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Revista Dr Plinio 324

Março de 2025

Março de 2025

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Publicação Mensal

Vol. XXVIII - Nº 324 Março de 2025

Escravidão a Maria,

suprema alegria


Luis Samuel

Nossa Senhora de La Antigua

(coleção particular)

Nobreza da alma do autêntico

devoto de Maria

Aalma verdadeiramente devota de Nossa Senhora admira as virtudes d’Ela e é propensa a

maravilhar-se com tudo que, de algum modo, possui um reflexo dessas virtudes.

Ama o brilho de um brilhante porque é puro e imaculado como Maria; ama a coragem

de um herói porque lembra a Santíssima Virgem esmagando heroicamente a cabeça da serpente, e como

sendo Ela o único general que faz vencer, em todo o mundo, a Causa Católica contra as heresias.

E assim, tudo quanto há de belo na Criação espiritual ou material, o autêntico devoto reporta a Nossa

Senhora e ama, pensando que Ela é incomparavelmente mais do que essas belezas.

Essa atitude faz com que a alma se torne nobre, elevada, com horror à trivialidade, à vulgaridade,

enfim, a tudo quanto faça parte e caracterize o mundo igualitário de nossos dias.

(Extraído de conferência de 16/6/1972)


Sumário

Publicação Mensal

Vol. XXVIII - Nº 324 Março de 2025

Vol. XXVIII - Nº 324 Março de 2025

Escravidão a Maria,

suprema alegria

Na capa,

imagem peregrina

de Nossa Senhora

de Fátima.

Foto: Teodoro Reis

As matérias extraídas

de exposições verbais de Dr. Plinio

— designadas por “conferências” —

são adaptadas para a linguagem

escrita, sem revisão do autor

Dr. Plinio

Revista mensal de cultura católica, de

propriedade da Editora Retornarei Ltda.

ISSN - 2595-1599

CNPJ - 02.389.379/0001-07

INSC. - 115.227.674.110

Diretor:

Roberto Kasuo Takayanagi

Conselho Consultivo:

Jorge Eduardo G. Koury

Roberto Kasuo Takayanag

Vicente de Paula Torres Nunes

Redação e Administração:

Rua Virgílio Rodrigues, 66 - sala 1 - Tremembé

02372-020 São Paulo - SP

Impressão e acabamento:

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Exemplar avulso........ R$ 25,00

Serviço de Atendimento

ao Assinante

editoraretornarei@gmail.com

Segunda página

2 Nobreza da alma do

autêntico devoto de Maria

Editorial

4 A festa da escravidão de amor

Piedade pliniana

5 Pedindo a elevação

de cogitações

Dona Lucilia

6 Afeto luciliano em oposição

ao mal da autossuficiência

Reflexões teológicas

9 Escravos de Maria, humildes e

puros, fortes contra o demônio

Eco fidelíssimo da Igreja

14 Escravidão de amor,

suprema liberdade

De Maria nunquam satis

23 Beleza e esplendor da

consagração a Nossa Senhora

Apóstolo do pulchrum

30 Reino de Maria: a hora

do pulchrum na História

Última página

36 O amor da Santíssima

Virgem por seus escravos

3


Editorial

A festa da escravidão de amor

Ainda não há muitos anos, um dos mais belos elogios que se poderia fazer de alguém era qualificá-lo

de “escravo do dever”. Afirmava-se, assim, ser ele capaz de arcar com quaisquer riscos

ou prejuízos para não transgredir os deveres inerentes a seu cargo.

A palavra “escravo” qualificava alguém que, livremente persuadido da nobreza e elevação de seus

deveres e de sua missão, resolvera imolar, a favor dela, se fosse o caso, até mesmo seus legítimos direitos

e seus mais caros interesses.

Nessa “escravidão” cheia de amor ao dever, ao ideal, à missão, o homem nem de longe é escravo à

maneira dos prisioneiros de guerra romanos ou dos negros embarcados à força para o Brasil. Pelo contrário,

ele exerce racionalmente, e no mais alto grau, a sua liberdade, e faz um uso absolutamente lúcido

e nobilitante de si e de tudo quanto é seu.

Eis o sentido que São Luís Grignion de Montfort dá à consagração de alguém como “escravo de Maria”.

É escravo de amor de Maria Santíssima quem, persuadido sem qualquer coação das prerrogativas

excelsas que a Ela tocam como Mãe de Deus e das perfeições morais de que Ela é modelo, a Ela se

consagra livremente e por amor. E em troca dessa lúcida e libérrima consagração, Maria, Mãe de misericórdia,

não trata seu escravo com o egoísmo baixo e violento do romano ou do negreiro, mas com o

amor materno, cheio de afeto e consideração, da mais generosa, afável e indulgente das mães.

Segundo São Luís Grignion, a principal festa litúrgica do ano para aqueles que se consagraram como

escravos de Nossa Senhora é a festa da Encarnação, porque Nosso Senhor, concebido por Nossa

Senhora, passou durante nove meses no claustro sacratíssimo d’Ela vivendo na maior das dependências

que uma criatura possa estar de outra, isto é, a da criança no ventre materno em relação a sua própria

mãe.

Podemos situar no seu verdadeiro aspecto as relações de Jesus com Maria no claustro materno se

considerarmos o fato fundamental de que Ele, Verbo Encarnado, teve plena lucidez desde o primeiro

instante do seu ser. De maneira que, durante a gestação, dava-se ao mesmo tempo uma dependência

d’Ele em relação a Ela e d’Ela em relação a Ele.

Enquanto, pelo processo biológico da gestação, a Santíssima Virgem ia dando sua carne e seu sangue

para a formação do Corpo do Filho de Deus, paralelamente Ele operava na alma d’Ela fenômenos

análogos; ia, por assim dizer, gerando a alma d’Ela para a graça, à medida que Ela ia gerando o Corpo

d’Ele para a vida.

Assim, foi se dando uma espécie de dupla ação, na qual a intimidade e a união de almas entre os

dois, o concerto, a completa semelhança em tudo foi se acentuando de um modo inexprimível, inimaginável.

Podemos fazer ideia de Nossa Senhora o tempo inteiro trazendo Nosso Senhor dentro de Si, rezando

a Ele, recebendo d’Ele comunicações, falando com Ele e, ao mesmo tempo, formando o Corpo

d’Ele.

Não é possível imaginar nada que exprima de um modo mais completo a mútua confiança entre dois

seres. É só Ele confiando inteiramente n’Ela e Ela n’Ele que se pode conceber que esta união transcendente

e maravilhosa se tenha verificado.*

* Cf. CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Consagração, liberdade suprema. In: Folha de São Paulo, 9/12/1974 e Conferência de

25/3/1971.

Declaração: Conformando-nos com os decretos do Sumo Pontífice Urbano VIII, de 13 de março de 1625 e

de 5 de junho de 1631, declaramos não querer antecipar o juízo da Santa Igreja no emprego de palavras ou

na apreciação dos fatos edificantes publicados nesta revista. Em nossa intenção, os títulos elogiosos não têm

outro sentido senão o ordinário, e em tudo nos submetemos, com filial amor, às decisões da Santa Igreja.

4


Piedade pliniana

João C. V. Villa

A Virgem com o

Menino - Museu

do Centro Cultural

Equatoriano

Aurélio Espinosa

Pólit, Quito

Pedindo a elevação

de cogitações

Minha Mãe, fazei-me ver que tudo quanto é vosso ou da Igreja é belíssimo, nobilíssimo

e atraentíssimo. Dai-me a graça de ver que tudo quanto diz respeito a

mim, na medida em que não é fruto da graça, é insípido, vulgar, sem importância.

Fazei-me discernir que tudo quanto procede da Revolução é tenebroso, mal, impuro. E

em consequência, concedei-me que meus pensamentos só se voltem para Vós, para a Igreja

e para a Causa da Contra-Revolução, porque para isso fui criado, para isso fui chamado e

segundo isso serei julgado.

(Composta em 20/3/1976)

5


Dona Lucilia

Fotos: Arquivo Revista

Contrariamente ao conceito liberal e comunista

de bondade, Dona Lucilia exercia sobre as almas

uma ação benigna e intransigente, amenizando

e sanando os isolamentos e amarguras, frutos da

orfandade inerente ao hábito da autossuficiência.

Há certas formas de sinceridade

e de intensidade

de afeto que só é dado

ter aos combativos.

O descrédito causado

pelo pacifista

Não acredito na amizade do pacifista.

Ele se põe como amigo de todos,

mas é bem precisamente o que

ele não é, pois quem não quer brigar

com ninguém não é amigo de ninguém.

Porque pelo seu modo de ser,

na presença dele, toda injustiça se

resolve mediante um diálogo de paz

e, portanto, não precisa punir.

Ora, se alguém me caluniou e eu

provo que aquilo é uma calúnia, não

se trata de fazer um diálogo para saber

se sou inocente; o outro é um calunioso.

Logo, exijo que ele se desdiga,

e tenho dois direitos: um é a retratação

devida à minha reputação;

o outro é o direito de vê-lo punido.

Quem fosse meu amigo deveria associar-se

a ambos os meus direitos. O

pacifista não faz isso. Entre o caluniador

e o caluniado, ele procura fazer

um arranjo, pelo qual o caluniado,

no fundo, tem que ver a impunidade

da calúnia feita contra si. Ademais,

percebe-se na conduta desse tipo

de pacifista que, se quisermos forçá-lo

a uma atitude lógica, ele briga

conosco, mas não com o caluniador.

Portanto, ele não merece crédito. Essa

é uma das mentiras da Revolução.

Equivocado conceito

de bondade

Outras mentiras da Revolução

dizem respeito ao conceito de bondade.

Uma afirma que toda pessoa

com certa elevação e distinção não

6


tem pena de quem não possui essas

mesmas qualidades, e faz sentir sua

superioridade por falta de misericórdia.

Logo, espírito hierárquico

e bondade são incompatíveis.

A bondade consiste no

igualitarismo.

Outra mentira é: intransigência

e bondade

são incompatíveis, porque

a intransigência

faz sofrer. Ora, quem

é bondoso tem horror

ao sofrimento; logo, é

próprio da bondade

ter horror à intransigência.

Eu poderia apresentar

ainda outras contradições

desse mesmo gênero.

Podem ter certeza

de que elas têm um peso

enorme para tornar antipática

a Causa da Contra-

-Revolução.

Notamos isso quando consideramos

os preconceitos que

circulam sobre Maria Antonieta:

“Não era boa porque era rainha; era

orgulhosa porque era rainha e porque

era bonita…” Segundo essa escola,

não se pode ser muito bonito

porque não se pode ser muito nada,

pois se sobressai em relação aos outros

e os faz sofrer.

Ação materna e

intransigente

O modo de ser de mamãe prova

que várias dessas pseudocontradições

não existem. Por exemplo,

a ação dela sobre as almas é a mais

materna possível, mas é uma ação

intransigente. Ou seja, ela conduz ao

cumprimento dos Mandamentos e

à fidelidade à Providência. E se não

for isso, percebe-se que há uma ruptura

com ela, pois apesar de todas as

bondades, ela é intransigente.

Tomem o Quadrinho, ele reluz

bondade. Por outro lado, o modo

Túmulo de Dona Lucilia, em 1984

Cemitério da Consolação,

São Paulo

de ela se apresentar e de ser é inteiramente

o de uma senhora da elite

no tempo dela e, portanto, a léguas

do padrão democrático hoje em dia

em vigor. Por outro lado, transluz de

bondade.

Assim, uma série de aparentes

antíteses dessas que a Revolução

gosta de jogar em oposição à Contra-Revolução,

Dona Lucilia destrói

simplesmente pelo seu ser, sem mais

nada, apenas porque ela é, porque

está presente, ela provoca essa destruição.

Debaixo desse ponto de vista, ela

ajuda os membros do Grupo a me

compreenderem melhor, porque

percebem através dela como esses

preconceitos que levam muita gente

a pensar que sou um Ferrabrás, um

tirano, não são a realidade. Aí está

o papel dela.

Graça que convida

à união e à

simpatia estáveis

Tenho notado o seguinte

fenômeno: um

grande número de

pessoas recebe graças

pela intercessão

de mamãe. Enquanto

dura a lembrança dessas

graças, há uma posição

muito comovida

e fervorosa, depois isso

se esvai. No esvair-

-se, manifesta-se a fraqueza

humana que não

sabe ser grata. Sabemos

que a gratidão é a mais frágil

das virtudes... Mas há outra

questão.

Em geral, as pessoas nas

quais a lembrança viva dessas graças

se esvai sem culpa delas revelam

uma espécie de recalcitração em voltar

a apelar e pedir para mamãe, que

vai muito além da aridez, fica no limite

do inexplicável, roça por uma

espécie de incompreensão e antipatia.

Não uma antipatia militante,

mas uma atitude assim amuada:

“Não quero pedir!”

Até que, de repente, pela intercessão

dela, a pessoa passa por certo

apuro e é levada a pedir alguma

coisa a ela. Pedindo, obtém e volta a

ação daquele enlevo, daquela consolação.

