da equação de ondas, na determinação
do comportamento de estacas cravadas, foi apresentado
pelo eng. Sussumu Niyama a esse Seminário"*'.
Sobre o mesmo assunto é o trabalho de
Nelson Aoki' W) . Finalmente, ainda, é de se destacar
o trabalho de Dirceu Velloso, sumarizando os
vários métodos de emprego do SPT utilizados no
pais, para a determinação da capacidade de carga
de estacas' 70 '.
Aliás a utilização da equação tias ondas para
previsão da capacidade de carga de estacas encontrou
grande aceitação no caso de um r.ovo
tipo de obras de fundação das quais se tratará a
seguir: as fundações de estruturas marítimas, principalmente
para plataformas de petróleo. Aliás, o
desenvolvimento das tecnologias relacionadas com
tais estruturas já era de tal monta que se realizou,
em 1979, um Simpósio Internacional de Estruturas
Offshore", no Rio de Janeiro.
l'm histórico do envolvimento da engenharia
nacional de solos e fundações com as obras das
plataformas submarinas da Pctrobrás, bem como
uma apreciação do papel do engenheiro geotécnico
nessas obras foi feito pelo engenheiro da Pctrobrás,
Sérgio F.D. de Matos, em contribuição apresentada
ao VII Congresso Brasileiro de Mecânica dos
Solos, realizado em Olinda e Recife, em 1982' 7 ".
Cabe ressaltar aqui o papel pioneiro de Francis
Bogossian nas investigações geotecnicas marítimas;
pois as primeiras referências a problema das
estruturas "offshore", na literatura técnica nacional,
referem-se a sondagens. Elas foram apresentadas
por Bogossian e Mc Enter ("Marine Site
Investigations in Exposed Deep Water Locations
Offshore BraziD e Bogossian. Spatz e Corrêa Lopes
("Sondagens geológicas em mar aberto com utilização
do sino de sondagem"), ao 6- Cobramsef
realizado no Rio de Janeiro, em 1978. Porém, a
primeira notícia técnica sobre os ensaios dinâmicos
para determinação de capacidade de carga de
estacas, em estruturas "offshore". encontra-se no
trabalho de De Matos e Dahlberg, apresentado â
7" Conferência Panamericana, realizada em Vancouver,
em 1983', a respeito do caso das estacas
de plataforma da Petrobrás, no campo Garoupa,
utilizando o método CAPWAT.
Essas obras de fundações de plataformas marítimas
levaram ao conhecimento geológico e
geotécnico, não só da geologia como também dos
solos submarinos nas várias bacias exploradas. Mas,
por sua vez, esses conhecimentos geológicogeotécnicos
rebateram sobre a prática das fundações
marítimas vindo a trazer modificações nos projetos
e execução dessas fundações. Esse fato foi relatado
por Mello, Machado e Castro, em contribuição
apresentada ao IX Cobramsef realizado em
Salvador, em 1990' 7 " para o caso da Bacia de Campos.
Entretanto, a investigação do subsolo para decisões
sobre as fundações das plataformas marítimas de
petróleo, devem ser conduzidas de acordo com o que
já se conhece na tecnologia dos solos, emlxjra as condições
dos solos submarinos apresentem condições
inusitadas. É essa a advertência do artigo de Victor de
Mello e Luís Guilherme de Mello publicada na Revista
Politécnica de dezembro de 1985' 7<) .
1.21 ENGENHARIAS DE FUNDAÇÕES E DE
ESTRUTURAS
Para terminar este apanhado histórico sobre a
Engenharia de Fundações no Brasil, é necessário
uma referência, ainda que sumária, a um assunto
intermediário entre as engenharias de fundações
e de estruturas. E o da interação entre fundações e
estruturas. A primeira manifestação, no Brasil, sobre
tal problema deve-se a Samuel Chamecki, em
sua contribuição ao l u Congresso Brasileiro de
Mecânica dos Solos, realizado em Porto Alegre,
em 1954 ,7i> . Aliás uma versão desse trabalho foi
publicada no Jornal da Divisão de Solos e Fundações
da ASCE (Vol. 2, SM-1), em 1956. Embora os
engenheiros geotécnicos brasileiros tenham-se preocupado
com a medida de recalques de edifícios
altos e suas conseqüências sobre as estruturas, como
já foi mencionado anteriormente, pouco interesse tinha
sido dado aos problemas de redistribuiçáo de
tensões na estrutura e modificação dos recalques na
fundação, por efeito da interação entre as duas, até a
década dos anos 80. O reaparecimento desse interesse
está documentado na tese de concurso para
professor titular apresentada por Fernando Barata à
Escola ile Engenharia da UFRJ, em 1986, sob o titulo
"Recalques de Edifícios sobre Fundações Diretas em
Terrenos de Compressibilidade Rápida e com a Consideração
da Rigidez da Estrutura". Esse interesse
foi confirmado com a contribuição de Alexandre
Duane Gusmão e Francisco de Rezende, sobre o assunto,
apresentado ao IX Cobramsef realizado em
Salvador, em 1990. Nesse trabalho os efeitos da
interação são obtidos por um método simplificado' 761 .
Num outro trabalho Gusmão e Gusmão Filho descrevem
um caso prático.
A questão de interação solo-estrutura está intimamente
relacionada com a utilização da computação
eletrônica na Engenharia de Fundações. Pois
os cálculos de interação só se tornaram praticamente
possíveis com os computadores. Pode-se
admitir que a institucionalização da computação
na Geotecnia brasileira deu-se com a realização
do "l u Seminário Brasileiro do Método dos Elementos
Finitos Aplicado â Mêcanici dos Solos",
realizado pela COPPE no Rio de Janeiro, em setembro
de 1974. Desse seminário constou uma
sessão sobre "Aplicações do método dos elementos
finitos em fundações, percolação e adensamento".
Depois de um relatório ger.il por Dirceu
ile Alencar Velloso, onde um histórico do método
é apresentado, seguem-se três contribuições que
esclarecem a aplicação do cálculo numérico ao
problema do comportamento de estacas e grupos
de estacas 177 '. A primeira delas é de engenheiros
do "Ponts et Chuussées" c os dois últimos do Prof.
F.rnani Diaz, da UFRJ, e do Eng. Cel. Octávio Barbosa
da Silva, do ITA.
O cálculo ila interação entre fundações e estruturas,
em geral, exige a computação eletrônica;
porém, o uso dos microcomputadores já se tornou
comum aos engenheiros de fundação, como
é documentado pelas listagens de programas que
constam, por exemplo, do livro de Urbano
Rodriguez Alonso' 78 ', sobre dimensionamento de
fundações profundas.
Provavelmente foi essa a razão porque no último
Cobramsef, realizada em Foz do Iguaçu, em
novembro de 1994. foi incluída a sessão técnica
de "Fundações e Interação Solo-Estrutura". Entretanto
só dois trabalhos foram apresentados, ambos
de professores da Universidade Federal de
Pernambuco 09 ' (fl0) . Contudo é justo dizer que tanto
os estudos sobre a interação solo-estrutura como
os sobre a computação eletrônica em engenharia
de fundações têm origem nos cursos de pós-graduação
da COPPE. Aos professores desses cursos,
sob a orientação de Willy Lacerda, cabe ainda
a primazia das pesquisas sobre a determinação
dos parâmetros dos solos, para a análise por elementos
finitos <H,) .
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CAPITULO 2
PROPRIEDADES DOS SOLOS
CARLOS DE SOUSA PINTO
2.1 A MECÂNICA DOS SOLOS NA
ENGENHARIA DE FUNDAÇÕES
Todo projeto de fundações contempla as cargas
aplicadas pela obra c a resposta do solo a estas
solicitações. Os solos são muito distintos entre si
e respondem de maneira muito variável, por isto,
toda experiência transmitida pelas gerações de
construtores sempre se relaciona ao tipo de solo
existente.
Trabalhos marcantes sobre o comportamento dos
solos foram desenvolvidos nos séculos passados,
como os clássicos de Coulomb, 1773, Kankine,
1856 e Darcy, 1856. Entretanto, um acúmulo de
insucessos em obras de engenharia civil, no inicio
deste século, onde se destacam as rupturas do
Canal do Panamá e rompimentos de grandes taludes
em estradas e canais em construção na Europa
c nos Estados Unidos, mostrou a necessidade
de revisão dos procedimentos de cálculo. Como
apontou Terzaghi (1936), ficou evidente que não
se podiam aplicar aos solos leis teóricas de corrente
aplicação em projetos que envolviam materiais
mais bem definidos, como o concreto c o
aço. Não era suficiente determinar em laboratório
parâmetros de resistência e deformabilidade em
amostras de solo e aplicá-los a modelos teóricos
adequados àqueles materiais. De fato, o comportamento
rcológico dos maciços terrosos não pode
ser expresso por parâmetros simples como um
módulo de elasticidade ou uma tensão de escoamento
ou de resistência.
O conhecimento do comportamento deste material,
disposto pela natureza em depósitos heterogêneos
e apresentando comportamento demasiadamente
complicado para tratamentos teóricos
rigorosos, se deveu em grande parte, aos trabalhos
de Karl Terzaghi, engenheiro civil de larga
experiência, sólido preparo científico e acurado
espírito de investigação. Seus trabalhos, identificando
o papel das pressões na água nas tensões
nos solos, e apresentando uma solução matemática
para a evolução dos recalques das argilas com
o tempo após o carregamento, são reconhecidos
como o marco inicial de uma nova ciência de engenharia,
que recebeu o nome de Mecânica dos Solos.
O conhecimento das propriedades dos solos não
se restringe ao que a Mecânica pode esclarecer. A
Química e a Física Coloidal, importantes para justificar
aspectos do comportamento dos solos, sào
partes integrantes da Mecânica dos Solos, enquanto
que o conhecimento da Geologia é fundamental
para tratamento correto dos problemas de fundações.
A Engenharia de Fundações é uma arte, que se
aprimora pela experiência, com o comportamento
das fundações devidamente observado e interpretado,
e isto não se faz sem atentar para as peculiaridades
dos solos. Por outro ado, todo desenvolvimento
de técnicas de projeto e de execução
das fundações depende do entendimento dos
mecanismos de comportamento dos solos.
2.2 NATUREZA DOS SOLOS
2.2.1 Sistemas de partículas
Os solos sào constituídos de um conjunto de
partículas com água (ou outro liqüido) e ar nos
espaços intermediários. As partículas, de maneira
geral, se encontram livres para se deslocar entre
si. Em alguns casos, pequena cimentaçào pode
ocorrer entre elas, mas num grau extremamente
mais baixo do que nos cristais dc um metal ou
nos agregados dc um concreto. O comportamento
dos solos depende do movimento das partículas
sólidas entre si e isto faz com que ele se afaste
do mecanismo dos sólidos idealizados na Mecânica
dos Sólidos Deformávcis, na qual se fundamenta
a Mecânica das Estruturas geralmente consideradas
na Engenharia Civil, de maneira bem
mais acentuada do que os materiais tradicionalmente
considerados nas estruturas. A Mecânica
dos Solos poderia ser adequadamente incluída na
Mecânica dos Sistemas Particulados (Lambe e
Whitman, 1969).
Soluções da Mecânica dos Sólidos Deformáveis
sào freqüentemente empregadas para a representação
do comportamento de maciços de solo, pela
simplicidade das soluções e por serem referendadas
pela comprovação do ajuste aproximado de
seus resultados com o comportamento real dos
solos, verificada experimentalmente em obras de
engenharia. Em diversas situações entretanto, o
comportamento do solo só pode ser entendido
pela consideração das forças transmitidas diretamente
nos contados entre as partículas, embora
estas forças não sejam utilizadas nos cálculos e
modelos. Nào é raro, por exemplo, que partículas
do solo se quebrem quando o solo é solicitado
alterando-se o próprio solo, com conseqüente influencia
no seu desempenho.
2.2.2 Tamanho das partículas
A primeira característica que diferencia os solos
é o tamanho das partículas que os compõem.
Numa primeira aproximação, pode-se identificar
que alguns solos possuem grãos perceptíveis a
olho nu, como os grãos de pedregulho, ou a areia
do mar, e que outros têm os grãos tão finos que,
quando molhados, se transformam numa pasta
(barro), nào se visualizando individualmente as
partículas.
A diversidade do tamanho dos grãos é enorme.
Nào se atenta para isto, num primeiro contacto
com o material, simplesmente porque parecem
todos iruito pequenos perante os materiais com
que geralmente se lida. Mas-alguns sào consideravelmente
menores. Existem gràos de areia com
dimensões de 1 a 2 mm, c existem partículas de
argila com espessuras da ordem dc 10 Angstrons
(0,000001 mm ). Isto significa que, se uma partículas
de argila fosse ampliada de forma a ficar
com o tamanho de uma folha de papel, o grão de
areia acima citado ficaria com dimensões de 100 a
200 metros.
Num solo geralmente convivem partículas com
tamanhos diversos. Nem sempre é fácil identificar
as partículas porque grãos de areia, por exemplo,
podem estar envoltos por uma grande quantidade
de partículas argilosas, finíssimas, ficando com
o mesmo aspecto de uma aglomeração formada
exclusivamente destas partículas argilosas. Quando
secas, as duas formações são dificilmente diferenciadas.
Quando úmidas, entretanto, a aglomeração
de partículas argilosas se transforma em uma
pasta fina, enquanto a partícula arenosa revestida
é facilmente reconhecida pelo tacto.
Denominações específicas são empregadas para
as diversas faixas de tamanho de gràos, seus limites
entretanto variam conforme os sistemas de
classificação. Os valores mais correntes são os
indicados na Tabela 2.1.
Tabela 2.11 Limites das frações de solo pelo tamanho
dos grãos
Pedregulhos :
de 2.0 mm (ou 4.8 mmj a 15 cm
Areias: de 0.075 mm (ou 0.06 mm)
a 2,0 mm (ou 4.8 mm)
Silte : de 0,002 mm (ou 0,005 mm)
Argila :
a 0.075 mm
inferiora 0,002 mm
(ou 0.005 mm)
(ou 0.06 mm)
As areias sào ainda subdivididas em grossas
(acima de 0,6 mm), médias e finas (abaixo de
0,2 mm).
2.2.3 Constituição mineralógica
Os solos sào formados a partir da desagregação
de rochas por ações físicas c químicas. As partículas
resultantes dependem da composição da rocha
matriz.
Algumas partículas maiores, dentre os pedregu-
Ihos, sào constituídas freqüentemente de agregações
de minerais distintos. É mais comum, entretanto,
que as partículas sejam constituídas de um
único mineral. O quartzo, presente na maioria das
rochas, é bastante resistente à desagregação e forma
grãos de siltes e areias, com diâmetro equivalente
superior a 0,005 mm. Sua composição química
é simples, SiO^, as partículas são
equidimensionais, como cubos ou esferas, e ele
apresenta baixa atividade superficial. Outros minerais,
como feldspato, gibsita, calcita c mica podem
ser encontrados neste tamanho, const.tuindo
as frações silte e areia dos solos.
Os feldspatos são os minerais mais atacados pela
natureza, dando origem aos argilo-minerais que
constituem a fração mais fina dos solos, geralmente
com diâmetro inferior a 2 um. Nào só o reduzido
tamanho, mas, principalmente, a constituição
mineralógica, faz com que estas partículas tenham
um comportamento extremamente diferenciado
em relação ao dos gràos de silte e areia.
Fig. 2.1 - Estrutura dc uma camada de caulinita;
[aj atômica, (b) simbólica
Os argilo-minerais apresentam uma estrutura
complexa. Uma abordagem detalhada deste tema
foge ao escopo deste livro, podendo ser encontrada
no clássico de Grim (1962), em Mitchell
(1976) ou em Souza Santos (1975). Uma síntese
do assunto, que permite justificar o comportamento
dos solos argilosos perante a água, é apresentada
a seguir, tomando-se como exemplo três dos
minerais mais comuns na natureza, a caulinita, a
ilita e a esmectita, que apresentam comportamentos
bem distintos, principalmente na presença de água.
Na composição química das argilas existem dois
tipos de estruturas: uma estrutura de tetraedros
justapostos num plano, com átomos de silício ligados
a quatro átomos de oxigênio (SiOp, e uma
estrutura de octaedros em que átomos de alumínio
sào circundados por oxigênio ou hidroxilas
(Al(OIl)J. Estas estruturas se ligam por meio de
átomos de oxigênio que pertencem simultaneamente
a ambas.
Alguns minerais-argila sào formados por uma
camada tetraédrica e uma octaédrica (estrutura de
camada 1:1), determinando uma espessura
da ordem de 7 À (1 Angstron • IO' 10 m), como
a caulinita, cuja estrutura está representada na Figura
2.1. As camadas assim constituídas encontram-se
firmemente cmpacotadas, com ligações de
hidrogênio que impedem que elas se separem e
que entre elas se introduzam moléculas de água.
A partícula resultante fica com espessura da ordem
de 1.000 Á. sendo sua dimensão longitudinal
de cerca de 10.000 À.
Noutros minerais, o arranjo octaédrico é encontrado
entre duas estruturas do arranjo tetraédrico
(estrutura de camada 2:1), definindo uma espessura
de cerca de 10 A. Com esta constituição estão
as esmectitas e as ilitas, cujas estruturas simbólicas
estão apresentadas na Figura 2.2. Nestes
minerais, as ligações entre as camadas se fazem
por ions O* e O" dos arranjos tetraédricos, que
são mais fracos do que as ligações entre camadas
de caulinita, em que íons O j * da estrutura
tetraédrica se ligam a OIT da estrutura octaédrica.
As camadas ficam livres, e as partículas, no caso
das esmectitas, ficam com a espessura da própria
camada estrutural, que é de 10 Á. Sua dimensão
longitudinal também é reduzida, ficando com cerca
de 1.000 Á, pois as placas se quebram por flexâo.
As partículas de esmectitas apresentam um volume
10* vezes menor do que as de caulinita, e
uma área 10 - vezes menor. Isto significa que para
igual volume ou massa, a superfície das partículas
de esmectitas é 100 vezes maior do que das
partículas de caulinita. A su/yerjTcie específica, definida
como a superfície total de um conjunto de
partículas pelo seu peso, das caulinitas é da ordem
de 10 nrVg, enquanto que das esmectitas é
de cerca de 1000 mVg. As forças de superfície sào
muito importantes no comportamento de partículas
coloidais, sendo a diferença de superfície especifica
uma indicação tia diferença de comportamento
entres solos com distintos minerais argila.
O comportamento das argilas seria menos complexo
se não ocorressem imperfeições na sua composição
mineralógica. É comum, entretanto, a ocorrência
de um átomo tle alumínio, Al" substituindo
um de sílica, Si'*, na estrutura tetraédrica, e
que na estrutura octaédrica átomos tle alumínio
estejam substituídos por outros átomos de menor
(a)
X
B
WME
B
K £
G
7
j 1 1
k
i
V /
G
\
1 »
V - ' /
/
1
O
ff)
14 A
K fixo
10Â
^s ua
Cátion
Na, Ca
Fig. 2.2 - Estrutura simbólica de minerais com camadas
2:1; (a) esmectita com duas camadas de moléculas de
água, (b) ilita
valência, como o magnésio, Mg". Estas alterações
são definidas como substituições isomórficcis, pois
nào alteram o arranjo dos átomos. Delas resulta
que as partículas ficam com uma carga negativa.
Para neutralizar as cargas negativas, existem nos
solos cátions livres, por exemplo cálcio. Ca", ou
sódio, Na', aderidos às partículas. Estes cátions
atraem camadas contíguas mas com força relativamente
pequena, que não impede a entrada de água
entre as camadas. A liberdade de movimento das
placas explica a elevada capacidade tle absorver
água de certas argilas, sua expansão quando em
contacto com a água e sua contração considerável
ao secar.
As bordas das partículas argilosas apresentam
cargas positivas, resultantes das desconti nu idades
da estrutura molecular. íons negativos neutralizam
estas cargas.
Os cátions e íons sào facilmente trocáveis e
condicionam o comportamento das argilas. Uma
argila esmectita com sódio adsorvido é muito mais
sensível à água do que a mesma estrutura
minera lógica com cálcio adsorvido. Daí a diversidade
de comportamentos apresentados pelas argilas
e a dificuldade de correlacioná-los por meio
de índices empíricos.
2.2.4 Sistema solo-água
A água 6 um mineral de comportamento bem
mais complexo do que sua simples composição
química, H.O, sugere. Os dois átomos cie hidrogênio,
em órbita em torno do átomo de oxigênio,
não se encontram em posições diametralmente
opostas, com o que haveria equilíbrio de cargas.
Do movimento constante dos átomos resulta um
comportamento para a água que poderia ser interpretado
como se os dois átomos dc hidrogênio
estivessem em posições que definiriam um ângulo
de 105° com o centro no oxigênio. Em conseqüência,
a água atua como um bi-polo, orientando-se
cm relação às cargas externas.
Quando a água se encontra em contacto com as
partículas argilosas, suas moléculas se orientam
em relação a elas e aos íons que circundam as
partículas. Os íons se afastam das partículas, ficando
circundados por moléculas de água. No caso
das esmectitas, por exemplo, a água penetra entre
as partículas, formando estruturas como a
indicada na Figura 2.2 (a), em que duas camadas
de moléculas de água se apresentam entre as camadas
estruturais, elevando a distância basal a 15
À. Maior umidade provoca aumento desta distância
basal, até completa liberdade das camadas.
As ilitas, que apresentam estruturas semelhantes
à das esmectitas nào absorvem água entre as
camadas, pela presença de íons de potássio entre
as camadas, provocando uma ligação mais firme entre
elas. como mostrado na Figura 2.2 (b). Em conseqüência,
seu comportamento perante a água é intermediário
entre o da caulinita e o da esmectita..
Com a elevação do teor de ágja, forma-se no
entorno das partículas o que é conhecido como
camada dupla. É a camada em torno das partículas
em que as moléculas de água estão atraídas a
íons do solo e, tanto elas como estes, à superfície
das partículas. As características da camada dupla
dependem da valência dos íons presentes na água,
da concentração eletrolítica, da temperatura e da
constante dielétrica do meio.
Devido às forças eletroquímicas, as primeiras
camadas de moléculas de água em torno das partículas
do solo estão firmemente aderidas a elas.
A água, nestas condições, apresenta comportamento
bem distinto da água livre, sendo este estado
referido como dc água sólida, pois não existe
entre as moléculas a mobilidade das moléculas
dos fluidos. Os contactos entre partículas pode se
fazer pelas moléculas de água a elas aderidas. As
deformações e a resistência dos solos quando solicitados
por forças externas dependem, portanto,
destes contactos.
Deve ser notado, entretanto, que os átomos de
hidrogênio das moléculas de água nào estão numa
situação estática. Ao contrário, encontram-se em
permanente agitação, dc forma que a sua orientação
é uma situação transitória. Em qualquer momento,
inclusive, uma molécula de água pode ser
substituída por outra, no contacto com as partículas
argilosas. Este fenômeno interfere na transmissão
dc forças entre as partículas e justifica a dependência
do comportamento reológico dos solos ao
tempo dc solicitação, como será dctalliado no item 2.9-5.
Quando duas partículas de argila, na água, estão
muito próximas, entre elas ocorrem forças de
atração e de repulsão. As forças de repulsão são
devidas às cargas líqüidas negativas que elas possuem
e que ocorrem desde que as camadas duplas
estejam em contacto. As forças dc atração decorrem
dc forças de van der WaaLs e de ligações
secundárias que atraem materiais adjacentes.
Da combinação das forças de atração e de
repulsão entre as partículas resulta a estrutura dos
solos, que se refere à disposição das partículas na
massa de solo e as forças entre elas. Lambe (1953)
identificou dois tipos básicos de estrutura, denominando
estruturaJloculada, quando os contactos
sc fazem entre faces e arestas, ainda que através da
água adsorvida, e estruturas dispersas, quando as
partículas sc posicionam paralelamente, face a face.
(c)
Fig. 2.3 - Excmp/o dc estruturas dc solos; (a) Floeuiada
cm água salgada, (bj Floeuiada cm água náo salgada,
(cj Dispersa (Apud Mitchel, 1976J
A
(c)
A
Ar
Sc
Líquido
í
r.-w +
— >-•
Sólidos
Y.-
V
V
Volumes
Pesos
Volumes
Pesos
Fig. 2.4 - As fases no solo; (aj no estado natural, (bj separada cm volume, fcj em função do volume de sólidos
As argilas sedimentares apresentam estruturas
que dependem da salinidade da água em que se
formaram. Em águas salgadas, a estrutura é bastante
aberta, embora haja um relativo paralelismo
entre partículas, cm virtude de ligações de valência
secundária. Estruturas floeuladas cm água náo salgada
resultam da atraçào das cargas positivas das
bordas com as cargas negativas das faces das partículas.
A Figura 2.3 ilustra esquematicamente, estes
três tipos de estrutura.
O conhecimento das estruturas permite o entendimento
de diversos fenômenos notados no
comportamento dos solos, como a sensitividade
das argilas e a diferença de comportamento de
solos compactados em situações distintas.
O adensamento das argilas, e, mais intensamente,
o cisalhamento provocados por forças externas
conduzem a estruturas mais dispersas. A resistência
residual das argilas, que será analisada
no item 2.9.4, se justifica pela mudança dc estrutura
por efeito do cisalhamento.
2.2.5 Sistema solo-água-ar
Quando o solo nào se encontra saturado, o ar
pode se apresentar em forma de bolhas oclusas,
se estiver em pequena quantidade, ou em forma
dc canalículos intcrcomunicados, inclusive com o
meio externo. O aspecto mais importante com
rclaçào à presença do ar reside cm que a água, na
superfície, se comporta como se fosse uma membrana.
As moléculas de água, no contacto com o
ar, se orientam, em virtude da diferença da atraçào
química das moléculas adjacentes. Este comportamento
é medido pela tensão superficial, uma
característica de qualquer liqüido em contacto com
outro liqüido ou com um gás.
Em virtude da tensáo superficial, a superfície de
contacto entre a água e o solo, nos vazios pequenos
das partículas, apresenta uma curvalura, caracterizando
que a pressão nos dois fluidos nào é
a mesma. Esta diferença de pressão, denominada
tensão de sucção, é responsável por diversos fenômenos
referentes ao comportamento mecânico
dos solos, entre eles a ascensão capilar, que
será objeto do item 2.5.Ò, e o comportamento
peculiar dos solos nào saturados qaando solicitados
por carregamento, objeto do item 2.10.3 deste
Capítulo.
2.2.6 índices físicos entre as três fases
O comportamento de um solo depende da quantidade
relativa de cada uma das três fases (sólidos.
água e ar). Diversas relações sào empregadas
para expressar as proporções entre elas. Na Figura
2/i (a) estão representadas, simpliflcadamente, as
três fases que normalmente ocorrem nos solos,
ainda que, em alguns casos, todos os vazios possam
estar ocupados pela água. Na Figura 2.4 (b)
as três fases estão separadas, proporcionalmente
aos volumes que ocupam, facilitando a definição
e a determinação das relações entre elas. Os volumes
de cada fase estão apresentadas à esquerda e
os pesos à direita.
Os materiais constituintes do solo sào caracterizados
pelos seus pesos específicos. O peso especifico
dos sólidos (ou dos grãos), y t, relação entre o
peso das partículas em uma porção cio solo e o
volume por elas ocupado, depende dos minerais
constituintes das partículas. Varia pouco, oscilando
em torno de 26 a 27 kN/m\ Valores da ordem
de 30 kN/m* sào encontrados em solos com concentração
de óxidos de ferro, como os solos
lateríticos. O peso especifico da água y , é sempre
considerado igual a 10 kN/m* em problemas dc
engenharia, a despeito de sua pequena variação
com a temperatura. O peso do ar é desprezado.
Os seguintes índices sào empregados na mecânica
dos solos:
Para relacionar pesos, emprega-se a umidade,
ir, definida como o peso da água pelo peso dos
sólidos cm uma porção do solo. Tendo em vista
as relações eletroquímicas entre a água e as partículas,
define-se, como água, para este efeito, a matéria
que se evapora a uma temperatura de 105° C.
Para relacionar o volume de vazios com o volume
do solo, empregam-se dois parâmetros: o índice
de vazios, e, definido como a relação entre o
volume de vazios e o volume das partículas sólidas,
gcialmcme expresso cm valores decimais,
podendo ser maior do que a unidade; e a
poros idade, n, definida como a relação entre o
volume de vazios e o volume total, usualmente
expressa cm porcentagem.
Os vazios podem estar parcialmente ocupados
por ar. A relação entre o volume de água e o volume
total dos va/.ios é definida como o grau de saturação,
S^. expresso em porcentagem. S r= 100 % indica
um solo saturado.
Os outros índices relacionam pesos com volumes,
e são:
Peso específico, y relação entre o peso total e o
volume total do solo.
Peso esjwcífico seco, y iy relação entre o peso das
partículas sólidas e o volume total.
Peso especifico saturado y uii, peso específico
natiral do solo, se todos os vazios forem ocupados
pela água.
Peso especifico submerso y %ult, peso específico
efetivo do solo, quando saturado e submerso,
igual, portanto, ao peso específico saturado menos
o peso específico da água.
No laboratório, são determinadas a massa específica
dos sólidos e a massa específica natural do
solo, segundo procedimentos normalizados. Deles,
sào calculados os respectivos pesos específicos.
Com estes, c mais a umidade, determinada
por secagem em estufa dc uma amostra, os
outros índices são calculados.
O cálculo de um índice em função de outros, é
facilitado pelo esquema apresentado na Figura 2Â
(c), semelhante ao da Figura 2.4 (b). Nele, os pesos
c volumes das diversas fases estão expressos
em função do volume de sólidos considerado igual
a um. Assim, o volume de vazios é igual a e, sendo
S re o volume de água. Por outro lado, o peso
de sólidos é y >f e o peso de água é /.«»,. Com
este esquema, correlações sào facilmente obtidas,
a partir da definição de cada índice. Algumas correlações
resultam diretamente das definições:
n =
l + e
Y, d + w)
Y =
l + e
Yrf -
l + e
(1)
(2)
(3)
v
T " tf
=Y 1±£Li
l + e
Y d
e= . w
Outras surgem de fáceis deduções:
v
Td
1 + W
e = T "
e '1w
2.3 CLASSIFICAÇAO DOS SOLOS
(5)
(6)
(7)
(8)
A diversidade dos solos e a enorme diferença
de comportamento apresentada pelos diversos
solos perante as solicitações de interesse da engenharia,
levou a que eles fossem naturalmente
agrupados em conjuntos distintos, para os quais
algumas propriedades podem ser atribuídas. Desta
tendência natural de organização da experiência
acumulada, surgiram os sistemas dc classificação
dos solos.
O objetivo da classificação dos solos, sob o ponto
de vista de engenharia, é o de poder estimar o
provável comportamento do solo, ou, pelo menos,
o de orientar o programa de investigação
necessário para permitir a adequada análise de
um problema.
É muito discutida a validade dos sistemas de
classificação. De um lado, qualquer sistema cria
grupos definidos por limites numéricos, enquanto
solos naturais apresentam características progressivamente
variáveis, podendo ocorrer que
solos com índices próximos aos limites se classifiquem
em grupos distintos, embora possam ter
comportamentos mais semelhantes do que solos
de um mesmo grupo de classificação. A esta objeção,
pode-se acrescentar que a classificação de
um solo, baseada em parâmetros físicos por ele
apresentado, não pode nunca ser uma informação
mais completa do que os próprios parâmetros
que o levaram a ser classificado. Entretanto, a classificação
é necessária para a transmissão de conhecimento.
Mesmo os que criticam os sistemas
de classificação não têm outra maneira de relatar
sua experiência, de maneira sucinta, senão afirmando
que tendo aplicado um tipo de solução,
obteve certo resultado, num determinado tipo de
5 6 I FUNDAÇÕES: TEORIA E PRATICA
solo. Quando um tipo dc solo é citado, é necessário
que a designação seja entendida por todos, ou
seja, é necessário que exista um sistema de classificação.
Conforme apontado por Terzaghi (1936),
"um sistema dc classificação sem índices numéricos
para identificar os grupos é totalmente inútil".
Se, por exemplo, a expressão areia bem graduada
compacta for empregada para descrever um
solo, é importante que o significado de cada termo
desta expressão possa ser entendido da mesma
maneira por todos, e, se possível, ter limites
bem definidos.
Outra crítica aos sistemas de classificação sc refere
ao perigo de que técnicos menos experientes
supervalorizem a informação, vindo a adotar
parâmetros inadequados para os solos. Este perigo
realmente existe. É preciso sempre enfatizar
que os sistemas de classificação constituem-se num
primeiro passo para a previsão do comportamento
dos solos. São tantas as peculiaridades dos diversos
solos, que um sistema de classificação que
permitisse um nível de conhecimento adequado
para qualquer projeto teria que levar em conta
uma grande quantidade de índices, deixando totalmente
de ser de prática aplicação. Entretanto,
eles ajudam a organizar as idéias e a orientar os
estudos e o planejamento das investigações para
obtenção dos parâmetros mais importantes para
cada projeto.
Existem diversas maneiras de classificar os solos,
como pela sua origem, pela sua evolução, pela
presença ou não de matéria orgânica, pela estrutura,
pelo preenchimento dos vazios. Os sistemas
baseados no tipo e no comportamento das partículas
que constituem os solos são considerados
os sistemas de engenharia de classificação. Embora
estes sejam os mais referidos, implícita ou
explicitamente, as outras classificações são muito
úteis, com informações complementares que cm
certos casos são bastante relevantes, razão pela qual
serão brevemente apresentadas mais adiante.
Peneirai
N* 200 100 40 10 4
o' i lüiUi MJlui ajJn.i 1 ill
0.001 0.01 0.1 1 10
; Diimctro dos grlos (mm) !
~ Argil» | SUlc | Areia Tua [atcíi Fedrtgalho
Fig. 2.5 • Curvas granulométricas de alguns solos
brasileiros
Os sistemas de classificação que se baseiam nas
características dos grãos que constituem os solos
têm como objetivo a definição de grupos que apresentem
comportamentos semelhantes sob o aspectos
de interesse da engenharia civil. Neste sentido,
sua análise permite o próprio entendimento dos
diferentes tipos de comportamento dos solos.
2.3.1 Características das partículas
Os sistemas de classificação se baseiam no tamanho
dos grãos e nas características dos argilominerais.
O tamanho dos grãos é determinado diretamente
pela análise granulométrica, mas as características
dos argilominerais sào consideradas,
indiretamente, pelo comportamcn:o do solo na
água, medido pelos limites de Attcrbcrg.
a. Análise granulométrica
A análise granulométrica consiste, em geral, de
duas fases: peneiramento e sedimentação. O peso
de material que passa em cada peneira, referido
ao peso seco da amostra, é consicierado como a
"porcentagem que passa" e representada graficamente
em função da abertura da peneira, esta em
êscala logarítmica, como se mostra na Figura 2.5.
A abertura nominal da peneira é considerada como
o diâmetro das partículas. Trata-se, evidentemente,
de um diâmetro equivalente, pois as partículas
nào sào esféricas.
A análise por peneiramento tem como limitação
a abertura da malha das peneiras, que nào pode
ser tào pequena quanto o diâmetro de interesse.
Quando se deseja conhecer a distribuição da porção
mais fina dos solos,emprega-se a técnica da
sedimentação, que se baseia na Lei de Stokes, segundo
a qual a velocidade de queda de partículas
esféricas num meio viscoso é proporcional ao
quadrado do diâmetro da esfera. Medindo-se a
densidade de uma suspensão de solo em água,
no decorrer do tempo, calcula-se a porcentagem
de partículas que ainda nào sedimentaram, porcentagem
esta que é associada ao tamanho dc
partículas que, pela Lei de Stokes, 3inda estão em
suspensão. Com estes dados, a curva
granulométrica é completada. Para detalhes do
ensaio, pode-se consultar a Norma NB-29 da
ABNT. Característica importante do ensaio, mesmo
quando só se faz o peneiramento, é o prétratamento
das amostras para defiocular totalmente
o solo, de forma que as partículas se comportem
isoladamente.
A Figura 2.5 apresenta exemplos de curvas
granulométricas de alguns solos do Estado dc Sào
Paulo. Comparando-se estas curvas com os limites
que identificam as diversas faixas de tamanho
dos grãos, apresentada na Tabela 2.1, pode-se descrever
a composição do solo pela porcentagem
de cada fração.
b. Limites de Atterberg
A complexidade da constituição mineralógica
das argilas, analisada no item 2.2.3, impede que
delas se obtenha um índice que diretamente reflita
sua participação no comportamento dos solos.
Indiretamente, sua ação é notada pelo seu desempenho
com diferentes teores de umidade.
Atterberg, em 1911, propôs, e Casagrande, em
1932, adaptou para a mecânica dos solos, um procedimento
para definir teores de umidade característicos
de mudança de estado do solo, de
liqüido, quando muito úmido, passando a plástico,
semi-sólido e sólido na medida em que o teor
de umidade diminui. Estes teores de umidade foram
definidos como /.imite de liqüidez. Limite de
Plasticidade e Limite de Contração, como se mostra
na Figura 2.6.
k
ESTADO
líquido
plástico
quebradiço
i
> -
quebradiço,
volume constante
IP
LIMITES
Fig. 2.6 - Variação da consistência dos solos com a
umidade
A mudança de consistência do solo com a diminuição
da umidade é gradual: os limites estabelecidos
são arbitrários, servindo para caracterizar as
diferenças entre os diversos solos de maneira padronizada.
O limite de liqüidez é definido como
o teor de umidade do solo com o qual uma ranhura
nele feita, numa concha, requer 25 golpes
para se fechar. O limite de plasticidade é adotado
como o menor teor de umidade com o qual se
consegue moldar um cilindro com 3 mm de diâmetro,
e o limite de contração indica a umidade
correspondente ao volume de água necessário para
preencher os vazios do solo quando seco ao ar.
Os procedimentos de ensaio podem ser encontrados
em Lambe (1951), ou nas Normas Brasileiras
MB-30, MB-31 e MB-55 da ABNT.
A diferença entre o limite de liqüidez e o limite
de plasticidade, portanto a faixa de umidade na
qual o solo se comporta plasticamente, é denominada
índice de Plasticidade, IP. Este índice, juntamente
com o LL, são os índices considerados nos
sistemas de classificação dos solos.
Os limites de consistência refletem a participação
dos minerais argila presentes. Feio que foi
apresentado no item 2.2.3, é fácil justificar que
minerais cauliníticos necessitem bem menos água
para mudar de estado do que as esmectitas. listas
podem apresentar LL superiores a 600. Na tabela
2.II. apresentam-se valores típicos de alguns solos
brasileiros.
Programa interlaboratorial realizado no Brasil
(Gobara et al., 1986) mostrou que resultados de
ensaios de LL sobre amostras semelhantes, em diferentes
laboratórios, apresentam coeficiente de
variação da ordem de 8 %, semelhante a resultados
em programa análogo realizado nos Estados
Unidos. Para o IP, o coeficiente de variação no
Brasil foi de 14 %. Estes índices parecem, à primeira
vista, muito elevados. Entretanto, nào são
muito diferentes de valores de dispersão de índices
classificatórios de outros materiais de engenharia.
Ignatius (1988) constatou a influência marcante
da preparação e do manuseio das amostras nos
limites, especialmente para os solos tropicais.
Tabela 2.111 Valores típicos de Limites dc Atterberg do
alguns solos brasileiros
Solos LL IP
Arenoso fino. lateritico (a) 29 1 1
Arenoso fino. laterírico (b) 44 13
Solos de basalto, lateritico 43 16
Solo saprolitico de gnaisse 48
Solo saprolitico de granito 48 16
Argila orgânica de várzeas
quaternárias 70 30
Argilas orgânicas de baixadas
litorâneas 120 60
Os índices de Atterberg sào também empregados
como índices em relaçào aos quais se
correlacionam propriedades de deformabilidade
ou de resistência dos solos, e, ainda, como termos
de referência para a consistência de solos
argilosos desestruturados em função da umicade,
como se descreve em 2.3/»..
2.3.2 Sistemas de classificação
Os sistemas de classificação baseados na composição
dos solos mais empregados sào o chamado
Sistema Unificado de Classificação, desenvolvido
a partir de uma proposta de Casagrande (19i8)
para o U.S. Bureau of Reclamation, e o Sistema Rodoviário
de Classificação, da American Association
of State Highway Officials, empregado pelos óigàos
rodoviários, inclusive no Brasil. Os detalhes destes
sistemas sào encontrados cm Vaigas (1976).
Para a descrição dos diversos tipos de solo. será
adotado, a seguir, sem entrar cm detalhes, a sistemática
do Sistema Unificado. Nele, o primeiro
ponto a considerar é a porcentagem dc material
passando na peneira No. 200 (0.075 mm). Se esta
porcentagem for inferior a 50 %, o solo será considerado
como solo granular. No caso contrário,
como solo fino.
No sistema rodoviário, dois grandes grupos sáo
também identificados pela porcentagem na peneira
No. 200, adotando-se 35 % passando como o limite
separador. Este valor parece ser mais apropriado,
pois um solo com cerca de -Í0 % de finos tem
um comportamento característico dos solos finos
e nào dos granulares; na identificação visual,
empregada correntemente, provavelmente seria
enquadrado desta maneira.
2.3.3 Solos granulares
Os solos granulares podem ser definidos como
pedregtilbos ou areias, conforme qual destas duas
frações granulométricas predomine. Feita esta distinção,
importa conhecer as características secundárias
do material.
Se a quantidade de finos for reduzida (menos
do que 5 % passando na peneira No. 200), a atenção
deve ser dada à distribuição granulométrica,
propriamente dita. Quando as partículas são essencialmente
do mesmo diâmetro , ou pouco diferem
em tamanho, os solos sào considerados
como mal graduados, esta adjetivaçào insinuando
que o entrosamento entre os gràos é muito pobre.
Um solo bem graduado é composto de partículas
em quantidades tais de cada tamanho que
os vazios formados pelas maiores sào preenchidos
pelas partículas menores, sucessivamente.
As curvas granulométricas sào geralmente expressas
pelo coeficiente de nào uniformidade,
CNU, que é a relação entre D <i0 e D J(>, sendo D (/J o
diâmetro abaixo do qual se encontra 60 % do solo
em peso, e D J0 o correspondente diâmetro para
10 % do solo. Quanto maior o CNU, mais deitada
a curva granulométrica, maior a faixa de grãos
presentes, mais bem-graduado é o solo. Geralmente
solos são classificados como mal-graduados
quando CNU < 6. Quando CNU < 2. o solo malgraduado
é denominado solo uniforme.
É interessante notar que o CNU, em princípio,
desconsidera os 10 % mais grossos do solo e só
os 10 % mais finos. Tal falo tem razão de ser. As
partículas mais grossas dos materiais granulares
ficam envoltas pelas partículas mais finas, nào estabelecendo
contactos entre si, c nào contribuindo
para o entrosamento. Já os 10 % mais finos se
instalam nos vazios das partículas mais grossas,
enrijecendo o sistema particulado.
A boa distribuição granulométrica nào deve se
basear só no CNU. Deve indicar, também, uma
certa continuidade da curva. Curvas
granulométricas descontínuas refletem a
inexistência de partículas de uma determinada faixa
de diâmetros que caracteriza uma impropriedade
da granulometria.
As areias se distinguem, também, pelo formato
dos grãos. Embora as dimensões dos gràos nào
sejam muito diferentes segundo três eixos perpendiculares,
como ocorre com as aigilas, a rugosidade
superficial é bem distinta. Formates distintos sào
ilustrados na Figura 2.7, que mostra projeções de
grãos naturais de areias de diferentes procedências.
Os gràos da areia de Ottawa, sào bem esféricos
(dimensões segundo os três eixos semelhantes)
e arredondados (cantos bem suaves), enquanto
os grãos de areia do rio Tietê sào menos esféricos
e muito angulares.
O formato dos gràos de areia tem muita importância
no seu comportamento mecânico, pois determina
como eles se encaixam e se entrosam, e,
cm contrapartida, como eles deslizam entre si,
quando solicitados por forças externas. Por outro
lado, como as forças se transmitem pelo contato
entre as partículas, as de formato mais angulares
sào mais suscetíveis a se quebrarem. A influência
do formato dos grãos na resistência das areias será
analisado no item 2.8.2.
Em que pese a importância do fonnato dos gràos,
pouca atenção é dada a este aspecto na identificação
e na classificação das areias. Tal fato deve
estar associado à aparente dificuldade de se observar
o aspecto superficial dos grães, embora uma
simples lupa permitisse que isto fosse feito facilmente,
e, principalmente, porque nào se dispõe
de índices numéricos simples para expressar o
formato. Os índices empregados por
sedimentologistas (Pinto, 1964), coino os apresentados
na Figura 2.7, são trabalhosos e pouco conhecidos
pelos engenheiros.
Areia N* 4 Areia N* 6
Areia N* 40 Areia N* 40
E, = Esfericidade Wadell
E, = Esfericidade Cox
A = Arredondamento Wadell
Fig. 2.7 - Ilustração de formato de partículas de areia
Uma areia pode se apresentar com os grãos se
tocando de forma a determinar grandes vazios,
ou. com os grãos se encaixando de maneira a reduzir
o volume destes vazios. Se uma areia pura,
no estado seco, for colocada cuidadosamente em
um recipiente, ela ficará no seu estado mais fofo
possível. Pode-se determinar seu peso específico
e dele calcular o índice de vazios máximo. Vibrando-se
a areia dentro de um molde, obtém-se
o seu índice de vazios mínimo. Os procedimentos
são padronizados pelos métodos MB-3324 e
MB-3388 da ABNT. Na determinação do índice de
vazios mínimo, deve-se atentar para a possibilidade
de quebra de grãos, que ocorre em algumas
areias, e que altera sua composição natural.
Tabela 2.III | Valores típicos do índice de vazios de
areias
Característica da areia
Bem graduada, gráos angulares 0.40 0.75
Bem graduada, grãos arredondados 0.35 0.65
Mal graduada, gráos angulares 0.70 1.05
Mal graduada, grãos arredondados 0.45 0.75
Os índices de vazios máximo c mínimo dependem
das características da areia. Os valores são
tão menores quanto mais arredondados são os
grãos, e quanto mais bem graduada é a areia. Valores
típicos estão indicados na Tabela 2.III.
O estado em que se encontra uma areia pode
ser expresso pelo seu índice de vazios. Este dado,
isoladamente, entretanto, pouca informação fornece
sobre o comportamento da areia. É necessário
analisar o índice de vazios natural com os índices
de vazios máximo e mínimo em que a areia
pode se encontrar. Para tal, Terzaghi sugeriu o
índice de Compacidade Relativa, definido pela
expressão:
çj, _ *'max ~ e not
6'max ~ ''min (9)
Com base neste índice, as areias são classificadas
cm rauito fofas, fofas, de compacidade média, compactas
e muito compactas, na medida em que o índice
é maior. Os limites de classificação variam conforme
o autor, sendo comum considerar só três classes,
correspondentes aos limites de 1/3 e 2/3
(Terzaghi e Pecli, 19i8).
Em que pese o valor dc se relacionar o estado
natural com os seus valores extremos, útil quando
se comparam situações de uma mesma areia,
esta classificação de compacidade é conflitante
com o significado destes mesmos termos (fofa e
compacta) quando empregados pelos engenheiros
de fundações. Para estes, areia fofa é aquela
que apresenta grande deformabilidade e pequena
resistência, e compacta a dc baixa
deformabilidade e grande resistência. Ora, estas
propriedades não são função só da compacidade
relativa, mas também da distribuição
granulométrica c do formato dos grãos, como se
verá nos itens 2.8.2 e 2.8.3. Na mesma
compacidade relativa, uma areia bem-graduada,
de grãos angulares é menos deformável do que
uma areia bem-graduada de grãos arredondados
ou uma areia mal-graduada de grãos angulares.
I)e maneira semelhante, a classificação pela
compacidade relativa não se ajusta com a classificação
feita pelo número N determinado pela
amostragem SPT nas sondagens de reconhecimento,
como descrito no Capítulo 3.
Quando os solos predominantemente arenosos
ou pedregulhosos apresentam uma quantidade de
finos maior ( acima de 12 % passando na peneira
No. 200, no Sistema Unificado), a distribuição
granulométrica deixa de ser a característica secundária
mais importante. O comportamento será mais
influenciado justamente por esta pequena quantidade
dc finos, que ocupando os vazios da estaitura
mais grossa, lhe confere uma certa consistência.
Neste caso, os solos granularcs sào classificados
como areias argilosas ou areias siltosas dependendo
do comportamento dos finos. Na identificação
táctil-visual, a plasticidade dos finos é
apreciada; no Sistema Unificado, a distinção é feita
de acordo com a Carta de Plasticidade, que será
descrita adiante.
O estado dos solos granulares com finos também
é referido pela sua compacidade. Entretanto,
não se aplica mais o índice de compacidade relativa,
mesmo porque não há como determinar os
índices de vazios mínimo c máximo. De falo, o
índice de vazios máximo é obtido com a areia
seca em estufa; nestas condições, as partículas de
argila se agregam ou aderem às partículas de areia,
e nào há como separá-las. O índice dc vazios mínimo
é determinado com a areia saturada; se argilosa
ou siltosa, as partículas finas sào carreadas
durante a vibração. A compacidade dos solos granulares
com finos é identificada pelo seu comportamento
mecânico, constatado por meio de ensaios,
estimado pelo aspecto que apresenta ao manuseio,
ou associado ao número N determinado pelo SPT.
2.3.4 Solos finos fargilas e siltes)
Quando a porcentagem de material passando
na peneira No. 200 é superior a 50 % (ou 35 % no
sistema rodoviário), o solo é considerado fino.
Neste caso, ele será classificado como argila ou
como silte.
No Sistema Unificado, nào se leva em conta as
frações silte e argila definidas pela análise
granulométrica. A diversidade destes solos é
distinguida pelo seu comportamento na presença
da água, empregando-se, para este fim, os limites
de Atterberg. Considerando-se as bem distintas
características que os minerais argila podem apresentar,
pequenas quantidades de argilas muito ati-
vas podem produzir nos solos um comportamento
muito mais característico dos materiais reconhecidos
como argilosos pelos engenheiros do
que maiores quantidades de outras argilas menos
ativas. Skempton definiu um índice de atividade,
IA, para caracterizar esta propriedade das argilas:
IP
IA =
fraçã) argila ( % < 2 p )
(i0)
A argila presente num solo é considerada normal
quando seu IA se situa entre 0.75 e 1,25. Quando
IA é menor do que 0,75, a argila é inativa, e quando
maior do que 1,25, a argila 6 considerada ativa,
pois pequena quantidade dc argila provoca
elevado IP.
Com base na sua experiência, com solos predominantemente
de climas temperados, Casagrandc
sugeriu, no Sistema Unificado, que os solos finos
fossem classificados conforme o posicionamento
determinado pelos valores dc IP e LL na Carta dc
Plasticidade, apresentada na Figura 2.8. Acima da
linha A, estão os solos argilosos, C, e abaixo os
solos siltosos, M. Solos orgânicos, O, geralmente
apresentam índices que se situam abaixo da linha
A. ainda que seu comportamento seja argiloso.
Como característica secundária, é proposto se caracterizar
como de baixa compressibilidade, /,,
quando o LL for menor do que 50, e de alta
compressibilidade, II, quando LL > 50.
A Carta de Plasticidade é muito divulgada na
engenharia de solos. Sua aplicação no Brasil, entretanto,
não se tem mostrado muito adequada.
Talvez pelas características próprias de solos evoluídos
em clima tropical, é comum a ocorrência
de discrepâncias acentuadas entre as propriedades
de solos conhecidos e a classificação proposta.
Existe na Cidade de São Paulo, por exemplo,
uma camada de solo superficial conhecido como
argila fx>rosa vermelha, cujo comportamento argiloso
é inquestionável; ninguém o classificaria
como silte; entretanto, os valores de I.I. c //'deste
solo sistematicamente determinam um ponto abaixo
da Linha A da Carta de Plasticidade. Solos de
decomposição de gnaisse. geralmente apresentam
uma camada superficial, avermelhada, de comportamento
bastante argiloso, sobreposto a uma camada,
rósea, de composição e comportamento tipicamente
siltoso. Estes dois materiais, entretanto,
apresentam valores de LL e IP muito semelhantes,
no entorno da Linha A.
A distinção entre solos argilosos e siltosos, na
prática da engenharia de fundações no Brasil, tem
sido feita essencialmente pelo aspecto apresentado
pelo solo numa inspeção tactil-visual. O solo é
classificado como argiloso quando se apresenta
bastante plástico em presença de água, formando
torrões duros ao secar. Os solos sào classificados
como siltosos quando mais suaves ao manuseio
na presença dc água c, quando secos, sc esfarelam
Limite dc liquidez
Fig. 2.8.- Carta dc Plasticidade proposta por
Casagrandc
com facilidade. Os solos argilosos se desintegram
na água mais lentamente que os solos siltosos.
Estes, por sua vez, apresentam dilatància marcante
quando rompidos após vibração, o que nào ocorre
com os argilosos. Estas classificações sào
adjetivadas para indicar a presença de areia no
solo como pouco arenosas, arenosas, muito arenosas,
com areia fina e média, etc.
O estado dos solos siltosos é indicado pela sua
compacidade, valendo o critério de deformabilidadc
e resistência válido para as areias com finos.
O estado das argilas é indicado pela sua consistência,
definida por Terzaghi e Pcck (19 i8) como
a resistência à compressão simples, com a nomenclatura
apresentada na Tabela 2.IV. A resistência
nào drenada das argilas é considerada igual à
metade da resistência à compressão simples, conforme
será visto no item 2.9.5.
Tabela 2.ivl Classificação das argilas segundo a
consistência fTerzaghi e Pcck, 1948)
Consistência
Resistência à compressão
simples, kPa
muito mole <25
mole 25-50
consistência média 50-100
rija 100-200
muito rija 200-400
dura >400
A resistência das argilas depende do arranjo entre
os gràos e do índice de vazios cm que se encontra.
Observa-se que quando se submete cenas argilas
a um manuseio, a sua resistência diminui,
ainda que o índice dc vazios seja mantido constante.
Sua consistência após o manuseio
(remoldada) pode ser menor do que no estado
natural (indeformado). Este fenômeno foi chamado
de sensitividade da argila por Skempton C 19'í8).
que a definiu como a relação entre as resistências
no estado natural c no estado remoldado. A
sensitividade depende das condições dc formação
dos solos, sendo mais acentuada quando uma
estrutura sedimentada em águas salgadas tem seus
sais carreados por água de percolação, quando
ocorrem sensitividades superiores a 8. No Brasil,
as maiores sensitividades sào encontradas em solos
orgânicos dos depósitos marinhos, com valores
situados em torno de 3 e 4.
Destruída a estrutura natural da argila, sua consistência
depende do índice de vazios, como se
analisa no item 2.9.5.1. Estando o solo remoldado,
e saturado, a resistência pode ser relacionada diretamente
com a umidade, pois esta varia linearmente
com o índice de vazios (equaçào (5)). Para
se comparar solos distintos, entretanto, deve-se
empregar uma expressão que reflete uma umidade
relativa, que é a umidade em que o solo se
encontra em relação a duas umidades de referência:
o limite de liqüidez e o limite de plasticidade.
Terzaghi e Peck (1948) sugeriram o índice de consistência,
definido como a relação (LL-w) / (LL-
LP). Mais recentemente, com o mesmo sentido,
mas permitindo extensão mais adequada aos solos
moles, tem sido empregado o índice de
liqüidez, com a seguinte expressão:
w-LP
A Figura 2.9 apresenta resultados de resistência à
compressão simples de argilas remoldadas em função
do índice de liqüidez, coletadas por Mitchell
(1976).
rente de decomposição de origem vegetal ou animal,
em vários estágios de decomposição. Geralmente
argilas ou areias finas, os solos orgânicos
sào de fácil identificação, pela cor escura e pelo
odor caractetístico. A norma D 2487 da ASTM classifica
como solo orgânico aquele que apresenta
LL de uma amostra seca em estufa menor do que
75 % do LL dc amostra natural sem secagem em
estufa. O teor de matéria orgânica pode ser determinado
pela secagem em mufla a 440" C (Norma
MB-13.600, da ABNT).
Solos orgânicos geralmente sào problemá:icos,
por serem muito compressíveis. Estes solos sào
encontrados no Brasil principalmente nos depósitos
litorâneos, em espessuras de dezenas de
metros, e nas várzeas dos rios e córregos, em camadas
com 3 a 10 m de espessura. O teor de matéria
orgânica em peso tem variado dc 4 a 20 %
(Massad, 1994). Por sua característica orgânica,
apresentam elevados índices de vazios, e por serem
de sedimentação recente, normalmente
adensados, possuem baixa capacidade de suporte
e considerável compressibilidade.
Em algumas formações, ocorre uma considerável
concentração de folhas e caules em processo
incipiente de decomposição, formando as turfas.
São materiais extremamente deformáveis, mas
muito permeáveis, o que permite que os recalques,
devidos a carregamentos externos, ocorram rapidamente.
2.3.6 Solos residuais e solos transportados
Fig. 2.9 - Resistência nào drenada cm função do
/ndice de Liqüidez, para várias argilas remoldadas
fApud Mitchell, I976J
2.3.5 Solos orgânicos
Sào chamados solos orgânicos aqueles que contêm
uma quantidade apreciável de matéria decor-
A classificação dos solos pela sua origem é
um complemento importante para a conhecimento
das ocorrências e para a transmissão de
conhecimentos acumulados. Algumas vezes, a
indicação da origem do solo é tão ou mais útil
do que a classificação sob o ponto dc vista da
constituição física.
Os solos podem ser classificados em dois grandes
grupos: solos residuais e solos transportados.
Solos residuais são aqueles de decomposição das
rochas que se encontram no próprio local em que
se formaram. Para que eles ocorram é necessário
que a velocidade de decomposição da rocha seja
maior do que a velocidade de remoção por agentes
externos. A velocidade de decomposição depende
de vários fatores, entre os quais a temperatura,
o regime de chuvas e a vegetação. As condições
existentes nas regiões tropicais sào favoráveis
a degradações da rocha mais rápidas, razào
pela qual as maiores ocorrências de solos residuais
ocorrem nestas regiões, entre elas o Brasil.
Os solos residuais se apresentam em horizontes
com grau de intemperizaçào decrescente. Vargas
(1981) identifica as seguintes camadas, cujas
transições sào gradativas, conforme mostrado na
Figura 2.10.
Concrcçõcs dc Limonit
Saprolito
Horizonte I
(dc evolução
pcdogenica)
Horizonte II
(residual intermediário)
Horizonte III
(residual profundo)
Horizonte IV -
Argila ou areia porosa
superficial. Coluvial (1)
Solo residual maduro (2)
Argila parda, vermelha ou
amarela - solo residual
endurecido ou saprolito
(solo residual)
Areia argilosa com pedregulho
e blocos de pedra,
mantendo a estrutura original
da rocha
(alteração" de rccha)
Alteração dc rocha com
muitos blocos ou rocha
decomposta.
Rocha sã ou fissurada
Fig. 2.10 - Perfil de solo residual de decomposição de gnaisse (Apud Vargas, 1981]
Solo residual maduro: superficial ou sotoposto
a um horizonte -poroso" ou húmico", e que perdeu
toda a estrutura original da rocha-madre e
tornou-se relativamente homogêneo.
Saprolito ou solo saprolítico-. solo que mantém a
estrutura original da rocha-madre, inclusive veios
intrusivos. fissuras r xistosidade, mas perdeu a
consistência da rocha. Visualmente pode confundir-se
com uma rocha alterada, mas apresenta
pequena resistência ao manuseio. É também chamado
de solo residual jovem ou solo de alteração
de rocha.
Rocha alterada-, horizonte em que a alteração
progrediu ao longo de fraturas ou zonas de menor
resistência, deixando intactos grandes blocos
da rocha original.
Km se tratando de solos residuais, é de grande
interesse a indicação da rocha-mater, pois ela
condiciona, entre outras coisas, a própria composição
física. Solos residuais de basalto sào predominantemente
argilosos, os solos de gnaisse sào
siltosos, os solos dc granito apresentam teores
aproximadamente iguais de areia média, silte e
argila, etc.
Solos transportados sào aqueles que foram levados
ao seu atual local por algum agente de transporte.
As características dos solos sào função do
agente transportador.
Solos formados por ação da gravidade dão origem
a solos coluvionares. Entre eles estão os
escorregamentos das encarpas da Serra do Mar
formando os tatus nos pés do talude, massas de
materiais muito diversos e sujeitos a movimentações
de rastejo. Têm sido também classificados
como coluviõcs solos superficiais do planalto brasileiro
depositados sobre solos residuais.
Solos resultantes do carreamento pela água sào
os aluuiôes, ou solos aliwiouarcs. Sua constituição
depende da velocidade das águas no momento
de deposição, sendo freqüente a ocorrência dc
camadas de granulometrias distintas, devidas a
diversas épocas de deposição.
O transporte pelo vento dá origem a depósitos
eólicos. O transporte eólico provoca partículas
bastante arredondadas, em virtude do atrito constante
entre as partículas. As areias constituintes
dos arenitos brasileiros sào arredondadas, por ser
esta uma rocha sedimentar com partículas previamente
transportadas pelo vento.
O transporte por geleiras dá origem aos drifts,
de pequena ocorrência no Brasil. O transporte por
organismos vivos ainda é pouco estudado.
2.3.7 Solos lateriticos
A pedologia é o estudo das transformações da
superfície dos depósitos geológicos, ciando origem
a horizontes distintos, ocorrendo tanto em
solos residuais como nos transportados. Os fatores
que determinam as propriedades dos solos
considerados na pedologia sào: (l)a rocha-mater,
(2) o clima e a vegetação, (3) organismos vivos,
(4) topografia, e (5) o tempo de exposição a estes
fatores. Na engenharia civil, as classificações
pedológicas sào utilizadas principalmente pelos
engenheiros rodoviários, que lidam com solos
superficiais e que encontram úteis correlações
entre o comportamento de pavimentos c taludcs
com estas classificações.
De particular interesse para o Brasil é a identificação
dos solos lateriticos, típicos da evolução de
solos em clima quente, com regime dc chuvas
moderadas a intensas. A denominação de
lateriticos se incorporou na terminologia dos engenheiros,
embora não seja mais usada nas classificações
pedológicas. Os solos lateriticos têm sua
fração argila constituída predominantemente dc
minerais cauliníticos e apresentam elevada concentração
de ferro e alumínio na forma de óxidos
e hidróxidos, donde sua peculiar coloração
avermelhada. Estes sais sc encontram, geralmente,
recobrindo agregações de partículas argilosas.
Os solos iateríticos apresentam-se, na natureza,
geralmente nào-saturados, com índice de vazios
elevado, donde sua pequena capacidade de suporte.
Quando compactados, entretanto, sua capacidade
de suporte é elevada, sendo por isto
muito empregados em pavimentação. Após
compactado, apresenta contração se o teor de
umidade diminuir, mas nào apresenta expansão
na presença de água (Nogami et al., 1985).
2.3.8 Aterros e Solos Compactados
Aterros sào depósitos de solo criados pelo homem.
Quando simples depósitos, sem acompanhamento
tecnológico, os aterros sào de constituição
bem heterogênea c nào devem ser utilizados
como material dc apoio de fundações. Ainda
que se apresentem superficialmente com consistência
ou compacidade adequadas, podem apresentar,
em camadas mais profundas, materiais totalmente
imprevistos. A existência de pedaços de
madeira em decomposição, embalagens e materiais
semelhantes no corpo do aterro pode provocar
a ocorrência de grandes deformações quando
os aterros são carregados.
Entretanto, aterros construídos com planejamento
c controle, dentro tle uma boa técnica, podem
se constituir em camadas de adequada capacidade
de suporte.
Quando se compacta o solo, tem-se como objetivo
deixá-lo com o menor índice de vazios possível,
com os meios disponíveis. Isto porque, nestas condições,
o solo apresenta menor deformabilidade
quando posteriormente carregado. Na prática, o estado
do solo, após compactação, é expresso pelo
seu peso específico seco, ys, por ser um índice de
fácil obtenção, que não se altera, praticamente,
se ocorrer pequena variação do teor de umidade.
Em 1933, Proctor divulgou suas observações
sobre a compactação tle solos, mostrando que,
para uma determinada energia de compactação
(um certo número de passadas de um determinado
equipamento, no campo, ou certo número dc
golpes de um soquete sobre o solo contido num
molde, no laboratório), o peso específico seco
resultante é função da umidade em que o solo
estiver. A existência de maior quantidade de água,
a pa tir de um valor baixo, provoca um certo efeito
como que de lubrificação entre as partículas o
que favorece a compactação. Com a energia aplicada,
as partículas deslizam mais facilmente e se
acomodam com menor índice de vazios. A partir
de uma certo ponto, porém, o grau dc saturação
se terna elevado, a compactação nào consegue
expulsar o ar existente nos vazios, q«»e se encontra
em forma de bolhas oclusas. Existe, portanto,
para a energia aplicada, um certo teor de umidade,
denominado umidade ótima, que conduz a
um peso específico seco máximo.
Dos trabalhos de Proctor surgiu um ensaio universalmente
padronizado, freqüentemente citado
como Ensaio de Proctor, que no Brasil foi padronizado
como Ensaio Normal de Compactação (Método
MB-33, da ABNT). O solo, em diferentes
umidades, é compactado em um cilindro com 10
cm tle diâmetro e 1.000 cm 5 de capacidade, por
meio da aplicação dc 26 golpes de um soquete
pesando 25 N e caindo de 30.5 cm. em três camadas.
Os teores dc umidade e os pesos específicos
secos de cada determinação sào colocados num
gráfico, como o mostrado na Figura 2.11, donde
os parâmetros de interesse são determinados Neste
gráfico podem ser representados, também, os
pares de valores correspondentes aos diversos
graus de saturação. Observa-se que os pontos ótimos
das curvas de compactação se situam em torno
de 80 a 90 % dc saturação.
Umidade, %
Fig. 2.11- Curvas dc compactação e curvas de igual
grau dc saturação de um solo
Os resultados dos ensaios de compactação dependem
de diversos fatores. De particular importância,
para os solos brasileiros, tem sido a preparação
do solo a compactar. Com freqüência, a
amostra é previamente seca ao ar. Tal procedimento
provoca alterações sensíveis em alguns solos,
modificando seu comportamento quando
compactados. Considerando-se que na construção
dos aterros o solo nào tem sua umidade muito
alterada em relação ao seu estado na área de empréstimo,
é recomendável que a amostra nào seja
seca ao ar. Esta secagem geralmente tende a provocar
menores umidades ótimas e maiores pesos
específicos secos, em relação aos resultados de
ensaios com amostras a partir de sua umidade
natural.
Para um mesmo solo, aumentando-se a energia
de compactação, a curva se desloca para a esquerda
e para cima, como se mostra na Figura 2.11. Quando
o solo se encontra com umidade abaixo da
20
£ 19
o
£ 17
o
Pt
oo
O
o 16
15
14
0 4 8 12 16 20 24 28 32
Teor dc Umidade - %
Fig. 2.12- Resultados do ensaios de compactação de
diferentes solos (Apud Nogami ot al. 1985).
solo por ocasião da compactação. A Figura 2.13
indica csquematicamcnte as estruturas em função
destes parâmetros, conforme sugerido por Lambe
(1962). Quando com baixa umidade a atração facearesta
das partículas nào é vencida pela energia
aplicada e o solo fica com estrutura floculada. Para
maiores umidades, a repulsão entre partículas aumenta,
c a compactação as orienta, posicionandoas
paralelamente, c o solo fica com estrutura dispersa.
Para a mesma umidade, quanto maior a
energia, maior o grau dc dispersão. Este modelo,
ainda que simplificado, pois a estrutura dos solos
compactados é bastante complexa, permite justificar
as diferenças de comportamento dos solos
compactados, como se analisa nos itens 2A.3 c 2.22.
Tão importante quanto uma boa densidade de
um solo compactado, pois dela dependem suas propriedades
mecânicas, é a obtenção de material razoavelmente
uniforme. Isto é obtido, no campo, com
um bom planejamento do emprego dos equipamentos,
e, dependendo das características do projeto,
verificando periodicamente a umidade e a densidade
seca do solo, cm relaçào aos parâmetros de
laboratório, por meio de ensaios de campo.
ótima, a aplicação de mais eneigia provoca aumento
de densidade; quando a umidade é maior
do que a ótima, entretanto, maior esforço de
compactação tem pouco efeito, pois não consegue
expelir o ar dos vazios, única forma de aumentar
a densidade. Quando isto ocorre na
compactação dc campo, o fenômeno é referido
como a ocorrência de borraebudo, expressão que
descreve o aspecto do solo. Evidentemente, existem
inúmeras energias de compactação. A norma
brasileira contempla, além da energia Normal,
duas outras, denominadas Intermediária e
Modificada, de emprego comum em pavimentação.
De maneira geral, os solos apresentam densidades
máximas baixas e umidades ótimas elevadas
quando são muito argilosos. Solos siltosos apresentam
também valores baixos de densidade,
freqüentemente com curvas de laboratório mal
definidas, e sào de difícil compactação no campo.
Densidades secas máximas elevadas e umidades
ótimas baixas sào típicas de solos granulares, pouco
argilosos.
Na Figura 2.12 estão apresentados resultados de
diversos solos, sendo dc salientar que os solos
lateríticos apresentam o ramo ascendente da curva
(o ramo correspondente a umidades abaixo da
ótima) nitidamente mais íngreme do que os solos
residuais e os solos transportados não laterizados.
Tal peculiaridade tem sido, inclusive, empregada
para a identificação dos solos lateríticos (Nogami
et al.. 1985. Ignatius, 1993).
O solo compactado fica com uma estrutura que
depende da energia aplicada e da umidade do
Fig. 2.13 - Estrutura do solo compactado (Apud Lambe,
1962)
As especificações não fazem referência ao teor
de umidade cm si, ou ao peso específico seco a
ser obriflo, mas n um do<t>in dr> umidade r»m relação
à umidade ótima de laboratório e a um grau
de compactação, definido pela relação entre o peso
específico seco obtido e o peso específico seco
máximo de laboratório. Isto porque numa área dc
empréstimo o solo sempre apresenta uma certa
heterogeneidade. O comportamcn:o de dois solos
de uma mesma área, com curvas de
compactação um pouco diferentes, é mais semelhante
se os dois forem compactados com o mesmo
desvio de umidade e o mesmo grau de
compactação, do que se os dois forem compactados
com a mesma umidade e a mesma densidade seca.
As propriedades dos solos compactados, em função
PROPRIEDADES DOS SOLOS
dos parâmetros de compactação, são apresentados
nos itens 2.4.3 e 2.10.6.
Areias puras nào sào objeto de ensaios de
compactação; sua compacidade é obtida por meio
de equipamentos vibratórios, tanto no laboratório
quanto no campo. Maiores densidades são
conseguidas com a areia saturada. O processo é
controlado pela compacidade relativa obtida, definida
pela expressão (9) e não pelo grau de
compactação.
Exemplo interessante do emprego de
compactação como técnica de fundações é descrito
por Vargas (1951). No local de construção de
uma caixa d água dc 7.500 m2, na rua da Consolação
em Sào Paulo, ocorria um solo poroso de baixa
capacidade dc suporte. Fundação direta nele
provocaria recalques nào suportáveis pela estrutura,
sugerindo a necessidade de estacas para sc
atingir camada mais consistente. Foi empregado,
por ter-se mostrado mais econômica, a técnica de
remover e compactar o mesmo solo, conseguindo-se
características que permitiram a construção
com fundação direta. Provas de carga mostraram
que a pressão admissível do terreno natural, da
ordem de 80 kPa, passou a 250 kPa com a
compactação.
2.4 PERCOLAÇÃO DE ÁGUA NOS SOLOS
Com muita freqüência a água ocupa a maior
parte ou a totalidade dos vazios do solo. Submetida
a diferenças de potenciais, a água se desloca
no seu interior. O estudo da percolação da água
nos solos é muito importante porque intervém num
grande número de problemas práticos, que podem
ser agrupados em três tipos:
a) No cálculo das vazões, como, por exemplo,
na estimativa da quantidade de água que se infiltra
numa escavação:
b) Na análise de recalques, porque freqüentemente
recalques estão relacionados com diminuição dos
vazios do solo que ocorre pela expulsão de água; c
c) Nos estudos dc estabilidade, porque a tensão
efetiva (que comanda o comportamento do solo)
depende da pressão neutra da água que percola.
O entendimento do que sc passa no fluxo da
água pelo solo fica facilitado pela análise do fluxo
d'água em um permeâmetro vertical. A situação
indicada na Figura 2.14, em que nào há fluxo,
serve de referência para a condição de ocorrência
dc fluxo. O diagrama de pressões, na Figura 2.14,
mostra as tensões totais e as pressões neutras ao
longo da profundidade, sendo que a tensão efetiva
pode ser obtida pela diferença entre as duas,
ou pelo produto da profundidade pelo peso específico
submerso.
2.4.1 Cargas hidráulicas
No estudo de fluxos d'água, as energias podem
ser expressas cm termos dc cargas, que sào as
energias por unidade de peso, adquirindo, portanto,
a dimensão de altura de coluna d água. De
acordo com a equação de Bernoulli, a carga total,
b, é expressa pela soma das cargas altimétricas,
f.\, piezométrica, b ff e da carga cinética, b.
A carga altimétrica é simplesmente a diferença
dc cota entre o ponto considerado em relação a
qualquer cota definida como referência.
A carga piezométrica é a pressão da água no
ponto considerado dividida pelo peso específico
da água.
A carga cinética, igual a v 2 /2g, obrigatoriamente
considerada em fluxos em tubulações ou canais,
é totalmente desprezível no caso da percolação
pelos solos, em virtude da baixa velocidade. De
fato, as velocidades dificilmente atingem valores
da ordem dc 1 cm/scg, quando a carga cinética
seria de 0,0005 cm, valor desconsiderâvel perante
os outros.
As cargas altimétrica c piezométrica no sistema em
repouso estão representadas na Figura 2.14. O ponto
A apresenta carga altimétrica superior à do ponto
B. Neste ponto, a carga piezométrica é superior à
do ponto A. Não haverá fluxo, entretanto, pois as
\
/
z
9 A
L
areia
peneira
- i i
Fig. 2.14- Água no solo em situação estática
6 6 I FUNDAÇÕES: TEORIA E PRÁTICA
Fig. 2.15 - Água no solo com diferença de potencial
cargas totais são iguais em toda a massa, a carga
total num ponto pode ser considerada como a
diferença entre a cota atingida pela água num
piezômctro colocado neste ponto e a cota do plano
de referencia.
2.4.2 Lei de Darcy
Consideremos uma situação em que as cargas
totais nas duas faces livres do solo, como mostrado
na Figura 2.15 (a) sào diferentes, e, conseqüentemente,
haverá fluxo. Experimentalmente, o engenheiro
francês H. Darcy verificou como os diversos
fatores geométricos indicados na figura influenciavam
a vazão da água, expressando a equação
que ficou conhecida pelo seu nome:
Q = k-A (12)
L
sendo Q = vazão, h = diferença de carga entre
as duas faces livres do solo, L = o comprimento
do solo ao longo do qual a percolação ocorre, A
- área do permeãmetro, e k - uma constante para
cada solo, que recebe o nome de coeficiente de
permeabilidade.
A relação entre a carga que se dissipa na
percolação, b, e a distância ao longo da qual ela se
dissipa. L, é chamada de gradiente hidráulico, expresso
pela letra /. A Lei dc Darcy assume o formato:
Q = k . i . A (13)
A vazão dividida pela área indica a velocidade
com que a água sai do solo. Esta velocidade, é
camada de velocidade de percolação. Ela é diferente
da velocidade real da água nos vazios do
solo. Esta é maior, pois a água percola pela secçào
restringida pelas partículas. Mas é a velocidade de
percolação que indica a quantidade de água que
passa pelo solo, e a ela sào referidas as análises
de percolação. Em função dela, a Lei de Darcy
fica sendo:
v = k.i (14)
De acordo com a equação (14), o coeficiente de
permeabilidade dos solos tem dimensão de velocidade.
Ele indica a velocidade dc percolação
quando o gradiente é igual a um.
Os coeficientes de permeabilidade dos solos
podem ser obtidos por meio de ensaios de laboratório
em que se mede a vazão por meio de um
corpo de prova submetido a um gradiente hidráulico,
num permeãmetro esquematicamente representado
na Figura 2.15. Conhecidas as características
geométricas indicadas na figura, e medida a
vazão, o valor de k resulta da simples aplicação
da Lei de Darcy (equação 12).
Sendo baixa a permeabilidade do solo. empregam-se
permeâmetros de carga variável, com os
resultados sendo analisados pela integração da Lei
de Darcy ao longo do processo.
Em laboratório, o coeficiente de permeabilidade
pode também ser determinado nos ensaios de
adensamento, descritos em detalhe no item 2.9.2.
A velocidade com que os recalques ocorrem, interpretada
pela Teoria do Adensamento, permite
o cálculo da permeabilidade. Preferencialmente,
pode-se empregar a própria montagem do ensaio e
provocar uma percolação através cio corpo de prova,
ao final de cada estágio de carregamento, interpretando-a
como um ensaio de permeabilidade.
A determinação do coeficiente de permeabilidade
em lalx>ratório ê conceitualmente muito simples, mas
os ensaios são de difícil realização. Os diversos fatores
envolvidos são discutidos cm Olson e Daniel
(1979).
O coeficiente de permeabilidade pode também
ser obtido no campo, como se descreve no Capítulo
3 deste livro. Os ensaios dc campo nào
são tão bem controlados como os de laboratório,
mas resultam do comportamento dos maciços
de solo na maneira como se encontram na
natureza, enquanto os resultados de laboratório
são função da qualidade e da representatividade
da amostra.
Com dados provenientes de diversas fontes.com
resultados obtidos nas duas condições, Olson c
Daniel (1979) verificaram que a relação entre a
permeabilidade obtida em ensaio de campo c a
correspondente dc ensaios de laboratório oscilou
entre 0.38 e 64, para 90 % dos casos. Os resultados
mostram a dificuldade dc obtenção de
permeabilidades representativas e a tendência de
ensaios dc campo indicarem maiores valores. Para
esta tendência, contribui a heterogeneidade dos
maciços naturais e a maior permeabilidade na direção
horizontal.
2.4.3 Coeficientes de permeabilidade dos
solos
Os coeficientes de permeabilidade sào tão menores
quanto menores os vazios do solo, e, conseqüentemente,
quanto menores as partículas.
Para os solos granularcs, uma boa indicação do
coeficiente dc permeabilidade é dada pela correlação
estatística obtida por Hazem, com o diâmetro
efetivo do solo, D uf definido no item 2.2.
fluxo em meio poroso proposto por Kozeny e aprimorado
por Carman, é comprovada experimentalmente.
As argilas apresentam valores de k bem inferiores
aos das areias, com freqüência inferiores a 10
9 m/s. Naturalmente, quanto maior o índice de vazios
da argila, maior o seu coeficiente de
permeabilidade. A Figura 2.16 mostra a variação do
coeficiente de permeabilidade de uma argila
sedimentar da Baixada Santista,determinado cm diversos
estágios de um ensaio dc adensamento. De
maneira geral, como neste caso, verifica-se uma relação
linear entre o logarítmo da permeabilidade e
o índice de vazias.
Tensão, o' (kPa)
1 10 100 1000
3,8
3,6
3,4
o
•f3
2 3,2
0
1 3 '°
k = 100 D, 0' (15;
Nesta expressão, o diâmetro é expresso cm cm
c o coeficiente de permeabilidade em cm/s. Esta
expressão empírica é, naturalmente, aproximada
e só vale para areias c siltes não argilosos para os
quais D w pode ser determinado. A equação é
empírica, mas a proporcionalidade com o quadrado
do diâmetro tem respaldo em dedução de fluxo
de água através dc tubos capilares. Dados divulgados
por outros autores indicam que o coeficiente
100, da equação (14), superestima os valores
de permeabilidade. Valores oscilando entre 1
e 42, com média igual a 16, foram encontrados
(Lane e Washburn, 1946).
A expressão de Hazem é muito interessante, pois
indica que o diâmetro médio dos vazios das areias,
e, portanto, a sua permeabilidade, é determinado
pela sua fração mais fina, pouco interferindo
a distribuição granulométrica da porção mais
grossa.
Para os materiais granularcs, Avaria de IO"', para
areias finas a 10'* m/s, para as mais grossas. Para
pedregulhos, a velocidade de percolação já é razoavelmente
elevada e o fluxo torna-se turbulento;
r.âo sendo mais válida a Lei de Darcy.
Os coeficientes de permeabilidade das areias
variam com o índice de vazios em que elas se
encontram, podendo ser, no estado mais fofo, cerca
de 3 vezes maior do que no estado compacto.
Na faixa de índices dc vazios possíveis de cada
areia, os coeficientes de permeabilidade variam
proporcionalmente com o fator eVU+cO. A correlação
com este fator, que resulta da análise de
2,6
2,4
2,2io" 10'° 10* 10"
Coeficiente dc permeabilidade, k (m/s)
Fig. 2.16 - Coeficiente de permeabilidade de argila em
função do índice de vazios
Os solos, quando não-saturados, apresentam
coeficientes dc permeabilidade menores do que
quando saturados. Considerando-se dados experimentais
pode-se atribuir a solos com grau de
saturação de 90 % coeficientes dc permeabilidade
da ordem de 70 % do correspondente ao estado
saturado. Esta diferença nào pode ser atribuída
exclusivamente ao menor índice de vazios disponível,
pois as bolhas de ar existentes são obstáculo
ao fluxo. A situação da água na interface águaar
das bolhas é parcialmente responsável pela diferença.
O coeficiente de permeabilidade depende muito
da estrutura mineral das partículas argilosas.
Uma argila esmectita, com índice de vazios 10, é
bem menos permeável que uma argila caulinita
com índice de vazios 1. Carrill et ai (1983) reuniu
resultados de diversas fontes apresentando coeficientes
de permeabilidade equivalentes k(l+e) em
função do índice de Liqüidez, conforme definido
na expressão (10). Estes dados estão apresentados
na Figura 2.17.
Argilas sedimentares, normalmente adensadas
sob baixas tensões, portanto superficiais, podem
apresentar coeficientes de permeabilidade da or-
Permeabilidade "Normalizada", k (1 + c). (m/s)
Fig. 2.17- Coeficientes de permeabilidade
equivalentes k(1+e] em função do índice de Liqüidez
(Apud Carril etal., 1983)
dem dc IO 8 m/s, pois ficam com índices de vazios
superiores aos correspondentes ao Limite de
Liqüidez, e, portanto, com índice de Liqüidez superior
a um.
As areias argilosas têm sua permeabilidade devida
fundamentalmente ao comportamento dos finos
e sua influência no índice de vazios do solo.
Solos arenosos da decomposição de arenitos, com
cerca de 25 % de argila, freqüentes no interior do
Estado de Sào Paulo, apresentam, no estado natural,
k da ordem de 10 'cm/s, bem maior que se
esperaria cm funçào da presença da argila, em
decorrência tio elevado índice de vazios e da estrutura
em que as partículas sào agregadas de tal
forma que se formam macroporos, pelos quais a
água flui com maior facilidade. Sc a estrutura for
desfeita mecanicamente e o solo for recolocado
com o mesmo índice de vazios, a permeabilidade
passa a ser da ordem de 10 7 m/s. Este mesmo
solo, se compactado no seu peso específico seco
máximo, apresenta coeficiente de permeabilidade
entre 10" e 10» m/s.
A permeabilidade das argilas depende também
da estrutura. Em depósitos naturais, é comum que
a permeabilidade na direção horizontal seja maior
do que na direção vertical, devido à tendência
das partículas se depositarem com suas maiores dimensões
orientadas horizontalmente. O fluxo na
direção vertical é mais tortuoso do que na direção
horizontal, donde a diferença de permeabilidade.
Em depósitos naturais, é também comum a ocorrência
de camadas alternadas de granulomctrias
distintas. Neste caso, o fluxo vertical é comandado
pela permeabilidade das camadas mais finas,
de menor permeabilidade, dentro das quais ocorre
a perda de carga hidráulica. Em contrapartida,
o fluxo horizontal se faz preferencialmente pelas
camadas mais grossas, de maior permeabilidade.
Como conseqüência, a permeabilidade do sistema
é maior na direção horizontal.
O efeito da estrutura na permeabilidade é bem
evidenciado nos solos compactados. Na Figura
2.18 estão apresentados resultados de ensaios
sobre corpos de prova moldados cm diferentes
condições de umidade e de densidade seca, de
amostra dc solo arenoso fino com cerca dc 30 %
de argila, da área de empréstimo da Barragem dc
Ilha Solteira. Observa-se que, para a mesma umidade
de moldagcm a permeabilidade é tanto menor
quanto maior a densidade seca. Tal comportamento
é devido simplesmente ao menor índice
de vazios correspondente às maiores densidades.
Para corpos dc prova com o mesmo índice dc
vazios, a permeabilidade diminui com o aumento
do teor de umidade de compactação, apesar do
grau de saturação aumentar com a umidade. A
própria percolação eleva o grau dc saturação das
amostras mais secas. A diferença dc
permeabilidade é atribuída à estrutura do solo. A
estrutura floeuiada, no ramo seco, proporciona
uma permeabilidade maior do que estrutura dispersa
no ramo úmido. Para o mesmo volume de
vazios, a percolação é mais fácil em pequeno número
de canais mais largos do que em grande
número dc canais mais finos.
17
S 16
15
7 x lo * N V 1 0
\ \ N
10 -9
\ ^ S
N. -.SUO
" «iio-
• v 8 • mo v0
N V. / ^ v 1x10
s\ S s
/
S
N s
2Í10- 7 1
»-2 x lC'°Coef.ciente dc PermeaCMidode, '
m /s
19 20 21 22 23 24 25
Umidade (%)
Fig. 2.18 - Coeficientes dc permeabilidade de argila
compactada, cm função dos parâmetros de
compactação
2.5 TENSÕES NO SOLO
2.5.1 Conceito de tensões em meio
partículacio
O solo é constituído dc partículas. Parte das forças
aplicadas ao solo são transmitidas, através da
massa, de partícula a partícula. A água presente
nos vazios do solo também sc encontra sob pressão,
mas dc uma maneira distinta, como será verificado
adiante.
Consideremos, inicialmente, a maneira como as
forças se transmitem de partícula a partícula, que
é muito complexa, e depende do tipo de mineral.
No caso de partículas cm que as três dimensões
ortogonais sào semelhantes, como os grãos de
Fig. 2.19- Esquema para definição dc tensões num
meio particuladc
areia, a transmissão de forças se faz através do
contacto direto de mineral a mineral. No caso de
partícula de mineral argila, a transmissão pode
ocorrer através da água quimicamente adsorvida,
como descrito em 2.2. í. Em qualquer caso. entretanto,
a transmissão se faz nos contadas e, portanto,
em áreas muito reduzidas em relação à área total.
Um corte plano numa massa de solo interceptaria
grãos, vazios e, eventualmente, alguns planos
de contacto. Considere-se, porém, que tenha sido
possível colocar uma placa plana no interior do
solo, sem perturbá-lo, como se mostra
esquematicamente na Figura 2.19. Os grãos que
estão cm contacto com a placa são carregados
pelos que se situam acima e transmitem forças à
placa. Estas podem ser decompostas em normais
e tangenciais à superfície. Nào seria possível desenvolver
modelos matemáticos que representassem
isoladamente as forças transmitidas, e sua ação
é considerada pelo conceito de tensão. A somatória
das componentes normais, dividida pela área da
placa, é definida como tensão normal.
0-IN / (área) (16>
A somatória das forcas tangenciais, pela área. é
identificada como tensão cisalbattíe.
1- ET/(área) (17)
O que se considerou para o contacto entre o
solo e a placa pode ser também assumido para
qualquer outro plano, como o plano Q na Figura
13, lendo-se que levar em conta as forças
transmitidas no interior das partículas
scccionadas.
As tensões assim definidas, e que são consideradas
na mecânica dos solos, sào muito menores
do que as tensões que efetivamente ocorrem nos
contactos físicos entre as partículas. Estas chegam
a 700.000 kPa. enquanto que na engenharia raramente
se trabalha com tensões acima de 1.000 kPa.
As áreas de contacto entre as partículas sào bem
menores do que 1 % da área total. Considera-se,
mesmo, para efeito prático, que as áreas de
contacto sejam desprezíveis.
O conceito de tensão definido conduz ao conceito
de tensão da Mecânica do Contínuo. As tensões
definidas serão consideradas atuando num
ponto, definindo um estado de tensões num cubo
infinitesimal dc um material homogêneo. Ao se
fazer assim, nào se está cogitando se este ponto,
na massa, está materialmente ocupado por um grão
ou um vazio. A mesma consideração, aliás, é feita
para os outros materiais de emprego na Engenharia.
Num concreto, por exemplo, um ponto pode
estar ocupado por um agregado, por um aluminato
hidratado do cimento ou por um vazio. No solo,
pela sua constituição, o conceito parece chocar mais.
2.5.2 Pressão neutra e conceito de tensão
efetiva
As tensões resultantes da somatória das forças
transmitidas pelas partículas, como exemplificado
na Figura 2.19, sào denominadas tensões efetivas
(C >. Se o solo estiver seco, elas sào também as
tensões totais (a).
Considere-se, agora, que os vazios estejam cheios
de água. Esta água estará com uma certa pressão.
que é denominada pressão neutra (u). Neste
caso, a tensão total num plano Q será a soma da
tensão efetiva (resultante das forças transmitidas
pelas partículas) e da pressão neutra, dando origem
a uma simples equação proposta por Terzaghi
e cjue sintetiza um conceito fundamental da Mecânica
dos Solos:
a'= o - u (18)
Considere-se uma partículap na Figura 2.19, com
os vr.zios cheios de água. Se a pressão da água for
aumentada do mesmo valor que a tensão total, a
partícula será comprimida porque a pressão da
água atua em toda a sua periferia. Considerando
que as áreas de contacto sào extremamente pequenas
e. também, que elas ocorrem tanto nos
contactos acima como abaixo da partícula p, as
forças transmitidas às partículas s e /, abaixo delas,
nào se alteram. Em conseqüência, o solo nào
se deforma por efeito deste acréscimo dc tensão,
pois as deformações dos solos sào resultantes do
deslocamento relativo das partículas, em função
das forças entre elas transmitidas. A expressão
empregada para a pressão da água (pressão neutra)
tem justamente o sentido de realçar a
inexistência de qualquer efeito mecânico desta
parcela da tensão total.
O conceito de pressão neutra pode ser
visualizado quanto se observa uma esponja colocada
dentro de um recipiente com água até a sua
superfície superior; se o nível d água foi elevado,
no recipiente, a pressão total sobre a esponja aumenta,
mas a esponja não se deforma. Isto porque
todo o acréscimo de pressão é pressão na
água, que atua também no interior da esponja,
comprime suas fibras, mas nào a deforma. O mes-
mo ocorre nos solos, e uma areia ou uma argila
na plataforma marítima, ainda que esteja sob 200
m de profundidade, pode se encontrar tão fofa
ou mole quanto o solo no fundo de um lago de
pequena profundidade.
No mesmo esquema da Figura 2.19, se a tensão
total num plano aumentar, sem que a pressão da
água aumente, as forças transmitidas pelas partículas,
nos seus contactos, se alteram, e o material
se deforma pelo deslocamento relativo delas. O
aumento de tensão foi efetivo. O que ocorre é
análogo ao que se sente quando se carrega uma
criança no colo, dentro de uma piscina, partindose
da parte mais profunda para a mais rasa: temse
a sensação de que o peso da criança aumentou.
Na realidade foi seu peso efetivo que aumentou,
pois a pressão da água nos contactos de apoio
diminuiu na medida em que a posição relativa da
água baixou.
O princípio da tensão efetiva, formulado pela
equação (18) é plenamente justificado por exemplos
como os acima apresentados. Ainda assim,
só foi formulado por Terzaghi (1936) após intensa
verificação experimental com solos e outros materiais,
pela qual ficou evidenciado que certos aspectos
do comportamento do solo, notadamente
a deformabilidade e a resistência, dependem das
variações da tensão efetiva.
Deve ser notado que a pressão neutra nào interfere
nas tensões de cisalhamento, pois estas
ocorrem paralelamente ao plano considerado, e a
água não tem nenhuma resistência ao
cisalhamento, ao contrário das partículas, que para
se deslocarem devem vencer o atrito entre elas.
2.5.3 Tensões devidas ao peso próprio
Nos solos ocorrem tensões devidas ao peso próprio
e às cargas aplicadas. Quando a superfície do
terreno é aproximadamente horizontal, a pressão
num plano horizontal a uma certa profundidade é
igual ao peso de um prisma de terra sobre este plano,
dividido pela área correspondente. Portanto:
a = y. z (19)
Quando o solo é constituído de camadas aproximadamente
horizontais, a tensão normal resulta
da somatória do efeito das diversas camadas. A
Figura 2.20 mostra um diagrama de tensões com a
profundidade de uma secçào de solo, com o nível
d água na superfície.
A pressão neutra depende do nível água, definido
com a cota onde a pressão da água é igual à
pressão atmosférica. A pressão da água cresce linearmente
com a profundidade, independentemente
do volume de vazios do solo. A tensão
efetiva resulta da diferença das duas, como indicado
na Figura 2.20.
Se a superfície é horizontal, intuitivamente se
deduz que a tensão cisalhante num plano horizontal
é nula, pois os efeitos nas diversas direções
se contrabalançam.
Coeficiente dc empuxo cm repouso, K o .
Assim como se definiram as tensões num plano
horizontal, elas poderiam ser consideradas em
qualquer outro plano no interior do solo. De particular
interesse sào as tensões nos planos verticais.
Nestes também não ocorrem tensões de
cisalhamento. devido à simetria. A tensão normal
no plano vertical depende da constituição do solo
e do histórico de tensões a que ele esteve submetido
anteriormente. Normalmente ele é referido à
tensão vertical, sendo a relação entre as duas denominada
coeficiente de empuxo em repouso, K .
Se um solo é formado pela sedimentação livre
dos gràos, ao se acrescentar uma nova camada de
Profund. (m)
N.A
v~
0
Argila, pouco
arenosa
Y= 15 kN/m 3
Areia argilosa
y= 19 kN/m 3
Argila arenosa
y= 16 kN/m 3
a)
a (kPa)
20 40 60 80 100
b)
u (kPa)
20 40 60
c)
<*' (I
20 40
60
r -
Fiq. 2.20 - Tensões totais, neutras e efetivas atuantes no subsolo
material, a tensão vertical num plano horizontal
aumenta de valor igual ao carregamento. Devido
ao atrito entre as partículas, o acréscimo de tensão
num plane vertical não é tão grande. O valor
dc Ko é menor do que a unidade situando-se entre
0,4 a 0,5 para areias e 0,5 a 0,8 para as argilas.
Resultados de laboratório, apresentados na Figura
2.21, mostram que o valor de Ko pode ser estimado
pela plasticidade do solo ou por seu ângulo
de atrito interno efetivo. Com relação a este
parâmetro, é muito empregada a correlação
estabelecida porjaki ("1948):
Ko - (1-sen <J>') <20>
K,
0.8
0.7
0,5
0,4
0,3
12 16 20 24 28 32 36
Angulo dc atrito, 0 (graus)
20 40 60 80 100 120
índicc dc plasticidade, IP
Fig. 2.21 - Valores de Ko de laboratório para argilas
remoidadas normalmente adensadas (Apud Ladd et al..
1977)
Quando um solo é aliviado de tensões pela remoção
de uma camada superficial, por exemplo
por erosão, as tensões verticais sào reduzidas do
valor correspondente, mas as tensões horizontais
nào sofrem a mesma redução, pois o atrito entre
as partículas é mobilizado no sentido contrário ao
da formação do solo. Fm conseqüência, o Ko é
maior do que os valores acima referidos, podendo
ser, inclusive, superior a um. Para esta situação,
o valor de Ko tem sido estimado a partir da
equação empírica de Schmidt (19ó(>):
Ko 3 (1 sen õ' > (OCR)— (21)
sendo (OCR) a razão de sobre adensamento, relação
entre a máxima tensão aplicada ao solo e a
tensão atuante na situação considerada.
A estimativa do valor de Ko depende do conhecimento
completo da história geológica dos depósitos,
sendo impossível sua determinação
laboratório para os solos residuais ou
pedologicamente (Pinto e Nader, 1991).
2.5.4 Estado de tensões
em
evoluídos
Num plano genérico no interior do subsolo, a
tensão atuante nào é necessariamente normal ao
plano. Para efeito de análises, ela pode ser decomposta
numa componente normal e noutra atuante
no plano, como se mostra na Figura 2.11 (a).
A componente normal é chamada tensão normal,
o. e a componente tangencial, tensão cisalhante, x,
embora elas nào sejam tensões que possam existir
individualmente.
Em Mecânica dos Solos, as tensões normais sào
consideradas positivas quando sào de compressão,
e as tensões de cisalhamento sào positivas
quando atuantes no sentido anti-horário, considerando-se,
também, os ângulos como positivos
quando no sentido anti-horário.
Em qualquer ponto do solo. a tensão atuante e
a sua inclinação cm relação à normal ao plano (e
conseqüentemente, suas tensões normal e
cisalhante) variam conforme o plano considerado.
Demonstra-se que sempre existem três planos
cm que a tensão atuante é normal ao próprio
plano, nào existindo a componente de
cisalhamento . Demonstra-se, ainda, que estes
planos, em qualquer situação, sào ortogonais entre
si (van Langendonk, 1954). Estes planos recebem
o nome de planos de tensão principal ou
planos principais, e as tensões neles atuantes sào
chamadas tensões principais. A maior delas é a
tensão principal maior, a r a menor é a tensão principal
menor, a^, e a outra é chamada de tensão
principal intermediária, o,.
Em casos especiais, o, = o,. Esta situação ocorre,
por exemplo, no caso das tensões num solo
normalmente adensado, quando a superfície é hoii/oi:tal:
tensão veitical é a leusào piineipal maior
Fig. 2.22 - Estado de tensões no solo e circulo de Mohr
e as tensões horizontais são todas iguais. Também
pode ocorrer que todas as tensões principais sejam
iguais; é o caso do estado hidrostático de tensões,
comum em ensaios de lal>oratório quando corpos
de prova são submetidos a confinamento.
Nos problemas de Engenharia de Solos, envolvendo
a resistência do solo, interessam a t e a,
pois o critério de resistência nào depende de o,.
Dc maneira geral, se estuda o estado de tensões
no plano principal intermediário, em que ocorrem
a, e G y que é o caso da seçào transversal de
uma fundação corrida ou de uma vala escavada.
As tensões principais intermediárias só sào consideradas
em problemas especiais.
No estado plano de deformações, conhecendose
os planos e as tensões principais num ponto,
pode-se determinar as tensões em qualquer plano
passando por este ponto. Este cálculo pode
ser feito pelas equações de equilíbrio dos esforços
aplicadas a um prisma triangular definido pelos
dois planos principais e o plano considerado,
como se indica na Figura 2.22 (b). Destas equações,
obtêm-sc as seguintes expressões que indicam
a tensão normal, a, e a tensão cisalhante, t,
em função das tensões atuantes nos planos principais
a, e a,, e do ângulo a que o plano considerado
determina com o plano principal maior:
a _ g l + g 3 , g l~ q 3
2 2
T = £iZ£i c. os(2a)
2
(22)
(23)
O estado de tensões atuantes em todos os planos
passando por um ponto pode ser representado
graficamcnte num sistema dc coordenadas em
que as abeissas são as tensões normais e as ordenadas
sào as tensões cisalhantes. Neste sistema,
as equações (22) e (23) definem um círculo como
representado na Figura 2.21 (c). Este é o círculo
de Mohr. Ele é facilmente construído quando são
conhecidas as duas tensões principais (como as
tensões vertical e horizontal num terreno com superfície
horizontal), ou as tensões normais e de
cisalhamento cm dois planos quaisquer (desde que
nestes dois planos as tensões normais nào sejam
iguais, o que tornaria o problema indefinido).
Construído o círculo de Mohr, ficam facilmente
determinadas as tensões em qualquer plano.
Identificado um plano pelo ângulo a que forma
com o plano principal maior, as componentes da
tensão atuante neste plano sào determinadas pela
intersecçào da reta passando pelo centro do círculo
e formando um ângulo 2a com o eixo das
abeissas com o próprio círculo, como se deduz
das equações (22) e (23). O mesmo ponto pode
ser obtido pela intersecçào com o círculo da reta
que, partindo do ponto representativo da tensão
principal menor, forma um ângulo a com o eixo
das abeissas.
Da análise do círculo dc Mohr, diversas conclusões
podem ser obtidas, como as seguintes:
1) A máxima tensão dc cisalhamento ocorre em
planos que formam 45° com os planos principais.
2) A máxima tensão de cisalhamento é igual à
semi-soma das tensões principais (a, + a^/2
3) As tensões de cisalhamento em planos
ortogonais sào numericamente iguais, mas de sinal
contrário.
•1) Em dois planos formando o mesmo ângulo
com o plano principal maior, com sentido contrário,
ocorrem tensões normais iguais e tensões de
cisalhamento numericamente iguais, mas de sentido
contrário.
Geralmente, na Mecânica dos Solos, nào se dá
importância ao sinal das tensões dc cisalhamento,
pois na maioria dos problemas dc engenharia de
solos o sentido das tensões é intuitivamente conhecido.
Por isto, só se representa am semicírculo,
projetando-se as tensões cisalhantes negativas
para o espaço positivo.
O estado de tensões pode ser determinado tanto
em termos de tensões totais, como de tensões
efetivas. Considerando-se as tensões principais
a. e a, c a pressão neutra, u, num solo, os dois
círculos indicados na Figura 2.23 podem ser
construídos. Dois pontos fundamentais, ilustrados
por esta figura são:
1) O círculo dc tensões efetivas se situa deslocado
para a esquerda, em relação ao círculo de
tensões totais, de um valor igual à prcssào neutra.
Tal fato é decorrente da pressão neutra atuar
hidrostaticamcnte, reduzindo, dc igual valor, as
tensões normais cm todos os planes. No caso de
pressões neutras negativas, o deslocamento do
círculo é, pela mesma razão, para a direita.
2) As tensões de cisalhamento em qualquer plano
sào independentes da pressão neutni, pois a água
não transmite esforços de cisalhamento. As tensões
de cisalhamento são devidas somente à diferença
entre as tensões principais e esta diferença é a mesma,
tanto em tensões totais, como cm tensões efetivas.
Fig. 2.23 - Efeito da pressão neutra no estado de
tensões em um elemento de solo
2.5.5 Trajetórias de tensões
Quando se deseja representar variações do estado
de tensões num solo, num ensaio ou numa
situação tle engenharia, os diversos círculos de
Mohr podem ser desenhados. Na Figura 1.11 (a)
está representado um caso simples em que a tensão
principal menor se mantém constante e a tensão
principal maior aumenta. Quando as duas tensões
principais variam simultaneamente, entretanto,
esta representação gráfica pode se tornar confusa.
Diante disto, criou-se a sistemática de representar
as diversas fases de carregamento pela representação
exclusiva dos pontos de maior ordenada
de cada círculo, como os pontos 1, 1 e 3 da
Figura 2.24 (a). A curva resultante destes pontos
constitui a trajetória de tensões (Figura 1.11 (b)).
tensão cisalhante no plano de máxima censào
cisalhante.
Na Figura 2.24 (c) é apresentada uma trajetória
de tensões, em que os seguintes carregamentos
podem ser identificados:
• trecho AB: as tensões o. co i aumentam tle zero
a 100 kPa;
• trecho BC a tensão o t se mantém constante, e a
tensão s. aumenta a 200 kPa;
• trecho CD: as tensões o, e aumentam numa
relação constante, d a I / da, = 2;
• trecho DE: a tensão O, diminui enquanto O, aumenta
de igual valor;
• trecho EF: as tensões o, e a diminuem dc igual
valor; e
• trecho FG: a tensão o s diminui, enquanto cr. se
mantém constante.
Quando se representam simultaneamente as trajetórias
de tensão efetiva c de tensão total, esta
representação é muito útil pois a diferença de
abeissas em qualquer ponto intlica a pressão neutra
que está ocorrendo.
2.5.6 A capilaridade nos solos
Fig. 2.24 - Representação do estado dc tensões pela
trajetória de tensões
O estado de tensões, numa trajetória, é expresso
pelos parâmetros se / abaixo definidos:
s - (c, + a 3)/ 2 (24)
/ - (c, - O 4)/2 (25)
Os símbolosp e </, anteriormente empregados para
definir estes parâmetros, atualmente sào reservados
para indicar a tensão octaédrica (igual à média
das três tensões principais) e a tensão
desviadora (diferença entre as tensões principais
maior e menor), conforme proposto originalmente
na Mecânica dos Solos do Estado Crítico.
O parâmetro s é a média das tensões principais
e t a semidiferença das tensões principais, e representam.
respectivamente, a tensão normal e a
Os vazios tios solos sào tào pequenos que podem
ser associados a tubos capilares interconectados, ainda
que muito irregulares. É natural, poitanto, que
quando um solo seco é colocado em contacto com
a água, esta seja sugada para o interior do solo, como
ocorre quando um tubo capilar é colocaco em
contacto com a água livre.
A água sobe num tubo capilar em virtude da
tensão superficial existente na interface água-ar,
conforme descrito no item 2.2.5, e das forças eletroquímicas
entre a água e a superfície tio tubo. A
altura de ascensão é inversamente proporcional
ao diâmetro do tubo capilar, em virtude da curvatura
da superfície de contacto.
No solo a altura de ascensão tlepende do diâmetro
dos vazios. Como estes sào de dimensões
muito variadas, a superfície superior de ascensão
nào fica bem caracterizada, e é até possível que
bolh.ts de ar fiquem enclausuradas no interior do
solo. Ainda assim, existe uma altura máxima de
ascensão capilar que depende da ordem de grandeza
dos vazios, e, portanto, do tamanho dos vazios.
Depende do tipo dc solo: alguns poucos
milímetros no caso tle pedregulhos, um a dois
metros no caso das areias, três a quatro metros
para os siltes e dezenas de metros para as argilas.
Considere-se, de outro lado, um solo saturado,
com o nívc' d água na sua superfície. Se este nível
for rebaixado, a dgua nos vazios tenderá a descer.
A esta tendência, se contrapõe a tensão superficial,
formando meniscos capilares. A pressão da
água entre a superfície e o nível d água livre é
Siltc orenoso
í : 18kN/m 3
K 0= 0,5 ^ N A
o)
Prol. tm) tf, u ( kPo)
-20 O 20 40 SO 80 100
0,4 0,6 1.2
" i ' ' > I
Areio
^ : 20 kN/m 3
K o : 0,4
Arqilo
í = 15 hN / m 3
<0* O. 7 *
Figura 2.25 - Tensões no subsolo, com nível d'ãgua abaixo da superfície
negativa. As partículas dc água tendem a cair pela
ação da gravidade, mas sào sustentadas pela tensào
superficial, como ocorre cm um tubo capilar.
O valor da pressáo negativa em qualquer ponto é
igual à altura em relação ao nível d'água livre multiplicada
pelo peso especifico da água, da mesma
forma que a pressào positiva abaixo do nível
d'água é função da profundidade cm relação ao
nível cPágua livre.
A Figura 2.25 apresenta as tensões no subsolo
semelhante ao da Figura 2.20, com o nível d'água
rebaixado de 2 m. Como a pressào neutra diminui
de 20 kPa cm toda a profundidade, a tensào efetiva
aumentou deste valor. Na região do rebaixamento,
as pressões neutras sào negativas. Dc acordo
com o conceito de tensão efetiva (equação 18), a
tensào vertical efetiva é maior do que a tensào total.
Quando as tensões no subsolo sào devidas ao
peso de camadas a cie sobrepostas, a tensão horizontal
efetiva 6 menor do que a tensào vertical
efetiva, devido ao atrito entre as partículas. No
caso de tensões devidas a pressão neutra negativa,
como no rebaixamento em consideração, o
efeito é, em princípio, hidrostático, provocando
aumento igual nas três tensões principais. A variações
dc tensões efetivas correspondem deformações.
Ao aumento da tensào efetiva vertical, o solo
apresenta recalque: ao aumento da tensào horizontal,
o solo pode ou não deformar-se. Sc nào
sc deformar nesta direção, a tensão horizontal total
fica sendo negativa nas proximidades da superfície.
Sc, entretanto, ocorrerem deformações,
formando-se trincas, a tensão horizontal total cai
a zero na superfície, e o coeficiente dc empuxo
em repouso, acima do nível d r água é maior, tendendo
a um na superfície, como mostrado na Figura
2.25.
A água livre, em condições normais, nào suporta
pressões de tração superiores a uma atmosfera
(aproximadamente 100 kPa); ocorre cavitação. Verifica-se
experimentalmente, entretanto, que nos
meniscos capilares estas pressões podem ser muito
maiores. Por isto, a ascensão capilar nos solos
pode ser muito superior a 10 m.
O diagrama de pressões neutras, como mostrado
na Figura 2.25 é válido sempre que a água
nos vazios do solo estiver em equilíbrio estático
com o nível d'água livre, mas o diagrama de tensões
efetivas só é válido se o solo es:ivcr saturado.
Nào havendo saturação, a tensào efetiva depende
também da pressào do ar nos vazies, que é nula.
Lambe e Whitman (1969) apresentam a alternativa
de se considerar uma média entre a pressào
neutra negativa da água e a pressào nula do
ar. com ponderação correspondente à participação
de cada fase. Ou seja, que a pressào nos
vazios a ser deduzida da tensào total seja S.n, t.
O assunto será analisado com mais detalhes no
item 2.10.3.
Acima de uma certa altura sobre o nível d'água,
a água existente nos vazios não se comunica com
o lençol freático. Fia se situa nos contactos entre
os grãos, formando meniscos capilares, como se
mostra, esqucmaticamente, na figura 2.26. Se existe
um menisco capilar, a água se encontra com pressão
abaixo da pressào atmosférica. A tensào superficial
tende a aproximar as partículas, ou seja,
aumenta a tensão efetiva no solo, que é a resultante
das forças que se transmitem de grão a
grão. Esta tensào efetiva confere ao solo uma
coesão aparente, como a que permite a
moldagem de esculturas com as areias dc praia.
Aparente porque não permanece sc o solo se
saturar ou secar.
og u o
Fig. 2.26 - Tensão capilar e coesão aparente
oquo
Fig. 2.27- Tensões num solo com fluxo ascendente
A coesão aparente é freqüentemente referida às
areias, porque nas areias ela se desfaz com facilidade
devido à facilidade de secagem ou de infiltração
de água. Entretanto, é nas argilas que a
cocsào aparente (devida a meniscos capilares) é
mais importante, podendo atingir elevados valores
em virtude das reduzidas dimensões dos vazios.
2.5.7 Tensões devidas à percolação
O estado de tensões analisado até o presente
considera equilíbrio das cargas hidráulicas, e, portanto.
inexistência dc percolação. Se ocorrer uma
diferença de cargas totais, a percolação altera as
tensões. Para a análise do fenômeno, considere-se a
situação representada na Figura 2.27. A diferença dc
cargas totais na facc de entrada e de saída do fluxo
é b, e a ela conesponde a pressão by u.
Esta carga se dissipa em atrito viscoso na
percolação através do solo. É uma energia que se
dissipa por atrito, provocando um esforço de arraste
na direção do movimento. Esta força atua
nas partículas, tendendo a carregá-las e só nào o
faz porque o peso das partículas a ela se contrapõe,
ou porque o solo está contido por outras
forças.
A força total dissipada é:
F-b.Y„,A
onde A é a área do corpo de prova.
(26)
Num fluxo uniforme, esta força se dissipa uniformemente
em todo o volume tle solo, L.A, de
forma que a força por unidade de volume é:
L.A
(27)
sendo j denominado força de percolação. Observa-se
que ela é igual ao produto tio gradiente hidráulico,
adimensional, pelo peso específico da água.
A força de percolação é uma do mesmo modo
como o peso o é. De fato, a força de percolação
atua da mesma forma que a força gravitacional.
As duas forçam as partículas em relação às que
nela se tocam, c. portanto, contribuem para as
tensões efetivas. Enquanto a força gravitacional
atua sempre no sentido vertical descendente, a
força de percolação atua na direção do fluxo. Ocorrendo
fluxo d'água no sentido vertical ascendente,
ela se contrapõe à ação da gravidade. No sentido
descendente, elas se somam. Quando o fluxo
ocorre em qualquer outra direção, a força de
percolação atua nesta direção; sua contribuição
às tensões vertical e horizontal pode ser determinada
pela decomposição nestas duas direções.
Na Figura 2.27(b) está representado o diagrama
das tensões totais e das pressões neutras ao longo
da altura do corpo de prova. A tensão efetiva,
diferença entre as duas, varia linearmente com a
profundidade e, na face inferior, vale:
a' = Líy - y w)~ h.y w
expressão da qual se determina:
= Uy su,H>
(28)
(29)
A tensão efetiva, portanto, tanto pode ser calculada
como a diferença entre a tensão total e a pressão
neutra, como pela consideração do peso específico
submerso e da força de percolação.
Se o fluxo for descendente, os cálculos são semelhantes,
mas a tensão efetiva aumenta com a
profundidade.
No exemplo da Figura 2.27, considere-se que a
carga hidráulica aumente progressivamente. A tensão
efetiva ao longo de toda a altura irá diminuindo.
até o instante em que se torne nula. Nesta
situação, as forças transmitidas de grão a grão sào
nulas, pois a ação do peso dos grãos (gravidade»
se contrapõe à açào de arraste por atrito da água
que percola para cima (força de percolação).
Como a resistência das areias ê proporcional à
tensão efetiva, quando esta se anula, a areia perde
completamente sua resistência. A areia fica num
estado definido como areia movediça.
Para se conhecer o gradiente que provoca o
estado de areia movediça, determina-se o valor
que corresponde à tensão efetiva nula na expressão
(30), donde:
L = X u,/Y w (30)
Este gradiente é chamado gradiente crítico. Seu
valor é da ordem de um, pois o peso específico
submerso das areias é da ordem do peso específico
da água ( 10 kN/m 5 ).
Logicamente, só ocorre o estado dc areia movediça
quando o gradiente atua dc baixo para cima.
No sentido contrário, quanto maior for o gradiente,
maior a tensão efetiva.
Note-se que areia movediça não caracteriza um
tipo dc areia, mas o estado em que uma areia
pode se encontrar. Nào existem aigilas movediças,
pois as argilas apresentam consistência mesmo quando
a tensão efetiva é nula. Teoricamente, poderiam
ocorrer areias grossas c pedregulhos movediços, mas
as vazões correspondentes ao gradiente crítico seriam
tão elevadas que nào é fácil identificar uma situação
em que este estado se mantivesse. Areia movediça
é uma situação típica de areias finas.
A crendice popular de que uma pessoa pode
ser "sugada" por uma areia movediça, reforçada
por cenas de cinema cm que isto é mostrado, nào
tem respaldo técnico. A areia movediça se comporta
como um liqüido de peso específico da ordem
do dobro do peso específico da água. Ora,
se o corpo humano bóia na água, na areia movediça
nào deve afundar mais do que a metade dc
seu volume. Outra maneira de ver a questão é
considerar que a força de percolação atua no corpo
arrastando-o para cima, da mesma maneira que
o faz com os gràos de areia. A presença dc um
corpo diferente pode alterar as condições de fluxo
e uma pessoa ou animal que caia na areia
movediça, debatendo-se nela. pode acabar nela
mergulhando, mas a areia nào o "arrasta" para
baixo.
Areias movediças, na natureza, sào de rara ocorrência.
Mas o homem é capaz de criar esta situação
em diversas de suas obras como, por exemplo,
as de contenção dc água ou cm escavações.
Daí a importância do assunto.
Obras de contenção como barragens e diques,
formando reservatórios, provocam a infiltração da
água pelas fundações, fazendo-a aflorar a jusante.
Neste movimento ascendente o gradiente poderá
ser elevado, diminuindo a tensão efetiva do solo
e, eventualmente, comprometendo a estabilidade
da própria obra. Em obras de escavação abaixo
do nível d'água, com rebaixamento deste nível
com bombeamento, o fluxo ascendente da água
pode diminuir a capacidade dc suporte do solo.
levando-o eventualmente até a ruptura.
Quando a perda de resistência se inicia num
ponto, ocorre uma erosão neste porto, o que provoca
uma concentração do fluxo para esta região,
com aumento do gradiente, nova erosão, e assim
progressivamente, formando-se um furo que evolui
regressivamente para o interior da massa. Este
fenômeno, conhecido como u piping\ entubamento
ou erosão regressiva, é uma das mais freqüentes causas
de ruptura de barragens. A heterogeneidade natural
dos depósitos de areia, ocasionando concentração
da percolação em zona mais permeável, justifica
que se considerem elevados coeficientes de segurança
com relação a este aspecto.
2.6 COMPORTAMENTO
TENSÃO-DEFORMAÇÃO E RESISTÊNCIA
DOS SOLOS
Tradicionalmente, os problemas geotécnicos sào
considerados em dois grupos distintos: a análise
dos recalques ou deformações e a análise da estabilidade
ou ruptura. Para o primeiro grupo, o solo
é caracterizado pela relação tensão-deformaçào.
empregando-se a teoria da elasticidade. Para a análise
da estabilidade, verifica-se o equilíbrio limite
pela teoria da elasticidade, desconsiderando a
deformabilidade do solo pois as nipturas ocorrem
com grandes deformações.
As citadas teorias sào ainda a base da maioria
das análises empregadas na engcnliaria de fundações,
e seus princípios básicos serão revistos neste
item. Entretanto, nào se pode deixar dc mencionar
o advento de modernas teorias elastoplásticas que
procuram conciliar num único modelo constitutivo
tensões normais, tensões de cisalhamento e variação
de volume. Este enfoque, qae recebeu o
nome dc Mecânica dos Solos do l-stado Crítico,
teve início no desenvolvimento do modelo Cam-
Clay, por Roscoe e equipe (Schofield e Wroth,
1968) e já se constitui na estrutura básica de novos
livros didáticos de Mecânica dos Solos (Wood,
1990) (Atkinson, 1993). Ainda que nào incorporado
na técnica corrente de projeto, os conceitos da
Mecânica dos Solos do Estado Critico têm sido
muito úteis para o entendimento do comportamento
reológico dos solos.
Quando o solo é submetido a solicitações externas,
por meio de carregamentos ou dcscarrcgamentos
(escavações), as tensões no seu interior
se alteram. Havendo alteração das tensões efetivas,
o solo se deforma, cm conseqüência de diversos
fatores: (1) a compressão das partículas,
que é geralmente muito pequena; (2) algumas partículas
com formato de placas, como as micas e as
argilas, podem fletir; (3) alguns grãos podem se
quebrar, o que é importante cm casos específicos
que serão referidos adiante; e (4) as partículas es-
corregam cnirc si c se rearranjam. Este último aspecto
é nitidamente mais importante que os demais,
dele resultando as deformações observadas
externamente ao solo.
O número de contactos entre os gràos é enorme,
impossibilitando qualquer análise de comportamento
do solo pela consideração do que ocorre
nos contactos. O resultado das forças transmitidas
entre os gràos é substituído pelo conceito de
tensões efetivas (item 2.5.2) e o comportamento
dos solos é estudado pela aplicação da teoria da
elasticidade, para as deformações, e pela consideração
do equilíbrio limite, para as rupturas.
2.6.1 Deformações no solo
A relação entre as tensões e as deformações,
na teoria da elasticidade, é expressa por meio de
módulos, cujo significado é resumido a seguir
Módulo de elasticidade
Um corpo de prova de um material, submetido
a uma força normal de compressão, se deforma,
encurtando-se, como se mostra na Figura 2.28. O
encurtamento, dividido pelo comprimento inicial,
denominado deformação, £, é proporcional à tensão,
a, que atua na seção transversal. Esta hipótese
básica, se reflete pela Lei de f looke, que é expressa
pela equação:
E-^L
e. (31)
sendo li o módulo de elasticidade ou módulo de
Young do material. Ao ocorrer a deformação na
direção da força aplicada, ocorrem também deformações
laterais.
As deformações normais à direção da força aplicada,
£ 2, c £, sào proporcionais a £,, e expressas
por:
e 2 = e, = -v6 |
sendo v o coeficiente de Poisson.
(32)
Se ao mesmo corpo forem aplicadas tensões
segundo as três direções ortogonais, as deformações
em cada direção serão a soma das deformações
provocadas por cada uma das forças
externas. As deformações, nas três direções, serào;
C] = — (<?[ - \XT > - WJJ )
=7^2-W, -W,)
b
e2 = ~(<*2 " " ^3)
(33)
(34)
(35)
Estas equações indicam os acréscimos de deformação
em. função dos acréscimos de tensões
e se somam a deformações eventualmente
preexistentes.
A partir destes valores, tem-se a variação
volumétrica, £.:
e v = £, + e : + £, (36)
H
ei
£3
dH/H
dR/R
Em função da tensão aplicada, a variação
volumétrica fica com a seguinte expressão:
<jE
E = cr / 8,
v = -83/ £j
£ v = — «J,+o 2 +03X1 - iv) (37)
A expressão acima indica que se v = 0,5, nio há
variação de volume. Pode-se demonstrar qu» isto
é válido para qualquer carregamento, e que a recíproca
é verdadeira.
y = d/l
'T
G = x / y
Módulo de elasticidade volumétrico
Quando se aplicam três tensões ortogonais de
igual valor (compressão isotrópica), a deformação
volumétrica é expressa por:
Fig. 2.28 - Carregamentos: (aj de compressão; |b)
de cisalhamento
£ v =3£,(l-2\)) (38)
Analogamente ao módulo /:, define-se como
módulo de elasticidade voluméirico, K, a relação:
K = — =
3(1 - 2\>) (39.)
Quando se aplicam três tensões ortogonais de
valores diferentes, a deformação causada pode ser
considerada como a soma de duas: uma volumétrica,
sem alteração de forma e outra com simples alteração
de forma sem mudança de volume.
A alteração volumétrica pode ser calculada pela
equação (37), desde que se adote como o. a variação
da tensào octaédrica, o definida como:
Módulo
_ o, "i + a, +o.
edométrico
(40)
Se um material é submetido a um carregamento
numa direção, impedindo-se qualquer deformação
nas direções normais ao carregamento, à relação
entre a tensào aplicada e a deformação correspondente.
dá-se o nome de módulo edométrico,
D. Este módulo pode ser expresso em função de
Ec n, pelas equações (33) a (35), considerandose
e. 0. Obtém-se:
1-v
D = —
E
2.6.2 Representação dos módulos dos solos
A Figura 2.29 representa uma curva tensào-deformaçào
típica de um solo carregado axialmcnte.
Observa-se que nào liá proporcionalidade entre
o e €. e, portanto, que aos solos não se aplica a
elasticidade linear. Se, no decorrer d:í carregamento,
ponto B, por exemplo, as solicitações forem
removidas, as deformações geralmente nào sào
reversíveis, e. portanto, o solo não é um material
elástico. A irreversibilidade nào é preocupante,
pois. nos casos práticos de aplicação a problemas
gcotécnicos, as tensões atuam num mesmo sentido,
positivo ou negativo, carregamento ou escavação.
A nào linearidade, entretanto, deve ser
objeto de consideração. Para isto, ao comportamento
representado na Figura 2.29, é preciso associar
um parâmetro de deformabilidade, e isto
tem sido feito pela consideração de um módulo
de elasticidade.
Dois tipos de parâmetro têm sida empregados,
como ilustrados na Figura 2.29. O módulo de elasticidade
tangencial, E t, indica a relação da/de no
ponto considerado. Ó módulo de elasticidade
secante, Eindica a relação o/e entre dois pontos.
Muito empregado é o módulo secante a partir
da origem, indicado pelo símbolo E lf Este é o
módulo correntemente referido, quando nào há
outra observação. Na origem, os dois módulos
coincidem, e caracterizam o módulo tangente inicial.
E u
donde se conclui que l) é 35 a 100 % maior tio
que E, para v no intervalo tle 0,3 a 0,4.
Destas equações também se pode concluir que:
CT>=G<= u
1 -D
(42)
Dontle se correlaciona o coeficiente tle empuxo
em repouso, Ko, quando este coeficiente nào é
afetado por efeitos geológicos ou pedológicos,
com o coeficiente tle Poisson, v:
2
o
-o
rt
O
-o
o
103
V>
c
£
E 0 E }u E k E, /-fC
I 9 i o - 0,5 o max
Ko =
1 — \i
(43;
Módu/o de cisalhamento
A deformabilidade de um material também pode
ser caracterizada pelo módulo de cisalhamento,
G, definido pela relação entre uma tensào
cisalhante aplicada e a distorção por ela provocada,
y. conforme esquematizado na Figura 2.28 (b). O
módulo de cisalhamento se relaciona aos
parâmetros previamente definidos, pois na compressão
também ocorre cisalhamento. Teoricamente,
se verifica que:
6 = E/ 2(1+v) (44)
í
Dcfuuiia^ãu axial
Figura 2.29 - Curva típica dc carregamento c definição
dos módulos dc elasticidade
O módulo secante varia conforme o estágio de
carregamento considerado, por esta razão devese
expressar a que nível de tensão ou de deformação
se refere um valor apresentado. O símbolo
E Sif por exemplo, expressa que o módulo
corresponde a um acréscimo de tensào igual a 50%
do acréscimo que provocaria a niptura. Indica, portanto,
a deformabilidade do solo quando solicitado
com um coeficiente de segurança igual a dois.
Os valores de v sào obtidos a partir da variação
de volume nos carregamentos axiais, pela expressão
abaixo, que resulta das equações (32) e (36):
\) = e.-e,
2e,
Equação hiperbólica
(45)
A curva a-£ dos solos, num carregamento uniaxial,
freqüentemente apresenta um aspecto bastante
próximo a uma hipérbole. Com base nesta
constatação. Kondner (1963) apresentou um procedimento
muito prático para relacionar F. com £.
Rcpresentando-se a relação £/a de um carregamento
em função de £, como se mostra na Figura
2.30, os pontos se alinham aproximadamente segundo
uma reta, cuja equação é:
Observa-se que, para £=0, a m 1 /£. Por outro
lado, bc o inverso da tensão máxima correspondente
à assíntota da hipérbole, O ux. A rclaçào
entre a tensão de ruptura, o f e a, x é expressa
como R r sendo seu valor da ordem dc 0,8 ?. 0,95.
Com estas considerações, a equação (47) pode
ser escrita da seguinte forma:
E =
1 1
E., <J M,. Kfc 1 0 + o,
(49)
Nesta equação, F é indicado em função de £,
obtendo-se E f a f e R f do ensaio.
Também a equação (48) pode ser expressa nestes
termos, obtendo-se:
E =E 0(1 - R ( —) =E 0(1 — R p) (50)
£/a - a + b £
donde:
£ a +1:£
(46)
(47)
resistên-
sendo p - c/a (, caracterizado como a
cia mobilizada.
Considerando-se que R/0 da ordem de 0,9, conclui-sc
que E so vale aproximadamente a metade
dc E :
Da equação (46), £ pode ser colocado cm função
de a. Substituindo-se na equação (47), obtém-se uma
expressão de £cm função da tensão atuante:
E = 1-bo (48)
Duncan c Chang (1968) desenvolveram este procedimento,
de maneira a obter parâmetros para
cálculos numéricos.
500
400
300
0,02 0,04 0,06 0,08
e
5 200 r jjP (l/b) = t w T f
100
0
/
: (y«) = E 0
1 1 11_ l_l _L 1 1 1 . >
0 0,02 0,04 0,06 0,08 0.1
e
Figura 2.30 Modelo hiperbólico de representação dos
módulos durante o carregamento
E^ = 0,45E o (51)
Duncan e Chang (1968), desenvolveram sistemática
semelhante para expressar o módulo tangente
em função da resistência mobilizada, obtendo:
E t =E 0(1-R rp) 2 (52)
Estas expressões sào muito empregadas para
análises numéricas. Deve ser considerado, entretanto,
que a maior contribuição de Duncan c
Chang (1968) nào está na aplicação da equação
da hipérljole em si, mas na proposta de expressar
os módulos em função da resistência mobilizada.
Alguns solos apresentam curvas que não se ajustam
bem a hipérboles. Nestes casos, deve-se determinar,
gráfica ou numericamente, os valores de
módulos para diferentes níveis dc tensão, e
pesquisar a equação que melhor correlaciona os
dois parâmetros. Ajustar aos dados dc ensaio uma
equação dc hipérbole, estatisticamente, sem antes
verificar n linearidade representada na Figura
2.30, pode induzir a erros grosseiros, pois nem
todos os solos apresentam uma curva tensâo-deformaçào
semelhante à hipérbole.
2.6.3 Critérios de ruptura
Em condições normais, solicitações externas provocam
deformações do solo, que se estabiliza num
arranjo entre partículas distinto do anterior. Em
certas solicitações, entretanto, as forças transmitidas
pelas partículas são superiores ao que o atrito
e o entrosamento entre as partículas podem suportar.
As partículas se deslocam de maneira a
descaracterizar o formato original do solo. Define-se
esta situação como a ruptura do solo.
A ruptura do solo se dá por cisalhamento. Externamente,
observa-se a ocorrência de uma ou
várias superfícies de escorregamento na massa
do solo. Nestas superfícies, as partículas estão
escorregando, rolando e se acomodando em
novas posições, podendo ser deslocadas sucessivas
vezes.
Figura 2.31 - Representação dos critérios de ruptura:
(1) dc Coulomb; e (2J dc Mohr
A análise cio estado dc tensões que provoca a
ruptura é o estudo da resistência ao cisalhamento
dos solos. Os critérios de ruptura que melhor representam
o comportamento dos solos sào os critérios
de Coulomb e de Mohr.
O critério de Coulomb pode ser expresso como:
Hão há ruptura se a tensão de cisalhamento não
ultrapassar um valor dado pela expressão c + f.o.
sendo c e f constantes do material e a a tensão
normal existente no plano de cisalhamento". Os
parâmetros c e f sào denominados, respectivamente,
coesão e coeficiente de atrito interno, podendo
este ser expresso como a tangente de um ângulo.
denominado ângulo de atrito interno. Estes
parâmetros estão representados na Figura 2.31 (a).
a
a
O critério de Mohr pode ser expresso como: "não
há ruptura enquanto o circulo representativo do
estado de tensões se encontrar no interior de uma
curva, que é a envoltaria dos círculos relativos a
estados de ruptura, observados experimentalmente
para o material". Na Figura 2.31 (b) representase
a envoltória de Mohr, o círculo A representativo
cie um estado de tensões em que nào há ruptura,
e o círculo B, tangente à envoltória, indicativo
de um estado de tensões na ruptura.
Envoltórias curvas sào de difícil aplicação. Por
esta razão, as envoltórias de Mohr sào
freqüentemente substituídas por retas que melhor
se ajustam à envoltória. Naturalmente, várias opções
de retas podem ser adotadas, devendo a escolha
levar em consideração o nível de tensões do projeto
cm análise. Definida uma reta, naturalmente
seu coeficiente linear, c, nào tem mais o sentido
tle coesão, que seria a parcela de resistência independente
da existência de tensão normal. Ele é tãosomente
um coeficiente da equação que expressa a
resistência em função da tensão normal, razão pela
qual é rcfeiido como intercepto de coesão.
Fazendo-se uma reta como a envoltória de Mohr,
seu critério de resistência fica análogo ao de
Coulomb, justificando a expressão critério de
Mobr-Coulomb, coslumeiramente empregada na
Mecânica dos Solos.
Os dois critérios apontam para \ importância
da tensão normal no plano de ruptura. Observese
a Figura 2.32, onde um círculo de Mohr
tangencia a envoltória. A maior tensão de
cisalhamento ocorre sempre no plano que determina
um ângulo de 45' com os planos principais;
na Figura 2.32 esta tensão é definida pelo segmento
DE. A ruptura ocorre num plano que faz o
ângulo a com o plano principal maior; nele ocorre
a tensão cisalhante BC, que é menor do que
DE, mas é o valor limite correspondente à tensão
normal atuante, AB. No plano de máxima tensão
cisalhante, a tensão normal AD proporciona uma
resistência ao cisalhamento maior do que a tensão
cisalhante atuante.
Da Figura 2.32 determina-se que o plano em
que ocorre a ruptura tem uma inclinação em relação
ao plano principal maior que 6 função do
ângulo de atrito interno da envoltória. Gcomctricamente,
chega-se à expressão:
« = 45°+<{>/2 (53)
Desta figura também se podem extrair as seguintes
expressões, muito úteis:
senõ» ÜIlfLi
G\ + CJ3
C5-0
1+ sen<>
ai= a.v
1 - sen<j>
(55;
2.7 ENSAIOS PARA DETERMINAÇÃO DAS
CARACTERÍSTICAS TENSÃO-DEFORMAÇÀO
E DE RESISTÊNCIA
Conforme visto no item 2.6. o comportamento
dos solos pode ser expresso por parâmetros de
deformação (módulo dc elasticidade c coeficiente
de Poisson) e por parâmetros de resistência (coesão
e ângulo dc atrito interno). Estes parâmetros
nào são características físicas dos solos, mas dependem
de vários fatores, relacionados com o nível
de carregamento, as condições dc drenagem,
a trajetória de tensões e o tempo de carregamento,
que serão objetos de consideração nos itens
seguintes.
Diversos tipos de ensaios de lalxjratório e de
campo sào empregados para a determinação deste
parâmetros. Neste capítulo serào apresentadas
as linhas básicas dos ensaios mais correntes. Informações
mais detalhadas sobre os equipamentos
c as técnicas de ensaio sào encontradas em
Lambe (1951) c Head (1987).
2.7.1 Ensaio de cisalhamento direto
O ensaio de cisalhamento dirc.o é o mais antigo
procedimento para a determinação da resistência
ao cisalhamento, e se baseia diretamente
no critério de Coulomb. Aplica-se uma tensão normal
num plano e verifica-se a tensão cisalhantc
que provoca a ruptura.
Para o ensaio, um corpo de prova do solo é colocado
parcialmente numa caixa dc cisalhamento, ficando
com sua metade superior dentro de um anel,
como se mostra csqucmaticamentc na Figura 2.33 (a).
Aplica-se inicialmente uma força vertical N. Uma
força tangcncial 7'é aplicada'ao anel que contém
a parte superior do corpo de prova, provocando
seu deslocamento, ou um deslocamento é provocado,
medindo-se a força suportada pelo solo. As
forças 7"e A', divididas pela área da secçào transversal
do corpo de prova, indicam as tensões a e
T que nele estão ocorrendo. A tensão T pode ser
representada em função do deslocamento no sentido
do cisalhamento, como se mostra na Figura
2.33 (b), onde se identificam a tensão de ruptura,
T NUX e a tensão residual, que o corpo de prova
ainda sustenta, após ultrapassada a situação de
ruptura, 1 . O deslocamento vertical durante o
d (mm)
Fig. 2.33 - Ensaio de cisalhamento direto: (aj esquema
do equipamento; (b) representação de resultado típico
de ensaio
ensaio também é registrado, indicando se houve
diminuição ou aumento de volume durante o
cisalhamento.
Rcalizando-sc ensaios com diversas tensões normais,
obtém-se a envoltória de resistência, como
apresentado na Figura 2.31.
O ensaio é muito prático. A análise do estado
de tensões durante o carregamento, entretanto, é
bastante complexa. O plano horizontal, antes da
aplicação das tensões cisalhantes, é o plano principal
maior. Com a aplicação das forças T, ocorre
rotação dos planos principais. As tensões só são
conhecidas num plano. Por outro lado, ainda que
sc imponha que o cisalhamento ocorra no plano
horizontal, este cisalhamento pode ser precedido
de rupturas internas em outras direções.
O ensaio de cisalhamento direto não permite a
determinação de parâmetros de deformabilidade
do solo. nem mesmo do módulo de cisalhamento,
pois nào é conhecida a distorção. Para isto, seria
necessária a realização de ensaios de cisalhamento
simples, que sào dc difícil execução.
O controle das condições de drenagem é difícil,
pois não há como impedi-la. Ensaios em areias
sào feitos sempre de forma a que as pressões neutras
se dissipem, c os resultados sào considerados
em termos de tensões efetivas. No caso dc argilas,
a resistência em termos de tensões totais só pode
ser obtida com carregamentos muito rápidos, nào
havendo restrições quanto a ensaios com drenagem.
Pelas restrições acima, o ensaio de cisalhamento
direto é considerado menos interessante que o
ensaio de compressão triaxial. Entretanto, pela sua
simplicidade, ele c muito útil quando se deseja
medir simplesmente a resistência, e, principalmente,
quando se deseja conhecer a resistência residual.
Neste caso, o sentido do deslocamento da
parte superior do corpo de prova pode ser invertido
diversas vezes, até que a tensão cisalhante se
estabilize num valor aproximadamente constante.
2.7.2 Ensaio de compressão triaxial
O ensaio de compressão triaxial convencional
consiste na aplicação de um estado hidrostático
de tensões e de um carregamento axial sobre um
corpo de prova cilíndrico do solo. Para isto. o
corpo de prova é colocado dentro de uma câmara
de ensaio, cujo esquema é mostrado na 1-igura
2.3-1, envolto por uma membrana de borracha. A
câmara é cheia de água, à qual se aplica uma pressão,
que é chamada pressão confinante ou pressão
cie confinamento do ensaio. A pressão
confmante atua em todas as direções, inclusive
na direção vertical. O corpo de prova fica sob um
estado hidrostático de tensões.
Aa,
Fig. 2.34 - Esquema da câmara dc ensaio triaxial
O carregamento axial é feito por meio da aplicação
de forças no pistào que penetra na câmara,
caso em que o ensaio é chamado de ensaio com
carga controlada, ou colocando-se a câmara numa
prensa que a desloca para cima, pressionando o
pistào, tendo-se o ensaio de deformação controlada.
A carga e medida por meio de um anel
dinamométrico externo, ou por uma célula de carga
intercalada no pistào. Este procedimento tem a
vantagem de medir a carga efetivamente aplicada
ao corpo de prova, eliminando o efeito do atrito
do pistào na passagem para a câmara.
Como nào existem tensões de cisalhamento nas
bases e nas geratrizes do corpo de prova, os planos
horizontais e verticais são os planos principais.
Se o ensaio é de carregamento, o plano horizontal
é o plano principal maior e nele atua, além
da pressão confinante. a v o acréscimo de tensão
axial aplicado, também chamado de tensão
desviadora.
A tensão desviadora é representada em função
da deformação específica, como mostrado na Figura
2.28. Destes dados, obtêm-sc os módulos de
elasticidade, conforme descrito em 2.6.1, e a tensão
desviadora máxima. Esta permite o traçado
do círculo de Mohr correspondente à situação de
ruptura, como se mostra na Figura 2.31(b). Círculos
de Mohr de ensaios feitos em outros corpos
de prova permitem a determinação da envoltória
de resistência conforme o critério de Mohr.
Na base do corpo de prova, e no cabeçote superior,
sào colocadas pedras porosas, permitindose
a drenagem através destas peças, que sào perfuradas.
A drenagem pode ser impedida por meio
de registros apropriados.
Se a drenagem for permitida e o corpo de prova
estiver saturado ou com elevado grau de saturação.
a variação de volume do solo durante o ensaio
pode ser determinada pela medida do volume
de água que sai ou entra no corpo de prova.
Para isto, as saídas de água são acopladas a buretas
graduadas. No caso de solos secos a medida de
variação de volume só é possível com a colocação
de sensores no corpo de prova, internamente
à câmara. Sensores internos, em qualquer caso,
sào mais precisos, mas nào sào empregados em
ensaios de rotina.
Se a drenagem não for permitida, em qualquer
fase do ensaio, a água ficará sob pressão. As pressões
neutras induzidas pelo carregamento podem
ser medidas por meio cie transclutoies conectados
aos tubos de drenagem.
Resultados tipicos dc ensaios triaxiais serão apresentados
nos itens seguintes.
No que se refere às condições de drenagem, os
três tipos descritos a seguir sào básicos:
Ensaio adensado drenado (CD) - São ensaios
em que há permanente drenagem tio corpo de
prova. Aplica-se a pressão confinante e espera-se
que o corpo de prova adense, ou seja, que a pressão
neutra se dissipe. A seguir, a tensão axial é
aumentada lentamente, para que a água sob pressão
possa sair. Desta forma, a pressão neutra durante
todo o carregamento é praticamente nula, e
as tensões totais aplicadas indicam as tensões efetivas
que estavam ocorrendo. O símbolo CD origina-se
da expressão "Consolidated drained'. Este
ensaio é também conhecido como ensaio lento
(S). esta expressão nào se referindo à velocidade
de carregamento, mas sim à condição de ser tão
lento quanto o necessário para a dissipaçào das
pressões neutras; se o solo for muito permeável, o
ensaio pode ser realizado em poucos minutos.
Ensaio nào adensado nào drenado (UU) - Neste
ensaio, o corpo de prova é submetido à pressào
confinante e, a seguir, ao carregamento axial, sem
que se permita qualquer drenagem. O teor de
umidade permanece constante, e, se o corpo de
prova estiver saturado, nào haverá variação de
volume. O ensaio é geralmente interpretado em
termos de tensões totais. O símbolo UU originase
de unconsolidaled undrained'. O ensaio é
também chamado tle ensaio rápido(Q de "quick"),
por não requerer que se proporcione tempo para
drenagem.
Ensaio adensado nào drenado (CU) - Neste ensaio,
aplica-se a pressào confinante e deixa-se dissipar
a pressào neutra correspondente. A seguir,
carrega-se axialmentc sem drenagem. Ele é chamado
também de ensaio rápido prâ-adensado iR).
Este ensaio indica a resistência nào drenada em
função da tensào de adensamento. Se as pressões
neutras forem medidas, a resistência em termos
de tensões efetivas também é determinada.
O equipamento dos ensaios triaxiais permite
várias formas de carregamento, a partir do
adensamento inicial, conforme sc descreve a seguir:
Compressão por carregamento (CC) - K o ensaio
convencional, em que a tensào axial é aumentada
até a ruptura.
Compressão jjordescarregamento (CD) - Após o
confinamer.to, o corpo de prova tem sua tensão
lateral monotonicamente reduzida, enquanto a tensão
axial é mantida constante.
Nestes dois tipos de ensaio, a expressão compressão
se refere ao fato de que o corpo de prova
apresenta compressão na direção vertical. A tensào
principal maior é vertical e a, » a^.
Extensão por carregamento (EC)- Neste caso, a
pressào confinante é aumentada, enquanto a pressào
axial é mantida constante.
Extensão por descarregamento (El))- Refere-se
ao ensaio em que a tensào axial é reduzida, enquanto
a pressão confinante é mantida.
Para estes dois últimos, a expressão extensão
indica que há extensão na direção da tensão vertical,
que é a tensào principal menor, e que a, - o,.
Pode-se, também, variar simultaneamente as tensões
principais, seguindo-se qualquer trajetória de
tensões.
O equipamento de ensaio permite, ainda, que
se faça um adensamento anisotrópico do corpo
de prova, aplicando-se, por exemplo, tensões
axiais e de confinamento iguais às tensões verticais
e horizontais existentes no local de extração
das amostras. A partir desta situação, os quatro
tipos de carregamento descritos acima, ou outros,
podem ser utilizados. A Figura 2.35 apresenta as
trajetórias de tensões correspondentes a estes ensaios,
numa situação em que o corpo de prova foi
adensado com o = K .o .
Figura 2.35 - Trajetórias de ensaios triaxiais a partir dc
adensamento anisotrópico
Os resultados dc resistência ao cisalhamento nào
apresentam variações muito grandes conforme a
trajetória de ensaio. Os parâmetros de
deformabilidade, entretanto, sào extremamente
dependentes do sentido de variação das tensões
principais. Os parâmetros dc deformabilidade determinados
por ensaio de compressão por carregamento,
analisados conforme o item 2.6.2.1, por
exemplo, não sào utilizáveis para a análise tle
uma escavação, em que ocorre redução de tensões.
2.7.3 Ensaio de compressão edométrica
O ensaio de compressão edométrica é muito útil
para a determinação tia compressibilidade dos
solos, não fornecendo informações referentes ã
resistência. Nele o solo é submetido a acréscimos
sucessivos de tensào axial. nào se pcrmitinco deformação
lateral. Este ensaio, que é também denominado
ensaio de compressão confinada, é
mais conhecido como ensaio de adensamento, por
ser freqüentemente aplicado com o objetivo de
obter parâmetros referentes ao adensamento de
solos saturados. Como o ensaio é empregado também
para solos não saturados com o objetivo cie
determinar deformabilidades nào associadas à dissipaçào
de pressões neutras, é interessante
identificá-lo de maneira distinta, para que nào se
induza o emprego de parâmetros da teoria do
adensamento para indicar o comportamento de
solos não contemplados nesta teoria.
O equipamento para o ensaio consta essencialmente
de uma prensa de carregamento e de um
dispositivo para colocação da amostra, conforme
esquema mostrado na Figura 2.36. Consta tle um
anel, que impede a deformação lateral tio corpo
de prova, de duas pedras porosas, que permitem
cTTT»: 1
Amostra dc solo
tm
Fig. 2.36 - Esquema do dispositivo de ensaio de
compressão edométrica
a drenagem, de uma base, e tle um cabeçote rígido,
através do qual as catgas são transmitidas. Os
anéis têm diâmetros cerca de três vezes a altura, com
o objetivo de reduzir o efeito de atrito lateral.
O carregamento é feito por etapas, mantendose
as cargas por tempo necessário para estabilização
das deformações. Isto pode ser minutos, para
areias, dezenas de minutos para siltes, e dezenas
de horas para argilas. Costumeiramente, as cargas
são elevadas para o dobro do seu valor anterior, o
que leva a uma prática determinação do índice tle
compressão de argilas saturadas. Entretanto, para
outros solos, como os nâo-saturados, em que não
se identifica uma reta virgem, este procedimento
leva rapidamente a tensões muito acima das tensões
dc interesse, perdendo-se precisão nos níveis mais
relacionados com os problemas em estudo.
No carregamento etlométrico. sendo impedida
a deformação lateral, surge uma tensão horizontal,
de maneira semelhante â da deposição do solo
na natureza, conforme discutido no item 2.5 3. A
relação entre a tensão lateral e a tensão axial aplicada
é igual ao coeficiente de empuxo cm repouso,
K 0, se o carregamento é feito a partir do estado
inicial de formação do solo sedimentar. A trajetória
de tensões é uma reta partindo da origem,
como a indicada na Figura 2.35.
Do ensaio de compressão edométrica obtém-se
o módulo de elasticidade edométrico, definido cm
2.5.1. Resultados de ensaios c suas interpretações
serão apresentados nos itens seguintes.
'
que correspondem a solicitações bruscas ou dinâmicas,
podem ser encontradas em Seed e Lee
(1967) e em Casagrande (1975).
Outra característica marcante dos solos granularcs
é que a compacidade em que eles se encontram
na natureza é devida essencialmente ao processo
de sua formação. Carregamentos provocados
pelo peso de camadas a eles sobrepostas,
após a deposição inicial, não provocam redução
sensível de volume, pois cargas estaticas não vencem
o atrito entre as partículas e a redução de
vazios por elas provocada é muito pequena.
Este comportamento típico é demonstrado pelos
resultados de ensaio de compressão isotrópica
de uma areia, com diferentes índices de vazios
iniciais, mostrado na Figura 2.37. Estes resultados,
bem como os apresentados a seguir, se referem a
uma pesquisa realizada com areia do rio Sacramento,
USA, relatada por Lee e Seed (1967), c sào
empregados como exemplo, em virtude da qualidade
e abrangência tia pesquisa. Para os níveis
de tensão da maioria dos problemas de engenharia
civil, até 1.000 kPa, as curvas de ensaios para
situações iniciais diversas sào bem distintas. Os
índices tle vazios pouco variam com o carregamento
e as curvas sào distintas para as diferentes
condições iniciais. Só para níveis de tensão muito
elevados as curvas se aproximam; nestes casos, o
fator determinante é a quebra dos grãos devido
às altas forças transmitidas por seus pontos de
contado. Nesta condição, mesmo a areia moldada
no estado mais compacto, definido em 2.3.3,
fica com índice de vazios menor do que o mínimo
de ensaio devido à quebra tios grãos.
2.8 COMPORTAMENTO DAS AREIAS
Uma das características peculiares dos solos granulares
é a sua alta permeabilidade. Diante dos
tempos em que as obras de engenharia normalmente
se desenvolvem, a permeabilidade elevada
permite que as pressões neutras se dissipem
no decorrer da própria construção. Por este motivo,
a análise do comportamento das areias, neste
item, será feito para a condição de total drenagem,
desconsiderando pressões neutras. Comportamento
das areias em condições não drenadas,
10 100 1000
Pressão confmante (kPa)
10000
Fig. 2.37 - Variação de índice de vazios em compressão
isotrópica de areia do rio Sacramento [Lee e Seed,
1967]
2.8.1 Resistência ao cisalhamento
A Figura 2.38 apresenta resultados de ensaios
de compressão triaxial drenados (CD) de areia
PROPRIEDADES DOS SCLOS 1 8 5
O
?
3
2
(ic!?&a)
(200 kPa)
(450 kPa)
(1.270 kP»)
(2.000 IcPa)
-o- (íoo êpa)
<• (300 kPa)
-e- (l.OSOkPa)
—A— (2.000 kPa)
-15
*
€ -10
'B
| -5
1 0
g
a 5
a
10
5 10 15 20 25
Deformação axial (%)
5 10 15 20 25
Deformação axial (%)
Fig. 2.38 - Resultados dc ensaios dc compressão triaxial
de areia do rio Sacramento, no estado fofo (a partir de
dados em Lee e Seed, 1967)
Fig. 2.39 - Resultados dc ensaios dc compressão
triaxial de areia do rio Sacramento, no estado compacto
(A partir de dados em Lee e Seed, 1967)
moldada com índice de vazios elevado, submetida
a diversas pressões confinantes no campo de
interesse em obras de fundações. Na Figura 2.39
estão apresentados resultados semelhantes para a
mesma areia moldada com índice de vazios baixo.
Como se mostra na Figura 2.37, a redução do
índice de vazios devida ã pressão confinante não
altera muito o índice dc vazios inicial dos corpos
de prova que foram moldados. Portanto a primeira
série de ensaios é característica de areias fofas
e a segunda representa o comportamento das areias
compactas.
O comportamento tensào-deformaçào é mostrado
pela representação da relação entre a tensão
desviadora (al-c3) e a tensão confinante (<T3). Este
tipo de gráfico, que permite uma boa comparação
entre os resultados, é chamado gráfico normalizado.
As curvas tensão deformação da areia fofa mostram
que a tensão desviadora cresce lentamente
com a deformação, atingindo valores máximos para
deformações acima 8 %. Já a areia compacta mostra
máximo de tensão desviadora para menores
deformações, da ordem de 4%. As tensões
desviadoras máximas não são proporcionais às
respectivas pressões confinantes. A representação
dos círculos de Mohr na ruptura, conseqüentemente,
indica envoltórias de resistência curvas,
como se mostra na Figura 2.40, para os resul:ados
da areia no estado compacto. Uma envoltória
retilínea média apresentaria um intercepto de coesão.
Entretanto, é evidente que a areia não apresenta
coesão; um corpo de prova, sem nenhum
confinamento, nào se mantém em pé, desmanchando-se
pelo efeito de seu próprio peso.
Uma maneira de representar a envoltória de resistência
consiste em associar uma equação
exponencial aos círculos dc Mohr na ruptura, como
indicado na Figura 2.40. A envoltória obtida
corresponde à equação:
s'= \,65Pa(G}/ Pa) 0 ' 9 (56)
sendo Pa a pressão atmosférica, introduzida na
fórmula para torná-la independente do sistema de
unidade.
Na prática, a resistência é definida por um ângulo
de atrito médio, ou por ângulos de atrito,
para cada pressão confinante, correspondentes a
envoltórias passando pela origem c tangenciando
o respectivo círculo dc Mohr. Na Figura 2.40 está
representada a envoltória linear para a pressão
confinante de 1050 kPa.
As areias fofas apresentam diminuição de volume
durante o carregamento axial, ficando, portanto,
com um índice de vazios na ruptura inferior
ao inicial. As areias compactas, entretanto, após
uma diminuição inicial de volume, apresentam um
aumento considerável, de forma a romper com
um índice de vazios superior ao inicial. A pequena
contração inicial da areia compacta, pouco
perceptível nos gráficos de resultados de ensaios,
corresponde na realidade a mais de 50% da tensão
de ruptura, que ocorre para pequenas deformações.
Nos projetos, geralmente se trabalha com
coeficientes de segurança maior do que dois e o
comportamento das areias compactas ainda é
contrativo.
CT(kPa)
Fig. 2.40 - Círculos de Mohr na ruptura para a areia do
rio São Francisco, no estado compacto (a partir de
dados cm Lee e Seed, I967J
Na ruptura, o índice de vazios tende a ser o
mesmo, independentemente do estado inicial. A
areia fica no denominado estado crítico, definido
como o estado em que o cisalhamento ocorre sem
variação de volume. O índice de vazios correspondente
a este estado é denominado índice de
vazios crítico e depende do nível dc tensões a
que a areia está submetida. Na Figura 2.42 é
indicada a relação entre estes dois parâmetros para
a areia cujos resultados foram apresentados nas
Figuras 2.38 e 2.39. Para uma certa pressão
confinante, estando a areia com índice de vazios
abaixo do crítico, haverá dilatância do material
para que a ruptura ocorra; se o íncice de vazios
for maior que o crítico, a ruptura se dará com diminuição
de volume. Da mesma forma, estando a
areia com um certo índice de vazios, haverá
dilatância se a tensão confinante for inferior à tensão
crítica, mas haverá contração se a tensão
confinante ultrapassar este valor.
Pressão confinam (kPa)
Fig. 2.41 - Ângulos de atrito da areia do Rio Sacramento,
em função da compacidade e no nível de
tensões
Pode-se, então, representar o ângulo de atrito
em função da pressão confinante, como se mostra
na Figura 2.-11, para os ensaios da areia do rio
São Francisco. Observa-se que <>' diminui com a
pressão confinante, principalmente para a areia
compacta. Para confinantes elevadas, o ângulo dc
atrito da areia compacta é da mesma ordem de
grandeza dos valores correspondentes à areia fofa.
A própria curva tensão-deformação apresenta-se
com aspecto semelhante ao do estado fofo.
Uma característica interessante do comportamento
da areia compacta, é que as tensões desviadoras,
depois de atingirem um máximo, denominado
resistência de j>ico, decrcscem até sc estabilizar
em torno de um valor definido como resistência
residual. Fsta é da ordem de grandeza da resistência
da areia no estado fofo, indicando que a maior
resistência da areia compacta vem do entrosamento
entre os gràos e que este entrosamento e desfeito
pelo processo de cisalhamento.
2.8.2 Fatores que influem na resistência
Pela análise dos resultados feita no item anterior,
o ângulo de atrito interno de cada areia depende
da sua compacidade e do nível de tensões
a que está submetida. Apresentam-se, a seguir,
como as características que diferenciam as areias
influem na sua resistência ao cisalhamento.
Distribuição granulométrica. Quanto mais bem
graduada é uma areia, melhor o entrosamento
entre as partículas, e, conseqüentemente, maior o
ângulo de atrito.
No que se refere ao entrosamento, é interessante
notar que o papel dos grãos grossas é diferente
do desempenhado pelos finos. Consideremos, por
exemplo, uma areia que contenha 20% de grãos
grossos e 80% de finos. O comportamento desta
areia é determinado principalmente pelas partículas
finas, pois as grossas ficam envolvidas pela
massa dc partículas finas, pouco colaborando no
entrosamento. A Figura 2.43 (a) ilustra esta situação.
Consideremos, de outra parte, uma areia com
80 % de grossos e 20% dc finos. Neste caso, os
gràos finos tenderão a ocupar os vazios entre os
grossos, aumentando o entrosamento, como se
J 0.9
«0.8
0
1 0.7 >
0.6
0
u
>M 1 0 5
0.4
• Comportamento
, compressivel
V
Comportamento
dilatante
•
< • M • • • • 1 • •»•' • •' • I • •' >'
1000 2000
Pressão confinantc, kPa
Fig. 2.42 - Variação do índice de vazios crítico com a
pressão confinante
esquematiza na Figura 2.43 (b). Este fato justifica
a definição do coeficiente de nào uniformidade
como a relação entre os diâmetros correspondentes
a 60% e 10% da curva granulométrica.
Formato cios grãos. Areias constituídas de partículas
esféricas e arredondadas têm ângulos de
atrito interno sensivelmente menores que os das
areias de grãos angulares, mantidos constantes
os outros fatores. Grãos arredondados possibilitam
bom encaixe entre partículas e reduzido
índice de vazios. Mas, pelo mesmo mecanismo,
a rolagem dos grãos é facilitada quando sào aplicadas
tensões cisalhantes, resultando ângulos
de atrito marcadamente reduzidos para as areias
de grãos estéricos e arredondados.
Ria
ip®
ais
80% Finos 20% Finos
Fig. 2.43 - influência dos finos no entrosamento das
areias
Tamanho dos grãos. Ao contrário do que se julga
comumente, o tamanho das partículas, sendo
constantes as outras características, pouca influência
tem na resistência das areias.
A impressão de que as areias grossas devam ter
maior resistência que as areias finas deve-se a dois
fatores. Em primeiro, as areias chamadas de areias
grossas sào aquelas em que predominam grãos
grossos; nelas, pequena quantidade de finos presente
aumenta o entrosamento. Nas chamadas areias
finas, predominam grãos finos e a pequena
quantidade de grossos nào contribui para o
j
entrosamento, como se mostra na Figura 2.43. As
areias predominantemente grossas sào bem graduadas.
enquanto as areias predominantemente
finas sào mal graduadas. O segundo fator se
refere à compacidade: na natureza, em virtude
da massa das partículas e das forças superficiais,
as areias grossas tendem a se apresentar
muito mais compactas do que as areias finas.
Resistência dos grãos. Embora o processo de
cisalhamento das areias seja um processo predominantemente
de escorregamento e rolagem
dos grãos entre si, se os grãos nào resistirem às
forças a que estão submetidos, e se quebrarem,
isto se reflete no comportamento global da areia.
A quebra de partículas é o fator determinante
da variação do ângulo de atrito interno com a
pressão confinante e da variação do índice de
vazios crítico com a pressão confinante.
Nào é fácil quantificar a influência da resistência
dos grãos. Ela é função da composição
mineralógica das partículas (grãos tle quartzo
sào mais resistentes do que grãos de feldspato.
por exemplo) e do formato das partículas (um
grão angular se quebra muito mais facilmente do
que um grão arredondado,). Aliás, os grãos arredondados
têm esta característica justamente pela
quebra das arestas dos cristais durante o transporte
a que esteviveram submetidos. Quanto
maiores os grãos, maiores as forças transmitidas
de um a outro, para a mesma tensão aplicada e,
portanto, maior a possibilidade de quebra.
Composição mineralógica. A composição
mineralógica é a principal determinante da resistência
dos grãos e do efeito da água nesta
mesma resistência.
Presença de água. De modo geral, o ângulo
de atrito de uma areia saturada é aproximadamente
igual ao de uma areia seca, ou um pouco
menor, a menos de areias com grãos muito irregulares
c fissurados, nas quais a água reduz a
resistência dos cantos da partícula, com os reflexos
vistos acima, correspondentes à resistência
tios grãos.
Anisotropia de resistência. A disposição relativa
dos grãos de uma areia nào é isotrópica, e,
conseqüentemente, seu comportamento nào é
o mesmo cm todas as direções. Resultados experimentais
(Oda. 1976) mostram que areias depositadas
pela gravidade apresentam diferenças
dc ate 3" no ângulo de atrito interno conforme
a orientação do plano tle ruptura.
Da análise feita acima, verifica-se que os fatores
de maior influência na resistência sào a
compacidade relativa, a distribuição
granulométrica e o formato dos grãos, além do
nível de tensão. Para tensões da ordem de grandeza
de interesse em obras civis comuns, de até
1000 kPa, valores típicos são apresentados na
Tabela 2.V.
Tab. 2.vl Valores típicos de ângulos de atrito interno
de areias.
Característica da areia Compacidade
de fofa a compacta
Areias bem graduadas
de grãosangulares dc 37° a 47°
de grãos arredondados de 30° a 40°
Areias mal graduadas
de gráos angulares de 35° a 43°
de grãos arredondados dc 28° a 35°
2.8.3 Deformabilidade das areias
A deformabilidade das areias pode ser expressa
pelo seu módulo edométrico, determinado
em ensaios de compressão edométrica, ou pelo
módulo de elasticidade, determinado em ensaio
de compressão triaxial.
A Figura 2.44 apresenta o resultado de um ensaio
de compressão edométrica de uma areia
basal da cidade de Sào Paulo. Observa-se que o
módulo edométrico varia com o nível de icnsóes.
Para a aplicação destes resultados, os
módulos devem ser referidos ao nível de tensões
de interesse.
Observa-se, também, que os módulos correspondentes
ao descarregamento e a posteriores
carregamentos sào muito superiores aos do primeiro
carregamento.
Na Tabela 2.VI estão apresentados resultados
típicos de módulos edométricos disponíveis na
literatura.
0.7
Tab. 2,VI - Módulos edométricos secantes de areias
para tensões axiais de 200 a 500 kPa (Hassib. 1951,
em Lambe e Whitman. 1969)
Descrição da areia
fofa
D. em MPa
comp.
Areia grossa, uniforme 00 180
Areia média, bem graduada 25 120
Areia fina. uniforme 35 120
Da fase de compressão isotrópica, que antecede
o carregamento axial, nos ersaios triaxiais,
como os mostrados na Figura 2.37 também é possível
determinar parâmetros de deformabilidade.
Nestes carregamentos, geralmente a redução do
índice de vazios é apresentada em função das tensões
aplicadas, seguindo a prática de registrar
recalques em função das pressões, ao contrário
dos ensaios dc compressão triaxial, em que as
tensões sào indicadas cm função das deformações.
Os módulos de deformabilidade edométrica, sào
sempre superiores aos módulos cie elasticidade,
pois a restrição à deformação lateral impede parte
da deformação axial correspondente à possibilidade
de deslizamento dos grãos cm relação à área
externa ao carregamento.
Dos resultados dc ensaios de compressão
triaxial, como os mostrados nas Figuras 2.38 e 2.39,
módulos de elasticidade podem ser determinados,
conforme descrito em 2.6.2. Valores típicos de E
para tensão confinante igual a 100 kPa, estão apresentados
na Tabela 2.V. Como visto na equação
(51), E yt é cerca da metade do módulo tangente
inicial, E
Tab. 2AVÜ i Módulos de elasticidade secante de areias
Descrição da areia E50. em MPa
fofa comp. Ref.
Areias de grãos frágeis.
angulares 14 35 (1)
Areias de grãos duros.
arredondados 56 105 Ml
Areia basal de São Paulo.
bem graduada, pco.argilosa 10 27 I2|
Rpf r (1J 1 ;imhe o Whitman (1969)
(2) Feliciani (I982J
0.4
0 500 1000 1500
Tensão vertical, kPa
Fig. 2.44 - Resultado de ensaio dc compressão
edométrica em areia basal da Cidade de São Paulo
(Feliciani, 1982)
Nota-se que as areias com grãos arredondados
apresentam menores deformabilidades do que as
areias de gràos angulares. Tal fato está associado
à maior facilidade que essas têm cie se disporem
originalmente com menores índices de vazios,
como se descreve em 2.3.3. e à inexistência de
quebra de grãos destas areias nos carregamentos.
A deformabilidade das areias depende da tensão
de confinamento, como os resultados dc ensaios
mostrados nas Figuras 2.80 e 2.40 indicam.
Adota-se, para associar valores de £em diferentes
tensões de confinamento, a seguinte expressão,
proposta por Jambu (1962):
^G ~ ^a - Pa (T
a
(57)
sendo li o ,o módulo correspondente à tensào a,
o módulo correspondente a pressão atmosférica
(aproximadamente 100 kPa), e n um coefieien
te geralmente adotado igual a 0,5.
A expressão (57) Sc aplica a módulos secantes
de elasticidade para carregamentos até cerca de
50% da tensào desviadora de ruptura, sendo
questionável sua aplicação para níveis maiores de
tensào, ou para módulos tangentes.
A experiência mostra que areias scdimentares,
quando solicitadas na direção horizontal, apresentam
deformabilidades cerca de duas a três vezes
maior do que quando solicitadas n.i direção vertical.
em virtude da diferença dos contactos entre
grãos nas duas direções (Oda, 1976).
Outro fator que tem uma importância muito
maior na deformabilidade do que na resistência
das areias é o envelhecimento dos depósitos. Provas
de carga em aterros hidráulicos de areia, realizados
alguns anos após a construção na Rússia,
apresentaram comportamento correspondente a
módulos dc elasticidade cerca de duas vezes maiores
do que os de iguais ensaios realizados imediatamente
após a formação dos aterros, sem que tenha
ocorrido diminuição do índice dc vazios que
justificasse este acréscimo (Dcnisov et al. 1963).
O assunto é tratado aprofundadamente por
Skempton (1986) e Schmertmann (1991), c levanta
questionamento sobre a representatividade de
parâmetros obtidos em laboratório com amostras
recém-constituídas.
Para a aplicação da teoria da elasticidade, é
necessário conhecer, além do módulo, o coeficiente
de Poisson. Este pode ser calculado com
os dados de deformação volumétrica, obtidos
nos ensaios de compressão triaxial, aplicandose
a equação (45). Para as areias fofas, v apresenta
valores em torno de 0,35, podendo-se
expressar sua variação em função da resistência
mobilizada, como se faz para o módulo. Quando
ocorre dilatância, entretanto, os coeficientes
de Poisson calculados sào maiores do que 0,5.
valores que nào sào aplicáveis na teoria da elasticidade.
Deve ser notado, porém, que a
dilatância só se manifesta quando o nível de
tensào desviatória ultrapassa cerca da metade
da tensào desviatória máxima, existindo sempre
uma compressão para os níveis menores de tensào,
quando as partículas se acomodam antes
de se iniciar o deslocamento entre elas. Nào há
impedimento, portanto, para a aplicação da teoria
da elasticidade cm situações de estabilidade.
com coeficientes de segurança da ordem de
2 a 3.
2.9 COMPORTAMENTO DAS ARGILAS
SEDIMENTARES
As argilas se diferenciam das areias por dois
importantes aspectos. O primeiro é >ua baixa
permeabilidade que faz com que as pressões
neutras que se desenvolvem em qualquer soli
citação de engenharia geotécnica nào possam
ser desconsideradas. Os problemas serão analisados
cm termos de tensões efetivas ou em termos
de tensões totais. No primeiro caso, as pressões
neutras, inclusive as devidas às solicitações
feitas ao solo devem ser conhecidas ou estimadas
e levadas em consideração; nestas análises,
os parâmetros de comportamento do solo serão
expressos em função das tensões efetivas. No
segundo caso, o comportamento do solo será
expresso em função das tensões totais atuantes,
empregando se parâmetros que já incorporam
o efeito das pressões neutras.
A outra característica típica das argilas
scdimentares é que seu estado natural, definido
por seu índice de vazios, é função da máxima
tensào efetiva a que esteve previamente submetida.
Ensaios dc compressão isotrópica de uma
argila, com diferentes índices de vazios iniciais,
sào mostrados na Figura 2/»5. Qualquer que seja
a situação inicial, existe uma tensào que conduz
a uma linha comum, definida como curva
virgem ou reta virgem. A distinçào do comportamento
em relação ao das areias é imediatamente
constatada pela comparação desta figura
com a Figura 2.37.
0.8
1 10 100 1000 10000
Tensão vertical (kPa)
Fig. 2.45 - Variação do índice de vazios em compressão
isotrópica de argila com diferentes índices de vazio:
iniciais
Na Figura 2.46 estão apresentadas faixas de resultados
de ensaios de adensamento de solos de
três camadas do subsolo da região central da cidade
de Sào Paulo, apresentadas por Teixeira
(1970) e que ilustram os comportamentos distintos
dos solos arenosos e argilosos.
1000
Tensões (kPa)
Fig. 2.46- Curvas dc adensamento de solos da região
central da cidade de São Paulo (Teixeira. 1970J
Qualquer carregamento é inicialmente suportado
pela água, provocando sua saída dos vazios do
solo, transferindo-se as cargas gradualmente para
a estrutura formada pelos gràos. A tensão efetiva
aumenta, até que toda a carga seja suportada efetivamente
pelo solo, tendo-sc aí o índice de vazios
correspondente à tensão efetiva aplicada. No
ensaio edométrico, cada aplicação de carga é
mantida até que as tensões neutras tenham se dissipado,
e a altura do corpo-de-prova se estabilizado.
Os resultados de ensaios edométricos podem
ser apresentados com as tensões em abscissas em
escala natural, como mostrado na Figura 2.47 (a),
ou em escala logarítmica, como na Figura 2.-17 (b).
A representação na escala logarítmica é
freqüentemente preferida por permitir mais facilmente
a estimativa da tensão máxima a que o solo
esteve submetido previamente, o' vir, denominada
tensão de pré-adensamenlo ou tensão de cedéncüi.
No gráfico com as tensões em escala natural esta
tensào também pode ser identificada, pela mudança
de curvatura, mas com menor clareza.
O índice de vazios das argilas sedimentares depende
justamente do peso de material assentado
sobre elas. Portanto, num depósito homogêneo
em constituição física, o índice de vazios decresce
com a profundidade.
Estas argilas se encontram geralmente saturadas
e, neste caso, a umidade depende linearmente do
índice de vazios (equação 5) e a variação do índice
de vazios indica a variação da umidade.
A Mecânica dos Solos Clássica se desenvolveu
pelo estudo de argilas sedimentares saturadas, razão
pela qual elas assim serão inicialmente consideradas.
Os conceitos estabelecidos serão úteis para
o estudo do comportamento de outros solos, como
os solos residuais, os solos nào saturados, os solos
evoluídos pedologicamentc c os solos
compactados, analisados no item 10.
Qualquer análise do comportamento das argilas
nào prescinde de referência ao seu estado natural
perante sua reta virgem. Por esta razão, o estudo
do comportamento das argilas será iniciado pela
análise de sua compressibilidade.
2.9.1 Compressibilidade edométrica
das argilas
Quando um solo argiloso saturado é submetido
a um acréscimo de tensào, sua deformação pode
ser devida à compressão das partículas, à compressão
da água, ou à expulsão da água dos vazios,
comprimindo-se a estrutura sólida do solo.
Definindo-se compressibilidade volumétrica como
a deformação volumétrica pela pressão aplicada,
tem-se que a deformabilidade do solo é cerca de
100 vezes maior do que a deformabilidade da água.
1.3
1,2
.2 1,1,
N
«
1
1 0,9
•3
- 0,8
!(a)
Argila dc Boston
\
N
0,7
0 400 800 1200 1600 10 100 1000
Tensão (kPa)
Tensão (kPa)
Fig. 2.47 • Resultados dc ensaio dc compressão
edométrica de argila de Boston (Taylor. 1948J
Os métodos mais empregados nc Brasil para a
estimativa dec\ m, sào os de Casagrande, adotado
mundialmente, e o de Pacheco Silva (1970 >.
O método de Casagrande está ilustrado na Figura
2.48 (a). Toma-se o ponto de maior curvatura, e
por ele se traçam uma horizontal, uma tangente à
curva e a bissetriz do ângulo formado pelas duas.
A intersecçào da bissetriz com o prolongamento
da reta virgem é considerada o ponto de préadensamento,
c suas coordenadas sào a tensão de
pré-adensamento e o índice de vazios correspondente.
O método de Pacheco Silva está ilustrado na
Figura 2.48 (l>>. Prolonga-se a reta virgem até a
horizontal correspondente ao índice de vazios inicial
da amostra. Do ponto de intersecçào, abaixase
uma vertical até a curva e deste ponto traça-se
uma horizontal. A intersccçào desta com o prolongamento
da reta virgem é considerada o ponto
de pré-adensamento.
a)
c A
também cha-
sendo C o índice de recompressão,
mado de índice de expansão, C.
Estes parâmetros sào úteis para a estimativa de
recalques de camadas submetidas a carregamentos
que provocam deformação semelhantes à
edométrica. pela equação:
P = H /
C J o g ^ + CJog-^- (60)
\ + e im /
b)
k
\ e °
loga
sendo a,' e a^', respectivamente, as tensões efetivas
antes e após o carregamento, e H a espessura
inicial da camada, corrrcspondcnte a e.
A experiência mostra que C c é função da
plasticidade dos solos, sendo conhecidas as correlações
empíricas apresentadas por Terzaghi c
Peck (1948):
C = 0,007 (LL-10)
(61)
para solos rcmoldados, e
\
•
loga
C - 0,009 (LL-10)
(62)
Fig. 2.48 - Determinação de s m ': (aj método dc
Casagrande; (b) método de Pacheco Silva
Outros métodos sào propostos, como discutido
em Leonards (1962). Entretanto, deve ser considerado
que, embora seja vantajosa a existência de
um procedimento padrão para a interpretação de
resultados de ensaios de laboratório, o que se
obtém é uma indicação da ordem de grandeza do
parâmetro, afetada pela qualidade da amostra e
por detalhes de procedimento do ensaio.
Outro motivo para a representação do resultado
do ensaio em escala logarítmica é o da caracterização
de um trecho aproximadamente retilíneo,
acima da tensão de pré-adensamento. podendo
ser expresso pela equação:
e B e 0 -C c l°g—7
o..
(58)
sendo e, t o índice de vazios na tensão a w , e C c o
índice de compressão do solo.
De outra parte, ao trecho da curva abaixo de
a m' costuma-se, também, associar uma reta, embora
nào fique bem definida esta reta. Dela resulta
a expressão:
c= eo-Crlog-
(59)
para solos indeformados.
Estas correlações nào se aplicam a solos residuais
e a solos evoluídos pedologicamente,
como se discute no item 2.10.2.
O Sistema Unificado dc Classificação utiliza
esta propriedade para caracterizar as argilas
como de baixa compressibilidade (CL) ou de alta
compressibilidade (CH), conforme o LL seja menor
ou maior do que 50, como se mostra na
Figura 2.8.
Na Figura 2.49 estão apresentadas curvas e x
a' típicas de argilas sedimentares em função dos
limites de Atterberg, elaboradas por Lambe e
Whitman (1969). a partir de resultados de argilas
de diversas procedências. Verifica-se que
quanto maiores os limites de consistência, maiores
os índices de vazios correspondentes ao
mesmo valor de tensão; em conseqüência, a redução
em virtude do carregamento, que é a característica
expressa por C\, é maior. Esta figura
mostra também que a relação e x a' é curva,
como também comprovaram Martins e Lacerda
(1994). A adoção dc uma reta é válida para pequenos
incrementos de tensão e tem a vantagem
de poder caracterizar C .
Os resultados dos ensaios edométricos também
permitem a caracterização dos módulos
edométricos, D, das argilas, com os quais os
recalques podem ser calculados pela expressão:
4.5
4.0
3.5
8 3.0
1
•3 2,5
2.0
J.5
1.0
\ l LL = 120
-60
V u> i
\ Arplu
\ «lumccu
\ coloúUis
\flX-M
MlP-SO
ifjiU«\
otoâíiiiX
\Jrr.i?l
Arplu \ \
\
^llP- 12
Arrili»\ \\ V
ulloui ""
Siltcs*"
1
argilas, que demanda certo tempo cm virtude da
baixa permeabilidade destes solos. O processo de
dissipaçào das pressões neutras e das deformações
correspondentes é o caracterizado como o
adensamento dos solos.
O entendimento do processo de adensamento
fica bastante facilitado pela analogia mecânica de
Terzaghi. conforme apresentada por Taylor (1948),
como ilustrado na Figura 2.50. O solo pode ser
assemelhado a uma mola, cuja deformação é proporcional
às cargas nela atuantes. O solo saturado
corresponde a uma mola dentro de um pistâo cheio
de água, no embolo do qual existe um orifício de
reduzida dimensão.
0.5
0.1
10 100 1.000
Tcnslo vertical efetiva (kPa)
:
10.000 100.000
Sem carga 5N 10N 15N
0.1
03 1 3 10 30 100 300 1000
Profundidade aproxinu>daa (m)
3000
Fig. 2.49 - Curvas típicas de e x s' de argilas
sedimentares (Lambe e Whitman, 1969)
Carga total
Sem carga
15N
_
P = o;-o
D
II
(63)
com os símbolos definidos para a expressão (60).
O módulo edométrico 6 variável com o nível de
tensão, como se observa na Figura 2.47, e deve
portanto ser referido à tensão considerada. Para
tensões o acima de o a seguinte expressão é
válida:
D = (l+ <-o)o
0.435C.
(64)
sendo 0,435 o inverso do logarítmo neperiano de
10. base em que c, é definido.
Dispondo-se da curva de ensaio, das quais se
possam determinar módulos correspondentes a
acréscimos dc tensão de cada caso, o cálculo de
recalque pela equação (63) 0 mais simples do que
pela equação (60), e mais correta, por melhor representar
o trecho em torno da tensão de préadensamento,
quando as equações (58) e (59) nào
representam a real curva de e x o'. A simplicidade
dos coeficientes C e C é ilusória.
2.9.2 Deformações em função do tempo.
Adensamento
As deformações referidas no item anterior são
as obtidas com a expulsão da água do interior das
Carga suportada
pela água 0 1S 10
Carga suportada
pela mola 0 0 S
Porcentagem dc
adensamento 0 33 67
Fig. 2.50 - Analogia mecânica para o processo de
adensamento, segundo Terzaghi (Taylor, 1948)
Ao se aplicar um carga sobre o pistào. no instante
imediatamente seguinte a mola nào terá se
deformado, pois ainda nào teria ocorrido qualquer
saída de água. Toda a carga é suportada pela
água. listando em carga, a água começa a sair pelo
orifício. Num instante qualquer, a quantidade de
água expulsa terá provocado uma deformação da
mola que corresponde a uma certa carga (por
exemplo, 5 k.N). Neste instante, a carga total (de
15 kN, no exemplo) estará parcialmente suportada
pela água (10 kN) e parcialmente pelo solo (5
kN). A água, ainda em carga, continuará a sair do
embolo, a mola continuará a se comprimir, suportando
cargas cada vez maiores, até que toda a carga
aplicada esteja atuando sobre ela.
No anel de adensamento ou no campo, quando
nào há deformação lateral, sucede algo semelhante.
Ao ser aplicado um acréscimo dc prcssào. a
água nos vazios suporta todo o carregamento. A
10
0
15
100
pressão neutra aumenta de um valor igual ao acréscimo
de presssào aplicada, enquanto a tensão efetiva
não se altera. Estando a água em caiga superior à
externa, passa a ocorrer percolação, para as pedras
porosas, no ensaio, ou para as camadas drenantes,
no subsolo. A saída de água é acompanhada da deformação
do solo, que se dá com o aumento da
tensão efetiva. Como na analogia mecânica, o processo
continua até que toda a pressão aplicada tenha
se tornado acréscimo de tensão efetiva.
A teoria matemática que representa o processo
é conhecida como teoria do adensamento, e foi
desenvolvida por Terzaghi, marcando o surgimento
da moderna Mecânica dos Solos. O desenvolvimento
desta teoria foge ao escopo deste livro c
pode ser encontrado, didaticamente, em Taylor
(1948). Algumas etapas básicas desta teoria são
relembradas, a seguir, por serem necessárias para
a aplicação dos resultados. Será considerado só o
adensamento em condições semelhantes ao do
ensaio edométrico, com percolação e deformações
na direção vertical, com drenagem nas duas faces.
(1) Uma das hipóteses adotadas na teoria é que
a relação e x a' seja linear, o que é aceitável para
pequenas deformações. Desta hipótese decorre a
variação linear mostrada na Figura 2.51, e a definição
do coeficiente de compressibilidade, a-.
de
dc
do
\
\
(65)
(3) Considerando a percolação d'água sob c efeito
da pressão induzida pelo carregamento, pela
lei de Darcy, e sendo o volume de água escoada
igual â variação do volume do solo, Terzaghi estabeleceu
a seguinte equação do adensamento, que
estabelece a variação da pressão neutra em função
da profundidade, z, e do tempo, t:
k{\+e) d 2 u _du
l *vY H- ) J 7 ~ J 7
(67)
onde o termo entre parênteses reúne as características
do solo que influem no processo, que sào
consideradas constantes, definindo-se este termo
como o coeficiente de adensamento, c:
C.. =
, «vY w ,
(68)
(4) A espessura da camada é definida como 211,
sendo II a maior distância de percolação, havendo
percolação para as duas faces. A posição dos
pontos é expressa pela distância z, contada a partir
da superfície superior.
(5) No desenvolvimento matemático, o tempo.
/, aparece como múltiplo de c r/If, que é admitido
constante. A análise fica simplificada pela introdução
de um parâmetro adimensional, denominado
fator tempo, 7] definido como:
T = c.t
H
(69)
(6) A solução para um acréscimo de tensão instantâneo
e uniforme em toda a camada, com drenagem
pelas duas faces, leva à obtenção dc U. em
função de z e de T, cujos valores estão apresentados
na Figura 2.52.
o* o,
Fig. 2.51 - Relação e x s', segundo hipótese da
teoria de Terzaghi
(2) É utilizado o conceito de porcentagem de
recalque, U t, relação entre o recalque ocorrido num
tempo, t, c o recalque total para o carregamento
considerado, no elemento â profundidade z. Considerando
a hipótese acima, e construções geométricas
no esquema mostrado na Figura 2.51, U x
pode ser expresso das seguintes formas:
s t _ e x - e _ a -a
U. =-<- =
s e, -e a 2-a,
U. -11
U
(66)
U z indica a porcentagem de recalque ao longo
da profundidade, e U é empregado para representar
a porcentagem média, que é a porcentagem
de recalque percebida na superfície.
0.2 03 0.4 Ò} 0,6 0.7 08
Porcentagem dc recalque, U,
Fig. 2.52 - Porcentagem de recalque em função da
profundidade e do fator tempo
(7) A porcentagem de recalque, U, para qualquer
tempo, é a média de U z para o respectivo
tempo, e função somente de T. Sua solução pode
ser expressa graficamente (.Figura 2.53), estando
valores para algumas porcentagens de recalque
indicados na Tabela 2.VIII.
0
£ 0.4
3 0.5
§ 0.6
GO r\ n
2 0.7
g 0.8
g 0.9
0 0.1 0.2 0.3 0.4 0.5 0.6 0.7 0.8 0.9 I
Fator tempo, T
Fig. 2.53 - Porcentagem de recalque média, U, em
função do fator tempo, T.
Tab. 2.VIU 1 Valores de T para vários valors de U
u, % T U, % T U, % T
0 0 35 0.0942 70 0.403
5 0.0017 40 0.126 75 0.477
10 0.0077 45 0.159 80 0.567
15 0.0177 50 0,196 85 0,684
20 0,0314 55 0.238 90 0.848
25 0,0491 60 0.286 95 1.129
30 0.0707 65 0.342 100 00
A solução da teoria mostra que todos os
recalques por adensamento podem ser representados
graficamente pela mesma curva, estando os
recalques referidos ao recalque final, e os tempos
expressos pelo fator tempo.
Para a análise de um problema de recalque, o
Único parâmetro necessário do solo é o coeficiente
de adensamento. Este pode ser obtido pela análise
de medidas de recalques em ensaios de
adensamento, existindo procedimentos bem conhecidos
como os de Casagrandc (log t) ou de
Taylor Vt. cujos detalhes podem ser encontrados
em Taylor (19Í8) ou em Lambe (1951).
Os valores de c obtidos em laboratório, de
maneira gemi, indicam valores que conduzem a
recalques muito mais lentos do que os observados
em carregamentos reais Pinto e Massad (.1978).
Diversos fatores, como a maior permeabilidade no
sentido horizontal, a característica nào
unidimensional do adensamento, o efeito do
adensamento secundário pré-existente no solo, e
a interferência de lentes de areia nos depósitos
scdimentares. fazem com que a dissipaçào das
pressões neutras seja sensivelmente mais rápida
do que as previstas por meio dc coeficiente de
adensamento obtidas em ensaios de compressão
edométrica. Melhores estimativas de c sào obtidas
pela retroanálise de recalques medidos em
carregamentos anteriores, ou pelo seu cálculo, por
meio da equação (67), tomando-se o coeficiente
de permeabilidade obtido cm ensaio de campo.
2.9.3 Deformação lenta. Adensamento
secundário
A relação teórica Ux Té apresentada na Figura
2.54 (a), com o fator tempo na escala logarítmica.
Na Figura 2.5i (b), recalques medidos num ensaio
edométrico, sào apresentados em função do
tempo, também em escala logarítmica. Observase
que a curva de recalque, ao invés de tender
para uma assíntota horizontal, que indicaria sua
estabilização, tende para uma assíntota inclinada.
D
0
0.2
0.4
0.6
0.8
1
0.001 0,01 0,1 1 10 100
o
f 2
3
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4
o^ T ío IOO
Tempo Cl)
III lj]
Fig. 2.54 - Representação do adensamento em escala
semi-fog. (a) teórica UxT. (b) ensaio edométrico
Esta compressão lenta que continua n ororrer
após o desenvolvimento dos recalques previstos
na teoria do adensamento, é chamada de
adensamento secundário. Teoricamente, as pressões
neutras teriam praticamente se dissipado. Na
realidade, alguma pressào neutra continua presente,
justificando a saída dc água do ir.terior do solo.
Este fenômeno indica que pode ocorrer deformação
do solo mesmo sendo constante a tensão
efetiva, o que, implicitamente, contradiz o princípio
que considera a tensão efetiva a única responsável
pelas deformações, estabelecido por
Terzaghi (expressão 18). Deformação lenta ocorre
cm todos os materiais, mas nos solos ela é mais
notável em virtude das transmissões de forças pelos
contactos entre partículas. Parte das forças sào
transmitidas pelos contactos entre minerais argila,
que se dào pela água adsorvida, conforme descrito
em 2.2.4. Com o tempo, alguns destes
numerosíssimos contactos se desfazem, descarregando
as forças para contactos vizinhos, com pequenos
deslocamentos.
O adensamento secundário de um solo é expresso
pelo denominado coeficiente de adensamento secundário,
c a, que expressa a inclinação do trecho
retilíneo final da curva de recalque representada em
escala semi-log, como mostrado na Figura 2.54 (b).
Infelizmente, duas definições sào usadas,
função do índice de vazios:
Ae
c«, = Elogio'
ou em função da deformação específica:
c«, =
em
(70)
Ae AH/H _ c a<
Alog I0/ A log l0 / \+e t
(71)
Os valores de coeficientes de adensamento secundário,
em função da deformação específica,
variam de 0.5 % a 2 %, para argilas normalmente
adensadas, podendo atingir valores de 3 % ou mais,
para argilas muito plásticas e argilas orgânicas (Lambe
e Whitman, 1969). Valores para solos
sedimentares brasileiros podem ser encontrados
cm Massad (1994). Para argilas sobre-adensadas,
o efeito do adensamento secundário depende do
nível dc tensões atingido pelo carregamento, sendo
pequeno desde que a tensào de cedência nào
seja ultrapassada.
Didaticamente, o fenômeno de deformação das
argilas costuma ser dividido em duas fases, como
se elas fossem bem distintas: o adensamento primário,
durante o qual as pressões neutras se dissipam,
c o adensamento secundário, que ocorre sem
pressão neutra, ou com pressão neutra muito pequena,
para justificar a saída da água. Embora esta
dicotomia seja sustentada por alguns pesquisadores
(Mesri, 1982), acumulam-se evidências dc que
o adensamento secundário se inicia durante o processo
de dissipaçào dc pressões neutras (Imai,
1989). De fato, é difícil imaginar que nào seja assim.
Observando-se a Figura 2.52, percebe-se que
os elementos mais próximos das faces drenantes
têm sua dissipaçào dc pressão neutra quase total
cm tempos muito inferiores aos elementos internos.
O adensamento secundário requer que haja
um acréscimo de tensào efetiva e este acréscimo
acontece nos elementos extremos quando os internos
ainda estão com baixa porcentagem dc
recalque.
Conforme trabalho clássico de Bjerrum (1969),
a redução do índice de vazios durante o
adensamento secundário confere ao solo um comportamento
reológico como representado na Figura
2.55 (a). A redução do índice de vazios durante
o adensamento secundário faz com que o
solo apresente em ensaio edométrico posterior uma
tensào dc pré-adensamento superior à tensão efetiva
a que esteve submetida no campo. Por esta
razão, esta tensào, a ' tem sido referida como
' • im
tensão de cedência, para distinguí-la da máxima
tensào efetiva a que esteve submetida, que seria
sua tensào de pré-adensamento sob o ponto dc
vista geológico.
Uma característica importante que decorre do
que foi apresentado acima é que não existem argilas
sedimentares normalmente adensadas sob o
ponto de vista reológico, a nào ser argilas que
tenham sido carregadas muito recentemente, por
exemplo pela construção de um aterro, e que nào
tiveram ainda tempo de desenvolver seus recalques.
A relaçào entre a tensào de cedência e a tensão efetiva
de campo é denominada razão de cedência,
denominação preferencial à de razão de
sobreadensamento, costumeiramente empregada. O
símlx)lo (OCR) proveniente de "over consolidation
ratio" é empregado com os dois sentidos.
A razão de cedência por efeito do adensamento
secundário, como se depreende da Figura 2.55 (a),
depende dos coeficientes de recompressào, de
compressão e dc adensamento secundário dos
solos, e do tempo decorrido desde sua deposição.
Os coeficientes dos solos decorrem se sua constituição,
c Bjerrum (1973) apresentou a correlação
empírica entre OCR e IP dos solos, para argilas
adensadas por período de alguns milhares de anos,
que é reproduzida na Figura 2.55 (b).
o
"ã >
-8
o
o
=3
\
V, secundário dc
10.000 anos
SnVo
(b)
(a)
Sedimentação
\ Adensamento
Pressão Vertical cm escala logarítmica
20 40 60 80
índice de plasticidade
100
Fig. 2.55 - Efeito do adensamento secundário, fa)
redução do índice de vazios e aumento da tensão dc
cedência, (b) OCR dc solos sedimentados a alguns
milhares dc anos em função do IP (Apud Bjerrum, 1973J
2.9.4 Resistência e deformabilidade em
termos de tensões efetivas
A resistência e a deformabilidade de uma argila
sedimentar, em termos dc tensões efetivas, podem
ser determinadas em ensaios do tipo
adensado-drenado, CD.
Nestes ensaios, com o adensamento que antecede
o carregamento axial, a amostra fica com tensão
efetiva igual à pressão confinante aplicada. O
comportamento tensào-deformação e a resistência
dependerão da situação relativa de a,' perante
a tensão de cedência. Por este motivo, será analisado
separadamente o comportamento para pressões
acima da tensão de cedência (quando o corpo
dc prova se encontra normalmente adensado
sob a pressão do ensaio; e para pressões abaixo
da tensão de cedência (quando o corpo de prova
está sobreadensado).
a) Argila normalmente adensada
Considere-se uma argila hipotética, cuja relação
índice de vazios em função da pressão isotrópica
de adensamento seja a indicada r.a Figura 2.56
(a), lista argila teria sido adensada, no passado,
segundo a curva tracejada, até a tensão efetiva
igual a 350 kPa, e apresenta, conseqüentemente,
a curva e x a indicada pela linha contínua.
Considere-se a realização dc dois ensaios, com
confinantes de 400 e dc 800 kPa. Aplicadas estas
pressões, os corpos dc prova estarão normalmente
adensados sob estes valores. Ao se
fazerem carregamentos axiais, se obterão curvas
com o aspecto indicado na Figura 2.56 (b).
Os acréscimos de tensão axial crescem lentamente,
ocorrendo o máximo para deformações
específicas da ordem de 15 a 20 °/c. Note-se que
as tensões axiais são proporcionais às
> Uj >
«JL>
o
l'
Fig. 2.56 - Resultados de ensaios dc compressão triaxial adensado drenado (CD) cm argila sedimentar
o
V>[ — ' ' — — — r-
OLÍ
0.1
ô
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, , i . , i , i
5 4 « 10 15 20 J0 «O 50 ÍO IC 100 150 200 JW *50
ÍNDICE D« PLASBCLDMFE • %
Fig. 2.57 - Relação entre ângulo de atrito interno efetivo c índice dc plasticidade dc argilas (Apud Pinto, 1992)
confinantes, dc forma que, se os resultados forem
representados como na Figura 2.56 (0, na
qual as ordenadas indicam (a, - o () dividido por
o' do ensaio, as duas curvas se confundem. Este
tipo dc representação é denominado gráfico
normalizado
Sendo os valores de (o,' - a/) na ruptura proporcionais
a <J t', os círculos de Mohr representativos
do estado de tensões na ruptura definem uma
envoltória reta, cujo prolongamento passa pela
origem(figura 2.56 (h>). A resistência de uma argila,
nestas condições, é, portanto, caracterizada somente
por um ângulo de atrito, e expressa pela equação:
s = a\ tg <»• (72)
Por outro lado, observa-se que durante o carregamento
axial o corpo de prova apresenta redução
de volume, da mesma ordem de grandeza,
sendo só ligeiramente maior para confinantes
maiores (Figura 2.56 (c)). Se na Figura 2.56 (a) os
valores de t' f = (c, , -a í
,) f/ 2 (equação 2.25, com o
subscrito/indicando a situação de ruptura) forem
representados em função do índice dc vazios da
ruptura, obtém-se uma reta paralela à reta virgem,
pois t'.é proporcional a o,', e as abeissas sào apresentadas
em escala logarítmica, e as variações de
esào iguais, estando as ordenadas na escala natural.
Esta representação tem a característica de mostrar
a interrelaçâo entre e, t' f c o,'; associa a resistência
e a pressão confinante ao índice de vazios
na ruptura, e é muito prática. Por meio dela, por
exemplo, conhecidas as tensões efetivas na ruptura,
para qualquer trajetória de tensões, fica conhecido
o índice de vazios correspondente, e,
conseqüentemente, a variação dc volume correspondente
ao carregamento que deu origem à ruptura.
b) Resistência abaixo da tensão de
pré-adensamento
Ccnsidere-se, agora, que a amostra exemplificada
seja submetida a ensaios CD, com confinante de 200
kPa, portanto abaixo de o in'. Considere-se, inicialmente,
o resultado que este solo apresentaria se,
sob a mesma pressão confinante estivesse normalmente
adensado. Seu índice de vazios seria o indicado
pela reta virgem e seu comportamento no
carregamento axial seria semelhante ao dos corpos
dc prova referidos no item anterior. O
sobreadensamento havido, entretanto, fez com
que o índice de vazios ficasse menor, como se
observa na Figura 2.56 (a). Menor índice de vazios
significa maior proximidade entre as partículas,
inclusive com certo entrosamento entre
elas, com o que o solo apresenta-se mais rígido e
mais resistente. Com maior razão, isto é válido
para o ensaio com a confinante de 100 k?a. O
comportamento nestas condições se manifesta pelos
resultados indicados na Figura 2.56 (d).
Observa-se que a tensão desviadora máxima,
(a.-a,) f é maior do que a correspondente à mesma
pressão confinante para o mesmo solo, na situação
de normalmente adensado, e a diferença é
tanto maior quanto maior a razão de sobreadensamento.
Em conseqüência, os círculos de
Mohr representativos da situação de ruptura nào
tangenciam a envoltória retilínea correspondente
à situação de normalmente adensado, definindo
uma envoltória de resistência curva, como indicado
na Figura 2.56 (h).
Nào sendo prático sc trabalhar com envoltórias
curvas, costuma-se substituir o trecho curvo da
envoltória por uma reta que melhor a represente.
Há, naturalmente, várias retas possíveis, devendose
procurar a que melhor se ajuste para o nível de
tensões do problema pratico em estudo. Abaixo
da tensão de cedência, a equação de resistência é
expressa por:
.v'- c' + a', tg <J>' (73)
Os resultados dos ensaios mostram, também, que
a diminuição de volume durante o carregamento
axial é menos acentuada do que quando o solo se
encontra normalmente adensado, conseqüência
natural da prévia compressão pelo adensamento
Figura 2.56 (e). Constata-se, inclusive, que, para
razões dc sobreadensamento da ordem de *í ou
mais, ocorre aumento de volume durante o carrc-
gamonto. Desta forma, ao se representarem os valores
de l' t = (.a 1 ,- o\) f/ 2 em função dos índices
de vazios na ruptura, já nào se obtém uma reta,
mas a curva indicada na Figura 2.56 (a). Esta curva
depende de o' vm, mas uma vez determinada
para um valor de tensão de cedôncia, sua expressão
pode ser simplesmente transladada para outros
valores.
cj Valores típicos de resistência das argilas
A resistência para níveis de tensão acima de o' vm
se caracteriza só pelo ângulo de atrito interno
(equação 2.72). Reunindo resultados de diversas
fontes, Kenney (1959) mostrou que há uma tendência
de <•>' diminuir com o IP do solo, apesar
de considerável dispersão dos resultados por ele
coletados. Alguns casos, entretanto, se mostram
muito distantes desta tendência, como se mostra
na Figura 2.^7, onde, aos dados de Kenney acrescentaram-se
resultados de solos com elevados teores
de matéria orgânica (Juturnaiba, RJ, Brasil,
Coutinho, 1986), com partículas siltosas de elevada
angularidade (Bothkcnnar, Inglaterra, Nash et al.
1992). ou com complexa constituição de sua fração
fina, nào sendo bem caracterizada a rcsponsabilidade
pelo fenômeno (México, Mesri et al., 1975). Entretanto.
a tendência do ângulo de atrito diminuir
com o aumento da plasticidade, para solos de mesma
origem geológica, tem sido verificada com freqüência,
como, por exemplo, para solos variegados
da Cidade dc Sào Paulo (Pinto e Massad, 1970).
Para tensões abaixo de a' vm, o intercepto de coesão
depende dos níveis de tensão considerados
para a definição da reta representativa da resistência.
A envoltória de resistência, entretanto, é
tão mais elevada quanto maior a tensão de
ccdência.
d) Resistência residual
Observa-se que quando o solo está muito
sobreadensado, após ser atingida a ruptura, a resistência
diminui acentuadamente, atingindo valores
semelhantes ao residual das argilas normalmente
adensadas. Esta característica fica bem acentuada
quando os ensaios são de cisalhamento direto,
permitindo uma grande deformação do solo
pelo deslocamento da parte superior do corpo de
prova, como propôs Skempton (.964). A Figura
2.58 mostra curvas tensão-deslocamento e as resistências
de pico e residual. No seu trabalho clássico,
Skempton mostrou que a estabilidade de taludes
em solos sobreadensados, a longo prazo,
depende mais da resistência residual do que da
resistência de pico.
Enquanto o solo normalmente adensado diminui
de volume ao ser levado à ruptura, o solo
sobreadensado aumenta de volume, atingindo os
dois, na situação residual, o mesmo índice de vazios,
caracterizando o que Roscoe et al. (1958)
denominou de listado Crítico.
Dados coletados por Skempton (1964) mostraram
que o ângulo de atrito residual tende a ser
tanto menor quanto mais argiloso o solo, conforme
mostrado na Figura 2.59, numa clara evidência
de que a queda de resistência é devida à
reorientação das partículas argilosas, posicionandose
paralelamente quando as deformações sào grandes.
Exceções a esta regra foram detectadas por
Boyce (1985) para solos tropicais. Alguns minerais.
como o alofane, embora coir. dimensões da
fração argila, tem estrutura amorfa e apresentam
elevadas resistências residuais, enquanto outros,
com pequena porcentagem de minerais na fração
argila, apresentam resistências residuais baixas,
pela reorientação de partículas de mica ou de minerais
argilas de maior diâmetro aparente. Neste
Deslocamento
Fig. 2.58 • Resistência de pico e residual dc solos normalmente adensados e sobreadensados
N
. /
2
a
o
oo
o
v
Carregamento
Dcscarrcgamcnto
O
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0
O ^ ••» M
o
3
3
' I
20 4 0 «0 SO
f1ȂAO A R 011A . (%)
0.2 0.4 0.6 0.8 1
Resistência mobilizada
Fig. 2.59 -Ánguio dc atrito residual cm função da
porcentagem dc argila do solo (Apud Boycc, 1985,
modificado por Pinto o Nadcr, 1991}
Fig. 2.60 - Módulos tangentes cm função da resistência
mobilizada, cm carregamento c dcscarrcgamcnto, para
solo desestruturado (Pinto c Nadcr, 1994)
caso, estão os solos residuais de gnaisse, conforme
resultados obtidos com amostras dc Sào Paulo
(Pinto c Nadcr 1991).
e) Deformabilidade das argilas em solicitação
axial drenada
As curvas tensào-dcformaçào de argilas
scdimentares, mostradas na Figura 2.56, permitem
determinar módulos de elasticidade, para diferentes
níveis de tensão. Para estes solos, o modelo
hiperbólico, descrito em 2.6.2, se ajusta bastante bem.
Para tensões acima da tensão de cedência, a
curva tcnsào-deformaçào normalizada é a mesma
(Figura 2.56 (0). Concluí-se, portanto, que os
módulos, tanto tangente como secante, são proporcionais
aos valores dc a\:
Deve ser notado que estes parâmetros só são
válidos para solicitações de carregamento. Quando
submetidos a processos de descarregamento.
o solo apresenta muito maior rigidez. A Figura 2.60
mostra valores dc módulo tangente cm função
da resistência mobilizada, para um solo
desestruturado. submetido a compressão por carregamento
c por descarregamento a partir dc
um adensamento isotrópico. Fica evidente, que
não sc podem aplicar a problemas dc descarregamento
(escavações e túneis), módulos obtidos
cm ensaios dc compressão triaxial por carregamento.
2.9.5 Resistência e deformabilidade de
argilas em solicitação não drenada
sendo K . e E„., os módulos para a' ca' res-
CVM o .1 ' »»<J
pcctivamente.
Para tensões abaixo deo' wn, a mesma Figura 2.56
(0 indica que os módulos secantcs são maiores. E
possível correlacioná-los com a razão de ccdência
(OCR). A seguinte equação é proposta:
= £ { °CRy (75)
sendo n um coeficiente próximo a 0,5. Esta equação
nào é válida para módulos tangentes.
Os dados de variação de volume durante o
carregamento axial, apresentados na Figura 2.56,
indicam que o coeficiente de Poisson, para a
argila normalmente adensada, aumenta no decorrer
do carregamento, tendendo a 0,5. A variação
de volume da argila sobreadensada é menos
acentuada, indicando maiores valores do coeficiente
dc Poisson.
O comportamento dos solos c determinado pelas
tensões efetivas. São elas que refletem as forças
transmitidas grão a grão, das quais resultam as
deformações e a mobilização da resistência do solo.
Nos problemas dc engenharia, conhecem-se sempre
as tensões totais aplicadas. Para sc realizarem
as análises de estabilidade em termos de tensões
efetivas, é necessário conhecer as pressões neutras,
nào só as devidas ao nível d'água e a rodes
de percolação, como também as conseqüentes
do próprio carregamento. Como a estimativa das
pressões neutras é, freqüentemente, muito difícil,
análises em termos dc tensões totais sào empregadas.
Neste caso. é necessário conhecer os
parâmetros de resistência também em termos de
tensões totais, ou seja, quando é solicitado sem
drenagem.
A resistência de um solo saturado em solicitação
nào drenada depende do seu índice dc vazios c
da tensào efetiva que nele atua antes da solicitação.
No subsolo, estas condições variam de ponto para
ponto, e, portanto, também a resistência.
a) Resistência não drenada em função do índice
de vazios e da tensão efetiva pré-existente
A maneira como a resistência não drenada depende
de e de o, 1 , pode ser analisada pelos ensaios
de compressão do tipo adensado rápido,
CU (item 2.7.2). Nestes ensaios, estando o solo
saturado, não há variação de volume, e a pressão
neutra que se desenvolve no interior do
corpo-de-prova pode ser medida. Resultados típicos
de uma argila hipotética estão apresentados
na Figura 2.61, de maneira análoga à empregada
para o ensaio CD, representado na Figura
2.56.
Para tensões acima de a' n, cm solicitação drenada
havia saída de água do interior do corpo de
prova. Estando esta impedida, a pressão neutra
que provocava a saída da água nào se dissipa, c a
tensão efetiva diminui. Em conseqüência, diminui
a tensào suportada pela argila para qualquer deformação
e para a ruptura. As Figuras 2.ol (b) e
(c), representam o comportamento da argila na
situação dc normalmente adensada, havendo
proporcionalidade tanto das tensões desviadoras
como das pressões neutras, com a pressão
confinante de ensaio, para as mesmas deformações,
como se mostra nos gráficos normalizados
apresentados nas Figuras 2.61 (D e (g).
fO
(-"H I 1
Fig. 2.61 - Resultados de ensaios de compressão triaxial adensado não-drenado |CU| em argila sedimentar
Os círculos de Mohr na ruptura podem ser representados
tanto cm termos dc tensões totais
aplicadas, como em termos de tensões efetivas,
obtidas a partir da dedução da pressão neutra dos
valores totais. Os círculos em termos de tensões
efetivas definem uma envoltória de resistência que
é muito semelhante à obtida em ensaios CD, pois
sào as tensões efetivas que determinam o comportamento
do solo. As tensões totais definem círculos
de Mohr que se situam abaixo desta
envoltória.
A resistência não drenada pode ser estimada pela
relação entre o parâmetro i' fç o índice de vazios,
obtidos de ensaios CD, como mostrado na Figura
2.5ó<a>. Não havendo variação de volume durante
o carregamento axial, t' f é aquele que corresponda
ao índice de vazios decorrente da pressão
de adensamento, que é a pressão confinante
do ensaio.
Para tensões confinantes abaixo de a' , nos en-
\nt
saios CD. a variação de volume era menor do que
para a argila normalmente adensada. Pelo mesmo
motivo, nos ensaios CL", para a,' abaixo de o m', a
pressão neutra é menor. Sendo grande a OCR, pode
mesmo ocorrer o desenvolvimento de pressões
neutras negativas, correspondentes ao estado em
que havia aumento dc volume nos ensaios Cl). A
resistência nào drenada, então, é maior do que a
resistência cm termos de tensão efetiva. Fstes resultados
estão apresentados nas Figuras 2.01 (d) e
(e). c comparados com os da argila normalmente
adensada nas Figuras 2.01 (0 e (g).
Ensaios CL' são empregados para a determinação
da resistência efetiva, por serem de mais curta
duração, e portanto riais econômicos, que os ensaios
CD. fornecendo resultados semelhantes.
É comum que se apresentem envoltórias de resistência
aos círculos de Mohr na ruptura de ensaios
CU, definindo-se uma equação de resistência
em termos de tensões totais:
s = c + o tg ó„ (76)
Esta sistemática é questionável. A equação de
resistência obtida desta maneira só tem validade
para a situação do ensaio cm que a tensão principal
maior aumenta sem que esteja ocorrendo variação
das tensões principais intermediária e menor.
Qualquer variação de o, ou provoca alteração
de pressão neutra e conseqüentemente mudança
de 4> tu , pois sào as tensões efetivas que
determinam a resistência (Pinto, 1987). Nào existe,
entretanto, carregamento no terreno, que nào
provoque alteração de todas as tensões principais.
Esta maneira de representar a resistência nào-drenada,
entretanto, tem sido aplicada para solos nào
saturado*, quando o efeito da pressão neutra não
e tão importante, e o procedimento se justifica
pela simplicidade de cálculo que proporciona.
A correta interpretação de ensaios CU é a indicação
da resistência nào drenada, definida como
t'f = (a -a',), / 2, em função da tensão efetiva atuante
no corpo de prova, como se mostra na Figura
2.02.
03
CL
120
100
h 80
60
40
20
- 0
i
0 50 100 150 200
a (kPa)
Fig. 2.62 - Resistência não drenada, em função dca,',
cm ensaio CU
Para tensões acima de a\ m, s u é proporcional a
s' v definindo-se constante a relação:
<J 3 /
= const. (77)
Para tensões abaixo de o' vm, a experiência mostrou
que a seguinte equação representa ben os
resultados:
' no
.(OCR) n (78)
sendo n um expoente cujo valor e da ordem de
0,8, como mostrado experimentalmente por Ladd
e Foott (1974), ou deduzido pela teoria do estado
crítico (Wroth, 198-1).
b) Resistência não drenada no estado natural
A resistência nào drenada dc uma argila pode
ser determinada diretamente "in situ", como se
descreve no Capítulo 3, ou por meio de amostra
indeformuda levada a ensaio de compressão triaxial
UU.
Quando uma amostra é retirada do terreno, as
tensões totais caem a zero. Da mesma forma que
um carregamento sem drenagem provoca um
acréscimo de pressão neutra igual ao carregamento
efetuado, a um descarregamento corresponde
uma diminuição de pressão neutra de igual valor.
Ocorre que no estado natural, a argila se encontra
com tensões verticais e horizontais de diferentes
valores (sendo Ko a relação entre elas em termos
efetivos). Na amostra, o estado de tensões é
isotrópico. Pode-se admitir, entretanto, sem muita
incorreção, que o efeito de amostragem
corresponda a uma redução de tensão igual à média
das três tensões principais. Em conseqüência, a
amostra fica, teoricamente, com uma pressão neutra
igual a:
a,+2o3
a\(l+2fo>)
="<> ~ — 3 — = - 3 { 1 ) )
sendo k e M (as pressões neutras no campo e na
amostra. respectivamente.
A pressão neutra negativa da amostra é a tensão
efetiva a que ela se encontra submetida. Qualquer
pressão total que venha a ser aplicada à amostra
não altera sua tensão efetiva se nào ocorrer drenagem.
Desta forma, em ensaios UU, a tensào efetiva
é sempre a mesma, e como o carregamento
axial é feito sem drenagem, a resistência é sempre
igual. Igual também é a resistência à compressão
simples, ensaio em que a confinante é nula, pois
a tensão efetiva ainda ocorre devido à pressão
neutra negativa. Em conseqüência, os resultados
definem uma envoltória como se mostra na Figura
2.63. Disto resulta a caracterização das argilas
como materiais coesivos.
«j CL
^50
t-»
compressão simples
V w V A A
0 50 100 150 200
a (kPa)
Fig. 2.63 - Resultados dc ensaios UU em argila saturada
Pode-se acrescentar que a resistência em ensaios
UU, com qualquer pressão confinante, apresenta
o mesmo resultado que um ensaio CU, feito
com pressão confinante igual à tensào efetiva da
amostra. Em todos OÍ. casos, os corpos de prova
sào carregados axialmcnte, sem drenagem, a partir
de uma tensão efetiva igual.
Ensaios de compressão triaxial UU, ou mesmo
de compressão simples, seriam o procedimento
mais fácil para a determinação da resistência não
drenada das argilas, e assim foram considerados
por muito tempo, se nào ocorressem os seguintes
fatores que interferem marcantemente nos resultados:
Amostragem. A operação de retirada do subsolo,
afeta a qualidade da amostra, tanto pela transformação
do estado anisotrópico de tensões para um
estado isotrópico, como por perturbações mecânicas
que afetam sua resistência. (Lambe e Ladd,
1963).
Estocagem. As amostras não conservam as pressões
neutras negativas (Bjerrum, 1973). Em conseqüência.
as resistências diminuem com o tempo
de estocagem. A perda de resistência nào é
linearmente proporcional à perda de pressão
neutra negativa, pois na medida cm que a tensão
efetiva vai diminuindo, a amostra vai se tornando
sobreadensada. cm conseqüência do que
a resistência nào varia como se mostra na Figura
2.62, ou pela expressão (77), e, sim, como
indica a expressão (78). Segundo Ladd c Lambe
(1963), a pressão neutra negativa da amostra,
após certo período de estocagem. fica sendo dc
0 a 40% da dc campo, e a resistência cai para 20
a 50% do valor correspondente à resistência de
campo de uma amostra "perfeita", amostra que
só tivesse sofrido o efeito do alívio das tensões
de campo
Diante destes fatos, tem sido sugerido que a
determinação da resistência não drenada seja obtida
por meio de ensaios CU, readensando-se os
corpos de prova sob as tensões efetivas que ocorriam
no campo.
No campo, entretanto, a tensão horizontal é diferente
da vertical. Os corpos de prova podem ser
adensados sob uma pressão isotrópica igual à
média das tensões principais (tensão octaédrica).
Preferencialmente, os corpos de prova podem
ser adensados num estado anisotrópico de tensões,
com a/ - K 0.a,'. Estes ensaios são referidos
pelas siglas CIL' e CAU ou CK 0U, respectivamente,
indicando a maneira como o adensamento foi provocado.
Anisotropia. A experiência mostra que a resistência
varia conforme a direção e o sentklo da solicitação,
como se mostra esquematicamente na Figura
2.6-i. Resultados experimentais mostram que a
resistência na solicitação ativa é maior do que
nas outras, sendo a resistência no cisalhamento
simples maior do que na solicitação passiva. A
anisotropia dc resistência é tanto maior quanto
menos plástico for o solo. Desta forma, para se
terem resultados representativos do solo, os corpos
dc prova, depois de adensados
anisotropicamcnte, devem ser submetidos, independentemente,
a carregamentos e a descarrega
me ntos.
Tempo de solicitação. A experiência mostrou
que a velocidade de carregamento (ou o tempo
decorrido entre o início do carregamento c a
ruptura), afeta os resultados dc maneira importante.
Na Figura 2.65, sào comparados resultados
de ensaios com diferentes velocidades, verificando-se
correlação linear entre as resistências
e o logaritmo do tempo. O efeito do tempo
é tanto maior quanto mais plástico o solo, em
virtude do tipo de contacto entre as partículas,
pela mesma razão que determina maior
adensamento secundário para as argilas dc maior
IP (item 2.9.3). Ortigào (1980) c Coutinho
(1996) obtiveram crescimentos dc 10 % na resistência
nào drenada por ciclo dc aumento de
tempo, para argilas sedimentares orgânicas da
Baixada Fluminense.
Ensaio de extensão Ensaio dc Ensaio de compressão
(passivo) csalhamento (ativo)
simples
<*> 0.5
0.4
0.3
3 0 2
40
O 1
Com base nas correlações de Bjerrum, Mesri
< 1975) verificou que a razão de resistência, se expressa
em função da tensão de cedência e corrigida
pelo fator proposto na Figura 2.67 (b). fica pratiá
l-íÍÍl-l-L_ _I C
. ' DSS
co_?
°o °o, <*>° TE^. 1
A - Compressão Tnoiiol - TC
o - C"«clhom«nfo Simpl«»*0SS
• - £ «união Tr i o • io! - TE
O
< 10 ?0 30 40 50 60 70 80 90
ÍNOICE OC PLASTICIDADE , %
ê
Skempton, é válida para argilas normalmente
adensadas, sob o ponto de vista geológico, e a
razão de resistência é definida em função da tensão
de cedência. Na correlação de Bjerrum, a razão
de resistência é expressa em função da tensão
vertical efetiva, c\ 0 , e é feita distinção entre argilas
recentes e argilas envelhecidas, ou seja. que
sofreram adensamento secundário conforme analisado
no item 2.9.3.
Os valores empregados por Skempton eram provenientes
de ensaios dc compressão simples ou
de palheta "in situ" (vane test), nos quais a velocidade
de carregamento é muito grande. Por isto,
estes valores nào devem ser empregados cm projetos,
pois, como visto acima, estes valores sào
muito superiores aos correspondentes a solicitações
de campo.
De fato, Bjerrum <1973) constatou que coeficientes
dc segurança maiores do que um ocorriam
em aterros que haviam rompido, sendo tanto maiores
quanto maior o IP do solo. Os resultados da
análise de Bjerrum estão mostrados na Figura 2.67.
juntamente com os fatores dc segurança propostos,
para levar em conta o efeito do tempo e da
anisotropia.
Fig. 2.64 - Anisotropia de resistência: (a) Esquema de
solicitação; (b) Resultados experimentais
IP. %
Fig. 2.65 - Variação da resistência com a velocidade
de carregamento; a resistência está normalizada em
relação à resistência obtida com velocidade de deformação
de 0.6 %/hora [Bjerrum, 1973J
b)
o
0.6
I s r
c) Valores típicos de resistência
o
Como foi visto, a resistência nào drenada depende
da tensão efetiva atuante sobre a amostra.
