Caminhos da Arte na Reabilitação Visual
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Caminhos da Arte
na
Reabilitação Visual
Daniel Fonseca de Freitas
Flavia Faias de Andrade
São Paulo, SP - Brasil
2024
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Caminhos da Arte
na
Reabilitação Visual
Daniel Fonseca de Freitas
Flavia Faias de Andrade
Maria Aparecida Onuki Haddad
Sonia Mitico Fucasse Gondo
Alan Kimio Itabashi
Elisangela Cristina Bizoli Casimiro
Fernando de Andrade
Erica Furukawa
Sarah Barbosa Ferreira de Moraes
São Paulo, SP - Brasil
2024
Colaboradores:
Alex Haruo Higashi
Francielle dos Santos Teixeira
Jorge Sidnei de Andrade
Júlia Souza Ambrosio
Keli Roberta Mariano Matheus
Leandro Lanchotti Cavalcante
Marcelo Inagaki
Milene Keiko Iramina
Myriã Pires Miranda da Luz
Rodrigo Hideharo Sato
Notas do Autor
Venho no decorrer de 15 anos trabalhando com pessoas com deficiências através do fazer
artístico permeando a possibilidade de construção de novos caminhos para a vida de modo
que se reconquiste o protagonismo e a autoestima.
Não posso dizer que no decorrer deste tempo formei artistas e que revelei grandes gênios
da arte, mas tive a oportunidade de apresentar pessoas umas às outras e a si mesmas através
do fazer artístico. Apresentei discussões culturais, educacionais e sociais a indivíduos que
estavam à margem da participação cultural e cidadã, ampliando as suas percepções de mundo
e de si próprias, trazendo para suas consciências que não é a nossa deficiência que nos define,
mas sim a nossa postura perante o mundo e perante as pessoas que nos rodeiam.
Sinto que aprendi muito mais do que ensinei durante esses anos de atuação. Os processos
vividos por cada um deles, a cada desafio, juntamente com as barreiras e os aprendizados
novos, surgiram diante de mim como possibilidades de criar caminhos para acessar o outro e
proporcionar experiências de trocas.
Daniel Fonseca de Freitas
5
Sumário
Notas do Autor................................................................................................................................................................. 5
Introdução......................................................................................................................................................................... 8
Capítulo 1 - Quando Falta a Visão............................................................................................................................ 9
Prejuízos sensoriais......................................................................................................................................... 9
Prejuízos psicológicos..................................................................................................................................... 9
Prejuízos sociais............................................................................................................................................. 10
Capítulo 2 - A Importância das Artes na Reabilitação Visual.................................................................... 11
Processos dos fazeres artísticos na Reabilitação Visual................................................................ 11
Desenvolvendo estratégias:....................................................................................................................... 12
Mitos da adaptação....................................................................................................................................... 17
Relato de caso: Vinícius Nassar................................................................................................................ 18
Capítulo 3 - A Importância da Família na Reabilitação Visual.................................................................. 21
Capítulo 4 - Grupo de Encontros de Artes e Psicologia - Uma Abordagem Multidisciplinar...... 25
Formatação do atendimento multidisciplinar................................................................................... 26
Observações nos grupos............................................................................................................................. 27
Doação de gestos............................................................................................................................................ 28
Considerações finais..................................................................................................................................... 31
Catálogo de Artes......................................................................................................................................................... 32
6
Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a
vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança
e a arte de representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer
dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida - umas porque
usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma
vida humana.
Não é o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do
que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a
expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega,
pois que ninguém fala em verso.
Fernando Pessoa
SOARES, B. Livro do Desassossego. Vol.II. Lisboa: Ática. 1982. 505p.
7
Introdução
O presente trabalho discorre sobre a
importância e os benefícios da arte e do fazer
artístico na reabilitação de pessoas com deficiência
visual. Neste contexto, aborda os prejuízos
ocasionados pela perda visual, o processo
artístico como parte da reabilitação, as
estratégias facilitadoras durante as execuções
no ateliê, os mitos de adaptações, a importância
da presença e da conscientização da família,
bem como a riqueza do trabalho multidisciplinar.
As informações contidas nesta obra são
baseadas nas percepções e observações dos
atendimentos realizados no Serviço de Reabilitação
Lucy Montoro - Jardim Humaitá, partindo
da prática para o teórico, o que a torna
rica de conhecimentos, uma vez que considera
as experiências vividas pelos profissionais, pacientes
e familiares.
8
Capítulo
1
Quando Falta a Visão
Prejuízos sensoriais
Perceber o ambiente sem o funcionamento
adequado do sistema visual, lidar com
sua autoimagem e identidade e se relacionar
com outras pessoas sem a possibilidade
da interpretação das linguagens não verbais
(gestos e expressões) são alguns dos desafios
que a pessoa com deficiência visual enfrenta
em seu cotidiano. Assim, a perda visual, seja
parcial ou total, pode acarretar prejuízos de
carácter sensorial, mas, também, psicológicos,
sociais e econômicos que, por consequência,
interferem na qualidade de vida do
indivíduo.¹
Para uma compreensão do meio, a pessoa
com deficiência visual se cerca de pistas
do ambiente nas suas interações com o
mundo, nas relações interpessoais e através
da linguagem. Para uma maior aquisição de
conceitos, são necessárias adaptações para
tornar um conhecimento visual em formato
acessível, pois as pistas nem sempre são suficientes
para se compreender um contexto. No
entanto, a acessibilidade é um tema ainda em
construção, que não se manifesta em todos
os meios e relações, dificultando ainda mais
esse acesso e acarretando em prejuízos que
vão além dos sensoriais.
Prejuízos
psicológicos
A queixa mais comum observada durante
o acolhimento inicial com os pacientes
é a perda da autonomia em decorrência da
perda visual. Muitos desafios e dificuldades
surgem desde o deslocamento físico para ir
de um lugar para outro até ações essenciais à
sobrevivência como o preparo de suas refeições,
realizar a limpeza de sua casa, a higienização
de seus alimentos, conseguir cuidar de
sua saúde e fazer o pagamento de suas contas.
Junto com tais limitações surge uma sensação
de inutilidade, como se este indivíduo
não fosse capaz de realizar atividades diárias
básicas e não fizesse parte do grupo que pode
desfrutar de práticas de lazer e cultura. Ocorre
uma verdadeira segregação do meio em
que vive.
Além disso, após a perda de algo importante,
como a perda visual e tudo que esta
acarreta na vida de uma pessoa, é comum a
entrada no processo de luto. O luto possui
cinco fases, sendo elas a negação, a raiva, a
negociação, a depressão e a aceitação, que
ocorre em intensidade e tempos distintos,
de acordo com cada pessoa. ² A identificação
9
de qual fase a pessoa e/ou familiares estão
enfrentando permitirá um planejamento de
base para o suporte psicológico.
Somando-se a isso, o olhar da família
sobre a pessoa com deficiência visual muitas
vezes não colabora com seu processo de reabilitação.
Atitudes de superproteção ou rejeição,
falas capacitistas e excludentes são algumas
abordagens comumente encontradas em
suas dinâmicas familiares.
