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Facta #4

Revista de Gambiologia #4 - Gambiologia magazine - 4th issue 10/2017 "Gambiarra em movimento" / "The gambiarra movement".

Revista de Gambiologia #4 - Gambiologia magazine - 4th issue 10/2017 "Gambiarra em movimento" / "The gambiarra movement".

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Governo de Minas e

Apresentam

REVISTA DE

GAMBIOLOGIA

* * * * * * * * * * * * * facta.art.br * * * * * * * * * * * * *



XXX


GAMBIARRA

EM

MOVIMENTO

THE GAMBIARRA MOVEMENT Fred Paulino

AS ARTES E CIÊNCIAS DA

GAMBIARRA

THE ARTS AND SCIENCES OF

GAMBIARRA

SOLUCIONÁTICA

BRASILEIRA

BRAZILIAN

SOLUCTIONACTIC

Rui Cezar dos Santos

• ÍNDICE • INDEX •

CRITICAL

MAKING

GAMBIOLOGIA QUE VEM DO NORTE

CRITICAL MAKING

GAMBIOLOGIA THAT COMES FROM THE NORTH

Ernesto Oroza

DESOBEDIÊNCIA TECHNOLOGICAL

DISOBEDIENCE

TECNOLÓGICA

COINCIDÊNCIAS

INDUSTRIAIS

INDUSTRIAL COINCIDENCES Guto Lacaz

DO

HOBISTA

DO SÉCULO XX

AO

MAKER

DO SÉCULO XXI

Newton C. Braga

FROM THE

HOBBYST

OF THE 20TH CENTURY

TO THE

MAKER

OF THE 21ST CENTURY

4

12

24

31

34

44

48

54

56

63

66

68

70

77


80

86

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96

98

105

108

113

115

118

119

122

129

134

137 140

TUPI

AND

NOT

TUPI

TUPI AND NOT TUPI

SOMOS TODOS

PARDAL

WE ARE ALL GEARLOOSES

TATUAGENS

E

GAMBIARRAS

Taiom Almeida

TATTOO AND GAMBIARRA

Azucena Losana e Carolina Andreetti

TAPP

E A POTÊNCIA DAS IMAGENS PRECÁRIAS

Liliana Gil

Maira Begalli

Entrevista com Laymert Garcia dos Santos

AND THE POTENTIALITY

TAPP OF PRECARIOUS IMAGES

CUIDADOS

PALIATIVOS

PALLIATIVE CARE

EM BUSCA DA

GAMBIARRA PERFEITA

IN SEARCH OF THE

PERFECT GAMBIARRA

GAMBIARRAS

LITERÁRIAS

Jacques Fux

LITERARY GAMBIARRAS

Felipe Efeefe Fonseca

GAMBIDUSTGAMBAREIA


Detalhe de escultura criada por alunos

do Laboratório de Gambiologia realizado

no Exploratorio (Parque Explora).

Medellín, Colombia, junho de 2017.

Foto: Fred Paulino.


GAMBIARRA

EM

MOVIMENTO

por Fred Paulino

As luzes e as trevas, o aparente e o secreto: eis toda a arte.

Aqueles que a possuem assemelham-se ao céu e à terra,

cujos movimentos nunca são aleatórios 1 .

A

quarta edição da Facta chega

ao leitor após um grande hiato.

Quase três anos foi o tempo

necessário para reunir o conteúdo

desta edição. Após lidarmos com a o

Apocalipse (Facta #1), a Acumulação (#2) e o

Hacker (#3), o tema deste número é, literalmente,

a gambiarra.

A ciência brasileira do improviso é a grande

inspiração da Gambiologia e neste número

da revista se apresenta literal, seminal, transversal.

Mas esta inspiração é um processo

de transformação constante. Não só o projeto

em si, desde sua elaboração mostrou-se

completamente mutante, parecendo mesmo

ter vida própria, como também a inspiração

processual e estética na gambiarra é posta tão

somente como o mote inicial para uma reflexão

acerca de inúmeros processos da sociedade

contemporânea.

Gambiarra para todo lado

Primeiramente, Gambiologia relaciona-se a

uma proposta criativa atuante nas artes e no

design e sugere um deslocamento da improvisação

e da precariedade da esfera do cotidiano,

da necessidade, da carência de recursos,

tratando-as como uma opção estética. Segundo,

ela flerta com as discussões sobre o desenvolvimento

tecnológico, não só considerando

que a eletrônica analógica e os sistemas digitais

são parte fundamental das criações gambiológicas,

mas também problematizando

os impactos da produção industrial massiva

de tecnologia – e o que sobra dela – sobre a

sociedade e o meio artístico.

Gambiologia alerta também para o uso de resíduos

sólidos (tecnológicos ou não), de uma

maneira, se não se pode dizer eficiente, peculiar

e que tem servido de inspiração a muita

gente. Além disso, muitos são os que, desde

2010, têm vivenciado o projeto em sua esfera

educacional, integrando oficinas e mentorias

que se propõem a lecionar por meio de

experiências de aprendizado de tecnologia de

* GAMMBIARRA EM MOVIMENTO *

7


No Brasil, elas estão por todos os lados.

uma maneira prática, lúdica, consciente e integrada

à realidade dos participantes – e, por

tudo isso, bastante efetiva. A Gambiologia

é uma estratégia de aprendizado que não se

baseia em manuais de instruções, em padronização,

mas na valorização da capacidade de

improviso e invenção que vem de berço. A

relação com o que se tem chamado de “movimento

maker” é também cada vez mais evidente,

com a peculiaridade do projeto estar

inserido no movimento com uma

contribuição relevante: o caráter

nacionalista, não

no sentido de fechar-se

a influências e inspirações

estrangeiras, mas de

se pensar como as referências

nativas do que se chama de

brasilidade, em suas especificidades técnicas,

estéticas e inventivas, podem contribuir para

uma melhor assimilação da cultura “fazedora”

no país.

Por fim, há a valorização da capacidade de

improviso frente às vicissitudes e a habilidade

de reconstrução da própria realidade por meio

de processos empíricos, característica notória

As habilidades de

improvisação tornaram-se

praticamente marca registrada,

sendo a gambiarra uma alegoria

onipresente nos mais diversos

contextos sociais.

de povos menos abastados mas que, no entanto,

somente cá no Brasil possui nome tão sonoro

como “gambiarra”. Aqui, ademais, as habilidades

de improvisação tornaram-se praticamente

marca registrada, sendo a gambiarra uma alegoria

onipresente nos mais diversos contextos

sociais 2 .

A Gambiologia se espalha por mais e mais

esferas do conhecimento, e não só o projeto,

mas sua compreensão e escopo

de atuação se expandem

quase viralmente, sem

plano prévio. A grande

aderência de artistas,

pesquisadores, fazedores,

criadores, curiosos e “cidadãos

comuns” às iniciativas

coletivas originadas do projeto, das quais esta

revista seja provavelmente o expoente maior,

são motivos de satisfação e, para este editor,

a prova de que a gambiarra pode ser sim gatilho

para uma forma de se pensar o mundo.

Não me interessa neste Editorial uma definição

precisa, enciclopédica, do que é gambiarra.

Primeiro porque os colaboradores dessa edição

8

* GAMBIARRA EM MOVIMENTO *


Fotos: Fred Paulino

da Facta discorrem extensivamente sobre o

tema nas páginas a seguir. Segundo porque

a gambiarra tem sido maciçamente apresentada

em todas as realizações do projeto

Gambiologia, não só nos números anteriores

desta publicação como, desde 2008, em

várias outras iniciativas. Terceiro, e principalmente,

porque não me interessa a gambiarra

como um conceito fechado, mas tão

somente como a articulação de tudo o que foi

dito nos parágrafos acima, junto

ao que provavelmente está por

vir. “O general deve conhecer

a arte das mudanças” 3 .

O que cabe neste texto é um

pensamento sobre como a gambiarra

pode canalizar processos de mudança,

de recombinação, de invenção. Gambiarra

como mote de transformação técnica e social.

Gambiarra como metáfora de brasilidade,

como característica inevitável da “cultura pop

tupiniquim”. Gambiarra do Brasil, distinta

de processos semelhantes em diversas outras

nações, mas agregadora de experiências de

coletivização do saber e de atuação do homem

sobre o mundo. Não somente um culto

Gambiarra como

sugestão de uma

criatividade essencial,

que não requer formação

ou metodologia.

à precariedade como aceitação de uma suposta

inferioridade frente ao “desenvolvimento”,

mas também como diferencial estratégico

(skillfulness, diriam os gringos) em um mundo

que, cada vez mais, cobra soluções diferenciadas

em um contexto de concorrência e crise.

Gambiarra como propulsora de uma lógica

de reaproveitamento, da sustentabilidade

que não se encontra nos manuais dos departamentos

de marketing. Gambiarra como

prática hacker de reconfiguração

das funções dos objetos. Gambiarra

do olhar assertivo para

as coincidências industriais 4 .

Gambiarra como sugestão de

uma criatividade essencial,

que não requer formação ou metodologia.

Gambiarra em que, com as “mãos

na massa”, o ser humano é o ator principal da

transformação de seu entorno. Gambiarra de

quem transforma não só ao seu entorno, mas

a si mesmo. Gambiarra que não é definitiva,

tampouco infalível. Pelo contrário, é precária

e vulnerável como, na maioria das vezes, somos

nós mesmos. Gambiarra que não se pretende

consolidada, estática, restrita, eterna.

Gambiarra em movimento.

9


Uma concorrida oficina de gambiarras em

São Paulo, Brasil (setembro de 2017).

Foto: Fred Paulino.

Devaneios sobre a gambiarra em movimento

Buscando a etimologia da palavra “movimento”

chegamos ao verbo “mover”, do latim

movere, significando basicamente “deslocar”,

mas também “induzir, persuadir” e “causar,

inspirar” 5 . São definições sugestivas se

lembrarmos de que o gesto de se fazer uma

gambiarra denota uma ação perante o mundo.

Mas também apresenta um risco, uma

crença, uma persuasão a si próprio de que

determinada solução para um problema será

alcançada, mesmo em um contexto de imperfeição,

adaptação material e ausência de

recursos adequados.

Na Filosofia, o movimento é, desde a Antiguidade,

tema de interesse de grandes pensadores,

como Aristóteles, Descartes, Newton,

Leibniz, Mach e Einstein. “Uma compreensão

adequada do movimento (…) foi considerada

crucial para decidir questões sobre

a natureza do espaço e do tempo e suas interconexões.

(…) As lutas dos filósofos para

compreender esses conceitos muitas vezes pa-

reciam assumir a forma de uma disputa entre

concepções absolutas ou relativas de espaço,

tempo e movimento” 6 .

Na Física, o movimento é “a variação de

posição espacial de um objeto ou ponto

material em relação a um referencial no decorrer

do tempo” 7 . Esse ponto referencial não

necessariamente está inerte e, nesse sentido,

movimentos são frequentemente exponenciais,

com aceleração e bidirecionais.

Da mesma maneira acontece a interferência

do ser humano sobre o meio. O conhecimento

surge a partir de processos infinitos

de transformação mútua em que não só o

objeto (material, técnico ou virtual) é manipulado,

como quem o opera transforma-se,

por meio da experiência prática. A gambiarra

é uma forma de aprendizado empírico

que é transmitida de pai – e mãe – para filho.

Por meio da experiência, estimula processos

de aprendizado que podem ser socialmente

transformadores.

10

* GAMBIARRA EM MOVIMENTO *


A ciência Física que estuda o movimento é

a Mecânica. A Mecânica prática, aplicada a

ciclos, carros, motores, engenhocas, é provavelmente

um dos terrenos mais prolíficos para

a prática gambiarrística, tornando-se inclusive

marcas culturais. Exemplos são a Jugaad na

Índia e os Rikimbilis em Cuba. Dentre os

resultados de uma busca de imagens pelo

termo “gambiarra”, ou suas traduções em

inglês makeshift, kludge, ou mesmo a cômica

macgyverism, provavelmente a maior parte de

resultados está relacionada a automotores.

Os principais estudos físicos acerca do movimento

foram desenvolvidos por Isaac Newton

em sua obra “Princípios Matemáticos da

Filosofia Natural” e sintetizados nas famosas

“Leis de Newton”. A título de divagação,

pensemos quais são e como podem ser

aplicadas nos processos gambiológicos:

Newton (1795–1805).

Por Willian Blake.

PRIMEIRA LEI

LEI DA INÉRCIA

"Todo corpo continua no estado de repouso ou de

movimento retilíneo uniforme, a menos que seja

obrigado a mudá-lo por forças a ele aplicadas."

Adotar uma postura estática torna um problema

insolúvel. Toda solução requer movimento,

atitude, atividade. Se não tem recursos

adequados, faça uma gambiarra.

SEGUNDA LEI

LEI FUNDAMENTAL

DA DINÂMICA

"A resultante das forças que agem num corpo

é igual à variação da quantidade de movimento

em relação ao tempo".

Os processos gambiárricos são muitas

vezes dependentes de um conjunto de forças

e materiais – nem sempre minimalistas – e

frequentemente o trabalho coletivo é mas

profíquo do que uma atuação individual.

Comecemos a considerar a Gambiologia

como movimento.

Jugaad na India.

Foto: http://www.team-bhp.com

TERCEIRA LEI

LEI DE AÇÃO-REAÇÃO

"Se um corpo A aplicar uma força sobre um

corpo B, receberá deste uma força de mesma

intensidade, mesma direção e sentido oposto à

força que aplicou em B."

Gambiarra é ação e reação. É atuar sobre

as coisas com uma atitude que não é préconcebida

e receber, como resposta, não só

uma solução como também um aprendizado.

11


Se pensarmos a nível atômico, observaremos

que o movimento está presente em toda a

matéria. Os elétrons de um átomo estão ligados

ao núcleo por forças eletromagnéticas e nunca

estão estáticos. Aqui podemos divagar que um

imenso rol de gambiarras busca sanar problemas

relacionados à eletroeletrônica. A própria

eletrônica, origem das tecnologias digitais, está

baseada em movimento atômico e reconfiguração

da matéria. A gambiarra, como transformação

da matéria posta, é um movimento

macro que parte do micro, e a ele retorna.

A aceleração, componente físico do movimento,

é questão central no mundo contemporâneo.

O poeta e dramaturgo alemão

Finalmente, o movimento desta publicação e

do projeto que a move. Facta chega, com esta

edição, ao fim de sua primeira temporada.

Tomamos aqui, de forma literal, a compreensão

aristoteliana de movimento como passagem

de potência a ato. A potência resultante das

quatro primeiras edições da revista são a

certeza de sua continuação. Para tanto, se

necessário, certamente faremos as gambiarras

possíveis para que esta publicação,

ápice da confluência de interesses que movem

a Gambiologia, permaneça da maneira

como for possível. É como a Terceira Lei: a

Gambiologia move a Facta, e a Facta move a

Gambiologia.

12

MOVIMENTOS SÃO

ARTICULAÇÕES QUE

INFLUENCIAM PARA

ALÉM DE SUA ZONA

DE ATUAÇÃO.

Enfim, a gambiarra como movimento

Heiner Müller apontou em 1990 que “a estratégia

de aceleração total econômica e

tecnológica se fundava no princípio da seleção,

e que o sujeito humano ia desaparecer no

vetor da tecnologia” 8 . A gambiarra, de certa

maneira, questiona a inevitabilidade da aceleração

tecnológica, trazendo o uso de refugos

e tecnologias antigas à experiência cotidiana.

Na Física não há aceleração negativa, mas na

vida prática clamamos por uma aceleração às

avessas. É que nós, humanos, não fomos programados

para a velocidade a que somos submetidos

e por isso estamos, frequentemente,

mais à vontade com os aparatos antigos,

obsoletos, mas que, no entanto, estão sob a

égide de nossa compreensão e afeto.

Depois de quase dez anos desde o insight

de criação da “ciência da gambiarra”, chega

também a hora de explicitar sua fragmentação.

Para a continuação do projeto, é

imprescindível assumir a coletivização como

determinante para o prosseguimento de suas

iniciativas e a ampliação de sua área de atuação

e influência. Após a dissolução do Coletivo

Gambiologia em 2015 e um período de

reconfiguração do modus operandi da gambiologia

(inicial minúscula para um substantivo

comum, será?), ela agora reconfigura-se como

uma plataforma criativa aberta, em que os processos

colaborativos e uma rede cada vez mais

ampla de colaboradores são fundamentais.

Movimentos são articulações que influenciam

para além de sua zona de atuação.

E exigem certa dose de nomadismo. Para

Deleuze e Guattari, “nômades e movimentos

artísticos, científicos e ideológicos são

potenciais máquinas de guerra, na medida em

que traçam um espaço liso de deslocamento

- vetorial, projetivo ou topológico, ocupado

sem medição, em oposição ao espaço estriado,

métrico” 9 .


Gambiarra Made in USA: o portal There I Fixed It apresenta uma vultosa galeria de gambiarras das mais diversas.

Chegamos então à compreensão de

movimento como uma reunião organizada

de pessoas em torno de um tema, de uma

causa. Após anos de apresentação do projeto

Gambiologia em várias cidades, países

e contextos dos mais diversos, é cada vez

mais evidente a possibilidade de articulação

de um grupo maior de pessoas em torno da

proposta, desde que o projeto esteja aberto

para isso. A formação de um movimento

requer descentralização e a influência de

um grupo de pessoas atuantes, em torno

de objetivos comuns. Em nosso caso, exige

assumir o caráter mutante do projeto e sua

transformação constante não só como inevitável,

mas imprescindível. Admitir a impossibilidade

de controlar os desdobramentos

de uma ideia orgânica, espontânea, improvisada,

respondendo progressivamente à

ordem dos acontecimentos, mas deixando

o acaso gambiárrico influenciar devidamente

os rumos dessa pesquisa.

Dito isso, declaro:

Gambiologia não é mais um coletivo, tampouco

a ciência da gambiarra. Gambiologia,

agora, é a gambiarra em movimento.

1 Sun Tzu, “A Arte da Guerra”. Pg. 28. Editora L&PM, 2006.

2 A valorização da gambiarra é frequentemente confundida

com ufanismo e sua celebração, interpretada erroneamente

como se a gambiarra estivesse sendo tratada como “potencial

emancipatório”. Prefiro entendê-la como um conjunto de

processos criativos e comunicacionais em transformação, que

não estão fechados em si, mas acessíveis a um público diverso.

Aquilo que frequentemente falta à academia.

3 Sun Tzu, “A Arte da Guerra”. Pg. 44. Editora L&PM, 2006.

4 Ver ensaio de Guto Lacaz na página 66.

5 Antônio Geraldo da Cunha. "Dicionário etimológico da

língua portuguesa”. Editora Lexikon, 2010.

6 https://plato.stanford.edu/entries/spacetime-theories/

7 https://pt.wikipedia.org/wiki/Movimento

8 Citação por Laymert Garcia dos Santos, entrevistado desta

edição de Facta. http://cultura.estadao.com.br/noticias/

artes,a-inteligencia-das-especies,55853

9 Daniel Hora, “Arte hackeamento: diferença, dissenso e

reprogramabilidade tecnológica”. Pg. 38. Universidade de

Brasília, 2010. Grifo nosso.

13


THE GAMBIARRA MOVEMENT

by Fred Paulino

The lights and the darkness, the apparent and the secret:

this is all art. Those who have it they resemble heaven and

earth, whose movement are never random 1 .

The fourth edition of Facta comes to the reader after a big

hiatus. Almost three years was the time needed to gather the

content of this edition. After dealing with Apocalypse (Facta

#1), Accumulation (#2) and Hacker (#3), the theme of this

number is literally gambiarra (makeshift or kludge in English).

The Brazilian science of improvisation is the great inspiration

of Gambiologia and in this issue of the magazine it is

presented literally, seminal, transversal. But this inspiration

is a process of constant transformation. Not only has the

project itself been completely mutant, it seems to have a life

of its own, but also the procedural and aesthetic inspiration

in gambiarra is only the starting point for a reflection on the

many processes of contemporary society.

Gambiarra all around

Firstly, Gambiologia is related to a creative proposal that is

active in the arts and design and suggests a displacement of

improvisation and precariousness of the sphere of everyday

life, of the need, of the lack of resources, treating them as an

aesthetic option. Second, it flirts with the discussions about

technological development, not only considering that analog

electronics and digital systems are a fundamental part of

gambiological creations, but also problematizing the impacts

of massive industrial production of technology - and what is

left of it - on the society and the artistic realm.

Gambiologia also warns against the use of solid waste

(technological or not), in a way, if one can not say efficient,

quirky and has inspired many people. In addition, many

have been experiencing the project in their educational

sphere since 2010, integrating workshops and mentoring that

aim to teach through technology learning experiences in a

practical, playful, conscious and integrated way to the reality

of participants – and therefore, very effective.

Gambiologia is a learning strategy that is not based on

instruction manuals, in standardization, but in the valuation

of the improvisation capacity and invention that comes from

cradle. The relation with what has been called the "movement

maker" is also increasingly evident, with the peculiarity of

the project being inserted in the movement with a relevant

contribution: the nationalist character, not in the sense of

closing off to foreign influences and inspirations , but to think

about how the native references of what is called Brazilianness,

in their technical, aesthetic and inventive specificities, can

contribute to a better assimilation of the culture "of doing"

in the country.

Finally, there is the appreciation of the improvisation capacity

in the face of fickleness and the ability to rebuild reality itself

through empirical processes, a notorious feature of less affluent

peoples but which, however, only here in Brazil has a name

as sonorous as "gambiarra". Here, in addition, improvisation

skills have become almost trademark, and gambiarra is an

omnipresent allegory in the most diverse social contexts 2 .

Gambiologia spreads through more and more spheres of

knowledge, not only the project, but its understanding and

scope of action expand almost virally, without a prior plan.

The great adherence of artists, researchers, doers, creators,

curious and "ordinary citizens" to collective initiatives

originated from the project, of which this magazine is

probably the greatest exponent, are reasons for satisfaction

and, for this editor, the proof that gambiarra can be a trigger

for a way of thinking about the world.

I am not interested in this Editorial a precise, encyclopedic

definition of what is gambiarra. First because the contributors

of this issue of Facta expound extensively on the topic in the

following pages. Secondly, gambiarra has been massively

featured in all the accomplishments of the Gambiologia

project, not only in the previous issues of this publication, but

since 2008 in several other initiatives. Third, and especially,

because I am not interested in gambiarra as a closed concept,

but only as the articulation of everything that was said in the

above paragraphs, next to what is likely to come. "The general

must know the art of change” 3 .

What fits in this text is a thought about how gambiarra can

channel processes of change, recombination, invention.

Gambiarra as a motto of technical and social transformation.

Gambiarra as a brazilian metaphor, as an inevitable

characteristic of "tupiniquim pop culture". Gambiarra of

Brazil, distinguished from similar processes in several other

nations, but aggregator of experiences of collectivization of

knowledge and of man's role on the world. Not only a cult

of precariousness as acceptance of a supposed inferiority

against the "development" but also as a strategic differential

14


(skillfulness, the gringos would say) in a world that,

increasingly, demands differentiated solutions in a context of

competition and crisis. Gambiarra as a propeller of a logic of

reuse, of sustainability that is not found in the manuals of

the marketing departments. Gambiarra as a hacker practice of

reconfiguring the functions of objects. Gambiarra's assertive

look at industrial coincidences 4 . Gambiarra as a suggestion

of an essential creativity, which does not require training

or methodology. Gambiarra in which, with "hands on",

the human being is the main actor of the transformation

of their surroundings. Gambiarra who transforms not

only his surroundings, but himself. Gambiarra that is not

definitive, nor infallible. On the contrary, it is precarious and

vulnerable, as most of the time, we are ourselves. Gambiarra

is not intended to be consolidated, static, restricted, eternal.

Gambiarra on the move.

Daydreams about gambiarra in movement

Searching for the etymology of the word "movement" we

come to the verb "to move", from the latin movere, meaning

basically "to move", but also "to induce, to persuade" and

"to cause, to inspire" 5 . They are suggestive definitions if we

remember that the gesture of making a gambiarra denotes an

action before the world. But it also presents a risk, a belief, a

self-persuading that a solution to a problem will be achieved,

even in a context of imperfection, material adaptation and

lack of adequate resources.

In Philosophy, movement has been, since Antiquity, a

subject of interest to great thinkers, such as Aristotle,

Descartes, Newton, Leibniz, Mach, and Einstein. "A proper

understanding of the movement (...) was considered crucial

in deciding issues about the nature of space and time and

their interconnections. (...) The struggles of philosophers to

understand these concepts often seemed to take the form of

a dispute between absolute or relative conceptions of space,

time, and movement" 6 .

In Physics, movement is "the variation of the spatial position

of an object or material point in relation to a reference in

the course of time" 7 . This reference point is not necessarily

inert and, in this sense, movements are often exponential,

with acceleration and bidirectional. In the same way happens

the interference of the human being on the environment.

Knowledge arises from infinite processes of mutual

transformation in which not only the object (material,

technical or virtual) is manipulated, but also the person

who operates it becomes transformed through practical

experience. Gambiarra is a form of empirical learning that

is transmitted from father - and mother - to son. Through

experience, it stimulates learning processes that can be

socially transformative.

The physical science that studies movement is Mechanics.

Practical mechanics, applied to cycles, cars, engines, gadgets,

is probably one of the most prolific terrains for gambiarristic

practice, becoming even cultural marks. Examples are

Jugaad na India and Rikimbilis in Cuba. Among the results

of a search for images by the term "gambiarra", or their

translations into English makeshift, kludge, or even the

comic macgyverism, probably the most results are related to

automotive.

The main physical studies of the movement were developed

by Isaac Newton in his work "Mathematical Principles of

Natural Philosophy" and synthesized in the famous "Laws

of Newton". By way of rambling, let us think about what they

are and how they can be applied in gambiological processes:

• First Law (Law of Inertia): "Every body remains in the state

of rest or uniform rectilinear motion, unless it is forced to change by

forces applied to it." Adopting a static posture makes a problem

insoluble. Every solution requires movement, attitude,

activity. If you do not have the right resources, play a game.

• Second Law (Basic Law of Dynamics): "The resultant of

forces acting on a body is equal to the variation of the amount of

movement in relation to time." Gambiaric processes are often

dependent on a set of forces and materials - not always

minimalist - and collective work is often more proficient

than an individual performance. Let's start to consider

Gambiologia as a movement.

• Third Law (Law of Action-Reaction): "If a body A applies

a force on a body B, it will receive from it a force of the same

intensity, same direction and opposite way to the force applied in

B." Gambiarra is action and reaction. It is to act on things

with an attitude that is not preconceived and receive, as an

answer, not only a solution but also an apprenticeship.

If we think at the atomic level, we will observe that motion is

present in all matter. The electrons of an atom are connected

to the nucleus by electromagnetic forces and are never static.

* THE GAMBIARRA MOVEMENT * 15


Here we can wonder that an immense roll of gambiarras

seeks to solve problems related to electro-electronics. The

very electronics, origin of the digital technologies, is based

on atomic movement and reconfiguration of the matter.

The gambiarra, as a transformation of matter, is a macro

movement that starts from the micro, and returns to it.

Acceleration, the physical component of movement, is a

central issue in the contemporary world. The German poet

and playwright Heiner Müller pointed out in 1990 that "the

strategy of full economic and technological acceleration

was based on the principle of natural selection, and that

the human subject was going to disappear into the vector of

technology" 8 . Gambiarra, in a way, questions the inevitability

of technological acceleration, bringing the use of old refuse

and technologies to everyday experience. In physics there is

no negative acceleration, but in practical life we cry out for

an acceleration in reverse. It is because we humans have not

been programmed for the speed at which we are subjected

and so we are often more at ease with the old apparatuses,

obsolete, but which, nevertheless, are under the aegis of our

understanding and affection.

In short, gambiarra as movement

Finally, the movement of this publication and the project that

moves it. Facta arrives, with this issue, at the end of its first

season. Here we take literally the Aristotelian understanding

of motion as a passage from power to act. The resulting

power of the first four issues of the magazine assures its

continuation. For this, if necessary, we will certainly make the

possible gambiarras so that this publication, at the apex of the

confluence of interests that move the Gambiologia, remain in

the possible way. It's like the Third Law: Gambiologia moves

Facta, and Facta moves Gambiologia.

After almost ten years since the creation insight of the

"science of gambiarra", it is also time to make explicit its

fragmentation. For the continuation of the project, it is

essential to assume collectivization as a determinant for the

prolongation of its initiatives and the expansion of its area of

action and influence. After the dissolution of the Gambiologia

Collective in 2015 and a period of reconfiguration of the

modus operandi of gambiologia (tiny initial to a common

noun, will it?), It now reconfigures itself as an open creative

platform, in which collaborative processes and an everexpanding

network of collaborators are fundamental.

Movements are joints that influence beyond your area of

action. And they demand a certain amount of nomadism. For

Deleuze and Guattari, "nomads and artistic, scientific, and

ideological movements are potential war machines in that

they draw a smooth space of displacement - vector, projective

or topological, occupied without measurement, as opposed to

metrical, striated space” 9 .

We then come to the understanding of movement as an

organized gathering of people around a theme, a cause.

After years of presentation of the Gambiologia project in

several cities, countries and contexts of the most diverse,

it is increasingly evident the possibility of articulating a

larger group of people around the proposal, as long as the

project is open to it. The formation of a movement requires

decentralization and the influence of a group of active people,

around common goals. In our case, it requires assuming the

mutant character of the project and its constant transformation

not only as inevitable, but indispensable. Admitting the

impossibility of controlling the unfolding of an organic,

spontaneous, improvised idea, progressively responding to

the order of events, but letting gambiaric chance influence

the course of this research.

Having said that, I declare:

Gambiologia is no longer a collective, nor is it the science of

gambiarra. Gambiologia, now, is the gambiarra movement.

1 Sun Tzu, “Art of War”. Pg. 28. Edition L&PM, 2006.

2 The valorization of gambiarra is often confused with patriotism

and its celebration, interpreted erroneously as if gambiarra was

being treated like "emancipatory potential". I prefer to understand

it as a set of transformative creative and communicational

processes, which are not closed to each other but accessible to a

diverse audience. That which is often lacking at the academy.

3 Sun Tzu, “Art of War”. Pg. 44. Edition L&PM, 2006.

4 See Guto Lacaz's essay on page 66.

5 Antônio Geraldo da Cunha. " Etymological dictionary of the

Portuguese language”. Edition Lexikon, 2010.

6 https://plato.stanford.edu/entries/spacetime-theories/

7 https://pt.wikipedia.org/wiki/Movimento

8 Quote by Laymert Garcia dos Santos, interviewed for this

issue of Facta. http://cultura.estadao.com.br/noticias/artes,ainteligencia-das-especies,55853

9 Daniel Hora, “Art hacking: difference, dissent and technological

reprogramming”. P. 38. Brasilia University, 2010.

16

* THE GAMBIARRA MOVEMENT *


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"Sem título" , por Tatiana C Bond (2010).

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Série "Impressões aquosas de objetos obsoletos".

FACTA #4 - GAMBIARRA EM MOVIMENTO

OUTUBRO/2017

Capa:"Conto Concreto - Casemod" , por Fred Paulino & Lucas Mafra

Foto: Pedro David

Publicação aperiódica

Tiragem: 1440 exemplares

Contatos / contacts:

editor@facta.art.br

producao@facta.art.br

redacao@facta.art.br

www.facta.art.br

www.gambiologia.net

Este trabalho está licenciado em conformidade com a Creative Commons

Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 3.0 Brasil. Para ver uma

cópia da licença, visite http://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/3.0/br


CONCEPÇÃO E EDIÇÃO

EDITOR

Fred Paulino

CONSELHO EDITORIAL

EDITORIAL BOARD

Paulo Henrique Pessoa "Ganso"

Raquel Rennó

Rodrigo Minelli (in memorian)

REDAÇÃO WRITERS

Daniel Barbosa

Fred Paulino

VERSÃO PARA INGLÊS

ENGLISH VERSION

Lu Tanure e Glenn Cheney - Access Group

Thais Mol

PROJETO GRÁFICO & ILUSTRAÇÕES

ART DIRECTOR & ILLUSTRATIONS

Xande Perocco

DESIGN GRAPHIC DESIGN

Fred Paulino

Xande Perocco

PRODUÇÃO PRODUCTION

Fernanda Salgado

ASSESSORIA JURÍDICA

LEGAL ADVICE

Diana Gebrim - Diversidade

CONTEÚDO AUDIOVISUAL

AUDIOVISUAL CONTENT

Apiário

IMPRESSÃO PRINT

Imprimaset

COLABORADORES #4

CONTRIBUTORS #4

Azucena Losana & Carolina Andreetti

Conrado Almada • Ernesto Oroza

Fabio Zimbres • Felipe Fonseca • Guto Lacaz

Jacques Fux • Laymert Garcia dos Santos

Liliana Gil • Maira Begalli

Newton C. Braga • Rui Cezar dos Santos

Taiom Almeida • Tatiana C Bond


QUEM FAZ FACTA

Apiário

Espaço de criação e cultivo de ideias,

dedica-se à produção e concepção de

trabalhos artísticos e comerciais, filmes,

vídeos, animações, ilustrações, fotografias,

escritos e sons de variadas espécies. It is a space for

creation and cultivation of ideas. It is dedicated to conceiving

and producing artistic and commercial works, films, videos,

animations, illustrations, photographs, writings, and sounds

of varied species.

Azucena Losana

Nasceu na Cidade do México (1977), vive

e trabalha em Buenos Aires. Seu trabalho

compõe-se de filmes, instalações e vídeos

experimentais. É responsável pelo laboratório

de resistência à película Arcoiris Super 8. Integra o

TAPP (Oficina de Projetores Precários). Born in Mexico

City (1977), lives and works in Buenos Aires. Her art productions

are experimental films, installations and videos. She is

on charge of the laboratory of film resistance Arcoiris Super 8.

She is part of TAPP (Workshop of Precarious Projectors).

Carolina Andreetti

Vive e trabalha em Buenos Aires. Sua arte

está relacionada a projetos de pesquisa e

ação no espaço público, vídeo, experiências

audiovisuais em tempo real e performance

sonora. Integra o colectivo Circuito C!NICO e coordena

o projeto La Copia Infiel - vídeo contemporâneo. Integra

o TAPP (Oficina de Projetores Precários). Lives and

works in Buenos Aires. Her art productions are projects

in public space, video, real time audiovisual and sound

performance. She is part of Circuito C!NICO collective and

coordinates La Copia Infiel - contemporary video project.

She is part of TAPP (Workshop of Precarious Projectors).

Conrado Almada

Formado em Comunicação e natural

de Belo Horizonte. Artista audiovisual,

trabalha em diferentes suportes, do papel

ao vídeo. He is born in Belo Horizonte and

graduated in Communications. He is an audiovisual artist

that works in different media, from paper to video.

Daniel Barbosa

Jornalista cultural, trabalha no O Tempo e

tem passagens pelo Hoje em Dia, Gazeta

Esportiva Online (SP) e revista Palavra.

Atuou como curador em programas como

Natura Musical, Música Minas e Vozes do Morro. Toca

na banda de hardcore Vulgaris. A cultural journalist, he

works at "O Tempo” and has worked at Hoje em Dia, Gazeta

Esportiva Online and Palavra magazine. He has served as a

curator in programs such as Natura Musical, Música Minas

and Vozes do Morro. He plays in the hardcore band Vulgaris.

Ernesto Oroza

Nasceu em Havana (1968), vive e trabalha

em Aventura, Florida (EUA). É pesquisador,

artista e designer. Integrou exposições e realizou

oficinas em dezenas de cidades do mundo.

É responsável pelos projetos Arquitetura da Necessidade e

Desobediência Tecnológica. He was born in Havana (1968),

lives and works in Aventura, Florida (USA). He is a researcher,

artist and designer. He has joined exhibitions and held

workshops in dozens of cities around the world. He is responsible

for the projects Architecture of Necessity and Technological

Disobedience.

Fabio Zimbres

Nasceu em São Paulo (1960), vive e trabalha

em Porto Alegre. É designer gráfico,

organiza exposições, pinta, faz histórias em

quadrinhos e ilustrações. Foi um dos editores

da revista de HQ alternativa Animal. É criador e editor

das Edições Tonto. He was born in São Paulo (1960), lives

and works in Porto Alegre. He is a graphic designer, organizes

exhibitions, paints, makes comics and illustrations. He was

one of the editors of Animal, an alternative HQ magazine.

He is the founder and editor of Tonto Editions.

Felipe Fonseca

Pesquisador e articulador de projetos

relacionados a redes de produção colaborativa

e livre, mídia independente,

software livre e apropriação crítica

de tecnologia. Researcher and articulator of projects related

to collaborative and free production networks, independent

media, free software and critical appropriation of technology.

Fernanda Salgado

Produtora cultural e roteirista audiovisual.

Graduada em Radialismo e Mestre

em Artes pela UFMG, é sócia-fundadora

da Apiário. Coleciona histórias, personagens

e narrativas. Cultural producer and screenwriter. She

graduated in Radio, TV and Film and holds a Master of Arts,

both at UFMG. She is a founding member of Apiário and

collects stories, characters and narratives.

Fred Paulino

Cientista da computação, designer, artista

e gambiólogo. Realiza e coordena

desde a década de 1990 projetos criativos

como Mosquito, Osso Design, Graffiti

Research Lab Brasil e Coletivo Gambiologia. É editor

da Facta. Computer scientist, designer, artist, gambiologist.

He has carried out and coordinated, since the 1990’s, creative

projects such as Mosquito, Osso Design, Graffiti Research Lab

Brazil and the Gambiologia collective. He's the editor of Facta.


Guto Lacaz

Nasceu em São Paulo (1948), onde vive e

trabalha. É artista multimídia, ilustrador,

designer, inventor, desenhista e cenógrafo.

Recebeu prêmios como a Bolsa Guggenheim

e o Prêmio Excelência Gráfica, entre outros.

Publicou livros como “omemhobjeto” e “80 desenhos”.

He was born in São Paulo (1948), where he lives and works.

He is a multimedia artist, illustrator, designer, inventor,

illustrator and scenographer. He received awards such as the

Guggenheim Scholarship and the Graphic Excellence Award,

among others. He has published books such as "omemhobjeto"

and "80 drawings".

Jacques Fux

Natural de Belo Horizonte (1977). É graduado

em Matemática, mestre em Ciência da Computação,

doutor e pós-doutor em Literatura.

Foi pesquisador visitante na Universidade de

Harvard. É autor dos livros: Antiterapias, Brochadas: confissões

sexuais de um jovem escritor e Meshugá: um romance sobre a

loucura. He was born in Belo Horizonte (1977). He has a

degree in Mathematics, a Master in Computer Science and a

PhD in Literature. He was a visiting researcher at Harvard

University. He is the author of the books: Antitherapies, Brochadas:

sexual confessions of a young writer and Meshugá: a

novel about madness.

Laymert Garcia dos Santos

Pesquisador, escritor, sociólogo, doutor

em Ciência da Informação na França, é

professor titular de Sociologia na Unicamp.

