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Publicação Mensal
Vol. XXVIII - Nº 325 Abril de 2025
Sob o amparo da
Mãe do Bom Conselho
O encontro de dois
“rios chineses”
Na Albânia, diante da imagem da Mãe do Bom Conselho, dois homens fiéis, em
oração, se afligiam e pensavam o que deveriam fazer à vista de os turcos estarem
invadindo o país e de a imagem cair em poder dos invasores.
De repente, o afresco se destacou milagrosamente da parede e entrou pelo Mar Adriático.
Eles entenderam dever seguir a imagem. Entraram no mar, atendendo ao chamado
para caminhar sobre o abismo; um convite, portanto, à confiança.
Ao chegarem à Itália, perderam
de vista a imagem, até que souberam
ter ela baixado do céu sobre
um altar de uma igreja que estava
sendo construída em Genazzano,
por uma velha senhora cujo
nome era Petruccia, de quem todo
mundo ria na cidade, porque ela
queria edificar uma igreja quando
não tinha recursos para isso.
O milagre fez com que os fiéis
afluíssem; com os fiéis, as esmolas
e, com as esmolas, a construção
subiu.
Por outro lado, aqueles dois homens
tiveram suas esperanças inteiramente
realizadas.
A solução do problema desses homens
corria como um “rio chinês”
e desfechou na solução do “rio chinês”
da Beata Petruccia. Do encontro
desses dois “rios chineses”
nascia a devoção a Nossa Senhora
do Bom Conselho de Genazzano.
Gabriel K.
(Cf. conferência de 26/4/1977)
Georgio e De Sclavis seguem o afresco de Mater Boni Consilii
Santuário Nossa Senhora do Bom Conselho, Genazzano
Sumário
Publicação Mensal
Vol. XXVIII - Nº 325 Abril de 2025
Vol. XXVIII - Nº 325 Abril de 2025
Sob o amparo da
Mãe do Bom Conselho
Na capa, Dr. Plinio,
no Santuário de
Genazzano, em 25 de
setembro de 1988.
Foto: Arquivo Revista
As matérias extraídas
de exposições verbais de Dr. Plinio
— designadas por “conferências” —
são adaptadas para a linguagem
escrita, sem revisão do autor
Dr. Plinio
Revista mensal de cultura católica, de
propriedade da Editora Retornarei Ltda.
ISSN - 2595-1599
CNPJ - 02.389.379/0001-07
INSC. - 115.227.674.110
Diretor:
Roberto Kasuo Takayanagi
Conselho Consultivo:
Jorge Eduardo G. Koury
Roberto Kasuo Takayanag
Vicente de Paula Torres Nunes
Redação e Administração:
Rua Virgílio Rodrigues, 66 - sala 1 - Tremembé
02372-020 São Paulo - SP
Impressão e acabamento:
Pigma Gráfica e Editora Ltda.
Av. Henry Ford, 2320
São Paulo – SP, CEP: 03109-001
Segunda página
2 O encontro de dois
“rios chineses”
Editorial
4 O bom conselho,
um tesouro inestimável
Piedade pliniana
5 Oferecimento do dia
Dona Lucilia
6 Na convalescença, o apostolado
de Dona Lucilia
Mater Boni Consilii
9 I - A Mãe do Bom
Conselho e o Brasil
14 II - Primórdios de
uma devoção
18 III - Arrostando dificuldades
e provas com fidelidade ilibada
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25 IV - No revés da doença
29 V - A “graça de Genazzano”
32 VI - Os efeitos da “graça
de Genazzano”
Última página
36 Preparando o encontro com a Matriz excelsa
3
Editorial
O bom conselho, um tesouro inestimável
O
que
quer dizer Nossa Senhora do Bom Conselho e que valor tem um conselho de Nossa Senhora?
O conselho é um ato pelo qual alguém esclarece a outrem a respeito de um ponto, com vistas a resolver
um problema e indicar uma norma de ação.
Em toda existência humana há circunstâncias em que a pessoa precisa muito de um bom conselho, quer porque
seu intelecto não alcança exatamente a decifração de um problema capital para a sua vida, quer porque sua fraqueza
a impede de tomar a deliberação que deveria tomar. Podemos, pois, afirmar que poucas coisas um homem
pode dar de tão importante a outro como um bom conselho.
Os antigos tinham, muito mais do que nós, a noção do valor de um bom conselho. Por exemplo, no tempo dos
eremitas no deserto, as pessoas se embrenhavam, com o risco da própria vida, deserto adentro, para conversar com
algum eremita que morava numa cova a grande distância da cidade, apenas para receberem um conselho, uma informação
a respeito de uma questão duvidosa e assim traçar um rumo na vida.
Com efeito, vivia-se numa época menos impregnada de individualismo, de liberalismo e da máxima segundo a
qual todo homem deve bastar-se a si próprio e se diminui quando recebe um conselho. Pelo contrário, o homem se
eleva quando sabe pedir e seguir um bom conselho.
Se isso se diz do conselho humano, muito mais se dirá do conselho vindo do Céu. Nossa Senhora do Bom Conselho
é aquela que nos concede esta dádiva extraordinária de um conselho nas circunstâncias difíceis de nossa vida.
O modo habitual de Ela nos conceder o conselho é um estímulo não sensível em nossa inteligência e em nossa
vontade, pelo qual, embora tenhamos a impressão de estarmos pensando com o nosso próprio intelecto e deliberando
com a nossa própria vontade, por uma intervenção da graça encontramos a solução para o ponto que nos
atormentava e as forças para tomarmos uma deliberação diante da qual nos sentíamos acovardados.
Não há mãe que não tenha a tendência de aconselhar o seu filho. Está no instinto materno, ainda quando o filho
seja maior de idade. Nossa Senhora, como nossa Mãe, tem essa tendência e, pela devoção à Mãe do Bom Conselho
estimulada pela graça e pela Igreja, a Santíssima Virgem nos torna presente esta verdade: em todas as ocasiões
difíceis de nossa vida, devemos nos voltar para Ela e pedir-Lhe este tesouro que é o bom conselho.
Às vezes o bom conselho não nos é dado por um movimento direto da graça em nossa alma, mas Nossa Senhora
nos encaminha a um bom conselheiro que nos possa orientar.
Mais do que qualquer conselheiro na Terra, é conselheira – porque mestra, mãe e rainha – a Igreja Católica. Não
há melhor conselho para os homens do que recorrer à doutrina da Igreja e ver ali, à luz da Fé, como os problemas se
resolvem. Portanto, Nossa Senhora fala sempre pela graça à nossa alma, no sentido de nos encaminhar rumo à Igreja.
Nas circunstâncias peculiares em que nós estamos, há alguma aplicação especial desta devoção a Nossa Senhora
do Bom Conselho?
Inúmeras vezes, o contrarrevolucionário se vê em dificuldades na vida. O mundo de hoje é hostil, tudo nos convida
para o pecado. Por isso, o homem encontra luta, dificuldade, às vezes perplexidade em traçar o verdadeiro caminho.
Por exemplo, numa ocasião de apostolado. Quantas vezes, nessas situações, não sabemos o que dizer nem o que
fazer. O verdadeiro é, então, fazer uma jaculatória: Nossa Senhora do Bom Conselho, ajudai-me, esclarecei-me. E
frequentemente notaremos que nos saímos com uma atitude ou uma palavra qualquer que correspondia à necessidade
do momento. Assim teremos uma devoção viva à Santíssima Virgem.
Então, nas nossas perplexidades, façamos sempre este pedido: Nossa Senhora do Bom Conselho, rogai por nós. *
* Para a elaboração do presente número foram compilados excertos de conferências de 1/1/1969, 26/4/1971, 26/4/1972,
16/12/1972, 26/4/1974, 21/10/1979, 31/10/1982, 30/11/1982, 9/7/1983, 16/9/1983, 17/9/1983, 20/12/1983, 5/6/1984, 26/8/1984,
15/12/1984, 16/4/1985, 22/10/1985, 12/3/1988, 17/4/1988, 20/9/1988, 21/5/1989, 16/12/1989, 30/6/1990, 7/7/1990, 29/11/1990,
2/12/1990, 16/12/1990, 10/7/1991, 16/12/1991, 25/4/1992, 17/8/1992, 7/8/1993, 13/11/1993, 16/7/1994 e 26/4/1995.
Declaração: Conformando-nos com os decretos do Sumo Pontífice Urbano VIII, de 13 de março de 1625 e
de 5 de junho de 1631, declaramos não querer antecipar o juízo da Santa Igreja no emprego de palavras ou
na apreciação dos fatos edificantes publicados nesta revista. Em nossa intenção, os títulos elogiosos não têm
outro sentido senão o ordinário, e em tudo nos submetemos, com filial amor, às decisões da Santa Igreja.
4
Piedade pliniana
Arquivo Revista
Imagem de Nossa
Senhora de Paris, que
se venerava na Sala
do Reino de Maria
Oferecimento do dia
ÓCoração Sapiencial e Imaculado de Maria, começa para este vosso filho mais um dia
no tempo de preparação que lhe concedestes para ser um apóstolo dos últimos tempos.
Se considero minhas insuficiências e infidelidades, tenho todos os motivos para estremecer:
é mais um dia em que serei infiel, pelo qual deverei Vos prestar contas severíssimas.
Mas eu me refugio na vossa misericórdia como a criança faltosa se refugia nos braços de
sua mãe.
Eu me ofereço todo a Vós para que leveis a cabo em mim a obra que por mim jamais conseguiria
executar; fazei de mim um perfeito escravo vosso, um perfeito apóstolo dos últimos
tempos.
Aceitai as minhas fraquezas, aceitai, ó Mãe dulcíssima, até as minhas faltas, e obtende
que umas e outras se transmudem em virtudes, como obtivestes que a água se mudasse em
vinho nas Bodas de Caná.
Ó minha Mãe, aqui está um filho pecador, infiel e ingrato. Mas dizei uma só palavra e
se operará em mim a mudança fundamental que fará de mim um verdadeiro filho vosso.
Amém.
(Composta em 14/1/1968)
5
Dona Lucilia
O período de convalescença de Dr. Plinio foi ocasião para se estabelecer
entre Dona Lucilia e os membros do Grupo – filhos por ela esperados
ao longo da vida – um convívio que, apenas pelo seu modo de ser,
tornava-os receptáculos das graças que ela desejava para eles.
Enquanto eu estive diabético,
de cama, a minha enfermidade
abriu campo a duas
graças que haveriam de ter um rio de
consequências para o futuro: a primeira
foi a “graça de Genazzano”; a segunda
foi o contato que nunca me teria
passado pela cabeça estabelecer, entre
mamãe e os membros mais novos do
Grupo, e com isso entre mamãe
e o João, e o que se seguiu depois
da morte dela. Antes de eu ter essa
doença de diabetes em 1967,
iam poucos membros do Grupo
a minha casa, porque, como era a
casa de minha mãe, não podia enchê-la
de amigos.
Uma proposta jeitosa
Arquivo Revista
Lembro-me de que quando
eu estava em vias de restabelecimento,
ia de robe de chambre,
apoiado em muletas, sem
ela ver, e entrava pelo fundo para
jantar com ela. Nunca tomei
refeições vestido dessa forma na
sua presença, mas ela não dava
atenção a isso. Desde que eu pudesse
distraí-la um pouco, estava
atingido o objetivo.
Um dia, enquanto conversávamos,
percebi que ela, jeitosamente,
estava querendo propor
uma mudança de horários, a qual girava
em torno do seguinte – ela não
tinha notado que eu estava diabético,
com necessidade de regime. Ela
imaginava que meu desejo de fazer-
-lhe companhia me privava de jantar
em restaurante, então, estava pensando
que eu podia aproveitar para
Dr. Plinio em novembro de 1967
ir jantar fora com os meus amigos, o
que levaria mais ou menos meia hora
e eu comeria bem. Depois eu voltaria
para casa e passaria o resto da
noite com ela! Mamãe lucrava tempo
com isto.
Eu achei graça, fingi que não percebi,
dei risada. Mas aí compreendi
que ela não tinha ideia da falta que
fazia para o Grupo a minha
ausência. Quer dizer, ela julgava
seriamente que era uma
questão de boa companhia.
Mãe discreta e dotada
de uma intuição
sobrenatural
De outro lado, ela era tão
cauta em não entrar no que
notava não ser meu desejo
contar, que, vendo-me doente,
de cama, com a perna esticada
em cima do travesseiro,
ela não perguntava. De fato,
minha mãe ainda estava viva
quando tive de fazer a amputação
no pé e quase até o
fim da cicatrização dessa intervenção
cirúrgica, mas ela
não sabia do que se tratava.
Inúmeras vezes ela esteve no
6
meu quarto, e conversávamos. Se eu
fosse mais moço, ela perguntaria na
certa, para prestar assistência. Mas
ela via que já não estava em condições
de prestar esse auxílio e percebia
que minha irmã estava me ajudando,
pois era muito capaz; então,
ela nem entrava na questão.
Certo dia, alguém lhe perguntou
por que razão eu estava de cama, para
ver se ela sabia o que havia acontecido
comigo. Ela estava parcialmente
lúcida nas regiões interiores
de seu espírito até o fim da vida, então
deu uma resposta meio arquitetada
por ela e meio adivinhada.
