Views
5 years ago

ABL-076 - Sonetos e rimas - L... - Academia Brasileira de Letras

ABL-076 - Sonetos e rimas - L... - Academia Brasileira de Letras

208 � Luís Guimarães

208 � Luís Guimarães Jr. No Deserto Quando a Virgem fugia à lança dos sicários Unindo ao casto seio o redentor bendito, A noite os surprendeu nos plainos solitários Onde Mêmnon eleva o tronco do granito. Nem um astro sequer da cúpula divina No profundo dossel, nem um vislumbre, apenas: Era a hora em que o vento arqueja entre a ruína, Aos gritos do chacal e aos uivos das hienas. A José, cujos pés em chagas latejavam Sobre a areia cruel, disse a Virgem Maria: “Repousemos aqui”. – Seus braços vacilavam – “Seguiremos depois, quando romper o dia”. Tateando na sombra espessa e lutuosa, José o roto manto ao longo desdobrava: E a Virgem Mãe de leve, e pálida e medrosa, Sobre o manto deitou Jesus que ressonava. “Dorme” disse ao esposo a Virgem brandamente: “Por nós o doce Pai atento está velando”. Ele triste inclinou a fronte humildemente, Ela aos pés de Jesus adormeceu chorando.

E sonhou... O futuro horrífico e sangrento Do seu loiro senhor, do seu divino filho, Drama de pranto e luz – veio nesse momento Encher-lhe o coração de pavoroso brilho. Viu-o crescer tranquilo e puro, abençoando As negras multidões torvas de saciedade: Ouviu-lhe a grande voz, como um clarim lançando Ao mundo espavorido os sons da Liberdade. Viu-o, por entre o povo inóspito e implacável, Forte como os heróis e – débil como as flores – Colhendo em seu regaço eternamente afável, As crianças gentis e os rudes pescadores. Viu-o nobre, sereno e firme, interpretando Os mistérios da vida efêmera e terrena: E a multidão pasmada o ia acompanhando, E banhava-o de amor o olhar de Madalena... Viu-o chorar então as lágrimas primeiras, Ele – o santo ideal do Bem e da Ternura – No medonho jardim das tristes oliveiras, Bebendo, gota a gota, o cálix da amargura. Viu-o depois sorrir ao beijo tenebroso Que Judas lhe imprimiu na imaculada fronte, Como sorri o oceano ao lenho aventuroso, E como acolhe o raio o alcantilado monte. � Sonetos e Rimas 209

Poesia - Academia Brasileira de Letras
Poesia - Academia Brasileira de Letras
Ciclo dos Fundadores da ABL - Academia Brasileira de Letras
Poesia - Academia Brasileira de Letras
Prosa - Academia Brasileira de Letras
Poesia - Academia Brasileira de Letras
Poesia - Academia Brasileira de Letras
Poesia - Academia Brasileira de Letras
Poesia - Academia Brasileira de Letras
Prosa - Academia Brasileira de Letras
Prosa - Academia Brasileira de Letras
Centenários - Academia Brasileira de Letras
Prosa - Academia Brasileira de Letras
Prosa - Academia Brasileira de Letras
Poesia Estrangeira - Academia Brasileira de Letras
O estouro da boiada - Academia Brasileira de Letras
Prosa - Academia Brasileira de Letras
Guardados na Memória - Academia Brasileira de Letras
Prosa - Academia Brasileira de Letras
Sala de Videoconferência - Academia Brasileira de Letras
Guardados da Memória - Academia Brasileira de Letras
Prosa 1 - Academia Brasileira de Letras
Prosa - Academia Brasileira de Letras
Guardados da memória - Academia Brasileira de Letras
Aleijadinho - Academia Brasileira de Letras
Prosa - Academia Brasileira de Letras
Prosa - Academia Brasileira de Letras
Prosa (2) - Academia Brasileira de Letras
Poesia Estrangeira - Academia Brasileira de Letras
Prosa 3 - Academia Brasileira de Letras