Adrienne von Speyr - O Homem diante de Deus B
Adrienne von Speyr (1902–1967) foi médica, escritora e mística. Nasceu em uma família protestante na Suiça. Tornou-se médica, especializando-se em oftalmologia, e foi muito estimada por sua dedicação aos pobres e aos doentes. Em 1940, aos 37 anos, converteu-se ao catolicismo sob a direção do teólogo jesuíta Hans Urs von Balthasar, com quem estabeleceu uma profunda amizade espiritual e colaboração teológica. Juntos, fundaram a Comunidade de São João, destinada a consagrar pessoas no meio do mundo. A partir de sua conversão, Adrienne começou a viver intensas experiências místicas: visões, locuções interiores, experiências de união com Cristo (especialmente em sua Paixão) e uma compreensão profunda da Escritura e dos mistérios da fé. Muitas dessas experiências foram registradas por Balthasar. A obra: O Homem Diante de Deus (Der Mensch vor Gott) foi publicada pela primeira vez em 1950. Um dos marcos principais na produção literária e teológica da autora, nesta obra ela explora profundamente a relação entre o ser humano e Deus, abordando temas espirituais e místicos que permeiam sua própria experiência de fé. Adrienne faleceu em 1967 na Basileia (Suíça). Após sua morte, muitos passaram a reconhecer nela uma alma extraordinária, marcada por uma vida de profunda união com Deus, sofrimento oferecido e missão espiritual. Seu processo de beatificação foi aberto em 2018.
Adrienne von Speyr (1902–1967) foi médica, escritora e mística. Nasceu em uma família protestante na Suiça. Tornou-se médica, especializando-se em oftalmologia, e foi muito estimada por sua dedicação aos pobres e aos doentes. Em 1940, aos 37 anos, converteu-se ao catolicismo sob a direção do teólogo jesuíta Hans Urs von Balthasar, com quem estabeleceu uma profunda amizade espiritual e colaboração teológica. Juntos, fundaram a Comunidade de São João, destinada a consagrar pessoas no meio do mundo.
A partir de sua conversão, Adrienne começou a viver intensas experiências místicas: visões, locuções interiores, experiências de união com Cristo (especialmente em sua Paixão) e uma compreensão profunda da Escritura e dos mistérios da fé. Muitas dessas experiências foram registradas por Balthasar.
A obra: O Homem Diante de Deus (Der Mensch vor Gott) foi publicada pela primeira vez em 1950. Um dos marcos principais na produção literária e teológica da autora, nesta obra ela explora profundamente a relação entre o ser humano e Deus, abordando temas espirituais e místicos que permeiam sua própria experiência de fé.
Adrienne faleceu em 1967 na Basileia (Suíça). Após sua morte, muitos passaram a reconhecer nela uma alma extraordinária, marcada por uma vida de profunda união com Deus, sofrimento oferecido e missão espiritual. Seu processo de beatificação foi aberto em 2018.
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H
ADRIENNE VON SPEYER
O HOMEM DIANTE
DE DEUS
1
Adrienne von Speyr
O HOMEM DIANTE
DE DEUS
Advertência:
Trata-se de tradução livre do espanhol para estudo e
divulgação.
Créditos do texto:
ADRIENNE VON SPYER. El hombre ante Dios. Ediciones
Encuentro, Espanha: 1978.
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Índice
Breve biografia 4
Os limites e sua superação 5
A vida de Deus para o homem 14
O conhecimento 28
O encontro 38
A palavra de Deus 46
A resposta do homem 54
A situação do mundo 64
O trabalho 73
O desmesurado 82
A alegria 91
A verdade 100
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Breve biografia
Adrienne von Speyr (1902–1967) foi médica, escritora e
mística. Nasceu em uma família protestante na Suiça, culta e
rigorosa e desde jovem, demonstrava uma sensibilidade espiritual
intensa, unida a um forte senso ético e desejo de servir. Tornou-se
médica, especializando-se em oftalmologia, e foi muito estimada
por sua dedicação aos pobres e aos doentes.
Em 1940, aos 37 anos, converteu-se ao catolicismo sob a
direção do teólogo jesuíta Hans Urs von Balthasar, com quem
estabeleceu uma profunda amizade espiritual e colaboração
teológica. Juntos, fundaram a Comunidade de São João, destinada
a consagrar pessoas no meio do mundo.
A partir de sua conversão, Adrienne começou a viver
intensas experiências místicas: visões, locuções interiores,
experiências de união com Cristo (especialmente em sua Paixão) e
uma compreensão profunda da Escritura e dos mistérios da fé.
Muitas dessas experiências foram registradas por Balthasar.
Adrienne deixou cerca de 60 livros e cadernos espirituais,
escritos com a ajuda de Balthasar. A obra: O Homem Diante de
Deus (Der Mensch vor Gott) foi publicada pela primeira vez em
1950. Um dos marcos principais na produção literária e teológica da
autora, nesta obra ela explora profundamente a relação entre o ser
humano e Deus, abordando temas espirituais e místicos que
permeiam sua própria experiência de fé.
Adrienne faleceu em 1967 na Basileia (Suíça). Após sua
morte, muitos passaram a reconhecer nela uma alma
extraordinária, marcada por uma vida de profunda união com Deus,
sofrimento oferecido e missão espiritual. Seu processo de
beatificação foi aberto em 2018.
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Capítulo 1
OS LIMITES E SUA SUPERAÇÃO
a. A nihilidade e os limites
Na vida de todo homem chega um momento em que ele,
transcendendo sua situação dentro da totalidade do mundo,
começa a refletir sobre seu futuro, sobre seus próprios limites.
Agora bem, o homem não pode pensar em seu futuro sem referir
seu passado ao momento presente. Contempla o que até agora
projetou e conseguiu, vê também tudo aquilo que não alcançou e
rejeita aquelas coisas que lhe mostram de algum modo seus
próprios fracassos. Sua memória remonta aos dias de trabalho e de
descanso, as vezes que sonhou acordado, e lembra o quanto
recebeu e o pouco que soube dar. Percebe que não será fácil fazer
um balanço, pois ainda restam muitas possibilidades a desenvolver.
Ainda existem muitas questões, embora, de vez em quando, surjam
alguns resultados que em números redondos poderíamos classificar
de satisfatórios. No entanto, não é certo que tais números sejam
absolutamente redondos; na realidade, situam-se em uma série
junto a outros números fracionários.
O homem começa então a fazer projetos. Tira conclusões
de suas experiências. Quer obter resultados diferentes e melhores,
e, de repente, percebe que em todo projeto ele tem que contar
inevitavelmente consigo mesmo. Não pode planejar nenhum futuro
que o libere plenamente, pois carece de toda capacidade para isso.
Conhece a si mesmo o suficiente para saber que é incapaz de
permanecer fiel às suas opções mais profundas e tropeça
constantemente com seus próprios limites. E, no entanto, não é
possível continuar seu caminho sem ter diante de si uma meta,
sem formar uma imagem de seu futuro, sem empreender algo que
o libere e que brote de suas próprias forças.
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O homem volta-se novamente para o seu passado; tenta
ter bem presentes os obstáculos que ele mesmo colocou em seu
caminho e fazer uma espécie de inventário de seus fracassos. E
quer fazer isso chamando as coisas pelo nome e aderindo àquilo
que é a verdadeira realidade. Mas tudo isso não é fácil, pois na
medida em que reconhece seus fracassos como tais, também
percebe sua responsabilidade. Seus fracassos são algo humilhante
para ele e começa a ver as coisas mais difíceis do que realmente
são. Sua confiança no futuro começa a vacilar. Quantas coisas
ficaram sem fazer, quantos projetos foram iniciados para serem
abandonados em seguida! Logo que se encontrava com a primeira
dificuldade, se dava por vencido!
O passado pesa sobre ele e paralisa toda nova decisão.
Pois, de antemão, diz a si mesmo: "Isso não vai dar certo". Olha
para aqueles heróis que se propuseram a realizar algo grande e
nada pôde desviá-los de sua meta. Gostaria de ser como eles e ter
uma força, uma capacidade e uma perseverança semelhantes. Seus
desejos e anseios são ilimitados, mas sua resignação lhe priva de
toda sua força. Está convencido: ele não é nenhum herói. Nada
nele vale a pena.
E se contempla os heróis cristãos, o que vê? Nele há algo
realmente acabado, pleno, íntegro e sagrado. Se examinarmos de
perto o que neles se realizou, se tentarmos penetrar no mecanismo
de suas obras, nos deparamos com algumas coisas que
entendemos, mas também com muitas outras que nos são
ininteligíveis. No entanto, o fato está ali, integral, harmônico, firme,
embora sua estrutura nos pareça impenetrável. Encontramos algo
singular, inquietante, perturbador. Como se chegou a essa unidade,
a essa harmonia? Subitamente, vemos com toda clareza: nos
heróis cristãos, nos santos, a nihilidade 1 do homem foi superada.
Foi absorvida na santidade. Essa unidade, essa condição indivisível
do santo deve ser atribuída à graça, provém de Deus. Ele cuida dos
1 A nihilidade (ou o nada) é um termo filosófico e teológico que se refere ao vazio existencial,
à ausência de sentido ou à falta de ser. É uma condição em que o ser humano, por causa
de seu pecado ou limitações, está afastado da plenitude da existência e do propósito divino,
encontrando-se em uma espécie de falta de essência ou deficiência existencial.
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Seus até tal ponto que os circunda e os cobre com Sua graça, mas
não como se ficassem sepultados sob ela e seus rostos já
irreconhecíveis, ou como se desaparecessem esmagados pelo peso
do desmesurado, mas de tal maneira que a graça penetra,
galvaniza e torna incandescente todo o seu ser, fazendo-o mudar
de estado, por assim dizer. A graça se une ao homem nas
profundezas do seu ser, realiza no santo uma encarnação, por
chamá-la de algum modo, que tende a completar a encarnação do
Filho de Deus. Cristo é Deus, e se faz homem para realizar como
homem-Deus seus atos integrais, indivisíveis; o santo é um homem
sobre o qual desceu a graça, e também pode levar a efeito esses
atos integrais. Através da providência e da ação divina, o homem e
a graça tornam-se uma só coisa. As obras do santo contêm em si
ambas as características, as do homem e as da graça, mas
reunidas para sempre em um todo único.
Se considerarmos esse resultado harmonioso, será fácil
entender também que a nihilidade do homem supõe uma situação
de deficiência. O homem lhe falta algo. Por causa do pecado, ele se
afastou do lugar em que poderia e deveria estar. Naturalmente, ele
pode pensar que, através do pecado, caiu simplesmente em um
caminho secundário, a partir do qual ainda pode ver o caminho
reto. Mas, no fundo, sabe que as coisas são de outra maneira. Ele
já perdeu a visão do caminho reto. Se perdeu em uma espessura
que seus olhos não podem penetrar; e não pode encontrar o
caminho através da simples reflexão; nem sabe como utilizar as
forças que lhe restam da maneira mais conveniente possível. Para
isso, ele precisa da graça e, portanto, deve antes de tudo adotar
uma atitude de conformidade. Deve soltar seu próprio fardo, para
que a graça incline o outro prato da balança. Deve se esvaziar de si
mesmo — esta é a única conclusão correta que se deriva do
conhecimento de sua nihilidade — para que a graça possa irromper
livremente nele.
Assim, ele é incapaz por si mesmo de imitar os heróis
cristãos. É-lhe impossível tomá-los como modelo. No entanto, o
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modelo, o exemplo, está sempre diante dele com todo o seu
esplendor, convidando-o a segui-lo. De um lado está ele, com suas
falhas e dúvidas, necessitado de projetos de vida e, no entanto,
consciente de sua falta de perseverança; de outro, o fato inegável
do homem apostólico, que o ilumina, o fascina, e lhe impõe uma
exigência. No entanto, o homem está consciente de que não pode
superar o abismo entre ambas as formas de existência apenas
imitando, a partir de sua própria situação, as ações daquele que
está do outro lado; é-lhe necessário sair de si mesmo. O primeiro
ato global diz respeito ao próprio eu. É preciso sair de sua própria
situação, emigrar de si mesmo, e isso constitui uma espécie de
aniquilamento, um esquecer-se de si, um perder-se de si mesmo,
um chamado a uma nova solidão, uma explosão no centro do
próprio ser, para deixar espaço livre para Deus, que entra nele e, a
partir daí, transforma radicalmente o homem. Antes de tudo, Deus
dispõe plenamente dele. E essa ação de dispor deve tornar-se nele
um centro unificador, sem que ele mesmo consiga perceber,
constatar ou experimentar esse centro. O homem é retirado dos
limites de sua própria nulidade, mas é-lhe impossível delinear o
caminho traçado, já que se perdeu de si mesmo e abandonou sua
atitude egocêntrica.
Ao mesmo tempo, o termo “nulidade” adquire para ele um
novo sentido: agora é apenas um sinal, um aviso.
b. Superação dos limites em Cristo
Quando o homem toma consciência de Deus e experimenta
sua própria limitação, a inutilidade de seus esforços, a
impossibilidade de superar os obstáculos com os quais tropeça,
essa experiência dos limites torna-se, em cada caso, um sinal de
um além. O tempo passado torna-se para ele um sinal da
eternidade de Deus; suas próprias fronteiras, um sinal da infinitude
divina. Seus limites são, para ele, um sinal de advertência, de
alerta. Contudo, dentro de sua limitação, suas capacidades e
vivências humanas não estão em contradição com o que Deus é,
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nem com seu poder. Deus criou o homem à sua imagem, e uma
imagem não pode estar em contradição com aquele que a criou. O
contraditório, o que mal se compreende no homem, o que desafia
toda comparação, é o pecado. E é justamente o pecado que desviou
seu olhar do modelo original, que fragmentou sua vida e o afundou
na solidão.
O Filho de Deus assumiu a natureza humana tal como ela
é, com as consequências do pecado, mas sem o pecado. O cansaço
que ele experimenta após longas caminhadas e vigílias, ele o
supera em virtude de uma obediência humana a Deus, que de
modo algum recorre à força de sua divindade. Ele não se concede a
liberdade de ultrapassar continuamente os limites da natureza
humana que assumiu. Sofre, ama, é paciente como ninguém, pois
sua obediência é perfeita, e esse amor, essa obediência, ele nos
oferece, para que aprendamos, não a nos chocar continuamente
contra nossos limites, mas a deslocá-los um pouco, a fim de servir
melhor a Deus e desempenhar adequadamente nossa tarefa. Mas,
neste mundo, essa autossuperação permanece fragmentária e não
é mais do que o início de uma superação progressiva das leis
naturais pelo espírito, de um deslocamento sistemático dos limites
rumo ao infinito; pois a humildade, a paciência, o amor que tudo
suporta são virtudes que Deus vinculou aos nossos limites e à
nossa experiência da finitude. Como pode continuar sendo humilde
alguém que está sempre disposto a saltar por cima de suas
limitações? Como pode alguém ser paciente se a impaciência o
espicaça a alcançar sempre novas metas?
Existe uma norma que nos foi imposta. Essa norma que,
assim como nossa nulidade, está nas mãos de Deus e só pode ser
utilizada por nós (como dom) no amor a Deus (em vez de a
monopolizarmos arbitrariamente), não só nos faz refletir sobre
nossa finitude, como também nos faz esquecer de nós mesmos e
sentir-nos acolhidos em Deus, tal como nos foi anunciado pelo Filho
através de sua humanidade. Durante seu jejum de quarenta dias,
talvez ninguém como ele tenha vivido a solidão no meio da
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tentação. E, no entanto, essa solidão desemboca novamente numa
comunhão com todos nós: não se trata de uma separação, mas de
algo que lhe foi imposto pelo amor, e o amor nunca separa, mas
une, mesmo em meio ao deserto e à solidão. Um olhar superficial
não veria aqui senão um estar só; mas Ele nos teve presentes em
sua oração, nós estávamos ali com Ele, seu Espírito Santo superou
todas as limitações do nosso espírito e todas as fronteiras
espaciais. Ele nos leva consigo e nos tem presentes, de tal maneira
que o “estar aqui” não exclui o “estar ali”. Nossa razão, ligada às
leis humanas, é incapaz de compreender essa simultaneidade entre
o “estar aqui” e o “estar ali”; nossa “sabedoria” superficial não vê
por toda parte senão finitude, categoria que nós mesmos impomos
à nossa inteligência e ao nosso amor quando, ao experimentar
nossos limites, percebemos apenas “impossibilidades”. Mas o que
nós consideramos impossível fisicamente — “não posso caminhar
ou permanecer acordado mais do que um número determinado de
horas”, etc. — já foi superado no Espírito do Senhor, de tal maneira
que não precisamos mais nos deter nisso ou ficar pensando e
falando continuamente de nossas limitações. Desde que aconteceu
a encarnação de Deus, é preciso encontrar o ilimitado no interior
dos nossos limites.
É como se tivéssemos conseguido "despertar" os limites de
nossas forças e já não pudéssemos fazer uma certa oração que
tínhamos nos proposto. Então, por meio da fé, podemos confiar
essa oração a Deus e aos seus santos; os anjos podem interceder
por nós, e Deus pode ouvir também a oração silenciosa que
procede de nossa boa vontade e escutá-la. Ele pode nos fazer
entender que fomos ouvidos, mesmo "sabendo bem" que nós
mesmos não proferimos nenhuma oração. Talvez Deus veja com
mais agrado nossa oração (ou tudo o que fazemos em seu nome)
quando, ao agir em seu serviço, esbarramos nos nossos limites,
mesmo que estejamos demasiado cansados para concluir aquilo
que tínhamos empreendido com nossa melhor vontade. Cristo
sofreu "até não poder mais", até a morte; a morte foi o limite de
suas forças, e até lá Ele chegou. Ele não pôs a si mesmo o limite da
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morte — teria ido até onde a vontade do Pai o levasse — e nas
fronteiras da morte começa a redenção do mundo, manifesta-se o
cumprimento perfeito da vontade do Pai. Nas fronteiras da morte,
Deus alcançou sua vitória. Em nossa absoluta finitude irrompeu sua
infinitude absoluta.
Consequentemente, todos os limites que conhecemos a
partir de nossa existência e, por outro lado, a partir da existência
de Cristo, são na realidade marcos. Do ponto de vista puramente
humano, diríamos: aqui esbarramos num limite. Aqui termina nossa
propriedade e começa o terreno do próximo. Nos campos, as
propriedades são demarcadas com marcos. Mas, quando se trata de
propriedades espirituais, essas demarcações já não são válidas,
pois foram superadas. O que é meu também é teu e dele. Existe a
comunhão dos santos, a Igreja, e, por meio dela, o Senhor
manifesta algo de sua divindade ilimitada e de seu amor eterno.
Nesse âmbito, uma pessoa pode rezar e oferecer sacrifícios por
outra, ou ambas podem realizar em comum uma mesma obra. Um
pode ser "realizado" no outro; por exemplo, nós fomos "realizados",
isto é, redimidos, por meio da tentação de Jesus ou de sua cruz, da
mesma maneira que Jesus, quando tinha doze anos, superou
verdadeiramente por nós os limites rumo ao Pai e tornou possível
que o imitássemos. A Igreja é o lugar onde todos os limitados estão
reunidos além de seus limites. Na medida em que foram libertados
de seus limites, são fundamentalmente santos e, na medida em
que vivem de acordo com essa superação de limites, realizam
também a santidade que lhes foi concedida.
c. Viver além de nossos limites
O cristão que, como tal, se dá conta de seus limites,
depara-se com eles sob uma dupla perspectiva: teórica e prática.
Sob uma perspectiva prática, coloca-se a exigência de fazer
culminar, à luz da fé, a própria limitação na infinitude de Deus.
Certamente, existe um além de nossa ação ao qual já não temos
acesso. Mas, como cristãos, não podemos mais limitar nossa esfera
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de ação com os marcos do "aparentemente possível". Isso quer
dizer que nosso autoconhecimento já não é, de forma alguma, o
decisivo. Devemos agir como seres dotados de capacidade
especulativa, devemos colocar o impossível ao lado do possível, o
ilimitado junto ao limitado. Se apenas contássemos conosco
mesmos e com nosso autoconhecimento, diante de qualquer tarefa
tenderíamos a adotar uma atitude demasiadamente prudente e
desconfiada, sublinhando nossos limites, e preferiríamos sempre as
tarefas mais fáceis, que se dominam perfeitamente e pelas quais
podemos nos responsabilizar. Mas, se somos crentes e conhecemos
a força da oração, da Igreja, da representação vicária, da
comunhão dos santos, então deslocaremos para fora os limites da
missão que nos foi confiada, e teremos mais confiança — não em
nós mesmos, mas na graça e na Igreja que estão conosco.
Devemos, primeiramente, conhecer a norma que nos foi dada, e
depois esquecê-la. Com efeito, não temos a objetividade necessária
para medir por nós mesmos nossas próprias forças. Evidentemente,
isso não quer dizer que devamos projetar e realizar qualquer plano
mais ou menos aventureiro. Na oração, podemos fazer projetos
juntamente com o Espírito Santo, sem que isso implique limitar sua
ação ou a nossa. O importante é a orientação, a atitude. Tentemos
realizar as tarefas que nos são impostas voltando-nos para Deus
em atitude de fé. O que disso decorrerá — até que ponto atuam
nossas forças, até que ponto o Espírito Santo age em nós, ou até
onde são deslocados os limites da natureza — não precisamos
saber; basta saber que eles se deslocam rumo a Deus. Ninguém
poderia exercer na Igreja uma tarefa apostólica, ninguém ousaria
sequer administrar os sacramentos, se não soubesse que realiza
apenas uma ação fragmentária, e que aquilo que se deve esperar
aqui, na fé, é a ação do Espírito Santo, que opera no âmbito da
Igreja fundada pelo Senhor. Essa reflexão e sua aplicação concreta
podem ser tomadas como máxima em tudo aquilo que envolva ação
prática.
Mas existe também um aspecto teórico: qual é a função e a
eficácia da oração? Isso é muito mais difícil de determinar. Uma
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freira carmelita entra para o claustro a fim de fazer penitência pelos
pecados do mundo. Se ela refletir com serenidade, perceberá quão
incrivelmente insignificante é o que ela pode oferecer. Ela reza com
distração, infringe a regra, mesmo que em coisas mínimas; sentese
pecadora e sabe que seus pecados dificultam a ação da graça.
No entanto, ela reza todos os dias o que está prescrito, faz
penitência de múltiplas formas, ajuda até onde lhe é possível, e vê
a inutilidade de sua ação, a nihilidade de seu esforço. Se, diante da
morte, lança um olhar retrospectivo sobre sua vida, vê que, apesar
de tudo, agiu corretamente no essencial, porque, no fundo, teve
uma atitude de entrega; reconhece que também foi sustentada por
muitos fatores: pela oração de suas irmãs carmelitas, tanto as
atuais quanto as que vieram antes, pelos fundadores da ordem —
de tal modo que ela deve sua vida religiosa à oração de todos os
santos, à intercessão da Mãe de Deus, à graça do Senhor e do Deus
uno e trino, e até mesmo a muitos pecadores por quem ela se
sacrificou e ofereceu sua vida. O que foi o motivo de sua vida não
procedia, em última instância, dela mesma, mas de outras pessoas.
Contudo, foi sustentada e acompanhada para além de sua própria
nihilidade.
Somente em casos extraordinariamente raros pode um
cristão ver os frutos de sua oração e dizer: foi por minha oração ou
pela tua que isso foi evitado, aquilo foi concedido, este ou aquele
“monte” foi movido. No entanto, às vezes, nos deparamos com algo
milagroso, algo que imploramos e nos é concedido, uma mudança
favorável que mal ousávamos esperar se realiza, porque, na
oração, o “inútil” é superado, os limites desaparecem, o eterno se
manifesta no tempo. E, ao mesmo tempo, quem reza vive a
invisibilidade da ação divina, que entrelaça e vivifica a oração por
dentro, de tal modo que, sem sabermos como, a inutilidade e a
inanidade de nosso presente se situam no meio da imutabilidade e
da infinitude da eternidade.
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Capítulo 2
A VIDA DE DEUS PARA O HOMEM
a. A caminho de Deus
Na oração, o homem não vê seu interlocutor. Ele apenas
sabe que se trata de um diálogo. Mas se há muito tempo ele
negligencia sua oração, se ela tem diminuído cada vez mais e já é
apenas uma oração feita em casos de extrema necessidade, uma
oração balbuciada em momentos difíceis ou recitada de memória
quando se lembra de que, afinal de contas, é cristão, então o
homem se vê como alguém que expressa algo que, de alguma
maneira, é percebido e ouvido por Deus, mas ele mesmo não vê
nem imagina nada que vá além do som de suas palavras.
É mais ou menos como se, em um quarto vazio, recitasse
de memória um discurso, metade para si mesmo, metade para os
objetos ao seu redor. Seria, certamente, um discurso inútil. Se
estivesse completamente sozinho, tais palavras poderiam ser
expressão de um descontentamento, ou sua pronúncia serviria para
lembrar-se de algo. Ou também poderia tratar-se de repetir as
palavras de outra pessoa como uma mera fórmula para não
esquecer algo. Quem fala não confere a essas palavras um
significado atual, pessoal. E, no discurso, tampouco se revela
nenhum novo sentido. Por isso, em última instância, estamos
diante de algo perfeitamente irrelevante.
