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Sobrevento_DiogoBachega

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SOBREVENTO


DIOGO BACHEGA PAIVA

Sobrevento

Teatro e imigração


Introdução 4

1.A peça ‘Para Mariela’ 6

2.Surge o Sobrevento 19

3. O Sobrevento hoje 41

4. Uma outra história, a de Juan 56

5. Mariela também quer ver o mar 65

Agradecimentos 68


Introdução

Caro leitor, este livro não é uma biografia do Grupo

Sobrevento. Antes, é o conjunto de algumas das

histórias que se cruzaram na peça “Para Mariela” e,

através dessas histórias, um pedaço de um enredo

muito maior, da arte que surge a partir da imigração.

Te convido a olhar para uma face específica da

trama, o Sobrevento que é um grupo formado por

imigrantes e filhos de imigrantes, que se instala no

Belenzinho, ao lado do Brás, uma região que sempre

foi de retirantes, e se entrelaça na região, se tornando

parte de um ecossistema de pessoas que sonham

com o que elas não têm e não sabem se um dia vão

ter. Para melhor te contar essa história, tomei a liberdade

de contar outras, ainda que muito brevemente:

do teatro de grupo, do Brás e de sua região.

Em muitos momentos, tive como meu ma-


terial central ou exclusivo os relatos dos meus personagens.

O que apresento a você aqui é , acima

de tudo, as histórias que essas pessoas construíram

para si, quando se mudaram para outro lugar

e tentaram, nadando contra a corrente do acaso,

decidir seu futuro; e que reconstroem, com

mais ou menos exatidão, sempre que as recontam.

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Capítulo 1: A peça ‘Para Mariela’

Em um tanque de areia que serve como palco, atores

desenham, com seus dedos, estradas e vilarejos. Com

pequenas formas de papel, moldam casas e morros

e, com elas, contam histórias de pessoas que um dia

viveram juntas, mas tiveram que partir para uma

outra vida. A encenação avança com uma variedade

de recursos: uma mulher veste um manto coberto

por pedaços de vidro e é atingida por luzes, que são

refletidas e projetadas pelo ambiente. Máscaras e figurinos

feitos à mão alimentam uma dança em que

guerreiro vira demônio e volta a ser guerreiro. Três

músicos bolivianos tocam música típica de seu país.

Em certo momento, a partir de objetos à primeira

vista insignificantes, como um brinquedo ou uma

garrafa de água, suspensos sobre o palco através de

fios presos ao teto, os atores exploram histórias de


crianças que deixaram já novas sua terra natal ou nasceram

no Brasil após seus pais aqui desembarcarem.

Crianças bolivianas, ou seja, vindas de um lugar que

há muitos anos não tem mar, mas que continuam

sonhando com um dia conhecê-lo.

Todo dia 23 de março, os bolivianos celebram

as águas que perderam há quase um século e meio.

Em 1879, a Bolívia entrou em conflito com o Chile

por causa da cidade costeira de Antofagasta, único

acesso da Bolívia à costa do continente. A cidade era

ocupada principalmente por companhias e pessoas

chilenas, que exploravam comercialmente a região

a partir de um acordo com o país vizinho, até que

uma desavença em torno de uma dessas empresas escalou

para uma disputa armada. Encerrada a Guerra

do Pacífico, como ficou conhecido o embate, o Chile

expandiu seu território, enquanto a Bolívia ficou

ilhada no meio do continente. É essa anedota que

inspirou a chilena Sandra Vargas, seu marido brasileiro

Luiz André e o resto do grupo de teatro Sobrevento

na peça “Para Mariela”, que parte de histórias

que os artistas ouviram de crianças imigrantes bolivianas

e vê na insistência em sonhar com o mar uma

metáfora para vontade de um futuro melhor, que, às

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vezes, parece não menos distante.

É uma segunda-feira à noite

e falta pouco menos de duas horas para a peça

“Para Mariela” começar no Sobrevento. Luiz André,

diretor, ator e um dos fundadores do grupo de teatro,

em breve se apresentará para adultos e crianças,

mas por enquanto está sentado no canto da garagem

que faz as vezes de foyer para o espaço. Luiz inspeciona,

com a ajuda de uma chave de fenda, uma peça

de plástico presa a uns fios, o pedaço de uma campainha,

como me conta. Ele anda insatisfeito com o

som dos alertas que marcam o começo de cada espetáculo

e, por isso, busca consertar o dispositivo no

tempo que resta até a peça.

A cena fica comigo porque retrata uma questão

importante: o Sobrevento é um grupo de teatro de

mão na massa. Um dos mais longevos do Brasil, com

suas quase quatro décadas de atividade, está instalado

no Belenzinho, na fronteira com o Brás, na zona

leste de São Paulo, em um espaço que é algo rústico,

algo romântico. A garagem/foyer é também uma

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oficina para a fabricação de bonecos e outras peças

utilizadas nos espetáculos, e está separada da sala de

apresentação por uma parede preta, que esconde em

seu interior prateleiras organizadas com cenários, figurinos

e componentes eletrônicos utilizados para

iluminação e som. Uma outra parede semelhante separa

a sala de apresentação de um terceiro espaço nos

fundos, com andaimes que comportam ainda mais

material e salas para os atores comerem e se trocarem,

além de estantes onde são guardados os documentos

da companhia. A própria sala de exibição é um

artesanato. As arquibancadas podem ser montadas

e desmontadas em diferentes formatos. Em “Para

Mariela”, foram dispostas em um grande retângulo,

no centro do qual está um tanque de areia, o palco.

Retalhos de tecidos vermelhos coletados das sobras

das costureiras do bairro formam uma moldura para

o tanque, ou um tapete vermelho exótico que recebe

a plateia.

“Para Mariela” começou a nascer quando o Sobrevento

reabriu para o público, logo após a pandemia.

Os artistas do grupo perceberam que o bairro

havia mudado durante o isolamento, e que eles já não

conheciam a vizinhança como costumavam conhe-

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cer. Voltaram seus esforços, então, para mapear as escolas

e instituições da região e descobrir quem eram

os líderes da comunidade em suas diferentes áreas,

da cultura à saúde, passando pela educação das crianças.

Disso surgiram algumas peças infantis, uma das

especialidades do Sobrevento. A trupe se incomodou,

no entanto, ao perceber que a parte boliviana

da comunidade não ia visitá-los. “A gente entendia

que eles tinham um pouco de vergonha, mas depois

fomos percebendo que o problema é mais complexo,

e o que havia era medo”, conta Sandra, a diretora.

“Eles vêm de uma situação de muita vulnerabilidade,

para um bairro que desconhecem completamente.”

O Brás possui uma das maiores concentrações

de imigrantes do país, e a maior parte deles vem da

Bolívia — um levantamento da Folha de S. Paulo a

partir de dados da Polícia Federal calculou que quase

57 mil deles se registraram entre 1999 e 2019 por ali.

Segundo Sandra, muitas dessas pessoas são advertidas

de que não devem confiar nos brasileiros, temem

ser enganadas ou mesmo deportadas. “Mas as crianças

não têm nada disso”, ela afirma. “Por conta da escola,

elas querem se integrar, fazer parte, se divertir.”

O grupo então enviou seus artistas aos colégios da

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região para se apresentar e conversar com as crianças

e os jovens, explicar a eles o que o Sobrevento faz e

convidá-los a assistir a alguma de suas peças, que são

sempre gratuitas para o público no espaço, formato

que parte de um senso de dever do grupo e é possibilitado

pelo fomento oriundo de políticas públicas.

O Sobrevento tem uma tradição longa de trabalhar

com teatro de objetos. Itens coletados do cotidiano

das pessoas ou construídos pelos artistas estão

no centro da criação cênica. “Para Mariela” partiu de

uma pesquisa a partir dessa técnica. O grupo já havia

feito duas exposições com materiais que carregam

histórias de seus vizinhos adultos. Quando eles decidiram

fazer a primeira mostra com a colaboração

de crianças, desmontaram todas as arquibancadas de

seu espaço e cobriram o chão com tapetes coloridos.

Os pequenos se sentavam nesses tapetes e contavam

uns aos outros as histórias dos objetos que escolheram

apresentar. “Nós fomos surpreendidos. Elas diziam

coisas muito sofridas, do nosso ponto de vista

adulto, mas sempre sob uma ótica do lado bom”, diz

Sandra. “Em vez de uma criança dizer que ela passava

o dia inteiro sem ver o sol, ela dizia o contrário, ‘a

hora do dia que eu mais gosto é ao meio-dia, quando

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meu pai me leva ao mercado e eu posso ver o sol.’ E

falava isso sem comiseração, sem pena.”