Foi conselheiro do Ministério da Cultura

e diretor da Fundação Bienal de São Paulo. Atualmente

coordena o Laboratório de Cultura e Tecnologia em Rede

do Instituto Século 21, em São Paulo. Researcher, writer,

sociologist, Doctor in Information Science in France, Professor

of Sociology at Unicamp. He was advisor to the Ministry

of Culture of Brazil and director of the São Paulo Biennial

Foundation. Currently, he coordinates the Laboratory of

Culture and Technology in Networks at Século 21 Institute.

Liliana Gil

Doutoranda em Antropologia na New

School em Nova Iorque. Seu trabalho

foca-se em estudos de tecnologia e

produção de conhecimento dentro

e fora de espaços convencionais de ciência. She is a PhD

student in Anthropology at the New School in New York.

Her work centers on people's ability to cross boundaries of

expertise and challenge conventional structures of knowledge.

Paulo Henrique Pessoa “Ganso”

Artista gráfico, gambiólogo, designer de

luminárias, diretor de arte, colecionador de

coleções. Graphic artist, gambiologist, light

designer, art director, collector of collections.

Luciana Tanure

Jornalista, tradutora e produtora cultural.

Integra a Quixote-Do Livraria e Editoras

Associadas, em Belo Horizonte. Journalist,

translator and cultural producer. She is ahead

of Do publishing house and runs a bookstore in her region.

Maira Begalli

Doutora em Planejamento e Gestão do

Território, Mestra em Ecologia, Pósgraduada

em Comunicação Jornalística.

Desenvolve possibilidades envolvendo

apropriação crítica de tecnologias livres, abertas,

DIY, DIWO e de baixo custo para empoderamento

socioecológico. PhD in Planning and Territory

Management, Master in Ecology, Postgraduate in Journalism

Communication. She develops possibilities involving the

critical appropriation of free, open, DIY, DIWO and low cost

technologies for socioecological empowerment.

Newton C. Braga

Autor de centenas de artigos em revistas

técnicas de eletrônica e mecatrônica, tem

mais de 140 livros publicados no Brasil

e exterior. É professor do Colégio Mater

Amabilis e proprietário da Editora NCB. Author of

hundreds of articles in technical magazines of electronics and

mechatronics. He has over 140 published books in Brazil and

abroad. He is a Professor at Colégio Mater Amabilis and

owner of NBC Publishing House.

Rui Cezar dos Santos

Master of Philosophy pela Sussex

University. Master in Arts pelo Pratt

Institute, com Distinção e um "minor"

em Crítica da Fotografia. Aposentado,

lecionou na UFMG e na FUMEC. Atua como fotógrafo,

curador e crítico. Master of Philosophy at Sussex University.

Master in Arts at Pratt Institute, with Distiction and a

"minor" in Photography Critics. He was Professor at UFMG

and FUMEC and is now retired. He works as photographer,

curator and critic.

Taiom Almeida

É tatuador e artista visual formado pela

UnB. Tem mais de dez anos de carreira no

Brasil e exterior. A busca de seu trabalho

é tornar visível simbologias, conceitos e

subjetividades relacionadas ao corpo urbano e humano.

He is a tattoo artist and visual artist at UnB (Brasilia

University). He has an experience of more than ten years in

Brazil and abroad. The quest for his work is to make visible

symbologies, concepts and subjectivities related to the urban

and human body.

Xande Perocco

Artista gráfico Azucrinista, desenvolve

projetos de design e artes com foco no

equilíbrio de suas propostas. Azucrinist

graphic artist, develops design and arts

projects foscused on the balance of their proposals.



Weltmaschine (World Machine)

Franz Gsellmann, 1958-1981

Foto: Gery Wolf



AS ARTES E CIÊNCIAS DA

GAMBIARRA

No Brasil, ela é onipresente e elemento de identidade

cultural. Para artistas, pode ser fonte de inspiração e,

cada vez mais, é valorizada em todo mundo como uma

um forma original de inovação. Facta apresenta a

soberana gambiarra.

N

o Brasil, a gambiarra dispensa

apresentação. É atávica, inata,

está no dia a dia e possivelmente

desde sempre, ao menos desde

o processo de colonização, que, afinal, foi

fruto, em boa medida, de uma gambiarra

da Corte Portuguesa. A palavra gambiarra

é uma marca brasileira, conforme aponta o

designer Rodrigo Boufleur, que defendeu na

USP (Universidade de São Paulo) em meados

da década passada a tese “Fundamentos da

Gambiarra”. Ele destaca que há expressões

semelhantes no inglês, como makeshift ou

kludge, mas a conotação de gambiarra no

Brasil vai além.

“O uso informal do termo como improviso

denota uma propensão cultural relacionada ao

que se costuma chamar de jeitinho brasileiro.

É uma manifestação não exclusiva, porém típica

e muito presente na cultura popular brasileira”,

diz Boufleur em sua dissertação de

mestrado “A Questão da Gambiarra”. Com

efeito, se entendida como um remendo, um

quebra-galho, uma improvisação para se resolver

um problema ou a prática de reutilização

ou requalificação de um determinado

material para superar uma carência, é correto

afirmar que as gambiarras partem principal-

mente de uma condição de precariedade mais

comum em países em desenvolvimento. Vale

ressalvar, contudo, que a prática é natural do

ser humano, e mundial. Além das expressões

afins em inglês (das quais life hack parece ser

o verbete do momento), há termos que denotam

mais ou menos o mesmo sentido na Espanha

(apaño ou chapuza), na Índia (jugaad),

na Colômbia (chatarra), no Chile (hechizo),

em Portugal (desenrascanço), na China (jiejian

chuangxin) ou na França (Systeme D ou

bricolage). No Brasil, são também comumente

e ironicamente utilizados os sinônimos “engenharia

de emergência” ou “recurso técnico

alternativo”.

Segundo o dicionário Houaiss, a palavra

gambiarra tem etimologia de origem “contraditória

e duvidosa”. Nos principais dicionários

brasileiros, a primeira acepção para o substantivo

é “uma ramificação ou extensão de luzes”.

Apesar do evidente e difundido uso informal

do termo no Brasil, visto como uma forma

de improvisação, nenhum destes dicionários

inclui qualquer acepção que se refira precisamente

a este significado. Tecnicamente,

uma ramificação desarmônica mas funcional

de luzes parece ser o sentido original da

palavra gambiarra, que, com o tempo, passou

27


a se aplicar a qualquer solução precária para

um problema. Várias dentre as cerca de 200

improvisações criativas analisadas por Boufleur

têm essa característica de adversidade ou

carência de materiais. Disso surgem tampas

de xampu que viram lanternas traseiras de

bicicletas, um disco rígido que vira uma lixa

e um olho mágico que, acoplado ao celular,

proporciona uma lente diferente. Um bom

exemplo de gambiarra vem do fotógrafo paulista

Daniel de Granville, que, para captar o

som de aves, improvisou um guarda-chuva

invertido. O princípio é o mesmo de uma

antena parabólica: o guarda-chuva reflete

o sinal sonoro e o concentra num ponto do

cabo onde fica o microfone. “A ideia partiu

do alto preço e da dificuldade de achar equipamentos”,

conta.

O escritor e ativista cearense Ricardo Rosas,

falecido prematuramente em 2007, afirma em

seu clássico artigo “Gambiarra: Alguns Pontos

para se Pensar uma Tecnologia Recombinante”

que a transformação da precariedade

pode ter dimensões sociais e “sanar uma deficiência,

tentar curar feridas

do sistema, trazer conforto

ou voz a quem isso é negado”.

Rosas defende que a

gambiarra tem um sentido

cultural muito forte, particularmente

no Brasil. É

usada para definir uma solução rápida e feita

de acordo com as possibilidades à mão. “Esse

sentido não escapou à esfera artística, com

várias criações no terreno próprio das artes

plásticas. É dessa seara que podemos captar

mais alguns conceitos reveladores da natureza

da gambiarra e o seu significado simbólicocultural”,

aponta.

"A gambiarra não se

faz sem nomadismo nem

inteligência coletiva”

(Lisette Lagnado)

MacGyverism: um dos sinônimos para gambiarra em inglês é

originado do lendário personagem de um "enlatado americano"

dos anos 1980.

O discurso de Rosas se alinha com o da pesquisadora

e curadora Lisette Lagnado, que

ele inclusive cita em seu artigo. Em um ensaio

sobre o tema da gambiarra nas artes brasileiras,

“O Malabarista e a Gambiarra”, publicado

na revista digital “Trópico” em outubro de

2003, ela sugere que a gambiarra é uma peça

em torno da qual um tipo de discurso está

ganhando velocidade. Articulação de coisas

banidas do sistema funcional, a gambiarra,

tomada “como conceito, envolve transgressão,

fraude, tunga – sem jamais abdicar de

uma ordem, porém de uma

ordem muito simples”. O

mecanismo da gambiarra,

para Lagnado, teria, além

disso, um acento político

além do estético. Baseada

na falta de recursos, a “gambiarra não se faz

sem nomadismo nem inteligência coletiva”.

A gambiarra está igualmente muito próxima

do conceito de bricolagem formulado por

Claude Lévi-Strauss em “O Pensamento

Selvagem”. Pensando o bricoleur como

“aquele que trabalha com suas mãos,

utilizando meios indiretos se comparado

ao artista”, seu conjunto de meios não é

definível por um projeto, como é o caso do

28

* AS ARTES E CIÊNCIAS DA GAMBIARRA *


O BRICOLEUR CRIA USANDO EXPEDIENTES E MEIOS

SEM UM PLANO PRECONCEBIDO, AFASTADO DOS PROCESSOS

E NORMAS ADOTADOS PELA TÉCNICA.

engenheiro, mas se define apenas por sua

instrumentalidade, com elementos que

são recolhidos e conservados em função do

princípio de que “isso sempre pode servir”.

O bricoleur cria usando expedientes e meios

sem um plano preconcebido, afastado dos

processos e normas adotados pela técnica,

com materiais fragmentários já prontos,

e suas criações se reduzem sempre a um

arranjo novo de elementos cuja natureza

só é modificada à medida que figurem no

conjunto instrumental ou na disposição final.

A diferenciação que Lévi-Strauss faz entre

o bricoleur e o engenheiro é essencial para se

entender a gambiarra – essa livre criação além

dos manuais de uso e das restrições projetuais

da funcionalidade – como uma prática essencialmente

de bricolagem. Acima de tudo,

para entender a gambiarra não apenas como

prática, criação popular, mas também como

arte ou intervenção na esfera social, é preciso

ter em mente elementos quase sempre presentes.

Alguns deles seriam: a precariedade

dos meios, a improvisação, a inventividade,

o diálogo com a realidade circundante local,

com a comunidade, o reuso, o flerte com a

ilegalidade, a recombinação tecnológica ou

novo uso de uma dada tecnologia (hacking),

entre outros.

Para além do " jeitinho"

Quando Rosas diz que a transformação da

precariedade implícita na gambiarra pode ter

dimensões sociais e tentar curar feridas do

sistema, podem vir à tona exemplos como o

“Gambiarra Favela Tech”, um projeto que tenta

identificar talentos criadores em diferentes

comunidades cariocas, criando uma rede

entre eles e estimulando o potencial criativo

e artístico dos envolvidos. O projeto é uma

tentativa de devolver a cultura maker às suas

origens: as oficinas e garagens onde talentos

"Desembarque de Pedro Álvares Cabral em

Porto Seguro em 1500", de Oscar Pereira da Silva (1922).

O início da gambiarra civilizatória brasileira.

29


anônimos desenvolvem soluções para problemas

cotidianos usando princípios de elétrica,

eletrônica, informática e manualidades, acrescidos

de uma boa dose de criatividade.

O potencial de intervenção social da gambiarra

pode ser identificado não só no Brasil,

mas no mundo, especialmente em países ou

regiões com carência de recursos. Formado

O potencial de intervenção

social da gambiarra

pode ser identificado

não só no Brasil.

pelo MIT (Massachusetts

Institute of Technology),

o engenheiro hondurenho

José Gómez-Márquez passa

o dia às voltas com prendedores,

remendos, canos e

peças de Lego. Ainda que pareça apenas um

monte de traquitanas, são soluções médicas

de baixo custo, que já ajudaram milhares de

pessoas em países em desenvolvimento. Com

um filtro de café, Gómez-Márquez bolou um

instrumento para controlar medicação antituberculose.

Fez um inalador com uma bomba

de bicicleta. Transformou um helicóptero

de brinquedo num inalador para asma e

acoplou canos a um desentupidor de pia para

produzir uma centrífuga portátil.

Nas visitas que faz a Honduras e outros

países da região, Gómez-Márquez encontra

cirurgiões e enfermeiros que seguem esse

exemplo e também desenvolvem soluções

criativas para seus problemas. “Queremos

dar condições para que se

tornem colaboradores”, diz.

Para tanto, o engenheiro

dirige no MIT o programa

IIH (sigla em inglês para

Inovações em Saúde

Internacional), uma rede de laboratórios em

12 lugares do planeta – do Peru ao Paquistão.

E as parcerias têm dado frutos. Na Nicarágua,

sócios conseguiram fundos do BID (Banco

Interamericano de Desenvolvimento) para

seus projetos. O país foi palco do lançamento

do Medikit, um kit que auxilia profissionais

da saúde a desenhar protótipos.

Smell Camera é um dispositivo para

monitoramento da saúde desenvolvido

pela estudante Manisha Mohan,

do MIT. Essa gambiarra eletrônica

digitaliza a respiração de pacientes.

Foto: Gabriella Zak.

30

* AS ARTES E CIÊNCIAS DA GAMBIARRA *


Video instalação "Elektronischer dé-coll/age Happening Raum (1968),

de Wolf Vostell: precariedade com sucatas e eletrônicos.

Foto: Marc Wathieu.

Artistas da gambiarra

Exemplos muito próximos e, ao mesmo

tempo, ao redor do mundo atestam a ligação

da gambiarra com o universo das artes

plásticas. Formado em Belo Horizonte entre

2008 e 2015 e motor desta publicação, o

Coletivo Gambiologia trazia no próprio nome

sua fundamentação e, entre as várias frentes

e possibilidades que a “ciência da gambiarra

oferece”, explorou com proeminência sua

dimensão artística.

Em âmbito nacional, alguns nomes de

artistas que têm na gambiarra um de seus

procedimentos também se destacam. Cao

Guimarães desenvolve por mais de dez

anos um projeto fotográfico que tem o tema

como mote. Ao longo de sua trajetória, a

série de fotografias “Gambiarras” já esteve

exposta em inúmeros países. O paulistano

Guto Lacaz também figura com destaque

no trato com a gambiarra. É um artistainventor

que cruza os terrenos da ciência e

da tecnologia, sobretudo quando constrói

as suas máquinas e aparelhos paradoxais ou

absurdos. É uma espécie de antiengenheiro

que aplica seu know-how na desmontagem,

na desorganização, na desconstrução do

sistema produtivo industrial.

Outro artista que frequentemente faz da

precariedade um preceito estético, o paraense

Dirceu Maués navega na direção contrária

das últimas tecnologias do mundo fotográfico

e é hoje um dos maiores conhecedores no

país da fotografia estenopeica, como também

é chamado o registro com câmera pinhole

(“buraco de agulha”). Seus aparatos óticos

são artesanais e feitos com materiais diversos:

lata, madeira, caixa de fósforo, embalagens

velhas, latões etc. Há também os artistas

que, em algum momento de suas carreiras,

flertam com o universo da gambiarra.

* AS ARTES E CIÊNCIAS DA GAMBIARRA *

31


"Refunct Media", de Benjamin Gaulon.

É o caso de Jarbas Lopes, Efraim Almeida,

Ducha e Marepe, que em 2003 realizaram a

exposição coletiva “Gambiarra: New Art of

Brazil”, na Gasworks Gallery, em Londres,

na Inglaterra. “Poesia da Gambiarra” é

também o nome de uma exposição realizada

por Emmanuel Nassar entre 2003 e 2004

(Rio, Brasília e São Paulo), apresentando sua

produção de desenhos, fotografias e murais

que aludiam à precariedade.

Em âmbito internacional podemos citar o

trabalho de Benjamin Gaulon, um artista,

pesquisador e professor que lança trabalhos

sob o nome de “Recyclism”. Sua série “Refunct

Media” propõe uma colagem de dispositivos

eletrônicos obsoletos, remontados em uma

grande e complexa cadeia de elementos.

Desde 2005 Benjamin tem também liderado

workshops e ministrado palestras na Europa

e EUA sobre lixo eletrônico, reprogramação

de hardware e reciclagem. Os participantes

de suas oficinas exploram o potencial das

tecnologias obsoletas de forma criativa e

encontram novas estratégias para a reciclagem

de lixo eletrônico.

Quem quiser conhecer um pouco mais

desse universo tem ao alcance dos olhos as

exposições coletivas “Gambiólogos”, cujas

primeiras edições aconteceram em Belo

Horizonte em 2010 e 2014. As mostras

apresentam uma panorâmica sobre a

precariedade e o improviso cotidiano aplicado

à arte, sem deixar de lado o ingrediente lúdico.

É, em suma, uma oportunidade de aplicar

arte e invenção a um cotidiano, não raro no

Brasil de hoje, precário e improvisado. DB

“REFUNCT MEDIA” PROPÕE UMA COLAGEM DE

DISPOSITIVOS ELETRÔNICOS OBSOLETOS, REMONTADOS

EM UMA GRANDE E COMPLEXA CADEIA DE ELEMENTOS.

32

* AS ARTES E CIÊNCIAS DA GAMBIARRA *


THE ARTS AND SCIENCES OF

GAMBIARRA

In Brazil, it is ubiquitous and an element of cultural identity.

For artists, it can be a source of inspiration and, more and

more, is valued throughout the world as an original form of

innovation. Facta presents the sovereign gambiarra.

In Brazil, gambiarra doesn’t require an introduction. It is

atavistic, innate, it is in everyday life and possibly since

ever, at least since the colonization process, which, in

the end, was the fruit, to a large extent, of a gambiarra of

the Portuguese Court. The word gambiarra is a Brazilian

brand, as pointed by the designer Rodrigo Boufleur, who

defended at USP (University of São Paulo) in the middle

of the last decade, the thesis “Gambiarra Fundamentals”.

He points out that there are similar expressions in English,

such as makeshift or kludge, but the connotation of gambiarra

in Brazil goes further.

“The informal use of the term as improvisation denotes a

cultural propensity related to what is commonly called ‘the

Brazilian way’. It is a non-exclusive manifestation, but rather

typical and very present in Brazilian popular culture”, says

Boufleur in his Master's dissertation “The Gambiarra Issue”.

In fact, if understood as a patch, a bump, an improvisation

to solve a problem or the practice of re-use or requalification

of a certain material to overcome a shortage, it is correct to

affirm that gambiarras depart mainly from a condition of precariousness

that is more common in developing countries. It

is worth mentioning, however, that this practice is natural to

the human being and it is found worldwide. In addition to

the related expressions in English (of which life hack seems

to be the entry of the moment), there are terms that have

more or less the same meaning in Spain (apaño or chapuza),

India ( jugaad), Colombia (chatarra), Chile (hechizo), Portugal

(desenrascanço), China ( jiejian chuangxin) and in France

(Systeme D or bricolage). In Brazil, the terms "emergency

engineering" or "alternative technical resource" are also

commonly and ironically used.

According to the Houaiss dictionary, the word gambiarra has

an etymology of "contradictory and doubtful" origin. In the

main Brazilian dictionaries, the first meaning for the noun

is "a branch or extension of lights." Despite the evident and

widespread informal use of the term in Brazil, seen as a form

of improvisation, none of these dictionaries includes any interpretation

that precisely refers to this meaning. Technically,

a disharmonious but functional branch of lights seems to be

the original definition of the word gambiarra, which, over

time, began to be applied to any precarious solution to a problem.

Several of the approximately 200 creative improvisations

analyzed by Boufleur have this characteristic of adversity or

lack of materials. From this, shampoo lids that turn into bicycle

taillights, a hard disk that turns into a sandpaper and a

magic eye that, coupled to a cell phone, provides a different

lens emerge. A good example of gambiarra comes from Daniel

de Granville, a photographer from São Paulo who improvised

an inverted umbrella in order to capture the sound of birds.

The principle is the same as a satellite dish: the umbrella reflects

the sound signal and concentrates it at a point on the

cable where the microphone is. "The idea came from the high

price and the difficulty of finding equipment," he says.

Ricardo Rosas, a Brazilian writer and activist who died prematurely

in 2007, states in his classic article “Gambiarra:

Some Points to Think of a Recombinant Technology” that the

transformation of precariousness can have social dimensions

and "heal a disability, try to heal wounds of the system, bring

comfort or voice to whom this is denied." Rosas argues that

gambiarra has a very strong cultural meaning, particularly in

Brazil. It is used to define a quick solution and made according

to the possibilities at hand. "This sense hasn’t escaped the

artistic realm, with several creations in the fine arts. It is from

this area that we can capture some more revealing concepts of

the nature of gambiarra and its symbolic-cultural meaning,"

he points out.

The speech of Rosas is aligned with that of the researcher

and curator Lisette Lagnado, whom he even quotes in his

article. In an essay on the subject of gambiarra in the Brazilian

arts, “The Juggler and the Gambiarra”, published in the

digital magazine Trópico in October 2003, she suggests

that gambiarra is a part around which a type of discourse is

33


gaining speed. Articulation of things banned from the functional

system, gambiarra, taken "as a concept, involves transgression,

fraud, chigoe - without ever abdicating an order,

but a very simple order". The mechanism of gambiarra, for

Lagnado, would have, moreover, a political accent beyond the

aesthetic one. Based on the lack of resources, "gambiarra is not

done without nomadism and collective intelligence".

The gambiarra is also very close to the concept of bricolage

formulated by Claude Lévi-Strauss in "The Savage Mind".

Considering the bricoleur as "one who works with her/his

hands, using indirect means, if compared to the artist", his

set of means is not definable by a project, as it is the case of

the engineer, but it is defined only by her/his instrumentality,

with elements that are collected and preserved in accordance

with the principle that "this can always serve". The bricoleur

creates using expedients and means without a preconceived

plan, away from the processes and norms adopted by technique,

with fragmentary materials already ready, and her/

his creations are always reduced to a new arrangement of elements

whose nature is only modified as they appear in the

instrumental set or in the final disposition.

The differentiation made by Lévi-Strauss between bricoleur

and engineer is essential to understand gambiarra - this free

creation that goes beyond manuals of use and design restrictions

of functionality - as an essentially bricolage practice.

Above all, in order to understand gambiarra not only as a

practice, a popular creation, but also as art or intervention in

the social realm, it is necessary to keep in mind elements that

are almost always present. Some of them would be: the precariousness

of means, improvisation, inventiveness, dialogue

with surrounding local realities, with the community, reuse,

flirting with illegality, technological recombination or new

use of a given technology (hacking) among others.

Beyond The Brazilian Way

When Rosas says that the transformation of the precariousness

that is implicit in gambiarra can have social dimensions

and that it tries to heal wounds of the system, we can think of

examples such as the "Gambiarra Favela Tech", a project that

aims to identify creative talents in different communities in

Rio de Janeiro, creating a network between them and stimulating

the creative and artistic potential of those involved.

The project is an attempt to return the maker culture to

its origins: the workshops and garages where anonymous

talents develop solutions to everyday problems using principles

of electrical, electronics, computer science and crafts,

plus a good deal of creativity.

The gambiarra potential of social intervention can be identified

not only in Brazil, but worldwide, especially in countries

or regions with a lack of resources. Graduated in the

Massachusetts Institute of Technology (MIT), the Honduran

engineer José Gómez-Márquez spends his days with fasteners,

patches, pipes and Lego pieces. Although they look just as

bunch of trachytes, they are low-cost medical solutions that have

already helped thousands of people in developing countries.

With a coffee filter, Gómez-Márquez has developed an

instrument to control antituberculosis medication. He has

made an inhaler with a bicycle pump. He has turned a toy

helicopter into an asthma inhaler and has coupled pipes to a

sink nozzle to produce a portable centrifuge.

During his visits to Honduras and other countries in the

region, Gómez-Márquez meets surgeons and nurses who

follow his example and also develop creative solutions to their

problems. "We want to make conditions for them to become

collaborators," he says. To do so, the engineer is in charge, at

the MIT, of the program IIH (Innovations in International

34

* THE ARTS AND SCIENCES OF GAMBIARRA *


Health), a network of laboratories in 12 places on the planet

–from Peru to Pakistan. And partnerships have borne fruit.

In Nicaragua, partners have secured IDB (Inter-American

Development Bank) funds for their projects. The country

hosted the launch of Medikit, a kit that helps healthcare

professionals to design prototypes.

Gambiarra Artists

Very close examples and at the same time around the world

attest the connection of gambiarra with the universe of fine

arts. Formed in Belo Horizonte between 2008 and 2015 and

the motor of this publication, the Gambiologia Collective had

its grounding in its own name and, among the various fronts

and possibilities that the "science of gambiarra” offers, they

had explored its artistic dimension with prominence.

At the Brazilian level, some names of artists who have in

the gambiarra one of their procedures also stand out. Cao

Guimarães has developed, for over ten years, a photographic

project that has this theme as a motto. Throughout his trajectory,

the "Gambiarras" photo series has already been exposed

in numerous countries. Guto Lacaz also figures prominently

in the deal with gambiarra. He is an artist-inventor who

crosses the lands of science and technology, especially when

he constructs his paradoxical or absurd machines and apparatuses.

He is a kind of anti-engineer who applies his know-how

in the dismantling, disorganization and deconstruction of the

industrial production system.

made from various materials: tin, wood, matchbox, old packaging,

brass etc. There are also artists who, at some point in

their careers, flirt with the gambiarra universe. This is the case

of Jarbas Lopes, Efraim Almeida, Ducha and Marepe, who

held in 2003 the collective exhibition "Gambiarra: New Art

of Brazil" at the Gasworks Gallery in London. "Gambiarra

Poetry” is also the name of an exhibition by Emmanuel Nassar

between 2003 and 2004 in Rio, Brasilia and São Paulo,

presenting his production of drawings, photographs and

murals that alluded to precariousness.

Internationally we can mention the work of Benjamin Gaulon,

an artist, researcher and teacher who launches works under the

name of "Recyclism". His series "Refunct Media" proposes a

collage of obsolete electronic devices, reassembled in a large

and complex chain of elements. Since 2005 Benjamin has also

led workshops and lectures in Europe and the United States on

e-waste, hardware reprogramming and recycling. His workshop

participants explore the potential of obsolete technologies

in a creative way and find new strategies for recycling e-waste.

Those who want to know a little more about this universe have

at their fingertips the collective exhibitions "Gambiólogos",

whose first editions took place in Belo Horizonte in 2010 and

2014. The exhibits present a panoramic view on precariousness

and daily improvisation applied to art, without leaving

aside the playful ingredient. It is, in short, an opportunity

to apply art and invention to a daily life, not infrequently in

today's Brazil, precarious and improvised. DB

Another artist who frequently makes precariousness an

aesthetic precept, Dirceu Maués navigates in the opposite

direction of the latest technologies of the photographic world

and is today one of the greatest connoisseurs in the country of

pinhole photography. His optical devices are handcrafted and

35



SOLUCIONÁTICA

BRASILEIRA

Fotografias e texto por Rui Cezar dos Santos


O

VERNÁCULO, aqui entendido

como a língua viva das ruas, é

uma tremenda fonte de vivacidade,

sabedoria e riqueza cultural.

Empregado com frequência como um escudo

contra o poder, como uma proteção contra

estranhos ao ninho (jargões, gírias e até

mesmo a língua do “P” das crianças que Gal

Costa cantou), ele reflete inteligência prática

e direta, na veia, ou universaliza algo como

um adjetivo irrecorrível, incontestável – tal

como roscofe, um ordinário relógio suíço de

má qualidade, ou legal, termo da lei de que o

submundo se apropriou para fins de denominar

os pequenos nirvanas aos quais é permitido,

mesmo que na marra.

O vernáculo que temos à frente é o termo

gambiarra. O Aurélio (Editora

Positivo, 4ª. edição,

2009) não é de valia, pois

o define como uma lâmpada

colocada na extremidade

de um longo fio que permite

seu emprego em uma área relativamente

grande, como um conjunto de lâmpadas para

uso naval ou no teatro. Se a memória não me

trai, meu conhecimento de sua existência foi

nos anos setenta, quando pronunciado por

Chico Jacob, que assim se referiu a um pequeno

improviso que estava a fazer em seu

apartamento. Então supus que ele o empregara

substituindo o termo bricoleur, que designa

pequenos trabalhos sem importância, o

biscate. Depois ponderei que alguém deve ter

associado a experiência do biscate com o improviso

e, daí, com a gambiarra elétrica dos

cenários teatrais tal como definida no Aurélio.

Um improviso.

Devia haver carência de

tudo, daí a necessidade

do improviso, do famoso

jeitinho familiar a todos.

Mas também imprecisão. Minha educação,

curso científico, um preâmbulo na Faculdade

de Engenharia e de uma graduação e

pós em Ciências Econômicas me predispuseram

a suspeitar e rejeitar gambiarras e seus

praticantes. A esta formação se juntou uma

certa penchant stalinista que marcou minha

geração (Ah! Os promissores Grandes Relatos...

ver Jean-François Lyotard, A Condição

Pós-Moderna) e a prática das ditas “ciências

exatas”, entre as quais alguns pensadores inserem

a economia. Mas, cá entre nós, é como

dar murro em ponta de faca.

Porque a gambiarra, razoo, foi uma necessidade

imposta pelo processo de colonização

de Pindorama. Devia haver carência de tudo,

daí a necessidade do improviso, do famoso

jeitinho familiar a todos. Querem um exemplo?

É fácil, escolham o melhor altar barroco

das nossas igrejas e peçam

para vê-lo por trás: verão,

assombrados, um palimpsesto

de ripa sobre ripa, remendo

sobre remendo. Ou

então consultem os quatro

volumes da História da Vida Privada no Brasil

(Cia. das Letras, 1997) ou os relatos dos

celebrados viajantes europeus que nos visitaram

há séculos atrás. O Brasil colonial nos

legou a prática da gambiarra. Quem não tem

cachorro caça com gato, ora pois.

A gambiarra é estrutural, embora em alguns

setores da atividade humana nos quais o computador

(a exatidão) penetrou pra valer, como

nas oficinas mecânicas, tenha sido relevada

aos grotões. Vivemos hoje uma dicotomia entre

o científico e o “gambiárrico” encarnado

como marca, estigma, como um diferencial

cultural. Proponho duas formas pretensamente

científicas para gerar uma abordagem

intrincada ao termo melhorando seu status,

um upgrade. Primeiro, podemos encaixá-lo

38

* SOLUCIONÁTICA BRASILEIRA *


na definição de economia do suplemento que

Foucault criou para designar um suplemento

que, gerado para auxiliar na faina diária,

inverte a equação e escraviza, impõe-se.

O automóvel e o telefone celular são menções

honrosas dessa aberração. Segundo, pode

ser entendido como um rizoma, conceito de

Deleuze e Guattari para abordar sistemas que

não têm como característica a hierarquia verticalizada.

Expansionista na dimensão horizontal,

o rizoma é como um câncer em fase

de metástase. Um exemplo à mão é o ensaio

“Vietnam: The thousand plateaus”, de Herman

Rapaport (“The 60’s Without Apologies”,

University of Minnesota Press, 2ª. Ed.,

1985). Ali o autor analisa a guerra do Vietnã

empregando o rizoma para discorrer sobre a

tática guerrilheira da resistência contra o sistema

rígido e hierárquico das forças militares

americanas.

Ubíqua entre nós, a gambiarra pode ser fruída

quando relembramos vários lances do

maldito golpe militar de 1964 e seus generais

(em especial o sediado em Minas). Tudo acochambrado

(o “feito nas coxas” se refere ao

molde empregado para produzir as telhas coloniais,

feitas nas coxas, gambiarrada). Blefes,

insultos a granel e o resultante cisco verde-

-oliva em nossos olhos. Duas décadas! Neste

meu improvisar, outra lembrança. Durante a

presidência de JK, o então ministro da Fazenda

(acho) José Maria Alckmin deparou-se

com uma demanda dos bares e cafés cariocas,

que queriam aumentar o preço do cafezinho.

Concedido o aumento de cem por cento, o

ministro ouviu a gritaria da população e, de

pronto, decretou que a xícara deveria ter seu

volume duplicado.

Mas estas são águas passadas, da época em que

o Vasco da Gama era vistoso, tinha Bellini,

Vivemos hoje uma dicotomia

entre o científico e o “gambiárrico”

encarnado como marca, estigma,

como um diferencial cultural.

Orlando, Coronel (que nunca conseguia

“prender” o Garrincha), Vavá e Pinga.

De quebra, tinha o guarda-metas Barbosa, o

eterno injustiçado, culpado pela derrota para

o Uruguai em 1950. De lá para cá, ou seja,

do supercampeonato de 1958 até hoje, a cueca

samba-canção virou tanga, o samba canção

foi deslocado pela bossa nova, Sérgio Ricardo

e Glauber Rocha (“te arreda santo safado”)

pelo Tropicalismo, aliás uma ode à gambiarra

alegremente enriquecida pelos Novos Baianos

e, encurtando a narrativa, pelo Planet

Hemp, MCs e áreas próximas. Ficou desonroso,

segundo Foucault, falar pelos outros,

menos na política.

É, político sempre fala pelos outros, um tipo

de deformação profissional - é, eles são profissionais,

inclusive com direito a aposentadoria

depois de alguns mandatos. Neste campo,

mais apropriado seria dizer nesta miséria,

desde a reinauguração da res publica nos anos

oitenta temos assistido a um festival bizarro

de meias-verdades, improvisos e gambiarras.

Parece que de nada adiantou que o governo

Vargas, nos anos cinquenta, enviasse Celso

Furado, Roberto Campos e Ignácio Rangel

para estudar nas estranjas e orientar os destinos

da economia (trouxeram um econometrista

inglês para falar grosso na coleta e

no processamento de dados estatísticos). No

país das gambiarras os destinos viraram desatinos:

leiam sobre a gestão Delfim Netto (e

os Delfim’s boys) durante a ditadura militar

e a internacionalização da nossa economia (o

capital estrangeiro vinha se imiscuindo desde

* SOLUCIONÁTICA BRASILEIRA * 39


os anos 1950; veja, por exemplo, “Um dia na vida do Brasilino”, que o Centro de Cultura

Popular da UNE imprimiu). Desde então, a gambiarra econômica passou a ser conhecida

por pacote!

Gambiarra à la brasilien (jamais um país sério, frase atribuída talvez erroneamente a Charles

De Gaulle durante a Guerra da Lagosta com a França). Avanço algumas décadas para

enfocar 2010/11, com a política petista de desoneração de tributos e concessão de subsídios

para, assim, gerar excedentes que, esperava-se, seriam aplicados na economia como investimento

(no escambau, isso sim). As burras do erário sacrificaram impostos a “fundo perdido”.

O que aconteceu com o excedente ninguém sabe, mas provavelmente rendem juros no exterior.

Afinal, quem quer investir nessa balbúrdia, agora tornada dissonante pelas minorias e sindicatos

e a esquerda brasileira, a última, outro exemplo de rizoma, desde o início da década

de 2000? À gambiarra, o pacote, que é como se pode chamar a política econômica adotada

40

* SOLUCIONÁTICA BRASILEIRA *


então, 2010, somaram-se os problemas externos

(preços das commodities) e as perdas sucessivas

de arrecadação, o aumento constante

dos gastos, justificados, com educação, moradia,

saúde – direitos básicos do ser humano.

Daí originou-se o descontrole da “administração”

Dilma, sua gambiarra gerencial.

O chamado desajuste fiscal só foi se agravando

até a reeleição de 2014, ganha “nas coxas”

com o expediente de maquiar dados. Os 54

milhões queriam mais: moradias, educação,

saúde, quilombos e por isso o Aecinho dançou

feio, como se diz, morreu na praia após

uma tremenda recuperação que o levou ao

segundo turno. E aí teve início a gambiarra

que nos trouxe ao presente estado das coisas.

Recontagem de votos, requerimento

de impugnação

do resultado no TSE, uma

gritaria do coro dos descontentes

que calculavam

os danos futuros: a volta de

Lula em 2018 e mais 12 anos com a mão da

esquerda vermelha distribuindo as cartas do

jogo democrático! Tisconjuro. Deus que me

livre! Sai Satanás. Pois é, veio então a disputa

pela presidência da camarilha dos deputados

(dos quais apenas setenta e três foram

realmente eleitos, o restante subiu na cota

partidária), vencida pelo gangster Eduardo

Cunha. Há aqui um ponto cego que minhas

pobres fontes não me permitem clarear: será

que o gangster teve o insight de impedir a

continuidade do mandato da Presidenta ou

alguém soprou em seus ouvidos darwinianamente

adaptados? Não sei, mas que começou

aí o projeto de ingovernabilidade, disto temos

certeza.

O patinho amarelo (cor da covardia) da

A gambiarra econômica

passou a ser conhecida

por pacote!

Fiesp; o apoio logístico da indústria da informação

(a televisiva, pois a mídia impressa não

compactuou totalmente) e a claque das ruas

comandada pelo Movimento Brasil Livre, o

último supostamente apolítico, mas apoiado

financeiramente pelo PMDB e DEM, geraram

o pacto (que horror, titia) a que se refere

o senador Romero Jucá nas gravações de

março. Seguindo a cartilha da gambiarra, estas

apenas foram reveladas meses depois, somando-se

à “deposição” do gangster Cunha

da presidência da camarilha e cassação de seu

mandato, pedido que ficou “dando filhote”

no colo de um juiz do Supremo de dezembro

até a passagem do pedido de impedimento. E

a gente que achava, a partir do ícone postado

lá em Brasília, que a justiça é cega (“tá bem”,

mas não é surda e tem o pleno sentido do tato

nas mãos).

Tal “golpe branco”, para as

elites, revelou-se uma necessidade,

já que recorrer às

armas engalanadas poderia:

1) despertar neles o fascínio pelo trono, como

em 1964, e teríamos hoje a história como farsa

(nos dizeres de Karl Marx, a primeira vez é

como tragédia e a segunda...); 2) com a queda

do muro de Berlim ficou insustentável o apoio

às ditaduras no mundo “livre” do neoliberalismo

A amarração que se procedeu desafia os

ensinamentos dialéticos que apontam para as

contradições internas da oligarquia. Um episódio

vem à baila: Negrão de Lima, do PSD,

durante a presidência de Juscelino, concorreu

à prefeitura da capital federal, Rio de Janeiro,

contra um adversário da UDN. Ganhou.

Empossado, deu um cartório de presidente

ao oponente político derrotado. O episódio

sugere que as diferenças internas são

superadas quando há um interesse comum.

Sufocar as esquerdas, manter o povo oprimido

* SOLUCIONÁTICA BRASILEIRA *

41


e conformado e segurar os anéis. Sob a batuta

de Eduardo Cunha, o poderoso psicopata,

segundo seu correligionário pernambucano

Jarbas Vasconcelos, assediou-se a administração

federal. Fez-se o país ingovernável, ao

mesmo tempo em que foram cerzidas novas

alianças com o baixíssimo clero e a pletora

absurda de partidos nanicos. O que já era

confuso e criticável aumentou como uma bola

de neve, com uma pequena ajuda da indústria

da informação, o olhar benevolente da justiça

e o olhar armado atento ao MST (segundo

um deputado participante da armação).

