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Revista Dr Plinio 320

Novembro de 2024

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Publicação Mensal<br />

Vol. XXVII - Nº <strong>320</strong> Novembro de 2024<br />

O Reino de Cristo<br />

“assim na Terra como no Céu”


Samuel Holanda<br />

Trágica magnificência<br />

Amorte tem dois aspectos, um é biológico. Durante toda a vida, luta o homem para que o seu<br />

corpo não se deteriore: banhos, perfumes, unguentos, remédios, artifícios da higiene e da medicina,<br />

tudo é empregado para dar ao corpo uma aparência de vida perene e incorruptível.<br />

Vem a morte e patenteia a realidade mais recôndita e caraterística deste corpo: transforma-o em lixo.<br />

Por este aspecto, a morte é sórdida, repelente.<br />

Ela tem outro aspecto, que a torna o fato mais notável e, em certo sentido, mais augusto de toda a<br />

vida, pois arranca o homem da vulgaridade quotidiana e o coloca face a face com o tremendo mistério<br />

de sua eternidade, patenteando que a vida de todo ser humano é uma epopeia, frustrada ou realizada.<br />

Assim, a morte se alça acima do que ela tem de sórdido e repelente. Mais do que isso, a sua própria<br />

sordidez contribui para torná-la mais grandiosa, na sua trágica magnificência. Quem não percebe que<br />

aquilo que mais pode dignificar e enobrecer o homem, o heroísmo, tem íntimas afinidades com a morte?<br />

Por esta razão ela tem sido cercada de solenidades sombrias e de pompas cheias de gravidade. A Igreja,<br />

de um modo todo especial, pois foi ela quem revelou à humanidade o sentido mais profundo da vida<br />

e da morte, deu às comemorações fúnebres o mais justo e apropriado esplendor, não só pelo sufrágio<br />

das almas, como pelas lições que apresenta à meditação dos fiéis.<br />

(Extraído, com adaptações, do Legionário n. 544, 10/1/1943)


Sumário<br />

Publicação Mensal<br />

Vol. XXVII - Nº <strong>320</strong> Novembro de 2024<br />

Vol. XXVII - Nº <strong>320</strong> Novembro de 2024<br />

O Reino de Cristo<br />

“assim na Terra como no Céu”<br />

Na capa,<br />

Cristo Rei - Catedral de<br />

Orvieto, Itália.<br />

Foto: Flávio Lourenço<br />

As matérias extraídas<br />

de exposições verbais de <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong><br />

— designadas por “conferências” —<br />

são adaptadas para a linguagem<br />

escrita, sem revisão do autor<br />

<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong><br />

<strong>Revista</strong> mensal de cultura católica, de<br />

propriedade da Editora Retornarei Ltda.<br />

ISSN - 2595-1599<br />

CNPJ - 02.389.379/0001-07<br />

INSC. - 115.227.674.110<br />

Diretor:<br />

Roberto Kasuo Takayanagi<br />

Conselho Consultivo:<br />

Jorge Eduardo G. Koury<br />

Roberto Kasuo Takayanagi<br />

Redação e Administração:<br />

Rua Virgílio Rodrigues, 66 - Tremembé<br />

02372-020 São Paulo - SP<br />

E-mail: editoraretornarei@gmail.com<br />

Impressão e acabamento:<br />

Pigma Gráfica e Editora Ltda.<br />

Av. Henry Ford, 2<strong>320</strong><br />

São Paulo – SP, CEP: 03109-001<br />

Preços da<br />

assinatura anual<br />

Comum............... R$ 300,00<br />

Colaborador. .......... R$ 400,00<br />

Benfeitor ............. R$ 500,00<br />

Grande benfeitor....... R$ 800,00<br />

Exemplar avulso. ....... R$ 25,00<br />

Serviço de Atendimento<br />

ao Assinante<br />

editoraretornarei@gmail.com<br />

https://www.editoraretornarei.com.br<br />

Segunda página<br />

2 Trágica magnificência<br />

Editorial<br />

4 As duas auroras do<br />

Reino de Cristo<br />

Piedade pliniana<br />

5 “Mantende-me em<br />

indestrutível união convosco”<br />

Dona Lucilia<br />

6 Discretas harmonias no<br />

relacionamento entre mãe e filho<br />

Reflexões teológicas<br />

10 O elemento determinante<br />

do verdadeiro amor<br />

Hagiografia<br />

17 Categórico contra os<br />

hereges e relapsos<br />

De Maria nunquam satis<br />

20 Belezas e sublimidades da<br />

Apresentação de Nossa Senhora<br />

Denúncia profética<br />

25 “Quem avisa,<br />

amigo é”<br />

Eco fidelíssimo da Igreja<br />

28 Purgatório: união entre<br />

justiça e misericórdia<br />

Calendário dos Santos<br />

30 Santos de Novembro<br />

Apóstolo do pulchrum<br />

32 Oração e holocausto<br />

simbolizados na lamparina<br />

Última página<br />

36 Amor gratuito da Rainha do Céu<br />

3


Editorial<br />

As duas auroras do<br />

Reino de Cristo<br />

Se quisermos fazer uma ideia do que é o extremo oposto do Reino de Nosso Senhor Jesus Cristo,<br />

imaginemos uma cidade completamente futurista, com tudo organizado segundo os métodos<br />

mais tirânicos da técnica moderna, imersa no materialismo, na imoralidade, sem alegria,<br />

sem nenhuma esperança do Céu, nenhum apreço pelos valores do espírito, nenhuma compostura<br />

nem dignidade nas próprias autoridades.<br />

Diante desse quadro, poderemos ter uma noção a respeito do mundo para o qual vamos caminhando<br />

e tomar consciência mais clara de que nos encontramos numa situação intermediária, na<br />

qual os últimos restos do Reinado de Cristo desapareceram e as afirmações claras, escancaradas do<br />

reinado do demônio já estão despontando.<br />

Ora, se o reino do demônio é assim horrível – e já o vemos em torno de nós –compreendemos<br />

qual poderá ser a nossa alegria no momento bendito em que, terminados os castigos previstos em<br />

Fátima, raiar o Reino de Maria, durante o qual a virtude será glorificada, a ortodoxia respeitada, todos<br />

os costumes, leis e instituições refletirão o espírito da Igreja Católica, com o qual todo o modo<br />

de pensar e de agir das pessoas estará de acordo. Então, o bem e a verdade serão admirados; o erro<br />

e o mal, execrados. E veremos todos os homens, todos os valores, tudo posto na sua devida ordem e<br />

dando, por esta forma, glória a Deus, autor verdadeiro dessa ordem.<br />

Assim, quando chegarmos ao fim de nossos dias e cerrarmos nossos olhos, teremos a alegria de,<br />

havendo nascido no reino do demônio, termos trabalhado pelo advento do Reino de Cristo, contemplado<br />

a ordem restaurada e podido dizer que essa foi uma obra de Deus feita por nossas mãos.<br />

Então teremos uma ideia exata do Reino celeste de Jesus Cristo.<br />

Essa será, para nós, a segunda aurora. A primeira terá sido quando terminar esta era e entrarmos<br />

no Reino de Cristo. A segunda aurora raiará ao fecharmos os olhos para esta vida e vermos abrir-se<br />

para nossa alma, no Céu, o Reinado de Cristo através da Santíssima Virgem.<br />

Então, todos os símbolos e aparências terão passado. Nós veremos Deus e Nossa Senhora face a<br />

face e compreenderemos, de um modo direto e superlativo, a ordem celeste, modelo da ordem que<br />

amamos na Terra. Nesta segunda afirmação do Reinado de Cristo nós receberemos, verdadeiramente,<br />

o prêmio por termos lutado tanto por esse Reinado no mundo.<br />

Que Nossa Senhora nos dê essas convicções com energias cada vez maiores. Devemos viver de esperanças,<br />

e a nossa grande esperança é a instauração do Reinado de Cristo por meio do Reino de<br />

Maria na Terra e, assim, atingir o Reino de Nosso Senhor Jesus Cristo, por Maria Santíssima, no<br />

Céu.*<br />

*<br />

Cf. Conferência de 24/10/1964.<br />

Declaração: Conformando-nos com os decretos do Sumo Pontífice Urbano VIII, de 13 de março de 1625 e<br />

de 5 de junho de 1631, declaramos não querer antecipar o juízo da Santa Igreja no emprego de palavras ou<br />

na apreciação dos fatos edificantes publicados nesta revista. Em nossa intenção, os títulos elogiosos não têm<br />

outro sentido senão o ordinário, e em tudo nos submetemos, com filial amor, às decisões da Santa Igreja.<br />

4


Piedade pliniana<br />

Virgem Maria - Basílica<br />

da Estrela, Lisboa<br />

Samuel Holanda<br />

“Mantende-me em<br />

indestrutível união convosco”<br />

Ó<br />

Mãe e Refúgio dos pecadores, infelizmente pequei! Eu Vos suplico que me<br />

deis a convicção de que tão grande é a vossa misericórdia, que neste momento<br />

em que me volto para Vós sou acolhido por uma compaixão inexprimivelmente<br />

delicada, uma ternura materna inigualável.<br />

Dizei, Vô-lo peço, no íntimo de minha alma, palavras de doçura e de paz que me<br />

unam a Vós mais do que antes da queda e afastem de mim as fantasias monstruosas<br />

da angústia, com as quais o demônio tenta arrebatar-me de Vós. Para humilhá-lo,<br />

Rainha das Vitórias, mantende em indestrutível união convosco este pequeno filho<br />

a quem tanto amais.<br />

Ó Auxílio dos Cristãos, que Vos dignastes chamar ao vosso serviço uma pessoa<br />

tão débil como eu, completai vossa obra realizando em mim as transformações que<br />

sou por demais fraco para fazer sem Vós. Assim seja.<br />

(Composta na década de 1970)<br />

5


Dona Lucilia<br />

Fotos: Arquivo <strong>Revista</strong><br />

Discretas harmonias<br />

no relacionamento<br />

entre mãe e filho<br />

Descrevendo<br />

pequenos episódios do<br />

relacionamento com<br />

Dona Lucilia, <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong><br />

nos permite vislumbrar<br />

um pouco da elevação<br />

deste convívio familiar<br />

baseado no amor a Deus<br />

e na fidelidade à Religião,<br />

cujas manifestações<br />

de encanto se faziam<br />

muito mais no silêncio<br />

mútuo do que nas<br />

palavras ou discursos.<br />

Prédio da Rua Vieira de Carvalho onde <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> residiu<br />

Aquela definição de Dona<br />

Lucilia segundo a qual viver<br />

é estar juntos, olhar-se<br />

e querer-se bem, não correspondia à<br />

“vidoquinha” de uma mãe e de um<br />

filho que comentam entre si como<br />

estava gostoso o biscoito de polvilho,<br />

a chuva etc. Isso constitui muitas vezes<br />

todo um convívio entre mãe e filho,<br />

mas com que alimento…<br />

6


Compaixão do filho pela mãe<br />

Eu sentia nela uma série de fundos<br />

sucessivos de alma que me encantavam,<br />

os quais percebia olhando-a<br />

e querendo-a bem. E via perfeitamente<br />

que a recíproca era verdadeira.<br />

Mas essa situação fazia-se no<br />

silêncio mútuo, não comportava explicitações<br />

orais; interiores sim. De<br />

maneira tal que eu via bem quanto<br />

ela me queria, quanto eu a queria.<br />

As minhas viagens para a Europa<br />

– fiz duas ou três em vida dela – eram<br />

para mim dilacerações, não no sentido<br />

comum das saudades, tinha também,<br />

mas representavam um papel<br />

como de água do mar quando chega<br />

à praia: é o fim da viagem. Mas era<br />

por imaginar o que representava para<br />

ela o ficar sem esse entreter-se comigo.<br />

Donde muita compaixão, muito<br />

desejo, cartas para ela… naquele<br />

tempo os telefonemas internacionais,<br />

além de muito caros, eram dificílimos<br />

de fazer. E por ela ter a audição<br />

debilitada, eu raramente falava<br />

ao telefone. Mas, se pudesse, telefonaria<br />

a ela todos os dias, como aconteceu<br />

numa ocasião.<br />

Lembro-me de um tempo em que<br />

precisei dormir numa casa que pertencia<br />

a papai; era necessário que<br />

ele passasse um ano dormindo lá,<br />

para não incorrer em penalidade criminal<br />

por ter posto fora o inquilino.<br />

Do contrário, ficaria sujeito a cinco<br />

ou seis anos de prisão, algo impossível.<br />

O imóvel ficava num ponto bom<br />

de valorização, mas ruim para habitação,<br />

e ele o tinha comprado antes<br />

de ser emitida a lei do inquilinato.<br />

Então eu ia dormir lá para fazer-<br />

-lhe companhia, e mamãe ficava no<br />

apartamento. Creio que a empregada<br />

Olga dormia com ela, para não ficar<br />

isolada.<br />

Todas as noites eu ia a uma garagem<br />

em frente a<br />

essa casa e telefonava.<br />

Em casa, ela<br />

permanecia sentada<br />

junto ao telefone,<br />

rezando à espera<br />

de minha ligação.<br />

Alguém poderia<br />

perguntar: “O<br />

que o senhor dizia a<br />

Dona Lucilia a essa<br />

hora da noite?”<br />

O que dizíamos um ao outro?<br />

Eu dizia “boa noite”, simplesmente.<br />

Perguntava como ela estava, ela<br />

contava alguma coisinha, uma visita<br />

que fora ter com ela, fatos da vida<br />

comum. Era isso! Mas não eram<br />

banalidades absolutamente, era algo<br />

muito mais alto.<br />

Sentinela atenta<br />

Quando morávamos na Rua Vieira<br />

de Carvalho, Dona Lucilia não ficava<br />

sempre rezando ao lado da imagem<br />

do Sagrado Coração de Jesus<br />

enquanto permanecia à minha espera.<br />

Naquele tempo tinha vigência<br />

o jejum eucarístico da meia-noite<br />

e, portanto, ela sabia que, por volta<br />

<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> com<br />

alguns membros do<br />

grupo em 1965<br />

Restaurante Fasano,<br />

localizado na Rua<br />

Vieira de Carvalho<br />

7


Dona Lucilia<br />

das onze e meia, descíamos ao Restaurante<br />

Fasano 1 para comer alguma<br />

coisa. E ela adquiriu o hábito de,<br />

quando intuía ter chegado a hora, ir<br />

para a janela olhar-nos. Ao sair do<br />

prédio, eu não olhava para trás, mas<br />

sabia que ela estava ali.<br />

Quando deixávamos o Fasano, eu<br />

olhava discretamente e via sua cabeça,<br />

emoldurada já com cabelos prateados,<br />

enchendo um dos quadrículos<br />

grandes da janela, quase sempre<br />

o mesmo, mas não passando daquilo;<br />

ficava num canto, ao lado, bem discreta,<br />

olhando-nos. Era como dentro<br />

de um quadro.<br />

Eu não a cumprimentava, por não<br />

querer criar para os rapazes que não<br />

a tinham percebido a obrigação de<br />

acenarem também… Mas ela notava<br />

que eu a olhava. Sabendo que eu<br />

me despediria de todos e subiria em<br />

linha reta, ela ficava me esperando<br />

com certa ansiedade para eu subir<br />

logo, para dar-lhe uma prosinha um<br />

pouco mais longa. Era a disputa dos<br />

minutos…<br />

Eu abria a porta, ela vinha ao meu<br />

encontro, nos abraçávamos. Para me<br />

beijar se punha sempre na ponta dos<br />

pés e eu me inclinava um pouco. Depois<br />

sentávamos em alguma cadeira<br />

do salão e começávamos uma conversa<br />

que se estendia até mais tarde.<br />

Às vezes ela me perguntava: “Filhão,<br />

o que você conversou tanto tempo<br />

com aquele assim, assim?” Não me<br />

lembrava, então respondia: “Mas,<br />

meu bem, já não me recordo.”<br />

Às vezes ela comentava este,<br />

aquele, o que eu tinha rido em tal<br />

ocasião, procurando participar um<br />

pouco da conversa, porque mamãe<br />

era muito comunicativa. Nunca,<br />

nunca, nunca uma pergunta indiscreta.<br />

Nunca! Por exemplo, de querer<br />

tomar conhecimento de assuntos<br />

os quais sabia que eu não contaria,<br />

jamais! Golpinho para ficar sabendo,<br />

nada que se parecesse com isso,<br />

nem de longe. Era até de se excluir a<br />

hipótese como extravagante, despropositada.<br />

Um sósia de <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong>…<br />

Houve tempo em que ela esteve<br />

muito preocupada, porque afirmava<br />

ver passar em frente ao Fasano,<br />

na hora da espera, um sósia meu que<br />

usava inclusive um chapéu como o<br />

meu. Cada pessoa porta o chapéu de<br />

um modo peculiar, é instintivo. E ela<br />

Dona Lucilia durante uma conferência de <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> em 1959<br />

