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Revista Dr Plinio 323

Fevereiro 2025

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Publicação Mensal

Vol. XXVIII - Nº 323 Fevereiro de 2025

Cinquentenário de um

vitorioso holocausto


Divulgação (CC 3.0)

Intercessor para os

momentos de eclipse

OBem-aventurado Stefano Bellesini, sacerdote agostiniano, cuja festa a Igreja celebra no dia 3 de

fevereiro, foi o grande devoto de Nossa Senhora do Bom Conselho de Genazzano.

Tanto quanto a minha experiência me faz notar, a devoção à Santíssima Virgem sob essa invocação

apresenta algo à maneira de eclipses. Há momentos em que ela é muito sensível e a confiança de ser

atendido pela intercessão da Mãe do Bom Conselho é fácil, alegre e luminosa. Em outras ocasiões, fica difícil

e é necessária uma grande força de alma para confiar contra todas as aparências em contrário.

Para praticar a virtude da confiança com esse grau enérgico, quando todas as impressões de caráter

sobrenatural se apagam em nós para nos provar, a intercessão do Beato Stefano Bellesini nos é muito

favorável.

Se eu soubesse que o meu desastre tinha se dado no dia deste Bem-aventurado, o mais cruciante da

dor teria passado.

(Extraído de conferências de 6/1/1987 e 9/11/1988)


Sumário

Publicação Mensal

Vol. XXVIII - Nº 323 Fevereiro de 2025

Vol. XXVIII - Nº 323 Fevereiro de 2025

Cinquentenário de um

vitorioso holocausto

Na capa,

Dr. Plinio,

em março de 1991.

Foto: Arquivo Revista

As matérias extraídas

de exposições verbais de Dr. Plinio

— designadas por “conferências” —

são adaptadas para a linguagem

escrita, sem revisão do autor

Dr. Plinio

Revista mensal de cultura católica, de

propriedade da Editora Retornarei Ltda.

ISSN - 2595-1599

CNPJ - 02.389.379/0001-07

INSC. - 115.227.674.110

Diretor:

Roberto Kasuo Takayanagi

Conselho Consultivo:

Jorge Eduardo G. Koury

Roberto Kasuo Takayanag

Vicente de Paula Torres Nunes

Redação e Administração:

Rua Virgílio Rodrigues, 66 - Tremembé

02372-020 São Paulo - SP

Impressão e acabamento:

Pigma Gráfica e Editora Ltda.

Av. Henry Ford, 2320

São Paulo – SP, CEP: 03109-001

Segunda página

2 Intercessor para os

momentos de eclipse

Editorial

4 Há 50 anos, um providencial e

vitorioso holocausto

Piedade pliniana

5 Oração para pedir o

espírito de seriedade

Reflexões teológicas

6 Fonte de todo

êxito e tranquilidade

Desastre de 1975

9 I - Sob o jugo

da mediocridade

19 II - Sede de almas

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Serviço de Atendimento

ao Assinante

editoraretornarei@gmail.com

24 III - Confiança inabalável

em meio ao aparente

desmentido da promessa

28 IV - Ainda que caminhe

no vale da morte,

confiarei em Vós!

Hagiografia

32 Santos mártires, primícias

da Igreja no Japão

Última página

36 Rainha do derradeiro Bom Sucesso

3


Editorial

Há 50 anos, um providencial

e vitorioso holocausto

Com a leitura do livro A alma de todo apostolado, de Dom Chautard, nasceu em meu espírito a ideia de que

eu só poderia realizar a obra para a qual era chamado se me empenhasse em me tornar santo. E formei a

intenção de me oferecer como vítima expiatória a Nosso Senhor, a Nossa Senhora, pela vitória da Contra-

-Revolução.

Não cheguei a formalizar o oferecimento naquela época, pois um certo lampejo me era dado para entrever não

ser então o que a Providência desejava de mim. Ela queria que eu vivesse. Mas, de fato, minha vontade era pedir

que morresse como Santa Teresinha, imaginando nossas missões semelhantes, ou seja, fazer mais depois de morto

que durante a vida. Assim, terminaria meus dias ainda moço, consumido por uma doença qualquer, mas ao menos

teria pago o preço da Contra-Revolução. Contudo, percebi não ser o momento para isso, embora tenha tomado

em face de Maria Santíssima uma atitude de quem tivesse realmente se oferecido.

Na extensa trajetória que se me abria, ao lado de algumas intensas consolações, sobrevieram também grandes

provações. Julgava que as adversidades e contrariedades se apresentavam porque eu tinha culpa, eram infidelidades,

pecados ocultos, de cuja existência não me dera conta. Porém, vinha-me este pensamento: “Talvez seja porque

estou disposto a servir de vítima expiatória, e esse oferecimento está me esmagando como eu desejei”. Assim, eu

era triturado entre a resignação de ser vítima expiatória e um clamor interno no sentido contrário. Então, a conclusão:

“Não, não é vítima expiatória, mas é castigo”.

Eu me sentia tentado a dizer que tudo aquilo em que minhas mãos tocavam, esboroava-se. Eram, na verdade,

os sofrimentos e as provações próprias à via de expiação na qual trilhava, tendo a Santíssima Virgem considerado

aquela minha primeira disposição. Desejo de oferecimento esse reiterado pouco antes do meu desastre de automóvel

em fevereiro de 1975, e também aceito por Ela.

Na madrugada do domingo precedente ao desastre, teve lugar no salão de minha residência uma conversa na

qual tratamos do estado em que se achava nosso Movimento. Analisada a situação, chegamos à conclusão da necessidade

de um grande sofrimento e uma grande expiação para que as coisas tomassem seu devido rumo.

Se durante aquela reunião me aparecesse um Anjo e me dissesse: “Tu não conheces os ‘enjolras’ que estão para

chegar, não sabes o bem que daí virá sob os auspícios e o impulso de teu filho João Clá, nem os benefícios que poderão

advir para todo o teu apostolado e para a Causa Católica no Brasil e no mundo, assim como não sabes que

muitas dessas tuas preocupações atuais – não todas, infelizmente – se sanarão, se quiseres fazer este sacrifício: é

preciso que vás para Amparo e, na estrada, sofras um desastre!”, tenho certeza de que tomaria o automóvel naquela

hora e, dado que nenhum dos meus acompanhantes nada ou quase nada sofresse, diria a mim mesmo: “Vamos

à trombada, ao sangue, ao hospital, à cadeira de rodas, às muletas e a todas as outras consequências!” Não hesitaria

em dar nenhum passo rumo ao extremo, para a glória de Nossa Senhora.

De fato, a partir de então, comecei a notar nos meus seguidores mais jovens uma atitude invulgar em relação ao

ideal e à minha própria missão. Esse fato me alentou sobremaneira e, com profunda gratidão à Mãe de Deus, passei

a ver o espraiar-se da aura de minha obra pelos mais diversos recantos do mundo. 1

A presente edição é dedicada ao cinquentenário desse vitorioso holocausto oferecido na festa da Rainha do Bom Sucesso

e consumado no dia seguinte, festa do Beato Stefano Bellesini, grande devoto da Mãe do Bom Conselho. 2

1) Cf. Conferências de 3/2/1981 e 23/3/1985.

2) Para a elaboração deste número foram compilados excertos das seguintes conferências: 26/4/1977, 4/12/1977,

23/6/1981, 30/1/1982, 28/1/1983, 2/2/1983, 10/4/1983, 13/5/1983, 3/2/1984, 9/4/1984, 26/9/1984, 3/2/1988, 29/1/1991,

1/2/1992, 25/4/1992, 26/4/1992, 28/6/1992, 13/9/1992, 3/2/1993.

Declaração: Conformando-nos com os decretos do Sumo Pontífice Urbano VIII, de 13 de março de 1625 e

de 5 de junho de 1631, declaramos não querer antecipar o juízo da Santa Igreja no emprego de palavras ou

na apreciação dos fatos edificantes publicados nesta revista. Em nossa intenção, os títulos elogiosos não têm

outro sentido senão o ordinário, e em tudo nos submetemos, com filial amor, às decisões da Santa Igreja.

4


Piedade pliniana

Nossa Senhora das Dores

Capela de Corpus Christi,

Moguer, Espanha

Hélio G.K.

Oração para pedir o

espírito de seriedade

Óminha Mãe, afastai para longe de mim a superficialidade, a leviandade e a frivolidade,

as quais pressupõem uma visão mentirosa da vida.

Tornai-me sempre presente que esses defeitos fecham meus olhos para a vocação,

constituem os mais frequentes resvaladeiros através dos quais me afasto gradualmente

de vosso Divino Filho e de Vós, diminuem o meu amor à Santa Igreja e à Cristandade, e me

tiram o zelo da luta contra a Revolução.

Gravai em minha alma, ó Mãe, o espírito de seriedade pelo qual eu conheça e sofra toda

a Paixão da Santa Igreja. Amém.

(Composta em 30/1/1991)

5


Reflexões teológicas

Fonte de todo

êxito e

tranquilidade

Arquivo Revista

Dr. Plinio em fevereiro de 1986

Nada confere verdadeiro

equilíbrio e verdadeira paz como

a perspectiva do dever cumprido,

da dor sofrida, do infortúnio

aceito, o qual vem ao encontro

de todas as almas para fazer

delas o lugar santo de Deus.

A

tese fundamental do católico,

do contrarrevolucionário

e especificamente do

homem da Idade Média é que a posição

natural da vida do homem não

é a de quem se diverte nem de quem

ganha dinheiro. Essas são as posições

artificiais.

Impostação fundamental

e fecunda

Eu não condeno quem procure

ganhar dinheiro; mas que se viva para

esse objetivo ou se faça dos produtores

de dinheiro os feitios de espírito

culminantes da humanidade,

eu considero simplesmente uma

blasfêmia!

Sobretudo o aspecto fundamental

é que, para o homem formado na

boa posição medieval, a seriedade

está, antes de tudo, em ver as coisas

objetivamente como são, sem tirar

nem pôr – portanto, com o que elas

têm de grande, de augusto, de triste

e, ao mesmo tempo, de estimulante –

e fazer dessa realidade variada, complexa,

o campo de sua contemplação.

De maneira que todas as energias

da alma se exercitem e se movimentem

em face disso. Não fazer um

mundo só de corre-corre à procura

do trabalho, nem só de lazer, mas

um mundo em que ambos ocupem

um lugar pequeno, pois o importante

é realizar um ideal, seguir a Nosso

Senhor Jesus Cristo, santificar-se,

batalhar pela virtude, pela Civilização

Cristã, pelo Reino de Deus. Essa

é a impostação fundamental na qual

a alma encontra seu equilíbrio, a plena

fecundidade de suas capacidades

intelectuais e artísticas.

“Venci, fiz o que

devia fazer!”

O problema de como considerar

o sofrimento se pôs para mim nestes

termos, quando eu era pequeno:

por cima da alternativa sofrer ou

não sofrer está a de dar certo ou não.

Quem tem o espírito bem constituído

prefere sofrer e dar certo a gozar

e não dar certo. Em última análise, a

frustração, o perceber que fracassou

6


e não levou a vida que deveria ter levado

é o pior sofrimento.

O que é dar certo? É ter vivido

a vida como ela é, diante da verdade

inteira. Se obteve êxito ou não,

tem menos importância; se o que lhe

competia fazer ela fez, isso é o que

lhe dá tranquilidade.

O pressuposto de uma ideia moral

está presente, mas não é propriamente

a ideia moral, que é o seguinte:

“Eu empenhei toda a minha vida

dando tudo o que tinha. Se eu estava

à altura do meu cargo e joguei aquilo

que devia jogar, de todas as formas,

na ordem objetiva dos fatos, fui

um vencedor, porque o meio que eu

possuía para isso era

eu mesmo. Logo, eu

venci, pois fiz o que

devia fazer!”

Com efeito, há

uma ordem real das

coisas que se move,

na qual estou e devo

operar. Se operei tudo

quanto podia, eu

venci. Para quem sabe

aquilatar as coisas,

ter sofrido ou não é

menos importante do

que ter feito o que devia.

Contudo, ao ponderar

essa situação,

pergunta-se: “Qual a

importância de se ter

sofrido?”

Da aceitação

da dor brota

a admiração

É importante ter

sofrido, não é importante

não ter sofrido.

Porque se não custasse,

não teria mérito.

