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Adrienne von Speyr - O Homem diante de Deus B

Adrienne von Speyr (1902–1967) foi médica, escritora e mística. Nasceu em uma família protestante na Suiça. Tornou-se médica, especializando-se em oftalmologia, e foi muito estimada por sua dedicação aos pobres e aos doentes. Em 1940, aos 37 anos, converteu-se ao catolicismo sob a direção do teólogo jesuíta Hans Urs von Balthasar, com quem estabeleceu uma profunda amizade espiritual e colaboração teológica. Juntos, fundaram a Comunidade de São João, destinada a consagrar pessoas no meio do mundo. A partir de sua conversão, Adrienne começou a viver intensas experiências místicas: visões, locuções interiores, experiências de união com Cristo (especialmente em sua Paixão) e uma compreensão profunda da Escritura e dos mistérios da fé. Muitas dessas experiências foram registradas por Balthasar. A obra: O Homem Diante de Deus (Der Mensch vor Gott) foi publicada pela primeira vez em 1950. Um dos marcos principais na produção literária e teológica da autora, nesta obra ela explora profundamente a relação entre o ser humano e Deus, abordando temas espirituais e místicos que permeiam sua própria experiência de fé. Adrienne faleceu em 1967 na Basileia (Suíça). Após sua morte, muitos passaram a reconhecer nela uma alma extraordinária, marcada por uma vida de profunda união com Deus, sofrimento oferecido e missão espiritual. Seu processo de beatificação foi aberto em 2018.

Adrienne von Speyr (1902–1967) foi médica, escritora e mística. Nasceu em uma família protestante na Suiça. Tornou-se médica, especializando-se em oftalmologia, e foi muito estimada por sua dedicação aos pobres e aos doentes. Em 1940, aos 37 anos, converteu-se ao catolicismo sob a direção do teólogo jesuíta Hans Urs von Balthasar, com quem estabeleceu uma profunda amizade espiritual e colaboração teológica. Juntos, fundaram a Comunidade de São João, destinada a consagrar pessoas no meio do mundo.
A partir de sua conversão, Adrienne começou a viver intensas experiências místicas: visões, locuções interiores, experiências de união com Cristo (especialmente em sua Paixão) e uma compreensão profunda da Escritura e dos mistérios da fé. Muitas dessas experiências foram registradas por Balthasar.
A obra: O Homem Diante de Deus (Der Mensch vor Gott) foi publicada pela primeira vez em 1950. Um dos marcos principais na produção literária e teológica da autora, nesta obra ela explora profundamente a relação entre o ser humano e Deus, abordando temas espirituais e místicos que permeiam sua própria experiência de fé.
Adrienne faleceu em 1967 na Basileia (Suíça). Após sua morte, muitos passaram a reconhecer nela uma alma extraordinária, marcada por uma vida de profunda união com Deus, sofrimento oferecido e missão espiritual. Seu processo de beatificação foi aberto em 2018.

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H

ADRIENNE VON SPEYER

O HOMEM DIANTE

DE DEUS

1


Adrienne von Speyr

O HOMEM DIANTE

DE DEUS

Advertência:

Trata-se de tradução livre do espanhol para estudo e

divulgação.

Créditos do texto:

ADRIENNE VON SPYER. El hombre ante Dios. Ediciones

Encuentro, Espanha: 1978.

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Índice

Breve biografia 4

Os limites e sua superação 5

A vida de Deus para o homem 14

O conhecimento 28

O encontro 38

A palavra de Deus 46

A resposta do homem 54

A situação do mundo 64

O trabalho 73

O desmesurado 82

A alegria 91

A verdade 100

3


Breve biografia

Adrienne von Speyr (1902–1967) foi médica, escritora e

mística. Nasceu em uma família protestante na Suiça, culta e

rigorosa e desde jovem, demonstrava uma sensibilidade espiritual

intensa, unida a um forte senso ético e desejo de servir. Tornou-se

médica, especializando-se em oftalmologia, e foi muito estimada

por sua dedicação aos pobres e aos doentes.

Em 1940, aos 37 anos, converteu-se ao catolicismo sob a

direção do teólogo jesuíta Hans Urs von Balthasar, com quem

estabeleceu uma profunda amizade espiritual e colaboração

teológica. Juntos, fundaram a Comunidade de São João, destinada

a consagrar pessoas no meio do mundo.

A partir de sua conversão, Adrienne começou a viver

intensas experiências místicas: visões, locuções interiores,

experiências de união com Cristo (especialmente em sua Paixão) e

uma compreensão profunda da Escritura e dos mistérios da fé.

Muitas dessas experiências foram registradas por Balthasar.

Adrienne deixou cerca de 60 livros e cadernos espirituais,

escritos com a ajuda de Balthasar. A obra: O Homem Diante de

Deus (Der Mensch vor Gott) foi publicada pela primeira vez em

1950. Um dos marcos principais na produção literária e teológica da

autora, nesta obra ela explora profundamente a relação entre o ser

humano e Deus, abordando temas espirituais e místicos que

permeiam sua própria experiência de fé.

Adrienne faleceu em 1967 na Basileia (Suíça). Após sua

morte, muitos passaram a reconhecer nela uma alma

extraordinária, marcada por uma vida de profunda união com Deus,

sofrimento oferecido e missão espiritual. Seu processo de

beatificação foi aberto em 2018.

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Capítulo 1

OS LIMITES E SUA SUPERAÇÃO

a. A nihilidade e os limites

Na vida de todo homem chega um momento em que ele,

transcendendo sua situação dentro da totalidade do mundo,

começa a refletir sobre seu futuro, sobre seus próprios limites.

Agora bem, o homem não pode pensar em seu futuro sem referir

seu passado ao momento presente. Contempla o que até agora

projetou e conseguiu, vê também tudo aquilo que não alcançou e

rejeita aquelas coisas que lhe mostram de algum modo seus

próprios fracassos. Sua memória remonta aos dias de trabalho e de

descanso, as vezes que sonhou acordado, e lembra o quanto

recebeu e o pouco que soube dar. Percebe que não será fácil fazer

um balanço, pois ainda restam muitas possibilidades a desenvolver.

Ainda existem muitas questões, embora, de vez em quando, surjam

alguns resultados que em números redondos poderíamos classificar

de satisfatórios. No entanto, não é certo que tais números sejam

absolutamente redondos; na realidade, situam-se em uma série

junto a outros números fracionários.

O homem começa então a fazer projetos. Tira conclusões

de suas experiências. Quer obter resultados diferentes e melhores,

e, de repente, percebe que em todo projeto ele tem que contar

inevitavelmente consigo mesmo. Não pode planejar nenhum futuro

que o libere plenamente, pois carece de toda capacidade para isso.

Conhece a si mesmo o suficiente para saber que é incapaz de

permanecer fiel às suas opções mais profundas e tropeça

constantemente com seus próprios limites. E, no entanto, não é

possível continuar seu caminho sem ter diante de si uma meta,

sem formar uma imagem de seu futuro, sem empreender algo que

o libere e que brote de suas próprias forças.

5


O homem volta-se novamente para o seu passado; tenta

ter bem presentes os obstáculos que ele mesmo colocou em seu

caminho e fazer uma espécie de inventário de seus fracassos. E

quer fazer isso chamando as coisas pelo nome e aderindo àquilo

que é a verdadeira realidade. Mas tudo isso não é fácil, pois na

medida em que reconhece seus fracassos como tais, também

percebe sua responsabilidade. Seus fracassos são algo humilhante

para ele e começa a ver as coisas mais difíceis do que realmente

são. Sua confiança no futuro começa a vacilar. Quantas coisas

ficaram sem fazer, quantos projetos foram iniciados para serem

abandonados em seguida! Logo que se encontrava com a primeira

dificuldade, se dava por vencido!

O passado pesa sobre ele e paralisa toda nova decisão.

Pois, de antemão, diz a si mesmo: "Isso não vai dar certo". Olha

para aqueles heróis que se propuseram a realizar algo grande e

nada pôde desviá-los de sua meta. Gostaria de ser como eles e ter

uma força, uma capacidade e uma perseverança semelhantes. Seus

desejos e anseios são ilimitados, mas sua resignação lhe priva de

toda sua força. Está convencido: ele não é nenhum herói. Nada

nele vale a pena.

E se contempla os heróis cristãos, o que vê? Nele há algo

realmente acabado, pleno, íntegro e sagrado. Se examinarmos de

perto o que neles se realizou, se tentarmos penetrar no mecanismo

de suas obras, nos deparamos com algumas coisas que

entendemos, mas também com muitas outras que nos são

ininteligíveis. No entanto, o fato está ali, integral, harmônico, firme,

embora sua estrutura nos pareça impenetrável. Encontramos algo

singular, inquietante, perturbador. Como se chegou a essa unidade,

a essa harmonia? Subitamente, vemos com toda clareza: nos

heróis cristãos, nos santos, a nihilidade 1 do homem foi superada.

Foi absorvida na santidade. Essa unidade, essa condição indivisível

do santo deve ser atribuída à graça, provém de Deus. Ele cuida dos

1 A nihilidade (ou o nada) é um termo filosófico e teológico que se refere ao vazio existencial,

à ausência de sentido ou à falta de ser. É uma condição em que o ser humano, por causa

de seu pecado ou limitações, está afastado da plenitude da existência e do propósito divino,

encontrando-se em uma espécie de falta de essência ou deficiência existencial.

6


Seus até tal ponto que os circunda e os cobre com Sua graça, mas

não como se ficassem sepultados sob ela e seus rostos já

irreconhecíveis, ou como se desaparecessem esmagados pelo peso

do desmesurado, mas de tal maneira que a graça penetra,

galvaniza e torna incandescente todo o seu ser, fazendo-o mudar

de estado, por assim dizer. A graça se une ao homem nas

profundezas do seu ser, realiza no santo uma encarnação, por

chamá-la de algum modo, que tende a completar a encarnação do

Filho de Deus. Cristo é Deus, e se faz homem para realizar como

homem-Deus seus atos integrais, indivisíveis; o santo é um homem

sobre o qual desceu a graça, e também pode levar a efeito esses

atos integrais. Através da providência e da ação divina, o homem e

a graça tornam-se uma só coisa. As obras do santo contêm em si

ambas as características, as do homem e as da graça, mas

reunidas para sempre em um todo único.

Se considerarmos esse resultado harmonioso, será fácil

entender também que a nihilidade do homem supõe uma situação

de deficiência. O homem lhe falta algo. Por causa do pecado, ele se

afastou do lugar em que poderia e deveria estar. Naturalmente, ele

pode pensar que, através do pecado, caiu simplesmente em um

caminho secundário, a partir do qual ainda pode ver o caminho

reto. Mas, no fundo, sabe que as coisas são de outra maneira. Ele

já perdeu a visão do caminho reto. Se perdeu em uma espessura

que seus olhos não podem penetrar; e não pode encontrar o

caminho através da simples reflexão; nem sabe como utilizar as

forças que lhe restam da maneira mais conveniente possível. Para

isso, ele precisa da graça e, portanto, deve antes de tudo adotar

uma atitude de conformidade. Deve soltar seu próprio fardo, para

que a graça incline o outro prato da balança. Deve se esvaziar de si

mesmo — esta é a única conclusão correta que se deriva do

conhecimento de sua nihilidade — para que a graça possa irromper

livremente nele.

Assim, ele é incapaz por si mesmo de imitar os heróis

cristãos. É-lhe impossível tomá-los como modelo. No entanto, o

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modelo, o exemplo, está sempre diante dele com todo o seu

esplendor, convidando-o a segui-lo. De um lado está ele, com suas

falhas e dúvidas, necessitado de projetos de vida e, no entanto,

consciente de sua falta de perseverança; de outro, o fato inegável

do homem apostólico, que o ilumina, o fascina, e lhe impõe uma

exigência. No entanto, o homem está consciente de que não pode

superar o abismo entre ambas as formas de existência apenas

imitando, a partir de sua própria situação, as ações daquele que

está do outro lado; é-lhe necessário sair de si mesmo. O primeiro

ato global diz respeito ao próprio eu. É preciso sair de sua própria

situação, emigrar de si mesmo, e isso constitui uma espécie de

aniquilamento, um esquecer-se de si, um perder-se de si mesmo,

um chamado a uma nova solidão, uma explosão no centro do

próprio ser, para deixar espaço livre para Deus, que entra nele e, a

partir daí, transforma radicalmente o homem. Antes de tudo, Deus

dispõe plenamente dele. E essa ação de dispor deve tornar-se nele

um centro unificador, sem que ele mesmo consiga perceber,

constatar ou experimentar esse centro. O homem é retirado dos

limites de sua própria nulidade, mas é-lhe impossível delinear o

caminho traçado, já que se perdeu de si mesmo e abandonou sua

atitude egocêntrica.

Ao mesmo tempo, o termo “nulidade” adquire para ele um

novo sentido: agora é apenas um sinal, um aviso.

b. Superação dos limites em Cristo

Quando o homem toma consciência de Deus e experimenta

sua própria limitação, a inutilidade de seus esforços, a

impossibilidade de superar os obstáculos com os quais tropeça,

essa experiência dos limites torna-se, em cada caso, um sinal de

um além. O tempo passado torna-se para ele um sinal da

eternidade de Deus; suas próprias fronteiras, um sinal da infinitude

divina. Seus limites são, para ele, um sinal de advertência, de

alerta. Contudo, dentro de sua limitação, suas capacidades e

vivências humanas não estão em contradição com o que Deus é,

8


nem com seu poder. Deus criou o homem à sua imagem, e uma

imagem não pode estar em contradição com aquele que a criou. O

contraditório, o que mal se compreende no homem, o que desafia

toda comparação, é o pecado. E é justamente o pecado que desviou

seu olhar do modelo original, que fragmentou sua vida e o afundou

na solidão.

O Filho de Deus assumiu a natureza humana tal como ela

é, com as consequências do pecado, mas sem o pecado. O cansaço

que ele experimenta após longas caminhadas e vigílias, ele o

supera em virtude de uma obediência humana a Deus, que de

modo algum recorre à força de sua divindade. Ele não se concede a

liberdade de ultrapassar continuamente os limites da natureza

humana que assumiu. Sofre, ama, é paciente como ninguém, pois

sua obediência é perfeita, e esse amor, essa obediência, ele nos

oferece, para que aprendamos, não a nos chocar continuamente

contra nossos limites, mas a deslocá-los um pouco, a fim de servir

melhor a Deus e desempenhar adequadamente nossa tarefa. Mas,

neste mundo, essa autossuperação permanece fragmentária e não

é mais do que o início de uma superação progressiva das leis

naturais pelo espírito, de um deslocamento sistemático dos limites

rumo ao infinito; pois a humildade, a paciência, o amor que tudo

suporta são virtudes que Deus vinculou aos nossos limites e à

nossa experiência da finitude. Como pode continuar sendo humilde

alguém que está sempre disposto a saltar por cima de suas

limitações? Como pode alguém ser paciente se a impaciência o

espicaça a alcançar sempre novas metas?

Existe uma norma que nos foi imposta. Essa norma que,

assim como nossa nulidade, está nas mãos de Deus e só pode ser

utilizada por nós (como dom) no amor a Deus (em vez de a

monopolizarmos arbitrariamente), não só nos faz refletir sobre

nossa finitude, como também nos faz esquecer de nós mesmos e

sentir-nos acolhidos em Deus, tal como nos foi anunciado pelo Filho

através de sua humanidade. Durante seu jejum de quarenta dias,

talvez ninguém como ele tenha vivido a solidão no meio da

9


tentação. E, no entanto, essa solidão desemboca novamente numa

comunhão com todos nós: não se trata de uma separação, mas de

algo que lhe foi imposto pelo amor, e o amor nunca separa, mas

une, mesmo em meio ao deserto e à solidão. Um olhar superficial

não veria aqui senão um estar só; mas Ele nos teve presentes em

sua oração, nós estávamos ali com Ele, seu Espírito Santo superou

todas as limitações do nosso espírito e todas as fronteiras

espaciais. Ele nos leva consigo e nos tem presentes, de tal maneira

que o “estar aqui” não exclui o “estar ali”. Nossa razão, ligada às

leis humanas, é incapaz de compreender essa simultaneidade entre

o “estar aqui” e o “estar ali”; nossa “sabedoria” superficial não vê

por toda parte senão finitude, categoria que nós mesmos impomos

à nossa inteligência e ao nosso amor quando, ao experimentar

nossos limites, percebemos apenas “impossibilidades”. Mas o que

nós consideramos impossível fisicamente — “não posso caminhar

ou permanecer acordado mais do que um número determinado de

horas”, etc. — já foi superado no Espírito do Senhor, de tal maneira

que não precisamos mais nos deter nisso ou ficar pensando e

falando continuamente de nossas limitações. Desde que aconteceu

a encarnação de Deus, é preciso encontrar o ilimitado no interior

dos nossos limites.

É como se tivéssemos conseguido "despertar" os limites de

nossas forças e já não pudéssemos fazer uma certa oração que

tínhamos nos proposto. Então, por meio da fé, podemos confiar

essa oração a Deus e aos seus santos; os anjos podem interceder

por nós, e Deus pode ouvir também a oração silenciosa que

procede de nossa boa vontade e escutá-la. Ele pode nos fazer

entender que fomos ouvidos, mesmo "sabendo bem" que nós

mesmos não proferimos nenhuma oração. Talvez Deus veja com

mais agrado nossa oração (ou tudo o que fazemos em seu nome)

quando, ao agir em seu serviço, esbarramos nos nossos limites,

mesmo que estejamos demasiado cansados para concluir aquilo

que tínhamos empreendido com nossa melhor vontade. Cristo

sofreu "até não poder mais", até a morte; a morte foi o limite de

suas forças, e até lá Ele chegou. Ele não pôs a si mesmo o limite da

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morte — teria ido até onde a vontade do Pai o levasse — e nas

fronteiras da morte começa a redenção do mundo, manifesta-se o

cumprimento perfeito da vontade do Pai. Nas fronteiras da morte,

Deus alcançou sua vitória. Em nossa absoluta finitude irrompeu sua

infinitude absoluta.

Consequentemente, todos os limites que conhecemos a

partir de nossa existência e, por outro lado, a partir da existência

de Cristo, são na realidade marcos. Do ponto de vista puramente

humano, diríamos: aqui esbarramos num limite. Aqui termina nossa

propriedade e começa o terreno do próximo. Nos campos, as

propriedades são demarcadas com marcos. Mas, quando se trata de

propriedades espirituais, essas demarcações já não são válidas,

pois foram superadas. O que é meu também é teu e dele. Existe a

comunhão dos santos, a Igreja, e, por meio dela, o Senhor

manifesta algo de sua divindade ilimitada e de seu amor eterno.

Nesse âmbito, uma pessoa pode rezar e oferecer sacrifícios por

outra, ou ambas podem realizar em comum uma mesma obra. Um

pode ser "realizado" no outro; por exemplo, nós fomos "realizados",

isto é, redimidos, por meio da tentação de Jesus ou de sua cruz, da

mesma maneira que Jesus, quando tinha doze anos, superou

verdadeiramente por nós os limites rumo ao Pai e tornou possível

que o imitássemos. A Igreja é o lugar onde todos os limitados estão

reunidos além de seus limites. Na medida em que foram libertados

de seus limites, são fundamentalmente santos e, na medida em

que vivem de acordo com essa superação de limites, realizam

também a santidade que lhes foi concedida.

c. Viver além de nossos limites

O cristão que, como tal, se dá conta de seus limites,

depara-se com eles sob uma dupla perspectiva: teórica e prática.

Sob uma perspectiva prática, coloca-se a exigência de fazer

culminar, à luz da fé, a própria limitação na infinitude de Deus.

Certamente, existe um além de nossa ação ao qual já não temos

acesso. Mas, como cristãos, não podemos mais limitar nossa esfera

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de ação com os marcos do "aparentemente possível". Isso quer

dizer que nosso autoconhecimento já não é, de forma alguma, o

decisivo. Devemos agir como seres dotados de capacidade

especulativa, devemos colocar o impossível ao lado do possível, o

ilimitado junto ao limitado. Se apenas contássemos conosco

mesmos e com nosso autoconhecimento, diante de qualquer tarefa

tenderíamos a adotar uma atitude demasiadamente prudente e

desconfiada, sublinhando nossos limites, e preferiríamos sempre as

tarefas mais fáceis, que se dominam perfeitamente e pelas quais

podemos nos responsabilizar. Mas, se somos crentes e conhecemos

a força da oração, da Igreja, da representação vicária, da

comunhão dos santos, então deslocaremos para fora os limites da

missão que nos foi confiada, e teremos mais confiança — não em

nós mesmos, mas na graça e na Igreja que estão conosco.

Devemos, primeiramente, conhecer a norma que nos foi dada, e

depois esquecê-la. Com efeito, não temos a objetividade necessária

para medir por nós mesmos nossas próprias forças. Evidentemente,

isso não quer dizer que devamos projetar e realizar qualquer plano

mais ou menos aventureiro. Na oração, podemos fazer projetos

juntamente com o Espírito Santo, sem que isso implique limitar sua

ação ou a nossa. O importante é a orientação, a atitude. Tentemos

realizar as tarefas que nos são impostas voltando-nos para Deus

em atitude de fé. O que disso decorrerá — até que ponto atuam

nossas forças, até que ponto o Espírito Santo age em nós, ou até

onde são deslocados os limites da natureza — não precisamos

saber; basta saber que eles se deslocam rumo a Deus. Ninguém

poderia exercer na Igreja uma tarefa apostólica, ninguém ousaria

sequer administrar os sacramentos, se não soubesse que realiza

apenas uma ação fragmentária, e que aquilo que se deve esperar

aqui, na fé, é a ação do Espírito Santo, que opera no âmbito da

Igreja fundada pelo Senhor. Essa reflexão e sua aplicação concreta

podem ser tomadas como máxima em tudo aquilo que envolva ação

prática.

Mas existe também um aspecto teórico: qual é a função e a

eficácia da oração? Isso é muito mais difícil de determinar. Uma

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freira carmelita entra para o claustro a fim de fazer penitência pelos

pecados do mundo. Se ela refletir com serenidade, perceberá quão

incrivelmente insignificante é o que ela pode oferecer. Ela reza com

distração, infringe a regra, mesmo que em coisas mínimas; sentese

pecadora e sabe que seus pecados dificultam a ação da graça.

No entanto, ela reza todos os dias o que está prescrito, faz

penitência de múltiplas formas, ajuda até onde lhe é possível, e vê

a inutilidade de sua ação, a nihilidade de seu esforço. Se, diante da

morte, lança um olhar retrospectivo sobre sua vida, vê que, apesar

de tudo, agiu corretamente no essencial, porque, no fundo, teve

uma atitude de entrega; reconhece que também foi sustentada por

muitos fatores: pela oração de suas irmãs carmelitas, tanto as

atuais quanto as que vieram antes, pelos fundadores da ordem —

de tal modo que ela deve sua vida religiosa à oração de todos os

santos, à intercessão da Mãe de Deus, à graça do Senhor e do Deus

uno e trino, e até mesmo a muitos pecadores por quem ela se

sacrificou e ofereceu sua vida. O que foi o motivo de sua vida não

procedia, em última instância, dela mesma, mas de outras pessoas.

Contudo, foi sustentada e acompanhada para além de sua própria

nihilidade.

Somente em casos extraordinariamente raros pode um

cristão ver os frutos de sua oração e dizer: foi por minha oração ou

pela tua que isso foi evitado, aquilo foi concedido, este ou aquele

“monte” foi movido. No entanto, às vezes, nos deparamos com algo

milagroso, algo que imploramos e nos é concedido, uma mudança

favorável que mal ousávamos esperar se realiza, porque, na

oração, o “inútil” é superado, os limites desaparecem, o eterno se

manifesta no tempo. E, ao mesmo tempo, quem reza vive a

invisibilidade da ação divina, que entrelaça e vivifica a oração por

dentro, de tal modo que, sem sabermos como, a inutilidade e a

inanidade de nosso presente se situam no meio da imutabilidade e

da infinitude da eternidade.

13


Capítulo 2

A VIDA DE DEUS PARA O HOMEM

a. A caminho de Deus

Na oração, o homem não vê seu interlocutor. Ele apenas

sabe que se trata de um diálogo. Mas se há muito tempo ele

negligencia sua oração, se ela tem diminuído cada vez mais e já é

apenas uma oração feita em casos de extrema necessidade, uma

oração balbuciada em momentos difíceis ou recitada de memória

quando se lembra de que, afinal de contas, é cristão, então o

homem se vê como alguém que expressa algo que, de alguma

maneira, é percebido e ouvido por Deus, mas ele mesmo não vê

nem imagina nada que vá além do som de suas palavras.

É mais ou menos como se, em um quarto vazio, recitasse

de memória um discurso, metade para si mesmo, metade para os

objetos ao seu redor. Seria, certamente, um discurso inútil. Se

estivesse completamente sozinho, tais palavras poderiam ser

expressão de um descontentamento, ou sua pronúncia serviria para

lembrar-se de algo. Ou também poderia tratar-se de repetir as

palavras de outra pessoa como uma mera fórmula para não

esquecer algo. Quem fala não confere a essas palavras um

significado atual, pessoal. E, no discurso, tampouco se revela

nenhum novo sentido. Por isso, em última instância, estamos

diante de algo perfeitamente irrelevante.