A partir do que ouviram, os artistas decidiram

revisitar também suas próprias infâncias, e misturar

tudo no espetáculo. “Quando a gente vai se tornando

adulto, vamos menosprezando uma delicadeza,

uma sabedoria, uma necessidade de afeto e até um

deslumbramento que deveríamos sempre manter na

nossa vida”, continua Sandra. “As crianças acabam

revelando coisas que a gente não espera”, complementa

Luiz André. “No teatro de objetos, as pessoas

vêm com coisas sempre um pouco melancólicas,

saudosistas... As crianças também têm uma história

profunda, só que ela não está nessas reminiscências

cultuadas, mas em objetos que vêm com uma pureza.”

Ele menciona uma história que está na peça, de

uma garota que escolheu como objeto uma garrafa

de água descartável, a que mencionei no começo deste

capítulo. Primeiro houve um estranhamento entre

os artistas, a impressão de que a menina não soube

escolher nada levou qualquer coisa. Ao ouvi-la,

no entanto, eles descobriram que ela sempre quis ter

a garrafa, e a guarda com afeto desde que a obteve.

A história pode causar estranhamento para o

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leitor, talvez mesmo parecer piegas. É preciso ter em

mente, no entanto, a privação na vida dessas crianças,

muitas das quais vivem em famílias em que

quaisquer gastos que fujam ao essencial, mesmo a

compra de uma garrafinha descartável, é um luxo.

“Afeto é uma coisa que a gente vai desmerecendo. Parece

uma palavra de moda, mais uma dessas cafonices

que a gente costuma usar, mas não é isso. Tudo isso,

‘amor’, ‘criança’. Nos tornamos cínicos”, diz Luiz.

“Para Mariela” não foi anunciada como uma

encenação para o público infantil, mas foi pensada

para se comunicar também com ele. “A peça traz

questões profundas, e as crianças são capazes de entender

e sentir a profundidade dessas questões, que

ao mesmo tempo são simples e nos afetam a todos de

diferentes maneiras”, diz o diretor. “Por meio da escuta

das crianças, nós queremos fugir daquela complexidade

dos temas que, às vezes, não é complexidade,

é simplesmente afetação.” Desde que começou a

frequentar as escolas e instituições da região, o grupo

buscou conquistar a juventude e, através dela, seus

pais. Acima de tudo, queriam se aproximar da comunidade

boliviana, à qual ainda tinham pouco acesso.

Deu certo. Carregados pelos filhos, os adultos co-

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nheceram a arte do Sobrevento e se desarmaram. Daí

para frente, a relação do grupo com os vizinhos se

estreitou. Entre eles, estava Mariela, que dá nome à

peça e sonha com um dia fazer arte. Antes de voltar

a ela, no entanto, peço licença ao leitor para contar

outras histórias.

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Cenas da peça ‘Para Mariela’. Na primeira foto desta página, em primeiro

plano, está Luiz André Cherubini. Atrás, da esquerda para a edireita, Liana

Yuri, Daniel Viana, Agnaldo Souza, Maurício Santana e Sandra Vargas.


Liana Yuri veste um manto coberto de pedaços de vidro.


Luiz André Cherubini veste um manto que remete ao mar.


Acima, o ator Maurício Santana. Abaixo, a atriz e diretora Sandra Vargas.

Todas as fotos desta seção foram feitas por Lauro Medeiros. As fotos do

livro foram cedidas pelo acervo do Grupo Sobrevento.


Capítulo 2: Surge o Sobrevento

Sandra Vargas

“Eu cheguei no Brasil em 1982, aos 14 anos”, conta

Sandra Vargas, uma das pessoas que dirigem o Grupo

Sobrevento, hoje com 57 anos. Seu pai, empreiteiro,

trabalhava com obras públicas que havia assumido

antes do golpe militar responsável por colocar

Augusto Pinochet à frente do país. O novo regime

não quis pagar pelos projetos que vinham do governo

Salvador Allende, presidente do Chile antes da

tomada do poder. O pai dela reagiu, ameaçou levar

a público informações sobre uma outra obra, um

segredo militar ligado à possibilidade de uma guerra

entre Chile e Peru, caso não recebesse pelas obras

que fez, segundo Sandra. “Ele fez isso com o Contreras,

que é o braço direito do Pinochet, o maior res-

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ponsável pelas torturas e tudo da ditadura”, ela diz.

No dia seguinte à bravata do pai, a família de Sandra

encontrou sua casa revirada. O conselho dos advogados

da família foi categórico: “É melhor vocês fugirem,

porque eles vão matar vocês.”

Os pais vieram na frente ao Brasil, enquanto as

filhas foram distribuídas pelas casas de pessoas próximas.

Sandra ficou na casa de um meio-irmão, filho

de um primeiro casamento de seu pai e muito mais

velho que ela. Uma de suas irmãs se abrigou com

uma tia, e a outra, na casa de uma vizinha próxima

à família. “Ficamos divididas, as três filhas. Nós não

sabíamos para onde eles tinham ido, era uma questão

de segurança não saber. Acho que o mais triste

foi o momento que a gente ficou separado dos nossos

pais: tudo mudou e a gente não sabia o que nos

esperava.”

Meio ano depois, as três irmãs vieram para o

Brasil. Seus pais queriam que elas apenas passassem

as férias com eles e então retornassem ao Chile, mas

as filhas insistiram para ficar por aqui. Elas vieram

de ônibus. Na época, os pais de Sandra moravam em

um quarto numa pensão, onde sua mãe fez amizade

com um estudante, que se compadeceu com a mu-

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lher e foi buscar as três garotas na rodoviária. “Aquele

estudantezinho que tinha carro se compadeceu da

minha mãe e veio nos recolher, eu lembro claramente

do choque de ver minha mãe sozinha com ele e

depois chegar na pensão. Mas aí tratamos como começar

de novo, como uma aventura, porque tinha,

por outro lado, todo o deslumbramento do que era

São Paulo em relação a Santiago, uma cidade ultraconservadora,

muito provinciana.”

No começo, a vida de Sandra passou por uma

mudança radical. No Chile, a situação de sua família

era bastante privilegiada no que dizia respeito a

dinheiro; quando vieram para cá, deixaram tudo o

que tinham para trás, trazendo na mala apenas uma

coleção de dívidas, resultado do investimento de seu

pai nas obras pelas quais nunca recebeu. Se economicamente

sua vida virou de cabeça para baixo, no

entanto, o mesmo não aconteceu com a qualidade

dos seus estudos, grande preocupação de sua mãe,

que conseguiu, a partir de colégios do Chile, garantir

bolsas em escolas particulares de São Paulo para suas

filhas.

Sandra lembra que, logo quando chegou ao

Brasil, sua mãe deu um jeito de comprar ingressos

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para assistir ao show de Ney Matogrosso, “com

aquele show de penas e tudo”, mesmo que ela e seu

marido estivessem duros. “Minha mãe estava muito

deslumbrada com isso tudo, com um lugar que, apesar

de estar na ditadura, era muito mais livre que o

Chile. Ela era uma pessoa muito sábia num sentido

de, não sei se rebeldia ou de reverência e de cultura.

Ela achava que o Brasil ia fazer super bem para a

nossa formação cultural e estava muito deslumbrada

com o tamanho da cidade.” A diretora de teatro

relembra quando sua mãe levou as filhas à Praça da

Sé para mostrar o metrô e as baldeações. “Ela falava

sobre como o lugar era grande e tinha tanta gente,

mas nunca numa numa coisa negativa, pelo contrário,

para ela nós estávamos num lugar que ia abrir a

nossa cabeça.”

Sandra e sua família estavam felizes por estar em

um país que parecia corresponder ao que entoavam

as canções. Na escola, Sandra ganhou de uma colega

uma fita com uma coletânea de cada cantor que ela

acreditava que a amiga precisava ouvir da música popular

brasileira. “Tudo isso foi criando um fascínio,

uma alegria muito grande de estar aqui, apesar de

tudo que a gente tinha passado.”

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No começo, a situação de Sandra e sua família era

irregular. Isso só mudaria em 1985, quando o Brasil

decretou a segunda de quatro grandes anistias a

imigrantes ilegais de sua história recente (antecedida

pela de 1980 e sucedida por decisões de 1998 e 2009,

segundo o Memorial da Democracia). “Me lembro

que, a cada seis meses, eu tinha que ir para o Paraguai

com a minha mãe e voltar de novo, porque aí voltava

a valer meu visto de turista”, conta a diretora do

Sobrevento.

Sandra queria fazer teatro desde sempre, ela diz.

