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Jornal Didático - Edição 46

Jornal do Sindicato dos Professores do Ensino Superior de Curitiba e Região Metropolitana - SINPES

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Novembro de 2019

17

Em 15 de fevereiro de 1991, sem que fosse instaurado qualquer procedimento

disciplinar, Padre Domênico foi chamado pelo Reitor e sumariamente

demitido.

Imediatamente os colegas autores do texto assumiram perante o Reitor

integralmente a autoria e responsabilidade pelo escrito, invocando os

princípios cristãos maristas orientadores da Instituição de Ensino para

que fosse reconsiderada a arbitrária demissão.

Afinal, o Padre Domênico tinha apenas feito a leitura do texto, na qualidade

de representante dos professores eleito para o Conselho Universitário,

órgão colegiado que tinha a legitimidade para iniciar o processo

de promover as alterações regimentais preconizadas.

De nada adiantou.

A notícia da demissão injusta do Padre Domênico se espalhou como

rastilho de pólvora. E não demorou para que começassem a ecoar em

toda Curitiba manifestações de solidariedade. As primeiras vieram dos

estudantes e professores da PUCPR, organizados pelo Diretório Central

dos Estudantes (DCE), o Centro Acadêmico de Filosofia (CAAV) e pela

Associação dos Professores da PUC (APPUC).

Depois surgiram manifestações de coletivos de Direitos Humanos, grupos

de padres de várias cidades, organizações de fiéis católicos e até

uma Moção de Solidariedade e Desagravo proposta pelo vereador Paulino

Pastre, lida em sessão ordinária da Câmara Municipal de Curitiba

no dia 13 de maio de 1991.

Domênico, por sua vez, buscava Justiça priorizando os estreitos canais

de insurgência disponibilizados na estrutura hierárquica da Igreja Católica.

Os professores integrantes do Grupo Consciência Crítica e outros colegas

de trabalho do Padre Domênico procuraram Dom Pedro Fedalto,

Arcebispo de Curitiba e Grão-Chanceler da Universidade em nome do

professor arbitrariamente demitido.

Mesmo sendo autoridade máxima na Pontifícia Universidade Católica

do Paraná em questões eclesiásticas como as que ensejaram o afastamento

do Padre Domênico, o Bispo preferiu “lavar as mãos”, fazendo

ouvidos moucos às ponderações dos emissários!

Diante da inércia do Arcebispo, o Padre Domênico decidiu recorrer ao

Vaticano:

“Decidi recorrer à Roma porque a justiça deve funcionar também para

os padres. O direito canônico permite, quando é uma pontifícia, que se

apele a Roma”.

Depois de seis meses Roma respondeu, só que a resposta não foi a esperada:

“Eles infelizmente ficaram em cima do muro”, lembra o Padre.

A perseguição a Padres e professores progressistas estava em alta na

PUC. Quem denunciava era a Associação dos Professores da universidade.

Cerca de 35 professores com comportamento progressista tinham

sido demitidos no ano anterior.

“Tenho a impressão, na PUC, de estar numa universidade da Idade Média”,

dizia Domênico em entrevista ao Jornal Folha de Londrina, em 31

de março de 1991.

E de fato a PUC encarnava, sob a batuta de Euro Brandão, o fantasma

conservador da idade média. Brandão era egresso do Movimento Integralista,

inspirado no regime de Benito Mussolini, a versão brasileira do

regime fascista, que buscou romper as tradições da “velha política” com

um discurso autoritário, antiliberal e antidemocrático.

ELEIÇÃO PARA REITOR

Somava-se ao conservadorismo de Brandão uma celeuma iniciada um

Padre Domenico e Papa João Paulo II - Foto: Acervo Pessoal

pouco antes da demissão do Padre.

Padre Domênico fora indicado para participar de uma eleição paritária

informal para a escolha do Reitor da Universidade, organizada pelo

DCE e pela Associação dos Professores da PUCPR. Desencadeou-se em

consequência desse pleito um intenso debate sobre o tema na comunidade

acadêmica com a participação ativa do “candidato” Padre Domênico

Costella, que chegou até mesmo a dar entrevistas na RIC TV sobre

o tema.

Padre Domênico foi o “candidato” mais votado. Figurou na cabeça de

uma listra sêxtupla por grande margem de votos, encaminhada pelo

Diretório Central dos Estudantes e pela Associação dos Professores da

Pontifícia Universidade Católica do Paraná para a Associação Paranaense

de Cultura, mantenedora da PUC.

Essa lista foi integrada, entre outros, pela Professora Julieta Rodrigues

Saboya Cordeiro, Coordenadora do Curso de Direito, pelo Dr. Alberto

Acciolly Veiga, Decano do Centro de Ciências Biológicas e, em último

lugar, pelo Reitor Euro Brandão, todos integrantes do establishment

da Universidade. Também integrou a lista o Professor de Filosofia José

Luiz de Souza Maranhão.

Brandão, mesmo ficando em sexto lugar, foi reconduzido pelos irmãos

maristas.

Há quem diga que a demissão consumada, apesar do Padre Domênico

ter se limitado apenas e tão somente a ler o texto reputado ofensivo,

cuja autoria foi assumida pelos professores do Grupo Consciência Crítica,

teria sido represália contra sua ousadia em participar desse pleito.

Vitória

Decepcionado com a justiça de Roma, Padre Domênico buscou a Justiça

Trabalhista e nela foi vitorioso. Sua despedida abusiva foi revertida

judicialmente sete anos depois. E ele foi reintegrado ao quadro de professores

da PUC por decisão judicial no dia 16 de dezembro de 1997.

Parte significativa do montante recebido em face do processo judicial

serviu para a compra da sede do Instituto da Filosofia da Libertação,

inaugurada poucos meses depois de Champagnat, o fundador da Congregação

dos Irmãos Maristas, ser canonizado e denominado pelo Papa

João Paulo Segundo como o “Apóstolo da Juventude”.

Na ocasião, em seu discurso, Padre Domênico atribuiu, de forma irreverente,

a obtenção dos recursos para a construção da sede do Instituto a

mais um dos consagrados “milagres de Champagnat”, que propiciaram

sua canonização.

Padre Domênico Costella lecionou na PUC até 2005.

Outras Atividades

Também deu aulas na Faculdade Vicentina e foi membro do Conselho

Estadual de Educação. Ao todo, soma quase 40 anos de docência. Seu

tempo em salas de aula é menor apenas do que o de sacerdócio. Em

outubro de 2024 completou 60 anos como padre Xaveriano fato que foi

motivo de grande celebração na Igreja Bom Pastor, na Vista Alegre em

Curitiba. Hoje, Padre Domênico luta para manter vivos os princípios

da Filosofia e também da Teologia da Libertação. “Vivemos um período

muito complicado de uns anos para cá. Eu me dou muito bem com todo

mundo, respeito e sou respeitado. Mas de uns dois anos para cá não

posso falar nada sobre solidariedade e sobre direitos dos mais pobres

que sou criticado. Agora sabemos em que igreja não devemos ir, dizem

muitas pessoas depois de ouvir alguns dos meus sermões. Mas tenho a

obrigação de continuar, doa a quem doer”, completa o Padre.

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