dizia que até o meu modo peculiar<br />

de pôr o chapéu na cabeça a pessoa<br />

tinha, e ficava muito preocupada.<br />

Disse-me que na primeira vez<br />

pensou ser eu, mas logo depois me<br />

viu sair dali, portanto, não podia ser.<br />

Quem seria? E pedia para eu tomar<br />

cuidado porque, de repente, esse homem<br />

cometia um crime, e poderiam<br />

inculpar-me a mim.<br />

Eu lhe dizia: “Mas, meu bem, o<br />

que posso fazer? Não posso ficar o<br />

dia todo aqui, à espera de aparecer<br />

esse desconhecido.”<br />

Depois esse fulano dissolveu-se,<br />

ela não pensou mais no caso.<br />

Mãe desprendida,<br />

discreta, comedida<br />

Ela percebia com clareza que eu<br />

era completamente diferente de outros<br />

homens conhecidos dela, e estimava<br />

sobremaneira essa diferença,<br />

prezava muito. Ora, não sei se ela<br />

media até o fim o que a Providência<br />

queria de mim, o que eu era chamado<br />

a ser, porque nunca tratamos sobre<br />

isso. Ademais, ela teve a vida inteira<br />

horror ao orgulho, à presunção,<br />

em ver pessoas se compararem com<br />

outros. Ela nunca agia assim, em nenhuma<br />

circunstância.<br />

Minha mãe tinha muito cuidado<br />

em jamais dizer-me algo capaz de<br />

me inflar. Agradar-me, mostrar-me<br />

carinho, sim; elogiar o que eu fizesse,<br />

era raríssimo. Assim mesmo, só<br />

enaltecia o aspecto moral; o talento<br />

humano que talvez entrasse, ela<br />

fingia que não via, era como se não<br />

existisse. Eu percebia que ela receava<br />

colaborar de qualquer forma para<br />

que eu ficasse vaidoso, ao que ela tinha<br />

horror.<br />

Recordo-me, por exemplo, de ela<br />

ter ido assistir a muitos discursos e<br />

conferências minhas e percebido que<br />

eu era muito homenageado, o que<br />

saltava aos olhos. Quando ela estava<br />

presente – naturalmente faz-se isso<br />

com a mãe de qualquer conferencis-<br />

8


ta, sobretudo quando é uma senhora<br />

idosa – era posta nos primeiros lugares<br />

para que escutasse bem. Ela naturalmente<br />

percebia isso.<br />

Durante a conferência, eu via que<br />

ela se mostrava agradada, acompanhando<br />

com muita atenção, positivamente<br />

gostando. No entanto, sendo<br />

minha mãe, não podia bater palmas.<br />

Terminada a sessão, falavam com<br />

ela, elogiavam-na, o que também<br />

se faz por toda parte; até quando o<br />

conferencista não discorreu bem, dizem<br />

para a mãe dele toda espécie de<br />

amabilidades. Ela recebia todos os<br />

agrados, mas absolutamente nunca<br />

me comentava uma palavra a respeito<br />

da conferência, do que lhe diziam;<br />

ficava quieta, não mencionava nada.<br />

Presenciei, certa vez, uma senhora<br />

da geração dela dar a entender,<br />

numa conversa de uma roda grande,<br />

que o genro desta pessoa era mais<br />

inteligente e capaz que eu. Mamãe<br />

ouviu com uma indolência fenomenal,<br />

deixou passar.<br />

Quando essa senhora saiu da sala,<br />

uma outra lhe disse em minha<br />

presença: “Lucilia, não a compreendo.<br />

Ela deu a entender tal coisa assim,<br />

você sabe perfeitamente não ser<br />

verdade, todos nós na sala sabíamos,<br />

você podia dizer alguma coisa e não<br />

o fez.” Ao que mamãe respondeu:<br />

“Coitada, ela está tão alegre em imaginar<br />

que isso é assim, deixe-a imaginar.<br />

<strong>Plinio</strong> não ganha nem perde nada<br />

com isso. Deixe-a contente com<br />

o genro que tem, eu fico com o filho<br />

que tenho.”<br />

E esse foi seu modo de ser até o<br />

fim. De maneira que se ela via em<br />

mim algum chamado da Providência,<br />

uma obra maior a realizar, ela<br />

absolutamente não comentava.<br />

Apreciando as evoluções do<br />

filho, como num concerto<br />

Ela tomava tão a sério o fator religioso<br />

como razão de união e, portanto,<br />

a heresia como fator de desunião,<br />

que ela acharia natural que uma<br />

união como havia entre ela e mim se<br />

rompesse caso ela adotasse uma outra<br />

religião. Era o ódio dela à heresia<br />

que não se manifestava em expressões<br />

de cólera, de furor, mas era<br />

uma incompatibilidade total! E estaria<br />

disposta a qualquer sacrifício para<br />

manter-se em sua posição.<br />

As manifestações de ódio eram<br />

adequadas ao modo de ser feminino,<br />

como convém a uma senhora, desde<br />

que esta não tenha a magnífica vocação<br />

de uma Santa Joana d’Arc.<br />

Eu explicava mais ou menos a<br />

crise na Igreja, ela ouvia com muita<br />

atenção, mas eu tenho a impressão<br />

de que toda a complexidade da<br />

problemática ela não captava bem,<br />

já era de um outro tempo. Mas ela<br />

prestava muita atenção em minha<br />

psicologia enquanto eu falava e, como<br />

ela percebesse que minha alma<br />

estava se movendo retamente, ela ficava<br />

contente; o resto não tinha importância.<br />

Ela não prestava uma atenção<br />

policial, mas era como um apreciador<br />

musical atento ao concerto:<br />

qualquer notinha destoante ele<br />

<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> em Maio de 1992<br />

sente melhor que um outro. Assim<br />

ela possuía o “ouvido” posto em<br />

minha vida, e qualquer coloridozinho<br />

que, do lado moral, de bondade<br />

e retidão ela não compreendesse<br />

bem, estando comigo a sós me dizia:<br />

“Filhão, em tal coisa não terá sido<br />

assim? Em tal ocasião, não terá sido<br />

de outra maneira?” E ela às vezes<br />

discutia um pouco, mas quando<br />

eu explicava, concordava, porque os<br />

princípios gerais eram os mesmos.<br />

Em outras ocasiões, desde logo acedia.<br />

Creio que ela via mover-se em<br />

mim algo de muito reto, e então deixava<br />

correr o marfim, sem maior<br />

preocupação.<br />

v<br />

(Extraído de conferências de<br />

26/8/1982, 19/7/1983 e 2/5/1992)<br />

1) Restaurante localizado em frente ao<br />

prédio de apartamentos na Rua Vieira<br />

de Carvalho, n. 27, do qual o quarto<br />

andar era a residência de Dona Lucilia<br />

e o sexto, a sede onde <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong><br />

se reunia com os membros do antigo<br />

grupo do Legionário.<br />

9


Reflexões teológicas<br />

Flávio Lourenço<br />

O elemento<br />

determinante do<br />

verdadeiro amor<br />

Desmascarando um antigo sofisma, o qual afirma que a amizade<br />

se baseia em trocas de gentilezas e o ódio só é dispensado a<br />

quem tem um trato ríspido, <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> demonstra como há um<br />

ponto central que comanda os amores e os ódios na Terra.<br />

O<br />

tema sobre o qual me pediram<br />

para tratar não é fácil,<br />

mas procurarei torná-lo<br />

claro, tanto quanto possível.<br />

Começo por abordar o assunto<br />

em seus aspectos comezinhos, para<br />

depois subir às suas mais altas elevações.<br />

Sobre ele há um erro antigo e<br />

contra o qual, na minha juventude,<br />

já tive de lutar internamente. Que<br />

erro é esse?<br />

Falso princípio sobre<br />

a amizade e o ódio<br />

Qual é a raiz da amizade? Qual é<br />

a raiz do ódio?<br />

Espalham-se as seguintes impressões<br />

que, à primeira vista, parecem<br />

ser verdadeiras: a pessoa tem amizade<br />

a outrem quando este a trata<br />

bem, de um modo agradável, afável,<br />

divertido, atraente. Tem-se também<br />

amizade por quem nos trata com dedicação.<br />

Aí a pessoa se sente atraída,<br />

já não mais pelo agradável do convívio,<br />

mas pelo interesse; essa dedica-<br />

Arquivo <strong>Revista</strong><br />

A ideia de amizade e de ódio são<br />

antitéticas. Quando se odeia alguém,<br />

desse não se é amigo. Quando se é<br />

amigo de alguém, a esse não se pode<br />

odiar. Portanto, amizade e inimizade<br />

ou afeto e ódio são sentimentos<br />

opostos, que não podem coexistir<br />

sobre um mesmo objeto numa mesma<br />

alma.<br />

<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> durante conferência em fevereiro de 1986<br />