No Chile, encenava nas montagens de um professor

que dava uma matéria extracurricular em sua escola

e levava os estudantes para festivais de teatro. Ela

lembra de uma cena que se deu no estacionamento

de um desses eventos. O professor estava encostado

num carro, muito triste, e disse: “‘Olha, se querem

ser masoquistas, vocês façam teatro.” “Ele falou isso

todo amargurado”, conta Sandra. “Ele vendia remédios

para se manter para fazer teatro e, naquele dia,

não havia vendido nenhum remédio, acho que ele

contava com aquilo. Lembro até agora dele bem desolado

por estar sem dinheiro e, ao mesmo tempo,

amando fazer teatro. Ele foi muito importante para

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mim.”

No Brasil, Sandra começou a ter dúvidas sobre

seu futuro. Como poderia fazer teatro aqui, se nem

sequer falava português? Quando estava terminando

o colegial, percebeu que, por estar em situação ilegal

no país, não poderia prestar vestibular. Abandonou

o colégio em que estudava em São Paulo no último

ano e voltou ao Chile, onde fez um supletivo rápido

para poder voltar a ser considerada uma estudante

estrangeira. “Quando voltei para lá, minha mãe me

deu o dinheiro do ônibus, mas, em vez de eu comprar

a passagem para todo o trajeto, comprei só até

Uruguaiana, na fronteira, e lá pedi carona para um

senhorzinho que tinha um caminhão”, conta. “Meus

pais eram super duros, eu ficava com pena deles. Fui

com um namorado que eu tinha na época, um estudante

de música da USP que eu tinha acabado de

conhecer. Eu passei cinco dias sem tomar banho, esperando

nos estacionamentos quando parávamos,

porque eu tinha medo de que me acontecesse alguma

violência.” De volta ao Chile, pôde concorrer a

uma bolsa do programa Estudante-Convênio, que

existe até hoje e permite que pessoas de outros país

disputem vagas em universidades brasileiras. Ela

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pensou em prestar vestibular para Letras, em meio

às incertezas, mas decidiu no último segundo: era

teatro o que queria fazer, se viraria para aprender a

língua.

Ela passou no processo e conseguiu uma vaga

na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro,

a Unirio, longe de seus pais, que continuavam

em São Paulo. Quando chegou na cidade, detestou

o Rio. “Eu me lembro da rodoviária ter sido uma

coisa muito assustadora para mim, eu não me sentia

segura como eu me sentia em São Paulo. Eu entrei

pensando: quando der um ano, vou pedir a transferência

para a USP.”

Surge o grupo

Já em seu primeiro ano na faculdade e ainda insatisfeita

com o Rio de Janeiro, Sandra Vargas se deparou

com uma greve de estudantes que não conseguiam

se formar. Os alunos que cursavam o caminho para

se tornar atores precisavam participar de peças organizadas

pelos que se formavam como diretores para

terminar a graduação, mas nem sempre conseguiam

ser escalados para produções. Consequência: eles fi-

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cavam presos no curso, esperando o momento em

que finalmente integrariam um elenco e poderiam

deixar a Unirio. Sandra e seu colega, Miguel Vellinho,

que frequentava a mesma turma de Artes Cênicas,

perceberam que, caso não se precavessem, desembocariam

na mesma enrascada. “Foi a greve que

nos deixou atentos a essa coisa de fazer peças e ter um

grupo”, conta Sandra.

Luiz André Cherubini estudava na classe anterior

à de Sandra e Miguel, seis meses à frente deles, e

queria se formar como um diretor teatral. Naquele

ano, a Fundação Nacional das Artes, a Funarte, patrocinou

uma disciplina optativa de teatro de bonecos

na Unirio. “O curso acabou sendo muito bem sucedido,

aconteceu exatamente o que eles almejavam:

Aquilo despertou o interesse de jovens, apresentou a

eles o mundo do teatro de bonecos como uma possibilidade

expressiva.” Lá, Luiz conheceu seus dois

calouros, e os três, nenhum tendo avançado muito

na maioridade, criaram o Sobrevento em 1986.

Luiz, nascido vinte anos antes, é carioca filho

de italiano com mineira, neto de paraense e bisneto

de sergipano. “É uma mistura de gente de muitos lugares”,

ele diz. “Meu pai veio ao Brasil depois de ser

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prisioneiro na Segunda Guerra. Tudo isso pode não

ser muita coisa, mas influencia pequenos detalhes.

Sempre fica essa ideia de que temos que ser muito

precavidos, não podemos nos aventurar cegamente,

precisamos construir as coisas pouco a pouco, ter

paciência. E nos dá um olhar para o nosso país que

também vem um pouco de fora.” Já na infância, se

interessou pelo teatro. Se apresentava na escola e no

bairro, onde uma professora que morava em seu prédio

realizava pequenas encenações com as crianças

da vizinhança. Com sua mãe, frequentadora assídua

de peças, foi conhecendo aquele mundo.

Ao trio que fundou o Sobrevento, logo se juntaram

a então atriz Andréa Freire e Glória, uma moça

que faleceu poucos meses depois com um câncer.

Quando enfim saiu sua transferência para a Universidade

de São Paulo, Sandra renunciou a ela. “Eu já

tenho um grupo, já estou super situada aqui, não

vou para lá começar tudo de novo”, pensou. Tomaram

para si uma sala da faculdade separada para o teatro

de bonecos, sua primeira sede. Depois, morando

juntos, Sandra e Luiz André passaram a separar

um espaço de sua casa para o Sobrevento, que mais

para frente ganhou um ambiente próprio em uma

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casa vazia que pertencia aos avós de Luiz.

O Rio de que Sandra queria fugir acabou definindo

sua vida. Lá, ela e seus colegas conheceram

Magda Modesto, então presidente da Associação

Brasileira de Teatro de Bonecos, grande defensora

da difusão dessa arte. “Se não fosse por Magda, não

sei o quanto estaríamos convencidos”, ela diz. Por

meio de Magda, ficaram sabendo de um curso do

encenador Philippe Genty, tido por muitos como

o pai do teatro de fantoches moderno. Em 1987,

conseguiram uma bolsa para estudar com Genty na

França por um mês e meio. Foram com a benção da

faculdade, que os dispensou sem faltas ou quaisquer

prejuízos, e aprenderam com o mestre diretrizes para

entender o tipo de encenação em que se aventuravam.

“Ele nos ajudou a compreender o teatro de

animação como uma coisa maior, ao nos mostrar

espetáculos que misturavam muitas linguagens, e

pelas mãos de um dos maiores encenadores da Europa.”

A capital fluminense também recebia visitas

de alguns dos principais grupos e artistas do teatro

antropológico. Por lá passou, na década de 1980, Eugenio

Barba, que cunhou a ideia de antropologia do

teatro, e a companhia Teatro Tascabile Di Bergamo

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com seus mestres da perna de pau. “Eles tinham um

trabalho de corpo a que a gente deve muito. Toda

essa coisa da limpeza, um único gesto para dizer uma

única coisa, várias coisas que são muito importantes

quando você vai manipular um boneco, mas que a

gente aprendeu com o teatro antropológico.”

O Sobrevento migra

Em 1989, o Sobrevento lançou uma adaptação de

muito sucesso da ópera “Os Contos de Hoffmann”,

um clássico do alemão Jacques Offenbach do qual

Luiz André gostava muito, em uma versão que utilizava

o teatro de papel vitoriano, com bonecos bidimensionais

de papel que performam sobre uma

maquete, que toma o lugar do palco. Concentrada

no primeiro ato da obra de Offenbach, a montagem

contava a história de um poeta que se desilude ao

perceber que se apaixonou por uma boneca mecânica.

O espetáculo foi bem recebido pela crítica e pelo

público e foi indicado aos prêmios Mambembe, do

Ministério da Cultura, e Coca-Cola, dois dos principais

reconhecimentos do teatro infantil carioca da

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época.

Já com algum destaque no Rio de Janeiro, o

grupo foi convidado a se apresentar em um festival

de teatro que nascia na Universidade Estadual de

Campinas, onde encontrou outras trupes que se

formavam pelo Brasil, como o Grupo Galpão e o Ói

Nóis Aqui Traveiz. “Os grupos de teatro ainda eram

muito mal vistos naquela época, porque eram considerados

amadores; no momento em que o diretor

era a figura de grande destaque nos espetáculos, símbolo

de profissionalismo, eles eram associados a uma

ideia de oba-oba”, explica Luiz André. Esse encontro

em Campinas antecipou um retiro que aconteceu na

cidade de Vinhedo, para onde grupos do país inteiro,

do Acre ao Rio Grande do Sul, foram, pagando

suas passagens, para se encontrar. Ali falaram sobre

sobrevivência e o papel da pesquisa, sobre o que era

o teatro de grupo, como esses coletivos se organizavam

e como subsistiam. “Até então éramos grupos

de teatro; a partir dali criou-se a ideia de que todos

nós tínhamos um fazer comum, e cunhou-se nesse

encontro o termo teatro de grupo”, afirma o diretor.