Um governo de coalização, o padrão republicano

pós militarismo, é como uma sociedade

limitada. Manda quem tem cinquenta e um

por cento do capital. Entretanto, com a bancarrota

batendo na porta, os quarenta e nove

por cento restantes

gritam, mero

instinto de sobrevivência,

e provavelmente

serão

ouvidos. Ao confronto de ideias preferiu-se a

retirada da súcia, deixando o general a postos,

queixoso e quase humilde em sua “DR”

alardeada ao público. Foi o aviso prévio, o bilhete

azul, anunciando que as oligarquias não

queriam outros dez anos vermelhos no leme

da nau sem rumo. Este é mais um fato revelador

sobre a natureza da política brasileira

para se reter na memória e contar aos filhos

e netos.

Porque nossa política carece de honra, palavra,

compromisso, sentido do coletivo e, acima

de tudo, respeito ao público tratado como

ignorante. Em qualquer das dez maiores

economias do mundo, o Brasil é uma delas,

o imbróglio seria resolvido com os sócios negociando

à exaustão. Afinal, vários partidos

Vários partidos foram contemplados com

ministérios e outros cargos. Preferiu-se a

gambiarra: todos abandonaram o barco.

foram contemplados com ministérios e outros

cargos estratégicos, em termos de poder e influência,

na gestão da Presidente. Preferiu-se

a gambiarra: todos abandonaram o barco,

deixando um segundo “timoneiro” de plantão.

Haveria alguma dúvida no emprego do

termo calhorda para os atores dessa tragicomédia?

Ou de que se trata verdadeiramente

de um golpe?

Vencidas as duas etapas preparatórias, tornou-se

necessário limpar as mãos sujas de

Cunha e Jucá: arquivos mortos, um ônus.

O exílio presencial de Cunha foi “providencialmente”

resolvido pelo Supremo. Jucá também,

com o “vazamento” de conversas que,

para os iniciados, configuram sem sombra

de dúvida a aplicação de um “golpe branco”,

ou se preferirem, uma ação de reintegração

de posse executada

pelas elites. Mas

rolou então o imponderável

(colateral

de gambiarras).

Não se contava com isso, pois os militares,

que em 1964 representaram a mão de ferro

das oligarquias, foram excluídos, mas a justiça,

com o sopro de vida e respeitabilidade

da República do Paraná, é, a operação Lava

Jato, escapou ao controle, preocupada e fascinada

com o próprio umbigo e ... novamente

a história se repete: a justiça tornou-se incontrolável,

para o desespero dos oligarcas. Nos

dizeres de Sarney, o vice-rei, a pior ditadura

de todas!

O doutor Moro, um barnabé do andar de

baixo, mas uma exceção no que toca à observância

de seus deveres de servidor público, foi

rapidamente transformado em herói, adquirindo

“imexibilidade” (devo o termo ao ministro

do trabalho na gestão Collor de Mello,

42

* SOLUCIONÁTICA BRASILEIRA *


Antônio Magri, que empregou o vocábulo pela primeira vez). Moro materializa um conto de

Dalton Trevisan que discorre sobre o vampiro de Curitiba. Está mordendo e sugando a jugular

de corruptos e corruptores, a mescla, que já comentei em outra ocasião, do capital nacional

sobrevivente à internacionalização da economia – a construção civil pesada – e o sistema político

viciado, torto, demagógico e oportunista. Moro, por assim dizer, está “roubando” a farta

merenda da politicagem voraz, predatória, traidora da pátria e de seus eleitores, o que ficou

patente no espetáculo mambembe da votação do impedimento na camarilha dos deputados,

onde votaram pela mulher, filhos, pais, tios e animais de estimação e não pelos que representam.

O coletivo.

Fred Paulino gentilmente enviou-me dois links que versam sobre uma barganha proposta

ao interino: em troca a seu voto pelo impedimento no Senado, o senador Hélio José (PM-

DB-DF), também conhecido como senador Gambiarra, quer: a presidência do Banco do

* SOLUCIONÁTICA BRASILEIRA * 43


Brasil, nomear o presidente da Itaipu, ser o

líder do governo no Congresso e mais outros

34 cargos (ver blog do Fred Lima e matéria

do Tijolaço de 21/06)! A quem esse político

representa, candangos?

O negócio está feio e tende a piorar. Gostaria

que algum jornalista da nossa verdadeira

imprensa, a alternativa, fizesse uma pesquisa

em Brasília sobre as compras de tranquilizantes

nas drogarias da capital e outra nas latas

de lixo dos poderosos de foro privilegiado.

O instituto de geofísica da UnB, que sempre

reporta as magnitudes dos tremores de terra

em Minas Gerais, bem que poderia dar

uma força e apontar a magnitude do tremor

no epicentro em Brasília. Enquanto não rola,

nos contentamos com Jô Soares e sua trupe

de jornalistas da indústria

da informação que, via de

força, comentam gracejando

sobre os apuros que a situação

criou, como um bumerangue

que agora volta à

origem do movimento.

Nosso gótico interino (arghhh, démodé) já se

irritou com as manifestações, deu murro na

mesa e garantiu que está habituado a tratar

com bandidos, aprendizado adquirido em

duas gestões no comado da segurança pública

do estado de São Paulo. Cercou-se corretamente

do que já conhecia (alguns já dançaram,

outros vários estão citados em processos

sortidos). Seu lado vampiresco, mágico, manifestou

a vontade de levitar os pobres brasileiros

pobres à condição de classe média,

imediatamente após anunciar vagamente as

intenções de atingir em cheio os que sempre

pagam o pato da Fiesp: isso mesmo, os pobres

e descamisados, os verdadeiros onerados

do chamado Custo Brasil. Acreditamos,

Em menos de um mês de

gestão gambiarrada, a

senilcracia já desperta

desconfiança.

inculcados que fomos pelo entretenimento

do Fantástico e sua ênfase nos poderes de um

mágico, David alguma coisa, há algumas décadas.

Se isto não bastasse, que tal o reforço

dos superpoderes dos bem apregoados nos

horários alugados à indústria televisiva: os

milagreiros a granel?! Bíblia para quem precisa

de Bíblia; boi para quem precisa de boi;

bala para quem precisa de bala – e mais uma

vez, mister Oscar Wilde, a vida imita a arte

do BBB (Big Brother Brasil).

Soa impossível chegar a alguma conclusão.

Primeiro, porque estamos investigando uma

conjuntura que mais parece areia movediça.

A cada novo dia, ou jornal da noite, somos

bombardeados por novos fatos: mais um ministro

que renuncia, um chefe regional do

PSDB é preso em Minas

Gerais. O Financial Times

rotula os governistas atuais

de desertores, vários desmentidos

do presidente,

reafirmação de liberdade

de ação para a Lava Jato... Uma comentarista

política disse há duas semanas no Programa

do Jô que estava achando o governo “velho”.

Não qualificou seus sentimentos, o que deixa

o comentário livre para interpretação.

O governo interino não só parece, como nasceu

velho: uma senilcracia branca, misógina,

formada por suspeitos nos ministérios e no

legislativo, que sinaliza contra os avanços nas

áreas sociais das últimas décadas. É velho

como sua estratégia de lotear o governo aos

aliados da hora, que assim os mantém, com

as trinta moedas, mesmo que contradiga o

que apregoa.

Em menos de um mês de gestão gambiarrada,

a senilcracia já desperta desconfiança (a causa

da recessão, segundo os atuais governistas)

44

* SOLUCIONÁTICA BRASILEIRA *


até mesmo entre aliados e reticentes. A imprensa e a indústria da informação já deram puxões

de orelha. A senilcracia só é neoliberal nos ministérios doados ao PSDB (Serra), na liderança

do governo no Senado, na presidência da Petrobras (sinal de abertura do pré-sal ao capital

estrangeiro) e no Ministério da Fazenda. A estes, compete a solução do paradoxo entre os

dogmas do neoliberalismo e a realidade que produz. Os demais integrantes e coadjuvantes

são políticos da velha cepa, oportunistas, politiqueiros de competência e idoneidade suspeitas,

hoje tratados a caviar e champanhe e loas (o pequeno sheik pediu aplausos para o Congresso

pela votação da pauta do “trem da alegria”, um lenitivo para os “anos de chumbo” da insensível

Presidenta). Entre bandidos e traidores da pátria, o pequeno drácula desfila garboso, levita

com um largo sorriso de contentamento. Um sinal prematuro de hedonismo – a “ditadura da

justiça’ começa a se ocupar com os “Al Capones” do PMDB. No meu íntimo, torço para a

condenação de Eduardo Cunha e a concessão de uma delação premiada ao gangster – grande

premiação para o povo em geral. Já é tempo, não há mais o que demonizar em Lula e no PT.

O atual lado negro da gambiarra, somado à nossa maior e terrível gambiarra – as favelas, que

devem abrigar cerca de trinta por cento da população – são embaraços à vontade de solicitar à

Unicef que a declare patrimônio cultural nacional.

04 de junho de 2016.

Lembrete aos mais jovens: o grande Dadá Peito de Aço, centroavante do Galo na gloriosa campanha do

primeiro Campeonato Brasileiro, em uma entrevista, sentiu-se apertado com as perguntas e retrucou:

“não me venha com problemática, que eu tenho a solucionática.”


BRAZILIAN

SOLUCTIONACTIC

Photos and text by Rui Cezar dos Santos

The vernacular, here understood as the living language of

the streets, is a tremendous source of liveliness, wisdom and

cultural richness. Frequently employed as a shield against

power, as a protection against strangers to the nest (jargon,

slang and even the language of the "P" of the children, sang by

Gal Costa), it reflects practical and direct intelligence in the

veins, or universalizes something like an irrefutable adjective,

incontestable - such as roscofe, an ordinary Swiss watch of

poor quality, or legal, term of the law that the underworld

appropriated for the purpose of naming permitted small

nirvanas, even by force.

The vernacular we have ahead is the term gambiarra. The

Aurélio (Editora Positivo, 4th Edition, 2009) is not of value,

because it defines it as a lamp placed on the edge of a long

wire that allows its use in a relatively large area, such as a

set of lamps for naval use or in theater. If memory doesn’t

betray me, my knowledge of its existence was in the seventies,

when uttered by Chico Jacob, who so referred to a little

improvisation he was doing in his apartment. Then I supposed

that he had employed it by substituting the term bricoleur,

which designates small unimportant works, the biscate.

Then I considered that someone should have associated the

experience of the biscate with the improvisation and, from

there, with the electric gambiarra of the theatrical scenes as

defined in the Aurélio. An improvisation.

But also imprecision. My education, scientific course, a

preamble in the Faculty of Engineering and an undergraduate

and graduate in Economic Sciences predisposed me to

suspect and reject gambiarras and their practitioners. To

this formation, a certain Stalinist penchant that marked my

generation was joined (Ah! The Promising Great Reports...

see Jean-François Lyotard, The Postmodern Condition) and

the practice of the so-called "exact sciences", among which

some thinkers include Economics. But, between us, it's like

punching a knife.

Because gambiarra, reasonable, was a necessity imposed by

the process of colonization of our Pindorama. There must be

a shortage of everything, hence the need for improvisation,

for the famous “little way”, familiar to all. Do you want

an example? It is easy, choose the best baroque altar in our

churches and ask to see it from behind: you will see, haunted,

a palimpsest of clapboard over clapboard, patch over patch.

Or consult the four volumes of the História da Vida Privada

no Brasil (History of Private Life in Brazil - Cia. Das Letras,

1997) or the reports of celebrated European travelers who

visited us centuries ago. Colonial Brazil bequeathed us the

practice of gambiarra. Well then, who has no dog to hunt,

hunt with a cat.

The gambiarra is structural, although in some sectors of

the human activity in which the computer (the accuracy)

penetrated for good, such as in the mechanic workshops, it

has been relieved to the grottoes. Today we live a dichotomy

between the scientist and the "gambiararric" embodied as

a brand, stigma, as a cultural differential. I propose two

supposedly scientific ways to generate an intricate approach

to the term by improving its status, an upgrade. First, we

can fit it into the definition of the supplement economy,

which Foucault created to designate a supplement which,

generated to aid in the daily work, inverts the equation and

enslaves, imposing itself. The automobile and the cell phone

are honorable mentions of this aberration. Second, it can be

understood as a rhizome, a concept of Deleuze and Guattari

to approach systems that don’t have the vertical hierarchy as

characteristic. Expansionist in the horizontal dimension, the

rhizome is like a cancer in the metastasis phase. An example

at hand is Herman Rapaport's essay "Vietnam: The Thousand

Plateaus" ("The 60's Without Apologies", University of

Minnesota Press, 2nd Ed., 1985). Here the author analyzes

the Vietnam War using the rhizome to discuss the guerrilla

tactics of resistance against the rigid and hierarchical system

of American military forces.

Ubiquitous among us, the gambiarra can be enjoyed when we

remember several bids of the damn military coup of 1964 and

its generals (especially the one based in Minas Gerais). All

rough-and-ready

(in Portuguese "made in the thighs", refering to the mold

used to produce the colonial tiles, made in the thighs,

"gambiarred"). Bluffs, insults in bulk and the resulting olive

mote in our eyes. Two decades! In this improvising of mine,

another memory. During the presidency of JK, José Maria

Alckmin, the Minister of Finance then (I think), was faced

with a demand of the bars and cafes of Rio de Janeiro that

wanted to increase the price of coffee. Granted the increase of

one hundred percent, the minister heard the shouting of the

population and, suddenly, decreed that the cup should have

its volume doubled.

But these are past waters, from the time when Vasco da

46


Gama was flashy, had Bellini, Orlando, Coronel (who could

never "catch" Garrincha), Vavá and Pinga. And even the

goalkeeper Barbosa, the eternal wronged, blamed for its

defeat for Uruguay in 1950. From then on, that is, from the

1958 super-championship to today, the boxer shorts became a

tiny underwear, the samba song was displaced by bossa nova,

Sérgio Ricardo and Glauber Rocha ("te arreda santo safado")

by Tropicalismo, in fact an ode to gambiarra cheerfully

enriched by the Novos Baianos and, shortening the narrative,

by Planet Hemp, MCs and nearby areas. It was disgraceful,

according to Foucault, to speak for others, except in politics.

Yes, politicians always speaks for others, a type of professional

deformation - yes, they are professionals, including with

the right to retirement after some mandates. In this field,

more appropriate would be to say in this misery, since the

re-inauguration of the res publica in the eighties, we have

witnessed a bizarre festival of half-truths, improvisations and

gambiarras. It seems that it had not use at all that the Vargas

government, in the fifties, had sent Celso Furado, Roberto

Campos, and Ignácio Rangel to study abroad and guide

the destinies of the economy (they brought in an English

econometrician to speak thick in the collection and processing

of statistical data). In the country of the gambiarras the

destinies have turned nonsense: read about the management

of Delfim Netto (and the Delfim's boys) during the military

dictatorship and the internationalization of our economy

(foreign capital had been impinging since the 1950s, see, for

example, "A day in the life of Brasilino", published by UNE

Center for Popular Culture). Since then, economic gambiarra

has become known as a package!

Gambiarra à la brasilien (never a serious country, a phrase

perhaps mistakenly attributed to Charles De Gaulle during

the Lobster War with France). I here advance a few decades

to focus on 2010/11, with the PT's policy of tax relief and

subsidies to generate surpluses that, it was hoped, would be

applied to the economy as an investment (in escambray, that

is). The dumbs of the treasury sacrificed taxes to "lost fund."

What happened to the surplus no one knows, but it likely

yield interest abroad. After all, who wants to invest in this

uproar, now made dissonant by minorities and unions and the

Brazilian left, the last, another example of rhizome, since the

beginning of the 2000s? To gambiarra, the package, which is

what can be called the economic policy adopted then, 2010,

the external problems (commodity prices) and the successive

losses of collection, the constant increase of expenses, justified

with education, housing, health - basic human rights -, were

added. This gave rise to the lack of control of the Dilma

"administration", her managerial gambiarra.

The so-called fiscal mismatch was only worsening until the

re-election of 2014, won "in the thighs" with the expedient

of maquie data. The 54 million wanted more: housing,

education, health, quilombos and that's why Aecinho (Aécio,

a presidential candidate) danced ugly, as it is said, he died on

the beach after a tremendous recovery that took him to the

second round. And there began the gambiarra that brought us

to the present state of things.

Votes’ recount, request to contest the result in the TSE, a

shouting of the choir of the discontents that calculated future

damages: the return of Lula in 2018 and another 12 years with

the hand of the red left handing the cards of the democratic

game! Tisconjuro. God forbid! Get out Satan. Well, then

came the dispute for the presidency of the chamber of deputies

(of which only seventy-three were actually elected, the rest

rose in the party quota), won by gangster Eduardo Cunha.

There is a blind spot here that my poor sources don’t allow

me to clarify: did the gangster have the insight to prevent

the continuity of the President's term or did someone blow

in his darwinian adapted ears? I don’t know, but the project of

ungovernability started there, we are sure of that.

The yellow duckling (color of cowardice) of Fiesp; The logistical

support of the information industry (television, because print

media didn’t fully embrace it) and the street claqueur led by

the Movimento Brasil Livre, the latter supposedly apolitical,

but financially supported by PMDB and DEM, generated the

pact (horror, Auntie) referred by Senator Romero Jucá in the

March recordings. Following the gambiarra booklet, these

were only revealed months later, adding to the "deposition"

of the gangster Cunha of the presidency of the chamber and

cassation of his mandate, request that was "giving a puppy"

in the lap of a Supreme Court judge from December until

the passage of the request for impediment. And the people

who found, from the icon posted there in Brasilia, that justice

is blind ("okay", but it is not deaf and it has the full sense of

touch in its hands).

Such a "white blow", for the elites, proved to be a necessity,

since resorting to decked arms could: 1) awaken in them

the fascination for the throne, as in 1964, and today we

would have history as a farce (in Karl Marx's words, the

first time is like tragedy and the second...); 2) with the fall

of the Berlin Wall, support for dictatorships in the "free"

* BRAZILIAN SOLUCTIONATICS * 47


world of neoliberalism is unsustainable. The tying that has

proceeded defies the dialectical teachings that point to the

internal contradictions of the oligarchy. One episode comes

to the head: Negrão de Lima, from PSD, during Juscelino's

presidency, ran for mayor of the federal capital, Rio de

Janeiro, against an UDN opponent. He won. Empossed, he

gave a presidential notary to the defeated political opponent.

The episode suggests that internal differences are overcome

when there is a common interest. To suffocate the lefts, to

keep the people oppressed and conformed and hold the

rings. Under the baton of Eduardo Cunha, the powerful

psychopath, according to his corroborative from Pernambuco

Jarbas Vasconcelos, harassed the federal administration. The

country became ungovernable, at the same time that new

alliances were being made with the very low clergy and the

absurd plethora of tiny parties. What was already confused

and objectionable rose like a snowball, with a little help from

the information industry, the benevolent eyes of justice, and

the watchful armed eye on the MST (according to a deputy

in the circus).

A coalition government, the post-militarism Republican

standard, it is like a limited society. The one who has fiftyone

percent of the capital rules. However, with bankruptcy

knocking on the door, the remaining forty-nine percent

scream, mere instinct for survival, and will probably be

heard. To the confrontation of ideas, withdrawal of the

subjugation was preferred, leaving the general in position,

complainant and almost humble in his "DR" vaunted to the

public. It was the warning, the blue note, announcing that the

oligarchs didn’t want another ten red years at the helm of the

ship without direction. This is another revealing fact about

the nature of Brazilian politics to keep in mind and tell the

children and grandchildren.

Because our politics lacks honor, word, commitment, sense

of the collective and, above all, respect to the public, treated

as ignorant. In any of the ten largest economies in the world,

Brazil is one of them, the imbroglio would be solved with

partners negotiating to exhaustion. After all, several parties

were granted with ministries and other strategic positions,

in terms of power and influence, in the management of

the president. The gambiarra was preferred: all left the

boat, leaving a second "helmsman" on duty. Was there any

doubt in the use of the term scoundrel for the actors of this

tragicomedy? Or that it was really a coup?

After the two preparatory stages, it became necessary to

clean the dirty hands of Cunha and Jucá: dead files, a burden.

Cunha's presential exile was "providentially" settled by the

Supreme. Jucá also, with the "leakage" of conversations that,

for the initiates, undoubtedly constitute the application of a

"white coup", or a reintegration action of possession carried

out by the elites, if preferred. But then the imponderable

happened (collateral of gambiarras). We didin’t count with

this, because the military, which in 1964 represented the

iron hand of the oligarchies, were excluded, but the justice,

with the breath of life and respectability of the Republic

of Parana, that is, the Lava Jato operation, escaped to the

control, preoccupied and fascinated by its own navel and...

history repeats itself: justice has become uncontrollable,

to the despair of the oligarchs. In the words of Sarney, the

viceroy, the worst dictatorship of all!

Doctor Moro, a downstairs barnaber, but an exception as

regards to the observance of his public servant duties, was

quickly transformed into a hero, acquiring "imexibilidade” (I

owe the term to the minister of labor in the management of

Collor de Mello, Antônio Magri, who used this word for the

first time). Moro materializes a tale by Dalton Trevisan that

narrates the vampire from Curitiba. He is biting and sucking

the jugular of the corrupt and the corrupting, the mixture,

which I have already commented on another occasion, of

the national capital surviving the internationalization of the

economy - the heavy civil construction - and the addicted,

crooked, demagogic and opportunist political system. Moro,

so to speak, is "stealing" the plentiful meal of the voracious,

predatory, treacherous politics of the country and its

constituents, which was evident in the mambembe spectacle

of the impediment vote in the chamber of deputies, where

they voted for their women, parents, uncles and pets and not

by those they represent. The collective.

Fred Paulino kindly sent me two links that deal with a

bargain proposed to the interim: in exchange for his vote in

favor of the impediment in the Senate, Senator Hélio José

(PMDB-DF), also known as Senator Gambiarra, wants:

Banco do Brasil’s presidency, to appoint the president of

Itaipu, to be the leader of the government in the Congress

and another 34 other positions (see Fred Lima's blog and the

Tijolaço news in 06/21)! Who does this politician represent,

candangos?

48

* BRAZILIAN SOLUCTIONATICS *


The deal is ugly and it tends to get worse. I would like that

some journalist from our real press, the alternative, to do a

research in Brasilia on the purchase of tranquillizers in the

drugstores of the capital and another in the garbage bins of

the powerful with privileged forum. The UnB geophysics

institute, which always reports the magnitudes of earthquakes

in Minas Gerais, could well give us a hand and point to the

magnitude of the tremor at the epicenter in Brasilia. While

this is not made, we are content with Jô Soares and his

troupe of journalists of the information industry who, by

force, comment joking about the troubles that the situation

created, like a boomerang that now returns to the origin of

the movement.

Our interim gothic (arghhh, démodé) has already become

irritated by the demonstrations, he has beaten the table and

assured that he is accustomed to dealing with thieves, a

knowledge acquired in two managements in the public safety

command of the state of São Paulo. He was rightly enclosed

in what he already knew (some have already danced, others

are cited in assorted processes). His vampire, magical side

manifested the will to levitate the poor Brazilians to the

condition of the middle class, immediately after vaguely

announcing the intentions of reaching in full those who

always pay the duck at Fiesp: that's right, the poor and

shirtless, the true burdened by the so-called Brazil Cost.

We believe, instilled that we are through the entertainment

of Fantástico and its emphasis on the powers of a magician,

David something, for a few decades. If this weren’t enough,

what about the reinforcement of the superpowers of the wellpraised

in the hours rented to the television industry: the

miracle workers in bulk?! Bible for those who need the Bible;

Ox for those who need ox; bullet for those who need bullets -

and again, Mr. Oscar Wilde, life imitates the art of BBB (Big

Brother Brazil).

It seems impossible to come to any conclusion. First, because

we are investigating a conjuncture that looks like quicksand.

With each new day, or night newspaper, we are bombarded

by new facts: another minister who resigns, a regional chief

of the PSDB that is arrested in Minas Gerais. The Financial

Times labels the current government of deserters, several

denials of the president, reaffirmation of freedom of action

for Lava Jato... A political commentator said two weeks ago in

Jô’s program that she was finding the government "old". She

didn’t qualify her feelings, which leaves the comment free for

interpretation. Not only does the interim government seem

old, but it is old since birth; a white, misogynistic senilecracy,

made up of suspects in the ministries and in the legislature,

which signals against the social advances of the last decades.

It is old as its strategy of parting the government to the allies

of the hour, which thus keeps them, with the thirty coins,

even if it contradicts what it preaches.

In less than a month of "gambiarred" management, the

senilecracy already arouses distrust (the cause of recession,

according to the present governors) even between allies and

reticents. The press and the information industry have already

been pulling their ears. The senilcracy is only neoliberal in the

ministries donated to the PSDB (Serra), in the leadership of

the government in the Senate, in the presidency of Petrobras

(sign of the open of the pre-salt to foreign capital) and in the

Ministry of Finance. To these, the solution of the paradox

between the dogmas of neoliberalism and the reality that

it produces is left. The other members and collaborators

are politicians of the old strain, opportunists, politics of

suspicious competence and reputation, now treated with

caviar, champagne and loas (the little sheik asked applause for

the Congress for the voting of the agenda of the "train of joy",

a lenitive for the "leaden years" of the insensitive President).

Between bandits and traitors of the country, the little Dracula

parades gaily, levitating with a broad smile of contentment. A

premature signal of hedonism - the "dictatorship of justice"

begins to deal with the "Al Capones" of the PMDB. In my

heart, I hope for the condemnation of Eduardo Cunha and

the granting of a delation to the gangster - a great prize

for the people in general. It's time, there's nothing more to

demonize in Lula and the PT.

The present black side of gambiarra, added to our biggest

and terrible gambiarra – the slums, which house about thirty

percent of the population - are embarrassing to the will of

asking Unicef to declare it a national cultural heritage.

June 4th, 2016

A reminder to the youngest: the great Dadá Peito de Aço, centerforward

at Atletico Mineiro in the glorious campaign of the first

Brazilian Championship, in an interview, felt pressed with the

questions and retorted: " don’t come with the problematic, I have

the solutionatic. "

* BRAZILIAN SOLUCTIONATICS * 49


Página do editorial do fanzine

Critical Making, por Garnet Hertz.


Innovación es una palabra manchada.

Como revolución.1

Grey Filastine

CRITICAL

MAKING

GAMBIOLOGIA QUE VEM DO NORTE

BONS VENTOS SOPRAM DO NORTE.

Enquanto no Brasil, a cultura maker vem

cada vez mais se consolidando com um discurso

ipsis literis conforme a cartilha original

norteamericana, sendo aceita como a

“nova revolução industrial” 2 , exatamente de

onde menos se espera – no caso, do extremo

norte da América do Norte, no Canadá –,

surge um projeto com enorme afinidade com

a Gambiologia. Critical Making, ou “Fazer

Crítico” é o nome de uma linha de estudos

engajada com o movimento maker mas que

traz, no entanto, uma reflexão crítica sobre

os impactos dessa mais nova “revolução” sobre

a vida cotidiana.

Segundo o verbete disponível na Wikipedia,

Critical Making refere-se às atividades produtivas

realizadas com as “mãos na massa”

que conectam as tecnologias digitais à

sociedade. Trata-se de uma proposta de

aproximação da criação material a uma

reflexão conceitual, reivindicando-se que

o aprendizado obtido em processos do fazer

são mais importantes que seus resultados.

A consequência seria uma reconexão de nossa

experiência cotidiana com a tecnologia a um

pensamento crítico. Os estudiosos da causa

alertam que o distanciamento entre tecnólogos

e artistas faz com que a tecnologia permaneça

isolada de contextos de transformação

social. Critical Making seria “a junção de dois

modos distintos de engajamento no mundo –

o ‘pensamento crítico’, considerado abstrato,

explícito, discursivo, interno e cognitivamente

individualista; e o ‘fazer’, tipicamente

entendido como tácito, tangível, externo e

orientado para a comunidade” 3 .

1 http://www.nativa.cat/2015/07/grey-filastine-innovaciones-una-palabra-manchada-como-revolucion/

2 Com as mesmas problemáticas questões estruturais das

revoluções anteriores no que se refere à exploração do trabalho, ao

esgotamento de recursos naturais, ao enriquecimento de poucos e

muito, muito marketing – desta vez, no entanto, do tipo hipster

ou “ fofinho” (conforme proposto por Giselle Beiguelman) e

conectado ao empreendedorismo e à inovação.

3 https://en.wikipedia.org/wiki/Critical_making - tradução livre

51


Foto: Michael Mandiberg

https://www.flickr.com/photos/theredproject

O termo foi cunhado em 2008 por Matt

Ratto, professor da Universidade de Toronto,

que a seguir fundou o Critical Making Lab,

na mesma instituição. O laboratório rapidamente

adquiriu simpatizantes e colaboradores

prestigiosos. Dentre eles estão: John Maeda

(pesquisador de design e tecnologia, com

passagens pelo MIT Media Lab e Rhode

Island School of Design), Golan Levin (engenheiro

e artista norteamericano,

considerado um dos mais

importantes midiartistas da

atualidade), Dale Dougherty

(um dos fundadores da editora

O'Reilly, CEO da revista Make

e considerado o “pai” do movimento maker),

Mitch Altman (inventor, hacker, palestrante

e educador referencial da rede mundial de

hackerspaces) e Reed Ghazala (a maior

sumidade mundial em circuit bending).

4 Conteúdo integralmente disponível em

http://www.conceptlab.com/criticalmaking.

O Critical Making Lab

rapidamente adquiriu

simpatizantes e colaboradores

prestigiosos.

O artista e pesquisador canadense Garnet

Hertz, professor na Emily Carr University

of Art and Design, em Vancouver, também

tem se dedicado ao tema por meio da organização

de publicações colaborativas dedicadas

ao “Fazer Crítico”. Imagine uma Facta em

formato fanzine de bolso, com 352 páginas

e apenas 300 cópias impressas em máquina

de xerox hackeada, encadernadas uma a uma

pelo próprio editor e também

postadas pessoalmente por ele.

Trata-se de “Critical Making”,

a primeira publicação editada

por Garnet em 2012, com a

contribuição de 70 autores. Os artigos foram

distribuídos em 10 volumes, cada um com um

recorte temático 4 . Reunidos, compõem uma

obra seminal que não necessariamente nega

a cultura maker, mas problematiza a maneira

como ela vem sendo aplicada mundialmente

e propõe uma reflexão sobre os rumos da

sociedade tecnológica. A coleção de fanzines

é um ponto fora da curva em relação às pu-

52

* CRITICAL MAKING: GAMBIOLOGIA QUE VEM DO NORTE *


Foto: http://www.disobedientelectronics.com

ESTE PROJETO PRETENDE APONTAR QUE:

1 Construir objetos eletrônicos pode ser (Brexit, Trump & Le Pen). Perguntas

uma forma efetiva de argumentação social

ou protesto político.

como "É moral golpear nazistas na cara?"

devem ser respondidas com alternativas

2

inteligentes à violência, que são peças

O faça-você-mesmo, a cultura do provocativas de ação direta.

fazer e as produções artesanais locais

podem ter fortes componentes nacionalistas

4 Se estamos vivendo um tempo pósverdade,

e protecionistas - em alguma medida,

o populismo pode ser visto como o surgimento

de uma cultura faça-você-mesmo

não especialista.

devemos nos concentrar em tentar

tornar os argumentos e fatos progressivamente

mais inteligíveis e atraentes para

um público amplo e diversificado.

3 O Design Crítico e Especulativo 5 A moda da 'cultura maker' acabou.

(Dunne & Raby) são abordagens que

valem a pena no contexto do design industrial,

mas talvez não sejam conflituosas o

suficiente para responder aos movimentos

Arduinos e impressoras 3D são coisas

fascinantes, mas as questões maiores do que

significa sermos humanos ou uma sociedade

precisam ser diretamente confrontadas.

populistas de direita contemporâneos.

* CRITICAL MAKING: GAMBIOLOGIA QUE VEM DO NORTE * 53


Adesivo distribuído junto aos volumes de Critical Making

faz paródia à capa da revista Make.

Manual de instruções para libertação de Barbies,

pelo coletivo Barbie Liberation Organization (1993).

blicações especializadas, para o bem e para

o mal. Ao mesmo tempo em que sugere uma

atitude punk “faça-você-mesmo”, radical em

seu modo de produção e necessária em um

momento em que a cena maker se espalhava

para todo o mundo, o número limitado de

cópias e o formato reduzido (com tipografia

ilegível em alguns momentos)

restringiam o acesso a

um material tão relevante e

cuidadosamente elaborado.

“Disobedient Electronics”

(2017), a mais recente experiência

editorial de Garnet, a qual gentilmente

recebemos uma das 300 unidades em

primeira mão, ganhou não só mais uma cor

(ao invés de somente P&B, o zine conta com

um belo duotone de preto e magenta) e um

fino acabamento em costura, mas principalmente

uma boa pitada de radicalização sob o

Maneiras alternativas de o

design, a arte e a tecnologia

contribuírem com a reflexão

sobre temas fundamentais nas

discussões contemporâneas.

tema “Protestos”. A introdução já dá bem o

tom da proposta. (veja na página anterior)

O conteúdo do fanzine coletivo, que conta

com 24 colaboradores, além do próprio Garnet,

é composto por projetos de arte-ativismo

geralmente baseados em um suporte tecnológico

e que, em sua maioria,

trazem à tona questões

caras ao momento atual.

É uma amostragem importante

de obras que propõem

maneiras alternativas de o

design, a arte e a tecnologia

contribuírem com a reflexão sobre temas fundamentais

nas discussões contemporâneas, e

que vão muito além de suas zonas de influência,

afetando diretamente a vida das sociedades

em todo o planeta: aborto, feminismo,

economia, racismo, política, transparência,

privacidade, ecologia...

54

* CRITICAL MAKING: GAMBIOLOGIA QUE VEM DO NORTE *


O USO CONSCIENTE DAS TECNOLOGIAS É TAREFA

NECESSÁRIA EM AMBOS OS HEMISFÉRIOS DO GLOBO.

Apesar de os projetos apresentados serem

muitas vezes excessivamente conceituais ou

acadêmicos para uma publicação com proposta

despojada, o conjunto de obras definitivamente

faz valer a leitura. Os celebrados

culture jammers do Barbie Liberation Organization

(BLO), por exemplo, disponibilizam

o manual de instruções para “libertação” de

bonecas Barbie. Essa libertação, realizada

centenas (há quem diga milhares) de vezes

pelo grupo mundo afora, basicamente trata-

-se da troca do circuito de áudio entre Barbies

“patricinhas” e bonecos “machões” da série

G. I. Joe, e a posterior devolução de ambos

às prateleiras de lojas de brinquedos. O resultado

são Barbies que murmuram “a vingança

é minha” e Joes declarando que “a praia é o

lugar perfeito no verão”. Em “Disobedient

Elecronics” está presente também o já clássico

“Robotic Graffiti Writer” (robô grafiteiro) do

Institute for Applied Automomy, grupo de

arte-ativistas criado ainda na década de 1990.

Por fim, um trio de pesquisadores em design,

arte e engenharia da Universidade do Arizona

apresenta a proposta de um forno solar que,

tamanha simplicidade e baixo custo, poderia

muito bem ser originário do Brasil ou da Índia,

por exemplo.

“Critical Making” e “Disobedient Electronics”,

apesar de contarem com poucos

autores latinos e africanos, apresentam um

conjunto de trabalhos, experiências e divagações

que demonstram que a reflexão sobre

o uso consciente das tecnologias é tarefa necessária

em ambos os hemisférios do globo.

Comprovam também que a prática criativa

pode ser, sim, um poderoso instrumento

para a construção de uma sociedade cujos

habitantes não sejam somente consumidores,

mas agentes atuantes de transformação

da própria realidade. FP

* CRITICAL MAKING: GAMBIOLOGIA QUE VEM DO NORTE * 55


CRITICAL MAKING

GAMBIOLOGIA THAT COMES FROM THE NORTH

"Innovation is a stained word. As revolution."

Grey Filastine 1

GOOD WINDS BLOW FROM THE NORTH.

While in Brazil the maker culture is being consolidated with

a discourse ipsis literis according to the North American

primer, accepted as the "new industrial revolution" 2 , exactly

where least expected - in the case, the extreme north of

America, in Canada –, it arises a project with great affinity

with Gambiologia. Critical Making is the name of a line of

study engaged with the maker movement, which nevertheless

brings a critical reflection on the impact of this new

"revolution" on everyday life.

According to the Wikipedia entry, Critical Making refers to

the "hands on" mass production activities that connect digital

technologies to society. It is a proposal to approximate the

artifacts creation to a conceptual reflection, claiming that

the learning obtained in the processes of doing are more

important than their results. The consequence would be a

reconnection of our everyday experience with technology to

critical thinking. The subject’s scholars warn that the distance

between technologists and artists makes technology remain

isolated from contexts of social transformation. Critical

Making would be "the elision of two typically disconnected

modes of engagement in the world – "critical thinking," often

considered as abstract, explicit, linguistically based, internal

and cognitively individualistic; and "making," typically

understood as tacit, embodied, external, and communityoriented".

3

The term was coined in 2008 by Matt Ratto, a professor at the

University of Toronto. He lately founded the Critical Making

Lab in the same institution. The lab has quickly acquired

sympathizers and supporters of great prestige, such as John

Maeda (design and technology researcher who has worked at

MIT Media Lab and Rhode Island School of Design), Golan

Levin (North American engineer and artist, considered

one of the most important media artists nowadays), Dale

Dougherty (one of the founders of O'Reilly Media, CEO

of Make magazine and considered the "father" of the maker

movement), Mitch Altman (inventor, hacker, lecturer and

referential educator of the worldwide hackerspaces network)

and Reed Ghazala (world-renowned circuit bender).

Canadian artist and researcher Garnet Hertz, a professor at

the Emily Carr University of Art and Design in Vancouver, has

also been dedicated to the subject by organizing collaborative

publications dedicated to Critical Making. Imagine Facta as

a pocket-sized zine-like volume, containing 352 pages and

only 300 copies printed on a hacked photocopier, bound and

stapled one by one by the editor and also posted personally

by himself. This is "Critical Making", the first publication

edited by Garnet in 2012, with the contribution of 70 authors.

The articles were distributed in 10 volumes, each one with

a thematic focus. Together, they compose a seminal work

that does not necessarily deny the maker culture, but at

least problematizes the way it is being applied worldwide and

proposes a reflection on the directions of the technological

society. The set of zines is na outlier in relation to specialized

publications, for good and evil. While practically suggesting a

"do-it-yourself" punk attitude, being radical in its production

process and referential at a time when the maker scene was

spread to the whole world, the limited number of copies and

the small format , with typography in some moments illegible,

restricted the access to a material so carefully elaborated and

relevant.