Na medida em que

custou um sofrimento

inevitável, que eu

tenha feito o possível

para evitar sem excesso

de pânico, sem ter me prevenido

contra ele como um louco, mas tomando

todos os cuidados, e se mesmo

assim ele veio para cima de mim,

eu vou para cima dele! Se ele não

veio, Deo gratias! Se ele veio e lutei

contra ele, Deo gratias!

Isto é viver. Ter vivido assim até o

fim corresponde a dizer: “Eu vivi!”

Se, por exemplo, eu morresse

amanhã, morreria na tristeza dilacerante

pela situação da Igreja, mas

não seria a tristeza de quem olha para

trás e diz: “Eu não fiz o que devia”.

Então, se a pessoa limpou todo o

seu subconsciente da ideia de sofrer

Dr. Plinio em novembro de 1983

muito ou sofrer pouco para substituir

pela ideia “Eu fui e fiz o que devia”,

ela se torna dotada das condições

próprias para ter todas as admirações.

Quem vive só para evitar a dor

é incapaz de admirar. A admiração

vem apenas daquele que se colocou

a si mesmo nessa posição e, vendo

um outro que faz o mesmo ou mais,

fica admirado! E este não fica triste

por ter feito menos do que o outro,

desde que ele tenha feito o que deveria.

E aí a alma se abre para a longa

caminhada contrarrevolucionária.

Não tem ideia da vida nem do que

é o homem quem julga poder passar

por esta vida sem infortúnios.

Pelo contrário,

deve-se sentir

uma espécie de alívio

quando se percebe

que sofreu, porque isso

forma a história de

um homem. O passado

de uma pessoa é o

que ela rezou, lutou e

penou. Quando o indivíduo

não deu esse

contributo, os jornais

podem publicar

o que quiserem, o público

pode até aplaudir,

mas aplaude sem

convicção, aquilo depois

se apaga.

Para a alma que

não está preparada

para o infortúnio, o

trabalho é uma atividade

mais ou menos

esportiva e a oração

é uma prática sentimental.

É como algumas

narrações da vida

dos Santos que apresentam

aspectos muito

bonitos, mas não

contam os revezes pelos

quais eles passaram.

Ora, eles não teriam

sido santos se

Arquivo Revista

7


Reflexões teológicas

não tivessem passado pelo infortúnio.

Portanto, devemos preparar nossas

almas para o infortúnio, para o

revés, para a provação; e enquanto

não tivermos isso, nós nos iludimos

e o apostolado que fazemos não dá

resultado.

Vencendo o inimigo no

lugar santo de nossa alma

Precisamos ter uma compreensão

da necessidade do sofrimento, a preparação

para a dor, entendendo que

ela está no nosso caminho necessariamente

e que, em última análise,

nós valemos o que valemos nessa hora,

não tem por onde escapar. Achar

que em certo momento se dará um

jeito... Há ocasiões em que se é colocado

diante do infortúnio, ele pula

em cima de nós e temos de aguentá-lo.

Tenho visto cenas assim na minha

vida, mas às torrentes! Quem,

conhecendo-me antes do desastre,

imaginaria que eu haveria de terminar

meus dias numa cadeira de rodas?

Se há uma coisa não feita para

mim é uma cadeira de rodas...

Nossa Senhora tinha me ajudado

e minha alma estava pronta para sofrer.

Não sei se um filho meu sofresse

de repente um desastre assim, como

tomaria essa tragédia... Eu receio

pouco que ele se revoltasse, mas

poderia dar nesta forma de revolta

que consiste em dizer: “Eu não jogo

mais este jogo, agora estou aposentado”.

Com que facilidade podia dar

nisso, sem falar em psicoses, neuroses,

depressões, manias e nem sei

quanta coisa!

Então pensemos nisto: a alma de

cada um de nós pode ser um “lugar

santo”. E desde que haja algumas almas,

e até mesmo uma só que esteja

inteiramente posta de acordo com

essa perspectiva, de fato o adversário

está perdendo a guerra, pois ali a

Revolução não consegue nada.

Essa ideia de estar se salvando a

si próprio, tendo salvo a própria integridade

e mantido alto o estandarte

enquanto a guerra continua, isso

para mim é o centro de tudo. E o

consolo que faria com que morrêssemos

na tristeza, mas não agitados,

seria o seguinte: “O ‘lugar santo’ em

mim viveu até o fim! Nossa Senhora

providenciará e aparecerá um outro.

Mas isso não se apaga da Terra!”v

(Extraído de conferências de

17/11/1983 e 4/2/1986)

Arquivo Revista

Dr. Plinio em dezembro de 1991

8


Zooey (CC BY-SA 2.0)

Desastre de 1975

I

Sob o jugo

da mediocridade

Um dos períodos de maior sofrimento para Dr.

Plinio foi o que ele chamou de “Bagarre azul”,

durante o qual os membros do Grupo, atolados na

mediocridade, puseram em risco a continuidade

da obra. A essa provação somou-se um aparente

distanciamento de Nossa Senhora que não mais

se manifestava a ele, como outrora, por meio

de algumas de suas imagens. Nesse panorama

sombrio, ocorreu o desastre de automóvel.

A

pedido do meu João, farei

uma análise do Grupo antes

e depois de meu desastre

de automóvel, e também de todas

as graças que depois Nossa Senhora

derramou abundantemente sobre nós

a esse propósito.

Arquivo Pessoal

Dificuldade para narrar

a história recente

Quando tomamos conhecimento

da história dos assírios, dos babilônios,

dos javaneses, por serem civilizações

antigas, temos a ideia de

que é difícil escrevê-las, e que muito

mais fácil seria registrar a história

de nossos dias. É um engano. Todos

os técnicos em escrever tratados

de História dizem que a história

Dr. Plinio com alguns membros do grupo na Sede da Rua Martim Francisco, em 1964

9


Desastre de 1975

Arquivo Revista

mais difícil de se escrever é a dos fatos

presentes ou recentes, porque será

sempre condicionada às circunstâncias

psicológicas do leitor ao qual

se destina.

Por exemplo, se alguém quisesse

publicar um best-seller histórico

contando sobre a Segunda Guerra

Mundial, deveria fazê-lo de modo

a ser lido pelas nações que pertenceram

a um e a outro partido; logo,

não poderia tomar posição ao

descrever os fatos. Teria de narrar

de modo comercialmente neutro, a

ponto de ambos os lados julgarem:

“Que bem feita esta obra, como esse

homem é imparcial!” Ora, às vezes

a imparcialidade não é a verdadeira

história. O escritor deve tomar

posição para provar com quem

estava a verdade.

Dr. Plinio no início da década de 1970

A história sobre a qual o João deseja

que eu fale é recente, recentíssima!

E mais: de todos os episódios

internos, o mais difícil de contar. Se

eu fosse expor uma briga de Napoleão

com sua mãe – com quem teve

várias discussões e que, guardadas

as proporções, era uma mulher ainda

mais dura do que ele –, os meus

ouvintes tomariam como uma história

do mundo da lua! Narrar sobre

Napoleão e sua mãe ou falar sobre o

planeta Júpiter seria a mesma coisa.

No entanto, apresentar um fato

interno, acontecido com pessoas

que conhecemos, toca na pele, desperta

muito mais vivacidade de reações.

Por isso, torna-se difícil fazer

a narração exata. Não a farei de

modo inexato, mas apenas a apresentarei

em alguns de seus aspectos.

Por amor à verdade, que deve ser a

guia do que dizemos, eu previno isso

desde logo. São aspectos que valem

a pena conhecer, porque dão

uma boa ideia de conjunto. Há pormenores

e traços que não entrarão

em consideração.

Soldados vitoriosos,

ávidos de descanso

Ao longo de vários anos, tive provações

muito grandes no Grupo, e a

“graça de Genazzano” 1 me sustentava

momento a momento, para que

aflições muito agudas não me devorassem,

as quais, sem essa graça teriam

sido terríveis e devastadoras, e

me levariam à morte. Mas ela me dava

a certeza de que minha vocação se

realizaria, enquanto a hipótese contrária

constituía o meu grande tormento.

E com isso cheguei até o desastre.

Qual era a situação interna quando

ele ocorreu?

Os primórdios da TFP se deram

pouco antes de 1945, não ainda como

sociedade, mas como grupo dos

que saíram do Legionário e formaram

um conjunto na “sedezinha”

que corresponde ao andar térreo da

Rua Martim Francisco. Nessa ocasião,

iniciamos uma caminhada dura.

De 1945 para 1975, foram trinta

anos de caminhada, feita inteira por

alguns que estavam desde o começo

comigo. Trinta anos nos quais eles tinham

obtido um resultado digno de

nota. De sete ou oito pessoas – porque

se passaram uns seis anos sem

conseguir recrutar um só, o Grupo

parecia murado vivo –, chegou-se a

uma organização estendida por boa

parte do Brasil e por grande número

de países, a qual já havia florescido

em êremos amplos que começavam

a se constituir em vários lugares, embora

ainda não tivessem dado, nem

de longe, tudo quanto deram depois.

Várias batalhas ganhas, inúmeros resultados

extraordinários.

10


Isso dava aos membros

do Grupo uma impressão

de estarem no

alto da colina, podendo

se definir como soldados

beneméritos e vitoriosos,

que, portanto, podiam,

afinal, descansar

um pouquinho. Era o perigo

da hora do descanso.

Nesse patamar a que

tínhamos chegado estávamos

com sombra, sapato

largo e água fresca.

Afastado o perigo,

ambiente de

modorra e tédio

Arquivo Revista

Em tal situação, havia

os que estavam infestados,

ou infectados, por

aquilo que podíamos chamar a doença

do calor e do tédio.

Não se tratava de uma tentação

formal contra algum ponto do nosso

modo de viver, contra nossas estratégias,

ou, o que seria muito mais

grave, contra algum ponto de nossa

doutrina. Nada disso era contestado,

tudo se admitia como provado, assente.

Entretanto, havia uma espécie

Dr. Plinio com alguns membros do grupo do Legionário, na

Sede da Rua Martim Francisco, em março de 1945

de tédio e modorra que os levavam a

considerar como já sabido o que era

dito e a julgar que, apesar de as conferências

novas aumentarem o depósito

de doutrinas e de táticas ensinadas

por mim, o Brasil passava por

um período de calmaria para os anticomunistas

e os inimigos da Revolução,

pois o perigo comunista parecia

jugulado pela ditadura militar e, em

consequência, a ação da

TFP tornava-se desnecessária

e, até certo ponto,

impossível.

De imediato, nenhum

adversário estava

nos atacando. Levávamos

a nossa vida na calma,

com uma harmonia

interna bem considerável

e a satisfação pelos

triunfos alcançados…

O resultado era voltar o

olhar para dentro: “Como

é boa e bonita nossa

casa…!”

Não havendo uma

ação imediata a desenvolver,

um inimigo urgente

a combater, para

as almas superficiais

e pouco amorosas isso

produzia um tédio, o qual degenerava

em brincadeirotas.

Nas várias Sedes do Grupo, inclusive

nos Êremos, a brincadeira,

a graça, a última piada – sem jamais

haver nada de imoral e intrinseca-

Arquivo Revista

Arquivo Revista

Fachada e sala dos fundos da Sede

da Rua Martim Francisco

11


Desastre de 1975

Arquivo Revista

mente censurável – mantinham um

ambiente de superficialidade, fazendo

com que houvesse um relaxamento

semelhante ao verificado em nossa

natureza física em certos dias de

calor, quando temos a impressão de

que o asfalto da rua não só amolece,

mas evapora; as árvores mais altaneiras

têm uma tendência a se dobrar

e a dormir; os bichos quase não

se movem, os pássaros não cantam,

os rios correm, mas as águas não

borbulham, e tudo parece chorar a

inutilidade de si mesmo.

Esse não era o estado de todos os

membros do Grupo, menos ainda de

todo eremita; era o mal de muitos e,

por isso, um mal grave. Numa família,

quando há uma indisposição de

vários, é um mal grave, embora alguns

possam estar bem saudáveis.

Crise de admiração

Verificava-se, no fundo, uma crise

de admiração, que consistia numa

atitude de modorra tanto em relação

a mim quanto à TFP: “Dr. Plinio

afirma, está bem… Ele diz coisas

muito boas, razoavelmente bem ditas,

mas não aguento mais, quero

outro estilo de vida”.

Isso correspondia à posição de

uma pessoa que, em um dia de extremo

calor, raciocinasse: “Há muito

tempo estas janelas estão abertas;

estou farto disso, vou fechá-las”.

