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Publicação Mensal
Vol. XXVIII - Nº 326 Maio de 2025
Vitoriosa
confiança em Maria
A grande missão de Maria
Flávio Lourenço
A Virgem instruindo
os Apóstolos - Museu
Nacional Bávaro,
Munich
Após a Ascensão de Jesus aos Céus, a Santíssima Virgem Maria assegurava, por sua presença
na Igreja e nos planos da Providência, que aquela distância estabelecida entre
Nosso Senhor e os homens não era um abismo, mas, pelo contrário, Ela se tornava a
Mediadora onipotente, que era o traço de união entre o Céu e a Terra, entre Deus e os homens.
A partir desse momento, a veneração marial passou a se tornar mais nítida e a tomar o
caráter de culto a Nossa Senhora.
Além de sua presença real na Sagrada Eucaristia, Nosso Senhor Jesus Cristo nos deixava sua
Mãe Santíssima. E todas as refulgências da Ascensão começaram a ser notadas, conservados os
devidos graus, na pessoa d’Ela.
Iniciava-se a grande missão de Maria na Igreja, prolongando de algum modo a presença
sensível de seu Divino Filho.
(Cf. Conferência de 18/5/1966)
Sumário
Publicação Mensal
Vol. XXVIII - Nº 326 Maio de 2025
Vol. XXVIII - Nº 326 Maio de 2025
Vitoriosa
confiança em Maria
Na capa, Coroação
de Maria - Museu do
Vaticano
Foto: Gabriel K.
As matérias extraídas
de exposições verbais de Dr. Plinio
— designadas por “conferências” —
são adaptadas para a linguagem
escrita, sem revisão do autor
Dr. Plinio
Revista mensal de cultura católica, de
propriedade da Editora Retornarei Ltda.
ISSN - 2595-1599
CNPJ - 02.389.379/0001-07
INSC. - 115.227.674.110
Diretor:
Roberto Kasuo Takayanagi
Conselho Consultivo:
Jorge Eduardo G. Koury
Roberto Kasuo Takayanag
Vicente de Paula Torres Nunes
Redação e Administração:
Rua Virgílio Rodrigues, 66 - sala 1 - Tremembé
02372-020 São Paulo - SP
Impressão e acabamento:
Pigma Gráfica e Editora Ltda.
Av. Henry Ford, 2320
São Paulo – SP, CEP: 03109-001
Segunda página
2 A grande missão de Maria
Editorial
4 A ascensão do
Reino de Maria
Piedade pliniana
5 “Dai-me a unção da confiança”
Dona Lucilia
6 Alma admirativa,
de bondade extrema
De Maria nunquam satis
12 Ó doce Virgem Maria!
Mater Boni Consilii
16 VII - O improvável se realiza!
20 VIII - Celeste Conselheira
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ao Assinante
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25 IX - A imagem-pináculo da
devoção a Maria
28 X - Diante da Mãe do
Bom Conselho
Apóstolo do pulchrum
32 Perfeições opostas e
harmônicas
Última página
36 Matrem me dicent omnes generationes
3
Editorial
A ascensão do
Reino de Maria
Em nossos dias a abominação chegou a tal ponto que se tem a impressão de que o demônio conduz
tudo de maneira ao reino dele ir se arrastando torpemente História adentro, perdendo muitas
almas, com os pecados se acumulando por todos os cantos e de todos os modos.
Por outro lado, é certo que os castigos previstos em Fátima se aproximam e, de um modo repentino, inesperado,
deverão inundar a Terra.
Quando isso se dará, qual é o momento desejado por Nossa Senhora? Não sabemos. Essa espera já é, de si,
um castigo. É um castigo para os bons, não para os maus. Esses ficam se regalando e se refocilando no seu pecado,
enquanto os bons sofrem.
Antes da Paixão, os Apóstolos não sabiam que a hora da Agonia de Nosso Senhor Jesus Cristo tinha chegado.
Quando o Divino Mestre revelou que um dentre eles O trairia, saiu aquele burburinho: “Quem será, quem
será?” Em determinado momento, deu-se a traição e, com esse pecado, tudo quanto havia de horrível ficou
completamente caracterizado.
Parece ser o que está se dando no mundo agora: pecados sobre pecados, mistérios sobre mistérios e dir-se-ia
que é dado ao homem ofender a Deus indefinidamente, sem castigo.
Em que momento virá esse castigo? Não sei. Uma coisa é certa: ele chegará de modo espaventoso, deixando
todos os ruins atônitos e todos os bons triunfantes de alegria. Por isso, devemos fazer nossos atos de confiança
em Nossa Senhora.
Por ocasião da Ascensão de Nosso Senhor Jesus Cristo, parece que ninguém, entre os Apóstolos e discípulos,
sabia que Ele ia subir ao Céu naquele momento. Ele foi andando para o Monte das Oliveiras, enquanto
todos O acompanhavam e O ouviam falar, até chegar ao cimo do monte e começar a Se elevar lentamente.
Só quando Jesus estava no alto é que as pessoas compreenderam que Ele estava indo embora para não voltar
mais.
Desolação para todos, mas ao mesmo tempo maravilhamento vendo a vitória do Ressuscitado e o grande
brilho com que Ele estava projetando sua luz sobre o mundo inteiro.
Tenho a impressão de que o mesmo se dá em nossos dias. Estamos presenciando todos esses horrores, mas,
em determinado momento, veremos as coisas subirem e o brilho do poder de Nosso Senhor aumentar. A certa
altura estaremos no Reino de Maria. Então, para nós, será uma alegria sem nome e nos parecerá que a Terra
se transformou em Céu.
