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OR #17

A Originais Reprovados é uma revista literária com textos da comunidade USP editada desde 2005 pela Com-Arte Jr., empresa júnior do curso de Editoração da ECA. Em 2023, os textos selecionados entre cerca de 200 originais foram reunidos em um exemplar que homenageia o movimento Tropicália, responsável por destacar tanto as manifestações tradicionais da cultura popular brasileira quanto as inovações estéticas radicais. Dessa forma, as cores vivas e elementos surrealistas entram em harmonia no projeto gráfico da revista, que conta com inspirações nos nomes e na musicalidade política e irônica de Tom Zé e Gilberto Gil, por exemplo. Em especial, esta edição presta homenagem à vida de Rita Lee e Gal Costa, cujos legados artístico e crítico permanecem como uma bússola para tantos criadores e editores. Acompanhe a Com-Arte Jr. nas redes sociais, Boa leitura!

A Originais Reprovados é uma revista literária com textos da comunidade USP editada desde 2005 pela Com-Arte Jr., empresa júnior do curso de Editoração da ECA. Em 2023, os textos selecionados entre cerca de 200 originais foram reunidos em um exemplar que homenageia o movimento Tropicália, responsável por destacar tanto as manifestações tradicionais da cultura popular brasileira quanto as inovações estéticas radicais. Dessa forma, as cores vivas e elementos surrealistas entram em harmonia no projeto gráfico da revista, que conta com inspirações nos nomes e na musicalidade política e irônica de Tom Zé e Gilberto Gil, por exemplo. Em especial, esta edição presta homenagem à vida de Rita Lee e Gal Costa, cujos legados artístico e crítico permanecem como uma bússola para tantos criadores e editores.

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17


Créditos Editoriais

Coordenação Geral

Gabriela Fernandes

Seleção de Originais

Amanda Machado (coordenação)

Janaína Veríssimo (coordenação)

Ana Claudia Almeida

Bruna Letícia de Souza

Debora Campos

Eloisa Queiroz

Gabriella Oliveira

Jonathan Leandro

Maria Clara Moreira

Maria Paula Lucena

Mariana Weizenmann

Milena López

Rafaela Santos

Rhany Siqueira

Preparação e Revisão de Texto

Ana Marcílio (coordenação)

Larissa Vidal (coordenação)

Amanda Machado

Bruna Letícia de Souza

Debora Campos

Isabella Berardinelli

Isabella Marchetto

Letícia Panula


Maria Clara Moreira

Maria Paula Lucena

Milena López

Projeto Gráfico

Eloisa Queiroz (coordenação)

Gabriela Fernandes (coordenação)

Alexandra Viana

Jonathan Leandro

Diagramação

Gabriela Fernandes (coordenação)

Bruna Letícia de Souza

Eloisa Queiroz

Fernanda Benachio

Jonathan Leandro

Jorge Buzzo

Marcela Ribeiro

Milena López

Rafaela Santos

Divulgação

Alexandra Viana

Ana Beatriz Lisboa

Bruna Letícia de Souza

Debora Campos

Eloisa Queiroz

Fernanda Benachio

Gabriela Fernandes

Milena López


sumário

9 Nota Editorial

11 Estampido 86

16 Oficina

17 A Vaidade de um Deus

19 Vida Morte Poesia

20 Presa e Predador

24 Ser Ou… — Manifesto

25 Jardins Numéricos

30 A Balada do Beija-Flor

32 Me Disseram que os Poetas Sangram Poesia

33 Meu Único e Grande Medo

35 Agora Inês É Morta


39 muros e molduras

40 Tired as I Am

43 Como Vou Dizer que te Amo?

45 Temos Todo o Tempo do Mundo

48 Seca Vida

49 Penso, logo...

51 Vesuvius

54 Subsolo

56 Ponto sem Nó

57 Aquela que (Re)Nasceu depois

dos Infortúnios

61 Autores

63 Agradecimentos


PRECISANDO DE

SERVIÇOS EDITORIAIS

Conte com a com-arte júnior! Uma editora fundada

em 1999 pelos alunos do curso de Editoração da USP.

Nossos serviços incluem:

Publicação de revistas e livros digitais e impressos

Preparação

Revisão

Diagramação

Capas

Jornais

Cartões de visita

Banners

Folders

Cartazes

Catálogos

Redação de paratextos

Transcrição de áudios

Normatização de artigos em ABNT

comartejr

8


nota editorial

Enfunando os papos,

Saem da penumbra,

Aos pulos, os sapos.

A luz os deslumbra.

[…]

Vai por cinquenta anos

Que lhes dei a norma:

Reduzi sem danos

A fôrmas a forma.

manuel bandeira

A

Originais Reprovados é uma revista literária publicada

anualmente, desde 2005, com poesias, crônicas e

contos inéditos de toda a comunidade usp. O processo

editorial completo, da seleção dos textos à publicação, é

completamente realizado pelos alunos do curso de Editoração

da Escola de Comunicações e Artes, dentro da empresa

júnior, a Com-Arte Júnior. Seu objetivo é fomentar

a escrita literária no ambiente acadêmico e proporcionar

uma experiência prática e real aos editores em formação.

Em 2022, ano marcado pelo retorno presencial da

Universidade, pelo centenário da Semana de Arte Moderna

e pelos cinquenta anos de nosso curso, o projeto chega

a sua 17ª edição com este exemplar, preparado pela tur-

9


ma ingressante de 2021 em colaboração com a de 2022. Os

21 textos que a compõem foram selecionados cuidadosamente

entre os 230 recebidos e avaliados.

A presente edição, portanto, é muito significativa

diante de tais comemorações. Buscamos inspirações gráficas

na produção visual modernista e trabalhamos para

que a escrita dos autores saísse da penumbra, permitindo

a experimentação de diversas fôrmas e formas, sem deixar

de devorar as antigas referências e de regurgitá-las.

Como disse Oswald de Andrade, “a poesia existe nos fatos”.

No verde das bandeiras da Copa ou no vermelho do

sangue dos poetas, ali existem fatos estéticos. Queremos

resgatar a arte brasileira para além das paredes acadêmicas.

Queremos que a poesia esteja na língua e nas mãos de

todos. Queremos que estas páginas sejam a exportação de

versos outrora reprovados.

Agradecemos aos inscritos e a todos que trabalharam

e ainda trabalham para que possamos receber, avaliar,

aprovar, revisar, diagramar, divulgar, ilustrar, revisar

novamente, e por fim, publicar nossos queridos Originais

Reprovados.

Só a antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente.

Filosoficamente.

E a Originais Reprovados é o nosso manifesto.

Boa leitura!

Gabriela Fernandes

presidente da com-arte júnior, 2022

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Estampido 86

Quando eu descobri as bombinhas...

Flavio Bastos

Foi na Copa do Mundo de 1986 que eu descobri que existia

uma Seleção Brasileira de Futebol e que eu provavelmente

deveria me importar com isso. Afinal, todo

mundo parecia se importar e eu não ia querer ficar de fora.

Como cada um tinha seu jogador favorito, quando

me perguntaram sobre o meu, respondi que era o Careca,

talvez pela empolgação com a qual eu ouvia o célebre

narrador Luciano do Valle gritar o “nome” dele. Esclareço

aos fãs do esporte bretão para que não haja mal-

-entendidos: aos meus sete anos de idade, meu negócio

era muito mais saber como o Jaspion se sairia no próximo

confronto contra o Satan Goss do que me preocupar com

o destino do Careca — com todo o respeito que o Careca

certamente merece.

