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ABL-076 - Sonetos e rimas - L... - Academia Brasileira de Letras

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12 � Luís Guimarães

12 � Luís Guimarães Jr. elegante, uma esplêndida toilette: ementebem,eédelicioso,hãode confessar, ser-se iludido por uma criaturinha daquela provocadora distinção. Depois, tudo nela vem pautado e rescendendo a mise-en-scène, o menor gesto que ela esboce, a mais ligeira palavra que ela diga, o amor, o ódio, a nostalgia, o ciúme... Não procurem todavia forçar-lhe o limite de sinceridade para que foi feita. Um passo além, desmanchar-lhe-ia a caracterização de musa olímpica: e veríamos por baixo a grizette fazendo pied-de-nez àgaleria. Se eu quisesse agora inferir do homem físico uma constituição psicológica que viesse explicar-me a obra do artista, tracejaria de Guimarães a longa biografia de esforços, viagens e empreendimentos que o trouxeram coroado príncipe, volvidos anos, ao doce país polar da mais aristocrática das artes, a poesia. A lei de Taine, tão nitidamente científica, pela qual se estabelece a mútua dependência entre uma dada literatura e uma dada sociedade, dissecar-me-ia esta entidade d’escritor que irrigaram as influências fatais da raça, do meio e do momento. É um americano, móvel de fisionomia e de caráter, precipitado, pressentido, ardente, e incapaz de concentrar-se num assunto por mais de algumas horas. Daí talvez a sua predileção pelo soneto. A viveza estranha da sua máscara estereotipa e reflete a impressionativa feminilidade do seu talento. Tem, na beleza física dum tribuno, os olhos terríveis dum domador de feras: e como as vidraças duma galeria de palácio, deixando transudar iluminadas, a magnificência orgíaca das salas, músicas d’orquestra, e centenares de pares remoinhando em cotillons, assim direis que as pupilas dele, cintilando entre as íris de fibrilhas frenéticas, nos fazem assistir ao carnaval furioso da sua imaginação de sobre-excitado. Os adocicados d’origem que na pronúncia tem sabido guardar este homem, por um orgulho talvez de patriota, e malgrado o afastamento

Sonetos e Rimas 13 da pátria, longos anos, dão-lhe à conversa essa ternura melíflua e põem no ouvido essa bizarra sensualidade, que fizeram do brasileiro falado um dialeto do português, e contra cuja fixação definitiva na língua a literatura escrita todos os dias protesta, na sua teimosia de ainda insinuar a velha preponderância portuguesa, na constituição da jovem nacionalidade 4 . Guimarães sabe a pitoresca impressão que produz falando assim. Aquela soutache poética que a boca emite articulando os beiços em buraco de flauta, e nos plurais sifla os ss como uma chuva d’orvalho caída de néctares de fúcsias, sobre as divinas mãos d’uma mulher: aquelas construções gramaticais, onde o pronome precede o verbo, como em Me disse, Me adora... e em que os finais das palavras se retraem pela omissão dos sufixos característicos, como em sinhá, cantá (cantar)... – alvo da troça, aquela soutache, na pronúncia dum grosseiro colono repatriado – na língua dum fino artista e na palestra duma rapariga de salão, ela quer dizer uma condensação de graça fonética – introduz modulações, veludosidades, carícias, que exornam d’um requinte novo, duma incrustação, duma rocaille, a nossa velha língua mãe, e por muito tempo deixam na orelha a difusão da mais voluptuosa sinfonia. Uma tal linguagem parece feita para ser falada em cortes d’amor: há nela preguiças, começos d’ais, frou-frous de roupas, titilações... Cada mestiçagem lhe insinua uma sutil volúpia, uma angústia nova e divina: e sentem-se balbuciar na sua trama as virgindades duma raça que desperta ainda, sem passado, como as crianças, monossilabando reminiscências de sonhos heroicos e translúcidos. Agora junte-se a esta feição da língua a excelsa glória da paisagem, que a luz alaga, e a caprichosa natureza sabe vestir em formas fantasiosas, árvores, montes, baías, ca- 4 � T. Braga – Parnaso Português Moderno. [N. do A.]

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