Minha esperança é de que Nossa Senhora apareça, com os cânticos dos Anjos, quando os homens estiverem
fazendo o desfile da vitória. Então vamos exclamar: “Como nós sofremos pouco, em comparação com a
multidão de alegrias que temos agora!”*
* Cf. Conferência de 28/5/1992.
Declaração: Conformando-nos com os decretos do Sumo Pontífice Urbano VIII, de 13 de março de 1625 e
de 5 de junho de 1631, declaramos não querer antecipar o juízo da Santa Igreja no emprego de palavras ou
na apreciação dos fatos edificantes publicados nesta revista. Em nossa intenção, os títulos elogiosos não têm
outro sentido senão o ordinário, e em tudo nos submetemos, com filial amor, às decisões da Santa Igreja.
4
Piedade pliniana
Mãe do Bom Conselho
Igreja do Mosteiro
de Santa Maria de
Bujedo, Burgos
Hélio G.K.
“Dai-me a unção
da confiança”
ÓMãe do Bom Conselho, persuadi minha alma de que toda tentação é mentirosa e todo
quadro diante do qual me coloca o demônio não é senão um monte de mentiras.
Se considero minhas insuficiências e infidelidades, tenho todos os motivos
para estremecer: é mais um dia em que serei infiel, pelo qual deverei Vos prestar contas
severíssimas.
Ajudai-me a desviar a tentação e todo pensamento que me perturbe.
Lembrai-me de recorrer frequentemente a Vós e dai-me a graça de fazer passar o quanto
antes esta tentação, fazendo-lhe suceder uma era de inteira confiança em Vós.
Minha Senhora e minha Mãe, por vossos méritos insondáveis, por vossa intercessão poderosíssima,
pelo amor imenso de vosso Divino Filho, livrai-me da ação do demônio e dai-me
a unção da confiança. Amém.
(Não há registro da data em que esta oração foi composta.)
5
Dona Lucilia
Nunca um movimento de vaidade ou apego,
profundamente admirativa, assim era Dona Lucilia
na ancianidade; a serenidade era uma nota tônica,
cheia de reflexão, fruto de toda uma vida.
Arquivo Revista
Desde muito pequeno, entre
outras coisas, eu admirava
em mamãe a serenidade
muito grande que ela difundia
em torno de si. Naquele tempo
não saberia explicitar, porque
uma criança com três ou quatro anos
não tem os instrumentos verbais para
exprimir as ideias que vão se formando
na cabeça. Mas eu sentia um
bem-estar extraordinário perto dela,
Plinio nos primeiros anos de vida
levando em consideração essa calma
que se notava vir de toda uma
vida, do passado inteiro dela, e que
se prolongava e duraria até o fim de
sua existência, como constatei quando
ela faleceu.
Monumental serenidade
no transe da morte
Dona Lucilia em janeiro de 1959
O último ato que ela teve antes
de morrer foi este: ela estava com
noventa e dois anos e com uma doença
cardíaca adiantada – banal em
pessoas idosas dessa idade – e, por
isso, com dificuldade de respiração.
Ela compreendia que a qualquer
momento podia morrer, porque
se a respiração encalha, morre-
-se. E sabia bem, também, que
se ela mandasse me chamar para
assisti-la, eu iria imediatamente.
Entretanto, a noite anterior
à sua morte ela a passou
quase toda acordada, com um incômodo
maior do que a dor, que
é a falta de ar. Ela não pediu para
me ver nenhuma vez, não me chamou.
Quando, afinal, clareou o dia, era
mais razoável que ela me chamasse.
No entanto, eu estava me restabelecendo
de uma crise de diabetes
fortíssima, eu quase havia morrido.
E ela tinha preocupação de não me
incomodar e, sobretudo, não queria
que eu assistisse à sua morte para
evitar o trauma que isso me poderia
causar; porque é sabido que os diabéticos
sofrem muito com acontecimentos
assim.
Arquivo Revista
6
Arquivo Revista
Em certo momento, chegou a hora,
ela sentiu que morreria. Com toda
a serenidade fez um grande Nome
do Padre e morreu. Foi o fim de
uma longa serenidade, mas uma serenidade
que tinha ao mesmo tempo
qualquer coisa de monumental, que
eu não saberia descrever.
Esfriando no afeto,
por amor ao filho
Dona Lucilia um mês antes de seu falecimento
Há em minha casa, numa salinha
cor de rosa, um quadro que representa
a mãe dela. 1 Era uma senhora
excepcionalmente bonita. Mamãe
não era uma pessoa bonita nem monumental
como minha avó, mas possuía
uma grande serenidade e era
cheia de reflexão, profundamente
refletida.
Ela refletia sobre todas as coisas a
fundo, serena e seriamente. De maneira
que a respeito de qualquer coisa
ela tinha algo a dizer, que era muito
bom, muito bem pensado, muito
ponderado, e era dito com inteiro
desapego. Nunca notei nela o menor
movimento de vaidade, de apego
a respeito do que dizia. Ela falava
com calma, nunca se apressava e
nunca era vagarosa demais. Era como
um rio que corria sem tropeço,
mas com normalidade; ela se exprimia
com uma voz muito carinhosa,
até aveludada; dizia às vezes coisas
duras de ouvir, porque era seu dever
dizer. Mas dizia tão bem que quando
ela, a mim, dizia coisas duras, censurando-me
por defeitos, eu ficava encantado
e desejoso de que ela censurasse
mais, pelo prazer de ouvi-la, de
tal maneira eu tinha encanto por ela.