“Outros grupos foram se juntando em edições posteriores:

Parlapatões, Vento Forte, e muitos outros

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de destaque.”

Quando vieram para Campinas com “Um Conto

de Hoffman” (como foi batizada sua adaptação),

os artistas permaneceram aqui para apresentações

na Sala Paulo Emílio Salles, do Centro Cultural São

Paulo, sua primeira temporada fora do Rio, e, a partir

daí, cada peça que montavam no Rio de Janeiro

vinha fazer estadia também nos teatros paulistanos.

Em 1993, trouxeram para cá não uma, mas três peças.

“Beckett”, que os levou para apresentações em

países como a Escócia e a Espanha, foi um sucesso

em São Paulo: após os três meses previstos para a

temporada, eles estenderam o cartaz para outros

dois. Trouxeram ainda sua “Mozart Moment”, que

estreara no Rio no ano anterior, e inauguraram a sala

Miriam Muniz do Teatro Ruth Escobar com a inédita

“O Theatro de Brinquedo”, a primeira estreia do

grupo feita aqui.

A crítica acolhia o grupo. Barbara Heliodora,

rainha temida da opinião carioca, destacou a “excepcional

qualidade” do grupo na primeira das três

obras, que considerou “memorável”. “Mozart” ganhou

múltiplos comentários positivos na imprensa

(só no Estado de S.Paulo, mais de um), tal qual “O

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Theatro de Brinquedo”.

A relação do Sobrevento com São Paulo ia se

estreitando e, em 1997, ao conseguirem uma temporada

longa no importante Teatro Anchieta do

Sesc Consolação, já vieram para se radicar na cidade,

como membros da Cooperativa Paulista de Teatro,

organização firmemente entrelaçada com a história

do teatro de grupo, por ter reunido muitos dos coletivos

que nasciam naqueles anos. “Viemos para um

apartamento na Avanhandava, expulsando a irmã da

Sandra da própria casa. Ela disse, ‘Eu fico na casa da

minha mãe e vocês podem ficar aqui, no apartamento

que eu alugo’”, diz Luiz André. “Ficamos uns seis

meses lá. Depois passamos a alugar um apartamento

próximo à estação São Judas do metrô e mantivemos

uma garagem em Diadema para manter os espetáculos

do nosso repertório guardados.”

Diadema entra em cena

Desde o Rio de Janeiro, Lúcia Vargas, a mãe de Sandra,

produzia para o Sobrevento. Quando o grupo

se mudou para São Paulo, ela decidiu largar seu

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emprego e se dedicar por completo às peças. Foi ela

quem os levou a Diadema, conhecendo o espaço que

a cidade tinha para a arte. Quando Sandra e Luiz foram

morar em São Judas, bairro da Zona Sul de São

Paulo que fica próximo a lá, os artistas começaram a

aproveitar a estrutura da cidade para fazer seus ensaios.

“A gente chegou a criar um espetáculo inteiro

lá, contamos até com a Secretaria de Obras da cidade

para construir a cenografia”, conta Sandra. “Diadema

era uma cidade com uma política cultural impressionante.

Eles criaram muitos centros culturais

e de formação, tinham o Teatro Clara Nunes, que tinha

uma programação de ponta. Eles traziam grupos

de teatro de diferentes lugares, as pessoas queriam se

apresentar lá, pegava bem porque eles tinham uma

curadoria de excelência.”

Em uma das várias oficinas que o grupo fez na

cidade, em 1998, estava Maurício Santana, um rapaz

jovem e interessado por arte, nascido em 1979, que

aproveitava os cursos livres oferecidos pelos centros

culturais de Diadema para estudar noções básicas de

teatro, música, artes plásticas, o que pintasse. Em

certa vez que o Sobrevento ia passar pela cidade, um

agente cultural de um desses espaços o avisou, “Vem

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aí um grupo muito legal, um pessoal que é referência.

Se você puder fazer a oficina deles, vale a pena, é

uma oportunidade.” Na época, a companhia já tinha

mais de dez anos de estrada.

Na oficina, Maurício se encantou com o teatro

de animação do Sobrevento e as oportunidades que

aquela linguagem abria, diferentes de tudo o que havia

visto até então. Ele se aproximou do grupo e passou

a frequentar os ensaios de “O Anjo e a Princesa”

e “Cadê o Meu Herói?”, duas montagens que estavam

sendo preparadas em paralelo. Se tornou um

uma espécie de estagiário do grupo, operando o som

das apresentações. A partir daí, sempre que possível,

estava com o Sobrevento — nem sempre, no entanto,

era possível, já que sua atenção era disputada por

seu trabalho e um outro grupo de teatro do qual participava

em Diadema. Os diretores da companhia o

disseram, “Quando tivermos uma possibilidade de

te dar uma verba que te permita sair do seu trabalho

para estar com a gente, a gente vai te chamar.”

Desde 1999, o movimento “Arte Contra a Barbárie”,

apoiado por grupos de teatro como a Companhia

do Latão, o Tapa e o Teatro Oficina, reivindicava

uma alternativa à Lei Rouanet, vista como

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insuficiente porque submetia o teatro ao crivo de

entidades privadas, que decidiam quais projetos

queriam apoiar. “O equívoco da lei é que empresas

privadas decidem para quem iam dar um dinheiro

que é público, na medida em que é de renúncia fiscal.

Quais seriam os critérios de uma empresa privada?

Nunca os de pesquisa artística, nem nada disso, era

isso o que se questionava”, diz Sandra. As manifestações

levaram à aprovação, em 2002, do Programa

Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de

São Paulo, aprovado sob o comando de Marta Suplicy,

então à frente da capital. Pouco depois, o Sobrevento

ganhou seu primeiro fomento, com o qual fez

“Submundo” e pôde enfim chamar Maurício para

integrar definitivamente sua equipe.

Com o tempo, Maurício foi tomando espaço

na gestão do Sobrevento. Enquanto Lúcia era a representante

comercial, negociando as oportunidades

do grupo, ele respondia a mensagens e e-mails,

atendia ligações, resolvia contratações. Em paralelo,

passou a participar dos espetáculos, esteve em quase

todos feitos a partir de 2002. Nesse mesmo ano, o

Sobrevento conseguiu sua primeira sede, um galpão

de pouco mais de cem metros quadrados no parque

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Dom Pedro II, próximo à Sé, no Centro Histórico

de São Paulo. No espaço, que servia de oficina e sala

de ensaio, eles receberam artistas de China, Espanha,

Argentina, França — de lá, chegaram a ser visitados

pelas União Internacional da Marionete do país; se

estabeleciam ainda mais como uma referência nacional

do teatro de bonecos. Permaneceram lá até 2009,

quando então se mudaram para sua sede na zona

leste, no Belenzinho, na soleira do Brás e da estação

Bresser-Mooca da linha vermelha do metrô. Lá, o

Sobrevento ganharia uma outra importância: além

de referência nacional e internacional do teatro de

bonecos e um grupo envolvido nas discussões sobre

arte e política cultural, se tornariam também um

agente da comunidade local, um dos nós que compõem

a trama da região.

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Acima, cena da peça ‘Um

Conto de Hoffman’ fotografada

por Luiz andré

Cherubini. À esquerda,

foto de Rodrigo Lopes

da peça ‘Beckett’.


À direita, a peça ‘O

Theatro de Brinquedo’,

em foto de

Rodrigo Lopes.

Sandra Vargas contracena com boneco em ‘Mozart Moments’,

em foto de José Roberto Lobato.


À esquerda, Sandra

Vargas em ‘O Anjo e a

Princesa’, em foto de

Luiz André Cherubini.

Abaixo, um boneco da

peça ‘Cadê Meu Herói?’,

retratado por Rodrigo

Lopes.


Cena da peça ‘Submundo’, em foto de Simone Rodrigues.


Capítulo 3: O Sobrevento hoje

Muita coisa aconteceu nesses 25 anos que se passaram

desde que o Sobrevento se instalou no Belenzinho, neste

mundo separado do centro pelo Tamanduateí. A companhia

se consolidou como uma das mais estáveis do teatro

brasileiro e uma referência nacional do teatro de animação.