Num depósito de argila sedimentar, a resistência
nãc drenada aumenta consideravelmente com a
profundidade em virtude do peso efetivo crescente.
Valores típicos, portanto, devem ser indicados
pela razão de resistência, í /a^ ou s/fc ' jwj1 que é
uma constante do solo como expresso cm (77).
Sào muito divulgadas as correlações de Skempton
(1957) e de Bjerrum (1971), reproduzidas na Figura
2.66, indicando que a razão dc resistência cresce
com plasticidade do solo. Na correlação de
0
0 20 40 60 80 100
1 P . %
Fig. 2.66 - Correlações entre razão de resistência de
argilas e o índice dc plasticidade: aj segundo
Skempton (1957); b) segudo Bjerrum (1973)
O 20 40 60 B0 100 120 140
INDICC OE PLA STI ClDAOE .(%)
O 20 40 60 BO 100 120
INDICC OC PLASTICIDADE .1%)
Fig. 2.67 - Análise dc ruptura dc aterros: aj coeficientes
de segurança obtidos cm rctroanãlise. em função do IP;
(b) fator de correção proposto por Bjcrrum (1973J
camcntc independente do IP, e estabeleceu a seguinte
equação para a estimativa de resistência
nào drenada compatível com tempo normal dc
construção:
s /o 0,22 (80)
Resultados de ensaios de compressão,
cisalhamento simples, e extensão, reunidos por
Jamiolkowski et al. (1985), estão apresentados na
Figura 2.08. Com base nestes resultados, e considerando
o efeito de sobre adensamento, conforme
discutido em 2.9.5 (aj, estes autores propuseram
a seguinte expressão:
= (0,23±0,04).(0c/0" (81)
Segundo Jamiolkowski et al. (1985) os valores
obtidos a partir desta correlação, que não difere
muito da de Mcsri, são mais representativos do
que resultados de ensaios dc compressão simples,
ou de ensaios UU, onde os resultados são afetados
por fatores que tanto podem aumentar como
diminuir a resistência.
dj Deformabilidade em solicitação não drenada
Comparando-se os resultados apresentados nas
Figuras 2.S6 e 2.6l, verifica-se que os módulos de
elasticidade correspondentes a solicitações não drenadas
sào menores do que para as solicitações
drenadas, estando o solo normalmente adensado
ou ligeiramente sobreadensado. Tal fato resultado
surgimento dc pressão neutra, que reduz a pressào
confinante efetiva, a qual condiciona a
deformabilidade.
Os módulos E, para solicitações não drenadas,
em argilas normalmente adensadas, são proporcionais
às tensões de adensamento e dependem de diversos
fatores, como o adensamento secundário a
que a argila esteve submetida (que eleva /•), c a
velocidade de carregamento (E tanto menor quanto
mais lento o carregamento). Valores de í:\ 0 situam-se
em torno de 100 a 200 vezes o valor dc a,'
(Lambe e Whitman, 1969).
Argilas sobreadensadas apresentam maiores relações
entre F. sue o,'. Houlsby e Wroth (1991), com
base em dados experimentais e análises de estado
crítico, sugerem que se expresse a variação do
módulo por expressão semelhante à empregada
para a resistência (equação 78), portanto:
'E'
í
to
£>
.
no
iOCR) n (82)
sendo n variável com a plasticidade dos solos,
podendo ser adotado, em primeira aproximação,
igual a 0,5.
O coeficiente de Poisson em solicitações nào
drenadas de solos saturados é, sob o ponto de
vista prático, igual a 0,5, pois, nào havendo drenagem,
nào há variação sensível de volume.
2.10 COMPORTAMENTO DE ALGUNS
SOLOS TÍPICOS
2.10. í Solos estruturados e solos
cimentados
O comportamento descrito para os solos nos
capítulos anteriores se refere mais diretamente a
solos desestruturados. Todos os solos naturais,
entretanto, cm maior ou menor grau, apresentam
alguma estiuluiação, devido ao envelhecimento
ou a agentes cimentantes.
As conseqüências do envelhecimento, estudadas
com detalhes por Schmertmann (1991), são
um aumento de rigidez para pequenas deformações
c um aumento de resistência para tensões
atê um certo nível. A estruturação pode ser devida
a um efeito de tixotropia, resultante de
reorientação dc partículas argilosas.
A cimentaçào pode resultar de deposição de
substâncias cimentantes nos contactos
intergranulares, da rccristalizaçào dc minerais durante
a ação do intemperismo, como no caso de
solos evoluídos pedologicamente, ou de ligações
químicas provenientes da rocha mater, no caso de
solos residuais. Leroueil e Vaughan (1990) mostraram
a Tone similaridade de comportamento mecânico
existente em todo o espectro de solos estruturados,
desde argilas moles até rochas brandas.
Uma das peculiaridades dos solos estruturados
é a existência de tensões de cedência que nào sào
devidas a pré-adensamento, nem a redução de
índice de vazios por efeito de adensamento secundário.
A Figura 2.68 mostra a curva de
adensamento de argila sedimentada artificialmente.
que descarregada numa certa altura, foi mantida
com o mesmo índice tle vazios por dezenas de
dias. Ao ser recarregado, a cedência só ocorreu
para tensões bem superiores ao valor correspondente
à reta virgem, atribuindo-se este fenômeno
ao rearranjo das partículas argilosas.
2.0
| ^
« 1,1
S J
1.2 •
De maneira semelhante, solos cimentados
apresentam tensões de cedência, em ensaio
edométrico, ou em carregamento isotrópico, que
não estão associadas a tensões previamente aplicadas
ao solo, mas à quebra das cimentaçòes
(Sangrey. 1972).
As curvas tensào-deformaçào em carregamentos
axiais apresentam peculiaridade, como as indicadas
na Figura 2.69. Fara baixas tensões confinamos, o
comportamento é governado pela cimentaçáo; a
tensão desviadora atinge um valor máximo, associado
à destruição da cimentaçáo, e cai para um
nível menor, referente ao atrito entre os grãos (ensaio
LA 7). Para níveis maiores, após a quebra da
cimentaçáo, é possível que a resistência por airito,
mobilizado com maiores deformações, leve s valores
maiores de resistência (ensaio LA 8). F.nalmente,
para pressões confinantes maiores do que
a tensão de cedência, a cimentaçáo se destrói já
durante o confinamento, e o comportamento no
carregamento axial é de um material puramente
granular. Neste caso, os módulos de elasticidade
podem até ser menores do que os correspondentes
a pressões confinantes mais baixas, contrariando
o comportamento típico dos solos
desestruturados.
2.10.2 Solos residuais
1.0
0.8
0.01 0.1 1.0 10
Prcjvio. kg/cm'
Fig. 2.68 - Curva dc adensamento de argila
sedimentada artificialmente, com envelhecimento
provocado (Apud Leonards e Altschaff. 1964J
Os solos residuais se caracterizam, inicialmente,
pela sua heterogeneidade, que reproduz a
heterogeneidade da rocha mater. Esta peculiaridade,
em certos casos, torna difícil a determinação
de suas características por meio de ensaios de
laboratório, pois é possível moldar corpos de prova
com características bem distintas de uma única
Oj tKçt/crr\*)
LA7 I 05
LA8 2 M
4 8 12 J6
t
10
p : k g /c m*
Fig. 2.69 - Resultados dc ensaios dc compressão triaxial em Argilas sedimentares cimentadas (apud Sangrey. 1972)
amostra. Apreciando-sc grandes massas destes
solos, entretanto, nota-se que a probabilidade de
se encontrarem porções semelhantes a pequena
ou grande distância é praticamente igual, de forma
que grandes massas podem ser consideradas
"heterogeneamente homogêneas", e a elas podem
ser associados parâmetros de comportamento.
Outra característica marcante destes solos é a
folheaçào que apresenta, da qual resulta uma
anisotropia de comportamento, tào mais acentuada
quanto menos evoluído o solo.
Quanto ao estado de tensões "in situ", não há
nenhuma possibilidade de se estimar as tensões
horizontais que ocorrem no subsolo, por meio
dc ensaios de laboratório. Certamente as tensões
dependem do estado de tensões na própria
rocha que deu origem ao solo c do processo
evolutivo. Pode-se apenas especular sobre os
seus valores.
Durante o processo de formação do solo, o enfraquecimento
e a decomposição podem atingir
tal ordem, que as partículas perdem cimentação e
passam a ter comportamento individual. Com a
lixiviaçâo, as partículas passam a ocupar os espaços
disponíveis, num processo semelhante ao
cisalhamento, ficando com um arranjo correspondente
ao equilíbrio ativo. O coeficiente de empuxo
em repouso, K 0, seria semelhante ao coeficiente
de empuxo ativo, K .
De outra parte, é possível que a decomposição
da rocha, dando origem ao solo, libere minerais
expansivos. A expansão provoca dilataçào na direção
vertical, mas na direção horizontal ela é impedida.
A tensão horizontal pode crescer até o
limite do equilíbrio passivo, com o correspondente
coeficiente K .
1.0
o.»
« 0
: o.*
•a•
1
I
0
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0
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1. ««6111*0 / IIITITO
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»*«otO»io
t
-fltlTO
r- s*Aijic
Fig. 2.70 - índices de compressão de solos residuais dc
diferentes rochas mater, em função do LL. (Pinto et al..
1993)
Aos dois fatores acima, soma-se o fato de que,
tanto por efeito das tensões previamente existentes
na rocha, como por efeito de grandes movimentações
de massa posteriores, as tensões horizontais
podem ser diferentes conforme a direção
considerada.
Somente ensaios "in situ", por exemplo com o
pressiômctro de autofuração, podem esclarecer o
verdadeiro valor das tensões horizontais "in situ",
nào havendo nenhuma razão para sc estimar o
seu valor por correlações estabelecidas para solos
scdimentares, como as mostradas na Figura 2.21 e
as indicadas pelas equações (20) e(21).
Nos ensaios de compressão edométrica, os solos
residuais apresentam o comportamento típico
dos solos cimentados, descrito cm 2.10.1, com a
caracterização de uma tensào de ccdéncia, depen-
B -
latNITO
10- MICâlllTO
1Z -
20- liSTO
Fig. 2.71 - Módulos edomêtricos de soles residuais em função da tensão vertical aplicada
O.E 0.8 1.C 1.2 1.4
IfKlce de vare»
5 0 15 20 25 30 30
lnc.ce de PmIoívIe. *
Fig. 2.72 - Ângulos de atrito efetivos de solos residuais,
para tensões acima do efeito da estrutura (Pinto et al.,
1993)
dente do grau de evolução do solo. O índice de
compressão, acima da tensão de cedência, tem
sido usado para caracterizar a deformação destes
solos. Resultados disponíveis de ensaios em solos
residuais, ainda que agrupados segundo a rocha
mater, apresentam grande dispersão. Para cada
origem, apresenta-se na Figura 2.70 faixas correspondentes
a valores de Cc distantes da média de
um desvio padrão. Nota-se que os dados se afastam
bastante dos valores encontrados para os solos
sedimer.tares, que deram origem à correlação
estabelecida por Terzaghi (equação (62)), bem
como de correlações estabelecidas para solos
sedimentares evoluídos pedologicamente da Cidade
de São Paulo, estabelecidas por Mello e
Teixeira (1962) c por Pinto e Massad (1972).
A deformabilidade dos solos residuais, para o
estudo de comportamento de fundações, fica melhor
caracterizada pelo módulo edométrico. Na
Figura 2.71, é apresentada a variação do módulo
tangente, em função da tensão vertical, para solos
residuais de diversas origens. Nota-se que os
módulos crescem até a tensão de cedência, em
torno da qual atingem um máximo, decrescem para
tensão um pouco acima, e voltam a crescer para
tensões mais elevadas.
A resistência dos solos residuais, em termos
de tensões efetivas, para tensões abaixo das tensões
de cedência, depende do grau de alteração
do solo. caracterizando um intercepto de
coesão da ordem de 5 a 50 kPa, tendendo a ser
mer.or na medida em que o índice de vazios é
maior, ou mais plástico o solo (Pinto et al., 1993).
Para tensões acima da tensão de cedência, a resistência
é definida por uma envoltória passando
pela origem e caracterizada, portanto, por
um ângulo de atrito interno efetivo. Na Figura
2.72 estão apresentados valores médios de
para solos provenientes de diferentes rochas
mater. Nota-se que os ângulos de atrito inierno,
acima do efeito das estruturas dos solos residuais,
são da ordem de 34°, para os solos mais
compactos ou de menor plasticidade, e de 29",
para os menos compactos ou mais argilosos, ainda
que não haja dependência entre compacidade
e plasticidade.
A resistência não drenada dos solos residuais
depende do estado dc alteração do solo e do grau
de saturação em que se encontrem. Na Figura 2.73
estão apresentadas trajetórias de tensões efetivas
típicas dc solos residuais, cm solicitações sem drenagem,
mostrando a diversidade dc comportamento
que podem apresentar. No caso dos colúvios
lateríticos, incluídos nesta figura, observa-se o grande
desenvolvimento de pressão neutra após a
máxima tensão desviadora, caracterizando uma
envoltória em tensões efetivas, para grandes deformações,
bem superior.
i
á } COLÚVIC
Fig. 2.73 - Trajetórias dc tensões efetivas dc solos residuais, cm solicitação não
drenada
2.10.3 Solos parcialmente saturados
Muitos solos superficiais nào se apresentam
saturados e o entendimento de suas propriedades
requer a consideração de diversos fatores. Este
tema, objeto de pesquisas principalmente voltadas
para solos compactados desde Bishop (1960)
e Hilf (1960), tem recebido tratamento específico
nos anos mais recentes, merecendo, inclusive, a
publicação de livro especialmente a ele dedicado
(Fredlund e Rahardjo, 1992).
Inicialmente, os vazios do solo nào sào mais
praticamente incompreensíveis, como se considerada
para os solos saturados. Em conseqüência,
carregamentos não drenados nào provocam acréscimos
da pressão neutra dc igual valor; nestes carregamentos,
parte da tensão aplicada é suportada
diretamente pelo solo. constituindo um acréscimo
de tensão efetiva.
Adicionalmente, a variação do volume de ar nos
vazios do solo é devida nào só à sua
compressibilidade, definida pela lei de Boyle e
Mariotc, como à sua dissolubilidade no ar, caracterizada
pela lei de Henry. Segundo esta, a quantidade
de ar dissolvido na água é proporcional à
pressão cm que se encontra. Desta forma, com o
acréscimo de pressão, é possível que todo o ar
existente nos vazios se dissolva na água, ficando
o solo saturado, assim como é possível que um
solo saturado, sendo aliviado da pressão (por
exemplo, na amostragem de um solo saturado),
apresente bolhas dc ar que se encontrava dissolvido
c que se liberta, de maneira semelhante à
formação de bolhas que ocorre na abertura dc
uma garrafa de refrigerante.
Num solo nào saturado, o ar pode se encontrar
em canalículos intercomunicados, ou em forma
de bolhas oclusas, quando o grau de saturação é
superior a um valor em torno dc 85 a 90 %. Sendo
pequenos os vazios do solo, a interface entre
o ar c a água é sempre dc ordem capilar, cm razão
do que a pressão no ar é diferente da pressão na
água, conforme foi discutido nos iteas 2.2.5 e 2.5 7.
O fato dc o ar nos solos parcialmente saturados
estar em contacto com as partículas sólidas e sob
uma pressão diferente da pressão na água requer
uma revisão do conceito de tensão efetiva. Um
tratamento detalhado sobre o assunto sc encontra
em Lambe (1960).
Bishop (1959) sugeriu a seguinte expressão para
a tensão efetiva:
o'= o-u a+x(u a-«w) (83)
sendo x um parâmetro que depende do grau de
saturação c de outros fatores específicos de cada
solo. A expressão (ua - uwj é chamada de tensào
cie sucção e representa a tensão capilar: ela é inversamente
proporcional ao raio de curvatura da
interface água-ar, como visto em 2.5.7. Note-se que
a expressão de Bishop pode ser rcescrita da seguinte
forma:
o' = a-(u a(l-x)+u w(x)] (8-1)
Esta expressão mostra que, sendox um número
menor do que 1, cie é na realidade um fator de
ponderação pelo qual se calcula uma pressão neutra
média, indicativa do efeito conjunto das pressões
intersticiais da água c do ar. A fórmula aproximada
empregada no item (2.5.6) considera que
X seja linearmente proporcional a S. Na realidade,
verifica-se, experimentalmente, pela rctro-anâlise
de resultados de laboratório, que a variação de x
com S ocorre como mostrado na Figura 2.74.
/
® /
•
T
40°
i C 0
r
•1 •
i
i
! •
/
o 20 40 60 60 J00
CRiU OE SATURAÇlO S.l%)
Fig. 2.74 - Variação do parâmetro K com S, obtida em
retroanálise de ensaios (Abramento e Pinto, 1993J
Fredlund et al. (1978) apresentaram uma
metodologia de ensaio extremamente interessante
para determinar a influência das pressões na
água e no ar na resistência dos solos saturados.
Para expressar a influência dos diversos fatores,
propuseram a seguinte equação:
s' = c' + (o' -u a)tg$' +(u a-u w)tg<t> /í (85)
Esta expressão mostra a resistência como composta
dc três parcelas: (1) o intercepto de coesão
(2) a resistência devida à tensão efetiva; e (3) a
resistência devida à tensão de sucção. Graficamente,
esta expressão fica representada como sc mostra
na Figura 2.75. Esta formulação é especialmente
interessante quando a pressão no ar é nula, ou
seja, quando os canalículos com ar estão em
contacto com o meio ambiente, e portanto sob a
pressão atmosférica.
O parâmetro tg<j>''\ indica como a resistência aumenta
com a sucção, independentemente da tensào
efetiva. Seu valor pode ser associado ao
parâmetro x, da expressão (83), obtendo-se:
tgr h = (86)
I r, V. Ml
n 10
c»l« .0 >0 1» 16
i» 1» V9 19 >• I>0 110 >0 10 • 0
f/
A
—
[N \
\ v
\ \
*â»i»'»ci ec ctiâoo if,-u«».
Fig. 2.75 - Representação da resistência ao
cisalhamento segundo a expressão de Fredlund et al.
(1978)
Resultados de ensaios têm mostrado que o aumento
de resistência com a sucção é progressiva,
mas nào necessariamente linear, podendo-se substituir
o fator tg<j>"' por uma função da sucção
(Escario e Sáez, 1986) (Abramento e Pinto, 1993).
Tanto a expressão de Bishop como a de Fredlund
mostram que a resistência é função da pressão de
sucção, sendo esta devida ao grau de saturação. A
parcela correspondente a ela não depende da tensão
confinante, e portanto se soma à coesão, constituindo
o que se chama de coesão aparente. É ela
a responsável pela resistência tão elevada apresentada
pelos solos ressecados. Naturalmente, na
medida em que o grau de saturação aumenta, a
resistência diminui.
Em termos de resistência confinada dos solos
parcialmente saturados, o fato mais marcante é a
menor pressão neutra devida aos carregamentos.
As envoltórias de ensaios UU apresentam um comportamento
peculiar, como mostrado na Figura
2.76. Na medida em que a pressão confinante aumenta,
sem drenagem, o ar se comprime e se dispersa
na água, de modo que o aumento de tensão
efetiva é progressivamente menor. Atingido um
certo valor, todo o ar se dissolve na água, e a
partir daí o solo se encontra saturado e a envoltória
é horizontal, como nos solos originalmente saturados.
Para as pressões inferiores, a envoltória apresenta o
aspecto curvo, mostrado na figura.
r
£ 20
* 10
17.6t.N.Tn'
h-?0.0%
T,. «7.1kHW"
h-21.6%
rrsA V
A
eco soo to» iwo
TENSÃONORMAL TOIAl • <W«)
Fig. 2.76 - Envoltória dc resistência em ensaio UU de
solo parcialmente saturado
2.10.4 Solos compactados
Os solos compactados são parcialmente
saturados, aplicando-se a eles, portanto, as peculiaridades
destes descritas no item 2.10.3. Por outro
lado, como apresentado em 2.3 8, os solos
compactados ficam com uma estrutura que depende
do processo de compactação e, poitanto,
seu comportamento é afetado pelos fatores abordados
em 2.10.1.
A compactação provoca nos solos um efe:to semelhante
ao pré-adensamento. Em conseqüência,
as envoltórias dc resistência efetiva apresentam
valores superiores aos caracterizados por envoltória
retilínea correspondente a níveis de tensão acima
do efeito de compactação, como se mostra na Figura
2.77.
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Fig. 2.77 - Trajetórias de tensões dc diversos tipos de
ensaios triaxiais em solo triaxial de basalto,
compactado cm diferentes condições dc umidade e
densidade (Cruz, 1985)
As propriedades dos solos compactados dependem
da umidade do solo e do processo de
compactação, dos quais resulta o peso específico
seco, o grau de saturação c a estrutura do solo.
Uma maneira interessante de analisar a influência
destes fatores nas diversas propriedades mecânicas
dos solos consiste em comparar resultados
em função da umidade e do peso específico
seco de compactação, num gráfico com esies fatores
em coordenadas, assinalando-se os valores
obtidos para cada ensaio, e traçando-se curvas correspondentes
a iguais valores, obtidas por
interpolaçào aos valores de ensaio. Na apresentação
feita a seguir, serào empregados, como exemplo,
resultados obtidos em ensaios de solo s Itoso,
empregado na barragem de Paraibuna, em Sào
Paulo e de solo areno-argiloso da barragem de
Ilha Solteira (Pinto, 1971). Qualitativamente, estes
resultados sào representativos do que ocorre em
outros solos, com diferenças devidas às peculiaridades
de cada um. As diferenças entre os solos
lateríticos e os saprolíticos compactados, com base
em resultados dc ensaios dc laboratório sào mostradas
por Barros (1985).
A deformabilidade dos solos compactados pode
ser expressa pelo módulo edométrico, D, e pelo
módulo de elasticidade, £ Na Figura 2.78 sào apresentados
módulos edométricos correspondentes
6.7 • 7.0 #
Módulo edométrico para
tensão axial dc 500 kPa, Mpa
J i I i I i
15 17 19 21
Umidade (%)
A resistência nào drenada de solos
compactados é representada por envoltória curva.
como se mostra na Figura 2.76, em virtude de
ser o solo nào saturado. Para se comparar as condições
de compactação, as resistências correspondentes
à mesma pressào confinante devem ser consideradas.
Valores desta resistência para a tensão
confinante de 800 kPa, com o solo siltoso, são
mostrados na Figura 2.81. Observa-se que a resistência
nào drenada depende fundamentalmente
da umidade de moldagem e só secundariamente
do peso específico seco atingido na compactação.
Tal fato é devido ao desenvolvimento das pressões
neutras e à dissolução do ar na água devido
ao confinamento não drenado. Para pressões
confinantes mais baixas do que a correspondente
aos dados mostrados na Figura 2.81, a resistência
aumenta com a densidade e cai com a umidade.
Para confinantes maiores, entretanto, a resistência
depende quase exclusivamente da umidade
de compactação, podendo mesmo, se o
solo puder ficar com estrutura dispersa, apresentar
uma redução de resistência para excesso
de compactação.
Fig. 2.78 • Módulos cdomctricos. D, de solo siltoso
compactado, cm função dos parâmetros de
compactação (Pinto, 1971)
a tensões aplicadas do 500 kPa. Observa-se que
o módulo é função principalmente do peso específico
seco, havendo pouca influência da
umidade, a nào ser para pesos específicos elevados.
Com grau de compactação de 95 %, D é
cerca de 70 % do módulo correspondente ao
peso especifico seco máximo. O módulo
edométrico depende do nível de carregamento
considerado, mas sua variação com os
parâmetros de compactação apresenta sempre
o aspecto mostrado na Figura 2.78.
O efeito dos parâmetros de compactação no
módulo de elasticidade, /:, em solicitação triaxial
não drenada, é mostrado nas Figuras 2.79 c 2.80,
onde estão apresentados módulos de elasticidade
para a deformação específica de 1 %, I: ot.
Para o solo siltoso (Figura 2.79) E ol é tanto
maior quanto mais seco e mais compacto o solo.
Para o solo areno-argiloso, o módulo de
deformabilidade cresce continuamente com a
densidade, quando a umidade é inferior à umidade
ótima. Para umidades acima da ótima, entretanto,
o módulo aumenta com a densidade
até um certo valor, passando depois a decrescer.
As variações do módulo estão associadas à
estrutura dos solos, sendo que para umidades
elevadas, o excesso de compactação cria uma
estrutura mais dispersa, responsável pela maior
deformabilidade. Solos menos propensos a se
arranjar em estruturas dispersas, como o solo
siltoso exemplificado na figura 2.79, apresentam
módulos crescentes com a densidade, mas
decrescentes com a umidade.
Umidade (%)
Fig. 2.79 - Módulos de elasticidade secante em
solicitação não drenada dc solo siltoso. cm função dos
parâmetros de compactação (Pinto et al., 1970)
A envoltória dc resistência de um solo
compactado, em termos de tensões efetivas, é
ligeiramente curva para pressões normais inferiores
a um certo valor, conforme mostra a Figura
2.77. Ensaios tem mostrado que, para um
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Umidade (%)
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Fig. 2.80 - Módulo de elasticidade secante em
solicitação não drenada dc solo arenoargiloso, cm
função dos parâmetros de compactação (Pinto, 1971)
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15 16 17 18 19
Umidade (%)
Fig. 2.81- Resistência não drenada (UU) dc solo siltoso,
em função dos parâmetros de compactação (Pinto, 1971)
19 21 22
Umidade ("/.)
2.82 - Resistência drenada (CO) de solo siltoso, em
função dos parâmetros de compactação (Pinto,
1971)
valor médio dc ângulo dc atrito interno, a coesão
se apresenta nitidamente dependente da
densidade dc compactação, estando na Figura
2.82 apresentados resultados de ensaios
triaxiais drenados dc um solo siltoso
compactado cm diferentes condições.
Envoltória de resistência típica, em termos dc tensões
efetivas, obtida cm ensaio do tipo adensadodrenado,
com saturação por contrapressào, é
mostrado na Figura 2.83, onde fica patente o
efeito da densidade na resistência ao
cisalhamento.
Nota-se, portanto, que a resistência não drenada
depende basicamente da umidade de
compactação, enquanto a resistência efetiva é função
da densidade atingida. As especificações devem
levar cm conta as características desejadas
para cada aterro compactado.
2.10.5 Solos colapsíveis
Alguns solos nào saturados apresentam uma
considerável e rápida redução dc volume quando
submetidos a uma aumento brusco de umidade,
sem que varie a tensão total a que estão submetidos.
Tais solos são chamados solos colapsíveis. Iilcs
têm sido objeto de investigações em todo o país,
cm virtude da freqüência com que são encontra-
Fig. 2.83 - Envoltória típica dc resistência cm termos
dc tensão efetiva, para solo siltoso compactado com
diferentes graus de compactação (Barros. 1985J
Fig. 2.84 - Ensaios dc compressão edométrica cm
solos colapsíveis, saturados cm diferentes estãgios
de carregamento (Ferreira e Monteiro, 1985)
dos e da importância do fenômeno para fundações
de pequenas edificações e para obras de canalização.
Trabalhos descrevendo experiências
locais sobre o assunto se encontram nos anais dos
congressos cie mecânica dos solos, em geral, ou
nos específicos sobre solos não saturados (AMSF-
UFPE e ABMS-PE, 1994).
O fenômeno da colapsibilidadc é geralmente
estudado em ensaios dc compressão edométrica,
por representarem adequadamente a situação do
terreno abaixo de elementos de fundação superficial.
Diversos corpos de prova sào ensaiados em
diferentes situações: no estado natural, inundados
cm diferentes estágios de carregamento, ou
saturados, conforme proposto originalmente por
Jennings e Knigth (1957). A Figura 2.8 / i apresenta
resultados de ensaios segundo esta metodologia
em solo do interior do Estado de Sào Paulo. A
curva superior mostra o comportamento do solo
quando carregado no seu estado natural e a curva
inferior, o resultado obtido com corpo de prova
saturado desde o início do carregamento. Quando
os corpos de prova sào saturados num estágio
intermediário de pressào, o recalque rápido
corresponde à passagem da curva superior à curva
inferior.
Da Figura 2.8-í se conclui que o colapso depende
do nível de tensão aplicado no solo: é praticamente
nulo para tensào baixa, atinge um valor
máximo e nào ocorre para valores dc pressão acima
de certo valor. Na Figura 2.85, são apresentados
resultados de colapsos medidos segundo a
metodologia descrita, para amostras retiradas de
diversas profundidades, ensaiadas no estado natural
ou remoldadas.
Os solos colapsíveis sào parcialmente saturados.
A tensão de sucção representa uma tensão efetiva
a que o solo está submetido. Quando saturado, os
meniscos capilares se desfazem, c a tensão efetiva
diminui. Tal fato, sc interpretado sob a luz do princípio
das tensões efetivas, deveria provocar um
aumento de volume c não uma redução. Ocorre,
entretanto, que a redução da tensão de sucção
provoca um enfraquecimento das ligações entre
as partículas e pequenos escorrcgamcntos entre
elas, gerando uma macrocomprcssào.
Tem sido verificado que o comportamento
colapsivel dos solos está intimamente relacionado
com a estrutura do solo, que é conseqüente do
processo de sua formação (Mendonça e Mahler.
1994). Micronódulos de partículas de argila em
estado floculado podem "cimentar" partículas
maiores de quartzo, enquanto secas. Ferreira e
Monteiro (1985) mostraram o efeito de cimcntaçào
com oxido de ferro, como agente cimentante, no
caso dos solos laterizados.
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400 800 1200 1600
PTCMÍO dc inundsçJo (kPa)
Fig. 2.85 • Variação da cofapsividadc de solos com a
pressão a que estão submetidos (Ferreira e Monteiro.
1985)
Colapso também ocorre em solos compactados,
sendo reduzido na medida em que a umidade dc
compactação é maior ou o grau de compactação
é elevado, como se mostra na Figura 2.86.
Os solos colapsíveis sào geralmente analisados
por meio do ensaio edométrico. O fenômeno,
entretanto, nào diferente do que provoca a diminuição
da resistência dos solos parcialmente
saturados, da qual resultam escorregamentos de
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Fig. 2.86 - influência do grau de compactação e do
desvio dc umidade nos colapsos (Ferreira e Monteiro.
1985J
taludes em épocas de intensa precipitação
pluviométrica (Wolle e Hachich, 1989). Os ensaios
apresentados na Figura 2.87 mostram resultados
dc ensaios de compressão simples cm
que, quando atingido um nível de carregamento,
c estando estabilizadas as deformações, o
grau de saturação foi elevado, por gotejamento
dc água, ocorrendo a ruptura sem que houvesse
acréscimo de carregamento. Estas rupturas
ocorrem, também, nos ensaios edométricos,
embora em microescala, pois o confinamento
no ensaio cdométrico impede ruptura generalizada.
São elas as responsáveis pela colapsividade
dos solos.
a expansividade dos solos causa mais danos a estruturas,
especialmente pequenas edificações e
estradas, do que qualquer outro fenômeno natural,
incluindo tremores de terra e inundações.
Solos expansivos ocorrem principalmente em
regiões tropicais, tendo sido detectados em civcrsos
locais no Brasil, principalmente no semi-árido
nordestino no Sudeste do país (Vargas et al., 1989).
A expansibilidade dos solos está intimamente ligada
às características do mineral argila presente, e à sua
porcentagem na constituição do solo. Sào as
esmectitas, confonne se descreveu no item 2.2 3, os
minerais com capacidade de absorver água enire as
camadas estruturais. Diversos procedimentos sào
sugeridos para a identificação da expansibilidade dos
solos geralmente baseados na porcentagem da fração
argila, no índice de plasticidade, na atividade ou
na capacidade de troca de cátions, que sào índices
que indicam a avidez do solo pela água.
Sob o ponto dc vista prático, um solo é expansivo
quando pode apresentar expansão para a variação
de umidade ou de tensão a que venha a ser exposto.
Sob o ponto de vista científico, entretanto, são
classificados como expansivos os solos que apresentam
elevada variação volumétrica. expansão ou
contração, quando se alteram as condições de umidade;
um solo que já expandiu por efeito de aumento
de umidade, continua a ser considerado expaasivo,
ainda que nào tenha mais o que apresentar
de expansão. For esta razão, os sistemas de ckissificaçào
de solos como expansivas se baseiam na constituição
do solo e nào no seu estado natural.
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O estudo da expansividade dos solos é feita também
em ensaios de compressão edométrica, de
maneira semelhante à empregada para os solos
colapsíveis. No ensaio, mantida constante a pressão
aplicada, mede-se o aumento de volume quando
se acrescenta água ao corpo de prova.
A expansão depende da pressão aplicada. Para
maiores pressões, a expansão é menor, havendo
mesmo uma pressão para a qual a expansão é nula.
Esta é caracterizada como a pressão de expansão, a
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Fig. 2.87 - Ensaio de compressão simples, com aumento
dc umidade numa etapa dc carregamento
(Abramento c Pinto. 1993)
2.10.6 Solos expansivos
Solos expansivos sào aqueles que apresentam
expansão quando colocados em condições de
absorver água. Como apontam Nelson e Miller
(1992), autores de livro dedicado exclusivamente
ao assunto, citando levantamento dc Janes c Holtz,
Log (pressão aplicada)
Fig. 2.88 - Resultado típico de ensaio cdométrico dc
solo expansivo (apud Nelson e Miller. 1992J
pressão que o solo exerce se, em contacto com a
água. tiver sua tendência à expansão impedida, ou a
pressão que ao solo deve ser aplicada se se desejar
impedir sua expansão quando em contacto com a
água. Outra maneira empregada para estimar a pressão
de expansão do solo é considerá-la como igual
à pressão necessária para faze-la retornar ao índice
de vazios anterior à expansão, como se identifica
pelo símbolo c\, na Figura 2.88.
Solos potencialmente expansivos, quando
compactados, apresentam também expansões
quando em contacto com a água. Resultados obtidos
por Santos e Marinho (1990.), apresentados na
Figura 2.89, mostram como a expansão depende
das características de compactação. Ela é menor
quando a umidade de compactação é maior. Para
a mesma umidade, o porcentual de expansão é
maior quando a densidade cresce (há menos vazios
para abrigar as partículas argilosas expandidas),
mas atingido um certo valor a porcentagem de
expansão diminui, possivelmente por estar o solo
já com elevado grau de saturação.
passa a apresentar um comportamento adequado
para um determinado objetivo. Os métodos de
estabilização sào os mais diversos, podendo a
própria compactação ser considerada um deles.
Os processos de estabilização pela adição de
produtos químicos sào especialmente empregados
na injeção no subsolo, ou na pavimentação
rodoviária. Dentre estes, tem apresentado bons
resultados o que emprega cimento Portland
como aditivo.
O material resultante, conhecido como solo-cimento,
resulta da adição de cerca de 6 a 8 % de
cimento em relação ao peso do solo. uma mistura
intima c uma compactação na umidade ótima, de
maneira a ficar com a densidade máxima do ensaio
normal de compactação. O teor dc cimento é
determinado de maneira a provocar uma resistência
de 2000 kPa, a compressão simples, após 7
dias de cura úmida. Este material, compactado em
camada de 15 cm, apresenta resistência e durabilidade
adequadas para se constituir em base de
pavimento rodoviário. A camada de solo-cimento
fica trincada, em virtude da retração do cimento
ao endurecer e de alterações do teor de umidade,
com trincas espassadas de cerca de 20 a 30 cm, o
que nào prejudica seu comportamento, pois os
esforços resultantes do tráfego se transmitem pelas
trincas e o material tem durabilidade para suportar
estes esforços.
16 - SOI.O SAPROI.ÍTICO
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18 20 22 24 26 28 30 32
Fig. 2.89 - Pressão de expansão para várias condições
de densidade o umidade, para pressão de inundação de
10 kPa (apud Santos e Marinho. 1990)
Solos expansivos também se manifestam quando.
mantidas as condições de umidade, as pressões
sobre eles atuantes sào reduzidas. E o caso,
por exemplo, dc taludes de cortes da Rodovia dos
Trabalhadores, em São Paulo, que se tornam instáveis,
algum tempo após a construção, em virtude
do desconfinamento a que o solo foi submetido
(Mori et al. 1992).
2.10.7 Solos estabilizados com cimento
Um solo estabilizado é um solo que submetido
a um processo mecânico, químico ou térmico,
28 M ZÍ2
Tempo de cura (dui)
Fig. 2.90 - Resistência a compressão de solo^imento,
com solo lateritico e solo saprolitico. em função do teor
de cimento e do tempo de cura: a) solo saprolitico; b|
solo lateritico (Pinto, et al.. 1991J
O teor de cimento necessário para atingir uma
determinada resistência depende das propriedades
do solo. Melhores resultados obtêm-se com
solos arenosos com cerca dc 20 % dc argila, isentos
dc matéria orgânica. Solos mais argilosos requerem
mais cimento e sào de difícil mistura com
o cimento. Solos sem argila nào apresentam consistência
adequada para a compactação. Geralmente,
quanto maior a densidade obtida pela
compactação melhor o resultado e menos cimento
requerido. Na Figura 2.90, é mostrado como a
resistência do solo-cimento varia cm função do
teor de cimento e cm função do tempo de cura,
para um solo lateritico e um solo saprolitico.
Alternativamente, pode-se fazer um solo-cimento
plástico, cm que o teor de umidade é mais elevado,
aplicando-se a mistura em forma de argamassa,
sem compactação. Para se obter a mesma
resistência, entretanto, é necessário maior teor de
cimento, e o material é mais suscetível a trincas
por resseca mer.to.
Para aplicação em situações de fundações, a
dosagem deve levar em consideração o objetivo
desejado Exemplos dc aplicação de solo-cimento
como elemento dc fundação, no Brasil, são apresentados
por Ca-valho e Silva (199-1) e por Segantini
e Carvalho 0994).
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CAPÍTULO 3
INVESTIGAÇÕES GEOTÉCNICAS
ARTIIUR RODRIGUES QUARESMA MÁRCIO DE SOUZA SOARES DE ALMEIDA
LUCIANO DÉCOURT
FERNANDO DANZIGER
ARTUR RODRIGUES QUARESMA FIUIO
3.1 INTRODUÇÃO
A elaboração de projetos geotécnicos cm geral
e de fundações em particular exige, obviamente,
um conhecimento adequado dos solos. É necessário
procedcr-se ã identificação c à classificação
das diversas camadas componentes do substrato
a ser analisado, assim como à avaliação das suas
propriedades de engenharia.
A obtenção de amostras ou a utilização dc algum
outro processo para a identificação c classificação
dos solos exige a execução de ensaios "in
situ". A determinação das propriedades de engenharia,
em princípio, tanto poderia ser feita através
de ensaios dc laboratório quanto de ensaios
de campo. Na prática entretanto, há predominância
quase que total dos ensaios "in situ", ficando a
investigação laboratorial restrita a alguns poucos
casos especiais em solos coesivos.
Entre os ensaios de campo existentes cm todo
o mundo, alguns se destacam c serão a seguir
relacionados:
• O "Standard Penetration Test"- SPT
• O "Standard Penetration Test" complementado
com medidas de torque - SPT-T
• O ensaio de penetração dc cone - CPT
• O ensaio de penetração do cone com medida
das pressões neutras, ou piezocone - CPT-U
• O ensaio dc palheta - "Vanc Test"
• Os pressiômetros (de Ménard c autoperfurantes)
• O dilatômetro de Marchetti
• Os ensaios de carregamento de placa - provas
de carga
• Os ensaios gcofísicos. cm particular o ensaio
de "Cross-IIole"
O SPT é, de longe, o ensaio mais executado na
maioria dos países do mundo, e também no Brasil.
Nos últimos anos porém, a tendência é substituí-lo
pelo SPT-T, mais completo e praticamente
de mesmo custo.
Em casos especiais onde se julgar adequada uma
análise mais detalhada do terreno, os ensaios CPT
e CPT-U poderão ser utilizados.
Os ensaios de carregamento de placas, tão utilizados
nas décadas de quarenta e cinqüenta, estão
quase cm desuso.
Dos ensaios gcofísicos, o mais importante para
a engenharia dc fundações é o ensaio de 'Cross-
Hole". É através desse ensaio que sc obtém o valor
do módulo de cisalhamento máximo G ,
o'
módulo esse que corresponde a níveis dc deformação
cisalhante muitíssimo baixos. G , assim
como sua degradação com o aumento das deformações
cisalhantes. é considerado hoje o principal
parâmetro geotécnico para estudos racionais
das características de rigidez dos solos. Esse ensaio
será discutido pormenorizadamente no Capítulo
10.
Quanto aos demais ensaios, julgou-se conveniente
apresentá-los por sc considerar que os mesmos
têm bom potencial de utilização cm futuro
próximo. Sào porém ensaios que ainda nào dispõem
de tradição de utilização no Brasil.
3.2 SONDAGEM DE SIMPLES
RECONHECIMENTO A PERCUSSÃO. O SPT
A sondagem a percussão é um procedimento
geotécnico de campo, capaz de amostrar o subsolo.
Quando associada ao ensaio de penetração dinâmica
(SPT), mede a resistência do solo ao longo
da profundidade perfurada.
Ao se realizar uma sondagem pretende-se conhecer:
• O tipo de solo atravessado através da retirada
de uma amostra deformada, a cada metro
perfurado.
• A resistência (N) oferecida pelo solo ã cravaçào
do amostrador padrão, a cada metro perfurado.
• A posição do nível ou dos níveis d'água, quando
encontrados durante a perfuração.
No final da década de oitenta foi apresentado
pela "International Society for Soil Mechanics and
Foundation Engineering", ISSMFE. um documento
intitulado "International Rcfcrcncc Test
Procedurc", Décourt et al (1988;. que trata, cm
linhas gerais, do procedimento recomendado para
a execução do ensaio SPT, as iniciais em inglês
de "Standard Penetration Tcst". No Brasil, o ensaio
está normalizado pela Associação Brasileira
de Normas Técnicas através da Norma Brasileira
< NBR 6484).
Consiste basicamente na cravação de um
amostrador padrão no solo, através da ejueda livre
de um peso de 65 kg (martelo), caindo de
uma altura determinada (75 cm). As características
do amostrador estão especificadas na NBR
6484 Ni Figura 3-1 apresenta-se uma foto do
amostrador.
Figura 3.1 - O amostrador padrão para o SPT
Para a execução das sondagens, determina-se,
em planta, na área a ser investigada, a posição
dos pontos a serem sondados. No caso de
edificações, procura-se dispor as sondagens em
posições próximas aos limites de projeção das
mesmas c nos pontos de maior concentração de
carga. Procuram-se, salvo em casos específicos,
distâncias entre pontos variando de 15 metro.s a
30 metros. Nas investigações preliminares de áreas
extensas para estudos de viabilidade, a distância
entre sondagens varia de S0 a 100 metros.
Quando da definição do projeto esta campanha
de sondagens deve ser complementada por furos
menos distantes, conforme dito anteriormente. Fm
qualquer caso deve-se evitar a locação de pontos
alinhados, dc forma a permitir uma interpretação
em diversos planos de corte. Deve-se também
evitar, como regra, um único furo de sondagem.
São comuns as variações de resistência e tipo de
solo em áreas nào necessariamente grandes. Para
elaboração do projeto de fundações convém que
seja considerada a interpretação das resistências à
penetração, de forma estatística. Desta forma, anomalias
locais terão sua importância minimizada.
Marcados os pontos em planta, devem os mesmos
ser locados e nivelados no terreno. O nivelamento
deve ser feito em relação a um RN (nível de referência)
fixo e bem determinado, dc preferência
único para toda a obra e fora do local desta, como,
por exemplo, uma guia de passeio, a tampa de
um poço de visita de serviços públicos (água, esgoto.
energia elétrica, gás, telefone etc). O ideal e
obter-se a altitude do RN em relação ao nível do
mar. porém nem sempre isto é possível. O
nivelamento dos furos de sondagem deve ser refeito
sempre que houver qualquer deslocamento
do ponto locado e previamente nivelado. Nas obras
onde serviços de terraplenagem estiverem sendo
executados simultaneamente com a campanha de
sondagem, o levantamento do nível das sondagens
deve ser feito imediatamente ao termino de
cada uma, p >i> fatalmente o terreno será alterado
entre o início e o final da campanha toda. Em
trabalhos realizados dentro d''água e sujeitos a
variação de maré, deve-se atribuir um RN fixo ao
lado do flutuante onde está montado o equipamento
e, constantemente, conferir a cota do ponto
de referência utilizado para a perfuração, normalmente
o assoalho do flutuante. A topografia
das sondagens é de extrema importância.
Para se iniciar uma sondagem, monta-se sobre
o terreno, na posição de cada perfuração, um cavalete
de quatro pernas erroneamente chamado
de "tripé". No topo do "tripé" é montado um conjunto
de roldanas por onde passa uma corda,
usualmente de cisai. Este conjunto, "tripé", roldanas
e corda, auxiliará no manuseio da comoosiçâo
de hastes e levantamento do "martelo". Inicia-se
o furo desde o ponto de instalação do equipamento,
na maioria das vezes coincidente com a
superfície do terreno. Com auxilio de um "trado
cavadeira", perfura-se até um metro de profundidade.
Recolhe-se c acondiciona-se uma amostra
representativa de solo, que é identificada como
amostra zero. Em uma das extremidades de uma
composição de hastes de 1", acopla-se o
amostrador padrão (1 3/8" e 2", diâmetros interno
e externo, respectivamente). Este é apoiado no
fundo do furo aberto com trado cavadeira. Erguese
o "martelo" com auxílio da corda e roldanas
citadas, até uma altura de 75 cm acima do topo da
composição de hastes e deixa-se que caia sobre
esta, em queda livre. Este procedimento é realizado
até a penetração de 45 cm do amostrador padrão
no solo. Conta-se o número de quedas do
"martelo" necessário para a cravação de cada segmento
de 15 cm do total dc 45 cm.
A soma do número de golpes necessários à penetração
dos últimos 30 cm do amostrador é designada
por N. O procedimento com os padrões
acima é chamado "Standard Penetration Test", SPT.
Quando retirado o amostrador do furo, é recolhida
e acondicionada a amostra contida em seu
"bico". Quando observadas mudanças de tipo de
solo no material do corpo do "amostrador", a parte
que as caracteriza deve, também, ser armazenada
e identificada.
Prossegue-se a abertura de mais um metro de
furo até alcançar-se a cota seguinte, neste caso, 2
metros. Para tal, utiliza-se um "trado helicoidal"
que remove o material quando este tem determinada
coesão e não está abaixo do nível do lençol
freático. Caso nào seja possível o "avanço a trado",
como é chamado este procedimento, por resistência
exagerada do solo ou pelo tipo de material ou,
ainda, pela presença de água do lençol freático, prossegue-se
a perfuração com auxílio de "circulação
de água". A "circulação de água" é realizada com
emprego de uma motobomba, uma caixa-d'água
com divisória para decantação e um "trépano".
A água é injetada na composição de haste que,
neste caso, leva em sua extremidade inferior não
o amostrador. mas sim, o "trépano". Esta água é
injetada no solo por orifícios laterais ao
'•trépano". A pressão da água c movimentos dc
rotação c percussão imprimidos à composição de
hastes fazem com que o "trépano" rompa a estrutura
do solo. O solo misturado à água retorna à
superfície e é despejado na caixa-d agua. O material
mais pesado decanta e permanece no fundo
da caixa. A água é novamente injetada no furo.
Na verdade, cria-se um circuito fechado de circulação
com auxílio de tubos e hastes. Quando, por
qualquer motivo, as paredes do furo não permanecem
estáveis, auxilia-se o processo de avanço
contendo-as com a cravaçào de "tubos de revestimento"
de 2 V>" de diâmetro (.eventualmente 3" de
diâmetro) e trabalhando-se internamente a este.
Da maneira acima descrita, a sondagem avança
em profundidade, medindo a resistência a cada
metro e retirando com o a mostra dor amostras do
tipo tle solo atravessado.
A profundidade a ser atingida depende do porte
da obra a ser edificada e conseqüentemente
das cargas que serão transmitidas ao terreno. A
Norma Brasileira (NB 6^8<íi) fornece critérios mínimos
para orientar a profundidade das sondagens.
Porém, a resistência dos solos, o tipo de obra e
características do projeto podem exigir sondagens
mais profundas ou critérios mais rígidos
de paralisação. Para que se não perfure a mais
ou a menos do que o necessário, é recomendável
o acompanhamento do trabalho pelo profissional
responsável pelo projeto de fundações.
Sào comuns casos em que, por falta de informações,
as sondagens sào interrompidas de acordo
com a Norma, porém insuficientes para se
determinar alguns tipos de fundação, ou para
serem consideradas em um projeto após o corte
do terreno.
De primordial importância é a determinação do
nível de água, quando ocorrer, seja por
armazenamento de água de chuva ou presença
do lençol freático. Durante o processo de avanço
da perfuração, ao se determinar ocorrência de
água, interrompe-se o trabalho e anota-se a profundidade.
Em alguns casos, após a detecção da
presença de água, observa-se que esta provém do
fundo ou das paredes do furo, ocupando-o cm
parte. Deve-se sempre aguardar a sua estabilização
e anotar a profundidade correspondente à superfície
da água. Terminada a perfuração, retirase
a água existente no furo com auxílio de um
"baldinho" (peça de cano de diâmetro 1"). Aguarda-se
o surgimento da água e anota-se novamente
a profundidade da lâmina d'água. Qaando possível.
deve-se esgotar a água dos furos de sondagem
no final do expediente e medir, na manhã do
dia seguinte, a altura da lâmina d água. Cuidado
especial deve ser tomado quando, pelo tipo de
solo atravessado, imaginar-se que poderá existir
mais dc um lençol freático, ou "lençol
empoleirado', como é chamado. Nestes casos, reveste-se
o furo para isolar o primeiro lençol de
água encontrado e prossegue-se a perfuração, a
irado, até detectar-se o lençol seguinte.
As amostras de solo coletadas a cada metro devem
ser levadas ao laboratório para classificação
tátil-visual mais esmerada. São definidas as camadas
dc solos sedimentares com suas respectivas
espessuras ou os horizontes de decomposição dos
solos residuais. Eventuais dúvidas de classificação
dc materiais que se situam muito próximo a
fronteiras granulométricas (argila siltosa ou silte
argiloso), podem ser dirimidas com auxílio de
ensaios de laboratório como, por exemplo,
granulometria, Limites de Atterberg, etc. Este procedimento.
emlxjra nào usual, é recomendável.
De posse dos perfis individuais preliminares de
cada sondagem obtidos após a classificação tátilvisual,
do nível d agua e da cota (elevação) do
terreno no início da perfuração, desenha-se, com
as respectivas convenções, o perfil do subsolo de
cada sondagem, ou de preferência, para facilitar a
visualização, seções do subsolo abrangendo diversas
sondagens. O desenho das sondagens deverá
mostrar todas as camadas ou horizontes de
solo encontrados, as posições dos níveis d água,
o número de golpes N necessários à cravaçào dos
30 últimos centímetros do amostrador e demais
informações úteis que forem observadas. Os perfis
individuais ou seções do subsolo devem representar
para o profissional que vai utilizá-lo.
o que representa uma radiografia para um
ortopedista.
3.3 MEDIÇÃO DE TORQUE EM SONDAGENS
DE SIMPLES RECONHECIMENTO. O SPT-T
3.3.1 O ensaio SPT-T
A sugestão de se medir o torque após a execução
dos SPT foi feita por Ranzini (1988;. A introdução
desse ensaio na rotina dos serviços de sondagem
assim como o estabelecimento das regras
básicas para sua interpretação é obra de Décourt
e Quaresma Filho (1991, 1994;. Inúmeros artigos
foram escritos sobre o tema, tais como: Décourt e
Quaresma Filho (1991, 1994;, Décourt, (1991a,
1991b, 1992, 1995) e Alonso (1994).
Basicamente, o equipamento constitui-se de:
• Torquímctro: ferramenta mecânica de medição
de torque. Sua capacidade mínima deve ser de
50 kgf x m. Recomenda-se entretanto torquímetro
de capacidade dc S0 kgf x m, preferencialmente com
ponteiro de arraste.
• Chave soquete: ferramenta sextavada utilizada
para atarraxar e desatarraxar pinos ou porcas.
• Disco centralizador: disco de aço com diâmetro
de 3" externo e furo central de 1 1/4" que
tem por objetivo manter a composição de 1" da
sondagem a percussão, centralizada em relação
ao tubo guia de 2 1/2" ou revestimento. Na face
inferior do disco deve haver um sulco de 4 mm
de largura. 4 mm de profundidade e 2 1/2" de
diâmetro para encaixe no tubo guia ou de revestimento,
de 2 1/2".
• Pino adaptador: tarugo sextavado, de aço,
com diâmetro de 1 1/4" e com rosca BSP de 1" em
uma das extremidades.
A medida do torque é efetuada ao término de
cada ensaio de penetração (SPT). Cravado o
amostrador padrão conforme prevê a Norma Brasileira
NBR 6484, retira-se a cabeça de bater, coloca-se
o disco centralizador representado na Fig.
3.2 até apoiar-se no tubo guia e rosqueia-se na
mesma luva, onde estava acoplada a cabeça de
bater, o pino adaptador representado na Fig. 3.3.
Encaixa-se no pino uma chave soquete de medida
tal que se ajuste perfeitamente ao sextavado.
Acopla-se o torquímetro à chave soquete. Iniciase
o movimento de rotação da haste de uma polegada
através de um operador, usando-se o
torquímetro como braço de alavanca. Cuidado
especial deve ser observado para manter o
torquímetro na horizontal, não forçando assim o
encaixe do mesmo com a chave soquete e desta
com o pino sextavado. Um observador deve acompanhar
o instrumento de leitura do torquímetro,
anotando o máximo valor lido e notificando o
operador para que interrompa a rotação após
alcançada esta leitura máxima. Em alguns casos,
conforme o interesse, é anotado também o valor
residual, após o torque máximo. As anotações sào
feitas no próprio boletim de sondagem em coluna
apropriada, ao lado da que contém o número de
golpes. A operação é repetida a cada metro, observada
a capacidade do torquímetro.
Fig. 3.2 - Disco centralizador
3.3.2 O Índice de Torque (TR)
Define-se por índice de torque a relação ertre o
valor do torque medido em kgf x in pelo valor N
do SPT (T/N).
O estabelecimento de correlações estatísticas
entre o valor do Torque (T) medido em kgf x in e
o valor da resistência a penetração N permite enquadrar
os solos em um novo tipo de classificação,
onde sua estrutura desempenha papel fundamental.
Em itens posteriores esse tema será abordado
com maiores detalhes.
3.3.3 O Conceito de N Equivalente (NeqJ
Uma das formas para interpretação do SPT-T tem
por base o conceito de Neq.
Para os solos da bacia sedimentar terciária de
São Paulo, BSTSP. que estão entre os mais estudados
do Brasil, a relação T/N é de aproximadamente
1,2.
Para um outro solo qualquer, com valores de
TR os mais diversos possíveis, Décourt (1991b] propôs
que definisse Neq como sendo o valor do
Torqje T ( kgf x m) dividido por 1,2.
A idéia seria utilizar-se. preferencialmente, os
valores de torque, admilindo-se que os mesmos
sejam muitíssimo menos suscetíveis de sofrerem
influência da "estrutura" dos solos do que os valores
N-SFI*. Se esse raciocínio estiver correto, para
quaisquer solos, os valores de Neq seriam iguais
aos que uma sondagem SPT daria se em lugar do
solo local estivessem os solos da BSTSP, que
sabidamente são pouco estruturados e para os
quais um grande número de correlações foi estabelecido.
As tentativas de comprovação da
pertinência desse conceito têm dado Ixms resultados,
Décourt (1993), Décourt e Niyama (1994).
Deve-se entretanto frisar que sua utilização deve ser
feita com muita cautela pois as comprovações existentes,
emlx)ra positivas, estão longe de se constituir
em prova definitiva tia ampla aplicabilidade dessa
premissa.
Outra forma de sc utilizar os valores de torque,
seria através de correlações diretas entre o atrito
unitário de estacas e o atrito unitário amostradorsolo,
Alonso (1994).
3.4 CORRELAÇÕES DIVERSAS COM OS
VALORES DA RESISTÊNCIA A PENETRAÇÃO
N DOS ENSAIOS SPT
Fig. 3.3 - Pino adaptador
Deve-se ter sempre presente que as diversas eficiências
do SPT, E, conforme esse ensaio é executado
nos diversos locais do mundo, podem variar,
entre si, de até cerca de três vezes, e que os
valores de N variam com o inverso da eficiência.
Assim, por exemplo, para um SPT com eficiência
de 45%, o valor da resistência à penetração N é o
dobro do correspondente a outro SPT cuja eficiência
seja 90%.
Ao procurar-se utilizar no Brasil correlações
estabelecidas em outros países, deve-se sempre
procurar saber qual a eficiência do equipamento
utilizado para a execução do ensaio e proceder-se
aos ajustes de eficiência. Segundo Schmertmann e
Palacios (1979):
referência internacional. O valor de N padronizado,
para (o' <M), c E, = 60%, é designado poríN,)^.
Considere-se o exemplo de uma areia normalmente
adensada. Admitindo-se, para simplicidade
de raciocínio, ausência de nível c'água e peso
específico y n dc 18 kN/m 5 tem-se:
a) profundidade z - 2,0m - o' wi - 36,0 kN/m'
flõõ
para N (i0 - 5 tem-se (N,) fi0 - J — x 5 - 8,33
N, E, - N, E 2
Como freqüentemente o valor da eficiência não
é fornecido, uma ordem de grandeza do mesmo
pode ser obtida verificando-se como o ensaio foi
executado e fazendo-se uso de informações
divulgadas na literatura, tais como Skempton (1986)
e Décourt (1989).
A eficiência do SPT brasileiro, quando o mesmo
é rigorosamente executado de acordo com a Norma
Brasileira NBR 618-1, é em média de 72%,
Décourt et al (1989). A dos SPT executados nos
Estados Unidos nas décadas dc -10 c 50 era de
45% a 55%. Atualmente há nos Estados Unidos
uma variedade enorme de equipamentos de SPT,
com eficiências variando entre um mínimo de cerca
de 40% e um máximo de 95%.
b) para z - 20m, c' w = 360 kN/m 2
1100
seN w-16 f xl6- 8,43
Isso significa que a areia a 20 m de profundidade,
apesar dc apresentar valor N-SPT de 16, tem a
mesma compacidade relativa do que a areia a 2,0 m
dc profundidade, que apresenta valor N-SPT de apenas
5. Pela equação dc Skempton (1986),
(Nj) tó / I t)
z« 60, deduz-se um valor cie I,, de aproximadamente
37%.
Esse exemplo demonstra claramente a falácia das
tabelas dc classificação das areias quanto à sua
compacidade, através dos valores não corrigidos
de N-SPT.
3.4.2 Efeito do Envelhecimento (AgingJ
3.4.1 Condições Básicas para o
Estabelecimento de Correlações em Areias
É hoje sobejamente conhecido o fato de a resistência
à penetração depender nào somente da eficiência
do SPT, como analisado no item anterior,
mas também e principalmente, no caso de materiais
granulares, do nível médio de tensões na profundidade
onde o easaio está sendo executado, para permitir
comparações entre valores dc resistência a
penetração determinadas a várias profundidades.
Décourt (1989) recomenda que os valores dc N sejam
corrigidos pela seguinte expressão:
C„
o. 5
eN, = C NN
onde (o', Kt), - tensão octaédrica para uma areia
normalmente adensada sob pressão vertical efetiva
(o' v<>) de 100 kPa e a' rxi = tensão octaédrica ao
nível onde o SPT está sendo executado.
Fica pois evidenciado que somente com uma
mesma eficiência dos SPT e sob a mesma tensão
octaédrica é que as características de areias diversas
podem ser comparadas. Recomenda-se também
que as eficiências dos diversos SPT sejam
convertidas para 60%. uma espécie de padrão de
"Aging" é o fenômeno pelo qual a rigidez das
areias aumenta com o tempo.
Não obstante ser esse fenômeno conhecido há
muito tempo, Dcnisov (1961, 1963) vinha o mesmo
sendo ignorado pelos especialistas. A importância
desse assunto passou a ser mais reconhecida
nos últimos dez anos, graças ao trabalho de
alguns autores tais como Skempton (1986),
Décourt (1989) e Schmertmann (1991).
O fator de idade AF (Aging Factor), introduzido
por Décourt (1989), é definido como a relação
entre a resistência à penetração de uma areia naturalmente
envelhecida e a resistência à penetração
que a mesma areia daria, mantidas as mesmas
condições de densidade, porém quando recentemente
depositada, como ocorre em laboratório e/
ou câmaras dc calibração.
Na Tabela 31, reproduzida de Skempton (1986),
fica evidenciada a diferença das correlações entre
N e I n cm função da idade do depósito de areia.
Fica pois claro que correlações estabelecidas em
laboratório e/ou câmaras de calibração nào podem
ser aplicadas diretamente na prática. Décourt
(1989) conclui que:
"Valores de campo de N-SPT (e talvez de q do
CPT) devem ser multiplicados por 0,50 - 0,60 (inverso
do fator de idade, AF) para que correlações
obtidas em câmaras de calibração possam ser utilizadas
de foima adequada, na prática da engenharia."
Tabela 3_J | Efeito do envelhecimento (aging) cm areias
finas (apud Skempton, I986J
Tipo
Idade
(anos)
Ensaios de
laboratório 10' 35
Aterros
10 40
recentes
Depósitos
Naturais >10' 55
3.4.3 Corrigir ou não Corrigir N ao se
Estabelecer
Correlações?
Imagine-se uma massa de areia homogênea, toda
ela com um determinado índice de densidade
(compacidade relativa) l |>t Figura 3.4.
l«ocv dl- deir,K*«fr 1.
T
S
1
SIM
NeAAo ar Tcuxxa
1
Tabela 3.2 i Valores do índice dc densidade
(compacidade relativa). I D em função dc |N,) 60 . Areias
naturais normalmente adensadas
«o ( % )
0 15 35 65 85 100
Muito
Muito
fofa Fofa Média Compacta Compacta
(N,j
25 42 58
Segundo ainda Skempton (1986), para areias
médias e valores de I n entre 35% e 85% essa correlação
é representada aproximadamente pela
equação:
(N.^/l., 2 =60
Para areias finas deve-se substituir 60 por 55 e
para areias grossas, por 65.
3.4.5 Correlação com o Ângulo de Atrito
Interno <> de Areias
Décourt (1989) reinterpretou os estudos dc De
Mello (1967, 1971) sobre o trabalho de Gibbs e
Holtz (1957).
Fig. 3.^ Areias e pedregulhos; relações básicas.
Apud Stroud (1 988)
Seguindo o raciocínio de Stroud (1988), duas
situações podem ocorrer:
/ - Deseja-se estimar I lt em função da resistência
à penetração N
Nesse caso é fundamental que N seja corrigido
para que todas esses valores tenham o mesmo significado
e que sua média pennita avaliar I n. O mesmo
raciocínio se aplica à avaliação do ângulo de atrito
II - Deseja-se con e/acionar A' com as características
de rigidez da areia, sen móduio de cisalhamento
(G) ou seu módulo de elasticidade (li).
Como tanto N quanto G ou E crescem com a
tensão octaédrica, essas correlações devem ser
estabelecidas com valores nào corrigidos de N. Raciocínio
semelhante deve ser feito para correlações
entre N e resistência de ponta (q.) de estacas.
3.4.4 Correlação com o Índice de Densidade
(Compacidade Relativa) l D das Areias
Entre as diversas correlações existentes na literatura
recomendam-se aquelas apresentadas por
Skempton (1986), válidas para areias naturais normalmente
adensadas, e que sào reproduzidas na
Tabela 3-2.
\
Nesse trabalho de Décourt sào levadas cm conta
as diferenças entre as areias frescas utilizadas
em ensaios de laboratório e/ou câmaras de
calibraçào e as areias encontradas na natureza,
essas últimas apresentando o efeito de envelhecimento
(aging). Também se procurou levar em
conta o efeito do sobreadensamento das areias e
a eficiência dos equipamentos de SPT.
Assim, na Tabela 3 3 e no ábaco da Fig. 5 5 sào
apresentados os valores do ângulo de atrito õ em
função de cN, ) w isto é do número de golpes N
do SPT em uma areia natural (com "aging") convertido
para uma tensào vertical de confinamento
de 1,0 kgf/cm', ou seja, 100 kPa , para a eficiência
padrão de 60%.
fi}|0 • fífeí
/
/
r /
•o >o
|Wi)«o
Fig. 3.5 - Angulo de atrito <> x (N f ) 60 Apud Décourt
(1989 c 1991a)
Tabela 3.31Ângulo dc atritoç x {N.J^ (Apud Décourt 1991 b)
fN, Ko 0 1°)
6.41 30
7.63 31
9.02 32
10.59 33
12.37 34
14.41 35
16.73 36
19.4 37
22.48 38
26.04 39
30.17 40
34.99 41
40.64 42
47.28 43
Para converter o N-SPT brasileiro para N M, basta
multiplicar-se o número de golpes por 1,2
( 72 /60 - 1.2).
Segundo De Mello (1967-1971), correlações de N
com <J) sào muito mais adequadas do que correlações
de N com I M.
Caso se queira estimar I n Decourt (1991a) sugere
avaliar-se <> através das correlações anteriormente
propostas e daí utilizar-se correlações entre <> e
I,, para solos granularcs de características diversas,
como por exemplo a dc Burmister (1948),
transcrita na Fig. 3.6
* Resistências obtidas a partir de ensaios de compressão
triaxial rápidos (Q), também conhecidos
como nào adensados e nào drenados (LU), com
o cuidado de se procurar reproduzir cm laboratório
as tensões octaédricas "in situ".
3.4.7 Módulo de Elasticidade
Décourt et al (1989) sugerem a correlação: E =
30 N„ (MN/m0
Essa correlação seria em princípio válida para
fundações circulares rígidas em qualquer solo, para
um nível dc recalque da ordem dc 1% de seu diâmetro.
Recentemente, procurou-se aperfeiçoar essa correlação,
fazendo-se distinção entre três tipos de
solo e reconhecendo-se a elevada nào linearidade
da variação de E com o nível de tensão e/ou de
deformação, Décourt (1995).
Na Tabela 3.4 sào apresentadas essas correlações
aprimoradas, válidas para sapatas quadradas
rígidas com recalques da ordem dc 1% do seu
lado.
Tabela 3.41 Valores de E (MN/m* J em função dc N-
SPT, sapatas quadradas rígidas, s/B = 1%
Tipo de solo
E (MN/m')
areias
3.5 l\„
solos intermediários 3.0 N„
argilas saturadas 2.5 N„
3.4.8 Módulo de Cisalhamento Máximo
(G ou G )
1 o nwx'
Segundo Stroud (1988), G o pode ser avaliado por:
-i
3 0 10 20 30 40 SO «0 70 «0 90 100
Z
IN0ICE 0E 0ENSI0A0E ( % >
G c « 7,0 N„ (MN/m0
Para argilas lateríticas, Barros (1992) sugere:
G o - 47,5 V CM N/m 2 )
Fig. 3.6 - Compacidade relativa l D x ângulo dc atrito 0
para solos granularcs. Adaptado de Burmister (1948)
3.4.9 Tensão de Ruptura de Fundações
Diretas em Areias
3.4.6 Resistência não Drenada de Argilas
Saturadas
Décourt (1989) com base em resultados de ensaios
laboratoriais e sondagens confiáveis recomenda
que a resistência nào drenada de argilas
saturadas* seja dada por:
Ç ( = 12.5 N (kN/m* )
Segundo Décourt (1991b c 1995), Briaud e
Jcanjean (1994) a tensão convencional de ruptura
de fundações quadradas, rasas, em areias, pode
ser aproximadamente avaliada por:
<J P 95N (i0 CkN/nvO q p =115 CkN/nr.)
Cumpre esclarecer que a ruptura acima considerada
nào é a física mais sim a convencional,
definida como a carga correspondente a uma deformação
dc 10% da largura da sapata.
3.4.10 Tensão de Ruptura de Ponta e de
Atrito Lateral em Estacas
Esse tema será abordado de forma abrangente
no Capítulo 8, razão pela qual nào será aqui discutido.
1,2 indicam solos estáveis com índice de
colapsividade IC < 2%, enquanto valores de TR
iguais ou superiores a 2,5 sào indicativos de solos
colapsíveis, IC > 2%.
TENSÃO (kPa)
1 10 100 1000 1000C
3.4.11 Pressão de Pré-Adensamento
de Argilas (o' p)
Para os solos da BSTSP, Décourt (1989; sugere:
a; - 33.33 N w (kN/m-)
3.5 INFORMAÇÕES RELEVANTES
FORNECIDAS PELO SPT-T E NÃO
DISPONÍVEIS NO CASO DO SPT
3.5.1 Pedregulhos no Interior de uma
Massa de Solo Sedimentar Arenoso e
Fragmentos de Rocha em
Solos Saproliticos
É muito freqüente ocorrer em uma camada de
areia, com uma dada resistência à penetração, locais
específicos onde os valores dc N-SPT aumentam
subitamente 3, 4, 5 ou mais vezes.
Considere-se por exemplo uma camada de areia
com valores dc N entre 10 e 15 e valores de
torque-T entre 12 e 16. Em um dado local, medese
uma resistência à penetração N 40, porém o
valor do torque continua na faixa dos 10 a 16.
De acordo com os critérios atuais de classificação
previstos na Norma Brasileira NBR 6484, nesse
ponto ter-se-ia uma areia muito compacta. Na
realidade o que ocorre é a presença de pedregulhos,
que por terem dimensões da mesma ordem
de grandeza do bico do amostrador interferem na
medida de N, produzindo valores altos que nào
guardam nenhuma correspondência com uma
eventual densidade muito mais elevada da areia.
Os valores de torque, nào sendo afetados pela
presença de pedregulhos junto à ponta do
amostrador, continuam na mesma faixa de valores,
fazendo com que haja um absurdo aumento
no índice de torque (TR), o que é um claro indício
da falácia dos valores medidos de N.
3.5.2 Identificação de Solos Colapsíveis
As argilas porosas da cidade de São Paulo têm
sua colapsividade facilmente identificável através
do índice de torque (TR).
Nas Figuras 3-7 e 3-8 extraídas de Décourt
(1992) verifica-se que valores de TR entre 1.0 e
Fig. 3.7 - Ensaio cdomctrico duplo cm uma argila
porosa não colapsiVol
TENSÃO (kPa)
1 10 100 1000 10000
Fig. 3.8 - Ensaio edomctrico duplo cm uma argila
porosa cofapsivct
3.5.3 Extrapolação da Experiência
Adquirida com os Solos da Bacia
Sedimentar Terciária de São Paulo (BSTSPJ
para Outros Solos
Várias correlações foram estabelecidas para os
solos da BSTSP, conforme já apresentado em itens
anteriores.
O conceito de Neq (N-SPT equivalente) permite
equacionar corretamente alguns fatores que,
ora são subavaliados, ora superavaliados pelo SPT
Uma segunda explicação seria o efeito do
tradicional, tais como "estrutura" dos solos, relação
('V.O., = 10 +
de sobreadensamento em areias ctc. A influ-
ência da "estrutura" dos solos na resistência à penetração
sobreadensamento ou da compactação que como
se sabe causa um aumento de K . Considerando-
parece estar razoavelmente resolvida pela se que o aumento de K seria mais refletido cm
medida do torque e pelo conceito de índice de
Iorque (TR). Para os solos da BSTSP essa relação
é de aproximadamente 1.2. quando o torque é
expresso em kgf x m. Tem-se observado que quanto
mais estruturado é o solo, maior é o índice de
torque.
Décourt e Quaresma Filho (199-1) sugerem que
para os solos residuais de Sào Paulo essa relação
esteja próxima de dois. Para as argilas porosas
um aumento dc torque do que em um aumento
de N, pois a rigor tem-se observado que N não
reflete o sobreadensamento do sob, Clayton et
al(1985) De Mello (1967-1971), Décourt (1989),
poder-se-ia concluir que o sobreadensamento de
areias seria provavelmente refletido por um maior
valor do índice de torque. Se isso for real. os
pouquíssimos dados atualmente disponíveis permitiriam
insinuar que:
colapsíveis, da região da Av. Paulista, São Paulo,
0,5 ^ TR < 1,0 areias normalmente
essa relação é da ordem de 2,5. Para argilas marinhas
moles de Santos, essa relação é da ordem de
adensadas
3,5 a -i.O. Para solos argilosos colapsíveis do interior
1,0 < TR < 1,2 areias sobreadensadas ou
de Sào Paulo foram verificados valores dc TR
compactadas
da ordem de 2,5 a 5, ou mesmo mais do que 5.
Na presente data, porém, essas relações refletem
apenas uma especulação, estando ainda mui-
Para solos arenosos colapsíveis, também do interior
de Sào Paulo, essa relação é de 0,6 a 0,8.
to longe de se constituir em algo comprovado.
A introdução do conceito de Neq permitiria estender
a aplicação de correlações c fórmulas
Uma maneira possivelmente adequada de se
verificar a validade das mesmas serei a execução
empíricas deduzidas para solos da BSTSP, para
de SPT em câmaras de calibraçào. Por último, é
outros solos, quaisquer que fossem suas características
e origens.
oportuno frisar que existem casos em que dois ou
mais fatores estejam atuando simultaneamente, fazendo
Trata-se porém apenas de uma hipótese de trabalho.
com que o estabelecimento das relações
causa-efeito seja mais complexo.
É óbvio que ainda é muito cedo para que conclusões
definitivas sejam tiradas, mas as verificações
já existentes tais como Décourt (1993),
3.5.4 Avaliação Indireta da Eficiência do
Equipamento que está sendo Utilizado para
Décourt c Niyama (1994) sào animadoras.
a Execução do SPT
Quanto ao fato de o sobreadensamento de areias
poder ser detectado, é apenas ainda uma outra
Uma vez conhecido o solo que está sendo investigado
e tendo-se estabelecido o valor estatisti-
hipótese de trabalho.
Para algumas areias, principalmente as quase
puras, as relações TR sào às vezes da ordem de
1.0 a 1,2, significando que as mesmas sejam provavelmente
sobreadensadas. Outras vezes obtémse
relações abaixo de um, variando tipicamente
entre 0,4 e 0.8.
Para essa última situação existiriam pelo menos
duas explicações.
A primeira seria a validade da observação de
Terzaghi e Peck (1948) de que para areias muito
finas e siltes, abaixo do lençol freático, as pressões
neutras negativas geradas durante a cravaçào
do amostrador conduziriam a valores excessivamente
elevados de N, razão pela qual esses autores
camente mais provável de TR, poder-se-á avaliar
a eficiência de um outro equipamento qualquer
que esteja sendo utilizado na área. Sendo o
amostrador o preconizado na Norma Brasileira,
tem-se que os valores do torque não deverão variar
de um equipamento para outro. Os valores de
N porém são extremamente sensíveis a variações
da eficiência e por isso essas variações irão acarretar
variações proporcionais na relação TR.
Assim, por exemplo, um equipamento que tenha
menor eficiência do que o equipamento padronizado
irá dar valores de N superiores aos reais
e conseqüentemente valores de TR inferiores
aos reais.
propuseram uma expressão para a redução Desta forma, observa-se que nesses casos as vacamente
desse índice de resistência à penetração.
riações de eficiência serão refletidas diretamente
Introduzindo-sc correção na cxprcssào original, pelo índice TR.
para levar em conta a eficiência ± 50% maior do
SPT brasileiro em rclaçào ao SPT americano da
década de 40. tem-se, para N 7, > 10, Décourt
(1991b):
3.6 AMOSTRAGEM
Toda a amostragem deve ser precedida de um
mapeamento através de sondagens de simples re-
conhecimento, especialmente no caso de
amostragem indeformada, com intuito de localizar
exatamente a camada desejada e definir o tipo
de amostragem adequada ao tipo de terreno do
subsolo. A amostragem dos solos é normalmente
utilizada para a determinação das características
do material e suas propriedades de engenharia,
cm laboratório. Pode ser amostragem deformada
ou indeformada.
Amostragens deformadas são aquelas onde, na
obtenção da amostra, não há preocupação de
manter inalteradas a estrutura c as condições de
umidade do solo. Sào normalmente utilizadas
para:
• determinação das características físicas do
material
• estudos de materiais dc jazidas dc empréstimo;
• determinação de parâmetros para compactação
(Ensaio de Compactação Proctor);
• determinação de resistência de solos
compactados nas circunstâncias adotadas (Ensaios
CBR - índice de Suporte Califórnia, moldados)
etc.
As amostras deformadas de pequenas profun
didades são usualmente obtidas com:
• pá e picareta, quando superficiais;
• auxílio de trado concha ou cavadeira manual,
nos demais casos.
Alguns procedimentos devem ser adotados,
apesar da simplicidade deste tipo de
amostragem:
• deve-se sempre coletar um pouco de material
representativo, em cápsula de alumínio, e vedar
as cápsulas para que nào haja perda de
umidade. Este procedimento possibilita a
determinação da umidade natural do material,
cm laboratório. Nem sempre se conhece
a totalidade do programa dc ensaios a
ser realizado e isto pode evitar o retorno
ao campo;
• quando da amostragem, principalmente no caso
de utilização de trado? ou cavadeiras, deve-se
observar as mudanças de horizonte de camadas
dc solo. Dcvc-sc recolher cada camada em recipientes
separados e identificá-los;
• as amostras coletadas devem ser embaladas c
identificadas, preferencialmente em sacos plásticos
ou dc lona (estes menos usados hoje em
dia) c de boa resistência. A identificação deve
conterás informações necessárias tais como: n°
da amostra, profundidade, tipo de material (através
de análise tátil visual), posição em relação
ao nível de água (acima ou abaixo), etc. Deve
também ser adequada para nào sc perder durante
o transporte c armazenamento c para que
nào sc apague com o tempo ou umidade. É
recomendável a identificação interna c externa
dos sacos.
Amostragens indeformadas são aquelas em que
sc procura nào perturbar o solo e obter-se uma
amostra o mais representativa possível da realidade,
ou seja, uma amostra que mantenha os
parâmetros que o material apresenta em seu estado
natural. Na realidade, normalmente o que sc
obtém é uma amostra pouco deformada, quando
a amostragem é executada cuidadosamente. A
qualidade da amostra é função:
• do tipo de amostragem em relacào ao material
que será amostrado;
• dos cuidados no procedimento de amostragem
adotado;
• da forma de embalagem, acondicionamento e
transporte da amostra coletada;
• cia forma e tempo de armazenagem;
• cio método de retirada da amostra de sua embalagem
cm laboratório, para ensaios.
Existem diversas maneiras de sc obter uma
amostra indeformada. Elas sào escolhidas de
acordo com a profundidade e tipo do material,
tipo dc material a ser amostrado, posição da
camada cm relação ao nível de água do subsolo,
entre outros fatores condicionantes. As maneiras
mais comuns dc amostragem indeformada são:
• Blocos indeformados
normalmente sào retirados cm poços de inspeção.
Neste caso, sào utilizados quando o material
a ser amostrado é estável e encontra-se acima
do nível de água, ou quando, apesar da
presença de água, esta pode ser facilmente esgotada
para a retirada tios blocos, sem. contudo,
colocar cm risco a estabilidade do fuste do
poço c, conseqüentemente, das pessoas que lá
dentro estarão. Cuidados especiais devem ser
adotados na abertura dos poços e retirada dc»
blocos para identificar a presença dc gases nocivos
à saúde, que coloquem em risco a vida
das pessoas envolvidas no trabalho. A presença
de gases e a impossibilidade de neutralizálos
é fator limitante para adoçáo deste tipo de
amostragem indeformada. Os blocos, salvo em
casos especiais, são cubos de aresta aproximada
dc 30 cm. Sào esculpidos na lateral ou no
fundo do poco antes de serem levados à superfície,
são envoltos em tela de tecido para não
desagregarem e parafinados para que seja
mantida a umidade original. Quando retirados
do poço, devem ser armazenados para transporte
em caixas com serragem, para diminuir o
efeito dc pequenos impactos. Em laboratório
devem ficar armazenados em câmara úmida, fora
das caixas. Os blocos podem também ser retirados
em taludcs. quando for o caso. Os procedimentos
sào os mesmos descritos para poços.
É recomendável a orientação dos blocos em
relação ao norte e a identificação das faces superior
c inferior.
Amostras obtidas por intermédio de amostradores:
• Amostras Shelby
Sào amostras retiradas com amostradores de latào
ou alumínio, de parede fina, denominados
Shelby. Em alguns casos, são confeccionados
em aço inoxidável, sendo, porém, bem mais
caros. Este tipo de amostrador é utilizado para
solos dc baixa consistência. Quanto maior o diâmetro
do amostrador, melhor a qualidade da
amostra. Os diâmetros mais comuns são 4" ou,
eventualmente, 3". A amostragem é realizada
com auxílio de equipamento de sondagem a
percussão, porém, com utilização de tubo de
revestimento de 6" de diâmetro nominal. Após
a abertura do furo, até a cota de início da
amostragem, limpa-se o fundo da perfuração
com auxílio de instrumentos apropriados, a fim
de garantir a qualidade da amostragem e
posiciona-se o amostrador. Com auxílio de um
sistema de cabo dc aço, crava-se o amostrador
de forma a penetrá-lo no material a ser
amostrado. Cuidado especial deve ser observado
para que nào penetre mais que o seu comprimento
pois, do contrário, a amostra será comprimida
no seu interior deixando de ser
indeformada. Retirado o amostrador do interior
da perfuração, dcsacopla-se a composição de
hastes e, imediatamente, sela-se suas extremidades
com parafina. O Shelby, como também é
chamada a amostra, deve ser armazenado cm
caixas com serragem para o transporte ao laboratório
ou câmara úmida. Devem ser mantidos
sempre em posição vertical, de forma que a
parte inferior seja a correspondente à parte inferior
da amostra antes de ter sido retirada da
perfuração. Para transportá-los deve-se protegêlos
quanto a choques. Neste tipo de amostragem,
o material é usualmente sensível. Qualquer perturbação
externa poderá alterar ou danificar a
amostra.
• Amostras Denison
Sào amostras retiradas com auxílio de sondas
rotativas e utilização de amostrador Denison.
Tais amostradores levam em seu interior uma
camisa, usualmente de latào, onde fica acondicionada
a amostra retirada por seu intermédio.
Este tipo dc amostrador c utilizado cm solos dc
certa resistência e, geralmente, em camadas situadas
abaixo do nível de água. Tal como no
Shelby, quanto maior o diâmetro da amostra,
melhor será sua qualidade. Os maiores diâmetros
comercialmente disponíveis no mercado são
aqueles onde a camisa em que fica acondicionada
a amostra tem diâmetro nominal da ordem
de 2 Vf. Neste caso, o amostrador Denison
requer uma perfuração de rotativa com utilização
de tubo de revestimento dc diâmetro H\V.
Embora o sistema de perfuração para a obtenção
da amostra seja rotativo e com avanço refrigerado
a água, o amostrador é provido de
sistema para que a amostra nào tenha contato
com a água de perfuração e, tampouco, sofra o
movimento de rotação do amostrador. Quando
retirada a camisa que contém a amostra de dentro
do amostrador, os demais cuidados descritos
no item anterior devem ser observados para
garantir a qualidade da amostra.
Outros tipos de amostragem indeformada existem
no mundo, como por exemplo os
amostradores de pistào, utilizados em solos de
baixa consistência. Porém, dada a sua pouca utilização
no Brasil e o caráter prático deste tópico,
nào estão sendo aqui abordados.
3.7 PRESSIÔMETROS
3.7.1 O Pressiômetro de Ménard
O pressiômetro de Ménard é um aparelho idealizado
pelo engenheiro francês Louis Ménard, que
se destina a permitir a determinação das características
de rigidez de uma ampla gama de solos c
rochas.
Os resultados das investigações pressiométricas
sào muito influenciados pela maneira como o
mesmo é instalado no solo. Para que a perturbação
seja mantida a mínima possível, o pressiômetro
é colocado em um furo previamente aberto, com
o mesmo diâmetro do pressiômetro.
Todavia, nos casos onde as condições do terreno
são adversas, torna-se necessário introduzir o
pressiômetro no interior de um tubo ranhurado.
Os resultados obtidos com o pressiômetro com e
sem a utilização de tubos ranhurados conduz a
resultados muito diferentes c por isso a utilização
desses tubos somente deverá ser feita cm último
caso. Entretanto, em alguns países como a Suécia,
a utilização dc pressiômetros em tulxxs ranhurados
é antes a regra do que a exceção. Hansbo (1994).
Após a introdução do pressiômetro no terreno a
pressão na célula é aumentada, o que provoca
um estado de expansão cilíndrica do solo em volta
da mesma. A avaliação da deformação radial é
obtida diretamente pela quantidade dc água que
é introduzida dentro da célula. A pressão da célula
é aumentada em estágios e mantida constante
por dois minutos em cada estágio. As leituras são
feitas em trinta, sessenta e cento c vinte segundos
c devem ser corrigidas cm função da rigidez do
próprio sistema de medida.
A apresentação consta dc um gráfico onde sào
apresentadas as deformações plásticas e creep"),
medidas de trinta a cento e vinte segundos, em
função da pressão corrigida, bem como as deformações
totais, após os cento e vinte segundos,
também em função da pressão corrigida.
Para os cálculos, o solo deve ser admitido como
elástico. Em caso dc o ensaio ser realizado no
interior dc um furo previamente aberto, o módulo
de cisalhamento é dado por:
G P: - (Vc + Vm) Ap/AV
onde V : volume inicial da célula dc medida
c
V : volume da célula de medida no início
da parte retilínca da curva pressiométrica
V
m
: V
o
+ A V/2
Ap/AV inclinação da parte retilínca da curva
pressiométrica
Em caso de o ensaio ser efetuado no interior de
um tubo ranhurado, o módulo de cisalhamento é
dado por,
G Pr = Ap V >
AV
+ Vm) (V, + Vm)
onde V volume inicialmente ocupado pelo tubo.
O módulo de elasticidade prcssiométrico (Ep) é
obtido através da teoria da elasticidade.
E = 2 G (1+v)
Admitindo-se v = 0,333 tem-se
O resultado de uma curva pressiométrica
corrigida é apresentado na Fig. 3-9 extraída de
Baguelin et al (1978).
3.7.2 Pressiômetros Autoperfurantes
Uma nova concepção de pressiômetro foi desenvolvida
simultaneamente na França e na Inglaterra
no início da década de 70. Trata-se do
"Pressiomètre Autoforeur" criado pelo Lalx>ratoirc
des Ponts et Chaussées na França e o "Camkometer",
desenvolvido na Universidade de Cambridge, Inglaterra.
Sua utilização é entretanto limitada a a.guns
tipos de solos e por isso tem sido feita de forma
restrita.
Até 1989 havia cerca dc vinte c cinco pressiômetros
desse tipo em uso na Europa (Amar, 1989,). No Brasil,
até a presente data, existe apenas um desses
equipamentos, que foi importado pela Escoh Politécnica
da Universidade de Sào Paulo e se encontra
à disposição dos eventuais interessados em
utilizá-lo.
3.8 ENSAIO DE CARREGAMENTO DE
PLACA. PROVA DE CARGA
O ensaio de carregamento de placa, também
designado por prova de carga cm placa, constituise
em uma das melhores maneiras para se determinar
as características de deformação dos solos.
No Brasil é usual utilizar-se placas circulares de
ferro fundido ou aço com 80 cm de diâmetro. Algumas
vezes sào utilizadas placas quadradas ou
circulares com 30 cm de lado, ou diâmetro. Recentemente
surgiu a idéia de se executar provas
de carga em placas de pequeno diâmetro, 5", ou
seja, 12,7 cm, no interior de tubos de revestimento
dc 6".0. (Décourt c Quaresma Filho, 1996).
Inicialmente sc avalia por um processo qualquer
julgado confiável a capacidade de caiga da placa.
Na imensa maioria dos casos, a aiptura física nào
ocorre, definindo-se então a ruptura convencional
por um critério de ruptura. A Norma Brasileira NBR
6489 nào define ruptura. A tensào considerada
admissível (a viy) é a menor entre q J0 e 1/2 q^, respectivamente
as tensões correspondentes a deformações
de 10 mm e 25 mm. Teixeira (1966) observou
que a segunda condição (1/2 q^) é sempre mais
crítica do que a primeira (q 115), o que também foi confirmado
por análises mais recentes (Découir, 1995).
Fig. 3.9 - Curva pressiométrica corrigida. Apud
Baguelin et al (1978J
Segundo Amar et al (1989), até aquela data havia
cerca de 250 pressiômetros em todo o mundo,
sendo a imensa maioria deles na França.
Na prática, pode-se pois atcr-sc apenas à segunda
condição. Os estudos recentes acima mencionados
indicam que fundações dimensionadas de
acordo com o critério a M) • 1/2 q têm coeficiente
de segurança aproximadamente três com relação
à ruptura convencional (definição a seguir).
Um critério muito usado em todo o mundo é
considerar-se como ruptura convencional a cargi correspondente
a uma deformação dc 10% do diâmetro
ou do lado da placa.
O ensaio é executado aplicando-se cargas da
ordem de 5 a 10% da carga de ruptura prevista.
Os recalques sào lidos a 1, 2, 'i, 8. 15, 30 minutos
ou até que haja estabilização dos mesmos.
Esse ensaio permite a determinação do módulo
de elasticidade do solo. Cabe porém ressaltar nào
ser esse módulo uma constante, pois o mesmo
varia significativamente com o nível de deformação
(ou de tensão) considerado.
Para placas circulares rígidas com diâmetro
tem-se:
it qd
E = (1 -v ) onde q é a tensão
1 s
aplicada à placa, E o módulo
de elasticidade, v o coeficiente de Poisson e s o
recalque medido.
Para placas quadradas rígidas de lado B tem-se:
Nào há porém consenso sobre o valor do coeficiente
I.
Na Tabela 3 5, sào apresentados os valores de 1
segundo diversos autores.
Tabela 3.51 Valores do coeficiente I. Placas quadradas
rígidas
Autor 1 Média
OSTERBERG (1948) 0,850
LEONARDS (1962) 0.800 0,846
MILOVIC (1992) 0,920
HANSBO (1994) 0,815
Se por outro lado procurar determinar-se o coeficiente
I a partir de comparação com o recalque
de placa circular rígida, aplicando ao terreno a
mesma tensão q aplicada pela placa quadrada,
mesma área, tem-se:
I = 0.84
Como esse último valor representa também aproximadamente
a média dos valores propostos pelos
autores acima citados, sua utilização é recomendada.
3.9 ENSAIOS DE CONE (CPTJ E DE
PIEZOCONE (CPTUJ
3.9.1 Ensaio de Cone Holandês
(Cone MecânicoJ
O ensaio de cone holandês, também chamado
de ensaio de penetração estática (ou quase-estática).
ensaio de cone mecânico ou simplesmente
ensaio de cone, teve os seus primórdios de desenvolvimento
na década de 30, no Laboratório
d
de Mecânica dos Solos de Dclft, na Holanda. Dois
equipamentos foram desenvolvidos: o primeiro
(Barentsen, 1936) com a finalidade de obter dados
sobre a consistência dos depósitos aluviais
existentes na parte oeste da Holanda, para estudos
de implantação de estradas; o segundo
(Laboratory of Soil Mechanics, Delft, 1936) tinha
o objetivo de obter dados para o projeto de fundação
em estacas, mais especificamente dados sobre
as camadas arenosas — subjacentes às camadas
argilosas mencionadas anteriormente — onde
se assentavam as estacas das construções holandesas.
Aml>os os equipamentos diferem, essencialmente,
apenas quanto ao dispositivo dc cravaçào, e
consistem de um conjunto dc liastes tendo na
extremidade inferior um cone com ângulo de vértice
de oO° e uma base de 10 cm 2 . O conjunto de hastes
atua internamente a tubos de revestimento.
O ensaio é realizado da seguinte maneira: cravase
a uma velocidade de 1 cm/s, de forma
alternada, apenas o cone ou todo o conjunto
(hastes com o cone e os tubos). As cargas
necessárias para a cravaçào são registradas; no
primeiro equipamento apenas a resistência de
ponta e no segundo também a resistência total
(ponta somada ao atrito lateral).
Dentre as principais vantagens do ensaio, segundo
aqueles autores, destacam-se a rapidez de
execução, a confiabilidade dos resultados, o baixo
custo e o fato dc que se obtêm numerosos
resultados ao longo da profundidade ensaiada.
E importante salientar, portanto, uma característica
fundamental tio ensaio, a de que desde o começo
havia diferentes objetivos quanto à sua utilização:
(i) a obtenção de parâmetros geotécnicos e (ii) a
correlação direta com o comportamento dc estacas.
Um terceiro objetivo, a classificação e estratigrafia
dos solos, incorporou-se aos dois primeiros, a partir
sobretudo do trabalho clássico de Begemann
(1965). Tais objetivos prosseguiram ao longo do
tempo, inclusive com o ensaio de piezocone.
Aprimoramentos cm relação ao equipamento
original foram realizados em fins ca década de 30
c década de 40. Plantema (1948) e Vermeiden
(1948) descrevem essencialmente os mesmos
problemas, relacionados basicamente aos erros
que podem surgir com o emprego do cone até
então utilizado, decorrentes da entrada de grãos
tle areia entre a haste e o tubo CILT revestimento.
Ambos os autores propõem, então, novos e
semelhantes projetos para o penetrômetro, em que
um manto em forma de tronco de cone é
construído atrás da base do cone. O penetrômetro
de Vermeiden (1948) é apresentado na Fig. 3-10.
Pode-se considerar como a última das modificações
qualitativas do cone mecânico a introdução
da luva de atrito lateral. Begemann (1963) comenta
que a prática de determinação do atrito lateral
total, ao longo das hastes de cravaçào. conduz a
i
à
...L-7ZT
Fig. 3.10 - Projeto de cone desenvolvido por
Vermeiden (1948)
resultados nào muito confiáveis. Menciona aquele
autor que, à medida que mais hastes vào passando
num determinado local, o atrito é diminuído.
Dessa forma, Begemann (1963) afirma que 6
impossível obter um gráfico detalhado do atrito
lateral de todas as camadas do subsolo a partir da
medição do atrito total. Para obter tal gráfico é
necessário que sc meça o atrito cm um elemento
de tubo que seja tão pequeno e esteja tão próximo
ao cone quanto possível.
Begemann (1953, 1963) sugere o emprego do
"adhesion jacket cone", posteriormente denominado
(Begemarn, 1965) "friction jacket cone" (Fig.
3.11). No Brasil, o equipamento é conhecido como
cone de atrito ou cone de Begemann. O cone de
Begemann possui atrás do cone propriamente dito
uma luva de atrito com 150 cm- de área lateral.
Fig. 3.11 - Cone dc atrito (Begemann, 1963]
O procedimento de ensaio (Begemann, 1965,
De Ruiter, 1971) consiste em cravar inicialmente
apenas o cone ao longo de 4 cm, registrando-se
naturalmente apenas a resistência de ponta. Em
seguida as hastes internas são avançadas mais
4 cm, fazendo com que seja cravado o conjunto
cone e luva de atrito'. Neste caso é medida a resistência
de ponta acrescida da resistência de atrito
lateral, sendo esta última obtida por diferença.
Procede-se então à descida das hastes externas
ao longo de 20 cm, as quais trazem consigo a
luva de atrito por 16 cm e o cone por 12 cm. A
partir daí o procedimento é repetido. Conseguese
dessa forma um gráfico, em função da profundidade,
do que Begemann (1965) denominou cie
atrito lateral local.
NBR 12069 estabelece 35.5 mm. tanto para .i penetração
do cone comc pura o conjunto cone e luva de atrito.
Dois comentários quanto à operação cio ensaio
são ainda dignos de nota. O primeiro diz respeito
ao procedimento de ensaio do equipamento sem
luva de atrito, o qual não é absolutamente um
consenso. De fato, Vermeiden (1948) comenta que
o cone e cravado 12.5 cm, sendo o revestimento
descido 20 cm, de tal forma que ao longo de
7,5 cm cone e revestimento descem simultaneamente.
Já Begemann (1963) afirma que o cone é
cravado ao longo de 5 cm, enquanto a descida
simultânea de cone e revestimento se dá em um
comprimento de 10 ou 20 cm, dependendo da
acurácia requerida. De Ruiter (1971) menciona que
o cone é avançado 8 cm, enquanto o revestimento
é cravado 20 cm, de tal forma que ao longo de
12 cm o cone c o revestimento descem simultaneamente.
A referência internacional para o CPT,
"International Reference Test Procedure for Cone
Penetration Test (CPT;", da ISSMFE (1989), menciona
que o movimento mínimo do cone deva ser
de 0,5 vez o diâmetro do cone. A norma brasileira
NBR 12069 (ABNT, 1991), "Ensaio de Penetração
dc Cone In Situ (CPT)", estabelece uma penetração
entre 35,5 mm e 71 mm.
O segundo comentário diz respeito à velocidade
de cravaçâo do cone. Embora no início a velocidade
empregada fosse de 1 cm/s, a velocidade
de 2 cm/s consta hoje dos padrões internacionais.
No Brasil, o ensaio de cone holandês chegou
em meados da década de 50, trazido pela
Companhia de Estacas Franki (Velloso, 1988), uma
empresa cie origem belga. Vale lembrar que a
Bélgica foi o primeiro país, logo após a Holanda,
a empregar o ensaio (De Beer, 19-18). Velloso
(1959) menciona que 'em nosso país, não só no
Rio de Janeiro, como também cm outras
cidades — Belo Horizonte, Porto Alegre, São
Paulo e, recentemente, Brasília — o ensaio de
penetração estática tem-se mostrado um auxiliar
eficaz no projeto e construção de fundações".
Posteriormente, outras organizações passaram
também a empregar o ensaio, principalmente para
o projeto de estacas.
Alguns equipamentos mecânicos ainda são
utilizados no Brasil. A capacidade máxima dos
equipamentos de cravaçâo é da ordem de 170 kN.
3.9.2 Ensaio de Cone Elétrico
Os cones elétricos têm geralmente as mesmas
dimensões básicas dos cones mecânicos, ou seja.
ângulo do cone de 60° e 10 cm 2 de área da base.
Na maioria dos casos possuem uma luva cilíndrica
com o mesmo diâmetro da ponta cônica acima da
base e, assim, a forma de tronco dc cone do
equipamento mecânico é eliminada. Dessa forma,
a ponta nào mais deixa qualquer espaço no solo
pela sua passagem e o furo criado pelo cone é
mantido cm condição de completa restrição.
Dc Ruiter (1971) menciona dois tipos de cone
elétrico: o primeiro, capaz de medir apenas a resistência
de ponta, enquanto o denominado cone
de atrito é capaz dc determinar também o atrito
lateral. A resistência de ponta é medida através de
uma célula de carga com "strain-gaugcs" situados
de forma a compensar tensões oriundas de flexâo.
Um conjunto de hastes metálicas, de 1 m dc comprimento,
transmite a força de cravaçào da máquina
ao cone. Interiormente às hastes passa o
cabo de alimentação do cone. A resistência de ponta
é obtida continuamente (dados analógicos) ou
em intervalos ccntimétricos (dados digitalizados), e
os valores correspondentes podem ser registrados
em gráfico simultaneamente à realização do ensaio.
A resistência de atrito lateral é medida através
de uma célula de carga fixada à luva dc atrito, a cjual
é situada logo acima da base. Tal como no cone de
Bcgcmann, a área lateral da luva de atrito é de 150
cm-. Naturalmente, a ponta cônica e a luva de atrito
sào mecanicamente independentes. O cone elétrico
dc atrito permite que se visualize a resistência de
ponta e o atrito lateral durante a realização do ensaio.
Vários outros cones de atrito surgiram a partir
dessa época. Posteriormente o equipamento foi
padronizado (ISSMFE, 1977). lista padronização, que
corresponde aos cones empregados na Europa, é
semelhante à americana, descrita na ASTM D 3Vil
(1979) (Schaap e Zuidberg, 1982). A referência
internacional da ISSMFE (1989) respeitou as
dimensões anterionnente padronizadas. /\s principais
dimensões do equipamento estão indicadas na Fig. 3-12.
s
is
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* u
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Fig. 3.12 - Dimensões padronizadas pela ISSMFE
(1977) (Schaap e Zuidberg, 1982)
Um esquema da parte interna do cone elétrico
de atrito é apresentado na Fig. 313- Este esquema
é correspondente a um projeto que poderia ser
chamado de convencional, o qual possui a célula
dc carga de ponta trabalhando à compressão e a
célula de carga dc atrito à tração. Aqueles autores
apresentam ainda um outro cone, mais simples c
mais robusto, em que as duas células de carga
trabalham à compressão, uma medindo a
resistência de ponta e a outra a resistência de ponta
somada ao atrito lateral, sendo este valor obtido,
naturalmente, por diferença.
n
o
a. Alguns Fatores Intervenientes nos Resultados
dos Ensaios
Desvios da Vertical
De Ruiter (1971) afirma que sérios erros podem
resultar se a composição de hastes se desviar da
vertical durante o ensaio. O autor considera que
na grande maioria dos ensaios dc cone ocorre
algum desvio e que o problema é uma das maiores
fontes de erro, sobretudo em ensaios profundos.
De Ruiter (1971) registra o caso de ensaios em
que o deslocamento do cone acabou se dando na
horizontal e um caso em que o cone retornou ao
nível do terreno após as hastes terem descrito um
semicírculo de raio 15 m. Danziger et al (1991)
apresentam experiência de um ensa o (na realidade
de piezocone e nào de cone elétrico) em que o
cone teria estado na horizontal. Findo o ensaio,
várias hastes apresentavam deformações plásticas.
A causa do desvio teria sido um pequeno choque
de uma das hastes mais próximas ao cone com
alguma pedra do cnrocamcnto existente.
De Ruiter (1971) lembra que, exceto nos casos
onde o desvio tenha sido excessivamente grande,
as hastes sào capazes de fletir sem apresentarem
deformação plástica. Dessa forma, o desvio nào é
detectado durante ou após a realização do ensaio.
Como causas do desvio, De Ruiter (1971) destaca
que as mais comuns são obstruções tais como
pequenas pedras e uso de hastes nào
perfeitamente retilíneas, sobretudo próximas ao
cone. A sucessão de camadas moles (ou fofas) e
duras (ou compactas) também pode provocar
desvios que, uma vez iniciados, tendem a
aumentar. Aquele autor sugere várias medidas de
modo a tentar evitar os desvios, todas relacionadas
a cuidados com o equipamento, tais como o
correto posicionamento inicial do cone e o uso
de hastes perfeitamente retilíneas.
Posteriormente, De Ruiter (1981) sugere o uso
de inclinômetro para ensaios com mais de 25 m e
no caso de terrenos com pedras ou pedregulhos.
O uso de inclinômetros é relatado por vários outros
autores (por exemplo, Campanella e Robertson,
1981, Campanella et alii, 1983, Van de Graaf ejekel,
1982). A NBR 12069 recomenda o uso de
inclinômetro em ensnios com profundidades
superiores a 25 m.
Vale lembrar ainda que os cones mecânicos sào
naturalmente também sujeitos a desvios da
verticalidade. De fato, nestes cones o problema é
mais sério, de vez que inclinações elevadas causam
erros na resistência de ponta em função do atrito enlre
liastes internas e externas (Van de Graaf c Jckel, 1982).
' CttlAA CC CAAGA
0* Al 4170
Cti-V-ACC CAIO*
CCfCH"A
Fig. 3.13 - Esquema de um cone elétrico de atrito
convencional (Schaap e Zuidberg, 1982)
Variação de
Temperatura
Vários autores mencionam que a variação de
temperatura pode causar erros na avaliação das
cargas obtidas pelos cones (De Ruiter, 1981, 1982,
Schaap e Zuidberg, 1982, Aas et alii, 1986, Lunne
et alii, 1986).
Schaap e Zuidberg (1982) denominam carga
aparente a carga decorrente da variação da leitura
zero por efeito de variação da temperatura. Vale
lembrar que a carga aparente é independente da
faixa dc trabalho. Assim, o efeito da temperatura
para uma mesma célula é maior quando se trabalha
com pequenas pcrcentagens da capacidade da
célula, como é comum no caso de células de alta
capacidade realizando ensaios em camadas de
argila mole.
Naturalmente, o efeito da temperatura é mais
significativo no caso de perfis cm que haja, ao
longo da profundidade, solos congelados e nào
congelados, onde pode haver maiores gradientes
de temperatura (Marr, 1981;. Há também
necessidade de fazer a correção do efeito de
temperatura quando, mesmo no caso dc
temperatura do solo constante, a leitura inicial
(zero do ensaio) é feita com o cone fora do solo.
Nesse caso, é importante se determinar a
temperatura do cone e nào a temperatura ambiente
(Lunne et alii, 1986). No caso de ensaios offshore,
aqueles autores comentam que o efeito de
temperatura é desprezível, de vez que a zeragem
das células de carga é feita no fundo do mar.
No clima brasileiro, o cone deve estar sempre
protegido, à sombra, de preferência em algum local
cuja temperatura esteja próxima à do terreno, por
ocasião da leitura inicial.
A necessidade de alta qualidade das células
quanto à variação dc temperatura fica justificada
pelos comentários acima.
Concluindo este tema. cumpre registrar o
emprego de termopares no interior de alguns
cones (por exemplo, De Ruiter, 1981, Campanella
c Robcrtson, 1981, Marr, 1981).
Faixa de Trabalho das Células de Carga
A capacidade das células de carga de ponta da
maioria dos cones atualmente em uso situa-se na
faixa de 50 a 8C kN. Dessa forma, embora os cones
sejam capazes de medir resistências de ponta em
areias compactas, no caso de depósitos de argilas
moles e médias as células trabalham em faixas de
carga muito baixas em relação à capacidade das
células, ocorrendo assim, nesses solos, uma perda
de acurácia (Jamiolkowski et alii. 1985).
Lunne et alii (1986) mencionam que é geralmente
preferível que as cargas medidas representem
pcrcentagens tào elevadas quanto possível da
capacidade da célula. Entretanto, testando vários
cones na argila de Onsoy, verificaram aqueles
autores que alguns cones com células de carga de
alta capacidade (por exemplo, 50 kN) forneciam
resultados com características de repetibilidade c
acurácia tào bons quanto os obtidos por cones
com células de menor capacidade. Lembram
aqueles autores que o uso de células com maior
capacidade resulta em cones mais robustos, os
quais podem penetrar areias compactas e sào
menos sujeitos a danos causados por obstáculos
tais como pedras. Lunne et alii (1986) ressaltam,
entretanto, que sào necessárias células de carga
de alta qualidade, além de calibraçào cuidadosa
em vários níveis dc carregamento.
Os protótipos 2 desenvolvidos na COPPE/UFRJ
ilustram bem os comentários acima. No primeiro
protótipo (COPPE-I) foi empregada uma célula de
carga de ponta com capacidade de 5 kN. Foi feita
uma comparação entre este cone com dois cones
Fugro — com capacidade da célula de ponta de
30 kN — trazidos ao Brasil em 1985 para ensaios
na argila mole do Sarapuí pelo pesquisador Tom
Lunne, do Instituto Norueguês de Geotecnia (NGI).
Resultados de calibraçào mostraram que os cones
Fugro testados sào capazes de trabalhar, no mesmo
nível de carga absoluta, em condições tào boas
ou melhores que o primeiro protótipo COPPF.. Isto
representa resultados melhores que os do cone
COPPE-I, em função de a capacidade da célula
dos cones Fugro ser 6 vezes maior. Já as iluas
unidades de cones COPPE de segunda geração,
com células de carga de ponta de 30 kN' de
capacidade, apresentam desempenho
semelhante aos cones Fugro. Para se ter uma
idéia, é posível se trabalhar na faixa de carga 0-
2% da capacidade da célula, por exemplo, com
excelentes resultados quanto a histerese,
repetibilidade e não retorno ao zero. Detalhes
de resultados de calibraçào podem ser obiidos
em Danziger (1990). O protótipo do cone COPPE
de terceira geração (Bezerra et alii, 199-1, Bezerra.
1996) possui a célula de carga de ponta com
capacidade de 60 kN, e os valores de calibraçào
obtidos dão conta de que os resultados são
semelhantes aos dos cones de segunda geração
para os mesmos níveis de carga absoluta, o que
representa um desempenho melhor em sc
considerando a maior capacidade da célula.
O acima exposto corrobora a observação de
Lunne et alii (1986) quanto à importância da alta
qualidade das células de carga.
Ingresso de Solo nas Ranhuras do Cone
Em funçào das tensões geradas pela cravr.çào.
há uma tendência de o solo ser forçado para o
interior das ranhuras existentes entre o conc e a
luva de atrito e entre esta e a parte superior do
corpo do penetrômetro (Schaap e Zuidberg, 1982).
Para evitar o problema, Schaap e Zuidberg (1982)
sugerem o emprego de selos para solo, geralmente
constituídos de anéis de lx>rracha.
1 " Na realidade, de piezocone c n:lo de conc elétrico.
Outros
Existem outros fatores que intervém nos
resultados dos ensaios, tais como a açào da poropressào
nas ranhuras do cone e a velocidade de
cravaçào. Quanto ao primeiro, é abordado no item
que trata do piczoconc; no que toca ao segundo,
encontra-se fora do escopo do presente trabalho
(ver Danziger e Lunne, 1996).
b. O Cone Elétrico no Brasil
Os primeiros ensaios de cone elétrico foram
realizados em condições offshore, com a finalidade
de obtenção de dados para projetos de plataformas
de exploração/produção de petróleo (Bogossian,
1993, Mello, 1993). Os resultados de tais ensaios
sào apresentados por Bogossian e McEntee (1978)
e Bogossian e Matos (1979).
Sào ainda dignos de nota os trabalhos desenvolvidos
em universidades brasileiras. A PUC/RJ
tem trabalhos importantes cm solos residuais (e.g.
Rocha Filho e Carvalho, 1988). Borges Neto (1981),
desenvolvendo tese de mestrado na COPPE/UFRJ,
projetou e construiu um cone elétrico para emprego
em argila mole. No caso tle argilas moles,
entretanto, mesmo os cones elétricos nào sào recomendáveis.
devendo-se empregar o piezocone
(ver item 39.5.a).
Outras referências sobre ensaios de cone elétrico
no Brasil sào em número extremamente reduzido
e relativas basicamente a ensaios offshore (ver,
por exemplo, Ortigào et alii. 1985).
Sabe-se ainda de uma empresa privada, a PTS,
com atuação sobretudo no Estado tle Sào Paulo.
3.9.3 Comparação entre o Cone Elétrico e o
Cone Mecânico
l'ma comparação entre os resultados dos ensaios
de cone elétrico c cone mecânico é importante,
de vez que o cone mecânico ainda é utilizado no
Brasil, e muitas das correlações existentes na
literatura internacional sào ainda baseadas em
resultados de ensaios de cone mecânico.
De Ruiter (1971) apresenta uma interessante
comparação entre os resultados dos dois
penetrômetros. Inicia ele a comparação mencionando
que diferenças nos valores obtidos por um e outro
equipamento deveriam ser esperadas, em função
das diversidades na forma do penetrômetro e no
processo de avanço do cone. Afirma De Ruiter
(1971) que. no que concerne à resistência de ponta
q . entretanto, nenhuma diferença sistemática foi
verificada em todos os casos onde foi possível
ATmtOLATfAA-. HlSISf. A1RIO LATtB»'. MS4T
A • CONE MECÂNICO • REGISTROS DESCONTÍNUOS
B • CONE ELÉTRICO - REGISTROS CONTÍNUOS
Fig. 3.14 - Comparação entre ensaios com cone
elétrico e cone mecânico (Dc Ruiter. 1971)
2.0
O
\
o
'B 1.5
•o
-ST
0
'5
<rs
1 1-0
v
cr
* +
\
* X
\
\
X\
O \
* èP
\ , , . . «.O ]
estimado como devido
ü diferença dc avanço do cone
^ 13 HA ~~ ~~ ~~ _ tendência geral ®
^ A 0
0.5
0 5 10 15 20 25
q c (mecânico) cm MPa
Fig. 3.15 - Comparação entre as resistências de ponta obtidas pelo cone mecânico e pelo cone elétrico
(Schmertmann, 1978J
realizar uma comparação entre ensaios adjacentes.
Tal afirmação é ilustrada pelos gráficos da Fig. 3.14.
Embora existam diferenças nos valores de q , elas
podem ser explicadas pela margem dc erro nas
medidas com o cone mecânico e pela maior
sensibilidade do cone elétrico para detectar camadas
de pequena espessura, o que resulta em valores
de pico mais pronunciados no gráfico. Conclui De
Ruiter (1971) que a prática em sua empresa (Fugro)
tem sido a dc não empregar fatores de correção
para q oriundos do cone elétrico no caso de
aplicação a métodos de cálculo originados de dados
do cone mecânico, como o caso de capacidade de
carga de estacas. Os autores deste capítulo lembram
que pode haver diferenças significativas no caso
de argilas moles, provenientes da ação da poropressão
sobre a base do cone, conforme abordado
no item 3-9.5.a.
Já Schmertmann (1978) reuniu uma série de
resultados de ensaios (Fig. 3.15) - principalmente
em areias — que mostram uma tendência de
valores menores dc q ( para o cone mecânico,
exceto no caso de solos fofos onde o contrário
acontece. Na Fig. 3.15 está indicada também uma
curva que busca retratar a influência devida á
diferença da forma de avanço do cone.
No que toca ao atrito lateral f, as diferenças
sào muito mais significativas do que no caso da
resistência de ponta q . De fato, comparando-se
os valores da Fig. 3-H, observa-se que os
resultados obtidos com o cone elétrico sào, em
média, a metade dos provenientes do cone de
Begemann. De Ruiter (1971) salienta que a mesma
relação foi obtida cm muitas outras comparações.
Aquele autor atribui tal diferença à resistência
extra no bordo inferior da luva de atrito do cone
de Begemann a qual é incluída no registro do
atrito lateral. A Fig. 3-K> ilustra a observação
acima.
No que diz respeito a vantagens e desvantagens
de um e outro equipamento, o trabalho tle De Ruiter
(1971) é particularmente detalhado quanto a esta
questão.
Finalizando este item, vale lembrar a observação
de De Ruiter 11982) quanto ao custo do equipamento
elétrico. Salienta aquele autor que, além do custo do
cone em si, o custo correspondente aos sistemas de
aquisição de dadas e de calibraçào é ponderável no
custo global. Dessa forma, o equipamento só gera
lucro se as unidades de campo se mantiverem
operando mais ou menos continuamente.
Essa é provavelmente a razão pela qual, no Brasil,
onde o ensaio tle cone está longe tle ser empregado
como o SPT, seja problemática a utilização comercial
do equipamento.
3.9.4 A Sonda Piezométrica
Segundo Campanclla e Robertson (1988), a
medida de poro-pressòes durante a cravação de uma
sonda foi realizada pela primeira vez no início tia
década de 70, conforme descrito por Wissa et alii
(1975) e Torstensson (1975).
As sondas piezométricas de Wissa et alii (1975; e
de Torstensson (1975; são bastante semelhantes,
constituindo-se, basicamente, de uma ponta cônica
tendo em sua extremidade um elemento poroso
cilíndrico conectado a um transdutor elétrico dc
pressào. A sonda desenvolvida por Torstensson (1975)
está apresentada esquematicamente na Fig. 3.17.
TRANSDUTOR
DE PRESSÃO
ACRÉSCIMO DE
RESISTÊNCIA
FILTRO
Fig. 3.17- Esquema da sonda piezométrica desenvolvida
por Torstensson (1 97SJ
Fig. 3.16 - Resistência extra obtida com a luva dc
atrito do conc de Begemann (extraído de 8orges
Neto. 1981)
No caso de Wissa et alii (1975), muito embora o
objetivo principal da sonda fosse o de obterá poropressào
em condições de equilíbrio, aqueles autores
vislumbraram uma série de outras potencialicades
do ensaio, a partir justamente das poro-pressões
geradas durante a cravaçâo da sonda (realizada a
uma velocidade constante) e do tempo necessário
à sua dissipaçào.
Quanto a Torstensson (1975), verificou que
valores elevados de excesso de poro-pressão, An,
eram gerados, por ação da cravaçâo da sonda, no
caso de argilas normalmente adensadas, enquanto
no caso dos solos mais permeáveis praticamente
nào havia geração dc excesso de poro-pressões.
Assim, a presença de camadas permeáveis no
interior de massas argilosas aparece no diagrama
de poro-pressòes em função da profundidade
como uma queda súbita na poro-pressão. Por outro
lado, a presença de lentes de argila em camadas
arenosas é registrada por picos de poro-pressào.
A Fig. 3.18 é um exemplo do que é mencionado
acima. No caso de areias com alto grau de
compacidade ou argilas pré-adensadas, Torstensson
(1975) observou a geração de poro-pressòes
negativas.
Poco-Pres$3r>
No que diz respeito à posição do elemento
poroso no piezocone, desde o início existiu uma
forte discussão acerca da melhor posição para
instalá-lo. O único consenso que existe diz respeito
a que não há uma única posição capaz de reunir
todas as vantagens. A Fig. 3.19 mostra as principais
posições onde o elemento poroso é usualmente
instalado, com a nomenclatura correspondente.
Embora tenha havido uma tendência, no início e
em meados da década de 80, da utilização do
elemento poroso na face do conc (poro-pressào
u,), a maior tendência hoje — no caso de apenas
um elemento poroso no cone — é de posicionar
tal elemento na base do cone (poro-pressào u 2), o
que é inclusive recomendado pela ISSMFE (1989).
embora isto nào tenha sido padronizado. Vale
lembrar que a base do cone é a posição adequada
para sc fazer a correção da resistência de ponta
(ver item seguinte), c esta é considerada a principal
vantagem desta posição. Vantagens e desvantagens
das diversas posições sào discutidas por vários
autores, por exemplo De Ruiter ( .982), Battaglio
et alii (1986), Campanclla e Robertson (1988),
Lunne e Powell (1992).
Fig. 3.18 - Diagrama dc poro-pressão em função da
profundidade num perfil estratificado (Torstensson.
T 975)
3.9.5 O Piezocone
Embora Parcz et alii (1976) tenham desenvolvido
e empregado um equipamento capaz de medir
simultaneamente resistência de ponta c poropressào,
foi apenas no início dos anos 80 que
muitos pesquisadores em todo o mundo passaram
a empregar os elementos dc medida dc poropressào
incorporados aos cones elétricos (por
exemplo, Baligh et alii, 1981, Campanclla and
Robertson, 1981, Dc Ruiter, 1981 .Jones et alii, 1981,
Muromachi, 1981, Tumay et alii, 1981). Tal
incorporação resultou no equipamento que passou
a ser designado como piezocone (De Ruiter, 1982).
Segundo este autor, a combinação dc medidas de
resistência e poro-pressào adicionou uma nova
dimensão à interpretação analítica dos dados.
Portanto, o piezocone veio a unir as vantagens
do ensaio de cone elétrico com todo o potencial
da sonda piezométrica.
é instalado
De modo a sc poder lançar mão das vantagens
das diferentes posições, têm surgido piezocones
com mais de uma posição do elemento poroso.
Por exemplo. Bavne e Tjclta (1987), Skomedal e
Baync (1988) e Sandvcn (199C) apresentam
resultados de ensaios com piezocones McClelland
e Fugro com três elementos porosos, tanto em
terra como no mar. Sills ct alii (1988a) empregaram
um piezocone, Oxford/Fugro, com quatro
U(kPa)
RJ (Sills c: alii, 1988a, Danziger, 1990J
elementos porosos (os três mostrados anteriormente
e um adicional no centro da luva de atrito) na argila
do Sarapuí, RJ. Bezerra et alii (1994) e Bezerra (1996)
apresentam resultados de ensaios com o piezoconc
COPPE-IV, com dois elementos porosos, nas argilas
do Sarapuí-RJ e do Clube Internacional do Recife. A
Fig. 3 20 mostra os valores dc poro-pressào medidos
na argila do Sarapuí-RJ, em quatro posições de
elementos porosos ao longo do piezoconc (Sills et
alii, 1988a, Danziger. 1990).
a. A Correção da Resistência de Ponta e do
Atrito Lateral
O desenvolvimento do piezoconc permitiu que.
além de se abrir um mundo novo de possibilidades
advindas da medida da poro-pressào gerada pela
cravaçào do cone, se constatasse que no caso de
solos saturados havia erros na medida da
resistência de ponta q v e do atrito lateral f no
caso do ensaio de cone (mecânico e elétrico), ver
por exemplo, Baligh et alii (1981), De Ruiter (1981).
O erro é devido à açào da água sobre as ranhuras
do cone, sendo importante nos casos onde a poropressào
gerada é grande quando comparada à
resistência de ponta, principalmente no caso de
argilas'moles. A Fig. 3.21 ilustra o comentário acima
no caso da resistência de ponta.
A correção da resistência de ponta, q t, em função
da poro-pressào medida na base do cone, u 2, foi
proposta por Campanella et alii (1982), como
<7r = <?c + w 2 U-«) (39.1)
Quanto à correção do atrito lateral medido, f
algumas expressões simplificadas foram propostas
(e.g. Jamiolkowski et alii, 1985, Lunne et alii. 1986).
principalmente porque raramente a poro-pressào
é medida no topo da luva dc atrito (u t). Uma
expressão geral (3 9 3) foi proposta por Konrad
(1987), ver Fig. 3.22.
resistência de ponta
sendo
q r
= resistência dc ponta corrigida
a - AN/AT (ver Fig. 3-21), relação dc áreas
Cada cone tem uma diferente relação de áreas,
dependendo de seu projeto. Lunne et alii (1986),
calibrando diversos cones, encontraram relações
de áreas entre 0,38 e 0,86. Vale ressaltar cjue vários
autores (e.g. Battaglio c Maniscalco, 1983, Almeida
e Parry, 1985, Campanclla e Robertson, 1988,
Nyirenda e Sills, 1988. Robertson, 1990, Mulabdic
et alii, 1990) recomendam a obtenção da relação
de áreas sempre através de calibração em uma
câmara com água, e nào através de estimativa com
base nas dimensões geométricas, como às vezes é
feito.
A expressão (3-9.1) é largamente empregada nos
casos em que a poro-pressão é medida na base
do cone. Quando isto nào acontece, a expressão
(3.9.2), dc Lunne et alii (1986), deve ser
empregada.
q T=q c+k, M(l-«) (392)
sendo
L> = uJ/h um fator de correção, o qual depende
da posição relativa entre o elemento poroso c a
base do cone; vale lembrar que a base do cone é
o local onde se deveria medir a poro-pressão para
efeito da correção ora estudada
u - poro-pressào medida
No caso da poro-pressão medida na face (u,)
ou no vértice do cone, vários autores obtiveram o
valor de k dc aproximadamente 0,8 para diferentes
depósitos de argilas moles normalmente adensadas
e levemente pré-adensadas (Lunne et alii, 1985,
Campanclla e Robertson, 1988. Sills et alii, 1988a,
Danziger, 1990").
Fig. 3.22 - Esquema de piezocone apresentado por
Konrad (1987), com ilustração da ação da poropressão
nas ranhuras do cone
sendo
y^ • atrito lateral corrigido
+ (3-9.3)
A yl/ A» áreas da base e do topo da luva de
atrito, respectivamente
A t = área lateral da luva de atrito
É importante salientar que, enquanto a
resistência de ponta é corrigida em quase todos
os ensaios, o mesmo nào ocorre em relação ao
atrito lateral, quando normalmente sào
apresentados como resultados os valores não
corrigidos.
Outros fatores que podem influenciar a
resistência de ponta c o atrito lateral sào descritos
no excelente trabalho de Mulabdic et alii (1990).
b. O Piezocone no Brasil
A utilização do piezocone no Brasil tem sido
relacionada fundamentalmente à atuação de
universidades, seja no que diz respeito ao
desenvolvimento de equipamentos seja apenas
Depósito Local Referência
Sarapuí Duque de Caxias. RJ Guimarães (1983). AJencar Jr. (1984). Rocha Filho e Alencar
(1985), Soares et alii (1986a. 1986c], Soares et alii (1987).
Si/rs et alii (1988a). Danziger (1990). Bezerra (1996),
Danziger et alii (1996)
Baixada
de Rio de Janeiro, RJ Lethola f!984). Rocha Filho (1987)
Jacarepaquá
Clube internacional Recife, PE Oliveira (1991). Coutinho et alii f 1993), Bezerra (1996)
Terminal Portuário da Aracaju. SE Danziger et alii (1991). Brugger et alii f 1994)
Petrobrás
Rio Sanhauá João Pessoa. PB Diniz Filho (1990)
Subestação São José Duque de Caxias. RJ Almeida et alii (I990J
Depósito de lixo de Duque de Caxias, RJ Ehrlich et alii (1992)
Gramacho
Terminal
de Santos. SP Bezerra (1993)
Contêineres do Porto
de Santos
Rio Gravatai Porto Aleqre. RS Soares et alii (1994)
Barra da Tijuca Rio de Janeiro. RJ Lacerda e Almeida (1995)
na realização de ensaios. As instituições que têm
mais se dedicado ao piezocone sào a COPPE/UFRJ
e a PUC/RJ, mas a UFPE, a UFRGS e a UFPB têm
realizado mais recentemente importantes trabalhos
com o equipamento (ver ainda Tab. 3.6).
Cumpre lembrar que o primeiro trabalho de autor
brasileiro sobre o piezocone é a tese de doutorado
de Rocha Filho (1979), realizada na Universidade
de Londres. Aquele autor utilizou um cone elétrico
da Fugro cuja ponta foi modificada para possibilitar
a medida da poro-pressào, feita no vértice do cone.
Ao retornar ao Brasil, aquele autor iniciou na PUC/
RJ uma linha de pesquisa sobre o CPT e o CPTU.
Na COPPE/UFRJ, foi o professor Márcio Miranda
Soares quem deu início à linha de pesquisa do
piezocone, após retornar de seu pós-doutoramento
no Instituto Norueguês de Geotecnia, NG1, em 1984.
No NGI, aquele pesquisador dedicou especial atençào
à análise de ensaias de dLssipaçào (Soares, 1986).
Na iniciativa privada, existem apenas dois
registros de conhecimento dos autores, dizendo
respeito (i) ao desenvolvimento, pela Geomecânica
e com auxílio da PUC/RJ, sob os auspícios da
Petrobrás, de um piezocone para uso em águas
profundas (Lopes e Muxfeldt, 1988, Rocha Filho e
Sales, 1994) e (ii) à participação da Grom (da
incubadora de empresas da COPPE/UFRJ) junto à
COPPE/UFRJ no desenvolvimento do piezocone,
sobretudo o equipamento de última geração.
Ainda quanto a ensaios offshore, vale salientar
que os primeiros ensaios de piezocone nestas
condições forun realizados em 1987, no campo
de Merluza, por empresa estrangeira contratada
pela Petrobrás (Mello, 1993). Ensaios têm sido
realizados por empresas estrangeiras cm outros
campos.
A principal utilização do ensaio tem sido relativa
à estimativa de propriedades de depósitos argilosos
moles. A tabela 3.6 apresenta os principais
depósitos onde foram realizados, no Brasil, ensaios
de piezocone neste tipo de material.
3.9.6 Designação dos Ensaios
O ensaio de cone, seja mecânico ou elétrico, é
denominado hoje internacionalmente como 'Cone
Penetration Test", sendo a sigla correspondente
CPT Já o ensaio de piezocone, denominado de
"Piezocone Test", tem uma maior tendência de ser
designado como CPTU (Battaglio et alii, 1986,
Campanella e Robertson, 1988).
3.9.7 Aplicações dos Ensaios
As aplicações de engenharia dos ensaios de cone
e de piezocone podem ser divididas em três
grupos: (i) classificação e estratigrafia dos solos,
(ii) obtenção de parâmetros geotécnicos e (iii)
aplicação direta ao projeto de fundações (Danziger
c Lunne, 1994). Em tais aplicações, sào muitas
vezes empregados parâmetros derivados das
grandezas medidas diretamente nos ensaias. Os
parâmetros derivados mais utilizados (Danziger c
Lunne, 1994) sào apresentados abaixo, cm seguida
a um resumo das grandezas medidas nos ensaios.
a. Grandezas Medidas e Corrigidas
As grandezas medidas são, no caso do CPT,
resistência de ponta, q t, atrito lateral, f c, nc caso
cio piezocone, a poro-pressão u, ou u J( alem das
anteriores.
Tanto no caso do cone elétrico como no do
piezocone, outras grandezas sào às vezes medidas.
Quanto ao piezocone, às vezes mais de uma poropressão
é medida (ver item 3.9.5).
Apenas no caso do piezocone, é possível fazer a
correção da resistência de ponta, obtendo-se q T
(expressão 3 9.1 ou 3 9.2) e, ainda, com as
restrições mencionadas em 3 9.5.a, o atrito lateral
corrigido. f T (expressão 3 9.3).
b. Parâmetros Derivados
Alguns parâmetros têm sido propostos usando
valores de poro-pressão ao longo do piezocone,
e.g. p-(u 2-u o>/cu.-u u), May (1987^, Sills et alii
(1988b), PPb-(u,-u 2>/u o, Sully el alii (1988a,
1988b;. (Au,-Au,)/a' v<(, Larsson e Mulabdic (1991),
PPSV-(u,-u 2)/o , * 0, Sully e Campanella (1991). Os
dois últimos parâmetros podem ser considerados
o mesmo. Vale lembrar que tais parâmetros só
podem ser obtidos com piezocones capazes de
medir a poro-pressão em mais de uma posição
ou, no caso tle piezocones comuns, é preciso
realizar dois ensaios com piezocones possuindo
elementos porosos em diferentes posições, como
sugerido por Sully et alii 0988a).
O primeiro parâmetro derivado empregado foi
a razão (ou relação) de atrito, FR=f/q , utilizada
principalmente para classificação dos solos (e.g.
Sanglerat, 1972. Schmertmann, 1978, Searle, 1979,
Douglas c Olsen, 1981). Hoje FR é utilizado mais
com os parâmetros corrigidos, ou seja, FR é
definido como FR=f/q r
Outros parâmetros, sugeridos principalmente
para melhorar a capacidade de classificação dos
solos, sào B •(u,-u ii)/(q. |.-O v ), Senneset et alii
(1982). Senneset e Janbu (1984), (q^a j/cT o e f/
(q r-a ), Wroth (1988). Houlsby (1988),'Robertson
(1988," 1990).
Wroth (1984) recomendou o parâmetro B como
o parâmetro padrão para interpretação de ensaios
de piezocone. Houlsby (1988) mencionou que uma
alternativa a B ( poderia ser a relação (u-u o)/a' to.
Lutencgger e Kabir (1988a) utilizaram esta relação
com u sendo u, e Larsson e Mulabdic (1991)
consideraram melhor usar u, ao invés de
c. Classificação e Estratigrafia dos Solos
O ábaco de Begemann (1965), constante da Fig.
3.23. tornou-se clássico, devendo ser empregado
para ensaios realizados com o cone de Begemann.
O ábaco foi desenvolvido com base em considerações
teóricas c numerosos ensaios realizados na
Holanda. Pode-se observar da Fig. 3.23 que, para
iguais valores de f x, as areias apresentam maiores
valores de q ou, de outra forma, as argilas
exibem maior f que as areias para o mesmo q .
A mesma tendência foi observada por outros
autores (e.g. Sanglerat, 1972). Ainda quanto ao
cone dc Begemann, outros autores ampliaram c
modificaram a proposta original cie Begemann
(1965), por exemplo Schmertmann (1978) e
Searle 0 979).
É importante lembrar que o ábaco da Fig. 3.23 e
as modificações acima citadas nào podem ser
empregados para dados de ensaios de cone
o o.t 0,2 0.3 0.4 0.: 0,6
ATRITO LOCAL
(MPa)
Fig. 3.23 - Ábaco dc classificação dos solos, com base no conc mecânico dc atrito (Begemann, 1963J
elétrico ou de piezoconc, sobretudo pela
significativa diferença entre os resultados do atrito
lateral (ver item 3.9.3). Também nào é
recomendado o uso daqueles ábacos para outros
cones mecânicos que nào o cone de Begemann.
Douglas e Olsen (1981) propõem, para o caso
específico do ensaio de cone elétrico, um ábaco
relacionando q , FR e classificação dos solos
segundo o sistema USCS, além de outras
informações.
No caso do piezoconc, várias propostas surgiram,
a maioria (c.g. Jones et alii. 1981, Scnncsct ejanbu,
1984) substituindo o atrito lateral pela poropressào.
A substituição é devida ao fato de que o
atrito lateral é a grandeza menos confiável dentre
as três grandezas medidas pelo piezoconc, a
resistência de ponta, o atrito lateral e a poropressào.
Já outros autores (c.g. Robertson et alii,
1986, Robertson, 1990) consideram útil a inclusão
do atrito lateral, c apresentam propostas de
classificação envolvendo dois ábacos. A proposta
de Robertson et alii (1986) consta da Fig. 3.24.
Aqueles autores mencionam que ocasionalmente
um determinado solo pode ser classificado de
maneiras diferentes nos dois ábacos. Nesse caso,
há necessidade de uma análise mais adequada para
classificar o solo de forma satisfatória, utilizando
por exemplo a maneira pela qual a poro-pressào
se dissipa durante uma pausa na cravaçào ou
durante ensaios de dissipaçào (ver item d a seguir).
Na Fig. 3-24 cstào incluídos exemplos de argilas
moles brasileiras (Danziger, 1990, Oliveira, 1991,
Bezerra, 1993), que ilustram as observações
acima. Para concluir os comentários quanto à
classificação dos solos através do CPT e do CPTU,
vale lembrar a recomendação de Campanella e
Robertson (1988) quanto ao desenvolvimento de
correlações locais ou ábacos de classificação
ajustados regionalmente e a observação, daqueles
mesmos autores, de que os ábacos do tipo do
apresentado na Fig. 3-2'f devem ser encarados
como um guia para a avaliação de tipo de
comportamento do solo e nào como gráfico de
classificação granulométrica.
No que concerne à estratigrafia, o cone elétrico
possui uma maior sensibilidade para detectar
camadas de pequena espessura do que o cone
mec ânico, e os perfis obtidos com o cone mecânico
mostram os solos mais homogêneos do que
realmente sào (De Ruiter, 1971). Já o piezocone
possui um potencial ainda maior de definição da
estratigrafia do terreno do que o cone elétrico, o
que pode ser aquilatado através de frases como
as seguintes: (i) Smits (1982): 'e:n muito pouco
tempo o piezoconc passou a ser reconhecido como
provavelmente o mais poderoso instrumento para
detectar a detalhada estratificaçào do solo"; (ii.)
Campanella et alii (1985): "como ferramenta de
investigação, esta técnica é inigualável com
respeito à determinação da estratigrafia".
d. Obtenção de Parâmetros Geotécnicos
Numerosas propostas existem na literatura
internacional para a obtenção de diversos
parâmetros geotécnicos. Tais propostas, na maioria
dos casos, são relativas ao ensaio de piezccone,
já que a medida da poro-pressào adicionou uma
nova dimensão às potencialidades tio ensaio de
cone, conforme já mencionado. As propostas, em
sua quase totalidade, sào relativas a solos
sedimentares.
No que se segue no presente item, tomou-se
como base principalmente o relatório de estado
da arte de Lunne et alii (1989) apresentado no XII
ICSMFE e no Manual dc Interpretação do
Piezoconc do NGI (1992), o qual. por sua vez. foi
uma base do livro de Lunne et alii (1997).
No caso de areias, os seguintes parâmetros
podem ser estimados através do ensaio de
piczocone:
• densidade relativa, D f
• parâmetro dc estado, y
• tensão horizontal in situ, <7 h ou c\
K.)
• ângulo de atrito efetivo, O'
• módulo de Young, E
(ou ainda
Fig. 3.24 - Ábaco de classificação dos solos, com base
no piezocone (Robertson et alii, 1986)
• módulo cdométrico, E. (
• módulo cisalhante máximo,
'
G
IXJC
,
A maioria das propostas para obtenção tios
parâmetros listados acima é proveniente de
correlações empíricas obtidas em câmaras de
calibraçào (amostras frescas). Assim, o uso ce tais
correlações deve ser feito com cuidado no caso
dc depósitos naturais, que cm sua maioria sào
envelhecidos. Alguns autores têm ressaltado a
importância do envelhecimento ("aging") no caso
de areias, e.g. Denisov e Reltov (1961), Skempton
(1986), Décourt (1989a), Schmertmann (.1991).
Entretanto, ainda nào é disponível um método de
interpretação que considere o efeito do
envelhecimento dc uma forma racional (NGI,
1992).
No caso das argilas, os parâmetros que podem
ser estimados através do ensaio de piezocone sào:
• resistência nào drenada, s • u
• relação de pré-adensamento, OCR
• sensibilidade, S (
• coeficiente de empuxo no repouso, K
• parâmetros efetivos, c' c 0'
• módulo dc Young, E
• módulo edométrico, E ,
• módulo cisalhante máximo. G uii
• coeficiente de adensamento, c (i (c cj)
• permeabilidade, k, (c k.)
Embora alguns dos parâmetros listados acima
possam ser interpretados segundo uma forma
teórica, a maioria deles é geralmente obtida através
de correlações com resultados de ensaios de
laboratório c outros ensaios de campo. Como
diferentes ensaios dc laboratório (executados em
amostras com diferentes graus de amolgamento)
e de campo sào utilizados como referência, é óbvio
(ver, por exemplo, Wroth, 1988) que parte
significativa da dispersão dos resultados é
proveniente dessas diferenças. Assim, o uso de
tais correlações requer o conhecimento da forma
pela qual cias foram estabelecidas, dc modo a
empregá-las de forma adequada.
Os parâmetros, tanto dc areias como de argilas,
relacionados acima sào estimados com diferentes
graus de acurácia. Lunne et alii (.1989» avaliaram,
qualitativamente, o grau de acurácia, conforme
pode ser visto na Tabela 3.7.
Seria impossível no espaço disponível deste
capitulo descrever as propostas para obtenção dos
diferentes parâmetros, mesmo as principais.
Sugere-se, como textos detalhados sobre o
assunto, o trabalho dc Lunne et alii (1989), o
manual do NGI (1992) c. ainda mais atualizado, o
livro de Lunne et alii (1997). No presente capítulo
serão feitas apenas algumas considerações quanto
à obtenção dc s u, de OCR e de c , incluindo algo
da experiência brasileira sobre o assunto.
No que toca a s u, existem várias propostas na
literatura, sendo as mais utilizadas aquelas que
trabalham com grandezas chamadas fatores dc
cone, definidas como
<7 r -
AVr =
(3.9.4)
Air
= "
(3.9.5)
Nke = <h - " (3.96)
0 fator N kt (expressão 3.9.1; emprega a resistência
de ponta corrigida (Lunne et alii, 1985), q T, em
substituição à resistência dc ponta medida no CPT.
q , tal como utilizado no início por Begemann
(1963). O fator N K1 nào é constante, mas varia com
as propriedades cio depósito. Tentaãvas têm sido
feitas dc correlacionar N KT com diferentes
parâmetros, por exemplo o índice de plasticidade
1 ,, Aas et alii (1986), e o parâmetro B (ver item
3.9.7.b), Lunne et alii (1985), sendo este último
caso relativo a argilas escandinavas em condições
offshore, ilustrado na Fig. 3.25. Pode-se observar
na Fig. 3 25 uma tendência de redução de N K1 com
o crescimento de B . Dados de argilas moles
brasileiras estão incluídos na Fig. 3.25 (Danziger,
1990, Oliveira, 1991, Bezerra, 1993) mostrando a
mesma tendência do conjunto, embora diferentes
ensaios tenham sido utilizados como referência
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02 0.4 06 06 10 12 14
Fig. 3.25 - N Kr em função dc B i( (Lunne et alii. 1985)
B n
Tabela 3.71Acurácia dc parâmetros geotécnicos estimados através do ensaio dc piezocone (Danzigere Lunne,
1994, adaptado de Lunne et alii, T989J
Tipo
Parâmetros geotécnicos
de
solo D, V K. OCR S, 0' E k c.
Areias 2-3 2 4-5 2 2-4 2-4 2-3
Argilas 4-5 3 2-3 2-3 3-4 5 5 5 2-4 2-3
1 - Alta confiabilidade.
2 • Moderada a alta confiabilidade.
3 - Moderada confiabilidade.
4 • Baixa a moderada confiabilidade.
5 - Baixa confiabilidade.
Obs.: a indicação de faixa (e.g. 2-4} significa que a confiabilidade varia com o opo de solo.
para s jf o que sem dúvida se constitui em causa
de dispersão de resultados. Há uma necessidade
de se realizar mais ensaios, de campo c de
laboratório, mesmo nos depósitos mais estudados,
de forma a se melhorar a qualidade dos bancos
de dados brasileiros.
O fator N Au (expressão 3-9.5), tal como definido
por Tavenas et alii (1982), representa uma
alternativa para obtenção de s u através do ensaio
de piezocone de forma independente da anterior,
uma vez que provém apenas da medida da poropressào
e não da resistência de ponta. Tavenas et
alii (.1982) observaram que N V) depende mais do
índice de liquidez 1, do que de I )( e obtiveram
para argilas canadenses N Aii»7,9±0,f para 0,8<I,<2
e 1^=11,712,0 para I L>2. já Lunne et alii (1985),
para as argilas escandinavas anteriormente
mencionadas, obtiveram os resultados
apresentados na fig. 3 26, onde se observa uma
tendência de crescimento de N. com o
Au
crescimento de B (j, e uma dispersão muito menor
o
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B.
Fig. 3.26 - N^ cm função de B^ (Lunne et alii, 1985)
Fig. 3.27 - Relação entre OCR e B q (Wroth, 1984)
que no caso de N KT versus B.. Dados das argilas
moles brasileiras anteriormente mencionadas estão
incluídos na Fig. 3.26. mostrando uma razoável
concordância dc resultados, mesmo com as
limitações comentadas.
Robertson et alii (1986) apresentam um método
iterativo para a estimativa de s a partir de N . O
. * II ' Au
método é, entretanto, de utilização muito trabalhosa.
É sem dúvida uma vantagem a possibilidade de
estimativa de s com o ensaio de piezocone através
de duas grandezas medidas dc forma independente,
a resistência de ponta e a poro pressâo.
O fator N kb (expressão 3-9.6). tal como definido
por Lunne et alii (1985), também pode ser utilizado
para estimar s u. A principal limitação do uso
deste fator é no caso de argilas moles, onde q. <e
q T) sào muito próximos de u e. assim, a diferença
q T-u é muito sensível a pequenos erros na medida
dc q c (Robertson et alii, 1986).
Ainda quanto a s ;. recomenda-se consulta aos
trabalhos de Rad e Lunne (1988) e Larsson c
Mulabdic (1991).
No que concerne à estimativa de OCR, várias
propostas existem na literatura, e uma delas,
sugerida por Wroth (1984) a partir de resultados
de ensaios de um depósito na Noruega, é apresentada
na Fig. 3.27 que mostra, de forma bastante
clara, a tendência de redução de B ( com o crescimento
dc OCR. Na mesma Fig. 3.2*V estào indicados
resultados de duas das argilas anteriormente
mencionadas, c uma sugestão de comportamento
(Oliveira, 1991) de argilas marinhas brasileiras.
Naturalmente, há que acrescentar novos ciados
àquela proposta de forma a verificar se é aplicável
a outros depósitos brasileiros.
Propostas têm surgido dc utilização de
parâmetros que incorporam a poro-pressão medida
em dois locais ao longo do cone, u, e u 2, como
por exemplo p, May (1987), Sills et alii (1938b),
PPD Sully et alii (1988a, 1988b;, (Au,-Au 2)/a\ o,
Larsson e Mulabdic (1991), ver ainda item 3.9.7.b.
Tais propostas, embora promissoras, tem a
desvantagem de necessitar de piezocones que
meçam simultaneamente as poro-prcssòes u, e u Jf
que nào sào comuns (ver item 3 9.5), ou a
realização de dois ensaios adjacentes com
piezocones possuindo elementos porosos em
diferentes posições, conforme sugerido por Sully
et al.i (1988a) e mencionado anteriormente.
Quanto à estimativa do coeficiente de
adensamento, é feita através da realização de
ensaios de dissipaçào. O ensaio de dissipaçãc (ver
também item 3-9.4) consiste no registro das poro
pressões, ao longo do tempo, uma vez interrompida
a cravaçào do piezocone, numa profundidade
previamente selecionada. Exemplos, para o caso
do depósito do Sarapuí-RJ, sào apresentados na
Fig. 3-28.
Fig. 3.28 - Ensaios dc dissipação no Sarapui fDanziger, 1990J
Existem alguns métodos para interpretar os
resultados do ensaio de dissipaçào, baseados na
Teoria de Expansão de Cavidades (e.g.
Torstensson, 1977a) ou no Método do Caminho
de Deformações, desenvolvido por Baligh (1975,
1985) (Levadoux, 1980, Baligh e Levadoux, 1986.
Levadoux e Baligh, 1986. Teh, 1987, Houlsby eTeh,
1988). Levadoux (1980) mostrou que o adensamento
que se segue à interrupção da cravação é governado
pelo coeficiente de adensamento horizontal, c lt.
Aquele autor menciona ainda que as deformações
induzidas pela cravação do cone fazem com que o
valor obtido no ensaio corresponda ao material em
condições pré-adensadas. A estimativa de c h é feita
através da expressão (3.9.7), sendo quase sempre
utilizado o valor de t^, o tempo correspondente a
^0% do adensamento (e.g. Torstensson, 1977a,
Robertson et alii, 1992).
sendo
R = raio do piezocone
T - fator tempo
t - tempo
Há, ainda, proposições que consideram a
utilização de mais pontos da curva (Soares, 1986;
ou a curva toda (Thomas, 1986). De fato, este autor
preconiza uma comparação entre as curvas teórica e
de ensaio, de tal forma que haja o melhor ajustamento
possível. Uma das vantagens da proposição de
Thomas (1986) é que permite a possibilidade de
verificar a adequação entre a curva teórica e a de
ensaio, tal como proposto, de forma qualitativa, por
Danziger (1990) e Danziger et alii (1990). Soares (1986;
e Tlíomas (1986; fazem ainda interessantes sugestões
para a obtenção da poro-pressão inicial do ensaio, u.
Quanto às teorias, as que se baseiam no Método
do Caminho de Deformações representam, sem
dúvida, um avanço em relação às que se fundamentam
na Teoria de Expansão de Cavidades, já que
o problema de penetração profunda é melhor
tratado de forma bidimensional do que unidimensional
(Baligh, 1985). Dentre as duas teorias
disponíveis, a de Levadoux e Baligh (1986) e Baligh
e Levadoux (1986) considera os parâmetros da argila
azul dc Do.ston, enquanto a dc I Iouksby e Teh (1988)
é mais genérica, permitindo a variação do índice de
rigidez, I f, na análise. Esta última solução está
apresentada na Fig. 3.29, para diferentes posições
do elemento poroso e l f-100. Houlsby e Teh (1988)
definem um novo fator tempo, T *=c, (t/\\ 2 J\~ t, dc tal
forma que com T* obtém-se uma fa xa estreita das
cuivas teóricas para I r entre 50 e 500.0 caso do elemento
poroso na face do conc (u,) consta da Fig. 3.30. A
principal desvantagem do método é a necessidade de se
estimar o índice de rigidez I f e, assim, surge a necessidade
tia realização de ensaios de laboratório. Danziger et alii
< 1996) sugeiem que ensaios triaxiais Ul) podem fornecer
resultados satisfatórios para este objetiva
c Tch, 1988)
Fig. 3.30 - Previsão do excesso dc poro-prcssão normalizado cm função do fator tempo T* (Houlsby c Tch, 1988)
e. Aplicação Direta ao Projeto de Fundações
Numerosas e crescentes são as aplicações
diretas — ou seja, sem passar pelos parâmetros
geotécnicos — do CPT e do CPTU ao projeto de
fundações.
Nào faz parte do escopo do presente capítulo
detalhar tais aplicações, o que será feito em
capítulos subseqüentes. Entretanto, cumpre
relacionar as principais aplicações, bem como tecer
alguns comentários.
Sem dúvida, a principal aplicação direta do ensaio diz
respeito à estimativa da capacidade de caiga de estacas,
aliás um dos objeivos do ensaio desde os seus primóndios
(ver item 39.1). Os métodos de Sclimeitmann (1978), De
Ruiter e Beringen (1979) e Rustamantc e Giancsdli (1982),
ou método I.CPC, sào bastante empregados internacionalmente.
No Brasil, o método de Aoki e Vclloso (1975) é
baseado no CPT e, quando usado com base no
SPT, correlações entre o CPT e o SPT são utilizadas
(ver item 3.9.8). O método de Vclloso (1981)
igualmente emprega resultados dc CPT em sua
formulação e correlações SPT-CPT.
Quase todos os métodos existentes, inclusive
os brasileiros, foram desenvolvidos há mais de
uma década, quando o piezoconc ainda nào
existia. Alguns métodos sào, inclusive, baseados
no cone mecânico, como é o caso por exemplo
dos métodos brasileiros. Assim, cuidados devem
ser tomados no uso de tais métodos, de forma a
empregá-los de forma adequada No caso de
argilas saturadas — onde a diferença entre q e q,
pode ser significativa — o método de Almeida et
alii (1996'. baseado no piezoconc, é recomendado.
Outra aplicação que tem sido bastante empregada
é a estimativa de recalques de fundações superficiais.
Para esta aplicação, o método de Schmertrr.ann
(1970. 1978), para areias, tem sido muito referido na
literatura internacional.
Cumpre salientar a experiência brasileira, com o
método de Barata, desenvolvido desde o início
da década de 60. c para o qual um banco de dados
expressivo é disponível para o caso dc solos
residuais naturais e compactados (Barata, 1962,
1966, 1967, 1983, Barata et alii, 1970, Jardim, 1980,
Barata e Danziger, 1995).
Outras aplicações diretas ao projeto de fundações
que podem ser mencionadas sào (Lunne et alii, 1989):
• estimativa da capacidade de carga de fundações
superficiais
• avaliação do potencial de liqucfaçào das areias
• controle de eficiência de compactação de solos
arenosos em profundidade
• avaliação da capacidade de fundações tipo \skirt"
para estruturas offshore
Concluindo o presente item, vale salientar o enorme
potencial do CPT e do CPTU em outras aplicações
de engenharia, sobretudo pela enonne facilidade
de se adicionar novos transdutores ao cone. Equipamentos
que incorporam o CIT com outros sensores,
como no caso do cone sísmico 'Campanella et alii,
1986). ou combinam dois equipamentos, como no
caso do cone-pressiômetro íSchnaid, 1990), têm sido
desenvolvidos (ver ainda Mitchell, 1988).
Cabe salientar o caso das aplicações na área
ambiental, que têm sido crescentes nos últimos
anos. Os sensores que têm sido adicionados ao
CPT para melhorar e expandir o seu potencial naquela
área incluem medidores de resistividade/
condutividadc e permissividade elétrica, pfí e
detetores de íons (Robertson et alii, 1995).
3.9.8 Correlações SPT-CPT
Devido à existência de bancos tle dados, nào só
no exterior como também no Brasil, relacionando
tanto resultados de SPT como de CPT (e piezoconc)
ao comportamento de fundações, é de todo
conveniente que se disponha de correlações entre
os dois ensaios.
Existem várias propostas de correlações na
literatura internacional, geralmente consideradas
lineares, e é fundamental — como mencionado no
item 3.4 — que seu emprego deva levar em conta
os níveis de energia relacionados ao equipamento
empregado para o SPT.
No Brasil, existem correlações baseadas cm um número
grande de dados tanto para solos do Rio dc Janeiro
como para solos de Sào Paulo. Para o Rio, os valores
da Tabela 3-8 foram sugeridos por Danziger e Vclloso
(1986, 1995), e representam uma atualização das correlações
de Costa Nunes e 1'oascca (1959), usadas no
método original de Aoki e Vclloso (1975).
Vale salientar que os valores da Tabela 3.8
correspondem ao N do SPT sem qualquer correçào.
ou seja. para as condições de energia usualmente
empregadas no Brasil. Ver em Danziger e
Vclloso 1199S) os valores relativos a N w.
Para os solos de Sào Paulo. Alonso (1980) sugere
os valores correspondentes à Tabela 3 9. também
relativos a N sem nenhuma correção.
Em ambas as talxHas, observa-se a mesma tendência
dos trabalhos da literatura internacional, a redução
de K quando se reduz a dimensão dos grãos do
solo. Excetuando-se alguns casos isolados de Alonso
(1080), pode-se considerar que os valores de K situam-se
na faixa 0,6 a 0,2 Mpa/golpe/0,3m.
Vale lembrar que em ambos os casos o equipamento
mecânico de CPT foi empregado.
Tabela 3.81 Valores sugeridos dc K (Danziger e Vclloso.
1986, 1995)
Tipo de solo
Valores sugeridos de K
fq=KN, K em
MPa/golpe/0,3rr)
areia 0.60
areia siltosa. areia
argilosa, areia com
argila e silte
silte. silte arenoso,
argila arenosa
silte com areia e
argila, argila com silte
e areia
0.53
0.48
0.38
silte argiloso 0.30
argila, argila siltosa 0.25
Tabela 3.91 Valores sugeridos dc K (extraído dc
Alonso. 1980)
Tipo de solo
Valores sugeridos de K
(q =KN, K cm
MPa/golpe/0.3mj
areia arqilosa 1 0.560.94'
areia fina argilosa pouco 1 0.64
siltosa
areia argilo siltosa 0.61
areia argilosa pouco
siltosa
areia pouco argilosa
pouco siltosa
0.38
0/J0
silte arenoso (residual) 0.5 2
silte arenoso pouco
argiloso (residual)
silte argilo arenojo
(residual)
silte pouco arenoso
pouco argiloso (residualj
0.31-0.33-0.34
0.33
0.26
silte pouco argiloso 0.50
pouco arenoso (residual)
silte argiloso com areia
fina
0.21
argila arenosa 0.27
arqila silto arenosa 0.35
argila siltosa pouco
arenosa
0.330.28
argila siltosa (residual) 0.72
1 MJI> dc um valnr ru ulvb irxio nun de un» I<H-JI inxlc louve ioncbçúo>.
3.10 ENSAIOS DE PALHETA IN SITU
3.10.1 Notas Históricas
O ensaio dc palheta foi um dos primeiros procedimentos
desenvolvidos para a determinação
da resistência não-drenada do solo. John Olsson
(Flodin e Broms, 1981) desenvolveu o primeiro
protótipo do equipamento de palheta com o objetivo
de determinação do coeficiente de reação
horizontal do solo para o projeto dc estacas longas
de uma ponte construída em Estocolmo no
período 1917-1926. Assim, a geometria das
palhetas e o procedimento utilizados por Olsson
diferem dos utilizados atualmente. Entretanto, foi
apenas a partir da década de <i0 que o interesse
no equipamento de palheta foi reavivado na Europa
Setentrional.
O equipamento de palheta moderno foi apresentado
por Lyman Carlsson (Cadling) na Segunda
Conferência Internacional dc Rotcrdam cm
19-18. Um relatório descrevendo uma versão mais
avançada deste equipamento aparece dois anos
depois em Cadling e Odenstadt (1950). O equipamento
desenvolvido por Cadling utilizava medidas
e velocidade de rotação da palheta padronizadas
atualmente, inclusive no que diz respeito
ao procedimento para determinação da sensibilidade
do solo após amolgamento do mesmo in situ.
O equipamento de palheta de Cadling foi logo aceito
pela comunidade geotécnica, difundindo-se rapidamente
na Ei.ropa e América do Norte.
3.10.2 Princípios do Ensaio
O ensaio de palheta é o mais utilizado para a
determinação da resistência não-drenada S do
solo mole, consistindo na rotação a uma velocidade
de rotação constante padrão, de uma palheta
cruciforme em profundidades pré-definidas, conforme
ilustrado na Fig. 3-31. A medida do torque
T versus rotação permite a determinação dos va-
Para as hipóteses usuais de condição não-drenada,
solo isotrópico. S ( constante no entorno da
palheta, e altura H igual ao dobro do diâmetro D
da palheta, pode-se demonstrar que a equação
utilizada para o cálculo de S i( é
S u = 0,8ó.T/(7iD3) (3.10.1)
Wroth (1984) mostrou resultados experimentais
indicando que a hipótese de S constante no topo
e na base da palheta nào se verifica, sendo a hipótese
de variação parabólica de S u crescente com
raio da palheta (ou deformação cisalhante) a que
mais se aproxima de valores experimentais e numéricos.
Como conseqüência, a equação 3.10.1
proporciona, cm teoria, resultados conservaiivos
da ordem de 9%. Outros autores utilizam a hipótese
de S j linearmente crescente com o raio da
palheta, a qual proporciona resultados 5% superiores
aos fornecidos pela equação (3.10.1;. Entretanto
o usual na prática é a adoção da hipótese de
S ( constante no entorno da palheta, utilizando-se
portanto a equação (3.10.1) para o cálculo de S .
3.10.3 Fatores que Influenciam Resultados
de Ensaios de Palheta
a) Forma e Dimensões da Palheta
As palhetas mais comumente utilizadas têm formato
retangular, sendo o formato triangular também
algumas vezes utilizado. Existem procedimentos
(Aas, 1965; Wiesel, 1973) que propõem a determinação
da anisotropia em termos de S u através
dc ensaios com diferentes geometrias de
palhetas. Entretanto estes procedimentos estão
atualmente em desuso tendo em vista que a naior
parte' do valor de S o mobilizado provém do plano
vertical, (Wroth, 1984).
As medidas padronizadas da palheta retangular
conforme a NBR 1095 sào 130 mm de altura e 65
mm dc largura. Observa-se que palhetas de dimensões
diferentes não necessariamente produzem
os mesmos resultados (Davies e outros, 1989).
De forma a minimizar o amolgamento recomenda-se
que a razão de áreas das palhetas (área da
seção transversal das palhetas dividida pela área
do circulo varrido pelas palhetas) não seja maior
que 10%, valor também recomendado por Hvorslev
(1949) para amostradores de parede fina.
bj Inserção da Palheta
O ensaio de palheta pode ser realizado no fundo
de um furo de sondagem previamente realizado
C borehole vane ") ou utilizando o equipamento
de palheta "vane borer" dotado de uma sapata
de proteção da palheta que penetra na profundiinais
de no c.iso da palliela retangular padrJo (II - 2D)
dadc desejada para a realização do ensaio. A norma
NBR109 5 » prevê a utilização de ambos os lipos
de equipamentos com preferência para o segundo
tipo. Oitigào e Collet (1987) realizaram ensaios
com os dois tipos de equipamentos e obtiveram diferentes
perfis de S M. Estudos (Andresen, 1981)
indicam que em ambos os "casos a palheta deve
ser cravada a uma profundidade entre 3 a 6 diâmetros
abaixo do fundo do furo de forma a
minimizar efeitos dc amolgamento prévios à inserção
da palheta.
A sapata de proteção utilizada no equipamento
"vane borer" nào apenas evita danos nas palhetas
decorrentes de pedregulhos como também, sc adequadamente
projetado, promove a prévia limpeza
da palheta antes da realização de cada ensaio. Após
a realização do ensaio a palheta retorna à sapata
de proteção, a qual remove a argila que adere à
palheta e que efetivamente aumentaria a sua razão
de áreas.
S u
(KPa)
c) Velocidade de Rotação da Palheta
Sabe-se que o comportamento do solo é dependente
da velocidade de deformação imposta. Estudos
variando a velocidade de rotação da palheta
têm sido realizados por diversos autores (e.g.,
Tortensson, 1977b, Almeida e Parry, 1983). A velocidade
de rotação constante padrão utilizada no
ensaio de palheta é de 67min, a qual assegura, na
grande maioria dos casos dc argilas moles, a condição
não-drenada necessária.
Observa-se entretanto que é difícil assegurar a
velocidade dc rotação constante para grandes profundidades
tendo em vista a flexibilidade à rotação
do sistema de hastes que transmite o torque
da palheta até a superfície. É possível a calibração
do sistema visando a realização de correções mas
a torção da haste, que altera a velocidade de rotação
da palheta, é também função da rigidez da
argila ensaiada. Uma possível solução é aumentar
a rigidez da haste, o que inevitavelmente altera o
peso destas e dificulta a operacionalizaçào dos
ensaios. Alternativamente, alguns autores (Andresen,
1981) recomendam dobrar a velocidade de rotação
para profundidades superiores a I5m.
Fig. 3.32 - Influência do tempo entre cravaçâo e
rotação da palheta (Almeida. 1984}
ej Atrito
A medição do torque sc dá em geral através de
dispositivo mecânico (Ortigào e Collet, 1987) instalado
na superfície do terreno. Assim, recomendam-se
cuidados para que não sejam incorporados
ao torque medidas indevidas como atritos internos
no equipamento c no contato haste-solo. A
Fig. 3 33 ilustra este último aspecto (Almeida e
Parry, 1983; através de ensaios realizados cm laboratório
com um equipamento dc palheta elétrico
de laboratório.
Ângulo d» Rotação (grous)
dj Tempo Entre Cravaçâo e Rotação da Palheta
O tempo decorrido entre a inserção e a rotação
da palheta influencia o resultado do ensaio, tendo
em vista a dissipaçào das poro-pressòes geradas
pela cravaçâo da palheta c ganho de resistência
decorrente de efeitos tixiotrópicos da argila. Na
Fig. 3-32 ilustram-se resultados de ensaios cm laboratório
para três diferentes tempos de espera
entre cravaçâo e rotação. De forma a permitir a
comparação de resultados torna-se necessária a
padronização do tempo de espera entre cravaçâo
e rotação da palheta. padronizado em 1 min pela
NBR-1095.
Fig. 3.33 - Influência do atrito haste-solo no torque
medido (Almeida. 1984|
O atrito da haste-solo é praticamente inexistente
no equipamento de palheta com sapata dc proteção
mas deve-se ter atenção com atritos internos
no equipamento transmitidos para o sistema de
medida de torque na superfície. Equipamentos de
palheta elétricos dotados de célula de torque próxima
à palheta têm sido desenvolvidos (Wiesel, 1973)
para fins dc pesquisa. O equipamento desenvolvido
na COPPE e mostrado esquematicamente na Fig. 3.34
é deste tipo, medindo em princípio apenas o torque
devido ao cisalhamento do solo.
pelo ensaio de paiheta utilizando índices de
plasticidade w |( sem secagem prévia das amostras.
A Fig. 3 35 apresenta esses dois casos históricos
plotados no gráfico de Azzouz c outros(1986). que
leva em conta a superfície de ruptura
tridimensional. De acordo com Sandroni a consideração
da resistência do aterro requer julgamento
em cada caso. Assim, deve ser considerada a
natureza do material do aterro e a possibilidade
de existência dc ruptura compartilhada, como a
ocorr.da no Aterro deJuturnaíba «Coutinho. l'>86).
As indicações até o momento sào de que a correção
de Bjerrum (1973) nào deve ser aplicada a
argilas turfosas como a de Juturnaíba.
Fig. 3.35 - Corrcçáo do S u medido no ensaio de
paiheta - cálculo dc F t para superfície 3-D (Sandroni,
1993)
Fig. 3.34 - Equipamento dc paiheta elétrico desenvolvido
na COPPE
3.10.4 Interpretação do Ensaio de Paiheta
A resistência não-drenada S (j é um tópico complexo,
revisto em detalhe recentemente por Pinto
(1992, 1994), e o ensaio de paiheta de campo é o
principal procedimento utilizado nesta determinação.
Os valores de S u medidos nos ensaios de
paiheta estão sujeitos ã correção do tipo Bjeraim
(1973), em particular quando utilizada em análises
de estabilidade de aterros.
A partir da ;.nálise considerando ruptura tridimensional
dos casos históricos de Sarapuí e
Gramacho, Sandroni (1993) recomendou a aplicação
dc correção do tipo Bjerrum ao S u medido
O perfil de S da argila mole nào deve ser definido
apenas com base nos ensaios de paiheta tendo
em vista as várias dificuldades associadas a esse
tipo de ensaio. Assim, recomenda-se também a
execução de ensaios triaxiais de laboratório. Entre
as várias alternativas disponíveis a mais econômica
é a realização de ensaios nào-adensados
nào-drenados UU, procedimento criticado por Ladd
(1991) por ser extremamente sensível à qualidade
da amostragem. No caso dc amostragem de boa
qualidade, a preferência seria para o ensaio triaxial
com adensamento anisotrópico CK U uiilizandose
as técnicas de rccomprcssào. Sào duas as alternativas
existentes: rccomprcssào à tensão vertical
in sito; (Bjerrum, 1973); e método Shansep (Ladd
e Foot. 1974). Ladd (1991) descreve as condições
particulares em que cada uma dessas técnicas deve
ser aplicada. I lá que se reconhecer o elevado custo
e tempo envolvido em tais investigações.
Adicionalmente recomenda-se o cálculo teórico
do perfil dc S ( através da teoria dos estados críticos
que requer — a exemplo do método Shansep —
o conhecimento da história de tensões do depósito.
A Fig. 3 36 compara o perfil de S u definido por
estados críticos para a argila de Sarapuí (Almeida,
1982) com medições de ensaios de paiheta, UU e
Shansep (.Ortigão, 1980). As curvas dos ensaios
UU e paiheta foram obtidas a partir de uma grande
dispersão de dados mas os resultados sào
E
<
o
5
z
£ •
o
S u UPo)
mole da Barra da Tijuca, RJ. Observou-se boa concordância
do perfil de Su corrigido do ensaio de
palheta com o perfil teórico de estados críticos,
ilustrando o interesse de utilização dessas equações
para auxiliar na definição do perfil de Su de
projeto a ser adotado.
3.11 O DILATÔMETRO 2
3.11.1 Um Breve Histórico
10
Fig. 3.36 - Perfis de resistência não drenada da argila
dc Sarapuí (Almeida, 1982 Ortigão. 1980)
relativamente consistentes, o que nem sempre
ocorre. A Fig. 3-37 ilustra um caso nào incomum
dc maior dispersão dc resultados de Su. Tendo cm
vista as dificuldades relatadas acima os autores
recomendam que o perfil de S„ de projeto seja
definido a partir de uma combinação de ensaios
de laboratório e de campo além de equações
teóricas para avaliação dos resultados.
Lacerda c Almeida (1995) compararam valores
de S u de ensaios UU e de palheta para uma argila
S n (kPa)
O ensaio de dilatômetro foi desenvolvido na Itália
por Marchetti, a partir de meados da década de 70
(Marchctti, 1975, Schmertmann, 1983).
A princípio, o ensaio tinha por objetivo a obtenção
de valores do módulo de elasticidade E % associado
ao comportamento de estacas cravadas
submetidas a carregamento lateral. Marchetti (1975)
justifica a utilização do novo ensaio in situ porque
tanto no dilatômetro quanto na estaca ocorriam movimentos
horizontais antecedidos pela penetração.
Segundo Schmertmann (1983), Marchetti abandonou
temporariamente o objetivo inicial do ensaio
uma vez ter vislumbrado a possibilidade de
correlacionar os seus resultados com vários
parâmetros geotécnicos. Tais correlações foram
publicadas no trabalho que pode SLT considerado
o básico sobre o ensaio, a saber, o de Marchetti
(1980). Neste trabalho, as principais modificações
do ensaio em relação ao primeiro trabalho
(Marchetti, 1975) são também apresentadas.
3.11.2 Equipamento e Procedimento
de Ensaio
O dilatômetro constitui-se de unia placa de aço
inoxidável de 220 mm de comprimento, 95 mm
de largura e 1-1 mm dc espessura, com a ponta
formando um ângulo de 20". Em uma das faces
apresenta uma membrana metálica de 60 mm dc
diâmetro. A Fig. 3.38 mostra detalhes do equipamento.
A placa é introduzida no terreno a uma velocidade
constante de 2 a A cm/s, segundo Marchetti
(1980). Schmertmann (1986) menciona que a velocidade
de penetração tem pouca importância no
caso de areias, podendo variar entre 1 e 10 cm/s;
no caso de siltes e argilas aquele autor recomenda
velocidades na faixa de 1 a 3 cm/s. Parece conveniente
que seja estabelecida uma velocidade padrão.
a fim de possibilitar uma comparação dos
resultados em nível internacional. Desse modo.
Laçasse e Lunne (1988) recomendam que a velocidade
empregada no ensaio seja de 2 cm/s para
todos os materiais.
Fig. 3.37 - Perfis de resistência não drenada da argila
de Pentrc (Almeida c Lunne, 1992)
"O item relativo ao dilatômetro foi extraído, fundamentalmente da
tese de Mello Vieira, defendida na COPPE/UFRJ em IUIIk» dc 1994.
Fig. 3.38 - Detalhes do dilatômetro (Marchetti, 1980,
Briaud e Miran, 1992)
Marchetti e Crapps (1981) e Schmertmann
(1986) mencionam a possibilidade da utilização
de equipamento dc percussão, embora seja dito
em ambos os trabalhos que o sistema de cravaçâo
estática seja preferível. Briaud e Miran (1992) comentam
que a cravaçâo dinâmica altera os resultados
e diminui a acurácia das correlações. Portanto
recomenda-se que a cravaçâo da placa no terreno
seja realizada de forma estática à velocidade de
2 cm/s. Para a cravaçâo estática, pode-se empregar
a mesma máquina utilizada para o piezocone (Soares
et alii, 1986b, Mello Vieira, 1994 ».
O ensaio é realizado a cada 20 cm dc penetração
(Marchetti, 1980, Marchetti c Crapps, 1981;.
quando sc interrompe a cravaçâo.
O dilatômetro é conectado a uma unidade de
controle c leituras localizada na superfície do terreno
através de um tubo de náilon, contendo em
seu interior um cabo elétrico. C tubo passa através
das hastes dc cravaçâo.
Uma vez interrompida a cravaçâo, aplica-se pressão
atrás da membrana. Dois valores dc pressão
sào registrados na unidade de controle c leituras:
leitura A: correspondente à posição de repouso
(deslocamento zero)
leitura B: correspondente a 1 mm de deslocamento
da membrana
As leituras sào registradas com o auxílio de um
sistema de apitos. Dc fato, quando se inicia a aplicação
de pressão, a membrana tem deslocamento
negativo e, nessa condição, um apito se faz juvir.
Com o acréscimo de pressão, há um momen:o em
que a membrana passa pela posição de repouso,
cessando então o apito, devendo nesse momento
ser registrada a leitura A. Com a pressão ainda
crescendo, a membrana atinge um deslocamento
de 1 mm, passando-se a ouvir novamente o apito.
Nesse instante, deve ser registrada a leitura B.
Posteriormente, Marchetti e Crapps < 1981 > mencionam
a introdução de sensor cuja finalidade é
melhorar a definição do instante no qual o circuito
elétrico é interrompido. Com esse sensor, as
leituras sào obtidas a 0,05 mm c 1,10 mm, e nào
mais na posição de repouso e 1 mm. A leitura na
posição 0,05 mm exige uma correção para se obter
o valor correspondente a um deslocamento
nulo como sc verá adiante.
No que concerne à aplicação da pressão, deve
ser feita sem demora, uma vez atingida a profundidade
dc ensaio (Marchetti. I9t<0, Marchctti e
Crapps, 1981, Laçasse e Lunne, 1Ç88).
Schmertmann (1986) aceita um intervalo dc até
15 s entre a interrupção da cravaçâo e o início do
ensaio propriamente dito. A velocidade dc aplicação
da pressão deve ser tal que a expansão total
da membrana seja atingida em 15 a 30 s (Marc.ietti,
1980). Marchetti c Crapps (1981; consideram que
para cabos de até 30 m aceita-se 15 s para a leitura
A e mais 15 s para a leitura B, sendo que
cabos maiores exigem velocidades menores.
Schmertmann (1986) menciona um intervalo de
15 a 30 s para a leitura A c 15 a 30 s adicionais
para a leitura B. Laçasse e Lunne (1988; consideram
importante que os intervalos para a Icili.ra A
e posteriormente a leitura B sejam de 15 s cada.
3.11.3 Correção das Leituras
As leituras A e B devem ser corrigidas para levar
em conta a rigidez da membrana e a posição tio
zero tio manòmctro de leitura. As expressões empregadas
(Marchetti, 1980) são:
Po
A - Z M + AA
p, = B - Z M - AB
sendo:
(3-11.1)
(3.11.2)
p = pressão corrigida correspondente ao deslocamento
nulo da membrana
p, = pressão corrigida correspondente ao deslocamento
de 1 mm do centro da membrana
A = leitura correspondente ao deslocamento
nulo da membrana, sem correção
B « leitura correspondente ao deslocamento de
1 mm da membrana, sem correção
Z. M - leitura do manòmctro sem pressão aplicada
(desvio do zero) 1
'"Na realidade, a correçio devida a ZM foi introduzida por Marchetti e
Crapps < 1981). n3o constando do tral>all>o onxinal dc Marchctti (1980).
cor.fontie deuaca Mello Vieira < 199-í).
AA « pressão que deve ser aplicada à membrana
ao ar, de modo a mantê-la na posição dc repouso;
valor obtido graças à aplicação dc vácuo,
mas anotado como positivo.
AB - pressão que deve ser aplicada à membrana
ao ar, de modo a manter 1 mm de deslocamento
no centro
As leituras AA e AB são feitas no campo, antes e
após a realização do ensaio, com o auxílio de um
manômetro e de uma seringa.
Conforme mencionado anteriormente, Marchetti
e Crapps (1981) introduziram um sensor, de tal
forma que as leituras passaram a ser feitas a
0,05 mm e 1,10 mm. Assim, tudo o que se refere
a p, passa a ser correspondente a 1,10 mm,
mantendo-se a expressão (3.11.2). Entretanto, é importante
que a pressão p n seja dc fato correspondente
à posição de repouso. Assim, lembrando que
A e AA são agora correspondentes ao deslocamento
de 0,05 mm, a expressão (3.11.3) é obtida para p n
p o - 1,05 (A - + AA) - 0,05 (B - Z M - AB) (3.11.3)
3.11.4 Parâmetros Derivados
A partir dos valores de p <>( p. e Ap=p t-p ,
Marchetti (1980) e Marchetti e Crapps (1981) definem
os parâmetros a seguir, também chamados tle
índices do dilatômetro, os quais sào posteriormente
empregados nas correlações para estimativa dc
parâmetros geotécnicos.
O parâmetro denominado módulo dilatométrico,
E ()1 é obtido com a utilização da Teoria da Elasticidade
e, para um deslocamento de 1,10 mm da
membrana, tem a expressão
E„ = 34,7 Ap
Define-se índice do material 1 J} como
In
Ap
( PO - UJ
e índice da tensão horizontal K ;) como
,, _<P„-Uo>
K D - ,
<*vo
sendo:
u = poro-pressào hidrostática antes da inserção
do dilatômetro
a' v<> = tensão vertical efetiva antes da inserção tio
dilatômetro.
O uso da diferença (p -u ) ao invés tle p é justificado
pelo fato tle que dois depósitos idênticos em
tudo, exceto pelo nível d'água acima do nível do
terreno, apresentam, cm profundidades iguais, o mesmo
valor de (p -iO, mas valores dc p diferentes.
3. T1.5 Aplicações do Ensaio
A principal utilização do ensaio tem sido a estimativa
dc parâmetros geotécnicos dc argilas moles. Por
ser iniciado a pequena profundidade (20 cm), o ensaio
pode ser vantajoso também para pavimentos,
além de fundações rasas c problemas tle estacas carregadas
lateralmente (Lutencgger, 1938, ver também
Robertson et alii, 1989). Além disso, o equipamento
tem sido utilizado em obras offshore a partir de
uma versão modificada, desenvolvida pelo Instituto
Norueguês de Geotecnia, NGI (Lunne et alii,
1987).
Lutencgger (1988), com base na literatura disponível,
apresenta as correlações existentes entre os
índices do dilatômetro e parâmetros geotécnicos
(ou outras aplicações), desde o trabalho original
tle Marchetti (1980), até então, as quais são apresentadas
na Tabela 3 9.
Tabela 3.91 Correlações entre parâmetros geotécnicos e índices do dilatômetro (Lutencgger. 1988J
Parâmetro geotécnico/aplicaçào
índice do
dilatômetro
Referência
s, (argilas) •o- K„ Marchetti (1980)
ô' (areias)
\ c , K. y força* ou Schmertmann (1982). Mar:hetti
q. adjacente (1985)
K, (argilas) 'v K f> Hviarchetti (1980. 1986)
K. (areias) K„. forca* Schmertmann (19821
OCR (argilas) l„. K 0 Marchetti (1980)
OCR (areias) força- GPE (1983)
E,. lo. E n , K,, Marchetti (1980)
E. L E„ Robertson et alii (1988)
Relação de tensões cíclicas capazes
de provocar liouefação
E 0
Campanella e Robertson (I983J.
Baldiet alii (1986)
Ko Robertson e Campanella (1986)
k n (coeficiente de reação horizontalj Schmertmann e Crapps (1983J,
Robertson et alii (1988)
CBR E„ Borden et alii (1985)
IK> topo D.» composição tle hastes
As sugestões de Marchetti (1980) e Marchetti e
Crapps (1981), apesar de terem recebido críticas e
propostas de alteração, ainda sào muito empregadas.
Portanto, estão relacionadas a seguir, juntamente
com algumas propostas mais recentes baseadas
em maiores bancos de dados.
A partir de uma série de ensaios fundamentalmente
em solos italianos, Marchetti (1980) e
Marchetti e Crapps (1981) propõem várias correlações
empíricas entre os índices do dilatômetro e
parâmetros geotécnicos, bem como propostas para
classificação dos solos, sendo as mais importantes
apresentadas a seguir.
Classificação
e Peso Específico
A Fig. 3-39 apresenta um ábaco, de Marchetti e
Crapps (1981). para classificação dos solos e estimativa
do peso específico, tomando por base os
valores de e I t).
ICOO
ARGILA
Coeficiente de Empuxo no Repouso, A'
A partir de correlações entre K e K (), Marchetti
(1980) propõe a expressão (3.11.7), válida para
argilas nào envelhecidas ou cimentadas.
K fÀ',/l,5/ í7 - 0.6
(311.7)
A validade da expressão (3.11.7) é questionada,
entre outras coisas, pelo fato de o valor real in
situ de K o ser desconhecido (jamiolkowski et alii,
1988). Usualmente, comparam-se os valores de K o
de outros ensaios de campo e de laboratório com
os valores obtidos através do dilatômetro.
Lutenegger (1988) menciona que parece haver uma
tendência mundial de adotar o pressiômetro autoperfurante
como ensaio de referência para obtenção
de K o. Comparando K n do dilatômetro com
valores de K o medidos através de células de tensão
total, casaios dc fratura hidráulica, pressiômetro
autoperfurantc e ensaios de palheta, bem como
ensaios dc adensamento e triaxiais K o, Laçasse e
Lunne (1988) observaram que a expressão (3.11.7)
tende a fornecer valores maiores de K o, pelo menos
para K n entre 1,5 e 4 (ver Fig. 3 40). Laçasse e
Lunne (1988) sugerem a expressão abaixo para
K o, válida para K t)<4. Para valores maiores dc K ()
aqueles autores mencionam a necessidade de
maior experiência para a estimativa de K o.
K 0= 0,34 Kí', 1
1 rrT (K
Mofch«tll(1980) K #» 0,6
i i «-5. '
uooo/TunrA
l ••>S0,« »••» ••Mi'*lH •«••••
»•«••• • MMMIKMII lê «•(••
,wy.»
índice do Material, I,
Fig. 3.39 - Classificação e peso especifico em função
de E t . e l 0 (adaptado de Marchetti e Crapps, 1981)
Powell c Uglow (1988) consideram que o diagrama
de classificação de Marchetti e Crapps (1981)
apresenta bons resultados de modo geral, mas argilas
com alto grau de pré-adensamento parecem
apresentar valores de I () subestimados.
Laçasse e Lunne (1988), com base em numerosos
ensaios realizados na Noruega, na Inglaterra e
também na primeira campanha de ensaios realizada
no Sarapuí (Soares et alii, 1986b, 1987, ver
também Mello Vieira, 1994), sugerem algumas
modificações no diagrama dc Marchetti c Crapps
(1981), introduzindo ainda no gráfico aspectos qualitativos
de variação de parâmetros geotécnicos.
1 1 I 4 I C 7 I 0 10
(N 01C E 0A TENSÃO HORIZONTAL
Símbolo Tfcrrino K d» rif«r«neli
r 1 Holmtn 1 - «In
I I
T
•
X
Oromman
KM Dronmirt
1 lloga
Haço
Onjajr
Ontay
Polhtfo d* campo
1 Holman 1
Hago ?
Prttilómafro
KH Oniijr J
Fratura hidráulica
Fig. 3.40 - Relação entre K o e K„ (Laçasse e Lunne, 1988)
sendo
m = 0,i4 a 0,64, o menor valor correspondendo
a argilas de alta plasticidade e o maior a argilas de
baixa plasticidade
Razão de Pré-adensamento,
OCR
A proposta de Marchetti (1980) para estimativa
de OCR em solos argilosos U,<1.2) é através da
expressão abaixo
OCR = (0.5K D )' ,5Í>
Laçasse e Lunne (1988) propõem a expressão
(3.11.10), válida para OCK>l,25 (ver Fig. 3.41).
válida para R M>0,85 (Fig. 3.42). O autor reconhece
que a dispersão é significativa, parte dela originada
pela incerteza dos valores de E u usados como
referência. As seguintes expressões foram sugeridas
por Marchetti (1980):
Rm = 0,14+ 2,36logK ü para l,<0,6 (.3-11.12)
R m = 0,5+ 2logK D para I,>3,0 (3.11.13)
KM = R.M.O + <2,5-R M, 0)logK D ("3.11.14)
com R MO = 0.14 + 0,15 (I D - 0,6),
para 0,6<I, <3,0
Para K (>10, R M - 0,32+ 2,181ogK c. (3-11.15)
Laçasse e Lunne (1988) recomendam a continuidade
do emprego da proposta de Marchetti (1980).
Powell e Ugiow (1988), entretanto, observam que a
correlação de Marchetti (1980) pode fornecer valores
muito superestimados para argilas rijas.
v AREIA JCAMAfl A DE CAl.tBRAÇAOl
A AREIA (IN SITUJ
• ARGILA
Ead = I /m» «MÔOULOEDOMÉTRICO
T r T í i » •
i
-
o
« 3 < r • f 10 20
INDICC 0* TE N SÀO HORIZONTAL . K„
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K 0 t 2.3 - 4.0
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1
• *
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0r«mm«A
O Efc»f| \ t«rr«n«i
A
O
X
RímoIIí» > NTH
StJ«rOI j
RU
Fig. 3.41 - Relação entre OCR e K„ (Laçasse e Lunne, 1988)
OCR = 0,225 K (3.11.10)
sendo
m = 1,35 a 1,67, o menor valor correspondendo
a solos de alta plasticidade e o maior a solos de
baixa plasticidade.
Com base em dados da literatura internacional e
resultados de solos japoneses, Kamci e Iwasaki
(1995) propõem a expressão
1.13
OCR = (0,47 K t)
Módulo Edométrico,
E ad
Marchetti (1980) obteve uma correlação entre
E j (através da relação E^E^, designada R M) e K |(,
Fig. 3.42 - Relação entre R M c K 0 (Marchetti. 1980)
Resistência Não Drenada Normalizada pela
Tensão Vertical Efetiva S/o' l%i
Marchetti (.1980) propõe a expressão a seguir
para a estimativa da relação SJc\, o.
-~-=0,22(0,5K |))'" 2S
<*vo
(3.11.16)
Laçasse c Lunne (1988) apresentam correlações
entre S
ii
/o vo e K
n f4 considerando três diferentes
ensaios como referência para S : paiheta, compressão
triaxial e cisalhamento puro. A correlação relativa
ao ensaio de paiheta consta da fig. 3-43. As propostas
de Laçasse c Lunne (1988) têm a forma
^ « ( 0 , 5 K 1.25 d) (3-11.17)
O.
sendo a*=0,17 a 0,21 para o ensaio de paiheta,
a=0,20 para o ensaio de compressão triaxial e
a=0.l4 para o ensaio de cisalhamento puro.
y
u
X
TUI
PALHETA 0E
CAMPO
Fig. 3.43 - Retaçáo entre s u /o'^ e K 0 , s u obtido cm
ensaio de palheta (Laçasse c Lunne, 1988)
Outras Aplicações
S u/0- v>0^2(0,5K D)
Morchott 1(1880)
Uarchttll (1980)
FV doto
Uni detalhamento das aplicações acima relacionadas,
bem como outras aplicações, pode ser obtido
em vários trabalhos, dentre eles o de
Lutenegger (1988) c demais trabalhos apresentados
A sessão correspondente do ISOPT-1. Recomenda-se
ainda a leitura da tese de Mello Vieira
(1994), a qual aborda entre outras a questão da
aplicabilidade das correlações ao caso da argila do
S°rapuí e detalhes operacionais do ensaio.
3.11.6 Outras Grandezas Medidas no Ensaio
Alguns dilatômetros especiais foram desenvolvidos,
e sua utilização permitiu muitas conclusões interessantes
acerca do ensaio. De fato, Robertson et alii
(1988) observam que uma desvantagem do ensaio
de dilatômetro era a impossibilidade de realização
de medidas de poro-pressào. Aqueles autores comentam
que. com o objetivo de solucionar tal limitação,
foram desenvolvidos dilatômetros dotados de
transdutores de poro-pressào (Davidson e Boghrat,
1983, Campanella et alii. 1985, Lunne et alii, 1987).
Má ainda dilatômetros capazes de medir uma série
de outras grandezas, como o desenvolvido por
Campanella ei alii (1985X Robeitsoi i et alii (1988) iexultam
que. entretanto, os dilatômetros especiais perdem a
principal vantagem em relação ao dilatômetro original
(de Marchetti), qual seja a simplicidade.
^
Legenda
>-0— 0»Hf
—H«t«
• A" 0'tmmtÊ
vc '(0,l7-0.2l)<0,3K r r
I I í !
Dentre as conclusões obtidas pelos dilatômetros
especiais, uma das mais importantes é que a pressão
relativa ao retorno da membrana à posição de
contato, denominada pressão de fechamento p,,
coincide com o valor da poro-pressào de penetração,
no caso de argilas. Para as areias, a pressão p,
é aproximadamente igual à poro-pressào de equilíbrio
u. (hidrostáticaXCampanclla et alii, 1985,
Robertson et alii, 1988).
Com base nestas conclu.>òcs e outras semelhantes
de outros autores, surgiu a idéia de se introduzir
a determinação da pressão de fechamento p^
nos ensaios convencionais. Schmertmann (1986)
sugeriu a introdução de uma válvula na unidade
de controle para permitir a despressurização controlada
do sistema. A leitura C (correspondente a
pp é obtida 1S a 30 s após a leitura B. Geralmente
as três leituras são obtidas em um espaço de tempo
de cerca de 1 min.
Schmertmann (1986) observa que a pressão de
fechamento p. também deve ser corrigida para levar
em conta ÃA, resultando portanto em:
p 2- C -Z M
+ AA (3.11.18)
sendo
p, • pressão corrigida correspondente ao deslocamento
nulo da membrana após a expansão
C - leitura correspondente ao deslocamento nulo
da membrana após a expansão, sem correção
Z SI e AA conforme definidos anteriormente
É curioso que Schmertmann (1986) nào tenha
utilizado a correção que leva em conta a introdução
do sensor (ver item 3.11.3). e Lutenegger e
Kabir (1988b) apenas mencionem que o valor de
p, deve ser obtido como o valor C subtraído da
correção de A. Esta questão nào está claramente
discutida na literatura, e o lógico seria que p. fosse
obtido através da expressão (3 11.19), empregada
por Mello Vieira (1994), a qual é semelhante
à expressão (3.11.3).
p 2« 1,05(C • Zm + AA)-0,05(B-Zm-ABX3.il.19)
Lutenegger e Kabir (1988b) definem o índice de
poro-pressão do dilatômetro. U b, como
Ln=- (3.11.20)
Po * Uo
Aqueles autores mencionam que U (J pode ser
usado na identificação do material ensaiado.
Uma conclusão muito importante acerca dc p, é
sua dependência em relação à pressão máxima
atingida no ensaio, conforme verificado por Powell
e Uglow (1988). Resulta daí que é importante no
procedimento padrão a realização do alívio depressão
tão logo se atinja p,.
Uma outra medida do ensaio é a dissipaçào da
pressão p,. Existem propostas para se obter o coeficiente
de adensamento horizontal a partir da
curva de dissipaçào de p, com o tempo (e.g.
Robertson et alii, 1988, ver outras propostas em
Mello Vieira, 199'i).
3.11.7 O Dilatômetro no Brasil
A experiência publicada a respeito de ensaios
de dilatômetro no Brasil é ainda pequena, limitando-se
a ensaios em apenas dois depósitos de
argila mole, Sarapui (Soares et alii, 1986b, 1987,
Mello Vieira, 1994) e Baixada de Jacarepaguá
(Bogossian et alii, 1988, 1989), ambos no Rio dc
Janeiro, além de duas campanhas em solo residual,
uma em Sào Paulo (Bogossian e Muxfeldt, 1993) e
outra em Brasília (Ortigão, 1993, Ortigào et alii,
1996) e, finalmente, numa argila do Terciário em
São Paulo (Décourt, 1989b). Em alguns dos casos
acima, foi utilizada cravaçâo por percussão, o que
certamente gera problemas adicionais para a interpretação
dos resultados (ver item 3.11.2). Como
a principal limitação do dilatômetro é que a interpretação
dos dados é apenas empírica, é fundamental
a realização de mais pesquisas com o
equipamento dc forma a se poder estabelecer
bancos dc dados válidos para solos brasileiros.
No que toca ao equipamento, com exceção da
primeira campanha de ensaios, realizada no Sarapuí
em 1985 — para a qual um dilatômetro de propriedade
do NGI foi trazido ao Brasil, através de convênio
entre a COPPE/UFRJ e o NGI — as demais,
incluindo a segunda campanha no Sarapuí, foram
realizadas com o dilatômetro da Gcomecânica S.A.,
que tem colaborado com universidades e outras organizações
nas pesquisas. Recentemente, foi ensaiado
um depósito em Recife, numa cooperação
ÜFPE-Geomecânica-COPPE/UFRJ.
No que toca a pesquisas universitárias, a única tese
concluída é a de Mello Vieira (1994), defendida na
COPPE/UFRJ em julho de 1994, a qual serviu inclusive
de base para a redação do presente item.
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Observação: Os itens 3.1 a 3 8 são de autoria
de Arthur Rodrigues Quaresma, Artur Rodrigues
Quaresma Filho e Luciano Décourt e os itens 3 9 a
3.11, dc Fernando Danziger c Márcio de Souza
Soares de Almeida.
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CAPITULO 4
PRINCÍPIOS E MODELOS BÁSICOS DE ANALISE
DIRCEÜDE ALENCAR VFJJ.OSO / PAULO EDUARDO UMA DE SANTA MARIA /
FRANCISCO DE REZENDE LOPES
4.1 INTRODUÇÃO
Ilá necessidade de atribuir ao solo uma equação
constitutiva, isto c, uma relação entre tensões, deformações
e tempo, para que se possa dar um
tratamento matemático aos problemas que
envolvem seu comportamento quando submetido
a cargas aplicadas, incluindo seu peso próprio.
Nesse capítulo, serão consideradas, apenas,
relações entre tensões e deformações. A influência
do tempo é objeto do Capítulo 2.
Os problemas que aparecem nos projetos de
fundações e contenções são separados, embora
artificialmente, em problemas de deformação e
problemas de ruptura. Na realidade, estas obras,
quando solicitadas, passam por um estágio correspondente
às condições de trabalho, quando
suas deformações precisam ser avaliadas, e, prosseguindo
a solicitação, atingem uma condição de
ruptura. Uma análise que compreenda estes dois
principais estágios só é possível com sofisticados
métodos numéricos, que, cm geral, não sào
utilizados no dia-a-dia dos escritórios de projeto.
Nos problemas dc deformação procura-se determinar
as deformações do solo (e da fundação ou
contenção) quando submetido a um carregamento
qualquer, porém distante daquele que produzirá a
niptura. O cálculo dc recalques é um caso típico.
Como, em geral, as deformações admissíveis sào
pequenas, é usual admitir que o solo se comporta
como um material elástico linear, o que permite a
utilização da Teoria da Elasticidade. Nos problemas
de ruptura, ao contrário, nào interessa o valor
da deformação, mas, apenas, a verificação da possibilidade
dc o solo resistir às solicitações impostas e
isso é feito com auxílio da Teoria da Plasticidade.
Essas duas teorias consideram o solo como um
contínuo. Na realidade, o solo não é um contínuo,
mas sim um aglomerado de partículas dc tamanho
variável, desde as microscópias partículas de argila
aos pedregulhos e matacões. Em Harr (1966)
encontra-se uma sucinta discussão sobre o tema.
Já inúmeros trabalhos e, pelo menos, dois livros
(Harr, 1977 e Feda, 1982) tratam o solo como um
meio particulado. Ú bom frisar que a aplicação das
Teorias da Elasticidade c da Plasticidade aos solos,
constitui uma simplificação radical da realidade. O
comportamento tensão deformação de um solo é,
essencialmente, não-lincar c anisotrópico c depende
da história das tensões, da tensão confinante,
etc. As soluções analíticas que aquelas teorias fornecem
sào limitadas a casos especiais que estào
longe de atender às necessidades práticas. Surgem
daí os modelos discretos que serão abordados
no final do capítulo.
4.2 TENSÃO (Timoshenko e Goodier, 1970;
Villaça e Garcia, 1996)
4.2.1 Conceito
Considere-se um corpo submetido a um sistema
de forças em equilíbrio (Figura -1.1) c, no seu interior,
um ponto 0. Em seguida, por uma seção transversal
m m que passa por 0, imagine-se o corpo
cortado em duas partes I e II. Sc uma parte, por
exemplo, a parte I, for isolada, o seu equilíbrio será
garantido pelas forças externas que atuam sobre
ela e mais a ação da parte II através da seção m ni.
Essa ação da parte II sobre a parte I se distribui de
alguma forma pela seção transversal. Tome-se, então,
um elemento de área A A em torno de 0 e
seja A ~F a força elementar que nele atua. A
tensão resultante cm 0 é definida pelo limite
->r
em equilíbrio
AF
cuja unidade é dada por uma unidade de força
dividida por uma unidade de área. No Sistema Internacional
será o Pascal (Pa) igual a um Newton
atuando cm 1 m 2 . São muito utilizados seus múltiplos
kPa e o MPa. A tensão p pode ser decomposta
numa componente normal ò n (tensão normal)
segundo a normal externa n ao elemento
AA e uma componente cisalhante T„ (tensão
cisalhante) atuando no plano do elemento.
Se se varia a orientação da seção transversal e,
conseqüentemente, a normal ò à faceta em torno
dc 0, a tensão p variará em intensidade c orientação.
Assim, a tensão cm um ponto do corpo pode
depender não só da posição do ponto como também
da orientação da faceta, definida pela normal
n. Por isso, a tensão constitui um tensor.
4.2.2 Componentes do Tensor das Tensões
Coloque-se um sistema de eixos ortogonais Oxyz
com origem no ponto 0 c sejam consideradas três
facetas cm torno desse ponto, cada uma em um
plano coordenado. A tensão resultante em uma
faceta é decomposta numa tensão normal c em
duas tensões cisai hantes:
• faceta no plano Oyz: o x x
Xj
• faceta no plano Ozx: a y x y/ x^;
• faceta no plano Oxy: a, x u x^.
Ficam, ass:m, definidas as nove componentes
do tensor das tensões:
p ny e p n/da tensão na faceta serão dadas pelas
expressões:
Pnx = v.x cos(n, x) + z Xy cos(n, y) + x xz cos(n.z)
Pny = V «w(/i.x) + (Ty cos(n, v) + X y. cos(n, z) (4 3)
Pnz = X zx cos(n,x) + x^. cos(n, >•) + o", cos{n,z)
2 Q ) As tensões cisalhantes sào iguais duas a duas:
T xy = T yx T yz ~ r zy T xz ~ T zx (4.4)
4.2.3 Tensões e Direções Principais
Pode-se demonstrar que, em torno do ponto 0,
há três facetas cm que as tensões cisalhantes são
nulas. As normais correspondentes definem as direções
principais e as tensões normais que atuam
naquelas facetas sào as tensões principais.
Sejam I, m c n os co-senos diretores de uma
direção principal c p a tensão principal correspondente.
Tem-se:
Px = P l P> = P' n Pz = P"
Levando a (4.3), com cos (n,x) = 1, cos (n,y) = m
e cos (n,z) - n vem
{p-°x)l-*xv m -*xz»=°
-X xyl + (p-a y)m-x yzn = 0
-x xzl-x yzm + (p-cr z)n=0
(4.5)
Tem-se aí um sistema de três equações lineares
e homogêneas em x x m, n. Para que haja uma
solução diferente da trivial, é necessário que o
determinante dos coeficientes das incógnitas seja
igual a zero:
-X
-X
xy
xz
—x. -x xz
-X y Z p-a z
P-Oy ~X yz = 0 (í.6)
ou, desenvolvendo:
P 3 -(o x +a y +a z )p 2 +
Fig. 4.2 - Componentes da tensão
Na Figura 4.2 estão representadas tensões positivas.
Vê-se, então, que as tensões normais sào
positivas quando dc tração. Demonstra-se que:
l u ) conhecidas as componentes das tensões
cm três facetas ortogonais cm torno de um ponto,
as componentes da tensão em qualquer outra
faceta ficam determinadas. Se a normal n a
essa faceta faz ângulos (n,x), (n,y) e (n,z)
com os eixos coordenados, as componentes p_ ,
/
0X0y+0 yG Z+0 z<J x-X Xy'
2
~
P
-[0 X0Y0 Z + 2X XYX YZX XZ ~0 XX 2 Y Z ~
-G yT 2 xz-(T zX 2 Xy) = 0
As três raízes dessa equação fornecem as três
tensões principais o,, e a^. Uma dessas tensões
será máxima, outra será mínima e a terceira terá
um valor intermediário. Substituindo cada uma
dessas tensões cm (4.5) e lembrando que l l + m 2
+ n 2 - 1 determinam-se os três conjuntos cie cosenos
diretores das três direções principais.
4.2.4 Invariantes das Tensões
As direções e tensões principais devem ser independentes
da orientação dos eixos x, y e z, ou
seja: as raízes da equação (4.7) devem ser as mesmas
para quaisquer eixos x, y e z. Para que isso
aconteça é necessário que os coeficientes sejam
invariantes:
G x+G y+G z =0/ +o 2 +Oj = //
a xOy +a v.a, y" z +a,c ' r-x " 2 rv-xx 2 . r * xy *-xlyz r = * zx
= G/0 2 3 +O3G1 = h
a xo yo z + 2z X>x yzx tx - a Xx 2 yz -a yx 2 V -
-O z x iy =<>/<* 2<*3 = h
(4.8)
Conseqüentemente, a tensão cisalhante T n no
mesmo plano será dada por:
x 2 n = p 2 -aj; =g 2 ,1 2 +a 2m 2 +o 3n 2 -
- (o il 2 +o 2m 2 +Ojn 2 f
Como
P + m 2 +n? - 1
(4.11)
um dos co-seno diretores, n por exemplo, poderá
ser eliminado na eq. (4.11). Derivando a expressão
resultante para x em relação a 1 e a m e igualando a
zero, obtem-se as duas seguintes equações
/[fc,-C 3)l 2 + (a 2 -ajJá 2 -c 3) = 0
m (o,-c 3)l 2 + (a 2 -C 3)ni 2 - J(<j 2 -aj) = 0
e /, /, e / são, então, chamados de invariantes
das tensões.
Verifica-se, facilmente, que:
\2 / \2
(a x-o y) +(o y-o 2) +(<J Z-C X) 2 +
i
+ Wxy + + Xix ) = 2.?- 61.
(4.9)
e, portanto, a quantidade que figura no primeiro
membro 6, também, um invariante.
4.2.5 Tensão Cisalhante Máxima
Imaginem-se os eixos x, y, e z orientados segundo
as direções principais de tal forma que as
tensões principais sejam o,, a 2 e o,. Sejam 1, m e
n os co-senos diretores para um dado plano. As
componentes da tensão resultante nesse plano
serão, de acordo com as equações (3):
Pn.v =CS ,l Q ny - <T2»l P„ c = <Vj»
e a tensão resultante será dada por:
P 2 = Pnx + P ny + P lz =<*/ /2 +
A componente normal o n de p é obtida projetando-se
p sobre n:
On = Pn X l + Pny m + Pnz n =
-<5 ,l 2 +a 2m 2 +a jfi 2 (4.10)
para determinação dos co-senos diretores dos planos
para os quais x será máximo ou mínimo. Na
tabela abaixo é apresentado um resumo das soluções.
Tabela 4.1
co-senos diretores dos planos
1 0 0 ±1 0
4
m 0 ±1 0
4
0
4
n ±1 0 0
•H
4
l-ICM
4
0
As três primeiras colunas correspondem aos planos
coordenados nos quais a tensão cisalhante e
nula. As outras três correspondem a planos que
passam por um eixo principal e são igualmente
inclinados em relação aos outros dois. As tensões
cisalhantes nesses planos valem:
a = ±Uc 2-c 3) a = ±í(o 3-o,)
2 2 (4.12)
a =
±-(a/-aj)
Verifica-se, então, que a tensão cisalhante máxima
é igual à semi-diferença entre as tensões prin-
cipais máxima e mínima e atua num plano igualmente
inclinado em relação às direções daquelas
tensões.
° oct = ° oct
x° = - 0
(4.19)
4.2.6 Tensões Octaédricas e Decomposição
do Tensor das Tensões
As tensões octaédricas sào as tensões, normal
e cisalhante, que atuam em planos igualmente inclinados
cm relação às três direções principais.
I-azendo em (10)
1
l = m = n =
73
vem:
O ou = j(<*i +<*2 +<* j) = <*m = J (4.13)
isto é , a tensão normal octaédrica coincide com
a tensào normal média.
Da mesma forma, a cq. (11) conduz a:
ou
= +<*J)-J(<*/ +ct 2 +Gj) 2 (4.14)
TL ~ a 2) 2 +(°2-O3) 2 J -CJ/) 2 ]
ou ainda, considerando (13):
\2 . /_ _ \2
(4.15)
9 (4.16)
Qualquer tensor de tensões pode ser decomposto
em uma componente esférica p" e uma componente
distorcional p d . A componente esférica
é dada por:
P° =
a„, 0 0
0 0
0 0
e a componente distorcional ou desviatória
p' =
a,-a m 0 0
o o2 -<y m o
o o aj-a,
(4.17)
(4.18)
Pode-se verificar que as tensões octaédricas do
tensor esférico valem
e as do tensor desviatórico valem:
'oct = 0
(4.20)
oct = X ud
4.2.7 Equações de Equilíbrio
Demonstra-se que as componentes do tensor
das tensões em um ponto satisfazem as três equações
diferenciais dc equilíbrio:
da, ^ xy dl
dx dy dz
dl r V 3a v dz...
dx dy dz (4.21)
• X
dx dy dz
que pressupõem que as componentes do tenso: das
tensões sejam Junções contínuas das coordenadas x,
y, e z e onde X, Y, Z sào chamadas forças mássicas
por unidade de volume (por exemplo, o peso específico).
Essas equações elevem ser válidas em todos os
pontos do interior do corpo. As tensões variam
de ponto para ponto e quando se chega à superfície
do corpo elas devem estar em equilíbrio com
as forças aí aplicadas. Se X, Y, Z são as componentes
das forças de superfície por unidade de
área, as eqs.(3) permitem escrever:
X^aJ+tjf/n+x^
Y =% xyl+o
Z =x xzl
yin+x^n
yzm + a zn
(4.22)
onde ( t m e n sào os co-senos diretores da normal
externa à superfície no ponto considerado.
Dado um corpo submetido a um sistema de forças
em equilíbrio, para se determinar o estado de tensões
é necessário resolver o sistema (21) atendendo
às condições de fronteiras dadas por (22). Como
sào 6 as componentes independentes do tensor das
tensões e como se dispõe de apenas 3 equações de
equilíbrio, está-se diante de um problema es taticamente
indeterminado cuja solução requer outras equações
que sento estabelecidas pelas relações tensòesdeformaçôes
para o material que constitui o corpo c
relações deslocamentos-deformações.
4.2.8 Círculo de Mohr (Van Langendonck,
1956)
Uma representação gráfica do estado de tensões
muito utilizada em Mecânica dos Solos são os Cír-
Estado
duplo
1 Y
Os
I A ia
.— Estado
a 2 J ~ triplo
a) Estado duplo de tensões
b) Estado de cisalhamento puro
a, =a 2 =a s
d) Estado hidrostático de tensões
(os círculos de Mohr se reduzem
o um ponto)
c) Estado uniaxial de tensões
Oi ( 0 2=0s \
a 2.a 3
e) Estados semi-hidrostático de tensões
Fig. 4.3 - Círculos de Mohr: casos especiais
culos dc Mohr. Demonstra-se que, num sistema
de coordenadas T, a, os pontos que representam
o estado dc tensões cm um ponto cujas tensões
principais sào Oj > a 2 > 03 estilo situadas na área
iiaciiurada mostrada na Figura 4.4.
Fig. 4.4 - Círculos dcMohr
cos as l
cos p=m
COS 9:0
Na Figura 4.3 sào apresentados os círculos dc
Mohr correspondentes a alguns casos especiais:
n) estado plano de tensões (03 = 0);
b) estado de cisalliamcnto puro, (a, = -a 2;a 3 = ü);
c) estado uniaxial de tensões (a 2 =03 =0);
d) estado hidrostático de tensões =02= O3J;
c) estado scmi-hidrostático (03 = a 2ouo, =a j.
Se se considerar uma chapa dc espessura pequena
e carregada por forças cujas resultantes estejam
contidas no seu plano médio, é fócil concluir que a
direção normal a esse plano é uma dircçào principal
dc tensão e a tensào correspondente é igual a
zero. Sc, nesse caso, se considerarem, apenas, as
facetas normais ao plano médio, os três círculos dc
Mohr sc reduzem a um único, como mostra a Figura
4.5
4.3 DESLOCAMENTOS E DEFORMAÇOES
4.3.1 Deslocamento e Deformação
Imagina-se no interior de um corpo um paralclcpípedo
Ali... H de arestas dx, dy, dz (Figura 46). O
corpo é submetido a um sistema de forças cm equilíbrio
c se deforma. Aquele paralelcpípedo assume a
fonna A'B\.. H'. Cada ponto sofre um deslocamento.
O deslocamento do ponto A, por exemplo, é representadopelo
vetor ÃÃ'. Sejam u, v e w as componentes
de A A' segundo os eixos coordenados x, y, z, respectivamente.
Admitindo que os deslocamentos sejam
funções contínuas cias coordenadas, as componentes
dos deslocamentos de 15, D, e E serão.-
BB'
DD'
~EE'
dit . dv . d\v
u + —-dx v + —dx vv 4- -— dx
dx dx dx
dii . dv . d\v ,
u + ~dy v + --dy vv + —dy
dy dy dy
dit , dv , dw ,
u + --dz v + — dz w + —— dz
dz ck dz
Considerem-se, agora, as projeções de BAD c
B'A'D'no plano x 0 y (Figura 4.7).
Tem-se que o segmento AB sofre um alongadii
' . 1 dii C/I< Í
mento igual a u + —dx-u = —dx
Jx
Logo, a deformação linear específica ou, simplesmente,
deformação linear, na direção x será:
£ r = dn
dx
(4.23a)
Analogamente, nas direções y e z tem-se:
dv
chv
C4.23b,c)
dy
Fig. 4.6 - Deslocamentos
Fig. 4.5 - Círculos de Mohr no estado plano de
tensões
Além das deformações lineares haverá deformações
angulares ou distorções. A distorção é definida
pela redução de um ângulo inicialmente reto
entre dois seguimentos elementares. Assim, na Figura
4.7 a redução do ângulo reto D A B será:
4.4 O PROBLEMA ELÁSTICO
4.4.1 Lei de Hooke e Aplicação da Teoria
da Elasticidade aos Solos
Como se disse no final do item 4.2.8, para se
determinar o estado de tensões em um ponto temse
que dispor de equações que relacionem as tensões
às deformações.
As relações mais simples que se podem estabelecer
entre tensões e deformações sào as da elasticidade
linear: relações lineares bi-unívocas entre
tensões c deformações (Lei de Hooke). Um
um material isótropo, essas relações são escritas:
Fig. 4.7 - Deslocamentos no plano xy
_ chi
dv
Yxy ' dy + ~dx
Da mesma forma:
di' dw
X* 88 -=- + '=dz
dy
_ dw + du
x" dx ck
(4.24a)
(4.24b,c)
As equações (23) e (24) relacionam as deformações
e e y aos deslocamentos u, v, w..Sào válidas
para qualquer material desde que os deslocamentos
sejam suficientemente pequenos.
4.3.2 Equações de Compatibilidade
As equações (23) e (24) fornecem as relações
entre as seis deformações e as três componentes
do deslocamento. Sendo assim, as deformações
nào podem ser tomadas como funções arbitrárias
de u, v, e \v, pois devem estar sujeitas a restrições
que sào as chamadas equações dc compatibilidade
deduzidas por simples derivações daquelas
equações (Villaça e Garcia, 1996).
Essas equações têm uma interpretação física
(Harr, 1966). Considere-se um elemento cúbico
constituído por pequenos cubos como mostrado
na Figura 4.8 a. Após a deformação, a configuração
mostrada na Figura 4.8 indica que houve ruptura.
Na configuração da Figura 4.8c os pequenos
cubos se ajustam entre si, isto é, a deformação
de um cubo é compatível com a dos vizinhos.
(o) (b) (c)
Fig. 4.8 - Compatibilidade das deformações
v
r xy
n
(4.25a)
= 5ü <4.25b)
Yyz
Yxz
onde: E é o módulo de elasticidade, G é o
módulo de elasticidade transversal evéo coeficiente
de Poisson, estando essas três constantes relacionadas
pela expressão:
G =
E
2(/ + v)
(t.26)
'Iodos os resultados da Teoria da Elasticidade linear
só têm validade quando aplicados a materiais em
que se verifica uma proporcionalidade entre tensões
e deformações (eqs. 25 para o caso particular dos
materiais isótropos). Os solos só apresentam essa
proporcionalidade quando solicitados por tensões
relativamente baixas. Terzaghi (1943) sugere que isso
é possível sempre que o coeficiente de segurança
em relação à ruptura for, pelo menos, igual a 3-
Assim, os cálculos de distribuição ce pressões necessários
para a determinação de recalques podem
ser feitos pela Teoria da Elasticidade. Além disso, é
preciso que as hipóteses feitas nas deduções das
equações sejam cumpridas. Por exemplo, as fórmulas
de Boussinesq (item 4.4.2) requerem que o
maciço seja isótropo e homogêneo 'até o infinito ".
Qualquer dcscontinuidade invalida aquelas fórmulas.
A maioria dos solos, sobretudo os arenosos,
tem um coeficiente de elasticidade crescente com
profundidade, o que, também, invalida as equações
de Boussinesq. No entanto, na prática, essas
e outras equações sào utilizadas, imaginando-se que
o grau de aproximação seja aceitável.
4.4.2 Equações de Boussinesq (Taylor, 1948)
As equações de Boussinesq fornecem as componentes
da tensão em um ponto no interior de
um maciço semi-infinito. de material elástico linear.
homogêneo, isótropo, submetido a uma carga
concentrada normal à superfície livre. Km coordenadas
cilíndricas (Figura 4.9) essas componentes
são dadas pelas seguintes equações:
Gr -
3z :
2K
(r 2+z 2 f 2kÍ (jco/fl)
Fig. 4.9 - Tensões em coordenadas cilíndricas
tcs de material arenoso que dificultam a deformação
lateral. Westeigaard, em 1938, publicou trabalho em
que resolve o problema de Boussinesq para um maciço
semi-infinito constituído por um material reforçado
por folhas horizontais que impedem a deformação lateral.
Nesse caso, a expressão da tensão vertical é:
Q
2nz
3 sen
I + cos 0
/ 1 - 2v
Q 2rc 2-2v
,2
J-2v
(4.27)
2-2v ' U
i •> r^ j
r~ +z~ +z\r~ +z
\l-2v) cos- e - -
2nz' 1 + cosO
Q 3rz' Q
(r 2 + z 2 f
(3 sen Ô cos* o}
As tensões verticais fornecidas por Westergaard
sào menores que as fornecidas por Boussinesq.
Como assinala Taylor (1948) a hipótese
do meio cstratificado é mais próxima da realidade
de um solo sedimentar. Esse mesme autor
assinala que é possível decorrer daí fato de
os recalques calculados com auxilio das equações
de Boussinesq serem, em geral, maiores
que os observados.
As tensões c, e a r sào de compressão e a tensão
c. é de traçãc.
ESSÍS equações permitem, por integração, obter
expressões para as tensões provocadas por carregamentos
"frouxosentendendo-sc por carregamento
frouxo aquele que é transmitido ao solo
por meio de um elemento cstnitural dc pequena
rigidez à flexào e as forças que constituem o carregamento
"atuam independentemente umas das
outras. Um reservatório de um liqüido apoiado
sobre uma placa delgada de aço é um exemplo
desse tipo de carregamento.
4.4.3 Equações de Westergaard (Taylor,
1948)
Os solos, em geral, nào sào materiais isótropos. Assim,
por exemplo, os depositas de aigilas contêm len-
Fig. 4.1 0 - O problema de Mindlin
4.4.4 Equações de Mindlin
Mindlin (1936), resolveu o problema da força
concentrada Q aplicada a uma profundidade c no
maciço elástico semi-infinito (Figura 4. 10). As fórmulas
dc Mindlin sào muito úteis no estudo das
fundações profundas (ver, p. ex., Poulos e Davis,
1980). Com a notaçào de Harr (1966), a tensào
vertical é dada pela expressão:
associado a uma transição no comportamento do
material, de mais rígido para menos rígido. Conforme
esquematizado na Figura 4.12, não podem
existir tensões acima da tensào de escoamento
O.. A partir deste ponto, para incrementos de
deformação, o corpo passa a exibir um comportamento
exclusivamente plástico. Sc, agora, após
<T Z = — r
- Sti(I-V)
(l-2v)(z-c)
Ri
(l-2v)(z-c) 3(z-c) }
ti
3(3 - 4v)j(z + c) 2 - 3c(z+c)(5z - c)
30íz(Z+C)
ft, 7
J
«I
(4.28)
Nos itens anteriores foram dadas, a título de
exemplo, algumas fórmulas básicas da Teoria da
Elasticidade que sào utilizadas no estudo das fundações.
Um notável formulário é encontrado em
Poulos e Davis (197 ») e mais modestos são oferecidos
por Scott (1963) e Harr (1966).
4.5 O PROBLEMA PLÁSTICO
4.5.1 Introdução
O comportamento de materiais elásticos é descrito
por relações tensão x deformação que sào,
em última análise, generalizações da lei de Hookc.
Em outras palavras, as deformações sào
univocamente determinadas pelas tensões (c viceversa),
independentemente de como o estado final
de tensões foi atingido (Figura 4.11). Naturalmente,
o comportamento elástico dos materiais
pode ser linear ou não-linear.
Em plasticidade, entretanto, as deformações nào
sào univocamente determinadas pelas tensões,
mas dependem de toda a história de carregamento,
ou de como o estado dc tensões foi atingido.
Observe-se ainda que, sob carregamento constante.
as deformações plásticas são arbitrariamente
grandes e assim, nào faz sentido referir-se a
valores absolutos desta grandeza. Deve-se, então.
adotar incrementos, taxas ou velocidades de
deformação. Esta última denominação, entretanto,
pode causar confusão porquanto o parâmetro
de derivação nào é necessariamente o tempo, podendo
ser outra quantidade qualquer concernente
ao problema.