Mas se aquele que ora é um verdadeiro crente, consciente

do significado de sua ação, ele sabe que está falando na presença

de Deus; faz chegar suas palavras ao seu interlocutor e está

plenamente convencido de que sua oração é ouvida e

compreendida, e que encontra ressonância em Deus. Por isso,

arrebatado pela grandeza e onipotência divinas, o crente não pode

fazer outra coisa senão cair de joelhos, pois está como que cegado

por uma luz tão poderosa.

14


Ao mesmo tempo, ele pressente obscuramente o que é a

vida divina. A princípio, apenas intui aquela vida com a qual Deus

governa e guia o mundo, e ordena providencialmente o seu

acontecer; depois começa a vislumbrar mais profundamente a vida

eterna como amor ad intra 2 , amor mútuo entre as três Pessoas

divinas. É uma vida que se cria a si mesma através do amor. Uma

vida que circula eternamente e é, ao mesmo tempo, pergunta e

resposta. E essa circulação, esse ciclo, aparece com tal riqueza aos

olhos do crente, que ele sente o ânimo fraquejar: introduzir-se ali

violentamente, intrometer-se, parece-lhe uma irreverência.

Mas ele foi interpelado e, consequentemente, deve persistir

numa atitude de oração enquanto Deus assim o quiser. E, uma vez

que Deus não impõe limites aos imperativos de seu amor, também

o crente não pode aplicar aqui nenhuma medida. Deve orar sem

medida, a fim de experimentar algo da incomensurabilidade de

Deus. Deve tentar suprimir a limitação de suas palavras, para

introduzi-las na infinitude de Deus. Seu tempo de oração deveria,

de algum modo, tentar ajustar-se ao ritmo da eternidade.

Por outro lado, o crente é obrigado a orar de modo que sua

oração se converta em contemplação. Deve contemplar a vida

divina. E ele tem acesso a isso por meio da vida humano-divina do

Filho, tal como é descrita no Evangelho, partindo do humano e

abrindo-se e estendendo-se ao Pai e ao Espírito, tendo como base o

tempo histórico finito e desembocando na infinitude da eternidade.

Ao mesmo tempo, o crente sabe que o Filho está sempre

acompanhado e circundado pelo Pai e pelo Espírito, de tal forma

que, por meio da Palavra do Filho, penetra na vida do Deus

trinitário.

Os limites que o crente sente desaparecer nesse instante

também não existem no Deus uno e trino. Aquilo que, do ponto de

vista terreno, aparece como um obstáculo, contemplado a partir de

Deus já não é tal. Aquilo que o tornava inseguro e vacilante, aquilo

2 A expressão "amor ad intra" é um termo teológico que se refere ao amor interno de Deus,

ou seja, o amor que existe dentro da própria Trindade — entre o Pai, o Filho e o Espírito

Santo — antes e independentemente da criação do mundo.

15


que se opunha ao seu amor, já foi superado no diálogo intradivino.

Ele é como um cego que pode dar alguns passos em um terreno

desconhecido; fez dos objetos ao seu redor seus pontos de apoio e,

de repente, se vê em um espaço sem obstáculos. Pode mover-se

em todas as direções e já não precisa ater-se ao seu antigo sistema

de orientação. No entanto, quando busca os obstáculos com seu

bastão e não os encontra, sente-se inseguro. Da mesma forma,

aquele que ora pode sentir-se subitamente inseguro diante de

Deus, pois o finito foi posto de lado.

Mas essa insegurança é proveitosa, pois proporciona

conhecimento. Todas as coordenadas espaciais, temporais e

psicológicas do eu desapareceram e não foram substituídas por

nada. Nenhum obstáculo, nenhum ponto de referência espacial,

temporal ou de caráter substituiu os anteriores. Na realidade, deve

surgir um vazio que torne possível a irrupção da plenitude divina.

E, embora essa plenitude seja algo totalmente diferente do vazio,

não é algo oposto a ele, pois Deus não é o contrário do mundo,

nem a plenitude o contrário da espera. É o "Outro", o Outro de

Deus, aquela realidade avassaladora que está além de toda

esperança e de toda compreensão criatural, aquela realidade

inconfundível que não precisa se credenciar como divina quando

sobrevém: esta é a primeira característica da vida divina.

Quando o Filho de Deus se faz homem, o sim não se torna

um não, nem se diz não a Deus para dizer sim ao homem. Ao

assumir a natureza humana, o Filho não renega sua natureza

divina. Não podemos colocar um sinal positivo (nem negativo)

diante de uma forma – Deus-homem – nem diante da outra – não

homem. Só podemos dizer: em sua humanidade se faz próxima e

se manifesta ao crente a plenitude e o ser-Outro de Deus. O Filho é

a Palavra do Pai e expressa essa alteridade de Deus por meio de

seu ser e de sua ação. Por meio dele, são-nos dados a conhecer na

terra os mistérios do céu. Nele, o Reino dos Céus se fez próximo,

mas enquanto é o Outro, que sempre permanece transcendente no

meio das circunstâncias e dos conceitos terrenos. As palavras com

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que começam as parábolas do Senhor — “O Reino dos Céus é

semelhante a...” — são, em cada caso, uma alusão clara e autêntica

ao Outro; por conseguinte, também não se pode dizer que, através

das diferentes imagens utilizadas nas parábolas, possa ser expressa

exaustivamente em conceitos mundanos a essência do Reino. Cada

imagem, considerada em si mesma, é radicalmente terrena, e se

Cristo não fosse a Palavra, ninguém poderia imaginar que tais

imagens expressam a alteridade do Reino dos Céus.

Mediante a referência de que é portador, o Filho cria a

relação com esse ser-Outro ou, melhor, ele mesmo a cria

fundamentalmente por meio de sua encarnação, convertendo-se

em referência. E é ao mesmo tempo uma referência ao caminho e à

verdade, por meio dos quais temos acesso à vida divina.

Assim, devemos acomodar nossas verdades parciais à sua

Verdade, e, por meio da humanidade do Filho, aproximar nossa

vida da vida divina. Por meio de nosso "ser criados", já estamos

essencialmente a caminho do Filho, pois fomos criados por Ele e

para Ele. Por isso, a norma do espaço e do tempo reside também

nele. No entanto, nós não conhecemos essa norma. Qual espaço e

qual tempo devemos percorrer para chegar até o Filho? Sabemos

apenas que o tempo é o de nossa vida, mas não sabemos a “hora”.

O espaço é a Igreja, mas também não podemos medi-lo. Mas, ao

nos faltarem suas respectivas normas, experimentamos uma nova

insegurança: vemo-nos flutuando no vazio, por assim dizer. Todo o

nosso ser se dissolve no mistério de Deus, porque também tem sua

origem nesse mistério. Deus nos dá tudo o que é necessário para

nossa peregrinação, mas a fonte de todo dom permanece nele,

porque Ele é o amor.

E esse amor de Deus, esse amor ao "Outro", esse amor

"outro", é tão incomensuravelmente grande que todas as nossas

tentativas de imitação não passam de simples esboços. Somos

como crianças que tentam imitar os gestos do adulto, por exemplo,

de seu pai que está trabalhando. Mas essa imitação não passa de

um jogo. Na realidade, não podemos fazer nada. O sentido dos

17


gestos do pai reside no seu trabalho. O fato de que a criança, por

amor, faça desajeitadamente o que o pai faz com conhecimento de

causa é comovente. Do mesmo modo, o homem que ama a Deus

imita algo que vê Deus fazer, sabendo que sua imitação carece de

valor e só tem sentido enquanto imitação daquilo que adquire seu

pleno sentido em Deus. O crente não pode fazer outra coisa senão

mostrar assim ao Pai que compreendeu algo do que lhe foi

mostrado pelo Filho e deu um “sim” que somente Deus pode

preencher de conteúdo e levar à plenitude.

b. A imitação do inimitável

Ninguém pode separar o que é cognoscível em Deus do que

é incognoscível, de tal maneira que a distinção entre ambas as

dimensões possa ser expressa em meros conceitos; a referência de

Cristo ao Reino dos Céus, por meio de Sua palavra e de Sua vida,

remete à alteridade de Deus, que permanece sempre um mistério,

mas que, no entanto, se aproxima de nós e se revela como mistério

que, por meio da fé, nos convida a participar d’Ele e a imitá-Lo.

Trata-se de uma participação no mistério, como se mostra

claramente em nossa participação em Cristo através da Eucaristia.

Cristo está presente em inúmeras igrejas espalhadas por todo o

mundo, oferecendo-Se como alimento e como objeto de adoração.

Trata-se sempre de hóstias diferentes, oriundas de pães distintos,

de trigo semeado e colhido em campos diversos e por homens

muito diferentes entre si — mas consagradas sempre pelas mesmas

palavras e pelo mesmo rito, na unidade de um mesmo presente. As

hóstias são distribuídas a fiéis totalmente diversos entre si por

diferentes sacerdotes.

Mas a vida divina, que é única e que o Senhor encerra em

Si mesmo para dá-la ao mundo, irrompe na pluralidade do mundo

para conceder-lhe a unidade. Ela recapitula em si a pluralidade do

mundo, a fim de fazer com que essa pluralidade participe da

unidade.

18


E o fim da participação eucarística é o seguimento de

Cristo. Sua origem está na imitação da vontade do Pai por parte de

Cristo durante Sua vida terrena, a fim de realizar a vida divina na

terra. Assim, o seguimento é, em sua origem, uma vida que leva

consigo um amor abnegado: obediente e pobre até a morte, e

virginal — ou seja, inteiramente à disposição do Pai. Aquilo que o

Senhor depois formulou em Seus "conselhos evangélicos" é, em

essência, o próprio seguimento d’Ele à vontade de Deus. Com isso,

Ele levou também à plenitude a fé veterotestamentária: a

existência obediente à Palavra de Deus que guia o Seu povo.

Ora, o fato de que o seguimento encerre em si a imitação

se torna compreensível uma vez que o Verbo se fez carne; dessa

forma, torna-se também possível uma convivência autenticamente

humana. E é justamente nessa proximidade que se manifesta

novamente a ruptura. Seguir a Cristo e imitá-Lo significa tomar o

inimitável, o incomparável e o irrepetível como norma da própria

vida, aspirar à plenitude que Ele é e que nós nunca poderemos ser.

Em nosso desânimo, podemos buscar refúgio na Mãe do

Senhor. Ela é uma pessoa humana como nós, deu seu "sim" a

Deus, rezou e renunciou a si mesma, acompanhou Seu Filho até a

cruz em uma atitude de fé, para, por fim, passar a fazer parte da

Igreja. Mas o seu fiat está muito acima do nosso: ela foi escolhida

de modo irrepetível como morada do Espírito Santo para ser

fecunda na fé — uma fecundidade que se expressa corporalmente e

que é inimitável para nós. A missão de Maria é única; em nenhum

de nós pode repetir-se.

No entanto, através da distância que separa a missão de

Maria da nossa, aparece com clareza o fato de que é justamente

essa distância que torna possível a proximidade e o seguimento.

Alegrando-nos com a singularidade da missão de nossa Mãe,

aprenderemos a compreender como, por meio de sua fecundidade,

torna-se possível toda fecundidade eclesial — uma fecundidade que

participa da dela. Pois também nós, através da fé e de uma atitude

de entrega, bem como da oração e do apostolado, podemos ser

19


portadores da Palavra que é o Filho, a fim de que Ele se encarne

em nós mesmos e no mundo.

E, na medida em que participamos de sua fecundidade, nos

exercitamos na imitação do Filho — tanto em Seu "sim" ao Pai

quanto em Seu amor abnegado. A distância entre Ele e nós, que

ameaçava nos desanimar, tornou-se inofensiva, por assim dizer; de

maneira clara e tranquilizadora, essa distância aparece como o

pressuposto de nossa proximidade ao Senhor. E, quando ficarmos

para trás em nossa missão, podemos seguir o exemplo do Filho e

da Mãe, que realizaram plenamente sua missão, para assim

participar da vida divina através deles.

Por outro lado, na medida em que ambas as coisas,

Eucaristia e seguimento, se incluem mutuamente, não

permanecemos estagnados diante da pura distância em relação ao

“ser Outro” de Deus, como uma imagem diante do limiar da

realidade. Por meio da comunhão, a realidade e a vida de Cristo

irrompem em nós e nos concedem a vida divina, a partir da qual se

torna possível o seguimento.

Se olharmos retrospectivamente para a Antiga Aliança,

reconheceremos até que ponto a Palavra de Deus já atuava ali para

ajudar o homem a viver uma existência de fé e, assim, mostrar-lhe

o Deus vivo, que já traz em si, de modo oculto, a vida trinitária do

amor. Mas é na Nova Aliança, e sobretudo através do sacrifício

eucarístico do Filho, que essa vida divina se manifesta como o que

realmente é: um eterno intercâmbio amoroso.

E, dado que essa vida nos foi oferecida para que a façamos

nossa, o “sim” e o ato de fé adquirem aqui, pela primeira vez, uma

amplitude que abarca toda a vida humana. A forma de vida de

Cristo (tal como aparece principalmente nos conselhos evangélicos)

converte-se, de fato, em força configuradora da nossa própria vida.

Pela primeira vez, a Igreja pode ser essencialmente

apostólica, em contraposição à Sinagoga; e ser apostólica significa

manifestar, por meio da vida dos cristãos, o que é a vida oculta do

20


próprio Deus. E essa vida dos cristãos transforma-se num órgão

necessário de mediação entre a autorrepresentação de Deus e o

mundo.

c. Nossa redenção no Filho

Deus Pai, enquanto criador do universo, sabe desde toda a

eternidade que irá ao encontro da humanidade pecadora e que o

Filho está igualmente predestinado, desde sempre, a ser o

garantidor da obra da redenção. Aos que o amam, Ele os oferece ao

Pai, na medida em que os incorpora à sua obra redentora.

Ninguém pode alcançar o verdadeiro amor de Deus sem a

ajuda do Filho. Somente Cristo revela ao mundo até onde vai o

amor de Deus, somente nele o homem é purificado de tal maneira

que esse amor pode tomar posse dele.

Em Cristo, Deus se faz homem: um homem que, a

princípio, não se diferencia em nada dos outros, mas cujo

testemunho de si mesmo ultrapassa tudo o que o homem pode

dizer de si. Ele é, ao mesmo tempo e de maneira inseparável, a

Palavra e o Filho do Pai, e, enquanto é ambas as coisas, é também

aquele que se fez homem. Quando o Pai fala com o Filho como com

a Palavra que Ele é, o Filho fala ao homem. Quando o Filho

responde ao Pai, dirige-se ao Pai juntamente com o homem (em

virtude de sua encarnação).

Esse diálogo não está dividido em duas partes, de forma

que se possa dizer: “até aqui chega o que o Pai tem a dizer ao

Filho, e aqui termina o que os homens dizem a Deus e começa o

que o Filho diz ao Pai.” Pelo contrário, deve-se dizer o seguinte: “o

homem ouve a Palavra do Pai no Filho e juntamente com o Filho, e

dirige-se a Deus Pai por meio da Palavra do Filho.”

Na medida em que é a Palavra única, o Filho engloba em si

toda oração e toda palavra do homem. Mas é na força da Palavra

dirigida ao Pai que reside a força da Palavra dirigida ao homem. O

21


discurso que o Filho dirige ao Pai é a substância do discurso

apostólico do Filho ao mundo. Com efeito, a partir de agora é

impensável que o Filho fale com o Pai sem ser o portador de toda a

criação, para reconduzi-la ao Pai; sem que Ele adore o Pai como

Criador juntamente com todas as criaturas, colocando nessa

adoração todo o seu amor filial, que tem como objeto tanto o Pai

como sua obra.

Esse movimento único e, no entanto, duplo é o da Palavra

Única, que em Deus não tem fronteiras, mas que, aparentemente,

é limitada por sua forma humana. Cristo fala aos seus discípulos, e

sua Palavra não ultrapassa o pequeno círculo onde é audível. Mas,

sendo divina, não perdeu o caráter ilimitado do eterno, mesmo na

limitação assumida por meio da encarnação. Está carregada de um

sentido plenamente divino.

Não se trata de uma verdade parcial, mas do receptáculo

de toda a verdade divina e, por conseguinte, de uma verdade que

está além de todo sentido que os homens possam lhe atribuir. É o

"além" em si mesmo, o ilimitado e o eterno. Nenhuma das palavras

que o Filho pronuncia perde seu sentido com o passar do tempo.

Trata-se sempre de uma palavra salvífica.

Se a um homem se pergunta como ele entende sua

redenção, ele apresentará uma série de ideias: foi libertado do

pecado sob o qual sofria; vê diante de si um espaço de liberdade no

qual pode entrar; pode tornar-se um homem novo. No entanto,

essas observações e outras semelhantes só são compreensíveis no

âmbito da cruz. Mas, quem compreende o que é a cruz?

"Tenho sede", grita o Filho. Sua sede torturante é, no

fundo, sede do Pai, sede de entregar em suas mãos um mundo

redimido — não só enquanto amado, mas também enquanto

amante —, sede de não ver em parte alguma nada contrário ao Pai;

sede de experimentar o amor de todos os homens para transmiti-lo

ao Pai.

22


Essa experiência reside no Filho, tem seu lugar ali onde o

Filho ressuscita e recolhe o fruto de sua paixão. Ora, como Ele quis

salvar o mundo desde sempre, teve também desde sempre essa

sede redentora de poder cumprir sua missão até o fim e realizar

plenamente a vontade do Pai.

E se a ressurreição para a vida eterna significa a extinção

dessa sede, a Palavra, enquanto feita carne, permanece sempre

operante. É Palavra pronunciada e ouvida, acolhida ou rejeitada,

Palavra que surge e retorna à sua origem, e, por conseguinte,

enquanto permanece e age sobre a terra, é Palavra sedenta.

É desejo radical de que a salvação opere em um âmbito cada vez

mais amplo: essa sede redentora realiza a salvação na cruz na

medida em que Cristo toma sobre Si os pecados da humanidade, e

por isso conserva sua atualidade enquanto existirem no espaço e

no tempo pecadores cujos pecados devam ser carregados.

Durante a paixão, essa sede torna-se cada vez mais

premente: desde o Monte das Oliveiras até o momento em que

sofre a flagelação e é espancado, quando os cravos são cravados

em sua carne, em cada segundo que passa na cruz, essa sede

impregna todo o ser de Cristo — além do grito "Tenho sede!" — até

o último desfalecimento, que não pode ser expresso em palavras e

que culmina na morte.

E todos os mistérios da paixão, que a Palavra experimentou

até o extremo, o Pai os faz retornar a Si mesmo na ressurreição do

Filho. Tão bem conhece o Pai a Palavra, que só precisa tocá-la

misteriosamente para fazê-la voltar à vida eterna (junto com a

experiência do mundo, do pecado e dos infernos) como sua Palavra

eterna, que encerra em si todas as palavras do mundo e dos

homens.

Por meio do envio da Palavra, tornamo-nos crentes;

mediante sua paixão, fomos renovados; por meio de sua

ressurreição, ressuscitamos; por seu retorno ao Pai, dirigimo-nos a

Ele por meio da Palavra do Filho, de tal modo que ela chega ao

coração do Pai. Com efeito, por meio da Palavra do Filho, seu Pai

23


tornou-se também nosso Pai; e, na medida em que esse retorno do

Filho se realizou no Espírito Santo, este último também nos foi

concedido, pois a eterna circulação do amor entre o Pai e o Filho

encerra em si mesma também o mundo.

d. Viver na Palavra de Deus

No interior de uma verdade tão incomensurável se

desdobra o conceito de salvação, que, como qualquer outro

conceito referente à revelação da Palavra, só pode ser plenamente

compreendido a partir da vida eterna da Trindade.

Quando duas pessoas se despedem, fazem-no com uma

última palavra. Esta permanece em seus corações; elas a guardam,

a acolhem, a alimentam e dela se alimentam. Nas palavras de

despedida parece haver uma força capaz de superar o abismo da

separação, de conceder vida na ausência e de comprometer toda a

existência. Assim, a palavra se torna comprometedora. Se os que

se despedem se amam, cada um deseja receber a marca da palavra

como uma promessa de amor, de tal maneira que o próximo

encontro carregue em si o sinal e o selo daquela palavra.

Quando Deus fala, coloca em Sua Palavra algo de Sua

própria vida, e, na medida em que — por assim dizer — a Palavra

ultrapassa o âmbito do céu e se dirige à terra, ela não perde essa

vida, mas torna-se dispensadora de vida em todas as situações. Ela

toca o homem para chamar sua atenção para Deus e para Sua

vontade; mais ainda, para comunicar-lhe a vida da qual é portadora

e que tem sua origem no amor de Deus. A partir de Sua

permanente contemplação do Pai, o Filho fala na terra de Sua

relação com Ele, de Si mesmo e de Sua doutrina. E tudo isso Ele

realiza numa atitude de obediência ao Pai, obediência que é

expressão de Sua missão.

Ele nos lança a Palavra como uma bola, para que a

agarremos. Isso exige atenção e conformidade; o cristão não pode

se contentar em considerar como um simples fato o acontecimento

24


de ter ouvido a Palavra de Deus, para logo em seguida colocá-la de

lado. A Palavra encerra em si mais vida — infinitamente mais — do

que o homem consegue perceber. Mesmo quando é mal utilizada,

reprimida, deteriorada ou esquecida, a Palavra é sempre expressão

e testemunho do amor de Deus. Enquanto tal, tem o poder de

renascer sempre de suas cinzas, de se apresentar repentinamente

ao homem como uma exigência. Tudo o que ela exige está

relacionado com a vida. De modo inesperado, ela é sempre

expressão dessa mesma vida.

Podemos nos encontrar com a Palavra por meio da liturgia,

da pregação, da meditação sobre a Escritura — mas o encontro

mais profundo, aquele em que ela adquire seu pleno sentido, situase

no futuro: “amai-vos uns aos outros”. A pregação é apenas um

estímulo para a ação, e a ação é a forma pela qual o crente devolve

a Deus a Palavra recebida.

Os homens que respondem a Deus dessa maneira irradiam

uma luz que não procede deles, mas que brilha desde o céu através

da Palavra que eles receberam na fé. Pode-se calcular quanta luz

uma pequena planta precisa para se desenvolver. Mas não é

possível determinar quanta luz Deus deve irradiar sobre os Seus

por meio de Sua Palavra, até que aprendam a crescer utilizando a

força que essa luz lhes dá.

Nesse encontro na luz, já não há nenhuma escolha a fazer,

pois Deus já escolheu de antemão. O homem que confia na luz da

Palavra é moldado por ela; ele desenvolve, por assim dizer, seus

ramos, suas folhas, suas flores, na direção que lhe é indicada pela

luz. E esse ser guiado pela luz é a liberdade suprema. A luz não

obriga, convida. Mesmo onde a luz da Palavra nos exige algo, essa

exigência é convite, revelação de novas e melhores possibilidades,

oferecimento de seiva nova a uma vida cansada.

Um “não” à graça da Palavra é, antes de tudo, uma recusa

da vida que Deus oferece. Só em segundo lugar é também uma

forma de autoempobrecimento do homem. O homem é livre a tal

ponto que, aparentemente, pode afastar de si a vida divina.

25


Naturalmente, ele não pode privar Deus de Suas possibilidades.

Com efeito, Deus não é limitado — somente o homem se estreita a

si mesmo de tal maneira que impede o desenvolvimento da vida

divina que Deus quer imprimir nele.

A parábola do semeador nos mostra isso com toda clareza:

a semente cai em uma terra que não a deixa crescer. No entanto,

não se pode dizer que Deus, como semeador, tenha perdido Sua

semente, pois para Ele tudo é possível. Com efeito, no lugar

daquela que aparentemente se perdeu, Deus pode fazer brotar de

mil outras maneiras novas sementes.

Mas é um fato que se pode dizer “não” à vida divina. Já faz

tempo que talvez possamos contar nos dedos de uma mão aqueles

que renegaram da fé e cuja atitude negativa tenha tido grande

influência na sociedade. Na verdade, essa atitude negativa constitui

um desafio para os que dizem “sim” e, dessa forma, tornam-se

mais numerosos. Eles sentem a vida de Deus de maneira mais

profunda e buscam formas de comunicar essa experiência a outros.

As parábolas referentes ao Reino dos Céus e aos seus

divinos mistérios devem ser entendidas, por um lado, a partir da

perspectiva do espírito, e, por outro, em seus aspectos concretos,

compreensíveis para o ser humano. Frequentemente, a

compreensão e a incompreensão andam juntas. Pode-se

compreender algo até certo nível, mas além desse nível,

permanece um resíduo incompreensível.

Assim, por exemplo, os cientistas que estudam as formas

primitivas de vida, ao se ocuparem de uma determinada camada de

problemas, de repente penetram num nível mais profundo, e é

comum ouvi-los proclamar em alto e bom som que descobriram o

segredo da vida. Na verdade, o que descobriram foi apenas uma

nova forma ou manifestação da vida, cuja raiz continua oculta.

A Palavra de Deus tem sua origem no Pai; é daí que

provém toda a sua vitalidade celeste, que jamais poderá ser

completamente compreendida pelo mundo. Mas, para o crente, é

26


possível contemplar a Palavra em sua origem (e isso vale para

todas as palavras do Senhor, tanto aquelas dirigidas aos discípulos

quanto às palavras aos pecadores, aos indiferentes ou aos

inimigos), e examiná-la em seu conteúdo divino primordial.

