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105 | Business Talks - GovTech Justiça

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Executive Breakfast

#105

Mar.

2025


Business Talks | GovTech Justiça

Como conseguir ir além

dos bons exemplos

Garantir uma Justiça mais digital é muito mais que pôr

tecnologia na Administração Pública. Tudo depende das

pessoas, instituições, processos e cultura, implicando um

verdadeiro contexto de mudança. Ideias não faltam, mas sim

concretizações.

O potencial de ganhos e de benefícios da

introdução das ferramentas tecnológicas na

Justiça é enorme. Na Europa e em Portugal

multiplicam-se os exemplos de sucesso que

o comprovam. Mas há que levar esta aposta

muito mais longe, dando resposta a um

vasto conjunto de desafios que precisam

de ser endereçados. A começar pela própria

perceção dos cidadãos, numa área essencial

para a soberania e para a democracia.

Trabalhar em ecossistema e com inovação,

promover a literacia jurídica, criar standards,

formar pessoas, centrar os serviços no

cidadão, apostar na transparência e na

prestação de contas são passos considerados

prioritários, num processo de transformação

que requer ainda um longo e árduo trabalho

Esta foram as grandes ideias que ficaram

da primeira business talk da iniciativa

GovTech, com a qual a APDC pretende

colocar os protagonistas a refletir sobre a

transformação digital da Administração

Pública em Portugal Trata-se de um

“contributo para acelerar a transformação do

Estado e a melhoria da qualidade de serviços,

assim como para promover o aumento e

a intensificação da colaboração entre o

ecossistema empresarial e os responsáveis

do setor público”, como afirmou na abertura

deste primeiro encontro, dedicado à Justiça,

a Diretora Executiva da associação.

Para Sandra Fazenda Almeida, a meta é

inspirar todos os envolvidos no ecossistema,

até porque “a transformação digital na

Justiça tem sido um dos maiores desafios

da AP portuguesa. Vai precisar, acima

de tudo, de colaboração. Temas como a

interoperabilidade, a segurança e a adoção

tecnológica vão continuar a condicionar as

entidades envolvidas”.

COLABORAÇÃO EM ECOSSISTEMA

Mais do que tecnologia, falar de GovTech

implica falar de pessoas, instituições,

processos e cultura na AP. Trata-se de “todo

um contexto de gestão da mudança dos

governos para o digital, que vai muito além

do relacionamento do setor público com o

ecossistema de parceiros”, como começou

por salientar João Ricardo Vasconcelos na

sessão sobre ‘GovTech na Europa: Fatores-

Chave e Requisitos para o Sucesso’,

Segundo o Senior Governance Specialist

e GovTech Global Partnership do Banco

Mundial, esta organização interage com

países de todo o mundo e trabalha há

décadas na área da digitalização do setor

público. Da sua experiência, “é a componente

não digital, que depende das pessoas, dos

processos e das instituições, que representa

o maior desafio”, constituindo mesmo “uma

permanente viagem”.

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Esta foi a primeira business talk da iniciativa GovTech, com a qual a APDC

pretende uma reflexão sobre a transformação digital da AP em áreas críticas.

A primeira é a Justiça

Assim, e no âmbito da GovTech Global

Partnership, estabelecida em 2019, o Banco

Mundial tem colocado à volta da mesma

mesa diversos parceiros vindos de todo o

mundo, seja de organizações internacionais,

governos ou representantes do setor privado.

A meta tem sido abordar as perspetivas dos

diferentes atores, partilhar conhecimento

e encontrar sinergias em temas como a

interoperabilidade, as tecnologias, com

destaque para a IA, ou a ligação entre as

agendas verde e digital, entre outros.

No caso da Justiça, assegura que os

benefícios e a importância da transformação

digital são claros, desde o acesso dos

cidadãos a temas como promover a

transparência, garantir a consistência das

decisões judiciais, reforçar a confiança nas

instituições do sistema judicial ou aumentar

a previsibilidade na tomada de decisões,

passando pela cooperação transfronteiriça.