Em consequência, é comum observar
uma queda da autoestima impactando na
tomada de decisões que se manifesta não só
em decisões complexas, mas, também, em decisões
simples do dia a dia como que roupa
usar, o que comer, que horas tomar banho,
entre outras. Tal sensação de incapacidade
acaba por limitar a pessoa com deficiência visual
até mesmo em ações que não necessitam
da visão.
Em casos mais graves, ocorre a perda
do sentido da vida, necessitando de acompanhamento
médico especializado para tratamento.
Prejuízos sociais
Prejuízo, segundo o dicionário online
Michaelis, é o “ato ou efeito de prejudicar”.
Prejudicar, por sua vez, nos remete ao ato de
causar dano, lesar, tirar ou diminuir o valor.
No momento em que um sujeito enfrenta dificuldades
em seu dia a dia em decorrência
de sua deficiência, para ir e vir e realizar suas
atividades cotidianas, ele já está em prejuízo
pela desvantagem em comparação com os demais.
Ele se encontra às margens, vulnerável
e excluído.
Pensar na vida em sociedade, requer
pensarmos em uma sociedade igualitária e
equalitária ao reconhecermos que não somos
todos iguais e que se faz necessário assegurar
que as pessoas desfrutem das mesmas oportunidades
considerando também as diferenças
individuais.
Cabe ao poder público prover o acesso
desses cidadãos com deficiência aos espaços
públicos, às políticas públicas e sociais e a benefícios.
É comum nos depararmos com pessoas
que não possuem conhecimento acerca
de seus direitos. Nesse sentido, os serviços
de reabilitação para pessoas com deficiência
visual propiciam condições para o processo
de adaptação, fornecendo orientações ao indivíduo
e familiares perante à nova condição
de vida.³
Benefícios sociais podem proporcionar
conquistas à essas pessoas, na perspectiva da
emancipação humana e social, que através
dessa renda podem se planejar para adquirir
tecnologias assistivas e bens de consumo e
lazer. Esse benefício se torna um mecanismo
para que as pessoas com deficiência tenham
acesso às mesmas oportunidades, podendo
somar, criar, produzir e inovar dentro de uma
sociedade.
10
Capítulo
2
A Importância das Artes
na Reabilitação Visual
Processos dos
fazeres artísticos na
Reabilitação Visual
Os encontros realizados no ateliê de
artes têm por objetivo trabalhar a autonomia
e independência dos participantes tanto na
parte técnica como na parte poética das Artes
Visuais. A autonomia é uma conquista dos indivíduos,
ela não é dada, temos que compreender
o tempo de cada um, suas limitações e potências
para que, no decorrer dos encontros,
alcancem o autoconhecimento e ampliem a
sua compreensão de mundo e de si próprios.
Para iniciar os trabalhos no ateliê é necessário
que todos os participantes tenham intimidade
com o espaço em que está trabalhando
e que tenha um mapa mental deste local e
de todos os objetos que ali se encontram como
mesas, cadeiras, estantes, armários, tanques,
pincéis, tintas, argila, entre outros. Compreender
a localização das ferramentas e materiais
se faz extremamente necessária para que o
indivíduo tenha autonomia no espaço de criação.
É fundamental que os objetos sejam armazenados
em locais determinados, facilitando
a construção deste mapa mental, uma vez
que cada participante é responsável pela sua
produção e seu armazenamento.
Algumas regras de convivência se fazem
necessárias, como manter sempre as cadeiras
junto à mesa após o uso, as portas dos
armários sempre fechadas, bengalas e acessórios
em um local adequado ou junto ao corpo.
Assim, criamos uma rotina de trabalho em que
todos os participantes cuidam do local, da sua
organização, permitindo o uso dos espaços de
forma compartilhada com um grupo diverso e
heterogêneo de pessoas com suas necessidades
específicas supridas e respeitadas por todos.
A organização é fundamental para a convivência
neste espaço de trabalho e produção
artística que envolve diversos materiais e um
grupo de até 8 pessoas com uma diversidade
de deficiências visuais e/ou outras deficiências
associadas.
O espaço adequado é quando todas as
pessoas se encontram nele de forma autônoma,
independente, sem barreiras arquitetônicas
ou estruturais e principalmente as atitudinais
que podem comprometer o desempenho
dos participantes. Eles buscam sempre o local
mais confortável, levando em consideração fatores
como proximidade da porta, iluminação,
acesso às prateleiras dos materiais e obras, entre
outros.
11
Neste espaço de criação é necessário
que todos se sintam em casa tendo intimidade
e uma relação de cuidado e afeto por tudo que
está sendo desenvolvido ali. Todas as obras em
processo de execução são extremamente delicadas
e requerem uma investigação cuidadosa
e atenta.
As aulas em grupo propiciam a troca de
conhecimentos, a socialização dos fazeres artísticos
e o compartilhamento de experiências
de vida da pessoa com deficiência visual, seja
congênita ou adquirida. Propiciar momentos
de abertura e discussão nos encontros de forma
que os integrantes exponham suas visões
de mundo, trocando ideias de autonomia, estratégias
de lidarem com as dificuldades do
dia a dia e exemplos de superação são pontos
que fortalecem o grupo. Esse processo empodera
os integrantes, promovendo uma postura
diferente diante das dificuldades que se apresentam,
desde a aceitação da deficiência até as
limitações advindas desta.
Assim, a arte acaba se tornando uma
das ferramentas da reabilitação na busca do
autoconhecimento e, através dela, surge a possibilidade
de abrir “caixinhas” que sem a liberdade
que a arte propicia seriam muito mais difícil
de acessar como, por exemplo, a caixinha
da frustração e a do controle que julgamos ter
perante a vida.
Aos poucos cada indivíduo vai encontrando
nesse fazer artístico a sua identidade
pessoal, o seu lugar de fala na sociedade.
Desenvolvendo
estratégias:
FITAS E GABARITOS
A função das fitas e gabaritos é a de
limitar as áreas do trabalho que não se quer
modificar, preservando o espaço e ajudando
na definição de linhas e contornos. Esses materiais
também permitem a limpeza e exatidão
da obra, pois criam as referências táteis que
possibilitam perceber, por exemplo, o início e
o fim de uma linha permitindo que essa pintura
saia precisa.
Os gabaritos são aplicados tanto nas
obras bidimensionais como nas tridimensionais.
No tridimensional é trabalhada a ideia de
eixo e proporção usando um esquadro físico
ou o próprio corpo como um esquadro a partir
das articulações das mãos e dos braços, propiciando
a percepção de altura, largura, volume
e, principalmente, do eixo e a sua inclinação.
Na escultura, é utilizada a percepção do corpo
do indivíduo e sua observação do espaço
da obra para compreender o tamanho ideal
da base. Pode-se fazer marcações na base com
palitos ou canudos para compreender e definir
os limites ou utilizar barbantes para se ter
dimensão de prumo ou de eixo. Quando este
barbante é preso de ponta a ponta dá para perceber
o nível e o plano, da mesma forma que
um pedreiro faz quando vai assentar um piso.
