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ABL-076 - Sonetos e rimas - L... - Academia Brasileira de Letras

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16 � Luís Guimarães

16 � Luís Guimarães Jr. teriam arvorado Luís Guimarães num dos mais profundos poetas líricos do nosso tempo. Tudo leva a profetizar que assim fosse – aquela sua compleição idílica, o seu poder d’evocação a distância, uma sensibilidade dolorosa e feminil, e a fantasia cálida extravasando d’invenções. O homem do mundo veio atenuar porém estas primitivas tendências do doce arrulhador de doloras maviosas. Flutuações de viagens despolarizaram-lhe o espírito da singeleza nativa: convívios de cortes e museus, mil acasos enfim do dandismo diplomático lhe foram desviando a sinceridade para uma espécie de risonho ceticismo. Em 1880 vamos encontrar Luís Guimarães na Embaixada de Roma. Roma era a última estação duma série de residências que o poeta realizara, junto de todos os centros de inteligência europeia, através de cujas maravilhas, pudera exercitar as suas faculdades d’artista vibrante e progressivo. Entre os Corimbos eosSonetos e Rimas, de que a primeira edição viu luz em Roma (1880), aquelas viagens põem um interregno no furor de publicidade de que Luís Guimarães parecia acometido. Mas ao fim delas o americano está transfigurado num prodigioso cinzelador de melodias, destro, flexuoso, elegantíssimo; sabendo casar as mais raras graças nas mais fidalgas fantasias, e graduando a impressão com um tato d’ator e gentil-homem a quem não convém desmanchar a linha impecável d’artista. Especialmente Roma, com a sua grande área de monumentos, onde caem no chão, truncadas sob uma luz d’atelier,asmemóriasdemuitas civilizações triunfadoras: Roma antolhar-se-ia ao poeta como a última e recapituladora lição duma série de preleções sobre o belo ideal nas suas profusas revelações através da arte. Ela lhe deu ao verso, talvez, uma academia de melhor gosto, nada rígida, nada comum, e salvando-se pela nobreza desse chic d’ocasião, que, passado de moda, invalida e torna efêmera obra dum grande número d’escritores.

Vênus sem braços! Divinal grandeza! Abençoada seja a mão calosa, Que te arrancou à entranha criminosa Da terra... Ou como na “Borralheira”: Meigos pés pequeninos, delicados Como um duplo lilás, – se os beija-flores Vos descobrissem entre as outras flores, Que seria de vós, pés adorados! � Sonetos e Rimas 17 Luís Guimarães ficará pois na poesia portuguesa como o Massenet do soneto, exasperado de perfeição plástica, e acusando no mordido da forma a paciência dum buril seguro do que pretende. O mistério de sedução da sua poesia está antes de tudo no modernismo que dela ressumbra, e na sua atualidade perante o público que a compulsa e lhe dá voga: público cético e blasé, que, tendo visto, baquear todas as sortes de cultos e ideais, lentamente foi perdendo a aptidão d’isolar-se em transcendências de sentimento. Nem sempre, nos versos dele, a emoção resultará do sentimento afetivo acordado na alma pela ideia dramática do assunto, senão por uma convergência de melodias exóticas que a linguagem lhe empresta, já pela rima, já pela imagem, já pela estridorosa eufonia do adjetivo e do metro. É uma emoção que vai ao cérebro antes pelo ouvido do que pelo coração, e que eu de melhor grado agradeceria à música do que à literatura. Poucos livros deixam, como os Sonetos e Rimas, recompor com mais escrupulosa fidelidade a fisiologia artística do escritor, estudar sob que aspectos as coisas o ferem, depois ver como ele faceta e lapida a mais leve das suas impres-

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