Foi também durante a Copa de 1986 que me foram

apresentadas as bombinhas — daquelas que a gente acende

com fósforo mesmo —, também conhecidas como “traques”

no submundo das crianças que se entusiasmam

com o que “não presta”, como diria meu pai. No bairro

11


em que eu morava, era possível comprar uma caixa com

trinta bombinhas na mesma “vendinha” em que se podia

comprar alguns gramas daqueles salgadinhos que já

vinham semimurchos e cuja receita, mais tarde, serviria

de modelo para a lista de produtos proibidos para o

consumo humano da oms.

Eu não sei quanto custava uma caixa de bombinhas

naquela época, mas lembro que a situação financeira em

casa não era nada boa e isso levou à criação de medidas

de austeridade que afetavam desde o consumo de biscoitos

até o uso das minhas recém-presenteadas bombinhas.

Assim, meus pais me deram a caixinha com uma

condição: eu só poderia estourar uma bombinha quando

o Brasil fizesse gol.

Agora, relembre comigo a Copa de 86. O Brasil fez

cinco gols na primeira fase, quatro contra a Polônia nas

oitavas de final e mais um gol no empate contra a França

nas quartas, o que me deu direito a dez “sorridentes”

explosões. Os pênaltis, após o empate contra Les Bleus,

me permitiram mais três bombinhas extras, o que foi alimentando

em mim a ilusão de que aquela seria uma tarde

jubilosa. Contudo, poucos minutos depois daquelas três

pequenas alegrias infantis, minha mãe veio até a porta da

lavanderia, que dava para o quintal, e me disse que, infelizmente,

o pior havia acontecido.

— Como assim perdeu? — perguntei à minha mãe,

que retomava a vida, abrindo a torneira do tanque de

lavar roupa.

— Perdeu, fazer o quê?… Futebol é assim mesmo.

12


— E não vai jogar mais? — insisti, atordoado.

— Não, agora os jogadores voltam para o Brasil. Eles

não jogam mais — continuava a explicar minha mãe, pois

meu pai ainda não tinha forças para se levantar do sofá.

Eu me lembro de sentar sob o batente da porta, de

frente para o quintal — que era o palco do meu festival

pirotécnico —, e ficar com o olhar perdido por um

tempo, sem conseguir entender o que acabara de enlutar a

terça-feira dos meus pais e do bairro todo, embora eu

compreendesse muito bem o meu luto: se não haveria

mais gols do Brasil, quando é que eu ia estourar as outras

17 bombinhas que ainda tinha?

Imaginando tratar-se de uma afronta às diretrizes

que regem os combinados entre pais e filhos, resolvi esperar

até o final da Copa para perguntar ao meu pai se podíamos

renegociar os termos de uso dos explosivos.

Não sei se ficaram claras ao estimado leitor as possíveis

sequelas psicológicas que isso pode ter me causado, pela intensidade

dos impulsos contra os quais eu tive que lutar… Eu

nem sequer ficava na sala com meus pais acompanhando os

jogos! O jogo estava lá, comendo todo mundo vivo de tensão,

e eu só queria saber de ficar a postos no quintal, com a caixinha

de “traques” e os fósforos na mão, esperando que meus

pais ou algum vizinho me permitissem mais um estouro.

Meu pai, já recomposto da Copa, disse-me que eu poderia

brincar com as bombinhas quando quisesse e até me

deu umas ideias. Mas quem trouxe mesmo contribuições

valiosas ao meu projeto “Estampido 86” foi um amigo que

morava no fim da rua chamado Ângelo.

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Ângelo, de acordo com o Dicionário de Nomes

Próprios, tem origem no grego Ággelos, que quer dizer

“mensageiro”, “anjo”. A mensagem que ele veio me anunciar

no caso, foi que simplesmente estourar a bombinha

não garantiria a plena realização de sua existência neste

mundo. Uma bombinha, para cumprir sua missão na

Terra, deveria explodir alguma coisa. Sendo uma pessoa

cheia de compaixão desde criança, não pude evitar de

solidarizar-me e comprometer-me a ajudar as pobrezinhas.

Meus pais haviam saído e estávamos, Ângelo e eu,

examinando o quintal em busca de possibilidades, até que

um “objeto” nos fez começar a rir em antecipação. O mensageiro,

então, soprou-me aos ouvidos:

— Coloca três de uma vez embaixo!

Eu devo ter pensado que era uma ótima ideia, pois foi

exatamente o que fiz, embora só me lembre mesmo de

estar rindo tanto que mal conseguia falar, tamanha era

a minha excitação. Acendi as bombinhas e corri para

me proteger da explosão atrás da porta da lavanderia.

Assim que ouvi o estouro, abri a porta e tive uma visão

de como seria o apocalipse: havia merda de cachorro —

o “objeto” — chapiscada por todo o lado, nas paredes,

na porta e nos lençóis que minha mãe havia estendido

no varal.

Aquela pintura impressionista do fim do mundo em

tons de marrom fez com que eu saísse caminhando atônito

pelo quintal. Parei entre os fios dos varais e fiquei ali

sozinho, pois o mensageiro não gostou quando eu usei as

profanas palavras “limpar”, “antes”, “pais” e “chegarem”.

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Não lembro do que aconteceu quando meus pais

chegaram — é repressão de trauma que se chama? Para ser

honesto, minha memória desse incidente só vai até um

evento que, até hoje, não consigo explicar: uma bostinha

cair bem ao meu lado, minutos após a explosão.

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Oficina

Lucas Gregório

Uma homenagem a Drummond

Eu queria escrever um soneto leve,

Como vejo companheiros fazer.

Algo de bom que tocasse na pele,

Não algo falando do meu sofrer.

Eu queria um soneto pomposo, célebre,

Um poema com poesia boa de se ler.

Um texto com uma palavra que sele

E que indique a alegria do viver.

Todavia, este meu soneto é intérprete

Desta alma que me obriga a escrever.

Um poema importuno, mesmo que breve,

Inapropriado, com nada que gere,

Que não ilumina, só entristece

A alma da pessoa dedicada a ler.

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A

Vaidade

de um

Deus

Beatriz Leal de Sousa

Existe uma beleza infantil em

ver um adulto desconcertado.

É a sutileza de um desconforto

que surge nas menores

particularidades. Falo do constrangimento

de ser deixado só

num vagão de metrô depois de fazer

parte do trajeto com alguém. É

nítido o embaraço de alguém que

veio conversando com um outro,

de pé, boa parte do caminho, se segurando

nas barras de leve, quase

imperceptível o balanço do trem.

Quando seu interlocutor deixa o vagão apressado, antes

que a porta se feche, há um baque. O que fica olha para

os lados. É como se só agora notasse a publicidade do lugar

onde se encontra e fosse trazido ao chão pelos cabelos,

pego de assalto. Olha o chão, vê se não há lugar vago para

se sentar. Nunca há. Pega o celular no bolso, vê as horas.

De fato, o mundo não parou durante sua conversa acalorada

de sete estações, mas agora, no seu silêncio, é como se

rodasse mais devagar

Para onde vamos nesse descolar de realidade das

conversas? Qual o motivo do tempo apertar o passo quando

estamos bem? A vaidade de Cronos torna inaceitável

a nossa indiferença, como se tomássemos de suas mãos

enormes as rédeas da vida. Não vivemos, nesses momentos,

em função dele nem apesar. Vivemos apenas como se

ele não fosse nada.

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Talvez não seja, nunca, nada. A vaidade

também está nisso. Só quem pode ser somos

nós, de forma direta, sem a mediação

de qualquer fenômeno. Somos porque

sim. O deus do tempo é deus porque tem o

tempo, existe por meio dele, existe porque

nós o aceitamos como convenção.