Eu estive várias vezes na então fazenda
Morro Alto, hoje Êremo do
Amparo de Nossa Senhora e, naturalmente,
quando eu voltava, contava
coisas a ela. E eu tinha-lhe dito que
o calçamento daquela ladeira é todo
constituído por pedras pontudas colocadas
no tempo colonial, e que era
preciso um certo cuidado para não
cair. Porque, sempre continuando
as descrições do meu espírito em pequeno,
eu era muito propenso a não
prestar atenção no calçamento, tropeçar
e cair se eu não descesse com
certo cuidado aquela rampa, cujas
pedras pedem qualquer coisa que
microscopicamente poderia ser chamada
um minialpinismo.
Então eu contei isso a ela, para
comentar qualquer coisa, porque os
assuntos dizíveis entre nós estavam
esgotados, enquanto os indizíveis
não tinham fim!
Mas, conversando com uma pessoa
do Grupo, mamãe acabou explicando
que acontecera o seguinte: eu
tinha estado em Amparo e, andando
sobre aquelas pedras, machuquei-
-me, produzindo um corte muito sério
no pé; tinha precisado fazer uma
operação, e, por causa disso, a ferida
estava cicatrizando com todo o cuidado
de minha parte; creio até que
ela falou em amputação.
Comentando-se o caso com um
conhecido, eu disse:
— Com certeza alguns dos meus
amigos que se encontram com ela
em casa contaram-lhe alguma coisa.
— Não creio! Eu acho que ela
adivinhou isso.
— Mas como poderia ter adivinhado?
Ele deu a seguinte resposta que
me pareceu interessante: “São certas
ações da Providência... As mães e
outras pessoas que desempenham
um determinado papel desejado por
Deus, às vezes percebem as coisas! E,
quando percebem, ninguém as convence
do contrário! Pode dizer o que
quiser, como quiser... Ainda que alguém
mentisse a Dona Lucilia, ela
não acreditaria, porque tem certeza
de que é aquilo!”
Isso me lembrou muitos outros
episódios ao longo da vida de mamãe
em que ela tinha adivinhado.
Portanto, vê-se como ela teve,
nessa ocasião, uma certa intuição e
julgava que estava maîtrisant, 1 dirigindo
a situação. Mas quando ela
entrava no quarto, absolutamente
não perguntava nada, o que é a manifestação
da confiança multiplicada
pela confiança.
Comovedoras manifestações
de dedicação
Dona Lucilia um mês antes de seu falecimento
Eu acredito que minha recuperação
foi uma graça muito assinalada
de Nossa Senhora, que deu lugar também
a provas de dedicação verdadeiramente
comovedoras. Não só a de muitos
membros do Grupo que me cercaram
com uma assistência extraordinária,
mas toda a paciência e bondade
que tiveram com mamãe durante esse
tempo. Eu não posso deixar de lembrar
com emoção as vigílias noturnas
de orações realizadas quer em minha
casa, quer nas sedes e que significaram
uma manifestação de solidariedade,
de afeto e de união da TFP.
Quando eu acordava de manhã,
via entrar no meu quarto dois membros
do Grupo, trazendo a imagem
de Nossa Senhora que está na Sala
do Reino de Maria; eu a osculava, e
conversávamos um instantinho.
Passado já algum tempo, é bem o
momento de exprimir o quanto eu
pesei o sacrifício e o trabalho que representou
organizar aquilo! Quanto
eu pesei o afeto que havia nessa ideia
e o valor de todas essas orações! Do
Arquivo Revista
7
Dona Lucilia
fundo da alma e perante Nossa Senhora,
eu agradeço tudo isso.
Uma mãe feita para
ter muitos filhos
Se é verdade que eu agradeço o
que se fez por mim, é verdade também
que eu sou mais sensível ao que
se fez por mamãe. E é natural.
Toda mãe é mais grata por aquilo
que se faz pelo filho do que pelo que
se faz por ela. Dona Lucilia costumava
citar um provérbio português
antigo, que dizia o seguinte: “Quem
aos meus filhos agrada, minha boca
adoça”. O amor filial é uma réplica
do amor materno. A fortiori – porque
ela merecia tanto – quem agradava a
ela, agradava-me superlativamente.
Antes da minha doença, quando
mamãe conhecia ainda poucos membros
do Grupo, ela dizia sentir que
eles a tratavam de um modo especial,
como ninguém a tratava. Depois,
durante a convalescença, todo
o Grupo começou ir à minha casa
para saber notícias. Mamãe então
começou, como dona de casa, a recebê-los.
Era curioso: o apostolado dela
era, sobretudo, de modo de ser.
E eu ficava encantado ao ver uns
e outros conversando com ela tanto
tempo e levando flores, prestando
gentilezas de toda ordem, com o
que ela ficava muito contente, muito
agradecida. Eles eram de uma cortesia
entusiástica em relação a ela, dizendo
amabilidades e distraindo a
sua solidão, quando já estava, coitadinha,
com dificuldade de ouvir.
Ela estava habituada ao sistema
dos casarões antigos, nos quais era
possível dez ou quinze pessoas almoçarem
ou jantarem. Em nosso apartamento
cabem, no máximo, umas
seis ou sete pessoas à mesa. Então
mamãe pedia desculpas a eles por
não convidar todos e explicava que a
sala de jantar era pequena. Mandava
preparar algo para eles, servir café, e
assim ficava muitíssimo comprazida.
8
Via-se que ela era uma mãe que
esperava todos esses filhos, os quais
conheceu no extremo fim da sua vida.
Antes de deixar a Terra, ela tocou
com a ponta do dedo no Grupo
enquanto representado na pessoa de
alguns de seus membros, que seriam
receptáculos dessas graças que ela
desejava tanto que todos recebessem.
Ação de presença de mamãe
Corredor do Primeiro Andar,. Em primeiro
plano, cadeira de rodas de Dona Lucilia
Arquivo Revista
O interessante é o seguinte: se
não fosse aquela minha crise de diabetes,
não só os membros do Grupo
não teriam conhecido Dona Lucilia,
mas não teriam tirado as fotografias,
das quais eles mesmos não imaginavam
a post-história.
Algum vago vislumbre do que ela
seria no futuro me passava pela cabeça,
mas isso não me autorizava de
nenhum modo a tomar as providências
que meus filhos tomaram.
Às vezes a enfermeira a levava na
cadeira de rodas para o quarto, para
dormir. E eu percebia que mamãe
falava com ela para fazê-la entrar no
meu quarto, pois queria despedir-se
de mim. O jogo dela era perguntar:
“Onde está Plinio?” Eu achava graça
e se a enfermeira não a fizesse entrar,
eu a fazia.
Outra coisa engraçada é a seguinte:
em certas ocasiões, na hora de
Dona Lucilia conversar comigo, alguns
faziam uma roda em volta para
assistir à conversa. Se não levarmos
em conta o que veio depois, isso seria
considerado um abuso sem nome.
Ora, mamãe nunca se queixou, nunca
se intimidou. Ela permanecia natural
comigo como se estivesse sozinha.
Mas ela se defendia num ponto: naquele
momento ela falava só comigo, como
quem diz: “Esta hora é minha; meu filho
é meu”. Eu também não dirigia a
palavra a ninguém, conversava só com
ela. Ela ficava contentinha!
O papel dela, propriamente, foi
junto a mim, mas depois foi junto
aos filhos que se acumularam em
torno de mim a propósito da diabetes.
Um deles principalmente: o
João. 2
v
1) Do francês, dominando.
2) Cf. conferências de 1/1/1969,
31/10/1978, 20/12/1980, 19/1/1983,
29/4/1983, 5/6/1985, 10/12/1985,
7/2/1990, 29/8/1992.
Arquivo Revista
Mater Boni Consilii
I
Gabriel K.
A Mãe do Bom Conselho
e o Brasil
Nos alicerces da História do
Brasil refulge a Mãe do Bom
Conselho. E sob essa invocação
Nossa Senhora parece dizer a
seus fiéis: “Confiem, rezem,
esperem... e serão atendidos!
A
imagem ou a invocação de
Nossa Senhora do Bom
Conselho tem uma especial
relação com o Brasil. Vários fatos
o atestam e farei ler dois deles.
Uma graça que marcou
a História do Brasil
O primeiro diz respeito a toda a história
deste país, porque se relaciona
com a vocação daquele que é por excelência
o apóstolo do Brasil, o Bem-
-aventurado 1 Pe. José de Anchieta.
O segundo faz referência ao Estado
de São Paulo e, mais especialmente,
ao Colégio São Luís, localizado
na Avenida Paulista, na cidade
de São Paulo, onde se encontra uma
pintura de Nossa Senhora do Bom
Conselho imediatamente relacionada
com o fato que vai ser narrado.
Eu desejava que fosse lida,
antes de tudo, uma narração da
graça recebida pelo Pe. Anchieta.
2 A fim de não se enganar em
determinação tão relevante [sobre
a escolha de sua carreira],
e para alcançar do Altíssimo as
luzes que havia mister, redobrou
as orações e penitências.
E, pois, sabia que, em tais
conjunturas, muito lhe importava
um guia prudente e sábio, que
tivesse profundo conhecimento
do coração humano e grande experiência,
sem mais detença foi
ter com o seu diretor espiritual,
pedindo o seu conselho.
Mas o que sobretudo ele implorou,
foi o auxílio d’Aquela ínclita Senhora
que a Santa Igreja invoca sob o título
de Mãe do Bom Conselho.
Pe. José de Anchieta
Passava ao pé de seus altares longas
horas de oração. E não contente
só de suplicá-la, quis, por assim dizer,
extorquir-lhe o favor que desejava…
Divulgação
9
Mater Boni Consilii
É típico da devoção a Nossa Senhora
do Bom Conselho Ela fazer esperar
tanto, sendo preciso rezar muito para
extorquir, por assim dizer, o favor
que se pede. Mas aí vem a confiança:
“Eu estou querendo extorquir e Ela
se compraz em ser extorquida. Por
causa disso, um dia virá o que eu estou
pedindo”.
…e como que lhe excitar a generosidade,
dedicando-lhe o que ele tinha
de mais precioso. Foi, pois, prostrar-
-se a seus pés, e depois de haver-lhe exposto,
entre suspiros e lágrimas as dúvidas
e perplexidades que o angustiavam,
consagrou-lhe, com voto perpétuo,
sua virgindade como vítima e holocausto
em sua honra.
Tão magnânima resolução da parte
de um mancebo de apenas dezessete
anos…
Vejam que grandes coisas se podem
fazer aos dezessete anos e ainda
muito antes disso.
…com o Coração de Maria lhe ganhou
também o de seu Divino Filho.
Em um instante desvaneceram-se
suas dúvidas, sentiu em sua alma uma
paz e tranquilidade inefável, e experimentou
desde esse ponto tão extraordinário
atrativo ao estado religioso,
que tudo parecia conspirar para fortalecer
e arraigar nele uma tal vocação.
O resultado foi que o grande
Pe. Anchieta tornou-se sacerdote da
Companhia de Jesus, e, junto com o
Pe. Nóbrega, foi um dos fundadores
da cidade de São Paulo e o grande
apóstolo dos índios no Brasil.
Um jesuíta brasileiro
A Mãe do Bom Conselho na Terra
de Santa Cruz 3
Brasil! Quem pensava nele quando
Petruccia rezava junto aos muros
inacabados de sua igreja à espera da
Santa Imagem? Quem poderia suspeitar
que ele existisse quando Scanderbeg,
sob a proteção de Nossa Senhora
de Scutari, derrotava o traidor Hamsa,
ou o renegado Balabão? No entanto,
a Fé católica foi-nos trazida pelas
Divulgação (CC3.0)
Acima, Marquês de Pombal.
À direita, Dom José I, Rei de Portugal
naus portuguesas. E com a fé, a devoção
a Maria Santíssima, Mãe extremosíssima
e bondosa, venerada, entre
outras invocações, como Mãe do
Bom Conselho.
Hoje, em muitos lugares deste País,
imenso como um continente, são veneradas
imagens ou quadros de Nossa
Senhora do Bom Conselho. E “Bom
Conselho” é o glorioso nome ostentado
por uma cidade do interior do Estado
de Pernambuco. No convento
fundado nessa cidade existe um quadro
de Nossa Senhora, cultuado sob
a invocação de Mater Boni Consilii a
Genazzano.
Entre as múltiplas reproduções do
santo afresco, uma há que mostra ter
sido o Brasil objeto de especial proteção,
pois foi a própria Mãe do Bom
Conselho quem quis enviá-la.
Um brasileiro na Itália
Em 1760, o Rei de Portugal expulsou
de seus domínios de aquém e
além-mar a Companhia de Jesus. Integravam
a falange dos filhos de Santo
Inácio no ultramar, mais precisamente
no Brasil, dois irmãos, os noviços
Miguel e José. Eram da família
Campos Lara, uma das mais distintas
da cidade de Itu, no Estado de São
Paulo.
Queriam os dois noviços acompanhar
no desterro a seus irmãos de vocação.
A família, os amigos e os conhecidos
consideravam um exagero
que os dois irmãos, ainda tão jovens,
partissem para o exílio. Bem que podiam
fazer-se sacerdotes noutra ordem
religiosa… Árdua e penosa discussão,
na qual prevaleceu a fidelidade
ao chamado de Deus. Os irmãos
Campos Lara partiram enfim para
Roma, junto com os jesuítas.
Aqui aparece uma primeira dificuldade:
a Companhia de Jesus é dissolvida.
Como, então, tornar-se jesuíta?