10


ção pode ser objeto ou ponto de partida<br />

de alguma utilidade para ela.<br />

Sente-se amizade ainda por outrem<br />

quando este nos trata de modo<br />

a nos deixar lisonjeados. Alguém<br />

manifesta admiração ou simpatia<br />

por nós, chega-nos aos ouvidos – coisa<br />

rara! – que este fala bem de nós<br />

para outros e, de modo involuntário,<br />

indiretamente, faz certa propaganda<br />

de nós, e isto, nos nossos lábios tem<br />

o sabor do néctar dos néctares: “Fala<br />

bem de mim, elogia-me! E só ele<br />

reconhece que eu tenho tal qualidade!”<br />

E dá uma espécie de xodó, como<br />

se diz em português.<br />

Por outro lado, há o ódio. Se a<br />

pessoa é de uma presença cacete,<br />

se procura se impor a mim, tomar<br />

meu tempo para conversar sobre temas<br />

que não me interessam, se fala<br />

mal de mim e faz propaganda contra<br />

mim; se no trato comigo contunde<br />

o meu amor-próprio, o meu orgulho,<br />

fazendo entender ser, saber<br />

ou ter mais do que eu, se essa pessoa,<br />

enfim, faz o inverso do que eu<br />

dizia anteriormente, o resultado é o<br />

ódio.<br />

Desmascarando o sofisma<br />

Então, a amizade vem do ser bem<br />

tratado e o ódio, do ser maltratado.<br />

A confirmação de ser isto assim parece<br />

dar-se de um modo indiscutível<br />

percorrendo com os olhos a face da<br />

Terra e vendo a maior parte das pessoas<br />

ter essa reação. Parece, portanto,<br />

ser muito lógico e dar o fundo da<br />

verdade tudo o que acabo de dizer.<br />

Ora, a verdade não é essa. E enquanto<br />

não a compreendermos, não<br />

saberemos nada nem sobre o ódio,<br />

nem sobre o afeto ou a amizade.<br />

Não entenderemos nada também a<br />

respeito do que é o amar ou o odiar<br />

a Deus.<br />

Porque, se isso é assim, dado o<br />

modo pelo qual na aparência – na<br />

aparência! – Deus nos trata, não se<br />

vê muito como amá-Lo nem como<br />

odiá-Lo. Porque a Deus nós não vemos,<br />

Ele não impressiona nossos<br />

sentidos; os benefícios que Ele nos<br />

faz, na maior parte das vezes, são difíceis<br />

de avaliar, a não ser pelo raciocínio,<br />

e, assim mesmo, não se apalpam.<br />

Ele me criou, é um grande benefício.<br />

No total, será um grande benefício<br />

se eu não for para o Inferno. Senão,<br />

Ele mesmo disse para o que peca<br />

mortalmente e se perde: “Melius<br />

erat illi si natus non fuisset – Melhor<br />

era para ele não ter nascido” (Mc<br />

14, 21). Visto que não sei o que vai<br />

acontecer comigo, como vou agradecer<br />

o que eu não sei se é um benefício?<br />

Estou dando o raciocínio sofístico,<br />

é claro, mas é como isso se apresenta<br />

às pessoas.<br />

Eu preciso de companhia, Deus<br />

não me aparece. Preciso de uma palavra<br />

de apoio, Ele não me dá. Eu O<br />

procuro, Ele está como o ar, impalpável.<br />

O que vou fazer com Deus?<br />

Amizade, não vejo razão. Ódio, também<br />

não… Estou alheio a Ele. Por<br />

quê? Simplesmente porque Ele parece<br />

alheio a mim.<br />

Tudo isso são abominações. Eu<br />

detesto com toda a alma o que estou<br />

dizendo. Apenas estou expondo<br />

o erro antes de tratar do assunto<br />

a fundo.<br />

O ódio a quem é<br />

contrarrevolucionário<br />

Ora, quando vamos examinar isso,<br />

vemos que esse é o modo de considerar<br />

o afeto e o ódio dos homens<br />

que formam a imensa e execranda<br />

família de almas dos superficiais,<br />

que analisam tudo apenas na superfície,<br />

não refletem, não aprofundam,<br />

não têm um nexo lógico naquilo que<br />

pensam e, por causa disso, não captam<br />

a realidade.<br />

Como eles não têm em vista as razões<br />

profundas para querer nem para<br />

odiar, seu mecanismo de afeto e<br />

de ódio se movimenta na superfície<br />

da realidade. E daí esse modo de<br />

agir e de reagir diante dos outros,<br />

que eu acabo de descrever.<br />

Entretanto, basta colocarmos<br />

diante dos superficiais uma pessoa<br />

verdadeiramente contrarrevolucionária<br />

e verificamos outra atitude:<br />

por mais que ela seja amável, delicada,<br />

procure agradar e ser gentil, tenha<br />

conhecimentos e educação para<br />

tornar um convívio ameno, a estrutura<br />

de alma do contrarrevolucionário,<br />

homem do sim-sim, não-não,<br />

que não se contenta com a superfície<br />

das coisas, desagrada os superficiais.<br />

O contrarrevolucionário é o homem<br />

que de bom grado conversa so-<br />

Arquivo <strong>Revista</strong><br />

11


Reflexões teológicas<br />

Tangopaso (CC3.0)<br />

Corte de Carlos Magno - Palácio de Versalhes<br />

bre o Céu Empíreo, pois gosta de<br />

pensar em magnificências e esplendores<br />

inexistentes na Terra. A sua<br />

apetência de verdade, de bem e de<br />

beleza, não se limita às realidades<br />

terrenas e voa até o Céu. E porque<br />

ele tem esse élan, esse ímpeto da alma<br />

para o alto, é homem que sabe<br />

apontar o precipício; vê, pesa e mede<br />

o mal praticado pelos outros e faz<br />

entender quanto aquilo está errado.<br />

Basta os superficiais notarem isso<br />

em alguém, que este pode prodigalizar-lhes<br />

os benefícios e as atenções<br />

que forem, pode encontrar-se<br />

no estado de indigência, de necessidade...<br />

eles pisam em cima irremediavelmente.<br />

Chegamos à conclusão de não ser<br />

verdade que as pessoas se movem só<br />

por causa das gentilezas, das atenções<br />

e das provas de amizade, nem<br />

é principalmente por isso. Porque há<br />

uma categoria de homens que usa<br />

de tudo isso com os superficiais e,<br />

sem nenhum fundamento, esses os<br />

odeiam e não os perdoam. Por quê?<br />

O isolamento dos bons<br />

Cada um de nós, numa medida ou<br />

noutra, está nesse caso. Por exemplo,<br />

os mais moços que frequentam<br />

o colégio. Provavelmente ali procuram<br />

ser amáveis e gentis, é uma necessidade<br />

até. Perseguidos, caçoados,<br />

objetos de inimizade, hostilizados<br />

constantemente, é uma reação<br />

normal procurar desarmar o ódio<br />

por meio de atitudes corteses, que<br />

façam sentir à pessoa o infundado, o<br />

inexplicável do ódio.<br />

Porém, notam não adiantar nada!<br />

Aquele que fosse inteira e efetivamente<br />

fiel aos princípios da Santa<br />

Igreja Católica Apostólica Romana,<br />

se não tivesse amigos dentro do nosso<br />

Movimento, viveria sozinho como<br />

o famoso Robinson Crusoé numa<br />

ilha, mas sem o Sexta-feira, seu ajudante.<br />

Ninguém o convidaria, ninguém<br />

o visitaria, ninguém conversaria<br />

com ele... Um isolado, um boicotado.<br />

Por quê? Há algo no fundo das almas<br />

que faz com que elas, vendo o<br />

bem, odeiem.<br />

Isso não é assim só conosco. Em<br />

todos os tempos tem sido desse modo,<br />

com exceção de poucos séculos,<br />

os do Reino de Nosso Senhor Jesus<br />

Cristo, na Idade Média, nos quais o<br />

ambiente era tal que o bem e a virtude<br />

eram procurados e amados e<br />

se perseguia o mal. Mas, a partir da<br />

eclosão da Revolução, cada vez mais<br />

o bem começou a ser perseguido e o<br />

mal exaltado, glorificado. Nisso nós<br />

estamos.<br />

Sendo assim, há um outro lado<br />

que também chama a atenção.<br />

Um mar da amizade<br />

e compreensão<br />

Um rapaz novo que vai aderindo<br />

de alma ao nosso Movimento, espanta-se<br />

com a facilidade em fazer amizades.<br />

Qualquer um com quem ele<br />

trate mostra-se aberto, afável, conversador.<br />

Pode-se sentar à mesa ao<br />

lado deste ou daquele, estão de acordo<br />

em tudo. Talvez até surja a pergunta:<br />

“Que ambiente é este onde<br />

vim parar? Parece um sonho que es-<br />

12


tá se realizando! Tenho a impressão<br />

de nadar dentro da amizade. Assim<br />

como quem nada no mar só encontra<br />

água ao seu redor, também neste<br />

raro mar de amizade e de compreensão,<br />

não importa a quem eu me dirija,<br />

falo sem receio, pois sei que ele<br />

não vai caçoar nem rir nem trair; sei<br />

poder confiar em todos.”<br />

Aí fora, se está no oceano quente<br />

e malcheiroso da hostilidade, aqui,<br />

no mar fresco e perfumado da amizade.<br />

Por essa razão, o jovem não compreende<br />

ausentar-se de nossos ambientes.<br />

Tem, inclusive, a sensação<br />

de um enredo que está prosseguindo<br />

e não o pode perder.<br />

De maneira que quando<br />

passa dias fora, a primeira<br />

medida ao voltar é informar-se,<br />

porque está sempre<br />

acontecendo alguma<br />

coisa que move outra, habitualmente<br />

há algo para<br />

contar, para saber, para<br />

dizer, há uma vida, uma<br />

vitalidade que eu tenho<br />

certeza de não existir fora,<br />

é completamente diferente.<br />

Isso por quê?<br />

O ponto central<br />

Porque, aqui dentro,<br />

olhamo-nos num determinado<br />

ponto com afinidade.<br />

Essa afinidade toma<br />

tanto a alma, que, uma<br />

vez percebida de parte a<br />

parte, as razões de desacordo<br />

desaparecem, tudo<br />

é fácil. Pelo contrário,<br />

com os de fora notamos<br />

nesse mesmo ponto um<br />

desacordo, como eles o<br />

percebem também. O resultado<br />

é que a afinidade<br />

se torna impossível.<br />

Em última análise, é<br />

porque há no homem um<br />

ponto central, uma espécie<br />

de síntese de todas as<br />

virtudes, assim como há um ponto<br />

central, que é como uma síntese dos<br />

defeitos. E quando o revolucionário<br />

nota em alguém um elemento dessa<br />

síntese de virtudes, odeia. Quando,<br />

pelo contrário, duas virtudes se encontram,<br />

há uma mútua estima.<br />

Há, portanto, uma razão que comanda<br />

os amores e os ódios na Terra,<br />

muito mais profunda do que o<br />

“agrada-agrada”. Entre os sócios do<br />

clube nefando da indiferença, aquele<br />

que enche a Terra, isso pesa um<br />

pouco, porque entre si são cúmplices<br />

e vão bem uns com os outros no<br />

fundamental. Eles até se perdoam,<br />

brigam e depois fazem as pazes, se<br />

Deixai que os meninos venham a Mim -<br />

Igreja de Santa Isabel, Nova York<br />

aconchavam e formam extraordinariamente<br />

um só corpo contra os católicos,<br />

desde que estes apareçam<br />

em cena.<br />

E então chegamos à conclusão de<br />

que esse ponto interno da alma por<br />

onde nós, no que há de mais fundo,<br />

amamos a síntese de tudo quanto é<br />

bom, verdadeiro e belo, é algo que,<br />

sendo assim, faz-nos amar a Deus.<br />

Muitas pessoas pensam: “Se Nosso<br />

Senhor Jesus Cristo me aparecesse,<br />

me converteria.”<br />

Eu digo: “Coitado! Leia o Evangelho<br />

e depois venha conversar. Como<br />

isso é errado! Se Nosso Senhor<br />

Jesus Cristo lhe aparecesse, você talvez<br />

O matasse.”<br />

Agnaldo Ferreira<br />

A atratividade do<br />

Homem-Deus<br />

De fato, o caso mais<br />

protuberante da História<br />

– nunca houve ou haverá<br />

igual – se deu com Nosso<br />

Senhor Jesus Cristo.<br />

Ele reunia em Si, num<br />

grau inexcogitável e inimaginável<br />

todas as perfeições<br />

que cabe à natureza<br />

humana ter. Deus nunca<br />

criou um homem com tal<br />

plenitude. E muito mais:<br />

Nosso Senhor Jesus Cristo<br />

– o proclamamos no Credo<br />

– é verdadeiro Deus e<br />

verdadeiro Homem em<br />

virtude da união hipostática<br />

das duas naturezas na<br />

Segunda Pessoa da Santíssima<br />

Trindade.<br />

Sendo Deus, Ele não<br />

é simplesmente perfeito,<br />

é a Perfeição. Ele não é<br />

santo, é a Santidade. Ele<br />

não é bom, é a Bondade.<br />

Ele não é justo, é a Justiça.<br />

Nós podemos ser bons,<br />

justos... Ele não. Ele é, essencialmente,<br />

cada virtude.<br />

13


Reflexões teológicas<br />

Nosso Senhor Jesus Cristo tinha<br />

tudo, tudo, tudo que pudesse atrair<br />

num homem. A sua face divina e todo<br />

o seu corpo representavam perfeitamente<br />

a santidade existente<br />

n’Ele pela união hipostática da natureza<br />

humana com a divina. Era impossível<br />

conhecê-Lo sem ficar cheio<br />

de admiração; bastava ter um pouco<br />

de virtude e de retidão de alma para<br />

ser atraído como por um imã potentíssimo<br />

pela perfeição absoluta<br />

d’Ele.<br />

Além dessa presença inefavelmente<br />

santa, os homens podiam conhecer,<br />

na vida terrena de Nosso Senhor,<br />

a perfeição de tudo quanto<br />

Ele dizia. Comprovamo-lo no Evangelho:<br />

não há uma letra, uma palavra<br />

que não seja uma magnificência.<br />

Basta analisar um pouco<br />

para notar.<br />

Podemos imaginar o<br />

timbre de voz com que<br />

Ele falava. Devia ser<br />

uma voz maravilhosa,<br />

com inflexões incalculáveis<br />

de gravidade, de esplendor,<br />

de leveza, de<br />

gentileza, de atração, de<br />

terror, de majestade, e<br />

tudo quanto Ele dizia era<br />

acentuado pela melodia<br />

da voz, deixando as pessoas<br />

extasiadas.<br />

Consideremos também<br />

o que ele fazia: só<br />

ações admiráveis. A menor<br />

delas, por exemplo,<br />

tomar um copo d’água,<br />

não era como o comum<br />

dos homens o faz... nós<br />

quereríamos nos tornar<br />

água para passar o<br />

tempo inteiro nas mãos<br />

d’Ele!<br />

Como O amaram<br />

tão pouco?<br />

Pois bem, o que aconteceu?<br />

Flávio Lourenço<br />

Ressurreição de Lázaro - Museu da Catedral de Palência<br />

Uma minoria de homens O amou<br />

deveras. Um conjunto maior, uma<br />

periferia mais ampla do que essa<br />

minoria simpatizou com Ele. Uma<br />

maioria numa roda mais ampla ainda<br />

foi indiferente a Ele, e de uma indiferença<br />

meio carregada de antipatia.<br />

Depois, outra roda de antipatia<br />

fácil de se transformar em ódio. E,<br />

por último, a categoria sinistra dos<br />

filhos de Satanás. Os que tinham antipatia<br />

e os indiferentes já eram filhos<br />

de Satanás, mas a paternidade<br />

do demônio era mais patente nos<br />

que O odiavam, e alguns chegaram<br />

à conclusão de ser preciso matá-Lo.<br />

O Evangelho narra terem os fariseus<br />

definitivamente decidido matá-<br />

-Lo por ocasião da ressurreição de<br />

Lázaro. Quando Ele fez o mais estupendo<br />

dos milagres, tramaram a sua<br />

morte. Na hora em que Ele dava a<br />

vida, concluem ser preciso tirar-Lhe<br />

a vida.<br />

Como pode Nosso Senhor ser<br />

amado de um modo tão mesquinho<br />

a ponto de os que mais O amaram,<br />

terem o procedimento lamentável<br />

do Horto das Oliveiras?<br />

E como puderam, os que O amaram<br />

menos ainda, deixar a Paixão<br />

transcorrer, de maneira que de todas<br />

as pessoas que O viram passar –<br />

num sofrimento incalculável! – apenas<br />

uma teve a coragem de ir auxiliá-<br />

-Lo? Foi Verônica e mais ninguém!<br />

Simão de Cirene, que a narração<br />

evangélica menciona no caminho de<br />

Nosso Senhor, entra apenas porque<br />

foi obrigado. Parece que depois se<br />

converteu, mas ele não<br />

queria ajudar a carregar<br />

a Cruz; era um egoísta<br />

cuidando de sua vidinha,<br />

a quem Nosso Senhor,<br />

por uma misericórdia<br />

sem nome, chamou. Ora,<br />

como os homens puderam<br />

amá-Lo tão pouco?<br />

Até lá vai a dureza humana<br />

diante da bondade<br />

de Deus...<br />

O elemento<br />

determinante da<br />

vida de um homem<br />

A partir disso compreendemos<br />

bem o primeiro<br />

mandamento: amar ao<br />

próximo como a si mesmo,<br />

por amor a Deus.<br />

Quando todos amamos<br />

a Deus, o amor entre nós<br />

é simplicíssimo; como de<br />

uma fonte, ele jorra aos<br />

borbotões. Se falta esse<br />

amor ao próximo entre<br />

os bons, é porque está<br />

faltando amor de Deus.<br />

Um exemplo. Entre<br />

nós há ótimos, há bons,<br />

14


há medianos. Se prestarmos atenção,<br />

comprovamos o seguinte: quanto<br />

mais o indivíduo é bom, tanto<br />

mais ele é amigo de todos e tanto<br />

mais é impossível arrastá-lo para<br />

uma briga. Mas, posto diante de<br />

adversários arrogantes da Igreja, da<br />

Religião, ele se empina!<br />

Em sentido oposto, quanto mais<br />

o indivíduo é tíbio, tanto mais ele é<br />

briguento. Ele fica sentido e discute<br />

por qualquer coisa, tem opiniões discordantes,<br />

não é amigo de ninguém<br />

e se queixa porque ninguém é amigo<br />

dele. Está faltando amor de Deus,<br />

elemento determinante de toda verdadeira<br />

amizade, e por isso todo o<br />

resto falta. Como resultado, ele se<br />

torna um foco de discórdia, de mal-<br />

-estar, de egoísmo.<br />

O homem se mede segundo a<br />

orientação desse ponto central em<br />

sua alma. Não estando orientado para<br />

Deus, ele só pode estar orientado<br />

para o demônio. Não há por onde<br />

escapar. No primeiro caso, ele produz<br />

toda espécie de frutos louváveis<br />

e bons; no segundo, ele pode na aparência<br />

realizar muitas obras boas,<br />

mas não passam de veneno.<br />

Execrar o pecado, mas amar<br />

a possibilidade de bem<br />

Algum objetante dirá: “<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong><br />