Essas estratégias podem ser usadas por todas
as pessoas, com ou sem deficiência visual, e
permite uma referência e segurança para compreender
sua obra.
Para pessoas cegas, podemos criar gabaritos
não só com fita crepe, mas com massa
de modelar, recortes de papelão, recortes
de acetato para a elaboração de máscaras que
preservam espaços e áreas para se trabalhar
com tintas comuns ou tintas texturizadas.
12
Grupo de crianças utilizando
tampas de caixinhas de MDF
como gabaritos.
Obra feita a partir de gabarito
de colagens com EVA impresso
sobre papel.
Uso de fita elástica para delimitar
os espaços durante a confecção da obra.
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ILUMINAÇÃO
A iluminação para pessoas que têm baixa
visão é extremamente importante para a
percepção do objeto e suas cores. Quando sua
temperatura, ou seja, sua graduação de luminosidade
pode ser controlada, cria-se um ambiente
mais favorável para a percepção visual.
No caso da escultura, a luz é extremamente
importante para definir e perceber as
sombras e os volumes. Apesar do tato fornecer
muitas informações, para quem tem alguma
percepção visual é importante ter o recurso
da iluminação associado. Uma luz lateral
ou de cima para baixo revela muitas possibilidades
e percepções de volume corroborando
com a ideia de continuidade da obra, de um
lado para o outro.
Na pintura, as adaptações de luz tem
um grau a mais de dificuldade devido a relação
cromática. Para algumas pessoas com
baixa visão, o excesso de luz anula a percepção
cromática e para outras ajuda. Logo,
as adaptações devem ser analisadas individualmente,
caso a caso. Alguns beneficiam-
-se de uma luz lateral, outros preferem ter
uma luz que preencha todo o espaço do trabalho,
para outros a luz deve estar focada
no ponto que está trabalhando. Tais ajustes
personalizados propiciam a realização de
acabamentos e pequenos preenchimentos. É
um processo de se aproximar e se distanciar
da obra para não perder o todo do trabalho
com a iluminação sendo utilizada quando
surge a necessidade. A cada encontro investigamos
juntos as possibilidades de uso desse
recurso.
Sequência de fotos apresentando usos distintos da iluminação: difusa, focal e luz natural.
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Quando a visão não permite a definição
de cores, precisamos criar estratégias organizacionais
da paleta para que a pessoa consiga executar
a pintura. Nesse ponto, inicia-se uma investigação
das tonalidades que ela está percebendo,
analisando se reconhece melhor por pareamento
ou se precisa de adaptações com nomeação
das cores em letra ampliada para que tenha autonomia
na aula. Por vezes, a posição de cabeça
atrelada às possibilidades de iluminação trazem
uma melhor percepção das cores. Todo esse processo
leva um tempo, uma vez que o próprio aluno
artista, por vezes, não tem consciência de que
tais adaptações ajudam a visualização.
NOÇÃO CROMÁTICA
A organização da paleta é fundamental
para o início do trabalho com pintura. Através
dela é definida a temperatura do quadro dentro
dos aspectos quente, frio ou temperado.
Para uma pessoa com baixa visão é
muito importante os potes de tinta estarem
adaptados com o nome das cores. Pode-se nomear
com uma fonte usual, entre 12 e 14, mas
também utilizar fonte ampliada e em braille,
segundo as necessidades apresentadas pelos
alunos. Em relação à organização desses potes
no espaço, procura-se manter uma disposição
que ordene as tintas da esquerda para
a direita, do claro para o escuro, mas sempre
atento ao que a pessoa prefere. Também utiliza-se
tampinhas dos potes de tintas organizadas
dentro de um prato lado a lado permitindo
que o aluno resgate a cor desejada para
trabalhar uma a uma na medida da sua necessidade.
Tais tampinhas são utilizadas para a
criação de novos pigmentos como cores neutras,
tonalidades de cinza e cores terrosas.
Vinícius Nassar organizando os potes de tintas por ordem cromática
Pensando numa pessoa cega e a sua relação
com a pintura e as adaptações, partimos
do princípio que vamos trabalhar com o conceito
que ela tem sobre as cores e a experiência
que ela tem de mundo em relação a estas. Uma
possibilidade de adaptação é trabalhar com a
cor em texturas feitas com materiais inseridos
nas tintas dando a percepção do áspero, do
liso e do macio. Organizamos essas texturas
nomeando os potes sinalizando os materiais
que foram utilizados em sua produção: areia
mais fina ou mais grossa, bolinhas pequenas
de isopor, fios de barbantes ou lãs coloridas,
lixas em diferentes gramaturas e telas. Misturados
esses recursos em tintas com silicone ou
de base acrílica, pode-se definir cada área da
pintura e selecionar a textura desejada.
15
COLAGEM
Assemblage ou assemblagem é
um termo francês que foi trazido à arte
por Jean Dubuffet em 1953. É usado para
definir colagens com objetos e materiais
tridimensionais. A assemblage é baseada
no princípio que todo e qualquer material
pode ser incorporado a uma obra de arte,
criando um novo conjunto sem que esta
perca o seu sentido original. É uma junção
de elementos em um conjunto maior, onde
sempre é possível identificar que cada peça é
compatível e considerada parte da obra.
Com esta técnica, torna-se possível a
criação e organização de diferentes composições
no espaço, não sendo necessárias adaptações
para acesso aos materiais, apenas o
processo de organização do trabalho.
É possível fazer diversos caminhos
nesta proposta como separar o material,
inserir um novo elemento a partir das formas
já existentes ou criar as peças compondo
conforme a produção das mesmas que podem
ser de diversos materiais, rígidos ou flexíveis.
Desta forma, buscamos a percepção tátil
e uma construção que não tenha incógnitas
na criação de formas ou gestos ali elaborados
sobre a superfície que está sendo construída
a partir destes relevos aplicados sobre a superfície.
Quando ganhamos o aspecto mais escultórico,
facilitamos a compreensão a partir
do tato para descobrir o conjunto da imagem
da obra. Compreender a sua poética mesmo
que, de início, desfragmentada. Formulamos
na nossa mente as imagens e ideias sobre o
que estamos tateando sempre ancorados por
uma legenda ou um áudio guia que referencia
os aspectos cromáticos e de composição, possibilitando
à pessoa com deficiência formular
o seu próprio conceito sobre o que está sendo
apresentado.
Pacientes desenvolvendo trabalhos utilizando a técnica da cologravura.
Mitos da adaptação
Muitas vezes imaginamos que para dar
aula de artes visuais temos que adaptar todos os
materiais, situações e realizar constantes intervenções.
No entanto, a criatividade de um indivíduo
não emerge de um ambiente controlado por
terceiros. A mediação é a melhor ferramenta que
pode ser utilizada pelo profissional uma vez que
realiza proposições dando o espaço necessário
para que o artista se expresse e crie estratégias,
também, por si. O mediador utilizará descrições
para que as informações visuais de imagens e/ou
situações sejam captadas pelo aluno e este possa
decidir e acionar dentro de sua própria razão.