"Disobedient Electronics" (2017), Garnet's latest editorial

experience, which we kindly received one of 300 units

firsthand, won not only one more color (instead of only B&W,

the zine has a beautiful duotone in black and magenta) and a

fine seam finish, but mostly a good pinch of radicalization

under the theme "Protests." The introduction already gives

the tone of the proposal:

56


THIS PROJECT AIMS TO POINT OUT THAT:

1. Building electronic objects can be an effective form of

social argument or political protest.

2. DIY, maker culture and local artisinal productions can

have strong nationalist and protectionist components to them

- in some senses, populism can be seen as the rise of the DIY

non-expert.

3. Critical and Speculative Design (Dunne & Raby) are

worthwhile approaches within industrial design, but perhaps

not adversarial enough to reply to contemporary populist rightwing

movements (Brexit, Trump & Le Pen). Questions like

“Is it moral to punch Nazis in the face?” should be answered

with smart alternatives to violence that are provocative pieces

of direct action.

4. If we are living in a post-truth time, we should focus on

trying to make progressive arguments and facts more legible

and engaging to a wide and diverse audience.

5. The fad of ‘Maker Culture’ is over. Arduinos and 3D printers

are fascinating things, but the larger issues of what it means to

be a human or a society needs to be directly confronted.

The collective zine, which has 24 collaborators, besides

Garnet itself, is composed by art activism projects usually

based on a technological support and that, in the majority,

bring up issues dear to the present moment. It is an important

sampling of works that propose alternative ways for design, art

and technology contribute to a reflection about fundamental

contemporary issues that go far beyond their zones of

influence, directly affecting the life of societies throughout

the planet: abortion, feminism, economy, racism, politics,

transparency, privacy, ecology ...

Although the projects presented are often overly conceptual

or academic for a publication with an informal proposal, the

presented set of works definitely makes it worth reading.

The celebrated culture jammers of the Barbie Liberation

Organization (BLO), for example, provide the manual for

"redeeming" Barbie dolls. This release, performed by the

group hundreds (there are some who say thousands) of times

around the world, basically it is the exchange of audio circuits

between "preppy" Barbies and "macho" G.I. Joe puppets, and

the later devolution of both to toy stores’ shelves. The result is

Barbies mumbling "revenge is mine" and Joes declaring that

"the beach is the perfect place in the summer". In "Disobedient

Elecronics" is also present the already classic "Robotic Graffiti

Writer" by the Institute for Applied Automomy, art activism

group created in the 1990s . Finally, a trio of researchers in

design, art and engineering at the University of Arizona

present a solar oven that, so simple and low cost, might well

have come from Brazil or India, for example.

"Critical Making" and "Disobedient Electronics", despite

having few latin and african authors, present a set of works,

experiences and ramblings that demonstrate that the

reflection on the conscious use of technologies is a necessary

task in both hemispheres of the globe. They also prove that

creative practice can be a powerful instrument for building a

society whose inhabitants are not only consumers, but acting

agents of transforming their own reality. FP

1 http://www.nativa.cat/2015/07/grey-filastine-innovacion-esuna-palabra-manchada-como-revolucion/

2 With the same problematic structural issues characteristic

of previous revolutions regarding to the exploitation of labor,

depletion of natural resources, enrichment of few and too much

marketing - this time, however, of the "cute" (as proposed by Giselle

Beiguelman) hipster type, connected to entrepreneurship and

innovation.

3 https://en.wikipedia.org/wiki/Critical_making

* CRITICAL MAKING GAMBIOLOGIA QUE VEM DO NORTE * 57


DESOBEDIÊNCIA

TECNOLÓGICA

Texto e fotos por Ernesto Oroza

"Trabalhador, construa sua máquina!"

A

ssim Ernesto "Che" Guevara

proclamou ao setor industrial

cubano, logo após o triunfo do

movimento evolucionista que

ele ajudou a liderar. O ano era 1961, e Cuba,

cada vez mais isolada, estava experimentando

um êxodo de empresas estrangeiras e investimento

devido às políticas de mercado hostis

do governo nascente de Fidel Castro. O início

do agora famoso embargo dos Estados Unidos

contra Cuba significou a saída em larga escala

de recursos materiais de uma ilha que dependia

fortemente do dinheiro e das importações americanos.

Com restrições ao empreendedorismo

e às empresas individuais, a economia atingiu o

fundo do poço nos anos 1970.


Artigo originalmente publicado na revista Makeshift nº3: Resistência (2012)

Revolução

Talvez prevendo um futuro que exigiria autossuficiência,

Guevara – então Ministro da

Indústria – proporcionou o primeiro impulso

ideológico para o que viria a ser um modo de

vida para as próximas gerações de cubanos –

que não teriam escolha senão construir e consertar,

mais e mais, tanto as máquinas de fábricas

do Estado quanto as de suas casas. Desde

a restauração interminável dos icônicos Buicks

1950 até a criação de brinquedos para bebês feitos

de latas de leite e feijão, fabricar bens não

oficialmente disponíveis na ilha tornou-se uma

habilidade essencial.

O recém-formado governo socialista de Castro

nacionalizou as empresas estrangeiras e transformou

os trabalhadores nos novos "patrões"

do setor industrial. Ele impulsionou-os a assumir

trabalhos de manutenção e a criar peças

sobressalentes. As pessoas começaram a ver as

máquinas estragadas como o maior inimigo do

país. Uma furadeira sem um cilindro, uma serra

de correia sem uma polia, um molde desgastado

- esses artefatos mutilados aterrorizavam

a sociedade como zumbis feridos.

As carências nas máquinas paralisaram as engrenagens

da revolução. Os trabalhadores começaram

a suprir as carências, o que fariam

tantas vezes ao longo de tantos anos que, hoje,

as máquinas têm mais peças feitas a partir dos

reparos do que peças originais. As oficinas deram

nomes para as engenhocas montadas ou

construídas de zero. Algumas emperraram, ou-

tros não. Se um engenheiro cubano retornasse à

ilha depois de 10 anos de exílio, não seria mais

um especialista. De fato, apesar de seu treinamento,

ele não reconheceria as traquitanas que

cresciam sem controle, em uma prática grosseira

de design. Qualquer coisa que ele soubesse sobre

o funcionamento interno de uma tecnologia

americana já teria sido substituída por uma

prática de design mais bruta, no entanto igualmente

produtiva.

Esta primeira onda de "fazedores" deixou um

rastro de invenção que mudou o curso da interação

com a tecnologia em Cuba.

Os cubanos começaram a trazer essa mentalidade

de reparo para casa, transformando seus

eletrodomésticos em laboratórios. O mesmo engenheiro

iria, durante o dia, consertar o motor

de um avião a jato soviético MIG15 e, à noite,

com a escassez de fósforos em todo o país, construir

um isqueiro elétrico com uma caneta e

uma lâmpada.

Aqui reside alguma ironia: a desobediência

tecnológica – que a revolução promoveu como

uma alternativa ao estancado setor produtivo do

país – tornou-se o recurso mais confiável para

os cubanos driblarem as ineficiências do sistema

político estadual. Trabalhadores que haviam

dedicado sua imaginação e engenhosidade a

manter a revolução de pé foram, então, forçados

a empregar esses atributos para levar a vida com

necessidades mínimas.

* DESOBEDIÊNCIA TECNOLÓGICA * 59


Acumulação

A falta de confiança no sucesso da revolução

transformou as casas cubanas em armazéns para

todos os tipos de objetos – qualquer coisa que

pudesse ser útil, mas não disponível em linha.

O acúmulo de produtos levou os trabalhadores

a questionar radicalmente os processos e mecanismos

industriais. Eles começaram a olhar para

objetos não com os olhos de um engenheiro, mas

com os de um artesão. Todo objeto poderia ser

potencialmente reparado ou reutilizado, mesmo

em um contexto diferente do seu

design original. A acumulação

– neste caso um gesto automático

– separava o objeto da intenção

ocidental e do ciclo de vida

para o qual estava destinado.

Isso é desobediência tecnológica.

Quando as pessoas se apegaram às coisas, elas

também mantiveram os princípios técnicos e

uma idéia de como elas se encaixavam. Em qualquer

momento crítico, eles quebrariam a cabeça

para encontrar a peça exata que poderia resolver

o problema. Quando a energia caia, o ventilador

quebrava, ou a cadeira rachava, a família se

atentava para ouvir sussurros tecnológicos vindo

A acumulação separava o

objeto da intenção ocidental

e do ciclo de vida para o qual

estava destinado.

dos pátios, de debaixo das camas ou de cantos

obscuros dos quartos que guardavam pilhas de

coisas velhas - fossem elas peças ou máquinas

completas.

Coisas aparentemente insignificantes receberam

novas utilidades. Os topos dos frascos de

penicilina tornaram-se a melhor solução para

válvulas em panelas de pressão. As latas de

desodorantes provaram ser excelentes interruptores

elétricos (feche a tampa para ligar a

eletricidade!). Tubos fluorescentes defeituosos

agora compõem molduras de

imagens 3D. Um velho vinil

de 33 rpm, cortado adequadamente,

serviria como uma

pá de ventilador – e seus inventores

poderiam reproduzir

cópias. Uma lâmpada de querosene Eagle

velha e deteriorada reapareceu quando quedas

de energia se tornaram comuns, e às vezes uma

garrafa de leite ou tanque de gás funcionava

como abajur. A nova aparência e nova função

de cada criação tornavam-na única.

Os cubanos, nessa época, conheciam apenas

algumas marcas: TV's Caribe e Kim, ventiladores

Orbita e máquinas de lavar roupa Aurika. O mer-

RIKIMBILIS

Motocicletas gambiárricas tradicionais em Cuba.


cado comunista dos anos 70 priorizou a produção

com um fim social: por exemplo, foram distribuídas,

em toda a ilha, cadeiras comissionadas

pelo Estado. As pessoas, assim, acumularam bens

idênticos, o que significou que métodos de reparo

engenhosos apareceram por todo lado. Bandejas

metálicas padronizadas nas escolas, por exemplo,

mostraram-se apropriadas para a criação pela

"classe fazedora" de um produto que até então não

existia oficialmente na ilha: a antena de TV.

Ninguém sabe ao certo se a ideia inspirou cada

pessoa individualmente ou se

as pessoas ensinaram umas às

outros. A bandeja era o único

metal acessível para essa tarefa –

mas seu uso secundário seria um

resultado inevitável da mistura

de necessidade, disponibilidade igual de bens

para todos e uso criativo?

Outro objeto apareceu misteriosamente em

muitas casas: a lâmpada de querosene. Construída

com um recipiente de vidro cilíndrico – 13

cm de altura e largura – e dentro, mergulhado

em querosene, um suporte de pavio feito de

tubo de pasta de dentes. O recipiente, produzida

pela Comecon – a já extinta aliança dos

Necessidade e recursos

padronizados significavam

soluções replicáveis ​e desobediência

tecnológica repetida.

países socialistas – serviu com dupla finalidade,

como reservatório de combustível e abajur. Isso

transformou o recipiente mais conhecido de

Cuba na lâmpada de querosene mais comum.

Necessidade e recursos padronizados significavam

soluções replicáveis ​e desobediência tecnológica

repetida.

Ao longo dos anos 1980, os subsídios soviéticos

criaram uma década de relativa estabilidade

econômica e, com isso, uma maior abundância

de recursos. Depois, com a queda do Muro de

Berlim e o colapso da União

Soviética, o governo cubano

proclamou um "Período

Especial" de racionamento e

escassez extremos. Em 1993,

uma nova lei desesperada finalmente

permitiu - com restrições - empresas

envolvidas em desenvolvimento e invenção.

Uma nova era de empreendimentos criativos foi

forçada a se iniciar.

Desobediência

No início do "Período Especial", substitutos

instantâneos, objetos e consertos provisórios

permitiram que os cubanos se mantivessem até

61


CONSERTO, ADAPTAÇÃO, INVENÇÃO

Cadeiras e bancos improvisados em Havana.

o fim da crise. Isto gerou a confiança do trabalhador

na coisas feitas em casa: construção,

transporte, roupas e dispositivos. Mas essas

eram apenas soluções reparadoras de uma realidade

material destruída ou insuficiente – e,

finalmente, apenas a porta de entrada para a

onda mais forte de criatividade revolucionária.

Ao reinventar suas vidas, surgiu uma mentalidade

inconsciente. Como um cirurgião se

torna dessensibilizado a feridas, os cubanos

tornaram-se dessensibilizados para objetos

projetados. Eles pararam de ver o propósito

original dos objetos. Ao

invés disso, as coisas tornaram-se

amostragens de partes.

Esta é a primeira expressão

cubana de desobediência

em sua relação com os objetos – um crescente

desrespeito pela identidade de um objeto e

pela verdade e autoridade que ela encarna.

Depois de abri-los, quebrá-los, repará-los e usá-

-los com tanta freqüência conforme sua conveniência,

os "fazedores" acabaram desconsiderando

os sinais que fazem dos objetos ocidentais uma

unidade, uma identidade fechada. Os cubanos

não temem a autoridade emanante que marcas

como a Sony, a Swatch, ou mesmo a NASA,

Ao reinventar suas vidas,

surgiu uma mentalidade

inconsciente.

exalam. Se alguma coisa está quebrada, ela será

consertada – de alguma forma. E se de alguma

maneira ela mostrar-se útil para ainda reparar

outros objetos, eles também poderiam salvá-la,

em partes ou inteira. Um novo futuro espera.

Um objeto emblemático desta construção é o

"ventilador-telefone". Um técnico improvisado

lembrou-se, quando a base do seu ventilador

quebrou, que ele tinha guardado, em algum lugar,

um telefone da Alemanha comunista quebrado.

Ele lembrou-se disso porque a base do

ventilador Orbit se assemelhava um pouco à forma

piramidal prismática do

telefone; O inspirado criador

não estava interessado em associações

ou significados, mas

na analogia formal baseada no

tamanho e na estrutura. O ventilador consertado,

reconstruído e reapresentado era, ao mesmo

tempo, um esboço das habilidades astutas do

indivíduo, um diagrama da acumulação em sua

casa e uma imagem de sua desobediência.

Dentro do processo de conserto, reaproveitamento

e reinvenção, três conceitos-chave denotam um

elevado grau de subversão. Em primeiro lugar,

reconsiderando o objeto industrial sob a perspectiva

de um artesão. Em segundo lugar, negando o

ciclo de vida tradicional de um objeto ocidental.

62

* DESOBEDIÊNCIA TECNOLÓGICA *


E por último, substituindo os usos tradicionais

por funções alternativas que atendam à demanda.

No sentido de restauração, a reparação legitima

as qualidades de um objeto e permite que

o "fazedor" se familiarize com ele de maneira

distinta. Mas às vezes reparar significa criar

uma ferramenta nova. Estes consertos são influenciados

pelos processos mais radicais de

reinvenção e reorientação.

Um caso digno de menção é o de um carregador

para baterias não recarregáveis ​desenvolvido

em Havana em 2005. Enildo, o criador do

dispositivo, queria recarregar as baterias para

o aparelho auditivo de sua esposa. Ele poderia

conectar seu novo carregador a uma tomada

e, em apenas 20 minutos, fornecer 20 dias de

duração da bateria. Como o Dr. Frankenstein

criando seu monstro, Enildo juntou diodos de

um rádio antigo, fragmentos de um condutor e

pequenos pedaços de chapa, colocando-os sobre

um pedaço de plástico retirado do rádio.

O novo carregador, deslocado de seu propósito

técnico original, evoca memórias de diagramas

da classe de ciências. O objetivo era recarregar

a bateria. A maneira como isso é feito tensiona

a lógica técnica e comercial vigente das baterias.

O conserto, a refuncionalização e a reinvenção

mostraram saltos de imaginação em oposição

aos conceitos de inovação da lógica de produção

em massa ocidental. E cada salto permitiu uma

pequena adaptação à pobreza sob a qual a maioria

dos inventores desobedientes vivia.

A desobediência tecnológica em Cuba não é

somente sobre a transgressão da autoridade

do design industrial e o modo de vida que ele

projeta para seus usuários. Esta prática também

dribla as agrangentes restrições do regime

cubano. Todas as casas contêm invenções

rebeldes: bandejas de almoço que recebem

sinais de televisão; LP's de salsa cortados soprando

ar frio; latas de desodorantes que acendem

e apagam luzes; e componentes elétricos

agora recarregando pilhas não-reutilizáveis.

Mas a desobediência tecnológica não respeita

limites. Ela se move para as esferas social, política

e econômica que inspiram a subversão de

seus próprios direitos. Ela mantém a vida fluindo

para aqueles que a adotam. Ela interrompe o fluxo

interminável de bens ocidentais e o constante

impulso do comunismo na ilha. E ela mantém as

mãos inspiradas para criar coisas que tornarão a

vida de seus praticantes um pouco melhor.

A DESOBEDIÊNCIA TECNOLÓGICA NÃO RESPEITA LIMITES.

63


Copos fabricados

com garrafa de vidro

cortadas e plástico.

Havana, 2004

Copos de plástico fabricados pelo método de injeção.

Produzidos em casa. A matéria prima foi coletada

entre dejetos da cidade. Cuba, 1994-2015.

Aquecedor de água.

Funciona por

choque elétrico.

Matanzas, 2003.

Lampião de

querosene fabricado

com fragmentos de

embalagens distintas.

Cuba, 1999-2005.

Objetos plásticos fabricados

pelo método de injeção.

Produzidos em casa.

A matéria prima foi coletada

entre dejetos da cidade.

Cuba, 1994-2015.

64


TECHNOLOGICAL

DISOBEDIENCE

text and photos by Ernesto Oroza

“Worker, build your machine!”

So Ernesto “Che” Guevara’s proclaimed to Cuba’s industrial

sector, shortly after the triumph of the evolutionary movement

he helped lead. The year was 1961, and Cuba, increasingly

isolated, was experiencing an exodus of foreign companies

and investment due to the unfriendly market policies of Fidel

Castro’s nascent government. The start of the now famous

United States embargo against Cuba meant the large-scale

departure of material resources from an island that once relied

heavily on American cash and imports. With restrictions on

entrepreneurship and individual enterprise, the economy hit

rock bottom in the 1970s.

Revolución

Perhaps foreseeing a future that demanded self-sufficiency,

Guevara – then Cuba’s Minister of Industries – offered the

first ideological push for what would become a way of life for

generations of Cubans to come – Cubans who would have

no choice but to build and repair, over and over again, both

the state factory machines and the smaller machines in their

homes. From the endless, ongoing restoration of the iconic

1950s Buicks to the creation of baby toys made from milk

cans and dried beans, fabricating goods not officially available

on the island became an essential skill.

Castro’s newly formed socialist government nationalized

foreign companies and converted workers into the new

“bosses” of the industrial sector. He urged them take on

reparation jobs and to create spare parts. People started

viewing dilapidated machines as the country’s biggest enemy.

A drill without a cylinder, a belt saw without a pulley, a worn

out mold – these mutilated artifacts terrorized the new society

like wounded zombies.

The empty spaces in the machines paralyzed the cogs driving

the revolution. The workers started to fill the spaces, which

they would do so many times over so many years that machines

now have more pieces made from the repairs than from the

original parts. The workshops gave names for the assembled or

built-from-scratch contraptions; some stuck, others that did

not. If a Cuban engineer had returned to the island after 10

years in exile, he’d no longer be an expert. In fact, despite his

training, he wouldn’t recognize the contraptions growing out

the hands of the more crude practice of design. Whatever he

knew about the internal workings of an American technology

would already have been substituted for a cruder but equally

productive design practice.

This first wave of makers left a trail of invention that changed

the course of interacting with technology in Cuba.

Cubans began to bring this repair-mindset home, turning

their own households into laboratories. The same engineer

would, during his day shift, repair the engine of a Soviet

MIG15 jet fighter and, in the evening – faced with a countrywide

shortage of matches – build an electric lighter out of a

pen and light bulb.

Here lies some irony: The technological disobedience – which

the revolution promoted as an alternative to the country’s

stalled productive sector – became the most reliable resource

for Cubans to navigate the inefficiencies of the state political

system. Workers who had devoted their imagination and

resourcefulness to keeping the revolution on its feet were

then forced to employ those attributes to endure lives short

on necessities.

65


Acumulación

Lack of trust in the success of the revolution turned Cuban

homes into warehouses for all kinds of objects – anything

that could be useful but unavailable down the line. The

accumulation of products led workers to radically question

industrial processes and mechanisms. They started looking

at objects not with the eyes of an engineer but those of an

artisan. Every object could potentially be repaired or reused,

even in a different context from its original design.

Accumulation – in this case an automatic gesture – separated

the object from the Western intent and lifecycle it was

destined for. This is technological disobedience.

When people held onto things, they also kept the technical

principles and an idea of how they fit together. In any critical

moment, they would scratch their heads to conjure the exact

piece that could solve the problem. When the power went out,

the fan broke, or the chair snapped, the family kept an ear out

for technological whispers from the patios, under the beds, or

from obscure corners of rooms guarding piles of old things –

either parts or in their entirety.

Seemingly insignificant things were assigned new, useful

tasks. The tops of penicillin vials have become the best

solution for valves on pressure cookers. Deodorant copies of

it. An old and deteriorated Eagle kerosene lamp reappeared

when power outages became common, and sometimes a

milk bottle or gas tank functioned as the lampshade. Each

creation’s new appearance and new function made it unique.

Cubans in this time knew just a few brands: Caribe and

Kim TVs, Orbita fans, and Aurika washing machines.

The communist market of the 70s prioritized production

with a social end: clones of state-commissioned chairs, for

example, were distributed across the island. That people thus

accumulated identical goods meant that similarly ingenious

repair methods popped up throughout. Standardized metal

trays in schools, for example, were appropriated by the “maker

class” to create a product then not officially in existence on the

island: the TV antenna.

No one’s really sure whether the idea inspired each person

individually or people actively taught each other. The tray was

the only accessible metal for this task – but was its secondary

use an inevitable result of the mix of necessity, standard

availability of goods, and creative use of them?

Another object mysteriously appeared in many houses:

the kerosene lamp. Built with a cylindrical glass container

– 13 cm high and wide – and inside, dipped in kerosene, a

wick holder made from a tube of toothpaste. The container,

produced by Comecon – the now-defunct alliance of

socialist countries – served dual purposes as a fuel vessel

and lampshade. This transformed Cuba’s most recognizable

container into its most common kerosene lamp. Necessity

and standardized resources meant replicable solutions and

repeated technological disobedience.

Throughout the 80s, Soviet subsidies created a decade of

relative economic stability and, with that, a greater abundance

of resources. Then, with the fall of the Berlin Wall and collapse

of the Soviet Union, the Cuban government proclaimed a

“Special Period” of extreme rationing and shortages. In 1993,

a desperate new law finally permitted – with restrictions –

businesses engaged in making and tinkering. A new era of

creative enterprise was forced open.

Desobediencia

At the start of the Special Period, instantaneous substitutes,

objects, and provisional fixes let Cubans hold on until the end

of the crisis. This built worker confidence in homebrewed

construction, transport, clothing, or appliances. But these

were just reparative solutions of a destroyed or insufficient

material reality – and ultimately, just the waiting room for the

strongest wave of revolutionary creativity.

While reinventing their lives, an unconscious mentality

emerged. As a surgeon becomes desensitized to wounds,

Cubans became desensitized to designed objects. They

stopped seeing the original purpose of the object; instead it

66

* TECNOLOGICAL DISOBEDIENCE *


became a sample of parts. This is the first Cuban expression

of disobedience in their relationship with objects – a growing

disrespect for an object’s identity and for the truth and

authority it embodies.

After opening, breaking, repairing, and using them so often

at their convenience, the makers ultimately disregarded the

signs that make occidental objects a unity, a closed identity.

Cubans do not fear the emanating authority that brands

like Sony, Swatch, or even NASA, command. If something

is broken, it will be fixed – somehow. If it could even be

conceived as usable to repair other objects, they might as well

save it, either in parts or in its entirety. A new future awaits.

An emblematic object of this building is the “fan-phone”.

An improvised repairman remembered, when his fan’s base

broke, that he had kept somewhere a broken phone from

Communist Germany. He recalled it because the Orbit fan

base somewhat resembled the prismatic pyramidal shape

of the phone; the inspired creator was interested not in

associations or meanings but in the formal analogy based on

size and structure. The repaired, rebuilt, and repurposed fan

was, at the same time, an outline of the cunning abilities of

the individual, a diagram of the accumulation in his house,

and an image of his disobedience.

Within the process of repair, repurposing, and reinvention,

three key concepts speak to an elevated degree of subversion.

Firstly, reconsidering the industrial object from an artisan’s

perspective. Secondly, denying the traditional lifecycle of a

Western object. And lastly, substituting traditional roles with

alternative functions that meet demand.

In the sense of restoration, repairing legitimizes an object’s

qualities and allows the maker to become acquainted with an

object differently. But sometimes repairing means creating

a novel tool; these reparations are influenced by the more

radical processes of reinvention and repurposing.

A telling case is that of a charger for non-rechargeable

batteries developed in Havana in 2005. Enildo, the device’s

creator, wanted to recharge batteries for his wife’s hearing

aid. He could connect his new charger to an outlet and, in

just 20 minutes, provide 20 days of battery life.

Like Dr. Frankenstein creating his monster, Enildo pieced

together diodes from an old radio, fragments of a conductor,

and little pieces of sheet metal, placing them atop a piece of

plastic pulled from the radio. The new charger, stripped of its

original technical purpose, summons memories of diagrams

from science class. The goal was to recharge the battery; how

it’s done questions the technical and commercial logic scribed

upon the batteries.

The reparation, refunctionalization, and reinvention

show leaps of imagination in opposition to the concepts of

innovation favored by the logic of Western mass production.

And each leap allowed for some small adjustment to the

poverty that most of the disobedient inventors lived under.

Technological disobedience in Cuba is not just about the

transgression of authority of industrial design and the way

of life it projects onto its users. This practice also detours the

overarching restrictions of the Cuban system. Houses all over

contain rebellious inventions: lunch trays receiving television

signals; chopped-up salsa LPs blowing cool air; deodorant

cans turning lights on and off; and electrical components now

reviving non-reusable batteries.

But technological disobedience doesn’t respect boundaries.

It wiggles its way in to the social, political, and economic –

realms that inspire subversion in their own rights. It keeps life

flowing for those who participate. It interrupts the endless

flow of Western goods and the constant push of communism

on the island. And it keeps inspiring hands to create things

that will make life just a little better for their owners.

This article originally * TECNOLOGICAL appeared in Makeshift DISOBEDIENCE Issue 3: * Resistance (2012)

67


COINCIDÊNCIAS

INDUSTRIAIS

por Guto Lacaz

O topo da tampa do nankin Talens tem diâmetro externo igual

ao diâmetro interno de um dos círculos do gabarito.


8 colas Pritt cabem no diâmetro

interno do magazine de filme super 8.

O rolo de filme super 8 tem diâmetro externo igual

ao diâmetro interno do rolo de fita crepe.

* COINCIDÊNCIAS INDUSTRIAIS * 69


O diâmetro interno do copinho de café é igual ao diâmetro externo da lata de refrigerante.

INDUSTRIAL COINCIDENCES

by Guto Lacaz

The serialized industrial production, in a context of very

high technological development, has resulted in the

elaboration of increasingly specific products that, in turn,

are formed by extremely unique parts and components for

each application. Art, however, does not always lend itself

to consumption, nor to serial production, and so is almost

always ready to subvert industrial logic.

Guto Lacaz is an artist-inventor who shifts objects

from their original use, questioning the functionality,

practicality and efficiency of the industry. With elegant

irony and a peculiar sense of humor, he deconstructs

industrial production models by shifting functionality

from components - a hacking" of things. Among other

works in this line of thought, he has been conducting the

"Industrial Coincidences" series since 1982, in which he

unveils perfect metric inserts between pieces of different

origins, made of different materials. "The meeting of

70


A

produção industrial serializada,

em um contexto de altíssimo

desenvolvimento tecnológico,

tem resultado na elaboração

de produtos cada vez mais específicos que,

por sua vez, são formados por peças e componentes

extremamente únicos para cada

aplicação. A arte, no entanto, nem sempre

se presta ao consumo, tampouco à produção

em série, e assim, está quase sempre a postos

para subverter a lógica industrial.

Guto Lacaz é um artista-inventor que desloca

os objetos de seu uso original, questionando

a funcionalidade, a praticidade e a eficiência

da indústria. Com fina ironia e um peculiar

senso de humor, desconstrói modelos de

produção industrial por meio do deslocamento

da funcionalidade de componentes

– um “hackeamento” de coisas.

Dentre outras obras nessa linha, realiza desde

1982 a série “Coincidências Industriais”,

em que desvenda encaixes métricos perfeitos

entre peças de origens distintas, feitos de

diferentes materiais. “O encontro de precisão

dos dois objetos gera um terceiro objeto rico

em desenho e composição” 1 e, a partir dessa

des-construção, questiona-se a padronização

robótica da sociedade contemporânea, em

que tudo se encaixa, numa perfeição ilusória.

Na série de montagens fotográficas, coincidências

de formato, bitola, diâmetro, tamanho

e largura propõem ao espectador um novo

olhar perante o que se consome, o que se

descarta e, assim, sobre a própria atuação

do ser humano sobre o ambiente. Dois

objetos totalmente distintos, quando unidos,

tornam-se uma terceira construção e abrem a

possibilidade de um olhar mais atento ao que

nos cerca.

Observar as Coincidências Industriais é uma

prática valiosa para o gambiólogo e um exercício

de observação em que, com o simples

gesto de se unir peças distintas, propõe-se

novas maneiras de manejar o mundo. FP

1 Entrevista de Guto Lacaz a Renata Marquez e Wellington

Cançado. Artigo publicado em: HISSA, C. E. V. (Org.).

Conversações: de artes e de ciências. Belo Horizonte: Editora

UFMG, 2011. p.59-77. Disponível em http://www.

geografiaportatil.org/files/lacaz.pdf. Último acesso em

15/06/2017.

SUBTITLES:

The top of the Talens nankin package has outside diameter equal to the inner diameter of one of the circles of the circle template.

8 Pritt glues fit into the inner diameter of the super-8 film reel.

The super-8 film roll has an outside diameter equal to the inner diameter of the roll of crepe tape.

The inside diameter of the coffee cup is equal to the outside diameter of the can.

precision of the two objects generates a third object rich in

design and composition" 1 and, from this deconstruction,

the robotic standardization of contemporary society,

in which everything fits in an illusory perfection, is

questioned.

In the series of photographic assemblies, coincidences of

format, gauge, diameter, size and width propose to the

viewer a new look at what is consumed, what is discarded

and, thus, on the very performance of the human being

on the world. Two totally different objects, when united,

become a third construction and open the possibility of a

closer look at what surrounds us.

Observing the “Industrial Coincidences” is a valuable

practice for the gambiologist and an observation exercise

in which, with the simple gesture of joining different

pieces, new ways of managing the world are proposed. FP

* INDUSTRIAL COINCIDENCES * 71


DO

HOBISTA

DO SÉCULO XX

AO

MAKER

DO SÉCULO XXI

Newton C. Braga

Montar circuitos eletrônicos e criar novos produtos baseados em sua tecnologia

é algo fascinante e esta atividade está crescendo de uma forma espantosa

no mundo inteiro, inclusive no Brasil. Os “makers” ou “fazedores” estão não

mais apenas improvisando com gambiarras malucas, mas criando circuitos e

produtos, ganhando dinheiro com uma nova e rentosa atividade que somente

o desenvolvimento tecnológico permite. Veja neste artigo como de um simples

montador de circuitos, criador de gambiarras e aprendiz de eletrônica você

pode ser tornar um verdadeiro inventor.

história do montador de equipamentos

eletrônicos, circuitos

A e descobridor de coisas novas

em tecnologia vem de longe. De antes

mesmo do século XX. Para entender como

tudo está acontecendo e como cada vez mais

o montador de coisas e aquele que conhece

eletrônica e tecnologia pode ganhar dinheiro

com seu próprio negócio, vamos revisar um

pouco da história da ciência e tecnologia.

simples. As gambiarras eram regra e muitas

delas mostravam um grau de imaginação

surpreendente. Um exemplo disso pode ser

encontrado no trabalho de Michael Faraday.

Indo Longe no Passado

Os pioneiros da tecnologia e da ciência eletrônica

lutavam com dificuldades enormes

para criar seus projetos, fazer suas descobertas

e mesmo experimentar dispositivos muito

Figura 1 - Michael faraday (1791 – 1867)


Michael Faraday foi, em sua época, considerado

o melhor experimentador (gambiarrista)

do mundo, pois tinha uma habilidade

enorme para criar coisas. De fato, Faraday era

um aprendiz de encadernador que trabalhava

em uma oficina onde tinha o hábito de ler

os livros que encadernava e, assim, aprendeu

muito, resolvendo partir para a experimentação

do que lia e descobrir coisas novas.

Faraday não podia contar com materiais que

hoje encontramos em qualquer fornecedor.

Assim, para descobrir o transformador, ele

precisou fabricar os seus próprios fios, derretendo

cobre e cobrindo-os com seda, para

ter o isolamento. Naquela época, a ciência e

a tecnologia se misturavam, por isso muitos

dos trabalhos de montadores e criadores de

coisas, como o transformador de Faraday,

passaram a fazer parte da ciência.

Com o passar do tempo, os novos recursos se

tornaram disponíveis e no começo do século

XX já era possível comprar ”partes”, ainda

bem caras, pesadas e não muito fáceis de se

trabalhar. Para fazer suas montagens, os “fazedores”

precisavam de verdadeiras oficinas

equipadas com ferramentas mecânicas.

Figura 2 - Fonógrafo de 1919

Figura 3 - Anúncio da Heathkit

Na figura 2 temos o projeto de um fonógrafo,

original de uma publicação de 1919. Nessa

época, o montador precisava de ferramentas

para cortar madeira, perfurar e dobrar metais, e

muito mais, se desejasse fazer uma montagem

perfeita. As primeiras revistas de eletrônica,

como a Radio Experimenter, de onde tiramos

o projeto abaixo, começavam a aparecer.

Com o passar do tempo, o montador hobista

já pôde contar com algo mais do que a simples

disponibilidade de peças. Surgiram os

fornecedores de kits como a Heathkit e Radio

Shack. Circuitos eletrônicos completos

podiam ser adquiridos e montados com pouco

mais do que um ferro de solda e algumas

ferramentas de uso geral. Na figura 3 temos

um anúncio de uma revista da década de 50.

Com o passar do tempo, as revistas de eletrônica

se multiplicaram. No exterior destacamos

a Radio Electronics, Popular Electronics,

Everyday Electronics, Electronics Today

International (ETI), CQ , Selecções de Rádio,

Radio Chassis Television. Electronique

Pratique, Haut Parleur, Funkshau Elektor,

etc. No Brasil, surgiram revistas como a Antenna,

Eletronica Popular, Radio Eletronica,

Revista Monitor, Eletrônica Total, Revista

Saber Eletrônica e muitas outras que já não

existem mais.

* DO HOBISTA DO SÉCULO XX AO MAKER DO SÉCULO XXI * 73


Estas revistas descreviam projetos práticos

que podiam ser realizados por quem conhecesse

os fundamentos da eletrônica e tivesse

as ferramentas apropriadas, que não eram

muitas. Com apenas um bom ferro de solda,

alicates, chaves de fendas e eventualmente um

multímetro, podia-se montar praticamente

tudo que estas revistas descreviam. O “fazedor”

de então podia criar coisas novas que, na

maioria dos casos, não podiam ser encontradas

prontas nas lojas, como ocorre hoje.

Alarmes, rádios, amplificadores, equipamentos

auxiliares de som e transmissores eram

descritos com peças que podiam ser encontradas

com facilidade no mercado especializado.

Lojas de componentes se espalharam

pelo Brasil e muitas delas passaram a vender

pelo correio, anunciando nas revistas especializadas.

Nos grandes centros, lojas de componentes

se multiplicaram, geralmente concentradas

em ruas como a Santa Ifigênia, em São

Paulo, e General Osório, no Rio.

Até hoje ainda restam lojas especializadas

nestas ruas e vizinhanças, mas o cunho eletrônico

das mesmas está reduzindo, com a crescente

venda de equipamentos de informática.

Figura 3 - Rua Santa Ifigênia em fim de semana

Nesta época também aumentou muito a

disponibilidade de cursos de eletrônica,

tanto por livros quanto por correspondência.

Todos queriam aprender eletrônica.

Nos Estados Unidos, tivemos escolas como

a International Schools e CEI. No Brasil, o

Instituto Universal Brasileiro e o Instituto

Monitor, que existe até hoje. Foi nesta escola

que tive meu primeiro emprego, trabalhando

como professor do curso e fazendo

sua remodelação e atualização.

Minha História na Eletrônica

Lá pelos anos 60, ganhei de uma tia um livro

chamado “Experiências e Passatempos com

Eletricidade”. Esse livro me chamou a atenção

e, depois de lê-lo, decidi ir em frente para

criar coisas novas utilizando a eletrônica.

Comecei então a não apenas a montar eletrônicos

como também a inventá-los. Tornei-me

ávido comprador da revista Eletrônica

Popular (Fig. 5) e, em pouco tempo, me

tornei seu colaborador, passando a publicar

meus circuitos.

Foi então que Gilberto Afonso Penna, editor

desta revista, me convidou a criar uma

seção chamada ”Eletrônica Para Juventude”.

Algum tempo depois, comecei a trabalhar no

Instituto Monitor, remodelando seu curso, e

então fui convidado a fazer parte da Revista

Saber Eletrônica, onde me aposentei 33 anos

depois, criando a minha própria empresa.

Em todo esse tempo de atuação, vi a eletrônica

passar por muitas fases.

Das montagens com transistores, passamos

para os circuitos integrados, que eram disponíveis

em cada vez maior complexidade, pos-

74


Figura 4 - Meu primeiro livro técnico

Figura 5 - Eletrônica Popular da época

em que Newton C. Braga era colaborador

Figura 6 - O primeiro computador em kit

sibilitando ao montador a criação de muitos

circuitos, até o surgimento do microprocessador

e do microcontrolador.

O Montador do Final do Século XX

Até os anos 1980, o montador eletrônico ou

hobista tinha um perfil bem definido. Eram

estudantes de escolas técnicas, amadores independentes,

muitos dos quais de áreas de

trabalho que nada tinham a ver com a eletrônica,

que compravam componentes e montavam

circuitos a partir das revistas técnicas.

Muitos iam além, criando novos circuitos e

também publicando-os, sem compromisso,

em revistas. Existiram publicações que reuniam

apenas “Projetos dos Leitores”, com

grande sucesso, e até dando premiações,

como viagens para conhecer fábricas de componentes,

que não existiam no Brasil.

O montador de “fim de semana” investia

algum dinheiro de que dispunha comprando

componentes e normalmente seu local

de trabalho ia desde uma mesa pequena (até

mesmo a da sala!) até bancadas elaboradas.

Alguns tinham salas bem equipadas, com

muitos recursos.

Transição para o digital

A transição ocorreu com a chegada do microprocessador

e, com ele, os computadores pessoais.