Não tem sentido, pois, se faz calor,

elas precisam ser mantidas abertas.

Assim também devemos estar voltados

para quem nos dá a boa doutrina

e não para quem não oferece orientação

alguma, o que significaria entrar

pelo mundo afora e cair na desorientação,

na loucura, no pecado.

Havia os que, pelo contrário, confiavam

em nossas esperanças de

Dr. Plinio em Amparo, em agosto de 1968

sempre, sabiam que os dias prometidos

por Nossa Senhora em Fátima

chegariam, as provações também, e

se preparavam para um futuro, quiçá

remoto, se Deus assim dispusesse.

Mas estavam dispostos a servi-Lo

a qualquer preço, quando e como

Ele quisesse. Estes pensavam: “Eu

admiro tanto a Santa Igreja Católica,

sua doutrina e tudo quanto vem

dela, e que me é transmitido por Dr.

Plinio, que eu quero estar junto a ele

o maior tempo possível”.

Em suma, havia os espíritos voltados

para a admiração e os não voltados

para ela. Essas duas famílias

de alma coexistiam no Grupo pacificamente;

não brigavam, mas não se

fundiam. Essa é a primeira visão da

situação de crise como ela se apresentava.

Arquivo Revista

Voltados às trevas

e não à luz

Dr. Plinio rodeado por seus discípulos, na Sede do Reino de Maria, em fins da década de 1960

Ora, nenhum homem fica sem admiração.

No fundo, ou ele admira as

coisas de Deus ou as do demônio. Os

da corrente do tédio e da modorra,

aqueles que não admiravam o Grupo

e as suas doutrinas, não é verdade

que não tivessem nenhuma admira-

12


ção; de fato admiravam enormemente

o mundo moderno de então.

Eles eram entusiastas de motores,

de mecânica; começavam a nascer

neles pequenas pontas de más tendências.

A primeira e a mais perigosa

de todas, a que perde qualquer alma,

era a de formar pecúlio próprio.

Fazer business à maneira hollywoodiana,

montar uma loja, uma fábrica…

O raciocínio consistia no seguinte:

“Eu sofro de tal doença, preciso ir ao

médico com certa frequência. Eu receio

não ter dinheiro nessa ocasião.

Se o caixa não tiver, como vou me

arranjar? Começarei a pedir em casa

um dinheirinho, guardá-lo, de maneira

que, se eu precisar, terei. Farei

também tal negocinho: recebi de tal

parente um donativo, herdei de tal

outro mais uma quantia... Guardarei

um dinheiro pessoal”.

A pessoa não percebe, mas isso

entibia, azinhavra a alma completamente.

Feíssimo era levar uma vida em

que o indivíduo não estivesse

continuamente

mexendo com dinheiro.

Era o deus deles.

Mais de um pediu-

-me licença para fazer

negócio, com uma tal

vontade, que percebi

bem que se não se metessem

nisso eram capazes

de abandonar o

Grupo. Por prudência,

assenti. Eram pessoas

ricas e, como castigo,

perderam o dinheiro,

porque os negócios

não tinham a bênção

de Nossa Senhora,

deram todos errado.

Se um só deles tivesse

dado ao Grupo o que

perdeu, nossa situação

teria sido outra. Era o

fruto da modorra e da

adoração ao dinheiro.

Por que essa adoração? Porque o

mundo adorava o dinheiro naquele

tempo, e ainda hoje; e os membros

do Grupo que não tinham admiração

pela Igreja e pelos que são da

Igreja, tinham-na pelo mundo e pelos

que são do mundo. Tratava-se, literalmente,

de uma admiração desviada,

voltada às trevas e não à luz;

uma admiração não por uma doutrina,

mas pelo prazer de imitar os demais.

Defeitos, interesse pessoal

Outros gostavam de obter cargozinhos:

cargos, cargos! “Que bom, tal

posto vai ficar vago. Quem sabe se arranjo

um modo de ser nomeado no

lugar deste outro que foi transferido?

Tenho jeito para o que ele faz”. É nomeado

um outro, e este fica ressentido!

Outros formavam grupinhos de

amigos dentro do Grupo, logo constituíam-se

dois partidinhos políticos,

brigando um contra o outro.

Tudo isso podia dar-se sem que

eles tivessem o mínimo desejo de

abandonar o Grupo; pelo contrário,

estavam firmemente resolvidos

a continuar, a trabalhar, a agir para

que ele progredisse. No entanto,

era como um marinheiro disposto a

se dedicar para que o navio chegasse

ao porto, mas disposto a trabalhar

ao mesmo tempo para comandar o

navio, caso o comandante morresse...

“Ele está muito doente; eu quero

ser o comandante!”

Isso produzia o seguinte estado

de espírito: começavam a se importar

prodigiosamente mais pelo interesse

pessoal do que pela Causa. E

de cinquenta vezes por dia que cogitassem

num tema, quatro ou cinco

eram a respeito da Causa e umas

quarenta e tantas vezes sobre o “negocinho”

ou a “politiquinha” que estavam

fazendo, o que lhes tomava a

atenção. E o resto ficava completamente

relegado.

Isso ia tão longe que a pessoa podia

presenciar os fatos mais admiráveis

na ordem da vocação e não se incomodava.

Mas se lhe avisassem du-

Dr. Plinio rodeado por seus discípulos, na Sede da Rua Martim Francisco, em meados da década de 1960

Arquivo Revista

13


Desastre de 1975

rante uma reunião a mais importante:

“Olhe, agora alguém está organizando

a Sede e vai mudar a posição

de sua cama”, ele não poderia mais

prestar atenção, e até o fim, porque

tinham mexido na cama dele.

Lentamente, esse foi o estado de

espírito criado no Grupo. Por mais

que eu os prevenisse contra isso e

chamasse a atenção, era como se as

minhas palavras fossem ocas, não tinham

alcance. Eu expunha, todos

ouviam com respeito: “Como é bem

intencionado o Dr. Plinio, não é?

Mas… e a minha cama que mudou

de lugar?!” Ou então: “Será mesmo

que eu consigo tal cargo para mim?”

Ou: “Conseguirei ser nomeado encarregado

de tal setor?” Isso tomava

completamente o interesse do indivíduo

e ele se tornava um tíbio.

De vez em quando havia uma defecção.

Podíamos evitá-la com muito

esforço e muita graça de Nossa Senhora,

mas de si a crise tendia para

uma apostasia. Naturalmente, onde

há muitos que tendem para algo, alguns

caem nesse algo.

Um exemplo ocorrido

no Antigo Testamento

que eram governados por reis. Então

pediram a Deus que eliminasse o

governo dos Juízes, dando como razão

isto: “Dá-nos um rei, para sermos

como as outras nações” (1Sm

8, 5). Deus Se desagradou do pedido

insolente, prometeu atendê-los, mas

os advertiu da dureza de serem governados

pelos homens. Pelo exemplo

que eles teriam de si mesmos, saberiam

como era dura a vida cotidiana

dos povos os quais invejavam (cf.

1Sm 8, 5-20).

Foi o que aconteceu. Eles tiveram

reis, mas no geral lhes deram trabalho,

fizeram irregularidades… O

próprio Davi que fora tão santo, pecou.

Os reis se dividiram em dinastias

opostas, cometeram desatinos,

castigando dessa forma o povo que

não admirara o que Deus lhe dera,

mas o que Ele havia dado aos outros,

que era muito menos do que aquilo

que tinham. E porque eles pecaram

contra a admiração, caíram nos outros

pecados.

Os que entraram para a TFP e se

transviaram pela admiração dos negócios,

de um modo ou doutro pecaram,

porque admiraram mais as coisas

dos homens do que as de Deus.

Daí surgirem encrencas de toda ordem

na vida espiritual; daí insucessos

na vida temporal; daí também as

crises internas.

Atitudes fora de propósito

Por exemplo, a provação do malogro

dos êremos, que coisa tremenda!

2 Os êremos haviam se formado todos

cheios de esperanças... A graça

de eremismo tinha surgido como último

fruto, mas já debilitado, seco.

Flávio Lourenço

Isso me faz lembrar um episódio

da história dos judeus que, como se

sabe, no Antigo Testamento eram o

povo eleito, o povo bem-amado de

Deus, descendente de Abraão. Houve

um tempo em que eles eram governados

por autoridades, a quem

davam o título de Juízes. Não eram

meros juízes; eles julgavam casos,

mas tinham o governo geral do povo

de Israel. Eram varões de altíssima

virtude, e tudo quanto faziam era

por inspiração de Deus. O que equivale

a dizer que era um povo governado

por Deus, o povo mais feliz da

Terra.

Ora, eles deixaram de admirar os

Juízes e suas decisões, e passaram a

olhar para os outros povos da Terra

Unção de Davi por Samuel - Academia de Belas Artes de Madrid

14


Por exemplo, o que ruiu

estrondosamente foi o

Êremo de São Bento I!

E, um pouco antes do

desastre, estava nas últimas.

Houve uma reunião

festiva por ocasião de

um aniversário realizada

numa sala do andar

superior do São Bento,

para a qual congreguei

membros de outros êremos,

já que o São Bento

se encontrava meio

vazio. Sentei-me, comecei

a discorrer sobre certos

pontos doutrinários,

e um dos presentes interrompeu-me

dizendo:

“Mas é sobre estas coisas

que o senhor vem

nos falar nesse aniversário?

Isso não nos importa

nada”. E um outro logo reagiu,

parece que estava combinado: “Isso

não nos importa nada, e sim que o

senhor trate de assuntos concretos.

Isso é perfumaria, tintura!”

Interroguei sobre quais seriam esses

assuntos e eles entraram em problemas

logísticos, os quais eu não conhecia

e eles não haviam mencionado.

Eu tratei dos problemas e, quando

desci, aproximou-se um deles

que, com voz embargada, me disse

recear ter faltado ao respeito comigo.

Eu ainda tive de tranquilizá-lo,

porque notei que se eu confirmasse

que ele faltara ao respeito, ele se revoltava.

As asas de corvo da

mediocridade

É preciso reconhecer que as circunstâncias

internas de nossa instituição

eram altamente preocupantes,

devido a essas infidelidades

enormes, às provações e dificuldades

que podiam facilmente determinar

o fechamento do Grupo. Não se

Cerimonial após a refeição no Êremo de São Bento I

pode ter ideia das fragilidades dele,

e quantas e quantas vezes ele esteve

para ir água abaixo, por cindir-se internamente

durante esse período.

Uma das coisas mais pungentes

era ver vocações de primeiro quilate

de repente se esboroarem. Houve

muitas graças recebidas no entusiasmo

dos primeiros momentos, gradativamente

recusadas depois, rumo à

fossa das almas, chamada mediocridade.

A mediocridade causava apreensões…

não aos medíocres, porque

são os únicos que se sentem seguros

dentro dela. Quem não é medíocre

percebe os riscos da mediocridade;

o medíocre, pelo contrário, se instala

nela como quem está acomodado

numa magnífica poltrona. Ele julga

dirigir e ter uma tribuna do fundo

de sua mediocridade, e não percebe

estar num precipício. Esse é o

medíocre.

A mediocridade estendia suas

asas negras de corvo sobre o Grupo,

e não se via bem qual o modo de atalhar

a situação.

Atmosfera hipopotâmica

da mediocridade

Sobre a conjuntura internacional

e a nacional pairava a esperança, firme

como uma promessa, de que a

“Bagarre” 3 viria, se desataria e resolveria

tudo. A insistência em esquadrinhar

todos os cantos do horizonte

para ver onde havia possibilidade

de “Bagarre”, equivalia à afirmação

de que os fatos, de si, falavam a favor

dela. Entretanto, esses não eram os

únicos do panorama, eles configuravam

apenas um aspecto deste, pois o

que o dominava era mais bem a ideia

da estabilidade.

Estávamos no governo do malfadado

antecessor do Carter, 4 com

o Kissinger 5 como Secretário Geral

de Estado dirigindo tudo. Havia almas

desse gênero, inteiramente “kissingerianas”.

A détente 6 dos Estados

Unidos com a URSS; a Ostpolitik 7

da Alemanha Ocidental; e depois, a

do Vaticano com a URSS, em pleno,

caudaloso e despreocupado curso.

Quanto mais esse fenômeno se

Arquivo Revista

15


Desastre de 1975

Oliver Atkins(CC3.0)

morno e asqueroso dessa falsa tranquilidade.

