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ABL-076 - Sonetos e rimas - L... - Academia Brasileira de Letras

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18 � Luís Guimarães

18 � Luís Guimarães Jr. sões d’aquarelista – águia ou albatroz por cima da vaga ululante, um fim de valsa fugindo pela janela entreaberta, silhouettes de cúpulas, escorços de paisagens, perfis de mulher, qualquer efeito ou qualquer tom – para as cristalizar depois no engaste dum soneto ou de meia dúzia d’estrofes. Deliciosa maneira artística, onde eu descubro o que de mais puro tem a língua e a poesia de mais plástico; e onde, como num ciclorama vertiginoso, cintilam transparências d’água entre maciços de folhagem, rumores de abelhas e trilos d’aves, ziguezagues de caprichos, acaroados de ocaso, nudezes ebúrneas estátuas... todas as músicas enfim do universo que respira e canta, na plenitude do seu disforme ser. A perfeição calma do verso trai o homem que percorreu os receptáculos da grande arte mãe, beijou os nus sublimes de Sanzio e Vinci, e conhece de perto o diletantismo canalha das modernas capitais. E o verso, assimilando inconscientemente as pomas das deusas, as musculaturas dos efebos e dos heróis, transparências de marinhas cortadas de steamers, sorrisos de mulheres e reminiscências d’efêmeros amores; o verso sai-lhe numa correção esvazada, numa largueza d’estilo, lavrando em cada uma dessas pequeninas obras-primas um baixo relevo d’Acrópole, fulgurante e divino. Na escultura de muitos dos sonetos do livro também sentirá o leitor a cada instante, inquieta, proeminente, a influência do bibelot na arte d’escrever, que já surpreendera Paris nos primeiros romances dos Goncourts. Depuradora do gosto, e dando ao espírito uma percepção mais luminosa, mais dolorosamente incisiva, da vida das coisas, aquela frequentação pelo bric-à-brac, das formas d’arte, rebuscadas ou exóticas, desperta alfim na personalidade do escritor uma rara elegância sugestiva, e uma singular finura de concordância estética. Estas qualidades são inimigas da violência e proíbem no poeta a explosão dos sentimentos extremos: – aquelas grandes cóleras dramáticas de que o ro-

Sonetos e Rimas 19 mantismo tirava efeitos para escravizar as plateias ávidas de calafrio. Mesmo, uma preocupação de serenidade aristocrática transluz em todos os pormenores da Lírica de Luís Guimarães. Na sua ironia, por exemplo, que ele atenuou até uma espécie de humor benévolo, serpenteando duma existência sem contratempos nem torturas. Na sua voluptuosidade, que é uma espécie d’arrulho amoroso, mesmo apesar do seu temperamento escandecido. E aqui e além, notas críticas, intenções de malícia casta, finuras de desenho encantadoras – como nas manchas das porcelanas japonesas, família rose ou vert-celadon, que, sem nervuras salientes, abstraindo a linha quase, dão a ideia por massas, num efeito sutil d’abstração acessível somente às retinas educadas. Este lírico, gasto pela poesia do coração, educou os olhos para a compensação de descrever, no dia em que já não pudesse amar. E neste ponto o parnasiano fica, com extraordinárias qualidades de paleta e cinzel – um refinado. Que talvez pudesse dizer, como o Charles Demailly dos Goncourt – je suis un homme pour qui le monde visible existe 7 . 7 � “Eu sou um homem para quem o mundo visível existe”. [N. do O.]

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