Quando ela fez talvez uns oitenta
anos, notei que algo no seu modo carinhoso
de me tratar estava mudando
um pouco. Até então, desde pequeno,
ela me tratara como a pessoa
a quem mais queria bem na família,
a ponto de os familiares brincarem
com ela de todos os modos, dizendo
ser isso excessivo. Ela não se
incomodava e continuava do mesmo
jeito.
De repente, isso diminuiu. Depois
eu soube, por um dito dela, que
ela estava reduzindo as manifestações
de afeto porque percebia estar
já muito idosa e a morte estar se
aproximando, e eu sentiria demais a
falta dela se esse afeto mútuo fosse
tão grande. Ela preferia que isso declinasse
um tanto para que a ausência
que eu sentisse dela fosse menor.
Não sei se chego a exprimir bem
todo o desapego que ia a ponto de
me deixar pensar que ela estava esfriada
no afeto para comigo! É um
requinte difícil de imaginar!
Amabilidade materna
no convívio com todos
Até ela morrer eu não recebia
quase ninguém do Grupo em casa,
porque recebendo um, tinha que
aceitar outro, e depois outro, e encheria
minha casa de gente, e a ca-
7
Dona Lucilia
Arquivo Revista
Hall de entrada do apartamento de Dr. Plinio
Escritório de Dr. Plinio no Primeiro Andar
sa era dela, existia para ela. E não
seria natural que ela vivesse cercada
de tantos rapazes, por melhores
que fossem. Há um certo isolamento
próprio à pessoa idosa, sobretudo
quando é senhora, e que faz parte da
dignidade de uma casa de família.
Contudo, quando tive o acesso de
diabetes, os membros do Grupo, independentemente
desse hábito de
não irem em casa, começaram a frequentá-la.
Julguei natural, porque
eu estava muito doente, e até era
agradecido a essas manifestações de
carinho. Foi então que eles entraram
em contato com Dona Lucilia, começando
a apreciá-la enormemente.
Os médicos tinham marcado para
eu receber visitas em determinadas
horas do dia, fora disso não podia
acolher ninguém. Era natural que
eles começassem a chegar entre os
horários estabelecidos e depois fossem
embora. Ora, o que aconteceu
foi que nesse período eles enchiam a
casa, mais para vê-la do que para me
ver, porque ela constituiu uma espécie
de descoberta para eles.
E ela, muito amável, mandava
servir para eles doces, biscoitos, essas
guloseimas que as senhoras têm
sempre em casa. E depois, começava
a ter cuidados com eles que, em geral,
as senhoras não têm para com os
que não são da família. Por exemplo,
no hall a iluminação é um pouco escassa
e, passando por lá, ela viu dois
que faziam leitura; ela andava de cadeira
de rodas nesse tempo. Chegando
ao quarto, ela mandou a empregada
voltar lá a fim de dizer aos rapazes
que ela receava pela vista deles
se ficassem lendo ali, e que se dirigissem
ao salão de visitas, acendessem
as luzes e lessem o que quisessem.
E tinha uma série de pequenas
atenções assim. Isso os encantava.
No período reservado às visitas,
entre os visitantes calculados estava
ela. Era natural que ela quisesse estar
numa parte desse período a sós
comigo, mas eles não se davam conta
e iam para o meu escritório, onde
eu ficava reclinado num sofá; e mamãe
sentada numa cadeira ao meu
lado… Ela arranjava um jeito de sair
um pouco antes de terminar a hora,
e quando a sala esvaziava, ela voltava!
Ela não me dizia nada, mas eu
percebia o joguinho dela e, naturalmente,
o protegia em toda a linha.
Era a única coisa que ela fazia, e não
mais do que isso. Era o comprazer-
-se com os rapazes, achá-los muito
bons, mas querer reservar um pedacinho
do filho único dela para si
mesma.
Chegado o momento de ela também
sair, a enfermeira dizia:
— Dona Lucilia, está na hora.
Ela dizia, às vezes:
— Não, não está.
— Está sim.
Arquivo Revista
8
Ela não tinha nenhum relógio.
No apartamento havia um desses
que se coloca em cima das mesas
e das estantes, mas ela não
podia enxergá-lo pelas vistas
muito diminuídas.
Dizia ela:
— Eu aqui com o
Plinio sinto que a hora
não acabou.
Eu dizia:
— É claro que não
acabou, mas é claro!
Ora, em tudo isso
ela tinha uma certa
medida, porque depois,
daí a pouco, a
enfermeira dizia:
— Dona Lucilia,
agora está na hora.
Ela dizia:
— Agora chegou a
hora mesmo.
Despedia-se e ia para
seu quarto.
Arquivo Revista
Sozinha, um embaraço
durante a noite
Conto um episódio muito íntimo,
mas extraordinário.
Para manter a respiração bem,
mamãe não se deitava de um modo
inteiramente horizontal. Ela mandava
pôr nas costas vários travesseiros
de tamanhos diferentes, os quais ela
graduava, de maneira que ora punha
um travesseiro, ora punha outro.
Uma noite a enfermeira dela bateu
à porta de meu quarto, contíguo
ao de mamãe:
— Dr. Plinio, venha ver um pouquinho
onde Dona Lucilia está…
Perguntei:
— Houve algo com a saúde dela?
