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Viagem em Família - Ângelo dos Santos

Livro de contos que marca o movimento pós moralista iniciado em Brasília, movimento artístico iniciai em 2013 que conta com escritores, artistas plásticos, atores e outros artistas. O livro une família, neurose, desejo, grotesco, amor, vida e morte. Prefácio do psicanalista João Ronaldo Stemler Veiga e ilustrado pelo brilhante e maior representante do grotesco nas artes plásticas brasileiras, Eduardo Belga.

Livro de contos que marca o movimento pós moralista iniciado em Brasília, movimento artístico iniciai em 2013 que conta com escritores, artistas plásticos, atores e outros artistas. O livro une família, neurose, desejo, grotesco, amor, vida e morte. Prefácio do psicanalista João Ronaldo Stemler Veiga e ilustrado pelo brilhante e maior representante do grotesco nas artes plásticas brasileiras, Eduardo Belga.

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Ângelo dos Santos

Viagem em família

Estereográfica


Viagem em família

1



Ângelo dos Santos

Viagem em família

Ilustrações de Eduardo Belga

Estereográfica


PREFÁCIO

por João Ronaldo Stemler


Ângelo do Santos é um desnascido.

De muitos e poucos anos.

Sua escrita uma nova forma de gargalhismo

sóbrio e febril. Recluso de aparições cósmicas.

Dizem que vagueia indiferente, em silêncio.

E que também cruza o tempo aceso e descontrolando.

Sabemos muito pouco sobre ele.

Disseram que se calou por séculos e que agora

falará para sempre.

Que revira os olhos, explode crânios, treme as pernas e

anda ansioso, escamoso. É notívago, coletivamente

narcísico e desleixado consigo.

Podia ter sido líder de gangue, dono da feira,

advogado de todas as causas, mas foi,

por vacilo ou graça, escritor.

É escritor.

Viagem em família é seu primeiro livro,

mas não sua primeira viagem.

Talvez por isto, seja o melhor momento de lê-lo.

Não se sabe por quanto tempo estará

por aqui com isso.

Foi escutado muito entediado, recitando o maior

cartel de maldições não escritas de que se tem

conhecimento.

Podemos dizer isso sobre todos, mas sobre ele

especialmente.

É um ruído prestes a acabar por seu próprio impulso.

Constante e infinito.


Cortando sua época, sua cidade inventada e esquecida.

Com sua pena enferrujada de tétano,

amor e cinismo otimista.

A família talvez seja, por seu contágio no tempo,

onipresente. Sua insistência reprodutiva,

supostamente pilar dos povos em sua epopéia de

convivência, está no livro, ligada parasitariamente

à vida. Ameaçando sufocá-la e oprimí-la enquanto

a cria, a desenvolve e a inventa.

No deslocamento do texto,

apresenta-se mais como queda.

Seus membros, em deslocamentos próprios,

apaixonam-se pelo limite: como quem toca a

primeira camada d'água, surfando no verão

infinito, ou é vivissector do filho, em carnificina

e libertação absolutas. A violência sugando

desproporção mórbida dos apaixonamentos mais

reconhecíveis e próximos.

Os ambientes são descritos do nível mais íntimo:

do corpo acostumado aos odores e texturas do

espectro familiar que impregna os móveis, os

gostos, os vínculos de vida e morte. A ligação destes

passageiros ao tecido vivencial da existencia é

sempre intensa e fluorescente, e o golpe, o corte,

seco e afiado. Ritmo e vocabulários concordantes

com a gramática do amor e da morte, do gozo e

toda essa bobagem. O fino tratamento da língua,


narrada em barris de carvalho e destradição.

Biografias descritas em relâmpagos. Eletrificando

identificação - são tipos dos mais reconhecíveis,

um jeito amaneirado e escroto de dizer "nós"- e

regurgitando indiferença.

Isso tudo parece mais uma grande promessa do que

uma opinião. O leitor talvez se decepcione.

Mas também é disso que se trata a viagem apresentada.

Uma grande promessa sem conteúdo, uma forma

de deslocamento, de casca luminosa, violenta,

ôca e cheia de vida.

Último aceno antes do desaparecimento na queda

vazia da morte - aceno de vínculo, amor,

violência, verdade e contradição - é o território da

jornada de Ângelo.

Onde a cor se torna real e finda.

Menos um épico distópico do que um diário de viagem.

O motor da Variant que conduz estes grupos tão

familiares pela estrada entre a mata das tradições e

normas e o oceano vazio e imenso, queima moral.

Combustão pós-moralista.

Foi visto falando sobre essa engenhoca por diversas

noites de 36 horas.

A esperança desliga-se do algo a mais, da busca

tantalizante pelo tudo. Trata-se de uma máquina

de apagamento incandescente. Estamos aqui e

não há nada mais, ainda assim insistimos e nos

retorcemos.



PARTE I

VIAGEM EM FAMÍLIA



FELICIDADE OU CONTO RETO


Ninguém nunca o tinha ouvido reclamar da vida.

Também, é difícil pensar do que reclamaria Barandão.

Homem sem extravagâncias, trabalhador e pai de uma

família que poderia ser descrita como linda. Esposa

corpulenta, de belas coxas, olhos grandes e atentos.

Dois filhos risonhos e respeitadores. A Barandão não

faltava nada. À noite, naqueles minutos deitados antes

de dormir, a esposa lhe roçava a perna e sorria. Sim,

podia-se dizer que era feliz.

Funcionário concursado, salário bom e trabalho

tranquilo. Acordava não muito cedo, pois só pegava o

serviço às treze horas. Pelas manhãs tinha lá suas manias,

como qualquer um. Bebia um copo de água gelada

ainda de estômago vazio, ia ao banheiro, depois saía

para “olhar a rua” como dizia. Era querido na cidade.

Cumprimentava Seu Aldir da banca e comprava o jornal

do dia. Lia enquanto via a rua.

Então e só então tomava seu café da manhã. Duas

torradas de pão integral, uma com geléia de jabuticaba

e a outra com duas passadas de faca curtas de manteiga.

Café puro. Fazia ainda o almoço para esperar mulher

e filhos, almoçava com eles e descia pro trabalho

na Rua das Autarquias.

Trabalhava em uma repartição agradável. Carimbava

e tomava café puro mais do que coçava os olhos de

cansaço. Conversava também com seus colegas. Quan-

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do ria batia a mão esquerda na perna enquanto sua risada

forte aumentava e diminuía de volume juntamente

com sua cabeça que abaixava e levantava. Voltava

então para sua mesa e depois para sua casa. Jantava

com esposa e filhos e então ia pra cama.

Diziam que tinha uma vida perfeita, de dar inveja

a todos. Seus colegas de trabalho viviam repetindo

aos quatro ventos como Barandão era feliz, como tinha

tudo aquilo que todos sonhavam. Chegavam a usar seu

nome como sinônimo de felicidade.

Contudo, Barandão tinha pensamentos, nem sempre

felizes como se poderia supor. Nos últimos tempos

estes pensamentos vinham ocupando cada vez mais seu

interior. Uma vez, em um de seus passeios matinais,

decidiu levar consigo o filho mais novo. Arrumou tudo.

Fraldas, duas mudas de roupa, pomada para evitar assaduras,

carrinho de bebê, banana e copinho com água.

Abriu o portão, caminhou alguns passos até o passeio,

bebê nos braços. Quando ia atravessar uma rua movimentada

pensou que poderia tropeçar e visualizou a

criança caindo e sendo esmagada por um carro em alta

velocidade. Afastou o pensamento com um leve balançar

de cabeça e atravessou. Outro dia, quando voltava

da repartição, pensou que abriria a porta e encontraria

esposa e filhos assassinados, a casa ensanguentada e

tudo revirado. No entanto, tudo ia bem, como sempre.

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Cada vez mais passou a ser tomado pelos tais pensamentos.

Pensava em como seria então sua vida.

Chegou a se ver no enterro de sua família, com um terno

muito bonito, cortado à perfeição, algo entre um

azul marinho escuro e preto, com lapelas pontudas,

ajustado nos ombros. Diferente daqueles arremedos

de ternos que usava pra trabalhar. Ficava comovido só

de pensar na forma com que as pessoas o abordariam

ali, enternecidas. Ele, numa tristeza de fazer gato descer

de árvore, receberia os pêsames e sofreria. Passava

horas em seus devaneios. Neles podia ser triste e todos

entendiam sua tristeza. Neles era livre.

A vida continuava, como no dia anterior. Mas internamente

algo havia mudado. Os pensamentos não

mais incomodavam Barandão, mas lhe serviam de refúgio

para a felicidade do dia a dia. Imaginava insistentemente

sua vida depois de uma tragédia sem precedentes.

Todos o olhariam com piedade, teriam mais

paciência com ele, não mais seria o baluarte da felicidade.

Provavelmente deixaria de ir ao trabalho por um

bom tempo, talvez nunca voltasse a trabalhar. Poderia

fazer qualquer coisa de sua vida que não seria julgado

por ninguém. Quem poderia julgar um homem que

perdeu tudo? Aquela tristeza que sentia quando estava

perdido em seus devaneios o comovia a tal ponto de

fazê-lo marejar os olhos.

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Acordou e beijou a mulher na testa. Dirigiu-se para

a cozinha onde tomou seu copo de água gelada. Mais

um dia começava. Quando voltou da repartição encontrou

mulher e filhos deitados na cama do casal, liam

estórias. Cumprimentou-os e olhou longamente para

as coxas bem torneadas da esposa, linda naquele velho

vestido curto de ficar em casa.

Foi até a dispensa e pegou uma pá pesada de jardim.

De volta ao quarto golpeou os três o mais forte

que pôde, deixando-os desacordados. Lavou bem a

pá. Pegou uma garrafa de álcool perto da churrasqueira

e voltou ao quarto. Embebeu a cama e sua família

no líquido inflamável e, da porta do quarto, jogou um

fósforo aceso. As chamas subiram, senhoras de tudo.

Enquanto saía pela porta dos fundos Barandão pôde

ouvir gritos que pensou serem do mais velho.

Abriu o portão e saiu à rua, lentamente, em direção

à loja de ternos. Estava triste, tristíssimo.

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A CRISTALEIRA


A casa, desde a entrada, cheirava a mato. Cheirava a

mato e a terra molhada. O avô tinha ido buscar o neto

mais velho, mas teve que levar a menina também.

“Eles são irmãos, aonde vai um vai o outro”, disse

Marta, mãe de Soninha.

Olhando de fora via-se o portão e bem ao fundo

o segundo andar da casa, escondido atrás das várias

árvores altas e da trepadeira que cobria quase completamente

as paredes mofadas. O telhado de cerâmica,

já esverdeado pela umidade e pelo tempo, deitava suas

várias faces sobre as paredes imponentes. Ao tocar o

portão Soninha já sentia aquele cheiro forte de verde.

No caminho de pedras que levava até o pomar, as

orquídeas muito bem cuidadas por Avó embelezavam

ainda mais a mata atlântica nativa. O quintal era

imenso, formado pelo pomar de frutas diversificadas,

a longa entrada e ainda um banco, próximo ao portão.

Este banco, feito na pedra, estava sempre tomado

pelos musgos, nunca por gente.

Naquela casa viviam seus avós e uma tia. A tia não

havia se casado. Diziam que não conseguia mais amar,

desde que seu grande amor morrera há muito tempo.

No entanto parecia feliz. Apesar de seus mais de quarenta

anos, criava em torno de si uma atmosfera de jovialidade.

Morava naquela casa desde que nascera, no

mesmo quarto. As bonecas gastas e os coloridos do-

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minavam seu quarto de mulher adulta. Sempre cercada

de amigos, muitas festas pra ir. Sua vida na casa era

ser filha.

Muitos eram os costumes e coisas daquela casa, que

se confundia com a própria Avó. Também imponente,

um tanto mofada e de cabelos cor de cerâmica. Todos

contavam que tinha sido muito bonita. Soninha não

entendia como. Agora lhe parecia uma velha rabugenta

e cinza. A voz tornada grave pelos muitos anos de tabaco

assustava um pouco a menina. Sempre com olhar

desafiador, seios grandes, queixo a noventa graus dos

ombros e um chinelo disposto a cantar na bunda dos

meninos. Assim era Avó.

Soninha não era a preferida do avô, tampouco de

Avó ou da tia. O avô não largava seu neto mais velho

pra nada. As outras duas mulheres também só tinham

olhos pros homens da casa, o pai de Soninha e seu tio.

À menina cabia a tarefa de ajudar a pôr e tirar a mesa,

assim como a de limpar a casa e lavar a louça. Odiava

com todas as forças ter que ficar com as mulheres na

cozinha limpando a sujeira daqueles homens falantes

que fumavam e gritavam na sala da cristaleira depois

das refeições.

Independente da hora em que acordassem, só a velha

Avó podia sair da cama antes das oito horas da manhã.

Não se sabia ao certo a razão de tal regra, mas as-

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sim era. Soninha ficava acordada por muito tempo até

poder se levantar. Nesse meio tempo pensava na casa,

que falava com ela. Os longos corredores do segundo

andar, onde ficavam os cinco quartos, tinham azulejos

verdes no chão frio e ecoavam a cada passo da velha.

Nas paredes, os quadros com fotos tão antigas quanto

o próprio tempo, faziam Soninha pensar quantos anos

Avó teria. Tinha ainda a sala da cristaleira. Uma sala

pequena, quando comparada aos outros cômodos. As

crianças não podiam entrar lá. A cristaleira era o xodó

de Avó, que a mantinha sempre brilhante. Pelo menos

era o que os adultos contavam. Nestes momentos do

início da manhã era quando a menina podia melhor escutar

a casa.

O primeiro andar parecia um porão. Muito úmido,

escuro e pouquíssimo utilizado. Nele estavam a biblioteca

do avô, sua coleção de armas antigas e algumas

garrafas de bebida. Havia também um sofá estranho

no qual ninguém se sentava. Inesquecível era o cheiro

deste salão, como se a mata estivesse ali dentro. Os

meninos tinham medo do primeiro andar. A frieza das

paredes grossas e descascadas lhes dava sempre a impressão

de que alguma coisa, viva ou morta, sairia dali.

Naquela manhã Soninha decidiu que não ficaria

na cama até a hora estabelecida. Pisou o mais leve

que pôde no chão. Sabia que Avó não estava por per-

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to. Tocou seu pezinho de menina no chão frio de azulejos

verdes e viu-se levada por eles. Enquanto os azulejos

corriam sob seu pés sentiu um frio no estômago.

Entrou na sala da cristaleira.

Seus olhos esbugalhados quase cegaram com a luz

que vinha dos cristais. Entendeu porque Avó não deixava

que as crianças olhassem aquilo. Eram muito novos

para tanta beleza. O sol que entrava pela janela

grande de madeira refletia nos cristais rosados criando

cores indescritíveis. Foi possível ouvir o som das cores

fluorescentes. Paralisada, talvez tenha chegado a sorrir.

Ouviu alguma coisa e chispou escada abaixo, rumo

ao pomar.

Estava tudo diferente. As árvores altas pareciam

ansiosas por algo. Pôde perceber que a mata respirava.

As orquídeas a olharam com desconfiança. Teve medo.

Lembrou de Avó e de sua proibição. Quis voltar pra

cama, respirou fundo. A terra sob seus pés se movia

lentamente, como um grande lençol balançado a quatro

mãos. Equilibrou-se. Olhou para as trepadeiras que

pareciam cobrir toda a casa, rastejando parede acima.

A casa estava mesmo viva, toda ela. Ouviu chamarem

seu nome. Era Avó, estava sentada no banco de pedra

perto do portão. Tinha sido descoberta. Caminhou lentamente

em direção ao banco enquanto pensava em alguma

desculpa plausível.

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Avó lhe sorriu. Estava também muito diferente, assim

como a casa, estava mais viva. Soninha notou em

seus olhos uma doçura que nunca reparara. Parecia

mais leve. Pediu para que a menina sentasse e começou

a contar-lhe sua história enquanto lhe afagava os cabelos.

Tinha fugido de casa, ainda bem nova, para casar.

Sua família não gostava do avô de Soninha. Era uma

estória linda, de romance de livro – pensou a menina.

Pela primeira vez imaginou que Avó não tinha nascido

velha. Durante estes muitos anos que se seguiram

à fuga, tinham vivido muitas coisas naquela casa, que

era também ela mesma. Disso a menina já sabia, sentia.

Neste momento Avó fitou-a longamente e com uma

delicadeza emocionada pediu a Soninha que cuidasse

dos cristais, quando ela não pudesse mais fazê-lo.

A menina sentiu um arrepio subindo-lhe a espinha.

Nada daquilo podia ser. No meio da mata respirante,

entre orquídeas desafiadoras, Avó a adulava e

pedia para que cuidasse dos cristais?! Não lembrava de

ter recebido carinhos de Avó, uma vez que fosse. Olhou

mais uma vez pra velha. Achou-a bonita. Seus olhos

passavam uma tranquilidade enorme. Teve medo, muito

medo, aquela não podia ser Avó. Correu o máximo

que pôde, deixando a velha pra trás.

Ofegante, passou pelo quintal em disparada e subiu

os degraus até a sala da cristaleira. Quando entrou viu

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Avó, deitada no chão. Seu corpo ressecado e mais velho

do que nunca. Suas mãos em forma de gancho seguravam

a cristaleira, endurecidas. Avó, ou o que restava

dela, parecia agarrar-se àquele móvel com todas as forças

que lhe sobravam. Levava no rosto uma expressão

de pavor intenso, que fazia com que suas bochechas

entrassem cara adentro. A menina tremeu.

Pé ante pé, caminhou para seu quarto, abriu a porta

e deitou-se. Olhou o relógio do quarto, ainda era

cedo. Cobriu-se e esperou dar oito horas.

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TRIÂNGULO

DE PAULA


Olhou bem para o telefone celular. Indecisa, fazia isso

diariamente há mais de dois anos, sem conseguir ligá-lo.

“Nada resistiria a tanto” pensou. Incontáveis

lembranças rodopiavam sua alma. Desejos, risadas.

Imagens descontinuadas, amputadas. No entanto via

tudo com angústia e medo ímpares.

Ligou, por fim, o maldito aparelho. “Provável que

tenham até desligado a linha”. Virou as costas em direção

à geladeira. Instantaneamente ouviu-o vibrar. Agora

tocava, andando vibratórios passos errantes pela

mesa de vidro; passos de telefone. Chegou perto. Inacreditável:

era ele. Já não podia com o coração no peito,

“vou ter um troço!”. O barulho parou. Ingenuamente

pensou que talvez ele desistisse. Nova chamada.

Desta vez atendeu de um pulo.

– Alô?

– Paula? É o Vargas. Como você está?

– Oi. Tudo bem Vargas.

Conversaram como se também ontem tivessem trocado

palavras. Mais de dois anos já tinham tido seus

respectivos desfechos desde que Paula desligara o telefone.

Culpa de Vargas, ligava demais! O que ela sentia

sempre que via um daqueles aparelhos, qualquer

que fosse a marca ou modelo, era Vargas. Seu peso, sua

desconfiança. Sua infinita necessidade dela. Seus cabelos

brancos e longos amarrados por uma chuca pre-

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ta. Sua moto, sua inconsequência. Sua inconstância?

Aquela ligação certamente falava o contrário. Fato que

sua constância grambéllica não possa ser colocada em

cheque. Mas não era disso que ela falava; mesmo tempo

que sim, era.

Seria então assim, de novo. Nesses treze anos, não

era o primeiro episódio como esse, este certamente

mais longo, “certamente”. A insistência dele não cansava

de surpreendê-la. “Desta vez ele se superou”, pensou

de novo. Culpá-la não poderíamos. Como um mágico

de programa estrangeiro, ele fizera o telefone dela

tocar assim que ela o ligou, depois de dois anos. Dado

inquietante a deixava em pensamento livre, imaginando-o

ligando a todos os instantes, por anos a fio. “Que

foi de sua vida nesses anos? Pobre! Decerto perdeu emprego

por conta dessa telefonação sem fim…” conjecturava,

num misto de amor de novela e assustamento.