Internamente, era a mediocridade

daqueles que, contagiados pela tepidez

do “hipopótamo”, não queriam

viver dos grandes ardores do Reino

de Maria. E, impressionados pelo nina-nana

maldito dessa situação externa

– quando todo o mundo estava

contente e feliz, era a “Bagarre azul”, 8

e parecia que essa tranquilidade da

desordem não terminaria mais –, se

deixavam contaminar e não só perdiam

a esperança da “Bagarre”, mas

também o amor por ela. “Ah, se tivéssemos

o morno do ‘hipopótamo’ para

nos aquecer a vida inteira!”

Esfriamento do fervor

por causa do egoísmo

Henry Kissinger (esquerda) junto a Mao Tsé-Tung (direita) e

Zhou Enlai (centro), em Pequim em julho de 1971

estendia, mais parecia que a paz nos

estrangulava e as esperanças da “Bagarre”

rareavam.

Se o adjetivo “hipopotâmico” existisse

em português… Nossa língua

é como o rio Amazonas, o qual não

pode ser bebido por pessoa alguma,

nem em um nem em mil goles; assim,

não há quem conheça a língua portuguesa

inteira, e ela pega umas surpresas:

de repente, talvez encontremos

num dicionário a palavra “hipopotâmico”;

nunca, porém, a ouvi dizer.

Se ela não existe, fica me servindo

aqui para exprimir o pensamento

como me está no espírito.

A calmaria hipopotâmica pairava

sobre a terra, deitando-se asquerosamente

sobre ela. Não era a calmaria

da paz, da tranquilidade da ordem,

mas a euforia da desordem, rindo

dos que amam a ordem, como que

dizendo: “Estás vendo? Sou a desordem,

e também tenho minha tranquilidade

morna, poluída e infindável.

Vou estendê-la sobre ti como um

tapete de poluição”.

Eram os dois panoramas: o interno,

com a mediocridade e as sinistras

seguranças de si mesmo; e o externo,

cada vez mais vergando sob o peso

Creio que dois ou três anos antes

do desastre se deu este fato: publicou-se

uma notícia espantosa para

aquele tempo, de que o Nixon, 9 então

Presidente dos Estados Unidos, faria

uma visita à República Popular Chinesa.

10 E isto foi um “estrondo” pelo

mundo inteiro: “Por que, como é?!

Um país comunista!” O Nixon deu

esse passo amaldiçoado, realizando a

visita em atmosfera de cordialidade.

Eu fiz uma longa reunião demonstrando

a gravidade disso. Era a “Bagarre”

que vinha! Vinha de longe, estava

dando um passo marcante no caminho.

O próprio Lanusse, 11 Presidente da Ar-

Mao Tsé-Tung cumprimentando Nixon, durante uma visita

deste à China, em 29 de fevereiro de 1972

Administração Nacional de Arquivos e Registros dos EUA(CC3.0)

16


Arquivo Revista

Reunião de Recortes na Sala do Reino de Maria, em fins da década de 1960

gentina, usou esta fórmula abominável:

a “queda das barreiras ideológicas”.

Mas a reunião foi ouvida num desinteresse

enorme! Deixei passar a semana

sem mencionar o assunto.

Havia umas janelas basculantes

no auditório da Sede São Milas na

qual se realizavam as reuniões nesse

tempo. Na próxima reunião de sábado

perguntei: “Os senhores ouviram

a reunião passada com um desinteresse

notável. Proponho um assunto,

respondam-me com toda a franqueza.

Se enquanto eu falava, entrasse

um gato através desse basculante e

pulasse em minha mesa, o que chamaria

mais a atenção e comentariam

mais: o caso do Nixon ou o gato?”

A grande maioria optou pelo caso

do gato… Isso representava bem

todo o esfriamento daquela gente,

na sua quase totalidade correta, direita,

mas completamente enlaçada

em seu próprio egoísmo. Quando

deixamos o egoísmo formar-se na alma,

ele nasce como cipó enrascado

na árvore: ela cresce e ele vai junto,

asfixiando-a. A árvore é a vocação, o

cipó é o egoísmo que agarra e acompanha

exclusivamente o interesse

próprio. Cada vez mais a árvore vai

ficando fina e o cipó grosso! É fatal!

A “Bagarre” era anunciada com

insistência para mostrar a possibilidade

de ela estourar e para nos dar o

conforto dessa esperança de que em

breve Nossa Senhora haveria de intervir,

afastando o “hipopótamo”.

O sentido da Reunião de Recortes

12 era dar este aviso: “Não vos iludais,

porque a ‘Bagarre’ vem e ela

julgará a vossa mediocridade. Ela já

está nos confins do horizonte: ei-la

aqui, ei-la lá, ei-la acolá! Eis tal gesto

que faz sentido com tal exclamação,

com tal acontecimento, com tal

previsão. Vede o quadro no morno e

no poluído desse ar sujo que a respiração

do ‘hipopótamo’ cria em torno

de si. Deitai a vista e percebereis a

‘Bagarre’ que vem com seu gládio de

justiça! Ó, prestai atenção, este é o

sentido desta insistência”.

Eu não estava chamando a atenção

para um perigo imaginário; era

um perigo real que ocupava parte do

horizonte.

Nossa Senhora

parece afastar-se

O que me sustentou durante todo

esse tempo foi a “graça de Genazzano”.

E a tal ponto que a minha

saúde, em vez de ir água abaixo como

em 1967, 13 manteve-se tão razoavelmente,

que pôde suportar de um

modo bem galhardo, tomando em

consideração a minha idade, a catástrofe

do desastre que viria.

Pois bem, em nossa vocação existe

um vai-e-vem e uma prova axiológica

de as coisas aparentemente não

darem certo. Isso tem uma importância

fundamental, inclusive para

17


Desastre de 1975

Antônio Carlos Carrero

Dr. Plinio e alguns membros do

Grupo recebem no aeroporto a

Sagrada Imagem, em 1974

antevermos a “Bagarre” e o que pode

nos acontecer durante ela.

Um exemplo disso: eu havia feito

todo o possível para vir a Sagrada

Imagem, 14 e correu tudo bem na

primeira visita dela. Ao fim, levado

pelo discernimento dos imponderáveis,

tinha a certeza de que a Sagrada

Imagem voltaria.

Quando a Imagem veio pela segunda

vez, ocorreu um primeiro fato

que me deixou desconcertado: ela,

aos poucos, foi se atolando na frieza

geral, perdendo a expressão, ficando

completamente átona, apagada, como

se ela não fosse nada. E presenciei

a diminuição do fervor do Grupo

para com ela.

Uns meses antes do desastre, a Sagrada

Imagem começou a não me comunicar

mais nenhuma expressão e,

mais ainda, o quadro de Genazzano,

que nunca deixara de me ser expressivo,

também se apagou completamente

para mim. Do lado intelectivo

evidentemente não, mas sim do lado

sensível, o qual tem uma importância

muito grande! Porque nesse caso

não se trata de nossa sensibilidade

comum, corrente, mas de uma manifestação

da graça sobre os sentidos da

alma. É uma ação de Deus, portanto.

Quando a alma deixa de perceber essa

ação divina, é evidente que se passa

nela um depauperamento muito

grande, pelo menos aparente.

Outra luz tão expressiva para mim

também se apagou. Era relacionada

com Nossa Senhora do Bom Sucesso,

a respeito da qual tantas vezes

eu pensava: “Aqui há algo para mim,

para a minha vocação, que eu não

percebo o que é, mas veremos”. Entretanto,

em meio a tal degringolada

do Grupo, ela estava de igual modo

inteiramente inexpressiva.

Veio o desastre de automóvel,

com todas as incógnitas que ele trouxe...

v

1) Em 16 de dezembro de 1967, durante

a crise de diabetes que o assaltara

gravemente, Dr. Plinio recebeu de um

amigo vindo da Itália um quadro de

Nossa Senhora do Bom Conselho de

Genazzano. Ao fitar a estampa, teve a

inesperada impressão de que a figura

da Santíssima Virgem, sem mudar em

nada, exprimia para com ele maternal

doçura, confortando-o e incutindo-lhe

na alma a convicção de

que não morreria sem ter realizado

a própria missão.

2) Ver Revista Dr. Plinio

n.322, janeiro de 2025, cap. 5.

3) Do francês: conflito desordenado

e profundo. Palavra

usada por Dr. Plinio para

se referir ao grande castigo de

Deus à humanidade, se esta não se

voltar para Ele, profetizado por Nossa

Senhora em Fátima.

4) Gerald Rudolph Ford (1913-2006),

precedeu James Earl Carter Jr. na

presidência dos Estados Unidos.

5) Henry Kissinger (1923-2023), Secretário

de Estado e Conselheiro de Segurança

Nacional dos Estados Unidos

durante os governos do Richard

Nixon e Gerald Ford (1969-1977),

pioneiro na política de détente.

6) Do francês: distensão. Termo usado

para designar o período no qual houve

uma distensão das tensões entre os

Estados Unidos e a União Soviética,

durante a Guerra Fria.

7) Do alemão: Política do Leste. Termo

usado para descrever os esforços para

normalizar as relações da Alemanha

Ocidental com a República Democrática

Alemã e os países do leste

europeu, ambos subjugados pelo comunismo.

8) A expressão “Bagarre azul” alude ao

estado de espírito surgido na época

do desenvolvimentismo brasileiro,

no qual, mesmo em meio ao caos, as

pessoas se deixavam iludir pela prosperidade

e pelo avanço da industrialização.

9) Richard Milhous Nixon (1913-1994).

10) Viagem realizada em fevereiro de

1972.

11) Alejandro Agustín Lanusse Gelly

(1918-1996).

12) Conferência na qual Dr. Plinio comentava

os acontecimentos mais recentes

ocorridos no Brasil e no mundo,

recolhidos de jornais.

13) Quando foi acometido por uma forte

crise de diabetes.

14) Imagem peregrina de Nossa Senhora

de Fátima que derramou milagrosas

lágrimas em Nova Orleans, Estados

Unidos, em 1972.

18


Desastre de 1975

II

Flávio Lourenço

Sede de almas

A fim de alcançar de Nossa Senhora graças

especiais e eficazes para aqueles que o seguiam,

Dr. Plinio ofereceu-se como vítima expiatória,

sendo em pouco tempo aceito pela Providência.

Arquivo Revista

Conhecendo perfeitamente a

origem dessa crise, tratei sobre

isso com alguns membros

do Grupo em conversas pessoais

mais do que em reuniões coletivas,

porque nestas, aqueles a quem

incumbia prestar atenção, não o faziam.

Dr. Plinio em 1973

Que esses filhos sejam salvos!

Entretanto, havia muito de bom

– embora empoeirado e sujo – dentro

da alma deles, e eu queria pedir

a Nossa Senhora que tivesse a bondade

de reerguê-los.

Então pensei: pedir isso a Nossa

Senhora é fácil, mas eu não confio

no valor das minhas orações. O que

posso fazer é oferecer um sacrifício

e, pelo valor deste, obter que esses

filhos, que não são filhos da admiração,

ou se quiserem, são filhos

da admiração das coisas do demônio,

sejam resgatados e salvos.

O discípulo deve ser como

o mestre e, sendo Nosso Senhor

nosso Mestre, nós devemos

ter sede de almas como

Ele. Eu tinha sede de almas,

sobretudo, das almas da

TFP. Vendo que estavam num

período de depressão, de falta

de entusiasmo e vitalidade, ofereci-me

nessa ocasião para o que

Nossa Senhora quisesse, a fim de

evitar um grande número de defecções.

Oração no Horto - Convento do

Espírito Santo, Toro, Espanha

Flávio Lourenço

19


Desastre de 1975

Uma moção interior

O oferecimento feito por mim teve

um antecedente sem muita importância,

mas narro para que tudo

fique claro.

Antes da morte de mamãe 1 –

uns dez anos antes do meu desastre

–, eu recebi a “graça de

Genazzano”, a qual me trouxe

uma grande distensão, uma

tranquilidade única. Mesmo

as situações mais críticas, essa

graça fez com que fossem macias

como o algodão.