Isso se repete até desaparecer

nesse tipo de almas um determinado

gênero de obstáculo interior em ser

um só com ela e, vamos dizer, simpatizar

com ela veemente e estavelmente.

Ora, é o que Dona Lucilia parece

pedir nas graças que ela confere. Porque,

enquanto a pessoa está sob a ação

de uma graça recebida por ela, com-

7


Dona Lucilia

preende perfeitamente certas coisas,

como por exemplo, a sua insuficiência.

O mito da autossuficiência – muito

revolucionário e espalhado nem sei

em que proporções – se desarma e desaparece.

Então a simpatia, a propensão

por alguém que nos ama, que nos

quer, mas que nos vê com certa compaixão

um pouco sorridente e que nos

promete seu afeto, isso volta à tona.

Quando a pessoa se esquece das graças

recebidas, o estado de espírito de

autossuficiência reaparece e ela não

quer ser objeto de tanto carinho nem

de tanta amizade, porque quer abrir

por si seu próprio caminho.

Um vício profundamente

revolucionário: a

autossuficiência

Dr. Plinio em agosto de 1982

É preciso notar que a autossuficiência

é o próprio pressuposto tanto

da doutrina liberal como da comunista.

Na ideia dos cidadãos livres e

iguais está subjacente o conceito de

que cada um se basta a si próprio,

porque, se houver alguns que precisam

de outros, a desigualdade desaparece

em rigor de justiça, pois se alguém

deu e outrem recebeu, ficou

obrigado. O modo pelo qual se agradece

é dizer “muito obrigado”, ou seja,

estou obrigado a algo em relação

ao benfeitor. É o sentido da expressão

francesa “remercie, remercier”: estou

à sua mercê pelo que você me fez.

O vínculo, por assim dizer, feudal vai

se impondo, enquanto na autossuficiência,

não: cidadãos livres, iguais,

todos votam, cada um deposita seu

voto na urna e vale tanto quanto o do

outro, e a soma aritmética do que foi

apurado é o caminho a seguir.

Uma coisa curiosa é que o hábito

da autossuficiência constitui uma espécie

de orfandade, fonte de quantas

amarguras interiores e de quantos

isolamentos, nem sei dizer! Creio

que entre autossuficiência, orfandade

e neurose há uma relação muito

próxima. Muitas e muitas vezes me

pergunto: se sobre mim não tivesse

pairado o afeto de mamãe, eu seria

um homem calmo como sou e teria

tido a facilidade de compreensão e

a apetência da devoção a Nossa Senhora,

que é essa disposição da alma

agradecida levada a um grau superlativo,

enfim, no nível de hiperdulia?

Entretanto, percebo que essas situações

falsas criam uma espécie de

apego, porque o homem é uma criatura

muito esquisita e cheia de posições

paradoxais. E quando ele tem

um paradoxo bem besta, ele adora

esse paradoxo. A genialidade dele

está nesse paradoxo. E ao mesmo

tempo em que sofre os tormentos

da autossuficiência, não gosta de ser

ajudado, porque “ele resolve”.

Essa posição leva a pessoa a implicar

com Dona Lucilia, porque ela

oferece uma superabundância de

bondade, de carinho, de proteção,

mas em que a dependência aparece

e a autossuficiência leva à breca.

O indivíduo não pode ser o grande

homem que ele queria ser aos

seus próprios olhos, o dono de sua

própria vida e que resolve porque

é um grande homem. Pelo contrário,

tem que reconhecer que houve

em relação a ele uma coisa chamada

Dona Lucilia e Dr. Plinio

em janeiro de 1959

misericórdia, compaixão, dada por

quem não tinha obrigação de dar,

que ele foi tratado como filho, que

foi inteiramente gratuito e que lhe

deu em abundância o que ele não

podia esperar, acompanhado da sensação

de que ele não vive sem isso.

Nas horas em que esse reconhecimento

não está presente, a pessoa

é levada a esta esperança tonta: “Eu

agora quero ver se vivo sem a ajuda

dela”. É um horror, mas, por isso

mesmo, provável.

Por exemplo dos dez leprosos do

Evangelho, nove não foram agradecer.

Por quê? No fundo, autossuficiência.

Se todos fossem falar

com Nosso Senhor, Ele os receberia

transbordando de bondade, mas

o mito de que eles resolveram o seu

caso desaparecia.

Há um provérbio português, ao

menos no português do Brasil: “O

uso do cachimbo faz a boca torta”. O

vício da autossuficiência torna a pessoa

infensa a receber socorro. E, volto

a dizer, é um vício profundamente

revolucionário.

v

(Extraído de conferência de

21/8/1982)

8


Reflexões teológicas

Escravos de Maria,

humildes e puros, fortes

Flávio Lourenço

contra o demônio

À maneira de uma gota

de orvalho que parece

conter todo o Sol quando

sobre ela incide um raio

de sua luz, assim é a alma

humilde: eleva-se a uma

altura e a uma harmonia

verdadeiramente indizíveis,

torna-se pura e combativa,

e se faz escrava de Maria

Santíssima louvando-A no

mistério da Encarnação.

Anunciação - Museu de Ulm, Alemanha

Em seu Tratado da verdadeira

devoção à Santíssima

Virgem, São Luís Maria

Grignion de Montfort comenta:

[Os escravos de Maria] terão uma

especial devoção ao grande mistério

da Encarnação do Verbo, celebrado no

dia 25 de março, que é o mistério próprio

dessa devoção, uma vez que ela

foi inspirada pelo Espírito Santo, para

honrar e imitar a dependência inefável

que Deus Filho quis ter de Maria, para

a glória de Deus Pai e para nossa salvação.

Essa dependência se manifesta

9


Reflexões teológicas

J.P. Castro

Flávio Lourenço

À esquerda, São José com o Menino - Basílica de São José e Nossa Senhora do Sagrado Coração,

Cidade do México. À direita, Virgem da Anunciação - Pinacoteca Antiga, Munich

particularmente neste mistério em que

Jesus Cristo Se torna cativo e escravo

no seio da divina Maria, onde depende

d’Ela para todas as coisas. 1

Durante sua gestação, o

Divino Menino dependia

em tudo de sua Santa Mãe

Nosso Senhor Jesus Cristo quis

ser Escravo de Nossa Senhora porque,

a partir do momento em que

Ela aceitou a proposta do Anjo de

dar à luz o Messias, o Espírito Santo

atuou em seu interior e o Homem-

-Deus foi concebido. De maneira

que, imediatamente depois do convite,

Ela tornou-Se a Mãe de Deus.

Nosso Senhor Jesus Cristo passou

no claustro santíssimo e puríssimo

da Virgem Maria todas as fases

da gestação. E continuamente o organismo

d’Ela ia fornecendo o necessário

para o desenvolvimento da

criança mil vezes abençoada, do Menino

Divino que estava ali Se formando

para a salvação dos homens.

De maneira que se tem dito muito

bem: Caro Christi, caro Mariæ. 2

Porque no matrimônio comum, os

filhos são produtos do pai e da mãe,

mas no casamento virginal de Maria,

Nosso Senhor não era filho natural

de São José, que possuía um

direito paterno ao fruto das entranhas

de sua Esposa, mas não era o

pai consanguíneo do Menino Jesus.

Ela, entretanto, era a Mãe carnal

d’Ele.

Excelsa santidade a que

foi elevada a Esposa

do Espírito Santo

Mas não podemos deixar de considerar

que, sendo Nossa Senhora

verdadeira Mãe de Deus, a partir

do momento em que o Espírito Santo

tornou-Se Esposo d’Ela, Ele teve

também sobre a alma d’Ela direitos

que se sobrepunham aos de São

José; e São José, por sua vez, devoto

ardentíssimo do Divino Espírito

Santo e cheio do Espírito Santo,

ajudava-A, por assim dizer, a conhecer

o que o Espírito Santo queria

para a plena execução da vontade

d’Ele.

Assim, Nossa Senhora era Esposa

do Divino Espírito Santo a um título

muito particular, o qual devemos

ponderar quando consideramos o

mistério da Encarnação.

A Virgem Maria Se tornou sua

Esposa e começou a receber d’Ele

orientações, diretrizes, atos de amor,

consolações, “flashes” – se podemos

empregar a palavra – de uma sublimidade

insondável, referentes ao re-

10


lacionamento de Nosso Senhor com

Ela, formando com o Padre Eterno

um convívio altíssimo, no qual Nossa

Senhora era, a um título muito especial,

Filha do Padre Eterno; a um

título único, Mãe do Verbo Encarnado;

e Esposa do Divino Espírito Santo.

Tudo isso veio para Ela em virtude

da Encarnação.

No momento em que a Santíssima

Virgem concebeu o Verbo Encarnado,

houve, por assim dizer, uma promoção

assombrosa, na qual Ela inteira foi

elevada a uma condição superior à de

todos os Anjos e Santos. E de tal maneira

superior que, se a santidade pudesse

ser objeto de uma operação matemática

– ela é algo de puramente espiritual

–, mas se somássemos a santidade

havida em todos os Santos desde

o início da Criação até o fim do mundo

e comparássemos com Nossa Senhora,

Ela seria incomparavelmente

mais santa do que toda essa montanha

santíssima dos Santos de todos os tempos

que o Espírito Santo foi suscitando

na História.

Nós não temos ideia de qual foi e

qual é a santidade de Maria. Moisés,

quando pediu para ver a Deus, ouviu

esta resposta: “Não poderás ver

minha face, pois o homem não me

poderia ver e continuar a viver” (Ex

33, 20). Eu me pergunto, às vezes: se

nos fosse dado ver nesta vida terrena

Nossa Senhora face a face, com todo

o esplendor d’Ela, será que não morreríamos

também?

divulgou a Medalha Milagrosa, conta

as aparições da Mãe de Deus assim:

ela estava dormindo e, quando

acordou, apareceu-lhe um menino

que ela percebeu ser o Menino Divino,

que disse para ela ir com Ele até

a capela, porque sua Mãe a esperava

lá. Ela mais do que depressa se alinhou

e foi para a capela.

Havia muitas dependências entre

a capela e a cela onde ela dormia e,

ao longo de todo o caminho, todas as

luzes estavam acesas como se se tratasse

de uma grande festa.

E mais: quando ela chegou à capela,

encontrou Nossa Senhora no

presbitério, sentada numa cadeira

de madeira que até hoje se oscula,

se pode venerar. A Santa acercou-se

d’Ela e, segundo consta, conversou

com Ela tendo os cotovelos apoiados

nos joelhos de Nossa Senhora.

O que deve ter restado em sua alma

a vida inteira por aquilo que viu!

A conclusão que tiro daí é que Nossa

Senhora, falando com Santa Catarina

Labouré, comunicou-lhe uma

grandeza de alma e também uma

obediência pelas quais, cada vez que

a Santa era engrandecida nas sucessivas

visões, ficava mais obediente.

Por que razão? Porque ela ia compreendendo

cada vez mais a santidade

inefável de Nossa Senhora e, portanto,

cada vez admirando mais. E

lhe ficava mais claro o absurdo que

haveria em desobedecer à Mãe de

Deus e àquele universo de santidade

existente em seu Imaculado Coração.

Samuel Holanda

Convívio com Nossa

Senhora, convite à

perfeita obediência

É verdade que a Virgem Maria

tem aparecido a vários Santos. No

entanto, Ela provavelmente encobre

algo de sua santidade para esses não

morrerem, ou confere graças muito

especiais para aquele instante, a fim

de eles poderem aguentar vê-La.

Santa Catarina Labouré, religiosa

francesa do século passado que

Aparição a Santa Catarina Labouré - Rue du Bac, Paris

11


Reflexões teológicas

A essência do espírito

contrarrevolucionário

Flávio Lourenço

Nossa Senhora “La Blanca”

Catedral de León, Espanha

E, por causa disso, o crescimento

na santidade, que deveria

na aparência gerar uma

espécie de sensação quase

de igualdade, suscitava pelo

contrário uma situação

de inferioridade deliciosamente

experimentada,

vivida na exclamação:

“Que paraíso é obedecer!”

A essência do espírito

contrarrevolucionário

é isto: admirar

tanto o poder no

qual existe a autoridade

para mandar em

nome de Deus; em venerar

e adorar tanto a

Deus que manda por

meio daquele poder,

que quanto mais obedecemos,

mais nossa alma

se enche de graças. E, pelo

crescimento na obediência,

ela se eleva a uma altura

e a uma harmonia verdadeiramente

indizíveis.

Se alguém quer ser grande, procure

ser pequeno. E peça a Nossa

Senhora a graça de conhecer, intuir

e avaliar a santidade d’Ela tanto

quanto seja possível à fraqueza humana.

Os que avaliarem crescerão

enormemente em santidade e assim

crescerão em humildade, porque

não há santidade sem humildade. E

se crescerem em humildade, quanto

mais tiverem que obedecer, mais encantados

ficarão.