Havia ainda algumas casas da
Companhia de Jesus nos Estados
Pontifícios, um reino direto dos Papas
naqueles tempos.
Então a solução para os jesuítas
do Reino de Portugal, expulsos pelo
infame Marquês de Pombal 4 de todos
os territórios da coroa portuguesa,
era esperar que pelo menos nas
terras pontifícias a Companhia continuasse
a existir, de maneira que
aqueles que tivessem desejo de ser
jesuítas ali, poderiam sê-lo.
André Gonçalves (CC3.0)
10
Considerando isso, os dois irmãos
Campos Lara resolveram ir para o
exílio.
Fechamento da
Companhia de Jesus
Na Itália, ao terminarem seus estudos
receberam a ordenação sacerdotal.
Pouco tempo depois faleceu Miguel.
Quanto a José, foi enviado por
seus superiores a vários lugares.
Porém, os governos da época vinham
exercendo fortes pressões para
que o Papa declarasse extinta a Companhia
de Jesus. As coisas chegaram a
tal ponto que, em 1773, Clemente XIV
fechou-a. Após treze anos de desterro,
apresentava-se agora uma situação
inesperada para o Pe. José de Campos
Lara.
Vejam a situação desse padre. Ele
esperava entrar na Companhia
de Jesus e ela é
fechada mais ou menos
por toda a parte, exceto
nos Estados Pontifícios.
Ele vai com seu irmão
para lá, começa a
fazer estudos, chega a se
ordenar sacerdote. Mas
durante esse tempo surge
um obstáculo: o irmão
que era seu apoio e
sua ajuda na santa intenção
de se tornarem ambos
sacerdotes da Companhia
de Jesus, morre,
e ele fica sozinho.
E as dificuldades continuam.
Era o próprio Vigário
de Cristo, a cujo serviço
se consagrara nas fileiras
de Santo Inácio, que parecia
afastá-lo para longe.
A vida não foi fácil
desde então. Era preciso
ter uma fé alcandorada
e um alto heroísmo para
perseverar em condições
tão adversas.
Papa Clemente XIV
Transcorreram assim os anos.
Completou-se um lustro, e depois
mais outro: dez longos anos sem família,
sem amigos, longe da pátria e
órfão de sua própria ordem religiosa.
Dez anos em meio a um mundo emoliente
e bajulador, que sussurrava a
cada instante:
“Esqueça os idealismos vãos! Deixe
os preconceitos do passado! Este é o século
das luzes e da liberdade! Procure
uma esposa – ou uma companheira –,
trabalhe com aparência de honestidade
e aproveite esta breve vida! Você ainda
é jovem e inteligente!…”
A Europa, na procura contínua do
gozo da vida, deslizava displicente rumo
aos horrores da Revolução Francesa
e às encarniçadas guerras napoleônicas.
O Papa Clemente XIV fechou
a Companhia de Jesus, de maneira
que mesmo esse toquinho de vela
que ainda estava aceso, foi apagado,
foi assoprado pelos lábios augustos
do Vigário de Cristo.
O que restava? Restava, ao que
parece, voltar para o Brasil. Mas, se
bem que a família quisesse muito isto,
ele não queria, movido com certeza
pela graça de Deus. Por causa
disso, sempre relutando contra o
curso dos acontecimentos heroicamente,
singelamente, mas invencivelmente.
Eu creio que seria o caso, algum
dia, de pensar num processo de beatificação
e depois de canonização
desse irmão Campos Lara.
Guiado por um Anjo,
retorna ao Brasil...
O inesperado encontro nas areias
da praia
Em 1785, fazia doze
anos que José de Campos
Lara vestira pela última
vez a batina – para não dizer
o uniforme – da milícia
de Santo Inácio.
Ou seja, depois de ter
sido ordenado padre, teve
de tirar a batina porque
a Companhia de Jesus
estava extinta.
E fazia vinte e cinco
anos que deixara o Brasil!
Certo dia passeava pensativo
por uma praia deserta.
O agradável rumorejar
das ondas era um suave
lenimento para suas dores
e preocupações.
De repente, depara-se
com um jovem que o aborda.
Trocam cumprimentos,
e o rapaz lhe oferece um
quadro a óleo representando
a Mãe do Bom Conselho,
dizendo-lhe que o levasse
para o Brasil.
O Pe. Campos Lara tinha
resistido até então
Divulgação (CC3.0)
11
Mater Boni Consilii
de voltar para o Brasil. De repente,
esse jovem lhe oferece
o quadro. Ele sente que aí há
alguma coisa da Providência
e aceita.
E ao mesmo tempo lhe
anuncia que no lugar onde
Ela fosse venerada erguer-se-
-ia um dia um grande colégio
jesuíta. Responde-lhe o surpreso
sacerdote não dispor de recursos
para a viagem. Mas o
jovem desconhecido garante-
-lhe que o comandante de um
navio prestes a levantar ferro o
admitiria gratuitamente. Consolado
com essa notícia, quer
o Pe. Campos Lara despedir-
-se de seu interlocutor, mas eis
que este desaparece ante seus
olhos!
Com certeza era um Anjo
que por ordem de Deus levava
esse quadro para vir para o Brasil.
Quadro pintado não se sabe onde.
Da própria beleza esplendorosa
da abóbada celeste?
Persuadido o sacerdote de que se
tratava de algum espírito celeste que o
procurava sob aquela aparência, dirigiu-se
ao cais e encontrou o navio indicado.
Seu capitão concordou com
Jacques-Louis David (CC3.0)
Papa Pio VII
insuspeitada facilidade em aceitá-lo
como passageiro gratuito. Tornava-se
realidade a primeira promessa que o
misterioso jovem da praia lhe fizera.
A travessia era longa nos navios daquela
época. Assim, pôde o Pe. Lara
rezar demoradamente diante da formosa
cópia da Mãe do Bom Conselho,
e pedir-lhe que o aconselhasse
muito sobre o que fazer dali
por diante.
Varão de desejos e
de longas esperas
Do porto de Santos dirigiu-
-se com o quadro para a sua
cidade natal, Itu. Seus pais, já
falecidos, haviam-lhe deixado
de herança uma chácara, onde
erigiu uma capela para venerar
a imagem.
A primeira parte da profecia
do misterioso personagem
estava cumprida. Ele chegara
são e salvo ao Brasil com o
quadro. Agora só faltava a restauração
da Companhia de
Jesus e a abertura de um colégio
em Itu.
Duas coisas dificílimas. Itu
era uma cidade pequena.
Era questão de confiar, rezar e esperar.
Quantas e quantas vezes nós ficamos
reduzidos a isso? Confiar, rezar,
esperar e receber!
Positivamente o Pe. Campos Lara
foi chamado por Nossa Senhora para
ser um desideriorum vir (cf. Dn 9, 23),
varão dos santos desejos e das longas
Divulgação (CC3.0)
Colégio São Luís em Itu, no final do século XIX
12
Arquivo Revista
esperas, à maneira do velho Simeão.
Não teve, no entanto, a oportunidade
de na terra cantar, como este profeta,
o “nunc dimittis servum tuum, Domine
– agora, Senhor, deixa partir o teu
servo em paz” (Lc 2, 29). Vinte e cinco
anos durara a espera na Itália, e muito
mais duraria no Brasil. “Aqui, nesta
chácara e sobrado – dizia a seus conhecidos
– ainda virão os jesuítas estabelecer
uma grande casa de educação”.
Certamente entre os seus ouvintes havia
céticos – “pobre coitado, pensariam
eles, não lhe fez bem tanto sofrimento”
–, mas também [havia] homens de fé
que notavam em suas palavras um timbre
profético.
Anos depois, a
profecia se realiza
Em 1814, quando se cumpriram
vinte e nove anos de sua chegada a
Itu, vieram notícias de Roma. O Papa
Pio VII restaurara a Companhia de
Jesus! Comovido, o Pe. Campos Lara
agradeceu à Mãe do Bom Conselho
o cumprimento de mais uma parte
da profecia. A espera, porém, continuava.
Ao completar trinta e cinco anos de
seu retorno às terras brasileiras, cerrou
Dr. Plinio em abril de 1994
Acima, Colégio São Luís na
década de 1970. Ao lado, quadro
de Nossa Senhora do Bom Conselho
da capela do Colégio São Luís
para sempre os olhos o Pe. José de
Campos Lara.
Ele morreu sem conhecer o
cumprimento último da profecia,
mas com certeza morreu em paz.
O seu olhar transpunha as próprias
portas da morte, e por visão
profética ele via que tudo
ainda se realizaria.
“Beati mortui qui in Domino
moriuntur – Bem-aventurados
os mortos que morrem no Senhor”
(Ap 14, 13). Sim, na paz do Senhor,
na paz com que ele sempre esperou
contra as esperanças humanas.
Ergue-se o colégio jesuíta, após oitenta
e sete anos
A chácara do Pe. Campos Lara,
com o sobrado e uma igreja apenas
começada, veio a pertencer, anos
mais tarde, ao Pe. José Galvão de
Barros França, seu sobrinho. Este sacerdote
exemplar doou a propriedade
à Companhia de Jesus, cujas atividades
no Brasil haviam-se reiniciado.
Nesse local, em 1868, os filhos de
Santo Inácio fizeram erguer um grande
colégio, concluído quatro anos
mais tarde.
Em 1872, o quadro de Mater Boni
Consilii, até então venerado na antiga
capela do Pe. Lara, foi entronizado
no altar-mor da nova igreja, anexa
ao colégio. Oitenta e sete anos haviam
transcorrido desde sua entrega miraculosa,
sobre as areias da praia italiana,
ao jesuíta brasileiro.
E quando este colégio da Companhia
foi transferido para a cidade de
São Paulo, em 1918, com ele foi também
a cópia da imagem de Genazzano.
v
1) Canonizado em 3 de abril de 2014.
2) SAINTE-FOY, Charles. Vida do Venerável
Pe. José Anchieta, da Companhia
de Jesus. São Paulo: Typographia
de Jorge Seckler, 1878, p. 7-8.
3) CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Mãe
do Bom Conselho. Lisboa: Centro Cultural
Reconquista, 1995, p. 192-196.
4) Sebastião José de Carvalho e Melo
(*1699 - †1782).
Divulgação (CC3.0)
Arquivo Revista
13
Mater Boni Consilii
Moyan Brenn (CC BY 2.0)
II
Primórdios de
uma devoção
Arquivo Revista
Inundado de consolação espiritual,
Dr. Plinio tomou contato com a história
do milagroso afresco da Mãe do Bom
Conselho de Genazzano, o que constituiu
um marco importante de sua devoção a
Ela, pouco antes de adoecer gravemente.
A
devoção a Nossa Senhora
de Genazzano eu a conheci
desde muito pequeno;
ela foi deitando raízes lentamente
em minha alma, de um modo muito
desigual, como são os processos
naturais, sem nada de artificial. Esse
quadro teve uma relação com minha
situação, menino ainda, da maneira
que passo a narrar.
No Colégio São Luís,
proximidade com a Mãe
do Bom Conselho
Eu era aluno dos padres jesuítas
no Colégio São Luís, onde estava
o quadro de Nossa Senhora
de Genazzano tido por milagroso.
Em maio, os alunos eram convidados
a comparecer à capela todos
os dias para celebrar o mês de Maria,
junto à imagem de Nossa Senhora
do Bom Conselho. Eu ia de muito
bom grado. Entrávamos todos em
fila, enchíamos a capela. Os padres
levavam muito tempo para pôr tudo
em ordem – os alunos brasileiros
não são fáceis; mexem-se e agitam-se
a todo momento… Afinal,
quando conseguiam ordená-los, iniciava-se
a cerimônia, mas eu já estava
há tempo olhando para Nossa Senhora
do Bom Conselho. Dava-se a
bênção do Santíssimo Sacramento e
havia mais alguns cânticos em louvor
da Santa Mãe de Deus, um dos
quais começava assim: “Neste mês
de maio, lindo mês de flores, de Maria
celebremos os louvores”. Do resto
eu não me recordo mais.
Chamava-me a atenção o fato de
Nossa Senhora carregar o Menino
ao colo com muito afeto, intimidade
e ternura, parecendo dirigir-Se
a Ele que, por sua vez, estava como
uma criança que Se deixa embeber
pelo carinho materno, todo deliciado
com a presença de Nossa Senhora
e com o afago que Ela Lhe dava.
14
Eu achava aquilo muito bonito! Era
Nossa Senhora e o Menino Jesus…
Não me lembro de haver recebido
uma graça especial, mas durante
o meu curso secundário, numerosas
vezes rezei com aflição diante dessa
imagem, pedindo a minha perseverança.
Ora, depois de concluir o colégio,
comecei a frequentar outras igrejas,
outros oratórios com diferentes imagens,
e a invocação da Mãe do Bom
Conselho me saiu um pouco, ou até
bastante, da memória.
Tomas T.
Um livro de piedade,
uma leitura fortuita
No ano de 1967, quando eu me
sentia com a saúde meio abalada –
sem haver, contudo, nada de definido
que justificasse uma desconfiança positiva
de que eu estava ficando doente
– nesse período caiu-me nas mãos,
não sei por que razão, um velho livro
a respeito da Virgem do Bom Conselho.
Creio que havia sido comprado
em um sebo, não me recordo qual a
gênese dele, mas o tenho atualmente
em minha biblioteca. Fora escrito por
um monsenhor do século passado. 1
Talvez ele tivesse sido um homem de
destaque em seu tempo, mas no nosso,
era desconhecido.