Depois de tudo isso não podia ser que ele não tivesse

entendido. Apesar do amor que dispensava a Vargas,

tinha que cuidar de seu pai, muito velho. Morava com

ele. Não sairia por aí, na garupa de uma moto! Inda

mais agora, depois da morte da mãe. Isso, por exemplo,

ela só disse a Vargas depois de dois ou três encontros.

Porque sim, vieram os encontros.

Desta vez talvez fosse diferente. Afinal, estavam

mais velhos ainda. Não que tivessem se conheci-

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do jovens. Vargas já mais de cinquenta, há treze anos.

Chegada hora, sem dúvida. O velho pai já passava dos

noventa e cinco, tampouco duraria tanto mais. Ainda

sob esta ótica, nada mal seria, caso Vargas estivesse

próximo à triste órfã no momento fatal. Seria de ótima

coincidência para ambos.

Durante os encontros, estranho que fosse, não tocavam

no assunto dos dois anos de desaparecimento e

telefone desligado de Paula. Vargas mostrava-se cavalheiro,

tentava menos ansioso, enquanto ela bastava-

-se com o lugar da mulher desejada, paparicada a todo

custo, mas impossibilitada por uma questão de compaixão,

amor de filha:

– O mais sublime dos amores! – bradava a heroína

a quantos ventos soprassem.

Continuavam a encontrar-se no sofá da sala, sob

os olhares atentos do velho, que não se afastava um

segundo. Nem mesmo pegar no sono vez em quando

como todo velho, ou como qualquer um entediado por

namoro tão sem maiores aprofundamentos. Parecia

que não largaria o osso tão cedo. Paula era dele.

Disputava-a em silêncio, em um tipo de jogo da vida.

Aquele que vivesse mais, levaria a garota, que, diante

do olhar de ambos, envelhecia e enfeiava-se a cada dia.

Já, há muito, passara dos cinquenta, presa à obrigação

e ao desejo pelos dois homens.

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Despediram-se como sempre.

– Amanhã te ligo, linda!

– Esperando…

Beijaram-se no rosto. Vargas beijou-lhe a testa e

desceu pelas escadas em espiral. Paula entrou e arrumou

o pai na cadeira, sabia que ele estava exausto e

que dormiria agora. Foi até o telefone e desligou-o.

29


OS IRMÃOS BACORÉ


Naqueles dias eles costumavam ficar quietos, lembrando

apenas. Tentavam entender assim o que se passou.

Entreolhavam-se vez em quando buscando no outro

algum gesto de aprovação ou algo que pudesse ser lido

assim. Lembranças são peças imprecisas de um mosaico

confuso. Por isso eles se uniam para lembrar, ou a

necessidade de lembrar os unia.

Muitas eram as coisas para se lembrar naqueles

dias. Dias diferentes dos outros, que eram para esquecer.

Já estavam ficando velhos. Geraldo, o mais velho

dos três, se aproximava dos setenta e como os outros

irmãos não tinha constituído família. Naqueles dias, os

irmãos Bacoré sentavam em suas cadeiras de madeira

escura que rangiam insistentemente, e perdiam-se em

tarefa recordativa. Entre baforadas de fumo de rolo e

tragos de cachaça, tentavam preencher os vazios deixados

pela vida e pelas mortes da vida.

**************

Um menino olhava da porta enquanto a Moça e o Moço

se beijavam. Sentia um misto de desejo, culpa e ódio.

Também ele beijava o outro menino, como tinha visto

tantas vezes. Tocavam-se… tremiam-se. No paiol falavam

deles. Tinham medo de perder as partes como falavam.

Mas também riam-se, riam-se muito. Corriam

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em brincadeiras pelas mangas; derrubavam-se, descobriam-se.

O verde empoeirado das folhas da pitombeira

enchia o ar de marrom. Os bezerros corriam atrás

de suas mães. O Moço os apartava. Olhava também os

meninos. A Moça sorriu; depois parou. Tinha pitangas

em seus dentes.

**************

Chegaram naquele vilarejo já não tão novos e só os

três. Saíam e falavam pouco. Com eles vieram muitas

estórias. A verdade é que não se sabia muito sobre os

Bacoré. Sabia-se que eram homens trabalhadores, com

especial dedicação ao cultivo da mamona.

O fato de serem três homens morando sozinhos era

o que mais lhes rendia lendas. Na venda de Seu Oscar

alguns diziam que tinham sim sido casados, os três, e

que haviam matado as três mulheres e fugido pra lá.

Outros juravam já os ter visto lá pelas bandas de Santa

Fé e que, certeza, só Geraldo tinha sido casado e sua

esposa fugido com um amigo, deixando-o numa tristeza

de dar dó. Outros diziam que eles eram um tipo de

casal, um casal de três irmãos.

**************

32


Aquele menino gostava muito da Moça. Aquele e os

outros. Por que ela tinha que ir pra outras lonjuras?

O Moço também teria que ir, disso eles sabiam… queriam

também. Não poderiam continuar todos ali, não

mais, não mais daquele jeito. O vento já soprava forte

demais àquela hora, logo ficaria fora de controle.

A casa grande da fazenda, os quartos escuros,

muitos. Sombras criadas pelas pequenas entradas de

luz no telhado alto. O cheiro quente do leite no copo

de lata de óleo… vapor de rapadura. Os meninos, os

três. Tinha também a escrivaninha no canto, em que o

Moço e seu óculo se apoiavam. Os sulcos da madeira

onde formigas trabalhavam, fortes. Farpa em dedo

curto de menino. Queijo derretido com açúcar em cima

do cavalo. Bolachas. Água e sal, peta, beiju. Cimento

vermelho frio, parede azul descascado até o meio, no

alto brancas.

Encontro puro, o olhar pútrido. A Moça agora sabe.

Sabe? Tateavam a travessia.

**************

Moravam na rua detrás da venda de Seu Oscar. Tinham

mesmo um ao outro, não eram de mais amigos. Teria

sido sempre assim? Talvez isso também gerasse falatório,

aquilo incomodava os outros. Fazia com que, de

33


alguma forma, eles se sentissem desnecessários, preteridos.

Os Bacoré, gente desfeitosa.

Esse ciúme raivoso, ou mesmo o falatório, não tocava

os Bacoré. Seguiam como se nada ao seu redor

fosse ou mesmo tivesse sido. Assim entenderia alguém

que entrasse naquela casa naqueles dias de lembrar.

Sentados em cadeiras dispostas como um triângulo

isósceles, Geraldo na cadeira próxima ao angulo

do vértice, era como se estivessem em outra dimensão.

A atmosfera onírica era composta ainda pela fumaça e

pela pouca luz. Pareciam mesmo nunca ter precisado

de outras pessoas.

**************

Era possível ouvir os gritos desesperados dos bezerros

apartados das mães. Algumas respondiam à angústia

dos seus rebentos com profundos gritos longos, outras

não. O cheiro forte do curral trazia um morno até

o peito. Os meninos estavam com medo, mas certos.

A Moça não via, tinha o Moço por cima. A gritaria dos

bezerros tornara-se insuportável. Bezerros? Pedaços

de pau, pedras. Quando a Moça se virou eles puderam

ver-se, enfim, refletidos nas pitangas. Meninos

linchadores.

34


A estrada continuava, a perder de vista, percorrida

pela Moça e pelo Moço, que não olharam pra trás.

**************

Haviam lembrado. Pra quê? Entreolharam-se ainda

uma vez. Foi Geraldo quem se levantou em direção à

garrafa de cachaça. A ricina estava no armarinho ao

lado da cristaleira. Sacudiu bem para misturar o veneno

e serviu a todos. Enquanto bebiam o último trago

puderam ver, entre as dores no estômago, os três meninos

correndo atrás da Moça e do Moço, que, desta

vez, esperaram.

35



CONTO ANSIOSO


Caminhava lentamente em direção aos cães. Sorriso

nos lábios. Nas mãos e ombros lata d’água. Ereto, parecia

não sentir o peso do líquido pendular a cada passo.

Músculos tesos, braços não hipertrofiados, desenhados

pelo trabalho. Dentes e olhos marcantes, esclera levemente

amarelada. Expressão tranquila colada ao rosto,

aos detalhes do rosto. Os muitos anos de sol, o saber

segunda-feira todas as manhãs, os incontáveis fardos

carregados e descarregados, imprimiam-lhe ainda

mais certezas. Sabia. Firme, continuava seu andar, reto

como um bailarino.

– Vamos colocar água limpinha pra vocês meninas!?

Colocou a lata no chão sem tremer ou apressar-se.

Com uma das mãos pegou do chão a vasilha do primeiro

cachorro. Com a outra em concha tirou água da

lata. Pouca. Limpando vagarosamente o vasilhame jogou

água suja fora. Levantando a lata encheu-o completamente.

Repetiu a operação com meticulosidade

enchendo a segunda vasilha. Sorridentes os cães lhe

agradeciam com seus rabos e línguas chicoteantes.

Voltava desta vez com a comida.

Passo a passo aproximou-se. Agachado encheu

cada pote e observou a caminhada dos cães até eles.

Agora só olhava.

A dois metros dali, patrão daquele dia brincava

com filho pequeno. Poderia ouvir os pássaros, ou os

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risos agudos do bebê. O cheiro das mangas-espada na

chuva, o ruído das folhas se levantando com a ventania.

Se soubesse como, poderia, quem sabe, sentir o

arrepio silencioso que lhe subia a espinha sempre naquele

mês das águas. Poderia até mesmo não ouvir ou

fazer nada. Mas as pernas agitadas entregavam sua ansiedade

de que tudo acabasse. Logo.

39


VIAGEM EM FAMÍLIA


Sete ou oito lugares. Era um monstro de carro. De fato

lhes soava um tanto estranho alugar um carro em uma

cidade que por tanto tempo tinha sido a deles. A família

tinha crescido e isso os orgulhava, a cada um de sua

forma. Agora naquela cidade tão familiar, Doralice e os

seus precisavam alugar um carro.

– Sete ou oito lugares! – diziam.

Há muito não viajavam juntos. Tanto que ninguém

saberia dizer assim com corretude de anos quando esse

fato teria ocorrido. A todos, no entanto, parecia ter

sido em outra vida. Ezequiel, agora pai de família, cuidava

do Menino com uma atenção maternal. Trocavalhe

as fraldas entre cheiros e adulos com uma alegria

enorme.

– Nasceu pra isso! – bradava a irmã, recém tia, com

os olhos sempre marejados por sua imensa e inexorável

grandeza de espírito.

O evento reunidor era um batizado de algum primo

tão distante quanto a última vez em que haviam viajado

juntos. Uma daquelas coisas inexplicáveis, que diz

das necessidades não sabidas, fez com que entrassem

juntos naquela manhã, na locadora de veículos. De carteira

e cartão em punhos o pai de Ezequiel era só sorrisos.

Queria o melhor veículo para a melhor família

nas melhores férias de suas vidas. Binho era homem de

simplicidade de conta de somar e firmeza de pudim.

41


Havia criado aquela família como possível, na maior

das vezes à sombra de Doralice. Diferente do que sonhavam

Ezequiel e sua amada Úrsula. Diferente do que

sonhava Ezequiel em sua batalha para não ser como

seus pais.

Poderia ter sido isso o que há muito afastara mãe e

filho. Ou talvez outra das tantas coisas e coisas dessa

vida. Fato é que se afastaram. Não que tivessem grandes

desavenças ou não se falassem; afastaram-se na

alma. Eram e sentiam-se muito diferentes. Nem filho

nem mãe haviam ainda conseguido esquecer, ou seria

lembrar, o que lhes faltava. Continuassem a procurar

aquilo um no outro, como antes. Talvez por isso precisaram

se afastar, para serem cada um, um; um-só.

Quando Doralice deixara sua cidade há muito, ainda

era cidadezinha que não se acha no mapa, que só

quem já foi sabe chegar. Agora já tinha seus tantos

habitantes que era possível perder-se em seus muitos

bairros. Sua família ainda contava com parentes

aí e era na casa de um deles que ficariam. Gente importante,

de nome. Muitas estórias eram associadas

aos Guimarães e à sua galhardia. Por anos, enquanto

as crianças eram pequenas e ainda viajavam com seus

pais, Doralice e Binho fizeram questão de levá-los ali.

Naquele lugar eles se fizeram Guimarães, fortes, bons

e orgulhosos de suas origens. Mas o tempo passava e,

42


a cada dia, esses laços se afrouxavam, ou talvez se

apertassem, sufocantemente.

Crianças saiam de todos os cantos, fazendo tudo

parecer pequeno. No banco de trás Úrsula dividia espaço

com a cunhada e com seus sogros. Ezequiel dirigia.

Os outros bancos mais pouco cabiam os filhos da

irmã, o bebê de Úrsula e as tantas bagagens exigidas

por um grupo tão heterogêneo quanto aquele. Entre

idosos, mulheres e crianças; os carrinhos de bebê, as

cadeirinhas, as fraldas e as angústias ocupavam mais

espaço do que podiam suportar os sete ou oito lugares.

Tinham sido muito muito próximos, talvez ainda o

fossem, mas não sabiam, como antes. Ezequiel e a irmã

tinham tido uma infância marcada por muitas brigas e

muito trabalho dos pais. Brigas essas, de irmãos, brigas

que os uniam contra um inimigo comum, o medo.

Medo de Doralice. Sua braveza era conhecida. Quando

meninos, tremiam ao ouvir o barulho das chaves da

mãe ainda do lado de fora da porta, corriam e fingiam

dormir, ainda ofegantes. Por muito tempo utilizaram-

-se desta saída. No entanto não poderiam dormir pra

sempre. Hoje, se perguntados, não saberiam dizer do

que tinham medo, mas certo é que tinham, muito.

Diziam que era sua paciência e a tão cantada grandeza

de espírito o que a aproximava de Doralice. Sua

alma perdoativa, sua possibilidade de se emocionar

43


positivamente e, sobretudo, sua fraca memória. Para

Ezequiel era a maternidade. Desde o primeiro filho da

irmã, ela e a mãe tornaram-se unha e carne, ou carne

e carne. Suas confidências e conversas infinitas incomodavam

o rapaz. Também o confundiam quanto

às razões para aquilo. Enciumado, abandonado ou

simplesmente traído, o afastamento daquelas mulheres

também lhe dava vida, além do mais, pensar que:

“quando a mãe ficar velha, pelo menos não é comigo

que ela vai inventar de morar!”, o confortava.

Ezequiel pensava, podia-se dizer que sabia, que a

mãe viveria muitos anos. Passava dos sessenta, mas

ninguém lhe daria tanto. Cuidava-se como poucas. Em

um tempo em que se prometia vida longa àqueles que

se cuidassem, Doralice era hipercontemporânea. Além

do mais, vinham de uma família em que as mulheres

viviam muito, diferentemente dos homens, que morriam

muito. Fosse cachaça ou tiro, os homens da família

Guimarães não eram longevos. Viveria então até os

noventa e tantos ou quem sabe mais ainda.

O ar condicionado funcionava no máximo, como o

calor. Corpos e cabelos suados tocavam-se, em família.

Perdigotos planavam numa atmosfera propícia enquanto

Úrsula limpava o rosto. Pouco havia para ouvir

naqueles fonemas invasivos. Eram três da tarde.

Continuavam, sem saber. O sinal os parou.

44


Os sons de algo dito ainda ecoavam. Sem mais,

Ezequiel saltou. Abriu a porta de trás. Arrancou sua

mãe de dentro do carro. Ali, no meio do tráfego deu-

-lhe três tiros, no meio da cara, em meio à plateia

atônita.

O silêncio era absoluto, o sol torrava o chão batido

quando Úrsula desceu e afagou seu homem, tirando-

-lhe os cabelos da testa suada:

– Eu sei, meu filho, não tinha outro jeito.

45


AMOR


Um passo depois da entrada, bastou isso. Sentiu o calor

de ser frita por olhares de todas as direções e mesmas

intenções. Sua silhueta quase esquálida, passos

de reboladas firmes, costas esguias, boca desafiadora.

Olhos não puderam ver, óculo escuro arrebitado em

ambas pontas faziam-na olhar de cima, loucura sóbria.

Cássio não pôde descolar olhar ou passos da moça loira,

seguindo-a onde fosse.

– Gostaria falar comigo? – direta.

– Verdade, gostaria sim. Aliás, …precisaria.

– Precisaria? – Olhar desconfiado.

– Sim. Depois de vê-la, certo que preciso. – pálpebras

descaindo levemente, rascunho de sorriso na cara.

– Tão lindo, parecia um bichinho pidão de colo e

adulo… resolvi pegar pra cuidar; até hoje assim, grudados.

– Sorri sorriso franco com olhos ávidos pelos dele.

Contavam estória a amigos. Como se conheceram.

Sorriam-se em amor de segurança, de poder contar

para tudo. Juntos, nunca faltasse rede de proteção.

Os amigos, sempre muitos. Cássio e Laura eram

anfitriões e companhia maravilhosos. Nunca brigavam;

ou fossem discretíssimos, briga alguma houvera

sido presenciada por qualquer. Tinham ideias inovadoras

e ainda assim enquadradas na moral vigente.

Festas que não passavam dos limites do aceitável, mas

que, do inicio ao fim, brincavam bem próximas a eles.

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Anos já haviam passado, alguns diriam que muitos,

mas o tempo interno é realmente exclusivo. Laura sentia

que há muito tinha Cássio, segurança, amor. Para

Cássio, a insegurança insipiente ao início de qualquer

relacionamento, rondava seu sono. Combinação.

Outro ano se aproximava do fim, verão. Frente

ao computador olhavam possibilidades de ver o mar

por alguns dias. Camarões, caipirinhas e pousada

romântica.

– Só nós dois!

Não sentiu na esposa a mesma alegria, ou disposição,

talvez esperasse mais aventura em seu espírito.

Pensou que talvez ficarem sozinhos já não cutucasse

parte aventureira dela.

“Será já não lhe basto mais?”

Laura, pimpona, prepara coisas e tantas coisas.

Viagem. Delírio de revigoramento compartilhado, não

só por eles. Sonhou barulho de mar e braço forte abraçando.

Sentiu olhos na nuca e barba roçando. Arroz de

polvo no quarto.

Ele, olhão sorridente:

– Acorda, amor! Daqui no aeroporto meia hora,

mínimo!

Olhou-a abrir os olhos cor-de-folha-seca; estavam

esverdeados. Desenhados lábios carnudos sorrindo por

serem acordados. Aquela alegria pareceu-lhe dema-

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siadamente exagerada. “Com que sonhava pra acordar

assim?”

– Vamos! Taxi chegou!

Cabeça deitada no ombro, Laura dormia tranquila.

Esperava chegar, conhecer, sentir o cheiro e amar.

Cássio desperto tentava fechar todos detalhes. Aluguel

de carro, confirmação de reserva, previsão meteorológica,

desejos de Laura.

Por mais que tentasse não conseguia deixar a ideia

de que a esposa queria mais. Sentiu medo de perdê-

-la. Sabia que não poderia suportar. Lembrou dos dois,

mão pêga, em frente cartaz de filme. Cinema novo.

Distraído, sai do devaneio ouvindo piloto avisar início

do pouso. Pensa as formas de suicídio ideais para o

momento em que fosse abandonado.

A pousada superou expectativa de ambos. Desceram

do transfer em êxtase. Quase correndo chegaram

à suíte. Olharam as muitas pétalas de rosa e o pro seco

posado desfalecido entre os travesseiros.

– Ai, amor, estou morta. Pescoço doído! Parece que

vim torta viagem inteira! Arruma essa cama e tira esses

exageros enquanto eu tomo banho… Favor, tô tão

estragadinha…

Laura banhava-se e Cássio “arrumava”, indignado,

a cama. “Deixa que eu desfaço o clima”.

Grito no banheiro.

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Ainda iniciava sua tentativa mais desesperada de

chegar, quando ouve a esposa:

– Merda de água quente! Isso não é água quente, é

tentativa de desfiguração! – já riam os dois abraçados.

Susto passado.

Entendeu com certa desconfiança a recusa de Laura

ao sexo na primeira noite. A permanência da recusa nos

dois dias seguintes quebrou-o. Cabeça revendo cada

movimento dos dias, noites, semanas e meses anteriores.