Imagino sua existência se desfazendo

caso tacitamente a humanidade não mais

o aceitasse. Não haveria nada que pudesse

fazer se cada um adotasse o seu tempo,

colocasse os ponteiros ou dígitos aleatoriamente,

como bem quisesse, e tomasse dali

seu novo ponto de partida. O que faria? Se

cada um fosse o deus do seu próprio tempo,

ele não seria mais deus de nada.

Mas nós não somos deuses. Precisamos

deles, vivemos em função deles. Ser

deus de si implica numa responsabilidade

assustadora. O fardo de carregar sua própria

liberdade pelas mãos talvez seja demais,

faz enlouquecer.

Enquanto isso, e por isso, ele vinga

sua vaidade nos colocando o constrangimento:

nossa vergonha de voltar ao mundo

dos mortais, depois de, por alguns instantes,

termos sido deuses.

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Vida Morte Poesia

Rafael Corrêa

Se a morte é um suspiro de alívio

Que finaliza as dores do viver,

E a vida um respirar claro e sonívio

Que contrasta as angústias com o prazer,

Torna-se a existência um curso trívio

Para eu pensar, amar e, sim, morrer

Sem risco de cair no eterno oblívio

Escrevo, e como escrevo, é o meu poder.

Se os versos são momentos de catarse

Sem frescuras, diretos, elegantes

E o poema foto a colocar-se

Em telas, papéis brancos e estantes,

Os guardo e vivo leve no ar se

Eu sei que depois morro e não antes.

19


Presa e Predador

Thaís Helena Moraes

Era uma vez, no topo de uma ameaçadora montanha,

um reino de caçadores. Todos os aldeões eram treinados,

desde o nascimento, à perseguição e à caça de

animais os mais variados; e faziam belas peles para vender

nas feiras do vale da montanha, e serviam os jantares

mais fartos e mais apetitosos de toda a região. O reino era

comandado por um rei, de ombros robustos e pele cheia

de cicatrizes, que diziam ser capaz de caçar qualquer tipo

de animal que andasse pela terra. A cada dia, porém, ele

ia tornando-se mais velho, e seu povo o pressionava para

que tivesse herdeiros. Assim, numa noite de raios e trovões,

o rei pediu aos deuses um presente: uma esposa que

pudesse dar-lhe um filho mais forte que ele mesmo.

Quando a noite acabou, ele reuniu seus companheiros

e desceu a encosta da montanha rumo à floresta. Lá

permaneceram durante todo o dia, mas não encontraram

caça alguma. Ao parar no leito de um riacho para matar a

sede, o grupo viu aproximar-se uma mulher, de tez macia

e olhos profundamente negros. Dirigindo-se ao rei, ela

perguntou:

20


— É você o rei desses homens, que vivem no topo da

montanha?

Ao que ouviu a resposta afirmativa, disse:

— Eis aqui vossa esposa.

O grupo, então, conduziu a moça até os portões do reino;

o povo, apesar de receoso, foi instruído a recebê-la em

festa, e o casamento foi marcado para dali a quatro dias.

Como não havia carne, o rei ofereceu mel e frutas à mulher,

que recusou tudo, com um sorriso doce. À noite, no

leito nupcial, ela sussurrou:

— Amanhã, preciso que me traga a carne do animal

mais veloz do mundo.

Então, no dia seguinte, o rei reuniu seus homens e saiu

para caçar; ao pôr do sol, retornaram trazendo uma gazela,

de pernas finas e muito ágeis, que foi ricamente preparada

e oferecida, no jantar, à esposa do rei. Com avidez

selvagem, a mulher comeu o animal inteiro, desde a carne

nobre até os órgãos comumente descartados, em tempo

assombroso. À noite, no leito nupcial, o rei reparou

que a barriga da esposa crescera. Antes de cair no sono, a

mulher sussurrou:

— Amanhã, preciso que me traga a carne do animal

mais feroz do mundo.

Mesmo hesitante, o rei reuniu seus homens novamente

e desceu a montanha em direção à floresta, de onde

retornou, ao final do dia, trazendo um grande urso, de

garras enormes e dentes afiados. Mais uma vez, a carne

do animal foi ricamente preparada e servida, no jantar, à

rainha — que devorou a refeição em tempo ainda menor.

21


Ao deitar-se outra vez no leito nupcial, a mulher tinha a

barriga com o dobro do tamanho, e sussurrou:

— Amanhã, preciso que me traga a carne do animal

mais poderoso do mundo.

Transtornado, o rei mal dormiu e, na manhã seguinte,

reuniu seus homens uma última vez, para, juntos, adentrarem

a floresta. Quando o sol se pôs e a noite subjugou

o dia, o grupo retornou trazendo a caçada mais farta que

já haviam feito. Trouxeram coelhos de todos os tipos; vinham

carregados em carroças peixes, aves, veados, porcos

do mato e muitos outros animais mortos, que foram

preparados e servidos num grande banquete aberto ao

povo. Os aldeões comeram e beberam até se fartarem,

mas a esposa do rei permaneceu em jejum. Depois de findado

o banquete, quando foi deitar-se com sua mulher, o

rei suava frio. Notou que não apenas a barriga dela roncava

muito, tal qual o rugido de um leão, como também

suas unhas pareciam maiores, seus olhos eram mais inquisitivos

e seus dentes estavam muito mais afiados. Estando

os dois sozinhos no quarto, ela sussurrou:

— Hoje, você não foi capaz de me trazer o que lhe pedi.

Mas vamos dar um jeito nisso; não vou passar fome esta

noite.

Em um instante, sua boca cheia de dentes abriu-se tão

grande que o rei não teve tempo de gritar; numa única

mordida, ela comeu o homem inteiro, sem deixar rastro

algum de sangue. Com passos que pesavam toneladas, ela

deitou-se no leito nupcial para dormir, satisfeita, a barriga

enorme. No quarto dia, antes mesmo que o sol raiasse,

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o reino inteiro ouviu seus urros de dor, porque dava à luz

um filho. Ele nasceu de ombros largos e mais forte que o

pai, mas com chifres de gazela, dentes pontudos de urso

e olhos profundamente negros, como os do animal mais

poderoso do mundo.

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Ser

Filippo Valiante Filho

Ou...

— Manifesto

Sou poeta de versos brancos,

negros e pardos

Autor de versos livres

outrora escravizados

Sou poeta de amor à humanidade

em manifesto antropofágico

Sou poeta de formas concretas

que já foram abstraídas,

Sublimando ideia e sentimento

de quem amou ou odiou a vida

Sou poeta de palavras cândidas,

que não branqueiam versos sórdidos

Sou poeta das antigas

em um mundo pós-moderno

O ser poeta filosófico

no país das cantigas

Sou poeta da verdade

em território de mentiras

24


Jardins Numéricos

David Machado

Homenagem a John Nash

Ele cultivava números. Algarismos balançavam

leves ao vento, dígitos se concatenavam

para formar números completos. Sua preferência

sempre foi a base decimal, embora gostasse da complexidade

dos hexadecimais e da singeleza dos binários,

crescendo em cadência lógica de zeros e uns. Mas a

maior parte dos números que cultivava crescia na boa e

velha base 10…

O 357 29367 -29 3221 ele cultivava com mais atenção atualmente.