Eu estava sem outro livro de piedade
naquela ocasião, então comecei
a lê-lo à noite antes de dormir,
como tantas pessoas fazem.
Era um livro volumoso, de umas
trezentas ou quatrocentas páginas,
muito bem-feito, ilustrado, redigido
em um bom francês, mas num estilo
um tanto sentimental, cheio de exclamações,
com gosto de xarope de
certa literatura “heresia branca” 2 do
século XIX.
A obra era um pouco prolixa, contendo
uma larga descrição dos lugares,
das coisas, narrando com bastante vida
tudo quanto há de dizível sobre Genazzano,
inclusive todos os pormenores
possíveis e imagináveis pelos quais
nenhum de nós tem interesse, como
por exemplo, quais as origens romanas
daquele lugarzinho, sua história antes
de haver lá o afresco, que era um feudo
dos príncipes Colonna, que os árabes
haviam estado lá etc. Sobretudo o
que ele contava sobre os milagres e as
graças concedidas era muito bonito. E
o assunto me interessou, sentia gosto
por aquilo.
Eloquentes mudanças
de fisionomia
Afresco de Mater Boni Consilii, fotografado em maio de 2019
Eu continuei a leitura do livro e
verifiquei que o autor narrava um
fato notório em Genazzano: o quadro
de Nossa Senhora tem o dom
de falar às almas, parecendo alterar
o semblante sem que o rosto se movimente
em nada; é a expressão que
estimula os fiéis de um modo imponderável.
Ela se manifesta com frequência
aos seus devotos, exprimindo
ora uma alegria intensa, ora tristeza,
o que torna a imagem verdadeiramente
maravilhosa e a faz realizar
por essa forma sua missão do
Bom Conselho. Assim Ela comunica,
orienta, aconselha.
Li numerosos relatórios que faziam
parte do livro, de uma quantidade
incrível de pessoas que testemunhavam
esse fenômeno. E não só
o quadro de Genazzano, mas as reproduções
dele em outros lugares
também têm essa propriedade.
O Sr. João Clá esteve lá e mandou-
-me uma linda carta contando as impressões
dele ao pé da imagem, como
se modifica a fisionomia, a expressão,
naturalmente adequada ao estado de
15
Mater Boni Consilii
Arquivo Revista
O artista pediu licença ao padre
que tomava conta da igreja, foi até lá,
começou a pintura e viu que o afresco
variava tanto de expressão que ele não
conseguia pintar. A fim de fazer bem
seu serviço, os sacerdotes lhe permitiram
instalar em cima do próprio altar
o cavalete e a cadeira. Era um favor
extraordinário poder sentar-se ali
com todo o necessário para realizar a
pintura, olhando-a de perto.
Ao cabo de algumas horas, ele desistiu
do trabalho porque o afresco
começou a comunicar-se e a fisionomia
se modificava tantas e tantas vezes
que ele ficou na impossibilidade
de reproduzi-lo. O vigário pediu-lhe
então um relatório, e ele o escreveu
– está arquivado e figura no museu
de Genazzano –, confessando que
como a imobilidade é a condição para
a pintura, não se pôde fazer a reprodução,
tais eram as mutações fisionômicas
do quadro.
Consolação interna,
tranquilidade e distensão
Réplica do afresco de Mater Boni Consilii, presente em uma das casas de formação de Dr. Plinio
alma de quem está rezando lá. Ele
passou dez ou onze horas diante dela.
Parecer de um pintor famoso
O livro inclusive trazia o relatório
de um grande pintor italiano, famoso
no século XIX, que havia sido
pago por uma senhora abastada de
uma daquelas cidades ricas do norte
da Itália, se não me engano de Gênova,
para que fizesse um quadro a óleo
com a reprodução exata da imagem
de Nossa Senhora de Genazzano. Ela
o encomendara porque tinha recebido
graças e queria ter a cópia consigo.
Como se sabe, eu tenho uma vida
espiritual, graças a Deus, muito
compassada e serena, pouco dada a
arroubos e êxtases. Muitos já me viram
rezar, mas nunca me viram ser
transportado angelicalmente entre a
terra e o céu; eu permaneço com todo
o peso do corpo, ajoelhado sobre
a terra, sobre o genuflexório. Tudo é
calmo, tranquilo.
Ora, algo me chamava a atenção ao
ler esse livro: sem saber explicar a razão,
eu me sentia sempre atraído, aliviado,
inundado de consolação espiritual,
uma coisa extraordinária! Sentia
uma alegria de alma, uma satisfação
excepcional, uma leveza e uma esperança
inexplicáveis, muita tranquilidade
e distensão; a leitura me repousava,
me interessava, me distraía, embora
por vezes houvesse narrações de
fatos de importância mínima.
Portanto, não havia muita relação
entre essa alegria e consolação e
o texto que estava lendo. E cem vezes
pensava de mim para comigo:
“Por que razão isto me alivia, me dá
uma consolação interna, serena, mas
eficiente e possante, que tenho a impressão
de ser como o travesseiro
colocado debaixo de minha cabeça
em meio a tantas dores? Tranquilidade
e distensão sem raciocínio não
valem, eu quero um argumento para
esta situação”.
Eu não tinha até então nenhuma
relação especial com o afresco que
está em Genazzano. Mas, à medida
que eu ia progredindo na leitura, en-
16
Divulgação
Divulgação
Detalhes do livro La Vierge Mère du Bon Conseil, lido e sublinhado por Dr. Plinio
Arquivo Revista
trando no cerne da matéria, fui percebendo
a substância do assunto e
compreendendo ser um movimento
da graça, um favor, e que a devoção
a Nossa Senhora do Bom Conselho
de Genazzano era a devoção da
confiança, exatamente a virtude que
a vocação profética pede que pratiquemos
com mais intensidade.
Esse livro produzira em mim efeito
análogo ao Livro da Confiança. 3
Uma série de coisas das quais eu
Dr. Plinio com os membros do grupo de Belo Horizonte, no ano de 1967
conservara uma vaga ideia depois do
curso no Colégio São Luís me vieram
ao espírito. Então refletia: “A
graça sabe a razão, eu não preciso
saber. Desta invocação talvez eu ainda
receba alguma graça. Está aqui o
livro, vou continuar a lê-lo”.
E toda noite, antes de dormir, lia
um bom trecho, deliciando-me com
ele. Eu me deitava com tempo de sobra
para ler e depois adormecer.
Impressionou-me tanto aquilo tudo
que, levado por essa leitura, tive
desejos de conhecer Genazzano, onde
se encontra a imagem. Esse desejo
trabalhava minha alma, e mencionei-o
entre os dirigentes do grupo de
Belo Horizonte, meus amigos. Como
alguém andasse pela Europa – estava
em Roma –, mandei pedir que, passando
por Genazzano, me arranjasse
uma estampa de Nossa Senhora do
Bom Conselho para ter comigo.
Por fim, encerrei a leitura, lamentando-me
por notar que uma fonte
de consolações se tinha acabado.
Depois, eu me esqueci do fato... Fechei
o livro e pouco tempo depois
adoeci. Nessa ocasião houve uma
coincidência...
v
1) La Vierge Mère du Bon Conseil, de
Mons. Georges F. Dillon, sacerdote
originário da Austrália, o qual passou
um longo período em Genazzano,
sendo testemunha de alguns dos milagres
que lá se deram.
2) Expressão metafórica criada por
Dr. Plinio para designar a mentalidade
sentimental que se manifesta na
piedade, na cultura, na arte etc. As
pessoas por ela afetadas se tornam
moles, medíocres, pouco propensas à
fortaleza, assim como a tudo que signifique
esplendor.
3) Ver Revista Dr. Plinio n. 129, p. 24-25.
17
Mater Boni Consilii
III
Arrostando dificuldades
e provas com
fidelidade ilibada
Como antecedente de uma das
mais insignes graças recebidas por
Dr. Plinio encontra-se também uma
das situações mais dramáticas vividas
por ele. Provações, apreensões e
dissabores, associados à infidelidade
de seus seguidores, contribuíram para
minar sua saúde, enquanto lutava com
afinco por manter-se fiel à graça.
Arquivo Revista
Em 1967 eu sofri uma crise
de diabetes, doença que se
desenvolve em certas pessoas
por razões físicas, mas em outras,
por razões emocionais. A aflição,
a preocupação, o receio, uma
série muito grande de sofrimentos
alteram o funcionamento do pâncreas
e são determinantes no desencadeamento
dos excessos da doença.
Dissabores e apreensões
Tenho como certo de que minha
diabetes era fruto de uma série de
dissabores muito graves, relacionados
com o apostolado, mas causada
também por circunstâncias como, por
exemplo, apreensões que se aproximavam
e ora se realizavam ora não.
As que se realizavam conferiam uma
carga de ameaça especial às que não
Dr. Plinio em 6 de julho de 1971
se realizavam, de maneira que
a cada momento havia uma
ameaça iminente...
É como se a todo instante
passasse um homem por
uma sala e estalasse um chicote
para um prisioneiro e,
de vez em quando, o chicoteasse.
Cada vez que entrasse
o carrasco e estalasse
o chicote, o prisioneiro se
crisparia inteiro. É natural, porque
as ocasiões em que ele era chicoteado
deixavam-no muito alarmado.
A metáfora dos becos sem saída não
é muito completa para descrever a situação
diante da qual estávamos nos dois
ou três anos anteriores à crise de diabetes,
mas serve para ilustrar algo. Imaginemos
um conjunto de becos no fundo
dos quais é preciso ir abatendo os muros
para formar uma avenida, e uma
pessoa percorrendo esta avenida de
ponta a ponta; de vez em quando, nos
trechos mais inesperados do trajeto, vê
erguer-se um muro à frente, tomando
a avenida de lado a lado, e outro muro
também por detrás. A pessoa fica cercada...
Então ela derruba o muro que
está na frente e anda mais um tanto, até
outra parede se levantar.
18
Arquivo Revista
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Pôr do sol no Rio Amarelo, China
A trajetória do “rio chinês”
Eu creio que muitos talvez nunca
tenham ouvido falar no “rio chinês”
como a trajetória característica
da vocação profética.
Os rios chineses, como todos os
rios do mundo, tendem para o mar.
Mas, enquanto a maioria dos rios tendem
ao mar fazendo ligeiras ondulações
em torno de uma linha reta, alguns
dos rios da China, pelo contrário,
seguem o curso do modo mais caprichoso
possível. Caminham para frente
e quando o navegante pensa que está
se aproximando do mar, ele nota de
repente que está enganado, porque as
águas do rio fazem uma volta e refazem,
em sentido oposto, todo o percurso
que já tinham realizado. E mais
ou menos vai num zigue-zague, aproximando-se
do mar e depois voltando
para trás. Ora, os acontecimentos daquele
tempo se pareciam com o curso
de um desses rios.
Nós estávamos, naquela época, a
uma distância tal da “Bagarre”, 1 os
acontecimentos que então se passavam
pareciam tão improvavelmente
capazes de gerá-la, a ordem relativa,
mas muito aparente, muito lustrosa,
que reinava naqueles dias parecia
distanciar tanto o mundo do caos nos
bordos do qual ele se encontra hoje
que, realmente, era uma coisa improvável
para aqueles que julgam apenas
as probabilidades segundo os aspectos
humanos e terrenos. A distância
para percorrer entre a nossa situação
naquele tempo e a “ Bagarre” pareceria
uma distância infinita. Daí a alusão
aos rios chineses.
Ou seja, os fatos pareciam encaminhar-nos
para os acontecimentos preditos
por Nossa Senhora, mas, caminhávamos
um pouco, depois o curso
dos acontecimentos retrocedia, parecia
voltar para aquela ordem laica,
ateia, amoral, para aquela ordem
“hollywoodiana”, prenhe de ameaças
de comunismo, que haveriam de se
realizar de um modo tão íntegro, mas
tão diferente do que de fato se realizou,
que se tinha a impressão de que
nunca as águas do “rio chinês” chegariam
ao oceano da “Bagarre”.
Tentação de desespero
Isso nos levava a nos consolar e,
ao mesmo tempo, a sentir uma tentação
de desespero.
O consolo vinha da ideia de que,
por mais que parecêssemos distantes
dos acontecimentos prometidos em
Fátima, afinal de contas haveria de
chegar um dia que, pelo traçado dos
“rios chineses”, se chegaria ao mar e
este seria o mar da “Bagarre”.
No entanto, de outro lado, desolação.
Tendo em consideração que eram
tantos os zigue-zagues, tantas as voltas,
as pessoas se punham a pensar se
Dr. Plinio numa cerimônia
em 13 de maio de 1967
algum dia esse rio haveria de chegar
ao mar e se não seria uma ilusão de
ótica histórica pensar que fatalmente
a “ Bagarre” estaria como o mar na desembocadura
dos rios de nossas vidas.
Era essa a pesada interrogação
que caía sobre o Grupo. Dúvida que
está na raiz de muito entibiamento,
de muita desistência. Pelo menos de
muito “desafervoramento”, se assim
se pode dizer. Enfim, era um fator
continuamente atuante em sentido
oposto ao da graça dentro do Grupo.
19
Arquivo Revista
Mater Boni Consilii
Conferência de Dr. Plinio na Sede do Reino de Maria, na década de 1960
Princípio para esperar
a “Bagarre”
Essa constatação nos levava a um
ato de confiança.