Já estavam no quarto dia de viagem, ele há três sem

dormir. Imagens, conversas e discussões povoavam seu

pensamento incessantemente. Como grandes máquinas

de impressão, os pensamentos passavam e repassavam

por seus olhos, infinitamente. Cássio tentava encontrar

algum furo, algo que não tivesse percebido anteriormente.

Trabalho extenuante. Laura às gargalhadas conversava

com alguém ao telefone do lado de fora.

A tensão foi tomando conta do inseguro e ameaçado

esposo. Pensou em sua vida sem Laura. O vazio tirou

o que restava de brilho em seu olhar. Encolhido na

cama de um hotel romântico, viu-se completamente

só. Fantasiava-a em sorrisos e lugares em que ele não

podia estar. Olhava e reolhava a mesa daquele restaurante

imaginário sem conseguir colocar-se em nenhuma

das cadeiras, nem mesmo naquelas que margeavam

a alegria do grupo de sua amada.

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Passando saltitante Laura o tira do transe:

– Indo tomar banho, meu bem!

Resposta não ouviu, mas sentiu-o entrar no box.

– Delícia, cê veio… ensaboa minhas costas?!

– Claro, meu amor. Olhe, você precisa saber, eu te

amo demais, viu?!

– Eu sei, querido. Eu sei.

Bastou um movimento. Cássio segurou os braços

da esposa, abriu a água quente no máximo e segurou

seus longos cabelos. Os gritos de Laura queimando

rosto, colo, seios e barriga, aterrorizou o mais distraído

dos peixes. Até que um segurança do hotel arrombasse

a porta durou a tortura.

Doutores, os melhores, salvaram sua vida, mas

não seus belos traços e formas. Olhava-se no espelho

com pavor de si mesma. No entanto, sentia-se aliviada

sempre que via refletida a entrada de Cássio. O marido

cuidava e a amava como nunca, tamanha devoção e

ternura. Seguro e carinhoso, não tornou a sentir medo

de perdê-la. Laura voltou a olhar-se no espelho, olhou

seu rosto. Pousando olho cor-de-folha-seca em uma

das rugosas marcas profundas, soube que nunca seria

tão idolatrada por outro. Deixou-se amar.

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IRMÃS


O soar da sineta tocada pelo coroinha escondido próximo

ao pé esquerdo de Padre Justino fez com que todos

se ajoelhassem. Apesar da idade avançada, Rosa e

Jacira esforçaram-se até o genuflexório. Aquele já não

era movimento de fácil execução para as duas beatas,

mas o sacrifício tornava-o ainda mais prazeroso. Terço

firme entre indicador e polegar, eram fervorosas.

Acompanharam a consagração das hóstias, ansiosas

pelo momento em que as receberiam das mãozinhas

de Padre Justino. Para a tristeza ansiosa das duas irmãs,

já era Sexta-feira, o que significava que não iriam

à missa no dia seguinte, posto que se eximiam de tal

obrigação aos Sábados.

Cambaleantes, deixaram a igreja apoiando-se nas

bengalas e, claro, uma na outra. As ruas pareciam cada

vez mais íngremes, longas e irregulares com o passar

dos anos. Dentro das sapatilhas finas de borrachinha e

pano, os joanetes amontoavam-se e doíam como o cão

a cada pisada nas ruas de pés de moleque. Chovesse

canivetes faziam sempre aquele trajeto, de Domingo a

Sexta-feira, como uma penitência sem último degrau.

Passo a passo as irmãs sofriam sua fé e devoção sob os

olhares atentos dos moradores da pequena Prazeres.

Moravam em um casarão na rua Francisco Sá, perto

da praça. Casarão térreo, colado ao chão e à casa

ao lado, ao estilo português. As janelas de madei-

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ra dispostas simetricamente davam ideia do número

de quartos daquela casa, oito no total. As paredes

claras com contornos em azul. Naqueles dias somente

Rosa e Jacira viviam ali, já há muito, desde que o último

dos dezesseis irmãos casou-se, deixando-as uma

com a outra. Agora, depois da morte de vários dos irmãos

e do envelhecimento de todos os outros, as visitas

eram cada vez mais raras. No entanto, mantinham

a casa sempre impecável. O chão de madeira escura estava

sempre encerado, os móveis e porta retratos sem

poeira alguma. Pouco abriam as muitas janelas, o que

tornava o ambiente da casa um tanto inóspito. Embora

não enxergassem bem, tropeçavam apenas em seus

próprios pés, sabiam exatamente a disposição de tudo.

O Sábado começava como todos os outros dias.

Levantavam-se ainda sob o céu escuro e encontravam-se

na mesa da cozinha após a higiene matinal.

Comiam queijo com café, às vezes bolos e pães de queijo.

Cuidavam então das plantas, da limpeza, do almoço

e dos muitos cafés do dia. Mas algo era diferente.

Houvesse um terceiro naquela casa, perceberia alguns

olhares fugazes, um não saber o que dizer. Perceberia

também um ar carregado de ansiedade, meio morno.

Daqueles ares que deslizam passos bailarinos pelas atmosferas

criadas entre pessoas que sabem de algo indizível,

tão humano quanto o próprio medo de se ver

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imperfeito e faltante. Atmosferas paridas por lembranças

distantes, fecundadas por segredos que, de há

tanto guardados, fossem quase esquecidos, como um

brinco que não se sabe onde foi parar. Brinco que saltará

do fundo do armário como um cão aprisionado

que insiste em tentar romper sua corrente. Atmosferas

que apenas as contradições e os mais profundos desejos

da alma humana são capazes de gerar.

O sol já se punha e a respiração das irmãs tornava-

-se mais e mais curta. As janelas foram então fechadas,

uma a uma. O mundo tinha ficado lá fora, eram só as

duas, e o casarão. Uma réstia de luz da rua forçava sua

passagem tímida pelas frestas das janelonas. Agora já

estavam ofegantes. Jacira entrou no quarto que foi de

seus pais e olhou Rosa deitada sob o lençol de algodão

cru. Rosa desviou o olhar, mas de canto de olho viu sua

irmã trocar a grande calcinha cor da pele por um cinturão

de couro e um chicotinho curto. Veio em direção

à cama. Rosa quebrou o silêncio cortante:

“Ave Maria cheia de graça senhor é convosco, bendita

sois vós entre as mulheres…” – pressionando o

terço entre as mãos ossudas.

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DE PEITO ABERTO


Eu devia ter uns três anos à época. Lembro-me mais

que perfeitamente do cheiro dos cabelos dela, do seu

calor. Estávamos os três, preparando algo como uma

mochila. Meu pai sorria e me fazia cócegas enquanto

eu gargalhava grudado ao pescoço dela. Íamos para

o parque. Acho que sempre íamos aí. Pelo menos é até

onde a memória me permite saber.

Sei que deve parecer banal e um tanto lugar comum,

mas ali então eu fui feliz. Mais banal ainda seriam

os anos seguintes, ou menos. Quando ele foi embora

carregava uma mala muito pequena e marrom. De

dentro do carro acenei e fui correspondido. Senti uma

culpa enorme. Por alguma razão eu sabia que era responsável

pela partida de meu pai e sabia também que

minha mãe não me perdoaria por isso, jamais.

Passava muito tempo sozinho, gostava de ler e imaginar.

Ele nunca voltou. Nessa época eu já me sentia

normal, acho. Como se sempre tivesse sido assim. O

cheiro dos seus cabelos é que tinha mudado, assim como

a distância entre os fios e meu nariz. Esperneei muito, e

o faço todavia. Mas seguro, tenho minhas razões.

Esperava pelos seus carinhos, porta aberta. Peito

tomado por uma ansiedade enorme “ela vai lembrar

de mim, vai lembrar”, como se uma mão enorme

apertasse meus brônquios enchendo-os de patoás de

chumbo. Continuei sozinho. Certa forma, tampouco

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ela voltou. Tenho tanta raiva guardada. Aqueles que

não se dispõem a cuidar dos filhos propriamente, não

deveriam ter filhos! Observava as outras crianças com

seus pais. Muitas vezes só com a mãe. Carinhosas,

sorridentes, arteiras. Eu sempre fui obediente e comportado,

mesmo assim não tinha sua atenção. À noite,

esperava ela dormir e deitava em sua cama. Tentava

chegar perto dos seus cabelos. Não sei se ela dormia

de verdade ou se fingia, mas sei que se aproximava e

algumas vezes até sorria de olhos fechados. Sempre

desejei que fingisse.

Foi quando aquele homem começou a frequentar

nossa casa. Vejo suas mãos rosadas e peludas. Era

ruivo e muito grande. Estava sempre em casa, dizia

que para cuidar de mim. À época não disse nada a ela.

Mas ela tinha que saber! Como pôde não perceber

que entregava seu filho a um abusador? Na cama eu

ficava pensando em muitas coisas, em todas as coisas.

Contava tijolos e ouvia os sapos. Tudo para não dormir.

Tudo para não revê-lo também à noite. Hoje ela

diz que isso nunca aconteceu. “Carlos, este tal homem

ruivo nunca existiu, meu filho. Isso é coisa da sua

cabeça.” Claro, assim como ela nunca me abandonou.

Assim como não passou direto pela porta do meu

quarto, sem ao menos se importar em meter a cara na

fresta e ver se seu filho dormia.

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Devo retornar à minha linha de pensamento ou me

perderei, chegando, mais uma vez, a lugar nenhum.

Juro que não sei por quanto tempo este homem me frequentou,

diariamente. Semanas, meses? Talvez mais.

Mas partiu. Não como chegou. Ninguém nunca parte

assim como chegou. Ninguém toca sem deixar marcas

ou sorri sem expor dentes. No entanto ela não percebeu

nada, andava feliz. Eu sim a percebia, vi que sorria mais

e até me olhava como antes. Logo chegaria Marcos.

Tento entender como pude levar tanto tempo para

ver que ele já morava em nossa casa. Pra onde se dirigia

minha atenção? Estavam sempre se beijando e rindo

alto. Saímos os três, fomos ao parque. Fiquei sozinho,

pensando no meu pai. Eles não gostaram. Mamãe

disse que eu deveria me aproximar, que seríamos felizes

de novo. Impressionante como ela sempre consegue

colocar a culpa em mim. Não fui eu que me afastei!

Eu a amei! Esperei por ela todos os dias da minha vida!

Mesmo assim eles não me aceitavam de verdade.

Tentei ser o filho bom, mas eles não queriam um filho

bom. Queriam outro filho, que nasceria pouco depois.

Deste dia em diante, perdi-a de vez. Nada mais lhe importava

no mundo, só o bebê. Fui pra rua. Fiz amigos.

Mas a solidão e tristeza não me abandonariam. Passei a

falar tudo, tudo mesmo. Joguei várias vezes meu abandono

em sua cara. “Cida, até quando este seu filho vai

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ficar dando chilique? Não podemos mais jantar uma

noite em paz!”. Ele falava isso porque não conseguia

ouvir a verdade, a péssima família que eles foram e são.

Decidiram que eu deveria sair de casa. Alugaramme

este muquifo e me jogaram aqui, como um gato

doente, um louco leproso. Vêm me visitar de quando

em quando e eu também vou à casa deles. Sempre

nos encontramos para almoçar aos domingos.

Costumeiramente comemos frango. Os almoços têm

sido até agradáveis, pois se dão ao trabalho de me dar

atenção uma vez por semana. Claro que algumas vezes

acabamos por trocar farpas, mas tudo em família.

Pode ser essa a razão de tantas recordações.

Quando acordei esta manhã neste lugar horroroso

nem me atentei pra que dia era. A barulheira dos fiéis

deixando a igreja da praça me despertou. Como fazem

barulho estes louva-deuses comedores de hóstia

compulsivos!? Para que alcancem a salvação, ninguém

pode dormir. De certa forma têm o mesmo lema que

os traficantes de cocaína: “Que hoje ninguém durma!”.

Preciso ir, me esperam; espero.

Quando cheguei, a mesa já estava servida. Um minuto

a mais de demora e certamente comeriam sem

mim. O pequeno veio e me abraçou. Eu gosto deste

moleque, na verdade ele não tem culpa. Não deixarei

que façam com ele o que fizeram comigo. Sentamos.

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Minha mãe pegou a faca grande e começou a despedaçar

o frango. Cortou os pedaços. Serviu a primeira

coxa para o pequeno e a segunda para… Marcos!? Não

é possível que esteja acontecendo de novo! Ela não me

vê aqui? Talvez não saiba que eu gosto de coxa. Nunca

me tivesse visto comer um frango! Estremeci. Cheguei

a sentir meu peito doer e uma certa falta de ar.

Levantei-me e comecei a gritar, como o louco no qual

eles me transformaram, como o louco que me veem!

**************

Cida olhou aquela cena de soslaio. Não podia contar

quantas vezes já a presenciara. Seu filho gesticulava e

gritava exasperadamente, não tinha ganhado uma coxa

do frango. Que péssima mãe ela era.

Tudo aconteceu muito rápido. A mesma mão que

cortou o frango abriu a barriga de Carlos do umbigo

até o baixo esterno. O rapaz caiu, de joelhos. No baque,

a inércia fez com que seus intestinos se espalhassem

pelo piso verde-esmeralda da sala de jantar.

Sem ofegar, Cida sentou-se novamente em seu lugar.

“Não quero ouvir mais um pio nesta mesa.” disse

em tom tranquilo.

Voltaram ao frango.

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AUTÔMATO


O casamento tinha sido espetacular. Flores saindo por

todos os buracos possíveis, quinteto de cordas, cantora

lírica grande e de vestido leve e rosa, igreja abarrotada,

mês de maio. Afinal de contas, uniam-se as duas principais

famílias da cidade. Regina estava linda, isso ele

não tinha esquecido. Inesquecíveis olhos sorriam com

um brilho que o embriagava. Hipnotizados nos olhos

um do outro. As bochechas ainda mais levantadas e róseas,

os passos decididos. Flutuavam. O barulho das

palmas era ensurdecedor. Depois os beijos e adulos enfileirados.

As correntes de ar jogando vez após outra o

longo véu de Regina em seus olhos. Piscava e piscava.

“Rodando em valsa, pulando em rock”, lembrou-se.

Como se tudo tivesse sido planejado, vieram os filhos,

um casal. A luta pela casa própria, o endividamento

eterno, as crianças em boas escolas. Informática,

ballet, natação, judô, futebol. Cursinho pré

vestibular, curso de artes, cursinho pré concurso público,

curso de especialização.

Tantos anos já haviam passado e ele ainda conseguia

lembrar de muito. Verdade que, do percurso em

si, lembrava pouco. Verdade é que tinha pouco parâmetro

para analisar quanto lembrava. “Poucas coisas

que não podem ser quantificadas”, filosofou. Só tinha

vivido sua própria vida, nenhuma outra, e ela tinha

sido daquele jeito, naquele tempo. As vidas das inú-

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meras personagens criadas por seus autores prediletos

eram cheias de detalhes, cheias de estórias. Mesmo

Molloy, com suas roupas sujas, seu pouco entendimento

e sua bicicleta velha, tinha memória de tantas venturas,

momentos. Já ele não.

O desenvolvimento das crianças servia de base para

algumas lembranças e associações temporais, mesmo

assim era extremamente confuso. Os anos se repetiam

exaustivamente. As paredes e portas da casa repetiam

o existir diário, com suas vivências concretas.

– Será que se tivessem sido cinco ou dez anos não

teria sido a mesma coisa?

Olhou para seu próprio corpo. Sem dúvida estava

envelhecido. Mas quando tinha sido isso? Onde estivera

todo este tempo? Lembrou-se de uma foto em que

estava na praia com Regina, lua de mel. A pele, o cabelo.

Tinha sido daquele jeito, sabia. Só não podia precisar

quando deixara de ser.

Agora fitava um velho. Naquela parede pendurados,

espelho e velho. Sabia, muito intensamente, que o velho

tratava-se dele mesmo, Carlos Fórceps Largado, marido

de Regina e pai de Junior e Clara. Velho. A barriga

pelancuda a esconder os pentelhos brancos sobre pinto

e saco murchos. “Umbigo esquisito” pensou. As pintas

brancas nos braços, “leopardo das neves” lembrando-

-se da televisão e aumentando pouco sua auto estima.

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Tomou consciência, talvez por primeira vez, que

muito tempo havia se passado. “Imprecisável, no entanto”

incomodado. Forçou-se quanto pôde para saber.

Datas faltaram-lhe, fugiu-lhe dia da semana; afogaram-lhe

palavras decepadas de seu contexto. Tentou

respirar fundo, “por mais tarde que seja, sempre haverá

tempo. A partir de agora estarei desperto”. Divagou

acerca de quanto tempo perdera. Perguntou ao velho

refletido:

– O que seria deveras vida senão o dia a dia, as

obrigações? Poderia um sentir-se vivo todo tempo?

Quanto desgaste! Quanta energia!

Sentiu que seu rosto entortava pra direita. “Pra direita

não!” agoniado. Tentou consertar a cara. Agora

usava as mãos, segurava a cabeça que puxava seu corpo

violentamente pra trás. A coluna movimentou-se em

rotação. Sentiu o pé esquerdo levantar-se em um quase

chute. Perdia o equilíbrio. Caiu no piso de madeira.

– Carlos!!!! – gritou Regina enquanto punha os pés

no chão, procurando os chinelos ainda sonolenta.

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CASAL


– Mas o que você sabe sobre ele que poderia

prejudicá-lo?

– Na verdade não sei nada. Coisa de casal, sabe?

Não sabia. Apesar de compor um casal há mais de

vinte anos e, em épocas anteriores, ter composto outros

casais, não sabia. No entanto perder a pose lhe era inimaginável.

Especialmente diante daquela fala da nora.

– Claro! Coisa de casal tudo bem, a gente entende.

– Todo mundo tem uns segredos, umas coisas meio

indecorosas, impronunciáveis. Coisas sobre as quais

só falamos em casa. Nada de tanto, se nos permitirmos

não julgar.

Aquilo soou tão estranho quanto o roncar de alguém

desperto. Clara supôs não ter compreendido as palavras,

duvidou por um mini instante de sua sanidade.

Olhou a boca da nora mover-se sem produzir som. Continuou

seu devaneio tentando lembrar algo escuso do

marido, algo que ele lhe houvesse confiado em segredo,

num momento de companheirismo do casal. Nada. No

trabalho pensativo lembrou de quanto se orgulhava por

não ter segredo algum: “minha vida é um livro aberto”.

Sentiu uma certa vergonha. Duvidou de si em essência,

na alma. Sempre tão segura, tão certa… Viu a vida passar

diante dos olhos cansados: “eu não fiz nada!!!”.

Alegou horário no salão e despediu-se às presas.

Sem conseguir esperar elevador, desceu as escadas e

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atravessou em direção à casa, queria seu quarto. O tempo

das coisas pareceu-lhe outro. Os barulhos, as luzes.

Pessoas olhavam, inquiridoras. “Preciso me recompor”.

Há anos dava conselhos às mulheres que a rodeavam.

“Entendia de homem!”. Certeza tão certa que inquestionável,

estruturante, fundamental:

– Homem mente. Engana. Tem que saber lidar com

o bicho!

As amigas se impressionavam com sua sagacidade

para pegar na mentira, com seus tantos e adelgaçados

sentidos. Via-se ministrando aulas acerca de como falar

e lidar com homem: animal ingrato, safado; mas de

possível adestramento. A natureza do homem se lhe colocava

tão cristalina, tão sem mistério, que a permitia

antever comportamentos. Percepção aguçada: era pescar

em aquário limpo. Jogava iscas fosforescentes e eles

as mordiam com toda a força das mandíbulas. Como no

adestramento de qualquer besta, manter o controle era

chave. Essencial mesmo para o bem devir das coisas.

Tinha-os ao mesmo tempo como o lobo e o cordeiro,

talhava todos à imagem do marido. Sim, eram falsos,

canalhas, enganadores. Mas também ingênuos,

sugestionáveis e fracos. Talvez por isso aceitasse e entendesse

seu companheiro. Desde que este admitisse

suas mentiras, aceitasse sua condição de enganador

e, por vezes, se mostrasse “realmente” arrependido.