Assim, têm sido partilhadas informações e

experiências para garantir uma Justiça cada

vez mais eficiente e inclusiva.

E citou exemplos; Na Croácia, a criação de um

sistema integrado de gestão de processos

trouxe aceleração, aumento de eficiência

e benefícios económicos substanciais: no

México, um projeto de análise preditiva teve

um impacto muito substancial nas decisões

judiciais e na eficiência; e em Nova Iorque,

que implementou um simples sistema de

lembretes dos SMS, reduziram-se em 22% as

ausências nos tribunais.

Mas este responsável deixa claro que a

“digitalização dos sistemas judiciais é

um desafio permanente” e que muito

continua por endereçar. Desde tecnologias

e infraestruturas inadequadas aos sistemas

TIC complexos, passando pelos entraves

à conetividade e à interoperabilidade.

Ou a necessidade de formação e reforço

de capacidades e a falta de recursos

financeiros. Além da perceção negativa que

afeta a confiança dos cidadãos nas soluções

digitais.

Para endereçar estes desafios, é essencial o

“estabelecimento de parcerias, colocando à

volta da mesa todos os atores”, responsáveis

dos setores público e privado, Academia

e sociedade civil. Só assim se garantirá

garantir uma “digitalização sustentável

da Justiça”, até porque conseguir garantir

serviços acessíveis e de fácil utilização,

centrados nos cidadãos, “é uma batalha”

tal como investir nas competências digitais

dos funcionários públicos. Nesse sentido,

foi criado há poucos meses pelo Banco

Mundial o Grupo de Trabalho de Justiça

Digital. Aprendizagem colaborativa, partilha

de conhecimento, construção comunitária e

resultados codesenvolvidos são objetivos do

projeto, que envolve cerca de 30 atores de

diversos países. Com base no trabalho que

está a ser desenvolvido, deverão ser ainda

desenvolvidas este ano várias iniciativas de

governo digital, incluindo na Justiça.


Business Talks | GovTech Justiça

Para Sandra Fazenda Almeida, diretora executiva da APDC, estes

encontros visam inspirar todos os envolvidos no ecossistema: “a

transformação digital na Justiça tem sido um dos maiores desafios

e vai precisar, acima de tudo, de colaboração”.

DAR FORÇA ÀS INSTITUIÇÕES

A transformação digital da Justiça em

Portugal é um processo que Pedro Tavares

conhece bem. Até porque o liderou até ao

início do ano passado, enquanto secretário

de Estado da Justiça. O agora consultor

sénior para a Governação e Política Digital

reitera a necessidade de modernizar o setor

público, para garantir maior competitividade

e eficiência: “este é um tempo em que,

para termos melhores serviços públicos

e melhores democracias, temos de ter

instituições mais fortes. No caso da Justiça,

uma das bases do estado de direito, é

fundamental”.

E se a Europa é, assim como Portugal, um

dos exemplos de digitalização do Estado,

pois começou cedo este processo, há áreas

a precisarem de grandes melhorias. É o

caso dos dados abertos, onde o país ainda

tem muito que evoluir. Todos os anos, de

acordo com números do Fórum Económico

Mundial, são gastos em TI no setor público

no mundo 30 mil milhões de dólares e este

mercado deverá crescer 8% ao ano até 2034,

alcançando o valor da ordem dos 600 mil

milhões de dólares.

Portugal tem provas dadas dos benefícios

da digitalização na Justiça. Só o projeto

do Tribunal+, que incluiu mais de 55

interoperabilidades e um novo sistema de

gestão de processos, permitiu a redução

do volume de processos pendentes de 1,7

milhões em 2013 para 560 mil em 2023.

Mas o processo de mudança requer ainda

um longo trabalho, na opinião de Pedro

Tavares. Nomeadamente ao nível da aposta

na transparência e na prestação de contas

das instituições públicas, numa altura em

que a confiança dos cidadãos está a recuar.

Resultado: a disponibilização de serviços é

alta, mas com um nível de utilização baixo,

tendo em conta as barreiras tecnológicas e

os problemas de literacia.