No estado uni-axial dc tensões, representado
na Figura 4.12, o ponto A caracteriza o escoamento.
genericamente definido como o ponto
Fig. 4.11 - Representação do comportamento elástico
dos materiais
uma deformação e ( o corpo 6 descarregado, haverá
uma recuperação parcial da deformação total
e (, correspondente à parcela elástica e ç. A parcela
e p, correspondente à deformação plástica, é
permanente. Se o corpo for novamente carregado,
a partir do ponto C, a linha de recarga seguirá
o caminho CDE. Por esta razão, cm modelos
elasto-plásticos, o ingrediente de plasticidade
pode ser visto como uma mudança no estado de
referência para o comportamento elástico, através
do desenvolvimento de deformações permanentes
ou plásticas.
No caso de um corpo submetido a um estado
plano dc tensões, o ponto associado ao escoamento
é substituído por uma curva fechada
chamada de curva ou envoltória de escoamento
(Figura 4.13). Qualquer ponto situado
no interior dessa curva representa um estado
dc tensões associado a um comportamento unicamente
elástico. Admitindo-sc, por hipótese,
que os materiais plásticos tenham comportamento
estável, ou seja, atendam à condição
(3) do item 4.5.6, representada pela 2 a equação
do grupo (4/»4), pode ser demonstrado
então que a envoltória de escoamento é necessariamente
convcxa, além da observância da
condição de normalidade definida no item
4.5.5. No caso de um estado triaxial de tensões,
o escoamento é caracterizado por uma
superfície no espaço das tensões.
O comportamento elasto-plástico de um corpo pode
ser ilustrado por meio de um modelo bi-dimensional
constituído por um bloco com atrito e molas, apoiado
sobre uma superfície rugosa, conforme indicado
na Figura 4.14a. No plano das forças (Figura 4.14b)
está indicado o círculo dc raio fiP, que corresponde à
máxima força que sc pode desenvolver, ou ao atrito
máximo mobilizado. Quando a força horizontal atinge
o valor jiP, ocorre o deslizamento e os deslocamentos
do bloco passam a ser indeterminados.
4.5.2 Critérios de Escoamento
Fig. 4.12- Comportamento elastoplástico de um
corpo submetido a um estado uniaxial de tensões
B
\ / 5j
oi
/ survo ou envoltório
escoamento
B
/
Fig. 4.13- Comportamento elastoplástico dc um
corpo submetido a um estado plano dc tensões -
envoltória de escoamento
Para sc investigar o comportamento do bloco,
faz-se, inicialmente, crescer a carga Q x de A até o
limite máximo B. Observa-se, no diagrama carga
x deslocamento, na Figura 4. Mc, a representação
da parcela AB, do deslocamento, correspondente
ao alongamento da mola (análogo à deformação
elástica dos corpos), e a parcela B,B 2, correspondente
ao deslizamento do bloco (análogo à deformação
plástica dos corpos). Realiza-se, agora,
um descarregamento dc B para C e, em seguida,
faz-se crescer a carga Q v até D. Mantendo-se Q
constante e crescendo-sc Q x de D até E, verificase
novamente o deslizamento.
Os deslocamentos Ax e Ay, ocorridos após o
início do deslizamento do bloco, estão representados
cm um sistema dc eixos xy, coincidente com
o sistema Q XQ por simplificação. Em resumo, 05
seguintes pontos podem ser ressaltados:
• a fronteira da região definida por deslocamentos
apenas das molas (não há. portanto,
deslizamento do bloco) é uma função de
ambas as cargas Q x e Q y;
• a fronteira acima definida é uma circunferência
de raio jiP, cm perfeita analogia com
envoltórias ou curvas de escoamento, anteriormente
definidas;
• a direção do deslizamento é a direção da resultante
de Q x e Q v, e não a do acréscimo
de carga AQ (DE) que o acarretou.
Para o caso dc corpos submetidos a um estado
uniaxial de tensões, a determinação da tensão que
conduz ao escoamento é imediata, a partir dc ensaios
dc tração ou compressão axial. correntemente realizados
em laboratório para a maioria das materiais de
construção. Assim, neste caso, para sc saber se haverá
ou não escoamento em um certo ponto de um
corpo carregado, basta que sc compare a tensão atuante
neste ponto com o limite de escoamento, obtido
cm laboratório. Qual deveria ser, entretanto, o procedimento
para um estado múltiplo de tensões? Como,
por exemplo, considerando-se a tensão dc escoamento
definida a partir dc um casaio de compressão simples,
poder-se-ia verificar sc ocorre ou nào o escoamento
em um ponto de um corpo submetido a um
estado triaxial de tensões? Para resolver este problema.
foram enunciados, a partir do final do século
XVIII, os critérios (ou teorias) de escoamento. Eles
simplesmente formulam, com base em experimentos,
relações entre a tensào de escoamento obtida em
ensaios dc tração ou compressão simples c t e funções
ou variáveis associadas ao estado múltiplo de
tensões que também conduz ao escoamento.
a. Teoria da Maior Tensão Normal ou Teoria de
Rankine
Esta teoria estabelece que ocorrerá o escoamento
sempre que uma das tensões principais for igual à
tensão de escoamento na compressão simples a 0i
ou à tensão de escoamento na tração simples G 0l.
Assim, para o estado plano de tensões, as condições
que caiacterizam o escoamento são:
(o)
Qy.y
•^NÃ/T»
A 4 1
[ A.C • x JB
l j 0x- x
\y
(b)
Fig. 4.14 - (aj modelo bidimensional do comportamento
de um material elastoplástico; |b) envoltória
de deslizamento no plano Q t Q y com indicação do
caminho de forças e representação dos deslocamentos
Ax e Ay; [cj diagramas carga x deslocamento
ay
onde a, e o, sào a maior e a menor tensào principal.
respectivamente. A Figura 4.15 representa
graficamcntc a teoria de Rankine.
Fig. 4.16- Representação gráfica da teoria de Saint-
Venant
Oo.c
Fig. 4.15- Representação gráfica da teoria de Rankine
b. Teoria da Deformação Especifica Máxima ou
Teoria de Saint-Venant
Segundo esta teoria, ocorrerá o escoamento sempre
que o valor da maior deformação principal
igualar o valor da deformaçào correspondente ao
escoamento no ensaio de tração ou compressão
simples e 0. Desta forma, pode-se escrever:
F «a p
(4.29)
ou, admitindo-se que o material segue a lei de
l Iooke:
o rv(o ,+a,) = a 0J
OyVCCj+C^ - G ac
onde v é o coeficiente dc Poisson.
(4.30;
Para o caso de estado plano de tensões, com
tração ou compressão simples. Fntão, admitindose
iguais valores de resistência à tração e à compressão
o (), esta teoria pode ser matematicamente
definida pelas expressões:
/ /
1 1
2 «V<V-±2 a °
1 I
2 (< V<V = ± 2 a o
(4.32)
No caso de estado plano de tensões, as expressões
(4.32) podem ser desdobradas em:
a,-c 2
j
a,
<*o
-a..
a, - a.,
a 0
para o,>0 e a^<0
-c o para o<0 e c>0
para c ,X5>0 (4.33)
para a <a,<0
para o,<a,<0
para o,>a>0
As expressões (4.33) representam as 6 retas que
formam o hexágono irregular, chamado dc hexágono
de Tresca, ilustrado na Figura 4.17.
(para | <r ; | > | <rj )
Cyva, - ± a c (para lajeia,!.)
(4.31)
As equações (4.31) representam 4 retas no plano
das tensões c,c, (Figura 4.16).
c. Teoria da Tensão Cisalhante Máxima ou
Critério de Tresca
De acordo com esta teoria haverá escoamento
sempre que a tensào de cisalhamento máxima for
igual ao maior valor desta tensão no ensaio de
d. Teoria da Energia de Distorção ou Critério de
Von Mises
Esta teoria admite que haverá escoamento sempre
que a energia de distorção atingir o valor da
energia de distorção correspondente ao escoamento
no ensaio dc tração ou compressão simples.
Da Teoria da Elasticidade sabe-se que a energia
total de deformação U pode ser subdividida em
duas parcelas:
onde:
(4.34)
(7 / - (7/0*2 + 0*2 = (•1.38)
que representa uma elipse no plano <7, a, (Figura
4.18).
cr 2
°J> /y
yy
i\ elipse de Von Mises
i 1
| /hexoqono de Tresca
/i
11
11 i
\ i
\j
/S
* / /
/
/ /
/ /
//a 0
cr,
Fig. 4.17- Hexágono de Tresca
U h = I^lL—
(componente hidrostática)
Fig. 4.18 - Elipse de Von Mises juntamente
hexágono dc Tresca
com o
U d = -2GJ d2
X = (/ +
vE
v)(/-2v)
G = módulo de cisalhamento
(componente desviadora)
J,, = 1" invariante do tensor hidrostático das
i» i
deformações
J il2 = 2 a invariante do tensor desviador das
deformações
Pode ser mostrado facilmente que
// 3 r*
ud =
, e então:
Mps-cif\
Na tração simples:
(4.35)
Uj = (uma vez que a = o t/ a- a =0)
6 G
(4.36)
Então, ocorre o escoamento quando a expressão
(4.35) sc iguala à (4.36):
^[(tf / ~ G2? + ( a 2 + [<*3 _<T /) 2 ] =
(4.37)
Para o caso do estado plano de tensões (a, = 0),
a eqjaçáo (4.37) se transforma em:
e. Teoria do Atrito Interno ou Critério de
Mohr-Coulomb
Este critério estabelece que o escoamento ocorre
quando, em qualquer plano passando per um
ponto no interior de um corpo solicitado, a tensào
de cisalhamento atinge um valor que depende
linearmente da coesão c e da tensào normal (7:
r = c + ertg <p
(i.39)
onde <p é o ângulo de atrito interno do material.
A equação (4.39) foi proposta por Coulomb em
1773.
Otto Mohr, a partir de uma série de ensaios de
resistência realizados em laboratório, constatou a
existência de uma envoltória de resistência no plano
de tensões O-T, geralmente curva, correspondente
a cada material.
Os valores deocT que satisfazem a este critério
sào representados por duas retas que iniciam
no ponto A <c cotgtp; 0) e têm inclinação dc ± (p
em relação ao eixo a, conforme Figura 4.19.
Se um estado de tensões definido pelas tensões
principais o,, o^eo/ 1 tal que os círculos de Mohr
que o representam encontram-se dentro de uma
região delimitada pelas retas de Coulomb (AB e
AB') sem, entretanto, tocá-las, o corpo encontra-se
no regime elástico. Nào obstante, ocorrerá o escoamento
sempre que o maior círculo tocar as duas
retas limites, conforme ilustrado na Figura 4.19.
Para o caso do estado plano dc tensões (a 2 - 0),
o critério de Mohr-Coulomb pode ser representado
por um hexágono irregular no plano das ten-
B
4.5.3 Endurecimento e Amolecimento
Admita-se um material cujo ensaio dc tração seja
representado pelo diagrama da Figura 4.21a e que
atende ao critério de escoamento representado
pela curva da Figura 4.21b.
For mais que se deforme plasticamentc este
material, seu estado será sempre representado pelo
ponto B na curva dc escoamento definida na
Figura 4.21b.
Fig. 4.19 - Envoltórias dc resistência de
Mohr-Coulomb
sões principais a, e conformo indicado na Figura
4.20, onde o 0t c o ii: representam as tensões
de escoamento no ensaio de compressão simples
e tração simples, respectivamente.
Fig. 4.20 - Representação gráfica do critério dc Mohr-
Coulomb no plano de tensões o, e o, (para = 0)
Fig. 4.21 - Ensaio de tração (aj e curva de escoamento
(bj de um material elasto-plástico perfeito
Imagine-se, agora, um outro material cuja curva
tensào x deformação referente ao ensaio de tração
simples c a curva de escoamento encontram-se
indicadas na Figura 4.22. Observa-se um comportamento
inicial elástico (interior da curva de escoamento),
atingindo, então, o escoamento em B. Neste
caso, qualquer acréscimo de deformação plástica
acarretará uma expansão da curva de escoamento,
conforme indicado na Figura 4.22. Assim, se o corpo
sofrer um descarregamento até D e, em seguida,
um recarrcgamcnto, o escoamento ocorrerá
apenas cm C (c não cm B'; porquanto a curva original
de cscoamcnto (passando por B = B ) nào
mais existe e o ponto B' situa-se no ticcho elástico.
O critério dc Mohr-Coulomb é extensivamente
empregado na análise de resistência de solos, em
geral. As constantes c e <p da equação de Coulomb
representam a coesão e o ângulo de atrito interno
do solo, respectivamente. Calx' mencionar, entretanto,
que, embora seja comum atribuir-se a solos
argilosos uma parcela dc coesAo resultante de for
ças de ligação ou cimentaçâo entre gràos, cm amostras
preparadas em laboratório este efeito c simplesmente
decorrente do sobreadensamento das
mesmas. Assim, para solos amolgados e submetidos
ao adensamento, pode-se afirmar que sua resistência
é essencialmente friccional. Na Natureza,
onde os depósitos de solo permanecem por longos
períodos de tempo (cerca de milhões de anos)
sem sofrer nenhuma perturbação, observa-se a existência
de uma parcela dc resistência puramente
cocsiva. decorrente de forças dc ligação ou
cimentaçâo entre partículas desenvolvidas durante
tais períodos.
Fig. 4.22 - Representaçàodocomportamsntodeum
material clastoplático com endurecimento
O comportamento acima descrito e representado
na Figura 4.22 é definido como endurecimento
ou cncruamento do material.
Má também, na Natureza, materiais que. ao
serem submetidos a deformações elasto-plãsticas,
após atingido o escoamento, sofrem uma
redução na tensão dc escoamento, acarretando
uma contração da curva de escoamento (Figu-
ra 4.23). Como exemplo deste tipo de comportamento,
pode-se mencionar as argilas muito
sobreadensadas.
Quando a expansão ou contração da curva (ou
superfície, no espaço de tensões) de escoamento
se dá sem que haja alteração na forma da mesma,
mas tão somente nas suas dimensões, diz-se que
houve um endurecimento ou amolecimento
isotrópico.
f - curva de escoamento
g - curva de potencial plástico
Fig. 4.25 • Curvas de potencial plástico e dc escoamento
de um material plástico
4.5.5 Normalidade
Fig. 4.23 - Representação do comportamento de um
material elastoplástico com amoleeimento
4.5.4 Potencial Plástico
Seja P um ponto, no plano dc tensões, representando
o estado dc tensões em um corpo
solicitado, dc tal forma que o escoamento ocorre
neste ponto, acarretando um acréscimo de
deformação plástica (Figura 4.24). Sc fizermos
os eixos das deformações coincidirem com os
eixos das tensões, por superposição, podemos
representar c vetor acréscimo dc deformação
plástica fcP por meio de suas componentes
ôef e Se", a partir do ponto P. Sc, cm seguida,
traçarmos um pequeno segmento de reta passando
por P e perpendicular ao vetor de deformação
plástica c repetirmos este procedimento
para os diversos pontos do plano de tensões
onde ocorre o escoamento, estaremos definindo
uma família de curvas, chamadas dc potencial
plástico representadas na Figura 4.25 juntamente
com as curvas de escoamento.
Sob um ponto de vista inteiramente genérico,
um material plástico é caracterizado por uma função
de escoamento fio,), representada na
Figura 4.21.b, e por uma função de potencial plástico
g(Gj. Assim, plotando-se os vetores g£p nos
pontos correspondentes à curva de escoamento
deste material, observa-se que o ângulo que este
vetor faz com a normal à curva é, genericamente,
diferente de 90°, sendo 0 o desvio cm relação ao
ângulo reto (Figura 4.26).
Fig. 4.26 • Representação do desvio 0 em relação à
normalidade, de um material plástico
Tem sido constatado experimentalmente, entretanto,
que o ângulo 0 oscila entre valores cuja
média é muito próxima dc zero c, desta forma, é
extremamente conveniente admitir-se, no modelo
de análise, que 0 é nulo. Naturalmente, se 9 = 0,
tem-se que
f(O t/) = gC(J t;) (4.40)
oj.se?
Fig. 4.24 - Representação simultânea dc um ponto,
no plano de tensões, em escoamento e respectiva
deformação plástica, no plano dc deformações
Esta hipótese simplifica substancialmente D tratamento
matemático do problema plástico e é
denominada de condição dc normalidade (o
vetor ggP é normal â curva f(cr.). A condição dc
normalidade é também chamada dc lei de escoamento
associada. Esta denominação se deve ao
falo de que a lei de escoamento, que representa a
relação tensão x deformação plástica, que pode
ser obtida da função g(cO, está associada à função
de escoamento f(oJ.
4.5.6 Relações Constitutivas
Conforme foi dito no item 4.5.1, as deformações
plásticas não são univocamcntc determinadas
pelas tensões, mas dependem de toda a história
de carregamento, ou de como o estado de
tensões foi atingido. Além disso, as relações entre
essas duas grandezas são, geralmente, nàolineares.
Tendo em vista a dependência entre deformações
plásticas e o caminho dc carregamento, é
necessário que se determinem os incrementos (ou
diferenciais) de deformação plástica ao longo dc
toda a história de carregamento para, então, obterem-se
as deformações totais por somatório desses
incrementos (ou por integração).
Uma vez que os conceitos contidos neste capítulo
estão principalmente voltados para aplicações
à Geotecnia e, considerando-se que os solos em
geral possuem comportamento complexo e de
grande diversidade, dependendo de sua composição,
gênese, história de tensões c velocidade de
carregamento, entre outros fatores, as relações
tensào x deformação plástica sào aqui apresentadas
sob sua forma mais geral. Cabe mencionar
que, para se obterem conjuntos de equações específicas
para um determinado material, basta que
se conheça a função de escoamento f(q) correspondente
a este material.
Como primeiro passo, é importante caracterizar-se
matematicamente o conceito de
eneruamento (ou endurecimento). Admita-se,
então, que num ponto de um corpo elasto-plástico.
em equilíbrio, reine um certo estado de tensões
c que este estado de tensões sofra um acréscimo
decorrente da ação dc um agente externo,
lentamente aplicado e, então, removido. Segundo
Drucker, o eneruamento implica em que, para
este acréscimo dc tensões:
1) o corpo continue cm equilíbrio;
2) durante a aplicação deste acréscimo de tensões,
o agente externo realize um trabalho
positivo;
3) o trabalho liquido realizado durante o ciclo
de aplicação c remoção do agente seja nulo
ou positivo.
Considerando-se que o acréscimo de tensões é
dq, ao qual corresponde um acréscimo dc deformações
de , sendo:
d£;j = defj + dejj (4.41)
onde
defj = acréscimo de deformações no
regime elástico;
dejj = acréscimo de deformações no regime
plástico.
O item 2 pode ser representado da forma:
do ijde ij>0 (4.42)
c o item 3 por:
do^dcij-dc^to (4.43)
Assim, o eneruamento pode ser matematicamente
representado pelas expressões:
d<7,j(defj+d£!j)>0
do^dtf >0
(4.44)
Adicionalmente, é preciso admitir-se ainda duas
hipóteses:
a) existe uma função de escoamento f(a >, que
representa uma superfície que pode se expandir;
b) existe uma relação linear entre infinitésimos
dc tensào e deformação plástica.
As considerações acima permitem que, através
de um desenvolvimento matemático adequado,
se chegue à expressão:
df (ojj)
d £' i = d ? i dof <4.45)
que relaciona dejj com o , onde dX. c uma constante
positiva. É, entretanto, importante mencionar
que dX nào é uma propriedade do material e
pode variar ao longo da história de tensões.
4.5.7 Métodos para Cálculo de Configurações
de Colapso
Admita se uma fundação corrida implantada na
superfície de uma camada de solo, cujo comportamento
é clasto-plástico. Se a carga q aplicada sobre
esta sapata cresce gradualmente, a partir dc
zero, observa-se que para pequenos valores de q o
solo é carregado de forma exclusivamente elástica.
Na medida em que a carga cresce determinadas
regiões do solo, cujas tensões atingem a superfície
de escoamento, passam a se comportar plasticamente.
Neste estágio, entretanto, nào há ainda movimentos
de massas de solo plastificadas porquanto
estas se encontram confinadas ou contidas por
regiões elásticas que as circundam. As deformações
que ocorrem nesta fase do comportamento
elasto-plástico sào caracterizadas como deformações
plásticas restringidas.
Se a carga q continua crescendo, as regiões
plastificadas vão se expandindo até que, ao atingir o
valor da caiga de colapso, uma parte significativa do
solo se encontra no regime plástico. Neste momento,
grandes deslocamentos de massas de solo ocorrem e
a fundação sofre elevados recalques sob caiga coastante
Este estágio final é então caracterizado por deslocamentos
plásticos não restringidos.
Observa-se que o tipo de análise acima descrita,
incluindo comportamento elástico, plástico restringido
e plástico nào restringido, é. em geral,
excessivamente complicada e. por conseguinte,
pouco prático. Além disso, normalmente estamos
apenas interessados nas deformações elásticas e
na carga de colapso. As primeiras podem ser determinadas
a partir da Teoria da Elasticidade. Para
determinação da carga de colapso, em problemas
geotécnicos, geralmente adota-se um dos três
métodos seguintes:
• método das linhas de deslizamento;
• método do equlíbrio limite;
• método da análise limite.
Cabe mencionar que, para empregar qualquer
um dos três métodos acima referidos, deve-se admitir
que o solo possui um comportamento rígido-plástico
perfeito.
a. Método das Linhas de Deslizamento
Na análise de estabilidade dc obras geotécnicas.
proci.ra-se determinar a configuração que acarreta o
colapso, seja ela dc carregamento, seja de geometria.
Esta configuração está sempre associada a deslocamentos
plásticos nào restringidos, além dc pequenas
deformações elásticas. Naturalmente, para estes problemas,
parece razoável despreza rem-sc as deformações
elásticas e admitir que o com|X>rtamento do solo
é exclusivamente rigido-plástico perfeito. Qualquer
trecho elástico do meio é então considerado como se
fosse simplesmente uma inclusão rígida.
Para problemas de estado plano de deformações,
o método das linhas de deslizamento envolve
a resolução de um sistema de equações constituído
pela combinação da equação que representa
o critério de escoamento adotado, com as equações
dc equilíbrio para uma determinada condição
de fronteira.
f[o x.ay,x xy)
= K (critério dc escoamento)
(equações de equilíbrio)
onde K define a dimensão da superfície de escoamento
e X e Y representam as forças de massa
por unidade de volume.. As equações acima representam
o equilíbrio plástico na região submetida
a deslocamentos plásticos nào restringidos.
Para resolver problemas específicos, é conveniente
transformar o conjunto de equações (4.46)
em coordenadas curvilíneas, cujas direções cm
cada ponto da região sob escoamento coincide
com as direções de ruptura ou planos dc
deslizamento Essas direções são conhecidas como
linhas dc deslizamento c o conjunto dessas linhas
é chamado dc grupo de linhas de deslizamento.
As equações do método das linha. 1 » de
deslizamento foram estabelecidas pela primeira vez
por Kõttcr, em 1903- Prandtl, em 1920, foi o primeiro
a obter uma solução analítica fechada para essas
equações, para o problema de uma sapata assentada
na superfície de um solo sem peso (y = 0).
A consideração do peso próprio do meio complica
apreciavelmente a resolução do sistema de
equações de forma que, neste caso, é impossível
obterem-se as soluções fechadas para problemas
de interesse prático em engenharia geotécnica.
Sokolovski (1965.), adotando a técnica numérica
das diferenças finitas. apresentou soluções aproximadas
para alguns desses problemas.
É importante ressaltar que apenas para o caso de
condições dc fronteira em termos dc forças prescritas
o problema é estaticamente determinado.
De fato. o sistema ( i.46) representa três equações
a três incógnitas a . a c T xy. Esta determinação estática,
dispensa, pois, qualquer condição adicional.
Entretanto, quando as condições de fronteira envolvem,
além de forças prescritas, incrementos de deslocamentos,
as equações (4.46) nào são suficientes
para solução do problema. Faz-se necessário, então,
o emprego de relações tensào x deformação, introduzindo
grande dificuldade na solução do problema.
Outro aspecto importante é que a solução consiste
na construção dc um campo dc linhas de
deslizamento cm uma determinada regiào, a qual
satisfaz às condições dc fronteira diretamente relacionadas
à mesma, às equações de equilíbrio e ao
critério de escoamento em cada ponto no interior
desta regiào. O campo de tensões assim obtido é
denominado campo de tensões parcial. Há entretanto,
neste estudo, uma particularidade
conceituai de fundamental importância: a distribuição
dc tensões fora da região onde ocorre o campo
de tensões parcial não é definida. Para que se
obtenha uma solução rigorosamente válida sob o
ponto de vista da Mecânica, é importante que exista
uma distribuição de tensões, fora da região em
escoamento, em equilíbrio com o campo de tensões
parcial, e que nào viole o critério de escoamento.
O campo dc tensões parcial, assim estendido
para regiões externas àquela em escoamento,
denomina-se campo dc tensões estendido.
Assim, é importante ficar claro que o campo de
tensões parcial obtido a partir da solução das equa-
ções (4.46) não conduz necessariamente à solução
correta para o problema, nem tampouco sc
pode afirmar que se trata de um dos limites (inferior
ou superior) estabelecidos pelo método da
análise limite. Todavia, quando este campo dc
tensões puder ser estendido para todo corpo, além
da zona plastificada, satisfazendo sempre às equações
de equilíbrio, ao critério dc escoamento e às
condições de fronteira, além de estar associado a
um campo de deslocamentos compatível, então a
solução assim obtida é rigorosamente correia.
b. Método de Equilíbrio Limite
Os métodos das linhas de deslizamento e da análise
limite se fundamentam na teoria da plasticidade
c, desde que determinadas condições sejam cumpridas.
podem conduzir a soluções corretas para
problemas de estabilidade. Uma técnica alternativa
para análise de configurações de colapso é aquela
denominada de método do equilíbrio limite.
O método consiste, inicialmente, em se construir
um mecanismo de colapso, arbitrário, constituído por
formas genéricas (plana, circular e espiral logarítmica,
entre outras) simples ou associadas. Em seguida, garantindo-sc
o atendimento ao critério de escoamento
em todos os pontos da superfície de escoamento,
analisa-se o equilíbrio estático dos blocos (ou bloco)
que compõem o mecanismo de colapso. Desta forma.
a resolução do problema se resume na pesquisa
do mecanismo de colapso que oferece maior risco (e
menor segurança, por conseguinte).
a É importante salientar que, contrariamente aos
outros métodos, este método é essencialmente
aproximado. Entretanto, a experiência tem mostrado
que ele conduz a soluções que concordam
relativamente bem com as observações de colapso
em casos reais de obras.
Assim, nesse tipo de análise, opta-se por uma
simplicidade de cálculo obtida, naturalmente, em
detrimento do rigor dos resultados. Nào obstante,
o método do equilíbrio limite tem sido amplamente
empregado em engenharia geotécnica, particularmente
na análise de estabilidade de taludcs e obras
de contenção.
Deve-se observar que nenhuma das equações da
Mecânica dos Corpos Deformáveis é explicitamente
satisfeita nos pomos internos e externos à superfície
de deslizamento. Então, considerando-se que a
distribuição de tensões em pontos no interior e fora
da superfície de deslizamento nào é definida, nada
se pode dizer a respeito da existência de uma distribuição
de tensões que atenda ao equilíbrio, condições
de fronteira de forças prescritas c ao critério de
escoamento. Por conseqüência, então, não se pode
afirmar que esta solução é um limite inferior. Cabe
também registrar que, embora este método utilize a
mesma filosofia adotada na análise limite para determinação
do limite superior, isto é, assume-se uma
superfície de ruptura e pesquisa-se um valor mínimo
de alguma grandeza relacionada ao colapso, ele
nào atende precisamente aos requisitos das leis do
limite superior e assim, nào é um limite superior.
c. Método da Análise Limite
Conforme foi mencionado na introdução do item
't.5.7, a solução completa e rigorosa de um problema
elasto-plástico de Mecânica dos Corpos
Deformáveis é demasiadamente complexa, sendo
apenas factível para problemas muito simples. De
fato, esta solução envolve a resolução de um conjunto
de equações, constituído por:
• equações de equilíbrio;
• equações de compatibilidade;
• relações tensão x deformação na fase elástica;
• relações tensão x deformação na fase plástica;
• critério de escoamento.
Estas equações devem ser resolvidas para condições
de fronteira específicas para cada problema <e
estas definem o grau de complcxibilidade da solução)
e de forma incrementai na medida cm que, ao
longo do carregamento, até a ruptura, o corpo passa
por três estágios de comportamento:
• inicial, onde a resposta é puramente elástica;
• intermediário, onde ocorrem trechos plastificados,
com escoamento restringido;
• final, onde se desenvolvem os mecanismos
de colapso em trechos com escoamento nào
restringido.
O método da análise limite permite que, através de
simplificações introduzidas ignorando-se algumas das
equações acima mencionadas, se obtenham limites
inferior e superior para as cargas de colapso. Contrariamente
ao método das linhas de deslizamento, este
método pressupõe uma relação tensão x deformação
para o material caracterizada pela condição de normalidade
ou lei do escoamento associada, e se
fundamenta em dois teoremas:
• teorema do limite inferior, que permite calcular
o limite inferior da carga de colapso ignorando
as condições (equações) de compatibilidade;
• teorema do limite superior, que permite calcular
o limite superior da carga de colapso ignorando
as condições (equações) de equilíbrio.
Com as considerações acima, o método é considerado
rigoroso e as técnicas para se obterem as
soluções sào, em geral, de fácil aplicação. Dessa
forma, a análise limite se constitui numa importante
ferramenta dc trabalho para o engenheiro projetista,
principalmente na solução de problemas de
estabilidade cujas configurações de geometria e
carregamento sejam particularmente complexas.
Cabe ainda registrar que, neste item. por razões
dc coerência com a maior parte da literatura técnica
referente a análise limite, adota-se o termo
velocidade (dc deformação ou deslocamento) em
substituição a incremento. Nào obstante, chamase
atenção para o comentário feito a este respeito
no item 4.5.1.
c. 1 Teoremas da Análise Limite
Teorema do Limite Inferior ("Lower Bound")
"Num meio rígido-plástico perfeito, o escoamento
plástico não pode ocorrer sob condições de
carregamento para as quais se possa determinar
no meio um campo de tensões estável estaticamentc
admissível."
Entende-se por campo de tensões estaticamente
admissível aquele cjuc, cm equilíbrio com as
forças externas, é expresso por funções da posição
contínuas e deriváveis até a 2 a ordem. Ele será
estável se em nenhum ponto as tensões violarem
o critério de escoamento.
Teorema do Limite Superior ("Upper Bound")
•'Num meio rígido perfeitamente plástico, o escoamento
plástico ocorre sob condições de carregamento
para as quais se possa determinar no
meio um campo de velocidades instável e
cincmaticamentc admissível."
Considera-se que um campo dc velocidades é
cincmaticamentc admissível sempre que, satisfazendo
às condições de fronteira, possa ser expresso
por funções da posição contínuas com derivadas
contínuas. Ele será instável sempre que a potência
de dissipaçào dos esforços internos do meio
for menor que a potência das cargas externas.
Os teoremas da análise limite podem ser aplicados
a estruturas simples, tais como uma barra, a
estruturas aporticadas ou para meios contínuos.
Sào demonstrados, a partir do Princípio dos Trabalhos
Virtuais, apenas para materiais que exibam
as seguintes propriedades:
• comportamento rígido-plástico perfeito, ou seja,
nào possuam endurecimento ou amolecimento;
• a superfície de escoamento seja convexa c a
condição de normalidade seja atendida;
• as variações na geometria do corpo, na carga
limite, sejam insignificantes.
É importante ressaltar que no teorema do limite
inferior não há nenhuma referência à compatibilidade
dc deformações e deslocamentos, e o campo de
teasões (cm equilíbrio) nào precisa ser aquele que
realmente estará atuando no momento do colapso.
Da mesma forma, no teorema do limite superior nada
é dito a respeito de equilíbrio, e o mecanismo de
colapso plástico nào precisa ser aquele que de fato
ocorrerá no momento do colapso.
Os seguintes corolários dos teoremas limites
apresentam considerável importância prática.
Teorema: "Se em um determinado corpo ou
meio, fôssemos capazes de investigar todas as distribuições
possíveis dc tensão que estivessem cm
equilíbrio, c que nào violassem o critério dc escoamento,
a carga (correspondente ao limite inferior)
mais elevada obtida é a carga de colapso."
Teorema: "Qualquer acréscimo de material (sem
peso) nào pode acarretar uma redução na carga
de colapso, desde que nào introduza nenhuma
alteração na posição das cargas aplicadas."
Teorema: "Tensões ou deformações iniciais ou
térmicas nào podem influenciar a carga dc colapso,
desde que a geometria permaneça essencialmente
inalterada."
Teorema: 'Um aumento (ou redução) na resistência
do material, em qualquer região, não pode
enfraquecer (tornar mais resistente) o corpo."
c.2 Determinação do Limite Superior
Como foi visto no teorcma do limite superior, o
carregamento imposto nào pode ser resistido pela
massa de solo se, para um mecanismo dc ruptura
qualquer, a potência das forças externas exceder à
potência interna de dissipaçào. Assim, igualando-se
as potências interna e externa, para um determinado
mecanismo, obtém-se a equação que fornece o limite
superior da carga de colapso. Foi também visto
que. para o mecanismo ser válido, ele precisa ser
cincmaticamentc admissível. Em termos físicas, isto
significa que o mecanismo, formado por blocos rígidas
delimitados por superfícies dc deslizamento, não
pode permitir a formação dc aberturas nem tampouco
a superposição dc dois ou mais blocos (Figura 1.27).
Definida a equação dc potência, resta então
realizar a etapa final da análise, que se refere à
pesquisa da configuração particular ou do valor
de variáveis que minimizam o limite superior. Para
isto, pode-se, dependendo do problema cm estudo,
ou adotar técnicas matemáticas dc determinação
do valor mínimo de uma função ou, simplesmente,
proceder a um certo número dc tentativas.
Expressão da Potência Dissipada Internamente
em uma Faixa Estreita
(i) Materiais regidos pelo critério de Tresca
A Figura 4.28 representa um trecho de um corpo
de espessura e comprimento unitários, interceptado
por um plano de deslizamento. A parte
superior, rígida, sofre um movimento para a direi-
D = côtí (4.48)
Para materiais que atendem a este critério de
escoamento, demonstra-se que o mecanismo de
colapso só pode ser constituído por superfícies
de deslizamento planas ou segundo arcos de espiral
logarítmica.
RIOIDO
ia com velocidade ôu em relação ao trecho rígido
inferior. As duas partes estão separadas por uma
camada estreita de transição, de espessura t, onde
ocorrem deformações plásticas e na qual a velocidade
dc cisalhamento é uniforme. Então, a potência
dissipada pode ser representada por:
RÍGIDO
1
Fig. 4.29 - Camada dc transição plastificada (Mohr-
Coulomb)
D = kjk= k - -- t = kÔn (4.47)
Pode ser mostrado que, neste caso, o mecanismo
de colapso somente pode ser formado por
superfícies cujos traços com o plano do movimento
(linhas de deslizamento) sejam constituídos por
segmentos de reta e arcos de circunferência.
(ii| Materiais regidos pelo critério de
Mohr-Coulomb
A idealização de um material rígido-plástico perfeito,
cujo escoamento se dá segundo o critério
de Mohr-Coulomb, e cuja lei do escoamento é associada
(condição de normalidade satisfeita), implica
uma deformação volumétrica associada â velocidade
dc deformação cisalhante no momento
em que ocorre a plastificaçào. Assim, neste caso,
uma velocidade Ôu (Figura 4.29) estará acompanhada
de uma velocidade Sv, perpendicular ao
plano de deslizamento, 'lendo em vista que a
envoltória de escoamento é caracterizada por duas
retas formando um ângulo tp com a horizontal c,
admitindo-se a normalidade, tem-se que:
ôv = ôu tg(p
A equação da dissipaçào da potência, neste caso,
pode ser escrita:
D = (rôy - <jôe)t = (zôu -
D = ôu(r -
otgtp)
oôv)
Lembrando que r - t* + <7 tg (p, vem:
c.3 Determinação do Limite Inferior
De acordo com o tcorema do limite inferior, se
um estado de tensões em equilíbrio que não viole
o critério de escoamento satisfizer às condições
de fronteira, então as cargas aplicadas nào conduzem
ao colapso do corpo ou meio. Conforme foi
visto, as condições para que uma solução correspondente
ao limite inferior seja estabelecida sào
as seguintes:
I. uma distribuição de tensões completa deve ser
obtida, satisfazendo à condição dc equilíbrio em
todos os pontos do corpo;
II. este campo de tensões deve atender às condições
de fronteira em termos de forças prescritas-,
III. o campo dc tensões não deve violar, em nenhum
ponto do corpo, o critério dc escoamento.
Para o caso em estudo, do estado plano de deformações,
as equações de equilíbrio sào:
do x
dt xy
dx *
dX Xy
dx
DOy
Um estado de tensões adequado para aplicação
do tcorema do limite inferior pode variar continuamente
de ponto para ponto, como também pode
estar submetido a saltos ou descontinuidades. O
PRINCÍPIOS E MODELOS BÁSICOS DE ANÁLISE i 181
importante é que a condição de equilíbrio esteja /
sempre satisfeita.
s a ~ ^[^na + a ui)
A Figura 4.30a apresenta um elemento do corpo
submetido a uma descontinuidade de tensões.
^
Por equilíbrio, tem-se que: Sf, = (a llt, + a,/,)
a m -<s n b
i
(4.50) \! ( . 2 ,12
I
tb^fanb-O.b) 2
A rotação 68 cia direção da tensào principal maior
da regiào A para a regiào B é tomada positivamente
no sentido trigonométrico. Tem-se que:
ôe=e b-ô a
Fig. 4.30 - Elemento dc um corpo submetido a uma
descontinuidade de tensões
Os círculos de Mohr para estados dc tensào reinantes
nas regiões A e B do elemento estão representados
na Figura 4.30b.
A Figura 4.31 reproduz este mesmo elemento
submetido à descontinuidade (a) e os correspondentes
círculos dc Mohr (b). Neste caso, estão indicados
também os pólos dos círculos, as direções
dos planos (linhas tracejadas nos círculos) e
das tensões principais (elemento). Define-se, conforme
representado na Figura 4.31b:
Fig. 4.32 - Envoltórias de escoamento para os
critérios dc (aj Trcsca e (b) Mohr-Coulomb
Fig. 4.31 - Direções dos pianos e tensões principais
na descontinuidade
Os círculos dc Mohr referentes a pontos vizinhos
em uma descontinuidade de tensões, para
os critérios de escoamento dc Tresca c Mohr-
Coulomb. encontram-se indicados na Figura 1.32.
Para o caso de Tresca, pode ser facilmente mostrado
que:
ôs = 2k sen ÔO
(4.51)
Para Mohr-Coulomb, tem-se que:
8w.
4 = cojÔO-p)
s' ü cos(SO + p)
(4.52)
45"
onde
= s a + c co/gç>
s' h = - s "„ + t- cot M
p - ângulo de atrito mobilizado
c.4 Aplicações
Fig. 4.34 - Mecanismo dc colapso para cálculo do
limite superior de H { .
onde Kc o volume do bloco por unidade de
comprimento do corte.
Pode-se também escrever que
A titulo de aplicação do método da análise limite
investigam-se, cm seguida, dois problemas de
engenharia geotécnica:
a.) altura crítica de um corte vertical em solo.
b> capacidade de caiga de uma fundação superficial.
Ambos os problemas são analisados para o caso
plano (estado plano de deformações) e segundo
o critério dc escoamento dc Tresca (comportamento
nào drenado).
ôv = —LrÃr
J2
onde Ôv é a componente vertical de ôw.
Neste problema, o carregamento atuante é constituído
exclusivamente pelo peso próprio do solo.
Então, a potência é:
p = J&.jf/v = ÇjjyV
aplicação: altura crítica de um corte vertical
Seja o corte esqucmaticamentc representado na
Figura 4.33, em um solo onde s u (corresponde
ao k do critério de Tresca) representa sua resistência
ao cisalhamento nào drenada e y seu peso
específico.
I 3 =
2J2 õvyH* (4.53)
A potência dissipada ao longo do plano de
deslizamento é:
D = s u LÔw = J2H xs uàv (4.54)
Solo
Igualando-se as expressões (4.53) e (4.54), obtém-se:
tf» Su
H x =
Y
(4.55)
Fig. 4.33 - Representação esquemática de um corte
vertical em solo coesivo
Limite Superior
Admite-se, para esta análise, o mecanismo de
colapso representado na Figura 4.34, onde o plano
cie deslizamento faz um ângulo de 45° com a
vertical. Chamando de ll v o limite superior da
altura crítica H e Ôw a velocidade de deslocamento
na direção paralela ao plano de
deslizamento, obtém-se:
Limite Inferior
Para análise do limite inferior, considera-se a
distribuição de tensões indicada na Figura 'i.35,
com dois planos de descontinuidade definindo
as regiões I, II e III. As tensões ros elementos
situados nas 3 regiões estão representadas na
Figura 4.35a e os correspondentes círculos de
Mohr na Figura 4.35b. Constata-se que o critério
de escoamento não é violado e as equações de
equilíbrio, assim como as condições de fronteira,
estão satisfeitas. Assim, para o pé do talude (região
I) pode-se escrever:
L = J2H X
yfi i=2s„
Y
(4.56)
a x-2Su
0y'0
ia y--»y
Fig. 4.37 - Mecanismo de colapso para cálculo do
limite superior de F ult.
Observa-se que, ao se aplicar uma velocidade
dc rotação 50 no bloco, seu centro dc massa
fica submetido a uma velocidade horizontal
Ôh. Assim, a potência correspondente ao peso
do bloco ê nula. A potência da carga externa
F é:
(b)
Fig. 4.35 • Campo dc tensões para cálculo do limite
inferior de H.
P = F s XjBS0 (4.58)
A velocidade de deslocamento ô\v ao longo da
superfície dc deslizamento produz uma potência
dissipada:
D = s,.kH x li 60 (4.59)
A partir dos resultados (4.55) c (.4.56) pode-se
escrever que:
Y
Y
2 d aplicação: fundação superficial
(4.57)
Seja uma fundação superficial de largura B e comprimento
infinito (Figura 4.36), assente na superfície
de um solo cujo peso específico é y e a resistência
r.ão drenada s u. Admite-se nào existir nenhuma
sobrecarga aplicada na superfície do terreno.
1
I F utt
B
I Solo
J * S,,
Fig. 4.36 - Representação csqucmática de uma
fundação superficial sobre solo coesivo
Limite Superior
Admita-se qje a superfície dc deslizamento é
constituída por uma superfície cilíndrica, de raio
B e centro cm uma das extremidades da fundação
(Figura 4.37).
Igualando-se as expressões (4.58) e (4.59) tem-se:
F s = 2kBS„
Limite Inferior
(4.60)
Seia o campo de tensões representado ra Figura
4.38. com dois planos de descontinuidade
verticais e situados nas extremidades da fundação.
As tensões principais maiores nos elementos
A, B, C c D, respectivamente nas regiões
I, II, III e IV e justapostos aos planos de
descontinuidade. estão indicadas na
Figura 4.38.a e os correspondentes círculos de
Mohr na Figura 4.38.b.
Como 60 • -90' para a descontinuidade entre
I e II e 00 = 90' para a descontinuidade
enire III e IV, a equação (4.51) conduz, para
ambos os casos, a:
8s = 2s u (4.61)
Dos círculos de Mohr, pode-se escrever:
- yy + s „
s, - <i, + w - s u
s< - yy + s „
= </, + yy - s u
onde
<U = - 1 -
8x1
Então
6s = (s h - sj = (s ü - sj - q t - 2s u (4.62)
Igualando (.4.61) c (4.62), obtém-se finalmente
Fj = 4s uB (4.63)
As expressões (4.60) c (4.63) nos permitem escrever:
2kBS u > F ult > (4.64)
um conjunto de elementos isolados. São exemplas
(i) o Método dos Elementos Finitos, que representa
o elemento estmtural dc fundação como
um conjunto de barras ligadas apenas nos nós e
(ii) os métodos baseados na Hipótese de Winkler,
que representam o solo como um conjunto de
molas. Os métodos discretos, gera.mente resolvidos
em computador, são muito utilizados para
estudar ao mesmo tempo o elemento estrutural
de fundação c o solo de fundação numa análise
conhecida como de interação solo-fundação.
I lá 2 famílias de modelos para representar o solo
neste tipo de analise (Figura 4.39):
• o solo é representado por molas (com resposta
linear ou nào);
• o solo é representado como um meio contínuo
(.elástico linear ou nào).
Características do segundo modelo foram discutidas
nos itens anteriores deste capítulo.
<V$y»2s{j
«I _
Q=Kw
MJW
(o)
E.LS
E,K C, 0
(d)
(e)
Figura 4.39 - Modelos para representar o solo
Fig. 4.38 - Campo dc tensões para cálculo
inferior de F....
do limite
4.6.1 Molas com Resposta Linear ou
Modelo de Winkler
4.6 MODELOS DISCRETOS DE
REPRESENTAÇÃO DO SOLO
Sào chamados de métodos discretos (ou métodos
discretizados) aqueles que representam o solo
c ou o elemento estrutural de fundação ou contenção
nào como um sólido contínuo, mas como
Quem primeiro representou o solo como um
sistema de molas de resposta linear foi Winkler
(1867), e este tipo de representação é conhecido
como Modelo de Winkler ou Hipótese de Winkler.
Segundo este modelo ou hipótese, as pressões dc
contacto sào proporcionais aos deslocamentos. E
este modelo pode ser usado tanto para carregamentos
verticais, como é o caso de vigas e radiers
de fundação, quanto horizontais, como é o caso
de estacas sob cargas horizontais e estruturas de
escoramento de escavações.
a. Carregamento Vertical
No caso de carregamento vertical (vigas de fundação,
radiers), o Modelo de Winkler prevê que
as pressões de contacto sào proporcionais aos
recalques, ou seja (Figura 4.39a) :
q = k v w (4.65)
A constante de proporcionalidade k é usualmente
chamada de coeficiente (le reação vertical.
mas recebe também as denominações coeficiente
de recalque, módulo de reação ou coeficiente de
mola.
Este modelo é também conhecido como modelo
molas, ou ainda, como modelo do fluido denso,
uma vez que seu comportamento é análogo ao de
uma membrana assente sobre fluido denso (Figura
4.39c). E também porque as unidades do coeficiente
de reação sào as mesmas de peso específico
(dimensão F.L" 3 ).
O coeficiente de reação vertical, definido pela
Equação (65), pode ser obtido através de:
• ensaio de placa:
• calculo do recalque da fundação real;
• uso de tabelas de valores típicos.
a.T Ensaio de Placa
O ensaio de placa pode ser utilizado para a obtenção
do coeficiente de reação. Neste ensaio obtém-se
uma curva pressão - recalque da placa, cuja
inclinação em seu trecho inicial (distante da ruptura)
é o próprio coeficiente (Figura 4.40a). O coeficiente
de reação obtido através do ensaio de
uma placa quadrada de 1 pé é usualmente denominado
k t (ou k).
A curva pressão-recalque pode apresentar forte
nào linearidade, e para sc obter um valor de k r
representativo para a análise em vista, esse coeficiente
deve ser tirado da faixa de pressões prevista,
e após ciclos dc carga, sc for o caso (Figura 4.40b).
a.2 Uso de Tabelas de Valores T/picos
O coeficiente dc rcaçào pode ser estimado a
partir de valores típicos fornecidos na literatura.
Valores dc k de uma placa quadrada dc 1 pé (jfe p
fornecidos por Terzaghi (1955) estão mostrados
na Tabela 4.2.
Uma limitação do uso de ensaios de placas
vem do fato da placa solicitar um volume de
solo pequeno sob a mesma, enquanto a fundação
real solicitará solos até uma profundidade
maior.
Fig. 4.40 - Ensaio dc placa para obtenção de kj. (a)
interpretação pelo trecho de interesse dc um ensaio
com estabilização c |bj pelo trecho de dcscarregamento-recarregamento
(para análise dc carregamento
cíclico]
a.3 Através de Calculo de Recalque da
Fundação Real
O coeficiente de reação pode ser estimado a
partir dc um calculo do recalque da fundação,
suposta submetida a um carregamento unitário
distribuído (Velloso e Lopes, 1996). Neste cálculo, a
fundação é suposta rígida e o recalque assim obtido
representa um recalque médio. Com este recalque
calcula-se o coeficiente de reação através de
<i i.o
*v = •= = — (4.66)
w w
Este procedimento, diferente dos itens (a.l) e
(a.2) acima, permite considerar os diferentes solos
solicitados pela fundação.
Tabela 4.21 Valores dc k , cm kgf/cm' (Terzaghi, 1955)
Argilas Rija Muito Rija Dura
q u (kgf/cm'j 1 - 2 2 - 4 > 4
faixa de
valores
valor
proposto
1.6 3.2 3.2 - 6.4 > 6.4
2,4 4,8 9.6
Areias Fofa Med.
Compacta
faixa de
valores
areia acima
N.A.
areia
submersa
Compacta
0.6 - 1.9 1.9 - 9.6 9.6 - 32
1,3 4.2 16
0.8 2.6 9.6
Correções de Dimensão e de Forma
Aos valores do coeficiente de reação obtidos por
ensaios de placa (item a.l acima) e fornecidos na
literatura (item a.2 acima) cabe fazer as correções de
dimensão e de forma. Essas correções se devem ao
fato deste coeficiente nào ser uma propriedade apenas
do solo mas uma resposta do solo a um carregamento
aplicado por uma dada estrutura. Comparando
a Equação (65) com a equação do recalque de
uma placa sobre meio elástico (homogêneo e semiinfinilo)
Como os ensaios em placas carregadas horizontalmente
e ensaios pressiométricos sào pouco comuns
no Brasil, recorre-se freqüentemente às tabelas
de valores típicos, como aquelas abaixo.
Tabela 4.31 k^ para argilas sobre-adensadas (Davisson,
1963)
Argila q o (kgf/cm 2 ) k h (kgf/cm*)
mole e media 0.2 a 0.4 8
rija 1,0 a 2.0 50
muito rija 2.0 a 4.0 100
dura 4.0 200
' E *
(4.67)
K,, =
. B , ou seja. incorporando a dimensão transv.
obtém-se:
k = L -
E - l
v B i-ir l,
onde
(4.68)
<7 « pressào média aplicada
B = menor dimensão da fundação (sapata, viga
ou radier)
u = Coeficiente de Poisson
E - Módulo de Young
/ = fator de forma da fundação
Pela Equação (68) pode-se concluir que quanto
maior a fundação (maior o B), menor o coeficiente
k; e quanto mais a forma da fundação se distancia
da quadrada ou circular, tendendo para uma forma
retangular mais alongada, também menor o k.
b. Carregamento Horizontal
No caso de carregamento horizontal (estacas sob
forças horizontais, cortinas de escoramento.), o
Modelo de Winkler prevê que as pressões horizontais
são proporcionais aos deslocamentos horizontais,
ou seja :
p = kh v (4.69)
onde p ° pressào horizontal
r - deslocamento horizontal
A constante de proporcionalidade kh é usualmente
chamada de coeficiente de reação horizontal.
Este coeficiente é obtido através de:
• ensaios de placa (colocadas verticalmente c
carregadas horizontalmente):
• ensaios pressiométricos;
• tabelas de valores típicos.
Tabela 4.41 n, para argilas normalmente adensadas e
areias (Davisson, 1963J
Solo n„ (kg f/cm J ]
acima do NA
abaixo do NA
areia fofa 0,26 0.15
areia média 0,80 0.50
areia densa 2.00 1.25
silte orgânico fofo - 0.01 a 0.03
argila mole sob
cargas estáticas
argila mole sob
:argas repetidas
k È . = n . z/b Kr>= • *
- 0,05
- 0.03
4.6.2 Modelo de Molas não Lineares
O modelo de molas pode ser expandido para
considerar molas com resposta nào linear. Neste
caso, a solução requer um algoritmo nào linear,
que pode ser incrementai (em que a carga é aplicada
em incrementos, para que a resposta da mola
seja alterada com o nível de solicitação) ou iterativo
(em que a carga é aplicada de uma só vez c em
que a parte do deslocamento que violou o comportamento
da mola é convertido em carga nào
equilibrada, que é aplicada, repetindo-se o processo
até que atinja uma tolerância estabelecida).
A Figura 4.-11 mostra o modelo de analise dc
uma estaca. A estaca é substituída por um conjunto
de barras conectadas nos nós c o solo é substituído
por um conjunto de molas horizontais, que
vão resistir ao deslocamento horizontal, e por um
conjunto dc molas verticais, que vão resistir ao
deslocamento vertical.
A resposta das molas é descrita por curvas que
sào usualmente chamadas:
(i) na direção horizontal de "p-y" (pressào horizontal
- deslocamento horizontal) e
(ii) na direção vertical de "t-z" (tensão cisaIhante
na interface - deslocamento vertical).
Nestas denominações o deslocamento horizontal
C chamado de ") r (e nào v) e o vertical é chamado
de u z" (e não ti>).
A proposta do American Petroleum Instilute para
obtenção das curvas "p-y" está apresentada no
Apendice 1. Semelhante às curvas "t-z" são as Leis
de Cambefort.
É mais comum se adotar a resposta nào linear
do solo nos métodos de análise de estacas sob
forças horizontais (e ou momentos aplicados) e,
portanto, as curvas "p-y" são mais utilizadas que
as "t-z".
vez que as respostas dos dois modelos diferem em
função da rigidez da fundação e das características
do terreno. A relação apresentada na Equação (68).
que decorre da equiparação das equações (i) de
recalques de placa rígida em meio elástico homogêneo
e semi-infinito (Eq. 67; c (ii) de recalque da
placa rígida sobre solo de Winkler (Eq. 65), vale
apenas para essas condições.
4.6.4 Respostas dos Diferentes Modelos
As respostas dos diferentes modelos podem ser
f>cm observadas nos casos extremos (rigidez relativa
nula e rigidez infinita) mostrados na Figura 4.42.
MEIO
CONTINUO
1
~ i » r r 7
q : KW
•
>- RJ oo
iz.w
DESLOCAMENTOS
CARACTERÍSTICAS
PRESSÃO NO SOLO-
OESLOCAMENTO
1 — i
CARREOAMENTO
Fig. 4.41 - Modelo de analise de estacas com o solo
representado por molas, vendo-se o ponto da curva ~py"
atingido pelo carregamento aplicado
>R r '0
4.6.3 Meio Contínuo
O meio contínuo pode ser admitido representando
o solo no caso de métodos discretos, como
é o caso dos métodos numéricos. O meio contínuo
pode ter seu comportamento :
• elástico (Figura i.39d);
• elnsto-plástico (Figura 4.39e).
No primeiro caso, há algumas soluções numéricas
pelo Método das Diferenças Finitas c Método
dos Elementos de Contorno. O segundo caso, dificilmente
justificado cm projetos correntes, requer
solução pelo Método dos Elementos Finitos.
Relações entre o k v e o Módulo de Young do
Meio Elástico
Nào é simples se estabelecer uma rclaçào entre o
k e o Módulo de Young do meio elástico, E, uma
fZZD
t m n
Fig ura 4.42 - Respostas dos dois principais modelos
4.7 MÉTODOS NUMÉRICOS
4.7.1 Introdução
Os métodos numéricos, que fornecem a solução
do problema apenas em alguns pontos do
domínio, sào chamados métodos discretos. A solução
obtida será tào mais próxima da exata quanto
maior for o número de pontos na solução numérica
(ou seja, mais refinada for a rede ou malha;.
O aumento do número de pontos em estudo por
outro Indo. aumenta o trabalho computacional.
Os principais métodos numéricos utilizados cm
Engenharia sào, pela ordem de aparecimento:
• Método das Diferenças Finitas (MDF)
• Método dos Elementos Finitos (MEF)
• Método dos Elementos dc Contorno (MEC)
O MDF consiste na substituição da equação
diferencial que governa o fenômeno em estudo
por uma equação algébrica, que relaciona o valor
da variável do problema em um ponto aos
valores em 4 pontos vizinhos, situados sobre
duas linhas ortogonais. Assim, na solução dc
um problema pelo MDF é necessário se traçar
uma malha ortogonal, sendo a solução obtida
nos pontos de interccssào da malha (Figura
•1.43b). A solução pode ser manual, pela técnica
chamada de ' relaxaçào", ou com auxílio de computador,
quando se monta um sistema de equações
simultâneas (uma equação para cada ponto
dc intercessão da malha). O MDF é anterior
ao computador (técnica da "relaxaçào"), mas
ganhou grande desenvolvimento com o advento
deste (década de 50). Entretanto, em fins da
década de 50 surgiu o MEF, que apresentou inúmeras
vantagens sobre o MDF.
Resumindo em poucas palavras, o MEF consiste
na divisão do domínio do problema em
elementos - cujo comportamento pode ser facilmente
formulado em função de sua geometria
e propriedades - conectados apenas em alguns
pontos através dos quais interagem entre
si (Figura 4.43.c). Como a divisão do domínio
pode ser qualquer, este método apresenta grande
vantagem no tratamento de casos com geometria
complexa. Ainda, cada elemento pode
ter propriedades próprias, o que permite resolver
casos heterogêneos. O MEF é hoje aplicado
a inúmeros fenômenos, inclusive nào lineares
(plasticidade) e dependentes do tempo (viscosidade
e adensamento).
(b) *
— ^
o]
7Z
Fig. 4.43 - Esquema dc solução de um problema por
(b) MDF. (cj MEF e (dj MEC
O MEC difere do MEF na medida em que apenas
a fronteira do domínio precisa ser dividida
em elementos (daí o nome "elementos de contorno",
Figura 4.43 (d). Assim, o trabalho de divisão
do domínio bem como o número tle equa
çòes fica bastante reduzido. Por outro lado, o
MEC tem sido usado basicamente em problemas
lineares e homogêneos.
Comparando-se o MEF e o MEC pode-se destacar
as seguintes vantagens do último:
a) Discretizaçào restrita ao contorno;
b) Menor número dc incógnitas;
c) Facilidade no tratamento de domínios
semi-infinitos ou com superfície livre;
d) Bons resultados em regiões dc conccntraçào
de tensões.
As seguintes desvantagens do MEC podem também
ser destacadas:
a) Sistema de equações não simétrico;
b) Utilizado basicamente em problemas lineares
(p. ex., elástico), exceto quando se prevê
células de comportamento especial (p.ex.
"células de plasticidade") e hemogêneos;
c) Dificuldade cm se determinar a solução fundamental
(ou função de pondemçào) para
fenômenos novos.
O MEF: Origem e Desenvolvimento
A idéia por trás do MEF é a de se partir de algo
pequeno e simples para se entender algo grande
e complexo.
Vale mencionar que em 1943 uma formulação
muito semelhante à do MEF foi feita por Courant
para o estudo do problema de torção de Saint
Venant (Brebbia e Ferrante, 1975).
O MEF, como um método numérico, é uma
evolução do Cálculo Matricial de Estruturas -
modeladas como um sistema de barras - que
ocorreu no final da década tle 50. No Calculo
Matricial de Estruturas há o chamado Método
das Forças (ou da Flexibilidade) e o Método dos
Deslocamentos (ou da Rigidez), assim denominados
a partir da incógnita nodal obtida no cálculo.
O primeiro apresenta vantagem para o
cálculo manual enquanto o segundo desenvolveu-se
após o aparecimento do computador.
Turner, Clough, Martin e Topp apresentaram em
1956 a formulação do primeiro elemento plano,
o triângulo de três nós, com vistas à análise estrutural
(em Engenharia Aeronáutica). Este primeiro
artigo despertou o interesse de muitos
pesquisadores c engenheiros c o método se desenvolveu
rapidamente. Na década de 60 o estudo
mais aprofundado dos princípios do método.
seguindo o enfoque variacional, permitiu
sua aplicação no estudo de muitos outros fenômenos
fora da análise estrutural.
Elementos unidimensionais e bidimensionais utilizados
no MEF estão mostrados na Figura 4.44.
elemento de treliço
elemento de viga
ELEMENTOS UNIDIMENSIONAIS
\
elemento triangular de
deformação constante
ELEMENTOS
elemento quadrongular
de faces curvas
BIDIMENSIONAIS
Fig. 4.44 - Exemplos de elementos utilizados no MEF
O Procedimento do MEF
O MEF pede ser descrito como uma técnica para
sc resolver (de forma aproximada) um problema
governado por equação diferencial através de um
sistema de equações algébricas que relacionam a
variável procurada em um número finito de pontos.
O procedimento na resolução de um problema
pelo MEF é o seguinte:
(1) Inicialmente divide-se o domínio do problema
cm um número de subdomínios, denominados
"elementos finitos", conectados entre
si através de um número finito de pontos, denominados
"pontos nodais" ou 'nós".
(2) A distribuição da variável cuja solução é procurada
dentro dos elementos finitos é aproximada
por uma funçào particular, chamada
"função de interpolação".
(3) A partir desta função é possível relacionar o
valor da variável do problema nos nós dc cada
elemento com a geometria e propriedades do
elemento, dando origem ao sistema de equações
do elemento. Este sistema de equações
pode ser apresentado na forma matricial, sen
do a matriz dos coeficientes denominada "matriz
de comportamento do elemento".
(4) Considerando a conexão dos elementos através
dos pontos nodais é possível se associar
as equações dos elementos, montando um sistema
global de equações para o problema.
(5) Introduz-se valores conhecidos da variável do
problema no contorno (introdução das condições
dc contorno).
(6) Resolve-se o sistema de equações global, obtendo-se
os valores da variável do problema
nos pontos nodais.
(7) Caso sc deseje o valor de outras variáveis (chamadas
"secundárias"), um cálculo complementar
é feito (p.cx., na análise estrutural, a variável
primária é o deslocamento e as variáveis
secundárias sào a deformação e a tensão).
Uma vez desenvolvido um programa de computador
para execução dos passos (2) a (7), o tralxi lio do
engenheiro se concentra no item (1), complementando
com o fornecimento dc dados ao programa, e • após
a execução do programa - na interpretação dos resultados.
Nestas duas tarefas, (a) divisão do domínio
do problema e preparação dos dados que simulam o
fenômeno e (b) interpretação dos resultados, é necessário
um cuidadoso julgamento do enger.hciro.
além do conhecimento daquilo que é feito pelo computador
(passos (2) a (7)).
Para um estudo do método recomenda-se, por
exemplo, Zicnkicwicz e Taylor (1991).
Os métodos numéricos mais utilizados na Engenharia
de Fundações sào o Método das Diferenças
Finitas e o Método dos Elementos Finitos e, por isso. a
discussão que se segue é restrita a estes dois métodos.
4.7.2. Vigas de Fundação
As vigas de fundação sào normalmente anal sadas
como elementos unidimensionais, apoiadas em solo
de Winklcr ou num meio contínuo. Assim, o problema
a analisar passa a ter 2 dimensões apenas.
a. Método das Diferenças Finitas
No caso de uma viga de fundação, o Método das
Diferenças Finitas substituc a equação diferencial
da deformada da viga por uma equação algébrica
que relaciona o deslocamento de um ponto aos
deslocamentos dc pontos vizinhos (ou o momento
fletor de um ponto aos deslocamentos do próprio
ponto e dc pontos vizinhos). A viga é estudada
através de um número finito de pontos, que definem
segmentos da mesma (Figura -i. »5a).
Para a transformação da equação diferencial em
uma equação de diferenças finitas, os coeficientes
diferenciais sào substituídos por funções dos
deslocamentos dos nós da malha (w t no ponto
genérico k). Adotando segmentos de mesmo comprimento
x, tem-se (por diferença central)
íhl - =
Wn+I- W n-J
dx Ax Ax
à 2 w _ _ w n+j - 2\v n + \v n_i
dx* Ax 2 Ax 2
(4.70)
(4.71)
d 3 * A 3 w _ uv J±2 -2w n+1 + w n_ l-w„_ 2 ,
dx 3 " Ax 3 ' ' 2Ax 3 a ? 2 )
As equações diferenciais da viga
d 2 w _ M pi d 3 w
dx 2 ~
El
i
n-l
n
m
Para análise da viga de fundação o modelo normalmente
utilizado consiste cm elementos de viga
para representar a viga de fundação e cm molas ou
apoios elásticos para representar o solo (Figura
4.45b). Como os apoios elásticos estão nos nós, a
rigidez destes apoios deve levar em conta os comprimentos
do elementos, como mostrado na figura.
Uma descrição do método está fora do escopo
deste trabalho, e pode ser vista em Bovvles (1974)
e Zienkiewicz e Taylor (1991 >.
4.7.3 Radiers
a. Equações da Placa sobre Solo de Winkler
A equação diferencial dos deslocamentos de uma
placa delgada assente sobre um sistema dc molas
lineares (Hipótese de Winkler), considerando uma
região distante dos carregamentos, é
elemento v
no-v 1
D
f d 4 w
d 4
dx** dx 2 dy 2 ' dy 4 ) + k w = 0 (4.75)
mola:
K=k v B a
esforços em
e(eme>ito de
viga
(b)
Fig. 4.45 - Viga sobre solo de Winkler pelo (a)
Método das Diferenças Finitas e (b) Método dos
Elementos Finitos
sc transformam cm
h'„+i-2w n + w n_, =
Ax 2
M_
El
n+2 - 2w n+l + w n-l ~ w n-2 = _Q
2Ax'
" El
(4.73)
(4.74)
Uma descrição completa do método está fora
do escopo deste trabalho, c pode ser vista em
Bowles U97H. 1975).
b. Método dos Elementos Finitos
O Método dos Elementos Finitos é normalmente
usado por meio dc programas comerciais, disponíveis
no mercado. São utilizados programas
para análise linear bi-dimcnsional dc estruturas
(tipo pórtico plano), com elementos de viga (elementos
unidimensionais com transmissão de momento
nos nós) disponíveis e com possibilidade
de apoio elástico (molas). Quando o programa
nào dispõe de apoio elástico, uma barra bi-rotulada
pode ser usada.
Nesta equação o parametro l) é a rigidez à flexão
da placa (análogo a Kl nas vigas) e é dado por
E.. r
D =
12 (4.76)
M
onde
/ = espessura da placa
£ =» Modulo de Young do material da placa (concreto,
p. ex.)
u - Coeficiente de Poisson do material da placa
(concreto, p.exj
Sc a placa e o carregamento possuem simetria
radial, a equação (75) pode tomar a forma
D
d 4 w 2 d'*w 1 d 2 w 1 d\\
+ -T
dr 4 r dr 3 r 2 2
dr~ ' r dr
+ k\v = 0
(4.77)
Numa analogia com o problema da viga. podese
definir um parâmetro característico (chamado
de raio dc rigidez efetiva)
(4.78)
A solução da equação (4.77) pode ser escrita na
forma
w = C, Z,
+c 3zy--Uc 4zy-
(4.79)
onde C p CC f, C fsào constantes de integração e
Z v Z„ Z v Zj são funções, tabuladas por Hetenyi
(1Ç4Ó) e mostradas na Figura 4.46.
Fara uma carga concentrada distante dos bordos
da placa C t - C 2 - C 4 - 0 e a equação do
recalque fica
= C 3Z 3\-
(4.80)
A constante C t é obtida igualando-se a carga P
com as pressões de contacto, o que conduz a
(4.81)
Os esforços internos e as rotações são obtidos
através das equações
U
dw_Pl 2 (T
dr 2
vdw
r dr
l )
(4.82)
(4.83)
0.5
04
0 3 "
0.2 "
5» 0.' -
fsl
N o -
-0.1
-o:
r t(t!L\.
Zj ('//.)
/ /
\ 1 s<—Z\(r/L\
_ \ / y
x ' /
> -0.3 - I
I
HML
I
I
I
-o s h I
-L
Fig. 4.46 - Funções Z y Z 4 , Z' y Z\ fHetcnyi, 1946)
M r(r=0)=M e{r=0)=
r/L
Í4.86)
. # n/ d 2 w I dw
0 dr 2 r dr
Q r(r=0)=
2nC
(4.87)
(4.84)
onde Ç- constante de Eulcr - 0,5772157
b. Método das Diferenças Finitas
_ n(à"w I d 2 w 1
- W í )
onde Z' { c Z\ sào as primeiras derivadas dc
Z v mostradas na Figura 4.46.
(4.85)
Quando se examinam os diagramas dos esforços
na origem (r = 0). ou seja, no ponto dc aplicação
da carga, estes tendem para infinito. Isto
mostra que a teoria nào é satisfatória sob uma
carga concentrada. Para se contornar esta problema,
admite-se que a força concentrada se
distribui cm uma pequena área, por exemplo
sobre um círculo de raio C. Neste caso, segundo
Selvadurai (1979), os esforços no ponto dc
aplicação da carga serão:
c
Como mencionado acima, o Método das Diferenças
Finitas consiste na substituição da equação diferencial
da deformada da placa por uma equação algébrica
que relaciona o deslocamento de um ponto
aos deslocamentos de pontos vizinhos. Na placa é
imaginada uma malha em cujos cruzamentos estão
os pontos cm estudo.
Para a transformação da equação diferencial em
uma equação de diferenças finitas, os coeficientes
diferenciais sào substituídos por funções dos
deslocamentos dos nós da malha (w t no ponto
genérico k). Usando uma interpolaçào com operadores
centrais obtém-se:
fd w _àw i = w k + ,-w k_ t
dx /k A x 2Ax
IW _ Aw k _ wj—w,
dx n A y 2Ay
(4.88.a;
(4.88.b)
d-iv
Jxdyj
* = —= —^ 1—íli—(4.89)
A.v A>- 4AxAy
6 i a + a ) + *) ~ + a)(>V * + /+W * " +
d 2 " ) _ Wf/-2w t +w k _, f4 90a)
.ajrJ A A.v 2 Av 2
(-\2 O XV
tã/J
_ A 2 U 'A _ u 'i ~ 2 vv * + w l
Ay .2 Ay
(4.90.1»
(dSw ) _ A 3 w k _ w k+2 -2\v k+l + 2w k _,-\v k -2
[dx3J k Ax 3 2Ax 3 (4.91.a)
) _ A ' ?tv '* _ U'/|-2VV; + 2H'/-VV„i (49^)
dx 3 ) k Ay 3 2 A y 3
( I _ A4w k
dx^dy 2 ) k ~ Ax 2 Ay 2 =
4w t -2(w l . l +w l _, + w l +w l ) +
(4.92)
Ax 2 A>' 2
A.v 2 Ay 2
] _ aAV*_ + 2 -4w k + j + 6w k --y+Hfr-2
a.v'' A Av^ A.v''
(4.93.a;
f d4w
k A>' Ay .4 (4.93 b)
A equação diferencial da placa (4.75) se transforma
(incluindo uma sobrecarga uniforme p) em
A 4 \v k 2 A 4 \v k A 4 w k
Ax 4 Ax 2 Ay 2 Ay 4
= RlA^
D D
(4.94)
Examinando as expressões obtidas, constata-se
que. para os pontos da placa próximos ao seu
contorno, é necessário o uso de nós fictícios situados
fora do domínio da placa.
Na expressão (4.94) p té o valor da intensidade
da carga distribuída (pressão aplicada) no ponto
k. Fazendo
Ax 2
tem-se
= a
f( y + a) (lV/ + W/) ] + 2(W, ~' + W '~ i + w I+I + w Í*Í )+
+<x(w k + 2 + "'k-2) + + w h ) =
Ax 4 , Ax 4
= PkCC~D— kWk(X ~D~
(4.95>
Caso A.v = Av = s, tem-se uma expressão bastante
simplificada
20w k - 8(w k _i + w, + w k+ , + wj) +
+2(w,_ / + W!_, + w l+, + w i+l) +
+( w k-2 + w m + w k+2 + =
J <- 4
S S
- />.. D k HV k D —
(4.96)
Mais detalhes sobre o método e sua programação
podem ser vistos em Bowles (1974), Santos (.1987) e
Velloso e Lopes (1996).
c. Método dos Elementos Finitos
O Método dos Elementos Finitos £ normalmente
usado através de programas comerciais. Sào utilizados
programas para análise linear bi e tridimensional
de estruturas, preferencialmente com elementos de
placa disponíveis e com possibilidade de apoio elástico
(como mencionado anteriormente, caso o programa
não disponha de apoio elástico, uma barra
bi-rotulada pode ser usada).
Para análise do radier um modelo bastante simples
consiste no uso de elementos de placa para
representar o radier c de molas ou apoios elásticos
para representar o solo (Figura 4.47). Comparado a
diferenças finitas, um modelo de elementos finitos
apresenta maiores possibilidades em acompanhar
uma geometria mais complicada da placa (nào só
em planta como em termos de espessuras) e uma
variação do solo segundo um plano horizontal.
Um segundo modelo de cálculo utiliza elementos
de placa (ou sólidos) para representar o radier
c elementos sólidos para representar o solo (Figura
4.47). É um modelo bem mais complexo, que
permite levar em conta a heterogeneidade espacial
do solo. Um estudo comparativo destes modelos
pode ser visto, por exemplo, em Cheung e
Nag (1968) e Melo e Silva (1981).
4.7.4 Estacas isoladas sob Cargas Verticais
Métodos Matriciais e Integração Numérica da
Equação de Mindlin
Para a análise de estacas sob cargas axiais dispõese
das soluções fornecidas por Poulos e Davis (197'»;.
esforços em
elemento de
placo
O mesmo tratamento dado às estacas sol) cargas
axiais (verticais) pode ser dado às estacas sob cargas
transversais (horizontais). Neste caso, optandose
pela resposta nào linear das molas, lança-se mão
das curvas "p-y" já descritas (ver Apcndice 1). Optando-sc
pela resposta linear, um programa de pórticos
planos pode ser usado (com barras ou molas
horizontais para representar o solo).
REFERENCIAS
( / f f / / f (
f ! f / t f
L_ f (b)
Fig. 4.47 - Modelos para análise
Método dos Elementos Finitos
de radiers pelo
Nestas soluções é utilizada a equação de Mindlin
para representar a ação da estaca sobre o solo. Estas
soluções já estào apresentadas na forma dc ábacos,
mas seu modo dc obtenção pode ser programado.
Ainda no caso de estacas sob cargas axiais. dispõese
da solução numérica proposta por Aoki e Lopes
(1975). Nesta solução, a ação da estaca é discrctizada
num grande número dc forcas verticais, cujas ações,
previstas pela equação de Mindlin, sào superpostas
no ponto cm estudo. O método pode ser utilizado
para obtenção de recalques ou mesmo do estado de
tensões em qualquer ponto do meio. As ações de
várias estacas podem ser consideradas. Esta solução
pode ser facilmente programada.
Método dos Elementos Finitos
Estacas isoladas sol) cargas axiais (verticais) podem
ser tratadas como elementos unidimensionais
tipo viga, com molas verticais nos nós. A resposta
das molas pode ser linear ou não, neste caso expressa
pelas curvas "t-z". Qualquer programa para
análise de pórticos planos pode ser usado no primeiro
caso. No segundo caso, sào necessários programas
especiais.
4.7.5 Estacas Isoladas sob Cargas
Horizontais e Momentos
Método dos Elementos Finitos
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APÊNDICE
Curva "p-y". segundo o American Petroleum
Institute
A parte inicial da curva "p-y" é considerada uma
hipérbole, definida por uma tangente na origem.
e pela assíntota, ap d (Fig. 4.48». A pressão p .
corresponde à resistência que o solo pode oferecer.
A hipérlx)le é seguida até o ponto a. A partir deste
ponto, nos solos arenosos, a resistência é considerada
constante. No caso de solos aigilosos. após o ponto
a, há uma queda na resistência, num comportamento
chamado friávcl ou s traiu softening.
A equação da hipérbole é:
p" V, ^ (A.l)
onde p « pressão lateral
y » deslocamento horizontal da estaca
p (l = pressão limite (resistência lateral)
a - relação de ruptura, sempre maior que
1, relacionada ao coeficiente (3
k t = tangente á hipérbole na origem
P - coeficiente que depende do tipo de solo
e da condição dc carregamento.
Os coeficientes
equação:
a =
/
a e fi sào relacionados pela
/ - (A.2)
k j p d
válida para fiô > p/k r
Para PS<p/k Jt
por uma reta.
a hipérbole pode ser substituída
Elementos da curva "p-y"
(a) Caso de areias
fa.1] Resistência Lateral
(i) para cargas estáticas:
Pd,max = 4 K p °'v,0 <A.3>
onde K fi = coeficiente de empuxo passivo
s' ri = pressão efetiva no nível da mola em consideração
(ii) para cargas cíclicas:
Pd.max = 3 K p G' vj) para z> 2d (A.4)
7
Pd.max - 3 TT Kp °'v, 0 para 2- < 2d(A.5)
Tong®r>»« na origem
(b.2) Resistência Residual
F importante que o ensaio estático seja levado a
deformações suficientemente grandes para que se
possa definir o valor residual da resistência ao
cisalhamento não drenada, c ut, a qual, substituída
em (A.8), fornece o valor de p j
(b.3| Inclinação Inicial
A inclinação da tangente na origem é
Fig. 4.48 - Curva "p-y" segundo o API
(a.2) Resistência Residual
(a.3) Inclinação Inicial
Z«. - P Pd
' ~ * d (e c ) 0,25
onde
Pa B Pa* P ara carregamento estático e p u
carregamento cíclico
Ç - coeficiente empírico
para
£ - deformação vertical para uma diferença dc
tensões igual à metade do valor máximo alcançado
em um ensaio de compressão triaxial nàc-drenado
em amostra indeformada.
Os valores numéricos sugeridos para Ç, P <•' P'
sào dados na tabela abaixo.
A inclinação da tangente na origem é
k} = n h - (A.7)
d
sendo n h a taxa de crescimento do coeficiente
de reação horizontal com a profundidade.
Valores sugeridos para n h e/ísào dados na talxrla
abaixo.
Parâmetro
Densidade Relativa da Areia
fofa median. compacta
compacta
n h (.VI Pa/m) 5.0 12.0 18,0
P 0.04 0,04 0.04
Parâmetro
Carregamento
Normalmente
Adensada
Tipo de Argila
Sobre-
Ademada
estático 10 30
P estático 20e, Se,
P' estático 80c ( &
$ cíclico 10 30
' P cíclico 7.5e e 2.5r (
P' cíclico 20e c 5e t
(b) Caso de Argilas
(b.TJ Resistência Lateral
A resistência é dada por
Pa = J \ c u .
onde c - resistência ao cisalhamento nào dreu
nada na profundidade cm estudo
N - coeficiente semi-empírico crescente lineamiente
desde 0,0 (carregamento cíclico) ou desde 1,0 (carregamento
estático) ao nível do terreno (após erosão)
até 8,0 a uma profundidade z - N rd, sendo:
N r
a
10 para argilas normalmente adensadas
;V = 5 para argilas sobreadensadas
CAPÍTULO 5
SEGURANÇA DAS FUNDAÇÕES E ESCAVAÇÕES
WALDEMAR HACHICH
5.1 INTRODUÇÃO
Nào seria possível falar de segurança de fundações
e escavações sem mencionar a Norma Brasileira
sobre o assunto, a NBR-6122 (1996). Por outro
lado, nào cabe ficar aqui repetindo as posturas
daquela Norma, que sào de conhecimento público
e devem ser seguidas fielmente dado o caráter
dc lei que lhe é conferido pelo Código de
Defesa do Consumidor de 1991.
Optou-se, então, por colocar a discussão da segurança
das fundações no nível mais conceituai,
que tem norteado as pesquisas do autor há vários
anos. Durante esse período várias idéias básicas
foram-sc sedimentando e algumas delas sào a seguir
apresentadas:
• não há como evoluir no estabelecimento de
critérios de projeto relacionados à segurança
— sejam eles cm termos dc coeficientes de
segurança globais, parciais, coeficientes de
ponderaçào, índices de segurança ou probabilidades
de ruína — senào através de modelos
probabilísticos, pois variabilidade e incerteza constituem
o fulcro da questào da segurança;
• nào há como construir modelos probabilísticos
úteis, para fenômenos que envolvem solos, ignorando
as escalas de flutuação das propriedades
no espaço (ou autocorrelações);
• é và qualquer esperança dc, através de
amostragem, definir os modelos probabilísticos
(ou tipos de distribuições dc probabilidades)
que melhor descrevem as variáveis aleatórias
de interesse: os trechos centrais de muitas distribuições
são muito parecidos e nas caudas as
probabilidades são tào baixas que as amostras,
para terem poder discriminatório suficiente, teriam
que ter tamanhos economicamente inaceitáveis;
definições realistas de modelos
probabilísticos têm de ser fundamentadas em
argumentos físico-probabilísticos dedutivos (do
geral para o particular), não estatísticos, ou
indutivos {do particular para o geral); um exemplo
típico é a identificação de fenômenos físicos
que conduzem naturalmente, através do
Teorema do Limite Central, ao modelo normal,
de Gauss;
• embora consagrada pelo uso em contextos em
que há muitos eventos repetitivos, a Estatística
clássica (freqücncialista) pode ser substituída
com vantagens, no âmbito de Engenharia Civil,
em que muitas decisões têm de ser tomadas sobre
eventos únicos (mas incertos!), pela Estatística
bayesiana.
O leitor certamente nào encontrará dificuldades
cm reconhecer essas idéias como pano de
fundo dc lodo este capítulo, particularmente dos
exemplos.
5.2 CONCEITOS BÁSICOS:
SEGURANÇA E ESTADOS-LIMITES
Uma estrutura é considerada segura quando puder
suportar as ações que vierem a solicitá-la durante
a sua vida útil sem ser impedida, quer permanente,
quer temporariamente, de desempenhar
as funções para as quais foi concebida. Denomina-se
estado-limite qualquer condição que impeça
a estrutura de desempenhar essas funções.
A ocorrência de estados-limites caracteriza a chamada
ruína da estrutura. Estrutura nào deve ser
entendida meramente como um conjunto de pilares,
vigas e lajes, tampouco dc paredes e
estroncas (ou tirantes); entende-se por estrutura
um conjunto dc elementos (de aço, concreto,
madeira, solo, rocha etc.), com comportamentos
reológicos diversos mas interagindo de forma
econômica e segura para atender a uma necessidade
(ou desejo) do ser humano (Hachich, 1978).
Nesse sentido um taludc natural pode ser considerado
uma estrutura se alguém decidir implantar
uma obra de Engenharia para o funcionamento
da qual seja essencial a estabilidade do referido
taludc (uma rodovia, por exemplo). Essa estrutura
pode ter que ser reforçada — c deve sê-lo de forma
econômica — para garantir a segurança da obra.
Os estados-limites últimos (que alguns preferem
chamar de estados-limites de ruptura) correspondem
ao esgotamento da capacidade portí-nte da estrutura;
por exemplo: esgotamento da capacidade de carga
dc uma sapata. Os estados-limites de utilização
correspondem a situações em que a estrutura deixa
de satisfazer a requisitos funcionais ou dc durabilidade:
por exemplo, recalques excessivos.
5.3 A SEGURANÇA NO PROJETO
5.3.1 Projeto = Concepção + Análise +
Aplicação dos critérios de segurança
Após a fase de concepção, a primeira providência
para poder projetar uma estrutura econômica
c, ao mesmo tempo, garantir a sua segurança é a
previsão do seu comportamento sob as ações a
que ela estará sujeita na sua vida útil. É a fase do
projeto denominada análise (ou "cálculo"), na qual
c quantificado o comportamento das estruturas.
As grandezas que exprimem esse comportamento
podem, então, ser submetidas aos critérios de projeto
ligados à segurança.
Diversos são os critérios, caractcrizando-sc cada
um pela sistemática de introdução da segurança e
pela escolha do indicador da segurança. Cada método
procura sistematizar a verificação da segurança
e criar índices (ou coeficientes) que a tornem
mensurável. A razão de ser da distância —
medida por esses índices — entre as situações de
utilização nonnal e as situações de mina é a variabilidade
das grandezas envolvidas no projeto, além de
outras incertezas e erros que serão discutidos mais
adiante.
5.3.2 Métodos determinísticos
5.3.2.1 O método das tensões admissíveis
O método das tensões admissíveis foi por muito
tempo utilizado no estabelecimento de critérios de
projeto ligados à segurança. Segundo esse método,
em nenhum ponto da estnuura a tensão deveria
ultrapassar, em condição de utilização, a tensão
admissível do material (afastada da tensão de escoamento
ou ruptura por um apropriado coeficiente
de segurança). Dada a freqüente não-linearidade
das relações entre ações e tensões, particularmente
na iminência de um estado-limite último, o método
podia levar a soluções excessivamente conservadoras
em certos casos (de Zagottis, 1975).
Esse método, no entanto, nunca chegou a ser
largamente utilizado em Mecânica dos Solos e Engenharia
cie Fundações, exatamente pela dificuldade
histórica de determinação das tensões atuantes
nas estruturas de solo, que são em geral maciças,
ao contrário da grande maioria das estruturas
de concreto ou de aço que, sendo rcticuladas (vigas.
pilares etc.), podem ser analisadas por métodos
simplificados. De fato, enquanto quase todas
as estruturas cie concreto e aço podiam ser analisadas
pela Resistência dos Materiais, a Mecânica dos
Solos tinha que recorrer diretamente à Teoria da
Elasticidade (soluções tipo Boussinesq, Newmark,
Love etc.) e à Teoria da Plasticidade (soluções tipo
Prandtl-Reissncr, Kõtter, Sokolovsky etc.).
5.3.2.2 O método do equilíbrio-limite e sua
relação com o método dos estados-limites
Na Engenharia Geotécnica o método mais
freqüentemente utilizado foi sempre o método do
equilíbrio-limite. Nesse método o coeficiente de
segurança pode ser interpretado tanto como o
majorador de ações (coeficiente de segurança externo)
quanto como o minorador de resistências
(coeficiente de segurança interno) que conduziria
a estrutura à iminência de colapso.
Trata-se da normalmente denominada "segurança
contra a ruptura", traduzida nos critérios dc projeto
relativos à capacidade de carga. Compkmentamiente
exige-se a verificação contra deslocamentos
excessivos: a "segurança contra recalques" da
Engenharia de Fundações.
Casos há, porém, em que a previsão de deslocamentos
(que exige, normalmente, recurso pelo
menos a soluções da Teoria da Elasticidade) nào
chegou a se incorporar às rotinas de projeto. Os
muros de arrimo e as escavações escoradas enquadram-se
nessa categoria. Nesses casos adotam-se
regras empíricas de limitação de deslocamentos,
algumas das quais implicam fusão dos dois critérios
de segurança em um único, ligado ao equilíbrio-limite,
confonne se discutirá mais adiante.
A definição do coeficiente de segurança como
externo ou interno deu-se por tradição e pelos
condicionantes físicos: sempre que fazia sentido
multiplicar um carregamento por dois ou três (como
na avaliação da capacidade de carga de fundações),
parecia lícito aplicar um coeficiente de segurança
externo; por motivos óbvios tal definição
nào seria apropriada para situações em que o peso
próprio fosse o principal carregamento (estabilidade
de taludes, por exemplo).
Dessa forma, consagraram-se coeficientes de
segurança muito diferentes para medir seguranças
supostamente semelhantes. O gráfico da Figura
5.1 (Hõeg e Murarka, 1974) apresenta a com-
Figura 5.1 - Comparação de coeficientes de
segurança externo e interno
paração das duas possíveis definições do coeficiente
de segurança, numa situação em que, em
princípio, ambos seriam aceitáveis (capacidade de
carga de sapata). A não linearidade se deve exatamente
à já discutida nào linearidade entre ações e
tensões.
O método do equilíbrio-limite da Engenharia
Geotécnica encontra um paralelo bastante próximo
no método dos estados-limites adotado na fixação
de critérios de segurança das estruturas de
outros materiais (principalmente concreto c aço),
embora este último sc restrinja essencialmente a
coeficientes de segurança externos.
5.3.2.3 Coeficientes de segurança parciais: os
primórdios dos métodos probabilísticos
A indagação quanto à solidez dos argumentos a
favor da utilização de coeficientes dc segurança
internos ou externos levou naturalmente ao reconhecimento
explícito do caráter aleatório das ações
e das resistências e. conseqüentemente, à possibilidade
dc se utilizarem coeficientes de segurança
distribuídos entre as diversas variáveis c proporcionais
às respectivas incertezas.
Brinch Ilansen (1953, 1956, 1967) foi um pioneiro
dessa formulação na Mecânica dos Solos,
antes ainda que o assunto despertasse o interesse
do CEB e de outras associações de normalização
nacionais e internacionais.
As idéias probabilísticas floresceram no CEB,
principalmente graças a Eduardo Torroja, cujas
pesquisas em muito contribuíram para a expressão
desses conceitos dc segurança na forma dc
regras práticas para a normalização.
O CEB traçou um caminho para a evolução dos
critérios de projeto relacionados à segurança, de
forma que eles sc tornassem progressivamente mais
racionais. Iíachich (1978) apresenta um resumo
dessa proposta. O primeiro passo seria o método
semiprobabilístico.
dição de verificação da segurança é que as solicitações
de cálculo nào excedam as solicitaçõcs-limites
de cálculo.
Sempre que se utilizava um coeficiente de segurança
único ficava explícita uma medida da segurança.
A qualidade dessa medida era discutível
e discutida (Hachich, 1978, de Zagottis, 1975). O
gráfico da Figura 5.2 (Laçasse e Goulois. 1989)
deixa claro que o coeficiente de segurança realmente
não mede a segurança. A Figura 5.1 também
ilustra uma outra situação, com segurança
única, que comportaria valores bastante diversos
de coeficientes de segurança, dependendo da definição
adotada. No entanto, é inegável que os
profissionais da área já estavam acostumados a
conviver com as diferentes definições e com valores
dos coeficientes de segurança, cue dependiam
do tipo de obra. das variabilidades etc..
Com o método semiprobabilístico perdeu-se esse
indicador único. Na concepção do CEB, porém,
esse método era, num certo sentido, um aprimoramento
do denominado Nível I e deveria ser visto
apenas como uma etapa de transição para os métodos
probabilísticos de níveis II e III. Lamentável
é que no dia-a-dia do projeto (e da utilização mecânica
das normas) se perca de vista esse caráter
de transição e muitos dos conceitos probabilísticos
que nortearam as recomendações do CEB.
Probabilidade?]
dc mina j 1
^m h. c s F baixos
I
= /
m r c s p altos
Si i JÍ. ; i L_ i
1,0 1,5 2,0 2,5
Coeficiente de segurança, F
Figura 5.2 - Coeficiente de segurança vs. segurança
5.3.2.4 O método semiprobabilístico
A introdução do método semiprobabilístico para
as estruturas de concreto e aço praticamente consagrou
a utilização de coeficientes de segurança
parciais. É difícil fugir, atualmente, a essas formulações,
mesmo na Engenharia Geotécnica. A NBR-
6122, por exemplo, admite tanto a utilização de coeficientes
de segurança globais quanto parciais.
A essência do método semiprobabilístico e transformar
valores característicos das grandezas em
valores de projeto (isto é, valores extremos) pela
aplicação de coeficientes de ponderação. O método
semiprobabilístico introduz ainda um coeficiente
de ponderação, avaliado empiricamente, relacionado
com as conseqüências da ruína. A con-
5.3.3 Métodos probabilísticos
Ao mesmo tempo, diversas propostas de formulação
da segurança em termos probabilísticos surgiam
no âmbito da Mecânica dos Solos e Engenharia
dc Fundações, algumas das quais já
correspondiam aos níveis mais avançados
visualizados pelo CEB (Corncll. 1971. Wu c Kraft,
1967, Wu, 1974, Hõeg e Murarka, 1974, Kay e
Krizek, 1971, Lumb, 1970, Nascimento e Falcão,
1971). A obra magistral de Benjamin e Corncll
(1970) é, sem dúvida, um dos marcos mais relevantes
desse processo.
O conjunto desses trabalhos também apontava
para uma possível evolução em etapas:
• determinação da variabilidade dos coeficientes
de segurança (isto é, seu desvio padrão, s p), particularmente
através de métodos de primeira ordem
e momentos de ordem 2 (First Order Second
Moment) ou através de simulações (Monte Cario);
•substituição dos coeficientes de segurança prescritos
por índices de segurança prescritos, que
já incorporassem a variabilidade; o índice de segurança
é definido como p - (m p- 1) / s F, onde
m p e s p sào, respectivamente, a média e o desvio
padrão do coeficiente de segurança; p mede a
distância entre as situações de utilização (F -
m F) e de raína (F - 1) em unidades de desvio
padrão (s |;); como a variabilidade também está
incorporada ao índice, p guarda uma melhor relação
com a segurança do que o coeficiente de
segurança, havendo portanto melhores chances
de universalização dc um valor prescrito único
— ou quase único, já que o índice não incorpora
nem o tipo de distribuição probabilística nem
a responsabilidade da obra, ou seja, as conseqüências
de uma eventual ruína — de p (valores
próximos de 3 sào freqüentemente citados);
•substituição de índices de segurança prescritos
por probabilidades de ruína prescritas, após a
adoção criteriosa de funções densidade de probabilidade
para o cálculo da probabilidade de
ruína, P[F<U - p;
•substituição das probabilidades dc ruína prescritas
por probabilidades de ruína decorrentes
da minimização do custo esperado,
C, - C, + p • C, onde C, é o custo inicial (custo
de cons:n.çào) e C o custo de uma eventual
ruína, que pode sobrevir com probabilidade p;
C, aumenta quando se impõe segurança maior
(p menor), mas a curva C, = f(p) passa por um
mínimo, que define a segurança (p) economicamente
mais eficiente.
Esse continua sendo, na opinião do autor, um
caminho seguro na direção de melhores critérios
de projeto relacionados à segurança.
5.4 TIPOS DE INCERTEZA
As incertezas presentes nos projetos dc fundações
c escavações podem ser classificadas em:
•intrínseca: é a incerteza natural ou fundamental,
proveniente da própria alcatoriedade dos
fenômenos naturais (ventos máximos anuais,
padrões geológicos de deposição ou de
intemperismo etc.);
• estatística: é a incerteza na estimativa dos
parâmetros dos modelos adotados (por exemplo,
resistência média do solo de fundação), proveniente
da falta ou insuficiência dc dados ou
informações; pode ser reduzida à custa dc
amostragens maiores;
• de modelo: é a incerteza quanto ao modelo
adotado para descrever o fenômeno; cabe acjui
ressaltar que há dois tipos de modelo em jogo e
que há incertezas em ambos:
• o modelo físico de comportamento, por exem
pio, os mecanismos de desenvolvimento de
empuxos em paredes de escavações;
• os modelos probabilísticos (normal, log-normal,
cxponencial, binomial, Poisson etc.) utilizados
para descrever as variáveis aleatórias
do modelo físico (por exemplo, a distribuição
de resistência do solo de fundação).
A incerteza de modelo também pode ser reduzida
pela obtenção dc dados adicionais, mas raramente
os benefícios potenciais para um projeto
único justificam o investimento necessário para
se obter essa redução. Soluções de Engenharia
resultam sempre de uma simbiose entre
racionalismo c empirismo. O engenheiro em geral
concebe um modelo de comportamento — baseado
em sua experiência — e adota soluções com
base nesse modelo, mesmo reconhecendo que
modelos mais complexos talvez pudessem descrever
melhor os fenômenos físicos. Para que ele
concorde cm utilizar modelos mais sofisticados, é
indispensável que lhe sejam claramente indicadas
as vantagens práticas desses modelos. E, como se
sabe, modelos mais complexos exigem um maior
número de parâmetros. O custo dos ensaios adicionais
necessários à determinação dos novos
parâmetros pode nào se justificar perante a redução
das incertezas (isto é, perante a possibilidade de
utilização de coeficientes de segurança menores).
Entre as incertezas de modelo (ou de método
de cálculo) há uma que nào pode deixar ds ser
discutida aqui.
Qual o significado dos coeficientes de segurança
utilizados nos cálculos de empuxos? Seguramente
não estão eles ligados exclusivamente às
incertezas das variáveis envolvidas no cálculo das
solicitações e das solicitações-limites. Há um interesse
inequívoco em forçar uma maior distância
em relação ao estado-limite último nào pelos riscos
impostos pela variabilidade das ações e resistências,
mas pela necessidade de limitação de
deslocamentos. 'Irata-se tipicamente da segurança
contra um estado-limite de utilização que está
sendo introduzida através de critérios aplicados
ao estado-limite último, simplesmente devido a
dificuldades de análise ligadas à avaliação do
campo de deslocamentos.
Situação semelhante ocorre no projeto de estruturas
de solo reforçado, quando se escolhem diferentes
coeficientes parciais de segurança. Uma hipótese
bastante comum consiste em considerar um
coeficiente parcial muito elevado para a resistência
do elemento dc reforço aos esforços transversais
(cortante e fletor). No limite essa resistência chega
a ser desprezada (coeficiente com valor infinito).
Essa restrição é claramente desproporcional à incerteza
na determinação dessas resistências. No
Brasil, a não utilização de ensaios prcssiométricos
poderia justificar uma incerteza um pouco maior,
mas é evidente que a explicação não é essa, posto
que o mesmo procedimento em relação aos coeficientes
parciais prospera também na Europa. A prática,
conforme muito bem explicado por Cardoso e
Fernandes (1986), se deve ao fato de a resistência
à tração nos elementos de reforço ser mobilizada
para pequenas deformações, enquanto deformações
muito maiores são necessárias para mobilizar
a resistência à flexão e ao cone. Assim sendo, quando
se pretende que o talude tenha deslocamentos
pequenos, convém impor que somente os esforços
de tração desenvolvidos no reforço sejam responsáveis
pela estabilidade, o que normalmente
se faz considerando apenas essa contribuição do
reforço na análise de equilíbrio-limite. É essa, por
exemplo, a hipótese do processo dc Davis (Shcn
et al., 1981). E, mais uma vez, a segurança contra
um estado-limite dc utilização é introduzida num
critério dc estado-limite último.
Conforme se pode observar, as incertezas incorporadas
aos indicadores de segurança vão muito
além da mera descrição da variabilidade das grandezas
envolvidas.
5.5 O PAPEL DOS MODELOS
PROBABILÍSTICOS
5.5.1 Considerações preliminares
Conforme já se discutiu, diante do caráter incerto
dos parâmetros c dos modelos físicos que descrevem
o comportamento das fundações, os modelos
probabilísticos estão no cerne da questão
da segurança e, ccrtamcnte, estão no futuro da
maioria das normas.
A utilização de coeficientes de segurança ou de
coeficientes de ponderação só pode ser vista como
uma etapa intermediária durante a qual não é ainda
prático (por falta dc dados ou dc familiaridade)
estabelecer prescrições em termos
probabilísticos (Borges e Castanheta, 1971).
As prescrições dc nonnas devem, dc fato, fazer recomendações
relacionadas com a segurança que garantam
transições suaves para novos métodos. Devem,
ao mesmo tempo, basear-se em informações as
mais completas possíveis sobre cada assunto.
Em particular quanto â segurança, não há outra saída
para a especificação racional de coeficientes dc segurança
e amostragem senão a utilização de modelos
prolxibilísticos, confonnc se exemplificará a seguir.
5.5.2 Segurança de grupos de estacas como
um problema de confiabilidade de sistemas
É freqüente ouvir-se falar que estacas que trabalham
isoladamente, com cargas mais elevadas,
representam um risco maior do que estacas menos
carregadas, trabalhando em gripo.
As normas, no entanto, dificilmente traduzem
esse fato em recomendações práticas de coeficientes
de segurança mais elevados (sejam eles parciais,
sejam eles globais) para estacas isoladas (ou em gnipos
menores).
Para que se possa chegar a uma recomendação
útil é preciso passar das especulações qualitativas
às quantificações, para as quais os modelos
probabilísticos são o único caminho.
Fsse problema é tratado a seguir na forma de
um exemplo hipotético de escolhi, entre grupos
de cinco ou de duas estacas para suportar um pilar
com uma carga de trabalho de 2000 kN.
As hipóteses que se fazem a seguir são extremamente
simplistas e visam exclusivamente a chamar
a atenção para o potencial de racionalização
oferecido pelos modelos probabilísticos.
Admite-se que o estado-limite último de um pilar
será atingido se estacas responsáveis por pelo
menos 33% da carga de trabalho do pilar atingirem
os respectivos estados-limites últimos. A ruína
dc blocos de até 3 estacas já é caracterizada,
portanto, pela ruína de uma única estaca, enquanto
blocos de 4 a 6 estacas ruirào se pelo menos 2 das
estacas ruírem, e assim por diante.
Sc se imaginasse que as probabilidades de mina
de cada estaca de um bloco fossem eventos
independentes, seria muito significativa a redução
das probabilidades de ruína dos blocos maiores,
mesmo para probabilidades de ruína individuais
relativamente altas. O gráfico da Figura 5.3,
por exemplo, foi desenvolvido para P|EJ = p =
0,02 = probabilidade de ruína individual da estaca
(observar que o eixo das ordenadas está em
escala logarítmica). É intuitivo que o efeito real
não é tão pronunciado; a questão está exatamente
na hipótese de independência.
1.00E-01
2 1.00E-02
o
"O
~ 1.00E-03
« 1.00E-04
0
!2
1 1.00E-05
I
1.00E-06
1 2 3 4 5 6 7 8 9
Número de estacas no bloco
Figura 5.3 - Probabilidade de ruína de blocos de
estacas mutuamente independentes
Quando se fala na ocorrência de dois eventos,
F, e E^ (ruína da estaca 1 e ruína da estaca 2), vale
a seguinte relação probabilística:
PIE, nH,] = P[E2|H|] • PIE,)
Somente se os eventos sào independentes a probabilidade
da interseção será igual ao produto das
probabilidades individuais, pois somente nesse
caso tem-se P[E 21 E,| - PlEJ. Observe-se, aliás, que
no caso de dependência perfeita tem-se P[E 21 EJ
- 1 e, em conseqüência, a probabilidade da interseção
permanece exatamente igual à probabilidade
individual.
A hipótese de independência nào se verifica,
em geral, para os grupos de estacas. De fato, ainda
que seja lícito admitir a independência quanto
ao comportamento estrutural das estacas, o
resultado final está também influenciado pela
interação estaca-solo e a variabilidade relativamente
pequena das condições do subsolo sob
um único bloco certamente introduz um certo
nível de dependência.
Para explorar esse ponto tratou-se a ruína de
cada estaca como um problema de confiabilidade
de sistema. Trata-se de um sistema associado em
série (como elos de uma corrente). A probabilidade
do evento E, ruína da estaca, pode ser calculada
como a probabilidade da união dc dois eventos:
ruína do elemento estrutural (C) ou ruína da
interface (S):
PIEL = P(SUCL = L-P(S C NC C ],
onde S c e C <: indicam as probabilidades complementares
(de não ocorrência das ruínas respectivas).
Como S e C podem ser considerados eventos
independentes, pode-se ainda escrever:
PIEI = 1 - (1 - PISD • (1 - PÍCl) = + p c - p s • p (:.
O raciocínio pode ser então estendido para duas
estacas de um mesmo bloco, para se obter
P[E, n E J. Na dedução admitiu-se P(C, | C,1 = P(CJ,
isto é, comportamento estrutural independente, e
P[S 21 S,1 = p N\ A expressão final fica:
PIE, n E 2] = p c.[p c+2.p vCl-p c)]+(p s\p s).(l-2.p c+ p c=)
Na Tabela 5.1 apresentam-se as probabilidades
dc ruína de duas estacas e da estaca individual,
calculadas a partir das expressões acima deduzidas,
para diversas probabilidades dc ruína do elemento
estrutural e para uma probabilidade de ruína
fixa da interface. Os valores escolhidos, mais uma
vez, sào meramente ilustrativos. Admitiu-se uma
variação de p s* entre p s (independência) e 1 (dependência
perfeita).
Voltando ao exemplo hipotético, a ruína do bloco
de 5 estacas seria deflagrada pela ruína de pelo
menos duas delas, enquanto a ruína de uma única
já bastaria para caracterizar a ruína do bloco de
uma estaca. No intuito de nào complicar em demasia
o exercício, adotou-se a probabilidade de
ruína de exatamente duas estacas como se fosse a
probabilidade dc ruína de pelo menos duas estacas.
Para probabilidades baixas como aquelas aqui
consideradas o erro é pouco significativo.
Como as conseqüências da ruína de um bloco
podem ser consideradas semelhantes, seja ele de
duas ou de cinco estacas, um critério plausível
para sc chegar a um projeto equilibrado seria impor
que ambos os blocos tivessem a mesma probabilidade
de ruína. Considerando-se que estivessem
adequadas as probabilidades de ruína do bloco
de 5 estacas, procuram-se portanto os coeficientes
de segurança a serem aplicados ao bloco de
2 estacas para que a sua probabilidade de ruína
seja reduzida aos mesmo níveis.
Os cálculos foram efetuados a partir dos dados
da terceira coluna da Tabela 5.1, isto é,
correspondem a PlCJ=0,01. Além disso adotou-se
como referência a situação extrema de independência
(segunda linha, correspondente a p s* = p s
= 0,01), para a qual P[E, n EJ = 3,96 . 10 \ investigando-se
quais os incrementos de coeficiente de
segurança necessários para reduzir a esse mesmo
valor as probabilidades de ruína das estacas de-
Tabela 5.1 I Probabilidades de ruína de duas estacas e de estaca única em função das probabilidades de ruína dos
componentes. P(CJ {elemento estrutural] e P(S] (interface), para PJSJ = p $ = 0.01
Probabilidade dc
rufna estrutural
P(C ]=> 1.00E-03 1.00E-02 5.00E-02 1.00E-0 7
P[S2|S1j = p,- U
I.00E-02 I.2IE-04 3.96-E-04 3.54E-03 IJ9E-02
2.00E-01 2.02E-03 2.26E-03 5.26E-03 I.34E-02
4.00E-01 4.0ÍE-03 4.22E-03 7.06E-03 I.50E-02
6.00E-0I 9.0IE-03 6.I8E-03 8.87E-03 1.67E-02
8.00E-01 8.00E-03 8.I4E-03 1.07E-02 I.83E-02
I.00E+00 1.003-02 I.0IE-02 I.25E-02 I.99E-02
única 1,10E-02 I.99E-02 5.95E-02 I.09E-01
pendentes (0,2 <, p s* < De da estaca única. Para
tanto admitiu-se que todos os valores da Tabela
5.1 derivassem de um único tipo de distribuição
do coeficiente de segurança e que a redução das
probabilidades fosse obtida exclusivamente pelo
aumento do coeficiente de segurança médio,
mantida constante a dispersão. Adotou-se distribuição
normal para os coeficientes de segurança,
invocando o Teorema do Limite Central. Todas
essas hipóteses encontram respaldo na física da
interação estaca-solo.
A Figura 5.4 apresenta os resultados obtidos,
para três valores de referência do coeficiente de
segurança médio. No eixo das abscissas a afinidade
entre as estacas do par é representada pela
probabilidade condicional, p s\
5
0I *
0,01 0,2 0,4 0,6 0,8 1,0 Única
Afinidade entre estacas do grupo (p' s)
Figura S.4 - Variação do coeficiente de segurança de
blocos de estacas para manutenção da mesma segurança
Conforme se pode observar, em alguns casos
seriam necessários incrementos significativos no
coeficiente de segurança. No entanto, mais do que
os valores específicos, fica a proposta de uma
metodologia para tratamento quantitativo da questão
de segurança de grupos de estacas.
5.5.3 Interpretação de
provas de carga
5.5.3.? Conceituação
As provas de carga ocupam um lugar à parte na
questão da segurança.
Cabe discutir, inicialmente, a diferença entre provas
de carga destinadas a dirimir dúvidas sobre o
comportamento de elementos de fundação específicos
e aquelas destinadas a verificar a conformidade
da obra de fundação executada às premissas
do projeto.
As primeiras merecem uma interpretação "ad
hoc" e as decisões dependem das características
de cada caso específico: reservas da fundação sob
o ponto de carga considerado, reservas da estrutura
e possibilidades de redistribuição de esforços
etc. Um resultado insatisfatório de uma prova
de carga do primeiro tipo não é, via dc regra, estendido
a toda á obra; afinal, a prova de carga foi
realizada porque foram levantadas suspeitas a respeito
de um particular elemento. Não é ponto pacífico,
porém, que o eventual defeito esteja restrito
àquele elemento e muitos consultores solicitam,
na seqüência, provas de carga sobre outros
elementos.
Já as provas de carga do outro tipo destinam-se
a confirmar se o elemento de fundação consegue
suportar a carga de trabalho prevista, com o coeficiente
de segurança adequado (segurança contra
estado-limite último) e com deslocamentos aceitáveis
para a superestrutura (segurança contra estado-limite
dc utilização).
Nesse tipo de prova de caiga espera-se que o resultado
de um elemento de fundação, seja ele
satisfatório ou insatisfatório, revele algo sobre o comportamento
de todos os demais elementos. Afinal,
embora haja chances de o subsolo reservar surpresas
de origem geológica, as estacas foram fabricadas,
eventualmente transportadas e instaladas pelo mesmo
fornecedor, sendo de se esperar, portanto, alguma
afinidade de comportamento entre elas.
A interpretação das provas de carga pode ser
vista, nesse caso, como um problema de infcrência
estatística, dc indução do comportamento da população
a partir do comportamento de uma amostra,
tal como se faz (com amostras bem maiores!;,
no controle tecnológico do concreto, para aceitação
ou rejeição de um lote.
No âmbito da Engenharia da Qualidade esse problema
recebe, cm geral, um tratamento baseado
nos testes de hipótese da Estatística clássica. Alternativamente
ele pode receber o tratamento da
Estatística bayesiana. O autor é francamente favorável
a esta última, particularmente para situações
de pequenas amostras e de eventos únicos, aos
quais nào se aplica a definição frecüencia lista de
probabilidade. A maior parte das decisões da Engenharia
Civil está ligada a eventos desse tipo, em
que a probabilidade só pode ser vista como um
grau dc convicção racional, ou grau dc confirmação
(Borges e Castanhcta, 1971). raramente
como uma freqüência relativa. Para tais situações
a Inferência Bayesiana e a Análise de Decisões
parecem ser as ferramentas mais adequadas
(Hachich, 1988). De qualquer forma, ambas as visões
sào apresentadas a seguir.
5.5.3.2 Provas de carga como um problema de
inspeção por amostragem da Estatística clássica
De acordo com os testes de hipótese da Estatística
clássica, em toda inspeção por amostragem todos
correm algum risco: o fornecedor pode ver rejeitado
um lote satisfatório (erro tipo I, com probabilidade a);
o consumidor pode aceitar um lote inadequado (erro
tipo II, com probabilidade 0). Esse é o preço inevitável
de não se fazer uma inspeção 100%.'
Pior do que isso. quando se tenta reduzir o
risco do fornecedor, reduzindo a, aumenta-se
simultaneamente o risco do consumidor.
Wonnacott c Wonnacott (1977) apresentam uma
interessante analogia jurídica: num caso de assassinato
cabe ao júri decidir entre a hipótese
de inocência e a dc culpa do acusado. Um erro
tipo I será cometido se um inocente for condenado,
enquanto um erro tipo II resultará da absolvição
de um assassino. A advertência do juiz
ao júri dc que a culpa deve ser provada além de
qualquer dúvida razoável significa exatamente
que o valor de a deve ser muito pequeno. Diversas
limitações ao trabalho da polícia, por
exemplo na obtenção de confissões, visam exatamente
reduzir a. Essas mesmas medidas, no
entanto, aumentam (5. A única forma de reduzir
simultaneamente ac P é com evidências adicionais.
No caso da inspeção por amostragem, só com
amostras maiores.
Dado que fornecedor e consumidor correm riscos
na inspeção por amostragem, e que as objetivos
são conflitantes (nào sc reduz (5 sem aumentar a), é
importante que as decisões a serem tomadas em função
dos resultados sejam claramente estabelecidas
"a priori" c que essas decisões sejam balanceadas,
de modo a não apenar desmesu rada mente nenhuma
das partes. A principal crítica aos métodos da
Estatístic a clássica está exatamente na sua incapacidade
de ponderar explicitamente essas decisões para
a fixação do nível do teste, a.
Figura 5.5 compara duas curvas características
de operação (CCO) de planos de amostragem, indicando
os correspondentes níveis de qualidade
e riscos do produtor c do consumidor. As CCO,
que sào a representação gráfica do plano de
amostragem, sào obtidas a partir dos testes de hipótese
da Estatística, dc acordo com o modelo
probabi lis tico do experimento. No caso dc inspeção
por atributos, por exemplo, em que o resultado
de cada ensaio é simplesmente sucesso ou fracasso,
pode-se adotar o modelo de Poisson se as frações
dc amostragem (razão entre o tamanho da amostra
e o tamanho do lote) forem inferiores a 10%. Conforme
indicado na figura, curvas mais íngremes reduzem
os riscos de ambas as partes, mas só podem
ser obtidas através de planos de amostragem mais
rigorosos: amostras maiores (maior n) ou critério de
aceitação menos complacente (menor a).
Ni ma primeira aproximação poder-se-ia pensar
cm estabelecer como meta a obtenção de um ní--
vel de segurança semelhante para as diversas obras
'A inspeção 100)6 só é economicamente viável em estacas
cravadas, através do monitoramento dinâmico. As conseqüências
práticas da diferença entre a inspeção por
monitoramento dinâmico e a inspeção por prova de carga
serão discutidas no item 5.^.3.4.
planos de amostragem
de fundações, ou seja, garantir que a porcentagem
dc elementos defeituosos em uma obra, p,
nào excedesse um certo limite (QL na Figura 5.5).
Esse critério será adotado temporariamente, até
que, mais adiante, se demonstre que há outro mais
condizente com a prática cm vigor.
A probabilidade de 5% é muito utilizada, no contexto
da segurança, para definir valores característicos.
Uma primeira idéia seria, portanto, fixar QL
cm 5%. Conforme sc verá, porém, essa escolha
levaria, segundo critérios estatísticos clássicos, a
planos de amostragem totalmente incompatíveis
com a prática atual. Nos exemplos a seguir apresentados
adotar-se-á, por conveniência, QL=33%.
Embora esse valor já tenha sido adotado no item
5.5.2, não se trata dc uma recomendação cb autor.
Pelo contrário, à primeira vista parece que o
nível de segurança aceitável deveria estar associado
a um valor bem menor. A intenção do autor é
exatamente suscitar a discussão em torno das hipóteses
nào declaradas e dos valores implícitos
nos planos de amostragem vigentes.
Considere-se, como referência, uma obra com
60 estacas de um determinado tipo. Três dessas
estacas devem ser submetidas a provas de carga,
de acordo com a NBR-6122 (cm função do tipo dc
estaca escolhido e da carga de trabalho;. A norma
não é explícita quanto ao critério de aceitação
(como seria desejável), mas supõe-se que a obra
só será considerada segura se todas as três provas
de carga apresentarem resultados satisfatórios.
Com QL=33%, n-3 e a=0 chega-se a p =30%: há
30% dc chance dc o consumidor considerar
satisfatória uma obra com mais de 20 (33% de 60)
estacas defeituosas! Sc a obra tivesse 200 estacas
(c, portanto, 10 provas de carga), ter-se-ia P=],8%.
Esses números demonstram que a fração dc
amostragem constante (5% no caso), com nível de
segurança constante (QL=33% no caso), nào garante
riscos uniformes em obras dc diferentes
portes. Exemplos ilustrativos semelhantes a esse
sào muito comuns nos textos clássicos de controle
da qualidade (Juran, 1980). sempre para
desqualificar planos com fração de amostragem
constante. Mas é um fato que se utilizam amostras
maiores cm obras maiores, exatamente para reduzir
os riscos para ambas as partes (CCO mais
íngreme na Figura 5.5). Ou seja, a meta básica
parece não estar relacionada simplesmente com o
nível de segurança, mas também com o nível de
risco. A Estatística clássica não fornece, todavia,
nenhum critério objetivo para a fixação do nível
de risco. Fsscs níveis acabam sendo adotados por
tradição ou consenso, e vão sendo devidamente
validados c ajustados ao longo dos anos, em função
do desempenho obtido. É assim que se deveria
proceder também no caso de fundações, caso
se pretendesse evoluir num plano de amostragem
fundamentado na Estatística clássica. No que se
segue se adotará provisoriamente (5 =10%, que é
um valor do erro tipo II freqüentemente encontrado
em controle da qualidade.
Voltando agora à questão do valor de QL: se no
exemplo acima se adotasse QL-5%, seriam necessárias
45 provas de carga para que [J ficasse limitado
a 10%. Esse número de provas de carga
corresponderia a uma fração de amostragem de
75% na obra menor e de 22,5% na obra maior
(admitindo-se, para nào perder o foco da questão
principal, que continuasse válido o modelo
probabilístico adotado)! Como ninguém pensaria
seriamente em especificar um tal número de provas
de carga, fica patente a necessidade de uma
discussão técnica para fundamentar a fixação de
QL, ou seja, para definir o nível de segurança aceitável
(além do nível de risco, conforme discutido
acima).
Discute-se a seguir o ajuste da fração de
amostragem ao nível de solicitação das estacas.
Retomando o exemplo da obra com 200 estacas e
10 provas de carga, e considerando agora P =10%,
chega-se a QL=20%. Se aquelas 200 estacas fossem
substituídas por 100 com carga de trabalho
duplicada, seriam necessárias as mesmas 10 provas
dc carga, pois para estacas com cargas de trabalho
maiores a NBR-6122 recomenda fração de
amostragem de 10%. A essa recomendação
corresponde, portanto, o mesmo QL= 20%, ou seja:
apesar da maior responsabilidade das estacas com
maior carga de trabalho, o aumento da fração dc
amostragem nào foi suficiente para garantir uma
redução da fração de estacas com comportamento
insatisfatório. A melhor forma de se levar em
conta a responsabilidade dos elementos de fundação
seria quantificando as conseqüências de uma
eventual ruína. Como a Estatística clássica nào favorece
a associação direta de probabilidades e conseqüências,
o assunto será retomado no próximo item.
Vale ressaltar duas limitações da discussão acima
apresentada. Em primeiro lugar, ela ficou restrita
a um único tipo de plano dc amostragem, a
denominada amostragem simples; a Norma Brasileira
dc Planos de Amostragem e Procedimentos
na Inspeção por Variáveis (NBR-5429) faculta a
utilização de outros tipos (dupla, múltipla etc.), de
modo a otimizar economicamente a inspeção. Em
segundo, a discussão privilegiou a ótica do consumidor,
principalmente cm função do tema do
presente capítulo: segurança. Todavia, o equilíbrio
do plano de amostragem depende igualmente
da consideração do outro extremo: o risco
do fornecedor e suas implicações econômicas.
Somente o tratamento global tem chance
de levar a um plano de amostragem que gere
segurança e qualidade, nào conflitos.
5.5.3.3 - Provas de carga como urr problema de
inferência bayesiana
A grande vantagem da Estatística bayesiana é o
abandono do conceito freqüencialista dc probabilidade
cm favor do conceito dc grau de convicção
racional. Graças a essa mudança de postura
torna-se possível emitir juízos probabilísticos sobre
eventos únicos e sobre parâmetros da população.
Por exemplo: na Estatística bayesiana podese
falar diretamente sobre a probabilidade de
uma particular estaca apresentar comportamento
insatisfatório. Para a Estatística clássica o estado
daquela estaca ou é satisfatório ou insatisfatório,
nào cabendo descrevê-lo probabilisticamente. Da
mesma forma, a Estatística clássica nào admite que
se trate como variável aleatória a fração dc estacas
defeituosas de um determinado tipo, pois essa
grandeza, como parâmetro de uma população,
seria uma constante, ainda que desconhecida; admitem-se
intervalos dc confiança e testes de hipótese
relativos a ela, mas esses próprios intervalos
é que sào aleatórios, por serem construídos a partir
das amostras. A diferença é realmente sutil à
primeira vista e nào deve preocupar muito o leitor.
Acredita-se que as conseqüências práticas dessa
mudança de postura, demonstradas pela sua aplicação
às questões formuladas no item anterior, conquistarão
o leitor para essa visão menos restritiva.
Uma outra característica fundamental das formulações
bayesianas é a idéia de que a amostra nào
precisa ser a única fonte de informações. Utilizando
o teorema de Bttyes é possível combinar as
informações disponíveis anteriormente à
amostragem com as informações ccntidas na própria
amostra (tecnicamente, com a função verossimilhança
da amostra) para se chegar a um nível
de conhecimento atualizado, posterior ã
amostragem.
Essa postura parece particularmente apropriada
à análise da questão dos planos dc amostragem.
Dc fato, se se especifica um plano de amostragem
mais rigoroso para um determinado tipo de estaca,
esse fato só se justifica em função de uma incerteza
maior — sentida ou pressentida — em relação
ao desempenho desse tipo de fundação. A
diferença entre a formulação clássica e a bayesiana
é que esta última permite que essa incerteza seja
explicitada c incorporada à análise.
O leitor será poupado dos pormenores
operacionais desse processo. Espera-se que seja
suficiente, neste contexto, informá-lo de que a incerteza
na fração de elementos defeituosos será
representada por uma distribuição probabilística
do tipo Beta. No caso presente há significativas
vantagens na escolha desse modelo probabilístico
(Benjamin e Cornell, 1970):
• ele é limitado inferior e superiormente, tal como
a fração de elementos defeituosos (que só pode
variar entre zero e um);
•a grande flexibilidade de formas da distribuição
Beta, em função dos valores dos seus parâmetros,
r e t, permite que praticamente qualquer expressão
de incerteza seja adotada para a situação
anterior à amostragem;
• considerando-se que cada prova de carga é um
experimento de Bernoulli, para o qual só há dois
resultados possíveis, sucesso ou fracasso, a função
verossimilhança da amostra (a função que
resume as informações contidas na amostra) é
do tipo binomial, que é conjugada da distribuição
Beta; do ponto de vista prático isso significa
que a aplicação do teorema de Bayes leva a uma
distribuição posterior que também é do tipo Beta.
Nas condições acima muito esforço computacional
é poupado, pois como a distribuição posterior
é do mesmo tipo da anterior, basta estabelecer
as relações que ligam os parâmetros de ambas
âs estatísticas da amostra: no caso em questão, o
número de elementos que constituem a amostra
(ou seja o número de experimentos de Bernoulli),
n, e o número de sucessos (elementos insatisfatórios),
s. Essas relações são simplesmente:
r" = s + r'
t n = n + t*
Mais uma vez, os números apresentados a seguir
são apenas indicativos, não prescritivos. Admita-se
que a informação anterior possa ser
traduzida por uma distribuição Beta com
parâmetros r' - 2 e t* - 8, isto é, BT<2,8). Essa
escolha significaria que a fração de elementos defeituosos
tem média 0,25 (2/8) e coeficiente de
variação 0,577; imagina-se portanto que uma em
cada 4 estacas possa apresentar defeito, mas não
se tem muita confiança nesse número (o coeficiente
dc variação é elevado).
Na obra com 60 estacas e três provas de caiga,
com n-3 e s-0, a distribuição posterior seria
BT(2,11). A média seria reduzida para 0,182. Na
obra com 200 estacas e dez provas de carga, com
n=10 cs=0, a distribuição posterior seria BT(2,18),
isto é, média 0,111. Estaria esse aumento do nível
de segurança compatível com a desejada redução
de riscos? A resposta a essa questão será postergada
até o final deste item, quando já terão sido
desenvolvidos o conceito bayes ia no de risco e o
critério de uniformização cio rísco.
Enquanto isso vale a pena investigar a resposta a
outra indagação formulada no item anterior: o que
aconteceria se se impusesse 0,05 como média posterior?
A distribuição posterior teria que ser BTC2/t0)
e, portanto, n«32 e s-0. Também aqui chega-se à
conclusão que esse nível de segurança, se adotado
indiscriminadamente, poderia vira exigir, em alguns
casos, um número exagerado de provas de carga.
E quanto ao ajuste da fração de amostragem ao
nível de solicitação das estacas? Conforme já se
discutiu no item anterior, se as 200 estacas da obra
maior fossem substituídas por 100 com carga de
trabalho aproximadamente duplicada, seriam necessárias
as mesmas 10 provas dc carga (1C% dc
100) e a média posterior de elementos defeituosos
seria exatamente a mesma, 0,111, apesar de se
pressentir um risco maior na utilização de estacas
de maior capacidade.
No contexto bayesiano entende-se que risco é
fruto de incertezas e conseqüências. Ainda que as
incertezas sejam grandes, se as conseqüências forem
pequenas, pequenos serão os riscos. Por outro
lado, se as conseqüências sào maiores, reduzir
riscos significa reduzir incertezas (ou probabilidades
de comportamento insatisfatório). Concluindo,
enquanto os riscos da Estatística clássica são
probabilidades (a e P), o risco na Estatística
bayesiana é um produto de probabilidade de ruína
(p) e custo da ruína (C).
Se foram utilizadas estacas com o dobro da carga,
pode-se, numa análise simplificada, imaginar que o
número médio de estacas por bloco foi reduzido à
metade. Grosso modo, pode-se supor que dobrou
o número de pontos de carga mais suscetíveis (com
três estacas ou menos) e que, portanto, o custo de
uma eventual ruína pelo menos duplicou, isto é:
C 2 = 2.C„
onde C, e C, são os custos dc eventuais ruínas das
obras com 200 e 100 estacas, respectivamente.
de ris-
Se se adotar o critério de uniformização
cos, tem-se:
P, • C 2 " P, * C .>
onde p, e p^ são, respectivamente, as probabilidades
de estacas defeituosas nas duas obras consideradas.
Com as hipóteses anteriores, chega-se a:
P 2sp,/2,
isto é, a distribuição posterior deveria ser, com
s=0, BT(2,36), o que exigiria n = 28, ou seja, 28
provas de carga.
Finalmente, voltando à questão das obras de
portes diferentes (60 e 200 estacas do mesmo tipo
e mesma carga de trabalho), será feita a hipótese
de que em ambas é semelhante o número médio
de estacas por bloco, de modo a não introduzir
outras variáveis no problema. O índice 1 refere-se
agora à obra menor c o 2, à maior. Fazendo-se a
seguinte hipótese simplificadora:
60 • C, = 200 • C,
e adotando-sc o critério de uniformização do risco
chega-se à seguinte relação entre p, e p^:
p i = 0,3 • p t,
segundo a qual p, = 0,0546. A esse valor
corresponderia uma distribuição posterior BT(2,37),
para a qual seriam necessárias 29 provas de carga.
Tào evidente quanto o aparente exagero dos
números dc provas de carga obtidos nos exemplos
devem ser as simplificações que levaram a
eles. Esses resultados sào, em parte pelo menos,
devidos à escolha dos parâmetros da distribuição
anterior. Vale a pena ressaltar, mais uma vez, que
as hipóteses simplificadoras e os valores numéricos
aqui adotados nào devem ser tomados como
prescrições: eles serviram meramente ao propósito
de minimizar dificuldades operacionais, para
que o" leitor pudesse se concentrar nos aspectos
conceituais e no potencial de aplicação da
metodologia proposta. Na prática, hipóteses e valores
deverão ser submetidos ao escrutínio dos profissionais
dos diversos setores da Engenharia de
Fundações antes de qualquer tentativa de
implementação. Em particular os parâmetros a serem
atribuídos às distribuições anteriores dos diferentes
tifxjs de estacas deveriam ocupar uma posição
central nessa discussão, dc modo a não penalizar
indevidamente nenbnma solução de fundação.
5.5.3.4 Teorema de Bayes, ensaios imperfeitos e
monitoramento dinâmico
Uma característica importante da Estatística
bayesiana é que todas as probabilidades sào, em
princípio, tratadas como probabilidades condicionais.
Considere-se, por exemplo, a probabilidade de
uma estaca apresentar a carga de ruptura prevista.
Na fase de projeto essa probabilidade é condicional.
entre outros fatores, aos dados disponíveis e
aos modelos de análise utilizados, ainda que não
se faca referência explícita a essa condicionalidade.
Depois da execução aquela probabilidade é condicional
às características efetivamente encontradas
no campo e às eventuais dificuldades encontradas.
Após uma prova de carga ou
monitoramento dinâmico ela é condicional ao
ensaio de campo.
Benjamin e Cornell (1970) apresentam vários
exemplos de aplicação do Teorema de Bayes à
interpretação dc resultados de ensaios. Nesse contexto
aquele teorema pode ser escrito como:
P[amostra | estado]. Píestadoj
Píestado | amostra] =
^Plamostra | estado]. Píestado]
estados
onde estado é a classificação (desconhecida) da
estaca e amostra se refere ao ensaio realizado.
Plestadol é a probabilidade anterior, isto é, anterior
ao ensaio: embora tamlx-m seja uma probabilidade
condicional, conforme se viu acima, nào há necessidade
de explicitar esse fato quando se está interessado
principalmente na intepretação do ensaio.
Píestado I amostra] é a probabilidade posterior ao
ensaio, ou seja. a probabilidade do estado devidamente
atualizada em função do ensaio realizado.
O denominador da expressão acima é simplesmente
uma constante normalizadora, para garantir que a
soma cias probabilidades dos diversos estados continue
sendo igual a 1. O fator de atualização é
Plamostra I estado], a informação contida no ensaio.
Plamostra I estado] é a probabilidade de ensaio
indicar um determinado estado, por exemplo, carga
de ruptura superior a 400 kN, quando a carga de
ruptura é, de fato, superior a 400 kN. Num ensaio
perfeito essa probabilidade seria 1, mas é evidente
que o ensaio perfeito é uma abstração.
Existem, na verdade, ensaios mais fx>rfeitos do
que outros. Via de regra os ensaios são tanto mais
dispendiosos quanto mais perfeitos, o que justifica
plenamente, do ponto de vista pragmático da Engenharia,
a utilização dos ensaios imperfeitos. É
necessário, no entanto, aferir ensaios imperfeitos
com ensaios menos imperfeitos, correlacionar resultados,
de modo que possam ser realistas as previsões
baseadas nos ensaios menos custosos. É evidente
que essas correlações têm que ser feitas a
partir de dados compilados de diversas obras, posto
que os ensaios mais dispendiosos sào realizados
com freqüência muito menor do que os demais.
São exatamente essas correlações que permitem que
sc conheça Plamostra I estado] para cada tipo de ensaio
imperfeito. Pode-se dizer que Plamostra I estado],
também chamada de verossimilhança do ensaio, é
uma medida da qualidade do ensaio.
Entre os ensaios de estacas pode-se considerar
que a prova de carga estática é tão perfeita quanto
praticamente factível, pois é a que mais se aproxima
das condições a que a estaca será submetida
ao ser solicitada pela edificação; é aquela cujos
resultados melhor refletem o estado real da estaca.
É portanto com ela que devem ser estabelecidas
correlações, para que as previsões efetuadas a
partir do monitoramento dinâmico, em suas diversas
formas, tenham chance de prever o estado
da estaca sob solicitação estática, que é o estado
em que se está interessado.
Exemplificando, se o monitorair.ento dinâmico
sugere carga de ruptura superior a 400 kN, é
necessário levar em conta a imprecisão do ensaio
antes de afirmar que aquele é o estado da
estaca. Nào se podem tomar decisões (tampouco
formular juízos probabilísticos) como se o
monitoramento dinâmico fornecesse diretamente o
estado da estaca.
Suponha-se, por exemplo, a matriz de verossimilhanças
da Tabela 5.2.
A aplicação direta do Teorema de Bayes, na forma
acima apresentada, permite determinar as probabilidades
posteriores ao ensaio que sugeriu car-
Tabela 5.2 I Exemplo de matriz de verossimilhança*
Estado
Resultado do ensaio > 400 < 400
sugere >400 0.7 0.2
sugere < 400 0.3 0.8
ga de ruptura superior a 400 kN. Ainda que se
admitisse que as probabilidades anteriores dos dois
estados fossem iguais, o que corresponderia a deixar
que toda a informação viesse exclusivamente
do ensaio, chegar-se-ia a:
Plestado > 4001 amostra sugere > 4001=0,78 e
Píestado<4001 amostra sugere>400J = 0,22
Matrizes de verossimilhança como aquela acima
apresentada podem ser obtidas diretamente a
partir de trabalhos como os de Aoki e Alonso
(1989) e de Selby et al. (1989). O segundo desses
trabalhos apresenta muito poucos casos de estacas
de concreto e no primeiro diversas cargas dc
ruptura de provas de carga estáticas foram determinadas
per extrapolação. Esse fato não invalida,
em absoluto, a utilização daqueles resultados; requer
simplesmente que se acrescente um nível adicional
de imprecisão devido à extrapolação (outra
aplicação do Tcorema de Bayes e outra matriz dc
verossimilhança). A dificuldade é meramente
operacional e de levantamento de dados, jamais
conceituai.
O Tcorema de Bayes permite, portanto, a formulação
de juízos probabilísticos corretos a respeito
do estado de um estaqueamento, através da
combinação dos resultados de ensaios de
monitoramento dinâmico com a expressão quantitativa
da imperfeição desses ensaios, que é a sua
função verossimilhança.
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FUNDAÇÕES 6 CONCEPÇÃO DE OBRAS DE FUNDAÇÕES | 21 1
DIRCEU VELLOSO/FRANCISCO DE REZENDE LOPES
7 ANÁLISE, PROJETO E EXECUÇÃO
DE FUNDAÇÕES RASAS | 227
ALBERTO HENRIQUES TEIXEIRA / NELSON SILVEIRA DE GODOY
8 ANÁLISE E PROJETO DE FUNDAÇÕES PROFUNDAS 1265
LUCIANO DÉCOURT /JOSÉ HENRIQUE ALBIERO
JOSÉ CARLOS ÂNGELO CINTRA
9 EXECUÇÃO DE FUNDAÇÕES PROFUNDAS 1329
CLÓVIS MARIO MOREIRA MALA/FREDERICO FALCONI/
NÉUO DESCIO FÍGARO/JOÃO MATHIAS DE SOUZA FILHO /
WILUAM ROBERTO ANTUNES/HÉLVIO TAROZZO /
JOSÉ LUIZ SAES / URBANO RODRIGUEZ ALONSO /
SIGMUNDO GOLOMBEK
1 0 FUNDAÇÕES SUJEITAS A ESFORÇOS DINÂMICOS 1409
JOSÉ MARIA DE CAMARGO BARROS/ WALDEMAR HACHICH
11 FUNDAÇÕES DE ESTRUTURAS "OFFSHORE" 1443
JAYME RICARDO DE MELLO /FRANCIS BOGOSSIAN
12 REFORÇO DE FUNDAÇÕES 1471
MA URI GOTUEB/JAIME DE AZEVEDO GUSMÃO FILHO /
CAPÍTULO 6
CONCEPÇÃO DE OBRAS DE FUNDAÇÕES
DIRCEU VELLOSO
FRANCISCO DE REZENDE LOPES
6.1 INTRODUÇÃO
Este capítulo aborda um tema muito amplo, que
requereria muito espaço para um tratamento
satisfatório, e muito difícil de ser apresentado de
forma sistemática. A concepção de fundações 6,
na realidade, um misto de ciência c arte. Assim,
dado o espaço disponível c a própria natureza do
tema. procurou-se abordar os principais aspectos
que devem ser enfocados pelo projetista e discutir
algumas opções disponíveis para solução do
problema de fundação.
6.2 ELEMENTOS NECESSÁRIOS
E CRITÉRIOS DE PROJETO
Elementos necessários para o projeto
Os elementos necessários para o desenvolvimento
de um projeto de fundações são:
(1) Topografia da Área
• Levantamento topográfico (planialtimétrico)
• Dados sobre taludes c encostas no terreno (ou que
possam, no caso de acidente, atingir o terreno)
• Dados sobre erosões (ou evoluções
preocupantes na geomorfologia)
(2) Dados Geológicos-Geotécnicos
• Investigação do subsolo (preferencialmente em 2
etapas: preliminar c complementar)
•Outros dados geológicos e geotécnicos (mapas,
fotos aéreas e levantamentos aerofotogramétricos,
artigos sobre experiências anteriores na área etc.)
(3) Dados da Estrutura a Construir
•Tipo c uso que terá a nova obra
• Sistema estrutural
• Cargas (ações nas fundações)
(4) Dados sobre Construções Vizinhas
• Tipo de estrutura e fundações
• Número de pavimentos, carga média por
pavimento
• Desempenho das fundações
• Existência dc subsolo
• Possíveis conseqüências dc escavações c vibrações
provocadas pela nova obra
Os conjuntos dc dados 1, 2 e 4 devem ser cuidadosamente
avaliados pelo projetista em uma
visita ao local de construção.
No caso dc fundações dc pontes, dados sobre o
regime do rio são importantes para avaliação de
possíveis erosões e escolha do método executivo.
Nas zonas urbanas, as condições dos vizinhos
constituem, freqüentemente, o fator decisivo na
definição da solução de fundação. E quando fundações
profundas ou escoramentcs de subsolos
sào previstos, o projetista deve ter uma idéia da
disponibilidade de equipamentos na região da
obra.
Ações nas fundações
As solicitações a que uma estrutura está sujeita
podem ser classificadas dc diferentes maneiras.
No exterior é comum separá-las cm 2 grandes
grupos:
(aj Cargas vivas, separadas em :
•cargas operacionais (ocupaçào, armazenamento,
passagem dc veículos, frenagens etc.),
• cargas ambientais (ventos, correntes etc.) e
• cargas acidentais (colisão, explosão, fogo etc.);
(b) Cargas mortas ou permanentes Ipeso
próprio, empuxo de terras e água etc.J.
Já no Brasil, a norma NBR 8681/84 ("Ações e
Segurança nas Estruturas") classifica as ações
nas estruturas em:
a) Ações permanentes: as que ocorrem com valores
constantes durante praticamente toda a vida
da obra (peso próprio da construção e de equipamentos
fixos, empuxos, esforços devidos a
recalques dc apoios);
b) Ações variáveis: as que ocorrem com valores
que apresentam variações significativas em torno
da média (ações devidas ao uso da obra, tipicamente);
c) Ações excepcionais: as que têm duração
extremamente cuita e muito baixa probabilidade
de ocorrência durante a vida da obra, mas que
precisam ser consideradas no projeto de
determinadas estruturas (explosões, colisões,
incêndios, enchentes, sismos).
A norma NBR 8681/84 estabelece critérios para
combinações destas ações na verificação dos estados-limites
de uma estrutura (assim chamados os
estados a partir dos quais a estrutura apresenta
desempenho inadequado às finalidades da obra):
a) estados-limitcs últimos (associados a colapsos
parciais ou total da obra);
b) estados-limites de utilização (quando ocorrem
deformações, fissuras etc. que comprometem
o uso da obra).
Requisitos de um projeto de fundação
Os requisitos básicos a que um projeto de fundações
deverá atender são:
a) Deformações aceitáveis sob as condições de
trabalho;
b) Segurança adequada ao colapso do solo de
fundação (estabilidade "externa ")-,
c) Segurança adequada ao colapso dos elementos
estruturais (estabilidade "interna").
Conseqüências do nào atendimento a estes requisitos
estão mostradas na Figura 6.1.
O atendimento ao requisito (1) corresponde à
verificação de um estado limite de utilização de
que trata a norma NBR 8681/8-1. O atendimento
aos requisitos (2) e (3) corresponde à verificação
de estados-limites últimos.
Outros requisitos específicos de certos tipos de
obra são:
a) Segurança adequada ao tombamento e
deslizamento (também estabilidade "externa"l, a ser
verificada nas casos cm que forças horizontais elevadas
atuam em elementos de fundação superficial;
b) Níveis de vibração compatíveis com o uso da obra,
a serem verificados nos casos de cargas dinâmicas.
6.3 ALTERNATIVAS DE FUNDAÇAO
As fundações sào convencionalmente separadas
em 2 grandes grupos:
• fundações superficiais (ou "diretas") e
• fundações profundas.
A distinção entre estes dois tipos é feita segundo o
critério (arbitrário) de que uma fundação profunda
é aquela cujo mecanismo de ruptura de base nào
atinge a superfície do terreno. Como os mecanismos
de ruptura de base atingem, acima da mesma, até 2
vezes sua menor dimensão, a norma NBR 6122 esta-
IxMeceu que fundações profundas são aquelas cujas
bases estão implantadas a mais de 2 vezes sua menor
dimensão, c a pelo menos 3 m de profundidade.
Fundações Superficiais
1
(b)
(c)
' *. • " . •
Fig. 6.t - (a) Deformações excessivas, (bj colapso do
solo e (c| colapsos dos elementos estruturais,
resultantes de projetos deficientes
Quanto aos tipos de fundações superficiais há
(Figura 6.2):
bloco— elemento de fundação dc concreto simples,
dimensionado de maneira que as tensões dc
tração nele produzidas possam ser resistidas pelo
concreto, sem necessidade de armadura;
sapata — elemento dc fundaçào dc concreto
armado, de altura menor que o bloco, utilizando
armadura para resistir aos esforços de tração;
viga de fundação — elemento de fundação
que recebe pilares alinhados, geralmente de con
creto armado; pode ter seção transversa, tipo
bloco (sem armadura transversal), quancb são
freqüentemente chamadas de baldrames, ou tipo
sapata, armadas;
grelha— elemento de fundação constituído por
um conjunto de vigas que sc cruzam nos pilares;
sapata associada — elemento de fundação que
recebe parle dos pilares da obra, o que a difere
do radier, sendo que estes pilares não são alinhados,
o que a difere da viga de fundação;
radier— elemento de fundação que recebe todos
os pilares da obra.
(a)
H
h-
o
•
® ° o
a
j .
(o) tt>) (O
O
ld) t») (f)
(c)
LJS L_A
(01 th) H)
Fig. 6.3 - Alguns tipos dc fundações profundas: cstacas
fa) metálicas, fb) prémoldadas de concreto vibrado, (cj
prcmoldada de concreto centrifugado, (d; tipo Franki c
tipo Strauss, (e) tipo raiz. (fj escavadas; tubulõcs |g) a céu
aberto, sem revestimento, (h) com revestimento dc
concreto c (i) com revestimento de aço
Fig. 6.2 - Principais tipos dc fundação superficial: (a)
bloco, [bj sapata, (cj viga e (d) radier
Fundações
Profundas
Já as fundações profundas são separadas em três
tipos principais:
estaca — elemento de fundação profunda executado
com auxílio dc ferramentas ou equipamentos,
execução esta que pode ser por cravação a percussão,
prensagem, vibração ou por escavação, ou, ainda, de
forma mista, envolvendo mais de um destes processos;
tubtdào — elemento de fundação profunda de
forma cilíndrica, em que, pelo menos na sua fase
final de execução, há a descida de operário (o
tubulão nào difere da estaca por suas dimensões
mas pelo processo executivo, que envolve a descida
de operário);
caixão — elemento de fundação profunda de
forma prismática, concretado na superfície e instalado
por escavação interna.
(a)
ÍA
(b)
IA
Fundações
Mistas
Sào fundações mistas aquelas que associam fundações
superficiais e profundas. Exemplos (Figura
6.4):
(c)
(d)
Fig. 6.4 - Alguns tipos de fundação mista: (a) estaca
ligada a sapata {"estaca T~), (b) estaca abaixo de
sapata ("estapata"J, (cj radier sobre cstacas c (d) radier
sobro tubulõcs
sapatas sobre estacas — associação de sapata
com uma estaca (chamada de "estaca T" ou
"estapata", dependendo se há contato entre a estaca
e a sapata ou nào);
radiers estaqueaclos — radiers sobre estacas (ou
tubulóes), que transfere parte das cargas que
recebe por tensões de contato em sua base e
parte por atrito lateral e carga de ponta das estacas.
6.4 ESCOLHA DA ALTERNATIVA DE
FUNDAÇÃO — CRITÉRIOS GERAIS
Algumas características da obra podem impor
um certo tipo de fundação. Este é o caso, por
exemplo, de uma obra cujo subsolo é constituído
por argila mole até uma profundidade considerável,
como mostrado na Figura 6.5a. cm que uma
fundação em estacas é a solução que se impõe.
Quanto ao tipo de estaca, haverá, em geral, algumas
opções a examinar.
Outras obras podem permitir uma variedade de
soluções. Nesse caso é interessante proceder-se a
um estudo de alternativas e fazer a escolha com
base em:
• menor custo e
• menor prazo de execução.
As sapatas e os blocos sào os elementos de fundação
mais simples e, quando é possível sua adoção,
os mais econômicos. Os blocos são mais econômicos
que as sapatas para cargas reduzidas,
quando o maior consumo de concreto é pequeno
e justifica a eliminação da armação. Nào há, porém,
qualquer restrição ao seu emprego para cargas
elevadas.
Uma fundação associada (viga, sapata associada
ou radier) é adotada quando:
• as áreas das sapatas imaginadas para os pilares
se aproximam umas das outras ou mesmo se
interpenetram (em conseqüência de cargr.s elevadas
nos pilares e/ou de tensões de trabalho
baixas);
• se deseja uniformizar os recalques (por meio de
uma fundação associada).
Quando uma ou as duas condições acima são
satisfeitas cm parte da obra, pode-se adotar a sapata
associada nesta área c fundações isoladas no
restante da obra. Quando sào satisfeitas em toda a
área da obra (ou por opção do projetista) pode-se
adotar o radier. Quando a área total dc fundação
ultrapassa metade da área da constmção, o radier
é indicado.
Quanto à forma ou sistema estrutural, os radieis sào
projetados segundo 4 tipos principais (Figura 6.6):
• radiers lisos
• radiers com pedestais ou cogumelos
• radiers nervurados
• radiers em caixão
Os tipos estão listados em ordem crescente de
rigidez relativa. Há ainda os radiers em abóbadas
invertidas, porém pouco comuns no Brasil.
Neste estudo de alternativas pode-se incluir
mais de um tipo dc fundação superficial — ou
mais de um nível de implantação — c mais de
um tipo de fundação profunda. Na avaliação de
custos e prazos é importante considerar escavações
e rcaterros, como mostrado na Figura 6.5bd.
Na Figura 6.5c estão mostradas duas possibilidades
de fundação superficial, sendo que aquela
implantada a maior profundidade tem menor
volume de concreto armado (devido a uma maior
tensào de trabalho) mas maior volume de terra
a movimentar e, caso ultrapasse o nível
d água, necessidade de rebaixamento do lençol
d água. A alternativa cm estacas (Figura
6.5d), por outro lado, pode apresentar menor
custo global se considerarmos o menor volume
rios bloros íle roroamenlo e o menor
movimento de terra. Assim, é válido se estudar
mais de uma alternativa e comparar custos
e prazos de execução.
r
(O)
6.4.1 Fundações Superficiais
h
a» (O «Si
Fig. 6.5 - Situações encontradas no estudo de alternativas
para fundação
tal
Ic)
• e
(b)
(d)
Fig. 6.6 - Principais tipos dc radicr: (aj liso. (bj com pedestais ou cogumelos, (c) com vigamento e (d) em caixão
6.4.2 Fundações Profundas
Exisle hoje uma variedade muito grande de estacas
para fundações. Com uma certa freqüência,
um novo tipo de estaca é introduzido no mercado
e a técnica de execução dc estacas está cm permanente
evolução. A execução dc estacas é uma
atividade especializada da Engenharia, c o projetista
precisa conhecer as firmas executoras e seus
serviços para projetar fundações dentro das linhas
de trabalho destas firmas.
A Tabela 1 abaixo apresenta uma classificação
dos tipos mais comuns de estacas, enfatizando o método
executivo, no que diz respeito ao seu efeito no solo.
O Apêndice 2 apresenta uma relação dos tipos
mais comuns dc estacas c suas cargas de trabalho
usuais, que pode servir para estudo dc alternativas.
Na consulta a este apêndice é preciso ter em
mente os seguintes pontos:
a) as caigas ali indicadas consideram apenas o aspecto
estrutural da estaca (estas caigas poderão não ser
atingidas cm função dc características do terreno);
b) essas cargas não sào específicas dc nenhuma
firma executora mas representam uma prática comum;
para efeito de projeto executivo, as cargas
devem ser verificadas junto às firmas executoras.
Tabela 11 Classificação dos principais tipos de estacas pelo método executivo
r
de madeira
grande
pré-moldadas
cravadas a percussão
deslocamento
de concreto
cravadas por prensagem
feravadas)
moldadas in situ > tipo Franki
de aço
» tubos de ponta fechada
perfis de aço
pequeno
deslocamento
concreto
moldadas in situ com
pré-furo
tipo Strauss
tipo raiz
pré-moldadas com
pré-furo
sem suporte
sem desfocamento
concreto
ferramentas rotativas
com uso de lama
(escavadas)
com revestimento
diafragmadora
com uso de lama
Escolha do Tipo dc Estaca
Na escolha do tipo dc estaca é preciso levar em
conta os seguintes aspectos:
(1) esforços nas fundações, procurando
distinguir:
• nível das cargas nos pilares;
• ocorrência de outros esforços além dos de compressão
(traçào e flexào).
(2) características do subsolo, em particular
quanto à ocorrência de:
• argilas muito moles, dificultando a execução de
estacas de concreto moldadas in-situ;
• solos muito resistentes (compactos ou com pedregulhos)
que devem ser atravessados, dificultando
ou mesmo impedindo a cravação de
estacas de concreto pré-moldadas;
• solos com inatações, dificultando ou mesmo
impedindo o emprego de estacas cravadas de
qi alquer tipo:
• nível Jo lençol d'ãgua elevado, dificultando a
execução de estacas de concreto moldadas insitu
sem revestimento ou uso de lama;
• aterros recentes (em processo tle adensamento)
sobre camadas moles, indicando a possibilidade
de atri.o negativo; neste caso, estacas mais
lisas ou com tratamento betuminoso sào mais
indicadas.
13) características do local da obra, em particular:
• terrenos acidentados, dificultando o acesso de
equipamentos pesados (bate-cstacas etc.);
• local com obstrução na altura, como telhados e
lajes, dificultando o acesso de equipamentos altos;
• obra muito distante de um grande centro, encarecendo
o transporte de equipamento pesado;
• ocorrência de lâmina d'água.
(4) características das construções vizinhas, em
particular quanto a:
• tipo e profundidade das fundações;
• existência dc subsolos;
• sensibilidade a vibrações;
• danos já existentes.
Esses sào alguns aspectos a considerar. Entretanto,
nào ha regras para escolha do tipo de estaca,
e vale muito a experiência local.
6.5 CONCEPÇÃO DE PROJETO E
CONDICIONANTES ESPECIAIS
Co íforme discutido no item anterior, é interessante
es'lidar mais de uma alternativa tle funda-
çào e comparar custos e prazos de execução. Entretanto,
a obra pode apresentar condicionantes
especiais que influenciarão desde o início a concepção
do projeto. Estes condicionantes especiais podem
ser, por exemplo, a existência de pilares junto
às divisas ou de pavimentos tle subsolo no prédio.
Passamos, nos próximos itens, a discutir a
concepção ou escolha de solução de fundação,
inicialmente quando nào há condicionantes especiais
e em seguida quando os há.
6.5.1 Edifícios sem Subsolo e Afastados
das Divisas
No caso de edifícios sem subsolo e afastados
das divisas, nào há condicionantes especiais e o
projetista precisa considerar, apenas, os critérios
gerais mencionados no item 6.4. Na Figura 6.7 estão
mostradas alternativas de fundação para um
prédio sem subsolo e afastado das divisas. A primeira
alternativa é constituída por fundações superficiais
isoladas (blocos ou sapatas) indicandose
duas possibilidades de profundidade de implantação.
A segunda alternativa é constituída poi fundação
superficial combinada (radier, p. ex.), taml>ém
com duas possibilidades dc implantação. Na
terceira, sào adotadas fundações profundas (estacas
ou tubulõcs).
No caso de escollia de fundação superficial (sapatas
ou radier), as escavações para sua implantação podem
ser taludadas, sem necessidade de escoramento. No
caso de fundação profunda, tem-se uma maior liberdade
de escollia do tipo a ser executado.
0)
ii
\ 3
« - k r - i
\ Ú
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jl
^ . Clü J_
A
Fig. 6.7 • Edifícios sem subsolo c afastados das divisas
6.5.2 Edifícios com Pilares na Divisa
No caso de edifícios sem subsolo mas que se
estendem até as divisas, é necessário um tratamento
especial dos pilares junto às divisas ama
vez que ali o elemento de fundação (sapata ou
estaca) nào poderá ter seu centro de gravidade
coincidente com o do pilar. Nestes pilares há que
se prever vigas de equilíbrio que os ligarão a pilares
internos próximos. A fundação associada que
resulta tem carregamento centrado em relação aos
elementos de fundação.
Na Figura 6.8 estão mostradas alternativas de
fundação para um prédio sem subsolo e que se
estende às divisas. Na primeira alternativa, constituída
por fundações superficiais isoladas (blocos
ou sapatas), estão indicadas as vigas de equilíbrio.
Quando as duas sapatas que serão ligadas
pela viga de equilíbrio se aproximam muito, é
preferível adotar uma fundação combinada (sapata
associada ou viga de fundação). O caso extremo
será a fundação em radier, em que nào há
necessidade da viga de equilíbrio (trata-se de uma
fundação capaz de absorver momentos). Na terceira
alternativa, em fundações profundas (estacas
ou tubulòes), também sào necessárias as vigas
de equilíbrio.
No caso de fundação superficial (sapatas ou
radier), as escavações próximas às divisas precisam
ser escoradas. No caso de fundação profunda, temse
que considerar quando da escolha do tipo, as
passíveis conseqüências do processo executivo.
obra
• pa redes-d i a fra g mas;
• paredes de estacas-pranchas de concreto (inviável
se vizinho já construído).
• paredes de estacas-pranchas de aço (pouco utilizadas
devido ao custo elevado);
• paredes de estacas justapostas (eu tangentes);
• paredes de estacas secantes.
Do lado direito da figura estão mostrados
cscoramcntos verticais do ti/x) descontínuo, que sào:
• parede de perfis e pranchões;
• paredes de estacas escavadas ("estações") com
concreto projetado ou colunas cie jet-grout entre
elas.
• •
u
••LJL JL j u í
Fig. 6.9 - Sistemas de escoramento vertical (paredes)
dc subsolos
Fig. 6.8 - Edifícios com pilares na divisa
6.5.3 Edifícios em Zona Urbana
e com Subsolos
No caso de edifícios em zona urbana com pavimentos
de subsolo, há que se prever um sistema
de escoramento da escavação para execução destes
pavimentos. Estes pavimentos geralmente se
estendem até as divisas e vamos supor que os
vizinhos já estejam construídos.
Inicialmente tem-se que escolher (i) o
de escoramento e (ii) o método executivo.
sistema
Sistema de Escoramento
Na Figura 6.9 estão mostrados, do lado esquerdo,
os sistemas de escoramento vertical (paredes)
do tipo continuo, que são:
Os sistemas de escoramento horizontal sào basicamente
três :
• tirantes ou ancoragens;
• estroncas (em aço ou madeira);
• lajes da estrutura.
Na Figura 6.10a estão mostrados os dois primeiros
tipos e na Figura 6.10b aparecem lajes da estrutura
servindo de apoio para as paredes.
Métodos Executivos
Quanto ao método executivo
tipos :
• método direto ou convencional;
• método invertido.
há basicamente dois
Os dois métodos estão ilustrados nas Figuras 6.10
e 6.11. Na Figura 6.10a está mostrada a primeira
etapa da obra executada por método convencional,
em que a escavação avança até a cota final,
com o escoramento horizontal promovido por ti-
rantes ou es troncas. Numa segunda etapa (Figura
6.10b), a estrutura do prédio começa a ser executada,
de baixo para cima, e os escoramentos provisórios
passam a ser substituídos pelas lajes da
estrutura.
(a)
i!
.LL.
I I
íi
I I
, J 1 .
tirante
desativado
(b)
Fig. 6.10- Método convencional de execução de
subsolos
Na Figura 6.11a está mostrada a primeira etapa
tia obra executada por método invertido, em que
é executada uma laje para permitir a escavação
até a cota de outra laje num nível abaixo. Na Figura
6.11b está mostrada a fase final de escavação,
quando será executada a laje de fundo. Neste tipo
de execução não há necessidade de escoramentos
horizontais provisórios (estroncas ou tirantes), mas
sim de apoios provisórios para as lajes, que são
normalmente providos por estacas. As estacas mais
comumente utilizadas são as metálicas (perfis de
aço), as raízes e as escavadas.
Situações Especiais
Há algumas situações especiais a considerar
quando se tem um subsolo que se estende até as
divisas do terreno:
i) o prédio tem sua parte acima do terreno afastada
das divisas ("lâmina");
ii) os vizinhos têm fundações junto às divisas,
superficiais e extremamente sensíveis.
í II
ii
11
Ü
(b)
Fig. 6.11 - Método invertido de execução de subsolos
No primeiro caso as paredes de contenção podem
servir de fundação para os pilares (ou "montantes")
das lajes dos subsolos e do térreo, geralmente
sem excentricidades maiores e, portanto,
sem vigas de equilíbrio (Figura 6.12a).
No segundo caso, pode-se afastar das divisas as
paredes do subsolo, de maneira a executá-lo de
forma segura, corrigindo no nível do térreo a excentricidade
dos pilares da divisa através dc vigas
de transição (Figura 6.12b).
Sistemas de Escoramento Combinados a
Fundações
O sistema dc escoramento pode ser combinado às
fundações de pilares de divisa. Exemplos clássicos são:
1. perfis metálicos de fundação de pilares e que servem
para contenção da escavação pelo sistema de perfis
e pranebões-,
TTT U =
(a)
(Qi
BOMBA
viga d© transição-—.
£ FILTRO (b)
Fig. 6.T3 - Soluções para a laje de íunco
de subsolos
>
-5
(t>)
Fig. 6.12 • Situações especiais: (a) fâmina afastada das
divisas e |bj subsolo com afastamento das divisas
pressão liquida igual à pressão aplicada pela fundação
menos a pressão de lerra escavada. É discutível
se este alívio pode ser considerado integralmente.
No método de cálculo cie recalques de
fundações em areias de Burland e B.irbidge«1985),
por exemplo, o alívio a considerar é de 2/3 da
pressão de terra escavada. De qualquer forma, a
compressibilidade do solo que fica abaixo de uma
escavação é bastante reduzida uma vez que se
trata de material sobreadensado (além de um eventual
sobreadensamento natural).
2. paredes-diafragmas que servem dc fundação
e de contenção;
3. paredes de estacas justapostas que servem de
fundação e de contenção;
Nestes casos, os elementos sob (ou junto) dos pilares
poderão ser, eventualmente, mais profundos.
Laje de Fundo de Subsolo
Uma questão importante nos prédios com
subsolos que ultrapassam o nível d'água é a laje
de fundo. Normalmente esta laje é dimensionada
para a subpressào (Fig. 6.13a). Há, em casos especiais,
entretanto, a alternativa de se manter um
sistema permanente de alívio de pressões de água
(Fig. 6.13b).
Fundações Compensadas
Sào chamadas fundações compensadas aquelas
que tiram proveito do alívio dc pressões no solo
decorrente da escavação de subsolos. Alguns projetistas
utilizam em seus cálculos de recalques uma
6.5.4 Edifícios em Encostas
O grande problema da fundação de edifícios
em encostas, na realidade, é o tia estabilidade da
encosta onde ele será construído. Se a encosta for
estável, as questões que advem dc uma superfície
de terreno inclinada são simples de se resolver. A
Figura 6.14 mostra duas destas questões: (i) a dc
que no cálculo da capacidade dc carga a superfície
inclinada do terreno precisa ser considerada e
(ii) a de que sapatas vizinhas nào devem ser implantadas
em níveis muito diferentes. No primeiro
caso, as soluções mais gerais para capacidade
de carga dc sapatas, como a de Vesic
(1975), incluem um fator redutor que é função
da inclinação do terreno. No segundo caso.
pode-se adotar uma regra simples, como aquela
mostrada na Figura 6.14.
Uma outra questão, no caso dc fundações cm
encostas, c a da profundidade mínima dc implantação.
Nos terrenos planos, as fundações precisam
ser implantadas a uma profundidade que as coloque
a salvo basicamente de variações sazonais de
volume do solo, ações de raizes de árvores e erosões.
Em geral, uma profundidade de 1,5 m é suficiente.
Nas encostas, as fundações precisam ser
implantadas a uma profundidade tal que também as
proteja de movimentos das camadas superficiais. É
comum que as camadas mais superficiais de uma
encosta estejam sujeitas a um movimento lento
(às vezes chamado de "rastejo" ou creep), geralmente
associado a variações de nível d'água. É
importante que se estude cuidadosamente o perfil
do terreno, seu(s) aquífcroís), para entào se
escolher a profundidade de implantação das fundações.
Em certas circunstâncias, fundações superficiais
nào sào possíveis e tubulóes ou estacas
precisam ser adotados. No caso tle estacas, aquelas
de maior seçào devem ser preferidas.
drenagem profunda por meio de drenos subhorizontais
perfurados;
•í. suavizaçào da encosta por meio de uma série
cie pequenos cortes;
sendo que todas estas medidas — adotadas isoladamente
ou combinadas—devem ser complementadas
por drenagem superficial.
Para fundações em encostas, o engenheiro deve
consultar um geólogo de engenharia.
J L
oc
45° < 0<
Fig. 6.15 - Medidas estabilizantes para encostas
Fig. 6.14 - Alguns problemas com a implantação de
fundações em encostas
Ao se falar em encosta estável para edificação,
surge a questão do fator de segurança (ao
deslizamento) a ser aceito. Seria razoável exigirse
um fator de segurança da mesma ordem daquele
exigido paia u peida da capacidade dc carga
da fundação. Esta exigência, entretanto,
freqüentemente leva a custos de obras dc estabilização
elevados, e o projetista pode se ver sob pressão
do proprietário ou incorporador.
A questão dos estudos de estabilidade de encostas
c o projeto de obras de estabilização está
fora do escopo deste capítulo. Apenas para ilustrar,
apresentamos na Figura 6.15 as medidas
estabilizantes mais adotadas, a saber :
1. corte para alívio do topo;
2. bermas no pé do talude (atenção para a
drenagem!);
6.5.5 Edifícios Industriais
A Figura 6.16 ilustra alguns problemas típicos
tle fundação de edifícios industriais:
1. grandes vãos, o que dificulta a utilização de
cintas e vigas dc equilíbrio, fazendo com que
cada fundação deva ser estável por si;
2. pilares altos, sujeitos a momentos (devidos a
pontes rolantes, vento etc.);
3. máquinas que provocam vibrações permanentes
(motores, compressores etc.) ou
transienles (prensas, forjas etc.)
'í. máquinas para trabalho dc precisão, sensíveis
a deformações (recalques, rotações) c vibrações.
Freqüentemente se tem numa indústria, a pequena
distância, os dois tipos de máquinas descritos
acima, fazendo com que se tenha que projetar
um sistema de isolamento de vibrações, que pode
Fig. 6.16 - Problemas típicos em edifícios industriais
ser executado na máquina geradora das vibrações
(chamado isolamento atiro) ou na máquina sensível
às vibrações (isolamento passivo).
O projeto de fundações de máquinas é um
capitulo especial da engenharia de fundações c
para um estudo do assunto o leitor é referido a
alguns textos clássicos como Barkan (1962),
Major, (1962). Richart et al. (1970) e Srinivasulu
e Vaidyanathan (1976).
6.5.6 Pontes e Viadutos
Os viadutos, assim entendidas as obras-de-arte
em região urbana que nào transpõem rios ou outras
massas de água, nào apresentam problemas
I
de fundação que diferem de outras obras em terra,
a menos talvez dos esforços que chegam às
fundações. Já as pontes, que têm pelo menos parte
de sua extensão cruzando massas d'água, apresentam
problemas especiais de execução de suas
fundações. Passar-se-á a discutir apenas as fundações
de pontes.
Um dos primeiros aspectos a considerar na escolha
de uma fundação de uma ponte é a erosão.
O projetista deve buscar informações sobre o regime
do rio, como níveis d'água máximos e mínimos.
velocidades máximas de escoamento etc.,
além da história de comportamento de fundações
de outras pontes nas proximidades. Também aqui
o engenheiro deve consultar um geólogo de engenharia.
Este aspecto freqüentemente impõe uma
fundação profunda, uma vez que uma solução em
lo)
tb)
Fig. 6.17- Problemas com fundações cm estacas próximas dos aterros dc acesso de pontes
fundação superficial é afastada pelo risco de solapamento
de sua base.
Outro aspecto a considerar é o tipo de acesso à
ponte, como mostrado na Figura 6.17. No primeiro
tipo a ponte tem extremos em balanço e o aterro
de acesso tem saia ou talude. Outro tipo é o
que adota encontros, nos quais se apoiam as extremidades
da ponte. Na ocorrência de argila mole
na região dcs acessos, as fundações serão naturalmente
em estacas, e estas cstacas estarão sujeitas
ao chamado efeito Tchebotarioff que será mais
severo no caso dc encontros.
Outro aspecto importante é a questão do método
executivo, que poderá restringir as opções de
fundação. O método executivo está intimamente
ligado à disponibilidade de equipamentos. Assim,
dada a locaçãc dos pilares da ponte, passa-se a
estudar, juntamente com a capacidade dos elementos
de fundação dc transmitir os esforços da estrutura,
a maneira de executar tais elementos de
fundação. A Figura 6.18 mostra algumas destas
maneiras. Quando os pilares estão próximos das
margens é possível se utilizar bate-estacas convencionais
sobre plataformas provisórias dc madeira
(Figura 6.18a) ou bate-estacas (dc queda livre
ou automáticos) que atuam suspensos por lanças
de guindastes (Figura 6.18b). Já pilares distantes
das margens podem ter suas fundações executadas
a partir dc flutuantes (Figura 6.18c) ou plataformas
auto-clevatórias (Figura 6.18d). As plataformas
provisórias, os flutuantes e as plataformas
auto-elevatórias podem servir também para a execução
de tubulõcs. Aliás os tubulõcs a ar comprimido
continuam a ser uma das soluções mais
adotadas na fundação de pontes no Brasil. Isto sc
explica em parte pelo baixo custo dos equipamentos
utilizados nesta solução.
(b)
I
J L
(d)
Fig. 6.18 - Soluções para execução de fundações de pontes
REFERÊNCIAS
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McGraw-Hill Book Co. Inc., Nw York
foundations.
Bl'RLAND. J.B and BURBIDGE, M C . 1985, 'Sctilemcnts of
foundations on sand and gravei'. Proc. oftbelnstitution
of Civil Enginccrs, December.
MAJOR. A. (!%2) Vibration analysisanddesign offoundations
for maebines and turbines. Akatk-iniai Ki.ido. BucLípcst,
Collei s Holdings Ud. London
R1CHART. F.EJr . HALL, J R Jr and WOODS. R D (1970).
Vibration of soils and foundations, Prentice-llall.
Englcwood Cliffs.
SRINIVASUUJ, I» and VAIDYANATHAN, C.V (1976). Haiulbook
of machinc foundations. Tata McGraw-Hill Publishing
Co. Ltd., New Dehli.
VEMC. A.S., (1975). "Bearing capacity of slialbw foundations',
Ch.3 in Foundation Enginccring Handfoook (edited by
H.F Wmterkorn and II -Y Fang). Van Nostrand Reinliold
Co . New York. pp 121-147.
APÊNDICES
Apêndice 1
Pressões de Trabalho para Pré-dimensionamento de Fundações Superficiais
Tabela 2 I Pressões básicas da norma NBR 6122/96
Classe
Descrição
oo
|M Pa J
i Rocha sa. maciça, sem 3.Ô
Ia mina ç õe s ou sina 1 d c
2 decomposição 1.5
Rochas laminadas, com pequenas
3 fissuras, estratificadas ver
Rochasalteradasou cm
nota
4 decomposição
Solos granulares 1.0
5 concreciona dos/Conglomera dos
Sotos pcdreguinosos compactos e 0.6
6 muito c ompactos
7 Solos pcdreguinosos fofos 0.3
8 Areias muito compactas 0.5
9 Areias compactas 0.4
10 Areias medianamente compactas 0.2
11 Argilas duras 0.3
12 Argilas rijas 0.2
13 Argrfas mídias 0.1
14 Siitcs duros (muito compactos) 0.3
15 Sites rijos (compactos) 0.2
Sdtes médios (medianamente 0.1
compactos)
Nota: Para rochas alteradas ou em decomposição, considerar
a natureza da rocha matriz e o grau de decomposição.
e. ainda, a continuidade da rocha, sua inclinação
e a irfluéncia da atitude da rocha sobre a estabilidade
A norma NBR 6122/96 recomenda cuidados
especiais com solos expansivos e solos coUtpsíueis.
Quando se encontram abaixo da cota dc fundação,
até uma profundidade de duas vezes a
largura da construção, apenas solos granulares
(classes 4 a 9), a pressão admissível dada na
Tabela 2 (válida para fundações ce 2m de largura)
pode ser aumentada — no caso ile construções
nào sensíveis a recahjues — em função
da largura da fundação até um máximo de 2,5o
No caso de construções sensíveis a recalques,
deve-se fazer uma verificação do efeito desses
recalques ou manter o valor da pressão
admissível igual ao valor da tabela. Para larguras
inferiores a 2 m deve ser feita uma pequena
redução indicada na norma. As pressões da Tabela
2 para os solos granulares são indicadas
quando a profundidade da fundação, medida a
partir do topo da camada escolhida para assentamento
da fundação, for menor ou igual a 1 m;
quando a fundação estiver a uma profundidade
maior e for totalmente confinada pelo terreno
adjacente, os valores básicos podem ser acrescidos
dc 40% para cada metro de profundidade
além de 1 m, limitado ao dobro do valor da tabela.
As majorações descritas acima nào podem
ser consideradas cumulativamente se ultrapassarem
2,5 o .
As pressões da Tabela 2 para solos argilosos
(classes 10 a 15) sào aplicáveis a um corpo de
fundação nào maior do que 10 m'. Para áreas
carregadas maiores, ou na fixação da pressão
média admissível sob um conjunto dc corpos
cie fundação ou a totalidade da construção, devese
reduzir os valores da tabela de acordo com
°.,j„, WO/AV-, onde A - área total da parte
considerada, ou da construção inteira em m\
Apêndice 2
Tipos mais usuais de estacas e suas cargas de trabalho (para efeito de anteprojeto; para
projeto, consultar firmas executoras; a = tensão de trabalhoj
ESTACAS CRAVADAS DE CONCRETO
TIPO DE ESTACA
DIMENSÃO
(cm)
CARGA
USUAL (tf)
CARGA
MÁX.
ítf)
PRÉ-MOLDADA VIBRADA
20x20 25 35 Disponíveis até 8 m.
a = óO a 90 kgf/cm 2 30x30 55 80
Quadrada
25x25 40 55
Podem ser emendadas.
35x35 80 100
OBS.
PRÉ-MOLDADA VIBRADA
0 22 30 40 Disponíveis até 10 m.
o = 90 a 110 kgf/cm 2 0 33 70 80
Podem ter furo central.
Circular
0 29 50 60
Podem ser emendadas.
PRÉ-MOLDADA PROTENDIDA
0 20 25 35 Disponíveis até 12 m.
ct= 100 a MO kg f/cm 2 0 33 70 80
Com furo central (ocas).
Circular
0 25 50 60
Podem ser emendadas.
PRÉ-MOLDADA
CENTRIFUGADA
CT= 90 a 1 lOkgf/c m 2 0 20
0 26
0 33
25
40
60
30
50
75
Disponíveis até 12 m.
Podem ser emendadas.
Com furo central {ocasj
0 so 130 170
0 60 170 230
CT= 90 a 1 lOkgf/c m 2 0 42 90 115
e paredes de 6 a 12 cm.
TIPO FRANKI
0 35 60 100 Tubos até 25m [podem
o = 60 a 100 kgf/cm 2 0 40 75 130
ser emendados).
0 52 130 210
0 60 170 280
Cargas maiores requerem
armaduras/bases especiais
TIPO DE ESTACA
TIPO/
DIMENSÃO
CARGA MAX.
(tO
PESO/METRO
(kg t/m J
TRILHOS USADOS 7R 25 20 24.6
^ t. 800 kgf/cm 2 7R 32 25 32.0
IR 37 30 37.1
TR 45 35 <4.6
TR 50 40 50.3
2 TR 32 50 64.0
2TR 37 60 74.2
3 TR 32 75 %.o
3 TR 37 90 111.3
PERFIS 1 c H H 6* 40 37.1
CT~ 800 kgf/cm 2 1 30 27.3
(correto : descontar 1.5 mm 1 »o- 40 37.7
para corrosão c aplicar l'2" 60 60.6
a= 1.200 kgf/cm 2 ) 2, 10" 80 75.4
2, 12" 120 121.2
ESTACAS MOLDADAS IN SITU COM PRÉ-ESCAVAÇÃO
TIPO DE ESTACA
DIMENSÃO
(cm)
CARGA
USUAL (tf)
CARGA
MÁX.
(tfj
TIPO STRAUSS O 25 cm 20 Não são indicadas na
o = 40 kgf/cm 2 <>32 cm 30-35 ocorrência de argilas
0 38 cm 45 muito moles.
0 45 cm 65
TIPO RAIZ 0 17 30 40 diâmetro acabadoá 20 cm
o = 100 kgf/cm 2 0 22 50 60 diâmetro ac*badoá 25 cm
OBS.
027 70 90 diâmetro acãbado^ 30 cm
0 32 100 1 10 diâmetro acíbado^ 35 cm
ESTACAS ESCAVADAS
TTPO DE ESTACA
DIMENSÃO
(cm)
CARGA
USUAL
(tf)
CARGA
MÁX.
(tf)
OBS.
TIPO BROCA"
0 20 10 15 Executadasaté o NA.
a = 30 a 40 kg f/cm ^ O 25 15 20
ESCAVADAS
060 90 140 Escavação estabilizada com
a = 30 a 50 kg f/cm 2 0 100 240 390
C IRC ULARES
ç 80 150 250
lama ou camisa de aço.
<, 120 340 560
ESTAC AS- DIA FRAG MA S
40x250 500 Escavação estabilizada
OU "B*RRETTES"
60x250 750
com lama.
a= 30a 50kgf/cm 2 80x250 1000 100x250 1250
CAPÍTULO 7
^ ^ ^
ANÁLISE, PROJETO E EXECUÇÃO
DE FUNDAÇÕES RASAS
ALBERTO HENRIQUES TEIXEIRA
NELSON SILVEIRA DE GODOY
7.1 - INTRODUÇÃO
As fundações rasas ou diretas são assim denominadas
por sc apoiarem sobre o solo a uma pequena
profundidade, em relação ao solo circundantc. De
acordo com essa definição, uma fundação direta para
um prédio com dois subsolos será considerada rasa,
mesmo se apoiando a 7m abaixo do nível da rua.
7.2.1 - Blocos de Fundação
São elementos de apoio construídos de concreto
simples e caracterizados por uma altura relativamente
grande, necessária para que trabalhem essencialmente
à compressão.
Normalmente, os blocos assumem a forma de
um bloco escalonado, ou pedestal, ou de um tronco
de cone (Fig. 7.2).
RUNOAÇÃO RASA — < 1
o
I
01 B2
Fig. 7.1 - Definição de fundação direta rasa
No presente capítulo serão apresentados os tipos
de fundações rasas e seu dimensionamento
em planta a partir de uma tensão admissível a a do
solo de apoio. Será discutida a estimativa de a a
como resultante da aplicação simultânea dos critérios
dc segurança à ruptura e dc deslocamentos
(recalques) compatíveis com a superestrutura.
Pela sua importância prática, serão fornecidos
os fundamentos teóricos necessários para o cálculo
dc recalques de fundações diretas, bem como
elementos para estimativa de parâmetros
geotécnicos necessários nesses cálculos.
Finalizando o capítulo se discutirá o problema
de estabelecimento de um rccalque-limitc aceitável
em um dado problema.
7.2 - TIPOS DE FUNDAÇÕES RASAS OU
DIRETAS
Do ponto de vista estrutural as fundações diretas
dividem-se em blocos, sapatas e radier.
w
L
I L - ~ J j - J
a) BLOCO TRONCOCÔMCO B) BLOCO ESCAIOSAOO
Fig. 7.2 - Blocos dc fundação
Os blocos em tronco de cone, aindí. que não reconhecidos
como tais, são muito usados, constituindose
na realidade em tubulões a céu aberto curtos.
A altura 11 de um bloco é calculada de tal forma
que as tensões de tração atuantes no concreto, possam
ser absorvidas pelo mesmo, sem necessidade
dc armar o piso da base.
7.2.2 - Sapatas de fundação
As sapatas são elementos de apoio dc concreto
armado, de menor altura que os blocos, que resistem
principalmente por flexão.
As sapatas podem assumir praticamente qualquer
forma em planta (Fig. 7.3), sendo as mais
freqüentes as sapatas quadradas (B=L), retangulares
e corridas (L»B). Para efeito de cálculos
geotécnicos, considera-se como retangular uma sapata
em que L £ 5B.
Além dos tipos fundamentais acima, deve-se também
reconhecer as sapatas associadas, as quais
são empregadas nos casos em que, devido à proximidade
dos pilares, não é possível projetar-se
uma sapata isolada para cada pilar. Nestes casos,
uma única sapata serve de fundação para dois ou
mais pilares (Fig. 7.4).
No caso de pilares encostados em divisas, ou
junto ao alinhamento de uma calçada, nào c possível
projetar-se uma sapata centrada no pilar, rccorrendo-se
então a uma viga dc equilíbrio (viga
alavanca) a fim de corrigir a excentricidade existente,
conforme ilustrado na Figura 7.5.
7.2.3 - Fundação em Radier
Quando todos os pilares de uma estrutura transmitirem
as cargas ao solo através de uma única
sapata, tem-se o que se denomina uma fundação
em radier (Fig. 7.6).
Dadas as suas proporções, envolvendo grandes
volumes de concreto armado, o radier é uma solução
relativamente onerosa e de difícil execução
em terrenos urbanos confinados, ocorrendo por
isso com pouca freqüência. Um exemplo de radier
flexível é dado por Vargas (1953), ao apresentar
as características da fundação do edifício do Banco
do Brasil no centro da cidade de São Paulo.
U - . - J
•)*íTA.V51AX
(«9*
I I I
Fig 7.3 • Sapatas isoladas
'
. ' " * ~1
rwar— -TPW—
-Xa.
"7"
il<>0(« H.£XIV£L
Fig.7.6 - Fundação em radier
5!S»CIE« MiOCO
7.3 - DIMENSIONAMENTO DE FUNDAÇÕES
DIRETAS
A
A
A
\
•
Fig.7.4 - Sapatas associadas
.VTTA MA-WSÉ.
/
l 1/ \
l-lwu
A
|
<r
i
U J"*
U
|
> - rirvicae
L
< -CSOUCU»CST4T1C0 M M>U*»
Fig.7.5 - Sapata de divisa com viga alavanca.
7.3.1 - Introdução
O dimensionamento geométrico dc fundações
diretas e seu posicionamento em planta é a primeira
etapa de um projeto, a ser feito para uma
tensão admissível G v previamente estimada.
As dimensões da superfície em contato com o
solo nào sào escolhidas arbitrariamente, mas, sim,
procurando-se proporções que conduzam a um
dimensionamento estrutural econômico.
No caso particular dc um radier para um edifício,
será fundamental a participação do engenheiro estrutural,
a fim de se conseguir proporções adequadas
tanto sob o ponto de vista de fundação como do
estrutural.
7.3.2 - Sapatas Isoladas
Considere-se o pilar retangular da Figura 7.7, de
dimensões t x b e carga P. A área necessária da
sapata será:
A - P/ G (J - B . L
O dimensionamento econômico será aquele que
conduz a momentos aproximadamente iguais nas
duas abas, em relação à mesa da sapata. Para tanto,
os balanços d deverão ser aproximadamente
iguais nas duas direções, ou seja:
B • b + 2d + 5 cm; L - ( + 2d + 5 cm
Subtraindo-se: L - B =£ - b (7.3.2)
única para dois ou mais pilares (Fig. 7.9-a). Neste caso
a sapata será centrada no centro de cargas das pilares,
procedendo-se entào à escolha das dimensões,
de maneira a obter um equilíbrio entre as proporções
da viga de rigidez c os Ixilanços da laje (Fig. 7.9-b).
Resolvendo-se simultaneamente (7.3.1) c (7.3-2)
obtêm-se as dimensões procuradas, que sào normalmente
arredondadas para variar de 5 em 5 cm
(v. exemplo Fig. 7.7).
t~
F
,
I
A.
A
P1»P?
j.fULL
Cl. P/
DIMS*SK>*AM£WTI> :
«I WATA ASSOCIADA
Alf .0.1
G.
t - 6 il-b
L * A /O
EXEMPLO
P JlKlO KN
Pi Aft : IIO a «»
tft JSw KN/». 2
G-fr : 110
I ' »1 C
SvAl/CLv • L » 3.7S I»
Fig. 7.7 - Dimensionamento dc sapata isolada
No caso dc pilares dc edifícios, a dimensão mínima
é da ordem de 80 cm. Para sapatas corridas, adota-sc
um mínimo dc 60 cm dc largura.
No caso de pilares em I., a sapata será centrada
no centro de gravidade do pilar, sendo que os
balanços iguais serão procurados em relação à
mesa retangular do topo da sapata (Fig. 7.8). Nesta
figura sào mostrados outros exemplos de sapatas
para pilares nào retangulares.
UPA'A MUITO COMPRiOA
V«SA C*A<V£«AO*
1
B
SAPATA MUITO LAAG4
LAJE
Fig. 7.9 - Sapata associada
CM0CBA0A
i»'»'» OIOiMtNSOCS
ACtCWAOAS
b) ESCOLHADAS 0IMENS0ESOASAPATA
A sapata associada será evitada, sempre que for
possível uma solução com sapatas isoladas, mesmo
a custo dc se distorcer o formato lógico das
sapatas (Fig. 7.10). Via de regra, duas sapatas isoladas
serão mais econômicas e mais fáceis de executar
do que uma sapata associada.
/ ' w i >
/ S p / m
V
/">. L J
tut^-scic W SAMTA*
f ".
• i UXvlAOtv S»P*TA AMCCAOi
\ : /
/
F
/
\ /I
Cl
1 \ /
\
I
(I '.«utijí» }ÂT*T»
•S».*:AMISAOCA
Fig 7. 10 - Sapatas isoladas distorcidas no lugar de
uma sapata associada
Fig. 7.8 - Exemplos de sapatas isoladas
7.3.3 - Sapatas Associadas
Quando as cargas estruturais forem muito altas em
relação à tensão admissível, poderá ocorrer o caso de
nào ser possível projetar-se sapatas isoladas para cada
pilar, tornando necessário o emprego de uma sapata
A medida que a concentração de cargas aumenta,
a liberdade de escolha do tipo e dimensões das
sapatas diminui. O problema de projeto torna-se
então o de se encontrar sapatas de qualquer forma,
que caibam dentro da área disponível para a
fundação. Sapatas associando três ou mais pilares
poderão, entào, tornar-se necessárias, respeitando-se
sempre a coincidência do CG da sapata com
o centro dc cargas dos pilares envo.vidos.
7.3.4 - Sapatas de Divisa
No caso de pilares junto aos limites do lote (divisas
e alinhamento da rua; nào 6 possível projetarse
uma sapata centrada, tornando-se necessário o
emprego de uma viga de equilíbrio (viga alavanca)
para absorver o momento gerado pela excentricidade
da sapata (Fig 7.5-a).
A sapata de divisa, pilar P A, será dimensionada
para a reação R a, a qual, por sua vez, nào é conhecida
de início, pois depende da largura da sapata.
O problema é resolvido por tentativas, considerando-se
a sugestão adicional dc que a sapata de
divisa tenha uma relação L/B em torno de 2.
Seqüência de cálculo:
a. Na Fig. 7.5-c , tomando-se momentos em relação
a B:
R v U-e ) = P A .1 => R a - P A [t/lC-e ))
b. Adota-se um valor para R A=R' > P A ,
pois W(é-e)] será sempre maior que i
c. Para o valor de R' t adotam-se as dimensões
da sapata: A = R' /O a - B,.L,
d. Para o valor de B, adotado calcula-se a excentricidade
e a reação R A1
e. Se R v * R' adotada, refaz-sc o cálculo mantendo-se
a mesma largura da sapata para nào alterar a
excentricidade e, conseqüentemente, a reação R A|
f. Para A = R A1 /O ír B = B. adotado
I. - A/B, adotado
g. Se os valores de B e I. encontrados forem
aceitáveis ( L/B em torno de 2 ), as dimensões
sào aceitas.
Uma vez dimensionada a sapata de divisa, procede-se
ao dimensionamento da sapata interna.
Da figura 7.5-c, verifica-se que a viga alavanca
tenderá a levantar o pilar P u, reduzindo a carga
aplicada ao solo de um valor DP - R A - P A.
Na prática, esse alívio na carga tio pilar não é
adotado integralmente no dimensionamento da
sapata ir terna, sendo comum a adoção da metade
do alívio. Assim, a sapata interna será
dimensionada para:
R„ - P„ - DP / 2
A redução no valor do alivio é atribuída ao fato
de a alavanca nào ser rígida (alavancas longas),
além de as cargas de projeto incorporarem sobrecargas,
que nem sempre atuam integralmente, o
que causaria um alívio hipotético.
No caso de a alavanca nào ser ligada a um pilar
interno, mas sim a um contrapeso ou um elemento
trabalhando a tração (estaca ou tubulào), o alívio é
aplicado integralmente, a favor da segurança.
Freqüentemente, pela sua própria natureza, sapatas
de divisa estão associadas a escavações profundas
junto a construções vizinhas. Nestes casos,
pode ser preferível uma sapata mais próxima de
um quadrado que uma retangular com L/B = 2. O
projeto sacrificaria a viga alavanca, na busca de
uma solução mais exeqüível.
Usando-se os dados da Figura 7.5-a, apresenta-se
a seguir um exemplo de cálculo de sapata de divisa:
P A - 100x22 cm, carga HOOkN
P,. = 70x70 cm, carga 1900kN
1 - 5,50m
G a - 250 kN/m 2
Sapata dc divisa:
adotando
R" - 1500 kN
A - 1500/250 - 6,0m 2
adotando B, - l,80m => L, - 6,0/1,80 = 3,33m
e = 0,90 - 0,11 - 0.79m
R A1 = l iOO.15,50/(5.50 - 0,79)1 - 1.635 kN
R.,*R' redimensionar mantendo-se
AL
B = 1,80 m
A = 1.635/250 = 6,54m 2
I. = 6,5 í/1,80 = 3,63m (L/B=2) OK adotar 1.80 x
3,65m.
Sapata interna:
AP = 1635 - 1400 = 235 kN
R„ - 1900 - 235/2 - 1783 kN
A = 1783/250 = 7,13m- => L - B = 2,67m
adotar 2,70 x 2,70m.
7.3.5 - Sapatas Sujeitas a Carga Vertical e
Momento
Em muitos casos práticos, além tia carga vertical,
atua também um momento na fundação. Esse
momento pode ser causado por cargas aplicadas
excentricamente ao eixo da sapata, por efeito de
pórtico em estruturas hiperestáticas, por cargas
horizontais aplicadas à estrutura (empuxo de terra
em muros tle arrimo, vento, frenagem etc).
Na Figura 7 11, ilustra-se o caso de uma sapata
carregada excentricamente com uma carga Q. \'esse
caso, as tensões aplicadas ao solo nào sento
uniformes, variando ao longo tia base da sapata.
No caso de a carga Q estar dentro do núcleo
central da base, as tensões serão obtidas considerando-se
a superposição dos efeitos tle uma
carga centrada mais um momento, conforme ilustrado
na Fig. 7.11. A tensào máxima deverá ser
inferior à tensão admissível adotada para o solo.
No caso tle dupla excentricidade, com a carga ainda
dentro do núcleo central da sapata, o momento
resultante será decomposto em relação aos dois eixos
da sapata e seus efeitos somados (Fig.7.12).
Quando a carga excêntrica estiver fora do núcleo
central, apenas parte da sapata estará comprimida,
nào se admitindo que exista resistência a tração
no contato sapata-solo (Figura 7.13). A área da
sapata que é efetivamente comprimida pode ser
obtida fazendo-se c nüx - C t e verificando-se o equilíbrio
de forças na vertical (Fig. 7.13).
O caso de dupla grande excentricidade pode
ser resolvido superpondo-se os efeitos dos dois
momentos, conforme caso anterior.
O ábaco da Figura 7.14 facilita a solução de problemas
de sapatas retangulares carregadas excentricamente.
Na Figura 7.15 apresenta-se uma tabela que facilita
o cálculo de sapatas circulares carregadas excentricamente.
y
+ .4. ÜJL
U " A " W X " W y
VÃuOA P/PEOUENA EXCENTRICIOAOE
e -CL/ç e „ ^B/o
x
y
M x:Q.e y
X M w : 0 . f i -
Fig. 7.12 • Sapata sujeita a dupla excentricidade
t- - L
8 ~
Q
X \ •
— +
B/C
8/6
M 1 Q . O
COMBINANDO O • M ;
rrn s_üi
w
(T. S-SL-íív
mm A W
M r
ARCA
A s
8. L
& Ü"
mo> "o
COMPRIMIDA
o =4-0: Lie
Fig. 7.11 - Sapata carregada excentricamente
L* - J_9.
" ir b"
o
7.3.6 - Fundações diretas sujeitas a cargas
acidentais
Nos parágrafos anteriores discutiu-se o dimensionamento
de fundações diretas, sem nenhuma referência
à natureza do carregamento.
Fig. 7.13- Sapata carregada excentricamente (caso de
grande excentricidadej
Em inúmeros casos de interesse prático, além
da carga morta e de sobrecargas efetivas, atuam
também esforços acidentais de pequena duração
VALORES OE e L / L
- TENSÃO MÁXNA lT moxs K.x-Q/BL
- UNHAS CHEIAS FORNECEM VALORES OE K
- Q CARGA CONCENTRADA ATUANTE NA SAAttA
Fig. 7.14- Cálculo dc tensões no caso de sapatas com dupla excentricidade (apud Teng 1969)
PCOUENA EXCEMTRICIOAOE
e <: R :
cr
A
A
sTTR
JL
R
PARA E > R / ^ :
(Tm 'mox : K "A"
K FORNECIOO A8AIXO
0, 25 O, 30 0,35 0,«0 0,45 0,50 0,55
K 2,00 2,20 2.«3 2,70 3,10 3,55 4,22
% 0,60 0,65 0.70 0,75 0,60 0,90
K S. oo 7. ZO 9 . 2 0 13. O eo.o
bustíveis e os silos.
No caso dos tanques, o peso próprio é desprezível
diante da carga útil, a qual pode ser totalmente
aplicada em questão dc horas. O primeiro
enchimento é na realidade uma prova dc carga,
sendo normalmente feito controladamente com
observação dos recalques resultantes. Face à
grande área carregada, as tensões aplicadas ao solo
alcançam grandes profundidades, podendo causar
recalques decimétricos.
Da mesma forma nos silos, além de a carga
poder ser aplicada rapidamente, existe também
o problema de carregamentos diferenciados nas
várias células que podem compor o silo. Burland
et al. (1977) descrevem o caso de uma bateria de
silos que sofreu danos estruturais severos, apesar
de os recalques medidos estarem na faixa de
valores normalmente aceitáveis em outros tipos
de estrutura.
Fig. 7.15 - Sapata circular carrcgada excentricamente
(apud Teng 1969)
7.4 - MÉTODOS PARA A ESTIMATIVA DE
TENSÕES ADMISSÍVEIS
e/ou pequena probabilidade de ocorrência simultânea.
Nesses casos, a tensão admissível costuma
ser majorada quando da veriftcaçào das tensões
decorrentes da somatória das cargas acidentais. A
NBR 6122/94, parágrafo 5.5.3 estipula a este propósito:
"Quando forem levados em consideração
todas as combinações possíveis entre os diversos
tipos de carregamento previstos pelas normas estruturais,
inclusive ação do vento, pode-se, na combinação
mais desfavorável, majorar 30% os valores
admissíveis das tensões no terreno, e das cargas
admissíveis em estacas e tubulõcs. Entretanto,
esses valores admissíveis não podem ser ultrapassados
quando consideradas as cargas permanentes
e acidentais".
Exemplos de casos
acidentais:
dc sapatas sujeitas a cargas
• painéis publicitários de grande altura e pequeno
peso próprio
• caixas-d'água altas e esbeltas, chaminés
• galpões industriais em estrutura metálica com
fechamentos leves (pequeno peso próprio, grande
efeito dc vento)
• idem com pontes rolantes a gerarem mais
momentos acidentais na fundação.
• pontes rodoferroviárias (esforços longitudinais
e transversais de vento, frenagem, temperatura.
multidão etc.;
Cabe aqui também uma menção a estruturas muito
particulares em que a carga viva supera a carga
mona, exigindo um cuidado extremo no estudo de
suas fundações. Como exemplo dessas estruturas
pode-se citar as tanques dc armazenamento de com-
7.4.1 - Introdução
Neste parágrafo, serão apresentados os principais
métodos de que dispõe o engenheirc para resolver
o problema de projetar uma fundação por sapatas.
Será interessante, no entanto, que inicialmente
seja apresentada uma síntese da realidade do diaa-
dia do engenheiro, o qual é chamado a apresentar
soluções para problemas de fundação, quase
sempre sem dispor do tempo necessário para um
estudo completo do problema. Este estudo seria
iniciado pela programação da investigação do
subsolo, sua execução e eventual complementaçâo,
interpretação de seus resultados,
seguida das conclusões, que deveriam incluir um
projeto de fundação e uma estimativa de grandeza
dos recalques esperados. A realidade é diferente,
sendo o engenheiro muitas vezes levado a
tomar decisões cm cima de parcos resultados de
sondagens de percussão (SPT ), muitas vezes executadas
por firmas desconhecidas e até mesmo
dc idoneidade duvidosa.
A experiência relatada refere-se principalmente
ao projeto de fundações de estruturas correntes,
edifícios de apartamentos e escritórios de até 15-20
andares, constniídos na Grande Sào Paulo e principais
cidades do Estado de Sào Paulo, envolvendo
solos de origem sedimentar e solos residuais provenientes
de decomposição de rochas metamórficas,
em geral gnaisses, resultando em solos siltosos com
características variáveis vertical e horizontalmente (As
publicações da ABMS e ABEF sobre os solos da cidade
e do Estado de Sào Paulo apresentam dados
minuciosos sobre as características geológicogeotécnicas
dos principais solos envolvidos).
7.4.2 - Rotina de Solução de um Problema
Típico de Fundação de um Edifício
O caminhamento a seguir na solução dc um problema
de fundação de um edifício serve para ilustrar
procedimentos aplicáveis também a outros tipos
de estrutura.
Partindo-se dos resultados de sondagens dc percussão,
em muitos casos a opção por fundação
por sapatas é claramente definida:
• aplicável: solos densos (SPT > 15) serão acessíveis
após escavação para implantação da obra.
• nào aplicável: solos fracos (SPT < 6) se estendem
além das cotas de escavação.
As dúvidas surgem nos casos intermediários
(maioria), em que o solo nào é nitidamente bom
ou ruim, ou quando abaixo da camada de apoio
prevista ocorrem solos mais fracos. Esses casos
exigem uma investigação adicional.
Uma investigação complementar deve sempre
que possível começar por um poço exploratório,
a ser criteriosamente inspecionado pelo engenheiro.
Vantagens do poco:
• é rápido (poceiros existem em qualquer cidade)
e de baixo custo;
• verifica a profundidade do nível d'água. principal
condicionante na escolha do tipo de fundação,
freqüentemente indicado errado nas
sondagens;
• permite inspeção dos tipos de solo, nem sempre
classificados corretamente na inspeção táctil-visual,
base da classificação apresentada nas sondagens
(argila silto-arenosa, silte argilo-arenoso, areia
aigilo-siltosa e outras combinações que nào definem
o tipo dc solo para o engenheiro).
• permite aferir "firmeza" dos solos, usando
'penetrômetro" manual (barra de aço de0 12,5
mm);
• permite coleta de amostra indeformada em bloco.
para ensaio de laboratório (solos coesivos);
• permite avaliar a viabilidade da execução de
um bloco tronco-cônico (tubulào a céu aberto
curto), mais econômico e de mais fácil execução
que uma sapata.
Juntamente com o poço exploratório, pode-se
também executar algumas sondagens com SPT a
cada 0.5 m, que define melhor as transições entre
camadas, oferecendo também maior número de dados
para eventual emprego de correlações com
outras propriedades dos solos. Essas sondagens poderão
também investigar níveis d'água empoleirados
e artesianismos, mediante uso correto do tubo de
revestimento do furo dc sondagem.
O expediente seguinte é o ensaio de penetração
estática de conc. CPT. Vantagens:
• rapidez: resultados saem na hora, seja com
equipamento manual ou automatizado montado
em caminhão:
• investiga bem as areias acima ou abaixo do
nível d'água
• define bem as transições;
• ao lado de sondagens, ajuda a conferir seus
resultados
• ótimo para avaliar variabilidade horizontal,
executando-se ensaios próximos;
• quase única opção rápida para emprego em solos
residuais.
Fnsaios de laboratório ocupam um espaço pequeno
na rotina do engenheiro de fundações. Em
geral sào limitados a solos coesivos, facilmente
amostráveis por meio dc blocos retirados de poços
ou valas. A dificuldade aumenta, mas ainda será
contornávcl, quando as amostras tiverem que ser
obtidas através de furos de sondagens, retirando-se
então amostras de 2" a 4" de diâmetro. Praticamente
nào se aplicam a solos nào coesivos e a solos res.duais
estniturados, onde os traumas de amostragem acabam
levando ao corte de corpos-de-prova das partes mais
coesivas tia amostra, pouco representativas do bloco e
menos ainda do maciço tenoso.
Provas de carga cm placa sào pouco usadas, ainda
que se apresentem como uma alternativa importante
para estudo da compressibilidadc de areias,
argilas fissurndas e, principalmente, de solos residuais.
As maiores dificuldades práticas ao seu emprego
residem no tempo necessário para sua execução
e na dificuldade dc acesso à camada de interesse,
numa época em que os edifícios rotineiramente
têm dois subsolos de garagem (apoio de sapatas
a 7-8 m de profundidade, freqüentemente abaixo
do nível dágua.).
Ensaios "in situ" mais modernos como o
pressiômetro Menard, o dilatômetro Marchetti e
outros ainda nào estão incorporados à prática tle
fundações brasileira.
7.4.3 - Critérios de Segurança à Ruptura e
de Recalques Admissíveis
A tensão admissível O a será sempre fixacia levando-se
em conta dois critérios que norteiam um
projeto de fundação, o de segurança à ruptura e o
de recalques admissíveis.
O critério de segurança à ruptura visa pro:cger
a fundação de uma ruptura catastrófica, sendo
normalmente satisfeito mediante a aplicação de
um coeficiente de segurança adequado à tensão
que causa a ruptura do solo. a t.
Já o critério dc recalques admissíveis implicará a
adoção dc uma tensão tal, que conduza a fundação
a recalques que a superestrutura possa suporta:. É o
critério que governa a maioria dos problemas práticos,
sendo também o mais difícil de ser avaliado,
em virtude da dificuldade na estimativa dos recalques
a que estará sujeita a fundação projetada.
Neste parágrafo, a referência a recalques estará
sempre dirigida àqueles provenientes da deformação
do próprio solo dc apoio das sapatas. A esti-
mativa destes recalques e daqueles provenientes
de camadas compressíveis profundas (Figüra 7.16)
será discutida com maior detalhe no parágrafo 7.6.
No parágrafo 7.7 serão apresentadas recomendações
a serem levadas cm consideração na fixação dos
recalques admissíveis, os quais serão função, dentre
outros fatores, do tipo e função da superestrutura.
7.4.4 - Métodos para Estimativa de Tensões
Admissíveis.
De acordo com a NBR 6122/94 - Projeto e Execução
de Fundações, a tensão admissível pode
ser estimada segundo métodos teóricos, semiempíricos,
provas dc carga sobre placa e empíricos.
a - Métodos Teóricos
Consistem na aplicação de uma fórmula de capacidade
de carga para estimativa da tensào de
ruptura do solo de apoio, a,, à qual se aplicaria
um coeficiente de segurança. F, para obtenção da
tensào admissível:
F seria variável de acordo com o problema, mas
em geral nào inferior a 3.
CAU«OA POHTANTC ' • * •
resistência ao cisalhamento dos solas envolvidos,
bastando citar como exemplos os casos de sapatas
apoiadas em areias ou solos residuais submersos
ou não.
b - Métodos Semi-Empiricos
Seriam aqueles em que as propriedades dos
solos seriam estimadas com base em correlações,
para em seguida serem aplicadas fórmulas teóricas,
adaptadas ou não.
A estimativa dc parâmetros (resistência e
compressibilidade) seria feita com base na resistência
à penetração medida em sondagem, N (SPT),
ou na resistência de ponta do ensaio de penetração
estática de cone, q ..
No caso de fundações diretas, torna-se preferível
estimar <J (] diretamente de N ou dc q., sem
necessidade cie intercalar-se uma correlação entre
esses índices e as propriedades dos solos. É
fácil verificar-se que o engenheiro, especialista ou
não, entende melhor o significado de uma argila
de N = 15, do que uma argila de resistência nào
drenada cu = 0,15 MPa, estimada admitindo-se
cu = 0,01 N (MPa).
c - Prova de Carga Sobre Placa
A prova de carga sobre placa se constitui na
realidade cm ensaio em modelo reduzido de uma
sapata. Ela nasceu antes das conccituaçõcs da
Mecânica dos Solos, aplicada empiricamente na
tentativa de obtenção de informações sobre o comportamento
tensào-deformaçào dc um determinado
solo de fundação.
É oportuno que se saliente desde já que , por
sua pequena dimensão, apenas o solo situado imediatamente
abaixo da placa é solicitado durante
uma prova de carga. No caso ilustrado na Figura
7.16, por exemplo, uma prova dc carga superficial
nos daria informações sobre a camada de areia de
apoio das sapatas, nada dizendo sobre o comportamento
do edifício que aplicará tensões que alcançarão
a camada compressivel profunda.
' / C AM AO A CO"P ACS5IVÍL / /
Fig. 7.16 - Fundação direta com camada compressivel
profunda
A seguir, com base na tensão G a estimada, se
procederia a uma análise de recalques para saber
se esse critério estaria satisfeito ou nào. Caso negativo,
o processo seria reiniciado para outros valores
de G (l.
Além da imprecisão inerente às fórmulas de capacidade
de carga, a aplicação dessa metodologia esbarra
em dificuldades de ordem prática na avaliação da
Metodologia de Execução da Prova de Carga
A execução de uma prova de carga é regulamentada
pela NBR-6489 Prova de Carga Direta
Sobre Terreno de Fundação. Uma placa dc aço
rígida de 80 cm de diâmetro é carregada em estágios
por um macaco hidráulico reagindo contra
uma cargueira. Um estágio de carga somente é
aplicado após terem praticamente cessado os
recalques do estágio anterior. As cargas sào aplicadas
até a ruptura do solo e, caso isto nào aconteça,
até que sc atinja o dobro da tensào admissível
presumida para o solo, ou um recalque julgado
excessivo.
Os resultados de uma prova de carga são apresentados
na forma de um gráfico Tensão x Recalque
juntamente com outros dados relativos à montagem
da prova, sua localização em planta e elevação, re-
GRAFICO TENSÃO x RECALQUE
TENSÃO ( MPo )
0,2 0,3 0,4 0,5 Q6 • — 0,7 " I ' 0,d »|V 0.9 1,0 1,1
"1 I
t—i
n
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TEMPOEM MORAS E MINUTOS 00 INICIO
OA PROVA OE CARGA
151:26
30
S 10
W. .V '/,'.' '-..- K -V^-V-vA 1 . .y .' ••.'MVA
\W V
\ ARGILA SlLtOSA ARENOSA MOLE
\\ VERMELHA
ARGILA SiLTOSA FRtAVEL
A RIJA
ROXA
MEOIA
ARGILA p££> ARENOSA MEOIA
\ VARIE6A0A
\ \ '• '
ARGILA PÇO ARENOSA FRIAVEL
/RIJA ,VARIfGAOA
Fig. 7.17 • Prova dc carga sobre placa
saltados dc sondagem próximos etc. A Figura 7.17
exemplifica a apresentação dos resultados de uma
prova de carga executada sobre uma camada de
atgila, típica dos espigòes da cidade de Sào Paulo.
Na prova dc carga padrão, apenas uma placa de
80 cm de diâmetro é empregada. No entanto, no
estudo da relação modelo-protótipo, quando os
resultados da prova de carga terão que ser
extrapolados para placas maiores (sapatas), poderá
ser conveniente empregar-se placas de tamanho
diferentes, por exemplo 30.60 c 80 cm de diâmetro,
ou mesmo uma sapata de concreto armado (vejase,
por exemplo, Nápoles Neto 195i, Barata 1966,
Garga e Quinn 1974, Cudmani ct.al. 1994).
Outra modificação no procedimento padrão seria
o de medir o deslocamento do solo cm um ou mais
pontos dentro do bulbo de tensões da placa, a fim
de estimar um módulo de deformabilidade do solo.
Um exemplo desse procedimento é encontrado em
Vai e Osório (1987) e Mello c Cepollina (1976;.
Inteipretaçào Convencional dos Resultados de
uma Prova de Carga
Na interpretação dos resultados de uma prova
de carga se deverá atender sempre aos critérios
de ruptura e recalques que norteiam qualquer
projeto de fundação. Assim, teríamos:
• Critério de recalque : o < c %
• Critério de ruptura : o < C/F
onde:
G x é a tensào que corresponde a um recalque x
julgado admissível;
G", tensão que corresponderá a um dos seguintes
valores:
C - a, quando a ruptura for alcançada na prova
de carga (caracterizada pelo aumento incessante dos
recalques sob tensào aplicada constante).
C = a , tensào que corresponde a um recalque
y. julgado excessivo (ruptura técnica).
o' • o , x, tensão máxima aplicada na prova de
carga, quando nào se alcançar nenhum dos casos
anteriores.
F - Coeficiente de segurança, em geral 2.
A seção de solos do IPT de Sào Paulo, responsável
pela introdução no Brasil das primeiras técnicas
de investigação sistemática do subsolo, executou
também as primeiras provas de carga sobre
placa, as quais foram interpretadas de acordo com
os critérios do código de obras da cidade de Boston,
USA, o qual estipulava (Vargas 1955 ).
x - 3/8". adotado 10 mm
y - r . adotado 25 mm
F - 2
Tome-se como exemplo a prova de carga da Figura
7.17. Traçando-se uma curva contínua pelos
pontos de estabilização dos recalques, tem-se a
curva Tensào x Recalques resultante da prova de
carga. A partir dessa curva obtém-se:
s= 10 mm —> o i0 = 0,76 MPa (critério de recalque)
s= 25 mm —> o^ - 1,08 MPa (critério de niptura)
a^/2 = 0,54 MPa
e a tensào admissível seria c t < 0,54 MPa
Os critérios do Código de Bostcn haviam sido
estabelecidos para provas de carga sobre placas
de r x 1', representando os seguintes percentuais,
cm relação a uma placa circular equivalente de
34,4 cm de diâmetro:
x = 3/8" = 0.95 cm -> 0.95/34.4 x 100 = 2,8%
y = 1" = 2,54 cm -> 2.54/34.4 x 100 = 7,4%
Para a placa de 80 cm e os critérios citados acima,
esses percentuais seriam:
x = 1 cm 1/80x100= 1.3%
y - 2,5 cm -> 2,5/80 x 100 = 3,1%
Verifica-se que o "critério de ruptura", representado
por um recalque da placa de 3,1%, é na
realidade um segundo critério de recalques, pois
está muito distante de um recalque correspondente
a 10% do diâmetro da placa, aceito por muitos
como definidor de ruptura, quando esta nào se
manifesta nitidamente. Este fato já havia sido apontado
por Leme (1953) e Teixeira (1966), que interpretando
resultados de provas tle carga sobre argilas
de Sào Paulo haviam constatado que o critério
de a, s/2 era sempre mais rigoroso que o, ;.
Ainda que criticávcis nas suas origens, os critérios
acima mostraram-se adequados, quando aplicados
no projeto de fundações de edifícios dc
grande porte construídos na cidade de Sào Paulo
a partir do final da década de 30.
Extrapolação dos Resultados de uma Prova de
Carga sobre Placa
Os resultados de uma prova de ca:ga sobre placa
(modelo) podem ser usados para estimar os recalques
de uma sapata de fundação (protótipo). Na Figura
7.18. duas sapatas circulares rígidas, modelo e protótipo,
sào representadas lado a lado apoiadas à superfície
de um solo linearmente elástico:
Para esse caso, o recalque, s, será dado por:
s » 0,79 ( l-|i- ) . a . B / E (7.4.1)
Conhecidas as constantes elásticas e E, o
recalque será função da tensão aplicada e da dimensão
B. Casos com diferentes condições de
contorno são discutidos no parágrafo 7.6.2
• Prova dc carga cm argilas
Considere-se agora o caso de o solo de apoio
ser uma camada sobreadensada de argila, para a
qual se poderá admitir que E é constante com a
profundidade, assim como o valor de u.
s 1./s |>-í2B,/(B,, + 03)P ou
s, =[2B |/(B 1.+0,3)Ps ) (7.4.5)
Fig. 7.18 - Bulbo de tensões de placas modelo c
protótipo
A expicssão (7.4.1) poderá ser recscrita:
s = const. O.B (7.4.2)
Aplicando-se (7.4.2) às placas da figura 7.18 tem-se
resultando:
V S „ S , W / ( W ou
(a.E^/íajn (7.4.3)
expressão que permitirá calcular o recalque da sapata
circular, a partir dos dados da prova de carga.
A expressão (7.4.3) pode ser reescrita
s, - (s p/a.)a r(B,./B |i) -
- [ 1 / ( a / s,)) a„. ( B,, / B |r)
Chi mando-se a/s, = k N = módulo de reação
(MPa/m). tem-se:
s,„ - (a, /k)(B,,/ B (r) (7.4.4)
As expressões (7.4.3 ) e (7.4.4 ) são aquelas procuradas.
que pennitem estimar o recalque da sapata s,, em
função das dados oficias na prova dc carga.
No caso dc sapatas quadradas ou retangulares, a dimensão
13, seria aquela dc uma sapata circular equivalente
( mesma área ). Logicamente, quanto mais o protótipo
se afastar do modelo, maiores serão :LS imprecisões
introduzidas.
• Prova de caiga cm aieias
No caso de areias, o módulo de defonnabilidade não
é constante com a profundidade, variando, entre outros
latoiv>, com a pressão confinante, linearmente crescente
com a profundidade.
'Ier/aglli e PCCK (19-Í8) foram os primeiros a estimar
os recalques dc sapatas apoiadas cm areias, extrapolando
os resultados de provas dc caiga executadas sobre placas
quadradas de 1'xl' (-0,3 x 0,3 m):
Siil>stitiiindo-se valores para B, , verifica-se qiiL* expressão
(7.4.5) conduz a um valor limite de s ( = -i.s.,
para a mesma tensào aplicada pela placa e pela sapata.
Traballios pcxstaioivsíBjemim e Eggestad 1963 ctc. )mostraram
que a expressão (7.4.5) nào é confiável e que a
relação s, vs s não varia apenas com B, dependendo
taml)ém da compacidade da areia.
O estabelecimento da relação modelo-protótipo
deverá então ser pesquisado cm cada caso, empregí.ndo-se
placas de diferentes tamanhos e modelos
teóricos com módulo crescente com a profundidade
(v. parágrafo 7.6.2).
• Provas de carga sobre solos residuais
No caso de solos residuais, o tratamento a ser dado
dependerá do tempo de estabilização dos recalques
durante os estágios da prova de caiga. Uma estabilização
rápida indicaria um comportamento "arenoso"
e a prova de carga seria interpretada como se o
solo fosse uma areia. Ao contrário, um longo tempo
de estabilização indicaria um comportamento argiloso",
e o solo seria tratado como uma argila.
d - Métodos Empíricos
Tabelas de Tensões Admissíveis
As primeiras recomendações para estimativa da
tensào admissível apareceram na fonna de tabelas,
cm geral constantes de códigos de obras de
T<lbe|a 7.1 I Valores de tensões admissíveis limites, a
serem adotados cm anteprojetos (apud Vargas 1955)
(De acordo com a experiência da Seção de Solos do
IPT do São Paulo)
Tipo dc Solo
Rocha, conforme sua natureza geotôgica.
sua textura e seu estado
Alteração de rocha de qualquer espócie
{mantendo ainda a estrutura da
rocha-mãe necessitando martelete
pncumático ou pequenas cargas dc
dinamite para desmontej.
Alteração dc rocha cruptiva ou
metamõrfica (necessitando, quando
muito, picareta para escavação)
Pedregulho ou areia grossa compacta
(necessitando picareta para escavação),
argila dura (que não pode ser mokJada
nos dedos)
Argila de consistência nja (dificilmente
moldada nos dedos)
Areia grossa de compacidade média,
areia fina compacta.
Tensão admissível
(MPa}
20-100
4-20
<4
4-6
2-4
2-3
Areias fofas, aroía mole fest^ação a n^] < 1
grandes cidades (Terzaghi e Peck 1948), ou normas
como a DIN, por exemplo.
No Brasil, um exemplo é dado por Vargas (1955),
reproduzido na Tabela 7.1, sintetizando uma experiência
na construção de edifícios cm Sào Paulo.
A aplicação dos valores da tabela estaria sujeita
a uma série de limitações envolvendo profundidade
de apoio, tipo de solo, existência ou não de
camadas comprcssíveis etc.
Com o advento das normas brasileiras para projeto
de fundações, tabelas de tensões admissíveis
passaram a fazer parte das recomendações para
projeto. A Tabela 7.2, reproduz a tabela constante
da última revisão da NBR 6122/94
De acordo com a norma, as tensões básicas da
Tabela 7.2 "servem para uma orientação inicial". O
emprego dos valores básicos, válidos para sapatas
de 2m de largura, apoiadas a lm de profundidade
dentro da camada dc suporte, ficam condicionados
a uma série de recomendações contidas nos parágrafos
da norma de números 6.2.1.4 - Métodos
Empíricos e 6.2.2 Considerações Gerais, aos quais
o leitor deverá recorrer para maiores detalhes.
Por seu caráter de norma brasileira, para ser adotada e
Tabela 7.2 | Tensões básicas segundo NBR 6122/94
Classe Descrição Valores (MPa)
1 Rocha sã. maciça, sem
laminações ou sinal de
decomposição
2 Rochas laminadas, com pequenas
fissuras, estratificadas
3 Rochas alteradas ou em
decomposição
3.0
1.5
ver nota (cj
4 Solos granularcs concrecionados,
conglomerados 1.0
5 Solos pedregurhosos compactos
a muito compactos 0.6
6 Solos pedregulhosos fofos 0.3
7 Areias muito compactas 0.5
8 Areias compactas 0.4
9 Areias medianamente
compactas 0.2
10 Argilas duras 0.3
11 Argilas rijas 0.2
12 Argilas mídias 0.1
13 Siltes duros (muito compactos)
0.3
14 Siltes rijos (compactosj 0.2
15 Siltes médios (medianamente
compactos)
0,1
usada em todo o país, as recomendações têm
necessariamente que ser conservadoras, para tentar
cobrir toda a gama de variação de solos que
ocorrem num país de dimensões continentais como
o Brasil. Valores mais adequados poderão ser obtidos
em cada região, mediante investigações de campo
e laboratório acopladas ao acompanhamento
do desempenho da fundação.
Resistência à penetração em sondagens
É o método mais usado na prática. As primeiras
recomendações surgiram com a publicação do livro
de Terzaghi e Peck (1948) , sendo depois adaptadas
por outros autores para se ajustar às condições existentes
na localidade ou região em que atuavam.
Entre nós, a primeira sugestão foi feita por Leme
(1953), correlacionando resultados de provas de carga
sobre placa com a resistência à penctraçào medida
com o amostrador e técnica de sondagem do IPT de
Sào Paulo. Tentativa do mesmo gênero foi feita por
Teixeira (1966) correlacionando provas de carga com
a resistência à penetração medida com o amostrador
Mohr-Geotécnica. Em ambos os casos, as provas de
carga foram realizadas sobre argilas do terciário da
cidade de Sào Paulo. Infelizmente, esses trabalhos
foram referidos à resistência à penetração medida com
amostradores diferentes do amostrador Raymond-
'Iérzaghi, adotado como padrão pela NBR 648<i e hoje
de uso geral em todo país.