Desse modo, para a alma humilde

que gosta de obedecer, de admirar

e de fazer-se pequena, o ideal

nesta Terra é fazer-se escrava

de Nossa Senhora. Mas no sentido

de considerar-se, aos pés d’Ela,

literalmente, como um “vermezinho

e miserável pecador”, como

diz São Luís Grignion. Porque pecados

o homem os comete, embora

insignificantes e minúsculos, ainda

quando se trata de um grande Santo;

e, portanto, qualquer ser humano

é um miserável pecador, um

vermezinho da terra… Deus o esmaga

quando quiser, tira-lhe a vida

quando entende, dá-lhe a saúde

ou a doença conforme Lhe apraz.

Nós estamos na completa dependência

de Deus para tudo quanto

Ele queira.

Mas que felicidade para nós pensar:

é verdade, somos tão pequenos

perto d’Ele que quanto mais reconhecemos

nossa pequenez, mais nos

unimos a Ele e mais Ele nos coloca

em seu Sagrado Coração!

União com a Santa

Igreja, militância

no Céu

É amando cada vez

mais a Nosso Senhor Jesus

Cristo em Nossa Senhora,

amando a ambos

na Santa Igreja

que nossas almas vão

progredindo e tomando

uma dimensão de

compreensão cada vez

mais profunda de como

é a Igreja.

De maneira a termos,

em certos momentos,

a impressão de que

nos fizemos um só com

a Santa Igreja e que, surgindo

um problema, antes

mesmo de saber como ela o

resolveria, nós mesmos adivinhamos,

pela estreita união

com ela, cujo espírito possuímos

inteiramente.

Compreende-se por esta forma

que a união inteira com a Igreja deva

ser o nosso último e supremo ideal.

E o que eu quero ter em vista antes

de tudo é que, quando eu morrer,

subirei para ser um membro da

Igreja gloriosa, mas gloriosa militantemente.

E que, no Céu, uma das minhas

alegrias será a de lutar como lutei

na Terra.

Nós sabemos pela Teologia, Cornélio

a Lápide diz isso, que os demônios

têm certo conhecimento do

que se passa no Céu, mas um conhecimento

cheio de ódio, no qual

não entra um pingo de admiração,

apenas inveja ou revolta; e eles têm

ódios especiais a certas coisas. Por

exemplo, eles veem na vida celeste

as almas que eles quiseram perder e

levar para o Inferno e, vendo-as na-

12


Image generated by AI using Adobe Firefly by AC, 2025

quela felicidade altíssima junto ao

trono de Deus, eles blasfemam, injuriam.

E muitas vezes os Bem-aventurados

os contestam e com isso ferem

o seu orgulho.

E assim há uma espécie de continuação

da militância no Céu.

Imaginem quando nós estivermos

cantando as glórias de

Deus, de seus Anjos e Santos

por toda a eternidade e, de

vez em quando, no meio de

nosso cântico, pudermos entrar

em contenda contra o demônio,

ação com a qual se rejubilam

todos os Anjos que

lançaram no Inferno aquele

canalha. De maneira que há

uma associação maravilhosa

de relações.

Pequenos e puros,

como gotas de orvalho

quais olha e acompanha a vida de

cada um de nós. E queira Deus que

Ela perdoe as imperfeições que há

no interior de todos nós; que não

olhe para elas, mas apenas para sua

misericórdia e que sorria ao Divino

Espírito Santo, sorria a Jesus Cristo

Nosso Senhor e ao Padre Eterno, e

diga à Santíssima Trindade: “Vede,

tende pena e compaixão deles, ajudai-os

a serem inteiramente aquilo

para o qual foram criados, e neste

ponto sejam fiéis como verdadeiros

escravos, fazendo inteiramente

a minha vontade que é a vossa, Trindade

Santíssima! E fazei com que

esses escravos fidelíssimos sujeitem

ao meu império o demônio rebelde”.

Eis as graças que neste 25 de março

compete, a meu ver, suplicar: rezar

a Nossa Senhora para pedir uma

tal união com a Santa Igreja Católica,

que sejamos como Ela; não tanto

quanto Ela, mas à maneira d’Ela, como

uma gota de orvalho na qual bate

um raio de sol é como o Sol.

A gota de orvalho é linda, é pura,

ela encanta; um raio de sol que incide

sobre ela fá-la brilhar inteira. Mas

o que é a gota de orvalho em relação

ao Sol? A desproporção entre

Nossa Senhora e cada um

de nós é muito maior do que

Arquivo Revista

a que há entre a gota de orvalho

e o Sol.

Peçamos que, à maneira da

gota de orvalho, sejamos humildes

e pequenos, mas puros,

fortes, e que do entusiasmo de

nossa pureza e de nossa força

parta um constante ataque

contra os inimigos eternos de

Deus.

v

(Extraído de conferência de

25/3/1995)

Enfim, neste dia da Anunciação,

pensemos nas glórias

da Santíssima Virgem Maria.

Filha do Padre Eterno Ela foi

sempre; Mãe do Verbo e Esposa

do Espírito Santo tornou-Se

com a Encarnação.

Maria subiu com isso a alturas

inexcogitáveis, desde as

Dr. Plinio em 1995

1) Cf. SÃO LUÍS MARIA

GRIGNION DE MONTFORT.

Traité de la vraie dévotion à la

Sainte Vierge, n.243. In: Œuvres

Complètes. Paris: Du Seuil, 1966,

p. 650.

2) Do latim: “A Carne de Cristo é

a carne de Maria”.

13


Eco fidelíssimo da Igreja

Arquivo Revista

Escravidão de amor,

suprema liberdade

A escravidão de amor a Nossa Senhora é

um ato de suprema liberdade que nos deve

dar apetência de todas as obediências e ser

a fonte de inspiração de todas as altivezes,

porque é só na união de cogitações e de

vias com a Santíssima Virgem que se

alcança essa plenitude do espírito católico.

O

que vem a ser propriamente

a consagração como escravo

de Nossa Senhora? O

que ela traz consigo, quais são seus

elementos constitutivos e que ideias

devem povoar nosso espírito a esse

respeito?

Verdadeiro significado

da escravidão de amor

A maior sujeição que uma pessoa

possa ter a outra consiste na escravidão.

Em termos pagãos, portanto

não católicos, do direito romano, o

escravo era tido como um objeto inanimado,

do qual o dono podia fazer

o que queria, inclusive matar. Isso é

contra o direito natural, ainda mais

quando se trata de um batizado! Ele

é um ser vivo e remido pelo Sangue

preciosíssimo de Nosso Senhor Jesus

Cristo, ou seja, um ser que foi sagrado

pelo Batismo.

Contudo, mesmo entre os batizados

e tomando as limitações impostas

pelo direito natural, a escravidão

representa a maior sujeição que uma

pessoa pode ter a outra.

São Luís Grignion de Montfort dá

à Consagração a Nossa Senhora o título

de escravidão de amor. O que é

a escravidão de amor? Dentro dela,

o que faz a palavra “amor”?

A palavra “amor” tem sido de tal

maneira profanada – inclusive nos livros

de piedade, não no sentido corrupto,

mas no de devoção sentimental

– que me parece necessário considerar

bem o seu significado neste

contexto.

Na Sagrada Escritura, quando

Deus repreende o povo eleito por

sua falta de amor a Ele, usa esta fórmula:

“As vossas cogitações não são

as minhas e as vossas vias não são as

minhas” (cf. Is 55, 8). Quer dizer, o

que pensais não é conforme o que

Eu penso e o que fazeis não é conforme

o que Eu quero.

Então, o amor o que é? É o contrário

disso. É um pensar, um querer e

um agir do mesmo modo. O que significa,

em última análise, o seguinte: se

possuímos a mentalidade inteiramente

ortodoxa, isto é, temos a mentalidade

da Igreja Católica, se nosso querer

não é senão o desejo do triunfo da

Santa Igreja e se nosso agir é inteiramente

a favor da Contra-Revolução,

então dessa maneira nós amamos.

Pensar, querer e agir

como Nossa Senhora

Ora, antes de tudo a escravidão a

Nossa Senhora é uma atitude da alma

pela qual pensamos tudo como

Ela pensa. E nós temos ao nosso alcance

um elemento que nos indica

qual é a mentalidade de Nossa Senhora:

é a da Igreja Católica, porque

14


Ela e a Igreja têm uma reversibilidade,

em certo sentido, completa.

Em segundo lugar, devemos querer

tudo quanto a Santíssima Virgem quer.

E no querermos tudo quanto Ela quer

já entra um alargamento de horizontes.

Nossa Senhora é bem verdade que deseja

a salvação de minha alma, mas Ela

não quer somente isso. Ela deseja a salvação

de todos os homens e a glória da

Igreja e do Filho d’Ela agora, sicut erat

in princípio, et nunc! Agora, et semper!

Ela não Se contenta com a glória passada

e com a futura, Ela quer a glorificação

presente do Filho d’Ela, da Igreja

Católica, d’Ela mesma. Devemos querer

a glória d’Ela agora.

Se eu estou inteiramente unido a

Nossa Senhora, não posso ter o meu

horizonte limitado à minha vida espiritual.

E o modo mais seguro de

eu fazer da minha vida espiritual um

pneumático furado, que não presta

para nada, é preocupar-me exclusivamente

com ela, é limitar egoisticamente

o meu horizonte a ela: está

liquidada, minha vida espiritual não

adianta nada.

Então, amar a Causa de Nossa Senhora.

Depois, fazer também as coisas

que Ela quer.

Assim, uma pessoa que se coloque

nessa posição de escravidão deve estar

ratificando a toda hora seu pensamento

para acertá-lo com o da Igreja. Precisa

expulsar de si a mentalidade revolucionária,

o espírito mundano, para

ter somente a mentalidade católica.

Em que sentido isso é um ato de

escravidão? A pessoa quereria agir

de um determinado jeito, mas age

como não quer para seguir a mente

da outra. E nisto entra um ato de

verdadeira sujeição, de verdadeira

humilhação, pelo qual a pessoa abaixa

a cabeça e aceita a autoridade que

sobre ela se exerce. É até a mais interna

e requintada das escravidões,

em que o homem sacrifica a sua própria

ideia, o seu próprio cogitar, que

é o ponto de partida de sua operação,

de seu agir.

Então se compreende como isso

verdadeiramente pode se chamar

uma escravidão.

Escravidão feita de amor?

Por que se chama escravidão de

amor? Porque consiste nessa união,

que é um dos elementos de amor.

Formalmente, a substância dela é

um ato de amor, é por um ato de

amor que nos escravizamos a Ela. Isso

é um modo de amar.

A vontade. Com a vontade, isso é

mais fácil de perceber. Nós queremos

a toda hora coisas que não deveríamos

querer. Nós praticamos um ato de escravidão

querendo o que Ela quer e

não aquilo que nós queremos. É o próprio

do escravo, exatamente. Ele não

tem vontade própria. Mandam-lhe fazer

alguma coisa que ele não quer, ele

executa porque lhe mandaram.

Chama-se, portanto, escravidão

de amor porque é feita por união e

não por medo de uma ameaça, de

uma força física, nem por opressão

ou aterrorizando, mas é realizada

por um ato livre. Poderíamos fazer

de outra maneira, mas queremos fazer

assim por amor.

Todas as nossas ações nesta vida

constituem, nesse sentido, atos de

escravidão, porque Nossa Senhora

quer que nós façamos a coisa de um

determinado modo. Nós queremos

de outro modo e fazemos como Ela

quer. É uma ação de escravo, que faz

o que não quer.

Mais uma vez eu volto a dizer: é feito

para realizar aquele ideal, que é a

união de cogitações e de vias com Ela

e, portanto, é feito num ato de amor.

Isto é coidêntico com o amor, é um ato

de amor a Ela que fazemos. Aí se configura

a ideia de escravidão de amor.

No que consiste a

verdadeira liberdade

Dr. Plinio durante uma conferência em 1991

Há, entretanto, algo de paradoxal,

que é um título a mais para nos fazer

amar verdadeiramente essa escravidão.

Tibi servire regnare est – Servir-

-te e ser teu escravo é ser rei. A mais

alta liberdade do homem consiste

em ser escravo de Nossa Senhora.

Em que sentido essa afirmação é

verdadeira? Consideremos a doutrina

da Igreja a respeito da liberdade

dos homens, isto é, do livre arbítrio.

Todo ser humano conhece os princípios

básicos da moral. Porém, por

debilidade da inteligência, precisa do

apoio de outrem para encontrar a to-

Arquivo Revista

15


Eco fidelíssimo da Igreja

Flávio Lourenço

talidade das regras da moral. Ademais,

ainda quando o homem tenha

conhecido todas as regras do bom procedimento,

se ele não tiver o apoio

de alguém que o estimule, controle e

oriente, não será capaz de cumprir essas

regras morais que ele conheceu.

Assim, normalmente falando, para

praticarem a Lei de Deus, as virtudes

que qualquer um deve praticar,

os homens estão uns em relação

aos outros numa dependência quanto

ao pensar e ao agir.

A Doutrina Católica ensina que a

verdadeira liberdade para o homem

consiste em, tendo conhecido o bem,

praticá-lo. O que diminui ou elimina

essa liberdade? É a apetência desregrada

que cria dificuldades a ele para

fazer aquilo que sua razão indica,

escravizando-o ao vício.

Logo, a liberdade não é a faculdade

de escolher entre o bem e o mal

indiferentemente, mas a possibilidade

de fazer o bem.