está pregando o desamor aos pecadores.<br />

Porque ele está dando a entender<br />

que os bons devem amar-<br />

-se entre si, e se amam. Ele tem razão.<br />

Mas, onde está a paciência para<br />

com o pobre pecador que ele deveria<br />

aturar e para o qual ele deveria<br />

ser bom? De acordo com as palavras<br />

de <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong>, o mundo está<br />

dividido em dois circuitos hostis:<br />

um é o dos bons, que se amam<br />

entre si e odeiam os maus; outro<br />

é o dos maus, que amam a si mesmos<br />

e odeiam os bons. E nessa história<br />

não há quem faça o papel do<br />

bom pastor que vai atrás da ovelha,<br />

do pescador de almas que procura o<br />

Oração no Horto - Museu Diocesano de Freising, Alemanha<br />

pecador. Isso está ausente da ideia<br />

do <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong>.”<br />

Essa argumentação é falsa, porque,<br />

na realidade, em face do pecador,<br />

devemos ver o pecado e qualificá-lo<br />

com toda a severidade, para<br />

nosso próprio juízo, e nas nossas<br />

conversas sobre esse indivíduo deixar<br />

isso claro. Ele transgrediu a Lei<br />

de Deus ou da Igreja em tal ponto,<br />

então o qualifico desta maneira.<br />

No entanto, sei pela Fé e vejo que<br />

há ainda alguma coisa nele por onde<br />

pode vir a tornar-se bom e até ótimo.<br />

E, em atenção a isso, eu o amo.<br />

Mas, o que é esse amar? É amar nele<br />

uma possibilidade de bem enquanto<br />

ela exista. Se ela se extinguir, morreu<br />

em mim o amor por ele.<br />

Quando essa possibilidade se extingue?<br />

Com a morte do indivíduo.<br />

Todo homem enquanto está na Terra<br />

tem uma possibilidade mais ou menos<br />

próxima ou mais ou menos remota<br />

de se converter.<br />

Não é verdade – é uma regra muito<br />

complexa – que seja provável que<br />

a totalidade dos pecadores morra arrependida.<br />

Mas sim um certo número<br />

de pecadores. Quantos? Não o sabemos.<br />

O fato de eles poderem vir a<br />

ser de outro modo nos move a amá-<br />

-los, enquanto um esboço de algo<br />

que poderá ser bom. Não como são<br />

agora, mas um projeto deles mesmos,<br />

existente neles como uma semente<br />

numa terra má. Em certo momento<br />

podem melhorar as condições<br />

da terra e a semente começará a germinar.<br />

Em atenção a isso, pode haver paciência,<br />

tolerância, embora muitas<br />

vezes, a pessoa esteja tão, tão endurecida,<br />

que temos a impressão de po-<br />

Flávio Lourenço<br />

15


Reflexões teológicas<br />

Flávio Lourenço<br />

der assegurar que ela não vai se arrepender.<br />

Porém, apesar das aparências<br />

contrárias, a Fé nos ensina existir a<br />

possibilidade de arrependimento.<br />

E por causa dessa possibilidade,<br />

somos bondosos e amáveis, ou somos<br />

enérgicos e dizemos as verdades. Porque,<br />

pensar que fazer bem a uma alma<br />

é apenas deixá-la alegre, é mais<br />

ou menos tão estúpido quanto pensar<br />

ser bom médico apenas aquele cujo<br />

tratamento causa agrado ao corpo,<br />

que só dá pastilhas agradáveis, comprimidos<br />

deliciosos ou remédios que<br />

deixem a pessoa bem à vontade, sem<br />

nada de desagradável. Isso é um charlatão<br />

de feira de diversões.<br />

Assim também nosso trato com<br />

os outros deve muitas vezes ser como<br />

quem repreende, increpa e diz as<br />

verdades com severidade.<br />

Na hora certa, a<br />

palavra certa<br />

Há um feeling, um certo sentido<br />

pelo qual o homem percebe a hora<br />

de dizer a verdade dura e a hora<br />

de praticar o ato bondoso. E nisto<br />

ele acerta sempre, desde que, no seu<br />

trato com os pecadores, não se deixe<br />

dominar por considerações de amor-<br />

-próprio, de birra ou vingança pessoal;<br />

mas seja desinteressado, despretensioso<br />

e deixe todo orgulho e arrogância<br />

de lado. Se ele fizer isso, terá<br />

tato suficiente para assentar o relho<br />

ou ter as palavras de mel no momento<br />

certo.<br />

Em síntese, quando tratarmos<br />

com o pecador, cuidemos de mover-<br />

-nos tomados pelo zelo e pelo amor<br />

a Deus ou pelo horror ao pecado cometido,<br />

que é uma outra forma de<br />

amor a Deus.<br />

A divisa dos carmelitas diz: “Zelo<br />

zelatus sum pro Domino Deo exercituum<br />

– Eu me tomei de um zelo ardente<br />

– zelo zelatus – de um zelo zeloso,<br />

um zelo zelosíssimo, pelo Senhor<br />

Deus dos exércitos!”<br />

A Escritura diz: “Quem poupa a<br />

vara odeia seu filho; quem o ama,<br />

castiga-o na hora precisa” (Pr 13,<br />

24). O amigo que poupa a palavra<br />

severa ao seu amigo, o odeia, não é<br />

verdadeiro amigo. Assim também o<br />

bom católico, tratando com um outro<br />

bom católico ou com um pecador.<br />

<br />

v<br />

Arquivo <strong>Revista</strong><br />

Crucifixão - Igreja de Saint-Germain-en-Laye, França<br />

(Extraído de conferência de<br />

15/2/1986)<br />

16


Hagiografia<br />

Categórico contra os<br />

hereges e relapsos<br />

São Pedro de Alexandria<br />

manteve-se firme e severo na<br />

punição do herege Ario. Aos<br />

fracos e temerosos, oferecia o<br />

perdão e recomendava-lhes<br />

jejuns; mas dos relapsos e<br />

pecadores públicos exigia<br />

categóricas penitências para<br />

desagravar a moralidade pública.<br />

Gabriel K.<br />

Temos a considerar duas<br />

fichas concernentes<br />

a São Pedro de Alexandria,<br />

cuja festa é comemorada<br />

em 25 de novembro.<br />

Advertência divina por<br />

meio de um sonho<br />

O antecedente do fato que será<br />

narrado é que São Pedro de<br />

Alexandria havia excomungado<br />

Ario.<br />

O santo foi preso e Ario temeu<br />

que ele morresse sem lhe dar absolvição.<br />

Pediu, então, aos principais<br />

membros do clero que intercedessem<br />

por ele junto ao bispo.<br />

Os eclesiásticos, uma vez na prisão,<br />

foram visitar São Pedro.<br />

Depois da oração costumeira,<br />

prosternados todos por terra, beijaram<br />

a mão do prelado e disseram:<br />

“Por vosso próximo martírio,<br />

usai de indulgência para com<br />

Ario. Perdoai-o.”<br />

O homem de Deus respondeu-<br />

-lhes com indignação, levantando<br />

as mãos para o céu: “Ousais suplicar<br />

por Ario? Neste mundo e no<br />

outro, ele está para sempre separado<br />

da glória do Filho de Deus,<br />

Nosso Senhor Jesus Cristo.”<br />

Perceberam que uma inspiração<br />

divina levava o bispo a falar<br />

dessa maneira. De fato, mais tarde,<br />

São Pedro contou a um sacerdote,<br />

seu companheiro de prisão,<br />

porque fora aparentemente<br />

tão severo: “Alexandre, a loucura<br />

de Ario ultrapassou toda iniquidade.<br />

O que eu disse, não o disse<br />

por mim mesmo. Esta noite passada,<br />

quando a Deus endereçava<br />

minhas orações e vós dormíeis a<br />

meu lado, apareceu-me um meni-<br />

17


Hagiografia<br />

no de rara beleza, de seus doze anos,<br />

envolto numa luz que eu não podia<br />

suportar. Passada a primeira surpresa,<br />

perguntei-lhe: ‘Senhor Menino, quem<br />

te dilacerou assim as vestes?’<br />

O menino trazia a túnica de linho<br />

rasgada, de alto a baixo, de ambos os<br />

lados.<br />

Respondeu-me: ‘Foi Ario que assim<br />

me pôs.’ E acrescentou em seguida:<br />

‘Guarda-te de o teres na comunhão,<br />

porque amanhã virão interceder por<br />

ele. E diz a Áquila e a Alexandre, que<br />

serão teus sucessores e governarão a<br />

minha Igreja, que também não o recebam.<br />

Quanto a ti, próximo, muito próximo<br />

está o teu fim.’”<br />

Divulgação (CC3.0)<br />

Divulgação (CC3.0)<br />

Severidade para com quem<br />

não tem o coração contrito<br />

O fato é sublime. São Pedro de<br />

Alexandria estava preso e delineava-se<br />

um movimento para que ele,<br />

antes de morrer, perdoasse Ario. O<br />

herege, naturalmente, só queria esse<br />

perdão por maldade, por falsidade,<br />

pois não tinha nenhuma intenção<br />

boa, nenhuma contrição verdadeira.<br />

Ele queria fazer mau uso desse<br />

perdão para, mais uma vez, iludir<br />

Ario<br />

os bons e arrastar um número maior<br />

deles para a perdição.<br />

Para evitar o mal que adviria se<br />

São Pedro atendesse a esse pedido,<br />

houve uma aparição durante a noite.<br />

O Menino Jesus Se manifestou a<br />

São Pedro com os dois lados de sua<br />

veste rasgados – para mostrar exatamente<br />

que Ario tinha agido<br />

assim com a Igreja, a qual<br />

é comparada à túnica de<br />

Cristo –, dizendo: “Não o recebas,<br />

e os teus dois sucessores<br />

que não o recebam também”,<br />

acrescentando que<br />

para Ario, já não havia perdão,<br />

tal era o mal que ele tinha<br />

praticado.<br />

Por aí vemos a severidade<br />

divina até onde pode chegar,<br />

por vezes, em relação a uma<br />

pessoa viva.<br />

Categóricas e belas<br />

formas de penitência<br />

Martírio de São Pedro de Alexandria<br />

São Pedro foi bispo de Alexandria,<br />

ao tempo das perseguições<br />

de Diocleciano, Galério<br />

e Maximino Daia. Ao iniciar-se<br />

a primeira perseguição no tempo de<br />

seu episcopado, prescreveu penitência,<br />

durante a Páscoa, para os católicos<br />

que tivessem cedido aos perseguidores.<br />

Havia católicos que se deixavam<br />

intimidar e que cometiam a abominação<br />

de queimar incenso aos ídolos.<br />

Depois, iam desesperados procurar<br />

a Igreja para pedir perdão.<br />

São Pedro de Alexandria determinou<br />

que se fizessem penitências pelas<br />

ações infames que eles tinham<br />

praticado. Assim, aos que não suportavam<br />

a prisão e a tortura por<br />

causa da fragilidade do corpo, declarava<br />

que quarenta dias de jejum<br />

eram necessários para que se purgassem.<br />

Aos que, tendo sofrido a prisão,<br />

deixavam-se vencer no combate, um<br />

ano de penitência. Aos que nada tendo<br />

sofrido, eram dominados pelo temor<br />

e vinham à penitência, propunha-<br />

-lhes a parábola da figueira estéril: se<br />

depois de um ano apresentassem frutos<br />

dignos, tinham direito de ser socorridos.<br />

Quanto aos impenitentes desesperados,<br />

a esses era dado conhecer<br />

18


a parábola da figueira maldita: não<br />

adianta nada, é preciso cortar e jogar<br />

fora.<br />

Essas eram formas de penitência<br />

extremamente categóricas da Igreja<br />

antiga, mas, ao mesmo tempo, tinham<br />

este aspecto bonito: deixar,<br />

em quase todos os casos, o caminho<br />

aberto para o perdão, exceto para<br />

aqueles que não se penitenciavam.<br />

Aquele era um tempo não apenas<br />

de penitências privadas, mas<br />

também públicas. Quem dava um<br />

escândalo, para ser admitido de novo<br />

aos Sacramentos tinha que sofrer<br />

publicamente um vexame correspondente<br />

ao mal que tinha praticado.<br />

Por aí compreendemos o desagravo<br />

que a moralidade pública recebia<br />

com isso.<br />

O pecado público exige<br />

uma reparação pública<br />

Imaginemos isso transformado<br />

num costume do nosso tempo e entenderemos<br />

o caráter profundamente<br />

salutar dessa lei.<br />

Uma atriz célebre, por exemplo,<br />

que tenha levado uma vida escandalosa,<br />

participando em filmes imorais,<br />

e que queira voltar a receber os Sacramentos,<br />

pode ser recebida com<br />

todo o carinho e com todo o afeto.<br />

Porém, como o seu pecado foi público,<br />

ela deveria comparecer várias<br />

vezes a várias igrejas da diocese onde<br />

mora e ler publicamente um pedido<br />

de perdão a Deus e a todos aqueles<br />

a quem ela escandalizou pelo mal<br />

que fez. Assim se reconstitui a dignidade<br />

pública ultrajada e assim se remedeia<br />

a glória de Deus.<br />

Fazia-se isso num tempo em que as<br />

leis também tinham penas infamantes<br />

para certos crimes civis. Por exemplo,<br />

quem era pego em pecados contra<br />

a carne, como o adultério e outros<br />

semelhantes, era enrolado nu com<br />

uma espécie de cola em grandes camadas,<br />

na qual se grudavam penas de<br />

pato e de galinha. A pessoa ficava toda<br />

ridícula eriçada de penas, mas, ao<br />

mesmo tempo, cuidadosamente coberta,<br />

não aparecia nada. Assim, descalço,<br />

o pecador era obrigado a percorrer<br />

as ruas centrais da cidadezinha<br />

onde morava, com a chacota da molecada,<br />

pois estes não perdem ocasião<br />

para fazer uma festa e<br />

para dizer tudo quanto<br />

lhes ocorra. Depois<br />

a pessoa voltava para<br />

casa e ficava expiado o<br />

que ela fez.<br />

Necessidade<br />

de desagravar<br />

a moralidade<br />

pública<br />

Desse modo a moralidade<br />

pública era<br />

desagravada e o perdão<br />

não significava<br />

uma atitude de fraqueza,<br />

mas de genuína<br />

bondade. Quando isso<br />

é praticado pela Igreja<br />

e pela sociedade temporal,<br />

a moralidade<br />

pública adquire força<br />

para punir todos que a<br />

escandalizam.<br />

Na situação atual,<br />

isso é diferente. O indivíduo<br />

peca e alguém<br />

diz: “Ah, coitado! Vamos<br />

perdoar, não teve<br />

culpa. Tal coisa foi atenuante<br />

para ele. Ai de<br />

quem atirar contra ele<br />

a primeira pedra! Ai<br />

de quem falar mal!” E<br />

quem representa o papel<br />

da moralidade pública<br />

recebe todas as<br />

pedradas se falar algo.<br />

E o pecador continua<br />

comodamente, sem<br />

nenhum desagravo, no<br />

meio dos outros. Isso é<br />

errado.<br />

Temos, pelo exemplo de São Pedro<br />

de Alexandria, uma ideia do valor<br />

das penas públicas que a antiga<br />

Igreja praticava.<br />

v<br />

(Extraído de conferência de<br />

26/11/1965)<br />

<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> em novembro de 1965<br />