Chamando-se de N, o valor da resistência à penetração
(SPT) média medida com o amostrador
Raymond-Terzaghi, pode-se estimar a tensào
admissível como sendo:
O;- 0,02 N (MPa) (7.4.6)
válida para qualquer solo natural no intervalo 5 ^
N < 20.
Notas: a) P3rn a descrição dos diferentes tipos de solo, deve-se
seguir as definições da NBR 6502
b) No caso de calcário ou qualquer outra rocha cárstica, devem
ser feitos estudos especiais.
c) Para rochas alteradas, ou em decomposição, tem que se levar
em conta a natureza da rocha matriz e o grau de decomposição
ou alteração.
Fig . 7.19 - Estimativa de N médio
O intervalo de validade procura:
• nào permitir o emprego de fundação direta
quando o solo for mole ou fofo (N<5);
• limitar a tensão admissível máxima a 0,4 MPa; valores
mais elevados somente com ensaios complementares
e/ou assistência de especialista de fundações.
A recomendação acima pressupõe que as sondagens
sejam confiáveis, ou seja . executadas por
firma idônea seguindo critérios de lx>a técnica de
sondagens (a este respeito, veja-se, por exemplo
Teixeira 1974).
O valor da resistência à penetração a entrar na
expressão (7.4.6) será o valor médio representativo
da camada de apoio, estimado dentro da profundidade
do bulbo de tensões das sapatas (~ 1,5B),
conforme ilustrado na Fig 7.19
A expressão (7.4.6) nào leva em conta o efeito
do comprimento das hastes na medida da resistência
à penetração. É sabido, no entanto, que
este efeito é mais sensível nos primeiros metros
de sondagem, tornando mais errático o valor de
N medido, afetando diretamente o estudo de fundações
rasas. Muito freqüentemente a inspeção
do solo através de um poço (v. parágrafo 7.3-2)
revela características geotécnicas superiores àquelas
avaliadas apenas pelo N medido (este efeito
tem sido observado principalmente em areias).
Conforme salientado no parágrafo 7.6.7, nào se
adorará uma solução de fundação por sapatas no
caso de solos porosos e/ou colapsíveis, cuja quebra
de estrutura poderá levara recalques consideráveis
da fundação. Da mesma forma, a fundação
direta nào será apoiada sobre aterros em geral, os
quais, freqüentemente, contêm matéria estranha
como restos orgânicos, entulho, lixo etc.
O emprego da expressão (7.4.6) pressupõe que
abaixo da cota de apoio das sapatas, nào ocorram
solos de características inferiores às da camada de
suporte. Na hipótese de ocorrer uma camada menos
resistente, será necessário verificar se as tensões
propagadas pelas sapatas ao topo da camada são
compatíveis com a mesma. Nesta verificação podese
empregar a simplificação sugerida pelo código
de Boston, admitindo-se que as tensões se espraiem
segundo um angulo de 30° com a vertical (Fig.
7.20). Na verificação acima se levará em conta a proximidade
ou nào das sapatas, que poderá levar a
uma superposição de bulbos de tensões (Fig. 7.21).
Para um cálculo mais preciso das tensões propagadas
em profundidade, haverá que se recorrer
a fórmulas baseadas na Teoria da Elasticidade
(v. parágrafo 7.5).
Ensaio de Penetração Estática do Cone
A tensão admissível para projeto de sapatas pode
ser estimada com base nos valores de resistência
de ponta o (MPa) , medidos no ensaio de penetração
estática dc cone:
- i - Á - 4 - y v ' > V ' -
L / / / 2 Z 7 '
RESSTCNCIA 0£ PONTA SC
2 3 < 5 6
( M P O )
(T 0- 2,3/10:
0,23 MPc
Fig. 7.20 - Simplificação para cálculo de tensões
propagadas cm profundidade
«•cu riu*
Fig. 7.21 - Superposição dc bulbos de tensão
7Z2
Fig. 7.22 • Estimativa do valor médio de q c
a. Sapatas apoiadas sobre argilas:
a - q c / 10 (MPa)
b. Sapatas apoiadas sobre areias:
a=q ./15 (MPa)
(7.4.7)
(7.4.8)
As expressões acima são recomendadas para solos
com q > 1,5 MPa. O valor da tensão admissível
estimada deverá ser limitada a 0,4 MPa, a não ser
que se disponha da assistência de especialista de
fundações.
O valor di! q (. a entrar nas expressões (7.4.7) e
17.4.8) será o médio estimado dentro da profundidade
do bulbo de tensões da sapata, conforme
ilustrado na Figura 7.22.
Valem para este caso as mesmas recomendações
feitas no paragráfo anterior, relativas à presença
de camadas menos resistentes, solos porosos c/
ou colapsíveis. aterros etc.
Nas deduções das fórmulas da Teoria da Elasticidade
assume-se que o peso específico (g) do
meio é zero, de modo que para a obtenção das
tensões totais no meio elástico dever-se-á adicionar
as tensões verticais e horizontais devidas ao
peso de solo, a saber:
-Y'Z * = •a„ = K 0'Y'Z
onde K, é o coeficiente de pressão lateral em repouso.
7.5.2 Cargas Puntiformes
7.5 - DISTRIBUIÇÃO DE TENSÕES
7.5.1-Introdução
A aplicação dc uma carga à superfície horizontal
de um sólido desperta na sua massa um campo de
tensões (verticais, radiais, tangenciais e cisalhantcs)
cujas intensidades, intuitivamente, diminuem à medida
que se afasta do ponto de aplicação da carga.
Essas tensões são calculadas a partir de equações
da Teoria da Elasticidade, nas quais a hipótese
fundamental é a existência de uma relação constante
entre as tensões e as deformações decorrentes.
Outras hipóteses consideradas são: o meio é
homogêneo (ou seja. suas proporiedades sào constantes
de ponto para ponto) e isotrópico (ou seja,
suas propriedades são as mesmas em cada direção
que passa pelo ponto considerado).
As fórmulas da Teoria da Elasticidade sào aplicáveis
a problemas de solos e fundações desde que
as tensões cisalhantcs induzidas pela aplicação de
cargas externas sejam de intensidade reduzida e
estejam longe das tensões de rutura admitindo-se,
portanto, com esta condição, a proporcionalidade
entre tensões e deformações nos solos.
As equações deduzidas por Boussinesq (1885)
e apresentadas por Terzaghi (1943) permitem o
cálculo das tensões em um ponto situado a uma
profundidade z no interior dc um maciço semiinfinito
e horizontal quando este é carregado por
uma força pontual e vertical, conforme nomenclatura
ilustrada na Figura 7.23. As equações de
Boussinesq sào as seguintes:
<r. = 3 Qzy
2kR s
o = -
a. - -
T. = 3 Qrj
2nR"
onde:
Q 3r 1 z + (\-2n)R
2 KR 2 R> R + z
(1-2 n)Q
2nR J
li—U
L* R + z]
(7.5.1)
(7.5.2)
(7.5.3)
(7.5.4)
a., a r , a ; " tensões normais vertical, radial
horizontal e horizontal circunferercial.
T r.- tensão tangencial nas direções de r c z.
|i - coeficiente de Poisson
(7.5.5)
Fig. 7.23 - Tensões no semi-espaço infinito devido à
carga puntiforme
O conhecimento das tensões verticais é fundamental
no cálculo tle recalques de fundações e,
doravante, somente elas serão consideradas.
No caso de solos laminados (por exemplo, argilas
scdimentares com delgadas lentes de areia),
o meio deixa de ser isotrópico e as deformações
horizontais sào restringidas. Para esta condição
Weslergaard (1938) apresentou a seguinte equação
para o cálculo da tensão normal vertical devida
a caiga pontual Q - vide Taylor (1948):
(7.5.6)
onüc:
- m
1.2(1- /o.
(7.5.7)
Neste caso o material elástico é reforçado horizontalmente
por inúmeras e muito próximas membranas
delgadas , porém infinitamente rígidas, as quais impedem
qualquer deformação no sentido horizontal.
Na Figura 7.24 são comparadas as tensões verticais
calculadas pelas equações de Boussinesq e
de Westergaard para \i - 0.
Fig. 7.25 - Tensões no semi-espaço infinito devidas a
carga puntiforme aplicada cm profundidade dentro do
maciço
Fig. 7.24 - Comparação das tensões calculadas pelas
equações (7.5. JJ e (7.5.6J
As tensões verticais devidas a uma força vertical
atuando num ponto dentro cio semi-espaço
infinito, conforme representado na Figura 7.25,
sào calculadas pela fórmula de Mindlin (1936), e
que pode ser expressa por (vide Martins, 1945):
<7. = K (7.5.8)
para o caso
tle tensões
m = —
D
« 0.5 e
dependente
n = —
D
influência
e n:
(7.5.9)
Fig. 7.26 - Curvas de influência das tensões verticais
para o caso da estaca transmitindo a carga ao terreno
por atrito uniforme ao longo do fuste (a) c pela sua
ponta fbj
das parâmetros de |i sendo K um fator de
m
Martins (1945) apresentou os fatores de influência
para os seguintes casos:
a) Carga Q puntiforme aplicada à profundidade
D, e que corresponderia à carga transmitida pela
ponta de uma estaca: K - K _
b) Carga Q uniformemente transmitida ao solo
ao longo do comprimento D, e que corresponderia
ao caso de tensões de atrito lateral uniformes ao
longo do fuste de uma estaca: K = K
Os fatores de influência K e K_ sào apresentados
na Figura 7.26 para m - 0,5.
7.5.3 - Cargas Distribuidas Uniformemente
em Placas Flexíveis Apoiadas à Superfície
do Semi-espaço Infinito
Admitindo-se que a área uniformemente carregada
com uma pressão q seja infinitamente flexível,
é possível pela integração da equação de
Boussinesq (ou de Westergaard) obter-se a tensào
vertical transmitida a um ponto no meio elástico
decorrente de placas carregadas dc formas
específicas.
a» Placa flexível corrida (comprimento infinito)
de largura 213 - Gray <1930):
<7
o - ^ \u +scna-cos(a +25)] (7.5.10)
Os parâmetros desta equação constam da Figura 7.27.
28
n
vsw?
\ \
X
X \
\ V
X &
geotécnico, bem como quando se interpretam os
resultados de provas de carga sobre placa e a sua
aplicabilidade para um protótipo, pois a profundidade
do bulbo é função da dimensão da fundação.
b) Carga uniformemente distribuída sobre metade
da superfície infinita - Gray (1930):
(7.5.11>
Os parâmetros da equação sào apresentados na
Figura 7.29.
V//W/?.
/
0 r i
\ íWiwii
\
X
f
\
V f
r
Fig. 7.27 - Tensão no semi-espaço infinito devido a
placa flexível corrida
i. 2
8
-23 -A III UI IIIIKÍlí* 2Õ
-A
A TOA
1
k - 0.9
/ \
\ \ ^
\
1
Y/ \\ \ \
Fig. 7.28 - Bulbo de tensões para placa corrida
A Figura 7.28 mostra o que se denomina de bulbo
de tensões, ou seja, o conjunto de linhas
isobáricas ao longo das quais é transmitida uma
mesma fração da tensão q aplicada na sapata corrida.
Para fins práticos considera-se o bulbo de tensões
limitado pela isobárica de C / = O.lq.
O conceito do bulbo de pressões é muito importante
quando se programa a profundidade das
sondagens preliminares de reconhecimento
Fig 7.29 - Tensão no semi-espaço infinito devida ao
carregamento uniforme de metade da superfície infinita
c) Placa retangular de dimensões LeB uniformemente
carregada - Newmark (1935)
A tensão vertical é calculada para as pontos situados
na vertical, passando por um vértice do retângulo.
n ~ n ~ n
^ ; Tzshssi
Fig. 7.30 - Tensão no semi-espaço infinito devida a
placa retangular
'
a. = te
Ui
+
LBz(
| ——
1
+
1 >
r (7.5.12.»
211 zR y R> [r; r[)\
Tt
onde:
(7.5.13)
R i=(B i +z 2 ) u2
(7.5.14)
R i=(L 2 +B 2 +z 2 ) U2 (7.5.15)
A fórmula (7.5.12) pode ser escrita na forma
reduzida:
Gz = 4'c
onde I o (fator dc influencia dc tensões) £ obtido didade z é calculada pela fórmula de Love (1928)
pelo ábaco à Figura 7.31, onde: - vide Terzaghi (1943):
B
L
m = — n = —
(7.5.17) +
1
Os parâmetros dessa equação são apresentados
na Figura 7.33.
Foster e Ahlvin (1954) apresentaram as curvas
da Figura 7.34 que permitem o cálculo das tensões
em qualquer ponto do semi-espaço carregado
por uma placa circular. A curva (0,0) representa
a fórmula de Love.
m^r.
n
H
— i
« « * •)•••• I > « I • r*»a
Fig. 7.31 - Fatores de influência para placa retangular.
Apuc? Fadum f1948J
Para o caso do cálculo da tensão num ponto que
não sc situa sob um dos vértices da área carregada,
procede-se utilizando-se o princípio da sobreposição,
determinando-se os fatores dc influência das tensões
de retângulos cujos vértices se situam sobre o
ponto considerado e fazendo-se a sua somatória algébrica
conforme o exemplo da Figura 7.32.
— r
'ABDE ^ACÜO " ^BCIIO " 'l>IOO + 'EFIIO (7.5.18)
Fig. 7.32 - Princípio da sobreposição de retângulos
d) Área circular de raio R
Para os pontos situados na vertical passando pelo
centro da área circular, a tensào vertical à profun-
1
Fig. 7.33 - Tensào no semi-espaço infinito devida a
placa circular uniformemente carregada
e) Outras formas de carregamento menos usuais
(linear corrida, triangular corrida, cônica , área elíptica
etc.) podem ser encontradas em Poulos & Davis (1974).
7.5.4 - Pressões de Contato em Placas
Rígidas
Pressões de contato são as pressões normais que
agem na superfície cie contato da base cie uma sapata
com o solo de apoio. A distribuição das pressões
de contato dependem das propriedades elásticas
do meio de suporte, da rigidez à flexào da
sapata , da distribuição das cargas sobre a sapata e
da profundidade de apoio.
aj Placa Flexível
Para uma placa perfeitamente flexível apoiada à
superfície do solo, a distribuição das pressões de
contato é uniforme, tanto no caso das areias como
nas argilas, conforme mostrado na Figura 7.35. Nas
areias o bordo da sapata sofre maiores recalques
do que o centro, pois a areia situada adjacente ao
bordo é apenas parcialmente confinada e, portanto,
é mais compressível.
Nas argilas a sapata tem um recalque em forma
de sela, com o maior recalque ocorrendo no centro
da placa.
Fig. 7.34 - Fatores de influência para placa circular
(o > (b)
Fig 7.35 - Pressões de contato cm placa flexível (a)
areia, (b) argila
semi-Iargura B submetidas a uma pressão uniforme
q, e admitindo nulas as tensões cisalhantes na superfície
de contato das placas com o meio elástico.
Os resultados sào apresentados na Figura 7.37 , para
diferentes graus de rigidez K das placas.
As equações finais de Borowicka. que nào são
apresentadas neste texto, contêm o fator K que é
a rigidez relativa entre a placa c o solo:
a) placa circular:
b) Placa Rígida
A distribuição da pressão de contato dc uma
fundação rígida depende do solo de apoio. A Figura
7.36 apresenta formas típicas da distribuição
das pressões dc contato nos casos de areia e de
argila, quando, então, os recalques sào uniformes
por se tratar de placa rígida.
b) placa corrida:
K = 1(1-/r) E. f r
'"6(1 -nl) E U,
(7.5.20)
(7.5.21)
m
1 1
(O)
i
Fig. 7.36 - Pressões de contato em placa rígida,
[ajareia, (b) argila
O cálculo das pressões de contato é feito pela
Teoria da Elasticidade. Borowicka (1939) — vide
Terzaghi (19-13) — obteve soluções para os casos
de placa circular de raio R c de placa corrida de
onde E, JI e F., JÍ sào os parâmetros elásticos do
material da placa e do solo, respectivamente, e t é a
espessura da placa. O valor K - 0 indica uma placa
infinitamente flexível e K ( = ©o uma placa infinitamente
rígida. Para fins práticos, uma placa circular
com K < 0,1 pode ser considerada flexível c K >5
como sendo rígida. No caso de placa corrida os valores
práticos sào 0,05 e 10, respectivamente.
Para K - <*>, as pressões de contato são calculadas
pelas equações:
I\ =
Pc =
2(1 -(x/rfr
(7.5.22)
(7.5.23>
K[\-(x/B) 2 ) in
base da sapata. À medida que aumenta a profundidade
de apoio da sapata, maior será a resistência
ao cisalhamento e, nestes casos, a distribuição das
pressões de contato tende a ser mais uniforme.
A introdução dc tensões cisaihantes na superfície
de contato entre a sapata e o maciço ('base
rugosa" i tende também a uma distribuição dc pressões
mais uniforme.
Nas sapatas rígidas, devido às diferentes formas
de distribuição das pressões dc contato, as tensões
verticais despertadas no maciço diferem daquelas
decorrentes do carregamento de placas flexíveis de
mesma forma. Na Figura 7.58 sào comparados os
Inilbos dc tensões verticais, para o caso dc placas
circulares flexível e rígida carregadas com a mesma
pressào q. Note-se que para profundidades z < R as
inteasidades das tensões induzidas no maciço sào
muito diferentes.
Fig.7.38 - Bulbos dc tensão para placas circulares
flexível (aj e rígida (b)
Fig. 7.37 - Pressões de contato dc placa com diferentes
graus dc rigidez, (a) placa circular, (b) placa corrida
Feio exame da Figura 7.37 vê-se que a distribuição
das pressões de contato aumenta desde 0,5q
ou 0,6<íq no centro da placa até o valor infinito no
bordo. Na realidade, a intensidade das pressões
no bordo da placa é finita, pois aí o solo sofre uma
plastificaçào resultando uma distribuição como
mostrada na Figura 7.36 (b). Deste modo, a pressào
de contato no bordo nào pode ser maior do
que a capacidade de carga do solo, o que causa
ainda uma redistribuirão das pressões ao longo da
7.5.5 - Coeficiente de Reação Vertical do Solo
Sob o efeito de uma carga Q aplicada em uma
viga apoiada sobre um meio elástico, a viga fletirá
produzindo no meio elástico uma reação de intensidade
p. Pela hipótese de Winkler, a intensidade
de p, cm qualquer ponto da viga, é proporcional
à flcxa y da viga nesse ponto conforme
mostrado na Figura 7.39. Fssa constante é denominada
de coeficiente de reação vertical do solo:
(7.5.24)
determinado experimentalmente por meio de um
carregamento de placa de dimensões 1 pé x 1 pé
(3<»,x m x 30,5cm).
li (7.5.25)
sendo k, o coeficiente medido com a placa de
dimensões dc B. = 1 pé = 30,5cm.
Para a mesma fundação corrida apoiada em areia
tem-se:
(0 + 30.5^
2 B )
( B em cm) (7.5.26)
No caso de uma sapata retangular de dimensões
B x L (sendo L » wB) apoiada em areia:
Fig. 7.39 - Hipótese de Winkler
O coeficiente de reação dos solos, às vezes chamado
erroneamente de coeficiente de mola, depende
tias propriedades do meio e das dimensões
e forma da placa.
A Figura 7.-»0 pode ser utilizada para estimar o
coeficiente de reação vertical para placas tle 30,5cm
x 30, Sem, em função do índice de resistência à penetração
(SPT), tanto para areias como para argilas.
SPT (AROIUAS )
10
k, «*, m + 05
l.5m
(7.5.27)
Nesta equação, à medida que m cresce, chegase
ao valor limite de:
k f =0.67 k, (7.5.28)
Define-se rigidez característica X da viga de largura
B, comprimento L, momento de inércia J e de
módulo de elasticidade do material I- pela relação:
A-i-^r
4 E tJ)
(7.5.29)
e por parâmetro de rigidez o produto XL. De acordo
com o parâmetro de rigidez, as vigas sào assim
classificadas:
XL < 0,8 a viga é considerada como sendo rígida
(vigas curtas)
0,8 < XI < 3 a viga é de rigidez intermediária (vigas
médias)
>wL >3 a viga é flexível (vigas longas)
Para a determinação dos fatores de influência (para
rotação, reação do apoio elástico, momento fletor e
força cortante) necessários ao dimensionamento de
vigas de comprimento finito sob ação de esforços
solicitantes externos recomenda-se o uso das tabelas
de Soares e Teramoto < 1981 >.
NAVFAC
(1982 )
TERZAOHI
(1955)
i J I
• )• 40
SPT
AREIAS
ARGILAS
(AREIAS)
AREIAS SECAS E ÚMIDAS
AREIAS
ARGILAS
SUBMERSAS
Fig. 7.40 - Estimativa do coeficiente de reação
vertical em função do SPT
Para uma viga corrida de largura B apoiada em
argila, Terzaghi (1955) propôs a seguinte equação
empírica para o cálculo do coeficiente de reação
vertical k:
7.5.6 - Tensões Despertadas por Uma
Fundação
Como a fundação de um edifício é composta
por um conjunto de sapatas ou por grupos de
estacas, os bulbos de tensões das sapatas ou do
grupo de estacas se sobrepõe sendo, portanto,
necessário o cálculo das resultantes dessas tensões
na camada de interesse, para então poder-se
calcular os recalques do edifício.
No caso de fundações por sapatas as tensões
resultantes num ponto podem ser calculadas pelo
ábaco de setores do anel desenvolvido por
Newmark (1940) com base na fórmula de Love
(equação 7.5.19). O ábaco é obtido pela divisão
de um anel, carregado uniformemente por uma
tensão <|, o qual é dividido em pequenos setores
de anel. A tensão final é calculada por:
'IOO
TEMPO
(T. - r • A/, (7.5.30)
sendo ti o número de setores de anel abrangidos
pelas várias sapatas e A/ o "passo" do ábaco. A
construção do ábaco pode ser obtida em Mello e
Teixeira (1960).
Quando a camada compressível se situar em
profundidades superiores a três vezes a dimensão
da maior sapata pode-se calcular a resultante das
tensões tomando a carga do pilar como pontual e
aplicando-se a fórmula de Boussinesq (equação
7.5.1) ou de Westergaard (equação 7.5.6).
7.6 - RECALQUES DE FUNDAÇÕES RASAS
7.6.1 - Introdução
Neste parágrafo serão analisados os métodos disponíveis
para a estimativa de recalques de fundações
rasas.
Em muitos problemas práticos, quando sc aplicam
tensões no maciço ocorrem deformações cisalliantcs
ou de distorção que causam deslocamentos verticais
da fundação. Se as tensões cisalhantcs induzidas são
pequenas quando comparadas com a resistência ao
cisalhamento do solo, as tensões cisalhantcs sento aproximadamente
proporcionais ãs deformações cisalhantcs
ocorrendo, então, deformações com mudança de forma
sem diminuição de volume do solo. Esse recalque
que OCOITC quase que simultaneamente com a aplicação
da carga é denominado de recalque imediato,
ou inicial, ou elástico, uma vez que a sua grandeza
é estimada com base na Teoria da Elasticidade.
Outra parcela dc recalque decorre de deformações
volumétricas ou por adensamento, com diminuição
do índice de vazios do solo, e é denominado
de recalque primário. No caso das argilas
saturadas esse adensamento decorre da dissipaçào
gradual das sobrepressões neutras induzidas pelo
carregamento da fundação.
Após decorrido um tempo suficiente para que as
sobrepressões neutras se aproximem de zero, a argila
continua a diminuir de volume, fenômeno este denominado
de compressão secundária ou secular, o qual
se processa linearmente com o logarítmo do tempo.
A evolaçãc dos recalques de uma sapata de fundação
com o tempo é ilustrada qualitativamente na
Figun: 7.-11 - O recalque total da fundação será a soma
dos recalques ir.icial, por adensamento e secular:
Fig. 7.41 - Evolução do recalque com o tempo
daçào, ou no caso dc aterros lançados sobre solos
compressíveis, há predominância dos recalques por
adensamento. A parcela de recalque secular 6 importante
no caso dos solos orgânicos e turfosos.
7.6.2 - Recalques Imediatos ou Elásticos
Na estimativa dos recalques imediatos devem ser
levadas em consideração os seguintes fatores: rigidez,
forma e profundidade dc apoio de sapata e a
espessura da camada deformável. A consideração de
semi-espaço infinito deformável, que nào ocorre na
prática, leva a estimativas exageradas do recalque.
A seguir sào apresentadas formulações para o cálculo
de recalques considerando as fatores menc.onados
acima e em função do módulo de deformabilidade
do solo (E), o qual será comentado adiante.
Será adotada a seguinte simbologia, conforme
mostrado na Figura 7.42:
I. - lado maior da placa retangular unifomxtnente
carregada com a pregão q
B idem , lado menor
D 2R diâmetro da placa circular uniformemente
carregada com a pressão q
c - profundidade de apoio da sapata
h » espessura do solo deformável
I - fator de influência dependente da forma,
da rigidez c da profundidade dc apoio da
sapata e da espessura do solo deformável
fi » coeficiente de Foisson do solo
B ou D
S = S. + s. + s. (7.6.1)
Nos casos onde as sapatas se apoiam diretamente
em solos densos e resistentes predominam as deformações
imediatas. No caso da existência de argilas
moles profundas em relação â cota de apoio da fun-
Fig. 7.42- Nomenclatura para as fórmulas de cálcu.o
de recalques imediatos
a) Placas flexíveis
• Recalque de placa retangular apoiada à superfície
de um semi-espaço infinito, Giroud (1968)
(7.6.2)
O fator de influência I é apresentado em gráfico na
Figura 7.43 (a) para os recalques dos pontos indicados.
O valor de I m corresponde ao recalque médio da
placa flexível.
• Recalque de placa retangular apoiada à profundidade
c de um semi-espaço infinito, Groth
e Chapman (1969)
s =3li (7-6.3)
Fig. 7.43 - Fatores de influência para o cálculo de recalques de placa flexível. Placa retangular (a), (b), |c) - placa
circular (dj. |ej e (fj
O fator de influência I é apresentado em gráfico
na Figura 7.43 (b), corresponde ao recalque de
um dos vértices do retângulo.
• Recalque de placa retangular apoiada à superfície
de camada de espessura finita, Sovinc (1961)
I.S
4 » O "O
= 5*/
E
(7.6.4)
(9)
8
O fator de influência I é apresentado em gráfico
na Figura 7.43 (c) e é correspondente ao centro e
ao vértice do retângulo.
• Recalque de placa circular flexível apoiada à
superfície de semi-espaço infinito-Alilvin e
Ulery (1962)
1» .0 ,s *
f/L.» /d
• 0,5
— ~
Tí/í
— i
'
E
(7.6.5)
A
Os fatores de influência I sào apresentados na
Figura 7.43 (d) correspondentes aos pontos situados
ao longo do raio do círculo
• Recalque de placa circular flexível apoiada à profundidade
c de semi-espaço infinito, Nishida (1966)
(M
J . = — / (7.6.6)
Os fatores de influência I para o centro e para o
l>ordo da placa circular sào apresentados na Figura
7.43 (e)
• Recalque de placa circular flexível apoiada à superfície
de camada de espessura finita, Milovic
(1970)
0 o. a l.o
(1)
N
1, a 2.0
' E (7.6.7)
Os fatores de influência I sào apresentados na
Figura 7.43 (0 relativos ao centro e ao bordo de
placa circular e para |i= 0,3 e 0,45.
/
b) - Placas Rígidas
Nas placas rígidas o recalque é uniforme.
• Recalque de placa retangular apoiada à superfície
de semi-espaço infinito, Whitman e Richart (1967)
s. =
g(LB)
E /
i/:
(7.6.8)
O fator de influência é apresentado no gráfico à
Figura 7.44(g), em funçào da relação L/B.
• Recalque cie placa retangular apoiada à profundidade
c de semi-espaço semi-infinito -
Buttcrfield í Banerjee (1971)
v
= 2(1 -f fi) qL
E l
(7.6.9)
O fator de influência, para H=0,3 e 0,5, é apresentado
no gráfico da Figura 7.44 (h).
• Recalque de placa retangular apoiada à superfície
de camada de espessura finita, Sovinc (1969)
O « 2 5 4 S 6 T 8 9
1.2
0.8
/
/
/
S
(I)
O.
>5
/ 'a
/
/
/
O ,2 .4 ,e ,8 \ .8 .6 .4 .2 o
Fig. 7.44 - Fatores de influência para o cálculo dc
recalques de placa rígida. Placa retangular (gj. (hj. (i).
Placa circular (j) e l(]
j
'
E
(7.6.10)
Os fatores de influência I sào apresentados na
Figura 7.44 (i), correspondente a ^1=0,5.
• Recalque de placa circular rígida apoiada à profundidade
c de scmi-cspaço infinito, Butterfield
e Banerjee (1971)
_ Jt(\ + [L)qR
E l
(7.6.12)
Os fatores de influência, para m=0,3 e 0,5, sào
apresentados cm gráfico na Figura 7.44 (j)
• Recalque de placa circular apoiada à superfície
de camada de espessura finita, Poulos (1968)
'
E
7.6.13)
Os fatores de influência sào apresentados em
gráfico na Figura 7.44 (1), para n - 0,4 e 0,5.
M
0) . |
Ot 1-J
7.6.2.1 - Avaliação dos Parâmetros de
Deformabilidade
Por serem os solos materiais cuja massa nào c contínua
e sim formado por partículas, serem heterogêneos
e nào isotrópicos, c com módulo de deformabilidade
podendo crescer com a profundidade, é
necessário muito discernimento para estimar a grandeza
do recalque por meio das fórmulas desenvolvidas
em função da Teoria da Elasticidade.
Apesar disso, as equações sào utilizadas para obterem-se
estimativas razoáveis dos recalques, desde
que as constantes "elásticas" E e fl sejam adequadamente
escolhidas e sempre que as tensões transmitidas
ao solo estejam muito aquém da sua tensão de
niptura. Para estimativas dos recalques imediatos deverão
ser empregados os módulos dc deformabilidade
determinados por ensaios (de campo ou de lal>oratório)
do tipo nào drenado, enquanto para a estimativa
dos recalques totais os módulos devcrào ser determinados
por ensaios drenados. O critério empregado
na escolha do módulo é, portanto, fundamental
na obtenção dc resultados rcalisticos.
Um fator importante que afeta a precisão da estimativa
dos recalques utilizando as fórmulas baseadas
na Teoria da Elasticidade é a espessura do
material deformável a considerar num dado problema,
conforme ilustrado na Figura 7.45, Terzaghi
(1943), onde o fator de influência I tem o valor:
/ = qR
(7.6.14)
Na mesma figura pode-se ver a mesma influência
do coeficiente de Poisson.
Fig. 7.45 • Influência da espessura da camada
compressivel e do coeficiente de Poisson no recalque
de placa circular flexível - Apud Terzaghi ft 943J
'S
z
L A ^
/A
n / \
/ 1
1
\
«1
DEFORMAÇÃO ESPECIFICA £
q
PRESSÕES
O?)
Fíg. 7.46 - Influência do nível de tensào/dcformações
na determinação do módulo de deformabilidade
Ensaio de placa (a) - Ensaio triaxial fb)
Na prática as parâmetros de deformabilidade são determinados
sol) três condições dc confinamento do solo:
a) Solo não confinado - ensaio de compressão
simples realizado em laboratório.
b) Solo parcialmente confinado - ensaio de compressão
triaxial realizado em laboratório, ensaio
de placa e ensaio de penetração de cone, ambos
realizados no campo.
c) Solo totalmente confinado lateralmente - ensaio
de adensamento de laboratório.
O objetivo de se avaliar os parâmetros de compressibilidade
pelos métodos acima é de sc obter
aquele valor, que levado nas equações teóricas conduza
à melhor estimativa do recalque. A priori podese
dizer que os ensaios realizados em solos parcialmente
confinados levam âs melhores estimativas para
os recalques imediatos ou elásticos, e os ensaios em
amostras confinadas para a obtenção dos parâmetros
de deformação volumétrica, notada mente quando as
camadas compressíveis são profundas.
Dcs métodos acima, os ensaios de placa têm maior
credibilidade dada a sua semelhança com uma
fundação direta.
A avaliação do parâmetro dc compressibilidade a partir
de correlações empíricas em função cia resistência de
ponta dc cone holandês é muito útil pois pennite conhecer-se
a sua variação com a profundidade.
As determinações laboritoriais defrontam-se com
as conhecidas dificuldades de amostragem indeformada,
notadamente em solos pouco coesivos e em
solos sensíveis.
Em todos os processos os parâmetros de deformabilidade
variam em função do nível e da velocidade
dc aplicação das tensões ou das deformações
correspondentes, e da história de tensões do maciço.
Na Figura 7.46 dá-se uma indicação da variação
dos módulos de deformabilidade, se determinados
no ensaio de placa ou no ensaio de
compressão triaxial, em função do nível de tensões/deformações
considerado.
aj Módulo de Deformabilidade Obtido nos
Ensaios de Placa
Executado um ensaio de placa, determina-se o
módulo utilizando-se a equação teórica (vide item
7.6.2.b) que melhor sc assemelhar às condições
do ensaio (tipos de placa, profundidade do ensaio
e semi-espaço finito ou infinito).
Como a placa de ensaio é rígida c tem normalmente
a forma circular de diâmetro de 80cm, o
módulo determinado refere-se ao solo situado até
a profundidade de 2 x 80 = 160 cm, ou seja, correspondente
aproximadamente à isobárica deO.lq
do bulbo de pressões.
Tabela 7.3 | Módulos de deformabilidade (MPa)
SOLO CONSISTÊNCIA BOWLES SHERIF KÉD2I VALORES
OU E KONIG SUGERIDOS
COMPACIDADE (1977) (1975) (1975)
muito mole 0.3-3 0.35 - 3 1
mole 2-4 1 -2.5 2-5 2
média 4,5-9 4-8 5
Argila rija 2.5-5 7
muito rija 5- 10 _ 8
dura 7-20 7 - 18 15
fofa _ _ _ 5
pouco compacta 10-25 20-50 10-25 20
Areia medianam. compacta _ 50-100 _ 50
compacta 50- 100 _ 50-80 70
muito compacta 90
Areia com pouco compacta 50- 140 _ 50
pedregulhes compacta 80 - 200 100-200 120
Argila arenosa _ 30-42.5 _ 30-40
Silte _ 2-20 3- 10 _ _
Aieiti Siltosci _ _ _ 7 - 20 _
Tabela 7.41 Relação módulo de deformabilidade/resistència não drenada - Massad [I981J
SOLO SPT E / C u E / C U
Argilas porosas vermelhas 2 a 8 600
(300 a I000J
120
(80 a 160)
480
(200 a 1000)
Argilas rijas vermelhas 11 a 19 520
(340 a 740J
170
(100 a 200J
420
(120a 600)
Argilas variegadas > 6 400
(300 a 600)
154
(120a 200)
290
(140a 600)
Argilas duras cinzas e verdes > 19 — — 230
Se o ensaio de placa for executado lentamente,
ou seja, até que cessem totalmente os
recalques sob cada estágio de pressão, o módulo
de deformabilidade, dito drenado, abrangerá tanto
as deformações cisalhantes quanto as volumétricas,
podendo-se a partir desse valor estimar o
recalque total (excluído o secular;.
Alguns valores típicos do módulo de deformabilidade
encontrados na literatura técnica sào apresentados
na Tal>e!a 7.3.
Os valores do coeficiente a colhidos na literatura
técnica variam, grosso modo entre 1,5 e 8,
sendo que os valores mais baixos estão associados
aos solos arenosos e os valores mais altos
abrangendo solos plásticos e compressíveis.
Não se dispondo de melhores dados, para estimativas
grosseiras do módulo de deformabilidade
podem ser tomados os valores do coeficiente a
apresentados na Tabela 7.S.
bj Módulo de Deformabilidade Determinado em
Ensaios Triaxiais não Drenados
Massad (1981) definiu três módulos de deformabilidade
determinados em ensaios triaxiais não
drenados, a saber:
I: = módulo de dcfoimabil idade inicial comjspondente
ao coeficiente angular da reta ajustada aos tiês primeiros
[x>ntos de curva tensão-defonnaçào específica
E," módulo tle deformabilidade secante para deformação
específica de 1%
E S1) - módulo de deformabilidade secante para
S0% da resistência.
Para as argilas da bacia tcrciária da cidade de
Sào Paulo, Massad (1981) chegou, para a relação
entre o módulo de deformabilidade e a resistência
nào drenada (c ), aos valores apresentados na
Tabela 7.4.
A relação E/c , obtida para as argilas rijas vermelhas
é próxima daquela determinada por
Henkcl (1972) e Wroth (1972) para as argilas de
Londres ( = 150). Note-se que o valor da relação
E/c, diminui à medida que aumenta a consistência
da argila.
Para estimativas de recalques elásticos de fundações
sugere-se utilizar os valores da relação E/c .
Quando nào se dispõem de resultados de ensaios
de laboratório, o valor da resistência nào drenada
pode ser estimado pela relação empírica com
o SPT ° N seguinte:
labdd7.5 í Valores de a = E/q (
SOLO
Areia 3
Silte 5
Argila 7
Os valores da tabela para areia e argila sào aqueles
propostos por Trofimenkov (1974).
Quando nào se dispõe de ensaias de penetração
de cone podem ser utilizados os ensaios tle
penetração (SPT - N) executados nas sondagens
de reconhecimento à percussão, através da correlação:
* = & (7.6.16)
sendo o coeficiente K aqueles apresentados na
Tabela 7.6.4, Teixeira (1993).
d) Módulo de Deformabilidade de Areias em
Função de SPT = N
Interpretando dados de Terzaghi & Peck (1948),
Mello (1971) sugere a relação:
E = 3(/V-3) (MPa) (7.6.17)
Os valores obtidos por esta correlação estão próximos
daqueles determinados pelas correlações
das Tabelas 7.5 e 7.6, ou seja:
a
c m = 0,0 bV (MPa) (7.6.14)
E = 3 x 0.9 A' = 2.7/V (MPa) <7.0.18)
c) Módulo dc Deformabilidade Determinado cm
Função rlf Fm;*io* rfí» Ppnptração d o Cone
Apesar de os ensaios penetrométricos envolverem
uma série de fenômenos complexos (estrutura,
deformação, resistência, subpressòes neutras
em solos saturados, altas tensões desenvolvidas
na ponta etc.), inúmeras tentativas foram
feitas procurando correlacionar o módulo de
deformabilidade com a resistência de ponta (q )
medida no ensaio dc penetração do cone holandês
(diâmetro de ponta de 3,6cm) sob a forma
da equação:
E - a . q ( (7.6.15)
Tnbcln 7.6 1 Volorcj do rclnçõo K-q/N - Tcixcirn (1993)
SOLO
K ÍMPa)
areia com pedregulhos 1.1
areia 0.9
areia siltosa 0.7
areia argilosa 0.55
silte arenoso 0.45
silte 0.35
argila arenosa 0.3
silte argiloso 0.25
argila siltosa 0.2
ej Móduío de Deformabilidade das Areias Pouco
Argilosas da Bacia Sedimentar Terciária da
Cidade de São Paulo
Vargas (1961), analisando os resultados das observações
de recalques de edifícios de grande porte
cujas fundações se apoiam em areias (ditas basais)
propôs estimar o módulo de deformabilidade crescente
com a profundidade pela relação:
E = IOOOCT (7.6.19)
sendo cr , a tensão gcostática efetiva na profundidade
considerada.
Fig. 7.47 - Módulo de deformabilidade crescendo
linearmente com a profundidade
fj Coeficiente de Poisson
Valores típicos do coeficiente de Poisson sào
apresentados na Tabela 7.7.
Tabela 7.7 i Valores do coeficiente de Poisson
SOLO
H
areia pouco compacta 0.2
areia compac:a 0.4
silte 0.3-0.5
argila iaturada 0.4-0.5
argila não saturada 0.1-0.3
7.6.2.2 - Maciços Heterogêneos
A formulação apresentada admite que o maciço
lou o semi-espaço) seja linearmente elástico, homogêneo
e isotrópico, ou seja. o módulo dc deformabilidade
é constante com a profundidade. Todavia,
existem maciços onde o módulo varia com
a profundidade , fator este que deverá ser considerado
na estimativa dos recalques.
a) Semi-Espaço com Módulo Crescente com a
Profundidade
A Figura 7.47 mostra o caso de o módulo crescer
linearmente com a profundidade.
Sendo k = tg (3, o coeficiente angular correspondente
ao cresci nento linear do módulo com a profund.dade,
tem-se:
E = £, + kz (7.6.20)
Define-se grau de nào homogeneidade do maciço.
segundo Rocha Filho & Romanel (1984), pela
relação:
i2
kD
(7.6.21)
Tem-se os casos de:
£
a) —- = o
kl)
ou seja , E = E 0 correspondente
ao meio homogêneo.
caracterizando o meio estudado
por Gibson (1967). onde E 0 ~ 0 e k X).
Para ser possível a aplicação da formulação í.presentada
e baseada no meio elástico homogêneo,
define-se "centro do recalque" à profundidade onde
o módulo de deformabilidade tem o valor equivalente
E o, o qual, introduzido na formulação, fornecerá
um recalque igual ao das fórmulas específicas
deduzidas para o meio não homogêneo. O centro
de recalque situa-se à profundidade de:
z = al) (7.6.22)
Rocha Filho «ü Romanel (1984), interpretando
dados dc Carrier & Christian (1973), propõem determinar
a pela relação:
kí)[4l * J
(7.6.23)
O caso de maciço nào homogêneo linear pode
ser resolvido também dividindo-se o mesmo em
várias camadas de espessura H, , cada uma celas
com módulo ü, c determinando-sc as pressões o.
despertadas no meio de cada uma dessas camadas
pelas fórmulas de distribuição de tensão. O
recalque do maciço será calculado por:
^
E
b) Módulo de Deformabilidade de Subsolo
Estratifícado
(7.6.24)
Se o subsolo for constituído por camadas de
diferentes módulos (E) conforme mostrado pela
Figura 7.48, pode-se substituí-lo por um subsolo
com um módulo de deformação equivalente
(E ) determinado pela condição de que a soma
dos recalques das n camadas deve ser igual ao
recalque do subsolo equivalente, ou seja:
^a.H
o.II
r
i
J
sendo
i
as tensões verticais no meio das camadas e oriundas
da aplicação da pressão q à superfície resulta
J_ L P
^
Io"
Fig. 7.49 - Recalque pelo método de Schmertmann
e, portanto
Pela teoria da elasticidade:
y
loH
lOiH,
E
XX
IH, \\ e.
(7.6.25)
\rX--7~
JV,
i/.
E '
sendo \ f o fator dc influência de deformações verticais.
O recalque será portanto:
onde
C' = 1-0.5^ (7.6.27)
i
incorpora o efeito do alívio da escavação nas deformações.
e cj 0 = Y"/. (1 a pressão gecstática efetiva
à profundidade z 0.
Fig. 7.48 - Subsolo estratificado com diferentes
módulos de deformabilidade
Pelo bulbo de pressões apresentado ã Figura
7.38, correspondente ao caso de placa rígida, verifica-se
que a tensão vertical máxima ocorre a
7.6.3 - Métodos Semi-Empíricos
o.» o.a i.
a) Método de Schmertmann (1970)
O método foi proposto para o caso de sapata
rígida de dimensões módicas apoiada cm areia e
baseia-se nos resultados de ensaios de penetração
contínua de cone (CPT).
Conforme a Figura 7.49 a deformação específica
do elemento de espessura Az ,à profundidade z, é
s.
£. = —
• Az
e
s. = e.A.
O recalque da placa será:
U1 l>t tnt QlIfUtRMtA
2» I.
«•0,161
(kl n »r« h* i«h«im ak nu
COftftiO*
• •C.» -1.4,
9 0 t
CO.JS. [UM)
A
Fig.7.50 - Fatores de influencia para o mótodo de
Schmertmann
uma profundidade de cerca de 0.5R e, conseqüentemente,
o fator de influência de deformações
será máximo nessa profundidade. Schmertmann
et al. (1978) propuseram as distribuições práticas
de \ t e as estimativas dos módulos de
deformabilidade em função da resistência de ponta
(q {) do ensaio CPT mostradas na Figura 7.50.
A Figura 7.51 e a Tabela 7.8 apresentam um
algoritmo para o cálculo do recalque:
b) Método de Schultze e Sherif (1973)
Os autores basearam-se na análise estatística dos
recalques medidos em 48 casos de fundação em
areias tendo como bases a Teoria da Elasticidade
e os índices de resistência à penetração SPT » N,
tendo chegado ã equação:
tf
/V 0,87 (I + 0,4c/ 5)
(76 - 29 >
sendo F denominado de "coeficiente de recalque",
função da dimensão da fundação e da relação dos
lados da mesma (L/B), e apresentado na Fig. 8.53.
A profundidade de apoio da fundação é £ e a
espessura da camada deformável é igual a 2B ,
conforme indica a Figura 7.52.
Fig. 7.51 - Método de Schmertmann. Exemplo da
determinação de l t em função de q t
Fig. 7.521 Notação do método de Schultze e Sherif
Tabela 7.8 lAplicaçáo do Método de Schertmann
camada
100
Quando não se dispõe de resultados de ensaios
de cone e apenas de resultados de ensaios de
penetração SPT, pode-se utilizar a correlação
empírica entre q c e SPT - N e os valores de K
constante da Tabela 7.9 - Teixeira (1993)
q c = KN (7.6.28)
Iaijeia_2x2l Valores do coeficiente de correlação K.
Teixeira (1993)
SOLO
K |MPaJ
silte arenoso 0.45
areia argilosa 0.55
areia siltosa 0.7
areia 0.9
areia com pedregulho
U
~ 50
i»
M.
W
u
UJ
b-
5
i
•a
2
5
o
ü
- —
o • o o • o o ' " «ooo •
Fig. 7.53 - Coeficiente de recalque do Método dc
Schultze e Sherif
c) Método de Décourt (T992)
Para areias Décourt propôs o cálculo do recalque
de placa em função do SPT a N pela relação:
sobreadcnsada <a' , < a ). Por meio das fórmulas
de distribuição de tensões determira-se o acréscimo
de tensào o no meio da camada compressível,
calculando-se então o recalque:
, = 27251
N
(7.6.30)
aj Argila Normalmente Adensada (o' . = o' J
a qual foi obtida levando em consideração alguns
dos métodos dc extrapolação de recalques em função
do tamanho da fundação, encontrados na literatura.
Na equação (7.6.30) as unidades sào s
(cm), q (MPa) e B <m).
7.6.4 - Recalque por Adensamento
Cji . cr" () + O".
s = —— log ——«•
b) argila sobreadensada
Quando c\ (} + a < a' (>
c tn , &, ,+ff.
(7.6.30
(7.6.32)
Para o cálculo dos recalques por adensamento
«.le camada compressível profunda é necessário o
conhecimento dos seguintes parâmetros:
• peso específico das camadas (y)
• profundidade do nível d'água freático
• índice de vazios inicial (ej
• índice de compressão (C )
• índice dc recompressào (C )
• tensào de sobreadensamento (a' (i)
• espessura e profundidade da camada compressível
(H)
c, o.<r.
Il( »««tlOtl
s = —— log . - J ~
Quando c\+ G / > a'
s=— log-^- + — — log ; -
\+e n C7 v0 l + e 0 o p
(7.6.33)
No caso de argila sobreadcnsada é habitual tomar-se
o índice de recompressào igual ao índice
de expansão medido durante a descarga tio ensaio
cdométrico (C = C ). Excluindo as argilas expansivas,
o índice de expansão dc argilas de atividade
normal é da ordem de 1/5 a 1/10 do seu
índice de compressão. Para as argilas da cidade de
Sào Paulo essa relação vale, cm média. 1/5 e para
as argilas da baixada santista é de 1/11.
No cálculo da tensào geostâtica inicial, deverá ser
levado em conta o caso de ocorrer um alívio de
pressão devido a uma escavação, por exemplo, para
subsolo de edifício.
Para melhorar a estimativa dos recalques no caso
da camada espessa de argila, recomenda-se dividi-la
em subcamadas, determinando-se os vários
valores de o' ul, o' t e a para cada subcamada. No
caso a tensào de préadensamento ser variável com
a profundidade, ou seja, conhecendo-se a variação
da razão de sobreadensamento (OCR) com a
profundidade, entra-se na fórmula (7.6.33), para
cada camada, com:
<7, = (OCR)o\ (7.6.34)
G'
Fig. 7.54 - Acréscimo dc tensão nos casos dc argilas
normalmente adensadas (aj c sobreadensadas (b)
Calculada a tensào geostâtica efetiva inicial (o' i0)
na profundidade da amostra ensaiada, verifica-se,
conforme mostrado na Figura 7.54, se ela é normalmente
adensada (quando, então, a\ M • o',,) ou
7.6.4.1 - Estimativas do índice de Compressão e
da Tensão de Sobreadensamento
Sào apresentados a seguir alguns valores típicos
do índice de compressão de alguns solos brasileiros
em função do limite de liquidez (co (). São correlações
muito úteis, pois permitem a estimativa de C a
partir de ensaios de 0), que podem ser executados
nas amostras colhidas na sondagem à percussão.
• Argilas da bacia terciária da cidade de Sào
Paulo. Dados de Mello e Teixeira (1960), Pinto e
Massad (1972), Cozzolino (1961) c Pena (1982):
de vazios, tensào de sobreadcnsamento e índice
de compressão de diversos solos.
C. =0,004(cd ^ -6) (7.6.35)
• Argilas da cidade de Santos - Mello e Teixeira
(1960)
C c =0.0l(a) t-10) (7.6.36)
• Argilas orgânicas do Recife - Coutinho (1988)
C t=0,015(0) 10) (7.6.38)
7.6.5 - Recalques Secundários
A terceira parcela dos recalques dc uma fundação
a ser considerada decorre das deformações
que continuam se processando nos solos argilosos
muito plásticos e orgânicos após a dissipaçào
prática das sobrepressões neutras. A experiência
(ensaios c medidas de recalques) mostra
que os recalques secundários evoluem lenta c
linearmente com o logaritmo do tempo, e sào
calculados pela expressão:
• Argilas orgânicas do canal entre Florianópolis
e o continente
s A =CJl
Iog-i-
*r
(7.6.44)
C c = 0,009(CD l +21) (7.6.39)
• áiltes arenosos, pouco argilosos (solo residual
de gnaisse) - Vargas (1978)
C c = 0,0042(co t+39) (7.6.40)
Em função do índice de vazios inicial (e 0), Vargas
(1978) apresentou a seguinte relaçào para argilas
siltosas (solo residual de basalto)
C c = 0,33(e o - 0,2) (7.6.41)
Todavia, é de máxima importância no cálculo
dos recalques saber-se se a argila é normalmente
adensada ou sobreadensada. Para estimativas grosseiras
da tensão de pré-adensamento das argilas
terciárias de Sào Paulo, análises estatísticas realizadas
com dados do Metro-SP levam à seguinte
correlação com o SPT = N:
a p= 0,03/V -f 0,17 (MPa) (7.6.42)
Outra estimativa da pressão de pré-adensamento
pode ser feita pela relação:
N
11+0,4/ (MPa) (7.6.43)
sendo I (i (%) o índice de plasticidade da argila.
Para as argilas de Sào Paulo com I (i predominantemente
entre 20% e 40%, ambas as estimativas
acima apresentam razoável concordância.
A Figura 7.55, Mello e Teixeira (1955), apresenta
um acervo dc dados muito útil para a
visualização da grandeza dos parâmetros-índice
onde:
índice de compressão
secundária
período de tempo de interesse,
normalmente considerado
como sendo o tempo de vida
útil da obra considerada,
tempo de ocorrência do recalque
primário
O índice de compressão secundária é tomado
como sendo a deformação específica por um ciclo
do logaritmo do tempo no gráfico recalque x
log tempo.
Valores típicos do índice de compressão secundária
são:
• argilas préadensadas (OCR >2) C a < 0,001
• argilas normalmente adensadas
e de atividade normal C a - 0,005 a 0,02
• argilas muito plásticas e orgânicas C c > 0,03
• turfas C > 0.08
7.6.6 - Tempo para Ocorrência do Recalque
por Adensamento de Camadas Profundas
A experiência da observação de recalques de
obras (aterros e edifícios) tem revelado que c tempo
de ocorrência dos mesmos é inferior àquele
calculado com o coeficiente de adensamento determinado
em ensaios de laboratório. Segundo estudos
de Massad (1985), a velocidade dos
recalques de aterros na Baixada Santista é de cerca
de 50 vezes maior do que aquela calculada com
o C v de laboratório. Para edifícios da orla praiana
da cidade de Santos, Teixeira (1944) chega a valores
de cerca de 20 vezes.
N" SOLO PROCE-
DÊNCIA
PROF
|mj
w i
(%)
w
(%J
w S C<
s
P
MPa
<<0.002 0,002<
ÍK0.06
1 argila orgânica preta Sào Paulo 6.20 98.5 43.6 87.6 99 0.83 0.09 _ _
2 argila marinha siltosa. Santos 28.00 110.0 38.4 61.6 95 0.86 0.24 50 35 15
cinza escura
3 argila marinha siltosa. Santos 20.00 116.5 31.7 75.2 100 1.37 0.19
- - -
cinza escura
4 argila siltosa. friável, Centro de
-
50.5 39.0 33.9 86 0.25 0.60 41 29 30
amarela
São Paulo
5 siltep' 0 argiloso, brando São Paulo 4.30 43.3 32.8 26.7 66 0.36 O.SO 17 74 19
(decomposição dc rochaj
6 argila siltosa. amarela Centro de 11.40 88.0 33.0 34.0 84 0.39 0.50 67 27 6
São Paulo
1 areia argilosa. cinza Santos 23.50 31.2 20.8 32.6 100 0.20 0,20 _
8 argila siltosa. vanegada Centro de
São Paulo
6.50 82.1 25.3 36.0 96 0.34 0.45
- - -
Via
y areia fina siltosa e mista
5.00 15.7 21.5 25.1 91 0.22 0.40
- - -
marrom e cinza Anchieta-SP
10 areia fina e média Centro de 5,50 39.4 17.2 21.4
argilosa amarela São Paulo
91 0.22 3.0 34 14 52
11 argila m lu arenosa Centro de
50.0 ,17.7 17.8 92 0,20 0.55
-
- - -
amarela e cinza São Paulo
12 areia fina e média cinza - 4.50 33.3 14.6 26.6 90 0.29 0.14 _ _
13 argila marinha p'° Rio de 0,50 40.0 22.7 54.1 100 0.07 0.16
- - -
siltosa. cinza escura Janeiro
<£>0.06
Fig. 7.55 - Compressibilidade dc alguns solos
As razoes para tais diferenças sào as seguintes:
• freqüentemente os depósitos sedimentares de
argila têm lentes muito delgadas de areia, fazendo
com que ocorra uma considerável drenagem
horizontal;
• rela;ào entre as dimensões da área carregada e
da espessura da camada compressivel; quanto
menor essa relação, mais rapidamente sc darão
os recalques:
• relação entre o aumento de pressão despertada
na camada e a pressão gcostática inicial;
quanto maior essa relação, mais rapidamente
ocorrerão os recalques primários.
7.6.7 - Outras Causas de Recalques
Além das causas analisadas existem outras causas
que conduzem a recalques que também devem
ser considerados. A seguir serão comentadas
algemas delas:
a) Rebaixamento do Lençol Freático (Temporário
ou Permanente)
í: muito freqüente na prática promover-se o rebaixamento
do lençol freático para a execução da
infra-estrutura de um edifício. Caso haja a presença
da camada dc solo compressivel no subsolo,
ocorre um aumento das pressões geostáticas nessa
camada, independentemente da aplicação de carregamentos
externos.
Na Figura 7 56 apresenta-se um exemplo quando
a camada compressivel sofre um acréscimo de pressão
efetiva p:T>|x>rcional ao rebaixamento do NA.
=<Y|-Y.JH.+<Y 2-YnXO,:
<•2 =YiH,+(Y 2-Y aX0,5H 2)
=> Aa^a^-a;., = Y 3H,
r
-mvw
mv/.
JT J .•••.;. r 1
—
, NAR
-T-Zr
/
/
/ h '
Fig. 7.56 - Aumento das tensões efetivas no solo
devido ao rebaixamento do nível dc água freático
das edificações, tanto externos quanto internos,
poderão acompanhar aqueles recalques.
lista causa deve ser analisada com cuidado, de
modo a prccavcr-se contra ações judiciais que
poderão prejudicar o cronograma das obrai.
Também ocorrem recalques cm áreas relativamente
extensas, causados por rebaixamento de lençóis
d'água profundos, decorrente do bombeamento dc
poços de abastecimento de água.
b) Solos Colapsíveis
Existem solos caracterizados por sua elevada
porosidade que podem ser formados tanto per areias
como por argilas. Esses solos situados acima do
lençol freático tem suas partículas cimentadas entre
si por materiais ligantes (por exemplo, calcário) ou
mesmo por argila coloidal e são conhecidos como
sendo solos colapsíveis, pois quando eles entram cm
contato com água, seja por penetração pela superfície
seja por elevação do lençol freático, ocorre a
destruição dessa cimentaçâo intergranular, resultando
um colapso súbito da estrutura desse sole. Esse
colapso causa recalques, mesmo sem haver aumento
de pressões por carregamento externo.
Entre nós é comum a existência das argilas porosas
vermelhas nos espigòes de Sào Paulo, com
macroporos visíveis a olho nu, formados pela
lixiviaçào de colóidcs, c das areias fofas (sedimento
cenozóico laterizado) no interior do Estado ce Sào
Paulo. A estrutura desses solos é destruída quando
saturados, causando os recalques das fundações
ou de aterros apoiados nesses solos. No caso de
fundações por estacas, sc estas estiverem inteiramente
embutidas em solos colapsíveis, há a perda
da sua capacidade de carga, e sc apenas o fuste da
estaca estiver no solo onde ocorre a redução brusca
do volume, ela será sobrecarregada por tensões
de atrito lateral negativo.
c) Escavações em Área Adjacente ã Fundação
É comum a cxecucào dc escavações para a construção
dc subsolos junto a edificações existentes.
Essas escavações, mesmo com paredes escoradas,
causam movimentos do maciço animado, podendo
ocorrer, como conseqüência, recalques nas edificações
apoiadas nesse maciço.
Como os maiores recalques ocorrem junto à escavação
c sc reduzem à medida que sc afasta, os
recalques diferenciais decorrentes podem danificar
as edificações.
Como a linha freática do lençol rebaixado se estende
para as áreas vizinhas, estas ficarão sujeitas a
recalques e, se nessas áreas existem edificações,
elas sofrerão conseqüências. Ocorrerão recalques
caso essas edificações estejam cm fundações rasas
ou. se apoiadas em estacas, ter-se-á um aumento
de cargas nas mesmas devido às tensões de atrito
lateral negativo. Dc qualquer modo os pisos térreos
d) Vibrações
Vibrações oriundas da operação de equipamentos
(bate-cstacas, rolos compactadorcs vibratórios
etc.), de desmonte de rocha nào controlado, e
mesmo do tráfego viário, podem causar recalques
de fandaçòes com conseqüentes danos das edificações.
Os danos sào causados por vibrações dc
freqüências na faixa de 15 a 30 ciclos/seg, e amplitudes
da vibração de 1 a 0,2mm, respectivamente.
e) Escavação de Túneis
Qualquer que seja o método de execução de
túneis, ocorrerão recalques da superfície do terreno.
Como esses recalques têm forma de sela, as
edificações situadas nessa área estarão sujeitas a
recalques diferenciais que poderão danificá-las.
>.r
7.7 - RECALQUES ADMISSÍVEIS
7.7.1 - Introdução
Na maioria dos problemas práticos, o projeto de
fundação é governado por considerações de
recalques. Neste parágrafo serão discutidos os valores
limites citados na literatura, os quais serão variáveis
de acordo com o tipo e função da superestintum.
Dada a complexidade do problema, envolvendo
nào somente as características do subsolo, como também
o tipo e o porte da estrutura e os materiais empregados.
esses recalques têm sido estabelecidos de
maneira empírica, sendo baseados em casos dc obra
em que os recalques da fundação foram olwervados.
O leitor interessado no assunto poderá consultar
a revisão de Wahls Cl981), bem como os excelentes
trabalhos de Burland e Wroth (1974;, Grant et.al.
(1974) e Burland et.al. (1977), Bjerrum (1963) e o
clássico de Skempton c MacDonald (1956).
7.7.2 - Definição dos Vários Tipos de
Movimentos de uma Fundação
Na Figura 7.57, adaptada de Grant et al. (1974),
os pontos A.B.C e D sào quatro pontos quaisquer
de uma fundação, podendo representar pontos
ao longo de uma sapata corrida, sob um radier ou
quatro pilares de uma estrutura sendo monitorada.
Com base na simbologia da figura, definem-se os
seguintes movimentos de uma fundação:
• Recalque, s — é o deslocamento total sofrido
por qualquer ponto da iundaçào: s A, s M, s t: ®
M »l*»u COT *(C*lOufS ("'tf X U 4 »»tii (iniMÇífl cc
«calcai v<"'c"»c i o» mcuMçio
Fig. 7.57 - Definição dos vãrios tipos dc movimentos
em fundações
7.7.3 - Danos Causados por Movimentos de
Fundações
Os danos causados por movimentos de fundações
podem ser agrupados em três categorias principais:
a. Danos arquitetônicos, ou à aparência visual
da construção. Sào aqueles visíveis ao observador
comum, causando algum tipo de desconforto:
trincas em paredes, recalques de pisos,
desaprumo de edifícios, desaprumo de muros de
arrimo etc.
1). Danos causados à funcionalidade ou ao uso
da construção. O desaprumo dc um edifício pode
causar problemas de desgaste excessivo de elevadores,
inverter declividades de pisos e tubulações.
Recalques totais excessivos podem inverter
declividade, ou mesmo romper tubulações, prejudicar
o acesso etc. Recalques diferenciais podem causar
o emperramento de portas e janelas, causar trincas
por onde pcxlc passar umidade etc. Recalques
de pisos industriais podem prejudicara operação de
máquinas, empilhadeiras, cstocagcm ce materiais etc.
c. Danos estruturais sào aqueles causados à estrutura
propriamente dita, podendo comprometer
sua estabilidade.
Inclinação, w — descreve a rotação em corpo
rígido de toda a estrutura;
Recalque diferencial, 5 — diferença de
recalques entre dois pontos, após eliminação
do recalque uniforme e da rotação: 5 V(, 5, < i>*
Distorção angular, P — é a rotação da linha ligando
dois pontos, depois dc descontado o desaprumo:
Hn = ô a> 1 L c»
7.7.4 - Movimentos Limites de Fundações
Diante dos problemas decorrentes de movimentos
exagerados de fundações, seria de todo interesse prático
que se pudesse estabelecer limites aceitáveis para
os movimentos de uma fundação. No entanto, a fixação
desses limites esbarra com enormes dificuldades,
diante da gama dos materiais envolvidas nas construções.
como tamt>ém na dificuldade de se avaliar a
interação fundação-estrutura de um elido problema.
AiVÁLISE. projeto e execução de flndações rasas I 261
Os valores apresentados a seguir devem ser interpretados
como indicativos, não devendo ser esquecido
que, apesar da autoridade dos pesquisadores,
foram baseados em um número limitado de casos.
Assim, o trabalho de Grant et al. (1974), que
acrescentou 95 casos aos 98 estudados por Skempton
e MacDonald (1956). nem todos com informações
completas sobre o comportamento da fundação e
seus efeitos, ao estudar a relação entre a distorção
angular e o número dc pavimentos das construções
conseguiu reunir apenas 25 casos de fundação em
sapatas, assim distribuídos:
• até 5 andares: 10 casos
• de 6 a 10 andares: 8 casos
• de 11 a 20 andares: 2 casos
• de 21 a 27 andares: 4 casos
• 32 andares: 1 caso
Verifica-se a partir desses números que a maior
parte da experiência a respeito do efeito da distorção
angular cm edifícios provém dc construções de
pequeno porte, empregando sistemas tradicionais
de construção com estrutura de aço ou concreto. É
importante que o engenheiro tenha isso em mente,
para saber distinguir os casos rotineiros que se
encaixam dentro da experiência anterior, daqueles
especiais que requerem uma análise mais criteriosa
do problema de recalques (edifícios altos com corpos
de alturas diferentes, vãos grandes, vigas de
grande inércia acabamentos especiais etc.).
Na Figura 7.58. são apresentados os critérios de Bjerrum,
(1963), que procuram estatelccer limites para a distorção
angular em função de vários tipos de danos.
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Fig. 7.58 - Critérios de danos (apud Bjerrum 1963)
Dentro os valores apresentados é importante
salientar os seguintes:
• (3 = 1/500: limite seguro para evitar-se danos
em paredes de edifícios.
• P = 1/300: limite a partir do qual começam
aparecer trincas em paredes de edifícios.
• (Í - 1/1S0: limite a partir do qual se pode esperar
danos estruturais cm edifícios correntes.
Saliente-se também que os valores acima foram
obtidos a partir de estruturas que apresentaram
algum tipo de dano, representando a distorção
angular total medida, não necessariamente aquela
que ocorreu após aplicação dos acabamentos.
No caso de construções cm alvenaria estrutural, a
distorção angular total é aquela que interessa. O
mesmo não ocorre com paredes de edifícios
estniturados, pois nestes as paredes e respectivos
acabamentos sào executados depois que uma parte
do recalque já ocorreu (freqüentemente, as alvenarias
e acabamentos só são executados após a conclusão
da estrutura). Nestes casos, o valor limite aceitável
para um dado acabamento pode ser inferior
ao valor da distorção angular total.
7.7.5 - Recalques Totais Limites
Teoricamente, uma estnituna que sofresse recalques
uniformes não sofreria danos, mesmo para valores exagerados
do recalque total. Na prática, no entanto, a ocorrência
de recalque uniforme não acontece, liavendo
sempre recalques diferenciais decorrentes dc algum tipo
de excentricidade dc caigas, ou heterogeneidade do
solo. A limitação do recalque total é uma das maneiras
de limitar o recalque diferencial.
Burland et al.(1977) sugerem valores de recalques
diferenciais e de recalques totais limites, aplicáveis
aos casos dc estruturas usuais, separando os casos
de fundações apoiadas em areias c em argilas.
Areias: ô máx = 25 mm
s máx = 40 mm para sapatas isoladas
s máx • 65 mm para radier
Argilas:ô máx - 40 mm
s máx - 65 mm para sapatas isoladas
s máx • 65 a 100 mm para radier
Para o caso de outros tipos de solos, os autores
não apresentam recomendações, a nào ser a
de que os recalques prováveis devem ser estimados
c avaliadas as suas conseqüências perante o
problema em estudo.
Os valores acima se aplicam a estruturas convencionais
de aço ou concreto. Não se aplicam
aos casos de prédios em alvenaria portante, para
os quais os critérios serão mais rigorosos, dependentes
da relação L/H (comprimento/altura)
da construção c do modo dc deformação previsto,
com concavidade para baixo (n), mais grave,
ou concavidade para cima (u). Para este tipo dc
construção, o leitor deverá consultar as publicações
já referidas anteriormente.
7.8 - CONTROLE DE EXECUÇÃO DE SAPATAS
O controle de execução de sapatas consiste essencialmente
em fazer com que as sapatas sejam
apoiadas sobre o solo previsto em projeto.
Para tanto, é sempre conveniente que a escavação
das sapatas se inicie nas imediações de uma
sondagem, para permitir a comparação "in loco"
do previsto com o real. Nesta fase inicial se esclarecerá
também eventual variabilidade nas características
do solo de apoio, visando estabelecer
níveis que permitam o escalonamento entre
sapatas apoiadas cm cotas diferentes. No caso
de sapatas apoiadas cm solo, o escalonamento
será feito conforme a Figura 7.59.
As cavas de cada sapata serão inspecionadas uma
a uma, sendo conveniente o emprego de um
"penetrômetro" (barra de aço de 12,5mm) para
testar a uniformidade do solo de apoio.
Fig. 7.59 - Escalonamento de sapatas
Na inspeção, se dará especial atenção à eventual
ocorrência dc poços, fossas, ou buracos de
formigueiros, a exigir um tratamento adequado.
Poços e fossas deverão ser limpos e preenchidos
com concreto magro. Alternativamente poderão
ser injetados com calda de cimento, ou uma mistura
ternária adequada (solo + cimento + água).
Aprovado o solo de apoio, a sapata será limpa
para receber o lastro de concreto magro, nào sendo
aceitável um lastro de pedra britada. A sapata
poderá entào ser executada.
8.9 - BIBLIOGRAFIA
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VAL, E.C. e OSÓRIO. H.C. (1987) - Performance of a mal on a
tropical saprolite. Proc. 8 1 " Panam. Conf. on Soil Mechanics
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VARGAS. M. (1955) - Fundações. Manual do Engenheiro. Glo-
IH). 4 o volume. Tomo I, pg. 184-320.
VARGAS, M. (1961) - Foundations of tall buildings on sand in
Sào Paulo - Brasil - V Int. Conf. on Soil Mechanics and
Found. Eng - Paris - Vol. I - pg. 841-843
CAPITULO 8
ANÁLISE E PROJETO DE FUNDAÇÕES PROFUNDAS
LUCIANO DÉCOURT/JOSÉ HENRIQUE ALBIERO
JOSÉ CARLOS ÂNGELO CINTRA
8.1 ESTACAS
LUCIANO DÉCOURT
As estacas usuais podem ser classificadas em duas
categorias:
- Estacas de deslocamento
- Estacas escavadas
Estacas de deslocamento sào aquelas introduzidas
no terreno através de algum processo que nào promova
a retirada de solo. No Brasil, o exemplo mais
característico desse tipo de estaca é o das pré-moldadas
de concreto armado. Também se enquadram
nessa categoria as estacas metálicas, as estacas de
madeira, as estacas apiloadas de concreto e também
as estacas de concreto fundido no terreno dentro de
um tubo de revestimento de aço cravado com ponta
fechada, sendo o exemplo mais característico dessas
últimas as estacas tipo Franki. Na Bélgica foi desenvolvido
recentemente um tipo de estaca de deslocamento
moldada "in loco" com elevada capacidade
de carga, a estaca Omega
Estacas escavadas são aquelas executadas "in
situ" através da perfuração do terreno por um processo
qualquer, com remoção de material, com
ou sem revestimento, com ou sem a utilização de
fluido estabilizante.
Nessa categoria enquadram-se as estacas tipo
broca, executadas manual ou mecanicamente, as
tipo "Strauss", as barretes, os estações, as héliccs
contínuas, as estacas injetadas etc.
8.1.1 Capacidade de Carga de
Estacas isoladas
Conceituação Básica
Uma estaca submetida a um carregamento vertical
irá resistir a essa solicitação parcialmente pela
resistência ao cisalhamento gerada ao longo de
seu fuste e parcialmente pelas tensões normais
geradas ao nível de sua ponta.
A capacidade de carga Q u é definida como a
soma das cargas máximas que podem ser suportadas
pelo atrito lateral Q x e pela ponta Q p.
Qu - Q $
+ Q P (D
Designando-sc por q t c q t as tensões limites de
cisalhamento ao longo do fuste e normal ao nível
da base eA eA p respectivamente a área lateral da
estaca e da seção transversal de sua ponta, tem-se
Q„-Q. + Q P-<iA + < 2 >
A capacidade de carga pode ser avaliada através
de processos diretos e indiretos.
Nos processos ditos diretos, os valores de q v e
q p sào determinados através de correlações
empíricas e/ou semi-empíricas com algum tipo
de ensaio "in situ" .
Nos processos ditos indiretos, as principais características
de resistência ao cisalhamento e de
rigidez dos solos sào avaliadas através de ensaios
"in situ" e/ou de laboratório e a capacidade de
carga é determinada através da utilização de formulação
teórica ou experimental.
Aspectos Teóricos, Filosóficos e
Experimentais
Estaca de Referência
Tendo em vista a existência de um número muito
grande de fatores que influenciam a capacidade
de carga de estacas, optou-se por concentrarse
a análise em um tipo admitido como referência
e posteriormente analisar-se as diferenças
provocadas pelas características peculiares dos
diversos tipos de estaca.
A estaca de referência aqui considerada é uma
estaca de deslocamento, de concreto armado e de
seção circular.
Formulação Teórica da
Capacidade de carga
São inúmeras as teorias existentes para a determinação
da capacidade de carga de fundações. A
maioria delas se constitui de extensões dos trabalhos
clássicos de Prandtl (1921) e Reissner (1924),
ANALISE E PROJETO DE FUNDAÇÕES PROFUNDAS I 2 6 5
sendo que as primeiras aplicações práticas, relacionadas
a solos foram feitas por Caquot (1934),
Buisman (1935), Terzaghi (1943) e Meyerhof
(1951). Entre as mais recentes e promissoras destaca-se
a do engenheiro brasileiro Ricardo Salgado
< 1993).
Segundo Terzaghi (1943), a capacidade de carga
de uma sapata contínua dc largura li cuja base
se situa a uma profundidade D abaixo da superfície
do terreno é dada por :
Q - B (cN. + yl) N^ + VSy B N y)
Onde c é a coesão do solo e N c , N c são
coeficientes adimcnsionais dc capacidade de carga,
função apenas do ângulo de atrito o do solo.
No ca.••o de estacas, nào interessa a análise bidimensional
visto que estacas sào peças
tridimensionais, em sua maioria de seção circular
ou quadrada
Designando por S t , S ( e S y os fatores de correção
para fundações circulares ou quadradas tem se
q p-(S ccN e + S qTfDN,+ l/2S T ByN y) (4;
Na Fig. 8.1, extraída dc Vcsic (1963), os três ti-
|X)s dc ruptura de fundações em areia, possíveis
de ocorrer, sào apresentados.
ÂNOULO OC ATRITO IHTCRNO 4
Fig. 8.2 Valores de N q para fundações profundas de
seção circular ou quadrada segundo diversos autores.
Apud Vesic (1975 b)
íhOlCE 0CÚCMSICMCCDAARCIA I,
LOMAA*
Pode-se observar que essas diversas teorias conduzem
a resultados tremendamente díspares. De
fato, o fator N varia cerca de cinco vezes entre os
vj
valores máximo e mínimo para <> - 30° e cerca de
dez vezes para 0 - 40".
Além do mais, uma variação de apenas 5 o no
ângulo de atrito, de 30° para 35", pode significar
um aumento de aproximadamente 100% na capacidade
dc carga, segundo Vesic ( 1963) e
Bcrezantsev et al (1961), ou de cerca de 150%,
segundo Meyerhof (1951).
Fig. 8.1 - Tipos de ruptura de fundações em areia em
função do embutimento relativo D/B e do índice de
densidade l 0 (compacidade relativa). Apud Vesic (1963)
Na Fig. 8.2, também reproduzida de Vesic
(1975b), estào indicadas as proposituras de diversos
autores para N , que é o mais importante coeficiente
de capacidade dc carga, para o caso de
fundações profundas em areia.
A tensão de ruptura do solo junto à ponta da
estaca é. nesse caso, dada por:
q - cN +<J N (5)
» c \o q
Esses valores dc N t c N já incorporam os coeficientes
de correção para seção circular.
O Conceito de Ruptura
As teorias de capacidade de carga falam de ruptura
mas nào discutem as deformações necessárias
para atingi-la.
As verificações experimentais de capacidade de
carga apresentam resultados em termos de gráficos
carga-recalquc, onde a inexistência de condições
claras de ruptura se constituem na regra geral.
Como então definir ruptura? Dc Bccr (1988)
apresenta os conceitos de ruptura física e de ruptura
convencional.
A niptura fisica Q^ é definida como o limite da relação
do acréscimo do recalque cia ponta da estaca (As B)
pelo acréscimo de carga (AQ), tendendo ao infinito.
Qu» - Q para A s B/AQ = « (6)
Décourt (1996a; propôs definir a ruptura física
de fundações em geral com base no conceito
de rigidez. Define-se rigidez de uma fundação
(R) a relação entre a carga a ela aplicada e o
recalque produzido pela aplicação dessa carga.
Define-se a ruptura física (Q uu> como sendo a
carga correspondente a um valor de rigidez
nulo.
Q uu = limite de Q quando s —»°© (7)
e portanto R - Q/s
zero
A ruptura convencional Q é definida como
sendo a carga correspondente a uma deformação
da ponta (ou do topo) da estaca de 10% de seu
diâmetro no caso de estacas de deslocamento c
de estacas escavadas em argila e de 30% dc seu
diâmetro no caso de estacas escavadas em solos
granularcs.
Capacidade de Carga da Estaca de Referência
em Areia. Conceituacão Clássica
Capacidade de Ponta
Considerando-se a importância reduzida da dimensão
característica da fundação, sua largura B
ou seu diâmetro d, a tensào de ruptura de ponta é
dada por
q «N xo' (8)
•i» «i »•>'
onde C é a tensào efetiva atuante ao nível da
ponta da estaca.
Fig. 8.3 Valores de N q e N y para estacas com ponta cm
areia. Apud Berezantsev et al f!961J
Tabela 1 l Coeficiente em função de D/3 e de o,
[Berezantsev et ali 961)
Os 26° 30° 34° 37° 40°
D/B
5 0.75 0.77 0.81 0.83 0.85
10 0.62 0.67 0.73 0.76 0.79
15 0.55 0.61 0.68 0.73 0.77
20 0.49 0.57 0.65 0.71 0.75
25 0.44 0.53 0.63 0.70 0.74
O método de Berezantsev et al (1961)
Berezantsev et al (1961) apresentaram um método
para o cálculo da capacidade de carga de
ponta em areia. De acordo com a formulação
original desses autores, a parcela correspondente
à dimensão ria estaca (B) nào r entretanto desprezada,
obtendo-se a tensào de ruptura de
ponta em solos granularcs a partir da seguinte
expressão:
q - ayDN +y BN (9)
onde a é um fator redutor da tensào vertical devido
ao peso de terra (y N D) lunçào do embutimento
relativo da fundação D/B e do ângulo de atrito do
solo ao longo do fuste da estaca, <J> N, que é apresentado
na Tabela 1.
Os valores de N (| sào apresentados na Figura 8.3.
Observe-se que todo o raciocínio até aqui apresentado
é válido para areias de sílica. No caso de
areias calcárias, diante de natureza muito mais
compressível desses solos, as cargas limites de
ponta sào menores.
Houlsby et al (1988) sugerem para areias calcárias
nào cimentadas.
a. aa
0.6
(10)
onde a é a pressão atmosférica (100 kN/m0 e . a
tensào efetiva octaédrica ao nível da ponta da estaca.
Capacidade por Atrito Lateral
A expressão básica para a estimativa do atrito
lateral unitário de estacas cm areia é:
= tgô = Ko , vntg6 (lli
onde:
o'
i»
é a tensão normal efetiva atuando ao redor do
fuste da estaca
8 e c angulo de atrito entre a estaca e o solo.
K é a relação entre a tensão normal a' c a tenn
são vertical efetiva
O valor de K depende do coeficiente dc empuxo
cm repouso K' , do processo de execução da estaca
e do índice de densidade inic ial da areia.
Segundo Fleming et al (1992), K pode ser estimado
por
K ~ N / 50 (12)
'i
Para a estaca de referência K, varia entre aproximadamente
I 0 e 1.50, com valor médio em torno
dj 1.2.
O ângulo Ô pode ser admitido como sendo, cm
primeira aproximação, igual a <$>' v. (ver capítulo 3).
Capacidade de Carga da Estaca de Referência
em Argila. Conceituação Clássica
Capacidade de Ponta
Para a determinação da capacidade de carga de
ponta em argilas saturadas, há um certo consenso
entre os especialistas de que as fórmulas de
Meyerhof (1)51) c Skempton (1951) sào as mais
adequadas
q„-cN + yl) (13)
Na Fig. 8.-« é apresentada a proposta Skempton
(1951) para a variação de N com o embutimento
relativo D/B da estaca no solo.
Capacidade por Atrito Lateral
O atrito lateral entre estaca e solo depende nào
somente da resistência ao cisalhamento do solo.
Depende também do histórico de tensões ac qual
0 solo esteve submetido c em particular da rclaçào
de sobreadensamento.
O atrito lateral unitário é normalmente obtido
através da aplicação de um fator empírico à resistência
ao cisalhamento não drenada do solo c .
u
<K " a c u (15)
a varia de 1 a pouco mais que 1 para argilas normalmente
adensadas moles até cerca de 0.33 para
argilas rijas a duras fortemente pré-adensadas.
Segundo Randolph e Wroth (1982;. é fundamental
também o conceito de relação de resistência
dado por c /cf .
1
u vo
Ambos os parâmetros a - q / c e p » q % /o\
devem apresentar variação consistente com a relação
de resistência.
Se admitir-se que para argilas normalmente
adensadas a = 1,0, o que é bastante razoável, para
argilas pré-adensadas ter-se-ia:
c u / o\. 0 < 1,0 ...a = (c u / a , vo> w
nc (c u / o\. 0) c \l6)
c
c u /o' vo > 1,0....a = (c u / CO,/ 5 (c u / o\. (>)- 02i (17)
se-
Em conseqüência o atrito lateral unitário
ria dado por:
para c /C < 1,0...q - (c/o* ) °*(c ct' ) 0< 1
(18)
u <nt ' »* u vn rx u vir
e para
õ
03
\ >
c /tf , >1,0....q - (c /o* ) 05 c 07S o' (19)
U VO ' O VO IU u vo
X
C5>
su
Deve-se ressaltar que o índice nc sc refere aos
valores de cA? para a condição normalmente
adensada.
Capacidade de Carga de Estacas Levando em
Conta a Compressibilidade do Solo
Fig. 2.4 Coeficiente N ( em função do embutimento
relativo D/B. Apud Skempton (1951)
Observa-se pois que para valores de D/B iguais
ou superiores a 3 tem-se
q u»9c u +yD (M)
As teorias '"clássicas" utilizadas para a determinação
da capacidade de carga de estacas com base
na teoria da plasticidade são inadequadas.
Considera-se hoje mais apropriada a utilização
de teorias elastoplásticas, entre as quais se destaca
a de Vesie (1972).
As modificações básicas introduzidas por Vesic
se baseiam na teoria da expansão de uma cavidade
em uma massa de solo semiinfinita e sào as
seguintes:
1") N nào é função apenas do ângulo de atrito
interno de solo mas também de sua
compressibilidade refletida pelo índice de rigidez Ir.
2" ) A tensão multiplicadora do coeficiente N (
nào é a tensão vertical efetiva como considerado
nas teorias clássicas mas sim a tensão octaédrica
(média) definida como
O índice de rigidez é definido pela relação entre
a rigidez do solo, expressa por seu módulo de
cisalhamento, e a resistência ao cisalhamento ao
nível da ponta da estaca
I G (23)
(20)
onde K ( é o coeficiente de empuxo em repouso
do solo.
N ( é dado pela expressão:
3- sinó
JJ
4 2
-ÍStllO
(21)
Sendo O, E e respectivamente os módulos de
cisalhamento, de elasticidade e o coeficiente dc
Poisson, o índice dc rigidez é dado por:
G
li
I =
r c+O^tgiJ»' 2(1+^+0^,150)
(22)
Na Figura 8.5 c na Tabela 2 o coeficiente de
capacidade de carga N i|t segundo Vesic (1975a), é
apresentado em função de <> e I .
Utilizando-se as relações da teoria da elasticidade
pode-se definir l 1( em função do módulo tle elasticidade
do solo como E = 2 G (1+ u):
I
E
2(1 + fi) (c+ G' tgõ)
(24)
A utilização do índice de rigidez deve ser feita
apenas nos casos onde prevaleçam condições
nào drenadas ou quando a variação volumétrica
for pequena, caso por exemplo de areias densas.
Quando a condição for de drenagem, para se
levar em conta a deformação volumétrica média
na cunha ativa dc Rankine (Al, Vesic (1975b)
introduziu o conceito de índice de rigidez reduzido
(I )
1 +I kA
(25)
Os valores de N, segundo Vesic válidos para
estacas de seção circular ou quadrada, podem ser
obtidos pela expressão:
(26)
A relação entre N e N (| prevista nas teorias clássicas
continua válida
N - (N - 1; cotg<j> (27!
0 5 10 15 20 25 30 35 40 45
ANGULO 0E ATRITO 0*
Fig. 8.5 Coeficiente N em função de <> e l n . Apud Vesic
(1975aJ
É interessante observar-se que o< valores de N ,
para depósitos homogêneos de areias densas, decrescem
substancialmente com o aumento da tensão
octaédrica.
Por exemplo, para a areia de Chattahoochee,
estudada por Vesic (1975a), para o igual a 70kP , o
ângulo de atrito é de 45" e o índice de rigidez reduzido
é de 122. Essa mesma areia, submetida a
uma pressão confinante média de 10,^ MP , tem
seu ângulo dc atrito diminuído para 32,5° e seu
índice de rigidez reduzido, diminuído para 10.
Os valores correspondentes de N são respectivamente
237 e 22, ou seja, uma redução de quase
onze vezes.
Na Tabela 8.3 transcrita de Vesic (1975a) sào apresentados
alguns exemplos de valores de I
Tabela 2 i Valores dos coeficientes N c e N r em função de 0' c de l„ N t
inferiores.
valores superiores e Nq.
FATOMSDC CATAOOtOC DtCARGAPASAFUIMDA<C<trSOÍONOAS CíSECÇAO CKOlAS
70 40 60 80 100 1 700 300 400 SOO |
0 6.97 7.90 8.87 9.36 9.75 10.04 10.97 11.51 11.89 17.19
1,00 1.00 I.OO 1.00 I.OO 1.00 I.OO 1.00 1.50 1.00
1 7.34 e.y/ 9.47 10.04 10.49 10.83 11.97 17.57 13.0) 13.39
1.13 1.15 1,16 1,18 1.18 1.19 1.71 1.77 1.73 1.73
7 7.77 8.87 10.06 10.77 11.78 11.69 17.96 13.73 14.78
1.77 1.31 1.35 1.38 1.39 1.41 1.45 1.48 1.50 >.51
3 8.17 9.40 10.74 11.55 17.14 17.61 14.10 15.00 15.66 16.18
1.49 1.5» 1.61 1.64 1,66 1.74 1.79 1.87 1.85
« 8.54 9.96 11.47 17.40 13.07 13.61 15.34 16.40 17.18 17.80
1.60 1.70 1.80 1.87 1.91 1.95 7.07 7.15 7.70 7.74
5 8.99 Ift56 >>.74 13.30 14.07 14.69 16.69 17.94 18.86 19.59
1.79 1,97 7.07 7.16 7,73 7,7 £ 7.46 7.5? 7.65 7,71
6 9.45 11.19 13.08 14,76 15.14 15.85 18.17 19.67 70.70 71.56
1.99 7.18 7.37 7.50 7.59 7.67 7.91 3.06 3.18 3.77
7 9.94
7 77 11.85 13.96 • 5.30 16.30 17.1 >
7.46 7.71 7.88 3^20 3 10 19.77 17.46 77.71 73.73
3.43 3.63 3.79 3,91
8 10.45 17.55 14.90 16.41 17.54 18.45 71.51 73.46
7.47 7,76 3.09 3.31 3.46 3.59 4.07 4 30 74.93 76.11
4.50 4.67
9 10.99 13.79 I5.4l 17.49 • 887 19.90 73.39 7Í.64 77.35 78.73
7,74 3.11 3.57 3.79 3J9 4,15 4.70 5.0» 5.33 5.55
10 11.55 14.08 16.97 18.86 70 79 71.46 75.43 78.07 79.99 31.59
3.04 3.48 3.99 4.37 4.58 4.78 5.48 5.94 6.79 6.57
lli 17.14 14.90 lé.ió
1 3.36 3.90
- " 70.70 71.81 73.13 77.64 30.61 37.87 34.73
4.57 ««3 S.74 5.50 6.37 6.95 7.39 7.75
171 i?.?6 15.77
1 3.71 4 35 19.30 71.64 73.44 74.97
5.10 5.60 5.98 6 30 30.03 33.41 36.07 38.16
7.38 8,10 8.66 9.11
13 13.41 16.69 70.57 73.17
4.09 4.85 5.75 6 35 75,. 6 81 8 76,84 37.60 36.46 39.44 41.89
7.70 8.53 9.4? 10.117 10.67
H 14.08 17.65 71.97 74.80 77.04 78.89 35.38 39.75 43.15 45.96
4.SI 5.40 6.4 7 7.18 7.74 8.70 9,87 10.91 11.76 17.46
15 14.79 18.66 73.35 76.53 79.07
4,96 6.00 7.76 8.11 R 78 31.08 9 33 38.37 43,37 47.18 50.39
11.78 17.61 13.64 14,50
16 15.53 19.73 74.86 78.3» 31.13 33.43 41.58 47.17 51.55
5.4S 6 66 8.13 9.14 9.93 10.58 17,97 14,53 15 78 55,70 16.83
17 16.30 70.85 76.46 30.33 33.37 35.97 45.04 51.37 56.77 60.47
5,98 7.37 9.09 10.77 11,70 11.98 14.77 16.69 18.70 19,47
18 17.11 77.03
6.56 8 16 78.15 37.40 35.76 38.59 48.74 55.80
10.15 11.53 17.67 13.54 16.84 19 13 61.38 66.07
70.94 77.47
14 17.95 73.76 79.93 34.59 38.30 41.47 57.71 60.61 66 89 77. IB
7.18 9.01 11.31 17,91 14,19 15,76 19.15 71.87 74.03 75.85
70 18.83 74.56 31.81 36.97 4C.99 44.43 56.97 65.79
7,85 9 94 17.58 14.44 15.97 17.17 71,73 74 94 77.51
77.87 78.78
79.67
71 19.75 75.97 33.80 39.38 43.85 47.64 61.51 71.34
8.58 10.95 13,97 16,1 7 17.83 19.79 74.61 78 39 79.77 85.90
31.41 33J77
77 70.71 77.35 35.8» 41.98 46.88 51.04 66.37 77.30 86.09 93.57
9.37 17.05 15.50 17.96 19,94 71.67 77.87 37.73 35.78 38.81
73 71.71 78.84 38.09 44.73 50.08 54.66 71.56 83.68 93.47 101.83
10.71 13.74 17,17 19.99 77.76 74.70 31.37 36.57 40.68 44,77
74 77,75 30.41 40.41 47.63 53.48 58.49 77.09 90.51 101.39 11070
11.13 14.54 18.99 77.71 74,81 77.04 35.37 41.30 46.14 5079
75 73.84 37.05 47.85 5069
17.17 15.95 70,98 74 64 57.07 67,54 87.98 97.81 109.88 170.73
77,61 30.16 39.70 46.61 57,74 57,06
76 74.98 33.77 45.47 53.93 60.87 66.84 89.75 105.61 118,96 130.44
13.18 17.47 73.15 77.30 30.69 33.60 44.53 57.51 59.07 64.6?
77 76.16 35.57 48.13 57.34 64.88 71.39 95.07 113.97 178.67 141.39
14,33 19,17 75,57 30,71 34,06 37,37 49.88 59.05 66.56 73.04
78 77.40 37.45 50.96 60.93 69.17 76.70 103.01 177.79
15.57 70.91 78.10 33.40 37.75 41.51 55.77 66 79 139.04 153.10
74.93 87.40
79 78.69 39.47 53.95 64.71 73.58 81.78 110.54 137.73 150,11 165.61
16.90 77.85 30.90 36.87 41,79 46,05 67,77 74.30 84,71 97.80
30 30.03 41.49 57.08 68.69 78.30 86.64 118.53 147.77
161.91
178.98
18,74 74.95 33.95 4Q66 46.71 51.07 69.43 83.14
1 11 31.43 43.64 60.37 77.88 83.77 97.31
19.88 77.77 37.77 44.79 51.03 56 46 176.99 94 48 104.33
157.95 174.49 193.73
77,31 97.90
105.84
117.11
37 37.89 45.90 63.87 77.79 88.50 93.78 135.96 164.79 187.87 708.43
71,55 79.68 40.88 49.30 56.30 67.41 85.96 103.66 118.39 131.74
33 34.41 48.76 67.44 81.97 94.01 104.58 145.46
73.34 37.34 44,£0 54.70 67,05 68,9? 95 46 176.33 707.09 774.67
115.51 137.74 146 87
34 35.99 50.77
75,78 35 71 71.74 86.80 99.87 111.77 155.51 189.11
49.05 59.54 68.33 76.07 105.90 178 55 717.71 741.84
147,51 164.17
35 37 65 53,30 75.77 91,91 105.97 HÍ77 16!» 14 707 64 733,77 760 15
36 39.37 55.99 79.39 97.79 117.34 175.59 177.38
716.98 750.30 779.60
79.60 41.68 58.68 71.69 87.67 97.74 179.87
158.65 187.85 704.14
Í7 41.17 58.81 83.77 107.94 119.10 133.34 189.75
?)>.!? 768.36 300.76
37.07 45.31 64,13 7857 90.75 101.48 143.61
175.95 703.73 ??7 J_?6
38 43.04
34 63 61.75 88.36 1C6.86 176.70 141.50 701.78 748.73 787.50
49.74 70.03 86.05 99.60 111.56 158,65 194.94 775 67 377.17 757.71
39 44.99 64,83 93.17 115.0» 133.66 150.09 715.01 765.73 337.73
345.41
37.44 53,50 76.45 94^70 109^4 177,54 175.11 715.78 750.73 780.71
<0 47.01
40 47 48.0« 9*. 21 131.62 141,11 IS9.I2 Jlt.ot 7». 19 >79.74 370.04
58,10 83,40 103,05 119.74 134.57 193.13 738.67 777.76 3H.50
41 49.16 71.41 103.49 178.4 8 149.75 168.63 743.69 307.17 351.95 396,1?
43.74 63.07 90.96 117.68 131.18 147,59 717.84 763.67 306.94 345.34
47 51.38 74.97 109.07 135.68 158.41 178.67 759.77 )7}.">7 375.97
47.77 68.46 99.16 173.16 143.64 161.83 714^40 ""3 339 57 473.74 387,53
43 53.70 78.60 114.87 143.73 IÍ7.5I 189.13 775.59 343.40 401.36 457.96
51.08 74,30 108.08 134.56 157.71 177.36 757.99 371.77 375.78 473.39
44 56.13 87.45 170.91 151.16 177.07 700.17 797.85 365.75 478.71 483.88
55.70 8067 H7.7<. 146,97 177,00 194,31 783.80 354.70 414,51 468.78
45 58.66 86.48 177.78 159.48 187.17 711.79 311.04 389.35
5966 87.48 178.78 160.48 IÍÍ.I7 717,79 31703 390 35 456.57 516.58
457.57 517.58
46 61.30 90.70 133.97 168.77 IÍ7.67 774.00 330.70 414.76 486.54 551.16
64.48 94.97 139.73 175.70 705,70 737.96 347.94 479.98 504.87 571.74
4> 64.07
69 71 103,00
95.17 140.99 177.40 ;c,=.?; 736.85 350.41 440.54 518.70" 587.7?
157,19 191.74 7; 4.88
754.99 376.77 47)47 556,70 631,75
48 66.97
75 38 111.78
99.75 148.35 187.04 770.4 3 75036
165.76 708.73 7*5.81 779 06 371.70 468.78 551.64 676.36
413.87 571.08 613.65 696.64
49 70.01 104.60 156.09 197.17 7*7.70 764 58 394.15 497.56 586.96 667,71
81.54 171.33 180.56 777.87 768.69 305.37 454.47 573.38 676.77 768.53
50 73.19
88 73 131.73
109.70 164,71 707.83 745.60 779 55
196.70 748.68 793.70 334 15 417.87 578.46
498.94 630 80 674.78 7<4 99 710.39 847.61
NÚMlEOi
NÜWSOS surcmotxi iNFCIBOfiCS Nq
n<
Tabela 8.3 í Valores típicos do índice de rigidez l fl .
Apud Vesic 11975a)
Índice dc Tensão índice
SOLO densidade Normal dc Referência
Io média rigidez
o.. (kg/cm'| 1,
Capacidade de Carga de Estacas em Rocha
Capacidade de Ponta
Análises teóricas e experimentais sugerem que a
capacidade dc carga de ponta dc estacas em rocha
seja dada por q ( - 10 q u, onde q é a resistência
à compressão simples da rocha. Na prática, porém,
considera-se que q = 3 q u. Admitindo-se um
coeficiente de segurança de 3, tem-se uma tensão
admissível, q^ aproximadamente igual à correspondente
a resistência ã compressão simples da
rocha. Admite-se que essas resistências sejam utilizadas
quando a estaca penetra pelo menos um
diâmetro na rocha.
Poulos e Davis (1980) propõem adotar um valor
de cj i correspondente a 0,3 q s, porém esse valor é
muito conservador, devendo ser considerado como
um limite interior.
Capacidade por Atrito Lateral
0.1 200 Vesic
Chattah ao% 1 118 e
Hoochee 10 52 Ciough
100 12 {1968J
0.1 140
20?ò 1 85
Areia de 82% 005 265
Ottawa 21% 0.05 89 Roy (1966)
Silte de
Piedmont 0.70 10-30
VesiC (I972J
Segundo Fleming et al (1992), o atrito lateral é
proporcional â raiz quadrada da resistência â compressão
simples da rocha. A expressão indicada
abaixo fornece estimativas cm geral conservadoras
do atrito lateral unitário q .
Ml
— = 1.3j — | ' 5 (o - 100 kPa) (28)
3
V J
Kssa expressão deve entretanto limitar se aos casos
onde a resistência â compressão simples da
rocha seja nào inferior a 500 kN/m*'. Fm qualquer
caso, q não deve ser superior a 5% da resistência
característica do concreto.
Determinações das Propriedades dos Solos
Necessárias á Avaliação da Capacidade de Carga
de Estaca
Solo Granular Ângulo de Atrito Interno ô
A obtenção de um valor correto de 0 em areias
é quase impossível. I)e fato, a obtenção de amostras
indeformadas de areias puras acima do lençol
freático é muito difícil, e abaixo dele, praticamente
impossível.
No Japão tem-se conseguido obter blocos
indefomiados dc areias saturadas abaixo do nível do
lençol freático através da técnica de congelamento. Trata-se
porém de procedimento de custo muitíssimo elevado
e ainda nào disponível no Brasil.
Além do mais, o ângulo de atrito interno nào é
uma característica única dc uma dada areia, pois
depende fundamentalmente nào apenas do tipo
de ensaio utilizado para sua determinação mas também
do nível de tensão considerado.
Qual seria então o valor de <J>' a ser considerado
em um determinado problema prático?
O O' obtido em um ensaio triaxial convencional
(CT)?
C) õ' obiido em um ensaio de cisalhamento direto
(DS>?
O ò' obtido em um ensaio tipo deformação plana
(PS)?
O <*>' obtido em um ensaio dc cisalhamento simples
(SS)?
Como avaliar corretamente a tensão octaédrica
característica "in situ", ( a ser reproduzida em
laboratório?
Todas essas sào questões relevantes para as quais
ainda nào se conseguiu obter respostas satisfatórias.
Por outro lado, supersimplificando o problema,
pode-se ignorar tudo isso e procurar obter-se 0' através
dc correlações com o CPI' e/ou com o SPT/SPT-T.
Meyerhof (1976) propôs uma correlação entre a
tensào de ponta-limitc do CPT e o ângulo de atrito
de areias, que é reproduzida na Fig. 8.6.
Décourt (1989a. 1991b), reanalisouos estudos de
De Mello (1967,1981) sobre os clássicos ensaios
de Gibbs e Holtz (1957), e apresentou uma ábaco
e uma tabela que permitem avaliar </ levando em
conta a pressão confinante média c , e a eficiência
do SPT. (ver capítulo 3).
Uma outra possibilidade seria a avaliação de o' através
dos conceitos de Bolton (198(5), possibilidade, essa
defendida porStroud (1988) e Fleming et al. (1992).
Segundo Bolton (1986), o ângulo de atrito de
uma areia é dado por
0' - 0' IV + 3 1 H (graus) (29)
onde:
<J>'
I K
- ângulo de atrito a volume constante
- densidade relativa corrigida, dada por:
I, - I„ [ 5.4 -1. < „ /O J- 1 (30)
sendo I„ a censidadc relativa sem correção.
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r •
Fig. 8.6 • Relação aproximada entre a tensão-limite q {
do ensaio CPT e o ângulo dc atrito de areias. Apud
Meycrhof (1976)
Alguns valores de <J> v são apresentados na
Tabela 8A.
Tabela 8.41 Valores de<>' . segundo Bolton (1986)
Granulometria
Mineral do grão
Mal graduado (CU á 2J quartzo fcldspato
arredondado
W
subarredondado 32°
subangular 32°
angular 34°
muito angular 36° 39°
Bem graduado (CU £ 6)
subangular 36°
angular 38°
fi importante observar que pode ser determinado
a partir de amostras deformadas.
Segundo Fleming et al (1992). a presença de partículas
de silte faz com que na prática muito raramente
sejam encontradas areias com <j' v superiores a 30".
Deduz-se pois que para fins práticos pode-se
admitir <>' iv - 30" e obter-se <>' através da avaliação
do índice de densidade do solo (!„).
Na Fig. 8.7 os valores de - <j> v sào dados cm
função de índice de densidade, l t>.
45
>
• o
St
.«»
I 8
P'« 13 0 - 600 k N /m 2
0* ME0100 C0M0 VALOR SECANTE
16 -
12 -
4 —
— OEFORMAÇAO PLANA
Fig. 8.7 Valores de 0' • em função do índice d2
densidade l D . Apud Bolton (1986)
100
Solos Coesivos Saturados. A Coesão não Drenada c u
Cem certa freqüência tem-se observado que os
valores de c u sào determinados através de ensaios
de compressão simples executados em amostras
indeformadas ou a partir de ensaios de palheta
(Vane Tests). Cumpre ressaltar que, se de um lado
esses ensaios podem fornecer valores aceitáveis
dc c ( para solos pouco consistentes, o mesmo não
ocorre no caso de solos fortemente pré-adensados.
de consistência rija ou dura.
IX* fato, Décourt (1991b) demonstrou que os
valores de c determinados a partir de ensaios de
compressão simples podem sub avaliar c u em duas
ou três vezes.
Na Fig. 8.8 é apresentado um ensaio triaxial do
tipo nào adensado nào drenado em uma amostra
saturada de argila terciária dura de Sào Paulo, podendo-se
observar a importância da correta consideração
da pressão confinante nos resultados dos
ensaios. Nesse caso, o valor correto de c é da
ordem de quase três vezes o valor dado pelo ensaio
de compressão simples
T< k N/m 2 ) CÍRCULOS DE MOHR
lOOOr
500
500 1000 1500 2000
(Jtk N/m z |
Fig. 8.8 Ensaio triaxial não drenado cm argila dura.
Apud Décourt (1991b)
Uma outra possibilidade seria a obtenção de c a
partir de ensaios "in situ", SPT e CPT. Apesar de
essas correlações normalmente serem vistas com
muita desconfiança, deve-se ressaltar que pelo
menos elas nào sofrem do grave problema de ter
de se avaliar o estado dc tensões "in situ" para a
execução tios ensaios de laboratório, que é a principal
fonte de erros na avaliação de c .
É bem possível que os erros decorrentes dessas
avaliações dc tensões superem os erros intrínsecos
tias correlações de c_ com N-SPT e/ou q - CPT,
pois para os ensaios "in situ" considerações sobre
os estados de tensão sào, obviamente, desnecessárias.
Segundo Décourt (1989c e 1091b).
através de ensaios Cross-Hole e em laboratório
através de ensaios de Coluna Ressonante.
Km outros países existe a possibilidade de também
se obter esse parâmetro através de outros
ensaios nào disponíveis atualmente no Brasil, e
que por isso nào serão aqui abordados.
Na prática da engenharia de fundações, o que
interessa são módulos correspondentes a deformações
X entre 10 1 % e 5 x 10 : %.
Décourt (1991b), sugere processo simplificado
para se obter G 0|U a partir de G
O d,. • 20) (33)
G 25 100
c u - q c / 15 - 25 (31)
e
Ontle I (. é o índice de plasticidade do solo
G o pode também ser obtido através de correlações
com os valores tle N-SPT
c, = 12,5 N^ (MN/mO (32)
G «= 7N MN/nr , Stroud (1988». (34 >
Para essas correlações c u foi obtido através de
ensaio de compressão triaxial convencional nào
adensado, nào drenado, com devida consideração
sendo dada à tensão octaédrica "in situ". O SPT
era o brasileiro, com eficiência típica de 72% e o
cone considerado o mecânico com ponteira de
Bcgemann. Cuidados devem ser tomados ao analisar-se
as diversas correlações propostas na literatura,
devendo as seguintes questões ser
investigadas.
• Qual a eficiência do SPT considerado?
• Era o cone do tipo mecânico ou elétrico?
•Como foi definida a resistência c u ?
Solos Intermediários
Sào aqui chamados de solos intermediários todos
aqueles situados entre os limites extremos de
areias e argilas saturadas.
Para esses solos, a resistência ao cisalhamento é
composta de duas partes, c e <5>. Nào há maneira
prática de se avaliar esses parâmetros através de
ensaios "in situ", exceção talvez dos ensaios "Bore
Hole Shear Test" que, entretanto, nào tem nenhuma
tradição de utilização no Brasil, e pouquíssima
em todo o mundo.
Além do mais, as comprovações experimentais
de capacidade de carga existentes na literatura internacional
de uma maneira geral nào contemplam
esse tipo de ensaio.
Módulos de Cisalhamento e de Elasticidade
<) módulo de cisalhamento máximo (G ). que
corresponde a deformações cisalhantes muitíssimo
pequenas, X < 10 potle ser obtido "in situ"
Essa correlação foi obtida tom o SPT japonês,
cuja eficiência varia entre aproximadamente 68%
e 85%.
Como a eficiência típica do SPT brasileiro é tle
72%, sugere-se que essa correlação possa ser considerada
como aproximadamente aplicável ao SPT
brasileiro.
No caso do módulo de elasticidade, uma vez
conhecido G. o mesmo pode ser obtido através tia
teoria da elasticidade.
E - 2 G (1 (35)
Correlações diretas tle E com N-SPT têm sido
propostas, e foram apresentadas no capítulo 3.
Capacidade de Carga da Estaca de Referência
através de Processos Expeditos
Generalidades
Os métodos teóricos e experimentais e os ensaios
laboratoriais sào fundameniais para estabelecer
a influência relativa de todos os
parâmetros envolvidos nos cálculos de capacidade
de carga.
Sua utilização na prática da engenharia tle fundações
é, todavia, muitíssimo restrita visto que
a maioria dos parâmetros do solo necessários a
essas análises é de difícil ou mesmo de quase
impossível obtenção.
Por outro lado, correlações entre as tensões
correspondentes a estados-limites de ruptura e
dados de resistências à penetração de ensaios
"in situ" sào simples de ser estabelecidas.
Correlações com boas probabilidades de acerto
sào aquelas obtidas de forma scmi-empírica. A filosofia
contida nas mesmas é estabcleccr-se através
de ajustes estatísticos equações de correlação
que tenham embutida em sua essência os princípios
definidos nos métodos teóricos c/ou experimentais.
Além do mais, conforme enfatiza Wroth
(1988), correlações primárias, sào preferíveis á correlações
secundárias.
No Brasil, os dois métodos mais utilizados para
o dimensionamento de fundações em estacas sào
os conhecidos como Aoki e Velloso (1975), e
Décourt e Quaresma, (1978). Para tipos específicos
de estacas há também métodos específicos,
tais como o de Cabral (1986) c o da Brasfond ambos
para estacas-raiz.
A fim de facilitar a compreensão do leitor e também
possibilitar a rápida comparação entre as duas
previsões, ambos os métodos serão apresentados
de forma padronizada, tendo como base a estaca
de referência (estaca pré-moldada de concreto armado
e seção circular).
É importante porém destacar que raramente os
autores definem claramente o que entendem por
ruptura, o que pode causar certa dificuldade ao
se comparar os resultados obtidos com os diversos
métodos, mormente no caso de estacas escavadas.
onde a ruptura física jamais é claramente
definida.
No caso de estacas de deslocamento, a diferença
entre a ruptura convencional e a ruptura física
tende a ser relativamente pequena. Na ausência
de alguma citação específica, entender-se-á nesse
texto por ruptura sempre a convencional.
0 Método Aoki e Velloso
Aoki e Velloso U975) apresentaram seu método
no V Congresso Panamericano de Mecânica dos
Solos e Engenharia de Fundações. Deve-se ainda
citar uma extensão desse método,Velloso (1991).
'Ianto a tensào-limite de ruptura dc ponta (q p )
quanto a de atrito lateral (q v) sào avaliadas em
função da tensào de ponta q do ensaio de penetração
do cone (CPT).
Para se levar em conta as diferenças de comportamento
entre a estaca (protótipo) e o cone (modelo)
foram definidos os coeficientes F, c F^.
% = 77 (36)
q (37)
1 • B ' '
Sendo a o coeficiente estabelecido por
BEGEMANN (1965) para correlacionar o atrito local
do cone com ponteira BEGEMANN com a tensão
de ponta (q ).
Na ausência de ensaios CPT, sào utilizados os
ensaios SPT segundo a seguinte correlação
q t = KN
Os valores de K e de a em % são apresen:ados
na Tabela 5.
Ia.tLCÍaJL51Coeficientes K
Tipo de Solo
ca
k
kgf/cm' a (%)
Areia 10.0 1.4
Areia siltosa 8.0 2.0
Areia silto-argilosa 7.0 2.4
Areia argilosa 6.0 3.0
Areia argilo-siltosa 5.0 2.8
Silte 4.0 3.0
Silte arenoso 5.5 2.2
Silte areno-argiloso 4.5 2.8
Silte argiloso 2.3 3.4
Silte argilo-arenoso 2.5 3.0
Argila 2.0 6.0
Argila arenosa 3.5 2.4
Argila areno-siltosa 3.0 2.8
Argila siltosa 2.2 4.0
Argila silto-arenosa 3.3 3.0
Os v ílores de Fj c F 2 para a estaca padrão sào:
Fj - 1,75
e
F, = 3,5.
Assim, sendo q a resistência de ponta do cone,
a tensão de ruptura de ponta e de atrito lateral
para estaca dc referência é dada por:
q„ • q t / 1,75 (38)
e
<1 - a q. / 3,5 (39)
Segundo os autores, essas expressões seriam também
válidas para estacas metálicas.
Para estacas tipo Franki, sempre relacionandoas
com a estaca de referência, tem-se:
q PF - 0-83 q p e q iF = 0,83 q,
Onde q i|. e q u, sào respectivamente a tensào da
ruptura de ponta c de atrito lateral para estacas
tipo Franki.
A maior ihfículdade para a correta aplicação
desse método é a necessidade da perfeita caracterização
do tipo de solo envolvido, o que na prática
é quase impossível de se conseguir.
Assim, por exemplo, uma estaca em um solo
classificado simplesmente como areia (K - 10) teria
o dobro da capacidade de carga da mesma
estaca em um solo classificado como areia argilosiltosa,
(K = 5).
O Método Décourt e Quaresma
Décourt e Quaresma (1978) apresentaram um
processo de avaliação de capacidade de carga de
estacas com base nos valores N do ensaio SPT.
Esse método, originalmente previsto para estacas
de deslocamento, foi objeto dc algumas extensões,
objetivando adequá-lo para outros tipos de estacas
e mais recentemente também para adequá-lo
ao novo ensaio SPT-T, através do conceito de N-
equivalente (Neq), Décourt (1982), Décourt (1987),
Décourt (1991a), Décourt (1991b), Décourt (1991c),
Décourt (1993), Décourt e Niyama (1994), Décourt
(1995).
Assim, os valores de N aqui indicados tanto podem
ser os correspondentes ao SPT tradicional
quanto os correspondentes ao Neq do SPT-T.
Segundo Décourt (1991c), Neq é definido como o
valor do torque T em kgf.m. dividido por 1,2. (vide
também capítulo 3).
N = T (kgf.m)/1,2 MO)
Para a estaca padrão, tem-se
O atrito lateral unitário é dado por:
q s- 10 (N/3 + 1) kN/m 2 (43)
q % = N/3 + 1 tf/m 2 (44)
Estacas em Geral
Para estacas escavadas a ruptura física jamais ocorre.
A ruptura aqui considerada é a convencional, ou
seja, a caiga correspondente a um deslocamento do
topo da estaca de 10% de seu diâmetro para argilas
e de 30% de seu diâmetro, para solos granulares.
Qualquer que seja o método utilizado para o
dimensionamento da estaca padrão sugere-se que
para os outros tipos de estacas sejam considerados
os coeficientes a e (3, a seguir definidos.
Os coeficientes a e P são coeficientes de
majoração ou de minoração respectivamente para
a reação de ponta (q p) e para o atrito lateral unitário
(q 4) que permitem estender os cálculos
efetuados para a estaca padrão para outros tipos
de estaca.
Por exemplo, para o método Décourt e Quaresma
(1978) ter-sc-ia:
Q^-aq^+pq^A (45)
Q u-aK N p A, + 10 p ( N/3 + 1) ( kN/nr') (46)
Os valores de a c P sugeridos para os diversos
tipos de estacas são apresentados nas Tabelas 7 c 8.
Q. = V \ + c iA (41)
A tensão de mptura dc ponta é dada por:
q p = KN (42)
Onde K é função do tipo de solo, Tabela 6.
A ruptura aqui considerada, quando a mesma
não é claramente definida, é a convencional, ou
seja, carga correspondente a um deslocamento do
topo da estaca de 10% de seu diâmetro.
Tabela 8. 71 Valores do coeficiente a em função do
tipo de estaca e do tipo de solo
X. Tipo
^ dc
dc \
solo
^
Escavada
cm
geral
Escavada
(bentonltaj
Héllcc
continua
Ral*
Injetada
sob altas
pressões
Argilas 0.85 0.85 0.30* 0.85* 1.0*
Solos
intermediários 0.60 0.60 0.30* 0.60* 1.0*
Areias 0.50 0.50 0.30* 0.50* 1.0*
Tabela 61 Valores do coeficiente K em função do tipo
de solo
• valores apenas orientativos diante do reduzido número de
dados disponíveis.
Tipo de solo
K (kN/m ? ) K (tf/m 7 J
argila 120 12
silte argiloso (solo residual] 200 20
silte arenoso (solo residual) 250 25
areia 400 40
Tabela 8.81 Valores do coeficiente bem função do tipo
dc estaca e do tipo de solo
\ Tipo de
\
\ estaca
Tlpo\
de \
estaca \
Escavada
em
geral
Escava,
da
(bentonita]
Hélice
contínua
Raiz
Injetada
sob altas
pressões
Os valores de a dependem apenas do tipo de
solo e os valores de a (i sào função do tipo de
estaca. Os valores de a , a e a F sào apresentados
nas Tabelas 8.9, 8.l'o e 8.11.
Esse método foi testado pelo autor através de
comparações com 15 provas de carga
instrumentadas.
Argilas 0.8 0.9* 1.0' 1.5* 3.0'
S*os
intcrmcdiJriQí.
0,65 0.75* 1.0* 1.5* 3.0*
Areias C.5 0.6* 1.0* 1.5" 3.0*
* valores apenas orientativos diante do reduzido número de
dadoi disponíveis.
Métodos Franceses
Tabela 8.91 Valores do coeficiente a p em função do
tipo de solo
SOLO
«p
areia 0.40
silte 0.45
argila 0,50
O Método de Philipponnat
O método de Philipponnat, que se baseia cm
correlacões com o CPT, também é bem conhecido
em noiso meio técnico através de uma tradução
do trabalho original feita por Godoy e Azevedo Jr.
(1986).
A tensào-limite de ponta é dada por :
q,, e . q c (47)
onde a é um coeficiente função do tipo de
sole. O valor de q c a ser considerado é a média
dos valores numa região três diâmetros acima e
três diâmetros abaixo da ponta da estaca.
O atrito lateral unitário q % é dado por:
<l>.a,q t/a (48)
Tabela 8.101 Valores do coeficiente a, em função do
tipo de estaca
SOLO
a,
areia: q c <08MPa 100
8<q f < 12 MPa 150
q c > 12 MPa 200
silte 60
argila 50
Tabela 11 I Valores do coeficiente a, em função do tipo de estaca
Interface
solo - estaca
CONCRETO
Tipo de estaca q, máximo
pré-moldada. Franki.
(kPaJ
1.25 120
injetada
CONCRETO
escavada D < l,5m 0.85 100
escavada D > l,5m
barrete
METALICA perfil H ou 1
(considerar perímetro externo)
0.75 80
1.10 120
O Método de Bustamante e Gianeselly
Com Base nos Ensaios CPT
Q„ = q. k A p + q N (19)
onde
q resistência média do CPT entre profundidades
1,5 diâmetros acima e 1,5 diâmetros abaixo
do nível da ponta da estaca.
k parâmetro dependente do tipo de solo e do
tipo da estaca
q atrito unitário médio ao longo do fuste dado
por q/a.
Os valores dos coeficientes k c a estão apresentados
na Tabela 8.12, assim como os valores máximos
do atrito lateral unitário q v recomendados
por esses autores.
Com Base no Pressiômetro dc Ménard
A tensão de ruptura de ponta q é dada por :
<1 p
= KPl <50)
onde K é um coeficiente função do :ipo de í>olo e
de estaca que é apresentado na Fig. 8.9. p L, a pressão
limite liquida de ensaio pressiométrico e <f x a
pressào-efetiva de terra atuante no nível da ponta
da estaca.
O valor de p t a ser usado é a média geométrica
dos valores medidos 1,5 diâmetro acima e
1,5 diâmetro abaixo da ponta da estaca.
P..= n V p uxP L>xP L3....P ül <51)
TabelaJLjLZ Valores dos coeficientes k e a e valores máximos de q f .
Natureza do solo
(10* Pa)
k
EC
k
EE
a
EE
Cone
a
EE
Aço
a
EC
Cone
a
EC
Aço
q,
1
q, 1 q,
máx máx máx
Cone Aço l/BP
q,
máx
l/AP
Argila mole e vasa <10 0.4 0.5 20 30 20 30 0.4 0.4 0.5 -
Argila media 10 á 50 0.35 0.45 40 80 40 80 0.4 0.4 0.8 >1.2
Argila rija e silte compacto >50 0.45 0.55 60 120 60 120 0.4 0.4 1.2 £1.5
Silte e areia fofos <50 0.4 0.5 60 150 60 120 0.4 0.4 0.8 -
Areia e pedregulho
medianamente compactos 50 a 120 0.4 0.5 100 300 100 200 0.8 0.4 1.2 SI.5
Areia e pedregulho
compactos a muito
compactos
>120 0.3 0.4 150 200 150 200 1.2 1.2 1.5 >2.0
Cré (calcário) mole £50 0.2 0.3 100 120 100 120 0.4 0.4 0.3 -
Cré alterado e fragmentado >50 0.2 0.4 60 80 60 80 1.2 1.2 1.5 >2.0
Legenda:
E Estaca escavada Cone. Concreto
ER Estaca escavada com fuste revestido l/BP Estaca injetada com baixa pressão
Crav. Estaca cravada i/AP Estaca injetada com alta pressão
K
— GAU^O 1
— 0KU»0 II S+L j
1
J
_ C«l
CAT J
c*«wrJ ICUTO
Pressão limite P
Categoria
(IO 4 PaJ
l
Natureza do solo
<7 Argila mole
<8 Silte e cré, moles 1
<7 Areia argilosa a limosa vasa
10 a 20 Areia e pedregulho mediamente compactos
12 a 30 Argila rija e silte compacto
15 a 40 Marga
10 a 25 Cré alterado 2
25 a 40 Rocha alterada
>30 Cré fragmentado
>45 Marga muito compacta
>25 Areia e pedregulho compactos a muito
compactos 3
>45 Rocha fragmentada
Fig. 8.9 Valores do coeficiente de capacidade de carga K em função do tipo de solo. do tipo de estaca e do
embutimento relativo D/d. Apud Bustamante e Gianeselly (1981)
N.iturcí.» do IOÍO P. E ER ER Crav. Crav. 1 1
< 10' Pa) cooc conc. aço conc. aço 8P AP
Argila mol-;a rija £30 A-50* A- 50* A-50* A-50* A-50* A •
S»lte a silte compacto £30 A 50* A-50* A-50* A-50* A -50* A
Argila rya c silte
ISa 30 • 2C
compacto
Arpa argdova a
< / A 50* A - 50* A-50* A-50* A-50* A *
s<ltosa. iodo
Arcvi e pedregulho 10 a 18 A A-50* A-50% A A 8 2C
medi.wimente
compacto?
Arcta e pedregulho
compactos a muito
>25 B A A B B C iC
compactos
Cri (calcánol mo'C <8 A - 50* A - 50* A 50* A-50* A-50* A | -
Crí alterado e
>10 B B B B B C 2C
fragmentado
Rocha alterada 25 a 40 C C C - - *c 2C
Marga 15 a 40 c C c • - 2C JtC
Marga mu to compacta >45 P/20 P/20 P/20 P/ P/20
20
Rocha fragmentada >45 P/12 P/12 P/12 P./
12
P/12
Legenda:
e
ER
Crav.
Conc.
i/np
l/AP
F.staca escavada
Estaca escavada com fuste revestido
Estaca travada
Concreto
Estaca injetada com baixa ptcssào
Estaca injetada com alta pressào
A tensào unitária de atrito q % é dada na Fig.10
Estacas Curtas - Espessura Mínima da Camada
Portante para o Pleno Desenvolvimento da
Capacidade de Carga de Ponta
É comum procurar fazer com que as pontas das
estacas atinjam, por exemplo, uma camada de areia
compacta. Com freqüência essa camada está intercalada
entre camadas de argila. Mesmo que essas
argilas sejam rijas ou duras, para um dado valor de
N-SPT a ponta em areia garantirá capacidade de carga
cerca de quatro vezes superior à da ponta em argila.
Mas qual a espessura mínima dessa camada para que a
resistência de ponta máxima seja atingida?
\ ( 10»
Fig. 8.10- Valores do atrito lateral unitário q t em
função do tipo de solo. do tipo de estaca e da pressão
limite P L do pressiômetro. Apud Bustamante e
Cianeselly |198t)
Situações Específicas e Influências Diversas
Reação de Ponta da Estaca
Deformação Necessária à Mobilização da
Reação de Ponta
Para a estaca de referência, a carga correspondente
a uma deformação do seu topo de 10%
do seu diâmetro é pouco inferior à carga correspondente
à ruptura física, constituindo-se pois
a primeira em uma boa estimativa da última.
No caso das estacas escavadas, nào há propriamente
uma ruptura física, pelo menos até deformações
da ordem de grandeza do diâmetro da
estaca. Há como que um "amassamento progressivo"
do solo. sendo a carga de ruptura convencional
em areia definida como a carga correspondente
a uma deformação do seu topo de
30% do seu diâmetro. Vesic (1975a), De Beer
(1988).
Trabalhos anteriores sugeriam que a espessura
dessa camada devesse ser pelo menos dez vezes
o diâmetro da estaca, Meyerhof (1951, 1956,1976).
Gomez et al (1988). analisando a capacidade de
carga de estacas cunas com ponta em pedregulho
compacto concluíram que estacas quadradas com
25,0 cm de lado atingiam capacidade de carga
adequada com comprimentos de apenas 2,5 m e
embutimento na camada ponante de quatro a seis
vezes seu lado, ou seja. 3,5 e 5,3 vezes o seu diâmetro
equivalente.
o
O.
2
<
o
<r <
o
o
«
o
a <
o
0,S 0 l D 3 0 4 0 4 0
Fig. 8.11- Carga ruptura de ponta Q p em função de h/d.
Apud Matsui e Oda (1991a).(h* ... espessura da camada
portante)
Matsuí e Oda (1991a e 1991b) sugerem que a
espessura da camada portante (h) seja de pelo
menos três vezes o diâmetro da estaca, Fig. 8.11.
Calliedro et al (1995) analisando o programa de
cálculo SPT 91 concluíram que um embutimento
da ponta da estaca de cinco vezes seu diâmetro
(D/d • 5) seria suficiente para que a capacidade
de carga máxima fosse a mobilizada, desde que a
camada portante tivesse espessura adequada o que,
a favor da segurança, poderia ser admitido como
sendo o dobro desse embutimento
(D/d = 10). (.52)
CAKA(WN)
0.0 10 10 30 4.0 *0 CO 1.0 «.0 ».0 «0.0
CAMA (MM)
o j> 1.0 to >.o «.o ia to in oo «oo
Pode-se pois concluir de forma conservadora
que. para que a capacidade de ponta máxima seja
mobilizada, a estaca deva penetrar cerca de cinco
diâmetros na camada portante, que por sua vez
deverá ter uma espessura mínima de outros cinco
diâmetros sob a jx>nta da mesma.
Atrito Lateral
Deformação Necessária à Mobilização
do Atrito Lateral
Salx*-se hoje que o atrito lateral entre a estaca e
o solo se desenvolve plenamente para deformações
pequenas, enquanto a reação de ponta necessita
de deformações muitíssimo maiores para
mobilizar-se. Uma retrospectiva das diversas opiniões
existentes a esse respeito é encontrada em
Décourt (1993/1995).
Em resumo, pode-se dizer que há uma corrente
de pensamento que procura associar a deformação
necessária ao pleno desenvolvimento de q >
ao diâmetro da estaca. Essa deformação seria da
ordem de 0,5% a 2% do diâmetro da estaca em
argilas e de 1 a 3% em solos granulares. Uma
outra postura é admitir-se que essa mobilização
seja independente do tipo de estaca, do tipo de
solo e das dimensões da estaca. O valor de pico
da adesão solo-estaca seria então atingido com
movimento relativo de alguns poucos milímetros.
Fala-se freqüentemente em lOmm, embora alguns
autores procurem definir um intervalo maior de
valores. Jamiolkowsky e Lancellota (1988) por
exemplo falam em 5 a 25mm para o caso de esta
cas em areia.
Décourt (1993/1995) introduziu os conceitos de
desenvolvimento dc atrito puro (ausência total de
reação de ponta) e tle ponta pura (ausência total
de atrito lateral).
As retas que traduzem as relações carga recalque
para essas situações altamente idealizadas foram
denominadas, respectivamente, Linha de Atrito
Puro, PFL (Pure Friction Line) c Linha de Ponta
Pura, PPL (Pure Point Line), Fig. 8.12a e Fig. 8.12b.
Segundo essa linha de pensamento, o desenvolvimento
da tensão q % com a deformação seria
Figs. 8.12a e 8.12b - Resultados de duas provas de
carga executadas cm estaca Barrete. Também
indicadas as retas PFL e PPL
função da rigidez relativa da estaca, do solo a<>
longo do fuste e do solo sob sua ponta.
Quanto nuiis rígida a estaca e quanto maior
a rigidez do solo sob sua ponta, nutior será a
deformarão necessária à plena mobilização
do atrito lateral
Isso implica que as dimensões da estaca efetivamente
influenciam essa mobilização, assim como
as características do solo sob a ponta da mesma,
esse último fator normalmente nào considerado.
Assim, imaginando-se uma estaca absolutamente
sem ponta, a deformação necessária à plena
mobilização do atrito lateral seria da ordem de
grandeza da deformação elástica da estaca mais
alguns poucos milímetros. Essa deformação elástica
constitui-se, pois, em limite inferior da deformação
necessária à mobilização do atrito lateral.
A situação de atrito puro é praticamente impossível
de ocorrer na realidade das obras, porém
ocorre sistematicamente quando uma segunda
prova de carga é executada sobre uma estaca já
previamente carregada Imaginando-se uma estaca
onde na primeira prova de carga foram atingidos
carregamentos bem superiores aos correspondentes
do atrito lateral, (idealmente pouco mais
do dobro do atrito lateral) no segundo carregamento,
até níveis de carga nào superiores a cerca
de 80% (oitenta por cento) da carga máxima anteriormente
aplicada, tudo se passa como se nesse
segundo carregamento a transferência de carga fosse
apenas por atrito lateral. Na realidade, nessa 2 1
prova de carga o atrito lateral medido é a soma do
atrito lateral real e da carga de ponta residual devida
ao carregamento anterior, IXrourt (lj)89b) (ver também
subitem específico sobre carga residual >.
atrito lateral quando inexiste reação de ponta é
A estaca Barrete, executada e testada no campo
DTFOFLMAÇÍO CL&TLCA CO 4Ç0
CTACL ST 420 KN •
1 1-
de que nào há diferenças sistemáticas entre os
de provas experimental de fundações da ABEF/ encontrada em Alonso (1995). Nesse caso, trata-se
EPUSP, Saes et al (1980) é utilizada para de uma prova de carga a tração em estaca-raiz,
exemplificar o acima exposto.
cujos resultados são reproduzidos na Fig. 8.14.
Na Fig. 8.13 é apresentado o desenvolvimento da
carga de atrito lateral Q , normalizada pelo valor
máximo Q mi en função dos recalques (s) tio topo da
estaca.
Observa-se que até a deformação máxima atingida
na prova de carga o atrito lateral ainda continuava
se desenvolvendo, o que teria causado uma
certa perplexidade a alguns especialistas. Ocorre
0.00 20.00 -50.00 60.00 80.00
porém que a deformação elástica da barra de aço é
da ordem de cerca de 23,5 mm, para a carga 420kN.
Na hipótese de ser a tensào de escoamento do
aço a condicionante da capacidade de carga, somente
com deformação da ordem de alguns milímetros
a mais, que nào foi atingida no ensaio, darse-ia
a ruptura.
O tema em pauta é polêmico e certamente nào
s(mm)
será ainda agora que conclusões definitivas serão
tiradas. Todavia, alguns pontos que parecem
Fig. 8. J 3 Estaca 3arrctc do campo experimental ABEF/ corresponder à realidade dos fatos sào a seguir
EPUSP. Q / [Q,J cm função do recalque do topo da
relacionados.
estaca (sj
• As deformações necessárias à mobilização do
Pode-se inferir desses resultados que Q t, ou a
atrito lateral máximo sào muito inferiores às
rigor 97% de Ç , é atingido com deformação de
necessárias ao desenvolvimento da reaçào de
26,97mm, que representa 2,94% do diâmetro equivalente
(917mm) da estaca Barrete.
ponta. Tipicamente, essas deformações estão
entre 5,0 e 30,0mm, os menores valores
correspondendo a estacas de diâmetros pequenos
em solos argilosos.
Alguns aspectos dessas provas devem ser destacados.
Em qualquer caso, a deformação elástica da estaca
se constitui, obviamente, em limite inferior
• na primeira prova dc carga o recalque do
topo da estaca, para Q = 2,0 MN, foi de
para essas mobilizações.
23>46mm.
• o recalque elástico da estaca para Q = 2.0MN,
Atrito Lateral Unitário a Tração (qJ e a Compressão
fqj.
admitindo-se E = 30 GP j c que a transferencia
de carga ao solo seja, apenas por atrito lateral, é
de 0,38mm.
• na segunda prova de carga, para esse mesmo
valor de Q = 2.0MN, o recalque foi tle apenas
l,25mm. ou seja, menos de 1,0 mm superior
ao recalque elástico.
A maioria dos autores considera que o atrito lateral
à tração seja inferior ao atrito lateral à compressão.
Uma relação muito utilizada é Décourt
(1986a e 1995):
• 54% do atrito lateral máximo Q mj, é mobilizado
<L = 0,7q v (53)
para deformações de 0,32mm (a deforma
Hunter e Davisson (1969) consideram CJ m = 1,3
çào elástica para essa carga c de aproximada
q o que eqüivale aproximadamente a
mente O.lómm), enquanto que para se chegar
aos 97%. de Q . necessita-se de quase 27mm.
Um outro exemplo de como a deformação elástica
q «0,77 q v (54)
da estaca condiciona o desenvolvimento do De Beer (1988), ao contrário, postula que q^ = q u.
Fleming et al (1992) afirmam que. com exceção do
caso de estacas muito esbeltas, a opinião coiieuie é
valores de atrito lateral à compressão e à tração.
Considerando as diversas opiniões conflitantes,
pode-se apenas concluir que:
0.7 £ q/q u. < 1,0 (55)
Influência do Comprimento da Estaca
Comprimento Critico
Fig. 8.14 Prova dc carga ã tração cm estaca-raiz.
Adaptado de Alonso (I99SJ
Vesic (1975b) analisando o comportamento de
estacas em areia constatou que tanto a reaçào de
ponta quanto o atrito lateral unitário, a partir dc
um certo ponto, pareciam deixar de crescer com a
profundidade, como previam as teorias clássicas.
Essa profundidade chamada de crítica seria da ordem
de 10 diâmetros para areias fofas e 20 diâmetros
para areias compactas. A hipótese levantada
para explicar esse fenômeno foi a do arqueamento
do solo.
Mais recentemente, novas explicações surgiram
para explicar esse fenômeno.Kulhawy i1980) procura
justificar a aparente constância do atrito lateral
médio, q 4 com a profundidade pela compensação
de influências. Se de um lado há. indiscutivelmente,
um aumento de o' _ com a profundidade
de outro lado há redução do ângulo de atrito efetivo
da areia, <J>\ do índice de rigidez c de K o. A
Fig. 8.15 extraída de Kulhawy (1986), justifica porque
q > ficaria aproximadamente constante entre as
profundidades de 6,0 e 20,0m, passando entào a
crescer novamente.
Ko BíKlonS MByXlpiM
É provável pois que as fórmulas empíricas dêem
resultados bons para as profundidades para as quais
as mesmas foram definidas (8.0 a 20,Om). Para
comprimentos menores do que esses, os resultados
dessas fórmulas seriam provavelmente conservadores
e para comprimentos maiores, provavelmente
contra a segurança.
Valores Limites para as Tensões de Ponta c de
Atrito Lateral
Tensões de ruptura máximas na ponta de cstacas
em areias foram sugeridas em função da experiência
dos diversos autores.
Vesic (1977) recomenda para (q ) o valor de
• 'n m u
10,0 (MN/mO. Coyle e Castelo (1%1) citam valores
máximos de 15.0MNVW. Décourt (1982), em
funçào da inexistência de dados confiáveis para
valores elevados de N-SPT, recomenda como limite
superior l0,0MN/m\ Fica pois evidenciado que
muito cuidado deve ser tomado sc for o caso de
ser necessário utilizar-se tensões de ponta superiores
a 10,0 ou 15,0 MN/m'. Isto se deve nào a
restrições teóricas, mas pela ausência de adequada
comprovação experimental.
O mesmo ocorre para o atrito lateral unitário. Décourt
(1982) recomenda limitar-se esse valorem 0,18 MN/nr,
o que eqüivale aproximadamente a N-SPT = 50.
Tomlinson (1975) recomenda valores máximos
de 0,1 MN/m'. Baguelin e Gianeselly (1981) também
nào recomendam valores superiores a 0,1 MN/
m'. Em contraposição, Gomez et al (1988) constataram
valores de q t dc 0,25 MN/ni' para estacas
cravadas em pedregulhos.
Influência do Tempo na Capacidade de Carga
Fig. 8.15- Exemplo ilustrando os princípios do
desenvolvimento do atrito lateral q, em areias. Apud
Kulhawy |1986)
Essa nova explicação para a aparente constância
de q v encontra tamlx/m apoio em Fleming et al (1992).
Limitações das Fórmulas Empíricas e
Semi-Empíricas
As considerações feitas no item anterior sugerem
que o atrito lateral unitário seja maior para pequenas
profundidades do que para profundidades
comuns (10 a 20m). Recentes constatações,
Belincanta (1996;. Décourt (1996c), de que os valores
de índice de torque (T/N) variam inversamente
com os valores de N-SPT e com a profundidade
corroboram essa premissa.
Além do mais, para comprimentos maiores do que
aproximadamente I5,0m suspeita-se que durante as
sondagens poderia em alguns casos ocorrer
flambagem «.Ias hastes, o que faria com que os valores
de N-SPT fossem irrealisticamente elevados.
A cravaçào de estacas através dc argila mole
saturada pode causar o amolgamento da mesma
assim como a geração tle pressões neutras até distâncias
de cerca de 10 diâmetros da estaca.
Estudos analíticos mostram que as mudanças tle
tensào provocadas pela cravaçào da estaca e o
posterior processo de readensamento do solo nas
proximidades da mesma faz com que a resistência
do cisalhamento do solo possa crescer de 30% a
100% junto à ponta da estaca, durante um período
de tempo que é funçào de c u t/r / onde:
c h
t
r
o
coeficiente de adensamento em um plano
horizontal
tempo decorrido desde a instalação de
estaca
raio da estaca
Na Fig. 8.16 sào apresentados casos de três cstacas
cravadas em uma argila siltosa mole. Taml>ém é
apresentada a curva teórica extraída do trabalho de
Randolph e Wroth (1979). O valor de c h de 10 m- /
ano é considerado típico para argilas siltosas moles
sob condições de drenagem horizontal.
ao
60
40 "
- Horilt I (.»&•>
A
/O /
f / /
f/ /
•/ / e h > 10
7*-
1
S / / f / A' / SHH (,,57, M NHM
/
20 / / /
J
L
10 100 1000
l/d* 10IAS n»t)
Fig. 8.16 Variação da capacidade de carga dc estacas
com o tempo. Apud Fleming et al (1992)
Influência da Forma da Estaca
Conforme já esclarecido no início desse capítulo,
o raciocínio básico aqui desenvolvido é feito
para a estaca de referência, ou seja. estaca de deslocamento,
de concreto armado c que lenha seção
transversal circular.
Nào é evidente porém, como se supõe na pratica
profissional, que tanto o atrito lateral unitário
q^ quanto a reação unitária de ponta q p sejam independentes
da forma da seção da estaca.
Vesic (1963) pesquisou a capacidade de carga
de estacas em areias de diversas compacidades relativas,
através de modelos de grandes dimensões .
Observa-se que para uma dada densidade da
areia o atrito lateral unitário é sempre maior para
estacas circulares, em comparação com estacas
retangulares, aumentando essa diferença com o
aumento da densidade relativa da areia. Por exemplo:
para areias fofas, com I D = lo / 17°/.», a relação
q s (circular) / q t (retangular) é de aproximadamente
1,25, aumentado para 2,20 no caso de
areias compactas, com I r) = 78%.
De uma forma geral, porém, o efeito da forma da
seção na capacidade de carga tem sido assunto
pouquíssimo pesquisado e, conseqüentemente, pouco
considerado na literatura. Chellis. (1902), sugere
que a resistência por atrito lateral para estacas
quadradas seja cerca de 00% da correspondente
a estacas circularcs de mesma área.
Stuckrath e Descoeudres (1991 > através de ensaios
em modelos pesquisaram a influência da
forma da seção transversal tias estacas em sua capacidade
de carga e nào chegaram a resultados
conclusivos.
Jaime et al (1992) analisaram os resultados de
ensaios de modelos de estacas de formas diversas
na argila da Cidade do México, chegando à conclusão
de que para uma dada área de seção transversal
a forma mais favorável, no que concerne
ao atrito lateral, é a circular, seguida, pela ordem,
pela hexagonal. quadrada, triangular e plana.
Foi introduzido o conceito de coeficiente de redução
(CR) como sendo a relação entre a capacidade
de carga de uma estaca dc seção transversal
nào circular pela da capacidade de carga da estaca
circular, de mesma área.
Segundo esses autores, pode-se equacionar o
coeficiente de redução (CR) em função do ângulo
interno entre as faces da estaca. Os resultados
obtidos por esses autores é resumido na
Tabela 8.13.
Tabela 8.13 Influência da forma da seção na capacidade
de carga de estaca
r
FORMA DA SEÇÃO
Circular (estaca padrãoj
Hexagonal
Quadrada
Triangular
Retangular
Plana (D/d £ II)
COEFICIENTE DE
REDUÇÃO (CRJ
1.0
0.83
0.75
0.67
0.775 - 0.025 D/d
0.50
Apesar de esses estudos sugerirem reduções de
até 5'J% em relação às estacas circularcs, devese
ressaltar que nào existem informações suficientes
para que conclusões definitivas possam
ser tiradas.
Recomenda-se, tentativamente, calcular o atrito
lateral dc estacas com seções diferentes da circular
admitindo-se, ao invés do seu perímetro real,
o perímetro correspondente a uma seção circular
de mesma área. Essa proposição altera relativamente
pouco a prática de se ignorar a influência
da forma da seção no valor da adesão estaca-solo
principalmente no caso de estacas pré-moldadas,
que quando nào sào de seção circular sào de seção
quadrada ou hexagonal. Porem, para estacas
Barrete, escavadas sob a proteção dc lamas
tixotrópicas, essas diferenças podem ser relevantes.
Admitindo-se a validade do acima exposto, um
estação teria uma capacidade de carga por atrito
lateral superior a uma estaca Barrete de mesma
área de seção transversal, embora o perímetro
da estaca Barrete fosse maior do que o do
estação.
Reafirma-se entretanto que à luz dos
pouquíssimos dados disponíveis nenhuma conclusão
definitiva pode ser tirada. Conseqüentemente
nào se recomenda a utilização sistemática dos
dados da Tabela 8.13. A finalidade dessas consi-
de rações todas é apenas a de alertar o leitor que a
forma da seção transversal da estaca pode ter influência
em sua capacidade de carga e que a seção
circular é, aparentemente, a mais favorável.
Para a reaçào de ponta, valem cm princípio as
mesmas considerações acima, nào obstante, por
exemplo, Vesic (1963) considerar que a seção circular
é cerca dc três vezes mais eficiente do que a
retangular.
Influência da Pré Perfuração na Capacidade de
Carga por Atrito Lateral de Estacas
Aqui também a documentação existente na literatura
é mínima.
Para a argila mole da cidade do México, Jaime
et al (1992) ficou evidenciado que quanto maior a
seção do pré-furo, maior é a redução na capacidade
de carga por atrito lateral das estacas.
Uma análise dos resultados obtidos por esses
autores permite que se conclua que para essa argila,
que é mole c sensível, o pré-furo é mais nocivo
do que o amolgamento provocado pela cravaçào
das estacas. De fato, após amolgada pela
cravaçào das estacas, esse tipo de argila se readensa,
atingindo valores de adesão até mesmo
superiores à resistência ao cisalhamento inicial do
solo indeformado.
F. evidente que para outros tipos dc solo, argilas
fortemente pré-adensadas por exemplo, esse
raciocínio não se aplica.
No Brasil tem sido habitual proceder-se ao pré
furo nos casos em que as estacas devam atingir
profundidades prefixadas para que suas capacidades
de carga possam corresponder aos valores
previstos no projeto. Nesses casos os pré-furos
sào feitos com diâmetros um pouco inferiores ao
do elemento pré-moldado, tipicamente 5.0 cm a
menos do que o diâmetro da estaca.
Esses furos previamente abertos podem ser mantidos
sem nenhum tipo tle proteção, quando estáveis.
Porém, deverão ser preenchidos com lamas
tixotrópicas quando sua estabilidade nào puder
ser garantida. Embora nào tenha havido pesquisa
específica para se analisar a influência desses préfuros
na capacidade de carga das estacas, evidências
de que essa influência seja pequena e que, desta
forma, possa ser desprezada na prática.
O caso de cargas residuais provocadas por carregamentos
anteriores recebeu a atenção de
Décourt (1989, 1991a, 1991b, 1593, 1993/1995,
1994) c também de Massad (1991, 1992, 1993).
A conclusão mais importante desses estudos é a
seguir transcrita.
A carga residual existente junto à ponta dc uma
estaca ao final de um dado carregamento aparece
em um recarregamento como um aparente aumento
do atrito lateral. Tanto uma eventual instmmentaçào
específica instalada na estaca quanto processos para
separação das caigas entre ponta e atrito lateral irão
indicar valores aumentados do atrito lateral e valores
reduzidos da reação tle ponta.
Q (real) = Q' (medido) - Q (56)
* * pf
Q p (real) - Q\ t (medido) + Q pr (57)
E pois fundamental conhecer-se Q n para a correta
avaliação tle Q % c Q (i
8.1.2. Recalque de Estacas Isoladas
Os recalques da estaca de referência isolada sob
condições de carga dc trabalho, isto é, coeficiente
tle segurança maior ou igual a dois, são em geral
desprezíveis.
Entretanto, caso se julgue conveniente proceder-se
a estimativas desses recalques, pode-se recorrer
tanto a métodos teóricos quanto a procedimentos
empíricos.
Métodos Teóricos
Os métodos teóricos fazem uso da teoria da elasticidade
c sua utilização prática pode ser feita através
de gráficos como os das Figuras 8.17 e 8.18
(Poulos 1989), onde K representa a relação entre os
valores dos módulos tle elasticidade tia estaca E L e tio
solo, F v
K = E e / E (58)
Segundo Poulos (1989), um valor bem típico tle
K é 1000
o?
Cargas Residuais
(Q pf)
0.2
Nào obstante já reconhecidas há muitos anos.
as cargas que permanecem junto à ponta de estacas
causadas ou pelo efeito da cravaçào ou por
um carregamento anterior sào freqüentemente ignoradas.
Nos últimos dez anos, alguns poucos engenheiros
brasileiros têm se dedicado a esse importante
tema. Fontoura e Paes (1985) analisaram
o caso tle tensões residuais desenvolvidas
durante a cravaçào.
0.1
0
• 10 100
0/d
Fig. 8.17 - Influência dos parâmetros adimcrtsionais
D/d c K no recalque de estaca isolada dc atrito em
solo homogêneo. Apud Poulos (I989J
ANÁUSE E PROJETO DE FUNDAÇÕES PROFUNDAS I 2 8 3
Tabela 8.141 Pontos notáveis da curva carga-recalque
de estacas de deslocamento
- E.
rrrrrrj
W ESTACAOE PONTA
JL
Fig. 8.18 Relação entre o recalque de uma estaca de
ponta e o de uma estaca flutuante em solos homogêneos.
Apud Poulos (1989J
Processos Empíricos
Hansbo C199 ») sugere que os recalques (s) dc
estacas de atrito para cargas nào superiores a 50%
das de ruptura sejam estimados através do ábaco
da Fig. 8.19.
TIPO
DE
SOLO
Argila
Argila
NÍVEL
DE
CARGA
85% de
o,.
100% de
Q u
RECALQUE
AUTOR
Torstensson'
(1973)
Torstensson*
(19731
Areia 75% de 2 S ss Sellgren*
(I985J
Areia 85% de 2-5 s S3 De Beer
(19881
Areia 100% de 5 s» "Sellgren*
(1985
Apud Hansbo (1994)
= <L /
«>nde
q atrito lateral médio ao longo do fustc
da estaca
Kj modulo de deslocamento da estaca
(59;
Décourt (1991b), após examinar um grande número
de resultados de provas de carga em estacas
de deslocamento, sugere que para cargas nào superiores
a Q u /2
s - 4 mm ± 2,0mm (60)
ou seja, a maioria dos casos apresenta recalques
entre 2.0 e 6,0 mm, valores esses desprezíveis para
a imensa maioria das obras. Uma outra regra prática
seria considerar-se que o recalque de estacas
de deslocamento, para cargas iguais à metade das
de ruptura, pode ser admitido como sendo aproximadamente
1% de seu diâmetro.
8.1.3. Previsão das Curvas Carga-Recalque
de Estacas Isoladas
Generalidades
o
500 10 a
Fig. 8.19 Ábaco para a determinação do recalque de
uma cstaca. Apud Hansbo (T994J
Sugere ainda que sejam consideradas as recomendações
de lortensson (1993) para estacas em
solos coesivos e Selleren (1985) para estacas em
areias.
Na Tabela 8.1 í sào transcritas as recomendações
desses autores assim como a de De Beer (1988;
para estacas de deslocamento em areias.
O conhecimento, mesmo aproximado, das curvas
carga-recalque das fundações é fundamental
tanto para a correta interpretação dos dados dcprovas
de carga quanto para o seu correto
dimensionamento.
Esse tema foi abordado por Décourt cm diversas
oportunidades, Décourt (1993) Décourt (1993/
1995). Décourt (1995), Décourt e Niyama (1994).
Dois casos serão considerados
Caso 1 - Estacas de deslocamento cm qualquer
solo e estacas escavadas em argilas.
A ruptura convencional é definida como a carga
correspondente ao recalque do topo (ou da ponta)
da estaca de 10% do seu diâmetro.
Caso 2 - Estacas escavadas em solos granulares.
A ruptura convencional é definida de forma semelhante
à anterior, apenas a deformação considerada
é de 30% do seu diâmetro.
Nas Figuras 8.20 e 8.21 o processo de obtenção
das curvas esquemáticas é apresentado.
Fig. 8.20 Processo para a obtenção da curva carga
recalque esquemãtica dc estaca dc deslocamento.
Apud Décourt (1995)
C*K3*OÍVM
Considerações sobre a Interpretação de
Provas de Carga
Havendo dados de provas de carga, sào conhecidos
os pares de pontos Q e s e deseja-se conhecer.
além de carga de ruptura extrapolada, a
separação entre a carga de atrito lateral Q c a
carga de ponta Q,.
A carga de ruptura extrapolada pode ser avaliada
por diversos processos, sendo no Brasil muito
difundidos os de Van der Veen (1953),
Mazurkiewicz (1972) e Massad < 1986).
O primeiro passo é determinar se a PPL, ou seja,
a reta definida pelos pontos 1 c 2.
Como se disse, o ponto 2 é dadc pela deformação
correspondente a 40% da deformação correspondente
a ruptura convencional.
O ponto 1 é definido pelas deformações já
estabelecidas. Assim, a PPL deve ser definida estabelecendo-se
uma regressão linear entre os pares
de pontos acima de 1 e até 2.
A equação obtida será do tipo
Q-X.s (61)
onde X é o índice de crescimento da carga com
a deformação.
Para s = zero temos Q - Q % (MBM) (62)
A carga de ruptura é obtida por
Q u- Q. + x, x 0.01 d i( + x. o.o6 d c, i caso 1 (63)
e
' Q % * x, 0,12 d • x. 0,018 d oi caso 2 (64)
Fig. 8.21 Processo para a obtenção da curva carga
recalque esquemãtica de estaca escavada. Apud
Décourt (1995)
Para permitir comparações com casos reais, estão
também indicados nessas figuras os dados de
provas de carga em uma estaca pré-moldada da
região do rio Tietê (ponta cm argila dura, cinza) e
em uma estaca Strauss do campo experimental
ABEF / EPUSP.
A reta passando pelos pontos 1 e 2 é a PPL. Para
sua definição devem-se considerar que o ponto 1
apresenta deformação normalizada pelo diâmetro
da estaca entre 0.5 e 2% para argilas e entre 1 e
3% para areias.
O ponto 2 corresponde a valor de s/d tle 40%
do correspondente â ruptura convencional e portanto
de 4% de "d" no caso da Figura 8.20 e de
12% de d no caso da Figura 8.21.
O índice de desenvolvimento da ponta pode ser
avaliado pelos ângulos a e 2 ct. definidos nas Figuras
8.20 e 8.21.
Nào havendo definição prática de X. , que é a
situação usual, admite-se X, « 0,5 X," e daí se
conclui que:
Q = Q, + 0,07 X, d <( caso 1
e
Q = Q + 0,21 X, d caso 2
Previsão das Curvas Carga-Recalque com Base
cm Ensaios dc Penetração
(65)
(66)
Inicialmente estima-se a carga de ruptura através
de algum dos métodos já descritos. O anfici
ente X, é obtido por
Q,
X, =
(casol
0,07d cl,
ou
Q,
(caso 2)
0,21d cq
(67)
(68)
ANÂUSE E PROJETO OE FUNDAÇÕES PROFUNDAS 2 8 5
Obtcni-se também o valor do atrito lateral na
ruptura, . por algum dos métodos já citados.
Para a obtenção das curvas carga-recalque procede-se
da seguinte maneira
1 - marca-se o valor de Q s no eixo das cargas,
definindo-se o ponto 0
2 - conhecido X,, traça-se a PPL, pontos 0 e 2 e
fazendo-se X, =0,5X 1. obtém-se o ponto 3, de ruptura.
3 - traça-se uma reta partindo da origem até encontrar
a PPL no ponto correspondente ao recalque
de 5,0mm, caso 1 e 10,0mm, caso 2.
É evidente que na maioria das vezes haverá uma
sobreavaliaçào dos recalques para as cargas inferiores
às correspondentes ao ponto 1. mas esses
recalques sáo tào pequenos que nào se justificam
esforços maiores para melhorar sua previsão.
A utilização de processos como os acima indicados
permite reduzir substancialmente os erros cometidos
nas extrapolações tradicionalmente
efeti.adí.s para a estimativa da carga dc ruptura,
além de definir rigorosamente a deformação que
está sendo associada à ruptura convencional. Esse
método é particularmente útil para estacas escavadas,
onde as deformações envolvidas são muito
grandes e para as quais o método de extrapolação
dc Van Jer Veen, tào utilizado no Brasil, é totalmente
inaplicável.
8.1.4 - Grupos de estacas
Capacidade de Carga de Grupos de Estacas
Areia
De acordo com Vesic (1968. 1974). para a maioria
dos grupos de estacas em areia a capacidade
de carga do grupo é bem superior à soma das
capacidades de carga individuais das estacas. A
capacidade de carga de ponta é pouco afetada pelo
efeito de grupo, porém o atrito lateral pode aumentar
cerca de três vezes. Todavia, é difícil a avaliação
correta desse aumento de resistência e, em
conseqüência, tanto no Brasil como no exterior, limita-se
na rotina profissional a considerar-se que a capacidade
de carga de um grupo de estacas em
areia seja dada pela soma das capacidades de carga
das estacas individualmente.
Argila
Para argila é costume proceder-se a considerações
do tipo bloco de estacas ou seja, considerarse
o grupo como sendo uma única estaca gigante
com perímetro definido pela linha passando pelas
estacas externas do grupo. A capacidade de carga
dessa estaca gigante é comparada com a soma das
capacidades de carga das estacas consideradas isoladamente.
adotando-se o menor entre esses dois
valores.
Recalque de Grupo de Estacas
Para grupos de estacas é hoje possível estabelecer-se
ligações entre o recalque do grupo e o de
uma estaca isolada.
Define-se como relação de recalque (li ) oquocicntc
entre o recalque do grupo de estacas pelo
recalque de uma estaca isolada submetida a carga
média por estaca do grupo.
Lm outro índice também utilizado é o fator de
redução do grupo (R {.), também chamado fator de
eficiência.
R ( é definido por:
R _ rigidez do grupo (ò9)
soma das rigidezes individuais das estacas
Para um grupo de n estacas tem-se
R k - n R ( (70)
Fleming et al (1992) sugerem que para um grupo
tle n estacas tem-se:
R = n w (71>
onde w varia entre 0, í e 0,6 na maioria dos casos.
O valor mais baixo, O.-í, corresponde a estaci.s de
atrito, enquanto o mais alto, 0,6, corresponde a
estacas de ponta.
Conclui-se pois que para um grupo de estacas
capeadas por um bloco rígido a relação de
recalque, R %, nào depende da configuração das
estacas, dependendo apenas do seu número.
Assim, dois grupos com dezesseis estacas,
porém com configurações diferentes, i x -t c
8x2, por exemplo, terão recalques praticamente
iguais.
8.1.5. Fundações mistas
Introdução
Nos projetos convencionais de fundações profundas,
como se sabe, a contribuição dos blocos
na transferência das cargas ao solo tem sido totalmente
desprezada.
A idéia de se levar em conta a contribuição dos
blocos nos projetos de fundações por estacas foi
proposta pela primeira vez, há 30 anos, por Kishida
c Mcyerhof (1965).
As primeiras análises racionais desse tipo de fundação
foram feitas por Poulos (1968). 1 loje em dia,
esse tipo de fundação vem tendo crescente aceitação
em todo o mundo diante das suas características
extremamente atraentes de segurança, economia
e rapidez. Isso nào significa que nào haja ainda
uma certa desconfiança quanto ao funciona-
monto desse sistema, principalmente pela pouca
divulgação de seus princípios de funcionamento.
Porém, "contra factus non valit argumentum",
como diziam os antigos romanos, ou seja, "contra
fatos não valem argumentos". O edifício mais
alto da Europa, o Messe Turn, com 250,0 m de
altura, cuja construção terminou em Frankfurt
há cerca de cinco anos, tem suas fundações constituídas
por "radiers" estaqueados, onde as cargas
estruturais sào distribuídas ao solo tanto pelas
estacas quanto pelo "radier".
Os edifícios mais altos do mundo, com 450 111
de altura, atualmente em fase final de construção
em Kuala Lumpur, Malásia, têm também suas
fundações constituídas por "radiers" estaqueados.
Tipos de Fundações Mistas
Designa-se aqui por fundações mistas aquelas
compostas por dois elementos, um vertical e um
horizontal. A transferência «.Ias cargas estruturais
ao solo se faz por três maneiras: ao longo do fuste
e da ponta do elemento vertical como nas estacas
convencionais e também pelo seu topo, como nas
fundações rasas. Em função da proporção das cargas
transferidas por cada elemento, duas situações
típicas sào definidas.
Fundações Basicamente Profundas
Diante das características do terreno, as fundações
sào projetadas basicamente em estacas. Nào
se despreza porém a contribuição do elemento horizontal.
o que faz com que o número total de
estacas possa vir a ser reduzido. Essa redução é
tipicamente de 20 a 40%.
A rigidez do conjunto, entretanto, pouco difere da
rigidez do grupo de estacas.
Fundações Basicamente Rasas
O terreno superficial é de qualidade razoavelmente
boa, sendo os coeficientes de segurança de
fundações rasas perante a ruptura do solo plenamente
satisfatórios. Porém, ou por motivo de espaço
físico para a implantação das sapatas ou por
receio tle que os recalques totais e/ou diferenciais
possam vir a ser elevados, algumas poucas estacas
sào colocadas sob o "radier" ou sob as sapatas
(elementos horizontais), com o objetivo único da
redução dos recalques.
Nesses casos, o número tle estacas a ser utilizado
é pequeno, tipicamente três a quatro vezes
menor do que o correspondente à alternativa em
fundação profunda convencional, ou seja, as reduções
sào da ordem tle 6*> a 7S%.
A rigidez da fundação é nesses casos substancialmente
aumentada.
A Estaca-T apresentada na Fig. 8.23 é um caso
particular extremamente importante desse tipo
de solução, onde a fundação de um pilar é composta
por um único elemento vertical (estaca convencional)
associado a um elemento horizontal
(sapata).
Programas de Computação para a Análise de
Grupos de Estacas e "Radiers" Estaqueados
De maneira geral, a determinação das deformações
e dos momentos fletores induzidos em um
grupo tle estacas por carregamentos variados exige
a utilização de computadores dc grande capacidade.
Existem diversos programas já preparados que
facilitam a solução de problemas desse tipo. Entre
os primeiros programas desenvolvidos citamos o
PGROUP dc Banerjce e Driscoll (1978), o DEFPIG,
tle Poulos (1980), c o PIGLET, de Randolph (1980).
Mais recentemente, Poulos (1994) vem utilizando
o programa GARP.
Solução Aproximada de Randolph
Entende-se aqui por rigidez da fundação (R),
como já definido anteriormente, a relação entre a
carga aplicada ao elemento de fundação e o
recalque nele produzido.
Em um problema dc fundações misias as objetivos
a serem alcançados sào basicamente dois, a saber:
• Determinação dos percentuais ca carga total a
serem transferidos ao solo pelo elemento horizontal
e pelo elemento vertical.
• Determinação da rigidez do conjunto (R r).
Um processo simples que considera separadamente
a rigidez do grupo de estacas (R ) e a rigidez
do "radier" ou bloco (R) foi proposto por
Randolph (1983). Esse método baseia-se na utilização
tle fatores tle interação entre a (s) estaca (s)
c o bloco, a .
ip
Considere-se o caso de uma estaca isolada de raio
R (e um bloco circular sobre a mesma tle diâmetro r
e rigidez R. A relação entre a carga transferida ao
solo pelo bloco (Q t) e a caiga total (Q () é dada por:
Q. = R ( l-q„,) • (72)
Q. R p + R r (1-2 Op)
A rigidez da funtlaçào (R () é dada por:
R, . R,, + R ( 1 - 2a ) (73)
1 - a-
rp
R
*
/ R
p
Observa-se, pois, que para a utilização dessas
fórmulas há necessidade dc se conhecer a rigidez
da estaca, do bloco e o fator de interação a t. A
rigidez da estaca c do bloco devem ser tlctermma-
das por qualquer processo convencional. Já o fator
de interação a , é dado por:
a - 1 (r/r) =1 -1 (r./r) (74)
• P "' * ii > "
>., cr„ / r„) Ç
onde r m é o raio de influencia da estaca, definido
como sendo a distância a partir de seu eixo onde a
deformação cisalhantc do terreno pode ser considerada
praticamente nula.
Segundo observações empíricas de Randolph c
Wroth (1978), r ni é da ordem dc grandeza do comprimento
da estaca.
(r = L) (75)
«
Essa expressão é, entretanto, válida apenas para
solos tipo Gibson. O parâmetro é dado por l n (r ni /
r ). De maneira geral tem-se:
r m = I 0,25 H + Ç ( 2.5 p (1 - H> - 0.2511' (76;
Os parâmetros p e Ç podem ser identificados na
Figura 8.22. No caso dc estacas flutuantes, Ç - 1,
tem-se
Ç- l n (2.5p (1 -Ji) 1/rJ (77)
No caso particular cm que p - 0.5 c |i - 0.2
teremos
r = 1 (78)
w
Os valores dc Ç situam-se tipicamente entre 3 e
5 sendo 4 um valor médio que pode ser utilizado
na maioria dos casos, Randolph (1994).
Se ao invés de um bloco com uma estaca houver
um
• No caso de fundações basicamente profundas
a contribuição do bloco de coroamento de
um grupo de estacas pouco altera o valor calculado
de sua rigidez. A carga transferida para a estacas
é, porém, reduzida na proporção da carga absorvida
pelo bloco.
• No caso de fundações basicamente rasas, ocorre
o oposto, ou seja, a inclusão de algumas poucas
estacas aumenta substancialmente a rigidez da
fundação.
Sapatas Estaqueadas
A utilização de sapatas estaqueadas começou a
ser intensamente utilizada no Brasil ao final de
1992.
As duas soluções desse tipo já em uso sào a
seguir apresentadas.
Estaca e Sapata com Contacto Físico. Fundações
Tipo Estaca-T
Generalidades
Essas fundações sào formadas a partir dc um
elemento vertical único, cm geral um fuste dc estaca
de concreto armado e de um elemento horizontal,
designado por topo, normalmente
concretado na obra. A ligação entre o elemento
horizontal e o vertical é feita de modo tal que.
idealmente, apenas esforços verticais dc compressão
sejam transferidos ao elemento vertical (estaca
convencional). O elemento horizontal simplesmente
se apóia sobre a cabeça do elemento vertical,
sem que haja qualquer tipo de engastamento. Esforços
horizontais e momentos fletorcs sào pois
transferidos diretamente ao solo pelo topo. Na Figura
8.23 é apresentada dc forma esquemáties uma
fundação tipo Estaca-T.
•"radier" de área A, com "n" estacas, r será dado por:
r • (A/n n)°* (79)
MÓOUVO K CUM.«*MCN10
MÓOülO Ot C4iiiUM[i.T3
U: ciiâc* RTUIÜ*NTE (TICSTAC* oc WNTA
Fig. 8.22 - Variações do módulo de cisalhamento (GJ
com a profundidade. (Apud Fleming et al. 1992)
As duas conclusões importantes a que se chega
com a utilização dessas fórmulas sào as seguintes:
Fig. 8.23 - A Estaca-T
A conceituaçào de segurança é totalmente diversa
da utilizada para estacas isoladas. Contrariamente
ao caso dessas últimas, onde a ruptura frágil
é a regra geral, a fundação tipo Estaca-T é.
praticamente, impossível dc sofrer ruptura por
plastifícação do solo (ruptura geotécnica). Se a
carga aplicada à estaca atingir valores superiores
dos previstos o que irá ocorrer será apenas um
recalque adicional, de proporção relativamente
moderada, jamais uma ruptura plena.
Análises numéricas assim como de casos de obras
indicam que para fundações bem projetadas, a carga
de trabalho do elemento vertical corresponderá
a cerca de 80% de sua carga última, determinada
da maneira tradicional. O maior cuidado nesses
casos é garantir-se que a carga transferida ao elemento
vertical não irá superar sua carga
admissível estrutural. Dai o fato de dar-se preferência
a elementos verticais de elevada resistência
estrutural. Ao contrário das estacas convencionais
onde o solo é, via de regra, o elo mais
fraco da coriente, aqui o risco maior seria de o
elemento vertical vir a receber cargas muito superiores
às previstas e assim sc tornar o elemento
mais vulnerável do conjunto.
Um bom projeto avaliará a carga "máxima
maximôrum" possível de ser transferida ao elemento
vertical e o dimensionará estruturalmente para
esse nível de solicitação. Os controles rotineiramente
disponíveis no caso de estacas pré-moldadas
cravadas, tais como medidas de repique, medidas
com o PDA (Pile Driving Analyser) e as provas
de carga dinâmicas, poderão ser acionados para
uma verificação de campo da capacidade de carga
geotécnica do elemento vertical.
O requisito básico para o sucesso desse novo
tipo de fundação é que o terreno sob o topo tenha
características de resistência e de compressibilidade
superiores a um certo mínimo. De uma maneira
geral, solos com valores dc N (. (N equivalente do
SPT-T) iguais ou superiores a cerca de seis. permitem
a utilização vantajosa desse tipo de fundação.
Processo Simplificado para o Dimensionamento
de Fundação tipo Estaca-T
De uma forma simplificada, porém suficientemente
correta para ser utilizada com sucesso na
prática da engenharia, essa fundação pode ser
dimensionada como segue:
Estaca(s) e Sapata sem Contacto F.sico.
Fundações Tipo Estapata
Trata-se de um outro tipo de fundação que utiliza
simultaneamente sapatas e estacas.
A semelhança entre esses dois tipos de fundações
é, porém, apenas aparente. No projeto de
uma fundação tipo Estapata é feita a previsão dos
recalques das sapatas, por exemplo 20mm. É cravada
estaca no local da sapata e deixa-se sobre a
mesma um disco de isopor de espessura igual à
do recalque calculado, Esse disco impede o contato
físico entre a estaca c a sapata. Contato físico
somente virá a ocorrer caso o recalque supere o
calculado. Nesse caso, e somente nesse caso, a
estaca passará a atuar, como que freando a evolução
do recalque.
Na Fig. 8.24 é apresentada de forma esquemãtica
uma fundação tipo Estapata.
srrjsr*/*
/
— i. Tirrt
I o
P
\
H»iM
VSOjç
B.L
Fig. 8.24 - A Estapata. Apud do Vai (1995)
A vantagem desse tipo de fundação sobre as
fundações rasas convencionais é a garantia que
recalques muito maiores do que os previstos nào
irão ocorrer.
I -
Com base no SPT-T ou em outro ensaio
qual- quer julgado adequado, é feita a avaliação
da capacidade de carga da estaca convencional.
8.1.6 Estacas Carregadas Transversalmente
Considerações Gerais
II - Admite-se, a favor da segurança, que 70% dessa
capacidade de carga seja mobilizada para
recalque de seu topo dc 15 a 20mm.
III - Tipicamente uma estaca (ou eventualmente
mais de uma) é selecionada c seu topo é projetado
como um misto de bloco de coroamento
e fundação rasa. A carga líquida a ser suportada
pelo topo é admitida igual a carga nominal
do pilar menos a carga suportada pela (s)
estaca (s), aproximadamente 70% de sua carga
de ruptura.
Quando uma estaca é submetida a uma carga
horizontal, ela irá mover-se aproximadamente na
direção da força aplicada, se for cuna e fixa no
seu topo, ou entào irá girar em torno dc um ponto,
até que o empuxo de terra seja mobilizado a
ponto de a condição de equilíbrio ser satisfeita.
A capacidade de carga lateral é atingida quando
o empuxo dc terra chega a seu limiie superior ou
quando a estaca quebra por flexào.
Praticamente todas as fundações estão submetidas
a algum tipo de esforço horizontal. Na maio-
ria dos casos a magnitude desses esforços é, entretanto.
pequena quando comparada as cargas
verticais a que essas fundações estào submetidas.
Esses esforços são pois facilmente
assimiláveis, sem que nenhuma medida especial
tenha que ser adotada.
Porém, quando uma estaca é submetida a um
carregamento horizontal de magnitude significativa,
as tensões normais irão aumentar no lado oposto
ao da aplicação da carga c decrescer no outro
lado. A um certo estágio do carregamento, um
buraco irá provavelmente abrir-se "atrás" da estaca
enquanto o solo na "frente" da estaca irá romper,
numa ruptura tipo bloco, conforme indicado
na Figura 8.25
Estaca Longa
Nesse caso uma rótula irá se desenvolver a uma
certa profundidade e somente a parte superior da
estaca irá sofrer deslocamentos significativos Fig. 8.27.
r
> • A
/
1
Mp r~
V .1.
\ p ob
A
VAZIO
H
If h*—ruptura óe uma
| r CUNHADC SOLO
Fig. 8.27 - Variação da resistência do solo ao longo do
comprimento de estacas carregadas lateralmente.
Apud Fleming (1992)
Embora o solo continue sendo solicitado abaixo
da rótula, o cálculo da carga de ruptura irá somente
exigir o conhecimento das pressões limites atuantes
na parte superior da estaca, acima da rótula.
Fig. 8.25 - Deformação da estaca sob carga horizontal
Tipos de ruptura
Estaca com topo livre
Estaca curta
A ruptura se dá quando a estaca sofre rotação
do tipo corpo rígido.
Ní. Figura 8.26 é apresentado o mecanismo dessa
ruptura no caso de solo granular.
Estaca com Bloco de Coroamento
Quando uma estaca tem seu topo embutido em
um bloco de capeamento que impede sua rotação,
a ruptura se dará por uma das 3 maneiras
indicadas na Figura 8.28.
Estacas curtas irão sofrer translação como um
corpo rígido. Estacas progressivamente mais longas
irâo inicialmente provocar o surgimento de uma
rótula ao nível do bloco e posteriormente uma nova
rótula a alguma distância abaixo do bloco.
Na maioria dos casos encontrados na prática, as
estacas comportam-se como longas, obedecendo
pois o mecanismo de ruptura acima indicado.
0-3 0>*/2
Fig. 8.26a, 8.26b e 8.26c. Movimento da estaca e distribuição da pressão limite de terra contra estaca curta em areia,
carregada transversalmente. Apud Hansbo (1994)
(Cl
Capacidade de Carga
Capacidade de Carga Lateral em Areia
111.
h-—-r
üS-
Investigações procedidas por Barton (1982) cm
centrífuga indicam que para profundidades maiores
que 1,5 vez o diâmetro B da estaca a pressão
de terra atuante sobre a mesma atinge o valor limite
dado por :
ÜÜ
S»M1K:UKl«
VWHItW«(M
O' -G' B K*
ii «» i>
(80)
onde K é o coeficiente de empuxo passivo dado
por :
Fig. 8.28 Modos de ruptura para o caso de estacas
com bloco de coroamento. Apud Fleming (1992)
K -tg-'(-15 + 0/2) (81)
Próximo à superfície, a pressão limite é dada por:
B K (82)
Sào expressões diferentes daquela que tem sido
utilizada há 30 anos e que foi proposta por Broms
(1961).
Estacas Curtas Com Topo Fixo (BfocoJ
Se a estaca nào apresentar nenhuma articulação,
a força horizontal limite será dada por:
H, = yB~K 2 (86)
-3O\..B K, (83)
A utilização das expressões de Barton < 1982) tem
sido recomendada em alguns dos mais recentes c
melhores livros de fundações, tais como o "Piling
Engineering" de Fleming et al, 1992, e o Foundation
Engineering, de Hansbo, 199 í.
Vamos admitir que o centro de rotação de uma
estaca curta, submetida a uma força horizontal aplicada
a uma distância "e" acima da superfície do terreno,
esteja a uma profundidade D,, - 2a Fig. 8.26b.
Admitamos também que a pressão de terra limite
atuante na estaca seja distribuída de acordo com
o proposto por Brinch Hansen (1953) que pode
ser simplificada da maneira indicada na Fig. 8.26c.
Se a estaca tiver uma articulação com momento
de fluência M f, a equação anterior toma a forma
M, = yBK
-1 (D-3a) 2 (D-a)
a
2
3 2 (87)
A carga de ruptura horizontal ll ( pode ser obtida
através do ábaco da Fig. 8.29
t/t • 0
Estacas Curtas
Estacas Curtas Com Topo Livre
A capacidade de caiga lateral da estaca curta livre
(H |t) |xxlc ser calculada pelas condições de equilíbrio.
II, =K^B
(I) - 3aV
a(l)-a)
(84)
H f e =K j^B
U>-ar (D - 3a)5
a
(85)
H f é obtida pela eliminação de e no sistema
de equações.
Fig. 8.29 - Abaco para a determinação Ca capacidade
lateral de estacas curtas em solos granulares
Estacas Longas
Estacas Longas com Topo Livre
Nesse caso, a força limite horizontal 6 determinada
pelo fato de ela causar a ruptura da estaca
por flexào. Admitindo-se que a estaca esteja quebrada
a uma profundidade T (uma rótula), as condições
de momento máximo (força transversal igual
a zero) e de equilíbrio conduzem a:
r
2,.8
ir
w a »
a,, o IÍ^O
JL
r =
5..Í
V
V a
—L , s •
Fig. 8.3 J - Distribuição de pressões de terra em estaca
curta com bloco de coroamento.
H f =YByKj
f 3
I I
, 2
(e = M ( - yB —K p
(88)
(89)
seja igual a nove vezes a resistência não drenada
do solo, multiplicada pelo diâmetro da estaca.
Estacas Curtas com Topo Livre
II = 9c iB[(z 0-1.5B)-(D-z o)l (91)
Estacas Longas com Topo Fixo
Se o topo é fixo, isto é, estaca com bloco de
coroamento (duas rótulas), a equação acima é
substituída por
M, - yB f V 6 K/ (90)
A determinação do valor máximo de H, H (, pode
ser obti Ja através do ábaco da Fig. 8.30.
H f(e +z (() - 9c, li í(z,-l.SB)' + <D-z/l (92)
2 2
H é obtido eliminando-se Z o no sistema de equações.
Para estacas curtas com topo indeslocável (bloco)
a carga horizontal limite é dada por
H r = 9c u B (D - 1.5B) (93)
Para estacas curtas com topo livre, ou seja, com uma
rótula com momento M p a equação transforma-se em
M f = 9c u B Zq-(1.5B2 _ D 2 -ZQ
2 2
(94)
Nesse caso, Z é expresso em M f e introduzido
na expressão o valor máximo de H, H f pode ser
obtido através do ábaco da Fig. 8.32.
Estacas Curtas com Topo Fixo
1 $ 10 50 XX) 500 1000
Fig. 8.30 Ábaco para a dotorminaçào da eapacidado
lateral de estacas longas cm solos granulares
Capacidade de Carga Lateral em Argila
Estacas Curtas
No caso de solos coesivos, a pressão lateral de
terra atuante sobre estacas curtas com topo
indeslocável (blocos) se desenvolve como indicado
a esquerda na Fig. 8.31
Segundo Broms, (196'í), pode-se admitir que a resistência
lateral abaixo de uma profundidade de 1,5B
c..
60
40
20
t
íé
1
1
Í
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m
riXO ( UMA
ARTICULAÇÃO)
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%
LIVRE |
Fig. 8.32 Ábaco para a determinação da capacidade
lateral de estacas curtas em solos coesivos
23
16
Estacas Longas q v = k j (MN/mO (98)
Estacas Longas com Topo Livre
Para estacas longas onde a resistência à llexão é
fundamental para sua capacidade de carga lateral,
as condições de equilíbrio para estacas com topo
livre sào
H í-9c iB(f -1.5B) (95)
M | «= H, (e + f ) - 9c B (f- 1.5B1* (96)
Estacas Longas com Topo Fixo
Se a estaca tem o topo fixo (bloco) a Kq. anterior é
substituída por:
M f - q c, B PJI.Sfí) ; . (97)
'i
O valor máximo de H f é obtido através do ábaco
da Fig. 8.33.
/
é
2
»l*0 ID
| 1
i|
1 * M—r
1— A
 A
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-p
/ Y
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V A
5 10 50 100 ÍOO 1000
M t
Fig. 8.33 - Ábaco para a determinação da capacidade
lateral de estacas longas em solos coesivos
Deslocamentos Horizontais
Para a previsão dos deslocamentos horizontais de
estacas carregadas transversalmente, dois sào os piocedimentos
mais utilizados na prática da engenharia.
O mais conhecido c utilizado baseia-se na teoria
da viga sob apoio elástico desenvolvido por Winkler
e divulgada por Terzaghi (195S) e é conhecido como
método dos coeficientes de recalque ou método
dos coeficientes de apoio elástico.
Uma outra possibilidade é a utilização da teoria
da elasticidade que tem o Prof. H.G. Poulos, da
Universidade de Sidney, na Austrália, como seu
principal artífice.
O Método dos Coeficientes de Recalque
Nesse método admite-se que em cada ponto
da área carregada a deformação seja livremente
proporcional à tensào aplicada.
onde q v tensào aplicada (MN/nr')
k
j
coeficiente horizontal de reação do
solo (MN/m 5 )
deslocamento horizontal da
estaca (m)
Esse coeficiente k s pode ser constante no caso
de solos homogêneos ou variar linearmente com a
profundidade k = n k no caso de solos tipo Gibson.
Ú ainda introduzido o conceito de módulo lateral
de reação do solo, K, definido como
K - k d (99)
onde: d
diâmetro de estaca
A obtenção dos deslocamentos horizontais cm
uma profundidade z qualquer é obtida a partir da
equação diferencial
5 y - cj d
<Ü5l k 1 ,
onde K, I. = rigidez transversal da estaca.
(100)
Assim, para o caso de uma estaca longa com
rigidez transversal constante, submetida a um esforço
horizontal H aplicado a uma distância c acima
da superfície do solo tem-se:
y = 2 I I X |c X (cos Xz - sen Xz) + cos Xzl esp (-Xz)
onde
K
(101)
X=4J—-
4E eI e
(102)
O momento fletor c a força cisalhante sào dados
por:
M - II (eX (cos Xz sen Xz) + sen Xzl esp (-Xz)
X (103)
T = N [cos Xz - (2Xe + 1) sen Xz esp (-Xz) (10't)
A estaca pode ser considerada longa quando X L
> ;t onde L é o comprimento da estaca dentro do solo
Método Baseado na Teoria da Elasticidade
Generalidades
Na aplicação da teoria da elasticidade ao problema
da determinação dos deslocamentos horizontais
de estacas carregadas transversalmente será
utilizado o procedimento proposto por Décourt,
(1991a e 1991c), que por sua vez se baseia no
trabalho de Poulos e Hull (1989).
A escolha desse método se deveu ao fato de sei
o único que utiliza parâmetros do solo obtidos através
do SPT/ SPT-T que como se sabe sào os ensaios
mais utilizados na prática da engenharia.
Esses autores analisaram o deslocamento horizontal
de estacas carregadas transversalmente, à
luz da teoria da elasticidade. É claro que para aplicações
práticas, através de cálculos simplificados,
algumas limitações têm que ser aceitas.
A primeira delas diz respeito ao tipo de solo.
Dois casos sào passíveis de solução simples. A de
solos homogêneos e a de solos tipo Gibson.
Os solos podem ser considerados homogêneos,
para fins de aplicação tias fórmulas a serem a seguir
propostas, quando suas características elásticas
pouco variarem com a profundidade.
Um caso clássico é o de argilas pré-adensadas.
O solo tipo Gibson apresenta módulos de
cisalhamento e elástico nulos à superfície do terreno,
crescendo linearmente com a profundidade.
É o caso típico de areias puras, preferencialmente,
abaixo do lençol freático.
Na prática da engenharia, raramente alguma dessas
situações oconv, razão pela qual a criatividade e a competência
do engenheiro sào fundamentais para a elaboração
de um perfil esquemático equivalente do solo.
Um outro conceito extremamente importante é
o de comprimento crítico, L . Define-se como sendo
comprimento crítico de uma estaca carregada
transversalmente aquele a partir do qual um aumento
de comprimento nào mais afeta o comportamento
de seu topo.
Com freqüência, vêem-se na prática da engenharia
casos de estacas longas submetidas a esforços
horizontais, sem que haja consciência dc que
comprimentos maiores que o crítico são inúteis,
em nada melhorando o desempenho das estacas
carregadas transversalmente.
Uma outra distinção importante deve ser feita
entre estacas flexíveis e estacas rígidas. Uma estaca
é considerada flexível quando seu comprimento
é superior ao L . É, considerada rígida quando
seu comprimento é inferior a l/ s.
Deve-se ainda fazer uma importante distinção
entre as situações de topo livre e de topo fixo. O
topo fixo difere do topo livre pela impossibilidade
de rotação, sendo os movimentos da estaca apenas
deslocamentos horizontais.
Caso de Camada Dupla
Na prática da engenharia, a situação mais complexa
que pede ser analisada de forma simplificada
pressupõe a existência de no máximo duas camadas
de solo. Uma camada básica inferior e uma
camada superior, mais ou menos rígida. Esse problema
foi analisado por Davisson e Gil (1963J.
Poulos e Da vis (1980) publicaram adaptações dos
gráficos desses autores, Figuras 8.34 a 8.3(>.
X
<UJ
1.0
RN.
\\NX
H. K.
To 3-0
VALORES OE K, /K
0.S
I 0
^-s 6
1
20
-
0.05 0.10 0,15 020
H./L
Fig. 8.34 - Efeito da camada dupla no fator de influencia
de deslocamento l p(( Apud Davisson e Gill (1963J
UJ
2
CE
O
u.
z
=>
8
o
i/1
<
<r
<
a.
o
<5
-l
u.
Z
8
ce
2
0.05 0.10
H,/L
0.15 Q20
Fig. 8.35 - Efeito da camada dupla no fator de influência
dc deslocamento lp r Apud Davisson e Gill (1963J
O coeficiente F é definido como a relação entre
o fator de influência para o solo dc camada dupla
c o solo homogêneo.
Para permitir aplicações ainda mais fáceis dessas
correções procedeu-se a algumas simplificações adicionais,
que sào apresentadas na Tabela 15.
-
ê
o
3
o
tf)
<
a
í £
<5 s
-j tn
u. <
- O
momento de inércia O momento de inércia I,. é
função apenas da geometria da estaca. Por exemplo
para seção circular plena, I ( = D,0^ d*.
O módulo de elasticidade da estaca é grandeza
de determinação prática complexa, além de variar
com o nível de deformação da mesma.
Dentro do espírito de simplicidade adotado nesse
estudo segere-se para estacas Ce concreto armado
a consideração dc apenas dois valores:
E,_ = 25.000 MN/m' (geral)
E |; - 30.000 MN/m' (casos especiais)
Fig. 8.36 - Efeito da camada dupla no fator de influência
de deslocamento lp M . Apud Davisson e Gill (1963J
Tabela 8.1S
020
Sào considerados casos especiais as estacas prémoldadas
de concreto armado ou protendido.
Por serem produtos industrializados de alta qualidade,
as estacas moldadas ' in sitt", concretadas
sob proteção de bentonita, diante do elevado
consumo cie cimento praticado nesses casos (400
kg/m*), o caso de estacas com camisa de aço
perdida, além de outros, fica a critério do projetista.
Valores dos Coeficientes de Influência 1,. M e 1 |>V1
para Valores de k/k, entre zero e 1,0 e Valores
de H,/ 1.-0,2
k, /k 'PM e 'PM
1.0 1.0
0.5 1.5
0.0 2.5
Para valores de H, / L diferentes de 0,2 deverá
se estabelecer uma variação linear, lembrando sempre
que para H, / L » 1 o valor desses coeficientes
também é um.
Assim, para k, /k «• 0,5 e H, / L - Q,, os coeficientes
Ip M e Ip M terão valor de 1,25.
Hipótese Admitidas
I. PERFIL DO SOLO
O perfil do terreno deve ser enquadrado em um
dos dois perfis esquemáticos abaixo.
1.1 Solo homogêneo (características elásticas constantes
com a profundidade: \\ a cte).
1.2 Solo tipo Gibson (módulos de elasticidade e
de cisalhamento nulos à superfície do terreno, crescendo
linearmente com a profundidade E v = N k z)
II. RIGIDEZ TRANSVERSAL DA ESTACA ( E t I L)
A rigidez transversal da estaca, E t I, , é o produto
do módulo de elasticidade da estaca E ( por seu
III COMPRIMENTO CRÍTICO (L c)
Já definido anteriormente, o comprimento crítico
(Lc) é dado por:
•nrr
(Lc) = 4,4 J y F solos homogêneos (105)
E v 11
(Lc) = 3,30 I E E solos tipo Gibson (106)
V N i.
IV. CONDIÇÕES DE DESLOCABIL1DADE DO
TOPO ESTACA
1V.1 Topo livre: tanto deslocamentos horizontais
quanto rotações sào possíveis.
IV.2 Topo lixo: apenas deslocamentos horizontais
sào possíveis
V. COMPRIMENTO EFETIVO L
V.l Estacas Flexíveis
L. - L quando L > L
V.2 Estacas Rígidas
L = L quando L <1. / 3
(107)
(108)
Para casos intermediários, interpolaçòes se fazem
necessárias.
VI. Fórmulas para a solução do problema
Formulação Proposta
Nas Tabelas 8.16 e 8.17 sào apresentadas as fórmulas
propostas por Poulos e Hull (1989).
Tabela 8.161 Soluções para Estacas Carregadas Transversalmente
Condições Desloca- Rotação Momento
do topo mento no topo
da estaca horizontal fixo (MJ
livre
-ML el +M 1 2
+M 1 * +M 1 3
H^t-c 3 E c Lc 3
fixo HI 4
E S L C
0 -IIL cl 5
II - lorça horizontal aplicada ao nível do terreno
M - moirenro aplicado ao nível do terreno
K s - módulo elástico tio solo ao nível tle L c .
L c - comprimento efetivo da estaca
L c - L c íe L > L c (estaca flexível)
l v - I. sc L< L c / 3 (estaca rígida'
lj - I5 " fatores tle influência, função tle L t . / d (swulo tl -
diâmetro ou largura da estaca)
Tabela 8.171 Fatores de Influência
SOLOS HOMOGÊNEOS
Sendo N o valor médio dc N-SPT ao longo do
comprimento efetivo da estaca na camada básica,
o módulo dc reaçào tio horizontal (K) é dado por:
K (MN / m J ) = N (109)
e módulo de "elasticidade" do solo F v é dado por:
E % (MN / m' ) = 2 K = 2 N :110)
SOLOS TIPO GIBSON
Areias puras, abaixo do nível freático.
N (l ou n, , coeficientes de crescimento do
módulo tle reação do solo ou do coeficiente dc
reaçào com a profundidade
i\ ou n, (MN / m* ) - N 1111)
- areias puras acima do nível freático
N (i ou n,_ (MN / m 3 ) - 1.6 N (112)
Um dos pontos mais importantes a sc destacar é
a amplamente conhecida variação nào linear desses
parâmetros com a deformação.
Deve-se frisar que os valores acima propostos
são admitidos válidos para deformações relativas
(5 / d) de 1%.
Na prática, recomenda-se proceder-se aos cálculos
para três deformações, relativas: 0,2%, 1% e AYq.
Cem base nas informações atualmente disponíveis
propõe-se:
so.o UNIFORME SOLO GIBSON
caso fator A B A B
estacas
Soluções para coeficiente tle Poisson - 0.5
I - A • Q log |D (L. / tl )
PARÂMETROS DO SOLO
II 1.646 3.395 13.10 1 1.09
flexíveis 12 5.520 9.082 34.63 18.03
13 64.98 37.95 156.1 37.14
l L > le J 14 1.326 1.641 5.659 4.139
15 0.098 0.424 0.227 0.044
II 0.976 2.196 3.181 9,701
cstacas
rígidas 12 0.701 3.225 2.409 12.71
13 1.086 6.292 1.844 18.65
[ L < Lc / 3 1 14 0.539 0.545 0.773 1.081
15 0.547 0.014 0.764 0.347
Décourt, (1991a e 1191c) apresentou propostas
para a estimativa dos parâmetros elásticos tio solo,
para deformações relativas (ô/tl) tle 1%, em função
dos valores N do SPT.
E^0,5E 1H U14)
ROTEIRO PARA A APLICAÇÃO
EXPEDITA DO MÉTODO
I. Define-se o perfil esquemático do subsolo, que
deverá ter no máximo duas camadas, a básica (inferior)
c uma camada superior, mais rígida ou
menos rígida do que a camada básica e calcula-se
o comprimento crítico L . O comprimento crítico
é calculado com base apenas nos valores N-SPT
tia camada básica.
Dois casos podem ocorrer:
• a espessura da camada superior é inferior a
50% tle L . Nesse caso o cálculo com base em duas
camadas prossegue.
• a espessura da camada superior é igual ou
superior a 50% de L. Nesse caso, despreza-se a
camada básica e procede-se a todo o cálculo como
se o solo fosse constituído por camada única, no
caso a camada superior.
II. Impòem-se valores de deformação relativa
(Ô/d) de 0,2%, 1% e 4%. Procede a correção desses
valores aumentado-os ou diminuindo-os em
funçào da menor ou maior rigidez da camada superior.
Calculam-se os valores I I (ou dc M) utilizandose
a formulação apresentada. Locam-se os valores
de H^,; H 1V cH ft e suas respectivas deformações
em um gráfico c obtém-se três pontos, através dos
quais, por interpolação nào linear, passando pela
origem obtêm-se soluções para os casos intermediários.
Para valores dc (ô/d) fora da faixa analisada,
nào há dados experimentais confiáveis para a estimativa
de E c de N. .
* ii
No caso da existência dc esforços simultâneos
de carregamentos horizontais e de momentos
fletores, poderá vir a ser necessário recorrer-se a
cálculos iterativos.
8.1.7 INTERAÇÃO SOLO ESTRUTURA
A interação solo estrutura no caso dc fundações
rasas é analisada em outro capítulo deste livro.
No caso de fundações profundas convencionais
o assunto desperta pouco interesse, diante dos pequenos
valores de recalque que normalmente ocorrem.
Já para as fundações rasas e também para as
fundações mistas, que estão sendo recentemente
utilizadas no Brasil o assunto é relevante.
Há hoje em dia duas maneiras de se proceder.
Uma «.leias é levar-se em conta a rigidez da cstrutura
no cálculo dos recalques. A outra é projetarse
a fundação para recalques iguais dc todos os pilares.
e portanto recalques diferenciais teóricos, nulos.
Essa hipótese corresponde na prática à idealização
dos projetistas estruturais que fazem previsões das
cargas dos pilares admitindo apoios rígidos.
O Brasil é pioneiro em análise que leva em conta
a rigidez da estrutura nos recalques da edificação.
graças aos trabalhos de Chameki (1954)
Recentemente, importantes contribuições sobre
o tema foram feitas em todo o mundo, destacando-se
no Brasil os trabalhos dc Gusmão (1990),
Gusmão e Gusmão Filho (1990, 1994a e 1994b),
Lopes e Gusmão (1991).
Dessas contribuições recentes conclui-se que os
primeiros pavimentes sào os que mais contribuem
para a uniformização dos recalques. Programas
computacionais foram desenvolvido para avaliações
numéricas dessa interação.
A segunda maneira de se proceder foi proposta
por Décourt (1994, 1995). Impõe-se no projeto de
fundações a condição de recalques iguais para todos
os pilares. Através de programas
computacionais se leva em conta a influência das
cargas de todos os pilares da obra nos cálculos
dos recalques dc cada um.
Além disso, a variação da rigidez do solo pode
ser considerada dc forma nào linear, como por
exemplo no programa T-Pilc, estabeleeendo-se sua
lei de variaçào com o nível de deformação e/ou
de tensão. Na prática procede-se da seguinte forma.
Impõe-se um determinado recalque para todos
os pilares da obra, 20mm por exemplo. Dos
cálculos iterativos resultarão sapatas e/ou topos
de fundações mistas com tensões aplicadas ao solo
as mais diversas. O que idealmente deveria ser
igual seria o recalque de todos os pilares c nào a
tensão no solo. Esse procedimento substitui a
conccituaçào de tensão admissível amplamente
utilizada há muitos anos.
É evidente que a busca de recalques absolutos
iguais para todos os pilares c, cm conseqüência,
de recalques diferenciais nulos
entre eles é muito mais lógica do que a imposição
de tensões iguais para as fundações de todos
os pilares e a aceitação de recalques diferentes,
para os mesmos.
Mesmo que na prática seja quase que impossível
conseguir-se efetivamente recalques difercnçiais nulos,
os valores resultantes sento sempre muito inferiores
aos correspondentes a projetos conduzidos da
forma convencional.
É evidente também que em projetos elaborados
segundo essa nova conccituaçào a importância
da contribuição da rigidez da estiutura na uniformização
dos recalques é bastante menor do
que no caso de projetos conduzidos da forma
tradicional.
8.1.8 ATRITO NEGATIVO
Considerações Gerais
O fenômeno designado por atrito negativo geralmente
ocorre quando estacas sào cravadas através
de aterros recentes, construídos sobre solos
comprcssívcis , com suas pontas assentes cm solos
competentes, isto é, relativamente
incompressiveis e de elevada resistência ao
cisalhamento. Nesses casos poderá ocorrer recalque
de parte do solo circunscrito às estacas, invertendo
pois a tendência natural que é a dc recalque
das estacas com relação ao solo estável
circunvizinho.
Outras causas comuns geradoras de recalques,
em terrenos de outra forma estáveis sào o rebaixamento
do lençol freático, o amolgamento de argilas
moles sensíveis causado pela cravaçào das estacas
que pode provocar o readensamento do solo
amolgado e, conseqüentemente, novos recalques
e o colapso dos solos por efeito de infiltrações de
água.
Como se sabe, a capacidade de carga de uma
estaca é dada por:
Q u-Q. + Q„ ci 15)
Considere-se agora a capacidade de carga por
atrito lateral como sendo composta por duas
parcelas, e Q respectivamente a parcela passível
de sofrer inversão de valor, Q >: e a nào sujeita
a esse fenômeno Q y
Ocorrendo o fenômeno de atrito negativo Q^,
nào apenas deixa de atuar como parcela resistente
mas também passa a atuar como esforço
solicita nte.
A maneira como deve se encarar o atrito negativo
no estabelecimento da carga admissível de uma
dada estaca tem sido estudada por diversos autores,
Tomlinson (1975), Horvat e Van der Veen
(1977), Poulos (1989), e também nas diversas edições
da Norma Brasileira "Projeto e Execução de
Fundações", que acaba de ser revisada.
Considerando-se agora a capacidade de carga
limite Q t obtida em uma prova de carga, onde obviamente
todo o atrito lateral é positivo, tem-se:
Q„- Q,, + Q %, + Q,,
ni6>
Sendo Q a carga admissível da estaca com coeficiente
de segurança igual a dois para as cargas
permanentes, F o coeficiente tle segurança a ser
aplicado à parcela do atrito negativo e fazendo-se
X = F+l tem-se:
Qad " Q " " 2
Xq" (117)
Alguns casos particulares, função tio coeficiente
tle segurança a se especificar para a parcela de
atrito negativo F, sào a seguir indicados:
I. X =» 3 implica em F igual a 2, ou seja,
cargas permanentes e atrito negativo
com o mesmo coeficiente
tle segurança 2.
II. X - 2.5
III. X = 2
IV. X » 1
implica F igual a 1,5, ( Norma
Brasileira atual), ou seja, o coeficiente
tle segurança para o
atrito negativo 1.5 é menor
do que o das cargas permanentes
2.
implica F igual a 1, ou seja,
atrito negativo considerado
sem coeficiente de segurança.
implica F igual a zero (Norma
Brasileira antiga), ou seja,
despreza-se o atrito negativo
como esforço solicitante.
A carga admissível de acordo com a Norma Brasileira
atual tem implícito coeficiente de segurança
2.0 para as cargas permanentes e 1,5 para a
parcela de atrito negativo.
A própria Norma justifica essa diferença entre
os coeficientes de segurança, quando diz: "O coeficiente
tle segurança 1,5 ao invés tle 2,0 aplicado
à parcela tle atrito negativo decorre tio fato de
que o fenômeno do atrito negativo é antes um
problema de recalque do que um problema de
ruptura".
De fato, jamais poderá haver ruptura geotécnica
de estaca provocada por atrito negativo, pois ruptura
associa-se sempre à grandes deformações com
relação ao solo circunvizinho, o que, caso viesse
a ocorrer, obviamente já teria desmobilizado qualquer
tipo de atrito negativo.
A Norma Brasileira antiga quando definia a carga
admissível por
(118)
levava em conta a perda da parte tia resistência
de atrito lateral pela reversão do movimento (Q ,;,
mas nào adicionava essa parcela aos esforços
solic itantes.
Observe-se que uma situação intermediária onde
o coeficiente de segurança com relação ao atrito
lateral (F) fosse apenas um, conduziria a um valor
tle X = 2
Ní.o é possível julgar-se a priori qual dessas inúmeras
proposituras seria a mais correta.
A -Ja atual Norma Brasileira dá condições para
que estacas assim dimensionadas nào venltam a
recalcar substancialmente.
Mas algumas vezes, considerando-se que todo o
solo estaria recalcando, conjectura-se se nào seria
melhor deixar tudo recalcar.
Fleming et. al. (1992) afirmam: "Em muitos casos,
a solução ótima é permitir a estrutura
estaqueada recalcar com o solo circunvizinho. Para
que isso possa ser conseguido, as estacas devem
ser projetadas para suportar as cargas aplicadas
pela estrutura com um coeficiente de segurança
relativamente baixo, com nenhuma consideração
sendo feita para nenhum atrito negativo."
Dentro dessa filosofia, a Norma Brasileira anterior
estaria mais correta.
Conclui-se pois que o problema é complexo,
devendo o engenheiro analisar detalhadamente
cada situação e ponderar detidamente sobre qual
a melhor atitude a tomar.
Avaliação do Atrito Negativo em Estacas Isoladas
A tensão cisalhante decorrente do atrito negativo
pode ser avaliada por fórmulas tipo (3 e também
por fórmulas empíricas e/ ou semi-empíricas.
Nc 1" caso tem-se:
q - K tg<5>' a\ (119)
onde
c\ = tensão efetiva média ao
longo tio trecho sujeito ao atrito
negativo
K = coeficiente de empuxo
<$>' = ângulo tle atrito solo-estaca
Segundo (Broms, 1976) KtgO 1 varia entre 0A para
enrocamentos e 0,2 para argilas normalmente
adensadas de alta plasticidade, passando por valores
de 0.35 para areias e pedregulhos e 0.3<) para
siltes e argilas normalmente adensadas de
plasticidade baixa a média.
No 2" caso, utilizando-se a formulação proposta
por Décourt (1982) com base na fórmula conhecida
como de Décourt e Quaresma 11978), tem-se:
q v -3,33 N + 10 (kN/nr')
ou
q = N/3 + 1 (tf/mO
Redução do Atrito Negativo
(120)
(121)
Certamente haverá situações onde deverá se restringir
ao mínimo o movimento das fundações submetidas
ao atrito negativo.
Nesses casos tem sido usual proceder-se à pintura
das estacas com produtos betuminosos. Segundo
Walker e Darvall (1973), espessuras de apenas
l,5mm de pintura já sào suficientes pam praticamente
eliminar todo o atrito negativo. Deve-se
porém limitar esse tratamento aos trechos das estacas
que estarão em contato com o solo compressivel,
não se aplicando pintura às regiões onde o solo é
estável, pois isso implicaria a redução da parcela resistente,
o que evidentemente não é desejável.
Grupos de Estacas
Tudo o que foi dito até aqui refere-se a estacas
isoladas.
No caso de grupos de estacas, a situação é muitíssimo
mais favorável, visto que as estacas internas
ficam praticamente isentas do efeito tle atrito
negativo.
Esse assunto foi amplamente estudado por
Kuwabara e Poulos (1989).
A Figura 8.37 foi transcrita do referido trabalho. A
letra K designa o fator de rigidez da estaca definido
por K - K E i / E . onde R = 4A p / 7td-, sendo A área
efetiva da seção da estaca e do seu diâmetro.
0.5
-tV i i i i » r
ESTACA ISOLADA
os.
0--0 o\
\
0
1 1
L/d • 2S
K • 000
t/d « 3
o O o O O
A
A *
Q O
A -»-
a
ESTACAS 0E CANTO
ESTACAS 0E LA DO
. • r ri í , 1 -
ESTACAS
12 3 4 5 6 7 8 9 10
N = Vbfi. 0£ ESTACAS 00 BLOCO
INTERNAS
Fig. 8.37 - Atrito negativo em grupos de estacas. Apud
Kuwabara e Poulos (1989|
A SEGUIR SÀO TRANSCRITAS AS PRINCIPAIS
CONCLUSÕES A QUE CHEGARAM ESSES
AUTORES:
I- A força de arraste máxima nas estacas do grupo
decresce significativamente à medida que o
espaçamento entre estacas decresce.
II- A redução na força de arraste nào depende
substancialmente do número dc estacas, desde que
o grupo tenha mais que aproximadamente nove
estacas.
III- As estacas internas do grupo desenvolvem
força de arraste menor do que as externas; cm
correspondência, o comprimento onde o
deslizamento pleno ocorre é geralmente significativamente
menor para as estacas internas do que
para as estacas externas.
IV- O movimento superficial do solo necessário
à mobilização do deslizamento total dentro do grupo
de estacas pode ser muito maior do que o correspondente
a uma estaca isolada.
V- Para um grupo de estacas com bloco de
coroamento rígido, é possível que forças de tração
se desenvolvam na parte superior das estacas externas.
Concluem ainda esses autores que: -quando aplicada
a um caso de obra, essa teoria demonstrou
razoável concordância com o comportamento observado".
Deve-se porém ressaltar que outros medidas de
casos reais de obra, que permitiriam outras comparações
semelhantes, sào praticamente inexistentes.
8.1.9. DRAPEJAMENTO E FLAM3AGEM
Generalidades
I lá duas situações onde a estabilidade axial de
uma estaca pode ser crítica. A primeira delas ocorre
durante a cravaçâo quando a instabilidade dinâmica
pode fazer com que a estaca desvie substancialmente
da vertical. A segunda ocorre já sob açào
da carga de trabalho, quando a carga aplicada à
estaca esteja próxima a carga crítica de flambagcm.
O perigo da flambagcm (instabilidade elástica) de
estacas totalmente dentro do solo é normalmente.
desprezível, com exceção dos casos de estacas
de pequeno diâmetro em solos coesivos de consistência
muito baixa.
Instabilidade Dinâmica na Cravaçâo.
Drapejamento
Esse assunto foi tratado por Burgess (1976-1980)
e é citado por Aoki e Alonso (1988) e Fleming et
al < 1992).
Na Fig. 8.38 é apresentado um ábaco extraído
de Burgess (1980), que permite avaliar o risco
de drapejamento durante a cravaçâo de uma estaca.
DRAPEJAMENTO
A verificação dc flambagem nào é rotineiramente
feita em projetos de fundações. De fato, os problemas
de drapejamento estando controlados, a
flambagem normalmente nào irá ocorrer.
Embora pouco provável, poderá vir a ocorrer
flambagem no caso de estacas trabalhando de ponta,
com pequeno diâmetro e em solo muito mole.
Estacas Parcialmente Imersas no Solo
Topo Livre
Trata-se da situação mais crítica entre as
possíveis de existir na prática.
Na Figura 8.39 essa situação é apresentada.
Fig. 8.38 - Instabilidade devida ao drapejamento.
Apud Burgess (1980)
Para estacas inicialmente perfeitamente retilineas,
as curvaturas irão ocorrer abaixo de uma determinada
profundidade crítica. Da Figura 8.38 pode-se deduzir
que essa profundidade crítica (L > 6 dada por:
L c (P EI) 1/5 onde (122)
Ticd
P coeficiente que depende da relação entre a carga
de ponta e a carga total que decresce de 40 e 20. à
medida que a relação Q p /Q passa de zero a 1.0
r
V7 ///.-VAtr
1
W V
T
L..t< /t
1
CASO ES0UEMATIC0
c
d '
E I
coesão da argila mole
diâmetro da estaca
rigidez transversal da estaca
CASO REAL
Fig. 8.39 - Caso Esquemático
O drapejamento pode levar a grandes curvaturas
do eixo das estacas.
Segundo Aoki e Alonso (1988). o ponto fundamental
para que a estaca resista é que haja garantia
da continuidade c resistência adequada dos
elementos que constituem a estaca.
Esses autores apresentam caso onde estaca dc
concreto armado centrifugado, com 50 cm de diâmetro
e 38.60m de comprimento, experimentou
desvio da ponta (5> em relação ao eixo vertical
original, de 5,1 lm ou seja uma relação 5/1. de
13.2%, 13.2 vezes o valor máximo permitido pela
Norma Brasileira.
Provas de carga levadas até cargas de 2,60MN, ou
seja, duas vezes a carga dc tralxilho chis estacas, nào
levaram à mptura física do solo, tendo o recalque
máximo atingido 23mm, 4,6% do diâmetro da estaca.
Flambagem
Generalidades
O comprimento do trecho de estacas situado
acima da superfície do solo é designado por L o. O
comprimento do trecho de estaca imerso no solo
por L e o comprimento crítico, conforme já definido,
por L f.
Pode-se supor, e os cálculos confirmam, qce a
flambagem esteja restrita ao trecho limitado pelo
comprimento crítico.
Uma hipótese simplificadora é admitir-se çue a
estaca esteja engastada no solo a uma profundidade
L c da ordem da metade do comprimento crítico.
K " (123)
O comprimento crítico p<xle ser avaliado através
das fórmulas (105) e (106), conforme o solo
seja considerado, respectivamente, homogêneo e
tipo Gibson.
Os parâmetros E s e N h, necessários ao cálculo
do comprimento crítico, podem, por exemplo, ser
obtidos com base no SPT. fórmulas (109), (110),
(111) e (112).
Q,
A carga dc flambagem é dada por:
- i E Jc
Topo Fixo
4(L 0 + L e r
(124)
Nesse caso, como já definido anteriormente, a
rotação do topo da estaca é impedida, mas nào
seu deslocamento lateral.
A carga de flambagem é dada por:
Q,
8.1.10 Avaliação de desempenho
(125)
As estacas de deslocamento em geral e as estacas
pré-moldadas de concreto armado em particular
podem ter sua cravaçào monitorada, o que
irá permitir proceder-se caso a caso a uma avaliação
dc sua capacidade de carga. Esse tema teve
um extraordinário desenvolvimento no Brasil, graças
aos inúmeros trabalhos dc diversos autores
brasileiros. Em especial sào de se destacar as diversas
contribuições de Aoki e de Niyama.
Esse assunto não será aqui abordado em maiores
detalhes porque será objeto de análise em outro
capítulo desse livro
Já as estacas escavadas normalmente nào permitem
esse tipo de controle.
Aliás, ao se comparar as cstacas de deslocamento,
em particular as pré-moldadas, com as estacas
escavadas, em particular aquelas concretadas sob
proteção de lamas bentoníticas, estações e barretes,
os seguintes pontos devem ser ponderados:
1 - as estacas pré-moldadas de concreto armado
sào produzidas em indústrias, sendo pois passíveis
de rigoroso controle de qualidade.
Ao contrário, as outras sào concretadas sob condições
difíceis, onde a limpeza do fundo da escavação
é sempre problemática.
2 - as formulas scmi-empíricas usualmente utilizadas
para o dimensionamento de estacas pré moldadas
estão amplamente comprovadas, tanto pela
prática profissional quanto por análises críticas como
por exemplo De Mello (1994), enquanto as correspondentes
a estacas escavadas são bem menos
confiáveis, diante do reduzido número disponível
de provas de carga aproveitáveis para aferi-las.
3 - as estacas dc deslocamento permitem um
adequado controle de obra, através das medidas
de nega, de repique, provas de carga dinâmicas
e testes de integridade (PIT).
As estacas escavadas, ao contrário, têm que ter seu
comportamento previamente estabelecido em função
de sondagens e do dimensionamento feito pelo
projetista, sem que haja nenhum controle específico paia
a verificação de sua capacidade de carga.
4 - para cargas elevadas, por exemplo 1.000 tf.
ou 10.MN, a solução de fundação em estacas pré
moldadas iria, por exemplo, exigir seis estacas de
deslocamento de 600mm de diâmetro. A solução
por estações e/ou barretes iria certamente se constituir
em um único elemento de funcação. Ora. uma
eventual falha cm uma ou mesmo em duas estacas
de deslocamento em um gnipo de várias estacas nào
irá comprometer a segurança da fundação. Mas uma
falha na única estaca responsável pela carga toda do
pilar poderá vir a ser catastrófica.
Esse conjunto de fatos recomenda que seja especificado
um melhor controle de qualicfc.de para as estacas
escavadas. Pelo menos ensaios dc integridade,
tipo de "PIT deveriam ser sistematicamente executados,
apesar das conhecidas limitações das mesmos.
Provas de carga dinâmicas poderiam também vir
a serem utilizadas.
Além disso, um número substancialmente maior
de sondagens deveria ser previsto pelo projetista.
Quanto aos coeficientes de segurança, nào parece
razoável que se tratem da mesma forma esses
dois tipos dc estacas como, por exemplo, é feito
na Norma Brasileira.
Um tratamento probabilístico iria certamente exigir
margens de segurança diferenciadas, maiores para
a estaca única do que para o gnipo de estacas.
8.1.11 Coeficientes de segurança
Tem sido usual definir-se como admissível (Q ADM)
a carga correspondente a um coeficiente de segurança
dois com relação à carga dc ruptura (Q,).
Uma outra tendência seria admitir-se coeficientes
de segurança diferentes para o atrito lateral (Q H) e
para a ponta (Q ).
Décourt (1982Í propôs valores de coeficiente de
segurança de 1,3 e 4,0, respectivamente para Q„e
Q (. Além disso, quando se tratar da avaliação de
Q através de provas de carga, é importante
explicitar-se claramente qual a carga de ruptura que
está sendo considerada. Sugere-se que sempre se
refira à carga de ruptura convencional (Q ), ou
seja, aquela correspondente a um recalque de 10%
do diâmetro da estaca.
Deve-se porém reconhecer que definições envolvendo
apenas valores de carga sào realmente inadequadas.
pois os recalques a elas correspondentes não
estariam sendo levado* nn conta Lima maneira mais
moderna c mais correta de se especificar cargas
admissíveis seria pelo conceito dc rigidez. Através de
cálculos ou extrapolações de resultados de provas de
carga, seria obtido o valor de rigidez correspondente
à ruptura convencional. A caiga admissível seria entào
aquela correspondente a um valer de rigidez "n"
vezes superiorà rigidez da ruptura convencional. Essa
conccituaçào é nova e por isso ainda nào é claro qual
o valor de "n" a se adotar. Tentativamente, sugeremse
valores entre três e quatro. A grande vantagem
dessa nova conccituaçào é que através dela se estarão
contemplando simultaneamente cargas e recalques,
c nào apenas cargas.
8.2 TUBULÒES E CAIXÕES
8.2.1 Introdução
JOSÉ HENRIQUE ALBIERO
JOSÉ CARLOS A. CINTRA
Dentro da conceituaçào imposta pela pratica profissional
de engenharia de fundações no Brasil, sào
chamados de tubulòes as fundações profundas, de
grande porte, com secào circular e que apresentam,
em geral, a base alargada. Às vezes torna-se difícil
distinguir os tubulòes das estacas escavadas e, deste
modo, os tubulòes podem ser vistos como estacas
escavadas, de grande diâmetro, com ou sem base
alargada. Até há alguns anos, admitia-se que os
tubulòes permitiam ou previam a descida de alguém
até a sua base. para a finalização dos serviços e para
a inspeção antes de concretagem. Mas com a utilização
de equipamentos para escavação mecânica esta
prática poderá ser abandonada, mesmo nos casos dc
fustes de grande diâmetro.
Atualmente, na literatura internacional, as fundações
chamadas dc tubulòes no Brasil sào tratadas
como estacas escavadas, moldadas "in loco",
com base alargada.
Reserva-se a denominação de caixões para as
peças de secào quadrada, ou mesmo retangular,
que têm as paredes laterais pré-moldadas. A descida
ou implantação destes elementos no subsolo
se faz com a escavação do solo, na pane interna,
até que se atinja a profundidade adequada para
seu apoio. Para White (1962), caixão é uma estrutura,
em forma de um paralelepípedo, que é mergulhada
a partir da superfície do solo ou água, até
atingir a profundidade desejada.
Exposições mais detalhadas sobre caixões aparecem
em White (1962) bem como em Jumikis (1971).
8.2.2 Tipos de tubulào
Os tubulòes podem ser agrupados em dois tipos
básicos: cs tubulòes a céu aberto e os que
emp egam ar comprimido.
Tubulões a Céu Aberto
aj Sem Contenção Lateral
Estes tubulòes, também chamados de pocinhos,
têm seu fuste aberto por escavação manual, ou
mecânica, sendo que a base é, cm geral, escavada
manualmente. Não utilizam nenhum escoramento
lateral e portanto o fuste e, em especial, a base,
somente podem ser executados cm solos que apresentem
um mínimo de coesão capaz dc garantir a
estabilidade da escavação. Nestes casos o diâmetro
final resulta sempre maior do que o previsto
cm projeto (de 5% a 10%), e o atrito lateral ao
longo do fuste é reduzido quando comparado com
a resistência "in situ" no contato solo-solo. Esta
redução no atrito lateral depende do alívio de tensões,
ao passar de uma situação em repouso para
uma condição ativa, e da umidade cedida pelo
concreto ao solo circundante, o que depende do
fator água/cimento do concreto empregado.
b) Com Contenção Lateral Parcial
Estas contenções parciais têm da ordem dc 2m
e o solo é escorado antes de prosseguir a escavação.
Estes revestimentos são, em geral, recuperados,
c um exemplo é o tubulão tipo Chicago, que cmpregr
revestimento de madeira, e suas variantes.
cj Com Contenção Lateral Continua
Um exemplo deste tipo é o Gow, que emprega
revestimentos metálicos telescópicos, os quais sào
recuperados à medida que o concreto é lançado
para o interior da escavação.
Alguns tipos dc equipamentos cravam uma camisa
metálica, desde a superfície, ao mesmo tempo em
que realizam mecanicamente a escavação, como por
exemplo o tubulào tipo Benotto. Neste tipo de solução
o atrito lateral fica sensivelmente reduzido pois
o processo provoca um amolecimento do solo que,
freqüentemente, é irrecuperável.
Normalmente estes tubulòes a céu aberto sào
executados acima do lençol freático pois a escavação
manual da base, ou mesmo do fuste, não pode
ser executada abaixo do nível da água. Nada impede,
entretanto, que se estenda a escavação utilizando-se
de rebaixamento do lençol.
Quando se emprega um sistema de rebaixamento,
dois problemas podem ocorrer:
• volume de água a esgotar, que é função da
permeabilidade do solo c do desnível de água;
• forças de percolação prejudiciais à estabilidade
das paredes laterais do tubulào c, em especial.
do alargamento da base.
O rebaixamento do lençol freático pode ser executado
por qualquer processo, até mesmo pela
instalação de bombas no interior dos próprios
tubulòes, ou então em poços destinados a esta
operação. Cuidados especiais devem ser tomados
nestes casos, pois a escavação abaixo do NA, especialmente
a da base, é sempre muito perigosa.
Este perigo aumenta quando a bomba está
posicionada no interior dc um tubulào, situação
em que o fluxo de água se faz no sentido de reduzir
a estabilidade da escavação.
Tubulões Pneumáticos
Para tornar possível a escavação abaixo do lençol
freático emprega-se ar comprimido com pressão
equivalente à pressão de água intersticial. Em
solos arenosos a pressão é ligeiramente superior
para compensar as perdas de carga e as perdas de
ar, e também para favorecera estabilidade (cuidados
devem ser tomados para evitar o secamento
da areia). Para solos argilosos a pressão aplicada
pode ser pouco menor do que a pressão neutra.