Por exemplo, uma criança vê outra

chorando porque não tem alimento,

e ela tem comida que sobra. O movimento

normal de sua alma é de ver

que ela deve dar uma parte de sua comida

para a outra criança. E a sua liberdade

consiste em atender àquele

movimento despertado retamente na

natureza dela. Nisto ela será livre.

Ou então, a pessoa vê que vai ser

declarada a Cruzada e tem um primeiro

movimento: vamos à Terra

Santa defender o Sepulcro de Cristo.

A liberdade do homem consiste em

levar esse movimento nobre, despertado

nele pela natureza e pela graça,

ao seu termo final, que é de ir à

Guerra Santa.

O medo constitui para ele um vínculo

que lhe tira a liberdade de ir à

Terra Santa, ou lhe diminui a liberdade

de ir à Guerra Santa, como no

caso da criança de não dar, porque

qualquer vício que a leva a não dar a

comida para a outra tira sua liberdade

de fazer aquilo. A Revolução encharca

as almas do conceito oposto a

isso, mas essa é a doutrina da Igreja.

Ninguém é mais livre do que os

Anjos no Céu. Ora, os Anjos não

têm nenhum impulso para o mal.

Ninguém é mais livre do que Nossa

Senhora. Ora, qual era a liberdade

d’Ela? Era de ficar hesitando entre

a pureza e a impureza? A hipótese

é blasfema! E, pelo contrário, o impulso

que todo ser tem para a pureza,

n’Ela atingia seu termo excelentemente,

sem entraves, sem embargo de nenhuma

maneira. Eis a liberdade d’Ela.

Em última análise, se a liberdade

fosse a possibilidade de pecar, Deus

não seria livre, porque Ele não pode

pecar. Portanto, a essência da liberdade

é a possibilidade de fazer aquilo

que a razão indica nos seus elementos

primeiros, inocentes, nobres, verdadeiros.

O resto não é liberdade.

Ao enviar a prova, Deus

não tolhe a liberdade,

mas a aperfeiçoa

Ao permitir que os anjos, Adão e

Eva e nós fôssemos tentados, Deus

não tirou a liberdade, porque não ficamos

impedidos de praticar o bem.

Ele permitiu que aparecessem entraves,

obstáculos a essa liberdade,

para que ela se superasse a si própria,

afirmando-se contra o obstácu-

16


lo. Era uma prova de amor que Ele

queria.

É mais ou menos como numa corrida

de cavalos em que o organizador

da prova coloca obstáculos na

pista. Não é para o animal não chegar,

mas para ele desenvolver melhor

as suas possibilidades de encontro

aos obstáculos e chegar, de um

modo mais excelente, com o perigo

de quebrar as pernas.

Um outro exemplo seria o de alguém

cuja uma das pernas não funciona

bem. Ele não é de todo paralítico

e, fazendo um esforço, pode andar e

chegar aonde ele quiser. Ele terá um

mérito maior por ter andado naquelas

condições do que um outro a quem isso

não representa nada. Então, a liberdade

de ele andar foi de algum modo

cerceada, diminuída pelo defeito, mas

é reafirmada vitoriosamente quando

ele anda apesar da deformidade.

Portanto, a prova não tira a liberdade,

apenas lhe coloca o entrave,

com possibilidade de o homem superá-lo

por um uso superlativo de sua

própria liberdade.

Na obediência se

encontra a fina ponta do

exercício da liberdade

Se é verdade que a liberdade para

mim consiste em que os bons movimentos

que brotam de mim, ora pela

ação da natureza, ora pela ação da

graça, cheguem a seu termo normal,

como esses movimentos são sempre

de acordo com os Mandamentos,

acontece que, quando obedeço aos

Mandamentos, exerço minha liberdade.

Nesta perspectiva, a plenitude

da liberdade é idêntica a obedecer.

Entretanto, na minha liberdade,

vejo que sou concebido no pecado

original. E que eu conheço o suficiente

a respeito do bem para saber

que ele é mais amplo do que minha

mentalidade pode abarcar, de

maneira que algo eu vejo e algo não

vejo. Logo, eu devo me apoiar em

Dr. Plinio durante uma conferência em 1991

quem vê. Assim, minha liberdade

consiste em procurar quem vê e pedir-lhe

que me leve, que me esclareça

para eu andar.

Conformando meu modo de ver

ao daquele que me explica, que me

persuade e que eu vejo que vê mais

do que eu e que, portanto, devo seguir,

embora eu não compreenda,

eu obedeço. Mas, no fundo, exerço

minha liberdade, porque sigo aquele

caminho que devo querer seguir e

que há de levar a bom termo os bons

movimentos de minha alma.

Por fim, há um terceiro modo de liberdade.

Quando vários querem fazer

uma obra, está na natureza das coisas

que haja um que mande, porque do

contrário a obra não se faz. Isso era assim

mesmo antes do pecado original e

é um ponto aceito pelos teólogos unanimemente.

Se Adão e Eva não tivessem

pecado, teria havido governo, teria

havido estados, teria havido nações,

teria havido uma organização

incomparavelmente mais perfeita do

que a atual, mas com uma autoridade.

Por que eu, obedecendo à autoridade,

que eventualmente pode até

ver menos do que eu, mas que é autoridade,

exerço minha liberdade? É

porque se eu quero que as coisas estejam

em ordem, eu hei de compreender

que há de haver uma autoridade

que possivelmente veja menos do

que eu, mas que mande. E eu farei o

que a autoridade manda.

De maneira que continuamente,

segundo a Doutrina Católica, o exercício

da obediência é o exercício da

fina ponta da liberdade. E a dignidade

do homem não consiste, como diz

a Revolução, em não obedecer, mas

em obedecer a quem se deve.

O êremo é um

“refugium libertatis”

Por aí podemos considerar o valor

da regra de um êremo. 1 Um êremo

não pode viver sem regra. E se um

indivíduo entra para um êremo, ele

aceita um amparo para exercer por

inteiro sua liberdade, para se ver livre

das paixões que constituem um

entrave para seu ato livre. Um êremo

deveria chamar-se refugium libertatis.

A pessoa vai para lá a fim de assegurar

sua liberdade contra os movimentos

desordenados que a impediriam

de ser plenamente livre. Um

eremita é mais livre do que um não

eremita; e o eremita que cumpre a

regra é mais livre do que aquele que

não a cumpre. Esta é a visão católica

das coisas.

Arquivo Revista

17


Eco fidelíssimo da Igreja

Arquivo Revista

Oratório de Nossa Senhora do Bom

Conselho, no Êremo de São Bento

Por isso, frases como esta:

“Sóror tal rompeu os vínculos

do século, libertou-se dos grilhões

do mundo, entrando na

plena liberdade dos filhos de

Deus, no Convento da Imaculada

Conceição de Nossa Senhora,

no ano de tal...”; ou esta:

“Libertam-se dos grilhões

deste século e entram na eterna

liberdade do Céu”, exprimem

uma verdade muito profunda.

De fato, no Céu a pessoa

se torna impecável e a tal

falsa liberdade de pecar desaparece.

Ali é a suma liberdade,

enquanto a Terra é o cativeiro,

chamado na Salve Rainha de

degredo. O que estou dizendo

é o leite mais delicado e mais

fino da Doutrina Católica.

Essas considerações nos levam

a compreender que o sentimento

de nossa dignidade deve

estar muito ferido quando

praticamos uma ação contra

a nossa liberdade, isto é, uma

ação má, que impediu nosso

movimento natural de se realizar até

seu termo final. Pelo contrário, nossa

alma deve se sentir muito confortada

quando praticamos uma boa ação.

Aquele dito admirável de Santa

Teresinha do Menino Jesus: “Eu

sou fraca demais para não dar tudo”

equivale a dizer: “Eu sinto um

tal peso das minhas paixões, que para

me conservar inteiramente livre,

não posso ter grilhão de nada, entrego

tudo porque tudo é grilhão para

mim; mas, acima de tudo, quero ressalvar

a minha liberdade de pensar a

verdade e de fazer o bem. É a única

liberdade que há, não há outra”.

Então, quando praticamos a virtude,

é um dado positivo, um fator

estimulante o fato de não termos a

seguinte vivência revolucionária:

“Agora estou podando, diminuindo,

comprimindo algo em mim. Eu queria

fazer algo e não posso”. Isso é

precisamente o que mingua a virtude

e deforma a mentalidade do homem

virtuoso. Ele deve ter consciência

da realidade do contrário: “Agora

estou sendo livre, estou atingindo a

minha plenitude, porque me libertei

das coisas que para mim eram grilhões.

Consegui rejeitar coisas que

me atormentavam, me prendiam. A

cada recusa que faço a mim mesmo,

na linha da virtude, devo me sentir

mais glorificado, mais dignificado,

mais plenamente homem batizado,

filho de Deus, porque realizei isso”.

Eu estive no Êremo de São Bento,

passei a Semana Santa lá. Havia

ali eremitas de dois outros êremos:

o Præsto Sum 2 e o de Nossa Senhora

da Luz Profética. 3 Em certo momento,

entrei na biblioteca e encontrei alguns

eremitas de diversos êremos, em

pleno dia, sentados; cada um fazia a

sua leitura, atentos no que liam, tão

calmos e tranquilos que, conhecendo-os

e sabendo bem que pula-pula

eram antes, a primeira impressão

que eu tive foi: “Que liberdade!

Como as almas deles estão

flutuando por esses espaços

espirituais, desprendidas

de tudo! Dir-se-ia que eles têm

asas”. Exatamente porque essa

é a realidade, essa é a liberdade

de que nós devemos gozar.

Oposição entre o

conceito católico e o

mundano de obediência

É bem verdade que essa não

é a única razão pela qual nós

devemos obedecer a Deus. Devemos

obedecer-Lhe não porque

nisso encontramos nossa

liberdade, mas porque Ele é infinitamente

mais do que nós,

tem o direito de mandar e é um

holocausto nosso a obediência.

É uma outra ordem de ideias,

sacratíssima, indispensável;

mas não vou analisá-la, porque

a respeito dela não há dificuldades.

Eu estou querendo tratar

de um aspecto do problema da liberdade

no qual existem dificuldades

vivenciais criadas pela Revolução.

O conceito corrente nos ambientes

mundanos é este: toda lei, toda autoridade

é uma limitação para o homem.

São verdadeiramente livres os

homens que conseguem galgar, de

maneira a irem se libertando das leis,

da autoridade e mandando em vez de

serem mandados. O ápice da liberdade

será o homem que manda em todos.

Receber um conselho é um ato

degradante, porque todo homem deve

resolver tudo por si. Recorrer ao

apoio de alguém para praticar a virtude

é um ato humilhante, porque o homem

deve encontrar exclusivamente

em si os recursos necessários para

praticar a virtude. Fazer a vontade

de um outro é humilhante, porque é

colocar um homem acima do outro,

mandando no outro e, portanto, degradar

a natureza humana.

18


A Igreja Católica instituiu na Idade

Média a civilização da obediência,

em que toda a escala social, de

alto a baixo, era feita de submissões

entrelaçadas, cuja missão era de uns

ajudarem os outros na plena prática

da liberdade. A fórmula liberdade-

-obediência era medieval. A Revolução

Francesa proclamou o contrário:

todos os homens são inteiramente

iguais e toda desigualdade importa

numa superioridade e, portanto,

na limitação da liberdade.

No que a obediência se tornou mais

pesada para nós do que era para o homem

medieval? Ele tinha dificuldade

em obedecer, mas estava certo de que

devia obedecer. Nós temos dificuldade

em obedecer e estamos certos de

que não devemos obedecer. Por isso a

obediência para nós é mais pesada.

A Santa Igreja elaborou a civilização

da obediência na Idade Média,

mas com a ideia de que a verdadeira

liberdade está na obediência. A Revolução

Francesa elaborou a civilização

da desobediência, levada pela

ideia de que a desobediência é a verdadeira

liberdade. Ora, para nós, a

desobediência é o contrário da liberdade,

é a sujeição a todos os impulsos

que tolhem o desenvolvimento

de nosso bom movimento até o seu

termo normal. Este é o princípio.

Daí decorrem duas consequências:

uma é que a obediência, se bem compreendida

pelo católico, deve torná-

-lo ufano e varonil, não um pescoço

torto e amolecido. Segunda consequência:

o homem, quanto mais obedece,

mais se sente dignificado, desde

que seja uma obediência que tenha

propósito, que seja razoável, sapiencial.

Ou seja, obedecendo às autoridades

competentes, nos modos e nas

formas adequadas, ele se dignifica.

Nós devemos ser sequiosos de

obedecer, fáceis, ágeis em obedecer.

E naquilo que eu vejo necessitar

de um auxílio de um outro, devo pedir

com igual normalidade. É o movimento

próprio, adequado, que corresponde

à ordem natural das coisas.

É como a pessoa deve ser.

A alma católica é um

maravilhoso misto de

humildade e altivez

Compreende-se bem como pode

haver naquelas almas tão obedientes

da Idade Média tanta altaneria.