16
A materialidade das artes visuais, principalmente
quando tratamos das construções
tridimensionais acompanhadas da percepção
tátil, por si só já dá condições para que uma
pessoa que não enxerga compreenda as formas
unindo os sentidos tátil e auditivo para chegar
a compreensão do que se toca e se constrói com
as mãos.
Nas aulas de escultura o modelo é base
fundamental para compreensão do que se
está propondo. O professor gera um modelo
de exemplo para ser explorado pelos alunos e
também atua na peça deles para ensinar noções
de eixo e proporção, fazendo apontamentos de
detalhes a serem percebidos por eles a fim de
ampliarem suas percepções e aprimorarem
suas técnicas.
Na cerâmica, a adaptação é a descrição
da ação e a percepção do material. A mesma
coisa pode ser executada de mil formas para se
chegar a um mesmo resultado.
Sendo assim, é muito importante conhecer
todas as possibilidades e técnicas para a
execução, permitir que cada indivíduo se identifique
com o seu modo de fazer e encontre em
cada técnica ali proposta o meio de executar
que seja mais favorável não só para sua condição
visual, mas para sua condição pessoal,
trazendo aspectos de temperamento. Para um
indivíduo que tenha maior ansiedade de construir
e finalizar mais rápido partimos do maciço
e depois o processo de ocagem. Para os que
são introspectivos e meticulosos, técnicas como
a da cobrinha, partindo da formação de pequenas
partes, funciona muito bem. Já para os metódicos,
a técnica de construção a partir de placas
de argila inspira a organização e a produção
de peças extremamente uniformes e simétricas.
No primeiro encontro, busco conhecer
os participantes através da atividade da construção
de uma esfera de argila em que ali observo
o manuseio da massa, a forma como uma
pessoa se relaciona com o material, a necessidade
de cada um e até mesmo a repulsa devido
à sensação sentida em relação à textura e viscosidade.
No segundo passo, a partir da esfera,
provoco os participantes a imaginar um ser extraordinário
que ainda não existe na natureza e
que não haja nenhuma referência aos animais
que conhecemos. Na posição de “Criador”, onde
criar algo que não existe e não se assemelha a
nada conhecido é uma provocação à imaginação,
inicia a observação dos potenciais artistas
que podem emergir deste trabalho criativo.
Por fim, quando o barro passa pelo fogo,
teremos a cerâmica como finalização do trabalho
desses alunos.
O quanto você está disposto a estar
com esse indivíduo, percebê-lo e
ajudá-lo a perceber-se.
Pacientes desenvolvendo trabalhos utilizando a técnica da cologravura.
17
Relato de caso: Vinícius Nassar
Vinícius é um jovem de cerca de vinte
anos, com deficiência visual e intelectual. Tem
grande dificuldade para se comunicar verbalmente,
sendo assim, sua principal forma de
comunicação se dá através de gestos e, agora,
pela pintura. A produção exposta aqui foi realizada
no período de 2019 a 2022, durante a
pandemia, sendo boa parte dela produzida de
forma remota através dos encontros de Artes
online. Desenvolvemos um encontro de pintura
sobre tela todas as semanas. A parceria com
a família foi fundamental durante esse período
de trabalho remoto. Dessa forma, desenvolvemos
um braço de acessibilidade para promover
condições de comunicação e interação entre
o artista e o seu orientador.
Logo nos primeiros encontros, nos
adaptamos com as questões da tecnologia e
demos início às primeiras produções. Estabelecemos
também uma parceria com a terapeuta
ocupacional, que nos ajudou a compreender
a dinâmica e as suas possibilidades de execução
do trabalho.
E desta experiência de atendimentos
surgiu “Janelas da Abstração”, exposição de
pinturas em acrílico sobre telas.
Janelas da abstração - Vinícius Nassar
O silêncio em cores
O silêncio é de ouro e muitas vezes é
a resposta.
18
Não poderia começar este relato sem
antes colocar que a experiência vivida nesses
últimos 3 anos com o artista Vinicius Nassar
foi extremamente importante para desconstruir
os meus medos e preconceitos diante da
comunicação humana, verbal ou não verbal,
presencial ou online.
Aprendi a ouvir imagens.
Aprendi a ver gestos e compreender
desejos.
Aprendi a tatear o tempo.
Vinicuis Nassar pintando painel fixado na parede.
As pinturas de Vinícius Nassar apresentam
uma série de imagens abstratas, as quais
em muitos momentos sugerem paisagens em
uma relação tênue entre a figuração e a abstração.
Tendo em vista a espontaneidade do
artista e o seu compromisso de utilizar diversas
técnicas e materiais, o artista encontrou
soluções cromáticas variadas e, acima de tudo,
desenvolveu autonomia e independência nos
processos criativos.
Os desafios impostos pela pandemia da
Covid-19 foram imensos. Continuar um trabalho
que anteriormente desenvolvemos em
um ateliê à distância, remotamente, sem espaço
ou estrutura adequada e tendo a internet
como plataforma de comunicação foram algumas
barreiras a se superar. A realização das
chamadas de vídeos nos transportavam para
um novo mundo.
O apoio da família durante o processo
criativo foi fundamental. Havia sempre um parente
presente durante a realização das atividades
apoiando a mediação comunicacional e
empoderando o artista durante as práticas de
pintura. Providenciaram um espaço improvisado
na varanda para que Vinícius tivesse autonomia
para pintar a hora que quisesse.
No decorrer de alguns meses, era possível
identificar uma pesquisa cromática clara
com uma certa repetição de alguns temas. As
escolhas, muitas vezes, eram surpreendentes
para nós que assistimos o desenvolvimento da
imagem. De forma livre e autoral, o trabalho
deste pintor está se desenvolvendo em um caminho
de liberdade poética e gestual.
19
20
Pintar é uma forma de expressão onde o artista
expressa o seu inconsciente mais íntimo, sendo
assim, essa arte nos toca na alma e nós enquanto
espectadores temos a oportunidade de estabelecer
relações e sentidos de acordo com nosso repertório
individual e nos deixamos afetar por tais imagens.
3
A Importância da Família
na Reabilitação Visual
Capítulo
A chegada ao serviço de reabilitação,
por vezes, está associada a dúvidas, ansiedades
e expectativas familiares, que precisam ser
ouvidas com bastante atenção. Essas famílias
carregam vários questionamentos sobre o que
poderiam ter feito de diferente, se demoraram
para encontrar o tratamento correto e o que
o futuro reserva para os pacientes. Por isso, o
acolhimento inicial é importante para transmitir
a segurança no novo caminho e solidificar
a parceria que começa nesse momento.
Em vários casos, já percorreram muitos
lugares, escutaram uma grande quantidade de
informações e receberam muitas orientações
do que deveriam fazer. No processo de reabilitação
é importante a mudança da maneira
que a família entende o diagnóstico e de suas
atitudes diante da deficiência visual. É realizado
um trabalho de conscientização das potencialidades
para que familiares e pacientes
definam os objetivos juntamente com equipe,
assumindo uma postura ativa diante do processo
de reabilitação. Com isso, o ato de ouvir
é fundamental para entender a realidade e as
possibilidades que podem ser exploradas com
cada indivíduo.