Mas se aquele que ora é um verdadeiro crente, consciente
do significado de sua ação, ele sabe que está falando na presença
de Deus; faz chegar suas palavras ao seu interlocutor e está
plenamente convencido de que sua oração é ouvida e
compreendida, e que encontra ressonância em Deus. Por isso,
arrebatado pela grandeza e onipotência divinas, o crente não pode
fazer outra coisa senão cair de joelhos, pois está como que cegado
por uma luz tão poderosa.
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Ao mesmo tempo, ele pressente obscuramente o que é a
vida divina. A princípio, apenas intui aquela vida com a qual Deus
governa e guia o mundo, e ordena providencialmente o seu
acontecer; depois começa a vislumbrar mais profundamente a vida
eterna como amor ad intra 2 , amor mútuo entre as três Pessoas
divinas. É uma vida que se cria a si mesma através do amor. Uma
vida que circula eternamente e é, ao mesmo tempo, pergunta e
resposta. E essa circulação, esse ciclo, aparece com tal riqueza aos
olhos do crente, que ele sente o ânimo fraquejar: introduzir-se ali
violentamente, intrometer-se, parece-lhe uma irreverência.
Mas ele foi interpelado e, consequentemente, deve persistir
numa atitude de oração enquanto Deus assim o quiser. E, uma vez
que Deus não impõe limites aos imperativos de seu amor, também
o crente não pode aplicar aqui nenhuma medida. Deve orar sem
medida, a fim de experimentar algo da incomensurabilidade de
Deus. Deve tentar suprimir a limitação de suas palavras, para
introduzi-las na infinitude de Deus. Seu tempo de oração deveria,
de algum modo, tentar ajustar-se ao ritmo da eternidade.
Por outro lado, o crente é obrigado a orar de modo que sua
oração se converta em contemplação. Deve contemplar a vida
divina. E ele tem acesso a isso por meio da vida humano-divina do
Filho, tal como é descrita no Evangelho, partindo do humano e
abrindo-se e estendendo-se ao Pai e ao Espírito, tendo como base o
tempo histórico finito e desembocando na infinitude da eternidade.
Ao mesmo tempo, o crente sabe que o Filho está sempre
acompanhado e circundado pelo Pai e pelo Espírito, de tal forma
que, por meio da Palavra do Filho, penetra na vida do Deus
trinitário.
Os limites que o crente sente desaparecer nesse instante
também não existem no Deus uno e trino. Aquilo que, do ponto de
vista terreno, aparece como um obstáculo, contemplado a partir de
Deus já não é tal. Aquilo que o tornava inseguro e vacilante, aquilo
2 A expressão "amor ad intra" é um termo teológico que se refere ao amor interno de Deus,
ou seja, o amor que existe dentro da própria Trindade — entre o Pai, o Filho e o Espírito
Santo — antes e independentemente da criação do mundo.
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que se opunha ao seu amor, já foi superado no diálogo intradivino.
Ele é como um cego que pode dar alguns passos em um terreno
desconhecido; fez dos objetos ao seu redor seus pontos de apoio e,
de repente, se vê em um espaço sem obstáculos. Pode mover-se
em todas as direções e já não precisa ater-se ao seu antigo sistema
de orientação. No entanto, quando busca os obstáculos com seu
bastão e não os encontra, sente-se inseguro. Da mesma forma,
aquele que ora pode sentir-se subitamente inseguro diante de
Deus, pois o finito foi posto de lado.
Mas essa insegurança é proveitosa, pois proporciona
conhecimento. Todas as coordenadas espaciais, temporais e
psicológicas do eu desapareceram e não foram substituídas por
nada. Nenhum obstáculo, nenhum ponto de referência espacial,
temporal ou de caráter substituiu os anteriores. Na realidade, deve
surgir um vazio que torne possível a irrupção da plenitude divina.
E, embora essa plenitude seja algo totalmente diferente do vazio,
não é algo oposto a ele, pois Deus não é o contrário do mundo,
nem a plenitude o contrário da espera. É o "Outro", o Outro de
Deus, aquela realidade avassaladora que está além de toda
esperança e de toda compreensão criatural, aquela realidade
inconfundível que não precisa se credenciar como divina quando
sobrevém: esta é a primeira característica da vida divina.
Quando o Filho de Deus se faz homem, o sim não se torna
um não, nem se diz não a Deus para dizer sim ao homem. Ao
assumir a natureza humana, o Filho não renega sua natureza
divina. Não podemos colocar um sinal positivo (nem negativo)
diante de uma forma – Deus-homem – nem diante da outra – não
homem. Só podemos dizer: em sua humanidade se faz próxima e
se manifesta ao crente a plenitude e o ser-Outro de Deus. O Filho é
a Palavra do Pai e expressa essa alteridade de Deus por meio de
seu ser e de sua ação. Por meio dele, são-nos dados a conhecer na
terra os mistérios do céu. Nele, o Reino dos Céus se fez próximo,
mas enquanto é o Outro, que sempre permanece transcendente no
meio das circunstâncias e dos conceitos terrenos. As palavras com
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que começam as parábolas do Senhor — “O Reino dos Céus é
semelhante a...” — são, em cada caso, uma alusão clara e autêntica
ao Outro; por conseguinte, também não se pode dizer que, através
das diferentes imagens utilizadas nas parábolas, possa ser expressa
exaustivamente em conceitos mundanos a essência do Reino. Cada
imagem, considerada em si mesma, é radicalmente terrena, e se
Cristo não fosse a Palavra, ninguém poderia imaginar que tais
imagens expressam a alteridade do Reino dos Céus.
Mediante a referência de que é portador, o Filho cria a
relação com esse ser-Outro ou, melhor, ele mesmo a cria
fundamentalmente por meio de sua encarnação, convertendo-se
em referência. E é ao mesmo tempo uma referência ao caminho e à
verdade, por meio dos quais temos acesso à vida divina.
Assim, devemos acomodar nossas verdades parciais à sua
Verdade, e, por meio da humanidade do Filho, aproximar nossa
vida da vida divina. Por meio de nosso "ser criados", já estamos
essencialmente a caminho do Filho, pois fomos criados por Ele e
para Ele. Por isso, a norma do espaço e do tempo reside também
nele. No entanto, nós não conhecemos essa norma. Qual espaço e
qual tempo devemos percorrer para chegar até o Filho? Sabemos
apenas que o tempo é o de nossa vida, mas não sabemos a “hora”.
O espaço é a Igreja, mas também não podemos medi-lo. Mas, ao
nos faltarem suas respectivas normas, experimentamos uma nova
insegurança: vemo-nos flutuando no vazio, por assim dizer. Todo o
nosso ser se dissolve no mistério de Deus, porque também tem sua
origem nesse mistério. Deus nos dá tudo o que é necessário para
nossa peregrinação, mas a fonte de todo dom permanece nele,
porque Ele é o amor.
E esse amor de Deus, esse amor ao "Outro", esse amor
"outro", é tão incomensuravelmente grande que todas as nossas
tentativas de imitação não passam de simples esboços. Somos
como crianças que tentam imitar os gestos do adulto, por exemplo,
de seu pai que está trabalhando. Mas essa imitação não passa de
um jogo. Na realidade, não podemos fazer nada. O sentido dos
17
gestos do pai reside no seu trabalho. O fato de que a criança, por
amor, faça desajeitadamente o que o pai faz com conhecimento de
causa é comovente. Do mesmo modo, o homem que ama a Deus
imita algo que vê Deus fazer, sabendo que sua imitação carece de
valor e só tem sentido enquanto imitação daquilo que adquire seu
pleno sentido em Deus. O crente não pode fazer outra coisa senão
mostrar assim ao Pai que compreendeu algo do que lhe foi
mostrado pelo Filho e deu um “sim” que somente Deus pode
preencher de conteúdo e levar à plenitude.
b. A imitação do inimitável
Ninguém pode separar o que é cognoscível em Deus do que
é incognoscível, de tal maneira que a distinção entre ambas as
dimensões possa ser expressa em meros conceitos; a referência de
Cristo ao Reino dos Céus, por meio de Sua palavra e de Sua vida,
remete à alteridade de Deus, que permanece sempre um mistério,
mas que, no entanto, se aproxima de nós e se revela como mistério
que, por meio da fé, nos convida a participar d’Ele e a imitá-Lo.
Trata-se de uma participação no mistério, como se mostra
claramente em nossa participação em Cristo através da Eucaristia.
Cristo está presente em inúmeras igrejas espalhadas por todo o
mundo, oferecendo-Se como alimento e como objeto de adoração.
Trata-se sempre de hóstias diferentes, oriundas de pães distintos,
de trigo semeado e colhido em campos diversos e por homens
muito diferentes entre si — mas consagradas sempre pelas mesmas
palavras e pelo mesmo rito, na unidade de um mesmo presente. As
hóstias são distribuídas a fiéis totalmente diversos entre si por
diferentes sacerdotes.
Mas a vida divina, que é única e que o Senhor encerra em
Si mesmo para dá-la ao mundo, irrompe na pluralidade do mundo
para conceder-lhe a unidade. Ela recapitula em si a pluralidade do
mundo, a fim de fazer com que essa pluralidade participe da
unidade.
18
E o fim da participação eucarística é o seguimento de
Cristo. Sua origem está na imitação da vontade do Pai por parte de
Cristo durante Sua vida terrena, a fim de realizar a vida divina na
terra. Assim, o seguimento é, em sua origem, uma vida que leva
consigo um amor abnegado: obediente e pobre até a morte, e
virginal — ou seja, inteiramente à disposição do Pai. Aquilo que o
Senhor depois formulou em Seus "conselhos evangélicos" é, em
essência, o próprio seguimento d’Ele à vontade de Deus. Com isso,
Ele levou também à plenitude a fé veterotestamentária: a
existência obediente à Palavra de Deus que guia o Seu povo.
Ora, o fato de que o seguimento encerre em si a imitação
se torna compreensível uma vez que o Verbo se fez carne; dessa
forma, torna-se também possível uma convivência autenticamente
humana. E é justamente nessa proximidade que se manifesta
novamente a ruptura. Seguir a Cristo e imitá-Lo significa tomar o
inimitável, o incomparável e o irrepetível como norma da própria
vida, aspirar à plenitude que Ele é e que nós nunca poderemos ser.
Em nosso desânimo, podemos buscar refúgio na Mãe do
Senhor. Ela é uma pessoa humana como nós, deu seu "sim" a
Deus, rezou e renunciou a si mesma, acompanhou Seu Filho até a
cruz em uma atitude de fé, para, por fim, passar a fazer parte da
Igreja. Mas o seu fiat está muito acima do nosso: ela foi escolhida
de modo irrepetível como morada do Espírito Santo para ser
fecunda na fé — uma fecundidade que se expressa corporalmente e
que é inimitável para nós. A missão de Maria é única; em nenhum
de nós pode repetir-se.
No entanto, através da distância que separa a missão de
Maria da nossa, aparece com clareza o fato de que é justamente
essa distância que torna possível a proximidade e o seguimento.
Alegrando-nos com a singularidade da missão de nossa Mãe,
aprenderemos a compreender como, por meio de sua fecundidade,
torna-se possível toda fecundidade eclesial — uma fecundidade que
participa da dela. Pois também nós, através da fé e de uma atitude
de entrega, bem como da oração e do apostolado, podemos ser
19
portadores da Palavra que é o Filho, a fim de que Ele se encarne
em nós mesmos e no mundo.
E, na medida em que participamos de sua fecundidade, nos
exercitamos na imitação do Filho — tanto em Seu "sim" ao Pai
quanto em Seu amor abnegado. A distância entre Ele e nós, que
ameaçava nos desanimar, tornou-se inofensiva, por assim dizer; de
maneira clara e tranquilizadora, essa distância aparece como o
pressuposto de nossa proximidade ao Senhor. E, quando ficarmos
para trás em nossa missão, podemos seguir o exemplo do Filho e
da Mãe, que realizaram plenamente sua missão, para assim
participar da vida divina através deles.
Por outro lado, na medida em que ambas as coisas,
Eucaristia e seguimento, se incluem mutuamente, não
permanecemos estagnados diante da pura distância em relação ao
“ser Outro” de Deus, como uma imagem diante do limiar da
realidade. Por meio da comunhão, a realidade e a vida de Cristo
irrompem em nós e nos concedem a vida divina, a partir da qual se
torna possível o seguimento.
Se olharmos retrospectivamente para a Antiga Aliança,
reconheceremos até que ponto a Palavra de Deus já atuava ali para
ajudar o homem a viver uma existência de fé e, assim, mostrar-lhe
o Deus vivo, que já traz em si, de modo oculto, a vida trinitária do
amor. Mas é na Nova Aliança, e sobretudo através do sacrifício
eucarístico do Filho, que essa vida divina se manifesta como o que
realmente é: um eterno intercâmbio amoroso.
E, dado que essa vida nos foi oferecida para que a façamos
nossa, o “sim” e o ato de fé adquirem aqui, pela primeira vez, uma
amplitude que abarca toda a vida humana. A forma de vida de
Cristo (tal como aparece principalmente nos conselhos evangélicos)
converte-se, de fato, em força configuradora da nossa própria vida.
Pela primeira vez, a Igreja pode ser essencialmente
apostólica, em contraposição à Sinagoga; e ser apostólica significa
manifestar, por meio da vida dos cristãos, o que é a vida oculta do
20
próprio Deus. E essa vida dos cristãos transforma-se num órgão
necessário de mediação entre a autorrepresentação de Deus e o
mundo.
c. Nossa redenção no Filho
Deus Pai, enquanto criador do universo, sabe desde toda a
eternidade que irá ao encontro da humanidade pecadora e que o
Filho está igualmente predestinado, desde sempre, a ser o
garantidor da obra da redenção. Aos que o amam, Ele os oferece ao
Pai, na medida em que os incorpora à sua obra redentora.
Ninguém pode alcançar o verdadeiro amor de Deus sem a
ajuda do Filho. Somente Cristo revela ao mundo até onde vai o
amor de Deus, somente nele o homem é purificado de tal maneira
que esse amor pode tomar posse dele.
Em Cristo, Deus se faz homem: um homem que, a
princípio, não se diferencia em nada dos outros, mas cujo
testemunho de si mesmo ultrapassa tudo o que o homem pode
dizer de si. Ele é, ao mesmo tempo e de maneira inseparável, a
Palavra e o Filho do Pai, e, enquanto é ambas as coisas, é também
aquele que se fez homem. Quando o Pai fala com o Filho como com
a Palavra que Ele é, o Filho fala ao homem. Quando o Filho
responde ao Pai, dirige-se ao Pai juntamente com o homem (em
virtude de sua encarnação).
Esse diálogo não está dividido em duas partes, de forma
que se possa dizer: “até aqui chega o que o Pai tem a dizer ao
Filho, e aqui termina o que os homens dizem a Deus e começa o
que o Filho diz ao Pai.” Pelo contrário, deve-se dizer o seguinte: “o
homem ouve a Palavra do Pai no Filho e juntamente com o Filho, e
dirige-se a Deus Pai por meio da Palavra do Filho.”
Na medida em que é a Palavra única, o Filho engloba em si
toda oração e toda palavra do homem. Mas é na força da Palavra
dirigida ao Pai que reside a força da Palavra dirigida ao homem. O
21
discurso que o Filho dirige ao Pai é a substância do discurso
apostólico do Filho ao mundo. Com efeito, a partir de agora é
impensável que o Filho fale com o Pai sem ser o portador de toda a
criação, para reconduzi-la ao Pai; sem que Ele adore o Pai como
Criador juntamente com todas as criaturas, colocando nessa
adoração todo o seu amor filial, que tem como objeto tanto o Pai
como sua obra.
Esse movimento único e, no entanto, duplo é o da Palavra
Única, que em Deus não tem fronteiras, mas que, aparentemente,
é limitada por sua forma humana. Cristo fala aos seus discípulos, e
sua Palavra não ultrapassa o pequeno círculo onde é audível. Mas,
sendo divina, não perdeu o caráter ilimitado do eterno, mesmo na
limitação assumida por meio da encarnação. Está carregada de um
sentido plenamente divino.
Não se trata de uma verdade parcial, mas do receptáculo
de toda a verdade divina e, por conseguinte, de uma verdade que
está além de todo sentido que os homens possam lhe atribuir. É o
"além" em si mesmo, o ilimitado e o eterno. Nenhuma das palavras
que o Filho pronuncia perde seu sentido com o passar do tempo.
Trata-se sempre de uma palavra salvífica.
Se a um homem se pergunta como ele entende sua
redenção, ele apresentará uma série de ideias: foi libertado do
pecado sob o qual sofria; vê diante de si um espaço de liberdade no
qual pode entrar; pode tornar-se um homem novo. No entanto,
essas observações e outras semelhantes só são compreensíveis no
âmbito da cruz. Mas, quem compreende o que é a cruz?
"Tenho sede", grita o Filho. Sua sede torturante é, no
fundo, sede do Pai, sede de entregar em suas mãos um mundo
redimido — não só enquanto amado, mas também enquanto
amante —, sede de não ver em parte alguma nada contrário ao Pai;
sede de experimentar o amor de todos os homens para transmiti-lo
ao Pai.
22
Essa experiência reside no Filho, tem seu lugar ali onde o
Filho ressuscita e recolhe o fruto de sua paixão. Ora, como Ele quis
salvar o mundo desde sempre, teve também desde sempre essa
sede redentora de poder cumprir sua missão até o fim e realizar
plenamente a vontade do Pai.
E se a ressurreição para a vida eterna significa a extinção
dessa sede, a Palavra, enquanto feita carne, permanece sempre
operante. É Palavra pronunciada e ouvida, acolhida ou rejeitada,
Palavra que surge e retorna à sua origem, e, por conseguinte,
enquanto permanece e age sobre a terra, é Palavra sedenta.
É desejo radical de que a salvação opere em um âmbito cada vez
mais amplo: essa sede redentora realiza a salvação na cruz na
medida em que Cristo toma sobre Si os pecados da humanidade, e
por isso conserva sua atualidade enquanto existirem no espaço e
no tempo pecadores cujos pecados devam ser carregados.
Durante a paixão, essa sede torna-se cada vez mais
premente: desde o Monte das Oliveiras até o momento em que
sofre a flagelação e é espancado, quando os cravos são cravados
em sua carne, em cada segundo que passa na cruz, essa sede
impregna todo o ser de Cristo — além do grito "Tenho sede!" — até
o último desfalecimento, que não pode ser expresso em palavras e
que culmina na morte.
E todos os mistérios da paixão, que a Palavra experimentou
até o extremo, o Pai os faz retornar a Si mesmo na ressurreição do
Filho. Tão bem conhece o Pai a Palavra, que só precisa tocá-la
misteriosamente para fazê-la voltar à vida eterna (junto com a
experiência do mundo, do pecado e dos infernos) como sua Palavra
eterna, que encerra em si todas as palavras do mundo e dos
homens.
Por meio do envio da Palavra, tornamo-nos crentes;
mediante sua paixão, fomos renovados; por meio de sua
ressurreição, ressuscitamos; por seu retorno ao Pai, dirigimo-nos a
Ele por meio da Palavra do Filho, de tal modo que ela chega ao
coração do Pai. Com efeito, por meio da Palavra do Filho, seu Pai
23
tornou-se também nosso Pai; e, na medida em que esse retorno do
Filho se realizou no Espírito Santo, este último também nos foi
concedido, pois a eterna circulação do amor entre o Pai e o Filho
encerra em si mesma também o mundo.
d. Viver na Palavra de Deus
No interior de uma verdade tão incomensurável se
desdobra o conceito de salvação, que, como qualquer outro
conceito referente à revelação da Palavra, só pode ser plenamente
compreendido a partir da vida eterna da Trindade.
Quando duas pessoas se despedem, fazem-no com uma
última palavra. Esta permanece em seus corações; elas a guardam,
a acolhem, a alimentam e dela se alimentam. Nas palavras de
despedida parece haver uma força capaz de superar o abismo da
separação, de conceder vida na ausência e de comprometer toda a
existência. Assim, a palavra se torna comprometedora. Se os que
se despedem se amam, cada um deseja receber a marca da palavra
como uma promessa de amor, de tal maneira que o próximo
encontro carregue em si o sinal e o selo daquela palavra.
Quando Deus fala, coloca em Sua Palavra algo de Sua
própria vida, e, na medida em que — por assim dizer — a Palavra
ultrapassa o âmbito do céu e se dirige à terra, ela não perde essa
vida, mas torna-se dispensadora de vida em todas as situações. Ela
toca o homem para chamar sua atenção para Deus e para Sua
vontade; mais ainda, para comunicar-lhe a vida da qual é portadora
e que tem sua origem no amor de Deus. A partir de Sua
permanente contemplação do Pai, o Filho fala na terra de Sua
relação com Ele, de Si mesmo e de Sua doutrina. E tudo isso Ele
realiza numa atitude de obediência ao Pai, obediência que é
expressão de Sua missão.
Ele nos lança a Palavra como uma bola, para que a
agarremos. Isso exige atenção e conformidade; o cristão não pode
se contentar em considerar como um simples fato o acontecimento
24
de ter ouvido a Palavra de Deus, para logo em seguida colocá-la de
lado. A Palavra encerra em si mais vida — infinitamente mais — do
que o homem consegue perceber. Mesmo quando é mal utilizada,
reprimida, deteriorada ou esquecida, a Palavra é sempre expressão
e testemunho do amor de Deus. Enquanto tal, tem o poder de
renascer sempre de suas cinzas, de se apresentar repentinamente
ao homem como uma exigência. Tudo o que ela exige está
relacionado com a vida. De modo inesperado, ela é sempre
expressão dessa mesma vida.
Podemos nos encontrar com a Palavra por meio da liturgia,
da pregação, da meditação sobre a Escritura — mas o encontro
mais profundo, aquele em que ela adquire seu pleno sentido, situase
no futuro: “amai-vos uns aos outros”. A pregação é apenas um
estímulo para a ação, e a ação é a forma pela qual o crente devolve
a Deus a Palavra recebida.
Os homens que respondem a Deus dessa maneira irradiam
uma luz que não procede deles, mas que brilha desde o céu através
da Palavra que eles receberam na fé. Pode-se calcular quanta luz
uma pequena planta precisa para se desenvolver. Mas não é
possível determinar quanta luz Deus deve irradiar sobre os Seus
por meio de Sua Palavra, até que aprendam a crescer utilizando a
força que essa luz lhes dá.
Nesse encontro na luz, já não há nenhuma escolha a fazer,
pois Deus já escolheu de antemão. O homem que confia na luz da
Palavra é moldado por ela; ele desenvolve, por assim dizer, seus
ramos, suas folhas, suas flores, na direção que lhe é indicada pela
luz. E esse ser guiado pela luz é a liberdade suprema. A luz não
obriga, convida. Mesmo onde a luz da Palavra nos exige algo, essa
exigência é convite, revelação de novas e melhores possibilidades,
oferecimento de seiva nova a uma vida cansada.
Um “não” à graça da Palavra é, antes de tudo, uma recusa
da vida que Deus oferece. Só em segundo lugar é também uma
forma de autoempobrecimento do homem. O homem é livre a tal
ponto que, aparentemente, pode afastar de si a vida divina.
25
Naturalmente, ele não pode privar Deus de Suas possibilidades.
Com efeito, Deus não é limitado — somente o homem se estreita a
si mesmo de tal maneira que impede o desenvolvimento da vida
divina que Deus quer imprimir nele.
A parábola do semeador nos mostra isso com toda clareza:
a semente cai em uma terra que não a deixa crescer. No entanto,
não se pode dizer que Deus, como semeador, tenha perdido Sua
semente, pois para Ele tudo é possível. Com efeito, no lugar
daquela que aparentemente se perdeu, Deus pode fazer brotar de
mil outras maneiras novas sementes.
Mas é um fato que se pode dizer “não” à vida divina. Já faz
tempo que talvez possamos contar nos dedos de uma mão aqueles
que renegaram da fé e cuja atitude negativa tenha tido grande
influência na sociedade. Na verdade, essa atitude negativa constitui
um desafio para os que dizem “sim” e, dessa forma, tornam-se
mais numerosos. Eles sentem a vida de Deus de maneira mais
profunda e buscam formas de comunicar essa experiência a outros.
As parábolas referentes ao Reino dos Céus e aos seus
divinos mistérios devem ser entendidas, por um lado, a partir da
perspectiva do espírito, e, por outro, em seus aspectos concretos,
compreensíveis para o ser humano. Frequentemente, a
compreensão e a incompreensão andam juntas. Pode-se
compreender algo até certo nível, mas além desse nível,
permanece um resíduo incompreensível.
Assim, por exemplo, os cientistas que estudam as formas
primitivas de vida, ao se ocuparem de uma determinada camada de
problemas, de repente penetram num nível mais profundo, e é
comum ouvi-los proclamar em alto e bom som que descobriram o
segredo da vida. Na verdade, o que descobriram foi apenas uma
nova forma ou manifestação da vida, cuja raiz continua oculta.
A Palavra de Deus tem sua origem no Pai; é daí que
provém toda a sua vitalidade celeste, que jamais poderá ser
completamente compreendida pelo mundo. Mas, para o crente, é
26
possível contemplar a Palavra em sua origem (e isso vale para
todas as palavras do Senhor, tanto aquelas dirigidas aos discípulos
quanto às palavras aos pecadores, aos indiferentes ou aos
inimigos), e examiná-la em seu conteúdo divino primordial.