O primeiro, o Altair 8800, foi lançado

em kit num artigo da Popular Electronics de

1975. No Brasil tivemos diversos microcomputadores

que fizeram época, como o MSX,

CP200, etc.

Foi então que muitos praticantes de eletrônica

deixaram de montar circuitos e passaram

a ter como novo hobby o microcomputador

que, segundo se apregoava, podia “fazer

tudo”, sem mais a necessidade de eletrônica.

As montagens eletrônicas diminuíram de tal

forma que, a partir dos anos 1990, muitas revistas

entraram em crise e desapareceram.

As poucas que se mantiveram foram obrigadas

a modificar seu conteúdo, passando a

* DO HOBISTA DO SÉCULO XX AO MAKER DO SÉCULO XXI * 75


critor Chris Anderson, autor dos livros “A

Cauda Longa - Do Mercado de Massa para

o Mercado de Nicho” e “Makers - a Nova

Revolução Industrial”. Esta revista explorava

não apenas a montagem de projetos eletrônicos,

mas qualquer tipo de coisa que se podia

fazer em casa: o DIY (Do It Yourself) ou “faça

você mesmo”, muito apreciado pelos norteamericanos

e por muitos de nós.

Figura 7 - Capa de uma edição recente

da revista Make

apresentar projetos que envolviam o uso do

computador. Também abordavam uma nova

tecnologia que começava a aparecer: a robótica,

um ramo da mecatrônica. Mas mesmo

assim, a maioria das publicações desapareceu.

Então, um novo fenômeno começou a mudar

as coisas novamente, a começar pelos EUA.

Makers e a volta das montagens

Nos EUA, uma revista que ainda se mantinha

forte era a revista Make, que tem até

hoje, como colaborador de destaque, o es-

Figura 8 – Impressora 3D

A evolução da tecnologia, entretanto, deu um

novo impulso ao DIY, com o desenvolvimento

cada vez maior das placas de microcontroladores,

que se tornaram poderosas e baratas,

sensores de todos os tipos e, finalmente, impressoras

3D.

Partindo de placas eletrônicas mais complexas,

sensores fabulosos que podiam ser acoplados

a drones, robôs submarinos (como o

da capa da revista acima), humanoides e muito

mais, até mesmo as menores peças, difíceis

de obter no mercado especializados, podem

agora ser fabricadas em uma impressora 3D.

Nos EUA, já existem impressoras dpor menos

de 500 dólares e muitas escolas e laboratórios

brasileiros já as possuem.

Figura 9 – Fabricando produtos com uma impressora 3D

76


O novo amador da eletrônica, o maker, pode

então criar seu próprio protótipo e até mesmo

fabricá-lo em casa para vender pela Internet,

criando-se assim uma nova forma de negócio,

que é uma tendência do futuro. Cada um

será dono da sua própria empresa, fabricando

eletrônicos e vendendo-os pela Internet. E,

quando a demanda crescer, pode-se contratar

uma fábrica da China a custos muito baixos

para fabricar seu produto, que então você poderá

vender, sem precisar sair de casa...

O maker do século XXI é uma versão atualizada

do hobista” do século XX, fazendo uso

das tecnologias disponíveis em nossos tempos.

Ele utiliza placas como Arduino, PIC,

Raspberry PI, Beaglebone e outras para controlar

seus projetos, que podem ir de simples

automatismos ou controles até drones, robôs

e braços mecânicos bastante complexos. Ele

utiliza componentes eletrônicos para montar

seus circuitos periféricos (shields) ou compra-

-os prontos e tem recursos para a montagem

das eventuais partes mecânicas, quando não

as encontra prontas. Ele faz a programação de

suas criações no computador e compartilha

seus projetos na Internet com outros makers.

Isso também nos leva a uma outra forma de

abordagem para estes fantásticos criadores de

coisas, a passagem do DIY para o DIT, ou

seja, o Do It Together (Faça-o em Conjunto).

O compartilhamento das ideias é algo fenomenal

em nossos tempos. Para que “quebrar a

cabeça” tentando encontrar uma solução para

um problema que alguém já resolveu? Por que

não compartilhar suas ideias?

Isso é o que está ocorrendo hoje. Muitos estão

desenvolvendo projetos, compartilhando-os e

até criando novos produtos, que serão industrializados,

fabricados em pequenas quantidades

e vendidos pela Internet, criando assim

uma nova atividade, que deixa de ser apenas

hobby para se tornar um negócio.

E as escolas têm, nessa atividade, a possibilidade

de levar a seus alunos, de forma fácil e

rápida, o aprendizado da eletrônica, robótica

e informática, conhecimentos absolutamente

necessários nos próximos anos, em todos os

ramos de atividade.

A Eletrônica Básica

Ainda é Necessária

Se bem que as impressoras 3D possam fazer

as partes mecânicas de um projeto, as placas

de microcontroladores contenham as funções

eletrônicas mais complexas, ainda é preciso

ligar circuitos periféricos ao conjunto para se

chegar ao projeto final.

Uma placa de Arduino não controla motores

de alta potência ou motores de passo diretamente.

Uma placa deste tipo também não

trabalha com sinais de áudio ou vídeo e, se

desejarmos obter estes efeitos, precisamos de

placas periféricas, os shields.

Figura 10 – Shield para Arduino pronto (placa de relés)

* DO HOBISTA DO SÉCULO XX AO MAKER DO SÉCULO XXI * 77


Figura 11 - Saber usar uma matriz de contato é fundamental

Existem muitos shields que podem ser comprados

prontos, como placas de relés, pontes

H e muito mais, conforme mostra a figura

10, mas você precisa conhecer eletrônica para

saber ligá-las e usá-las.

Isso significa que o maker precisa conhecer

eletrônica. A eletrônica básica é fundamental.

Resistores, capacitores, diodos, transistores

e muitos outros componentes devem ser

manuseados e montados, tanto numa matriz

de contato como numa placa definitiva.

A eletrônica básica volta, então, a ser importante

nos nossos dias, como conhecimento

complementar para o desenvolvimento de

qualquer projeto.

Se você é um maker, não deixe de acessar

meu site www.newtoncbraga.com.br. Lá

você encontrará uma infinidade de circuitos

eletrônicos colecionados ao longo de minha

longa carreira. Muitos deles podem fazer

parte de projetos mais complexos, atuando

como shields que não são encontrados prontos

para venda. Envie você também seus artigos,

pois todos serão analisados para publicação.

O compartilhamento de ideias é, mais do que

nunca, colocado em prática em nosso portal.

INSTITUTO NEWTON C. BRAGA

A mai s tradi cional institui ção

de ensino de eletrôni ca no Bra sil!

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78


FROM THE

HOBBYST

OF THE 20TH CENTURY

TO THE

MAKER

OF THE 21ST CENTURY

Newton C. Braga

Assembling electronic circuits and creating new products

based on their technology is fascinating and this activity is

growing in an amazing way all over the world, including

in Brazil. The makers are no longer just improvising with

crazy gambiarras, but creating circuits and products, earning

money with a new and productive activity that only

technological development allows. Check out in this article

how you can be become a true inventor from a simple circuit

maker, creator of gambiarras and apprentice of electronics.

The history of the assembler of electronic equipments, circuits

and discoverer of new things in technology comes from afar.

From even before the twentieth century. To understand how

everything is happening and how more and more the assembler

of things and the one who knows electronics and technology

can make money with their own business, let's review

some of the history of science and technology.

Going Far In The Past

The pioneers of technology and electronic science struggled

with enormous difficulties to create their projects, make

their discoveries and even experiment with very simple devices.

Gambiarras were the rule and many of them showed a

surprising degree of imagination. An example of this can be

found in the work of Michael Faraday.

Figure 1 - Michael faraday (1791 – 1867)

Michael Faraday was, in his time, considered the best experimenter

(gambiarist) in the world, because he had an enormous

ability to create things. In fact, Faraday was an apprentice

binderman who worked in a workshop where he had a

habit of reading the books he bound, so he learned a great

deal, going on experimenting with what he read and discovering

new things.

Faraday could not rely on materials we find today at any supplier.

So, to discover the transformer, he had to fabricate his

own wires, melting copper and covering them with silk, for

insulation. At that time, science and technology mingled, so

many of the work of assemblers and creators of things, like the

Faraday transformer, became part of science.

Over time, new resources became available and by the beginning

of the twentieth century it was possible to buy "parts",

which were still expensive, heavy and not very easy to work

with. To make their mounts, the "doers" needed real workshops

equipped with mechanical tools.

In Figure 2 we have the design of a phonograph, originally

from a 1919 publication. At that time, the assembler needed

tools to cut wood, drill and bend metals and more, if he

wanted to make a perfect assembly. The first electronics magazines,

such as Radio Experimenter, from which we took off

the project below, began to appear.

Figure 2 - Phonograph of 1919.

Over time, the hobbyist could already been able to count on

something more than the simple availability of parts. The

suppliers of kits like Heathkit and Radio Shack have appeared.

Complete electronic circuits could be purchased and

assembled with little more than a soldering iron and some

commonly used tools. In figure 3 we have an announcement

of a magazine of the 50's.

Figure 3 – Heathkit Announcement

Over time, electronic magazines have multiplied. Abroad, we

highlight Radio Electronics, Popular Electronics, Everyday

Electronics, Electronics Today International (ETI), CQ ,

Selecções de Rádio, Radio Chassis Television, Electronique

Pratique, Haut Parleur, Funkshau Elektor, etc. In Brazil,

magazines such as Antenna, Eletronica Popular, Radio

Eletronica, Revista Monitor, Eletrônica Total, Revista Saber

Eletrônica and many others that no longer exist.

These magazines described practical projects that could be

carried out by those who knew the basics of electronics and

had the appropriate tools, which weren’t many. With just

a good soldering iron, pliers, screwdrivers and eventually a

79


multimeter, one could assemble just about everything these

magazines described. The maker of then could create new

things that, in most cases, couldn't be found ready in stores,

as it is the case today.

Alarms, radios, amplifiers, auxiliary sound equipment and

transmitters were described with parts that could easily be

found in the specialized market. Component stores were

scattered throughout Brazil and many of them began to

sell by mail, advertising in specialized magazines. In large

centers, component stores multiplied, usually concentrated

in streets such as Santa Ifigênia in São Paulo and General

Osório in Rio.

To this day, in these streets and neighborhoods there are

still specialized stores, but their electronic signature is being

reduced with the increasing sale of computer equipments.

Figure 3 – Rua Santa Ifigênia in a weekend

At this same time, the availability of electronic courses,

both for books and correspondence, has greatly increased.

Everyone wanted to learn electronics. In the United States,

there were schools like the International Schools and CEI.

In Brazil, the Brazilian Universal Institute and the Monitor

Institute, which still exists today. It was at this school that I

had my first job, working as a course teacher and doing its

remodeling and updating.

My History in Electronics

Back in the '60s, an aunt gave me a book called "Experiences

and Hobbies with Electricity." This book caught my attention

and, after reading it, I decided to go ahead to create new

things using electronics.

Figure 4 - My first technical book

I began not only to assemble electronics but also to invent

them. I became an avid buyer of the Popular Electronics

magazine (Fig. 5) and, shortly afterwards, I became its collaborator,

starting to publish my circuits.

It was then that Gilberto Afonso Penna, editor of this magazine,

invited me to create a section called "Electronics for

Youth". Some time later, I started working at the Monitor Institute,

reshaping its course, and then I was invited to be part

of the Saber Eletrônica Magazine, where I retired 33 years

later, creating my own company.

In all this time of action, I saw the electronics go through

many phases.

Figure 5 - Eletrônica Popular from the time when

Newton C. Braga was a collaborator

From assemblies with transistors, we moved to the integrated

circuits, which were available in increasing complexity, allowing

the assembler to create many circuits, until the emergence

of the microprocessor and the microcontroller.

The Profile of the Assembler of the End of the 20th Century

Until the 1980s, the electronic assembler or hobbyist had a

well defined profile. They were technical school students, independent

amateurs, many of them from workplaces who had

nothing to do with electronics, who bought components and

set up circuits from technical magazines.

Many went beyond, creating new circuits and also publishing

them, without commitment, in magazines. There were publications

that only gathered "Readers' Projects", with great success,

and even giving prizes, such as trips to know factories of

components, that didn’t exist in Brazil.

The "weekend" assembler invested the money he had by buying

components, and her/ his workplace usually went from

a small table (even in the living room!) to elaborate benches.

Some had well-equipped rooms with many features.

Transition to digital

The transition occurred with the arrival of the microprocessor

and the personal computers with it. The first, the Altair 8800,

was released as a kit in an article by Popular Electronics in

1975. In Brazil we had several microcomputers, such as the

MSX, CP200, etc.

Figure 6 – The first computer kit

It was then that many electronics practitioners stopped to set

up circuits and began to have the microcomputer as a new hobby,

which, according to what was said, could do "everything",

without the need of electronics. Electronic assemblies have

declined in such a way that, since the 1990s, many magazines

have gone into crisis and disappeared.

The few that remained were forced to modify their content,

starting to present projects that involved the use of computer.

They also addressed a new technology that was beginning to

appear: robotics, a branch of mechatronics. But even so, most

of the publications have disappeared. So a new phenomenon

started to change things over, starting with the US.

80

* FROM THE HOBBYST OF THE 20Th CENTURY TO THE MAKER OF THE 21st CENTURY *


The Appearance of Makers - Return of theAssembling

In the United States, a magazine that was still strong was

the magazine Make, which has until today, as an outstanding

collaborator, the writer Chris Anderson, author of the

books "The Long Tail - From the Mass Market to the Niche

Market" and "Makers - the New Industrial Revolution". This

magazine explored not only the assembly of electronic projects,

but also any kind of thing that could be done at home:

DIY (Do it Yourself), much appreciated by the Americans

and many of us.

Figure 7- Cover of a recent issue of Make magazine

The evolution of technology, however, has given new impetus

to DIY, with the ever increasing development of microcontroller

boards, which have become powerful and cheap, sensors

of all kinds, and finally 3D printers.

From more complex electronic boards, fabulous sensors that

could be coupled to drones, submarine robots (like the one

from the cover of the magazine above), humanoids and more,

even the smallest, hard-to-get specialized parts can now be

manufactured on a 3D printer. In the US, there are already

printers for less than USD 500 and many Brazilian schools

and laboratories already have them.

Figure 8 – 3D Printer

The new electronics enthusiast, the maker, can then create

her/his own prototype and even manufacture it at home to

sell over the Internet, thus creating a new form of business

that is a trend of the future. Each one will own their own

company, making electronics and selling them over the Internet.

And when demand grows, one can hire a factory in

China at very low costs to manufacture their own product,

which then can be selled without even leaving the house...

The 21st century maker is an updated version of the hobbyist

of the twentieth century, making use of the technologies

available in our times. She/he uses boards such as Arduino,

PIC, Raspberry PI, Beaglebone and others to control their

designs, ranging from simple automatisms or controls to

fairly complex drones, robots and mechanical arms. She/he

uses electronic components to mount its peripheral circuits

(shields) or buys them ready and has the resources to assemble

any mechanical parts when they can’t be found ready. She/He

does the programming of her/his creations on the computer

and shares her/his projects on the Internet with other makers.

This also leads us to another way of approaching these fantastic

creators of things, the transition from DIY to DIT,

that is, Do It Together. Sharing ideas is phenomenal in our

times. Why to "break your head" trying to find a solution to

a problem that someone has already solved? Why not share

your ideas?

This is what is happening today. Many are developing projects,

sharing them and even creating new products, which

will be industrialized, manufactured in small quantities and

sold over the Internet, thus creating a new activity that is no

longer just a hobby and becoming a business.

Figure 9 - Making products with a 3D printer

And in this activity, schools have the possibility to take their

students, in an easy and fast way, to learn electronics, robotics

and computer science, absolutely necessary knowledge in the

next years, in all branches of activity.

Basic Electronics is still needed

Although 3D printers can make the mechanical parts of a

design and microcontroller boards contain the most complex

electronic functions, one still have to connect peripheral circuits

to the assembly to get to the final project.

An Arduino board doesn't control high power motors or step

motors directly. A board of this type also doesn't work with

audio or video signals, and if we wish to obtain these effects,

we need peripheral plates, the shields.

There are many shields that can be purchased ready, such as

relay boards, H-bridges and much more, as shown in figure

10, but you need to know electronics to know how to connect

them and use them.

Figure 10 – Shield for ready Arduino (relay board)

This means that the maker needs to know electronics. Basic

electronics is key. Resistors, capacitors, diodes, transistors and

many other components must be handled and mounted, either

in a contact array or on a definitive plate. Basic electronics,

then, is important in our day as complementary knowledge

for the development of any project.

Figure 11 – Knowing how to use a contact

matrix is fundamental

If you are a maker, be sure to visit my website www.

newtoncbraga.com.br. There you will find a myriad of

electronic circuits collected throughout my long career.

Many of them can be part of more complex projects, acting

as shields that are not found ready for sale. Send your articles

too as they will all be reviewed for publication. The sharing

of ideas is, more than ever, put into practice in our portal.

* FROM THE HOBBYST OF THE 20TH CENTURY TO THE MAKER OF THE 21ST CENTURY * 81


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TUPI

AND

NOT

Entrevista

Laymert Garcia dos Santos

TUPI

O professor Laymert Garcia dos Santos

é um dos mais respeitados intelectuais

brasileiros na atualidade. Doutor em

Ciência da Informação pela Universidade

Sorbonne (França), é professor

titular do Departamento de Sociologia

da Unicamp.

Sua pesquisa concentra-se principalmente

em Sociologia da Tecnologia e em

Arte Con-temporânea, acumulando,

desde a década de 1980, uma extensa

bibliografia em tópicos que são de grande

interesse da ciência gambiológica: tecnologia,

biotecnologia, arte contemporânea,

política e Brasil. Seu livro “Politizar as

novas tecnologias: o impacto sócio-técnico

da informação digital e genética”, lançado

em 2003, é uma das maiores referências

nacionais na discussão sobre a influência

das tecnologias na sociedade.

Para completar, Laymert é estudioso e

entusiasta das culturas indígenas praticantes

do xamanismo, o que o aproximou

dos povos Yanomani e possibilitou

o desenvolvimento de um ponto de vista

peculiar na relação entre as tecnologias

ancestrais e as contemporâneas.

O inquieto professor recebeu a Facta para

a entrevista a seguir, em que discorre sobre

gambiologia, hackeamento, política,

arte contemporânea e antropofagia, sempre

com simplicidade, gentileza, o olhar

astuto e a opinião aguda.


Em sua obra é possível observar um rompimento

entre tempos: o que é contemporâneo

está sempre olhando o passado, e ao

mesmo tempo os primatas são analisados

por um ponto de vista totalmente contemporâneo.

Como você analisaria o conceito

de “gambiologia” sob este aspecto?

A gambiologia não opõe o mundo digital e o

mundo da gambiarra. Ao contrário, há uma

tentativa de se pensar a articulação entre ambos.

Eu acho que vocês vão em cheio no que

interessa. Vou contar uma história que me

marcou e me ensinou muito. O psicanalista

francês Félix Guattari veio ao Brasil em 1982

e assistiu a um filme sobre o candomblé. Ele

ficou muito impressionado ao ver uma filha

de santo pintada para o ritual e comentou: “é

fantástico, porque ela parece um Picasso e,

ao mesmo tempo, o está acontecendo é completamente

mágico. E é incrível, porque essa

mesma pessoa que está no terreiro de candomblé,

daqui a meia hora vai sair e pegar o

seu walkman. Ou seja, ela vai passar do tempo

mítico pro tempo tecnológico sem conflito

algum”. Eu achei a observação muito importante

pra nós, brasileiros, porque aqui a gente

tinha, ao contrário dos países já industrializados,

uma mistura de temporalidades muito

grande. Tanto o tempo profano e o sagrado

quanto o tempo do passado e do futuro.

A lógica de pensamento contemporânea é a da

recombinação e a gambiarra é também uma

recombinação. O Brasil é um terreno fertilíssimo

pra isso. Temos uma experiência acumulada

de recombinações, de desvios de funções,

dada pela precariedade e pela necessidade de

corresponder dentro dessa precariedade a certas

respostas. Isso tem a ver com as recombinações

que os próprios sistemas informacionais

exigem. Para poder navegar nos sistemas

eletrônicos, você precisa de intuição o tempo

todo, porque as interfaces são todas inteligíveis,

mas também intuitivas, e então esse ponto

de confluência e a lógica da recombinação,

pra mim, são o ponto central nessa história.

Seu livro “Politizar as novas tecnologias”,

de 2003, tem o subtítulo “o "impacto sócio

técnico da informação digital e genética".

Passados mais de dez anos e partindo da

experiência do digital 2.0, o que você acha

que mudou, e o que é mais relevante para

se pensar a tecnologia e a política naquele

tempo e hoje?

A velocidade com que as coisas estão mudando

foi muito maior do que eu era capaz de

pensar. Em 2007, 2008, eu conheci um pesquisador

chamado Constantino Scaracasi que

estudava o futuro no Escritório Europeu de

Patentes. Ele me revelou uma coisa com a qual

eu não parei mais de conviver: os especialistas

em prospectiva de desenvolvimento tecnológico

sempre param as suas pesquisas em 2030.

As projeções nunca vão além. E elas não vão

além porque depois de 2030 é inimaginável!

Ele tinha uma equipe de 40 pessoas estudando

o futuro e eles descobriram que se você pegasse

a intensidade tecnológica do ano 2000 e

projetasse para os 100 anos anteriores, o século

XX comprimia-se e se transformava em 16

anos! Eles pegaram essa mesma medida e projetaram

de 2000 para os próximos 100 anos e

descobriram que a aceleração tecnológica era

tal que 100 anos equivaliam a 25.000 anos. É

inimaginável. Porque nós estamos no que os

especialistas chamam de avalanche tecnológica.

Isso já foi apontado desde a década de 1970

por um inventor norte-americano chamado

Richard Buckminster Fuller. Ele disse: “Decolou”.

A aceleração é exponencial, quer dizer,

é a aceleração da aceleração. É como quando

* TUPI AND NOT TUPI * 83


se manda um foguete para o espaço, durante

um certo tempo ele está sob o efeito da gravidade,

a partir do momento que ele deixa a

atmosfera ele não encontra mais nenhuma resistência:

é a sua “velocidade de escape”. Isso

já aconteceu com a tecnologia.

Não dá pra considerar 25.000 anos, então

vamos considerar uma aceleração de 3.000

anos, que vai acontecer nos próximos 20. Isso

significa que o impacto é equivalente a uma

tribo na África que vivia seguindo suas tradições

e de repente é arremessada no século

XXI. Esse impacto de temporalidade é semelhante

ao que estamos sofrendo, só que com

uma diferença. Ele vinha para as tribos de

fora para dentro e, no nosso caso, ele vem de

dentro para fora, porque é a nossa sociedade

que está fazendo esse impacto. Então, de certo

modo, nós somos os neo-primitivos deste

outro mundo que está surgindo. O impacto

é tão violento e tão forte que até essas dicotomias

moderno/tradicional foram apagadas.

O contemporâneo trata o moderno como algo

que é tão arcaico quanto o tradicional. Ao

mesmo tempo, o próprio tradicional já não é

mais arcaico, porque eu posso olhar uma tribo

indígena e dizer que eles desenvolveram um

outro tipo de tecnologia que eu não sou capaz

de entender. Mas eles desenvolveram, por

exemplo, uma tecnologia extremamente sofisticada

no xamanismo, que nós não achamos

que é tecnologia porque eles não têm aparelhos,

mas eles desenvolveram de outro modo,

no corpo, na mente, no modo como eles acessam

os mundos virtuais. Por que eu posso entender

isso desse modo? Porque a dicotomia

moderno/tradicional já foi desconstruída pelo

próprio processo de aceleração da aceleração.

De onde vem uma certa nostalgia do passado

e mesmo uma valorização da precariedade

que notamos em alguns artistas e

pesquisadores? Seria a necessidade de algo

que se perdeu ou simplesmente um fetiche?

Num mundo predominantemente digitalizado,

a presença sensorial fica diminuída. Eu

acho que a gambiologia busca maquinações

com tecnologias mais antigas, nas quais o

que contava mais era o mecânico, o objeto,

a presença física, um funcionamento que, de

certo modo, é apreendido muito mais sensorialmente.

Eu acho que há uma nostalgia

dessa presença, que é cada vez mais comprometida

porque, de certo modo, a tecnologia

digital é um fetiche e uma fissura: você tem

que estar conectado o tempo todo. Se você

pudesse conceber essa tecnologia como algo

que você entra e sai e que o mundo que não é

esse já rarefeito é tão importante quanto o outro

(e, inclusive, é muito mais rico você entrar

e sair do que só ficar nele), aí você começa a

perceber que no presente também existe uma

sensorialidade que pode ser forte, desde que

seja concedida a sua experiência às pessoas.

Eu acho que a arte contemporânea se coloca

muito nesse sentido. Muito de uma espécie

de afeto anti-tecnológico que existe em parte

da arte contemporânea, por exemplo, até na


body art, vem da necessidade de se contrapor

a essa rarefação. Mas é possível você trabalhar

as sensações dentro do mundo digital,

como as instalações imersivas que solicitam

um envolvimento que não é só puramente

mental ou intelectual.

Você afirma que o xamã, através das plantas

ou do ayahuasca, talvez consiga se conectar

a mundos virtuais. Um cientista de garagem

pode, através de objetos físicos e técnicos

mais rudimentares, fazer uma ponte

entre o homem e a máquina?

Eu acho que pode. Me lembro

de uma exposição que vi há uns

30 anos em Paris, de um artista

europeu cujo trabalho era

unicamente desvio de funções,

de objetos técnicos da primeira

revolução industrial. E aí era

fantástico, porque o que ele fazia

era enlouquecer as máquinas.

Eu não me lembro do nome

dele, mas a exposição era hilária,

porque havia uma inteligência fantástica em

desviar os objetos de sua função e enlouquecer

seu potencial tecnológico. Porque a tecnicidade

do objeto não se esgota nele mesmo.

Os objetos evoluem e essa tecnicidade está, de

certo modo, congelada, mas existe uma abertura

para ela poder ser puxada em algumas

direções. Se a gente pensar qual foi o papel

da garagem no início da virada cibernética, no

começo da invenção dos PC’s, etc... Tudo isso

"Os hackers são os

aristocratas da avalanche

tecnológica."

foi na garagem. E foi o quê? Bricolagem. São

agenciamentos que foram tentados, recombinações

feitas a partir de funções que já existiam

e que criaram coisas novas. É preciso fazer isso

também com os computadores, com o digital.

Qual a importância do hacker para a cultura

contemporânea?

Pra mim o hacker é uma figura central.

Existe um livro do teórico finlandês Pekka

Himanen sobre o hacker que eu acho interessantíssimo.

Ele falou que o hacker é a

aristocracia da era cibernética.

Aristocracia não no sentido de

classe social, mas no sentido

primeiro da palavra, que eram

os aristoi, os melhores, os que

estão mais capacitados a lidar

com o mundo no qual estão vivendo.

Eu acho que os hackers

são os aristocratas da avalanche

tecnológica. Eles estão mudando

uma série de padrões e

parâmetros de uma maneira

que não está sendo reconhecida. A política

não pode mais ser pensada da mesma maneira

depois de Assange, Bradley Manning,

Snowden... A própria maneira de se pensar a

política mudou com a abertura da sua caixa

do segredo. Mostrou-se, por exemplo, que

a palavra “democracia” como é empregada

hegemonicamente no ocidente não faz mais

sentido. Os Estados Unidos não podem mais

fazer uma intervenção em algum lugar e


dizer que é em nome da democracia, quando

eles têm a NSA. Portanto, quando instalaram

esses sistemas de controle, eles mesmos

desconstruíram a própria noção de democracia.

Então o os hackers fizeram? De certo

modo, desvendaram no plano político o

que aconteceu em escala global, para todos

os povos do planeta. Pra mim existe política

antes e depois do Snowden. E não é

por acaso que um intelectual sueco propôs

que ele ganhasse o prêmio Nobel da Paz.

Eu acho que ele deveria ganhar. Do ponto

de vista da política, pra mim, é por aí.

Do ponto de vista da arte, o hacker é como

um sujeito que trabalha com criação e com

invenção. Eu faço uma distinção entre criação

e invenção: o artista, em geral, ele trabalha

com criação, o tecnólogo trabalha com

invenção. O hacker opera com ambos porque,

de certo modo, ele cria uma situação nova.

Ele mexe com a lógica de funcionar das coisas.

E ao mexer com essa lógica, ele põe outros

atores dentro do processo, ele próprio já

é um ator totalmente novo dentro dos processos,

e ele quebra os parâmetros, ele acaba

com as oposições tradicionais que orientavam

a nossa maneira de pensar.

Você poderia desenvolver melhor essa

questão do desvio de função, mais especificamente

no Brasil?

O primeiro ponto que me interessa bastante

é uma mudança de mentalidade que aconteceu

com relação à maneira de ser brasileiro,

por questões históricas, culturais etc. Para

essa transformação, em confluência com a

cultura digital, existe uma figura emblemática

que é o Gilberto Gil. Ele foi a figura que

percebeu o que era preciso juntar, articular,

que era a capacidade criativa e inventiva do

povo brasileiro e suas especificidades, com o

advento da virada cibernética. Poucas pessoas

podem fazer esse tipo de articulação. Porque

é preciso conhecer muito bem a cultura

brasileira pré-digital e conhecer bem a tecnologia.

O Gil, se a gente fosse percorrer sua

produção musical ligada às máquinas, você

vê que ele tem um pensamento sobre a tecnologia,

e por isso ele pôde articular a cultura

brasileira com a cultura digital. E, ao fazer

isso, e transformar em uma política de Estado,

ele abriu a possibilidade de uma potência

imensa, que é articular o que há de mais

contemporâneo com o que é mais forte no

Brasil, uma capacidade de sobrevivência, de

improvisação e de afirmação, de positividade

de transformar o negativo em positivo, que

é da adversidade que vivemos. Nós vivemos

um paradoxo enorme, somos um povo que

tem cultura sem cultura. Porque não teve

acesso. Tem uma cultura que foi absorvida

e que tem uma positividade muito grande.

Quem conhece as três matrizes da cultura

brasileira – a indígena, a negra e a europeia

–, e o modo de articulação entre elas, sabe

que aí tem uma potência muito grande. Mas

essa potência ainda pode ser trabalhada na

era cibernética de uma maneira muito mais

forte, e é isso que a gente tem pra apresentar

ao mundo, pra dizer que é a nossa diferença.

Você pesquisou o pajé, o xamã, tem uma

vivência com as culturas indígenas, mas

comentou que está se mudando para um

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* TUPI AND NOT TUPI *


apartamento no Pacaembu. Como é possível

estar sempre se renovando?

Eu tenho uma relação com os Yanomami que

já vem de longa data. O que me interessou no

xamanismo? O ponto de partida era que eu

tinha que quebrar a superioridade ocidental

de achar que aquilo que a gente não compreende

é arcaico, primitivo, atrasado. Aquilo

que eu não compreendo eu não sei o que é.

Eu também não posso imaginar que uma

população indígena ficou parada no tempo

durante 3.000 anos. Porque se

eles são humanos também, e se

eles têm inteligência, isso significa

que eles evoluíram de alguma

maneira. O xamanismo, pra

mim, é um modo de existência e

de conhecimento extremamente

complexo e sofisticado. E é uma

tecnologia de acesso aos mundos

virtuais que nós não conhecemos,

tão ou mais sofisticada

do que a nossa. Eu não vou me

converter em um xamã porque

eu não tenho a cultura deles e eu

não vou poder ter o pensamento mágico que

eles têm, porque a minha herança cultural

é outra. Mas eu sou capaz de entender que,

através do pensamento mágico, eles podem

fazer uma elaboração não só cultural, mas

do ponto de vista do acesso a experiências de

conhecimento e a modos de ser e dimensões

de mundo que são mais interessantes ou mais

sofisticadas do que as nossas. O interessante é

ver como a gente pode entrar em contato com

eles, para que eles nos contem como é isso.

E a gente ver se pode, inclusive através das

Nós vivemos um

paradoxo enorme,

somos um povo

que tem cultura

sem cultura.

nossas diferenças, colocar alguma coisa em

comum. Se a gente conseguir estabelecer interfaces

ou pontos de contato, isso é extremamente

produtivo. A primeira coisa a se fazer é

quebrar a mentalidade de colonizado. Porque

aí você começa a poder se relacionar com o

outro da maneira como o outro é, e aí você

começa a ouvir o que o outro está falando.

O “Manifesto Antropofágico” é um ponto

fundamental dessa história, eu até vou fazer

uma palestra sobre o dilema hamletiano do

brasileiro, que é um espelho

invertido do dilema que a gente

coloca para os índios: “vocês

têm que ser brasileiros, senão

vocês não têm direito à existência”.

Aí, quando eles se convertem

em brasileiros, a gente diz:

"tá vendo, você deixou de ser

índio. Então, como você não é

índio mais, você não tem mais

direito a certas prerrogativas”.

Se ele insiste em ser índio, você

fala: "tá vendo, você não quer ser

brasileiro". É o que, na psicologia,

o Gregory Bateson chamava de double

bind, você coloca duas posições impossíveis

para a pessoa, ela não pode assumir nem uma

nem a outra, e ela fica esquizo. O abismo

lançado, formulado pela dúvida hamletiana

do Oswald, era “tupi or not tupi, that’s the

question”. Enunciada em inglês! É vertiginoso.

Quanto mais você pensar nisso, mais você

vê qual é o problema do brasileiro, que não

sabe quem ele é. Então eu acho que tem que

ser transformado não em um "ou, ou”, “tupi

or not tupi", mas sim em "tupi and not tupi".

* TUPI AND NOT TUPI *

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TUPI AND NOT TUPI

Interview with Laymert Garcia dos Santos

Professor Laymert Garcia dos Santos is one of the most respected Brazilian intellectuals nowadays. He holds a PhD in Information

Science from the Sorbonne University (France), and he is a professor in the Department of Sociology at Unicamp.

His research is focused mainly on Sociology of Technology and Contemporary Art, and he has accumulated, since the 1980s, an

extensive bibliography on topics that are of great interest of the gambiological science: technology, biotechnology, contemporary

art, politics and Brazil. His book "Politizing New Technologies: The Socio-Technical Impact of Digital and Genetic Information",

launched in 2003, is one of the greatest national references in the discussion of the influence of technologies on society.

To conclude, Laymert is a scholar and an enthusiast of indigenous cultures practicing shamanism, what had brought him

closer to the Yanomani people and has enabled the development of a peculiar point of view in the relation between ancestral

and contemporary technologies.

The restless professor had agreed to receive Facta for the following interview, in which he talks about gambiologia, hacking,

politics, contemporary art and anthropophagy, always with simplicity, kindness, shrewd eyes and a sharp opinion.

In your work it is possible to observe a rupture between

times: what is contemporary is always looking at the past,

and at the same time primates are analyzed from a totally

contemporary point of view. How would you analyze the

concept of "gambiologia" in this respect?

Gambiologia does not oppose the digital world and the world

of gambiarra. On the contrary, there is an attempt to think

the articulation between both. I think you're going straight to

the point. I'll tell you a story that moved me and taught me a

lot. The French psychoanalyst Félix Guattari came to Brazil

in 1982 and watched a movie about candomblé. He was very

impressed to see a saint's daughter painted for the ritual and

he commented: "It's fantastic because she looks like a Picasso

and at the same time, what's happening is completely magical.

And it's incredible, because this same person who is in

the candomblé grounds, will go out in half an hour and get

her walkman. That is, she will go from a mythical time to a

technological time without any conflict." I found his remark

very important for us Brazilians, because here we had, unlike

the already industrialized countries, a very great mixture of

temporalities. Both profane and sacred times as well as the

times of the past and future.

The logic of contemporary thinking is that of recombination

and gambiarra is also a recombination. Brazil is a very fertile

ground for this. We have an accumulated experience of recombination,

of misuse of functions, given by the precariousness

and the need to correspond to certain answers within

this precariousness. This has to do with the recombinations

that information systems require themselves. In order to

navigate electronic systems, you need intuition all the time,

because the interfaces are all intelligible but also intuitive, and

this confluence point and the logic of recombination are to me

the central point in this story.

Your book "Politizing the new technologies" (2003) has the

subtitle "the socio-technical impact of digital and genetic

information". After more than ten years and from the digital

2.0 experience, what do you think that has changed, and

what is more relevant to think technology and politics at that

time and today?

The speed with which things are changing was much greater

than I was able to think. In 2007, 2008, I met a researcher

named Constantino Scaracasi who was studying the future

at the European Patent Office. He told me one thing I have

not stopped living with: specialists in prospects for technology

development are always stopping their research in 2030.

Projections never go further. And they do not go beyond because

after 2030 is unimaginable! He had a team of 40 people

studying the future, and they found that if you caught the

technological intensity of the year 2000 and projected for the

previous 100 years, the twentieth century was compressed

and turned into 16 years! They took that same measure and

projected from 2000 for the next 100 years and found that the

technological acceleration was such that 100 years equaled

25,000 years. It's unimaginable. Because we are in what the

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experts call technological avalanche. This has been pointed

out since the 1970s by an American inventor named Richard

Buckminster Fuller. He said, "it took off". Acceleration is exponential,

that is, acceleration of acceleration. It's like when

you send a rocket into space, for a while he is under the effect

of gravity but from the moment he leaves the atmosphere he

finds no resistance anymore: it is its "escape velocity". This has

happened to technology.

We can not consider 25,000 years, so let's consider an acceleration

of 3,000 years, which will happen in the next 20 years.

This means that the impact is equivalent to a tribe in Africa

that lived by following its traditions and is suddenly thrown

into the 21st century. This impact of temporality is similar to

what we are going through, with only a difference. It came to

the tribes from the outside in, and in our case it comes from

the inside out, because it is our society that is making that

impact. So, in a way, we are the neo-primitives of this other

emerging world. The impact is so violent and so strong that

even these modern/traditional dichotomies have been erased.

The contemporary treats the modern as something that is as

archaic as the traditional. At the same time, the traditional

itself is no longer archaic because I can look at an Indigenous

tribe and say that they have developed another type of technology

that I am not able to understand. But they have developed,

for example, an extremely sophisticated technology

in shamanism, which we do not think is technology because

they have no apparatus, but they have developed it otherwise,

in body, in mind, in the way they access virtual worlds. Why

can I understand it this way? Because the modern/traditional

dichotomy has already been deconstructed by the acceleration

process of accelaration.

Where does a nostalgia for the past come from, and even a

valuation of the precariousness that we notice in some artists

and researchers? Would it be a need for something that is lost

or just a fetish?