Tomemos um guerreiro daqueles

que iam para a Guerra Santa, varão

a mais não poder. Se aqueles não

foram varões, então não haverá varões

sobre a Terra. Aqueles homens,

os nobres sobretudo, em pequenos,

eram levados para longe da casa dos

pais, mandados servir na casa de outro

senhor feudal como pajem; serviam

comida, serviam tudo. Eles,

com outro senhor feudal, vivendo

da vida dele, aprendiam a guerrear,

a governar, aprendiam toda aquela

vida dura do senhor feudal. Aprendiam

a mandar obedecendo. Vejam

o conceito superior de liberdade que

há nisso.

Quando ficavam maduros, a primeira

ação era um ato de vassalagem

ao senhor feudal superior; era

procurá-lo, ajoelhar-se diante dele,

pôr as mãos entre as mãos do senhor

feudal superior, gesto que a

Igreja conservava até há pouco tempo

e que é um sinal de entrega da liberdade.

Então, prometia obediência

àquele, tornava-se seu vassalo,

encaixando seu destino no do outro,

para irem juntos à realização

das proezas da vida. Vão mandar ou

obedecer a vida inteira e para eles isso

era o normal. Que homens altaneiros,

combativos, corajosos!

Que alto sentido de dignidade!

Por quê? Porque se tratava de

um conceito de dignidade que era

um rio que corria cristalino, transparente,

magnífico, dentro do canal

da obediência. Essa era a civilização

medieval, a civilização da obediência.

Daí também aquele fato tão extraordinário,

narrado por Montalambert,

4 de um árabe maometano

Jesus indicando o caminho para os cruzados - Igreja de Santa Segolène, Metz

Flávio Lourenço

19


Eco fidelíssimo da Igreja

Emery Walker(CC3.0)

viajando pela Europa e preso sob palavra.

Ele podia viajar, mas não podia

sair dos limites do reino. Era um

homem rico, mandava vir dinheiro

e viajava. Ele viu aquelas catedrais

e perguntou: “Quem construiu esta

catedral?” Mostraram-lhe os irmãos

leigos. Ele comentou: “Mas como

homens tão humildes podem construir

monumentos tão altivos?”

Exatamente esse maravilhoso misto

de humildade e altivez é a alma

católica e é o que eu gostaria que os

meus filhos, sobretudo os meus filhos

eremitas, tivessem. Isso exprime inteiramente

o meu ideal.

Nessa perspectiva, a escravidão

de amor a Nossa Senhora é um ato

de suprema liberdade que nos deve

dar apetência de todas as obediências

e ser a fonte de inspiração de todas

as altivezes, o que é justa e completamente

o contrário da arrogância,

da empáfia e da covardia dos revolucionários.

É mandar como um Anjo manda.

Ele manda em nome de Deus.

Quantos decretos da Santa Sé começam

invocando o nome de Deus.

Jorge V 5 reinou durante o tempo

de Hitler, Mussolini e Stalin. Era

um protestante, mas neste ponto

ele perpetuava uma tradição católica:

toda noite, quando não tinha recepção

no palácio, ele passava numa

sala com a rainha, na intimidade.

A certa hora, entrava o secretário

e ligava um gramofone que tocava

o God save the King. 6 A rainha se

levantava e punha-se em atitude de

oração, e o rei se colocava numa atitude

de continência até acabar o hino.

Terminada a soirée, eles iam dormir.

André Malraux 7 comenta o seguinte:

Esse homem, tomando uma

atitude de continência diante de um

hino cujo objeto é ele mesmo, reconhece

que ele não é senão um objeto

secundário desse hino e que há

uma autoridade mais alta do que ele

e que passa através dele, da qual ele

mesmo é o sujeito. Esse supremo ato

de obediência desse homem a essa

autoridade indica que, apesar de ele

ser um rei, cercado de um protocolo

real mais coruscante, mais nobre

do que o de Hitler e o de Mussolini,

o verdadeiro humilde é ele. Porque,

quando o indivíduo fala em nome da

verdade e do bem, fala por obediência.

Só falar por obediência faz passar

por ele toda a majestade de Deus

e ele fica como um Anjo irresistível.

A obediência ajuda a

solucionar o problema

dos nervos e da

prática da pureza

Rei Jorge V e Rainha Maria em suas vestes de coroação

Estou certo de que prepararão

enormemente suas almas para a

Consagração a Nossa Senhora aqueles

que pedirem a Ela que lhes dê essa

compreensão e esse amor à obediência

vista como o mais genuíno da

liberdade e da dignidade, e assim se

disporem a ser pedras vivas da civilização

da obediência. Porque, se a

Idade Média foi a civilização da obediência,

o Reino de Maria, que vai

ser a Idade Média multiplicada pela

Idade Média, tem que ser ainda muito

mais a civilização da obediência.

Se tiverem essa disposição de alma,

encontrarão a solução, não digo

automática, mas por via de reper-

20


Flávio Lourenço

Consagração da Igreja de São Marcial - Museu de Angoulême, França

cussão, ao menos parcela da solução,

para dois problemas que preocupam

enormemente várias pessoas, algumas

das quais devem ter a impressão

de serem problemas sem solução.

Um é o problema dos nervos, outro

é o da pureza.

Como o homem foi feito para se

encaixar numa estrutura de obediência,

fora dessa estrutura fica como

um membro fora do organismo, um

cidadão das “cidades livres” da Revolução,

obrigado a resolver sozinho

todos os seus problemas e decidir no

seu isolamento o seu destino, carregando

o peso de uma falsa liberdade

que arrasa com os nervos de qualquer

um.

Uma vez, um líder monarquista

francês recebeu uma acusação pelo

seguinte: ele tinha formado uma espécie

de ministério não para governar

a França, mas para ajudá-lo a tocar

a política da Accion Française,

uma espécie de corte que correspondia

a um ministério.

Então começaram a debicar dele,

dizendo que brincava de rei com os

súditos. Ele disse: “Não, eu não brinco

de rei, eu brinco de eleitor. Os senhores

pensam que eu sou rei? Todo

eleitor é rei, vocês convocam uma

eleição para o indivíduo se pronunciar

a respeito de todos esses assuntos.

Eu confesso que sou mais burro

do que o comum dos eleitores, porque

não sei resolver esses assuntos

sem especialistas. Os eleitores sabem,

mas eu não sei. Então constituí

um corpo de especialistas para

resolver, para me ajudar a exercer a

realeza que os senhores puseram nas

mãos de qualquer perequeté que anda

pela rua”.

Por detrás dessa resposta ele pôs

em evidência um fato: é que um homem

desvinculado de todo mundo,

totalmente independente, carrega

um peso que ninguém pode carregar.

É um pobre coitado. Isso concorre

muito para a neuropatia progressiva

das gerações. Donde aquela

grande calma medieval e a grande

agitação moderna.

No mundo moderno, cada pessoa

tem que resolver sozinha todos os

problemas de sua própria vida, sob

pena de sentir-se achincalhada diante

de si mesma. Depois, os outros

não querem resolver os problemas

da vida dela porque ela é uma concorrente.

Quem quer resolver problema

do outro? Deixa que o outro

se encalhe para ver se ganha a corrida...

Resultado: cada um carrega este

fardo tremendo, que é o peso do

próprio eu.

Pelo contrário, numa civilização

da obediência ou numa vida toda

ela hierárquica, dessa hierarquia altaneira

de que eu falei, a confiança

mútua encanta, os nervos serenam,

cada um se encaixa no outro, a realidade

fica completamente outra.

Por outro lado, o homem habituado

a obedecer tem uma paz de alma

que diminui os impulsos da sensualidade.

Quem não está habituado

a obedecer não tem essa paz de alma.

Uma prova experimental disso

está no seguinte: os mais dissolutos

são sempre os menos obedientes. Isso

vai desde os bancos colegiais até

os prostíbulos dos homens adultos.

21


Eco fidelíssimo da Igreja

Tomem uma procissão dos bons

tempos, com um milhão de católicos

desfilando. Cinquenta homens bastavam

para manter a ordem. Vai ver,

é o nível de gente mais casta da população.

Faz-se um baile de carnaval com

duas mil pessoas presentes, precisam

pelo menos de uns cento e cinquenta

policiais e armados. Por quê? Porque

está solta a sensualidade. Quer

dizer, quanto mais sensual, mais desobediente.

Logo, quanto mais obediente,

menos sensual.

Para ter paz de alma,

ser filho da civilização

da obediência

Quantos problemas se resolveriam

admiravelmente se as pessoas

se aproximassem de Nossa Senhora

e dissessem:

“Minha Mãe, fazei de minha alma

uma dessas almas flexíveis para Vós

e inflexíveis em relação a Satanás.

Flexíveis para Vós de maneira que

tudo quanto me mandem, que esteja

nesta concepção da obediência,

eu faça com a alegria e a dignidade

de quem exerce a sua liberdade. Tudo

quanto queiram me obrigar a fazer

ou a pensar contra esta linha e

Dr. Plinio durante uma conferência em 1991

esta ordem, eu reaja com a indignação

de quem defende a sua própria

liberdade. E sobretudo Vos defenda,

ó minha Mãe, porque sois a minha

liberdade! Vosso Filho é o Caminho,

a Verdade e a Vida, e Vós sois para

mim o caminho para o Caminho,

a verdade que conduz à Verdade, e

a Mãe que deu origem Àquele que

é a Vida”.

Isto dito no ato de Consagração

como escravo de Nossa Senhora prepara

muito a alma para a autenticidade

desse ato.

Outro dia eu estava lendo uma ficha

que falava da convocatória da

Primeira Cruzada pelo Bem-aventurado

Urbano II. O Papa começou

por proclamar a paz de Deus e

a guerra de Deus, ao mesmo tempo.

A paz de Deus dentro da Cristandade:

proibidas todas as guerras, proibidas

todas as rivalidades, as pessoas

dos cruzados protegidas, todos os

processos judiciais engajados contra

eles, suspensos. As esposas, os filhos,

os pais idosos dos cruzados, os bens

de todos eles, colocados sob proteção

especial da Santa Sé. Era a paz

da Cristandade para poder fazer a

guerra fora da Cristandade. Então a

paz de Deus junto com a guerra de

Deus.

Arquivo Revista

Como eu gostaria de, aos pés de

Nossa Senhora, proclamar uma Cruzada,

com a paz de Deus, com a paz

do Reino de Maria entre nós e a

guerra de Maria fora de nós. A começar

pela guerra contra o demônio

e a seguir pela guerra contra todas as

formas de Revolução, inclusive dentro

de nós!

Quando vemos os gisantes da Idade

Média, aqueles guerreiros que jazem

deitados, muitas vezes ao lado

da respectiva esposa e dormindo…

Aquelas figuras têm uma paz, uma

tranquilidade! Estão armados dos

pés à cabeça. São guerreiros representados

com a própria armadura,

muitas vezes, sobre a própria sepultura.

A armadura, os traços falam de

guerra, mas os olhos fechados falam

de paz. São almas que possuíam paz

dentro da guerra.

Como eu quisera essa paz de

Deus nas almas chamadas a travar as

guerras de Deus!

O modo de conseguirmos isso é

sermos filhos da civilização da obediência

e, portanto, da civilização da

liberdade.

v

(Extraído de conferência de

26/4/1973)

1) Sobre os êremos ver Revista

Dr. Plinio, nº 322, janeiro de 2025,

“Os êremos: profético anuncio de um

caudal de graças”, p. 5-15.

2) Êremo Præsto Sum, situado numa espaçosa

chácara, no Bairro Santana,

em São Paulo.

3) Êremo localizado na cidade de Curitiba.

4) Charles Forbes René de Tryon, conde

de Montalembert (*1810 - †1870).

5) George Frederick Ernest Albert

(*1865 - †1936). Rei do Reino Unido

de 1910 a 1936.

6) Hino nacional britânico que se inicia

com a saudação: “Deus salve o Rei”.

7) Escritor francês (*1901 - †1976).

22


De Maria nunquam satis

Beleza e esplendor

da consagração a

Nossa Senhora

A Sagrada Escravidão a Nossa Senhora, pelo método de São Luís

Grignion de Montfort, comporta uma espécie de intimidade com

a Santíssima Virgem na qual Ela aceita, benignamente, o modo de

ser de cada um dos que a Ela se consagram. Nada é padronizado.

Nisto se revela a beleza da obra d’Ela, fazendo-Se conhecer de

modo íntimo e diversificado, de acordo com cada alma.

Meus caros, saúdo a todos

com afeto muito

especial, nesta noite

tão bela e de tanta significação para

nossas vidas.

Arquivo Revista

Magnífica cerimônia

de consagração

Participamos de uma linda cerimônia.

Vimos a imagem de Nossa

Senhora do Bom Sucesso entrar

triunfalmente neste auditório, precedida

e seguida por eremitas de São

Bento e Præsto Sum.

Cerimônia em que, de modo verdadeiramente

magnífico, os jovens

que acabaram de se consagrar a Nossa

Senhora evoluíram sobre este espaço

livre, manifestando por várias

formas, não só por seus cânticos, não

só por sua atitude, mas também por

Dr. Plinio durante uma cerimônia de Consagração a Nossa Senhora, em 1985

23


De Maria nunquam satis

todo o cerimonial que se realizava, o

seu entusiasmo. Foi recitado o Ofício,

há pouco foi cantado o Magnificat,

para agradecer à Santíssima Virgem

o ato de benevolência que Ela

teve no momento em que ratificaram,

aceitaram a consagração como

escravos d’Ela, para todo o sempre.