A origem da vida divina nos foi revelada por Deus de
maneira misteriosa: é o amor do Pai que gera a Palavra por amor, e
no mesmo amor Ele a nos entrega. É claro que se pode encontrar a
Palavra “no meio do caminho”, por assim dizer, ou podemos nos
deparar com ela em qualquer ponto dessa trajetória. Mas, quando
se trata da questão de sua vitalidade, devemos remontar à sua
origem, ou seja, até o lugar de onde ela brota: do Pai.
A vida de Deus só se revela em Deus; e somente mediante
a fé podemos voltar a essa origem — não por alguma força natural,
mas porque o Filho vê o Pai e nos faz participantes dessa visão, de
modo que sua Palavra, com toda a energia divina que carrega, vem
ao nosso encontro.
27
Capítulo 3
O CONHECIMENTO
a. A Palavra malograda e a Palavra compreendida
Na oração, a união entre o homem e Deus é, em muitos
aspectos, comparável àquela que ocorre em um diálogo. Aquele
que ora, fala e recebe resposta na fé; pede e é ouvido, busca e
encontra.
No diálogo entre seres humanos, normalmente há
surpresas, especialmente quando mal se conhece o interlocutor.
Tentamos formar uma ideia de como ele é, achamos que
adivinhamos o tema e o nível adequado da conversa, e agimos em
consequência disso. Mas pode acontecer que o interlocutor não
entre facilmente no diálogo, dê respostas que pouco tenham a ver
com o tema, ou então que o assunto o afete muito mais do que o
esperado, e ele faça uma observação irrepetível, definitiva, que
ultrapasse nossas expectativas. Nesse caso, o panorama muda
completamente.
Por outro lado, se conhecemos o interlocutor — se é uma
pessoa famosa, amplamente reconhecida por sua inteligência e
especialidade —, ele fará todo o possível para que o outro não se
sinta intimidado, e buscará expressar suas ideias em termos
compreensíveis.
Acreditamos entender os assuntos abordados, nos
alegramos por poder dialogar, sentimos que saímos enriquecidos
após a conversa, buscamos apropriar-nos definitivamente das
ideias ouvidas e, em certas circunstâncias, até as apresentamos
como se fossem nossas. E talvez façamos isso com a melhor das
intenções — ou porque esquecemos de onde vieram tais ideias, ou
porque nos pareceram tão evidentes que as incorporamos ao nosso
modo de pensar, para recorrer a elas quando surgir a ocasião...
28
No diálogo com Deus acontecem muitas coisas que tendem
a aumentar nosso conhecimento d’Ele. Através daquilo que Deus
nos comunica e nos dá de Si mesmo, aprendemos a conhecê-Lo.
Certamente, às vezes sofremos decepções: na oração,
posso suplicar a Deus uma determinada coisa — por exemplo, que
me mostre se devo agir assim ou de outra forma. Mas se o meu
próprio desejo de fazer isto e não aquilo for muito grande, a
resposta divina pode ser facilmente desfigurada. Eu não me
disponho seriamente a deixar que Ele fale, mas, no fundo, apenas
percebo a minha própria voz amplificada. Nesse caso, não teremos
avançado nada no conhecimento de Deus. O homem rebaixa Deus
ao seu próprio nível e, como consequência, confunde aquilo que
Deus tem a lhe dizer com aquilo que ele mesmo quer ouvir.
No entanto, se a oração é realmente um diálogo, então
devo me apresentar diante d’Ele com uma atitude que Lhe permita
falar — como se se tratasse de um homem famoso, infinitamente
superior a mim, que, apesar de tudo, se digna a me falar de um
modo compreensível. Com efeito, onde Deus deseja intervir na vida
do crente para configurá-la, Ele também se inclina a expressar o
incondicionado de tal modo que o crente possa entendê-lo e
apropriar-se disso.
O cristão comum tende frequentemente a considerar Deus
como uma espécie de homem muito importante, do qual forma
uma ideia muito particular. Ele não concede a Deus a liberdade de
ser totalmente outro, diferente, infinitamente grande e
verdadeiramente eterno. Pretende compreender Deus e O
representa de acordo com seus próprios pontos de vista e, assim,
sem perceber, despoja Deus de Sua realidade propriamente divina.
Por assim dizer, o divino é para ele uma característica entre outras,
que não precisa considerar em sua própria realidade ou contemplar
com assombro.
Se o cristão não toma consciência desse perigo a tempo,
acabará adotando uma atitude arrogante diante de Deus, e sua
oração o levará, não ao conhecimento de Deus, mas ao completo
29
oposto. Em meio à mornidão das orações rotineiras e à
superficialidade que surge com o desgaste da realidade cotidiana
nunca renovada, esse suposto Deus só pode dar respostas
estereotipadas, como um autômato. Desse modo, quem reza adota
quase inconscientemente uma atitude tão orgulhosa, que mal
acredita ter necessidade da oração.
Em ocasiões extraordinárias, quando sua própria razão
falha claramente, ele se lembrará de Deus e O invocará. Mas ele já
não sabe respeitar a liberdade de Deus, nem agir conforme a Sua
vontade para, assim, tornar-se um verdadeiro crente. Tampouco
está em uma atitude de seguimento da vontade divina; tudo foi
simplificado a tal ponto que as verdades mais superficiais,
desprovidas de toda profundidade, lhe bastam e, por conseguinte,
segundo sua opinião, também deveriam bastar a Deus.
Pelo contrário, quando quem ora tem presente a distância
que o separa de Deus numa atitude de amor e reverência, quando
ama a Deus tal como Ele é em Si mesmo, quer o compreenda ou
não, então ele dará a Deus a oportunidade de Se revelar. Em toda
oração, ele experimentará algo de Deus — certamente não com
uma regularidade previsível, nem segundo uma gradação de
conhecimento mensurável, mas de tal modo que, por meio da
liberalidade divina, poderá ter uma visão cada vez mais profunda
do que Deus é, e compreenderá de forma mais íntima o que Ele
quer dizer ao homem.
Toda resposta ou exigência divina revelará ao crente novos
aspectos do ser de Deus. E aquilo que aparece ao meditador, as
conclusões que nele amadurecem e se esclarecem na oração —
tudo isso é o que alimenta sua compreensão da essência de Deus,
pois nada daquilo que Deus comunica deixa de ser experimentável,
ao menos até certo ponto.
As palavras de Deus não são palavras que levam ao abismo
mais escarpado ou à escuridão onde nada mais é compreensível —
Deus realmente Se manifesta ao homem.
30
E Ele se manifesta na palavra e no discurso com que o Filho
nos interpela. Como Ele convida os homens a segui-Lo, pode
também manifestar-Se neles por meio de qualquer linguagem
humana. Toda linguagem pode tornar-se portadora de Deus e
referência a Ele, à Sua Palavra inconcebível, santa, impregnada de
amor eterno.
Por meio de uma linguagem que se extingue, efêmera,
dividida em palavras singulares, Deus expressa o permanente, o
indivisível. Utilizando conceitos humanos, Deus fala do irrepetível,
do sempre novo, que é tão verdadeiro e tão urgente hoje quanto há
milhares de anos. A verdade está tão profundamente aclimatada na
Palavra de Deus que, em nenhum outro lugar, aparece com
tamanha clareza e força irradiante.
E, como a Palavra é verdadeira enquanto Palavra de Deus,
ela é também conhecimento — e conhecimento de uma verdade
cada vez mais sublime. É um conhecimento que provém da Palavra
e se dirige para a Palavra. Não há verdade nem conhecimento que
não se orientem para ela.
Na medida em que a Palavra é pronunciada, ela mostra, em
sua verdade, o que é a verdade e, assim, é uma Palavra que atrai,
que eleva para si, que transforma em amor. Ela quer que toda ação
humana contenha em si o som da voz divina e sua verdade.
Não há dúvida de que uma pessoa pode experimentar a
presença de Deus de forma súbita e inesperada. Deus se apresenta
diante dela e lhe exige algo determinado. Ele pode cair sobre o
crente como um terror mortal, como se este se sentisse fulminado
por um raio da verdade eterna. A Palavra o interpela, e tudo o que
não é essa Palavra deixa de existir para ele.
Mas, na maioria dos casos, a Palavra se antecipa com
delicadeza, revela lentamente sua presença, seu “sempre mais”,
sua exigência inexorável, apesar de tudo, pois, mesmo assim, pode
tornar-se ainda mais premente para o homem; o relâmpago pode
lhe aparecer como o incompreensível, mas a revelação gradual
31
carrega em si o conhecimento que cresce lentamente — e diante do
qual não há escapatória possível.
b. Implicação da subjetividade
O conhecimento é sempre conhecimento de algo, isto é,
objetivo. No entanto, na fé, o conhecimento de Deus recebe algo
mais, e esse acréscimo refere-se ao sujeito e à sua existência.
Aquilo que é propriamente o conteúdo da fé foi bem
definido pela Igreja: são coisas claras e evidentes que dizem
respeito ao conhecimento de Deus e à Sua exigência. Mas o cristão
não pode considerar essas coisas como se fossem uma realidade
puramente objetiva.
Pelo contrário, se ele compreende que esses dogmas são
verdadeiros para si mesmo, que fazem referência a ele e querem
tomar posse dele, então deve renunciar a essa consideração
puramente objetiva: a fé exige algo do eu; o homem deve
introduzir-se com toda a sua subjetividade no âmbito da verdade
cristã.
Ele não pode mudar essa verdade — e, no entanto, ela se
torna agora para ele algo diferente, porque, de agora em diante,
lhe pertence, cria raízes nele e, em determinados pontos, torna-se
a sua verdade.
Dessa forma, ele deve aproximar-se da verdade a partir
dessa realidade. Se prestar atenção aos processos e
transformações que ocorrem dentro de si, perceberá que ele muda
sempre de acordo com a verdade — e não o contrário.
A objetividade da fé implica a subjetividade do crente, pois,
de outro modo, essa objetividade não transformaria toda a sua
existência. Assim, o seu conhecimento e, de modo análogo, o seu
diálogo apostólico, sua pregação, levarão a marca de sua
personalidade: ele anunciará o Deus que encontrou, que aprendeu
a conhecer.
32
Se todo crente, seja quem for, se comportar dessa maneira,
a grandeza e objetividade de Deus e de Sua revelação não sofrerão
nenhum prejuízo. Isso não constitui uma alteração da fé, mas
mostra, antes, como a encarnação do Filho foi realmente capaz de
levar a verdade divina a todo ser humano e de despertar nele um
amor ardente por esse Deus que o ama.
Se quisermos representar isso graficamente, diremos que
Deus é como um centro irradiador, e os homens acorrem a Ele em
massa, confessando-o e reconhecendo-o como tantos raios que vão
da periferia ao centro — cada um partindo de um ponto diferente,
do qual não precisa renegar, pois todas as criaturas brotaram
originariamente do centro divino, e Deus atribuiu a cada uma seu
lugar e sua peculiaridade própria, para que, a partir daí, iniciem a
jornada de retorno.
Essa imagem mostra que o crente está sempre em caminho
rumo a uma meta, que é o próprio Deus. E a distância a ser
percorrida é um caminho de conhecimento. Aquele que olha
diretamente para o sol fica cego; mas os raios que ele vê, tanto
podem vir do sol como ir em direção a ele. Quando alguém conhece
a Deus, a graça corre desde o centro divino até essa pessoa, para,
por sua vez, fazê-la retornar a Ele; a esse movimento da graça,
que vai de Deus ao homem, corresponde o movimento inverso, que
vai do homem a Deus — e esse movimento é o conhecimento.
Se lermos as obras dos inúmeros autores que escreveram
sobre Deus e sobre o que Ele significou para eles e para o seu
caminho, veremos imediatamente, com toda clareza, que, no
fundo, todos disseram as mesmas coisas — e, no entanto, cada um
quis convencer seus leitores por meio de sua experiência íntima,
dando testemunho do caminho que Deus lhe havia atribuído. A
variedade multiforme de pontos de vista, na medida em que todos
desejam se fundamentar na fé cristã e dela extrair vida, foi
permitida e desejada por Deus, a fim de tornar a verdade acessível
aos mais diversos tipos de pessoas.
33
Quando a Igreja formula as verdades da revelação através
de seus dogmas, de modo que todos possam professá-las — e,
portanto, ninguém possa dizer que não tem acesso a esta ou
àquela verdade — isso não impede que, apesar de tudo, cada um
possa aproximar-se dessas formulações objetivas a partir de sua
própria experiência, nem o reduz apenas a ela. Mas faz parte das
exigências da fé buscar aquelas vias de acesso que mais se
adequem à experiência pessoal de Deus. E aquele que não puder
descobri-las por si mesmo, deve permitir que outras pessoas que já
tiveram essa experiência o conduzam até elas.
Quando uma pessoa encontra a via de acesso que lhe
convém, quando é capaz de transformar um dogma em que crê —
como se fosse uma verdade puramente objetiva — em uma
verdade que lhe dá vida, ela deve colaborar para que outros, por
meio dela, também amadureçam na verdade cristã.
Na formulação de seus dogmas, a Igreja se utiliza como
fonte da Palavra revelada, atestada pela Sagrada Escritura. Todo
ser humano pode inspirar-se nessa fonte; contudo, deve interpretar
a Escritura em conformidade com a compreensão da fé vigente na
Igreja e com a Tradição, e compreendê-la sempre à luz e dentro do
padrão das formulações dogmáticas.
Dentro desse marco, cada pessoa é livre para escolher
aqueles livros e palavras que melhor possam servir-lhe como guia
pessoal. Mas, ao escolher, deve entender-se como alguém que foi
escolhido e, junto com seus modelos prediletos, deve adotar uma
atitude de disponibilidade e obediência, cujo modelo último é a
relação do Filho com o Pai. Para isso, abrem-se diversas
possibilidades no interior da Igreja: este ou aquele santo, esta ou
aquela ordem, etc.
c. Conhecimento e "noite escura"
Para o crente, o grito com que o Filho expressa na cruz o
seu abandono é, talvez, a expressão mais elevada do conhecimento
34
de Deus. Naquele instante, o Filho toma sobre Si todo o pecado e o
sofrimento do mundo e, assim, consuma Sua missão. Ele sabe que
aquilo que queria fazer por amor ao Pai e para o Pai está feito. E
está consumado de tal maneira que Ele foi despojado de tudo. Só
resta Sua ação última, Sua “noite”, que está disposto a suportar até
o fim. E, na medida em que nela se cumpriram todas as promessas
e prefigurações da Antiga Aliança, essa noite é a constatação última
da verdade e, portanto, o mais alto e último conhecimento.
Em consequência, quem quiser seguir o Senhor deve fazer
dessa noite o coração da própria existência. Não a reclamará para
si em atitude de arrogância, mas a viverá com a humildade de
quem ama — que, como tal, tem o direito de se aproximar do mais
profundo mistério do Senhor. A noite é o mistério do Crucificado,
enquanto a Mãe e o discípulo amado estão ao pé da cruz. Hoje
como então, todo aquele que quiser seguir a Cristo só pode
participar do mistério da noite por meio da cruz.
E, evidentemente, para isso não basta realizar disquisições
teóricas sobre a cruz, mas é preciso tornar-se presente até onde o
amor de Cristo pelos homens O levou — e, consequentemente
(guardadas as devidas proporções), até onde deve levar o cristão.
Todo crente acompanha o Senhor em Sua paixão do mesmo modo
que a Igreja o faz: através da oração litúrgica e da oração e
meditação pessoais.
Aqui encontramos um conhecimento objetivo — é o que diz
a Escritura e é objeto da celebração litúrgica —, mas dele brota
também um conhecimento subjetivo. É algo que me concerne, me
comove, me impulsiona a tirar conclusões para a minha vida. Essa
marca pessoal que imprimo à minha religiosidade e à minha oração
será configurada, como foi dito, pelo contexto da religiosidade
eclesial, e, além dela, por uma religiosidade inspirada na Escritura
e, em última instância, fundamentada no abandono de Deus
experimentado na cruz pelo Filho, que, ao tomar sobre Si os meus
pecados, tornou possível a minha fé e o meu caminhar rumo a
Deus.
35
Uma vez conhecida essa fonte oculta de toda graça, o
cristão não pode dar-se por satisfeito apenas com sua oração, mas
deve desejar fazer penitência de algum modo — por mais
imperfeita que seja — e essa penitência deve ser realizada numa
atitude de amor e seguimento de Cristo. Não deve imaginar que
está compartilhando a paixão de Cristo, mas sim, como diz São
Paulo, tentar preencher as lacunas que lhe foram reservadas. Na
verdade, espera-se dele apenas um gesto simbólico — mas ele
deve realizá-lo.
Além da oração e da penitência, sua atitude e seu modo de
pensar devem proclamar que ele adquiriu um conhecimento de
Deus através do mistério da cruz. Essa atitude global deve aparecer
com maior clareza no religioso, que vive de acordo com uma regra
que representa, em sua totalidade, uma aplicação do mistério da
cruz a uma forma concreta de vida. Mas também o leigo pode
impor a si mesmo uma forma de vida análoga, configurada pela
cruz.
Ora, a forma de vida que se configura a partir do
conhecimento da cruz e da ressurreição nunca se limita a estar
centrada no crente, mas, assim como a cruz de Cristo, está aberta
ao mundo e a todos os homens. Sua lei fundamental é o amor
desinteressado ao próximo. Do mesmo modo que o Filho não
assume a cruz apenas para satisfazer ao Pai, mas pela redenção de
todos os homens, o conhecimento adquirido sob a cruz também
não diz respeito apenas à salvação pessoal; o próximo, a Igreja, o
mundo, situam-se no centro de toda religiosidade cristã.
O Carmelo quer fazer expiação pelos pecados do mundo; se
no Carmelo se pensasse apenas na própria salvação, isso
equivaleria a viver fora da regra. Por meio da regra, cada membro
da Ordem vive em estreito contato com o pecado do mundo; não se
pode aspirar contemplativamente ao conhecimento de Deus sem
que apareça no campo de visão o mundo dos pecadores, por quem
Cristo padeceu, revelando assim, em sua máxima profundidade, a
essência de Deus.
36
Se o conhecimento de Deus se limitasse apenas ao conceito
de Deus, já não haveria lugar para o conhecimento da criação e da
obra do Filho, que está sempre em movimento entre o Pai e o
mundo, entre o mundo e o Pai. Todo conhecimento cristão deve
ajustar-se a esse movimento. Em nossa oração e penitência, em
nossa atitude de vida, devemos prestar atenção ao fato de que nos
estendemos sempre em duas direções e, de forma análoga, somos
sustentados por duas forças distintas. Por isso, devemos adquirir
certo equilíbrio — que não é exigido apenas pela saúde da nossa
personalidade, mas também, e de maneira ainda mais decisiva,
pela tensão existente entre Deus e o mundo.
Todo aquele que faz afirmações sobre o conhecimento do
divino encontra-se em uma situação semelhante à de um professor
de religião que tenta explicar algo a crianças pequenas. Para falar
sobre Deus, é preciso recorrer a rodeios, a fim de se tornar
compreensível para a mentalidade infantil. Ele não pode esquecer
que está falando a crianças, que suas palavras precisam ser
entendidas, que suas comparações devem ser adequadas à fantasia
infantil. Foi assim que Cristo se expressou, que nunca falava de
Deus em termos abstratos, mas de tal modo que, apesar de nossa
limitação, pudéssemos compreendê-Lo.
37
Capítulo 4
O ENCONTRO
a. O primeiro contato
A jovem geração recebeu instrução religiosa e pertence a
uma determinada confissão, mas, mesmo assim, o religioso é para
ela um "campo especializado" como qualquer outro — por exemplo,
o das línguas estrangeiras, o das ciências naturais, etc.
Na maioria das vezes, foram os pais que escolheram para
seus filhos uma religião e uma confissão específicas: os filhos então
crescem em meio a uma educação religiosa trivial ou em uma
atitude de indiferença; cumprem com seus deveres eclesiásticos do
mesmo modo como cumprem com as obrigações escolares — e seu
interesse não vai além disso.
Somente quando a pessoa amadurece e começa a projetar
e moldar a própria vida, e quando, entre os diversos caminhos que
se lhe apresentam, escolhe um que lhe parece corresponder às
suas aptidões e inclinações, é que pode surgir o desejo de
esclarecer também a questão religiosa e confessional.
Mas, em primeiro plano, está sempre a vontade de dispor
livremente de si mesmo: a pessoa quer assegurar-se uma posição
estável na vida profissional (quanto mais importante, melhor) e
adquirir conhecimentos suficientes, opiniões bem fundamentadas,
amizades influentes.
Por outro lado, será possível perceber com clareza se ela
pode dispor também da realidade religiosa — ou se aqui encontra
certos limites e se vê confrontada com a pergunta: como quer Deus
dispor de mim?
38
Essa pergunta pode, em algum momento, surgir
inevitavelmente — durante uma missa, ou no meio de uma oração,
de uma leitura, ou de uma conversa com amigos: nesse instante, a
imagem tradicional de Deus desmorona, e o homem encontra-se
com Deus.
Talvez de modo tão abrupto como quando se esbarra com
um transeunte na rua: não se pode evitar modificar o próprio
caminho, topar com a outra pessoa, fixar os olhos em alguma
vitrine. Ambas se viram uma à outra; se se cumprimentam ou não,
é outra questão.
Deus se manifesta, Deus me fala; não sei se Ele também
fala com outras pessoas — talvez. O certo é que Ele fala comigo.
Como Sua Palavra é compreendida pelo homem que está ao meu
lado, é uma questão que não me interessa nesse momento.
Deus escolheu esta hora e esta ocasião para encontrar-me
a mim. Ele tem os meios e o poder de fazer isso de tal maneira que
o homem não possa evitá-lo e tenha de tomar uma decisão.
Quando o crente se dá conta disso, geralmente se sente tão
abalado que parece desmoronar. Algo dentro dele, que até então
permanecia intacto, oferecia segurança e parecia ter futuro, rompese
em pedaços — e já não é possível remontá-lo.
A “estrada principal” à qual ele estava acostumado termina
subitamente, e começa uma mata caótica. A indigência do homem,
sua ausência de futuro, abre-se diante dele — a não ser que ele se
decida a saltar em direção a Deus por cima do próprio abismo.
O "Tu" divino é tão poderoso que o homem, por mais que
tente, está cercado. Com Deus, não há tréguas. É preciso
perseverar até o fim, até que se tenha escutado tudo.
Deus não passa adiante, mas quer ser ouvido aqui e agora,
e o homem deve estar todo ouvidos.
39
O que Deus tem a dizer, Ele o diz em poucas palavras; na
verdade, pode tratar-se de uma única palavra — que pode
desdobrar-se ao longo de toda uma conversa.
Mas também pode acontecer que tudo fique num simples
início de aproximação — e que sejam necessários muitos dias,
semanas, anos, para que o homem entenda de algum modo o que
Deus quer lhe dizer.
Contudo, Deus, na qualidade de Criador e Salvador do
homem, está tão próximo dele e o conhece tão bem, que sabe
perfeitamente como deve tratá-lo, como deve abordá-lo para ser
ouvido, que palavras deve usar para que o homem responda
infalivelmente.
Muitas dessas coisas encontram-se nas palavras do Senhor
aos seus discípulos: "Tu, segue-me". Quando um homem ouve isso,
precisa investigar como essa palavra foi dita para ele, como pode
responder a ela, para onde deve voltar-se para adquirir uma visão
clara e definitiva da situação. Mas também pode ter ouvido apenas
uma espécie de “Eis-me aqui” de Deus, cujo sentido vai se
clarificando aos poucos. No fundo do espírito, ele sabe que Deus já
está ali e, aparentemente, não precisou encontrá-Lo para saber
disso, basta recordar.
No entanto, quando Deus anuncia Sua presença a uma
pessoa, isso precisa ter um significado profundo e irrepetível, de tal
forma que todo saber anterior sobre a presença de Deus agora
pareça algo precário. Sabia-se sobre isso como se sabe algo que
pode ser útil mais adiante, mas que, por enquanto, não tem
nenhuma atualidade. Assim como, ao estudar latim, aprendemos
uma série de palavras que só muito mais tarde ganham pleno
sentido, por exemplo, quando somos capazes de ler um poeta. O
momento em que o aluno tem pela primeira vez Virgílio em mãos é
para ele um momento solene. Ali está alguém que compreende o
texto — o professor — e está disposto a ajudá-lo a lê-lo, mesmo
que o aluno tenha apenas noções preliminares ainda escassas.
40
Algo semelhante acontece no encontro do homem com
Deus, ou depois que esse encontro acontece. Aprenderam-se
muitas coisas sobre religião, algumas estão presentes, outras
arquivadas para mais tarde — mas é agora que tudo ganha
atualidade pela primeira vez.
Será que nossos conhecimentos preliminares estão à altura
do texto divino? Mas o mestre — Deus mesmo ou algum de seus
colaboradores na Igreja — nos ajudará a lê-lo corretamente. Isso,
contudo, implica uma nova modelagem e planejamento de toda a
nossa existência. O que estava oculto até agora precisa ser trazido
à luz; é preciso revisar tudo, para que nossas deficiências se
tornem visíveis.