A origem da vida divina nos foi revelada por Deus de

maneira misteriosa: é o amor do Pai que gera a Palavra por amor, e

no mesmo amor Ele a nos entrega. É claro que se pode encontrar a

Palavra “no meio do caminho”, por assim dizer, ou podemos nos

deparar com ela em qualquer ponto dessa trajetória. Mas, quando

se trata da questão de sua vitalidade, devemos remontar à sua

origem, ou seja, até o lugar de onde ela brota: do Pai.

A vida de Deus só se revela em Deus; e somente mediante

a fé podemos voltar a essa origem — não por alguma força natural,

mas porque o Filho vê o Pai e nos faz participantes dessa visão, de

modo que sua Palavra, com toda a energia divina que carrega, vem

ao nosso encontro.

27


Capítulo 3

O CONHECIMENTO

a. A Palavra malograda e a Palavra compreendida

Na oração, a união entre o homem e Deus é, em muitos

aspectos, comparável àquela que ocorre em um diálogo. Aquele

que ora, fala e recebe resposta na fé; pede e é ouvido, busca e

encontra.

No diálogo entre seres humanos, normalmente há

surpresas, especialmente quando mal se conhece o interlocutor.

Tentamos formar uma ideia de como ele é, achamos que

adivinhamos o tema e o nível adequado da conversa, e agimos em

consequência disso. Mas pode acontecer que o interlocutor não

entre facilmente no diálogo, dê respostas que pouco tenham a ver

com o tema, ou então que o assunto o afete muito mais do que o

esperado, e ele faça uma observação irrepetível, definitiva, que

ultrapasse nossas expectativas. Nesse caso, o panorama muda

completamente.

Por outro lado, se conhecemos o interlocutor — se é uma

pessoa famosa, amplamente reconhecida por sua inteligência e

especialidade —, ele fará todo o possível para que o outro não se

sinta intimidado, e buscará expressar suas ideias em termos

compreensíveis.

Acreditamos entender os assuntos abordados, nos

alegramos por poder dialogar, sentimos que saímos enriquecidos

após a conversa, buscamos apropriar-nos definitivamente das

ideias ouvidas e, em certas circunstâncias, até as apresentamos

como se fossem nossas. E talvez façamos isso com a melhor das

intenções — ou porque esquecemos de onde vieram tais ideias, ou

porque nos pareceram tão evidentes que as incorporamos ao nosso

modo de pensar, para recorrer a elas quando surgir a ocasião...

28


No diálogo com Deus acontecem muitas coisas que tendem

a aumentar nosso conhecimento d’Ele. Através daquilo que Deus

nos comunica e nos dá de Si mesmo, aprendemos a conhecê-Lo.

Certamente, às vezes sofremos decepções: na oração,

posso suplicar a Deus uma determinada coisa — por exemplo, que

me mostre se devo agir assim ou de outra forma. Mas se o meu

próprio desejo de fazer isto e não aquilo for muito grande, a

resposta divina pode ser facilmente desfigurada. Eu não me

disponho seriamente a deixar que Ele fale, mas, no fundo, apenas

percebo a minha própria voz amplificada. Nesse caso, não teremos

avançado nada no conhecimento de Deus. O homem rebaixa Deus

ao seu próprio nível e, como consequência, confunde aquilo que

Deus tem a lhe dizer com aquilo que ele mesmo quer ouvir.

No entanto, se a oração é realmente um diálogo, então

devo me apresentar diante d’Ele com uma atitude que Lhe permita

falar — como se se tratasse de um homem famoso, infinitamente

superior a mim, que, apesar de tudo, se digna a me falar de um

modo compreensível. Com efeito, onde Deus deseja intervir na vida

do crente para configurá-la, Ele também se inclina a expressar o

incondicionado de tal modo que o crente possa entendê-lo e

apropriar-se disso.

O cristão comum tende frequentemente a considerar Deus

como uma espécie de homem muito importante, do qual forma

uma ideia muito particular. Ele não concede a Deus a liberdade de

ser totalmente outro, diferente, infinitamente grande e

verdadeiramente eterno. Pretende compreender Deus e O

representa de acordo com seus próprios pontos de vista e, assim,

sem perceber, despoja Deus de Sua realidade propriamente divina.

Por assim dizer, o divino é para ele uma característica entre outras,

que não precisa considerar em sua própria realidade ou contemplar

com assombro.

Se o cristão não toma consciência desse perigo a tempo,

acabará adotando uma atitude arrogante diante de Deus, e sua

oração o levará, não ao conhecimento de Deus, mas ao completo

29


oposto. Em meio à mornidão das orações rotineiras e à

superficialidade que surge com o desgaste da realidade cotidiana

nunca renovada, esse suposto Deus só pode dar respostas

estereotipadas, como um autômato. Desse modo, quem reza adota

quase inconscientemente uma atitude tão orgulhosa, que mal

acredita ter necessidade da oração.

Em ocasiões extraordinárias, quando sua própria razão

falha claramente, ele se lembrará de Deus e O invocará. Mas ele já

não sabe respeitar a liberdade de Deus, nem agir conforme a Sua

vontade para, assim, tornar-se um verdadeiro crente. Tampouco

está em uma atitude de seguimento da vontade divina; tudo foi

simplificado a tal ponto que as verdades mais superficiais,

desprovidas de toda profundidade, lhe bastam e, por conseguinte,

segundo sua opinião, também deveriam bastar a Deus.

Pelo contrário, quando quem ora tem presente a distância

que o separa de Deus numa atitude de amor e reverência, quando

ama a Deus tal como Ele é em Si mesmo, quer o compreenda ou

não, então ele dará a Deus a oportunidade de Se revelar. Em toda

oração, ele experimentará algo de Deus — certamente não com

uma regularidade previsível, nem segundo uma gradação de

conhecimento mensurável, mas de tal modo que, por meio da

liberalidade divina, poderá ter uma visão cada vez mais profunda

do que Deus é, e compreenderá de forma mais íntima o que Ele

quer dizer ao homem.

Toda resposta ou exigência divina revelará ao crente novos

aspectos do ser de Deus. E aquilo que aparece ao meditador, as

conclusões que nele amadurecem e se esclarecem na oração —

tudo isso é o que alimenta sua compreensão da essência de Deus,

pois nada daquilo que Deus comunica deixa de ser experimentável,

ao menos até certo ponto.

As palavras de Deus não são palavras que levam ao abismo

mais escarpado ou à escuridão onde nada mais é compreensível —

Deus realmente Se manifesta ao homem.

30


E Ele se manifesta na palavra e no discurso com que o Filho

nos interpela. Como Ele convida os homens a segui-Lo, pode

também manifestar-Se neles por meio de qualquer linguagem

humana. Toda linguagem pode tornar-se portadora de Deus e

referência a Ele, à Sua Palavra inconcebível, santa, impregnada de

amor eterno.

Por meio de uma linguagem que se extingue, efêmera,

dividida em palavras singulares, Deus expressa o permanente, o

indivisível. Utilizando conceitos humanos, Deus fala do irrepetível,

do sempre novo, que é tão verdadeiro e tão urgente hoje quanto há

milhares de anos. A verdade está tão profundamente aclimatada na

Palavra de Deus que, em nenhum outro lugar, aparece com

tamanha clareza e força irradiante.

E, como a Palavra é verdadeira enquanto Palavra de Deus,

ela é também conhecimento — e conhecimento de uma verdade

cada vez mais sublime. É um conhecimento que provém da Palavra

e se dirige para a Palavra. Não há verdade nem conhecimento que

não se orientem para ela.

Na medida em que a Palavra é pronunciada, ela mostra, em

sua verdade, o que é a verdade e, assim, é uma Palavra que atrai,

que eleva para si, que transforma em amor. Ela quer que toda ação

humana contenha em si o som da voz divina e sua verdade.

Não há dúvida de que uma pessoa pode experimentar a

presença de Deus de forma súbita e inesperada. Deus se apresenta

diante dela e lhe exige algo determinado. Ele pode cair sobre o

crente como um terror mortal, como se este se sentisse fulminado

por um raio da verdade eterna. A Palavra o interpela, e tudo o que

não é essa Palavra deixa de existir para ele.

Mas, na maioria dos casos, a Palavra se antecipa com

delicadeza, revela lentamente sua presença, seu “sempre mais”,

sua exigência inexorável, apesar de tudo, pois, mesmo assim, pode

tornar-se ainda mais premente para o homem; o relâmpago pode

lhe aparecer como o incompreensível, mas a revelação gradual

31


carrega em si o conhecimento que cresce lentamente — e diante do

qual não há escapatória possível.

b. Implicação da subjetividade

O conhecimento é sempre conhecimento de algo, isto é,

objetivo. No entanto, na fé, o conhecimento de Deus recebe algo

mais, e esse acréscimo refere-se ao sujeito e à sua existência.

Aquilo que é propriamente o conteúdo da fé foi bem

definido pela Igreja: são coisas claras e evidentes que dizem

respeito ao conhecimento de Deus e à Sua exigência. Mas o cristão

não pode considerar essas coisas como se fossem uma realidade

puramente objetiva.

Pelo contrário, se ele compreende que esses dogmas são

verdadeiros para si mesmo, que fazem referência a ele e querem

tomar posse dele, então deve renunciar a essa consideração

puramente objetiva: a fé exige algo do eu; o homem deve

introduzir-se com toda a sua subjetividade no âmbito da verdade

cristã.

Ele não pode mudar essa verdade — e, no entanto, ela se

torna agora para ele algo diferente, porque, de agora em diante,

lhe pertence, cria raízes nele e, em determinados pontos, torna-se

a sua verdade.

Dessa forma, ele deve aproximar-se da verdade a partir

dessa realidade. Se prestar atenção aos processos e

transformações que ocorrem dentro de si, perceberá que ele muda

sempre de acordo com a verdade — e não o contrário.

A objetividade da fé implica a subjetividade do crente, pois,

de outro modo, essa objetividade não transformaria toda a sua

existência. Assim, o seu conhecimento e, de modo análogo, o seu

diálogo apostólico, sua pregação, levarão a marca de sua

personalidade: ele anunciará o Deus que encontrou, que aprendeu

a conhecer.

32


Se todo crente, seja quem for, se comportar dessa maneira,

a grandeza e objetividade de Deus e de Sua revelação não sofrerão

nenhum prejuízo. Isso não constitui uma alteração da fé, mas

mostra, antes, como a encarnação do Filho foi realmente capaz de

levar a verdade divina a todo ser humano e de despertar nele um

amor ardente por esse Deus que o ama.

Se quisermos representar isso graficamente, diremos que

Deus é como um centro irradiador, e os homens acorrem a Ele em

massa, confessando-o e reconhecendo-o como tantos raios que vão

da periferia ao centro — cada um partindo de um ponto diferente,

do qual não precisa renegar, pois todas as criaturas brotaram

originariamente do centro divino, e Deus atribuiu a cada uma seu

lugar e sua peculiaridade própria, para que, a partir daí, iniciem a

jornada de retorno.

Essa imagem mostra que o crente está sempre em caminho

rumo a uma meta, que é o próprio Deus. E a distância a ser

percorrida é um caminho de conhecimento. Aquele que olha

diretamente para o sol fica cego; mas os raios que ele vê, tanto

podem vir do sol como ir em direção a ele. Quando alguém conhece

a Deus, a graça corre desde o centro divino até essa pessoa, para,

por sua vez, fazê-la retornar a Ele; a esse movimento da graça,

que vai de Deus ao homem, corresponde o movimento inverso, que

vai do homem a Deus — e esse movimento é o conhecimento.

Se lermos as obras dos inúmeros autores que escreveram

sobre Deus e sobre o que Ele significou para eles e para o seu

caminho, veremos imediatamente, com toda clareza, que, no

fundo, todos disseram as mesmas coisas — e, no entanto, cada um

quis convencer seus leitores por meio de sua experiência íntima,

dando testemunho do caminho que Deus lhe havia atribuído. A

variedade multiforme de pontos de vista, na medida em que todos

desejam se fundamentar na fé cristã e dela extrair vida, foi

permitida e desejada por Deus, a fim de tornar a verdade acessível

aos mais diversos tipos de pessoas.

33


Quando a Igreja formula as verdades da revelação através

de seus dogmas, de modo que todos possam professá-las — e,

portanto, ninguém possa dizer que não tem acesso a esta ou

àquela verdade — isso não impede que, apesar de tudo, cada um

possa aproximar-se dessas formulações objetivas a partir de sua

própria experiência, nem o reduz apenas a ela. Mas faz parte das

exigências da fé buscar aquelas vias de acesso que mais se

adequem à experiência pessoal de Deus. E aquele que não puder

descobri-las por si mesmo, deve permitir que outras pessoas que já

tiveram essa experiência o conduzam até elas.

Quando uma pessoa encontra a via de acesso que lhe

convém, quando é capaz de transformar um dogma em que crê —

como se fosse uma verdade puramente objetiva — em uma

verdade que lhe dá vida, ela deve colaborar para que outros, por

meio dela, também amadureçam na verdade cristã.

Na formulação de seus dogmas, a Igreja se utiliza como

fonte da Palavra revelada, atestada pela Sagrada Escritura. Todo

ser humano pode inspirar-se nessa fonte; contudo, deve interpretar

a Escritura em conformidade com a compreensão da fé vigente na

Igreja e com a Tradição, e compreendê-la sempre à luz e dentro do

padrão das formulações dogmáticas.

Dentro desse marco, cada pessoa é livre para escolher

aqueles livros e palavras que melhor possam servir-lhe como guia

pessoal. Mas, ao escolher, deve entender-se como alguém que foi

escolhido e, junto com seus modelos prediletos, deve adotar uma

atitude de disponibilidade e obediência, cujo modelo último é a

relação do Filho com o Pai. Para isso, abrem-se diversas

possibilidades no interior da Igreja: este ou aquele santo, esta ou

aquela ordem, etc.

c. Conhecimento e "noite escura"

Para o crente, o grito com que o Filho expressa na cruz o

seu abandono é, talvez, a expressão mais elevada do conhecimento

34


de Deus. Naquele instante, o Filho toma sobre Si todo o pecado e o

sofrimento do mundo e, assim, consuma Sua missão. Ele sabe que

aquilo que queria fazer por amor ao Pai e para o Pai está feito. E

está consumado de tal maneira que Ele foi despojado de tudo. Só

resta Sua ação última, Sua “noite”, que está disposto a suportar até

o fim. E, na medida em que nela se cumpriram todas as promessas

e prefigurações da Antiga Aliança, essa noite é a constatação última

da verdade e, portanto, o mais alto e último conhecimento.

Em consequência, quem quiser seguir o Senhor deve fazer

dessa noite o coração da própria existência. Não a reclamará para

si em atitude de arrogância, mas a viverá com a humildade de

quem ama — que, como tal, tem o direito de se aproximar do mais

profundo mistério do Senhor. A noite é o mistério do Crucificado,

enquanto a Mãe e o discípulo amado estão ao pé da cruz. Hoje

como então, todo aquele que quiser seguir a Cristo só pode

participar do mistério da noite por meio da cruz.

E, evidentemente, para isso não basta realizar disquisições

teóricas sobre a cruz, mas é preciso tornar-se presente até onde o

amor de Cristo pelos homens O levou — e, consequentemente

(guardadas as devidas proporções), até onde deve levar o cristão.

Todo crente acompanha o Senhor em Sua paixão do mesmo modo

que a Igreja o faz: através da oração litúrgica e da oração e

meditação pessoais.

Aqui encontramos um conhecimento objetivo — é o que diz

a Escritura e é objeto da celebração litúrgica —, mas dele brota

também um conhecimento subjetivo. É algo que me concerne, me

comove, me impulsiona a tirar conclusões para a minha vida. Essa

marca pessoal que imprimo à minha religiosidade e à minha oração

será configurada, como foi dito, pelo contexto da religiosidade

eclesial, e, além dela, por uma religiosidade inspirada na Escritura

e, em última instância, fundamentada no abandono de Deus

experimentado na cruz pelo Filho, que, ao tomar sobre Si os meus

pecados, tornou possível a minha fé e o meu caminhar rumo a

Deus.

35


Uma vez conhecida essa fonte oculta de toda graça, o

cristão não pode dar-se por satisfeito apenas com sua oração, mas

deve desejar fazer penitência de algum modo — por mais

imperfeita que seja — e essa penitência deve ser realizada numa

atitude de amor e seguimento de Cristo. Não deve imaginar que

está compartilhando a paixão de Cristo, mas sim, como diz São

Paulo, tentar preencher as lacunas que lhe foram reservadas. Na

verdade, espera-se dele apenas um gesto simbólico — mas ele

deve realizá-lo.

Além da oração e da penitência, sua atitude e seu modo de

pensar devem proclamar que ele adquiriu um conhecimento de

Deus através do mistério da cruz. Essa atitude global deve aparecer

com maior clareza no religioso, que vive de acordo com uma regra

que representa, em sua totalidade, uma aplicação do mistério da

cruz a uma forma concreta de vida. Mas também o leigo pode

impor a si mesmo uma forma de vida análoga, configurada pela

cruz.

Ora, a forma de vida que se configura a partir do

conhecimento da cruz e da ressurreição nunca se limita a estar

centrada no crente, mas, assim como a cruz de Cristo, está aberta

ao mundo e a todos os homens. Sua lei fundamental é o amor

desinteressado ao próximo. Do mesmo modo que o Filho não

assume a cruz apenas para satisfazer ao Pai, mas pela redenção de

todos os homens, o conhecimento adquirido sob a cruz também

não diz respeito apenas à salvação pessoal; o próximo, a Igreja, o

mundo, situam-se no centro de toda religiosidade cristã.

O Carmelo quer fazer expiação pelos pecados do mundo; se

no Carmelo se pensasse apenas na própria salvação, isso

equivaleria a viver fora da regra. Por meio da regra, cada membro

da Ordem vive em estreito contato com o pecado do mundo; não se

pode aspirar contemplativamente ao conhecimento de Deus sem

que apareça no campo de visão o mundo dos pecadores, por quem

Cristo padeceu, revelando assim, em sua máxima profundidade, a

essência de Deus.

36


Se o conhecimento de Deus se limitasse apenas ao conceito

de Deus, já não haveria lugar para o conhecimento da criação e da

obra do Filho, que está sempre em movimento entre o Pai e o

mundo, entre o mundo e o Pai. Todo conhecimento cristão deve

ajustar-se a esse movimento. Em nossa oração e penitência, em

nossa atitude de vida, devemos prestar atenção ao fato de que nos

estendemos sempre em duas direções e, de forma análoga, somos

sustentados por duas forças distintas. Por isso, devemos adquirir

certo equilíbrio — que não é exigido apenas pela saúde da nossa

personalidade, mas também, e de maneira ainda mais decisiva,

pela tensão existente entre Deus e o mundo.

Todo aquele que faz afirmações sobre o conhecimento do

divino encontra-se em uma situação semelhante à de um professor

de religião que tenta explicar algo a crianças pequenas. Para falar

sobre Deus, é preciso recorrer a rodeios, a fim de se tornar

compreensível para a mentalidade infantil. Ele não pode esquecer

que está falando a crianças, que suas palavras precisam ser

entendidas, que suas comparações devem ser adequadas à fantasia

infantil. Foi assim que Cristo se expressou, que nunca falava de

Deus em termos abstratos, mas de tal modo que, apesar de nossa

limitação, pudéssemos compreendê-Lo.

37


Capítulo 4

O ENCONTRO

a. O primeiro contato

A jovem geração recebeu instrução religiosa e pertence a

uma determinada confissão, mas, mesmo assim, o religioso é para

ela um "campo especializado" como qualquer outro — por exemplo,

o das línguas estrangeiras, o das ciências naturais, etc.

Na maioria das vezes, foram os pais que escolheram para

seus filhos uma religião e uma confissão específicas: os filhos então

crescem em meio a uma educação religiosa trivial ou em uma

atitude de indiferença; cumprem com seus deveres eclesiásticos do

mesmo modo como cumprem com as obrigações escolares — e seu

interesse não vai além disso.

Somente quando a pessoa amadurece e começa a projetar

e moldar a própria vida, e quando, entre os diversos caminhos que

se lhe apresentam, escolhe um que lhe parece corresponder às

suas aptidões e inclinações, é que pode surgir o desejo de

esclarecer também a questão religiosa e confessional.

Mas, em primeiro plano, está sempre a vontade de dispor

livremente de si mesmo: a pessoa quer assegurar-se uma posição

estável na vida profissional (quanto mais importante, melhor) e

adquirir conhecimentos suficientes, opiniões bem fundamentadas,

amizades influentes.

Por outro lado, será possível perceber com clareza se ela

pode dispor também da realidade religiosa — ou se aqui encontra

certos limites e se vê confrontada com a pergunta: como quer Deus

dispor de mim?

38


Essa pergunta pode, em algum momento, surgir

inevitavelmente — durante uma missa, ou no meio de uma oração,

de uma leitura, ou de uma conversa com amigos: nesse instante, a

imagem tradicional de Deus desmorona, e o homem encontra-se

com Deus.

Talvez de modo tão abrupto como quando se esbarra com

um transeunte na rua: não se pode evitar modificar o próprio

caminho, topar com a outra pessoa, fixar os olhos em alguma

vitrine. Ambas se viram uma à outra; se se cumprimentam ou não,

é outra questão.

Deus se manifesta, Deus me fala; não sei se Ele também

fala com outras pessoas — talvez. O certo é que Ele fala comigo.

Como Sua Palavra é compreendida pelo homem que está ao meu

lado, é uma questão que não me interessa nesse momento.

Deus escolheu esta hora e esta ocasião para encontrar-me

a mim. Ele tem os meios e o poder de fazer isso de tal maneira que

o homem não possa evitá-lo e tenha de tomar uma decisão.

Quando o crente se dá conta disso, geralmente se sente tão

abalado que parece desmoronar. Algo dentro dele, que até então

permanecia intacto, oferecia segurança e parecia ter futuro, rompese

em pedaços — e já não é possível remontá-lo.

A “estrada principal” à qual ele estava acostumado termina

subitamente, e começa uma mata caótica. A indigência do homem,

sua ausência de futuro, abre-se diante dele — a não ser que ele se

decida a saltar em direção a Deus por cima do próprio abismo.

O "Tu" divino é tão poderoso que o homem, por mais que

tente, está cercado. Com Deus, não há tréguas. É preciso

perseverar até o fim, até que se tenha escutado tudo.

Deus não passa adiante, mas quer ser ouvido aqui e agora,

e o homem deve estar todo ouvidos.

39


O que Deus tem a dizer, Ele o diz em poucas palavras; na

verdade, pode tratar-se de uma única palavra — que pode

desdobrar-se ao longo de toda uma conversa.

Mas também pode acontecer que tudo fique num simples

início de aproximação — e que sejam necessários muitos dias,

semanas, anos, para que o homem entenda de algum modo o que

Deus quer lhe dizer.

Contudo, Deus, na qualidade de Criador e Salvador do

homem, está tão próximo dele e o conhece tão bem, que sabe

perfeitamente como deve tratá-lo, como deve abordá-lo para ser

ouvido, que palavras deve usar para que o homem responda

infalivelmente.

Muitas dessas coisas encontram-se nas palavras do Senhor

aos seus discípulos: "Tu, segue-me". Quando um homem ouve isso,

precisa investigar como essa palavra foi dita para ele, como pode

responder a ela, para onde deve voltar-se para adquirir uma visão

clara e definitiva da situação. Mas também pode ter ouvido apenas

uma espécie de “Eis-me aqui” de Deus, cujo sentido vai se

clarificando aos poucos. No fundo do espírito, ele sabe que Deus já

está ali e, aparentemente, não precisou encontrá-Lo para saber

disso, basta recordar.

No entanto, quando Deus anuncia Sua presença a uma

pessoa, isso precisa ter um significado profundo e irrepetível, de tal

forma que todo saber anterior sobre a presença de Deus agora

pareça algo precário. Sabia-se sobre isso como se sabe algo que

pode ser útil mais adiante, mas que, por enquanto, não tem

nenhuma atualidade. Assim como, ao estudar latim, aprendemos

uma série de palavras que só muito mais tarde ganham pleno

sentido, por exemplo, quando somos capazes de ler um poeta. O

momento em que o aluno tem pela primeira vez Virgílio em mãos é

para ele um momento solene. Ali está alguém que compreende o

texto — o professor — e está disposto a ajudá-lo a lê-lo, mesmo

que o aluno tenha apenas noções preliminares ainda escassas.

40


Algo semelhante acontece no encontro do homem com

Deus, ou depois que esse encontro acontece. Aprenderam-se

muitas coisas sobre religião, algumas estão presentes, outras

arquivadas para mais tarde — mas é agora que tudo ganha

atualidade pela primeira vez.

Será que nossos conhecimentos preliminares estão à altura

do texto divino? Mas o mestre — Deus mesmo ou algum de seus

colaboradores na Igreja — nos ajudará a lê-lo corretamente. Isso,

contudo, implica uma nova modelagem e planejamento de toda a

nossa existência. O que estava oculto até agora precisa ser trazido

à luz; é preciso revisar tudo, para que nossas deficiências se

tornem visíveis.