Um híbrido promissor, combinação aritmética de

quatro números igualmente interessantes. Suspeitava que

fosse primo, indivisível, e isso o levava a despender mais

tempo de cálculo nele que nos demais números de seu jardim

numérico. Via seus dígitos se revelando dia após dia,

alimentados pelos seus cálculos. Havia aprendido a ser

paciente. O número surgiria com o tempo, aos poucos sua

beleza apareceria em toda completude e complexidade.

Vislumbrou os algarismos mais significativos, fatorou-os,

dissecando suas notas aromáticas. Sim! Era bem parecido

com os fatores centrais do 25783!-2 35 . Um dos números de

25


melhor aroma que cultivara até então! Seria superior em

riqueza de fatores primos? Não se realmente fosse primo,

o que seria ainda melhor!

Lógico que não eram apenas esses números gigantescos

que apreciava. Gostava dos mais simples também,

particularmente dos ímpares. Os pares possuíam um

odor adocicado que, agradável em poucas doses, se tornava

enjoativo em excesso. Apreciava a simplicidade do 2,

sua pureza de cheiro adocicado, ainda mais por ser o único

par primo! Já o número 65536 lhe causava náuseas de tão

adocicado. Multiplique a doçura do 2 por ele mesmo, 16

vezes! Além disso, uma potência de 16? O número 2 multiplicado

por ele mesmo quatro vezes? E, pior, 4, um número

também doce, vezes 2 vezes 2? Eram pares demais

para suportar, definitivamente um número que nunca faria

parte do seu jardim numérico.

Após calcular o 357 29367 -29 3221 por algum tempo, interrompeu-se

e começou a calcular outros números em

desenvolvimento no seu jardim. Não era justo gastar

tempo de cálculo demais com esse, mesmo estando claro

que era seu predileto. Os números eram ciumentos,

especialmente os primos ou os que apresentavam características

muito fortes de sê-los. E havia razão para isto:

eram mesmo especiais! Aroma forte, indivisível! Impossível

dissecá-los em notas mais simples. Grande parte

dos números que ele cultivava eram primos, mas havia

poucos outros interessantes, alguns até mesmo pares,

que fazia questão de manter em seu jardim por outros

motivos…

26


Apesar de ser o método mais importante, fatorar as

notas aromáticas de um número não é a única maneira de

apreciá-lo. Sequências numéricas cuja soma reproduz os

próprios números da sequência concatenados em ordem

crescente: como não admirar esse tipo de coisa? O problema

é que, além de raros, exigiam mais tempo de cálculo

para se desenvolverem que os demais, como trevos

de quatro folhas exigindo ser regados por litros de água

para crescerem viçosos! Não valia a pena procurá-los,

mas quando se deparava com essas raridades por acaso a

surpresa sempre lhe era agradável.

Palíndromos o interessavam particularmente! Bom,

um palíndromo qualquer é algo fácil de se conseguir: tome

qualquer número do jardim, concatene-o com seu reverso

e eis aí um palíndromo! O que ele buscava eram palíndromos

com características especiais. Palíndromos primos,

por exemplo. O 101 era seu xodó, primeiro representante

dessa família — obviamente, desconsiderando os primos

de um dígito, palíndromos evidentes: 2, 3, 5 e 7. O 11 é simples

demais, não conta. E todos os outros palíndromos de

dois dígitos são divisíveis por 11, por motivos óbvios… Mas

o 101!!! Esse número tinha um lugar especial! Mas o que

dizer então do 1.111.111.111.111.111.111 em representação decimal?

Palíndromo, primo e formado apenas de dígitos 1.

Como não apreciar a beleza desse número imponente em

seu jardim?

Começa a entrar na parte dos números triangulares

de seu jardim quando vê ao longe os dois odiosos homens

de avental branco:

27


— Nash, é hora de tomar seu remédio!

Bem agora que distribuiria tempo de cálculo a seus

números piramidais? A fragrância incomparável de dízimas

periódicas binárias com representação exata em

sistema decimal impregnava suas narinas enquanto engolia

as pílulas amarelas das mãos dos enfermeiros. Não

adiantava mais só fingir e cuspir depois, os enfermeiros já

conheciam esse seu truque.

— Que caderno é este que ele está… – Nash berra insano

quando o enfermeiro novato tenta puxar suas anotações,

preenchidas com infindáveis sequências de dígitos.

— Calma aí, novato! Não precisa tirar isso dele, é inofensivo!

— O que é?

— Ele diz que é seu “jardim”. Vai entender esses malucos…

Nash abraça com força seu jardim numérico contra

o peito.

— Quem era esse infeliz?

— Respeito, novato! Qualquer um está sujeito a isso.

Dizem que, quando são, era um matemático brilhante!

Ninguém sabe ainda como esse tipo de distúrbio começa…

As pílulas começam a fazer efeito. Nash até já começava

a apreciar esses momentos, colocavam-no em contato

mais direto com seu mundo de números. Nesses momentos

ele podia, além de sentir o cheiro, também tocar e

ver as cores dos números que cultivava tão zelosamente!

Abriu seu jardim na página do 357 29367 -29 3221 … Que pena!

Estava claro agora que não tinha nem a cor nem a textura

28


de um número primo. Mas parecia ter outras características

inéditas, ainda valia a pena regá-lo com mais tempo

de cálculo para ver como se desenvolveria.

— Para mim, qualquer um que goste de matemática

definitivamente não pode mesmo ser normal…

Fecham a porta do quarto de John Nash, abandonado

em seus delírios. Senta-se na cama, a página de seu jardim

aberto no 1.111.111.111.111.111.111… Que belo primo!!!

Que aroma, que simetria… E que cores impressionantes

tinham seus milhares!!!

FIM

29


A Balada do Beija-Flor

Isabella Oricolli

O beija-flor que me beijou dois dias atrás num jazz

Me olhou, sorriu, plantou saudade em mim e partiu

E fez de meu corpo orquestra quando me despiu

Me deixou uma água de cheiro e um perfume doce

Quando seu crespo macio em meu travesseiro deitou

Só queria de novo esse teu toque intenso e ligeiro

Nossas mãos enlaçadas, risadas e afeto durante um dia

[inteiro

Querida, você não tem noção do bem que você me faz

O peito arrepia com a ternura que tua alma me traz

Tua dança, tua arte, tua beleza sem vaidade

Complexa e bela na pura simplicidade

Devidamente coroada, é como Nefertiti em seus brincos

[e anéis

Porque foi desenhada em aquarela nos mais delicados

[pincéis

Teus olhos de estrelas me provocam e me causam

[admiração

Já que você não brilha, é a própria constelação

O raiar da luz da lua refletindo sob tua pele escura

Me leva à loucura, me tira do sério, me faz suspirar

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Quando me olha nos olhos pra desvendar o meu mistério

Com a doçura e carinho de quem sabe o jeito de se achegar

E, ah, impossível é não fazer dela a musa da minha poesia

Se eu entrei na valsa dessa menina “facinho, facim”

Meio passarinho, meio felina…

Será possível existir um ser assim?

E eu que seguia meio sem rumo, feito andarilho

[caminhando

Me peguei em seus caminhos, porque ela já chegou

[gostando

Nem pergunto. Só vou acompanhando…

Sinto gratidão por tudo que vou recebendo

E fico em êxtase só em te olhar vivendo: andando por aí

Sem complicação, dançando e sorrindo

Nem sei do futuro, remotamente falando

Só sei que quando chegou,

Meu mundo certamente ficou mais lindo…

31


Me Disseram que os Poetas

Sangram Poesia

Giovanna Mendonça

Faz um tempo que eu não escrevo. Não escrevo com

alma-coração, com café na mão e os pés no chão. Dizem

que tudo que um poeta faz é sangrar poesia. E,

meu bem, eu acredito que minha poesia é triste e vazia.