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Verdade que, para que o marido admitisse toda sua

execrável condição masculina, eram necessárias horas

de duras discussões e argumentações detetivescas.

Sofria o diabo, mas a recompensa vinha quando se via

certa, ou quando ele assim dizia.

Pensou nisso e percebeu que o prazer de desmascarar

o outro era sua essência, seu maior gozo. Nem toda

sua razão e corretude puderam blindá-la da própria

fragilidade. Demenciada alma. Questionamentos agora

a colocavam cara a cara consigo mesma, suas amigas e

verdades. Aos prantos se perguntava porque ninguém

lhe chamara atenção, enquanto todos os músculos do

seu corpo doíam, fazendo difícil o existir. Culpou o

mundo, de novo. Os não saberes povoavam sua respiração

entrecortada, quando assustou-se. Tantas recordações,

conversas, imagens. Teria ela nunca ouvido?

– Não! Sempre me responsabilizei por tudo o

que faço!

Certeza esmorecida.

Não que fosse uma criança. Familiarizada que era

com existência e vida dos segredos, poderia reconhecê-los

dentre entes animais, vegetais ou mesmo minerais.

Aliás, eles eram tronco em sua vida. Tanto que seu

tempo era desvendá-los. Estranhamente nunca portara

um segredo. Nunca ninguém lhe confidenciara algum,

tampouco ela criara um próprio! Mais uma vez culpou

70


os outros, péssimos amigos, maridos e parentes. Um

raio estalou na lagoa à sua frente arrepiando-lhe pelos

perna acima:

– Como escrever segredo em livro aberto? Quem

o faria?

Naquela noite não dormiu. Observou o marido, viu

seus olhos moverem-se rapidamente enquanto sonhava.

Enganada pelos sonhos do cônjuge, desejou confidências,

mínimas que fossem. Ao entrar do primeiro

raio de sol, teve a ideia. A pele pessegou-se em brilho.

Olhos de maçarico, corpo pronto.

Estava tão radiante que chegou a beijar o marido

antes de sair junto com os restos da noite. Seus saltos

incomodaram pequenas poças de orvalho aconchegadas

entre as pedras cinzas da rua. Tornozelos

firmes. Atravessou e bateu palmas pro porteiro do prédio

da frente, que, cumprimentando-a, abriu o portão.

Quando olhou os dois dormindo não titubeou. Abrindo

a bolsa, pegou a agulha de crochê e enterrou-a garganta

adentro da nora, tapando-lhe a boca. Seu filho mal

se moveu, sono profundo. Saiu.

Tesão incontrolável. Ao marido demorou um pouco

acordar. Bicho de instintos sexuais aguçados, logo se

animou, apesar do estranhamento. Ela o fitava, fosfórea.

Sentindo-o totalmente seu, disse:

– Amor, tenho que te contar um segredo!

71


PAI DEVOTADO


Mais uma vez olhou o teclado. Na tela, a foto de Olívia

lhe tirava e dava fôlego. Naquela foto ela não passava

dos vinte anos. As sardas delicadas, cabelo avermelhado

assim como a boca. A pele rósea contrastava levemente

com o vestido branco decotado, as pintas desciam

pelo decote surfando seios firmes e volumosos.

Ao fundo o céu. Reparou por primeira vez uma nuvem

em forma de rosto a olhá-la. Sentiu um ciúme improvável

daquela nuvem, que, dali, para sempre veria suas

costas e bunda perfeitas. Lembrou-se de como as calcinhas

marcavam aquele vestido, tornando ainda mais

óbvias suas curvas.

Fato é que, desde a morte de sua amada, Joaquim

não escrevera mais nada, tampouco vivera para si.

Enlutou-se. “Fechado para o amor, pois nunca existirá

mulher como Olívia!”. Deixou de ser homem para ser

pai. Olivinha, cuja mãe morrera no parto, era uma doçura

de menina. No início a família respeitou seu luto.

Logo, muito preocupada, a mãe quis mudar-se para a

casa do filho no intuito de ajudá-lo na difícil tarefa de

criar uma filha. Foi categórico:

– Agradeço a delicadeza e a preocupação, mas não

preciso de ninguém para ajudar a criar minha filha.

Afinal, não é minha filha? Filho é assim, basta nascer

pra que quem é pai saiba o que fazer! – Filosofou.

73


Preocupada, a mãe foi procurar o padrinho de

Joaquim, homem íntegro, há muito amigo da família.

Era como um segundo pai pro rapaz:

– João, você precisa fazer algo. Conversa com

Joaquim! Não pode um rapaz novo, bonito, decidir viver

de viúvo!

O padrinho meteu o pé na porta. Chamou o afilhado

na responsabilidade. Disse que precisava ser homem

e outros bichos. Que homem que é homem tem

uma mulher do lado.

– Pois então deixei de ser homem, padrinho! No

dia em que morreu Olívia deixei de ser homem!

Por disparatado que fosse, a cada dia que passava,

Joaquim sentia mais orgulho de seu luto. Quanto mais

lhe importunavam, mais ele se fechava. Só andava de

preto, sempre com a filha a tiracolo, aliança dupla no

anelar da mão esquerda. Nunca descuidou de nada da

menina. Parecia uma boneca, uma boneca ruiva.

O padrinho chamou a família toda, fez drama de

novela:

– Assim não dá! Assim não dá! Desse jeito esse menino

acaba doido ou perdido! Isso é culpa de vocês que

ficaram enfiando na cabeça dele essa coisa de amor

eterno!! Tá danado! Tá danado!!!

Acusava a mãe e as irmãs de Quinzinho (elas o chamavam

assim). Filho caçula, sempre excessivamente

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adulado, ensinado por aquelas mulheres a crer no romantismo

e na alma gemisse.

– Balela de mulher! Coisa absurda, de estragar

qualquer menino!!! – bradava João.

Elas se calaram em culpa. Ele, havendo tirado culpa

e responsabilidade de seus ombros, seguiu sua sempre

atarefada rotina. Quinzinho tocou sua vida de pai

dedicado.

Olivinha crescia linda e extremamente apegada ao

pai. Respeitadora, educadíssima e cada vez mais parecida

com a mãe. Foi no leito de morte que sua avó lhe

disse, moribunda:

– Minha filha, seu pai deu a vida por você, pra você

ter a sua. Não cometa o mesmo erro que ele.

Olhou a avó com ternura, por respeito e criação,

mas ficou ofendidíssima. Admirava o pai acima de

tudo, deste ou de outro mundo. E seu maior orgulho

seria poder dar-lhe a vida. No enterro da avó, braços

dados com o pai:

– Prometo, nunca vou te deixar, pai. Nem morta!

Já tinha quatorze anos. Melhor aluna da classe.

Moça de poucos amigos. Amigo, amigo mesmo, só o

pai. Com ele conversava de tudo. Assistiam filmes às

gargalhadas no sofá da sala, cuidavam das roupas um

do outro pela manhã. E foi em uma dessas manhãs que

Joaquim, ao deixá-la na escola, pegou a si mesmo repa-

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rando o rebolar de Olivinha. Assustou-se. Correu pro

trabalho, mas não pôde pensar em outra coisa. “Eu sou

um monstro! O pior dos homens!”.

O caso era tão sério que Joaquim se viu sozinho,

não poderia falar daquilo com ninguém, qualquer um

o julgaria mal “e com razão! Sou um desgraçado!”.

Assistia à menina desfilar de calcinha pela casa,

percebia-se perdido nas pintas que desciam por seu

colo, nos seios rosados e queria morrer. Passou a

agir diferente com a pequena. Disse que ela já era

uma moça e que não estava certo aquele desfile de

lingerie em casa. Ela acatou de pronto, como sempre.

Distanciava-se da menina, seu único amor, mais e

mais. Pouco a olhava nos olhos verdes ou mesmo

conversavam. Foi, aos poucos, se afastando. No

entanto o desejo impronunciável parecia ocupar cada

vez mais espaço em seu ser. Sonhava com Olivinha

praticamente toda noite, acordava suado, culpado e

doente de tesão. A culpa e a saudade da proximidade

com a filha corroíam seus intestinos. Tinha medo de

perdê-la, pavor de tê-la. Viu uma só saída. Preparou

tudo. Pendurou a corda numa viga forte, fez uma carta

de despedida em que explicava à filha o porquê de sua

morte. Colocou a carta no meio dos livros da garota.

Deixou-a na escola com um longo abraço e neste dia

não foi ao trabalho, voltou pra casa.

76


Já estava agonizando, pendurado, quando ouviu ao

longe a porta abrir e os passos desesperados da filha.

Olivinha cortou a corda que enforcava seu pai, esperou

ele recuperar o fôlego, às lágrimas:

– Seu idiota! Você não percebe que te amar é o que

eu mais quero?! Eu quero você!

– Ahh, minha Olívia!!!

Beijaram-se com avidez; extasiados, insaciáveis,

febris.

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PARTE II

DE VOLTA À VIDA


INSONE


Naquela manhã levantou-se novamente como se não

tivesse dormido. O peso sobre suas sobrancelhas o

convenceu que deveria voltar a deitar-se. Olhou a cama

com asco. Nem os lençóis embolados deixando o colchão

de estampa florida à mostra, nem as manchas

amareladas de suor nicotinado que empapavam o colchão

o enojavam. Mas sim a própria idéia de deitar-se.

Ou seria o quarto? O cheiro de cigarro e tempo tomava

conta do ar muitas vezes expirado e poucas circulado

para além dos pulmões. A umidade das paredes colaborava

com mais odores e sensações que arranhavam

garganta e olhos.

Deitou-se.

Pensava agora em como acenderia o próximo cigarro

sem precisar levantar-se. Olhou à sua volta pela milésima

vez. O isqueiro preto estava, sem dúvida, fora

de alcance.

Mais uma olhada.

– Com certeza tenho outros isqueiros por aqui.

Tentou alcançar um palito, que não sabia se de fósforo

ou de dentes, com o pé esquerdo. Empurrou-o

sem querer pra longe.

– Merda!

Decidiu que esperaria mais um pouco pra fumar.

Pensou em Dalila. Queria saber onde ela estava e se

ainda lembrava-se dele, afinal, tinham tido uma histó-

81


ria e ninguém pode negar a história. Alguém pode tentar

esquecer e, talvez, até conseguir, mas nunca negá-

-la de pronto. Olvidar, mas não matar, ah isso não. Isso

nem mesmo Dalila era capaz. Ela que era capaz de matar

muito, ou quase tudo. Com a história nem ela podia.

Entre o emaranhado de lençóis encontrou um isqueiro

azul. Abriu sorriso de vitória nos acréscimos

e acendeu seu cigarro, pomposo. Soprou a fumaça no

rosto de Dalila que lhe sorriu com a ponta da língua roçando

os dentes da frente. Linda. O cabelo longo muito

enrolado, sua cor avermelhada e sua pele firme. Deitou

seu corpo nu em frente ao dele dando-lhe costas e cabelos

pra cheirar, a bunda dura pra pegar. Virou-se arrepiada

mostrando os dentes e a língua vermelha.

– Dalila, por onde você andou todo esse tempo? Te

procurei todos os dias, quase morri!

O quarto já estava feio e malcheiroso novamente.

Procurou Dalila, mas não a viu ou sentiu seu cheiro de

acerola madura. Arregalando os olhos, apagou o fogo

do colchão furado pela guimba que havia deixado cair.

Lembrou-se de quando ela disse que nunca mais o tocaria,

ou mesmo o olharia nos olhos. O aperto na altura

do pescoço quase o deixou sem ar. Outro cigarro.

Viu mais uma vez aquele último olhar de desprezo.

Depois as costas e os longos cabelos foram indo embora,

decididos. Não esqueceria. A falta de ar agora já

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lhe custava parte do pensamento. Um frio intenso percorreu-lhe

as pernas até o rosto. Brilho fosfóreo de lagartixa

no teto desviou sua atenção de si mesmo. Pôde

novamente respirar. Imóvel lagartixa branca. Atentos

olhos no bicho. Percebeu o teto e suas imperfeições.

Manchas de mofo verde escuras.

– Quanta poeira nessa lâmpada.

– Você nunca se preocupou em limpar nem a remela

de seus olhos!

– Mãe?!

– Paulinho, você sempre foi desorganizado, um

imundo, um porco! Sempre eu correndo atrás de você e

de suas merdas, sempre eu te tirando da merda!

– Pois me deixe afundar em minha merda em paz,

cacete!!!

As gotas de suor brotavam por todo o corpo.

Pensou em como sua mãe sempre o julgara. Mesmo

morta, voltava só e apenasmente com o intuito de lhe

ferrar ainda mais a vida.

– Some daqui velha desgraçada! Volta pro inferno!

– Menino, vê se isso é jeito de falar com a sua mãe?

Olha que deus castiga.

– Mais castigo do que ter me feito sair de dentro de

você, não há. Nada pode ser pior maldição!

– Vou fingir que não ouvi isso porque sei que você

anda triste e sozinho. Que estado meu filho…

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– Obrigado! – soluçou – Desculpe mamãe… ainda

bem que a senhora sempre está comigo.

Aos prantos, revirou a cama em busca de sua mãe.

Um punhado de feijão podre saltou do meio dos trapos

alvejando-lhe a testa. Desgrudou ansiosamente, sentidos

despertos. Vômito de urubu. Dor por todo o corpo.

A cama pareceu-lhe maior e mais intimidante. Viu

seu rosto no reflexo da televisão desligada. Estava mais

murcho e ossudo que nunca. Suas mandíbulas marcavam

a pele fina, querendo rasgá-la. O queixo pontudo

atraiu seu olhar para a barba falhada por obra de

dedos angustiados. Não era dono de seu rosto, ou de

qualquer parte sua. Sentiu que seu braço desprendeu-

-se, rolando pra fora da cama. Mais que depressa rolou

atrás a buscar seu pedaço. Grudou-o bem.

– Agora quero ver sair!

Alguma coisa furou seu pé e entrou perna adentro.

Podia ver a pele de sua panturrilha sendo forçada pra

fora, como um rato sob um lençol. Correu a pegar uma

faca no criado mudo. Abriu o primeiro talho fundo na

panturrilha.

– Sai daí bicho desgraçado!

Apertou bastante ao redor do corte, fazendo ondas

com os polegares. Um besouro azul cintilante pôs a cara

pra fora. Continuou espremendo a ferida enquanto tentava

arrancar o inseto fazendo uma alavanca com a faca

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comprida. As antenas, tão grandes quanto a própria

panturrilha, se moviam como se o olhassem. As presas

em forma de alicate abriam e fechavam, em ritmo cardíaco.

Inseto gigante ensanguentado no pé da cama.

Balançou seu corpanzão de quitina e agitou as asas.

– Puta merda, pensei que você fosse me deixar

morrer sufocado dentro do seu corpo podre!

– Você me invade a merda da perna e ainda tem coragem

de ficar puto?! Cadê o Baigon?

– Calma aí Paulinho, só vim porque você me trouxe.

Sei como você pode dormir.

– Você quer é me foder, porra! Tô todo arrebentado,

cortado como um porco gordo!

– Você só precisa esquecer.

– E deixar de ser?

Bateu suas asas rápidas pra fora do quarto. Como

um raio azul, o besourão entrou novamente pela

janela em direção à carótida de Paulinho, cortandolhe

a garganta. Não voltou a levantar-se, faca na mão

direita. Com a esquerda ainda conseguiu afogar o

inseto em seu sangue, que inundava o colchão florido,

colorindo a tarde.

85


YOKNAPATAWPHA


Saí da repartição correndo. Afinal já passava das 18h02

e eu lá, carimbando aos sorrisos!? Dedicação sim, escravidão

não esperem de mim! Apressei o passo até o ponto

do ônibus cheirando a chuva que estava pra molhar

o cerrado, coisa rara naquele mês. O lotação mais uma

vez fez jus ao nome e, espremido, sonhei com o chopp

gelado do Silveira. No balanço curto das pessoas, meu

babar talvez tenha molhado um ou dois desavisados.

Mais de vinte anos no mesmo boteco, praticamente

todo dia. Poucos podem gabar-se de tanta lealdade

e dedicação às artes cachacísticas. Ali era versão melhorada

de minha casa. As pessoas me respeitavam, era

prontamente atendido e, a alguma gente, minhas falas

interessavam. Cardápio não precisava há muito. Aliás

hoje em dia poderia até pedir coisas que Tina não costumava

cozinhar, bastava dizer que era pra mim.

A freada brusca fez a água subir tanto que enlameou

toda lateral do ônibus até suas janelas, talvez

mesmo o teto. Atento, busquei logo prever o melhor

caminho sob o temporal. As árvores mais baixas me

preocupavam, pois, muito baixar me descadeiraria,

maiores desvios me encheriam de água de chuva, talvez

até mesmo lama ou merda de pombo molhada, dar

de cara com as arvorezinhas dispensa qualquer descrição

mais detalhada. Acho que nunca fui jovem o bastante

para levar uma chicotada d’água na cara e sorrir.

87


Saltei.

Passadas entre caminhar e correr cuidadosamente,

me desviaram um pouco do caminho pré imaginado.

Esquecido que tinha sido do chão, pequeno detalhe.

Algumas poças e pisos escorregadios me alertavam e

faziam-me pular como nas aulas de educação física, ou

como o sapo doido da música do meu tempo.

Cabeça meio baixa, modo correto de andar sob

a chuva, cheguei ao Silveira. “Tudo certo” – pensei.

Ao levantar os olhos dei de cara com o motivo de

escrever-lhes hoje. A porta de ferro, dessas de descer,

prateado-fosco, impediu minha entrada. Assim, sem

explicação. Sem quê nem porque, encontrei-me trancado

fora de casa. Circulei a edificação atrás de algum

escrito, um sinal, um companheiro, uma nota de

falecimento que me levasse ao pranto e a outro lugar

pra beber o morto. Nada. Outra volta… nada. Traído,

passei a olhar os vizinhos.

Percebi que não conhecia nenhum deles: coiffer,

pet shop, farmácia ou panificadora. Quanto tempo

estiveram ali em silêncio? Quanto amor dediquei ao

Silveira? Apertei os olhos cansados e vi um jacaré desenhado

em uma placa: Ali Gators – Drinks ‘n Barbie.

Entendi logo: um bar. Corri. Ainda chovia bastante.

Molhado, adentrei aquele território estranho. Senti

que todos me olharam. Percebi também que os donos

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dos olhos trabalhavam lá e que eu representava seu

único cliente e ganha-pão. Aturdido, busquei, rapidamente,

um lugar discreto para sentar. Avistei a máquina

de chopp… brahma! Provavelmente sorri, reconhecendo

o familiar naquele lugar estranho. Sentei e fiz

com a mão esquerda gesto de “chopp pra mim”. Mais

que de repente um garçonzão, branco, grande, de mãos

e olhos esbugalhados, trouxe-me cardápio. Disse:

– Pedi chopp!

– Sim senhor. Não tinha entendido.

O chopp veio trazido por um outro sujeito.

Também branco, menos forte. Parecia um menino.

Podia jurar tê-lo visto jogando videogame em um computador

de colo enquanto, atabalhoado, eu entrava:

– Meu chef é americano, então é assim, como se

você tivesse comendo nos Estados Unidos mesmo! –

sorriu-me de olhos forçadamente abertos o (agora reconhecido)

dono do bar, ex-intercambista, de berço

negociador e banhado a ouro, enquanto coçava a sobrancelha

a especular o custo do dia.

– Ah, o tempero! – intercedi. Antes que fosse tarde

e algum americano de quepe, cacetete e megafone

se intrometesse a me multar pelo cigarro, vício antigo,

sem importância. Mas pra americano, já viu!

“Quão diferente eram os donos de bares daquela

região” – pensei enquanto recordava Silveira. Menino

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que fosse, entrasse seu bar, garanto, saberia de pronto

identificar Silveira como dono.