Arquivo <strong>Revista</strong><br />

19


De Maria nunquam satis<br />

Fotos: Flávio Lourencço<br />

Apresentação da Virgem<br />

ao Templo -Museu de Belas<br />

Artes de Dijon, França<br />

Belezas e sublimidades da<br />

Apresentação de Nossa Senhora<br />

Embora as aparências indicassem um fato em extremo<br />

comum, a entrada de Nossa Senhora no Templo de<br />

Jerusalém quando ainda criança significou o início da<br />

realização da grande promessa da história da Redenção.<br />

No dia 21 de novembro,<br />

comemora-se a Apresentação<br />

de Nossa Senhora<br />

no Templo. Esta festa possui<br />

alguma beleza especial?<br />

A realização da promessa<br />

Maria Santíssima, eleita desde todos<br />

os séculos, a Raiz de Jessé da<br />

qual haveria de nascer Nosso Senhor<br />

Jesus Cristo, é apresentada no<br />

Templo. A instituição incumbida de<br />

guardar a promessa da vinda do Salvador<br />

recebe Aquela que dá o primeiro<br />

passo para sua realização.<br />

Dá-se uma espécie de encontro<br />

da esperança com a realidade. Nossa<br />

Senhora entra e se consagra ao serviço<br />

de Deus, levando uma alma insondável<br />

e incomparavelmente santa.<br />

Nesse momento, apesar de toda<br />

a putrefação da nação de Israel e de<br />

o Templo ter-se transformado num<br />

covil de fariseus, como Nossa Senhora<br />

estava ligada a ele, entrou ali<br />

uma luz incomparável, que foi exatamente<br />

a santidade d’Ela. Nesse local<br />

Ela começava a sua preparação para,<br />

sem saber, vir a ser Mãe de Nosso<br />

Senhor Jesus Cristo.<br />

20


Na atmosfera e nas graças desse<br />

edifício sagrado, separada para servir<br />

a Deus, Ela foi aumentando de amor<br />

a Ele, até formar o desejo ardente de<br />

que o Messias viesse logo e formular<br />

o pedido de ser uma servidora daquela<br />

que seria a Mãe do Messias, pois<br />

não sabia que seria Ela mesma.<br />

Toda essa santificação preparatória<br />

da vinda de Nosso Senhor, essa<br />

inaudita e assombrosa preparação,<br />

se deu a partir do momento em<br />

que Nossa Senhora se apresentou no<br />

Templo. É essa primeira Apresentação<br />

que a Igreja celebra.<br />

Nossa Senhora se<br />

dirige ao Templo<br />

No livro de Régamey<br />

1 Les plus beaux textes<br />

sur la Vierge, nós encontramos<br />

as seguintes<br />

reflexões baseadas em<br />

São Francisco de Sales:<br />

É um ato de admirável<br />

simplicidade o desta<br />

gloriosa criança que, presa<br />

ao regaço de sua mãe,<br />

não deixa, contudo, de<br />

conversar com a Divina<br />

Majestade. Ela se absteve<br />

de falar até o tempo apropriado<br />

e, ainda então,<br />

só o fazia como as outras<br />

crianças de sua idade,<br />

embora falasse sempre<br />

com muito acerto.<br />

Ela permaneceu como<br />

um suave cordeiro<br />

junto a Santa Ana pelo<br />

espaço de três anos, após<br />

os quais foi conduzida<br />

ao Templo, para aí ser<br />

oferecida como Samuel,<br />

que também foi conduzido<br />

ao Templo por sua<br />

mãe e dedicado ao Senhor<br />

na mesma idade.<br />

Ó meu Deus, como<br />

desejaria poder representar<br />

vivamente a consolação<br />

e a suavidade dessa viagem, desde<br />

a casa de Joaquim até o Templo<br />

de Jerusalém! Que contentamento demonstrava<br />

essa criança vendo chegar<br />

a hora que tanto desejara!<br />

Os que iam ao Templo para adorar<br />

e oferecer seus dons à Divina Majestade<br />

cantavam ao longo da viagem.<br />

E para isso o real profeta Davi compusera<br />

expressamente um salmo, que<br />

a Santa Igreja nos faz repetir todos os<br />

dias no Ofício Divino. Ele começa pelas<br />

palavras: “Beati immaculati in<br />

via”: “Bem-aventurados são aqueles,<br />

Senhor, que caminham na tua via sem<br />

A Virgem rezando - Galeria Nacional de Úmbria, Itália<br />

mácula, sem mancha de pecado”(Sl<br />

118, 1).<br />

“Na tua via”, quer dizer na observância<br />

dos teus Mandamentos.<br />

Os bem-aventurados São Joaquim<br />

e Santa Ana cantaram então esse cântico<br />

ao longo do caminho, e nossa gloriosa<br />

Senhora e Rainha com eles.<br />

Ó Deus, que melodia! Como Ela a<br />

entoava mil vezes mais graciosamente<br />

que os Anjos! Por isso ficaram eles<br />

de tal forma admirados que, aos grupos,<br />

vinham escutar essa celeste harmonia<br />

e, os Céus abertos, inclinavam-<br />

-se nos alpendres da Jerusalém Celeste<br />

para olhar e admirar essa<br />

amabilíssima criança.<br />

Eu quis dizer-vos isso,<br />

embora rapidamente,<br />

para que tenhais com<br />

que vos entreter o resto<br />

deste dia, considerando a<br />

suavidade dessa viagem;<br />

também para que fiqueis<br />

comovidos escutando esse<br />

cântico divino que<br />

nossa gloriosa Princesa<br />

entoa tão melodicamente,<br />

e isso com os ouvidos<br />

de vossa devoção, porque<br />

o muito feliz São Bernardo<br />

diz que a devoção é o<br />

ouvido da alma.<br />

Uma infância<br />

comum, mas cheia<br />

de sabedoria e<br />

contemplação<br />

O fundamento teológico<br />

de tudo quanto está<br />

dito aqui é a Imaculada<br />

Conceição de Nossa<br />

Senhora.<br />

Como, desde o primeiro<br />

instante de seu<br />

ser, Ela foi concebida<br />

sem pecado original,<br />

não tinha as limitações<br />

inerentes a ele. E entre<br />

essas limitações está<br />

21


De Maria nunquam satis<br />

o fato de a pessoa nascer inteligente,<br />

mas sem o uso da sua inteligência. Esse<br />

uso só vem mais tarde, com o desenvolvimento<br />

do corpo.<br />

Nossa Senhora teve, desde o primeiro<br />

instante, o uso da sua inteligência<br />

de modo altíssimo. Na infância<br />

d’Ela, como na de Nosso Senhor –<br />

e na d’Ele com uma sublimidade desconcertante<br />

–, reuniam-se, num contraste<br />

admirável, aspectos aparentemente<br />

contraditórios. De um lado<br />

Ela tinha uma contemplação que, a<br />

meu ver, era maior que a dos maiores<br />

Santos da Igreja, quando Ela estava<br />

ainda nos primeiros passos de sua vida.<br />

Mas, de outro lado, Ela mantinha<br />

toda a atitude de uma criança e não<br />

fazia uso externo disso, de sua sabedoria,<br />

querendo, por humildade, viver<br />

como uma criança qualquer.<br />

De maneira tal que, quem tratasse<br />

com Ela, a não ser por alguma expressão<br />

de olhar ou algo semelhante,<br />

teria a sensação de estar tratando<br />

com uma criança comum, igual<br />

às demais, como Nosso Senhor Jesus<br />

Cristo que em todas as suas manifestações<br />

externas era como uma<br />

criança e, como tal, quis ser nutrido,<br />

guardado, pajeado como uma criança,<br />

embora fosse Deus, soberano Senhor<br />

e Rei do Céu e da Terra; mas<br />

em todas as suas manifestações externas<br />

era como uma criança.<br />

Podemos imaginar na vida quotidiana<br />

de São José e de Nossa Senhora,<br />

o momento em que era preciso<br />

dar-Lhe leite ou trocar-Lhe as<br />

roupas. Eles O pegavam, colocavam-<br />

-No sobre uma mesa e vestiam-No<br />

com uma roupinha. Ver Aquele que<br />

eles sabiam ser Deus, a Segunda Pessoa<br />

da Santíssima Trindade hipostaticamente<br />

unida à natureza humana,<br />

o Qual estava nos esplendores das<br />

alegrias, da majestade e da grandeza<br />

da divindade e, ao mesmo tempo,<br />

era aquela criancinha que ria, não só<br />

fazendo que não entendia, mas com<br />

uma certa autenticidade nesse não<br />

entender, embora entendesse!<br />

Pois bem, algo semelhante se dava<br />

também com São Joaquim e Santa<br />

Ana. Não sei se eles sabiam que<br />

Nossa Senhora seria a Mãe do Verbo<br />

Encarnado, mas certamente sabiam<br />

ser Ela uma Menina designada<br />

a altíssimas coisas em ordem ao<br />

Messias. E essa Menina levava a vida<br />

de uma criancinha.<br />

Beleza dos contrastes<br />

harmônicos<br />

Menino Jesus na Manjedoura - Igreja de São João, Freising, Alemanha<br />

Isso nos faz compreender como se<br />

ajustam esses aspectos da benignidade<br />

extrema de Deus Nosso Senhor, da extrema<br />

afabilidade, de extrema acessibilidade,<br />

da extrema bondade de Nossa<br />

Senhora, com uma grandeza de que<br />

os maiores homens da Terra não são<br />

senão uma minúscula figura.<br />

Por quê? Porque Nossa Senhora<br />

quis que as coisas fossem assim e,<br />

sendo Rainha incomparável, Ela era,<br />

ao mesmo tempo, Menina simplicíssima.<br />

O que, aliás, Santa Teresinha do<br />

Menino Jesus, discorrendo a respeito<br />

do modo de pregar sobre Nossa Senhora,<br />

comenta muito bem, dizendo<br />

que ela gostaria de fazer um sermão<br />

à sua maneira, ou seja, mostrando em<br />

Nossa Senhora todo esse lado de simplicidade,<br />

de acessibilidade, a ponto<br />

de comportar-se como uma criancinha<br />

obediente a seus pais, sendo a<br />

Rainha do Céu e da Terra. 2<br />

Esses contrastes harmônicos têm<br />

uma tal beleza em si mesmos, que eu<br />

22


até digo que desdouramos o assunto<br />

tratando longamente dele. Porque<br />

eles têm qualquer coisa de insondável,<br />

sendo melhor mantermos silêncio do<br />

que propriamente os comentarmos.<br />

Uma Menina com voz<br />

inefável caminha cantando<br />

o Salmo de Davi<br />

Ora, segundo uma tradição muito<br />

generalizada, foi Nossa Senhora,<br />

nessas condições, aos 3 anos de idade,<br />

levada ao Templo, cantando durante<br />

o percurso, como os judeus<br />

costumavam fazer naquela época. É<br />

um fato lindíssimo!<br />

O Templo ficava em Jerusalém.<br />

Em outros locais havia sinagogas para<br />

rezar; mas, para fazer os sacrifícios,<br />

somente o Templo de Jerusalém.<br />

Os judeus de toda a nação, como<br />

também os da diáspora dispersos pelo<br />

mundo inteiro, iam periodicamente<br />

a Jerusalém para participar do sacrifício<br />

no Templo. E como era motivo<br />

de alegria ir aonde se manifestavam a<br />

glória e as consolações de Deus, ao lugar<br />

que representava o vínculo entre o<br />

Céu e a Terra, era bonito que fossem<br />

cantando, como tantas vezes acontecia<br />

em romarias antigas.<br />

Os métodos de locomoção modernos<br />

conspiram contra o canto.<br />

Não se pode imaginar uma pessoa<br />

num subúrbio, partindo para Aparecida<br />

de trem, este a toda velocidade<br />

e ela cantando dentro dele. É melhor<br />

cantar do que não cantar. Mas, como<br />

é mais bonito ir a pé, pousando de<br />

quando em quando, parando, cantando,<br />

tocando para frente! Como isso<br />

tem outra plenitude humana, outra<br />

harmonia natural que o canto dentro<br />

de uma locomotiva não tem. Pior é o<br />

canto enlatado dentro do ônibus. Eu<br />

sou pouco viajante com este veículo,<br />

mas, presumo, há uma tal conjugação<br />

da lataria contra a harmonia, que<br />

cantar ali se torna impossível.<br />

Imaginemos a beleza, quando<br />

chegava o mês da visita ao Templo,<br />

Santa Ana ensinando a Virgem a rezar - Museu de Belas Artes de Angers, França<br />