Os tubulões pneumáticos sào atualmente muito
pouco empregados no mundo todo devido aos
riscos e custos envolvidos, e no Brasil observa-se
atualmente uma tendência de redução de sua utilização.
8.2.3 Vantagens dos Tubulões
Os tubulóes apresentam, quando comparados a
outros tipos dc fundações, uma série de vantagens:
• os custos de mobilização c de dcsmobilizaçào são
menores que os tle batc-cstacis c outros cquipamentos,
aspecto este muito impoitantc para pequenas
obras, nas quais este item representa uma
parcela significativa das custos totais;
• o processo construtivo produz vibrações c ruídos
tle muito baixa intensidade, o que é muito
importante para obras urbanas próximas a
edifícios;
• os engenheiros tle fundações podem observar
e classificar o solo retirado durante a escavação
e compará-lo às condições de subsolo
previstas no projeto-,
• o diâmetro e o comprimento dos tubulões
podem ser modificados durante a escavação
para compensar condições de subsolo diferentes
das previstas;
• as escavações podem atravessar solos com
pedras e matacões, especialmente para grandes
diâmetros, sendo possível até penetrar
em vários tipos de rocha;
• regra geral é possível apoiar cada pilar em
fuste único, cm lugar de diversas estacas, eliminando
a necessidade tle bloco tle
eoroamento.
8.2.4 Comportamento dos Tubulões
Os tubulões são empregados para transferir, ao
solo, cargas verticais tle compressão ou tração bem
como cargas horizontais. Quando solicitado por
uma carga vertical tle compressão, as forças presentes
sào as indicadas na Figura S/iO.
0 S/?
^mmmw/
0s/2
Q + G - Q sm + Q linl
com
Q - m Q,
Q = m *b t Qu +
onde:
• Q ni é a parcela mobilizada da resistência lateral
• Q Um é a parcela mobilizada da resistência tle
base:
• e nv sào os fatores de mobilização da carga
lateral última e da carga ú.tima de base,
respectivamente
• Q n| e Q,, sào as cargas limites últimas na ligação
tuhulào-solo e no apoio da base, respectivamente
• a' sli é a tensào vertical efetiva à cota de apoie»
do tubulão
Tem sido prática usual admitir como sendo nula
a tensào lateral, ao longo do fuste. e deste modo
toda a carga cio pilar é transferida ao subsolo pelo
apoio da base. Entretanto, várias provas de carga
realizadas em tubulões indicam que sob baixas
deformações (admissíveis) a parcela de resistência
lateral, para tubulões longos, é significativa e se
desenvolve plenamente fm % = 1,();, com deformações
da ordem dc 5 a lOmm independentemente
do diâmetro do fuste (D,). Mas a plena mobilização
da resistência de base somente se efetiva para grandes
deformações, tia ordem de 10% a 20% do diâmetro
da base (D, ). Portanto, para a carga de trabalho
o tubulão pode ter um comportamento muito
diferente tio previsto em projeto, caso a parcela
de resistência lateral nào seja considerada. Na
Tabela 8.18 sào apresentados os valores experimentais
de deformações obtidos por Reese &
O Neill (1988) e necessários à plena mobilização
das parcelas resistentes.
Tabela 8.181 Deformações necessárias á mobilização
Idas parcelas resistentes (Reese & O Neill. T988|
Deformações Necessárias
Solo Carga Lateral Carga de Base
Faixa de
Faixa dc
Tendência
Tendência
Valores
Valores
Argiloso
Arenoso
0.004 D,
0.007 D,
0.007 D,
0.009 D.
0.006 D,
0.008 D,
0.025 D„
0.060 D„
0.0400/
0.060D/
0.050 D
0.050D/
• valores da carga de base continuam a crescer após a
mobilização do que seria a resistência última.
|0 b
Fig. 8.40 - Esquema do carregamento vertical de
compressão
Para a condição dc equilíbrio, pode-se escrever
a equação:
Bowles (1988) sugere, para solos coesivos, que a
plena mobilização tia resistência lateral se verifica
com um recalque de 0,05 D h, após o çue n\ diminui
até um valor limite dc 0,40. Para a base, a plena
mobilização se verifica com recalques de (0,10 a 0,15)
D lt. Para o caso de fuste reto, ou seja. sem alargamento
de base, este recalque aumenta para 0,20 I) .
Na literatura sào encontradas
dc m
X
,
< 1
de 0,45 a 0.75.
recomendações
A tensào lateral última (q , ) é função da aderência
Bcrezantzcv ct al. (1961) afirmam que para
Qm - J Or KD , dz (*) este valor pode ser aumentado para o caso sem lias:* nos
lubulòes em areia a plena mobilização da carga
última da base somente se verifica com recalques
de 0,20 D„.
Danziger (1983) obteve q v|. variando de 50 a 70
kPa para deformações de 0.0005 I) l(; Monteiro
(1985) obteve, para provas de carga em areia argilosa
dc Ilha Soltcira-SP, q vfde 26 kPa para recalques
de 1 a 2mm; Orlando (1990) apresenta valores de
q %|. variáveis de 25 a 40 kPa com deslocamentos
entre solo c concreto do fuste do tubulào que,
por sua vez, depende de resistência nào drenada
do solo que circunda o fuste:
<lr
Os valores de a têm sido estabelecidos por vários
autores, sempre com uma funçào do próprio valor
da resistência nào drenada, sendo freqüentemente
adotados:
dc (0,002 a 0,004) D h. Valores medidos cm provas argila média a - 0,45
de c.irga nos campos experimentais dc São Carlos
argila rija a - 0,20
e de Bauru, para areia fina argilosa, forneceram
q %l de cerca dc 30 kPa, para pequenas deformações
Rcese & ONeill 0989) recomendam:
A mobilização das parcelas resistentes depende
dos recalques e do tipo de solo. da forma de execução,
do comprimento e da relação D,/D r
• adotar a = 0,55 para s u < 190 kPa;
• desprezar a tensào lateral no trecho superior
do fuste até a profundidade de 1,5m;
• para tubulòes com base alargada, desprezar a
tensào lateral no comprimento de uma vez o diâmetro
8.2.5 Previsão da Carga Limite Última
do fuste acima do início do alargamento de base.
Coduto (1994) apresenta um gráfico de « cm
Os métodos mais usados para previsão da caiga
funçào de c u para fustes escavados, adaptacio dc
limite última de lubulòes sào baseados em propriedades
dos solos obtidas em ensaios de laboratório
Kulhawy & Jackson (1989). Deste gráfico podem
ser estabelecidas as relações aproximadas:
ou de campo. Estas análises sào semelhantes àquelas
estabelecidas para estacas c estão sujeitas aos mesmos
tipos de incertezas. Por estas análises são determinadas
30 kPa > c u q, r -c u
a tensào última dc apoio da base (q M) bem 250 kPa > c u > 30 kPa q s, = 4,82 c
como a resistência lateral última (q sí), necessárias
para o cálculo dc Q w e Q^ respectivamente.
c
u
> 250 kPa q
»%í
, - 0.32 c
U
Os métodos para previsão dc q %r c de q hr Para Rcese & 0'Neill (1989), a tensào lateral pode
sào ligeiramente diferentes daqueles utilizados para também ser estimada pela cxprcssào
estacas porque os processos executivos nào sào os
mesmos. Vários métodos têm sido propostos, com
origem experimental (prova de carga), teórica, semicmpírica,
ou totalmente empírica e sào, em geral,
q s = M v
(a notação traço é utilizada para valores médios).
conigidos em função de resultados obtidos cm provas
de carga, especialmente as instrumentadas. As
provas de carga cm protótipos sc constituem na
maneira mais confiável para estabelecer o valor da
carga limite última. Entretanto, devido às suas grandes
dimensões, os tubulòes têm capacidade de carga
Entretanto em solos coesivos é difícil aval ar (5
pois este é usualmente maior junto à superfície, devido
ao elevado pré-adensamento nesta regiào. e
decresce gradualmente com a profundidade podendo
atingir, eventualmente, um valor constante.
superior à de muitas estacas c deste modo o equi-
Rcesc ct al. (1976) sugerem os valores de a,
pamento para execução de prova de carga deve ser bem como os valores limites de q s(, que estão
muito mais resistente, especialmente as reações. Isto
apresentados na Tabela 8.19.
faz com que o custo de provas de caiga em tubulòes
seja muito elevado e, por isso, raramente sejam executadas.
IabgLa_gJ-21 Valores dc a c dc q., ^ dc Recsc ata». (1976)
Os ensaios cm tubulòes só se tornam eco-
Sem Base Com Base
nomlcamente justificáveis para grandes obras ou então
em pesquisas onde os benefícios possam ser es-
Tipo de Escavação a
a
Alarq. Alarq.
tendidos para vários projetos.
(kPaj fkPa)
Executada a seco ou 0.50 90 0.30 40
Tubulòes em Solos Coesivos
com auxilio de lama
1*1 n
leve
aj Resistência Lateral
Situações onde pode 0.30 40 0.15 25
A resistência lateral última pode ser estimada
pela expressão:
ocorrer retenção de
lama entre o concreto
e o solo envolvente,
como em perfurações
parciais com lama
í'l n
trechos perfurados a seco.
Terzaghi & Peck (1967) sugerem os valores apresentados
na Tabela 8.20 para a estimativa do atrito
lateral que se desenvolve nas camisas, quando
do seu afundamento no terreno, para tubulõcs
atingindo profundidades entre 8 c 40 m.
Tabela 8.201 Valores de atrito lateral nas camisas de
tubulões (Terzaghi & Peck. 1967)
SOLO
q,(kPa)
silte e argila mole 10a 30
argila muito rija 50 a 200
areia fofa 10 a 30
areia compacta 30 a 70
pedregulho compactado 50 a 100
Bustamante & Gianeselli (1982^ apresentam os
valores da Tabela 8.21 para a tensão lateral última
em funçào da resistência dc cone (q ) medida no
ensaio de penetração contínua:
% = H
Tabela 8.211 Valores dc \ e dc q imji< para estacas
escavadas (Bustamante e Gianeselli, 1982J
SOLO d, X
(kPa)
(KPa)
Argila mole a
< 1000 0.0333 15
média
Argila média a rija 1000-5000 0.0250 35
Silte. areia fofa £ 5000 0.0)67 35
Argila, silte > 5000 0.0167 35
Calcários moles á 5000 0.0100 35
Areias
5000- 0.0100 80
pedregulhosas
12000
Calcário alterado e >5000 0.0167 120
fragmentado
Areia e
pedregulhos densos
12000 0.0067 120
O fator de mobilização (m ) atinge o valor 1,0
para recalque de 0,05 D |t e a partir daí decresce
até um valor limite de 0,35 a 0,-í0. Valores variando
desde 0,15 até 0,75 têm sido propostos por
diversos autores, sendo que Skempton obteve n\
= 0,21 para argila de Londres num caso em que o
fuste permaneceu aberto por um longo período,
provocando uma perda do teor de umidade do
solo. ao longo do fuste. de 6%. Definitivamente o
valor de n\ lim depende do tempo em que a escavação
permanece aberta.
Quando o solo na cota de apoio da base é muito
mais rígido do que o solo ao longo do fuste, o
fator de mobilização <m %) deve ser considerado
como sendo nulo.
b) Resistência de Base
A resistência última da base é determinada pelo
produto da tensão última da base pela área de apoio
do tubulào.
Q„r =c l b< \
com
q. >ll( ,. - c II N c
onde:
• c é a coesão nào drenada do solo na região dc
apoio da base (1.0 D h acima da cota de apoio e 1,5
D (i abaixo)
• N é o fator de capacidade de carga dc fundações
profundas < para <í> = 0, Nc ~ 9)
Reese tk 0'Neill (1989) propõem a seguinte expressão
para determinação da tensào última dc
base
q, , = F N ' c < 4000 kPa
•l I i c u
onde:
• F representa um fator de redução da tensào
última da base, de modo a que os recalques dos
tubulõcs se situem dentro dos limites de aceitação
da estrutura (em geral < 25mm):
Db < l,90m
Db >
F, = 1,0
l,90m
p f =
2 5
< i com Di (m)
400^, D b % "
yi = 0,0071 + 0,0021 (-^-) áU,U15
Vj/2 — 0,159
0,5U < y; <1,50
; Nc* = 6 [1 + 0,2 (-^-)1<9
para 2,5 N c* = 9
com c u (kPa)
• c é a resistência ao cisalhamen:o do solo enu
tre a cota de apoio da base e uma distância 2 D,
abaixo da base.
O fator dc mobilização da carga de base é funçào
dos recalques sofridos pelo tubulào, sendo
normalmente empregados os valores:
• m 1( = 1,0 para s = (0,10 a 0,15) D (i
em
tubulào com base alargada
• m,= 1,0 para s = 0,20 D ()
em tubulào sem base alargada.
Alguns autores sugerem o emprego de valores
tle Ne variando entre 6.5 e 8,0, o que eqüivale a
admitir, mantido Nc como valendo 9, fatores de
mobilização variando de 0,70 a 0.90.
Décourt (1989) propõe uma expressão para fundações
diretas que pode ser estendida para o caso
de fundações profundas pela inclusão do efeito
de profundidade (0' sh). A tensão admissível na
cota de apoio do tubulào resulta:
q, u - 25 N 7. + C' v„ (kPa)
onde N 7l c índice de resistência à penetração (padrões
brasileiros) desde a cota de apoio da base
até 2 D ( abaixo.
De acordo com Décourt (1991), a tensão
admissível na base poderia também ser estimada
utilizando o valor da resistência de cone, medida
no ensaio de penetração contínua, acrescida do
efeito de profundidade:
^-<0,14 a 0.10) q^ + Cr ,,
Tubulões em Solos Não Coesivos
a] Resistência Lateral
Para tubulões revestidos com camisa perdida, a
escavação provoca uma separação entre o solo e
o fuste. Por este motivo nào se considera a contribuição
do atrito, que é suficiente apenas para equilibrar
o peso próprio do tubulào:
Q - m „ Qhr
Para o caso de tubulões com camisa recuperada:
i,
Q, " | <Lr K D r clz
>
com
q v =K tgõ c vz
onde:
•a v/ é a tensão efetiva vertical, à profundidade
z, assumida como crescendo linearmente até a profundidade
15,0 D, e a partir daí se mantendo constante
• K é o coeficiente de empuxo que, para o
caso, deve ser assumido como sendo K A, ou adota-se
K x - f (L,) da seguinte maneira:
L,(m)
K,
< 8m 0.7
8a 12 0.6
> 12 0.5
• 5 é o ângulo de atrito entre solo e concreto;
alguns autores sugerem adotar Ô = õ', sendo õ' o
ângi Io de atrito reduzido que para o caso de estaca
escavada vale: 0 - 3".
Pela norma francesa dc fundações é possível
estimar a tensão lateral, para estaca escavada em
areia, em função da resistência de cone (q ) obtida
no ensaio CPT, pela correlação:
q w - 0,00'» q, < 80 kPa
A expressão proposta por Reese & 0'Neill (1989)
estabelece:
q vl - P 0' v (ou seja, p = K tg ô)
onde P depende da profundidade:
z < 1,1 Om p = 1,20
2,25m > z > 1,1 Om p - 1,5 - 0,25 Jz
z > 2,2 e >m P «= 0,25
O fator de mobilização (m ) atinge valor máximo
para recalques de 6 a 13mm, cm areias.
bj Resistência de Base
A resistência última de base para tubulòes é
menor do que para estacas porque:
• o solo de apoio é alterado pelo processo de
escavação, especialmente para o caso de escavação
mecanizada;
• a densificaçâo do solo que ocorre sob a ponta
das estacas de deslocamento não se verifica nos
tubulòes;
• ocorre um alívio temporário de tensões enquanto
o furo permanece aberto;
• as influências do diâmetro e da profundidade
sào maiores.
A resistência última de base pode ser estimada
por uma expressão do tipo:
q*r - - P 8 N + <n> \
2
em que, para tubulões longos, a' vt) tende a <J', lm c
a parcela
1 p g D b N pode ser desprezada.
2
Para N |( utilizam-se as valores pani estacas propostos
por Brinch I lansen (1970) ou por Meyerhof (1956).
Berezantzev et al. (1961) propuseram, para estacas
escavadas apoiadas em areia, a expressão
adaptada com a inclusão do fator dc mobilização,
N50
que fornece a tensão admissível para apoio de % t
72 • —
base:
D.
P K D ., B k
Experiência Profissional Brasileira
onde:
• o fator de mobilização m (i é função do recalque
(s) e do diâmetro da base (I\):
m. - 5
D,
Vários profissionais costumam obter o valor da
tensão admissível para apoio da base de tubulões,
por uma expressão empírica usada para qualquer
tipo de solo:
q lfi = 20 + CT h (kPa) < <i0 kPa
• o coeficiente B k é obtido da Figura 8.41 em função
da relação z/D,, e do ângulo Q.
onde:
- ^hi é a tensão admissível à cota de apoio do
tubulão
- N é a resistência ã penetração (SPT» média
abaixo da cota de apoio do tubulão (usualmente
numa faixa de espessura igual a D b abaixo da cota
de apoio;, obtida pelos padrões brasileiros
- G\ (> é a tensão geostâtica vertical efetiva (kPa)
à cota de apoio do tubulão
Expressão Empírica que Utiliza o Valor de q 4
Quando se dispõem de valores de resistência
de cone, medidos em ensaio de penetração contínua
(CPT), a tensão admissível para apoio do
tubulão pode ser estimada pela expressão de
Sanglerat (1982), citada por Décourt (1991):
Dh z h
—
40
d + —)
D b j
com D |( (.m)
Fig. 8.41 • Coeficiente B,, de Bcrezantzev et al. (1961)
Fórmula empírica de Reese & O Neill (1989]
Esta expressão foi estabelecida para os padrões
iioite-americanos dc obtenção do SPT, que resultam
em valores maiores que os obtidos no Brasil.
Portanto as fórmulas apresentadas a seguir deveriam
ser corrigidas.
• Para diâmetro de base D, < l,20m:
cli.i
60 N. (kPa)
• Para diâmetro da base D h > l,2()m, é preciso
aplicar uma redução no valor da tensão limite última,
para conservar o recalque dentro dc valores
aceitáveis (em geral adotado como sendo 25mm):
onde q é o valor médio da resistência de cone na
região de apoio do tubulão.
Esta expressão fornece valores maiores do que
aqueles obtidos em função do SPT. Por se tratar
de uma expressão empírica, sugere-se limitar o
valor obtido cm 60 kPa.
Ghionna et al. (1993) afirmam que para um
recalque dc 0,10 D (i a tensão na base pode ser
estimada por:
- F
<1.
onde q t é a resistência dc cone na região dc apoio
do tubulão e F vale 0,15 para areias silicosas e
0,08 para areias carbonatadas.
Tubulões em Rocha
O comportamento de rochas é se.npre difícil de
ser avaliado tanto para previsão da tensão limite
última da base como da tensão lateral última. O
ensaio de tubulões apoiados em rocha tem custo
muito elevado e deste modo as estimativas se baseiam
somente nas propriedades de rocha.
A tensào lateral em rocha pode apresentar um
comportamento em que a ligaçào concreto-rocha
sc rompe quando o fuste atinge sua máxima capacidade.
Isto pode ocorrer com recalque bem
menor do que o necessário para mobilizar a resistência
de base. Por este motivo é prudente considerar
ou a parcela devida à base ou a devida ao
atrito, mas nunca as duas atuando cm conjunto.
a) Resistência Lateral
Várias sào as sugestões para estimar a tensào
lateral última q v|, em funçào da resistência à
compressão simples da rocha (R ).
A relaçào q %f / R varia de 0,03 a 0,50 em função
da resistência <". compressão simples da rocha, conforme
a Tabela 8.22.
| Valores de q if / R t para rochas
Resistência á
Compressão Simples
R, (kPa)
q„/R«
350 - 3500 0.30-0.50
3500 - 14000 0,10-0.30
14000 - 55000 0.03-0.10
Reese & ONcill (1989) apresentam expressões
empíricas para q 4l cm funçào de R.:
R < 2000 kPa q s! - 0,15 R
R > 2000 kFa
q sl-ó,7yfÍÇ
Freqüentemente a tensào lateral admissível é
estabelecida em funçào da resistência característica
do concreto:
qs ;i = (0,03 a 0,05) f k
b) Resistência de Base
A tensào última de base de tubulõcs apoiados
cm rocha é grandemente afetada pelas
descontinuidades. Torna-se também difícil a previsàu
da tensào última em rocha decomposta, cujo
comportamento, no que diz respeito ao apoio do
tubi.lào. se aproxima do de solo argiloso. Assim,
em funçào da sua resistência à compressão simples
o material de apoio será considerado como
argila ou como rocha.
Cc duto (1994) recomenda os valores limites:
Rc < 380 kPa
Argila
380 kPa < Rc < 1720 kPa Intermediário
Rc > 1720 kPa
Rocha
Para os materiais de comportamento intermediário,
sugere-se efetuar as análises como argila ou como
rocha c adotar o mais desfavorável ou inteipolar
entre os dois valores.
Para o caso dc apoio em rocha, a tensào
admissível pode ser estimada por:
- valores especificados em códigos dc fundações
- regras empíricas
Valores Previstos em Códigos de Fundações
A norma brasileira NBR 6122/96 sugere os valores
apresentados na Tabela 8.23.
Tabela 8.23 I Valores de tensào admissível para apoio
de fundações em rocha (NBR 6122/96)
TIPO DE ROCHA
Rocha sã, maciça sem laminações
ou sinal de decomposição
Rochas laminadas.com pequenas
fissuras, estratificadas.
q.. (kPa)
3000
1500
Solos granulares concrccionados 1000
Códigos de fundações em uso nos Estados Unidos
preconizam valores de tensào admissível, para
apoio da base, variáveis entre 1.500 e 10.000 kPa.
Valores típicos previstos pela U.S.Navy (1982) sào
apresentados na Tabela 8.24.
Tabela 8.241 Valores típicos (U.S. Navy. I982J
TIPO DE ROCHA
Rochas igneas e
metamórficas:
(granito, diorito.
basalto. gnaisse,
conglomerado
totalmente
cimentado)
Rochas metamórficas
foliadas: ardósia e
xisto
Rochas sedimen tares
bem cimentadas
(folhelhos. siltitos,
arenitos, calcários sem
cavidades)
Rochas alteradas
ou fraturadas de
qualquer tipo.
CONSISTÊNCIA
Dura
(pequenas
fissuras)
Medianamente
dura (peq. fiss.J
Medianamente
dura
(k Pa)
6000-10000
3000-4000
1500- 2500
Branda 800- 1200
Regras Empíricas
Muitos autores preferem adotar a tensào
admissível da base como sendo dc 1/5 a 1/8 da
resistência à compressão simples da rocha
ou seja
5 8
£«>.125 a 0,200) R ^
Tendo em vista a ocorrência de descontinuidadcs,
Carter & Kulhawy (1988) sugerem o emprego da
expressão semi-cmpírica:
q,. - F C N
•li: r i ti
onde F é um fator de correção que leva em conta
o espaçamento vertical das descontinuidadcs
(V.) e o diâmetro da base (D,):
F. = 0,4 + 0,1 —- < 1,0
D w
Os valores de c c ò medidos cm laboratório nào
sào afetados pelas descontinuidadcs. Para levar
em conta estas descontinuidadcs os valores de c
e õ devem ser corrigidos:
-Cr-C .c «
RQD<70%
C.-0,1
70% < RQI) < 100% C - 0,1 + (RQD - 70)
30
RQI) = 100% Ç - 0,6
- <É>. - (0,50 - 0,75) <t)
O fator de capacidade de caiga N, leva em conta
o valor do ângulo de atrito reduzido c o espaçamento
horizontal das descontinuidadcs (Figura 8.42).
Fig. 8.42 - Fator dc capacidade de carga
(Carter & Kulhawy, 1988)
É importante observar que se o maciço rochoso
de apoio do tubulào ê muito resistente, a resistência
do concreto pode determinar a capacidade
dc carga do tubulào. Nestes casos deve-se utilizar
uma tensào admissível menor do que 33% da resistência
à compressão do concreto.
q, a ^ 0.33 f k
8.2.6. Recalques
Geralmente os recalques dc tubulòes sob a carga
de trabalho sào baixos (inferiores a 25mm) c
perfeitamente aceitáveis para a grande maioria das
estruturas. Entretanto, naqueles casos cm que a
maior parte de capacidade de suporte se deve à
base, o recalque pode ser elevado cseu valor deve
ser estimado.
Quando se depara com o problema de estimar
o recalque de tubulòes, a primeira dificuldade que
surge é com relação à calibragem dos inúmeros
métodos disponíveis, devido à pouca informação
encontrada na literatura geotécnica sobre esse tipo
de fundação.
Os custos de provas dc carga, devido à ordem
de grandeza do carregamento necessário, sào fatores
preponderantes que inibem cs profissionais
e empresas dc realizá-las.
Na literatura nacional, cm livros textos ou anais
de congressos e outros eventos científicos, encontra-se
muito pouca referência sobre o comportamento
desse tipo de fundação, sejam resultados
de provas de carga ou de medidas dc
recalque.
Os fatores que interferem na magnitude dos
recalques de um tubulào sào as cargas aplicadas,
as características do solo subjacente à cota de
apoio, as características do solo ao longo do fuste
e as propriedades elásticas dos materiais utilizados
na execução do fuste.
No Brasil há uma certa tradição de se considerar
no projeto dc tubulòes apenas a resistência do
solo subjacente à cota de apoio como responsável
pelo suporte da carga aplicada no topo, admitindo-sc
que o atrito, ou adesão ao longo do fuste,
seja apenas suficiente para suportar o peso próprio
do concreto.
Em determinadas situações esse critério pode
ser excessivamente conservador, levando inclusive
a uma interpretação errônea do comportamento
real do solo subjacente à base, pois o atrito ou
adesão estará atuando ao longo do fuste, c com isso
reduzindo a parcela de carga na base do tubulào,
quer tenha sido considerado ou nào no cálculo.
O recalque do topo de um tubulào é dado por
duas parcelas distintas: o cncurtamento elástico
do concreto, funcionando como coluna, c a deformação
do solo subjacente à base, devido ao
acréscimo dc tensões.
Deformação Elástica do Concreto
A deformação elástica do fuste pode ser calculada
pela aplicação da lei de I looke. É necessário
estimar as tensões de atrito e/ou adesão na
interface concreto-solo. de tal forma que se possa
conhecer o esforço normal ao longo do fuste e da
base do tubulão.
Existem na literatura técnica inúmeras formulações,
teóricas e empíricas, que permitem uma estimativa
dessas tensões ao longo do fuste. Os fatores
que interferem no valor dessa tensão são:
natureza do solo, histórico de tensões e tempo
que o tubulão permanece aberto, entre outros.
Aplicando-se a lei de Hooke a um elemento
infinitesimal, de altura dz, e integrando-se ao longo
de todo comprimento, obtém-se a deformação
total (A (.) do elemento de concreto. O módulo de
elasticidade do concreto pode ser tomado como
o módulo secante e estimado em função do f k,
de acordo com a da NB 6118/78:
Ec = 0.9 6.600 (f k + 3,5 MPa)""
o E c • A z
Apenas para se ter uma ordem de grandeza, num
tubulão de 15 m de comprimento, utilizando-se
concreto com f k = 15 MPa, para uma tensão de
trabalho dc 0,5 MPa e admitindo que 70% da carga
do pilar seja resistida pela base. chega-se a um
recalque elástico da ordem de 2,5 mm.
Recalque do Solo Subjacente à Base do Tubulão
O solo subjacente à base do tubulão recel>erá
um acréscimo dc tensões verticais devido ao apoio
da base e mais um acréscimo devido às tensões
de atrito, ou adesão ao longo do fuste do tubulão.
Quando os tubulões têm base alargada, e esse é o
caso mais comum, o cálculo desse último acréscimo
se torna trabalhoso, devido à aba ou saliência
do concreto, cujas características elásticas sào muito
diferentes das do solo.
Um método aproximado consiste cm calcular o
acréscimo de tensões verticais que ocorre no solo
que tangentía a parte superior da base, na aba, e
considerar a resultante dessas tensões como uma
sobrecarga adicional atuando na base do tubulão.
O acréscimo de tensões nas camadas de solo
subjacentes à base, até uma profundidade 2D (i (região
do bulbo de pressões; pode ser calculado
pela teoria da elasticidade, levando-se em conta o
tipo de solo. O método de Boussinesq é apropriado
quando sc trata de solo homogêneo, enquanto que
o de Westergaard se aplica para os solos
estratificados horizontalmente.
aj Solo Argiloso
Quando o solo subjacente à base é um solo com
características argilosas, normalmente com elevado
grau de saturação, terá que se acrescentar
ao recalque imediato o recalque por
adensamento primário c o recalque por
adensamento secundário.
O recalque imediato pode ser previsto pela teoria
da elasticidade, sendo que o "módulo de
deformabilidade do solo" deve ser obtido em ensaios
laboratoriais, ou estimado por correlações
empíricas, como, por exemplo, a partir de resultados
de sondagens à percussão ou de penetração
contínua.
Stroud (1988) sugere, para argilas pré-adensudas.
com índice de plasticidade de 50 a 15%, a correlação:
E = (900 a 1400) N w
(kPa)
É importante ressaltar que o módulo E não se
apresenta como constante, mas sim grandemente
afetado pelo nível de tensões, e assim para uma
elevada tensão aplicada estes módulos podem resultar
muito diminuídos.
O recalque do topo do tubulão pode ser estimado
pelas soluções paramétricas propostas por
Poulos & Davis (1980):
I - I C C C, n k li li
Os valores dos fatores a serem utilizados sào
encontrados na referência citada e o tubulão deve
ser considerado como uma estaca de base alargada.
O recalque do tubulão pode ser estimado pelo
recalque sofrido pela base, acrescido da deformação
elástica do elemento estrutural.
O recalque da base pode ser avaliado utilizando-se
o fator de mobilização da carga de base e
considerando-se o recalque necessário para a completa
mobilização desta parcela de carga:
S„ - D„ K m,,
onde K é a relação entre o recalque que provoca
a plena mobilização da resistência de base e o
diâmetro da base.
A parcela do recalque devido ao adensamento
primário (fase dc dissipaçào das sobrepressões
neutras surgidas quando da aplicação da sobrecarga
ao solo) deve ser estimada por métodos já consagrados
na Mecânica dos Solos, encontrados em
livros textos, devendo-se fazer correções para o fato
de o fluxo dágua em geral ser tridimensional.
Como o acréscimo de tensões verticais, abaixo
da cota de apoio, nào é constante, como no caso
de um aterro extenso, recomenda-se dividir a camada
de argila até a profundidade de 2I) (i em 3
ou mais camadas, dependendo da
heterogeneidade do solo, e calcular a variação de
espessura de cada camada, cuja soma dará o
recalque total, por adensamento primário.
A parcela do recalque de adensamento secundário.
devido ao acréscimo de tensões efetivas
entre as partículas do solo, pode ser estimada a
partir de resultados de ensaios laboratoriais, de
longa duraçào.
bj Solo Arenoso
Quando o solo subjacente à base do tubulào é
um solo de características arenosas, com alta
permeabilidade, os recalques ocorrem simultaneamente
à aplicação da carga, c sào chamados de imediatos.
O cálculo pode ser feito dividindo-se o solo
subjacente à base até a profundidade de 2D h, em
4 ou mais camadas. Utilizando-se formulações obtidas
a partir da teoria da elasticidade, calcula-se
o acréscimo de tensões verticais, no ponto médio
de cada camada, devido à aplicação das tensões
ao solo. na base do tubulào.
A variação da espessura de cada camada
de solo pode ser estimada pela lei de I looke, desde
que se tenha o "módulo de deformabilidade"
de cada camada, a partir de resultados de ensaios
de laboratório ou dc correlações com parâmetros
obtidos em sondagens à percussão ou cm ensaios
de penetração contínua.
Stroud (1988) propõe as correlações:
E = 2500 NUI
(kPa)
para areia pré-adensada, e
E = 1000 N mi
(kPa)
para areia normalmente adensada.
Robeitson & Campanella (1988) sugerem os
valores dc E em função da resistência de cone q :
Na literatura existem inúmeros métodos
empíricos que correlacionam o recalque de uma
fundação direta com resultados de sondagens,
podendo ser citados: Terzaghi & Peck (1948).
Meyerhofí 1965), Bazaraa (1967), Schmertmann < 1970
e 1978;, entre outros. Burland & Burbidgc (1985)
apresentam as seguintes expressões para o cálculo
de recalques de fundações diretas:
S, • 1,67 . — * (mm)
( N 60 )
para areias normalmente adensadas, e
<H D "
S, - 0,556 . --—^ fmmj
(N«i)
para areias pré-adensadas, com D jnije^ (kPa).
lx>lx>et al. (1994a e b) apresentam os resultados
de medidas de recalques de pilares de edifícios
apoiados sobre tubulòes, em Baum-SP. Pela observação
da curva carga-recalquc desses tubulòes,
pode-se concluir que as tensões de cisalhamento
na interface concreto-solo necessitam de apenas
2 mm, para serem totalmente mobilizadas c que
seu valor máximo é da ordem de 30 kPa (areia
fina argilosa, com SPT linearmente crescente,
variando dc 3 a aproximadamente 15). Para esses
autores, o recalque total pode ser estimado
pelo método modificado de Meyerlxjf (1965). avaliando-se
a parcela de carga resistida pelo fuste,
desprezando-se a região da base. A diferença
entre a carga vertical aplicada ao tubulào e a
resistida pelo fuste dá a carga resultante na base.
Nào tem sido considerado o peso próprio do
tubulào. nem o acréscimo de tensões no solo
subjacente à base, devido às tensões de
cisalhamento ao longo do fuste.
O recalque total do tubulào é estimado, de forma
simplificada, pelo recalque obtido pelo método
modificado de Meyerhof (1965) acrescido de 2
mm, que é o valor do recalque necessário para
mobilização do atrito ou adesão lateral, nos solos
daquela região. Não tem sitio considerado o valor
tia deformação elástica do concreto.
Para D, t < 1,20 m. tem-se o recalque:
S. - — b — (mm)
E - (6 a 10) q
para areias pré-adensadas, e
E - (2,5 a 6,0) q,
para areias normalmente adensadas.
onde:
• O, é a prcssào aplicada ao solo pela base, em kPa
• N^éo valor médio do SPT, da base até 2D |(
abaixo
Para I), > 1,20 m. tem-se:
S - -•
0.64. N 60
Db
D b + 0,30m
(mm)
Lembra-se que Nôo ^ ° va ' or médio do SPT para
os padrões americanos dos equipamentos de
sondagens, onde se tem uma eficiência menor do
que a usual no Brasil. Deste modo, o número de
golpes obtido no Brasil resulta menor c portanto a
fórmula necessita de correção.
8.2.7. Esforços de Tração
Em projetos de fundações não é rara a necessidade
da determinação da capacidade de carga à
tração. O caso mais comum de fundações
(racionadas ocorre nas torres de linhas de transmissão.
O esforço de tração nas fundações desse
tipo de estrutura é proveniente de várias ações,
entre as quais o vento na própria torre e principalmente
nos cabos, e também eventuais rupturas
de cabos.
Há vários métodos de cálculo para se avaliar
a resistência ã tração dc fundações. Uma descrição
completa desses métodos pode ser encontrada
na monografia de Campeio (1995) ou
nas dissertações de mestrado de Danziger
(1983). Orlando (1985), Matos (1989) e
Campeio (1994), ou na tese de doutoramento
de Carvalho (1991).
A seguir será apresentado um resumo dos
métodos de capacidade de carga à tração mais
utilizados na prática de fundações no Brasil.
Métodos de Cálculo
O método mais antigo e mais difundido é o
tio tronco de cone, que considera a resistência
à tração como sendo o peso próprio da fundação
acrescido do peso do solo contido num tronco
de cone ci ja base menor é a base da fundação
e que se abre até encontrar a superfície do
terreno com a geratriz formando um ângulo a
com a vertical, conforme mostra a Figura 8.43,
para tubulào com e sem base alargada.
Fssa superfície tronco-cônica nào pretende
representar a superfície de ruptura, e o ângulo
a é um valor empírico, que depende das
características do solo e da fundação, e que
diminui com o aumento da profundidade relativa
D/B, onde D é a profundidade e B a
largura da fundação. Há recomendações práticas
para se adotar o valor de a entre 10" c
15°, para solos fofos ou pouco consistentes,
ou de 20" a 25°, para solos compactos ou consistentes
(Paladino, 1985).
Fig. 8.43 - Tronco dc conc (tubulào com c sem
base alargada]
Outro método existente é o do cilindro dc atrito,
que supõe uma superfície de ruptura cilíndrica,
com base e altura iguais às da fundação, conforme
mostra a Figura 8.44. para tubulào com c
sem base alargada.
«5TT-
I!
ti
\v
U
Fig. 8.44 - Cilindro de atrito (tubulào com e sem
base alargada)
As tensões de atrito ou de adesão ao longo da
superfície cilíndrica produzem um esforço resistente,
que somado ao peso da fundação e do solo
contido no cilindro (sc tubulào com base alargada)
resulta na capacidade de carga à tração. No caso
de tubulõcs sem base alargada, esse método utiliza
a teoria da resistência lateral para capacidade
de carga de estacas. Além das dificuldades existentes
na utilização dessa teoria, há de sc introduzir
uma redução do atrito lateral na tração, porque
a fundação tracionada aplica tensões verticais
ao solo no sentido contrário às tensões verticais
efetivas devidas ao peso do solo.
Antigamente se considerava que o atrito lateral
na fundação tracionada era o mesmo da fundação
comprimida, mas a tendência atual é considerar
uma redução de 30 a 45%.
Baila (1961) propõe um método para fundações
pouco profundas, com relação D/B < 4, cm que
sc supõe uma superfície com geratriz circular que
se abre a partir da base em direção à superfície do
terreno, considerando a tensào de cisalhamento
nessa superfície, conforme mostra a Figura 8.45.
O autor deduz uma expressão para a componente
vertical da resistência ao cisalhamento do
solo na superfície de ruptura, que deve ser somada
ao peso do solo contido na massa rompida e
ao peso da fundação. Essa expressão e os ábacos
necessários para a sua utilização sào encontrados
na referência já citada.
1 J I I
\ •
/
í
/
.
a) PEQUENA
PROFUNDIDADE
b) GRANDE
PROFUNDIDADE
Fig.8.45 • Superfície de ruptura do Método de Baila
(1961J
Métodos mais modernos enfocam o problema
de uma maneira mais completa, distinguindo-se
comportamentos diferentes para fundações rasas
e profundas e de acordo com o tipo dc solo. Um
deles é o método de Meyerhof & Adams (1968).
A principal inovação deste método é que para
fundações profundas nào se considera que a superfície
de ruptura atinge a superfície do terreno,
mas que é limitada por uma altura H, menor que
a profundidade D da fundação. Na cota correspondente
ao final da superfície de ruptura atuaria a
sobrecarga equivalente ao peso próprio da camada
dc solo nào rompida, conforme indica a Figura 8/16.
No desenvolvimento do método, é utilizado o
parâmetro K , denominado coeficiente nominal do
empuxo de terra à tração. Valores de K t e da altura
H sào encontrados na referência citada, em funçào
do ângulo de atrito interno do solo.
Mas o método mais aprimorado para a previsão
da capacidade de carga à tração é o desenvolvido
na Universidade de Grenoble em uma série
de trabalhos teóricos e experimentais, cuja divulgação
se deve principalmente a Biarez &
Barraud (1968).
No caso de tubulòes sem base alargada, o chamado
método de Grenoble admite uma superfície
de ruptura tronco-cònica, cuja geratriz forma um
ângulo X com a vertical. Com base em uma grande
série dc provas de caiga, em fundações com D/B
Fig. 8.46 - Superfícies de ruptura do rrétodo de
Meyerhof & Adams 11968)
variando dc 4 a 10, os autores sugerem adotar X -
-Õ / 8, sendo <{> o ângulo de atrito interno do solo
(o sinal negativo indica que a geratriz se afasta em
rclaçào ao eixo vertical da fundação).
No caso dc tubulòes com base alargada, pode
haver dois tipos dc ruptura: a) generalizada, com
superfície tronco-cònica que atinge a superfície
do terreno, para a qual sugerem adotar X. = -0. X
= -<>/4 ou X = +7t/l6 (Figura 8.47), dependendo
do tipo de solo; b) localizada, ao redor da base.
quando a fundação ultrapassa uma profundidade
crítica, havendo as contribuições da base (cálculo
pelo método dos círculos dc cisalhamento
localizado) e do fuste (cálculo semelhante ao do
tubulào sem base alargada).
Os detalhes do método de Grenoble, as expressões
de capacidade de carga à tração para os diferentes
casos, os valores dc profundidade crítica c
os ábacos para obtenção dos chamados coeficientes
adimensionais de resistência ao
arrancamento podem ser consultados na dissertação
dc Orlando (1985).
Comparação com Provas de Carga
Duas dissertações de mestrado brasileiras apresentam
resultados de provas de caiga à tração em
tubulòes e as respectivas análises comparativas
com os métodos de previsão da capacidade de
carga à tração.
Fig. 8.47 - Superfícies de ruptura do Método de Grenoble para tubulòes pouco profundos cm trés tipos de solo
a) Solo Residual
Danziger (1983) discute os resultados das provas
de carga realizadas para o estudo das fundações
das torres de Linha dc Transmissão
Adrianópolis - Grajaú, da Light - Serviços de Eletricidade
S.A. - Rio de Janeiro, cujos esforços nas fundações
atingiriam cargas de tração de até 2000 kN.
O local escolhido para a realização das provas
de carga foi um platô, obtido por terraplcnagem
de um topo de colina, próximo a Adrianópolis-RJ.
O terreno é constituído por solo residual, resultante
de alteração de gnaisse. Para a caracterização
geotécnica do local foram realizados ensaios
de penetração estática e dinâmica c ensaios de
laboratório em amostras deformadas e
indeformadas, cujos resultados sào apresentados
em detalhes pelo autor.
Foram ensaiados seis tubulõcs. com diâmetro
do fuste de 0,70 ou 0,80 m e base apoiada à profundidade
variável de 4 a 8 m. Trés tubulõcs tinham
a base alargada, com diâmetro dc 1,70 ou
1,80 m.
A carga de niptura à tração obtida nas provas
de carga variou de 455 a 1510 kN nos tubulõcs
sem base alargada, e de 1060 a 34't5 kN nos
tubulões com base alargada. Esses resultados parecem
indicar que "o alargamento da base contribui
sensivelmente para o aumento da capacidade
de carga à tração dos tubulões, pois a existência
da base alargada praticamente dobra a capacidade
de carga".
Quanto aos deslocamentos (ou levantamentos)
medidos dos tubulões, foram muito pequenos. Por
exemplo, para a carga de tração correspondente à
metade da carga dc ruptura, os deslocamentos
variaram de 0,3 a 1,3 mm nos tubulõcs sem base
alargada e de 1.8 a 2,9 mm nos tubulões com base
alargada. Portanto, "aquelas fundações podem ser
projetadas sem a preocupação dc verificações
quanto a deslocamentos".
A comparação da carga de ruptura dos tubulõcs
obtida nos ensaios à tração, com os diversos métodos
dc cálculo resultou nas seguintes conclusões:
- Método do Tronco de Cone:
Os valores de a variaram de 17° a 26°. O autor
faz também uma análise dos erros cometidos com
o emprego de a variando de 15" a 30": o erro
máximo seria de 51% contra a economia, para a -
15", e de 178% contra a segurança, para a = 30".
- Método do COindro de Atrito:
Os valores dc adesão variaram de 30 a 39 kPa
nos tubulões com base alargada e de 43 a 79 kPa
nos tubulões sem base alargada. Para referência,
citam-se os parâmetros geotécnicos médios: c -
21 kPa e ({> = 29", c c = 29 kPa e <> = 27", respectivamente.
- Método de Meyerhof & Adams:
Os valores da carga de ruptura resultaram conservadores
para os tubulões sem base alargada,
com erros de 10 a 58%, mas contra a segurança
para os tubulõcs com base alargada, com erros de
48 a 65%. O modelo de cálculo de placas de
Meyerhof & Adams seria inadequado para o caso
de tubulões.
- Método de Grenobte:
Para X - -Q/8 (sugestão original do método), a
carga de ruptura apresentou valores desde conservadores
(erro de 18%) a contra a segurança (erro
de 28%), para os tubulões sem base alargada, mas
valores sempre contra a segurança (erros de 15 a
41%) para os tubulões de base alargada.
Para X = 0' «adaptação ao método), a carga de
ruptura resultou sempre conservadora (erro de 12
a 43%) para tubulões sem base alargada, mas a
estimativa foi excelente para os tubulões com
base alargada (erro de 2%, ora a favor, ora contra
a segurança). Portanto, a adoção de X = ()•,
baseada na observação da superfície dc ruptura
de alguns tubulões, parece conduzir a melhores
resultados.
b) Areia Porosa
Orlando (1985) analisa os resultados obtidos
numa série de provas de carga à tração em
tuhul5cs. realizadas na cidade de Bauru-SP. para
proje:o de torres dc linha de transmissão.
Representativo de uma grande área de interior
do Estado de Sào Paulo, o solo é constituído por
areia porosa fina e média, pouco argilosa,
avermelhada, fofa a medianamente compacta De
amostras retiradas até 8 m de profundidade resultaram
os valores médios de teor tle umidade de
8% e grau de saturação de 27%. Os ensaios de
resistência definiram a coesão de 5 kPa e o ângulo
de atrito interno de 28".
Foram ensaiados nove tubulões, sendo três sem
base alargada e seis com base alargada, com profundidade
de i a 8 m, diâmetro do fuste de 0,50
a 1,20 m e diâmetro da base alargada de 1,35 a
1,65 m.
As provas de carga foram do tipo rápido, com
estágios de 5 minutos. Para os tubulões sem base
alargada a carga de ruptura ficou bem definida,
com valores de 250 a 760 kN. Para os tubuões
com base alargada nào houve definição nítida da
ruptura, havendo necessidade da utilização do critério
de Van der Veen, com o qual foram obtidos
valores de 390 a 1100 kN. É interessante observar
que para a metade da carga de ruptura os deslocamentos
nào ultrapassaram 1,0 mm.
A análise dos resultados experimentais, utilizando
os diversos métodos dc previsão da carga dc
ruptura à tração, fornece as seguintes conclusões:
Método do Tronco de Cone:
Para os tubulões sem base alargada, o ângulo a
variou de 16 a 11°, diminuindo com o aumento da
profundidade relativa D/B (de 5 a 12). Para os
tubulões com base alargada, cx variou de 17 a 10°,
para D/B dc 2,4 a 4,8.
Método do Cilindro de Atrito:
Para os tubulões sem base alargada, a tensão
cisalhante média ao longo do fuste. descontado o
peso próprio, resultou de 25 a 35 kPa, e o coeficiente
de empuxo horizontal na tração variou de
0,9 a 1,2 (valor médio 1,0) ou dc 0,7 a 0,9 (valor
médio 0,8), com ou sem a correção tle Berezantzev
para a tensão vertical efetiva, respectivamente. Para
os tubulões com base alargada, a tensào dc
cisalhamento média ao longo tio cilindro de atrito
resultou de 11 a 29 kPa e o coeficiente de empuxo
variou tle 0,4 a 0,9 (valor médio 0,6).
Método de Meyerhof & Adams:
Em todos os casos este método resultou contra
a segurança, fornecendo resultados tle 28 a 46%
maiores que os experimentais, nos tubulões sem
base alargada, e até 100% maiores nos tubulões
com base alargada.
Método dc Baila:
Utilizado apenas para os tubulões com base
alargada, o método conduziu a valores tle capacidade
de carga à tração cerca tle 150% maiores que
os experimentais.
Método de
Grenoble:
A sugestão original tle superfície tle ruptura tronco-cônica,
com ângulo X - -õ/8, implicou resultados
geralmente maiores que os experimentais: 12
a 56% (tubulões sem base alargada) e 15 a 28% ou
-1 a 20% (tubulões com base alargada) para ruptura
generalizada ou localizada, respectivamente.
A adoção tle superfície de ruptura no contato
solo-fuste (X = 0") torna os resultados teóricos mais
próximos dos experimentais e geralmente a favor
da segurança: -1 a -12% (sem base alargada) e -15
a +9% (com base alargada e ruptura localizada).
8.2.8. Cargas Horizontais e Momentos
veículos sobre o tabuleiro. Em regiões sujeitas a
sismos, as fundações sào submetidas também a
forças horizontais resultantes tios abalos e, por
isso, os cótligos de construção de tais áreas geralmente
especificam que as fundações devem ter a
capacidade tle resistir a uma força horizontal equivalente
a 10% tia carga vertical.
No projeto de uma fundação submetida a um
carregamento horizontal é preciso calcular os deslocamentos
e obter os diagramas de momento
fletor e esforço cortante. Esse cálculo, tle modo
exato, envolve a resolução tle um problema
tridimensional complexo, mesmo nos casos mais
particulares. Daí o surgimento e o liso generalizado
tle métodos dc cálculo baseados em hipóteses
simplificadoras, como é o caso dos métodos da
teoria tle reação horizontal tio solo.
Esta teoria tem como hipótese básica a consideração
tle que a reaçào do solo (p) c proporcional
ao deslocamento horizontal 0'), semelhante à hipótese
tle Winkler para o problema da viga sobre
apoio elástico. Na notação mais moderna, o coeficiente
K que caracteriza a proporcionalidade entre
reaçào e deslocamento é denominado módulo
de reaçào horizontal do solo:
K =
í
y
onde p tem unidade de força por comprimento da
fundação e, portanto, K tem a mesma dimensão
do módulo de Young. A principal vantagem dessa
notação é que o valor tle K não depende do
diâmetro da fundação.
Com a introdução dessa hipótese, pode-se escrever
a equação diferencial que rege o problema
da fundação carregada horizontalmente:
d 4 y
HI —7 + Ky = 0
dz
onde E! representa a rigidez à flexào da estaca e z
a profundidade, a partir da superfície do terreno.
Esta equação diferencial tem solução analítica
apenas para o caso particular tle sc considerar K
constante com a profundidade. Par:, outros casos,
os métodos tle cálculo utilizam diferentes técnicas
tle resolução numérica desta equação.
Há muitos problemas importantes que necessitam
do cálculo de fundações solicitadas por cargas
horizontais. Sào os casos, por exemplo, de
fundações tle pontes e edifícios altos, estruturas
"off-shore" e de arrimo etc.
Essas forças horizontais podem ser causatlas por
vento, ondas marítimas, empuxos tle terra c, em
alguns casos, atuam simultaneamente, como nos
pilares de pontes que sào solicitados pela ação
do vento, do fluxo da água e da frenagem dos
Módulo de Reação Horizontal
O valor tio módulo K e a sua variação com a
profundidade dependem das características tle deformação
tio solo.
Para argilas pré-adensadas, em que o módulo
de deformabilidade é praticamente independente
da profundidade, pode-se admitir K constante
com z:
p
K = — = constante
y
Segundo Terzaghi (1955), o valor de K, a ser adotado
em projeto, é proporcional à resistência à compressão
simples (q u) da argila. Convertendo os valore."
de Terzaghi para a notação e unidades atuais,
obtém-se os valores para o módulo de reação horizontal
do solo apresentados na Tabela 8.25.
Tabela 8.25 I Valores de K para Argila Pró-Adcnsada
(Adaptados de Terzaghi. 1955)
Consistência da Arqila q. (MPa) KfMPaJ
Rija 0.10-0.20 5
Muito Rija 0.20-0.40 10
Dura > 0,40 20
Outros autores propõem valores de K em função
da coesão nào drenada (c ) ou do módulo dc
deformabilidade (Es) da argila, do tipo:
K = (P <: u (Davisson, 1970)
K =• 0,5 Es (Castro, 1978)
Para areias puras ou argilas moles, o módulo de
deformabilidade cresce de uma maneira aproximadamente
linear com a profundidade e. então,
pode-se admitir que K aumenta na proporção direta
com Z:
Muitos autores têm pesquisado outras funções
matemáticas para representar melhor a variação
do módulo de reação K com a profundidade. Para
fins práticos, entretanto, "refinamentos e sofisticação
na função K = K (z) nào sào justificáveis
porque os erros nos resultados dos cálculos sào
pequenos comparados com aqueles envolvidos
na estimativa do valor numérico do módulo de
reação" (Terzaghi, 1955). Realmente, "resultados
satisfatórios podem ser obtidos para a maioria dos
casos práticos com formas simples de variação do
módulo de reação com a profundidade" (Matlock
& Rccsc, 1960).
Outro ponto em que os pesquisadores concordam
plenamente reside na importância do valor do
módulo próximo à superfície do terreno. Matlock &
Reese (1960) consideram que, para areias, os valores
de K na camada superficial que vai até a profundidade
relativa z/ T = 1,0 dominam claramente o
comportamento da fundação. Segundo Broms
(1965), os deslocamentos na superfície, para argilas,
dependem do valor do módulo dc reação dentro
de uma profundidade crítica de 1,4 Re de 2,8
R para fundações livres e engastadas, respectivamente.
Portanto, as investigações para determinar
ou adotar K devem ser feitas principalmente até
esta profundidade.
T e R, mencionados no parágrafo anterior, sào
os chamados fatores de rigidez relativa para os
casos de areia e argila, respectivamente. Representam
uma relação entre a rigidez do solo e a
rigidez à flcxão da fundação e sào definidos pelas
expressões:
Portanto, T e R têm unidades de comprimento.
Efeito do Comprimento da Fundação
onde o coeficiente angular dessa reta. n h, é denominado
coeficiente de reação horizontal do solo,
com unidades de FL\
Na Tabela 8.26 são apresentados os valores de
n h propostos por Terzaghi (1955), em função da
compacidade da areia, distinguindo-se os casos
de areia seca (cu úmida) c areia saturada. Para argilas
moles, n, pode ser adotado igual a 0,8 MN/mV
Tabela 8.261 Valores de n„ |MN/m J | para Areia
(Terzaghi. J955J
Compacidade da Areia
Areia Seca
(ou Úmida)
Areia
Saturada
Fofa 2.5 1.5
Medianamente
Corrpacta
7.0 4.5
Compacta 18.0 11.0
As fundações carregadas horizontalmente podem
ser classificadas em flexíveis ou rígidas em
função do comprimento relativo D/T ou D/R. para
areias c argilas, respectivamente:
D/T ou D/R > 4 flexível (ou longa)
D/T ou D/R - 2 - 4
D/T ou D/R < 2
intermediária
rígida (ou curta)
Esta classificação é importante porque o comportamento
da fundação é influenciado pela rigidez
em consideração. Assim, uma fundação rígida
tem os deslocamentos devidos essencialmente
a uma rotação de corpo rígido, enquanto numa
fundação flexível os deslocamentos sào devidos
à flcxão.
Além disso, todas as fundações flexíveis podem
ser analisadas como infinitamente longas, pois as
soluções para D/T = 4 sào essencialmente as mesmas
para D/T = 5, 10 e infinito. Esta constatação
simplifica o problema porque apenas um conjunto
de soluções (D/T = 4, por exemplo) é aplicável
a todos os casos de fundação flexível (em areia).
Métodos da Teoria de Reação Horizontal do Solo cj Método de Broms (1965)
(>s principais métodos de análise do comportamento
de fundações submetidas a carregamento
horizontal, que utilizam a teoria de reação horizontal
do solo. sào: Matlock & Reese (1961), U.S.
Navy (1962), Broms (1965), Davisson & Robinson
(1965) e Werner (1970). As formulações, ábacos e
tabelas desses métodos podem ser encontrados
nas monografias de Velloso (1973) e Cintra (1982)
ou na compilação de Velloso (1982). A seguir será
apresentada uma síntese desses métodos, todos
desenvolvidos originalmente para estacas.
a) Método de Matlock & Reese (196IJ
Para uma fundação llexível ou longa (D/T >4),
em areia, submetida a uma força horizontal e/ou
um momento fletor. na superfície do terreno, o
método fornece os diagramas com a profundidade
do deslocamento horizontal, rotação, momento
fletor, esforço cortante e reação do solo, no
padrão da Figura 8.48.
b) Método U.S. Navy (1962J
É mais geral que o método anterior, pois além
do caso de fundação com cabeça livre (ou condição
articulada), este método considera duas outras
condições de vinculaçào: cal>eça engastada
na superfície do terreno ou acima da superfície,
além de considerar cinco casos de rigidez: D/T •
2, 3, 4, 5 e 10.
O método é válido para solos arenosos e argilas
normalmente adensadas, mas também pode
ser aplicado ao caso de argilas pré-adensadas,
através de um artifício de conversão do módulo
de reação.
() autor discute os modos de ruptura e propõe
os diagramas de distribuição da reação do solo,
com a profundidade, para areias e argilas, considerando-se
os casos de fundações curtas e longas,
com a cabeça engastada ou nào.
Mas a principal característica do método é que.
antes de tudo, trata-se de um método de verificação
da capacidade de carga. Como procedimento
de projeto, sempre devem ser feitas duas verificações:
• a resistência à flexào da seção da estaca deve
ser maior que o momento fletor de ruptura calculado
p«'lo método;
• o comprimento da fundação deve ser superior
ao valor mínimo, calculado pelo método.
Feitas as verificações, o método fornece apenas
o valor do deslocamento horizontal da fundação
na superfície do terreno, para areia e argila, com
cabeça engastada ou nào.
d) Método de Davisson & Robinson (1965)
Preferido pelos engenheiros de estruturas, este
método utiliza o conceito de fundação equivalente
engastada numa certa profundidade abaixo da
superfície. Válido para fundações longas (D/R ou
D/T > 4), o método propõe como profundidade
de engastamento os valores de 1,50 R (para argilas)
e 1,80 T (para areias;.
A utilização deste procedimento de cálculo
leva a deslocamentos e esforços solicitantes na
cabeça da estaca muito próximos dos valores
exatos. Mas o momento fletor na base do
engastamento será bem maior dc que os valores
reais que ocorrem ao longo da parte enterrada
da fundação.
UJ
£
<
b-
B
O
o
O
o
cc
O
-J
O
</>
Q
a
O
•<
o
o <
UJ
fc
CC
UJ
Fig. 8.48 - Diagramas fornecidos pelo Método de Matlock 6. Reese (I961J
e) Método de Werner (1970)
O método considera cinco diagramas dc módulo
de reação com a profundidade, com três variações
entre a função linear e módulo constante.
A fundação é considerada curta ou longa, com
a cabeça nào engastada, mas com a base livre ou
indeslocável (apoiada em rocha).
Este método também faz a verificação dos esforços
atuantes no solo, impondo que, na superfície
do terreno, a grandeza e a variação da tensào
lateral nào ultrapassem os valores admissíveis.
Tubulào com Base Alargada
Para tubulões curtos (D/T < 0, é muito utilizado
o chamado método russo, proposto para estacas
rígidas, mas adaptado pelo Eng". Paulo Faria
para o caso de tubulões circulares com base
alargada (Velloso, 1978). Essa adaptação pode ser
consultada no livro de Alonso (1989), de onde se
reproduz a Figura 8.49. A originalidade deste método
é que sào consideradas as reações verticais
do solo sob a base do tubulào. "Entretanto, uma
análise mais apurada das equações mostra que os
deslocamentos independem do diâmetro do fuste
do tubulào, o que nào é verdade. Tal fato se deve
à premissa da largura unitária adotada no desenvolvimento
do método." (Ricci, 1995).
Fig.8.49 - Método russo adaptado para tubulõcs
curtos (Alonso. 1989J
Um método específico para tubulões com base
alargada foi proposto por Botelho (1986), cujo artigo
passa a ser resumido a seguir.
Os métodos disponíveis para análise de um
tubulào carregado horizontalmente obrigam a uma
opçào: ou se considera a flexào do tubulào mas
nào se leva em conta o efeito da base (como se
fosse estaca flutuante), ou se admite que o tubulào
seja totalmente rígido, o que no caso de tubulões
mais longos pode introduzir erros significativos.
Os métodos apresentados nào permitem a consideração
da base dos tubulões, como também
pressupõem o terreno homogêneo, com o módulo
de reaçào geralmente constante ou linearmente
crescente com a profundidade. Tratando-se de
tubulào apoiado ou engastado em rocha ou atravessando
solos scdimentares mas com grande
embutimento em solos residuais compactos, os
modelos tornam-se inadequados.
Nesse sentido, os modelos que admitem o
tubulào como rígido tendem a ser mais convenientes,
uma vez que permitem, em alguns casos, a
consideração de modelos de solo um pouco mais
complexos. Tratando-se de tubulões a ar comprimido,
ou seja, dc peças armadas cujo diâmetro
mínimo é de 1,00 ou 1,20 m. a rigidez tende a ser
grande, pelo que os erros decorrentes do emprego
desses métodos tendem a ser menores, salvo
quando os tubulões sào muito longos. IX- um
modo geral, excluídos os terrenos muito pouco
consistentes, a partir de profundidades correspondentes
a sete diâmetros, o efeito da flexào começa
a ser significativo.
O método desenvolvido por Botelho (1980 está
apresentado na forma de um programa em Basic,
que inclui as seguintes condições optativas
- tubulào ou estaca com topo livre ou engastado;
- considera ou nào o efeito da base alargada;
- módulo de reaçào horizontal do solo constante,
linearmente crescente ou ainda arbitrariamente
variável com a profundidade.
O programa fornece os valores dos deslocamentos
para cada um dos pontos reais do tubulào, os
valores do momento fletor, ponto a ponto, e das
forças cortantes.
Da análise feita pelo autor, "fica patente que a
nào consideração do efeito da base e do seu alargamento
conduz a uma violenta diferença nos deslocamentos
do topo do tubulào, a favor da segurança,
mas introduz também uma variação mais
significativa nos momentos na base do tubulào,
nesse caso contra a segurança. A conclusão é que
a análise de tubulões sem consideração de suas
condições de base nào tem qualquer aproximação
com a realidade c nào deve, em nenhum caso,
ser empregada no projeto de tubulõcs, ainda que
sem base alargada mas com o trecho final embutido
em rocha ou terreno muito mais resistente
que o do trecho superior".
"Analisando a variação do deslocamento do topo
do tubulào com o seu comprimento total, bem
como o efeito do alargamento da base, fica claro
que o apiofuiidameiUo do tubulào e o alaigaineuto
da base sào duas alternativas válidas para reduzir
o deslocamento no topo do tubulào, cabendo fazer
a escolha entre ambas em funçào das características
do terreno abaixo da base preliminarmente
fixada."
Entre outras, Botelho (1986) faz a seguinte recomendação
para projeto:
"Tratando-se de tubulào ou estaca com comprimento
inferior a oito diâmetros, podem ser empregados
métodos de cálculo que não levem em
conta a flexào da fundação, desde que permitam
uma razoável representação do terreno. Para esta-
cas flutuantes ou, pelo menos, com mais de 70 a
80% de sua carga vertical suportada por atrito,
podem s,er empregados métodos dc cálculo que
levem em conta a ílexáo da fundação mas ignorem
a participação da base. Para estacas com contribuição
importante da ponta ou tubulões com
mais de oito diâmetros ou, embora com menor
comprimento, em terrenos muito heterogêneos
que nào possam ser representados adequadamente
nos métodos de cálculo mais simplificados que
admitem o tubulão ou estaca como infinitamente
rígidos, é que se sugere o método proposto."
Comparação com Provas de Carga
Na literatura geotécnica brasileira há dois relatos
de provas de carga horizontal em tubulões: os
artigos de Rémy et al. (1979) e de Massad et al.
(1981).
Rémy et al. 11979) apresentam a análise de uma
prova de carga horizontal realizada no Porto de
Sepetiba, em dois tubulões de 1,80 m de diâmetro.
cada um servindo de reaçào para o outro. Os
tubulões foram instnimentados apenas com um tubo
de inclinômetro no fuste, nào tinham base alargada,
c atingiam mais dc 40 m de profundidade.
No local dos tubulóes ensaiados, a lâmina d'água
é de 20,70 m e a camada superficial, de 6,90 m dc
espessura, é constituída por argila orgânica muito
mole com resistência à penetração nula e, por isso.
nào foi considerada na análise. Abaixo desta camada
encontra-se uma areia fina a média, siltosa,
pouco a medianamente compacta, de 12 m de espessura.
A prova de carga, realizada em estágios de 50
kN, atingiu a carga máxima de 200 kN. Os deslocamentos
da cabeça dos tubulões foram medidos
topograficamente e ainda calculados a partir das
leituras dos inclinômetros.
Da retroanálise dos resultados experimentais
obtidos, os autores determinaram o módulo de
reaçào horizontal do solo saturado para duas hipóteses
de sua variaçào com a profundidade: K •
9 MPa (distribuição retangular), e n h - 5,2 MN/m*
(distribuição triangular), que sào valores superiores
aos propostos por Terzaghi (1955), para solos
nào muito resistentes. Vários autores que analisaram
provas dc carga horizontal em estacas também
chegaram à conclusão de que os valores dc
Terzaghi são conservadores.
Os momentos fletores nào puderam ser obtidos
experimentalmente, mas foram calculados para
ambas as distribuições do módulo e para diferentes
valores do módulo. Devido à pequena variação
do momento máximo em função do valor do
módulo, os autores concluem que os momentos
podem ser calculados a partir de uma estimativa
grosseira do módulo.
Os autores também determinaram a profundidade
de engastamento fictício em que o momento
fleior coincide com o momento lletor máximo
do tubulão real: cerca de 3 m para distribuição
triangular e de 1 m para distribuição retangular
do módulo de reaçào com a profundidade.
Massad et al. (1981) interpretam os resultados
de uma prova de carga cíclica e outra complementar,
realizadas em dois tubulões (um reagindo
contra o outro), quando da ampliação da Estação
de Tratamento de Água no Alto da Boa Vista,
na cidade de São Paulo.
A região onde se localizava a obra é caracterizada
pela presença de uma camada de 2,70 m de
espessura de argila porosa vermelha (solo
laterítico), sobreposta às camadas variegadas de
argila e areia do sedimento terciário de Sào Paulo.
Estes tubulóes tinham 0,70 m dc diâmetro de
fuste, 1,35 m de diâmetro da base e 9,00 m dc
comprimento. As cargas de projeto eram 620 kN à
solicitação vertical e 140 kN à horizontal.
Os tubulões foram instrumentados com tubos
de inclinômetro, com o objetivo de observar a sua
linha elástica. Defietômetros foram utilizados para
a medida dos deslocamentos da cabeça dos
tubulões.
O ensaio cíclico foi realizado em sete ciclos com
cargas crescentes, atingindo a carga máxima de
280 kN. Posteriormente, numa prova complementar,
atingiu-se 3'i0 kN.
As curvas de deslocamento obtidas experimentalmente
foram comparadas com as curvas p-y de
Reese & Welch (1975):
P
— = 0,5
Pu
y
1750
onde n é igual a 1/3 para solos moles e 1/4 para
solos rijos. p u é a resistência do solo e y w o deslocamento
horizontal correspondente a 50% desta
resistência, o qual é dado pela expressão:
y<0 = 2.5 BC*
onde B é o diâmetro do tubulão e e. ü a deformação
específica para 50% da resistência mobilizada.
A retroanálise forneceu valores de E w variando
de 0,001, para cargas baixas, atC 0,005, para cargas
elevadas. Como aos solos moles costuma-se
associar um de 0,02, conclui-se que as argilas
porosas vermelhas, apesar de possuírem consistência
mole, comportam-se como solos rijos a
muito rijos quando solicitadas horizontalmente.
Verificação aos Esforços
Horizontais
Ao ser solicitado por um esforço horizontal, o
tubulão transmite tensões laterais ao solo, que
podem ser determinadas por um dos métodos
apresentados.
Obtidas as tensões atuantes, elas devem ser
verificadas se são compatíveis com as resistidas
pelo solo. Além das maneiras já mencionadas para
efetuar essa verificação (Broms, 1965 e Wcrner,
1970), pode-se utilizar a proposição dc Shcrif
(1974), para determinar o coeficiente de segurança
contra a ruptura do solo.
O método define o coeficiente de segurança através
de uma relação dc áreas, entre a área formada
pela distribuição da resistência do solo e a área
constituída pela distribuição da tensão de contato
solo-fundação. A resistência do solo é obtida pela
diferença entre o empuxo passivo e o empuxo ativo,
havende uma zona dc transição ao redor da
profundidade cm que ocorre o deslocamento nulo.
Os detalhes de aplicação podem ser consultados
na dissertação dc mestrado dc Ricci (1995). Na verdade,
Sherif (1974) propõe nào só um método de
verificação, mas um método de cálculo de fundação
submetida a carregamento horizontal, tanto no
topo como na base, utilizando 13 variações do
módulo dc reação do solo com a profundidade.
Variação da Rigidez Flexionai
Os métodos dc cálculo apresentados consideram
uma rigidez flexionai (EI) constante da fundação.
Mas o concreto armado pode sofrer intensa
fissu ração, dependendo da magnitude das solicitações
a que é submetido, com conseqüente majoração
das deformações. Nas fundações em concreto armado
ocorre esse fenômeno, influenciando o seu comportamento
(deslocamentos, rotações, momentos
fletores, forças cortantes c reações do solo).
Esle tema, para estacas, foi abordado na dissertação
de mestrado de Ricci (1995). "A principal
conclusão da pesquisa foi que a variação da rigidez
flexionai de estacas longas de concreto armado,
decorrente da fissuraçào. realmente exerce influência
significativa sobre o seu comportamento.
Essa influência é bastante acentuada enquanto nào
ocorre a plastiticação do solo. A partir daí, a participação
do solo no comportamento da estaca ganha
em importância à medida que aumentam as
solicitações. Os níveis usuais de carga de trabalho
aplicada às estacas se situam, justamente, na faixa
de influência mais acentuada da variação da rigidez
flexionai."
Dimensionamento do
Tubulào
Segundo Paladino (1975), "o dimensionamento
do tubulào consiste em determinar os valores da
profundidade, diâmetro do fuste c diâmetro da
base. Essa determinação é feita por tentativas, de
modo a atender as três solicitações (arrancamento,
compressão e esforço horizontal) e que seja o
tubulào mais econômico".
"A profundidade e o diâmetro da base estão ligados
ao dimensionamento do arrancamento e
compressão, devendo também a profundidade ser
compatível para atingir a resistência do solo considerada.
Com o acréscimo da profundidade há
considerável aumento na resistência à compressão.
Definido o diâmetro da base e a profundidade mais
conveniente, o diâmetro do fuste fica condicionado
ao método executivo e ao dimensionamento ao esforço
horizontal".
8.2.9 Solos Colapsíveis
Colapsibilidade
Solos colapsíveis ocorrem em boa parte do Estado
dc Sào Paulo, do Brasil c do mundo. Caracterizam-se
por apresentar colapso em resposta à
infiltração de água, sob carga constante, ou seja,
um recalque adicional brusco e elevado.
Em conseqüência, fundações executadas cm solos
colapsíveis podem se comportar satisfatoriamente
por algum tempo, mas bruscamente sofrer
um recalque diferencial considerável, por
causa do aparecimento acidental de uma fonte
de água que passa a inundar o solo, como ilustrado
por Jcnnings & Knight (1975) através da
Figura 8.50. Geralmente essa fonte é representada
pela ruptura de encanamento de água ou
esgoto. Mas o colapso também pode ocorrer em
época de chuvas intensas.
São dois os requisitos básicos para o desenvolvimento
da colapsibilidade: uma estrutura porosa,
caracterizada por um alto índice de vazios, e a
condição nào saturada, representada por um baixo
teor de umidade (quando o grau cie saturação
in situ excede 80%, o solo nào é colapsíve ). A
estrutura porosa pode estar associada a presença
de um agente cimcntante que, aliada a uma sucção
suficientemente elevada, estabiliza o solo na
condição parcialmente saturada, conferindo-lhe uma
resistência 'aparente" ou temporária (Cintra, 1995).
Mas para um solo potencialmente colapsívcl
entrar efetivamente em colapso duas condições
básicas devem ser satisfeitas: a elevação do teor
de umidade até um certo valor limite, sem atingir
a sataração do solo, e a atuação de um estado de
tensões crítico que, em fundações, é representado
pela carga de colapso. A adição dc água ao
solo colapsívcl reduz ou dissipa a sucção e/ou
enfraquece e até destrói a cimentaçáo, causando
a recuçào da resistência c, portanto, o colapso do
solo, se a carga atuante é suficientemente alta
(Cintra, 1995).
Qi anto ao estado de tensões atuante no solo,
valem as observações de Vargas (1973): "a cola psibilidade
dos solos porosos parece ser desprezível
para baixas tensões aplicadas, aumenta até um
máximo com o crescimento das tensões, e diminui
para um mínimo para uma alta tensào aplicada;
nos casos estudados, a tensào crítica, aci-
Q
/ / / / / / / / / /
q
/ / / / / / / / /
111 i 11
Inundação provocada pela ruptura
•^x^^do tubo no tempo t^
X7
Água
\
Tempo
Recalque normal
antes da inundação
Recalque adicional
devido a inundação
sob carga constante
Fig. 8.50 - Conceito básico de recalque de colapso
(Jennings & Knight, 1975)
ma da qual nenhum colapso foi observado, era da
ordem de 0,5 MPa". Contudo, "para tão alta teasão,
o recalque do solo devido à sua compressibilidade,
no teor dc umidade natural, é intolerável para fins
práticos".
"As regiões tropicais apresentam condições flagrantes
para o desenvolvimento de solos potencialmente
colapsíveis, quer pela lixiviaçào de finos
dos horizontes superficiais nas regiões onde se
alternam estações de relativa seca e de precipitações
intensas, quer pelos solos com deficiência
de umidade que se desenvolvem em regiões áridas
e semi-áridas" (Vilar et al., 1981.)
No Brasil, "os solos colapsíveis sào representados
geralmente por alúvios, colúvios e até solos
residuais que passaram por uma intensa lixiviaçào"
(Ferreira ct al., 1989). Estes autores apresentam
um mapa (Figura 8.51) que mostra alguns locais
de ocorrência de solos colapsíveis no Brasil, e uma
tabela, nào reproduzida neste texto, das características
geotécnicas típicas desses solos, os quais
"compreendem uma larga faixa de materiais, desde
areias até argilas".
Para esses autores, "alguns indicativos da presença
de solos colapsíveis sào: baixos valores dc
SPT (< 4 golpes) e CPT (qc < 1,0 MPa),
granulometria aberta (ausência da fração silte),
baixo grau de saturação (< 60%) e grande
porosidade (> 40%)".
Fig. 8.51 - Solos colapsíveis estudados no Brasil
(Ferreira et al.. 1989)
No Estado dc São Paulo, destacam-se como solos
comprovadamente colapsíveis a argila porosa
vermelha da cidade de Sào Paulo c o sedimento
cenozóico que ocorre em vasta área do interior
do Estado.
Devido à sua gênese, esse sedimento apresenta-se
pouco compacto, com partículas razoavelmente
selecionadas, o que lhe confere uma estrutura
bastante porosa. Duas texturas sào típicas dos
solos do sedimento cenozóico: uma arenosa, a
predominante, e outra argilosa, dependendo das
características dos materiais que lhes deram origem
(arenito e basalto, respectivamente).
Com espessura geralmente inferior a 10 m,
freqüentemente separado da camada subjacente
por uma linha de seixos, e normalmente situado
acima do nível d'água, o sedimento cenozóico
apresenta caracatcrísticas típicas dc material
laterizado c colapsível. Giacheti ctal. (1993) mostram
um mapa da ocorrência dos sedimentos
cenozóicos no interior de Sào Paulo e apresentam
um amplo estudo das suas propriedades geotécnicas,
incluindo-se as propriedades índices, os aspectos estruturais,
químicos e mineralógicos, a
compressibilidade, a resistência ao cisalhamento etc.
Tubulòes em Solos Colapsíveis
Nào há nenhum trabalho publicado ou pesquisa
realizada sobre o comportamento de tubulòes
em solos colapsíveis. Encontra-se apenas a citação
de Golombek (1985) de que, por causa da
ascensão do lençol freático ocorrida em Brasília-
DF com a constaiçào da Barragem de Paranoá,
alguns edifícios (com fundações eir. tubulòes), que
nào apresentaram problemas durante 5 a 10 anos,
começaram a sofrer recalques causados certamente
pelo colapso do solo.
Mas ouvem-se muitos relatos verbais de
recalques dc colapso em tubulòes no interior de
Sào Paulo, na época das chuvas. Conhece-se tam-
bém um caso em que a caixa-dágua (enterrada)
começou a sofrer vazamentos, provocando colapso
do solo e recalques nos tubulões do edifício.
A situação é mais grave se a base do tubulào
estiver apoiada em solo colapsível, caso em que,
havendo inundação desse solo, a redução da capacidade
de carga é acentuada. Um projeto adequado
de fundações nào deve, por isso, adotar a
cota da base de tubulões na camada colapsível.
Mas. mesmo que o tubulào atravesse a camada
colapsível, persiste a influência da colapsibilidade
através do atrito negativo produzido nessa camada
pela inundação do solo, provocando uma redução
da capacidade de carga. Se essa redução
nào for quantificada para ser levada cm conta no
projeto, tem-se uma minoraçào desconhecida da
segurança.
Determinar essa redução significa pesquisar a
chamada carga de colapso, que é a carga limite
ou crítica necessária para a manifestação do colapso
cm solo colapsível inundado. A carga de
colapso pode ser interpretada como a capacidade
de carga (na umidade natural) reduzida pela influência
da inundação do solo. Quanto mais significativa
for essa redução, mais susceptível ao
colapso sen» a fundação, evidentemente.
A quantificação da carga de colapso exige a realização
de uma prova de carga com inundação do
solo (antes ou durante o ensaio) através de uma
cava superficial ao redor do elemento de fundação
e/ou furos de irrigação.
Apesar de no projeto de fundações em solos
colapsíveis a carga de colapso ser a condicionante
do projeto, comparada com a capacidade de carga
inerente à condição de umidade natural do solo,
ainda não há nenhuma proposição para valores
do fator de segurança cm relação à carga de colapso.
É preciso salientar que a colapsibilidade do solo
influencia o comportamento do tubulào não apenas
em relação ao carregamento vertical, mas também
ao esforço de tração e ao carregamento horizontal.
Assim, as conclusões de Orlando (1985) e
de Massad et al. (1981), para tração e carga horizontal,
respectivamente, deveriam ser complementadas
com a análise de provas de carga com o solo na
condição inundada, pois os solos estudados por esses
a atores são colapsíveis.
REFERÊNCIAS DO ITEM 8.1
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CAPÍTULO 9
EXECUÇÃO DE FUNDAÇÕES PROFUNDAS
CLÔVIS MARIO MOREIRA MAIA
FREDERICO F. FALCONI
NÉUO DESCIO FÍGARO
JOÃO MATHIAS DE SOUZA FIUIO
WILLIAM ROBERTO ANTUNES
HÉLVIO TAROZZO
JOSÉ LUIZ SAES
URBANO RODRIGUEZ ALONSO
SIGMUNDO GOLOMBEK
9. T ESTACAS MOLDADAS "IN LOCO"
9.1.1 Estacas tipo Franki
Introdução
CI.OVISM. MOREIRA MAIA
A estaca tipo Franki foi introduzida como fundação
há mais de 85 anos por Hdgard Frankignoul na Bélgica.
Ele desenvolveu a idéia de cravar um tubo no
terreno pelo impacto de golpes do pilão de queda
livre numa bucha (tampão) de concreto seco ou seixo
rolado compactado, colocado dentro da extremidade
inferior do tubo. Sua idéia teve sucesso e este método
de execução espalhou-se pelo mundo, mostrando eficiência
e produzindo uma estaca de elevada carga de
trabalho. I-rankignoul constituiu uma empresa para
explorar as patentes, registradas entre 1909 e 1925.
Este tipo de estaca foi empregado pela primeira
vez no Brasil em 1935, na Casa Publicadora Baptista
no Rio dc Janeiro. Em São Paulo, cm 1936, foram
executadas as estacas do portal de entrada do Túnel
Nove dc Julho. A partir de 1960, após ter expirado
a licença da patente, o método Franki entrou
para o domínio público.
A execução de uma estaca tipo Franki para ser bem
sucedida depende da observância ao método executivo.
do uso de equipamentos adequados e de mão-deobra
especializada e experiente. Por esta razão o conteúdo
deste parágrafo dedica-se à descrição do método
de execução, dos equipamentos envolvidos na
execução e da mão-de-obra especializada que opera
os equipamentos e executa a estaca.
O parágrafo aborda também métodos alternativos
de execução, principalmente no que diz respeito
ã cravaçâo com tubo aberto comumente chamado
dc cravaçâo com tração.
Também são apresentados as problemas executivos
causados por certos tipos dc solo que podem
afetar a qualidade da estaca, assim como as técnicas
utilizadas na solução destes problemas.
Por fim discute-se o emprego da estaca tipo Franki e
os fatores que influem na sua cscollia como fundação.
A Execução da Estaca
1. O Método Franki
A estaca tipo Franki, como é chamada entre nós,
é uma estaca de concreto armado moldada no solo,
que usa um tubo de revestimento cravado dinamicamente
com ponta fechada por meio de bucha c
recuperado ao ser concretada a estaca.
As fases de execução da estaca tipo Franki, cuja
seqüência executiva será descrita a seguir, está
detalhada na Fig. 9.1.
A execução da estaca é iniciada pelo posicionamento
do tubo de revestimento e fomiação da bucha. Após
apoiar o tubo sobre o terreno , lança-se certa quantidade
de brita e areia no seu interior para ser
compactada pelo impacto de golpes do pilão e expandir
lateralmente aderindo fortemente ao tubo. A
seguir o tulx> é cravado no terreno pelo impacto de
repetidos golpes do pilão na bucha. A profundidade
final de cravaçâo é definida, pela verificação da nega
do tubo nos últimos metros de cravaçâo.
Terminada a cravaçâo, o tubo é preso â torre do
bate-estaca por meio de cabos de aço, para expulsar
a bucha e iniciar a execução da base
alargada. O alargamento da base é obtido
apiloando-se fortemente pequenas e sucessivas
quantidades de concreto quase seco (slump zero).
Terminada a base alargada, coloca-se a armação,
ajustando-a para incorporá-la na base e ao
mesmo tempo instalar o cabo de controle da armação
numa de suas barras.
A seguir inicia-se a concretagem do fuste lançandose
sucessivas camadas de pequena altura de concreto e
recuperando o tulx> com apiloamento das camadas.
Durante a concretagem do fuste controla-se a altura de
concreto dentro do tulx> pela marca do cal)o do pilão e
a integridade da armação e do fuste pe.o cabo de controle
da annação. A concretagem do fuste é terminada
cerca dc 30 cm acima da cota de arms.imento.
2. Cuidados de Execução
Durante a execução de uma estaca, deve-se considerar
certos cuidados executivos para obtenção
da boa qualidade dc execução.
A altura da bucha a adotar influi no resultado da
cravaçâo. Buchas excessivas aumentam a eficiência
da cravaçâo fazendo o tubo penetrar além do
necessário e buchas reduzidas tem efeito contrário.
Dessa forma, na obtenção de um gráfico dc
cravaçâo ou no momento da nega, a altura da bucha
deve ficar entre 1,5 c 2 vezes o diâmetro do
tubo, para não influir no resultado.
Fig. 9.1 - Fases de execução da estaca tipo Franki
A execução da primeira estaca de uma obra e normalmente
feita de maneira padronizada, a fim de se
obter um "gráfico de cravaçào" da estaca. Assim, a
cravaçào do tulx> é feita com altura constante de 6 m,
sendo anotados o número de golpes necessários para
a penetração de cada 50 cm do tulx>. Durante a cravaçào
do tubo até a medição da nega, a altura da bucha
será mantida entre 1,5 c 2 vezes o diâmetro do tubo.
Quando numa obra houver possibilidade dc variação
dc profundidade dc estacas, o número dc
gráficos deve ser aumentado com o intuito de ajustar
os comprimentos.
As negas do tubo no final da cravaçào sào medidas
para alturas de queda do pilão de 1 m (10 golpes ) e
5 m'1 golpe), e devem ficar entre 5 mm e 20 mm.
Também na execução da primeira estaca, a base
alargada é feita de maneira padronizada, com o
pilão caindo de uma altura de queda de 6 m, anotando-se
o número de golpes necessários para
compactar o concreto dc cada caçamba lançada.
Este controle pode ser estendido a outras estacas
da obra,quando houver necessidade dc ajustar o
comprimento e o volume dc base da estaca.
As bases alaigadas das estacas deverão ter volumes
de concreto mínimo, compactados com eneigia
padronizada e que estão indicados na Tabela. 9.1.
A ancoragem da armação na base alargada é
executada compactando-se um volume adicional
de concreto ( 40 a 120 dm\ dependendo do diâmetro
do tubo) na armação recém colocada sobre
a base alargada. O pé da armação deve ser feito
com aço CA25 (vide Fig. 9 5) porque este tipo de
Tabela 9.1 I Volume de base e energia mínimas
diâmetro vol. base
do tubo-cm mínimo-dm 3
energia/
90* dm 3 energia/
T 50*dm 3
30 90 1.5 MNm 2.5 MNm
35 90 1.5 MNm 2.5 MNm
40 180 1.5 MNm 2.5 MNm
52 • 300 3.0 MNm 5.0 MNm
60 450 3.0 MNm 5.0 MNm
'última caçamba concreto
aço sc adapta sem romper ao ser envolvido pelo
concreto adicional compactado na execução da
ancoragem (vide Fig. 9.1).
A altura de segurança de concreto dentro do tubo
6 a garantia contra invasão de água e/ou solo, devendo
ser estabelecida durante a concretagem do
fuste.
3. Equipamentos de Execução de Estacas
O bate-estaca típico está ilustrado na Fig .9.2.
Os elementos principais de um bate-estaca são a
torre, o motor, o guincho e o mecanismo dc movimentação.
O potencial de execução de um bate-estaca é
definido pelas características desses elementos (altura
da torre, potência de motor, capacidade de guinchos
e agilidade do mecanismo de movimentação).
Os bate-cstacas disponíveis no mercado brasileiro
podem ser classificados em 3 tipos básicos
indicados na Tabela 9.2:
Os tubos e pilões devem apresentar as características
da Tabela 9-3:
Os pesos dos pilões indicados na Tabela 9.3 são
os mínimos, mas recomenda-se o uso de pilões mais
pesados para aumentar a eficiência na execução da
estaca, principalmente na cravaçào do tubo.
Além desses equipamentos, a execução de estacas
com tubo aberto requer o emprego dc ferramentas
especiais que sào a piteira (vasilha coletora),
trépano e capacete de bater.
O bate-estaca pode estar equipado com uma
perfuratriz acoplada na torre destinada à execução
de pré-furo.
O pré-furo também pode ser executado com perfuratriz
independente, instalada sobre o caminhão.
Tabela 9.2 | Tipos de bate-estacas
Categoria/ Tipo 1 Tipo 2 Tipo 3
Característica
torre (m| 13.5 20 30
guincho (kN) 70 a 100 120a 153 180
tubos (cm) 30 a 52 30 a 60 30 a 60
profundidade
da estaca (mj 15 a 18 20 a 25 30
diâmetro
do tubo
(cm)
peso do
tubo
| Tubos e pilões
30 35 40 52 60
1.4 1.75 2.25 3.65 4.50
(kN/mJ
pilão
IkN) 10 15 20 28 35
diâmetro
do pilão
(cm)
18 22 25 31 38
?.< ». 110 «50 KW»
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Fig. 9.2 - Bate-estaca t/plco
4. Mão-de-obra Especializada
A equipe de operação de um bate-estaca é composta
por um chefe de máquina, um ou dois maquinistas,
um ou dois piloneiros e ajudantes.
O chefe de máquina é o encarregado dc supervisionar
a equipe de mão-de-obra, a montagem do
bate-estaca, manobras, seqüência dc execução, execução
da estaca e relacionamento com a fiscalização c o
proprietário. Estas funções nào devem ser acumuladas
com as funções de maquinista e/ou pilonciro.
O maquinista é o operador do bate-estaca, lidando
com motor, guincho e participando da montagem,
manobras e execução da estaca.
O pilonciro trabalha na torre do bate-estaca, acompanhando
a cravaçâo e concretagem junto ao topo
do tubo, verificando altura dc bucha, altura de segurança
c operando a caçamba de concreto.
A boa qualidade de execução dc uma estaca
depende do equipamento utilizado, da observância
ao método executivo e principalmente da experiência
da mão-de-obra especializada.
Recurso Alternativo de Cravaçâo
O tubo de revestimento cravado pelo método
Franki pode ter sua penetração dificultada devido
a presença de camadas resistentes intermediárias
que necessitam ser ultrapassadas.
A cravaçâo através dessas camadas pode causar
vibrações e danos cm construções vizinhas.
O problema pode ser resolvido com o uso de
recursos executivos, sendo o principal a cravaçâo
com tubo aberto. Este recurso executivo requer o
emprego de bate-cstaca adequado e ferramentas
especiais como piteira, pilão c/ou trépano, que
permitam desagregar as camadas resistentes.
As principais fases dc execução dc uma estaca
usando cravaçâo com tubo aberto estão descritas
na Fig. 9.3.
A execução da estaca é iniciada pela cravaçâo
com bucha até uma profundidade dc interesse. A
seguir prendem-se os cabos de tração nas orelhas
do tubo. Remove-se a bucha com auxílio dc
piteira e inicia-se a escavação do solo com piteira
c pilão ou trépano, alternadamente, ao mesmo
tempo que sc tracionam os cabos transferindo o
peso do bate-estaca ao tubo para que ele penetre
no trecho escavado. Se o peso do bate-estaca nào
for suficiente para fazer com que o tubo penetre
no solo, deve-se cravar o tubo com o pilão golpeando
o capacete colocado no topo do tubo.
As operaç«3es de escavação com piteira e pilão ou
trépano e a cravaçâo com pilão e capacete podem
ser repetidas, alternadamente, até atingir a profundidade
desejada. Atingida esta profundidade, a
bucha é refeita e o tubo cravado até a profundidade
necessária. A partir daí segue-se a execução
pelo método padrão.
Outros recursos executivos para contornar o
mesmo problema são o pré-furo c a cravaçâo com
anel redutor dc atrito.
O pré-furo remove a camada resistente, permitindo
a colocação do tubo dentro do furo c a partir
daí prosseguir na execução da estaca. Este recurso
não deve ser utilizado abaixo do lençol freático
porque poderia provocar desmoronamento do furo
e dificultar a concretagem do fuste da estaca.
O anel redutor de atrito é colocado em saliências
existentes na extremidade inferior externa do tubo.
Ao ser cravado o tubo arrasta o anel, alarga o furo
e alivia o atrito do solo sobre ele.
Problemas Executivos
Dois tipos principais de acidentes podem danificar
as estacas tipo Franki durante sua exccuçào.
O primeiro é o estrangulamento do fuste na
concretagem através de solos muito moles c o
dano causado devido à ruptura do fuste durante
o apiloamento do concreto, acusado pelo repentino
cncurtamcnto da armação. O segundo é a
ruptura por tração do concreto ainda sem cura ou
a perda de contato da base com solo dc apoio
devido ao levantamento de estaca já cravada, causada
pela cravaçâo de estacas vizinhas.
1. Concretagem em Solos Moles
O tipo dc subsolo associado ao problema de
estrangulamento do fuste é geralmente constituído
por espessas camadas submersas dc :urfa,
argila orgânica e areias fofas. O estrangulamento
ocorre devido â invasão de água e/ou lama
dentro do tubo, rompendo a altura de segurança
dc concreto. O cncurtamcnto da armação é causado
por insuficiência dc sccçâo de aço.
Esses acidentes podem ser evitados, reforçandose
o solo mole pela cravaçâo prévia do tubo e sua
retirada, prcenchcndo-se o furo com uma mistura
de brita e areia. Quando o dano no fuste for provocado
pelo cncurtamcnto da armação, deve-se
reforçá-la ou pelo aumento do diâmetro das barras
ou pelo aumento da número de barras da armação.
Acidentes graves de concretagem podem exigir
a substituição da estaca, seja através da rccravação
do tubo sobre a estaca recém-acidentada ou pela
cravaçâo de uma nova estaca.
2. Levantamento de Estacas
As estacas tipo Franki, recém-concrctadas ou
nào, podem ser danificadas pela cravaçâo de estacas
próximas. O dano é causado pelo
cmpolamento do solo circundantc que se desloca
lateral c verticalmente durante a cravaçâo do
tubo, ocasionando esforços de compressão c tra-
I 2 3
1 — Cravocta do tvba paloattodopod<õo
Z— Htmoçòo ío tuc>a c «Korciçõo ccmpitoíro
4A- At oc«ro<ô«> 3 «4 podfi» nr combinado*
olttf nod«m«Mt ar« «tingir pre(v*didod« ii.
5 — Fo»""xõo dobvc*o
3- CroroçV» dotvfco >«v«ttim«ittoce<n flcíM» 6 - Proi»eçwim»itfo pelo mrod« pad>l»
d* pilíoKO copocatt
A — LinpiM do tvbo com piloira
Fig. 9.3 - Fases de execução da estaca tipo Franki usando cravaçào com tubo aberto
ção em estaca já concretada. A extensão do dano
depende do espaçamento entre estacas, da idade
do concreto e do comprimento da estaca. A estaca
danificada poderá ter sua capacidade de carga
prejudicada ou até perdida devido a uma ruptura
do fuste ou pela perda de contato da base com o
solo de apoio.
Quando for iniciada a cravaçào de estacas de
um projeto, o risco de levantamento deve ser
avaliado com base nas sondagens dc reconhecimento
e na experiência de obras próximas. A
partir desta análise, deve-se estabelecer um levantamento-limitc
a ser tolerado, que não poderá
ser ultrapassado pelos levantamentos medidos.
A experiência acumulada através da cravaçào de
estacas indica que os danos nas estacas se agravam
quando os levantamentos sào maiores que
25 mm.
A execução das estacas deve seguir uma seqüência
que evite estacas presas (estaca a executar entre
duas estacas já cravadas), e que está ilustrada no
exemplo da Fig. 9.4.a.
Durante a execução das estacas deve-se medir
os levantamentos , adotando-sc a metodologia
indicada na Fig. 9.4.b. Neste exemplo a estaca 1
levantou 20 mm causados pela cravaçào da estaca
2 (E2 - 7 mm) , da estaca 3 (E3 = 8 mm) e da
estaca 4 (E4 - 5 mm).
Se os levantamentos medidos ultrapassarem o
limite estabelecido, a seqüência de execução deve
ser modificada para aumentar o espaçamento entre
estacas executadas, adotando-se uma seqüência
salteada como indicada na Fig. 9.4.c. As demais
estacas do grupo só deverão ser executadas
após 72 horas da cura do concreto, seguindo a
seqüência de execução C da Fig. 9.4.C.
Se os levantamentos persistirem, ultrapassando o
limite estabelecido, as estacas da seqüência de execução
C devem ser executadas com tulxj aberto.
Podem ocorrer casos graves de levantamento que
exijam o emprego de execução com tubo aberto
para todas as estacas do projeto.
Os danos causados nas estacas pelo levantamento
podem inutilizar a estaca. A verificação da integridade
da estaca deve ser feita por meio de provas
dc carga estática ou dinâmica. O ensaio PIT (Pile
1*
M
-O.
* N»,
e
a- Eitmplo 6* »• quineio c&acutivo
C« f1 »»
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" " ^ Z * - - EUÍCUÇÕC opos /Jhoro» ou crovcçdo com tubo cb»r1o ltfocflo\
C Eifmrfc) de itqglncio (xícufivo
Fig. 9.4 - Exemplos de seqüência executiva e medida de levantamento
Integrity Test). quando usado criteriosamente, pode
fornecer informações sobre o estado da estaca que
sofreu levantamento.
As estacas com dano comprovado devido a levantamento
podem ser recravadas como elemento
prémoldado, para recuperar a capacidade de carga,
usando a recravaçào estática com cargueira
(dispendiosa e fora dc uso) ou a recravaçào dinâmica
com golpes de pilào de queda livre.
Tabela 9.4 I Traço do concreto da estaca
base
alargada
fuste
apiloado
fator a/c 0.25 0.45
cimento
saco 50 kg 1 saco 1 saco
areia dm 3 90 90
brita 1 dm 3 — 80
brita 2 dm 3 140 60
O Emprego da Estaca Tipo Franki
1. Materiais
O concreto usado na execução da estaca tipo
Franki é de baixo fator água-cimento, resultando num
concreto de slump zero, que permitirá o apiloamento
previsto no método executivo. O concreto usado na
base é praticamente seco, permitindo o forte
apiloamento exigido para alargamento da base.
Em resumo, o concreto utilizado na execução das
estacas tem as características indicadas naTalx.*la 9.4:
O concreto com estas características deve atingir
Fc 28 > 20 MPa. O controle tecnológico do
concreto durante a execução das estacas deve
prever a retirada regular de corpos-de-prova, para
serem ensaiados a 3, 7 e 28 dias. O controle deve
ser iniciado ao sc executar as primeiras estacas, e
continuar para cada grupo de 15 ou 20 estacas
executadas.
A armaçào da estaca, constituída por barras
longitudinais e estribos, deve ter dimensões compatíveis
com o diâmetro do tubo e do pilão. O aço
da armaçào pode ser CA 25 ou CA 50A. Quando
for feita com aço CA 50A, o fundo da armação
será de aço CA 25. A armaçào típica está detalhada
na Fig. 9.5.
2. Dados para Projeto
As principais características das estacas tipo
Franki executadas por empresas que atuam no
mercado brasileiro estão indicadas na Tabela 9.5.
Tabela 9.S I Dados básicos para projeto
Corte A-A Cort-e B-8
O
Detolhe dos emendos
o
I PAflA O CASO OA ESTACA TRA-
BALHAR APÉNAS ÃCOMP RCSSÀO)
0
(cm) 30 35 40 52 60
d
(cm) 100 120 130 150 170
L
|m| 15 18 22 33 35
AC
[mmj 1012.5 4016 4«>I6 4 >20 4022
AT
(mm] 4016 4Ç> 16 4<>20 4>25 4025
QC
(KN) 450 550 800 1300 1700
QT
(kN) 85 100 130 240 270
d
<5> - diâmetro da estaca
- espaçamento mínimo entre eixos de estacas
1. - profundidade máxima recomendável
AC - armação de compressão, número e bitola
de barras
AT
- armação de tração, número e bitola de barras
QC - carga admissível de compressão
QT - carga admissível de tração
projetadas nestas condições deverão ser submetidas
a prova de carga para confirmar os parâmetros
de projeto.
3 Condições para Emprego
Desde sua introdução, a estaca tipo Franki
tem mostrado capacidade para desenvolver elevada
carga de trabalho associada a recalques
pequenos.
Fig. 9.5 - Detalhe da armação
As cargas admissíveis indicadas na Tabela 9.5
sáo as cargas usuais adotadas em projetos de rotina.
A adoção destas cargas depende da análise
dos elementos de projeto. As cargas da Tabela 9.5
podem ser diminuídas ou aumentadas em condições
especiais de projeto.
Poderão ser diminuídas para considerar dificuldades
executivas na obtenção de comprimento
mínimo, associadas a risco de ocorrência de levantamento.
A redução pode alcançar cerca de 15%
da carga admissível usual.
Poderão ser aumentadas quando as condições
de subsolo forem favoráveis, permitindo prever
estacas compridas executadas através de solo com
atrito lateral elevado e apoio em solo competente.
O aumento pode alcançar cerca de 20% da
carga admissível usual, devendo ser baseado em
estudo criterioso de capacidade de carga c nas
condições executivas das estacas. As estacas
Para tanto, é necessário'que a viabilidade de seu
emprego seja avaliada, problemas executivos sejam
previstos e providências para contorná-los sejam
tomadas.
O processo de avaliação do emprego de uma estaca
lipo Franki baseia-se nos seguintes elementos:
• dados tle piojeto que infonnem soba' topografia do
terreno, lipo e porte da construção e escavações.
• àoiidagens de lecoiihecimenio dc subsolo.
• visita ao local para conhecimento de condições
de acesso e estado das construções vizinhas.
A análise desses elementos vai orientar na escolha
do tipo de bate-estaca, na sua adequação às
condições do local, nos recursos executivos (ferramentas
e acessórios), que devem estar disponíveis
para execução da estaca.
Definido o tipo de equipamento e os recursos
executivos necessários, pode-se escolher os diâmetros
de estaca a executar e cargas admissíveis a
adotar, assim como estimar os comprimentos de
estaca e definir o método executivo a utilizar.
Os elementos disponíveis devem permitir também
a previsão de problemas executivos que devam
ser levados em consideração para adotar providências
de projeto que ajudem a contorná-los.
Estes problemas executivos irão requerer a atenção
redobrada do engenheiro especialista ou do
engenheiro supervisor de execução das estacas
A execução de estacas tipo Franki, quando bem
aplicada, guardando observância ao método e seus
recursos, praticamente nào sofre restrições de
emprego diante das caraterísticas do subsolo, salvo
casos particulares como aqueles constituídos
por espessas camadas de solo muito mole.
É importante salientar algumas características que
fazem parte do método de execução, e que a diferenciam
de outros tipos dc estaca, contribuindo
para a elevada carga de trabalho da estaca.
Estas características podem ser assim resumidas:
• a cravaçâo com ponta fechada isola o tubo de
revestimento da água do subsolo, o que nào
acontece com outros tipos de estaca executados
com ponta aberta.
• a base alargada dá maior resistência dc ponta
que todos os outros tipos de estacas.
• o apiloamento da base compacta solos arenosos
e aumenta seu diâmetro em todas as direções
aumentando a resistência de ponta da estaca.
Nos solos argilosos o apiloamento da base
expele a água da argila, que é absorvida pelo
concreto seco da mesma, consolidando e reforçando
seu entorno.
• o apiloamento do concreto contra o solo para
formar o fuste da estaca compacta o solo c aumenta
o a'rito lateral.
• o comprimento da estaca pode ser facilmente
ajustado durante a cravaçâo.
REFERÊNCIAS
FLEMING WGK. WELTMAN, AJ RANDOLPH. MP. F.LSON. \VK -
Pilir.g Engineering Surrey University Press, 1985
GIACOMETTI. F - Relato pessoal, 1982
GODOY. N - Tipos de fundações, apostila editada pela EEM,
1986
HAGERTY DJ. PECK. RB • Heave and lateral moveinents due
to pile driving journal of the soil mechanics and
foundation division ASCE Vol 97 SMI1. 1971
NORDLUND. RL, Dinamic formula for pressure injected
footings. Jornal of Geotecnical Eng. Division ASCE Vol
108 GT3. 1982
SIMONS N, MENZIES B - Introdução â engenharia de fundações.
Editora Interciências. 1977
TOML1NSON, MJ • Foundation Design and Construction
London Pitman Pultlishing, 1975
WHITAKER. T - The Design of Piled Foundations London
Pergamon Press. 1976
9.1.2 Estacas Escavadas sem Lama
Bentonitica
Introdução
FREDERICO F. FALCON!
JOÃO DE SOUZA FILHO
NÉUO DESCIO FÍGARO
As estacas escavadas sem lama bentonitica caracterizam-se
por serem moldadas no local após a escavação
do solo, que pode ser efetuada através de
sondas específicas para a retirada da terra, dc perfuratrizes
rotativas ou ainda com irados mecânicos
ou manuais, porém estes últimos com possibilidade
de atingir pequenas profundidades. As estacas assim
executadas sào definidas como estacas tipo
Stra JSS, com tubo de revestimento recuperável, estacas
escavadas mecanicamente com trado hclicoidal
e estacas tipo broca, respectivamente.
As estacas moldadas no local tipo Strauss foram
imaginadas, inicialmente, como alternativa Is estacas
prémoldadas cravadas por percussão pelo
desconforto causado pelo processo de cravaçâo,
quer quanto à vibração ou quanto ao ruído. Largamente
utilizada na Europa e nos Estados Unidos,
desde o principio deste século, entre nós SUÍ. utilização
acentuou-se durante e após a 2 a Grande
Guerra. O processo, bastante simples, consiste na
retirada de terra com sonda ou piteira e a simultânea
introdução de tubos metálicos rosqueáveis entre
si, até atingir a profundidade desejada e a posterior
concretagem com apiloamento e retirada da tubulação.
A retirada da tubulação é feita com gu ncho
manual nas estacas de diâmetros menores e curtas
e com guincho mecânico nas estacas de diâmetros
maiores e longas. Deve-se ressaltar a importância
do processo cie retirada dos tubos na integridade
destas estacas. Sào usualmente executadas embutindo-se
a ponta cm solos com coesão. Pelas suas
características, podem ser executadas praticamente
junto às divisas. A Foto 1 ilustra um equipamento
cm operação com os tubos de revestimento.
As estacas escavadas mecanicamente com
trado helicoidal, de utilização mais recente, sào
executadas através de torres metálicas, apoiadas
em chassis metálicos ou acopladas a caminhões.
Em ambos os casos sào empregados
guinchos, conjunto de tração e haste de perfuração,
podendo esta ser helicoidal em toda sua
extensão ou constituída dc trados com comprimento
entre 2 e 6 m em sua extremidade, proccdendo-seao
avanço através dc prolongamento
telcscópico. Existe disponibilidade de equipamento
para perfurar até 40 m. O processo consiste
na perfuração até a cota desejada e o posterior
lançamento do concreto a partir da boca
da estaca com funil de concretagem. Seu emprego
é restrito a perfurações acima do nível
do lençol freático. As Fotos 2 e 3 ilustram os 2
tipos de equipamento mencionados.
Foto 9.3
As estacas tipo broca sào usualmente escavadas
manualmente com irado concha e sempre acima
do nível do lençol freático. A perfuração manual
restringe a utilização destas estacas a pequenas
cargas pela pouca profundidade que se consegue
alcançar (da ordem de 6 a 8 m) e também pela
não garantia de verticalidade do furo.
Outro tipo de estaca escavada que píxle ser incluída
neste capítulo sào as chamadas estacas
apiloadas. também conhecidas como soquelào ou
otaca pilão, nas quais se utiliza equipamento do
tipo Strauss sem revestimento. Sua execução consiste
na simples queda de um soquete, com peso de
300 a 600 kg, abrindo um furo de 0,20 a 0,50 m que
posteriormente é preenchido com concreto. Sua execução
é possível em terrenos de alta porosidade e
baixa resistência e acima do nível do lençol freático.
A NBR 6122 nào fixa o espaçamento entre as
estacas moldadas no local, embora a prática corrente
indique três vezes o diâmetro.
Estacas Moldadas no Local Tipo Strauss
Foto 9.2
Por se tratar de equipamento leve e econômico,
constitui um tipo dc estaca que reúne algumas
vantagens:
Ausência de trepidações e vibrações em prédios
vizinhos;
Facilidade de locomoção dentro da obra;
Possibilidade dc execução da estaca com o comprimento
projetado, permitindo colas de armamento
abaixo da superfície do terreno;
Possibilidade de verificar, durante a perfuração,
a presença dc corpos estranhos no solo.
maiacòcs, ctc. permitindo a mudança de locação
antes da concrctagcm.
Possibilidade da constatação das diversas camadas
e natureza do solo. pois a retirada de amostras
permite comparação com a sondagem a percussão;
Possibilidade dc execução de estacas próximas
à divisa, diminuindo assim a excentricidade nos
blocos;
Possibilidade de execução cm áreas construídas
com pé-direito reduzido, diante da facilidade de
adaptação do equipamento;
Possibilidade dc montar o equipamento em terrenos
de pequenas dimensões;
Au.onomia, importante em regiões ou locais remotos.
Descrição Geral do Equipamento
õ cortado pelas bordas afiadas da piteira e fecha
com o peso próprio do solo escavado.
O soquctc é metálico, cilíndrico, maciço e com diâmetro
menor que o tubo e peso mínimo de 300 kg.
A equipe necessária ã execução de uma estaca
é composta pelo operador, um auxiliar para retirar
o solo do interior da sonda e rosquear os tubos
também chamado "pé dc sonda", c um ajudante
na etapa de escavação. Para a concrctagcm, é necessária
uma equipe adicional em função das características
da estaca c do canteiro de obras.
Método Executivo
Fases dc
Execução
Podemos dividir em duas fases distintas a execução
da estaca: primeiro, a perfuração c colocação
total dos tubos no solo, e, segundo, o lançamento do
concreto previamente preparado no interior do rulx).
Perfuração
Componentes Mecânicos
Guincho mecânico, capacidade mínima dc 1 t,
simples ou duplo, alavanca para acionamento, freio
e calx) de aço;
Motor a explosão ou elétrico, acoplado ao guincho
por meio de correias de borracha cm "V";
C haisi de madeira reforçado para suportar o
conjunto motor-guincho, movimentações da máquina,
mudanças etc.;
Tripé, torre ou cavalete metálico com carretilha
de aço no topo;
Guincho manual com engrenagem própria de
redução de velocidade, para o levantamento dos
tubos, quando do uso dc guincho mecânico
simples que ocorre na execução de estacas leves.
Tubulações. Sonda ou Piteira e Soquctc
As tubulações são tubos dc aço de 2,5 metros
de comprimento com roscas macho c fêmea, bem
ajustadas e apertadas, para permitir a continuidade
da coluna dos tubos no terreno e também impedir
a entrada de água através das roscas.
A sonda mecânica, também chamada de "piteira",
constitui-se basicamente de um tubo de 2,5
metros, com diâmetro menor que os da tubulação.
Na extremidade superior, em cerca de 1/3 do
comprimento é colocado lastro dc chumbo, para
aumentar o peso. Acima, c soldado o "gancho gira"
ou girador para deixar o cabo de aço solto evitando
dobras ou nós. Logo abaixo, o tubo é aberto
no sentido longitudinal em duas janelas para permitir
a saída do material escavado. Na extremidade
inferior localiza-se a válvula mecânica, fixada
através de dobradiças que se abre quando o solo
Uma vez instalado o equipamento c a piteira ou
o soquctc. posicionados cm cima do piquete de
locação, iniciam-se os trabalhos, soltando a piteira
ou o soquctc que irá formar um pré-furo no terreno.
Em seguida, coloca-se o primeiro tubo com
extremidade inferior dentada, chamada dc "coroa",
tendo já no seu interior a sonda mecânica. A seguir,
o operador vai manobrando a sonda para cima
c para baixo, cortando o terreno com auxílio dc
água lançada manualmente, dentro e fora da tubulação,
e a seguir retirando a sonda e descarregando
o material escavado pelas janelas longitudinais.
Tendo a sonda avançado no solo aproximadamente
o comprimento dc um segmento de tubo,
inicia-se a manobra conjunta da sonda com o tubo.
Esta operação consiste no posicionamento dc uma
haste de aço pela janela cia sonda e por furos dc
uma luva rosqueada no topo do tubo, com a movimentação
do conjunto, para cima e para baixo,
até que o primeiro tubo seja introduzido no solo.
Em seguida, é rosqueado outro tubo, repetindose
a operação até que o segundo tubo seja introduzido
no solo. Sucessivamente repete-se a operação
até se atingir a profundidade desejada, estando
o furo completamente revestido.
Durante a manobra conjunta, o operador corrige
a verticalidadc dos tubos e, ao mesmo tempo,
coleta amostras do solo escavado para comparação
com a sondagem próxima c definição do
comprimento final da estaca.
Concretagem da Estaca
Concluída a perfuração, é lançada água no interior
da tubulação para limpeza dos tubos. A água
e a lama sào totalmente removidas pela sonda. O
soquete é lavado e posicionado acima do tubo. A
seguir, o concreto, previamente preparado, c lançado
através do funil no interior dos tubos em
quantidade suficiente para se ter uma coluna de
aproximadamente lm cm seu interior.
Sem sacar a tubulação, apiloa-se o concreto com
o soquete, formando uma espécie de bulbo, pela
expulsão do concreto.
Para execução do fuste. o concreto é lançado
dentro do tubo e, à medida que é apiloado, o
tubo vai sendo retirado com o uso do guincho.
Recomenda-se sacar lentamente o tubo, e acompanhar
a subida por marcas no cabo de aço.
Para garantia de continuidade do fuste, deve ser
mantida dentro da tubulação, durante o
apiloamento. uma coluna de concreto de 6 metros
de altura, suficiente para ocupar lodo o espaço
perfurado e eventuais vazios de perfuração. Dessa
forma, o soquete nào tem possibilidade de en-
O concreto utilizado nas estacas comuns (nào
armadas) deve ter consumo mínimo de cimento
de 300 kg/m 4 , consistência plástica (abatimento
mínimo = 8 cm) e fck - 15 MPa (150 kgf/cmO.
O concreto utilizado nas estacas armadas deve ter
consistência francamente plástica (abatimento mínitrar
em contato com o solo da parede da perfuração
e provocar solapamento e mistura de solo ao
concreto.
A concretagem prossegue até um diâmetro acima
da cota de arrasamento da estaca, sendo este excesso
cortado para o preparo da calxrça da estaca.
A última operação será a colocação dos ferros
de espera para amarração aos blocos ou baldramcs,
que sào simplesmente introduzidos no concreto
fresco, deixando-os acima da cota de arrasamento
o comprimento indicado em projeto. Este comprimento
é usualmente a altura do bloco de coroamento
menos 10 cm. Estes ferros sào apenas para amarração
da estaca ao bloco ou baldrame, sem constituírem
armação efetiva. Quando houver necessidade de armação
devido a esforços de tração ou nào axiais, o
procedimento é descrito a seguir.
É importante o preparo da cabeça das estacas que
deve seguir as instruções abaixo.
Estacas Armadas
O projeto da armadura deverá obedecer a critérios
geométricos e construtivos, de forma a
viabilizar a estaca. Por esta razão nào sc arma estaca
com uso de tubo de revestimento de diâmetro
interno inferior a 25 cm.
Após a formação do "bulbo", a armação de projeto
é instalada e a concretagem prossegue como
nas estacas não armadas, movimentando-se o
soquete de diâmetro menor que o da armação
pelo seu interior. Usa-se, também, vibrar o concreto
por golpes sucessivos do soquete no topo
do tubo e completar o nível do concreto. Recomenda-se
sacar lentamente o tubo e acompanhar
a subida por marcas na armação instalada.
Concreto
mo = 12 cm) e fck = 15 MPa (150 kgf/cm'). O traço
deverá eliminar a pedra 2, raso necessário executivamente.
Neste ponto cabe fazer observações importantes,
que sào as principais desvantagens deste tipo
de estaca.
• quando a vazão de água for tal que impeça o
esgotamento da água no furo, com a sonda, a
solução em Strauss nào é recomendável;
• em argilas muito moles saturadas e em areias
submersas, o risco de scccionamento do fuste
pela entrada de solo é muito grande, razão pela
qual, nestes casos, esta solução nào c indicada.
• o controle rigoroso da concretagem da estaca
é indispensável para que nào ocorram falhas
como as mostradas na Foto 94. A maior
parte das ocorrências de danos nestas estacas
se deve a deficiências de concretagem
durante a retirada dos tubos.
Critérios Básicos de Projeto
Enquanto na região Sudeste do Brasil, notadamente
em Sào Paulo, é prática corrente definir
o diâmetro da estaca pelo seu diâmetro acaba-
tio, ou seja, assumindo-se que a estaca tenha seu
diâmetro aumentado pelo apiloamento do concreto,
tal fato não ocorre em outras regiões do país,
como, por exemplo, Minas Gerais, Goiás e Distrito
Federal, onde o diâmetro das estacas é definido
pelo diâmetro dos tubos, da mesma forma qce em
estacas tipo Franki. For outro lado. quando se observam
as cargas usuais de trabalho das estacas, vêse
que há uma convergência.
A estaca de diâmetro 32 cm, em São Paulo, é
executada com tubos de diâmetro interno de 25
cm e utilizada para até 30 t. A estaca de 32 cm, em
Brasília, é executada com tubos de diâmetro externo
de 32 cm c utilizada para até 40 t, o que
corresponde a estaca de 38 cm em São Paulo executada
com tubo de diâmetro externo de 32 cm.
para a mesma carga de trabalho de 40 t.
Foge ao escopo deste trabalho uniformizar um
padrão, porém é importante mostrar as diferenças
regionais.
Foto 9.4
São apresentadas, a seguir, duas tabelas extraídas
de catálogos de empresas executoras des-
Diâmetro Carga (tf) Consumo Armação a b
(cm) (l/m) |2m /4 barras) (cm) (cm)
25 20 49 6 mm 18 80
32 25 a 30 80 10 mm 22 90
38 35 a 40 114 12.5 mm 25 115
45 55 a 65 183 '6 mm 31 130
55 70 a 80 238 20 mm 35 160
DIVISA
Diâmetro da Estaca
Acabada (cm)
Carga de Trabalho
à compressão (tf)
Distância mínima
entre eixos (cm)
Distância mínima do eixo
à parede vizinha (cm)
25 20 75 15
32 30 90 20
38 40 a 45 110 25
45 60 a 70 130 30
55 80 a 100 150 35
62 100 a 120 180 40
• Pext.. a
• 03a 10 mm
tes serviços que se referem ao padrão paulista
e, ao final, apresenta-se uma tabela que procura
abranger as diversas regiões do país. apenas
como sugestão e para que se tenha uma referência
única.
Quando as estacas estão submetidas a esforços
nào axiais e de tração, devem ser armadas para
absorver tais esforços. Para garantia dc uma boa
concrctagcm, projeta-se armaçào longitudinal, de
tal forma que a distância entre barras não seja inferior
a 10 cm e os estribos sejam helicoidais, sem
gancho, com passo entre 20 e 30 cm.
0 12,5/16/20 f^mm
O quadro abaixo mostra exemplos de armaduras
usualmente empregadas.
ESTACAS ARMADAS
Diâmetro da
Diâmetro interno
Características da armação
estaca acabada
do tubo
Longitudinal
Estribos helicoidais
(cmj
ícmj Unidades Diâmetro (mm) D ext. (cm) 0 (mm)
32 25 5 12.5 19 3 a 6
38 1 32 5 a 6 16 26 6
48 42 5 a 6 16 a 20 36 6 a 10
Julga-se adequado usar como referência o diâmetro nominal externo do tubo de revestimento que é
perfeitamente definido, ao contrário dos diâmetros acabados das tabelas anteriores, que dependem de
fatores nào controláveis e nào repetitivos. Assim, a tabela abaixo procura uniformizar as especificações,
para que se tenha referência única, como tentativa de padronizar a utilização destas estacas.
Diâmetro Externo do Revestimento
(cm)
Carga de Trabalho (tfj
Carga Admissível Estrutural (tf)
(NBR 6122)
22 15/20 20
27 23/30 30
32 32/40 40
42 55/65 70
52 80/90 107
Finalizando, reitera-se que as cargas aqui
indicadas sào as usualmente utilizadas. A carga
de trabalho deverá ser fixada após a análise do
perfil geotécnico. A NBR ól22 fixa como carga
máxima admissível estrutural aquela obtida com
o diâmetro externo do tubo de revestimento, f.
- 15 MPa e coeficiente de minoracào de 1,8.
Recomenda ainda que seu diâmetro seja limitado
a 50 cm. Os diâmetros usuais sào os de 25 e
32 cm. O mecanismo de transferência de carga é
objeto de outro capítulo deste livro.
O dimensionamento estrutural da estaca para
carga de compressão na ruptura, admitindo-sc
que nào haja flambagem c considerando-se que,
mesmo estacas isoladas, sào travadas nas duas
direções por vigas que absorvem os momentos
decorrentes de excentricidades, é dado por:
Nd = 0,85 Ac fed + A's fyk, sendo
fed - fck/1,8 1,8 coeficiente de minoraçào
(da NBR 6122)
Nd = 1,4 N
fyd - fyk/1,15
A s - 0, nào há armaçào efetiva
(estacas usualmente nào armadas)
A expressão acima pode ser reescrita:
N - 0,3-1 Ac f,
Admitindo-se que o diâmetro para cálculo seja o
diâmetro externo do revestimento, citado anteriormente,
têm-se os valores de carga admissível estrutural
indicados na tabela. Quanto ao coeficiente de
minoraçào de 1,8, indicado na NBR 6122 para estacas
tipo Strauss, sugere-se que possa ser reduzido para
1,6, visto que a concrctagcm se dá com o furo revestido,
diferentemente tio que ocorre com ;is estacas
nào revestidas (trado helicoidal, apiloadas e b rocas)
em que há maior risco de contaminação do concreto
e observam o mesmo coeficiente de minoraçào. Por
outro lado, 1,6 era o coeficiente de minoraçào indicado
para cstacas tipo Strauss na norma anterior.
Estacas Escavadas Mecanicamente
com Trado Helicoidal
Este equipamento pode vir acoplado a caminhões
ou montado sobre chassi metálico, o que
lhe confere grande versatilidade, podendo executar
desde estacas de pequenas profundidades com
equipamento de torre de 6 m até grandes profundidades,
com equipamento de torre de 30 m.
Foto 9.6
Método Executivo
Foto 9.S
O diâmetro das perfura trizes varia de 0,20 a 1,70
m, sendo que neste trabalho se restringe até o diâmetro
de 0.50 m, pois a partir daí é possível a abertura
de bases com operário descendo no poço.
A vantagem desta solução reside na grande mobilidade
e produção do equipamento, na ausência
de vibrações, em permitir a amostragem do solo
escavado, em atingir a profundidade desejada e
determinada em projeto e em poder ser executada
bem próximo ãs divisas. Obviamente, o emprego
desta solução é restrito a perfurações acima do nível
do lençol freático e solos com coesão.
A versatilidade desta estaca é alcançada pelos equipamentos
disponíveis como o mostrado na Foto 9.5,
acoplado a um Munck sobre caminhão para perfurações
de 0,20 a 0,50 m e ate 0 m de profundidade,
como na Foto 9.6, montado em chassis metálico sobre
3 rodas com movimentação manual, para perfurações
de 0,25 a 0,50 m e até 10 m de profundidade
ou, ainda, na Foto 9.7, acoplado a caminhão para diâmetros
até 1,70 m e profundidades de até 30 m.
Uma vez instalado e nivelado o equipamento,
posiciona-se a ponta do trado sobre o piquete de
locação e inicia-se a perfuração. Quando a liaste é
totalmente helicoidal, a perfuração prossegue até a
cota projetada e procede-se â retirada da haste sem
girar. Aproximadamente a cada 2 m. a haste é girada
no sentido contrário ao da perfuração e, com o auxilio
de uma pá, o solo é removido entre as lâminas.
Quando somente um trecho da haste é helicoidal. a
operação de retirada da haste é repetida algumas vezes
antes de se atingir a cota final prevista em projeto.
Atingida a cota prevista cm projeto e confirmadas
as características do solo em comparação com a sondagem
mais próxima. p<xJe-se iniciar a concretagem
tia estaca. Antes do lançamento do concreto, o fundo
da perfuração é apiloado com soquete de concreto
fabricado na própria obra. Após o apiloamento,
o concreto c lançado através dc funil, com comprimento
igual a 5 vezes o seu diâmetro interno, até
um diâmetro acima da cota de arrasamento. Este
excesso de concreto é executado em todas as estacas
moldadas in loco. Concluída a concretagem,
p<xle-se utilizar vibrador de imersão nos 2 metros
superiores. Finalizando, posiciona-se a armadura
de ligação, que é simplesmente introduzida no concreto
fresco, ficando 50 cm acima da cota de arrasamento.
Esta armadura nào tem função estrutural.
No caso de estacas annadas, após o apiloamento
do fundo, a annação é posicionada no furo antes do
lançamento do concreto. O concreto utilizado deve
ter consumo mínimo de cimento de 300 kg/m\ con-
Estacas Tipo Broca Apiloadas
Foto 9.7
sistência plástica (abatimento mínimo = 8 cm) e fck
- 15 MPa. Em estacas armadas integralmente o
abatimento mínimo é de 12 cm e deve, eventualmente.
eliminar a pedra 2.
Critérios de Projeto
A NBR 6122 fixa como carga admissível estrutural
aquela obtida com o diâmetro da perfuração,
fck = 15 MPa e coeficiente de minoraçào de 1,8. A
carga de trabalho, porém, deverá ser fixada após
análise do perfil geotécnico.
Usualmente os diâmetros e caigas de trabalho utilizados
são os indicados na tabela alxiixo, à esquerda.
A carga admissível estrutural é calculada da mesma
forma que a estaca tipo Strauss. substituindose
o diâmetro externo tio revestimento pelo tliâmeiro
da perfuração.
Diâmetro de
perfuração
ícm)
Carga de
trabalho
(tfj
Carga admissível
estrutural (tf)
NBR 6122
25 20 25
30 30 36
35 40 49
40 50 64
45 60 81
50 80 100
Os dois tipos de fundação recebem o mesmo
tratamento na NBR 6122. Utilizados apenas para
pequenas cargas, pelas limitações que os processos
envolvem, têm aplicação bastante reduzida. A
perfuração pode ficar abaixo tio nível d água, desde
que o furo possa ser esgotado antes tio lançamento
do concreto.
Nào se recomenda este processo pela dificuldade
de se obter lx>mlxis de pequeno diâmetro para lama
com vazão suficiente para esgotar, rapidamente, o furo
e, caso seja alta a vazão de água, o concreto lançado
se deteriora, e a lama formada permanece no fundo
do furo prejudicando, inequivocamente, a qualidatle
tia estaca e sua capacidade tle caiga.
Os diâmetros variam entre 0,20 e 0,50 m, no
caso das estacas tipo broca dados pelo diâmetro
do trado concha utilizado e, nas apiloadas, pelo
diâmetro tio soquete utilizado. Usualmente em
estacas tipo broca nào se utilizam cargas superiores
a 10/12 tf e, em apiloadas. não existe uma
padronização. Albiero apresenta resultados tle provas
de carga em estacas apiloadas em Bauru, SP
onde, por exemplo, uma estaca de diâmetro 35
cm apresentou capacidade de carga de 85,5 tf.
O concreto e a concretagem destas estacas seguem
as mesmas especificações das estacas tipo
Strauss c escavadas com trado espiral citadas anteriormente,
embora nas estacas apiloadas ora se
lance o concreto plástico até preencher a perfuração,
ora se lance o concreto em camadas com
apiloamento. Julga-se mais apropriado sem
apiloamento, porque elimina a possibilidade do
contato tio soquete com a parede da escavação e
a conseqüente contaminação do concreto.
Controle da Qualidade
Durante a execução de qualquer das estacas escavadas
sem lama. deve-se anotar em tabela própria
os seguintes elementos, de acordo com a NBR 6122.:
• comprimento real de estaca alxiixodo amasamento,
• desvio de locação;
• características do equipamento de escavação:
• qualidade dos materiais empregadas;
• consuirw > de materiais por estaca e comparação em
cada trecho do consumo real em relação ao teórico;
• controle de posicionamento de armadura durante
a concretagem;
• anormalidades de execução;
• horário de início e fim de escavação;
• horário de início e fim de cada etapa de
concretagem
Além do controle tecnológico para verificação do
traço do concreto utilizado, considera-se muito importante
a comparação entre o volume teórico previsto
e o volume real utilizado na estaca. Este controle
pcxle ser feito na Ixítoneira através de número de
massa das ou mesmo pelo controle de número de
sacos de cimento que, com o traço, fornece o volume
aplicado. Evidentemente um volume real inferior ao
teórico indica problemas ai estaca.
Pode-se, também, escavar cm tomo das estacas abaixo
da cota de arrasamento e, quando for o caso, até o
nível de água para verificação da integridade do fuste.
Recomenda-se ainda, existindo dúvidas a realização
de ensaios de integridade de estacas (PI'D. Este
ensaio baseia-se na aplicação de uma excitaçáo mecânica
no topo da estaca, com um martelo de mão,
que origina uma onda de tensão, e rui verificação da
resposta a esta excitaçáo, com o objetivo de detectar
danos ou falhas ao longo do fuste da estaca. Pode
determinar, taml^ém o comprimento da estaca. Este
assunto será melhor abordado no capitulo 20.
A NBR 6122 recomenda a execução de uma prova
de carga estática a cada grupo tle 100 estacas
executadas ou. ainda, quando houver dúvida sobre
o comportamento da estaca.
Por fim, realizado o estaqueamento, deve-se providenciar
o levantamento "como executado" em relação
a cotas, locação, desvios, desaprumos e demais
observações citadas. Estes dados devem ser
confrontados com as tolerâncias fixadas em projeto,
para estudo tle eventuais modificações necessárias.
Outras Aplicações
As estacas moldadas in loco podem ser executadas
para serviços auxiliares e complementares â
execução de obras. Algumas possibilidades tle
utlizaçâo destas estacas são descritas a seguir:
Cortinas de estacas justapostas para contenção em
fase provisória ou permanente tle obra — pelo fato
tle poderem ser executadas bem próximas â divisa,
tanto as estacas tipo Strauss, como as escavadas com
trado helicoidal e as tipo broca, perfuradas com pequeno
espaçamento entre elas e adequadamente
armadas, permitem escavações a pnimo para execução
tle periferia tle prédios, como mostrado na Foto
98, onde estacas escavadas com tratlo helicoidal
encimados por viga tle coroamento possibilitaram a
escavação em fase provisória da obra.
Nesta utilização, as estacas tipo broca, são comuns
em obras no litoral, com apenas 1 subsolo, onde são
perfuradas a seco com o nível tio lençol rebaixado.
Execução de pré-furos — estacas tipo Strauss e
escavadas com trado sào úteis quando se necessita
ultrapassar camadas de solo mais resistente ou petlregulhos
para permitir, por exemplo, a posterior
cravaçào tle estacas pré-moldadas, perfis metálicos
ou tipo Franki, facilitando a penetração destas últimas.
O diâmetro tio pré-furo é avaliado em função
da necessidade da obra mas é usualmente pouco
menor que o diâmetro da estaca definitiva. Tais perfurações
jxxJcm ser utilizadas também para instalação
tle equipamentos de rebaixamento de lençol
(Strauss) ou tle piezômetros (escavadas com trado).
Drenos verticais de areia e reforço de solo —
em terrenos aluvionares e nível tle água elevado
após a perfuração tle estaca tipo Strauss lança-se
dentro do tubo, areia grossa à medida que se redra a
tubulação ou lança-se brita ou cal virgem com
apiloamento obtém-se o tlreno ou a melhoria do solo.
BIBLIOGRAFIA
Foto 9.8
ABFF - Associação Brasileira de Engenharia de Fundações -
Research On Foundation Engineering - 1989.
ALBIERO, JOSÉ HENRIQUE .FERREIRA; CLÁUDIO VIDRIM E
LOBO. ADEMAR I)A SILVA - SEFE II -Comparação Entiv Carga.
Últimas Previstas For Diversas Fórmulas E Otxidas Em
Provas De Girgas Executadas Em Estacas IX- Pequeno Porte.
ALBIERO, JOSÉ HENRIQUE CARVALHO, DAVI D DF E LOBO.
ADEMAR DA SILVA - Solos do Interior de São Paulo -
Fundações
ALONSO, URBANO RODRIGUEZ - Exercícios de Fundações
Associação Paulista de Empresas Executoras de Estacas Moldadas
d<> Local, Sistema Strauss - APEMOL - Especificações
da hxecuçâo de Estacas Tipo Strauss - 1960.
CAPITO, HOMERO PINTO - Mecânica dos Solos e Suas Aplicações
- Volume II - 1966
COSTA. FFRNANDO VASCO - Estacas Para Fundações Departamento
de Publicações do C.A. Horário Lane - 19%.
GOLOMBEK, SIGMUNDO - Curso de Fundações - Fundações
em Estacas - Capitulo 3
GOLOMBEK. SIGMUNDO; ALONSO. URBANO RODRIGUEZ -
Solos da Cidade de Sâo Paulo - Fundações Profundas
MELLO, V1CTOR F. B. E TEIXEIRA. ALBERTO H. - Fundições
e Obras de Terra - Volume II - 1971
NBR (>122/96 - Projeto e Execução de Fundações.
VARGAS. MILTON - Manual do Engenheiro Globo - Fundações
- Capitulo 2.
9.1.3 Estacas Tipo Hélice Continua
SEQÜÊNCIA EXECUTIVA
WIIJJAM ROBERTO ANTUNES
HÉI.VJO TAROZZO
1 introdução
A estaca Hélice-Continua é uma estaca de concreto
moldada "in loco", executada por meio de
trado contínuo e injeção de concreto, sob pressào
controlada, através da haste central do trado simultaneamente
a sua retirada do terreno.
Histórico
Figura 9.6 - Seqüência executiva
Desenvolvida nos E.U.A. e difundida em toda
Europa e Japào na década de 80, a estaca hélice
contínua foi executada pela primeira vez no Brasil
em 1987 com equipamentos aqui desenvolvidos,
montados sob guindastes de esteiras, com torque
de 35 KNm e diâmetros de hélice de 275 mm, 350
mm e 425 mm, que jxirmitiam executar estacas de
até' 15 m de profundidade.
A panir da metade da década de 90, o mercado
brasileiro foi invadido por máquinas importadas
da Europa, principalmente da Itália, construídas
especialmente para execução de estacas hélice
contínua, com torque de 90 KNm a mais de 200
KNm, diâmetros de hélice de até 1000 mm e com
capacidade para executar estacas de até 24 m de
profundidade.
2 Metodologia Executiva
Na fase de perfuração, a única força vertical atuante
é o peso próprio da hélice com o sob nela contido.
O avanço é sempre inferior a um passo por volta e a
relação entre o avanço e a rotação decresce ao aumentarem
as características mecânicas do terreno.
A perfuração é uma operação contínua, sem a retirada
da hélice do terreno, para ganintir a principal
característica da estaca hélice contínua que é a de
nào pennitir alívio significativo do terreno tomando
possível a sua execução tanto em solas coesivos como
arenosos, na presença ou não do lençol freático.
A produtividade pode variar de 150 m a 400 m
por dia dependendo do diâmetro da hélice, da profundidade
da estaca, do tipo e resistência do terreno
e do torque do equipamento utilizado.
2.2 Concretagem
As fases de execução da estaca Hélice Continua
sào: perfuração, concretagem simultânea à extração
da hélice do terreno e colocacào da armação,
conforme esquema apresentado na Figura 9.0.
2.1 Perfuração
A perfuração consiste em cravar a hélice no terreno,
até a profundidade determinada em projeto,
por meio de uma mesa rotativa colocada no seu
topo, que aplica um torque apropriado para vencer
a resistência do terreno.
A haste de perfuração é composta por uma hélice
espiral desenvolvida em torno de um tubo central,
equipada com dentes na extremidade inferior
que possibilitam a sua penetração no terreno.
Em terrenos mais resistentes esses dentes podem
ser substituídos por pontas de vidia.
A entrada de solo no UIIH> central durante a perfuração
é impedida por uma tampa de proteção
colocada na sua extremidade, geralmente recuperável,
que é expulsa pelo concreto no início da
concretagem.
Alcançada a profundidade desejada, o concreto
é bombeado através do tubo central, preenchendo
simultaneamente a cavidade deixada pela hélice
que é extraída do terreno sem girar ou. no caso de
terrenos arenosos, girando-sc lentamente no mesmo
sentido da perfuração.
Na fase de concretagem, a velocidade de extração
da hélice está diretamente relacionada com a
pressào e o sobreconsumo de concreto, de forma
que não haja vazios entre a retirada da hélice do
terreno e o seu preenchimento com concreto, evitando-se
possíveis estrangulamentos ou
seccionamcntos do fuste da estaca.
Durante a extração da hélice, a limpeza do solo
contido nas lâminas pode ser feita manualmente ou
por limpador de acionamento hidráulico acoplado
ao equipamento. O solo decorrente dessa limpeza
é removido com auxilio de uma pá carregadeira.
O concreto normalmente utilizado apresenta resistência
característica fck 20 MPa, é bombeável e
composto de areia, predisco ou brita 1 e consumo
de cimento de 350 a 450 kg/m3, sendo facultativa
a utilização de aditivos. O abatimento ou "slumptest"
é mantido entre 200 e 240 mm.
O preenchimento da cstaca com concreto é normalmente
executado até a superfície de trabalho,
sendo possível o seu arrasamento abaixo da superfície
do terreno, guardadas as precauções quanto
a estabilidade do furo no trecho não concretado e
a colocação da armação.
&
2.3 Colocação da Armação
O método de execução da estaca hélice-contínua
exige a colocação da armação após a sua
concretagem e portanto com as dificuldades inerentes
desse processo executivo.
A armação, em forma de gaiola, é introduzida
na estaca por gravidade ou com auxílio de um
pilão de pequena carga ou vibrador.
As "gaiolas" devem ser constituídas de barras
grossas. estrilx> helicoidal soldado (ponteado) nas
barras longitudinais e a extremidade inferior levemente
afunilada, para facilitar e evitar sua deformação
durante a introdução no concreto.
As estacas submetidas a esforços tle compressão
normalmente não necessitam tle armação conforme
NBR-6122, ficando a critério do projetista a
armação de ligação com o bloco.
No caso de estacas submetidas a esforços transversais
ou de tração e que exigem o uso de gaiolas
longas, deve-se preferir o uso de espirais em
substituição aos estribos e evitar emendas por
transpasse. Essas gaiolas devem ser suficientemente
rígidas para permitir a sua introdução no concreto.
por gravidade para gaiolas até 12 m e pilão ou
vibrador para gaiolas até 19 m.
A armação é centralizada no furo por meio de
espaçadores tipo pastilha ou roletes para garantir
o recobrimento mínimo necessário.
3 Equipamentos
O equipamento normalmente empregado para cravar
a hélice no terreno é constituído por uma torre
metálica, de altura apropriada a profundidade da estaca.
dotada de duas guias nas extremidades sendo
que a guia inferior pode ser substituída pelo limpador
de trado; mesa rotativa de acionamento hidráulico
com torque apropriado ao diâmetro e profundidade
da estaca a ser executada, e guincho compatível
com os esforços de armncamento necessários.
A tabela 9-5 apresenta as características mínimas
dos equipamentos disponíveis.
Tabela 9.5
Toque
(KNm)
Diâmetro
(mm)
Profundidade
(ml
35 275; 350; 425 15
80 a 150 <, 800 24
£ 160 £ 1000 24
Foto 9.9 - Detalhe da hélice e tubo de concretagem
4 Controle Executivo
Para monitorar as estacas hélice continua durante
a sua execução, o equipamento mais utilizado no
Brasil e no mundo é de origem francesa, fabricado
pela Jean Lutz S.A, denominado Taracord CE.
O Taracord CE é contítuido tle um computador,
alimentado eletricamente pela bateria tio equipamento,
com mostrador digital instalado na cabine
do operador e sensores colocados na máquina que
informam todos os dados de execução tia estaca
tais como: Profundidade na ponta do trado em
relação ao nível do terreno, Velocidade de Rotação
da mesa rotativa, Torque. Inclinação da Torre.
Pressão de Concreto, Volume acumulado
desde o inicio da concretagem e Sobre-concumo
Parcial (CP) nos últimos 50 cm concretados c Sobre-consumo
Total (CT). ambos em percentagem.
Os parâmetros indicados no mostrador digital sào
registrados em um elemento tle memória e transferidos
a um microcomputador "PC", através tle
um drive especial, para aplicação de "Software"
que imprime o relatório da estaca. (I ; ig.9.7> com
todos os dados obtidos no campo e desenha o
perfil provável da estaca. Nesse relatório, além dos
dados já mencionados, são impressos: número do
contrato, nome da obra, número e diâmetro da
cstaca, data tia execução, horário tio inicio d;i perfuração,
da concretagem e tio fim da estaca.
Co«tr«to •' : (OtKI UU : «2/08/*
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Priic ferfi.: MM)
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(tetros) ( Uri ) ( »-'fc ) ( km ) ( vsI'M ) l i'k )
J
5 Vantagens e Desvantagens
5.1 Vantagens
A elevada produtividade reduz significa mente o
cronograma da obra com apenas 1 equipe de trabalho.
Adaptabilidade na maioria dos tipos de terreno,
exceto na presença de matacões e rochas.
O processo executivo não produz os distúrbios
e vibrações típicos dos equipamentos à percussão
e não causa descompressão do terreno.
A perfuração com hélice nào produz detritos poluídos
por lama bentonítica reduzindo os problemas
ligados a disposição final de material resultante
da escavação.
5.2 Desvantagens
Figura 9.7 - Aplicação do software
Km função do porte do equipamento, as. áreas de
trabalho devem ser planas e de fácil movimentação.
Devido a grande produtividade, exige a central
cie concreto nas proximidades do local de trabalho.
Necessidade de uma pá-carregadeira na obra para
remoção e limpeza do material extraído da perfuração
para fora da área de trabalho.
Do ponto de vista comercial é necessário um número
mínimo de estacas compatível com os custos
de mobilização dos equipamentos envolvidos.
Limitação nos comprimentos da estaca e da armação.
6 Elementos para Projeto
Atualmente os equipamentos disponíveis no mercado
permitem executar estacas com comprimento
máximo de 24 m e diâmetros de hélice variando
de 275 mm a 1000 mm (ver tab. 9.5).
Na tabela 9.6 encontram-se os diâmetros utilizados,
o espaçamento sugerido entre eixos de estacas
e a carga admissível estrutural conforme item 7.8.6.4
da NBR 6122/96 (fck 20 MPa, gc = 1.8; gf = 1:4)
Os comprimentos das estacas necessários para que
essas caigas possam ser atingidas sob o ponto de
vista de interação solo-estaca, podem ser obtidos através
de métodos semi-empíricos de ['revisão de capacidade
de carga de estacas a partir do resultado de
sondagens à percussão, com parâmetros do solo comprovados
por provas de carga estática ou dinâmica.
A distância mínima de eixo de uma estaca â divisa
(quando existe uma parede), depende do tipo
do equipamento. Os equipamentos com torque de
até 35 KNm permitem trabalhar com o centro da
estaca a 35 cm da divisa e os equipamentos com
maior torque de 100 .a 120 cm.
7 Aplicações
Foto 9.10 - Equipamento usual
As estacas Hélice Contínua oferecem uma solução
técnica e economicamente interessante nos seguintes
casos:
Tabela 9.6
Diâmetro
da Hélice
(mm)
Carga
Admissível
Estrutural (KN)
Espaçamento
Sugerido
(cm)
275 350 70
300 450 75
350 600 90
400 800 100
425 900 110
500 1250 125
600 1800 150
700 2450 175
800 3200 200
900 4000 225
1000 5000 250
9.T.4 Estacas Escavadas
com Lama Bentonítica
Introdução
JOSÉ LUIZ SAliS
Este item trata das estacas moldadas "in loco"
execjtadas com emprego de lama bentonítica «para
suporte das escavações) e concretagem submersa.
alx>rdando sua execução, equipamentos usualmente
utilizados e problemas executivos. Trata, tamlxm
do dimensionamento e determinação da capacidade
de carga deste tipo de estaca, isolada ou em gmpo,
e da sua utilização mostrando vantagens c limitações.
Discute, por sua importância no processo executivo,
as características e propriedades da lama
bentonítica e sua influência na execução das estacas.
Aljorda os mecanismos e princípios envolvidos
na concretagem submersa das estacas pois, na
maioria das vezes, a origem das problemas neste
tipo de fundação está no insuficiente conhecimento
dos fatores envolvidos nesta operação.
O desenvolvimento de equipamentos que escavam
o terreno como um todo deixando para a lama
Ivntonítica, tão somente, a função de estabilizar as
paredes das escavações, a lxxi qualidade das pecas
executadas por concretagem submersa, o melhor conhecimento
da influência da lama Ixjntonítica no atrito
lateral e na aderência aço/concreto foram fatores
determinantes do contínuo e notável desenvolvimento.
nestes últimos 40 anos, deste tipo de fundação,
principalmente quando cargas elevadas e condições
adversas do subsolo tornam difícil e ou antieconômico
o emprego das outros tipos de fundação.
Foto 9.11 - Muro de contenção com hélíce continua
Em centros urbanos, próximo a estruturas existentes,
escolas, hospitais e edifícios históricos, por
não produzir distúrbios ou vibrações e de nào causar
desci impressão do terreno.
Em obras industriais e conjuntos habitacionais onde.
em geral, há um grande número de estacas sem variações
de diâmetros, pela produtividade alcançada.
Como esinuura de contenção, associado ou nào a
tirantes protendidos, próximo à estn.turas existentes,
desde que os esforços transversais sejam compatíveis
com os comprimentos de armação permitidos.
REFERÊNCIAS
x 1 Mascardi. C. Fzecusione e Ccnni sul dimensionamento
dei p.ili con clica continua.XII Ciclo Conferenze I)i
Geotecnia Di Torino
8 2 Pali Trivelbti ad Elica continua tipo Trelicon. Kclazionc
Ilustrativa. Spec.: U.T. 007/Kev.A Rei.:
U.T. 155.00.00. Trcvi Spa. 1990
8.3 NHR - 6122 Projeto e Execução de Fundações
8.4 Antunes W.R . Tarozzo H., Alonso U.R., Caputo A N. - Estacas
Hélice Continua - Projeto. Execução e Controle - AHMS/1997.
Existem basicamente dois tipos tle estacas escavadas
com lama bentonítica:
a) Estações, que são estacas circularcs com diâmetro
variando, usualmente, de 0,0 m até 2.0 m,
perfuradas ou escavadas por rotação .
b) "Barretes"ou estacas-diafragma. que são estacas
com seção transversal retangular ou alongadas,
escavadas com "clamshells".
Histórico
A utilização de lamas nas perfurações, para melhorar
as condições tle estabilidade e auxiliar na rerr.oçào
dos deulios, data tle multo tempo (Egípcios 3-000A.C.,
Chineses 1.500 A.C., M. Fauvelle, 1845, Chappmam.
1887 etc.) Entretanto, foi com a indústria do petróleo,
a partir de 1900, que esta técnica, utilizando lamas
Ixmtoníticas, teve grande desenvolvimento. A lama
Ix-ntonilica permitia e permite até hoje a perfuração
tle poços profundos sem desmoronamentos, substituindo
os tulx)s tle revestimento impossíveis tle serem
utilizadas dada a profundidade das jx-rfu rações.
Introduzida na engenharia civil em 1951 por C.
Verder, na execução de uma cortina tle estacas
justapostas tle concreto, escavadas com lama
bentonítica através de camadas permeáveis de
areias e pedregulhos abaixo do lençol freático
Ccut-off da barragem de Venafro, perto de Nápoles)
foi. nesta mesma época (década de 50),
amplamente utilizada na execução das paredesdiafragma
para implantação do metrô dc Milão.
Nos Estados Unidos a utilização dc lamas
bentoníticas cm obras de fundação ocorreu no
início dos anos 60. No Brasil,o uso dc lama
bentonitica, conjugado com concretagem submersa,
data do final dos anos 60 (Ponte da Avenida Cnizeiro
do Sul sobre o rio Tamanduatcí, em 1967).
Processo Executivo
O processo executivo das estacas escavadas com
lama bentonitica compreende as seguintes fases:
a) Escavação e preenchimento simultâneo da estaca
com lama bentonitica previamente preparada-,
b) Colocação dentro da escavação cheia de lama
da armadura previamente montada;
c> Lançamento do concreto, de baixo para cima,
através dc tubos dc concretagem (tubos tremonha),
que sendo mais denso expulsa a lama, que é bombeada
de volta para depósitos.
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Fig. 9.8 - Processo executivo de estacas escavadas
com lama bentonitica
Apesar do sistema pouco ortodoxo de concretagem,
as jxrças de concreto obtidas com este procedimento se
comportam de maneira igual àquelas executadas pelos
métodos convencionais pcxlcrxlo, portanto, fazer parte
integrante de estroturas permanentes.
Lama Bentonitica
O fluído utilizado pam estabilização das paredes
das escavações é normalmente a lama bentonitica,
que consiste numa mistura de água c bentonita.
A l>entonita é uma argila da família das montmorilonitas
encontrada em depósitos naturais. Suas propriedades
podem variar muito de uma jazida para
outra. Em presença da água, as partículas de lx'ntonita
(forma lamelar) sc hidratam c se expandem formando
uma suspensão coloidal. No estado dc máxima
expansão essas partículas se movem livremente e,
devido às cargas elétricas que possuem, vão formar
uma estrutura tipo "castelo de cartas". A bentonita,
dependendo do cátion permutável, fxxle ser sódica
(Na+) ou cálcica (Ca++). Somente as bentonitas
sódicas são adequadas para a preparação dc lamas
de perfuração. A Ixmtonita utilizada no Brasil provém,
quase toda ela, de depósitos localizados no
Estado da Paraíba. Encontrada no estado natural na
fonna cálcica. tem que sofrer um processamento para
ser transformada em sódica para poder ser utilizada
no preparo de lamas bentoníticas.
A lama bentonitica é obtida nisturando-se
bentonita em pó com água, numa concentração
variando normalmente de 3% a 8%, em
misturadores de alta turbulência.
©
• •
©
Fig. 9.9 • Hidrataçáo da bentonita: a) Partículas de
bentonita; b) Bentonita hidratada; c] Estrutura
"castelo de cartas"; dj Estrutura rompida por agitação
Para uma mesma bentonita, as propriedades da
lama bentonitica variam com o tipo do misturador
utilizado, com o tempo de mistura c com o tempo
dc descanso após a mistura. Para se obter máxima
hidrataçáo da bentonita, dependendo da energia
utilizada na mistura, é necessário um tempo de
descanso dc até 24 horas.
A lama bentonitica tem três características muito
importantes:
a) Estabilidade que se traduz pela nào decantação
das partículas de bentonita por um longo período
de tempo.
b) Capacidade de formar rapidamente sobre uma
superfície porosa (solos, papel filtro etc.) uma película
impermeável ("cake").
c) Tixotropia que consiste na capacidade reversível
de tornar-se líquida quando agitada ou bombeada
c de gclificar (estrutura "castelo de cartas")
quando cessado o movimento.
A lama bentonitica na execução das estacas escavadas
tem que:
a) Conter o fundo e as paredes da escavação
pela ação de uma pressão hidrostática sobre as
mesmas. Para que isto aconteça é necessário que
o "cake" se forme rapidamente e que seja "impermeável".
Sob a ação do fluxo de lama do interior
para fora da escavação, as partículas de bentonita
hidratada vão colmatando os vazios do solo formando
a película impermeável ("cake").
b) Ser facilmente deslocada e substituída pelo
concreto.
Escavação
p - D , • o
ó Q ° O "
m
Partículas Ce solo
6% Misiurador do a'-ta turbulência
Bomba conlriluga
f Ha hAKlAnih \
4.5%
Fluxo do lama
©
eentooiia
20
0 4 8 12 16 20 24 28 hs
Tempo após mistura
Fig. 9.10- Formação do "cake": aj Infiltração da lama;
b) "cake"já formado
c) Manter os resíduos da escavação em suspensão,
evitando sua deposição no fundo da mesma
ou nas tubulações.
d) Ser facilmente bombeável.
O desempenho da lama bentonítica pode ser
avaliado por algumas de suas características:
a) Espessura e permeabilidade do "cake"
O 'cake" deve ser fino e impermeável. "Cakes"
porosos permitem a fuga de lama para o solo,
desestabilizando as escavações. "Cakes" espessos
e pouco resistentes são facilmente removidos pelas
ferramentas de escavação. No ensaio jx>r filtragem,
uma lama preparada nas concentrações usuais (3% a
8%), com bentonita de lx>a qualidade, e no estado
de máxima expansão, deverá formar um "cake" com
espessura inferior a 2 mm e deixar passar um volume
de água filtrada inferior a 20 cm 1
b) Peso específico (densidade)
Densidades elevadas melhoram a estabilidade das
escavações mas dificultam o deslocamento da lama pelo
concreto. Nas concentrações usuais uma Lima bentonítica
recém-preparada terá uma densidade da ordem de
1,01 g/cm\ Com o desenvolvimento das escavações, a
lama lx*ntonítica vai se tomando mais densa pela incorporação
de partículas do solo, podendo sua densidade
atingir valores de até 1,40 g/cm 1 .
c) Viscosidade
Esta propriedade da lama é considerada por
muitos como a sendo a propriedade que mais
influência tem no deslocamento da lama pelo
concreto tendo, até mesmo, mais importância que
a densidade. A determinação da viscosidade da
lama bentonítica é muito influenciada pelo
método de ensaio. O ensaio mais usual e praticamente
ó único utilizado é o do funil de Marsh.
Este ensaio na realidade nào mede a viscosidade
da lama mas sim uma propriedade da mesma
relacionada com a sua viscosidade, densidade e
resistência do gel. Dada a facilidade do ensaio e
sua difundida utilização, a viscosidade da lama
medida pelo funil de Marsh faz parte da maioria
das normas e especificações e na prática, juntamente
com outros parâmetros, dá boa indicação sobre o
seu descmpenho.Lamasbcntoníticas preparadas
Fig. 9.11 - Influência da energia dc mistura e do tempo
dc hidrataçâo após mistura nas propriedades da lama
bentonítica
na concentração usual de 4% terão viscosidade
Marsh ao redor de 32 a 34 seg. (viscosidade
Marsh da água -26 seg.)
d) Teor de areia
A presença de areias na lama prejudica a formação
do "cake" tornando-o espesso, permeável e
resistente. Aumenta a densidade da lama e também
sua viscosidade Marsh, dificultando seu deslocamento
pelo concreto.
e) pH
O pH é um indicador de contaminação química
da lama pelo cálcio do cimento. Lamas contaminadas
pelo cimento (pH > 11) produzem "cakes"
espessos e permeáveis. O pi I é também um indicador
da contaminação da lama por matéria orgânica
(geralmente ácida) que pode causar floculação
da suspensão de bentonita.
cm3 f 30min
60.
porda de lama
PH
120
115
11-0
105
10-0
0-1 0-2 0 3 0-4 0-5
% dd ctnurilo
Fig. 9.12 - Efeito da contaminação por cimento na
permeabilidade do "cake"
A Norma Brasileira (NBR 6122) fixa os seguintes
limites para as características das bentonitas a serem
usadas na preparação de lamas tixotrõpicas:
• Resíduo em peneira n° 200 <- 1%
• Teor de umidade <- 15%
• Limite de Liquidez >= 440%
• viscosidade Marsh 1.500/1.000 da suspensão a
6% em água destilada >- 40 seg.
• Água separada por pressofiltração de 450 cm 5
cia suspensão a 6% nos primeiros 30 min. à
pressão cie 0,7MPa <-18c m *
• Espessura do "calce" (filiroprensa) <= 2 mm
• pH da água filtrada. 7 a 9
Fixa também limites para as características da
lama bentonítica a ser usada nas escavações :
Densidade 1,025 a 1,10 g/cm 5
Balança de lama
Viscosidade 30 a 90 seg. Funil de Marsh
pH 7 a 11 Papel de pH
"calce" 1,0 a 2,0 mm "Filter Press"
Teor de areia até 3% Baroid sand content.
Foto 9.12 • "kit" do laboratório dc campo para
determinação de densidade, viscosidade "Marsh", pH
e teor dc areia
Escavação
Equipamentos
Existe, hoje em dia, uma variedade muito grande
de equipamentos para execução de estacas escavadas.
Basicamente, pela forma de cortar o solo,
eles sào de dois tipos:
a) equipamentos que destroem a estrutura do
solo ou rocha em pequenos fragmentos que sào
transportados para fora da escavação pelo fluxo
da lama (circulação reversa). Este processo, como
provoca uma mistura íntima do solo com a lama
de perfuração, contaminado-a severamente, exige
métodos sofisticados para recuperação contínua da
mesma (peneiras, desarenadores, tanques de decantação
etc.)
Estão incluídos neste grupo os equipamentos que
operam com tricones, "roller bits", "drag bits" etc..
b) equipamentos que cortam o solo como um
todo e o transportam para fora da escavação. Neste
caso. o contato da lama com os produtos da escavação
é mínimo, sua contaminação muito menor e sua
principal função é de tão-somente manter estáveis
as paredes da escavação. Foi o aperfeiçoamento destes
equipamentos uma das causas mais importantes
do desenvolvimento deste tipo de fundação.
Fazem parte deste grupo os equipamentos operando
com baldes, trados, "clamshells" etc.
Os equipamentos mais utilizados na execução de
estações sao as mesas rotativas e ou os rotatores
("cabeças") hidráulicos equipadas com baldes, caçambas
ou trados acoplados a uma haste de perfuração.
As mesas rotativas geralmente são montadas
em guindastes convencionais de esteira. As "cabeças"
hidráulicas podem ser montadas em guindastes
convencionais de esteira, desde que se adapte
uma unidade hidráulica para acionamento da "cal)eça",
ou podem vir montadas em guindastes hidráulicos
de esteiras especialmente projetados para este
tipo de trabalho.
As estacas "barretes" sào escavadas com
"clamshells" livremente suspensos por cabos ou
acoplados a sistemas rigidos através de barras "kelly".
O sistema de fechamento dos"clamshells" pode ser
mecânico (cabos) ou hidráulico. Da mesma forma
que os equipamentos para execução de estações,
estes equipamentos podem ser montados em guindastes
convencionais de esteiras ou em guindastes
hidráulicas especialmente projetados para este fim.
Dentro dos equipamentos para execução de estacas
"barretes" elevemos mencionar as hidrofresas.
Estes equipamentos fazem parte do grupo de equipamentos
que trabalham com circulação reversa.
Sào capazes de escavar rochas brandas e concreto.
Entretanto, devido ao seu porte, têm sua aplicação
restrita a obras profundas e terrenos difíceis.
A escolha do tipo e porte do equipamento a ser
utilizado depende das condições do solo a ser escavado,
das profundidades a serem atingidas, das
dimensões das estacas e também das condições
do canteiro de serviço e sua localização.
No caso cie se ter que escavar camadas de solos
resistentes (SPT > 30) os equipamentos (mesas
rotativas ou as "cabeças" hidráulicas) devem ter
torque e "pulldown" elevados. No caso de solos resistente
e estacas de diâmetro maior que 1,60 m,
muitas vezes é necessário executar primeiro uma
escavação com um diâmetro menor e depois alargála
para o diâmetro final.
A profundidade da estaca pode ser um limitador
(~ 60 m) para os equipamentos que operam com
barra "kelly" e hastes, mesmo estas sendo telescópicas.
No caso das estacas "barrete.-»", escavadas
com "clamshells" livremente suspensos por cabos,
a profundidade que pode ser atingida pela ferramenta
depende da quantidade de cabo que pode
ser enrolada pelos tambores dos guindastes. No
Brasil já foram executadas estacas "barretes" com
78 metros de profundidade.
Quanto à verticalidade, em princípio, os equipamentos
com barra "kelly " e hastes têm mais
recursos para corrigir desaprumos. A verticalidade
das escavações está muito relacionada com o
nivelamento dos equipamentos. Os "clamshells"
livremente suspensos, pesados (~10ton) e equipados
com guias longas (-10 m), tendem, sob
ação da gravidade, manter a verticalidade.
A experiência tem mostrado que o estado de
conservação dos equipamentos e ferramentas de
/ N T
// / /" i
// / I / «4
/ /' / í ^ i^-W^TT^ n
Fig. 9.13 - Mesa rotativa, equipada com caçamba,
montada em guindaste convencional
Fig. 9.13a - Rotator hidráulico montado em guidaste
hidráulico de esteira, próprio para execução de
cstacas escavadas
perfuração juntamente com os cuidados tomados
durante a execução são os maiores responsáveis
pela verticalidade das estacas e que a correção do
prumo é difícil, onerosa, quando nào impossível.
Inicio de Escavação e Locação
Locada a estaca, antes do início da escavação,
crava-se no terreno, no caso dos estações, uma
camisa metálica (tubo guia) com 1,50 m a 2,0 m
de comprimento c diâmetro 10 cm maior que o
diâmetro da estaca a ser executada. No caso das
estacas "barretes", a camisa metálica é substituída
por uma guia executada em concreto armado (parede
guia), ao longo de todo o contorno da estaca,
com cerca de 1,0 m de profundidade. Tí.nto a
camisa metálica como a parede guia em concreto
têm por finalidade proteger o topo das escavações
e garantir uma perfeita locação da estaca.
O tubo guia assim como a parede guia devem ter
íntimo contato com o solo. Recomenda-se que o tubo
guia seja cravado no terreno e a parede guia executada
usando somente formas internas e concretadas
diretamente contra o terreno. Caso haja necessidade
de reaterros estes deverão ser executados com solo/
cimento (10% de cimento) compactado.
O início da escavação deve ser cuidadoso, verificando-se
seguidamente o prumo à medida que a
escavação progride. O nível da lama bentonítica
dentro da escavação deverá ser sempre mantido
acima do fundo do tubo guia ou da parede guia.
Fatores que Afetam a Escavação
A escavação de um estação ou "barrete" depende
de diversos fatores como:
a) Condições do Subsolo
De uma maneira geral qualquer camada de solo
com permeabilidade inferior a 1 cm/seg. pode ser
escavada e estabilizada com a lama bentonítica
dosr.da nas concentrações usuais -1% a 8% . Entretanto
camadas de solòs muito permeáveis podem
exigir lamas bentoníticas com concentração de até
12% ou mesmo a utilização de aditivos físicos como
siltes, serragens, agregados leves etc. para permitir
a formação do "cake" e reduzir ou mesmo evitar
a perda de lama. No caso de solos com
permeabilidade muito elevada (k > 5 cm/seg) o
uso de revestimento torna-se imprescindível.
A presença de matacòes pode causar desvios na escavação
ou mesmo impedir o seu prosseguimento.
A presença de camadas duras, como, por exemplo,
veios de limonita, pode exigir a utilização de
trépanos pesados para serem atravessados.
Muitas vezes é exigido que as estacas escavadas
penetrem no substrato rochoso.
As ferramentas convencionais — baldes, trados,
"clamshells" — não sào capazes de escavar rochas
duras e têm dificuldade em escavar até mesmo cangadas
de solo com SPT> 50. O emprego de trépanos
pesados trabalhando em conjunto com baldes ou
"clamshells" tem sido utilizado para engastar estacas
escavadas em rocha branda. O avanço da escavação
é lento e o processo, por causar vibrações, provoca
desmoronamentos nas paredes da estaca.
Perfuratriz.es hidráulicas com torque elevado
equipadas com "pull down", hastes com bloqueio
e ferramentas especiais são capazes de escavar até
rochas brandas.
A perfuração de estacas escavadas em rochas
duras (granito, gnaise etc..), com resistências da
ordem cie 1.500 kg/cm*, exige uma força sobre a
ferramenta de perfuração ("roller bit") superior a
80.000 kg para uma estaca com 1.0 m de diâmetro,
o que acarreta o uso de hastes especiais extremamente
reforçadas. A velocidade de perfura-
ção é muito pequena e o custo muito elevado.
Martelos de fundo ("down the hole") hidráulicos
de grande diâmetro já foram usados para a
perfuração de estacas em rocha.
No caso de estacas apoiadas cm rocha é importante
lembrar que a superfície da rocha nunca é
plana nem uniforme e portanto a limpeza do fundo
da cstaca será difícil. A utilização de "air lift"
para limpeza é uma imposição para se garantir
um bom contato concreto/rocha.
bj Lençol Freático
Para que a lama l>entonítica possa exercer sua função
cstabilizadora é necessário, como vimos, que sc
tenha um fluxo de lama de dentro para fora da escavação.
Isto pressupõe que o nível da lama no interior
da escavação esteja acima do nível do lençol
freático (mínimo 1,50 m). Nível do lençol freático
muito alto (muito próximo à superfície do terreno)
ou lençol com artesianismo pode dificultar, c muito, a
execução das estacas escavadas, principalmente quando
em camadas dc areias finas e fofas. Nestes casas
pode ser necessário rebaixar o lençol freático ainda que
de forma localizada junto à cstaca cm execução.
Lamas bentoníticas severamente contaminadas
pela água do mar podem flocular c perder sua
propriedade tixotrópica.
A execução de inúmeras obras na Baixada
Santista e em outras regiões litorâneas, junto ao
mar, sem que este problema tenha sido notado,
mostra que a contaminação precisa ser muito alta
para que seus efeitos sejam percebidos.
Lençol freático contaminado por matéria orgânica
pode afetar a estabilidade da escavação, pois
altera as características da lama bentonitica. A adição
de pequenas quantidades de "barrilha, direto
na escavação ou na água de preparo da lama, geralmente
resolve o problema.
cj Lama Bentonitica
Sendo a lama Ixrntoníca a responsável pela estabilidade
das escavações, é importante frisar que a qualidade
de escavação dis estacas escavadas está intimamente
ligada â qualidade da lama. "Gikcs'' porosos pennitem
fugas dc fluido pelas paredes da escavação, aumentando
localmente a pressão neutra nas camadas de solo
adjacentes, provocando desmoronamentos localizados
que além de aumentarem o consumo de concreto criam
pontos de descontinuidadcs cjue tendem a desviar as ferranxntas
de escavação podendo comprometer a veiticalidade
da estaca. A lama lx*ntonítica utilizada durante texb o pn>
ccsso executivo deverá ter seus [xirânietros dentro dos intervalos
a*conx.Tjdados pela NBR- 6122.
d) Equipamentos e Plataforma de Trabalho
A qualidade da escavação de uma cstaca no que diz
respeito a veiticalidade e "overbreak" depende muito
das condições de conservação dos equipamentos. Equipamentos
com folgas e ferramentas deslxilanceadas ou
desalinhadas acamparão certamente desvios das escavações
e um aumento considerável "do ovcrbreak".
O bom posicionamento dos equipamentos em
relação â estaca, seu nivelamento e boas condições
de suporte da plataforma de trabalho são fundamentais
para se obter uma boa escavação.
Armaduras
As armaduras montadas previamente dc acordo
com o projeto têm que ser suficientemente rígidas
para serem içadas e manuseadas por guindastes.
Normalmente, além dc amarradas, elas sào soldadas
em diversos pontos e às vezes, no caso de
armaduras muito pesadas, sào enrijecidas com barras
adicionais de travamento.
Na maioria das vezes, as estacas submetidas a
esforços só de compressão sào armadas somente
nos primeiros 5,0 m. Esta armadura é geralmente
constituída de barras longitudinais de 16 mm de
Fig. 9.14 - Detalhe da armação de uma estaca escavada
diâmetro espaçadas a cada 15 ou 20 cm e estribos
de 10 mm de diâmetro espaçados t cada 20 cm.
Estacas submetidas a esforços transversais, momentos
ou esforços de tração geralmente sào armadas
de acordo com um projeto específico.
As armaduras devem ter um recobrimcnto mínimo
de 4 cm. Para garantir este recobrimcnto mínimo,
elas deverão ser providas dc espaçadores
(roletes ou "skis").
As armaduras devem ser montadas prevendo
sempre passagem para o tubo ou tubos tremonhas.
As armaduras, que sào instaladas antes do lançamento
do concreto, devem descer suavemente
dentro da estaca e serem presas a paredes-guias
ou aos tubos-guias para evitar serem deslocadas
pelo concreto.
No caso de arrasamentos profundos as alças que
prendem as armaduras devem ser suficientemente
rígidas para nào se deformarem quando do lançamento
do concreto.
Nas estacas escavadas é possível implantar perfis
metálicos para servirem de apoio provisório
Foto 9.13 - Colocação da armação dc uma estaca
"barrete" com perfil implantado
para vigas e lajes dos subsolos ou até mesmo de
alguns pavimentos, no caso de se adotar o método
de construção simultânea dos subsolos e dos pisos
superiores (método invertido).
Limpeza do Fundo e Preparo da Lama para
Concretagem
Durante a escavação, partículas de solo, argilas,
siltes e areias vão se incorporando ã lama
bentonítica aumentando sua densidade c sua viscosidade.
As partículas mais finas (argilas e siltes
finos; ficam em suspensão enquanto as partículas
mais grossas vão sedimentando lentamente e neste
movimento para baixo arrastam consigo partículas
tle bentonita formando no fundo da escavação uma
"pasta" densa e viscosa difícil de ser completamente
removida pelo concreto. Dependendo tio
grau de contaminação da lama, este fenômeno pode
ocorrer durante a concretagem. principalmente cm
concretagens demoradas e, neste caso, teremos
esta "pasta" sendo formada, nào mais no fundo da
escavação, mas sobre a superfície do concreto jâ
lançado. A vclt>cidadc e a intensidade desta decantação
depende muito da concentração de
bentonita na mistura e do grau de contaminação
da lama, principalmente por areias.
Logo após o término da escavação, devido à
contaminação da lama bentonítica a estaca não
está em condições de ser concretada. Lançar concreto
nesta situação é certamente querer enfrentar
no future» inúmeros problemas íestaca sem resistência
dc ponta, estaca seccionada por incru st ações
tle lama, estacas com atrito lateral baixo etc. J de
difíceis e onerosas soluções.
Para concretar a estaca é necessário proceder a
uma limpeza no fundo da mesma removendo a
"pasta" viscosa e densa, e colocar as características
da lama dentro dos limites fixados pela
norma.
Terminada a escavação e após uma primeira
limpeza feita com a própria ferramenta tle escavação,
procede-se à limpeza tio fundo da estaca hom-
Ix-ando a lama contaminada do fundo para fora,
substituindo-a por lama nova ou reciclada.
Este bombeamento pode ser feito por bombas
do tipo submersa ou por circulação reversa através
tio tubo de concretagem. Em estacas muito
profundas, a utilização tle "air lift" pode ser necessária.
No caso de utilização de lamas recicladas, o tratamento
tia mesma consiste em remover as partículas
sólidas «materiais acima de ü,01 mm) através
tle desarenadores (hidrociclones) e até mesmo
peneiras para os materiais mais grossos. Os
siltes e argilas nào sào removíveis por meios mecânicos.
Quando a concentração destas partículas
se torna perniciosa é possível diminuí-la misturando
lama nova com a lama reciclada.
Lamas quimicamente contaminadas pelo cimento
nào sào economicamente recuperáveis.
Concretagem Submersa
Colocada a armadura, inicia-se a última fase executiva
das estacas escavadas, que é a operação de
concretagem. É nesta fase que podem ocorrer os
defeitos executivos que mais comprometem c desempenho
deste tipo de fundação.
O concreto é lançado no fundo da escavação,
preenchida de lama bentonítica, através dos tulxxs
de concretagem. Sendo mais denso que a lama,
expulsa a mesma, preenchendo total e perfeitamente,
tle baixo para cima, totla a escavação.
Durante esta operação, o tubo de concretagem,
que deve ter sua extremidade sempre imersa no
concreto, vai sendo levantado.
Para que a operação acima descrita tenha êxito
é necessário que o concreto e a lama Ixmtonitica
tenham determinadas características.
O concreto deve ter alta trabalhabilidade e fluidez
para sair da boca tio tubo "tremonha" como
um fluido grosso e viscoso para cima c para o
lado e nesse seu movimento deslocar a lama
bentonítica, sem com ela se misturar e por uma
ação tle raspagem removê-la da superfície da escavação
(e da ferragem), criando um contato íntimo
entre concreto e solo.
Quanto à lama bentonítica. quanto menor sua
densidade e sua viscosidade mais fácil será o
seu deslocamento pelo concreto Além disso é
necessário que a "tensào de raspagem" criada
pelo movimento do concreto seja maior que a
aderência entre o "cake" e as paredes da escavação.
De uma maneira geral a condição para uma lx»a
concretagem submersa no que diz respeito aos
materiais envolvidos (conc reto e lama bentonítica)
será atendida se estes satisfizerem as seguintes
condições recomendadas pela Norma Brasileira
(NBR -6122):
al Lama Bentonítica: (ver no item)
b) Concreto:
Abatimento ("slump-test") : 200 +/- 20 mm
Diam. máx. do agregado: nào superior a 10%
do diam interno do tubo tremonha.
Consumo tle cimento: mínimo 400 kg/m 1
Apesar de nào constarem da Norma Brasileira,
as recomendações mencionadas a seguir sào muito
importantes para se ter um concreto de alta
trabalhabilidadc e nào segregável durante o lançamento:
Agregado graúdo: deverá ter formas
arrendodadas, procurando-se evitar agregados com
forma lamelar.
Areia: areia natural na proporçào de 35% a 'i5%
do peso total dos agregados. Nào deve ser permitido
o uso de pó de pedra
Fator A/C : abaixo de 0,6
K interessante notar que nem a Norma Brasileira
nem outras normas se preocupam com a resistência
do concreto. É que, na realidade, a resistência
deixa de ser um fator importante diante da
trabalhabilidadc. tendo em vista as baixas tensões
de trabalho do concreto neste tipo de fundaçào e
as altas resistências obtidas nos concretos dosados
segundo as recomendações apresentadas e
com as excelentes condições de cura a que estào
submetidos.
As condições acima especificadas para os
matérias envolvidos na concretagem submersa
(lama bentonítica e concreto) sào necessárias,
mas nào suficientes para se ter uma concretagem
satisfatória. í- preciso, também, que cerras condições
de lançamento do concreto sejam atendidas.
A melhor condiçào de lançamento do concreto é
aquela em que o concreto é lançado diretamente no
funil ile concretagem pelos caminhões-lx*toneiras.
O bombeamento de concreto, caso necessário
deverá ser feito com bombas de alta vazào boml>eando
para o funil de concretagem.
O concreto se comporta como um líquido viscoso.
Quanto mais distante da saída do tubo de
concretagem menor será sua capacidade de deslocar
a lama bentonítica ou de remover o "cake" das
paredes da escavação. A máxima distância que o
concreto pode percorrer sem perder sua capacidade
de deslocamento é da ordem de 2.5 m a 3.0 m.
No caso de esta distância ser superada, deve-se usar
mais de um tubo de concretagem, lançando-se o
concreto igualmente nos dois tubos.
A concretagem de uma estaca é iniciada com
o tubo "tremonha" colocado no lundo da estaca
(cerca de 30 cm acima do fundo). À medida
que o concreto sobe dentro da escavação sua
capacidade de deslocamento diminui e haverá
um momento em que será necessário subir o tubo
tle concretagem para que o concreto volte a fluir.
Esta operação é delicada e deve ser feita mantendo-se
sempre a ponta do tulxj "tremonha'
imerso no concreto (mínimo 2.0 m). Movimentar,
durante a concretagem, o tubo "tremonha" para
cima e para baixo para auxiliar o escoamento do
concreto significa que o concreto está com pouca
trabalhabilidadc ou que está na hora de subir o
tulxj de concretagem.
Os tubos de concretagem devem estar li.sos, limpos,
e ter suas juntas estanques.
Uma vez iniciada a concretagem, esta nào pode
ser interrompida e deve ser completada no menor
tempo possível <cerca de 3 horas). Vazões de lançamento
da ordem de 20 m* /hora sào suficientes
para a maioria dos casos.
Durante a concretagem dc uma estaca o movi
mento do concreto nào é somente ascendente mas
segue uma trajetória mais complexa: na primeira
concretagem o concreto lançado na estaca preenche
o fundo da mesma. Na segunda o concreto
lançado, já com o tubo "tremonhn" em posição
mais elevada, desloca a porção do primeiro concreto.
situado ao redor do tubo "tremonha", para
as laterais da escavacáo c continua subindo dentro
ila estaca, sobrepondo-se ao concreto lança-
Fig. 9.15 • Movimentos do concreto durante a
concretagem de uma estaca "barrete"
do anteriormente. Desta forma o primeiro concreto
lançado permanece no fundo da estaca e o
último r.o topo da mesma. Durante a concretagem,
o concieto lançado na estaca empurrará para a
lateral da mes na parte do concreto que está cm
contato com a lama bentonítica.
Concretagem demoradas ou interrupções prolongadas
no fornecimento do concreto possibilitam
a decantarão de siltes e areias sobre a superfície
do concreto já lançado, listas partículas em
contato com a lama bentonítica contaminada pelo
cimento formam uma "borra" que será deslocada
para a lateral da estaca pelo concreto fresco oj
recoberta por ele. Lamas bentoníticas limpas e
em boas condições evitam este problema. Interrupções
prolongadas na concretagem podem obrigar
a retirada do tubo "tremonha" de dentro do
concreto para evitar o seu aprisionamento, podendo
dar origem a juntas frias.
Carga Admissível
A resistência de uma estaca escavada depende,
como nos demais tipos de estacas, da resistência
do atrito lateral ao longo do seu fuste e da resistência
de ponta. A primeira é totalmente mobilizada
com pequenas deformações (5 mm a 10 mm)
enquanto para mobilização total da resistência de
ponta podem ser necessárias deformações muito
maiores, da ordem de 10% a 15% do diâmetro da
estaca.
Atrito Lateral
A transferência da carga de uma estaca ao solo
por atrito lateral depende, além de outros fatores,
das propriedades do solo (resistência, sensibilidade
etc.), da rugosidade da superfície da estaca, das
modificações da estrutura do solo pelo processo
executivo e também da aderência estaca/solo.
Km relação âs estacas escavadas com lama
bentonítica, surge naturalmente uma nova questão
que é saber como a lama bentonítica afeta o
atrito lateral.
A influência do •cake" no atrito lateral ainda não
é totalmente conhecida. K importante saber, também,
se o concreto é capaz ou não de remover
todo o "cake" das paredes da escavação e no caso
de remoção parcial qual a influência do "cake"
remanescente no atrito lateral
Kstá comprovado experimentalmente pelo exame
de superfícies de contato concreto/solo de estacas
escavada c painéis de paredes-diafragma que em
argilas onde, devido a sua permeabilidade, quase
não existe a formação do "cake", este é totalmente
removido pela ação de "raspagem" do concreto e
que em solos permeáveis (areias, pedregulhos etc.;
a ação do concreto nào é capaz de remover a porção
do solo impregnada com o "cake" mas tãosomente
o "cake" aderido às paredes da escavação,
se este não tiver resistência muito elevada.
Knsaios de laboratório e provas de carga têm
mostrado que a presença de bentonita nào afeta
ou pouco afeta o atrito lateral em estacas escavadas
mesmo no caso dc solos mais permeáveis. Km
alguns casos envolvendo solos permeáveis foram
registrados valores de atrito lateral até maiores
do que o esperado.
Kxistcm muitas evidências mostrando que o tempo
em que o solo ao redor da estaca escavada
permanece desconfinado tem mais influência adversa
no atrito lateral que a lama bentonítica.
Resistência de Ponta
A resistência de ponta de uma estaca escavada
depende além de muitos outros fatores do
afofamento do solo da ponta da estaca por
desconfinamento e do contato concreto/solo.
Pelo próprio processo executivo que mantém
permanentemente sobre o fundo da escavação uma
sobrepressào hidrostática, o afofamento do fundo
por desconfinamento nào chega a ser um problema
como o é, por exemplo, no caso de estacas
revestidas com camisa metálica.
Quanto ao contato concreto/solo, é necessário
que o concreto lançado através dos tubos
"tremonhas" remova toda a lama bentonítea bem
como os detritos remanescentes da escavação
depositados no fundo da mesma. Para tanto é
necessário que antes da concretagem a lama no
fundo do painel atenda aos requisitos de densidade,
viscosidade e teor de areia já especificados.
Uma limpeza de fundo bem feita garante
esta condição.
De uma maneira geral pode-se dizer que as estacas
escavadas (estações ou "barretes") executadas
com lama bentonítica adequada e quando
antes da concretagem se executa uma boa limpeza
dc fundo tem um comportamento satisfatório
no que diz respeito ao atrito lateral e à resistência
de ponta.
A Norma Brasileira (NBR 6122/1994) recomenda
que a resistência de atrito adotada nào seja inferior
a 80% da carga de trabalho adotada.
Recomenda ainda que a carga admissível nào
seja superior a 50% da soma da resistência de atrito
com a resistência de ponta. No caso de estacas
apoiadas em rocha, permite que toda a carga seja
absorvida pela ponta, respeitado um coeficiente
de segurança nào inferior a 3 desde que se possa
comprovar um perfeito contato concreio/roch*. em
toda a seção transversal da estaca e também a integridade
e continuidade da rocha.
Com relação ao recalque admissível para a superestrutura,
exige um coeficiente de segurança
mínimo de 1,5 em relação à carga que induz o
recalque admissível.
Com relação à carga estrutural admissível, limita
o fck a um valor máximo de 20 MPa. aplicado um
fator de redução igual a 1,9 para levarem conta as
condições de concretagem (submersa). Distingue
ainda estacas trabalhando com tensão média inferior
a 5 MPa e superior a 5 MPa.
Dimensionamento Preliminar
O dimensionamento das estacas escavadas é feito
por aproximações sucessivas, uma vez que o
estabelecimento da carga de trabalho depende de
como esta será transferida ao solo pela estaca repartida
entre atrito e ponta. Costuma-se iniciar o
dimensionamento adotando-se tensões médias no
concreto da ordem de 4 MPa a 5 MPa e verificar
qual a profundidade necessária para que as recomendações
da Norma sejam atendidas.
Para determinação da profundidade das estacas
e carga de trabalho das mesmas é usual, entre nós,
a utilização de métodos semi-empíricos (Décourt
/Quaresma, 1978 e Aoki / Veloso 1975) baseados
cm correlações com o SPT obtido nas sondagens
de simples reconhecimento. Os coeficientes de
segurança a serem adotados, nestes casos, sào os
Estacas barretc
dimensões
(m)
AP
Al
(mVm)
Tensão no
concreto
|kg/cm*J
40 50 60
Al
Vol
0.40 x 2.50 1.00 5.80 400 500 600 5.80
0.50 x 2.50 1.25 6.00 500 625 750 4.80
0.60 x 2.50 1.50 6.20 600 750 900 4.13
0.80 x 2,50 2,00 6.60 800 1000 1200 3.30
1.00 x 2.50 2.50 7.00 1000 1250 1500 2.80
1.20 x 2.50 3.00 7.40 1200 1500 1800 2.46
0.30x3.20 0.96 7.00 380 480 570 7.29
>.40x3.20 1.28 7.20 510 640 768 5.62
0.50x3.20 1.60 7.10 640 800 960 4.62
0.60x3.20 1.92 7.60 760 960 1 150 3.95
dimensões
(m)
Estações
AP
(m'|
Al
(mVm)
Tensão no
concreto
(kg/cm 1 )
40 50 60
Al
Vol
0.60 0.28 1.90 110 140 170 6.78
0.7.0 0,38 2.20 150 190 230 5.78
0.80 0.50 2.51 200 250 300 5.02
1.00 0.80 3.14 310 390 480 3.92
1.20 1.13 3.77 450 560 690 3.33
1.40 1.54 4.40 620 780 940 2.85
1.50 1.76 4.70 710 880 108 2.67
1.60 2.00 5.02 820 102 122 5.51
1.80 2.54 5.65 101 127 155 2.22
2.00 3.14 6.28 125 157 192 2.00
recomendados pelos autores, conforme prescreve
a Norma Brasileira
Na Tabela abaixo são apresentadas as dimensões
mais usuais de estacas escavadas (estações e
"barretes") e as cargas estruturais para diversas
tensões médias no concreto.
Estacas Isoladas e Grupo de Estacas
As estacas escavadas, dadas as suas dimensões e
as elevadas cargas estruturais que podem suportar
(min -150 ton) normalmente em estníuras convencionais,
sào usadas isoladamente (uma estaca por pilar).
Por sc tratar de estacas cuja resistência depende
predominantemente da resistência de atrito, a estaca
"barretc", para uma mesma carga vertical,
pode, devido à sua forma retangular, ser mais curta
que o estação, pois possui um perímetro maior.
Por exemplo, para suportar uma carga vertical dc
500 ton, cm uma camada dc argila média, homogênea,
uma estaca "barretc" de 2,50 m / 0,40 m e
l i m concretados (14,0 m 5 dc concreto) substitui
um estação com diâmetro de 1,10 m e 23,5 m
concretados (22,7 m 5 de concreto}, tão-somente
porque, devido a sua forma retangular, possui um
perímetro 68% maior que o do estarão dc mesma
área dc seção transversal.
Para cargas elevadas, geralmente acima de -1200
ton, quando, mais pelas restrições impostas pela
interação solo/estaca do que por saa capacidade
estnitural, for necessário utilizar mais de uma estaca
por pilar deve-se adotar para atrito lateral do
grupo de estacas o menor valor entre os obtidos
pela soma das áreas laterais das estacas do grupo
e o obtido pela área lateral da superfície envolvente.
Respeitado este critério nào sc costuma adotar
nenhum outro de redução de carga. O espaçamento
mínimo entre as estacas escavadas dc um
gnipo na maioria das vezes fica tão-somente condicionado
a fatores executivos.
As estacas "barretes", dada a sua forma alongada,
permitem a execução dc peças monolíticas (estacas
I, T, H, + etc.) ou composição de grupos de
estacas dispostas de forma a acompanhar o formato
das superestruturas o que representa, na maioria
das vezes, uma redução de custos.
As estacas I sào particularmente eficazes para suportar
cargas verticais elevadas conjugadas com momentos
e esforços horizontais, podendo ser utilizadas
com vantagens nas fundações dc pontes e viadutos.
Nos "encontros" de pontes e ou viadutos, cujas
fundações que suportam suas extremidades têm
que suportar além dos esforços verticais e horizontais
da superestrutura os empuxos dc terra dos aterros
de acesso, a utilização de estacas escavadas pode
ser uma solução técnica econômica e vantajosa
Cuidados e Controles Durante a Execução
A qualidade c desempenho das estacas escavadas
é, mais do que cm qualquer outro tipo de
->eK—
i K—2,50m—>
e
*
e = variável de 40 cm a 120 cm
a = variável de 60 cm a 200 cm
T
irülüü] ° to
i
u
<—2,50m—>
CM"
a partir de sondagens de boa qualidade verificando
a exata posição do N.A., a existência de
artcsianismo, a existência de camadas muito permeáveis,
de camadas muito moles e/ou fofas (areias
finas ou argilas orgânicas com SPT < 2) a existência
de matacões ou camadas muito duras (veios
de limonita ctcj. O projeto das fundações verificando
o diâmetro,comprimento, cota de arrasamento
das estacas, peso e comprimento das armaduras,
locação das estacas em relação âs divisas
do terreno e outros aspectos de projeto que
possam interferir na execução.
A localização da obra e condições de canteiro
verificando o tipo de trânsito na região, a existência
de interferências aéreas ou subterrâneas (fundações
antigas), a topografia do terreno, as condições de
suporte do terreno tendo cm vista o peso dos equipamentos
e principalmente o tráfego dos caminhões
de concreto, outros fatores que possam interferir
com o andamento da obra tais como horário permitido
de trabalho ("lei do silêncio") etc.
<—2,50m—>
;a:::i:::i:::i:
E
o
m
CM"
e = variável de 40 cm a 120 cm
comprimento mínimo 250 cm
^ <—2,50m—X*-2,50m—X ^
é
Fig. 9.16 • Composições de estacas "barretes"
fundação, função dos cuidados tomados durante
a execução desde o planejamento da obra até a
concretagem da última estaca, uma vez que seus
comprimentos são estabelecidos, normalmente, em
função de correlações com dados obtidos em sondagens
de simples reconhecimento (normalmente
SPT), sem nenhuma possibilidade, até o momento,
de controles específicos das capacidades
de carga tais como "nega, cravaçào monitorada,
provas de carga dinâmicas ctc. aceitos como
confiáveis. Além disso, é imponantc destacar que
onde. normalmente, uma estaca escavada é utilizada
para suportar a carga de um pilar outros tipos
cie fundação utilizam vários elementos (4 estacas
pre-moldadas, 3 estacas tipo "Franki", 5 estacas
metálicas etc.) e que consertos ou reforços
são de difícil execução e sempre onerosos.
Planejamento da
Execução
Para a boa execução de uma fundação em estacas
escavadas, é importante que antes do início
da obra sejam analisadas :as condições do subsolo
Esta análise permitirá uma correta escolha e
dimensionamento dos equipamentos (equipamento
de perfuração, guindaste auxiliar e central de lama;,
providenciar antecipadamente a remoção ou
rcmanejamento das interferências existentes, planejar
os horários de trabalho de forma que as estacas
sejam concretadas sempre no mesmo dia em
que foram escavadas e que as concretagens não
sejam demoradas nem interrompidas por problemas
de trânsito. Permitirá ainda que sejam tomadas
com antecedência providências para adequar
as condições dc suporte da praça de trabalho evitando
o desnivelamento do equipamento durante
a escavação cia estaca e ou o atolamento de caminhões
carregados de concreto durante as
concretagens.
Locação e Verticalidade
A locação cuidadosa do tubo-guia ou da parede
guia é de grande importância principalmente nas
estacas alongadas, onde as excentricidades permitidas
na direção da menor dimensão são mínimas.
A Norma Brasileira tolera excentricidades dc até
10% do diâmetro das estacas.
A verificação permanente da verticalidade durante
toda a escavação procurando corrigir ao primeiro
sinal ou tendência de desaprumo é fundamental
principalmente em obras em que o arrasamento
das estacas é profundo (caso de 2, 3 ou
mais subsolos). A Norma Brasileira tolera desaprumos
de até 1% do comprimento da estaca. Entretanto,
mesmo que os limites preconizados pela
Norma tenham sido obedecidos, é necessário verificar
principalmente nas estacas com formas
alongadas e com arrasamento profundo qual o
efeito das excentricidades ocorridas.
Por exemplo, o efeito da excentricidade (8 cm)
ocasionada por um desaprumo de 0,8% na dire-
çào da menor dimensão de uma estaca "barrete"
de 0.40 m por 2,50 m, para a carga de 400 t, com
arrasamento à 10 metros de profundidade será
muito mais nocivo que este mesmo desaprumo
num estação de 1,20 m de diâmetro para a mesma
carga de trabalho (400 t).
"Overbreaks" e Integridade das Estacas
Manter o nível da lama bentonítica sempre acima
do fundo da parede-guia ou do tubo-guia,
verificar de tempos em tempos se está havendo
perda dc lama por infiltração e abaixamento do
nível da lama dentro da escavação, e a qualidade
da lama bentonítica através dos ensaios de
campo (densidade, viscosidade Marsh, teor de
areia), corrigindo seus parâmetros sempre que
necessário, são providências que melhoram muito
a qualidade das escavacôes e contribuem sensivelmente
para a redução do "overbreak"
(sobrescavaçâo).
O ••overbreak" é função do tipo de solo, da
qualidade da lama, do estado de conservação dos
equipamentos e das dimensões e profundidade das
estacas. De uma maneira geral, para um mesmo
solo as estacas de menores dimensões têm
"overbreak" maior que as estacas de maiores dimensões.
Os "overbreaks'' maiores geralmente
ocorrem na parte superior vias estacas onde o terreno
é geralmente pior e as paredes da escavação
mais "roçadas" pelas ferramentas de escavação no
seu movimento de sobe e desce.
Em condições normais de escavação e observadas
as boas técnicas executivas pode-se esperar
os seguintes "overbreaks" para os diversos tipos
de solo
• argilas 4% a 10%
• areias finas compactas 4% a 8%
• areias médias e grossas 6% a !0 %
• areias finas fofas 12% a 20%
• solos residuais 4% a 8%
• argilas orgânicas 15% a 20%
Uma estaca escavada executada com os cuidados
exigidos é normalmente aceita como íntegra co bom
desempenho dos milhares de metros de estacas escavadas
com lama bentonítica atestam esta afirmativa.
Para garantir uma boa concretagem da estaca
certos procedimentos executivos são básicos e indispensáveis:
• Executar uma boa limpeza do fundo da estaca
antes da concretagem. a limpeza estará concluída
quando a lama do fundo da estaca (-15cm)
tiver suas características dentro dos valores estabelecidos
pela Norma.
• Colocada a armadura, inicia-sc a concrctagcm
(que nào deve sofrer interrupções) da estaca
lançando-se o concreto diretamente dos caminhões
no funil de concretagem. Antes do
lançamento de cada caminhão deve-se verificar
visualmente o aspecto do concreto e determinar
o seu "slump", que deverá atender às
exigências da Norma. Durante a concretagem
da estaca, deve-se controlar a subida do concreto
dentro da estaca bem como a posição do
tubo de concretagem.
A comparação tia subida teórica do concreto com
a subida real determinada no campo permitirá determinar
trecho a trecho o "overbreak " da estaca.
O tempo de concretagem deve ser anotado bem
como qualquer anormalidade ocorrida durante a
concretagem.
Quando por algum problema executivo surge
uma dúvida quanto à integridade do concreto da
estaca, esta deve ser investigada até que a dúvida
seja totalmente esclarecida. Para tanto, pode-se lançar
mão dc vários sistemas de investigação desde
escavar ao redor da estaca para inspeção visual da
mesma (anomalias na parte superior da estaca) e
correção do defeito, até a execução de sondagens
rotativas para verificar a integridade da estaca em
regiões mais profundas. A execução de sondagens
rotativas exige cuidados especiais para manter o
furo ile sondagem dentro do fuste da estaca. Muito
úteis sào os ensaios tipo "PIT", apesar das conhecidas
limitações deste tipo dc ensaio.
"Arrasamento" das estacas e preparo da
cabeça
Na cota de "arrasamento" o concreto do topo das
estacas vem recoberto por uma camada de concreto
misturado com lama bentonítica. A espessura
dessa camada é funçào da qualidade da lama do
tempo de concretagem. Lamas poluídas e
concretagens demoradas acarretam camadas mais
espessas. Normalmente são aceitas espessuras de
até 50 cm para essa camada de concreto contaminado.
Para incorporação da estaca ao bloco de fundação
é necessário remover toda essa camada até
se atingir o concreto bom e sào.
I-ssa remoção é geralmente feita com rompedores
pneumáticos.
Boletins de Campo
Os boletins de campo deverão trazer as seguintes
indicações:
• diâmetro, ou dimensões da estaca
• comprimento total da estaca
• comprimento concretado
• tempo ile escavação anotando o horário de
início e término e eventuais interrupções
• tempo de concretagem anotando o horário de
início e término c eventuais interrupções
• gráfico de subida do concreto
• posições do tubo de concretagem durante o
lançamento do concreto
• dados ila lama bentonítica no início da escavação,
durante ela e no seu término.
• dados da lama bentonítica após a limpeza do
fundo e antes da concretagem
• tempo gasto na limpeza de fundo, na troca ou
tratamento da lama.
• abatimento do c oncreto lançado
• qjalcjuer anomalia percebida durante a execução
da estaca.
O bom desempenho dos milhares de fundações
executadas utilizando estacas escavadas em todo o
mundo, nas situações as mais diversas, demostram
que este tipo de fundação desde que bem executado,
é confiável e econômico. Neste item ficou evidenciado
que a performance deste tipo de fundação
é mais dependente dos cuidados tomados durante
a execução que em qualquer outro.
REFERÊNCIAS
FARMER J. \V cl al The effect of bentoniU: c-n lhe skin friction
ot cast in place piles. Behaviour of piles. Inst. Civ Engrs,
London, 1971, 115-120
Norma Brasileira de Fundações NBR 6122
Paredo-Dia fragm i e Estacas Escavadas Vol. i ANSON S/A. 199't
ROCEKS, W.F. Composiiion and propcitiesofoil well drillingfliiids.
Gv11 Publishing Co.. Hcuson. Texas. 1963 (3rd cdn). 51S
SCI 1NF.EBEU. G U-s parois nioulées dans le sol Editions Eyrulles,
Paris, 1972
9.1.5 Estacas Injetadas
Introdução
URBANO RODRIGUliZ ALONSO
Calda de cimento
Armadura
(sob pressão)(sotjatta pressão) ( so necessário)
Sob n denominação de estacas escavadas injetadas
englobam-se vários tipos dc estacas, perfuradas
e moldadas 'in loco", com técnicas diferentes a
seguir descritas:
a) estacas-raiz (Figura 9.18): sào aquelas em que
se aplicam injeções de ar comprimido imediatamente
após a moldagem do fuste e no no topo do
mesmo, concomitantemcnte com a remoção do revestimento.
Usam-se baixas pressões (inferiores a
0.5 MPa). que visam apenas garantir a integridade
da estaca.
b) microestacas (Figura 9.19): sào aquelas que
se executam com tecnologia de tirantes injetados
em múltiplos estágios (uso de válvulas múltiplas
denominadas 'manchetes"), utilizando-se, em cada
estágio, pressão que garanta a abertura das
í
(1) ' (2) (3) (4)
Fig. 9.19 - Fases de execução de microestacas
1 • Parfuriçáo
IL
ÍV SONOA ROTATIVA
TUDO OC PERFURAÇÃO
/ / /
í FLUIDO OC PERFURAÇÃO
J PI RETIRADA OC MATERIAL
3 • Cilri(lo do tubo e CABCÇOTEOEAR
J
u\*çio a• n
compíimklo
j
SAPATA OE PERFURAÇÃO
2 • CCIOÍ JÇ»O 0* «rmrturi
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Fig. 9.18 - Fases de execução das estacas-raiz
V '
"manchetes"e posterior injccão. Ao contrário das
estacas-raiz, usam-se altas pressões de injeção.
As estacas escavadas injetadas diferenciam-se das
demais pelo menos por três razões:
a) podem ser executadas com maiores inclinações
(0 a 90 u );
b) geralmente possuem uma densidade de armadura
superior às estacas de concreto armado,
pois o processo de perfuração permite atingir
grandes profundidades e terrenos de alta resis-
(1) Perfuração com auxílio dc circulação d'água
(2) Instalação do tubo "manchete"
(3) Execução da bainha
(4) Injeção dc calda de cimento, válvula por vávula,
com altas pressões
(5) Vedação do tubo-manchete com eventual complemento
de armadura
tência (inclusive rocha), o que lhes confere maior
nível de carga transmitida ao solo por atrito lateral,
em comparação com outras estacas de mesmo diâmetro;
c) como sua carga admissível resulta fundamentalmente
da parcela de atrito lateral, podem ser
usadas com a mesma carga de trabalho à tração e
à compressão, desde que o fuste seja convenientemente
armado.
As estacas-raiz sào geralmente armadas com barras
dc aço. Ao contrário, as microestacas são armadas
com tubo metálico que possui dupla finalidade:
o de armar a estaca e o de dispor de válvulas
"manchete" para a injeção. Eventualmente podese
dispor de armadura complementar constituída
por barras ou fios de aço (Figura 9.22).
Para baratear o custo das microestacas, pode-se
substituir o tubo de aço por PVC rígido, mas neste
caso é obrigatorio o uso de armadura, pois o PVC
nào tem funçào estrutural.
Tanto nas estacas raiz quanto nas microestacas,
a armadura é envolvida por argamassa ou por calda
de cimento, mas nunca por concreto.
Histórico
O desenvolvimento e utilização deste tipo de estacas
deu-se a partir da década de 50, quando o
professor Fernando Lizzi requereu na Itália as primeiras
patentes (n v 497.730 em 11/03/52 e n u 502.416
em 29/12/52) sob a denominação de "Pali Radice".
Essa técnica construtiva. originalmente desenvolvida
para reforço de fundações e melhoramento do
solo. foi apresentada internacionalmente cm 1970,
por ocasião do X Convegno di Geotecnia realizado
em Bari, na Itália (Lizzi, 1992). A partir de então, já
expiradas as patentes, várias empresas iniciaram a
comercialização de estacas similares, ao início genericamente
denominadas estacas de pequeno diâmetro
ou microestacas, sem ficar muito claro, durante
essa comercialização, se eram executadas com
a tecnologia de baixas ou altas pressões de injeção.
Embora no início de sua comercialização sc utilizassem
diâmetros de até 20 cm (daí a denominação
de "estacas de pequeno diâmetro", como
aparece na NBR 6122/86), houve uma tendência
de se utilizar diâmetros cada vez maiores, chegando-se
atualmente a 40 e até 50 cm, o que
evidentemente deixa de ser "pequeno diâmetro".
For esta razão a atual NBR 6122/95 abandonou
essa denominação substituindo-a por "estacas escuradas.
com injeção", ou. como alguns pretendem
denominá-las, "estacas escavadas injetadas .
O conceito inicial do prof. Lizzi de criar com estas
estacas um reticulado, daí a denominação 'pali
radiei', com estacas inclinadas em várias direções
de modo a transformar o solo num "solo armado"ao
qual as cargas seriam transmitidas através de blocos
dimensionados como fundação direta, foi sendo
modificado, passando as estacas escavadas injetadas
a serem encaradas como estacas normais apenas previstas
com comprimentos maiores nas quais se conta
fundamentalmente só com o atrito lateral, ou seja,
do ponto de vista de transferência de carga para o
solo, podem ser utilizadas praticamente com a mesma
carga de trabalho â tração e ã compressão.
Seu uso, que era basicamente como reforço de
fundação, passou a ser como estaca normal utilizável
em qualquer condição. As cargas adotadas
foram sendo aumentadas atingindo hoje valores
superiores a 1.000 kN (Tabela 9.7), havendo inclusive
tentativas de se adotar cargas mais elevadas,
principalmente em estacas que penetram em
rocha. Por esta razão a NBR 6122/95 fixa a obrigatoriedade
de realizar um maior número de provas
dc carga neste tipo de estacas em comparação com
outras. Segundo esta Norma, devem ser realizadas
provas de carga sobre, no mínimo, 1% das estacas
sendo o número mínimo dc 3 provas, considerando
adequado aumentar esse número para 5% do
número das estacas com carga de trabalho entre
600 e 1.000 kN e 10% caso se ultrapasse esse valor
Para facilitar e baratear os custos dessas provas
de carga permite-se realizá-las á tração, desde
que na compressão nào ocorra flambagem. Apesar
dessa facilidade, raramente as firmas executoras
respeitam esse mínimo, sendo que muitas obras
sào feitas sem que nenhuma prova de carga seja
realizada (Golombek e Alonso, 19921.
O problema é bastante grave principalmente em
estacas de grande relação comprimento x diâmetro
atravessando espessas camadas de terrenos
moles em que a Norma indica a necessidade de
comprovacào da nào ocorrência de flambagem,
comprovação que só pode ser feita por prova de
carga à compressão, visto que ainda nào existem
métodos de cálculo adequadamente comprovados
para tal fim. Azevedo et ali (1990) apresentam resultados
de provas de carga executadas em estacas
escavadas injetadas onde foram constatados
problemas de instabilidade estrutural.
Procedimentos
Estacas-Raiz
Executivos
A execução de uma estaca-raiz«Figura 9.18) compreende
fundamentalmente quatro fases coasccutivas
• perfuração auxiliada por circulação de água
• instalação da armadura
• preenchimento com argamassa
• remoção do revestimento e aplicação de gol
pes de ar comprimido
a| Perfuração
A perfuração em solo é realizada por rotação de
tuboí com auxílio de circulação de água, que é
injetada pelo interior deles e retorna à superfície
pela face externa (Foto 9.14a). Esses tubos vão
sendo emendados (por rosca) à medida que a perfuração
avança, sendo posteriormente recuperados
após a instalação da armadura e preenchimento
do furo com argamassa.
O revestimento deve ser instalado preferencialmente
em toda a extensão da perfuração. Entretanto.
caso as características do terreno o permitam,
pode ser parcial mas com comprimento que
permita aplicar, com garantia de nào ser arrancado,
golpes de ar comprimido após o preenchimento
do furo com argamassa. Neste caso a perfuração
abaixo da cota dos tubos é feita também por rotação,
com auxílio de circulação d água, utilizandose
uma ferramenta cortante denominada "tricone"
(Foto 9.14b).
Quando o revestimento é parcial, a armadura deverá
dispor de roletes que garantam sua centralização
no furo, para evitar que ela bata nas paredes da
perfuração, o que poderia acarretar a remoção de
solo. que ao se misturar com a argamassa comprometeria
a qualidade da estaca além dc prejudicar a
aderência da armadura com a argamassa.
Embora a NBR 6122 permita, nos casos de revestimento
parcial utilizar lama estabilizante durante a
perfuração, frisa que ela pode afetar a aderência entre
a estaca e o solo, recomendando que antes do
preenchimento da argamassa a lama seja trocada uti-
Foto 9.14 - Detalhe da fase de perfuração e equipamentos auxiliares
lizando-se lavagem com água pura e mesmo assim,
que seja verificado o resultado final do seu uso através
de prova de carga, a menos que haja experiência
no solo da região com esse tipo cie estaca e com esse
processo de perfuração.
Para diminuir, durante a perfuração, o atrito entre
o revestimento e o solo é disposto na pane
inferior do revestimento uma ferramenta (sapata
de perfuração), com diâmetro ligeiramente maior.
Os detritos resultantes da perfuração sào carreados
para a superfície pela água de perfuração, que é
obrigada a retornar através do interstício anular
que se forma entre o revestimento e o terreno.
Portanto o diâmetro acabado da estaca é sempre
maior que o diâmetro externo do revestimento
(Tabela 9.6).
Para promover a rotação do revestimento utilizamse
sistemas que operam mecânica ou hidraulicamcnte,
havendo para tanto uma gama ampla de tipos e
porte de equipamentos, desde os menores que podem
trabalhar em locais com pé-direito reduzido
(da ordem de 3 m) e espaços limitados até equipamentos
mais robustos, geralmente sobre esteiras,
equipados com motores diesel de 30 a 40 IIP e
lança operada hidraulicamente permitindo realizar
perfurações verticais e inclinadas.
Para possibilitar a perfuração dos mais diversos
materiais (alvenaria, concreto ou rocha) podem-se
utilizar sapatas de perfuração com pastilhas de
"wídia" ou de diamante ou entào realizar a perfuração
por rotopercussào com maneios de fundo
(Foto 9.14c), acionados por ar comprimido.
As dimensões externas do tricone ou do martelo
de fundo sào limitadas pelo diâmetro interno
do revestimento, pois os mesmos trabalham no
seu interior. Na Tabela 9.6 apresentam-se as características
principais dos tubos de revestimento
e os diâmetros máximos dos martelos de fundo
(e dos tricones) em relação ao diâmetro final das
estacas.
b) Instalação da Armadura
Após a perfuração atingir a cota de projeto, continua-se
a injetar água, sem avançar a perfuração,
para promover a limpeza do furo. A seguir instala-se
a armadura (constante ou variável ao longo
Iabe!a_5L6 i Tubos de revestimento usados em estacas-raiz e diâmetro de martelos de fundo
Diâmetro final da estaca (mmj 100 120 150 160 200 250 310 410
Diâmetro externo do tubo 1") 3 47, 5 6 8 10 14
(mm) 89 102 127 141 168 220 273 356
Espessura da parede (mm) 8 8 9 9.5 11 13 13 13
Peso por metro linear (kg/m) 15 19 28 31 43 65 81 107
Diâmetro do martelo de fundo D - - 3'/, 3'/, 5'/. 7% 9V, 9'/.
fuste), geralmente constituída por barras de aço
montadas em gaiola. No caso de estacas tle menor
diâmetro (abaixo de 160 mm) costuma-se juntar
as barras num feixe dotado de espaçadores
conforme se mostra na Foto 9.15a.
Nas estacas trabalhando à compressão as emendas
das barras podem ser feitas por simples transpasse
(devidamente fretado), porém nas estacas trabalhando
à tração as emendas devem ser feitas por
solda, luvas rosqueadas ou luvas prensadas.
Preenchimento com argamassa
Uma vez instalada a armadura, é introduzido o
tubo de injeção (geralmente de PVC com diâmetro
de 1 l / 2" ou de l'/ 4") até o final da perfuração para
proceder ã injeção, de baixo para cima, até que a
argamassa extravase pela boca do tubo de revestimento,
garantindo-se assim que a água ou a lama
de perfuração seja substituída pela argamassa. lista
é confeccionada em misturador de alta turbulência,
geralmente acionado por motobomba, para
garantir a homogeneidade da mistura.
Para atender ao consumo mínimo de cimento
estipulado pela NBR 6122, ou seja, 600 kg/m 3 , o
traço normalmente utilizado contém 80 litros de areia
para 1 saco de 50 kgf de cimento e 20 a 25 litros de
água, o que confere à argamassa uma resistência
característica elevada, superior a 20 MPa.
Completado o preenchimento da argamassa, é
rosqueado na extremidade superior do revestimento
um tampão metálico ligado a um compressor para
permitir aplicar golpes de ar comprimido durante a
extração do revestimento, operação que é auxiliada
por macacos hidráulicos. À medida que os tulxxs vão
sendo extraídos o nível da argamassa vai abaixando
necessitando ser completada antes da aplicação de
novo golpe de ar comprimido. Esta operação é repetida
várias vezes no C U R O da retirada do revestimento.
a) barra simples com espaçador
Foto 9.16- Detalhe da extração do tubo de revestimento
Microestacas
b) barras montadas em gaiolas
Foto 9.15 - Detalhes da armadura
A execução de uma microestaca (Figura 9.19)
compreende fundamentalmente cinco fases consecutivas:
• perfuração auxiliada por circulação de água
• instalação de tubo-manchete
• execução da "bainha"
• injeção de calda de cimento
• vedação do tubo-manchete
Perfuração
A perfuração é feita^Je forma similar ao descrito
para as estacas-raiz,s inclusive com relação ao revestimento
total ou parcial do furo bem como o
uso ou nào de lama estabilizante.
Instalação do Tubo Manchete
O tubo-manchete, de aço ou dc PVC rígido, é
dotado de válvulas (Figura 9.20a) espaçadas da
r
S/ ESC.
a) esquema dc posiçào das válvulas
NATA DE
INJEÇÃO
CORTE
S/ ESC.
* p* nmwcw
^ r ^
"- &
M
L_ 6LQC0
• FRETAGEM
1 (SE NECE 1
CONCRETO
VALVULA
MANCHETE
ARMADURA
COMPLEMENTAR
TUB0_PE
INJEÇÃO
tjF
', . Àt*
ARMADURA
'COMPLEMENTAR
VALVULA
TUBO DE _
INJECAO(PVC)
I>) seção transversal com armadura longitudinal ao tulx> manchete
Fig. 9.20 - Detalho de um tubo-manchete
ordem de 1 m. Quando se usa tubo de PVC, o
mesmo é obrigatoriamente envolvido por armadura
(Figura 9.20b), pois o PVC nào contribui para a
resistência estnitural da estaca, ao contrário cio que
ocorre quando esse tubo é de aço.
A Foto 9.17a mostra o detalhe externo de uma
manchete e a 9.17b os serviços de so da para emendar
o tubo manchete metálico, durante a fase de
instalação do mesmo na perfuração.
Um detalhe importante no projeto deste tipo dc
estacas refere-se a seleção do diâmetro externo do
tubo-manchete em relação ao diâmetro da perfuração
(e conseqüentemente da espessura da bainha).
Nào se deve usar bainha com espessura além de
certos valores, sob o risco de nào se conseguir abrir
as válvulas-manchetes na fase de injeção. Evidentemente
que quanto mais fina for essa espessura mais
fácil será a ruptura da bainha, garantindo-se a injeção
com calda de cimento, sem perder a microestaca.
As espessuras variam com o tipo de solo,
porém nào devem ser adotadas maiores que 3 cm, a
nào ser que se tenha experiência local.
Execução da Bainha
Após a instalação do tubo-manchete, é confeccionada
a bainha injetando-se calda de cimento pela
válvula inferior dele até extravasar pela boca do furo.
Em alguns tipos de terreno essa injeção poderá ser
auxiliada utilizando-se outras válvulas superiores.
Concomitantemente com esta operação, o tubo de
revestimento vai sendo removido.
Um procedimento alternativo ao acima indicado
consiste em preencher totalmente o furo com argamassa,
analogamente ao processo utilizado nas
estacas-raiz, mergulhando-se imediatamente após
o tubo manchete na mesma. Este procedimento
tem sido usado para baratear o custo da bainha,
pois a injeção de argamassa (ao invés de calda de
cimento) pelas válvulas-manchete tem apresentado
problemas executivos.
Qualquer que seja o processo de instalação do
tubo-manchete, após concluída a bainha o mesmo
é lavado internamente, com circulação d'água, para
permitir que sua face interna esteja absolutamente
limpa e livre de restos de cimento, garantindo um
perfeito ajuste e vedação dos obturadores do tubo
de injeção a ser usado na próxima fase.
Injeção de Calda de Cimento
A injeção da calda de cimento é feita com o
auxílio de um tubo dotado de ob:urador duplo
acoplado a um misturador e bomba de injeção,
permitindo aplicar pressões de até 3 MPa, medidas
num manòmctro instalado na tubulação de
injeção. A Foto 9.18 mostra um tubo de injeção
sendo testado com água.
a) Vista da "manchete b) Detalhe da solda do tubo
Foto 9.17 -Tubo manchete de aço
Quando se usam bombas de injeção movidas a
pistào, a pressão não é uniforme e por esta razão
deve-se instalar entre a bomba e o tubo de in eção
um estabilizador (Figura 9.21).
MANOMETRO
£
TAMPA REMOVÍVEL
PARA LIMPEZA IfTERNA
SAIOA DE
ARGAMASSA
ENTRADA DE
ARCAMASSA
- CkJNORO
METAUCO
Fig. 9.21 - Esquema de um estabilizador dc pressão
Foto 9.18- Vista de um tubo de injeção
A injeção só é iniciada após a bainha ter concluído
a pega e estar cm início dc cura. Normalmente
esta injeção e feita cerca dc 12 horas após a con-
confecção da bainha, visto que quanto mais tarde
for feita maiores serão as pressões necessárias para
rompê-la. As pressões normalmente usadas variam
de 1 a 3 MPa para injetar 1 a 2 sacos de cimento por
válvula.
A injeção é feita no sentido ascendente através
de cada uma das válvulas, passando-se para a
válvula superior quando se comprova que a injeção
inferior já promoveu a suficiente deformação
do solo. Se o consumo na injeção for superior a 2
sacos de cimento por válvula (pressão relativamente
baixa), suspende-se a injeção por essa válvula
e passa-se para as próximas superiores
retornando-se posteriormente a mesma até obter
pressões de injeções dentro do especificado. Esta
operação é repetida tantas vezes quantas forem
necessárias.
Este processo de execução confere ao fuste da
estaca uma forma com sucessivos bulbos fortemente
comprimidos contra o solo. melhorando significativamente
a adesão da estaca, e portanto a transferência
da capacidade de carga quando comparada
com outras estacas, inclusive com as cstacas-raiz
de mesmo diâmetro.
Vedação do Tubo-Manchete
Após concluída a injeção, a parte central do tulx>manchete
é preenchida com nata de cimento ou com
argamassa. Nesta fase pcxlc-sc complementar a armadura
da estaca, se necessário, instalando-se barras
longitudinais no interior do tulx> que serão envolvidas
por essa nata ou argamassa (Figura 9.22).
Capacidade de Carga Estrutural
A carga admissível máxima estrutural das estacas
escavadas injetadas é fornecida pela resistência
estrutural dos materiais que a compõem, de
modo a garantir um coeficiente de segurança global
à ruptura mínimo dc 2. Esta carga é a maxima
possível a adotar para a estaca, devendo a carga
admissível final ser calculada pelos métodos de
transferência de carga para o solo.
Para o cálculo da capacidade de carga estrutural
à compressão o atual texto da NBR 6122 separa as
estacas escavadas injetadas em dois grupos:
a) estacas que utilizam aço com resistência característica
de até 500 MPa e porcentagem dc aço
inferior a 6%. Neste caso o dimensionamento
será feito como pilar de concreto armado levando-se
em conta a flambagem e considerando
para seçáo transversal da argamassa (ou da
nata) a área da estaca reduzida da área da arma
dura:
l>) estacas que utilizam aço com resistência característica
superior a 500 MPa ou porcentagem
de aço superior a 6%. Neste caso despreza-se a
contribuição da capacidade de carga da argamassa
(ou da nata) sendo toda a carga resistida
pelo armadura.