Por outro lado, Deus age com enorme delicadeza e, ao

mesmo tempo, sem concessões. Com delicadeza, porque Ele se faz

presente e, com isso, mostra que não quer que minha vida careça

de sentido, já que Ele mesmo escolhe o momento oportuno e me

faz saber como devo conduzir minha vida. Sem concessões, porque

Ele dispensa tudo: o mais velho e o mais novo. O aparentemente

insignificante de repente torna-se importante, o que parecia

importante é descartado, o que era indispensável é posto de lado

sem contemplações, o impossível é exigido como algo essencial. E

toda essa reviravolta acontece porque Deus me encontrou — e, a

partir de agora, a única coisa que tem validade é Sua Palavra.

Na maioria das vezes, isso acontece tão de repente que o

homem tenta se defender de alguma forma: "Tudo isso não precisa

ser levado tão a sério", diz a si mesmo. "Talvez a linguagem de

Deus precise ser interpretada de forma menos radical. O que não

se faz hoje, talvez possa ser feito amanhã, ou mais tarde. Tudo

aconteceu tão de surpresa que é necessário meditar com calma. Já

que Deus dispõe de uma eternidade, por que essa pressa repentina

quando, por acaso, alguém se depara com Ele..."

41


b. A decisão

Quando Deus está decidido a falar e chamar o homem, na

maioria das vezes não parece levar em conta o lugar em que ele se

encontra. Ao mesmo tempo, esse lugar deixa de parecer fixo;

aquele que é chamado se sente como alguém viajando de trem:

atravessa um território, vê imagens novas constantemente,

contempla paisagens fascinantes — e, logo em seguida, tudo muda.

E, no entanto, tudo isso contribui com algo essencial para a

situação do viajante. Um momento antes, contemplava uma

paisagem marítima; agora, começam a desfilar diante de seus

olhos altas montanhas — e ele deveria encontrar dentro de si uma

resposta adequada para tudo.

Ou seja, saber algo que possa ser usado em qualquer lugar.

E esse algo reside ao mesmo tempo em Deus e no homem —

embora ele possa não perceber isso. Mas o que ele sabe com

certeza é que Deus chama, e que ele deve responder; porém, sua

situação muda com tanta rapidez que sua resposta nunca parece

apropriada. Seria — e isso é justamente o que se espera dele —

como um “sim” pronunciado sobre um abismo. Um sim que parece

totalmente impossível. O ar torna-se tão rarefeito que aquele que

fala não ouve a própria voz. E, quando finalmente ele diz um sim

definitivo — como se estivesse à beira da morte —, o panorama

muda radicalmente outra vez.

É como se Deus quisesse que a única coisa inalterável, a

única constante igual a Si mesmo em meio à realidade mutável,

fosse o “sim”.

O homem não pode fazer nada para parar o trem, e tenta

ganhar tempo para se orientar melhor. Se o trem parasse, e o

homem chegasse a dar um “sim” com restrições, um sim

fundamentado em motivos racionais e condicionado por eles, um

“sim” que, gradualmente, incluísse tudo aquilo que ele considera

possível, esse “sim”, em toda a sua vacuidade, se limitaria a ser um

mero eco de sua própria razão.

42


Mas pode-se levantar a seguinte objeção: a razão não é

também um dom de Deus? Sem dúvida alguma. Mas chega um

momento em que o decisivo já não é mais a razão, e sim o próprio

Deus.

Por isso, não adianta fechar os olhos para não ver o

panorama que passa diante de si — o panorama continua ali,

apesar de tudo, e é preciso tê-lo presente ao dar a resposta. É

necessário dizer “sim” tendo-o diante dos olhos — mas esse olhar

precisa ser um olhar em Deus.

Até agora, as circunstâncias da vida eram dadas e aceitas

pelo homem quase sem questionamento; eram diferentes aspectos

de sua existência. Mas agora é preciso afastar-se de tudo isso para

adquirir em Deus a liberdade perfeita.

Por outro lado, o centro de gravidade da vida do homem

parece deslocar-se: o insignificante torna-se essencial, e aquilo que

parecia determinar decisivamente a existência cotidiana, torna-se

insignificante. Para ser livre, o homem deve afirmar ao mesmo

tempo a situação antiga e a nova. Só assim o seu “sim” ganhará a

amplitude necessária. Ele pode referir sua nova atitude a mil coisas

diferentes e, a partir delas, dizer seu “sim” com maior clareza. É

claro que pode dizer “sim” de maneira resumida e renunciar

globalmente ao que era antes; mas essa soma não pode ser feita

apressadamente — cada parcela deve ser cuidadosamente

meditada. Em toda parte deve ressoar o mesmo “sim” primário,

incondicional a Deus; no entanto, esse caráter incondicional encerra

em si inúmeros olhares retrospectivos à realidade existente, a fim

de provar concretamente sua eficácia.

Essa ampliação do “sim” é, para o crente, um estágio

preliminar que antecipa o posterior alargamento de sua fé e das

exigências divinas. Ele afirma tudo e, ao mesmo tempo, nada

afirma. E, em última instância, resta o seu “sim” a Deus — um

“sim” nu, desprovido de toda a sua força. Essa impotência do “sim”

se explica na medida em que ele não pode apoiar-se em nenhum

argumento; e, no entanto, trata-se também de um “sim” cheio de

43


energia, que exige todas as forças do homem, pois, a partir de

agora, ele necessita absolutamente dessas forças para a

consequente vida de serviço.

Aquele que quisesse inserir aqui pausas com o objetivo de

um suposto exame sério da situação, a fim de construir pedra por

pedra o edifício de sua vida à luz da exigência divina, perderia

tempo. Com efeito, não se pergunta agora pelo edifício, pelos

muros nos quais se pode apoiar, mas pela disposição pessoal — por

estar pronto, inclusive para derrubar tudo. É preciso apressar-se;

não se pode voltar para se despedir ou “enterrar os mortos”. A

irrupção da eternidade em minha vida perecível tem um caráter

absoluto e atemporal. Já não há ponto de comparação, nem

possibilidade de esquecer a própria situação para recolher-se em

deliberação consigo mesmo. Somente aquele que foi chamado e

enviado por Deus pode intervir, nesse caso, na conversa entre Deus

e nós. Uma pessoa que, mesmo sem sabê-lo, possa ser porta-voz

de Deus, a fim de configurar um “sim” perfeito.

Esse ponto de interseção entre o tempo e a eternidade é

irrepetível para aquele que por ele é tocado. De tal modo que ele o

considera como uma imensa catástrofe. Aqui, o crente é

despersonalizado. Percebe que o espaço que antes ocupava na

terra ficou vazio. Muito do que constituía sua vida cotidiana foi

como que cortado, para permitir-lhe maior liberdade de

movimentos. O que até agora determinava sua vida não era sua

personalidade, nem a força de seu ânimo ou sua inteligência; era

algo sobre o qual sua personalidade se apoiava e que a precedia.

De bom grado ou à força, ele mesmo ocupava o seu lugar — até o

momento em que Deus o chamou e, por meio de Seu chamado,

mostrou-se disposto a preencher com Seu Espírito e com Sua força

a imagem negativa que até então existia do crente, substituindo-a

por outra, positiva.

E o homem compreende que, já que é o seu “sim” que

realmente lhe confere uma nova personalidade, ele não apenas

pode considerar-se doravante como uma pessoa mencionada por

44


Deus, mas também ser impregnado pelo anonimato dos filhos de

Deus. A partir de uma nova perspectiva, ele será, na Igreja, um

entre muitos — um membro da comunidade dos santos. Será um

enviado, para quem a missão é muito mais importante do que ele

mesmo. Como um filhote recém-saído do ovo, poderá agora moverse

na liberdade do novo mundo — que é o mundo de Deus.

Não tem por que temer nada: encontrou plenamente o seu

lugar. O “sim” tem sua própria força. Ele está além de toda

vacilação. Evidentemente, ainda não realizou plenamente a ideia de

santidade que Deus lhe destinou, mas, para percorrer o caminho

que tem pela frente, pode contar com a plenitude da graça que

Deus tem preparada para os Seus filhos.

45


Capítulo 5

A PALAVRA DE DEUS

a. A infinitude no finito

Quando o Filho de Deus se fez homem, aprendeu a falar a

nossa língua e a se expressar com as nossas palavras. A palavra

que utilizamos é suficiente para que Ele se faça compreender e

explique as coisas de seu Pai. Ao nos falar, compreendemos que Ele

é a Palavra do Pai e que, portanto, o que o Pai tem a nos dizer, Ele

o diz por meio d’Ele. Esse fato confere à Palavra uma amplitude até

então insuspeitada. A Palavra é divina — Deus mesmo é a Palavra!

Desde toda a eternidade, a Palavra está na esfera do Pai, e

não deixa de ser o que é, mesmo quando habita entre nós. E esse

seu “ser Palavra” não se limita apenas ao que é expresso pela

linguagem, mas se encontra também em sua atitude, na totalidade

de seu ser humano-divino.

Não há dúvida de que verdades divinas são expressas por

meio de proposições humanas e que, em virtude da plenitude desta

Palavra, são tão sublimes que nós poderíamos aprofundá-las ou

falar sobre elas interminavelmente.

Mas cada uma dessas proposições não deve ser

considerada de forma isolada, e sim sempre compreendida a partir

do ser integral do Filho.

É como se a Palavra dita por Ele permanecesse sempre

ligada a Ele, pois é somente n’Ele que ela adquire vida e pleno

sentido.

A Palavra expressa conserva seu significado através dos

milênios, não apenas porque o Filho continua tão vivo no céu

quanto esteve na terra, mas também porque Ele jamais se separa

de sua Palavra.

46


Ela permanece n’Ele, que é a vida. Por isso, nunca pode se

tornar uma palavra morta.

Por mais definitiva que uma Palavra divina possa ser, ao ser

pronunciada permanece também enraizada no Filho, de tal modo

que esse caráter definitivo é, ao mesmo tempo, um brotar sempre

renovado.

O enraizamento da Palavra no Filho é expressão da

vitalidade eternamente atual do ser e da vontade de Deus — mas

também do nascimento sempre atual do Filho no seio do Pai, bem

como da processão do Espírito Santo a partir do Pai e do Filho.

A Palavra nunca se esgota, nem enfraquece, nunca é

expulsa ou desterrada, mas onde quer que surja, permanece ligada

àquele que a pronuncia.

Ela é comparável à Eucaristia, na qual as aparências de pão

e vinho, enquanto duram, são inseparáveis do ser do Senhor.

Se hoje ainda permanecem vivas as palavras consoladoras

da oração de despedida do Senhor ou do Pai Nosso, não é por

causa de uma vitalidade artificial que o pregador ou o leitor da

Escritura lhes infunda, mas por causa de sua própria e perene

vitalidade divina, que se manifesta através de suas obras.

Pode acontecer que um intérprete das parábolas do Senhor,

para explicar melhor o seu sentido, recorra a outros conceitos,

imagens e comparações próprios do nosso tempo — que não

ocorreriam aos homens de então ou que, até, lhes pareceriam

incompreensíveis.

Mas o conteúdo e o sentido da parábola, assim como as

“pontes” estabelecidas entre o céu e a terra, ou a aproximação de

Deus ao homem — tudo isso permanece idêntico, pois a Palavra de

Deus é imperecível.

“O Reino dos Céus é semelhante a...” — assim começa

sempre o Senhor, e, logo em seguida, utiliza uma imagem familiar

47


que todos podem entender, mas que não ofereceria uma ideia do

Reino a quem estivesse fora do contexto.

Por exemplo, para um não cristão, a imagem do nascimento

da semente jamais evocaria a ideia do Reino de Deus na terra.

Na boca do Filho, a imagem encerra a esperança na bemaventurança

eterna.

Entre as diferentes imagens utilizadas nas parábolas mal há

qualquer conexão aparente, mas, para o cristão que as escuta,

cada imagem amplia sua visão da vida eterna.

Por trás de cada palavra humana está a Palavra de Deus,

que nos revela sua essência.

Os olhos humanos formam uma ideia da aparição do Filho

do Homem; os discípulos nos narram muitas coisas a respeito do

comportamento do Senhor. Para o não-crente, essa imagem não

expressaria um comportamento diferente do dos demais homens.

Mas Cristo, por meio de sua palavra e de sua conduta, nos

comunica a graça; por meio de todo o seu ser, o divino irrompe nos

homens, sacudindo-os e despertando-os, transformando-os e

fazendo-os compreender por que Ele é a Palavra.

Não foram muitas as palavras do Senhor que chegaram até

nós; mas são mais do que suficientes para chamar todo homem e

exigir-lhe uma resposta a Deus. E, antes de responder, ele precisa

acolher essa Palavra em si mesmo, deve fazê-la valer em sua

própria realidade, deve deixar-se expandir pela plenitude da Palavra

e, sobretudo, deve perceber a exigência, o compromisso que ela

impõe.

Se essas características da Palavra forem reconhecidas, o

homem será capaz de experimentar sua superabundância. E, ainda

que acolhesse cada palavra dentro de si e se tornasse portador da

Palavra, a riqueza desta ainda o ultrapassaria de forma

inconcebível.

48


Ele não pode conter a Palavra dentro de seus próprios

limites. Com efeito, diante de Deus, ele é apenas uma imagem, um

espelho, e nunca poderá retribuir tudo o que Dele recebeu.

Mesmo quando vislumbra de algum modo as dimensões do

divino, não pode transcender sua condição de criatura e é incapaz

de abarcar a infinitude de Deus, tanto no que se refere à

compreensão da verdade, quanto ao seguimento do Senhor ou à

santidade.

Todo santo tropeça continuamente nesses limites; toda

pessoa que deseja seguir a Deus, todo aquele que verdadeiramente

ora, deve reconhecer sua incapacidade, mesmo nos momentos em

que não se dá conta da necessidade de prestar atenção a isso, pois

a Palavra se manifesta nele com tanta força que, por assim dizer,

apaga gratuitamente os limites humanos.

A Palavra é tão viva que pode revivificar o que no pecador

estava morto. Santa Teresinha "escolhe tudo", mas, ao decidir

seguir o Senhor, sabe que uma limitação lhe foi imposta; no

entanto, não precisa se entristecer: o Senhor a tomará e a fará

crescer em sua graça.

b. A plena conformidade na Palavra

Enquanto homem, o Filho deve compreender a plenitude da

Palavra, que Ele mesmo é. Sua presença entre os homens — que se

converte, para Ele, dia após dia, em uma tarefa sempre nova —

deve colocá-lo constantemente diante da pergunta sobre como

deve configurar essa Palavra.

Quando Ele ouve palavras ou as pronuncia, precisa colocálas

em relação com a plenitude de sua missão, de modo que

participem dela. A Palavra que Ele pronuncia deve ser

perfeitamente compreensível: é, com efeito, a expressão mais

adequada da missão que lhe foi confiada pelo Pai.

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Desde toda a eternidade, Ele é a Palavra do Pai e

compreende seu sentido próprio e ilimitado. Mas, como homem, Ele

deve chegar ao conhecimento de sua própria Palavra eterna e

expressá-la adequadamente a partir de sua natureza humana.

Ele precisa deixar-se interpelar pela Palavra que Ele mesmo

é, submeter-se a ela, encontrá-la com o devido respeito. Seu "eu" é

humano-divino, e nele não pode haver discrepância alguma, já que,

enquanto homem, Ele não é uma imagem refletida de seu próprio

“ser Deus”, mas a Palavra eficaz do Pai, o Filho encarnado,

unigênito, em toda a profundidade e irrepetibilidade da Palavra.

Contudo, ao escutar — enquanto Deus — a Palavra que Ele

pronuncia na terra, e compreender toda a sua transcendência, essa

Palavra fica incrustada em seu amor eterno ao Pai, lá onde também

se encontra seu amor pelos homens.

Ele vê como o Pai acolhe essa Palavra, que significado ela

tem no interior de Seu amor, como ela opera e se insere

imediatamente no círculo do amor divino. Quando Ele dirige essa

mesma Palavra ao homem, vê que essa Palavra não pode

abandoná-lo; porém, no homem há pouco amor para acolhê-la

plenamente.

Trata-se de algo como um “estado de suspensão”: de um

lado, Sua Palavra divina; de outro, o eco imperfeito dessa Palavra

no homem.

Ele pronuncia essa Palavra em toda a sua plenitude, mas

raramente obtém uma resposta e, quando existe uma, ela se

encontra privada da força presente na Palavra.

Talvez nunca tenha sentido tão profundamente essa falta

de eco como durante sua oração no deserto. Ali, enquanto adora o

Pai e fala com Ele, os homens estão distantes, separados do Filho

por um muro de indiferença e de alienação. Para o Filho, o deserto

é um estar a sós com Deus. Estar com os homens também o é,

mas, no fundo, não deveria sê-lo. Ali onde o Filho se volta para os

homens, Ele deve novamente levar Sua Palavra ao Pai, juntamente

50


com a resposta dos homens, e oferecer ao Pai o “sim” dos homens,

que está incluído no Seu próprio “sim”.

O Filho tem voz suficiente para abrigar em Si toda palavra

humana e conceder-lhe sua última plenitude. No entanto, antes de

se relacionar com seus semelhantes, conviveu com Sua Mãe. Desde

que deu seu “sim” ao anjo, a Mãe tem consciência de que acolheria

a Palavra de Deus. De algum modo, ela entende que o Filho e a

Palavra de Deus são uma só e mesma realidade.

Ao mesmo tempo, ela lança um olhar retrospectivo sobre a

história de Israel, que é a história da Palavra de Deus com seu

povo. Conhece as promessas e pode contribuir para o seu

cumprimento. Sabe com que força falou Deus Pai ao Seu povo,

como enviou os profetas e Se expressou por meio deles, e como

Suas palavras mal foram ouvidas; pelo contrário, quase sempre

passaram despercebidas ou foram objeto de desprezo.

Mas agora, a Palavra se fez carne nela; em seu Filho não se

deve separar de forma alguma a plenitude da Palavra e o “ser

homem”. Quando Maria fala com o Menino, mesmo antes de Ele

saber articular qualquer palavra, ela sabe que n’Ele habita a

plenitude da Palavra. Todas as manifestações do Menino — quer

durma ou beba, ria ou chore, cada um de seus tímidos movimentos

— ela os vê como expressão da plenitude da Palavra.

Sua alegria é maternal e, ao mesmo tempo, cristã — a

alegria do ser humano que encontra a Deus. Uma alegria

totalmente pura, não ofuscada pelas perturbações nem pelos

entraves que os homens costumam colocar em seu próprio

caminho. A Palavra de Deus pode encontrar Maria livremente,

colocá-la em plena luz, pois não há nela nenhuma escuridão; ela

acolhe tudo como dom da alegria perfeita e exulta de júbilo.

Embora saiba que virão dias penosos — dias de

inquietação, de tristeza e de aflição —, ela agora não se detém

nisso, pois, neste momento, sua atitude de obediência a convida a

acolher jubilosamente a alegria.

51


No encontro com o Menino, ela não é a discípula que se

senta aos pés do Mestre; é a mãe que exulta de júbilo. Ela não

classifica conceitualmente o que sente, nem o rotula com as

diversas verdades da fé; como mãe, ela se integra simplesmente a

todas as demais coisas que se ordenam em direção ao seu Filho e

cumpre sua missão com a alegria que lhe foi concedida.

Quando surgem situações que ela não compreende — como

o episódio ocorrido quando Jesus completou doze anos — sua

obediência permanece íntegra. Ela responderá sempre na atitude

espiritual que lhe foi imposta pela Palavra e pelo Espírito, suportará

com paciência todas as inquietações e, em meio à preocupação,

reagirá tal como o Filho espera dela.

Nessa preocupação da Mãe por seu Filho de doze anos

tornam-se evidentes muitas das experiências e reflexões que os

cristãos, chamados pela Palavra a sofrerem inquietações, devem

viver: ou seja, não desejar nada diferente daquilo que lhes foi

dado, permanecer onde lhes foi designado.

Maria não se atribui nada a si mesma, não adota uma

atitude arrogante, nem, por outro lado, cai no quietismo; ao

contrário, persevera em uma obediência perfeita, no amor à

Palavra, tal como ela se dignou revelar-se a ela naquele momento.

Aceita sua missão tal como ela se apresenta aqui e agora.

Mais tarde, quando os discípulos se encontram com o Filho

e sua Palavra os chama, eles começam a segui-lo imediatamente,

como lhes é exigido, apesar de não compreenderem muito bem o

alcance dessa exigência.

Mas o seu “sim” nunca igualará ao da Mãe, que é um “sim”

de uma gratuidade insondável.

Eles se sentem profundamente surpreendidos, estão cheios

de perguntas — perguntas que não se colocam no momento, mas

que recordarão mais adiante.

52


É como se agora as tivessem colocado de lado, como se as

tivessem ocultado; como se os pontos fracos de sua fé tivessem

sido preservados diante de uma possível irrupção desmedida da

Palavra, que talvez quisesse devorar todo o seu ser naquele

instante, para fazer tábula rasa e arrancar deles a resposta

adequada.

Mas eles ainda não chegaram tão longe, ainda vacilam.

É uma espécie de fatalidade que demorem diante da

Palavra, que levem tanto tempo para compreender algo que, no

fundo, diz respeito ao momento presente; e ainda mais: muitos

talvez nunca cheguem a compreender isso por completo.

Contudo, foram sacudidos pela graça de tal forma que farão

o mais acertado com uma espécie de fé meio desperta.

Em Maria, não se coloca a pergunta se ela está totalmente

desperta ou apenas em parte. A obediência e o amor a absorveram

por completo, pois ela renunciou plenamente a si mesma.

Talvez seja próprio do distanciamento que acompanha o

respeito o fato de os apóstolos responderem como o fazem,

colocarem tais perguntas e reconhecerem também sua

compreensão imperfeita.

Dessa forma, a Palavra do Senhor adquire um brilho muito

maior, e mostra que Ele, enquanto homem, não conhece as

fraquezas da ignorância e do esquecimento, nem tampouco as que

decorrem da falta de disposição.

53


Capítulo 6

A RESPOSTA DO HOMEM

a. O “sim” escondido em Deus

O homem que responde à Palavra de Deus transcende o

tempo. O Senhor disse: “Os céus e a terra passarão, mas minhas

palavras não passarão.” Quando o homem responde a essa Palavra

imperecível e, na fé, sabe que é ouvido, ele também tem

consciência de que sua palavra humana encontrou a Palavra eterna,

e que, com isso, transcendeu a realidade tal como a vê o não

crente. Desde então, o lugar para o qual agora se dirige já possui

para ele as características da eternidade. Os critérios segundo os

quais sua resposta é acolhida e julgada são critérios divinos.

O tímido “sim” que ele pronuncia, cheio de reservas

interiores e envolto em mil perguntas, participa da grandeza e da

firmeza de um mundo que ele pisa e começa a conhecer pela mão

de Cristo — um mundo que, como homem terreno, ele ainda não

conhecia até então.

O “sim” é o Schibbolet que lhe garante a entrada. Essa

entrada é definitiva. Ele não pode avançar passo a passo, pois o

efêmero carece de critérios para compreender a eternidade, e o

eterno não é nem a soma de realidades finitas, nem o resultado de

uma série de esforços ou tentativas.

O perfeito e acabado se opõe ao que até agora era

pecaminoso, imperfeito, perecível. A resposta é enobrecida pelo

fato de ser ouvida na eternidade. O âmbito que foi preparado para

ela pelo amor trinitário de Deus é um âmbito infinito e eterno.

54


Por isso, o sim não pode se limitar a ser um sim apagado e

vacilante. Na eternidade, ele adquire a entonação que somente ao

eterno corresponde.

E aquele que entrou nesse novo âmbito, agora contempla o

que alcançou: teve coragem de escapar definitivamente da

segurança do cotidiano, dos cálculos de uma existência apática, da

rotina e do marasmo da vida, de tudo o que até agora constituía a

estrutura do seu mundo, onde havia desempenhado mais ou menos

o papel que correspondia à sua necessidade de reconhecimento e

tranquilidade, por meio de um “sim” que, no começo, considerou

apenas como algo secundário.

Desse modo, ficou sem pátria e indefeso. E, no entanto,

não precisa sentir o vertigem de quem cai no vazio, pois o que o

acolhe, o que o envolve, o que o configura, o que eleva o seu

espírito é o permanente: a própria Palavra.

Assim, daqui em diante, ele contemplará o mundo a partir

da Palavra. Sua caducidade se mostrará a ele de muitas maneiras.

Não apenas verá como passam os homens, as cidades, os

impérios e as culturas, mas, com certeza, perceberá também o

caráter efêmero de suas próprias atitudes e pontos de vista, e os

de muitos outros.

Não se trata de adotar uma postura negativa diante de

tudo, mas de aprender a estar consciente da incerteza que

acompanha toda escolha pessoal.

A muitas coisas que até agora havia dado um “sim”

vacilante e problemático, deverá dar, doravante, um sim radical. E,

em contrapartida, deverá dizer um “não” firme a muitas coisas às

quais antes dizia “sim”.

Aquela espécie de confiança em si mesmo que sempre o

acompanhava será substituída por confiança em Deus.

55


O que ele pensava, decidia, planejava para si e para os

outros perderá seu caráter unívoco e definitivo, pois os limites da

finitude terão desaparecido.

O que havia sido calculado em função do tempo, agora

deverá ser pensado em vista da eternidade.