Desde 2010, é uma das realizadores do Festival Primeiro

Olhar, com peças do mundo inteiro voltadas para

a primeira infância. Ao longo das décadas, reuniu um

acervo amplo de livros sobre Teatro de Animação, e sua

biblioteca é consultada por artistas e pesquisadores que

buscam conhecimento sobre a prática. Hoje o grupo tem

algo como 10 artistas fixos, entre músicos e atores, que se

revezam nas encenações.

Lúcia Vargas, a mãe de Sandra, morreu em 2017.

Nos seus últimos anos, Maurício a acompanhava em

suas funções, o que acabou, de certa forma, o preparan-

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do. Quando ela faleceu, ele tomou a frente da produção.

“Depois que a Dona Lúcia se foi, eu acabei assumindo

tudo, inclusive a parte de representar o grupo, escrevendo

projetos, mantendo contato com contratantes para

fechar apresentações e coisas assim.” Poucos anos depois,

ele calhou de estar no olho de um dos piores furacões enfrentados

pelo grupo em suas quatro décadas.

As vacas magras

Em março de 2020, junto ao resto do mundo, o Sobrevento

passou por um solavanco. Com o começo da

pandemia de Covid-19, após o decreto da Organização

Mundial da Saúde do dia 11 desse mês, o grupo precisou

interromper suas atividades previstas. A história é a mesma

que você já ouviu e leu incontáveis vezes: no começo

eles achavam que tudo estaria resolvido em algumas semanas,

talvez meses, e então a realidade se mostrou muito

mais terrível. Todo mundo sofreu com o isolamento,

e a classe artística foi prejudicada como um todo, mas o

teatro, das artes, uma que acontece essencialmente através

do encontro cara a cara entre público e artistas, talvez

tenha colhido os piores frutos. A sobrevivência do Sobrevento

se deve muito à relação que ele formou com a re-

42


gião em que se instalou e às histórias de seus integrantes.

“O Maurício dizia, ‘Olha, vocês toda hora falam de

um momento das vacas magras que haverá de vir, e ele

nunca veio’ — e aí aconteceu a pandemia”, conta Luiz

André. “Nesse período, nós já estávamos preparados para

elas.” Em um primeiro momento, os artistas cogitaram

deixar o espaço no Belenzinho. “Temos tudo móvel,

sempre tivemos. Acho que, porque todos nós somos imigrantes

e filhos de imigrantes, nós sempre temos a sensação

de que andamos com a espada sobre a nossa cabeça,

sabe? De que tudo pode ruir de uma hora para a outra.”

Puderam mantê-lo graças à generosidade da proprietária

do galpão, que permitiu que permanecessem lá por metade

do valor até que conseguissem voltar à normalidade.

Nos anos em que se seguiram, precisaram se adaptar.

Enquanto outros artistas foram obrigados a largar a

arte em busca de algo que pudesse sustentá-los e grupos

foram desmanchados, a equipe do Sobrevento conseguiu

segurar as pontas. “Por já sermos naquele momento um

grupo bem estruturado, com pessoas que trabalham lá

diariamente, dedicam a sua própria vida à companhia,

isso ajudou a fazer com que ela continuasse existindo e

se desenvolvendo, colaborou para que a gente pudesse

atravessar esse momento com dignidade”, diz Maurício.

“Conseguimos manter as pessoas ao redor do grupo,

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pensando no que a gente poderia fazer.” Puderam fazer

algo quando o governo permitiu que projetos que já tinham

verba pública aprovada pudessem ser realizados

no formato online. Eles voltaram a se apresentar, quase

sempre ao vivo, encenando a partir do seu espaço ou contando

com a estrutura do Sesc. Ao final das peças, buscavam

conversar com o público em chamadas de vídeo ou

como podiam, para tentar preservar ao menos um pouco

da sensação do que é o teatro. O dinheiro dessas apresentações

foi importante para manter o grupo de pé. “E

já tínhamos uma boa relação com o bairro, uma rede de

apoio que foi fundamental para que a gente pudesse sobreviver,

manter nossas famílias aqui sem passar nenhum

tipo de necessidade”, explica Maurício.

Rede de apoio

“Todo nosso material foi adquirido muito pouco a pouco.

Numa viagem, compramos dois ou três refletores,

uma mesa de som mais adiante, depois um computador...

Isso foi feito passo a passo, nosso equipamento foi

reunido ao longo de 38 anos. É por isso que temos uma

boa estrutura”, conta Luiz. “E nós sentimos que temos

uma responsabilidade que beira a culpa por termos ad-

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quirido tudo isso. Por termos um espaço, precisamos

ajudar outras pessoas que também necessitam dele. Nós

cedemos ele — não alugamos — para grupos que precisam

ocupá-lo e têm trabalhos afinados com o nosso. Isso

significa que eles têm a chave do nosso espaço, entram lá

a hora que quiserem, sabem quando temos apresentação

ou atividades e usam o espaço no tempo ocioso. Ensaiam

pela manhã, vão lá fazer confecção e usar os nossos equipamentos,

ferramentas, nossa oficina, ou estudar.”

Em setembro de 2024, quando conversamos, Luiz

me contou que o Sobrevento abrigava quatro companhias

de teatro à época. Uma é a do bonequeiro experiente

Sebastião Simão Filho, paraibano que morou em

Pernambuco mas veio a São Paulo atrás de sua filha. Conheceu

o grupo paulistano em Petrolina, há mais de três

décadas, e hoje ensaia em seu espaço. Do Rio Grande do

Sul, surgiram os jovens da Mosaico Cultural, que vieram

pedir ao Sobrevento a benção para sua primeira viagem

internacional. “Nós já estivemos em vinte países e orientamos

eles nessas viagens, colocamos eles em contato

com festivais que tinham nos convidado, mas que não

podíamos ir”, conta Luiz André. “Eles têm um trabalho

extraordinário e daqui a pouco você vai ouvir falar muito

deles.” Hoje, já se apresentaram em mais de meia dúzia

de países. Abrigam ainda a Maracujá, do encenador Si-

45


las Caria, e o Qinti, grupo da peruana Rosana Reátegui

Nieto, que morou no Rio de Janeiro e busca se radicar

em São Paulo. “São pessoas que estão convivendo conosco

e vivenciando esse contato com uma companhia mais

velha, mais experiente”, continua o diretor. “Eles dizem

que estão aprendendo muito, mas nós também estamos

aprendendo muito com eles.

“A gente tem uma dívida com o teatro de bonecos e

com o teatro, e a gente precisa honrar essa dívida. E não

é só uma generosidade, é isso que nos realimenta, nos reanima.

É muito fácil uma companhia se auto devorar, se

esgotar, se acostumar. Não pode ter coisa pior no teatro

do que o costume, a falta de dúvida. Quando têm artistas

novos ao nosso lado, a gente vai descobrindo muitas coisas,

é o que nos leva adiante. A gente precisa estar junto

de outras pessoas com mais juventude, com outros olhares

e com outras origens.”

O fundamentalismo

Quando conversei com Sandra pela primeira vez, escrevendo

sobre a peça Pérsia para a Folha de S.Paulo, em

julho de 2023, ela chamou minha atenção para uma mudança

que via acontecer no Brás e na região. Em 2014,

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a Igreja Universal do Reino de Deus fincou no número

605 da Avenida Celso Garcia sua nova sede, um Templo

de Salomão que busca replicar o da “Bíblia” (2 Crônicas

2: 1 -16), erguido pelo rei do neopentecostalismo brasileiro,

o bispo Edir Macedo. A igreja não foi pioneira na

ocupação da região: uma pesquisa de mestrado publicada

pela Universidade Presbiteriana Mackenzie no mesmo

ano contabilizou, só no “corredor da fé” formado

pela conexão das avenidas Rangel Pestana e Celso Garcia,

que cruzam Brás, Belenzinho e Tatuapé, 42 templos ou

salões, 40 deles igrejas evangélicas pentecostais.

“Nós estamos em um bairro em que talvez a gente,

mais do que ninguém, sinta o avanço do fundamentalismo”,

Sandra me disse à época, e me contou a história de

uma faxineira que conhecia. Ela morreu, e suas duas filhas

foram morar com a irmã da mulher, numa casa próxima

ao teatro. No luto, as garotas teriam se aproximado

cada vez mais do Templo de Salomão, a ponto de largarem

seus estudos para se dedicarem em tempo integral

ao espaço. A tia tentou se mudar para romper a relação

das sobrinhas com o templo, mas não teve jeito. A diretora,

que é ateia, mas diz não ter problema com a religião,

diz que a presença do templo influenciou a cultura da

região. “Não temos relação com o templo porque eles

não se relacionam, tudo eles cobram.” Jovens trocam as

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gírias paulistanas por termos religiosos quando se cumprimentam.