Apesar de tudo ou quase tudo o
que nós víamos em torno de nós nos
tirar a esperança da “Bagarre”, havia
uma razão pela qual devíamos esperá-la.
Essa razão era de uma ordem
superior, transcendental, que passava
por cima de todas as objeções que
se lhe poderiam fazer. Era uma ordem
que supunha fé, que supunha
amor de Deus, e que, portanto, supunha
circunstâncias de alma que significavam
um verdadeiro abandono da
pessoa a todas as esperanças e vantagens
humanas, para navegar, navegar…
navegar nesse “rio chinês” que
se poderia chamar de rio do absurdo,
certos de que um dia os que mais tivessem
esperado, os que mais animosos
tivessem sido nessa navegação absurda,
de repente, numa volta de caminho
exclamariam: “Ali está o mar!”
O princípio que nos levava a esperar
a intervenção de Deus a respeito
de tudo poderia se enunciar assim: o
mundo estava imerso no pecado, no
qual ia se atolando cada vez mais numa
marcha tão uniforme, que para o
Inferno não havia “rio chinês”; era
para frente e para baixo, para a frente
e para baixo, arrastando o mundo
inteiro à perdição.
Diante dessa visão, a marcha rumo
à virtude e à santidade apresentava
uma “caracolagem” decepcionante
e impunha uma espera tremenda.
Mas não era possível que esse mundo
merecedor de castigo, e de um castigo
na proporção apocalíptica dos pecados
que cometia, não fosse punido.
E não é afirmar que se tratava de
uma punição na outra vida, a qual se
recebe depois de se ter morrido e sido
julgado. Essa punição vem, e é de
fé: se morreu em estado de pecado
vai para o Inferno e não tem por onde
escapar. Não se tratava apenas disso;
não são só os homens que pecam,
as nações pecam também. E, segundo
ensina Santo Agostinho, 2 quando
uma nação peca, é um pecador que
não vai ser castigado no dia do Juízo
Final. Os homens vão ser julgados,
mas, quando o mundo acabar,
não haverá mais nações e não haverá,
portanto, uma punição própria a elas.
Então, quando serão elas punidas?
Evidentemente nesta Terra, já que
na eternidade não há gregos, não há
turcos, não há curdos, nem há chineses,
nem há brasileiros ou europeus; existem
somente os indivíduos que se salvaram
e os que se perderam. Portanto,
nesta Terra as nações têm que sofrer.
Se não houvesse uma conversão
de todas as nações de maneira a configurar
um verdadeiro “Grand-Retour”,
3 então não haveria remédio; o
resultado teria que ser que um castigo
neste mundo haveria de destroçá-
-lo, pois estava se perdendo pelo mal
ao qual se tinha entregue.
Se era certo que o mundo estava
no pecado, se era certo que o pecado
se agravava cada vez mais, se era certo
que não havia esperança razoável
de uma emenda, então tinha que haver
a convicção certa de um castigo.
E sejam quais forem as aparências e
as circunstâncias, o castigo virá porque
Deus não falta.
Um grande ato de confiança
Esse ato de confiança em que os
acontecimentos previstos em Fátima
um dia viriam, em que por mais
que caracolasse o “rio chinês” um dia
ele desembocaria nas águas da justiça
de Deus e que nessa ocasião as nações
em que se reúnem os homens haveriam
de receber o seu castigo, era o
fundamento transcendental e verdadeiro
de nossa confiança na “Bagarre”.
O esquema era portanto: uma situação
que parece dever conduzir a
um fim; esse fim é o castigo pelo pecado,
castigo das nações e não apenas
o dos indivíduos. Porém, tudo
parece, na ordem concreta, palpável
dos fatos, conduzir ao contrário.
Em vista disso o que pensar?
Negar os princípios fundamentais
que nenhuma alma de fé pode
negar? Não pode ser. Mas negar o
que parece evidência? Não deve
ser. Mas é por onde se inclina a fraqueza
do coração humano, da maldade
humana.
Então há um determinado momento
dentro dessa provação ou das
provações desse tipo, em que a alma
tem que retesar a sua posição e dizer:
“Tornou-se mais improvável a
‘Bagarre?’ Mais eu creio nela!”
20
E diante do desafio, por assim dizer,
sarcástico do “rio chinês”, que vai
arrastando por imprevistos e por vaivéns
as minhas esperanças, eu confio
mais nas minhas esperanças do
que confio nas mentiras desse rio. Pode
ele caracolar como quiser, eu tenho
para ele uma resposta: “Minha
confiança é retilínea, porque minha
fé é verdadeira; eu creio, e porque eu
creio, eu creio também, rio mentiroso,
rio das mentiras, que chegará um
dia em que o mar vai devorá-lo!”
Esse esquema – em que o improvável
parece que é a realização de nossas
esperanças, ou, quase certo parece
o fracasso de nossas esperanças –, faz
aparecer diante de nós a necessidade,
pela oração e pela fé, de um recurso
empenhado à oração, ao pedido. Pedir,
pedir, pedir e sempre pedir mais,
e nós pediremos quanto mais recusado
for, até que a um momento as portas
do Céu se abrirão e os dias luminosos
da era do Reino de Maria entrarão
pela História adentro.
Foi uma conjuntura estritamente
individual e à qual
não vale a pena fazer maiores
referências, foi uma situação
dessas que exigiu de minha
parte um ato de confiança
todo especial.
Há provações as quais
achamos natural que cortem
o caminho de nossa vida. Elas
são do gênero do que esperávamos,
são axiológicas. Mas
há provações que nos perturbam
especialmente, porque
são provações que não se esperava
que uma determinada
pessoa tivesse que sofrer. Entretanto,
eis que essas provações
– elas são sempre permitidas
por Deus para o nosso
bem – cortam nossa vida como
um tropel de demônios e
parecem arrasar com todas as
nossas esperanças.
Essa era propriamente a
minha situação.
Graças torrenciais,
não correspondidas
Dr. Plinio na sala dos fundos da Sede da
Rua Martim Francisco, na década de 1960
O Grupo estava começando a florescer
e a se espalhar por todo o Brasil,
havendo já alguns contatos no exterior.
Eu tinha feito viagens para a
Europa e estabelecido relações várias
lá e na Argentina. Outros tinham realizado
viagens pela América do Sul.
Nós deixávamos de ser um grupo meramente
acantonado naquele minúsculo
prédio da Rua Martim Francisco,
para ser um grupo que tinha expressão
para fora, em vários lugares,
e prometia florescer ainda mais.
Por outro lado, naquele tempo já
as circunstâncias internas e externas
me davam muitas preocupações,
e eu vinha sofrendo havia dez anos
uma série enorme de provações.
Tinha havido toda a degringolada
primeira da qual se salvou um grupinho;
começavam a ser derramadas
graças e vinha a degringolada desse
grupinho; aparecia um outro grupo,
desandava também. Alguns participaram
dos “Giordanos”, 4 por exemplo.
Quantas graças! Choviam, mas
choviam à maneira de nuvens que se
transformavam em um rio que cai.
Lembro-me das reuniões da Comissão
de Opinião Pública – chamada
Comissão B –, realizadas aos sábados
de manhã, na Sede do Reino de
Maria. Eu nunca havia feito um gênero
de reunião na qual de tal maneira
as graças caíssem às catadupas. Eram
cascatas, uma coisa colossal. As pessoas
chegavam ávidas, vinham correndo
dos aviões, dos trens, dos automóveis,
para alcançar uma reunião
inteira ou ao menos parte dela. Faziam
os maiores sacrifícios para estarem
presentes. Se eu, por alguma razão,
quisesse excluir alguém daquelas
reuniões, daria uma crise por onde
a pessoa era capaz de abandonar o
Grupo, e com argumento: “Faz muito
bem à minha alma, portanto, não
quero ser privado disso”.
Arquivo Revista
Falta de espírito
metafísico e filosófico,
penetrado de amor
No entanto, quando se tratava
de falar e debater sobre
os temas, de eu notar que
uma reflexão tinha caminhado,
havia uma espécie de abstenção
pela qual me dava a
impressão de entrar numa câmara
onde havia uma série de
pessoas com a mão aberta e o
braço estendido, mudas e de
olhos fechados. O movimento
pessoal de adaptar-se, de interessar-se
pelas questões levantadas,
de adotar um espírito
metafísico, filosófico, pelo
qual se penetra com amor,
era uma questão muito mais
difícil e mais rara, de maneira
que ficava uma espécie de
desconexão entre o meu planejar
e o agir de todos.
21
Mater Boni Consilii
À esquerda, membros do grupo da
Argentina, na década de 1960.
Abaixo, Dr. Plinio com os membros do
grupo de Belo Horizonte, em 1967
Arquivo Revista
Arquivo Revista
E, com base nisso, uma falta de
entrosagem que sou o primeiro a lamentar.
Eu, quando procurava intervir
para pedir a alguém um serviço
ou outro, a pessoa não sintonizava
bem, porque não era para onde suas
cogitações estavam voltadas. No
campo primordial, em vez de assumir
esse estado de espírito filosofante,
de reflexão de alto padrão, havia
uma espécie de abstenção, que correspondia
a um defeito presente no
espírito brasileiro, “do mar às cordilheiras,
do Prata ao Amazonas”. 5
Exaurindo o cálice por
fidelidade à graça
Eu não previa que fosse adoecer,
mas lembro-me que, pouco antes de
minha diabetes ter sobrevindo, fiz
uma reunião na qual estavam presentes
todos os membros do Grupo; não
sei por que não se realizou na Sede
da Rua Pará, mas na sala do fundo da
Sede da Rua Martim Francisco.
Nessa ocasião, cheguei a dizer a
eles o seguinte: “Nossa reunião não
tem futuro. Tenho a impressão de que
os senhores não aproveitam nada e a
cada vez que venho é como se eu estivesse
diante de uma série de múmias.
Entro na sala, distribuo umas tantas
pérolas depositando-as na concha das
mãos. Na próxima reunião, vejo que
não frutificou nada, não deu em nada,
não perdeu nada.
Conservaram as pérolas,
não jogaram fora, mas isso não
lhes faz bem nenhum, porque são como
mortos”.
Eles tomaram com inteira normalidade;
saíram contentes escolhendo
os restaurantes nos quais comeriam
e logo pensando como seria o jantar.
Faziam daquilo uma fruição, na melhor
das hipóteses.
Ora, eu chegava a essas reuniões
muitas vezes atrasado, no momento
que podia, por ter ido dormir tardíssimo
na noite anterior, pelo eterno
atender de gente. Não tinha recursos
físicos, já com a saúde minada
sem o saber, para me levantar antes
da hora a fim de chegar lá.
Eu sentia que algo em mim ia se
debilitando cada vez mais; no entanto,
julgava que, com minha constituição
robusta, eu venceria aquele mal-
-estar. E como eu tinha a impressão
de que as graças fluíam às cascatas
na reunião, eu comparecia exausto,
pensando: “Se não fossem estas graças,
eu pecaria fazendo tais exposições,
porque estou prejudicando minha
saúde. Mas há tantas graças, que
fico com remorso de interrompê-las”.
As reuniões da Comissão B terminavam
tarde, eu chegava em casa
aos sábados a horas malucas para
almoçar. Ficava em seguida conversando
com mamãe, tratando de
distraí-la e entretê-la dentro da solidão
dela, e passando daquele extremo
para o mundinho dela com
uma imensidade de carinho recíproco,
mas, muitas vezes, vociferando
carícias, para depois cair meio desmaiado
na cama e me levantar para
a próxima reunião.
Eu sentia que ia afundando, afundando,
afundando, dando de mim e
vendo a inutilidade… Minei minha
saúde, não só por isso, mas isso concorreu.
Não vamos dramatizar nada.
O fato concreto é que, quando adoeci,
a Comissão B estava por morrer.
Encerrei-a e tive mais facilidade em
fazer isso do que teria em colher a flor
de uma árvore. A atitude unânime foi
de conformidade, de um silêncio completo
com essa decisão. Todos levaram
a vida normal, sem mais lamentações...
Se um homem tivesse pisado
uma formiga, a reação seria a mesma;
não sentiram a menor dor pelas reuniões
terem acabado, e ninguém me pediu
para retomá-las. Era um dom tão
pouco prezado! Não se pode calcular
como isso para mim foi lancinante.
O duro peso do isolamento
Os membros que compunham a
Sede da Martim, quando os conheci,
eram todos ricos e levavam uma vi-
22
da fácil, com uma posição social muito
boa. Um deles, particularmente, tinha
uma situação esplêndida. Ora,
um membro novo do Grupo, que naquela
época servia como empregado
na fazenda de Amparo, me contou
o que eu já pressentira: quando
eu ia à fazenda, baixava um chumbo
sobre eles por onde não ficavam alegres.
Eles não se lamentavam, mas
ele notava da parte de todos um peso.
Quando eu saía, um alívio: eu tinha
ido embora. Isto era eu entre aqueles
que tinham deixado tudo para me seguir…
Era o peso do isolamento.
Porque eu era, na relatividade das
coisas, completamente fiel, donde vinha
a recusa. Eu poderia citar, neste
sentido, dezenas de fatos. Vê-se como
o homem fiel é rejeitado, não escapa.
Nosso Senhor foi rejeitado, todos
os homens verdadeiramente fiéis
também o foram. Era a lamentação
de São Pio X: “De gentibus nos est vir
mecum”. 6
A triste derrocada de almas
Depois, era o convívio pouco ameno
de uns com os outros, problemas
individuais, perigo de abandonarem
o ideal, coisas muito desagradáveis...