Por outro lado, Deus age com enorme delicadeza e, ao
mesmo tempo, sem concessões. Com delicadeza, porque Ele se faz
presente e, com isso, mostra que não quer que minha vida careça
de sentido, já que Ele mesmo escolhe o momento oportuno e me
faz saber como devo conduzir minha vida. Sem concessões, porque
Ele dispensa tudo: o mais velho e o mais novo. O aparentemente
insignificante de repente torna-se importante, o que parecia
importante é descartado, o que era indispensável é posto de lado
sem contemplações, o impossível é exigido como algo essencial. E
toda essa reviravolta acontece porque Deus me encontrou — e, a
partir de agora, a única coisa que tem validade é Sua Palavra.
Na maioria das vezes, isso acontece tão de repente que o
homem tenta se defender de alguma forma: "Tudo isso não precisa
ser levado tão a sério", diz a si mesmo. "Talvez a linguagem de
Deus precise ser interpretada de forma menos radical. O que não
se faz hoje, talvez possa ser feito amanhã, ou mais tarde. Tudo
aconteceu tão de surpresa que é necessário meditar com calma. Já
que Deus dispõe de uma eternidade, por que essa pressa repentina
quando, por acaso, alguém se depara com Ele..."
41
b. A decisão
Quando Deus está decidido a falar e chamar o homem, na
maioria das vezes não parece levar em conta o lugar em que ele se
encontra. Ao mesmo tempo, esse lugar deixa de parecer fixo;
aquele que é chamado se sente como alguém viajando de trem:
atravessa um território, vê imagens novas constantemente,
contempla paisagens fascinantes — e, logo em seguida, tudo muda.
E, no entanto, tudo isso contribui com algo essencial para a
situação do viajante. Um momento antes, contemplava uma
paisagem marítima; agora, começam a desfilar diante de seus
olhos altas montanhas — e ele deveria encontrar dentro de si uma
resposta adequada para tudo.
Ou seja, saber algo que possa ser usado em qualquer lugar.
E esse algo reside ao mesmo tempo em Deus e no homem —
embora ele possa não perceber isso. Mas o que ele sabe com
certeza é que Deus chama, e que ele deve responder; porém, sua
situação muda com tanta rapidez que sua resposta nunca parece
apropriada. Seria — e isso é justamente o que se espera dele —
como um “sim” pronunciado sobre um abismo. Um sim que parece
totalmente impossível. O ar torna-se tão rarefeito que aquele que
fala não ouve a própria voz. E, quando finalmente ele diz um sim
definitivo — como se estivesse à beira da morte —, o panorama
muda radicalmente outra vez.
É como se Deus quisesse que a única coisa inalterável, a
única constante igual a Si mesmo em meio à realidade mutável,
fosse o “sim”.
O homem não pode fazer nada para parar o trem, e tenta
ganhar tempo para se orientar melhor. Se o trem parasse, e o
homem chegasse a dar um “sim” com restrições, um sim
fundamentado em motivos racionais e condicionado por eles, um
“sim” que, gradualmente, incluísse tudo aquilo que ele considera
possível, esse “sim”, em toda a sua vacuidade, se limitaria a ser um
mero eco de sua própria razão.
42
Mas pode-se levantar a seguinte objeção: a razão não é
também um dom de Deus? Sem dúvida alguma. Mas chega um
momento em que o decisivo já não é mais a razão, e sim o próprio
Deus.
Por isso, não adianta fechar os olhos para não ver o
panorama que passa diante de si — o panorama continua ali,
apesar de tudo, e é preciso tê-lo presente ao dar a resposta. É
necessário dizer “sim” tendo-o diante dos olhos — mas esse olhar
precisa ser um olhar em Deus.
Até agora, as circunstâncias da vida eram dadas e aceitas
pelo homem quase sem questionamento; eram diferentes aspectos
de sua existência. Mas agora é preciso afastar-se de tudo isso para
adquirir em Deus a liberdade perfeita.
Por outro lado, o centro de gravidade da vida do homem
parece deslocar-se: o insignificante torna-se essencial, e aquilo que
parecia determinar decisivamente a existência cotidiana, torna-se
insignificante. Para ser livre, o homem deve afirmar ao mesmo
tempo a situação antiga e a nova. Só assim o seu “sim” ganhará a
amplitude necessária. Ele pode referir sua nova atitude a mil coisas
diferentes e, a partir delas, dizer seu “sim” com maior clareza. É
claro que pode dizer “sim” de maneira resumida e renunciar
globalmente ao que era antes; mas essa soma não pode ser feita
apressadamente — cada parcela deve ser cuidadosamente
meditada. Em toda parte deve ressoar o mesmo “sim” primário,
incondicional a Deus; no entanto, esse caráter incondicional encerra
em si inúmeros olhares retrospectivos à realidade existente, a fim
de provar concretamente sua eficácia.
Essa ampliação do “sim” é, para o crente, um estágio
preliminar que antecipa o posterior alargamento de sua fé e das
exigências divinas. Ele afirma tudo e, ao mesmo tempo, nada
afirma. E, em última instância, resta o seu “sim” a Deus — um
“sim” nu, desprovido de toda a sua força. Essa impotência do “sim”
se explica na medida em que ele não pode apoiar-se em nenhum
argumento; e, no entanto, trata-se também de um “sim” cheio de
43
energia, que exige todas as forças do homem, pois, a partir de
agora, ele necessita absolutamente dessas forças para a
consequente vida de serviço.
Aquele que quisesse inserir aqui pausas com o objetivo de
um suposto exame sério da situação, a fim de construir pedra por
pedra o edifício de sua vida à luz da exigência divina, perderia
tempo. Com efeito, não se pergunta agora pelo edifício, pelos
muros nos quais se pode apoiar, mas pela disposição pessoal — por
estar pronto, inclusive para derrubar tudo. É preciso apressar-se;
não se pode voltar para se despedir ou “enterrar os mortos”. A
irrupção da eternidade em minha vida perecível tem um caráter
absoluto e atemporal. Já não há ponto de comparação, nem
possibilidade de esquecer a própria situação para recolher-se em
deliberação consigo mesmo. Somente aquele que foi chamado e
enviado por Deus pode intervir, nesse caso, na conversa entre Deus
e nós. Uma pessoa que, mesmo sem sabê-lo, possa ser porta-voz
de Deus, a fim de configurar um “sim” perfeito.
Esse ponto de interseção entre o tempo e a eternidade é
irrepetível para aquele que por ele é tocado. De tal modo que ele o
considera como uma imensa catástrofe. Aqui, o crente é
despersonalizado. Percebe que o espaço que antes ocupava na
terra ficou vazio. Muito do que constituía sua vida cotidiana foi
como que cortado, para permitir-lhe maior liberdade de
movimentos. O que até agora determinava sua vida não era sua
personalidade, nem a força de seu ânimo ou sua inteligência; era
algo sobre o qual sua personalidade se apoiava e que a precedia.
De bom grado ou à força, ele mesmo ocupava o seu lugar — até o
momento em que Deus o chamou e, por meio de Seu chamado,
mostrou-se disposto a preencher com Seu Espírito e com Sua força
a imagem negativa que até então existia do crente, substituindo-a
por outra, positiva.
E o homem compreende que, já que é o seu “sim” que
realmente lhe confere uma nova personalidade, ele não apenas
pode considerar-se doravante como uma pessoa mencionada por
44
Deus, mas também ser impregnado pelo anonimato dos filhos de
Deus. A partir de uma nova perspectiva, ele será, na Igreja, um
entre muitos — um membro da comunidade dos santos. Será um
enviado, para quem a missão é muito mais importante do que ele
mesmo. Como um filhote recém-saído do ovo, poderá agora moverse
na liberdade do novo mundo — que é o mundo de Deus.
Não tem por que temer nada: encontrou plenamente o seu
lugar. O “sim” tem sua própria força. Ele está além de toda
vacilação. Evidentemente, ainda não realizou plenamente a ideia de
santidade que Deus lhe destinou, mas, para percorrer o caminho
que tem pela frente, pode contar com a plenitude da graça que
Deus tem preparada para os Seus filhos.
45
Capítulo 5
A PALAVRA DE DEUS
a. A infinitude no finito
Quando o Filho de Deus se fez homem, aprendeu a falar a
nossa língua e a se expressar com as nossas palavras. A palavra
que utilizamos é suficiente para que Ele se faça compreender e
explique as coisas de seu Pai. Ao nos falar, compreendemos que Ele
é a Palavra do Pai e que, portanto, o que o Pai tem a nos dizer, Ele
o diz por meio d’Ele. Esse fato confere à Palavra uma amplitude até
então insuspeitada. A Palavra é divina — Deus mesmo é a Palavra!
Desde toda a eternidade, a Palavra está na esfera do Pai, e
não deixa de ser o que é, mesmo quando habita entre nós. E esse
seu “ser Palavra” não se limita apenas ao que é expresso pela
linguagem, mas se encontra também em sua atitude, na totalidade
de seu ser humano-divino.
Não há dúvida de que verdades divinas são expressas por
meio de proposições humanas e que, em virtude da plenitude desta
Palavra, são tão sublimes que nós poderíamos aprofundá-las ou
falar sobre elas interminavelmente.
Mas cada uma dessas proposições não deve ser
considerada de forma isolada, e sim sempre compreendida a partir
do ser integral do Filho.
É como se a Palavra dita por Ele permanecesse sempre
ligada a Ele, pois é somente n’Ele que ela adquire vida e pleno
sentido.
A Palavra expressa conserva seu significado através dos
milênios, não apenas porque o Filho continua tão vivo no céu
quanto esteve na terra, mas também porque Ele jamais se separa
de sua Palavra.
46
Ela permanece n’Ele, que é a vida. Por isso, nunca pode se
tornar uma palavra morta.
Por mais definitiva que uma Palavra divina possa ser, ao ser
pronunciada permanece também enraizada no Filho, de tal modo
que esse caráter definitivo é, ao mesmo tempo, um brotar sempre
renovado.
O enraizamento da Palavra no Filho é expressão da
vitalidade eternamente atual do ser e da vontade de Deus — mas
também do nascimento sempre atual do Filho no seio do Pai, bem
como da processão do Espírito Santo a partir do Pai e do Filho.
A Palavra nunca se esgota, nem enfraquece, nunca é
expulsa ou desterrada, mas onde quer que surja, permanece ligada
àquele que a pronuncia.
Ela é comparável à Eucaristia, na qual as aparências de pão
e vinho, enquanto duram, são inseparáveis do ser do Senhor.
Se hoje ainda permanecem vivas as palavras consoladoras
da oração de despedida do Senhor ou do Pai Nosso, não é por
causa de uma vitalidade artificial que o pregador ou o leitor da
Escritura lhes infunda, mas por causa de sua própria e perene
vitalidade divina, que se manifesta através de suas obras.
Pode acontecer que um intérprete das parábolas do Senhor,
para explicar melhor o seu sentido, recorra a outros conceitos,
imagens e comparações próprios do nosso tempo — que não
ocorreriam aos homens de então ou que, até, lhes pareceriam
incompreensíveis.
Mas o conteúdo e o sentido da parábola, assim como as
“pontes” estabelecidas entre o céu e a terra, ou a aproximação de
Deus ao homem — tudo isso permanece idêntico, pois a Palavra de
Deus é imperecível.
“O Reino dos Céus é semelhante a...” — assim começa
sempre o Senhor, e, logo em seguida, utiliza uma imagem familiar
47
que todos podem entender, mas que não ofereceria uma ideia do
Reino a quem estivesse fora do contexto.
Por exemplo, para um não cristão, a imagem do nascimento
da semente jamais evocaria a ideia do Reino de Deus na terra.
Na boca do Filho, a imagem encerra a esperança na bemaventurança
eterna.
Entre as diferentes imagens utilizadas nas parábolas mal há
qualquer conexão aparente, mas, para o cristão que as escuta,
cada imagem amplia sua visão da vida eterna.
Por trás de cada palavra humana está a Palavra de Deus,
que nos revela sua essência.
Os olhos humanos formam uma ideia da aparição do Filho
do Homem; os discípulos nos narram muitas coisas a respeito do
comportamento do Senhor. Para o não-crente, essa imagem não
expressaria um comportamento diferente do dos demais homens.
Mas Cristo, por meio de sua palavra e de sua conduta, nos
comunica a graça; por meio de todo o seu ser, o divino irrompe nos
homens, sacudindo-os e despertando-os, transformando-os e
fazendo-os compreender por que Ele é a Palavra.
Não foram muitas as palavras do Senhor que chegaram até
nós; mas são mais do que suficientes para chamar todo homem e
exigir-lhe uma resposta a Deus. E, antes de responder, ele precisa
acolher essa Palavra em si mesmo, deve fazê-la valer em sua
própria realidade, deve deixar-se expandir pela plenitude da Palavra
e, sobretudo, deve perceber a exigência, o compromisso que ela
impõe.
Se essas características da Palavra forem reconhecidas, o
homem será capaz de experimentar sua superabundância. E, ainda
que acolhesse cada palavra dentro de si e se tornasse portador da
Palavra, a riqueza desta ainda o ultrapassaria de forma
inconcebível.
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Ele não pode conter a Palavra dentro de seus próprios
limites. Com efeito, diante de Deus, ele é apenas uma imagem, um
espelho, e nunca poderá retribuir tudo o que Dele recebeu.
Mesmo quando vislumbra de algum modo as dimensões do
divino, não pode transcender sua condição de criatura e é incapaz
de abarcar a infinitude de Deus, tanto no que se refere à
compreensão da verdade, quanto ao seguimento do Senhor ou à
santidade.
Todo santo tropeça continuamente nesses limites; toda
pessoa que deseja seguir a Deus, todo aquele que verdadeiramente
ora, deve reconhecer sua incapacidade, mesmo nos momentos em
que não se dá conta da necessidade de prestar atenção a isso, pois
a Palavra se manifesta nele com tanta força que, por assim dizer,
apaga gratuitamente os limites humanos.
A Palavra é tão viva que pode revivificar o que no pecador
estava morto. Santa Teresinha "escolhe tudo", mas, ao decidir
seguir o Senhor, sabe que uma limitação lhe foi imposta; no
entanto, não precisa se entristecer: o Senhor a tomará e a fará
crescer em sua graça.
b. A plena conformidade na Palavra
Enquanto homem, o Filho deve compreender a plenitude da
Palavra, que Ele mesmo é. Sua presença entre os homens — que se
converte, para Ele, dia após dia, em uma tarefa sempre nova —
deve colocá-lo constantemente diante da pergunta sobre como
deve configurar essa Palavra.
Quando Ele ouve palavras ou as pronuncia, precisa colocálas
em relação com a plenitude de sua missão, de modo que
participem dela. A Palavra que Ele pronuncia deve ser
perfeitamente compreensível: é, com efeito, a expressão mais
adequada da missão que lhe foi confiada pelo Pai.
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Desde toda a eternidade, Ele é a Palavra do Pai e
compreende seu sentido próprio e ilimitado. Mas, como homem, Ele
deve chegar ao conhecimento de sua própria Palavra eterna e
expressá-la adequadamente a partir de sua natureza humana.
Ele precisa deixar-se interpelar pela Palavra que Ele mesmo
é, submeter-se a ela, encontrá-la com o devido respeito. Seu "eu" é
humano-divino, e nele não pode haver discrepância alguma, já que,
enquanto homem, Ele não é uma imagem refletida de seu próprio
“ser Deus”, mas a Palavra eficaz do Pai, o Filho encarnado,
unigênito, em toda a profundidade e irrepetibilidade da Palavra.
Contudo, ao escutar — enquanto Deus — a Palavra que Ele
pronuncia na terra, e compreender toda a sua transcendência, essa
Palavra fica incrustada em seu amor eterno ao Pai, lá onde também
se encontra seu amor pelos homens.
Ele vê como o Pai acolhe essa Palavra, que significado ela
tem no interior de Seu amor, como ela opera e se insere
imediatamente no círculo do amor divino. Quando Ele dirige essa
mesma Palavra ao homem, vê que essa Palavra não pode
abandoná-lo; porém, no homem há pouco amor para acolhê-la
plenamente.
Trata-se de algo como um “estado de suspensão”: de um
lado, Sua Palavra divina; de outro, o eco imperfeito dessa Palavra
no homem.
Ele pronuncia essa Palavra em toda a sua plenitude, mas
raramente obtém uma resposta e, quando existe uma, ela se
encontra privada da força presente na Palavra.
Talvez nunca tenha sentido tão profundamente essa falta
de eco como durante sua oração no deserto. Ali, enquanto adora o
Pai e fala com Ele, os homens estão distantes, separados do Filho
por um muro de indiferença e de alienação. Para o Filho, o deserto
é um estar a sós com Deus. Estar com os homens também o é,
mas, no fundo, não deveria sê-lo. Ali onde o Filho se volta para os
homens, Ele deve novamente levar Sua Palavra ao Pai, juntamente
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com a resposta dos homens, e oferecer ao Pai o “sim” dos homens,
que está incluído no Seu próprio “sim”.
O Filho tem voz suficiente para abrigar em Si toda palavra
humana e conceder-lhe sua última plenitude. No entanto, antes de
se relacionar com seus semelhantes, conviveu com Sua Mãe. Desde
que deu seu “sim” ao anjo, a Mãe tem consciência de que acolheria
a Palavra de Deus. De algum modo, ela entende que o Filho e a
Palavra de Deus são uma só e mesma realidade.
Ao mesmo tempo, ela lança um olhar retrospectivo sobre a
história de Israel, que é a história da Palavra de Deus com seu
povo. Conhece as promessas e pode contribuir para o seu
cumprimento. Sabe com que força falou Deus Pai ao Seu povo,
como enviou os profetas e Se expressou por meio deles, e como
Suas palavras mal foram ouvidas; pelo contrário, quase sempre
passaram despercebidas ou foram objeto de desprezo.
Mas agora, a Palavra se fez carne nela; em seu Filho não se
deve separar de forma alguma a plenitude da Palavra e o “ser
homem”. Quando Maria fala com o Menino, mesmo antes de Ele
saber articular qualquer palavra, ela sabe que n’Ele habita a
plenitude da Palavra. Todas as manifestações do Menino — quer
durma ou beba, ria ou chore, cada um de seus tímidos movimentos
— ela os vê como expressão da plenitude da Palavra.
Sua alegria é maternal e, ao mesmo tempo, cristã — a
alegria do ser humano que encontra a Deus. Uma alegria
totalmente pura, não ofuscada pelas perturbações nem pelos
entraves que os homens costumam colocar em seu próprio
caminho. A Palavra de Deus pode encontrar Maria livremente,
colocá-la em plena luz, pois não há nela nenhuma escuridão; ela
acolhe tudo como dom da alegria perfeita e exulta de júbilo.
Embora saiba que virão dias penosos — dias de
inquietação, de tristeza e de aflição —, ela agora não se detém
nisso, pois, neste momento, sua atitude de obediência a convida a
acolher jubilosamente a alegria.
51
No encontro com o Menino, ela não é a discípula que se
senta aos pés do Mestre; é a mãe que exulta de júbilo. Ela não
classifica conceitualmente o que sente, nem o rotula com as
diversas verdades da fé; como mãe, ela se integra simplesmente a
todas as demais coisas que se ordenam em direção ao seu Filho e
cumpre sua missão com a alegria que lhe foi concedida.
Quando surgem situações que ela não compreende — como
o episódio ocorrido quando Jesus completou doze anos — sua
obediência permanece íntegra. Ela responderá sempre na atitude
espiritual que lhe foi imposta pela Palavra e pelo Espírito, suportará
com paciência todas as inquietações e, em meio à preocupação,
reagirá tal como o Filho espera dela.
Nessa preocupação da Mãe por seu Filho de doze anos
tornam-se evidentes muitas das experiências e reflexões que os
cristãos, chamados pela Palavra a sofrerem inquietações, devem
viver: ou seja, não desejar nada diferente daquilo que lhes foi
dado, permanecer onde lhes foi designado.
Maria não se atribui nada a si mesma, não adota uma
atitude arrogante, nem, por outro lado, cai no quietismo; ao
contrário, persevera em uma obediência perfeita, no amor à
Palavra, tal como ela se dignou revelar-se a ela naquele momento.
Aceita sua missão tal como ela se apresenta aqui e agora.
Mais tarde, quando os discípulos se encontram com o Filho
e sua Palavra os chama, eles começam a segui-lo imediatamente,
como lhes é exigido, apesar de não compreenderem muito bem o
alcance dessa exigência.
Mas o seu “sim” nunca igualará ao da Mãe, que é um “sim”
de uma gratuidade insondável.
Eles se sentem profundamente surpreendidos, estão cheios
de perguntas — perguntas que não se colocam no momento, mas
que recordarão mais adiante.
52
É como se agora as tivessem colocado de lado, como se as
tivessem ocultado; como se os pontos fracos de sua fé tivessem
sido preservados diante de uma possível irrupção desmedida da
Palavra, que talvez quisesse devorar todo o seu ser naquele
instante, para fazer tábula rasa e arrancar deles a resposta
adequada.
Mas eles ainda não chegaram tão longe, ainda vacilam.
É uma espécie de fatalidade que demorem diante da
Palavra, que levem tanto tempo para compreender algo que, no
fundo, diz respeito ao momento presente; e ainda mais: muitos
talvez nunca cheguem a compreender isso por completo.
Contudo, foram sacudidos pela graça de tal forma que farão
o mais acertado com uma espécie de fé meio desperta.
Em Maria, não se coloca a pergunta se ela está totalmente
desperta ou apenas em parte. A obediência e o amor a absorveram
por completo, pois ela renunciou plenamente a si mesma.
Talvez seja próprio do distanciamento que acompanha o
respeito o fato de os apóstolos responderem como o fazem,
colocarem tais perguntas e reconhecerem também sua
compreensão imperfeita.
Dessa forma, a Palavra do Senhor adquire um brilho muito
maior, e mostra que Ele, enquanto homem, não conhece as
fraquezas da ignorância e do esquecimento, nem tampouco as que
decorrem da falta de disposição.
53
Capítulo 6
A RESPOSTA DO HOMEM
a. O “sim” escondido em Deus
O homem que responde à Palavra de Deus transcende o
tempo. O Senhor disse: “Os céus e a terra passarão, mas minhas
palavras não passarão.” Quando o homem responde a essa Palavra
imperecível e, na fé, sabe que é ouvido, ele também tem
consciência de que sua palavra humana encontrou a Palavra eterna,
e que, com isso, transcendeu a realidade tal como a vê o não
crente. Desde então, o lugar para o qual agora se dirige já possui
para ele as características da eternidade. Os critérios segundo os
quais sua resposta é acolhida e julgada são critérios divinos.
O tímido “sim” que ele pronuncia, cheio de reservas
interiores e envolto em mil perguntas, participa da grandeza e da
firmeza de um mundo que ele pisa e começa a conhecer pela mão
de Cristo — um mundo que, como homem terreno, ele ainda não
conhecia até então.
O “sim” é o Schibbolet que lhe garante a entrada. Essa
entrada é definitiva. Ele não pode avançar passo a passo, pois o
efêmero carece de critérios para compreender a eternidade, e o
eterno não é nem a soma de realidades finitas, nem o resultado de
uma série de esforços ou tentativas.
O perfeito e acabado se opõe ao que até agora era
pecaminoso, imperfeito, perecível. A resposta é enobrecida pelo
fato de ser ouvida na eternidade. O âmbito que foi preparado para
ela pelo amor trinitário de Deus é um âmbito infinito e eterno.
54
Por isso, o sim não pode se limitar a ser um sim apagado e
vacilante. Na eternidade, ele adquire a entonação que somente ao
eterno corresponde.
E aquele que entrou nesse novo âmbito, agora contempla o
que alcançou: teve coragem de escapar definitivamente da
segurança do cotidiano, dos cálculos de uma existência apática, da
rotina e do marasmo da vida, de tudo o que até agora constituía a
estrutura do seu mundo, onde havia desempenhado mais ou menos
o papel que correspondia à sua necessidade de reconhecimento e
tranquilidade, por meio de um “sim” que, no começo, considerou
apenas como algo secundário.
Desse modo, ficou sem pátria e indefeso. E, no entanto,
não precisa sentir o vertigem de quem cai no vazio, pois o que o
acolhe, o que o envolve, o que o configura, o que eleva o seu
espírito é o permanente: a própria Palavra.
Assim, daqui em diante, ele contemplará o mundo a partir
da Palavra. Sua caducidade se mostrará a ele de muitas maneiras.
Não apenas verá como passam os homens, as cidades, os
impérios e as culturas, mas, com certeza, perceberá também o
caráter efêmero de suas próprias atitudes e pontos de vista, e os
de muitos outros.
Não se trata de adotar uma postura negativa diante de
tudo, mas de aprender a estar consciente da incerteza que
acompanha toda escolha pessoal.
A muitas coisas que até agora havia dado um “sim”
vacilante e problemático, deverá dar, doravante, um sim radical. E,
em contrapartida, deverá dizer um “não” firme a muitas coisas às
quais antes dizia “sim”.
Aquela espécie de confiança em si mesmo que sempre o
acompanhava será substituída por confiança em Deus.
55
O que ele pensava, decidia, planejava para si e para os
outros perderá seu caráter unívoco e definitivo, pois os limites da
finitude terão desaparecido.
O que havia sido calculado em função do tempo, agora
deverá ser pensado em vista da eternidade.