Por todos lados, louvores tomam as caixas de

som. Concomitante a isso, ela sentiu avançar o preconceito

contra imigrantes, racial e de tudo quanto é tipo na

região. Ao fundamentalismo, o grupo tenta responder

com arte. “Não adianta a gente dizer que vai acabar com

o fundamentalismo, temos que colocar outras referências,

fazer de tudo para se integrar a essa vizinhança e para

que essa vizinhança entre no nosso teatro sem enfrentamento,

sem ser ridicularizada”, ela diz. “Tem igrejas que

cegam tanto, parece que não consolam, mas, pelo contrário,

como que sugam a alma da pessoa.”

Voltamos a conversar sobre a tentativa de vencer o

fundamentalismo com diálogo numa nova conversa, em

que ela disse mais sobre o desafio à frente. “Nós estamos

muito em desvantagem na guerra contra o fundamentalismo,

então temos que falar uma língua de afeto, solidariedade,

usar as mesmas palavras que usam e não entendem

que a gente está falando em outro sentido, como,

‘Vamos fazer alguma coisa pelas crianças’. Eu acho que

isso nos levou ao bolsonarismo também, essa arrogância

da esquerda de estar sempre falando com piadinha. Se

você sempre está num lugar de pisar, de menosprezar, de

diminuir, é claro que o que você vai provocar na outra

pessoa é raiva, ela não vai querer dialogar com você.

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“Acho que nós temos mais armas para combater

o fundamentalismo do que eles. Apesar de serem ultra

manipulados como são, eles têm afeto, têm empatia, têm

uma série de coisas são as nossas ferramentas de trabalho.

Mas não é pelo ataque. Tem um templo aqui na 21 de

abril e eles têm a hora do louvor. Eu vou lá perguntar,

‘Que horas é a hora do louvor?’ Porque eles gritam muito

e o som vaza aqui. E eles entendem, estão aqui há 15 anos

aqui como a gente e, em nenhum momento, brigam comigo

ou eu brigo com eles. Já me chamaram para ir lá, eu

delicadamente peço desculpa, falo que não acredito em

Deus, mas também chamo eles para vir ao teatro.”

Alguns dias antes de conversarmos, o Sobrevento

foi se apresentar no Arsenal da Esperança, instituição

que acolhe pessoas em situação gerida pelo Servizio Missionario

Giovani, o Sermig, organização de pessoas que

buscam no Evangelho suas referências para viver o que

chamam de “restituição”, uma vida em que as pessoas

utilizam seus recursos, sejam eles materiais ou intangíveis,

como o tempo e o conhecimento, a serviço do bem

de todas as pessoas, especialmente as mais pobres, “24h

por dia” — conforme eles próprios se descrevem. “500

homens que estavam andando pelo pátio, de cabeça baixa,

esparsamente, se concentram em frente a um teatro

de bonecos, que abre os corações e que desperta coisas

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atávicas, e de repente está todo mundo rindo e cantando

junto”, descreve Luiz André. “O padre de lá disse, ‘Essas

brincadeiras são coisas muito sérias, muito profundas,

não é?’ Claro que são. Quando você faz 500 pessoas rirem,

você está mudando uma realidade um pouco, lembrando

do direito à alegria, à festa, à celebração, à comunhão.”

“Isso é uma vizinhança,

temos que cultivar a civilidade de poder conviver”, diz

Luiz André. “Aqui do lado tem uma padaria. As pessoas

vão lá e colocam o carro com volume alto para ficar

tomando cerveja. Quando dá certo horário, o pessoal da

padaria diz que tem que desligar o som, porque vai começar

o teatro, e as pessoas desligam.” A relação do Sobrevento

com as redondezas vai além da busca por uma

boa convivência. Como no caso da aproximação com a

comunidade boliviana de que falei no primeiro capítulo,

a companhia busca estreitar seus laços com a região do

Brás, buscando trazer pessoas de instituições e escolas ao

teatro ou ir até elas, quando isso não é possível. É pelos

colégios que travam algumas de suas maiores batalhas,

e Sandra diz utilizar uma “tática de guerra” para levar

50


crianças e educadores ao seu espaço. É preciso lutar contra

a resistência de educadores que olham torto para o

teatro e dificultam o acesso dos atores aos alunos, além de

convencer esses jovens de que o teatro é também para eles

e facilitar ao máximo o acesso às peças. Para “Para Mariela”,

Sandra imprimiu filipetas que ensinavam como

chegar ao Sobrevento a partir de escolas da região — fez

uma diferente personalizada para cada colégio, sabendo

que parte do público boliviano não tem o costume de

usar ferramentas como o Instagram e o Google Maps.

Funcionou, grupos de estudantes se reuniram em suas

escolas para assistir à peça. Os artistas fazem questão de ir

pessoalmente a cada um desses colégios. Essas atitudes de

“mão na massa”, como chamei no começo do livro, partem

de uma leitura de que não é aceitável que os artistas

sentem de braços cruzados e mãos abanando enquanto

esperam que o Estado ou quem quer que seja resolva problemas

como a formação de público. “Essa é a formação

de público que a gente está fazendo. Estamos num estado

constante de escuta. Podíamos mandar alguém para ir no

nosso lugar, mas não ia ser a mesma coisa, não falariam

com a mesma paixão.”

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O bairro, o mundo

Ao mesmo tempo em que mantém relações firmes com

seus arredores, o Sobrevento é um grupo de referência no

Brasil e com passagem por mais de uma dezena de países.

Antes da pandemia, o grupo costumava ir ao menos uma

vez por ano para o exterior, e a expectativa é de que voltem

a viajar como faziam. “Temos que administrar nosso

tempo entre o que a gente tem que fazer no mundo afora

e no espaço que a gente tem pra tomar conta aqui, que é a

nossa segunda casa”, diz Maurício. “Você vê aqui o espaço

de bairro, que é um galpão, não tem nenhum luxo. É

bem estruturado, mas não é um espaço que tem nenhum

tipo de glamour. E aqui já se apresentaram grupos da

Rússia, dos Estados Unidos, do México, da Dinamarca,

do mundo inteiro.”

A companhia também deixa o galpão para se apresentar

em festivais e instituições como o Sesc e outras,

que garantem parte de seus recursos. Para eles, no entanto,

é importante, sempre que possível, manter seu espaço

no Belenzinho aberto ao público. Como todas suas apresentações

são gratuitas para a audiência, para isso, dependem

de verbas de editais, disputadas e inconstantes. “Um

projeto de dois anos é considerado até um projeto longo,

quando a gente fala em edital público. De fato, existe essa

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incerteza”, continua Maurício.

“A partir do momento que a gente abriu o espaço,

a gente se viu também com uma responsabilidade social

sobre ele. Ao mesmo tempo que a gente continua sendo

um grupo de teatro, também somos gestores de um espaço.

Nem sempre é possível manter ele aberto, às vezes

não temos verba para as atividades públicas e temos que

fechar a porta para as pessoas, para a vizinhança. Isso é

uma coisa que deixa a gente triste, porque vemos a importância

que o teatro tem no bairro. Não estamos no

centro da cidade, vemos que faz diferença na vida das pessoas

ter uma programação gratuita, um lugar pra levar

as crianças, ir com a sua namorada, com seu namorado,

com seus amigos.”

E tudo isso para quê?

Algumas respostas possíveis:

“Eu acho que todo artista quer mudar o mundo,

quer salvar o mundo e a si mesmo”, diz Luiz André.

“O teatro não pode ser um programa burguês de

fim de noite antes de um jantar. Não pode ser um lugar

comum, do ordinário, ele é um lugar extraordinário.”

“Não que eu ache que a cultura deva servir como

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uma instrumentalização de alguma coisa, ela não deve

ser entendida dessa maneira”, diz Sandra, e Luiz emenda,

“Não serve para alguma coisa, não serve a ninguém. Mas

ela acaba sendo um fator de congregação, de integração

social.”

“Há um lugar na estrutura de teatro de grupo em

que não há hierarquia, todo mundo é importante. Não

há julgamentos da sua origem social, ou da sua ‘falta de

cultura’. Às vezes nem todo mundo teve a mesma escolaridade

e o mesmo acesso, mas na cultura está tudo bem”,

diz Sandra.

“Acho que a cultura está nesse lugar de ver as coisas

com a complexidade que elas têm”, diz Sandra.