Crises internas dentro do Grupo iam
fazendo com que vocações das mais
promissoras entrassem em derrocada.
Uma, duas, três. E o meu tormento
era esse: naquele tempo o Grupo
era muito menor, mas tinha várias almas
em provação grave. E as almas
que estavam nessa situação eram especialmente
chamadas para um alto
padrão de virtude, uma correspondência
à graça muito boa etc.; era
o contrário do que estava se dando.
Sem contar que eram almas muito especialmente
queridas por mim e que
sofriam essas tentações, essas derrocadas,
essas coisas tão, tão e tão penosas.
E isso se dava com várias, mas
especialmente com algumas e com
o perigo de desedificar e de arrastar
para trás todos os outros.
E o Grupo era tão pequeno que
se alguns abandonassem nossas fileiras
podia dar um desânimo em todos
e dissolver o Grupo. Isso tudo me
causava um receio muito grande pelo
futuro do Grupo. Era a minha vocação
que se arrebentava.
Inundado de aflição e tristeza
pelo aguilhão da consciência
Há uma fotografia minha no quarto
de mamãe. Quando ela foi tirada
eu pensei: “Eu devo dar a impressão
de um homem inundado de calma
e bem-estar, e alguém que olhe
dirá: ‘Quanto vale a consciência tranquila!’
Isso é verdade até uma meia
periferia do meu ser, mas daí para
o fundo eu sou um homem inundado
de aflição e de tristeza, o que ninguém
vai perceber”. Era por causa da
situação do Grupo.
Sobretudo, precisamente, o declínio
das graças de 1967 me deixou num
desapontamento enorme... Se a graça
da Sagrada Escravidão não tivesse entrado
em declínio, creio que eu, talvez,
não teria sido acometido pela diabetes.
Em minha família ninguém sofre
desta doença, o único sou eu.
Ora, o que me levou mesmo a tal
estado foi o receio de não corresponder
à vocação. Nesse quadro de
conjunto eu era sempre perseguido
pela ideia de haver alguma falta, não
pecado mortal, porque a pessoa sabe
se o cometeu ou não, mas alguma infidelidade
grave, que Nossa Senhora
levasse em consideração para permitir
que a toda hora estivesse ameaçada
de ruína a obra d’Ela.
Eu raciocinava da seguinte maneira:
“De acordo com D. Chautard,
se o chefe de uma obra recebe graças
e se a vida espiritual dele está em ordem,
ele pode ser o canal das graças
para aqueles a quem ele está orientando.
Se isto é assim, eu devo ser o
canal das graças para estes que estão
aqui. Ora, parece que este canal está
entupido, porque não vejo as gra-
Arquivo Revista
Arquivo Revista
Dr. Plinio na Sala da Mesa da Sede do
Reino de Maria, na década de 1960.
Normalmente, as reuniões da Comissão B
eram realizadas neste local. À direita,
a mesma sala, vista de outro ângulo.
23
Mater Boni Consilii
ças produzirem efeito; logo, a culpa
deve ser minha. Então, chegou a hora
de meu exame de consciência, de
pensar no mea culpa. 7 De mim para
comigo tenho de ser implacável.
Eu posso ter misericórdia e condescendência
com todos os homens da
Terra. Comigo, não! Tenho que ser
o meu próprio tirano. Agora, vamos
ver: preste suas contas!”
Eu me examinava muito para ver
se encontrava o defeito que poderia
estar na raiz do problema. Para
mim esse era o pior dos tormentos,
porque fazer o sacrifício que eu tinha
feito a favor dessa obra – praticamente
sacrificar minha vida – para
vê-la ruir por presumível culpa
minha… nem sei o que dizer. Primeiro,
vê-la ruir era o mais grave de
tudo. Em segundo lugar, vê-la ruir
por culpa minha… Era verdadeiramente
atroz.
Queda na Rua
Martim Francisco
Além disso, havia certas coisas
que impressionavam do modo mais
penoso, parecendo confirmar essa
sensação. Lembro-me de que certo
dia vínhamos a pé, subindo pela
Rua Martinico Prado. Era noite. Estávamos
conversando a respeito da
possibilidade de ser um castigo essa
encrenca contínua de nossas coisas,
e quando viramos na Rua Martim
Francisco, tropecei numa raiz
de árvore que tinha por debaixo do
calçamento e caí de bruços no chão.
Eu andava com muito ímpeto antes
do desastre, portanto, meus tombos
eram impetuosos. E nesse momento,
toda a iluminação pública se apagou,
por uma coincidência.
Pode-se compreender como isso
era algo impressionante e torturante!
Um tormento… Eram necessárias
razões muito firmes para aguentar
o tranco. Eu tinha quase 60 anos
naquele tempo.
v
1) Do francês: conflito desordenado e
profundo. Palavra usada por Dr. Plinio
para se referir ao grande castigo
de Deus à humanidade, se esta não se
voltar para Ele, profetizado por Nossa
Senhora em Fátima.
2) Cf. Santo Agostinho. A cidade de
Deus, Livro I, cap. IX
3) Do francês: grande retorno. No
início da década de 1940, houve
na França extraordinário incremento
do espírito religioso
quando das peregrinações de
quatro imagens de Nossa Senhora
de Boulogne. Tal movimento
espiritual foi denominado
de “Grand-Retour”, para
indicar o imenso retorno daquele país
a seu antigo e autêntico fervor, então
esmaecido. Ao tomar conhecimento
desses fatos, Dr. Plinio começou
a empregar a expressão “Grand-
-Retour” no sentido não só de “grande
retorno”, mas de uma torrente
avassaladora de graças que, através
da Virgem Santíssima, Deus concederá
ao mundo para a implantação do
Reino de Maria.
4) Segundo seu costume, Dr. Plinio,
após fazer sua última conferência do
dia e atender a algumas consultas,
saía para fazer uma refeição ligeira
no Giordano, um dos poucos restaurantes
que funcionavam na noite paulistana.
5) Palavras iniciais do Hino das Congregações
Marianas.
6) Do latim: “Entre todos os povos não
há nenhum homem comigo”.
7) Do latim: minha culpa.
Arquivo Revista
Arquivo Revista
Vista da fazenda de Amparo. Em destaque, Dr. Plinio no mesmo local, em agosto de 1968
24
Mater Boni Consilii
Luciana Vaz
IV
No revés da doença
Em meio a uma forte crise de diabetes, muitos
sofrimentos espirituais assaltaram Dr. Plinio, entre
eles estava o sentir-se abandonado. O crescimento de
sua obra é o sinal patente da realização da esperança
que não deixou esmorecer naquele período.
Estavam as coisas
nesse pé quando
comecei a sentir a
saúde abalada.
Primeiros sinais do
abalo na saúde
Como eu era muito forte
e tinha uma aparência boa e
saudável – não de um Hércules,
mas de um homem
muito gordo, aliás –, ninguém
julgava que eu estivesse
mal de saúde. Eu então
pensava ser impressão e
passava por cima. Ora, sentia-me
de fato cada vez pior.
Durante esse período
emagreci, e julguei que se
devia aos aborrecimentos
e padecimentos. Enquanto
essa situação se desenrolava,
mamãe adoeceu, com
algo ligeiro, e chamei o Dr.
Brickman 1 para examiná-
-la. Enquanto ela falava com
Arquivo Revista
Dr. Plinio no ano de 1967
ele, quis acompanhar a consulta
para ver como estava
correndo; Dona Lucilia estava
já muito idosa, poucos
meses a separavam do fim .
O médico cumprimentou-
-me, sempre muito afável,
olhou e disse-me: “Plinio,
como você emagreceu de repente!
O que você tem? Estou
achando-o diferente”.
Pensei: “Eu tenho minhas
razões para estar mais
magro e não vou dizer para
ele!” E respondi: “É, não sei
o que eu tenho”. Ele acrescentou:
“Você deveria fazer
um exame para ver como está
o açúcar no sangue. Deve
ser diabetes.” Eu disse:
“É, vamos ver”. Não fiz nada,
nem me passou a ideia
de que eu pudesse realmente
estar com diabetes.
E assim caminhei por vales
e montes, coles e colinas
até o momento em que
25
Mater Boni Consilii
Arquivo Revista
se formou, de repente, uma espécie
de tumor, uma espinha de tamanho
monumental no pé – é prosaico dizer
–, impedindo-me o movimento. Se
eu pisasse, machucava ainda mais,
então permanecia em casa. A infecção
se transformou rapidamente em
começo de gangrena.
Discrição filial nas
vicissitudes da doença
Eu não queria dar a mamãe nenhuma
preocupação, pelo empenho
em prolongar-lhe a vida o quanto
possível. Era o meu papel de filho,
sobretudo filho de uma tal mãe.
Lembro-me de que não querendo
que ela percebesse minha dificuldade
em caminhar, não querendo comprar
muletas, mandei comprar duas
vassouras e me locomovia em casa
de um lado para o outro apoiado na
parte de palha, como se fossem muletas.
Quando mamãe me via, para
ela não notar, eu empurrava as vassouras
de lado e andava com o pé
machucado, o que apenas piorava a
minha situação.
Nas refeições, eu entrava na sala
de jantar pela copa, sentava-me
na cabeceira que dava as costas para
o quadro de minha bisavó, e mamãe
sentava-se de frente à Praça Buenos
Aires. Como ela estava com a vista
comprometida, com catarata muito
adiantada, não me percebia entrar.
Eu conversava com ela, saía, e passava
o dia em casa, meio deitado. E ela
pensava que eu estivesse estudando,
porque me via ler o tempo inteiro.
Diagnóstico comprovado
Eu notava que ia piorando, mas o
Grupo estava numa tal situação que,
se eu brecasse o apostolado para me
tratar, cairiam
alguns pedaços
da parede.
E, então, eu
ia protelando.
Tudo isso criava
um clima de
crepúsculo sobre
mim, uma coisa medonha. Não
se pode imaginar que melancólico
foi para mim esse período.
Afinal de contas, chegou um momento
em que não pude mais me levantar.
Houve certos sintomas que
me levaram a chamar os médicos de
minha confiança, os quais me examinaram
e diagnosticaram um acesso
violentíssimo de diabetes, que determinara
a infecção no pé.
Lembro-me de mim mesmo deitado
na cama e minha irmã, que tomaria
uma parte muito ativa na minha
cura, entrar no quarto e dizer: “Os
médicos mandaram fazer um exame
de sangue, mas não se assuste com o
resultado, você está com 525 miligramas
de glicose”.
A taxa normal de uma pessoa costuma
ser aproximadamente 110 ou
120, segundo a tabela. E eu estava
cinco vezes acima do normal, uma
coisa tremenda. O médico alertou:
“O senhor está com diabetes adiantadíssima,
caminhando para o coma
diabético”.
Durante esse período mais grave,
para não criar um clima de drama,
fingia não pensar na situação de minha
doença, apesar de perceber que
Arquivo Revista
Acima, Hall
de entrada do
apartamento de
Dr. Plinio, ao fundo
e à esquerda, vê-se a
porta de acesso para
a sala de jantar.
Na foto da direita,
sala de jantar
do apartamento
de Dr. Plinio
26
Arquivo Revista
Dr. Plinio em agosto de 1968
estava com a gangrena na ponta do
pé, e não podia deixar de refletir na
possibilidade de ela tomar conta de
meu corpo de um momento para outro;
portanto, era preciso fazer uma
operação, já que ela não retrocedia.
Eu não dizia nada, era algo que todos
comprovavam, e mais valia a pena eu
criar nos meus próximos a ilusão de
que eu não estava preocupado.
Como a casinha
abandonada…
carrasco do Ancien Régime, que ninguém
visitava.
Eu olhava e pensava: “Eu sou como
essa casa, sozinho, no meio de
um campo vasto, o qual não tem nada
a ver comigo. Se eu morrer agora,
o que eu deixo de minha vida é isso.
Passei pela vida e deixei uma casinhola:
a minúscula TFP de hoje em
dia”. O Grupo naquele tempo era
pequeno.
Mas, nas horas de ajuda de Nossa
Senhora, me vinha ao espírito a seguinte
reflexão: “Há de vir um dia
em que, pelo contrário, as pessoas a
encherem esta casa serão tão numerosas
que ela vai ficar escangalhada,
com portas quebradas, janelas arrebentando,
paredes cambaleando, pela
pressão de dentro para fora!”
Depois me vinha outra ideia: “Não
se entregue a essas considerações de
caráter otimista! Vá para frente!”
Atualmente, entro na Sede do Reino
de Maria 2 e a encontro estalando
de cheia, e me lembro dessa esperança,
a qual era uma espécie de prelúdio
da graça de Genazzano. Então,
ser sugado e ter isto arrebentado é a
realização de uma esperança. É para
vermos como devemos confiar!
No Hospital Sírio-Libanês
Gangrena na ponta do pé, taxa altíssima
de glicose, regime alimentar,
preocupação constante. Uma noite o
médico, minha irmã e outros a passaram
em claro aplicando injeções
sucessivas de insulina em mim.
Contou-me o médico que houve
um determinado momento no qual
dei sintomas fugidios de estar em perigo
de morte. Como passou logo,
ele não falou em Unção dos Enfermos,
mas estava a dois passos disso.