Toda vez que sangro é quando meu coração se parte com

tanta intensidade que me sinto estilhaçada demais para

pedir socorro. Quando escrevo, é porque minhas lágrimas

não conseguem mais carregar o peso dos meus sentimentos

confusos e,

acima disso tudo,

quando escrevo,

é quando me sinto viva.

Faz um tempo que eu não escrevo.

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Meu Único e Grande Medo

Robert Alcantara

Tenho medo de abortar

sem antes ter realizado

meus sonhos e objetivos.

Tenho medo de ir embora

sem antes ter liberado o que

tenho aprisionado no peito.

Tenho medo de definhar

sem antes dizer tudo que sempre quis,

mas nunca tive coragem.

Tenho medo de sucumbir

sem antes ter sido a razão

de alguém sorrir.

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Tenho medo de me apagar

sem antes ter superado o meu

medo de amar e ser amado.

Tenho medo de partir

sem antes me despedir das pessoas

que mais amo neste mundo.

Eu não tenho medo de morrer,

tenho medo é de viver sem ter vivido,

de, em meio à vastidão deste universo,

apenas ter existido.

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Agora Inês É Morta

João Ribeiro Neto

Quando entro no cômodo, a primeira cena que meus

olhos percebem são as paredes brancas, manchadas

pelo sol e marcadas pelo falso luto que emana de cada

indivíduo aqui presente. Todos, como se espera, estão vestidos

de preto, realçando a atmosfera densa e obscura que

circunda o acontecimento que trouxe todos aqui. Primeiro,

passo os olhos por aqueles que estão no fundo do salão,

distantes do caixão localizado do outro lado do cômodo,

pois não eram muito próximos do velado, apesar de sempre

estarem dispostos a ouvir boatos acerca dele, além de

não perderem um segundo sequer para tecer comentários.

Essas pessoas vieram apenas

para mostrar presença aos parentes,

pois não dão a mínima para o

corpo que já não respira, já não ri,

já não sonha. Talvez estejam procurando

um novo alvo para seus

comentários, alguém que sirva

para alimentar sua vazia existência,

a qual gira em torno de espa-

35


lhar mentiras. Não sei se “vazia” é o termo correto para se

referir à vida dessas pessoas, mas não consigo pensar em

algo melhor para definir seres que não estenderam a mão

a alguém que claramente precisava de ajuda.

Dou um passo adiante e estou mais próximo de amigos

e familiares. De certa distância, vejo meus amigos,

todos unidos, de mão dadas, consolando uns aos outros,

ao mesmo tempo que não conseguem digerir o que está

acontecendo. Eles não querem acreditar que este dia chegou.

Sempre foram tão carinhosos, amorosos e acolhedores

que não mereciam estar passando por isso, despedindo-se

de um amigo. Lembro-me de todos os dias que

estive triste, devastado e foram eles que atenderam o celular

para me consolar, foram eles que abriram mão de uma

parte de seu dia para me acolher e ajudar. Foram eles que

não atiraram pedras enquanto todos faziam o contrário.

Como eu poderia não ter um sentimento tão forte por eles,

que sempre me ajudaram?

Mas quando olho para meus parentes, vejo o olhar de

reprovação sobre meus amigos. Um olhar que condena,

que os transforma em indivíduos inferiores. Eu conheço

esse olhar. Fico estudando o comportamento dos parentes

e não consigo deixar de me perguntar como eles conseguem

chorar sobre algo que sempre desejaram, que sempre

tiveram vontade de fazer.

Vejo meu pai chorando, como se tivesse perdido uma

parte de seu mundo. A ironia disso é que ele sempre bateu

nessa parte do mundo, a expulsou de casa, sempre reprovou

tudo que ela conseguia, sempre a rebaixava. Fico

36


me perguntando como ele chora pela perda de alguém

que sempre fez questão de mostrar que não queria em sua

vida. A mãe age quase por mímica, chorando pela perda

de seu alvo diário de humilhações, ações e palavras. Como

essas pessoas choram por alguém que nunca trataram

com mínimo respeito? Os tios, os primos, os mesmos que

sempre olharam com nojo e repulsa, os que sempre fizeram

piadas e brincadeiras. Pessoas que compartilham

sangue e a falta de empatia estão todas aqui unidas.

Talvez seja isso, talvez estejam chorando pelo fato

de um jovem de 17 anos ter perdido a vida. Talvez eles o

amassem e esse era o modo que eles encontraram de expressar

seus sentimentos. Mas eu não acredito que o amor

seja tão doloroso assim. Ou, talvez, estejam chorando por

puro peso na consciência de terem agredido uma pessoa

durante tanto tempo e de agora a verem morta diante de

seus olhos.

A parte mais dolorosa de tudo isso é que tudo que o

velado ouviu durante a agressão de dois homofóbicos —

que se sentiram no direito de agredir e matar um garoto

— ele já tinha ouvido antes de todos os parentes aqui presentes.

Todas as frases de ódio, todas as piadas, os olhares

de desgosto, de reprovação, as atitudes odiosas, a exclusão,

a violência silenciosa. Um riso irônico surge em meu

rosto quando penso que talvez eles estejam tentando diluir

tudo isso com suas lágrimas falsas.

Dou um passo em direção ao caixão e finalmente vejo

o motivo pelo qual estou aqui. Vejo um jovem com a alma

destruída depois de tantos anos de violência, com perso-

37


nalidade e sonhos reprimidos. Um corpo cansado de tantos

olhares hostis, cortantes. Eu sabia que esse dia chegaria.

Todos aqui presentes sabiam que esse dia chegaria. A

maioria aqui desejava ter feito isso, cegados por um ódio

irracional, queriam destruir um indivíduo que desafia a

vida vazia que todos levavam. Mas eles fizeram um bom

trabalho em organizar este funeral, se arrumaram, organizaram

e compraram arranjos bonitos. Até escolheram

uma foto em que estou bonito, me vestiram com um terno

que combina com a coroa de flores ao meu redor.

Queria dizer a todos os enlutados aqui que já não

adianta chorar, agora que suas preces e desejos já foram

atendidos. Já estou morto.

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muros e molduras

Mariana Fleischner

segunda-feira em casa

sem pé na areia;

ruas vazias,

cabeça cheia.

dia lindo,

verão na janela;

mundo feio,

barulho de panela.

carro sem volante,

país desgovernado;

parede angustiante,

abraço adiado.

cotidiano interrompido.

de certo, a incerteza;

mesmas coisas,

nunca mais as mesmas.

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Tired as I Am

Clara Maas

My mother always held a praise for us, a glimmer of

pride in her eyes that, from our grades to our childhood

mischief, was little but justified. Perhaps it

was because she hoped we would become something

different, better than she ever was able to.

I knew she had built plans for us, as all parents do.

Greater dreams so that at least in her mind we would

always be far far away from here, from this house. The

same house that chewed her up all those years, with heavy

mold velvet walls and stained carpeting that refused to

be washed off, no matter how much she would scrub until

her hands were raw. So I prayed, cried and worked my

hardest to climb my way out of that ceiling, but whenever

I tried to stand on my own, I swear that the same ceiling

would come crashing down on top of me, as if the house

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itself was forcing its weight onto my body, just like it had

done to hers before.

But as I grew up, I started to read something different

in her eyes. That glimmer of hope had now slowly shifted

into more of sympathy, or perhaps mercy. She recognized

on our slumped shoulders the same weight that she

had been forced to carry so many years before. From her

fragile body, carrying many more inside of herself, or a

weighted loved hand, whose finger marks never seemed

to vanish completely from her cheeks.