Contudo, ele se encontra diante da eternidade como diante

de algo desconhecido. Pensar que entende algo da eternidade seria

uma temeridade, pois só é possível compreendê-la a partir da

perspectiva do Senhor.

Ele sabe, no entanto, que a partir de agora, em cada

confissão e comunhão, em cada sacramento, ele recebe a

eternidade de uma forma nova.

A eternidade de Deus o toca em algo que faz parte da

missão de todos os santos, e que lhe foi dado em posse, ainda que

ele não o tenha reivindicado de forma alguma; ao contrário, deveria

até negar claramente essa posse caso alguém quisesse estabelecer

uma relação entre eles e ele.

Ainda assim, isso lhe pertence, porque pertence a Deus, e

porque sua resposta agora se refere a tudo o que é Deus.

Também pode parecer a esse homem como se ele mesmo

não tivesse pronunciado o “sim”, como se Deus tivesse se utilizado

dele de forma totalmente casual, para ouvir — por meio de sua voz

humana — a dimensão divina do “sim”.

humor.

É uma fantasia de Deus, um jogo em que manifesta seu

Mas esse jogo acontece no interior da eternidade. O Menino

Jesus brinca com uma bola furada e abandonada, e, assim que

estende a mão para pegá-la, a contempla como se já não tivesse

nenhum furo e fosse perfeitamente útil para brincar.

A Deus agrada brincar de uma determinada maneira, e,

portanto, o brinquedo deve ajustar-se a ela. Não por meio de uma

56


modificação que esse “brinquedo” possa fazer de si mesmo, mas

por meio da exigência misteriosa e total do próprio Deus.

Pode acontecer que um pregador diga coisas que considera

importantes; talvez tenha em mente um ouvinte específico, a quem

sobretudo dirige suas palavras.

E então acontece o inesperado: uma palavra casual, dita

talvez de passagem, uma palavra que depois ele até esqueceu

completamente, foi ouvida e teve uma eficácia decisiva.

O “sim” que o homem pronuncia, a bem ver, não é idêntico

ao “sim” que Deus ouve, e assim revela quem o disse sob uma

nova luz: de fato, por meio desse “sim” escondido em Deus, ele

participa da Palavra do Senhor e, portanto, a torna sua.

b. Transformação da vida

O homem se encontra com a Palavra de Cristo e se

submete a ela. Renuncia a algo que desejava, de que dependia,

submete no Espírito um desejo desordenado, esforça-se por

adquirir um novo modo de pensar, chega até mesmo a dedicar

inteiramente sua vida à realização dos conselhos evangélicos. Ao

submeter-se assim, percebe o quão concreta a Palavra se tornou

para ele. Antes era uma palavra das Escrituras, uma palavra

dirigida a todos os homens; agora tornou-se a Palavra que o

Senhor lhe dirige pessoalmente, que o guia e intervém em sua

vida, que faz exigências onde menos se espera, que determina

tanto as pequenas coisas do cotidiano quanto as grandes decisões.

Antes, a Palavra tinha um som perceptível; agora

transformou-se em uma voz que fala aqui e agora, e somente com

esta pessoa concreta. Aquilo que o homem havia prometido de

modo genérico e irrefletido, agora lhe é exigido de forma concreta e

precisa. O cristão pertence a Deus, vive para Ele. Mas o que isso

significa, concretamente? A Palavra nos mostra isso, e aquele que

se submete a ela vive uma vida nova: a vida da Palavra. E porque é

57


vida, é algo concreto. E, sendo algo concreto e vivo, é onipresente

e tudo penetra. Estabelece novas normas, mas o homem não está à

altura delas; ele deve tornar-se inteiramente um servo do Espírito.

Então começa a perceber que, por meio da Palavra, foi

estabelecida a justa distância entre seu Senhor e ele. Esta distância

ele a conhecia de forma abstrata, e ela lhe parecia um muro.

Quando, em um caso extraordinário, chegava ao limite que lhe era

permitido alcançar, deparava-se com o desconhecido, com o

Senhor. Agora, essa distância significa plenitude — uma plenitude

visível, palpável, viva. Essa plenitude fez desaparecer o muro. A

distância tornou-se aquela realidade salutar que pode sempre ser

contemplada na oração e no trabalho.

A verdade — esta presença real da distância — tem um

significado tão profundo para a nova unidade entre aquele que diz

“sim” e o Senhor, que o próprio Senhor toma sobre Si tudo aquilo

que o homem não é capaz de fazer. A relação criada através da

distância faz surgir uma nova comunhão de ação entre o Senhor e

Seu servo, de tal forma que o homem já não precisa se preocupar

com a norma e pode deixar todas as coisas nas mãos do Senhor.

Ele faz o que a Palavra — e o compromisso exigido por ela — lhe

pedem; esforça-se por fazê-lo o melhor possível, e não precisa se

preocupar com o restante. De fato, isso não lhe pertence, pertence

à outra parte.

E, assim, a confiança e a fé, que pareciam coisas fixas e

imutáveis, são agora colocadas sob uma nova luz: a luz da

eternidade. Entre a graça e o mérito estabelece-se uma nova

relação; já não se podem traçar fronteiras fixas entre entrega e

acolhimento. A unidade de vida entre Pai e Filho, por meio do

intercâmbio do Espírito, abriu-se para o interior desta relação, de

tal modo que aquele que diz “sim” fica incluído no círculo do amor

absoluto.

Uma vez que o amor é intercâmbio eterno, o homem não

precisa se angustiar com sua missão; basta-lhe amar e ser amado

58


sem limites, pois a força do seu “sim” tem origem no poder da

Palavra do Senhor.

Se volta novamente às Escrituras em busca de uma

compreensão mais profunda das coisas, mil novas possibilidades se

lhe abrem para descobrir a Palavra em si, ao seu redor e em toda

parte — e de fazê-la vida. Sente-se assombrado diante de tanta luz

e tanto poder, e não entende como o mais insignificante pode

continuar subsistindo diante da realidade do eterno. Mal consegue

sair de seu assombro, pois, desde que ouviu a Palavra, tudo foi

transformado conforme o sentido da mesma e, em última instância,

também conforme a responsabilidade que o “sim” lhe impôs.

No meio do sofrimento, do cansaço e das lamentações, já

saboreia algo da beleza da vida eterna, da qual participa por meio

da Palavra. As paredes de seu quarto continuam as mesmas, assim

como o livro em que escreve e seu trabalho manual cotidiano. No

entanto, tudo mudou e se tornou algo diferente.

Ele também aprenderá a conhecer o cansaço, e, por

momentos cuja duração não depende dele, conhecerá a dúvida em

meio à sua ação e a tudo o que ela implica.

Apesar disso, ele sabe que o sentido está oculto — não nele

mesmo, mas na Palavra viva.

Evidentemente, ele não vê qual é a relação entre sua ação

insignificante e o sentido total, que reside em Deus; do ponto de

vista exterior, ele continua sendo o mesmo.

Ele só sabe uma coisa: que tudo foi superado na Palavra,

que toma tudo sobre si e se responsabiliza por isso.

Nota: O verbo alemão “aufheben”, aqui traduzido como

“superado”, pode significar tanto “anular” quanto “preservar”. O

contexto aponta para uma superação que não apaga, mas integra e

transforma.

59


c. Sintonizados com Cristo

O homem dá seu primeiro “sim” a partir da distância, como

se lançasse uma bola do tempo para a eternidade.

Deus acolhe a resposta que lhe foi lançada e a molda com

precisão. Por meio de sua graça e sua disposição para escutar o

homem, Ele concede à Palavra que o homem Lhe dirige uma

audibilidade, uma plenitude e uma amplitude tais que esta adquire

a dignidade de ser uma resposta válida à Palavra de Deus.

Por outro lado, o homem é arrastado por sua própria

resposta.

A tomada de consciência disso não está ligada, por

exemplo, à sensação de ter crescido aos próprios olhos.

Mas ele sabe que foi acolhido no âmbito divino, o que o

obriga ainda mais a orientar seu pensamento e sua ação segundo

Deus.

Ele deve voltar-se a Deus com todo o seu ser, e isso lhe

permitirá desprender-se cada vez mais de si mesmo; seu “eu”

deixará de existir, por assim dizer, porque Deus é, e o mundo

pertence a Deus, e sua resposta tem como destinatário o ser de

Deus.

O que ele faz não é importante por si mesmo, mas porque

Deus lhe exige fazê-lo. Houve uma mudança de plano.

Sua participação na Palavra divina implica não apenas uma

transformação nos critérios de julgamento, mas também de suas

experiências pessoais.

Antes, ele conhecia bem a alegria e o sofrimento; mas, de

agora em diante, ambas as coisas serão definidas em função da

alegria e do sofrimento do Senhor.

As coisas que tocam seus sentimentos deixam de obedecer

a normas exclusivamente humanas, centradas no “eu”, mundanas.

60


Reino.

Doravante, devem ajustar-se ao critério de Deus e de seu

No fundo, não se trata de derramar lágrimas ou de estar

contente, mas de experimentar a objetividade do divino em e

através de todo sentimento pessoal.

Sua experiência e sua participação conservarão toda sua

autenticidade, mas já não estarão subordinadas às suas

circunstâncias pessoais; ao contrário, é próprio da nova vida

aprender a ver tudo aquilo com que deve ocupar-se interiormente a

partir de uma perspectiva justa.

Sua capacidade de discernimento não será diminuída por

isso, mas sua atitude sempre aberta e sua liberdade de confronto o

ajudarão a perceber a objetividade que vem de Deus.

Como ele se desprende de seu “eu”, sua necessidade de

objetividade se torna cada vez maior.

E isso não apenas por causa do seu zelo, seu desejo pelas

coisas divinas, seu amor ao mistério trinitário, mas também porque

cresce nele a exigência de uma verdade objetiva.

E Deus está disposto a conceder-lhe essa objetividade em

abundância.

De todo modo, a vida do crente é curta demais para que ele

possa elaborar, sequer superficialmente, tudo o que recebeu de

Deus.

Ele continuará recebendo novos dons, e, através deles, sua

riqueza espiritual será cada vez maior.

Mal perceberá a transformação que está acontecendo em si

mesmo, e apenas verá que os dons de Deus aumentam de modo

palpável.

Pode ser que isso lhe pareça excessivo, mas essa

experiência do desmedido talvez também seja algo querido por

Deus.

61


De fato, isso é um sinal de que a resposta do homem foi

realmente assumida na Palavra, e que esta não se limita a ajustarse

à resposta, mas continua sendo vida divina, molda aquela

resposta segundo sua própria forma, e a torna capaz de servir

segundo o seu conceito de serviço.

As coisas mais insignificantes, que o cristão nunca

acreditou possuir, as coisas esquecidas, desconhecidas, agora

podem adquirir sentido no interior da plenitude da Palavra.

Também a vida sacramental e a oração sofrem uma

transformação. A comunhão se converte em uma alegria dentro da

alegria do Senhor que se comunica. A confissão se transforma em

uma penitência dentro do Senhor que sofre por nós na cruz.

A oração se torna, antes de tudo, acolhimento do Senhor

que se revela. Tudo adquire o lugar que lhe corresponde dentro da

Palavra Divina e, nela, tudo se torna intercâmbio e referência

recíproca.

A própria Palavra realiza e regula esse intercâmbio e o

enche de sentido, de tal maneira que os conceitos não se

confundem, mas surge uma clareza maior.

A relação entre um sacramento e outro, entre uma forma

de oração e outra, entre um modo de serviço e outro, se torna mais

clara, a ponto de que tudo o que é subjetivo também se esclarece

sob uma nova luz: a luz da eternidade.

Ora, essa luz e essa clareza criam novas obrigações, e o

cristão deve reiterar seu “sim” com uma autenticidade cada vez

maior. Cada “sim” deve ser mais verdadeiro que o anterior, pois a

Palavra se aprofunda cada vez mais na resposta; onde Deus dá

mais, também exige mais.

No entanto, em sua oração ou em seu serviço, o homem

não pode se perder, pois é guiado por Deus. Deus o guia em todas

as suas ações.

62


E essa guia é necessária, sobretudo, para viver segundo os

conselhos evangélicos. O cristão não precisa fazer grandes

reflexões sobre como obedecer. Tem diante de si o modelo do Filho.

Também não precisa desenvolver teorias sobre a obediência

do Filho; ele a vê diante de si em toda a sua concretude e pode

realizá-la em sua própria vida, sem esquecer, por outro lado, que a

obediência do Senhor é perfeita e não pode ser comparada à sua.

Tampouco precisa calcular a distância entre a obediência

perfeita do Senhor e a sua, que é imperfeita. É justamente esse

“não calcular” que permite ao homem mover-se em direção ao

Senhor e tentar imitá-lo.

Não há nenhum sistema que nos permita superar

gradualmente essa distância. De fato, nos degraus costuma-se

descansar; acredita-se ter alcançado algo, olha-se para trás e para

frente, e tenta-se saber onde se está.

Em contrapartida, quem está em movimento não se detém

para calcular, pois cada segundo que passa o coloca em um lugar

diferente. Basta-lhe saber que está se movendo.

Deus está sempre adiante, e ele se sabe a caminho de

Deus. Por isso, sabe também que sua resposta penetra na Palavra,

e esta é suficientemente rica para levar toda resposta à sua

plenitude.

63


Capítulo 7

A SITUAÇÃO DO MUNDO

a. A criação para o Filho e a esperança

O mundo foi criado pelo Pai para o Filho; assim o Pai

Criador manifesta seu amor ao Filho. O mundo, em toda sua

frescura e vivacidade, tal como saiu das mãos do Criador, era puro

e livre. Mas Adão abusa da liberdade que lhe foi concedida e se

afasta de Deus. E, nesse afastamento, arrasta consigo toda a

criação. A humanidade luta para encontrar seu lugar próprio,

dilacerada entre seu afastamento subjetivo de Deus e seu destino

objetivo permanente de ter sido criada para o Filho. Mesmo depois

da vinda de Cristo à Terra, essa cisão continua no homem, e até se

torna maior, à medida que as exigências de Deus se manifestam. A

Palavra de Deus foi anunciada, mas o homem não quer encontrarse

com seu Deus, pois está cheio de angústia e não está disposto a

fazer o que realmente deveria fazer, isto é, escolher conforme seu

destino original. Desse modo, renuncia também ao conhecimento.

Evidentemente, muitos se privam dele apenas por

ignorância ou por um saber insuficiente. Ouviram dizer que existe

um Deus, que falou, que Se denomina o Deus do amor, mas que

também impõe grandes exigências ao homem. Por meio dessas

duas coisas, esse Deus coloca o sentido da existência além da

finitude. No entanto, os homens recuam diante disso. Eles exigem

que a religião não interfira nos valores e proporções mundanas.

Assim, surge uma espécie de luta competitiva entre a voz do

homem, que se eleva cada vez mais para silenciar a de Deus, e a

voz de Deus, que conserva sempre seu volume divino. Quanto mais

o homem quer decidir sobre seu destino, e, com isso, sobre seu

passado e seu futuro, mais facilmente cai nas limitações deste

mundo, e mais pequeno o todo se torna para ele, enquanto que o

que é maior é considerado absurdo e, por isso, descartado. O

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homem prefere passar por qualquer coisa antes que por absurdo. E

se ele mesmo já aprendeu pouco sobre Deus, prefere que seus

descendentes saibam ainda menos.

No entanto, queira ou não, há momentos em que o homem

se depara com certas coisas que escapam à sua própria esfera de

ação e competência, pois parecem provir de outro mundo. Ele as

nega, mas elas se manifestam repentinamente como existentes. E,

porque todas as coisas foram criadas para Deus Filho, essa voz do

além pode provir até mesmo de uma coisa, de um acontecimento,

de uma iluminação, de um “quase nada” que, no entanto, é algo —

pois, sendo criado para Deus, tem um sentido, e é justamente esse

sentido que agora tenta se revelar a nós. Não se trata de um “Deus

em todas as coisas”, mas de um “todas as coisas para Deus, para

Cristo”, ou seja, as coisas atuam para nós como guia, adquirem

uma função orientadora. O homem precisa de inúmeros guias para

conhecer o caminho, ou melhor, para vislumbrar que existe um

caminho que conduz nessa direção. Trata-se do caminho próprio do

mundo, daquele que deve levá-lo ao seu destino último, mas esse

caminho segue em sentido contrário à situação do mundo;

comporta-se em relação a ela como o ativo em face do passivo, a

vida frente à morte, a obediência e o amor diante do abuso e da

culpa. O destino de todas as coisas no Filho é uma realidade sólida,

vigorosa, indiscutível — embora possa também parecer dura,

áspera, inexorável. O homem deve aceitar sua inalterabilidade; não

pode destruir tal rocha. É a rocha primordial do ser mundano, a

força criadora de Deus. O caminho da obediência foi traçado antes

que o homem existisse no mundo. E os acessos a esse caminho não

são muitos.

Mas o homem se habituou a ver as coisas do mundo com

os olhos da recordação e a julgá-las a partir de seu “ter sido”, em

vez de contemplá-las com uma atitude criadora, voltada para

frente, para o seu destino. Assim, seu espírito perde o contato com

o ato criador de Deus e pretende criar a partir do que já foi — o

que, enquanto tal, é algo petrificado e invariável, e talvez até

65


mesmo corrompido. Antes, deveria aprender a encontrar-se com

Deus, a criar ali onde acontece o ato criador divino, ali onde as

coisas têm seu destino: no futuro, na esperança. O desespero da

situação do mundo consiste no fato de que a recordação usurpa o

lugar da criação, de que a liberdade ficou para trás do homem,

porque ele não quer vê-la diante de si. Desse modo, permanecendo

no pecado, o homem inverteu os sinais dos tempos: substituiu o

futuro pelo passado. Mas em Deus esses sinais permanecem

inalteráveis, e o crente só precisa ater-se ao tempo próprio de Deus

para encontrar nas coisas o caminho que leva a Ele: é o caminho

que vai do eu ao futuro, do desespero à esperança, da putrefação à

nova vida.

Quando o homem começa a refletir sobre seu destino, ao

transformar sua própria situação, também transforma a situação do

mundo. É como se recuasse milhares de anos e saísse de uma

prisão mal ventilada para o ar fresco, para o lugar onde Deus Pai

passeia pelo Paraíso, para o lugar onde se ergue a cruz e se

encontram a ressurreição e a salvação. O Pai criou todas as coisas

para o Filho, e este as conduziu de volta ao Pai por meio da

redenção; o círculo do amor está garantido no Espírito Santo e se

torna cognoscível e acessível para nós na fé.

Mas até agora não fizemos referência à situação do mundo.

Cada um de nós vive no meio do mundo. Ora, a conversão não

consiste em voltar-se para Deus e ao mesmo tempo dar as costas

ao mundo. Com efeito, estamos no mundo e fazemos parte dele;

quando modificamos nossa orientação, algo também muda no

mundo. No momento de nosso encontro com Deus, não podemos

esquecer o destino de todos os demais homens. A unidade de todos

os homens foi sublinhada pelo Senhor por meio do mandamento do

amor ao próximo. Nosso próximo é todo o mundo.

Por conseguinte, em nosso caminho pessoal rumo a Deus,

devemos sentir-nos acompanhados por toda a humanidade.

Certamente, ninguém — nem mesmo um Francisco Xavier — pode

converter todos os seus irmãos. Mas, seguindo o espírito da missão

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carmelitana, devemos levar o mundo conosco, a fim de que

também ele encontre a Deus. E o levaremos conosco em todos os

atos da vida cotidiana, mas sobretudo na oração — ali onde ocorre

o encontro mais profundo com Deus e o sentido das coisas aparece

com toda clareza; ali onde ainda vive a pureza, e, a partir da

pureza do intercâmbio amoroso entre as divinas pessoas, é possível

salvar o mundo.

Salvar o mundo como totalidade, como soma de todos os

indivíduos que, por meio do Filho e no Espírito, retornam ao Pai —

na simultaneidade da antiga e da nova criação. E dizemos nova

criação porque a obra da salvação repousa sobre a ressurreição. A

antiga esperança das coisas, a antiga promessa da criação,

cumpre-se de modo milagroso, à medida que o mundo passa pelas

mãos do Deus uno e trino.

b. Levar o mundo a Deus

Quando o homem começa a pensar, ele de algum modo

imagina o que será ao chegar à idade adulta. Gostaria de escolher

tal profissão, possuir aquela casa, exercer sua liberdade deste ou

daquele modo. Seus planos ocupam boa parte de suas reflexões.

Ele tenta reunir todos os ensinamentos e experiências que seus

anos juvenis lhe oferecem, aproveitá-los e, sobretudo, escolher de

tal maneira que tudo se ajuste à imagem de futuro que projetou.

Se foi educado na fé, sua forma peculiar de crer

influenciará seus projetos; com frequência, ainda na juventude, ele

está consciente de que foi criado por Deus para uma finalidade

determinada, de que deve realizar algo que, sem dúvida, pode

estar fora de seus cálculos humanos, mas está dentro do plano

divino.

Ora, quando compreende que deverá prestar contas diante

do Deus que o criou, torna-se inevitável a confrontação entre seus

próprios planos e os de Deus.

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Nessa confrontação surgem pontos de atrito. Se ele tem

uma fé viva, chegará o momento em que abandonará seu próprio

projeto em favor do plano divino, a fim de um dia poder responder

diante de Deus.

Mas, mesmo ao fazer isso, ele precisa contar com o mundo

que o rodeia, com sua imensa riqueza e diversidade, sua ruína e

seu anseio de salvação, seu distanciamento de Deus e seu desejo

de encontrá-lo. Ele está no meio desse mundo — ambas as

realidades devem confrontar-se, e não é fácil harmonizá-las. A

realidade (mundo) não pode negar que a realidade deste homem

concreto está ali, e o homem, enquanto indivíduo singular, não

pode pôr em dúvida a realidade plural do mundo. Sua entrega a

Deus deve ter como pano de fundo, se não como pressuposto, o

reconhecimento de que o mundo é obra de Deus, o assumir o

mundo pecador, a tomada de consciência de seus avanços e

retrocessos, de sua orientação e de seus esforços.

O homem não alcançará seu objetivo sem afirmar o

existente, de tal maneira que conheça também ali o “não” da

distância, do temor, da aversão. Mas seu “sim” é tal que, através do

mundo, o conduz a Deus; para ele, o mundo pode ser o deserto ou

a solidão do claustro, e sua contribuição pode limitar-se à oração e

expiação vicária; mas o mundo está sempre ali. Esse “estar ali” é

também configurado pelo presente histórico em que cada um está

situado.

Que o mundo existe — isso é uma verdade, mesmo que

essa verdade esteja composta de evidentes mentiras e se esquive a

toda intervenção cristã: enquanto verdade existencial, remete

diretamente à mão de Deus.

Pode ser que essa verdade remeta urgentemente às

falsidades da situação mundana, aos falsos problemas e situações,

aos perigos que a mentalidade humana provocou, aos problemas

surgidos com a técnica e com o futuro, que se tornam cada vez

mais graves para o mundo, e cuja solução este não pode deixar de

buscar.

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O cristão que, através da oração, tem diante dos olhos o

sublime âmbito do amor de Deus, deve aprender, no entanto, a

conhecer a Deus também através desta situação do mundo, e, para

além de todos os véus e mentiras, olhar para a única Verdade. Mais

ainda, ele deve saber que, enquanto ora sozinho, de olhos

fechados, em uma atitude de entrega a Deus, não experimenta a

Deus nem mais nem menos do que nas tarefas que o mundo lhe

impõe.

Deus pode querer encontrá-lo na cela de um claustro, mas

também pode colocá-lo no meio da agitação de uma ocupação

técnica; pode querer encontrá-lo ali e não aqui, mas também pode

fazer o mesmo em um lugar como em outro. A vida enclausurada

não é nenhum anacronismo; tanto ela como a vida no mundo são

hoje queridas por Deus.

Deus pode conduzir uma pessoa à solidão das montanhas,

para que ali seja adorado por ela; mas também pode colocá-la,

junto a inúmeros companheiros anônimos, no meio do ruído de

uma fábrica em uma grande cidade. Se Deus não hesita em colocar

o homem em situações tão opostas, é porque Ele, o Onipresente,

pode encontrá-lo em todos os lugares.

Mas o homem, para não ter uma imagem demasiado

estreita de Deus, deve esforçar-se para não formar uma ideia

antropomórfica d’Ele, e, ao mesmo tempo, deve contemplar e

reconhecer as imensas possibilidades e formas de manifestação do

Deus uno e trino.

Ora, esse conhecimento só tem valor se for colocado em

seu devido lugar, no que se refere à finalidade do mundo e da vida

humana, se tornar o homem mais capaz de encontrar Deus, tal

como Ele se manifestou em Cristo.

Se Deus nos fala, nosso papel é simplesmente encontrar o

lugar em que sejamos capazes de ouvir sua voz.

Deus interpela cada um de nós pessoalmente; Ele se dirige

a nós como Palavra, mas, na medida em que o ouvimos

69


pessoalmente, devemos fazer com que sua voz também chegue ao

nosso entorno.

Isso estará garantido, sobretudo, se nossa atitude atestar

que O ouvimos e que encontramos o caminho que conduz

diretamente a Ele.

c. A Igreja no mundo

Para o mundo, as palavras de Cristo constituem uma

paradoxo; seus preceitos são contrários ao que os homens

consideram prudente e proveitoso. O que essas palavras prometem

é sempre algo que vem do céu e conduz ao céu; em contrapartida,

as ações dos homens que vivem no pecado e na incredulidade

levam à perdição eterna.