Mais um pouco e eu ficaria entre a
vida e a morte, e seria preciso chamar
um sacerdote, de tal maneira o
estado era grave.
Por fim, piorei tanto, que se tornou
necessário levarem-me logo ao
hospital, para me fazerem uma cirurgia.
Corria o risco de afetar a região
que vai do joelho ao tornozelo,
portanto, havia a perspectiva da amputação
de parte de uma perna.
Levaram-me de ambulância ao
Hospital Sírio-Libanês, tarde da noi-
Arquivo Revista
Eu ficava horas deitado na cama,
com o pé imóvel, sem ter o que olhar
a não ser um quadrinho que tinha
em frente à minha cama.
Era uma lembrança de alguém
que o desenhara, não sabemos bem
quem, talvez um colega. Não era um
grande quadro, não tinha valor artístico
nenhum, mas era bonitinho e
bonzinho e representava a ondulação
de um terreno verdejante. Uma
paisagem rural, com umas florezinhas,
em certa parte do panorama
uns eucaliptos e mais ao longe, no
fundo de uma dobra em que a terra
vai fazer outro movimento, uma casinha
inteiramente vazia. Dava a impressão
de que ali podia morar um
Quadro no quarto de Dr. Plinio, objeto de sua análise durante a convalescença
27
Mater Boni Consilii
Arquivo Revista
Hospital Sírio-Libanês, São Paulo
te; operaram-me a altas horas, e
aconteceu-me uma coisa das piores
que pode suceder: acordei durante a
operação. Lembro-me ainda de que
olhei a sala e percebi que estavam remexendo
em meu pé; não perguntei o
que era, o que não era. Imediatamente
me deram um remédio para dormir
de novo e não sentir as dores naturais
de uma cirurgia.
Fui depois conduzido a um quarto
do hospital, no qual acordei já muitas
horas depois. Percebi que a operação
terminara e graças a Nossa Senhora
correra muito bem. No entanto,
não sabia o que havia sido feito,
não tinha ânimo nem cabeça para
perguntar, pois a cirurgia deixa um
certo desvario.
Eu não conhecia as circunstâncias
de saúde exatas em que eu estava. Tinha
sido transferido ao hospital para
fazerem o que se chama curetagem,
uma espécie de intervenção cirúrgica
para verificar as condições locais. Os
médicos não me contaram, minha irmã,
minha sobrinha, os membros do
Grupo não contaram também que
havia sofrido uma amputação. Pelo
que me tinham dito, iam fazer apenas
uma drenagem no pé para ver o que
tinha gangrenado ou não. Como eu
não sentia a menor dor, nem desconfiei.
Só soube que houve uma amputação
ampla muito depois, no dia em
que me deram por curado, embora a
cicatriz ainda estivesse aberta.
Sob a proteção de Nossa
Senhora Auxiliadora
Um dos médicos que tinha vindo
a São Paulo para tratar de mim ia
partir daí a pouco, porque a missão
dele estava encerrada. Ele foi me fazer
uma visita à noite, a qual achei
normal, era um amigo que ia embarcar
e fora me visitar; já não era uma
visita de médico. Naquele vai-e-vem
não prestei atenção que minha irmã
havia ficado até o jantar em casa,
coisa que ela nunca fazia. Nessa circunstância,
ambos foram contando
sobre a operação. Felizmente apenas
uma parte do pé fora amputada.
Foi afeto deles, não precisavam
ter levado os cuidados até esse ponto,
podiam ter me ter dito no duro
porque eu não me abalaria, como de
fato não me abalei.
O que é curioso e contraditório,
dessas contradições próprias ao espírito
humano, é que apesar de tudo
quanto eu tinha lido no livro de
Genazzano meses antes, não me passou
pela cabeça fazer uma invocação
a Nossa Senhora de Genazzano. A
minha atenção saiu um pouco do assunto
e minhas invocações todas foram
a Nossa Senhora Auxiliadora, à
qual eu mais recorria naquele tempo;
a Ela rezei muito. Mas a Nossa
Senhora do Bom Conselho, nada. v
1) Abrahão Brickman, médico particular
de Dona Lucilia.
2) Localizada na Rua Maranhão, no
Bairro Higienópolis.
28
Mater Boni Consilii
V
A “graça de Genazzano”
Insung Jeon (Getty Images)
Dr. Plinio se encontrava em grande perplexidade... “Tudo
está acontecendo de modo tão atravessado em nosso
apostolado, tão diferente do que sempre esperei. Não será
por minha culpa? Como ficará a derrota da Revolução?”
Em meio a essas e outras pungentes cogitações, ao fitar
uma estampa da Mãe do Bom Conselho de Genazzano,
ele teve, inexplicavelmente, uma impressão viva, direta,
de que as promessas de Nossa Senhora se realizariam.
Durante o período em que
permaneci no hospital,
encontrava-me perplexo
com meu estado de saúde, porque
nunca tinha adoecido. Eu era, e ainda
sou, graças a Deus, um homem
muito forte, entre outras coisas, com
um apetite fenomenal. De repente
caí enfermo e logo sofri a primeira
operação de minha vida.
A maior provação da vida
E dizia de mim para comigo:
“Que esquisito aparecer para mim,
um homem tão robusto, esta doença
que nunca houve em ninguém de
minha família nem do lado paterno,
nem do materno. Não entendo
por que ela me apareceu. Se o indivíduo
é extraordinariamente glutão
de doces, e então abusa, pode aparecer-lhe
uma diabetes, mas não é
o meu caso, que sempre fui muito
mais interessado em comidas salgadas…
Como algum doce, mas não
sou grande entusiasta deles”.
E naturalmente me veio ao espírito
a ideia de que eu poderia morrer,
havendo razão para temer, pois já estava
com sessenta anos. Eu não tinha
medo da morte. A principal preocupação
era deixar a minha obra inacabada,
morrer antes de ter cumprido
minha vocação, sem ter realizado o
que pareceria ser do desejo de Nossa
Senhora; e que houvesse, portanto,
um castigo d’Ela para mim, por
algum defeito meu. Esse era o meu
pavor, o que eu mais receava. Quando
se tem a consciência tranquila, a
morte é uma entrada no grande repouso,
na glória de Deus. Mas eu sabia
que ainda tinha muito a fazer. E
estava tomado por essa provação interior
muito forte.
Diante de qualquer fato surpreendente
que nos sucede, nós devemos
sempre nos perguntar se não temos
culpa por ele. Toda pessoa que
tem consciência da debilidade humana
neste vale de lágrimas deve se
fazer a si mesma essa pergunta. Evidentemente,
eu era obrigado a fazê-
-la, e ela se me apresentava de maneira
angustiante:
“Tudo está acontecendo de modo
tão atravessado em nosso apostolado,
tão diferente do que sempre esperei;
logo, alguma coisa está errada. Não
será por minha culpa? Será que eu fiz
algo que desagradou a Nossa Senhora
e pelo que Ela resolveu tirar-me a
vida? O que eu fiz? Não terei eu cometido
alguma infidelidade que me
mereça como castigo que minha missão
seja assim cortada ao meio? Será
um castigo? Como fica minha vocação?
Quem sabe se não a realizarei
e morrerei agora?”
Essas perguntas pungentes eu poderia
respondê-las, mas minha consciência
não me acusava nada de positi-
29
Mater Boni Consilii
Arquivo Revista
primento da profecia; não seria eu o
miserável, o infiel, o indivíduo péssimo,
por cuja infidelidade – pequena
é verdade, mas quando de mim se
deveria exigir uma fidelidade total –
as coisas não estavam se dando como
deveriam?
Poderiam acontecer duas coisas:
uma, que Nossa Senhora enviasse
um outro para cumprir minha missão.
Se eu soubesse que ela se realizaria,
diria: “Minha Mãe, eu me entrego
nos braços de vossa misericórdia
insondável. Expiarei confiando
no vosso perdão”. E depois de um
Purgatório mais ou menos longo, eu
ainda teria a alegria de ver que aquilo
que eu não tive valor para fazer,
ao menos um outro realizou, e Nossa
Senhora foi bem servida.
No entanto, o pior seria Nossa
Senhora designar um homem para
uma missão, ele não a cumprir e Ela
não enviar outro, sendo este mesmo
eternamente responsável pela missão
não cumprida.
Considerar a extensão de nossa
missão e o vazio que haveria se a
TFP não a cumprisse; as razões que
eu tinha de temer que eu, morrendo,
ela ficasse gravissimamente prejudicada
ou – causa-me horror pensar –
se dissolvesse e, como consequência,
as repercussões desfavoráveis que isso
teria sobre o andamento da Causa
ultramontana; que o plano, portanto,
a derrota da Revolução, não
se realizaria por infidelidade minha,
rachava-me literalmente no que tem
de mais profundo na minha alma.
Compreende-se que, a menos que
eu não tomasse a sério minha própria
missão, assim deveria agir.
Estava nessa perplexidade...
No hospital, a entrega
da estampa
Estampa de Mater Boni Consilii, recebida por Dr. Plinio como presente no hospital
vo a esse respeito. E a questão era que
há uma expressão da Escritura que fala
do pecado oculto, 1 o qual o indivíduo
pode ter cometido sem o perceber,
uma atitude desagradável a Deus
que torna a alma passível de castigo,
sem que o homem tenha a respeito dela
uma noção clara. Não se trata aqui
de um pecado no sentido de culpa teológica,
mas de uma infidelidade que
pode provocar um castigo.
Às vezes um defeito moral do
profeta pode determinar o não cum-
Em meio a esse sofrimento, muito
aborrecido, lembro-me de que certo
dia estava no quarto do Hospital Sírio-Libanês,
sentado, deixando passar
o tempo, como fazem os enfermos,
conversando com alguns membros
do Grupo que tinham ido me visitar.
Eu já me sentia bem melhor.
Eram cerca das seis da tarde e me
encontrava perfeitamente acordado,
sem estar sob a ação de remédios,
como se diz em latim compos mei, 2
tanto senhor de mim quanto se vê
que estou no momento em que falo.
Quando, enfim, um deles apanhou
um rolo de papel e me disse:
“Olhe! Aqui está a estampa de Nos-
30
sa Senhora de Genazzano que o senhor
mandou pedir na Itália. Nós a
trouxemos para o senhor”.
Era um amigo meu, membro do
grupo de Minas, que viajara à Europa
por aquele tempo e me trouxera
a estampa a pedido meu. E eles fizeram
a amabilidade de me levar lá, a
fim de animar-me no estado em que
me encontrava, como se faz a um doente
a quem se procura mostrar coisas
boas, piedosas, que animem.
Quando me apresentaram, eu estava
longe de me lembrar do livro
sobre Genazzano que tinha lido antes
de adoecer. Não dei muita atenção
àquilo, manifestei interesse, mas
sem esperar nada de extraordinário,
julgando que veria uma estampa popular,
comum. Tiraram-na de um canudo
e a desenrolaram. E o
que eu vi?
Um sorriso e
uma mensagem
Quando me deparei com
ela, se deu algo de inesperado:
eu senti uma consolação,
um atrativo, tive a sensação
singular de que Nossa
Senhora de Genazzano
me olhava com afeto, com
muito amor e sorria para
mim, não fisicamente, mas
pelo olhar, com um sorriso
inexcedivelmente bondoso.
Eu tenho certeza que a
Virgem na estampa mudou
de fisionomia quando eu a
fitei. A expressão d’Ela era
materna, amável. E, sem
me falar, o olhar d’Ela, o
jogo de fisionomia, me comunicou
algo de um modo
muito firme, nítido, como
se Ela estivesse dizendo no
interior da minha alma:
“Meu filho, pode haver
muito contratempo que te
faça sofrer. Tu ainda passarás
por muitas situações
difíceis, nas quais te julgarás perdido;
muitos reveses te acontecerão e
te darão a impressão de que a vocação
não se realizará. Mas, está tranquilo,
não temas, não te incomodes,
caminha para a frente, confia,
porque Eu não deixarei acontecer
nada. Essa doença não te vai matar,
eu conduzirei o teu restabelecimento
de maneira a não haver solavancos,
e tu voltarás à tua atividade
normal. Tu tens minha promessa.
Eu te ajudarei a levar até o fim
a realização de tua vocação. Queres
um argumento? Este argumento é o
meu sorriso. Lembra-te sempre dele
e nunca desanimes, e confia sempre
que o que Eu estou prometendo,
realizar-se-á! Tu cumprirás a tua
missão!”
Dr. Plinio no ano de 1969
Arquivo Revista
Não foi uma aparição, uma visão,
uma revelação; não era propriamente
uma profecia, não houve um milagre,
nada se moveu ou se modificou
no quadro, eu não vi resplendor,
eu não vi coisa alguma, não ouvi voz,
ela não estava dizendo: “Plinio!”
Mas eu tive inexplicavelmente, com
aquela promessa, uma impressão tão
viva, tão direta como se eu tivesse
ouvido a voz d’Ela... Uma impressão
não, é como uma certeza de quem
ouve claramente uma palavra dita;
eu não posso explicar como foi, mas
foi assim.
Passados anos hoje desse fato, eu
não duvido que tenha sido uma comunicação
d’Ela, porque foi algo
cuja objetividade e autenticidade
não podia pôr em dúvida.
Era uma segurança que
eu nunca tinha tido, depois
de uma provação tão grande
como jamais tivera também.
É o serrote: auge da
provação, auge da segurança.