“Temos de ser mais tecnológicos, mais

digitais e saber usar as ferramentas. Mas a

complexidade dos casos e a sua interligação

é uma dificuldade. A eficiência na Justiça

é fundamental e os ganhos potenciais do

GovTech são enormes”, defende Pedro

Tavares, deixando claro que tanto na Europa

como no nosso país terão de “conseguir

atrair o desenvolvimento de novos projetos

e serviços”, para “ir mais longe”.

PROCESSO SEMPRE EM CONSTRUÇÃO

No debate que se seguiu, com o tema

‘Soluções Inovadoras para o sistema da

Justiça’, ficou claro que, também nesta

área, as pessoas têm de estar no centro de

tudo, assumindo um papel fundamental.

A standartizaçao de procedimentos ao

nível comunitário, assim como a adoção

de estratégias para fomentar a literacia

na justiça e para combater a perceção

generalizada sobre a morosidade no

acesso foram apontados como caminhos

prioritários. E se Portugal tem já projetos

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Na sessão sobre “GovTech na Europa: Fatores-Chave e Requisitos para

o Sucesso”, esteve presente por via remota João Ricardo Vasconcelos

- Senior Governance Specialist, GovTech Global Partnership do World

Bank

que mostram resultados, o facto é que não

estão a ser usados para potenciar a inovação.

Numa altura em que se abrem novas portas,

com a aceleração tecnológica e o consenso

de que é preciso, cada vez mais, trabalhar

em ecossistema e em colaboração, Marisa

Monteiro Borsboom destaca a necessidade

de conseguir “ajustar as linguagens de

todos os envolvidos” na cadeia de valor,

assim como definir regras standard para

quem está no mercado de uma forma

transparente e com responsabilidade”.

A vice-presidente da European Legal

Technology Association (ELTA), associação

sem fins lucrativos de origem alemã, diz

que, tendo em conta a sua experiência ao

nível europeu, há que olhar para o papel das

ONG’s e da sociedade civil. Neste momento

de “quase retrocesso”, tem se se apostar

no “talento humano, ajustado ao que é a

capacitação tecnológica que nos permite

fazer muito mais e muito melhor”.

Já António Bob dos Santos, vogal do

Conselho Diretivo da Fundação para a

Ciência e Tecnologia (FCT), salienta que

a atual perceção de corrupção da justiça

nacional impede a verdadeira cultura de

colaboração. Sendo que “não podemos

ter um país inovador, que faz investigação

centrada na resolução de problemas

concretos, se as pessoas não colaborarem

umas com as outras”. Acrescem problemas

como a morosidade que persiste nas

decisões, a falta de recursos financeiros,

materiais e de competências, assim a

desigualdade no acesso. Contudo, “há

um conjunto de orientações de políticas

públicas, que podem ajudar a dar resposta a

muitos dos problemas identificados”.

A estes desafios, Ana Marques acrescenta

o problema da literacia em Justiça. Para

a advogada, especialista em tecnologias

e setor público, este tema precisa de

ser endereçado. Sendo certo que não

está a ser aproveitado o que já foi feito,

como a plataforma de atendimento à

distância, criada durante a pandemia, e

que, entretanto, foi suspensa. Ou o regime

legal que permite a criação de zonas livres

tecnológicas: existem apenas duas, não se

estando a beneficiar de todo o potencial de

inovar através destas verdadeiras sandboxes

regulatórias. “Temos em cima da mesa

formas de inovar na justiça, até do ponto de

vista legal. E ficamos sempre com a sensação

de que falta qualquer coisa”, comenta.

Do ponto de vista de uma startup

que desenvolve soluções tecnológicas

avançadas para o setor público, a visão

sobre a digitalização da justiça não é muito

diferente. Guido Santos, Co-Founder e CEO

da Genesis Digital Solutions, concorda que

falta literacia jurídica às pessoas e que a

perceção é que há ainda pouca tecnologia

na Justiça. Na sua perspetiva, “há falta de

informação e visibilidade sobre o que já

existe”.