Com base nessas considerações foi elaborada
a Tabela 9 7, que fornece as cargas admissíveis
estruturais máximas para as estacas raiz com porcentagem
de armadura inferior a 6%. Para a elalxjraçáo
dessa tabela adotou-se a expressão proposta
por Alonso (1993):
2JV-0.6P ; ./„
' 0.9./^ - 0 , 7 6 5 . 0 )
em que:
As = seção transversal da armadura (inferior a
6% da seção da estaca)
D = diâmetro final da estaca
N ° carga de compressão
fck = resistência característica da argamassa (20
MPa) ou da nata dc cimento (25 MPa)
fyk = resistência característica do aço (para o
aço CA 50A fyk = 500 MPa)
Quando as estacas escavadas injetadas utilizam
aço com resistência característica superior
a 500 MPa ou porcentagem de aço superior a
6% é desprezada a contribuição da argamassa ou
da nata c neste caso a expressão (!) passa a ser
escrita:
(Ia)
A carga estrutural máxima das microcstacas com
tubo manchete de aço, eventualmente complementadas
por armadura longitudinal, é calculada
por essa expressão. Um exemplo é apresentado
a seguir (Figura 9.22). Trata-se de uma microestaca
de diâmetro final externo 20 cm no interior da
qual se instalou um tubo-mancactc de aço
Schedule -í0 de 6" (1683 mm de diâmetro e parede
de 7.1 mm) complementado por 6 barras de
16 mm, aço CA 50. A cacga máxima admissível
estrutural dessa estaca será:
iV =
2 =
0.9x36x246 + 0.9x6x2*500 ,
2*'° 4 = 0,65 MN
ou 650 kN
Para as estacas escavadas injetadas tracionadas
a NBR 6122 dispensa a verificação da fissuraçâo,
\ptom*tro
Ca^vjmm) 0»I00 0*120 D*l 30 0- 160 D «200 0* 230 D « 3 10 D» 410
OÔmítro/'
1800 —
1400-
1300 —
1200-
I 100-
1000-
900-
800 —
700 —
600—
T
(m m)
23
22
20
I 6
10
S
6.3
3J0
ZRÊÃ
cm«
5,00
3.80
3J3
2p0
^25
deo
<\50
0,32
0,20
PESO
kg/m
4j00
3,05
2,30
1,60
1,00
0,63
0,40
<*25
0,16
6 0 22mm
6 0 20mm
4 0 22mm
3 0 16 mm
7 0 22mm
3 0 22mm
3 02Omm
60 20mm 3 0 16 mm
30 20mm
4 0 16 mm
4 0 20 mm
6 0 20mm
1300
1400
1300
1200
I 100
-1000
- 900
- 800
— 700
— 600
300-
3 0 20 mm 40 16 mm
4 0l2,3mm
— 500
400-
4 0 22mm
5 0 16mm
— 400
300 —
3 0 20mm
3020mm
4 0 16 mm
4 01^3 mm
— 300
200 —
100
I 0 23 mm
i 0 16 mm
2 0 22 mm
2 020 mm
I 020 mm
I 0t2,3mm
3 0 16mm
3016 mm
40 I2£mm
40 12^9mm
— 200
- 100
Eílrlbo»
D. Es lar no
0 30mmc2D 063mm 20 0 63mm 20 963mm 20 Estribos
110 mm I35mm 200 mm 280mm 0. Externo
Notas: ) — Aço CA—50. Argamassa fck 20 MPa
2 — A armadura das estacas pode ser alterada ao longo do fuste em funçào da transferencia dc carga por atrito lateral
desde que se reduza 2 mm do diâmetro da armadura,
processo de cálculo análogo ao de estacas
metálicas. Caso se prefira fazer a verifica-
Fig. 9.22 - Exemplo de uma microestaca com tubo de
aço e armadura complementar
çào à fissuraçâo, fica dispensada essa redução. Em
am!x>s os casos deve-se garantir um coeficiente
dc segurança global à ruptura nào inferior a 2.
O cálculo da armadura para uma determinada
carga de tração T é obtida pela expressão (la)substituindo-sc
N por T c adotando-sc para As a área útil
das barras calculada com diâmetro 2 mm inferior ao
diâmetro real da barra, conforme a Tabela 9 8.
Com base na expressão (la) e na Tabela 9.8.
elaborou-se a Tabela 9.9 que apresenta a armadura
necessária para diversas cargas admissíveis máximas
estruturais à tração T, usando-se o critério
da nào verificação da fissuração:
I Área útil das barras dc aço para cstacas
escavadas injetadas tracionadas
0 (mmj 0 útil = 0-2 mm As fcrr 2 J
12.5 10.5 0.87
16 14 1.54
20 18 2.54
22 20 3.1 <?
25 23 4.15
Dados Geométricos para Projeto
Embora a NBR o 122 nào fixe espaçamento
mínimo entre estacas, é comum nas estacasraiz
adotar as distâncias indicadas na Tabela
9.10. Nessa tabela também se indicam várias
outras informações relevantes.
No caso de taludes em terrenos soltos as estacas
são distribuídas em uma ou mais paredes de
interceptaçào, destinadas a fracionar a massa em
movimento descendente contendo-as analogamente
ao trabalho de muros de arrimo, que resistem aos
empuxos de montante porém sem interceptar o livre
fluxo descendente das águas (Figura 9.24.a). Se
Tabela 9.9 | Número dc ferros (Aço CA SOA) para várias cargas de tração T
1
T (kN) 0=12,5 mm 0=16 mm 0=20 mm 0=22 mm 4=25 mm
SO 3 2 1 - -
100 5 3 2 - 1
150 8 5 3 2 -
200 - 6 - 3 2
250 - 7 4 - -
300 - 9 6 4 3
350 - - - 5 -
400 - - - 6 -
450 - - 8 - 5
500 - - 9 7 -
550 - - 10 8 6
600 - - - 9 7
700 - - - - 8
800 - - - 10 9
900 - - - - 10
1000 - - - - 1 1
I Características das cstacas-raiz
Diâmetro final da estaca (mm) 100 120 150 160 200 250 310 410
Área da seção transversal da estaca (cm>) 79 1 13 177 201 380 491 755 1320
Momento de inércia fcm<) 491 1018 2485 3217 7854 19175 45333 138709
Perímetro da estaca (cm) 31 38 47 50 63 79 98 126
Distância mínima entre eixos (cm) 60 60 60 60 70 80 100 130
Distância do eixo à divisa (cm) 30 30 30 30 30 30 30 30
Os blocos padrào mais comumente usados estào apresentados
na Figura 9.23 e Tal>ela 9.11. Na Tabela 912
apresenta-se a área desses blocos que permite calcular o
volume de concreto desde que se lixe a altura dos mesmas.
Algumas aplicações na solução de
problemas geotécnicos
Estabilização de Encostas com Reticulado de
Estaca;
O conceito de estrutura reticular tridimensional
de estacas escavadas injetadas é baseado no princípio
do concreto armado, em que as estacas suprem
a deficiência do solo no que diz respeito a
sua resistência à tração. Assim, numa comparação
simplista com o concreto armado, na estrutura
reticular o equivalente ao concreto é o terreno e
as estacas correspondem à armadura.
Dimensões dc blocos padrão
Diâmetro
Dimensões (cm
(mm) a b c d
100 30 90 60 54
120 35 95 60 54
150 40 100 60 54
160 40 100 60 54
200 45 115 70 63
250 50 130 80 69
310 55 155 :oo 87
410 65 195 '30 1 14
o terreno é constituído por rocha alterada, a tendência
ao deslizamento ocorre por efeito de estratificação
no sentido desfavorável do fraturamcn:o. Neste caso
as estacas são distribuídas nessa massa com densidade
BLOCO 1 BLOCO 2 BLOCO 3
'O
S
Q -0\- |
- t
„ s 4
BLOCO 4 BLOCO 5o BLOCO 5b
G ©
c !
oi
(j> o
. l
BLOCO 7 BLOCO 8
j—
o - - e - cp
<? /J t
Figura 9.23 - Blocos padrões típicos
conveniente, criando unia camada de espessura considerável
constituindo-se numa espécie de muro dc gravidade,
apoiado sobre os estratos subjacentes (Figura
9.24b). Nào liá necessidade de se alcançar horizontes
profundos para ancorar as estacas, sendo suficiente
que a espessura do maciço a conter seja de tal ordem
que passa ser considerado autopoitante.
A ligação da cabeça das estacas é feita por vigas dc
concreto armado em lilás ou em malhas (Foto 9.19)
complctando-se a obra com um recobrimcnto de
tela de arame galvanizado.
Reforço de Fundações
O reforço dc fundações pode decorrer por necessidade
de se acrescentar novos pavimentos numa cs-
Fundações em Terrenos com Blocos de Rocha
ou Antigas Fundações
Estas condicionantes do subsolo via de regra
inviabilizam as fundações com estaqueamentos tradicionais.
O uso de estacas escavas injetadas é uma
solução possível, uma vez que o processo de perfuração
permite atravessar esses obstáculos quer seja com
a utilização de martelo de fundo, quer seja dotando a
sapata de perfuração com pastilhas cie "widia "ou de diamante.
conforme já exposto no item 3.1a.
Fundações de Novas Estruturas
a) terrenos soltos em deslizamento
b) marcas rochosas
Fig. 9.24 - Esquemas típicos dc reticulado com estacas
escavadas injetadas
truturj já pronta, por mudança rui finalidade de ocupa-
-lo da mesma que venha a aumentar as sobrecargas cxi
ainda por deficiência da fundação original. O reforço,
neste caso, p<xle ser feito períurando-se os blocos, as
sapatas ou os pilares existentes (Foto 9.20) incorporando
a estrutura à nova fundação. Como as estacas escavadas
injetadas tmballiam predominantemente por atrito Literal,
não necessitam de grandes defonnações para mobilizara
carga de trabalho reduzindo portanto os esforços adicionais
rui estrutura durante a transferência de carga.
As estacas escavadas injetadas foram especificamente
desenvolvidas para subfundaçòes. Entretanto também
têm seu emprego em fundações de r.ovas estnituras
quando certas condições possam tornar problemático
o uso de estacas convencionais, como por exemplo:
a) Presença de obstruções naturais (matacòes,
solo concrecionado) ou artificiais (entulhos diversos
como concreto, alvenarias etc), assunto já tratado
no item anterior;
b) Condições de trabalho restritas tanto em planta
quanto em relação ao pé-direito;
c) Proximidades de estruturas existentes que possam
requerer ausência de vibração e de aiído;
d) Quando ocorrem grandes esforços horizontais que
exijam que as estacas trabalhem em ca valetes (por questões
de minimizar os deslocamentos) com inclinação
acentuada, atuando quer à compressão quer à tração.
Fundações em Alto Mar (OffshoreJ
As estacas escavadas injetadas apresentam um grande
interesse para as fundações de estnituras em altomar,
especialmente para as instalações de exploração
dc petróleo. Esse interesse tem-se configurado
em dois tipos de subsolo que ocorrem nas formações
petrolíferas brasileiras (Costa Nunes 1985).
Uma delas quando se encontra a pequena profundidade
abaixo do fundo marinho, substrato rochoso
praticamente impenetrável ã cravaçào de
estacas tubulares metálicas. Neste caso nào há
problemas quanto à resistência das estacas à compressão.
mas a resistência à tração é deficiente.
O segundo tipo de formação é o dos substratos
calcários brandos, penetráveis normalmente com
Tabela 9.12 lArea em planta dos blocos padrão em m 2
Diâmetro Bloco Tipo n°
(mm) 1 2 3 4 5a 5b 6 7 8
100 0.09 0.27 0.51 0,81 1.02 1.24 1.35 1.30 2,07
120 0.13 0.34 0.58 0.91 1.12 1.36 1.47 1.35 2.22
150 0.16 0.40 0.66 1.00 1.23 1.48 1.60 1.40 2.37
160 0,16 0.40 0.66 1.00 1.23 1,48 1.60 1.40 2.37
200 0.21 0,52 0.87 1.33 1.63 1.97 2.13 1,89 3.16
250 0,25 0,65 1.07 1.69 2.03 2.44 2.73 2.35 3.95
310 0.31 0,86 1.51 2.40 2.92 3,55 3.95 3.57 5.84
410 0.43 1.27 2.35 3.80 4.68 5.71 6.34 5.93 9.52
a) Disposição em filas
a) Base de um forno de cimento em operação
b) Pilar de um edifício
Foto 9.20 - Aplicação em reforços de fundações
Foto 9.19- Reticulado com estacas escavadas injetadas
(obra da Rodovia dos Imigrantes)
estacas mas que apresentam dificuldades quando
ocorrem horizontes resistentes.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Estrutural dc Estacas Raiz Face A Exigência do Ensaio
MB 3472 da ABNT Revista Solos e Rochas, vol. 16. n"
16. Abril.
AZEVEDO JR., N. et ali (1990) "Provas de Carga em Estacas de
Pequeno Diâmetro - Casos de Ruptura por Flambagem"
IX COBRAMSEF, Salvador - BA - vol 2, pp 513-517
CABRAL, D.A. < 1986) "O fso de Estaca-Raiz como Fundação
de Obras Normais' VIII COBRAMSEF - Porto Alegre, RS.
COSTA NUNES, A. J. da (1985) • "Estacas Injetadas - Relato
Geral" SEFE - vol 1, pp 103-127
GOLOMBEK, S. e U.R. Alonso (1992) "Solos da Cidade d.- S:lo
Paulo" capitulo 10 - publicação da ABMS/ABEF.
LIZZI, F. (1982) "The Siatic Resioration of Monuments" - Nagep
Editrice - Gênova
9.2 ESTACAS PREMOLDADAS
I MAt\0
RODRICÍ liZ ALOSSO
9.2.1 Generalidades
As estacas pré-moldadas caracterizam-se por serem
cravadas no terreno por percussão, prensagem
ou vibração e por fazerem parte do grupo denominado
"estacas de deslocamento".
As estacas pré-moldadas podem ser constituídas
por um único elemento estmtural (madeira, aço,
concreto armado ou protendido) ou pela associação
de dois desses elementos (e nào mais do que
dois), quando será denominada "estaca mista"
As fotos 9.21.a e 9.21.b mostram, respetivamente,
as estacas esquematizadas nas Figuras 9.25.b e
9.25.C. Ambas estacas são compostas |"x>r um segmento
de concreto armado superposto a outro metálico.
No primeiro caso (Foto 9.21.a) o segmento
metálico tem por finalidade permitir a cravaçào de
um comprimento siginificativo da estaca em argilas
médias a duras sem provocar o fenômeno de levantamento
decorrente da cravaçào de estacas próximas.
No segundo caso (Foto 9.21.b) o segmento
metálico tem por finalidade permitir que a estaca
mista possa ser cravada, até atingir a rtxrha, sem romper
o segmento de concreto, jx>is o jx-rfil metálico é
um material mais dúctil. Entretanto, quando a superfície
da rocha é muito íngreme esta solução nào
é a mais adequada pois o perfil metálico ao atingi-la
ptxJe escorregar quebrando a estaca jx>r flexào. Uma
solução que tem sido usada consiste em se cravar
uma estaca tle concreto vazada até as proximidades
tia cota da rocha e jx»r dentro do furo da estaca
executar uma outra, do tipo raiz, embutida na rocha,
conforme se mostra na Figura 9.25.d.
a) ponta metálica para permitir a cravaçào em argilas
médias a duras
b) ponta inétálica para permitir apoio em rocha
Foto 9.21: Estacas mistas concreto - perfil metálico
Fig. 9.25 - Exemplos de estacas mistas
Quando as estacas pré-moldadas necessitam
emendas, estas devem ser projetacas e executadas
de modo a impedir a separação entre os elementos
emendados lx.*m como manter o alinhamento
e suportar as cargas que ocorrem durante
a cravação e o trabalho da estaca.
Com respeito ao espaçamento entre as estacas
pré-moldadas a NBR 6122 não fixa valores embora
seja prática adotar um espaçamento mínimo de
duas vezes e meia o seu diâmetro (ou o lado),
porém nunca inferior a 60 cm (Tabela 9.16). Com
respeito ao afastamento até a divisa, o mesmo varia
com o tipo de equipamento utilizado na cravaçâo
da estaca. No caso das estacas metálicas os
bate-estacas permitem cravá-las praticamente junto
â divisa, ao contrário das estacas de concreto,
onde essas distâncias variam de 30 a 60 cm.
cujas estacas de madeira apodreceram em decorrência
da retificação e aprofundamento da calha
do Rio Pinheiros, que provocou um rebaixamento
generalizado do lençol freático daquele bairro.
9.2.2 Estacas de Madeira
As estacas de madeira (Foto 9.22) sempre foram
empregadas desde os primórdios da história da
construção civil. Atualmente, diante das dificuldades
de obter madeiras de boa qualidade e do incremento
das cargas das estruturas sua utilização é
bem mais reduzida.
As estacas de madeira nada mais sào do que troncos
de árvores, os mais retos possíveis, cravados
normalmente por percussão, utilizando-se pilões de
queda livre. No Brasil a madeira mais empregada é
o eucalipto, principalmente como fundação de obras
provisórias (por exemplo cimbramento de pontes
como se mostra na Foto 9.23). Para obras definitivas
tem-se usado as denominadas "madeiras de lei ".
como por exemplo a peroba, a aroeira, a
moçaranduba, o ipê e outras.
A madeira tem duração praticamente ilimitada
quando mantida permanentemente submersa. Entretanto.
quando submetida a variação de nível
d água apodrece por ação de fungos aeróbios que
se desenvolvem no ambiente água-ar. Por isso a
durabilidade das estacas de madeira está condicionada
a privá-la de um desses fatores. Como no
solo é praticamente impossível obter um meio completamente
seco, o fator a eliminar é o ar.
Entre as atuais obras brasileiras com fundações
em estacas de madeira pode-se citar o Teatro Municipal
do Rio de Janeiro, construído em 1905. Na
literatura universal cita-se que em 1902. por ocasião
da reconstrução do campanário da Igreja de
São Marcos, em Veneza, foi verificado que as estacas
de madeira cravadas havia cerca de mil anos
ainda se encontravam em ótimo estado e capazes
de voltar a suportar o peso do campanário. Cita-se
ainda na litrcratura internacional que para evitar o
perigo da variação do nível d'água os engenheiros
americanos adotaram, na fundação por estacas de
madeira de um hotel com 24 andares, em
Milwaukee. o expediente de instalarem cilindros
na cabeça das mesmas para serem mantidos permanentemente
cheios d'água, mesmo que exteriormente
ocorresse um abaixamento do lençol
d'água.
Em Sào Paulo tem-se o exemplo do reforço
tle inúmeros casaròcs no bairro Jardim Europa,
inclusive o da Igreja Nossa Senhora do Brasil,
Foto 9.22 - Estaca de madeira com proteçáo
Foto 9.23 - Estacas de madeira para cimbramento da
estrutura de uma futura ponte dc concreto
é
L
Para se garantir a durabilidade da estaca quando
ocorre variação do nível d água costuma-se
fazer o tratamento da madeira com sais tóxicos à
base de zinco, cobre, mercúrio etc. Entretanto,
tem-se observado que esses sais se dissolvem na
água com o decorrer do tempo. Por isso tem-se
tentado o tratamento com o creosôto, substância
proveniente da destilaçào do carvão ou do asfalto,
que se tem mostrado mais eficiente. Neste tipo
de tratamento o consumo recomendado pela literatura
brasileira é de aproximadamente 30 kg de
creosoto por m 5 de madeira tratada quando as
estacas forem cravadas no mar, e cerca da metade
desse consumo quando as estacas forem cravadas
em terra.
Outro problema relativo às estacas de madeira
encontra-se quando as mesmas são empregadas
em obras marítimas. No Brasil, produzem a destruição
dessas estacas o molusco "Teredo Navalis"
e o crustáceo "Cheluria". O primeiro apresenta a
particularidade de produzir apenas pequenos furos
na superfície da estaca e prosseguir a destruição
na sua parte interna, de tal sorte que embora
aparentemente a estaca esteja sã, internamente está
totalmente destruída. Neste caso a proteção da
estaca deve ser feita na zona de oscilação da maré,
local tle proliferação desses moluscos e crustáceos.
Essa proteção pode ser feita por exemplo, envolvendo-se
a estaca com concreto ou sulxstituindo-se
a madeira acima tio nível d'água mínimo
por um elemento tle concreto conforme se mostra
na Figura 9.2S.a.
Para evitar danos à estaca durante a cravaçào, a
cabeça desta deve ser munida de um anel de aço,
destinado a evitar que ela se rompa por
fendilhamento. Além do mais, quando a estaca tiver
que penetrar ou atravessar camadas resisten
tes, as pontas devem ser protegidas por ponteira
de aço (Figura 9.26.b). Quanto às emendas, podem
ser feitas por sambladura. por talas de junção
ou por anel metálico (respectivamente Figura
9.26.C1, 9.26x2 e 9.26.c3).
A carga admissível das estacas de madeira, do
ponto de vista estrutural, depende do diâmetro tia
seção média da estaca, bem como do tipo cie madeira
empregada. Entretanto, costuma-se adotar
como ordem de grandeza os valores apresentados
na Tabela 9.13.
Tabela 9.13 ! Cargas admissíveis normalmente usadas em
estacas de madeira
Diâmetro (cm)
Carga (ItNJ
20 150
25 200
30 300
35 400
40 500
(a) REFORÇO DE TOPO
(b) REFORÇO DE PONTA
(1) (2,
ic) TIPOS DE EMENDAS
O
O
_0_
o"
o
Fig. 9.Z6 - Reforços e emendas em estacas de madeira
9.2.3 Estacas Metálicas
As estacas metálicas sào constituídas por peças de
aço laminado ou soldado tais como perfis de seção I
e H, chapas dobradas tle seção circular (tubos), quadrada
e retangular lx*m como os trillios, estes geralmente
reaproveitados após sua remoção de linhas férreas,
quando perdem sua utilização por desgaste.
Tanto os perfis quanto os trilhos podem ser empregados
como estacas em sua forma simples (Figura
9.27.a) ou como composição paralela de vários
elementos (Figura 9.27.b).
Embora entre nós ainda seja relativamente elevado
t> custo das estacas metálicas comparada com outro
tipo tle estaca (nào só pelo custo do próprio material
como pela diferença tle comprimentos necessários
para transferir a caiga ao solo), em várias situações a
utilização das mesmas se toma economicamente viável,
pois podem atender a várias fases tle construção
da obra além tle permitir uma cravaçào fácil,
provida tle baixa vibração, trabalhando bem à flexào
e nào tendo maiores problemas quanto à manipulação,
transporte, emendas ou cortes. Além tlisso, podem
ser cravadas através de terrenos resistentes sem
o risco tle provocar levantamento de estacas vizi-
(3)
I -I • o
<o) PECAS SiMPJES
CJNHA
PRANCHAO
"OE MADEftA
ESTACA
METAJCÍ
n í n A
(o) P-ANTA
PILAR DE
DMSA
* LA* DE
D<V$A
A H ^ H h f n
(6) PECAS CCWPOSÍAS
BLOCO CE
C01QAMEMTC
Figura 9.27 - Seções transversais de estacas metálicas
nhas, mesmo com grande densidade de estacas,
nem risco de quebra. Sua associação com estacas
pré-moldadas (Fotos 9.21a e 9.21b) em diversas situações
é uma solução bastente econômica e eficiente.
Também no caso de existir subsolos que se estendem
até as divisas do terreno, as mesmas podem
ser uma solução vantajosa (Figura 9.28) pois
servem como elemento de contenção na fase dc
esc avação e como fundação dos pilares junto à divisa.
sem necessidade da utilização de viga de equilíbrio.
visto que podem ser cravadas praticamente junto
à divisa e resistem à eventual flexão que estes pilares
possam introduzir nelas, momento este amenizado
pelo equilíbrio que resulta da existência das lajes
tanto no subsolo como no térreo.
1 loje em dia já nào mais se questiona o problema
de corrosão das estacas metálicas quando permanecem
inteira e totalmente enterradas em solo natural,
isto porque a quantidade de oxigênio que ocorre
nos solos naturais é tão pequena que a reação química
tão logo começa já esgota completamente este
componente responsável pela corrosão. Na Foto 9.24
mostra-se uma das estacas metálicas que serviu de
fundação, por mais de 20 anos. da ponte da Rua
Wandenkolk sobre o rio Tamanduateí, em Sào Paulo.
removidas quando da retificação e alargamento
desse rio A seção de separação entre o trecho enterrado
da estaca e o imerso no concreto do encontro
da ponte está indicado, nessa foto, pela seta.
Entretanto, a favor da segurança, a NBR 6122 exige
que nas estacas metálicas enterradas se desconte
uma espessura de 1,5 mm de toda sua superfície
em contato com o solo. resultando uma área útil
menor do que a área real do perfil (Figura 9.29). A
carga máxima, do ponto de vista estnitural, ê obtida
multiplica ndo-se a área útil pela tensào admissível oc •
fyk/2 em que fyk é a tensão característica de ruptura do
COTA DO
SUBSOLO
(b) SECAO
v*
-JI
PftAMCrtOCS
OE UAOEftA
ESTAÇA
ICTAUCA
Fig. 9.28 • Estacas metálicas cravadas junto á divisa,
servindo como escoramento e fundação
açoda estaca. A Tateia 9.14 apresenta essa carg: paia
alguns dos perfis c trilhos fabricados pela Companhia
Sideríirgica Nacional (C.S.N.) calculada com oc - fyk/2
« 120 MPa. No caso de trillios velhos cxs mesmos só
deverão ser utilizados como estacas quando a redução de
peso nào ultrapassar 20% do teórico e nenhuma seção
tenha área inferior a 40% da área do trilho novo.
Para este caso os valores das cargas máximas
admissíveis sào apresentados, nessa tateia, entre
parêntesis.
As emendas das estacas metálicas são feitas por
solda com utilização de talas, também soldadas.
Os eletrodos normalmente usados sào os do tipo
OK 46 e o OK 48.
(b)PONTA
AK.9TA
Fig. 9.29 - Área útil dc estacas metálicas
(c)PONTA
fECMMJA
Tipo de perfil Denominação Área Peso Carga máxima
cm' (N/m) (KN)
H 6"x 6' 47.3 371 400
Perfis laminados 1 8"x 4" 34.8 273 300
C.S.N. 1 I0~x 47/ 48,1 377 400
(Palma) 1 I2~x 57/ 77.3 606 700
TR 25 31.4 246.5 250 (200)
TR 32 40.9 320.5 350 (250)
Trilhos TR 37 47.3 371,1 400 (300)
C.S.N. TR 45 56.8 446.5 450 (350)
TR 50 64.2 503.5 550 (400)
TR 57 72.6 569.0 600 (450)
Notas: 1 > Os valores entre parênteses referem-se a trilhos velhos com reducào máxima tle fieso de 20% e com nenhuma scçüo
com redução superior a í0%.
2) Para calcular a carga de estacas com perfis compostos Ixista multiplicar a carga da Tabela pelo número tle perfis que
compõe a estaca.
PLANTA
Foto 9.24 - Remoção de estaca metálica em uso por
mais de 20 anos
Um assunto bastante polêmico refere-se à ligação
da estaca metálica com o bloco de coroamento quando
só existem cargas de compressão.. Uma das proposições
é a indicada na Figura 9.30 e consiste em
soldar uma chapa no topo do perfil. lista proposição
tem como inconveniente o fato de se realizar o
corte do perfil, na cota onde será soldada a chapa,
Fig. 9.30 • Solução desaconselhada para a ligação dc
estaca metálica com o bloco
com maçarico e em posição desfavorável para o opcnidor,
resultando uma superfície sem garantia de
perpendicularidade com o eixo da cstaca, além de
se apresentar irregular e via de regra nào plana. Por
esta razão o contato da chapa com o perfil, fica
prejudicado. Para agravar o problema, geralmente
a chapa é maior que a seção do perfil, necessitando
a solda ser realizada por baixo da mesma e portanto
sem nenhum controle da qualidade da solda.
A ligação mais eficiente consistc em se embutir
20 cm da estaca no bloco, conforme sc mostra na
Figura 9.31 a, fazendo-se eventualmente uma
fretagem através de espiral posicionada por cima
da armadura de flexào do bloco. Quando o perfil
metálico tem dimensões transversais significativas
em relação ao espaçamento da armadura principal
do bloco, esta deve ser complementada com
outra secundária para combater a fissuraçào. Uma
solução alternativa é apresentada na Figura 9 31b
em que se envolve a estaca, abaixo do plano que
contém a armadura principal do bloco, com concreto
armado e fretado, para garantir a transmissão
da carga, por aderência, à estaca. Geralmente esse
comprimento é da ordem de 50 cm.
Se a estaca é tubular pode-se utilizar o procedimento
da Figura 9 31a ou preencher internamente
a estaca com concreto num comprimento / que
garanta a transmissão, por aderência, da carga resistida
pela estaca (Figura 9.32). Esse comprimento
é calculado igualando-se a carga máxima resistida
pelo tubo e a carga transmitida por aderência
ao concreto, ou seja:
ri.D e.f . - .TID .T ./ (1)
' m >»l 1 1*1
cm que:
Di = diâmetro interno do tubo
e - espessura da parede do tubo
I) in = Di + e
f , - f/1.15 em que f k é a resistência característica
à compressão do aço da cstaca.
f i(- f/1.5 em que f ik é a resistência característica
à compressão do concreto do enchimento da
estaca, em MPa.
Como a espessura e da parede do ailx> é pequena
quando comparada com as dimensões D c D ni , podese
escrever D =Di c portanto a expressão (I) resulta:
(2)
Com base na expressão (2) e adotando fc 240
MPa e f k = 15 MPa elaborou-se a Tabela 9.15 que
fornece os valores de / para as espessuras de chapa
mais comumente usadas nas estaca tubulares.
Tabela 9.15 I Comprimentos de aderência
e
/(cmj
1/4" 145
5/16" 180
3/8" 230
1/2- 290
No caso das estacas metálicas trabalhando à tra
çào, deve-se soldar nelas uma armadura, que deverá
ser incorporada ao bloco de modo a transmi
(ir as solicitações correspondentes.
Para o cálculo da transferência de caiga das estacas
metálicas para o solo considera-se como área lateral o
|x-rímetro desenvolvido ao longo das faces em contato
com o solo (linha tracejada na Figura 9.33a) e jxira a
área da ponta aquela correspondente à seção envolvente
(região achurada da Figura 9-33b) visto que o solo entre
a alma do perfil metálico "adere" à estaca, conforme sc
EVENTUAL PROB.EMA
D /
/
1
/
c / i
jf \ SI í >
B
-—
CORTE
a) solução recomendada
b) solução alternativa
Fig. 9.31 - Procedimento recomendável para a ligaçáo da cstaca metálica com o bloco
B_
itiC —
TABELA 3:
COwí^iíEwrOOC AOtMNCl*
CNTT£COHCWTO tCAMBAMETAUCA
P L A N T A
s/tsc
CORTE _A_\
S/ESC. .
• L (em)
>/< 1*3
s/ir 160
J/S- 230
y/r reo
Fig. 9.32 - Procedimento alternativo de ligação de estaca tubular com o bloco
X XE
o) PERÍMETRO
B) AR EA DA PONTA
Fig. 9.33 - Transferencia de carga de estacas metálicas
pode ver rui Foto 9.24, trabalhando, no que se refere à
inuisfcTcncia de caiga pela ponta, como unia estaca maciça.
Nos casos em que a estaca atravessa camadas de
argila mole e se apoia em solo de alui resistência, há
interesse em se aumentar sua área de ponta para permitir
maior capacidade de carga. Isto se coasegue soldando
segmentos de perfis na região da ponta, confonne
se mostra na Figura 9-34 e na Foto 9.2S.
FFfí - Ff~R
CORTE
Fig. 9.34 - Procedimento recomendado para aumentar
a área da ponta das estacas metálicas
Foto 9.25 - Recomendação para aumentar a área da
ponta de estacas metálicas
Esta solução tem a vantagem de não provocar o
amolgamento nem grandes deslocamentos transversais
da argila mole durante a cravaçào da estaca,
evitando desconfinamento do fuste e minimizando
os problemas de dcsaprumo ede flambagem
durante a cravaçào. E por esta razão que nunca se
deve usar o procedimento de se tentar aumentar a
área através da concretagem de um bloco no pé
da estaca, conforme se mostra na Figura 9 35. pois
este provocará grandes deslocamentos transversais
do solo durante a cravaçào, amolgando e desconfinando
o fuste da estaca, criando problemas de
instabilidade tanto durante a cravaçào como na sua
fase de trabalho.
Se a estaca metálica estiver em contato com
água ou cm locais que possam sofrer erosão
ou ainda quando a mesma for cravada através
de aterros heterogêneos construídos com materiais
lançados, o encamisamento em concreto
armado dessa região da estaca (mais um segmento
de 2 a 3 m dentro do solo natural) é
uma solução eficiente. Esse encamisamento
pode ser feito a priori (Figura 9.36") ou a
posteriori (Figura 9.37), esle, segundo
Golombek (1970;, usado com bens resultados
cm várias obras da Baixada Santista, bem como
na Ponte Giratória do Recife.
NA (ff*i)
TRECHO HAO CNOUSACO (-OOorr)
WW
SEM c
PCMTTW A CMVACAO
o coNcmro
SOLO
RESISTENTE.
Fig. 9.36 - Proteção recomendada para cstacas
metálicas, executada a priori
ÇORIÍL0
X '
* •
Fig. 9.35 - Procedimentos náo recomendados para
aumentar a área dc ponta de cstacas metálicas
recomenda uma espessura mínima <?, cm mm, obtida
pela expressão:
em que D, em cm, é o diâmetro da estaca.
Um problema que ocorre com freqüência durante
a cravaçào, por percussão, de estacas metálicas
através de solos dc baixa resistência é o
encurvamento de seu eixo mesmo quando se tomam
todos os cuidados para aprumá-las. É um fenômeno
decorrente da instabilidade dinâmica
direcional (também denominado drapejamento) que
sc manifesta durante a cravaçào e que será tratado
ao final deste item.
Outra causa de acidente com estacas metálicas
durante a cravaçào decorre da utilização de espessura
dc chapa abaixo de certos limites. Para as estacas
tubulares a API (American Petroleum Institute)
9.2.4 Estacas Pré-moldadas de Concreto
De todos os materiais de construção, o concreto
é um dos que melhor se presta à confecção de
estacas e em particular das pré-moldadas pelo controle
da qualidade que se pode exercer tanto na
conlecçào quanto na cravaçào.
Estas estacas podem ser confeccionadas em concreto
armado ou protendido adensado por
centrifugação ou por vibração, este de uso mais
corrente.
CWMM> C<
O «TT*NO
WfcOBWDO W TOU
CONCSCO P--ASTKO
PlfDOO
(S.UUP . Mm} "
W
d»V*CAO. fC* UMCCM.
CONCKCTACCM soe
OfTU®0MCTAUCO <t*000
AL* C0MP«4«0
Figura 9.37 - Proteção recomendada para estacas metálicas, executada a posteriori
O processo dc adensamento por centrifugação
(Figura 9-38) é utilizado, em nível nacional, por
poucas empresas, razão pela qual é pouco divulgado.
A estaca pré-moldada centrifugada é
obtida em fôrma metálica cilíndrica, vazada nas
extremidades (Foto 9.26), no interior da qual
se posiciona a armadura e se deposita o concreto,
regularmente ao longo da fôrma. Esta a
seguir é depositada sobre roletes que giram a
velocidade constante (SOO a 660 rpm) por um
período, ao final do cjual a forma é ligeiramente
levantada, por um tios lados, para escoar,
pela extremidade vazada, o excesso de água e
finos.
Devido à alta velocidade de giro da fôrma, o
concreto em seu interior fica submetido a uma
força centrífuga que faz com que seja uniformemente
distribuído ao longo da face interna da
fôrma, obtendo-se uma estaca circular, com seção
vazada. A força centrífuga, por unidade de
volume, é obtida pela expressão:
( .>' , «..»' y.
f =
' — - - T < 4 >
Foto 9.26 - Vista de uma centrífuga para confecção de
estacas
armadura
forma
reforço do formo
- sobre os roletes
pcrofusos
a) Instolacao do armadura, b) Centrifugação com velo- b) Finol do centrifcgacao
do concreto e fechamento cidade angular constante
da formo
Fig. 9.38 - Esquema do processo de adensamento do concreto por centrifugação
Em que fc é a força, por unidade de volume,
que o concreto exerce sobre a face interna da
forma, yc é o peso específico do concreto (22 kN/
m } ), yé a aceleração da gravidade (10 m/s 2 ), v é a
velocidade tangencial decorrente da rotação e R é
o raio interno da fôrma.
Por exemplo, o concreto dentro de uma fôrma com
60 cm de diâmetro girando a 600 rpm fica submetido
a uma força centrífuga (por unidade de volume da
massa em rotação) de cerca dc 120 vezes o seu peso
específico, conforme sc mostra a seguir.
fí = f)' 03Í) s 2650
kN/mJ
ou seja, fdyc = 2650/22 = 120
As seções transversais mais comumente empregadas
para as estacas pré-moldadas de concreto
são a circular (maciça ou vazada), a quadrada, a
hexagonal e a octogonal. Como o peso unitário
das estacas maciças é proporcional ao quadrado
do diâmetro (ou do lado), as mesmas se limitam à
dimensão dc 30 x 30 cm, quando a seção é quadrada
e a 40 cm de diâmetro quando a seção é
circular. Seções maiores sào normalmente vazadas.
Para se reduzir ao máximo a armadura das estacas,
além da redução do peso próprio (scçâo vazada)
devem ser selecionados pontos para levantá-la de
modo a obter igualdade dos módulos dos momentos
fletores máximos positivo c negativo. Nos casos
comuns as estacas costumam ser levantadas por um
ou por dois pontos (Figura 9 39). Nestes casos, sendo
p o peso próprio da estaca, por metro, tem-se:
a) Levantamento por um ponto (Figura 9.39a)
O processo de centrifugação ordena os agregados
confonne sua densidade. O cimento, a brita e a areia,
cujas densidades são próximas, tendem para a face dc
contato com a fôrma, ou seja, para a face externa da
estaca. Ao contrário, os materiais finos (gesso, escória
leve, cinzas etc) e a água, por possuírem menor densidade,
tendem para a parte intema da peça. É por
essa razão cjue neste processo deve-se controlar o
tempo de rotação para evitar a separação pura c simples
dos materiais. Além disso as firmas que executam
este processo não recomendam o uso de cimento
de escória de alto-fomo, pois as paredes da estaca
costumam sofrer "queda" ao final da centrifugação.
Tanto nas estacas vibradas quanto nas centrifugadas
a cura do concreto é feita a vapor, de modo a permitir
a desforma e o estoque das mesmas no menor tempo
possível. Cabe lembrar que a cura a vapor só acelera
o ganho de resistência nas primeiras horas mas nào
diminui o tempo total necessário para que o concreto
atinja a resistência final. Por isso as estacas devem
permanecer no estoque um período que independe
de serem ou nào inicialmente curadas a vapor.
2 2(/-*)l2 J (5)
onde o 1 Q membro representa o momento negativo
no ponto de suspensão e o 2 o membro o momento
positivo máximo no vão (entre o ponto de
suspensão e a ponta da estaca que toca o SDIO).
Daí, obtém-se.
- = 0,29
/
ou, aproximadamente — 2
donde se chamar levantamento
pelo terço,
(6)
b) Levantamento por dois pontos (I-igura 9.39 b)
Analogamente ao caso anterior pode-se escrever:
/»'
[(/-2Q'
2 'l 8 2
onde - = o.207 ou - í
I "5
o que justifica dizer-se levantamento pelos quintos.
. U
U-j * ~
ANEL
a) Levantamento pelo terço
a
b) Levantamento pelos quintos
a) por um ponto
b) por dois pontos
Fig. 9.39 - Pontos recomendados para levantamento
das estacas pré-moldadas
F
H
No cálculo da armadura deve-se majorar em
30% o valor dos momentos máximos a fim de
levar em conta eventuais choques que ocorrem
durante a manipulação da estaca. Além disso, os
estribos devem possuir menor espaçamento nas
regiões da cabeça e da ponta da estaca, locais
onde há maior concentração de tensões durante
a cravaçào.
Para nào onerar o custo de transporte das
estacas desde a fábrica até a obra, seu comprimento
é limitado a 12 m, pois comprimentos
maiores necessitam licença especial para
tráfego. Por isso quando se necessita dc estacas
com mais de 12 m as peças devem ser
emendadas. Inicialmente essas emendas eram
constituídas por anéis metálicos (Figura 9.40a)
ou por luvas de encaixe, do tipo "macho e
fêmea" (Figura 9.40b).
Como esses tipos de emenda costumam, em
certos tipos de terreno, causar problemas durante
a cravaçào (como no caso mostrado na Figura
9.52), a NBR 6122 recomenda que a emenda
seja do tipo soldável (Figura 9.41) só tolerando
emendas por anel ou luva de encaixe
quando nào haja esforços de tração tanto na
cravaçào como na utilização.
Fig. 9.40 - Emendas por luva e por encaixe
A carga máxima estrutural das estacas pré-moldadas
é comumente indicada nos catálogos técnicos
das firmas fabricantes. É importante lembrar
que as cargas indicadas nesses carálogos devem
ser entendidas com ''máximo maximorum" que
somente poderão ser adotadas se as estacas puderem
ser cravadas até comprimentos compatíveis
com a transferência de carga para o solo que lhe
dá suporte. Como raríssimas vezes isto ocorre, a
carga admissível costuma ser inferior aos valores
indicados nos catálogos. A Tabela 9.16 reproduz
duas dessas tabelas, respectivamen.e para as estacas
centrifugadas e as estacas vibradas.
Um problema que freqüentemente ocorre nas
estacas pré-moldadas dc concreto, principalmente
se forem vazadas e nào protendidr.s, diz respeito
CORDÃO DE SOLDA CONTINUO
ELETRODO OK 4S(J.25nnm DF DÃVtl
V *
ANEL DE CHAPA (SA£ 1010/1020)
ESPESSURA VARAVEL (5 A 10rrm)
v
-C
V
E
..M"* *
. a
• • V *
-I <"•' ' ,
T
1«
\ a •_
ESOiRAL
BARRAS SOLDADAS
AO ANEL
FERRAGEM
LONGITUDINAL
Wm _L :
í
_ „e= 5 c 10mm
"h= 6 o 15cm
CORTE
Nota: h e e sào funçào do diâmetro da armadura longitudinal e do diâmetro da estaca
Fig.9.4I - Emendas por solda
às fissuras (abertura inferior a lmm) e às trincas
(abertura superior a 1 mm) bem como aos critérios
qui devem ser adotados para aceitar ou rejeitar
essas estacas. Como a NBR 6122/96 nào aborda
este assunto, volta e meia surgem discussões entre o
proprietário, o projetista e o fornecedor de estacas,
que por falta de limites normalizados sào de difícil
consenso.
Para suprir esta lacuna, pode-se adotar a classificação
e os limites a seguir indicados, para as estacas
tctal e permanentemente enterradas:
Classe 1: Fissuras transversais, Isto é, aquelas que
apresentam abertura máxima de 1 mm em plano
transversal ao eixo da peça. Neste caso, segundo o
anexe • da NBR 7480 (antiga EB3), a fissuraçào nào é
nociva quando as fissuras (ou pelo menos 85% delas)
nào ultrapassam as valores:
a; 0,3 mm para estruturas protegidas com revestimento:
b) C,2 mm para estruturas expostas em meio nào
agressivo;
c) 0,1 mm para estruturas expostas cm meio
agressivo.
Assim, se as fissuras estiverem dentro destas faixas,
nenhuma providência especial precisa ser tomada.
Quando as fissuras ultrapassam estes valores,
porém nào atingem 1 mm, a estaca deverá ser
marcada, riscando-se com lápis de cera especial junto
às fissuras para identificação das mesmas.
Estas estacas deverão ser cuidadosamente acompanhadas
durante seu içamento e aprumo junto
ao bate-estacas, após o que novo exame deverá se
efetuado junto às marcas de lápis.
Caso as fissuras tenham se fechado até os limites
acima mencionados, indicando que a armadura
longitudinal nào ultrapassou o estado elástico, a
estaca será cravada normalmente. Em caso contrário
a estaca deverá ser rejeitada.
Classe 2: Fissuras longitudinais, isto é, aquelas
que apresentam abertura máxima de 1 mm paralelamente
ao eixo longitudinal da peça. Este tipo de
fissura, relativamente rara, é suficiente para rejeitar
a estaca.
Classe 3: Trincas transversais, isto é, a quelas
que apresentam abertura superior a 1 mm em plano
tn.nsversal ao eixo da peça são prenuncio de
que a armadura longitudinal superou o estado elástico
e a estaca deverá ser rejeitada.
Classe 4: Trincas longitudinais deverão ser
tratadas da mesma forma que o caso 2. A Foto 9.27
mostra uma estaca vazada com esse tipo de trinca
provocada pela pressào radial interna exercida por
solo mole com água durante a cravaçào. Para evitar
este problema, neste tipo de solo, a ponta da estaca
deve ser fechada para nào permitir a entrada do
material mole com água, que ao atingir o capacete
c nào tendo por onde sair, cria pressões internas
analogamente a um pistào hidráulico.
Classe 5: Desagregações isto é, pequenas.partes
superficiais da peça que se soltam por motivos
diversos, geralmente pancadas acidentais. Neste
caso a estaca deve ser recuperada na região da
área afetada.
Tabela 9.16 I Características técnicas de estacas pré-moldadas
(a) Estacas Centrifugadas
Ooti. Ccf<;<? Mo*
# Ertrut.
(<m) (*N) •
P*»o
Mominot
(K0/m)
Up.
Por**
(cm)
VM óa
S+coo dt
Oxxr^.o
Cem2)
Areo <5«
S«cao ch«o
(cn>2)
Parirotro
(cm)
b< «loteio
mlmiK»
•otra Mot
(em)
A/rnadura
Un&uóM
r-e©
20 300 66 6 je* 314 63 70
23 400 80 6 320 415 72 70
26 500 94 6 377 531 82 70
33 750 143 7 572 635 104 83
38 900 170 7 662 1134 119 93
CA-SCK
42
1150 214 8 «55 1385 132 105
50 1700/1800 2*0 9/10 1159/1237 1963 137 130
60 2300/2500 383 10/11 1571/1693 2827 188 130
70 3000/3300 310 11/12 2039/2167 3848 220 175
(b) Estacas Vibradas
ClOUflMA
DA
5LCAC
OtUfNSOES
CM
SEGAO
(cm)
CAKCA
UAXIMA
EsrmraiRAL
(KN).
PfSO
HONHUL
(Kfl/m)
ARfcA DA
sroo DC
CONCRCIO
(tm2)
ARCA CA
SCCAO
QCW
(cm2)
P£KB*TRC
(cm)
LXSTANCH
UNIUA
CN-KC EIXOS
(em)
AftlW>uRA
LONCnuOUML
TIPO
15 x 15 320 58 225 225 60 60
i
•—a
17 K 17 *oo 73 289 289 &8 «O
JL_
&
21.5 x 21.5 670 116 462 462 M 60 RN-150
23.5 * 23.5 820 138 532 552 94 65
26.5 K 26.5 ioeo 175 702 702 106 75
#38 1380 197 7BO 1015 116 90
< o )
#42 1580 227 908 1324 132 105
•5 2 2440 J«0 1438 2011 162 130
C4-50A
Notas:
Nas Tabelas acima adotaram-se as seguintes características dos materiais:
concreto: fck - 35 MPa
aço: Estacas armadas CA 50A :
fyk = 500 MPa
Estacas protendidas CP ]50 RN: fyk - 1500 MPa
(•) A carga máxima estrutural atende ao item 7.8 3.5 da NBR 6122/96. A carga admissível deverá ser
fixada após a análise do perfil geotécnico e a cravabilidade.
Classe 6: Ruptura no corpo da estaca: se a
ruptura ocorrer na descarga ou durante o içamento
e for justificável economicamente, a estaca poderá
ser recuperada. Se a ruptura ocorrer durante
a cravaçào, deverá ser analisada a causa e. dependendo
desta e da profundidade onde ocorreu a
ruptura, a estaca poderá ser extraída, abandonada
ou coitada e recuperada para a continuação da
cravaçào. Na Foto 9.28 mostra-se uma estaca rompida
na emenda durante a cravaçào, que após
análise foi abandonada e na Foto 9.29 outra estaca
rompida que permitiu sua recuperação. Esta
recuperação costuma ser feita com produtos à base
de epóxi, de modo a poder cravar a estaca no
menor tempo possível.
Classe 7: Esmagamento da cabeça da estaca,
caso semelhante ao de n° 6, podendo ser causado
por folgas do capacete, deficiência do "coxim" ou
decorrente de uma cravaçào forçada. Sào válidas
as recomendações do caso anterior.
Foto 9.28 - Ruptura na emenda em estaca pré-mo dada
leves (tipo TEX 10). Para o caso de estacas
cuja seção de concreto for inferior a 2.000 cm 2 ,
os últimos 10 cm somente poderão ser removidos
com ponteiro na posição indicada na
Figura 9.42b.
Se o topo da estaca estiver abaixo da cola de
arrasamento (Figura 9.42c), deve-se fazer a demolição
do comprimento necessário da estaca de
Foto 9.27 - Trincas longitudinais cm estaca vazada
Sc* o topo da estaca estiver acima da cota de
arrasamento (Figura 9.42a), a mesma deverá ser
demolida até essa cota usando-se procedimentos
que não causem dano à estaca. Nessa operação
podem ser usados ponteiros ou marteletes
Foto 9.29 - Recuperação de uma estaca pré-moldada
de concreto
a) remoção inicial com martelo pneumático b) posições lx>a, má e preferível do ponteiro c) recomposição da estaca
Fig. 9.42 - Preparo da cabeça da cstaca para ligação com o bloco
modo a expor o comprimento de transpasse da
armadura e recompô-la, até a cota de arrasamento,
com concreto e aço, de modo a ter carga estrutural
no mínimo igual à da estaca.
9.2.5 Cravaçâo das Estacas
As estacas pré-moldadas podem ser cravadas
por prensagem, por vibração ou por percussão.
A cravaçâo através de terrenos resistentes pode
ser auxiliada por perfuração prévia, a seco ou
com uso de lamas estabilizantes. Neste último
caso, se a estaca for vazada, deve-se fechar a
ponta para evitar o tipo de ruptura mostrado na
Foto 9.27. No caso da cravaçâo através de areias
compactas pode-se utilizar jato d água ou ar
(Figura 9.43), processo denominado "lançagem".
Nas areias da Baixada Santista, onde o processo
de lançagem não apresentou resultados
satisfatórios, tem sido usada a perfuração conforme
se detalha na Figura 9.44 e na Foto 9 30.
Entretanto qualquer que seja o recurso para auxílio
da instalação, o final da estaca será sempre
cravada por percussão.
Cravaçâo de um tubo metálico, utilizando martelo
de queda livre, com a extremidade superior
fechada e provido de furos na parte inferior (Foto
9-30a), cujo diâmetro é maior que a superior. O
jato d'água (eventualmente misturada com lama
estabilizante), sob alta pressão ao sair pelos furos
da parte inferior do tubo promove a circulação
da água criando uma prefuração estável por
um certo tempo, suficiente para instalar, em todo
comprimento, um segmento pré-moldado de concreto
sobre o qual se solda um outro para permitir
a cravaçâo por percussão da estaca até a
cota desejada.
9.2.6 Cravaçâo por Prensagem
A cravaçâo de estacas por prensagem, inicialmente
idealizada para reforço de fundações, tem
sido utilizada para as fundações normais onde
há necessidade de evitar vibrações, barulho, ou
mesmo os inconvenientes decorrentes da retirada
de detritos de estacas executadas por perfuração.
Além disso este processo executivo tem uma importante
vantagem sobre todos outros: a de que
em toda estaca cravada se realiza uma prova de
carga até 1,5 vez a carga de trabalho. Isto confere
ao estaqueamento um controle da qualidade ainda
não atingido por qualquer outro tipo de fundação.
Para a cravaçâo por prensagem i.tilizam-se macacos
hidráulicos que reagem con:ra uma plataforma
com sobrecarga (Figura 9-45a e Foto 9-32)
ou contra a própria estrutura (Figura 9.45b e Foto
9.33). Neste último caso é necessário, antes de
mais nada, que o terreno possa suportar uma certa
carga uma vez que, inicialmente, a construção
será assente sobre fundação rasa, constituída pelos
blocos de coroamento das estacas com furos
previstos para a passagem das mesmas.
Além disso, a cravaçâo das estacas por este processo
é feita aos pares e simctricamente em relação
ao eixo do pilar, enquanto as demais estacas
do bloco permanecem incorporadas provisoriamente
(Foto 9.33b) para evitar giro do mesmo.
9.2.7 Cravaçâo por Vibração
Para cravar estacas metálicas com melhor eficiência
foi desenvolvido na antiga União Soviética
um processo de cravaçâo por vibração uti-
Injeção de aguo ou ar
pelo interior da estoco
Este é o processo mais utilizado para a instalação
de estacas pré-moldadas. Para tanto utilizam-se
pilões de queda livre (Foto 9.34) ou aua)
Tubo de perfuração
PilOO
injecoo de
aguo ou or
—
n
Tubo de injecoo suspenso
por cobo paro permitir
suo subida e descida
quando necessário
Injeção de ogua ou or
externamente a estoca
Fig. 9.43 - Esquema do processo de'lançagem"
b) Furo pronto
Foto 9.30 - Perfuração das areias da Baixada Santista
lixando um nartelo, dotado de garras para fixação
à estaca, com massas excêntricas que ao girarem
rapidamente produzem uma vibração de alta
freqüência que é transmitida à estaca. Este princípio
de funcionamento é esquematizado na Figura 9.46.
Este martelo tem seu campo de aplicação nào
só na cravaçào de estacas metálicas, como também
na sua remoção, quando sào usadas em
escoramentos provisórios. Entretanto, diante das vibrações
transmitidas ao solo e às obras próximas,
bem como de alguns problemas operacionais, hoje
em dia seu uso é bem restrito, razão pela qual se
deixa de entrar em maiores detalhes deste processo
de cravaçào.
9.2.8 Cravação por Percussão
Trovo de reação
Sobrecarga
Macoco hidráulico
S
«SC «MOMO CRW»
C" t\\
ARI IA COMPACTA A
MUITO CCMTACTA
I
I
í\ n PONTEIRA
(VER rOTO IOo)
= L
t
^:
ARCk/i MOLE
I I
0) PLATAFORMA COM SOBRECARGA
ARflA CCMPACIA
Fig. 9.44 - Processo alternativo quando a lançagem
não e eficiente
MOTOR
t>) REAÇÃO NA ESTRUTURA
EXCENTRlCA
Fig. 9.4S - Instalação de estacas por prensagem
PRENDER A
ESTACA
Fig. 9.46 - Esquema de funcionamento de um
martelo vibratório
tomáticos também denominados martelos dicsel
(Figura 9.48). Para amortecer os golpes do
pilão e uniformizar as tensões por ele aplicadas
ã estaca, instala-se no topo desta um capacete
dotado de "cepo" e "coxim", conforme se mostra
na Figura 9.47.
Na Figura 9.49 mostra-se o princípio de funcionameno
dos martelos automáticos e na Tabela
9.17 as principais carecterísticas destes martelos.
a) Vista da plataforma
b) incorporação provisória
b) Vista do prolongador para cravar
estacas na divisa
Foto 9.31 - Cravaçâo dc estacas por prensagem
utilizando plataforma
Foto 9.32 - Cravaçâo de estacas por prensagem
reagindo contra a estrutura
CEPO DE MADEIRA
DURA
Z—zz
PEÇA METALICA
DETALHE DO CAPACETE
COXIM DE MADEIRA
MOLE
Nota: no caso de estacas metálicas, nào se usa coxim.
Fig. 9.47 - Detalhe do cepo
A EXPLOSÃO
CAPACETE
PlSTÂO"
DISPOSITIVO
PARA SUSPENSÃO
DO PISTÀO
TORRE
a) vista geral
TORRE
TANQUE
OE ÓLEO
BOMBA
OE ÓLEO
A
A
- CILINDRO
BIGORNA
Fig. 9.48 - Esquema de cravaçào com martelo automático
(martelo diesel)
Nos martelos automáticos, ao contrário dos martelos
de queda livre, nào é possível medir, de maneira
direta, a altura de queda do pistào. Esta é
estimada em função da parte visível do mesmo
em rclaçào à camisa externa em cada impulsionamento,
para cima, do pistào (Tabela 9.18).
A cravaçào com os martelos automáticos é mais
eficiente que a cravaçào com maneios de queda
livre em vinude da maior freqüência de golpes
aplicados à estaca, o que faz com que a mesma
esteja em contínuo movimento durante a cravaçào.
Entretanto, apresenta como principais desvantagens
o barulho e a liberação de gases misturados
com óleo diesel queimado, que sào carreados
pelo vento atingindo pessoas e Ixms na vizinhança
da obra. As tentativas tle se envolver o martelo
com uma protcçào para resolver este problema
em obras urbanas nào tem apresentado resultados
satisfatórios e hoje a tendência é só utilizálos
em obras industriais fora das cidades.
b) cravaçào com suplemento
Foto 9.33 - Cravaçào com martelo de queda livre
(a) Para iniciar o processo, o pistâo (D é levantado pelo cabo do bate-estaca e deixado cair por
gravidade. Este movimento do pistâo aciona o mecanismo da bomba de combustível (2) injetando óleo
diesel (3) na bigorna. Na descida do pistâo (fase b), este comprime o ar no interior do cilindro junto com
o óleo d:esel (face c). Devido ao impacto na bigorna, provoca-se a igniçâo do combustível. A explosão
é transmitida â estaca através da bigorna. O pistâo é impulsionado para cima no momento do impacto,
abrindo as válvulas de sucção c descarga (i) permitindo nesse percurso a expulsão dos gases da exaustão.
Continuando o curso, admite o ar necessário para o ciclo seguinte. Alcançada a posição superior, o pistâo cai
repetindo a seqüência, em operação contínua. A bomba de combustível é equipada com dispositivo dc
regulagem ligado a uma corda controlada por um operador junto ao batc-estacas, permitindo o ajuste da força
dc impacto, bem como desarmar o sistema, quando se quer interromper a cravaçâo.
TANQUE
or dito
ai&oatM
Fig. 9.49 - Fases de funcionamento do martelo a automático [martelo diesel)
I Principais características dos martelos Kobc
Modelo
Descrição unidade Kl 3 K25 K35 K45
Comprimento :otal mm 4.050 4.550 4.550 4.825
Diâmetro da bigorna mm 485 590 700 800
Diâmetro dc pistão mm 615 768 881 996
Peso total kN 29 52 75 105
Peso do pistâo kN 13 25 35 45
N° de golpes/minuto - 40-60 40-60 40-60 40-60
Ene-gia por golpe kN.m 30 60 85 110
Inclinação máxima graus 20 20 20 20
Secundo o catálogo da Kobc, a pré-seleção
do martelo automático deve ser feita de modo a
que a relaçf.o entre o peso do pistâo W e da
estaca P seja:
^zv<2r (9)
Quando a cravaçâo for feita utilizando-se pilòes
de queda livre, estes deverão ter um peso mínimo
fixado na NBR 6122 para cada tipo de cstaca (Tateia
9.19). A altura dc queda, cm metros, para este
tipo de martelo, deve ser adotada da ordem dc:
= (10)
Este valor dc li bem como o peso \V do pilão
podem ser aumentados desde que as tensões dinâmicas
decorrentes da cravaçâo sejam inferiores
85% da resistência característica do concreto da
estaca.
]j&efa_5LJLS I Altura dc queda fem) dos martelos Kobc
para diversas posições visíveis do pistáo
Parte
visível K13 K25 K35 K45
A 130 140 135 MO
B 140 150 140 150
C 145 155 145 155
D 150 165 160 170
E 165 180 175 190
F 170 185 180 195
G 180 195 190 200
H - 200 200 220
1 240 210 245 250
É importante lembrar que o pilào deverá ser
supenso por cabo simples (Figura 9.50a)
desaconselhando-se a prática dc dobrar o cabo
(Figura 9.50b). Na Figura 9.51 apresenta-se o resultado
da recravaçào de 3 estacas (e as sondagens
próximas) dc uma obra onde tal prática estava
sendo usada porque o guincho do bate-estacas
nào tinha potência para levantar o martelo
de 25 kN utilizado na cravaçào de estacas prémoldadas
de 42 cm de diâmetro (2,27 kN/m).
Para compensar as perdas por atrito devido à
dobra do cabo, o pilào estava sendo levantado
de 1,5 m. Com este procedimento as estacas atingiam
a "nega" antes da cota prevista cm projeto.
Substituído o bate-estacas, de modo a permitir
levantar o pilào com cabo simples, e usando-se
altura dc queda de lm, as cstacas foram recravadas
em mais de 2,5 m a 4,8 m. À direita de duas das
estacas da Figura 9.51 apresenta-se o número dc
golpes para cada 50 cm de penetração, usando-se
o cabo dobrado e nas tabelas o número de golpes
com altura de 1 m e a penetração Ah, em cm,
usando cabo simples na recravaçào.
J 250 250 250 -
o) RECOMENDÁVEL
Tabela 9.19 | Pesos mínimos para pilões dc queda livre
Tipo de estaca W/P W min (kN)
Madeira 1.0 -
Metálica 0.5 10
Concreto 0.7 15
rig. 9.50 - Proccdimcntoj rccomcndAvcij c não
recomendáveis para o cabo do piláo
Quando a cota de arrasamento das estacas estiver
abaixo da cota de cravaçào, pode-se utilizar
um elemento suplementar, denominado prolonga
ou suplemento (Foto 9 34b), desligado da estaca
propriamente dita, que será retirado após a cravaçào.
A nào ser que se usem dispositivos especiais,
devidamente comprovados c que garantam o
posicionamento da estaca até as profundidades de
projeto sem redução da eficiência da cravaçào, a
profundidade do suplemento está limitada a 2,5
metros abaixo da cota de cravaçào.
SP-OÍ E 3.3 E 3.6 £ 2.9 SP-04 CONVENCAO
Comprimento crovcco com cobo Cobrado (h"1.5m)
Comprimento crovcdo com cabo simples (H"1,Cm)
h « oitj>o de quedo do -norteio
bh • penetrocoo de estoco em ÇT, no reco vaco o
n = nego poro 10 golpes com r> = I.Om
SOLO I: oterro de orgilo 9üto orenoso
SOLO 2: crgilc orgcnicc
SOLO 3: areia fina e media pouco o r giioso com
sedrcguhos
SOLO 4: crgilc s'itoso pouco orenoso
RECRAVACAO COM CABO SIMPLES (h«1.0m)
E 3.3 E 3.8
44.193 '
2 Ah»4.94m
n"J0mTi
35 mm
; Ah N j
30
50 100
f, 0 67
50 42
44 :
iM
-
5o 1 134
26 122
2 A*=»4.84m
n»20mm
lOmm
5mm
E 3.9
I áh I N
50 33
.50 . 39 1
W 41 •
.30. ..si_
50 43.
J - H j
1 29 206
2 áh«4.50m
n»20 mm
1 Smm
Snm
Jmrr
Fig. 9.51 - Resultado da cravaçào com cabo dobrado c com cabo simples
9.2.9 Controles de Campo
A capacidade dc carga contra a ruptura dc uma
estaca corresponde ao menor dos valores: o da
resistência estrutural do material que a compõe
(conforme Tabelas 9.13, 9.1'í c 9.16) c o da resistência
do solo que a envolve, que cm última instância
ó que lhe dá suporte.
Desta forma, o controle da capacidade de carga
de uma estaca engloba a análise da integridade e
da continuidade estrutural dos seus elementos componentes,
verificação das profundidades atingidas
e sua comparação com as previstas em projeto bem
como a aferição da interação da mesma com o solo.
Neste último controle, há que verificar a ocorrência
ou não dos fenômenos da relaxaçào (perda de
capacidade de carga com o tempo após a cravaçào)
e da cicatrização (aumento dc capacidade
de carga com o tempo após a cravaçào) que se
devem às mudanças das características de resistência
do solo a partir do final da cravaçào.
Fenômeno que tem ocorrido com relativa
freqüência em nossos solos é o "levantamento"
(Vargas 1980), razão pela qual é recomendável controlar
topograficamentc o topo das estacas em todas
as obras a fim de detectar a possibilidade de
estar ocorrendo este fenômeno, quando da cravaçào
dc estacas vizinhas, e, se isso for confirmado,
recravá-las. Além disso, sc este fenômeno for
constatado, as emendas das estacas deverão ser obrigatorian>ente
por solcla. para evitar separação dos elementos
emcndidos, conforme se mostra na Figura 9.52.
r-ii-.ii
n lunn
i i
' » t
w >
U
V
' \
h
Ff
V
PilOO
Couccwic
Eslocq sendo
crovodo
..I" III I
* /
SEPARACA0
NA EMENDA
f 1!
a
Levanto mento
.11 II
Fig. 9.52 - Caso de "levantamento" onde só sào
aceitas emendas por solda
9.2.10 Controle de Estacas Cravadas por
Prensagem
O controle, neste tipo de cravaçào, deve ser feito
em três etapas. Nas duas primeiras a estaca é
carregada até 1,5 vez a carga de trabalho, deixada
em carga durante 5 minutos e a seguir descarregada,
medindo-se os recalques totais e permanentes. Na
terceira etapa a estaca é carregada até a carga de
trabalho, deixada em carga durante 10 minutos e a
seguir descarregada, medindo-se o recalque permanente.
Para se aceitar a estaca, a média dos recalques
permanentes das duas primeiras etapas deverá ser
inferior a 10 mm e o recalque permanente da terceira
etapa deverá ser inferior ao menor dos dois
recalques permanentes das etapas anteriores.
Para confirmar que nào ocorre o fenômeno da
relaxaçào, além dos três controles acima mencionados
deve-se selecionar, em cada semana, uma
estica executada e aceita que será deixada em carga
de trabalho desde sábado até segunda-feira. Para
o estaqueamento executado nessa semana ser aceito
esta estaca deverá apresentar recalque permanente
inferior a 5 mm.
9.2.11 Controle de Estacas Cravadas por
Percussão
O controle da capacidade de carga das estacas
cravadas por percussão pode ser feito por um ou
mais dos seguintes procedimentos: prova de carga
estática, nega (e gráficos de cravaçào), repique
e instrumentação dinâmica.
Controle das Estacas por Prova de Carga Estática
Este procedimento de controle da capacidade
de carga das estacas ainda é o melhor, embora
apresente alguns inconvenientes (tempo e custo).
Consiste em aplicar cargas à estaca medindo-se
os recalques correspondentes, conforme recomendações
da NBR 12131.
A NBR 6122/96 fixa em 1% o número de provas
de carga estáticas de um conjunto de estacas prémoldadas
com as mesmas características na obra,
respeitando-se o mínimo de uma prova de carga.
Quando se realizam estas provas de carga, a priori,
permite-se reduzir o coeficiente de segurança global
do estaqueamento de 2,0 para 1,6. (Nota da
Tabela 1 da NBR 6122/96).
Controle de Estacas pela Nega
O controle da capacidade de carga de estacas cravadas
utilizando a "nega" e o gráfico de cravaçào é
uma tradição mantida até os dias de hoje, apesar
do avanço de outros processos mais confiáveis por
apresentarem menor dispersão. A "nega" corresponde
à penetração permanente da estaca causada
pela aplicação de um golpe do pilão. Em geral é
medida por uma série de dez golpes.
Todas as fórmulas de controle pela "nega" foram
estabelecidas, comparando-se a energia aplicada
pelo pilão no topo da estaca com aquela gasta
para promover a ruptura do solo, em decorrência
de sua cravaçào, somada às perdas, por impacto
e por atrito, necessárias para vencer a inércia
da estaca imersa na massa do solo.
W.h = R . s + perdas (11)
em que h é a altura de queda dc pilão, \V seu
peso, R a resistência do solo à penetração da estaca
e s a nega correspondente ao valor de h.
As principais críticas que se fazem às fórmulas
que utilizam a nega sào:
a) Essas fórmulas foram baseadas na Teoria de
Choque de Corpos Rígidos, formulada por
Newton, pressupondo-se que o corpo obedece à
lei de Hooke e que a resistência é mobilizada
inteiramente ao longo de toda a massa, em movimento,
de forma instantânea. Essa hipótese pode
ser aplicada, por exemplo, ao choque de bolas dc
bilhar, mas está longe da realidade do "movimento"
de uma estaca sob a ação do clioque do pilào.
b) A resistência mobilizada pelos golpes do pilào
nem sempre é suficiente para despertar a resistência
máxima disponível que o solo pode oferecer.
c) Existem fatores pouco conhecidos envolvidos
no fenômeno, tais como a energia real aplicada
à estaca (que é avaliada como uma porcentagem
do peso do pilão vezes a altura de queda) e
a influência do coxim c do cepo instalados no
capacete.
Apesar das críticas às fórmulas das negas, as
mesmas têm uma aplicação no controle da uniformidade
do estaqueamento quar.do se procura
manter, durante a cravaçào, negas aproximadamente
iguais para as estacas com carga e comprimento
da mesma ordem de grandeza. Entre as
várias fórmulas de nega serào apresentadas apenas
as duas mais divulgadas:
Fórmula de Brix
VC' 2 .l>.h
RÍW + I') 2
Fórmula dos Holandeses
w 2 .h
RtW + P) 2 ^ ^
(Nessas fórmulas P representa o peso da estaca.
As demais variáveis foram definidas acima. Na
fórmula de Brix adota-se R igual a 5 vezes a car-
ga admissível da estaca e na fórmula dos holandeses
10 vezes a carga admissível.
Controle das Estacas por Instrumentação
Dinâmica
Para melhorar os procedimentos de controle da
capacidade de carga das estacas pré-moldadas, algumas
firmas iniciaram, a partir de 1983. uma nova
rotina, instrumentando-se as estacas com procedimento
análogo ao que vinha sendo usado em
estacas cravadas em alto-mar para estruturas "offshore"
e que tem como base a Teoria da Equação
da Onda, proposta por Smith (1960)
Essa técnica consiste em utilizar uma instrumentação
dinâmica detalhada no capítulo 20.
O uso da monitoração ou instrumentação dinâmica
para a previsão da carga de ruptura das estacas
cravadas têm aumentado a partir da confirmação
de sua compatibilidade com os valores obtidos
em provas de carga, conforme Aoki e Alonso
(1989). A vantagem da monitoração está no fato
de se poder ensaiar grande quantidade de estacas
de uma obra, em curto período de tempo, ao contrário
das provas de carga estáticas, que são mais
demoradas e onerosas.
Outra vantagem desta técnica é a possibilidade
de ser repetida periodicamente, permitindo assim
verificar se o solo apresenta ou não os fenômenos
da relaxação ou da cicatrizaçâo.
a) vista geral
Controle das Estacas pelo Repique
Paralelamente à instrumentação dinâmica foram
também desenvolvidos estudos dos sinais de repique
(Figura 9.51), obtidos conforme proposião de
Chellis (1951).
Fig. 9.53 - Registro do repique conforme Chellis (1951)
O repique corresponde à parcela elástica do
deslocamento máximo de uma seção da estaca,
decorrente da aplicação de um golpe do pilão.
b) detalhe
Foto 9.34 - Procedimento para a obtenção do repique
Este valor pode ser obtido, por exemplo, através
de registro gráfico em folha de papel fixada na
seção considerada da estaca, movendo-se um lápis,
apoiado em uma régua fixa, lenta e continuamente
durante o golpe do pilão (Foto 9.3 / í\ O
repique, mostrado no detalhe A da Figura 9.53, é
composto por duas parcelas:
K - C2 + C3 (14)
A parcela C2 corresponde à deformação elástica
do fuste da estaca, sujeita ao diagrama de carga
axial N decorrente da transferência de carga da
estaca para o solo. Esse diagrama é obtido descontando-se
da carga N aplicada ao topo da estaca,
a transferência, por atrito lateral, ao solo, conforme
se reproduz na Figura 9.54. Aplicando-se a
lei de Hooke, tem-se:
suprir esta deficiência, é a de adotar C^ igual à
nega. Entretanto isto, cm alguns tipos de solo,
pode ser um procedimento contra a segurança,
como por exemplo em solos resilientes.
Apesar desta dificuldade, o repique, analogamente
à monitoração, pode ser repetido periodicamente
para verificar se o solo apresenta ou não
do fenômeno de cicatrização ou relaxação. Para
tanto, basta repetir o ensaio, numa mesma estaca,
algum tempo após sua cravaçâo com o mesmo
peso W do pilão e mesma altura dc queda h, portanto
mesma energia disponível l(%)\V.h) e comparar
os trabalhos realizados (força x deslocamento),
conforme se mostra na Figura 9.55.
(15)
1 1 PR
x
v&rs. -y w
A \
f$p
i
tvfH
ü? f •
t
1*1
T
o) FINAL DA CRAVAÇÂO
PR • PL + PP —1
DIAGRAMA
OC
ESFORÇO NOH-
MAL NA ESTA-
CA
DESLOCAMENTO
b) DECORRIDO CERTO TEMPO
Fig. 9.55 - Gráficos Carga x Deslocamentos na cravaçâo
e decorrido um certo tempo
Fig. 9.54 • Esforços axiais N ( ao longo da cstaca
Velloso (1987) propôs simplificar a expressão
acima, adotando:
<-2 = 0.7././V
A.E
(15a)
Quanto à parcela C^. a mesma corresponde ao
deslocamento elásico do solo sob a ponta da estaca.
A medida deste deslocamento envolve problemas
operacionais até hoje não resolvidos satisfatoriamente.
A prática que tem sido adotada, para
Igualando-se a enetgia tiansinitida à cabeça
da estaca durante o golpe do pilão (%\V.h)
com o trabalho realizado, pode-se escrever
(Figura 9.55a):
(16)
Recravando-se a estaca com o mesmo equipamento
usado na cravaçâo, dotado do mesmo pilão
e com a mesma altura de queda, a energia transmitida
à estaca será igual à da cravaçâo, e portanto
pode-se escrever:
KWh (17)
Comparando-se as equações (16) e (17), podese
escrever
N2 _ K\ + 2SI
N\ ~ Kl + 252
(18)
Se a expressão 18 apresentar valor superior a 1.
significa que N2>N1 e portanto houve cicatrização.
Ao contrário se N2<N1, houve relaxação. Para
N2-N1 o terreno nào sofreu alterações com o decorrer
do tempo.
9.2.12 Tensões Dinâmicas Devido à
Cravação por Percussão
Para se estimar as tensões de compressão decorrentes
do golpe do pilào, pode-se usar as expressões
extraídas da Teoria da Equação da
Onda, ou formulações mais simples conforme
propõe Lopes e Almeida (1985). Deste artigo
extraiu-se a formulação devida a Gambini (1982),
segundei a qual, quando a nega é pequena (final
de cravaçào). a tensão de compressão, no topo
da estaca, utilizando-se as unidades kN, m e s.
é obtida pela expressão:
o
W.A
cm que:
V n = V2.Í?.A,
c
(19)
\V - peso do pilào, em kN
\V = peso do capacete, em kN
g
D
D
- aceleração da gravidade (10 m/sO
- diâmetro externo da estaca, em m
= diâmetro interno da estaca, em m
e tc - espessura do cepo, em m
e o - espessura do coxim, em m
F. - 8x10* kN/m* (módulo de elasticidade da
»c
madeira do cepo)
H o - 2x10* kN/nr (módulo de elasticidade da
y
c
madeira do coxim)
= 24,5 kN/nr' (peso específico do concreto
da estaca)
= 3 800 m/s (velocidade de propagação da
onda no concreto)
9.2. T 3 Instabilidade Dinâmica Direcional
Um problema que ocorre com relativa freqüência
cm estacas cravadas por percussão através de
espessas camadas de argila mole é o encurvamento
das mesmas, mesmo quando se tomam cuidados
com o prumo durante a cravaçào. Tal fato é, contudo,
raramente, detectado devido à falta de oportunidade
para o exame visual da retilineidade do fuste
após a cravaçào. Além disso, a medida do
encurvamento do eixo das estacas nas obras é um
requinte que raramente é efetuado. Na ampla pesquisa
efetuada por Chan e Hanna (1979), sào citados
apenas 8 casos de obras na literatura universal.
De acordo com Burgcss (1975/76) e Ornar (1978),
imperfeições na retilineidade do eixo das estacas
conduzem a curvaturas do tipo generalizado, enquanto
em estacas sem essas imperfeições <x:orrem
a partir de uma determinada profundicade
crítica /, cujo valor é:
I =N ; I0.w.k
(MO 1
Ut.DJ
;20)
k - _ 0 »
Ecr £ (0
C F B036.[1-«- MW *]
/r = V.C.A.
L
T(O-D)
A -
onde 3 é um coeficiente que depende da relação
entre a carga na ponta e a carga total (varia de 20
a 40), c é a coesão da argila mole, D é o diâmetro
da estaca, Eí-o módulo de elasticidade c I o momento
de inércia da seção transversal.
Assim, a linha elástica apresenta um trecho reto
inicial seguido, a partir da profundidade crítica, de
uma mudança brusca de curvatura que conduz a
um desvio crescente até a ponta da estaca. A iurvatura
final nào ocorre, necessariamente, em um
mesmo plano.
Quando se aplicam golpes do martelo na cabeça
da estaca ocorre o encurvamento do pé da
mesma que leva a uma situação de equilíbrio nào
conservativo, no qual, após cada golpe do pilào. a
ponta se desvia cada vez mais da vertical, e o eixo
da estaca se encurva ao penetrar no solo,
"drapejatido", como faz a extremidade de uma
bandeira ao vento. É um fenômeno inevitável, acarretando
curvaturas, na parte enterrada da estaca,
em muitos casos, superiores ao valor admitido pela
NBR 6122, ou seja, 1%.
O tratamento teórico deste fenômeno só vem
sendo realizado muito recentemente, nào havendo,
ainda, meios de quantificá-lo na fase de projeto.
Por esse motivo a eficiência das estacas e
principalmente das emendas (que neste caso devem
ser do tipo soldadas, proibindo-sc emendas
por anel ou luva) só pode ser comprovada após a
experiência acumulada em várias cravaçòes e provas
de carga nestas formações de argilas moles.
Aoki e Alonso (1988) citam a ocorrência desse
fenômeno quando da execucào do estaqueamento
de três tanques na regiào da Alemoa, na Baixada
Santista, onde foram cravadas 624 estacas dc concreto
centrifugado com 50 cm de diâmetro, parede
de 9 cm e comprimento da ordem de 40 m para a
carga admissível de 1.300 kN. Por se tratar de estacas
vazadas foi possível detectar a profundidade crítica
com o auxílio de uma lâmpada a profundidades
variáveis de 10 a 20 m. Para comprovara capacidade
de carga dessas estacas. 6 delas foram submetidas a
prova de carga estática até o dobro da carga de trabalho,
com resultados plenamente satisfatórios.
Na Figura 9.56 apresenta-se a projeção, no plano
horizontal, do cncurvamento de duas dessas estacas
obtida com um inclinômetro descido pelo interior
das mesmas nas profundidades indicadas na Talx*la
junto a essa figura. Uma das estacas teve seu pé deslocado
de 5,11 m em relação ao topo, e a outra, 2,57 m.
ESTACA
N°
PROF.
(mj
INCLIN.
I o )
DIREÇÃO
1°)
DESLOC.
|m)
l/D (%]
14.80 6 145 0,32 30 2.0
A 20.80 9 210 1.22 42 5.9
29.80 13 173 2.86 60 9.6
38,80 15 137 5.1 1 78 13.1
14.58 2 291 0.1 1 29 0.8
B 20.58 2 165 0.32 41 1.6
26.58 4 268 0.63 53 2.4
32.58 4 257 1.05 65 3.2
NM
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Fig. 9.56 - Projeção em planta e pontos medidos de
estacas cravadas em argila mole
9.3 TUBULÕES E CAIXÕES
URBANO RODRIGUEZ ALONSO
SIGMUNDO GOLOMBEK
Os tulmlôes são elementos estruturais de fundação
profunda construídos concretando-se um poço
(revestido ou íào) aberto no terreno, geralmente
dotado de uma base alargada (Fig 9.57). Diferenciam-se
das estacas porque em pelo menos na sua
etapa final há descida dc operário para completar
a geometria da escavação ou fazer a limpeza de
solo Os tubulões dividem-se em dois tipos básicos:
a céu aberto (normalmente sem revestimento)
e a ar comprimido (ou pneumático), estes sempre
revestidos, podendo este revestimento ser
constituído por camisa de concreto armado ou por
camisa de aço (metálica). Neste caso, a camisa
metálica pode ser perdida ou recuperada.
Figura 9.57 • Geometria de um tubulão
A NBR 6122/96 recomenda que a base do
tubulão deve ser dimensionada de modo a evitar
alturas II superiores a 2 m. Somente em casos excepcionais,
devidamente justificados, admitem-se
alturas superiores. Além disso, quando as características
do solo indicarem que o alargamento da base
é problemático, deve-se prever o uso de injeções, aplicações
superficiais de cimento, ou mesmo o
escoramento, a fimde evitar desmoronamento da Ixtse.
Quando a base sc apóia em solo, deve-se evitar
que entre o término da execução do seu alargamento
e a concretagem decorra tempo superior a
24 horas, caso contrário nova inspeção deve ser
feita por ocasião da concretagem, para avaliação.
Quando a base do tubulão foi assente sobre rocha,
a pressão admissível deve levar em conta a
continuidade desta, sua inclinação e a influência
da atitude da rocha sobre a estabilidade. Se a rocha
for de superfície inclinada o assentamento tia
base deve ser precedido do preparo desta superfície
(por exemplo: chumbamento, escalonamento
em superfícies horizontais), de modo a evitar
deslizamento do tubulão.
Outra recomendação da NBR 6122/% diz respeito
ao caso tle 'ubulões com bases assentes em cotas
variáveis, os quais deverão ser executados iniciando-se
pelos mais profundos, passando-se a seguir
para os mais rasos. Além disso deve-se evitar traba-
Iho simultâneo em bases alargadas tle tubulões, cuja
distância, tle centro a centro, seja inferior a duas vezes
o diâmetro (ou dimensão) tia maior base, valendo
esta recomendação tanto para a escavação quanto
pi ra a concretagem, sendo especialmente importante
quando sc tratar tle tubulões a ar comprimido
9.3.1 Tubulões a Céu Aberto
Inicialmente os tubulões a céu alx-rto eram executados
com revestimento dc concreto analogamente â
tecnologia usada nos tubulões com ar comprimido,
apenas nào utilizando a campânula e o ar comprimido.
Posteriomiente passou-se a executar tubulões tipo
GOW, com revestimento por meio tle camisas tle
aço telescópicas, até a década de 50, quando se
passou a executar este tipo tle tubulões sem nenhum
escoramento das paredes do fuste. lintreranto,
a profundidade dos mesmos estava ainda
limitada ao nível tPágua, condicionante que só foi
eliminada com o surgimento das bombas submersiveis,
passando este tipo tle tubulão a ser executado
mesmo abaixo da cota do nível d f água, desde
que o terreno nào desmoronasse e permitisse a
escavação e o alargamento da base.
Os tubulões a céu aberto tiveram grande USD em
Sào Paulo, com o surto tle construção na região da
Av. Paulista e no bairro tle Higienópolis e posteriormente
com as obras em Brasília.
No caso tle existir apenas carga vertical, este tipo
tle tubulão nào é armado, colocando-se apenas uma
armadura de topo para ligação com o bloco de
coroamento (também denominado tle capeamento).
O fuste, normalmente, é tle seção circular (Figs.
9.57 e 9.59), adotando-se 70 cm como diâmetro
mínimo (para permitir a entrada e saída tle operários).
Ksta dimensão deve também ser usada quando
se perfura mecanicamente o fuste (Fig. Ç.5H),
pois é prática entre nós sempre escavar a base
manualmente com a descida tle operários.
Ac contrário do fuste, a projeção da base do
tubulão poderá ser circular (Fig. 9.59.a) ou em forma
tle falsa elipse (Fig. 9.59.b).
1- prática corrente entre nós dimensionar a área
da base tio tubulão desprezando-se o peso próprio
do mesmo, visto que este valor é desprezível
diante das incertezas dos métodos utilizados para
fixar a tensào admissível do solo. Além disso, também
se despreza, na capacidade de carga, o atrito
lateral resistente entre o fuste e o terreno. Assim,
conhecida a carga P atuante no tubulão e a tensào
admissível ss tio solo onde se apóia a base do
tubulão, pode-se calcular a área da base por:
A fórmula acima é normalmente substituída por
outra mais simplificada e tradicional, conforme
abaixo:
rw v/u*?) f/// •*/// wi/ir/i/r/ii-ii(JfiHEiin?//'*=//)£ ///?///?#,
Figura 9.58 - Equipamento mecânico para perfurar o
fuste dos tubulões
Se a projeção da base for de seção circular, como
está indicado na Fig. 9.59a, o diâmetro da mesma
será:
A.P
71.0 .
Se a projeção da base for uma falsa elipse, como
se indica na Fig. 9.59b, deve-se ter:
7t.b 2 , P
+ b.x =
4 o,
Escolhido b (ou x), obtém-se A: (ou b).
e
em que a t. = 0.85./,, é análogo a uma "tensão
Y/Y,
admissível" do concreto do tubulào, que, para os
casos normais, onde se usa fck da ordem de 15
MPa, se obtém crc- 5MPa. Assim a carga máxima a
adotar no tubulào pode ser fixada em função do
diâmetro do fuste
O valor de a indicado na Fig. 9.57b é adotado
igual a de 60 a , desde cjuc a base esteja embutida
num material idêntico ao do apoio da mesma, no
mínimo 20 cm, o que ocorre, praticamente, em
todos os casos. Assim a altura II da base será:
// = ——— tan 60" // = 0,866(0 -<?), se a base
for de seção circular ou H = 0,866(a-ç) > quando
a base for uma falsa elipse.
Com base nas expressões acima, pode-se calcular
o volume da base, assimilando-a a um tronco
de cone com altura I I - 20 cm, superposto a um
cilindro de altura 20 cm, ou seja:
V = 0,2. A,, + —j—(A,, + A,
em que V é obtido em m 5 , entrando-se com as
áreas da base e do fuste em m 2 .
No caso de bases em forma de falsa elipse essa
fórmula náo é válida, costumando-se adotar 1,55
vez o volume da base de diâmetro médio.
Na Tabela 913 apresentam-se esses volumes (designados
por vp bem como o volume do alargamento
da base designada por V,
Figura 9.59 - Seções tranversais do fuste e da base de
tubulões
A área do fuste é calculada analogamente a um
pilar cuja seção de aço seja nula. Além disso, como
as fundações estão enterradas e geralmente são
dotadas dc vigas dc travamento, é comum se desprezar
o efeito de 2 a ordem devido â excentricidade
da carga. Assim tem-se:
Y ,.P = 0,85. A, ./ <t
Y,
em que, segundo a NBR 6122/96, yf -1,4 e yc-1,6.
(b)
9.3.2 Tubulões a Ar Comprimido
Pretendendo-se executar tubulões em solos
onde haja água e nào seja possível esgotá-la devido
ao perigo de desmoronamento das paredes do
fuste, utilizam-se os tubulões a ar comprimido (também
denominados de pneumáticos) com camisa de
concreto (Figura 9.33.1) ou de aço (Figura 9.33.2).
Os tubulões a ar comprimido com camisa de
concreto começaram a ser usados entre nós a partir
da década de 40, quando a Companhia Nacional
de Construções Civis c I lidraúlicas (Civilhidro).
sob a chefia do engenheiro Sérgio Valério, importou
da França campânulas da Campenon Bemard, usadas,
para execução de tubulões para obras-de-arte.
O primeiro prédio a ter suas fundações em
tubulào a ar comprimido foi o Edifício Rhodia, na
Rua Libero Badaró, em Sào Paulo. A partir daí, os
tubulões a ar comprimido com camisa de concreto
passaram a ser uma das fundações profundas mais
executadas no país.
Em 195-1, foi importado pela Engenharia de Fundações
S.A. (Engefusa) o primeiro equipamento para
cravar camisas metálicas passando-se a usar o tubulào
com camisas dc- aço como mais uma alternativa.
Com o maior desenvolvimento dos outros tipos
de fundaçàc e com maiores restrições a ruído, o
tubulào a ar comprimido foi sendo cada vez menos
usado entre nós.
Atualmente só se usa tubulào a ar comprimido e
em geral com camisa de concreto, em obras dc
arte, geralmente fora do perímetro urbano.
As campânulas originais utilizavam guincho acionado
por ar comprimido e por isso tinham seu topo
em forma de calota, o que criava problemas para
a colocação de pesos sobre a compânula, para facilitar
a descida da camisa do tubulào. Com a introdução
de guinchos elétricos, as campânulas
passaram a ser confeccionadas com teto plano eliminando-se
este inconveniente.
Neste tipo de tubulào, seja a camisa dc concreto,
seja dc aco, a pressão máxima de ar comprimido
empregada é de 3,-1 atm (340 kPa), razão pela
qual estes tubulões têm sua profundidade limitada
a 34 m abaixo do nível de água (Norma
Rcgulamentadora n® 15, Anexo 16. da Portaria 3-214
do Ministério do Trabalho).
É importante ressaltar que no caso de utilização
de ar comprimido, em qualquer etapa dc execução
dos tubulões, deve-se observar que o equipamento
deve permitir que sc atendam rigorosamente
os tempos dc compressão e descompressão prescritos
pela boa técnica e pela legislação em vigor,
só se admitindo trabalhos sob pressões superiores
a 150 kPa quando as seguintes providências forem
tomadas:
a) equipe permanente de socorro médico à disposição
da obra;
b) câmara de descompressão equipada disponível
na obra;
c) compressores e reservatórios dc ar comprimido
de reserva;
d) renovação de ar garantida, sendo o ar injetado
em condições satisfatórias para o trabalho humano.
A Companhia do Metrô de Sào Paulo, complementando
estas recomendações, exigiu que cm suas
obras com tubulões a ar comprimido se utilizasse
campânula dupla para obrigar um tempo maior de
descompressão.
É importante lembrar que neste tipo de tubulões,
deve-se evitar trabalho com excesso de pressão
que possa ocasionar desconfinamento do fuste do
tubulào e perda de sua resistência de atrito. Por
esta razão é desaconselhável a má prática de eliminar,
através de pressào, a água eventualmente
acumulada no tubulào, devendo esta ser retirada
através da campânula.
Analogamente aos tubulões a céu aberto, também
é prática entre nós desprezar a carga resistida
pelo fuste do tubulào e desprezar o peso próprio
do mesmo, de tal modo que o dimensionamento
da base alargada é feito de forma similar
ao que foi exposto para os tubulões a céu
aberto. A diferença do dimensionamento concentra-se,
portanto, no fuste, em função da camisa
empregada (concreto armado ou chapa de aço,
recuperada ou nào).
a) Tubulões a Ar Comprimido com Camisa
de Concreto
Neste tipo dc tubulào, todo o processo executivo,
desde a cravação da camisa até a abertura
e concretagem da base e do fuste (Fig. 9.60) é
feita manualmente, com auxílio de operários e
um guincho que opera um balde para a retirada
do solo escavado, operação que vai sendo realizada
a céu aberto até se encontrar o nível de
água c a seguir sob ar comprimido. Atingida a
profundidade onde será alargada a base, a camisa
de concreto deve ser escorada convenientemente
durante os serviços de alargamento da
base para evitar sua descida.
Para dimensionar a armadura da camisa do tubulào
usam-se as fórmulas dc pilares armados, dispensando-sc
os efeitos de 2 a ordem devido à excentricidade
da carga absorvida pelo tubulào, pelas
razões já expostas anteriormente.
A NBR 6122/96 recomenda que toda a armadura
longitudinal necessária seja colocada, preferencialmente,
na camisa. Caso nào seja possível, deve
ser acrescentada uma armadura no núcleo, a qual
deve ser montada dc maneira que seja suficientemente
rígida, de modo a nào se deformar durante
o manuseio e a instalação.
O cálculo desta armadura é feito no estado-limite
dc ruptura adotando-sc gf -1,4, gc-1,5 e gs-1,15.
sendo P a carga atuante no tubulào, fyk a resistência
característica à compressão do aço, Af a
área :otal do fuste (camisa + núcleo) e a As a área
da armadura.
Além desse dimensionamento, tendo em vista o
trabalho sob ar comprimido, os estribos devem ser
calculados para resistir a uma pressão 30% maior
que a máxima pressào /; de trabalho, adniitindose
que não exista pressào externa de terra ou de
água (Fig. 9.62. Cabe lembrar que nenhum tubulào
de camisa de concreto pode ser comprimido enquanto
o concreto nào tiver atingido a resistência
característica fck especificada no projeto.
Tabela 9.20
8
11
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bj Tubulões a Ar Comprimido com Camisa de Aço
VISTA GfRAL
SCCAO IHAS5VEKSAL
A camisa de aço pode ser cravada utilizando
martelos vibratórios, por percussão (analogamente
à cravaçào de estacas) ou pelo sistema
"Benoto "esquematizado na Fig. 9.62. Este sistema
consiste na escavação interna do fuste utilizando-se
uma espécie de "clam-shell" acoplado
a um guindaste concomitantemcnte com a cravaçào
da camisa metálica auxiliada por um equipamento
auxiliar que impõe movimento
rotacional oscilatório ao tubo com a finalidade
de reduzir o atrito lateral e a sua cravaçào no
terreno. Para tornar essa redução de atrito mais
eficiente, a camisa metálica é dotada, na sua
extremidade inferior, de uma chapa dentacia sobressalente,
denominada "faca". À medida que
a camisa metálica vai sendo cravada novos segmentos
vão sendo soldados até se atingir a profundidade
para o alargamento da base.
No caso da cravaçào por percussão, a espessura
da camisa deve ser compatível com a energia aplicada
pelas golpes pilão c pela resistência oferecida
pelo solo à cravaçào, dc modo a evitar danos por
esmagamento ou flambagem da camisa. Calcada cm
observações de cravaçòes de estacas metálicas
tubulares, a API (American Petroleum Institute) recomenda
uma espessura mínima e, em mm, obtida
pela expressão:
Figura 9.60 - Tubulão com camisa de concreto
* = 6.35 + f
F=l,3.p.R
1.6 IF
A. =•
fu
Quanto à armadura de ligação fuste- base deve
ser projetada c executada de modo a garantir
concretagem satisfatória da base alargada. A malha
constituída de ferros verticais e os estribos
devem ter dimensões não inferiores a 30 cm x
30 cm, usando-se, se necessário, feixes de barras
í.o invés de barras isoladas.
Estribo
Figura 9.61 - Dimensionamento dos estribos
em que D, em cm, é o diâmetro da camisa metálica.
Tanto no processo de cravaçào da camisa pelo
sistema "Bctioto " como pelo dc cravaçào com vibração
ou por percussão, a escavação do solo interno
à camisa sc processa mecanicamente e a céu
aberto, com o uso de um "clam-shell", mesmo abaixo
do nível de água. Esta é uma vantagem em
relação aos tubulões de camisa de concreto, visto
que o ar comprimido só é utilizado quando da
execução da base alargada, quando há a necessidade
dc entrada de operários.
Outra vantagem deste tipo de cravaçào da camisa
é que cm certos tipos dc terreno or.de a
base alargada fica totalmente dentro dc uma camada
de argila "praticamente" impermeável é
possível, muitas vezes, embutir a camisa nessa
camada para vedar a entrada da água do solo
acima da argila, possibilitando a abertura da base
alargada a céu aberto, mesmo abaixo do nível
dc água.
Outra vantagem dos tubulões com camisa de
aço é que se a camisa permanecer totalmente
enterrada, poder-se-á considerar a seção transversal
da mesma como armadura do tubulão, descontando-se
1,5 mm da espessura da chapa, para
levar em conta eventual corrosão.
Os diâmetros de fuste normalmente usados variam
Guirxlatto
S
"Benoto" acoplado o guindatto
para «scavaçlodD tolo por
vo do tuba
..c
Detalha da "faca"
Broçadeira
Macaco do
(•chamento
Tubo do rovtitlmanto
Altura do cravaçffo porá coda ciclo
d« manobra da breçodoiro
rv
/ Equipamento qua impOo
x-'
/ ao tubo a «forço vtrtical
a movi manto oacilatõrio
(no plano horizontal}
NA
n
rv~
a) Vi 11» geral
hidráulico
Braçodelra
Macaco hidrí ulico
Macacada
Motor diaaol
Figura 9.62 - Cravação de camisa metálica pelo sistema "Bcnoto"
dc 70 cm a 150 cm utilizando-se espessuras de 1/4" a
3/8". Com base nesses diâmetros e espessuras de
chapas pode-se calcular a carga máxima (estrutural)
resistida pelo tubulào. Este cálculo é feito
para o estado limite último, no qual a camisa de
aço é considerada como armadura longitudinal
(sem levar cm conta seu efeito de cintamento),
sendo as cargas majoradas por um coeficiente yf
= 1.4 e as resistências do concreto e do aço minoradas,
respectivamente, pelos coeficientes yc
- 1/5 e ys - 1,15. Além disso, a NBR 6122/96
exige uma verificação no estado de utilização,
em que só se considere a seção de concreto, porém
sem majorar as cargas e com redução do coeficiente
de minoraçào gc para 1,3. Assim, a carga
P a adotar no tubulào será a menor das duas
calculadas abaixo:
a) Estado limite último:
l,4/> = 0,85.A,.^+ A,.^-
' 1.5 * 1.15
b) Estado limite de utilização
' 1.3
O valor óe/ck nào deverá ultrapassar 18 MPa e
as camisas normalmente utilizadas apresentam f,yk
= 240 MPa. Com base nas expressões acima foi
elaborada a Tabela.
| Cargas máximas resistidas por tubulões com camisa metálica incorporada
O-lfKVO
dofuilc
(em)
N«â»
(kN)
Chapa 1/4 pol Chapa 5/16 pol Chapa 3/8 pol
Ferragem dc
transição
N m.,
(kN)
Ferragem dc
transição
N m„
(kN)
Ferragem
dc
transição
70
80
90
00
10
20
30
40
50
3 700
4600
5600
6 700
13 d |> 25
15 ( ) 25
16 ( ) 25
18 ( ) 25
3 850
5 050
6 150
7 300
8 550
9900
11 350
12900
14 550
14 <; [> 25
19 ( ) 25
21 r ) 25
24 (,) 25
26 < ) 25
28 < > 25
31 ( ) 25
33 C ) 25
36 ( ) 25
6400
7 900
9 300
10 700
12 200
13 800
15 500
25 <1
t> 25
29 (
) 25
33 < ) 25
35 ( ) 25
38 ( ) 25
41 ( ) 25
44 ( ) 25
Como a camisa metálica só existe do topo da base
alargada para cima, quando a condicionantc do
dimensionamento for a hipótese a, há necessidade
dc introduzir uma armadura de transição, cujo cálculo
é feito conforme esquematizado na Fig. 9.62.
Esta armadura nào dispõe de estribos e a mesma é
"cravada" no concreto logo após a concretagem da
base.
cm que
f,yk -fykA,\=>
fcd ~fck A ,5
como di =dm
/ 1 - ,
1 ~
w
12 é adotado 80 cm
pois e é pequeno
Finalmente é importante lembrar que as camisas
metálicas têm peso relativamente pequeno
quando comparadas com as camisas de concreto
armado. Por esta razão deve ser verificado se durante
a aplicação interna do ar comprimido há
necessidade ou nào de sua ancoragem para que
a camisa nào seja "arrancada" pelo empuxo E resultante
da pressão interna do ar comprimido. Com
base na Fig. 9.64 verifica-se que o valor do
empuxo E vale:
k. d}
em que di é o diâmetro interno da camisa e p a
pressão interna.
Para verificar a necessidade ou nào de ancoragem,
utilizam-se as Tabelas 9.22 e 9.23, que
fornecem, respectivamente, o valor do empuxo
E em função de di e p. Para não necessitai ancorar
a campânula de ar comprimido, o empuxo
E deve ser menor ou igual a 1,3 vez o peso próprio
da camisa metálica somado ao peso próprio
da campânula, que é da ordem de 20 a 30 kN.
Tabela 9.22 I Empuxo devido a pressão interna em tubulões IkN)
\ ii,
/>\|cm)
MPa
70 80 90 100 110 120 130 140 150
0.03 12 15 19 24 29 34 40 46 53
. 0.05 19 25 32 39 48 57 66 77 88
0.07 27 35 45 55 67 79 93 108 124
0.10 39 50 64 79 95 113 133 154 177
0.15 58 75 95 118 143 170 199 231 265
0.20 77 100 127 157 190 226 265 308 353
0.25 96 126 159 196 238 283 332 385 442
0.30 116 151 191 236 285 339 398 462 530
N. fuste
\ i c m i
70 80 90 100 110 120 130 140 150
Espessura N.
da camita
1 4 pol 1.10 i.26 Ml 1.57 1.73 I.8X 2.04 2.?0 2.36
5/16 pol 1.3* 1.58 1.78 1.98 2.IX 2.37 2.57 2.77 2.97
yx poi 1.65 I.8X 2.12 2.36 2.59 2.83 3.06 3.30 3.53
dê
ar comprimido
80 cm
tl =
150 cm para camisa de 1/4 pol
de espessura
180 cm para camisa de 5/16pol
de espessura
220cm para camisa de 3/8 pol
de espessura
(a r«jst*
prípfo • anccaoom)
Tubulio
Figura 9.63 • Procedimento para dimensionar a
armadura de transição de tubulões
Figura 9.64 - Seção esquemática para verificação da
necessidade ou não de ancorar a campánula
CAPÍTULO 1 0
FUNDAÇÕES SUJEITAS A ESFORÇOS DINÂMICOS
JOSÉ MARIA DE CAMARGO BARROS
WALDEMAR HACHICH
10.1. COMPORTAMENTO ESTÁTICO VS.
COMPORTAMENTO DINÂMICO
10.1.1 Introdução
É uma tarefa difícil escrever .sobre dinâmica de fundações
em um país em que o ensino e a prática da
Engenharia têm seu foco praticamente exclusivo no
comportamento estático. Emlx>ra essa ênfase seja justificável
face à pouca relevância dos eventos sísmicos
registrados no País, perde-se um pouco em termos
de generalidade ao se estudar exclusivamente o comportamento
estático, o qual poderia, com grande vantagem,
ser visto como um caso particular (com aceleração
nula) do comportamento dinâmico.
Pressupõe-se. portanto, que o leitor deste capítulo,
estudante ou engenheiro civil com formação brasileira
tradicional, não tenha muita familiaridade com
o assunto e possa, seguramente, ser assaltado por
uma série dc dúvidas. O que diferencia um problema
estático de um problema dinâmico? Quando é
que se faz necessário utilizar um modelo dinâmico
para representar um fenômeno geotécnico? O que
há dc errado com as análises ditas "pseudo-estáticas"
que são muitas vezes utilizadas para verificação
da estabilidade de muros de arrimo e taludes?
Os autores consideram essencial que estas dúvidas
estejam conceitualmente bem esclarecidas
antes de se passar a um tratamento mais formal
da dinâmica das fundações. Este capítulo não começará
portanto, como os textos clássicos, com a
apresentação das equações do movimento de um
sistema com um grau de liberdade.
Por se tratar de um capítulo de um livro de Fundações,
todo o desenvolvimento do capítulo se
fará em torno do problema de fundações sujeitas
a solicitações dinâmicas impostas pela utilização,
caso típico de fundações de máquinas. Nào serão
tratados, portanto, modelos para a análise de fundações
sujeitas a sismos, explosões, etc., tampouco
as propriedades dos solos necessárias para essas
análises, tais como o potencial de liqüefaçâo.
10.1.2. Forças de Inércia
O que diferencia um problema estático de um
problema dinâmico? Por que é que nem se fala
em dinâmica no projeto da grande maioria das
fundações?
A explicação é simples: a maioria das ações às
quais as fundações são submetidas têm caráter
estático (ou quase estático;. E o que sc entende
por comportamento estático? A tentação simplista
é definir como estático aquilo que não varia no
tempo. Deve-se, porém, procurar definição mais
rigorosa, posto que a carga aplicada por um edifício
às suas fundações seguramente varia no tempo
e todavia as fundações de edifícios sào geralmente
projetadas, no Brasil, estaticamente.
Na verdade, o que caracteriza um fenômeno
como dinâmico não é apenas a sua variabilidade
no tempo, mas a interveniência dc forças de inércia.
A variação no tempo tem que haver, mas tem
que ser de tal sorte a gerar forças dc inércia.
Inércia é basicamente a oposição ao movimento.
A massa de um corpo é a expressão da sua
inércia aos deslocamentos translacionais.
Correspondentemente, os momentos de inércia
representam a inércia aos deslocamentos
rotacionais.
A resultante das forças que agem sobre um corpo
é responsável pela aceleração desse corpo de
acordo com a 2 J lei de Newton:
")2
F = m • a = p • Voluinc • ^-y, (10.1)
dr
onde p é a massa específica do material.
Como todos os corpos com que os engenheiros
civis lidam devem estar em equilíbrio sob a
aceleração da gravidade, massa e força peso são
freqüentemente confundidas. O s stema de unidades
MKS técnico, de uso consagrado no Brasil
por décadas, só fez colaborar para essa confusão
pelo estabelecimento da igualdade numérica —
e até dc nomenclatura, visto que a denominação
quilograma força (o esquecido quiloponde)
era freqüentemente abreviada para quilograma
— entre massa e força peso. Com a adoção
do sistema internacional de unidades (SI) tornase
mais simples evitar as confusões: massa é
medida em quilogramas, força em Newtons, e o
peso de um corpo cuja massa é 1 kg é da ordem
de 10 N (1 N - 1 kg x m / s 2 ). O estudante de
Dinâmica, particularmente aquele educado no
sistema MKS técnico, deve pois, liminarmente,
convencer-se da importância da distinção entre
massa c peso.
Nos edifícios usuais a massa varia ao longo
do tempo, durante a construção e depois dela,
mas essa variação se dâ por pequenos incrementos
(ou decrementos) que, ainda que aplicados
rapidamente, nào chegam a perturbar significativamente
o equilíbrio estático vigente
entre o peso da edificação e a reaçào do solo.
O desequilíbrio de forças gerado é tão pequeno
que sào desprezíveis a aceleração resultante
e as forças de inércia e o sistema logo assume
uma nova condição de equilíbrio estático (isto
é, sem aceleração).
Já se o edifício abriga máquinas, por exemplo
uma prensa, a sua operação poderá provocar um
desequilíbrio de forças capaz de acelerar significativamente
todo o conjunto. O equilíbrio deve,
nesse caso, ser expresso pela segunda lei de
Newton, que inclui a aceleração. Trata-se de equilíbrio
dinâmico. Uma forma alternativa de se considerar
o equilíbrio nessas condições é invocando
o princípio de D'Alembert, que inclui entre
as forças equilibradas uma força com mesma direção
da aceleração, sentido contrário e módulo
m x I a I. Como essa força se opõe sempre à aceleração,
é chamada força de inércia.
Faz-se aqui uma analogia com o problema de
adensamento: se a aplicação de uma carga for
suficientemente lenta, nào haverá geração de
sobrepressões neutras; acontece que um mesmo
carregamento pode ser lento para um solo arenoso
e rápido para um solo argiloso. O que diferencia
uma situação da outra é o coeficiente de
adensamento do solo: lento ou rápido é um conceito
que só faz sentido relativamente à velocidade
de adensamento da camada.
Da mesma forma, perante a mobilização de forças
de inércia o conceito de lento ou rápido só
pode ser relativo a uma característica do sistema:
seu período próprio, que é o período das vibrações
do sistema ao ser tirado da sua posição de
equilíbrio estático e deixado oscilar sem a
interveniência de outras forças externas. Uma
mesma prensa poderia, portanto, gerar vibrações
significativas em uma edificação cujo período próprio
fosse cie 1 s, enquanto seu funcionamento
seria muito menos perceptível se o período próprio
do sistema fosse da ordem de 10 s. O período
próprio depende da massa e da rigidez: no
caso de fundações, a massa apoiada no solo e a
rigidez do solo de fundação.
É bem verdade que nos sistemas mais complexos
comuns em engenharia civil não existe um
único período próprio, mas essas complicações
operacionais não devem turvar o entendimento
conceituai do problema.
10.1.3 Conceito de Segurança
O conceito de segurança merece ser revisto quando
se consideram problemas dinâmicos. Uma estmtura
pode ser considerada segura quando seus deslocamentos
não comprometem a sua utilização. Essa
conceituação geral poderia até mesmo ser adotada
como única para definir segurança de uma estrutura.
No entanto, define-se também como segurança contra
um estado-limite último, como uma distância entre
a condiçào de utilização c a condição de colapso.
Conceitualmente, poder-se-ia argumentar que D colapso
nada mais é do que a ocorrência de deslocamentos
excessivos, o que recairia no caso anterior.
Por que, entào, subsistem as duas verificações (em
problemas de fundações é comum que sejam exigidas
ambas as verificações: de segurança contra a ruptura
e contra os recalques, para falar exclusivamente em
carregamentos verticais).
Acontece que muitas vezes é muito difícil prever
deslocamentos, ficando assim prejudicada,
operacionalmente, a introdução da segurança contra
estados-limites de utilização. Por outro lado,
quase sempre é possível analisar uma situação de
equilíbrio limite (na iminência dc colapso) e prescrever
uma distância mínima em relação a ela.
Entretanto, em Dinâmica dos Solos esta última
formulação pode ser enganosa. Newmark, em cálculos
simples dc equilíbrio dc um bloco sobre um
plano inclinado, mostra claramente esse problema.
Ao ser submetido a uma aceleração, o plano inclinado
move-se, eventualmente reduzindo a valores inferiores
à unidade o coeficiente de segurança do
bloco contra o colapso (escorregamento). Acontece
que as características da aceleração podem ser tais
que na fração de segundo seguinte já esteja restabelecido
o valor inicial (ou até maior) do coeficiente
de segurança. No intervalo de tempo transcorrido, o
bloco deslocou-se alguns poucos milímetros. Ainda
que uma condiçào de equilíbrio limite tenha sido
atingida, nào se caracterizou o colapso e o sistema
pode continuar seguro (utilização nào comprometida),
dependendo da magnitude do deslocamento
sofrido.
É imediata a analogia entre o bloco sobre o plano
inclinado e um escorregamento em um talude.
É pela razão acima exposta que as análises chamadas
pseudo estáticas (que talvez devessem ser
chamadas pseudodinâmicas) de estabilidade de
taludes, nas quais se introduz uma aceleração
horizontal (às vezes também vertical) nas equações
dc equilíbrio das lamclas, só podem ser consideradas
um teste parcial: se o resultado for
satisfatório, o talude poderá ser considerado seguro
contra sismos que provoquem acelerações
máximas daquela ordem, mas se nào for, isso nào
quer dizer que o talude nào seja seguro. Quer
dizer apenas que, sc essa solicitação for condicionante
para a estabilidade do talude, deve-se,
antes dc passar a taludes menos íngremes (maior
custo), efetuar uma análise mais refinada.
Em Dinâmica dos Solos, portanto, mais do que
em outros ramos da Mecânica dos Solos, a limitação
de deslocamentos é que define a segurança.
Diga-se o mesmo quanto às fundações de máquinas.
Embora seja sempre verificada a capacidade
de carga, para garantir a segurança contra o
colapso, o que normalmente condiciona o projeto
é a limitação dos deslocamentos, imposta pelo
fabricante do equipamento (ou pelos usuários
próximos).
10.2 ANÁLISE DINÂMICA DE FUNDAÇÕES
DE MÁQUINAS
10.2.2 Equilíbrio do Maciço de Fundação
Conforme se viu no Capítulo 4, a aproximação
do solo por um meio contínuo é freqüentemente
adotada nas análises.
O reconhecimento da relevância das acelerações
obriga a que as equações de equilíbrio do meio
contínuo, apresentadas no Capítulo 4 (equações
4.21), sejam reescritas explicitando-se, entre as
forças de campo (X, Y e Z), as forças de inércia.
Na primeira daquelas equações, por exemplo,
pelo menos uma parcela das forças X deve ser
representada por:
10.2.1 Formulação do Modelo Geral
P ' dl 2
(10.2)
Diversos modelos sào normalmente utilizados
para se estudar o equilíbrio dinâmico de um bloco
de fundação sujeito a acòcs variáveis no tempo.
Em muitos casos o bloco pode ser tratado
como um corpo rígido comparativamente ao material
sobre o qual se apóia.
Nessas condições, um modelo conceituai adequado
é o de um bloco interagindo com um semiespaço
contínuo.
No que se segue será discutido sempre o caso
de um bloco de fundação com área de contato
circular, dc raio R, sujeito exclusivamente a esforços
verticais (Figura 10.1). Os resultados
serão oportunamente generalizados para outras
solicitações.
O problema dc fundações de máquinas da Figura
10.1 é um problema de interação que pode
ser convenientemente analisado em duas etapas:
• o estabelecimento da relação entre os esforços
na interface c os correspondentes deslocamentos
(relação entre Q e w, na Figura 10.1);
• a incorporação da relação determinada na etapa
anterior ao estudo do equilíbrio do bloco de
fundação (relação entre P e w, na Figura 10.1).
Cada uma dessas etapas é discutida nos dois
itens que se seguem.
As demais equações devem ser analogamente
alteradas.
As novas equações assim obtidas traduzem o
equilíbrio de cada elemento do maciço (caracterizado
por suas coordenadas x, y e z) ao longo do
tempo (t). A solução do problema dinâmico requer,
portanto, a integração dessas equações diferenciais
para a determinação não apenas dos
campos de tensões, deformações c deslocamentos,
mas também da sua evolução no tempo.
Devido à inércia do próprio maciço, os efeitos
dc um esforço aplicado à superfície (por exemplo,
as tensões de contato sob a sapata) nào se
fazem sentir imediatamente em todos os pontos
do maciço. Conforme se verá, aqueles efeitos se
propagam como ondas no interior do material.
Por essa razão aquelas equações dc equilíbrio dinâmico
sào por vezes denominadas equações de
ondas, ou equações de propagação de ondas.
Observe-se que até este ponto não se fez nenhuma
hipótese quanto ao comportamento tcnsào-deformação-tempo
do maciço. Essas mesmas equações de
equilíbrio dinâmico (ou de propagado de ondas)
têm que ser satisfeitas por materiais elásticos, viscoelásticos,
elasto-plásticos, etc.. Essas hipóteses quanto
à reologia do material (além das relações deforma-
Figura 10.1 - Esforços e deslocamentos no equilíbrio dinâmico dc uma massa apoiada sobre um sem -espaço
ções-deslocamcntos) sào necessárias para tornar determinado
o sistema dc equações diferenciais.
A integração dessas equações diferenciais para
a scluçào do sistema está muito longe de ser um
problema trivial e mais longe ainda do escopo
deste livro. É mais interessante que se estude a
forma das equações resultantes para alguns casos
de í.plicaçào prática imediata.
na posição
x±i 'y"p"» caracterizando-se assim a
propagação da configuração dc deslocamentos
como sc fosse uma onda.
V = JJ 00.8)
a. Propagação Unidimensional
As soluções unidimcnsionais aplicam-se, de forma
exata ou aproximada, a uma série de problemas
práticos, tais como a interpretação de ensaios
de laboratório (coluna ressonante, por exemplo)
e a análise da cravaçào de estacas.
Nas situações em que tensões e deslocamentos
só variam em uma das direções, assumindo
valores constantes nas outras duas, as equações
de equilíbrio dinâmico ficam reduzidas a uma
única:
dc .
+p. =o
5* 5r
(10.3)
Essa é a equação mais geral dc propagação dc
ondas 1-D. Ela pode ser particularizada para meios
elásticos lineares escrevendo-se a tensão em funçào
da deformação correspondente:
A = M E (10.4)
é a distância percorrida pela onda num intervalo
de tempo unitário, isto é, a velocidade de propagação
(ou celeridade) da onda.
No caso freqüente em que a excitaçào tem caráter
periódico (com período T ou freqüência 0, a
mesma configuração de deslocamentos se repetirá,
ao longo do eixo x, a intervalos:
>. = v T ou ). = v/f (10.9)
sendo X o comprimento dc onda.
Pode-se demonstrar que só há dois tipos de
ondas capazes de se propagar unidimensionalmente
(com frente de onda plana) em um meio
infinito elástico linear: ondas de compressão (ondas
P) e ondas de cisalhamento (ondas S).
Nas ondas P o movimento das partículas se dá
na mesma direção da propagação da onda e vale
a equação geral dc propagação de ondas em meio
elástico, substituindo-se M pelo módulo confinado
(o mesmo do adensamento unidimensional):
em que M é um módulo elástico apropriado e
Ou
(10.5)
C = m.
E-(l-v)
(l + v) (l-2v) (10.10)
é a deformação axial (adotando-se a compressão
como positiva, como usualmente feito em Mecânica
dos Solos).
A equação de propagação unidimensional de
ondas em meio elástico fica então:
M 3J u
3t J (10.6)
Pode-se verificar, por substituição direta, que
qualquer funçào u(x,t) do seguinte tipo é solução
dessa equação diferencial:
u(x.t) = F(x ± t J—)
(10.7)
em que E e v (módulo de Young e coeficien:c de
Poisson) são as constantes elásticas mais usuais.
A velocidade de propagação das ondas P é:
(10.11)
Nas ondas S o movimento das partículas é transversal
à direçào de propagação e ainda vale a equação
geral dc propagação entendendo-se o deslocamento
como transversal à direção de propagação,
a deformação como distorção (deformação
angular) e o módulo M como o módulo de
cisalhamento, G (ou módulo de rigidez elástica
transversal):
Qualquer que seja a funçào F(x,0), descrevendo
os deslocamentos no instante t=0, em qualquer
outro instante t essa mesma função estará
G = •
2-tl + v)
(10.12)
A vclocidr.de de propagação das ondas S é:
(10.13)
Para que as ondas planas subsistam em um maciço
é necessário que:
• a excitaçáo propicie o seu aparecimento;
• eventuais fronteiras (entre camadas ou a própria
superfície do maciço) sejam atingidas com ângulo
de incidência de 90°.
Se o ângulo de incidência for diferente de 90°
estabelece-se um campo de deslocamentos bastante
mais complexo, que caracteriza ondas de
outros tipos (ondas R ou Rayleigh, ondas Stoneley,
ondas SP, etc.). Dentre as ondas associadas a fronteiras
e interfaces, talvez a mais importante do
ponto de vista prático seja a onda R, pois em perfis
homogêneos cerca de 67% da energia é transportada
pelas ondas Rayleigh. Quando se pretende,
por exemplo, reduzir as vibrações nas proximidades
de uma máquina, consegue-se uma eficiência
importante ao se interceptar as ondas R.
Na Figura 10.2 apresenta-se uma comparação das
velocidades de ondas P e R com as ondas S. As ondas
de compressão são sempre as mais velozes, o que
justifica o seu nome: o P é de primário, enquanto o S
é de secundário. A nào ser para valores elevados do
coeficiente de Poisson, as velocidades de propagação
das ondas R e S sào bastante próximas.
As ondas longitudinais em barras, ondas L, também
estão associadas a um tipo particular de fronteira:
as faces da barra, livres para sofrerem deslocamentos
transversais. A equação geral só pode
ser empregada para descrevê-las desde que se
V
V.
OndaP
OndaR
OndaL
0,1 0,2 0.3 0,4
Coeficiente dc Poisson, v
) 1
0,5
Figura T 0.2 - Velocidades de propagação de ondas em
meio elástico em função do coeficiente de Poisson
desprezem os deslocamentos na direção transversal
ao eixo da barra (a presença das fronteiras, no
caso as faces da barra, altera o comportamento
das ondas). O módulo M é substituído, nessa solução
aproximada, pelo módulo dc Young, E, e a
velocidade de propagação das ondas L é aproximadamente
(vide Figura 10.2):
v.JI (10.14)
Na verdade essa velocidade varia de acordo com
a relação entre o comprimento da onda e a dimensão
transversal da barra, o que ressalta um
aspecto comum às ondas associadas a fronteiras:
sua velocidade de propagação depende, em geral,
da freqüência de excitaçáo. Embora aproximada,
a soluçào unidimensional é utilizada com
excelentes resultados na monitoração de cravaçào
de estacas e nas provas de carga dinâmicas.
b. Cargas Aplicadas á Superfície do Semi-Espaço
Cargas aplicadas à superfície do semi-espaço nào
satisfazem a nenhuma das duas condições para o
aparecimento dc ondas planas: a excitaçáo tende
a ser localizada (quase puntual, em muitos casos)
em relação ao maciço e por isso mesmo as ondas
geradas já atingem a superfície do :erreno segundo
ângulos diferentes dc 90°.
Para as fundações de máquinas não há, portanto,
como escapar à resolução do sistema de equações
diferenciais. Felizmente a procura da solução
analítica (nem sempre existente) é tarefa para
os matemáticos. Para o bloco rígido com área de
contato circular (de raio R) com o semi-espaço
elástico c excitaçáo periódica a relaçào procurada
entre os esforços na interface c os correspondentes
deslocamentos verticais é dada por:
4GR 4R r —
(10.15)
Observe-se que a força na interface tem duas
parcelas: uma elástica (função do deslocamento)
e outra que poderia ser denominada viscosa (função
da velocidade de deslocamento). Os coeficientes
x, e x 2 dependem da freqüência da excitaçáo.
Se chamarmos de k e c os coeficientes
vo vo
correspondentes à freqüência zero (carregamento
estático) a expressão acima fica:
(10.16)
Essa expressão é muito semelhante à expressão
da força restauradora que age sobre uma massa
suspensa por uma mola e por um amortecedor
(em paralelo):
Q = kw+cw (10.17)
exceto pelo fato de os coeficientes serem dependentes
da freqüência para o caso do semi-espaço.
10.2.3. Equilíbrio do bloco de fundação
O equilíbrio dinâmico do bloco de fundação
pode ser escrito como:
dá pelo desenvolvimento, no solo, de forças de
natureza viscosa (isto é, proporcionais âs velocidades).
No histerético a dissipaçào é devida ao
comportamento nào-elástico dos solos a partir de
um certo nível de deformações.
O amortecimento externo ê também chamado de
geométrico, ou amortecimento por radiação. Nào
provém de nenhuma característica intrínseca do solo,
mas sim do fato de a energia se dissipar no maciço
semi-infinito, irradiando-se á partir da interface da
fundação. É esse amortecimento, representado apenas
formalmente acima por um amortecimento do
tipo viscoso, que surgiu da integração das equações
de equilíbrio dinâmico do maciço. De fato, na equação
de Q para o semi-espaço:
M-w + Q- P (10.18)
c.„ = k.
(10.21)
onde P é a força periódica externa aplicada.
Substituindo-se a força na interface pela sua expressão,
determinada no item anterior, chega-se a:
M • w + k w • zr w + • Xi • w = P (10.19)
Mais uma vez é patente a semelhança com a
equação de equilíbrio dinâmico dc uma massa
suspensa por um conjunto mola-amortecedor em
paralelo:
M w + k w+c w = P (10.20)
A diferença é que no caso do bloco de fundação
ambos os coeficientes — de apoio elástico e
dc amortecimento — são função da freqüência
de excitaçào. Essa analogia será explorada para a
solução, em termos práticos, dos problemas de
vibrações de fundações de máquinas. Mas antes
merecem destaque alguns comentários sobre os
tipos dc amortecimento.
10.2.4 Tipos de Amortecimento
Todo amortecimento corresponde a uma dissipaçào
de energia. O amortecimento acima apresentado
é, do ponto de vista formal, do tipo viscoso,
isto é, a força dc amortecimento é proporcional
à velocidade (ú).
Nem todo amortecimendo é viscoso, todavia. O
amortecimento dos solos, em particular, pode ser
dividido em dois tipos: interno e externo.
O amortecimento interno corresponde à dissipaçào
devida às características tensão-deformaçãotempo
do próprio solo. Duas formas típicas de
amortecimento interno são o viscoso e o
histerético. No viscoso a dissipaçào de energia se
ou seja, o coeficiente de amortecimento nào envolve
nenhum parâmetro de comportamento intrinsecamcnte
viscoso do material. O eventual
amortecimento interno teria que ser acrescentado
a esse amortecimento geométrico.
10.3 SOLUÇÕES APROXIMADAS BASEADAS
NA VIBRAÇÃO DE SISTEMAS COM MASSAS
CONCENTRADAS
10.3.1 Solução de Referência
A solução do problema de uma massa suspensa
por um conjunto mola-amortecedor em paralelo e
sujeita a excitaçào harmônica é sobejamente conhecida
(vide, por exemplo, Biggs, 1964, ou
Crandall, 1956).
Na Figura 10.3 apresentam-se as curvas de variação
do fator de amplificação dinâmica (FAD =
razão entre resposta dinâmica e resposta estática)
em função da freqüência de excitaçào
(adimensionalizada com relação à freqüência própria
de vibração do sistema). A parte a) da Figura
corresponde à solicitação por uma força e a parte
b) à solicitação por um equipamento rotativo com
massa excêntrica (M c , com excentricidade l >.
Na Figura 10.3, D representa a razão dc amortecimento,
a relação entre o coeficiente de amortecimento
e o coeficiente de amortecimento crítico:
O coeficiente de amortecimento crítico é aquele
para o qual não há vibrações: tirada de sua posição
de equilíbrio a massa volta a ela sem oscilar.
.5 1.0 1 ,5 2.0 0 0.5 I .0 1.5 2
f/f 0 = fi/0)
f/f.= Q/CO
Figura 10.3 • Fatores de amplificaçáo dinâmica do movimento de um sistema com um grau dc liberdade, amortecido,
solicitado harmonicamente
Sc os coeficientes (de mola e de amortecimento)
do semi-espaço fossem constantes, a solução
da Figura 10.3 seria diretamente aplicável.
Como nào sào, os estudiosos das Fundações de
Máquinas estalxíleccram as aproximações da coluna
"Translaçào vertical" da Tabela 10.1, a serem utilizadas
para se obter a melhor resposta aproximada
das vibrações de fundações sobre semi-espaços elásticos
lineares. A obtençáo dos parâmetros elásticos
necessários é discutida nos itens 10.5 e 10.6.
10.3.2 Generalizações
Todos os resultados acima apresentados aplicamse
a bases com área de contato circular. No entanto.
os resultados apresentados aplicam-se bastante
bem também a bases retangulares, desde que a
relaçào entre as dimensões seja inferior a 2. Utilizase,
nesse caso. uma base circular equivalente (igualando
áreas). Para relações mais elevadas devem
se utilizados coeficientes determinados especificamente,
disponíveis nos compêndios específicos de
fundações de máquinas (por exemplo, Arya et al,
1979, Srinivasulu c Vaidyanathan, 1979).
Os resultados apresentados aplicam-se, com as
devidas mudanças dos coeficientes, a qualquer
movimento definido por um grau de liberdade.
As colunas da Tabela 10.1 apresentam os coeficientes
de mola e as razões dc amortecimento para
os outros possíveis movimentos do bloco de fundação:
translações horizontais e rotações.
Sistemas com múltiplos graus de liberdade podem
tê-los acoplados ou nào. No caso dc não
acoplamento, os sistemas com n graus de liberdade
podem ser resolvidos como n sistemas de um
grau de liberdade. É o caso, por exemplo, de uma
base de máquina sujeita a esforço vertical centrado
e a momento. Como o esforço vertical nào gera
deslocamento angular e, por sua vez, o momento
não gera deslocamento vertical, as vibrações desse
sistema podem ser estudadas superpondo-se
as vibrações de dois sistemas com um grau de
liberdade, utilizando-se as expressões e coeficientes
apresentados no item anterior.
Já se a máquina aplicar esforços horizontais fora
do centro de gravidade do conjunto máquina-bloco,
o problema é acoplado. O atrito r.a base, opondo-se
à translaçào, gera um momento e, conseqüentemente,
rotação. O acoplamento será tanto menor
quanto menor for a distância entre o ponto de aplicação
dos esforços e a interface bloco-solo. Sistemas
acoplados devem ser resolvidos com métodos
especiais que levem em conta o acoplamento.
Tabela 10.T I Parâmetros equivalentes de sistemas com um grau de liberdade para análise dinâmica de fundações
circulares de raio R sobre solo de massa específica p (M=massa vibrante; /=momento de inércia em torno de eixo
horizontal pela base; l=momento dc inércia em torno de eixo vertical)
Translação
vertical
Translação
horizontal
Rotação
(eixo horizontal)
Rotação
(eixo vertical)
Coeficiente de mola (kj
4GR
1-v
8GR
2-v
8GR 3
3(1 -v)
16GR 3
3
Razão de massa (BJ
M(1-v)
4pR 3
M(2-v)
8pR 3
31(1-v)
8pR 5 "«
P R 5
Razão de amortecimento (DJ
0.425
N/B
0.29
VB
0,29
(1 + B)VB
0.50
1 + 2B
Há basicamente três soluções possíveis (vide,
por exemplo, Clough e Penzicn. 1975):
• integração direta das equações do movimento,
também denominada análise no domínio do
tempo; scluçâo de aplicabilidade geral, utilizável
para fundações de máquinas com até três ou
quatro graus de liberdade; a partir daí fica
impraticável sem a utilização de um computador
c "software" com algoritmos dc integração
numérica adequados (tipo Runge-Kutta);
• superposição modal; consiste em determinar
uma combinação linear dc graus de liberdade
que se comporte como desacoplada (modos
próprios de vibração e respectivas freqüências
próprias); o problema recai, então, na
superposição das respostas de n sistemas com
um grau de liberdade; só é estritamente aplicável
a sistemas sem amortecimento, mas conscgucmsc
aproximações aceitáveis para fins práticos
mesmo quando essa condição nào é verificada;
todos os esforços aplicados devem ter, no
entanto, a mesma variação no tempo; a partir dc
quatro graus de liberdade torna-se recomendável
o uso de um computador para a determinação
dos auto-valores e autovetores (Crandall, 1956);
• análise no domínio das freqüências; consiste
na expressão do carregamento na forma de séries
dc Fourier (séries dc senos), determinação da
amplificação do sistema para cada uma das
freqüências da série e transformação inversa para
a obtenção da resposta do sistema ao longo do
tempo; exige a utilização dc computador e dc
algoritmos tipo FFT ("fast Fourier transform").
10.4 ALGUMAS RECOMENDAÇÕES PARA
ANÁLISE, PROJETO E RECUPERAÇÃO DE
FUNDAÇÕES DE MÁQUINAS
Apresentam-se a seguir algumas recomendações
de caráter prático a serem consideradas na análise,
r.o projeto e na recuperação de fundações de
máquinas (Whitman, 1978):
• na técnica de superposição modal cm geral
podem ser considerados apenas os primeiros
modos próprios; o amortecimento diminui a
importância dos modos superiores;
• em sistemas acoplados, quando a freqüência de
excitaçáo é inferior à primeira freqüência a
resposta é basicamente governada pelas molas,
o que permite obter boas aproximações
superpondo efeitos, como se os graus de liberdade
fossem dcsacoplados;
• como existem incertezas importantes tanlo na
estimativa das freqüências próprias (principalmente
devido às incertezas nas propriedades
dos solos e no próprio perfil) quanto nas
freqüências de excitaçáo (por exemplo, esforços
secundários não especificados pelo fabricante do
equipamento), é recomendável que o projeto
incorpore um certo grau de flexibilidade para
ajustes na fase operacional (por exemplo,
deixando nichos no bloco da fundação, de forma
que a sua massa possa eventualmente ser
aumentada depois dos primeiros testes de
operação do equipamento);
• o amortecimento geométrico é sempre menor na
rotação do que na translação (vide Talx*la 10.1); se
o equipamento impuser solicitações desse tipo
(primárias ou secundárias), esse fato deve ser levado
cm conta na escolha das dimensões da base da
máquina, de modo a minimizar deslocamentos;
• como regra geral, recomenda-se que as
fundações de máquinas sejam projetadas de
modo que as suas freqüências próprias estejam
suficientemente afastadas da freqüência de operação
do equipamento: uma regra normalmente
aceita é f < 2/3 f n e f > 3/2 f n , onde f é a
freqüência de operação e f representa qualquer
freqüência própria do sistema;
• a eficiência dc barreiras (rígidas, de concreto,
ou flexíveis, dc bentonita, isopor, etc.) para minimizar
vibrações transmitidas pelo solo a alguma
distância de fundações de máquinas depende
essencialmente da sua capacidade de interceptar
as ondas Rayleigh (vide 10.2.2.a); para tanto a
profundidade a ser atingida deve ser da ordem de
grandeza do comprimento de onda das ondas
Rayleigh; como esse comprimento de onda é tanto
maior quanto menor a freqüência da cxcitaçào, as
barreiras constumam ser uma solução mais
apropriada para o isolamento das altas freqüências.
10.5 DETERMINAÇÃO DOS PARAMETROS
DINÂMICOS DOS SOLOS
Numerosos problemas de engenharia requerem
o conhecimento das propriedades dinâmicas dos
solos. Esses problemas, conforme ilustra a Figura
10.4, abrangem uma variedade de situações envolvendo
de um lado da escala amplitudes muito
baixas de deformação, como por exemplo, fundações
para microscópios eletrônicos, e do outro
lado da escala, terremotos destrutivos ou explosões
nucleares, cujos efeitos cabe â engenharia
tentar atenuar. Por outro lado, tanto o módulo de
cisalhamento quanto a razão de amortecimento
são parâmetros do solo altamente dependentes
da deformação. O valor do módulo de cisalhamento,
por exemplo, pode se reduzir em mais
de dez vezes ao se passar de uma amplitude de
deformação cisalhante tle 10*% para 1%. Daí se
depreende que é essencial a avaliação desses
parâmetros em níveis de deformação compatíveis
com cada problema específico em estudo.
nas o valor de G max' , que * é o módulo de cisalha-
mento máximo do solo, associado a baixas deformações
cisalhantcs. Além do mais, não servem
rotineiramente para obtenção das características
de amortecimento do solo.
Em faces dessas limitações dos ensaios de campo,
faz-se uso em muitas situações de técnicas
laboratoriais, apesar dos inevitáveis problemas de
amolgamento do solo associados à amostragem.
Assim, ensaios em alta freqüência (camlíém denominados
ensaios dinâmicos) tais como o ensaio de
coluna ressonante, sào geralmente usados para determinar
as propriedades dinâmicas cbs solos em níveis
baixos e moderados de deformação, de 10 % a
10*%. Na outra extremidade do espectro, para deformações
variando de lO^o até 1% ou mais, sào
usados ensaios em baixa freqüência (denominados
ensaios cíclicos) tais como o triaxial,
cisalhamento simples e torcional cíclicos.
As Tabelas 10.2 e 10.3 relacionam respectivamente
os principais ensaios de campo e dc la!x>ratório
disponíveis para a determinação dos parâmetros dinâmicos
dos solos, bem como as faixas potenciais
de deformação nas quais eles podem ser utilizados.
Apresenta-se a seguir descrição sucinta de cada
uma dessas técnicas.
10.5.1 Ensaios de Campo
a. O Ensaio Crosshole
A técnica sísmica denominada crosshole, também
conhecida em nosso país por ensaio sísmico
entre furos, é considerada a mais confiável para a
0 s c i I 0 3 C o'p I o
As principais técnicas de campo são capazes de
produzir no terreno somente deformações cisalhantcs
menores do que 10 ^/o. Determinam portanto,
conforme será discutido no item 10.6, apcfundoçôe*
de móquinas
odequodomente projclfldos problemos
estoiicos
vit>roçéo de irqfego
equi pomentos de
preci sòo
problemos
t c rr e motos
off-shore
explosões
nuclecres
terremotos
desirutivos
LHANTE (<
Figura 10.4 - Deformações cisalhantcs cm solos para
diferentes problemas dinâmicos (adaptado do Woods,
1978; Massarsch. 1983; Carrubba e Maugeri. 1988)
Figura 10.5 - Arranjo para execução do ensaio
crossholc
Ensaio Principio da Técnica Faixa de deformação
para a qual G pode ser medido (%)
Crosshole
Downhote
Uphole
Piezocone sísmico
Refração Sísmica
Vibração em
Regime Estacionário
Análise Espectral de Ondas
Superficiais (SASWJ
Ensaio Pressiométrico
determinação da veloc.
de propagação da onda
de cisalhamento V
~ 10 4
determinação da veloc.
de propagação da onda
Rayleigh V R
determinação da curva
tensão • deformação
("laçada de histerese")
- 10'
Tabela 10.3 1 Ensaios de laboratório mais utilizados para determinação do módulo de cisalhamento e da razão de
amortecimento dos solos
Ensaio
Principio da Técnica
Faixa de deformação para a
qual G e D podem ser medidos (%)
Ccluna Resscnante determinação da veloc. da IO 4 a I0' 2
Bender elements* onda de cisalhamento V t IO 4
Cisalhamento Simples Cíclico
Triaxial Cíclicc
Torcional Cíclico
Coluna Ressonante e
determinação da curva
tensão-deformação
(laçada de histeresej
determinação de V |col.
I0 2 a 1
Torcional Cíclico ressonante) e laçada de IO" 4 a I
Combinados
histerese (torc. cíclico)
* Neste ensaio nâo à possivel determinar a razão de amortecimento
O ensaio, normalizado pela ASTM (D4423-91),
consiste na geração de ondas de corpo P e S a
uma certa profundidade de interesse no interior
de um furo aberto no terreno e no registro da
chegada dessas ondas em um ou mais furos adjacentes,
à mesma profundidade, como esquematizado
na Figura 10.5. Conhecendo-se a distância
entre os furos e determinando-se o tempo de viagem
de cada onda de um furo a outro, calculamse
as velocidades V e V .
p *
O tempo de viagem da onda entre o furo onde
está a fonte de energia e aquele onde foi inserido
o receptor, em geral, um geofone, é determinado
na tela de um osciloscópio ou sismógrafo. A Figura
10.6 mostra dois sinais típicos captados no receptor,
como observado no equipamento de registro.
O sinal inferior foi obtido através do processo
de inversão do sentido do impulso, comentado
mais adiante.
O sinal sísmico no ensaio crossbole costuma ser
dividido em três partes. A primeira, correspondente
â porção praticamente horizontal do traço, com o
registro somente do ruído ambiental, compreende
o período de tempo entre a geração do impuldeterminaçào
in situ do módulo de cisalhamento
máximo dos solos. No Brasil tem sido usada desde
o início da década de 1980, sendo divulgada
por diversos autores.
ondas P e S no sismograma
so pela fonte e a chegada da onda P ao receptor.
A segunda parte se refere ao período de tempo
entre a chegada da onda P e a chegada da onda
S e representa a energia transmitida pela onda P.
Por fim, a última parte, formada por ondas de
maior amplitude e menor freqüência do que a
porção anterior do traço, se inicia com a chegada
da onda S.
Assim, medindo-se a distância entre os furos e
determinando-sc no sismograma os períodos de
tempo compreendidos entre a geração do impulso
e as chegadas das ondas P e S, podem ser calculadas
as velocidades dc ambas as ondas de corpo.
Para a realização do ensaio são necessários
dois furos, um para a fonte e outro para o receptor.
Recomenda-se, entretanto, sempre que
possível, a execução de três furos colineares,
colocando-se a fonte no primeiro e receptores
nos outros dois. Com esse arranjo, elimina-se a
preocupação com o sistema de gatilhamento,
uma vez que a velocidade pode ser determinada
entre dois furos com receptores, não sendo
portanto necessário considerar o tempo gasto
pela onda para percorrer a distância entre a fonte
e o primeiro receptor. O sistema de gatilhamento,
como se sabe. tem a finalidade de iniciar
o registro do sinal, o que ocorre, inevitavelmente,
sempre com um pequeno atraso em relação
à geração do impulso.
Os furos, com diâmetro entre 3 a 6 polegadas,
são em geral revestidos, usando-se para tanto tubos
de PVC, tamponados em sua extremidade
inferior. Todo o espaço vazio ao redor do revestimento
é preenchido com calda de cimento deforma
a garantir um bom contato com o solo ao
redor.
O espaçamento entre furos sucessivos é tipicamente
em torno de 3 m para investigações em
solos. Espaçamentos muito maiores podem levar
a erro na interpretação da distância percorrida pela
onda, diante da possibilidade de refração da mesma
em camadas de maior velocidade. Outro aspecto
importante que afeta a distância percorrida
pela onda é a verticalidade dos furos. Furos com
mais de 15 m de profundidade devem ter o seu
desvio da vertical determinado.
Os diversos tipos de fontes usadas na geração
de ondas sísmicas para ensaios crosshole podem
ser classificados em duas categorias: fontes explosivas
e fontes mecânicas. Estas últimas em
geral produzem uma chegada da onda S mais
bem definida, e são, por essa razão, mais utilizadas.
Além do mais, podem ser projetadas de forma
a permitir a inversão no sentido do impulso
aplicado. Isso facilita bastante a identificação das
ondas S no sismograma, uma vez que as mesmas,
diferentemente das ondas P, se polarizam
de acordo com o sentido do esforço empregado
na geração da energia. Esse recurso é ilustrado
na Figura 10.3, onde se observam chegadas de
ondas S com inversão de polaridade.
b. Ensaios Downhole, Uphole e Piezocone
Sísmico
A técnica sísmica downhole é uma alternativa econômica
ao ensaio crosshole. Conforme mostra a Figura
10.7a, necessita somente de um furo, no interior
do qual um receptor é colocado em etapas sucessivas,
em diferentes profundidades, enquanto a
fonte de energia fica na superfície do terreno, próxima
à lx)ca do furo. Os tempos dc viagem das ondas
de corpo entre a superfície e o receptor são
registrados, possibilitando então a construção do
gráfico do tempo de viagem em fur.ção da profundidade,
a partir do qual os valores de \\ e V p de
todas as camadas podem ser detemiinados.
Um refinamento nesta técnica é a utilização de
dois ou mais receptores posicionadcs cm diferentes
profundidades ao longo do furo, possibilitando leituras
simultâneas para um único impulso. Isto nào
somente reduz o tempo de ensaio como permite o
cálculo das velocidades a partir das diferenças de
tempo registradas entre pares sucessivos de geofones.
Uma outra possibilidade é a técnica conhecida
como uphole que consiste na inversão das posições
da fonte e do receptor em relação ao ensaio
downhole, ou seja, neste caso a fonte é descida
no furo enquanto o receptor permanece na superfície
do terreno (Figura 10.7b). Têm sido apontadas
como importantes desvantagens desta técnica
a maior dificuldade em gerar ondas do tipo
desejado e uma relação bastante elevada entre as
amplitudes das ondas P e S.
©
AW/A
0
W
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W
I.J
KrQw.
©
|H Htcep'0'
(r)
fonte
Figura 10.7 - (a) Ensaio downhole;
©
W/AWw
|b) ensaio uphole
Finalmente, deve-se mencionar também o ensaio
CPTU sísmico ou SCPTU como tem sido
abreviadamente chamado na literatura. Este desenvolvimento
recente combina a técnica
downhole com o piezocone. Com esta finalidade,
um pequeno transdutor de velocidade é incorporado
ao cone. dc forma a se poder determinar,
além da pressão neutra c das resistências de ponta
e de atrito, que sào os parâmetros usuais obtidos
no CPTU, também a velocidade de propagação
da onda S, o que é feito cm pequenas pausas
durante o ensaio de cone.
c. Refraçâo Sísmica
Nesta técnica, uma linha de diversos geofones é
instalada na superfície e provoca-se um impacto ou
explosão também na superfície (Figura 10.8(a)).
Mede-se então o tempo gasto para a onda ir, através
do subsolo, do ponto de excitaçáo a cada um dos
geofones. por um percurso a ser determinado a partir
dos próprios resultados do ensaio. Pode-se então
calcular as velocidades de propagação de onda nas
diversas camadas do subsolo, bem como a espessura
de cada camada. Isso é feito, como ilustrado na
Figura 10.8 (b). pelo gráfico do tempo de viagem
em função do espaçamento dos geofones.
©
®
Se a velocidade de onda V s da camada superior
for menor do que a velocidade V J da segunda camada,
é possível definir-se um ângulo crítico de incidência
para uma onda que se origina na superfície
e intercepta a interface. Esse ângulo crítico dc incidência,
para o qual o ângulo de refraçâo na segunda
camada é de 90" em relação â normal ã interface,
pode ser deduzido a partir da lei dc Snell e vale:
V
/. = aresen— (10.23)
A onda refratada gerada pela onda criticamente
incidente viaja no meio inferior paralelamente a
interface com velocidade como mostrado na
Figura 10.8(a). Essa onda provoca vibrações na
interface, o que gera uma frente de onda na camada
superior, viajando com velocidade Vj numa
direção inclinada de <90 '-i J em relação ã interface.
Todos os receptores na superfície a uma distância
da fonte igual ou maior cio que 2Htgi c registrarão
a chegada de uma onda que sofreu refraçâo
na segunda camada. Nos receptores próximos à
fonte, a onda direta chegará antes de qualquer
onda refratada. Entretanto, nos receptores posicionados
a distâncias da fonte maiores do que
um certo valor x , a onda refratada chegará primeiro,
pois, embora sua trajetória seja mais longa,
terá viajado tempo significativo na camada inferior
de maior velocidade.
Os seguintes valores podem ser obtidos do gráfico
:empo de viagem versus distância da fonte:
• a velocidade de propagação V,. que é o recíproco
da inclinação do primeiro segmento de reta;
• a velocidade de propagação V 2 , que é o recíproco
da inclinação do segundo segmento de reta; e
• a distância crítica x que é o valor da abeissa no
qual as duas retas se interceptam.
A espessura II da primeira camada pode ser
obtida pela seguinte expressão, facilmente demonstrável:
x ly -V
Figura 10.8 - (aj Ensaio dc refraçâo sísmica cm semiespaço
composto de duas camadas com interface
horizontal; jbj gráfico de tempo de viagem em
função do espaçamento dos geofones
A teoria na qual se fundamenta a técnica é apresentada
a seguir para o caso simples de um semiespaço
composto dc duas camadas com interface
horizontal. O que se descreve é válido tanto para
V ( como para V, sendo portanto a velocidade de
onda simplesmente representada por V.
O que se apresentou aqui é o caso mais simples.
Técnicas analíticas para geometrias mais complexas,
compreendendo diversas camadas horizontais
ou estruturas de duas ou mais camadas com
interfaces planas não horizontais sào disponíveis
na literatura.
Como limitação da técnica, camadas de baixa
velocidade entre camadas de maior velocidade nào
podem ser detectadas e introduzem erros significativos
na interpretação. Camadas pouco espessas de
alta velocidade podem também nào ser percebidas
se os contrastes de velocidade forem elevados.
d. Vibração em Regime Estacionário
Este método, que também nào requer furos, baseia-se
no fato de que uma fundação apoiada na
superfície do terreno, vibrando verticalmente, gera
na superfície predominantemente ondas Rayleigh.
A forma deslocada da superfície do terreno cm
qualquer instante de tempo devido a uma fonte
com excitação senoidal pode ser representada por
uma curva também senoidal, como mostrado na
Figura 10.9- A distância entre dois quaisquer picos
sucessivos é equivalente a um comprimento de
onda da onda Rayleigh (representado por L R ) e pode
ser determinada movendo-se o geofone e localizando
pontos onde o movimento da superfície do
terreno esteja cm fase com o oscilador.
F» ll«Wl
medido do comprimento de onda cm qualquer
freqüência dc vibração f pela expressão:
V*=fL*
(10.28)
Uma vez que V K = 0,94 V % , o módulo de
cisalhamento pode também ser calculado.
A atenuação teórica de ambas as componentes
vertical e horizontal da onda R com a profundidade
é mostrada na Figura 10.10. Com base nessas
curvas é razoável admitir que a maior parte da onda
R viaja através de uma zona do semi-espaço com
cerca de um comprimento de onda de profundidade.
Pode também ser postulado que as propriedades
médias dentro desta zona são aproximadamente
as propriedades numa profundidade de metade do
comprimento de onda (.1/2).
Amplitude no profundidade Z
Figura 10.9 - Superfície deformada do terreno resultante
da vibração vertical dc uma fundação
Seja o deslocamento vertical na fonte de vibração
z,. assim expresso:
z F(t) = A f. scn(oy) (10.25)
onde A h . é a amplitude do deslocamento na fonte.
O deslocamento vertical z ( num ponto da superfície
à distância r da fonte pode então ser expresso
por:
z,(/) = A, sen(d)f - <p) = A, sen w(/ - —) (10.26)
0)
onde A ( 0 a amplitude do deslocamento do ponto
e (péo ângulo de fase. Observa-se portanto
cjue <p/(0 é o tempo que a onda leva para percorrer
a distância r. Disso resulta a seguinte expressão
para V R :
y = r(ú = 2 K/r
* 9 <?
(10.27;
Como a uma distância r - L K da fonte, <p=27C, a
velocidade V R pode ser calculada a partir do valor
0
0,2
0.4
cr 0,6
•n. 0.8
M
1.0
1.2
•M
Amplitude na superfície
-0,2 0 0.2 0,6 1.0
1 1 1 1 1
.componenie
horiiontoL;--;
-0,6
ySyr componente •
X/y' vertical
//yv=o,25
/// V s 0,40
/// v s C, SO
Figura 10.10 - Razão dc amplitude em função da
profundidade adimcnsional para onda Rayleigh (apud
Richart et al., 1970)
Diminuindo-se a freqüência das vibrações na
fonte, o comprimento de onda aumenta c a onda
R efetivamente amostra uma profundidade maior.
Para um semi-espaço elástico, isotrópico e homogêneo,
as propriedades do material sào independentes
da profundidade c conseqüentemente todas
as freqüências fornecerão a mesma velocidade.
Entretanto, para um semi-espaço em que as
propriedades elásticas variam gradualmente com
a profundidade, V R varia com a freqüência da excitação.
Neste caso, diferentes comprimentos de
onda amostram materiais com diferentes propriedades
elásticas médias.
Determinando-se no ensaio comprimentos de
onda para diferentes freqüências de excitação,
obtém-se a denominada curva de dispersão, que
é a curva dc variação de V K em função de L K . Transformando
comprimentos de onda em profundidade
Cl 1=L r /2), alcança-se o objetivo final que é a
variação da velocidade com a profundidade.
O grande inconveniente da técnica de vibração
em regime cstacionário é a necessidade
de equipamentos que gerem vibração de alta energia
e que operem cm baixas freqüências para explorar
perfis profundos. Esta técnica também nào
é suficientemente sensível para indicar a exata
posição de uma interface. Em contrapartida, consegue
detectar camadas de menor velocidade abaixo
de camadas de maior velocidade.
e. Análise Espectral de Ondas Superficiais
lista técnica recentemente desenvolvida, também
conhecida por SASW (das iniciais do seu nome
cm inglês Spectral Analysis of Swface Waves), é
uma evolução bastante promissora do método de
vibração em regime cstacionário acima descrito.
Com o desenvolvimento de equipamentos de eletrônica
digital, em vez dc se usar um vibrador em
regime cstacionário em freqüências fixas,Ixista aplicar
um impulso na superfície do solo. A configuração geral
do ensaio é mostrada na Figura 10.11. Sào usados
dois receptores verticais na superfície para monitorar a
passagem das ondas geradas pela fonte. Os sinais produzidos
jxílos receptores sào digitalizados c registrados
num analisador dc sinais dinâmicos. Cada sinal de tempo
registrado é traasfonnado para o domínio das freqüências
usando o algoritmo da Transformada Rápida
de Fourier (FFD, c a diferença de fase <p entre os dois
sinais é calculada para cada frcqüência.
Figura 10.11 - Configuração básica do ensaio SASW
A velocidade da onda Rayleigh é calculada pela
expressão 10.27 fazendo-se r igual à distância entre
os receptores. O correspondente comprimento
de onda é determinado por:
Os passos de cálculo indicados acima sào realizados
para cada freqüência e os resultados apresentados
na forma de uma curva de dispersão. A
técnica de ensaio, na verdade, usa uma série de
diferentes distâncias entre os receptores e a fonte
para medir a propagação das ondas Rayleigh numa
ampla faixa de comprimentos de onda.
A análise da curva de dispersão experimental é
outro avanço significativo no método SASW com
relação à técnica original de vibração em regime
cstacionário. Como mencionado anteriormente,
admite-se nesta técnica que a velocidade determinada
numa particular freqüência é representativa
da velocidacle numa profundidade igual a metade
do comprimento dc onda respectivo.
No método SASW, o procedimento é outro. Adota-se
inicialmente um certo perfil de velocidade
para o local, e então determina-se a curva teórica
de dispersão para esse perfil. Essa curva é comparada
com a curva experimental. Com base nesta
comparação, o perfil suposto inicialmente é modificado
e uma nova curva de dispersão teórica é
calculada. Esse procedimento é repetido diversas
vezes até que ocorra uma boa coincidência entre
as curvas. O perfil final obtido corresponde ao
perfil do terreno.
É um método, como dito anteriormente, bastante
promissor, já existindo extensa bibliografia
sobre o mesmo. É interessante observar que o
método SASW também tem sido usado com bastante
sucesso para a avaliação das propriedades
elásticas de camadas de pavimentos.
f. Ensaio Pressiométrico
O pressiômetro autocravável é um equipamento
bastante útil para determinação in situ de diversas
propriedades do solo. Recentemente tem
sido destacado seu grande potencial para determinação
do módulo dc cisalhamento do sob.
Esta é a única técnica dc campo em que a determinação
do módulo dc cisalhamento não é feita a
partir da teoria de propagação de ondas elásticas,
mas sim da própria curva prcssào-deformaçào da
cavidade obtida no ensaio (Figura 10.12). Seus
dados devem ser interpretados à luz da teor.a da
expansão de cavidade cilíndrica para se poder
relacionar as quantidades medidas, ou seja pressão
na cavidade (p) e deformação da cavidade
(e - Ar/r 0 , onde r 0 é o raio inicial da cavidade),
com o módulo de cisalhamento e a deformação
cisalhante.
É possível demonstrar a partir dessa teoria que
a razão entre pressão e deformação da cavidade
corresponde a 2G, onde G é o módulo de
cisalhamento do solo. Assim, do trecho inicial da
curva p versus e poder-se-ia obter G n simplesmente
dividindo-se o gradiente inicial da curva
por 2. Entretanto, a experiência tem mostrado que
o módulo assim determinado é significativamente
700
1 600
UJ
500
400
i
300
o
3
z
200
100
0
M)—--
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JO 135 MO 1.43 o^
.... \
OtJcarfegomtnto ^
2 3 4 * 6 7 a
OtFORMAÇÂO OA CAVIOAOC 1%I
10 11
Figura 10.12 - Exemplo da laçada de carregamentodescarregamcnto
determinada com o pressiômetro
cm areia (apud Bcllotti ct al.. 1989)
menor do que G nux , em razão principalmente do
amolgamento do solo provocado pela cravaçào
do pressiômetro.
Wroth (.1982) propôs um procedimento alternativo
para determinação do módulo de
cisalhamento utilizando o pressiômetro autocravável.
Como mostra a Figura 10.12. esse procedimento
consiste na execução dc pequenos ciclos
de descarregamento - recarregamento durante
o ensaio prcssiométrico. Cada ciclo terá um gradiente
de 2G i;r sendo G,, R o módulo dc
cisalhamento correspondente ao descarregamento
- recarregamento (II e R, respectivamente, do
inglês utilocul e reload). Tem-se verificado que
G ( , k é praticamente independente da forma inicial
da curva de expansão, portanto, independente do
amolgamento.
Deve-se observar que o módulo de cisalhamento
assim obtido nào corresponde a G mis pois o nível
de deformação é muito superior. Bcllotti et al.
(1989) sugeriram uma expressão para cálculo da
deformação cisalhante aplicada no ensaio, a partir
do valor da deformação da cavidade. Ressaltese
ainda que o valor do módulo deve sofrer uma
correção, como mostraram os mesmos autores, em
razão da diferença entre a tensào efetiva média in
sim. sem o equipamento, e a tensão efetiva média
aplicada ao solo durante o ensaio. Com essas ressalvas,
é possível uma comparação direta entre os
valores de módulo determinados no ensaio
pressiométrico com os obtidos em outros tipos de
ensaios.
É interessante notar que se pode determinar no
ensaio, pelo menos para um certo trecho de deformação
cisalhante, no entorno de 0.1%, a variação
do módulo com a deformação cíclica, seja através
de ciclos de descarregamento-carregamento com
diferentes amplitudes de deformação da cavidade,
seja pela análise dc um único ciclo. Portanto, embora
o ensaio pressiométrico não permita a obtenção
de G mjx , é o único dos ensaios dc campo, até o
momento, com potencial para determinação da
curva de redução do módulo com a deformação.
10.5.2 Ensaios de Laboratório
a. Coluna Ressonante
O ensaio dc coluna ressonante é o casaio de lalx>
ratório mais amplamente utilizado para a avaliação
dos parâmetros dinâmicos dos solos para baixas e
moderadas amplitudes de defonnaçào (10^ a 10*%).
Após algumas aplicações pioneiras na década de 1930
no Japão, a utilização deste ensaio :omou grande
impulso nos Estados Unidos durante os anos 60, sendo
atualmente nomializado pela ASTM (DÍ015-92).
No Brasil, os ensaios de coluna ressonante começaram
a ser realizados a partir de 1980.
O ensaio consiste em síntese na aplicação dc
uma vibração scnoidal dc torção a um corpo de
prova cilíndrico, previamente submetido a um
estado qualquer controlado de tensão no interior
de uma câmara triaxial. Fazendo-se variar a freqüência
de vibração é possível determinar a freqüência
de ressonância do sistema corpo de prova-equipamento
e, usando a teoria de propagação
de ondas em barras, o módulo dc cisalhamento
do solo pode ser calculado. A razão dc amortecimento
pode ser obtida no ensaio por vários processos,
sendo o mais comum c método do
decaimento das vibrações livres.
Diversos equipamentos têm sido desenvolvidos
usando diferentes condições de contorno. Os mais
utilizados podem ser representados por um dos
dois modelos mostrados na Figura 10.13. Em ambos
os modelos, a vibração é aplicada e a resposta
é medida no topo do corpo de prova, sendo a
base considerada perfeitamente engastada. Praticamente
todos os equipamentos baseados no
modelo mais simples, chamado "'fixo-livre'' (Figura
10.13(a)), tiram partido dos efeitos da coloca-
© ®
fò
MASSA BIGIOA
COHPO DE PR OVA
Eilrcmidode fi*o
Moi 0
cedor
Figura 10.13 - Configurações mais comuns do equipamento
dc coluna ressonante
çào de uma massa adicional no topo para obter
uma distribuição de deformação mais uniforme
ao longo do comprimento do corpo de prova. O
conhecido oscilador tipo Hall (Hall e Richart, 1963)
pertence a esta classe de equipamento. Outro
modelo bastante utilizado é o desenvolvido por
Hardin e Music (1965), denominado oscilador
Hardin, baseado na configuração indicada na Figura
10.13(b), o qual apresenta a vantagem em
relação ao anterior de poder ensaiar o corpo de
prova em estados anisotrópicos de tensão.
Cada uma das duas configurações requer oscilador
c métodos de interpretação dos dados levemente
diferentes. Descreve-se a seguir o oscilador Hardin.
Descrição elo Equipamento e do Procedimento
de Ensaio
A montagem da câmara de ensaio nào é em si
muito diferente da de um ensaio triaxial convencional.
Após a colocação do cabeçote no topo do
corpo de prova, é acoplado ao mesmo o oscilador
mostrado na Figura 10.14. A câmara triaxial é então
fechada, sendo o corpo de prova submetido
às pressões confinante c axial desejadas.
coryo oaiol
VISTA INFERIOR
occleròmílro
Como se vê na Figura 10.14, o oscilador é composto
dc uma massa vibratória (formada pelo anel
de fixaçào do cabeçote c por quatro braços; e de
um cilindro de grande inércia rotacional, unidos
por quatro molas de torção.
A passagem de corrente pelas quatro bobinas fixadas
no cilindro inercial produz uma força entre as
mesmas e os elctroímâs presos aos quatro braços da
massa vibratória, resultando disto um torque em
relação ao eiw do corpo de prova. Pela passagem
de uma corrente dc variação senoidal com o tempo,
produz-se um torque tamliém senoidal. Como o cilindro
inercial proporciona uma reaçào essencialmente
fixa, a aplicação do torque causa vibração no
topo do corpo de prova, sendo a aceleração do
mesmo medida através de um acelerômetro instalado
num dos braças da massa vibratória.
Os sinais de torque e aceleração sào conectados
respectivamente aos canais horizontal e vertical de
um osciloscópio. Assim, feita a aplicação do torque
senoidal, a relação de fase entre os sinais de excitação
e resposta pode ser determinada pela tígura
de Lissajous formada na tela do osciloscópio. Neste
caso particular, a formação de uma elipse com
eixos vertical e horizontal indica uma defasagem
de TI/2 radianos, o que configura fenômeno de ressonância
no sistema corpo de prova-oscilador. Chega-se
a esta situação variando-se a freqüência da
corrente que passa pelas bobinas. Estabelecida a
ressonância, fazem-se medidas da aceleração
tangencial e da freqüência, o que possibilita o cálculo
do módulo de cisalhamento G e da amplitude
de deformação cisalhante y. Todo este procedimento
pode ser repetido para outros valores dc torque,
estabelcccndo-sc sempre a ressonância, de modo
a se poder obter a variação do módulo dc
cisalhamento com a deformação cisalhante.
O amortecimento interno do corpo de prova, por
sua vez, é determinado pelo método do decaimento
de vibrações livres. Para cada torque aplicado, na
ressonância, corta-se repentinamente o sinal de
excitação, resultando num decaimento logarítmico
da amplitude dc vibração com o tempo. Este
decaimento é gravado na tela do osciloscópio (Figura
10.15) e através da diferença entre amplitu-
^ «leiro - ímó
molo, K 0
cobe;ot«
Ijniinos —
|; ;• • ocoplorntnlo poro
o ene' ccnlroí
Figura 10.14 - Esquema do Oscilador Hardin
Figura 10.15 - Decaimento logarítmico da amplitude
dc vibração com o tempo
eles, como mostrado a seguir, calcula-se a razão dc
amortecimento do corpo dc prova.
Cálculo do Módulo de Cisalhamento e da Razão
de Amortecimento
Utilizando-se a teoria de propagação de ondas
em barras elásticas, 6 possível demonstrar (Barros,
1992), a validade da seguinte expressão para
o modelo indicado na Figura 10.1(Xb):
(k Ko '
1/ /ü)\ >T
(10.30)
onde L é a altura do corpo de prova, I e I t) são respectivamente
o momento polar de inércia de massa
do corpo de prova e do conjunto massa vibratória +
cabeçote, K é a constante de mola do equipamento
e co é a freqüência angular na ressonância.
Na expressão acima, I 0 c são obtidos a partir
da calibração do equipamento e I da massa e geometria
do corpo de prova. Na execução do ensaio,
determina-se a freqüência de ressonância f do sistema
corpo de prova - equipamento. A freqüência
angular é dada por co= 2nf. Com esses valores
conhecidos, pela expressão 10.30 obtém-se V % e
consequentemente o valor do módulo dc
cisalhamento.
É interessante notar que a expressão 10.30 pode
ser usada também para ensaios realizados com
equipamento de configuração "fixo-livre", sem a
presença de molas torcionais, como é o caso do
oscilador Hall, bastando para tanto tomar K o =0.
Para a determinação da razão de amortecimento,
calcula-se inicialmente o decremento
logarítmico 8 s do sistema pela expressão:
6. = —ln- (10.31)
sendo 6 o o decremento logarítmico :1o equipamento,
determinado por calibração, d o diâmetro do
corpo de prova e G o módulo dc cisalhamento
calculado a partir de V . Para o cálculo da razão
de amortecimento cm ensaio com o oscilador Hall,
basta tomar K, -0.
Cálculo da Deformação
Cisalhante
A amplitude de deformação cisalhante pode ser
calculada a partir dos valores da aceleração
tangencial e da freqüência de ressonância determinados
no ensaio.
A amplitude da rotação angular do corpo de
prova pode ser obtida por:
0 = (10.33)
onde a t é a amplitude da aceleração tangencial,
calculada a partir da leitura do acelerômetro, f é a
freqüência de ressonância e C, a distância entre a
posição do acelerômetro e o eixo do corpo de
prova.
Finalmente, a amplitude de deformação
cisalhante. em porcentagem, é dada por:
(10.34)
A expressão acima fornece a deformação
cisalhante média, conforme recomendado por
Drncvich (1978). que corresponde a 2/3 da amplitude
de deformação máxima no perímetro do
corpo de prova.
b. Bender Elements
onde A, é a amplitude de vibração no primeiro
Há mais de três décadas tem sido feita em laboratório
a determinação direta da velocidade de
ciclo após a interrupção do sinal de excitaçáo e
A n>1 u amplitude no ciclo n+1, amplitudes essas propagação da onda a partir do registro do tempo
obtidas na tela do osciloscópio (Figura 10.15). necessário para a onda percorrer uma certa distância
no solo. Na maior parte dos casos, restringiu-se
ã determinação da velocidade da onda P,
Pode-se demonstrar que a razão de amortecimento
é dada por:
face a dificuldade de se obter com precisão a chegada
da onda S. Mais recentemente foi desenvolvida
uma nova técnica (Dyvik e Madshus, 1985)
que faz uso dos chamados bender elements para
gerar e registrar ondas S com a possibilidade dc
inversão de polaridade, similarmente ao que é feito
com
in situ no ensaio crosshole, melhorando em muito
a qualidade dos resultados.
j-32 K « L (10.32) Os bender elements, pequenas placas retangulares
piczo-cerâmicas, sofrem flexào sob a ~ nGd 4 ação
dc uma cxcitação elétrica c, se fietidos mecanicamente,
produzem um sinal elétrico correspondente.
Ou seja, têm a capacidade de converter energia
elétrica em deformação mecânica e vice-versa. Eles
podem ser instalados em cabeçotes e pedestais
de diversos equipamentos convencionais de laboratório,
como cisalhamento direto, triaxial e
adensamento. Nào podem, entretanto, ser expostos
a umidade e, por essa razão, necessitam ser
revestidos com material a prova d'água. Os bender
elements são montados de tal forma que as extremidades
das placas ficam inseridas no interior do
corpo de prova. O valor de G riux pode ser medido
em qualquer estágio dos ensaios mencionados. Isso
é feito pela aplicação de um sinal elétrico a uma
das placas, o que gera uma onda S, e pela determinação
do tempo de chegada da onda na outra extremidade
do corpo de prova, usando para tanto o
sinal elétrico produzido pela segunda placa.
Uma das vantagens da obtenção de G nm por
meio de bender elements, está na maior simplicidade
nos procedimentos e cálculos comparativamente
ao ensaio de coluna ressonante. Deve ser
salientado, entretanto, que esta técnica nào permite
a determinação do módulo de cisalhamento a maiores
amplitudes dc deformação nem a determinação
das características de amortecimento do solo.
©
J K C" K C* C — K C
EZ3—
f
1 t
Tcmõcs iniciou Seqüência de Carrega roenio
Cíclico
© m a x
Areo A
V
v
\ vv\V
A
/ V ' 0 > •
/ \_ Areo A T
B
c. Ensaios Cíclicos
Os ensaios cíclicos sào usados para determinar
as laçadas de histerese tensão-deformação, a partir
das quais o módulo de cisalhamento e a razão de
amortecimento podem ser deduzidos.
É importante realçar que os mesmos possibilitam
a obtenção dos parâmetros dinâmicos somente para
amplitudes de deformação superiores a 10 2 %, vindo
seus resultados portanto complementar, para
maiores amplitudes de deformação, as informações
obtidas no ensaio de coluna ressonante.
Outro aspecto interessante no que se refere aos
ensaios cíclicos é o fato da freqüência de aplicação
do carregamento ser usualmente bastante baixa
(de menos de 0,1 até cerca de 10 Hz), o que
torna possível investigar o efeito do número de
ciclos nos valores dc G e D, o que já não ocorre
no ensaio de coluna ressonante.
Três sào os ensaios cíclicos mais utilizados: o
cisalhamento simples, o triaxial e o torcional. Para
a execuçào dos mesmos, além dos equipamentos
utilizados nos ensaios estáticos correspondentes,
são necessários um sistema especial servocontrolado
para aplicação do carregamento cíclico
e transdutores eletrônicos acoplados a registradores
com velocidade de resposta compatível para a
aquis.çào dos dados. Geralmente a fase cíclica do
ensaio é executada com controle de deformação
e com impedimento da drenagem.
No ensaio de cisalhamento simples, o corpo de
prova, impedido de se deformar lateralmente, é
Figura 10.16 - Ensaio de cisalhamento simples: faj
modelo idealizado de carregamento; (bj laçada de
histerese
submetido, após adensamento sob uma tensão vertical
inicial a' v , a uma tensào horizontal cisalhante
cíclica. O modelo idealizado de carregamento está
mostrado na Figura 10.16 (a).
Como se vê na Figura 10.16 (b), o módulo de
cisalhamento é determinado diretamente pela medida
da inclinação da reta que une os pontos extremos
da laçada de histerese. A razão de amortecimento
por sua vez é calculada pela expressão:
4TI A r
(10.35)
onde A l é a área da laçada de histerese (energia
dissipada no ciclo) e^éa área do triângulo OAB
(energia de deformação elástica associada à máxima
deformação).
Há que se mencionar as fortes críticas que se têm
feito este tipo de ensaio (Saada e Townsend, 1991)
especialmente no que se refere a nào uniformidade
de tensões no corpo de prova.
No ensaio torcional cíclico é feita a aplicação de
um momento torçor cíclico no topo de um corpo de
prova adensado usualmente sob um estado
hidrostático de teasào no interior de uma câmara
triaxial. Diferentemente do ensaio de coluna ressonante,
no qual o corpo de prova também é submeti-
do a uni torque cíclico, a determinação do módulo e
da razão de amortecimento neste ensaio se faz através
da curva tensão-deformação na forma dc laçada de
histerese obtida no ensaio. O procedimento para determinação
desses parâmetros é exatamente o mesmo
descrito para o ensaio de cisalhamento simples.
©
I
Cc - AC- 0
G =
2(1+ v)
y = (l+v)e
(10.36)
(10.37)
Resta ainda mencionar um importante avanço que
ocorreu nos últimos anos na técnica de determinação
de parâmetros dinâmicos de solos cm laboratório
(Alarcon et al., 1986), que é a combinação
dos ensaios torcional cíclico c coluna ressonante
num único equipamento de forma a ensaiar o mesmo
corpo de prova. Essa nova técnica permite obter,
a partir de um mesmo corpo dc prova, as curvas
de variação do módulo de cisalhamento e da
razão de amortecimento em função da deformação
cisalhante numa muito ampla faixa dc deformações,
desde cerca dc 10'% até próximo di ruptura.
10.6 FATORES QUE AFETAM OS
PARÂMETROS DINÂMICOS DOS
SOLOS
© ^
Este item, referente aos fatores que afetam as
propriedades dinâmicas dos solos, é dividido em
três partes: a primeira trata do módulo dc cisalhamento
máximo; a segunda é dedicada à relação
entre o módulo de cisalhamento e amplitude de
deformação cisalhante; a terceira, por fim, discute
a razão de amortecimento. O texto apresentado
se restringe, por limitação dc espaço, a situações
não sísmicas, dando-se ênfase aos principais fatores
de influência para problemas de fundação de
máquinas.
Informações sobre o comportamento dinâmico
dc solos brasileiros são incluídas, quando disponíveis,
ao longo do texto.
Figura 10.17 - Ensaio triaxial cíclico: (a) esquema de
carregamento e trajetória de tensões; (bj laçada dc
histerese
Finalmente, o ensaio triaxial cíclico, normalizado
pela AST.Y1 (D3999-91), consiste em sua forma mais
simples, na aplicação de um carregamento axial
cíclico sobre um coipo de prova adensado num
estado hidrostático de tensão. O esquema de carregamento
do corpo de prova e a trajetória de tensões
durante o ensaio estão indicados na Figura
10.17. Da laçada de histerese obtém-se a razão de
amortecimento, o módulo de Young e a amplitude
de deformação axial cíclica e. Estimando-se o coeficiente
de Poisson v, o módulo de cisalhamento e
a amplitude de deformação cisalhante podem ser
calculados com base na teoria da elasticidade:
10.6.1 Módulo de Cisalhamento Máximo
O módulo dc cisalhamento dinâmico dos solos
é uma propriedade depenclente da deformação,
dccrescendo com o aumento desta. É, entretanto,
praticamente constante para amplitudes dc deformação
cisalhante menores do que 10 *%, sendo
nesta situação denominado de módulo de
cisalhamento máximo c representado por G rim .
Inúmeras investigações têm sido feitas visando
identificar os fatores que afetam o módulo dc
cisalhamento máximo dos solos. A Tabela 10.-i
classifica os diversos fatores em quatro níveis de
importância. Os mais relevantes são discutidos a
seguir. Apresenta-se posteriormente uma breve
revisão das principais correlações existentes entre
G in v e várias outras propriedades dos solos.
Tabela 10.41 Nível de importância dos fatores
que afetam o valor de G (apud Barros, 1997)
Nível de Importância
Muito importante
Importante
Menos importante
Relativamente
nào importante
Fator
tensào principal efetiva na
direção da propagação
de onda
tensão principal efetiva
na direção da vibração
da partícula
índice de vazios
grau de saturação [especialmente
em argilas e siltes)
grau de cimentação
razão de sobreadensamento
(em argilas plásticas)
tempo (em argilas)
teor de partículas finas em
areias
carregamento cicfico anterior
tensão de cisalhamento
estática
sobreadensamento sob
tensões anisotrópicas
(em areias)
forma dos grãos (em areias)
freqüência (em argilasj
temperatura
tamanho dos grãos
distribuição granulométrica
número de ciclos
terceira tensão principal
efetiva
tipo de vibração
condição de drenagem
a. Efeitos da Tensão Efetiva, índice de Vazios e
Razão de Sobreadensamento
Como resultado dc uma série de investigações
em laboratório durante as décadas de 60 e 70,
Hardin (1978) pôde propor a seguinte expressão
para estimativa do valor do módulo de
cisalhamento máximo imediatamente após o
adensamento primário do solo, válida tanto para
argilas quanto para areias:
C 11U ,=625
IW
RS A*
Õ M Õ J ? ^
X
(10.38)
onde o o é a tensào normal efetiva octaédrica, e o
índice de vazios, RSA a razão dc sobreadensamento,
p a pressão atmosférica e K é um valor que depende
do índice de plasticidade do solo, conforme
indicado na Tabela 10.5. A introdução da pressão
atmosférica na expressão 10.38 permite que a mesma
seja usada em qualquer sistema de unidades.
Tabela 10.51 Valores do expoente K em função do
índice de plasticidade
IP (%) 0 20 40 60 80 >100
K 0 0.18 0.30 0.41 0.48 0.50
Inúmeras outras expressões, em geral similares
na forma à aqui apresentada, podem ser encontradas
na literatura. A expressão de Hardin, porém,
é reconhecidamente a mais usada para estimativa
dc G iiux após o adensamento primário. É
também de bastante utilidade para avaliação do
efeito de uma variação da tensào efetiva, do índice
dc vazios ou da razão de sobreadensamento
no valor de G do solo.
nu*
A aplicabilidade da expressão 10.38 para estimativa
de G nt:ix tem sido constatada em diversos
solos brasileiros, como areias secas, solos
sedimentares saturados e solos saprolíticos (Barros,
1990, 1991 e 1997). Para solos lateríticos porém,
os valores de G iiux determinados em ensaios
de coluna ressonante sào muito superiores aos calculados
pela expressão de Hardin (Barros et al.,
1991, Giacheti, 1991 e Barros, 1994). As diferenças
constatadas, de 30% a 370%, têm sido atribuídas
basicamente a dois fatores: à cimentaçào natural
das partículas e às tensões de sucção que
ocorrem nesses solos, que em geral se apresentam
parcialmente saturados. A influência desses
fatores no módulo é discutida mais adiante neste
texto. Barros (1997) propôs novas expressões, levando
em consideração G (1 , RSA, índice de vazios
e a tensào de cedência, * para estimativa de G mu de
solos lateríticos.
b. Efeito das Componentes Individuais de
Tensão
Rocsler (1979) foi o primeiro pesquisador a
mostrar que nào era a tensào efetiva média ^a u ),
como suposto inicialmente, mas sim as componentes
individuais de tensão que tinham o efeito
mais importante no módulo dc cisalhamento. Suas
conclusões se basearam em ensaios em corpos de
prova cúbicos de areia nos quais podiam ser aplicados
estados anisotrópicos de tensào. Em seu
estudo, Roesler verificou que era proporcional
a o./ ) W e o,, 0,0? e nào era influenciado poro., onde
O i = a tensão principal na direção da velocidade
de propagação dc onda, a," a tensào principal na
direção da vibração das partículas; ec = a terceira
tensão principal. Seus resultados estão apresentados
na Figura 10.18. A equação 10.38 é, portanto,
a rigor, válida somente para o caso especial
de estado isotrópico de tensões.
Diversas investigações subseqüentes para confirmação
dos achados de Roesler mostraram que
a velocidade da onda de cisalhamento e, poitanto,
o módulo de cisalhamento, dependem de forma
praticamente igual das tensões efetivas princi-
o
>-
z
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O
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8
UJ
>
300
250
300
250-•
300
250-
O-Amostro - 1
A-Amostro - 2
G c = C Q =
G 0 =
55
-0 O—
48
-O r-O-r- . , .
6
<r : 90 kPo
c
Q q Voriovel
90
C b Voriovel
= 95 KPo
ô—
95
G c Voriovel
50 100 , 1 50 '
TENSÃO VARIAVEL (kPo)
Figura 10.18 - Variações em V, causadas por variações
independentes das três tensões principais (apud
Roesler. 1979)
pais nas direções da propagação dc onda e do
movimento das partículas, e sào independentes da
tensào principal na terceira direção.
Dessa forma, considerando efeito nulo de o e
efeitos iguais de a. e <J h, Hardin (1980) propôs
que sua expressão fosse rcescrita como:
PÇA K
(l.IS „ 0.J
= 625 Õ3+ÕV (<5 " CT ' )l " P '
c. Efeito da Duração do Confinamento
(10.39)
Estudos em laboratório na década de 1970 mostraram
que para a maioria dos solos a variação de
G n x com o tempo de adensamento pode ser caracterizada
por uma fase inicial, em que o módulo
varia rapidamente com o tempo, seguida por uma
segunda fase, em que o módulo varia de forma
aproximadamente linear com o logaritmo do tempo.
Este tipo de resposta é ilustrado na Figura
10.19. A fase inicial resulta basicamente da variação
do índice de vazios durante o adensamento
primário; é portanto denominada de fase de
"adensamento primário". A segunda fase, por sua
vez, foi refericla por Anderson e Stokoe (1978)
como "efeito do tempo a longo prazo" e representa
o aumento do módulo com o tempo que
ocorre após o término do adensamento primário.
i —
G"0 = Conslonte
V $ 10' J %
G 1000
A dmsomenlo
primo rio
»
AG "T
/ "T" i
ter i i
'
i
! J
. i
i l .
i
i
l
— £ feito do tempo 1
'iÍLO ° ,ün v y P'oio !
1 1 | I.
10 l 10* 10 3 10* 'zjo 1
DURAÇÃO 00 CONFINAMENTO
Figura 10.19 - Variação dc G mJjl com o tempo, determinada
em ensaio de coluna ressonante (apud Anderson
c Stokoe, 1978J
É importante observar que esse aumento do
módulo é significativamente maior do que o esperado
pela variação do índice de vazios na fase
de adensamento secundário (Kokusbo et al., 1982;.
Dois coeficientes têm sido usados para descrever
o efeito do tempo a longo prazo. Este
pode ser expresso numa forma absoluta pelo
coeficiente I t; :
AG
'o =
log :
onde
(10.40)
t,, t, - tempos após o adensamento primário, e
AG = variação em G nux de t, a t^ como mostrado
na Figura 10.19.
O efeito do tempo a longo prazo pode também
ser expresso em termos relativos pelo acréscimo
normalizado do módulo de cisalhamento
com o tempo, N c; :
N = y 100 (10.41)
onde (G iius ) Ifloo = módulo de cisalhamento máximo
medido após 1000 minutos de pressão
confinante constante (que deve ccorrer após o
término do adensamento primário). O objetivo
desta normalização é remover, pelo menos em
parte, a influência da pressão confinante no coeficiente
I ( ..
Valores típicos de N ( ., conforme Richart et al.
(1977) sào de 1 a 3 % pára areias limpas, 3 a 10 %
para argilas sobreadensadas e 5 a 20 % para argi-
Ias normalmente adensadas. Kokusho et al. (1982),
por outro lado. sugeriram ser N ( . crescente o com
índice de Plasticidade do solo. Solos lateríticos e
saprolíticos investigados por Barros (1997) apresentaram
valores de N. entre 2% e 8%.
o
Comparação entre módulos de cisalhamento máximo
de campo e de laboratório
Neste ponto parece interessante discutir uma importante
implicação de ordem prática do efeito do
tempo a longo prazo: a dificuldade cm se prever o
módulo de cisalhamento in situ a partir de ensaios
de laboratório. Inúmeros estudos têm demonstrado
que o valor de G nux de ensaios de laboratório determinado
imediatamente após o adensamento primário
é tipicamente menor do que o valor de G nux obtido
insitu por métodos sísmicos. Essa diferença também
tem sido constatada em solos tropicais brasileiros.
Barros (1997), que compilou dados de inúmeros
solos lateríticos c saprolíticos, relata que a relação
entre o valor G obtido em ensaios crosshole e o
nux
G estimado a 1
nli>
partir dc ensaios de coluna resso-
nante pode variar de 0,8 a 2,0. Nota-se que essa
faixa ampla de valores é em grande parte resultante
da incerteza quanto ao valor do coeficiente de
empuxo em repouso a ser adotado para tais solos.
Entretanto como mostra a bibliografia internacional.
quando o aumento do módulo com o tempo
é introduzido na comparação, resulta uma muito
melhor concoidância entre ensaios de campo e
laboratório.
O procedimento para estimar módulos a baixa
amplitude in situ a partir de ensaios laboratoriais
foi descrito por Andcrson e Stokoe (1978). Inicialmente,
sào determinados em ensaios de coluna
ressonante os valores de G tnjx
adensamento primário, (G nux ) fui,
ente I,.. Adiciona-se entào a (G )
IIVÍV pnniifHi
no final do
c do cocficio
efeito
do tempo a longo prazo que se estima tenha ocorrido
no campo. Este procedimento pode ser expresso
matematicamente por:
(G mai = (G^ + F a l a c i oA2)
onde:
(G )
in.i» I.III>|*I
G de campo a ser estimado; e
F a - fator idade para o local.
O fator idade de um local é estimado de:
/ 'p (10.43)
cm que:
t = intervalo de tempo transcorrido desde o início
da mais recente mudança significativa na história
dc tensões no local, e
t ( » intervalo de tempo para completar o
adensamento primário no local em conseqüência
da variação de tensão.
Valores típicos de F v de acordo com Andcrson e
Stokoe podem variar de A a 8. É importante reconhecer
que este método de extrapolação usado em
solos scdimentares, é de muito difícil aplicacào em
solos tropicais.
d. Efeito do Grau de Saturação
Wu et al. (1984) examinaram os efeitos do grau de
saturação, c portanto indiretamente da tensào de sucção,
no módulo de cisalhamento máximo de areias c
siltes. Eles realizaram ensaios dc coluna ressonante
em corpos de prova preparados no mesmo índice de
vazios mas com diferentes graus de saturação.
Um resultado típico que mostra o significativo
efeito da sucção é apresentado na Figura 10.20.
Nessa figura é apresentada, para uma das amos-
<
o
2
* D
O
•«I
o-
õ
z
o
<t
z
30 40 50 60 70 80
JCO
GRAU 0E SATURAÇÃO , S (%)
Figura 10.20 - Efeitos da capilaridade no valor de G mji dc solo fino não coesivo (Wu ct al., 1984)
tras investigadas, a variação dc C» mi /(C» mix ) v(W < razão
entre G m;i\ numa condição úmida e G oii> nu* na
condição completamente seca) com o grau dc
saturação. Como se pode ver, cada curva, associada
a uma pressão confinante diferente, apresenta
uma valor de pico. chamado de máxima
razão de módulo de cisalhamento. O grau de
saturação correspondente à máxima razão de
módulo foi denominado de grau dc saturação
ótimo, S (. O valor de G mix foi sempre aproximadamente
o mesmo para S=0% c S=100%. É evidente
também da figura que o efeito da tensão
de sucção aumenta com a diminuição da pressão
confinante.
Numa investigação subseqüente, Qian et al.
(1993) analisaram a influência de cinco fatores, a
saber, pressão confinante, índice dc vazios, forma
dos grãos, tamanho dos grãos c teor de finos, na
máxima razão dc módulo dc cisalhamento e no
grau de saturação ótimo de areias. As principais
conclusões foram as seguintes: a máxima razão
de módulo aumenta com o decréscimo da pressão
confinante. da dimensão dos grãos e do índice
de vazios, e com o aumento da angularidade
da areia e do teor dc finos. Por outro lado, o grau
de saturação ótimo aumenta com o aumento do
índice dc vazios, angularidade da areia e teor de
finos, e nào é afetado pela pressão confinante e
tamanho dos grãos.
e. Efeito da Cimentação das Partículas
Algumas investigações têm sido realizadas em
areias artificialmente cimentadas, tanto com o objetivo
de estudar o melhoramento das propriedades
dinâmicas dos solos por meio de aditivos como
para estudar os fundamentos do comportamento
dinâmico de depósitos naturalmente cimentados.
Destaca-se aqui a investigação de Chang e Woods
(1987).
Esses autores investigaram o efeito do grau
de cimentação no valor dc G m v de diversas areias.
O grau de cimentação foi definido como a
relação volume de cimento/volume de vazios.
A Figura 10.21 mostra um exemplo de seus resultados,
onde se nota um aumento significativo
de G com o teor de cimento. A figura
I1VJX °
também mostra que o efeito do a t, como indicado
pelo expoente n, diminuiu com o aumento
do grau de cimentação. Para a areia cimentada.
o expoente n teve um limite superior que
foi o da areia limpa, nào cimentada, e um limite
inferior que foi o correspondente ao do
material cimentante.
Comportamento similar também tem sido observado
em solos naturalmente cimentados. Stokoe et
al.(1992) obtiveram valores de G ;ik k para o material
cimentado intacto muito maiores e menos dependentes
da pressão de confinamcnto do que os correspondentes
ao material remoldado, no mesmo
índice dc vazios.
JOOOO
~ 1000
o
a
5
K
O
E
o
íoO
10
± J0 100 1000
PRESSÃO CONFINANTE ( MPO)
Figura 10.21 - Efeito da pressão confinante e do teor
dc cimento no valor de G mU dc uma areia (apud
Chang e Woods, 1987J
f. Correlações
Estimativa de G m íx a Partir da Resistência Nào
Drenada
A Tabela 10.6 apresenta correlações encontradas
na literatura entre o módulo de cisalhamento
máximo determinado in situ e a resistência nào
drenada S u do solo. Como pode ser visto, as correlações
mostram muito grande dispersão, o valor
de G nm variando dc 500 até 3000 S.
Essa grande dispersão é na verdade esperada por
diversas razões. Inicialmente, como é bem conhecido,
o valor de S u varia com o tipo de ensaio usado
para determiná-lo. Por outro lado, como mostrou
Wciler (1988), a relação G itu /S u , para um mesmo
tipo dc ensaio, é altamente dependente do índice
dc plasticidade do solo, com os maiores valores
correspondendo às argilas menes plásticas. Finalmente,
Athanasopoulos e Richart (1983). em
investigação laboratorial envolvendo ensaios de
coluna ressonante c triaxiais adensados nào drenadas,
demonstraram que, para um mesmo solo, a relação
G lld /S t deciescc com o aumento de o 0 , da RSA e
do índice de vazios. Portanto, a rclaçào G inix /S nào é
constante nem mesmo para um únicc solo e com S
determinado através de um único ensaio.
Estimativa de G a Partir de Ensaios SPT
H/lXV
Na Tabela 10.7 sào apresentadas algumas correlações
diretas entre G mix ou Vco índice de resistência
a penetração N do ensaio SPT. A título dc ilustração,
as correlações entre G n . x e N sào comparadas na
Figura 10.22, onde se nota uma apreciável variação
entre elas, particularmente para elevados valores dc
Tabela 10.6 I Correlações entre módulo dc cisalhamento máximo in situ e a resistência não drenada
(apud Barros, 1997J
Referência Correlação Ensaio para determinar S^
Seed e Idriss (I970J G = 1000 a 3000 S diversos tipos
Hara et. al. (1974) G^ = 488 S , (•)
nvU li ' '
<^,= 1790 S u
Arango et ai. (1978) G_=II63 S. triaxial UU
G = 813 S triaxial CU
Anderson et al. (1978) G^, =1200 a 1800 S u ?
S u definido como t m.u . lateral cm
condição de cisalhamento simples / c e <>
determinados em triaxial UU
compressão não confinada
Polianietal (1989) G^, = 500 a 600 S i( triaxial UU e vane test de laboratório
Bouckovalas et al.
G,. = 800S t .
vane test de campo
(19891 '800S,, triaxial UU
l'l G mJ u © S u em kPa.
Tabela T 0.71 Correlações entre G^ ou V e o índice de Resistência a Penetração do ensaio SPT (apud Barros, 1997)
Referenda
Correlações G mít Correlações V t Número Coeficiente dc Tipo dc solo
(kPa) (m/s) dc dados correlação - r
Ohsaki e Iwasaki (1973) 11500 N° 8 — 220 0.888 todos (Japãoj
OhtaeGoco(l978) — V= 85.3 N° Wl 289 0,72 todos (Japão)
Imai c Tonouchi 11070 N 0 * — 1654 0.867 todos (Japão]
JM
(I982J — V= 96.9
1654 0.868 todos (Japão)
Seed et al. (1983)
G„,
mu
= 6220N
— — — areias (Est. Unidos)
Sykorae Stokoe (1983) — V= I01N°" 229 0.84 areias (Est. Unidos)
N. Nenhuma correção foi feila para normalizar a
eficiência de energia do ensaio SPT.
Cabe também mencionar a existência na literatura
internacional de outras expressões para estimativa
ile G iiiit e V % , as quais incluem fatores adicionais,
além do índice de resistência a penetração
N (Ohta e Goto, 1978; Sced ct al., 1986).
Finalmente é interessante verificar a validade dessas
correlações, obtidas com solos de clima temperado,
em solos tropicais. Para tanto, toma-se a relação proposta
por Ohsaki c Iwasaki como referência. A Figura
10.23 mostra que para solos saprolíticos a divergência
entre os valores de G miX medidos e os estimados pela
correlação mencionada não é muito acentuada.
Barros (1997) obteve a seguinte correlação para
os solos saprolíticos:
G . • 94 + 2,3N (10.44)
max
com C. r v em MPa. O coeficiente de correlação r
obtido foi dc 0.932.
Km contrapartida, como mostra a Figura 10.24, a expressão
dc Ohsaki e Iwasaki subestima de forma significativa
o valor de G de solos lateríticos. A diferença
nu* *
média foi cerca de 300%. Isso vem indicar que o valor
dc N do ensaio SPT. diante da significativa perturbação
cio solo no ensaio, nào se mostra sensível à elevada
rigidez tios solos lateríticos, resultante das agregações e
cimentaçõcs das partículas, as quais sc mantêm somente
a baixos níveis deformação. A seguinte expressão,
VALOR H OO S»'T
Figura 10.22 - Comparação entre as expressões apresentadas
na Tabela 10.6 para a estimativa dc G^ c V,
com coeficiente de correlação r = 0,954, é sugerida por
Barres (1997) para uso em solos lateríticos:
onde C»
=56+.>0.3* (10.45)
nu.\
está cm MPa.
Estimativa tia C n a partir de ensaios de cone
GOO
SOO -
a 400
2
O
§ 300
UJ
5
«
E
O 200
100
/ Argilas Vermelhas
° (S Paulo)
A Bauru
• SAo Carlos
i r—r—r^—r—; '• i
50 1 CO 150 200 250 300 350 400 450 500
Gmax CALCULADO (MPa)
O Caxmgui
* Campinas
"H I r—
100 200 300 4CO 500
Gmax CALCULADO (MPa)
Figura 10.24 • Comparação entre G ini> obtido cm
ensaio crossholc c G^ calculado pela expressão dc
Ohsaki c Iwasaki - Solos lateríticos (Barros, 1997J
600
o
C. Universitária
• 8rooklin
A Sflo Carlos
* Campinas
24
1 i . . 1 111
y <
10" 5 %
Figura 10.23 - Comparação entre G^ obtido cm
ensaio crossholc c G mjj calculado pela expressão de
Ohsaki e Iwasaki - Solos saprolfticos (Barros. 1997)
20
o
o- 16
A
&
kPo <
Q C
^vo
G mox -
E 12
o
N ^ f - R S A * 10
Quase todos os estudos que investigaram correlações
entre G nux (ou V > e a resistência do cone q
foram realizados em areias. Destacam-se aqui as
propostas por Sykora e Stokoe (1983) e Baldi et
al. (1989).
Os primeiros autores relataram os resultados de
análise de 256 pares de dados q - V em areias de
nove diferentes locais dos Estados Unidos. A seguinte
correlação foi obtida:
K = + 130 (10.46)
onde V está em m/s e q em MPa. O coeficiente
de correlação foi 0.78.
Finalmente. Baldi et al. (1989), com base em
resultados de um grande número de ensaios realizados
em câmara de calibração e in sim, propuseram
a correlação apresentada na Figura 10.25, recomendada
para areias nào cimentadas de silica.
É interessante observar que estes autores incluíram
na correlação a tensào efetiva vertical, o que
nào foi feito por Sykora e Stokoe.
1 1
RSA = 1 ~
, 1 1 . 1 1
200 500 1000 _ 2000 3000
«C / ^vo"
Figura 10.25 - Correlação entre V, e q { para areias não
cimentadas de silica (apud Baldi et al., 1989)
10.6.2 RELAÇÃO ENTRE O MÓDULO DE
CISALHAMENTO E A AMPLITUDE DE DEFOR-
MAÇÃO CISALHANTE
a. Introdução
Num carregamento cíclico, o comportamento
tensào-dcformaçào dos solos é nào linear e
histerético. A Figura 10.26 mostra a curva tensàodeformaçào
de um corpo de prova submetido a
-
Figura 10.26 - Laçada dc histerese típica
Figura 10.27 • Relação entre a curva básica e o módulo
dc cisalhamento secante (apud Idriss et al.. 1978)
carregamento cisalhante cíclico simétrico, com tensào
cisalhante inicial nula. Essa "laçada de
histerese" (ABCDA) está associada a um dado valor
da deformação cisalhante cíclica y. O traço
das extremidades (EAOCF) de todas as laçadas de
histerese, associadas a diferentes valores de y .
define uma curva denominada neste texto de curva
básica (skeUtou curve ou backbone curve em
inglês).
A curva básica tem sua máxima inclinação na
origem (ponto O) e esta inclinação define o módulo
de cisalhamento máximo G nux. O módulo dc
cisalhamento secante G, numa deformação y, é a
inclinação da reta que liga a origem com a extremidade
da laçada associada com aquele nível de
deformação y t (isto é, a inclinação da linha OC;.
As definições de G fiuk c G são mostradas na Figura
lü.27(a), onde se apresenta uma curva básica típica.
A Figura 10.27(b) mostra a variação de G com a
deformação onde se nota que com o aumento da
deformação o módulo de cisalhamento diminui.
Essa curva (ou a sua curva equivalente normalizada
G/G uux em função da deformação) é denominada
de curva de redução do módulo. A curva básica
e a curva de redução tio módulo fornecem essencialmente
a mesma informação, pois sendo uma
delas especificada, a outra é facilmente obtida.
Sc uma expressão analítica puder ser obtida para
descrever a curva básica, laçadas de histerese que
parecem modelar muito bem o comportamento
do solo podem então ser construídas admitindose
que o comportamento do solo satisfaz o critério
de Masin (Masin, 1926). Este critério estipula
que os ramos de desçarregamento e recarregamento
da laçada sào exatamente a mesma curva
básica com ambas as escalas de tensão e deformação
expandidas por um fator de 2 e com a origem
transladada. Uma conseqüência desta hipótese
é que nas extremidades da laçada e após a
reversão dc tensào, o módulo tangente é igual a
G. im (ver Figura 10.26).
A redução relativa no módulo de cisalhamento
com a deformação cisalhante é melhor observada
num gráfico da relação G/G n t% em função da deformação.
Esta forma de gráfico é muito conveniente
para comparar curvas tensào-deformaçào
obtidas em diferentes solos e condições. É também
conveniente na análise dos fatores que afetam
o módulo de cisalhamento. já que fatores que
influenciam tia mesma forma tanto G como G
nu»
não terão nenhum efeito na relação G/G^. For
fim, esta forma de representação está associada
com a prática muito comum de combinar o módulo
de cisalhamento máximo determinado in situ com
a curva de redução do módulo obtida cm laboratório.
O módulo para um dado nível de deformação
é calculado da curva 0/G nux - y. porém usando
o valor de G rnx obtido no campo.
O principal objetivo deste item é discutir os fatores
que afetam a forma da curva normalizada de
redução do módulo. A Tabela 10.8 classifica esses
fatores em níveis de importância. Somente os efeitos
da pressão de confinamento, do índice de
plasticidade e do tempo, que sào os principais
fatoies em .situação não sísmica, >ào aqui descritos.
Para uma análise mais completa remete-se o
leitor para Barros (1997).
b. Efeito da Pressão Confinante e do índice de
Plasticidade
Dois dos mais importantes parâmetros que afetam
a forma da curva G/G nu* - y • são a » pressão
de confinamento e o índice de plasticidade do
solo. Analisa se a seguir a influência da pressão
confinante na curva de redução do módulo de
areias. Mais adiante discute-se o efeito tanto da pres-
Tabela 10.81 Nível de importância dos fatores que
afetam a relação G/G^, - y (apud Barros, 1997J
Nível dc importância
importante
Relativamente não
importante
Fator
Índice de plasticidade
pressão de confinamento
efetiva (em areias, siltes e
argilas de baixa plasticidadej
tempo (cm solos argilosos)
freqüência (em solos argilosos)
grau de saturação (em solos
argilososj
tipo de vibração • senoidal.
randòmica ou impulso
grau de cimentação
número de ciclos de
carregamento (parays 10'%)
técnica de ensaio em estágios
(para yt 10'%)
condição de drenagem (para
•yfc 10'%). em areias saturadas)
índice de vazios (se o efeito
de IP tiver sido considerado)
sobreadensamento
tensão cisalhante estãtica
sào confinante quanto do índice de plasticidade na
curva de rcducào do módulo de argilas.
as curvas G/G , v -ydependem da pressão confinante.
Para um mesmo valor de y, quanto maior a pressào
confinante, maior o valor de G/G .
nm
Embora reconhecendo o efeito da pressào
confinante, Seed e Idriss (1970) preferiram indicar
uma faixa de variação da relação G/G rcom a
deformação, sem levar cm conta esse fator, como
mostrado na Figura 10.28. Esta é uma das mais
usadas relações G/G mjí - y para areias.
Dentre as diversas propostas de relações G/G v
- y para areias que levam cm consideração o efeito
da pressão confinante, apresentam-se aqui as
de Shibata e Soclarno (1975), Iwasaki et al. (1978)
e Khouri (1984) que parecem produzir resultados
mais consistentes.
Shibata e Soclarno (1975) propuseram a seguinte
equação:
% =— ( 1 0 - 4 7 )
onde y está em radianos c a o em kPa.
Baseados em ensaios de coluna ressonante e de
cisalhamento torcional. Iwasaki et al. (1978) propuseram
uma relação entre G/G f e deformação
cisalhante da seguinte forma:
Areias
G e G itux sào diferentemente afetados pela pressão
confinante. Como mostrado
•
previamente,
'
G
max
varia
aproximadamente com a raiz quadrada de o i(. Entretanto,
para elevadas amplitudes de deformação, o
módulo depende principalmente da resistência do
solo, que é mais aproximadamente funçào de O 0 à
primeira potência. Conseqüentemente, conclui-se que
% = KiyXs**- (10.48)
/ 0U1I
em que K(y) e n(y) são as funções da deformação
cisalhante mostradas na Figura 10.29 e n o= 0/1 é o
valor de nty) para y=10 1 %. Nessa expressào, o,
está cm kgf/cm-.
X _ s
\ \
\
Foixo
de •olores
K> \ \
\ S \
V . \
X . x \
10" 4 10- 3 10- 2 IO- 1 J
DEFORMAÇÃO CISALHANTE (%)
Figura 10.28 - Faixa de variação de G/G^ com a deformação cisalhante para areias (apud Seed ct al.. 1970)
O E F O R M A Ç Ã O C I S A L H A N T E ( % )
Figura 10.29 - Variação de n(y) e K(y) com a deformação cisalhante (apud Iwasaki et al., 1978)
Mais recentemente, Khouri (1984), analisou dados
experimentais disponíveis sobre a relação
G/G m. rt - Y numa forma bastante similar àquela
apresentada por Iwasaki et al. Ele também determinou
as variações dc K(y) c n(y)-n 0 da equação
10.48 com a deformação cisalhante. Uma diferença
fundamental é que a pressão confinante está cm
kPa na investigação de Khouri. As seguintes equações
foram as que apresentaram melhor ajuste ao
conjunto de dados:
Comparações entre as expressões apresentadas
neste item para duas diferentes pressões confinantes
foram preparadas c estão apresentadas na Figura
10.30. Observa-se que a variação no módulo de
cisalhamento entre as três propostas pode ser tão
elevada como 20% de G nuj(, para certos níveis de
amplitude de deformação.
A rgilas
K(y) = 0.5{ I + tanh[ln(^^) üW ]} (10.49)
/!(•/)- /;„ = 0,272|1 - tanh[ln( ^ 1}
Y
(10.50)
onde y está expresso cm radianos. As expressões
de Khouri parecem ser mais confiáveis que
as demais uma vez que sua análise incluiu dados
de quase todas as investigações mencionadas
anteriormente.
O efeito da pressão confinante na curva G/G ri v
- y dc argilas, como mostrado por diversos pesquisadores,
é muito menos importante do que em
areias. Isto é ilustrado na Figura 10.31. Note-se na
figura que a faixa de pressão confinante vai de 1
ate 400 kPa. Como será visto a seguir, o índice de
Plasticidade é o fator mais importante na curva de
redução do módulo de argilas.
Vucetic e Dobty (1991) compilaram os dados
disponíveis na literatura sobre o módulo de
cisalhamento dinâmico de argilas e propuseram
curvas de redução do módulo em função do IP.
Seus resultados estão apresentados na Figura '.0.32.
Como pode ser visto, as curvas G/G nuv - y sc deslocam
para a direita com o aumento do índice de
1.0
s, 5HIBATA e
0,8 V
\
SOELARNO -
V
IWASAKI \ \ (1975)
(1978)
• \ \
K 0.6 -
\\ \
o
G
O
v. 0,4
O
-
KHOURI
(1984)
0,2 - Ç 0 : 50kPo
\ V
0
•
JO- 4 1 0 ° J0-* IO- 1 1
DEFORMAÇÃO CISALHANTE (%>
SMIQATA e
SOELARNO
(1975)
KHOURL
( 1 9 8 4 )
(T<j : 300 kPol
J0-* 10-> 10 • 2 10- J
DEFORMAÇÃO CiSALHANTE (%>
DEFORMAÇÃO CISALHANTE (%)
Figura 10.31 - Efeito da pressão confinante na curva
de redução de módulo de solos com (aj IP = 0% e (b)
IP = 50 % (apud Ishibashi, 1992J
Figura 10.30 - Comparação entre as correlações G/G r
- deformação cisalhante propostas para areias
Plasticidade; para uma mesma deformação
cisalhante, quanto maior o IP, menor a redução do
módulo.
Ishibashi e Zhang (1993) observaram que a pressão
confinante tinha muito pouca influência na
forma da curva de redução do módulo para solos
de alta plasticidade mas podia afetar a curva G/
G_ - y P ar « l argilas de baixa plasticidade. Em
vista disso, propuseram uma relação para argilas
baseada na relação para areias apresentada por
Khouri (1984), descrita anteriormente. Segundo
Ishibashi e Zhang, a curva de redução do módulo
pode ser expressa da forma:
«n.in-*,,
% = K(y,/P)c 0
/ nu il
(10.51)
Nesta expressão, os termos K(y) e n(y) da expressão
10.-I8 foram modificados para incluir IP.
0E FOR M AÇÃO Cl SA LH AN"£ (%}
IP «200 %
Figura 10.32 - Efeito do índice de Plasticidade na
curva de redução do módulo de argilas (apud Vucetic
e Dobry, 1991J
Todas as alterações foram feitas de tal forma que
K(y,IP) e n(y,IP) se reduzam a K(y) c n(y) dados
pelas equações 10.49 e 10.50 quando IP for nulo.
10
A seguinte equação foi proposta para n(y,IP)-n :
n(y7/ , )-^=0.272{l-tanhIln<-°^5^j 0 - 4 J)cxp(-O.Ot45// >M )
(10.52)
Nesta equação, n(y,II > )-n ii decresce com o aumento
de IP e se aproxima dc zero para IP=70%.
A expressão obtida para Kly.IP» foi:
o >~
2
UL
2
-> o
< CL
O
is
ARGILA OE SANTA BAROARA
C 0 « 4Í. k Po
a-Y
s )-* o y » o.ooa %
• - 0,02
a 0,04
0 LÍ J 0,10
IO 1 10 ? iO 10
I F MPO |
AT(y» JP)=0,5(1+tanh[ln(———) <W9Í J)
Y
(10.53)
Figura 10.33 - Aumento do módulo de cisalhamento
com o tempo, em diferentes amplitudes de deformação
(apud Anderson e Woods. 1976)
onde a única modificação em relação à equação
10.49 é a inclusão da função n(IP), que é dada por:
/,(//>) = 3 para IP=0%
(10.54)
n(IP) = 337*10"*/,P 1 *" pira 0< IP< 15%
wiIP) = 7,0vl0" 7 IP 1 **
para I5< IP<70%
/«IP) = 2,7*10" 5 tf"" 5 para //> > 70%
No que se refere aos solos tropicias brasileiros,
vale destacar que tem sido observada (Barros 1997)
tanto para solos lateríticos quanto saprolíticos uma
redução do módulo com a deformação muito mais
acentuada do que a prevista pelas proposições
encontradas na literatura internacional.
— QL
W Z
u> _
o
Curvo f Compo
aumento oritmelico
. — — Curvo de Coropo
oumenlo perceniuol
Cu»vo de Lobofotônp ( I dm>
IO" tO" 10 -2 10-
DEFORMAÇÃO CISALHANTE (%>
c. Efeito do Tempo
Anderson c Woods (1976) investigaram o efeito
do tempo em amplitudes de deformação cisalhante
elevadas. Seus resultados estão apresentados na Figura
10.33. onde se vê que a razão de aumento do
módulo com o tempo foi aproximadamente constante
para todas as amplitudes dc deformação.
Richart et al. (1977) discutiram as conseqüências
desta descoberta. As curvas módulo de
cisnUiamento-deformaçâo correspondentes a diferentes
períodos de tempo devem ser paralelas
(Figura 10.34). Assim, a curva dc redução do
módulo esperada de campo, no ponto onde os
módulos de laboratório e de campo coincidem
(desprezando-se amolgamento da amostra durante
amostragem, etc.) pode ser representada matematicamente
por:
= + [ ( U „ - (C nx ) M | = G^ + A f
(10.55)
onde A é a diferença entre (G ) e (G ),,.
' * no* «aniiHi noi u!<
Figura 10.34 - Efeito do tempo na curva de redução
do módulo (apud Richart etal., 1977J
Se entretanto a relação G/G ( v for considerada
como independente do tempo, então:
= í = a,, p.
\ "oi / bb
í. 10.56.1
onde P, é a relação entre (G_ ) e (G ).,,. A
i ' mu 'campo nw» y Uli
cquaçao 10.5o c a expressão geralmente utilizada
na prática para estimativa do módulo de
cisalhamento in situ.
Os dois procedimentos são mostrados esquematicamente
na Figura 10.35. Nota-se que à medida
que o nível de deformação aumenta a diferença
entre os valores aumenta, com o valor previsto
pelo método aritmético sendo maior que o previsto
pelo método da porcentagem.
o
z
nEFORMAÇÃO CISALHANTE <%)
Figura 10.35 - Curvas de redução do módulo in situ
previstas pelos métodos de aumento aritmético e de
aumento percentual do módulo de cisalhamento (apud
Richart et al.. 1977)
modelo visco-clástico linear representou satisfatoriamente
o comportamento dos solos em vibração.
Uma discussão detalhada do assunto foi apresentada
recentemente por Roessct ;199D.
O amortecimento para aplicações geotécnicas tem
sido expresso de diversas formas, sendo a mais
comum a razão de amortecimento I), que representa
a fração do amortecimento crítico para um
sistema de um grau de liberdade com amortecimento
do tipo viscoso. A determinação da razão
dc amortecimento é geralmente feita em laboratório
usando o ensaio de coluna ressonante ou ensaios
cíclicos, como descrito no item 10.5.
Diversos fatores afetam a razão de amortecimento
dos solos, como indica a Tabela 10.9. Somente
os efeitos da deformação cisalhante, pressão de
confinamcnto e índice de plasticidade são aqui
descritos. Deve ser salientado que a quantidade
de informação disponível sobre a lazão de amortecimento
é muito menor do que a existente sobre
o módulo de cisalhamento dos solos.
b. Efeito da Deformação Cisalhante
O conceito de aumento aritmético implica que a
forma da curva G/G nv rersus deformação nào é
única mas varia com o tempo, deslocando-se para
a esquerda com o passar do tempo. Segundo Richart
et al., as diferenças mais importantes ocorrem para
solos moles que exibam elevado efeito de tempo,
tais como as argilas marinhas.
A razão de amortecimento aumenta com a deformação
cisalhante. Para ilustrar esse fato, apresenta-se
na Figura 10.36 as muito divulgadas faixas
de variação de razão de amortecimento com a
deformação propostas por Seed e Idriss (1970) para
Tabela 10.9 | Nível dc importância dos fatores que
afetam a razão de amortecimento (apud Barros, 1994)
10.6.3 RAZÃO DE AMORTECIMENTO
a. Introdução
Como visto no item 10.0.1. os solos nào se comportam
de forma perfeitamente elástica a não ser
a muito baixas amplitudes de deformação. Em
condição dc carregamento cíclico, o comportamento
inclástico leva à dissipaçào de energia.
Materiais que dissipam energia sob carregamento
cíclico mostram um fenômeno em comum: a curva
tensão-deformaçào cíclica forma a laçada tle
histerese, como mostrada na Figura 10 sendo
a área entre os dois ramos proporcional à energia
dissipada.
Hardin (1965) investigou o efeito de se representar
o solo sob carregamento cíclico como um
material visco-elástico linear. Como é sabido, o
amortecimento viscoso é proporcional à freqüência
dc vibração enquanto o amortecimento
histerético associado ao comportamento de materiais
nào lineares, como o solo, é independente
da freqüência. Hardin propôs que o coeficiente de
viscosidade n no modelo fosse tratado como dependente
da freqüência dc forma a manter o amortecimento
constante. Com esta modificação, o
Nível de importância
Importante
Relativamente não
importante
Fatores com efeitos
não bem definidos c
que necessitam mais
investigação
Fator
deformação cisalhante
Índice de plasticidade
pressão confinante efetiva
(em areiasj
tempo (em argilasj
número de ciclos (em areias
c para yZ tO'%)
condição de drenagem (para
Y> 10"¥o. cm areias saturadas
carregamento cíclico anterior
tipo de vibração
indicc de vazios (se o efeito
de IP tiver sido considerado)
razão dc sobreadensamento
características dos grãos
freqüência
técnica de ensaio em estágios
terceira tensão principal
efetiva
método de determinação e
equipamento
grau de saturíção
cimentação
c. Pressão Confinante e índice de Plasticidade
£ JO
o
5 25
3
O
SÜ 20
a
o
3-5
O iO
Aftt«AS -
10" 1 1 ic
3f KORMAÇÍO CISALHANTE 1%)
Em areias, a curva razão de amortecimento - deformação
cisalhante depende da pressão confinante
efetiva. Um exemplo típico desta variação é mostrada
na Figura 10.37, em que pode ser observado que
o valor de I) se torna maior em todos os níveis de
deformação com a diminuição da pressão confinante.
Embora não haja muitas informações sobre a
influência da pressão confinante na razão de amortecimento
dc argilas, parece nào ser a mesma muito
relevante (Kokusho et al., 1982). Por outro lado,
há uma significativa influência do índice de
plasticidade. Quanto maior o valor do IP, menor o
amortecimento, como mostra a Figura 11.38,
reproduzida de Vucetic e Dobry (1991), que compilaram
os dados disponíveis na literatura.
Figura 10.36 - Variação da razão dc amortecimento
com a deformação cisalhante para areias c argilas
(apud Sced ctal..l970J
O »-
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1
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10"* IO*' JO'* IO- 1 J 10
DEFORMAÇÃO CISALHANTE (%)
Figura 10.38 - Efeito do índice dc Plasticidade na
curva razão dc amortecimento-dcformaçáo cisalhante
para solos normalmente adensados c sobreadensados
[apud Vucetic e Dobry. 1991)
Figura 10.37 • Efeito da pressão dc confinamcrnto na
curva razão de amortccimento-deformaçào cisalhante
para areias (apud Kokusho, 1980)
areias e argilas com base em dados da literatura. É
evidente da figura que a razão de amortecimento
aumenta substancialmente na medida em que a
deformação cisalhante cresce a partir de 10%
Razões de amortecimento abaixo dessa deformação
são essencialmente constantes e referidas
como D
mm
. Nào é sabido se esse amortecimento a
tào baixas deformações é devido à alguma viscosidade
do material ou a perdas por atrito no equipamento
Pode ser notado também que a razão de
amortecimento tende a um valor máximo D nuix para
deformações muito elevadas.
Figura 10.39 - Relação entre razão de amortecimento e
módulo dc cisalhamento (apud Ishihara, 1986)
d. Correlações Entre D e G/G mjji
Diversos autores têm proposto correlações entre
D e G/G iiux para solos. A título de ilustração,
apresenta-se na Figura 10.39 a faixa de variação
de D com G/G n x proposta por Ishihara (1986)
para areias. Nos trabalhos de Khouri (1984) e
Ishibashi e Zhang (1993) podem ser encontradas
expressões analíticas para a relação D - G/G iiux
respectivamente para areias e argilas, baseadas em
dados experimentais disponíveis na literatura.
10.7 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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CAPITULO 11 FUNDAÇÕES DE ESTRUTURAS "OFFSHORE"
JAYME RICARDO DE MELLO
FRANCIS BOGOSSIAN
1T.T NOÇÕES SOBRE GEOTECNIA
OFFSHORE
11.1.1 - Generalidades
No Brasil, os termos "Geotecnia Offshore" ou
"Geotecnia Marinha" passaram a ser utilizados
amplamente a partir do final da década tle 70, com
0 início das investigações geotécnicas para o
projeto de fundação das plataformas fixas da Bacia
de Campos, litoral do Estado do Rio de Janeiro'.
Praticamente toda a atividade offshore realizada
na costa brasileira está voltada para a exploração
de hidrocarbonetos. Esta atividade localizada
da indústria do petróleo, aliada a uma certa inibição
que o tema provoca nos geotécnicos nào familiarizados,
traz como conseqüência a redução
do número de profissionais que atuam na especialidade
(no Brasil nào chegando a dezenas, enquanto
que em todo o mundo possivelmente não representando
mais do que um milhar).
Apesar desta restrição, observa-se que é muito
tênue a interface entre o trabalho desenvolvido na
Geotecnia Offshore e o praticado pela Geotecnia
tradicional. De acordo com Le Tirant (1979). por
exemplo, os solos marinhos nào sc distinguem
significantemente dos presentes nos depósitos terrestres,
menos as seguintes particularidades:
• a diagênese*' dos solos é normalmente menos
desenvolvida em ambiente marinho;
• o ambiente marinho é mais deposicional do
que erosional, de modo que as propriedades
dos sedimentos são mais uniformes do que as
dos solos existentes em terra e os solos marinhos
comumcnte seguem una padrão de deposição
em função da lâmina tTãgua, onde as
granulometrias mais finas estão localizadas cm
águas mais profundas. Exceção à regra sào os
depósitos de material calcário, com
granulometria granular e/ou argilosa,
comumcnte encontrados em águas, que nos
1 O início da exploração dc htdrocarlxmetos na Bacia dc Campos
nào coincide com o início da exploração "offshore" no
Brasil, haja vista que a primeira plataforma da Costa Brasileira,
Guariccma-I, foi instalada cm 19ÓH no litoral do Estado
de Sergipe.