Contudo, ele se encontra diante da eternidade como diante
de algo desconhecido. Pensar que entende algo da eternidade seria
uma temeridade, pois só é possível compreendê-la a partir da
perspectiva do Senhor.
Ele sabe, no entanto, que a partir de agora, em cada
confissão e comunhão, em cada sacramento, ele recebe a
eternidade de uma forma nova.
A eternidade de Deus o toca em algo que faz parte da
missão de todos os santos, e que lhe foi dado em posse, ainda que
ele não o tenha reivindicado de forma alguma; ao contrário, deveria
até negar claramente essa posse caso alguém quisesse estabelecer
uma relação entre eles e ele.
Ainda assim, isso lhe pertence, porque pertence a Deus, e
porque sua resposta agora se refere a tudo o que é Deus.
Também pode parecer a esse homem como se ele mesmo
não tivesse pronunciado o “sim”, como se Deus tivesse se utilizado
dele de forma totalmente casual, para ouvir — por meio de sua voz
humana — a dimensão divina do “sim”.
humor.
É uma fantasia de Deus, um jogo em que manifesta seu
Mas esse jogo acontece no interior da eternidade. O Menino
Jesus brinca com uma bola furada e abandonada, e, assim que
estende a mão para pegá-la, a contempla como se já não tivesse
nenhum furo e fosse perfeitamente útil para brincar.
A Deus agrada brincar de uma determinada maneira, e,
portanto, o brinquedo deve ajustar-se a ela. Não por meio de uma
56
modificação que esse “brinquedo” possa fazer de si mesmo, mas
por meio da exigência misteriosa e total do próprio Deus.
Pode acontecer que um pregador diga coisas que considera
importantes; talvez tenha em mente um ouvinte específico, a quem
sobretudo dirige suas palavras.
E então acontece o inesperado: uma palavra casual, dita
talvez de passagem, uma palavra que depois ele até esqueceu
completamente, foi ouvida e teve uma eficácia decisiva.
O “sim” que o homem pronuncia, a bem ver, não é idêntico
ao “sim” que Deus ouve, e assim revela quem o disse sob uma
nova luz: de fato, por meio desse “sim” escondido em Deus, ele
participa da Palavra do Senhor e, portanto, a torna sua.
b. Transformação da vida
O homem se encontra com a Palavra de Cristo e se
submete a ela. Renuncia a algo que desejava, de que dependia,
submete no Espírito um desejo desordenado, esforça-se por
adquirir um novo modo de pensar, chega até mesmo a dedicar
inteiramente sua vida à realização dos conselhos evangélicos. Ao
submeter-se assim, percebe o quão concreta a Palavra se tornou
para ele. Antes era uma palavra das Escrituras, uma palavra
dirigida a todos os homens; agora tornou-se a Palavra que o
Senhor lhe dirige pessoalmente, que o guia e intervém em sua
vida, que faz exigências onde menos se espera, que determina
tanto as pequenas coisas do cotidiano quanto as grandes decisões.
Antes, a Palavra tinha um som perceptível; agora
transformou-se em uma voz que fala aqui e agora, e somente com
esta pessoa concreta. Aquilo que o homem havia prometido de
modo genérico e irrefletido, agora lhe é exigido de forma concreta e
precisa. O cristão pertence a Deus, vive para Ele. Mas o que isso
significa, concretamente? A Palavra nos mostra isso, e aquele que
se submete a ela vive uma vida nova: a vida da Palavra. E porque é
57
vida, é algo concreto. E, sendo algo concreto e vivo, é onipresente
e tudo penetra. Estabelece novas normas, mas o homem não está à
altura delas; ele deve tornar-se inteiramente um servo do Espírito.
Então começa a perceber que, por meio da Palavra, foi
estabelecida a justa distância entre seu Senhor e ele. Esta distância
ele a conhecia de forma abstrata, e ela lhe parecia um muro.
Quando, em um caso extraordinário, chegava ao limite que lhe era
permitido alcançar, deparava-se com o desconhecido, com o
Senhor. Agora, essa distância significa plenitude — uma plenitude
visível, palpável, viva. Essa plenitude fez desaparecer o muro. A
distância tornou-se aquela realidade salutar que pode sempre ser
contemplada na oração e no trabalho.
A verdade — esta presença real da distância — tem um
significado tão profundo para a nova unidade entre aquele que diz
“sim” e o Senhor, que o próprio Senhor toma sobre Si tudo aquilo
que o homem não é capaz de fazer. A relação criada através da
distância faz surgir uma nova comunhão de ação entre o Senhor e
Seu servo, de tal forma que o homem já não precisa se preocupar
com a norma e pode deixar todas as coisas nas mãos do Senhor.
Ele faz o que a Palavra — e o compromisso exigido por ela — lhe
pedem; esforça-se por fazê-lo o melhor possível, e não precisa se
preocupar com o restante. De fato, isso não lhe pertence, pertence
à outra parte.
E, assim, a confiança e a fé, que pareciam coisas fixas e
imutáveis, são agora colocadas sob uma nova luz: a luz da
eternidade. Entre a graça e o mérito estabelece-se uma nova
relação; já não se podem traçar fronteiras fixas entre entrega e
acolhimento. A unidade de vida entre Pai e Filho, por meio do
intercâmbio do Espírito, abriu-se para o interior desta relação, de
tal modo que aquele que diz “sim” fica incluído no círculo do amor
absoluto.
Uma vez que o amor é intercâmbio eterno, o homem não
precisa se angustiar com sua missão; basta-lhe amar e ser amado
58
sem limites, pois a força do seu “sim” tem origem no poder da
Palavra do Senhor.
Se volta novamente às Escrituras em busca de uma
compreensão mais profunda das coisas, mil novas possibilidades se
lhe abrem para descobrir a Palavra em si, ao seu redor e em toda
parte — e de fazê-la vida. Sente-se assombrado diante de tanta luz
e tanto poder, e não entende como o mais insignificante pode
continuar subsistindo diante da realidade do eterno. Mal consegue
sair de seu assombro, pois, desde que ouviu a Palavra, tudo foi
transformado conforme o sentido da mesma e, em última instância,
também conforme a responsabilidade que o “sim” lhe impôs.
No meio do sofrimento, do cansaço e das lamentações, já
saboreia algo da beleza da vida eterna, da qual participa por meio
da Palavra. As paredes de seu quarto continuam as mesmas, assim
como o livro em que escreve e seu trabalho manual cotidiano. No
entanto, tudo mudou e se tornou algo diferente.
Ele também aprenderá a conhecer o cansaço, e, por
momentos cuja duração não depende dele, conhecerá a dúvida em
meio à sua ação e a tudo o que ela implica.
Apesar disso, ele sabe que o sentido está oculto — não nele
mesmo, mas na Palavra viva.
Evidentemente, ele não vê qual é a relação entre sua ação
insignificante e o sentido total, que reside em Deus; do ponto de
vista exterior, ele continua sendo o mesmo.
Ele só sabe uma coisa: que tudo foi superado na Palavra,
que toma tudo sobre si e se responsabiliza por isso.
Nota: O verbo alemão “aufheben”, aqui traduzido como
“superado”, pode significar tanto “anular” quanto “preservar”. O
contexto aponta para uma superação que não apaga, mas integra e
transforma.
59
c. Sintonizados com Cristo
O homem dá seu primeiro “sim” a partir da distância, como
se lançasse uma bola do tempo para a eternidade.
Deus acolhe a resposta que lhe foi lançada e a molda com
precisão. Por meio de sua graça e sua disposição para escutar o
homem, Ele concede à Palavra que o homem Lhe dirige uma
audibilidade, uma plenitude e uma amplitude tais que esta adquire
a dignidade de ser uma resposta válida à Palavra de Deus.
Por outro lado, o homem é arrastado por sua própria
resposta.
A tomada de consciência disso não está ligada, por
exemplo, à sensação de ter crescido aos próprios olhos.
Mas ele sabe que foi acolhido no âmbito divino, o que o
obriga ainda mais a orientar seu pensamento e sua ação segundo
Deus.
Ele deve voltar-se a Deus com todo o seu ser, e isso lhe
permitirá desprender-se cada vez mais de si mesmo; seu “eu”
deixará de existir, por assim dizer, porque Deus é, e o mundo
pertence a Deus, e sua resposta tem como destinatário o ser de
Deus.
O que ele faz não é importante por si mesmo, mas porque
Deus lhe exige fazê-lo. Houve uma mudança de plano.
Sua participação na Palavra divina implica não apenas uma
transformação nos critérios de julgamento, mas também de suas
experiências pessoais.
Antes, ele conhecia bem a alegria e o sofrimento; mas, de
agora em diante, ambas as coisas serão definidas em função da
alegria e do sofrimento do Senhor.
As coisas que tocam seus sentimentos deixam de obedecer
a normas exclusivamente humanas, centradas no “eu”, mundanas.
60
Reino.
Doravante, devem ajustar-se ao critério de Deus e de seu
No fundo, não se trata de derramar lágrimas ou de estar
contente, mas de experimentar a objetividade do divino em e
através de todo sentimento pessoal.
Sua experiência e sua participação conservarão toda sua
autenticidade, mas já não estarão subordinadas às suas
circunstâncias pessoais; ao contrário, é próprio da nova vida
aprender a ver tudo aquilo com que deve ocupar-se interiormente a
partir de uma perspectiva justa.
Sua capacidade de discernimento não será diminuída por
isso, mas sua atitude sempre aberta e sua liberdade de confronto o
ajudarão a perceber a objetividade que vem de Deus.
Como ele se desprende de seu “eu”, sua necessidade de
objetividade se torna cada vez maior.
E isso não apenas por causa do seu zelo, seu desejo pelas
coisas divinas, seu amor ao mistério trinitário, mas também porque
cresce nele a exigência de uma verdade objetiva.
E Deus está disposto a conceder-lhe essa objetividade em
abundância.
De todo modo, a vida do crente é curta demais para que ele
possa elaborar, sequer superficialmente, tudo o que recebeu de
Deus.
Ele continuará recebendo novos dons, e, através deles, sua
riqueza espiritual será cada vez maior.
Mal perceberá a transformação que está acontecendo em si
mesmo, e apenas verá que os dons de Deus aumentam de modo
palpável.
Pode ser que isso lhe pareça excessivo, mas essa
experiência do desmedido talvez também seja algo querido por
Deus.
61
De fato, isso é um sinal de que a resposta do homem foi
realmente assumida na Palavra, e que esta não se limita a ajustarse
à resposta, mas continua sendo vida divina, molda aquela
resposta segundo sua própria forma, e a torna capaz de servir
segundo o seu conceito de serviço.
As coisas mais insignificantes, que o cristão nunca
acreditou possuir, as coisas esquecidas, desconhecidas, agora
podem adquirir sentido no interior da plenitude da Palavra.
Também a vida sacramental e a oração sofrem uma
transformação. A comunhão se converte em uma alegria dentro da
alegria do Senhor que se comunica. A confissão se transforma em
uma penitência dentro do Senhor que sofre por nós na cruz.
A oração se torna, antes de tudo, acolhimento do Senhor
que se revela. Tudo adquire o lugar que lhe corresponde dentro da
Palavra Divina e, nela, tudo se torna intercâmbio e referência
recíproca.
A própria Palavra realiza e regula esse intercâmbio e o
enche de sentido, de tal maneira que os conceitos não se
confundem, mas surge uma clareza maior.
A relação entre um sacramento e outro, entre uma forma
de oração e outra, entre um modo de serviço e outro, se torna mais
clara, a ponto de que tudo o que é subjetivo também se esclarece
sob uma nova luz: a luz da eternidade.
Ora, essa luz e essa clareza criam novas obrigações, e o
cristão deve reiterar seu “sim” com uma autenticidade cada vez
maior. Cada “sim” deve ser mais verdadeiro que o anterior, pois a
Palavra se aprofunda cada vez mais na resposta; onde Deus dá
mais, também exige mais.
No entanto, em sua oração ou em seu serviço, o homem
não pode se perder, pois é guiado por Deus. Deus o guia em todas
as suas ações.
62
E essa guia é necessária, sobretudo, para viver segundo os
conselhos evangélicos. O cristão não precisa fazer grandes
reflexões sobre como obedecer. Tem diante de si o modelo do Filho.
Também não precisa desenvolver teorias sobre a obediência
do Filho; ele a vê diante de si em toda a sua concretude e pode
realizá-la em sua própria vida, sem esquecer, por outro lado, que a
obediência do Senhor é perfeita e não pode ser comparada à sua.
Tampouco precisa calcular a distância entre a obediência
perfeita do Senhor e a sua, que é imperfeita. É justamente esse
“não calcular” que permite ao homem mover-se em direção ao
Senhor e tentar imitá-lo.
Não há nenhum sistema que nos permita superar
gradualmente essa distância. De fato, nos degraus costuma-se
descansar; acredita-se ter alcançado algo, olha-se para trás e para
frente, e tenta-se saber onde se está.
Em contrapartida, quem está em movimento não se detém
para calcular, pois cada segundo que passa o coloca em um lugar
diferente. Basta-lhe saber que está se movendo.
Deus está sempre adiante, e ele se sabe a caminho de
Deus. Por isso, sabe também que sua resposta penetra na Palavra,
e esta é suficientemente rica para levar toda resposta à sua
plenitude.
63
Capítulo 7
A SITUAÇÃO DO MUNDO
a. A criação para o Filho e a esperança
O mundo foi criado pelo Pai para o Filho; assim o Pai
Criador manifesta seu amor ao Filho. O mundo, em toda sua
frescura e vivacidade, tal como saiu das mãos do Criador, era puro
e livre. Mas Adão abusa da liberdade que lhe foi concedida e se
afasta de Deus. E, nesse afastamento, arrasta consigo toda a
criação. A humanidade luta para encontrar seu lugar próprio,
dilacerada entre seu afastamento subjetivo de Deus e seu destino
objetivo permanente de ter sido criada para o Filho. Mesmo depois
da vinda de Cristo à Terra, essa cisão continua no homem, e até se
torna maior, à medida que as exigências de Deus se manifestam. A
Palavra de Deus foi anunciada, mas o homem não quer encontrarse
com seu Deus, pois está cheio de angústia e não está disposto a
fazer o que realmente deveria fazer, isto é, escolher conforme seu
destino original. Desse modo, renuncia também ao conhecimento.
Evidentemente, muitos se privam dele apenas por
ignorância ou por um saber insuficiente. Ouviram dizer que existe
um Deus, que falou, que Se denomina o Deus do amor, mas que
também impõe grandes exigências ao homem. Por meio dessas
duas coisas, esse Deus coloca o sentido da existência além da
finitude. No entanto, os homens recuam diante disso. Eles exigem
que a religião não interfira nos valores e proporções mundanas.
Assim, surge uma espécie de luta competitiva entre a voz do
homem, que se eleva cada vez mais para silenciar a de Deus, e a
voz de Deus, que conserva sempre seu volume divino. Quanto mais
o homem quer decidir sobre seu destino, e, com isso, sobre seu
passado e seu futuro, mais facilmente cai nas limitações deste
mundo, e mais pequeno o todo se torna para ele, enquanto que o
que é maior é considerado absurdo e, por isso, descartado. O
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homem prefere passar por qualquer coisa antes que por absurdo. E
se ele mesmo já aprendeu pouco sobre Deus, prefere que seus
descendentes saibam ainda menos.
No entanto, queira ou não, há momentos em que o homem
se depara com certas coisas que escapam à sua própria esfera de
ação e competência, pois parecem provir de outro mundo. Ele as
nega, mas elas se manifestam repentinamente como existentes. E,
porque todas as coisas foram criadas para Deus Filho, essa voz do
além pode provir até mesmo de uma coisa, de um acontecimento,
de uma iluminação, de um “quase nada” que, no entanto, é algo —
pois, sendo criado para Deus, tem um sentido, e é justamente esse
sentido que agora tenta se revelar a nós. Não se trata de um “Deus
em todas as coisas”, mas de um “todas as coisas para Deus, para
Cristo”, ou seja, as coisas atuam para nós como guia, adquirem
uma função orientadora. O homem precisa de inúmeros guias para
conhecer o caminho, ou melhor, para vislumbrar que existe um
caminho que conduz nessa direção. Trata-se do caminho próprio do
mundo, daquele que deve levá-lo ao seu destino último, mas esse
caminho segue em sentido contrário à situação do mundo;
comporta-se em relação a ela como o ativo em face do passivo, a
vida frente à morte, a obediência e o amor diante do abuso e da
culpa. O destino de todas as coisas no Filho é uma realidade sólida,
vigorosa, indiscutível — embora possa também parecer dura,
áspera, inexorável. O homem deve aceitar sua inalterabilidade; não
pode destruir tal rocha. É a rocha primordial do ser mundano, a
força criadora de Deus. O caminho da obediência foi traçado antes
que o homem existisse no mundo. E os acessos a esse caminho não
são muitos.
Mas o homem se habituou a ver as coisas do mundo com
os olhos da recordação e a julgá-las a partir de seu “ter sido”, em
vez de contemplá-las com uma atitude criadora, voltada para
frente, para o seu destino. Assim, seu espírito perde o contato com
o ato criador de Deus e pretende criar a partir do que já foi — o
que, enquanto tal, é algo petrificado e invariável, e talvez até
65
mesmo corrompido. Antes, deveria aprender a encontrar-se com
Deus, a criar ali onde acontece o ato criador divino, ali onde as
coisas têm seu destino: no futuro, na esperança. O desespero da
situação do mundo consiste no fato de que a recordação usurpa o
lugar da criação, de que a liberdade ficou para trás do homem,
porque ele não quer vê-la diante de si. Desse modo, permanecendo
no pecado, o homem inverteu os sinais dos tempos: substituiu o
futuro pelo passado. Mas em Deus esses sinais permanecem
inalteráveis, e o crente só precisa ater-se ao tempo próprio de Deus
para encontrar nas coisas o caminho que leva a Ele: é o caminho
que vai do eu ao futuro, do desespero à esperança, da putrefação à
nova vida.
Quando o homem começa a refletir sobre seu destino, ao
transformar sua própria situação, também transforma a situação do
mundo. É como se recuasse milhares de anos e saísse de uma
prisão mal ventilada para o ar fresco, para o lugar onde Deus Pai
passeia pelo Paraíso, para o lugar onde se ergue a cruz e se
encontram a ressurreição e a salvação. O Pai criou todas as coisas
para o Filho, e este as conduziu de volta ao Pai por meio da
redenção; o círculo do amor está garantido no Espírito Santo e se
torna cognoscível e acessível para nós na fé.
Mas até agora não fizemos referência à situação do mundo.
Cada um de nós vive no meio do mundo. Ora, a conversão não
consiste em voltar-se para Deus e ao mesmo tempo dar as costas
ao mundo. Com efeito, estamos no mundo e fazemos parte dele;
quando modificamos nossa orientação, algo também muda no
mundo. No momento de nosso encontro com Deus, não podemos
esquecer o destino de todos os demais homens. A unidade de todos
os homens foi sublinhada pelo Senhor por meio do mandamento do
amor ao próximo. Nosso próximo é todo o mundo.
Por conseguinte, em nosso caminho pessoal rumo a Deus,
devemos sentir-nos acompanhados por toda a humanidade.
Certamente, ninguém — nem mesmo um Francisco Xavier — pode
converter todos os seus irmãos. Mas, seguindo o espírito da missão
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carmelitana, devemos levar o mundo conosco, a fim de que
também ele encontre a Deus. E o levaremos conosco em todos os
atos da vida cotidiana, mas sobretudo na oração — ali onde ocorre
o encontro mais profundo com Deus e o sentido das coisas aparece
com toda clareza; ali onde ainda vive a pureza, e, a partir da
pureza do intercâmbio amoroso entre as divinas pessoas, é possível
salvar o mundo.
Salvar o mundo como totalidade, como soma de todos os
indivíduos que, por meio do Filho e no Espírito, retornam ao Pai —
na simultaneidade da antiga e da nova criação. E dizemos nova
criação porque a obra da salvação repousa sobre a ressurreição. A
antiga esperança das coisas, a antiga promessa da criação,
cumpre-se de modo milagroso, à medida que o mundo passa pelas
mãos do Deus uno e trino.
b. Levar o mundo a Deus
Quando o homem começa a pensar, ele de algum modo
imagina o que será ao chegar à idade adulta. Gostaria de escolher
tal profissão, possuir aquela casa, exercer sua liberdade deste ou
daquele modo. Seus planos ocupam boa parte de suas reflexões.
Ele tenta reunir todos os ensinamentos e experiências que seus
anos juvenis lhe oferecem, aproveitá-los e, sobretudo, escolher de
tal maneira que tudo se ajuste à imagem de futuro que projetou.
Se foi educado na fé, sua forma peculiar de crer
influenciará seus projetos; com frequência, ainda na juventude, ele
está consciente de que foi criado por Deus para uma finalidade
determinada, de que deve realizar algo que, sem dúvida, pode
estar fora de seus cálculos humanos, mas está dentro do plano
divino.
Ora, quando compreende que deverá prestar contas diante
do Deus que o criou, torna-se inevitável a confrontação entre seus
próprios planos e os de Deus.
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Nessa confrontação surgem pontos de atrito. Se ele tem
uma fé viva, chegará o momento em que abandonará seu próprio
projeto em favor do plano divino, a fim de um dia poder responder
diante de Deus.
Mas, mesmo ao fazer isso, ele precisa contar com o mundo
que o rodeia, com sua imensa riqueza e diversidade, sua ruína e
seu anseio de salvação, seu distanciamento de Deus e seu desejo
de encontrá-lo. Ele está no meio desse mundo — ambas as
realidades devem confrontar-se, e não é fácil harmonizá-las. A
realidade (mundo) não pode negar que a realidade deste homem
concreto está ali, e o homem, enquanto indivíduo singular, não
pode pôr em dúvida a realidade plural do mundo. Sua entrega a
Deus deve ter como pano de fundo, se não como pressuposto, o
reconhecimento de que o mundo é obra de Deus, o assumir o
mundo pecador, a tomada de consciência de seus avanços e
retrocessos, de sua orientação e de seus esforços.
O homem não alcançará seu objetivo sem afirmar o
existente, de tal maneira que conheça também ali o “não” da
distância, do temor, da aversão. Mas seu “sim” é tal que, através do
mundo, o conduz a Deus; para ele, o mundo pode ser o deserto ou
a solidão do claustro, e sua contribuição pode limitar-se à oração e
expiação vicária; mas o mundo está sempre ali. Esse “estar ali” é
também configurado pelo presente histórico em que cada um está
situado.
Que o mundo existe — isso é uma verdade, mesmo que
essa verdade esteja composta de evidentes mentiras e se esquive a
toda intervenção cristã: enquanto verdade existencial, remete
diretamente à mão de Deus.
Pode ser que essa verdade remeta urgentemente às
falsidades da situação mundana, aos falsos problemas e situações,
aos perigos que a mentalidade humana provocou, aos problemas
surgidos com a técnica e com o futuro, que se tornam cada vez
mais graves para o mundo, e cuja solução este não pode deixar de
buscar.
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O cristão que, através da oração, tem diante dos olhos o
sublime âmbito do amor de Deus, deve aprender, no entanto, a
conhecer a Deus também através desta situação do mundo, e, para
além de todos os véus e mentiras, olhar para a única Verdade. Mais
ainda, ele deve saber que, enquanto ora sozinho, de olhos
fechados, em uma atitude de entrega a Deus, não experimenta a
Deus nem mais nem menos do que nas tarefas que o mundo lhe
impõe.
Deus pode querer encontrá-lo na cela de um claustro, mas
também pode colocá-lo no meio da agitação de uma ocupação
técnica; pode querer encontrá-lo ali e não aqui, mas também pode
fazer o mesmo em um lugar como em outro. A vida enclausurada
não é nenhum anacronismo; tanto ela como a vida no mundo são
hoje queridas por Deus.
Deus pode conduzir uma pessoa à solidão das montanhas,
para que ali seja adorado por ela; mas também pode colocá-la,
junto a inúmeros companheiros anônimos, no meio do ruído de
uma fábrica em uma grande cidade. Se Deus não hesita em colocar
o homem em situações tão opostas, é porque Ele, o Onipresente,
pode encontrá-lo em todos os lugares.
Mas o homem, para não ter uma imagem demasiado
estreita de Deus, deve esforçar-se para não formar uma ideia
antropomórfica d’Ele, e, ao mesmo tempo, deve contemplar e
reconhecer as imensas possibilidades e formas de manifestação do
Deus uno e trino.
Ora, esse conhecimento só tem valor se for colocado em
seu devido lugar, no que se refere à finalidade do mundo e da vida
humana, se tornar o homem mais capaz de encontrar Deus, tal
como Ele se manifestou em Cristo.
Se Deus nos fala, nosso papel é simplesmente encontrar o
lugar em que sejamos capazes de ouvir sua voz.
Deus interpela cada um de nós pessoalmente; Ele se dirige
a nós como Palavra, mas, na medida em que o ouvimos
69
pessoalmente, devemos fazer com que sua voz também chegue ao
nosso entorno.
Isso estará garantido, sobretudo, se nossa atitude atestar
que O ouvimos e que encontramos o caminho que conduz
diretamente a Ele.
c. A Igreja no mundo
Para o mundo, as palavras de Cristo constituem uma
paradoxo; seus preceitos são contrários ao que os homens
consideram prudente e proveitoso. O que essas palavras prometem
é sempre algo que vem do céu e conduz ao céu; em contrapartida,
as ações dos homens que vivem no pecado e na incredulidade
levam à perdição eterna.