In a predominantly digitized world, the sensory presence is

diminished. I think that gambiologia seeks machinations

with older technologies, in which what counted most was

the mechanic, the object, the physical presence, an operation

that, in a way, is much more perceived sensorially. I think

there is a nostalgia for this presence, which is increasingly

compromised because, in a way, digital technology is a fetish

and a fissure: you have to be connected all the time. If you

could conceive of this technology as something that you enter

and leave and that the world that is not this already rarefaction

world is as important as the other (and it is even richer to

get in and out than just staying in it), then you begin to realize

that in the present there is also a sensoriality that can be

strong, as long as you give your experience to people. I think

contemporary art stands very much in that direction. Much

of a kind of anti-technological affect that exists in part of contemporary

art, for example, even in body art, comes from the

need to counteract this rarefaction. But it is possible for you

to work the sensations within the digital world, such as immersive

installations that require an involvement that is not

only purely mental or intellectual.

You say that the shaman, through plants or ayahuasca, may

be able to connect to virtual worlds. Can a garage scientist,

through more rudimentary physical and technical objects,

bridge the gap between man and machine?

I think the answer is yes. I remember an exhibition I saw some

30 years ago in Paris of a European artist whose work was

solely a diversion of functions, of technical objects of the first

industrial revolution. And there it was fantastic, because what

he did was to drive the machines crazy. I do not remember

his name, but the exhibition was hilarious, because you had

a fantastic intelligence in diverting objects from their functions

and driving their technological potential crazy. Because

the technicality of the object does not exhaust itself. Objects

evolve and this technicality is somewhat frozen, but there is

an opening for it to be pulled in some directions. If we were

to think about the role of the garage at the beginning of the

cybernetic turn, at the beginning of the invention of the PCs,

etc ... All this was in the garage. And what was it? DIY. They

are agencies that have been tried, recombinations made from

functions that already existed and that created new things.

This also has to be done with computers, with digital ones.

How important is the hacker to contemporary culture?

For me the hacker is a central figure. There is a book by the

Finnish theorist Pekka Himanen about the hacker that I find

very interesting. He said that the hacker is the aristocracy of

the cyber-era. Aristocracy not in the sense of social class, but

in the first sense of the word, that they were the aristoi ones,

the best, those who are better able to deal with the world in

which they are living. I think hackers are the aristocrats of

the technological avalanche. They are changing a number of

patterns and parameters in a way that is not being recognized.

Politics can no longer be thought of in the same way after Assange,

Bradley Manning, Snowden ... The very way of thinking

politics has changed with the opening of its secret box. It

has been shown, for example, that the word "democracy" as

it is used hegemonically in the West no longer makes sense.

The United States can no longer intervene somewhere and say

that it is in the name of democracy when they have the NSA.

Therefore, when they installed these systems of control, they

* TUPI AND NOT TUPI * 89


themselves deconstructed the very notion of democracy. So

what did the hackers do? In a way, they unveiled on a political

level what happened on a global scale, for all the peoples of the

planet. For me there is politics before and after Snowden. And

it is not by accident that a Swedish intellectual proposed that

he should win the Nobel Peace Prize. I think he should win.

From the political point of view, for me, that's the way it is.

From the point of view of art, the hacker is someone who

works with creation and invention. I make a distinction between

creation and invention: the artists, in general, work

with creation, the technologists works with invention. The

hacker works with both because, in a way, it creates a new

situation. It messes with the logic of functioning of things.

And by tinkering with this logic, she/he puts other actors in

the process, she/he is already a totally new actor within the

processes, and she/he breaks the parameters, she/he ends the

traditional oppositions that guided our way of thinking.

Could you better discuss this issue of deviation of function,

more specifically in Brazil?

The first thing that draws my attention is a change in mentality

that took place in regards of a way of being Brazilian,

because of historical and cultural reasons. For this transformation,

in confluence with the digital culture, there is an emblematic

figure that is Gilberto Gil. He was the figure who

realized what it was necessary to join, articulate, that was the

creative and inventive capacity of the Brazilian people and

their specificities, with the advent of the cybernetic turn.

Few people can do this kind of joint. Because it is necessary

to know very well the Brazilian pre-digital culture and

to know the technology well. Gil, if we were to go through

his music production linked to the machines, you see that he

has a thought about technology, and so he could articulate

Brazilian culture with digital culture. And in doing so, and

transforming it into a state policy, he opened the possibility

of an immense power, which is to articulate what is most contemporary

with what is most powerful in Brazil, a capacity

for survival, improvisation and affirmation, of positivity, of

turning the negative into positive, that is the adversity that

we live. We live a huge paradox, it is of a people who have

culture without culture. Because we don't have access. There

is a culture that has been absorbed and that has a very great

positivity. Who knows the three matrices of Brazilian culture

- indigenous, black and european - and the way of articulation

between them knows that there is a very great power

there. But that power can still be worked on in the cybernetic

age in a much stronger way, and this is what we have to present

to the world, to say that it is our difference.

You have researched the shaman, you have an experience

with indigenous cultures, but you have commented that you

are moving to an apartment in Pacaembu. How is it possible

to constantly renew yourself?

I have a long-standing relationship with the Yanomami.

What interested me in shamanism? The starting point was

that I had to break the western superiority of thinking that

what we do not understand is archaic, primitive, backward.

What I do not understand I do not know what it is. I also can

not imagine that an indigenous population stood in time for

3,000 years. Because if they are human too, and if they have

intelligence, it means that they have evolved in some way.

Shamanism, to me, is a very complex and sophisticated mode

of existence and knowledge. And it is a technology of accessing

virtual worlds that we do not know, so much or more sophisticated

than ours. I will not become a shaman because I

don't have their culture and I won't be able to have the magical

thinking they have because my cultural heritage is different.

But I am able to understand that through magical thinking,

they can make an elaboration not only of culture, but from the

point of view of accessing experiences of knowledge and ways

of being and dimensions of the world that are more interesting

or more sophisticated than ours. The interesting thing is

to see how we can get in touch with them, so they can tell us

how it is. And we see if we can, even through our differences,

have something in common. If we can establish interfaces or

points of contact, this is extremely productive. The first thing

to do is to break the colonized mindset. Because then you

start to relate to each other the way the other is, and then you

begin to hear what the other is talking about.

The "Anthropophagic Manifesto" is a fundamental point of

this story, I even give a talk about the Brazilian's Hamletian

dilemma, which is an inverted mirror of the dilemma that we

pose for the Indians: "you have to be Brazilian, otherwise you

have no right to exist ". Then, when they become Brazilians,

people say, "You see, you stopped being a native, so you're

no longer indigenous, you no longer have the right to certain

prerogatives." If she/he insists on being indigenous, you say

"You see, you do not want to be Brazilian." This is what Gregory

Bateson called "double bind" in psychology, you put two

impossible positions for the person, she/he can not assume

either, and he/she becomes schizophrenic. The pit that was

thrown up, formulated by Oswald's Hamletian doubt, was

"tupi or not tupi, that's the question." Enunciated in English!

It is vertiginous. The more you think about it, the more you

see what the Brazilian's problem is, who doesn't know who

she/he is. Then I think it has to be transformed not into a "or,

or", "tupi or not tupi", but rather in "tupi and not tupi".

90

* TUPI AND NOT TUPI *


Foto: Daniel Nozzle Drive, Helpers.

SOMOS TODOS

PARDAL


Cientista maluco "vintage".

Procedimento em coração artificial no filme O Homem Imortal (1939).

A

dalberto Maduar, tradutor e

roteirista da Editora Abril,

deve ter pensado, muito acertadamente,

que Gyro Gearloose não

só era um nome muito estranho aos ouvidos

brasileiros como também que, numa tradução

ao pé da letra (algo como Pardal Periscópio),

ficaria um tanto sem sentido. Optou,

então, por batizar como Professor Pardal

o personagem criado pelo cartunista Carl

Barks que estreou em 1952, na HQ “Gladstone’s

Terrible Secret” (no Brasil, “A Sorte

do Gastão” ou “Sorte É Pra Quem Tem”) e

se tornou um ícone da cultura pop mundial,

sinônimo de cientista maluco e com vários

paralelos na vida real. Não será descabido

afirmar que todo mundo conhece ou já conheceu

um Professor Pardal de carne e osso.

O inventor norte-americano Dean Kamen

diz ter se inspirado na criação de Carl Barks

para dar forma a algumas de suas invenções,

como o Segway Human Transporter, um

meio de transporte de duas rodas lançado

na década de 1990 e já bastante comum

nos dias de hoje. Essa invenção possui um

giroscópio que permite a seu piloto ter um

maior equilíbrio, e faz com que o Segway

pare em pé. Kamen é o fundador da DEKA

Research & Development Corporation,

empresa que ficou famosa mundialmente

por suas invenções inovadoras, e idealizador

do First, uma organização criada com

o intuito de incentivar jovens a se interessarem

por ciência e tecnologia. Há cerca

de 440 patentes registradas sob seu nome,

apresentadas ao longo de mais de 30 anos

de trabalho como inventor.

Há quem faça da invenção um negócio ou

um investimento, mas a representação do

Professor Pardal abarca também a esfera

do despropósito. O personagem dos quadrinhos

tem em sua conta criações birutas e

inúteis, como a “Máquina de Fazer Nada” e

o “Chapéu Pensador”, um pequeno telhado

com um ninho de corvos que supostamente

o ajuda a ter novas ideias brilhantes. Mesmo

a maior invenção do Professor Pardal

das HQs, o minirobô Lampadinha, não tem

propriamente uma função ou finalidade,

senão a de conselheiro do seu criador.

92

* SOMOS TODOS PARDAL *


Franz Gsellman e a Máquina do Mundo. Foto: Gery Wolf.

O escultor George Rhoads montando uma de suas Ball Machines.

O austríaco Franz Gsellmann tornou-se célebre

após trabalhar intensamente, ao longo

de 23 anos, num invento que batizou como

“Máquina do Mundo”. Gsellmann nunca

teve qualquer conhecimento científico ou de

engenharia mecânica. Sua monumental criação

gira, faz barulhos de cliques e assobios,

emite luzes e um monte de outras coisas, mas,

na verdade, ninguém sabe qual é a função do

artefato ou porque Franz o criou. Algumas

explicações simbólicas ou metafóricas dão

conta de que a estrutura é uma simples forma

de demonstrar a complexidade do funcionamento

da natureza ou que a máquina expressa

o funcionamento da alma humana.

E por falar em criações aparentemente sem

utilidade, que apenas giram, fazem barulhos

de cliques, assobios, emite luzes e um monte

de outras coisas, temos, em Belo Horizonte,

o Presépio do Pipiripau, com sua complexa

rede de bonecos e cenários. Criada pelo artesão

Raimundo Machado Azevedo em 1906, foi

doado à UFMG em 1976 e tombado pelo

patrimônio histórico nacional em 1984.

O Presépio é composto por reproduções e

miniaturas móveis que narram do nascimento,

vida, morte e ressurreição de Cristo, com 580

figuras e 45 cenas. O mecanismo de funcionamento

do Presépio foi recentemente

restaurado e sua visitação reaberta. A engenhoca

natalina encontra-se exposta no Museu

de História Natural da UFMG (Universidade

Federal de Minas Gerais).

Conceitualmente não muito distante da “Máquina

do Mundo” estão as “Máquinas de

Rube Goldberg”, que são deliberadamente

aparelhos que realizam uma tarefa muito

simples de uma forma muito complexa, geralmente

usando uma reação em cadeia. Reuben

Garrett Lucius Goldberg foi um artista plástico,

cartunista, escultor, escritor e engenheiro

norte-americano. A expressão “Rube Goldberg

Machine” é tida como originada por

volta de 1930, para descrever as ilustrações

NÃO SERÁ DESCABIDO AFIRMAR QUE TODO MUNDO CONHECE

OU JÁ CONHECEU UM PROFESSOR PARDAL DE CARNE E OSSO.

* SOMOS TODOS PARDAL *

93


O Presépio do Pipiripau é uma atração turística em Belo Horizonte.

"Realizar por meio

extremamente complexo

e desviado o que realmente

ou aparentemente poderia

ser feito de maneira simples".

e as máquinas absurdas que ele criava. Seus

desenhos, por exemplo, quase sempre incluíam

um animal vivo que era posto para realizar

parte da sequência de tarefas. O termo

apareceu pela primeira vez no “Webster’s

Third New International Dictionary” com a

definição de “realizar por meio extremamente

complexo e desviado o que realmente ou aparentemente

poderia ser feito de maneira simples”.

Desde então, expandiu-se a expressão

para designar qualquer tipo de engenhoca ou

sistema excessivamente complicado.

Na Inglaterra, as traquitanas complexas sem utilidade

são chamadas de "Heath Robinson".

94

* SOMOS TODOS PARDAL *

Muitos criadores de “Máquinas de Rube

Goldberg” participam de competições, como

as que tradicionalmente acontecem no Novo

México (EUA). No início de 1987, a Universidade

de Purdue, no Estado de Indiana,

começou a realizar um concurso anual, o

“Rube Goldberg Machine Contest”. Nos desenhos

das séries animadas de TV, como “Tom

& Jerry”, o gato frequentemente utiliza aparelhos

complicados, como “Máquinas de Rube

Goldberg”, para tentar capturar o ratinho.

O mesmo acontece no desenho do Coiote e

do Papa-Léguas. Em “Arquivo X”, no episódio

“The Goldberg Variations”, um homem


Fotos: Leo Drumond / NITRO.

caçado pela máfia se vê às voltas com estranhas

sequências de reações, semelhantes às de

uma “Máquina de Rude Goldberg”. No filme

“A Grande Aventura de Pee Wee” (1985), de

Tim Burton, o personagem Pee Wee Herman

tinha dispositivos de Goldberg que faziam

café da manhã. Esse panorama dá uma

dimensão da popularidade dessas traquitanas.

O conceito de

“Rube Goldberg”

também pode ter uma

aplicação artística

O conceito de “Rube Goldberg” também pode

ter uma aplicação artística, e um bom exemplo

é a videoarte “The Way Things Go”, traduzida

por aqui como “O Percurso das Coisas”, dos

artistas suíços Peter Fischli e David Weiss.

Realizado em 1987, o filme documenta uma

longa cadeia aparentemente casual, mas

minuciosamente planejada, de indução entre

objetos do cotidiano e reações químicas.

A instalação foi feita em um armazém com

cerca de 100 metros de comprimento – espaço

em que foram dispostos materiais como

pneus, sacos de lixo, escadas, sabão, tambores

de óleo, sapatos velhos, água e gasolina. Fogo

e muita pirotecnia foram empregados como

gatilhos químicos que criam uma reação em

cadeia entre esses materiais, resultando em

um clássico da linguagem audiovisual.

Professor Butts and the Self-Operating Napkin (1931).

Ilustração original por Rube Goldberg.

Purdue Society of Professional Engineers, criadores da maior

Rube Goldberg Machine do mundo. Foto: Andy Jessop.

* SOMOS TODOS PARDAL * 95


Frame do video The Way Thing Go, de Peter Fischli e David Weiss (1987).

Felix's Machine, de Felix Thorn.

Assim como a dupla suíça, há outros professores pardais que também

se expressam no campo das artes, como o britânico Felix Thorn, que,

para fazer música, resolveu se transformar em escultor. Suas criações

têm um aspecto de máquina, traquitanas autônomas que tocam uma

sequência musical predeterminada. Sua obra pode, eventualmente,

parecer uma banda, um instrumento ou um animal. Ao longo de

sua carreira, Thorn já passou por muitos ramos da criação: música

contemporânea, música popular, artes visuais e a invenção de instrumentos.

Com suas esculturas sonoras de grandes dimensões, tornou-

-se uma referência mundial neste tipo de trabalho.

Mesmo sem nenhum glamour artístico, o Sr. Bernardo Riedel

também logrou grande prestígio com suas criações. Trata-se de um

professor aposentado da Universidade Federal de Minas Gerais e

antigo astrônomo do Observatório Astronômico Frei Rosário. Ele é

hoje considerado pela comunidade científica como um dos principais

especialistas brasileiros na construção de telescópios. O primeiro foi

em 1954, período em que se associou ao Centro de Estudos Astronômicos

de Minas Gerais. Em 1978 fundou a B. Riedel Ciência e Tecnologia,

em Belo Horizonte, com o objetivo de fabricar instrumentos

astronômicos de qualidade, montando telescópios, cúpulas, lentes,

espelhos, filtros e acessórios diversos ligados à observação astronômica.

As criações de Felix Thorn têm um aspecto

de máquina, traquitanas autônomas que

tocam uma sequência musical predeterminada.

96


Foto: Sofia Ilyas - Oneyemusic.

Prof. Bernardo Riedel em sua oficina. Foto: Leo Drumond / NITRO.

Em sua oficina, em Belo Horizonte, telescópios sofisticados nascem

por meio de máquinas construídas a partir de motores de sorveteiras,

polias de máquinas de costura, mecanismos hidráulicos de cadeiras de

dentista, eixo de assadoras de frango, bomba de vácuo da força aérea

norte-americana, correias de copiadoras e outras geringonças. Um de

seus maiores orgulhos é a câmara de vácuo que pertenceu à fábrica de

válvulas da RCA Victor em Contagem-MG, até a década de 1960.

Antes de entrar na câmara de vácuo para ser transformada em espelho

de telescópio, a lente é aquecida num antigo forno de pizza.

Desenvolvedor de diversas técnicas originais, algumas delas em plena

sintonia com os procedimentos gambiológicos, Bernardo Riedel

ganhou, efetivamente, da comunidade astronômica amadora o apelido

de Professor Pardal. O cientista tornou-se também tema do

documentário “Kappa Crucis”, dirigido pelo cineasta João Borges,

e pouco a pouco vai tornando-se conhecido não só pela comunidade

de gambiólogos, pardais e adjacentes, mas também por um público

mais amplo, por meio da exibição cada vez mais frequente do filme

no circuito internacional de festivais de cinema.

DB

Desenvolvedor de diversas técnicas originais,

Bernardo Riedel ganhou, efetivamente, o

apelido de Professor Pardal.

97


WE ARE ALL GEARLOOSES

Adalberto Maduar, translator and screenwriter at Editora

Abril must have thought, very correctly, that Gyro Gearloose

wasn’t only a very strange name to Brazilian ears, but

also that, in a literal translation (something like Periscope

Sparrow), it would be somewhat meaningless. He chose,

then, to name as Professor Pardal (Professor Sparrow) the

character created by cartoonist Carl Barks, which debuted

in 1952, in the comic book "Gladstone's Terrible Secret",

and became an icon of the world pop culture, synonymous

of crazy scientist, with several parallels in real life. It will

not be unreasonable to claim that everyone knows or have

met a Gyro Gearloose of flesh and blood.

American inventor Dean Kamen says he was inspired by

the creation of Carl Barks to shape some of his inventions,

such as the Segway Human Transporter, a two-wheeled

mode of transportation launched in the 1990s and already

quite common today. This invention features a gyroscope

that allows its rider to have a better balance, and makes

the Segway stand upright. Kamen is the founder of DEKA

Research & Development Corporation, a company that became

world famous for its innovative inventions, and he is

also founder of First, an organization created to encourage

young people to become interested in science and technology.

There are about 440 patents registered under his name,

presented over more than 30 years of work as an inventor.

There are those who make the invention a business or an

investment, but the representation of Gyro Gearloose

also encompasses the sphere of nonsense. The comic book

character has quirky and useless creations such as the "Do-

Nothing Machine" and the "Thinker Hat," a small roof

with a nest of crows that supposedly helps him to come

up with bright new ideas. Even the greatest invention of

the comics’ Gyro Gearloose, the minirobot Little Helper,

hasn’t an exact function or purpose, but rather one of adviser

of its creator.

The Austrian Franz Gsellmann became famous after working

intensely, for 23 years, in an invention that he named

World Machine. Gsellmann has never had any scientific or

mechanical engineering learning. His monumental creation

revolves, makes noises of clicks and whistles, emits lights

and a lot of other things, but, in fact, no one knows what

the artifact's function is or why Franz had created it. Some

symbolic or metaphorical explanations suggest that the

structure is a simple way of demonstrating the complexity

of nature's functioning or that the machine expresses the

functioning of the human soul.

And speaking of seemingly useless creations that only rotate,

make noises of clicks, whistles, emits lights and a lot of

other things, we have in Belo Horizonte the Pipiripau Crib,

with its complex network of dolls and scenarios. Created by

the artisan Raimundo Machado Azevedo in 1906, it was

donated to UFMG in 1976 and registered in the Brazilian

national historical patrimony in 1984. The crib is composed

of mobile reproductions and miniatures that tell of the birth,

life, death and resurrection of Christ, with 580 figures and

45 scenes. The crib’s mechanism of operation was recently

restored and had its visitation reopened. The Christmas

gadget is exhibited at the Museum of Natural History of

UFMG (Federal University of Minas Gerais).

Conceptually not too far from the World Machine are the

Rube Goldberg Machines, which are deliberately devices

that perform a very simple task in a very complex way, usually

using a chain reaction. Reuben Garrett Lucius Goldberg

was an American fine artist, cartoonist, sculptor, writer

and engineer. The expression Rube Goldberg Machine is

believed to have been originated around 1930, to describe

the illustrations and the absurd machines he had created.

His drawings, for example, almost always included a living

animal that was put to perform part of the sequence of tasks.

The term first appeared in the "Webster's Third New Inter-

98


national Dictionary", with the definition of " accomplishing

by extremely complex, roundabout means what actually or

seemingly could be done simply". Since then, the expression

has been expanded to designate any type of overly complicated

gadget or system.

Many creators of Rube Goldberg Machines join competitions,

such as those that traditionally take place in New Mexico

(USA). In the beginning of 1987, the University of Purdue, in

Indiana, began to hold an annual contest, the Rube Goldberg

Machine Contest. In cartoons of animated TV series, such as

"Tom & Jerry", the cat often uses complicated gadgets such

as Rube Goldberg Machines in order to capture the mouse.

The same happens in Wile E. Coyote and the Road Runner

cartoons. In "The X-Files," in "The Goldberg Variations" episode,

a man hunted by the mafia finds himself struggling with

a strange sequences of reactions, resembling a Rube Goldberg

Machine. In Tim Burton's "Pee-wee's Big Adventure"

(1985) the character Pee Wee Herman had Goldberg devices

that made breakfast. This panorama gives a dimension of the

popularity of these trachytes.

The Rube Goldberg concept may also have an artistic approach

and a good example is the video art "The Way Things

Go", by Swiss artists Peter Fischli and David Weiss. Produced

in 1987, the movie documents a long seemingly casual,

but meticulously planned chain of induction between

everyday objects and chemical reactions. The installation

was put together in a warehouse of about 100 meters long

– where materials such as tires, garbage bags, stairs, soap,

oil drums, old shoes, water and gasoline were arranged. Fire

and lots of pyrotechnics were used as chemical triggers that

create a chain reaction, resulting in a classic of the audiovisual

language.

Likewise the Swiss duo, there are other Gyro Gearlooses

who also express themselves in the arts, such as the British

Felix Thorn, who, to make music, decided to become

a sculptor. His creations have a machine-like appearance,

autonomic trachytes that play a predetermined musical sequence.

His work may eventually look like a band, an instrument

or an animal. Throughout his career, Thorn has gone

through many branches of creation: contemporary music,

popular music, visual arts and the invention of instruments.

With his large sound sculptures, he has become a world reference

in this type of artwork.

Even with no artistic glamor, Mr. Bernardo Riedel has

also achieved great prestige with his creations. He is a retired

professor at the UFMG (Federal University of Minas

Gerais) and a former astronomer at the Frei Rosário Astronomical

Observatory. He is now considered by the scientific

community as one of the main Brazilian specialists in

the construction of telescopes. The first was in 1954, when

he joined the Center for Astronomical Studies of Minas

Gerais. In 1978 he founded the B. Riedel Science and Technology

in Belo Horizonte, with the goal of manufacturing

astronomical instruments of quality, assembling telescopes,

domes, lenses, mirrors, filters and various accessories related

to astronomical observation.

In his manufactory in Belo Horizonte, sophisticated telescopes

are born using machines built from ice cream engines,

sewing machine pulleys, hydraulic dentist chair

mechanisms, chicken rotisserie shafts, North American Air

Force vacuum pumps, copier belts, and other contraptions.

One of his greatest prides is the vacuum chamber that belonged

to RCA Victor valve factory in Contagem, Brazil,

until the 1960s. Before entering the vacuum chamber to be

transformed into a telescope mirror, the lens is heated in an

old pizza oven.

A developer of several original techniques, some of them

fully in tune with gambiological procedures, Bernardo Riedel

has effectively earned the nickname of Gyro Gearloose

in the amateur astronomical community. The scientist also

became the subject of the documentary "Kappa Crucis", directed

by filmmaker João Borges, and little by little he is becoming

known not only by the community of gambiologists,

Gearlooses and related, but also by a wider public, through

the film's increasingly frequent screening on international

film festivals. DB

* WE ARE ALL GEARLOOSES * 99


TATUAGENS

GAMBIARRAS

por Taiom Almeida

Foto: Moisen Saman.

Cortesia de Sony World

Photography Award 2008.

E


“Nada é mais próximo da comunicação humana do que nosso próprio corpo.”

Célia Maria Ramos

TATUAGEM

Tecnicamente, é uma aplicação subcutânea

obtida por meio da introdução de pigmentos

na pele, utilizando-se agulhas, a fim de deixar

visível alguma marca permanente. Para além

disso, tatuagens estão relacionadas a conceitos

histórico-sociais agregados, que naturalmente

divergem a cada contexto cultural e se

transformaram ao longo dos seus 5 mil anos

de história. Já serviram como símbolo de força

sagrada ou status de nobreza, e também como

guia no mundo dos mortos ou para a cura de

doenças. A tatuagem teve também seus momentos

de estigma, ora com orgulho, ora com

pesar, para escravos, nobres, ladrões, guerreiros,

prisioneiros, prostitutas e cristãos.

Indiferente ao valor cultural agregado, ela carrega

algo de íntimo na relação humana. É a

forma de se escrever sobre o próprio corpo, de

usá-lo como plataforma de comunicação visual.

A linha limite que separa o eu dos outros, o

invólucro do indivíduo, a pele, que por ser tão

íntima a cada um, é sua forma mais crua de relação.

É lugar primeiro para emergir as vontades

do eu, que podem ter origem em infinitos

motivos, mas que transparecem por lá e, por

muitas vezes, através de agulhas e tintas.

GAMBIARRA

A vontade de se tatuar surge por infinitos

motivos e nos faz descobrir inúmeras maneiras

de se marcar. É certo que a técnica

evoluiu muito, passando por espinhas de

peixe e agulhas de aço, de pedaços de madeiras

a máquinas elétricas. Mas o princípio

básico se mantém o mesmo desde sempre:

perfurar a pele para inserir pigmento.

Um exemplo é o que acontece nas cadeias

do mundo inteiro. A proibição da prática e

a falta de materiais adequados não impedem

a vontade de se fazer inscrições corporais

definitivas. A procura por soluções

une-se ao tempo ocioso da vida no cárcere e

alternativas começam a aparecer. Com paciência,

um clipe de metal ou uma corda de

violão podem se tornar uma agulha, ou até

sola de sapato pode se transformar em tinta.

Existem incontáveis receitas e formas de se

montar um equipamento básico para tatuagem.

Desde que se entenda o princípio, as

soluções começam a surgir a partir da criatividade

e disponibilidade de materiais.

* TATUAGEM E GAMBIARRA * 101


TATUAGEM DE CADEIA

MARA SALVATRUCHA E M-18

Gangues formadas por imigrantes de origem latina, como

salvadorenhos e mexicanos, que surgiram na década de 1980

entre ruas e presídios da Califórnia e atualmente se espalham

pelas Américas Central e do Norte. Era comum ver

os membros das gangues com tatuagens no rosto, pescoço

e mãos, lugares difíceis de serem vestidos e que mostram

a coragem e o desejo de pertencer à “família”, assumindo

permanentemente a identidade do grupo.

Conhecida como Vory v Zakone, ou “ladrões

na lei”, não costumam tatuar o rosto,

porém a complexidade e a riqueza de seus

códigos chamam a atenção. Sendo uma organização

hierárquica, as tatuagens têm o

papel de classificar a escala social dentro

da facção, contando também a história da

vida de quem as carrega.

MÁFIA RUSSA

Cortesia: John Sevigny

http://www.johnsevigny.org/

NO BRASIL

Os principais registros têm base na pesquisa

do psiquiatra Moraes Mello, que trabalhou no

Carandiru nos anos 1920, e analisou mais de

três mil diferentes marcas nos corpos dos detentos.

Além dos motivos estéticos e do ócio,

as tatuagens carcerárias pesquisadas apontaram

para traços da personalidade do criminoso,

mostrando tanto as especialidades do

detento no mundo do crime, quanto os seus

amores e preferências sexuais.

Confira mais fotos de tatuagens de cadeia em:

https://br.pinterest.com/taiom/

102

* TATUAGEM E GAMBIARRA *


MATERIAIS

BÁSICOS PARA

TATTOO

AGULHA

O que faz a tatuagem não é a máquina especial

desenvolvida para a prática. Basta ter agulha e

tinta e, manualmente, ponto por ponto, furo por

furo, pode-se fazer uma “tattoo”. E por agulha,

entende-se qualquer objeto rígido e afiado a ponto

de perfurar a pele, como por exemplo, a corda

Mi de metal do violão.

TINTA

A maioria das tintas é composta basicamente por

três componentes: pigmento, que pode ser mineral

ou vegetal e confere coloração; veículo, que é o

material para transportar o pigmento, normalmente

substâncias aquosas ou oleosas; e o aglutinante, como

resina acrílica ou cola, que vai fixar o pigmento à superfície.

No caso da tatuagem, a cicatrização da pele

é responsável pela fixação do pigmento, portanto não

se utiliza aglutinante. Para o pigmento preto, usa-se

o carbono, recolhido como fuligem proveniente da

queima de carvão ou madeira.

PIGMENTO

Existem diferentes formas de se fazer a tinta a partir

do pigmento extraída da queima. Adicionando

somente água, temos a tinta mais básica e primitiva.

Mas outras receitas podem incluir a mistura de

shampoo para dar mais consistência à tinta, e mesmo

vodka ou gim. Ou então, utilizar urina da própria

pessoa a ser tatuada, o que mesmo soando bem estranho,

pode prevenir infecções e ajudar na cicatrização.

103


A máquina de tatuagem elétrica moderna foi

adaptada de um modelo de caneta para gravação

em metal patenteado por Thomas Jefferson.

Este modelo utiliza-se de um eletroímã,

mas existem outros que usam a força de um

pequeno motor elétrico. O que essas versões

fazem, na verdade, é apenas repetir o movimento

de "sobe e desce" necessário para que a

agulha perfure a pele repetidas vezes, fazendo

os pontos em sequência tornarem-se uma única

linha. Movimento este que pode ser pacientemente

repetido à mão, segurando diretamente

a agulha com a ajuda de uma haste e furando

ponto a ponto.

MÁQUINA

de três partes básicas: motor, base em forma

de L e ponteira. O motor pode ser encontrado

em diferentes aparelhos elétricos, como toca-

-fitas, videocassete, escova de dentes elétrica,

videogame, carrinho de controle remoto, barbeador,

CD player, etc. Ele é responsável pelo

movimento circular, que a partir da inserção de

um contraeixo passa a ter um diâmetro de giro

maior, dando a distância necessária para o movimento

da agulha. A base em forma de L é a

peça central onde se apoiam o motor e a ponteira,

colocando-os em ângulo de 90º. A ponteira

é o bico da máquina, onde o tatuador a segura

e por onde a agulha passa internamente.

A maioria das máquinas caseiras ou carcerárias

utilizam um motor de rotação e são compostas

CONFIRA NO TUTORIAL A SEGUIR COMO

MONTAR A SUA.

FACTA

VOCÊ

MESMO

FAÇA VOCÊ MESMO

SUA MÁQUINA DE

TATTOO

FACTA

COM

ATENÇÃO

DIY

104

* TATUAGEM E GAMBIARRA *


MATERIAIS

• Lapiseira 0,7

(ou de numeração maior)

• Colher ou garfo velho

• Fita isolante

• Agulha de costura

• Raio de bicicleta

• Fio-dental

• Isqueiro

• Tesoura e estilete

• Carregador de celular

(que não tenha mais uso)

• Motor DC de rotação

(3 a 6 Volts)

BIBLIOGRAFIA

RAMOS, Célia Maria Antonacci. Teorias

da tatuagem: corpo tatuado: uma analise da

loja Stoppa Tattoo da Pedra. Florianópolis:

UDESC, 2001.

SIDOROV, Alexander. Russian Criminal

Tattoo Encyclopaedia. Volumes I, II, e III.

Londres: FUEL, 2008.

TOFFOLLI, Rodrigo de Oliveira. Corpos

Tatuados: preliminares a uma abordagem

semiótica. In: Estudos Semióticos, no 1. São

Paulo, 2005.

* TATUAGEM E GAMBIARRA * 105


INFORMAÇÕES BÁSICAS

Antes de se arriscar a marcar você ou seus

colegas de forma permanente, existem alguns

princípios básicos. O primeiro já foi

dito, mas vale relembrar para deixar bem

claro: TATUAGEM É PERMANENTE!

Existem alguns procedimentos de remoção

à laser, mas além de caros e doloridos, não

garantem a remoção completa dos pigmentos

da pele e podem causar cicatrizes ainda

maiores que a marca do arrependimento.

Outro ponto tão óbvio quanto importante é

que o ato de tatuar exige procedimentos básicos

de biossegurança e assepsia. Por entrar

em contato direto com o sangue, é considerado

pela Anvisa como uma microcirurgia e seu

exercício deve obedecer a critérios rígidos.

Na gambiarra caseira ou carcerária é possível

se atentar apenas a princípios básicos de esterilização

e limpeza. O álcool pode ajudar

a limpar a área de procedimento e do corpo

a ser tatuada e com um isqueiro pode-se esquentar

a agulha a ser usada, com o intuito

de eliminar germes e bactérias. Utilizar luvas

garante a segurança do tatuador, ao evitar o

contato direto com o sangue do tatuado. E

o mais importante é que todo material que

entrar em contato com sangue deve ser descartado.

Isso inclui luvas, agulhas e a própria

ponteira da máquina. Agulhas JAMAIS

devem ser reaproveitadas!

Além disso, para ajudar os aventureiros, vale

dizer que a agulha deve perfurar entre 2 e 4

milímetros da pele da corajosa cobaia. Isso é,

em média, a distância em que se passa da primeira

para a segunda camada da derme, mas

pode variar de pessoa para pessoa e também de

acordo com a região do corpo.

Referência técnica Anvisa para tattoo e piercing: http://bit.ly/2gjNhKZ

106

* TATUAGEM E GAMBIARRA *


TATTOO AND GAMBIARRA

by Taiom Almeida

"Nothing is closer to human communication Than our own body. "

Célia Maria Ramos

Tattoo

Technically, it is a subcutaneous application obtained through

the introduction of pigments in the skin, using needles, in

order to make visible some permanent mark. In addition,

tattoos are related to aggregate historical-social concepts,

which naturally diverge from each cultural context and have

transformed over its 5,000-year history. They have already

served as a symbol of sacred strength or status of nobility, and

also as a guide in the world of the dead or for the cure of

diseases. The tattoo also had its moments of stigma, sometimes

with pride, sometimes with regret, for slaves, nobles, thieves,

warriors, prisoners, prostitutes and Christians.

Indifferent to its aggregate cultural value, it carries something

of intimate in the human relationship. It is the way to write on

the body itself, to use it as a platform for visual communication.

The boundary line that separates the self from the others, the

envelope of the individual, the skin, which, because it is so

intimate to each one, is the crudest form of relationship. It is

the first place for the wills of the self to emerge, which may

originate in infinite motives, but which appear there and

often through needles and paints.

Gambiarra

The will to tattoo oneself arises for infinite reasons and makes

us discover innumerable ways of marking. It is true that the

technique has evolved greatly, ranging from fish bones and

steel needles, from pieces of wood to electrical machines. But

the basic principle remains the same since ever: puncture the

skin to insert pigment.

An example is what happens in prisons around the world.

The prohibition of practice and the lack of adequate materials

don’t prevent the will to make definitive corporal inscriptions.

The search for solutions joins the idle time of prison life and

alternatives begin to appear. With patience, a metal clip or

a guitar string can become a needle, or even shoe soles can

turn into paint. There are countless recipes and ways to

assemble a basic tattoo equipment. As long as the principle is

understood, solutions begin to emerge from creativity and the

availability of materials.

Prison Tattoo - Mara Salvatrucha and M-18

Gangs made up of immigrants of Latin origin, such as

Salvadorans and Mexicans, who emerged in the 1980s

on California's streets and prisons and are now scattered

throughout Central and North America. It was common

to see gang members with tattoos on their faces, necks and

hands, places that are difficult to dress and show the courage

and desire to belong to the "family," permanently assuming

the identity of the group.

* photos: https://br.pinterest.com/taiom/maras/

Russian Mafia

Known as Vor v. Zakone, or "thieves in the law," they don’t

usually tattoo their faces, but the complexity and richness

of their codes draw attention. Being it a hierarchical

organization, tattoos have the role of classifying social

scale within the faction, also telling the story of the life

of the bearer.

* photos: https://br.pinterest.com/taiom/vor-v-zakone/

In Brazil

The main records are based on the research of psychiatrist

Moraes Mello, who worked at Carandiru in the 1920s, and

analyzed more than three thousand different marks on the

bodies of inmates. In addition to the aesthetic motives and

idleness, the researched prison tattoos pointed to traits

of the criminal's personality, showing both the inmates'

specialties in the world of crime, as well as their love and

sexual preferences.

* photos: https://br.pinterest.com/taiom/carandiru/

Needle And Ink

What the tattoo does is not the special machine developed

for practice. One just have to have the needle and ink and

manually, point by point, hole by hole, can do a "tattoo". And

by needle, we mean any rigid and sharp enough object to

puncture the skin, such as the Mi metal string of the guitar:

Most paints are composed basically of three components:

107


pigment, which can be mineral or vegetal and confers color;

vehicle, which is the material for transporting the pigment,

usually aqueous or oily substances; and the binder, such as

acrylic resin or glue, which will attach the pigment to the

surface. In the case of tattooing, the healing of the skin is

responsible for fixing the pigment, so no binder is used. For

the black pigment, carbon, collected as soot from the burning

of coal or wood, is used.

There are different ways of making the ink from the pigment

extracted from the burning. Adding only water, we have the

most basic and primitive paint. But other recipes may include

mixing shampoo, to give more consistency to the paint,

and even vodka or gin. Or, use the person's to be tattooed

own urine, which, even sounding very strange, can prevent

infections and help in healing.

Machine

The modern electric tattoo machine has been adapted from a

patented metal engraving pen modeled by Thomas Jefferson.

This model uses an electromagnet, but there are others that

use the power of a small electric motor. What these versions

actually do is just to repeat the "up and down" movement

necessary for the needle to pierce the skin over and over again,

making the sequenced stitches become a single line. This

movement can be patiently repeated by hand, directly holding

the needle with the help of a rod and sticking point to point.