O que a estampa tinha
feito para mim era uma
mudança de fisionomia,
mas que nas circunstâncias
continha essa promessa, essa
esperança. Debaixo desse
ponto de vista, quase que
ela poderia chamar-se Nossa
Senhora do Sorriso. O
que ela traz de apaziguante,
de enternecedor, de especial,
mas muito especial,
me reconfortou extraordinariamente.
No dia em que
eu a recebi, nasci de novo.
Foi uma graça única! Foi
a abertura de uma janela
do Céu!
v
1) Cf. Sl 18, 13: “Quem pode,
entretanto, ver as próprias faltas?
Purificai-me das que me
são ocultas”.
2) Do latim: senhor de mim.
31
Mater Boni Consilii
VI
Os efeitos da “graça
de Genazzano”
Nossa Senhora de Genazzano despontou para Dr. Plinio
com uma promessa incondicional: “Não se incomode,
você chegará ao fim! Avance, porque a solução sempre
virá, mesmo trilhando a ‘avenida dos becos sem saída’!”
Arquivo Revista
Dr. Plinio na década de 1970
Nossa Senhora levou um
tempo para me atender...
Mas, quando
atendeu, o fez regiamente, com
uma bondade que supera tudo o
que se pode supor ou imaginar e
que leva ao que Ela quer, é verdade
que pela “avenida dos becos sem
saída”, não tem conversa!
“Ela me olhava com
muito amor e afeto!”
Foi então que me lembrei do livro
que havia lido meses antes, no
qual consta ser clássico que a imagem
em Genazzano – a estampa
que recebi era uma reprodução
daquela – muda de expressão pelo
aparente movimento de fisionomia,
que tem algo de sobrenaturalmente
real. Portanto, não era uma
invenção minha. É um fenômeno
muito frequente, um favor concedido
a centenas de peregrinos e com
o qual Ela houve por bem favorecer-me
naquele momento.
Ela não tinha feito para mim algo
de excepcional ou extraordinário;
mas que tenha acontecido isso
comigo foi uma graça insigne, uma
coisa de grande valia.
Nossa Senhora me comunicou
essa graça e eu não contei a ninguém,
fiquei quieto. Pus o rolo de
papel de lado, numa mesa, agradeci,
mudei de assunto e continuei a
conversar, de maneira a ninguém
perceber ter acontecido algo. A
minha primeira preocupação era
manter aquilo em reserva até ter
tempo de analisar bem a questão.
Mas fiquei impressionado.
Só uns dez anos depois do fato,
dois dos que estavam presentes
a meu lado naquela ocasião contaram-me
o que eu não sabia e ao que
dou muita importância: eles também
tiveram a mesma impressão de
que a imagem me comunicava algo.
Eles não sabiam o que eu estava
achando, não perceberam que Nossa
Senhora me dizia alguma coisa,
mas viram que Ela me olhava com
muito amor e afeto! Um amor insistente.
Muito amor não quer dizer
amor merecido, é uma outra
questão. A quanta gente Nossa Senhora
olhou com amor e não correspondeu?
32
Que eles notassem e comentassem
entre si naquela ocasião é uma
prova interessante, que confirma o
que eu tinha visto. Se eu tivesse mencionado
e eles também notassem, seria
sugestão. Eu não tendo dito nada
e eles perceberem o que aconteceu
comigo, significa haver algo de real.
Assistência prolongada
de Nossa Senhora
Desde então comecei a melhorar
rapidamente. Afinal de contas, no dia
seguinte a esta promessa de Nossa Senhora
1 veio visitar-me o médico. Ele
examinou a região do corpo operada
e, com surpresa para minha irmã, que
se encontrava no quarto, e para mim,
ele empurrou os panos de lado, sorriu
com aspecto satisfeito e disse: “Se ele
quiser, pode voltar hoje para casa. Está
tão bem como não podia estar melhor.
As condições do local estão muito
sadias, melhorou tanto que o caso
está resolvido”. Era preciso cicatrizar,
mas a carne estava se recompondo e a
gangrena desaparecera.
Naquela noite mesmo eu estava
em casa. O problema não se encerrara,
mas levando uma vida regular,
de si estava sob controle e, graças a
Deus, me refiz bastante bem. A minha
cura estava dependendo só de
pequenos cuidados; o acesso de diabetes
estava vencido – não resolvido
porque não é uma doença curável –,
os remédios que a coíbem e permitem
uma vida mais ou menos prolongada
já tinham exercido seu efeito e
ela estava circunscrita.
Havia exatamente uma preocupação
que era o lado questionável do
meu restabelecimento: a parte cruenta
comportava uma cicatrização enorme
e, ao longo dessa extensa fase, havia
naturalmente o risco de a infecção
retornar a qualquer momento. E
como eu estava naquele tempo com
uma taxa de açúcar muito alta, a possibilidade
de uma infecção era grande,
podendo determinar uma nova
amputação de parte da perna. Aí estava
o principal risco do momento.
Pois bem, Nossa Senhora assistiu
prolongadamente essa enfermidade,
de tal maneira que, contra a expectativa
dos médicos, graças a Deus, o processo
de cicatrização chegou ao seu último
ponto sem nenhum inconveniente.
Uma nova amputação não foi necessária
e as condições em que fiquei
me permitiram caminhar sem muleta.
A interferência de Nossa Senhora
de Genazzano veio quando a situação
era duvidosa e crítica, e eu ignorava.
Foi a coisa mais inesperada,
na hora mais imprevista e quando eu
nem entendia bem um aspecto dessa
graça. Há toda razão para supor que
Ela, além da graça espiritual, também
tenha dado uma graça física.
Os efeitos da graça:
tranquilidade, serenidade...
Qual foi o papel dessa graça posteriormente,
em minha existência?
Eu fiquei muito animado: “Graças
a Deus eu encontrei o meu caminho!
E devo andar para frente porque
a solução veio, e esta é a ‘avenida
dos becos sem saída’”. Aquela
palavra celeste cicatrizava a ferida
no que ela tinha de mais profundo
e iniciava o processo de cura, pela
recomposição da certeza de que a
missão se realizaria e de que, portanto,
eu podia estar tranquilo porque
Nossa Senhora me assegurava de levar
a minha vocação até o fim.
Ou seja, ainda que eu tivesse alguma
culpa, porque as palavras não faladas
da imagem não elucidaram esse
ponto, em todo caso, é verdade
que a missão se realizaria.
O resultado é que me invadiu uma
paz, me inspirou uma serenidade extraordinária,
uma distensão fabulosa
em apuros os mais agudos, situações
das mais vertiginosamente pontiagudas.
Nesses apuros, sempre me lembro
da promessa, a qual foi taxativa,
não condicional: “Se você for fiel…”
Dr. Plinio carrega o andor da Sagrada
Imagem, em 13 de maio de 1973
Arquivo Revista
33
Mater Boni Consilii
Arquivo Revista
Não, não! “Não se incomode, você
chegará ao fim!”
Evidentemente, quando começaram
a aparecer as muralhas, eu tinha
a promessa que me fazia atacá-
-las despreocupado, muitas vezes atravessá-las
fechadas. Quer dizer, obstáculos
que eu não sabia como resolver,
mas que transpunha e estava acabado.
Obstáculos e contrariedades às vezes
do outro mundo, coisas grandes e pequenas
que a toda hora pareciam caminhar
para uma catástrofe, e que me
teriam afligido e deixado simplesmente
maluco. Estou com oitenta anos
e jamais me viram triste, na “baixa”.
Uma expressão que nunca ouviram é a
seguinte: “Hoje é bom não mexer com
Dr. Plinio, porque ele está na ‘baixa’”.
Nunca! Entretanto, tenho atravessado
vales e montes, coles e colinas, mas
sempre animado por essa graça…
Foi algo tão profundo, que me deu
a possibilidade de tocar o nosso barco
para frente com muito mais serenidade,
distensão, do que antes de adoecer.
Sustentação da confiança
Escritório de Dr. Plinio no Primeiro Andar
Antes eu tinha simplesmente a calma
da resignação, mas perturbada, alvoroçada
pelo receio de ser infiel; era
uma calma de nível muito inferior,
uma calma real, mas feita de bom senso,
de determinação, de olhar logo para
os piores horizontes e me adaptar
a eles de forma a varrer os sustos do
meu caminho, pulando para devorar
a pior hipótese e me aclimatar a ela,
para poder evitá-la. Isso muitos não
compreendem, mas não é pessimismo,
é preparar-se para vencer.
Quando se luta, convém preparar-
-se de tal maneira para o pior que não
se sofra as ciladas das surpresas, porque
se está pronto para tudo. Eu vi
muita gente na vida não ter vencido
porque não se preparou para o pior.
Veio uma ameaça longínqua, amoleceu.
Tais pessoas pensam que prevejo
o pior por pânico. Não é por pânico,
mas pela determinação de vencer, de
destruir a possibilidade que tem meu
inimigo de criar-me a surpresa. Vou
imaginá-lo desde já com um punhal
na minha garganta e prever tudo até
lá. Aí eu cobro uma certa calma.
Agora, eu desse modo teria vencido
sem a diabetes... É preciso dizer:
também entrava o contributo de uma
muito boa saúde. Eu nunca acordava
à noite, nunca perdia o sono, nunca
nenhuma dessas provações me causou
distúrbios. Quando era mocinho,
vivi ocasiões de especial risco de ser
cercado, sitiado pelo adversário; eu
passava por tantos apertos nesse sentido,
que por vezes sentia meu coração
bater dentro da garganta. Anos
depois, fiz exames cardíacos, e estavam
os mais regulares possíveis.
A “graça de Genazzano” deixou,
daquele tempo até hoje, uma atmosfera
de tranquilidade, de paz tão
grande em minha alma, que fez um
bem para minha saúde maior do que
todos os remédios. Sem ela eu não teria
aguentado e estaria, senão morto,
inválido… Não morri porque a confiança
em Nossa Senhora me sustenta.
E tenho certeza de que, se eu tivesse
recebido essa graça antes da
diabetes, não teria ficado diabético.
Posso dizer: devo a minha sobrevivência
à “graça de Genazzano”.
Grande tranquilidade
e distensão
Recordo-me de que a distensão foi
tão grande, que alguns dias ou semanas
depois eu estava em casa, já bem
melhor, e veio me visitar uma prima
minha com quem tinha intimidade e
que há muito tempo não via. Aliás,
me chamou a atenção que ela, muito
discreta, durante toda a minha doença
não apareceu. Ela mandava flores
de vez em quando, mas não vinha.
Quando penetrou no meu escritório
onde eu estava convalescendo,
deitado num sofá, ela me disse:
— Então, Plinio, o que aconteceu?
Você parece dez anos mais moço do
que era!
Eu disse
— Mas como remocei de dez anos?
— Você estava cansado, opresso,
fatigado. E agora o encontro desanuviado,
sereno, outro homem! Você
tinha um sulco na testa de tanto
se preocupar. Não tem mais!
E pensei com meus botões: “Você
não sabe o que aconteceu. Se sou-
34
besse...” Foi a grande distensão que
tive por causa dessa promessa. Houve
uma tranquilidade na alma extraordinária.
Recordação comovida e perene
A última vez que fui consultar o
médico… Eu não sou muito de ir a
médicos, gosto deles como amigos,
mas aquela história de auscultar…
meu temperamento não é disso. Ele
ligou aqueles aparelhos para ver o
coração, fez um exame cardíaco detido.
Deixei-o fazer, pois não posso
dizer a ele que as pancadas de meu
coração são secretas. Se ele está disposto
a me examinar, vamos!
E me lembro: era um consultório
na região dos Jardins, que ficava
bem no fundo da casa, longe do barulho
da rua. Eu olhava para o médico
e ele para mim, não tínhamos
grandes coisas a nos dizer. Quando
terminou ele me disse: “Dr. Plinio, o
seu coração funciona com a regularidade
de um relógio suíço”.
Nossa Senhora de Genazzano!
Porque essa regularidade vinha da
confiança n’Ela, que atendeu tantos
pedidos, me socorreu em tal situação
e não me desassistirá em nenhuma
ocasião, de maneira que eu entro
com confiança dentro da tempestade.
Disso eu conservo uma recordação
comovida e perene. Eu sou gratíssimo
a Nossa Senhora de Genazzano,
mas muitíssimo grato! v
1) No dia 17 de dezembro de 1968,
Dr. Plinio recebeu alta.
Arquivo Revista
35
Arquivo Revista
Dona Lucilia
um mês antes de
seu falecimento
Preparando o encontro com a Matriz excelsa
Qual foi o papel de mamãe na minha devoção a Nossa Senhora? É o papel que tem a
terra no desenvolvimento de uma semente, ou seja, tudo!
Tudo quanto a semente assimila e transforma em condições de vida depende da ligação
com o que se chamava antigamente “a mãe terra”. Há qualquer coisa de materno na
terra, e de terra no papel da boa mãe.
Nas nossas relações, de mil maneiras minha mãe me ensinava a querer bem, a confiar, a
analisar, a unir-me, a alegrar-me em outra alma etc. Sobretudo me ensinou o que é uma mãe
e o que é um filho.
De maneira que, ao conhecer Nossa Senhora, percebi bem que eu estava conhecendo o arquétipo,
a Matriz excelsa, incomparável! E muitas vezes coloquei-me analogias, ora uma, ora
outra, com a prevalência – a quantos anos luz! – d’Aquela que é a Mãe de Deus.
(Extraído de conferência de 15/5/1981)