A enfermeira respondeu:
— Não, mas venha ver.
Eu a encontrei no chão, tentando
colocar os travesseiros na cama para
depois ela mesma reerguer-se. Dormindo,
ela havia rolado da cama, e
aquele edifício de travesseiros tinha
Dona Lucilia em Paris
rolado também. Não querendo interromper
o sono da enfermeira, ela
fazia um esforço enorme, apesar da
falta de respiração, a fim de conseguir
repor os travesseiros para depois
ela mesma voltar à cama.
Eu acho que poucas pessoas teriam
esse gesto e, no primeiro embaraço,
chamariam a enfermeira, é claro!
Ela estava lá, era paga para isso!
Eis alguns fatinhos que me levavam
a admirá-la tanto.
Aprendendo a compreender
pela admiração de mamãe
Outro aspecto bonito era o modo
pelo qual ela admirava as coisas.
Em 1914 ela esteve sete meses na
Europa e fez ali uma operação gravíssima
de vesícula biliar. Naquele
tempo era uma cirurgia dificílima,
hoje é banal; mas ela saiu-se bem.
Lembro-me mais dela em
Paris do que em outros lugares,
e lá, recordo-me bem
que a atitude dela era de
uma admiração constante.
Ela sabia perceber
a cultura francesa,
o modo de ser francês,
nas menores coisas.
E como quem fala
com criança, ela se
dirigia à minha irmã
e a mim: “Prestem
atenção nisto, olhem
para aquilo. Vejam
aquilo outro”.
Eram as coisas que
as crianças podiam admirar,
como ela também.
Por exemplo, passávamos
diante de muitas
lojas. Minha irmã queria
parar diante de lojas que vendiam
tecidos e eu, muito guloso,
queria parar diante daquelas que
vendiam comida.
É a índole masculina e a feminina…
O mundo dos tecidos para mim
é brumoso e inexistente. Mas o mundo
gastronômico altamente existente!
Passando diante de uma confeitaria,
eu olhava para a comida exposta
e às vezes elogiava alguma coisa.
Eu gostava muito de doces feitos
com café; os franceses fazem doces
de café de primeiríssima ordem! Se
ainda não tínhamos tomado lanche,
mamãe entrava para eu comer aquilo
que havia admirado. Ela me fazia
saborear, mas me fazia compreender
a fundo: “Olha que delícia, isto
é assim, de tal jeito”. Eu ia prestando
atenção para sentir o gosto da
coisa. E na saída eu pedia: “Posso levar
alguns doces?” E sempre podia!
Então, levava um pacotão para o hotel
e, lá, comedoria.
Desse modo ela me ensinou a ver
Versailles, o Louvre, a ver todas es-
9
Dona Lucilia
Divulgação(CC3.0)
Cristian Bortes(CC3.0)
Igreja Saint-Germain l’Auxerrois, Paris
sas coisas e a começar a compreendê-las
pela admiração intensa que
ela tinha por isso tudo.
Um encontro com a
princesa Isabel
No hotel no qual ficamos, estava
hospedada uma princesa oriental;
não me lembro dela, mas parece
que era muito moça e bonita. Todas
as manhãs tinha um cavalo parado à
porta do hotel, muito bem ajaezado,
para ela o tomar e ir passear no Bois
de Boulogne. Mamãe a olhava e admirava…
Recordo-me também do fato
de ela e minha avó terem conhecido
a Princesa Isabel, em Paris. Por
ser monarquista, mamãe admirava
muito essa princesa, outrora Regente
do Império Brasileiro, filha de
D. Pedro II. Enquanto este esteve
na Europa, ela fez a libertação dos
escravos.
Mamãe contava o encontro com
a princesa com pormenores cheios
de admiração, sem excluir de vez em
quando algum episódio engraçado
que acontecia.
Ela foi com minha avó assistir à
Missa na Igreja de Saint-Germain
l’Auxerrois, que fica próxima ao Louvre.
Antes de a Missa começar, elas
viram a Princesa Isabel – que não conheciam
senão por fotos – entrar no
presbitério. Era o tempo antigo, no
qual as princesas e os príncipes assistiam
à Missa desde o presbitério.
Quando a Missa acabou, elas permaneceram
certo tempo rezando e
viram que a Princesa Isabel se voltou
para uma senhora que estava ao seu
lado, disse-lhe qualquer coisa e continuou
a rezar. Essa senhora desceu os
degraus e dirigiu-se a vovó e a mamãe:
Princesa Isabel no exílio
10
“A Princesa Isabel notou que as senhoras
são brasileiras e mandou-me verificar
quem são, porque ela gostaria de
cumprimentá-las um instante”.
Tudo quanto há de mais explicável:
uma atitude de quem estava exilada
do Brasil que, tendo oportunidade
de encontrar brasileiros, desejava
conversar.
Elas, muito monarquistas, foram
logo lá; aquela senhora era dama
de honor da princesa, a Baronesa
de Muritiba. Houve apresentações e
a princesa contou-lhes que tinha conhecido
meu bisavô e um tio do meu
pai, o conselheiro João Alfredo, que
trabalhou com ela para a libertação
dos escravos. Grandes cumprimentos,
e a Princesa Isabel convidou-
-as para tomar lanche. Como se fazia
naquele tempo, convidou não só
vovó e mamãe, mas a família inteira
que estava em Paris.