As luzes coloridas do teto arrancaram

exclamações de alegria, as músicas

estiveram magníficas, o cântico

esteve excelente; tudo esteve ótimo.

Entretanto, quando o católico considera

essas coisas à luz da Fé, quão

mais belas elas são! Quão mais bela é

a vida, quão mais belos são os espaços

que se desenvolvem diante da mente

do católico quando ele sabe considerar,

à luz da Fé, os objetos que ele vê

com a luz elétrica ou com a luz do dia.

O significado deste ato de consagração,

entretanto, tão

bem simbolizado, lucrará

ainda mais se ele for definido

bem exatamente nesta

noite.

Um ato belo, revestido

de realidades

sobrenaturais

O que se passou aqui?

Na aparência foi isso:

alguém de boa vontade,

verdadeiramente devoto

de Nossa Senhora,

fez uma exposição a respeito

do que era a devoção

a Ela segundo o método

de São Luís Maria Grignion

de Montfort, um dos

maiores santos mariais de

todos os tempos. Jovens,

vindos de mais de um país,

de mais de um recanto do

Brasil aceitaram essa exposição,

num ato de confiança

à Santa Igreja Católica

Apostólica Romana, uma

vez que foi dito e foi constatado

no Tratado da verdadeira

devoção, que essa

Samuel Holanda

doutrina é aprovada pela Santa Igreja.

Além do mais, pela exposição, pôde-se

realizar que esta é a atitude razoável,

a posição verdadeira, inteiramente

coerente, que o católico toma

com aquilo que a Igreja lhe ensina

a respeito da devoção a Maria. A

levar esta devoção às suas consequências

lógicas, últimas, o homem entrega

a Nossa Senhora “sua alma e seu corpo,

seus bens interiores e exteriores”,

para que Ela disponha de cada um como

bem entenda. Maria Santíssima se

torna Senhora dos que a Ela se consagraram,

dirigindo um a um, por toda a

vida, no tempo e na eternidade.

Como tudo isso se fez belamente

na Terra! Quanto mais isto é belo

se nós atentarmos para as realidades

sobrenaturais que estão aí.

Nascimento da Virgem Maria - Museu do Louvre, Paris

Quando se vê uma pessoa jovem,

com vida, disposta, caminhando pela

existência, com força, energia, ênfase

e resolução pensa-se: “Como

é bela a vida!” Mas a Fé nos ensina

que esta é a vida dada por Deus a cada

homem. Ele criou o primeiro casal,

Adão e Eva, eles se multiplicaram,

encheram a Terra; essa vida se

transmite de pai para filho. Mas, no

primeiro momento da concepção,

Deus incute uma alma espiritual,

imortal, feita à imagem e semelhança

d’Ele. Primeira maravilha.

Segunda maravilha: o homem é

um compêndio, um resumo de tudo

quanto existe na Criação, ele é o

rei da Criação visível. E quando uma

criança nasce e pouco depois, como

costuma acontecer nos países católicos,

é levada para o Batismo, aí uma

outra vida misteriosa se soma

àquela que o homem já

tinha em si.

Se Nossa Senhora é, como

sabemos que é, a Mãe

de Deus; se a Ela nós devemos

o Corpo sagrado de

Nosso Senhor Jesus Cristo,

gerado nas suas entranhas

puríssimas; se nesse corpo

Deus infundiu a alma humana

de Nosso Senhor Jesus

Cristo e, pela união hipostática,

o uniu à Segunda Pessoa

da Santíssima Trindade,

e Ela O amou com todo o

amor que nós podemos imaginar,

quer dizer, nunca ninguém

teve um Filho tão perfeito

como Ela; nunca ninguém

teve um Filho tão digno

de ser amado como Ela.

Esse Filho não era apenas

Filho, mas era o Deus

d’Ela! Sublime paradoxo!

Aquele que era Filho

d’Ela criou-A antes de todos

os séculos! Ou, por outra,

destinou-A, antes de

todos os séculos, a ser criada

no momento exato em

24


Flávio Lourenço

Flávio Lourenço

À esquerda, Anunciação - Museu do Palácio Barberini, Roma. À direita, encontro de Nosso Senhor com

Maria Santíssima, a caminho do Calvário - Catedral de Notre-Dame, Antuérpia, Bélgica

que São Joaquim e Sant’Ana A trouxeram

à vida.

Se isso é assim, Ela adorou, no

sentido próprio e exato da palavra, o

seu Divino Filho. Nosso Senhor Jesus

Cristo é o oceano infinito de todas

as perfeições, Ele está ressurrecto

e sentado à direita de Deus Pai

Todo Poderoso, à espera do momento

de descer à Terra e de proclamar o

fim do mundo e o juízo dos homens,

e levar ao Céu todos aqueles que Ele

escolheu.

Dois convites recebidos

por Nossa Senhora

Adão e Eva pecaram. Era preciso

que alguém pagasse o pecado deles.

E Nosso Senhor Jesus Cristo entregou-Se

à morte por desígnio do Padre

Eterno para redimir o gênero humano.

Entretanto, o Padre Eterno não

teria aceitado essa entrega se, consultada

Nossa Senhora, Ela não tivesse

dito que estava de acordo. São

os dois convites que Ela recebeu:

primeiro para ser Mãe de Deus. Ela

disse “Sim!”; ato contínuo o Divino

Espírito Santo gerou n’Ela Nosso

Senhor Jesus Cristo. Pode-se imaginar

como Ela O adorou, como O

amou!

D’Ela, a quem Deus deu tanto –

o que o próprio Deus, que tem tudo,

pode dar mais a uma pessoa do que

a condição de Mãe de Jesus Cristo?

–, Ele também pediu d’Ela algo que

vai além de toda cogitação e de todo

limite: o Filho que Lhe tinha dado!

Portanto, o outro convite recebido

por Ela foi o de concordar em

que esse Filho que Ela adorava fosse

entregue à morte por verdugos miseráveis,

para o bem do gênero humano.

E Ela sabia que se Ela dissesse

“não”, isso não aconteceria. O gênero

humano não estaria resgatado…

A Santa Igreja Católica não existiria,

nós não nos conheceríamos… Tudo

isso seria nada! Tudo existe porque

Ela disse: “Eu estou de acordo. Mate-se

o meu Filho!” E na dor, Ela O

acompanhou até o alto do Calvário.

Incomparável ato de amor

E, como sabemos, todos fugiram,

todos O abandonaram, Ela não!

Ela estava de pé! São João Evangelista,

que no momento de fraqueza

no Horto das Oliveiras também fugiu,

tinha voltado. E Nosso Senhor

antes de morrer pôde dizer a Nossa

Senhora: “Mãe, eis aí teu filho” (cf.

Jo 19, 26). E a ele: “Filho, eis aí tua

Mãe” (cf. Jo 19, 27).

No momento em que, com dores

indizíveis, no alto do Gólgota, Nos-

25


De Maria nunquam satis

Arquivo Revista

so Senhor expirava; no momento em

que Ele dizia: “Eli, Eli, lamma sabactani?

– Meu Deus, meu Deus, por que

me abandonastes?!”(Mt 27, 46), e depois,

inclinando a cabeça disse: “Tudo

está consumado!” (Jo 19, 30) expirou,

morreu por nosso amor, conseguiu de

Deus o perdão pelo pecado cometido

por Adão e Eva. Ele nos resgatou

do pecado original e abriu para nós as

portas do Céu. Nessa ocasião trágica,

terrível, Ele obteve para nós um dom

maravilhoso: a graça.

Aí o sacrifício de Nossa Senhora

chegou ao máximo, porque Ela viu

morto o seu Filho, que era o Autor

da vida! E Ela teve em vista na hora

desse sacrifício todos os homens,

mas individualmente. Ela pensou em

mim, Plinio, e em cada um dos que

se encontram aqui. E teria concordado

com esse sacrifício, ainda que fosse

para a salvação de um só de nós.

À vista de tanto amor, de tanta

bondade, há algo de mais razoável

do que nós “pagarmos” a Ela, dando-lhe

toda nossa vida? Parece algo

de extraordinário nós darmos a

Ela nosso corpo, nossa alma, nossos

bens interiores e exteriores. Ela deu

por nós o seu Filho! O que somos em

comparação com isso? O presente

Dr. Plinio com alguns discípulos, em 1991

que nós damos: as nossas pessoas…

Não há comparação!

Se se tomasse a menor das formigas

e se comparasse com todo o universo,

a distância seria menor do que

entre o maior dos homens que houve,

haja e haverá, e Nosso Senhor Jesus

Cristo. Porque Ele, como Homem-Deus,

paira infinitamente acima

de todas as criaturas. Esse foi

quem Ela nos deu! Nós nos damos e

achamos que damos muito?

Nesta noite praticou-se um ato de

gratidão, um ato de amor.

O papel da graça

Houve mais. Quando ouviram falar

pela primeira vez da devoção a

Nossa Senhora, da escola de espiritualidade

de São Luís Maria Grignion

de Montfort, julgaram estar se

passando uma coisa natural.

A Doutrina Católica nos ensina

que nenhum homem é capaz de

qualquer ato baseado na fé, sem o

auxílio da graça. É por causa desse

auxílio que nós cremos, amamos. E

para cada passo que damos na fé e

no amor de Deus, vem antes a graça

e nos dá conhecimento e vontade de

realizá-lo. Isso se passa em nossas almas

sem que nós o percebamos.

Como é belo ver meus filhos que

estão aqui e que acabam de se consagrar

a Nossa Senhora! Quantas dificuldades

tiveram para chegar até esse

passo. Como chegaram até aqui?

Foi a graça que os fez conhecer outros

“enjolras” que os convidaram

para este ato.

Como foi isso? Quem os levou a

se aproximarem de um jovem que

possivelmente fez uma abordagem

na rua, convidou-os para ir para a

Sede, como foi? Cada um procure

se lembrar como foi o primeiro contato,

a primeira conversa. Naquele

momento, viam apenas um rapaz da

mesma idade que lhes dirigia a palavra.

Mas, de fato, o Anjo da Guarda

pairava sobre cada um e ajudava no

íntimo da alma a que recebesse bem

a palavra daquele “apóstolo”.

Gostaram, aceitaram o convite,

foram pela primeira vez às Sedes,

acharam interessante, sentiram-se

agradados com o ambiente,

voltaram para casa entusiasmados,

com saudades… “Quando chegará

o próximo domingo?” Pensavam

que eram saudades dos amigos.

Não! Era Deus, pela sua graça, a rogos

de Maria, que atuava na alma

de cada um.

Em certo momento, ouviram a

exposição da doutrina de São Luís

Grignion de Montfort. E lhes foi

perguntado: “Querem isso?” E responderam:

“Queremos!” Nesse momento

houve uma graça para quererem,

resolverem vir para fazer essa

consagração. Foi uma graça que os

levou a isso. E há uma graça que os

mantém aqui, contentes, alegres, satisfeitos,

com vontade de se dedicar!

Quantas graças! Lembrem-se de

quanto mudaram. Meus filhos, permitam

que eu diga: lembrem-se de

quanto subiram. Não percebiam,

mas amando o que se lhes dizia como

Doutrina Católica, amavam a

Deus! Amando-O, por razões de fé,

era a graça que trabalhava suas almas.

26


Pelas orações de Nossa

Senhora tudo se obtém

Na Sede, quantos entraram e

quantos não ficaram… Eles também,

pobres coitados, receberam a

graça, mas não tiveram a coragem

de travar as batalhas. Vontade de ficar

vendo televisão, vontade de ir ao

cinema, vontade de mau encontro,

preguiça de sair de casa, vontade de

não renunciar a uma viagenzinha para

tal lugar, para tal outro; com isso

deixando de lado as companhias que

chamam para o Céu.

Imaginem que beleza a vida de um

homem que vai cada vez mais crescendo

na graça e que vai dizendo sim.

Pode ser que às vezes diga não. Até,

por vezes, peque. A miséria humana

vai até lá. Mas a graça se debruça

sobre ele. E, cometido o pecado, diz:

“Meu filho, tu não te lembras

mais de mim…? Eu

sou a graça de Deus! Estás

desanimado? Não há razão,

porque Deus é Juiz! Como

pecador, tu és réu; mas tu

tens a melhor advogada do

Céu e da Terra! Uma advogada

que, quando a defesa

do réu não tem saída, Ela

ainda ganha a causa! Porque

Ela diz ao Juiz: ‘Se ele

não merece, seja por mim!’”

Como essa advogada é

Mãe do Juiz, o Juiz sorri

e diz: “Assim a partida está

ganha!” Ela diz: “Meu filho,

vem!”

Pelas orações de Nossa

Senhora nós obtemos todas

as graças. Tudo o que nós

pedimos por meio d’Ela

nós obtemos. Tudo o que

pedimos rejeitando sua intercessão

não obtemos. Assim,

é por intermédio de

Maria Santíssima que os

senhores obtiveram essas

graças que a cada passo os

acompanharam.