Somente no segundo ou terceiro chopp, entendi

que estes eram servidos em vários tamanhos. A canecona

vinha “congelada” – garantiu o grandão. Nesta

hora já virei canecona, previsivelmente. Demorei-me

mais do que devia no cardápio. Barbecue, aipo. Tudo

frito como frango. Acho que pensei demais pra pedir

um frango com pimenta. O molho estava apimentado

mesmo. No princípio não acreditei que o tal americano

fosse entender de pimenta, mas entendia. Comi, preso

à TV que passava jogo de hockey. Divertido, violento.

Algumas outras pessoas chegaram. Apesar das tratavivas,

pouco comunicativos mantiveram-se. Consegui

sim alguns sorrisos trocados, no entanto, nada que

fizesse subir e descer calafrios por minha espinha. Sozinhamente,

busquei meu destino naquela noite.

New Orleans me sorriu com jazz, o Mississipi me

devastou com o racismo. A antipatia por meus traços

latinos me deixaram atônito e por vezes paralisado por

todo aquele sul. Pessoas não são boas anfitriãs de não-

-brancos lá embaixo. Acossado, pouco falava, pois entendia

pouco a língua ou os contratos sociais. Certeza,

não queria complicações, ainda mais em solo estrangeiro.

Até que, por fim, recusaram-se a servir-me outro

chopp. Falei muito. Verdade seja dita, deixo escrito, bri-

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guei em vão. Seus grandes exércitos, não que tenham

mais furor que os nossos, mas seus tecnológicos exércitos,

contactaram meu filho. Portanto, lá estava eu, feito

refém, sozinhamente. Foi quando avistei o menino.

Ao longe, percebi quão parecido comigo ele não

era! Comprido, braços fortes. Sentou na minha frente.

Disse: “Você tem que ir pra casa”. Contei-lhe que

um chopp transformara-se em questão de estado.

Obviamente não poderia deixar os Estados Unidos daquela

forma! Sentado a me fitar, meu filho contou-me,

aos sorrisos, muitas e muitas coisas das quais não me

lembro agora, mas que me desarmaram ao ponto de

me fazer sorrir, assim como aos gringos. Ele sempre

teve este dom. Olhos cheios d’água, orgulho indescritível

daquele menino, recordei sua concepção e nascimento,

lembrei na pele os tantos anos difíceis. Quase

voltei a culpar-me. A dificuldade em tê-lo, suportá-lo,

criá-lo. Ser pai.

Reencontrei os olhos dele durante uma de suas

falas. Senti-me amado como não pensava possível

depois dos trinta. Jogado, entregue em seus braços,

ainda lembro ver seu corpo jovem carregando o pai

por fronteiras reconhecidamente hostis. Trincheiras,

tecnologias ou bombardeios não puderam parar meu

filho. Meu menino.

91



[]


Tinha clara lembrança do momento em que saía de

dentro de sua mãe. Olhou-se no espelho; pensou: “Este

rostinho lindo ficava ainda mais bonito naquela moldura

natural”. Aquela imagem guardada ensinou tudo

o que Higildo Ferrolobo precisaria saber para ganhar

a vida. Encontrava moldura para qualquer quadro. Seu

censo de equilíbrio e perspectiva causava inveja aos

concorrentes. Tornou-se, rapidamente, unanimidade

no mundo dos emolduradores. Seletíssimo grupo de

gente de ótimo gosto. Enxergava o mundo enquadrado.

Enquadrava o mundo para que seus clientes pudessem

melhor contemplá-lo.

Casara-se com a mulher de mais belos cabelos

já vistos por ele. Os cabelos pretos e brilhantes de

Clarice, cortados sempre acompanhando o desenho de

seu queixo alongado e arredondado, faziam dela esplêndida

figura. Aos olhos de Higildo, nem ele mesmo

poderia ter feito melhor. Apaixonaram-se no momento

em que se entreolharam. Clarice nunca mais esqueceu

aquele olhar. Desde que o viu, soube que não mais

o abandonaria. Nutria-se da força com que era admirada,

cuidada e desejada pelo emoldurador. Ao mesmo

tempo, nem em sua meninice, imaginara possível tanta

felicidade ao lado de um homem.

A posição social ocupada pelos Ferrolobo, assim

como sua prosperidade, proporcionava-lhes uma vida

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de muitos luxos e exageros. Exageros esses, bem aceitos

e até incentivados por seus pares. Ditado antigo

entre os emolduradores, sustentava que não existia

quadro bonito o bastante para prescindir de moldura,

assim como não havia vida boa o bastante que dispensasse

exageros. Clarice e Higildo sempre deram-

-se muito bem. Respeito enorme um pelo outro, juntos

para o (in)imaginável. De orgias Caligulescas a passeios

a cavalo por campos de oliveiras, o casal estava

sempre unido e divertido, buscando e encontrando o

olhar um do outro.

Naquela noite tinham saído para mais uma festa

em que tudo seria possível. O motorista sorriu para o

Senhor Ferrolobo e elogiou sua patroa com cortesia e

discrição. A limousine atravessou o amplo e bem cuidado

jardim, chegando a uma casa suntuosa. O funcionário

abriu a porta para os patrões. Mulheres e

homens elegantíssimos faziam suas entradas espetaculares

por uma escadaria de desenho inesperado. Foi estacionar

o carro junto aos outros, onde, provavelmente,

jogaria baralho com os demais empregados.

Gente bonita por todos os lados. Vãos das tantas

portas levavam aos tantos quartos. Recepcionados pelo

anfitrião, sentaram-se para o primeiro drink. Depois

do primeiro vieram todos os outros. Dançaram entre

gargalhadas deliciosas e muitos olhares. Felicidade

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é gente bonita que dança. As estrelas rodopiavam ao

som da alegria. Um escorregão idiota, Clarice prende

o salto na grama esmeralda do campo de golfe.

Destrambelhada cai perto demais da fogueira. Seus belos

cabelos desaparecem em um piscar de olhos. Como

folhas secas embebidas em álcool, os fios são destruídos

pelas labaredas ensandecidas, um a um. Higildo

salta sobre a cabeça de sua amada em um gesto heróico

e de muita paixão. Usando seu blazer Versace como

única arma, consegue apagar sem muito esforço os cabelos

da moça, que chora, desesperada.

Voltam à casa. A tristeza de Clarice amedronta

seu marido. Apesar da garantia dada pelo renomado

Dr. Ângelo dos Santos de que nada acontecera capaz

de danificar seu irretocável couro cabeludo, Madame

Ferrolobo temia por seus pretos pêlos. Lembrava do

brilho, da maciez. A leveza firme com que caíam sobre

seu rosto, redesenhando-o à perfeição. Sofreu muito,

sofreu meses. Higildo firme, ao seu lado. Levavalhe

café na cama, elogiava-a o tempo todo. Deixou um

pouco o trabalho de lado e dedicou-se à amada como à

própria vida. Trabalhava apenas em casa, quando conveniente

fosse, quando a vida lhe permitisse.

Aos poucos Clarice começou a recuperar-se. Tentou

algumas perucas. O emoldurador criou-lhe algumas

peças interessantes. Usou-as poucas vezes. Chegou a

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gostar de algumas, mas nenhuma conseguia aprovação

dele, que começou a trabalhar mais e mais no projeto.

Passava noites em claro, procurando a forma perfeita,

procurando fazer a Clarice de que se lembrava tão

bem. Os primeiros fios inseguros já pipocavam aqui e

ali na cabeça dela. Atormentado pela forma com que

tomavam, pedia para que ela os aparasse. “Para não

atrapalhar a peruca, qualquer detalhe pode estragar

tudo”. Repetidas vezes raspavam as cabeças um do outro.

Estudavam suas formas, cada relevo, à exaustão.

O tempo perdeu o rumo entre as paredes da casa

do casal. Caminhões abarrotados entregavam os mais

diversos materiais para os experimentos moldurais-

-capilares de Higildo e Clarice. Obcecados em reencontrar

a si mesmos, não saíram mais. Viraram quadros,

expostos àqueles transeuntes curiosos, que veem,

através das janelas da mansão Ferrolobo, o reflexo dos

dois amantes experimentando perucas, presos à moldura

dourada do espelho.

97



ALBERTO SOLANO


Quando cruza seu olhar ele não sofre angústia ou insegurança.

Dentes convidativos pra frente. Lábios e

língua perdidos entre os (des)sabidos desejos orais.

Quanto, quanto nariz! Palavras delineadas nos seios

semi expostos. Palavras. Saberes? Não pôde ler, mas

soube. Amigas riam e até rimavam. Cabelos do antebraço

talvez loiros. Tinha ainda a boca… rósea.

Azulavam sua parte duvidativa, iluminavam aquela

partezinha de vida que ele ainda guardava em algum

lugar verde e cinza. Entre o queixo e a maquiagem se

achava viva. Mentira. Sabia-se viva. Riu de novo, aturdido.

Queria também cuidar. Sabia um só jeito, devia

ser amor então.

Vermelhos olhos sábios. Castanhos claros de imensidão,

de bússola quebrada, de verde mar ao entardecer.

Indefinida tonalidade; próxima àquela da grama

depois da chuva de fevereiro no lugar onde nasceu. Que

foge e encontra o amarelo, envelhecida alma. Magnetismo

de desrumar, busca à noite sem lanterna, estrela

ou negrinho do pastoreio. Olhou de novo. Questiona

algo que lê, sem entender. Ingênuo. Mas sentia! Ela

não? Amor; de novo. Agora está o nariz que, avermelhava-se

aos poucos, vermelhar de nariz, rena de Noel.

Não era ingenuidade reconhecer essa descontinuidade

de saber-se si. Era e deixava de ser, como todos,a todo

momento. Mas ele sabia, sentia, doía e envergonhava-

100


-se com certa facilidade. Existir. Viver. Entender-se de

novo ingênuo. Falta no olhar, cegueira vital.

Levantou-se em direção à porta. Bem que porta não

fosse, aquele era lugar sem porta, infinito limite. Ele

pensou em correr atrás e dizer-lhe de sua importância

extrema, contato com sua parte vivente, praticamente,

portanto, essencial à sua não morte. Desistiu. Sentia

a proximidade da morte e decidiu deixá-la cumprir

sua função, com a foice cega e vestido preto esfarrapado.

Certa forma estava preparado. Os prazeres deixavam

seu dia a dia paulatinamente, os sorrisos seus

dentes. Até mesmo a ironia já não lhe dava o gozo soberbo

da sagacidade e do esconderijo no significante

de afeto deslocado.

Varava os dias como não estivesse ali. Semblante

encerado constante. Olhar de ver através, que não vê.

Mãos trêmulas, apesar de jovens ainda. As palavras já

lhe faltavam após anos de eloquência invejada. Sentia

os músculos de face e língua tropeçarem em seus pensamentos.

Enorme zumbi trafegando espaço-tempo

como água de ribeirãozinho, que nunca deságua no

mar, mas afoga na terra. Mar? Só de areia.

Primeiro telefonema dela em semanas. Queria encontrá-lo.

Ansioso. Neste dia até banho tomou, perfume.

Olhou-se no espelho e viu seu olho cor de burro

fugido brilhar. Foi pouco, mas brilhou. Partezinha de

101


vida cuidadosamente escondida, pulsar. Chegou ao lugar

combinado.

Ela, – sorrisos e olhares, distribuía vida, som.

Gargalhadas. “Que lindas coxas brancas, sensíveis que

arrepiam”. Não contou quanto beberam; o quanto puderam.

Beijaram-se. A noite só acabaria de manhã, eles

no carro, carona até em casa.

Esta altura, angústia e medo o encontraram de

frente, bateram-lhe mão aberta no peito, como tapa

em boi nelore. Ela não o manteria em contato com sua

porção de vida. Possibilidade impossível. Vida sua só

ele poderia encontrá-la, tratá-la bem e carinhosamente.

Quem sabe até alguns beijos poderia conceder-lhe.

Buscou ao máximo em si razão e força pra isso, com

as poucas conhecidas portas de saída esculpidas durante

vida inteira. Ferramentas de qualidade duvidosa

encontradas no trajeto, pouco jeito pra marcenaria.

Encontrou nada. Covarde que era, ferramentas empobrecidas,

nem mesmo tirar a própria vida conseguia.

Continuou vivendo vida de morto, disposto que estava

a esperar o destino da foice. Ficou ainda mais invisível.

Aos poucos, seus colegas de trabalho passaram a não

mais vê-lo, ou falar com ele. Rodas de conversa rodavam

como se sem ele. Esvaiu-se.

Saiu um dia do banho, cedo ainda, cobrado a trabalhar,

produzir. Coagido por si e pela cultura que o

102


criara. Passou frente ao espelho, rápido. Deu mais dois

passos e parou, como houvesse reparado algo. Voltou,

passos ansiosos. Olhou novamente e mais outra e outra

vez. Seu reflexo não estava lá, sumira. Pela rua foi

olhando as pessoas nos olhos, ninguém retribuiu olhar.

As vitrines das lojas tampouco o refletiam. Invisível;

desapareceu. Liberto.

103


SOLPET


Enquadramento fechado em uma flor; a câmera abre a imagem

aos poucos até a vista de uma chapada, um homem,

uma mulher e duas crianças correm e sorriem [ao fundo toca

As Quatro Estações – Vivaldi] entra voz do locutor Helvécio

Rubone, um barítono de doçura incomum:

– A natureza nos emociona, nos emociona a vida. O

sofrimento dos animais nos tortura.

[A música muda, entra a canção Ninguém Presta –

Tolerância Zero] Ainda em zoom reverso, a imagem deixa

agora o olho de um cavalo, até expor seu corpo esmagado à

beira de uma estrada; Helvécio, cru:

– O abandono de animais não pode ser tolerado.

Precisamos e podemos mudar este triste quadro.

Por isso somos a SOLPET – Soluções em Animais de

Estimação – (imagens de diversos animais mortos se revezam

com rostos de crianças tristes) aqui seu animal

terá seu fim assistido e será útil às próximas gerações.

Com nosso exclusivo método TEV – Transformação de

Energia Viva – seu animal terá o mais nobre dos fins!

[Volta o Vivaldi] Fotos de famílias tristes, porém resignadas

e orgulhosas levando seus animais na porta de um

dos abatedouros SOLPET. Helvécio caminha por rodovias

amplas e perfeitamente asfaltadas.

– A descoberta deste método de produção de asfalto,

revolucionou o planeta e a concepção de vida e

morte. Só na SOLPET seu animal de estimação se trans-

105


forma na melhor manta asfáltica que existe. Revestindo

rodovias ao redor do mundo e fazendo nossas estradas

melhores e mais seguras! Venha pra SOLPET!

Tela escura, letras brancas em tamanho apenas legível:

Informamos que só aceitamos animais ainda vivos.

Sabia de cor todas as falas daquele comercial, assim

como suas músicas. Agradava-lhe o refrão da canção

do Tzero: “Eu, você, a vadia, ninguém presta! Ninguém

presta!” Cantada aos gritos guturais.

O sofá verde escuro da sala tinha a marca de seu

corpo afundando as almofadas. O aparelho de televisão

completava a mobília daquele cômodo. Ao lado

a única janela dava entrada para a cidade. Os muitos

prédios altos, a fumaça das fábricas em torno deles.

Naquele dia a cidade estava escura, o pó cobria tudo.

Naquele e nos outros dias. Olhou as pessoas passando

pequenininhas lá embaixo, carros e buzinas calmos.

Passava muito tempo em frente à televisão e os comerciais

da SOLPET eram exibidos a cada dez minutos.

Mesmo assim, aquela última frase insistia em intrigá-

-lo. Principalmente o “ainda vivos”. Sentia-se remetido

à inevitabilidade da vida; e da morte. Está-se vivo ou

morto, de nenhuma outra forma. “As duas portanto se

equiparariam”, pensava em seu pedaço de filosofia.

Pensar na vida, no entanto, incomodava mais que

na morte. Tanto era o pra pensar. O som de máquinas

106


ao longe, seu incômodo mal disfarçado enquanto esperava

o elevador junto a outros. A maneira irritante

como coçava atrás da orelha esquerda quando se incomodava

pouco. O trabalho. Precisava comer, vestir, beber

e fumar. Trabalhava, então. Hiato de dimensão colossal,

lacuna impreenchível.

A fábrica de cerveja tinha sido seu trabalho desde

sempre. O primeiro, e sabia, o derradeiro. Turnos de

dez horas por dia. Entrava às seis da manhã. Passava

seu cartão:

– Bom dia, 655321; você chegou na hora hoje.

Parabéns! Você não se atrasa há sete dias.

Olhava para o computador de ponto com desprezo,

mas os chips não tinham sido programados para se

incomodarem. Chegava à sua plataforma e ajudava as

máquinas a fazer o serviço. Produzia centenas de litros

de cerveja por dia. Algumas vezes parava para pensar

se, em toda sua vida, conseguiria beber a cerveja que

produzia em um dia. Descontava mentalmente custo

para maquinário, manutenção e matéria prima. Contas

confusas, certezas soltas. Mais confusas ficavam as

contas quando nelas entravam seu salário, número

de cervejas produzidas por ele, aluguel, comida,

porcentagem do salário gasto em cerveja oferecida pela

fábrica aos funcionários com desconto de generosos

vinte por cento, valor de sua hora de serviço, custo

107


de sua hora de lazer, dedetizador, sabonete, cigarro,

higiene bucal, plano de saúde, transporte, roupas,

corte de cabelo.

– O alto preço da vida.

Deitado no sofá da sala tenta pegar no sono.

Caminha lentamente entre os vários animais. Chama

sua atenção o velho elefante de circo, deitado, abandonado

à sorte de produtores de asfalto, urubus modernos.

O peso do fardo gigante já quase o derrotava

quando chegou finalmente ao lugar iluminado onde

deveria deixá-lo. O tom avermelhado do néon traz satisfação

e um perdigoto extra de energia para terminar

o trabalho. Acorda de supetão com o som do alarme.

Ainda pensando naquele sonho entra no banho rindo.

A água do chuveiro vai trazendo à sua memória as

partes faltantes do sonho.

– Eu era uma formiga! Por isso o fardo era tão

grande!

Lembra da satisfação sentida ao avistar o letreiro

luminoso. Esforça-se para lembrar o que estava escrito.

Grita:

– TEV!!! Não, eu não sou pet! Nem serei!

Na entrada da fábrica distribui panfletos chamando

os colegas para uma reunião no pátio principal.

Gostaria de poder reuni-los em casa, mas ali mal caberiam

duas pessoas. Hora do almoço:

108


– Companheiros! Reuni vocês hoje porque não podemos

mais aceitar nossa situação. Estamos alugando

nossas vidas para esta fábrica e este sistema, somos

como animais caminhando para a SOLPET por vontade

própria! Precisam de nós “ainda vivos”, vocês não

veem?! Uni-vos contra a repressão de um sistema pútrido!

Tomemos nossas vidas para nós mesmos! Não há

alternativa à revolução!

Os discursos se tornariam diários e os seguidores

cada vez mais numerosos. Exatos novecentos e

oito trabalhadores seguiram 655321 no suicídio coletivo

que se deu no pátio, em hora de serviço. No jornal

nada apareceu, era bom senso não noticiar suicídios,

poderia gerar mortes em cadeia, pessoas poderiam

criar coragem para morrer caso vissem tal notícia nos

jornais. A fábrica precisou reorganizar sua escala de

trabalho nos primeiros dois dias que se seguiram ao

ocorrido. Precisou em especial de seguranças, para organizar

a gigantesca fila de pessoas ávidas pelas vagas

oferecidas.

109


DE VOLTA À VIDA


Culpa era o que sentia. Sobre isso dúvida alguma pairava.

Motivo não conhecia. Teria feito algo? De onde

mesmo estava vindo? Estava ali como que colocado,

plantado por alguma força que lhe era alheia.

(Desconforto contínuo, pouco ar nos pulmões)

Apalpa o peito. Teriam lhe roubado um pulmão?

Medo. Limpa suor frio da testona cada dia maior.

Ensopado cabelo. Enrola cigarro na palha fina. Mãos

tremulas. Precisa acalmar-se. Trago profundo; mais

outro. Sente pulmão novamente.

– Sim, (suspiro aliviado), está aqui.

Destampados ouvidos pelo terceiro trago longo.