I wasn’t frightened by that look. That melancholic caress

from which my other siblings would shy away from.

But at the pit of my stomach grew a stillness I couldn’t contain,

almost as the desire to hold my breath for as long as I

could when, at night, she came to rest beside me. But there

in the dark, that mercy began to take the recoiled shape of

that harmless care. I couldn’t quite understand her words,

but the unsettling feeling only grew from the little I could

grasp. We were “too many” and the house was “suffocating”,

but, mostly, she was “so exhausted”. I was never so

scared of a word as I was then. And I shouldn’t have been

surprised at all, after the events that followed.

I asked my siblings, once or twice, if they recalled

something similar at all. They would always deny it. Mother

wasn’t really talkative, even less so with us. So if she

had ever given signs that she would do what she’d done to

them, they would’ve remembered.

So perhaps I was the only one she whispered to. And

perhaps it wasn’t a sign or a cry for help, but an invitation.

41


An invitation that would start with the same words which

I now come to put together after many nights have finally

passed. Because back then, when mommy would lie with

me, she would ask, just to be sure:

— Are you as tired as I am?

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Como Vou Dizer que te Amo?

Leticia Facchini

Poeta não te elogia,

ele te recita um verso

daqueles viciados em boca a boca

trocados e alterados pra cada persona.

Poeta não te admira,

ele constrói estrofes

com curvas que te desenham

com palavras, que dão voltas

e enlaçam, enfeitiçam até você se apaixonar.

Poeta não mente,

ele enfeita a verdade para rimar,

usando da beleza montada para transformar

fatos inalterados em fantasias verossímeis.

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Poeta não é corajoso,

ele se esconde atrás de uma tela,

lapidando palavras até ficarem pontiagudas,

furando o ouvido do primeiro que atingir,

fazendo chorar, rir ou emocionar,

mas nunca vendo o estrago de sua arma engatilhada.

Poeta não vai te amar,

ele vai mergulhar fundo para se afogar,

ele vai procurar a frase perfeita para te dar,

ele vai pensar-te em todo livro lido,

ele não vai te dizer: eu te amo.

Ele te escreverá (esta) poesia.

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Temos Todo o Tempo do Mundo

Ana Luiza Ramos de Luna

Meu momento de fraqueza, o único que me permito

ter, não é quando estou prestes a dormir, enrolada

nas cobertas e chorando no travesseiro. Também

não é durante o banho, quando as lágrimas se perdem no

meio dos pingos do chuveiro e não escuto nada além da

água caindo. Eles já foram um dia. Meu momento mais

frágil é no meio da tarde, quando estou no trabalho.

Eu odeio meu trabalho. Faz quatro

anos que trabalho para a mesma firma

de advocacia e, apesar do salário

ser razoável, é simplesmente

um inferno. O pior de tudo é que

eu mesma atirei no meu próprio

pé. Eu escolhi a faculdade. Encontrei

a vaga disponível de estágio e

me candidatei. E, então, quando meu

chefe ofereceu uma posição definitiva na

equipe, eu não recusei. Por quê? Sinceramente, sinto

que fazer essa pergunta agora é inútil. Já se passaram

anos, afinal.

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O trabalho é exaustivo e sempre sobra uma pilha de

pastas em cima da minha mesa, não importa o quanto eu

tente adiantar as coisas. Sei que isso também acontece

porque o sobrinho do dono não cumpre o que deveria fazer,

mas não posso reclamar. Eu não sou a única, e todos

sabem disso. Então os casos se acumulam e preciso tentar

controlar tudo numa agenda lotada para não perder nenhum

prazo apertado. Algumas vezes, cinco ao todo até

agora, meu sistema falha, e sou chamada na sala do meu

supervisor. Nunca é algo grave, mas fico queimada na empresa

por alguns meses, o que não contribui para que eu

passe a gostar do que faço.

Apesar de viver trabalhando, ainda há um certo

equilíbrio na minha vida social. Becca, Vera, Hugo, Nora

e Gabriel. Meu círculo de amigos, que se manteve desde

o penúltimo ano da faculdade. Marcamos de nos reunir

uma vez a cada duas semanas e conversamos bastante durante

a semana, quando estamos livres à noite. Eles são a

única coisa boa que eu tenho atualmente.

Assim, meu momento de fraqueza é no meio da tarde.

Quando estou parada em frente ao computador, resolvendo

a décima quarta papelada do dia, e me levanto para ir

ao banheiro depois que o café acaba. Nessa hora, tranco a

porta e me encaro no espelho. É nesse momento, quando

sei que ainda tenho muita coisa para fazer e não posso ir

embora e ficar com meus amigos, em que me sinto cansada

e sozinha e covarde, que eu desabo por alguns minutos.

Fui covarde por me manter no mesmo curso após descobrir

que não era o que eu queria, apenas porque eu não

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tinha certeza e não queria decepcionar ninguém.

Fui covarde ao aceitar um emprego que nunca

me trouxe satisfação, apenas cansaço.

Fui idiota, ponto final. E, mesmo agora,

quando vejo isso cinco dias por semana

naquele reflexo no espelho do banheiro,

continuo sendo covarde por ter medo de

mudar as coisas e ficar sem rumo.

Sei que eu devia destrancar a porta, sair do banheiro

e ir para a minha mesa. Então, juntar todas as minhas

coisas, desligar o computador e pedir demissão. Consigo

imaginar como seria. Eu deixaria a caneca de café vazia

na pia da cozinha, largaria todas as pastas na mesa daquele

incompetente e entregaria meu cartão de acesso

para o guarda da portaria enquanto estivesse saindo pela

porta da frente para nunca mais voltar. Seria incrível. Eu

ligaria na mesma hora para Nora e reuniria o pessoal para

comemorar. Talvez eu faça isso. Talvez não hoje, talvez

amanhã, ou, então, quando a semana acabar. Talvez eu esteja

apenas inventando desculpas mais uma vez e precise

tomar uma atitude ou me conformar de vez. Talvez hoje.

Saio do banheiro e olho para o relógio em cima da

porta da sala da frente. Ainda são 15h40. Eu ainda tenho

tempo. Não é tarde demais.

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Seca Vida

Bia Naiara

Às vezes, me sinto como Fabiano, como um bicho, não

como um homem. Às vezes, me sinto como Fabiano,

gritando calado todas as dores do mundo, as palavras

que me pertencem esgueirando-se por entre as entranhas

em protesto, recusando-se a saírem pela boca. Às

vezes, me sinto como Fabiano, sendo espancado, vivendo

da raiva, mas me calando na hora da revolta. Às vezes, me

sinto como Fabiano, desfrutando o sangue seco, estancado,

andando descalço sobre o chão batido de terra rachada,

tirando pedra sobre pedra de onde nada jaz. Às vezes,

me sinto como Fabiano, matando aos poucos quem me deu

lealdade para aliviar o meu sofrimento. Às vezes, me sinto

como Fabiano, travando uma batalha injusta contra meu

próprio eu. Às vezes, me sinto como Fabiano, me partindo

para estar, ao mesmo tempo, em ambos os lados.

Às vezes, me sinto como Fabiano,

Mas só às vezes.

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Penso, logo...

Isabelle Moura

Penso, logo… Tenho crise de ansiedade.

Choro, sofro, quase destruo minhas amizades;

já penso em trancar a faculdade.

Logo, quero mudar de cidade.

Pensar está sendo a ruína de meus dias;

não porque o ato em si de pensar seja ruim. Jamais!