Céu e inferno constituem sempre a última alternativa, e
todo diálogo entre Deus e o pecador ainda não convertido está
orientado para deixar essa disjuntiva claramente colocada.
Mas o Senhor não lançou sua Palavra ao mundo incrédulo
deixando-a desamparada diante dele, e sim, fundou sua Igreja no
interior do mundo. A Igreja tem uma face voltada ao mundo —
mais ainda, ela mesma é uma janela aberta ao mundo, a fim de
que este possa entrar no santuário divino, onde se celebra o
mistério do pão e do vinho.
Reunida em torno desse mistério, a Igreja é una na fé, na
esperança, na caridade e na ação — uma unidade cuja origem é
totalmente celeste, de modo que, ao incorporar-se a ela e
contribuir com ela, o homem encontra o céu.
E Deus não edificou sua Igreja para que fosse acessível
apenas a alguns poucos eleitos que vivem na pureza da fé, mas
sim, a construiu como um lugar público, aberto a todos, próximo do
caminho por onde passa toda a humanidade, para que aquele que
quiser entrar, possa fazê-lo.
70
Fora dela está a negação de tudo o que é eterno; dentro
dela, a incorporação de tudo o que é perecível ao mundo do Deus
infinito.
A Eucaristia é o acontecimento íntimo através do qual a
Igreja torna-se sempre nova e se dá a conhecer; mas também
todos os ministérios divinos e os demais sacramentos são encontros
com o Senhor, que se entrega a Si mesmo, que remete à Sua
paixão redentora e concede aos seus o Espírito Santo, enviando-os
ao mundo.
Eles devem anunciar a Palavra ao mundo e converter os
pecadores. Assim, a Igreja é o lugar de encontro entre o Senhor e o
pecador, entre a graça divina e o mundo. E justamente porque é
Deus quem aparece nesse lugar, o acontecimento é sempre
perturbador e transcendente.
No entanto, a Igreja também é um lugar mundano: um
lugar de reunião dos cristãos, visível também para todos os demais
homens, e deve servir como um alerta para eles.
Por meio do culto divino, da escuta da Palavra e da oração
comunitária, os próprios cristãos recebem a exortação de ser, por
sua vez, uma exortação para o mundo.
Devem mostrar o que receberam, revelar o mistério que
vive escondido neles; devem realizar reiteradamente e de maneira
visível, por meio do seguimento, o chamado único que o Senhor
lhes dirigiu.
O que é irrepetível e o que é reiterado se referem
reciprocamente entre si e se fundem um no outro. De fato, no
homem que o encontra, o Senhor não vê apenas o pecador
absolvido, mas também o irmão que participa da Sua vida.
Assim, Ele conferiu à Sua Palavra, proferida na Terra uma
vez por todas, a expansividade do que é sempre vivo e eterno. Sua
Palavra vive porque Cristo vive, e Ele não cessa de anunciar a
Palavra proferida uma vez, com o mesmo rigor de então; Suas
71
palavras nos parecem presas ao tempo, porque as compreendemos
no tempo, mas nossa compreensão é gerada por sua ligação com a
eternidade.
Somos tocados, feridos pela Palavra. Mesmo que
quiséssemos, já não poderíamos viver fora dela. Ao chegar à
Igreja, éramos como frutos de casca dura; a Palavra quebrou essa
dureza, e agora já não temos certezas, e somos ao mesmo tempo
sensíveis e insensíveis.
Sensíveis, porque percebemos por toda parte as marcas da
Palavra e já não conseguimos mais viver imersos numa
mundanidade ingênua. Insensíveis, porque os estímulos do pecado
já mal nos afetam — não porque tenham se enfraquecido, mas
porque já não despertam nosso interesse, enquanto, por outro
lado, a proteção divina está presente em nós.
Em cada encontro com Ele, Deus nos dá uma lembrança,
um presente, que nunca é algo morto, mas sim a Sua Palavra viva.
Escutamos essa Palavra na Igreja, a encontramos em toda
a sua vivacidade até mesmo dentro de nós, sempre que abrimos a
Escritura ou nos voltamos para a Palavra na oração.
A oração se torna encontro com o Senhor, cuja Palavra
pode chegar incessantemente a nossos ouvidos. Somos
interpelados pessoalmente e devemos dar uma resposta pessoal, e
é por meio dessa dupla relação pessoal que a Palavra atua no
homem, até que se forme o homem verdadeiramente eclesial.
A obra que o Criador considerou boa no princípio e que o
Filho redimiu na cruz, é continuada por Deus em cada encontro, em
sua dimensão salvífica, a fim de que não apenas a realizemos em
nós mesmos, mas também sejamos instrumentos dóceis nas mãos
de Deus para a sua obra no mundo.
Pois bem, a oficina de Deus é a Sua Igreja.
72
Capítulo 8
O TRABALHO
a. O sentido cristão do trabalho
Quando Deus expulsou o homem do Paraíso, impôs-lhe
como castigo a obrigação de trabalhar. O homem cultivará a terra
com o suor do seu rosto, mas ela lhe dará espinhos e abrolhos.
Somente no contexto desse afastamento do homem e da natureza
em relação a Deus é que o caráter penal do trabalho adquire pleno
sentido. Também na Antiga Aliança o trabalho — inclusive o do
sacerdote — deve ser interpretado a partir desse distanciamento do
homem de sua origem divina.
Somente por meio da encarnação de Deus em Cristo o
trabalho adquire um novo sentido, e a distância torna-se algo muito
diferente. Na medida em que o Filho se torna operário de Deus, o
trabalho realizado pelo homem e as coisas transformadas por meio
dele (entre as quais podemos incluir a própria ideia do trabalho)
voltam a se orientar diretamente para Deus. Tudo o que procede do
Pai foi incluído pelo Filho em seu plano salvífico e recebeu, a partir
dele, um novo sentido: o sentido conferido pela redenção.
A vida do Senhor constitui uma unidade: o trabalho manual
do jovem Jesus, o labor árduo realizado ao longo de sua vida
pública, o penoso caminho da cruz que desemboca na ressurreição
e na ascensão — tudo isso forma claramente uma unidade e
constitui um caminho de retorno do homem a Deus, no qual nós,
seres humanos, somos conduzidos pelo Filho do Homem à sua
própria divindade, ao Pai e ao Espírito. Nada do que Cristo realiza,
Ele realiza sem nós; Ele nos leva sempre consigo.
O trabalho cristão busca ter consciência disso. O homem
pode oferecer seu trabalho a Deus como um dom; em cada esforço,
por mais insignificante que seja, pode estar seguro de que Deus
73
acolhe a obra de suas mãos e de seu espírito — e que,
compreendido assim, o trabalho nunca é inútil, pois nada do que
está orientado para Deus é estéril. O sentido do trabalho tem suas
raízes na eternidade, e esse sentido lhe foi conferido por meio da
ressurreição e da ascensão de Cristo.
Quando Cristo morreu, deixou atrás de Si apenas alguns
cristãos; depositou na terra uma semente cujo fruto mal era
perceptível. Se se compara a divindade de seu ser, de suas palavras
e de suas ações com o que Ele realizou durante sua vida terrena,
chega-se facilmente à conclusão de que isso último, no máximo, foi
inútil.
No entanto, Ele nos amou a todos até a morte, e morreu na
cruz por nossos pecados; esse amor é inseparável daquele amor
que o conduz de volta ao Pai. Ele nos amou a todos na unidade do
amor divino, que é a maior de todas as realidades.
Os poucos discípulos que Cristo deixou atrás de Si são
como uma garantia visível que o Pai lhe dá; é nisso que Cristo
reconhece que o Pai o deu a todos os homens. Todos são operários
desinteressados, e cada um trabalha à sua maneira, segue —
paciente ou impacientemente — o preceito do Pai, que impôs ao
homem o peso do trabalho.
À pergunta sobre se o trabalho transformou essencialmente
a situação da terra ou se, ao contrário, se tornou uma ameaça para
ela, não se pode responder a partir de uma perspectiva mundana.
Mas, certamente, o trabalho adquiriu pleno sentido enquanto
castigo e enquanto caminho para o Pai através da paixão do Filho.
Somente no interior da fé o trabalho adquire sentido:
é um caminho que representa uma promessa que se cumpre,
um castigo que leva à absolvição, o sinal de uma confissão
interminável, que é acolhida na graça.
Através do trabalho, o homem confessa seu distanciamento
de Deus, seu pecado original, que nunca superou definitivamente,
mas também todo pecado atual.
74
No entanto, o trabalho do homem nunca alcança aquele
poder irradiador que o sacramento da penitência possui e concede;
é, acima de tudo, uma obra imperfeita.
Por isso, seria imprudente estabelecer uma conexão
demasiado estreita entre o trabalho e o sacramento.
O sacramento é uma criação pura do amor divino, de sua
plenitude eterna e misteriosa; por outro lado, por trás de todo
trabalho está o pecado, é evidente que o trabalhador é um pecador,
ainda que sua mente esteja orientada para a graça.
O trabalho humano está cheio de falhas e erros;
apenas em raras ocasiões uma pessoa consegue irradiar graça por
meio do trabalho — por exemplo, ao pintar um quadro ou compor
uma música da qual emana um sentimento de júbilo, e não o
suspiro do esforço, o cansaço ou o sentimento de dúvida.
Também a Igreja, enquanto instituição, realiza o seu
trabalho. Nela se administra o sacramento da confissão, que
constitui um “trabalho” tanto para o pecador quanto para o
sacerdote com quem ele se confessa.
A pregação da Palavra e a administração dos sacramentos
são um trabalho realizado por toda a Igreja. Nela também se
realiza o trabalho de seguir os mandamentos de Deus.
Deve-se amar a Deus e ao próximo, e esse amor é
trabalho. Um trabalho que agrada tanto ao Deus uno e trino, que
sua dimensão penal é superada para sempre pela graça.
Em inúmeros lugares, foram espalhadas sementes de
trabalho, cujo fruto é o amor de Deus. Quase se poderia dizer que o
trabalho é apenas a forma, enquanto o conteúdo é o amor, e esse
conteúdo é sempre oferecido por Deus.
Quando o sacerdote — e todo aquele que constrói
seriamente na Igreja, e trabalha de verdade desde a base — não
chega a ver o resultado de sua obra, é porque os frutos só se
manifestam no Reino dos Céus, em função do qual ele trabalha, e
75
cuja semente ele tenta introduzir na terra com todas as suas
forças.
Naturalmente, nem todo aquele que realiza seu labor na
terra pode conhecer o sentido último de seus esforços.
Mas a Igreja o conhece, pois por estar tão próxima de Deus,
vislumbra algo de seu mistério.
Enquanto instituição, ela sabe algo d’Ele; mas os homens
que vivem nela o conhecem, enquanto ainda fazem parte da Igreja
terrena, através da comunhão celeste dos santos.
Apenas em raras ocasiões uma pessoa que trabalha sobre a
terra e participa ocultamente da plenitude do Reino dos Céus por
meio dos sacramentos, compreende algo do sentido de seu trabalho
à luz da graça.
É como se, por um momento, saísse das sombras para a
luz do sol, para então voltar a caminhar entre as sombras.
O trabalho é escuridão, mas uma escuridão na qual, a
qualquer momento, pode irromper um raio do sol ardente e
iluminar tudo.
Aquele que adota uma profissão — ainda que seja a de
seguir plenamente a Cristo —, sendo idôneo para ela e estando
disposto a dar seu "sim", só pode fazê-lo se se submete à
obrigação fundamental que é o trabalho.
Sem dúvida, ele pode experimentar a alegria do trabalho
realizado e fazer a descoberta feliz de que todas as coisas do
mundo foram criadas para o Filho, mas não pode se esquivar da
marca do pecado original. Caminhará rumo à cruz e deverá reunir
agradecidamente todas as partículas de cruz que o Senhor lhe
concede.
A fé em Deus e o amor a Ele são coisas tão sublimes que o
homem jamais chega a realizá-las plenamente. Quando acredita ter
chegado ao fim, uma nova porta se abre diante dele, revelando que
ele ainda está apenas no vestíbulo.
76
Essa infinitude não deve ser motivo de angústia para o
homem, pois é como uma marca distintiva, já que Deus, o
Inabarcável, se revela ao homem tal como é em Si mesmo. E o
homem, assim introduzido no conhecimento de Deus, deve
compreender, em cada situação, o que lhe é mostrado, a fim de ser
capaz de transcender a si mesmo e contemplar a grandeza divina.
Deus quer conduzir consigo o homem, com tudo o que ele
faz, com seus trabalhos mais importantes e também com os mais
insignificantes. Quando uma pessoa se propõe a realizar algo que
possui verdadeiro valor, ela está consciente de que sua vida não
será suficiente para concluir tal tarefa.
Mas se ela se propõe a fazer algo de menor importância —
que, por outro lado, lhe parece mais adequado —, então sua obra
sempre se moverá nesse nível e ela nunca estará satisfeita por
causa do caráter limitado dessa obra.
Os limites que ela mesma impôs recaem novamente sobre
si como um fardo. Somente quando ultrapassa sua intenção de
realizar algo satisfatório do ponto de vista terreno e se abre a
Deus, o seu trabalho pode adquirir sentido.
Trata-se de um trabalho no interior da imensidão de Deus,
e sua norma, sua meta, e seus limites são estabelecidos por Deus.
E quando Deus mesmo se ocupa do trabalho do homem, Ele o faz
enquanto Deus, e na medida em que Sua infinitude se inclina para
o homem e o encontra, Ele o eleva junto com seus projetos e suas
obras, e o introduz no amor divino.
Aqueles aspectos do trabalho terreno do homem que
pareciam ter alguma importância, agora aparecem pela primeira
vez em sua verdadeira grandeza, pois estão repousando em Deus,
e Ele confere às obras do homem uma atenção que não se poderia
esperar, dado o caráter perecível delas.
Todas essas vacilações deveriam levar o homem a adotar
uma atitude de profundo respeito. O homem irrespeitoso cria suas
77
próprias normas de maneira arrogante, segundo seus próprios
critérios.
Mas aquele que ama com reverência se curva diante do
mistério de Deus e entrega em Suas mãos seus projetos e
realizações. E Deus conduz tudo a uma unidade, àquela harmonia
entre o fruto do mundo e Seu próprio ser divino, que só Ele é capaz
de estabelecer.
Quando Deus Pai envia o Filho para realizar no mundo Sua
própria obra, não o separa da unidade, mas, a partir da unidade do
Deus trinitário, o envia ao mundo para que, por sua vez, retorne a
essa unidade.
O trabalho de carpinteiro que Jesus realiza é feito em
função de Deus. Quando Jesus se propõe a terminar hoje uma viga
e amanhã consertar um utensílio, tudo isso faz parte do plano
divino.
Ele sabe que o Pai conta com isso e o necessita para Seus
desígnios. Daí que cada homem pode executar seu trabalho à
imitação do Filho e junto com Ele, a fim de incorporá-lo, por meio
d’Ele, à obra do Deus uno e trino.
O sentido último do trabalho está em Deus, e a grandeza
da ação humana consiste em sua orientação para Deus.
Visto que o homem é imagem de Deus, deve realizar todas
as suas obras para Cristo e com Cristo, e assim, lhes conferirá o
brilho do eterno, que procede da fé.
Até mesmo o mais insignificante trabalho cotidiano,
infinitamente disperso e jamais concluído, adquire em Deus um
sentido acabado e integral, pois Deus é o princípio e o fim de todas
as coisas.
Assim, o tempo é englobado em Deus, e o tempo efêmero
em que o trabalho se desenvolve está inserido na eternidade.
78
Tudo o que conta e é contado, mede e é medido, participa
do imperecível. Quando o homem não está disposto a assumir
sobre si o peso do trabalho, ele perde um caminho essencial de
acesso à eternidade.
Rejeita uma forma de seguir a Cristo e de entrar em
comunhão com Deus.
Por outro lado, quando trabalha com a atitude de um
crente, como alguém que se submete a Deus, na medida em que
entrega todo o seu trabalho em Suas mãos, esse trabalho se
tornará expressão de sua fé e de seu amor, e Deus não frustrará
suas esperanças.
b. O trabalho como expiação em Cristo
O fato de que Deus tenha criado o mundo para o Filho pode
ser entendido a partir de duas perspectivas complementares. Por
um lado, nos encontramos com o fato da criação, que implica um
trabalho por parte de Deus; por outro, com o propósito divino de
entregar tudo ao Filho. Não há dúvida de que a ação de Deus é
unitária; no entanto, por meio de nossa meditação, podemos
distinguir dois aspectos fundamentais dessa ação: o fazer e o "fazer
para". Por outro lado, é essencial para nós que Deus tenha
realizado esse trabalho antes de nos impor o trabalho como pena.
Seu trabalho, mesmo no que diz respeito ao descanso do sétimo
dia, reúne todas as características que o credenciam como tal. Tem
pleno sentido como ação e, sobretudo, como desígnio.
Quando, após a queda original, o homem tenta trabalhar
novamente para Deus, pode tirar fôlego e energia da criação do
mundo por Deus — que lhe oferece o modelo a ser seguido — e
talvez até mais do desígnio do Pai: doar seu trabalho, não colher
para si mesmo o fruto desse trabalho, mas, antes, entregá-lo ao
Filho. Se o homem agir assim, criará uma obra que o transcenderá
e que, em última instância, não está destinada a ele, mas ao reino
de Deus.
79
Assim, o trabalho descreve uma curva, percorre um ciclo
cujas medidas se situam no infinito. Desde o momento em que
Deus colocou o homem no mundo, Ele o colocou em conexão com a
eternidade, na medida em que foi criado para o Filho. O trabalho
humano, que, devido à sua irrelevância ou sua orientação
puramente terrestre, ficasse alheio ao grande ciclo dos desígnios
divinos, não deveria ser considerado como expiação, mas como
pecado. Seria uma ação em desobediência que, ao ser privada de
seu fim último, ficaria incompleta e, consequentemente, desprovida
de sentido.
Quando Deus Pai expulsou o homem do Paraíso, já tinha
presente a futura redenção no Filho; e o jugo do trabalho, que
sobrecarregava o pecador, se tornou já, aos olhos de Deus, um
caminho para o Filho. Um caminho de arrependimento. Um
caminho para a penitência — certamente, na medida em que o
Filho instituiu a penitência como fim do caminho — mas também
porque o trabalho encerra em si uma confissão involuntária do
pecador: ele deve assumir o pecado original para alcançar o que
Deus lhe reservou. Esta confissão, por mais incompleta que seja,
carrega, no entanto, os vestígios da compreensão que Deus deseja
ver em nós: se realizamos nosso trabalho, Ele verá que aceitamos o
castigo e, assim, já estaremos no caminho de retorno para Ele.
E, dado que o trabalho adquire um sentido pleno e
absoluto, tudo o que o homem faz pode ser relacionado com esse
trabalho. Seu diálogo com Deus na oração e tudo o que é realizado
nesse espírito de oração é também, em última instância, uma
atitude de submissão à lei do castigo e, portanto, um acesso à lei
da graça. Um monge pertencente a uma ordem contemplativa
experimenta com toda clareza até que ponto as horas de oração,
por exemplo, as do ofício divino, caem sob a lei do trabalho; um
pároco também entende até que ponto são trabalhos árduos as
horas no confessionário ou as dedicadas à direção espiritual. O que
ora realiza um trabalho fatigante e suporta o esforço que o
acompanha. Compreende facilmente que essa ação tem um caráter
80
expiatório. Dessa forma, cada crente, qualquer que seja o trabalho
que realize, pode participar da obediência do monge ou do pastor
na medida em que suporte a tarefa que lhe foi atribuída em um
espírito de oração. Na fé, cada forma de trabalho está em harmonia
com todas as outras. Em primeiro lugar, os trabalhos do mesmo
grupo profissional ou industrial, depois, todos os grupos entre si;
todos pertencem ao mesmo ciclo de trabalho e talvez carreguem
muito mais do que poderia parecer. E, dado que a oração explícita
também é um trabalho, em cada trabalho realizado com fé há algo
de oração implícita; a totalidade deles constitui a obra de expiação
da humanidade pecadora, que está a caminho do Filho e foi
redimida por Ele.
81
Capítulo 9
O DESMESURADO
a. A Medida do Homem e o Desmesurado
Através de seu trabalho, o homem se vê obrigado a fazer
uso de medidas, de normas. Trabalha oito horas por dia; neste
trabalho, exige-se dele um desempenho normal. Estabelece-se, por
exemplo, quantos fragmentos de tal gênero ele é capaz de fazer
por dia, por semana, por ano. Da mesma forma, quanto ele precisa
para alimentar a si mesmo e à sua família, se o pão, a dúzia de
ovos, etc., custam tanto. Quanto ele precisa também para suas
distrações: por exemplo, quanto custa a entrada no cinema ou no
futebol. Toda a sua existência está cheia de números, que
representam determinadas medidas. Quando algo não vai bem no
funcionamento do mecanismo, fica como desamparado; na maioria
das vezes, isso tem consequências desagradáveis. Quando ele,
como trabalhador, pensa na distribuição do tempo de seu patrão ou
chefe, vê que este tem mais férias do que ele, um salário mais
elevado e, com isso, outras distrações, mas o chefe também tem de
distribuir o seu tempo, e, principalmente, deve trabalhar mais e
tem maiores responsabilidades.
Quando o homem não costuma medir tudo, perde o sentido
da eternidade. Seu horizonte não vai além do tempo mensurável,
perecível de sua existência terrena. Tudo o que mede o coloca
continuamente diante de certos limites: ali está o ponto em que
termina o que havia se proposto; mais além começa um novo
âmbito mensurável. Entre essas metas e recomeços, transcorre a
vida do indivíduo. O que ele mede, o abarca, o inclui em sua esfera
vital. Ele é dominado pela lei do número, e, por sua vez, domina
sobre ela. As medidas foram concebidas e feitas para ele, mas ele
conserva uma pequena liberdade frente a elas. Pode estabilizar-se
(por exemplo, o preço do leite), economizar, renunciar a certas
82
coisas para se permitir outras. É como se acostumar a uma
liberdade limitada, uma liberdade entre grades.
Isso também influencia seu modo de pensar. Ele pensa
segundo categorias fixas, que se tornaram para ele tão evidentes
que quase não as questiona mais; pelo contrário, ele as simplifica
cada vez mais.
Mas quando se encontra com um homem realmente crente,
encontra nele a própria presença de Deus: em sua limitada
existência, irrompe o risco, a aventura. Não sabe se adotará uma
atitude aberta ou reservada diante disso, mas uma coisa é certa:
suas medidas ou critérios já não servem. Suas categorias,
simplificações, divisões do tempo (tão convencionais todas elas) se
mostram impotentes para compreender tal fenômeno. Ele havia
feito seus próprios cálculos e projetos, por exemplo, queria avançar
em sua posição para poder se permitir certas coisas aos cinquenta
ou sessenta anos. Se a verdade cristã tem validade, Deus poderia
contrariar esses planos, poderia pedir-lhe até que sacrificasse sua
posição e, em todo caso, o homem teria que deixar de lado todos
os seus cálculos e classificações, que agora lhe aparecem como
outras tantas reservas diante de Deus. Um queria colocar condições
a Deus. E o mais difícil da fé é precisamente isso: abandonar as
pequenas definições e classificações que se fez com tanto esforço;
mas, quando nos encontramos com o desmesurado, não há outra
escolha: é preciso renunciar a elas. Nem mesmo o tempo pode ser
mais medido em anos ou meses, mas apenas em função da
totalidade da existência, e o tempo que alguém vai viver é uma
incógnita. Tudo o que foi calculado e medido em função de si
mesmo, deve ser aborrecido de agora em diante. Deus não nos
oferece nenhuma norma com a qual pudéssemos nos familiarizar e
que pudéssemos abarcar a partir de nosso próprio sistema de
cálculo. O tempo de oração regulamentar, os preceitos da Igreja e
as exigências do amor ao próximo apresentam agora um grande
problema ao homem, e ele não sabe como resolvê-lo.
Externamente, as circunstâncias não mudaram — o tempo continua
83
sendo o mesmo —, mas, nas profundezas, as coisas passaram por
uma transformação radical.