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Cenas da peça ‘Pérsia’. Acima, o ator Maurício Santana. Abaixo, a atriz Liana

Yuri. Fotos de Marco Aurélio Oimpio.


Capítulo 4: Uma outra história,

a de Juan

Antes de voltar, enfim, à Mariela, quero te contar uma

última história, também de imigração, também da cultura

como um caminho; a história de um dos músicos que

menciono no primeiro parágrafo deste livro, que tocou

na peça “Para Mariela”.

Juan Cusicanki chegou ao Brasil com 15 anos. Nascido

em 1967, desde a Bolívia, já trabalhava como músico

e dançarino nas peñas folclóricas, bares ou restaurantes

em que se toca música tradicional para o público, atrativos

para os turistas. Ele fazia parte de um meio de músicos

que tocavam sons folclóricos e autóctones, aqueles

tradicionais bolivianos preservados por seus povos originários,

e começou a tocar em um grupo de covers dos Los

Kjarkas, a banda popular e importante de música andina.

“É um grupo histórico, muito famoso mundialmente —

só no Brasil que não é conhecido”, ele diz. “Fazíamos o


cover toda quinta, sexta e domingo, e o dono da casa era

o Ernesto Cavour”, isto é, o já falecido membro de outro

grande grupo boliviano, Los Jairas, e um dos grandes

mestres do charango — pequeno instrumento típico

da América Latina, composto de cinco pares de cordas

emparelhadas de metal, da família do alaúde, mas menor

do que um cavaquinho e com um timbre muito característico,

alto e metálico, animado pelos dedos ágeis dos

charanguistas.

Enquanto passava por outros grupos e frequentava

a cena cultural local, Juan começou a ter contato com o

mundo além das fronteiras da Bolívia. Via músicos bolivianos

que viajavam pelo mundo levando a música de seu

país, especialmente para a Europa, que, em suas palavras,

valoriza muito a arte, e via os estrangeiros que vinham,

antropólogos, pesquisadores, muito loiros, muito diferentes

da população de maioria indígena de lá. “Eu falei,

‘Nossa, quero conhecer esse mundo.’” Uma vez, Juan

se afastou um pouco da música após brigar com outro

integrante de seu grupo, pensou em largá-la de vez. Não

durou muito tempo. Um mês depois, foi convidado a

criar uma banda para tocar em outros estados e países,

como os conjuntos que observava e admirava. Sugeriram

a ele: “Vamos para o Brasil? Depois a gente pode ir para,

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sei lá, Panamá, ou para o Canadá, depois para a Europa.”

“Eu falei, ‘Que ideia maravilhosa, é isso que eu quero’”.

A situação na Bolívia não estava fácil. Juan não via

perspectiva nos estudos, e a política ia mal, pouco antes,

seis líderes socialistas haviam sido assassinados. Juan se

comoveu. “Eu fiquei muito revoltado, mal, chorando,

muita gente ficou”, ele diz. “A Bolívia sofreu vários golpes

de Estado. O povo lá é muito politizado, muito inteirado

com a política. Lá, quando o povo se une, realmente

vai atrás, o que é diferente daqui.” Nessa mesma época,

então com menos de 15 anos, ele pensava que era hora

de decidir o que queria fazer da vida. “Eu falava assim,

‘Não vou seguir a carreira de pastor de igreja porque é

para poucos. Se eu seguir a carreira militar, vou começar

a matar meus irmãos, então não. Vou fazer arte mesmo.’

Nisso de eu revoltado, e a população inteira revoltada,

eu queria ir para a guerra, quebrar tudo. E foi na mesma

época em que eu estava com aquele grupo da música. E aí

eu falei para os meus pais, ‘Eu vou viajar, se eu ficar aqui,

com certeza você vai me ver brigando junto com os estudantes

políticos.’” Juan e seu grupo foram para lugares

como Oruro e Santa Cruz, na Bolívia, e então decidiram

ir mais longe. Participaram de um festival no Peru, voltaram

à Bolívia para outro em Cochabamba, cidade no

centro do país. E então decidiram vir para o Brasil.

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Juan diz que seu grupo chegou aqui como o primeiro

de música autóctone boliviana, apesar de já haver

alguns conjuntos folclóricos. “A comunidade chorava

com a gente tocando, era só alegria.” Comunidade então

muito menor. “A gente tocava no fim de semana em casas

bolivianas, animávamos casamentos. Nossos amigos

folclóricos tocavam na rua, na Liberdade, da Praça da Sé,

em frente ao Teatro Municipal, toquei um tempo também

com eles. Depois, chegou a época dos CDs, e eles

gravavam e vendiam na rua.”

Os garotos chegaram em 1981, durante o governo

de João Figueiredo, última liderança do regime militar no

poder. Apesar de já estar acostumado com a brutalidade

de uma ditadura, Juan não ignorava a dureza do cenário

brasileiro, mesmo em um regime que já tinha seus dias

contados. “A Rota era tortura. Se pegava você, era difícil,

você apanhava feio. Mesmo sem motivos, se cruzasse na

frente dele, você apanhava.”

Seu momento mais difícil aconteceu logo em sua

primeira semana, quando ainda sequer falava português.

Um amigo seu o disse, “Eu encontrei uns músicos bolivianos,

eles estão lá no bar, vamos lá, eles convidaram

a gente.” Ele foi ao bar, devia ser umas cinco ou seis da

tarde. “Eu nem bebia, era de menor, mas eles estavam

bêbados. Foi a primeira vez que eu comi coxinha e tomei

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café com leite pingado.” Entre os músicos, estava Goyo,

um músico charanguista que era conhecido da família de

Juan na Bolívia e fazia parte do trio de música folclórica

Sòn De Los Andes. De repente começou uma briga no

bar. O dono queria fechar o estabelecimento, e os bolivianos

começaram a discutir para decidir quem ia pagar,

“Ah, você paga!”, “Paga você!”. No fim, Goyo decidiu

pagar. Tirou de sua bolsa uma nota de que, em sua embriaguez,

acabou rasgando um pedaço. Os garçons se revoltaram,

começou uma briga, e os bolivianos deixaram

o bar. Duas quadras depois, chegou a Rota: “Parou, fila

indiana e volta para lá”. Eles voltaram. Os policiais brigavam

com eles, mas Juan pouco entendia, por não saber

português. Em meio à confusão, no entanto, ele diz ter

visto algo: quando o dono do bar mostrou o bilhete entregue

por Goyo à Rota, ele já não estava partido em dois

pedaços, mas em inúmeros. “Ele despedaçou para culpar

ainda mais a gente”, afirma.

Os bolivianos foram todos capturados pela polícia.

“Meus amigos começaram a chorar, achavam que iam

nos matar. ‘E agora, o que a gente faz? Vamos rezar.’ Levaram

a gente para uma delegacia perto do Parque Dom

Pedro, e ficamos numa cela. Para mim, como era moleque,

era tudo aventura. Eu não sentia como os meus

amigos, que estavam muito mal, com muito medo”, ele

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conta. Diz que foram todos agredidos do bar à cela. “No

dia seguinte, soltaram a gente, as crianças. Acho que saí

umas oito da manhã, não sei. Meu amigo, o Goyo, eu lá

sei como saiu, acho que a namorada dele pagou fiança.

Meus amigos ficaram bem mal, ficaram revoltados. ‘Imagina,

Brasil, país moderno.’ Mas a gente sabia que estava

na ditadura ainda.”

Seis meses depois de chegarem ao Brasil, os músicos

do grupo de Juan brigaram, e metade deles decidiu voltar

à Bolívia. Ele não quis: mal teve tempo de conhecer o país

e sabia que não voltaria para uma situação confortável.

“Meu pai tinha perdido tudo nesse tempo de militarismo,

casa, terreno, caminhão, ônibus, já estava morando

de aluguel. Pensei que se ia voltar sem nada, era melhor

seguir em frente. Decidi ficar aqui.” Com pouco mais,

pouco menos de 16 anos, Juan foi trabalhar na confecção,

ofício de muitos dos bolivianos que vêm para o

Brasil. Chegou a voltar a tocar com outro grupo, dessa

vez de música folclórica, mas logo se cansou, segundo ele

porque os amigos bebiam muito. Em 1986, deixou o grupo

e, no ano seguinte, foi estudar teatro. “Eu era muito

tímido, imagina, um boliviano que não falava direito fazendo

curso de teatro, mas eu fiz.” Dali para o final dos

anos 1990, se entranhou no mundo do teatro, que então

passava por uma intensa reestruturação. É nessa época

61


em que se fortalecia o teatro de grupo como uma nova

forma de encenar, a partir de novos grupos que surgiam

e de outros já consolidados, como o Oficina. Juan continuou

fazendo cursos, especialmente na Oficina Cultural

Oswald de Andrade. Por quatro anos, frequentou aulas

de figurino, estudou a história do teatro e do cinema: ali

se formou.