Muito pelo contrário, pensar é uma grande dádiva que temos,

mas pensar demais…

Pensar demais me faz mal.

Penso antes de falar, antes de uma refeição,

antes de andar.

Se bobear, até entre cada respiração.

Penso antes de dormir ou enquanto estou sonhando,

penso se amanhã ainda vou estar aqui

ou se vou falhar, simplesmente desmoronando.

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Penso sobre tudo, mas não chego à conclusão de nada.

Pensar sempre me fez sentir livre,

mas, ultimamente, só me deixa sufocada.

Pensar demais é cansativo, é chato e me faz ter diversos

[surtos mentais.

Mas, ao mesmo tempo, não me deixa vulnerável,

como se fosse a única coisa que me fizesse ser capaz.

Saudades de quando pensar era sinônimo de apenas sorrir,

de quando pensar só me fazia refletir e até me divertir,

de quando conseguia somente sonhar antes de dormir,

de quando me fazia apenas… EXISTIR!

Mas, hoje, pensar me causa palpitação.

Daquelas que machuca a cabeça, aperta forte o coração,

que me faz perder o sono, tira-me da minha dimensão.

Pensar, que antes era minha cura,

minha liberdade e salvação de saúde mental.

Pensar, que agora é quase como uma condenação:

o cadeado sem chave da minha própria prisão pessoal.

50


Vesuvius

Julia Martiniana

Aos 12 anos de idade, fui pela primeira vez ao dermatologista.

Espinhas, dezenas delas. Hormônios, coisa

da idade. Ele (ou ela) me receitou um ácido: use todo

dia e não saia no sol sem protetor, senão vai manchar sua pele. Religiosamente,

eu passava aquele creme no meu rosto todas

as noites (ou manhãs). Religiosamente, quase como uma

prece disfarçada de penitência, minhas narinas queimavam

e meus olhos ardiam com a acidez. Com o tempo, as

espinhas foram desaparecendo.

Com mais tempo, elas voltaram. Dessa vez, não foram

só os hormônios: estresse, alimentação, maus hábitos

trazidos pela adolescência. A segunda visita ao dermatologista

nunca chegou; não valia a pena quebrar o monopólio

exclusivo de acidez que minha boca e meu estômago

tinham. Ambiente hostil, ph baixíssimo. Chance zero de

sobrevivência de qualquer coisa que merecesse a classificação

de vivo e respirando.

Além do mais, o grande problema das espinhas nunca

foram as espinhas, mas sempre as mãos. Mais especificamente,

os dedos. Quando eu menos esperava, lá estavam

51


eles, munidos de unhas longas, apertando todo e qualquer

ponto saliente do meu rosto. A tradição, milenar, entre o

meu tipo, de perturbar partes em perpétua inércia. Não

importavam as consequências, os pedaços de queratina e

carne estavam prontos para apertarem cada um dos pequenos

vulcões até que entrassem em erupção em umalava

branca, densa e gordurosa.

O ritual se seguia todas as noites após o banho, em

frente ao espelho embaçado do banheiro.

Primeiro: a tarefa de usar o doloroso (e detalhado) conhecimento do

próprio rosto para mapear as Rochosas.

Segundo: usar a habilidade de observação, impulsionada por nada

menos que obsessão, para escolher as mais fáceis de se estourar, em ordem:

as penhascais, ávidas pela superfície, antes; depois, especialmente

nos dias ruins, as tartáricas, confortadas no epitélio.

Terceiro: progressivamente, de maneira masoquista e automutiladora,

apertar os milímetros quadrados de pele em volta da massa leitosa

e observar a erupção. Depreender força bruta, se necessário.

O prazer durava alguns segundos na história, ínfimos

se comparados às consequências negativas de tal

missa. Há, obviamente, a dor do aperto no momento da

erupção; ela aumentava à medida que a timidez da espinha

era maior. Com a prática, essa dor tornou-se insignificante

perto do prazer martírico.

O após era, como se podia esperar, a pior parte. O imediato

contato da ferida aberta com o ar era paralisante.

A pequena quantidade de sangue misturada com suor dava

uma sensação inebriante de sujeira. E, como ato final da

ópera, havia as marcas. Escuras, dois tons acima da mi-

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nha pele. Ressecadas. Inconstantes. Não dava para saber

por quanto tempo permaneceriam, algumas nunca saíram.

Grudaram-se para sempre no tom arenoso da minha epiderme

(essa palavra aqui, pura herança de Kilkerry).

Porém, nada disso me importava. Nem a dor, nem o

sangue, nem a mancha. Nada era comparável ao esforço

de mártir, à força de santo sacrificado, para me perturbar

o corpo. Nem mesmo o fracasso ao expulsar o ponto

branco da pele me detinha: 15 minutos depois, lá estavam

de novo os indicadores esquerdo e direito prontos para o

despejo. Nenhum dermatologista conseguiu me explicar

o porquê desses pequenos picos de dor serem tão satisfatórios,

mesmo sendo microagressões autoinfligidas. Tive

medo de perguntar à psicologia.

Tenho alguns palpites. Talvez seja a concentração

empreendida na missa descrita naquele cubículo de azulejos

esverdeados, que organizava meus pensamentos em

uma única linha de raciocínio, simples e clara, sem memórias

ou premonições. Talvez seja a satisfação momentânea

da obsessão generalizada por algum objeto alvo de

toda a energia e movimento armazenados em potencial.

Talvez seja a sensação de autocontrole que a autoagressão

traz. Talvez seja uma doença.

De qualquer forma, discordo quando dizem que os

olhos são a janela da alma. A janela da alma são seus dedos

e o que eles fazem quando um Vesúvio está quase entrando

em erupção na região gordurosa entre o massette

e o bucinador.

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Subsolo

Pedro Pimentel

A duas estações do futuro,

cruzando corpos que

não tornarei a ver.

Há poucos acasos

mais improváveis do que

rever alguém no metrô.

Ainda mais improvável

de se lembrar do rosto estranho.

Tal rosto

de jogador de pôquer

coberto por um véu

da minha própria ignorância.

54


Quem sabe,

com o dom de Virgínia,

mergulhando na cabeça dos passantes,

seria capaz de incinerar o véu.

Em meio a esta selva,

aconselhado pelo gato de Alice,

subi no primeiro trem,

sozinho e rodeado de pessoas,

cujo destino desconheço.

Cidade essa

onde seres metafísicos

são mais acessíveis

que as pessoas ao meu redor.

Buscando, assim como eu,

qualquer forma de sair do subsolo

em que se encontram.

Estaríamos perdidos se Deus

fosse tão misterioso

quanto um paulistano no metrô.

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Jennyffer Stheffanny Pereira da Silva

A ferida, ainda aberta,

Costurada com remendo.

Dizem que o tempo cura tudo,

Mas então, o que cura o tempo?

O que foi perdido se perdeu

Sem possibilidade de regresso.

Do corte procedeu

Inviabilidade ao retrocesso.

A linha e a agulha

Cruzam-se por retalhos,

Com caminhos entrepostos

Recompondo os pedaços.

Em meio aos reparos,

Consertam-se os estilhaços

Restaurando danos causados

Por ferimentos do passado.

A cicatriz que foi deixada

Permanece externada.

Ainda que fechada,

Fica a dor que foi sentida,

Sempre ali, para ser lembrada.

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Aquela que (Re)Nasceu

depois dos Infortúnios

Oluwa Seyi

Vinte anos de vida e os meus amanhãs não prometiam

coisa alguma. A cada dia que eu saía de casa e

enfrentava, alquebrada, os olhares de desdém e ódio,

regressava ao lar com um pedaço a menos.