O vínculo que se cria entre paciente,
família e terapeuta é a peça-chave para o melhor
desenvolvimento da pessoa com deficiência
visual e de sua interação com o mundo. É
perceptível o impacto do esforço que os pais,
familiares e cuidadores fazem para ajudar os
pacientes. Eles se sentem mais motivados, felizes
e participativos de tudo o que envolve a
sua rotina. Esse tripé terapeuta-família-paciente
colabora com o desenvolvimento, pois
unifica as condutas e propostas dentro de uma
mesma linguagem.
Trabalhar desde o início com formas de
garantir a maior autonomia, a compreensão e
a paciência daqueles que fazem parte de sua
vida e incentivar o convívio na comunidade é
olhar o futuro cheio de possibilidades que se
abrem, mesmo nas dificuldades. Toda vez que
permitimos que um indivíduo desenvolva suas
próprias estratégias, experimente sensações e
use sua criatividade, estamos facilitando o caminho
para o aprendizado e, por isso, é fundamental
permitir que eles tentem fazer tarefas
e resolver problemas sozinhos. A pessoa que
possui a atitude de interferir nas decisões e
ações da pessoa com deficiência cria um cenário
de descrença no potencial desse indivíduo,
podendo tirar a chance de prepará-lo para desafios.
Assim, os atendimentos levam em
consideração as perspectivas da família, dos
alunos, estabelecendo um plano de trabalho
21
individualizado, que seja realista com o que
pode ser conquistado e um processo ativo,
onde todos se dedicam a fazer o melhor. E é
apenas após ouvir atentamente, dar espaço
para as perguntas e acolher as inseguranças,
que, como equipe, nos tornamos parte das
mudanças na vida da pessoa com deficiência
visual. E por todo esse trabalho, vemos que a
família que é convidada a caminhar junto do
seu familiar, é ativa na reabilitação e inclusão,
reage para garantir as melhores possibilidades,
compreende e apoia o desenvolvimento
e torna-se a maior defensora de serviços que
auxiliam o crescimento dos pacientes. Por esse
motivo, nosso papel na mudança de valores e
ações dessas pessoas é extremamente valioso
para encorajar nosso paciente a buscar sempre
sua melhor versão, sentir-se realizado em
cada pequena conquista e alcançar todos os
seus objetivos.
Crianças exploram miniatura da obra de arte “Fonte das quatro Nanás”, de Niki de Saint Phalle, em visita
à Pinacoteca de São Paulo acompanhadas por técnicos do Serviço de Reabilitação Lucy Montoro Humaitá
e por seus familiares
22
Crianças exploram sons de tambor de instalação de arte da exposição “Sopro” de Ernesto Neto, em visita à
Pinacoteca de São Paulo acompanhadas por técnicos do Serviço de Reabilitação Lucy Montoro Humaitá e
por seus familiares
Crianças e familiares observam a obra de arte “Fonte das quatro Nanás”, de Niki de Saint Phalle, em visita
à Pinacoteca de São Paulo acompanhadas por técnicos do Serviço de Reabilitação Lucy Montoro Humaitá
23
24
Texto esculpido por Maria, mãe de paciente, em placa retangular de gesso com o seguinte dizer: “Com as
mãos pode-se acariciar ou machucar, limpar ou sujar. Mas a escolha é livre e o controle está na mente e o
importante de tudo isso é que há um retorno do que se escolhe fazer com as mãos, ainda que às vezes não se
é percebido porque esse retorno nunca volta como saiu, pois os movimentos das mãos são sempre diferentes
e a escolha é sempre sua.”
Capítulo
4
Grupo de Encontros de Artes e
Psicologia - Uma Abordagem
Multidisciplinar
Peças de cerâmica e gesso dispostas em círculo
A arte é considerada uma ação humana
intencional, que reúne elementos do meio cultural
e influência no desenvolvimento de funções
psicológicas humanas, a exemplo da imaginação,
potencializada pela diversidade de
experiências vivenciadas pelos sujeitos. Esse
processo de criação está relacionado com a satisfação
da necessidade humana de expressar-
-se e produzir emoção, de imaginar, comunicar
e dar sentido ao que é desconhecido e pode
ser transformado em arte. Criar é mais do que
expressar. É tornar possível a maior de todas
as obras de arte: a própria vida.
25
Na Psicologia, os fazeres artísticos ocorrem por ampliação de consciência,
com o desenvolvimento de modos ativos e criativos de o sujeito se relacionar
com a realidade, de sua implicação na produção de mudanças,
no reconhecimento de suas possibilidades e limites, na ação intencional
de compreender-se e inserir-se na busca do coletivo como meio de obter
a força necessária para transformação de suas condições de vida atual e
futura. Trata-se, portanto, de colocar os afetos em movimento, de modo a
se produzir “poder de agir” (Spinoza,1989).
Formatação do
atendimento
multidisciplinar
Pensou-se em unir os trabalhos de Arte
e Psicologia após um encontro e bate papo dos
técnicos dessas áreas onde foi possível verificar
que ambas possibilitam um outro olhar
sobre si mesmo e o mundo, podendo conduzir
a novos processos mentais ao provocar diferentes
formas de pensar e de ver o cotidiano.
O grupo se reúne uma vez por semana
com duração de uma hora. É composto por
quatro pacientes com cegueira ou baixa visão
e seus acompanhantes (pai ou mãe) onde todos
participam de forma ativa. O objetivo dos
encontros é trabalhar a inclusão, autonomia e
saúde mental nos seus diversos aspectos através
da aceitação, diálogo, trocas de experiências,
adaptações para as atividades, identidade
e individualidade, reconhecer limites, diminuição
do capacitismo e superproteção da família.As
atividades realizadas são as mesmas
já propostas nas oficinas de arte (pinturas com
doações de gestos, argila, entre outras)
Foi possível observar nos encontros
que a arte pode ajudar no processo de bem-estar,
sendo uma ferramenta para a saúde mental
utilizando o espaço para falar sobre temas
variados, sentimentos e emoções.
Podendo levar a uma melhor qualidade
de vida, alguns pontos foram percorridos e experienciados
com o intuito de aprimoramento
do cuidado com a saúde emocional. São eles:
Momento de lazer e descontração
Propicia um momento prazeroso e de
lazer pois é uma forma de diversão, levando-o
à distração e o faz se sentir bem consigo.
Melhora a concentração e
ansiedade
Por meio desse processo de concentração,
a arte pode auxiliar em momentos de ansiedade,
pois a pessoa desvia o foco do que a
preocupa e usa a sua energia para a produção
de algo, fazendo parte de um momento de relaxamento,
vivendo o aqui e agora.
Libera “hormônios da felicidade”
Quando exercitamos algo artístico, isso
pode nos levar a liberar Dopamina, relacionadas
a sensação de motivação e prazer, trazendo
essas sensações boas e podendo melhorar
nosso emocional.
Ginástica para o cérebro
Exercita o cognitivo ativando nossa
criatividade além de desenvolver um raciocínio
mais rápido, podendo enxergar novas possibilidades
onde ninguém vê.
Autoconhecimento
É uma excelente ferramenta onde podemos
expressar por ela o que sentimos e quais
emoções estamos passando naquele momento.