Lembro-me de que certo

dia eu estava vindo do Mosteiro

da Luz de carro, passando naquele

largo que fica antes do Estádio

do Pacaembu. Numa esquina

da avenida, ao lado direito de quem

vai para o estádio, tem uma casa baixa,

térrea. Eu tinha terminado as orações

e – mais ou menos à altura dessa

casa – vinha refletindo o seguinte:

“Alguma coisa não está correndo

bem comigo, porque não estou sofrendo

e devo sofrer. É evidente que

não posso sofrer nas proporções que

sofri antes da “graça de Genazzano”.

Mas eu estou acabando por levar uma

vida inútil, porque há quase dez anos

sinto este macio. Durante algum tempo,

para me refazer, está bom, mas

depois, onde fica o holocausto?”

Sofrer por aqueles que

não queriam sofrer

Arquivo Revista

Dr. Plinio despede-se da Sagrada

Imagem, em 13 de maio de 1973

Naturalmente eu podia oferecer

a minha vida para o bem de nossa

Causa.

De outro lado, eu sabia – e tenho

certeza que foi comunicado por Nossa

Senhora –, que Ela me manteria

vivo até que eu cumprisse minha missão.

Ou seja, Nossa Senhora não queria

a supressão de minha existência;

se Ela quisesse, eu a teria entregado

e, portanto, não seria sério eu oferecer

o sacrifício de minha vida, pois

era pôr em dúvida a palavra d’Ela, e

estaria em contradição com a “graça

de Genazzano”. Eu temia que, se

o fizesse, cometeria uma infidelidade

a essa graça e, por castigo, Nossa

Senhora me levaria. Eu então não deveria

oferecer a vida, mas sim um holocausto.

O que eu poderia oferecer?

Qual seria esse holocausto?

Então Lhe ofereci aquilo que Ela

poderia aceitar: que acontecesse comigo

alguma grande desventura que

me fizesse sofrer muito, mas compensasse

o déficit existente; e

que esse sofrimento fosse aceito

e padecido por mim, em reparação

por aqueles que não

queriam sofrer.

Ao fazer o oferecimento,

não me ocorreu um desastre

de automóvel, pois nunca

imaginara que me pudesse

acontecer de ficar ferido e

quebrado fisicamente como fiquei,

mas pedi a Nossa Senhora

para fazer de mim o que entendesse,

como quem possui dinheiro

no banco: saca quanto precisa.

Que Nossa Senhora sacasse

quanto Ela quisesse deste modesto

banco chamado Plinio Corrêa de

Oliveira: “Fazei o que Vos pareça

melhor”. Deixei nas mãos d’Ela.

É claro que quem oferece o mais,

oferece o menos, e quem estava disposto

a oferecer sua vida, em todo

caso estaria disposto a oferecer o

que é menos. Depois, teria a relativa

e pobre vantagem de conciliar

as duas coisas: a vida mais o sofrimento.

Arquivo Revista

Dr. Plinio em meados da década de 1970

20


“Minha Mãe, eu Vos

ofereço esse sacrifício”

Isso não se passou apenas entre

Nossa Senhora e mim, senão eu não

contaria. Lembro-me bem de que no

sábado anterior ao desastre – o qual

foi numa segunda-feira –, numa conversa

entre alguns amigos, membros

do Grupo, no salãozinho azul de casa,

no Primeiro Andar, atentávamos

para as circunstâncias gerais internas

e externas ao Grupo e comentávamos

a situação perigosa em que estava

a TFP. Eu então disse, em termos

mais ou menos expressos, não me recordo

bem, que era preciso uma expiação,

porque o Grupo estava em

tal posição de tibieza e eu achava tão

difícil mudar essa mentalidade, que

seria só mesmo uma pessoa se oferecendo

como vítima expiatória para

endireitar as coisas, obter o perdão

desse estado de espírito e o seu afastamento

de nosso caminho. 2 Do contrário,

aquilo ruiria e a tristeza das

tristezas seria que o desbotamento

do Grupo fosse não como o de um

campo sobre o qual passa uma nuvem

que transitoriamente o obscurece

um pouco, mas como o de um

campo que vai derivando e afundando

na lama. Era preciso evitar isso.

Todos ouviram, mas ninguém disse:

“Eu faço”. Deixaram-me caminhar

sozinho.

Eu não me lembro se disse aos

amigos, mas enquanto eu falava, pensei

de mim para comigo: “Está bom,

se você acha isso necessário, então

comece por oferecer-se você mesmo!

Por que um outro? Por que não você?

Ninguém acha bonito outro fazer

o sacrifício se não tem coragem de fazê-lo

ele próprio. Então, agora ofereça-se,

quero ver sua coragem! Se você

é chefe, o primeiro responsável é você

e se para alguma coisa tem de ser

chefe, seja para isso! Pule dentro do

caldeirão você mesmo!”

Essa foi a minha impressão. É o

diálogo violento de um homem consigo

mesmo. A violência que se tem

com os que desobedecem à vontade

de Nossa Senhora deve começar por

nós mesmos. O homem que não é

violento contra si não tem direito de

ser enérgico contra os outros, nem

tem a seriedade de alma pela qual os

outros o levem a sério.

Com efeito, o medíocre tão imprevidente,

tonto e desprezível que não

vê o assédio dos piores adversários,

sente quando está tratando com uma

alma séria e capaz de praticar violências

contra si mesma; mas também

sente quando está tratando com um

outro medíocre. Diante da alma séria

ele fica um pouco intimidado; em face

do outro medíocre, eles se olham

como comparsas e passam o recibo

mudo um para o outro, são amigos...

Salão Azul do Primeiro Andar

Isso é um estímulo de passagem,

para não termos ilusão e sabermos

ser enérgicos conosco.

Não cheguei a fazer um ato formal

nem uma oração especial no momento,

mas durante a conversa eu disse interiormente

a Nossa Senhora: “Minha

Mãe, eu vos ofereço este sacrifício”.

E ainda comentei com eles: “Se

eu vier a falecer, dez minutos depois

de ter morrido, em torno de mim estarão

fazendo mundanismo com pessoas

de minha família e com outros

que eventualmente venham”.

Não insisti no assunto, despedi-

-me de todos. Era tarde, fui dormir

sossegado, os outros também se dissolveram

e eu não tomei mais nenhuma

deliberação expressa a respeito

do caso.

Arquivo Revista

21


Desastre de 1975

Pressentimento de

uma tragédia

Passei um domingo comum e, no

dia seguinte, muitos fatores levam a

crer, que Nossa Senhora aceitou o

sacrifício!

Recordo-me muito bem de que

na segunda-feira saí de casa por volta

das nove da manhã, com uma pequena

insegurança que não me é comum.

Não viajei diretamente, pois

antes de partir para o Êremo do Amparo

de Nossa Senhora, 3 onde iria

para escrever um trabalho, eu tinha

que dizer uma palavrinha muito rápida

a um membro do Grupo que estava,

naquele momento, no Êremo

de Nossa Senhora da Divina Providência.

Combinei com ele de nos encontrarmos

numa ruazinha de Perdizes,

4 perto do êremo, numa espécie

de belvedere, de onde se tem uma visão

do bairro. Eu desci do automóvel

– nesse tempo eu estava começando

a usar a minha Mercedes bordeaux

–, e andei um pouquinho com

ele de um lado para outro, talvez uns

dez minutos, conversando, combinando

umas coisas. Depois me despedi

dele e entrei no meu carro para

ir a Amparo.

Lembro-me de que estava com

muito sono e, ao entrar no veículo,

deu-se um fato curioso: eu – que vinha

sob a sombra do lumen de Genazzano

e de Fátima que se retiravam –

não estava pensando no oferecimento

que tinha feito. Assaltou-me uma

dúvida: “Eu sento atrás ou na frente?”

Pensei: “É mais contrarrevolucionário

ir atrás”. Mas depois refleti:

“Estou tão abatido, tão cansado e

tão provado. Eu viajo com mais conforto

na frente.”

Veio-me à mente o seguinte: “Eu

vou dormir e esse automóvel de repente

dá uma trombada – nunca tive

medo disso – e me apanha dormindo.

Se me sento na frente, posso

ser liquidado. Seria mais prudente

ficar na parte de trás que é menos

perigosa para um desastre e não dormir,

porque, se houver um acidente,

eu me protegerei e me defenderei

melhor.”

Depois pensei: “Vamos andando!

Isso são sonhos, eu não posso me deixar

levar por simples impressões. Esses

prognósticos podem não querer

dizer nada. Não há nenhuma razão

para pensar em desastre mais especialmente

do que em outra ocasião.

O razoável é ir na frente, é dormir.

Então, vou na frente e vou dormir”.

E me sentei onde vou sempre quando

viajo, ao lado do chauffeur. Se eu

resolvesse ir atrás teria tido pena do

rapaz que estivesse na frente, mas

quanto a mim, teria sido poupado.

Quando parti, tive a impressão

terrível de que ia afundar-me num

perigo muito grave. E pensei: “Sinto

uma dilaceração e que algo está me

levando para uma tragédia; eu não

sei o que é. Será uma pura imaginação

ou uma fantasia?” Mas deixei isso

de lado.

Às vezes, as pessoas têm pressentimentos

sinistros que depois não se

verificam, eram meras impressões;

comigo já aconteceu duas vezes a

respeito de outras circunstâncias.

Rezamos as orações comuns do

trajeto, o automóvel seguiu e a certa

altura da saída de São Paulo, depois

de entrar na estrada, veio-me o desejo

de dormir. Inclinei o banco para

me esticar e adormeci.

Esses foram os pressentimentos

que eu tive antes do desastre.

Consumação do oferecimento

Eu só vim a dar acordo de mim

quando estava no hospital de Jundiaí,

todo quebrado, espatifado, recebendo

os primeiros curativos.

Apenas me ficou a ideia de ter visto

rapidamente um caminhão muito alto

que esbarrava conosco.

Minha irmã, a filha e o neto dela

receberam a notícia do desastre

e viajaram de São Paulo para Jundiaí

para estar comigo. Eu soube que

caiu uma chuva tremenda sobre a ci-

Arquivo Revista

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Carro de Dr. Plinio após o desastre, em 3 de fevereiro de 1975

22


dade, como um verdadeiro

dilúvio. Foi tão forte que

eles foram obrigados a parar

o automóvel e ficaram duas

horas na estrada esperando

a chuva diminuir, porque

era uma loucura continuar.

Isso foi um sinal de tragédia,

uma coisa horrorosa.

Quando me encontrava

no solo, estava desmaiado.

Disseram-me que, ao ser levado

ao hospital de Jundiaí,

eu tinha um certo conhecimento

de mim mesmo, mas

eu me recordo só de lampejos.

Perdi de novo os sentidos

e só acordei quando entrei

no hospital de São Paulo,

onde comecei a perceber

algo e vi alguns antigos membros

do Grupo que me esperavam na

parte exterior do hospital para saudar-me.

Então os reconheci e lhes

disse uma palavrinha. Mas logo depois

perdi o conhecimento outra vez.

O desastre estava feito, tudo tinha

se passado, tudo tinha se liquidado,

tudo tinha redundado neste

resultado: anos de muletas ou cadeira

de rodas, com várias outras sequelas

realmente muito pesadas, de

diversas ordens, até coisas pequeninas

que se seguiram como consequência

da operação… Começou

aí uma série de padecimentos muito

maiores do que eu imaginava.

Uma verdadeira barbaridade!

Daqui para frente,

quanto tempo haverá? Deus

o sabe.

Um homem de

admiração

Hospital da Caridade de São Vicente de Paulo, Jundiaí, onde Dr. Plinio foi socorrido

Eu designo como homem de admiração,

não um homem admirável, feito

para ser admirado, ou que merece

admiração, mas um homem que é feito

e vive para admirar. E como eu era

assim, Nossa Senhora me deu bastante

admiração pela Igreja, pela Causa

Católica, pela Cristandade, pela Contra-Revolução,

para que eu quisesse

me jogar nesse lance por inteiro. v

1) Ocorrida em 21 de abril de 1968.

2) Décadas antes, tendo tomado conhecimento

da vida de Santa Teresinha

do Menino Jesus, Dr. Plinio tornou-

-se grande devoto desta Santa e passou

a admirar nela o caráter expiatório

de sua missão. Como outras almas

contemplativas, ela se ofereceu

a Deus pelos pecadores a fim de que

estes se salvassem e para que os planos

da Divina Providência se realizassem

de modo pleno.

3) Localizado no município de Amparo,

Estado de São Paulo.

4) Bairro nobre da cidade de São Paulo.