Céu e inferno constituem sempre a última alternativa, e

todo diálogo entre Deus e o pecador ainda não convertido está

orientado para deixar essa disjuntiva claramente colocada.

Mas o Senhor não lançou sua Palavra ao mundo incrédulo

deixando-a desamparada diante dele, e sim, fundou sua Igreja no

interior do mundo. A Igreja tem uma face voltada ao mundo —

mais ainda, ela mesma é uma janela aberta ao mundo, a fim de

que este possa entrar no santuário divino, onde se celebra o

mistério do pão e do vinho.

Reunida em torno desse mistério, a Igreja é una na fé, na

esperança, na caridade e na ação — uma unidade cuja origem é

totalmente celeste, de modo que, ao incorporar-se a ela e

contribuir com ela, o homem encontra o céu.

E Deus não edificou sua Igreja para que fosse acessível

apenas a alguns poucos eleitos que vivem na pureza da fé, mas

sim, a construiu como um lugar público, aberto a todos, próximo do

caminho por onde passa toda a humanidade, para que aquele que

quiser entrar, possa fazê-lo.

70


Fora dela está a negação de tudo o que é eterno; dentro

dela, a incorporação de tudo o que é perecível ao mundo do Deus

infinito.

A Eucaristia é o acontecimento íntimo através do qual a

Igreja torna-se sempre nova e se dá a conhecer; mas também

todos os ministérios divinos e os demais sacramentos são encontros

com o Senhor, que se entrega a Si mesmo, que remete à Sua

paixão redentora e concede aos seus o Espírito Santo, enviando-os

ao mundo.

Eles devem anunciar a Palavra ao mundo e converter os

pecadores. Assim, a Igreja é o lugar de encontro entre o Senhor e o

pecador, entre a graça divina e o mundo. E justamente porque é

Deus quem aparece nesse lugar, o acontecimento é sempre

perturbador e transcendente.

No entanto, a Igreja também é um lugar mundano: um

lugar de reunião dos cristãos, visível também para todos os demais

homens, e deve servir como um alerta para eles.

Por meio do culto divino, da escuta da Palavra e da oração

comunitária, os próprios cristãos recebem a exortação de ser, por

sua vez, uma exortação para o mundo.

Devem mostrar o que receberam, revelar o mistério que

vive escondido neles; devem realizar reiteradamente e de maneira

visível, por meio do seguimento, o chamado único que o Senhor

lhes dirigiu.

O que é irrepetível e o que é reiterado se referem

reciprocamente entre si e se fundem um no outro. De fato, no

homem que o encontra, o Senhor não vê apenas o pecador

absolvido, mas também o irmão que participa da Sua vida.

Assim, Ele conferiu à Sua Palavra, proferida na Terra uma

vez por todas, a expansividade do que é sempre vivo e eterno. Sua

Palavra vive porque Cristo vive, e Ele não cessa de anunciar a

Palavra proferida uma vez, com o mesmo rigor de então; Suas

71


palavras nos parecem presas ao tempo, porque as compreendemos

no tempo, mas nossa compreensão é gerada por sua ligação com a

eternidade.

Somos tocados, feridos pela Palavra. Mesmo que

quiséssemos, já não poderíamos viver fora dela. Ao chegar à

Igreja, éramos como frutos de casca dura; a Palavra quebrou essa

dureza, e agora já não temos certezas, e somos ao mesmo tempo

sensíveis e insensíveis.

Sensíveis, porque percebemos por toda parte as marcas da

Palavra e já não conseguimos mais viver imersos numa

mundanidade ingênua. Insensíveis, porque os estímulos do pecado

já mal nos afetam — não porque tenham se enfraquecido, mas

porque já não despertam nosso interesse, enquanto, por outro

lado, a proteção divina está presente em nós.

Em cada encontro com Ele, Deus nos dá uma lembrança,

um presente, que nunca é algo morto, mas sim a Sua Palavra viva.

Escutamos essa Palavra na Igreja, a encontramos em toda

a sua vivacidade até mesmo dentro de nós, sempre que abrimos a

Escritura ou nos voltamos para a Palavra na oração.

A oração se torna encontro com o Senhor, cuja Palavra

pode chegar incessantemente a nossos ouvidos. Somos

interpelados pessoalmente e devemos dar uma resposta pessoal, e

é por meio dessa dupla relação pessoal que a Palavra atua no

homem, até que se forme o homem verdadeiramente eclesial.

A obra que o Criador considerou boa no princípio e que o

Filho redimiu na cruz, é continuada por Deus em cada encontro, em

sua dimensão salvífica, a fim de que não apenas a realizemos em

nós mesmos, mas também sejamos instrumentos dóceis nas mãos

de Deus para a sua obra no mundo.

Pois bem, a oficina de Deus é a Sua Igreja.

72


Capítulo 8

O TRABALHO

a. O sentido cristão do trabalho

Quando Deus expulsou o homem do Paraíso, impôs-lhe

como castigo a obrigação de trabalhar. O homem cultivará a terra

com o suor do seu rosto, mas ela lhe dará espinhos e abrolhos.

Somente no contexto desse afastamento do homem e da natureza

em relação a Deus é que o caráter penal do trabalho adquire pleno

sentido. Também na Antiga Aliança o trabalho — inclusive o do

sacerdote — deve ser interpretado a partir desse distanciamento do

homem de sua origem divina.

Somente por meio da encarnação de Deus em Cristo o

trabalho adquire um novo sentido, e a distância torna-se algo muito

diferente. Na medida em que o Filho se torna operário de Deus, o

trabalho realizado pelo homem e as coisas transformadas por meio

dele (entre as quais podemos incluir a própria ideia do trabalho)

voltam a se orientar diretamente para Deus. Tudo o que procede do

Pai foi incluído pelo Filho em seu plano salvífico e recebeu, a partir

dele, um novo sentido: o sentido conferido pela redenção.

A vida do Senhor constitui uma unidade: o trabalho manual

do jovem Jesus, o labor árduo realizado ao longo de sua vida

pública, o penoso caminho da cruz que desemboca na ressurreição

e na ascensão — tudo isso forma claramente uma unidade e

constitui um caminho de retorno do homem a Deus, no qual nós,

seres humanos, somos conduzidos pelo Filho do Homem à sua

própria divindade, ao Pai e ao Espírito. Nada do que Cristo realiza,

Ele realiza sem nós; Ele nos leva sempre consigo.

O trabalho cristão busca ter consciência disso. O homem

pode oferecer seu trabalho a Deus como um dom; em cada esforço,

por mais insignificante que seja, pode estar seguro de que Deus

73


acolhe a obra de suas mãos e de seu espírito — e que,

compreendido assim, o trabalho nunca é inútil, pois nada do que

está orientado para Deus é estéril. O sentido do trabalho tem suas

raízes na eternidade, e esse sentido lhe foi conferido por meio da

ressurreição e da ascensão de Cristo.

Quando Cristo morreu, deixou atrás de Si apenas alguns

cristãos; depositou na terra uma semente cujo fruto mal era

perceptível. Se se compara a divindade de seu ser, de suas palavras

e de suas ações com o que Ele realizou durante sua vida terrena,

chega-se facilmente à conclusão de que isso último, no máximo, foi

inútil.

No entanto, Ele nos amou a todos até a morte, e morreu na

cruz por nossos pecados; esse amor é inseparável daquele amor

que o conduz de volta ao Pai. Ele nos amou a todos na unidade do

amor divino, que é a maior de todas as realidades.

Os poucos discípulos que Cristo deixou atrás de Si são

como uma garantia visível que o Pai lhe dá; é nisso que Cristo

reconhece que o Pai o deu a todos os homens. Todos são operários

desinteressados, e cada um trabalha à sua maneira, segue —

paciente ou impacientemente — o preceito do Pai, que impôs ao

homem o peso do trabalho.

À pergunta sobre se o trabalho transformou essencialmente

a situação da terra ou se, ao contrário, se tornou uma ameaça para

ela, não se pode responder a partir de uma perspectiva mundana.

Mas, certamente, o trabalho adquiriu pleno sentido enquanto

castigo e enquanto caminho para o Pai através da paixão do Filho.

Somente no interior da fé o trabalho adquire sentido:

é um caminho que representa uma promessa que se cumpre,

um castigo que leva à absolvição, o sinal de uma confissão

interminável, que é acolhida na graça.

Através do trabalho, o homem confessa seu distanciamento

de Deus, seu pecado original, que nunca superou definitivamente,

mas também todo pecado atual.

74


No entanto, o trabalho do homem nunca alcança aquele

poder irradiador que o sacramento da penitência possui e concede;

é, acima de tudo, uma obra imperfeita.

Por isso, seria imprudente estabelecer uma conexão

demasiado estreita entre o trabalho e o sacramento.

O sacramento é uma criação pura do amor divino, de sua

plenitude eterna e misteriosa; por outro lado, por trás de todo

trabalho está o pecado, é evidente que o trabalhador é um pecador,

ainda que sua mente esteja orientada para a graça.

O trabalho humano está cheio de falhas e erros;

apenas em raras ocasiões uma pessoa consegue irradiar graça por

meio do trabalho — por exemplo, ao pintar um quadro ou compor

uma música da qual emana um sentimento de júbilo, e não o

suspiro do esforço, o cansaço ou o sentimento de dúvida.

Também a Igreja, enquanto instituição, realiza o seu

trabalho. Nela se administra o sacramento da confissão, que

constitui um “trabalho” tanto para o pecador quanto para o

sacerdote com quem ele se confessa.

A pregação da Palavra e a administração dos sacramentos

são um trabalho realizado por toda a Igreja. Nela também se

realiza o trabalho de seguir os mandamentos de Deus.

Deve-se amar a Deus e ao próximo, e esse amor é

trabalho. Um trabalho que agrada tanto ao Deus uno e trino, que

sua dimensão penal é superada para sempre pela graça.

Em inúmeros lugares, foram espalhadas sementes de

trabalho, cujo fruto é o amor de Deus. Quase se poderia dizer que o

trabalho é apenas a forma, enquanto o conteúdo é o amor, e esse

conteúdo é sempre oferecido por Deus.

Quando o sacerdote — e todo aquele que constrói

seriamente na Igreja, e trabalha de verdade desde a base — não

chega a ver o resultado de sua obra, é porque os frutos só se

manifestam no Reino dos Céus, em função do qual ele trabalha, e

75


cuja semente ele tenta introduzir na terra com todas as suas

forças.

Naturalmente, nem todo aquele que realiza seu labor na

terra pode conhecer o sentido último de seus esforços.

Mas a Igreja o conhece, pois por estar tão próxima de Deus,

vislumbra algo de seu mistério.

Enquanto instituição, ela sabe algo d’Ele; mas os homens

que vivem nela o conhecem, enquanto ainda fazem parte da Igreja

terrena, através da comunhão celeste dos santos.

Apenas em raras ocasiões uma pessoa que trabalha sobre a

terra e participa ocultamente da plenitude do Reino dos Céus por

meio dos sacramentos, compreende algo do sentido de seu trabalho

à luz da graça.

É como se, por um momento, saísse das sombras para a

luz do sol, para então voltar a caminhar entre as sombras.

O trabalho é escuridão, mas uma escuridão na qual, a

qualquer momento, pode irromper um raio do sol ardente e

iluminar tudo.

Aquele que adota uma profissão — ainda que seja a de

seguir plenamente a Cristo —, sendo idôneo para ela e estando

disposto a dar seu "sim", só pode fazê-lo se se submete à

obrigação fundamental que é o trabalho.

Sem dúvida, ele pode experimentar a alegria do trabalho

realizado e fazer a descoberta feliz de que todas as coisas do

mundo foram criadas para o Filho, mas não pode se esquivar da

marca do pecado original. Caminhará rumo à cruz e deverá reunir

agradecidamente todas as partículas de cruz que o Senhor lhe

concede.

A fé em Deus e o amor a Ele são coisas tão sublimes que o

homem jamais chega a realizá-las plenamente. Quando acredita ter

chegado ao fim, uma nova porta se abre diante dele, revelando que

ele ainda está apenas no vestíbulo.

76


Essa infinitude não deve ser motivo de angústia para o

homem, pois é como uma marca distintiva, já que Deus, o

Inabarcável, se revela ao homem tal como é em Si mesmo. E o

homem, assim introduzido no conhecimento de Deus, deve

compreender, em cada situação, o que lhe é mostrado, a fim de ser

capaz de transcender a si mesmo e contemplar a grandeza divina.

Deus quer conduzir consigo o homem, com tudo o que ele

faz, com seus trabalhos mais importantes e também com os mais

insignificantes. Quando uma pessoa se propõe a realizar algo que

possui verdadeiro valor, ela está consciente de que sua vida não

será suficiente para concluir tal tarefa.

Mas se ela se propõe a fazer algo de menor importância —

que, por outro lado, lhe parece mais adequado —, então sua obra

sempre se moverá nesse nível e ela nunca estará satisfeita por

causa do caráter limitado dessa obra.

Os limites que ela mesma impôs recaem novamente sobre

si como um fardo. Somente quando ultrapassa sua intenção de

realizar algo satisfatório do ponto de vista terreno e se abre a

Deus, o seu trabalho pode adquirir sentido.

Trata-se de um trabalho no interior da imensidão de Deus,

e sua norma, sua meta, e seus limites são estabelecidos por Deus.

E quando Deus mesmo se ocupa do trabalho do homem, Ele o faz

enquanto Deus, e na medida em que Sua infinitude se inclina para

o homem e o encontra, Ele o eleva junto com seus projetos e suas

obras, e o introduz no amor divino.

Aqueles aspectos do trabalho terreno do homem que

pareciam ter alguma importância, agora aparecem pela primeira

vez em sua verdadeira grandeza, pois estão repousando em Deus,

e Ele confere às obras do homem uma atenção que não se poderia

esperar, dado o caráter perecível delas.

Todas essas vacilações deveriam levar o homem a adotar

uma atitude de profundo respeito. O homem irrespeitoso cria suas

77


próprias normas de maneira arrogante, segundo seus próprios

critérios.

Mas aquele que ama com reverência se curva diante do

mistério de Deus e entrega em Suas mãos seus projetos e

realizações. E Deus conduz tudo a uma unidade, àquela harmonia

entre o fruto do mundo e Seu próprio ser divino, que só Ele é capaz

de estabelecer.

Quando Deus Pai envia o Filho para realizar no mundo Sua

própria obra, não o separa da unidade, mas, a partir da unidade do

Deus trinitário, o envia ao mundo para que, por sua vez, retorne a

essa unidade.

O trabalho de carpinteiro que Jesus realiza é feito em

função de Deus. Quando Jesus se propõe a terminar hoje uma viga

e amanhã consertar um utensílio, tudo isso faz parte do plano

divino.

Ele sabe que o Pai conta com isso e o necessita para Seus

desígnios. Daí que cada homem pode executar seu trabalho à

imitação do Filho e junto com Ele, a fim de incorporá-lo, por meio

d’Ele, à obra do Deus uno e trino.

O sentido último do trabalho está em Deus, e a grandeza

da ação humana consiste em sua orientação para Deus.

Visto que o homem é imagem de Deus, deve realizar todas

as suas obras para Cristo e com Cristo, e assim, lhes conferirá o

brilho do eterno, que procede da fé.

Até mesmo o mais insignificante trabalho cotidiano,

infinitamente disperso e jamais concluído, adquire em Deus um

sentido acabado e integral, pois Deus é o princípio e o fim de todas

as coisas.

Assim, o tempo é englobado em Deus, e o tempo efêmero

em que o trabalho se desenvolve está inserido na eternidade.

78


Tudo o que conta e é contado, mede e é medido, participa

do imperecível. Quando o homem não está disposto a assumir

sobre si o peso do trabalho, ele perde um caminho essencial de

acesso à eternidade.

Rejeita uma forma de seguir a Cristo e de entrar em

comunhão com Deus.

Por outro lado, quando trabalha com a atitude de um

crente, como alguém que se submete a Deus, na medida em que

entrega todo o seu trabalho em Suas mãos, esse trabalho se

tornará expressão de sua fé e de seu amor, e Deus não frustrará

suas esperanças.

b. O trabalho como expiação em Cristo

O fato de que Deus tenha criado o mundo para o Filho pode

ser entendido a partir de duas perspectivas complementares. Por

um lado, nos encontramos com o fato da criação, que implica um

trabalho por parte de Deus; por outro, com o propósito divino de

entregar tudo ao Filho. Não há dúvida de que a ação de Deus é

unitária; no entanto, por meio de nossa meditação, podemos

distinguir dois aspectos fundamentais dessa ação: o fazer e o "fazer

para". Por outro lado, é essencial para nós que Deus tenha

realizado esse trabalho antes de nos impor o trabalho como pena.

Seu trabalho, mesmo no que diz respeito ao descanso do sétimo

dia, reúne todas as características que o credenciam como tal. Tem

pleno sentido como ação e, sobretudo, como desígnio.

Quando, após a queda original, o homem tenta trabalhar

novamente para Deus, pode tirar fôlego e energia da criação do

mundo por Deus — que lhe oferece o modelo a ser seguido — e

talvez até mais do desígnio do Pai: doar seu trabalho, não colher

para si mesmo o fruto desse trabalho, mas, antes, entregá-lo ao

Filho. Se o homem agir assim, criará uma obra que o transcenderá

e que, em última instância, não está destinada a ele, mas ao reino

de Deus.

79


Assim, o trabalho descreve uma curva, percorre um ciclo

cujas medidas se situam no infinito. Desde o momento em que

Deus colocou o homem no mundo, Ele o colocou em conexão com a

eternidade, na medida em que foi criado para o Filho. O trabalho

humano, que, devido à sua irrelevância ou sua orientação

puramente terrestre, ficasse alheio ao grande ciclo dos desígnios

divinos, não deveria ser considerado como expiação, mas como

pecado. Seria uma ação em desobediência que, ao ser privada de

seu fim último, ficaria incompleta e, consequentemente, desprovida

de sentido.

Quando Deus Pai expulsou o homem do Paraíso, já tinha

presente a futura redenção no Filho; e o jugo do trabalho, que

sobrecarregava o pecador, se tornou já, aos olhos de Deus, um

caminho para o Filho. Um caminho de arrependimento. Um

caminho para a penitência — certamente, na medida em que o

Filho instituiu a penitência como fim do caminho — mas também

porque o trabalho encerra em si uma confissão involuntária do

pecador: ele deve assumir o pecado original para alcançar o que

Deus lhe reservou. Esta confissão, por mais incompleta que seja,

carrega, no entanto, os vestígios da compreensão que Deus deseja

ver em nós: se realizamos nosso trabalho, Ele verá que aceitamos o

castigo e, assim, já estaremos no caminho de retorno para Ele.

E, dado que o trabalho adquire um sentido pleno e

absoluto, tudo o que o homem faz pode ser relacionado com esse

trabalho. Seu diálogo com Deus na oração e tudo o que é realizado

nesse espírito de oração é também, em última instância, uma

atitude de submissão à lei do castigo e, portanto, um acesso à lei

da graça. Um monge pertencente a uma ordem contemplativa

experimenta com toda clareza até que ponto as horas de oração,

por exemplo, as do ofício divino, caem sob a lei do trabalho; um

pároco também entende até que ponto são trabalhos árduos as

horas no confessionário ou as dedicadas à direção espiritual. O que

ora realiza um trabalho fatigante e suporta o esforço que o

acompanha. Compreende facilmente que essa ação tem um caráter

80


expiatório. Dessa forma, cada crente, qualquer que seja o trabalho

que realize, pode participar da obediência do monge ou do pastor

na medida em que suporte a tarefa que lhe foi atribuída em um

espírito de oração. Na fé, cada forma de trabalho está em harmonia

com todas as outras. Em primeiro lugar, os trabalhos do mesmo

grupo profissional ou industrial, depois, todos os grupos entre si;

todos pertencem ao mesmo ciclo de trabalho e talvez carreguem

muito mais do que poderia parecer. E, dado que a oração explícita

também é um trabalho, em cada trabalho realizado com fé há algo

de oração implícita; a totalidade deles constitui a obra de expiação

da humanidade pecadora, que está a caminho do Filho e foi

redimida por Ele.

81


Capítulo 9

O DESMESURADO

a. A Medida do Homem e o Desmesurado

Através de seu trabalho, o homem se vê obrigado a fazer

uso de medidas, de normas. Trabalha oito horas por dia; neste

trabalho, exige-se dele um desempenho normal. Estabelece-se, por

exemplo, quantos fragmentos de tal gênero ele é capaz de fazer

por dia, por semana, por ano. Da mesma forma, quanto ele precisa

para alimentar a si mesmo e à sua família, se o pão, a dúzia de

ovos, etc., custam tanto. Quanto ele precisa também para suas

distrações: por exemplo, quanto custa a entrada no cinema ou no

futebol. Toda a sua existência está cheia de números, que

representam determinadas medidas. Quando algo não vai bem no

funcionamento do mecanismo, fica como desamparado; na maioria

das vezes, isso tem consequências desagradáveis. Quando ele,

como trabalhador, pensa na distribuição do tempo de seu patrão ou

chefe, vê que este tem mais férias do que ele, um salário mais

elevado e, com isso, outras distrações, mas o chefe também tem de

distribuir o seu tempo, e, principalmente, deve trabalhar mais e

tem maiores responsabilidades.

Quando o homem não costuma medir tudo, perde o sentido

da eternidade. Seu horizonte não vai além do tempo mensurável,

perecível de sua existência terrena. Tudo o que mede o coloca

continuamente diante de certos limites: ali está o ponto em que

termina o que havia se proposto; mais além começa um novo

âmbito mensurável. Entre essas metas e recomeços, transcorre a

vida do indivíduo. O que ele mede, o abarca, o inclui em sua esfera

vital. Ele é dominado pela lei do número, e, por sua vez, domina

sobre ela. As medidas foram concebidas e feitas para ele, mas ele

conserva uma pequena liberdade frente a elas. Pode estabilizar-se

(por exemplo, o preço do leite), economizar, renunciar a certas

82


coisas para se permitir outras. É como se acostumar a uma

liberdade limitada, uma liberdade entre grades.

Isso também influencia seu modo de pensar. Ele pensa

segundo categorias fixas, que se tornaram para ele tão evidentes

que quase não as questiona mais; pelo contrário, ele as simplifica

cada vez mais.

Mas quando se encontra com um homem realmente crente,

encontra nele a própria presença de Deus: em sua limitada

existência, irrompe o risco, a aventura. Não sabe se adotará uma

atitude aberta ou reservada diante disso, mas uma coisa é certa:

suas medidas ou critérios já não servem. Suas categorias,

simplificações, divisões do tempo (tão convencionais todas elas) se

mostram impotentes para compreender tal fenômeno. Ele havia

feito seus próprios cálculos e projetos, por exemplo, queria avançar

em sua posição para poder se permitir certas coisas aos cinquenta

ou sessenta anos. Se a verdade cristã tem validade, Deus poderia

contrariar esses planos, poderia pedir-lhe até que sacrificasse sua

posição e, em todo caso, o homem teria que deixar de lado todos

os seus cálculos e classificações, que agora lhe aparecem como

outras tantas reservas diante de Deus. Um queria colocar condições

a Deus. E o mais difícil da fé é precisamente isso: abandonar as

pequenas definições e classificações que se fez com tanto esforço;

mas, quando nos encontramos com o desmesurado, não há outra

escolha: é preciso renunciar a elas. Nem mesmo o tempo pode ser

mais medido em anos ou meses, mas apenas em função da

totalidade da existência, e o tempo que alguém vai viver é uma

incógnita. Tudo o que foi calculado e medido em função de si

mesmo, deve ser aborrecido de agora em diante. Deus não nos

oferece nenhuma norma com a qual pudéssemos nos familiarizar e

que pudéssemos abarcar a partir de nosso próprio sistema de

cálculo. O tempo de oração regulamentar, os preceitos da Igreja e

as exigências do amor ao próximo apresentam agora um grande

problema ao homem, e ele não sabe como resolvê-lo.

Externamente, as circunstâncias não mudaram — o tempo continua

83


sendo o mesmo —, mas, nas profundezas, as coisas passaram por

uma transformação radical.

