Views
5 years ago

ABL-076 - Sonetos e rimas - L... - Academia Brasileira de Letras

ABL-076 - Sonetos e rimas - L... - Academia Brasileira de Letras

8 � Luís Guimarães

8 � Luís Guimarães Jr. que exulta, mira efeitos teatrais na emoção que explora, caindo numa sorte de monomania bizarra. Tudo neste certâmen condiz ao fim: a rima procurada entre palavras obsoletas, as imagens colhidas entre os fenômenos mais repelentes, mais extravagantes, mais recônditos, e o tema inicial quase sempre talhado em podridões, misérias, infâmias ou bufonerias. Eu não nego o gênio destes extraordinários analistas. Quantas vezes Rollinat me tem dado pesadelos! Mas tantos desses patológicos assuntos não diriam melhor numa monografia científica? Cuidam os poetas pagar com as maravilhas da fatura a frialdade ou o artifício do sentimento interior – e assim ficaram as estrofes, enfileiradas, enigmáticas, mortas, como uma avenida d’esfinges que leva à necrópole deserta. Resta a poesia puramente lírica, a poesia que o amor glorifica, nas transfigurações do idílio e paixão platônica das puras formas: bando de visões tecidas de sonho e nuvem, desejos duma serena plenitude que todos os seres compartilhem, desde a alga microscópica até ao homem de gênio – poesia perfumada dessa ternura infinita, castíssima, maternal à força d’íntima, que vibra no poeta ante os mais leves aspectos sensíveis. Através das evoluções do espírito moderno, no vortilhão doentio dos que todos os dias renovam os seus ideais, há pequenas sinagogas de contempladores e eternos crentes, imutáveis como o dogma, aos quais as velhas coisas inspiram culto apaixonado, e que se comprazem em cultivar os afetos simples do espírito, ingenuamente expressos, ingenuamente sentidos, e camonianamente cantados. A poesia que eles fazem, repassada do sentir da multidão anônima, parece antiga como a estatuária grega, e como ela eterna pela graça rústica que acentua, e pela límpida e franca linguagem que emprega. Nesta situação, o poeta lírico é um ser à parte, uma espécie de divino sonâmbulo, cristalizando dor a dor, soneto a soneto, na

Sonetos e Rimas 9 sua alma, como numa concha, à força de concentração, contemplação, o grande ideal d’amor absorvente, que se alimenta de puríssimas reminiscências de beleza, e flutuante nas asas do êxtase, tudo vai sagrando por onde quer que passe. É o caso de João de Deus, recolhido nas contemplações da sua mocidade algarvia, rimando singelos amores com raparigas do campo, e dizendo as saudades de Marina morta, e a meiguice frágil de Margarida, naquela forma primitiva do lirismo português, que no século XVI radiava em fragmentos de Gil Vicente,SádeMirandaeCamões. Instintivamente, indaga-se a quantos séculos de distância está a voz que se escuta rimando essa canção paradisíaca e divina, onde entanto lateja o coração do mundo, e quer-se perscrutar a maneira por que eles têm conservado, na complexa vida deste século, a limpidez d’espírito da antiguidade. Conhecem o lied? É um gênero de poesia vaporosa e ingênua, que se encontra por toda a Alemanha, incorporado na vida do povo. Através da sua forma fantasiada, das suas divagações nebulosas, o lied conserva uma lado real, que se prende a todos os atos do viver alemão e vai maravilhosamente a essa língua de todos os ritmos, hábil para todas as versificações, e cujo efeito acústico Philarete Chasles compara a um ressoar d’órgão com tubos de cobre, em que as notas solenes se vão perdendo através do espaço. Os velhos lied são anônimos. Os modernos, que se inspiram na tradição, tarde ou cedo, perderão a rubrica, ao entrarem no reportório da massa. O lied foi muito tempo exclusivo do povo, que traduzia por ele as tendências e emoções da sua alma, o amor, as harmonias da boda, o nascimento do primeiro filho, o entusiasmo da caça, o poder da superstição, a cólera, o ciúme, o luto... Associava no espírito emoções dispersas, insuflando vida nas lembranças arredadas da memória. É o canto familiar da Alemanha; e trazendo refrigério às existências votadas aos rudes misteres,

Poesia - Academia Brasileira de Letras
Poesia - Academia Brasileira de Letras
Poesia - Academia Brasileira de Letras
Poesia - Academia Brasileira de Letras
Ciclo dos Fundadores da ABL - Academia Brasileira de Letras
Prosa - Academia Brasileira de Letras
Poesia - Academia Brasileira de Letras
Poesia - Academia Brasileira de Letras
prosa - Academia Brasileira de Letras
Poesia - Academia Brasileira de Letras
Prosa - Academia Brasileira de Letras
Guardados da memória - Academia Brasileira de Letras
Prosa - Academia Brasileira de Letras
Prosa - Academia Brasileira de Letras
Prosa - Academia Brasileira de Letras
Poesia - Academia Brasileira de Letras
Prosa - Academia Brasileira de Letras
Poesia - Academia Brasileira de Letras
Prosa 1 - Academia Brasileira de Letras
Prosa - Academia Brasileira de Letras
Aleijadinho - Academia Brasileira de Letras
Prosa - Academia Brasileira de Letras
Prosa - Academia Brasileira de Letras
Centenários - Academia Brasileira de Letras
Poesia - Academia Brasileira de Letras
Prosa - Academia Brasileira de Letras
Prosa - Academia Brasileira de Letras
Prosa - Academia Brasileira de Letras
Poesia Estrangeira - Academia Brasileira de Letras
Prosa - Academia Brasileira de Letras