De fato, o tempo é agora o lugar em que pode ocorrer o
encontro com a eternidade, e a medida, o âmbito em que se
alberga o desmesurado. Assim, tudo se torna altamente incômodo:
o que até agora era justo, já não é mais, e não se sabe com certeza
por que substituí-lo. Cristo fala em muitas parábolas de coisas
familiares aos homens: por exemplo, de um banquete celestial, do
bom pastor e suas ovelhas, da dracma perdida, da figueira que não
dá fruto fora de tempo, etc. Mas tudo isso, que antes parecia
conhecido e familiar e por meio do qual se aprendiam dificilmente
muitas coisas, adquire na boca do Senhor um sabor novo e
estranho. Do ponto de vista humano, é como se um fosse
conduzido a um lugar desacostumado, inclinado diante da
eternidade, a fim de que ela se torne compreensível para o homem
mortal. Mas Jesus também fala da própria eternidade, do reino do
Pai, das relações entre Pai, Filho e Espírito Santo, de coisas
inacessíveis que, no entanto, têm um valor decisivo para a fé. Até
agora, o homem estava acostumado a ordenar e classificar as
coisas de tal maneira que nelas aparecesse claramente um princípio
e um fim. Agora, é necessário dispensar ambos os termos, e o
significado das coisas se prolonga inconcebivelmente até a
eternidade. Quando o homem se descobre a si mesmo através da
Palavra de Deus e observa quão inúteis são seus critérios, sente
vertigem. Ele conhece a realidade tal como era até agora; mas o
que será, não tem nada em comum com o que foi. Os critérios
racionais já não lhe servem como pautas a seguir: sua “norma” só
pode ser a transcendência de Deus, que se serve justamente desta
insignificante vida humana para encontrar um lugar e apoio no
mundo. É como plantar uma árvore em um vaso. A exigência mais
árdua que se apresenta ao crente é precisamente a de estar à
disposição de Deus para algo incompreensível, que só faz sentido
através do amor. Até agora, o crente reuniu, atraiu para si, calculou
e disponibilizou todas as coisas; de agora em diante, ele deve abrirse
de tal maneira que suas mãos, ao recolher, não se encontrem
84
mais uma à outra. Ele é englobado por Deus de tal forma que já
não pode abarcar outra coisa e deve oferecer-se a si mesmo como
um mero recipiente cujo conteúdo lhe é totalmente desconhecido.
Só sabe que deve deixar-se dissolver no infinito o que antes estava
bem guardado e, frequentemente, minuciosamente calculado,
conforme o ritmo que só Deus pode impor-lhe.
b. O desmedido e a obediência
Ao fugir com o Menino para o Egito, Maria segue uma
indicação de José, que por sua vez havia sido advertido em sonho.
O caráter absolutamente sobrenatural dessa fuga nos remete ao
âmbito divino: se José tivesse que explicar por que a empreendeu,
só poderia dizer que para ele era evidente que essa era a vontade
de Deus; no entanto, ele não possui norma alguma que justifique
essa certeza.
Maria o segue sem mais questionamentos; José tem com
ela uma responsabilidade, e ela se submete a ele. Mas não o segue
apenas por motivos humanos, e sim também porque o “sim” dado
ao anjo inclui isso. E esse “sim”, que abrange tudo, faz com que sua
vida não possa ser regida por nenhuma norma humana. Ela deve
permitir que o "hoje" seja iluminado pela eternidade, de onde
provêm as sugestões divinas.
Vive na terra uma vida oculta, que, no entanto, é
totalmente visível aos olhos do céu. Sabe-se observada desde o céu
e conhece esse caráter permanente de seu “sim”.
É uma fuga da terra natal para escapar do perigo, mas é
também um movimento dentro de uma obediência cada vez mais
perfeita, que aparentemente está disposta a tudo pelo Menino. Ele
ainda é muito pequeno, e a responsabilidade recai sobre os pais.
Contudo, o “sim” de Maria passa através do Filho, pois Ele,
desde toda a eternidade, deu Seu “sim” ao Pai pela salvação do
mundo. Quando, mais tarde, no Monte das Oliveiras, Lhe é
85
oferecido o cálice e Ele o aceita, assume diretamente a
responsabilidade de Seu próprio “sim”: diante dos homens, como
homem; diante do Pai e do Espírito, como Deus.
E, ainda assim, inclui em Si o “sim” de sua Mãe, um “sim”
que ainda não se extinguiu, e essa assunção de responsabilidade
pelo mundo — que remonta à responsabilidade assumida
anteriormente por Maria e José — não é compreensível por
nenhuma norma que possa ser abarcada e controlada.
Às vezes, essa norma pode se manifestar de forma
fulminante: a José ela aparece em sonhos, e Jesus sabe de Sua
missão na cruz. A partir do movimento eterno do Filho em direção
ao Pai, revelam-se pequenos detalhes através dos quais se pode
perceber uma norma e uma "assunção de responsabilidade", mas
sempre inseridos na dimensão do desmedido, que tudo abrange.
O desmedido pode ser vislumbrado a partir de uma
obediência sem limites, que nós consideramos, no fim das contas,
como uma espécie de norma, embora ela ultrapasse todas as
nossas normas.
Quando um homem responde com um “sim” a Deus, que o
encontra, e deseja entregar-Lhe sua vida e obedecê-Lo em tudo,
ele deve orientar sua conduta pelos aspectos da vida do Senhor nos
quais pode encontrar um critério, uma norma a seguir.
Ele escolhe para si a maior ignomínia e humilhação, como
diz Santo Inácio em seus Exercícios Espirituais. Escolhe um
caminho marcado pela cruz do Senhor, se o Senhor assim o quiser.
Escolhe o caminho da fuga para o Egito ou para onde for
necessário, para escapar de um “aqui” que não pode mais usufruir.
Escolhe o desprendimento.
Mas tudo isso ele faz com base em alguma norma visível na
vida do Senhor, sabendo que por trás dela se oculta a vida trinitária
incomensurável de Deus, e que Deus, em Seu encontro com o
homem (que sempre se refere ao Evangelho), se dignou explicarlhe
em que consiste essa vida por meio de coisas mensuráveis,
86
para que o homem não sinta vertigem, mas aceite em obediência
aquilo que Deus lhe mostra.
Pode acontecer que, no momento do encontro, o homem
saiba claramente o que deve sacrificar. Pode imaginar o dia de hoje
e o de ontem, os últimos meses e o ano passado, e todo o tempo
transcorrido até agora, e fazê-lo reviver diante de seus olhos em
certas circunstâncias, a fim de medir aproximadamente o que
perderia se se entregasse a Deus sem reservas.
Julgaria a partir do que foi e da sua importância. Mas se o
“sim” for pronunciado com humildade e desde uma perspectiva
cristã, sem que o homem se atribua por isso a menor importância,
nem se arrogue o direito de aplicar sua própria medida, então ele
não poderá prever absolutamente seu futuro.
No máximo, ele poderá medir o que o Senhor lhe mostrou
através de Sua vida redentora; sabe que ali se encerra uma
superabundância de graça para ele, mas não possui norma alguma
para medi-la. Ele deve morrer para o seu “eu”. Se o fizer, seu “sim”
chegará à eternidade. Ele já saboreia algo, desde agora, do que o
moribundo experimentará diante do limiar da eternidade.
Tudo o que provém do além e nos é oferecido por Deus é
desprovido de medida.
No entanto, se após ter dado seu “sim”, ele continua
aplicando suas próprias normas, se privará do acesso à eternidade
neste mundo.
O religioso que deseja viver a partir da norma do presente
e planejar e calcular seu futuro imediato com base nessa norma,
não terá verdadeiramente morrido para seu “eu”. Teria caído em
uma “terra de ninguém”, já que não pertence mais a este mundo,
mas também não à vida eterna que se abre pela obediência sem
reservas.
Já não pode utilizar os critérios do mundo, mas ao mesmo
tempo está privado da desmesura do eterno, porque não se decide
87
a entregar-se, sem medo, nas mãos de Deus, como fazem os lírios
do campo.
Dessa forma, sua vida torna-se algo irreal e inautêntico. As
normas terrenas só podem conter pequenas verdades, mas o
desmedido do “sim” abre o homem à sublime verdade de Deus.
Não há uma terceira via.
c. Medida e desmedida nos ((status)) eclesiais
Viver no e a partir do desmesurado não significa viver no
desordem. Significa aceitar a ordem atual, mas considerando-a
como uma ordem cuja raiz transcende o nosso conhecimento e se
situa em Deus, e cuja norma é a absoluta eternidade. No entanto,
trata-se aqui de uma norma que se torna cognoscível para nós ao
manifestar-se como ordem. Aquele que coloca à disposição de Deus
seu futuro, juntamente com todas as promessas que ele encerra, e,
ao mesmo tempo, entrega seu próprio ser ao escolher o caminho
dos conselhos evangélicos, adota como norma de vida uma regra.
Como ordenação da vida inspirada pelo Espírito Santo, a regra
constitui uma mediação entre o "sim" do cristão comum no mundo
e aquela desmesura que tem sua raiz no "sim" pleno e radical. Esta
mediação não é um compromisso, mas a maneira pela qual o céu
se inclina para a terra, de modo análogo a como as promessas da
antiga aliança se cumprem na nova, ou a como o Filho do homem
se inclina para o homem que se entrega a Ele.
Se considerarmos concretamente a regra de uma ordem
acreditada na Igreja, talvez nos surpreenda encontrar nela duas
coisas estreitamente ligadas entre si: uma precisão quase
escrupulosa, que tende a contemplar todas as situações possíveis,
e a fidelidade aos votos, que é exigida inexoravelmente. É como se
o desmesurado do "sim" se servisse da norma, para que o homem
que se vinculou por meio desse "sim" não perca de vista o objetivo
de seu sacrifício, mas o descubra sempre fresco e viçoso, e em
88
todas as coisas pequenas, concretas, da regra imposta, encontre
sempre um novo acesso à desmesura divina.
O cristão que vive no mundo e não está sujeito a nenhuma
regra religiosa deve saber necessariamente que determinados
homens se abrem ao desmesurado por meio da regra. De fato, o
fato de ele ter escolhido um caminho distinto não o isenta da
obrigação de saber que existe algo mais sublime, a entrega total.
Mas esse conhecimento não deve paralisá-lo; ao contrário, ele deve
inspirar-se nesse espelho para tirar certas conclusões para sua
própria vida. Na convivência com a esposa e com os filhos, muitas
coisas lhe são impostas que exigem uma enorme capacidade de
sacrifício e, frequentemente, exalam o perfume do além. Por outro
lado, sua "regra" não consiste apenas em seus deveres familiares;
deve incluir também as obrigações que derivam do ambiente mais
amplo em que ele vive, tanto profissional quanto social. Por assim
dizer, Deus o desperta colocando a norma de seus deveres — que
derivam do amor ao próximo — nesta dupla e irreduzível vertente:
no círculo interior, ou seja, em sua família, e no âmbito exterior, ou
seja, em seu ambiente.
O homem não pode limitar sua entrega e seu amor ao
próximo ao âmbito familiar, pois isso seria uma forma de egoísmo,
de tal maneira que ele mesmo definiria a norma do amor cristão e
rejeitaria sua desmesura; nem pode fazer o oposto, ou seja,
encontrar o próximo unicamente no ambiente. Através de seu "não
dispor" da norma (da qual, por outro lado, ele não está desligado),
ele experimenta algo da desmesura de Deus.
Quando o cristão que vive no mundo encontra um homem
que vive a vida religiosa com autenticidade e entra em contato com
sua regra, com seu modo de pensar e viver, encontrará sem dúvida
nele um hálito de vida eterna. Compreenderá algo da desmesura da
vida cristã, e esse conhecimento concederá à sua vida medida
novas dimensões. Um intercâmbio vital entre as diferentes formas
de vida cristã é frutífero; mais ainda, é como uma imagem do
intercâmbio amoroso que ocorre no interior da divindade. O
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religioso não entrou em sua ordem para fugir do mundo, mas para
servir ao mundo em Deus; mas também o leigo, que vive no
mundo, deve realizar o serviço a Deus que lhe foi confiado, e
formará uma ideia desse serviço através de um conhecimento da
vida religiosa. Da mesma forma, deve sempre submeter sua norma
ao desmesurado, deixando-se determinar e transformar por ele. Os
perigos do desmesurado e os que traz consigo a norma imposta
parecem, à primeira vista, opostos entre si; no entanto,
considerados de maneira mais profunda, são idênticos: isto é, o
homem se arrogue permanentemente a liberdade de
autodeterminar-se.
Mas, assim como o cristão que vive no mundo deve
manter-se aberto ao desmesurado para conhecer sua norma,
aquele que vive segundo a regra de uma ordem deve conhecer a
norma que lhe foi imposta ao seu irmão que vive no mundo. Esse
intercâmbio é transcendental para ambos. Algo do que reina no
intercâmbio trinitário deve também realizar-se na terra através das
duas formas de vida cristã, que não só estão em comunhão dentro
da Igreja de Cristo, mas também são animadas pela ideia de que a
criação como um todo foi feita para Cristo.
90
Capítulo 10
A ALEGRIA
a. A Alegria Transbordante
Deus pode derramar sobre o homem a luz de sua glória até
tal ponto que toda a sua vida seja transformada: sua fé irradiará
por si mesma, de tal maneira que tudo o que o rodeia será
iluminado por ela, adquirirá uma nova meta, e se tornarão patentes
muitas coisas que até agora permaneciam problemáticas para ele e
seu entorno. Essa iluminação é alegria, participação na alegria
universal.
O Filho é a alegria do Pai, a alegria divina perfeita. Vive
para o Pai, e tudo o que é do Pai é seu; participa plenamente de
tudo o que o Pai possui e, por conseguinte, de sua alegria. Tudo
aquilo que é contrário ao Pai, é contrário ao Filho; é para Ele causa
de sofrimento e o move a redimir o mundo. E o redime na alegria
do Pai e para aumentar essa alegria, mas também com o júbilo que
acompanha o fazer um dom ao Pai. Esta alegria não diminui apesar
do sofrimento da cruz. “Se possível, que passe de mim este cálice”:
palavras de angústia que, na cruz, se tornam expressão do
desamparo do Filho. No entanto, toda a escuridão da paixão está
como deixada de lado e posta entre parênteses pela alegria que
tudo abarca, até o sofrimento mais profundo, que foi precisamente
morrer abandonado de Deus, carregando sobre si o pecado da
humanidade; e este pecado oprime de tal maneira o Filho, que Este
fica aniquilado e já não é capaz de ver sequer o sentido de seu
suplício. À pergunta do agonizante não pode haver resposta, o Pai
não pode se fazer ouvir, pois quer dar ao Filho a alegria perfeita: a
de ter morrido por Ele no meio do desamparo, uma vez que
sobreviveu hora após hora à desmesurada exigência da paixão.
91
Agora bem, dado que não somos mais do que homens
pecadores, a separação entre alegria e sofrimento não tem em nós
as mesmas características que no Filho. No entanto, mesmo quando
nossa vida é dura e está cheia de pranto e sofrimento, sabemos
que a alegria é o maior bem, que Deus é a alegria absoluta e que
n’Ele há um lugar reservado para nós.
As grades que nos aprisionavam no sofrimento nunca são
absolutamente indestrutíveis; e mesmo quando não conseguimos
mais conceber pensamentos de alegria, sempre podemos recorrer à
Escritura e aprender dela o que é a alegria. E sempre podemos ter
motivos para a esperança.
Deus pode nos iluminar de tal modo que, de tanto
contentamento, não saibamos mais quem somos nem o que
devemos fazer. Contemplamos a Sua alegria perfeita e somos
convidados a participar dela. Tudo, até nossas angústias e
vacilações, é arrastado pelo júbilo; até o que era problemático
parece ganhar sentido, obtemos resposta às nossas perguntas, e
esse instante em que nos sentimos possuídos pela alegria divina
irradia sobre todos os dias de nossa vida.
O céu e a terra se encontraram, a luz rasgou nossas trevas.
Deus reserva Sua alegria para Si mesmo. O Pai a dá ao Filho e ao
Espírito, os quais Lhe devolvem o dom.
O Pai também criou o mundo na alegria, com o propósito
de fazê-lo participar dela. Cada homem, do primeiro ao último, foi
destinado à eternidade e à sua alegria sem limites, e convidado a
participar dela.
É um hóspede de Deus, que adquiriu o direito de cidadania
eterna onde antes se achava um estranho.
Às vezes, o homem adota a postura do avestruz e se recusa
a encontrar-se com Deus. Mas Deus pode arrancar com tal
veemência o véu que cobre os olhos do homem, que este cai de
repente, e o homem, de boa vontade ou à força, contempla o dom
que Deus quer lhe fazer.
92
A partir desse momento preciso, todos os nossos
movimentos estão sob a influência de Sua luz e se originam nela.
Começamos a ver, e o panorama que se apresenta diante
dos nossos olhos supera tudo o que conhecíamos até então. Todas
as coisas ganham seu devido lugar e sentido, e respondem a um
plano providencial até então insuspeitado.
Até mesmo a tarefa que Deus nos confia, nossa missão,
nossa vida cotidiana, e tudo o que fazemos e pensamos, em geral,
passa a ser determinado doravante pela alegria no Deus uno e
trino.
Dessa forma, o crente deve irradiar uma força jubilosa, que
jamais pode ser confundida com a atitude de um homem que nunca
encontrou Deus.
Com efeito, a irrepetibilidade do Deus que nos encontra não
pode ser confundida com nenhuma outra experiência. Quando
realmente encontramos Deus, essa experiência permanece viva em
nós.
O Filho, que, por designação do Pai, permanece na terra,
vive em uma atitude tal diante do Pai e em uma união tão grande
com Ele, que essas se manifestam em sua unidade interior, em sua
coerência consigo mesmo.
Ele não pode nem quer ser outra coisa senão aquilo que
Sua missão exige.
Também o cristão que segue o Senhor deve ser uno consigo
mesmo; não pode levar a vida dupla daquele que vive ao mesmo
tempo na alegria e na inquietação.
"Ninguém pode servir a dois senhores, a Deus e ao
Mamom": Essa frase nos faz entender que o cristão deve viver na
unidade que a alegria confere; a alegria de levar uma vida com
sentido, de perseverar no caminho da unidade, da confiança, da fé.
93
Isto é precisamente a alegria, pois esse caminho conduz ao
Pai por meio do Filho, na medida em que é o caminho da
obediência amorosa e da plenitude da eternidade no tempo, o
caminho que o Filho nos abriu, a fim de que o percorramos na
alegria concedida pela graça.
b. A objetividade da alegria
Estamos acostumados a dividir nossa vida em setores,
costumamos prestar atenção nas pessoas que enquadramos nesses
diferentes âmbitos — família, amigos, profissão, etc. — e lhes
concedemos um lugar em nossa vida. Aqueles que estão fora
desses esquemas nos parecem estranhos, como se só quiséssemos
cumprir o mandamento do amor ao próximo em parcelas, e
precisássemos para isso de uma certa visão panorâmica do âmbito
em que o aplicamos em cada caso; praticá-lo de modo universal
nos pareceria excessivo.
Agora bem, quando alguém encontra Deus de verdade,
parece-lhe que, por um momento, foi retirado dos círculos nos
quais habitualmente se desenvolvia sua vida, de tal forma que a
validade desses círculos fica relegada a segundo plano. Ao
reintegrar-se a eles, ele percebe que é imprescindível reformar seus
esquemas. A partir de agora, ele deve comunicar a todos os
homens a alegria do encontro com Deus, a alegria que o invade,
que provém de um âmbito que o transcende tudo, pois o âmbito
divino é ilimitado. Consequentemente, ele não deve pensar nem
por um momento que é o único a quem Deus encontrou, ou que
constitui um foco de irradiação único e singular. Ele conhece o
caráter supratemporal da Palavra divina e sabe que muitas pessoas
ouviram a Palavra antes dele; também deve saber que muitas
pessoas encontraram Deus nesta época. O caráter pessoal do
encontro, do qual emana sua alegria, pode representá-lo
remontando-se a Adão, a quem Deus interpela pessoalmente no
Paraíso; mas não pode ficar muito tempo em Adão, pois o segundo
Adão veio, e não só por ele, mas por todos os homens. O "por
94
mim" é compromissor, mas o "por todos" não é menos. Já no
Antigo Testamento, Deus encontrou muitos homens: sacerdotes,
profetas, reis e outros, que foram interpelados por Ele e receberam
uma missão; o crente deve meditar sobre a obediência e a
desobediência daqueles. Finalmente, contempla o Filho e sua
obediência perfeita. Sabe o que o Filho expressou através das
Escrituras. Considera os gemidos do Espírito na Igreja universal.
Assim, ele deve se contentar em ser um dos muitos homens que
estão na presença de Deus. Mas esse sentimento de modéstia é
superado logo e se torna uma alegria sem limites, diante da ideia
de que tenha sido pensado por Ele, apesar dos estreitos e
estereotipados âmbitos nos quais havia dividido sua vida. Na
alegria do Senhor, ele deve ser, a partir de agora, tudo para todos.
Até certo ponto, pode ser até mesmo a partir de uma perspectiva
subjetiva; mas esse ponto está situado em um lugar que ele é
incapaz de determinar, mesmo sabendo com certeza que ele existe.
Existe uma nova norma, que se manifesta em todas as tarefas a
serem realizadas e nas relações pessoais, e que é muito mais
ampla do que ele poderia ter pensado; mas também não pode
ultrapassá-la, nem mesmo através da fecundidade de sua missão.
De fato, os dias de sua vida são limitados; suas forças também. No
entanto, ele pode ter a estranha sensação de que seu tempo e suas
forças estão se expandindo. Mas essa sensação será acompanhada
de uma experiência muito mais profunda de seus limites, já que,
desde seu encontro com Deus, suas metas se tornaram mais
elevadas. Ele experimentou o que é a alegria. E aquele que quer
contar o que é a alegria, qualquer que ela seja, logo começa a
faltar-lhe as palavras, pois está fazendo referência a algo muito
íntimo e pessoal. Ele quer contar como se sentia naquele momento.
E quando, para fazer sua descrição mais viva, recorre a
comparações, estas lhe parecem muito insatisfatórias.
Mas quando ora diante de Deus com alegria e agradece
pelo dom que lhe foi dado, sabe que Deus completa cada uma de
suas palavras, e mais ainda, faz-lhe compreender o verdadeiro
significado delas. O diálogo com Deus é configurado por Deus
95
mesmo de uma maneira tão viva, que quem ora não precisa se
preocupar se sua colaboração é digna de Deus: Deus mesmo a
levará à sua plenitude. E nesse diálogo encontra-se uma alegria
nova, que é promessa do mundo futuro. Aquele que faz oração se
nutre do tesouro inesgotável da alegria divina. No encontro, ela
irradiava diretamente: quem ora poderia simplesmente dizer a
Deus: "Olha!", pois Deus o vê e sabe tudo. Por outro lado, dizer
isso mesmo ao próximo a quem deve comunicar a alegria não é tão
fácil. No entanto, quando um cristão vive realmente na alegria do
encontro com Deus, irradia essa alegria sobre aquele que não
acredita ou ainda não se atreve a se entregar a essa alegria, e
Deus o ajuda nisso.
Nas suas festas e celebrações, a Igreja explode em gritos
jubilosos de "Aleluia". Morosos, fracos, incrédulos, que assistem a
elas como meros espectadores ou estão presentes ali por engano,
podem se sentir de repente mais comovidos do que eles mesmos
gostariam de confessar. Estiveram presentes quando a Igreja de
Cristo exultava de júbilo. E, dado que essa Igreja é a esposa de
Cristo, seu júbilo pertence ao esposo. Ela se alegra diante do amor
que há Nele, e que lhe é comunicado. Este júbilo enche o mundo de
tal forma que se torna transcendental e compromissor para todos
aqueles que encontram Deus. Ele vê que sua própria experiência
coincide com a da Igreja. E onde sua experiência ameaça esmaecer
e ele mal pode representar o que sentiu quando esteve outras
vezes na presença de Deus, sempre permanece ao seu lado a
alegria objetiva da Igreja.
Como tudo o que vem de Deus, a força dessa alegria não
pode ser medida pelo homem; em outro tempo lhe pareceu maior
do que qualquer outra coisa, e continua sendo, e tanto mais quanto
mais autêntica é; e, no entanto, não é necessário que seja uma
alegria vivida e sentida. Quando a experiência da alegria abandona
o indivíduo, ele não precisa buscar estímulos artificiais, pois sempre
permanece elevado para Deus, juntamente com sua alegria. A
alegria — sentida ou não — equivale, no final das contas, a um
96
"deixar fazer" contemplativo, que sempre tem primazia sobre a
ação. A alegria objetiva da Igreja, da qual todos os cristãos
participam, às vezes deve bastar-lhes, pois essa alegria é também
sua e, afinal, é o mais importante.
c. A Alegria da Ressurreição
Também o cristão se sente limitado pela sua existência
terrena. Vê as fronteiras de sua capacidade realizadora e conta com
elas. E, ao contar com elas, se estreita ainda mais a totalidade de
sua existência ou suas dificuldades ficam divididas em duas partes
claramente diferenciáveis: por um lado, as relativas à vida
cotidiana; por outro, as que se referem a Deus e à Igreja. Se essas
partes não se fundem, talvez por medo, isso pode acarretar
consequências imprevistas. Mas quando o crente reflete e vê quão
viva pode ser a alegria na Igreja, e compreende que foi feita para
ele, pode deixar-se possuir pela graça da alegria e, a partir da
Igreja, das consequências da fé de Cristo que lhe foi dada, dar à
sua vida a orientação desejada por Deus. Para isso basta-lhe deixar
de lado todos os seus cálculos anteriores. Se se atrever a isso,
descobrirá algo extraordinário: a alegria pascal, que para ele se
materializa sobretudo pela absolvição sacramental e pela recepção
do Senhor na Eucaristia, significa agora para ele infinitamente mais
do que em épocas anteriores; é como se entendesse pela primeira
vez o que quer dizer "Cristo ressuscitou!" O que o Senhor
experimentou naqueles dias: o sofrimento extremo, a descida ao
inferno, a ressurreição dentre os mortos: todos esses
acontecimentos têm sentido em função Dele, assim como da Igreja
em sua totalidade. Não há uma alegria para ele e outra distinta
para a Igreja; é uma e a mesma alegria que foi concedida a ambos,
isto é, à Igreja e a cada um dos cristãos, sem prejuízo de que o
indivíduo, em sua vida terrena, experimente e suporte limitações,
mais ainda, considere necessárias uma série de autolimitações,
tudo isso com tal força, que se vislumbra nela o poder divino e, por
97
outro lado, com tal suavidade, que ninguém se sinta humilhado ao
voltar-se pessoalmente para essa alegria e confiar nela.