* Conjunto de fenômenos que modificam os sedimentos desde
o início de sua deposição.
tempos pretéritos ou atuais de sua formação
eram rasas, banhadas por correntes tropicais,
expostos a condições propícias de ensolação;
• o fato das solos marinhos terem saturação próxima
de 100% geralmente simplifica as considerações
de projeto. Entretanto, a presença dc gases
dissolvidos (especialmente em regiões dcltáicas)
ou mesmo de hidratos (típicos de águas profundas),
torna-se um fator complicador para a análise
geotécnica. Em adição, a ocorrência de
descompressào e gaseificação durante a
amostragem dificulta o conhecimento sobre as
reais características do depósito;
• a ocorrência de erosão do solo superficial
("scour") e/ou enterramento da estnitura durante
a sua vida útil é outro aspecto que requer consideração
no projeto de estruturas submersas.
Na realidade, são as técnicas de investigação e
dc execução da fundação, principalmente no que
se refere ao desenvolvimento de equipamentos,
que impõem os maiores contrastes entre se trabalhar
no mar ou em terra.
Quanto ao projeto de fundação, observa-se que
diversas metodologias de análise hoje amplamente
utilizadas foram desenvolvidas a partir das aplicações
offshore (curvas "p-y" de carregamento lateral
de estacas, curvas "t-z" de transferência axial de carga
tle estacas, método é para o cálculo da capacidade
de catga de estacas fundadas em solos argilosos...).
Em adição, ocorre também que nos projetos
offshore está embutido um maior grau de
conservadorismo do que o das obras em terra. Este
conservadorismo não sc traduz diretamente nos fatores
de segurança recomendados por normas c códigos
maá. no "approach" de projeto para majoração
das catgas e minoraçào da resistência dos solos.
Quanto à interpretação dos parâmetros geotécnicos,
ocorre que as campanhas marinhas de investigação
são menos representativas do que as realizadas para
obras em terra com idêntico nível de responsabilidade.
Apesar de utilizarem tecnologias de ponta especialmente
desenvolvidas para viabilizar o trabalho
no mar, isto se verifica porque:
• os custos das investigações sào elevados em
relação ao custo da estrutura (muitas vezes próximo
dc 5% do total despendido);
• são adversas as condições ambientais ineren-
tes ao trabalho no mar. ocasionando sérias dificuldades
técnicas em se realizar uma investigação
que forneça dados confiáveis sobre os
solos investigados (os meios navais fixos não
estão habilitados para perfuração em lâmina
d'água superior a 100 m, enquanto os flutuantes
normalmente não conseguem operar com
altura de onda superior a 3 m), e
• é restrita a quantidade de obras no mar que
permita o mapeamento das variações regionais
e locais do comportamento dos solos.
No outro extremo, são consideráveis as incertezas
que envolvem a avaliação dos esforços ambientais
de projeto. Isto se verifica, quer através da consistência
do levantamento dos dados ambientais (como.
por exemplo, a representatividade do período de
medições), quer através dos procedimentos
probabilísticos de tratamento destes dados, que envolvam
análise decenária, centenária ou a que melhor
se aplique à obra cm questão 4 . Para se entender
a importância deste aspecto, cabe lembrar que a parcela
relativa aos esforços ambientais (no caso das
estruturas da costa brasileira, basicamente ondas,
ventos e correntes marinhas) à qual as estruturas
oífshore estão sujeitas, é consideravelmente mais preponderante
do que a atuante nas estruturas cm terra.
Dependendo do tipo de estrutura, estes esforços representam
mais de 50% das cargas axiais c a totalidade
das cargas transversais atuantes na fundação.
Desta forma, não são inconuins fundações com
estacas de aço dc 2 m de diâmetro com penetrações
da ordem dc 150 m abaixo do leito marinho,
submetidas a esforços axiais gerados em condição
dc tormenta da ordem de 30 MN. A seguir são
apresentados os detalhes dos tipos mais comuns
de fundação offshore.
Em adição a todas estas considerações, deve-se
ter em mente as grandezas envolvidas nos projetos
em mar aberto. Qualquer acidente com uma
estrutura fixa que abriga 200 funcionários e pesa
até 1.500 MN de concreto, ou com uma jaqueta
de aço com até 500 m de altura, ou com uma estrutura
tipo TLP ("Tcnsion Leg Platform"), traria
conseqüências realmente desastrosas.
Figura 11.1 - Jaqueta dc aço
* Normalmente realizados para um período de recorrência que
corresponde a três vezes a duração prevista para a instalação
("no caso de estabilidade provisória da fundação), ou a
vjda útil da estrutura (no caso de análise da capacidade de
carga última da fundação).
Figura 11.2- Plataforma tipo T.L.P.
11.1.2 - Tipos de Fundação
Existem três tipos básicos de fundação, classificados
segunde» o gênero dc metodologia de projeto:
• fundação profunda -> estacas das plataformas
tipo jaqueta (fig. 11.1), "TLP" ou "tcnsion leg
platform" (fig. 11.2), torre guiada e complacente,
"template", assim como para ancoragem em
geral;
fundação rasa => base tipo "radier" celular das
plataformas de gravidade (fig. 11.3) e tipo "radier"
plano dos "manifolds", sapatas das plataformas
auto-elevatórias (fig. 11.4) e dutos submarinos;
âncoras => ancoragem de meios navais flutuantes
e estaiamentos de torres guiadas (fig. 11.5).
11.1.2.1 - Fundações Profundas
Graças à trabalhabilidade (facilidade para reparos
e emendas das estacas longas) e alta resistência,
o aço é o material normalmente utilizado nas fundações
profundas. Estacas tubadas com ponta aberta,
espessura de parede entre 1,25 cm C/2") e 5cm
(2"), tensào de escoamento de 2.500 kg/cmH36 ksi)
ou 3.500 kg/cm' (50 ksi) sào usuais.
De modo a solidarizar o tubo de aço ao solo de
fundação, dois tipos de interface podem ocorrer:
- aço/solo. obtido nas estacas simplesmente cravadas
(à percussão, por vibração ou com o auxilio
de diferencial de pressão), ou
- aço/calda de cimento/solo. obtida nas estacas
cravadas e cimentadas ("driven & grouted piles"),
perfuradas e cimentadas ("drilled & grouted piles")
e "insert piles".
A calda de cimento ( 'grout") é normalmente
especificada com o uso de cimento AP1 classe G
ou II (API, 1990), com fator água-cimento entre
0,45 e 0,38, correspondente a pesos específicos
de até 2t/nvHl6,5 lb/gal).
a) Estacas Cravadas por Percussão
Quando os tubos de aço sào cravados, as estacas
são denominadas de "opened-end pipe piles".
Uma variante pouco utilizada no rr.ar, que se mostrou
eficiente para as fundações nos solos calcários
brasileiros (Mello & alii, 1989) é a estaca tubada
cravada com ponta fechada ("close-cnded pipe
piles"), com ponteira de aço forjado.
Para a cravaçào destas estacas sào utilizados
martelos a percussão dos seguintes tipos:
• a vapor de simples ou dupla ação (energia nominal
de até 2.450 kj), destacando-se principalmente
os fabricantes Menck (alemão) e
Vulcan (americano);
• diesel de simples ou dupla ação (energia nominal
de até 1.020 kj), destacando-se os Delmag
(alemão), Kobe (japonês) e ICE (holandês);
Figura 11.4- Plataforma tipo auto-clevatória
• hidráulicos de dupla ação 4 (energia nominal
de até 3.000 kj), destacando-se os Menck e IHC
(holandês):
Km adição, em solos arenosos podem também
ser utilizados os martelos vibratórios, sendo notórios
os ICE, de força centrífuga máxima de até 4.600 kN c
momento excêntrico máximo de até 230 gm.
Figura 11.3 - Radiers" de plataforma de concreto
Entende-se como martelo de simples ação, o equipamento
em que a massa batente (pilão), em seu movimento descendente.
desloca-se por queda livre (semente sol) a ação
da força da gravidade). Por outro lado. entende-se como
martelo de dupla ação, aquele equipamento em que a massa
batente, ao atingir o ponto de altura máxima de queda, é
impulsionada para baixo, sol» a ação conjunta da força da
gravidade e de uma força externa adicional, que pode ser
uma pressão induzida por vapor ou por gás pressurizado
(normalmente nitrogênio).
bj Estacas Cravadas por Sucção
A técnica requer a utilização de uma estaca (dc
aço ou concreto), cuja ponta é aberta e o topo
tamponado. Normalmente tem seção reta circular,
porém, a princípio, pode ter qualquer tipo de forma
poligonal fechada.
Na câmara se acopla uma bomba centrífuga de
sucção. Após o assentamento da estaca no leito
marinho e conseqüente penetração da estaca por
peso próprio, se inicia a operação de bombeamento.
com a remoção da água aprisionada dentro da câmara.
O que provoca a cravaçào da estaca no solo
é o diferencial de pressão hidrostática (Ap)* que se
introduz na estrutura. A força estática que permite a
cravaçào da estaca (F) é proporcional à área do
topo da estaca (A (opo):
F " ^ • A, opo ° (1)
Como exemplo da grandeza do potencial de utilização
desta solução, uma estaca com 2 m de diâmetro
a ser instalada em uma lâmina d'água de 200 m, sob o
enfoque de potencial de pressão, permitiria a obtenção
de uma força dc cravaçào de até 600 t.
Para que a técnica seja aplicável, há necessidade
que:
• artes do início do bombeamento a estaca tenha
uma penetração por peso próprio no solo;
• o solo superficial tenha de média a baixa
permeabilidade, correspondente à gama de
solos com granulometria entre uma areia fina e
uma argila (velocidades médias de cravaçào de
até 10 m/h são comuns cm solos argilosos);
A metodologia de cravaçào com o auxílio de
diferencial de pressão, foi utilizada pela primeira
vez em 1961, na construção dc um quebra-mar na
cidade de Kobe, Japão (Sato, 1965). com o intuito
de aprofundar a penetração por peso próprio dc
células de concreto de 15,5m de diâmetro por 11 a
17m de altura.
Nestas últimas três décadas vem sendo desenvolvida
principalmente pelo Norwegian
Geotechnical Institute (NG1), visando a indústria
offshore, onde sua aplicabilidade é praticamente
ilimitada.
Diversas experiências bcm-sucedidas garantem
a aplicabilidade do método. Dentre estas podem
ser relacionadas:
• estacas para ancoragem (do Campo de Gorm
no mar do Norte e do Campo de Nkossa, na
ccsta oeste africana);
• fundação de plataformas de concreto, por gravidade
(plataformas de Statfjord B e C, Beryl A
e Gulfacks C no mar do Norte);
• fundação de "templates" de TLP (plataformas
de Snorre e Heidrum no mar do Norte);
• fundação de jaquetas de aço (plataformas de
Europipe 16/11-E, Sleipner e Brage no mar do
Norte).
Devido às suas dimensões, em vez de estaca,
este tipo de fundação deveria ser denominado de
'caisson", em função da elevada relação diâmetro/
altura da fundação. No caso de estacas de ancoragem
é comum relações na faixa de 1:3 (diâmetros
de até 5 m, que devem ser cravados até 15m). enquanto
no caso de fundação de plataformas sào
comuns câmaras com mais de 15 m de diâmetro
dimensionadas para atingir penetrações da ordem
de 10-15 m.
Em virtude de ser esta uma técnica de domínio
de poucas instituições, a maioria dos documentos
tem caráter de "divulgação confidencial", o que
dificulta a disponibilidade de bibliografia. Dentre
as poucas publicações disponíveis para consulta,
podem ser citadas as de 'Ijelta & alii (1986) e Colliat
& alii (1995) e (1996).
Figura 11.5 - Detalhe de uma ancora convencional dcaço
s
• a câmara nào perca sua verticalidade durante a
instalação:
• o plugue de solo dentro da estaca nào rompa,
interligando a câmara interna ao ambiente externo,
pondo em risco toda operação (caso isto
ocorra, a câmara tem de ser removida e
reinstalada em outra locação).
Na realidade o método permite que se trabalhe até fora d'água
Cem condição não submersa), ou seja, succionando-se o ar
atmosférico existente dentro da câmara, até sc atingir uma
pressão próxima do vãcuo absoluto. O que torna esta opção
pouco atraente é o reduzido diferencial de pressão redundante.
inferior a 10 kPa.
cj Estacas Cravadas e Cimentadas
Estas estacas sào executadas em duas fases:
uma inicial, de cravaçào, e uma final, de injeção
de calda de cimento na interface lateral aço/solo.
A injeção pode ser realizada em diversas etapas,
conforme for a absorção da calda pelo maciço.
Normalmente se utilizam duas linhas de injeção
(bitola em torno de 4"), diametralmente opostas,
montadas durante a fase de fabricação da estaca.
Desta forma, seus suportes têm de ser
dimensionados para resistir aos esforços gerados
pela cravaçào. Válvulas metálicas, de fluxo
unidirecional Cnon-return"), são lixadas às linhas
de injeção, podendo ser direcionadas para dentro
da estaca (com o objetivo de consolidar o plugue
de solo, garantindo que a estaca "trabalhe" como
plugada) e/ou, conforme é realizado mais
comumente, para fora da estaca (com o objetivo
de aumentar a capacidade de carga lateral da estaca).
Para se proceder à injeção de calda de cimento
na válvula de interesse, faz-se descer por
dentro da linha de injeção um bico injetor do tipo
"stinger" de 2", com duplo vedador hidráulico ("duplo
packer"), pelo qual se injeta calda de cimento
sob pressào. Com a elevação da pressào no bico a
válvula se abre. permitindo a injeção de calda no
solo, aumentando-se o confinamento na vizinhança
da válvula (de forma similar ao realizado nas
ancoragens com válvulas do tipo "manchette").
A técnica de execução de estacas cravadas e
cimentadas inicialmente foi concebida para utilização
em solos calcários, cm virtude do baixo
confinamento deste solo (ocasionado devido ao
processo dc quebra de grãos e das cimentaçòes
intergranulares. durante a cravaçào) e do fato de
estes solos também serem constituídos por carbonato
de cálcio (CaCC\), o que permite uma perfeita
integração entre os dois materiais.
Para se ter uma noção do potencial desta solução
para as areias calcáreas, enquanto o atrito lateral
unitário em estacas cravadas 6 da ordem de 15 a
40 kPa, com a injeção de calda de cimento pode-se
projetar com magnitudes superiores a 100 kPa.
d) "Insert Piles"
"Insert Pile" é uma solução de contingência
para estacas cravadas. Sào realizadas somente
quando a cstaca cravada dá nega prematura (penetração
inferior à mínima requerida pelo projeto).
É uma solução composta por um trecho superficial,
cravado, e um mais profundo, perfurado.
No processo construtivo, o plugue de solo 6
removido e a broca avança perfurando até atingir
a profundidade necessária. Com o furo pronto é
descido um tubo de menor diâmetro, até que este
assente no fundo do furo. O comprimento do tubo
interno é funçào, também, do transpasse
necessário para se proceder à transferência dos
esforços do trecho cravado para o perfurado. Terminada
a fase de perfuração, a partir da base do
furo é injetada a calda de cimento.
Estas estacas diferenciam-se das estacas perfuradas
e cimentadas, apenas pela penetração da
camisa metálica, conforme descrito a seguir.
ej Estacas Perfuradas e Cimentadas
Normalmente este tipo de estaca é viabilizada
economicamente quando se dispõe de um meio
naval habilitado para a perfuração de poços de petróleo
6 (navios-sonda, auto-elevatórias ou semi-submersíveis).
Na maioria dos casos aplica-se esta
metodologia executiva para estacas de fixação e
docagcm de "templates", assim como para ancoragem
de meios navais. As fundações das jaquetas de
aço de pequeno porte taml>ém podem ser executadas
por esta técnica, porém condicionada ao uso
de uma plataforma auto-elevatória (devido à necessidade
de aproximação do meio naval à jaqueta).
0 diâmetro da estaca realizada por sonda de
petróleo é função da broca tricone disponível, cuja
maior bitola é de 26", correspondente a um tubo
revestimento de 20". Para a instalação dos revestimentos
de 2-t", 30", 36" ou 42", sào utilizados
alargadores especiais. A espessura de parede
destes revestimentos pode ser dc até 1 1/2".
Além das sondas de perfuração de petróleo, dois
outros tipos de equipamentos também permitem a
execução dc estacas perfuradas e cimentadas:
• sondas rotativas especiais acopláveis diretamente
no topo da estaca, com coluna rosqueada ou
flangeada, trabalhando com circulação direta ou
reversa. Os fabricantes Wirth (alemão), Caldwell e
1 lughes (americanos) são os mais conceituados;
• motor rotativo tipo turbina, acionado por fluido
dc perfuração, trabalhando com broca
acoplada. Estes motores tiveram sua origem na
indústria do petróleo, com o objetivo de realizar
furos dirccionais em rocha a grande profundidade.
Nào perfuram somente devido a pressào
sobre a broca, mas também graças à alta
rotação conferida à broca, que pode atingir até
200 r.p.m. a 1.200 g.p.m. dc vazão de fluido,
com broca de 26". Quando operado por sonda
rotativa, pode-se adicionar torque e rotação,
através da rotação da coluna. Quando operados
por guindaste, há necessidade de se montar
uma coluna dc perfuração estacionaria, com
o objetivo de dar inércia ao motor e de alimentálo
com o fluido de perfuração. \ marca mais
utilizada é a Dyna-Drill (americana). Estacas de
até 42" já foram executadas com esta técnica.
Qualquer que seja o tipo de equipamento escolhido.
em funçào da condiçào d? estabilidade
da parede do furo, como fluido de perfuração pode
ser utilizado água do mar, polímeros ou lama
bentonítica 7 . Quando utilizada, a lana bentonítica
sempre reduz o atrito lateral unitário da estaca, em
virtude do fino reboco ("cake"), que por melhor
que seja o processo de lavagem antes da cimentação,
sempre fica impregnado na parede do furo. Independentemente
do tipo de fluido de perfuração, a
menos que se disponha de provas de carga em escala
real na locação, não sc costuma extrapolar o
valor limite dc 100 kPa para o atrito lateral unitário.
Para se evitar o surgimento de elevados recalques
na fundação, não é recomendada a consideração
de resistência de ponta, haja vista a presença dc
material escavado que normalmente se deposita
6 As sondas de perfuração de petróleo traba ham com circulação
direta do fluido de perfuração. Utilizam-se de colunas
rosqueadas de tubo de até 6 5/8" de diâmetro externo
|x>r até 1/2" de espessura de parede, de aço 950 MPa de
tensão de escoamento.
7 O item 11.4.1.2 descreve os cuidados a serem tomados
para o preparo e controle de qualidade dos fluidos de perfuração,
quando utilizados no ambiente marinho.
no fundo do furo, além da descompressào do solo
de fundação próximo à ponta da estaca (característica
do método dc perfuração). Como exceção,
somente se adota a consideração de ponta, quando
se recorre a técnicas especiais, como por exemplo
a que utiliza célula expansiva de pré-carga na
ponta da armação, conforme o exposto no trabalho
dc Mello & Amaral (1989).
Quando empregada como fundação dc plataforma,
é recomendado que o trecho superficial seja
encamisado por uma estaca tubada até 5-10m de
profundidade (de diâmetro interno pelo menos 2"
maior do que a maior broca que for utilizada), a
qual é instalada previamente por cravaçào. lista
camisa metálica serve para se garantir:
• que nào ocorrerá desmoronamento no início
da perfuração, o qual poderia causar o
descalçamcnto da base da plataforma;
• a resistência estrutural da estaca na região de maior
momento e maior deslocamento horizontal (evitando-se
a degradação da aigamassa por fadiga):
• a verticalidade da estaca;
• uma melhor transferência dos esforços entre a
estnitura e a fundação.
No Brasil, a experiência mais marcante ocorreu
na plataforma de Atum-3 (PAT-3), Litoral do
Ceará. Sua fundação foi executada por duas sondas
rotativas Wirth PBA 3.0/56. Perfuraram-se oito
estacas de l,50m de diâmetro, em lâmina d'água
de 43m, até a profundidade de 55m abaixo do
leito marinho, em solo arenoso calcário, nào cimentado
a fortemente cimentado (Mello &
Amaral, 1989).
11.1.2.2 - Fundações Rasas
Quando se executa uma fundação rasa em terra,
o passo inicial é a realização da escavação. Somente
após se atingir a profundidade de assentamento
definida pelo projeto (função do nível de
segurança estabelecido "a priori"), é que se providencia
a concretagem da estrutura da fundação.
Sendo assim, assenta-se a estrutura na profundidade
de interesse.
Por outro lado, quando se trata da fundação rasa
tle uma estruturo offshore, é impraticável procederse
a uma escavação submersa, de modo que a estrutura
fique assente em uma profundidade de assentamento
previamente estabelecida. O procedimento
habitual é lançar a estnitura no leito marinho.
Sua penetração é unicamente função do equilíbrio
entre o máximo nível dc tensào transmitida
pela estrutura ao solo de fundação e a capacidade
de carga última do solo. Ou seja. o fator de segurança
somente é superior ao unitário, nas situações
em que a estrutura estiver transmitindo ao terreno
um nível de tensào inferior ao máximo já ocorrido.
Nos dutos e "manifolds', que são estruturas
simplesmente lançadas sobre o leito marinho, após
a penetração inicial que ocorre durante a instalação,
com a fase de produção da estrutura passam a ocorrer
recalques diferenciais adicionais (com o aumento
do nível de tensào no solo), ou mesmo grandes
acomodações (com a rotura do solo de fundação).
Para tanto, estas estruturas devem ser dimensionadas
em função dos deslocamentos esperadas.
Já com as fundações das plataformas, como é
preponderante a ação das caigas ambientais e,
como o nível de responsabilidade se torna crítico
(devido ao envolvimento de vidas humanas), é
inconcebível se projetar em tais circunstâncias. A
fim de se aumentar o nível de segurança da
fundação (elevando-se a capacidade dc carga do
solo e aumentando-se a estabilidade contra
tombamento e deslizamento), há a necessidade
de se forçar o assentamento da fundação para uma
profundidade maior do que a obtida pelo simples
assentamento, porém suficiente para fornecer estabilidade
à plataforma durante todo o período dc
operação na locação. Este objetivo é alcançado
através de duas técnicas: pré-carga e sucção.
Pré-carga é uma técnica comumcnte utilizada
nas plataformas auto-elevatórias. Antes do início
da fase dc operação, a plataforma tem seus tanques
de lastro preenchidos com água do mar, dc modo
que o nível de tensão na sapata seja pelo menos
50% superior ao máximo esperado de ocorrência
durante o período que a plataforma estiver
operando na locação. Esta técnica é assim
empregada independentemente do tipo de sapata
da plataforma, quer seja "spud-can" (de forma
cônica ou piramidal invertida) ou "radier" parcial.
A técnica de sucção (ver item 11.1.2.1) vem sendo
aplicada nas fundações das plataformas de gravidade
desde a década de 80. Em virtude do elevado
peso destas estruturas (atingindo a ordem de centena
de milhares de toneladas), nem sempre é viável
dispor-se dc tanques de lastro paia pré-carga. Desta
forma, passou-se, também, a utilizar sucção, que
além de aumentar a penetração da fundação em relação
à obtida por peso próprio proporciona r.inda:
• renivelamento da estrutura;
• antecipação dos recalques por adensamento.
Este melhor controle dos recalques diferenciais
durante a instalação somente é possível porque
a fundação das plataformas de gravidade é
composta por diversas células contíguas (idêntico
a um favo de cera de abelhas), de modo que, caso
uma determinada borda da estrutura se encontre
mais alta do que o restante, aciona-se a sucção na
célula mais próxima, ocasionando uma penetração
adicional daquela borda, suficiente para anular
o diferencial observado.
11.1.2.3 - Âncoras
Os primeiros relatos de uso de âncoras remontam
dc 2000 A.C., na China. Inicialmente eram utilizadas
pedras de grande tamanho, cestas cheias
com pedras de mão, sacos de areia ou mesmo
caixas de madeira cheias dc chumbo. Somente a
partir do século XIX é que se passou a utilizar
âncoras de aço com braços transversais curvos.
No presente, as âncoras utilizadas na indústria
offshore podem ser classificadas em quatro grupos
distintos:
• âncoras de peso (poitas);
• âncoras convencionais de aço;
• âncoras verticais e
• âncoras de placa.
A carga que chega à âncora através da linha de
ancoragem pode ser decomposta em duas componentes:
uma vertical Cuplift"), que tende a levantar
a âncora do leito marinho, e uma horizontal,
que provoca o arrasto (."drag"), a qual é responsável
pelo seu travamento no solo.
O tipo de linha de ancoragem interfere, sobremaneira,
na magnitude das componentes das cargas
que chegam ao ponto de ancoragem.
Linhas com amarras dc aço, devido ã sua catcnária
de peso. sào propicias para as ancoragens cujo
objetivo é de se dispor de uma reduzida ou praticamente
nula componente vertical (ângulo de chegada
da linha no leito marinho próximo dc 0°).
Linhas de libras dc poliester ("fiber ropes"), cm
virtude de seu peso próprio submerso positivo,
são ideais para ancoragens tipo "taut-leg". que
visam à redução do raio dc ancoragem, podendo
se trabalhar com raios idênticos à lâmina d água
da locação (nestes casos o ângulo de chegada da
linha no ponto de ancoragem pode se situar na
faixa de 40" a 55°). Dentre os possíveis exemplos
de necessidade de ancoragens "taut-leg", podem
ser citadas casos onde:
• o leito marinho está congestionado com a presença
de tubulações, cabeças de poço,
"manifolds";
• há interferência entre os planos dc ancoragens
de dois ou mais meios navais e/ou
• a lâmina d'água é profunda, superiora l.OÜOm
(.necessidade dc redução do peso da linha).
a) Âncora de Peso
As âncoras de peso são utilizadas apenas nas
ancoragens, onde é reduzido o risco dc perda da
locação do meio naval. É uma ancoragem de
baixíssima eficiência, normalmente antieconômicas
para esforços dc ancoragem superiores A dezena
de toneladas.
A componente vertical é resistida pelo peso
submerso da poita e pela sucção que ocorre entre o
solo e a base (quando ocorre nos solas coesivos pode
vir a dobrar a capacidade dc ancoragcm da poita).
For sua vez, o arrasto é resistido pela adesão na
interface solo superfície enterrada e pelo empuxo
passivo mobilizado pela área lateral enterrada no
solo.
b) Âncoras Convencionais
Segundo Vryhof Anckers (1990). as âncoras de
aço podem ser subdivididas em sete classes, dc A
a G. As da classe A são âncoras que proporcionam
ultrapcnetração. conhecidas como H.H.C.
("high holding capacity"), como, por exemplo, do
tipo Stevpns. Por outro lado, as classe B são âncoras
que proporcionam grande penetração, como
as dos tipos Bruce SS e TS. Classe C (Stevin) D
(Danforth), lü, F íl'S Navy Stocklcss) e G, se distinguem
em tunção da geometria.
Elas são compostas por quatro peças (fig. 11.5):
• a haste ("shank*) articulada ou fixa, onde está
conectado o cabo dc ancoragem, que dá o ângulo
de ataque para o enterramento da âncora
no solo;
• a garra ("fluke"), responsável pela mobilização
da capacidade de carga do solo;
• o cepo ou estabilizador ("stock"), que é um
braço transversal à haste, que possui a função
de fornecer estabilidade à âncora contra sua
rotação no solo e,
• a coroa ("crown"), que fornece rigidez â âncora,
interligando as três peças restantes.
O ângulo entre a haste e a garra deve ser
otimizado em função do tipo de solo. Para solos
arenoso pouco compactos este ângulo é tipicamente
32", enquanto para argilas moles é de 50".
A resistência do solo é fator preponderante no
dimensionamento de uma âncora. Nos solos de baixa
compacidade ou consistência, o carregamento se
distribui uniformemente em toda a superfície da garra.
For outro lado, em solos cimentados, por exemplo,
toda transferência de esforços pode sc concentrar
em apenas uma pequena área dc contato.
Qualquer que seja o tipo de solo, após o
travamento a âncora deve alinhar o máximo possível
com o leito marinho, de modo a inibir o seu
arrasto no solo. Isto é facilitado porque o uso destas
âncoras sempre está associado a amarras dc aço 8 .
cj Âncoras Verticais
Nos dois últimos anos as âncoras verticais ou
V.L.A.s ("vertical loaded anchors") vêm sendo desenvolvidas
para ancoragens "taut-leg".
A elevada profundidade de enterramento deste
tipo de âncora é tal que a capacidade última do
solo é governada pela plastificarão do solo, somente
dependente de sua resistência ao cisalhamento'-'. Para
proporcionar o seu enterramento durante a instalação,
o ângulo de ataque é aproximadamente 2"
menor que o de uma âncora convencional.
Para se ter uma noção da altíssima eficiência
deste tipo de âncora, basta dizer que é quase duas
vezes superior â de uma âncora tipo H.H.C.
Uma linha de ancoragem por catcnária de peso tem normalmente
um comprimento que correspondo a um mínimo de
3 a \ vezes a lâmina d'água da locação.
Para os solos argilosos da Bacia de C;.mpos o modelo
Stevinanta de aproximadamente I50t já foi testado com sucesso.
tendo atingido uma penetração da ordem tle 17m em
solo coesivo.
d) Âncoras de Placa
Âncoras dc placa ou P.E.A.s ("plate cmbcdmcnt
anchors") vêm sendo desenvolvidas pela marinha
americana, mas atualmente têm sido estudadas
para implantação pela indústria offshore.
Sào âncoras de leve a médio porte, com capacidade
última inferior a 1,5MN.
Distingucm-se das âncoras verticais pelo método
de instalação. Enquanto as verticais sào instaladas
por arrasto (como uma âncora tradicional),
as de placa o sào por cravaçào (com o auxílio de
martelos) ou pelo uso ele explosivos.
O que se tem verificado é que a instalação através
do uso de martelos somente é economicamente viável
se a locação é em águas rasas, pois torna possível
o uso de martelos que só trabalham fora d água,
em conjunto com prolongadores ("followcrs"). Para
lâminas d água superiores a <í0õ0m o uso dc martelos
hidráulicos aptos para o trabalho submerso é inevitável,
encarecendo a instalação.
Por outro lado, a instalação por explosivos é
rápida c econômica, porém está limitada ao peso
da âncora e às características geotécnicas do solo
local (nào sendo indicada em perfis onde a presença
de uma espessa camada superficial de solo
de baixa resistência dissipa a energia de impacto
da âncora, inviabilizando a sua penetração no estrato
profundo mais resistente).
Os artigos de Stewait & alii (1989) e Beard (1980)
analisam respectivamente cada uma destas soluções.
11.2 TÉCNICAS DE RECONHECIMENTO
11.2.1 - Importância e Abrangência do
Reconhecimento
A vida útil de uma estrutura é da ordem de dezenas
de anos, enquanto os processos geológicos
têm sua ocorrência relacionada com milhares, dezenas
dc milhares ou até milhões de anos. Apesar
disso, sempre há a possibilidade de que durante a
vida útil de uma estrutura ocorram processos que
envolvam a segurança da locação.
De modo a se prevenir sobre o "risco iminente"
ela locação, é necessário se avaliar a natureza,
magnitude e período de recorrência do potencial
de risco geológico.
Para tanto, especial atenção deve ser dada a:
• Presença de Falhas Geológicas
Planos de falhas ativas que se estendem até o
leito marinho têm potencial de introduzir movimentos
verticais e horizontais no solo de fundação
das estruturas. Estes movimentos podem
ocorrer como resultado de atividade sísmica,
exploração de hidrocarbonctos dos reservatórios
ou mesmo "crcep" a longo termo, devido
a algum processo em larga escala, de sedimentação
ou erosão.
•Instabilidade dos Estratos Superficiais
De acordo com Morgenstein (1967), movimentos
dc massa já foram relatados cm taludes submarinos
com até 2 C de inclinação. Estes movimentos
podem ocorrer devido à variaçáo de
pressão neutra no solo, como a provocada pela
passagem de ondas oceânicas, alteração no processo
deposicional deltáico durante a transgressão
dos oceanos < conforme ocorrido a paitir da
última dcglaciaçào), acúmulo ile sedimentos a
montante dos taludes ou descalçamento a jusante
devido às correntes de fundo, atividade sísmica
ou à combinação destes fenômenos.
• Potencial dc Erosão
Define-se como potencial de erosão ("scour
potential") a possibilidade de ocorrência dc erosão
do solo superficial, que pode provocar o
descalçamento de um duto ou da base de uma
estrutura offshore. Ocorrendo a remoção do
suporte vertical c lateral da fundação da estnitura,
eleva-se o nível de tensào na área de contato
remanescente, possibilitando-se o surgimento dc
recalques diferenciais na fundação.
Siltes e areias finas em lâmina d água inferior a
40m sào propícios a desencadear o processo, apesar
de também ter sido observado "scour" nos outros
tipos de solo. Dependendo do vigor das ondas
e das correntes de fundo, este processo também
pode ser verificado cm águas profundas.
' Scour" pode ser classificada como dos seguintes
tipos: local (provocando o surgimento de depressões
em torno de estacas CAI pernas de estruturas), global
(causando o surgimento de bacias depressionais na
vizinhança de tcxla a cstmtura) ou geral em toda região
(como os causados pela movimentação de ondulações
de areia ("sandwavcs"), elevações abmptas tipo
bancos de areia Cshoals") e escarpas Cridges").
• Presença dc Gás ou dc Hidratos
A presença de gás biogênico (originário da
decomposição recente de matéria orgânica) ou
petrogênico (originário de depósitos profundos
dc hidrocarbonctos) dissociado na água
dos poros dos estratos superficiais é problemática,
tanto por ocasião das perfurações (das sondagens
geotécnicas c da exploração de
hidrocarbonctos), quanto também para a execução
da fundação ou operação da estrutura.
O mesmo ocorre com os depósitos de hidratos
(gás congelado) típicos de águas profundas, que
ao serem atravessados pelas colunas de perfuração
(com o atrito desenvolvido pelo avanço da
coluna ou mesmo pela subida dos
hidrocarbonctos durante a produção do campo)
têm sua temperatura elevada, possibilitando sua
gaseificação e o aparecimento de vazios no selo e,
jyjsteiiomx nte, o abatimento ("sulisidence') do leito
marinho e recalques adicionais da estrutura.
Pelo apresentado, pode-se concluir que, como
para qualquer outro tipo de obra de engenharia,
o planejamento de uma campanha de inves iga-
ções offshore, alem de visar o projeto dc fundação
da estrutura, deverá também levar em conta o
interesse de se conhecer a morfologia do leito marinho
e as feições geológicas presentes na área.
No que concerne às investigações geotécnicas
offshore, ressalta-se que a programação, execução e
interpretação adequadas assumem importância capital,
já que a eventualidade de se deparar durante a
execução das fundações, com um comportamento
do terreno diferente daquele previsto nas etapas de
estudos e projetos, implicará retardamentos no
cronograma da obra com reflexos ponderáveis na
sua economicidade, principalmente em mar aberto,
em zonas desabrigadas e afastadas da costa. Enquanto
se aguarda por novas investigações ou
redefinições de projeto, equipamentos c equipes de
execução e de apoio marítimo parados, podem conduzir
a custos capazes de inviabilizar um empreendimento.
Para que o reconhecimento dc uma locação seja
feito de forma criteriosa e bem estudada, torna-se
recomendável que seja realizado, paulatinamente,
em três fases:
• uma preliminar, constituída por um reconhecimento
geológico regional, para a definição da
bacia sedimentar, por exemplo;
• uma intermediária, também de reconhecimento
regional, porém através de técnicas gcofísicas,
que permitam obter noções sobre a morfologia,
estratigrafia e feições de caráter regional;
• uma final, de detalhamento, em torno da locação
da estrutura, exclusivamente com técnicas
de geofísica e geotecnia.
A seguir sào detalhadas as técnicas dc reconhecimento
normalmente utilizadas.
11.2.2 - Execução dos Levantamentos
Geofísicos
Levantamentos geofísicos sào métodos indiretos
de coleta de dados. Aqueles realizados no mar podem
ser classificados como: potenciais c acústicos.
São considerados métodos potenciais os métodos
que envolvem medição da perturbação do
campo eletromagnético da Terra (magnetometria)
e do campo gravitacional (gravimetria). Para fins
práticos, estes métodos sào pouco utilizados como
suporte de informações para a Geotecnia Marinha.
Sào considerados métodos acústicos os métodos
em que se obtém o mapeamento do fundo do
mar e dos estratos de solo superficial através do
retorno de pulsos acústicos. Sào eles:
• batimetria e sonografia, para a determinação
da lâmina d'água e da morfologia do fundo marinho;
• sismografia, para o conhecimento da
estratigrafia superficial.
Para que seja possível processar e interpretar
corretamente os dados levantados, torna-se necessário
realizar em paralelo uma série de levantamentos
hidrográficos e oceanográficos.
tais como: controle da maré (maregrafia), correntes
marinhas (corrcntometria) ondas
(ondometria) e densidade da água (temperatura
c salinidade).
Desta forma introduz-se o conceito de geofísica
de alta resolução, que consiste no uso de sistemas
de posicionamento, fontes sônicas, receptores dc
som e registradores gráficos e/ou digitais, que definem
a lâmina d'água. a imagem do fundo marinho
e fornecem a estratigrafia do subfundo, visando ao
apoio a obras de engenharia (Castro & alii, 1989).
Os livros de Le Tirant (1979) c Fernandes (1984)
possibilitam uma visualização da prática e da teoria,
que envolvem os principais métodos geofísicos
dc prospcçào.
Os métodos geofísicos usuais (fig. 11.6) são
descritos a seguir.
11.2.2.1 - Batimetria
Define-se batimetria como o levantamento do
relevo do fundo do mar. Levantamentos batimétricos
podem ser dc perfilagem ou varredura.
O de perfilagem é obtido através do uso de
ecobatímetro. Este equipamento emite um pulso
unidirccional, na faixa de 12 a 200kHz, de modo
que se obtenha uma boa reflexão tio leito marinho
(analisando somente a I a reflexão do sinal). Os
dc melhor qualidade fornecem uma precisão de
0,25% da lâmina d'água.
O dc varredura é obtido através de sistemas
multifcixc ("multibeam") onde no mesmo instante
há o recobrimento de uma área extensa, transversal
ao rumo de navegação da embarcação, A
precisão destes equipamentos é superior a 0,1%.
Em ambos os casos, o mesmo sistema emite e
recebe o sinal, trabalhando solidarizado ao casco.
11.2.2.2 - Sonografia
Sonografia é o método que permite o imageamento
da superfície do fundo do mar.
E realizada com o emprego de sonar de varredura
lateral ("side scan sonar"), que fornece uma
imagem bidimensional do fundo do mar, de conceito
idêntico ao da batimetria de varredura. A
diferença maior entre os equipamentos é que o
sonar ("peixe") trabalha rebocado à embarcação,
a uma profundidade tal que permaneça acima do
fundo do mar entre 10 e 20% tio alcance lateral de
interesse (maior alcance em torno de 500m para
cada lado em águas rasas).
Os transdutores emitem pulsos de 9 a 500 kl Iz,
que sào refletidos pelo relevo e posteiiormente captados.
A intensidade e distribuição das reflexões
dependem das saliências e depressões da superfície.
O registro se assemelha a uma fotografia aérea
oblíqua, distinguindo-se o relevo pelas sombras.
11.2.2.3 - Sismografía
As interfaces registradas em uma perfilagem sísmica
s:lo produto da variação das impedâncias
acústicas dos vários materiais (solos e/ou rochas)
de subsuperfície. Estas variações podem significar
tanto uma mudança da natureza do material,
quanto alteração das suas propriedades físicas.
A perfilagem pode ser realizada pelos seguintes
métodos: refração e reflexáo.
Na prática offshore, refração sísmica é utilizada
quando o objetivo é a determinação de refletores
em grande profundidade (por exemplo, para a
prospecção de hidrocarbonetos). Por outro lado,
sísmica dc reflexão é mais indicada para o
conhecimento dos refletores rasos, próximos ao
fundo do mar. Por esta razão, é o método utilizado
para investigações com fins de implantação de
obras dc engenharia offshore. Neste método, os
pulsos emitidos pela fonte penetram no solo marinho
e retornam como reflexo das várias interfaces.
A cada interface uma parte da energia é refletida e
parte prossegue penetrando, dando sempre continuidade
ao processo.
Para qualquer tipo de sísmica no mar, o sistema
de equipamentos é constituído, basicamente,
por: uma fonte de energia, conjunto de hidrofones
(que sào rebocados, a distância, pela embarcação)
e registrador gráfico ou gravador (sismógrafo
digital). Esta variação entre o uso de registrador
gráfico ou sismógrafo é que distingue a sísmica
analógica da digital.
A sísmica digital pode ser monocanal (um arranjo
de hidrofones) ou multicanal (vários arranjos).
Devido aos seus recursos, passaram a ser as
mais indicadas para fins de engenharia.
Como fonte podem ser utilizados:
• transdutores sintonizados;
• transdutores eletromecânicos e elétricos.
Os transdutores sintonizados (piezoelétricos),
fornecem um pulso extremamente curto e de alta
potência. Têm como principal virtude a sua capacidade
de detectar bolhas de gás na coluna d agua.
Devido às suas limitações, sào pouco utilizados
atualmente.
Os eletromecânicos são os 'boomer" ou
"uniboom", enquanto os elétricos são os "sparkers".
Com os "boomers" obtém-se uma penetração típica
da ordem de 70 a lOOm cm águas rasas. A
resolução média é de 0,5m. Consiste de uma placa
metálica em contato com um diafragma de borracha.
A placa sofre uma repulsão eletromagnética
(na faixa de 300Hz a 10kHz), quando submetida
a uma descarga elétrica. O diafragma transmite
este movimento à água, através dc um pulso acústico
(espectio) de banda larga. Por outro lado, os
"sparkers" são utilizados para os levantamentos
em lâminas d'água superiores a lOOm. É composto
por um conjunto dc 3 ou 9 eletrodos, presos a
hidrofones
sonar dc
varredura
ecobatímctro
Figura 11.6 - Navio dc levantamentos gcofísicos
I FUNDAÇÕES: TEORIA £ PRÁTICA
uma gaiola metálica. Uma descarga elétrica de curta
dura cio e elevada potência Cl 00 kj), provoca a
vaporização da água (bolha de vapor), que ao se
expandir explode, gerando o pulso acústico (na
faixa de 50Hz a 3kHz).
11.2.3 - Execução das Investigações
Geotécnicas
11.2.3.1 - Considerações Gerais
Uma obra "offshore", assim como qualquer empreendimento
de engenharia em terra, deve ser encarada,
sob o aspecto das investigações geotécnicas,
simultaneamente quanto ao seu vulto (importância,
magnitude e tipos de carregamentos, custos, riscos
etc) e quanto â natureza e peculiaridades do terreno
(geologia, geomorfologia, sismicidade, colapsividade
etc). No sentido literal, o termo "offshore" da língua
inglesa poderia ser traduzido como "costa afora" ou
"afastado da costa", sem entretanto uma definição
quantitativa desse afastamento. Nào seria possível,
no presente enfoque, ser suficientemente abrangente
e, ao mesmo tempo, chegar ao nível do detalhe sobre
todos os tópicos relativos às investigações
geotécnicas necessárias a todos os tipos de obras
offshore, mais ou menos afastadas da costa, de diferentes
vultos e os estudos para sua implantação, nas
múltiplas situações geológico-geotécnicas que a natureza
oferece.
As considerações aqui apresentadas, no âmbito
da geotecnia, visam uma orientação que possa servir
de guia aos especialistas da engenharia
geotécnica e da geologia de engenharia, no sentido
de se abordar as diretrizes básicas para aqueles,
já iniciados, que se defrontem com fundações de
estruturas •offshore" e com a programação das investigações
geomecânicas que podem ser necessárias.
Caberá a cada um adaptar aos casos específicos
em estudo o que for conveniente e compatível
com o vulto do empreendimento, a natureza do
terreno c o afastamento da costa, sob todos os aspectos
relevantes.
As investigações geotécnicas para estudo de
fundação dc uma estrutura offshore devem sempre
ser localizadas rigorosamente dentro da área
de sua implantação, não sendo válida a intcrpolaçâo
ou extrapolação de resultados dc locações próximas,
principalmente em mar aberto.
A programação dessas investigações deve ser
específica para o tipo de obra a ser implantada
considerando as premissas de comportamento que
se espera das suas fundações. Em função das informações
obtidas através dos levantamentos
gcofísicos, dc geologia e topografia do fundo do
mar, da natureza, consistência ou compacidade
dos estratos mais superficiais que se prevê encontrar
na locação, serão definidos, além das dimensões
da área a ser investigada, os métodos de investigação
e as profundidades a serem atingidas
pelos estudos.
Deve-se, portanto, conhecer a acurácia, tanto
do sistema de posicionamento e topografia
batimétrica, quanto das metodologias dos trabalhos
investigatórios dc campo ou de laboratório,
de modo a considerar as respectivas tolerâncias
nas análises críticas das possibilidades dc erros,
bem como suas limitações na fase de aplicação
dos resultados já na fase dc projeto.
A morfologia dajürea cm estudo assume maior
importância no caso dc fundações rasas, ou seja,
nas chamadas estruturas de gravidade, exigindo
precisão da ordem de 0,1 m. As inspeções por
minisubmarinos ou câmaras de televisão (ROVs)
sào também convenientes para se prevenir contra
imprevistos na fase de implantação. Ainda neste campo
dever-se-á considerar a possibilidade da existência
dc movimentos superficiais do fundo do mar,
principalmente no caso dc solos granulares.
Um levantamento geológico da superfície do solo
submerso, sob o ponto de vista da geologia dc engenharia,
será também um excelente auxiliar para a
definição dos equipamentos e metodologias de investigação
das camadas superiores, fundamentais
não apenas para as estruturas dc gravidade, como
também para as instalações superficiais de cabeças
dc poços c outras similares.
11.2.3.2 - Investigações de Campo
Com base nas informações dos levantamentos
topobatimétricos, gcofísicos e na geologia de engenharia,
a fase das investigações de campo, ou
prospcçào gcomecânica, será programada para
indicar c identificar todas as camadas importantes
dos solos, rochas e terrenos de transição, estendcndo-sc
em área e profundidade suficientes para
obter um perfil gcológico-gcotécnico do terreno
suficientemente abrangente cm funçào do projeto.
Esta fase consistirá basicamente de sondagens com
amostragem intermitente, coleta dc amostras superficiais
e ensaios "in situ", incluindo-se também os
ensaios gcotécnicos lalx>ratoriais que se executarão
a bordo, imediatamente após as coletas de amostras,
quando viáveis, dependendo da natureza dos
solos. Considera-se, portanto, que a unidade de
apoio dos equipamentos que executam as investigações
de campo deva ser provida, r.o mínimo, dc
um mini-laboratório de bordo, cuja equipe, além
dc executar alguns ensaios em parte das amostras
obtidas, fará também a seleção e acondicionamento
da outra parte, que será conduzida ao laboratório
geotécnico terrestre para os ensaios restantes.
a) Programação
Em geral as sondagens sáo programadas dc
maneira a se realizar um furo piloto no centro da
área a ser investigada e outros uniformemente distribuídos
ao redor. No caso dc plataformas dc petróleo,
usa-se programar 3 a HÍ fures periféricos.
As profundidades dessas sondagens raramente ultrapassam
os 120 m. Sào sempre previstas cm função do
tipo de estrutura e de fundação que serão projetadas,
como também em decorrência das informações disponíveis
dos levantamentos geofísicos. O furo piloto
é o primeiro a ser realizado, com acompanhamento
de Engenheiro Geotécnico ou Geólogo dc Engenharia,
o qual definirá nào apenas o seu limite,
mas estabelecerá também, em função do perfil
obtido, critérios de paralisação para os furos de
sondagem restantes.
A freqüência de amostragem é também função
da natureza do subsolo, que só se conhece após a
primeira sondagem. Ao menos para o furo piloto o
ideal é se proceder com amostragem contínua. Em
função do resultado, definir-se a freqüência dc
amostragem das demais sondagens. Entretanto, razoes
de ordem econômica têm conduzido a
amostragens intermitentes no furo piloto, adotando-se
a amostragem contínua posteriormente, nos
demais furos, se o perfil piloto assim o ensejar. Em
geral, os intervalos recomendados têm sido:
• inferior a 10 m ele profundidade, 1 ni:
• de 10 a 30 m de profundidade. 1,5 nv,
• de 30 a 100 m de profundidade, 3 m;
• a partir de 100 m de profundidade, 5 m
Para o projeto de ancoragens com o auxílio de âncoras
convencionais, uma investigação geotécnica que
atinja a profundidade de 10 m (raramente até 15 m), é
nonnalmente suficiente para o dimensionamento.
No caso dos dutos submarinos, o uso de amostragem
superficial que atinja 3-5 m de amostragem
(normalmente espaçadas a cada 2-5 km) é suficiente.
Maior detalhamento se realiza quando ocorrem
consideráveis alterações na morfologia do leito
marinho na rota.
P;.ra outros tipos de estruturas offshore deve ser
elaliorada uma programação específica, podendo-se
utilizar como orientação as diretrizes apresentadas.
bj Amostragem Superficial do Leito Marinho
No Brasil se tem observado o uso de amostragem
por gravidade, para classificação geológicogeotécnica
e a execução de ensaios de laboratório
(esta amostragem normalmente conduz à obtenção
dc amostras deformadas).
Os amostradores tipo "Kullcmberg" sào os mais
utilizados. Consistem de um tubo aberto com sapata
biselada na extremidade inferior e mola
retentora. A extremidade superior está ligada a
, J Em função do comprimento do cabo de aço pode-se regular
a velocidade de impacto do amostrador no solo. Alturas de
queda superiores a 5m normalmente não trazem benefícios
à amostragem, lendo em vista que grandes alturas atrapalham
a investigação, porque as correntes marinhas podem
desviar o amostrador da verticalidade. Devido à viscosidade
da água. a panir de uma determinada altura de queda a velocidade
se torna praticamente constante, e, quando se solta o
amostrador de baixa altura se obtém uma reduzida energia de
impacto, minimizando a penetração do amostrador no solo.
um peso morto e este a um cabo de aço. Quando
o peso mono toca no leito marinho, o cabo de
açc fica solccado, aliviando a pressão de uma mola
retentora, que libera o amostrador do conjunto. A
cravaçào do amostrador se dá por queda livre 10
sob a açào da força de um peso de até lt.
Quando a embarcação utilizada dispuser dc
uma piscina central ("moon pool"), através dela é
que deverá ser operado o equipamento, a fim de
se evitar as dificuldades de manuseio que ocorrem
quando se opera do bordo da embarcação.
Adaptado ao peso propriamente dito existe o
tubo amostrador de 4" de diâmetro externo (101,6
mm) e ÒV\ V interno (93/» mm). Seu comprimento é
variável, devendo ser um múltiplo de 1,5 m, até um
máximo dc 12 m (o comprimento do amostrador é
função da profundidade máxima de interesse e da
compacidade/consistência do solo superficial). Na
extremidade inferior do tubo existe uma sapata, à
qual é acoplada uma válvula tipo borboleta, que se
fecha na ascensão do tubo, evitando a saída da
amostra coletada. O amostrador possui uma camisa
plástica translúcida interna, para conter a amostra
coletada, de diâmetros interno e externo dc
respectivamente 3'/»" (82,4cm) e y/z" (88,6cm). No
espaço anular entre o tubo amostrador e a camisa
plástica é colocado um anel tipo 1 0" ("O ring") de
neoprene, que evita a intrusão de partículas de
solo e centraliza a camisa plástica. Existem ainda
molas retentoras que podem ser usadas encaixadas
na extremidade inferior do tubo, junto à sapata
cortante de aço-carbono reforçada.
Após a cravaçào. o amostrador é içado para o
convés, sendo aí desmontado, retirando-se o tubo
plástico, que é hermelicamente fechado com tampas
plásticas coloridas (para identificação do topo
e do fundo da amostra).
cj Sondagens
A despeito do método de investigação empregado
e da boa qualidade dos trabalhos, existem dificuldades
inerentes à execução das investigações
geotécnicas. função do tipo de solo investigado:
• solos granularcs
Onde a ausência de plasticidade e coesão dificulta
a amostragem. Além de terem a sua
compacidade alterada pela cravaçào, as amostras
sào em geral de quantidade reduzida, limitando
a quantidade de ensaios.
Como as amostras são inegavelmente perturbadas.
tem-se adotado a técnica de moldar
amostras (corpos-de-prova) em diferentes estados
de compacidade" (no mínimo para as
densidades máxima e mínima), requerendo
quantidades consideráveis de amostra, o que
nem sempre é possível a despeito do processo
l! O amolgamento deste tipo de amostragem ocorre tanto no
processo de cravaçào do amostrador no solo e içamento
para o convés da embarcação (batendo contra as paredes
internas do tubo de revestimento), como lamliém na extração
do solo do amostrador.
dc amostragem (em face da já mencionada característica
incoerente do material).
• solos coesivos
Para estes solos nào se costuma ter problemas
quanto às quantidades de amostras obtidas, mas
sim quanto à sua sensibilidade. As argilas, siltosas
ou não, quando ensaiadas em laboratório, têm
apresentado resistência ao cisalhamento inferior
à esperada (tanto em função do esperado para a
natureza do material e da profundidade de coleta,
quanto se comparada com a resistência
extrapolada dos ensaios "in situ" tipo C.P.T.),
sugerindo que as amostras incorporam um certo
grau de amolgamento.
Mas independentemente do tipo de solo, as dificuldades
se potencializam em função ch lâmina d'água
da locação e do tipo de meio naval disjxjnívcl.
Os equipamentos que têm sido utilizados nas
investigações em águas brasileiras são:
• equipamento apoiado sobre flutuantes
O flutuante é apenas utilizado quando se pretende
executar sondagens a percussão e desde
que as condições de mar, lâmina d'água e
correnteza o permitam.
Sào geralmente constituídos de tambores ou
tubulões estanques de aço, posicionados sob
estrutura metálica e/ou de madeira Cem alguns
casos especiais podem ser preparados flutuantes
mais reforçados, chegando-se até ao uso
de pontões ou chatas). Devem ser fixados com
auxílio de âncoras, em lâminas d água de até
20m e furos com nào mais de 50m de profundidade,
em zonas abrigadas.
Sua utilização para sondagens além do impenetrável
à percussão com equipamento misto
(percussão e rotativa) fica na dependência das
condições de mar e da lâmina cTágua. Nestes
casos é usual se utilizar sondas rotativas leves,
em geral de avanço manual, que possam se
apoiar no tubo de revestimento.
Devido à variação de maré e conseqüentes oscilações
da lâmina d água, vale enfatizar a importância
prática de se realizar um rigoroso controle
de nivelamento da boca do furo.
liste apoio flutuante tem o seu campo de aplicação
bastante limitado, mas, nas condições
em que é viabilizado, torna-se recomendável
diante do baixo custo e da rapidez na execução
da investigação.
• equipamento apoiado em plataformas fixas
Sào consideradas plataformas fixas as estnituras
metálicas ou de madeira, apoiadas em estacas
de madeira ou mesmo perfis metálicos,
que podem ser posteriormente descravados.
O controle de cota da perfuração é obtido
correlacionando-se o espelho d'água na hora de
início do furo (utilizando-se uma régua de maré)
com o nível fixo da plataforma. Durante a execução
do furo basta relacionar-se a profundidade
investigada com o nível da plataforma.
Plataformas fixas do tipo andaime metálico
desmontável, apoiadas diretamente em sapatas
sobre o solo, foram utilizadas com sucesso
nos estudos da ponte sobre o Lago Maracaibo,
na Venezuela. No caso dos estudos da ponte
Rio-Nitcrói. contudo, sua utilização foi um fracasso,
diante do relevo marinho da Baía da
Guanabara.
•equipamento sobre plataformas auto-elevatórias
utilizadas pela construção civil
Estas plataformas sào estruturas flutuantes, de
três ou quatro pernas, de comprimento variável.
As pernas descem por ação de um guincho
(específico para cada perna), até que se
apoiem no leito marinho. A partir deste suporte
inicia-se o içamento da base flutuante até
um nível seguro, de modo que a plataforma
fique fora da zona dc respingo das ondas
("splash zonc",).
No Brasil temos exemplos de utilização dessas
plataformas nos estudos do porto de Vitória e
nas investigações para estudo c projeto da
Ponte Rio-Nitcrói. Tais plataformas permitem
a execução a contento, seja de sondagens a
percussão ou rotativas como também de ensaios
"in situ", do tipo palheta ("vane shear
test"; ou C.P.T. ("cone penetration test").
Sua utilização está limitada a zonas abrigadas
ou nào abrigadas quando a lâmina d'água é
rasa. As utilizadas para os estudos de fundação
da ponte Rio-Niterói foram projetadas para
lâminas d'água de 25 a 30 metros mas soçobraram
nos estudos para a ilha artificial da
Termisa, cm Areia Branca (RN) a 13 km da costa,
com lâmina d água da ordem de 13m e ondas
dc 2 a 3m de altura.
O custo dessas plataformas é elevado e sua
operação, embora simples, requer considerável
e oneroso apoio marítimo o que, diante
das limitações de técnicas de aplicabilidade,
tem conduzido a um uso bastante restrito.
• equipamento apoiado cm monotubo
Nào temos conhecimento de seu uso no Brasil,
exceto no caso em que se aproveitaram as
camisas de tubulões cravadas para a Ponte Rio-
Niterói. O sistema serviu para definir o terreno
dc fundação dos próprios tubulões que careciam
de detalhes geotécnicos.
Os equipamentos se apoiam numa espécie de
bandeja que enlaça e se apóia na extremidade
superior da camisa, acima da linha d'água.
É necessária a utilização de apoio marítimo
constituído de cábreas, rebocadores e lanças,
analogamente aos casos das plataformas autoelevatórias
e fixas.
• sino dc sondagem
Trata-se de um método de concepção genuinamente
brasileiro, desenvolvido e operado
sem importação de tecnologia. Foi concebido
nos idos dc 1974, visando à execução de trabalhos
para a Petrobrás na costa brasileira.
Este método permite a execução de sondagens
a percussão ou rotativas, como também de
outros ensaios "in situ", tais ccmo palheta e
C.P.T, dentro de uma câmara submersa apoiada
no leito marinho (fig. 11.7). No ensaio de
S.P.T., apresenta ainda a vantagem de diminuir
a dissipaçào da energia de cravaçào, visto que
o comprimento de haste é bem inferior ao de
uma sondagem convencional apoiada em plataformas
e/ou flutuantes.
Sua principal vantagem é permitir o trabalho
em zona de arrebentação ou absolutamente
desabrigada, onde os métodos convencionais
(plataformas e flutuantes) sào inoperantes.
No atual estágio de desenvolvimento sua limitação
é a lâmina d'água, visto que o trabalho
de mergulhadores em lâminas d água superiores
a 40m requer mergulho saturado (em vez
de ar atmosférico se processa a injeção de mistura
dc gases). Nestas condições especiais, no
litoral do Ceará já se procedeu a sondagem
com lâmina d'água da ordem de 50m.
Seu custo é superior ao dos flutuantes, competindo
com as plataformas auto-elcvatórias.
• equipamento em balanço sobre plataformas
auto-elevatórias tipo -Jack-up". com auxílio dc
tubo-guia cravado no fundo do mar
A "jack-up' é um tipo de plataforma autoelevatória
muito utilizada nas perfurações
exploratórias de hidrocarbonetos em lâminas
d'água de até lOOm. Quando se dispõe de uma
perfurando um poço de petróleo na locação,
cujo serviço nào pode ser interrompido até a
sua conclusão (que pode durar mais de um
mês de trabalho), a solução que tem sido encontrada
para lâminas d água de até -it)-50m é
a execução da investigação a partir dc uma
estrutura de aço em balanço (denominada
platibanda), que se solidariza com a borda da
plataforma. Esta é uma iniciativa pioneira da
Petrobrás, com o objetivo de agilizar e dinamizar
a explotaçào de petróleo, reduzindo o hiato
entre as fases de exploraçào e de implantação
da estrutura para produção.
Neste caso a perfuração se realiza com o auxílio
de máquinas rotativas de uso geotécnico.
Para que a haste e o revestimento de perfuração
nào se rompam devido à ação das correntes
marinhas, crava-se um tubo de bitola 9 5/
8", 10 3/4", 11 3/4" ou 13 3/8" no leito marinho.
A investigação geotécnica é executada
coaxialmente a este revestimento.
• navios de sondagem
Normalmente são utilizados navios de perfuração
geotécnica dotados de uma torre de perfuração
e um furo central no casco (denominado
de "moon pooD 12 . A perfuração é realizada
com colunas de perfuração de aço especial
de 5'/i" de diâmetro externo, possibilitando
a retirada de amostra de até 4" de diâmetro.
Quando este tipo de embarcação não está disponível, podese
taml)ém utilizar navios de perfuração de petróleo, realizando-se
a investigação de forma similar à de um navio
geotécnico, através de sua torre de perfuração.
Em lâminas d'água superiores a 1000 m, de modo
a se reduzir o peso da coluna, torna-se obrigatório
o uso de revestimento de duralumínio.
Sem dúvida os navios de sondagem representam
uma solução para os problemas de sendagens
em lâminas d'água superiores a 50 m.
Existem navios que se posicionam com o auxílio
de âncoras (quatro a seis) e outros que
dispõem dc um sistema de posicionamento dinâmico.
Em áreas com leito marinho congestionado,
devido à presença de facilidades de produção,
o navio com posicionamento dinâmico
é uma obrigatoriedade.
barco de
Figura 11.7 - Investigação com sino
Os navios "Perder" e "Mariner", que trabalham
ancorados, assim como com "Wimpey Sealab",
"Alcoa Seaprobe" e "Bucentaur", que trabalham
com posicionamento dinâmico, já realizaram
campanhas geotécnicas em praticamente todas
as bacias sedimentares do litoral brasileiro. Os
recordes de perfuração foram obtidos ccm o
navio Bucentaur ". na campanha realizada em
1991/92, na Bacia de Campos, quando se perfurou
uma sondagem até 180 m abaixo do leito
marinho, em lâmina d'água de até 1.150 m.
Para a realização dos ensaios mais corren.es é
utilizado o laboratório de bordo da embarcação.
Já para a realização dos ensaios especiais
(que requerem equipamentos sofisticados) ou
dos ensaios que são inviabilizados pelo balanço
e vibração típicos de um meio naval (como
por exemplo sedimentação), as amostras têm de
ser transportadas para o lalx>ratório em terra.
Os navios mais antigos realizam a perfuração
através do conjunto mesa rotativa e "roda-lou-
CÚ" ("kelly"). Já os mais modernos dispõem de
tornei ou cabeça giratória ("power swiveD. O
avanço é em geral acionado através de um trilho
guia e de um comando hidráulico. A perfuração
e do tipo rotativa, cujo fluido de perfuração
é uma lama tixiotrópica ou polímeros.
De modo a não se transmitir ao solo investigado
os movimentos verticais causados pela passagem
das ondas, estes navios são dotados de
sistemas dc compensação tipo "bumper sub"
ou "heave compensator". Este último é o mais
moderno, tendo-se mostrado mais eficiente cm
ondas dc até 3-4 m de altura.
Os navios podem ser equipados para registrar
as condições de tempo, velocidade do vento,
variação de maré, estado do mar, altura de
onda, marulhos CswclP'), direção e velocidade
das correntes a diversas profundidades, além
dc todos os dados da perfuração e amostragens.
Para os solos granulares são utilizados
amostradores dc cravaçâo dinâmica (tipo API),
de comprimento 0,50, 1 ou 1,50 m (que dispõem
dc um soquete para aplicar a energia
cinética necessária à penetração da camisa
biselada no solo c providos de uma mola
retentora na extremidade inferior). Em cada
operação de amostragem uma camisa interna
de plástico translúcido removível recebe o solo.
A partir da década de 80 tem-se dado preferencia
aos amostradores de pistâo para os solos
coesivos de baixa consistência. Estes
amostradores funcionam através da cravaçâo
quase estática (mesmo mecanismo do ensaio
de C.P.T.) dc um tubo dc parede fina no solo.
A cravaçâo ocorre através da ação de uma trava
que reage o cor|>o principal do amostrador contra
a coluna de perfuração, enquanto o embolo
é movido para baixo, com a injeção de fluido de
perfuração pelo topo da coluna. O diâmetro destes
amostradores é em geral de 2 1/2" (63 mm).
d) Ensaios "In Situ"
Os ensaios "in situ" sáo as ferramentas ideais para
medir resistência do solo sem as perturbações inerentes
ao processo de amostragem. É importante
entretanto analisar que tais ensaios carecem de uma
interpretação, inclusive sua comparação com resultados
dc ensaios em lalx>ratório para que possam
efetivamente ser eficazes.
Em condições favoráveis de mar. têm-se utilizado
ensaios de palheta ("vane test"). Estes easaios
nos primórdios do seu desenvolvimento eram movidos
mecanicamente, tendo-se referência apenas
a ensaios executados em profundidades da ordem
de 20-25m, cm lâmina d água dc até 50 m. Já na
década dc 90 evoluíram com a introdução dc modelos
eletrônicos e a cabo, computadorizados para
as maiores profundidades de investigação.
Já o C.P.T. ("cone penetration test"), consagrouse
no Brasil em virtude dc sua vasta utilização no
mar do Norte. Seu emprego "offshore" foi consagrado
devido â disponibilidade do
penetrômetro elétrico, desenvolvido pela empresa
Fugro na década dc 60 (cm uso para investigações
terrestres desde 1964). Inicialmente foi concebido
para medir a resistência oferecida pelo
solo à cravaçâo. O C.P.T. utilizado no mar é basicamente
o mesmo utilizado em terra, ou seja, um
conc dc lOcm* dc área, cravado quase cstaticamente
no solo a uma velocidade de 2 cm/s, distinguindo-se
destes apenas quanto ao sistema de
cravaçâo. Os penetrômetros mecânicos necessitam
dc hastes internas operando dentro do tubo
de perfuração (nào poderiam ser usados no mar,
devido ao comprimento requerido para as hastes,
o que acarreta sérios problemas de utilização,
como flambagcm.
O penetrômetro convencional tem formato cilíndrico
com paredes lisas c contém dois extensômetros
elétricos, para medida das resistências dc
ponta e atrito lateral. As medidas sào transmitidas
por um cabo, que corre dentro dos tubos para uma
unidade dc gravação que reproduz diretamente os
gráficos de resistência de ponta e atrito lateral versus
profundidade.
Na década dc 80 o penetrômetro convencional
evoluiu para o piezocone (PCPT), capaz dc medir
também a pressão neutra do solo, permitindo análises
em tensões efetivas.
No Brasil, foi vencido o desafio de projetar e
construir um PCPT suficientemente sensível para
medir a baixa resistência dos sedimentos superficiais
do leito marinho e suficientemente robusto
para operar a mais dc 1200m dc profundidade. A
Pctrobrás, cm um esforço de nacionalização desta
tecnologia, investiu no desenvolvimento do
penetrômetro. Apesar de aprovado, seu sistema
de cravaçâo definitivo ficou para uma nova etapa
dc pesquisa e desenvolvimento.
Além disso, no final da década de 80 foi desenvolvida
pela empresa Fugro uma nova geração dc
CPT. que dispõe também dc receptor sísmico na jx>nta
do cone, possibilitando a execuçào de ensaios
"downhole" sísmicos (a fonte fica situada na base dc
reentrada do cone, apoiada no leito marinho). Este
equipamento foi testado com sucesso na campanha
do navio "M/S Bucentaur". em 1991/92.
Os sistemas de cravaçâo jx>dcm ser dc dois tipos:
• "Sea Cair
Constituído por uma estrutura com cerca de
3,5 3,5 in de base, que naballia apoiado no
fundo do mar. Foi projetado para ser baixado
diretamente do convés da embarcação, através
de seu poço central ("moon pool"), com o
auxílio da torre dc perfuração.
Consiste em um sistema dc macaco hidráulico
montado sobre uma estrutura dc aço lastrcada.
O macaco crava os tubos de aço estaticamente
no solo. estando já adaptado na ponta destas
hastes o penetrômetro elétrico descrito anteriormente.
A operação é controlada através da
cabinc dc comando localizada no convés do
barco, sendo que as medições de resistência
de ponta e atrito lateral convergem para grava-
Cão c plotagem direta em gráfico. Os registros
fornecem precisão ± 1%.
Este sistema pode trabalhar com uma força de
reaçào de até 200 kN. sendo que a profundidade
máxima a investigar depende do tipo de
solo, variando entre 20 e 40m para os solos
argilosos moles e cerca de 20m para os solos
arenosos densos ou argilosos duros.
Em condições normais de operaçào obtém-se
uma produtividade de 5 a 10 ensaios por dia.
Como a sua grande limitação é a máxima profundidade
a ser investigada, partiu-se para o
desenvolvimento da linha Wison.
• Wison
Trata-se de um equipamento de penetração a
cabo, tipo "downhole", que desce por dentro
do revestimento de perfuração. O equipamento
é baixado através de um cabo dc ligação
(umbilical). Quando o equipamento atinge a
sapata do revestimento ele se trava automaticamente,
através de uni mecanismo tipo
iatching". A partir deste ponto o cone é entào
cravado no solo, estaticamente, com auxílio de
um pistào hidráulico, até a profundidade máxima
dc l,5m (o peso do revestimento é usado
para contrabalançar a reaçào do solo à penetração
do cone). Este peso permite um esforço
de penetração da ordem de 30k.\, geralmente
suficiente para fazer com que o
penetrômetro penetre todo o seu curso em
solos nào cimentados.
Quando se atinge o final do curso do pistào
ou a nega de cravaçào do equipamento, retirase
o penetrômetro da coluna, prossegui ndo-se
com a perfuração até a nova profundidade a
ser ensaiada (podendo-se ensaiar o solo continuamente,
caso seja de interesse).
11.2.3.3 - Investigações de Laboratório
Os laboratórios de campo (em geral dc bordo) c
terrestres, nas sedes das empresas especializadas,
procedem a ensaios nas amostras coletadas, de
modo a fornecer a classificação c descrição
geotécnica das camadas, bem como os parâmetros
tle resistência, compressibilidade e, mais recentemente,
seu comportamento dinâmico.
As amostras coletadas são inicialmente analisadas
no laboratório de bordo. Em funçào das inevitáveis
oscilações do navio, o laboratório tem capacidade
limitada de utilização. Destina-se. no
máximo, a:
• classificação táctil-visual (com lupa e microscópio)
geológica e geotécnica;
• determinação de peso específico aparente;
• tktci minacào teor de umidade, temperatura e pl I;
• granulometria por peneiramento;
• rotura por compressão nào confinada (compressão
simples);
• palheta de laboratório ("vane shear");
• cone sueco ("fali cone");
• ensaios expeditos de resistência ao
cisalhamento nào drenada, tais como:
=> penetrômetro de bolso C pocket penetrometer")
=> palheta portátil ("torvane").
O laboratório de bordo deve ser provido de
um extrator de amostras horizontal hidráulico,
com o qual se extrai cerca de 50% de cada amostra
coletada. Para se poder aproveitar ao máximo
a operação é recomendável também disporse
de equipamento de raio X, com monitor de
TV, videocassete e máquina fotográfica. Mais
modernamente sào realizados também ensaios
triaxiais tipo nào adensado nào drenado (UU) e
adensamento automático tipo CRS.
O laboratório terrestre, de capacidade teoricamente
ilimitada, é encarregado da realização
dos ensaios complementares, a saber:
• granulometria com sedimentação e caracterização
de acordo com um dos sistemas vigentes
dc classificação de solos (como por
exemplo, USCS- u unified soil classificalion
system");
• descrição detalhada (macro e micro estruturai
com lupa e microscópio, e difracào dc
raio X;
• medição da resistividade e condutividade;
• ensaios gcoquímicos, como teor matéria orgânica,
determinação dos sais solúveis, dos
cátions trocáveis (Ca, Mg, Na. K, A e H), Si O.
e CaCO^;
• oedométricos clássico e CRS;
• avaliação da resistência ao cisalhamento
por ensaios triaxiais UU, extensão lateral.
CIU c CD.
O ensaio de compressão triaxial é o mais recomendável,
pois possibilita o restabelecimento
das tensões "in situ", assim como conhecer-se o
desenvolvimento das pressões neutras. As restrições
ao seu uso referem-se ao custo dos ensaios
e ao tempo necessário para sua execução.
Sua utilização nào é extensiva, em virtude da
dificuldade de se encontrar laboratórios
especializados devidamente equipados para realização
de um grande número desses ensaios,
em prazo reduzido.
Visando à reprodução, cm laboratório, dos
carregamentos dinâmicos a que a fundação
estará sujeita devido à ação dos esforços
ambientais, sào utilizados ensaios triaxiais
cíclicos. Esta necessidade se torna mais obrigatória.
caso a região seja propensa à ação de
terremotos, pois a aplicação de tensões
cisalhantcs repetitivas pode conduzir a um aumento
gradual na poro-pressão, reduzindo a
resistência ao cisalhamento do solo.
O equipamento disponível no Brasil é um sistema
de circuito fechado automatizado, coman-
(lado por dispositivos eletro-hidráulicos, com dois
canais, destinados respectivamente à aplicação de
carga ou deslocamento axial e ã aplicação dc pressão
confinante na amostra'*.
11.2.4 - Integração dos Resultados
A integração entre as especialidades da geologia,
geofísica e geotecnia deve ocorrer tanto na
fase de levantamento dos dados básicos para projeto
(programação dos ensaios e levantamentos),
quanto na fase dc projeto propriamente dita (interpretação
dos resultados), segundo modelos como
o sugerido na Fig. 11.8.
Nos casos em que o observado nas campanhas
prévias influencia na programação de um
ensaio ou levantamento futuro, a integração ocorre
de forma estanque, com as ações se processando
em épocas temporalmente diferenciadas. Isto pode
ocorrer inclusive nas campanhas de mesmo tipo
de levantamento, como, por exemplo, nos
levantamentos batimétricos, onde a comparação
do mais recente com outros históricos torna-se uma
forma confiável para o conhecimento das características
de deposição dos sedimentos carreados
pelas correntes de fundo na locação.
As maiores dificuldades suigem quando a integração
tem de se dar na fase de projeto, com a participação
simultânea das diversas especialidades. Esta situação,
que nos posiciona na contramão da forma de atuação
mais moderna e benéfica para o projeto, possivelmente
está relacionada com o fato de que, como os projetas
de plataformas offshore sào normalmente conduzidos
por empresas de pequeno e médio porte, cujas
gerências sào compostas por Engenheiros Estruturais
(Civil ou MecânicO, as fundações têm importância secundária.
Quando muito, sào contratados Consultores
Geotécnicos, para darem pareceres específicos sobre
o projeto. F.sta situação se agrava, quando a contratação
do projeto se faz pelo critério de preço mínimo, o qual
normalmente é praticado de forma danosa, a ponto os
de projetistas não pneverem orçamento que suporte a
formação dos gnipos de trabalho multidisciplinares da
área das Geociências, caso se façam necessários (ao
contrário do que ocorre nos projetos de grandes Ixirragens,
por exemplo).
Possivelmente devido a estas constatações,
ocorre que os projetos que foram malconduzidos
nas fases de investigação e projeto, acabam sendo
problemáticos na instalação.
M Cada canal possui como unidades principais um amador hidráulico
e um módulo eletrônico cie servocontrole O módulo
de servocontrole recelx? um comando correspondente ã grandeza
que se deseja aplicar no corpo de prova através do
amador hidráulico, e a resposta correspondente à grandeza
efetivamente aplicada que foi produzida |>or este comando
A ca tia instante o comando aplicado e a resposta produzida
sào somados no servocontrole (com o objetivo de igualar a
resposta ao comando, a diferença obtida é enviada novamente
para o amador).
11.3 METODOLOGIAS DE ANÁLISE
11.3.1 - Cargas de Projeto
Para o projeto de uma estrutura offshore, a API-
RP2A (1993) classifica os seguintes tipos de carregamento:
aj Cargas Gravitacionais
As cargas classificadas como gravitacionais sào
as seguintes:
•Cargas Mortas Tipo 1 (D,)
o peso próprio da estrutura (medido fora
d'água)
o peso de equipamentos e objetos montados
permanentemente na estrutura
o forças hidrostáticas atuantes sobre a parte
submersa da estnitura (incluindo pressões internas
e externas resultantes do empuxo de
flutuação gerado pelos membros nào
lastreados d'água)
peso do lastro de água aprisionada nos mem
bros estruturais
•Cargas Mortas Tipo 2 (D.)
c> peso dc equipamentos que podem ser adicio
nados ou removidos (motores, equipamen
tos de mergulho, balsas de salvatagem etc.)
peso da coluna de perfuração e acessórios
• Cargas Vivas Tipo 1 (L,)
ci> peso dos suprimentos
ct> peso dos fluidos de perfuração e dos existen
tes nas tubulações
• Cargas Vivas Tipo 2 (Lp
Cargas temporárias tle curta duração (incluindo-se
os respectivos efeitos dc impacto e de
consideração dinâmica), como as oriundas do
içamento, da operação de máquinas, da atracação
de embarcações, do pouso ou decolagem
de helicópteros etc.
bj Esforços Ambientais |W f)i[f e W op )
Entende-se este tipo dc carregamento como
aquele referente aos esforços gerados pela ação
do vento, das ondas e das correntes marinhas.
No caso de análise para a condição normal
de operação, \V p deve ser representativo de
condições ambientais moderadamente severas.
Normalmente corresponde à condição de tempestade
para um período de recorrência que
pode variar entre 1 e 5 anos. No caso de análise
para à condição extrema de projeto, W ,
corresponde a condição de tempestade para
um período de recorrência tipicamente dc 100
anos.
c| Esforços Inerciais (D c>Jf e D op ]
Estes esforços referem-se ao carregamento
inercial quando a resposta dinâmica global (estática
c inercial) é máxima.
Figura 11.8 - Uma visão gcotccnológica da integração das cspccialidadcs
O período de recorrência deverá ser considerado
aproximadamente o mesmo da resposta quase
estática da estrutura para \V <>(1 (caso de condição
extrema dc projeto) ou \V v (caso à condição
normal de projeto).
Para estruturas de período natural inferior a
3s. a ação de D cxi(ou D p poderá ser desprezada.
A magnitude de D , xir ou D p pode ser obtida
através de uma "Análise Global Dinâmica da
Ação das Ondas" ou derivada de \V . ou \V
cxlr <>|.
e da consideração de um "fator de amplificaçào
dinâmica" (DAF) obtido em análise dinâmica
global.
Além destes tipos dc carregamento, também
poderá ocorrer a ação de terremotos, cargas
gravitacionais provocadas por acúmulo de gelo
e o impacto de "icebergs", os quais, devido a
sua inaplicabilidade para a costa brasileira,
deixarão de ser tratados nesta publicação.
Já em relação ao dimensionamento dc uma
ancoragem por âncoras, as cargas que atuam em
um sistema deste tipo podem ser divididas em
quase estáticas (Q.S.) e em dinâmicas totais (T.D.).
As cargas quase estáticas são geradas pelos esforços
ambientais atuantes sobre o meio naval,
sob a forma de marulhos ("swells"). vento e corrente,
assim como resposta dinâmica do sistema.
I lá uma tendência geral de o sistema se mover
a baixa freqüência, geralmente cm períodos
dc 140 a 200 s. Adicionadas a estas, se aplicam
cargas dc alta freqüência (10 a 14 s dc período),
oriundas dos movimentos dc rolagem do meio
naval ("roll"). Em geral a parcela quase estática
representa de 50 a 90% da carga dinâmica total.
11.3.2 - Conceituação de Segurança
A partir do século XIX, para se realizar a cobertura
de seguro contra acidentes de embarcações,
as seguradoras passaram a cobrar dos armadores
que os projetos das embarcações fossem aprovados
por uma instituição técnica reconhecida pela
sua capacitação e credibilidade. Passou a ser requerido
também que a intervalos regulares as
embarcações fossem inspecionadas, de modo a
se assegurar que os cuidados de manutenção mantinham
o meio naval em bom estado de conservação,
ou seja, que durante a vida útil da embarcação
as mesmas considerações de projeto permaneciam
válidas. Estas exigências foram as responsáveis
pela formação das Sociedades Classificadoras
(Det Norske Veritas, Loyds Register, Bureau
Vcritas e American Bureau of Shipping).
Como as estruturas offshore também estão situadas
em mar aberto, sofrendo a ação adversa dos
esforços ambientais, as empresas seguradoras passaram
a exigir o mesmo ritual de certificação, tanto
para o projeto quanto para qualquer procedimento
operacional que venha a ser necessário para
a sua operação (como, por exemplo, de transporte
e de instalação). Desta forma, caso a estrutura tenha
sido certificada, além dos cuidados usuais da
projetista, certamente esta estrutura taml)ém passou
por uma verificação adicional da certificadora.
Cada certificadora tem seus próprios métodos de
análise. No caso da Det Norske Veritas, em especial.
esta emitiu regras de projeto (DNV, 1979), que
muitas vezes são seguidas pelas projetistas, independentemente
de a estrutura estar sendo certificada
ou nào pela DNV.
Para o dimensionamento das ancoragens por âncora,
existem diversas técnicas de dimensionamento.
C) fabricante Vryhof Anckers (1990), por exemplo,
recomenda que um fator de segurança de 2 seja
aplicado sobre a parcela de cargas tipo "quase estáticas"
(Q.S.), enquanto de 1.5 sobre a parcela de
cargas tipo "total dy na mies" (T.D.).
Mas quando sc projeta a fundação de uma estrutura
'"offshore", para efeito de norma
regulamentadora, há um consenso geral em torno
da aplicação da RP2A do American Petroleum
Institute (API, 1993). Em suas últimas edições, passou-se
a utilizar nào somente o conceito de "working
stress design" (RP2A-WSD,), mas também o de "load
and resistance factor design' (RP2A-LR1 ; D).
A seguir sào discutidos os principais aspectos
de projeto.
11.3.2.1 - Fator de Segurança Global
Os projetos de estruturas offshore normalmente
se baseiam na aplicação do fator de segurança global
("working stress design"), por ser um conceito
mais simples de ser aplicado ( API, 1993). Como os
esforços ambientais são importantes para o
dimensionamento de uma estrutura offshore. é a
identificação da condição ambiental que define os
dois tipos de condições dc análise. Desta forma,
tem-se dc atender às seguintes condições dc carregamento:
•Condição Normal de Operação
O cálculo da estabilidade da fundação deve
ser realizado para um fator de segurança mínimo
de 2. A condição dc operação analisada
considera a condição ambiental dc operação
acrescentada do carregamento gravitacional
máximo estimado de ocorrer durante a fase de
produção da plataforma.
•Condição Extrema de Projeto
O cálculo da estabilidade da fundação deve
ser realizado para um fator dc segurança mínimo
de 1,5.
Três condições extremas sào analisadas, todas
considerando a condição ambiental extrema,
acrescida das cargas gravitacionais:
o duas passíveis de ocorrência durante uma
tempestade (levando-se em conta que, durante
uma tempestade, as principais atividades de
uma plataforma sào interrompidas), tanto para
a fase de perfuração da plataforma, quanto para
a fase de produção, e
oa última, para as cargas mínimas que podem
ocorrer durante toda a vida útil da estrutu
ra.
Especialmente para as plataformas com fundação
rasa por gravidade, a rotura por capacidade
de carga tem dc ser analisada considerando-se um
fator dc segurança mínimo de 2. com a rotura por
escorrcgamcnto com um mínimo dc 1,5.
11.3.2.2 - Fatores de Segurança Parciais
A conceituação de segurança através da aplicação
de fatores dc majoração das cargas e minoração
da resistência do solo ("load and resistance factor
design") é a mais atual das sugeridas pela API.
Apesar de ser a que melhor estabelece um
mecanismo dc segurança, não é amplamente utilizada,
por introduzir maior complexidade ao projeto.
Para cada gênero dc carregamento atuante na
estrutura é aplicado um fator dc majoração dc carga.
Este fator varia em funçào da condiçào de análise.
Três condições de análise são impostas para a
verificação da segurança dos membros da estrutura
e da fundação (consultar API, 1993):
• Considerando Somente a Ação das Cargas Gravitacionais
(F )
V -1,3(D 1+D í)+1,5(L I+L i) (2)
• Simulando Condição Extrema dc Projeto (F wll)
^ - M C D + D ^ + l ^ C W ^ l ,
25D eMr )G)
Nos casos cm que as cargas gravilacionais provocam
solicitações de sentido contrário às
induzidas pelas cargas ambientais, cm vez de
se utilizar (3), a análise da condição extrema
de projeto deverá ser realizada através de:
• Simulando a Condição Normal de Operação
(F )
o,r
F^=1,3(D I+D>1,5(L+L 2)+1,2(W 0 +l,25D ) (5)
11.3.3 - Resistência do Solo de Fundação
O estudo da resistência do solo de fundação deve
ser realizado ccm base nos resultados das investigações
geotécnieas da locação e na experiência prévia
com solos e estruturas de fundação análogos.
Independentemente do grau de confiabilidade
que o projetista estabelece para as informações
disponíveis ao projetar uma fundação, é recomendável
que sempre se estabeleçam pelo menos dois
perfis de resistência para projeto:
• um que representa a pior avaliação de comportamento
para o solo, o qual conferirá um certo
grau dc conservadorismo para o projeto, denominado
avaliação inferior ("lower bound") e
• outro, que representa a melhor avaliação de
comportamento, o qual está relacionado com
um ceito grau de otimismo para o projeto, deneminado
avaliação superior ("upper bound").
Se o projeto foi conduzido de forma criteriosa,
com informações representativas e as cargas dc
projeto (.dados básicos e premissas de projeto) sào
pertinentes, o comportamento real que se verificam
durante a vida útil da fundação, corresponderá
a um comportamento intermediário entre o estabelecido
nas duas avaliações.
11.3.3.1 - Fundações Profundas
a) Estaca Isolada
Esforços Axiais
A capacidade de carga última de uma estaca isolada
é obtida através da formulação":
Q U 1« " Qu« + Qb«e < 6)
onde: Q Ut ou Q fx| -> parcela referente à resistência
lateral externa
11 Esta equação assume que o máximo atrilo lateral e a máxima
resistência de ponta são mobilizados simultaneamente.
Para maiores considerações sobre o mecanismo de transferência
de carga, consultar Coyle & Reese (1960). Coyle &
Sulliaman (1967), Murff 11980). Randolph (1083) e
Vijayvergiya (1977).
Q l>asf »> parcela referente a resistência de ponta
Para as estacas cravadas dc ponta aberta, a
verificação da condição de embuchamento é uma
necessidade 1 *. Tem de ser verificado se o somatório
da resistência lateral interna (Q lnt) mais a resis:ência
do anel de aço da ponta (Q ancl) excede a resistência
da ponta fechada (Q fech). Desta forma, temse
que:
Qb^c D Q*. + Qanc. caso c,c cstaca nào plugada
Q (tíh
caso de estaca plugaca
(7)
A metodologia de execução da estaca interfere
diretamente na magnitude das resistências unitárias
mobilizadas pelo solo. Fm estacas cravadas
de ponta aberta, por exemplo, enquanto não ocorrer
toda a dissipaçào do excesso de poro-pressào
no plugue de solo. Q |nt é inferior a Q cx| (para efeito
de projeto durante a vida útil da fundação,
ambos os atritos unitários sào adotados como idênticos).
Já no caso de estacas perfuradas, não é usual
a consideração de resistência de ponta, tendo em
vista a possibilidade de acúmulo de resíduos na
base do furo.
De um modo geral pode-se definir que a parcela
de resistência lateral (Q ljt) é o resultado do
somatório do atrito unitário (f) ao longo da parede
interna ou externa da estaca. Segundo a API (1993),
para os solos coesivos tem-se que:
f=ac u (8)
onde: c u »> resistência nào drenada do solo
coesivo
a => fator adimensional função da razão entre
c u e a tensào efetiva vertical do solo na profundidade
(a' <o), denominada de 4*.
sendo: a - 0,5 V' 0 - 5
para ¥ < l
ou (9)
a - 0,5 H"*" para 4* > 1,
nào se recomendando a adoção de a > 1.
Uma metodologia proposta para estacas cravadas
cm solos argilosos é a sugerida por
Vivayvergiya & Focht (1972), conhecida por método
X. Trata-se de um método semi-empírico baseado
no resultado de provas de carga estáticas.
O método propõe a consideração tle que em estacas
cravadas o atrilo unitário varia em função da
penetração da estaca (quanto maior for a peneira-
" O plugueamento de uma estaca pode: nào ocorrer; ocorrer
na fase tle cravaçào ou mesmo somente após o términoda
execução. Como o amolgamento do solo devido á instalação
ocorre preponderantemente no solo da interface lateral
da estaca (interno e externo à estaca), o fato de uma eslara
que não plugueou durante a cravaçào. pluguear durante a
vida útil da estrutura é função unicamente de a capacidade
do solo da interface lateral da estaca ganhar resistência ao
longo do tempo ("set up"). Desta forma, quando se analisa
a cravabilidade de uma estaca de ponta aberta, deve
ser estimado em função dc a habilidade do solo dissipar o
excesso de pressão neutra entre os golpes do maitelo
çào. menor a magnitude do atrito, tomando-se idêntico
a 0,12 para penetrações superiores a 20 diâmetros).
Para os solos arenosos a API (1993) sugere:
f - k G' vo tgô (10)
onde:
k => coeficiente de empuxo lateral
5 -> ângulo de adesão solo-cstaca
Para as estacas de ponta aberta em condição
de não plugada (sob a ação dc cargas de tração
ou compressão), recomenda-se a adoção de k igual
a 0,8. Entretanto, para estacas de ponta fechada
ou de ponta aberta em condição de plugada, pode
ser assumido k igual a 1.
Para estacas cravadas de aco, normalmente adota-se
5 como y» do ângulo atrito da areia (Q) ou <{>
menos 5°.
É comum limitar-se o atrito unitário das areias
em função da compacidade do solo ou do mineral
constituinte. Para as estacas cravadas nos solos
calcários não cimentados da Bacia de Campos, por
exemplo, adotam-se valores dc 20 kPa, enquanto
nos cimentados, 30-35 kPa. Já no caso das areias
silicosas, a tab. 6.4.3-1 da API RP2A-WSD (1993)
recomenda valores limites que variam entre aproximadamente
50 kPa para as muito fofas, a até
115 kPa para as muito densas (com a resistência
decresccndo com o aumento da fração silte do
solo). Provas de carga de tração realizadas com
estacas perfuradas nos solos calcários cimentados
da Bacia do Ceará, conduziram â recomendação
de se utilizar 70 kPa como atrito unitário.
Em se tratando da resistência unitária de ponta,
para os solos coesivos (q c ) tem-se:
q c -9c u (11}
Para os solos granulares (q j):
q/^voN - 02)
onde: N q -> fator adimensional de capacidade
de carga
Para as estacas cravadas a tab. 6.4.3-1 da API RP2A-
WSI) (1993) recomenda valores de N (entre 8 para
as areias muito fofas e 50 para as muito densas) e
limites de q a (entre 1,9 e 12 MPa, respectivamente).
Carregamentos Transversais
Além da função de transferir as esforços axiais
para o solo, a fundação deve estar dimensionada
também, para resistir â ação dos esforços transversais.
A cstaca deflete horizontalmente, "descolando"
do solo no seu trecho mais superficial. O
engasta monto no solo somente ocorre abaixo de 5
a 10 diâmetros de estaca.
A relação capacidade de carga lateral última
(p u). com a deflexão da estaca (y; é normalmente
calculada pelo processo das curvas "p-y".
Solos argilosos nestas condições se comportam
plasticamente (comportamento nào-linear). Ensaios
em estacas com escala real mostraram que p u
sob a ação de cargas estáticas varia entre 8 e 12
c u. ocorrendo degradação à medida que aumenta
o percentual de cargas cíclicas.
Para os solos de consistência mole, Matlock (1970),
assim como os itens 6.8.2 e 6.8.3 da API RP2A-WSD
(1993) apresentam procedimento de análise.
Para os solos de consistência rija a muito dura,
que possuem comportamento mais dúctil do que
os moles c conseqüentemente se deterioram mais
rapidamente sob a ação das cargas cíclicas, consultar
a referência de Reese & Cox (1975).
Para os solos de comportamento granular de
matriz silicosa, tem-se que p u varia em função da
profundidade, segundo as formulações:
para o trecho superficial:
p u
= l (c, h) + (c 2 D) 1 y h (13;
para o trecho profundo:
P u • c 3 D Y h (14)
onde: c,, c r c i => coeficientes adimensionais função
do ângulo de atrito do solo 1 " (ver Fig. 6.8.6-1
da API RP2A-WSD, 1993)
h => profundidade
D => diâmetro da estaca
Y •> peso específico submerso do solo
O trabalho de 0'Neil & Murchinson (1983) analisa,
em detalhe, o comportamento das estacas em
solo arenoso. Até o presente não há um procedimento
especificamente realizado para a definição
da relação "p-y" em solos calcários.
bj Efeito de Grupo
Em geral, fundações cujas estacas estão espaçadas
a menos dc 8 diâmetros, devem ter o efeito
de grupo verificado.
Esforços Axiais
Estacas submetidas a esforços axiais, quando
fundadas em solo argiloso, podem conduzir a uma
capacidade de carga do grupo inferior ao somatório
das capacidades de cada estaca. Por outro lado, quando
em solos arenosos de matriz silicosa, podem conduzir
a uma capacidade de grupo superior à do
somatório chis capacidades de cada estaca.
Sol) o aspecto de deformação, tanto para solos argilosos,
quanto arenosos, o recalque do gnijX) é sempre
igual ou superior ao de uma estaca do gnipo submetida
à caiga média axial atuante sobre todis as estacas.
Estacas submetidas a carregamentos axiais têm o
efeito de gnipo dependente da geometria da fundação
e das características do solo Também depende
do método executivo, quando este altera a
compacidade do solo, como ocorre, por exemplo,
na densificação provocada pela cravação de estacas
tle ponta fechada ou ponta aberta plugadas em
solo arenoso silicoso. Os artigos de 0'Neil e Poulos
& Randolph (1978) sào recomendados para estudo.
Carregamentos Transversais
Para estacas com as mesmas condições de vínculo
com a estrutura, independentemente do tipo
1 ' Na faixa de angulo de atrito entre 20 e -Í0", c, c c ; variam
entre 1 e 5, enquanto entre 10 e 100.
dc solo dc fundação, o grupo dc estacas normalmente
experimentará uma dellexào lateral superior
àquela correspondente a uma das estacas do grupo
submetida à carga média transversal atuante sobre
todas as estacas.
Os maiores fatores que influenciam na distribuição
de cargas e deflexão de um grupo de estacas
submetido a um carregamento horizontal são
a geometria da fundação, a razão entre a penetração
das estacas e o diâmetro e as variações da
resistência ao cisalhamento e do módulo cisalhante
do solo com a profundidade.
O artigo de O Neil & Dunnavant (1985) compara
os quatro mais usuais métodos de análise
sobre o tema.
11.3.3.2 - Fundações Rasas
O projeto geotécnico de uma fundação rasa
deve incluir:
• análises de estabilidade à rotura elo solo, por
transferência de carga (capacidade de carga última),
tombamento e/ou deslizamento da estrutura;
• verificação dc deformações, e
• verificação do potencial de instabilidade hidráulica,
oriunda de erosão do solo superficial c/ou
excessivo gradiente hidráulico no solo ("piping"),
provocado pela passagem de ondas.
Apenas os dois primeiros tipos de análise serão
tratados a seguir.
a) Estabilidade à Rotura do Solo
A análise de capacidade dc carga última (Q u„)
é realizada para as condições: não drenada ou
drenada.
Para a condição nào drenada (.<{> - 0) tem-se que:
Q u,« = l(c uN.k c) + ( Yh)] (15)
Para a condição drenada tem-se:
Q uh - l(c' N k)+(Yh N n k )+(1/2YB N^] (16)
onde: N , N , N •> fatores adimensionais de
C q' y
capacidade de carga
k c , k (| , k Y => fatores adimensionais de correção
da inclinação da carga, forma da fundação, profundidade
de enterramento, inclinação da base e
do leito marinho
c' => coesão efetiva do solo
B -> dimensão mínima da fundação
b) Verificação de Deformações
As deformações do solo provocam o recalque,
deslocamento horizontal, distorção torcional e angular
da estnitura. Sob o aspecto dc análise pósinstalaçào
("short term analysis i. estas deformações
podem ser avaliadas pelas seguintes formulações
baseadas na teoria da elasticidade:
recalque imediato (u v):
u y= F(1-p)/4GR (17)
deslocamento horizontal (u h>:
u h- H (7 - 8p) / [ (32 (1 - ji) G R ] (18)
distorção angular (cp^:
í r-M[3(l-|i)l/8GR J (19)
distorção torcional (<p ():
<{> r = 3 T / 16 G R 3 (20)
onde: F => carga vertical
H
=> carga horizontal
M=> momento de tombamento
T-> momento torsor
G a > módulo cisalhante do solo
R-> raio da base da fundação
p -> coeficiente Poisson do solo
Para a vida útil da estrutura ("long term
analysis"), o recalque de adensamento pode ser
estimado por:
u v- (h <y log, 0 ( (F +AF) / F ] / (1 + c) (21)
11.3.3.3 - Âncoras
A capacidade última de uma ancoragem por
âncora é comumcnte denominada de U.II.C.
("ultimate holding capacity"). Está diretamente relacionada
com a penetração da âncora no solo,
que é dependente:
• da geometria c peso submerso da âncora;
• da resistência ao cisalhamento. permeabilidade
e características dilatantes do solo, e
• do material utilizado na linha de ancoragem
(cabo ou correntes de aço).
Somente a partir dos anos 70, com a inclusão de
conceitos de Mecânica dos Solos, é que o
dimensionamento de âncoras deixou de ser um
processo puramente empírico. Segundo Vesic
(1969), para solos argilosos tem-se:
UHC-A(c uN+yD N q) (0,84 + 0,l6 B/L) (22)
onde: A -> área da garra
c u •> resistência nào drenada do solo
N c e N„ => fatores de capacidade de carga
Y => peso específico submerso do solo
D -> profundidade da âncora
B => largura da garra
I. -> comprimento da garra
Apesar de este tipo de formulação estar corretamente
enquadrado dentro dos conceitos
geotécnicos, o que se tem verificado é que até o
presente nao tem sido possível prever-se, com
exatidão, a capacidade última do solo sem o
correlacion imento com resultados de testes dc
campo. Segundo o fabricante Vryhof Anckers.
tem-se que:
UHC - a . W h (em t) (23)
onde: W é o peso submerso da âncora (em t), a e
b sào parâmetros obtidos nos testes de campo,
funçào do tipo de âncora e dc solo.
Desta forma, uma âncora tipo Stcvpris MK5 dc
65okN dc peso ("b" igual a 0,92, c "a" assumindo
valores dc -í() para argilas moles a 110 para argilas
muito duras), permite a mobilização de capacidades
últimas dc ate 15MN em solos moles (limitado
pela capacidade estrutural da peça).
11.3.4 - Conexão Fundação-Estrutura
A conexão fundação-estrutura dc uma plataforma
offshore estaqueada pode ser realizada por:
• soldagein do topo da estaca na estrutura;
• cimentaçâo do espaço anular entre a estaca c a
perna ou luva:
• conformação mecânica da estaca.
Enquanto a soldagem é considerada uni processo
reversível dc conexão, o qual, com relativa
facilidade, através da remoção da solda, permite
o desvinculamento da fundação ã estrutura, tanto
a cimentaçâo quanto a conformação sào considerados
processos permanentes.
11.3.4.1 - Soldagem
No caso dc estacas executadas por dentro das
pernas da plataforma, com o topo fora d'água,
quando sào transmitidas cargas axiais de magnitude
da ordem de MN (plataformas de pequeno
porte), o procedimento usual é de realizar a conexão
por soldagem (através de coroas ou por cunhas,
também conhecidas como "shim platcs ';.
cakla
dc
cimento
1.3.4.2 - Cimentaçâo
Por outro lado, nas plataformas de médio ou
grande porte, com estacas por dentro das pernas
ou auxiliares, recorre-se à cimentaçâo ou à conformação.
A cimentaçâo do espaço anular é o
método mais prático e fácil de execução.
O mecanismo de transferência dc carga sc dá
através de cisalhamento na interface cimento-aço.
Para que sc possa garantir a presença da calda dc
cimento em todo o espaço anular, torna-se necessária
a existência de centralizadores em pelo menos
dois níveis da conexão. Segundo a API-RP2A
(1993), estes centralizadores têm dc garantir um
espaço anular mínimo de 38mm (1,5"). O
dimensionamento da conexão é funçào da resistência
ao cisalhamento da interface cimento-aço.
Quando se utiliza interface lisa ("plain pipe
connection"), independentemente das características
da calda de cimento empregada, a tensão máxima
de trabalho (f |o) é limitada em 2-í8kPa. Um
artifício muito utilizado pelas projetistas, como forma
de elevar a magnitude dc f |u, é a utilização dc
anéis de cisalhamento ("shear keys"). Estes anéis
são cordões de solda, barras de aço ou vergalhôes,
soldados de forma circular ou elíptica à superfície
externa da estaca e à superfície interna da estrutura,
de modo a enrijecerem a interface cimento-aço
(fig. 11.9). Como conseqüência, o plano dc fraqueza
da conexão deixa de ser a interface cimento-aço,
passando a ocorrer no cimento. De modo
a permitir o dimensionamento da conexão, a API-
RP2A (1993) recomenda que o acréscimo dc tensão
dc trabalho (Af ha ), devido à presença do anel
de cisalhamento, seja inferior a 4,95 MPa, devendo
ser calculado pela formulação:
A
- 0,9 f u (h/s) (24)
onde: f u é a resistência à compressão nào confinada
da calda dc cimento medida nos ensaios dc
rotura dos corpos-dc-prova da calda (sendo que
esta resistência sc deve situar no intervalo
17MPa<f jállOMPa). h é espessura do anel c s o
espaçamento (distância entre os círculos ou passo
da hélice elíptica).
11.3.4.3 - Conformação
da
estaca
Figura I1.9 - Detalhe conexão fundação-estrutura
por cimentaçâo
Conformação mecânica ("swagging") é uma técnica
relativamente recente, a qual passou a ser
adotada em projetos somente na última década.
Consiste em:
• cm uma fundação composta por estacas tubadas
de aço, introduz-se uma ferramenta hidráulica especial
por dentro da cstaca, até que esta sc posicione
no nível da conexão fundação-estrutura;
• eleva-se a pressão hidrostática dentro da estaca,
até que a parede da estaca entre cm regime de
deformação plástica, se conformando à superfície
interna da estrutura (luva ou perna da estrutura).
Visando reduzir-se o comprimento do trecho a
ser conformado, emprega-se a técnica de se projetar
nichos ou recuos da parede da estrutura (luva
ou perna), ao longo do trecho a ser conformado
(fig. 11.10). Desta forma, a transferência dos esforços
deixa de ser por simples atrito na interface
aço-aço, passando a requerer o desenvolvimento
de tensões superiores à de escoamento do aço da
estaca. Em jaquetas dc grande porte, dois ou três
nichos por estaca sào suficientes para transferir
esforços axiais da ordem de dezenas de MN.
11.4 INSTALAÇÃO
A instalação da fundação de uma estrutura
offshore somente é realizada quando se dispõe de
um planejamento que inclui a realização dc um
procedimento executivo c a previsão de controle
executivo. Suas elaborações dependem, sobremaneira,
do tipo de fundação a ser instalada.
Enquanto a instalação de uma estnitura com fundação
rasa é rápida, nào envolvendo mais do que
um ou alguns dias de trabalho, a instalação de uma
fundação profunda é mais demorada, porém normalmente
não ultrapassando de uma semana a um
mês de trabalho, sem contar com interrupções devido
às condições do mar ("stand-by wcather").
• dificuldade de acesso à fundação, por esta se
encontrar submersa;
• alto custo de mobilização e manutenção na locação
do meio naval habilitado para a execução
da fundação (como, por exemplo, manuseio
de martelos ou perfuratrizes);
• no caso da fundação de plataformas, há total
inviabilizaçào de sc realizar provas de carga
estáticas dc compressão, devido à magnitude
das cargas envolvidas:
• no caso de estruturas submarinas, como dutos,
' templates" e "manifolds", há inexistência de
níveis fixos de referência, que permitam o controle
dos recalques absolutos (somente sendo
viabilizado o controle do desnivelamento).
Além disso, o controle de qualidade dc uma
fundação offshore está restrito à fase de instalação
da estrutura, principalmente devido à adversidade
do ambiente marinho, que dificulta a manutenção
da estanqueidade do invólucro da
instrumentação, tanto para resistir às altas pressões
hidrostáticas, quanto evitar o contato com
umidade (o tempo máximo de sobrevivência de
uma instrumentação submersa está normalmente
restrito à ordem de grandeza de dias). Como
conseqüência, são raros os casos de implantação
de um programa de instrumentação ao longo da
vida útil da estrutura.
11.4.1 - Fundações Profundas
11.4.1.1 - Estacas Cravadas
aj Procedimento e Controle Executivo
No caso de estacas cravadas os procedimentos
executivos envolvem:
• definição do(s) plano(s) de ancoragem e manobras
da embarcação em relação à estrutura
a ser instalada;
• estudos dc içamento;
• elaboração dc planos de contingência;
• planejamento da ordem de cravação;
• especificação dos equipamentos a serem utilizados;
• definição da composição dos segmentos de
estaca a serem soldados durante a instalação
("pile make up"), quando a estaca nào puder
ser instalada em um único segmento (soldado
no canteiro de obras em terra) 17 .
Além da restrição do prazo executivo, os seguintes
aspectos contribuem para que o controle executivo
de fundações offshore difira daqueles realizados
durante a construção das fundações em terra:
|7 A segmentação da estaca é função do máximo comprimento
livre de estaca acima da guia de cravação t"stickup").
visto que esta deverá resistir a flambagem provocada
pelo peso do martelo. No Brasil, a maior estaca cravada em
um segmento único ocorreu na Plataforma de Chcrne-2.
quando em 1982 foram cravadas estacas de aço de 72" de
diâmetro externo, com l<í2m de comprimento e aproximadamente
12( m de penetração máxima.
A especificação dos equipamentos de cravaçào
e a composição dos segmentos de estaca a serem
soldados ("lead-section" e "add-ons") são obtidos
através dos estudos de cravabilidade. Estes estudos
sào realizados a partir de programas
computacionais baseados na metodologia da equação
da onda (Smith. 1962). conformc descrito no
capítulo 20 desta publicação. Além disso, servem
também para o dimensionamento do coxim do
martelo ("cushion"), alteração da geometria das
estacas (necessidade de sapata e cabeça de cravaçào.
e verificação da espessura de parede e tipo
de material especificado), previsão do perfil de
resistência mobilizada pelo solo e da faixa mais
provável de nega de cravaçào. energia transferida
e nível de tensões (compressão c tração).
O controle executivo do estaqueamento sc resume
no registro de cravaçào de todas as estacas, integralmente
ao longo de toda penetração (número de
golpes por 25cm de penetração), na monitoração da
cravaçào de estacas selecionadas, tanto em regime
de cravaçào contínua, quanto em recravaçào, conforme
a técnica descrita no capítulo 20 e na medição
do plugue de solo dentro da estaca, no caso
dc estacas tubadas de ponta aberta.
bj Cuidados Especiais
O planejamento da ordem de cravaçào é
uma atividade com o exclusivo intuito dc permitir
uma avaliação inicial do tempo de instalação,
porque sempre se procura evitar que
durante a instalação se agrave o desnivelamento
da estrutura. Desta forma, à medida que sc
prossegue com a cravaçào é comum sc revisar
esta ordenação.
A soldagem dos segmentos é uma operação
que normalmente interrompe a cravaçào de uma
estaca por pelo menos um dia, coniando-se inclusive
o tempo necessário para a realização dos
ensaios da solda (geralmente líquido penetrante
na raiz da solda e ultra-som ao término do preenchimento).
Neste período mesmo os trabalhos
de cravaçào das outras estacas da estrutura têm
de ser interrompidos, de modo que as vibrações
causadas nào transmitam trincas nas soldas.
No caso das fundações que possuam solos
que apresentam ganho de capacidade de carga
com o tempo ("set-up"). é recomendável que :is
penetrações onde ocorrerão interrupções para
soldagem, sejam previamente estudadas, para que
ao se retomar a cravaçào após o "set-up", nào se
atinja a nega prematura do martelo (esta nega é
preocupante, especialmente quando as cargas
dimensionantes sào dc tração).
11.4.1.2 - Estacas Perfuradas
aj Procedimento e Controle Executivo
Um procedimento para a execução dc estacas
perfuradas deve enfocar:
• definição do plano dc ancoragem c manobras
da embarcação cm relação à estrutura a ser instalada;
• elaboração de planos de contingência;
• planejamento da ordem de execução das estacas;
• composição da coluna dc perfuração e da armação
da estaca (ou "inscrO;
• definição do fluido de perfuração e da calda
dc cimento;
O controle executivo de estacas perfuradas engloba
a verificação das propriedades c a adoção
de medidas corretivas que sc façam necessárias,
do fluido de perfuração e da cimentação de preenchimento.
Quanto à perfuração propriamente dita. esta
é acompanhada em tempo real, com o registro
da taxa de avanço da perfuração c da pressão
sobre a broca.
Em cada batelada de fluido de perfuração sào
verificados: peso específico, espessura do reboco
C cake"), teor de areia, viscosidade Marsh e pH.
Algumas vezes se procede também ao controle
da viscosidade plástica, tensão cisalhante do gel c
volume filtrado.
bj Cuidados Especiais
Em geral recomenda-se que a cimentação da
estaca ocorra não mais do que um dia após o término
da perfuração (com a armação de aço sendo
introduzida no furo. durante este intervalo).
Cuidados especiais devem ser tomados com
o intuito cie expulsar corretamente o fluido de
perfuração dc dentro do furo. Sempre que o tipo
de solo perfurado permitir, reforça-se a garantia
de remoção do reboco de lama com um colchão
de aditivos, que é inserido no furo antes da calda
de cimento.
O controle de qualidade da cimentação é realizado
acompanhando-se o volume de calda dc cimento,
grau de contaminação da calda com solo
carreado (quando houver retorno do cimento até
a superfície), peso específico (fator água-cimento),
exsudacào 18 , resistência à rotura por compressão
de corpos-de-prova da calda ensaiados nas
idades dc 2-í horas, 3 e 28 dias
O peso específico (e por conseqüência o fator
água-cimento da mistura) sào controlados continuamente.
Ensaios de exsudação são indicados para estacas
de grande diâmetro (diga-se com diâmetro superior
a lm).
Objetivando a obtenção do f k da calda de cimento,
para cada estaca sào retiradas de 0 a 9
amostras (uma para ser ensaiada cn cada idade),
sendo três no inicio, três no meio (opcional) e
,H Contração volumétrica da calda durante o processo de cura.
três ao final da cimentaçáo. Estas sào extraídas
diretamente do misturador. Visando reproduzir as
condições de cura da estaca, enquanto aguardam
serem ensaiadas, as amostras sào mantidas
submersas em um tanque de água salgada, em
temperatura idêntica àquela em que a fundação
estará submetida (podendo chegar a até TC no
caso dc estacas cm lOOOm de lâmina d'água).
usual se dispor também de linhas de retomo da
injeção. A coleta de amostras antes (no misturador)
e depois da conexão (na linha de retorno), permite
conhecer possíveis perdas de resistência devidas
à desagregação da mistura durante a injeção.
REFERÊNCIAS
11.4.2 - Fundações Rasas
Sob o enfoque geotécnico, o procedimento executivo
de uma fundação rasa é mais simplista do
que o de uma fundação profunda. O mesmo ocorre
com o seu controle executivo.
No caso de plataformas de concreto, a atenção
é direcionada ao acompanhamento da evolução:
• dissipaçào do excesso de pressão neutra (através
de piezômetros);
• pressão de contato (através de células de caiga) e
• recalques diferenciais.
Piezômetros e células dc carga são pré-instalados
na base da estrutura e na saia estrutural
("skirt"). Os sinais sào transmitidos por cablagem
à central de controle situada no nível superior
da estrutura.
Os recalques são acompanhados fora d'água,
pelo controle do dcsnivelamento do topo da estrutura.
Eles podem ser minimizados com o controle
de enchimento dos tanques de lastro.
Dc qualquer forma o problema nem sempre é
crítico para a estnitura, em virtude dc a rigidez
deste tipo de plataforma permitir que sejam absorvidos.
sem problema, recalques diferenciais de
decímetros ou até da ordem dc grandeza dc metro 19 .
Já nas estruturas submarinas o controle é
realizado precariamente, limitando-se, apenas,
à verificação do desnivelamcnto, a qual é realizada
com o auxílio de níveis de bolha (tipo "buli
cyes"). que são acompanhados por televisão
submarina.
11.4.3 - Cimentaçáo da Conexão
Fundação-Estrutura
O controle de qualidade da mistura utilizada na
cimcntaçàc das conexões fundaçào-estrutura é
idêntico ac realizado na mistura da cimentaçáo
das estacas perfuradas, a menos da inexistência
de controle dc contaminação e exsudaçào.
Quandc se trata da conexão de uma estrutura
de grande porte (como cm jaquetas dc aço), é
19 Até 4-5m dc recalque absoluto foi observado em plataformas
de concreto do campo de Ekolísk, no mar do Norte,
devido à subsidência do solo marinho, causada pela extração
de hidrocarbonetos ao longo de uma década.
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CAPITULO 1 2
REFORÇO DE FUNDAÇÕES
1 2.A - REFORÇO DE FUNDAÇÕES CONVENCIONAIS
MAURICOTUEB
12.1 INTRODUÇÃO
O presente capítulo visa discorrer sobre o assunto
relativo às subfundaçòes que abrangem tanto
a substituição como os reforços de fundações
existentes. Estes serviços servem para renovar ou
aumentar a segurança da fundação original, em
vinude do seu mau desempenho ou de aumento
do carregamento por ampliação de áreas ou mudança
do tipo de uso da edificação.
ocorre o seu apodrecimento principalmente na
região do topo, com perda de material, e
• na obra como um todo, pelos recalques e
desaprumos. < Foto 12.1).
Por se tratar de trabalhos muitas vezes perigosos.
sempre delicados, em geral onerosos
e causadores de transtornos aos usuários da
obra, é necessário que se realizem estudos e
orçamentos cuidadosos para uma avaliação
adequada da viabilidade e conveniência de
tais serviços.
1 2.2 CONCEITOS DE REFORÇO
DE FUNDAÇÃO
Foto 12.1 - Recalque de fundação
12.2.2 Danos
Os reforços de fundação representam uma intervenção
no sistema solo-fundaçào-estrutura existente,
visando modificar seu desempenho. Tal intervenção
faz-se necessária nos casos em que as
fundações existentes se mostrem inadequadas para
o suporte das cargas atuantes ou, ainda, quando
ocorrer um aumento no carregamento e este novo
valor nào puder ser absorvido sem riscos e reduções
consideráveis nos coeficientes de segurança.
12.2.1 Manifestações
Quando há um mau desempenho de uma fundação.
aparecem manifestações decorrentes deste
fato através de danos que podem ser verificados:
• nas próprias peças de fundação, pela deterioração
dos materiais que as compõem, com a conseqüente
perda de resistência. Nas peças em
concreto armado ocorrem deformações excessivas,
perda de recobrimento da armadura, oxidaçào
das barras de aço, esmagamentos, ruturas,
fissuras etc. Nas estacas metálicas surgem as oxidações
e/ou corrosões. Nas estacas de madeira
Como decorrência do mau funcionamento das
fundações, manifestam-se danos dc três tipos distintos
e que podem ser definidos como sendo:
• danos arquitetônicos, que são aqueles que comprometem
a estética da edificação, como, por
exemplo, trincas em paredes e acabamentos,
rompimento dc painéis dc vidre ou mármore
etc. Neste caso, o reforço é optaiivo, pois nào
envolve riscos quanto à estabilidade da construção
(Foto 12.2);
• danos funcionais, que são aqueles causados à utilização
da edificação, tais como refluxo ou nu ura
dc rede de esgotos c/ou águas pluviais, desgaste
excessivo dos trilhexs-guia de elevadores, mau funcionamento
de portas e janelas etc. A partir de certos
limites, será necessário o reforço, uma vez que podem
advir transtornos no uso cia construção, e
• danos estruturais, que são aqueles causados à
estrutura propriamente dita, isto é, pilares, vigas
c lajes. Nesta situação, o reforço é sempre
necessário, pois a sua ausência implica instabilidade
da construção, podendo até mesmo levála
ao colapso. (Foto 12.3)
• modelos inconvenientes de cálculo das fundações;
• má execução por impcrícia ou má-fé da mãode-obra.
seqüência construtiva inadequada, má
qualidade dos materiais empregados etc.;
• influências externas, como, por exemplo, escavações
ou deslizamentos não previsíveis,
agressividade ambiental, enchentes, construções
vizinhas etc.:
• modificação no carregamento devido à mudança
no tipo de utilização da estrutura, como
no caso de transformação para armazenamento
denso de produtos pesados; e
•ampliações de áreas e/ou acréscimo de andares.
F importante ressaltar que os danos podem ser
causados por um único fator ou pela combinação
de dois ou mais.
12.3 DIAGNÓSTICO
Foto 12.2 - Trincas em vigas
O diagnóstico do problema é fundamental para
permitir uma diretriz adequada na decisão da necessidade
ou nào da aplicação de reforços, liste
diagnóstico visa conhecer o mecanismo e as causas
dos danos ocorridos, resultando daí a definição
do tipo, da técnica e do dimensionamento do
reforço a ser empregado.
Para se chegar a um bom diagnóstico, os seguintes
procedimentos sào aconselháveis:
• inventariar os danos ocorridos para quantificar
c interpretar o direcionamento dos movimentos;
• executar novas sondagens e/ou ensaios
geotécnicos dc campo ou de laboratório; e
• instrumentar a obra para avaliar a magnitude e
a velocidade das deformações.
Foto 12.3 - Esmagamento de pilar
12.4 CARACTERÍSTICAS DOS REFORÇOS
12.2.3 Causas dos Danos
De maneira geral, as causas prováveis para o
mau desempenho de uma fundação são:
• ausência, insuficiência ou má qualidade das investigaçôes
ge< >técnicas;
• má interpretação dos resultados da investigação
geotécnica;
• avaliação errônea dos valores dos esforços provenientes
da estrutura;
• adoção inadequada da tensào admissível do solo
ou da cota de apoio da fundação;
Dentro tio tema de reforços de fundação, podem
ser caracterizados alguns tipos de serviços
passíveis de serem classificados, como a seguir.
12.4.1 Reforço Permanente
Aquele que se torna necessário em termos cefinitivos,
cm virtude do mau desempenho das fundações
originais. Seria também o caso de um aumento
no carregamento aplicado às fundações, em função
de ampliações ou de modificações na utilização da
edificação. Sua implantação visa complementar a capacidade
de suporte das fundações existentes.
12.4.2 Reforço Provisório
Aquele que é aplicado somente para permitir que
sejam efetuados os serviços de reforços permanentes.
ou para que uma fundição possa ser sobrecarregada
provisoriamente para atendera uma condiçào especial
de culta duração. Seriam os casos em que, mesmo não
sendo desfeitos. <xs reforços não seriam necessários a
partir de um determinado instante.
nas fundações existentes, para que se possa proceder
aos trabalhos de reforço ou substituição das
peças de fundação. Como exemplo, vide Figura
12.1 e Foto 12.5.
12.4.3 Substituição de Fundações
Trata-se do caso cm que se torna necessária a
modificação de uma fundação por outra. Na realidade.
não seria um reforço das peças existentes
originalmente, mas a substituição por outras totalmente
novas e sem que tenham que ser, obrigatoriamente,
do mesmo tipo das antigas. Um
exemplo muito comum deste procedimento é a
submuraçào, que consiste na transferência do carregamento
de um nível para outro mais abaixo (Foto 12.-Í).
Foto 1 2.5 - Escoramento auxiliar
12.5 TIPOS DE SOLUÇÕES
As soluções para os serviços cie reforços sào
muito variadas e dependem das condicionantes
do problema em questão, tais como: tipo de solo.
urgência, fundações existentes, nível de carregamento
e espaço físico disponível. Assim, podem-se
relacionar alguns tijxxs. sem que, necessariamente,
sejam todos viáveis para um mesmo problema.
Foto 12.4 - Submuraçào
12.4.4 Escoramentos Auxiliares para a
Execução de Reforços
Sào utilizados quando se torna necessário reduzir
ou retirar, provisoriamente, o carregamento
12.5.1 Reparo ou Reforço dos Materiais
Aqui cabem os casos em que o problema estaria
na deterioração dos materiais que constituem os elementos
ile fundação. Seriam casos, como, por exem-
pio, da ocorrência de agressão ao concreto ou
corrosão das armaduras que constituem as sapatas
de fundação, as estacas, os tubulões ou, ainda, os
blocos de capeamento ou coroa mento sobre as estacas
e os tubulões. Trata-se, poitanto, de um problema
tipicamente estrutural, não associado à transferência
de carga para o solo.
12.5.2 Enrijecimento da Estrutura
Pode-se considerar uma solução por
enrijecimento da estrutura, para os casos em que
se estivesse procurando, apenas, minimizar os
recalques diferenciais que estariam ocorrendo. Este
enrijecimento poderia, ser alcançado através de
implantações de vigas de rigidez interligando as
fundações (Fig. 12.2) ou a introdução de pecas
estruturais capazes de gerar o travamento da estrutura
(Fig. 12.3).
Este caso aplica-se às fundações por sapatas
ou tubulões. onde a transferência de carga para o
solo ocorre, basicamente, pela superfície horizontal
de contato da fundação com o solo. Estes reforços
seriam ocasionados por um aumento das cargas
originais, ou por ler sido adotado um valor
inadequado para a tensão admissível do solo.
Constitui-se na ampliação da seção em planta
da sapata ou da base do tubulão, efetuada por
meio de um "enxerto". Este. em geral, é caracterizado
pelo chumbamento de ferragens na peça
existente, apicoamento de suas superfícies e o uso
de resinas colantes, bem como traços especiais
do novo concreto a ser aplicado que, por exemplo,
garanta uma forte retração para a melhor ligação
entre o concreto antigo e o novo ( Fig. 12.-»"».
• !.•
• ll
I >40
cm
L
12.5.4 Estacas Prensadas
Fig. 12.2 - Viga de Rigidez
R - J ;I! N
Este tipo de reforço constitui-se na instalação
de pequenos elementos superpostos dc estacas,
os quais podem ser compostos por pecas dc concreto
armado vazadas ou perfis metálicos. Sào cravados
através do emprego de macaco hidráulico
que reage contra uma cargueira (Fig. 12.5), contra
a estrutura ou contra a fundação já existente (Fig.
12.6). Estas estacas sào também conhecidas sob a
denominação de Estacas Mega (.Fotos 12. (> e 12.7».
12.5.3 Aumento da Área de Apoio
Foto 12.6 - Partes componentes de estacas prensadas
Foto 12.7 - Cravaçâo de estacas prensadas
As estacas sào constituídas por segmentos da
ordem de 0,50 a 1,00 metro, conforme as condições
locais. Pelo fato de serem introduzidas no
terreno por meio de macacos hidráulicos e em
pequenos segmentos, este ti|x> de reforço mostra-se
bastante conveniente, |x>is pode ser executado
em locais pequenos e dc difícil acesso ao
pessoal e ao equipamento. Além disso, nào induzem
vibrações, reduzindo os riscos de instabilidade
que possam existir devido à precariedade das
fundações defeituosas. A segurança da obra, que
está sendo reforçada, é aumentada instantaneamente
após a instalação de cada estaca. A seqüência
de execução esta apresentada na Figura 12.7.
As estacas dc concreto são vazadas, tanto que
são comumcntc chamadas de tubos. F. usual que,
ao terminar a instalação da cstaca e antes dc seu
encunhamento contra a estrutura, sejam colocadas
uma ou mais barras de aço no interior do círculo
vazado e o mesmo preenchido com concreto.
Tal medida visa dar uma certa continuidade
entre os diversos segmentos.
Muitas vezes torna-se necessário executar vigas
de concreto armado sob as paredes ou embutidas
nas mesmas, pois as alvenarias não seriam capazes
de suportar, diretamente, os esforços aplicados
pelo macaco hidráulico (Foto 12.8).
Fig. 12.5 - Cargueira para cravaçâo de estacas prensadas
Fig. 12.6 - Reação contra a estrutura existente
12.5.5 Estacas Injetadas
Foto 12.8 - Viga para reação
Kstas estacas são denominadas estacas-raiz,
microestacas e pressoancoragens e sào executadas
por perfuração com circulação dc água. Os
equipamentos para execução deste tipo dc estaca
caracterizam-se por suas pequenas dimensões,
permitindo o acesso a locais com limitações dc
altura como. por exemplo, os subsolos dc edifícios.
Mais detalhes deste tipo dc estaca estão descritos no
capítulo 9.
Têm a vantagem de não ocasionar vibrações
durante sua implantação, as quais poderiam prejudicar
ainda mais as condições de instabilidade
das fundações já doentias. Por outro lado,
deve-se considerar que a injeção e circulação
de água sob as fundações problemáticas podem
vir a instabilizar ainda mais as condições existentes.
Podem ser instaladas inclinadas ou verticalmente
ao lado das peças a serem reforçadas ou, ainda,
perfurando as sapatas ou blocos de coroamento.
sendo incorporadas nestas peças (Fig. 12.8).
WMA
ou moco
ou moco
Corte
i 1 : 1 : 1 : 1 : 1 ;
aVÒ:.!:!:!:;:.:::
gjjgg
C/IÇO
CUNHA f/À'
CONCRf l.
b/TAPÔS RMRADA
DO U/.C/C0
(SfACA
MVESSlKtG
Fig. 12.7 - Seqüência executiva de estacas prensadas
Fig. 12.8 - Reforços por estacas-raiz
12.5.6 Estacas Convencionais
Nos casos em que haja altura suficiente para
a instalação de um bate-estacas, é possível
considerar-se o emprego de estacas um tanto
mais convencionais de concreto armado ou
protendido. ou ainda estacas metálicas por
perfis soldados, laminados, trilhos ou tubos
de parede grossa. Em geral, serão necessárias
emendas, pois raramente o pé-direito disponível
será tal que permita a cravaçào de peças
únicas.
Ainda é possível, nestes casos, considerar-se o
uso de estacas moldadas "in-loco" tipo Strauss,
pois o equipamento, constituído por um tripé, em
geral consegue ser instalado em locais com pé-direito
um tanto restrito (cerca de 5,0 metros). Neste caso,
há necessidade do uso de tubos de revestimento de
pequeno comprimento (cerca de 2,0 metros).
12.5.7 Sapatas, Tubulões e Estacas
Adicionais
Trata-se da instalação de mais apoios, por meio
do acréscimo de sapatas, tubulões ou estacas, de
tal forma a reduzir o carregamento nas fundações
originais. Tal medida visa a compensar o aumento
de carregamento ou a adoção de uma tensào
aplicada ao solo, que tenha sido elevada diante
da qualidade do material de apoie.
12.5.8 Melhoria das Condições do Solo
Nesta categoria, consideram-se os métodos que
permitam melhorar as características de resistência e
compressibilidade dos solos de apoio das fundações.
Os tipos mais prováveis a serem utilizados seriam a
injeção de nata de cimento ou gel sol) altas pressões ou
ujet grouting" e CCP. Estes processos estão descritos
no capítulo 18. Como ilustração, vide Figura 12.9.
12.6 ESCOLHA DO TIPO DE REFORÇO
A escolha do tipo de reforço a ser adotado vem
em decorrência do diagnóstico alcançado e da
experiência e julgamento dos profissionais envolvidos
no problema. A definição do tipo a ser aplicado
deve ficar sujeita a diversas condicionantes,
descritas ao lado a seguir.
12.6.1 Condicionantes Técnicas
É necessário que haja uma perfeita compatibilidade
entre as condições do solo, da estnitura c do
reforço. Assim, por exemplo, o tempo para a execução
dos reforços deve ser compatível com a resposta
da obra quanto à velocidade do seu ganho de estabilidade.
Outro exemplo consiste em verificar se as
peças que receberão os esforços adicionais estariam
aptas para tal, ou se seria necessário proceder-se à
execução dc reforços estruturais das mesmas.
12.6.2 Condicionantes Econômicas
Planta
Fig. 12.9 - Melhoria do solo por colunas CCP
É necessário adequar a relação custo/benefício
do reforço. Deve-se verificar se os custos do reforço
são compatíveis com o valor da construção
no mercado. I lá situações em que o reforço das
fundações permite caracterizar a obra como sendo
uma reforma, com conseqüente aproveitamento
maior do terreno, isto é, a área construída tornarse-ia
bem maior do que se se tratasse simplesmente
de uma construção nova.
I lá de ser ressaltado que, nos casos de monumentos
históricos e de certos edifícios públicos, inde-
pendentemente do seu custo, o reforço torna-se indispensável,
dante do valor intrínseco da edificação.
12.6.3 Exeqüibilidade e Segurança
O acesso de pessoal e equipamentos é condi -
ção essencial para a efetivação dos trabalhos de
reforços. De maneira geral, os espaços disponíveis,
onde os reforços devem ser executados, sào
exíguos tanto para a instalação de máquinas como
para a movimentação de pessoal.
Em situações extremamente críticas, tais como
os casos cm que a estrutura está em pleno processo
de movimentação (recalques), as condições de
segurança do pessoal envolvido nos serviços devem
ser observadas cuidadosamente pois, dependendo
da velocidade dos recalques, os trabalhos
podem se tornar muito perigosos.
Ainda dentro das condições de exeqüibilidade,
é importante verificar se há disponibilidade de reação
nos casos de estacas prensadas, tanto nas próprias
fundações como nas blocos de capeamento,
vigas baldrame e de equilíbrio (alavancas), vigas
da superestrutura etc.
12.8.1 Reforço por Estacas Prensadas Metálicas
Este caso refere-se ao Shopping Center Itaguaçu,
localizado em Florianópolis, Santa Catarina, onde a
necessidade de uma reforma ampla nas instalações
levou a acréscimos consideráveis de carga em alguns
pilares. As fundações existentes eram compostas por
estacas tipo Franki (bucha seca) e os reforços adotados
por estacas prensadas instaladas sob os próprios blocos
de capeamento. Assim, a reação disponível constituiu-se
tanto jx*la carga atuante como pela capacidade
de tração das próprias estacas originais. Tendo em
vista as níveis de carregamento, as estacas escolhidas
para o reforço foram os |x.-rfis metálicos formados por
vigas I simples ou duplas de 10 e 12 polegadas Um
detalhe típico do esquema de instalação está apresentado
na Figura 12.10.
12.7 CUIDADOS
Atenção especial deve ser dada às seguintes condições,
para se obter um bom desempenho dos
reforços projetados:
• garantir a continuidade da ação estrutural da
peja restaurada;
• garantir a transferência de cargas entre as peças
novas, implantadas ou ampliadas e as
preexistentes;
• garantir a lx>a conexão entre os concretos antigo
e novo através de tratamentos com aditivos e resinas
e, ainda, em uma dosagem apropriada;
• considerar as diferenças de inércia nos casos de
reforço por estacas de tipo diverso daquele preexistente
e que estariam atuando em um mesmo
bloco de apoio; e
• verificar o dimensionamento das peças estruturais
tais como os blocos de capeamento sobre
estacas ou tubulões, as vigas alavanca ou de equilíbrio
etc.
Fig. 12.10 - Esquema de estacas prensadas metálicas
12.8.2 Reforço por Estacas-Raiz
Ao se refonnar um edifício que abrigava uma loja
de departamentos para convertê-lo em um Shopping
Center no bairro da Água Branca, na Cidade de Sào
Paulo, adotou-se uma solução de transformar os apoias
que eram em sapatas para estacas-raiz. Assim, foram
executadas várias estacas-raiz jx-rfurando as sapatas
e, posteriomiente. estas foram reformuladas para
funcionarem como blocos de capeamento solxe as
estacas. Na Figura 12.11 e nas Fotos 12.9 e 12.10
pode ser apreciado o sistema utilizado. Para mais
detalhes vide Cabral, Feitosa e Gotlieb (1991).
12.8 CASOS DE OBRAS
Vários sào os casos de obras que podem ser
citados ou descritos, onde foram necessários trabalhos
de reforço ou substituição de fundações.
Dentre tantos, alguns podem ser pinçados para
ilustrar o presente capítulo e sào descritos a seguir.
de maneira sucinta.
Foto 12.9 - Estacas-raiz em sapatas
Foto 12.10- Reforço de sapata para tornar bloco
Paulo. Para tanto, era fundamental a implantação
de subsolos adicionais, sem a demolição da estrutura
básica existente. Tal condição levou a um
reforço dos fustes dos tubulòes existentes, para
transformá-los em pilares, o que foi conseguido
por meio do "envclopamento" dos mesmos, à
medida que a escavação prosseguia. Devido ao
acréscimo dc carga no nível das fundações, foi
necessário um aumento das áreas de apoio das
bases destes tubulòes. Para tanto, foram efetuadas
escavações em redor da base até a cota de apoio,
com dimensões compatíveis com as novas cargas
e a tensão admissível do solo. Uma vez exposta a
base existente, o seu concreto foi escarificado.
ferragens foram chumbadas na mesma c colocadas
fretagens para posterior "enxerto" de concreto
(Fig. 12.4, Fig. 12.12 c Fotos 12.11 e 12.12).
Para mais informações, consulte Gotlieb (1991).
Foto 12.11 - Armação para reforço de base de tubulão
Foto 12.12 • Reforço de base de tubulão
Fig. 12.11 - Reforços por estacas-raiz
12.8.3 Reforço de Bases de Tubulòes
Esta solução ocorreu na reforma do prédio de
uma loja de departamentos, para a sua transformação
em um Shopping Center, localizado em um
dos pontos mais valorizados da Cidade de São
12.8.4 Substituição de Fundações
Na mesma obra apresentada como exemplo no
item 12.8.3 - Reforço de bases de tubulòes, foi
necessária a troca de fundações de uma parte do
prédio que se encontrava apoiada em sapatas.
Dante da necessidade de serem implantados vários
níveis de subsolos adicionais, tornou-se imperiosa
a modificação das fundações rasas para fundações
profundas. Em virtude das características
coesivas do solo e de sua baixa permeabilidade,
Optou-se por tubulòes a céu aberto, até porque
tais serviços seriam feitos dentro do subsolo já
existente na edificação original, com conseqüente
limitação de "pé-direito" (Fig. 12.13).
Como o prédio deveria continuar em funcionameto,
foi necessária uma operação de transferência
das cargas atuantes para fundações provisórias
por lubulòes a céu aberto. Transferida a carga
do pilar para os tubulòes provisórios através dc
uma estrutura metálica (Fig. 12. l i), o pilar foi cortado
(Foto 12.13), a sapata existente demolida com
auxílio de explosivos e um tubulão a céu aberto
foi executado bem no centro do pilar. O fuste do
tubulão foi armado para trabalhar como pilar à
medida que fosse sendo efetuada a escavação
para implantação dos subsolos. Terminada a execução
do novo tubulão, este foi conectado ao
pilar original já devidamente reforçado (Fig. 12.13
c Fotos 12.14 a 12.16). Uma descrição mais detalhada
desta obra pode ser encontrada em
Gotlieb (1991).
Foto 12.13 • Escor.imentos metálicos e pilares cortados
Foto 12.15 - Reforço de fuste de tubulão para tornar pilar
Foto 12.14 - Ligação do tubulão com pilar
Foto 12.16 - Escavação após substituição da fundações
Fig. 12.13 • Esquema de substituição de sapatas por tubulões
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Fig. 12. 14b • Cortes dc estrutura metálica para transferência de carga
CAPITULO 12
REFORÇO DE FUNDAÇÕES
12.B - REFORÇO DE FUNDAÇÕES DE MONUMENTOS HISTORICOS
JAIME DE AZEVEDO GUSMÃO FILHO
12.10 INTRODUÇÃO
Monumentos e sítios históricos são exemplares
de atividades de construção do homem no passado.
que resistiram a eventos naturais ou provocados
pelo próprio homem. Eles podem constar de
simples áreas tratadas, como aterros, cortes e pinturas,
cavernas, peças, fachadas etc. a estruturas
mais complexas, a exemplo de castelos, conventos,
monastérios, igrejas, torres e fortes.
No Brasil, pode-se citar como exemplos de monumentos
ou sítios históricos os sambaquis dos
índios encontrados no Paraná; a fachada da igreja
das Missões em Santo Ângelo, no Rio Grande do
Sul; as igrejas de Pernambuco remontando aos
séculos 16 a 18; as fortificaçòes militares presentes
no interior da selva amazônica, em Natal, no
Recife e Salvador; as igrejas da Bahia e Minas
Gerais; o casario colonial de Olinda e São Luiz do
Maranhão etc.
Os monumentos históricos freqüentemente
apresentam desempenho insatisfatório, por conta
de características próprias, diferenciadas, que o
tempo lhes imprime. Seu aspecto atual nem sempre
reproduz as condições originais, vez que
modificações, acréscimos, derrubadas c mudanças
as mais variadas são comuns ao longo de
sua vida útil.
Como testemunhos da história do homem, de
seus valores culturais, criatividade e organização
social, a preservação dos monumentos e sítios
históricos tem se constituído em uma exigência
cada dia maior da comunidade, orgulhosa dos
marcos do seu passado, muitos deles reconhecidos
como Patrimônio Natural e Cultural da Humanidade
pela UNESCO.
Chama-se conservação ao conjunto de medidas
de prevenção e salvaguarda, com o fim de
garantir a estabilidade e funcionalidade do
monumento. O reforço de fundações é apenas um
dos itens prováveis destas intervenções. Uma apresentação
sistemática do assunto é oferecida pelo
Comitê Técnico de Preservação de Sítios Históricos
TC-19 da ISSMFE (1994).
As intervenções de restauração cu reforço dos
monumentos sào executadas com tecnologias
modernas e usando materiais dc comportamento
mecânico diferente dos materiais originais. Por isso
elas devem ser bem avaliadas quanto aos resultados
esperados no desempenho de um dado elemento
ou parte do monumento, ou sobre a estabilidade
do conjunto.
Finalmente as intervenções, além dc garantirem
a integridade estrutural do monumento, nào devem
descaracterizá-lo nem à sua ambiência.
12.11 CARACTERÍSTICAS DOS
MONUMENTOS
A grande maioria dos monumentos históricos
se caracteriza por terem sido constniídos em passado
mais ou menos remoto, usando técnicas
rudimentares e materiais naturais dc solo, rocha
e pecas vegetais, compactados e/ou rejuntados
por outras materiais, também naturais, que funcionam
como ligante.
Os materiais utilizados, de modo geral, vinham
de áreas vizinhas ao sítio de construção, que
freqüentemente era escolhido próximo da jazida,
a uma distância mínima. Neste sentido, as rochas
locais eram o material preferido para as fundações,
os vãos das aberturas e os cantos das paredes
mais elevadas. As igrejas dc Olinda têm fundações
de blocos de rocha calcária, que é a rocha
local, enquanto as igrejas do Recife têm fundações
e paredes revestidas de pedras areníticas,
colhidas na linha de arrecifes da costa. As igrejas
e prédios antigos do Rio de Janeiro mostram o
uso de pedra granítica, própria da geologia local.
Outra característica dos monumentos é que,
desde o início de sua construção, cies vêm passando
por transformações, que modificam ou
alteram as suas condições de segurança e funcionalidade
por várias razões: o tipo e intensidade
dos processos físicos, químicos e biológicos prevalecendo
no meio ambiente: as propriedades dos
solos e rochas usados como materiais de constmçào,
principalmente diante das condições
ambientais; a açào do homem, que freqüentemente
intervem na obra e na sua vizinhança, inclusive
alterando e recriando os processos que hoje prevalecem
no meio ambiente; os movimentos do
terreno de fundação, em especial os decorrentes
da localização de monumentos em locais elevados,
defronte de encostas etc.
Assim, o primeiro tipo de transformação no monumento
é devido ao curso de ações ambientais.
Mudanças na posição do lençol freático; erosão
hídrica, eólica e química; ataque biológico; açào
da temperatura etc. sào exemplos de fatores
ambientais que provocam alteração nas variáveis
do sistema solo-fundaçào-estrutura. A resposta do
monumento a estas açòcs e os correspondentes
níveis de segurança precisam ser levantados e os
resultados avaliados.
Por outro lado, o estudo das etapas e épocas de
constniçào, as mudanças, acréscimos, demolições,
aterros, cortes etc. constituem outro elenco de
transformações sofridas pelo monumento e sua
vizinhança, que devem ser levantados com base em
pesquisa histórica, sendo depois igualmente analisados
os seus efeitos no nível de segurança da obra.
Finalmente, há as transformações resultantes de
medidas tomadas no passado, para corrigir defeitos
ou mau desempenho do sistema, ou de parte
dele. São exemplos o alargamento da base das
fundações, a cravaçào de estacas de madeira, a
drenagem subterrânea, a execução de cortes e aterros
para estabilizar movimentos de encostas etc.
É verdade que muitas destas medidas nem sempre
resultaram benéficas para os fins almejados. A
parede posterior da sacristia do Convento de Sào
Francisco em Olinda, construída em 1654 e apresentando
recalque de 260 mm, foi escorada no
século passado por três grandes montantes de arrimo,
colocados na sua parte externa (Fig. 12.15).
O peso dos montantes favoiece o movimento na
direção do talude, terminando por agravar a situação
da parede que se pretendia proteger.
O efeito do tempo no sistema solo-fundaçào-estnitura
é outra característica relevante na avaliação
de desempenho de um monumento. Este efeito
envolve alterações físicas e químicas nos materiais
constituintes do sistema. Pode se dar abrupta ou
gradualmente, ou até mesmo por intervalos ou níveis
de alteração. Pode se estender a todo o monumento
ou somente a parte dele. Pode atingir de modo
e intensidade diferentes os diversos materiais da obra.
Em decorrência deste processo, o nível de segurança
do monumento está permanentemente mudando,
seja de modo gradual, seja bruscamente. Por
isso a análise de desempenho do monumento deve
ser feita de modo sistêmico, como um conjunto solofundação-estnitura,
de variáveis que se interligam e
mutuamente se apoiam.
Por outro lado, o tempo é um parâmetro característico
das obras antigas, no sentido de que
freqüentemente a construção dos monumentos é de
longa duração, tendo levado dezenas de anos, e
mesmo séculos, até ao seu término e aspecto atual. A
documentação das etapas de constniçào, desenvolvidas
durante períodos históricos conhecidos, permite
definira seqüência constnitiva e intedigá-la com eventos,
como o aparecimento de danos, velocidade dos
movimentos, intensidade dos processos ambientais, etc.
A pesquisa histórica, procedida para estudo dos
movimentos dos morros de Olinda, mostrou a
datação de fatos históricos referentes à Igreja do
Carmo (Gusmão Filho et (d., 1986). A igreja data de
1580, mas a torre esquerda somente começou a ser
constniída no início do século 18, ficando concluída
ern 1726. Esta torre apresenta hoje uma inclinação
perto de 1" e recalque diferencial de 60 mm na
diagonal, em direção NW do talude. Com a datação
levantada, pode-se estimar o recalque da Igreja do
Carmo sem as torres (até 1726) , sendo próximo do
recalque crítico dc 10 mm dado pelo critér.o dc
Burland e Wroth (1974). Portanto, à época da retomada
para conclusão das torres, nào deveria haver
danos na obra. Esta conclusão é reforçada pela pesquisa
histórica quando se refere sempre à retirada
cie cargas (pavimentos superiores demolidos) na
presença de danos. Assim, as torres nào teriam sido
concluídas sc à época a igreja apresentasse fissuras.
Admitindo constante no tempo a taxa de movimentação.
foi aplicada aos valores atuais de abertura das
trincas (15 mm) a velocidade de 800 micra/ano, obtida
pela observação das mesmas durante 5 anos.
Obtevc-se o tempo de recorrência de 200 anos para
o aparecimento das fissuras na torre, que é um resultado
em boa concordância com a seqüência constnitiva
das torres, levantada pela pesquisa histórica.
12.12 AS FUNDAÇÕES DOS
MONUMENTOS
Fig. 7 2.15- Exemplo dc reforço prejudicial
As características gerais anteriormente descritas
dos monumentos históricos têm rebatimento nas
4 8 4 I FUNDAÇÕES: TEORIA E PRÁTICA
fundações, aos lhes dar condições de desempenho
muito peculiares, que têm de ser levadas em
conta cm caso de reforço das fundações do monumento.
A primeira consideração diz respeito ao local
onde estes monumentos foram erguidos. As pesquisas
históricas e arqueológicas destacam alguns
critérios para a escolha do local, como razões de
defesa, condições climáticas e acesso. Era comum
situá-los descortinando a paisagem no topo das
elevações, penhascos ou planaltos. Com o tempo,
eles se expandiram pelos taludes à volta, sendo
por isso freqüentemente afetados por
deslizamentos ou movimento de encostas.
Quanto aos materiais de construção usados nas
fundações, eram solos e blocos de rocha, estes
podendo ser mais ou menos afeiçoados. combinados
cm vários arranjos estruturais ou simplesmente
lançados na cava e rejuntados por um
ligantc, como óleo dc baleia, cal, argila etc. A fundação
é. cm geral, corrida, com largura mínima de
1 metro e dc forma circular, quadrada ou retangular.
a uma profundidade limitada a poucos metros.
Havia situações que dificultavam alcançar uma
profundidade segura por meio dc escavação, a
fim dc adotar a solução convencional dc fundações
diretas. Eram os casos da presença de solos
moles superficiais, sem oferecer bom suporte para
os blocos dc fundação, ou o lençol freático perto
da superfície do terreno. Então, eram usadas estacas
de madeira ao longo da área dc projeção das
paredes, sobre a qual sc lançava a fundação corrida.
O objetivo era melhorar as propriedades do
solo e se obterem melhores condições de suporte
para as fundações. Os antigos nào conheciam a
durabilidade limitada destas estacas no seu trecho
exposto à flutuação do lençol dágua.
Muitas vezes o traçado original das paredes,
obedecendo a um modelo simples c quase sempre
regular, desapareceu devido às transformações
causadas por ações humanas ou movimentos
do terreno, durante a vida do monumento.
Também é freqüente que as fundações, ou o terreno
onde se assentam, sejam atravessados por
obras subterrâneas, como túneis, galerias, drenos,
trincheiras c passagens, por onde circulam água,
esgoto, pessoas etc. Infelizmente a pesquisa histórica
não fornece a evolução deste traçado, que
quase sempre sc apresenta como elemento surpresa
na aplicação de uma dada tecnologia ou solução
de reforço, provocando reavaliação, atraso c
custo adicional.
Quanto ao ritmo lento de construção, que também
caracteriza a maioria dos monumentos antigos.
pode-se dizer que o longo tempo de construção
assegura condições dc drenagem durante
o carregamento, mesmo em solos altamente
comprcssíveis. Como as cargas transmitidas ao
terreno são relativamente muito elevadas, a condição
dc carregamento lento favorece o aparecimento
dc grandes recalques ao longo do tempo.
Por sua vez as fundações, tendo sido construídas
cm solos de pouca resistência ao cisalhamento,
apresentam baixo fator de segurança e são inadequadas
para receber esforços adicionais. Em decorrência.
o monumento fica muito vulnerável
a ações externas, como sismo, ventD, fogo, cheia,
oscilações do nível dágua c hoje pode apresentar
um quadro de danos preocupante à sua estabilidade.
Em conclusão, as fundações de monumentos
históricos têm características que nào sào completamente
conhecidas, nem podem ser totalmente
controladas, como no caso dc uma obra nova. Os
danos que motivam o reforço podem ser causados
por defeitos ou erros dc várias origens: o
projeto original, como escolha do local, tipo dc
fundação e técnicas de construção primitivas; as
transformações ao longo da vida útil, provocadas
pelo homem; e o efeito do tempo causando mudanças
físicas, químicas c biológicas nas variáveis
do sistema solo-fundacào-estrutura.
12.13 ANÁUSE DOS MONUMENTOS
O levantamento do estado atual do sistema
solo-fundaçào-estrutura é a primeira etapa da análise
visando o reforço das fundações de um monumento.
Isso inclui a caracterização física c mecânica
das variáveis do sistema, obtida através de
dados diretos c ensaios de laboratório e dc campo.
Como a presente configuração do monumento
é resultante de uma longa história, a investigação
do seu estado atual deve ser acompanhada,
sempre que possível, dos dados de pesquisa sobre
as mudanças e intervenções historicamente
documentadas.
Técnicas dc reconhecimento vão possibilitar
avaliar a presença, o estado e a profundidade das
fundações existentes, inclusive estacas, assim como
a ocorrência dc outras fundações, obras subterrâneas
ou transformações do monumento. Neste
sentido, além da pesquisa histórica e arqueológica,
a evidência física pode ser levantada por técnicas
modernas de sensoriamento geofísico c representações
computadorizadas dc modelos gráficos
das transformações passadas.
Devem ser usadas técnicas dc amostragem que
provoquem o mínimo de perturbação. Recomenda-se
por isso dar preferência a métodos indiretos
nào destrutivos, como sondagens óticas para
explorar cavidades c outros locais inacessíveis;
termografia c espectroscopia sônica para avaliar
heterogeneidade; microgravimetria, esclerometria
c penetrômetro para operações dc sondagens superficiais
(Nuyens c Tomiolo, 1994).
Os dados referentes à estrutura sào os mais fáceis
dc obter, uma vez que, além da evidência
externa, é comum existirem informações diversas
sobre a sua evolução histórica. Quanto ao solo e
à fundação, há várias razões que dificultam a obtenção
dc dados. É comum a prospecção ser limitada
por impedimentos impostos para a salvaguarda
da própria estrutura ou dos edifícios contíguos,
uma vez que sondagens e amostragens podem
ter efeitos danosos sobre a sua integridade e segurança.
For sua vez, tecnologias especiais antes
citadas aumentam o custo, levam tempo e nem
sempre sào de domínio de conhecimento pela
equipe de trabalho. De qualquer forma, é necessário
se ter uma base de conhecimento que identifique
o estado atual do monumento, em termos de
aspectos estruturais, cargas, fundações, materiais de
construção, solos c rochas do subsolo, posição do
lençol freático e forma de relevo no seu entorno.
A segunda etapa da análise visa levantar os processos
geológicos e biológicos presentes no
meio físico onde o monumento está inserido, que
provocaram ações mecânicas de força e deslocamento
sobre o monumento ou parte dele, modificando
a sua funcionalidade e pondo em risco a
sua segurança.
Sào exemplos de processos geológicos registrados
no Brasil os escorregamentos, enchentes, erosão,
subsidências. solos expansivos e abalos sísmico (Cerri
et al.. 1990). Os escorregamentos ocorrem, por razões
diversas, em várias das nossas cidades históricas:
Ouro Preto, Salvador e Olinda. Quanto à erosão.
atua insidiosa e inexoravelmente, em suas formas
hídrica, eólia» e química, sobre os elementos
do sistema solo-fundação-estrutura, especialmente
as fundações e paredes da estnituia.
Esta pane da análise foi muito importante no
diagnóstico dos movimentos dos morros de Olinda
(Gusmão Filho et al., 1986). Uma das hipóteses
aventadas era a dc subsidência, devido à presença
de cavernas na rocha calcária preenchidas com
o sedimento sobrejacente, provocando abatimento
do terreno e danos nos monumentos. Os testemunhos
das sondagens rotativas permitiram recompor
a seqüência dos eventos históricos da
geologia local. Os sedimentos encontrados mostraram
a presença de fósseis ostracodes, indicando
que se tratava dc ambiente marinho de deposição.
A hipótese fica assim descartada.
Outra hipótese era devida à erosão marinha, em
curso nas praias de Olinda. O avanço do mar estaria
provocando deslizamento dos morros, por
erosão na base do pacote de solo sobre a rocha,
com movimento contínuo e lento das encostas cm
direção ao mar. A análise dos taludes voltados
para o mar, onde há incidência de danos nos
monumentos, indicou uma instabilidade local e
não generalizada, não confirmando a hipótese.
Também nào sào observados indícios de movimentação
nas construções situadas na planície
praieira, entre as encostas e o mar.
É exemplo de processo biológico a ação de
termitas, com a formação de canalículos no terreno;
formigas, com a abertura de "panelas" subterrâneas;
e microorganismos, atacando as estacas
de madeira nào submersas. A Igreja Matriz de Porto
Calvo, em Alagoas, que remonta ao século 18,
apresentava extensas rechaduras, largas e erráticas,
localizadas na parte de trás do monumento. O
padrão de danos não era coerente com o movimento
de encosta, a hipótese até então aventada.
Soube-se depois que havia um antigo cemitério
na área externa e contígua à parede de trás. Este
dado se completava com a informação dc que, no
passado, existiam ali grandes formigueiros. Embora
estivessem hoje extintos, as suas saídas estavam
encobertas pela vegetação, permitindo assim
sc chegar à causa dos danos na igreja e definir a
solução para sua recuperação.
A terceira etapa da análise do monumento é a
identificação de problemas geotécnicos transmitidos
ao sistema solo-fundação-estrutura, em decorrência
de atividades humanas. Ao alterar as
condições ambientais de uma dado local, para
atender a demandas econômicas e sociais, c homem
altera o equilíbrio dos agentes naturais e
pode deflagrar processos do meio físico que repercutem
no desempenho do monumento. O
Quadro 12.1 é um exemplo destas interações.
É importante, também, verificar a ocorrência de
vazamentos de antigas tubulações e galerias de
água e esgotos, atravessando o monumento ou
próximo dele.
A etapa seguinte é chegar ao diagnóstico dos
danos pelo método indutivo de causa e efeito,
com base em toda a informação anteriormente
descrita, compondo a matriz de diagnóstico das
prováveis causas de danos.
Quadro 12.11 Atividades humanas
AÇÕES DE
GEOTECNIA
Cortes em encostas
Escavações ao
ar livre ou subterrâneas
Subsidência do
terreno
Vibrações locais.
freqüentes
e repetidas
ATIVIDADES
HUMANAS
Urbanização
com abertura
de ruas
Construção de
túneis ou
galerias
Extração de
minerais ou
fluidos, água
em especial
Tráfego perto
do monumento
REFERENCIA
Igreja do
Carmo. Olinda.
Edifícios do
século 18 em
Frankfurt.
Catedral da Cidade
do
México.
Teatro Sania
Isabel, Recife.
Neste sentido, é importante lembrar os casos dc
superposição, quando causas diferentes colaboram
para os mesmos efeitos, podendo ser responsáveis
pelos danos a reparar. Lembrar, lambém,
no diagnóstico, o efeito de creep do terreno e
que os movimentos causados pelo peso próprio do
monumento sào freqüentemente de longo prazo.
Neste sentido, é comum coletar dados de movimento,
especialmente os recalques, para identifi-
car o problema e escolher a solução de reforço.
Muitas vezes os estudos de desempenho do monumento,
antes e depois do reforço, baseiam-se
na medição dos deslocamentos com o tempo, através
da instrumentação do maciço e do monumento.
As medidas obtidas quase sempre são as
velocidades dos recalques, a abertura das fissuras,
o desaprumo das paredes, os deslocamentos de
inclinômetros, a flutuação do nível piezométrico,
procurando correlacioná-las com alguma variável
ambiental, como a intensidade pluviométrica. Na
instrumentação implantada em três monumentos de
Olinda, foram obtidos resultados de deslocamentos
muito coerentes com a precipitação ( Figura 12.16).
Também é comum fazer-se o inventário dc
danos no monumento e de feições diferenciadas
no terreno, para correlacionar os danos e as
feições com os deslocamentos correspondentes.
visando identificar o mecanismo em curso.
Neste sentido, é extremamente valiosa a
análise do padrão de fissuras, tanto do terreno
como dos elementos estruturais originalmente
verticais ou horizontais, como paredes,
pisos e vigas.
O mecanismo identificado é então analisado
através de modelos mecânicos simplificados, que
permitem estimar a resposta mecânica do sistema
solo-fundação-estrutura às solicitações estudadas.
Sào entào obtidos os fatores de segurança e as
deformações induzidas em diferentes épocas e estágios
de construção da obra.
Os modelos adotados têm por base propriedades
e características dos materiais envolvidos, tanto
da estrutura como do subsolo, a exemplo da relação
tensão-deformação. a forma e tamanho dos
blocos de alvenaria de pedra, as juntas ou a amarração
entre os blocos, o tipo de ligante etc. A análise
pode ser conduzida para modelos e procedimentos
analíticos que considerem a evolução geométrica
das alvenarias de pedra e suas
descontinuidades; o curso dos deslocamentos nos
diferentes blocos ou paredes; o comportamento
reológico dos blocos, contatos e subsolo, simulando
o desempenho a longo prazo, e assim por
diante, perante as alternativas levantadas no diagnóstico.
O objetivo é avaliar a reserva de resistência
disponível antes do reforço e o ganho de resistência
depois da intervenção.
12.14 O REFORÇO DOS MONUMENTOS
Fig. 12.! 6 - Instrumentação da Igreja do Carmo,
Olinda (Gusmão Filho ct al.. I989J
Os tipos de reforço ou técnicas
utilizadas
quando se trata da fundação de um monumento
são essencialmente os mesmos antes descritos
(Capítulo 12). Pelas características da intervenção,
podem ser classificados em três tipos:
reparo dc materiais afetados em sua segurança,
como o desaparecimento do ligante. a
perda de resistência das pedras etc.; o
enrljecimento ou substituição dc peças, a
exemplo de estacas danificadas; e as mudanças
no sistema solo-fundação-estrutura,
quando se intervém nas características gerais
de trabalho destas variáveis. Este último caso
é o mais comum, de que sào exemplos armar
ou melhorar o solo, fazer uma nova fundação
cm estacas ou executar uma estnitura de concreto
armado para segurar paredes e pilares
de alvenaria de pedra instáveis. Contudo, a
aplicaçào de qualquer destas técnicas de reforço
deve obedecer a diretrizes e cuidados especiais,
que não sào exigíveis em construções modernas,
conforme é mostrado a seguir.
Uma vez definida a solução básica com os
resultados cia análise, devem ser avaliados quais
os fatores ou parâmetros de desempenho sào julgados
críticos ao curso da intervenção. Um plano
de controle e monitoramento deve ser estabelecido,
para acompanhar a sua evolução. Se estes
parâmetros críticos durante a construção fornecem
valores que diferem dos previstos como
admissíveis, é porque a resposta da estrutura difere
da esperada. Neste caso, medidas subsidiárias
para correção dos processos de construção
devem ser tomadas, de acordo com soluções já
estudadas, visando adaptar o projeto e a sua execução
aos resultados de desempenho do monumento
durante a obra. Muitas vezes deve se interromper
os trabalhos de infra-estrutura, para
executar algum reforço estrutural e assegurar estabilidade
ao conjunto.
É o caso da Torre de Pisa, que apresenta hoje
uma inclinação de cerca de 5", 30', devido a um
recalque progressivo ao longo de séculos de sua
existência. A fundação é um bloco circular maciço,
construído de pedra e cal, e depois consolidado
com injeções de cimento em 1935. A torre apresenta
problemas estruturais da mesma grandeza
dos existentes no solo de fundação. Enquanto se
discutia a melhor solução para reduzir 45 ' na
inclinação, a fim de ganhar segurança pelos próximos
200 anos (Jamiolkowsky et al., 1993), a torre
monitorada começou a dar sinais de esgotamento
da resistência estrutural. As pedras da fachada
externa do lado inclinado estão sob uma
pressão de 7 N/mm 2 e de quase 0 no lado oposto.
As pedras mais solicitadas mostram fissuras verticais
indicando esmagamento por elevada compressão
(Sanpaolesi, 1993). Como medida subsidiária
para evitar o colapso estrutural, foram lançados
vários anéis, feitos de cabos de aço de alta resistência,
enlaçando a torre à altura do I o nível.
Os métodos de reforço de monumento sào escolhidos
dentre aqueles próximos de estarem livres
de vibração. O parâmetro desta avaliação,
usualmente adotado, é a velocidade de vibração,
cujo limite aceitável tem sido estabelecido de 2 a
5 mm/s (Hultsjo, 1994). Como é comum a adoção
de estacas para reforço cie fundação dos monumentos,
a solução em estacas-raiz ou
microestacas tem sido a mais freqüentemente usada,
por atender a esta exigência básica.
Todo reforço incorpora novos elementos a uma
estrutura existente, com algum estado de tensàodeformação
já desenvolvido. Por isso, no reforço
de fundação, é comum pré-carregar as novas estacas
e tirantes, antes de eles serem permanentemente
incorporados à estrutura antiga. O pré-caircgamento
permite, taml>ém, comparar as previsões do
projetista com o desempenho cios elementos no campo.
De outra forma, a movimentação do monumento
somente cessa após superar a deformação elástica
da nova fundação executada. Deve haver reserva
de segurança na obra para este deslocamento
ocorrer sem colapso ou dano maior no monumento.
No caso de incerteza, a solução é melhorar o
terreno, atuando diretamente na causa determinante
do movimento, com injeção, estacas de compactação
etc. Eventualmente, depois, pode ser executada a
subfundaçào.
Uma vez obtida a estabilização do monumento,
com o término dos movimentos que o afetavam,
nào é comum nem necessário restabelecer os níveis
anteriores ao desaprumo ou afundamento das
paredes. A operação exige sincronia na etapa dc
elevação das paredes, constituídas de material precário,
expostas à longa ação do tempo e geralmente
muito fraturadas. Por isso envolve alto risco para a
estrutura do monumento e pode provocar o seu
colapso quando da reversão das tensões vigentes.
Não obstante, o renivelamento tem sido usado
em casos de grandes recalques, como na Cidade
do México. A técnica mais comum consiste em
fazer descer a parte que recalcou menos. Primeiro
reforça-se a fundação e depois se escava o solo
abaixo dela para permitir o recalque corretivo Esta
subescavaçâo debaixo da fundação consiste em
fazer perfurações de pequeno diâmetro no lado
de menor recalque, para que o seu colapso gere a
deformabilidade que reduz a inclinação (Terracina,
1962). Mais rara é a operaçào oposta, dc renivelar
por levantamento. O convento das Capuchinhas,
anexo à Basílica de Guadalupe, na Cidads do
México, é um notável exemplo de levantamento
da parte recalcada de um monumento. Foram executadas
159 estacas, ao longo das paredes do templo,
nas quais se instalou um conjunto de macacos
hidráulicos, com o que se levantou a estrutura
de 48 x 17 m com 13.300 toneladas, primeiro em
um eixo e depois no outro, até eliminar o recalque
diferencial de 3,5 m (Gonzáles Flores, 1981).
12.15 CASOS DE OBRAS
a. O Convento de São Francisco
O Convento de São Francisco é um notável conjunto
de edificações, construídas pelos frades,
suavemente plantado em uma encosta voltada para
o mar. O Quadro 12.2 mostra a época em que se
deram as diferentes fases da sua construção.
Quadro 12.21 Épocas das fases de construção
FASE DE
ÉPOCA
CONSTRUÇÃO
Capela de N. S. das 1585 a 1590
Neves e Clausura Incêndio em 1610 com
a invasão holandesa
Claustro 1654 a 1660
Sacristia 1660
Igreja 1654
Capela Ordem Terceira 1700 ...
Fim das obras 1754
O convento está localizado a meia encosta, com
a parte dc trás dando para o talude. Foi feito um
aterro de 3 m de altura nesta encosta voltada para
o mar, no qual foi construída a sacristia. A sacristia
do convento é um admirável trabalho do século
18, toda revestida de azulejos, pinturas e
peças de madeira entalhada.
A encosta tem cerca de 30 m de altura com uma
declividade variando de 5" a 25°. A fundação tem 1
m de largura com 6 m de profundidade. A Figura
12.17 mostra o perfil do terreno e as propriedades
geotécnicas dos solos (Gusmão Filho et al., 1988).
LEGENOA
Fig. 12.17 Perfil e propriedades do solo no
Convento de S. Francisco, Olinda
Os danos no Convento de Sào Francisco estavam
concentrados na sacristia. A sacristia primitiva
foi ampliada em 1654 sobre o aterro. A parte
nova começou então a se separar do antigo edifício.
Os danos que apareceram incluem um
recalque de 260 mm na parede de trás, a inclinação
da mesma parede causada pelo movimento
de encosta na direção do mar, recalque desigual
do piso da sacristia na direção da parede de trás,
trincas nas paredes laterais devido a distorção por
cisalhamento e fenda no terreno externo. As paredes
mais severamente atingidas tinham rechaduras
de 30 a 60 mm dc abertura.
Tão severo era este quadro de danos em 1860
que os frades, preocupados com a estabilidade
da parede de trás, construíram três grandes contrafortes
para arrimá-la. Infelizmente o efeito foi
inverso e as construções pesadas ajudaram a aumentar
o movimento para baixo.
A análise dos recalques e de estabilidade de talude
seguiu o modelo de rotina. Foi calculado um recalque
de 30 mm pana a parede de trás, quando de fato o
recalque é quase nove vezes maior (260 mm). Outros
mecanismos foram acionados para dar os recalques
observados hoje. A análise de estabilidade da encosta
deu um fator de segurança baixo, variando de
1.7 a 1.2, correspondendo aos níveis piezométricos
mínimo e máximo, respectivamente. Como os solos
locais têm permeabilidade alta, pode ocorrer um rebaixamento
rápido. A análise mostrou que uma subida
de 2 m no nível piezométrico corresponde
a uma redução de 20 % no fator de segurança do
talude. Havendo um outro levantamento de 1 m
há uma redução de 30 %. A estabilidade do talude
é muito influenciada pela variação do lençol
freático, e portanto da estação de chuvas. Por outro
lado, os baixos fatores de segurança obtidos na
análise estão dentro da faixa onde sào prováveis
dc ocorrerem movimentos de encostas.
No Convento de Sào Francisco, o movimento
foi uma translaçào que puxou a fundação da parede
posterior, tanto para fora horizontalmente,
como para baixo verticalmente. A parede foi sustentada
pelas vigas de madeira tar.to no I o piso
como na coberta. Os pesados contrafortes nào
ajudaram a deter o movimento. A distorção resultante
cisalhou intensamente as paredes laterais e
provocou o desnivelamento do piso.
A restauração da sacristia começou removendo-se
os três grandes contrafortes. Também o piso
e o aterro foram removidos para aliviar a carga no
talude. Como subfundaçào foram executadas
microestacas, tipo pressoancoragcn. de 100 mm
de diâmetro, ao longo de ambos os lados das paredes,
conforme mostra a Figura 12.18.
As estacas contíguas ligavam-se entre si por blocos
de concreto armado através de aberturas feitas
nas paredes. Depois foi executada, por trechos, uma
viga longitudinal, que suporta a parede, e recebe
os tirantes dirigidos para dentre. O novo piso
é unia laje de concieio apoiada na viga de fundação.
As paredes foram mantidas na posição
encontrada, as rachaduras seladas, e os velhos
azulejos portugueses recolocados, trazendo de
volta o esplendor da sacristia.
Após 5 anos de conclusão do reforço, a obra
apresenta bom nível de desempcnlx), com a estabilização
do monumento.
b. A Igreja do Carmo
A Igreja do Carmo começou a ser construída
após a chegada dos frades carmelitas no Brasil,
cm 1580. É parte de um projeto mais ambicioso,
Fig. 12.18 Reforço de fundação. Convento de S. Francisco, Olinda (Gusmão Filho et al., 1988 )
que incluía uma construção lateral do convento.
A obra demorou muitos anos e nunca chegou a
ser concluída. A torre esquerda foi erguida somente
em 1726, mas o convento foi incendiado
durante a invasão holandesa em 1631. Este é um
dos mais preciosos monumentos do período colonial
do Brasil (Gusmão Filho et ai, 1988).
LEGENDA ;
O - S«MMJ. Rufa lavo
• - S«nd. 0 Tr0 do
ft -Sond o P»rcu»«ôo
O - Poço
â - Pi«x6<n«tro
• — Inclinflmt Iro
^ Ár»o com dono*
é 0*»lizo<n«nioi
A Igreja do Carmo está localizada no topo de
um monte em forma de círculo, com 15 m de altura.
Os taludes de corte variam de 12° a 45°, e o
isolam na paisagem. O subsolo consiste inicialmente
de uma areia argilosa, seguida por uma argila
siltosa média e pré-adensada e depois pela
rocha calcária.A fundação tem 1 m de largura e
está assente à profundidade de -í,60 m na camada
de aigila (Fig. 12.19).
Os danos na Igreja do Carmo estão concentrados
em torno da torre esquerda, que se inclinou
na direção diagonal e puxou as paredes da galeria
lateral e da fachada, com grandes rachaduras.
A inclinação da torre é 1: 80 e o recalque no seu
canto externo 60 mm. Observa-se levantamento
do piso do páteo, em frente a porta principal. As
fundações do antigo convento foram escavadas e
se apresentam inclinadas na direção da encosta.
Também o cruzeiro cm frente da igreja mostra
deslocamento na direção do talude.
A análise indicou um recalque de 27 mm. Mesmo
acrescido do recalque multi-secular, da ordem
de 10 mm, ainda é 2 / 3 do valor observado
hoje. de 60 mm. O estudo de estabilidade de talude
considerou tanto os taludes de corte que provocam
alívio de carga lateral, executados devido
ao crescimento urbano, como a variação no lençol
freático, que influi no fator de segurança. Foi
escolhida uma superfície de deslizamento não-circular.
cuja posição foi definida em função de observações
locais c leituras dos inclinômetros instalados.
Os parâmetros de resistência ao
cisalhamento, utilizados na análise, foram valores
entre a máxima resistência de pico e a menor resistência
próxima da resistência residual, obtida
p OG
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CALCÁREO
Fig. 12.19 Dados referentes à Igreja do Carmo, Olinda
de ensaios de cisalhamento direto com múltipla
reversão. O fator de segurança resultante é baixo
e varia entre 1.4 e 1.1. Dentro desta faixa, é provável
ocorrer movimentação do talude. Os recalques
resultantes deste deslocamento somam-se aos
recalques por compressibilidade, e ambos respondem
pelo recalque observado hoje.
Na Igreja do Carmo, o mecanismo está associado
aos sucessivos cortes nas encostas em torno
do morro, especialmente o talude contíguo à torre
esquerda. A sua condicão tle estabilidade é crítica
quando há elevação do nível piezométrico causado
l*>r chuvas intensas. Os movimentos que resultam deste
processo são lentos, influenciados pelo ciclo
liidrológico e a sua velocidade depende do comportamento
reológico\ do solo. A solução que foi dada
consta das Figuras 12.20, 12.21 e 12.22.
A solução consistiu em recompor os taludes em
volta do monumento, especialmente na área perto da
torre esquerda, e de tal modo a fazê-los o mais suave
possível, e compatibilizados com a urbanização local.
O talude projetado foi de 1 V: 4 H. Microcstacas
foram também executadas para annar o terreno e confinar
lateralmente as fundações das fachadas, em torno
da torre esquerda e da parte posterior da igreja.
A drenagem subterrânea teve cuidadosa atenção,
estendendo-se aos taludes em volta do monumento.
Fez-se uso de tapete drenante no contato com
o novo aterro, poços drenantes para reduzir o nível
piezométrico e dreno horizontal periférico para
retirar a água coletada. Para rebaixar o eventual
nível piezométrico no fissuramento do calcário,
foram executados também poços drenantes indo até
a rocha, em toda a periferia do morro. Outras providências
incluem canaletas para a drenagem superficial,
descidas dágua, poços de visita e plantação de
grama em placas nos taludes recompostos.
Concluída recentemente, no último semestre de
1995, a obra continua monitorada, tanto o maciço
como o monumento, para avaliação de desempenho.
Logervdo
i. MICRO-ESIACAS DE PRESSO-
ANCORAGEM
POÇO DRENANTE
POÇO PROFUNDO DE PERIFERIA
3Si tAPETE DRENANTE
Figura 12.20 Planta geral das obras de reforço da Igreja do Carmo, Olinda.
FUNDAÇÃO DO ANTIGO
CONVENTO
ORENANTE
Fig. 12.21 Restauração da Igreja do Carmo. Olinda.
SEÇÃO EE
ESCALA 1/400
Figura 12.22 Seção transversal no talude da torre esquerda. Igreja do Carmo. Olinda
12.16 BIBLIOGRAFIA
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TERRACINA. F. Foundations of the Towcr of Pisa.
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In:
CONTENÇÕES
1 3 OBRAS DE CONTENÇÃO: TIPOS, MÉTODOS
CONSTRUTIVOS, DIFICULDADES EXECUTIVAS | 497
STELVIO M. T. RANZINI / ARSÉNIO NEGRO JR.
14 CONCEPÇÃO DE OBRAS DE CONTENÇÃO | 517
JOSÉ LUIZ SAES/FERNANDO REBOUÇAS STUCCHI/
JARBAS MIUTT1SKY
1 5 ANÁLISE, PROJETO E EXECUÇÃO DE ESCAVAÇÕES
E CONTENÇÕES | 537
JAIME DOMINGOS MARZIONNA / CARLOS EDUARDO MOREIRA MAFFEI/
ARGIMIRO ALVAREZ FERREIRA/ARMANDO NEGREIROS CAPUTO
CAPÍTULO 13 OBRAS DE CONTENÇÃO: TIPOS, MÉTODOS
-
1
~ 1 CONSTRUTIVOS, DIFICULDADES EXECUTIVAS
STlil.VK) M. T. RANZINI
ARSIíNIO NliGROJR.
13.1 INTRODUÇÃO
A realização dc uma obra dc fundações quase
sempre envolve estruturas de contenção, li freqüente
a criação de subsolos para estacionamento em edifícios
urbanos, de contenções de cortes ou aterros,
por muros de arrimo, para a criação de plataformas;
a instalação de dutos de utilidades em valas
escoradas etc. Obras de contenção do terreno estão
presentes em projetos de estradas, de pontes,
de estabilização de encostas, de canalizações, dc
saneamento, de metrôs etc.
A contenção é feita pela introdução de uma csmaura
ou de elementos estruturais compostos, que
apresentam rigidez distinta daquela do terreno que
conterá. O carregamento da estrutura pelo terreno
gera deslocamentos que por sua vez alteram o carregamento,
num processo interativo que foi objeto
de discussão no Capítulo 4. Alguns preferem afirmar
que o processo é mais corretamente descrito
como sendo de deslocamentos impostos, gerando
carregamentos decorrentes e nào o contrário. De
qualquer forma, contenções sào estnituras cujo pro-
\
K
\ " 1.0
1.6
Y
1.4
V
1.2
\
1.0
\
\" 0.8
A 0.6
Ko . 0.4
- 0.2
V
r AflCIA rOFA
ArtE^ COMPACTA
J I I L
-0.001 o 0.002 0.004 0.00C //»
Fig. 13.1 - Coeficiente de empuxo lateral e deslocamento
de modelo de muro (Terzaghi. 1934)
jeto é condicionado por cargas que dependem de
deslocamentos. Apesar de isto ser um fato há muito
reconhecido, ilustrado que foi pelos resultados
clássicos de Terzaghi (1934) de ensaios em modelos
de muros de arrimo em areia (Fig. 13-0, a
prática corrente nem sempre demonstra este reconhecimento,
como se discutirá adiante.
Neste capítulo serão apresentados os principais
tipos de estnituras de contenção, suas características
executivas e peculiaridades, a título de
introdução ao tema, que será complementado
pelos capítulos seguintes, onde serão abordados
aspectos de concepção, análise e projeto.
Entretanto, a bem da clareza, alguns tópicos
dos capítulos 1'» e 15 serão aqui antecipados,
particularmente aqueles que dizem respeito à
avaliação das cargas e deslocamentos neste tipo
de estrutura.
7 3.2 Histórico
Os registros mais antigos de obras de contenção
apontam para muros de alvenaria de argila
contendo aterros na região sul da Mesopotâmia
(Iraque) construídos por sumerianos entre 3.200
e 2.800 a.C. (Kinder e Hilgemann, 1964). Obras
construídas seguindo preceitos cie engenharia
moderna começaram a surgir apenas no início do
século 18, frutos de trabalhos de engenheiros franceses.
De fato, a engenharia moderna dc obras de
contenção iniciou-se com o trabalho de Coulomb
publicado em 1776, sobre regras de máximos e
mínimos aplicadas a estrutura de arrimo, o que
causou enorme impacto na concepção destas estruturas.
O desenvolvimento desta ciência, naquela
época, fora motivado pela expansão colonizadora
européia, iniciada no século 16, que requereu
a construção de diversas estruturas de defesa e
fortificaçòes militares, em locais e terrenos os mais
variados possíveis, em quase todos os continentes
da Terra. Foram estes tipos de estrutura as primeiras
obras de contenção a serem introduzidas
no Brasil no século 18 (fortes costeiros) e que tiveram
seu uso expandido para obras portuárias e
de contenções urbanas no século 19. na Bahia c
no Rio de Janeiro, com a vinda da Corte portuguesa.
A difusào deste tipo de estrutura no Brasil
só iria ocorrer no século 19, com a expansão das
obras ferroviárias particulares (Imperial Estrada dc
Ferro dc Petrópolis, 185-1) e estatais (Companhia
Estrada de Ferro Dom Pedro II. 1864).
13.3 EMPUXOS LATERAIS
13.3.1 Empuxo em Repouso
O capítulo 2 deste livro apresentou, com
minúcia, uma discussão sobre várias propriedades
do solo que condicionam o comportamento
das estruturas dc contenção. Foi dado destaque
especial a parâmetros de resistência e
deformabilidade de diversos solos brasileiros.
Um parâmetro particular, entretanto, merccc ser
revisto, já que possui importante influência no comportamento
Jc obras de contenção. Trata-se do
coeficiente Ko, definido como a relação entre as
tensões efetivas horizontal e vertical no solo, em
cond;çào dc deformação lateral nula. Trata-se dc
uma grandeza de determinação prática difícil seja
em laboratório, seja no campo. A importância dc
Ko nas cargas sobre uma estnitura de contenção
pode ser depreendida do exame da Fig. 13.2, obtida
dc ensaios triaxiais drenados saturados, cm uma
argila normalmente adensada isotrópica e
anisotropicamcnte, submetida â extensão lateral c
à compressão lateral (ensaios dc Ladd, 196 í, reproduzidos
por Lambe e Whitman, 1969). Nota-se
que enquanto as deformações laterais forem limitadas.
ou seja, enquanto sc estiver longe tios estados
limites de ruptura ativa ou passiva, as tensões
laterais dependem muito do valor inicial de Ko.
4?2
1
Ko^
4 8 p(Kg/cm 2 )
Á
K o« -1 K< 5 =
0. 3
I
Ko=1/3
Kp=3
-5 0 +10 +20
DEFORMAÇÃO HORIZ. %
Fig. 13.2 - Coeficiente de empuxo e deformações
laterais em ensaios triaxiais
E c urioso notar que este fato simples nào é reconhecido
rua prática. l'm levantamento da prática dc
projeto dc valas c túneis no Brasil (Negro c I.citc,
199-0 revelou que Ko nào é considerado um
parâmetro relevante no projeto destes tipos de estrutura.
Isto é justificado, cm parte, pela tendência
de sc projetar contenções por teorias de Estaco Limite
dc Ruptura. E isto explica cm parte porque tão
pouco sc empenha na investigação do estado de
tensões in situ no Brasil. A isto soma-se o fato de
que os solos tropicais tendem a apresentar características
com apreciável dispersão, o que dificulta a interpretação
dc investigações pontuais dc lalx>ratórb.
No laboratório a determinação dc Ko pode ser
direta, através dc cdômctros ou células triaxiais
(Bishop, 1958 c Bishop c Henkel. 1962;. Pode ser
também indireta, através da medição da variação
da pressão neutra no solo provocada pela
amostragem (Skcmpton, 1961). A grave limitação
destes métodos reside na necessidade de
amostragem e na impossibilidade prática dc se conseguir
uma amostra perfeita. Massad (1981) realizou
medições dc Ko em solos sedimentares
terciários dc Sào Paulo em células triaxiais c apontou
as dificuldades encontradas. Notou-se que o
Ko dos solos da bacia sedimentar de Sào Paulo
parccc estar associado nào apenas ao
sobreadensamento pelo alívio de peso de terra
erodido, mas ser ligado também à evolução
pedológica, ao teor de argila, aos ciclos dc secagem
c umedccimcnto tios solos (ação das tensões
capilares).
Os casaios tle campo para determinar Ko contornam
o problema da amostragem mas esbarram
cm outros (o efeito da perfuração, os custos elevadas
etc.). Bjerrum e Andcrscn (1972) propuseram
o uso de fraturamento hidráulico para ensaios, em
solo finos, semelhante a ensaios conduzidos em
rochas. Esta técnica é válida apenas para solos argilosos
normalmente adensados com Ko inferior a
1. O pressiômetro Camkometer permite a determinação
dc coeficientes dc empuxo cm repouso cm
furos tle sondagem (ver Pinto e Abramcnto, 1995).
O dilatômetro de Marchetti é outro instrumento
que permite a avaliação de Ko através da sua cravaçâo
em furos dc sondagem (ver Marchctti, 1980.).
Ensaios deste tipo vêm sendo executados cm solos
do Rio de Janeiro. Sào Paulo c Brasília, com
algum SUCCSM>. Mais detalhes sobre técnicas tltcampo
para determinação de Ko podem ser encontradas
em Jamiolkowski et al. (1985).
Um outro procedimento que é empregado para
avaliação de Ko é o uso de retroanálises dc desempenho
medido de escavações em solo. Este méiodo
é preferido cm projetos que empregam o Método
Obscrvacional. Negro (1988) obteve, por retroanílise
da instrumentação dc cargas e deslocamentos de
um túnel, Ko igual a 0,75 para os solos variegados
do Tcrciário dc Sào Paulo. Casarin (1996) obteve,
por processo análogo. Ko igual a 1,0 para as argilas
siltosas cinza, rijas a duras tia Formação Resende em
Suo Paulo (Taguá). Avaliações por retroanálise parecem
ter a preferência de muitos (v. Negro e Leite,
1991) e sào justificadas por Massad et ai (1992:172).
Na prática de projeto, é usual estimar Ko por correlações
empíricas, como a dejaky para areia e argilas
normalmente adensadas.
Ko - 1 - seníp' (1)
ou como a de Mayne e Kulhawy (1982) para solas
pré-adensados, que apresenta Ko como função tio
ângulo de atrito e da razão de sobreadensamento
(RSA) do solo:
Ko - (1 - sentp') RSA^ (2)
Tais correlações fornecem indicações para o valor
de Ko a adotar num projeto. Entretanto, o
balizamento definitivo para escolha de Ko vem
do estudo de antecedentes, de projetos e investigações
anteriores, em condições de semelhança
ao caso em apreço.
tmturas que satisfazem condições de deformações
mínimas <CDM) exigíveis ao desenvolvimento
completo de estados de tensão de cedência no
solo (estados de Rankine, ativo ou passivo), ilustrados
na Figura 13.1. As deformações mínimas
necessárias à mobilização destes estados plásticos
sào indicadas na Tabela 131. adaptada a partir
de Wu (1975), que se baseou em dados dc
Tabela 13.1 | Deformações mínimas para mobilização de
estados plásticos (baseado em Wu. 1975J
Solo Estado Movimento
Í8/H)
mínimo %
Areia
Ativo translação 0.1
rotação no pé 0.1
Passivo translação 5.0
rotação no pé > 10.0
Argila
Ativo translação 0.4
rotação no pé 0.4
13.3.2 Teorias de Estados Limites
de Rupturas
No capítulo 5 foram definidos Estados Limites
de uma estrutura. A Fig. 13 3 apresenta uma classificação
das teorias dc estados limites, divididas
que sào entre as que focalizam estados limites de
rupturas, correspondentes a condições de colapso,
e as que enfocam condições limites de utilização
e que dependem, portanto, da magnitude dos
deslocamentos associados.
O primeiro gmpo de teorias sào aplicáveis a es-
IIKXICIOS reduzidos. Trata-se de tecrias que possibilitam
o cálculo dos empuxos laterais de solo
sobre as estruturas de contenção, c que adotam a
hipótese de que o terreno esteja em condição de
ruptura, isto é. em condição de equilíbrio plástico.
Os conceitos envolvidos nestas teorias foram
revistos de uma forma geral no capítulo 5 deste
livro e nào serão aqui discutidos. Limita-se aqui a
rever alguns aspectos particulares deste gni[>o de
Teorias de Estados Limite
i
Limite de Ruptura
(CDMJ
Limite de Utilização
(NCDM)
I
Rigorosas
Não Rigorosas
Exatas
Numéricas
Semi
Empíricas
Empíricas
Exatas
Numéricas
Elasticidade
Rakine Características Coulomb
Prandtl de tensões Fellemus
Análise limite Rendulic
Janbu
Molas
(Winkler)
Elementos finitos
Diferenças finitas
Campos associados
Teoria Geral das
Cunhas (ex. Terzaghi.
Ohde, Brinch Hansen)
Tschebtarioff
Terzaghi
Rowe
Blum
Terzaghi c
Peck
Peck
Massad e al
Figura 13.3 - Classificação das Teorias de Estados Limites
teorias aplicadas ao problema de estruturas de
contenção.
As teorias dc Estados Limites de Rupturas podem
ser divididas cm soluções rigorosas c em soluções
nào rigorosas. No primeiro subgrupo enquadram-se
soluções da Teoria da Plasticidade,
que preenchem todos os requisitos teóricos da
plasticidade e ao segundo as que não atendem
um OJ mais requisitos. No primeiro subgrupo encontram-se
duas classes: as soluções exatas c as
soluçães numéricas, aproximadas.
A teoria mais famosa da primeira classe é a de
Rankine, que requer extensão ou compressão lateral
do solo, para mobilização de um estado geral
ou local (cunha) de plastificaçào. Isto é conseguido
pela translaçâo ou rotação da estrutura vertical
dc contenção. Atinge-se um estado limite, ãs
vezes descrito por estado de "Equilíbrio Limite".
Cl ia ma-se Equilíbrio Limite o que resulta da satisfação
simultânea das condições de equilíbrio estático e
de niptura. O critério dc niptura mais comumentc utilizado.
na prática, é o dc Mohr Coulomb.
Teoria de Rankine (caso geral de empuxo ativo
para solos com atrito e coesão e sobrecarga uniformemente
distribuída — Ranzini. 1988). Exemplo
de aplicação de equilíbrio limite é a Teoria de
Rankine, cujas fórmulas podem, também, ser
deduzidas a partir de considerações geométricas
baseadas no círculo dc Mohr.
Considere-se a Figura 13.4, na qual se representa
um estado plano de tensão atuante num plano paralelo
â superfície livre, inclinada de um ângulo p
com c horizontal, no interior de um maciço homogêneo
de peso específico y, semi-infinito, com sobrecarga
superficial q uniformemente distribuída.
O vetor p = (y.z + q) cos p que representa a tensão
resultante num plano paralelo à superfície livre situado
a uma profundidade z está representado pelo
segmento OI cujas coordenadas são: az c TZ . A
condição de equilíbrio estático fica imposta pelo
fato ce o ponto I pertencer a um círculo de Mohr.
Esse equilíbrio será limite se o círculo de Mohr
passante pelo ponto I for tangente à envoltória de
ruptura que faz um ângulo <p com o eixo dos a, na
representação ao lado. Tal condição se expressa
pela igualdade entre o raio do círculo de Mohr de
equilíbrio e a distância do centro desse circulo à
envoltória de ruptura, isto é:
(az - xy + x; = (X + c. cot <p) 2 . sen 2 (p(3)
em que X é a abeissa procurada do centro do círculo
que satisfaz à condição de equilíbrio limite.
Resolvendo para X, chega-se ã equação:
X 2 - 2(p.cos p/cos 2 tp + c. tan cp).X +
+ (p 2 / cos 2 (p - c 2 ) = 0 (3a)
Cuja solução é:
X = B - ^b 2 - d) (para o caso de empuxo
Em que:
ativo)
B = p. cos (5/ cos 2 (p + c tan (p (4
D «= p 2 / cos 2 (p - c 2 (5)
Conhecida a abeissa X, obtém-se:
p a = 2.X. cos p - p (6)
que é a tensào dc empuxo ativo atuante no p ano
vertical conjugado ao plano de atuação de p, representada,
na Figura 13-4, pelo segmento OP j
cujas coordenadas são:
a
= + p a. cos P
\ - ' P a • sen p
componentes normal c tangencial da tensão de
empuxo ativo, no ponto considerado, em função da
profundidade z e dos parâmetros geotécnicos c; <p e y
Para que a soluçào seja possível há a restrição
seguinte:
z <= c / (y.cos 2 p.(tan p - tan tp)) - q / y (7)
Casos
Particulares:
a. Maciço não coesivo (c • 0)
Se nas expressões (2) e O) se fizer c - 0 a expressão
(4) se transforma na conhecida fórmula de Rankine:
ícos b - ^(cos :
(J -cos J
PJ =P/ 1, ==r (6a)
leos b + ^(cos 1 P - cos 1 <?) I
b. Maciço não coesivo com superfície livre
horizontal
Fig. 13.4 - Tensões de Equilíbrio Limite
(C = 0) c (p - 0):
p j - p (1 - sen <p) / (1 + sen <p)
(6b)
Ainda no grupo das soluções rigorosas destacamse
as soluções numéricas como o método das características
de tensões, muito usado por Sokolovsky
(1965). Pressupõe-se que toda a massa dc solo em
deformação plana esteja em condição de Estado
Limite de Ruptura. Wroth (1972) mostrou que é
possível estender este método às condições dc
mobilização parcial da resistência do solo, o que
permitiria seu uso para estruturas que nào satisfazem
condições de deformação mínimas (NCDM
- Estados Limites dc Utilização).
Os teoremas da plasticidade, dos Limites Inferior c
Superior, permitem soluções que sc designam por
Análise Limite, como apresentado por Gudehus
11972), para cálculo das cargas de colapso em estai
tu ras de contenção.
Dentre as soluções nào rigorosas, a dc Coulomb
é a mais conhecida. Trata-se de solução nào rigorosa
por desprezar o efeito do atrito contençàosolo
na rotação das tensões principais. Este efeito
e mais pronunciado no modo passivo dc ruptura
que no ativo (ver Clayton et c/l., 1993), tendendo
a curvar a superfície de ruptura, o que é desprezado
por Coulomb.
Teoria de Coulomb — A chamada teoria dc
Coulomb, para o cálculo dos empuxos sobre arrimos,
na condição de equilíbrio limite, foi
estabelecida em P76, tendo sido recentemente
estendida por Stanciu, A. (1990) para o caso dc
maciço com coesão, adesão e atrito, com superfície
livre inclinada e sobrecarga uniformemente
distribuída, além de efeitos sísmicos. No texto apresentado
por Stanciu inclui-se um programa para o
cálculo dos empuxos ativo e passivo.
desenvolvimentos relativamente recentes da Universidade
de Cambridgc. Por este processo associamse
soluções pelo método das características de tensões,
com as características de velocidade ( v. Wroth
1972) e obtém-se um conjunto de equações diferenciais
que, quando integradas numericamente
(por diferenças finitas, por exemplo), permitem a
obtenção dos empuxos nas estruturas de contenção
e das deformações no solo. Este processo permite
levar as análises a níveis de deformações que
em métodos tradicionais implicariam em problemas
de convergência numérica.
O terceiro subgmpo inclui os métodos semiempíricos,
que utilizam alguma formulação teórica
aproximada, nào rigorosa, associada a elementos
c dados extraídos de ensaios em modelos
reduzidos, ou até mesmo de observações em
protótipos. Aqui se incluem a Teoria Geral das
Cunhas de Terzaghi (1941) e as Teorias de Cortinas
Atirantadas (por exemplo: Tschebotarioff, Terzaghi.
Rowc, Blum — ver cm Clayton et al., 1993).
O último subgmpo corresponde a todos os procedimentos
empíricos, que nào utilizam nenhuma fomuilaçâo
teórica, mas simplesmente baseiam-se em dados
de ol>scrvação tle empuxos cm con.cncões dc valas
escoradas. H o caso cios diagramas de envoltória de
empuxos para argilas c areias, cie Terzaglii e Peck (1967),
dc Peck (1969) e para solos lateríticos de Massad et
al. (1985), ver Figura 13.5. Vale aqui notar a grande
diferença entre as envoltórias aparentes propostas
pelas últimos e as propostas por Terzaghi e Peck
(1967) para argilas rijas (empuxos máximos de 8%
de yl I contra 20 a 40%). Especula-se se os motivos
destes resultados sào atribuíveis a peculiaridades dos
solos tropicais ou aos métodos e seqüências de constniçào
da escavação escorada que aqui se emprega.
13.3.3 Teorias de Estados Limites
de Utilização
(A)
<A>
O segundo grupo de teorias (Fig. 13 3) é aplicável
a estruturas que nào satisfazem condições de
deformações mínimas (NCDM) e que, portanto,
envolvem plastificaçào parcial do solo (regime
elastoplástico) ou nào envolve plastificaçào (regime
elástico). Quatro são os subgrupos destas teorias.
O primeiro envolve soluções exatas, obtidas
analiticamente, como a de Finn (1963). que permiti*
o cálculo dos empuxos num muro de arrimo
que translada ou roda ao redor do topo, contendo
um maciço elástico linear.
O segundo subgmpo inclui soluções numéricas
de forças-deslocamcntos como as de molas (tipo
Winkler), as de elementos finitos e as de diferenças
linitas. Permitem a adoção dc leis constitutivas quaisquer.
lineares ou nào lineares. Possibilitam o que alguns
designam por cálculo "evolutivo" da estrutura de
contenção, tradicionalmente descrito por cálculo
incrementai, que leva cm conta a nào linearidade geométrica
permitida pelas análises incrementais.
Dentre as soluções numéricas cabe mencionar
o método dos campos associados, produto de
•o
c
3
s
a.
Empuxo da torro aparenta 0.08 8 H^
0 0.05 0.010 SH
ES0
KO.SIH)] |
0.5H
ES6
-j
r 1
I I
ÍJ1
j j
• IT
i— 1 i
L_ i
; ESi
(0.59H) (0.5011)
ESZ (0.57H)|
1.0M L
ES - Seçflo Experimental
H - Profundidade da valo
( ) - Dlstflnclo do fundo da valo ao centro de presaOei
Fig. 13.5 - Envoltória de empuxos laterais cm solos
sedimentares terciários da cidade de S2o Paulo
Parece que existe campo para criação de um
quinto subgrupo de métodos que seriam aqueles
derivados numericamente. Nào se dispõe
ainda de um procedimento deste tipo, mas a
formulação pi oposta por Eiscnstein e Negro
(1985). semelhante a procedimento para túneis
rasos por aqueles autores, poderia dar
frutos e explicar em parte discrcpâncias que
se notam em métodos empíricos como citado
acima.
13.3.4 Discussão
Os dois itens anteriores tiveram por objetivo ilustrar
a diversidade de teorias e métodos disponíveis
para definição das cargas de solo em estruturas
de contenção e conseqüente dimensionamento.
A escolha da formulação mais adequada à
estrutura em questão é funçào de vários fatores.
O primeiro refere-se às características e tipo da
estrutura, o que implica sua capacidade dc atender
ou nào as condições de deformações mínimas
(CDM). Em tese, atendem as CDM, muros
de arrimo com fundação direta como os de gravidade,
os muros de flexào, os muros mistos,
os de contrafortes, os muros de gabiões, os "crib
walls". Quando estas estruturas são dispostas sobre
fundações profundas (estacas, tubulões) ou
quando sào "atirantadas", elas deixam de atender,
em tese, as CDM.
Também não atendem as CDM as cortinas rígidas
ou flexíveis, ancoradas ou não, os escoramentos
em geral (ancorados ou estroncados),
sejam provisórios ou definitivos, em madeira,
metálico-madeira, cstacas pranchas, paredes-diafragmas
e as estacas justapostas.
Em princípio, as teorias de Estados Limites
dc Rupturas deveriam ter aplicação exclusiva a
contenções que atendem as CDM e as teorias
de limite de utilização a estruturas que nào
atendem às CDM. Observa-se na prática, entretanto,
que nem sempre isto ocorre. Os motivos
para tanto sào vários, mas dois sào os mais
freqüentemente aludidos. Em primeiro lugar,
alega-se que as teorias de Limite de Ruptura
são mais simples tanto em sua formulação como
em termos de uso. Em segundo lugar, alega-se
que a incompatibilidade entre as cargas calculadas
com a hipótese de deslocamentos grandes
(isto é, superiores ao mínimo para assegurar
um estado plástico no solo) c a pequena
magnitude dos deslocamentos reais da estrutura.
deixa de existir com a introdução dc um
fator de segurança (F). Compatibilizam-se as
cargas na estrutura com os deslocamentos menores
que ela experimenta através deste fator,
cujo inverso (l/F) representa o grau de
mobilização da tensào cisalhante. aplicável
igualmente à coesão (c') e a tangente do ângulo
(cp ) de atrito do solo (Fig. 13.4).
r Tr C*+s' tg(p *
Tc Ce+StgÇc (7a)
onde Tr é a tensào cisalhante de ruptura e xe a de
equilíbrio, e
c
cc = —
F
tRCpc:
F
(8)
(9)
sào os parâmetros de cisalhamento no equilíbrio.
Em decorrência, os empuxos calculados para F >
1 seriam correspondentemente maiores na ccndiçào
de plastificaçào ativa e menores na condiçào
passiva. Esta é a proposta de Janbu (1972), cujos
resultados dc sua teoria sào reproduzidos na Figura
13.6. Dentro desta ótica, não haveria sentido
em se prescrever fatores de segurança superiores
a Fo, que no caso de solos normalmente adensados
(areias ou argilas) vale:
Fo = tanç»' 2 tan<p' VKÕ
Um ç l-Ko ^ l + scnp*
(10)
lembrando que Ko - tg í (45+(po/2) e desde que
seja válida a equação (1). Notar que 1/Fo seria o
grau de mobilização do cisalhamento na condiçào
de repouso e por este motivo o fator de segurança
F de projeto não deveria ser superior a Fo
(i.e. Fo>F>l). Isto vem reforçar a importância de
se conhecer o valor correto do empuxo em re-
PASSIVO
ATTVD
F P-XpP v.
Zp-jUanJ^
PA
z A -r tan Y ^
ton t* - r tan f'
Fig. 13.6- Coeficientes dc empuxo lateral cm
areias (Janbu, 1972J
pouso do solo c seu ângulo dc atrito mobilizado
epo na condição dc repouso.
Dc qualquer maneira, com o procedimento acima,
garante-se apenas parcialmente a compatibilidade
entre deslocamentos e cargas. A rigor isto
só é feito através das teorias dc Limite de Utilização,
que incluem soluções numéricas. Estas são
utilizadas na prática brasileira atual apenas raramente,
mesmo cm estruturas que claramente não
atendem â condição dc deformação mínima como
valas escoradas e cortinas atirantadas. O levantamento
da prática de projeto de muros escorados
com estroncas ou tirantes realizado por Negro e
Leite (1994) revelou que 70% dos casos são tratados
por processos empíricos ou semi-cmpíricos
e em apenas 30% dos casos se empregam modelos
numéricos dc mola. Ao contrário do projeto
dc túneis, os métodos numéricos bidimensionais
dc meios contínuos, como o de elementos finitos
ou diferenças finitas, nunca são aplicados no
projeto dc estruturas de contenção. Sáo estes
métodos numéricos que melhor propiciam
otimizações de projeto ou revisões de hipóteses,
através dc retroalimcntações dc instrumentação
de campo, o que os fazem atrativos nos projetos
de túneis.
Medições de deslocamentos são rotineiras e baratas,
em oposição âs medições de cargas. Logo,
retroanálises de deslocamentos permitem avaliações
de carga por processos numéricos e assim
possibilitam o confronto com premissas ou
parâmetros de projeto. Isto dá ensejo à
otimizações e economias que são usuais no acompanhamento
técnico de escavações subterrâneas
e não ocorrem em obras dc contenção
estroncadas ou atirantadas. Acrcdita-se que este
estado atual da prática seja mais reflexo de tradições
arraigadas do que dc convicções técnicas
da comunidade brasileira e, assim sendo, existe
espaço para evoluções e aprimoramentos.
O item 13-3 deste Capítulo é encerrado aqui,
limitado que foi à análise dos empuxos laterais
produzidos pelo solo. Outros são os agentes que
geram carregamentos laterais importantes nas estruturas
de contenção. A água do subsolo é um
deles c as sobrecargas acidentais ou permanentes
são outros. A ação destes agentes no carregamento
da estrutura será objeto de comentários no item
13-5 c nos dois Capítulos subseqüentes a este. Sào
comentados também os efeitos da compactação do
reaterro atrás de muros dc arrimo.
13.4 Estruturas de contenção
13.4.1 Preâmbulo
Cabem aqui algumas definições e comentários
sobre processos executivos.
Contenção é todo elemento ou estrutura destinado
a contrapor-sc a empuxos ou tensões geradas
cm maciço cuja condição dc equilíbrio foi
alterada por algum tipo dc escavação, cortc ou
aterro.
Muros são estruturas corridas de contenção constituídas
de parede vertical ou quase vertical apoiada
numa fundação rasa ou profunda. Podem ser
construídos cm alvenarias {de tijolos ou pedras)
ou em concreto (simples ou armado) ou ainda,
de elementos especiais. Sua fundação pode ser
direta, rasa e corrida ou profunda, em estacas ou
tubulòes.
Escoramcntos são estruturas provisórias executadas
para possibilitar a construção dc outras obras.
São utilizados mais comumente para permitir a
execução dc obras enterradas ou o assentamento
dc tubulações embutidas no terreno.
Cortinas são contenções ancoradas ou apoiadas
cm outras estruturas, caracterizadas pela pequena
deslocabilidade.
Reforços do terreno^ como sc verá no Capítulo
18, sào construções cm que um ou mais
elementos sào introduzidos no solo com a finalidade
dc aumentar sua resistência para que
possa suportar as tensões geradas por um desnível
abrupto. Nesta categoria enquadram-se o
Solo Reforçado, a Terra Armada c o Solo Grampeado
ou Pregado.
13.4.2 Muros
a. Tipos
Muros de Gravidade são estruturas corridas, massudas,
que se opõe aos empuxos horizontais pelo
peso próprio. Em geral sào empregadas para conter
desníveis pequenos ou médios, inferiores a
cerca dc 5 m
Podem ser construídos de concreto simples,
ciclópico ou com pedras, argamassadas ou não.
Muros "Atirantados" são estruturas mistas cm
concreto e alvenaria de blocos de concreto ou
tijolos, com barras quase horizontais, contidas em
planos verticais perpendiculares ao paramento do
muro, funcionando como tirantes. amarrando o
paramento a outros elementos embutidos no maciço,
como blocos, vigas longitudinais ou estacas.
São coastruçõcs dc baixo custo utilizadas para alturas
até cerca dc 3 m.
Muros de Flexãosào estruturas mais csbeltas,
com secção transversal em forma de "L" que resistem
aos empuxos por flexào, utilizando parte
do peso próprio do maciço arrimado, que se
apóia sobre a base do ~L", para manter-se em
equilíbrio. No mais das vezes sào construídos
em concreto armado, tornando-se, em geral,
antieconômicos para alturas acima de 5 a 7 m
(Fig. 13.7).
Fig. 13.9- Muro de gabiões
Fig. 13.7- Muro de flexào
Mistos - Sào muros com características intermediárias
entre os supra citados, que funcionam, portanto,
parcialmente pelo peso próprio e parcialmente
a flexào, utilizando parte do terrapleno como peso
para atingir uma condiçào glolxtl de equilíbrio.
Muros dc Contrafortessão os que possuem elementos
verticais de maior porte, chamados contrafortes
ou gigantes, espaçados, em planta, de
alguns metros, e destinados a suportar os esforços
de flexào pelo engastamento na fundação. O
paramento do muro. nesse caso, é formado por
lajes verticais que se apoiam nesses contrafortes.
Como nos muros de flexào, o equilíbrio externo da
estnitura é conseguido tirando-se proveito do peso
próprio do maciço animado, o qual se apóia sobre
a sapata corrida ou laje de fundação. A diferença em
relação aos muros de llexào é essencialmente estnitural
• Fig. 13 '*). Os gigantes ou contrafortes podem
ser construídos para o lado externo do paramento
vertical ou embutidos no terrapleno animado.
Muros dc GabiÕes (do indiano Gabbioni =
Gaiolòes) sào muros de gravidade constniídos pela
Fig. 13.8 - Muro de contrafortes
superposição de "gaiolòes" de malhas de arame
galvanizado cheios com pedras cujos diâmetros
mínimos devem ser superiores à abertura de malha
das gaiolas. São empregados para faixas de
alturas da mesma ordem de grandeza das dos
muros dc gravidade (Fig. 13 9).
"Crib Wall" (Parede de engradados) sào estruturas
formadas por elementos pré-moldados de concreto
armado ou de madeira ou aço, que são montados
no local, em forma de "fogueiras" justapostas
e interligadas longitudinalmente, cujo espaço
interno é cheio de preferência com material granular
graúdo (Fig. 13.10).
b. Processos Executivos
Sempre que uma estnitura de arrimo deva conter
um terrapleno é importante ter em mente que
tal terrapleno deve ser constando de modo a atender
a condições conflitantes, porque, deve ser adequadamente
compactado para que a região que
contenha a superfície potencial dc ruptura possua
resistência ao cisalhamento nào inferior à que foi
adotada no cálculo dos empuxos. Essa compactação,
porém, na vizinhança do paramento interno
do muro, nào deve ser tào intensa a ponto de criar
tensões horizontais superiores às do projeto (ver
item 13.5.4). Em outras palavras, uma compactação
exagerada junto ao paramento de estruturas de
arrimo pode elevar os empuxos horizontais acima
dos níveis dos empuxos ativos e mesmo de repouso.
Por outro lado, uma compactação deficiente,
na zona em que se situa a superfície poten-
ciai de ruptura, também pode levar a empuxos
mais elevados por motivo oposto, ou seja, pelo
fato de não desenvolver no maciço suficiente resistência
ao cisalhamento.
Muros de Gravidade são construídos quando se
dispõe de espaço para acomodar sua seção transversal
cuja largura é da ordem de 40% da altura a
ser arrimada. São mais comumente construídos para
conter cortes verticais no terreno, pelo fato de poderem
ser executados em trechos no interior de
"cachimbos" que são escavações de largura cm geral
não superior a 1,5 m, com faces verticais. Tais cachimbos
permitem que a escavação se processe
parceladamente, evitando o desconfinamento total
do terreno e abrindo espaço para constmir o muro
em trechos sucessivos até sua conclusão.
Muros de gravidade podem, também, ser
constmídos para conter terraplenos, devendo, neste
caso, ser executados integralmente para receber
o maciço ao final de sua construção ou à medida
que forem sendo erguidos.
Devido ao fato de serem estruturas pesadas sào.
quase sempre, escolhidas quando se dispõe de terreno
de boa capacidade de carga, capaz de suportar
as tensões máximas na fundação em sapata corrida.
Muros "Atirantados" sào estruturas de baixo custo,
para pequenas alturas, a serem construídas sempre
que os assim chamados "tirantes" (de armadura
envolvida em concreto) nào possam vir a
tornar-se obstáculos para obras futuras. Dependendo
das condições do solo dc fundação e da
altura do arrimo, podem apoiar-se em sapata corrida
ou em estacas ou mesmo em brocas.
Muros dc Flexão, dc Contrafortes c Mistos destinam-se
a conter terraplenos que devem ser
compactados adequadamente sobre a sapata ou
bloco de fundação. Exigem espaço para execução
das fundações cuja largura, no caso de se tratar
de sapata corrida é. em média, da ordem de
40% da altura a ser arrimada.
Com fundação direta, em geral a condição crítica
de equilíbrio é a relativa à translaçào, o que
pode exigir a constmçáo de um dente vertical na
fundação para mobilizar uma parcela maior de
resistência a esse deslocamento. Podem ser apoiados
em estacas verticais e/ou inclinadas, dependendo
das características do solo de fundação.
Muros de Gabiõcssào formados por gaiolas que
sào caixas prismáticas feitas de tela de arame galvanizado
cheias com pedras de mão. Suas características
principais sào a flexibilidade, que permite
que tal estrutura sc acomode a recalques diferenciais,
e a permeabilidade.
Sào construídos posicionando-se os gabiòes no
local em que deverão ficar, enchendo-os com pedras
de mão para formar as sucessivas fiadas que
formarão um arrimo de gravidade.
"Crib-WalLs" sào construídas montando-se as peças
pré-moldadas das sucessivas "fogueiras", no
próprio local e enchendo os espaços centrais, de
preferência, com material granular graúdo (brita
grossa ou pedras de mão). São estruturas capazes
de se acomodar a recalques das fundações e funcionam
como arrimos de gravidade.
d. Influência da água
A influência da água é marcante na estabilidade
de uma estrutura de arrimo, basta dizer que o
acúmulo de água, por deficiência dc drenagem,
pode chegar a duplicar o empuxo atuante.
O efeito da água pode ser direto, resultante do
acúmulo de água junto ao tardoz interno do arrimo
e do encharcamento do terrapleno, ou indireto,
produzindo uma redução da resistência ao
cisalhamento do maciço em decorrência do acréscimo
das pressões intersticiais.
O efeito direto é o de maior intensidade, podendo
ser eliminado ou bastante atenuado por
um sistema eficaz de drenagem.
Todo cuidado, portanto, deve ser dispensado ao
projeto do sistema dc drenagem para dar escoamento
a precipitações excepcionais, com folga, e para
que a escollta do material drenante seja feita de tal
modo a impedir qualquer possibilidade de colmataçào
ou entupimento futuro.
e. Sistemas de drenagem
Os sistemas dc drenagem devem ater-se aos seguintes
princípios básicos:
i) Impedir o acúmulo de água junto ao tardoz
interno do arrimo.
ii) Tanto quanto possível fazer com que a rede
de percolação tenha linhas de fluxo verticais, na
região da cunha potencial de ruptura.
iii) Ter sistema drenante que seja, também,
filtrante, para afastar o perigo dc colmataçào ou
entupimento que resultariam cm perda parcial ou
total da eficiência do sistema de drenagem, impedindo,
também, o carreamento do maciço animado
através dos barbacàs ou buzinotes.
iv) Prcx:urar separar o sistema de coleta e desvio
das águas que escoam pela superfície do terreno, das
que, infiltrando-se, irão atingir o sistema interno de
drenagem, para evitar vazões elevadas ^ o carreamento
de detrito:; para o sistema interno de drenagem.
13.4.3 Escoramentos
a. Tipos, Métodos de Construção
Os escoramentos compõem-se, de um modo
geral, dos seguintes elementos: "paredes",
"longarinas", "estroncas" e "tirantes".
Parede é a parte em contato direto com o solo a
ser contido. E, mais comumente, vertical e formada
por materiais como madeira, aço ou concreto.
Quando formada por pranchas de madeira, pode
ser contínua ou descontínua, como se verá adiante.
Longarina 6 um elemento linear, longitudinal,
em cjue a parede se apoia. Em geral é disposta
horizontalmente e pode ser constituída de vigas
de madeira, aço ou concreto armado.
Estroncas ou esc oras sào elementos de apoio das
longarinas. Dispòem-se, portanto, no plano horizontal
das longarinas, sendo perpendiculares às mesmas.
Podem ser constituídas de barras de madeira ou aço.
Tirantes são elementos lineares introduzidos no
maciço contido e ancorados em profundidade por
meio dc um trecho alargado, denominado bulbo.
Trabalhando a tração, podem suportar as
longarinas cm lugar das estroncas, quando essa
solução for mais adequada ou econômica.
Os escoramentos podem ser classificados de
acordo com os materiais empregados em sua construção.
Assim:
Madeira
Escoramentos de madeira são mais comumcntc
usados para contenção de paredes de valas destinadas
ao assentamento de tubulações de redes
finas dc água ou esgotos. Não c comum seu emprego
para profundidades superiores a 3 m a 4 m
. Podem ser construídos com pranchas verticais
ou horizontais, dependendo do solo a ser contido
e da profundidade a ser atingida.
Pranchas Verticais — As paredes com pranchas
verticais são utilizadas para escoramento de valas.
As pranchas verticais vão sendo cravadas à medida
que a escavação avança, de modo a manter uma
"ficha" para apoio, abaixo do fundo da escavação. A
partir dc uma profundidade dc escavação acima da
qual as pranchas não podem mais suportar a flexão
devida aos empuxos laterais do terreno colocam-se
longarinas que sào peças longitudinais dispostas dc
cada lado da vala, num plano horizontal e que dão
suporte às pranchas verticais, funcionando como
vigas que se apóiam em outras peças transversais,
denominadas "estroncas". As estroncas sào peças perpendiculares
às longarinas, espaçadas o suficiente
para permitir as operações de escavação e descida
dos trechos dc tubos. São as peças dc maior responsabilidade
no escoramento e são dimensionadas para
a fiexo compressão e à flambagcm.
Notc-sc que as longarinas c estroncas sào mantidas
em posição apenas pelo atrito no contato com as
pranchas verticais, desenvolvido pelo encunhamento
das estroncas contra as longarinas, permitindo que
as pranchas verticais sejam percutidas e cravadas
individualmente à medida que a escavação avança,
dc modo a obter a "ficha" necessária.
Dependendo das características geotécnicas do
maciço c do fluxo de água do lençol freático, as
pranchas devem formar uma parede contínua, podendo
também, em situações favoráveis, deixar
espaços intercalados. Por esse motivo tais
escoramentos sào conhecidos no meio técnico
como "Contínuos" ou "Descontínuos".
Err. casos de solos Unos, nào coesivos (areias e
siltes), em que haja necessidade de evitar
carreamento de material, as pranchas verticais podem
ter encaixes "macho-fêmea", sendo esse tipo
de escoramento chamado de "Especial".
Para situações dc valas rasas cm solos coesivos,
é comum utilizar-se apenas um "Ponteleteamcnto",
que consiste no emprego de um escoramento
descontínuo, reduzido a pares de pranchas verticais
opostas, espaçadas e fixas apenas por
estroncas, dispensando-se as longarinas.
A própria descrição dos tipos de escoramento citados
fornece elementos suficientes para sua execução,
calx.*ndo apenas dizer que as pranchas verticais
podem ser cravadas manualmente, com auxílio de
marreta ou com o emprego de martelete pneumâtico.
Pranchas Horizontais—São principalmente utilizadas
no caso dos escoramentos tipo berlinense,
encaixadas entre as abas de perfis T metálicos
verticais, como será visto adiante.
Metálico-Madeira
Sãc escoramentos constituídos dc perfis verticais
T de aço, cravados ao longo dos planos das faces
laterais das valas antes do início da escavação. A
al>ertura da vala é feita até atingir uma determinada
profundidade que possa ser contida pelos perfis
verticais, funcionando em balanço, e pelas pranchas
horizontais encaixadas cm suas abas. Nessa
profundidade são instaladas, comendo paralelamente,
de cada lado da vala, junto aos perfis verticais peças
horizontais denominadas longarinas, que passam a
suportar os perfis verticais e sào mantidas em posição
escoradas por outras peças horizontais, perpendiculares
às faces da vala encunhadas contra as
longarinas, denominadas estroncas (Fig. 13.11).
\ P C R F 1 S
/METAJJCO
SEÇÃO TRANSVERSAL
Fig. 13.11 - Escoramento metálico-madeira
As pranchas horizontais recebem o empuxo do
terreno e o transmitem às abas dos perfis verticais
que, por sua vez, se apoiam nas longarinas
mantidas em posição pelas estroncas.
Esse tipo de escoramento foi empregado na
construção do Metrô de Berlim, motivo pelo qual
6 conhecido também como "berlinense".
Cuidados Especiais — As pranchas devem sempre
manter contato íntimo com o maciço animado,
sendo forçadas, por meio de cunhas, contra o
solo para evitar vazios responsáveis por deslocamentos
do maciço com conseqüente abatimento
da superfície do terreno vizinho à escavação.
As estroncas, por sua vez, devem ser cncunhadas
contra as longarinas também para reduzir qualquer
possibilidade de deslocamento horizontal,
sempre prejudicial. Esses cuidados devem ser
redobrados quando houver construções dentro
de uma faixa dc largura igual à metade da profundidade
da escavação, a contar do bordo da
vala.