Most homemade or prison machines use a rotating motor

and are composed of three basic parts: motor, L-shaped base

and ferrule. The motor can be found in different electrical

appliances such as cassette players, VCR, electric toothbrush,

video game, remote control cart, shaver, CD player, etc. It

is responsible for the circular movement, which from the

insertion of a countershaft happens to have a larger turning

diameter, giving the necessary distance for the movement of

the needle. The L-shaped base is the center piece where the

motor and the tip rest, placing them at a 90º angle. The ferrule

is the nozzle of the machine, where the tattooer holds it and

where the needle passes internally. Check out the simplified

tutorial below to learn how to set up yours:

Materials:

- pencil 0.7 or larger

- spoon or old fork

- insulating tape

- sewing needle

- bicycle radius

- floss

- lighter

- scissors and stylus

- cell phone charger (not being used anymore)

- DC motor (3-6 V)

* Illustration: Machine 1, 2, 3, 4 and 5.

Basic Information

Before you risk marking yourself or your colleagues

permanently, there are a few basic principles. The first has

already been said, but it is worth saying it again: TATTOO IS

PERMANENT! There are some laser removal procedures,

but apart from being expensive and painful, they don’t

guarantee the complete removal of the pigments from the

skin and can cause scars even greater than the mark of regret.

Another point, as obvious as it is important, is that the

act of tattooing requires basic procedures of biosafety and

asepsis. By coming into direct contact with the blood, it

is considered by Anvisa as a microsurgery and its exercise

must obey strict criteria.

In home or prisons’ gambiarra it is possible to pay attention

only to basic principles of sterilization and cleaning. Alcohol

can help cleanse the area of the procedure and body to be

tattooed and with a lighter you can warm up the needle to be

used, in order to eliminate germs and bacteria. Using gloves

ensures the tattooist's safety by avoiding direct contact with

the tattooed's blood. And the most important thing is that

any material that comes in contact with blood should be

discarded. This includes gloves, needles, and the machine tip

itself. Needles NEVER should be reused!

In addition, to aid the adventurers, it is worth saying that

the needle must puncture between 2 and 4 millimeters of the

skin of the brave guinea pig. That is, on average, the distance

from the first to the second layer of the dermis, but it can

vary from person to person and also according to the region

of the body.

*Anvisa norms for tattoo and piercing: http://bit.ly/2gjNhKZ

BIBLIOGRAPHY

RAMOS, Célia Maria Antonacci. Teorias da tatuagem:

corpo tatuado: uma analise da loja Stoppa Tattoo da Pedra.

Florianópolis: UDESC, 2001.

SIDOROV, Alexander. Russian Criminal Tattoo

Encyclopaedia. Volumes I, II, e III. Londres: FUEL, 2008.

TOFFOLLI, Rodrigo de Oliveira. Corpos Tatuados:

preliminares a uma abordagem semiótica. In: Estudos

Semióticos, no 1. São Paulo, 2005.

108

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TAPP

E A POTÊNCIA DAS IMAGENS PRECÁRIAS

por Azucena Losana e Carolina Andreetti


O

s projetores de transparências

ou slides são dispositivos analógicos

ótico-mecânicos desenhados

para projetar filmes positivos

em grandes dimensões. Durante a década

de 1950, no boom de eletrodomésticos dos

EUA, desenvolveu-se o primeiro aparelho

de uso caseiro para a projeção de imagens

estáticas, com inspiração na lanterna mágica,

inventada no século XVII. A indústria

fotográfica amadora à cores já estava bem estabelecida

na classe média pela Kodak (nos

EUA), Agfa (na Europa) e Fuji (no Japão).

O filme positivo colorido tinha uma vantagem

sobre a fotografia, que era requerer somente

um estágio no processo de revelação.

Além disso, o rolo sendo enviado ao laboratório,

o que retornava era apenas uma caixa

de fotogramas, montados em molduras plásticas

compactas, e não envelopes com papel

fotográfico pesado. As projeções tornaram-se

um evento social onde se emulava a projeção

de um filme estrelado pela própria família,

precedendo o cinema amador de 16 e 8 mm.

Os projetores de slides tiveram seu pico de

popularidade entre os anos 1960 e 70, quando

multiplicaram-se em modelos compactos,

simples e relativamente baratos. Os fabricantes

japoneses buscavam reduzir o tamanho dos

aparelhos e os americanos, a automatização.

Os projetores tiveram um grande uso na educação

e em apresentações, e podiam ser encontrados

em diferentes modelos: automático,

manual ou semiautomático, de carretel linear

ou circular. Também foram fabricadas variantes,

como o retroprojetor. Até o final dos

anos 1970, era comum ver esses equipamentos

em reuniões familiares, aulas em grupo,

conferências e exposições. Estes aparelhos

formaram também parte da experimentação

audiovisual de artistas e realizadores nas

Os retroprojetores foram, por muitos anos, o equipamento básico para projeção de imagens em sala de aula.

* TAPP E A POTÊNCIA DAS IMAGENS PRECÁRIAS * 111


Colaboração entre Pablo Light Show & San Fransisco Light Works “The Last of the Best”. Foto: Jay Moss.

psicodelia lumínica que acompanhou o rock

nos anos 1960 e 70.

Com o avanço da tecnologia digital, o

mercado analógico começou a retrair-se.

Os componentes e peças de reposição deixaram

de ser fabricados, saindo da cadeia

de produção industrial. Lentamente, estes

dispositivos foram entrando no gabinete

dos aparatos sem serventia.

Com o TAPP (Taller de

Proyectores Precarios ou

“Oficina de projetores precários”,

em Português) nos

propusemos a lançar um espaço de pesquisa,

desenvolvimento e construção de projetores

analógicos, utilizando recursos e

materiais disponíveis atualmente. Nossos

projetores são protótipos de código aberto,

que podem ser transformados conforme

a necessidade. Pensamos estes dispositivos

como "próteses", extensões do corpo do

O precário requer manutenção,

atenção personalizada

e soluções precisas para

cada modelo.

performer. A ilusão de movimento é executada

pelo projecionista, seja movendo o modulador

em um dos eixos ou vedando a luz

com a palma da mão. Por esta razão, é uma

ferramenta ideal para a montagem de um

cinema sem película, permitindo também

o uso de objetos, texturas, tintas, óleos, etc.

Para a construção dos diferentes protótipos,

utilizamos papelão

coletado nas ruas ou MDF.

Estes materiais permitem

ser modificados manualmente

ou utilizando-se

ferramentas simples. Deste

modo, o foco de nosso trabalho vai além

da construção de um dispositivo de projeção,

concentrando-se em explorar suas

possibilidades visuais e performáticas.

Os projetores que construímos são "precários",

o que pode significar várias coisas: em

primeiro lugar, pode-se construir um proje-

112

* TAPP E A POTÊNCIA DAS IMAGENS PRECÁRIAS *


Frank Zappa and the Mothers of Invention com projeções analógicas do Joshua Light Show, nos anos 1960.

tor muito rapidamente – algumas horas de

trabalho são o suficiente para vê-lo funcionando.

Eles são também estruturas instáveis,

suas peças podem soltar ou cair: o precário

requer manutenção, atenção personalizada e

soluções precisas para cada modelo. Soluções

que, às vezes, não serão repetidas. Soluções

sob medida para cada projetor, únicas.

Entendemos estes aspectos

do "precário" que se

manifestam em nossos

projetores como um potencial

de transformação.

Algo instável, que perde

seu equilíbrio, pode ser também a possibilidade

de uma mudança de estado. Nos

obriga a manter os sentidos em alerta,

encontrar soluções, resolver problemas.

Um dos modelos mais desenvolvidos no

TAPP, batizado de "Franky", é um projetor

de transparências feito de madeira MDF,

Algo instável, que perde

seu equilíbrio, pode ser

também a possibilidade de

uma mudança de estado.

lâmpada dicróica e lentes chinesas. O resultado

é o esqueleto de um sistema de projeção ao

qual se pode adaptar diferentes fontes de luz,

aparatos óticos e elementos de modulação.

Trabalhando com esses Frankys, aprendemos

a possibilidade de intercambiar três elementos

principais: a fonte de luz, a parte ótica e os

moduladores. Entendemos que, manejando estas

variáveis, podemos construir

inúmeros protótipos

para projeção de transparências

ou objetos opacos. No

entanto, o que nunca conseguimos

garantir é que dois

projetores serão iguais. Mesmo que utilizemos

as mesmas lentes, saídas do mesmo container

procedente da China, o resultado é sempre diferente

em distância focal ou luminosidade. Em

outras palavras, ao contrário da produção industrial,

que busca modelos em série, na construção

precária nós sempre temos diferenças, modelos

únicos e nenhuma padronização é possível.

* TAPP E A POTÊNCIA DAS IMAGENS PRECÁRIAS *

113


Galeria de projetores precários desenvolvidos pela TAPP em workshops.

Os moduladores são elementos que se

interpõem na trajetória da luz a ser projetada

através do sistema ótico. Em um projetor, a parte

ótica funciona como um microscópio, que

amplia o que, a olho nu, quase não percebemos.

Uma característica dos nossos projetores é

que podemos converter quase qualquer coisa

em um modulador de luz. Tudo que seja

transparente, translúcido ou permita a passagem

de luz sob a forma de contraste pode ser

material projetável.

Assim, encorajamos os participantes do

TAPP a ligarem suas antenas e colocarem seu

radar em “modo desfazer" ao andarem na rua,

para olharem com novos olhos, por exemplo,

utensílios de cozinha ou investigarem elementos

orgânicos como plantas ou insetos.

Grandes tesouros estão escondidos a nosso

redor, mesmo no lixo. Claro que podemos

também encontrar filmes de slides escondidos

em armários ou brechós, ou mesmo produzi-los

com pigmentos, tintas, gel ou óleo.

114

Um modelo que desenvolvemos em oficinas

curtas ou viagens é o "ZAPATAPP". Consideramo-lo

o modelo mais sintético e simples,

algo como a expressão mínima de um projetor:

uma caixa de sapatos ou de papelão, duas lentes

e uma fonte de luz. Se uma lanterna de LED

é usada como fonte de luz, obtemos ainda

um projetor sem fio, ideal para uso externo.

Outro aspecto desenvolvido no TAPP é a

experimentação de trabalho coletivo. Nossa

dinâmica de trabalho é de oficinas em grupo,

onde o conhecimento e as experiências são

compartilhadas de modo horizontal. Cada

edição do TAPP culmina na formação de

uma Orquestra Audiovisual Improvisada, em

que os participantes criam coletivamente uma

partitura que é executada ao final da oficina.

Com a Orquestra, nos interessa explorar as

possibilidades de projeção múltipla, as relações

sinestésicas entre luz e som e, acima de

tudo, a possibilidade de criação coletiva em

tempo real.

http://proyectoresprecarios.blogspot.com.ar/


TAPP

by Azucena Losana e Carolina Andreetti

AND THE POTENTIALITY

OF PRECARIOUS IMAGES

Transparency or slide projectors are optical-mechanical

analog devices designed to project large-scale positive films.

During the 1950s, in the U.S. home appliance boom, the

first homemade appliance was developed for the projection

of static images, inspired by the magic lantern, invented in

the seventeenth century. The amateur color photographic

industry was already well established in the middle class by

the work of Kodak (in the U.S.), Agfa (in Europe) and Fuji

(in Japan).

The colored positive film had an advantage over photography,

which was to require only one stage in the process of

revelation. In addition, the roll being sent to the lab, what

returned was just a box of frames, mounted in compact plastic

frames, and not envelopes with heavy photographic paper.

The projections became a social event where the projection of

a film starring the family itself was emulated, preceding the

amateur cinema of 16 and 8 mm.

Slide projectors had their peak of popularity between the

1960s and 1970s, when they multiplied into compact, simple,

and relatively inexpensive models. Japanese manufacturers

sought to reduce the size of appliances and the Americans,

the automation.

The projectors had great use in education and presentations,

and could be found in different models: automatic, manual or

semiautomatic, of linear or circular reel. Variants were also

made, such as the overhead projector. By the late 1970s, it

was common to see such equipment in family gatherings,

group lessons, conferences and exhibitions. These devices

were also part of the audiovisual experimentation of artists

and directors in the psychedelia of light that accompanied the

rock in the 1960’s and 70’s.

With the advancement of digital technology, the analogue

market begun to shrink. Components and spare parts were

no longer manufactured, leaving the industrial production

chain. Slowly, these devices were entered into the cabinet of

the apparatus without service.

With TAPP (Taller de Proyectores Precarios or "Workshop

of Precarious Projectors" in English) we set out to launch

a space for research, development and construction of

analog projectors, using resources and materials currently

available. Our projectors are open source prototypes, which

can be transformed as needed. We think of these devices as

"prostheses", extensions of the performer's body. The illusion

of motion is performed by the projectionist, either by moving

the modulator on one of the axes or sealing the light with the

palm of the hand. For this reason, it is an ideal tool for the

assembly of a cinema without film, also allowing for the use

of objects, textures, paints, oils, etc.

For the construction of different prototypes, we use cardboard

collected in the streets or MDF. These materials can be

modified manually or by using simple tools. In this way, the

focus of our work goes beyond the construction of a projection

device, concentrating on exploring its visual and performance

possibilities.

The projectors we build are "precarious", which can mean a

number of things: First, you can build a projector very quickly

- a few hours of work is enough to see it working. They are also

unstable structures, their parts can drop or fall: The precarious

requires maintenance, personalized attention and precise

solutions for each model. Solutions that sometimes will not

be repeated. Solutions tailored to each projector, unique.

115


We understand these aspects of the "precarious" that manifest in our projectors as a

potential of transformation. Something unstable, which loses its balance, may also

be the possibility of a change of state. It forces us to keep our senses on alert, to find

solutions, to solve problems.

One of the most developed models in TAPP, called "Franky", is an overhead

projector made of MDF wood, dichroic lamp and Chinese lenses. The result is the

skeleton of a projection system to which different light sources, optical devices and

modulation elements can be adapted.

Working with these Frankys we learned the possibility of exchanging three main

elements: the light source, the optical part and the modulators. We understand

that by manipulating these variables, we can construct numerous prototypes for

the projection of transparencies or opaque objects. However, what we can never

guarantee is that two projectors will be similar. Even if we use the same lenses,

from the same container from China, the result is always different in focal length

or brightness. In other words, unlike industrial production, which seeks models in

series, in precarious construction we always have differences, unique models, and

no standardization is possible.

The modulators are elements that interpose in the trajectory of the light to be

projected through the optical system. In a projector, the optical part functions like a

microscope, which enlarges what, with the naked eye, we hardly perceive. A feature

of our projectors is that we can convert almost anything into a light modulator.

Anything that is transparent, translucent or allows for the passage of light in the

form of contrast can be projectable material.

Thus, we encourage TAPP participants to connect their antennas and put their

radar in "undo mode" when they walk in the street, to look with new eyes, for

example, kitchen utensils or to investigate organic elements like plants or insects.

Great treasures are hidden around us, even in the trash. Of course, we can also find

hidden slides in cabinets or thrift stores, or even producing them with pigments,

paints, gel or oil.

One model that we develop in short workshops or trips is the "ZAPATAPP".

We consider it the most synthetic and simple model, something like the minimal

expression of a projector: A shoebox or cardboard box, two lenses and a light source.

If an LED flashlight is used as a light source, we also get a wireless projector, ideal

for outdoor use.

Another aspect developed in the TAPP is the experimentation of collective work.

Our work dynamics are group workshops, where knowledge and experiences are

shared horizontally. Each edition of the TAPP culminates in the formation of an

Improvised Audiovisual Orchestra, in which the participants collectively create

a score that is executed at the end of the workshop. With the Orchestra, we are

interested in exploring the possibilities of multiple projection, the synesthetic

relations between light and sound and, above all, the possibility of collective

creation in real time.

http://proyectoresprecarios.blogspot.com.ar/

116

* TAPP AND THE POTENTIALITY OF PRECARIOUS IMAGES *


CUIDADOS

PALIATIVOS

por Liliana Gil


“UÊ, ISSO AÍ QUE VOCÊ ESTÁ CHAMAN-

DO DE GAMBIARRA EU NÃO CONHEÇO,

NÃO!” Começávamos bem. A portuguesa

voou mais de sete mil quilômetros para investigar

a gambiarra e afinal está perdida nos

substantivos. “A gambiarra que eu conheço é

um fio com quatro ou cinco bocais. Isso sim é

gambiarra. Agora as outras coisas... isso chama-se

improviso, paliativo, quebra-galho…”

Do topo da sua laje com vista para a comunidade

do Adeus no Complexo do Alemão, Seu

Silva enfrentava sereno as minhas perguntas

mediadas por um aparato de filmagem montado

com fita adesiva numa tábua de passar.

Era a segunda semana que ali estava recolhendo

histórias sobre gambiarra. Enquanto

estudante de doutorado, tenho investigado

formas vernaculares de hacking e improviso,

como o desenrascanço em Portugal, ou a

jugaad na Índia. Por todo o lado se dá um

jeitinho, mas o modo como essas práticas são

reconhecidas e valorizadas varia muito de

lugar para lugar.

Com a ajuda de pessoas como o Seu Silva, as

percepções que tinha inicialmente foram se

complexificando. Sim, na favela os recursos

são muitas vezes escassos e as relações de propriedade

e trabalho incrivelmente precárias,

pelo que o improviso faz parte do dia-a-dia.

Mas se a impossibilidade de adquirir certos

produtos obriga as pessoas a darem um jeito,

a verdade é que os motivos que levam à

gambiarra não se esgotam na necessidade. Há

também o tempo a menos e o tempo a mais, a

falta de certos materiais e a relativa abundância

de outros, as infraestruturas estatais e privadas

que tardam em chegar, a especificidade

ou urgência de um determinado problema,

a apreciação da reutilização, ou até mesmo a

zoeira e o prazer de ser inventivo. Todos estes

motivos, por sua vez, se desdobram em intrincados

mapas semânticos que refletem o que

significa viver improvisando no Adeus.

Há mais de quarenta anos vivendo na favela,

boa parte dos quais trabalhando como pedreiro

e, mais tarde, construtor, o Seu Silva

foi um dos maiores peritos no tema que

encontrei. O acumular de experiência fez

dele um taxonomista do improviso, alguém

que distingue com nuance entre coisas como

gatos, gambiarras e paliativos. Gatos, me

ensinou, dizem respeito às ligações de luz,

internet e TV a cabo feitas pelos moradores,

ligações essas que, apesar da aparente desorganização,

formam elaborados sistemas

de distribuição de serviços na comunidade.

Gambiarra é para ele uma técnica utilizada

nos gatos de luz que serve para transformar


um fio abastecedor em várias linhas elétricas.

Nenhuma destas práticas é necessariamente

improvisada. Já os paliativos – que incluem

quebra-galhos e gatilhos –, esses sim, são a

joia da coroa da inventividade e o verdadeiro

segredo do negócio da construção.

Quando surge um imprevisto, quando você

tem um trabalho encomendado mas de repente

algo quebra ou está em falta e o tempo

é limitado e os recursos também, o que

é que você faz? Um paliativo. “Paliativo é

tudo aquilo que você faz ali de provisório”, na

hora. O cliente não tem que saber. (Aliás, é

até melhor que não saiba.) Com o humor que

caracteriza o assunto, Seu Silva partilhou comigo

algumas das suas aventuras. Teve aquela

vez em que o depósito de água do carro

se estragou e ele consertou com uma garrafa.

E aquela em que ele se esqueceu do garfo e

acabou almoçando com uma colher que fez a

partir de um balde de plástico. E aquela outra

em que reparou o fundo duma caixa de água

com o tampo duma mesa, e a outra ainda em

que o cano da Dona Alva rompeu e ele salvou

a situação com uma junta velha de bicicleta.

Um bom construtor tem que dominar a arte

dos cuidados paliativos.

Desde a nossa conversa que penso no termo.

Enquanto especialidade médica, os cuidados

paliativos ocupam-se de doentes terminais,

daqueles que, não podendo ser curados, podem

ao menos ser aliviados. Que coisas são

estas que estão quebrando e vão sendo cuidadas

pelas mãos de Seu Silva? Doutor da vida

das coisas, tratando ruínas, adiando permanentemente

a catástrofe. Como quem assiste

um paciente incurável, Seu Silva emenda e

remenda o chão, as paredes, os telhados, os

canos e a luz, aliviando os efeitos negativos

de uma condição sem modificar a sua causa.

E embora a sua intenção é que funcionem

como soluções temporárias, muitos dos seus

paliativos vão ficando, ficando, ficando, até

que viram permanentes, entrando no limbo

das quimeras concretas.

O riso de Seu Silva ressoava pela laje afora,

atravessando casas e ruelas inclinadas. Seu orgulho

nos seus improvisos era evidente, mas

cauteloso. "Paliativo não é bom, bom é você

fazer a coisa certa”, repetia. Afinal de contas,

a constante remediação do mundo é uma

tarefa arriscada e a gambiarra é uma habilidade

sem ética – pode ser utilizada para fins muito

diferentes. E como que antecipando qualquer

entusiasmo excessivo que eu pudesse ter com

a criatividade da favela, ele frisava que nada

daquilo era específico dali e que a necessidade

de improviso, mesmo não sendo igual para todos,

é uma condição universal. “A necessidade

faz você ter que fazer certas coisas, você tem

que improvisar, não tem jeito. Não é a favela…

A vida em si ensina que temos que nos virar.”


PALLIATIVE CARE

por Liliana Gil

“I have no idea of what you’re talking about.” He paused and

I got worried. “Gambiarra is an electrical wire with four or

five outputs, that’s gambiarra. Those other things you’re bringing

up are improvisations, palliative remedies, quick fixes...”

(Interview with Seu Silva, Complexo do Alemão, 08.15.2015)

As a student and researcher in anthropology, I’ve been

interested in vernacular forms of technological improvisation

– things like gambiarra in Brazil or jugaad in India.

Admittedly, forms of resourceful repurposing take place

everywhere in the world. And yet, these practices can be

recognized and valued in very different ways depending on

a number of circumstances, from their institutional framing

to the functions they achieve, or the expectations about

their authors’ abilities and the materials involved.

With the help of Seu Silva I confirmed the obvious – that,

in the Brazilian poor peripheries known as favelas, resources

are so scarce and property and labor relations are so precarious

that improvisation becomes a very significant part

of daily-life. But I also learned that the values of gambiarra

are not limited to poverty and necessity. There are many

other reasons to perform it, including: having too much

or not enough time; the lack or abundance of a particular

material; the delays in the arrival of state and private

infrastructure; the specificity or urgency of a problem; even

humor and play, zoeira, and the pleasure in being inventive.

All these unfold into complex semantic maps about

what it means to improvise with materials in Seu Silva’s

neighborhood.

Seu Silva has worked as a construction worker for more

than forty years. He is an expert in gambiarra, distinguishing

with nuance between many different notions that I

had never heard before. Gatos, he explained, are the electrical,

TV, and internet connections made by residents.

Apparently informal, these form, in fact, sophisticated distribution

networks organized according to a zoning system.

Gambiarra, in its turn, is a sort of gato subcategory, a technique

used to turn one electrical supply wire into several.

None of these practices is necessarily improvised.

To understand improvisation, I was told, I would have to

look into “palliatives” – including quebra-galhos and gatilhos

– the crown jewel of ingenuity and “the true secret of the

construction business.”

When something unexpected goes wrong, when you have

a job to finish and something breaks or is missing and

time is short and resources as well, you make a palliative.

“Palliatives are anything that you make provisionally, in

that very moment.” Nobody needs to know you did it.

With the sense of humor that often characterizes the subject,

Seu Silva shared with me some of his stories. There

was that time when his car’s water tank broke and he fixed

it with a PET bottle. And that other time when he forgot

his fork and ended up eating his lunch with a spoon made

from a plastic bucket. And the other one when he fixed the

bottom of a cistern with a table top. When Dona Alva’s

pipe broke, he saved the day with a joint from an old

bike. A good construction worker must master the art of

palliative care.

The term stuck with me. As a medical domain, palliative

care provides patients with relief from the pain and stress

of an illness that cannot be cured. What are these things

that keep on breaking and are cared for by the hands of

Seu Silva? Doctor of things, treating the life of ruins,

constantly mitigating and delaying catastrophes. Just like

someone who relieves a terminal patient, Seu Silva fixes

floors, walls, ceilings, pipes and wires, lessening symptoms

without addressing their cause. And even though his

intention is that these palliatives work as provisional solutions,

many of them linger; they linger until they become

permanent and enter the limbo of object chimeras.

Seu Silva’s laugh could be heard far away, I was sure, resounding

from the terrace through the neighborhood’s

narrow windy streets. His pride in his improvisations was

evident, but he was also cautious: “palliatives aren’t good;

good is to do it right,” he repeated. After all, the permanent

remediation of life is a risky business and gambiarra

is an ability without ethics – it can be used for many different

ends. And as if warning me of the dangers of excessive

enthusiasm for “the poor’s way,” Seu Silva stressed that

necessity, although not equal for all, is a universal condition.

“Necessity makes you do certain things, you must improvise,

there’s no other way. But it’s not the favela... Life itself

teaches that you got to find a way.”

120


EM BUSCA DA

GAMBIARRA PERFEITA

por Maira Begalli

J

á faz mais de dez anos, mas lembro

do primeiro dia de aula na graduação

em Gestão Ambiental. O professor

chegou na sala e disse: “Quero que

vocês façam o seguinte exercício: deletem desse

ambiente tudo o que deriva de plástico e escrevam

o que restou em uma folha”. Todo mundo

escreveu um monte de coisa. Passados alguns

minutos, ele corrigiu a todos. O correto é que o

plástico estava em tudo: do fio sintético usado

para fazer lingeries até a tinta da parede. Ou

seja, o petróleo, matéria-prima utilizada para o

fazer o plástico, era onipresente.

O petróleo é um combustível fóssil, encontrado

em formações geológicas subterrâneas,

produto da decomposição de grandes

quantidades de matéria orgânica, submetidas

a altas temperaturas e pressão, há 150

milhões de anos. Até aí nada de novo... O

uso do petróleo foi adotado por populações

humanas há milhares de anos e ganhou amplitude

na sociedade contemporânea com o

consumo do querosene em larga escala, no

final do século XIX, na segunda fase da Revolução

Industrial, para suprir a crescente

demanda por iluminação das cidades. Desde

então, sua queima tem liberado a energia

solar acumulada pelos vegetais e organismos

fossilizados agregados em sua composição,

datada de um pouquinho depois de

que o mundo passou a ser mundo. Arrisco

a dizer que extrair um líquido viscoço de

grandes profundidades da terra e do oceano

e depois transformá-lo em tudo quanto é

coisa que possa ser vendida e descartada em

larga escala foi a maior gambiarra do capitalismo

em relação ao planeta Terra.

O problema é que todo sistema ecológico

possui pontos de equilíbrios, que quando

rompidos provocam consequências que o

121


dinheiro não pode conter. As atividades de

extração, transformação, produção e descarte

de itens confeccionados a partir do “ouro

negro” (além de grandes vazamentos) alteraram

muitos dos processos ocorridos nos

ecossistemas. Tudo isso ainda foi somado ao

advento dos meios de transportes motorizados,

da motocicleta de entrega do motoboy

aos grandes navios intercontinentais atravessando

oceanos com cargas de todo tipo - incluindo

patinhos de borracha que, vez outra,

ainda são encontrados no litoral, anos após o

tombamento de um container repleto deles 1 .

É possível, por exemplo, citar a influência

desse ciclo no estudo de pássaros na Ilha

Midway, parte do território dos Estados

Unidos da América, localizada no Oceano

Pacífico, entre a América do Norte e a Ásia.

Os pássaros comem plástico no oceano e

morrem no paraíso 2 .

Voltemos aos vazamentos. O maior desastre

ambiental envolvendo petróleo da história

aconteceu em 20 de abril de 2010, na plataforma

Deepwater Horizon, localizada no

Golfo do México. Os impactos foram noticiados

durante bastante tempo e muita gente

já deve ter esquecido sem nunca ter feito

correlação com seus hábitos. Mas nem todo

mundo. Foi nessa época que surgiu o Protei,

uma iniciativa para desenvolvimento de drones

que possuem movimentos similares aos

de cobras e utilizam as correntes marítimas

para coletar poluentes 3 .

2014. Parece que a situação complicou um

pouco mais. No Brasil é ano de eleição, e

nesse país de biodiversidade gigantesca (porém

também em declínio) ainda é propagado

o desenvolvimento e o progresso por meio

da bonança proporcionada pelas jazidas do

pré-sal. Uma perspectiva caída, que se baseia

na urbanização e na fabricação de bens

de consumo, um modelo de desenvolvimento

estabelecido no século XIX e que apresenta

altas probabilidades de impactos ambientais

de grandes proporções, provocados por vazamentos

de petróleo e derivados, como os

ocorridos recentemente em 11 praias dos municípios

de São Sebastião e Caraguatatuba,

litoral norte do estado de São Paulo.

122

* EM BUSCA DA GAMBIARRA PERFEITA *


Enquanto isso, entre a comunidade acadêmica

pipoca a urgência de todos os países revisarem

seus modelos “de operar”. Depois de

anos e anos de queima e extração do óleo que

vale ouro, parece que foi acionado um mecanismo

chamado “bombas de clarato”. Mas

o que é isso? Imagine que o gelo do Ártico,

além de refletir a luz solar e evitar uma maciça

absorção de calor, também “aprisionasse”

hidratos ou claratos de metano. Com o degelo,

uma quantidade significativa de metano

passaria a ser liberada na atmosfera. A consequência?

Aumento da temperatura da Terra

e a possível extinção da humanidade em um

curto período de tempo. Situações surreais

começam a dar as caras: a Terra perdeu um

pouco da sua gravidade 4 , uma epidemia de

Ebola passou a nos sondar junto com a queda

dos reservatórios de água potável 5 .Para piorar,

a Rússia acaba de anunciar a descoberta,

no oceano Ártico, de um campo de petróleo

maior que o do Golfo do México e vai começar

a extração 6 . Será o fim?

Pode ser, mas “ainda” acredito que não.

Nós, humanos, que fizemos tanta estupidez

mas também descobrimos coisas geniais,

não poderíamos fazer mais uma gambiarra?

E se houvesse uma forma de absorver em

massa esse metano? Um enxame de drones

no Ártico? Ou refletir a luz solar, como a

superfície branca?

Talvez ainda tenhamos tempo para hackear

1. http://portaldomar.blogspot.com.

o que br/2013/08/o-que-podem-28000-patos-deborracha.html

nós mesmos fizemos e tentar a gambiarra

2. nessa ferida http://www.youtube.com/

7 . Por isso vale atentar para

a relevância

watch?v=swgPHqIbhSY

dos software e hardware livres e

3. http://edition.cnn.com/2011/10/20/

abertos, tech/motherboard-sailing-drone/

feitos com materiais de baixo custo e

4. http://www.slate.com/blogs/future_

reciclados, tense/2014/09/29/antarctic_ice_melt_causes_

para mitigar ou recuperar impactos

e 5. gerar uma http://prosperouswaydown.com/ebola-

economia diferente, baseada

small_shift_in_gravity.html?wpsrc=fol_tw

na prestação

game-changer/

de serviços ambientais

6. http://www.zerohedge.com/

8 .

news/2014-09-27/russia-discovers-massivearctic-oil-field-which-may-be-larger-gulf-mexico

1. http://portaldomar.blogspot.com.br/2013/08/o-que-podem-

28000-patos-de-borracha.html

7. http://brasil.elpais.com/

2. http://www.youtube.com/watch?v=swgPHqIbhSY

brasil/2014/09/29/opinion/1412000283_365191.

3. http://edition.cnn.com/2011/10/20/tech/motherboardsailing-drone/

8. http://www.cesarharada.com/the-

html

political-relevance-of-open-hardware/

4. http://www.slate.com/blogs/future_tense/2014/09/29/

antarctic_ice_melt_causes_small_shift_in_gravity.

html?wpsrc=fol_tw

5. http://prosperouswaydown.com/ebola-game-changer/

6. http://www.zerohedge.com/news/2014-09-27/russiadiscovers-massive-arctic-oil-field-which-may-be-largergulf-mexico

7. http://brasil.elpais.com/brasil/2014/09/29/

opinion/1412000283_365191.html

8. http://www.cesarharada.com/the-political-relevance-ofopen-hardware/

* EM BUSCA DA GAMBIARRA PERFEITA *

123


IN SEARCH OF THE

PERFECT GAMBIARRA

by Maira Begalli

It's been more than ten years, but I remember the first day of

classes in Environmental Management. The teacher came into

the room and said, "I want you to do the following exercise: delete

everything that comes from plastic in this room and write

what's left on a sheet of paper." Everyone wrote a lot of things.

After a few minutes, he corrected everyone. The right thing is

that plastic was in everything: from the synthetic yarn used to

make lingeries up to the paint on the wall. That is, oil, the raw

material used to make plastic, was omnipresent.

Petroleum is a fossil fuel found in subterranean geological formations,

product of the decomposition of large quantities of organic

matter, subjected to high temperatures and pressure 150

million years ago. Until then nothing new... The use of oil was

adopted by human populations for thousands of years and had

gained breadth in contemporary society with the consumption

of large-scale kerosene, in the late nineteenth century, in the

second phase of the Industrial Revolution, to meet the growing

demand for city lighting. Since then, its burning has released

the solar energy accumulated by fossilized plants and organisms

aggregated in its composition, dated a little after the world

became world. I venture to say that extracting a viscous liquid

from great depths of land and ocean and then turning it into

everything that can be sold and discarded on a large scale was

the greatest gambiarra of capitalism in relation to planet Earth.

The problem is that every ecological system has points of equilibrium,

which when broken have consequences that money

can not contain. The activities of extraction, transformation,

production and disposal of items made from this "black gold"

(in addition to large leaks) have altered many of the processes

occurred in ecosystems. All this has been added to the advent

of motorized means of transportation, from motorcycle delivery

to large intercontinental ships crossing oceans with loads

of all kinds - including rubber ducks that, once in a while are

still found on the coasts, years after the tipping of a container

full of them 1 .

It is possible, for example, to cite the influence of this cycle on

the study of birds on Midway Island, part of the territory of

the United States of America, located in the Pacific Ocean,

between North America and Asia. Birds eat plastic in the

ocean and die in paradise 2 .

Let's go back to the leaks. The largest oil-related environmental

disaster ever happened on April 20, 2010 on the Deepwater

Horizon platform in the Gulf of Mexico. The impacts

have been reported for a long time and many people may have

forgotten it without ever having correlated with its habits. But

not everyone. It was at this time that Protei emerged, an initiative

to develop drones that have snake-like movements and

use sea currents to collect pollutants 3 .

2014. It seems that the situation complicated a little more. In

Brazil it is a year of election, and in this country of gigantic

(but also declining) biodiversity, development and progress

are still propagated through the bonanza provided by the presalt

deposits. A bottom-up perspective, based on urbanization

and the manufacture of consumer goods, a development

model established in the nineteenth century and presenting

high probabilities of large-scale environmental impacts

caused by oil spills and by-products, such as those recently

happened in 11 beaches in the municipalities of São Sebastião

and Caraguatatuba, north coast of the state of São Paulo.

Meanwhile, among the academic community there is the urgent

need for all countries to revise their "operating" models.

After years and years of burning and extraction of oil that is

worth gold, it seems that a mechanism called "clarato bombs"

was fired. But what is this? Imagine that the Arctic ice, in addition

to reflecting sunlight and avoiding massive heat absorption,

also "trapped" hydrates or clarans of methane. With the

snowbreak, a significant amount of methane would be released

into the atmosphere. The consequence? Rising Earth's temperature

and the possible extinction of mankind in a short time.

Surreal situations are starting to take over: the Earth has lost

some of its gravity 4 an epidemic of Ebola has come to plumb us

along with the dropping of potable water reservoirs 5 . To make

matters worse, Russia has just announced the discovery, in the

Arctic Ocean, of an oil field larger than that of the Gulf of

Mexico and extraction will begin 6 . Is it the end?

It may be, but I "still" think it is not. We humans, who did

great stupidity but also discovered great things, could not

make another gambiarra? What if there was a way to absorb

this methane? A swarm of drones in the Arctic? Or reflect the

sunlight, like the white surface?

Maybe we still have time to hack what we've done ourselves

and try to make a gambiarra in this wound 7 . Therefore, it is

important to consider the relevance of open and free software

and hardware, made with low-cost and recycled materials, to

mitigate or recover impacts and generate a different economy

based on the provision of environmental services 8 .

1. http://portaldomar.blogspot.com.br/2013/08/o-que-podem-

28000-patos-de-borracha.html

2. http://www.youtube.com/watch?v=swgPHqIbhSY

3. http://edition.cnn.com/2011/10/20/tech/motherboard-sailingdrone/

4. http://www.slate.com/blogs/future_tense/2014/09/29/

antarctic_ice_melt_causes_small_shift_in_gravity.

html?wpsrc=fol_tw

5. http://prosperouswaydown.com/ebola-game-changer/

6. http://www.zerohedge.com/news/2014-09-27/russiadiscovers-massive-arctic-oil-field-which-may-be-larger-gulfmexico

7. http://brasil.elpais.com/brasil/2014/09/29/

opinion/1412000283_365191.html

8. http://www.cesarharada.com/the-political-relevance-of-openhardware/

124


Fabio Zimbres

Apresenta





por Jacques Fux

GAMBIARRAS

LITERÁRIAS

O Uso da Matemática, Lógica e Computação na Literatura

129


N

o dia 15 de março de 2010, a

Academia Brasileira de Letras

lançou o primeiro Concurso

Cultural de Microcontos. Os microcontos

de tema livre deveriam conter no máximo

140 caracteres, seguindo a mesma restrição

do Twitter. “Toda terça ia ao dentista e

voltava ensolarada. Contaram ao marido sem

a menor anestesia. Foi achada numa quarta,

sumariamente anoitecida” foi o tweet da ganhadora,

Bibiana Silveira da Pieve. A segunda

colocada, Carla Ceres Oliveira Capeleti

escreveu: “Joguei. Perdi outra vez! Joguei e

perdi por meses, mas posso apostar: os dados

é que estavam viciados. Somente eles, não eu”.

Diante da mesma restrição imposta, dois microcontos

completamente diferentes foram

escritos. Diante da mesma restrição, um fenômeno

de comunicação está ocorrendo: um

volume gigantesco de grandes ou pequenos

textos circula diariamente pela Internet e

pelos celulares e passa a ser um fator determinante

na política, na publicidade, na informação

e na literatura. Neste ensaio apresento

alguns usos das restrições na literatura – essas,

talvez, “gambiarras” matemáticas, tecnológicas

e computacionais, concebidas para

recriar e refundar a escrita.

Gambiarras Literárias

††

Letras e números costumam ser vistos como

símbolos opostos, correspondentes a sistemas

de pensamento e linguagens distintas e por

vezes incomunicáveis. Essa perspectiva, no

entanto, foi muitas vezes refutada pela própria

literatura, que em diversas ocasiões valeu-se

de elementos matemáticos como forma

de melhor explorar sua potencialidade e de

amplificar suas possibilidades

criativas. É a esses

contatos literário-matemáticos

que nos dedicaremos

ao longo deste breve

ensaio, apresentando algumas

experiências desse

diálogo entre as letras e os

números realizadas ao longo da história literária

e discorrendo, com maior profundidade,

sobre um grupo emblemático da mesma, em

atuação até os dias de hoje: o OULIPO, Ouvroir

de Littérature Potentielle, grupo literário-matemático

fundado na França em 1960.