Após assistir a aulas de Renato Cohen, se aproximou

do encenador, que pertenceu a uma geração que

deslocava a importância antes centrada no texto para outras

camadas da prática cênica. Através de Cohen, Juan

conheceu Otávio Donasci, que nos anos 1990 trabalhava

com o diretor Ricardo Karman em expedições experimentais

que desafiavam o modelo tradicional de teatro

— como Donasci vinha fazendo já há anos, de outras

formas — ao levar o público a percorrer longos trajetos

em que se se desdobravam suas histórias. Sob o projeto

dos diretores, Juan participou, em 1992, da montagem

paulistana de “Viagem ao Centro da Terra”, espetáculo

que ocupou mais de um quilômetro, e de “A Grande

Viagem de Merlin”, em 1994, que deslocou a audiência

por 65 quilômetros, de Sumaré a Jundiaí, a tornando

protagonista de uma jornada interativa em que os atores

e encenadores eram apenas coadjuvantes. Ainda nessa

década, Juan esteve na primeira montagem de “As Bacan-

62


tes”, dirigida por Zé Celso Martinez Corrêa no Oficina,

e conheceu Antunes Filho, dois gigantes do teatro basileiro.

“Tive muitos amigos com quem trabalhei, e acabei

aprendendo com esses mestres do teatro.” Foi sua década

de ouro como encenador.

Juan nunca viveu só da sua arte. Nunca largou de

vez a costura, e chegou a cruzar seus interesses ao fabricar

cenários com túneis e lonas para o coletivo Tupinãodá,

um dos primeiros de arte urbana de São Paulo, nascido

nos anos 1980 e hoje renascido como Os Tupys. Aprendeu

a costurar infláveis e até hoje tira um dinheiro disso,

em paralelo a peças e apresentações.

Já esteve em cada canto de São Paulo. Morou na

Pompeia, Vila Mariana, Santa Cruz, Ipiranga, Santana,

Jardim Brasil, Vila Gustavo, Casa Verde, Embu das Artes,

em Cotia. Para o Embu, foi quando conheceu sua esposa,

e lá teve seus filhos. Hoje mora perto de Aricanduva.

Nessas idas e vindas, sempre frequentou a região do Brás,

maior concentração de bolivianos do Brasil, comunidade

que ele viu crescer. Ele é muito próximo de sua comunidade

e de suas festividades e, numa delas, a Alasitas,

que em todo 24 de janeiro comemora a prosperidade e a

abundância, ele interpreta há mais de uma década o deus

Ekeko, entidade andina que representa esses valores.

Pertencente à classe teatral, ele já conhecia o Sobre-

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vento e aceitou com prazer o convite do grupo para participar

de “Para Mariela”, junto a Goyo, o charanguista

com quem décadas antes passou pelo episódio do bar, e

Lolo, que assume o violão e as flautas. Como Sandra, é

possível dizer que Juan “deu certo”, ainda que ignorando

por um momento a falta de nuance do termo: imigrante,

ele, como ela, conseguiu criar para si um espaço na arte

brasileira.


Capítulo 5: Mariela também quer

ver o mar

Como outros de nossos personagens, Mariela, a que está

no nome da peça do Sobrevento, hoje com 30 anos, veio

para o Brasil em 2012, em busca de uma vida melhor.

Como Juan, ela via na Bolívia um cenário difícil para estudar

e construir uma carreira. Aqui no Brasil, teve três

filhos: um menino, que hoje está com onze anos, e duas

meninas, de cinco e nove anos. Desde que chegou aqui,

ela já morou em pontos diferentes de São Paulo, como

Penha ou Interlagos, mas é no Brás, onde ela mora hoje,

em que ela está há mais tempo. No bairro, ela encontrou

mais trabalho e um pagamento melhor na costura, seu

ofício, como o de muitos dos que vêm de fora.

Em um dia normal, Mariela acorda entre cinco e

seis horas da manhã para se aprontar para o trabalho. Daí

para o almoço, que começa a fazer por volta das 10h30,

ela interrompe a costura apenas para deixar seus filhos no

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Centro do Imigrante, próximo a onde mora. O Centro

do Imigrante é uma organização sem fins lucrativos da

Agir, a Ação de Apoio Global a Imigrantes e Refugiados.

O espaço é importante para muitos dos que vêm de fora

buscar oportunidades no Brasil e se hospedam em São

Paulo. Lá, crianças têm onde ficar enquanto seus pais trabalham,

e podem fazer aulas, socializar e se consultar com

psicólogos, tudo sem qualquer custo. É uma das oportunidades

que têm de não ficarem trancadas em casa o

dia inteiro. Entre os serviços oferecidos pelo centro, que

incluem assistência jurídica e médica e a entrega de cestas

de alimento, está o oferecimento de aulas para adultos aos

fins de semana, entre elas, a de português, a ferramenta

mais urgente para quem chega aqui. “É a primeira coisa

que nós que falamos espanhol ou castelhano temos que

aprender, é bem mais difícil quando a gente não consegue

falar”, diz Mariela. Na hora do almoço, seus filhos

voltam para casa para comer e depois se aprontam para

ir para a escola. Mariela então volta a trabalhar, e só para

um pouco depois das 17h, quando busca as crianças no

colégio. Ela prepara a janta e segue costurando.

Apesar da rotina pesada, Mariela se sente acolhida

pelo Brasil. Ela já presenciou casos de racismo e xenofobia,

mas diz que, em geral, consegue se esquivar dessas

situações. Conta com o apoio de outros imigrantes, que

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formam uma comunidade onde as pessoas costumam

cuidar umas das outras. Foi sua filha do meio que insistiu

para que a mãe fosse visitar o Sobrevento, teatro próximo

a sua casa e a sua escola, onde ela conheceu o grupo.

Mariela ficou deslumbrada, e desde então não deixou de

frequentar o espaço. Com sua história e seu encanto, ela

também impressionou Sandra e o Sobrevento, que decidiram

fazer seu próximo espetáculo em sua homenagem.

“Eles são pessoas muito importantes na minha vida. Eu

fico grata a Deus por minha filha ter me mostrado o teatro

naquele dia”, ela diz. “Eu falei um dia para a Sandra,

‘isso que você faz, eu gostaria de estar no seu lugar’, e é

verdade. A gente se sente, às vezes, sem alcance, encurralada,

trabalhando todo dia na costura. Não é pesado

como trabalhar na construção, mas o sacrifício que fazemos

todos os dias vai se acumulando.”

Pergunto se Mariela pretende um dia ocupar o

lugar em que Sandra está hoje, trabalhar com o teatro.

“Sim. Em algum momento da minha vida, sim, só que

eu vejo como um sonho distante. Mas eu vou dar um jeito,

sabe? Temos que buscar nossos objetivos, porque, se

não, quando a gente não faz aquilo que gosta, a gente fica

escravo da vida.”

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Agradecimentos

Agradeço aos meus pais, Isis e Maurício, a meu irmão

gêmeo, Lucca, a minha avó, Irene, e a minha prima, Elisa,

que me acompanharam de perto nos últimos quatro

anos. Aos meus pais e a minha avó, outra vez, e também

às tias e aos tios que permitiram que a minha formação

fosse a melhor possível, mesmo nos momentos difíceis.

Aos meus amigos da faculdade, Julia, Gabriel, Patrick,

Thiago e outros, e às gêmeas Daniela e Juliana,

minhas amigas mais antigas e tão importantes na minha

vida. Ao Léo, à Alê e ao Gui, meus companheiros no jornalismo

cultural e em muito mais.

A todos os professores e funcionários do Departamento

de Jornalismo e Editoração, da Escola de Comunicações

e Artes e de toda a USP. Em especial, ao meu

orientador, Rodrigo Ratier, cujas aulas me fizeram recuperar

o interesse pela graduação.


À Folha de S.Paulo, onde virei jornalista.

Ao Sobrevento, em especial a Sandra Vargas, Luiz

André Cherubini e Maurício Santana, que tão bem me

receberam. A Juan Cusicanki e Mariela, que me encantaram,

como os outros, com suas histórias.

Aos artistas e jornalistas que me emprestaram seu

tempo nos últimos dois anos em entrevistas, conselhos e

conversas casuais. Ao teatro, com seus atores, diretores,

assessores, sucessos e catástrofes, em que sempre encontrei

um espaço.

E à arte, especialmente à literatura, meu verdadeiro

farol.

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