O homem novo nasceu em meio a um mistério tão
profundo que não é inferior em nada ao mistério da criação. Adão e
Cristo se encontram, e o cristão se encontra de repente no lugar
desse encontro, ali onde o segundo Adão substitui o primeiro e o
redime. E o cristão deve estar ciente de que ele é esse lugar. Na
alegria do próprio ser, ele deve se situar diante de Deus, de tal
maneira que Este possa fazer dele um homem novo. Assim como
Adão e Cristo, ele deve viver para a alegria do Pai e fazê-la sua. Na
fé, ele deve realizar algo que só pode ser comparado à
ressurreição. Assim como Cristo padeceu e morreu por ele, para
depois ressuscitar, ele deve experimentar em si mesmo a morte e a
ressurreição. Uma morte pessoal, onde se situa o seu pecado, que
ele considera como o mais próprio e tenta esconder continuamente
aos olhos de Deus. Deve fazer morrer o seu pecado, deve morrer a
ele, para que Deus possa introduzir ali a semente da ressurreição.
Deve purificar-se sem reservas nem contemplações, embora isso o
doe e contradiga suas inclinações naturais. Agora bem, a
purificação não é um fim em si mesma, mas uma preparação para
a vinda do Senhor vivente. A comunhão, este ato de vinculação ao
Senhor, e a ressurreição do Senhor se encontram justamente nesse
ponto, ali onde tudo foi erradicado e extirpado. É o lugar da
fecundidade.
Essa nova fecundidade, que desemboca na ressurreição,
não precisa de nenhum adubo ou fertilizante; só necessita da
pureza.
Uma pureza que consiste em fé, esperança e amor, e em
um jubiloso dar e receber.
Para o crente que espera e ama, a Palavra de Deus significa
alegria, porque essa Palavra assumiu tudo para poder dar tudo e
porque, a partir de então, o crente, juntamente com a Palavra,
pode comunicar a alegria.
98
A alegria presente nas festas da Igreja é sempre uma
alegria para todos, uma alegria que emana de Deus e se dirige ao
mundo.
Ela não pode ser dividida em porções: os diferentes
aspectos da alegria se contêm mutuamente e demonstram sua
autenticidade no fato de que todos os que dela se aproximam se
reconhecem mutuamente como mencionados, envolvidos,
redimidos e ressuscitados nela.
Pode acontecer que uma pessoa veja a alegria de outra e
não a compreenda. Mas pode aceitar a explicação do outro, de tal
forma que as palavras deste ganhem vida nela e ela se reconheça
na alegria do outro, ainda que não a compreenda plenamente.
Crê, mesmo sem entender.
Esse "sim", anterior ao conhecimento perfeito, nós o
encontramos em Maria, cujo “sim” é um sim à alegria, um sim a
todos os sacramentos, um sim ao Deus uno e trino.
E é tanto um “sim” à alegria, que a Igreja não se limita a se
alimentar dele formando uma vaga ideia do que significa, mas o
assume como seu, o possui, o considera como próprio,
porque Maria o deixou como herança, e desde então ele tem sido
crido e realizado sem interrupção pela Igreja.
Nesse “sim” confluem a divindade dAquele que o exige e a
humanidade dos que o dão.
99
Capítulo 11
A VERDADE
a. Conversão e verdade
Deus vive em sua Igreja: essa afirmação é, para o cristão,
uma verdade evidente. Entretanto, essa verdade pode contribuir
para adormecê-lo pela própria obviedade: com efeito, Deus está ali,
acessível a todos, estabelece uma série de disposições e, por meio
da Igreja, promulga leis sob as quais, por assim dizer, Ele
desaparece.
É fácil aderir à letra dessas leis, esquecendo um pouco seu
espírito. Faz-se aproximadamente o que se exige, sem se
comprometer demais, como se o mandamento do amor a Deus e ao
próximo fosse apenas uma convenção óbvia, da qual derivam
certas regras de conduta que bastaria recordar nas situações
apropriadas.
Mas o cristão também pode encontrar-se com Deus de
forma repentina — por meio da oração, de uma iluminação, da
liturgia, de uma determinada situação humana — e então sente-se
pessoalmente interpelado. É a ele que se dirigem as palavras, não a
outro.
E não se trata de leis formuladas, que podem ser cumpridas
facilmente, trata-se de amor, de autenticidade, desse Cristo que diz
de Si mesmo: “Eu sou a Verdade”. E a Verdade é também o
Caminho e a Vida. Se Deus é veraz, então o cristão deve ser
também. Se Deus é veraz, então o cristão deve ser veraz também,
de uma forma nova, pois não pode mais separar sua própria
verdade do seu caminho, nem de sua vida, mas, no caminho de sua
vida, deve ajustar sua verdade à verdade de Deus. Neste encontro,
Deus o capturou (não importa de onde) e não cessará de arrastá-
100
lo, até que o homem o siga com todo o seu ser e submeta sua
verdade e sua vida à verdade divina.
Assim, o crente deve considerar a verdade de Deus como
um fator fundamental. Deve torná-la presente na oração. Sabe que
não pode esgotá-la, mas, ao contrário, acontece o oposto, ela o
esgotará. Assim, deve examinar tudo o que fez e pensou até agora
à luz dessa verdade. Resistirá ao teste? Mostrará tudo como
verdadeiro e autêntico? O conceito de "veraz" ou "verdadeiro"
adquire uma intensidade inquietante, pois Deus mesmo é a
verdade; nesse teste, o cristão se desanima, pois, evidentemente,
a maior parte das vezes não pode resistir a ele. Quase não resta
nada que ele possa fazer valer. Compreende que é um pecador. Até
agora, ele havia esquecido de Deus e não havia amado o próximo
como cristão. Isso é, mais ou menos, o que ele pode dizer de si
mesmo. No entanto, a verdade de Deus o encontrou e, portanto,
encontrou nele algo que o torna digno de ser amado por Deus; mas
dificilmente poderia ser assim na situação em que Deus o
encontrou; no máximo, o que o fez digno de ser amado foi sua
aspiração à verdade. Deus deve fazê-lo participar de sua verdade
até que se torne um servidor dela. Ele se alimenta, portanto, de um
bem alheio, divino, a fim de se tornar um interlocutor válido de
Deus. Deve adentrar o alheio, a fim de reconhecer nele o dom que
deve se apropriar.
Quando ora, sente-se como sobrecarregado pela novidade
da verdade divina. Quando trabalha, entende que essa verdade
também se impõe a ele aqui de forma rigorosa. Sempre aparece o
Novo, que pode ser expresso pela simples fórmula: a verdade de
Deus. Ela não tem outra norma senão a que Deus mesmo lhe dá.
Muitos são os caminhos que o crente pode percorrer para
compreendê-la, não como a própria verdade, mas como a verdade
de Deus, e assim encontrar nela a vida. Deus é a verdade a tal
ponto que tem o poder de preencher completamente as vidas mais
diferentes, de tirar de todas as formas o conteúdo adequado e de
transformar em realidade toda aparência. Se quem ora pega as
101
Escrituras e considera versículo por versículo a vida de Jesus, se
maravilhará continuamente diante da verdade de Deus, diante da
autenticidade e seriedade de suas exigências e realizações, tanto
mais quanto as narrativas e parábolas não se dirigem a qualquer
um, mas a Ele mesmo. Deus me fala do absoluto. Ao ouvi-lo, não
posso relativizar, mas devo reconhecer o absoluto como válido para
mim, o que significa convertê-lo em minha própria verdade. Não se
trata de opiniões de uma época distante, que precisariam ser
adaptadas à nossa, nem de uma língua estrangeira que precisaria
ser traduzida. Por último: Deus não é divisível. Quando se
denomina a si mesmo a verdade, ela nos é dada como a verdade
que é, não o faz gota a gota, mas de forma plena. A luz de sua
verdade não se deixa amortecer para aqueles que têm a vista fraca.
Agora, uma vez que a verdade de Deus é, ao mesmo
tempo, o amor absoluto, essa verdade, mesmo quando parece agir
de forma inexorável, nunca adquire as características do
impossível, do desproporcional. O amor é sempre possível e se abre
caminho em todas as circunstâncias. Quando Cristo diz de si
mesmo que é a Verdade, ele o faz como Deus encarnado que se
tornou Filho do homem, a fim de corroborar como tal essa
afirmação, pois a verdade de Deus é seu amor fiel através de sua
aliança com o homem, e Ele torna patente essa verdade ao
executar a obra da redenção. Ao contemplar Cristo crucificado,
quem pode deixar de ver essa verdade?
Por isso, cada sacramento instituído pelo Senhor contém,
como qualidade primordial, a verdade. Uma verdade que se renova
a cada recepção sacramental e, no entanto, repousa na verdade
primordial da Palavra, que era no princípio. O milagre do pão que
se torna carne do Senhor e do vinho que se transforma em seu
sangue é um milagre da verdade, da presença de Deus feito
homem. O pecador que se encontra com o milagre da Eucaristia
talvez se sinta tão sobrecarregado, que se sinta desamparado e
creia nela sem encontrar a maneira de se aproximar dela. Nesse
caso, ele pode recorrer ao sacramento da penitência. Ali ele tem
102
um critério: sabe da autenticidade de sua confissão, da verdade de
seu pecado, do fardo de sua vida anterior. Quando recebe a
absolvição, essa verdade passada é apagada; a verdade agora é o
futuro, isto é, que ele pode começar uma nova vida. Esse futuro
atesta a força de sua verdade; e o atesta pelo fato de ele ter sido
capaz de apagar seu passado. No penitente entrou uma força na
qual, até poucos instantes atrás, ele mal ousava acreditar. Ele se
confessou porque era necessário para alcançar o perdão; mas,
através do acontecimento do perdão, vê quão grande é a verdade
da absolvição, quão livre ele se torna, como ele abre o caminho
para uma nova vida.
b. Viver na Verdade
Na nossa vida cotidiana, criticamos os nossos vizinhos. No
entanto, quando encontramos um deles na Igreja, na Santa Missa,
no confessionário ou quando vamos receber a comunhão, somos
obrigados a deixar de lado nossa crítica. Este homem está fazendo
algo que implica um reconhecimento da verdade. Ele está ali para
se encontrar com Deus, para realizar na fé algo que inúmeras
gerações de crentes fizeram antes dele: adorar ao Deus verdadeiro.
Ele se ajoelha com as mãos unidas em atitude humilde. Expressa a
verdade que talvez esqueça às vezes ao longo de sua vida
cotidiana, ou à qual não responde plenamente. Mas nunca pode
esquecer totalmente essa atitude. Ela perdura, não apenas porque
a Igreja como tal permanece viva, mas também porque o homem,
apesar de suas falhas, não quer renegar sua fé em sua existência
cotidiana. Ele quer carregar em si algo que possa ser comunicado
de alguma forma, talvez sem que ele mesmo tenha consciência
disso. A verdade de Deus não se dilui. É suficientemente forte para
continuar sendo ela mesma, mesmo onde se dá apenas um
testemunho morno e fraco dela.
Quando um homem encontra Deus, seja numa conversão
da incredulidade à fé, ou na transformação de uma fé puramente
formalista em uma fé autêntica, ele é penetrado por uma verdade
103
que o torna livre e lhe mostra o caminho a seguir. Essa verdade lhe
abre o caminho. A verdade é Cristo e, a partir de agora, o caminho
se torna claro para o crente. Até esse momento, o homem era
como alguém que ouviu dizer que atrás de uma porta há algo.
Agora, a porta se abriu. Nada mais impede a contemplação da
verdade. No entanto, essa verdade é infinita, o que implica que
muitos de seus aspectos não possam ser compreendidos
imediatamente. Continua sendo um reino que será inesgotável por
toda a eternidade e que se renova constantemente, não apenas em
aspectos acessórios, mas desde o núcleo da própria verdade,
porque o Deus infinito é capaz de resplandecer também no infinito.
Quando o convertido contempla essa verdade, ele tem
dificuldade em entender que outros não creem, porque não se
atrevem a isso ou porque o testemunho da verdade parece esbarrar
em dificuldades demais. Mas ele deverá admitir, no entanto, que a
verdade — que forma uma só coisa com o amor — é tão forte que
pode permitir que o homem permaneça no meio das dificuldades da
fé, que nunca terão tanto peso quanto a verdade divina. Mesmo
aquele que tem uma fé imperfeita ou acredita por motivos egoístas,
será sempre acompanhado por algum fruto da verdade e do amor
de Deus, muitas vezes encoberto, mal utilizado ou traído, mas que
guia infatigavelmente o homem pelo caminho reto e tende a
compensar seus erros.
A verdade de Deus não só dá ao homem o sentido da
retidão, mas também seus frutos, e faz com que ele siga o caminho
justo. Um João da Cruz, que na "noite escura" não vê nada de
Deus, que crê ardentemente e, no entanto, não pode experimentar
a fecundidade de sua fé, que gostaria de se derrubar com
veemência diante do amor e é detido pela sua desesperança, está
na verdade da mesma forma que uma criança que diz de coração
sua oração simples. E isso é assim porque a verdade de Deus é
indivisível, e Ele a oferece ao homem como um caminho a ser
percorrido. No que diz respeito ao seu comportamento diante de
Deus, ninguém pode dizer que poderia ter feito algo totalmente
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diferente, contrário, ao que fez. Quando ele realmente inicia o
caminho que Deus lhe indicou, nunca mais poderá haver um "assim
ou de outra maneira", mesmo nas decisões de pouca importância.
O caminho da verdade é claro e transparente, talvez não no
momento em que está sendo percorrido, mas sim depois. Ele é tão
diáfano quanto a vontade de Deus, que às vezes pode não ser
totalmente inequívoca para o indivíduo, mas que, no entanto, vem
clarificada através da doutrina oficial da Igreja. Essa doutrina é o
padrão a ser seguido pelo indivíduo que busca o caminho da
verdade. Na oração, ele conhecerá qual é o seu caminho, embora
não possa verificar a cada passo sua retidão.
Em casos extraordinários, essa retidão pode ser mostrada
diretamente, mas na maioria das vezes ele deve confiar em Deus
através da Igreja, de tal forma que, ao renunciar a si mesmo,
também abandone tudo aquilo que poderia significar uma garantia
no caminho da verdade.
Dentro da verdade, ocorre com muita frequência um
conflito entre o indivíduo e a Igreja: uma espécie de movimento de
vaivém que não parece encontrar seu ponto médio. Evidentemente,
o ponto médio não é o lugar da mornidão, mas o caminho estreito.
É o "sim" impronunciável. Se tentarmos contemplar esse ponto
médio juntamente com Maria, veremos com clareza que seu "sim"
foi pronunciado no lugar estreito do seu encontro com o anjo, no
amor e na plenitude da obediência; agora bem, uma vez que ela
disse o "sim", este se amplia de tal maneira, que já não se vê
nenhum ponto médio, nenhum caminho estreito, mas unicamente a
plenitude transbordante da verdade divina; e este é o caminho
mais largo, o caminho pelo qual avança a Mãe do Senhor, seguida
por todos os anjos e santos, por todos os crentes da Antiga e da
Nova Aliança, e por todos aqueles que fazem a vontade de Deus. O
caminho só era estreito no início, quando consistia na relação "eutu"
entre Maria e o anjo que lhe anunciou a Palavra de Deus; nesse
lugar estreito se manifesta o caráter inevitável do diálogo entre
Deus e o homem, no qual se reúne toda a verdade, para, a partir
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daqui e através da Igreja, se expandir à plenitude da criação
redimida, à plenitude da vida eterna, que um dia se situou no
caminho mais estreito, no lugar onde se encontram o tempo e a
eternidade e onde se pronuncia o "sim".
c. A verdade sacramental
Quando alguém quer fazer uma afirmação cuja verdade é
indiscutível, toma um objeto qualquer nas mãos e diz:
“Tão verdadeiro quanto isto aqui...”, e aplica isso a um caso
concreto. Mas essa afirmação tem validade limitada. O objeto pode
ser movido, transformado, destruído. Sua verdade está ligada ao
tempo. Quando algo está longe, as afirmações sobre isso se tornam
mais difíceis de fazer; as palavras já não bastam — é preciso
concatenar conceitos, ideias e memórias. Certos contextos que
captamos com a visão e com os quais contamos, não são fáceis de
tornar compreensíveis a outras pessoas. E essas pessoas logo nos
mostram o quão unilateral e subjetivo é o nosso ponto de vista ou
modo de pensar; em resumo, nossa verdade se torna relativizada.
Porém, quando Jesus Cristo diz: “Eu sou a Verdade”,
essa palavra adquire uma grandeza incomparável. Ele, o Filho de
Deus, e a verdade absoluta são a mesma coisa. O fanático é aquele
que descobre uma pequena verdade e subordina tudo a ela. Para
ele, tudo o que não se adapta ou ajusta a essa pequena verdade
não existe. Por essa verdade ele é capaz de dar a vida, romper com
o melhor amigo, fazer coisas que o enojam: diante dessa
insignificante verdade que descobriu, ele age como se fosse uma
coisa.
Mas quando Cristo diz: “Eu sou a Verdade” e, como tal,
vem salvar o mundo, não é possível adotar diante d’Ele nenhuma
postura fanática.
O homem redimido por Cristo não se comporta diante d’Ele
como uma simples coisa, mas encontra um lugar para si na
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verdade: um caminho e uma vida, a liberdade de caminhar na
verdade de Cristo rumo à verdade do Pai.
Após sua morte e ressurreição, Cristo retorna ao céu.
Ele precisa deixar na terra sinais que sejam tão verdadeiros quanto
Ele mesmo, para que aqueles que o seguem não se percam e sua
verdade permaneça viva neles.
Para que os santos e os fiéis da Igreja, que viverem em
épocas futuras, sintam-se tão protegidos quanto nos tempos dos
Apóstolos.
Essa proteção, essa prolongação da verdade que Ele
mesmo é, nós a encontramos sobretudo nos sacramentos da Igreja,
que são todos expressões autênticas da verdade de Deus.
Deus consagra e abençoa como fazia quando estava na
terra. Batiza, ouve em confissão, entrega seu corpo e sangue,
dispensa seu Espírito — e tudo isso como expressão da sua
verdade.
Cada ato sacramental é uma prolongação da verdade de
Deus, e isso não diminui em nada sua força.
Tão verdadeiro é Deus quanto este sacramento!
As formas de expressão se ajustam à realidade cotidiana do
ser humano.
Mas agora, ele não toma um objeto arbitrário nas mãos
para compará-lo com a verdade, e sim, no Espírito da verdade —
que procede de Deus e que Deus lhe concede ao se comunicar —,
toma nas mãos a própria verdade.
A verdade terrena tem em Deus uma tradução permanente,
uma referência.
Como ação terrena, comungar é comer e beber,
mas a essa ação corresponde uma participação na verdade divina:
não apenas através do ato de fé, mas também por meio do ato
físico de levar à boca, de engolir, de acolher plenamente em si.
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Não se trata apenas de um ato de amor,
mas, sobretudo, de uma obediência sóbria, desapegada, à verdade,
de uma reverência diante dela.
Quem assim procede, reconhece a verdade de Deus como
sua mestra mais sublime.
Dado que Deus é a verdade, tudo o que Ele fundamenta e
estabelece é verdadeiro.
E a missão da Igreja é justamente testemunhar essa
verdade.
Ela a guarda, a acolhe, para depois oferecê-la aos homens.
Ela a administra segundo os desígnios de Deus.
Assim como um corredor leva a tocha de um lugar a outro,
para que ali outra tocha possa ser acesa, os sacramentos carregam
a substância do Deus verdadeiro — sua carne, seu Espírito, sua
Palavra — para acender uma nova fé, um novo amor, que
mantenham viva sobre a terra a verdade de Deus.
Certamente, essa verdade está viva na Escritura,
no céu, onde reina apenas a vontade de Deus. Mas também está
viva na Igreja e em cada cristão, apesar de suas falhas e defeitos.
E isso acontece porque o sacramental eleva
constantemente o homem ao plano da verdade divina.
Uma vez que o mistério dos sacramentos é inseparável do
mistério da verdade divina, e dado que o caráter sagrado dos
sacramentos provém dessa verdade, eles não podem ser
danificados, enfraquecidos ou falsificados por nosso pecado, tibieza
ou incompreensão.
A força da Eucaristia, sempre renovada, a força de cada
absolvição, que jorra inesgotavelmente da cruz, a força de cada
batismo, que é o início da vida eterna no tempo, a força de cada
crisma, que amadurece o homem imaturo, essa força é uma só com
Deus.
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Os sacramentos são diferentes entre si, mas têm a mesma
origem. São como diferentes bóias salva-vidas lançadas a quem
está se afogando, vindas da mesma margem.
O homem que se sente tocado por Deus e hesita sobre o
que deve acreditar, pode achar, por um lado, a doutrina do Senhor
excessivamente simples - qualquer criança pode entendê-la e ela
não lhe parece um mistério divino - mas, por outro lado, pode
reclamar que a doutrina é excessivamente difícil, pois as palavras
mais evidentes sempre encerram um fundo misterioso, e qualquer
passo que o homem dá no caminho para Deus leva consigo muitos
outros, de tal maneira que "ser cristão" parece uma tarefa
interminável. De fato, a vida de fé é composta de muitas coisas que
são feitas a contragosto, e ninguém se decidiria a realizá-las se
soubesse, de antemão, do que se trata. A doutrina de Deus é, ao
mesmo tempo, muito fácil e muito difícil, mas ambas as coisas se
conciliam na vida sacramental, na vida objetiva da Igreja; ambas
são aspectos da verdade divina, à qual nada pode ser acrescentado
ou retirado. Deus nos concede essa verdade de maneira integral, e
nós apenas vemos suas diferentes facetas, mas essas se
subordinam à totalidade e não podem ser separadas dela. O
diamante só irradia com toda sua força quando suas faces
permanecem como são. Evidentemente, podemos considerar uma
face determinada por si mesma, mas sempre devemos ter em
mente que é um aspecto da totalidade e nos é revelado em virtude
dessa totalidade. Agora, todos os aspectos manifestam uma única
coisa: que o Deus eterno se comunica totalmente conosco em sua
verdade, a fim de que também nos entreguemos a Ele com todo o
nosso ser.
d. Abertos a Deus
Deus permite que o homem O encontre para que nele
encontre alegria e verdade. E quando o homem, muitas vezes em
seu primeiro encontro com Deus, se convence de sua própria
nulidade, essa primeira impressão prepara o caminho para o que
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virá depois. O homem renuncia a discutir com Deus, a forçá-Lo a
ser seu interlocutor, pois tem consciência de que entre sua palavra
e a Palavra de Deus não existe equilíbrio possível. Ele reconheceu,
de uma vez por todas, o quanto Deus está acima dele. Mas também
sabe até que ponto Deus se aproximou dele por meio da
encarnação de Seu Filho, a fim de abrir-lhe o caminho para a
divindade. E cada novo encontro significará um convite mais
urgente. Mas se ele disse: "Senhor, não sou digno", não perderá
mais tempo refletindo sobre sua indignidade e insistindo nela, mas
se abrirá para deixar entrar nele o único digno: Deus. Desde agora,
manterá seu olhar fixo na verdade de Deus e se deixará guiar por
ela. É como o filho que se deixa guiar pelo pai. Na maioria das
vezes, essa orientação será algo muito simples e reto - o exame do
homem por Deus, a exigência de uma decisão cada vez mais firme
de abandonar seu pecado -, mas sempre será uma orientação para
a verdade, que é tão grande que nela cabe toda alegria. Quem
encontra a Deus não pode dizer que procurou sua felicidade; no
máximo, pode afirmar que ansiou pela verdade e encontrou a
desmesura da verdade. E tudo o que isso traz consigo, incluindo a
alegria dos filhos de Deus, lhe foi concedido não juntamente com a
verdade, mas ao mesmo tempo que ela, pois todos os dons de
Deus fazem parte da graça de sua autorrevelação, e querem fazer
do homem uma imagem autêntica do Deus verdadeiro, uma
resposta adequada ao chamado que Deus lhe dirige.
A resposta do homem à verdade de Deus não pode ser um
contínuo exame e questionamento dessa verdade; a verdade está
ali, a Igreja a comprovou, Deus se revelou suficientemente, a
resposta deve ser um salto para o âmbito infinito da verdade. E
quem dá o salto experimenta como a realidade supera em muito
suas expectativas. O Deus que uma vez se revelou ao homem
nunca mais se retira para o âmbito do inacessível e do abstrato. Ele
se dá a Si mesmo de maneira cada vez mais concreta na Eucaristia,
em todos os sacramentos da Igreja e por meio de todas as palavras
das Escrituras; e o cristão pode sempre reencontrar Deus no
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próximo, e em todos os caminhos da vida, o amor eterno lhe sai ao
encontro, para que ele nunca cesse de adorá-Lo.
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