Muitas vozes rodeiam. Olhos menos arregalados agora

que antes. Olha à sua volta. Vê também as bocas.

Às gargalhadas um grupo à sua esquerda toma cerveja.

Bem perto, a menos de um braço de distância, outro

grupo. Outros e outros e tantos outros. Garçons de

pé sobre o balcão comprido de pedra gritam segurando

pratos de fígado com jiló. Tem ele também um copo em

sua mão. O volume das vozes é alto; zumbido incorporado.

Homem gordo esbarra. Braço empapado de suor.

Vira e mostra-lhe um dos mamilos.

– Gordo filho da puta!

(Risada alta do gordo)

Permanece desconfortável, talvez não mais pela

culpa, mas pelo não saber. Bebe de um trago a cachaça

111


que alcança das mãos de um garçom. Arrepio seco desde

a nuca até a frente da cabeça.

– Cachaça boa.

– Outra?

– Por que não?

(De novo, de um só trago)

Preocupa-se menos com o que diabos teria feito.

Gargalha junto com um careca; riem de uma piada do

Joãozinho. Recebe olhar amigável e sorri. Limpa bigodão

meio ruivo com manga de camisa; gordura de torresmo.

Mulher em frente mostra os dentes. Retribui com piscadela.

Desvia olhar. Tenta se mexer em meio à multidão.

– Diabo de gaiola de cana!

Olha botas sujas.

– Talvez elas me digam por onde andamos.

(Tão velhas já não têm mais memória confiável)

Quanto tempo passa ali não pode dizer, pois não pode

contar. Incontável tempo, portanto. Cachaça na mão

esquerda, pito na direita. Calor a lhe corroer o corpo, a

lhe molhar a essência. Como sair dali? Possível?

A luz de uma tela grande o cega. Acostuma-se rapidamente.

Conhece bem aquela luz. Alguma pista. Anda

em sua direção, hipnotizado. Logo, ou não, entende.

Sente que havia compreendido. O desconforto se desfaz.

Sopro de poeira no ar, nuvem assoprada e dissipada

pelo não saber dos ventos.

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É erguido e carregado pra fora. Tiram-lhe os sapatos

e colocam-lhe roupa apropriada. Subsolo frio, escuridão

inóspita. Sente-se feliz.

– Entre. Pode entrar e sentar aí.

Parecia uma cápsula, ou algo assim. Cadeira grande,

branco esmaltada, encosto para os braços. Recostase.

Cadeira deita suavemente. Pendurada, vê uma tela

bem grande. Como que sustentada por um guindaste,

ela desce; desce e acopla-se à cadeira. Casulo branco

esmaltado.

– Bem vindo de volta à vida. – sorri-lhe a moça

da tela.

113


MÃOS


Brilhante. Era brilhante e precisa. Errava, claro. Mas

dir-se-ia, parafraseando o poeta, que muito pouco ou

quase nada. Junto com as cartas, as mãos de Diva desvelavam

um mundo de verdades concêntricas. Sua voz

pausada e segura traduzia as figuras. Sempre em afinidade

com seus guias, ouvia-os e dava-lhes voz.

Dom herdado da avó materna. Pôde saber, desde

menina. Simplesmente saber o que os outros só saberiam

depois. Como quando deram com o corpo de

Basílio pendurado no pé de Baru perto da cerca de arame

liso. Nunca tinha visto comoção maior. Gostava de

Basilio tanto ou mais que os outros, mas aquilo já estava

decidido há tempos. Suas lágrimas já tinham secado.

O povo que se aglomerava no quintal de terra bem

varrido da porta de casa, pra falar com sua avó, logo

viria para falar com ela, a Menina Santa. Vinha gente

de longe, de cada vez mais longe, pra escutar o que

a Menina via nas cartas. As mãozinhas hábeis e a eloquência

da pequena impressionavam qualquer um, pobre

ou rico, preto ou branco.

Passaria ainda muitos anos morando e revelando

verdades na casa que tinha sido de sua mãe e de sua avó.

A fama da agora não mais Menina, mas Dona Diva, levava

legiões de romeiros a cruzar o país para, através dela,

saber um pouquinho do que aconteceria. Dona Diva

não mudava ou se propunha a mudar o destino, apenas

115


o adiantava. Sua tranquilidade e certeza cativavam os

fiéis. A resignação quanto ao que estava por vir transmitia

paz aos que a procuravam. Mesmo com a pior das

certezas, as pessoas deixavam a casa de Dona Diva conformados

com o que a vida lhes proporcionaria.

Clientes, ou, “necessitados”, como preferia a vidente,

(que tampouco apreciava este nome), já haviam lhe

oferecido fortunas. Orgulhava-se de nunca ter aceitado

nada de valor que considerasse exagerado. Aceitava

presentes e pagamentos, claro, vivia para prever e vice

versa. A placa com os dizeres “ATENDIMENTO POR

ORDEM DE CHEGADA” pendurada desde os tempos

de sua avó, falava por si. Não concedia regalias a ninguém.

Certo que nos últimos tempos tivera que implantar

um sistema automatizado de senhas, devido

ao grande aumento na demanda por visões do futuro.

Sabia que dessa forma alguns trapaceavam, vendiam

senhas ou outros golpes. Quanto a isso não podia fazer

muito. Algumas vezes, se tinha as cartas enquanto

passava pela distribuição, via todo o caminho que

aquele número percorreria até chegar em suas mãos.

Caminhos muitas vezes surpreendentes, mesmo para

Diva. Assustada, constatava o negócio no qual os homens

haviam transformado a vida e os quereres.

Serena, recebeu mais uma necessitada. “Moça ainda”,

pensou. Por alguns instantes quis entender por

116


que aquela moça escolhera saber antes, ao invés de

viver o não saber. Incomodou-se com o pensamento.

O que saberia ela do não saber? Do angustiar-se com

o amanhã? Àquela altura da vida, se importava com

pouquíssimo, mas encontrou, em meio àqueles segundos,

um espaço pra si. Incomodou-se novamente

e tratou de ler logo o que viu. Mandou que esperassem

um pouco até a entrada do próximo necessitado.

Concentrou-se, contatou seus guias, tudo estava normal.

Olhou nos olhos o senhor que entrava. Provável

que ele tenha sorrido sorriso amarelo. Comum sentirem-se

deslocados frente Diva. Seguiu protocolo, tirou

primeira carta. Mão direita vacilou, fez movimento a

mais. Não que isso acontecesse pela primeira vez, mas

fez-se ímpar a própria fala insegura. Gaguejara. Sua

língua vacilara, como sua mão. Encerrou ali os trabalhos

daquele dia.

Enquanto tomava banho, pensava em sua avó e em

sua história. Nunca questionara seu dom, sabia que

precisava seguir com a vida. Sempre soube. Ao tentar

alcançar o shampoo no basculante pouco mais alto que

os olhos, sua mão derrubou o frasco. Abaixou para pegá-lo

e sentiu dificuldade para segurar firme, tremia

muito. Olhava suas mãos tremerem tanto que pareciam

acenar. O nervosismo só piorava as coisas. Junto

com as mãos sentiu seu pensamento pendular. Os pen-

117


samentos iam e voltavam, como scratch em disco de

vinil, iam e voltavam, antes de terminar o raciocínio.

Sem secar-se completamente, correu até o quarto e pegou

as cartas. Tentou tirar a primeira e sua mão insistiu

em voltar e voltar. Os tremores já passavam muito

do aceitável. Tentou embaralhar as cartas e elas voaram,

em leque. Buscou focar-se, acalmou-se, voltou a

seus guias. Percebeu que o contato falhava, como seu

pensamento no banho.

Decidiu afastar-se do trabalho por um tempo, tirar

umas férias. Viajou para uma praia distante, onde

não seria facilmente reconhecida. Apesar do descanso,

os tremores não a abandonavam. Diferentemente

de seus guias. Por mais que se concentrasse e buscasse

contato, as informações lhe vinham confusas, incompletas

e cambaleantes. Decidiu-se por restringir sua

alimentação e até abriu mão da cachaça do almoço e

dos dry martinis noturnos. Sofreu bastante pra pegar

no sono no inicio, mas, dedicada, passou pela falta inicial.

No entanto nada parecia poder mudar seu insólito

e trêmulo destino. Passou a sentir-se envergonhada

em estar diante de outras pessoas, pois os tremores

eram tão violentos que assustavam os mais desavisados.

Crianças olhavam-na aterrorizadas enquanto buscavam

guarida nas longas pernas das mães. Perplexa

diante da agressividade da natureza, Diva ensimes-

118


mou-se. Seu corpo dominara seu espírito. “Humana,

demasiadamente humana”, pensou.

Pela primeira vez em sua vida sentiu medo do que

poderia acontecer. Desamparada, viu-se entregue ao

desconhecido. Estranhou a sensação de humanidade

e pequenez, que aprendera a reconhecer desde pequena

nos olhos dos outros. Mais que depressa correu pra

cama, fechou a porta e, no escuro, torceu pro tempo

passar, o mais rápido possível.

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DESJEJUM


Contou-me um conhecido, alguns fatos ocorridos bem

diante dos olhos de um amigo dele. Após certo tempo

adormecidos em minha alma, não pude evitar relembrá-los

e decidi relatá-los aqui pelas estranhesas e

curiosidades que os cercam. Verdade que também os

descrevo para ver se, assim, colocando-os fora, sinto-

-me de alguma maneira aliviado, livre. Pois devo aqui

confessar que esta estória, por incontáveis vezes, me

assombrou os pensamentos e me despertou com sonhos

horríveis! Era verão em Pernambuco, há não muito

tempo, quando tais fatos mudariam a vida de uma

vila de pescadores, lar de um hotel beira mar.

Mal se dispôs o sol a iluminar tal pedacinho de

biosfera, ela já se alongava na varanda do chalé.

Corpo preparado pra o dia. Pensamento e entranhas

na carne seca do café da manhã. Hoje sabia da atenção

especial de Aparecida e Zefa a cuidar do que ela

mais amava.

Há três dias informada que seria quarta-feira dia

de carne seca e hoje era quarta. Posto que não sabia

que aquele era seu maior e talvez único amor, aquilo

mexia com praticamente todo seu curto aparato de

respostas. Conseguia apenas angustiar-se e ansiar pela

quarta. Quais os grandes prazeres, este driblava seus

entendimentos. Prazer indescritível sentido pela carne

seca mais de vez a cegara.

122


Vivia a sonhar amor de cinema, sonhos que mantinham

afastado qualquer amor possível. Propor-se a conhecer

pessoas, como insistia sua terapeuta, era raro.

Desta vez, férias curtíssimas com rapaz distinto já lhe

garantiriam alguns pontos com a velha comportamentalista.

Acontece, no entanto, que, primeiro dia lá, carne

seca aparecera no café da manhã do hotel. Foi daí

que não pôde fazer mínimo, obnubilou-se em esperar

a volta do avermelhado, diminuto e fibrado alimento.

Proteico e salgado. Rapaz já dela não sabia, ao menos

não fisicamente. Pensando agora, provável que tampouco

emocional ou psiquicamente soubesse.

Descoberta recente ocorrida na revista do avião,

caminho dali, ensinou-lhe drink predileto, antes mesmo

de experimentação, a saber: Bloody Mary Maria

Bonita. Invenção de renomado barman tupiniquim em

terras da rainha. Um mix de vodka, suco de tomate, vinagre

balsâmico e infusão de carne seca. Gostava das

estórias do cangaço. Admirava a mulher de Lampião,

que, segundo contam, arrancara de um só golpe de

peixeira a orelha de uma moça que se engraçara com

seu marido. “Isso é que é amor” pensou.

Estava que não se continha. Cortava dias a calendários.

Coqueiro não via, quiçá onda de mar. Enfurnada

até quarta, manteve-se. Exceção feita aos momentos de

descontração e conversas animadas com as cozinhei-

123


ras responsáveis pelo desjejum. Tudo pensado e muito

bem calculado pela extraordinária angústia e pouca

elaboração de nossa heroína.

Já passava das sete da manhã. Acordada desde quatro

ou desde sempre, esperava ansiosa. Tentava disfarçar

sua ansiedade. Decidiu sair pra correr, assim não

seria a primeira a chegar ao café da manhã e não revelaria

toda sua tórrida e descontrolada paixão ansiosa

pela carninha. Coração disparado pelo exercício, pensou

que daquela forma chegaria com ainda mais fome

ao refeitório.

Digo tudo isso para situá-los acerca do que está por

vir. Continuo contando-lhes tudo o mais precisamente

quanto a memória me permite. Neste ponto quero deixar

claro minha intenção em relatar-lhes exatamente o

que me foi dito, nem mais, nem menos.

Passou no quarto, ducha rapidíssima. Colocou seu

short mais fácil, blusinha de tactel sem manga e desceu

rumo ao refeitório. Pegou seu prato, entrou na fila.

Leu na plaquinha que dava subtítulo a uma das caixas

de metal “carne seca”. Sorriu sem perceber, boca cheia

d’água. Abriu a caixa, colher empunhada com vigor.

Desacreditando os próprios olhos piscou forte algumas

vezes. Quatro fiapos da carne grudavam o fundo da vasilha.

Buscou as cozinheiras com o olhar. Ouviu Zefa

lhe dizer: “já fizemos a reposição duas vezes. Acabou”.

124


Sentiu uma fúria tomar seu corpo enquanto procurava

sobre as mesas alguma pista que a levasse ao paradeiro

do alimento. Olhava a gente: ninguém sentia o gosto,

mas todo mundo comia. Na mesa mais afastada à

esquerda, uma família de gordos se refestelava. Fixou

o olhar, a mulher enchia a bocona com uma garfada

descomunal da carne. Passou a mão na primeira faca

que viu e caminhou em direção à gorda. Puxando-a por

trás, derrubou-a e começou a abrir sua barriga. Devido

ao pouco corte da faça de mesa, fez inúmeras incisões,

com toda sua força. Embebida em sangue, conseguiu

ultrapassar o tecido adiposo e chegar ao estômago da

mulher que ainda tinha forças para gritar. A carne seca

misturava-se à enorme quantidade de sangue e outros

fluidos. Tentou comer ali mesmo, não pôde sentir

o gosto apropriadamente. Pegou um copo alto, encheu

com a mistura de sangue e carne, sentou-se à mesa ao

lado e gritou à cozinheira atônita:

– Zefa, uma dose de vodka, por favor! Maria Bonita

Sangrenta!

125



AMIGOS


Talvez não percebessem, mas ficavam insuportáveis

quando estavam juntos. Alertas feitos nesse sentido

foram incontáveis vida afora. Namoradas, amigos de

outros círculos, qualquer um que tivesse participado

dos tão celebrados encontros entre os quatro. Pessoas

têm o dom de desaperceberem-se de si mesmas. Todos

temos esta habilidade em algum grau. Verdade que,

quando em grupo, a possibilidade deste êxtase aumenta

toxicamente. Mesmo assim insisto em dizer

que estes garotos eram de fato especialmente dispostos

ao ridículo, à perda de individualidade e do recobramento

da consciência quando juntos. Desta vez tinham

conseguido que ninguém além deles fosse viajar.

Finalmente fariam outra vez uma viagem sem nenhum

intruso: namorada, esposa, cunhado, filho ou qualquer

afim. Assim enxergavam seus familiares a partir do segundo

em que estavamjuntos, como afins. Gente de

fora que queria ser da família.

– Uns dois quilos de lingüiça deve dar.

– Acho que pelo menos uns três quilos!

– Com mais uns seis de farinha, né?! Pelamordedeus!

– Gente, ainda tem a cebola toda, o alho… ooh, isso

não era uma farofa?

– É demais! Mas tem que ver que é prum monte de

gente. E por um monte de dia que a gente nem sabe.

Sabe?

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– Mas gente, isso é só uma parte, ou vocês acham

que nós vamos comer só farofa?!

– Pra mim dá!

– Farofa sempre dá, e é a mais socialista das comidas.

Vamos comer farofa até…! Claro gente!

– Sem farofa não há cachaça completa!

A preparação para esta viagem já vinha sendo feita

há muitos meses, aliás só falavam disso em qualquer

oportunidade que fosse. Trajeto desenhado pelo

interior do país, barracas, botas, lanternas, fogareiro.

Andariam de carro, balsa, cavalo e a pé. Dias em que

desbravariam mundo; juntos.

– Moçada, verdade, sem palavras… me emociono

toda vez que penso…

– Sempre chorão, hein Chuveiro? Dessa vez Roberto

Carlos só no seu fone! Ainda fica assobiando essas dor

de cotovelo na orelha da gente! Chuveirooooo!!! – riram

em uníssono virando mais uma dose.

Os primeiros dias foram de muita festa, cachaça

e alegria. Divertiam-se contando os mesmos casos de

sempre, se abraçavam, riam e se amavam. Pelas manhãs

dirigiam revezando-se ao volante, caminho em

direção ao interior. Aos poucos a paisagem ficava mais

árida, as cidades menores e mais distantes.

Viajavam há mais de dez dias. Atravessando o vale

do Jequitinhonha, a estrada de areia fazia a caminho-

129


nete verde escapar com as rodas traseiras, cobrindo a

vegetação com ainda mais poeira marrom avermelhada.

O sol criava refrações no horizonte, no mato baixo

que deixava a cerca de arame farpado bem à mostra.

Carlão pisava fundo, às gargalhadas, ainda meio bêbado

da noite anterior:

– Vai na manha aí Carlão! Porra! Quero morrer

com vocês não!

– E o pessoal do chororô não consegue ficar quieto!

Tranquilo que aqui é piloto! Aqui é Mané Ingô!!

O tempo virou rápido e a chuva que começou a cair

naquele momento não se via tanta desde o tempo lembrado.

A gente se juntava nas portas pra ver o céu cair.

Era trovão e relâmpago, pingo grosso de doer as costas.

Passou pouco e não se enxergava palmo. Alguém

disse pra Carlão parar, mas a estrada já estava que era

um rio, se parasse, atolariam. Bateram em algo. Com

dificuldade Carlão acertou o carro que quis sair de rabeira.

Pela janela Chuveiro viu algumas casas na beira

da estrada:

– Pára o carro! A gente pode ter atropelado alguém!

– Quem estaria no meio da pista agora, Chuveiro?

Nessa chuva!?

– Sei lá! Uma criança, um bêbado! Eu que vou saber!?

Carlão, encerrando o assunto:

– Pois se alguém é imbecil o bastante pra ficar no

130


meio da estrada numa chuva dessa, tem mesmo é que

morrer. Não paro nem a poder de reza!!

Chegaram em uma vila, a chuva não dava trégua.

Buscaram lugar alto para estacionar. Chuveiro correu

pra olhar o para choques. Estava bem amassado, até o

alto, mas a chuva e o barro não deixaram outras pistas

acerca do que teriam atropelado.

– Cacete Carlão! Você devia ter parado! E se você

tiver matado alguém?

– Eu? Achei que estávamos nessa juntos! Seu traíra

de merda!

– Calma gente, não precisa tanto. Os dois estão

exagerando. Vamo segurar a onda e procurar um lugar

pra ficar. O mundo tá acabando debaixo d'água!

Estavam, de fato, cercados de água e gente. Gente

que subia o morro. Água tanto subia como descia.

Desejavam ser bóia ou tronco de árvore; devir de flutuação

na histórica cheia do Baixo Jequitinhonha.

Famílias inteiras desaparecidas, das casas beira-rio

só se via parte dos telhados. A água violenta já dava

na praça, arrastando árvore, bicho e construção, alagando

a igreja, antes ponto de encontro e abrigo.

Entreolharam-se. Reconheceram-se. Estavam juntos de

novo e nada os destruiria.

O senhor que abriu a porta não teria menos de setenta

anos, se bem que difícil medir a idade daque-

131


le povo: tão familiar e tão estranho. Deixou-os entrar

sem questão:

– Entra meninada! Que esse tempo não tá de deus!

Logo na entrada viram que o velho não estava só:

– Essa menina é filha minha. Traz café pros moço,

menina!

A menina demorou, olhou de lado, coçou o calcanhar

esquerdo com a unha do dedão do outro pé.