Admirando a bondade
da princesa
Na hora marcada para o lanche,
apareceram várias outras senhoras
levando consigo as crianças. Por
quê? Fazia parte do modo de ver as
coisas naquele tempo levar as crianças
para encontros como esse, pois
significava uma aquisição para a vida
inteira poderem dizer que tinham
conhecido a Princesa Isabel. Percebe-se
o fio razoável disso.
Fomos umas sete ou oito crianças.
Aliás, eu nem tinha exatamente
ideia de quem era a Princesa Isabel,
tinha quatro anos. Eu já ouvira falar
de princesas e príncipes, como todo
menino, mas as ideias que se faz
a esse respeito nessa idade são muito
incertas.
Entre as crianças estava Tito, um
sobrinho de minha mãe, surdo-mudo.
Ele era mudo porque era surdo,
mas havia feito um curso especial e
já falava torrencialmente, muito alto
e com voz rouca. Não o deviam
ter levado, mas com sentimentalismo
brasileiro, ficaram com pena de
ele se sentir inferiorizado, vendo ser
o único que não ia porque era surdo.
Ademais, ele percebia mais ou menos,
pelo movimento dos lábios dos
demais, que se tratava de uma visita
à princesa. Não quiseram isso e levaram-no.
E ele estava lá no meio dos outros.
Quando entrou a princesa, todos
se puseram de pé e ela percorreu
a roda das pessoas. A recomendação
para todos nós, crianças, era beijar a
mão da princesa; todos fizeram e nós
também. Chegando a vez do Tito,
ela não percebeu que ele era surdo-
-mudo, e com muita afabilidade deu-
-lhe a mão, mas ele disse:
— A senhora é a Princesa?
— Sim.
— Ih, não vale nada! Eu estou
habituado a ver rainhas e princesas
com coroa até no baralho. Onde está
sua coroa?
A mãe do menino fazia sinal para
que ele se calasse e dizia:
— Fique quieto!
— Não, eu digo as coisas porque
elas são assim!
Dr. Plinio em 8 de fevereiro de 1993
Não podia sair pior. Então, a Princesa
Isabel com muita bondade, chamando-o
de filho disse:
— Meu filho, é assim, você tem
razão. Eu não tenho mais coroa!
Mas sou princesa e amiga de sua avó.
— Isso não me importa, vovó não
é princesa. Eu queria ver uma princesa
de verdade.
A Princesa Isabel fez-lhe várias
carícias até ele se acalmar, porque isso
tem naturalmente algo de reação
nervosa. Depois ela passou para outra
pessoa.
Mamãe contava essa cena da princesa
entrando na sala, todos se levantando,
os cumprimentos, depois ela
chegar perto do Tito e a atitude de
bondade para com este. Mamãe contava
tão cheia de admiração, que eu
admirava a Princesa, mas admirava
também mamãe por ver como ela
sabia admirar a Princesa. v
(Extraído de conferência de
4/2/1993)
1) Dona Gabriela Ribeiro dos Santos.
Arquivo Revista
11
De Maria nunquam satis
Flávio Lourencço
Ó doce Virgem
Maria!
Virgem da Misericórdia
Museu Poldi Pezzoli, Milão
Contemplemos uma
oração verdadeiramente
maravilhosa e que
reproduz todas as
características de
São Bernardo: um
misto de humildade e
de arrojo, de ternura e
de fogo, de varonilidade
e da suavidade própria
a uma pomba, com
um voo de águia.
Pediram-me para fazer um
comentário a respeito de
uma oração a Nossa Senhora,
composta por São Bernardo.
Nada falta para quem
espera em Nossa Senhora
Ó doce Virgem Maria, minha augusta
Soberana, minha amável Senhora,
minha Mãe amorosíssima, ó doce
Virgem, eu coloquei em Vós toda minha
esperança e não serei confundido.
Doce Virgem Maria, creio tão firmemente
que do alto do Céu Vós velais
dia e noite sobre mim e sobre
aqueles que esperam em Vós; estou
tão intimamente convencido de que
jamais pode faltar algo quando se espera
tudo de Vós, que resolvi viver daqui
para o futuro sem nenhuma apreensão,
e descarregar inteiramente sobre
Vós todas as minhas iniquidades.
Doce Virgem Maria, Vós me estabelecestes
na mais inabalável confiança.
Oh, mil vezes obrigado por uma graça
tão preciosa. Eu ficarei daqui por diante
em paz sob vosso coração tão puro.
Eu não pensarei mais senão em Vos
amar, em Vos obedecer, enquanto Vós
gerireis, Vós mesma, minha boa Mãe,
os meus mais caros interesses.
Ó doce Virgem Maria, que entre os filhos
dos homens uns esperem sua felicidade
de sua riqueza, outros a procurem
em seus talentos; que outros se apoiem
sobre a inocência de sua vida ou sobre
o rigor de sua penitência, ou sobre o fervor
de suas orações, ou sobre o grande
número de suas boas obras. Por mim, ó
Mãe, eu esperarei só em Vós, só em Vós
depois de Deus. E todo o fundamento
de minha esperança será minha confiança
em vossa bondade materna.
Doce Virgem Maria, os maus poderão
roubar-me a reputação e o pouco
de bem que possuo. As doenças poderão
tirar-me as forças e a faculdade exterior
de Vos servir. Eu poderei mesmo,
infelizmente, minha terna Mãe, perder
vossas boas graças pelo pecado.
12
Mas minha amorosa confiança em
vossas maternais bondades, esta jamais
eu perderei. Eu a conservarei, essa
confiança inabalável, até meu último
suspiro. Todos os esforços do inferno
não ma roubarão.