Também organiza as ideias e pensamentos.
26
Observações nos grupos
Pacientes e pais observando peças de cerâmica e gesso que produziram dispostas em círculo sobre a mesa
do Ateliê enquanto psicólogo realiza mediação
Paciente e Mãe A
Em um trabalho em argila a mãe do paciente
desenhou um olho com lágrimas. Conversando
sobre sua arte, a mãe começou a
relatar sobre seu sofrimento, solidão e sobrecarga.
Ela tem três filhos com doenças mentais,
não possui rede de apoio, o pai de seus filhos
é ausente e se nega a ajudar. Uma das filhas
engravidou e o pai não assumiu, aumentando
a sobrecarga da mãe. Não tem tempo para se
cuidar. Disse que o grupo e esse espaço permite
um ambiente para se cuidar um pouco.
Na semana seguinte ao terminar a atividade,
o paciente começou a falar que a mãe
não o deixava ajudar ela, não aceitava carinho
e que isso o entristece. Mãe concorda com o
filho, diz que é difícil e fala da rotina cansativa
de trabalho, ida a médicos, hospitais e que não
acredita no amor, trazendo suas dores e frustrações.
Paciente e Pai B
Em um trabalho em argila, o pai desenhou
uma paisagem com natureza. Conversando
sobre a arte, o pai começou a relatar o
sofrimento em relação ao casamento, usou o
termo “coração partido”, falta de trabalho e
violência onde mora. Ao desenhar a natureza
diz que é uma forma de se acalmar e é onde
gosta de estar.
Paciente desenhou um coração, símbolo
que aprecia, luta pela família, fé e no final
falou que é a proteção das barreiras das
agressões. Não quis falar mais. Histórico de
agressões dentro da família e escola.
Paciente e Pai C
O pai relata que reconhece que superprotegeu
o filho quando criança e percebe a
importância de estimular a autonomia. Filho
mostra a área de interesse na música, mas
pais trabalham e falta rede de apoio. A família
se organizou e, após 4 meses, passaram a levá-lo
à aula de música.
27
Doação de gestos
A dinâmica Doação de gestos surgiu
a partir da brincadeira de observação das
nuvens, onde o movimento do ar molda formas,
animais e cenas imaginárias. No ateliê, o
gesto de cada pessoa cria linhas que pouco a
pouco se revelam em imagens. Estas imagens
formadas a partir da contribuição de gestos
são observadas pelos alunos, a partir de seus
olhares, suas interpretações e percepções. A
partir desse instante todos se unem no objetivo
de complementar essa imagem descoberta
a fim de, de forma consciente, contribuir para
a construção.
Doação de gestos procurou evidenciar
o potencial individual e, principalmente, o respeito
ao que cada um pode doar, dentro do seu
tempo e da sua forma. Neste grupo, o objetivo
foi trabalhar a relação pais e filhos, sendo os
filhos pessoas com deficiência visual e com outras
questões associadas. A conquista da confiança
pelos pais permitiu que estes potencializassem
as virtudes dos filhos, reconhecendo
os limites reais, entendendo os limites criados,
diminuindo a superproteção, permitindo que
aumentassem a autonomia e participação, entendendo
a forma de incentivar, as adaptações
necessárias, dando valor às construções realizadas
por eles.
O trabalho foi realizado por fases:
• Fase 1: Gesto livre
Cada um pode doar uma linha, resultante
de apenas um gesto. Uma vez tocado o pincel
no papel o gesto deve ser iniciado e finalizado
a la prima, de forma livre e inconsciente, sem
padrões externos, nem pretensões. Foi proposto
que expressassem o sentimento que vinha
com o gesto, falando a primeira palavra que
viesse à mente, surgindo palavras como amizade,
felicidade, fé , vida, família, inteligência
e luar, experiência, essência, comprometimento,
choro, ancestralidade e paciência, amizade,
alegria, compromisso, consciência, harmonia
e desejo, harmonia, sorriso, continuidade, filhos,
gratidão e preocupação, emoção, sonho,
morar, dormir, almoçar e lugar, paz, carinho,
grandeza, sabedoria, gentileza, esperança e liberdade.
• Fase 2: Pareamento do olhar
Inicia-se a observação coletiva para pareamento
do olhar para que todos enxergassem
as figuras que o outro estava identificando.
A partir deste ponto precisaram chegar em
um consenso de qual representação seria a
escolhida para se dar foco, uma vez que várias
imagens se sobrepunham. Neste processo, os
pais exercitam a realização das descrição das
imagens, que é essencial para o dia a dia.
• Fase 3: Revelação das figuras
Realizou-se a pintura coletiva do fundo,
reservando os espaços das figuras escolhidas,
até que estas fossem reveladas. Observou-se o
cuidado com o outro e com a obra, uma relação
inclusiva, onde todos se sentiam integrados.
• Fase 4: Preenchimento das formas
Em duplas de pais e filhos trocados,
ensinou-se técnicas de pintura (ponto, traço,
achura e mancha) para posterior preenchimento
das figuras. Os pais ajudavam o filho do
outro a perceber os limites dos desenhos e a
manusear as tintas para, juntos, preencherem.
Observou-se um estranhamento inicial de todos
pela proposta “surpresa” de troca de família,
tendo que lidar com uma pessoa diferente,
ajudá-la, sendo retirados da zona de conforto.
Nesta fase, notou-se um excesso de zelo e de
proteção.
• Fase 5: Preenchimento da paisagem
Separando pais e filhos e buscando trabalhar
a autonomia, delimitou-se espaços com
auxílio de varetas de metal com relevo para
que os filhos trabalhassem sozinhos. Os pais
ficaram como observadores sendo incentiva-
28
dos a perceber as escolhas das cores, das
pinceladas, as acessibilidades promovidas
pelos mediadores, de forma simples e eficaz,
com materiais disponíveis.
• Fase 6: Contemplação
Momento de contemplar a obra, rever
os processos vividos, a importância do
trabalho em conjunto e se emocionar com
o resultado. Foi realizada a observação in
loco, dentro do ateliê, e fora, exposto como
um quadro no ambiente, intensificando a
beleza do que construíram.
Obra da dinâmica “Doação de gestos” em processo
“Muitas vezes as mãos sabem resolver enigmas que intelecto em vão lutou
por compreender. Modelando um sonho, podemos continuar a sonhá-lo com
mais detalhes, em estado de vigília, e um acontecimento isolado, inicialmente
ininteligível, pode ser integrado na esfera da personalidade total, embora inicialmente
o sujeito não tenha consciência disto.” JUNG
Pais e pacientes realizando obras no Ateliê mediados pelo psicólogo e pelo arte terapeuta
Pais executando a obra “Doação de gestos” em conjunto
29
Obra “Doação de gestos” fixada na parede do ateliê ao lado de outras obras
Pais e pacientes confeccionando peças de cerâmica e gesso com mediação do psicólogo e do arte terapeuta
Tela “Doação de gestos” emoldurada e fixada em parede com figura humana em primeiro plano do lado
esquerdo, representando escala humana– imagem produzida com IA
30
Considerações finais
O processo de reabilitação de pessoas
com deficiência visual através das Artes deve
priorizar o indivíduo como um ser ativo em
seu desenvolvimento, verificando suas metas,
preferências, ideias, decisões e construções.