No caso de escoramento tipo berlinense ("metálico-madeira")
é preferível evitar a fixação das
pranchas por encunhamento entre as abas interna
e externa dos perfis, por que dessa forma
pode-se formar um vazio por trás das pranchas
sem que seja percebido. Ao contrário, se as pranchas
forem encunhadas entre a aba externa dos
perfis e o terreno, qualquer fuga de solo provocará
a queda das pranchas, mostrando imediatamente
o problema.
Fig.
PLANTA
SEÇÃO TRANSVERSAL
13.12- Parede diafragma
PAREOE
DlAFRAGMA
TIRANTC
Estacas Justapostas — Podem ser escavadas
(secantes ou tangentes) ou cravadas lado a lado
(com encaixe longitudinal ou nào), sendo utilizadas
para formação de paredes de contenção. Em
geral são solidarizadas por meio de vigas de amarração
ao longo de suas cabeças.
Especiais
Metálicos
Estacas-Pranchas são perfis de aço laminados
com seções planas ou em forma de U U" ou "Z",
com encaixes longitudinais, ou de concrcto armado,
com encaixes tipo "macho-fêmea", que permitem
constmir paredes contínuas pela justaposição
das peças que vão sendo encaixadas e cravadas
sucessivamente. Formam paredes com
estanqueidade limitada pela permeabilidade das
próprias juntas.
De concreto
Varecles-Diafragma sào caracterizadas pela
concretagem submersa feita com tremonha em trincheiras
escavadas, relativamente estreitas, cuja estabilidade,
durante a escavação, é obtida pela introdução
de uma suspensão de "bentonita" em
água. A suspensão estabilizante, denominada
"lama bentonítica", permite a introdução da armadura
e o enchimento da escavação com concreto.
As paredes-diafragma são construídas em trechos
contíguos de comprimentos da ordem de 2 a 3 m,
os quais sào escavados sucessivamente ou
alternadamente, conforme as características da
obra e do solo (Fig. 13.12).
"Jet Grouting" (v. Cap. 18) — É um processo
pelo qual ar, água e calda de cimento, numa combinação
adequada, sào injetados a pressões muito
elevadas, através de orifícios de alguns milímetros
de diâmetro, localizados na extremidade de
hastes compostas de um ou mais tubos conccntricos.
O jato produz um corte no solo misturandose
com a calda de modo a formar, pela rotação da
haste, uma "coluna" dc solo-cimento, embutida
no maciço, cuja dosagem pode ser regulada pela
composição da calda, pela variação da pressão do
jato e pelas velocidades de rotação e translação
da haste. A justaposição dc "colunas" pode formar
"pareces" para conter um maciço ou para permitir
a abertura de uma cavidade OJ vala.
b. Dificuldades de Execução—A principal dificuldade
comum aos vários tipos de escoramentos
é a eventual impossibilidade de se conseguir "ficha"
suficiente, o que leva à necessidade de se
criar um ou mais apoios horizontais (estroncas provisórias)
para contrabalançar os empuxos atuantes
nas várias fases de escavação.
A fuga de solos finos não coesivos situados abaixo
do nível do lençol freático é outra dificuldade
oriunda da falta de estanqueidade. Tal problema
pode ser evitado pelo rebaixamento adequado do
lençol freático por meio de sistema munido de
filtros capazes dc impedir o carreamento das partículas
sólidas. Quando tal carreamento nào é impedido
há a possibilidade da formação de vazios
com o perigo de colapso instantâneo ou dc
recalques imprevisíveis que podem ocorrer até pontos
relativamente distantes da vala. como no caso
de solos com lentes de areia ou calhas fósseis.
Em solos moles com o aprofundamento da escavação
há o perigo de atingir-se a profundidade
crítica em relação à ruptura de fundo. Além do
efeito imediato de recalque acentuado da superfície
lateral do terreno há o perigo de que o próprio
solo mole, erguendo-se do fundo da vala,
desloque as estroncas inferiores provocando o colapso
instantâneo do escoramento. Mesmo sem
atingir a condição de ruptura pode haver
sobrelevação do fundo da vala, provocando ondulações
e fissuraçào transversal em condutos enterrados.
Mais especificamente, no caso de pranchas verticais,
por exemplo, a maior dificuldade reside no
ajuste entre pranchas justapostas, tipo "macho-fêmea".
Para evitar fendas e aberturas, é importante
que haja uma seqüência de cravaçào que force
uma prancha contra o encaixe da que foi cravada
anteriormente. Isto se consegue por meio de
chanfro assimétrico das pontas das pranchas.
No caso de escoramento tipo metálico-madeira,
deve-se lembrar que as pranchas sucessivas
sào encaixadas entre os perfis metálicos, sempre
por baixo das pranchas já instaladas, de modo
que fiquem bem aderentes ao solo da parede da
vala quando encunhadas. Quaisquer vazios entre
o maciço e o pranchamento levam a incrementos
indesejáveis dos deslocamentos horizontais e verticais,
nas proximidades da vala.
O maior perigo, no caso dc paredes-diafragma
é a perda instantânea da "lama" bentonítica, que
pode ocorrer, por exemplo, quando a escavação
provoca o rompimento acidental de algum conduto
enterrado. Nesse caso, o reenchimento da
vala com areia deve ser imediato, para impedir
um colapso ao redor do elemento que está sendo
escavado.
No caso de emprego de "jet grouting ", dependendo
do tipo de solo e da qualidade da execução,
um problema é a irregularidade da parede da
escavação formada pela justaposição das "colunas"
de "jet grouting".
c. Escolha — A escolha do tipo mais adequado
de escoramento depende dos seguintes fatores:
Profundidade da vala ou escavação. Tipo de solo
(coesivo ou nào) e Resistência ao cisalhamento.
Dimensões e tipo de tubulação ou elemento a ser
enterrado. Existência ou nào de edificações ou
sobrecargas próximas. Profundidade do lençol
freático.
d. Detalhes de Execução — O detalhe mais importante
de execução advém do conceito de que
o escoramento deve, tanto quanto possível, suprir
o confinamento dado pelo próprio solo antes
da escavação, isto é, deve ser capaz de impedir
deslocamentos laterais além dos que ocorrem inevitavelmente,
no intervalo de tempo que decorre
entre a escavação e a instalação do escoramento
(ver item 13 5.5). Deve haver, portanto, duas preocupações
constantes, na execução de um
escoramento: a) a dc instalá-lo o mais rapidamente
possível, já que os deslocamentos laterais evoluem
no tempo, e b) a de evitar espaços vazios
entre a parede do escoramento e o maciço escorado.
Os deslocamentos se reduzem quando as
pranchas sào encunhadas contra o solo da parede
da escavação e quando sc aplica um esforço contra
o maciço, por meio dc um cncunhamento entre
a extremidade das estroncas e as longarinas.
Convém ainda lembrar que o efeito da temperatura,
principalmente cm escoramentos metálicos,
provoca variações sensíveis nos esforços atuantes,
principalmente nas estroncas, cujo
cncunhamento, portanto, deve ser reapertade sempre
que haja queda de temperatura após a instalação.
e. Controle da água; Rebaixamento do Lençol
Freático — Valas escoradas com pranchas não sào
estanques, razão pela qual provocam um rebaixamento
do lençol freático sempre que o interceptem.
A necessidade ou não dc se prever um sistema
próprio para rebaixamento do lençol prendesc
a dois fatores: 1) Vazões elevadas de água que
possam impedir ou dificultar a execução dos serviços.
2) Carreamento dc partículas sólidas para
dentro da vala que indiquem a possibilidade deformação
de vazios cujas conseqüências podem
levar a situações graves cm relação a edificações
existentes.
As duas situações ocorrem em solos nào coesivos
nos quais as vazões sào mais elevadas quanto
maior for o diâmetro efetivo (D 10) de seus gràos
e a possibilidade de carreamento que aumenta
quar to menor for esse diâmetro, sendo crítico esse
efeito em areias finas siltosas.
O sistema mais utilizado para rebaixamento do
lençol freático em valas é o dc ponteiras filtrantes,
para altura de sucção de até 5 m. Com alturas de
sucção maiores será necessário o emprego dc mais
de um estágio de ponteiras ou a utilização de ponteiras
especiais, com ejetores.
No caso de solos argilosos as vazões, cm geral,
sào reduzidas, podendo o controle das infiltrações
ser feito através de um sistema de valetas ou drenos
dc brita, que conduzam as águas para pequenos poços
de onde serão esgotadas por meio dc bombas.
f. Deslocamentos Induzidos. Danos a Edificações
Próximas — A demora na instalação do escoramento
e a deficiência de cncunhamento tanto das estroncas
como das pranchas, leva a maiores deslocamentos,
tanto laterais, nas paredes das valas, como verticais,
na superfície do terreno adjacente, devidos ao
desconfinamento do maciço escavado. Os deslocamentos
verticais ocorrem mais intensamente
numa faixa do terreno junto à vala, de largura da
ordem da metade da profundidade da mesma e
sáo decrescentes com o afastamento do bordo da
vala, dando origem a distorções nas edificações
que se situam dentro desses limites.
O efeito das distorções é maior nas paredes cujos
planos são perpendiculares às faces da vala, podendo
provocar fendilhamentos mais ou menos intensos
c extensos dependendo do tempo decorrido
entre a escavação e a instalação do escoramento,
do cuidado com os encunhamentos. da profundidade
da vala e do tipo de solo escavado.
A previsão dos deslocamentos e danos induzidos
é objeto dos itens 13.5.5 c 13.5.6 adiante.
g. Controles de Campo — Os controles de campo
podem ser diretos, isto é, relativos a medidas
de deslocamentos feitas no próprio escoramento,
ou indiretos, feitos nas edificações lindeiras às
valas, através da observação do fendilhamento e
de sua evolução no tempo.
O modo mais simples é o indireto feito por meio
da aplicacào de selos de gesso em pontos escolhidos
ao longo das fissuras surgidas em paredes
situadas dentro das faixas influenciadas pelos deslocamentos.
Métodos diretos sào mais precisos porém exigem
equipamento mais sofisticado como
extensômetros, inclinômetros. medidores de convergência,
nivelamentos dc prccisào, e devem ser
empregados sempre que haja estruturas importantes
e particularmente sensíveis a recalques e
distorções. Nesses casos devem ser controlados
os efeitos gerados pela variação da temperatura,
em escoramentos com peças metálicas.
Comentários adicionais sobre esse tema sào incluídos
no item 13.5.7 adiante.
13.4.4 Cortinas
Cortinas são contenções que, pelo fato de serem
ancoradas ou acopladas a outras estnituras,
mais rígidas, apresentam menor deslocabilidade
o que pode levar os maciços contidos a comportar-se
em regime elastoplástico, dando origem
a solicitações maiores do que as calculadas
no equilíbrio limite. Nessas condições, a
"rigidez relativa" da cortina tem influência na
distribuição e na intensidade dos empuxos sobre
a cortina, os quais, por sua vez, dependem
dos deslocamentos e das deformações na
interface "solo-cortina".
a. Deslocamentos — Os deslocamentos mais importantes
a serem considerados em cálculos de
verificação são os que decorrem de esforços cortantes
e de flexào, isto é, sào as flcxas das linhas
elásticas das paredes.
b. Rigidez Relativa — li um conceito que diz
respeito à interação entre a parede dc contenção
e o maciço arrimado, envolvendo deslocamentos
relativos, os quais influenciam fortemente a distribuição
de tensões atuantes nessa interface.
c. Cortinas "Rígidas" e "Flexíveis"—Qualitativamente,
diz-se que uma cortina ou parede é flexível
quando seus deslocamentos, por flexào, sào suficientes
para influenciar significativamente a distribuição
de tensões aplicadas pelo maciço. Rígidas
sào cortinas cujas deformações podem ser desprezadas.
Entre os extremos mencionados só um cálculo
de verificação pode realmente estabelecer se
a rigidez de uma cortina é tal que seus deslocamentos
por flexào possam ser desprezados ou nào.
Em áreas urbanas, a grande maioria das cortinas
é executada em subsolos de edifícios, apoiadas
nos pilares de divisa. Quando há taludes a ser
cortados posteriormente, como acontece com freqüência,
as cortinas são construídas em trechos
que resultam do corte do talude cm "cachimbos".
Neste caso, dependendo da profundidade atingida,
podem ser empregados tirantes, definitivos ou
provisórios. Tirantes provisórios são usados quando
as cortinas serão posteriormente apoiadas ou
ancoradas em estruturas definitivas.
Em obras rodoviárias sào empregadas cortinas
para contenção de cortes ou aterros.
No primeiro caso sào construídas cortinas atirantadas
a partir de seu topo, em faixas horizontais que vão
sendo ancoradas à medida que o corte vai sendo
executado. Após o término de cada etapa de corte,
instalam-se as tirantes para em seguida concretar os
panos da cortina c entào fazer a ancoragem.
No caso de aterros o procedimento é inverso:
após cada etapa de aterro instalam-se os tirantes e
os lances respectivos da cortina. A construção evolui
da fundação da cortina para seu topo.
d. Ancoragens — Sào barras ou tirantes embutidos
no próprio maciço a ser arrimado, localizadas
cm planos perpendiculares a uma cortina, funcionando
a tração, com um comprimento que lhe
confira capacidade para se contrapor aos empuxos
gerados por esse maciço, servindo, na extremidade
livre, dc apoio à própria cortina de arrimo.
c. Drenagem dc cortinas — Deve seguir os mesmos
princípios acima citados para os sistemas de
drenagem para muros dc arrimo.
No caso dc cortinas de contenção de cortes que
interceptem o nível do lençol freático é comum o
emprego de drenagem profunda por meio de
drenos horizontais perfurados, conhecidos no meio
técnico por "DHP", que consistem na introdução
de um tubo perfurado de pequeno diâmetro, envolvido
por uma tela filtrante, num furo horizontal
aberto por meio de sonda rotativa. Seu comprimento
pode chegar a algumas dezenas de metros, com o
objetivo de rebaixar o lençol freático, reduzindo o
efeito da pressào hidrostática sobre a cortina.
f. Observações do Desempenho — Considerando
a interação entre cortina e maciço arrimado,
supra-referida, é recomendável que sejam medidos
os deslocamentos dos protótipos para confron-
t;í-los com os previstos nos cálculos mais refinados.
No caso de cortinas rígidas é suficiente a medição
dos deslocamentos máximos.
13.5 DIMENSIONAMENTO E DESEMPENHO
13.5.1 Dimensionamento Geotécnico
O dimensionamento de uma estrutura de contenção,
no SCJ sentido mais amplo, será objeto
do Capítulo 15, onde sento apresentados e discutidos
os requisitos de dimensionamento gerais (verificação
dc deslizamento e tombamento da contenção,
verificação de capacidade de carga, verificação
da estabilidade global e local etc.;. Incluem-se
aqui alguns comentários a respeito do
dimensionamento "geotécnico" destas estruturas.
No item 13.3.4 apresentou-se uma discussão sobre
limitações e critérios dc escolha dos métodos cie
cálculo dos empuxos laterais de solo sobre as cstnituras
de contenção. Em resumo c cm termos mais
simples, podemos dizer que existem três grupos
básicos dc métodos com características IXMTI distintas:
a. Métodos clássicos (Rankine, Coulomb etc.),
cujas teorias permitem o cálculo de empuxos ativos
e passivos com base apenas cm parâmetros
geotécnicos simples. Essa simplicidade faz com
que esses métodos continuem a ser empregados,
sobretudo para projeto dc obras dc pequeno e
médio porte, como para anteprojeto dc obras cie
maior vulto. A grande vantagem dos métodos clássicos
é que se baseiam apenas nos parâmetros dc
resistência ao cisalhamento: coesão, ângulo de
atrito interno e massa específica, além de serem
métodos de dimensionamento direto, fornecendo
como resultado dos cálculos as dimensões da
estrutura.
b. Métodos modernos, ou métodos numéricos,
que surgiram com o aparecimento dos computadores
e começaram a ser utilizados permitindo
levar cm conta características de deformabilidade
dos maciços c das contenções, dando origem a
cálculos de interação entre maciço e estrutura,
como o "método dos elementos finitos" e os baseados
no conceito de "módulos de reação". Esses
métodos exigem uma caracterização dos maciços
através dc parâmetros geomecânicos que possam
descrever as leis de intenção "solo-cstrutura". Tais
parâmetros sào mais difíceis dc obter, exigindo
ensaios mais sofisticados, além da necessidade de
aferir os resultados através de medidas de deformações
e deslocamentos em estruturas reais. O
grande problema é que, em estruturas mais rígidas,
como paredes-diafragmas. deformações muito pequenas
podem estar associadas a esforços muito
grandes, c pequenas variações nos parâmetros provocam
variações acentuadas nos resultados. Além
disso os métodos numéricos permitem fazer apenas
cálculos de verificação do dimensionamento,
exigindo, portanto, um pré-dimensionamento que,
quase sempre, é feito a partir do emprego dos
métodos clássicos.
c. Métodos empíricos que se valem dc medições
feitas em modelos, entre os quais cabe referir-se
ao que foi publicado por Rcimbert, M. & A.
(1969), para materiais pulverulentos (nào coesivos),
além de modelos ensaiados em centrífugas.
13.5.2 Ação da Água
O dimensionamento da estnitura de contenção
depende também dos esforços gerados pela presença
da água no subsolo, assunto discutido no
item 13.4.2 (d). Como em outras estruturas
geotécnicas, a análise com água deve ser feita em
termos de tensões efetivas. Sào considerados os
empuxos d'água nos contornos e o peso total do
solo (saturado) ou então a força de percolação e
o peso do solo submerso. Usualmente a preferência
recai sobre o primeiro procedimento, por ser
o mais simples.
13.5.3 Ação de Carregamentos Externos
Outra classe de esforços que afeta o dimensionamento
da estrutura de contenção sào os
empuxos laterais provocados por carregamentos
externos, acidentais ou permanentes (ver, por
exemplo, Clayton et ai, 1993). Referem-se, por
exemplo, a cargas dc veículos e de edificações
vizinhas. Sc cargas deste tipo nào forem criticas
ao dimensionamento da estrutura de contcnçào,
pode-se lançar mão de métodos de cálculo aproximados,
como aqueles da teoria de elasticidade
(carga puntual, carga linear, faixa carregada etc.).
Admite-se que o acréscimo de tensào horizontal
provocado pela sobrecarga é duas vezes o dado
pela teoria da elasticidade, se o muro nào se
deslocar horizontalmente (muro rígido) c é igual
ao da teoria, se o muro sofrer deslocamentos
horizontais iguais ao dados pela teoria (como se
o muro e a escavação não existissem). Para casos
intermediários, nào existem soluções analíticas
simples: é necessário lançar-se mão de métodos
numéricos. Alguns preferem combinar as soluções
da teoria da Elasticidade acima, que permitem
o cálculo do acréscimo da tensão vertical induzido
pela sobrecarga, com soluções da teoria da
Plasticidade, multiplicando aqueles valores por
coeficientes de empuxos correspondentes. Este
procedimento não é totalmente descabido, tendo
em conta que o uso da teoria da elasticidade para
cálculo das tensões horizontais envolve premissas
que podem ser inaceitáveis (resistência à tração no
solo, inexistência de plastificaçào).
Se o carregamento externo for dominante no
dimensionamento da estrutura de contenção, a única
alternativa que resta é o cálculo dos empuxos
laterais por métodos numéricos (elementos finitas,
diferenças finitas e outros).
fcf
13.5.4 Ação da Compactação
No caso de estruturas de contenção de aterros,
um importante agente gerador de empuxos laterais
é a compactação do solo atrás do muro. Ingold
(1979) apresentou um método analítico simples para
estimar tais empuxos. em terraplenos executados
com solos granulares. A Figura 13.13 ilustra, de forma
esquemática, a trajetória de tensões em um elemento
de solo do reaterro atrás de um muro de
contenção, ao ser submetido a um ciclo de sobrecarga
do rolo compactador. Quando este atua, o
estado de tensões passa de A para B, em decorrência
do acréscimo de tensào vertical, pelo peso do
rolo. Quando este é removido as tensões verticais
caem. com pouca redução das horizontais (de B
para C) até a ocorrência de plastificaçào (em O, o
que é seguido de redução das tensões horizontais
(de C para D), dada pela linha de ruptura passiva.
Ao final da compactação o solo estará pré-adensado,
submetido a uma tensão horizontal (a hD) maior que
a inicial, geostática (o liA), antes da compactação.
Se o compactador for aproximado por uma carga
linear p. Ingold demonstrou ser razoável supor que
a distribuição de tensões horizontais é aquela dada
na Figura 13.M(a). Se o reaterro é feito em camadas
e cada uma é compactada com a mesma carga,
a envoltória dos empuxos laterais resulta igual à
indicada na Figura 13.1 í(b). liste método fornece
resultados que se comparam bem com observações
em casos históricos. Clayton et al. (1993), entretanto,
realça que o processo de Ingold é válido
apenas para contenções que satisfazem as condições
de mínimas defonnações (CDM) e que no caso
de contenções que nào as satisfazem (NCDM),
muros mais rígidos, seria preferível substituir, na
Figura 13-14, Ka por Ko e Kp por 1/Ko. Discussões
mais detalhadas sobre este assunto, sobre outros
métodos de abordagem deste problema e sobre o
efeito de compactação em reaterros argilosos sào
encontrados em Clayton et al. (op. cit.). Em particular,
estes autores mostram que em argilas as cargas
laterais podem ser bem maiores, principalmente
se se utilizar argilas sujeitas a processos de
equalizaçào de pressões neutras e expansão. Por
isto deve-se evitar solos com IP superiores a 30% e
deve-se compactar o aterro do lado úmido. Outro
efeito que pode ser importante é o uso de equipamento
vibratório: a força centrífuga vibratória aumenta
os empuxos laterais. Clayton et al. (op. cit.)
recomendam, para estes casos, dobrar a carga linear
p do rolo compactador.
Rolo Compoctodor(P)
EBfflEQffl
saa»
Fig. 13.13- Efeito da compactação na trajetória de
tensões
- 2 p K o / n x
Fig. 13.14 - Envoltória dc empuxos laterais gerada na
compactação do tcrraplcno
13.5.5 Deslocamentos Induzidos
Outro aspecto geotécnico do dimensionamento
de estruturas de contenção que é, via de regra,
esquecido ou colocado num indevido segundo
plano refere-se aos deslocamentos induzidos pela
execução da estrutura. Isto é especialmente importante
quando se lida com contenções de terrenos
cortados: a escavação do terreno induz des-
locamentos verticais e horizontais, e estes podem
induzir danos em edificações ou utilidades dispostas
nas proximidades da escavação, como
apontado no item 13.4.3(0-
Dois tipos de deslocamentos sào identificados:
os de curto e os de longo prazo. Os primeiros
sào atribuíveis às inevitáveis alterações no estado
de tensões in situ, decorrentes do alívio de
tensões que o corte produz no terreno. Sào dependentes
da rigidez do solo e da estrutura de
contenção e, mais que tudo, da maneira e da
seqüência como esta é construída. Dependem
enormemente da "qualidade" da execução medida
pelos cuidados em se encunhar estroncas (ou
pré-carregá-las), em se respeitar os níveis de escavação
associados aos de escoramento definidos
pelo projeto, em se evitar sobrescavações,
em se evitar vazios atrás da contenção (ver item
13.4.3(d». É claro que a magnitude dos deslocamentos
de curto prazo é afetada pelo tipo dc
solo e de estrutura de contenção. Entretanto, a
qualidade executiva tem ação preponderante nos
deslocamentos, mascarando os demais fatores.
Magnitudes mais elevadas de deslocamentos notados
em argilas moles e em casos de escoramento
por perfis-pranchões sào, na verdade, quase sempre
atribuídas a descuidos executivos, a qualidades
construtivas inferiores. Técnicas executivas
mais modernas ou mais avançadas têm reduzido
sensivelmente os deslocamentos induzidos.
Previsões numéricas de deslocamentos de curto prazo,
a despeito das potencialidades dos processos
computacionais de que se dispõe, muitas vezes falliam,
pela dificuldade de se prever ou mesmo de se
incorporar o fator qualidade de execucào na simulação
numérica. Por este motivo, é usual, ainda hoje, o
uso de métodos empíricos ou semi-empíricos para
fazer tais previsões. Os métodos de Peck (1969) e o
de Clough e O Rourke (1990) sào exemplos populares
deste tipo de procedimento. Com alguma lilxrralidade,
mas amplamente baseado em dados destes
autores, é apresentada a Figura 13.15, que fornece,
de forma expedita, os deslocamentos verticais e horizontais
máximos notados em contenções de escavações
verticais, cm função da cjualidade da execução.
Notar que os deslocamentos máximos sào diretamente
proporcionais à profundidade máxima da escavação
I I e que ocorrem em pontos distintos, que dependem
do tijx> de solo e de escoramento. De fato, o
perfil de recalques adjacente a uma escavação escorada
depende muito do tipo de solo. Clough e
O Rourke (op. cit.) propuseram envoltórias de
recalques empíricas para solos distintos e que sào
reproduzidas na Figura 13-16. As figuras 15 e 16 podem
ser utilizadas para estimativas expeditas de deslocamentos
de curto prazo, com base em dados puramente
empíricas.
O segundo tipo de deslocamento que com freqüência
ocorre em obras de contenção sào os de
longo prazo, que sào notados em contenções de
terrenos abaixo do lençol freático. Trata-se de
deslocamentos de solo associados a processos de
Niveia da qualidade
da uacutOo:
A — -onvtrucBo cuidadoso
0 M Conatrucflo mediana
c - CcnitruçOo com
dificuldades
Nfval A :z wmm
Nfvei 0
Nfval C
Ouolidode
ConttruUrti
V////////////WA
E2Z2
0.05 0.10 1.00
áv
vs////////////s//mL: :;
ímo M
Fig. 13.15- Deslocamentos verticais e horizontais
máximos em escavações escoradas
0.5-
i/ $mo*
6 ,$mox
Argilas
Areio
"SSS9SS"
Argila*
molaa/mádias
rijaa/durai
Fig. 13.16- Distribuição de deslocamentos verticais
junto a escavações escoradas
drenagem (forçada ou não por poços de relxiixamento)
e de adensamento conseqüente. Os mecanismos
destas ocorrências sào amplamente conhecidos.
Por isso chega a surpreender o elevado
número de casos em que nào se tomam medidas
para fazer frente a estas ocorrências. Sempre que
i
estiverem presentes solos aluvionares saturados,
orgânicos, comprcssíveis, os deslocamentos de longo
prazo são muito superiores aos de curto prazo e
a extensão da área afetada é muito maior. A forma
dc previsão da magnitude e extensão destes deslocamentos
c trivial: usa-se a teoria do adensamento
dos solos e empregam-se parâmetros correspondentes
(ver Capítulo 2). Este tema é abordado com
outros detalhes no Capitulo 16 deste livro.
13.5.6 Danos Induzidos
Conhecidos os deslocamentos de curto ou longo
prazos, induzidos pela execução de contenção
de terreno natural escavado, conclui-se o
dimensionamento "geotccnico" com a estimativa
de danos em utilidades ou em edificações
vizinhas á contenção. Este tema foi revisto por
Branco et al. (1990) e é brevemente resumido a
seguir. Sabe-se que a maior parte dos danos
numa estrutura manifesta-se na forma de deformações
de tração (Burland e Wroth, 197-t). Estas
deformações resultam de recalques diferenciais
(distorção angular) e deformação lateral
(horizontal) de tração.
Os critérios clássicos de danos (por exemplo,
Skempton e MacDonald, 1956) foram elaborados
para edificações desenvolvendo recalques pela
ação de seu próprio peso. Neste caso, em que o
modo de deformação não envolve deformações
horizontais de tração <c n) apreciáveis, os danos
são associados predominantemente às distorções
angulares máximas ((£).
No caso de deslocamentos induzidos pela escavação
do terreno, na construção de uma vala escorada,
por exemplo, as deformações horizontais
nào sào desprezíveis, sendo da mesma ordem de
grandeza das distorções angulares de superfície.
Cording et al. (1978) apresentaram o primeiro critério
para avaliação de danos em edificações próximas
a escavações. Este critério pioneiro mostrou-se
algo limitado, diante de seu embasamento
totalmente empírico.
Mais recentemente, Boscardin c Cording (1989)
formularam um novo critério para avaliação de
dados, calcado na distorção angular e na deformação
horizontal. Este critério, reproduzido na Figura
13-17, foi desenvolvido simulando a estmtura
como uma viga-parede equivalente, biapoiada,
com propriedades elásticas compatíveis com paredes
de alvenaria e com altura igual ao seu comprimento.
A classificação de danos que os autores adotaram
é a mesma proposta por Burland etal. (1977),
definida cm funçào da espessura das trincas, e
que é reproduzida na Tabela 13.2. Fica subjacente
a esta classificação a distinção entre danos funcionais,
arquitetônicos e cstmturais, função da magnitude
e intensidade das trincas.
ÍH
f
+7
'
!i /
ja /
/Ocnòí^
Paquanoa
1 « p a i v A —
Dono»
Uodsrodo»
o Sevarca
Ulnoa R
Valo
T
Conoi Savoraa
c
Muito Savaroa
ia«a.
;no'B
\
\ Rtcok uca
próprio
• — • • P
0 1 a 5
w
V
Fig. 13.17- Critério de danos provocados por deslocamentos
induzidos por escavações
Tabela 13.2 I Classificação dc danos cm edificações
CLASSE DE
DANOS
Desprezíveis
Muito
Pequenos
Pequenos
Moderados
Severos
Muito Severo
DESCRIÇÃO
DOS DANOS
Trincas capilares
Trincas estreitas
de fácil reparo.
Trincas na alvenaria
externa, visíveis sob
inspeção detalhada
Trincas facilmente
preenchidas. Várias
fraturas pequenas no
interior da edificação.
Trincas externas visíveis
e sujeitas à infiltração.
Portas e janelas emperrando
um pouco nas
esquadrias.
O fechamento das trinca
requer significativo
preenchimento. Talvez
seja necessária a substituição
de pequenas áreas
de alvenaria externa.
Portas e janelas emperradas.
Redes de utilidade
podem estar htenompidas
Necessidade de reparos
envolvendo remoção
de pedaços de parede,
especialmente sobre
portas e janelas. Esquadrias
de portas e janelas
bastante fora de esquadro.
Paredes fora do prumo,
com eventual deslocamento
de vigas de suporte.
Utilidades interrompidas.
Reparos significativos
envolvendo reconstrução
parcial ou total. Paredes
requerem escoramento
Janelas quebradas. Perigo
de instabilidade
Espessura
aproximada
das Trincas
(mm)
< 0.1
< 1
< 5
5 a 15 ou
várias
trincas com
mais dc
3 mm
15 a 25 e
também em
função do
número de
trincas
Usualmente
> 25.
Também
em função
do n° de
trincas
Para sc fazer uso do critério de Boscardin c
Cording (1989) é necessário conhecer p e e M. Enquanto
a obtenção de (3 a partir de previsões teóricas
ou da instnimentaçáo de campo é trivial, a determinação
de e„ é mais difícil, 'lendo isto em conta,
Boscardin e Cording (1989) sugerem que se adotem
valores de e M iguais a 3 ou metade destes.
Este critério tem sido usado amplamente para
valas escoradas e túneis, fornecendo dados bastante
consistentes como observações de campo.
13.5.7 Instrumentação
Este tema será abordado no Capítulo 20. Cabem
aqui. entretanto, alguns comentários específicos.
A despeito da difusão dos serviços de instnimentaçáo
e controle de constniçào de túneis em
solo, nào se nota intensificação destes serviços em
obras de contenção de cortes ou de aterros. Negro
e Leite (1994) notaram que instrumentação em valas
escoradas é menos freqüente que em túneis.
Ela é feita, em geral, por motivos de segurança e
controle, quando existem edificações próximas à
contenção (ver item 13.4.3(g)). Por este motivo, infelizmente,
o acervo de informações que se dispõe
sobre desempenho de estmturas de contenção é
muito reduzido. Isto é particularmente verdadeiro
quando se trata de dados de cargas naquelas estmturas.
O pouco que se dispõe refere-se a trabalhos
de pesquisa patrocinados pelas constmções dos metrôs
de São Paulo e do Rio, conduzidos pelo IPT e
pela COPPE, respectivamente, nos anos setenta, muitos
deles reportados numa publicação especial da
ABMS, organizada e editada por Velloso (1986), e que
contém contribuições de diversos autores brasileiras.
Igualmente limitado é o acervo de dados internacionais
recentes nesta área, como pcxle ser notado em
relatos sobre este tema, nos últimos congressos internacionais
de Mecânica das Solos. A ausência de inovações
parece revelar uma tendência mundial de aceitação
do presente estado atual da arte. Tal conformismo
parece estar ligado a uma tendência geral de menores
demandas de infra-estrutura. Qualquer retomada de
investimentos no setor deverá motivar desenvolvimentos
no projeto e constniçào de estmturas de contenção
mais econômicas, em conformidade com
otimizações de investimentos em economias carentes
de recursos públicos. Isto dará, novamente, ímpeto à
instrumentação de controle como elemento essencial
a otimizações e desenvolvimentos. Enquanto isto não
oconre, a função desta atividade se limitara ao controle
de segurança e a verificações de confonnidadcs.
13.6 REFERÊNCIAS
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CAPÍTULO 14
CONCEPÇÃO DE OBRAS DE CONTENÇÃO
JOSÉ LUIZ SAES
FERNANDO REBOLIÇAS STUCCHI
/A RUAS MIUTTISKY
14.1 CONCEITO E OBJETIVO DA
CONCEPÇÃO
Emende-se por concepção o processo criativo do qual
resulta a solução dc um problema dc engenharia.
Por ser um processo, a concepção não se completa
num único passo, num único "insight". Ela se constitui
numa seqüência de passos, em que cada passo procura
melhorar o anterior, através da solução dc alguns
defeitos que o passo anterior apresenta.
A criação entra nesse processo através da idéia
nova que é introduzida a cada passo.
Quando se tem uma boa idéia, ela melhora o
passo anterior c nos aproxima de uma solução
ótima hipotética.
Quando a idéia não é boa, ela não consegue
melhorar o passo anterior e deve ser posta dc lado.
Podemos representar o processo criativo da concepção
através dc uma espiral como abaixo representado.
Ao longo do processo, podem aparecer soluções
alternativas, e é bom que assim seja. Essas alternativas
vão sendo comparadas ao longo de alguns
passos até que seja possível escolher uma delas.
No início do processo temos i m problema e
nenhuma solução.
No meio do processo é bom que tenhamos algumas
soluções alternativas para comparar. A condição
para que uma alternativa seja considerada
nessa análise é que ela apresente alguma vantagem
competitiva.
No final do processo temos a solução escolhida.
As vantagens competitivas dc uma idéia ou de
uma solução são medidas pela sua aptidão cm
satisfazer o objetivo da concepção.
Esse objetivo corresponde a atender a uma série
de requisitos. Como usualmente nào é possível
atendê-los todos integralmente, objetiva-se um atendimento
otimizado, isto é, procura-se minimizar a
parte nào atendida dos requisitos. Conclusão: o
objetivo cia concepção é obter una solução que
atenda dc forma otimizada todos os requisitos.
Esses requisitos são listados, classificados e discutidos
nos itens abaixo.
14.1.1 Requisitos das Fases Provisórias
a. Requisitos Funcionais
Figura 14.1
• início
Início - O problema
l v passo - I a idéia
n° passo - Última idéia que completou a solução
considerada boa e própria para um
detalhamento
Os requisitos funcionais sào os mais importantes,
porque correspondem às funções da contenção, isto
é. à sua própria razão de ser. qual seja. permitir a
escavação dentro da área reservada para tal.
Primeiramente as contenções devem suportar os
empuxos exigidos pelo terreno, para garantir sua
estabilidade, fazendo as funções de paramento e
de escoramento. O paramento está ligado à estabilidade
local c o escoramento à estabilidade global.
A necessidade dc cada um desses 2 elementos
de contenção vai depender da relação entre a resistência
do maciço e a resultante das ações (peso
do maciço, água, sobrecargas etc...;, relação essa
que evolui dcsfavoravelmente com o aumento da
profundidade (usualmente com o quadrado da
profundidade).
Suportar os empuxos não basta para permitir a
escavação. É necessário, no mínimo, atender a mais
dois requisitos: controlar a água e sustentar as
interferências.
Uma vala, ao ser escavada abaixo do nível d'água,
provoca naturalmente o seu rebaixamento. Num
terreno resistente c impermeável pode nào ser necessária
nenhuma providência específica, mas mesmo
permeabilidades relativamente baixas já exigem
uma bomba submersa, no fundo da vala.
Quando a quantidade dc água que entra na vala,
pelo fundo ou pelas paredes, começa a comprometer
a segurança da obra ou a exeqüibilidade da escavação
é conveniente usar um sistema de rebaixamento.
Esse sistema deve ser responsável por todo
o rebaixamento, substituindo integralmente a vala
nessa funçào. O uso da vala para completar o rebaixamento
tem se mostrado inconveniente, por nào
eliminar os comprometimentos acima referidos.
Com relação às interferências, aquelas que nào
puderam ser i clocadas devem ser suportadas. Essa
função de suporte nào corresponde apenas à sustentação
de tubulações encontradas entre a superfície
do terreno c a obra a implantar dentro da
vala. Corresponde também ao suporte de coberturas
de vala necessárias para viabilizar o trânsito
na fase provisória c ainda ao "suporte" de todas
as utilidades e edificações lindeiras. Voltaremos a
esses 2 requisitos na discussão de segurança.
b. Requisitos Construtivos
Enquanto os requisitos funcionais apontam essencialmente
para "O QUE" fazer para viabilizar a
escavação, os requisitos construtivos apontam mais
para "ONDE" "COMO" c "QUANDO" fazer.
Em primeiro lugar, a resposta à pergunta
"ONDE?" deve procurar posicionar vala c
escoramento de forma a minimizar interferências
de todos os tipos. Aqui é preciso ampliar ao máximo
o conceito de interferência. Devem ser consideradas
as edificações lindeiras, as utilidades
subterrâneas e o trânsito (veículo e pedestre), mas
devem-se incluir as utilidades aéreas, a sinalização
vertical e todo tipo de dispositivo que interfira
com a execução da obra.
Exemplos: Construções subterrâneas nào cadastradas.
subsolos que invadem a via pública,
marquises, gabarito insuficiente sob elevados e
passarelas etc.
A seguir vem a pergunta "COMO?".
Essa é, usualmente, a pergunta mais difícil de
responder, pois ela envolve a escolha do método
construtivo.
Muitos sào os métodos viáveis tecnicamente (às
vezes todos o são), mas poucos sào competitivos,
isto é, otimizam prazos e preços. Nas eventuais
decisões por preço mínimo é sempre importante
levar em conta os prazos e as facilidades construtivas,
mesmo que indireta ou aproximadamente.
Mesmo após a escolha da melhor soluçào, o seu
detalhamento deve procurar contemplar a maior
facilidade construtiva possível. Aparece com freqüência
uma solução de compromisso entre preço
e facilidade construtiva, ou mesmo entre segurança
c facilidade construtiva.
Dcr.tro desse universo da facilitação/simplificaçào
da execução, cabe lembrar alguns pontos
nevrálgicos:
• O problema gerado pelos erros de posição e
verticalidade do paramento, sobretudo quando
existe invasão do gabarito da obra permanente.
Prever folga para erros!
• As cotas de parada da escavação para executar
escoramento (estroncas, tirantes etc...). Prever
margem para sobrescavaçào.
• A retirada do material escavado: as rampas para
caminhão, a interferência com o cscoramento (do
caminhão, do trator, do clam-shell...).
• A entrada de material para reaterro e as
interferências com o escoramento e as obras permanentes
já executadas
• O reescoramcnto, uma soluçào a evitar sempre
que possível. As escoras provisórias devem, ao
ser retiradas, ser substituídas por escoras
permanentes (como pisos, vigas, lajes etc...) e
nào por novas escoras provisórias.
• Em maciços difíceis, isto é, maciços onde a
execução da vala é difícil, pode ser recomendável
um tratamento para facilitar a construção. Esse
tratamento pode ser desde um rebaixamento do
lençol freático até um congelamento do solo,
passando por uma injeção, um Jet Grouting etc...
c. Requisitos de Segurança
A soluçào concebida atendendo aos 2 conjuntos
de requisitos anteriores — funcionais e construtivos
— só tem sentido se tiver um mínimo de
margem de segurança.
Esse mínimo de margem de segurança
corresponde a um máximo de probabilidade de
mina, que nào deve ser ultrapassado.
Conforme a NBR-8681 -Norma Brasileira de Ações
e Segurança nas Estruturas, as estruturas provisórias,
responsáveis pela estabilidade da obra nas
fases provisórias, podem ser calculadas com margem
de segurança menor que as obras permanentes.
Isso decorre essencialmente de dois fatos.
Em primeiro lugar, essas fases sào acompanhadas
por engenheiros residentes, preparados para
identificar eventuais comportamentos impróprios
daquelas estnituras e tomar providências corretivas
antes que um acidente ocorra. Por outro lado,
como o período em que aquelas estnituras são
responsáveis pela segurança é relativamente pequeno
(1 ano por exemplo), a probabilidade de
as ações atingirem valores extremos é menor.
Dc acordo com essa filosofia, as estruturas provisórias
podem e devem ser calculadas com margem
de segurança reduzida. No entanto, a
contrapartida deve ser exigida: a obra provisória
exige a presença de um engenheiro residente e
sua estrutura só tem segurança mínima adequada
a prazos limitados. Obras interrompidas, sem a
presença do residente e onde a estrutura provisória
seja responsável pela segurança num período
significativamente mais longo que o previsto, devem
ser objeto de análises especiais.
Os coeficientes de ponderação reduzidos para
o projeto de estruturas provisórias devem ser obtidos
na NBR-8681 acima citada, na nova NBR-
6118 - Projeto de Estmturas de Concreto, que deve
ser publicada em breve, ou na NBR-8800 - Projeto
e Execução de Estruturas dc Aço.
'Iodas essas normas sào baseadas no método
semiprobabilístico dc introdução da segurança.
Nesse método os esforços solicitantes de cálculo
(esforços extremos superiores multiplicados por
coeficiente de majoração) devem ser inferiores aos
esforços resistentes de cálculo (resistências extremas
inferiores divididas por coeficientes dc
ininoração). Graficamcnte teríamos o que se mostra
abaixo:
Densidade dc
Probabilidade
Figura 14.2
onde
R,
S d - S k x y r
R
d - *VX
Solicitações
Resistências
S k é um valor extremo superior das solicitações
que cobre grande parte dos casos
R w é um valor extremo inferior das resistências
coberto por 95% dos casos
As verificações de segurança que envolvem explicitamente
o terreno sào usualmente feitas pelo
Método de Ruptura ou, às vezes, até pelo Método
das Tensões Admissíveis.
No Método da Ruptura a segurança é introduzida
pela equação:
FS =
5 FS min
c no de Tensões Admissíveis pela equação:
Quando for usado o Método de Ruptura, o fator
de segurança mínimo Fs inm pode ser diminuído.
Por exemplo:
• Estabilidade de taludes:
Obra permanente Fs ^ -1,5
Obra provisória Fs mm -1.2
• Estabilidade global da ficha de um escoramento:
Obra permanente Fs niin -2,0
Obra provisória Fs nan -1.5
No Método das Tensões Admiss.veis seria possível
aumentar tensões admissíveis.
Isso posto, convém listar as verificações de segurança
usualmente necessárias em projetos de
contenções.
Elas são separadas cm 2 grupos.
A) Verificação de Estados Limites Últimos (ELU) -
Nessas verificações o objetivo é garantir uma margem
mínima de segurança em relação a Estados Limites
Últimos, isto é, estados em que foi esgotada a
capacidade resistente ou a estabilidade de parte ou
do conjunto todo. tcrrcno-estmtura. São elas:
• Estabilidade global;
• Estabilidade local da ficha:
• Estabilidade de fundo;
• Estabilidade hidráulica de fundo;
• Capacidade de carga do paramento;
• Resistência do paramento à flexão e ao cisalhamento;
• Resistência das estroncas à
• Resistência dos tirantes à tração;
fiexocompressào;
• Estabilidade da contenção atirantada;
• Verificação local do apoio, contra o paramento,
de estroncas/tirantes.
B) Verificação de Estados Limites de Utilização
ou de Serviço (ELS) - Nessa verificação o objetivo
é garantir uma margem mínima dc proteção cm
relação a estados limites de serviço, isto é, estados
em que especificações de desempenho em
serviço deixam de ser atingidas.
Sào elas:
• Verificação dos recalques nas áreas lindeiras,
decorrentes de: cravaçào, escavação e rebaixamento;
• Verificação de movimentos horizontais decorrentes
sobretudo da escavação;
• Verificação do nível d'água dentro da vala;
• Verificação de vibrações geradas nas edificações
lindeiras por cravaçâo de estacas ou escavação a
fogo;
• Verificação das conseqüências de eventuais
tratamentos nas utilidades/edificações lindeiras.
Exemplos:
Injeção do terreno
Injeção do bulbo de tirante
Execução dc Jet Giouting cm terreno sensível
Congelamento e descongelamento do terreno.
Em relação a essas verificações, ainda convém
chamar a atenção para alguns detalhes.
Dentro do conccito probabilístico dc segurança,
cada ação é definida por um valor extremo
que cobre uma grande porcentagem dos casos.
Quando a variabilidade da ação é grande a diferença
entre o valor médio e o valor extremo a
adotar é grande. A adoção de valores nào suficientemente
longe da média prevista pode trazer
dificuldades e insucessos.
Um caso típico é o do rebaixamento. Na verificação
do ELS, é aceitável trabalhar com valores próximos
da média esperada, para verificação do nível
d água dentro da vala. No ELU, porém, é preciso
trabalhar com valores bem mais afastados da
média e portanto com um nível d'água fora da vala
bem mais alto que aquele correspondente ao ELS.
Isto é muito importante porque a estabilidade
do escoramento é muito sensível a elevações do
nível d água. Mais atenção ainda deve ser dada a
esse item quando sc faz economia no rebaixamento.
Um outro caso típico é o dc valas profundas e
escoradas, em zona urbana, dc terreno dc boa
qualidade. Como o terreno é de boa qualidade, o
empuxo sobre o escoramento pode ser muito pequeno.
Ocorrências imprevistas, muitas vezes inevitáveis,
especialmente em áreas urbanas, podem
aumentar muito esse empuxo c provocar minas.
Todos os escoramentos muito leves estão expostos
a esses riscos, mormente grandes balanços cm
terrenos sensíveis e de grande variabilidade como
os solos residuais.
Sugere-se, nesse caso, respeitar empuxos mínimos
ou coeficientes de empuxo equivalentes mínimos.
Os trabalhos de Weibenbach sugerem um
coeficiente de empuxo equivalente mínimo dc 0,2
(isto é, equivalente a uma areia dc <p -40", com ou
sem uniformização do empuxo conforme a deformada
do paramento).
Um último caso que convém salientar é aquele
em que uma ruína frágil, ou em cadeia, ou ainda
uma catástrofe, podem ocorrer cm decorrência da
falha dc 1 elemento.
A título dc exemplo, tomemos uma adutora com
1.5m de diâmetro, pressão de 50 mea, correndo
paralelamente a uma vala ou atravessando-a, em
zona urbana. A ruptura dessa adutora pode gerar
uma catástrofe. O risco é tanto maior quanto maior
for a fragilidade da adutora.
Vale lembrar que grandes galerias, durante enxurradas,
podem representar risco quase tão importante.
Existem duas formas dc trabalhar com esses problemas.
A primeira é aumentar a margem de segurança,
usando coeficiente de ponderação ou segurança
maiores. A própria NBR-8681 prevê um coeficiente
y it, adicional, que varia de 1.0 a 1.2, para isso.
A outra forma é atenuar os efeitos da ruína, seja
dutilizando-a, Isto é, transformando-a em mina avisada,
seja usando um fusível que neutralize sua fonça.
d. Requisitos Econômicos
Satisfeitos os requisitos anteriores, o desejável
é uma solução econômica. Sim econômica, mas
econômica em relação a quê?
O ideal, aqui, é falar cm custo generalizado mínimo.
isto é, levar em conta todos os custos ligados à
implantação da obra. Assim levaríamos em conta,
além do custo de materiais e mão-de-obra, os custos
de desapropriação, de rclocaçào, o custo de
eventuais atrasos na obra, de ganhos de prazo, tle
simplificações construtivas que reduzem serviços c
prazos, da eliminação de etapas como a incorporação
da parede provisória na definitiva etc...
Má ainda que considerar os custos soçiais ligados
a congestionamentos, transtornos nos serviços
públicos, lucros cessantes etc.
Colocar números em todos esses custos é raramente
possível, no entanto, é conveniente tê-los
cm mente ao tomar uma decisão.
É importante, sobretudo, não tomar decisões com
base cm planilha dc quantidades ou mesmo
planilha de preços da obra. A decisão deve ser
mais abrangente.
14.1.2 Requisitos das Fases Permanentes
a. Requisitos Funcionais
O projeto da estrutura permanente de contenção
tom como requisito primeiro atender às nerejsidades
funcionais da obra executada. Esses requisitos
dependem do uso que sc fará dessa obra.
A título de exemplo, imagine-se um túnel de
metrô. Os requisitos funcionais mínimos seriam:
• Gabarito dinâmico;
• Permeabilidade máxima;
• Isolamento mínimo contra vibrações das
edificações lindeiras;
• Equipamentos de drenagem da via;
• Espaço para duto tle cabos;
• Base adequada à fixação da via.
A obra mctroviária perde sentido se não atender
a esses requisitos funcionais, eles sào considerados
fundamentais. Observar que esses requisitos
acabam também afetando a obra provisória.
b. Requisitos Construtivos
A construção da estnitura permanente, que constitui
as últimas etapas da construção, aplicam-se
os mesmos requisitos construtivos relativos às fases
provisórias da obra.
c. Requisitos de Segurança
Quanto à segurança, seja do ponto de vista estrutural,
seja do geotécnico, os requisitos a atender
sào os usuais, discutidos ao longo de todo
esse livro. Do ponto de vista estritamente estrutural
vale a pena observar as normas já citadas:
NBR-8681 - Ações e Segurança nas Estruturas
NBR-6118 - Projeto de Estruturas de Concreto
NBR-8800 - Projeto e Execução de Estruturas
de Aço
d. Requisitos Econômicos
Com relação aos requisitos econômicos nada é
necessário adicionar ao que foi discutido para as
fases provisórias.
e. Requisitos Estéticos
Nem mesmo as dificuldades construtivas, próprias
das obras enterradas, ou as dificuldades estruturais
justificam deixar em segundo plano os
aspectos estéticos.
Esses aspectos sào tào mais importantes quanto
maior é o acesso público. Assim sào as estações
metroviárias enterradas. Certamente, quando nào
houver acesso público, como nas galerias, por
exemplo, a importância da estética cai.
Da mesma forma, a análise de custo de um sistema
de contenção nào jxxle se restringir, tào-somcnte.
ao seu custo direto de implantação, mas deve,
tamlxím, levar em consideração outros custos que
são afetados pelo tijx) tle contenção adotado. Por
exemplo: a adoção de Ix-nnas como escoramento
de uma contenção p<xle parecer, a princípio, uma
solução muito econômica. Entretanto, no futuro, devido
aos custos elevados de sua remoção (escavação
sob lajes) e devido às dificuldades que podem
acarretar rui implantação da estnitura definitiva jxxle
se tornar a solução mais onerosa.
Tendo em vista o acima exposto, serão analisados
os diversos tipos de escoramentos e paramentos
de uma contenção, salientando vantagens e
limitações funcionais e ou construtivas diante das
diversas situações de subsolo, vizinhança etc., e
abordados alguns aspectos econômicos relacionados
com sua implantação.
14.2.1 Escoramentos
Os escoramentos de uma contenção podem ser
constituídos por estroncas, tirantes, bermas, pela
própria estrutura definitiva ou por uma combinação
dos tipos mencionados.
a. Estroncas
A utilização de estroncas (geralmente metálicas)
está, na maioria das vezes, limitada a situações
em que a distância entre paramentos nào é
muito grande (menor que -12m).
Têm o mérito de não utilizar os terrenas adjacentes
à contenção e de serem reutilizáveis.
Em muitos casos, dependendo da distância entre
os paramentos, jxxle ser necessária a execução
de contraventamentos e apoios intermediários para
sustentar o peso próprio do escoramento. Estes
apoios sào. na maioria das vezes, propiciados por
estacas metálicas cravadas.
Os estroncamentos geralmente dificultam as escavações
entre os paramentos e interferem com a
execução da estrutura final.
14.2 PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DOS
VÁRIOS TIPOS DE CONTENÇÃO
O desempenho de uma contenção depende nào
somente do sistema de contenção em si. mas também
das características do terreno das condições
do lençol freático, das condições das construções
vizinhas, do espaço disponível para a sua implantação,
enfim, de inúmeros fatores que variam muito
de uma situação para outra, o que torna difícil
apontar vantagens e limitações de cada um dos
tipos, de forma genérica, sem levar em consideração
as condições particulares de cada caso.
Foto 14.1 • Estaca-prancha metálica ccm escoramento
metálico
Estroncamentos de madeira (geralmente
estroncas de eucalipto) sào comuns na contenção
de valas pouco profundas para instalação de sistemas
de águas pluviais, esgotos, adutoras etc.
Foto 14.2 - Obra de contenção com estroncas de
eucalipto
Estroncas constituídas por vigas de concreto
protendido têm sido muito utilizadas como
estroncas definitivas, principalmente em obras dc
canalização de córregos onde, muita vezes, passam
a fazer parte integrante da laje de cobertura
da canalização.
Foto 14.3 - Estroncas de concreto protendido em obra
de canalização com paredes-diafragma moldadas "ín
loco"
No caso de estroncas inclinadas, é necessário
que elas tenham apoios capazes de fazer frente
aos esforços horizontais que são. geralmente, elevados.
b. Tirantes
Em certas circunstâncias é o único sistema de
escoramento exeqüível como, por exemplo, em
muitos casos de contenção de encostas.
Não ocupam espaço entre os paramentos facilitando,
desta forma, as escavações e a execução
da estrutura definitiva.
Podem ser provisórios ou definitivos. No caso
Foto 14.4 - Cortina atirantada para contenção de
encosta
de serem utilizados como escoramento definitivo,
requerem tratamentos e proteções especiais contra
corrosão.
Como são instalados nos terrenos adjacentes às
contenções, só podem ser utilizados, mesmo que
de forma provisória, com autorização dos proprietários
desses terrenas.
Quando da elaboração de um projeto de
atirantamento, é necessário levar em consideração
que eles podem interferir com as fundações
(rasas ou profundas) das edificações vizinhas. As
perfurações para instalação dos tirantes pedem
provocar recalques, as injeções para fixação dos
mesmos levantamento do terreno e a protensão
destes pode introduzir esforços horizontais nas
fundações das edificações adjacentes.
Devido às dificuldades e aos custos cada vez
maiores das escavações em lugares confinados,
os tirantes têm sido adotados, quando possível,
como uma alternativa econômica de escoramento.
c. Bermas
Km contenções de pequena altura (até 6m) e
em solos com boas características de resistência
sào, muitas vezes, utilizadas como único elemento
de escoramento.
Necessitam de proteção contra erosão, que pode
ser feita com pintura betuminosa «>u chapisco de
arganassa de cimento e areia.
Normalmente, interferem com a execução da
estrutura definitiva, c sua remoção é quase sempre
feita em condições adversas de escavação.
É importante lembrar que elas permitem deslocamentos
dos paramentos, que podem induzir
recalques indesejáveis nas construções vizimas.
Em contenções para grandes escavações, elas
ocupam muito espaço interno o que, geralmente,
inviabiliza sua adoção. Nestes casos, é muito comum
a utilização das bermas como escoramento
auxiliar dos outros tipos, funcionando como
escoramento provisório até a instalação destes (tirantes,
estrutura definitiva).
d. Estrutura Definitiva
A utilização da estrutura definitiva (lajes e vigas
dos subsolos) como escoramento de uma contenção
é, em alguns casos, a única solução plausível
como, por exemplo, no escoramento dc escavações
profundas para implantação de vários
subsolos quando não se tem permissão para instalar
tirantes nos terrenos vizinhos.
Como solução de escoramento, é uma solução
econômica pois evita a execução de escoramentos
provisórios. Entretanto, o aumento de custo das
escavações aliado ao aumento de custo da execução
da estrutura definitiva pode, muitas vezes,
ser maior que a economia obtida.
Este tipo dc escoramento exige a execução de
apoios intermediários que, sempre que possível,
deverão coincidir com os da estrutura definitiva.
Dadas as dificuldades executivas, pois os
subsolos são constituídos de cima para baixo, os
prazos de execução tendem a ser mais dilatados
podendo, muitas vezes, comprometer o resultado
final do empreendimento.
Para superar o problema de prazo quando este
tipo de escoramento é adotado, costuma-se
dimensionar os apoios intermediários, provisórias,
não só para sustentar o peso das vigas e lajes dos
subsolos mas, também, o peso da estrutura de
outros andares superiores e construir, simultaneamente,
os subsolos e a estrutura da edificação reduzindo,
desta forma, o prazo total da obra.
14.2.2 Paramentos
Numa contenção a escolha do escoramento é
muito mais simples que a escolha do paramento,
pois o número do opções é pequeno, c os fatores
que influenciam a escolha sào geralmente independentes
do tipo de solo, das características do
N.A. (tirantes podem ser instalados em praticamente
qualquer tipo de solo acima ou abaixo do N.A.),
do espaço disponível, etc.
Depende, em muitos casos, de outros fatores
que nào técnicos ou econômicos como. por exemplo,
na escolha do escoramento de uma escavação
de grandes dimensões, onde os vizinhos nào
permitem a instalação de tirantes em seus terrenos.
Neste caso esta opção está descartada, por
uma circunstância legal mesmo sendo a solução
tecnicamente mais adequada c a mais econômica
Na escolha do paramento, o número dc alternativas
é muito maior c o desempenho destas muito
dependente das características do subsolo, das
condições do N.A., do espaço disponível para a
sua implantação e das condições das construções
vizinhas, tornando, por isso, o processo de escolha
mais complexo.
a. Estacas-Prancha
As estacas-prancha metálicas são implantadas através
de cravaçào por percussão ou por vibração.
Devido ao sistema de ligação entre as estacas
pranchas, elas formam um paramento estanque
que evita o fluxo d'água e o carreamento de material
para o interior das escavações e, portanto,
dependendo do comprimento de sua "ficha'' e
das características do subsolo, podem dispensar,
muitas vezes, a utilização de sistemas de rebaixamento
do lençol freático.
Podem ser reutilizadas mas, para tanto, devem
ser empregadas como estrutura temporária e
implantadas afastadas das estruturas definitivas.
A retirada das estacas-prancha deixa vazios que
desconfinam o terreno adjacente, podendo provocar
rccalques.
Podem ser utilizadas com qualquer tipo de
escoramento. No caso de o escoramcnto ser a própria
cstmtura definitiva, elas nào poderão ser recuperadas
para nova utilização, o que torna o processo
antieconômico.
O escoramento inferior das estacas-prancha é
proporcionado pelas próprias "fichas" que, também.
suportam os esforços verticais atuantes no
paramento.
Dependendo das características do terreno e das
condições das construções vizinhas, sua implantação
pode causar vibrações indesejáveis.
Estacas-prancha de madeira são usadas em contenção
de escavação de pequena profundidade
como por exemplo em valas, para instalação de
tubulações de esgoto, águas pluviais etc.
Estacas-prancha dc concreto têm uso limitado
pois, para contenções altas, têm que ter porte avantajado,
o que torna difícil o seu manejo (peso) e a
sua cravaçào (vibrações, alinhamento etc..) além
dc apresentarem falhas nas juntas entre estacas
que permitem a passagem de água e solo para
dentro das escavações.
b. Perfil Pranchado
Este tipo de paramento é muito utilizado cm
obras de contenções implantadas acima do lençol
freático e em solos que podem, por um efeito de
arqueamento (areias) ou devido à sua coesão
(siltes e argilas), permanecer estáveis, ao menos
temporariamente, de modo a permitir a escavação
do terreno, entre perfis, para instalação do
prancheamento. Nestas condições, c para contcn-
çõcs com alturas ate ~6 m têm se mostrado uma
solução muito econômica, principalmente quando
os perfis metálicos sào incorporados à estrutura
definitiva como parte integrante da armadura
da cortina de concreto.
O espaço necessário para a sua implantação é,
geralmente, pequeno (20 cm a 40 cm).
O perfil pranchado pode ser utilizado com qualquer
tipo de escoramento.
Foto 1 4.5 - Perfil pranchado atirantado
Os perfis metálicos são utilizados para suportar
as cargas verticais da contenção das vigas e lajes e
também as da estrutura definitiva.
Abaixo do N.A., geralmente só podem ser implantadas
com auxílio de sistemas de rebaixamento
do lençol freático, o que onera a implantação deste
sistema de contenção além de propiciar o aparecimento
de recalques indesejáveis nas construções
vizinhas.
A cravaçào dos perfis metálicos pode causar vibrações
elevadas se eles forem de jx>rte avantajado
e se o subsolo tiver camadas de solos resistentes.
Muitas vezes, os perfis metálicos só podem ser
instalados com a utilização de pré-furos para
minimizar as vibrações e, mesmo, para permitir que
atravessem as camadas de solo mais resistente.
Para a instalação das pranchas de madeira
(pranchada), que servirá de fôrma (perdida) para
a ccrtina definitiva de concreto, e necessário executar
uma escavação manual cujo custo, geralmente
elevado, deve ser considerado quando
do estudo econômico da solução, assim como,
também, o custo das longarinas metálicas que
servem para transmitir os esforços dos tirantes ou
estroncas aos perfis, quando um desses tipos de
escoramento for adotado.
c. Paramentos com Estações
Sob este título analisaremos as cortinas constituídas
por estações escavados com lama
bentonítica, estações revestidos com camisas metálicas
e também cortinas de tubulões executados
a céu aberto.
Executados da superfície do terreno, sem praticamente
desconfinar o solo adjacente e sem
provocar vibrações, este tipo de soluçào tem sido
muito adotada na execução de contenções em
que o solo a ser contido é constituído por argila.s
médias, rijas e duras ou solos, acima do N.A.,
que apresentam uma certa coesão que permite
espaçar os estações ou tubulões para compensar
o maior consumo de concreto e aço, por tilde
paramento, decorrente de sua forma circular.
Para a instalação deste tipo de paramento, é
necessário dispor de um espaço de pelo menos
70 cm no caso de tubulões a céu aberto escavados
manualmente (podem ser executados tangentes
à divisa), e de pelo menos 80 cm no caso
de estações escavados com lama bentonítica ou
com camisa perdida.
No caso de estacas cncamisadas em que se
propõe recuperar as camisas de aço, o espaço
mínimo necessário para a sua instalação é ainda
maior.
Como, de uma maneira geral, os estações e
tubulões possuem grande rigidez, eles permitem
um maior espaçamento dos escoramentos
(tirantes. estroncas), o que é um aspecto econômico
favorável.
Cortinas de tubulões têm sido usadas no caso
de contenções em que o acesso de equipamentos
pesados é praticamente impossível ou quando
a presença de matacôes torna difícil a utilização
desses equipamentos.
O solo entre estações ou tubulões pode ser
contido, dependendo do caso, por concreto projetado,
armado ou nào, por uma cortina convencional
de concreto armado ou simplesmente
protegido por parede de alvenaria. Em todos
estes casos haverá escavação manual, cujo custo
deverá ser levado em conta quando da análise
econômica da solução.
Quando o solo a ser contido for constituído
por camadas de areias, argilas moles ou siltes
fofos, situadas abaixo do N.A .a implantação
deste sistema de contenção só é possível, como
no caso do Perfil Pranchado, com o emprego de
sistemas de rebaixamento do lençol freático.
No caso de estações justapostos, sempre haverá
entre eles um espaço de pelo menos 5 cm a lu cm
ou até mais. no caso de contenções profundas «problema
de vertical idade), por onde fluirá para dentro
da escavação água e solo. liste problema pode
ser resolvido fazendo-se um tratamento das juntas
através dc injeções químicas (injeções tle cimento
são pouco eficazes) ou através de colunas Jet Grout.
O tratamento deve ser executado por trás da
cortina e antes das escavações.
Devido ao processo executivo, eks apresentam
como vantagem em relação aos estações o fato de
nào utilizarem lama lx.*ntonítica e ou camisas metálicas
para conter o terreno e ter una velocidade
de execução l>em maior.
O processo dc colocação da armadura, neste tipo
de estaca, nào permite que ela, dependendo do
seu comprimento, seja totalmente armada. Por este
motivo a sua utilização em contenções fica limitada
a paramentos cuja altura incluindo o comprimento
tia ficha seja igual ou inferior ao comprimento
tia estaca possível de ser armado.
f. Colunas "Jet Grout"
As colunas "Jet Grout" nada mais sào que colunas
dc solo/cimento e. como tal. têm pouca resistência
a tração não sendo, por este motivo, muito
utilizadas como paramento, a não ser cm casos de
contenção de pequena altura ou cm paramentos
cuja forma induza tensões predominantemente de
compressão como no caso tle contenções tle paredes
de poços circulares.
Foto 14.6 - Cortina de estações justapostos atirantada.
Escoramento superior com estroncas metálicas
Estes tratamentos, além de onerosos, não garantem
uma perfeita estanqueidade das juntas. Eles devem
ser complementados por tratamento adicional,
pelo lado interno, dos pontos localizados dc vazamento.
d. Cortinas com Microestacas ou Estacas Tipo Raiz
Estacas de jxrqueno diâmetro não sào os elementos
mais apropriados para serem utilizados como
paramento de uma contcnção, pois, tendo pouca
capacidade para resistir a momentos fletores devido
a sua reduzida secçào transversal, exigem um
maior número de pontos escorados, e apresentam,
como no caso dos estações, os mesmos problemas
dc justaposição com o agravante de se ter um maior
número dc juntas por rrr de paramento.
Como elas são executadas com equipamentos
de pequeno porte e adequados para perfurar rocha.
seu emprego tem sido limitado a situações
onde outros sistemas se mostram inviáveis quer
por problemas de acesso dos equipamentos, quer
por condições adversas do subsolo criadas pela
presença de matacões ou veios rochosos.
e. Cortinas com Estacas Tipo Hélice Contínua
Tüdo o que foi dito com relação às cortinas constituídas
por estações se aplica às cortinas executadas
com estacas tipo I lélice.
Podendo ser executadas secantes umas às outras,
as colunas "Jet Grout" formam um paramento
"estanque".
Como processo de melhoria da resistência dos
solos, em sido utilizadas como enfilagcm na execução
de Túneis.
Elas sào estruturas provisórias e. portanto, nào
substituem a contenção definitiva.
g. Estruturas de Gravidade
(Muros de concreto, muros tle "gabiões", "Crib
Walls")
Estes tipos de contenção, devido sua concepção
estrutural, dispensam a utilização de escoramentos.
De construção relativamente simples e econômica
sào pouco utilizadas em obra.- tle fundação
uma vez que, na maioria das vezes, o espaço disponível
para a implantação destas estruturas é insuficiente.
Para serem implantadas abaixo do N.A. exigem
a instalação de sistemas tle rebaixamento. Têm
sido utilizadas como estruturas definitivas em contenções
com alturas até 6m.
h. Muros de Flexão
Como as estnituras tle gravidade, dispensam a
utilização de escoramentos.
Sào, também, tle construção relativamente simples,
mas, como sua implantação quase sempre
implica escavações a maior e rcaterros, têm sido
pouco utilizados em obras tle fundação.
Necessitam ser implantados em terrenos com
boas características de fundação ou sobre fundações
profundas.
Para serem implantados abaixo do N.A. exigem
a instalação de sistemas de rebaixamento.
Têm sido utilizados como estruturas definitivas
em contenções com altura geralmente nào superior
a 8 metros.
i. Cortinas
Este sistema que consiste na execução de paramentos
de concreto armado ou concreto projetado
armado (com tela), por trechos ou em "cachimbos",
geralmente escorados por tirantes ou bermas
durante a fase executiva e pela estnitura definitiva
quando da obra pronta. Tem sido utilizado para
conter escavações em solos, acima do N.A., que
tenham suficiente resistência para permanecerem
estáveis, ac menos temporariamente, até a instalação
da contenção.
O processo executivo é geralmente lento e demanda
muita mão-de-obra para as escavações confinadas
e acertos dos taludes.
As cortinas têm sido muito utilizadas (com tirantes
definitivos) como estrutura permanente na
contenção de encostas.
j. Paredes-diafragma
O processo executivo de paredes-diafragma (moldadas
"in loco" ou pré-moldadas), que permite executar
da superfície do terreno ao longo de tcxlo o
perímetro da contenção uma parede contínua de
concreto armado, sem provocar vibrações ou
desconfinar o terreno adjacente praticamente em
qualquer tipo de solo , acima ou abaixo do N.A..
revolucioneu, desde a sua introdução, no fim do
anos 5ü. a Engenharia de Fundações por permitir
realizar com relativa facilidade, segurança e economia.
escavações profundas mesmo junto a edificações
já existentes.
As paredes-diafragma têm um desempenho melhor
que os outros tipos de paramento, pois:
• podem ser implantadas em quase qualquer tipo
de terreno, mesmo em areias finas submersas,
sem rebaixamento do lençol freático.
• podem ser implantadas sem provocar vibrações,
mesmo en camadas de areias muito compactas
e argilas muito duras.
• formando um paramento "estanque", evitam o
fl jxo de água para o interior da escavação
possibilitando que esta, entre os paramentos, seja
executada, na maioria das vezes, somente com
esgotamento superficial.
• executadas usualmente com espessuras variando
de 30 cm até 120 cm (em obras especiais já foram
executadas paredes com espessuras de 240 cm),
podem ser utilizadas em contenções de pequena
ou grande altura.
• se conformam melhor ao perímetro da contenção
e podem ser utilizadas com qualquer tipo de
escoramento.
Foto 14.7 - Parede-diafragma moldada in loco"
atirantada. Bermas sendo usadas como escoramento
provisório
No caso em que se utilizam tirantes como escoramento,
dispensam a execução das vigas (longarinas
metálicas ou de concreto) para distribuição das
cargas.
No caso em que se utiliza como escoramento a
própria estrutura definitiva, as paredes-diafragma
podem ser executadas incorporando os ferros de
espera das vigas e lajes.
Na implantação de subsolos, abaixo do N.A., elas
podem trazer grande economia adicional quando,
penetrando em camada de baixa permeabilidade,
situada abaixo dos subsolos, formam com esta uma
caixa "estanque", permitindo substituir a laje de
subpressão por um sistema de drenagem.
Foto 14.8 - Parede-diafragma. pré-moldada, atirantada
O processo executivo de paredes-diafragrr.a exige
a utilização de equipamentos pesados e de grande
porte e, portanto, não é possível executá-las
em locais onde estes equipamentos nào conseguem
ter acesso. A presença de matacões é outro
fator que pode inviabilizar a utilização das paredes-diafragma.
14.2.3 Aspectos Econômicos dos Sistemas de
Contenção
A implantação de um sistema de contenção depende
da viabilidade técnica e executiva do mes-
mos e da análise comparativa dos custos advindos
dc sua escolha, análise esta que não deve se restringir
tão-somente ao custo direto de implantação
mas abranger outros custos que são influenciados
pelo sistema adotado.
Assim, por exemplo, há que se levar em consideração
a diferença de custo dos seguros a serem
contratados, custos estes que podem variar muito
dependendo do tipo de contenção escolhido.
Da mesma forma, os custos dc supervisão das
obras bem como o custo de remuneração do capital
investido, ambos sendo proporcionais ao tempo
de execução, sào influenciados pelo sistema
dc contenção adotado.
As cortinas com estacas prancha metálicas só sào
economicamente viáveis se puderem ser recuperadas
para posterior utilização. Entendidas como paramento
provisório, devcrào ser implantadas afastadas
da estrutura definitiva, o que acarreta custos
adicionais de rcaterros e perda dc espaço.
Do ponto de vista econômico, levando-se em conta
tão somente os custos tle implantação dos sistemas
de paramento, em geral as paredes-diafragma para
contenções de pequena altura c acima do N.A. têm
custo mais elevado que as demais tipas.
Para contenções com alturas acima de 10 m a 12 m
e acima tio N.A. o custo das paredes-diafragma se
aproxima tio custo dos demais paramentos exigindo,
nestes casos, uma apuração mais detalhada.
No caso de contenções implantadas abaixo do
N.A. os custos de implantação das paredes-diafragma
sào geralmente inferiores aos custos de
implantação dos outros sistemas (é necessário levar
em consideração os custos do rebaixamento
do N.A., do tratamento das juntas etc.).
Com relação aos escoramentos, o custo das escavações
confinadas acrescido ao custo adicional
de execução da estrutura definitiva em condições
mais difíceis tem papel relevante na análise econômica
entre os diversos sistemas.
14.3 PROCESSO DE ESCOLHA DA SOLUÇÃO
Este item tem o objetivo tle organizar e sistematizar
a aplicação dos conceitos e informações
dos 2 itens anteriores c capítulos corrclatos, ao
projeto de contenções.
Procura-se atingir esse objetivo, dividindo o
processo cm 6 fases.
14.3.1 Levantamento de Dados - Fase 1
Dados de base devem ser levantados especialmente
nos seguintes aspectos:
• Geológicos/Geotécnicos
Os dados levantados devem permitir uma boa
definição das qualidades e limitações do maciço a
ser escavado.
• Topográficos
Os dados devem incluir, além da planialtimetria,
o cadastro dos espaços disponíveis
• Interferências
O cadastro das interferências deve, para cada
serviço, identificar a geometria e as condições de
operação das instalações próximas à obra. sejam
elas subterrâneas, de superfície ou aéreas.
Com relação às edificações vizinhas, é necessário
identificar em planta, o terreno, o andar térreo
do edifício, bem como as projeções dos subsolos
e marquises. Além disso é necessário identificar
o número dc subsolos, o tipo de fundação e o
tipo dc estrutura do edifício.
• Outros dados
E muito conveniente ter ainda alguma informação
em relação a:
Expectativa tle prazo de constniçào do proprietário.
Técnicas e equipamentos disponíveis no local
da obra.
Normas e códigos aplicáveis à obra em questão.
14.3.2 Produção de Alternativas - Fase 2
A procura de alternativas deve ser aberta, aceitar
todas as idéias, mesmo aquelas que aparentemente
pareçam tolas. Às vezes, essa primeira impressão
nos trai.
Dc forma a organizar essas idéias, é conveniente
tabelar as soluções propostas, contra suas vantagens
e desvantagens.
Essa tabela/quadro pcmiitc visualizar melhor o conjunto
e comparar com mais clareza as alternativas.
14.3.3 Seleção das Melhores
Alternativas - Fase 3
Com base em comparação puramer.tc qualitativa, é
usualmente passível descartar algumas soluções. As
soluções remanescentes são aquelas que nào conseguimos
comparar sem um estudo mais detalhado.
14.3.4 Detalhamento das Alternativas
Selecionadas - Fase 4
O detalhamento dessas alternativas deve ser o
mínimo que permita uma decisão. Em casos extremos,
podemos chegar ao nível do projeto básico.
14.3.5 Levantamento de Custos - Fase 5
Para aquelas soluções que mantiveram
competitividade até o final do detalhamento, deve
ser preparada uma avaliação de custos.
Usualmente essas avaliações de custos nào sào
orçamentos, não levam em conta senão os itens
mais significativos.
14.3.6 Comparação e Definição da
Alternativa Escolhida - Fase 6
Na escolha da soluçào a adotar, terá sempre grande
importância a soluçào tle menor preço.
É importante não perder de vista o que foi dito
no item 14.1.1.d, isto é, devemos levar em consideração
os aspectos imponderáveis ali contidos.
Uma nova tabela/quadro comparativo, mais detalhado
a essa altura, pode ser ferramenta útil.
A decisão final tem sempre um lado subjetivo.
Mesmo quando escolhemos o preço mínimo, e
aparentemente estamos sendo objetivos, houve
uma avaliação subjetiva dos imponderáveis, con-
.s i d e rados secu nd á rios.
Quando existem grandes diferenças de preço,
esses imponderáveis são realmente secundários.
Ocorre que. com freqüência, a diferença tle preço
entre duas soluções nào supera 20%. Nesses casos
a avaliação dos imponderáveis é importante e
pode mudar uma decisão.
14.3.7 Discussão da Decisão
Tomada uma decisão e escolhida uma soluçào,
ela deve ser sempre objeto tle discussão.
O primeiro contraparte natural é o cliente ou
seu representante, isto é, o gestor tio projeto.
Essa discussão deve ser tào mais detalhada quanto
maior for o empreendimento. Assim, podem ser
incluídos na discussão especialistas das áreas envolvidas,
consultores internos e externos, até se chegai
a uma junta de consultores num caso extremo.
14.4 EXEMPLOS
O terreno é plano e o subsolo é o indicado pelo
perfil de sondagem de simples reconhecimento
apresentado a seguir:
0.00-
2,50
1,50 N.A. aterro de areia fina, argilosa, com entulho.
-5,00-
-10,50-
-14,50
-18,50
-21,00
-25,00
-28,00
areia fina e média, muito compacta;
amarela. SPT (médio) = 30
areia fina muito argilosa, d
fragmentos de valvas, fofa, cinzaescuro.
SPT (médio) = 4
argila pouco arenosa, mole, cinzaclaro.
SPT (médio) = 6
areia fina e média, argilosa,
medianamente compacta, cinza e
amarela. SPT ( médio) - 11
areia média e grossa, com pediegulhos,
medianamente compacta,
cinza. SPT (médio) = 12
argila arenosa, rija, cinza. SPT
(médio) = 16
areia média, medianamente compacta
a compacta, cinza e amarela SPT
(médio) - 20
silte muito arenoso, com mica,
compacto, amarelo e cinza (solo
residual) SPT>30
A) Deseja-se implantar uma passagem subterrânea
para veículos, cuja secçào transversal esquemãtica
é a indicada na Figura 14.3:
via elevada (existente)
J
m
Reversível
Sul- Norte
K— 14.00m*H- 11.20r»H— -U.OOm* 1 *— 14.00m>j
Figura 14.3 - Passagem subterrânea
A passagem subterrânea com cerca tle 430 m dc
comprimento e altura livre de 4,50 m, atravessa
região urbanizada da cidade com inúmeras interferências
enterradas (redes de energia, tubulações
tle água e esgoto ele.) e edifícios, alguns
antigos (apoiados sobre fundações diretas) e historicamente
importantes tais como: Museu Naval,
Tribunal tle Alçada Criminal etc..
Estes edifícios estão situados ao longo da passagem
subterrânea e muito próximos da mesma
(~3 metros).
A passagem subterrânea acompanha o traçado
de uma via elevada, existente cujas fundações dos
pilares sào profundas e apoiadas aproximadamente
na cota - 28,0. Após a construção tia passagem
subterrânea, toda a região será reurbanizada vindo
a se constituir, no futuro, numa grande praça.
A laje superior da passagem terá 0,40 m dc espessura
podendo abrigar, no futuro, algumas redes
de serviços públicos
O cronograma de obras prevê um prazo de execução
de 24 meses e o início pela construção da
passagem Norte-Sul.
O tráfego na região não poderá ser totalmente
interrompido. Os trabalhos de reurbanização da
superfície só serão iniciados quando as passagens
já estiverem em utilização.
Interferências
As interferências subterrâneas deverão ser
remanejadas pois com a obra pronta elas certamente
não permanecerão nos lugares onde atualmente
se encontram. Algumas poderão no futuro
ser alojadas no interior da laje de cobertura da
passagem
É desejável que este remanejamento seja executado
antes do início das obras.
A interferência aérea, representada pela via elevada,
não poderá ser remanejada e portanto o fato
de se ter que trabalhar nessa região com "pé-direito"
reduzido ( 8.0m) deverá ser levado em consideração.
É importante lembrar que o espaço para implantação
do sistema de contenção é, na maior parte
da obra, exíguo ( ~3m ) devido ã proximidade
das construções vizinhas e dos blocos de fundação
da via elevada.
Como o trafego local nào poderá ser interrompido
durante a construção da passagem, a execução
do sistema de contenção deverá poder conviver
com constantes remanejamentos de tráfego.
Eleger o melhor sistema de contenção (paramento
e escoramento) para a implantação da passagem
subterrânea tendo em vista os aspectos técnicos,
econômicos e o prazo de constniçào estabelecido.
Iniciaremos nosso estudo pela pergunta "ONDE?"
dos requisitos construtivos.
A resposta a esta pergunta é dada pela própria
arquitetura do projeto, que já na fase de implantação
definiu o traçado da passagem subterrânea.
Tendo em vista a posição das contenções e a
concepção estrutural da obra (laje de cobertura c
laje dc fundo apoiadas nas paredes laterais), é
importante analisar desde o início como as contenções
interferirão com a execução das fundações
da passagem.
As contenções a serem executadas deverão suportar
os empuxos de terra e de água, permitindo
a execução das escavações e a constniçào da estrutura
permanente.
Como as escavações se darão abaixo do lençol
freático, será necessário evitar a percolação dc água
para o interior da vala. pelas paredes e ou pelo
fundo, para possibilitar a execução das escavações
sem comprometer a segurança da obra e das construções
vizinhas (edifícios e via elevada).
Antes de passar à fase dc 'COMO" executar as
contenções que, como já foi dito, envolve a escolha
do método construtivo, é importante lembrar que
qualquer que seja o sistema estudado este deverá,
sempre, atender a todos os requisites de segurança
(ELU e HLS) mencionados anteriormente.
i
No presente caso, tem vital importância a verificação
dos recalques das construções adjacentes
(instalação dc pinos de controle de recalques e
piezômetros para verificação do N.A.) durante a
implantação das contenções e execução da obra.
É recomendável que sejam vistoriadas todas as
edificações localizadas próximo à obra para caracterizar
o estado das construções e permitir comparações
futuras.
Processo de Escolha
A escolha de um tipo de contenção engloba duas
fases intimamente relacionadas: a escolha do tipo
de paramento e a escolha do tipo de escoramento.
Escolha do
Escoramento
A escolha do tipo de escoramento, como já vimos,
é mais simples pois o número de opções é
menor (estroncamento, tirantes, bermas, estrutura
definitiva) c os fatores que a influenciam mais
determinantes.
De uma maneira geral, o escoramento proporcionado
pela estnitura definitiva é mais econômico. Entretanto,
os custos das escavações c execução de
outros serviços sob lajes e vigas, principalmente
quando o "pé-direito" é reduzido, oneram o custo
das obras podendo anular a economia auferida pelo
escoramento com a estrutura definitiva.
Escoramentos provisórios projetados próximos
aos travamentos definitivos também trazem economia
à obra.
No presente caso a adoção da laje de colxrtura
da passagem como escoramento superior da estrutura
de contenção apresenta'inúmeras vantagens:
• escoramento feito com a própria estrutura
definitiva.
• executada logo após os paramentos da contenção,
permitirá, num prazo bem mais curto, a
liberação do tráfego, ainda que de forma
provisória sobre a passagem e permitirá, também,
antecipar o início dos serviços de reurbanização.
Para facilitar a complcmenção da obra (escavação
e execução da laje de fundo) o ideal seria que
o escoramento inferior da contenção fosse, durante
a construção, a própria "ficha' do paramento
e que nào houvesse escoramentos intermediários
para a escavação da trincheira poder ser executada
com equipamentos tradicionais de terra-
plenagem (carregadeiras e caminhões) pelas rampas
de acesso da passagem. O "pé-dircito" de
6,50m (durante a fase construtiva) permite o trabalho
normal desses equipamentos.
Escolha do
Paramento
Para a escolha do paramento analisaremos as
várias opções disponíveis:
Estruturas de gravidade: (muras, gabiões etc.).
Não sâo adequadas ao caso pois ocupariam espaço,
que não é disponível, e para serem instaladas
exigiriam grandes escavações que, por sua vez,
dada as condições do local e do subsolo, necessitariam
de outro sistema de contenção.
Estacas-Pra ncha
Metálicas
Podem ser utilizadas pois formam um paramento
' estanque" evitando a entrada de água e material
pelas paredes da escavação. Com ficha adequada.
controlam o gradiente do fluxo de água
pelo fundo da escavação evitando rupturas de fundo
e permitindo, provavelmente, a escavação da
trincheira só com esgotamento superficial.
Sendo normalmente muito flexíveis, necessitam
de um maior número de pontos de escoramento
(estroncas ou tirantes) para evitar deformações excessivas
dos terrenos adjacentes. No caso elas teriam
que ter uma linha dc escoras (tirantes, pois
estroncamento dificultaria a escavação da trincheira)
entre a laje dc colxrrtura c o fundo da escavação
ou uma secçáo transversal compatível com o
vão a ser vencido.
Para ser um processo econômico, as estacasprancha
metálicas têm que ser recuperadas (utilização
mais usual) e portanto a estrutura definitiva
deve ser construída afastada das mesmas criandose,
desta forma, uma câmara de trabalho que deverá
ser preenchida com solo compactado.
A retirada das estacas-prancha deixará vazios,
dcsconfinando o terreno e provocando recalques
nas estruturas adjacentes. Este problema |xxlera ser
eliminado se usadas de forma a serem incorporadas
á estrutura definitiva (como fôrma perdida)
quando da concretagem das paredes da passagem.
Sob a via elevada as estacas-prancha teriam que
ser cravadas em segmentos dc no máximo 4 m. A
união destes segmentos teria que ser feita através
de soldas, o que tornaria o processo moroso e
antieconômico.
Estacas-Prancha de Concreto Armado
No presente caso, devido aos empuxos elevados,
elas teriam porte avantajado e sua cravaçào
provocaria vibrações danosas às construções vizinhas.
Além disso, a justaposição entre as estacas
é geralmente precária c o paramento apresentaria
inúmeras juntas abertas que permitiriam a passagem
de água e de areia fina causando danos às
construções vizinhas. Na região sob a via elevada
seria impossível a sua utilização devido ac "pcdireito"
reduzido.
Perfil
Pranchado
Este tipo de solução geralmente se mostra viável
quando da implantação de obras acima do lençol
freático. No presente caso esta solução apresenta
as seguintes restrições:
• devido à presença de areias finas submersas, o
pranchcamento entre perfis só será possíve. com
a implantação dc sistemas dc rebaixamento o
que, no presente caso, causaria recalques das
construções vizinhas à trincheira.
• devido à presença de camadas mais argilosas o
rebaixamento poderá nào ser eficaz, em regiões
localizadas, o que seria desastroso para o obra.
O perfil pranchado é uma estrutura provisória
nào dispensando a execução da parede definitiva
em concreto armado. Neste tipo dc estrutura o
perfil metálico é normalmente incorporado à estnitura
definitiva. Dado o porte da obra, para resistir
aos empuxos c também servir como fundação
da passagem, o espaçamento entre perfis será
pequeno, os perfis serão avantajados e profundos.
Sua cravaçào poderá trazer problemas dc vibração
para as construções vizinhas.
Sob a via elevada eles terão que ser cravados
cm segmentos dc no máximo 'i metros, unidos
por solda, tornando o processo lenio e
antieconômico.
Estações com Concreto Projetado Entre Eles
Esta solução apresenta, devido à presença da
areias submersas ,o inconveniente de se ter que
rebaixar o lençol freático para escavar entre os
estações e aplicar o concreto projetado que no
caso deverá ser armado para suportar (como estrutura
definitiva) os empuxos de água c terra e
descarregá-los nos estações. Como a cortina de
concreto projetado descarrega os empuxos nos
estações, estes serão profundos, dc grande diâmetro
(>l,30m) e pouco espaçados.
O engastamento da laje de fundo nas paredes
de concreto projetado e também o engaste destas
com os estações pode ser um empecilho a
mais para esta solução.
Como nas outras alternativas, a execução dos
estações sob a via elevada exigirá equipamentos
especiais (equipamentos com hastes telescópicas
curtas), o que reduzirá a produtividade deste tipo
de serviço tornando-o mais dispendioso.
Estações Com Colunas
"Jet Grout" Entre Eles
Neste sistema pode-se dispensar o rebaixamento
do lençol freático pois as colunas de "Jet Grout"
sào executadas antes da escavação da trincheira e
nào concomitantementc como 110 caso anterior
(pranchcamento e concreto projetado).
Entretanto, paia se evitar o rebaixamento é necessário
que as colunas de "Jet Grout" atinjam uma profundidade
de pelo menos 6,50 m abaixo do fundo da escavação,
de forma a se manter o gradiente do fluxo de
água para dentro das mesmas em valores seguros para
evitar uma ruptura hidráulica do fundo da vala.
Como as colunas "Jet Grout" praticamente nào resistem
à tração, elas deverão formar um arco entre
os estações para poder descarregar os empuxos sobre
eles que são os elementos resistentes. Desta forma,
como na alternativa anterior, os estações serão
profundos, de grande diâmetro e pouco espaçados.
Como na alternativa do perfil pranchado, as colunas
"Jet Grout" são estruturas provisórias e não
dispensam a execução das paredes definitivas em
concreto armado.
Devido à heterogeneidade do terreno, principalmente
nas regiões de aterro, é necessário ter em mente
que nem sempre se tem, nestas condições, uma boa
formação das colunas, o que traria grande transtorno
para a obra principalmente se este fato ocorrer junto
às edificações e às fundações do viaduto.
Colunas "Jet Grout"
Tendo pouca resistência à tração, para servirem
como estrutura de contenção elas necessitam trabalhar
como um muro de gravidade, o que exige um
espaço não disponível no presente caso. Sào estruturas
no caso provisórias, não dispensando a execução
das parede definitivas em concreto armado.
Paredes-Diafragma
As paredes-diafragma sendo executadas da superfície
do terreno e formando uma parede contínua
de concreto armado antes da escavação da trincheira
dispensam a utilização de sistemas de rebaixamento
do lençol freático para a sua implantação.
Dimensionadas convenientemente, elas podem
suportar os empuxos de água e terra sendo escoradas
tão-somente pela a laje superior e pela "ficha"
Podendo ser incorporadas à estrutura definitiva,
elas já são no mesmo tempo o paramento da contenção
e as paredes definitivas da passagem.
Instaladas ao terreno sem causar vibrações e
desconfinando pouco o terreno adjacente, afetam
um mínimo as construções lindeiras.
Formando uma parede "estanque", elas evitam a
entrada de água pelas laterais e dependendo do
comprimento da sua "ficha" controlam o gradiente
hidráulico evitando rupturas de fundo e permitindo,
desta forma, que a trincheira possa ser escavada
somente com esgotamento superficial. Eventuais
vazamentos pelas juntas da parede devem ser enfrentados.
No caso de se ter que usar rebaixamento do lençol
para a escavação da trincheira, elas impedem
que este cause danos às construções vizinhas pois
confinam o rebaixamento do lençol à região entre
elas, principalmente no presente caso em que existe
uma camada de aigila (baixa permeabilidade)
situada entre as cotas -10,0 e -14,5.
Sào também as fundações da laje de fundo e de
cobertura da passagem.
A ligação das paredes com as lajes de fundo e
de cobertura sào facilmente executadas.
Também como nas alternativas anteriores ter-se-á
que usar equipamentos mais baixos para se traba-
Uiar sob a via elevada. Entretanto, no caso dc se usar
"dam-shells" livremente suspensos (sem haste "kelly"),
o problema se resume na utilização de guindastes com
lança curta e gaiolas de armadura emendadas.
Estacas-Raiz
Justapostas
Apresentam como maior inconveniente, neste
caso, o fato dc as justaposições não serem perfeitas,
permitindo a passagem de água e areia fina.
Devido ao seu pequeno diâmetro, exigem
escoramento intermediário para resistir aos
empuxos. Sào também estruturas provisórias, nào
dispensando a execução das paredes definitivas
em concreto armado.
Estações Justapostos
Apesar de serem executados sem vibrações e
desconfinando pouco o terreno adjacente, apresentam,
no presente caso, o mesmo inconveniente
das estacas raiz, de não se conseguir uma perfeita
justaposição entre eles deixando passar por
entre as juntas água e areia.
Como já comentado anteriormente, apresentam restrição
para serem executados sob a via elevada.
B - Deseja-se construir um hotel com 4 subsolos
em terreno medindo 40 m de frente por 50 m de
fundo. O hotel é constituído por uma torre disposta como
indicada na planta esquematica abaixo, Figura 14.4.
Os pilares que sustentam as lajes dos subsolos
estão dispostos como indicado na Figura e têm
uma carga da ordem de 400 ton. A carga dos
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Figura 14.4 - P/anta dc hotel com 4 subsolos
pilares de periferia é da ordem de 180 ton. Os 12
pilares que suportam a torre têm carga variando
de 800 ton a 1200 ton.
Os subsolos, nos fundos e nas laterais direita c
esquerda, sc estendem até as divisas do terreno.
Na frente, eles têm um recuo dc 8,0 m cm relação
à Av. S. João dei Rey.
O vizinho da direita possui um subsolo c o vizinho
da esquerda dois.
O vizinho do fundo é uma residência de dois
pavimentos.
No terreno em que será construído o hotel havia,
no passado, duas residências antigas de dois
pavimentos. O hotel será implantado num terreno
plano cujas características do subsolo são as
indicadas pelo perfil de sondagem apresentado
abaixo:
u.u
-8,0
_ 16,0
argila siltosa. pouco arenosa, porosa,
mole a média, vermelha
SPT i médio) = 8
argila siltosa. pouco arenosa, média a rija.
cor variegada
SPT { médio) = 16
-17.0 N.A.
siíte argiloso, arenoso, medianamente
compacto muito compacto.cor
variegada
SPT (crescente com a profundidade)
18 a > 50
-36,0 limite da sondagem * - 36,0m
O prazo total para implantação do hotel (4 subsolos
c 20 andares da torre) é dc 36 meses, inclusive
acabamentos. Na execução dos serviços de
alvenaria, acabamentos c equipamentos (ar condicionado,
telefonia, segurança etc.) serão
despendidos 22 meses.
Eleger o melhor sistema dc contenção para implantação
dos subsolos.
Novamente, neste caso, a pergunta ONDE? é respondida
pela arquitetura que definiu a posição
das paredes definitivas dos subsolos.
Neste caso também os requisitos de segurança
(ELL e ELS ) deverão ser atendidos.
Chamamos, em particular, a atenção para o valor
dos empuxos a ser adotado sobre as contenções,
uma vez que os empuxos calculados, dada
a resistência do terreno e ausência do lençol
freático, serão muito pequenos.
É conveniente adotar, ao menos, para a determinação
dos esforços no escoramento, um valor
de empuxo mínimo como o sugerido no item
Requisitos dc Segurança.
Seguindo a mesma metodologia do exemplo anterior,
iniciaremos a escolha do tipo de contenção
pela escolha do escoramento, analisando as vantagens,
desvantagens c limitações de cada tipo.
Escolha do Escoramento
Tirantes
Eles permitirão a escavação do terreno como um
todo, facilitando enormemente os serviços de
tcrraplenagcm (22.000 m 3 de escavação). Em se escavando
o terreno de uma só vez até a cota - -
13,0m, as fundações dos pilares poderão ser executadas
cm fundação direta apoiadas na camada
de silte argiloso compacto, o que poderá representar
uma grande economia para a obra
como um todo.
Entretanto, para sc atirantar os paramentos da
contenção é necessário ter permissão dos vizinhos
uma vez que os tirantes, mesmo sendo provisórios,
serão instalados cm seus terrenos. Muitas obras
já foram embargadas por nào terem autorização
formal dos vizinhos para instalação de tirantes cm
seus terrenos. Os custos de um embargo judicial
poderão provocar prejuízos incalculáveis.
Estroncamentos (horizontal ou inclinado):
Neste caso, dada a altura da escavação c dada a
distância entre paramentos (40 metros c 50 metros),.
sua utilização fica prática e economicamente
inviável.
O estroncamcnto. que certamente será metálico,
exigirá fundações intermediárias e um
contravcntamcnto dc tal ordem que tornará muito
difícil a sua montagem, dc cima para baixo, à
medida que a escavação prossegue.
A escavação do terreno também será dificultada
bem como a execução da estrutura definitiva em
concreto armado.
Estrutura Definitiva
íi solução muito utilizada em situações como a do
presente caso. 0>mo na alternativa dc estroncamcnto
metálico, exige a execução de apoios intermediários
que podem e devem ser coincidentes com os próprios
pilares da estrutura definitiva.
Normalmente os apoios provisórios sào executados
em estrutura metálica (muitas vezes só perfis
metálicos I, II, H etc.) que terminam incorporados
aos pilares definitivos da estrutura.
Como escoramento, tem custo zero uma vez que
6 a própria estrutura (vigas e lajes) dos subsolos
Entretanto, a sua utilização pode onerar os serviços
de escavação e execução dos subsolos a tal
ponto de tornar o processo, como um todo.
antieconômico (escavação c execução das estnituras
sob lajes com "pé-direito reduzido").
Para compensar os problemas de prazo de execução,
6 comum dimensionar os apoios provisórios
para suportar, além das lajes dos subsolos ,
algumas lajes do edifício propriamente dito para
poder construir, ao mesmo tempo, os subsolos e a
estrutura do edifício.
Muitas vezes, o prazo de construção dos subsolos,
por este sistema, é quase igual ao prazo de
construção da obra inteira.
Bermas de
Equilíbrio
Em escavações confinadas e com as proporções
da presente as bermas de equilíbrio, devido aos
taludes que necessitam ter, só podem ser pensadas
como escoramento auxiliar dos outros tipos.
Assim, tanto no caso dos tirantes como no caso
da estrutura definitiva, elas sào de grande utilidade
para escorar os paramentos até a implantação
desses escoramentos. No segundo caso, podem
permitir que uma parte razoável do terreno seja
escavada a "céu aberto", diminuindo sensivelmente
o custo das escavações.
Escolha do Paramento:
Para a escolha do paramento analisaremos, como
no exemplo A, as várias opções disponíveis.
Para os tipos de paramento: Estruturas de Gravidade,
Estacas-Prancha Metálicas, Estacas Prancha
de Concreto Armado e Colunas "Jct Grouf
sào válidas as considerações feitas no exemplo
anterior.
Perfil
Pranchado
Este tipo de paramento teoricamente se apresenta
adequado ao caso em questão e sua utilização
ou não dependerá da análise econômica comparativa
com os outros tipos.
Entretanto, devemos chamar a atenção para alguns
pontos, principalmente de ordem constmtiva,
que podemos incluir no que foi chamado de
"aspectos imponderáveis" no item 14.3.6 , para
serem levados em consideração caso as diferenças
econômicas não sejam grandes:
• dada a profundidade das escavações -13 metros
e sendo os perfis, também, os elementos de
fundação da cortina (~ 24 ton./m ) eles terão
que ser cravados até pelo menos a cota - -2M,0,
o que exigirá uma grande energia de cravação
acarretando vibrações e ruídos que podem ser
indesejáveis.
• a manutenção da verticalidade durante a
cravaçào de perfis longos é difícil e portanto é
de se esperar que muitos perfis saiam do pitimo,
o que dificultará a construção da cortina definitiva
de concreto armado às quais eles serão
incorporados.
• no caso de se usar tirantes como escoramento, é
importante lembrar que as Icngarinas para
distribuição da carga dos tirantes representam
um custo a mais e irão dificultar a execução da
parede definitiva.
Cortinas Com Utilização de Estações
Tendo cm vista as características dos solos a
serem contidos c estando eles sitiados acima tio
N.A., pode-se pensar em utilizar estações espaçados
de modo a se ter um menor ccnsumo de concreto
e aço por m- de paramento.
Aumentar o espaçamento entre estações normalmente
significa aumentar o diâmetro dos mesmos,
o que nem sempre o espaço reservado para a contenção
permite. É importante lembrar que na maioria
das equipamentos para execução de estações, a
distância mínima entre eixo do estação e divisa é
de 0,50 m, ou seja, só estações com diâmetro
igual ou maior que 1.0 m poderão ser executados
tangentes à mesma.
Para conter o solo entre os estações poder-seá
utilizar, no caso em questão, concreto projetado
simples ou armado, colunas "Jet Grout" e
pranchada dc madeira. As cortinas de concreto
projetado simples, as coluna "Jet Grout" e a
pranchada de madeira serão sempre provisórias,
nào dispensando a execução da cortina definitiva
em concreto armado. Já a cortina de concreto
projetado armado será a cortina definitiva. No
presente caso. dependendo do espaçamento entre
os estações e contando temporariamente com
o arqueamento do solo entre eles, a cortina definitiva
em concreto armado poderia ser
construída sem a utilização das contenções provisórias.
Neste tipo de paramento as ligações entre vigas
e lajes dos subsolos com os estações e destes com
a cortina definitiva são sempre de execução difícil
e trabalhosa.
As dimensões dos estações permitem normalmente
que se dê um espaçamento maior entre os
escoramentos (tirantes ou estrutura definitiva) o
que pode representar grande economia no
atirantamento ou nos serviços de escavação.
Pa redes-Diafrag
ma
A paredc-diafragma se aplica a este caso sem
nenhuma restrição técnica ou executiva uma vez
que pela execução de painéis justapostos de concreto
armado formam a parede definitiva do
subsolo sem causar vibrações e afetando pouco
os terrenos adjacentes. As paredes executadas
podem ter espessura variando de 0,30 m até 1,20
m e podem ser executadas obedecendo, geralmente,
um afastamento mínimo das divisas de 0,10 m.
Podem ser dimensionadas para permitir escavações
com "pé-direito" duplo e normalmente possibilitam
uma distribuição econômica dos tirantes.
As ligações com a estrutura definitiva do subsolo
sào geralmente simples de serem executadas.
No presente caso, dada a existência de vizinhos
com subsolos, é necessário verificar se as
paredes dos mesmos podem suportar o empuxo
hidrostático da lama bentonítica ou se nào existem
passagens por onde a lama possa invadir estes
subsolos causando, algumas vezes, grandes
transtornos. Estas recomendações também se aplicam
a contenções executadas com estações escavados
com lama bentonítica.
Cortina com Hélice
Contínua
As estacas Ilélice Contínua podem ser utilizadas
no lugar dos estações e todas as observações feitas
para um processo sào válidas para o outro.
A Hélice Contínua apresenta como vantagens
não utilizar lamas bentoníticas na sua execução,
ser um processo executivo mais rápido e a possibilidade
de executar estacas de menor diâmetro.
Apresentam como restrição o fato de nào poderem
ser totalmente armadas a partir de um determinado
comprimento No presente caso, dada a
profundidade da escavação, elas teriam que ter
um comprimento armado maior que -20 m.
Quadro 14.1 | Exemplo A - Comparativo das Diversas Soluções (Qualitativo)
Tipo de
Paramento
Espaço p/
implantação
Pontos de
escoramento
Controle
d'água
Vibrações
Pé-direito
limitado
Verticalidade
Est.
definitiva
Estrutura
gravidade
náo
disponível
exigem a execução de um outro sistema de contenção para sua implantação
Estacasprancha
metálicas
só se
perdidas
exigem
escoramento
entre 0.00 e
6.50
moderada
sem
rebaixamento
praticamente
impossível
boa
não tsual
Estacasprancha
de
concreto
disponível
podem
dispensar
escoramento
intermediário
muito pesados
cravaçào
dificil c/
vibrações
elevadas
sofrível pela
difícil
cravaçào
sem
rebaixamento
praticamente
impossível
estanqueidade
das
junta;
sofrível
Perfil
pranchada
disponível
exigem
escoramento
entre 0.00 e
6.50
implantação
só com
rebaixamento
moderada
cravaçào
difícil e
onerosa
boa
estrutura
provisória
Estações c/
concreto
projetado
disponível podem dispensar
escoramento
intermediário
implanraçáo
só com
rebaixamento
nula
execução
difícil
(equipamento
especial)
boa
problemas
ligações
concreto
proj. c/
estações e
lajes
Tipo de
Paramento
Espaço p/
implantação
Pontos dc
escoramento
Controle
dágua
Vibrações
Pé-dircito
limitado
Verticalidadc
Est.
definitiva
Estações
com colunas
"Jet Grout
necessário
verificar
podem dispensar
escoramento
intermediário
sem
rebaixamento
nula
execução
difícil
(equipamento
especial)
boa
estrutura
provisória
Colunas "Jet
Grout"
náo
disponível
náo resistem
á tração
Só se usadas como estrutura dc gravidade (que náo ô aplicável ao caso)
Parcdes-
Diagragma
disponível
podem dispensar
escoramento
intermediário
sem
rebaixamento
nula
cxccuçáo
viável sem
maiores
transtornos
boa
definitiva só
necessitando
acabamento
Estações
justapostos
disponível
podem dispensar
escoramento
intermediário
sem
rebaixamento
exigem
tratamento
nula
execuçáo
difícil
(equipamento
especial)
boa
estanqueidade
das
juntas
sofrível
Estacas-Raiz
justapostas
disponível
exigem
escoramento
entre 0.00 e
6.50
nula exeqüível boa estanqueidade
das
juntas
sofrível
Quadro 14.21 Exemplo B - comparativo das diversas soluções (qualitativo]
Tipo dc
Paramento
Perfil
pranchada
Estação com
pranchcamento
de
madeira (1)
Estação com
concreto
projetado (1)
(2)
Paredes
diafragmas
Cortina com
hélice
contínua c/
concreto
projetado (1)
Espaço p/
implantação
Pontos dc
escoramento
Controle
dagua
Vibrações
Pé-dircito
limitado
disponível ~ 3.50 < — moderada sofrível
para o caso
verticalidade
estrutura
provisória
verificar >3,50 nula boa estrutura
provisória
vcrificar >3.50 nula boa estrutura
definitiva.
Dificuldades
dc ligação
com a estr.
definitiva
disponível >3.50 nula boa estrutura
definitiva.
Necessita
acabamento
vcrificar
dificuldade
para armar
toda a estaca
nula boa estrutura
definitivo.
Dificuldades
de ligação
com a estr.
definitiva
Est.
definitiva
escavação
manual
escavação
manual
escavação
manual
lama nos
subsolos dos
vizinhos
escavação
monuíil
(1) - Há necessidade de se estudar bem como fazer as ligações dos estações e estacas hélice com o concreto projetado e deste
com as lajes c vigas do subsolo.
(2) - Pode haver problema de lama nos subsolos dos vizinhos como no caso da parede-diafragma.
Examinando as soluções do exemplo A no Quadre;
14.1, pode-se descartar como alternativas viáveis
aquelas que exigem a instalação de sistemas dc rebaixamento
para sua implantação pois o rebaixamento
do N.A. causará, devido à presença da camada de
areia tina argilosa fofa e da camada de argila mole
existentes entre as cotas - 5.00 e -14.50, recalques nas
estruturas adjacentes apoiadas sobre fundações diretas.
Descartam-se também as contenções cuja execução
sob -pé-direito" reduzido é muito difícil.
No Quadro 14.2, relativo ao exemplo B, todas as
alternativas de paramento sào viáveis. Sua escolha
dependerá do espaço disponível para a implantação
das contenções e da comparação dos custos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Dada a quantidade de requisitos a que uma contençào
(paramento e escoramento) deve atender,
tanto na fase provisória (construtiva) como na fase
permanente, e dada a variedade de tipos de contenção
e de processos executivos disponíveis além
dos inúmeros fatores circunstanciais (interferências
subterrâneas e aéreas, tráfego, nível de ruído,
prazos de execução etc.), que de uma maneira ou
de outra influenciam a implantação, a escolha da
solução de contenção mais adequada a cada caso
é feita.como já foi dito no início deste capítulo,
através de uma seqüência de passos cada um melhorando
o anterior, de forma que ao final tenhamos
uma solução que atenda da melhor maneira
possível aos requisitos apresentados.
REFERÊNCIAS
BAGUELIN, f- Charactcristic Values for Geothecnical Paramctcrs
- IABSE Confcrcncc D.tvos 1992 - Structural Codcf.
LEITE, R: HORTA, A: BORGES, L; STUCCHI. F. - Olculs,
observations c mesures d'unc scction du tunncl "Marechal -
Barra Funda" ligne leste-oeste du Metrô dc Silo Paulo - Actes
du Coloque "Interractions Sols-Structures" a L'ENPC 1987.
MAUBERTEC - Dossiê DS - 3.04.00.00/619.001 - Reavaliação
dos critérios dc projeto e comportamento dc valas escoradas
para o Metô de Sào Paulo.
NBR 8681 - Açòes e Segurança nas Estruturas - Norma da ABNT
de 1984.
TOMLINSON M J. Literal support of decp exeavalions. Ground
Engineering. Instn Civ. Engrs, London. 1970. 55-64.
OVESEN, N. K. - Geotechnical Code of Pratice - IABSE
Conference Davos 1992 - Structural Codes.
VOTH. B - Tiefbaupraxis, Volumes 1 a 3 - BauA'erlag 1977.
WEISSENBACH, A. - Recomendações do círculo dc trabalhos
"Escavações" da Soe. Alemã de Engenharia dc Ohras de
Terra c Fundações. Bautcchnik 1976 - Tradução CMSP.
ZINN W. V. Economical construction ofdecp basements. Civ.
Engng Publ. Wks Rev. 1968, 63, Mar.. 275-280.
Dos exemplos dados podemos verificar que é
mais lógico iniciar a caminhada pela escolha do
tipo de escoramento, pois, como já foi dito, o número
de opções é menor e os fatores que influenciam
sua escolha, mais determinantes. Assim, por
exemplo, sc no caso da construção do hotel os
vizinhos não permitirem a instalação de tirantes,
mesmo que provisórios, em seus terrenos, a única
opção de escoramento que resta é escorar o
paramento, qualquer que seja ele, com a própria
estnitura definitiva dos subsolos.
Definido o tipo de escoramento, o próximo passo
seria a escolha do paramento que, atendendo aos
requisitos já mencionados, melhor se integre com o
esroramento escolhido o proporcione vantagens à
obra como um todo. /Vinda no exemplo do hotel,
sabendo que a dificuldade de escavação sob lajes é
inversamente proporcional ao "pé-direito" disponível
, isto é, quanto menor o "pé-direito" maior a
dificuldade de escavação, a escolha de um paramento
mais rígido que pennita escavação de "pédireito"
duplo poderá tomar a obra como um todo
mais econômica e mais rápida apesar de a contenção
escolhida não ter sido a de menor preço.
CAPITULO 1 5
ANÁLISE, PROJETO E EXECUÇÃO DE ESCAVAÇÕES
E CONTENÇÕES
JAJME DOMINGOS MARZIONNA
CARI.OS EDUARDO MOREIRA MAFFEI
ARGIMIRO ALVAREZ EERREJRA
ARMANDO NEGRE1ROS CAPUTO
15.1 INTRODUÇÃO
O assunto deste capítulo é, como os demais que
compõem este livro, bastante extenso para se pretender
esgotá-lo.
Em vista da impossibilidade de abranger todos
os casos possíveis em todos os detalhes espera-se
do leitor o bom senso na aplicação e o entendimento
de que o texto pretende apenas formular
as regras gerais dos métodos, que deverão ser
aplicados judiciosamente conforme o caso específico.
Escavações e contenções englobam uma série
de obras de engenharia que têm recebido tratamento
com diferentes graus de intensidade em
diversas publicações. Dentre elas, considera-se
mereçam destaque: muros de arrimo, valas e contenções
de encostas e taludes.
Pela extensão do assunto e dificuldade de localização
de informações detalhadas na literatura
técnica nacional, optou-se por detalhar a parte
referente a valas. Os muros de arrimo serão também
tratados pela importância e maior freqüência
com que o engenheiro se depara com esse tipo
de obra ao longo da vida profissional. Por outro
lado. a parte referente a contenções de encostas e
taludes será apenas comentada sem grande profundidade,
mas com o intuito de mostrar que
muitos dos cálculos e verificações necessários ao
projeto de tais obras sáo essencialmente os mesmos
do projeto de valas.
Assim, este capítulo trata principalmente das
obras provisórias e permanentes, necessárias à
execução de obras enterradas.
As obras sào caracterizadas como provisórias
enquanto houver acompanhamento e o construtor
estiver mobilizado de forma a poder intervir
imediatamente. Caso contrário, as obras devem ser
caracterizadas como permanentes.
Estas, do ponto de vista da segurança, sào caracterizadas
pelo fato de as estruturas permanentes
apresentarem condições de equilibrar as ações
que possam ocorrer ao longo da sua vida útil (carregamento
potencial) com os coeficientes de segurança
e as recomendações prescritas pelas normas,
os quais correspondem a riscos que a sociedade
aceita como satisfatórios.
Assim, enquanto a observação e a capacidade
de mobilização do construtor podem garantir a
estabilidade das estruturas provisórias, apenas o atendimento
às especificações das normas pode garantir
a estabilidade das estruturas permanentes.
As atividades dc projeto propriamente ditas devem
ser precedidas de uma análise preliminar
devendo abranger no mínimo os seguintes tópicos:
• análise crítica do perfil geológico-geotécnico
• análise do comportamento provável do solo,
tendo em vista sua formação geológica e suas
características de resistência e deformabilidade,
diante da descompressão causada pela escavação.
Deverão ser analisados o efeito da água, o
nível de deformações e tensões e outros fatores
tais como o eventual rompimento de
adutoras ou outros acidentes possíveis;
• valores dos parâmetros a serem utilizados, de
acordo com o comportamento previsto e outros
fatores que forem julgados importantes. O
engenheiro poderá se fundamentar em sua própria
experiência, na bibliografia especializada
e ensaios de laboratório e de campo.
A análise e o projeto do sistema de contenção
envolve a determinação do carregamento, dos
esforços solicitantes, o dimensionamento dos elementos
de contenção e verificações complementares
aplicáveis a cada caso específico.
15.2 DETERMINAÇÃO DO
CARREGAMENTO
Os carregamentos atuantes nas escavações e
contenções sào essencialmente os mesmos, qualquer
que seja o tipo de obra. O carregamento final
atuante no elemento estrutural é, em geral,
composto de três parcelas básicas: empuxo de terra,
empuxo devido a sobrecargas externas c
empuxo devido a água.
A seguir estão apresentadas considerações a respeito
da determinação das ações devidas a cada
uma das parcelas acima mencionadas e que devem,
evidentemente, ser adaptadas em cada caso
particular.
15.2.1 Empuxo de Terra
O valor do empuxo de terra, assim como a distribuição
das tensões ao longo da altura do elemento
de contenção, dependem da interação soloelemento
estrutural durante todas as fases da obra
(escavação e reaterro). O empuxo atuando sobre
o elemento estrutural provoca deslocamentos
horizontais que, por sua vez, alteram o valor e a
distribuição do empuxo, ao longo das fases construtivas
da obra e até mesmo durante sua vida útil.
Portanto, o carregamento do elemento estnitural
de contenção depende fortemente das suas
próprias características geométricas e reológicas,
por ser parte de um conjunto estaticamente
indeterminado.
A seqüência básica consiste em calcular primeiramente
o empuxo-força (resultante), que é nominalmente
aceito como estaticamente determinado
por teoria de equilíbrio-limite para as condições
de ruptura do solo e, subseqüentemente,
estimar a distribuição das tensões respectivas.
Convenciona-se ser adequadamente determinávcl
o empuxo-força mínimo (ativo) ou máximo (passivo),
para a hipótese-limite de ruptura, segundo
superfície crítica a pesquisar, incorporando ruptura
principalmente por cisalhamento e eventual trinca
de tração. Na hipótese de corpo rígido está
implícito o desenvolvimento simultâneo das tensões
e deformações de ruptura ao longo de toda a
superfície, hipótese esta aceitável cm maciços
homogêneos de dimensões módicas c dc comportamento
tensão-deformação plástico, nãofriável.
Nas condições de deslocamentos insuficientes
para a ruptura potencial do solo, os empuxos são
majorados (quando ativos) ou reduzidos (quando
passivos), podendo ser avaliados em função de
estimativas associadas à experiência, embora parca
e dispersa, relativa à magnitude dos deslocamentos.
Estes empuxos assumem valores denominados
Repouso-Ativo (majorado) ou Repouso-
Passivo (minorado).
No caso particular de valas, em função das condições
geométricas e reológicas que definem os
graus de flexibilidade ou rigidez nominal da parede
de contenção, convenciona-se simplificar as
estimativas dos empuxos-força e principalmente
das distribuições de tensões, considerando duas
categorias básicas: paredes flexíveis e paredes rígidas.
A parede é considerada flexível quando sofre
deformação por flcxão significativa. Ao contrário,
a parede é denominada rígida se esta deformação
por flexào puder ser desprezada. Esta definição é
importante porque a maioria dos métodos de cálculo
têm pressuposto o valor e a distribuição das
tensões a partir da flexibilidade estimada da parede,
sempre admitindo que o maciço seja constituído
de material normalmente adeasado.
Ainda no caso particular dc valas, a escavação
do maciço de um dos lados da parede, admitida
instalada sem qualquer efeito sobre as tensões e
deformações iniciais, irá provocar deslocamentos
para o seu lado interno; a distribuição dos deslocamentos
irá depender da vinculaçào e da rigidez
da parede. Sc houver rotação da parede (rígida)
em relação à base, as tensões geostáticas distribuir-se-ào
dc forma triangular, com intensidade
que, até os limites assintoticamcnte alcançados na
condição limite de ruptura, dependerá do valor
do deslocamento.
Pressupõe-se conhecidas as teorias de determinação
de empuxo, assim como os conceitos dc
empuxos ativo, repouso, passivo, e as situações
intermediárias entre elas, e as relações tensõesdeslocamcntos
envolvidas.
Assim sendo, apresentam-se a seguir algumas
sugestões para a determinação e cálculo dos
empuxos, de uso comum no meio técnico. Essas
expressões simples para o cálculo dos empuxos,
em situações particulares, sào as fornecidas pela
Teoria de Rankine, embora não necessariamente
sejam utilizados seus coeficientes de empuxo.
a. Empuxo Ativo
No caso particular de solo homogêneo, sem
coesão e superfície horizontal, sem a presença de
água. o empuxo ativo atuante numa contenção de
paramento vertical pode ser obtido conforme apresentado
na Figura 15.1.
Z
V-
H
|
EovI
E O
CS =
KaTz
Eo - "ZK^H 2
Eoh-
Edcos<5
Eov- Eoeenó
Fig. 15.1- Avaliação do empuxo ativo para solo sem
coesão
Na figura anterior os símbolos utilizados têm os
seguintes significados :
K j - coeficiente de empuxo ativo:
ô = ângulo dc atrito entre o solo e o elemento
estrutural;
a - tensào efetiva;
Y = peso específico do solo;
tp - ângulo de atrito interno do solo;
Ea - Empuxo ativo total resultante.
O valor do ângulo de atrito solo-elemento estrutural,
"6", é normalmente adotado como ô - 2/3 tp.
Quando houver a presença de água, as pressões
neutras deverão ser consideradas para a determinação
das tensões verticais efetivas para, apenas posteriormente,
aplicarem-se os coeficientes de empuxo.
No caso particular de valas, se além da componente
vertical do empuxo de terra também for
necessário resistir a outras forças verticais importantes,
deve-se verificar a capacidade de carga da
estaca, levando-se em conta o seu método construtivo
(cravada ou instalada em pré-furo).
Para o caso particular de solo homogêneo, com
coesão e superfície horizontal, sem a presença de
água, o empuxo ativo atuante numa contenção dc
paramento vertical pode ser obtido conforme apresentado
na Figura 15.2.
Areia
Fig. 15.3 - Subsolo com estratificação
O, - Ka7z-2C' >/K3
Eoh = Cocos (5
Eo/b=
zo =
Eosen<5
2C'
7NÍJT
Fig. 15.2 - Avaliação do empuxo ativo para solo com
coesão
Os símbolos apresentados têm o mesmo significado
já definido anteriormente e onde "c" indica a
coesão do solo.
Dois pontos em particular merecem atenção especial.
O primeiro é que nos cisos dc solos muito
moles é comum adotar-se ô • tf'. O segundo é que
as tensões calculadas pela expressão anterior que
resultarem negativas são desconsideradas; tal procedimento
deve-se ao fato de o solo ser elemento
nào resistente à tração.
A existência das trincas dc tração, do deslocamento
do elemento de contenção, e a possibilidade
de infiltrações obrigam a consideração das
pressões hidrostáticas na altura "z", mesmo que
nào exista lençol freático.
No caso de terreno estratificado, como por exemplo
o representado na Figura 15 3, e ainda com
superfície horizontal, para cada camada podem
ser calculadas as tensões pelas fórmulas anteriores,
supondo que as camadas sobrcjaccntcs atuem
como sobrecarga dc extensão ilimitada. Fm
casos de grande variabilidade de resistência das
camadas, a aplicação dessas expressões pode conduzir
a resultados errôneos. Torna-se então necessário
analisar os prováveis mecanismos de ruptura;
pode-se alternativamente utilizar métodos de
cálculo por equilíbrio limite, devendo ser considerada
a compatibilidade dos deslocamentos das
diversas camadas.
Finalmente, para o caso de terrenos quaisquer
(homogêneo ou estratificado) com superfície irregular
ou inclinada aplica-se, normalmente, o processo
das cunhas (Método dc Coulomb). Para os
dc superfície inclinada, podem-se utilizar os procedimentos
apresentados anteriormente apenas
com os coeficientes de empuxo que levem em
conta a inclinação do terraplcno, como por exemplo
os valores tle Ka obtidos através dc qualquer
método cincmático, como o proposto por Caquot-
Kerisel-Absi (1973).
A Tabela 15.1 apresenta os valores do coeficiente
de empuxo ativo K a obtidos por Caquot-Kcriscl-Absi.
Finalmente deve-se lembrar que:
• quando nào forem válidas as hipóteses que fundamentam
as expressões anteriores como nos
casos de solos cujo comportamento seja ditado
pelas descontinuidadcs, solos expansivos, solos
colapsíveis etc. recomenda-se que sejam utilizados
modelos dc cálculos específicos.
• cm casos de escavações retangulares nas quais
o comprimento nào ultrapasse três vezes a sua
altura, o empuxo poderá ser reduzido em função
do efeito tridimensional, uma vez que a
cunha de deslizamento é limitada por efeito de
extremidade. A redução do empuxo nestes casos
pode ser feita como sugerido, por exemplo,
nas normas dc cálculo da Companhia do
Metropolitano dc São Paulo (1980, 1990) ou por
outro processo qualquer.
Tabela 15.1 | Coeficientes dc empuxo ativo K, obtidos
por Caquot-Kcriscl-Absi
Voío-»t lie ko pato.
6 .fi-0
Valores da relação wAp
-1.0 -0.6 0 | +0.6 + 1.0
10 0.58 0.60 0.65 0.75 0.99
15 0.45 0.48 0.54 0.64 0.96
20 0.36 0.38 0.45 0.53 0.92
25 0.29 0.31 0.37 0.47 0.87
30 0.23 0.25 0.30 0.4C 0.82
35 0.19 0.21 0.25 0.33 0.76
40 0.15 0.17 0.2 0.27 0.68
Para outros valores de ç e da rebçio w/ç, ver por exemplo Schncdwli
(1972) ou as normas dc cálculo da Companhia do Metropolitano <k-
Sio Paulo (1980. 1990)
b. Empuxo Passivo
As Figuras 15.4 e 15.5 mostram como avaliar o
empuxo passivo no caso dc solos sem e com coesão,
para o caso particular de superfície horizontal
e sem a presença de água, que, se existir,
deverá ter seu efeito considerado no cálculo da
tensào efetiva vertical.
Q> - Kp7z
Eph «
Epcosô
No caso de presença de camadas com grande
variação de resistências pode ser necessário analisar
mecanismos de ruptura para avaliação do valor
global do empuxo. considerando-se a compatibilidade
de deslocamentos das diversas camadas.
Para o caso de terrenos de superfície inclinada,
pode-se utilizar os procedimentos apreser.tados
anteriormente apenas com os coeficientes dc
empuxo que levem em conta a inclinaçüo do
terrapleno, como por exemplo os valores de K p
obtidos através de qualquer método cinemático,
como o proposto por Cacquot-Kerisel-Absi (1973),
e que estão apresentados na Tabela 15.2.
Tabela 15.2 I Coeficientes de empuxo ativo K p obtidos
por Caquot-Kcriscl-Absi ( .
Cpv =
Epscní
Wottt tí« y poro
a-2 r. (T-0
Fig. 15.4 - Avaliação do empuxo passivo para solo sem
coesão
Onde K p é o coeficiente de empuxo passivo e
os demais símbolos empregados sào os mesmos
já apresentados anteriormente.
O valor do ângulo de atrito solo-elemento estrutural,
"5", também neste caso é normalmente adotado
como 5 - 2/3 <p. exceto no caso de solos muito
moles, quando normalmente se adota 5-0.
<f>°
Valores da relação w/(p
-1,0 -0.6 0 +0.6 + '.0
10 0.95 1.33 1.59 1.79 1.88
15 0.92 1.53 2.10 2.55 2.77
20 0.87 1.78 2.75 3.81 4.32
25 0.81 2.07 3.80 6.01 7.30
30 0.74 2.42 5.30 10.20 13.60
35 0.66 2.86 8.00 18.70 28.20
40 0.57 3.40 12.00 38.10 65.40
Para outros valores dc j e da relação w/j, ver por exemplo Schneebeh
119 72) ou as normas de cáku lo da Companhia do Metropolitano de
S3o Pauto (1980. 1990J
Finalmente, no caso de existir berma na frente
da parede de contenção, o empuxo passivo nào
pode ser calculado como se fosse um maciço semiinfinito.
Nestes casos pode-se, por exemplo, utilizar
a sugestão de Schneebeli (1972).
Ep=l/J Kp7H*+ TC-s/KpH
Q> - KÇ>7Z* Zc-vKp 1
Eph = Epcosõ
Epv- Epsonó
c. Empuxo em Repouso
O empuxo em repouso pode ser calculado de
maneira semelhante à empregada para a determinação
dos empuxos ativo e passivo. As Figuras
15.6 e 15.7 mostram, de maneira genérica, a avaliação
deste empuxo para algumas condições.
°b= Ko7Z
Eo = 1/2 K07H 2
Fig. 15.5 - Avaliação do empuxo passivo para solo com
coesão
No caso de terreno estratificado, e ainda com
superfície horizontal, para cada camada podem
ser calculadas as tensões pelas fórmulas anteriores;
supondo que as camadas sobrejacentes atuem
como sobrecarga de extensão ilimitada, de
maneira análoga à utilizada para determinação do
empuxo ativo.
H
z
A
p \
Eo \
Fig. 15.6 - Avaliação do empuxo em repouso para uma
única camada de solo
Argila píostico Argila rijo ííüsuracio
rsM&wi—
0.25H
0.25H
0.75H
0.50H
0.25H
a-0,15yH
=0.207^1
Pora
o coso da dfogroma de empuxo triangulor
Fig. 15.7 - Avaliação do empuxo em repouso para uma
situação geral com várias camadas de solo
Na falta de conhecimentos suficientes e considerações
específicas, no projeto de valas, o
valor de "K " é usualmente adotado igual a 0,50.
Casos especiais (argilas muito moles, solos residuais
com planos preferenciais de fraqueza etc.)
devem ser analisados isoladamente.
Para os casos de superfície de terreno irregular,
a determinação do empuxo em repouso é
complexa e envolve investigações especiais de
campo.
d. Empuxo Ativo Mínimo
Em alguns casos, os solos argilosos apresentam-se
muito resistentes, com coesão elevada,
de modo que o empuxo ativo resulta de valor
muito pequeno, nulo ou mesmo negativo. No
entanto, é necessário que haja um escoramento
mínimo uma vez que pode haver dúvidas em
relação à confiabilidade dos parâmetros e resistência
adotados, sua variação com o tempo c a
ocorrência de mecanismos não previstos.
Assim, é recomendável a utilização de um
empuxo ativo mínimo para o dimensionamento
dos elementos estruturais.
Esses diagramas podem ser, por exemplo, os
apresentados na Figura 15.8, devendo-se adotar
aquele que seja mais adequado em cada caso,
em função do tipo de solo e das condições de
vínculo da parede de contenção.
Fig. 15.8 - Oiagramas de empuxo ativo mfnimo
Nestes casos, alguns cuidados construtivos devem
ainda ser adotados:
• instalação dc estronca próxima à superfície, a
fim de evitar a ocorrência de trincas dc tração;
• o eventual empuxo de água na trinca de tração
pocle ser controlado com a utilização dc drenos
adequadamente dispostos etc.
Observação:
No caso de as paredes de contenção apresentarem
deslocamentos verticais significativos, os valores
dos coeficientes de empuxo (ativo, repouso
e passivo) devem ser reavaliados por conduzirem
a situações mais desfavoráveis.
15.2.2 Influência da Água
A presença da água no subsolo deverá ser considerada
a partir dos condicionantes hidrogeológicos
da região, das permeabilidades das várias camadas
de solo e da parede de contenção, assim como do
seu embutimento. Dependendo do caso, poderá
ser utilizado nível d água estático, hidrodinâmico
ou até mesmo transiente, quando então deverá ser
compatibilizado com a velocidade de escavação.
A correta consideração da influência da água
nos empuxos se faz através da determinação das
pressões neutras não somente na parede de contenção
mas, também, na superfície potencial de
ruptura.
No caso dc lençóis empoleirados, para o cálculo
do empuxo ativo sugere-se o diagrama de pressões
neutras atuantes na parede, apresentado na
Figura 15.9
Costuma-se desconsiderar o efeito de sobrecargas
decorrentes de fundações de edifícios cuja ação
se localiza fora da zona de influência definica pela
região hachurada, indicada na Figura 15.10.
Zona dc influencia
Porede
Impermeável
! "Ptogrorno dc
<p>esspes;. no i/tras'.
V, / - • •••• ••
••. .. •.» •• • V i ... »
Fig. 15.9 - Sugestão de diagramas de empuxo d água
no caso de lençóis empoleirados
Já no que se refere ao empuxo passivo, diante
da sua importância para a estabilidade da parede,
principalmente na última fase de escavação, é usual
a utilização do peso especifico submerso, mesmo
que existam providências de drenagem, pois uma
eventual falha ou deficiência desse sistema terá
um efeito imediato de redução do empuxo passivo.
Deve-se sempre verificar se a condição com
rede de percolação nào conduz a um valor de
empuxo passivo inferior ao obtido apenas com a
consideração da submersão, quando então esse
deverá ser o valor adotado.
v
Fig. 15.10 - Região de influência das sobrecargas das
fundações de edificações junto à valas
Para edifícios com fundação direta, o nível de
aplicação do carregamento é o próprio nível das
sapatas. Já para fundações profundas, torna-se
necessário analisar caso a caso, a fim dc se estabelecer
o nível ou níveis mais adequados de aplicação
do carregamento. Havendo dúvidas, ê prudente
proceder-se ao cálculo por várias hipóteses
e adotar a mais desfavorável.
Para atender às situações com depósito de materiais
de construção e ao tráfego de veículos especiais
e equipamentos na faixa lateral à vala, costuma
-se definir dois tipos de sobrecargas equivalentes,
uma semi-infinita e outra com largura definida
que representaria os veículos especiais c equipamentos,
conforme mostrado na Figura 15.11.
Parede de Contendo
P -funçoo dos equipomentos
e veículos definidos pora
a obro
15.2.3 Sobrecargas
Qualquer que seja o tipo de obra, provisória ou
permanente, é necessária a consideração das sobrecargas
externas no cálculo das paredes dc contenção
de valas, tais como: edifícios próximos à
vala. depósitos de materiais nas proximidades da
vala, equipamentos, trens-tipo de norma etc.
Em particular, no caso das obras provisórias é
importante a consideração de sobrecargas especiais
de equipamentos e veículos especiais que possam
ser necessários à constniçào da obra enterrada.
Fig. 15.11 - Esquema de sobrecargas junto ás valas
É comum no meio técnico a adoçào de 10 kN/nr
para a sobrecarga semi-infinita e de 25 a 40 kN/m 2
para a sobrecarga devida aos equipamentos, com
uma largura de 1,50 m. Estes valores devem, evidentemente,
ser analisados e aferidos em cada caso
particular, para verificar se atendem às condições
específicas de cada obra.
O efeito dessas sobrecargas nas paredes de contenção
(tensões horizontais) é comumente calculado
através da aplicação da Teoria da Elasticidade.
A título de exemplo sugere-se a consulta ao
livro de Poulos e Davis (1974) onde estas considerações
de sobrecargas, assim como muitas outras
para diferentes geometrias e características do
subsolo, estão apresentadas.
A aplicação indiscriminada das expressões da
Teoria da Elasticidade pode conduzir a valores conservadores
para as teasões devidas às sobrecargas,
em funçào das condições de deslocabilidade da
parede. Assim, se o empuxo devido a elas resultar
significativo, por exemplo superior a 40% do
empuxo devido ao peso próprio do maciço, torna-se
necessária a aplicação de modelos mais representativos,
tais como método cinemático com
a consideração simultânea de todas as ações.
Ressalte-se que as expressões da Teoria da Elasticidade
fornecem diagramas de empuxos com
distribuições muitas vezes de difícil aplicação no
cálculo das paredes dc contenção de valas. Nestes
casos, a distribuição vertical das tensões horizontais
pode ser simplificada por distribuição composta
de retas determinada por equivalência de
áreas, conforme mostrado na Figura 15.12.
Retangulo
Distribuição da
Teoria da Elasticidade
Trap^zio
Simplificada)
(Distribuirão
Fig. 15.12 Simplificação da distribuição das tensões
horizontais ao longo da profundidade
A mesma simplificação pode ser empregada na
distribuição horizontal das tensões, conforme
mostrado na Figura 15.13, desde que o sistema de
contenção apresente rigidez suficiente no plano
horizontal.
Finalmente, deve-se lembrar que no caso do
empuxo passivo quaisquer sobrecargas acidentais
não devem ser consideradas, pois atuariam favoravelmente
à estabilidade da parede de contenção,
o que poderia comprometer a estabilidade
da obra no caso de elas deixarem de atuar.
Fig. 15.13 - Simplificação da distribuição das tensões
horizontais ao longo dc um plano horizontal
T 5.3 DETERMINAÇÃO DOS ESFORÇOS
SOLICITANTES
A dificuldade em representar as tensões iniciais,
a reologia do maciço, os fenômenos que ocorrem
durante a construção e que nào podem ser previstos
nos cálculos, assim como a dificuldade em
operacionalizar métodos de cálculos sofisticados,
entre outros fatores, levam à necessidade de entender
os resultados obtidos do cálculo estático
como aproximações.
Admitindo que a magnitude das ações e reações
estejam corretas, os resultados são realísticos nas
paredes isostáticas pois os esforços dependem somente
das equações de equilíbrio. Ao contrário, nas
paredes de comportamento hiperesiático, os esforços
sào influenciados pelo histórico da escavação,
pelos efeitos dc construção, pela rigidez do sistema
dc contenção, pela reologia do solo e por
outros inúmeros fatores. Assim, a magnitude e distribuição
dc esforços obtidos pelos métodos de
cálculo não devem, necessariamente, ser encaradas
como realísticas. mas como uma distribuição
de esforços solicitantes cstaticamente admissível,
isto é, em equilíbrio com o carregamento, sem
violar a condição dc plastificaçào do material. Os
métodos dc cálculo para paredes multiescoradas
ou multiatirantadas e para paredes em balanço,
uniescoradas ou uniatirantadas com a ficha maior
que a mínima, tem por objetivo fornecer uma distribuição
cstaticamente admissível; outra distribuição
obtida através de modelos mais ou menos refinados,
desde que também estaticamcnte
admissível, pode ser adotada.
Os modelos apresentados a seguir sào os
comumente aceitos dentro dos limites dc validade
das hipóteses simplificadoras ou cesde que elas
não descaracterizem o problema, o que se dá sob
certas condições, implícitas na própria apresentação
dos métodos de cálculo. Outras modelos podem
ser utilizados quando os aqui sugeridos nào
forem válidos.
ANALISE, PROJETO E EXECUÇÃO OE ESCAVAÇÕES E CONTENÇÕES I 5 4 3
De modo geral, os modelos para o cálculo de
valas podem ser agrupados naqueles que nào
levam em conta a interação solo-estrutura (não
compatibilizando os deslocamentos do solo e
da estrutura) e os que a levam em conta, representando
a restrição do solo através de barras
ou através de meio contínuo. A aplicaçãodestes
últimos para o cálculo de estruturas de
valas ainda nào pode ser considerada rotineira
pois depende de ferramentas de trabalho nem
sempre acessíveis a todos os engenheiros. Assim,
apresentam-se a seguir os modelos mais
simples, válidos apenas para obter diagramas de
esforços solicitantes cstaticamenie admissíveis e
modelos que representam o solo por meio de
barras, considerando o histórico da escavação.
Estes últimos são utilizados para obter diagramas
de esforços solicitantes, no caso de não
scrcn válidos os modelos mais simples, c para
obter deslocamentos da parede de contenção;
naturalmente, são de aplicação obrigatória quando
se quer realizar rctroanáliscs. Não é demais
ressaltar que é preferível a aplicação dos modelos
que levam em conta a interação solo-estrutura.
Centro
Rototfío
DEFORMADA
DA PAREDE
de
Rotoçflo do Parede
-mmv
\
\
\
\
\
1
Contro-Smpuxo
Distribuirão dos pressas
obtidas pelos Teorias do
Elasticidade e do
Plostícidade
15.3. T Paredes em Balanço
Uma parede em balanço resiste ao empuxo
devido ao seu engastamento no solo c, portanto,
é necessário existir uma "ficha" mínima para
se obter o equilíbrio da parede; esta é definida
como sendo o comprimento mínimo dc
embutimento da parede no solo abaixo do fundo
da escavação que garante o equilíbrio com
uma margem de segurança adequada.
Dois casos merecem destaque neste tipo de
parede de contenção, conforme se empregue a
menor ficha possível para garantir o equilíbrio
("ficha mínima") ou ficha maior.
Oiogromo Simplilicado
Fig. 15.14 - Parede cm balanço com ficha mínima
Pa-a o cálculo da ficha mínima, é suficiente a aplicação
do método conhecido como Método de Blum
que consiste cm aplicar as equações dc equilíbrio,
conforme o carregamento indicado na Figura 15.15.
a. Ficha Mínima
Neste caso o diagrama dc tensões em toda a
altura da parede, no trecho escavado, é o correspondente
ao empuxo ativo, qualquer que seja
o tipo de parede; pois se admite que haverá,
em qualquer caso, deslocamentos suficientes
para mobilizá-lo. Considerando-se que o movimento
é de rotação cm tomo de um ponto situado alxiixo
do fundo da escavação, a distribuição destas
tensões deve ser a convencional, isto é, a triangular
ideal, no caso de maciço homogêneo e
isotrópico.
Abaixo do fundo da escavação considera-se,
além do empuxo ativo, a existência do empuxo
passivo, que deverá ser integralmente mobilizado,
pois trata-se de utilizar a menor ficha possível.
EMP-JXO PASSÍVO TASPON^N.,
REDUZIDO POR FATOR DE
D€ SEGOWWCA V
<SL) A ,
Fig. 15.15 - Método de Blum para paredes cm balanço
com ficha mínima
É importante lembrar que a tensào o t deve contemplar
o empuxo devido ao solo, à sobrecarga e
todas as demais ações que influenciam o empuxo
ativo. O momento de todas as forças atuantes é
nulo em relação ao ponto R, ou seja:
ZR ZR aph
| (oah).(zm - z).dz = J .(zm- z).dz
O H CS
(15.1)
Para o equilíbrio das forças horizontais, admitese
a existência de um contra-empuxo E c que equilibre
o sistema, conforme mostrado na Figura 15.16.
/ / / /
Of—O
hi
Ec = g !
-Eoh
m m M
Eph
cs"—-
R
Eah
Ec
Kp y
hi
Fig. 15.16- Contra-empuxo no Método de Blum
Ko y
hi
No método, considera-se que o "contra-empuxo"
atue no centro de rotação R, nào influindo no
equilíbrio dos momentos; admite-se ainda um comprimento
adicional de ficha igual a 0,2 f (f = profundidade
do centro de rotação em relação ao
ponto de tensào nula). Este comprimento adicional
geralmente é suficiente para garantir a existência
de E; cm casos extremos deverá ser comprovada
a capacidade do maciço em fornecer este
valor. O coeficiente de segurança CS é normalmente
adotado como igual ou maior que 1,5 para
obras provisórias e 2,0 para obras definitivas e
aplicado apenas à tensão efetiva.
Os esforços solicitantes são obtidos do carregamento
indicado na Figura 15.15.
Em se tratando de obras permanentes, é recomendável
executar um piso estrutural no fundo da
escavação, a fim de evitar deformações por fiuência
ou redução de rigidez do solo e eventual colapso
por perda de resistência ou até mesmo erosão do
solo.
Cabe observar que a introdução do coeficiente
de segurança no empuxo passivo tem a finalidade
de assegurar a estabilidade da parede. A ficha
adicional (0,2 0 tem a finalidade de garantir o
equilíbrio das componentes horizontais das forças
do sistema, no caso de o empuxo passivo disponível
real ser inferior ao calculado.
A representação da reação do solo na região da
ficha pode ser realizada também através de barras
de comportamento clastoplástico (Figura 15.17)
com reaçáo limitada pelo empuxo passivo disponível
minorado pelo coeficiente de segurança, com
o trecho elástico linear. Esta representação permite
obter deslocamentos horizontais da parede. A
ficha mínima é definida pelo comprimento mínimo
além do qual a estrutura deixa de ser
hipostática.
<5i
Fig. 15.17 - Método de Blum com barras de comportamento
elastoplástico
b. Ficha Maior que a Mínima
O aumento do comprimento da ficha pode ser
necessário para reduzir os valores dos deslocamentos
horizontais. O caso geral de ficha maior
que a mínima corresponde à primeira fase de escavação
em paredes estroncadas ou atirantadas.
O seguinte método simplificado, que supõe regime
plástico até o ponto "A" definido adiante,
pode ser usualmente aplicado. A partir dos diagramas
dc empuxo ativo e passivo disponível, com
os mesmos coeficientes dc segurança indicados,
determina-se o ponto "A", abaixo da ficha, que
corresponde ao valor nulo da força cortante.
Resulton.e do empuxo
Ativo ocima de A
Resultorr.e do .empuxo
Passivo disponível
ocimo do A
— Coeficiente de Segurança
Fig. 15.18 - Método de Blum com ficha maior que a
mínima
O momento fletor de dimensionamento é:
M = Eah.ha--^-.hp = Eah.h
CS 1 (15.2)
Decorre dai o mesmo valor daquele obtido
quando a ficha é mínima.
Os resultados obtidos da aplicação deste método
simplificado mostram-se muito próximos
daqueles obtidos considerando o solo como
meio contínuo ni discretizado por meio de barras
(exceto ro caso de paredes muito rígidas e
solos muito moles ou fofos). Nestes casos, ou
quando se deseja obter deslocamentos, podem
ser aplicados métodos que consideram o solo
como meio contínuo (de comportamento linear
ou não) ou discretizado por meio de barras como
representadas na Figura 15.17 (de comportamento
linear ou nào), que se encontram na bibliografia
especializada.
Há. finalmente, alguns pontos importantes que
deven ser observados antes da aplicação do Método
de Blum:
• a profundidade da trinca de tração deve ser
calculada sem nenhuma sobrecarga acidental,
porém o empuxo devido às sobrecargas deve
ser considerado (ver Figura 15.19);
• eventual sobrecarga de equipamento, que é
localizada, deve ser considerada da mesma
maneira;
• no caso de solos muito coesivos aplica-se o
valor do empuxo mínimo, se for mais desfavorável;
• no caso de estruturas permanentes é recomendável
a execução de um piso estrutural
pelos motivos já expostos;
• a aplicação dos mesmos coeficientes de segurança
utilizados no caso de ficha mínima nào
se deve, como naquele caso, à necessidade
de garantir o equilíbrio (porque existe ficha
suficiente para compensar eventual
subestimativa no valor do empuxo passivo;,
mas a necessidade de evitar acréscimo substancial
da solicitação na parede devido a esta
subestimativa. Este acréscimo é mais impor
tante no caso de solos de menor resistência c
para certas geometrias, de modo que estes
coeficientes poderão ser reduzidos se forem
utilizados os modelos que consideram a interação
solo-estmtura, que permitem avaliar o acréscimo
de solicitação que, dependendo do caso, pode
ser aceito em fases provisórias de escavação.
empuxo
hidrostotico
empuxo devido ao peso
proprio do mociço e o
sobrpeorgo .P" e , .
eventualmente d#»vida
o aguo
Zo «* Altura do Trinco de Troçoo
emauxo
hidrostotico
emouxo devido co peso
próprio - 3o maci£Oi e ot
sobrecorqo "P r e "P' '
evftntuolrnente devido
o dguo
Fig. 15.19- Consideração das sobrecargas no Método
dc Blum
15.3.2 Paredes Estroncadas
As magnitudes dos deslocamentos que geralmente
ocorrem em valas estroncadas sào suficientes
para a consideração de empuxo ativo. Por oitro
lado, salvo em casos excepcionais, a distribuição
dos deslocamentos pode ser aproximada por
translaçòes ou rotações em torno do topo, de modo
que as tensões são redistribuídas por efeito de
arqueamento; por isso os métodos de cálculo consideram
um diagrama de empuxo ativo equivalente
(ou diagrama de empuxo ativo retificado;.
As figuras a seguir apresentam os diagramas de
empuxos ativo e os equivalentes retificados para
várias condições.
mar—-
Arco - "A"
(diogremo tropezoídal
ideei)
WZZ?
Fig. 15.Z0 - Diagramas dc empuxo ativo e o equivalente
retificado para maciço sem trinca dc tração
SinjACAO
P
1 : Zo > Ze
onde:
K
| Arwo *A2"
//i = [1 + (tan5 / tan<*>)] ~
(j) = ângulo de atrito do solo
hidrOBtcJiCOS
Arco "A2.1"
-X-eo
"A2.2
Fig. 15.22 - Diagrama de empuxo ativo no caso de
estroncas ou tirantes instalados junto ao topo da
parede de contenção
Fig. 15.21 - Diagramas de empuxo ativo e o equivalente
retificado para maciço com trinca de tração
É importante notar que as tensões devidas à
sobrecarga de equipamentos próximos â vala nào
sào redistribuídas; sào consideradas como acidentais
e adicionadas ao diagrama equivalente, sempre
que atuarem no sentido desfavorável.
Admite-se que atuem pressões hidrostáticas cm
toda a altura da trinca de iraçào, de forma acidental,
isto é, somente quando seu efeito é desfavorável.
A previsão de drenos pode dispensar a consideração
das pressões hidrostáticas. A instalação
de estroncas ou tirantes muito próximos à superfície
do terreno pode até inibir o aparecimento dc
trincas de traçào, o que exige análise específica
em cada caso, de modo a definir as reais tensões
atuantes na parede de contenção.
Em solos nào-coesivos a inibiçào de deslocamentos
pela instalação de estroncas ou tirantes
junto ao topo da parede altera o valor do empuxo
ativo, razão pela qual as tensões devidas ao empuxo
concentram-se na parte superior, não valendo o diagrama
de empuxo clássico triangular. Nestes casos
pode-se adotar, por exemplo o diagrama devido a
Dubrowa, que pode ser calculado pela expressão
15.3, comumente simplificado por retas.
az =
cas5
z. cos^i}/
(1 + m.senyr
2
z .<•>. cosy
(.sen \|/ + m)J
H(1 + m.seny^
(15.3)
A rcdistribuiçào do empuxo ativo sc dá através
dc tensões dc cisalhamento, dc modo que em solos
dc baixa resistência ao cisalhamento, como por
exemplo argilas moles ou solos residuais de baixas
consistência ou compacidade etc., o empuxo
ativo nào deve ser retificado.
Em caso de utilização de estroncas inclinadas,
pode nào ser possível a rcdistribuiçào se o movimento
da parede corresponder à roíacão em torno
da base.
Em terrenos estratificados com grande variação
de propriedades entre as camadas, deve ser
verificada a possibilidade dc rcdistribuiçào do
empuxo tendo cm vista as condições específicas
de cada caso.
É comum a retificação do diagrama de empuxo
ativo devido ao peso próprio e sobrecargas, exceto
as de equipamento. Entretanto, se os carregamentos
devidos às sobrecargas corresponderem a mais
dc 30% do total, estudos especiais deverão ser
realizados para definir a distribuição do diagrama
final do empuxo.
Vale lembrar que a retificação é válida apenas
para a parcela do empuxo que corresponde à ação
do maciço e sobrecargas; o diagrama de pressões
hidrostáticas não deve, evidentemente, ser retificado.
Entretanto, sc o efeito da água nào se manifestar
diretamente na parede (por exemplo, apenas
como subprcssào na superfície crítica), o
empuxo total correspondente a esta superfície
poderá ser retificado.
O diagrama de empuxo devido a carregamentos
acidentais deverá ser considerado apenas quando
desfavorável.
a. Parede com um Nível de Estroncas
Neste caso. de maneira análoga ao de paredes
em balanço, deve-se distinguir os casos de ficha
mínima e de ficha maior que a mínima.
No caso de ficha mínima, a resultante do diagrama
de tensões corresponde ao empuxo ativo
em virtude da forma e valor do deslocamento da
parede, quer a parede seja rígida quer seja flexível.
Considerando que haverá rotaçào na altura
da estronca, o diagrama de empuxo ativo é
comumente retificado, exceção feita aos casos acima
mencionados.
A ficha mínima é determinada pelas condições
de equilíbrio estático, admitindo-se que seja mobilizado
o empuxo passivo do lado da escavação.
Para atender às condições de equilíbrio e segurança,
deve-se minorar o empuxo passivo através
de um coeficiente de segurança CS. A Figura 15.23
ilustra o que foi dito.
Fig. 15.23 - Diagramas dc empuxos para parede de
contenção com um nível dc estroncas
O momento de todas as forças atuantes é nulo
em relação ao ponto R:
É importante analisar nestes casos a capacidade
da parede de redistribuir o diagrama de empuxo
ativo até o final da parede de contenção, o que é
função de sua rigidez. Quando a parede é flexível
é comum retificar-se o diagrama de empuxo ativo
apenas até o fundo da escavação, adotando-se o
diagrama com forma trapezoidal convencional
deste ponto para baixo, reduzindo-se desta maneira
os esforços solicitantes na parede de contenção
e aumentando, conseqüentemente, a contribuição
do maciço abaixo do fundo da escavação.
O coeficiente de segurança no empuxo passivo
tem a finalidade de assegurar a estabilidade da
parede, no caso de o empuxo passivo disponível
ser inferior ao calculado, devendo ser lembrado
que em obras permanentes é recomendável a execução
de um piso estrutural.
No caso de ficha maior que a mínima, o que se
procura obter é uma redução dos deslocamentos
ou, então, alcançar maior capacidade de carga
vertical. O caso geral de ficha maior que a mínima
corresponde à segunda fase de escavação em paredes
multicstroncadas.
Permanecem válidos para essa condição os mesmos
comentários feitos para parede coir. ficha
mínima, com relação ao coeficiente de segurança
aplicado no empuxo passivo e a execução de lastro
dc concreto para travamento no caso dc obras
permanentes.
Exceção ao que foi dito é o caso de paredes
com apenas um nível de estroncas em solo mole,
pois neste caso admite-sc que nào há redistribuiçào
de tensões laterais ao longo da parede.
A ficha mínima é determinada pela condição que
estabelece o equilíbrio de momentos no ponto A
(Figura 15.24), considerando a parcela de empuxo
passivo minorado pelo fator de segurança CS.
Nestas condições é comum adotar-se para CS os
valores de 2,0 para obras provisórias e 3,0 para obras
pennancntes, devido à grande deformabilidade do
solo abaixo do fundo da escavação.
CP.-^íi = ta.Eah (15.4)
CS
onde todas as grandezas estão definidas na Figura 15.23.
A ficha mínima é determinada por esta condição.
O coeficiente de segurança "CS", aplicado apenas às
tensões efetivas, é normalmente adotado como:
- CS = 1,5 - para obras temporárias
- CS - 2,0 - para obras definitivas
Para limitar os deslocamentos, estes valores do
coeficiente de segurança costumam ser aumentados
(em geral para 2,0 e 3,0) no caso de as fichas
estarem imersas em solos muito deformáveis.
A força na estronca decorre da aplicação da equação
de equilíbrio dos esforços horizontais.
Sufcatsolo FVmo
/ / / / / / / / / / / / / / / T / y / / / / / / / / ,
Fig. 15.24 - Diagramas de empuxos para parede de
contenção com um nível de estronca em solo mole
O cálculo dos esforços solicitantes na parede é
elaborado após a determinação da ficha mínima,
considerando o esquema estático e o carregamento
da Figura 1S.24.
Quando a profundidade da ficha mínima for tal
que a parede atinja um substrato inferior mais resistente.
a ficha mínima será determinada através
da mesma condição que estabelece que o
somatório dos momentos de todas as forças atuantes
em relação ao ponto A seja nulo. Neste caso
é comum considerar-se o esquema dc empuxos
apresentados na Figura 15.25; minorando-se as
parcelas das tensões passivas efetivas devidas ao
terreno, através de um coeficiente de segurança
<CS) adequado.
Observe-se que sc pressupõe que o empuxo passivo
na argila mole nào seja totalmente desenvolvido
em razão da restrição aos deslocamentos oferecida
pelo substrato firme.
obrigatório no caso de se desejar calcular deslo
camentos.
b. Parede com Vários Níveis de Estroncas
A experiência tem mostrado que sistemas de contenção
que utilizam paredes de estacas metálicas c
pranchòes de madeira, contidas por estroncas metálicas,
têm se comportado como sistemas de contenção
flexíveis para os tipos, dimensões e vãos usualmente
empregados. Mesmo sistemas consituídos de paredes-diafragma,
nessas condições, têm se comportado
como flexíveis diante das deformações que oconem na
região da ficha cm cada fase de escavação.
Quando se desejar limitar os deslocamentos da
parede estroncada obtendo-sc, portanto, um sistema
de contenção rígido, é preciso adotar várias providências
tanto dc projeto quanto construtivas, como
por exemplo limitar os vãos entre as estroncas.
Os métodos de cálculo para esse lipo de parede
tle contenção podem ser classificados, basicamente,
em evolutivos c nào-evolutivos conforme levem
ou nào em conta, em cada fase, os esforços e
deslocamentos que ocorrem em fases anteriores.
Naturalmente é sempre preferível a aplicação de
métodos evolutivos porque representam melhor
o comportamento do sistema de contenção. Assim,
se para o dimensionamento é possível utilizar
métodos nào-evolutivos, o mesmo nào ocorre
em problemas que envolvam análise de deslocamentos,
retroanálise e outros.
Fig. 15.25 - Diagramas dc empuxos para parede dc
contenção com um nível de estronca, quando a ficha
atravessa solo mole mas atinge um substrato firme
onde :
a , = tensão eletiva passiva minorada pelo coeficiente
CS;
o
if - tensào efetiva em repouso.
Em ambos os lados da parede, evidentemente,
devem ser acrescidos os empuxos hidrostáticos
correspondentes.
A condição a ser obedecida para a determinação
da ficha mínima continua sendo o equilíbrio
de momentos com relação ao centro de rotação
(ponto A da Figura 15.25).
Para o cálculo dos esforços solicitantes da parede,
uma vez determinada a ficha, deverá ser utilizado
o mesmo esquema estático e carregamento
da Figura 1S.2S.
O solo da região da ficha também pode ser representado
por meio contínuo ou através dc barras
como, por exemplo, aquelas dc comportamento
definido pela Figura 15.17. 'Ial procedimento é
Procedimentos de Cálculo sem a
Determinação de Deslocamentos
Paredes
Flexíveis
Um dos métodos muito difundidos para o cálculo
de paredes flexíveis é um método empírico,
em geral conservador, conhecido como Método
da Envoltória Aparente de Tensões e que se fundamenta
em observações experimentais. A partir
de um diagrama dc tensões fictício, calculam-se
os esforços. O método pode ser útil para prédimensionamento,
ou quando se tratar dc valas
de menor responsabilidade. Aplica-se também se
a envoltória for determinada para uma região específica,
através de instrumentação.
Os diagramas de envoltória aparente mais utilizado
sào devidos a Terzaghi e Peck (1967), em
que os carregamentos sào função do tipo de solo,
conforme mostrado na Figura 15.26. Segundo os
autores, tais carregamentos devem ser empregados
apenas para avaliação das cargas nas estroncas.
Na prática, muitas vezes, sào também utilizados
para avaliar os esforços solicitantes na parede de
contenção.
AREIAS
H<20m
- -
- -
ARCIIAS
MOLES A MEOAS
1F
|ü
Ml
.25H
0.7SH
yn
4m
ARGILAS
TRO*
j«i 11
11
o
(7-o. 47H
RUAS
25H
0.50H
0.25H
Po, Pb, P, Q. Qu... resultantes
des forpos devido bs tens&es
nos dVeas indicadas
m—1 poro os orgilos plásticos
m-0,4 poro 221 > 6 e houver
1T
orqilo mole mois abaixo do
fundo dc escovado
Fig. 15.26 - Envoltórias aparentes dc tensões
propostas por Terzaghi e Peck
Com a construção das várias obras para implantação
das linhas do Metropolitano de Sào Paulo,
foram realizadas várias instrumentações de paredes
de contenção dc valas, com medições dc forças
nas estroncas em várias regiões da cidade, tendo
sido obtidos diagramas menos conservadores do que
estes. Em particular, para as argilas vermelhas e
variegadas da cidade de Sào Paulo e para profundidades
de vala inferiores a 20 m, Guerra (1982) sugere
a envoltória apresentada na Figura 15.27.
Fig. 15.28 - Diagrama genérico dc envoltória aparente
"dc tensões
Força Normal nas Estroncas:
(15.5)
• na primeira: P, - P (i + P j
• na última: P u - Q/2 + Q u (15.7)
• na intermediária: P t = P
(15.6)
- Momentos Fletores na Parede de Contenção:
• na seção do primeiro apoio : M, = P^.L,, (15.8)
• na seção de um apoio intermediário:
M- + 05.9)
1
10 2 2
• no meio do vão entre apoios:
H<20
0,25H
Q.75H
M. = —. 1. (15.10)
I 10 1
- Forças Cortantes na Parede de Contenção: admitem-se
articulações nos apoios (com exceção
do primeiro) e na seção correspondente ao fundo
da escavação. As forças cortantes são calculadas a
partir da viga isostática mostrada na Figura 15.29,
carregada com a envoltória aparente.
(7-0.157H
O *
Fig. 7 5.27 - Envoltória aparente dc tensões nas argilas
vermelhas de Sào Paulo, proposta por Guerra (1982)
Com a utilização das envoltórias aparentes dc
tensões as forças normais nas estroncas. os momentos
fletores c as forças cortantes nas paredes
sào obtidas através das sugestões apresentadas a
seguir, tendo como referência a Figura 15.28.
O-
m m m £
Fig. 15.29 - Esquema de cálculo das forças cortantes
com a utilização dc envoltórias aparentes de tensões
Algumas das condições necessárias para validade
da aplicação desse método são:
• o sistema de contenção deve ser flexível, nào
devendo ser aplicado a sistemas constituídos
de paredes-diafragma ou de estacas metálicas
com estroncas que apresentem comportamento
de sistema de contenção rígido;
• o terreno deve ser homogêneo c o nível d água
deve estar abaixo da escavação;
• as superfícies do terreno laterais à vala devem
ser planas, horizontais e as paredes de contenção
verticais;
• os vãos. na vertical, entre as estroncas nào devem
ser muito diferentes, isto é, entre dois vãos
contíguos a diferença nào deve exceder 30%
do maior vão;
• a altura da escavação nào deve ultrapassar 20 m,
pois os diagramas apresentados foram obtidos a
partir de valas instrumentadas até esta profundidade;
• durante as fases de escavação nào deve ser permitido
o emprego de bermas que reduzam a
disponibilidade de empuxo passivo;
• durante as fases de reaterro, a distancia entre a
superfície reaterrada da câmara de trabalho e a
estronca superior mais próxima a ser retirada
nào deve ser maior que 2 m;
• em caso de nào haver câmara de trabalho, a
distância entre a estrutura (apoio fixo) e a
estronca superior mais próxima a ser retirada
nào deve ser maior que 3 m;
• quando nào for necessário considerar a ficha
para a estabilidade do fundo da vala.
Outro método bastante utilizado para o cálculo
de paredes flexíveis é o Método da Viga Contínua,
que é menos restritivo que o anterior.
A parede é representada por uma viga contínua
com apoios indesloráveis no nível tias estroncas,
e o solo, na região da ficha, é representado por
meio de vínculos fictícios (articulações ou engastes).
O carregamento é representado pelo diagrama
de empuxo ativo retificado (exceto na primeira
fase, em balanço). A retificação do empuxo ativo
é válida para as mesmas condições já citadas
anteriormente.
A primeira e segunda fases de escavação sào
analisadas como parede em balanço e com apenas
um nível de escoramento, conforme já apresentado
anteriormente.
Para as demais fases intermediárias de escavação
considera-se uma viga contínua, engastada a
uma profundidade IL O carregamento é o empuxo
ativo retificado até o fundo da escavação, conforme
mostrado na Figura 15.30.
A altura 11 é determinada com a condiçào de
que a reaçào de apoio C somada ao valor AE jU
seja igual ao empuxo passivo disponível Ei* minorado
pelo coeficiente de segurança CS aplica-
Fig. 15.30 - Diagramas dc empuxos para parede de
contenção com mais de um nível de estronca. em
escavações intermediárias
do às tensões efetivas. Embora o coeficiente de
segurança nào seja necessário para garantir o equilíbrio,
pois sempre haverá comprimento de ficha
suficiente, a subavaliaçào no valor do empuxo
passivo resultará em redução da segurança da estrutura.
a qual poderá ser aceita em se tratando de
estrutura provisória, desde que se utilize algum
cálculo evolutivo que permita avaliar de maneira
mais representativa a segurança da estrutura.
Há algumas restrições à aplicação desse método
que sào listadas a seguir:
• o método proposto considera que abaixo do
fundo da escavação, para fins de cálculo de
forças cortantes e momentos lletores, a flexibilidade
tia parede seja suficiente para mobilizar
parte tio empuxo passivo de modo a compensar
a parcela de empuxo ativo AE ;
• considerando que o engastamento da parede
no solo é apenas uma hipótese simplificadora
tle cálculo, o momento de engastamento não
costuma ser considerado para dimensionamento,
sendo no entanto o momento positivo
no último vão majorado tle 25%;
• o sistema estático proposto par?. as fases intermediárias
é válido se a ficha da parede for razoavelmente
maior que a mínima para a fase
em análise, ou seja, é necessário que abaixo do
ponto teórico tle engastamento exista um comprimento
de ficha (em geral, pelo menos da
ordem de grandeza tle altura 11} que garanta a
validade da simulação de engastamento;
• nos casos usuais, a ficha das fases intermediárias
de escavação apresenta comprimentos superiores
a este mínimo necessário. Se por qualquer
razão a ficha for insuficiente, deve-se adotar o
procedimento da fase final tle escavação ou aumentar
a profundidade da ficha.
Para a fase final de escavação costuma-se consi
derar também uma viga contínua, admiti ndo-se
um apoio indeslocável na região da ficha. O valor
tio comprimento da ficha é determinado com a
condição tle que a reação "C n" da viga contínua
(.calculada dc acordo com o sistema estático c carregamento
apresentados na Figura 15.30 somada
ao empuxo ativo nào retificado abaixo do fundo
da escavação, "E ah" seja igual ao valor do empuxo
passivo, minorado pelo coeficiente de segurança
CS. Em geral o coeficiente de segurança CS é adotado
igual a 1,5 para obras provisórias e 2,0 para
obras permanentes.
Evidentemente, deve-se sempre verificar se a
geometria da vala nào influi no cálculo do empuxo
passivo como definido no início deste capítulo.
—
• \
mw
\
\
\
H
10
IP
It
* v fch^^
> ^ =1
EMPUXOS ATUANTES SISTEMA ESTÁTICO
Fig. 15.32 - Fase final de escavação para parede dc
contenção com vários níveis de estroncas e solo
representado por barras dc comportamento elastoplástico
Ainda em função das hipóteses simplificadoras
adotadas neste método, são necessárias algumas
adaptações que estão apresentadas a seguir:
Fig. 15.31 - Fase final de escavação para parede de
contenção flexível com vários níveis dc estroncas
C =M- Aí:ah (15.11)
° CS
onde :
E iti - Empuxo passivo disponível
CS = Coeficiente de segurança, aplicado apenas
às tensões efetivas
AE uh - Parcela do empuxo ativo nào retificado,
abaixo do fundo da escavação.
Havendo conveniência de reduzir a ficha determinada
conforme a Figura 15-31, pode-se considerar
a viga contínua com o carregamento do
empuxo ativo retificado até a extremidade da parede.
Pode-se reduzir ainda mais a ficha, considerando
a deformabilidade do solo através de barras
do lado do empuxo passivo, cujos deslocamentos
sejam compatíveis com a mobilização deste
empuxo. Os esquemas da Figura 15.32 mostram
estes procedimentos, que acabam por reduzir a
ficha transferindo parte da sua responsabilidade
pelo equilíbrio para o estroncamento.
Como a ficha nào é necessária para garantir o
equilíbrio das paredes multiestroncadas, pode-se
reduzir o coeficiente de segurança associado ao
empuxo passivo desde que o acréscimo de solicitação
na parede possa ser resistido com segurança.
Vale também para as paredes com vários níveis
de estroncas a recomendação de que em se tratando
de obras permanentes é recomendável a
execução de um piso de concreto a fim de evitar
problemas decorrentes da degradação do solo ou
posteriores deslocamentos devidos à fluência do
maciço.
• para as forças cortantes e as reações nos níveis
de estroncamento, deve-se, ainda, considerar
alguns ajustes devidos às diferenças entre a distribuição
real dc empuxos e a idealizada. Tais
ajustes sào válidos apenas para a fase final de
escavação.
Para paredes com dois níveis dc estroncamento
é comum adotar-se o que está apresentado na Figura
15.33.
Aumento de H/H A no Aumento de 30% no
nivel superior
nivel inferior
Fig. 15.33 - Adaptações para avaliação das forças
cortantes c reações nas estroncas para paredes com
duii nívei* dc citruntdi
Sc o nível inferior de estroncamento estiver situado
no terço inferior da altura de escavação, as
forças cortantes c a reação no nível superior do
estroncamento devem ser aumentadas na proporção
dc H/H a. Se ele estiver situado no terço central
da altura da escavação, as forças cortantes e
a reação, nesse nível, devem ser aumentadas
em 30%.
Para paredes com três ou mais níveis dc
estroncamento costuma ser adotado o que está
apresentado na Figura 15-34.
4"
—10
- H
— 1
m m z m
Aumonto de 30M
nos foocos cortantes
e nos reodoes das
estroncas
Fig. 15.34 - Adaptações para avaliação das forças
cortantes e reações nas estroncas para paredes com
três ou mais níveis dc estroncas
Nestes casos, as forcas cortantes c as reações
nos níveis de estroncamcnto, situados no trecho
central (entre 0,2511 a 0.75H), devem ser aumentadas
em 30%.
• no caso ile ser utilizada berma é costume considerar-se
para efeito de aplicação do método que
o fundo da escavação seja representado pela
semi-reta AB. O diagrama de empuxo ativo é
retificado até este nível e considera-se também
como carregamento o diagrama dc empuxo passivo
na região da berma, por exemplo como
proposto por Sclmeebeli (1972).
Hm alguns casos, quando se deseja limitar ou
realmente minimizar os deslocamentos ao redor
da vala, e pode-se utilizar como carregamento uma
combinação de diagramas dc empuxo cm repouso
com empuxo ativo, de modo a obter-se uma
parede mais rígida, resultando deslocamentos inferiores
aos que ocorreriam com o emprego exclusivo
do empuxo ativo. De qualquer maneira,
esta situação exige um estudo detalhado de cada
caso em particular para avaliar-se a aplicabilidade
e a real necessidade do emprego de um diagrama
de carregamento deste tipo.
Para a segunda fase dc escavação valem as mesmas
considerações já feitas para paredes flexíveis.
Para as demais fases intermediárias de escavação
considera-se a viga contínua engastada a uma
certa profundidade "H ". O carregamento é o
empuxo ativo retificado até o engaste fictício que
representa a restrição do solo. O diagrama retificado
ou equivalente é numericamente igual ao
empuxo ativo calculado.
Mm
EMPUXOS ATUANTES SI5TEVA ESTÁTICO
-A Ea
Fig. 15.35 - Adaptações para avaliação das forças
cortantes c reações nas estroncas para paredes com
bermas
A profundidade 1I, é determinada dc acordo com
a mesma condição dc equilíbrio já fixada e o
empuxo passivo a ser adotado é o que
corresponde ao trecho AD.
Paredes
Rígidas
Também as paredes rígidas podem ser representadas
por vigas contínuas com apoios
indeslocáveis nos níveis das estroncas. O solo, na
região da ficha, é representado por meio dc vínculos
fictícios. Como carregamento, é adotado o
diagrama de empuxo retificado, exceto na primeira
fase, em balanço para a qual valem as recomendações
feitas anteriormente. A retificação do
empuxo ativo é válida para as mesmas condições
já citadas.
Fig. 15.36 - Parede
escavação
rígida cm fase intermediária de
São válidos para este tipo dc parede os mesmos
comentários já feitos para paredes ditas flexíveis,
a respeito da determinação da altura "H", do coeficiente
de segurança aplicado ao empuxo passivo
e da avaliação dos deslocamentos.
Valem também neste caso, da mesma maneira
que paia paredes flexíveis, algumas restrições que
estão listadas a seguir:
• o método proposto considera que os deslocamentos
da parede nào sejam suficientes para
mobilizar uma parcela dc empuxo passivo que
compense o empuxo ativo na região da ficha;
por isso o carregamento deve ser estendido até
o engaste;
• do mesmo modo que no caso de paredes flexíveis,
o engastamento perfeito é uma hipótese
siniplificadora que nào deve ser considerada
no dimensionamento e o momento positivo do
último vão deve ser acrescido em 25%;
• o sistema estático proposto para as fases intermediárias
de escavação é válido se a ficha da
parede de contenção tiver comprimento mínimo
da ordem de "2H'' f para garantir uma restrição
do solo correspondente a um
engastamento elástico. Nos casos usuais, a ficha
da parede nas fases intermediárias apresenta
o comprimento necessário; caso contrário.
adota-se o procedimento da fase final de
escavação, que está apresentado a seguir.
Como em geral a ficha na fase final é mínima,
admite-se apoio indeslocável ao invés do
engastamento perfeito; ao contrário do que ocorre
nas fases intermediárias, nào havendo
engastamento nào há restrições à mobilização
do empuxo passivo, razão pela qual valem as
mesmas recomendações da fase final tle escavação
de paredes flexíveis.
Os diagramas dc empuxo e o sistema estático
estão apresentados na Figura 1^.37.
• antes da aplicação do método como proposto
acima deve-se verificar se a rigidez da parede
permite realmente a mobilização do empuxo ativo
e a sua redistribuiçào. No caso em que essas
condições nào forem atendidas dever-se-á
proceder a uma análise mais detalhada da situação
verificando a aplicabilidade de oatros
tipos de carregamento (diagramas de empuxo)
ou, então, aplicar-se um método dc cálculo
mais sofisticado que considere a rigidez real
dos elementos envolvidos e o comportamento
reológico do solo;
• para as forças cortantes e as reações nos níveis
de estroncamcnto deve-se, ainda, considerar alguns
ajustes devidos à diferença entre a distribuirão
real do empuxo e a idealizada. Tais ajustes
sào válidos apenas para a fase final de escavação
e sào os mesmos apresentados para paredes
flexíveis;
• no caso de ser utilizada berma no fundo da escavação,
valem as mesmas sugestões feitas para
parede flexíveis nestas condições.
Paredes Multiestroncadas em Solo Mole
Fig. 15.37 - Fase final de escavação para parede de
contenção rígida com vários níveis de estroncas
O comprimento da ficha é determinado pela
condição:
C- =^P!í-AE'ah (15.12)
° CS
onde:
E |tfi - Empuxo passivo disponível
CS - Coeficiente de segurança, aplicado apenas
às tensõf.s efetivas
AE [h = Parcela do empuxo ativo não retificado,
abaixo do fundo tia escavação
Em geral adota-se CS - 1,5 para obras provisórias
e 2.0 para obras permanentes.
Vale também a recomendação já feita da execução
de lastro de concreto no fundo da vala
nas obras permanentes, de modo a evitarem-se
problemas decorrentes da degradação do solo
ou deslocamentos devidos à fluência do maciço.
Finalmente, algumas observações devem ser
feitas com relação à aplicação elo método proposto
para as paredes de contenção rígidas:
("aso especial e que merece atenção é aquele dc
paredes de contenção em solos moles.
Nestes casos pode-se aplicar o mesmo método
da viga contínua citado nos itens anteriores, desde
que se considerem as seguintes particularidades:
• na fase final de escavação, como a parede gira
cm torno do ponto que corresponde ao último
nível de estronca instalado, a verificação ca ficha
deve ser realizada desprezando-se os apoios
superiores ídevem-se adotar detalhes consirutivos
para evitar que o afrouxamento das estroncas
cause acidentes);
• quando a ficha atingir solo muito resistente devese
considerar o empuxo passivo parcial da argila
mole, pois os deslocamentos não serão suficientes
para sua mobilização total.
Determinação
da Ficha Minima
Deve ser feita para a fase final de escavacào.
St? a parede nào penetra em solo mais resistente,
a ficha mínima será determinada considerando os
empuxos efetivos ativos e passivos, além dos efeitos
de sobrecarga e água, de modo a garantir que o
somatório dos momentos de todas as forcas em relação
IO último nível de estroncas seja nulo, desprezando-sc
as reações dos apoios superiores conforme
o esquema da Figura 15.38, que admite um
movimento de rotação da parede, o que implica
desprezar a ação dos apoios superiores. Ao empuxo
passivo costuma ser aplicado um coeficiente dc segurança,
para limitar os deslocamentos, menor que o
aplicado em outras situações. É comum o uso de um
coeficiente de segurança entre 1,1 e 1,2.
Observe-se que se o valor de ( for negativo a
resultante do empuxo estará localizada entre dois
níveis de estroncas, nào havendo, portanto, possibilidade
do movimento de corpo rígido. Neste
caso a ficha que está sendo adotada nào é necessária
para o equilíbrio, assim a condição de ficha
mínima será determinada pelo cálculo estático na
última fase de escavação.
Novamente vale para esta situação a imposição
da condição de equilíbrio dc momentos flctores
com relação ao ponto "A" (última cstronca instalada).
As considerações apresentadas até aqui referemse
à fase final de escavação. A seguir estão apresentadas
algumas outras que permitem o cálculo
das fases intermediárias de escavação.
SOBRECARGA
q
Ficha na Argila Mole
2* Fase de Escavação
Oesprezor os Apoios
Superiores
Fundo do Volo (Fose
Final)
No sistema estático apresentado na Figura 15.40
determina-se o ponto B de força cortante nula através
das equações de equilíbrio, considerando estados
ativo e passivo acima de B. Calcula-se a
parede como uma viga submetida ao carregamento
indicado, desprezando-se o restante da parede
abaixo do ponto B. As tensões passivas devem
ser consideradas sem fator de redução, uma vez
que a segurança será garantida pela estrutura, se
houver erro na avaliação do empuxo passivo.
Substrato Firme
S0BRFPA3GA
q
Fig. 15.38 - Parede multiestroncada em solo mole:
determinação da ficha mínima
Pelas considerações acima feitas deve-se impor
a condição de equilíbrio dc momentos flctores
com relação ao ponto A" (última cstronca instalada).
Caso a parede penetre em solo resistente, a condição
é a mesma que a acima, apenas com a consideração
do empuxo resistente do solo (passivo
e repouso) conforme esquema apresentado na
Figura 15.39-
SOBRECARGA
q
Fig. 15.40 - Parede multiestroncada em solo mole:
segunda fase de escavação
onde :
F , = resultante das tensões efetivas e das pressões
devidas à água.
H j = resultante das tensões efetivas passivas e
das pressões devidas à água.
Impõem-se, então, as condições de equilíbrio:
• somatório de momentos flctores nulo com relação
ao ponto "A";
• somatório das componentes horizontais das forças
igual a zero.
Ficha Penetrando no Solo Resistente
2' Fase de Escavação
Fig. 15.39 - Parede multiestroncada em solo mole. com
a ficha penetrando em terreno resistente: determinação
da ficha mínima
Também neste caso determina-se o ponto B de
força cortante nula através das equações dc equi-
Iíbrio, calculando-sc a viga acima dc B submetida
ao carregamento indicado. A diferença cm relação
ao caso anterior consiste na consideração do
empuxo passivo da camada de solo mole, o qual
é rcdazido devido à restrição dc deslocamento
oferec ida pelo solo resistente, conforme mostrado
na Figura 15.41.
A'gilo
Mole
SOBRECARGA
Fundo do Valo na
^Fose intermediário
SOBRECARGA q
Oicgroma Diícfcnciol
de empuxos conside
ronefo cs tçnsoes
efetivas, ativos. _
passivos 9 pressões
devido *a <Sgua.
01 AC RAM A
EQUIVALENTE
SISTEMA
ESTÁTICO
Substrato
Firme
Fig. 15.42 - Parede multiestroncada em solo mole: fase
intermediária de escavação
Ficha penetrando no Solo Resistente
Fases Intermediárias de Escavação
Fig. 15.41 - Parede multiestroncada em solo mole, mas
com a ficha penetrando em solo resistente: segunda
fase de escavação
onde :
E (l» Resultante das tensões efetivas da camada
de solo mole c das pressões devido à água.
Ep (il- Resultante das tensões efetivas e em repouso
da camada de solo mole e das pressões
devido à água.
F. |>u,= Resultante das tensões efetivas passivas da
camada de solo resistente e das pressões devido
á água acima do ponto B.
Novamente neste caso impòem-sc as condições
de equilíbrio como no caso anterior.
Ficha na Argila Mole
Fases Intermediárias de Escavação
O cálculo é feito por tentativas considerando-se
a parede como uma viga contínua sobre vários
apoios, constituídos pelos níveis de estroncas já
instalados c pela reaçào do terreno R v e submetida
ao carregamento devido ao diagrama diferencial
de empuxos, sem fator dc redução para as
tensões passivas, conforme o esquema apresentado
na Figura 15.42.
O valor de "z B é determinado com a condição
de que o valor de R v seja igual à resultante do diagrama
diferencial disponível (passivo disponível
menos ativo) entre os pontos A e B, sem considerar
nenhum fator de redução no empuxo passivo.
O cálculo também é feito por tentativas, considerando-se
a parede como uma viga contínua sobre
vários apoios, constituídos pelos níveis de
estroncas já instalados e pela reação do terreno
R no substrato firme, c submetida ao carregamento
devido ao diagrama diferencial de empuxos. sem
fator de redução para as tensões passivas, conforme
o esquema da Figura 15.43.
Oiogrorra
tensões
efetivos,
ativos e
pressões
devido o
dquo -
SOBRECARGA cj
Nivca de Escorcmerto
Instalados
Fundo da Volo
^ f ose Finol
Diforonciol
•Tensões efetivos
passivos da cama
ao dc argijp mole
sem redução e
pressíres
devido 0
água.
ensoo efetivo em repouso
presseo devido
aqua
_Diogromq de tensffes
efetivos passivos e pressões
devido a aguo sem redu^tto
SISTEMA
ESTÁTICO
Fig. 15.43 • Parede multiestroncada em solo mole, mas
com a ficha penetrando em solo resistente: fase
intermediária de escavação
O valor de "z" é determinado com a condiçào
de que o valor de R v seja igual à resultante do
diferencial disponível (passivo disponível menos
ativo) na camada de solo resistente, mas considerando
o empuxo passivo efetivo minorado por um
coeficiente dc segurança, normalmente adotado
como 1,5 ou 2.0. conforme a obra seja provisória
ou permanente.
Ficha na Argila Mole
Fase Fina/ de Escavação
Hsta situação corresponde à última fase de escavação,
com o fundo da vala na cota final e, portanto,
com a ficha mínima. Para o cálculo dos esforços
solicitantes considera-se ainda a parede
como uma viga continua com apoios indcslocáveis
nos níveis das estroncas já instaladas e na região
da ficha. Considera-se como carregamento o diagrama
diferencial de empuxos do lado externo da
vala. O valor de R % nào deve ultrapassar o empuxo
diferencial disponível no lado interno da vala,
minorando-se as tensões passivas efetivas pelos
coeficientes dc segurança adequados.
As figuras a seguir ilustram os procedimentos
tanto para o caso de a ficha estar em solo mole
quanto penetrar em solo resistente.
Alguns pontos importantes devem ser observados
ao se analisar os resultados obtidos:
• se no cálculo da viga contínua resultar tração
em algum nível de estronca, este apoio deve
ser desconsiderado na fase correspondente;
• caso, no cálculo dos esforços, o momento negativo
no último apoio (nível inferior de
estroncas) resultar excessivo quanto ao valor
admissível para a parede, poderá ser aumentado
o valor de R % até o limite do empuxo passivo diferencial
disponível, devendo, contudo, ser verificado
o novo valor do momento positivo (ver Figura
15.46;.
Mf
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Fig. 15.44 - Parede multiestroncada em solo mole: fase
final de escavação
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efetivos possivos c prcsssç?
dovido o d<juo as.Ti reduçso
stsrrvA
CSTATIC0
Fig. 15.45 - Parede multiestroncada em solo mole. mas
com a ficha penetrando em solo resistente: fase final
de escavação
Fig. 15.46 - Consideração da redução do momento
fletor no último nível de estroncas
• no caso de estruturas permanentes, recomenda-se
executar pelo menos um lastro tle concreto
no fundo da vala, para evitar pioblemas decorrentes
da fiuência ou degradação do maciço.
Finalmente, deve-se lembrar que o Método tia
Viga Contínua para solos moles, tomo aqui sugerido,
é empírico. Portanto, os seus resultados devem
ser analisados com cuidado, verificando-se a
sua aplicabilidade.
Em caso de dúvida ou perante casos mais com
plexos é recomendável, quando nào obrigatória,
a aplicação de métodos evolutivos.
Procedimentos de Cálculo com a Determinação
de Deslocamentos
Nestes casos os métodos evolutivos sào de aplicação
obrigatória: sào assim chamados porque
acumulam, em cada fase, as tensões e deformações
ocorridas nas fases anteriores, permitindo,
ao contrário dos nào evolutivos, obter deslocamentos
transversais.
Distinguem-se dois grupos tle métodos
evolutivos: aqueles que representam o solo como
meio contínuo, recomendáveis em casos especiais
de análise, e aqueles que representam o
solo por meio dc elementos de barra.
Apresentam-se a seguir as hipóteses básicas mínimas
que devem ser consideradas nestes casos.
Métodos em que o solo é representado por elementos
discretos.
Métodos Evolutivos em que não há a
Retificação do Empuxo Ativo
Tais métodos são aplicáveis aos casos em que
nào sc adotar a retificação do empuxo ativo, como
por exemplo sistemas de contenção muito rígidos
(quando o empjxo se situa entre o empuxo repouso
e o ativo), sistemas dc contenção flexíveis
cm situações nas quais nào ocorre a retificação
do empuxo ativo (solos moles), no caso de utilização
de tirantes ou estroncas pré-comprimidas
etc.
Nestes casos a parede é representada por uma
viga dc largura unitária imersa no solo, submetida
ao carregamento provocado pelos empuxos nas
duas faces e por forças concentradas correspondentes
às ações c reações das estroncas e tirantes.
O maciço é representado por meio de barras biarticuladas,
independentes, transversais, tanto do
lado interno como do lado externo da vala. As
forças nas barras representam as tensões horizontais
que atuam cm cada lado da parede e sua variação.
em função dos deslocamentos transversais,
deve ser representada de modo a considerar:
• os estados ativo e passivo, limitando-se as forças,
assim como os deslocamentos correspondentes;
• a histerese, considerando comportamento elástico.
mesmo depois dc ser atingido um estado limite,
se o deslocamento se der em sentido inverso;
• o comportamento entre os estados-limites, que
pode ser simplificado adotando-se comportamento
elástico linear entre o estado dc repouso
e o de ativo e entre o estado dc repouso c o
passivo.
As estroncas são representadas por meio dc barras
biarticuladas dc comportamento clástico-linear
não resistentes à tração, devendo-se considerar
os deslocamentos da parede já ocorridos antes da
sua instalação. Estroncas pré-comprimidas e tirantes
também poderão ser representados da mesma
maneira, mas considerando as forças iniciais de
instalação. Lajes que sirvam dc estroncamento
deverão ser representadas dc maneira compatível
com os detalhes construtivos, isto é, além dc resistirem
à compressão, podem também resistir à
traçào e à flexão.
O carregamento inicial corresponde à aplicação
do empuxo em repouso nos dois lados da parede.
Cada fase dc escavação é representada pela
remoção das barras correspondentes e portanto
pela aplicação, em sentido contrário, das forças
que nelas atuavam ao final da fase anterior; os
esforços e deslocamentos que correspondem à
cada fase de escavação devem ser superpostos
àqueles acumulados ao final da fase anterior.
As fases de reaterro são analisadas a partir do
diagrama de tensões horizontais da última fase dc
escavação, superpondo em cada fase os esforços
correspondentes à remoção das estroncas e à execução
da estrutura, sempre considerando os deslocamentos
e esforços ocorridos nas fases antericrcs.
A rigidez das barras que representam o aterro c
a estrutura é representada dc acordo com os detalhes
construtivos específicos dc cada caso. Em
particular, no caso dc serem utilizadas bermas, as
barras que representam o solo deverão ter sua
rigidez ajustada.
Esses métodos obrigatoriamente se utilizam de
programas especialmente desenvolvidos para computadores,
permitindo também a simulação de :
• variações das pressões neutras internas ou externas
à vala;
• sobrecargas, interna ou externamente,
introduzidas cm qualquer fase;
• alterações das características físicas do solo, cm
qualquer fase, provenientes de injeções ou carregamento;
• aplicação dc forças ou momentos fietores na
parede.
Métodos Evolutivos em que há a
Retificação do Empuxo Ativo
Estes métodos, ao contrário dos descritos anteriormente,
adotam retificação do empuxo ativo,
valendo, portanto, para sistemas de contenção
flexíveis. A retificação do empuxo ativo
deve-se a fenômenos dc arqueamento que não
podem ser representados pelas barras
biarticuladas que representam a restrição do
maciço; por este motivo substitui-se o maciço
do lado externo da vala pelo carregamento imposto
(empuxo ativo retificado). Ao final dos
cálculos deve ser verificado se a deformada da
parede c o valor dos deslocamentos correspondem
ao carregamento adotado; se necessário, então, adota-se
empuxo sem retificação.
A parede é representada por uma viga de largura
unitária imersa no solo, submetida ao carrega
mento imposto do lado externo c às forças concentradas
correspondentes às reações das
estroncas e das barras simuladoras da restriçàc do
solo do lado interno da vala.
O maciço é representado por meio dc barras
biarticuladas, independentes, transversais à parede,
apenas do lado interno da vala. As forças
nas barras representam as tensões horizontais
que atuam sobre a face interna da parede c sua
variação, em função dos deslocamentos transversais,
desde a superfície escavada até o ponto
de deslocamento nulo, deve ser representada
dc modo a considerar:
• o estado passivo, limitando-se as torças, assim
como os deslocamentos correspondentes;
• o comportamento entre o estado de repouso e
o de passivo, que pode ser representado por
uma reta simulando o comportamento elastoplástieo
do solo;
• no caso da existência de bcrma, as barras que a
representam deverão ter os seus parâmetros
ajustados.
Abaixo do ponto de deslocamento nulo nào
há necessidade de limitar as forças, quer no estado
ativo, quer no estado passivo, podendo-se
admitir resistência ilimitada à compressão e à
tração.
As estroncas sào representadas por meio de barras
biarticuladas de comportamento elástico-linear
nào resistentes à tração, devendo-se consideraios
deslocamentos já ocorridos antes da sua instalação.
Lajes que sirvam de estroncamento deverão
ser representadas de maneira compatível com
os detalhes construtivos, isto é, além de resistirem
à compressão, podem também resistir à tração
e à flexào.
O carregamento ao final de cada fase deverá
corresponder ao empuxo ativo desde a superfície
até o ponto de deslocamento nulo abaixo
do fundo da escavação. A forma da retificação
varia conforme se trate de paredes flexíveis ou
paredes rígidas, conforme já discutido anteriormente.
As fases de reaterro sào analisadas a partir do
diagrama de tensões horizontais da última fase de
escavação, considerando as barras que representam
as restrições de estrutura, tia remoção das forças
que atuam nas estroncas etc.
Por admitir a retificação do empuxo ativo, também
neste caso as forças cortantes e reações
nas estroncas devem ser majoradas conforme sugerido
nos métodos que nào avaliam deslocamentos.
Fases de Reaterro
A determinação dos esforços solicitantes nas fases
de reaterro depende do método que foi utilizado
para a determinação dos esforços solicitantes
nas fases de escavação. Se tiver sido utilizado
método evolutivo, deve-se também aplicá-lo para
as fases de reaterro, caso contrário, se tiver sido
utilizado método nào evolutivo, pode-se aplicar o
método sugerido a seguir.
Ao final de cada fase do reaterro representa-se
a parede por uma viga contínua submetida ao carregamento
da última fase de escavação, sem as
estroncas removidas e considerando apoios
indeslocáveis nos níveis das estroncas remanescentes,
e engastamento abaixo do nível superior
do aterro. No caso dc haver estrutura permanente
sendo construída dentro da vala sem lastro de
transferência concretado entre a estrutura e a parede
de contenção, o engastamento é normalmente
adotado a aproximadamente 1,50 m abaixo do
nível superior tio reaterro, quando há lastro de
concreto ou estrutura o engastamento é
comumente adotado a aproximadamente 0,50 m
abaixo do lastro ou estrutura.
No caso de nào haver lastro de transferência, o
momento de dimensionamento no engastamento
costuma ser tomado como 50% do momento de
engastamento perfeito obtido, sem considerar nenhum
acréscimo no momento do vão. Já no caso
tle haver lastro de transferência, utiliza-se como
momento tle dimensionamento no engastamento
o próprio momento de engastamento perfeito obtido.
A Figura 15.47 ilustra o que foi dito.
Métodos em que o Solo é Representado
Meio Continuo
por
O emprego crescente de computadores e a disponibilidade
de programas em que o meio contínuo
pode ser lepresrntado. reolõgirn e geometricamente,
de maneiras as mais complexas possíveis,
tem induzido a utilização desses métodos.
Entretanto, como as regiões do maciço que se
plastificam são significativas, a representação das
fases de escavação e de escoramento deve ser feita
com cuidado em vista da restrição ao princípio
da superposição.
Assim, a representação do meio contínuo fisicamente
nào linear deve ser convenientemente
elaborada, de acordo com as características do
programa utilizado, principalmente em se tratando
de sistemas de contenção estaticamente
indeterminados.
Fig. 15.47 - Modelo de viga continua para a determinação
dos esforços solicitantes nas fases dc reaterro
dc uma vala
Na fase correspondente à remoção da estronca
superior deve ser verificado se o diagrama de
empuxo ativo com a distribuição clássica até o
engaste resulta em esforços maiores, quando deverá,
então, ser o empregado.
Pede-se, também, adotar o cálculo fase por fase,
que corresponde a superpor, a partir dos esforços
da última fase de escavação, os esforços que
correspondem à remoção de cada estronca, como
mostrado na Figura 15.48.
A
— P
R
ULTIMA FASE
DE ESCAVACAO
A
Á
AR?
Á
A determinação dos esforços solicitantes nas
paredes em balanço (ou na primeira fase de escavação)
pode ser feita da mesma maneira que a
apresentada nos itens 15.3.1 e 15.3.2.
A experiência, comprovada pelos cálculos, tem
demostrado que a carga de incorporação do tirante
(quando corretamente dimensionado) nào sofre variações
significativas com as várias fases da obra, tornando,
portanto, pouco representativos os métodos de
cálculo nào-evolutivos que supõem a parede representada
por uma viga sobre apoios indeslocáveis.
Nestes casos métodos evolutivos são de aplicação
recomendável, valendo as considerações do
item anterior, lembrando-se que deve ser considerada
também a aplicação de carga devida exclusivamente
à instalação do tirante como uma
das fases dc cálculo.
Métodos nào-evolutivos somente devem ser
aplicados na impossibilidade de aplicação dos
anteriores.
Sugere-se a seguir um método nào evolutivo que
considera a catga do tirante conhecida e, por isso, introduz
tensões horizontais no solo através ch parede.
Primeiramente se determina a distribuição de
tensões no solo devidas à aplicação da carga de
instalação do tirante, as quais podem ser calculadas
através do sistema estático, que supõe o solo
representado por meio contínuo ou por barras.
Dada a precisão necessária, considera-se suficiente
a representação por meio de barras independentes
(hipótese de Winkler), que consideram a
rigidez das várias camadas que representam o
maciço, conforme mostrado na Figura 15.49.
R^AR^-AR^
+
o-
Ffg. 15.48 - Cálculo evolutivo para a determinação dos
esforços solicitantes durante reaterro de uma vala
Pode também ser adotado qualquer método de
cálculo que considere a deformabilidade do reaterro
e da própria estrutura, desde que compatível com o
método empregado nas fases de escavação.
O
15.3.3 Paredes com Vários Níveis de
Tirantes ou com Estroncas Pré-Comprimidas
A carga de instalação dc tirantes (ativos) ou
estroncas pré-comprimidas induz tensões no solo
c na parede, as quais dependem, entre outros fatores,
da rigidez relativa entre os elementos, razão
pela qual somente devem ser utilizados métodos
de cálculo que consideram este fato; os métodos
neste caso também podem ser evolutivos ou
não evolutivos.
Fig. 15.49 - Avaliação das tensões no solo devido á
aplicação de tirante na parede de contenção
Se a distância "d" for pequena, ou dependendo
dos parâmetros de resistência do solo, poderá
ocorrer a sua plastificaçâo, razão pela qual se torna
necessário adotar para as barras comportamento
elastoplástico como o representado na Figura 15.50.
F...Torço na barra que corresponde
bs tensões relativas ao empuxo
Fig. 15.50 - Modelo "força-dcslocamcnto" para barras
que simulam o solo
Na bibliografia especializada (como por exemplo
Schneebeli, 1972) e para casos particulares,
encontram-se expressões que permitem determinar
um diagrama, simplificado ou nào, dc tensões.
a partir de representações do solo como
barras ou como meio contínuo.
Seja aplicando o método das barras diretamente,
seja aplicando as expressões da bibliografia,
determina-se o carregamento através da envoltória
dc dois diagramas dc tensões: o devido à instalação
dc carga no tirante c o devido ao empuxo
ativo sem retificação (para paredes flexíveis) ou
ao empuxo em repouso (para paredes rígidas).
O solo na região da ficha deve ser representado
por barras de comportamento nào-lincar para
levar em conta a possibilidade de plastificaçào nas
imediações do fundo da escavação.
Assim, os sistemas estáticos para o cálculo dos
esforços solicitantes nas várias fases dc escavação
sào os seguintes.
FASE DE INSTAI**) CC S B T O " £ST^C0
UU NWEL OE TOANTES
Fig. 15.52 - Diagramas dc empuxo c esquema estático
após a instalação dc um determinado nível dc tirantes
Nas figuras anteriores P (, P, e P são as cargas
de instalação e r^P,, rj^P^ e ri,P t correspondem ao
que resta aplicado após a acomodação.
As fases dc reaterro podem ser calculadas, no caso
dc aplicação do método não-evolutivo, coasidcrando
em cada fase as cargas dos tirantes, o diagrama
de tensões da última fase de escavação c as barras que
representam a rigidez do reaterro e da estrutura.
Ressalte-se que as tensões devidas às cargas de
instalação do tirante podem ser calculadas automaticamente
desde que sc represente o solo do lado
externo por barras dc comportamento nào-lincar
(tipo elastoplástico) nas quais as forças que
correspondem às teasões não devem ser inferiores
às que correspondem às tensões dos estados ativo
ou repouso, c nem superior às do estado passivo.
Finalmente, deve-se lembrar que no caso de o
escoramento ser constituído por estroncas c tirantes,
os deslocamentos devem ser compatibilizados,
razão pela qual é necessária a aplicação dc método
evolutivo.
Observação
Nas paredes com mais de um nível de estroncas
ou tirantes a utilização de elementos e barras para
representar a deformabilidade do solo na regiào
da ficha implica a utilização de método evolutivo
para que sejam considerados, na barra, esforços
ocorridos cm fases anteriores.
15.4 ROTINAS PARA O DIMENSIONAMENTO
DO SISTEMA DE CONTENÇÃO
SISTEMA ESTÁT.C0
Fig. 15.51 - Diagramas de empuxo e esquema estático
antes da instalação de um determinado nfvel de
tirantes
No item 15.3 apresentaram-se os métodos possíveis
para determinação dos esforços solicitantes
nos diversos elementos que constituem o sistema
dc contenção. Serão apresentadas, a seguir, rotinas
para o dimensionamento desses elementos, a
partir dos esforços determinados.
Alguns dos elementos podem ter várias funções
dentro do sistema de contenção. Nesses casos,
quando nào for possível proceder a um
dimensionamento que considere todas as situações,
o elemento deverá ser dimensionado isoladamente
para cada uma das solicitações a que
está submetido, devendo suas características finais
serem fixadas pela envoltória de todas as verificações
ou dimensionamento.
15.4.1 Parede de Contenção
A parede de contenção está sempre submetida
a pelo menos dois esforços solicitantes: momentos
fictores e forças cortantes.
O esforço normal, quando devido exclusivamente
ao peso próprio do elemento, em geral nào é
considerado, por ser de grandeza significativamente
menor que as demais solicitações. Sua consideração
é obrigatória quando a parede estiver servindo
de apoio para outros elementos, tais como
lajes, vigas, coberturas dc vala etc. Neste caso o
comprimento necessário da parede para suportar
a carga vertical prevista deverá ser fixado conforme
sugerido no capitulo 9.
Três casos merecem atenção quanto ao tipo de
parede de contenção.
a. Paredes-Diafragma
Serão abordadas neste item apenas as paredesdiafragma
moldadas "in loco", nào sendo consideradas
as pré-moldadas.
As paredes-diafragma, como elemento de concreto
que sào, deverão ser dimensionadas obedecendo
às prescrições e recomendações constantes
da NBR-6118. De qualquer, modo sua aplicação
deverá ser criteriosa, principalmente se considerarmos
as ca acterísticas executivas próprias das
paredes-diafragma e do fato que, algumas vezes,
elas sáo elementos de contenção provisórios.
Diante das características construtivas das paredes-diafragma
moldadas "in loco", tem sido prática
comum o seu dimensionamento à flexào considerando-se
apenas o momento fletor máximo,
sem a decalagem do diagrama tle momento fletor
para posterior cobertura. Teoricamente nada há
que impeça esse procedimento.
Foi também prática corrente o uso de armadura
simétrica, sob alegação das dificuldades de se garantir
o correto posicionamento da "gaiola". Hoje,
essa nào é mais a realidade, bastando, para se
evitar problemas, que haja um bom acompanhamento
técnico da obra.
Com relação ao cisalhamento as paredes-diafragma
sào dimensionadas normalmente como uma
viga, utilizando-se apenas estribos. Na distribuição
das armaduras necessárias é comum a variação
tanto tio diâmetro da barra quanto do
espaçamento ao longo da altura. Deve ser considerado
no detalhamento da armaçào a possibilidade
de ocorrerem variações na geometria dos
escoramentos, dos níveis de escavação e eventuais
problemas construtivos.
Cuidado especial deverá ser observado n;i disposição
em planta dos estribos, de modo que ela
não comprometa a passagem do tubo tremonha
necessário para a concretagem dos painéis. Dependendo
do comprimento do painel, pode ser
necessária a utilização tle mais de um tubo
tremonha, para se garantir a qualidade da
concretagem.
É comum, também, a utilização de estribos especiais
(sem nenhum vinculo com o cálculo) e localizados
em pontos estratégicos para facilitar a
montagem e o levantamento da gaiola, quando da
sua colocação dentro do painel escavado.
O projeto da armação das paredes-diafragma
deverá contemplar também, quando for o caso, a
verificação às condições de abertura máxima permitida
para as fissuras em função das características
do meio. Evidentemente, a> condições de
fissuraçào impostas pela NBR-6118 são para todos
os tipos de obras em concreto armado, devcntlose
fazer uma análise criteriosa e cuidadosa da norma
para os casos de paredes-diafragma, principalmente
sc elas tiverem caráter provisório.
No caso de ocorrer simultaneamente esforço
de compressão e flexào nas paredes-diafragma,
os painéis deverão ser dimensionados à
flexocompressào, se for mais desfavorável que o
dimensionamento à flexào simples. Neste caso
atenção especial deverá ser dada as condições de
vínci Io da parede, pois definirão o comprimento
de flambagem a ser considerado no cálculo. Ainda
nestes casos deverão ser consideradas no
dimensionamento todas as combinações dc esforços
possíveis.
Finalmente, é importante lembrar que:
• diante do próprio processo executivo dos painéis
das paredes-diafragma, a largura útil, em
planta, para colocação tia armaçào pode sei significativamente
menor que o comprimento escavado.
Essa preocupação é maior nos painéis
iniciais chamados de primários";
• armações construtivas adicionais à armadura calculada
sào colocadas segundo a experiência do
projetista, executor e da prática local.
b. Paredes com Perfis Metálicos
As paredes de contenção compostas de perfis
metálicos devem ser dimensionadas segundo as
prescrições e recomendações apresentadas na
NBR-8800. Da mesma maneira, como já foi comentado
no caso de paredes-diafragma, a aplicação
da norma deve ser criteriosa considerando-se
o caráter provisório da obra e a especificidade dos
escoramentos enquanto "obra bruta".
No caso das paredes com perfis metálicos, os
esforços solicitantes que interessam são exclusivamente
os máximos pois, ao contrário das paredes-diafragma,
nào há a possibilidade de se economizar
ao longo da altura.
Assim, os perfis metálicos a serem utilizados
deverão ser dimensionados à flexào, para o momento
fletor máximo e ao cisalhamento para a
força cortante máxima. Deverão ser analisadas,
também, todas as combinações possíveis de simultaneidade
de ações.
No caso de ocorrer simultaneamente esforço
de compressão e flexào, os perfis metálicos deverão,
obrigatoriamente, ser dimensionados à
flexocompressào. Nestes casos, do mesmo modo
que nas paredes-diafragma, atenção especial deverá
ser dada às condições de vínculo da parede,
pois definirão o comprimento de flambagem a ser
considerado.
c. Paredes de Contenção de Madeira
liste tipo de parede de contenção é utilizado
apenas em obras de pequeno porte no que se
refere à escavação. É muito comum em obras lineares
para instalação de utilidades (por exemplo:
redes de esgoto, água, eletricidade, telefone
etc.) a utilização de sistema de contenção composto
exclusivamente de elementos de madeira.
Nestes casos a altura de escavação é relativamente
pequena e a largura da vala, muitas vezes, bastante
estreita.
A parede de contenção deverá ser dimensionada
considerando-se os esforços máximos (momento
fletor e força cortante), obedecendo aos critérios
e prescrições constantes da norma NBR-7190 relativa
a estruturas dc madeira.
Vale para este caso a mesma observação já feita
para os tipos de parede de contenção anteriores, quanto
à aplicabilidade da norma à obra cm questão.
1 5.4.2 Estroncas e Longarinas
As estroncas c longarinas sào cm geral elementos
metálicos, compostos de perfis simples ou compostos,
exceto no caso de paredes dc contenção
de madeira quando elas são do mesmo material.
Valem, portanto, as mesmas recomendações e prescrições
das normas já citadas.
Os esforços solicitantes nas longarinas normalmente
sào obtidos calculando-se uma viga contínua,
em que o carregamento é fornecido pela parede
de contenção, e os apoios (normalmente fixos)
representam as estroncas.
As longarinas devem ser dimensionadas considerando-se
os esforços solicitantes máximos
(momento fletor e força cortante) e a simultancidade
de atuação desses esforços quando assim
ocorrer.
Excepcionalmente, pode ocorrer também esforço
de tração ou compressão na longarina, oriundo
do esquema de escoramento idealizado para a
vala. Neste caso a longarina é d mensionada à
flexocompressào ou flexotraçáo, devendo-se no
primeiro i aso distinguir-se claramente se os esforços
de dimensionamento ocorrem num apoio
ou no vão entre duas estroncas. Quando essa condicào
ocorre no apoio, basta considerar a simultaneidade
dos esforços; enquanto no meio do vão
o dimensionamento considerará z possibilidade
dc ocorrência de flambagem da peça.
As estroncas, por sua vez, sào calculadas à flexocompressào.
O esforço normal de compressão é
o resultante do cálculo da longarina como viga
contínua. Já o esforço de flexào pode ter origens
diversas. No mínimo deve ser considerada a flexào
decorrente do peso próprio do perfil da estronca
e de sobrecarga padrão mínima que represente os
travamentos do sistema tle estroncas e longarinas.
Outras sobrecargas não convencionais podem
ser consideradas cm cada caso específico, tais
como estocagem de material sobre as estroncas,
monovia fixadas nas estroncas etc., que podem
originar esforços significativos de flexào nessas
peças. Nestes casos é importante que se fixe claramente
a posição real em que essas sobrecarga*
irão atuar.
Um ponto quase sempre erroneamente negligenciado,
mas que pode ter um papel importante
no desempenho do sistema tle contenção como
um todo, é a ligação entre estroncas c longarinas.
Devido ao próprio método construtivo das valas,
as estroncas necessariamente apresentam uma folga
com relação ao comprimento teoricamente necessário,
para permitir a sua instalação dentro da
vala. A ligação entre estroncas e longarinas pode
ser feita através da colocação de c.inhas ou utilizando
se ' grout" para o preenchimento do espaço
vazio, devendo ser considerados, na escolha
efeitos secundários como, por exemplo, o de temperatura.
Entretanto, caso essa ligação nào seja
perfeitamente garantida haverá, então, uma acomodação
tia ligação esl ronca/longa ri na, correspondendo
a um recalque dc apoio e induzindo um deslocamento
na parede de contenção.
Em alguns casos especiais, principalmente quando
há desequilíbrio muito grande dos empuxos
dos tlois lados da vala, pode-se utilizar o artificio
de pré-comprimir as estroncas, o que induzirá a
parede a deslocamentos para o lado externo da
vala e, conseqüentemente, diminuirá os deslocamentos
futuros das paredes dc contenção.
15.4.3 Tirantes
Tirantes sào elementos utilizados no sistemas de
contenção em substituição às estroncas. Neste item
serão abordados apenas os tirantes do tipo anco-
ragem ativa injetada e a sua influência no sistema
de contenção.
Em alguns casos eles são utilizados por conveniência,
pois apresentam algumas vantagens significativas
no seu emprego: possibilitam que o
interior da vala fique livre, permitindo maior flexibilidade
e trabalhabilidade; diminuem os deslocamentos
das paredes de contenção pois a própria
sistemática de incorporação aplica uma força
prévia na parede, eqüivalendo a uma pré-compressão
no caso dc estroncas etc. Em outros casos
são empregados por necessidade, como por
exemplo nos casos de as paredes estarem a distâncias
muito grandes, ou quando o desequilíbrio
dos empuxos totais é muito significativo etc.
Apresentam, no entanto, dois grandes inconvenientes.
O primeiro é nào ser possível a sua
reutilização como normalmente acontece com as
estroncas e longarinas; o segundo é que pelo próprio
processo executivo nào é possível retirá-lo
do terreno após a sua utilização, podendo vir a
ser uma interferência significativa na implantação
dc obras futuras nos terrenos vizinhos.
O projeto e dimensionamento dos tirantes está
apresentado no capítulo 17.
A quantidade, posicionamento e distribuição dos
tirantes ao longo da parede de contenção resulta
do próprio cálculo da parede. Neste item trata-se
apenas da força máxima a que um tirante pode
ser protendido sem que provoque uma instabilidade
no sistema.
Ao sc protender um tirante, cm função do seu
comprimento, alguns comportamentos podem ocorrer
com o tirante em si e que estão discutidos no
capítulo 17. Má, também, um comportamento do sistema
dc contenção que depende diretamente do comprimento
e da força com que o tirante é tracionado.
Esse mecanismo foi idealizado inicialmente para
cortinas atirantadas, e nào para valas, onde as paredes
têm ficha abaixo da cota final de escavação.
A instabilidade do conjunto pode ser atingida
quando a massa de solo atrás da parede de contenção,
comprimida pela força aplicada pelos tirantes,
provoca a ruptura do maciço ao longo de um
plano (teórico) que passa |X>lo pé da ficlia da parede
dc contenção e o l>ullx> dc ancoragem do tirante.
777?
Cunhe» <J« Ryetu'0
Fig. T 5.53 - instabilidade do maciço devido a
solicitação excessiva do tirante
Em termos práticos e para possibilitar a análise
da estabilidade da cunha acima apresentada, ela
pode ser simplificadamente associada à que se
apresenta a seguir.
•iup-rfdg de
Pup:uro
Smohticoaa
Figura 15.54 - Superfície dc ruptura simplificada para
análise da instabilidade do maciço devida à solicitação
excessiva do tirante
A garantia da estabilidade do sistema de contenção
neste caso pode ser feita através do equilíbrio
limite da cunha que pode vir a ser mobilizada
quando o tirante é protendido. Essa possibilidade
de ruptura foi apresentada pela primeira vez por
Kranz, conforme citado por Hobst e Zajíc (1983).
A Figura 15.55 apresenta o caso simples de uma
vala com apenas um nível de escoramento em tirantes
c num solo homogêneo c isotrópico com
uma envoltória dc resistência genérica, isto é, que
apresente coesão e ângulo dc atrito.
A
F í
CA
FORCAS QUE ATUAM
NA PAREDE
^ f T "
*
FORCAS OtE
z
--.^B 1 .
NA ( UNHA
Figura 15.55 - Esquema das forças atuantes
onde:
Cunho Je
Simplificada
ATUAM
E a = empuxo ativo atuante na parede de contenção
E* ( - empuxo ativo atuante na cunha
E = empuxo passivo atuante na parede de contenção
P - peso da cunha
Rup'.u'u
.unho
Ativo
C = força devido à coesão na base da cunha
5 - força devido ao atrito na base da cunhf.
T nüx - força máxima dc protensào do tirante
6 - ângulo dc atrito solo-parede dc contcncào
E 1
x
cp = ângulo do atrito do solo
a » ângulo de inclinação do tirante com relação à
horizontal.
Na condição de equilíbrio limite da cunha, com
as diversas forças atuantes, estabelecer-se-á o seguinte
polígono de forças:
Pe do Parede
com Apoio Livre
Figura 15.57 - Cunhas potenciais dc ruptura para
tirantes com comprimentos diferentes, com o primeiro
nível mais curto
Figura 15.56 - Polígono de forças no Método de Kranz
O coeficiente de segurança para esta condição
é definido como:
CS = Th 1 max
onde :
atuante
(15.13)
T' m. lx - componente horizontal da força T^x que
conduz a cunha à condição de equilíbrio limite
T^.umc = componente horizontal da força real
do tirante
O valor usualmente aceito para o coeficiente de
segurança nestes casos é CS > 1,5.
É importante notar que a cunha analisada é teórica
pois nào considera a heterogeneidade natural
dos solos, e está admitindo que toda a sua
base se encontra em um único material, o que
nem sempre é verdadeiro. Os casos para os quais
essas simplificações nào sào aceitáveis deverão
ter tratamento especial.
No caso dc ser empregado no sistema de contenção
mais de um nível de tirantes, deverá ser
pesquisado o menor coeficiente de segurança para
cada um dos níveis de tirantes e para o conjunto
quando assim se justificar.
Em particular para o caso do conjunto, há duas
situações que merecem destaque e estão
simplificadamente apresentadas a seguir.
No caso de o tirante do nível superior ter comprimento
livre menor que o do tirante do nível
inferior, ficando o seu bulbo dentro da cunha do
tirante inferior, o coeficiente de segurança para o
nível inferior é definido como:
onde :
T' iii( » componente horizontal da força T mix que
conduz a cunha à condição de equilíbrio limite
T ,, ljluanlc - componente horizontal da força real do
tirante do primeiro nível
^atuante
. • componente horizontal da força real do
tirante do segundo nível
No caso dc o tirante do nível superior ter comprimento
livre maior que o do tirante do nível
inferior, ficando o seu bulbo completamente fora
da cunha do tirante inferior, o coeficiente de segurança
para o nível inferior é definido como :
CS =
Th 1 max
Th
2a tu ante
(15.15)
CS =
Th
1 max
h
•h
latuante 2atuante
(15.14)
Figura 15.58 - Cunhas potenciais de ruptura para
tirantes com comprimentos diferentes, com o primeiro
nível mais comprido
E o coeficiente de segurança geral é dado por:
O coeficiente de segurança é definido conio:
Th
CS =
' max
Th
+ Th
latuante iatuante
onde os termos empregados têm as definições já
fornecidas anteriormente.
Outros casos que nào os aqui apresentados
deverão ser analisados especificamente em funçào
das diversas cunhas que possam vir a se
formar.
Finalmente, deve-se ressaltar a importância da
correta definição do comprimento do bulbo de
ancoragem dos tirantes, que deve ser avaliado em
projeto e confirmado através dos ensaios de qualificação,
básico c de recebimento previsto na norma
brasileira NBR-5629.
Observação
Nas valas os tirantes devem ser incorporados
com a força de cálculo, que corresponde ao equilíbrio
do empuxo utilizado para o dimensionamento
da parede.
15.4.4 Estabilidade Geral
A verificação de um sistema de contenção
quanto a sua segurança à estabilidade geral consiste
na verificação dc um mecanismo de ruptura
global do maciço, em que a parede de contenção
é um elemento interno à massa de solo,
que potencialmente pode se deslocar como corpo
rígido. Normalmente essa verificação consiste
em se garantir um coeficiente de segurança
adequado à rotação de uma massa de solo que
se desloque ao longo de uma superfície cilíndrica,
normalmente adotada com diretriz circular.
A Figura 15.59 apresenta esquematicamente uma
superfície hipotética de ruptura.
Superfície Potenciol
De Ruptura
Suaerlície que nefo
Pode Ocorrer
Figura 15.59 • Ruptura geral: superfícies potenciais
(15.16) cs = Í M *
onde
ZM
S
(15.17)
EM k = Somatória dos momentos dos esforços resistentes
com relação ao centro de rotação "O";
£M S - Somatória dos momentos dos esforços
solicitantes com relação ao centro de rotação "O";
Nos casos normais os valores aceitos para o coeficiente
de segurança como acima definido são:
CS > 1,3 para obras provisórias;
CS £ 1,5 para obras permanentes.
Para o cálculo do coeficiente de segurança como
acima definido, poderá ser empregado qualquer
método dc cálculo de equilíbrio limite, normalmente
empregado para avaliação da estabilidade
de taludes; desde que as hipóteses básicas embutidas
nos diversos métodos sejam também aplicáveis
ao caso em análise. Atenção especial deve
ser dada à forma da superfície de ruptura e à
reologia dos materiais envolvidos.
Solos que apresentem comportamentos especiais
tais como solos expansivos, argilas moles etc. deverão
ter tratamento especial c analisados particularmente
em cada caso.
Nos casos em que o terreno apresenta resistência
crescente com a profundidade, normalmente,
a verificação da segurança quanto à estabilidade
geral nào é condicionante no projeto do sistema
de contenção.
Consideram-se esforços solicitantes, de maneira
genérica, aqueles que atuam independentemente
dos deslocamentos da massa de solo em estudo.
Por exemplo, no caso da Figura 15.59 seriam
esforços solicitantes o peso próprio da massa desolo
e as sobrccaigas atuantes na superfície do terreno.
Outras (xxlem atuar, como por exemplo forças devidas
à percolação d'água, empuxo hidrostático em
trinca de tração junto à superfície etc.
Já os esforços resistentes sào aqueles mobilizados
com a tendência ao deslocamento da massa
de solo, ou seja. a resistência ao cisalhamento desenvolvida
ao longo da superfície hipotética de
ruptura, esforços oriundos dos diversos níveis de