os judeus de todos os lados irem cantando<br />

até ele. E a nação judaica se<br />

encher, nos seus caminhos, de cânticos<br />

de todos os lados.<br />

Por isso São Francisco de Sales<br />

imagina como algo normalmente<br />

certo, que quando Nossa Senhora se<br />

dirigiu ao Templo, foi cantando com<br />

São Joaquim e Santa Ana.<br />

Como seria o cântico da Menina,<br />

entoando com uma voz inefável<br />

o salmo que Davi, por inspiração do<br />

Espírito Santo, havia composto para<br />

essa circunstância!<br />

Ora, com uma finura de tato extraordinária,<br />

São Francisco de Sales não<br />

fala da impressão que esse canto produziu<br />

nos homens, porque precisamente<br />

como Nossa Senhora não manifestava<br />

a sua grandeza, era possível<br />

que Ela não cantasse com toda a perfeição<br />

com que sabia cantar. O cântico<br />

de Nossa Senhora teria de ser o cântico<br />

por excelência. Antes e depois<br />

d’Ela ninguém cantou melhor, exceto<br />

Nosso Senhor Jesus Cristo. E depois<br />

disso, nenhum cântico foi cântico.<br />

Isso nos faz imaginar outra coisa:<br />

os Anjos ouvindo o cântico d’Ela, porque<br />

eles ouviam as harmonias de alma<br />

com que Ela cantava, e isso os extasiava.<br />

E, como se pode comparar o Céu a<br />

uma cidade, a Jerusalém Celeste, São<br />

Francisco diz que dos alpendres ou<br />

dos terraços da Jerusalém Celeste, os<br />

Anjos debruçavam-se para ver Nossa<br />

23


De Maria nunquam satis<br />

estremecer o edifício todo. Deu-se aí<br />

o fim da história desse lugar.<br />

Primeiro passo da<br />

plenitude do Templo<br />

Apresentação da Virgem ao Templo - Convento Mãe de Deus, Lisboa<br />

Senhora cantando pelos caminhos da<br />

Judeia, e era para eles, então, um gáudio<br />

inexprimível, embora os homens<br />

ignorassem aquele canto.<br />

Eu confesso que não conheço<br />

ideia mais apropriada para essa circunstância,<br />

nem mais bonita. Um<br />

pensamento mais belo do que esse<br />

só poderia haver no momento em<br />

que imaginássemos Nossa Senhora<br />

entrando no Templo.<br />

Depois da grande plenitude,<br />

veio a grande tragédia<br />

O Templo de Jerusalém, na sua majestade<br />

sacral, na sua grandeza, ainda<br />

habitado pela glória do Padre Eterno,<br />

onde se realizavam sacrifícios, era o<br />

lugar mais sagrado da Terra.<br />

Meditemos no estremecimento de<br />

alegria de todos os Anjos que pairavam<br />

ali no momento em que Nossa<br />

Senhora entrou pela primeira vez,<br />

como uma rainha naquilo que lhe é<br />

próprio, como a joia no escrínio onde<br />

deve ser guardada.<br />

Os Anjos sabiam que a grande<br />

história e, ao mesmo tempo, a grande<br />

tragédia do Templo ia se realizar.<br />

O Messias entraria no Templo<br />

e este iria recusá-Lo. E o fim dessa<br />

tragédia seria aquilo que Bossuet<br />

chamou magnificamente de as pompas<br />

fúnebres de Nosso Senhor Jesus<br />

Cristo, referindo-se ao momento<br />

em que Ele morreu e o Padre Eterno<br />

começou a preparar funerais: o<br />

céu se obscureceu, o Sol se toldou, a<br />

terra tremeu, e, diz Bossuet, os Anjos<br />

sacudiram o Templo com indignação.<br />

A meu ver, os Anjos receberam ordem<br />

de entregar o Templo aos demônios,<br />

e estes fizeram ali abominações,<br />

à maneira de cem mil gatos selvagens<br />

soltos dentro do lugar sagrado, ou<br />

qualquer coisa desse gênero, fazendo<br />

Mas, antes disso, o Templo conheceu<br />

sua plenitude quando Nossa Senhora<br />

levou até ele o Menino Jesus,<br />

e Ana e Simeão, que representavam a<br />

fidelidade da nação, receberam-Nos.<br />

Aí os fiéis reconheceram o Enviado e<br />

se fechou o elo entre os justos da Antiga<br />

Lei e a promessa que se cumpria.<br />

Entretanto, Nossa Senhora, quando<br />

entrou no Templo ainda Menina,<br />

no momento de sua Apresentação,<br />

realizava o primeiro passo nessa<br />

plenitude da história do Templo<br />

de Jerusalém. O que os “Simeões”<br />

e as “Anas” que havia por lá naquele<br />

momento devem ter sentido?<br />

Quais graças e fulgurações do Espírito<br />

Santo deve ter havido ali nessa<br />

ocasião? Ninguém poderá dizê-lo, a<br />

não ser no fim do mundo.<br />

Sigamos o conselho do suavíssimo<br />

São Francisco de Sales e fiquemos<br />

com todas essas recordações em<br />

nossas almas; pensemos nelas suave<br />

e alegremente, tanto quanto possível<br />

ao cabo de um dia de luta: Nossa Senhora<br />

cantando pelos caminhos, entrando<br />

no Templo de Jerusalém e,<br />

dos alpendres da Jerusalém Celeste,<br />

os mais altos Anjos embevecidos<br />

com a alma dessa Menina.<br />

Esta é uma meditação muito adequada<br />

para o dia da Apresentação<br />

de Nossa Senhora. v<br />

(Extraído de conferências de 20 e<br />

21/11/1965)<br />

1) RÉGAMEY, Pie, OP. Les plus beaux<br />

textes sur la Vierge Marie. Paris: La<br />

Colombe, 1941, p. 229-230.<br />

2) SAINTE THÉRÈSE DE L’ENFANT-<br />

-JÉSUS ET DE LA SAINTE-FA-<br />

CE. Œuvres complètes. Les Éditions<br />

du Cerf et Desclée de Brouwer, Paris:<br />

1992, p.1102-1103.<br />

24


Denúncia profética<br />

“Quem avisa,<br />

Kristian Pikner (CC3.0)<br />

amigo é”<br />

Em artigo publicado em 1981, <strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong><br />