Business Talks | GovTech Justiça

Na mesma sessão esteve Pedro Tavares, ex-secretário de

Estado da Justiça e atual consultor sénior para a Governação

e Política Digital, onde destacou os bons exemplos de

digitalização do setor

Sediada na Holanda, Marisa Monteiro

Borsboom destaca os bons resultados da

iniciativa GovTech NL. Lançada há cerca de

um ano, já fez muito pela literacia digital e

tecnológica e pelas informações ao cidadão.

Nomeadamente através da divulgação

de boas práticas, que poderão também

beneficiar outros países, ajudando ao

processo de mudança.

APROVEITAR CONHECIMENTO

No mercado nacional, António Bob dos

Santos salienta que foram desenvolvidas nos

últimos anos iniciativas que envolvem todos

os protagonistas e utilizam tecnologias como

a IA ou o machine learning. E o trabalho da

FCT passa por reforçar esse caminho, numa

estratégia de aproximação da Academia

à AP, tirando partido do conhecimento

para responder aos problemas. É que, na

sua perspetiva, há muito conhecimento a

ser produzido nas mais 300 unidades de

investigação nacionais e nos laboratórios

do Estado, que envolvem mais de 60 mil

investigadores.

Neste âmbito, a FCT está a desenvolver os

mais variados projetos na AP, em áreas como

a Defesa, a Saúde, a Educação ou a Justiça.

Incluindo apoios à contratação de doutorados

ou a formação de talento no setor público.

E criaram em janeiro o Centro Nacional de

Computação Avançada, no âmbito do PRR,

para permitir ao país tirar partido de todos

os benefícios da computação avançada e da

enorme capacidade de calculo, assim como

do acesso às recém-criadas fábricas de IA

europeias.

No caso dos dados, Ana Marques diz que

ainda persistem dificuldades no acesso,

embora existam já alguns bons exemplos,

como a plataforma de interoperabilidade

da AMA, que respeita o princípio once

only e traz benefícios para privados e

as entidades públicas. Sendo os dados

que a Justiça gera de “particular relevo e

interesse”, considera que projetos como a

anonimização de sentenças podem gerar

imenso valor acrescentado, porque permite

detetar tendências e analisar jurisprudência.

Mas destaca “as pessoas como o pilar base”,

exemplificada com a criação do Lab Justiça,

iniciativa de capacitação de dirigentes para

a mudança, com partilha de boas práticas.

É que “a transição digital não se faz sem

pessoas. Por isso, é preciso replicar este

projeto nas demais áreas governativas”.

Um dos caminhos para a mudança na AP

passa por se trabalhar cada vez mais com

startups inovadoras. Mas Guido Santos diz

que há um ‘elefante na sala’: a contratação

pública, um processo exigente e moroso

mais virado para a capacidade das grandes

empresas. Para uma startup ou uma PME

é sempre um obstáculo, pelo que defende

uma alteração das regras, “porque se trata

de um mercado muito grande, que não está

a ser aproveitado”.

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Para analisar as “Soluções Inovadoras para o sistema da

Justiça”, marcou presença, remotamente, Marisa Monteiro

Borsboom, vice-presidente da European Legal Technology

Association (ELTA)

Num debate moderado por Sandra Fazenda Almeida,

António Bob dos Santos, vogal do Conselho Diretivo da FCT,

considerou essencial ter uma estratégia de aproximação da

Academia à AP, tirando-se partido do conhecimento para

responder aos problemas


Business Talks | GovTech Justiça

Ana Marques, advogada e consultora jurídica para as TME e o

setor público, e Guido Santos, co-fundador e CEO da Genesis

Digital Solutions, startup que trabalha com o Estado, falaram

dos desafios e do futuro

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Reportagem

Reportagem

fotográfica

Veja o vídeo

do evento aqui

digital business

community

o UPDATE tem como objetivo disponibilizar informação estruturada sobre cada uma das iniciativas promovidas pela APDC.

Pretemde-se facilitar, a todos os interessados, um arquivo com os conteúdos mais relevantes de cada evento, que poderá ser

consultado em www.apdc.pt

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