Bastou:

– Ara, menina! Não me ouviu mandar, disgrama?

Vê se pode, agora até formiga quer ter catarro!?

Tão menina não fosse. Mas menina pra ele, isso sim

era; eram todos. O café aqueceu e aproximou. Velho

com sorriso ansioso falou de sua mulher, até agora

sem paradeiro conhecido. Muita gente em movimento,

pouca porta de saída.

– Com esse tanto de boi boiando!? Imagina gente,

que não tem valia nenhuma!?

O velho continuava bebendo a pinga que só Carlão

aceitara. Mexida e embriagada alma, via sua história,

amigos e amores adormecidos sumirem na água,

zumbizarem sua existência de palavras encurtadas

pela cultura. Saberes de sentir, cultura de saber mesmo,

de menos falar. Os que estavam sóbrios começaram

a adormecer, menos Chuveiro. A infinita conversa

do velho devorava-lhe as poucas esperanças e o senso.

132


Hipnotizado, perdido de si, olhou seu anfitrião mais

uma vez. Chamando Carlão de lado:

– Velho, segura a onda desse caipira de merda. Não

aguento mais ouvir a ladainha desse cara!

– Caralho, Chuveiro! Deixa o cara! O cara tá sofrendo

e ainda dando teto pra gente lixo igual a você e eu!

Carlão estava no banheiro quando ouviu barulho

de móveis a se arrastarem na sala. Um grunhido de homem

com boca tapada. Foi sair e ver Chuveiro montado

sobre o velho que esguichava sangue do pescoço.

Ainda boquiaberto viu a menina correr para a sala

e gritar o nome do pai. Carlão não vacilou: segurou os

ombros da menina com a mão esquerda, com a direita

torceu seu pescoço, firme, até ouvir um qureque e

sentir a cabeça pender. Olhou Chuveiro compreensivamente

e deitou o corpo mole da moça: chão frio de cimento

vermelho. Quando os outros dois levantaram no

susto viram Chuveiro desfigurado:

– Acabou! Cala a boca, caralho!!! – ria-se em

transbordamento.

– Que porra!!!

Calados, sujos e aquecidos carregaram os corpos

pro quarto com cama de casal.

Três toques na porta da frente.

– Agora fudeu!

– Todo mundo quieto e alerta. – sussurrando.

133


– Cês viram Seu Domingos mais a Menina? Parece

que acharam a mulher dele!

– Falei pra eles esperarem aqui, mas saíram doidos

atrás da mulher! – disse Chuveiro sem gota de suor ou

titubeação.

– Perigo! Vou atrás, mas cês não sai daqui osmenino!

O rio tá que é uma braveza. Levando aroeira e até

tamboril!

Tinham que pensar em algo. Alguém chamou ajuda

pra meter os corpos embaixo da cama, não coube tudo.

Perna, braço aparecendo. Mão no machado:

– Calma, porra! O armário, sei lá! Menos sujeira,

menos desmembramento, menos carnificina caralho!!!

– aos berros guturais.

– Se precisar eu corto esses merda tudo!

– A gente sabe. – os três, como se combinado; dedo

indicador frente aos lábios.

Mais batidas na porta. O gordo de chapéu fez menção

de entrar. Deixaram. Preparados, enquanto repetiam

a estória da procura pela mulher. Serviram café,

ofereceram cachaça.

– Mas cês já tão de casa, hein! Gosto de gente assim,

sem cerimônia!

Ficou pouco. A cidade e as pessoas precisavam dele

lá fora, debaixo da chuva. Cuidando da gente.

134


Suspiro conjunto de alívio. Distraíram-se pouco,

coisa de segundos. Quando viram, a mulher já estava

entrando no quarto. Correram, teriam que resolver de

algum jeito. Chuveiro sentiu que estava tudo perdido,

seriam descobertos. Carlão preparou-se para quebrar

outro pescoço: media os ombros da mulher, alongou o

os braços. Aproximou-se enquanto ela olhava debaixo

da cama. Ainda não tinha chegado a tocá-la quando

quando perceberam-na gargalhar em gozo. As gargalhadas

altas chegavam a assustar, misturadas aos muitos

barulhos da chuva. A mulher de Domingos abraçou

um a um, agradecendo-os. Aos berros ria-se e chorava

em labilidade de libertação:

– Até que enfim me livrei desse bêbado e dessa rapariga

que eu pari!!! Vamo jogar no rio, que o rio tá

grande que só a peste! Vamo! Vamo!

135



COMPAIXÃO SESSENTA E TRÊS


Era casada. Caminhava com uma dureza insegura. Tão

bonita que incomodou Antônio. Quando a viu entrar

na repartição pela primeira vez não soube mais falar

de outra coisa. O vestido cor de chumbo apertado nos

joelhos marcava sua pernas, juntando-as. Panturrilhas

à mostra, enrijecidas pelos saltos. O caminhar favorecia

o rebolado preciso. Decote discreto.

– Essa mulher deve ser um colosso na cama! Rapaz

imagine eu com uma coisa dessa! Deus não dá

asa a cobra!

Quincas ria das galhofas do companheiro. Após

anos de repartição, sabia em Antônio amigo confiável,

agora começava a preocupá-lo a obsessão do colega

com a moça casada.

– Já viu o tamanho da aliança na mão esquerda? Se

o marido for do tamanho da aliança, te mata com um

dedo só!

– E eu lá tenho medo de aliança, Quincas? Me respeite!

Quem põe um pneu desses na mão de uma pequena,

ou sabe que ela não é fácil, ou não se garante!

Passados alguns meses desde a primeira entrada

triunfal de Aninha, sua silhueta lapidada ainda deixava

Antônio mareado. A cabeça perdida nos movimentos

da morena, passo após passo.

– Tenho que fazer alguma coisa Quincas! Essa mulher

ainda vai me deixar doido de verdade! Logo eu,

138


sem família, sem esposa pra chorar minha insanidade,

sem filho pra me levar cigarro no Pinel!

– Já te falei pra parar com isso rapaz! Antônio, nós

dois sabemos que não há mulher que te baste.

– Mas essa é diferente meu amigo – falava quase

gemendo – dessa vez é amor, é amor!

Fosse o que fosse, fato é que Antônio não era mais

o mesmo. Dispensava noitadas pra comer sorvete de

chocolate em casa de Quincas, enquanto chorava o

abandono de algo que nunca tinha tido. Dizia-se apunhalado,

ferido de morte pelos desolhares de Aninha.

Fez-lhe graças incontáveis, contou-lhe aventuras espetaculares,

desregradas. Atenta, a moça escutava e até

ria com o canto da boca. Escutava-o, dir-se-ia que o

compreendia, mas não o incorporava, não fazia dele e

de suas estórias parte de si.

– Não vês Quincas? Ela me exclui, me aparta de

sua alma!

– Que alma, Antônio? Ela é casada, homem de deus!

– Minha alma Quincas! Nossas almas! Almas que já

deveriam estar juntas… meu amigo, não sei o que faço

comigo…

O tempo seguia, trabalhando sempre contra

Antônio. Naqueles poucos instantes a favor, o homem

tratava de mostrar-se inteligente, interessante, leve e

despretensioso. Aninha ria, divertia-se. Algumas ve-

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zes olhava os lábios de Antônio mais de perto, como se

tentasse sentir seu cheiro.

– Tô falando Quincas, ela chegou tão perto da minha

boca que achei que receberia um beijo. Mulher

descarada, fingida! Fica dando uma de séria, de engessada,

mas a gente sabe que isso é tudo estória! A gente

sabe Quincas!

– Antônio, meu amigo, eu nunca vi isso. Vi sim ela

te ouvir, ouvir seus casos. Mas também, não teria como

ela não fazê-lo. Você a encurrala no café, a pequena

fica sem saída. Sorri pra não ser deseducada!

A obsessão de Antônio parecia não ter fim.

– Já sei Quincas, vou abrir meu coração pra ela,

dizer tudo o que vem passando comigo. Certeza que

Aninha nunca conhecera amor maior. Derreterá de

lascívia e carinho assim que entender meus propósitos!

– Que seriam?

– Como “que seriam?”? Que seriam amá-la, respeitá-la…

fazê-la feliz, enfim!

– Enfim? O que te diz que ela não é feliz, respeitada

e amada?

– Tudo Quincas! Ela me quer! Ela não aguenta mais

a vida medíocre que leva com o marido, vida sem paixão!

Isso não é vida!

– Então é isso, ela largará seu marido para casar-se

contigo!?

140


– Quem falou em casamento, meu jovem? deus me

livre e guarde!

– Você disse, “amá-la, respeitá-la…” me soa como

coisa de padre.

– Pois então, que seja! Caso! Quincas, verás o

inimaginável: seu amigo Antônio casado! Casado

e feliz!

– Que assim seja! – levantando o quarto ou quinto

copo de uísque para mais um brinde – que assim seja!

Nova estratégia. Mesmas respostas. Antônio chegou

a chorar, não uma, mas várias vezes. Olhava os

olhos esverdeados da pequena e dispunha-se a mostrar-lhe

tudo. Chorou sua solidão, sua proximidade

da loucura e suas noites insones em que a via em seu

quarto. Descreveu-lhe suas fantasias românticas, nas

quais Aninha convulsionava-se em espasmos orgásticos.

Sorriu-lhe sorrisos insorríveis, aceitou o inaceitável.

Mostrou-se sujeito simples e angustiado, atencioso

e entendedor. O melhor dos partidos.

Por incontáveis semanas seguiu-se a ladainha.

Antônio afetado, enrubescido, sofrido mesmo por ser

o que era, ou o que achava que era. Aninha não mudou

muito sua receptividade. Agora, diante dos apelos dramáticos

do pretendente, chegava algumas vezes a tocar-lhe

o bíceps direito, solícita na dor do companheiro.

Não chegou a mostrar-lhe os dentes.

141


Foi em uma manhã de sexta-feira. Antônio estava

entristecido, esvaziado. Mais uma vez passaria uma

sexta solitária e sofrida, sem os odores e afagos de

Aninha. Ela o olhou de forma diferente.

– Quincas, você viu aquele olhar?

– Por favor… toda sexta é a mesma coisa, ou melhor,

todo dia…

– Mas é sério… reparou o movimento do ombro esquerdo

enquanto ela me olhava, a mão no cabelo…

eu sei…

Correu pra salinha do café. Esperou Aninha por

toda a manhã. Não saiu para o almoço. Pensou que era

melhor estar ali caso ela decidisse vir até ele em momento

de menor movimento. A tarde chegou. As pessoas

entravam e saíam do café como formigas, ou como

sempre. Pensou em voltar pra sua mesa, tentar bater algum

carimbo. Refugou:

– Sei que ela vem hoje, que hoje é o dia…

Passava das cinco da tarde quando Aninha entrou

na salinha do café. Olhou o pretendente, parecia menos

segura que sempre. Ofegante, Antônio aproximou-se:

– Te esperei a tarde toda!

– E eu, te vendo aqui o dia todo, estava que não podia

de ansiedade…!

Beijaram-se como em um filme, as mãos do rapaz

não sabiam onde pegar, tantos eram atributos a

142


completar aqueles lábios. Sentiu que se encontraram.

Propôs:

– Minha casa. Nossa nova casa!

Ela consentiu com a cabeça.

Desfigurado, Antônio desceu os doze andares de

escada. Sabia que precisava causar boa impressão.

Teve medo. “Se eu falhar, ela vai sempre lembrar do

marido como melhor homem, se arrependerá de já

tê-lo traído.”

Parou o primeiro taxi que viu.

– Espera que eu já volto. Busco uma beleza no décimo

segundo!

Entraram no taxi. Antônio não cabia em si. Aninha,

como sempre, parecia sóbria e extremamente consciente.

Chegaram.

– Chegamos, minha rainha. Nosso ninho de amor.

Ela sorriu com o canto da boca.

Abriu a porta da sala com ansiedade incomum. Beijavam-se

desde a entrada. Olhou sua casa e assegurou-

-se. “Aqui ela é minha”. Viu o sofá. Pensou em quantas

pequenas já haviam gemido ali. Sentiu-se grande.

Aninha não se opôs a nenhum movimento.

Participou. Evitou a maioria dos olhares. Antônio mostrou

o melhor de sua performance, seguro. Ao final

sentiu-se satisfeito.

“Se ela tivesse isso em casa, não estaria aqui.”

143


A manhã seguinte no trabalho foi de alegria incontida.

Quincas abraçava seu amigo como no título de

sessenta e dois. Lembrava-se das jogadas geniais do camisa

sete canarinho.

– Tu és o Garrincha das pequenas! É ou não é?!?!

Que orgulho de ser teu amigo!!!

Antônio, carregado nos braços vibrões dos companheiros

de repartição, sentiu a glória. Aninha passou

do outro lado do vidro. Olharam-se. Ele muito gabola,

sorriso escancarado. Ela enrubesceu, olhou pro lado e

pra baixo ao mesmo tempo.

A algazarra duraria pouco tempo. Antônio encurralou-a

mais uma vez no café:

– Mais linda a cada dia, Aninha.

Agradeceu com cabeça. Escutou galanteios.

Despediu-se.

– Espere! Quando nos encontramos de novo? Só

nós dois!?

– Nunca mais.

Riu alto. Gargalhou. Sorrindo:

– Você quase me fez acreditar! – olhando-a – Você

não pode estar falando sério!? – olhou-a mais fixamente

– Não brinque com coisa séria mulher!

– Já disse Antônio, nunca mais, acabou. – Saiu do

cubículo esgueirando-se na parede para fugir dos braços

trôpegos.


O calvário de Antônio tinha apenas começado.

Maltrapilho, fedendo a álcool:

– Te maltratei? Você não foi feliz comigo?

Vingativo:

– Ela vai ver só Quincas! Quem essa pessoinha acha

que é? Não é só a minha vida que vai acabar! Ah não!

No interfone atendido por um dos apartamentos

disse que estava preso fora, sem chaves. Três toques de

nós de dedo na porta, cara séria, introspectiva:

– Boa tarde.

– Por favor, o senhor Manoel?

– Estás falando com ele.

– Sou Antônio, colega de Aninha, sua esposa.

– Antônio!, claro, queira entrar. Confesso que não

te esperava.

– Queira me desculpar.

Pareceu-lhe um homem comum, mais um.

Devaneou com os olhos a buscar o que haveria Aninha

visto nele.

No sofá:

– Uísque?

– Por favor.

Tinha olhos e ouvidos somente pra casa, pras fotos

do casal, pros olhos e contornos de Aninha nas molduras.

“Casa bonita, bem cuidada. Aquela safada finge

bem que se preocupa com a família”.


– E a seleção?

Acordou como após um badalo alto.

– Aquele Mané é coisa séria! É de outro mundo!?

Antônio já esquecido do motivo da visita, às gargalhadas,

ouviu o trinco da porta. Virou-se a tempo

de ver o largo sorriso de Aninha anunciando a chegada.

“Dentes perfeitos, felicidade que aperta os olhos”.

Sentiu-se como se ao diafragma fosse-lhe tirado o

chão. Uma gota de suor do peito encontrou descanso

no umbigo.

– Veja meu amor, seu colega nos veio fazer uma

visita.

– Seja bem vindo. – replicou a moça.

Acenou com a cabeça e gesto de mão. Assistiu ao

beijo dos dois e ao sorriso aberto de Aninha enquanto

o marido lhe dizia algo ao ouvido.

Àquela hora os ruídos do mundo e o zumbizar do

uísque já tomavam sua cabeça e corpo. Quis levantar-

-se, botar tudo em pratos limpos, acender a fogueira.

Viu o olhar apaixonado de Manoel. “Desgraçada! Ela

sim é culpada. Não posso arruinar a vida de um coitado,

um igual!”

Quando ele foi ao banheiro:

– Escute aqui, sua vigarista, desalmada! Não contarei

nada a ele, não por ti, mas pelo bom homem que ele

é, mas você sim viverá com esta culpa!

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Não obteve nenhuma resposta de Aninha.

Levantou-se em direção à porta.

– Mas Antônio, já vai? Só mais um?!

– Desculpe, Mané, mas a hora me chama!

– Que pena companheiro, te acompanho até

o elevador.

No corredor, aos sussurros:

– Antônio, gostaria que você entendesse. Tentei de

tudo, juro que tentei. Quando Ana me contava de seu

sofrimento e agonia, ficava tocado, entendo o que esta

mulher pode provocar. Conversamos muito, não foi

fácil, mas ela aceitou. Pensávamos que depois de uma

noite você se tranquilizaria. Mas… bem, espero que

você entenda, por mais que eu diga e ela para ter compaixão,

ela simplesmente diz que não quer mais… de

qualquer forma, foi bom te conhecer.

A porta do elevador fechou tão lentamente quanto

o rodopiar do chão. As ideias e sentimentos se misturavam,

ficou ofegante, sentiu suas pernas fracas.

Chegou ao ponto de ônibus. “Lá vem o 438” pensou

enquanto decidia se o parava ou se se jogava sob ele.

147


VIDA


Esfregou os olhos com vontade e pressão. A vista já

cansada e turva encheu-se de pequenos pontos luminosos

que cresciam como em caleidoscópio. A boca

abriu sozinha, em prazer. Continuou massageando de

leve a testa com os dedos de ambas as mãos, enfiando-

-os nas longas entradas até alcançar alguns finos fios

de cabelo.

Seu pensamento voou até ver-se sentado na cadeira

de balanço do avô, na fazenda velha. Estava diante

de sua mãe, que o repreendia por um copo quebrado.

Ali esfregou os olhos e sumiu. Ouviu zumbidos distantes,

os cavalos trotando ao fundo. A boca entreaberta.

Abriu os olhos e mirou seu pai. Rosto duro, marcado

pela vida, mas de sorriso fácil e mãos carinhosas.

Roçou o rostinho na barba dele. Riu. O pai acendeu a

luz. “Meu olho não tá doendo!” – disse com sua vozinha

e melodia de criança, enquanto esfregava os olhos.

O pai riu sua gargalhada de trovão, fazendo tremer o

mundo. Sentiu-se seguro. Mãos dadas. “Quero colo!”

e logo o bração do pai juntou-lhe o corpinho às pernas

içando-o ao peito grande e macio. Aconchegouse.

Sentiu cheiro forte do pai, a mão acariciou-lhe o

rosto inteiro, afagou nuca e ombros. Fechou os olhos,

respirou fundo, a mão a apertar todo seu corpo contra

aquela massa de afeto que o fazia flutuar tranquilo.

Soltou-se completamente. Chegavam ao curral.

149


Eram tantas as lágrimas a cobrir-lhe a face, nenhum

soluço. Abriu os olhos, buscou a pele do pai. A

idade e a catarata permitiram-lhe ver apenas um vulto

de penteadeira e o balde azul sob seus pés. Água morna.

Não estava triste, nem feliz; estava vivo. Quis esfregar

os olhos novamente. Último grande prazer, logo

ao alcance das mãos. Esfregou-os longamente. Iniciou

com os indicadores limpando e pressionando os cantos

de seus olhos contra o nariz. Aos poucos subia também

os braços em um misto de espreguiçamento e alongamento.

Empurrou então os globos oculares. Como

de dentro de si os pontos de luz foram aparecendo,

um zumbido… passou as mãos nos longos cabelos de

Maria. Tinha os olhos úmidos, o nariz avermelhado.

Mas não fungou, sorriu. Olhou seu vestido amarelo,

que, esvoaçante, exibia as panturrilhas de moça, as sapatilhas

pretas. Esmalte não tinha. Ou tinha? Esfregou

os olhos. Cheiro de mato molhado, mato saudável.

Beijou-a com paixão retribuída, distribuída. A mão de

Maria fez delicada pressão no lóbulo de sua orelha esquerda.

A boca abrindo-se…

Sorria sorriso parado, distante. Pegou um besourinho

que caminhava sob suas mangas compridas.

As unhas grandes roçando as costas do bicho fizeram

um som estranho. Coçou de novo o bichinho chegando

a orelhona perto. Deixou-o ir. Quis pegá-lo de

150


novo, mas não pôde. Agora tinha sossego, a alma branda.