A utilização da matemática no

campo literário se dá, na maioria

das vezes, por meio da apresentação,

reflexão e transformação em

matéria narrativa de problemas

de ordem lógica.

A utilização da matemática no campo literário

se dá, na maioria das vezes, por meio da

apresentação, reflexão e transformação em

matéria narrativa de problemas de ordem lógica

– como paradoxos, ambiguidades e jogos

combinatórios – que objetivam complexificar

a narrativa e aumentar sua potencialidade,

ampliando suas possibilidades de leitura. É

certo que nenhuma leitura é unívoca: o texto,

por si só, não diz nada; ele

só vai efetivamente produzir

sentido no momento

em que é lido. Levando

ao extremo tal perspectiva,

um texto seria capaz

de produzir tantos sentidos

distintos quanto fossem

as leituras dele feitas.

Qual seria, então, o papel da matemática

nessa relação de amplificação potencial? Por

que se considera que os jogos combinatórios

aumentam as possibilidades de leitura? Nesse

sentido, a própria noção de potencialidade

torna-se fundamental: potencial é o que ain-

130

* GAMBIARRAS LITERÁRIAS *


Encontro de autores do OULIPO.

da não existe concretamente, mas é passível

de existência por apresentar-se como possibilidade

latente. Então, se dois leitores, diante

do mesmo texto, apresentam diferentes possibilidades

de leitura, o que acontece com essa

potencialidade se os textos ainda puderem ser

permutados, alterados, jogados, falsificados,

ludibriados? A matemática potencializa o

texto, tornando ainda mais amplo seu campo

de leituras possíveis a partir de algoritmos,

regras, restrições e contraintes, num contínuo

processo de expansão: “Mesmo que o projeto

geral tenha sido minuciosamente estudado, o

que conta não é o seu encerrar-se numa figura

harmoniosa, mas a força centrífuga que dele

se liberta, a pluralidade das linguagens como

garantia de uma verdade que não seja parcial”

(CALVINO, 1995, p. 131).

Uma contrainte pode ser entendida como uma

restrição inicial imposta à escrita de um texto

ou livro, sendo as mais básicas de caráter linguístico.

O OULIPO trabalha tanto com as

restrições matemáticas quanto com outros tipos

de restrições: dado um tema, os integrantes

do grupo discutem e compõem textos,

livros e pequenos manuscritos com essa restrição

inicial. Já o grupo criado por Jacques

Roubaud e Paul Braffort em 1981 chamado

ALAMO (Atelier de Littérature Assistée par

la Mathématique et les Ordinateurs), que é

uma extensão computacional do OULIPO,

tem como objetivo gerar textos literários automáticos,

dados determinadas contraintes.

O grupo oferece, também, alguns programas

de computador que permitem qualquer

pessoa elaborar e produzir seus próprios textos.

São eles: CAVF (Conte à Votre Façon)

e LAPAL (Langage Algorithmique pour la

Production Assistée de Littérature).

Jogos Matemáticos e Lúdicos

††

Ainda que a utilização sistemática e rigorosa

da matemática na literatura tenha se afirmado

com o OULIPO, muitas experimentações

de intercâmbio entre as letras e os números

foram feitas anteriormente. Um dos primeiros

autores que podemos citar nesse âmbito

é o trovador Arnaut Daniel, que viveu em

Ribérac, França, entre os séculos XII e XIII,

considerado um dos grandes poetas da humanidade,

responsável pela elaboração de poe-

* GAMBIARRAS LITERÁRIAS *

131


mas de grande exigência poética e métrica.

Daniel é tido como o criador da sextina, um

poema formado por seis estrofes, compostas

cada uma delas por seis versos, seguidas de

uma estrofe final de três versos. Com um estilo

narrativo que busca rimas ricas, palavras

ou assonâncias raras, cada linha da sextina

termina por uma palavra escolhida entre um

grupo de seis palavras previamente fixadas –

os vocábulos A, B, C, D, E e F, distribuídos

da seguinte forma: ABCDEF - FAEBDC -

CFDABE - ECBFAD - DEACFB - BD-

FECA – ECA.

Essa construção trata-se,

em termos matemáticos,

de uma permutação σ

dessas seis palavras, que

pode ser representada pela matriz

1 2 3 4 5 6

=

2 4 6 5 3 1

Embora os recursos utilizados não sejam

muito avançados em termos matemáticos,

suas implicações são bastante importantes

para o estabelecimento de um diálogo entre

a matemática e a literatura: além de esse mesmo

tipo de composição ter sido utilizado por

poetas de diferentes épocas, muitos escritores

Não é apenas de forma

estrutural que percebemos o

diálogo com a matemática ao

longo da história da literatura.

do século XX se interessaram por seus desdobramentos,

como Raymond Queneau e Georges

Perec, ambos membros do OULIPO.

A grande contribuição de Arnaut Daniel

com esse modelo foi a possibilidade de generalização

por ele permitida: se substituirmos

o 6 por um n qualquer, colocamos em pauta a

possibilidade de escritura de um texto qualquer

com n estrofes, cada uma com n versos,

todos terminados pelas mesmas n palavras.

O poeta francês criou, assim, uma estrutura

matemática rigorosa para

compor sua poesia, determinando

a priori e com

recursos matemáticos a

estrutura de seus poemas.

Não é apenas de forma estrutural, entretanto,

que percebemos o diálogo com a matemática

ao longo da história da literatura, que pode se

dar também em termos conceituais. É o caso

dos caminhos matemáticos indicados por

Miguel de Cervantes na composição de Dom

Quixote, obra que em vários de seus trechos

exalta a matemática numa postura romântica

que ainda vê, nessa ciência, uma autoridade,

reflexo da crença de que conhecer e provar alguma

teoria matematicamente é garantia de

tranquilidade para a continuidade do raciocínio.

Essa visão, entretanto, da matemática

como uma ciência perfeita,

coerente e consistente, dilui-se

no início do século XX, diante

dos Teoremas de Incompletude

de Gödel 1 .

132

Alice ilustrada por John Tenniel.

1 Nos seus teoremas, Gödel prova que um

sistema axiomático não pode atestar sua

própria consistência e que, caso ele o faça,

só pode ser inconsistente. Além disso, em

sistemas com o poder de definir os números

naturais, sempre há proposições (chamadas

“indecidíveis”) que não podem ser provadas

dentro do sistema (portanto, o sistema é

incompleto). Desta forma, não se pode

provar a completude e consistência de um

sistema capaz de fazer aritmética.


Festín de Sancho Panza en la ínsula Barataria.

Pintura de Moreno Carbonero.

Mas não é apenas nas referências à matemática

que Cervantes se firma, recorrendo

também o autor aos paradoxos lógicos como

recurso ficcional, como numa passagem do

livro que narra o período em que Sancho foi

governador de Barataria, momento em que

precisou solucionar complicadas questões de

seus súditos em busca por justiça. Cervantes

se vale, nesse momento, de uma variação do

paradoxo do mentiroso,

atribuído ao grego Eubulides

de Mileto no século

IV a.C., que em sua

mais simples versão assim

se constitui: um homem

diz que está mentindo; o

que ele diz é verdade ou mentira? É essa a

situação que se reflete no texto de Cervantes:

“Se deixarmos passar este homem livremente,

ele mentiu no seu juramento e, portanto,

deve morrer; e, se o enforcamos, ele jurou

que ia morrer naquela forca, e, tendo jurado

a verdade, pela mesma lei deve ficar livre”

(CERVANTES, 2002, p.577).

O paradoxo do mentiroso,

aplicado à matemática e à lógica,

criou problemas e novos caminhos;

na literatura, foi utilizado

em inúmeras versões.

Se esse paradoxo, a princípio, pode parecer

inocente, foi a dificuldade de sua resolução

que levou à criação da Teoria Axiomática

de Conjuntos atribuída a Bertrand Russell

e que pode, por meio de outro movimento,

servir à literatura como importante recurso

ficcional: o paradoxo do mentiroso, aplicado

à matemática e à lógica, criou problemas

e novos caminhos para sua solução; na literatura,

foi utilizado em

inúmeras versões por escritores

como Cervantes

e, posteriormente, Jorge

Luis Borges, escritor

para quem a matemática

se constitui como recurso

criativo fundamental.

Diferentemente de Miguel de Cervantes e

Arnaut Daniel, Lewis Carroll, que além de

escritor foi um importante matemático, utilizou

como estratégias ficcionais de suas obras

conceitos estritamente matemáticos e lógicos.

Muitas passagens de Alice no País das

* GAMBIARRAS LITERÁRIAS *

133


Maravilhas e Alice através do espelho estão

repletas de enigmas e problemas que até os dias

de hoje permitem aos leitores múltiplas interpretações.

É o caso, por exemplo, dos problemas

de relógios apresentados pelo escritor – qual

dos relógios marca o tempo mais fielmente?

Um que se atrasa um minuto por dia ou um que

está sempre parado? –, ou de sua fixação com as

imagens dos espelhos e com o jogo de xadrez.

††

Labirintos

Em novembro de 1960, pessoas que se interessavam

tanto pela literatura quanto pela

matemática reuniram-se para discutir estas

questões e formaram o Sélitex (Seminário de

Literatura Experimental). Entre essas pessoas

estavam François Le Lionnais, Raymond

Queneau, Albert-Marie Schmidt, Jean Queval,

Jean Lescure, Jacques Duchateau, Claude

Berge e Jacques Bens. Cerca de um mês depois,

registrava-se nas atas de reunião do grupo

a mudança de seu nome para OULIPO

– Ouvroir de Littérature

Potentielle. Essa mudança

de nomenclatura

é importante, pois ela

aponta para uma noção

fundamental ao trabalho

do OULIPO: a de potencialidade

da literatura. É exatamente essa

questão que justifica o abandono do termo

“experimental” presente no acrônimo da primeira

denominação do grupo, uma vez que

seus membros acreditam que a potencialidade

exprime melhor a diversidade de combinações

e manipulações da linguagem, a utilização

de contraintes, da matemática e das

inúmeras possibilidades de leitura.

Os membros do OULIPO

acreditam que a potencialidade

exprime melhor a diversidade

de combinações e manipulações

da linguagem.

Ilustração contida no livro "Alphabet" de

Raymond Queneau, por Claude Stassart-Springer.

Raymond Queneau talvez seja o mais importante

nome do grupo por sua participação na

fundação do mesmo. Conforme Benabou e

Roubaud, é ele o “responsável por esta empreitada

insana”, “um dos pais fundadores” do

OULIPO ao lado de Le Lionnais. Enciclopedista

e matemático amador, Queneau vai

colocar em prática as concepções de escrita

voluntária que norteiam o grupo por meio de

diversas obras, dentre as quais se destaca, junto

aos também reconhecidos Exercices de style

e Petite cosmogonie portative,

aquela que pode ser

considerada a primeira

tentativa consciente de utilização

da análise combinatória

na literatura: Cent

mille milliards de poèmes.

Cent mille é uma verdadeira máquina poética

que possibilita a construção de 10 sonetos,

com 14 versos cada um, onde a cada primeiro

verso de cada soneto podemos fazer a correspondência

com outros 10 versos diferentes.

Já no primeiro verso, temos a combinação de

100 possibilidades (10 2 ); no terceiro verso, 10 3

possibilidades; em 14 versos, 10 14 possibilidades

de poemas. Nas palavras de Queneau:

134

* GAMBIARRAS LITERÁRIAS *


QUENEAU COLOCA EM CENA ASPECTOS PRIMORDIAIS

DO TRABALHO LITERÁRIO-MATEMÁTICO DO OULIPO:

SEU CARÁTER VOLUNTÁRIO, LÚDICO E DE INTERCÂMBIO COM O LEITOR.

Essa pequena obra permite a cada um compor à

vontade cem mil bilhões de sonetos, todos normalmente

bem entendidos. É um tipo de máquina

de fabricar poemas, mas em número limitado;

é verdade que esse número, ainda que limitado,

produz leitura por aproximadamente cem milhões

de anos (lendo vinte e quatro horas por dia)

(QUENEAU apud OULIPO, 2009, p. 879).

O poema maquinal de Queneau traz à tona

um aspecto da matemática bastante explorado

pelo OULIPO e que aporta interessantes

perspectivas para a narrativa: a combinatória.

Queneau acredita que a literatura

é combinatória, e ainda em 1964 queixa-se

da falta de instrumental sofisticado que

possibilite a exploração da mesma – hoje,

as tecnologias informáticas têm propiciado

inúmeras experiências nesse campo. É

justamente a construção baseada na combinatória

que estabelece a principal diferença

entre o poema de Queneau e outros textos

poéticos: por ser pensado de forma a aceitar

– e mesmo a possibilitar – a permutação, sua

estrutura, sua rima e sua composição conservam-se,

mesmo se executarmos a quase

infinita tarefa de 100.000.000.000.000 de

combinações possíveis (número que, apesar

de muito grande, é finito).

Com esse texto, Queneau coloca em cena os três

aspectos primordiais do trabalho literário-matemático

do OULIPO: seu caráter voluntário,

lúdico e de intercâmbio com o leitor. Brincando

seriamente com os cem versos do escritor, cabe

ao leitor a construção do seu poema, a escolha

de um entre os “cem mil bilhões” de poemas

diferentes que essa matriz pode gerar.

O texto foge, assim, à estrutura que se lhe

impõe, escapa pelos interstícios de uma rede

que apresenta os mais diversos cruzamentos e

os mais distintos percursos... Transforma-se

no vão deixado pelo puzzle, no espaço em forma

de X que resta na mesa (quase) totalmente

preenchida... No baralho de tarô cujas imagens

espelhadas abrem-se à imaginação, num

processo de criação, ele sim, infinito, incapaz

de ser concluído: “Então suas mãos embaralham

as cartas, recolhem-nas no maço e recomeçamos

tudo do princípio” (CALVINO,

1994, p. 69).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CALVINO, Italo. O castelo dos destinos cruzados. São Paulo:

Companhia das Letras, 1994.

CALVINO, Italo. Seis propostas para o próximo milênio. 2.

ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

CERVANTES, Miguel de. Dom Quixote. São Paulo: Nova

Cultural, 2002.

OULIPO. Anthologie de l’OuLiPo. Paris: Gallimard, 2009.


LITERARY GAMBIARRAS:

THE USE OF MATHEMATICS, LOGIC AND COMPUTER SCIENCES IN LITERATURE

Jacques Fux

On March 15, 2010, the Brazilian Academy of Letters

launched its first Cultural Contest of Short Stories. The free

theme short stories should have a maximum of 140 characters,

following the same restriction of Twitter. "Every Tuesday

she would go to the dentist and come back sunny. They

told her husband without the slightest anesthesia. She was

found on a Wednesday, summarily nightfalled" was the tweet

of the winner, Bibiana Silveira da Pieve. Carla Ceres Oliveira

Capeleti, second place, wrote: "I played. I lost again! I played

and lost for months, but I can bet: the dices were addicted.

Only them, not me."

With the same imposed constraint, two completely different

shorts were written. Faced with the same constraint, a phenomenon

of communication is taking place: a gigantic volume

of large or small texts circulates daily through the Internet

and cell phones and becomes a determining factor in politics,

advertising, information and literature. In this essay I present

some uses of constraints in literature - these, perhaps, are

mathematical, technological and computational gambiarras

designed to recreate and refound writing.

Literary Gambiarras

Letters and numbers are often seen as opposing symbols,

corresponding to distinct and sometimes incommunicable

systems of thought and languages. This perspective, however,

has often been refuted by literature itself, which on several

occasions have used mathematical elements as a way to better

explore its potential and amplify its creative possibilities. It is

to these literary-mathematical contacts that we will dedicate

ourselves in this brief essay, presenting some experiences of

this dialogue between letters and numbers throughout the

literary history and thus discussing, in greater depth, about

an emblematic group of the same, in action until today: the

OULIPO, Ouvroir de Littérature Potentielle, a literary-mathematical

group founded in France in 1960.

The use of mathematics in the literary realm occurs most often

through the presentation, reflection and transformation

136

of problems of a logical order in narrative matters - such as

paradoxes, ambiguities and combinatory games -, which aim

to complicate the narrative and increase its potentiality, expanding

its reading possibilities. It is true that no reading is

unequivocal: the text, by itself, doesn’t say anything; it will

only effectively make sense in the moment that it is read. Taking

such perspective to the extreme, a text would be capable of

producing as many different senses as its readings.

What, then, would be the role of mathematics in this relation

of potential amplification? Why do you think combinatorial

games increase reading possibilities? In this sense, the very

notion of potentiality becomes fundamental: potential is what

doesn’t yet concretely exist, but is capable of existence because

it presents itself as a latent possibility. So if two readers, facing

the same text, present different possibilities of reading, what

happens to this potentiality if the texts can still be exchanged,

altered, played, falsified, deceived? Mathematics enhances

the text, making its field of possible readings even more broad

from algorithms, rules, constraints and counterintes, in a continuous

process of expansion: "Even if the general project has

been thoroughly studied, what counts is not its ending in a

harmonious figure, but the centrifugal force that is set free,

the plurality of languages as a guarantee of a truth that is not

partial" (CALVINO, 1995:131).

A contrainte can be understood as an initial restriction imposed

on the writing of a text or book, being the most basic

of linguistic nature. OULIPO works both with mathematical

restrictions and with other types of constraints: given

a topic, group members discuss and compose texts, books

and small manuscripts with this initial restriction. However,

rhe group created by Jacques Roubaud and Paul Braffort in

1981 called ALAMO (Atelier de Littérature Assistée par la

Mathématique et les Ordinateurs), which is a computational

extension of OULIPO, aims to generate automatic literary

texts, given certain contraintes. The group also offers some

computer programs that allow anyone to create and produce

their own texts. They are: CAVF (Conte à Votre Façon) and

LAPAL (Langage Algorithmique pour la Production Assistée de

Littérature).


Mathematical and ludic games

Although the systematic and rigorous use of mathematics in

literature has been affirmed with OULIPO, many experimentations

of interchange between the letters and the numbers

had been previously made. One of the first authors to

mention in this context is the troubadour Arnaut Daniel, who

lived in Ribérac, France, between the 12th and 13th centuries,

being him considered one of the great poets of mankind,

responsible for the elaboration of poems of great poetic and

metrical exigency. Daniel is regarded as the creator of the sextine,

a poem consisting of six stanzas, each composed of six

verses, followed by a final stanza of three verses. With a narrative

style that seeks rich rhymes, rare words or assonances,

each line of the sextine ends by a word chosen from a group

of six previously fixed words - words A, B, C, D, E, and F,

distributed as following: ABCDEF - FAEBDC - CFDABE

- ECBFAD - DEACFB - BDFECA - ECA.

This construction is, in mathematical terms, a permutation

σ of these six words, which can be represented by the matrix

1 2 3 4 5 6

=

2 4 6 5 3 1

Although the resources used are not very advanced in mathematical

terms, their implications are quite important for the

establishment of a dialogue between mathematics and literature:

in addition to this same type of composition being used

by poets of different epochs, many writers of the century XX

were interested in its developments, such as Raymond Queneau

and Georges Perec, both OULIPO members.

Arnaut Daniel’s great contribution with this model was the

possibility of generalization that it allowed: if we replace the

6 with any n, we put the possibility of writing any text with

n stanzas in question, each with n verses, all finished by the

same n words. The French poet thus created a rigorous mathematical

structure to compose his poetry, determining a priori

and with mathematical resources the structure of his poems.

It is not only structurally, however, that we perceive the dialogue

with mathematics throughout the history of literature,

which can also occur in conceptual terms. This is the case of

the mathematical paths indicated by Miguel de Cervantes in

the composition of Don Quixote, a work that in several of its

extracts extols mathematics in a romantic posture that still

sees, in this science, an authority, a reflection of the belief that

to know and to prove some theory mathematically guarantees

tranquility in the continuity of reasoning. This view, however,

of mathematics as a perfect, coherent and consistent science,

is diluted in the early twentieth century, in the face of Gödel's

Incomplete Theorems 1 .

But it is not only in the references to mathematics that Cervantes

establishes himself, and the author also appeals to logical

paradoxes as a fictional resource, as in a passage from the

book that recounts the period in which Sancho was governor

of Barataria, at which point he had to solve complicated issues

of his subordinates in search of justice. Cervantes uses, at this

moment, a variation of the paradox of the liar, attributed to

the Greek Eubulides of Miletus in the fourth century B.C.,

which in its simplest version is thus constituted: a man says he

is lying; What does he say is true or false? This is the situation

reflected in Cervantes' text: "If we let this man pass freely, he

lied in his oath and therefore must die; And if we hang him,

he swore that he was going to die on that gallows, and having

sworn the truth, by the same law he must be freed" (CER-

VANTES, 2002, p.577).

If this paradox may seem innocent at first, it was the difficulty

of its resolution that led to the creation of the Axiomatic

Theory of Ensembles attributed to Bertrand Russell and

that can, through another movement, serve literature as an

important fictional resource: the paradox of the liar, applied

to mathematics and logic, created problems and new paths

for its solution; in literature, it has been used in countless

versions by writers such as Cervantes and later by Jorge Luis

Borges, a writer for whom mathematics is a fundamental

creative resource.

Unlike Miguel de Cervantes and Arnaut Daniel, Lewis Carroll,

who besides being a writer was an important mathematician,

used strictly mathematical and logical concepts as his

fictional strategies. Many passages from Alice in Wonderland

and Alice through the Looking Glass are filled with puzzles

1 In his that an theorems, Gödel proves axiomatic system can not

attest to its own consistency and that, if it does, it can only be

inconsistent. Moreover, in systems with the power to define natural

numbers, there are always propositions (so-called "undecidable")

that can not be proved within the system (hence the system is

incomplete). In this way, one can not prove the completeness and

consistency of a system capable of doing arithmetic.

* LITERARY GAMBIARRAS * 137


and problems that allow, even today, for multiple interpretations

by readers. This is the case, for example, of the problems

of watches presented by the writer - which of the clocks is the

most accurate? One that is delayed one minute a day or one

that is always stopped? - or his fixation with the images of the

mirrors and the game of chess.

Labyrinths

In November 1960, people who were interested in both Literature

and Mathematics came together to discuss these issues

and they formed the Sélitex (Seminar on Experimental

Literature). Among these people were François Le Lionnais,

Raymond Queneau, Albert-Marie Schmidt, Jean Queval,

Jean Lescure, Jacques Duchateau, Claude Berge and Jacques

Bens. About a month later, in the minutes of the group meetings,

the change of name to OULIPO - Ouvroir de Littérature

Potentielle - was recorded. This change of nomenclature

is important, as it points to a fundamental notion of OULI-

PO's work: that of the potentiality of literature. It is precisely

this question that justifies the abandonment of the term "experimental"

present in the acronym of the first denomination

of the group, since its members believe that potentiality

expresses better the diversity of combinations and manipulations

of the language, the use of contraintes, of mathematics

and of reading possibilities.

Raymond Queneau is perhaps the most important name of

the group for his participation in its foundation. According to

Benabou and Roubaud, he is the "responsible for this insane

enterprise", "one of the founding fathers" of OULIPO next

to Le Lionnais. Encyclopedist and amateur mathematician,

Queneau will put into practice the conceptions of voluntary

writing that guide the group through several works, among

which stands out, along with the also known Exercices de style

and Petite cosmogonie portative, that that can be considered the

first conscious attempt to use combinatorial analysis in Literature:

Cent mille milliards de poèmes.

Cent mille is a true poetic machine that enables the construction

of 10 sonnets, with 14 verses each, where each first verse

of each sonnet can be matched with 10 different verses. Already

in the first verse we have the combination of 100 possibilities

(10 2 ); in the third verse 10 3 possibilities; in 14 verses

10 14 possibilities of poems. In the words of Queneau:

This small work allows each one to compose, at will, one hundred

thousand billion sonnets, all normally well understood.

It is a type of machine to make poems, but in limited numbers; it is

true that this number, although limited, produces reading for approximately

one hundred million years (reading twenty-four hours

a day) (QUENEAU apud OULIPO, 2009, p.887).

Queneau's mechanical poem brings to the surface an aspect

of mathematics that is extensively explored by OULIPO and

which brings interesting perspectives to the narrative: the

combinatorial. Queneau believes that Literature is combinatory,

and still in 1964 he complains of the lack of sophisticated

instruments that make it possible to explore it - today, computer

technologies have provided innumerable experiences in

this field. It is precisely the construction based on the combinatorial

that establishes the main difference between the

poem of Queneau and other poetic texts: because it is thought

in a way that it accepts - and even allows for - permutation, its

structure, its rhyme and its composition are conserved, even if

we perform the almost infinite task of 100,000,000,000,000

possible combinations (number that is very large but finite).

With this text, Queneau puts on the scene the three primary

aspects of OULIPO's literary-mathematical work: its voluntary,

playful and interchangeable character with the reader.

Playing seriously with the one hundred verses of the writer,

it is up to the reader to construct her/his poem, choosing one

among the "one hundred thousand billion" of different poems

that this matrix can generate. .

Thus, the text escapes the structure that is imposed to itself,

escapes through the interstices of a network that presents the

most diverse crossings and the most distinct paths... It becomes

the gap left by the puzzle, in the X-shape space that

remains on the table (nearly) fully filled... In the tarot, whose

mirror images open to the imagination, in a process of creation,

it is infinite, unable to be completed: "Then your hands

shuffle the cards, collect them in pack of cards and we start all

over again" (CALVINO, 1994, p.69).

BIBLIOGRAPHIC REFERENCES

CALVINO, Italo. O castelo dos destinos cruzados. São Paulo:

Companhia das Letras, 1994.

CALVINO, Italo. Seis propostas para o próximo milênio. 2. ed.

São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

CERVANTES, Miguel de. Dom Quixote. São Paulo: Nova

Cultural, 2002.

OULIPO. Anthologie de l’OuLiPo. Paris: Gallimard, 2009.

138

* LITERARY GAMBIARRAS *


GAMBAREIA

Parte IV / IV

A

pé. Fones de ouvido conectados

ao telinha. Não por acaso, escuto

a trilha sonora de Código 46. O

calor está ameno, o sol já se pôs há

algumas horas. Cruzo avenidas de asfalto liso

e carros velozes, explorando mentalmente o

mapa que evito consultar no bolso. Algumas

famílias passeiam pelo parque que margeia

a orla, e isso ainda me causa estranhamento.

Não as famílias em si, exceto talvez pelo

horário. Mas é o próprio parque que tem um

quê de irreal. Só em volume de água - dessalinizada,

bom lembrar -, estes milhares de

metros quadrados de grama devem consumir

mais do que regiões inteiras do semiárido

brasileiro. Isso para não falar de energia, ferramentas

e trabalho. Mas aqui tudo é assim.

Estamos na borda entre o mar e o deserto.

Mas esta cidade faz de tudo para esconder

isso. Um segredo entre tantos outros. No meu

caminho, algumas pistas - rastros humanos

nesse lugar quase vazio de registro histórico.

Uma revista e um capacete ao lado de uma

tampa de bueiro. O carrinho de supermercado

abandonado no meio-fio, emborcado de

lado. Um par de botas de trabalho encostadas

numa parede baixa. A falha no calçamento

ainda esperando os bloquetes, recordando que

são pouquíssimos centímetros que dividem a

cidade quase cenográfica da infinita areia.

Todo esse cenário artificial, um gigantesco

canteiro de obras com prédios brilhantes &

bregas atirando lasers para as nuvens, avenidas

novas e shopping centers, é na prática produzido

com mãos e habilidades humanas, e a

construção está longe de acabar. Pessoas

construindo um país que não é delas. E nem

é para elas, de maneira profunda e clara.

Fui convidado a passar duas semanas por

aqui como residente em uma universidade.

Estou trabalhando com dez estudantes do

mestrado em design. São brilhantes. Oito

são mulheres, que afluem para cá em busca

de horizontes mais amplos de estudo, ainda

raros nos outros países árabes.

A residência é sobre gambiarra e cultura do

conserto, um tema que neste lugar soa algo

estranho. O Catar é um país rico, cuja forma

atual foi construída de maneira acelerada

com recursos oriundos da exploração de gás

natural. A VCUQ , minha anfitriã, é na

verdade uma universidade estadunidense

(Virginia Commonwealth University) que

tem uma unidade aqui em Doha. Está sediada


na “Cidade da Educação”, uma iniciativa do

governo local que instalou por aqui cinco

universidades estadunidenses em um campus

moderno. Grande parte dos professores são

europeus. Contam com laboratórios totalmente

equipados, uma sala com amostras de

materiais (centenas, milhares de itens?) e uma

biblioteca muito completa e agradável.

O antigo rei, que há poucos anos abdicou em

favor do filho, já sabia que o gás natural vai

acabar, e quis criar alternativas para garantir

que no espaço de algumas décadas a economia

não dependa só dele. Investiu - de forma bem

caricatural, mas vamos lá - em mídia, tecnologias,

turismo e outras áreas. Sua esposa criou

uma fundação voltada à educação que financia

projetos em todo o mundo. Mas o país continua

tendo características bem particulares.

Por aqui, os habitantes não pagam impostos,

e cidadãos locais (uns 15% da população

atual) têm educação e saúde de graça. A mão

de obra para atividades menos qualificadas

vem do sudeste asiático. Cargos técnicos e

administrativos de alto nível são usualmente

ocupados por europeus e estadunidenses,

exceto no setor ligado à extração de gás que

é o favorito dos jovens Cataris e no qual têm

preferência de contratação.

Juntando um altíssimo poder de compra e o

baixo nível de enraizamento ou mesmo afeto

entre sociedade e território, o resultado não

poderia ser diferente de um consumismo que

chega à obsessão.

Um aluno relatou que o que mais se faz nas

horas vagas por aqui é comprar coisas. Isso

não me surpreende, assim como também não

difere tanto do estilo de vida de muitas pessoas

que eu conheço em São Paulo. No Catar,

entretanto, tudo é superlativo. Compra-se

muito, usa-se quase nada. Consequentemente,

as coisas são descartadas compulsivamente.

Meu destino hoje não foi o mercado central

remodelado para o turismo, nem algum dos

museus internacionais sediados em prédios

assinados por arquitetos famosos, ou algum

hotel internacional em cujo bar o álcool seja

permitido. Fui na verdade a um hipermercado

de origem francesa que fica dentro de um shopping

center, para comprar crédito para meu

telinha e petiscos para comer nos horários em

que não tenho refeições garantidas no hotel.

O shopping me incomodou menos do que eu

esperava. Muito parecido com lugares similares

no Brasil, exceto pela enorme diversidade

étnica/nacional e de vestuário. Curiosamente,

a gente perde de longe neste tema. Por outro

lado, ele tinha também a pista de esqui no gelo,

as lojas internacionais, o fast food e outras coisas

usuais nessa cultura homogênea e entediante

do shopping center. Mas além de tudo vi

140

* GAMBIAREIA *


muitas sacolas de compras, e não consigo parar

de pensar no destino de todas estas coisas.

Na inauguração da minha residência, conversei

com os estudantes sobre lixo, descarte

e reuso. Apresentei vídeos: Ilha das Flores;

Comprar, tirar, comprar; alguns trechos do

Lixo Extraordinário; Digital Handcraft.

Uma aluna comentou que aqui as pessoas

simplesmente jogam as coisas fora, mas que

pensando bem, este “fora” não existe.

Essa não é uma ideia nova, mas aqui tornase

ainda mais radical. No Catar, jogar fora é

atirar ao implacável deserto ou a um mar disputado.

Um dos professores contou o causo

de que o país teria chegado a construir uma

planta para reciclagem de diversos materiais,

com os equipamentos mais avançados que

o dinheiro podia comprar. Mas não chegou

a ativá-la porque não existe mercado local

para matéria-prima reciclada (não existe indústria).

E exportá-la pelo mar aumentaria

muito o preço de venda. Resultado: a própria

planta de reciclagem foi também deixada no

deserto para desaparecer.

De modo geral, todo o grupo de estudantes

estava ciente de questões

sobre o impacto ambiental da produção

industrial e do mundo contemporâneo.

Mas, até como reflexo

das dinâmicas da sociedade local, isso não

figurava como prioridade no trabalho de

nenhum deles. Para focar nestas questões,

decidimos fazer uma etapa de pesquisa de

campo. Durante os próximos dias, vamos

visitar profissionais ligados aos consertos e à

fabricação artesanal: alfaiates, marceneiros,

relojoeiros, sapateiros. Sairemos também

em busca de cemitérios de automóveis

e pneus, situados no meio do deserto.

Por fim, vamos fazer dois dias de Repair Cafe

nas dependências da universidade, chamando

a atenção para estas questões e criando uma

oportunidade para que os próprios estudantes

ponham as mãos na massa.

Enquanto percorro o caminho de volta ao hotel,

uma ansiedade se mostra de leve. Estou tentando

descobrir em que medida a gambiarra

faz sentido como recorte de criatividade tática,

solução desobediente de problemas cotidianos

e construção de futuros diferentes (e melhores).

Olho em volta mais uma vez, respiro fundo e escuto

o som nos fones. Topo com mais uma daquelas

cenas que lembram a natureza humana de quae

todo o trabalho feito por aqui: uma luva, sozinha

na calçada. Neste lugar, acho que a gambiarra

sempre ocupará um lugar subalterno.

Escondida, indesejada, alheia aos

mecanismos de decisão. Mas está lá

sim. E deve se espalhar pelo mundo,

cada vez mais.

* GAMBIAREIA * 141


GAMBIDUST

Felipe Efeefe Fonseca

Part IV / IV

On foot. Headphones connected to the little screen. Not

by chance, I listen to the soundtrack of Code 46. The heat

is mild, the sun has set a few hours ago. I cross avenues of

smooth asphalt and fast cars, mentally exploring the map that

I avoid consulting in my pocket. Some families stroll through

the park that borders the coastline and this still causes me

some estrangement. Not the families themselves, except

perhaps by the time. But it's the park itself that has a kind of

unreal touch. Only in volume of water - desalinated, it is good

to remind - these thousands of square meters of grass should

consume more than entire regions of the Brazilian semiarid.

Not to mention energy, tools and work. But here everything

is like this.

We are on the edge between the sea and the desert. But this

city does everything to hide it. One secret among so many

others. On my way, some clues - human trails in this almost

empty place of historical record. A magazine and a helmet

next to a downtake pipe cover. The abandoned grocery cart

on the curb, overturned sideways. A pair of working boots

leaning against a low wall. The failure in the pavement still

waiting for the bloques, reminding us that there are just a few

centimeters that divide this almost scenographic city of the

infinite sand.

All this artificial setting, a gigantic construction site with

bright & cheery buildings throwing lasers to the clouds, new

avenues and shopping malls are, in practice, produced with

human hands and abilities, and the construction is far from

over. People building a country that is not theirs. And neither

it is for them, in a deep and clear way.

I was invited to spend two weeks here as a resident at a

university. I'm working with ten students of the master's

degree program in design. They are brilliant. Eight are

women who flock here in search of wider horizons of study,

still rare in other Arab countries.

The residence is about gambiarra and the culture of repair, a

theme that in this place sounds strange. Qatar is a rich country

whose current form has been built in an accelerated way, with

resources from natural gas exploration. The VCUQ , my host,

is actually an American university (Virginia Commonwealth

University) that has a unit here in Doha. It is headquartered in

the "City of Education," a local government initiative that has

set up five U.S. universities here on a modern campus. Most

teachers are European. They have fully equipped laboratories,

a room with samples of materials (hundreds, thousands of

items?) and a very complete and pleasant library.

The old king, who had abdicated in favor of his son a few years

ago, already knew that natural gas would end, and wanted to

create alternatives to ensure that, in the space of a few decades,

the economy doesn't depend on it alone. He invested - in a

very caricatural way, but let's face it - in media, technology,

tourism and other areas. His wife has created an educational

foundation that funds projects around the world. But the

country continues to have very particular characteristics.

People here don’t pay taxes, and local citizens (about 15% of

the current population) have free education and health care.

The workforce for less skilled activities comes from Southeast

142


Asia. High-level technical and administrative positions

are usually occupied by Europeans and Americans, except

in the gas extraction sector which is the favorite of the

young Cataris and who have preference in hiring.

Combining a very high purchasing power and the low level

of rooting or even affection between society and territory,

the result couldn’t be different of a consumerism that

reaches obsession.

A student reported that what is most done in the free hours

here is to buy things. This doesn’t surprise me, just as it

doesn’t differ so much from the lifestyle of many people

I know in São Paulo. In Qatar, however, everything is

superlative. People buy a lot but they use almost nothing.

Consequently, things are compulsively discarded.

My destination today wasn’t the central market,

remodelled for tourism, nor some of the international

museums housed in buildings signed by famous architects,

or some international hotel where alcohol is allowed in the

bar. I actually went to a hypermarket of French origin that

is inside a shopping mall, to buy credit for my little screen

and snacks to eat at times when I have no guaranteed

meals at the hotel.

The mall bothered me less than I expected. Much like

similar places in Brazil, except for the huge ethnic/national

and clothing diversity. Curiously, we lose by far on this

topic. On the other hand, it also had the ice-skating rink,

international stores, fast food, and other usual things in

this homogeneous and tedious mall culture. But I've seen

lots of shopping bags, and I can’t stop thinking about the

fate of all these things.

At the opening of my residence, I talked with the

students about trash, waste and reuse. I uploaded videos:

Ilha das Flores; Buy, take out, buy; Some excerpts from

Extraordinary Waste; Digital Handcraft. One student

commented that here people just throw things away, but

by thinking it through, this "out" doesn’t exist.

This is not a new idea, but here it becomes even more

radical. In Qatar, to put out is to throw to the ruthless

desert or to a disputed sea. One of the teachers told us that

the country had built a plant to recycle various materials

with the most advanced equipment that money could

buy. But it didn't come to reality because there is no local

market for recycled raw material (there is no industry).

And exporting it by sea would greatly increase the selling

price. Result: the recycling plant itself was also left in the

desert to disappear.

In general, the entire group of students was aware of issues

about the environmental impact of industrial production

and the contemporary world. But even as a reflection of the

dynamics of local society, this wasn't a priority in the work

of any of them. To focus on these issues, we decided to do a

field research stage. During the next few days, we will visit

professionals related to repairs and craftsmanship: tailors,

carpenters, watchmakers, shoemakers. We will also go out

in search of car cemeteries and tires, located in the middle

of the desert. Finally, we will do two days of Repair Cafe

on campus, calling attention to these issues and creating

an opportunity for the students to get their hands on.

As I walk my way back to the hotel, a slight anxiety shows

itself. I am trying to find out to what extent gambiarra

makes sense as a clipping of tactical creativity, disobedient

solution to everyday problems and building different (and

better) futures. I look around once more, take a deep

breath and listen to the sound on the headphones. I see

one more of those scenes that remind me of the human

nature of all the work done here: a glove, alone on the

sidewalk. In this place, I think gambiarra will always

occupy a subordinate place. Hidden, unwanted, unrelated

to decision mechanisms. But it is there yes. And it must

spread throughout the world, more and more.

* GAMBIDUST *

143


144


#GAMBIARRA

145


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