lança um alerta tão atual que parece ter sido<br />

dirigido à opinião pública de nossos dias.<br />

T<br />

ensões, crises? É só do que se<br />

ouve falar. Nem a atenção se<br />

põe em qualquer ponto do horizonte,<br />

por mais remoto que seja, sem as<br />

discernir, corroendo à térmita ou derrubando<br />

à bulldozer, aqui, lá e acolá.<br />

“Aqui”: o que quer dizer isto?<br />

Sim, aqui mesmo. Isto é, no Brasil,<br />

em São Paulo, em torno de cada<br />

um, dentro mesmo de tantos e tantos!<br />

Tensões e crises, tanto do corpo<br />

quanto da alma.<br />

Atmosfera de<br />

despreocupação dos anos 30<br />

Como vão longe os anos 30 em<br />

que a média das pessoas não tomava<br />

remédios porque não adoecia. Ou<br />

Werner Haberkorn (CC3.0)<br />

Vale do Anhangabaú<br />

na primeira metade<br />

do século XX<br />

25


Denúncia profética<br />

Johannes Groll (CC3.0)<br />

Saúde e gosto de viver conferiam<br />

à sociedade humana um reluzimento<br />

de estabilidade distendida e farta,<br />

e de alegre expectativa quanto aos<br />

dias vindouros.<br />

O homem superficial de então<br />

preferia não comentar a imoralidade<br />

que, entretanto, se avolumava<br />

nos ambientes insensíveis ao renouveau<br />

católico. Nem dar atenção aos<br />

fatores de agitação social e econômica,<br />

os quais cresciam mais rápidos do<br />

que o progresso industrial.<br />

Etapas da derrocada de um<br />

mundo ávido de prazer<br />

porque, quando acontecia de adoecer,<br />

era tão levemente que a saúde<br />

robusta triunfava com o mero concurso<br />

de algum ingênuo remédio caseiro,<br />

ou com certa atitude de alma,<br />

levemente estoica, que o zé-povinho<br />

rotulava pitorescamente “chá de<br />

pouco caso”.<br />

Não só as saúdes eram habitualmente<br />

boas, mas as almas eram desanuviadas,<br />

tanto quanto neste vale<br />

de lágrimas se possa ser... Por todos<br />

os lados se trabalhava. Mas em vários<br />

lados também se rezava. Rezava-se<br />

até mais do que nos anos 20.<br />

A grande renovação religiosa trazida<br />

pelo surto das Congregações<br />

Marianas soprava sobre o Brasil, de<br />

ponta a ponta. E havia alegria também,<br />

notadamente nas burguesias<br />

média e pequena, e na classe operária.<br />

Alegria na vida das famílias, resultante,<br />

em certa medida, dos elementos<br />

saudáveis de uma tradição<br />

cristã que teimava em não morrer.<br />

Alegria comunicativa, largamente<br />

refletida nas páginas dos jornais, e<br />

mais ainda nas das revistas. E que<br />

repercutia nas vitrolas e nos rádios,<br />

com os quais se deliciavam os contemporâneos.<br />

<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> em 1981<br />

De repente, eis que sobre o grande<br />

festival alegre, gaiato, porém não<br />

sem traços de dignidade, projetou-se<br />

uma luz inesperada.<br />

De 25 para 26 de janeiro de 1938,<br />

Portugal inteiro estremeceu, pois<br />

aparecera nos céus noturnos da Lusitânia<br />

fenômeno jamais visto, isto é,<br />

uma imensa aurora boreal. O povo,<br />

quiçá impressionado pela perspectiva<br />

dos castigos com que, no declínio<br />

da Primeira Guerra Mundial, Nossa<br />

Senhora de Fátima, pela voz de Lúcia,<br />

Jacinta e Francisco, ameaçara o<br />

mundo impenitente – difusão dos erros<br />

da Rússia por toda a Terra, nova<br />

guerra mundial, nações que desapareceriam<br />

etc. –, punha-se a rezar pelas<br />

ruas, temendo a justiça de Deus.<br />

Sinos tocavam, as igrejas se enchiam.<br />

Amanheceu normalmente o dia e a<br />

vida continuou. Em outras nações em<br />

que houvera a aurora boreal – o fenômeno<br />

foi visto até na Itália e na Grécia<br />

– ninguém se incomodara. Algum tanto<br />

tendenciosamente informada pelas<br />

Arquivo <strong>Revista</strong><br />

26


agências noticiosas internacionais, a<br />

opinião pública de todos os países pôs-<br />

-se a rir: “Esse Portugal...”<br />

Mas veio o castigo. Em março de<br />

38, a Alemanha anexava a Áustria.<br />

Em outubro, os sudetos. Em março<br />

do ano seguinte foram invadidos<br />

a Checoslováquia e o Memel (Lituânia).<br />

Em setembro a Polônia. A<br />

guerra começara.<br />

Essas foram as etapas da derrocada<br />

de um mundo, o qual só queria<br />

uma existência terrena impregnada<br />

do prazer de viver.<br />

Novo prenúncio de castigos?<br />

Já registrei quanto é diferente o<br />

mundo de hoje. Padecimentos no<br />

corpo de quase cada um. Padecimento<br />

das almas interesseiras, porque<br />

veem vãs as suas cobiças, no socialismo<br />

e na decadência. Padecimento<br />

das almas desinteressadas,<br />

por verem os padecimentos dos interesseiros.<br />

Padecimento dos que<br />

não têm fé, porque não a têm. Padecimento<br />

dos que têm Fé, por verem<br />

o estado em que se encontra a Santa<br />

Igreja de Deus... de tanta prostração<br />

que se diria não a terem podido<br />

prever, há algumas décadas, nem sequer<br />

os Anjos de Deus, no mais alto<br />

dos Céus!<br />

Dir-se-ia que em todos zumbe,<br />

consciente ou inconsciente, confessado<br />

ou inconfessado, o receio de algo<br />

que vai acontecer.<br />

Neste quadro, ocorre um fenômeno<br />

análogo ao de 1938. Na noite de<br />

12 de abril, um forte clarão avermelhado,<br />

visto também com tonalidades<br />

esverdeadas, alaranjadas e amarelo<br />

claro, iluminou o céu dos Estados<br />

Unidos. O fenômeno foi observado<br />

em mais de dois terços do território<br />

norte-americano, na Costa<br />

Oeste, no Meio-oeste e em todo o<br />

Sul, até o Golfo do México. A noite<br />

ficou tão clara, que automóveis transitavam<br />

de faróis apagados.<br />

Qual a causa do fenômeno? Nuvens<br />

luminescentes, aurora boreal?<br />

Cientistas abalizados discutem.<br />

Quanto às auroras boreais, são raramente<br />

visíveis ao sul do paralelo 50<br />

e inteiramente excepcionais no paralelo<br />

30, onde se situa a costa Sul dos<br />

Estados Unidos, no Golfo do México.<br />

O fenômeno do dia 12 de abril<br />

foi registrado pelo Serviço Nacional<br />

de Meteorologia, pela Administração<br />

Oceânica e Atmosférica Nacional<br />

em Boulder, Colorado, e pela<br />

NASA.<br />

Novo sinal, a ameaçar de novos<br />

castigos uma humanidade cuja impenitência<br />

vem afrontando Nossa Senhora<br />

de Fátima? Explosão, desta<br />

vez ocorrida não mais em um mundo<br />

alegre, que não a esperava, mas em<br />

um mundo opresso, desvairado e impenitente?<br />

Em um mundo cujos pecados<br />

vão assumindo todas as modalidades<br />

do escândalo?<br />

Sinto a antipatia de alguns leitores<br />

contra a hipótese que acabo de<br />

lançar. Essa antipatia não provirá do<br />

fato de que desperto pressentimentos<br />

presentes neles sem que ousem<br />

confessá-los a si próprios? Neste caso,<br />

suas antipatias não serão tanto<br />

mais acirradas quanto mais sintam,<br />

em seu foro íntimo, que minha hipótese<br />

tem razão de ser?<br />

Pergunto-o com ânimo cristão para<br />

com todos, inclusive para com esses<br />

caros antipatizantes. Parece que<br />

o fenômeno luminoso insólito de<br />

1981 é simétrico com o de 1938. Assim,<br />

penso ser razoável conjeturar<br />

que a suite de 1981 será simétrica<br />

com a de 1938.<br />

“Quem avisa amigo é.” Meu comentário<br />

é feito à vista de que ainda<br />

é tempo de orar, de mudar de vida, e<br />

assim de evitar o castigo que ameaça<br />

as nações.<br />

Meditemos e peçamos juntos a<br />

Nossa Senhora de Fátima, para que<br />

os homens se emendem e o castigo<br />

seja assim evitado, na medida do<br />

possível.<br />

v<br />

(Cf. Folha de São Paulo, 9/5/1981)<br />

Teodoro Reis<br />

27


Eco fidelíssimo da Igreja<br />

Carlos C.<br />

Purgatório: união entre<br />

justiça e misericórdia<br />

Um só pecado venial pode acarretar para nossas almas atrozes<br />

tormentos nas chamas do Purgatório; ali, apesar de ser um lugar<br />

terrível, é também uma das obras-primas da misericórdia de Deus.<br />

No dia 2 de novembro celebra-se<br />

a comemoração<br />

dos fiéis defuntos. A este<br />

propósito parece-me interessante<br />

considerarmos a gravidade das<br />

penas do Purgatório e a situação de<br />

uma alma que ali se encontra.<br />

Promessa e certeza de<br />

regozijo sem fim<br />

O Purgatório é uma das obras-primas<br />

de Deus, um dos aspectos mais<br />

maravilhosos da Doutrina Católica,<br />

com o qual a Igreja nos mostra<br />

o equilíbrio da sabedoria divina reluzindo<br />

de um modo muito especial,<br />

pois nele Deus manifesta a conjunção<br />

entre sua justiça e sua misericórdia,<br />

bem como o papel de Nossa Senhora,<br />

de um modo verdadeiramente<br />

magnífico, fazendo-nos ver uma<br />

dupla posição de Deus, que desconcerta<br />

o comum das pessoas.<br />

De um lado, vemos como Ele ama<br />

as almas que estão ali. As pessoas que<br />

morreram na graça de Deus têm a suprema<br />

alegria e consolação de possuir<br />

a promessa – e sem a menor sombra<br />

de dúvida – de que chegarão ao Céu.<br />

Essa garantia e essa certeza, sobretudo<br />

para almas que não estão mais ligadas<br />

a corpos mortais e não veem<br />

as coisas com a fraqueza que um homem<br />

vê nesta vida, almas que sabem<br />

muito melhor do que nós o que é a<br />

eternidade, para essas é um regozijo<br />

sem fim, porque sabem que gozarão<br />

do amor de Deus, da visão beatífica.<br />

Compreendem que mil anos<br />

passados na presença d’Ele são como<br />

um dia. Conhecem também que tudo<br />

quanto elas sofrerem no Purgatório<br />

é pouca coisa em comparação com o<br />

oceano de deleites, de alegria e de felicidade<br />

que as espera no Céu.<br />

Compreendemos, assim, como<br />

Deus ama a alma que vai para o Purgatório,<br />

a ponto de lhe dizer: “Tu és<br />

minha filha dileta! Durante toda a<br />

eternidade Me contemplarás, e Eu,<br />

de dentro de minha felicidade substancial<br />

e perfeita, terei a alegria de<br />

contemplar-te.”<br />

Um local de terríveis<br />

padecimentos<br />

Consideremos, de outro lado, a<br />

imensidade dos tormentos do Purgatório,<br />

onde há um fogo análogo ao<br />

do Inferno. Santo Afonso de Ligório<br />

dizia que as chamas desta Terra<br />

estão para as do Inferno como uma<br />

chama pintada está para a real. Portanto,<br />

o fogo do Inferno queima e<br />

28


faz sofrer mais do que o fogo deste<br />

mundo; ele é como os sofrimentos<br />

de uma pessoa atirada a um braseiro<br />

em comparação aos de alguém que<br />

apenas passa a mão sobre um quadro<br />

representando uma fogueira.<br />

As almas vão para o Purgatório e<br />

ali ficam, às vezes mil anos ou mais, algumas<br />

até o fim do mundo, penando,<br />

penitenciando-se com resignação, mas<br />

com um sofrimento inenarrável. Pode<br />

ter havido almas condenadas ao Purgatório<br />

antes de Nosso Senhor nascer<br />

e que só serão libertas no último dia...<br />

Pois bem, esse tormento atroz,<br />

que nos racharia a alma se pudéssemos<br />

contemplá-lo, é destinado àqueles<br />

a quem Deus ama.<br />

Compreendemos assim a gravidade<br />

do pecado venial, do qual Deus<br />

tem tal horror, que a pessoa morre<br />

e vai penar no Purgatório por causa<br />

dele. Às vezes são pecados mortais<br />

já perdoados, mas pelos quais a pessoa<br />

precisa sofrer um castigo.<br />

Maria de Ágreda teve uma visão<br />

na qual uma rainha da Espanha entrava<br />

em seu quarto, toda vestida<br />

com roupa de corte, mas em chamas.<br />

Então a religiosa lhe perguntou:<br />

— Por que estais assim, nesta situação?<br />

Ao que a rainha lhe respondeu:<br />

— Encontro-me neste estado porque<br />

quando eu vivia na Terra não<br />

combati nem favoreci o uso de trajes<br />

mundanos na corte. Se tivesse favorecido,<br />

por uma série de circunstâncias<br />

eu teria perdido a minha alma e<br />

estaria no Inferno. Entretanto, como<br />

também não combati, encontro-me<br />

no Purgatório, e o meu tormento é<br />

estar revestida em fogo com o traje<br />

mundano que na Terra usava.<br />

É claro tratar-se de um símbolo,<br />

pois uma alma não pode se vestir com<br />

um traje material. Era um tormento<br />

infligido à alma, à maneira do que seria<br />

para o corpo usar um traje de fogo.<br />

Vai para o Purgatório quem pecou<br />

e tem algo a ser purificado. Como<br />

devemos ter horror ao pecado,<br />

compete-nos desejar ir para o Céu<br />

sem precisar passar por esse lugar de<br />

padecimentos.<br />

Convite à integridade e<br />

à execração do pecado<br />

Santa Teresinha do Menino Jesus dizia<br />

que, se para salvar as almas ela devesse<br />

ir ao Purgatório e ficar lá durante<br />

um tempo indefinido – desde que não<br />

fosse em consequência de um pecado<br />

e ela pudesse continuar a amar a Deus<br />

–, ela aceitaria. É de arrepiar! Isso ela<br />

aceitaria por cada um de nós, tal é o valor<br />

de uma alma. Santa Teresinha faria<br />

isso por nossas almas. O que nós fazemos<br />

por nossa própria alma? Facilidades,<br />

imprudências, negligências de toda<br />

ordem… Eis o que fazemos.<br />

Por exemplo, para qualquer pessoa<br />

a vaidade é um pecado venial.<br />

Portanto, a faceirice o é também; logo,<br />

olhar-se no espelho mais do que<br />

o necessário é um pecado venial. E o<br />

necessário neste caso é apenas o indispensável<br />

para a pessoa ver se está<br />

composta, mais nada. Olhar mais do<br />

que isso é faceirice.<br />

Imaginem que alguém dissesse:<br />

“Olhar para o espelho dá câncer no<br />

rosto. As pessoas que olham para o espelho<br />

apenas de um modo muito furtivo,<br />

quando tiverem entre 70 e 80 anos<br />

estarão com câncer no rosto.” Com<br />

que olhares furtivos olharíamos para<br />

o espelho! Haveria gente capaz de<br />

fugir dos espelhos, quebrar todos os<br />

existentes em casa e dizer: “Achem de<br />

mim o que quiserem; câncer no rosto<br />

eu não quero!” Ora, o que a pessoa vai<br />

sofrer no Purgatório por se ter olhado<br />

no espelho mais do que o razoável é<br />

pior do que o câncer no rosto.<br />

Isso vale para a mentira também.<br />

Se mentir provocasse câncer na língua,<br />

quanta gente passaria a ser veraz!<br />

Contudo, o que a mentira vai lhes proporcionar<br />

no Purgatório é muito pior.<br />

Peçamos a Nossa Senhora que<br />

nos transforme e nos dê a graça de<br />

compreender bem o que é o Purgatório<br />

e todos os riscos que nossas almas<br />

correm de ir parar lá; de execrar<br />

o pecado venial que Deus tanto detesta;<br />

de não termos almas equívocas<br />

que vivem num terreno pantanoso<br />

entre o estado de graça e o pecado,<br />

mas almas limpas e íntegras, que<br />

não fazem concessão alguma a nenhum<br />

pecado e que, por causa disto,<br />

agradem inteiramente a Deus. v<br />

(Extraído de conferência de<br />

2/11/1970)<br />

Flávio Lourenço<br />

29


Flávio Lourenço<br />

C<br />

alendário<br />

São Jacinto Castañeda<br />

(7 de novembro)<br />

1. Beatos Pedro Paulo Navarro,<br />

presbítero, Dionísio Fujishima<br />

e Pedro Onizuka Sandayu, religiosos,<br />

e Clemente Kyuemon, mártires<br />

(†1622). Em testemunho da Fé Católica<br />

foram lançados na fogueira, em<br />

Shimabara, no Japão.<br />

2. Comemoração de todos os fiéis<br />

defuntos.<br />

São Malaquias, bispo (†1148). Regeu<br />

a diocese de Down e Connor, na Irlanda.<br />

Ao se dirigir a Roma, entregou o seu<br />

espírito ao Senhor na presença do abade<br />

São Bernardo, no mosteiro de Claraval.<br />

3. Solenidade de Todos os Santos.<br />

(no Brasil, transferida do dia 1º).<br />

São Martinho de Porres, religioso<br />

(†1639).<br />

4. São Carlos Borromeu, bispo<br />

(†1584).<br />

Santos Vital e Agrícola, mártires<br />

(†304). Segundo narra Santo Ambró-<br />

dos Santos – ––––––<br />

sio, Agrícola era servo de Vital. Tornou-se<br />

seu irmão na fé e companheiro<br />

no martírio.<br />

5. São Fibício, bispo (†c. 450).<br />

São Guido Maria Confórti, bispo<br />

(†1931). Fundou, em Parma, na Itália<br />

a Pia Sociedade de São Francisco Xavier,<br />

para a evangelização dos povos.<br />

6. São Paulo, Patriarca de Constantinopla<br />

(†c. 351). Por defender a Fé<br />

nicena, foi perseguido e expulso de<br />

sua cátedra diversas vezes pelos arianos,<br />

até que foi desterrado pelo imperador<br />

Constâncio para Cucuso, onde,<br />

segundo a tradição, foi estrangulado<br />

pelos mesmos hereges arianos.<br />

7. São Prosdócimo, bispo (†s. III).<br />

Considerado primeiro bispo da Igreja<br />

em Pádua, na Venécia, atual Vêneto.<br />

Santos Jacinto Castañeda e Vicente<br />

Lê Quang Liêm, presbíteros e mártires<br />

(†1773). Dominicanos martirizados em<br />

Ket Cho, cidade do Tonquim, Vietnã.<br />

8. São Vileado, bispo (†789). Natural<br />

da Nortúmbria, foi amigo de Alcuíno,<br />

propagou o Evangelho depois de<br />

São Bonifácio, na Frísia e na Saxônia;<br />

ordenado bispo, constituiu a sede de<br />

Bremen e governou-a com sabedoria.<br />

Beato João Duns Escoto, presbítero<br />

(†1308). Oriundo da Escócia, entrou<br />

para a Ordem Franciscana, ensinou<br />

como mestre insigne as disciplinas<br />

filosóficas em Cambridge, Oxford, Paris<br />

e finalmente em Colônia; tornou-se<br />

notável por seu admirável fervor.<br />

9. Dedicação da Basílica de Latrão.<br />

Beato Graça de Cátaro, religioso<br />

(†1508). Em tempo de grande escassez,<br />

quando conduzia uma pequena<br />

barca em busca de alimentos, movido<br />

pela pregação do Beato Simão de Camerino<br />

pediu o hábito religioso e levou<br />

uma vida piedosíssima, na Ordem<br />

de Santo Agostinho.<br />

10. XXXII Domingo do Tempo Comum.<br />

São Leão Magno, papa e Doutor<br />

da Igreja (†461).<br />

11. São Martinho de Tours, bispo<br />

(†397).<br />

Beata Vicenta Maria (Luísa Polôni),<br />