Lembrou-se dos meninos correndo, mas só de um

se despedindo. Esfregou os olhos, olhou bem fundo no

menino e abraçou-o com toda emoção que já sentira.

Estava orgulhoso, também medroso e cabreiro. Mais

uma vez chorava sem soluçar. Viu o trem distanciar-se

nas montanhas. Esfregou os olhos, já era noite. Puxou

a manta de quadrados grandes, subiu-a até a ponta das

orelhas e virou de lado, precisava dormir.

151



LIDA


Deixou o carro azul em fila dupla. Sabia que não demoraria.

Apesar do bom número de pessoas no bar,

avaliou rapidamente que não tardaria a sair dali. Os

muitos anos de experiência diziam isso e, apesar deles,

Toninho não deixava de passar em uma mesa sequer.

A própria experiência ensinara-lhe que ela é falha.

Passar em todas as mesas vendendo incensos era seu

trabalho desde sempre. No início tinha algo a ver com

sua própria vida, estilo. Era, ele mesmo, um incenseiro.

Via naquela peregrinação noturna pelos bares da

cidade algo de glamour. No entanto, nos últimos tempos,

passara a questionar-se sobre sua vocação. Um

dia um pensamento o invadiu: “Quem de fato escolheu

este caminho? Eu ou o incenso?”

Apesar de um tanto absurdo, tal questionamento

carregava em si algo de filosofia barata e verdade.

Aliás, após tantos e tantos anos dedicados à filosofia

barata, por fim ela lhe servia para algo. Para foder

ainda mais sua vida. Pois, caso a resposta a essa

pergunta fosse “o incenso”, ver-se-ia em uma encruzilhada

medonha e, pior, obrigado a mover-se em

alguma direção.

Lembrava o que podia da vida que levara. O tempo

em que as meninas de vestidos longos e coloridos

ouviam música em sua casa. As fumaças, os cabelos.

Lembrou-se de também ter tido cabelos em algum mo-

154


mento. Os tantos amigos. “Bons tempos; ali foi o auge,

o auge do incenso”. Subiu as escadas do bar de esquina

pensando que estava em queda livre, ele e o incenso.

Agora também vendia saias e vestidos “indianos” para

tentar “alavancar o faturamento” como diziam os textos

de administração que lia. Figura carimbadíssima da

fauna noturna local, não lhe faltavam sorrisos e tapas

nas costas. De tanto ouvir os outros falarem, saiu uma

vez pra vereador – Toninho do Incenso. “Vai pegar!”.

Sua plataforma política falava em cultura, liberdade de

expressão e investimento em arte. Aproveitou as tantas

andanças e conhecidos para distribuir santinhos (que

traziam um incenso de brinde) e até se inflamou em

pequenos eventuais discursos nas mesas. Acabou dando

com os burros n’água e endividado até o pescoço. O

negócio de Toninho, assim como sua vida, o puxavam

como uma draga em direção ao incenso. À bem da verdade,

até mesmo carregar aquelas saias e vestidos lhe

parecia um tanto fora. Olhava por vezes seu braço coberto

pelos panos e não se reconhecia.

Cumprimentava os conhecidos e tentava empurrar

algum produto. Essa técnica era uma das que mais

funcionava. Olhou as mesas em perspectiva, reconheceu

algumas pessoas. Pensou estrategicamente seu

deslocamento tendo as mesas com rostos conhecidos

como referência. Reagiu ao primeiro tapa nas costas:

155


– Fala meu amigo! Faz tempo que não negociamos

um incenso!

Ouviu:

– Oh, meu velho, é que mudei daquela casa…

– E onde você está agora não pode mais acender.

Entendi.

Sorriu-lhe em concordância aliviada o amigo,

Toninho já caminhava para outra mesa. Por mais improvável

que possa soar, essa conversa da mudança da

casa já fora ouvida por ele inúmeras vezes e, junto com

outras como “minha namorada nova não gosta de incenso”

ou “menino, desenvolvi uma alergia! Cê acredita?!

Dó viu, gosto tanto, mas não posso mais.”, era das

mais utilizadas por aqueles que não conseguiam dizer

um “não” simples, sem justificativas. Recebia as negativas

com naturalidade e sabia não serem definitivas.

Momentos, humores e estados etílicos diferentes mudam

desde alergias até moradias.

Como previsto, deixou aquele bar em tempo curtíssimo.

Sem nenhuma venda, ainda pensava na queda

livre do incenso, em outros mercados, outros produtos,

em trocar as sandálias de couro por um par de sapatos.

Abriu a porta do seu Ford Escort 87 e sentou-se.

Deixou os panos no carona, virou-se para guardar os

incensos na caixona verde atrás do banco do motorista.

Ligou o rádio. Olhou para a saída de ar do painel e

156


sorriu ao ver um pedaço de incenso enfiado. Pegou o

isqueiro do bolso e acendeu, era de jasmim.

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PASSARINHO


Desleixado. Cabelo livremente descuidado; mas que,

junto com os olhos profundos e de atenção selvagem,

passava algo que não era necessário plantar, ou

mesmo regar.

– Na cama uma gana que a gente sai morta…!

– Ai, esse olhão olhando de perto…

Tinha passado pra lá e pra cá, rido umas duas ou

três vezes. Claro que uma pra elas. Jurava: “Nada mais

que isso”. Primeiro dia é e deve ser assim, sabia. Deixar

se falar mais de si que se sabe, deixar(-)se encontrar.

Pavão de exposição, coral verdadeira.

Tirando fiapo de carne do dentinho de ouro:

– Gentes de chegada abrilhantada, de companhia

inovativa e prazerosa!

Tinham que querer muito; e sabiam; e queriam; ou

ao menos achavam. Lambu-nhangá de passo incerto,

perna branca reluzente, mas corado e vistoso. Vezes

desconfiado, vezes mulher. Achou seu olhar em meio

a tudo. “Era mesmo fundo, falava tanto”. Falava dela.

Deste dia não pensou outra coisa. Sabia dela, até falasse

a outros, saber!?

Mulher desconfiada.

Noutro dia deu-se mais a ver. Mais e mais. Mostrou

colo nu, pele cremosa colorida de sol, marquinha. Olho

agateado, sabido e sorridente. Sorrisos. Olhos riem perigosos.

Falou séria como ela só:

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– Você mexe comigo.

Ele fez que não entendeu.

Olhinho atento a qualquer pista.

Unha coçando falha de barba. Gota de suor lenta

em queda presa. Testa bastante desenhada. Linhas fundas.

Não continuou assunto, colocando-se à disposição.

Elegância discreta.

Certa. Ele sabia! Por isso fez que não via! Sabia

de intimidades dela, de desejo mais escondido.

Como? Quem lhe contara? O que seria ele? Tudo

tudo, tudo planejado! Certeza! Outro dia disse elogio

a outra moça. Moça feia, elogio bobo, serviria qualquer.

Descriativo disse “chique”; bem na sua frente.

“Descarado, podia mais discreto, né?! Mundo viu era

dengo pra mim! Só pra me ver de ciúme.”

Marido fora. Força encorajada. Saber confuso. Querer

sabido. Decidiu ir. “Com ele lá tiro tudo a limpo!”

Telefone. Amiga. Carona. Amiga angustiada.

Ele não estava lá.

– Por que me faz sofrer? Esperar e esperar sem fim?

Ele noite de amor regrado, entendido. Festa não sabia.

Amor de cheiro e encostar quente. Vida. Estar de

preenchimento? Amor de conhecimento, de liberdade

(nó)(a)tada. Existe outra liberdade? Que não exija?

Nunca soube, ou mesmo questionara. Aceitava-a assim,

como possível.

161


Pensou nisso e riu.

Músicas para fazer gente feia dançar. Festa, alegria.

Ela linda. Circulada por libido, cores. Entremeada alma

por muito vinho. Bradou a todos os ventos possíveis,

muitas e muitas vezes. Cochichou também, a tímpanos

leais. Gente ouve; e diz. Passarinho dançou, lindamente.

Pés traiçoeiros, seios e mãos sorridentes. Alguns

olhares flutuantes souberam ter encontrado beleza.

Pássaro de fogo, desejado e temido. Mas ele não estava

lá, nunca esteve. E que maneira ela sabia.

Esbarraram-se na sala comum, olhou-o bem.

Sempre ocupado, a dar pouca atenção. “Sofre de alguma

dor. Talvez seja isso.”

Ele existiu um pouco. Instante.

Disfarçadamente, seu respirar sempre pareceu argamassado

à existência dele. Depois de tanto, saberíamos

disfarce falso, fantasia de criança dia diferente

na escola.

Chegou.

Tantas impossibilidades, moral à flor da pélvis; o

carro estava ali e cumpriu seu papel. Os não saberes.

As dúvidas vitais. Sentiu algo na timo, murcha como

uva passa de farofa rica.

Faltou-lhe ar às mentiras do olhar, mas seu útero

desangustiou-se, achou objeto. Poderia sustentar

o mundo. Dor (de)vida. Obrigação à vida? Faltava-lhe

162


vergonha? Olhou o menino no olho. Vergonha da mãe.

Jurou que lhe acolheria de todas as formas devoráveis.

Era o que sabia, ou o que era.

Sempre agradável. Sotaque já incomodava em

profundidades abissais. Dissimuladas declarações.

Mentiras paranóides. Ela nunca seria parte. Corpo disse

não. Olho vacilou. De novo e de novo. Pra baixo; vezes

olhando desde lá. Perguntando: se.

Saltou em casa ou onde quis. Escreveu. Escreveu

pra ele; gozou mais umas vezes e dormiu, como uma

criança. Quando lá pelas seis levantou pra nadar, ria,

tropeçava-se e era. Maiô apertando polpa lisa, peitos

duros. Olhos espremidos por sorrisos. Saltitante depois

de despersonalizável vida em pelo, sentiu: machucara

alva e trôpega pata esquerda.

Ele não soube, demorou tempo de tamareira pra

saber. Pior, tinha no armarinho, grande embalagem

bege, letras garrafais: “Tala e unguento pra reluzente

pata injuriada de lambu”.

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EPÍLOGO


VALA COMUM


Naquela tarde aberta de agosto era possível sentir o ar

tremer ao ser tocado pelo vozeirão de Padre Calixto.

Cemitério apinhado. Gente vinda de todo canto pro

enterro de Dona Mariazinha. Ladeando o caixão, os

mais próximos. Filhos, netos e os doze bisnetos dos

quais ela tanto se orgulhava. Cidade estava que era

choro só. Vendas e armarinhos de luto fechado. Seu

Manoel abrira a padaria só mesmo pra que o povo tivesse

pão que comer naquele dia de tanta tristeza e desolação

pela perda de senhora tão devota e solidária.

A ladainha das choradeiras se estendeu até o início

da noite. Pouco a pouco a multidão dissipou-se e o

cemitério ficou apenas com seus moradores eternos.

Junto a eles a mais nova proprietária de sete palmos do

derradeiro condomínio, Dona Mariazinha.

Levantou-se do chão de terra, atordoada. Diriam

que estava perdida. Bateu a mão no vestido branco,

“toda imunda” pensou. Tentava arrumar-se minimamente,

mas percebia algo estranho. Seus braços pareciam

mais leves. Tampouco sentia o pendular de tanta

pele e gordura acumuladas nos tríceps por anos. Passou

a mão pelo rosto, colo, seios e quadris. “Onde estão

minhas rugas e pelancas?” Olhou para suas coxas.

Estavam duras, aveludadas, sem manchas ou varizes.

– Mas que diabo! – disse já tapando a boca com o

sinal da cruz e pedindo perdão em silêncio.

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As dores que a acompanhavam desde que seu corpo

podia recordar agora não sentia. Caminhou ereta e

enxergou detalhes ao longe. Certeza, não tinha mais

que vinte e poucos anos. Assustou-se. Enquadrou melhor

o que via ao longe. Pareceu-lhe dois homens nus,

beijando-se e lambendo-se avidamente. Assustou-se

outra vez. Nunca vira coisa assim. Aliás, passara toda

vida ao lado do mesmo marido “Tonhão, que deus o

tenha”, nunca faltou missa Domingo, nem gostava

dessas sem-vergonhices. “Isso é uma pouca vergonha”,

forçou-se a pensar.

Percebia melhor agora o descampado em que estava.

Percebia também as pessoas. Muitas, diferentes;

homens, mulheres e animais misturavam-se em cenas

grotescas de sexo. Em alguns grupos impossível

seria identificar quantos eram, ou mesmo o que faziam.

Todos, todos nus. Talvez causasse mais estranheza

à moça Mariazinha em tão inusitado lugar, fosse

ela não sentir repugnância, raiva, vergonha, ou outro

sentimento proveniente de algum julgamento moral.

Olhava tudo com certa naturalidade.

Andando mais, deparou-se com três garotas nuas

que conversavam sob uma sombra. Parecia conversa

animada. Aproximou-se, e pondo-se de cócoras, perguntou

onde estava. Vestido já demonstrasse sua estrangeirice,

fez questão dizer que não era dali.

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Por mais que se esforçassem em explicar-

-lhe, impossível foi que Mariazinha compreendesse.

Utilizavam palavras que soavam estranhas, apesar

de reconhecê-las. Além das inúmeras gargalhadas,

abraços e brincadeiras em que as moças se entretinham

durante o percurso daquela estranha conversa.

Mariazinha sentia-se intrigantemente bem e leve naquele

instante. Pareceu-lhe fazer sentido todo seu não

entender. Sentiu sua cabeça menos complicada e sua

abertura para o desconhecido no outro crescer. Mesmo

tempo que se sentia ainda nauseada; “provavelmente

da viagem” pensou. Quando avistou Tonhão. Alegrouse

imensamente em corrida desvairada até seu amor.

Lindo e jovem como quando primeiro o vira na porta

da Igreja de Lurdes, numa saída de missa. Era domingo

de muito sol e a aba de seu chapéu fazia sombra máscula

em seu maxilar. “Tão ereto, tão forte.”.

Abraçaram-se longamente. Quis cobrir-lhe as partes,

mas logo se esqueceu. Apesar de toda felicidade

do reencontro, viu Tonhão meio disperso. Outras pessoas

se aproximavam e ele também se alegrava com

elas. Falavam como as três moças da árvore. Quis entender

o que ele fazia ali, mas, de alguma forma, sentiu

sua dúvida suprida sem resposta alguma. Livrou-se

de parte incômoda de seu vestido “mas que farrapo!”

e seguiu o grupo, já era um tanto parte dele. As mui-

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tas perguntas se acalmavam, assentando-se em suas

entranhas. Deixou-se tocar por pessoas do grupo, de

várias maneiras. Sentiu tanto prazer que se assustou.

Procurou Tonhão, mas todos já se confundiam. Aos

poucos os rostos perdiam o significado que carregavam,

iam simplesmente se tornando familiares. Reconhecia-os

no início e depois acostumava-se. Alguns de

pessoas odiáveis. Reconheceu pecadores inconfundíveis,

como Nô de Jacira, matador famoso da região, ou

mesmo Madame Judite, cafetina que a quantas moças

de família desvirtuara, quantos maridos não acobertara!

Mais estranho, em meio a tanta gente decente como

ela mesma, seu falecido, Padre Osório e até Dona Menina!

Assim que os via, mantinha-lhes a face, mas não

os atribuía mais desvalores, valores ou julgamentos.

Via-os, apenas, e sentia-os estranhamente familiares.

Desviou o olhar e pensar do grupo. A dúvida, a

curiosidade e a angústia a escalar suas grossas e firmes

pernas até seu estômago. Olhou para o vestido rasgado.

Viu outras pessoas vestidas em uma fila. Voou o

mais rápido que pôde para garantir seu lugar. Falhou

em todas as tentativas de comunicação com os outros,

pareciam todos extremamente confusos. Destes

não reconhecia palavra sequer, quiçá rostos e às vezes,

mesmo suas formas lhe eram estranhas. A fila dava

numa espécie de caverna. Duas pedras grandes, uma

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de cada lado, a sustentar outra gigantesca de cobertura.

“Sem dúvida isso foi feito” pensou. “Mas por que

gastar construção para construir algo que mal se aproxima

de uma caverna?” Manteve-se em fila indiana.

Chegou sua vez.

Mariazinha passou pelas estranhas pedras e penetrou

na caverna. Uma sensação de liberdade invadiu

seu corpo, fecha os olhos… Tenta abri-los, mas a escuridão

insiste em permanecer, leva as mãos às pálpebras e

se surpreende ao senti-las abertas, mais abertas do que

nunca. Mergulhada no medo, sente uma coragem a envolvê-la.

Sua visão perde o antigo sentido, e Maria tem

certeza de não estar dentro de uma caverna, de uma

montanha, cercada por parede ou muro; nem mesmo

o céu e a terra limitam mais o seu universo. Sorri. Seus

pés não estão sobre nenhuma terra firme, nem mesmo

sabe a posição na qual se encontra: de pé, deitada, de

frente, de costas; tenta buscar nas palavras antigas uma

descrição para aquilo, e num devaneio de sensações:

– É água! Não!!! É mais suave que isso!!! Estou

voando?! Não; é mais denso!!! Cadê o peso da gravidade?!

Não sinto pressão e ao mesmo tempo estou totalmente

envolvida por essa coisa!!! Tempo?!

Um pensamento a invade, aliás, a única coisa que

poderia invadi-la naquele lugar oco. Maria tenta falar,

mas suas palavras perderam o som. Toca a boca:

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– Está se mexendo!!!

Continua falando seus pensamentos, mas eles já

não ecoam em nada naquele lugar. Perderam-se da

matéria e ganharam muito mais do que o velho e restrito

singular das palavras. Respira profundamente,

está completa. Já não são os ares de outrora que penetram

seus pulmões. Maria sente o seu, só seu, sentido

de liberdade. Sentido tão expandido que pela primeira

vez pode sentir, de verdade. Conectada consigo, naquele

vazio pode perceber o tudo.

Sua voz era de Multidão e certeza

Urgia por todos os poros

Flutuava sobre o naufrágio da grande arca

Eterno cemitério dos santos

Das promessas dos bichos

O deserto na ponta dos olhos

No oco do peito

Na bile

Ouviu a última canção

E a primeira

Irás à base do tempo

Em sua primeira matriz

Sem mãe pai ou culpa

Ou nome

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Abrirás com as unhas o ventre

E lá sangrarás teu desejo

Em suas tantas metades

Colherás então em dois frascos

Os dois últimos fios de luz

Um será a verdade

O outro a miséria

Atravessarás de volta o claro pátio da morte

Devolverás um frasco a deus

O outro ao peito

Terás a vida gargalhada em mistério

E não mais julgarás

Terminando de rasgar os trapos caminhou nua em direção

ao horizonte. Falava com o solo e o ar, sentia o

todo. Sem nome, sem história a julgar. Encontrou outros.

Gargalhavam alto; como gargalhavam.

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Publicado mediante acordo com o Autor.

Direitos reservados para a língua portuguesa pela

Estereográfica Editorial, 2015.

Texto © Ângelo dos Santos, 2015.

Ilustrações © Eduardo Belga, 2015.

edição

projeto gráfico

revisão

André Maya e Rafael Dietzsch

André Maya, Rafael Dietzsch, Vitor Teles

Plínio Arantes

S237V

Santos, Ângelo dos.

Viagem em família. Ângelo dos Santos;

ilustrações de Eduardo Belga.

Brasília: Estereográfica, 2015

176 p., ilust., 21 cm.

ISBN 978-85-68809-04-4

1. Literatura Brasileira 2. Conto Brasileiro

3. Literatura Brasiliense

I. Belga, Eduardo. II. Título.

CDD B869.3

CDU 821.134.3(81)

Estereográfica Editorial Ltda.

Caixa Postal 16375

CEP 70775-980

Brasília, DF

+ informações

www.estereografica.com


Este livro foi composto em Zenon, família de tipos projetada por

Riccardo Olocco e distribuída pela CAST (www.c-a-s-t.com).

Impresso em Pólen Bold Suzano 90 g/m2 e Offset Alta Alvura Suzano 240 g/m2,

nas oficinas da Athalaia Gráfica, Brasília, dezembro de 2015.

Tiragem de 1000 exemplares.

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