O profissional de Artes deve sempre rever-se
a fim de questionar e verificar sua prática,
que deve assumir um viés de instrução,
mediação e propagação de conhecimentos ao
invés de imposição de formas e estruturas fixas
de execução. Além disso, deve se cercar de
conhecimentos de técnicas que favoreçam o
acesso aos materiais e estratégias, bem como
das adaptações pensadas individualmente
para cada aluno.
A família, por sua vez, deve ser educada
a entender as particularidades de seus parentes
a fim de proporcionar espaço para tomadas
de decisões. Assim, ocorrerá uma abertura às
descobertas de recursos facilitadores, para o
desabrochar da criatividade, reforçando a auto
estima desses indivíduos.
A Arte e o fazer artístico dentro de um
serviço de reabilitação visual contribui com
a promoção da autonomia, da independência
e fornece espaço para o restabelecimento da
identidade, ganhos esses que se manifestam
em diversas áreas da vida desses artistas-alunos,
cumprindo o papel fundamental de contribuição
à inclusão social.
31
Referências:
1
Haddad MAO, Sampaio MW, Susanna JR R. Reabilitação visual: compromisso do oftalmologista
com o futuro. In: Haddad MAO, organizators. Reabilitação em oftalmologia. Barueri: Editora
Manole; 2020. p. 3-25.
2
Kubler-Ross E. “Sobre a morte e o morrer”. 8. ed. Menezes P, translator. São Paulo: Martins
Fontes;1998.
3
Mazur RA, Moraes SBF. Caminhos para a reabilitação e inclusão social de pessoas com
baixa visão e cegueira. In: Haddad MAO. Reabilitação em oftalmologia. Barueri: Manole;
2020. p. 295-302.
Autores:
Daniel Fonseca de Freitas
Flavia Faias de Andrade
Maria Aparecida Onuki Haddad
Sonia Mitico Fucasse Gondo
Alan Kimio Itabashi
Elisangela Cristina Bizoli Casimiro
Fernando de Andrade
Erica Furukawa
Sarah Barbosa Ferreira de Moraes
Colaboradores:
Alex Haruo Higashi
Francielle dos Santos Teixeira
Jorge Sidnei de Andrade
Júlia Souza Ambrosio
Keli Roberta Mariano Matheus
Leandro Lanchotti Cavalcante
Marcelo Inagaki
Milene Keiko Iramina
Myriã Pires Miranda da Luz
Rodrigo Hideharo Sato
32
Catálogo de Artes
33
34
Pinturas
Daniel Freitas
Tempera guache sobre papel Kraft
150cm - 122cm
Julio Cesar Aguiar da Silva Pereira
Tempera guache sobre papel Kraft
90cm - 90cm
35
36
Felipe Braga Pereira
Tempera guache sobre papel Kraft
119cm - 119cm
Adivan Ferreira Alves
Tempera guache sobre papel Kraft
100cm - 170cm
37
38
Ingo Machado Neves
Tempera guache sobre papel Kraft
145 - 119cm
Gislene Amorim dos Santos
Tempera guache sobre papel Kraft
145 - 119cm
39
40
Gabrielle da Silva
Acrílico sobre Tela
40cm - 80cm
Adivan Ferreira Alves
Acrílico sobre Tela
150cm - 122cm
41
42
Anne Cristine da Costa Dias
Tempera guache sobre papel Kraft
200cm - 115cm
Julio Cesar Aguiar da Silva Pereira
Acrílico sobre Tela
140cm - 80cm
43
44
Deocrécio Inácio
Guache sobre papel Kraft
100cm - 80cm
45
Autor desconhecido
Guache sobre papel Kraft
80cm - 100cm
Autor desconhecido
Guache sobre papel Kraft
80cm - 100cm
46
Maria Eduarda Tavares Ferreira
Guache sobre papel Kraft
80cm - 100cm
Manuelly Meneses Lobão
Guache sobre papel Kraft
80cm - 100cm
47
48
Matheus da Silva Vieira
Guache sobre papel Kraft
80cm - 100cm
Maria Clara de Carvalho Gregio
Guache sobre papel Kraft
80cm - 100cm
49
50
Vinícius Borges
Acrílico sobre Tela
140cm - 80cm
Carla Zemella
Acrílico sobre Tela
160cm - 122cm
51
52
Bernardo Youssef
Guache sobre papel Kraft
100cm - 80cm
53
54
Autor desconhecido
Guache sobre papel Kraft
80cm - 100cm
Felipe Braga
Guache sobre papel Kraft
80cm - 100cm
55
56
Mateus e Gustavo
Acrílico sobre Tela
122cm - 160cm
57
58
Vinicius Nassar
Tempera guache sobre papel Kraft
200 - 119cm
Vinicius Nassar
Acrílico Sobre Tela
145 - 119cm
Vinicius Nassar
Tempera guache sobre papel Kraft
145 - 119cm
59
60
Vinicius Nassar
Acrílico sobre Tela
50cm - 65cm
61
62
Vinicius Nassar
Acrílico sobre Tela
100cm - 50cm
Vinicius Nassar
Acrílico sobre Tela
100cm - 80cm
63
64
Vinicius Nassar
Acrílico sobre Tela
50cm - 65cm
65
66
Vinicius Nassar
Tempera guache sobre papel Kraft
145 - 119cm
Gravuras
67
68
Carla Zemella
Colo gravura
50cm - 66 cm
69
Adivan Ferreira Santos
Colo gravura
40cm - 40cm
Deocrécio Inácio
Colo gravura
50cm - 66 cm
70
Adriano Fonseca
Colo gravura
50cm - 66 cm
71
72
Adriano Fonseca
Colo gravura
50cm - 66 cm
73
74
Carmem Ortega
Colo gravura
50cm - 66 cm
Autor desconhecido
Colo gravura
30cm - 46 cm
Anne Dias
Colo gravura
30cm - 46 cm
75
76
Adriano Fonseca
Colo gravura
50cm - 66 cm
Esculturas
77
78
Isabela Victoria Santos de Oliveira
Escultura de papelão e gesso.