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Arquivo Revista

Não se pode negar que o

holocausto por mim oferecido

foi muito bom para o

Grupo. Nossa Senhora me

deu a graça de fazer isso

porque procurei, durante a vida inteira,

ser um homem de admiração.

Detalhes do carro de Dr. Plinio após o

desastre, em 3 de fevereiro de 1975

23


Desastre de 1975

III

Confiança inabalável

em meio ao aparente

desmentido da promessa

Dentre o conjunto de infortúnios que se abateu sobre Dr. Plinio, nada

o preocupou mais que a insensibilidade em relação às promessas de

Nossa Senhora. Ora, a mesma mão virginal de Maria que parecia

distanciar-se, na realidade, sustentava-o na prova e na aridez.

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A

provação era colossal.

Quando voltei à consciência

de maneira mais estável,

veio à mente toda a proble-

Dr. Plinio no quarto de Dona Lucilia, durante o período de sua convalescença

mática a respeito do que ocorrera.

Fiz-me duas perguntas, as quais não

quis expor a terceiros por desconfiar

de que não me responderiam a verdade.

Primeira: “O que restava fisicamente

de mim?” Segunda: “Qual

teria sido a causa daquele acidente?”

Análise da própria situação

após o trauma físico

Percebi que as minhas duas mãos

se tinham machucado seriamente,

estavam enfaixadas e meus braços

presos com gesso. Portanto, haviam

se quebrado. Os enfermeiros precisavam

dar-me a comida na boca, como

para uma criança.

Numa de minhas pernas sentia

algo de esquisito. Não me contaram

na ocasião, mas tinham realizado

uma operação na bacia, colocando

um pino de ferro que atravessava

a perna esquerda de lado a lado,

impedindo-me o movimento. Fui

condenado a ficar dois meses deitado

numa cama, sem poder me mover,

com a bacia fraturada e o aviso

dos médicos de que a imobilida-

24


de poderia causar-me uma

pneumonia.

Lembro-me também de

um dia em que repórteres

quiseram me fotografar. Eu

me sentia como um verme,

deitado numa cama, todo

quebrado e ainda tendo de

esconder o infortúnio, para

não ser fotografado.

Por outro lado, o regime

alimentar era muito

severo. Não me faltava nada

que não me aborrecesse.

O trauma do drama físico

de um acidente é tremendo.

Compreendi que havia

sido algo muito grave. Comecei

a prestar atenção

no coração e nos órgãos

da caixa torácica, e percebi

estarem em perfeita ordem.

Então pensei: “Gravíssimo

não foi, porque se

essa caixa vital funciona

bem, por causa das pernas e braços

ninguém perde a vida. Tenho condições

de continuar a viver. Isso é o

essencial”.

O alento se afastava…

Qual teria sido a causa daquela situação?

Não me recordava do que tinha

acontecido, como havia se dado

o desastre e nem pude perguntar. A

preocupação que me assaltou logo

ao me recompor, no hospital e depois

em casa, foi a questão do apagamento

das imagens de Nossa Senhora

de Genazzano e da Sagrada Imagem.

Genazzano era para mim a promessa!

A graça obtida por Nossa

Senhora sob esta invocação tinha

imponderáveis pelos quais entendi

que se me sobreviesse uma provação

muito grande, eu receberia algum

sinal de que esse sofrimento

era enviado por Ela. Ora, onde estava

o tal sinal da Providência? Nenhum!

Zero!

Quadro de Mater Boni Consilii colocado no móvel em

frente à cama de Dr. Plinio no Primeiro Andar

Com isso, se punha a provação:

“Como fica a proteção de Nossa Senhora

de Genazzano? Ela que é a

protetora, Ela que arranja tudo…

agora estou eu nesta tragédia!” E

aquela graça que tinha sido o meu

alento contra as angústias durante

vários anos, como que se afastava de

mim... O que aparecia não eram os

sinais da esperança, mas os da cólera.

Puseram em meu quarto no hospital

a Sagrada Imagem, que nesse

tempo estava em São Paulo. Para

mim era como uma boneca de barro,

sem expressão nenhuma. Os outros

olhavam para ela e se comoviam; a

mim ela não dizia nada. Tudo era negativo.

Eu rezava e comungava como de

costume, mas as imagens de Nossa

Senhora não me comunicavam nada.

Eu fiz o seguinte raciocínio: “Afinal

de contas, a respeito de Genazzano

eu recebi uma graça, mas não tenho

o direito de considerá-la como tão

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indiscutível. Ou eu me iludi,

mas não posso me convencer

de me ter iludido,

ou então prevariquei em algo

e a promessa de Genazzano

não se realizará. E

o sinal é esse: o espatifamento

completo do Grupo

de um lado e, de outro, eu

aqui neste estado”.

O grande problema para

mim era esse e, consequentemente,

o cumprimento

de minha vocação. Se me

operavam ou não, se ficaria

coxo ou manco, se cortariam

ou não a perna, se o

braço paralítico se endireitaria,

isso forçosamente me

vinha ao espírito, mas não

era o grande problema para

mim.

Discreto sorriso da

Virgem de Fátima

Certa vez, eu estava deitado na

cama fazendo uma oração em meio

à grande aridez, diante de um pôster

de Nossa Senhora de Fátima. E disse

a Nossa Senhora que, apesar da

insensibilidade total e inteiro silêncio

d’Ela, eu oferecia a Ela o que Ela

quisesse, como quisesse; mas pedia,

se fosse vontade d’Ela, que remediasse

a situação e, sobretudo, impedisse

agravamentos.

O pôster continuou exatamente

como estava, mas num certo momento

da oração, parecia-me que

Nossa Senhora me sorria um pouco

e me dizia: “Você terá seu período

abreviado”. Foi enquanto eu recitava:

“Si quæris Cœlum, anima, Mariæ

nomen invoca”. 1 Nessa poesiazinha

tão popular, bonita, a consonância

foi: “Se você quer uma paz, um

Céu para sua alma, invoca o nome

de Maria, apesar de tudo”.

O Sr. João Clá estava com mais

alguém do lado de fora do quarto,

observando, e me disse que nota-

25


Desastre de 1975

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Dr. Plinio no quarto de Dona Lucilia, durante o período de sua convalescença

ram estar se passando algo comigo.

Ele permaneceu fora, o outro entrou

perguntando se havia acontecido alguma

coisa. De fato, aquela estampa

me auxiliou enormemente no momento

mais crítico de minha provação.

Fatos prenunciativos de

um suposto castigo

Um belo dia, alguém conversando

em casa comigo narrou-me ter havido

nesse período de minha convalescença

vários fatos impressionantes

com imagens de Nossa Senhora

pertencentes ao Grupo: um quadro

de Nossa Senhora do Bom Conselho

caíra de modo insólito no Auditório

São Miguel, estalando o vidro; fato

análogo acontecera em outra Sede.

Em duas capelas de nossas Sedes

houvera incêndio, numa das quais

uma imagem de Nossa Senhora ficara

danificada.

Essa pessoa não conhecia – porque

não contei a ninguém – a aridez

e a secura em que eu estava em relação

às imagens, e, por conseguinte,

não imaginou que com isso agravava

muito as minhas preocupações. Eu

me perguntava: “O que terá acontecido?

Será uma maldição? Quem sabe

se tudo isso é um castigo e o culpado

sou eu?” Dava uma impressão

de cólera, e, portanto, causava pavor

e terror.

Certa noite, aconteceu um fato

ainda mais trágico.

Noites intérminas de insônia

Por questão de barulho da rua, eu

utilizava uma cama no quarto de mamãe

e, na parede de minha cabeceira,

estava pendurado um quadro de

Nossa Senhora de Genazzano. Ora,

um dos tormentos de minha situação

era que à noite eu não conseguia

conciliar o sono e dormia durante o

dia.

Às noites, eu permanecia no escuro,

sem poder me mover na cama

e sequer chamar o enfermeiro, porque

estava com os braços imobilizados.

Assim, não era possível manobrar

uma campainha ou acender a

luz. Além disso eu não queria que

me vissem acordado para não preocupar

ninguém.

Eu não podia e nem conseguia

ler alguma coisa, pois o choque

me desequilibrara a vista, e de tudo

quanto eu tinha sofrido, restava-me

um certo estrabismo que me

dificultava a leitura; os óculos não

me serviam, precisavam de um reajuste

das lentes, mas não podia ir

ao oculista… De maneira que nada

tinha a fazer senão deixar o

tempo correr no tédio, na imobilidade,

com as duas mãos na tipoia,

uma perna estendida. E eram noites

em que eu ouvia o cuco tocar,

anunciando a lenta ronda das horas

intermináveis dançando em torno

de mim.

Perspectiva de um aviso

trágico e ameaçador

Durante uma dessas noites de insônia,

de repente ouço um enorme

ruído, e percebo que entre a parede

e o encosto de minha cama, o quadro

de Nossa Senhora de Genazzano

havia caído no chão estrepitosamente;

tratava-se do próprio quadro

que tinha me sorrido por ocasião

da minha doença anterior. Era

tarde, e não quis incomodar meu

enfermeiro que estava descansando

em quarto vizinho ao meu, então

deixei passar.

Não tinha explicação para o fato;

na calma da noite não houvera o menor

terremoto, não passara nenhum

caminhão na rua ao lado, não acontecera

absolutamente nada. Procurei

lembrar-me de como o quadro estava

suspenso à parede; se estivesse

preso por um cordão, podia ser uma

casualidade, uma coincidência, porque

a moldura era muito pesada, já

que eu tinha mandado revestir o lado

de trás de uma chapa dupla de

26


madeira, por razões práticas, para

evitar qualquer dilaceração. Quem

sabe se o cordão não estava deteriorado

e, sendo fino, talvez um pouco

frágil, tivesse se rompido?

Lembrei-me, entretanto, de que

minha irmã havia recomendando,

por ocasião de uma reforma na casa,

que pendurassem todos os quadros

com arame, por ser mais resistente

que os cordéis. Se o quadro estivesse

preso por um arame, não havia razão

para ele cair, já que não teria peso

suficiente para rompê-lo. E, portanto,

sua ruptura seria uma espécie

de verdadeiro milagre ameaçador,

funesto, mais um sinal certo da cólera

de Deus, uma clara manifestação

de desagrado de Nossa Senhora de

Genazzano que se exprimia por essa

forma. Tive a seguinte impressão:

“Aqui há um aviso. Não será um castigo?

Eu desagradei Nossa Senhora

em algo, Ela me puniu por essa retração

e agora avisa que minhas atuais

disposições não hão de melhorar,

serei arrasado, e não se cumprirá o

que eu espero…”

E não consegui dormir, fiquei

com mais essa aflição, aquela dúvida

na cabeça, e pensava: “Preciso

aguentar isso com calma, para não

fazer mal à minha saúde; devo salvá-

-la, custe o que custar, para continuar

a lutar. Então, quieto!”

Passei essa noite, vamos dizer,

aflito sim, mas inteiramente tranquilo,

apesar de tudo quanto havia.

Não se pode imaginar para uma

pessoa nas minhas condições o que

era uma noite dessas a ser aguentada

com calma! Transcorreram as horas...

Quando afinal amanheceu, entrou

o café e mandei ver o que tinha

acontecido:

— Veja um pouquinho como o

arame detrás da imagem se rompeu.

A pessoa foi examinar e, com certo

alívio, disse:

— Não é arame, é um cordão.

— Mas como um cordão? Não

tem arame?

— Não.

E me mostrou que era, de fato,

um cordão de plástico já desgastado,

que havia se rompido pela ação

do peso do quadro. Verifiquei que

era mesmo. Alívio…! Ao menos isso

me serviu um pouco de arejamento.

Não era um aviso trágico.

Mas Nossa Senhora permitiu que

até a perspectiva desse aviso desabasse

sobre mim naquelas condições

terríveis.

Durante essa mesma noite eu

tinha raciocinado: “Ela é Mãe de

Misericórdia e a oração do Memorare

diz que seja quem for a

pessoa que reze a Ela pedindo um

auxílio, por mais desvalido que

seja, será atendido. Misericórdia

Ela há de ter e não Se terá esquecido

da promessa que Ela me fez;

se eu me lembro dessa promessa

é por uma graça d’Ela. Se Ela

me dá graça para eu me lembrar é

porque Ela mesma não quis cancelá-la.