Eu morrerei repetindo mil vezes
vosso nome bendito e fazendo repousar
sobre vosso Imaculado Coração
toda a minha esperança.
E por que estou eu tão firmemente
seguro de esperar sempre em Vós, se
não é porque Vós me ensinastes, Vós
mesma, ó doce Virgem, que Vós sois
toda misericórdia e que não sois senão
misericórdia?
Eu estou, portanto, seguro, ó boa e
amorosa Mãe, eu estou seguro de que
Vos invocarei sempre e estou seguro de
que Vós me consolareis. Eu Vos agradecerei
sempre, porque Vós sempre me
aliviareis. Eu Vos servirei sempre, porque
Vós sempre me ajudareis. Eu Vos
amarei sempre, porque Vós sempre me
amareis. Eu obterei tudo de Vós, porque
vosso amor, sempre generoso, irá
além de minha esperança.
Sim, é só de Vós, ó doce Virgem,
que, apesar de minhas faltas, eu espero
e espero o único bem que desejo, o meu
Jesus, no tempo e na eternidade.
É só de Vós, porque sois Vós que
meu Divino Salvador escolheu para
me dispensar todos os favores, para
me conduzir seguramente até Ele.
Sim, é de Vós, Mãe, que depois de
ter aprendido a participar das humilhações
e sofrimentos de vosso Divino
Filho, me introduzireis na glória e
nas delícias, para louvá-Lo e bendizê-
-Lo junto a Vós e convosco, nos séculos
dos séculos. Assim seja.
Eis a minha maior confiança e toda
a razão da minha esperança. “Ecce
mea maxima fiducia et tota ratio
spei mei”.
A oração é verdadeiramente maravilhosa
e tem, de fato, as características
de São Bernardo, isto é, um
misto de humildade e de arrojo, de
ternura e de fogo, de varonilidade,
qualidades difíceis de encontrar reunidas
nas expressões de um só homem.
De um lado, a ternura para com
Nossa Senhora vai ao auge. Sobretudo,
chega ao último limite a persuasão
da ternura d’Ela para conosco.
De outro lado, no modo de cantar
a ternura d’Ela, nada há de efeminado,
de indigno de um varão. Pelo
contrário, há uma espécie de audácia
nessa ternura, de audácia encorajada
por essa ternura, estimulada
por ela, que faz exatamente dessa
oração uma obra-prima, porque
tem toda a suavidade própria a uma
pomba, com um voo de águia.
Vai direto até o Coração Imaculado
de Maria. E com uma liberdade,
com um desembaraço – eu ousaria
dizer, com uma familiaridade cheia
de veneração – de intimidade, que
verdadeiramente espanta.
Reinhardhauke(CC3.0)
Oração cheia de
familiaridade e de veneração
São Bernardo - Vitral da igreja paroquial de Saint-Michel, Malaucène, França
13
De Maria nunquam satis
Arquivo Revista
Confiar todos os interesses
à Santíssima Virgem
Ele fala da virtude da confiança
mostrando no que ela consiste e
as razões dessa virtude. Ela consiste
fundamentalmente em saber que
Nossa Senhora – como ele diz aí – é
ternura, é toda ternura e n’Ela não
há senão ternura.
Ou seja, não há severidade, não há
juízo, não há justiça. Não existe outra
coisa n’Ela a não ser isso. E como isso
é assim e essa é a disposição d’Ela
em relação a todos os homens, é lógico,
é forçoso, é inevitável, que cada
homem que sabe que isso é assim, tenha
n’Ela uma confiança sem limites.
Confiança no quê? Em duas gamas:
em primeiro lugar, quanto à vida
terrena; em segundo lugar, quanto
à vida eterna.
Confiança de que Nossa Senhora
vai gerir os interesses de cada um
Dr. Plinio em 1967
nesta vida. E é uma confiança que
abrange, de algum modo, também os
interesses terrenos.
Ele era religioso e não possuía, nesse
sentido, interesse terreno. Ele tinha
voto de pobreza, de castidade e de obediência;
os interesses materiais dele estavam
todos atendidos no convento. É
verdade também que ele, nesta oração,
fala em termos gerais, não só para o religioso,
mas é uma oração que qualquer
fiel pode repetir e fazer sua.
Aqui se entende que nós, nos nossos
próprios interesses terrenos, naquilo
que eles têm de legítimo, de
santificante, devemos confiar em
Nossa Senhora. Pedir a Ela que tome
conta deles, que faça por nós aquilo
que não somos capazes de fazer.
No auge da tormenta,
preparar o incenso para
cantar o Magnificat
Todos nós sabemos
que a Providência tem
desígnios insondáveis
e que pode querer nos
sujeitar, de um momento
para outro, a
um sofrimento que nós
não prevemos.
Sabemos também
que a Providência,
quer, genericamente,
daqueles a quem Ela
ama, que passem por
muitos sofrimentos.
Portanto, nesta vida
temos de sofrer.
Sem embargo disso,
há interesses terrenos
que por um movimento
interno da graça,
por um certo senso
das proporções, nós
sabemos e vemos que,
muito provavelmente,
a Providência não
quer que se percam e
não quer que se imolem.
Também esses
interesses nós devemos entregar a
Nossa Senhora. Ela velará por eles,
os apoiará, protegerá, de tal maneira
que não temos de estar com ansiedade,
com aflições, com sofreguidão
e falta de distância psíquica.