Alegria no Céu pela

cerimônia de consagração

É a graça. E eu mencionei outro

fator: canal da graça, o Anjo da

Guarda de cada um. Todos nós temos

um Anjo da Guarda. Há talvez

umas quatrocentas pessoas neste auditório,

pairam pelo menos o mesmo

número de Anjos aqui.

Nós não os vemos, mas a Fé em

nós vê. A Igreja ensina, logo é! E

basta a Igreja ensinar, que eu creio

mais do que se eu visse!

Considerem quanta coisa bonita

há por detrás desse ato de consagração

no qual vemos apenas realidades

materiais. A Fé nos ensina a ver realidades

superiores, espirituais, sobrenaturais

de uma outra ordem, e

que conferem a esse ato uma beleza

extraordinária.

Dr. Plinio durante uma cerimônia de

Consagração a Nossa Senhora, em 1985

Podem imaginar, no momento em

que se realizava esta cerimônia nesta

Terra, que alegria havia no Céu! As

três Pessoas da Santíssima Trindade,

Nossa Senhora, todos os Anjos, todos

os Santos do Céu tinham sua atenção

voltada para ela. E Nossa Senhora rezava

por cada um, e quando osculavam

a imagem que ganharam de lembrança,

os Anjos em espírito – porque

eles não têm boca – osculavam os

pés de Nossa Senhora no Céu.

Nossa Senhora velará por

cada um de um modo especial

Que magnífico ato acaba de se

passar aqui! Ele dá um primeiro termo

às batalhas travadas. Começa, a

partir deste momento, uma verdadeira

maravilha: a grande batalha da

vida de cada um de nós.

Alguém dirá: “Mas, Dr.

Plinio, batalhas de menino,

batalhas de mocinho…”, vai

a alma inteira nisso! Eu fui

menino, e depois fui mocinho

e sei o que isso custou!

Qual é o dia de amanhã?

Nossa Senhora não sabe

que terão dificuldades, lutas,

problemas? Se há quem

sabe é Ela, que já está maternalmente

velando por

cada um. Está dizendo aos

seus Anjos da Guarda: “Para

este, atenção especial!

Este se fez meu filho a um

título singular; eu velo por

ele de modo particular. Ele

se deu a mim, ele se tornou

coisa minha, e eu não vou

cuidar do que é meu?!”

O Anjo, deslumbrado

diante de tanta bondade,

diz: “Ó Rainha e Mãe, vós

mandais, e eu obedeço na

alegria de minha alma! Tomarei

conta dele especialmente!”

Ao nos darmos a Nossa

Senhora, o que Ela está dan-

Arquivo Revista

27


De Maria nunquam satis

Arquivo Revista

do a nós? A abertura das portas que levam

ao Céu! É verdade que através das

lutas nesta Terra. Há um grande poeta

francês, Corneille, que diz: “Quem vence

sem esforço, triunfa sem glória”. 1

Não se iludir quanto

ao futuro

Meus caros, eu os felicito! Mas não

basta felicitar. Isto é o passado, isto é o

presente. E o futuro? Não se iludam!

As batalhas não se tornarão menores.

Pelo contrário, vão ficar maiores! E é

próprio do homem que, à medida que

ele cresça, queira lutas cada vez maiores.

Afundar dentro da seriedade, do

esforço… Afundar não! Subir aos píncaros

da seriedade, galgar as culminâncias

do esforço, ser fiel à Lei de

Deus, mesmo nas horas em que se tem

a impressão de que tudo nos convida

para o mal, nós dizermos: “Salve Rainha,

Mãe de misericórdia…”

Sejamos reais: cada qual tem todos

os meios para não pecar, mas nenhum

pode garantir que não pecará.

Devemos nos preparar. Se acontecer

essa desgraça, essa catástrofe que é

um pecado mortal, devemos aprender

o que fazer: é confiar, não desesperar,

não perder a cabeça. Imediatamente

ir junto aos pés de uma imagem

de Nossa Senhora; e se não tiver

uma imagem perto, pegar o Rosário,

imediatamente dizer: “Salve

Rainha, Mãe de Misericórdia…”

Ou aquela dulcíssima e belíssima

oração: “Lembrai-Vos, ó piíssima Virgem

Maria, que nunca se ouviu dizer

– nunca se ouviu dizer! – que alguém

que tivesse recorrido à vossa proteção

fosse por Vós desamparado… gemendo

sob o peso dos meus pecados,

me prostro a vossos pés…” Essa é a

oração, não só do homem puro, mas

também do pecador. Ele geme sob o

peso dos pecados, mas se volta para

Nossa Senhora e diz: “Lembrai-Vos,

ó piíssima Virgem Maria, que nunca

se ouviu dizer… Não se desminta no

meu caso: eu só, o infeliz, em que sobre

mim se desminta a vossa misericórdia,

ó mil vezes não! Eu confio minha

Mãe! Reerguei-me! Dai-me ânimo

para ir me confessar e para eu

continuar de novo e de novo, e de novo,

essa luta que me levará ao Céu!”

Enfrentando o mundo

revolucionário

O mundo revolucionário também

precisa ser enfrentado. Ele odeia

Dr. Plinio durante uma cerimônia de Consagração a Nossa Senhora, em 1990

as virtudes que devemos praticar.

Odeia e despreza a pureza, da qual

ele não é digno; ele a odeia por inveja,

por incompatibilidade. Esse ódio

pousará sobre quem é puro. Rirão,

caçoarão , falarão mal dos senhores,

os isolarão, os perseguirão porque

são puros.

Está escrito no Evangelho, no

Sermão da Montanha: “Bem-aventurados

os que sofrem perseguição

por amor à justiça, deles é o Reino

do Céu” (cf. Mt 5, 10). A Santíssima

Virgem lhes dará forças para enfrentar

todas essas coisas e, diante do impuro,

ostentar a sua pureza de cabeça

alta! “Miserável, insolente! Tu te

glorias do teu pecado, e eu não me

gloriarei da virtude que Nossa Senhora

me concede de praticar? Nunca!”

A pureza não abaixa a cabeça

diante da impureza! Ela olha de

frente, sem medo e com altaneria!

Aqui, juntos, peçamos aos Anjos,

aos Santos, peçamos aos nossos padroeiros

que nos deem essa pureza

que nunca conheça manchas, essa

confiança por onde, se uma mancha

de desgraça tisnar a pureza de nossa

alma, nós não percamos a nossa

confiança e voltemos mais uma vez:

“Minha Mãe, vossa misericórdia é

maior do que a minha miséria; tende

pena de mim!” E voltamos à carga

contra o pecado…

Assim vão se habilitando a lutar

as grandes lutas de Nossa Senhora.

São grandes, não são pequenas.

Eu passei por elas. Magnificamente

passou por elas o meu caro João Clá

quando era estudante. Todos sabemos

por experiência própria que são

lutas grandes.

Eu não os estou convidando para

um caminho insignificante. Estou

convidando para um grande caminho

rumo a um grande fim, a serviço

de uma grande Senhora! Uma Senhora,

entretanto que, na hora das

nossas provações, das nossas aflições,

das nossas perplexidades, como

toda mãe, sabe tornar-Se peque-

28


na, sabe quase tomar o nosso tamanho

e falar com as nossas tristezas,

falar com as nossas misérias, com

uma bondade tal que ficamos pasmos!

A escravidão a Maria

comporta uma intimidade

extraordinária com Ela

Como Nossa Senhora fala? Ela

não aparece. A mim nunca apareceu.

Mas, como Ela fala? São movimentos

internos da graça, em que

constatamos: realmente alguma coisa

que eu senti, foi Nossa Senhora

que me fez sentir.

Por exemplo, uma boa mãe de

uma família numerosa. Sabe-se se é

boa mãe vendo como ela trata com

cada filho, tendo um teor de relações

que é próprio ao feitio daquele filho;

e ela agrada, ela trata, estimula, desenvolve

conforme aquele filho é.

Assim Nossa Senhora com cada um

de nós, individualmente, tem um teor

de relações. E se nós tomarmos a

devoção ensinada por São Luís Grignion

de Montfort bem a sério, compreenderemos

isso. Ela saberá desenvolver

essa relação.

E a Sagrada Escravidão a Nossa

Senhora comporta essa espécie

de intimidade em que cada um trata

a seu modo com Ela e Ela aceita

benignamente o modo de ser de cada

qual. Não se pode padronizar isso,

porque seria diminuir a beleza da

obra d’Ela. Exatamente a beleza da

obra d’Ela é fazer uma coisa incontavelmente

diversificada e, em cada

um, dar um certo matiz.

Se soubermos pedir essa intimidade,

se pedirmos muito, Ela dará.

A Sagrada Escravidão a Nossa Senhora

tem um aspecto que se poderia

chamar a sagrada intimidade com

Nossa Senhora. Ou, o sagrado e personalíssimo

trato com Nossa Senhora,

no qual Ela é toda inteira, como

se existisse só para nós, e como se

Ela fosse inteirinha, como se revela

para nós. Aqui está a beleza e o esplendor

de Nossa Senhora.

No Inferno, ruge de ódio os demônio,

pois os que se consagraram

a Nossa Senhora são presas que os

Anjos arrancaram da garra dele. Ele

está fervendo de ódio e pensando

em planos para perdê-los. Mas Maria

Santíssima, a Imaculada Conceição,

que na invocação de Nossa Senhora

das Graças está calcando aos

pés a cabeça da serpente, esmaga e

esmagará sempre Satanás!

Que os senhores possam levar a

vida esmagando o demônio! Em si,

pela rejeição das tentações; fora de

si, que é o demônio da Revolução,

pela vitória da Contra-Revolução,

pela vinda do Reino de Maria.

Eu termino estas palavras com

esta exclamação: glória seja dada à

Mãe de Deus por tê-los trazido aqui!

Glória a Ela por levá-los até a realização

dos grandes desígnios que Ela

tem para cada um!

O encontro com o “Tratado”

Quando jovem, fiz uma novena

a Santa Teresinha do Menino Jesus

para obter duas coisas muito diferentes

que eu estava querendo

muito: uma era eu obter ou encontrar

um bom livro de vida espiritual

e outra era tirar uma loteria e ficar

rico.

Eu tinha nisso uma boa intenção:

eu queria ficar com todo o tempo livre

para apostolado. Santa Teresinha

atendeu logo o primeiro pedido. Até

hoje não atendeu o segundo!

Na ocasião, entrei numa livraria

católica e comecei a procurar livros,

e encontrei um muito bonitinho e

bem impresso: Tratado da verdadeira

devoção à Santíssima Virgem.

Havia um outro livro; eu hesitei

entre os dois, hoje eu nem me lembro

qual era. Como um deles era

muito bonitinho, muito agradável de

manusear etc. – eu não tinha nenhuma

outra razão para preferir um ao

outro –, peguei o mais bem acabado.

Plinio no início da década de 1930

Levei para casa, sentei-me e comecei

a ler. Era o “Tratado” de São Luís

Grignion de Montfort. Eu percebi,

na leitura desse livro, que era chamado

àquela inteira união com Nossa

Senhora que tinha começado a vibrar

em mim.

Li! Eu o li como se lê um livro

para passar num exame: tomei notas,

apontamentos. Quando a doutrina

ali exposta estava bem no meu

espírito, fiz a consagração. Eu tinha

mais ou menos 21 anos. Eu estou

com 76. De lá para cá, com a graça

de Deus, não se passou um dia

em que, por culpa minha, eu tivesse

deixado de rezar o ato de Consagração.

v

(Extraído de conferências de

15/8/1970, 5/1/1985, 13/4/1985)

1) “A vaincre sans péril, on triomphe sans

gloire”. Théàtre de Pierre de Thomas

Corneille: avec notes et commentaires

- Volume 1, p. 42, Pierre Corneille,

Firmin Didot frères, 1853.

Arquivo Revista

29


Apóstolo do pulchrum

Reino de Maria:

a hora do pulchrum

na História

Arquivo Revista

Impulsionado por uma

tendência própria à alma

inocente, Dr. Plinio

vivia à procura do ápice

da perfeição em todas

as coisas, fazendo da

consideração das formas,

cores e sabores uma

meditação religiosa que

o conduzia ao Sagrado

Coração de Jesus e ao

despontar de uma era na

qual as belezas estarão

especial e intimamente

relacionadas com Nossa

Senhora: o Reino de Maria.

Havia uma frase muito citada no meu tempo

de moço: L’homme revient toujours à ses prémiers

amours. 1

Pergunta característica do inocente

Quando seguimos o caminho da fidelidade e chegamos

ao termo final, percebemos tratar-se de um retorno

ao ponto inicial. Portanto, a caminhada do homem nesta

vida, ao invés de ser considerada apenas como uma reta,

é um percurso que volta às primeiras cogitações, à pri-

30


Salvador Vasques

meira inocência, aos primeiros impulsos bons que ele teve

nos tempos áureos da infância e aos quais volta completando

as perguntas e os anelos da inocência inaugural.