virgem (†1855). Fundadora, junto<br />

com o Beato Carlos Steeb, do Instituto<br />

das Irmãs da Misericórdia de Verona.<br />

12. São Josafá (João Kuncewicz),<br />

bispo e mártir (†1623).<br />

São Margarido Flores, presbítero e<br />

mártir (†1927). Durante a grande perseguição<br />

contra a Igreja, em Tuliman,<br />

cidade do México, por sua condição<br />

sacerdotal, foi preso e fuzilado.<br />

13. Santa Maxelendes, virgem e<br />

mártir (†670). Segundo a tradição,<br />

consagrou-se a Cristo e, recusando<br />

um pretendente ao matrimônio escolhido<br />

por seus pais, foi por ele morta<br />

ao fio da espada.<br />

14. São Siardo, abade (†1230). Nasceu<br />

em Breda, Holanda. Foi educado<br />

desde criança na escola do mosteiro<br />

premonstratense de Mariëngarden, no<br />

qual, na juventude, ingressou e se ordenou<br />

sacerdote. Eleito abade, destacou-se<br />

por sua humildade, singeleza e<br />

grande devoção à Virgem Maria.<br />

Beato João Líccio, presbítero<br />

(†1511). Pertencia à Ordem dos Pregadores.<br />

Eminente por sua infatigável<br />

caridade para com o próximo, na propagação<br />

da recitação do Rosário e observância<br />

da disciplina regular, descansou<br />

no Senhor aos cento e onze anos de<br />

idade.<br />

15. Santo Alberto Magno, bispo e<br />

Doutor da Igreja (†1280).<br />

Vinte Santos Mártires de Hipona<br />

(†s. III/IV). Santo Agostinho exalta<br />

a fé e vitória desses heróis, dentre os<br />

quais apenas se recordam os nomes de<br />

Fidenciano, bispo, Valeriana e Vitória.<br />

16. Santa Margarida da Escócia,<br />

rainha (†1093).<br />

Beato Eduardo Osbaldeston, presbítero<br />

e mártir (†1594). Após ter es-<br />

30


–––––––––––––– * Novembro * ––––<br />

tudado no Colégio dos Ingleses de<br />

Reims, foi condenado à morte e enforcado,<br />

no reinado de Isabel I, ao regressar<br />

à Inglaterra como sacerdote.<br />

17. XXXIII Domingo do Tempo<br />

Comum.<br />

18. Dedicação das Basílicas de São<br />

Pedro e São Paulo, Apóstolos (1626;<br />

1854).<br />

Beata Carolina Koska, virgem e<br />

mártir (†1914). Em Wal-Ruda, localidade<br />

da Polônia, durante a guerra,<br />

por defender a sua castidade ameaçada<br />

por um soldado, foi atravessada<br />

por uma espada, sendo testemunha<br />

de Cristo ainda adolescente.<br />

19. Santos Roque González, Afonso<br />

Rodríguez e João del Castillo, presbíteros<br />

e mártires (†1628).<br />

Santo Abdias, profeta (†Antigo<br />

Testamento). Um dos Profetas Menores,<br />

depois do exílio do povo de Israel,<br />

anunciou a ira do Senhor contra os<br />

povos inimigos.<br />

20. São Gregório Decapolita, monge<br />

(†842). Professou a vida monástica<br />

e mais tarde tornou-se anacoreta; fez-<br />

-se peregrino, detendo-se muito tempo<br />

em Tessalônica e finalmente em Constantinopla,<br />

onde lutou energicamente<br />

pelo culto das imagens sagradas e, afinal,<br />

entregou sua alma a Deus.<br />

21. Apresentação de Nossa Senhora.<br />

São Rufo (†s. I). Mencionado por<br />

São Paulo, Apóstolo, na sua Epístola<br />

aos Romanos, como eleito do Senhor.<br />

22. Santa Cecília, virgem e mártir<br />

(†s. III).<br />

São Benigno de Milão, bispo (†c.<br />

470). Governou por oito anos a diocese<br />

de Milão durante a grande perturbação<br />

causada pelas invasões; administrou<br />

com grande zelo e piedade a<br />

Igreja que lhe foi confiada.<br />

23. São Clemente I, papa e mártir<br />

(†s. I).<br />

São Columbano, abade (†615).<br />

24. Solenidade de Nosso Senhor<br />

Jesus Cristo, Rei do Universo.<br />

Santo André Dung-Lac, presbítero, e<br />

companheiros, mártires (†1625-1886).<br />

25. Santa Catarina de Alexandria,<br />

virgem e mártir (†s. III-IV).<br />

Beata Beatriz de Ornacieux, virgem<br />

(†1303/1309). Filha de nobre família,<br />

desde a infância sentiu inclinação à vida<br />

religiosa. Aos 13 anos ingressou na<br />

Cartuxa feminina de Parménie, onde<br />

deu grandes passos na vida interior e na<br />

prática das virtudes. Foi favorecida com<br />

singulares carismas místicos; devotou<br />

intenso amor à Cruz, extremando suas<br />

penitências. Passando por fortes tentações<br />

e densa noite escura, adquiriu fortaleza<br />

de espírito e purificação da fé.<br />

Por obediência, assumiu o priorado do<br />

mosteiro de Eymeaux, exercendo, com<br />

grande entrega, seu cargo e buscando o<br />

melhor serviço de Deus.<br />

26. São Sirício, papa (†399). Santo<br />

Ambrósio lhe dedicou louvor como<br />

verdadeiro mestre, por ter tomado sobre<br />

si a responsabilidade de todos os<br />

bispos, instruindo-os com os ensinamentos<br />

dos santos Padres e confirmando-os<br />

com a sua autoridade apostólica.<br />

Beata Delfina, viúva (†1358/1360).<br />

Esposa de Santo Eleazar de Sabrán,<br />

com o qual fez voto de guardar castidade.<br />

Depois da morte de seu esposo,<br />

viveu em pobreza e dedicada à oração.<br />

27. Nossa Senhora das Graças<br />

(1830).<br />

São Virgílio, bispo (†784). Varão<br />

de grande cultura, nascido na Irlanda;<br />

apoiado pelo rei Pepino, foi nomeado<br />

para dirigir a Igreja de Salzburgo, onde<br />

construiu a igreja catedral em honra de<br />

São Ruperto e se dedicou à propagação<br />

da Fé entre os habitantes da Caríntia.<br />

28. Santo Irenarco, mártir (†s. IV).<br />

Exercendo o ofício de verdugo, converteu-se<br />

impressionado pela firme<br />

perseverança das mulheres cristãs e,<br />

no tempo do imperador Diocleciano<br />

e do governador Máximo, morreu decapitado.<br />

29. São Tiago de Sarug, bispo<br />

(†521). Ilustrou com puríssima fé a<br />

Igreja de Sarug, confiada aos seus cuidados,<br />

por meio de sermões, homilias<br />

e traduções; é venerado pelos sírios<br />

como doutor e coluna da Igreja, juntamente<br />

com Santo Efrém.<br />

Beata Maria Madalena da Encarnação<br />

(Catarina Sordíni), virgem<br />

(†1824). Fundadora do Instituto das<br />

Irmãs da Adoração Perpétua do Santíssimo<br />

Sacramento.<br />

30. Santo André, Apóstolo (†s. I).<br />

São Cutberto Mayne, presbítero e<br />

mártir (†1577). Convertido à Fé Católica<br />

e ordenado sacerdote, exerceu<br />

o ministério na Cornualha. No reinado<br />

de Isabel I, foi condenado à pena<br />

capital por ter dado a conhecer publicamente<br />

uma Bula Apostólica. Foi o<br />

primeiro mártir dos alunos do Colégio<br />

dos Ingleses de Douai.<br />

São Virgílio<br />

(27 de novembro)<br />

Flávio Lourenço<br />

31


Apóstolo do pulchrum<br />

Gabriel K.<br />

Oração e holocausto<br />

simbolizados na<br />

lamparina<br />

A lamparina, tal como a<br />

idealizou a Igreja Católica,<br />

emite uma luz cheia de<br />

sacralidade, digna somente de<br />

cintilar diante do Santíssimo<br />

Sacramento ou de uma imagem.<br />

Ela é o símbolo de uma alma<br />

orante, cheia de contrários<br />

harmônicos, que se queima em<br />

holocausto de amor a Deus.<br />

No século XV, quando a Idade Média ainda<br />

marcava de algum modo os objetos, e, às vezes,<br />

com marcas muito profundas, surgiu<br />

um estilo representado na lamparina que vamos analisar.<br />

Aspectos de uma lamparina<br />

Notem o caráter medievalizante da base e como a<br />

lamparina se parece com uma taça, com um cálice de celebrar<br />

Missas.<br />

A parte gradeada em cima é um pouco mais dos tempos<br />

modernos, tendendo para o Ancien Régime, mas harmoniosamente,<br />

sem uma cacofonia, sem uma contradição<br />

entre um e outro estilo. O todo da lamparina dá<br />

ideia de solidez.<br />

32


Tomas T. N.<br />

Vou considerá-la primeiro como uma taça, para depois<br />

fazer a transposição para a lamparina.<br />

A ser considerada como taça, ela sugere a ideia de ser<br />

usada para uma bebida em quantidade generosa e opulenta,<br />

para gente que bebe aos grandes goles coisas fortes.<br />

Não tanto porque esse receptáculo seja muito grande,<br />

mas pelo estilo dele. Donde também uma base forte,<br />

para conter uma massa de líquido volumosa, sem perder<br />

facilmente o equilíbrio; é preciso ter uma base bem espraiada,<br />

de maneira que o diâmetro em cima seja, se não<br />

igual, ao menos proporcionado com o da base, à semelhança<br />

de um cilindro.<br />

Haveria o risco de ela ficar repolhuda, maçuda. Então,<br />

a fabricação obedeceu à ideia de estabelecer leveza<br />

e surpresa na transição entre os dois pratos, quebrando<br />

violentamente a uniformidade da haste, com uma espécie<br />

de esfera – ou de qualquer coisa à maneira de esfera<br />

– de marfim. Ou seja, é um material diferente, de cor diversa.<br />

A haste se abre para formar a parte superior como<br />

se fosse a corola de uma flor.<br />

Contrários harmônicos<br />

O caráter ligeiro é assegurado pelo gradeado ou rendilhado<br />

que sobe e cerca a taça em cima, de maneira a<br />

termos uma proporção agradável entre força e delicadeza,<br />

peso e leveza, entre lógica e coerência de um lado e<br />

fantasia de outro. Enquanto na haste e no gradeado está<br />

presente uma espécie de fantasia, nos dois pratos entra<br />

a lógica.<br />

Os elementos leveza e fantasia se exprimem também<br />

no modo pelo qual o pé se abre embaixo – dá quase uma<br />

ogiva gótica – para chegar até a roda, e depois, no modo<br />

como se abre em cima para segurar, de maneira a formar<br />

um todo muito harmônico, muito delicado. O pé e<br />

a concha são mais maçudos, indicando bem a passagem<br />

da Idade Média para os tempos modernos. Uma apetência<br />

de leve, de delicado que já não aceita muito o pesado,<br />

e uma apetência de fantasia um pouco desejosa de se<br />

emancipar da lógica.<br />

A coexistência desse tipo de contrários harmônicos<br />

– lógica e fantasia ou, se quiserem, força e delicadeza –<br />

dos quais se desprende uma qualidade excelente, agrada<br />

enormemente a alma, porque é um equilíbrio que a<br />

Revolução, como a todos os equilíbrios, contesta e detesta.<br />

Mas esse especialmente ela detesta. A Revolução produziu<br />

grosas de delicadeza sem força e de força sem delicadeza,<br />

de lógica sem fantasia e de fantasia sem lógica.<br />

Expressão da alma orante...<br />

Analisemos agora a lamparina enquanto tal.<br />

33


Apóstolo do pulchrum<br />

Gabriel K.<br />

Imaginem, a certa hora da noite, uma capela qualquer<br />

do Santíssimo Sacramento. A igreja toda no escuro<br />

e só aquela luzinha acesa: o que ela quer dizer?<br />

A mim, dá a ideia de perenidade. No escuro, nas horas<br />

em que uma imagem está inteiramente só e ninguém<br />

vela por ela, a homenagem continua. A lamparina faz-<br />

-lhe companhia, sendo uma espécie de símbolo da atitude<br />

que, muitas vezes, a alma tem na oração, nas relações<br />

com Deus, com Nossa Senhora: “Eu continuo fiel,<br />

eu continuo vosso, ainda que em comparação com todos<br />

os outros eu seja uma pulga ou nada; sou uma luz porque<br />

sou uma alma; e essa luz é vossa, existe só para Vós,<br />

segue-Vos nas piores penumbras, nos piores isolamentos,<br />

nas piores escuridões, confiante em que para Vós ela<br />

é algo.”<br />

É o seguinte jogo de analogia: frequentemente a alma<br />

se coloca diante de Deus nessa postura. É só Deus e ela;<br />

ainda que o universo não existisse, eles se bastariam. E<br />

ela, sentindo Deus ultrajado, perseguido sabe que para<br />

Ele ela tem valor e sua oração tem muita significação.<br />

Poder-se-ia dizer haver duas formas de ser excelentes<br />

da chama da lamparina. Às vezes, tudo muda de formato,<br />

de jeito; as sombras variam porque a chama se movimenta;<br />

e, outras vezes, quando ela está parada numa posição<br />

estática, parece dizer: “Encontrei o ponto do meu<br />

repouso, de minha paz: sois Vós, ó meu Deus!” A perenidade<br />

e a serenidade se exprimem muito melhor na chama<br />

parada do que no movimento.<br />

A cor vermelha, símbolo do holocausto<br />

A cor vermelha simboliza o holocausto e, evidentemente,<br />

o amor. É uma coisa que sempre se admitiu, é intuitivo.<br />

Mas devemos considerar sobretudo o seguinte:<br />

esse ato da alma diante de Deus é de um holocausto em<br />

si. Ela sente o tempo escoando nela, que vai caminhando<br />

para a morte, para a eternidade.<br />

Ao menos comigo se passa isto: quando estou sozinho<br />

dentro de uma igreja, sinto-me um pouquinho como uma<br />

ampulheta que percebesse a areia passar por ela. Sinto<br />

que aqueles minutos escorrem em mim, mas são dados<br />

a Deus e estou queimando meu tempo de vida aos<br />

pés d’Ele.<br />

É substancialmente, portanto, um holocausto. A ideia<br />

do azeite e do pavio se queimando, e de que aquilo está<br />

serenamente caminhando para a sua própria destruição,<br />

satisfeito pelo serviço desinteressado diante de Deus, é<br />

bem a imagem de holocausto: o lado votivo, ou seja, votado,<br />

dedicado, que se imola, que se consagra.<br />

Não há dúvida de que o vermelho concorre para isso.<br />

E uma luz que está, por assim dizer, em recinto fechado,<br />

34


Arquivo <strong>Revista</strong><br />

como dentro desse copinho, exprime, ela mesma, muito<br />

melhor sua solidão e seu próprio confinamento na presença<br />

de Deus do que uma luz de vela.<br />

A luz da lamparina tem qualquer coisa que a vela não<br />

tem. Na operação do queimar o azeite, sente-se mais o<br />

holocausto do que no consumir da vela.<br />

Misto de luz e sombra<br />

Ademais, uma luz que flutua sobre uma superfície líquida<br />

e a queima é mais parecida com a ação de Deus.<br />

Diz o Gênesis que o Espírito de Deus pairava sobre as<br />

águas (Gn 1, 1). Na lamparina são flutuações sucessivas:<br />

o óleo flutua sobre a água e a chama sobre o óleo. Logo,<br />

a chama arquiflutua. É uma superflutuação, quase como<br />

um pássaro que voa.<br />

A refração no azeite, ainda mais dentro do copinho<br />

vermelho, dá um valor especial à luminosidade do conjunto.<br />

A tal ponto que se nós imaginássemos essa mesma<br />

chamazinha, com a mesma intensidade luminosa, brilhando<br />

numa vela, seria muito diferente.<br />

Tenho a impressão de haver também algum fator<br />

qualquer por onde a lamparina emite uma luz dotada de<br />

certa propriedade, que se diria torná-la meio misturada<br />

com sombra. E ao ser projetado sobre as coisas esse misto<br />

de luz e sombra, elas tomam mais significado do que<br />

sob a luz superabundante. Nesse sentido, poder-se-ia dizer<br />

que um jato de luz fortíssima tiraria inteiramente a<br />

vida aos objetos, enquanto a luz da lamparina lhes confere<br />

essa nota.<br />

A luz da lamparina não elimina inteiramente as sombras.<br />

E, pelo fato de não eliminar, ela dá muito mais a<br />

impressão de algo vivo e real do que a luz olímpica, forte.<br />

O spotlight é uma profanação em comparação com isso.<br />

A Teologia afirma que veremos a Deus no Céu, totum,<br />

sed non totaliter 1 . Aqui também podemos de certo modo<br />

vê-Lo totum, sed non totaliter, com o respeito que o inatingível<br />

e o insaisissable 2 devem suscitar em nós. Assim a<br />

graça encontra menos obstáculos na alma.<br />

O estado de espírito que a lamparina cria<br />

Além disso, envolvendo as almas boas numa mesma<br />

luz, a lamparina cria um estado de espírito em comum e<br />

produz tal interpenetração entre elas, que é uma união<br />

fantástica, da qual o mundo de hoje não tem ideia. Cinco,<br />

dez pessoas rezando numa capela diante do Santíssimo<br />

nessa atmosfera sentem-se profundamente irmanadas,<br />

ainda que não se conheçam.<br />

Outra consideração: é uma luz de tal sacralidade, que<br />

só pode ser acesa diante de uma imagem que se venera ou<br />

diante do Santíssimo Sacramento. Por exemplo, é de mau<br />

espírito colocar lamparina diante de uma fotografia de alguém<br />

a quem se quis muito, ou de um estandarte, ou de<br />

qualquer outra coisa, de tal maneira a ideia de sacralidade<br />

e de culto está expressa nela. Mamãe tinha uma lamparina<br />

diante da imagem do<br />

Sagrado Coração de Jesus.<br />

Eu acho que a matéria do<br />

Paraíso terreno é toda feita<br />

para culto, como o é o material<br />

usado nesta lamparina.<br />

Percebe-se o bem-estar<br />

de alma que esse exercício de<br />

transcendência traz. É uma<br />

riqueza contínua da qual podemos<br />

nos beneficiar se habituarmos<br />

o nosso espírito a<br />

estar sempre à procura das<br />

analogias, das discrepâncias,<br />

da transcendência! A transcendência<br />

é o movimento para<br />

o unum sobrenatural, o<br />

metafísico-sobrenatural. v<br />

(Extraído de conferência de<br />

24/11/1974)<br />

<strong>Dr</strong>. <strong>Plinio</strong> em maio de 1993<br />

1) Do latim: todo, mas não totalmente.<br />

2) Do francês: impalpável.<br />

35


Flávio Lourenço<br />

Nossa Senhora<br />

resgata as almas do<br />

Purgatório - Igreja<br />

de Nossa Senhora<br />

da Purificação,<br />

Almendralejo, Espanha<br />

Amor gratuito da<br />

Rainha do Céu<br />

AIgreja invoca a Santíssima Virgem Maria como “vida, doçura e esperança nossa”.<br />

Com efeito, ao longo do ano inteiro Nossa Senhora tira almas do Purgatório, mas quando<br />

se comemora uma festa mariana, Ela visita especialmente a Igreja Padecente, afugentando as<br />

chamas, pacificando os tormentos e maravilhando um número incontável de almas.<br />

Ao subir de volta para o Céu, leva consigo muitas almas, dentre as quais algumas que estavam nas<br />

piores fornalhas, nas mais terríveis enxovias; Ela leva porque quer levar, pois sendo Rainha pode fazer<br />

isto: a quem gratuitamente amou, gratuitamente favorece.<br />

Compreende-se que para aqueles que, aqui na Terra, procuram espalhar a devoção a Ela e lutar pelo<br />

seu Reino, quão provável é que Nossa Senhora tenha uma piedade especial quando estiverem no Purgatório.<br />

(Extraído de conferência de 2/11/1970)

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