No pior das nossas angústias e
das nossas preocupações, devemos
nos lembrar daquilo que diz o Abbé
Saint-Laurent no livro da Confiança:
quando o tormento, ou a tormenta,
tenha chegado até o auge, é
a hora de preparar o incenso e todo
o necessário para cantar o Magnificat,
porque Nossa Senhora intervirá
e nos salvará. Essa é uma confiança
inabalável.
Confiança que cresce quando não
se trata de nossos interesses terrenos
individuais, mas das questões de
apostolado.
Intervenção de Nossa
Senhora no apostolado
Nossa Senhora quer nosso apostolado,
Ela tem dado disso mil provas e
as têm multiplicado continuamente.
Se Ela o quer, o levará ao sucesso.
E nós não temos que nos colocar
neste ponto de vista: “Eu, por mim,
resolvo os assuntos comuns do apostolado
com minhas forças e minha
capacidade. Nossa Senhora resolva o
extraordinário”. Isso é péssimo.
Nossa Senhora, como Medianeira
onipotente junto a Deus, resolve
tudo. Eu preciso de auxílio d’Ela para
as coisas grandes e para as pequenas.
Para as corriqueiras, como para
as enormes.
Ainda que as coisas de apostolado
possam parecer muito complicadas,
muito comprometidas, eu devo confiar
que Nossa Senhora resolverá;
eu ponho a minha confiança n’Ela e
não penso noutra coisa.
Aplicação à vida espiritual
Isso se aplica ainda mais à nossa
vida espiritual. Nossa Senhora nos
chama à santidade. Se Ela nos cha-
14
ma, não interromperá a obra que
Ela começou e nos levará até o fim,
se nós soubermos confiar.
Alguém dirá: “Dr. Plinio, belas
palavras… Na realidade, elas são
vácuas e não correspondem a nada,
porque, se eu pecar, estou criando
obstáculos à ação de Nossa Senhora
e não posso supor que Ela vá me
santificar. Quer dizer, o senhor está
dizendo uma coisa que é muito bonita,
mas que não vale nada, não tem
consistência. É uma quimera”.
A resposta está nesta oração de
São Bernardo. Ainda que tenhamos a
dor enorme de ter ofendido a Nossa
Senhora, mesmo que seja gravemente,
é preciso continuar a confiar n’Ela.
Porque se desconfiarmos d’Ela, então
está tudo perdido. A porta do Céu
é Ela. E se nós, pela nossa falta de
confiança, fecharmos esta porta, nós
mesmos nos condenamos.
Se, pelo contrário, nós continuarmos
a confiar n’Ela contra toda confiança,
Ela pelo menos receberá de
nós essa forma de glória, que é a do
pecador que confia n’Ela. O pecado
é um atentado à glória de Nossa Senhora,
mas o pecador que continua
a confiar n’Ela dá-lhe uma forma de
glória que nenhum justo pode dar,
e que é exatamente a glória da confiança
daquele que ofendeu.
Então ter a confiança nisso, esperar
contra toda esperança mesmo
dentro das dificuldades e da buraqueira
da nossa vida espiritual, é
uma coisa que São Bernardo recomenda
intensamente nesta oração
e que lembra que o pior do pecado
– mesmo ele sendo um horror –, o
pior é o fato de que a pessoa, depois
de cometê-lo, perca a confiança em
Deus.
Enquanto confia, o caminho ainda
está aberto, tudo é possível. Mesmo
para o pecado do tíbio, a propósito
do qual Nosso Senhor diz: “Eu
te vomitarei da minha boca” (Cf. Ap
3, 15-16), pois bem, para esse ainda
continua a haver a confiança.
Imaculado Coração de Maria - Igreja de Santo Hipólito, Cidade do México
Confiança para a
hora da morte
São Bernardo fala depois da vida
eterna. E diz algo admirável: quando
chegar a hora da morte, ele almeja
que a confiança dele seja tal que ele
morra com o coração recostado sobre
o Imaculado Coração de Maria. É
uma expressão naturalmente simbólica,
mas é de um valor enorme. Faz
lembrar São João recostado sobre o
Sagrado Coração de Jesus, na Ceia,
quando perguntava quem O haveria
de trair. Ouvindo, portanto, as pulsações
do Sagrado Coração de Jesus.
Na oração há também uma esperança
muito grande que Nossa Senhora,
na hora da morte, nos ajude.
Que Ela diminua os horrores desse
transe; até nos dê uma morte cheia
dos sentimentos da presença d’Ela,
se isso for para maior glória d’Ela e
para bem de nossa alma.
Ainda que nossa morte deva ser
muito árida, mesmo nesse caso, que
essa aridez seja para o bem de nossa
alma, para passarmos o menor tempo
possível no Purgatório, para irmos
ao mais alto do Céu, e que os
sofrimentos da hora da morte nos
ajudem a salvar muitas almas.
Esse é o pensamento admirável
contido nessa ficha de São Bernardo.
Oração tão bonita, carregada de
sentido e admirável debaixo de todos
os pontos de vista. v
(Extraído de conferência de
3/1/1967)
Flávio Lourenço
15
Mater Boni Consilii
VII
O improvável se realiza!
Após a “graça de Genazzano”, em muitas circunstâncias da
vida, Dr. Plinio esbarrou com o impossível que caminhava
em sua direção como um dragão hiante. Entretanto,
mesmo na aridez dessa graça, a promessa havia sido
feita: tudo se realizará e, no caos do mundo hodierno,
Nossa Senhora intervirá de um modo maravilhoso.