De fato, o tempo é agora o lugar em que pode ocorrer o

encontro com a eternidade, e a medida, o âmbito em que se

alberga o desmesurado. Assim, tudo se torna altamente incômodo:

o que até agora era justo, já não é mais, e não se sabe com certeza

por que substituí-lo. Cristo fala em muitas parábolas de coisas

familiares aos homens: por exemplo, de um banquete celestial, do

bom pastor e suas ovelhas, da dracma perdida, da figueira que não

dá fruto fora de tempo, etc. Mas tudo isso, que antes parecia

conhecido e familiar e por meio do qual se aprendiam dificilmente

muitas coisas, adquire na boca do Senhor um sabor novo e

estranho. Do ponto de vista humano, é como se um fosse

conduzido a um lugar desacostumado, inclinado diante da

eternidade, a fim de que ela se torne compreensível para o homem

mortal. Mas Jesus também fala da própria eternidade, do reino do

Pai, das relações entre Pai, Filho e Espírito Santo, de coisas

inacessíveis que, no entanto, têm um valor decisivo para a fé. Até

agora, o homem estava acostumado a ordenar e classificar as

coisas de tal maneira que nelas aparecesse claramente um princípio

e um fim. Agora, é necessário dispensar ambos os termos, e o

significado das coisas se prolonga inconcebivelmente até a

eternidade. Quando o homem se descobre a si mesmo através da

Palavra de Deus e observa quão inúteis são seus critérios, sente

vertigem. Ele conhece a realidade tal como era até agora; mas o

que será, não tem nada em comum com o que foi. Os critérios

racionais já não lhe servem como pautas a seguir: sua “norma” só

pode ser a transcendência de Deus, que se serve justamente desta

insignificante vida humana para encontrar um lugar e apoio no

mundo. É como plantar uma árvore em um vaso. A exigência mais

árdua que se apresenta ao crente é precisamente a de estar à

disposição de Deus para algo incompreensível, que só faz sentido

através do amor. Até agora, o crente reuniu, atraiu para si, calculou

e disponibilizou todas as coisas; de agora em diante, ele deve abrirse

de tal maneira que suas mãos, ao recolher, não se encontrem

84


mais uma à outra. Ele é englobado por Deus de tal forma que já

não pode abarcar outra coisa e deve oferecer-se a si mesmo como

um mero recipiente cujo conteúdo lhe é totalmente desconhecido.

Só sabe que deve deixar-se dissolver no infinito o que antes estava

bem guardado e, frequentemente, minuciosamente calculado,

conforme o ritmo que só Deus pode impor-lhe.

b. O desmedido e a obediência

Ao fugir com o Menino para o Egito, Maria segue uma

indicação de José, que por sua vez havia sido advertido em sonho.

O caráter absolutamente sobrenatural dessa fuga nos remete ao

âmbito divino: se José tivesse que explicar por que a empreendeu,

só poderia dizer que para ele era evidente que essa era a vontade

de Deus; no entanto, ele não possui norma alguma que justifique

essa certeza.

Maria o segue sem mais questionamentos; José tem com

ela uma responsabilidade, e ela se submete a ele. Mas não o segue

apenas por motivos humanos, e sim também porque o “sim” dado

ao anjo inclui isso. E esse “sim”, que abrange tudo, faz com que sua

vida não possa ser regida por nenhuma norma humana. Ela deve

permitir que o "hoje" seja iluminado pela eternidade, de onde

provêm as sugestões divinas.

Vive na terra uma vida oculta, que, no entanto, é

totalmente visível aos olhos do céu. Sabe-se observada desde o céu

e conhece esse caráter permanente de seu “sim”.

É uma fuga da terra natal para escapar do perigo, mas é

também um movimento dentro de uma obediência cada vez mais

perfeita, que aparentemente está disposta a tudo pelo Menino. Ele

ainda é muito pequeno, e a responsabilidade recai sobre os pais.

Contudo, o “sim” de Maria passa através do Filho, pois Ele,

desde toda a eternidade, deu Seu “sim” ao Pai pela salvação do

mundo. Quando, mais tarde, no Monte das Oliveiras, Lhe é

85


oferecido o cálice e Ele o aceita, assume diretamente a

responsabilidade de Seu próprio “sim”: diante dos homens, como

homem; diante do Pai e do Espírito, como Deus.

E, ainda assim, inclui em Si o “sim” de sua Mãe, um “sim”

que ainda não se extinguiu, e essa assunção de responsabilidade

pelo mundo — que remonta à responsabilidade assumida

anteriormente por Maria e José — não é compreensível por

nenhuma norma que possa ser abarcada e controlada.

Às vezes, essa norma pode se manifestar de forma

fulminante: a José ela aparece em sonhos, e Jesus sabe de Sua

missão na cruz. A partir do movimento eterno do Filho em direção

ao Pai, revelam-se pequenos detalhes através dos quais se pode

perceber uma norma e uma "assunção de responsabilidade", mas

sempre inseridos na dimensão do desmedido, que tudo abrange.

O desmedido pode ser vislumbrado a partir de uma

obediência sem limites, que nós consideramos, no fim das contas,

como uma espécie de norma, embora ela ultrapasse todas as

nossas normas.

Quando um homem responde com um “sim” a Deus, que o

encontra, e deseja entregar-Lhe sua vida e obedecê-Lo em tudo,

ele deve orientar sua conduta pelos aspectos da vida do Senhor nos

quais pode encontrar um critério, uma norma a seguir.

Ele escolhe para si a maior ignomínia e humilhação, como

diz Santo Inácio em seus Exercícios Espirituais. Escolhe um

caminho marcado pela cruz do Senhor, se o Senhor assim o quiser.

Escolhe o caminho da fuga para o Egito ou para onde for

necessário, para escapar de um “aqui” que não pode mais usufruir.

Escolhe o desprendimento.

Mas tudo isso ele faz com base em alguma norma visível na

vida do Senhor, sabendo que por trás dela se oculta a vida trinitária

incomensurável de Deus, e que Deus, em Seu encontro com o

homem (que sempre se refere ao Evangelho), se dignou explicarlhe

em que consiste essa vida por meio de coisas mensuráveis,

86


para que o homem não sinta vertigem, mas aceite em obediência

aquilo que Deus lhe mostra.

Pode acontecer que, no momento do encontro, o homem

saiba claramente o que deve sacrificar. Pode imaginar o dia de hoje

e o de ontem, os últimos meses e o ano passado, e todo o tempo

transcorrido até agora, e fazê-lo reviver diante de seus olhos em

certas circunstâncias, a fim de medir aproximadamente o que

perderia se se entregasse a Deus sem reservas.

Julgaria a partir do que foi e da sua importância. Mas se o

“sim” for pronunciado com humildade e desde uma perspectiva

cristã, sem que o homem se atribua por isso a menor importância,

nem se arrogue o direito de aplicar sua própria medida, então ele

não poderá prever absolutamente seu futuro.

No máximo, ele poderá medir o que o Senhor lhe mostrou

através de Sua vida redentora; sabe que ali se encerra uma

superabundância de graça para ele, mas não possui norma alguma

para medi-la. Ele deve morrer para o seu “eu”. Se o fizer, seu “sim”

chegará à eternidade. Ele já saboreia algo, desde agora, do que o

moribundo experimentará diante do limiar da eternidade.

Tudo o que provém do além e nos é oferecido por Deus é

desprovido de medida.

No entanto, se após ter dado seu “sim”, ele continua

aplicando suas próprias normas, se privará do acesso à eternidade

neste mundo.

O religioso que deseja viver a partir da norma do presente

e planejar e calcular seu futuro imediato com base nessa norma,

não terá verdadeiramente morrido para seu “eu”. Teria caído em

uma “terra de ninguém”, já que não pertence mais a este mundo,

mas também não à vida eterna que se abre pela obediência sem

reservas.

Já não pode utilizar os critérios do mundo, mas ao mesmo

tempo está privado da desmesura do eterno, porque não se decide

87


a entregar-se, sem medo, nas mãos de Deus, como fazem os lírios

do campo.

Dessa forma, sua vida torna-se algo irreal e inautêntico. As

normas terrenas só podem conter pequenas verdades, mas o

desmedido do “sim” abre o homem à sublime verdade de Deus.

Não há uma terceira via.

c. Medida e desmedida nos ((status)) eclesiais

Viver no e a partir do desmesurado não significa viver no

desordem. Significa aceitar a ordem atual, mas considerando-a

como uma ordem cuja raiz transcende o nosso conhecimento e se

situa em Deus, e cuja norma é a absoluta eternidade. No entanto,

trata-se aqui de uma norma que se torna cognoscível para nós ao

manifestar-se como ordem. Aquele que coloca à disposição de Deus

seu futuro, juntamente com todas as promessas que ele encerra, e,

ao mesmo tempo, entrega seu próprio ser ao escolher o caminho

dos conselhos evangélicos, adota como norma de vida uma regra.

Como ordenação da vida inspirada pelo Espírito Santo, a regra

constitui uma mediação entre o "sim" do cristão comum no mundo

e aquela desmesura que tem sua raiz no "sim" pleno e radical. Esta

mediação não é um compromisso, mas a maneira pela qual o céu

se inclina para a terra, de modo análogo a como as promessas da

antiga aliança se cumprem na nova, ou a como o Filho do homem

se inclina para o homem que se entrega a Ele.

Se considerarmos concretamente a regra de uma ordem

acreditada na Igreja, talvez nos surpreenda encontrar nela duas

coisas estreitamente ligadas entre si: uma precisão quase

escrupulosa, que tende a contemplar todas as situações possíveis,

e a fidelidade aos votos, que é exigida inexoravelmente. É como se

o desmesurado do "sim" se servisse da norma, para que o homem

que se vinculou por meio desse "sim" não perca de vista o objetivo

de seu sacrifício, mas o descubra sempre fresco e viçoso, e em

88


todas as coisas pequenas, concretas, da regra imposta, encontre

sempre um novo acesso à desmesura divina.

O cristão que vive no mundo e não está sujeito a nenhuma

regra religiosa deve saber necessariamente que determinados

homens se abrem ao desmesurado por meio da regra. De fato, o

fato de ele ter escolhido um caminho distinto não o isenta da

obrigação de saber que existe algo mais sublime, a entrega total.

Mas esse conhecimento não deve paralisá-lo; ao contrário, ele deve

inspirar-se nesse espelho para tirar certas conclusões para sua

própria vida. Na convivência com a esposa e com os filhos, muitas

coisas lhe são impostas que exigem uma enorme capacidade de

sacrifício e, frequentemente, exalam o perfume do além. Por outro

lado, sua "regra" não consiste apenas em seus deveres familiares;

deve incluir também as obrigações que derivam do ambiente mais

amplo em que ele vive, tanto profissional quanto social. Por assim

dizer, Deus o desperta colocando a norma de seus deveres — que

derivam do amor ao próximo — nesta dupla e irreduzível vertente:

no círculo interior, ou seja, em sua família, e no âmbito exterior, ou

seja, em seu ambiente.

O homem não pode limitar sua entrega e seu amor ao

próximo ao âmbito familiar, pois isso seria uma forma de egoísmo,

de tal maneira que ele mesmo definiria a norma do amor cristão e

rejeitaria sua desmesura; nem pode fazer o oposto, ou seja,

encontrar o próximo unicamente no ambiente. Através de seu "não

dispor" da norma (da qual, por outro lado, ele não está desligado),

ele experimenta algo da desmesura de Deus.

Quando o cristão que vive no mundo encontra um homem

que vive a vida religiosa com autenticidade e entra em contato com

sua regra, com seu modo de pensar e viver, encontrará sem dúvida

nele um hálito de vida eterna. Compreenderá algo da desmesura da

vida cristã, e esse conhecimento concederá à sua vida medida

novas dimensões. Um intercâmbio vital entre as diferentes formas

de vida cristã é frutífero; mais ainda, é como uma imagem do

intercâmbio amoroso que ocorre no interior da divindade. O

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religioso não entrou em sua ordem para fugir do mundo, mas para

servir ao mundo em Deus; mas também o leigo, que vive no

mundo, deve realizar o serviço a Deus que lhe foi confiado, e

formará uma ideia desse serviço através de um conhecimento da

vida religiosa. Da mesma forma, deve sempre submeter sua norma

ao desmesurado, deixando-se determinar e transformar por ele. Os

perigos do desmesurado e os que traz consigo a norma imposta

parecem, à primeira vista, opostos entre si; no entanto,

considerados de maneira mais profunda, são idênticos: isto é, o

homem se arrogue permanentemente a liberdade de

autodeterminar-se.

Mas, assim como o cristão que vive no mundo deve

manter-se aberto ao desmesurado para conhecer sua norma,

aquele que vive segundo a regra de uma ordem deve conhecer a

norma que lhe foi imposta ao seu irmão que vive no mundo. Esse

intercâmbio é transcendental para ambos. Algo do que reina no

intercâmbio trinitário deve também realizar-se na terra através das

duas formas de vida cristã, que não só estão em comunhão dentro

da Igreja de Cristo, mas também são animadas pela ideia de que a

criação como um todo foi feita para Cristo.

90


Capítulo 10

A ALEGRIA

a. A Alegria Transbordante

Deus pode derramar sobre o homem a luz de sua glória até

tal ponto que toda a sua vida seja transformada: sua fé irradiará

por si mesma, de tal maneira que tudo o que o rodeia será

iluminado por ela, adquirirá uma nova meta, e se tornarão patentes

muitas coisas que até agora permaneciam problemáticas para ele e

seu entorno. Essa iluminação é alegria, participação na alegria

universal.

O Filho é a alegria do Pai, a alegria divina perfeita. Vive

para o Pai, e tudo o que é do Pai é seu; participa plenamente de

tudo o que o Pai possui e, por conseguinte, de sua alegria. Tudo

aquilo que é contrário ao Pai, é contrário ao Filho; é para Ele causa

de sofrimento e o move a redimir o mundo. E o redime na alegria

do Pai e para aumentar essa alegria, mas também com o júbilo que

acompanha o fazer um dom ao Pai. Esta alegria não diminui apesar

do sofrimento da cruz. “Se possível, que passe de mim este cálice”:

palavras de angústia que, na cruz, se tornam expressão do

desamparo do Filho. No entanto, toda a escuridão da paixão está

como deixada de lado e posta entre parênteses pela alegria que

tudo abarca, até o sofrimento mais profundo, que foi precisamente

morrer abandonado de Deus, carregando sobre si o pecado da

humanidade; e este pecado oprime de tal maneira o Filho, que Este

fica aniquilado e já não é capaz de ver sequer o sentido de seu

suplício. À pergunta do agonizante não pode haver resposta, o Pai

não pode se fazer ouvir, pois quer dar ao Filho a alegria perfeita: a

de ter morrido por Ele no meio do desamparo, uma vez que

sobreviveu hora após hora à desmesurada exigência da paixão.

91


Agora bem, dado que não somos mais do que homens

pecadores, a separação entre alegria e sofrimento não tem em nós

as mesmas características que no Filho. No entanto, mesmo quando

nossa vida é dura e está cheia de pranto e sofrimento, sabemos

que a alegria é o maior bem, que Deus é a alegria absoluta e que

n’Ele há um lugar reservado para nós.

As grades que nos aprisionavam no sofrimento nunca são

absolutamente indestrutíveis; e mesmo quando não conseguimos

mais conceber pensamentos de alegria, sempre podemos recorrer à

Escritura e aprender dela o que é a alegria. E sempre podemos ter

motivos para a esperança.

Deus pode nos iluminar de tal modo que, de tanto

contentamento, não saibamos mais quem somos nem o que

devemos fazer. Contemplamos a Sua alegria perfeita e somos

convidados a participar dela. Tudo, até nossas angústias e

vacilações, é arrastado pelo júbilo; até o que era problemático

parece ganhar sentido, obtemos resposta às nossas perguntas, e

esse instante em que nos sentimos possuídos pela alegria divina

irradia sobre todos os dias de nossa vida.

O céu e a terra se encontraram, a luz rasgou nossas trevas.

Deus reserva Sua alegria para Si mesmo. O Pai a dá ao Filho e ao

Espírito, os quais Lhe devolvem o dom.

O Pai também criou o mundo na alegria, com o propósito

de fazê-lo participar dela. Cada homem, do primeiro ao último, foi

destinado à eternidade e à sua alegria sem limites, e convidado a

participar dela.

É um hóspede de Deus, que adquiriu o direito de cidadania

eterna onde antes se achava um estranho.

Às vezes, o homem adota a postura do avestruz e se recusa

a encontrar-se com Deus. Mas Deus pode arrancar com tal

veemência o véu que cobre os olhos do homem, que este cai de

repente, e o homem, de boa vontade ou à força, contempla o dom

que Deus quer lhe fazer.

92


A partir desse momento preciso, todos os nossos

movimentos estão sob a influência de Sua luz e se originam nela.

Começamos a ver, e o panorama que se apresenta diante

dos nossos olhos supera tudo o que conhecíamos até então. Todas

as coisas ganham seu devido lugar e sentido, e respondem a um

plano providencial até então insuspeitado.

Até mesmo a tarefa que Deus nos confia, nossa missão,

nossa vida cotidiana, e tudo o que fazemos e pensamos, em geral,

passa a ser determinado doravante pela alegria no Deus uno e

trino.

Dessa forma, o crente deve irradiar uma força jubilosa, que

jamais pode ser confundida com a atitude de um homem que nunca

encontrou Deus.

Com efeito, a irrepetibilidade do Deus que nos encontra não

pode ser confundida com nenhuma outra experiência. Quando

realmente encontramos Deus, essa experiência permanece viva em

nós.

O Filho, que, por designação do Pai, permanece na terra,

vive em uma atitude tal diante do Pai e em uma união tão grande

com Ele, que essas se manifestam em sua unidade interior, em sua

coerência consigo mesmo.

Ele não pode nem quer ser outra coisa senão aquilo que

Sua missão exige.

Também o cristão que segue o Senhor deve ser uno consigo

mesmo; não pode levar a vida dupla daquele que vive ao mesmo

tempo na alegria e na inquietação.

"Ninguém pode servir a dois senhores, a Deus e ao

Mamom": Essa frase nos faz entender que o cristão deve viver na

unidade que a alegria confere; a alegria de levar uma vida com

sentido, de perseverar no caminho da unidade, da confiança, da fé.

93


Isto é precisamente a alegria, pois esse caminho conduz ao

Pai por meio do Filho, na medida em que é o caminho da

obediência amorosa e da plenitude da eternidade no tempo, o

caminho que o Filho nos abriu, a fim de que o percorramos na

alegria concedida pela graça.

b. A objetividade da alegria

Estamos acostumados a dividir nossa vida em setores,

costumamos prestar atenção nas pessoas que enquadramos nesses

diferentes âmbitos — família, amigos, profissão, etc. — e lhes

concedemos um lugar em nossa vida. Aqueles que estão fora

desses esquemas nos parecem estranhos, como se só quiséssemos

cumprir o mandamento do amor ao próximo em parcelas, e

precisássemos para isso de uma certa visão panorâmica do âmbito

em que o aplicamos em cada caso; praticá-lo de modo universal

nos pareceria excessivo.

Agora bem, quando alguém encontra Deus de verdade,

parece-lhe que, por um momento, foi retirado dos círculos nos

quais habitualmente se desenvolvia sua vida, de tal forma que a

validade desses círculos fica relegada a segundo plano. Ao

reintegrar-se a eles, ele percebe que é imprescindível reformar seus

esquemas. A partir de agora, ele deve comunicar a todos os

homens a alegria do encontro com Deus, a alegria que o invade,

que provém de um âmbito que o transcende tudo, pois o âmbito

divino é ilimitado. Consequentemente, ele não deve pensar nem

por um momento que é o único a quem Deus encontrou, ou que

constitui um foco de irradiação único e singular. Ele conhece o

caráter supratemporal da Palavra divina e sabe que muitas pessoas

ouviram a Palavra antes dele; também deve saber que muitas

pessoas encontraram Deus nesta época. O caráter pessoal do

encontro, do qual emana sua alegria, pode representá-lo

remontando-se a Adão, a quem Deus interpela pessoalmente no

Paraíso; mas não pode ficar muito tempo em Adão, pois o segundo

Adão veio, e não só por ele, mas por todos os homens. O "por

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mim" é compromissor, mas o "por todos" não é menos. Já no

Antigo Testamento, Deus encontrou muitos homens: sacerdotes,

profetas, reis e outros, que foram interpelados por Ele e receberam

uma missão; o crente deve meditar sobre a obediência e a

desobediência daqueles. Finalmente, contempla o Filho e sua

obediência perfeita. Sabe o que o Filho expressou através das

Escrituras. Considera os gemidos do Espírito na Igreja universal.

Assim, ele deve se contentar em ser um dos muitos homens que

estão na presença de Deus. Mas esse sentimento de modéstia é

superado logo e se torna uma alegria sem limites, diante da ideia

de que tenha sido pensado por Ele, apesar dos estreitos e

estereotipados âmbitos nos quais havia dividido sua vida. Na

alegria do Senhor, ele deve ser, a partir de agora, tudo para todos.

Até certo ponto, pode ser até mesmo a partir de uma perspectiva

subjetiva; mas esse ponto está situado em um lugar que ele é

incapaz de determinar, mesmo sabendo com certeza que ele existe.

Existe uma nova norma, que se manifesta em todas as tarefas a

serem realizadas e nas relações pessoais, e que é muito mais

ampla do que ele poderia ter pensado; mas também não pode

ultrapassá-la, nem mesmo através da fecundidade de sua missão.

De fato, os dias de sua vida são limitados; suas forças também. No

entanto, ele pode ter a estranha sensação de que seu tempo e suas

forças estão se expandindo. Mas essa sensação será acompanhada

de uma experiência muito mais profunda de seus limites, já que,

desde seu encontro com Deus, suas metas se tornaram mais

elevadas. Ele experimentou o que é a alegria. E aquele que quer

contar o que é a alegria, qualquer que ela seja, logo começa a

faltar-lhe as palavras, pois está fazendo referência a algo muito

íntimo e pessoal. Ele quer contar como se sentia naquele momento.

E quando, para fazer sua descrição mais viva, recorre a

comparações, estas lhe parecem muito insatisfatórias.

Mas quando ora diante de Deus com alegria e agradece

pelo dom que lhe foi dado, sabe que Deus completa cada uma de

suas palavras, e mais ainda, faz-lhe compreender o verdadeiro

significado delas. O diálogo com Deus é configurado por Deus

95


mesmo de uma maneira tão viva, que quem ora não precisa se

preocupar se sua colaboração é digna de Deus: Deus mesmo a

levará à sua plenitude. E nesse diálogo encontra-se uma alegria

nova, que é promessa do mundo futuro. Aquele que faz oração se

nutre do tesouro inesgotável da alegria divina. No encontro, ela

irradiava diretamente: quem ora poderia simplesmente dizer a

Deus: "Olha!", pois Deus o vê e sabe tudo. Por outro lado, dizer

isso mesmo ao próximo a quem deve comunicar a alegria não é tão

fácil. No entanto, quando um cristão vive realmente na alegria do

encontro com Deus, irradia essa alegria sobre aquele que não

acredita ou ainda não se atreve a se entregar a essa alegria, e

Deus o ajuda nisso.

Nas suas festas e celebrações, a Igreja explode em gritos

jubilosos de "Aleluia". Morosos, fracos, incrédulos, que assistem a

elas como meros espectadores ou estão presentes ali por engano,

podem se sentir de repente mais comovidos do que eles mesmos

gostariam de confessar. Estiveram presentes quando a Igreja de

Cristo exultava de júbilo. E, dado que essa Igreja é a esposa de

Cristo, seu júbilo pertence ao esposo. Ela se alegra diante do amor

que há Nele, e que lhe é comunicado. Este júbilo enche o mundo de

tal forma que se torna transcendental e compromissor para todos

aqueles que encontram Deus. Ele vê que sua própria experiência

coincide com a da Igreja. E onde sua experiência ameaça esmaecer

e ele mal pode representar o que sentiu quando esteve outras

vezes na presença de Deus, sempre permanece ao seu lado a

alegria objetiva da Igreja.

Como tudo o que vem de Deus, a força dessa alegria não

pode ser medida pelo homem; em outro tempo lhe pareceu maior

do que qualquer outra coisa, e continua sendo, e tanto mais quanto

mais autêntica é; e, no entanto, não é necessário que seja uma

alegria vivida e sentida. Quando a experiência da alegria abandona

o indivíduo, ele não precisa buscar estímulos artificiais, pois sempre

permanece elevado para Deus, juntamente com sua alegria. A

alegria — sentida ou não — equivale, no final das contas, a um

96


"deixar fazer" contemplativo, que sempre tem primazia sobre a

ação. A alegria objetiva da Igreja, da qual todos os cristãos

participam, às vezes deve bastar-lhes, pois essa alegria é também

sua e, afinal, é o mais importante.

c. A Alegria da Ressurreição

Também o cristão se sente limitado pela sua existência

terrena. Vê as fronteiras de sua capacidade realizadora e conta com

elas. E, ao contar com elas, se estreita ainda mais a totalidade de

sua existência ou suas dificuldades ficam divididas em duas partes

claramente diferenciáveis: por um lado, as relativas à vida

cotidiana; por outro, as que se referem a Deus e à Igreja. Se essas

partes não se fundem, talvez por medo, isso pode acarretar

consequências imprevistas. Mas quando o crente reflete e vê quão

viva pode ser a alegria na Igreja, e compreende que foi feita para

ele, pode deixar-se possuir pela graça da alegria e, a partir da

Igreja, das consequências da fé de Cristo que lhe foi dada, dar à

sua vida a orientação desejada por Deus. Para isso basta-lhe deixar

de lado todos os seus cálculos anteriores. Se se atrever a isso,

descobrirá algo extraordinário: a alegria pascal, que para ele se

materializa sobretudo pela absolvição sacramental e pela recepção

do Senhor na Eucaristia, significa agora para ele infinitamente mais

do que em épocas anteriores; é como se entendesse pela primeira

vez o que quer dizer "Cristo ressuscitou!" O que o Senhor

experimentou naqueles dias: o sofrimento extremo, a descida ao

inferno, a ressurreição dentre os mortos: todos esses

acontecimentos têm sentido em função Dele, assim como da Igreja

em sua totalidade. Não há uma alegria para ele e outra distinta

para a Igreja; é uma e a mesma alegria que foi concedida a ambos,

isto é, à Igreja e a cada um dos cristãos, sem prejuízo de que o

indivíduo, em sua vida terrena, experimente e suporte limitações,

mais ainda, considere necessárias uma série de autolimitações,

tudo isso com tal força, que se vislumbra nela o poder divino e, por

97


outro lado, com tal suavidade, que ninguém se sinta humilhado ao

voltar-se pessoalmente para essa alegria e confiar nela.