Lembro-me perfeitamente do período anterior ao Colégio

São Luís, ou seja, da inocência antes de conhecer

a Revolução e ter qualquer ocupação com ela, durante o

qual, entretanto, a Contra-Revolução estava sendo modelada

pela graça na minha alma por me fazer admirar

uma série de coisas que, no fundo, seriam o Reino de

Maria com o qual eu sonhava.

Dou-me conta de que, nessa fase inicial, todo élan de

minha pessoa era voltado para um determinado ponto e

que a trombada veio com violência em relação ao mundo

da Revolução, que encontrei no Colégio São Luís, porque

esse ponto inicial estava muito firmemente posto na minha

alma e chocando com toda a velocidade contra um

mundo que vinha em sentido oposto. Se esse ponto inicial

não estivesse muito firme, não haveria choque, simplesmente;

eu cairia sobre os trilhos, o trem da Revolução

teria passado sobre mim e eu estaria liquidado, como

acontece com milhões e milhões de pessoas.

Que ponto era esse? Era uma tendência própria à graça,

de querer admirar, respeitar, maravilhar-me, que eu

trazia dentro de mim e que diante das várias criaturas

me fazia instintivamente formular esta pergunta característica

do verdadeiro inocente: “Aquilo é bonito; mas

se fosse lindo, como seria? Tal pessoa me parece boa,

mas se fosse um padrão perfeito desse tipo humano, como

ela seria? Tal vitral, tal pinturazinha feita na parede,

de propaganda comercial, tal coisa, tal outra… se fosse

chegar até seu último ponto de perfeição, como seria?”

Essa pergunta se punha continuamente no meu espírito,

não de modo repentino, mas lento.

Por exemplo, eu gostava muito de madrepérola. Naquele

tempo era corrente

usar botões produzidos

com esse material;

vendiam e punham

no comércio

botõezinhos de camisa

de madrepérola,

de qualidade

muito boa.

Divulgação (CC3.0)

31


Apóstolo do pulchrum

Sheila Sund (CC3.0)

Mas a madrepérola tinha o inconveniente

de trincar, e daí sair

lascas. Quando me acontecia de

vestir uma camisa com um botão

um pouco trincado, eu via outros

reflexos da madrepérola que ela

não apresentava na superfície,

meio opaca, menos bonita do que

ela rachada. Não sei como a trabalhavam,

mas por fora era menos

bonita do que por dentro.

Vinha-me, então, esta reflexão:

essa madrepérola, como tantas

outras coisas que vejo por aí, está

meio deformada, mas a essência

vale mais do que o aspecto exterior;

em seu cerne ela é uma maravilha.

Então, existe um modo de ser

bonito à maneira do interior da

madrepérola, com cores chatoyantes,

2 mutáveis, opalescentes, que

não é o modo de ser fixo da beleza

clássica. Deve existir pelo mundo

um número enorme de belezas fugidias

assim, sobre as quais essas pessoas que me rodeiam

e uma quantidade imensa de gente como elas não

fixam sua atenção nem conversam.

Se eu aparecer diante delas com esse botão quebrado

e quiser conversar sobre isso, vão dar um risinho condescendente,

como diante de um menino bobo, vão dizer

que é linda e depois continuar a tratar de assuntos nos

quais não acho graça nenhuma.

Por isso eu me distancio sem beligerância, sem hostilidade,

mas com um fundo de decepção e de gelo, e vou

prestar atenção noutras coisas.

Meditação essencialmente religiosa,

anelo do Reino de Maria

As papelarias antigas importavam muitos artigos

de luxo da Europa, como

bloquinhos de notas

com tranche dorée,

encadernação

de couro

com uma

Rua Líbero Badaró, em 1920

aplicação de metal e outras coisas assim que eu comprava

quando arranjava um dinheiro, antes de começar a

mania dos soldadinhos de chumbo. Porém, minha tendência

era comprar não com a intenção de usar, mas de

ter. Eu receava que houvesse nisso um certo desequilíbrio,

porque todas as pessoas consideradas equilibradas

não procediam assim; então eu também evitava adquirir,

porque eu não queria soltar à brida essa tendência e tinha

horror da atração do vazio, do desequilíbrio, da monomania.

Contudo, eu era tendente a comprar não só esses objetos,

mas também bolinhas de gude que eu adquiria não

para jogar – jogava um pouco, mas não me interessava

muito – mas para possuí-las como padrão de uma certa

beleza que aquilo me dava ao espírito.

Além disso, lembro-me de uma vez ter visto, numa casa

da Rua Líbero Badaró, umas caixinhas de madeira todas

pintadas e de formas diferentes, representando os

baús muito bonitos, com pedrarias, utilizados no século

XV, sobretudo no Norte da Itália, na Lombardia, antes

de aparecer o armário perpendicular. O Vêneto e a

Lombardia eram muito ricos e produziam coisas dessas

belíssimas; e essas caixinhas de madeira eram muito

baratinhas. Eu comprei cinco, dez caixinhas

dessas e levei para casa.

Assim eu guardava um mundo de bric-

-à-brac, 3 com os quais, sem eu saber, fazia

exercícios de emerveillement. 4

Luca.s (CC3.0)

32


Lago Sils, Suíça

Essa tendência, se eu tivesse maturidade e inteligência

na época – não tinha, era menino – me levaria a concluir:

“Há então uma ordem de coisas que possui uma

beleza absoluta, perfeita e imutável. Essa ordem encheria

a minha alma e para ela eu fui feito; quero não só conhecê-la,

mas compreender a razão – eu não sabia dizer

a palavra ‘metafísica’, mas era isso – pela qual essa ordem

é assim. Eu quereria chegar até esse conhecimento,

porque sinto que isso me transformaria e faria de mim o

Plinio que devo ser”.

Encantavam-me fotografias da Suíça, por exemplo,

que apresentavam culminâncias de montanhas na aurora,

róseas, e lagos com um azul prodigioso; em certo lugar

uma capelinha, e outros panoramas assim.

Havia uma peculiaridade singular: eu nunca sentia

que apanhava tão bem essa espécie de mistério

que eu queria alcançar nas coisas – eram de sublimidades,

não de cores escuras, mas de luz – do

que quando comia. Não era pelo mero gosto de comer,

mas certos alimentos me vinham conjugados

com impressões dessas, e eu tinha uma sensação

de que eu só as apreendia inteiramente comendo

coisas que fossem nesse sentido.

Estávamos num mundo ainda não protegido por leis

aduaneiras, de maneira que se importavam mercadorias

da Europa em quantidade e, de vez em quando, apareciam

na mesa de casa poires duchesses: peras de um verde-claro

delicado, com umas zonas um pouco mais avermelhadas.

Quando se metia nelas a faca, era preciso fazê-lo

com cuidado, porque já vinham deitando suco, de

tão líquidas que eram, saborosas e deliciosas! E quando

eu comia aquilo, eu tinha a dupla impressão de uma

delicadeza ducal, de um raffinement 5 ducal, mas ao mesmo

tempo de uma abundância de suco em que quase não

era preciso mastigar para comer, como que dando a en-

Divulgação (CC3.0) kuhnmi (CC3.0)

33


Apóstolo do pulchrum

Luis C.R. Abreu

eu arranjava dinheiro e comprava. À noite,

antes de me deitar, abria a lata de caviar Romanoff,

pingava umas gotas de limão, passava

sobre fatias de pão com manteiga e comia. Ia

dormir realizado. Tudo isso à procura de um

absoluto.

Eu não sabia, mas era uma meditação essencialmente

religiosa que me levava a toda

uma ideia que, no fundo, era a matéria-prima

de um anelo do Reino de Maria.

Sagrado Coração de Jesus, centro

e ápice de todas as perfeições

tender que havia uma certa clave

na qual os problemas da vida não

exigiam esforços, e que era só engolir.

Apesar de meu gosto pela Europa,

eu não tardei a colocar

muito alto na minha escala

gastronômica as mangas, que

são realmente frutas épatantes! 6

Não têm o raffinement da poire

duchesse, embora algumas mangas tenham

alguma coisa que se aproxima disso. Mas

a riqueza de sabores, o perfume delas! Não

sei o que faz da manga uma feeria ao paladar

que, a meu ver, a poire duchesse não possui.

Então, mangas… maravilhas!

Mas também pão preto com salsicha e

mostarda, e um tipo de caviar preto chamado

Romanoff, que se obtinha até em confeitarias

ordinárias de bairro; era caro, mas

Arquivo Revista

Como seria bom se eu tivesse encontrado um

padre que me explicasse que isso tudo, de fato,

existia de modo pessoal, absoluto, perfeito e

imutável em Deus Nosso Senhor; e que todas as

perfeições imaginadas por mim eram reflexos

requintados de uma beleza eterna e, sobretudo,

pessoal. Mas até lá eu não chegava, porque nas

aulas de catecismo não diziam isso.

De maneira que, não sabendo isso, eu não

associava à religião, mas notava que quando

eu estava inteiramente trabalhado por considerações

desse gênero, indo à igreja do

Sagrado Coração de Jesus para rezar,

sentia tanto mais minha afinidade com

aquele ambiente quanto mais eu estivesse

nessa linha de cogitações.

Olhando para as imagens d’Ele,

sobretudo para aquela que se encontra

no quarto que foi de mamãe, eu

tinha a noção de que ninguém tinha

sido como Ele, não podia ser igual e,

muito menos, superior a Ele, porque

ali estava a perfeição do homem. Ele

era o centro do mundo para o qual eu

caminhava.

A castidade e a aurora

do pulchrum marial

Para ter a alma com as asas inteiramente

deployées 7 para esses voos, é preciso

ser casto e, melhor ainda, se for possível,

virgem. É a vantagem do celibato,

a santidade da castidade recuperada, do

perdão obtido, é o lírio que renasce... tudo

isso é lindíssimo! Sem isso a pessoa não

compreende uma série de coisas desse voo

de espírito.

34


Considerado do ponto de vista da mística, nesse

pulchrum 8 do qual estou tratando entra um saborzinho

de sobrenatural que é o mais atraente,

pois é um ponto onde a natureza toca no sobrenatural

e fica toda iluminada por ele.

Falei de paisagens suíças. Quando o Sol parece

nascer por detrás do monte todo gelado

e se reflete no gelo, tem-se a impressão

de que ele está nascendo de dentro do

mundo. Assim também da castidade bem

guardada nasce tudo isso.

Por outro lado, se uma pessoa conserva

isso, mesmo quando a batalha

pela castidade é muito grande e comporta

quedas, é o sinal de se tratar de

alguém que Nossa Senhora está segurando

pela mão e deixa imergir na tinta

negra até os cabelos, mas não permite

que afunde e nem que perca a ligação

com Ela. Um dia Ela retira aquela

pessoa do poço onde se encontra e a alma

está como o Sol que renasce. É uma coisa

muito bonita.

Essas considerações fazem propriamente o

contrarrevolucionário. Todas as tendências mais infames

do homem são contrárias ao belo, e a Revolução

coliga as pessoas mais pela recusa do pulchrum que pela

atração do erro.

Na trilogia verum, bonum, 9 pulchrum, o papel

do verum e do bonum foi muito estudado, polido

pela Igreja, ao longo dos séculos. Mas

chegou a vez do pulchrum. O Reino de

Maria seria a hora do pulchrum ligado

a Nossa Senhora. A pulcritude tem, no

que diz respeito a Ela, uma relação especial

e intimíssima, de primeira qualidade.

v

Tiago Aragão

(Extraído de conferência de 9/5/1992)

1) Do francês: “O homem sempre retorna aos

seus primeiros amores”.

2) Do francês: cintilantes.

3) Do francês: bricabraque ou brique-a-braque. Coleção

de objetos variados de arte ou artesanato.

4) Do francês: maravilhamento.

5) Do francês: requinte.

6) Do francês: extraordinárias.

7) Do francês: estendidas, abertas.

8) Do latim: belo.

9) Do latim: verdadeiro, bom.

Giles Laurent (CC3.0)

35


Nossa Senhora do

Amparo - Catedral

de Notre-Dame

de Munich

Flávio Lourenço

O amor da Santíssima

Virgem por seus escravos

Overdadeiro escravo de Maria deve ter entusiasmo pelas grandezas de sua Senhora

de maneira a nunca se dirigir a Ela sem um sumo respeito, uma suma admiração

e uma suma confiança; como a uma criatura supereminente, altíssima, mas, porque

a mais alta, é a mais benigna, a mais condescendente, a mais afável de todas as criaturas,

a mais disposta a descer até nós.

Sua grandeza é tal que preenche todos os espaços da Criação, até as distâncias enormes

que vão d’Ela até nós. Por isso, Nossa Senhora é a mais próxima de nós, a mais acessível,

a mais misericordiosa, a mais disposta a perdoar, a atender, que não se zanga nem se irrita

nunca, que nos quer sempre e por motivos altíssimos, absolutamente estáveis e nos

quais nós podemos ter uma confiança total.

O amor da Santíssima Virgem por nós procede do fato de que Ela vê o quanto Deus nos

ama e, por isso, tem por nós um amor fixo, estável, definitivo, profundo, completo, que

participa do amor que Ela tem a Deus.

(Extraído de conferência de 16/6/1972)

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