Então, o que eu devo fazer

para servi-La? Fazer o possível

para manter minha vida e, para

tal, tenho de colaborar com a

esperança. Logo, continuarei a

confiar. Não sei no quê, mas me

mantendo sereno e confiante como

se a graça de Genazzano não

estivesse desmentida”.

Embora eu já não tivesse razão

tão inconcussa para crer nela,

havia um fragmento de razão,

mas apenas isso. E de manhã ainda

pensei: “É o regime de Genazzano

que continua: é o apuro junto ao

qual a gente se esfrega e parece arrebentar,

mas que depois tem uma

explicação”.

v

1) Do latim: “Se queres o Céu, ó alma,

invoca o nome de Maria”. Responsório

dos Salmos do Nome de Maria.

Dr. Plinio diante da Sagrada Imagem no Primeiro Andar, em 9 de abril de 1975

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27


Desastre de 1975

IV

Ainda que caminhe

no vale da morte,

confiarei em Vós!

Às vezes Nossa Senhora parece eclipsar-se, mas tal

como na vida de Dr. Plinio, é nos momentos de maior

aridez que Ela se faz mais presente, dando forças e

serenidade para enfrentar todas as dificuldades.

Fui melhorando gradualmente.

Afinal, foi-me possível

levantar da cama, indo

para a cadeira de rodas.

Primeira saída: ao

oftalmologista

Certo dia me levaram para o meu

escritório e me sentaram no sofá. A

impressão que eu tinha, quando estava

de cama, é que, quando chegasse

a hora de me levantar, poderia

me mover à vontade como qualquer

um. Mas não sei que efeito produziu

a imobilidade nos meus músculos,

pois me senti como uma múmia

egípcia inteiramente amarrada

de alto a baixo, de modo que eu não

podia sequer mudar de posição.

Aos poucos eu me preparava para

começar minha vida normal. Para

mim, seria uma verdadeira alegria

poder sair de automóvel, coisa aspirada

intensamente por quem esteve

doente, sobretudo com a perna e o

braço esticados em posição troglodítica,

durante dois meses.

Na primeira vez que consegui sair

de casa, quis ir a um oftalmologista

e, com base nos exames, poder mandar

fazer óculos adequados para retomar

as leituras.

Se há algo pacífico no mundo é a

visita a um oftalmologista, mas eu fui

com medo pela seguinte razão: to-

Dr. Plinio em 9 de abril de 1975, data em que se levantou

da cama pela primeira vez após o desastre

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28


Arquivo Revista

Dr. Plinio tomando refeição em 9 de abril de 1975

da vida tive pânico, horror de injeção

nos olhos. Fui formado pela falsa

ideia de que os olhos são mais ou

menos como um ovo: se alguém meter

um alfinete, escorre tudo o que

há no globo ocular, o olho murcha e

a pessoa fica cega.

Cheguei ao oftalmologista carregado,

ainda todo enfaixado. Expliquei-lhe

o que eu tinha e ele logo pediu

para a secretária pegar algumas

seringas para injeção.

Ela voltou com uma bandejinha,

com uma toalhinha a mais ornada

possível – tudo tão bem arranjado

como se ela fosse servir bombons

numa bonbonnière para eu comer

– e em cima havia cinco seringas.

O médico me avisou que precisava

aplicar uma injeção nas minhas

vistas.

Eu tive que me conter, e pensei:

“Meu Deus, mais essa!?” Nem perguntei

por quê, e mandei que fizesse

logo.

Tive a impressão de que desfaleceria.

Mas, de repente, graças a

Nossa Senhora, naquele momento

me invadiu uma força muito grande,

tive uma tranquilidade extraordinária

para enfrentar aquilo. Com

uma calma que eu nunca tinha

imaginado, deixei o médico meter

a agulha no meu olho. As injeções

eram muito mais inócuas do que eu

pensava.

Ele injetou um líquido não no

globo ocular, mas no canal lacrimal

de cada olho, mexeu ali como quis

para ver se estava obstruída a saída

das lágrimas; e eu percebi que a

água que saía da agulha passava pelo

canal e escorria sobre o rosto. Ao

tirar a agulha, disse-me que havia

aplicado a injeção para ver como

estava o conduto. Caso este tivesse

um pouquinho de poeira da estrada

ou qualquer outra coisa, seria preciso

fazer uma operação no canal lacrimal

– não era bem no olho – para

tirar de dentro esse cisco; porém

encontrava-se completamente desobstruído.

Um grande padecimento

Todas as manhãs eu mandava

que me lessem o jornal. Naquele

dia, antes de sair para o oftalmologista,

tomei conhecimento de

uma notazinha publicada a respeito

de um começo de estrondo contra

a TFP, no Rio Grande do Sul.

Pelo modo de ser dada a notícia,

senti que uma campanha debandada,

colossal, estava vindo por cima

de nós.

Fui ao médico muito mais preocupado

com o estrondo do que com

o estrabismo que, enfim, de um modo

ou de outro, se corrigiria. E quando

meu carro chegou ao consultório,

lembro-me de que estava raciocinando

isto: “A notícia de hoje de manhã

é tal, que se diria estar vindo um estrondo

de grandes proporções”. Voltei

para casa e passei o dia inteiro na

Notícias relativas ao estrondo publicitário movido contra a TFP, em 1975

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29


Desastre de 1975

expectativa da publicação do dia seguinte.

De fato, a partir daí começou a

pancadaria. Desatou-se um estrondo

horroroso, de arrasar, o mais impressionante

que houve contra o

Grupo até hoje. E o maior sofrimento

não foi o desastre, mas o estrondo,

talvez o maior padecimento de

minha vida, de eu me contorcer de

dor, espiritualmente, como um verme,

uma coisa horrível! Eu, com os

restos do desastre pesando e de outras

coisas que iam caindo em cima.

Além disso, vendo aquela modorra e

aquela indiferença no Grupo.

A partir daí começou uma série

de medidas persecutórias. A hora

mais trágica foi quando se iniciou

um movimento pedindo o fechamento

do Grupo. Eu então comecei a tomar

providências, telefonando para

conhecidos para pedir que nos ajudassem.

Eu nem podia segurar o telefone,

alguém o colocava

no meu ouvido, e eu falava.

Mas não tive meio de

evitar o fechamento... O

que o evitou foi um milagre.

Tormentas dessa natureza,

às pilhas, houve nesse

período.

O papel da confiança

Por incrível que seja,

graças a Nossa Senhora eu

atravessei o estrondo sempre

com a retração daquelas

graças, mas com paz,

com uma serenidade sem a

qual teria morrido naquela

ocasião, fundada apenas

no desejo enorme de que

a vocação continuasse e,

portanto, uma serenidade

mantida na recordação das

graças que tinham passado

a ser duvidosas.

Ajudou-me incomparavelmente

a suavidade,

a resignação e o perfume

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moral da presença de mamãe. Estou

certo de que a grande tranquilidade

e segurança que eu tive no desastre

não me abandonaram um instante

graças à intercessão dela. Eu devia

esperar que a perna, a bacia e os braços

quebrados, os olhos, enfim, tudo

voltasse ao normal.

Era necessário ter, em meio a tudo

isso, uma grande confiança que,

eu creio bem, mamãe me conseguiu

pedindo a Nossa Senhora de Genazzano.

Se mesmo durante esse período

de eclipse – para me exprimir assim

–, da “graça de Genazzano”, eu não

tivesse conservado algo de confiança,

não teria aguentado. Os infortúnios

todos se acumulavam em cima

de mim numa debandada incrível.

Mas me foi possível, exatamente por

causa dessa graça, do que ficava dela,

encontrar forças para enfrentar a

situação.

Dr. Plinio em 3 de fevereiro de 1984

A nada disso eu teria resistido

se não fosse Nossa Senhora me dar

sempre esse fundo de confiança...

Confiança em quê? Em que a mensagem

contida naquela graça se realizaria,

ou seja, eu não morreria antes

de realizar a minha vocação.

Nove anos de espera, sem

nada compreender...

Só ao cabo de nove ou dez anos

soube, por uma circunstância inteiramente

fortuita, que o dia do

desastre coincidia com a festa do

Bem-aventurado Stefano Bellesini,

um religioso do século XIX que

habitou em Genazzano, onde foi

também vigário, o mais célebre dos

devotos de Nossa Senhora do Bom

Conselho e que se tornou bem-aventurado

à luz d’Ela, fato que restaurava

o quadro que as dúvidas

não consentidas, mas veementes,

perturbavam.

Quando, naquela manhã

de fevereiro, aniversário

do desastre, passei

por uma das nossas capelas,

sentei-me lá e um rapaz

veio me trazendo a

relíquia do Santo do dia

acompanhada de uma nota

sobre ele: era o Bem-aventurado

Stefano Bellesini.

Mandei telefonar aos

agostinianos e perguntar

qual era o dia de sua festa.

Era, com efeito, no dia

3 de fevereiro. Estava inteiramente

confirmado.

Aquele tinha sido o dia

do meu desastre, e pensei:

“Mas como? Nunca

me passou pela cabeça a

coincidência das datas!”

O que indicava a ponta

do dedo de Nossa Senhora

no acidente que sofri,

como quem diz: “Meu filho,

aquilo não foi uma

30


coisa contra as regras

de Genazzano, mas

um requinte dessas regras”.

Foram nove anos

de espera, sem eu compreender

o que havia

sucedido.

Fiquei muito contente

em constatar essa

coincidência de datas,

a tal ponto que mandei

tirar a relíquia dele de

uma das minhas caixas

de relíquias e não a larguei

mais por um minuto,

agradecendo a Nossa

Senhora de Genazzano

por ter sabido disso

nove anos depois. Eu

agradeço a Ela porque

não soube e agradeço

porque soube. Não sabendo,

sofri mais; sabendo,

tive uma alegria.

De lá para cá, naturalmente,

adquiri maior

decisão, mais energia no

enfrentar os obstáculos e, ao mesmo

tempo, as provações foram aumentando;

mas já com a confiança bem

esteada e, portanto, com a possibilidade

de enfrentar qualquer coisa.

Apesar do apagamento,

a “graça de Genazzano”

permanecia incólume

A segunda luta – a primeira foi

o desastre; a segunda, o estrondo –

deixou suas cicatrizes durarem até o

momento em que eu pude recompor

bem o movimento da graça. Fazendo

recentemente um balanço de tudo

quanto se passou por ocasião do estrondo,

começou a abrir-se um pouco

de clareira nos meus olhos e verifiquei

que Nossa Senhora continuou

a agir conosco e comigo durante esse

período, exatamente do modo miraculoso

com que Ela agia antes daquele

apagamento.

E várias, várias e várias coisas daquela

época começaram a me vir ao espírito,

e verifiquei que, apesar do desbotamento,

a “graça de Genazzano”

continuava. O perigo chegava até mim,

expirava sem devorar-me, deixando a

vocação prosseguir o caminho.

Ou seja, a graça não me abandonou,

mas deixou-me na situação de

julgar que ela não era autêntica. E

como isso se cravava no âmago da

minha alma! Porque, ou vivo para a

vocação, ou sou um palhaço...

Aos sábados, quando me dirigia

de cadeira de rodas para a Reunião

de Recortes, tratava a respeito do estrondo,

e em certa ocasião cheguei

a afirmar o seguinte: “Eu sou todo

dor, em mim não há outra coisa a

não ser dor”.

Uma caminhada pela dor

Não há dúvida: quem quer fazer

avançar uma obra como a nossa não

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pode apenas ser um

profeta, mas tem que

dar seu próprio sangue.

É uma longa caminhada

pela dor que depois

se transforma numa caminhada

pelo exílio e,

depois deste, a aparência

de frustração: “As

graças não eram nada!”

Caminhando, caminhando,

caminhando:

“Et si ambulavero

in medio umbræ mortis,

non timebo mala –

ainda que eu caminhe

nas sombras da morte,

não temerei os males”(Sl

22, 4), e “in lumine

tuo, videbimus lumen

– na vossa luz veremos

a luz” (Sl 35, 10).

Se Nossa Senhora

quis isso, eu canto

o Magnificat e dou por

muito bem empregada

qualquer coisa que Ela

tenha feito. Ainda que

tivesse me levado, eu A glorificaria

pela sublime intransigência d’Ela para

comigo.

Quem sabe se Ela, misericordiosamente,

quis servir-se dessa dor,

não da morte, mas das sombras da

morte, e das sombras, portanto, da

vocação não realizada, para ajudar

a reerguer o Grupo? É possível. Depois

disso, é fato que ele teve um florescimento

extraordinário e chegou

até onde está hoje.