17cm - 28cm - 09cm
79
80
Marcelo acompanhado do paciente Ricardo
Escultura de Papelão e gesso com acabamento automotivo
28cm - 28cm - 22cm
81
82
Mara Mascarenhas
Papelão e gesso, acabamento em acrílico
13cm - 22cm - 22cm
83
84
Gilmara Lopez Kosi
Papelão e gesso
21cm - 18cm - 14cm
85
86
Francisco José de Souza
Papelão e gesso
21cm - 5cm - 5cm
87
88
Vinícius Nassar
Papelão e gesso
15cm − 40cm - 5cm
89
90
Rosivania da Silva Dourado
Papelão e gesso
15cm − 35cm - 6cm
91
92
Renato Barbosa
Papelão e gesso com acabamento automotivo
16cm - 18cm − 8cm
93
94
Patrícia Santana dos Reis
Papelão e gesso
25cm - 18cm − 18cm
95
96
Crhistiane Souza de Oliveira
Papelão e gesso
21cm - 18cm - 14cm
97
98
Deocrécio Inácio
Papelão e gesso
33 cm - 38m − 25m
99
100
Gustavo Bispo de Sousa
Papelão e gesso
21cm − 6cm - 6cm
101
102
Matheus da Silva Vieira
Papelão e gesso
21cm − 6cm - 6cm
103
104
Glossário
Autor
Daniel Freitas
Técnica
Tempera guache sobre papel Kraft
Tamanho
150cm - 122cm
Autor
Julio Cesar Aguiar da Silva Pereira
Técnica
Tempera guache sobre papel Kraft
Tamanho
90cm - 90cm
Autor
Felipe Braga Pereira
Técnica
Tempera guache sobre papel Kraft
Tamanho
119cm - 119cm
Autor
Adivan Ferreira Alves
Técnica
Tempera guache sobre papel Kraft
Tamanho
100cm - 170cm
Autor
Ingo Machado Neves
Técnica
Tempera guache sobre papel Kraft
Tamanho
170cm - 110cm
105
Autor
Gislene Amorim dos Santos
Técnica
Tempera guache sobre papel Kraft
Tamanho
145cm - 119cm
Autor
Gabrielle da Silva
Técnica
Acrílico sobre Tela
Tamanho
40cm - 80cm
Autor
Adivan Ferreira Alves
Técnica
Acrílico sobre Tela
Tamanho
150cm - 122cm
Autor
Anne Cristine da Costa Dias
Técnica
Tempera guache sobre papel Kraft
Tamanho
200cm - 115cm
Autor
Julio Cesar Aguiar da Silva Pereira
Técnica
Acrílico sobre Tela
Tamanho
140cm - 80cm
106
Autor
Deocrécio Inácio
Técnica
Guache sobre papel Kraft
Tamanho
100cm - 80cm
Autor
Autor desconhecido
Técnica
Guache sobre papel Kraft
Tamanho
80cm - 100cm
Autor
Autor desconhecido
Técnica
Guache sobre papel Kraft
Tamanho
80cm - 100cm
Autor
Maria Eduarda Tavares Ferreira
Técnica
Guache sobre papel Kraft
Tamanho
80cm - 100cm
Autor
Manuelly Meneses Lobão
Técnica
Guache sobre papel Kraft
Tamanho
80cm - 100cm
107
Autor
Matheus da Silva Vieira
Técnica
Guache sobre papel Kraft
Tamanho
80cm - 100cm
Autor
Maria Clara de Carvalho Gregio
Técnica
Guache sobre papel Kraft
Tamanho
80cm - 100cm
Autor
Vinícius Borges
Técnica
Acrílico sobre Tela
Tamanho
140cm - 80cm
Autor
Carla Zemella
Técnica
Acrílico sobre Tela
Tamanho
160cm - 122cm
Autor
Bernardo Youssef
Técnica
Guache sobre papel Kraft
Tamanho
100cm - 80cm
108
Autor
Autor desconhecido
Técnica
Guache sobre papel Kraft
Tamanho
80cm - 100cm
Autor
Felipe Braga
Técnica
Guache sobre papel Kraft
Tamanho
80cm - 100cm
Autores (grupo de arte e psicologia)
Mateus e Gustavo
Técnica
Acrílico sobre Tela
Tamanho
122cm - 160cm
Autor
Vinicius Nassar
Técnica
Tempera guache sobre papel Kraft
Tamanho
200cm - 119cm
Autor
Vinicius Nassar
Técnica
Acrílico Sobre Tela
Tamanho
145cm - 119cm
109
Autor
Vinicius Nassar
Técnica
Tempera guache sobre papel Kraft
Tamanho
145cm - 119cm
Autor
Vinicius Nassar
Técnica
Acrílico sobre Tela
Tamanho
50cm - 65cm
Autor
Vinicius Nassar
Técnica
Acrílico sobre Tela
Tamanho
100cm - 50cm
Autor
Vinicius Nassar
Técnica
Acrílico sobre Tela
Tamanho
100cm - 80cm
Autor
Vinicius Nassar
Técnica
Acrílico sobre Tela
Tamanho
50cm − 65cm
110
Autor
Vinicius Nassar
Técnica
Tempera guache sobre papel Kraft
Tamanho
145cm - 119cm
Autor
Carla Zemella
Técnica
Colo gravura
Tamanho
50cm - 66 cm
Autor
Adivan Ferreira Santos
Técnica
Colo gravura
Tamanho
40cm - 40cm
Autor
Deocrécio Inácio
Técnica
Colo gravura
Tamanho
50cm - 66 cm
Autor
Adriano Fonseca
Técnica
Colo gravura
Tamanho
50cm - 66 cm
111
Autor
Adriano Fonseca
Técnica
Colo gravura
Tamanho
50cm - 66 cm
Autor
Adriano Fonseca
Técnica
Colo gravura
Tamanho
50cm - 66 cm
Autor
Autor desconhecido
Técnica
Colo gravura
Tamanho
30cm - 46 cm
Autor
Anne Dias
Técnica
Colo gravura
Tamanho
30cm - 46 cm
Autor
Adriano Fonseca
Técnica
Colo gravura
Tamanho
50cm - 66 cm
112
Autor
Isabela Victoria Santos de Oliveira
Técnica
Escultura de papelão e gesso.
Tamanho
17cm - 28cm - 09cm
Autor
Marcelo acompanhado do paciente Ricardo
Técnica
Papelão e gesso com acabamento automotivo
Tamanho
28cm - 28cm - 22cm
Autor
Mara Mascarenhas
Técnica
Papelão e gesso, acabamento em acrílico
Tamanho
13cm - 22cm - 22cm
113
Autor
Gilmara Lopez Kosi
Técnica
Papelão e gesso
Tamanho
21cm - 18cm - 14cm
Autor
Francisco José de Souza
Técnica
Papelão e gesso
Tamanho
21cm - 5cm - 5cm
Autor
Vinícius Nassar
Técnica
Papelão e gesso
Tamanho
15cm − 40cm - 5cm
114
Autor
Rosivania da Silva Dourado
Técnica
Papelão e gesso
Tamanho
15cm − 35cm - 6cm
Autor
Renato Barbosa
Técnica
Papelão e gesso com acabamento automotivo
Tamanho
16cm - 18cm − 8cm
Autor
Patrícia Santana dos Reis
Técnica
Papelão e gesso
Tamanho
25cm - 18cm − 18cm
115
Autor
Crhistiane Souza de Oliveira
Técnica
Papelão e gesso
Tamanho
21cm - 18cm - 14cm
Autor
Deocrécio Inácio
Técnica
Papelão e gesso
Tamanho
33 cm - 38m − 25m
Autor
Gustavo Bispo de Sousa
Técnica
Papelão e gesso
Tamanho
21cm − 6cm - 6cm
116
Autor
Matheus da Silva Vieira
Técnica
Papelão e gesso
Tamanho
21cm − 6cm - 6cm
117
118