O homem novo nasceu em meio a um mistério tão

profundo que não é inferior em nada ao mistério da criação. Adão e

Cristo se encontram, e o cristão se encontra de repente no lugar

desse encontro, ali onde o segundo Adão substitui o primeiro e o

redime. E o cristão deve estar ciente de que ele é esse lugar. Na

alegria do próprio ser, ele deve se situar diante de Deus, de tal

maneira que Este possa fazer dele um homem novo. Assim como

Adão e Cristo, ele deve viver para a alegria do Pai e fazê-la sua. Na

fé, ele deve realizar algo que só pode ser comparado à

ressurreição. Assim como Cristo padeceu e morreu por ele, para

depois ressuscitar, ele deve experimentar em si mesmo a morte e a

ressurreição. Uma morte pessoal, onde se situa o seu pecado, que

ele considera como o mais próprio e tenta esconder continuamente

aos olhos de Deus. Deve fazer morrer o seu pecado, deve morrer a

ele, para que Deus possa introduzir ali a semente da ressurreição.

Deve purificar-se sem reservas nem contemplações, embora isso o

doe e contradiga suas inclinações naturais. Agora bem, a

purificação não é um fim em si mesma, mas uma preparação para

a vinda do Senhor vivente. A comunhão, este ato de vinculação ao

Senhor, e a ressurreição do Senhor se encontram justamente nesse

ponto, ali onde tudo foi erradicado e extirpado. É o lugar da

fecundidade.

Essa nova fecundidade, que desemboca na ressurreição,

não precisa de nenhum adubo ou fertilizante; só necessita da

pureza.

Uma pureza que consiste em fé, esperança e amor, e em

um jubiloso dar e receber.

Para o crente que espera e ama, a Palavra de Deus significa

alegria, porque essa Palavra assumiu tudo para poder dar tudo e

porque, a partir de então, o crente, juntamente com a Palavra,

pode comunicar a alegria.

98


A alegria presente nas festas da Igreja é sempre uma

alegria para todos, uma alegria que emana de Deus e se dirige ao

mundo.

Ela não pode ser dividida em porções: os diferentes

aspectos da alegria se contêm mutuamente e demonstram sua

autenticidade no fato de que todos os que dela se aproximam se

reconhecem mutuamente como mencionados, envolvidos,

redimidos e ressuscitados nela.

Pode acontecer que uma pessoa veja a alegria de outra e

não a compreenda. Mas pode aceitar a explicação do outro, de tal

forma que as palavras deste ganhem vida nela e ela se reconheça

na alegria do outro, ainda que não a compreenda plenamente.

Crê, mesmo sem entender.

Esse "sim", anterior ao conhecimento perfeito, nós o

encontramos em Maria, cujo “sim” é um sim à alegria, um sim a

todos os sacramentos, um sim ao Deus uno e trino.

E é tanto um “sim” à alegria, que a Igreja não se limita a se

alimentar dele formando uma vaga ideia do que significa, mas o

assume como seu, o possui, o considera como próprio,

porque Maria o deixou como herança, e desde então ele tem sido

crido e realizado sem interrupção pela Igreja.

Nesse “sim” confluem a divindade dAquele que o exige e a

humanidade dos que o dão.

99


Capítulo 11

A VERDADE

a. Conversão e verdade

Deus vive em sua Igreja: essa afirmação é, para o cristão,

uma verdade evidente. Entretanto, essa verdade pode contribuir

para adormecê-lo pela própria obviedade: com efeito, Deus está ali,

acessível a todos, estabelece uma série de disposições e, por meio

da Igreja, promulga leis sob as quais, por assim dizer, Ele

desaparece.

É fácil aderir à letra dessas leis, esquecendo um pouco seu

espírito. Faz-se aproximadamente o que se exige, sem se

comprometer demais, como se o mandamento do amor a Deus e ao

próximo fosse apenas uma convenção óbvia, da qual derivam

certas regras de conduta que bastaria recordar nas situações

apropriadas.

Mas o cristão também pode encontrar-se com Deus de

forma repentina — por meio da oração, de uma iluminação, da

liturgia, de uma determinada situação humana — e então sente-se

pessoalmente interpelado. É a ele que se dirigem as palavras, não a

outro.

E não se trata de leis formuladas, que podem ser cumpridas

facilmente, trata-se de amor, de autenticidade, desse Cristo que diz

de Si mesmo: “Eu sou a Verdade”. E a Verdade é também o

Caminho e a Vida. Se Deus é veraz, então o cristão deve ser

também. Se Deus é veraz, então o cristão deve ser veraz também,

de uma forma nova, pois não pode mais separar sua própria

verdade do seu caminho, nem de sua vida, mas, no caminho de sua

vida, deve ajustar sua verdade à verdade de Deus. Neste encontro,

Deus o capturou (não importa de onde) e não cessará de arrastá-

100


lo, até que o homem o siga com todo o seu ser e submeta sua

verdade e sua vida à verdade divina.

Assim, o crente deve considerar a verdade de Deus como

um fator fundamental. Deve torná-la presente na oração. Sabe que

não pode esgotá-la, mas, ao contrário, acontece o oposto, ela o

esgotará. Assim, deve examinar tudo o que fez e pensou até agora

à luz dessa verdade. Resistirá ao teste? Mostrará tudo como

verdadeiro e autêntico? O conceito de "veraz" ou "verdadeiro"

adquire uma intensidade inquietante, pois Deus mesmo é a

verdade; nesse teste, o cristão se desanima, pois, evidentemente,

a maior parte das vezes não pode resistir a ele. Quase não resta

nada que ele possa fazer valer. Compreende que é um pecador. Até

agora, ele havia esquecido de Deus e não havia amado o próximo

como cristão. Isso é, mais ou menos, o que ele pode dizer de si

mesmo. No entanto, a verdade de Deus o encontrou e, portanto,

encontrou nele algo que o torna digno de ser amado por Deus; mas

dificilmente poderia ser assim na situação em que Deus o

encontrou; no máximo, o que o fez digno de ser amado foi sua

aspiração à verdade. Deus deve fazê-lo participar de sua verdade

até que se torne um servidor dela. Ele se alimenta, portanto, de um

bem alheio, divino, a fim de se tornar um interlocutor válido de

Deus. Deve adentrar o alheio, a fim de reconhecer nele o dom que

deve se apropriar.

Quando ora, sente-se como sobrecarregado pela novidade

da verdade divina. Quando trabalha, entende que essa verdade

também se impõe a ele aqui de forma rigorosa. Sempre aparece o

Novo, que pode ser expresso pela simples fórmula: a verdade de

Deus. Ela não tem outra norma senão a que Deus mesmo lhe dá.

Muitos são os caminhos que o crente pode percorrer para

compreendê-la, não como a própria verdade, mas como a verdade

de Deus, e assim encontrar nela a vida. Deus é a verdade a tal

ponto que tem o poder de preencher completamente as vidas mais

diferentes, de tirar de todas as formas o conteúdo adequado e de

transformar em realidade toda aparência. Se quem ora pega as

101


Escrituras e considera versículo por versículo a vida de Jesus, se

maravilhará continuamente diante da verdade de Deus, diante da

autenticidade e seriedade de suas exigências e realizações, tanto

mais quanto as narrativas e parábolas não se dirigem a qualquer

um, mas a Ele mesmo. Deus me fala do absoluto. Ao ouvi-lo, não

posso relativizar, mas devo reconhecer o absoluto como válido para

mim, o que significa convertê-lo em minha própria verdade. Não se

trata de opiniões de uma época distante, que precisariam ser

adaptadas à nossa, nem de uma língua estrangeira que precisaria

ser traduzida. Por último: Deus não é divisível. Quando se

denomina a si mesmo a verdade, ela nos é dada como a verdade

que é, não o faz gota a gota, mas de forma plena. A luz de sua

verdade não se deixa amortecer para aqueles que têm a vista fraca.

Agora, uma vez que a verdade de Deus é, ao mesmo

tempo, o amor absoluto, essa verdade, mesmo quando parece agir

de forma inexorável, nunca adquire as características do

impossível, do desproporcional. O amor é sempre possível e se abre

caminho em todas as circunstâncias. Quando Cristo diz de si

mesmo que é a Verdade, ele o faz como Deus encarnado que se

tornou Filho do homem, a fim de corroborar como tal essa

afirmação, pois a verdade de Deus é seu amor fiel através de sua

aliança com o homem, e Ele torna patente essa verdade ao

executar a obra da redenção. Ao contemplar Cristo crucificado,

quem pode deixar de ver essa verdade?

Por isso, cada sacramento instituído pelo Senhor contém,

como qualidade primordial, a verdade. Uma verdade que se renova

a cada recepção sacramental e, no entanto, repousa na verdade

primordial da Palavra, que era no princípio. O milagre do pão que

se torna carne do Senhor e do vinho que se transforma em seu

sangue é um milagre da verdade, da presença de Deus feito

homem. O pecador que se encontra com o milagre da Eucaristia

talvez se sinta tão sobrecarregado, que se sinta desamparado e

creia nela sem encontrar a maneira de se aproximar dela. Nesse

caso, ele pode recorrer ao sacramento da penitência. Ali ele tem

102


um critério: sabe da autenticidade de sua confissão, da verdade de

seu pecado, do fardo de sua vida anterior. Quando recebe a

absolvição, essa verdade passada é apagada; a verdade agora é o

futuro, isto é, que ele pode começar uma nova vida. Esse futuro

atesta a força de sua verdade; e o atesta pelo fato de ele ter sido

capaz de apagar seu passado. No penitente entrou uma força na

qual, até poucos instantes atrás, ele mal ousava acreditar. Ele se

confessou porque era necessário para alcançar o perdão; mas,

através do acontecimento do perdão, vê quão grande é a verdade

da absolvição, quão livre ele se torna, como ele abre o caminho

para uma nova vida.

b. Viver na Verdade

Na nossa vida cotidiana, criticamos os nossos vizinhos. No

entanto, quando encontramos um deles na Igreja, na Santa Missa,

no confessionário ou quando vamos receber a comunhão, somos

obrigados a deixar de lado nossa crítica. Este homem está fazendo

algo que implica um reconhecimento da verdade. Ele está ali para

se encontrar com Deus, para realizar na fé algo que inúmeras

gerações de crentes fizeram antes dele: adorar ao Deus verdadeiro.

Ele se ajoelha com as mãos unidas em atitude humilde. Expressa a

verdade que talvez esqueça às vezes ao longo de sua vida

cotidiana, ou à qual não responde plenamente. Mas nunca pode

esquecer totalmente essa atitude. Ela perdura, não apenas porque

a Igreja como tal permanece viva, mas também porque o homem,

apesar de suas falhas, não quer renegar sua fé em sua existência

cotidiana. Ele quer carregar em si algo que possa ser comunicado

de alguma forma, talvez sem que ele mesmo tenha consciência

disso. A verdade de Deus não se dilui. É suficientemente forte para

continuar sendo ela mesma, mesmo onde se dá apenas um

testemunho morno e fraco dela.

Quando um homem encontra Deus, seja numa conversão

da incredulidade à fé, ou na transformação de uma fé puramente

formalista em uma fé autêntica, ele é penetrado por uma verdade

103


que o torna livre e lhe mostra o caminho a seguir. Essa verdade lhe

abre o caminho. A verdade é Cristo e, a partir de agora, o caminho

se torna claro para o crente. Até esse momento, o homem era

como alguém que ouviu dizer que atrás de uma porta há algo.

Agora, a porta se abriu. Nada mais impede a contemplação da

verdade. No entanto, essa verdade é infinita, o que implica que

muitos de seus aspectos não possam ser compreendidos

imediatamente. Continua sendo um reino que será inesgotável por

toda a eternidade e que se renova constantemente, não apenas em

aspectos acessórios, mas desde o núcleo da própria verdade,

porque o Deus infinito é capaz de resplandecer também no infinito.

Quando o convertido contempla essa verdade, ele tem

dificuldade em entender que outros não creem, porque não se

atrevem a isso ou porque o testemunho da verdade parece esbarrar

em dificuldades demais. Mas ele deverá admitir, no entanto, que a

verdade — que forma uma só coisa com o amor — é tão forte que

pode permitir que o homem permaneça no meio das dificuldades da

fé, que nunca terão tanto peso quanto a verdade divina. Mesmo

aquele que tem uma fé imperfeita ou acredita por motivos egoístas,

será sempre acompanhado por algum fruto da verdade e do amor

de Deus, muitas vezes encoberto, mal utilizado ou traído, mas que

guia infatigavelmente o homem pelo caminho reto e tende a

compensar seus erros.

A verdade de Deus não só dá ao homem o sentido da

retidão, mas também seus frutos, e faz com que ele siga o caminho

justo. Um João da Cruz, que na "noite escura" não vê nada de

Deus, que crê ardentemente e, no entanto, não pode experimentar

a fecundidade de sua fé, que gostaria de se derrubar com

veemência diante do amor e é detido pela sua desesperança, está

na verdade da mesma forma que uma criança que diz de coração

sua oração simples. E isso é assim porque a verdade de Deus é

indivisível, e Ele a oferece ao homem como um caminho a ser

percorrido. No que diz respeito ao seu comportamento diante de

Deus, ninguém pode dizer que poderia ter feito algo totalmente

104


diferente, contrário, ao que fez. Quando ele realmente inicia o

caminho que Deus lhe indicou, nunca mais poderá haver um "assim

ou de outra maneira", mesmo nas decisões de pouca importância.

O caminho da verdade é claro e transparente, talvez não no

momento em que está sendo percorrido, mas sim depois. Ele é tão

diáfano quanto a vontade de Deus, que às vezes pode não ser

totalmente inequívoca para o indivíduo, mas que, no entanto, vem

clarificada através da doutrina oficial da Igreja. Essa doutrina é o

padrão a ser seguido pelo indivíduo que busca o caminho da

verdade. Na oração, ele conhecerá qual é o seu caminho, embora

não possa verificar a cada passo sua retidão.

Em casos extraordinários, essa retidão pode ser mostrada

diretamente, mas na maioria das vezes ele deve confiar em Deus

através da Igreja, de tal forma que, ao renunciar a si mesmo,

também abandone tudo aquilo que poderia significar uma garantia

no caminho da verdade.

Dentro da verdade, ocorre com muita frequência um

conflito entre o indivíduo e a Igreja: uma espécie de movimento de

vaivém que não parece encontrar seu ponto médio. Evidentemente,

o ponto médio não é o lugar da mornidão, mas o caminho estreito.

É o "sim" impronunciável. Se tentarmos contemplar esse ponto

médio juntamente com Maria, veremos com clareza que seu "sim"

foi pronunciado no lugar estreito do seu encontro com o anjo, no

amor e na plenitude da obediência; agora bem, uma vez que ela

disse o "sim", este se amplia de tal maneira, que já não se vê

nenhum ponto médio, nenhum caminho estreito, mas unicamente a

plenitude transbordante da verdade divina; e este é o caminho

mais largo, o caminho pelo qual avança a Mãe do Senhor, seguida

por todos os anjos e santos, por todos os crentes da Antiga e da

Nova Aliança, e por todos aqueles que fazem a vontade de Deus. O

caminho só era estreito no início, quando consistia na relação "eutu"

entre Maria e o anjo que lhe anunciou a Palavra de Deus; nesse

lugar estreito se manifesta o caráter inevitável do diálogo entre

Deus e o homem, no qual se reúne toda a verdade, para, a partir

105


daqui e através da Igreja, se expandir à plenitude da criação

redimida, à plenitude da vida eterna, que um dia se situou no

caminho mais estreito, no lugar onde se encontram o tempo e a

eternidade e onde se pronuncia o "sim".

c. A verdade sacramental

Quando alguém quer fazer uma afirmação cuja verdade é

indiscutível, toma um objeto qualquer nas mãos e diz:

“Tão verdadeiro quanto isto aqui...”, e aplica isso a um caso

concreto. Mas essa afirmação tem validade limitada. O objeto pode

ser movido, transformado, destruído. Sua verdade está ligada ao

tempo. Quando algo está longe, as afirmações sobre isso se tornam

mais difíceis de fazer; as palavras já não bastam — é preciso

concatenar conceitos, ideias e memórias. Certos contextos que

captamos com a visão e com os quais contamos, não são fáceis de

tornar compreensíveis a outras pessoas. E essas pessoas logo nos

mostram o quão unilateral e subjetivo é o nosso ponto de vista ou

modo de pensar; em resumo, nossa verdade se torna relativizada.

Porém, quando Jesus Cristo diz: “Eu sou a Verdade”,

essa palavra adquire uma grandeza incomparável. Ele, o Filho de

Deus, e a verdade absoluta são a mesma coisa. O fanático é aquele

que descobre uma pequena verdade e subordina tudo a ela. Para

ele, tudo o que não se adapta ou ajusta a essa pequena verdade

não existe. Por essa verdade ele é capaz de dar a vida, romper com

o melhor amigo, fazer coisas que o enojam: diante dessa

insignificante verdade que descobriu, ele age como se fosse uma

coisa.

Mas quando Cristo diz: “Eu sou a Verdade” e, como tal,

vem salvar o mundo, não é possível adotar diante d’Ele nenhuma

postura fanática.

O homem redimido por Cristo não se comporta diante d’Ele

como uma simples coisa, mas encontra um lugar para si na

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verdade: um caminho e uma vida, a liberdade de caminhar na

verdade de Cristo rumo à verdade do Pai.

Após sua morte e ressurreição, Cristo retorna ao céu.

Ele precisa deixar na terra sinais que sejam tão verdadeiros quanto

Ele mesmo, para que aqueles que o seguem não se percam e sua

verdade permaneça viva neles.

Para que os santos e os fiéis da Igreja, que viverem em

épocas futuras, sintam-se tão protegidos quanto nos tempos dos

Apóstolos.

Essa proteção, essa prolongação da verdade que Ele

mesmo é, nós a encontramos sobretudo nos sacramentos da Igreja,

que são todos expressões autênticas da verdade de Deus.

Deus consagra e abençoa como fazia quando estava na

terra. Batiza, ouve em confissão, entrega seu corpo e sangue,

dispensa seu Espírito — e tudo isso como expressão da sua

verdade.

Cada ato sacramental é uma prolongação da verdade de

Deus, e isso não diminui em nada sua força.

Tão verdadeiro é Deus quanto este sacramento!

As formas de expressão se ajustam à realidade cotidiana do

ser humano.

Mas agora, ele não toma um objeto arbitrário nas mãos

para compará-lo com a verdade, e sim, no Espírito da verdade —

que procede de Deus e que Deus lhe concede ao se comunicar —,

toma nas mãos a própria verdade.

A verdade terrena tem em Deus uma tradução permanente,

uma referência.

Como ação terrena, comungar é comer e beber,

mas a essa ação corresponde uma participação na verdade divina:

não apenas através do ato de fé, mas também por meio do ato

físico de levar à boca, de engolir, de acolher plenamente em si.

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Não se trata apenas de um ato de amor,

mas, sobretudo, de uma obediência sóbria, desapegada, à verdade,

de uma reverência diante dela.

Quem assim procede, reconhece a verdade de Deus como

sua mestra mais sublime.

Dado que Deus é a verdade, tudo o que Ele fundamenta e

estabelece é verdadeiro.

E a missão da Igreja é justamente testemunhar essa

verdade.

Ela a guarda, a acolhe, para depois oferecê-la aos homens.

Ela a administra segundo os desígnios de Deus.

Assim como um corredor leva a tocha de um lugar a outro,

para que ali outra tocha possa ser acesa, os sacramentos carregam

a substância do Deus verdadeiro — sua carne, seu Espírito, sua

Palavra — para acender uma nova fé, um novo amor, que

mantenham viva sobre a terra a verdade de Deus.

Certamente, essa verdade está viva na Escritura,

no céu, onde reina apenas a vontade de Deus. Mas também está

viva na Igreja e em cada cristão, apesar de suas falhas e defeitos.

E isso acontece porque o sacramental eleva

constantemente o homem ao plano da verdade divina.

Uma vez que o mistério dos sacramentos é inseparável do

mistério da verdade divina, e dado que o caráter sagrado dos

sacramentos provém dessa verdade, eles não podem ser

danificados, enfraquecidos ou falsificados por nosso pecado, tibieza

ou incompreensão.

A força da Eucaristia, sempre renovada, a força de cada

absolvição, que jorra inesgotavelmente da cruz, a força de cada

batismo, que é o início da vida eterna no tempo, a força de cada

crisma, que amadurece o homem imaturo, essa força é uma só com

Deus.

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Os sacramentos são diferentes entre si, mas têm a mesma

origem. São como diferentes bóias salva-vidas lançadas a quem

está se afogando, vindas da mesma margem.

O homem que se sente tocado por Deus e hesita sobre o

que deve acreditar, pode achar, por um lado, a doutrina do Senhor

excessivamente simples - qualquer criança pode entendê-la e ela

não lhe parece um mistério divino - mas, por outro lado, pode

reclamar que a doutrina é excessivamente difícil, pois as palavras

mais evidentes sempre encerram um fundo misterioso, e qualquer

passo que o homem dá no caminho para Deus leva consigo muitos

outros, de tal maneira que "ser cristão" parece uma tarefa

interminável. De fato, a vida de fé é composta de muitas coisas que

são feitas a contragosto, e ninguém se decidiria a realizá-las se

soubesse, de antemão, do que se trata. A doutrina de Deus é, ao

mesmo tempo, muito fácil e muito difícil, mas ambas as coisas se

conciliam na vida sacramental, na vida objetiva da Igreja; ambas

são aspectos da verdade divina, à qual nada pode ser acrescentado

ou retirado. Deus nos concede essa verdade de maneira integral, e

nós apenas vemos suas diferentes facetas, mas essas se

subordinam à totalidade e não podem ser separadas dela. O

diamante só irradia com toda sua força quando suas faces

permanecem como são. Evidentemente, podemos considerar uma

face determinada por si mesma, mas sempre devemos ter em

mente que é um aspecto da totalidade e nos é revelado em virtude

dessa totalidade. Agora, todos os aspectos manifestam uma única

coisa: que o Deus eterno se comunica totalmente conosco em sua

verdade, a fim de que também nos entreguemos a Ele com todo o

nosso ser.

d. Abertos a Deus

Deus permite que o homem O encontre para que nele

encontre alegria e verdade. E quando o homem, muitas vezes em

seu primeiro encontro com Deus, se convence de sua própria

nulidade, essa primeira impressão prepara o caminho para o que

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virá depois. O homem renuncia a discutir com Deus, a forçá-Lo a

ser seu interlocutor, pois tem consciência de que entre sua palavra

e a Palavra de Deus não existe equilíbrio possível. Ele reconheceu,

de uma vez por todas, o quanto Deus está acima dele. Mas também

sabe até que ponto Deus se aproximou dele por meio da

encarnação de Seu Filho, a fim de abrir-lhe o caminho para a

divindade. E cada novo encontro significará um convite mais

urgente. Mas se ele disse: "Senhor, não sou digno", não perderá

mais tempo refletindo sobre sua indignidade e insistindo nela, mas

se abrirá para deixar entrar nele o único digno: Deus. Desde agora,

manterá seu olhar fixo na verdade de Deus e se deixará guiar por

ela. É como o filho que se deixa guiar pelo pai. Na maioria das

vezes, essa orientação será algo muito simples e reto - o exame do

homem por Deus, a exigência de uma decisão cada vez mais firme

de abandonar seu pecado -, mas sempre será uma orientação para

a verdade, que é tão grande que nela cabe toda alegria. Quem

encontra a Deus não pode dizer que procurou sua felicidade; no

máximo, pode afirmar que ansiou pela verdade e encontrou a

desmesura da verdade. E tudo o que isso traz consigo, incluindo a

alegria dos filhos de Deus, lhe foi concedido não juntamente com a

verdade, mas ao mesmo tempo que ela, pois todos os dons de

Deus fazem parte da graça de sua autorrevelação, e querem fazer

do homem uma imagem autêntica do Deus verdadeiro, uma

resposta adequada ao chamado que Deus lhe dirige.

A resposta do homem à verdade de Deus não pode ser um

contínuo exame e questionamento dessa verdade; a verdade está

ali, a Igreja a comprovou, Deus se revelou suficientemente, a

resposta deve ser um salto para o âmbito infinito da verdade. E

quem dá o salto experimenta como a realidade supera em muito

suas expectativas. O Deus que uma vez se revelou ao homem

nunca mais se retira para o âmbito do inacessível e do abstrato. Ele

se dá a Si mesmo de maneira cada vez mais concreta na Eucaristia,

em todos os sacramentos da Igreja e por meio de todas as palavras

das Escrituras; e o cristão pode sempre reencontrar Deus no

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próximo, e em todos os caminhos da vida, o amor eterno lhe sai ao

encontro, para que ele nunca cesse de adorá-Lo.

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