Quando ainda era pequena demais para compreender,

já perdia os olhos de me ver por dentro. Me chamavam

de “sem time do jogo de bola”, “sem par da dança de

junho”, “sem dupla do trabalho bimestral”. Fiquei sem.

Quando ainda era fraca demais para me impor, já furtavam

de mim uma enorme fatia do coração. Me chamavam

de “sem convite para festa”, “sem admirador secreto”, “sem

uma gota de beleza”. Mais uma vez, fiquei sem. E quando

finalmente deixei de ser pequena e fraca, eu já estava

acostumada às cotidianas mutilações e deixava cair por

aí, quase que por vontade própria, vários fragmentos de

mim: me vi sem esteio, sem destino e até sem nome. Novamente,

fiquei sem. Mas isso nem me parecia tão ruim.

Foi um bálsamo não poder ser chamada de nada depois

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de tanto tempo sendo, repetidas vezes, chamada de toda

e qualquer coisa.

O nome que eu carregava, escolhido pelo amor de pai

e mãe, não era hábil em me proteger da dor. Na verdade, o

som daquelas letras juntas se converteu, em algum ponto

inespecífico do caminho, em outra fonte de sofrimento.

Era aquele substantivo próprio que antecedia ou arrematava

cada ofensa, cada humilhação. Ouvir meu nome reafirmava

os tantos ferimentos fundos em minhas certezas

de também ser gente.

No início, a falta de nome me dava um tipo de medo

peculiar. E se alguma autoridade notasse minha condição

e me acusasse de má-fé? Afinal, ninguém perde o nome

no ônibus, esquece-o no bolso de uma calça. Soava como

algo demasiadamente grande para desconhecer. Por isso,

eu andava temerosa pelas ruas, tentando puxar meu nome

pela memória, querendo mantê-lo ao alcance dos dedos.

Por vezes, eu me pegava examinando meus documentos,

lendo-os em voz baixa. Até era capaz de decodificar o

nome que figurava naqueles pedaços de papel, mas a palavra

parecia não ter significado. Eu buscava decorar as letras,

anotá-las no corpo com tinta permanente, porém,

na hora de ensaiar sua pronúncia, as sílabas não

me saiam da boca, tropeçavam na língua. Meu

nome, definitivamente, já não era mais meu.

Quando ouvia aquele termo incógnito

sendo projetado em minha direção, eu me

sentia esbofeteada com força. Meu nome antigo

já conformava um sincero vazio, a invo-

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cação desrespeitosa de um morto recente. Por causa dele,

ensaiei um luto que jamais tinha experimentado: o luto

que só a própria morte talvez provoque.

Com o passar do tempo, porém, fui me perdoando pela

falta. Percebi que, sendo ninguém, talvez eu conseguisse

ser qualquer um; estando um pouco morta, porventura eu

poderia experimentar um tipo primordial de renascimento.

A inominação me acarinhava feito uma segunda chance,

uma lufada de vento fresco neste rosto, tantas vezes descrito

como feio ou negro demais. Finalmente, tive coragem

de lavar as letras incompreensíveis da minha pele e anunciar:

“Eu já não caibo mais neste nome!”.

Aquela minha decisão inaugurou um novo tempo, de

um devir ainda lacunar. Sendo gestada no útero do mundo

— óvulo, placenta e cordão umbilical de mim mesma

—, precisei aguardar que um outro nome, mais meu do

que o antigo, enfim me encontrasse. Porém, a espera por

algo que nem deu sinais de que viria também era dolorosa

e cravejada de incertezas. E se meu nome ficasse para

sempre em suspensão, num constante quase? E se tudo

que a vida me reservava fosse o anonimato ou o retorno

irrevogável a um ventre selado?

E mesmo rodeada de dúvidas, eu esperei. Esperei contrariada,

lamentosa e colérica. Esperei aflita, desnorteada

e febril. Esperei até enquanto garantia que já não esperava

por nada. Finalmente, a espera acabou e contrações essenciais

me convidaram, insistentemente, a viver outra vez.

Recém-parida e em frente ao espelho que por tanto

tempo evitei, percebi: não era eu quem esperava por um

59


nome, era meu nome que, como um bravo, esperava por

mim. E só quando vi meu reflexo, tão bonito, pude compreender

que estava pronta para outro nome, pois também

já era outra mulher. Nasci novamente, à revelia de toda a

força que me desejou morta. Ali, num banheiro mal iluminado,

embalado pelo som de uma goteira constante, eu me

rebatizei. Daquele dia em diante, meu nome tem sido Awiti

— aquela que (re)nasceu depois dos infortúnios.

Vinte e um anos de vida e os meus amanhãs, finalmente,

prometem tudo. Quantas outras décadas eu vou

levar para me acostumar às costas leves, ao termo às mutilações?

Sei que nada pode me devolver os muitos pedaços

que os outros roubaram e danificaram, mas sei, ainda

mais, que nada pode ferir de novo minhas certezas de

também ser gente.

Hoje, já não permito que me chamem de qualquer

coisa além de Awiti, meu nome autoinfligido. E quem

pode me retorquir ou condenar? Ter paz ao morar no próprio

corpo, ao vestir o próprio nome, deveria ser a principal

lei incontestável da experiência humana. Disso eu já

não posso duvidar. Não mais.

60


Autores

Estampaio

Flavio Bastos

bastosfh@usp.br

A Balada do Beija-Flor

Isabella Oricolli da Silva

oricolli@usp.br

Oficina

Lucas Gregório

lucas.gregorio@usp.br

A vaidade de um deus

Beatriz Leal de Sousa

beatrizleals@usp.br

Vida morte poesia

Rafael Corrêa

rafasouzacorrea@usp.br

Presa e Predador

Thaís Helena Moraes

thaismoraes@usp.br

Ser ou... — Manifesto

Filippo Valiante Filho

filippo@usp.br

Jardins Numéricos

David Machado

davidmachadosf@gmail.com

Me disseram que poetas sangram

poesia

Giovanna Mendonça

gimenfer2010@usp.br

Meu único grande medo

Robert Alcantara dos Santos

robert.alcantara238@gmail.com

Agora Inês é morta

João Ribeiro Neto

joãoribeironetodoani@gmail.com

Muros e molduras

Mariana Fleischner

marifleischner@gmail.com

Tired as I am

Clara Maas

clara.maas@usp.br

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Como vou dizer que te amo?

L. Facchini

lefacchini2002@gmail.com

Vesuvius

Julia Martiniana

juliamartiniana@hotmail.com

Temos todo o tempo do mundo

Ana Luiza Ramos de Luna

analrluna@hotmail.com

Subsolo

Pedro Pimentel

pimentel.ppt@usp.br

Seca vida

Bia Naiara

bianaiara2001@hotmail.com

Penso, logo...

Isabelle Moura

isabelle.moura@usp.br

Ponto sem nó

Jennyffer Stheffanny Pereira

da Silva

jenny.stheffanny@usp.br

Aquela que (re) nasceu depois

dos infortúnios

Oluwa Seyi

oluwaseyi@usp.br

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Agradecimentos

Agradecemos a todos aqueles envolvidos nesta

edição da Originais Reprovados: aos autores inscritos,

aos alunos editores, à Lis Gráfica e Editora e

aos leitores, nosso muito obrigado.

Voltamos no próximo ano!

Equipe Originais Reprovados #17

Conheça as nossas edições anteriores


a revta lirária da usp

Co, Crônas e poesias

Apoio

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