Está aí a explicação, quase a história

de uma vida, a história de um

homem em função de uma graça.

É até onde eu posso narrar na ordem

do recente. Se eu fosse contar

todas as coisas que houve, grandes

e pequenas, ao longo desse período…!

Eu fui até os limites do que

eu poderia ir; sem embargo, continuei

a enfrentar minha vida e cheguei

até aqui pela graça de Nossa

Senhora.

v

31


Hagiografia

Santos mártires, primícias

da Igreja no Japão

Magníficos frutos foram dados à Igreja

no Japão, graças à fidelidade de um povo

que se maravilhou com os ensinamentos

recebidos de seus missionários.

Os dados sobre os mártires

do Japão que vamos considerar

são tirados da Vida

dos Santos, de Rohrbacher. 1

Almejando a glória

do martírio

São Francisco Xavier batiza um rei pagão

Tendo sido o cristianismo introduzido

no Japão no ano 1549, por São

Francisco Xavier, realizou maravilhosos

progressos, mesmo depois da morte

do Santo.

Isso é extraordinário, porque poderia

se admitir que o Santo falecendo,

o cristianismo deixasse de possuir

o surto que tinha, por ser ele a

grande mola propulsora da cristianização

do Japão. Ora, pelo contrário,

a cristianização nesse país, continuou

a florescer extraordinariamente.

Houve meio século de expansão

pacífica do cristianismo nessa nação.

Em 1596, em seguida a revoluções

políticas, iniciou-se uma perseguição,

sob o reino do Imperador Taicosama,

o qual se fazia adorar como deus. [...]

Não deixou de se alastrar por toda

a parte a nova de que iriam presos todos

os cristãos que fossem encontrados

nas igrejas, ou com um missionário,

e ela despertou no coração de todos

os fiéis tamanho júbilo e desejo de

martírio que provocou a admiração

dos idólatras.

Peter Ykens (CC 3.0)

32


Fondo Edifici di Culto(CC 3.0)

Os Vinte e Seis Mártires do Japão

Vejam o estado florescente da fé

que isso representa! É como se corresse

de repente entre nós a seguinte

notícia: a casa está cercada de inimigos

que vão investir contra nós. E todos

dissessem: “Oh! Que maravilha,

que felicidade a glória do martírio!

Que venham! Nós combateremos os

que pudermos e morreremos depois

contentes. Teremos abatido uns inimigos

da Igreja e morrido por ela”.

Os membros dessa cristandade

maravilhosa, tão distante de Roma

e da Europa católica, diante da notícia

de que havia uma perseguição

religiosa, mostraram-se tão alegres,

que os próprios pagãos não

compreendiam como isso podia

acontecer.

O primeiro a dar tão maravilhoso

exemplo foi um general do exército,

Justo Ucondono, filho de Tacaiama.

Alguns meses antes, vira seu ilustre

pai morrer-lhe entre os braços louvando

o Senhor até o derradeiro suspiro,

e agradecendo-Lhe por havê-lo julgado

digno de morrer confessando a

Jesus Cristo.

Esse general era filho de um mártir

ilustre.

Ucondono estava em casa de seu

amigo, o Rei de Canga, quando, à notícia

da perseguição, rumou para Meaco,

em casa do Padre Gnecchi, jesuíta,

a fim de morrer com o religioso,

cuja virtude tanto respeitava. Enquanto

lá se encontrava, viu chegar com o

mesmo intuito os dois filhos do vice-

-rei de Tensa, grão-mestre da casa do

imperador.

Um senhor muito rico e poderoso,

mas batizado havia pouco, mandou

publicar em suas terras que puniria severamente

quem quer que, interrogado

por ordem do imperador se o amo era

cristão, dissimulasse a verdade. Outro,

sabendo que não ousavam ir buscá-lo

pessoalmente, foi com a esposa – conduzindo

ele um menino de dez anos,

e ela, uma criancinha ao colo – apresentar-se

a um dos que comandavam

Meaco.

Um parente de Taicosama, a quem

o príncipe dera três reinos, foi encerrar-se

com alguns jesuítas para não

perder a ocasião de com eles morrer.

O Japão tinha uma organização

acentuadamente feudal. Os senhores

feudais, da categoria de príncipes,

se manifestaram favoráveis ao

cristianismo. Apesar de deverem

grandes obséquios ao imperador, este

era apenas um instrumento das

33


Hagiografia

Wolfgang Kilian(CC 3.0)

dádivas divinas. Por isso, era Deus a

quem deviam obedecer.

Tecendo as vestes para

o próprio martírio

Um dia, viu-se a ilustre Rainha de

Tango, que recebera no Batismo o nome

de Graça, trabalhar com as filhas

na feitura de magníficas vestes, “para

surgir com mais pompa no dia do

triunfo”, como costumava dizer.

Era a rainha de uma província, sujeita

à ordem do imperador, que preparava

lindas vestes para o dia do

martírio, junto com as filhas.

Pode-se imaginar o interior desse

pequeno palácio provinciano, com

aquele estilo próprio às construções

japonesas: o murmúrio de uma fonte,

um jardinzinho todo feito de recantozinhos

e de pequenas surpresas,

de arvorezinhas, de plantinhas,

com florzinhas vermelhinhas, bichinhos,

e ali a rainha tecendo calmamente

o vestido de seu martírio.

Que beleza, que cena linda! Preparar-se

para o martírio como para o

noivado!

Ongasaiara, gentil-homem do Bungo,

sabendo que se estavam organizando

listas de cristãos, declarou publicamente

que ninguém lhe podia

disputar a honra de nelas estar inscrito

entre os primeiros.

Fizeram o que desejava, e ele, em seguida,

tratou de conquistar para a sua

família a ventura que julgava ter assegurado

a si próprio. Contudo, no caso

do velho pai, com oitenta anos e batizado

havia apenas seis meses, houve

por bem rogar-lhe se retirasse para uma

casa de campo, onde ninguém iria procurá-lo.

Não obstante os rogos, não

quis o ancião ouvir falar de fuga, pretendendo

morrer por Deus, mas de armas

na mão, como convinha a um velho

soldado. Entra, pois, comovido, no

aposento da nora e a vê entretida em

fazer, para si própria, vestes adequadas;

ao mesmo tempo, vê os criados, e até

os meninos preparar, este um relicário,

aquele um rosário, outros um crucifixo;

pergunta qual a causa de todo aquele

movimento, e respondem-lhe que se

preparam para o combate.

— Que armas, e que espécie de

combate! – exclama.

Aproxima-se da jovem nora:

— Que estais fazendo, minha filha?

– indaga-lhe.

— Preparando as minhas vestes

– responde ela – para apresentar-me

com mais decência, quando me crucificarem,

pois, segundo se afirma, serão

crucificados todos os cristãos.

Fala com tal doçura, tranquilidade

e contentamento, que deixa o sogro

atônito. Este, calado, fitou-a durante

algum tempo; depois, como que voltando

de profunda letargia, abandona

as armas, tira o rosário e, segurando-o

entre as mãos, diz:

— Pronto, eu também serei crucificado

convosco.

A este ancião a graça pediu que

morresse sem combater, pelas armas,

os adversários. Que ele nos assista

do Céu com os seus méritos e

nos dê força para fazermos sempre o

que a graça pede de nós.

34


Posição audaz ante

a perfídia do pai

A mais tenra idade deu exemplo

da mais heroica valentia. Um menino

de dez anos era filho de um pai que,

após haver covardemente abjurado a

Fé, quis convencer o filho a abraçar a

apostasia. Encontrou uma resistência

inesperada. Mais surpreso ainda ficou

quando o menino, cansado de palavras,

lhe respondeu:

— O pai que seja homem de honra

só deve ter um interesse: o de levar seus

filhos à prática da virtude. É pasmoso,

meu caro pai que, depois de haverdes,

por covardia, renunciado ao culto do

verdadeiro Deus, queirais tornar vosso

filho cúmplice de tão grande infidelidade.

Deveríeis, pelo contrário, tratar

de voltar ao seio da Igreja e não me arrancar

dele. Quanto a vós, porém, fareis

o que mais vos aprouver; não há lei

que ordene um filho a imitar a perfídia

do pai. E espero que Deus me conceda

a graça de Lhe ser fiel até

o fim, apesar de todos os vossos

esforços.

Esse menino é o magnífico

padroeiro dos filhos que

são obrigados a resistir aos

maus conselhos de seus pais.

Voto de castidade,

magnífica réplica

no perigo

A partir de 1598, a perseguição

começou a alastrar-se.

Era instigado o imperador por

alguns recém-vindos. Os protestantes

da Holanda e da Inglaterra

continuavam seu comércio

de Judas por todo o

mundo. A fim de melhor suplantar

os portugueses e espanhóis

católicos, nas suas relações

comerciais com japoneses,

instigaram esses últimos a

declarar uma guerra de extermínio

a todos os católicos do

império.

Em 1613, nova leva de mártires,

coroou a Igreja japonesa. Nela se encontrou

Julia Ota, coreana, ilustre pelo

nascimento, notável pelo merecimento

e estimadíssima pelo Kubosama,

o qual havia decidido fazer dela

o partido mais importante da corte. A

valorosa jovem, mal viu que a tormenta

ia desencadear, fez voto de castidade

perpétua, para atrair graças do Senhor.

Kubosama era um príncipe que

queria casar-se com ela. Vejam que

alta categoria de alma: “Vai cair

uma desgraça? Está bem, faço voto

de castidade perpétua”. Que réplica

magnífica!

Tornando-se, por esse laço sagrado,

esposa de Jesus Cristo, sentiu-se

tomada de uma força divina, e nada

foi capaz de a abalar. O príncipe,

não logrando resignar-se a ser vencido

por uma jovem e por uma forasteira a

quem tinha cumulado de bens, submeteu-a

aos mais duros ataques, os

Dr. Plinio em 1969

quais, no entanto, só valeram para dar

maior relevo à sua glória. Finalmente,

deixou-a entre as mãos de uma companhia

de soldados que a levaram de

ilha em ilha, com as duas companheiras

Lúcia e Clara, e a largaram, sozinha,

numa onde só havia alguns pobres

pescadores alojados em míseras

choupanas.

Mal conseguiu arranjar um lugar

que a abrigasse, lá viveu durante quarenta

anos, sem nenhuma consolação

por parte dos homens, mas cumulada

de favores do Céu, os quais lhe permitiram

descobrir um verdadeiro paraíso

no deserto. A princípio, entristeceu-se

por não ter sido, dizia, julgada digna

de dar o sangue pela Fé; mas o Padre

Pasio, jesuíta, a quem escreveu sobre

o assunto, respondeu-lhe que a Igreja

reconhecia como mártires vários santos

que só tinham padecido o exílio.

Ela foi inteiramente isolada dos

católicos nessa aldeiazinha junto ao

mar. Podemos imaginar uma tarde

com um sol vermelho se

pondo – eu imagino o mar

do Japão cheio de ondinhas

Arquivo Revista

crespas e pequenininhas, à

maneira das coisas japonesas

– ela ali pensando, com

uma saudade de ouvir Missa,

de rezar, de fitar a Santíssima

Eucaristia, de comungar,

na necessidade talvez de se

confessar para a tranquilidade

de uma consciência pura.

Ao cabo de quarenta anos

vem-lhe a morte, depois de

um exílio que foi para ela um

verdadeiro martírio.

Esses são os frutos que a

Igreja Católica produziu no

Japão.

v

(Extraído de conferência

de 6/2/1969)

1) ROHRBARCHER. Vida dos

Santos. São Paulo: Editora das

Américas, 1959, v.III, p.17-30.

35


Gabriel K.

Rainha do derradeiro Bom Sucesso

Nossa Senhora do Bom Sucesso é rainha no verdadeiro sentido da palavra: tem majestade,

mas ao mesmo tempo, bondade; é triunfadora, mas ao mesmo tempo, batalhadora

e dá a ideia de que, quando combate, tem a certeza da vitória.

O bom sucesso significa bom resultado final. Ela é, portanto, a Rainha do derradeiro

Bom Sucesso, o qual não exclui muitas batalhas, muitas derrotas, que no fim firmam a

soberania da Santíssima Virgem.

O bom sucesso é a vitória final da Contra-Revolução na grande guerra empreendida pela

Revolução.

(Extraído de conferência de 26/8/1977)

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