Arquivo Revista
Dr. Plinio em dezembro de 1988
A
“graça de Genazzano” comunicou-me
uma misericordiosa
certeza de que
Nossa Senhora não me tiraria a vida
sem que eu cumprisse a minha missão.
Em termos mais precisos e um
pouco mais modestos, Ela me garantiria
as condições de saúde, de longevidade,
para realizar a minha vocação.
Assim, todo o resto ficava leve,
secundário. Podia até ser que os
caminhos intermediários fossem difíceis,
mas não tinham o caráter de
aflição e de estraçalhamento que poderiam
ter se não houvesse essa promessa.
Era um convite, entre outras coisas,
para que eu praticasse a virtude
da confiança, tendo em vista a devoção
a Ela. Ou seja, rezando a Ela sob
a invocação de Nossa Senhora de
Genazzano, eu receberia graças especialmente
abundantes no sentido
do cumprimento de minha vocação.
Nesses últimos vinte e dois anos,
minha vida tem sido dura, mas, apesar
disso, é uma brincadeira em comparação
com o que foi antes. A par-
16
tir daquele momento, comecei a confiar
em Nossa Senhora de Genazzano,
certo de que as coisas mais difíceis
se desembrulhariam, se resolveriam
contra toda expectativa. Foi
fundamentalmente a virtude da confiança
que aumentou por causa da
“graça de Genazzano”.
Confiança provada
Essa graça, entretanto, tinha algo
de curioso, que é próprio à confiança.
Ela, antes de tudo, nos diz o que
é conforme à razão. Às vezes, há coisas
que não podemos deduzir, mas
percebemos ser plausível que aconteçam.
Por exemplo, é razoável que,
pela misericórdia de Nossa Senhora,
eu cumpra a minha missão. No entanto,
não posso provar que a cumprirei,
é preciso que Ela faça conhecer
isso ao meu espírito por uma comunicação,
já que não é uma demonstração
matemática.
Essa comunicação é acompanhada
de uma espécie de certeza interior,
suave, esclarecedora, distensiva,
vigorosa; é como se fosse uma palavra
de Deus, interna, e que nos dá essa
certeza. Mas, às vezes, a Providência
quer que caminhemos no escuro.
Ela tem o direito de pedir esse ato
de confiança: “Eu te prometi, inúmeras
vezes, dei provas de que aconteceriam
coisas pouco comuns para
que você cumprisse sua missão; agora
caminhe na escuridão”. E a graça
sensível se retira. Temos de confiar
andando às apalpadelas, com muita
dificuldade. Nessas circunstâncias é
necessário agir de acordo com a razão,
a qual dá a certeza de que o que
foi sentido naquela ocasião foi uma
palavra da graça e não uma imaginação.
Alguém dirá: “Mas, como o senhor
tem essa certeza?” Por dois modos:
primeiro, porque é um movimento
interior. Eu estou num quarto e ouço
a voz de uma pessoa amiga minha do
outro lado. Se é a voz dela, não vou
duvidar, é ela que está falando. Assim
Jesus resgata São Pedro das águas - Igreja de São Pedro, Piacenza, Itália
devo crer na palavra de Deus. Vou
andar tranquilo no meio da tempestade
e ainda que ela vá ficando cada
vez mais aguda, tenho de me manter
na mesma tranquilidade, lembrando-
-me das palavras outrora ditas.
Há um salmo que diz: “Lætatus
sum in his quæ dicta sunt mihi: in domum
Domini ibimus – Eu me alegrei
com isto que me foi dito: iremos
à casa do Senhor” (Sl 121, 1). Seria
apenas alterar um pouco o Salmo e
pensar: “Lætatus sum in his quæ dicta
sunt mihi: vinte anos atrás foi-me
prometido ir à casa do Senhor”.
Recordo-me como se tivesse sido
hoje, meticulosamente, posso até garantir
pela memória que tenho das
circunstâncias, que se tratou de algo
inteiramente extra e sobrenatural.
Foi-me dito que eu irei à casa de
meu Senhor cumprir a minha missão.
Essa graça reconheço rationabiliter
1 como verdadeira, portanto, tenho
certeza dela e de que cumprirei
minha missão.
Ora, não é fácil, porque vem o demônio
e levanta um problema: “É
verdade, Ela lhe prometeu; mas será
que depois disso você correspondeu
à graça? E tão perfeitamente quanto
a graça queria ser correspondida?
Essa promessa que lhe foi feita por
Nossa Senhora é bilateral, supõe um
cumprimento de sua parte. Que certeza
você tem da inteira realização
dessa promessa?”
Assim começa a discussão e temos
que dizer: “Cala-te Satanás!” Ou as
palavras de São Bento ao demônio:
“Vade retro, Satana... sunt mala quæ
libas ipse venena bibas — Vai-te para
trás, Satanás, as coisas que tu me ofereces
são más, bebe tu o teu próprio
veneno!” 2 Toca embora! Mas é preciso
ter força e, pedindo a Nossa Senhora
essa força, nós a conseguimos e
temos a paz, tranquilidade dentro da
tempestade, às vezes muito forte.
Como São Pedro
sobre as águas
Não quero comparar uma coisa
pequena com outra enormemente
grande, mas há algo de parecido com
Flávio Lourenço
17
Mater Boni Consilii
Arquivo Revista
Sede da Rua Martim Francisco, detalhe da explosão ocorrida em 20 de junho de 1969
São Pedro andando sobre as ondas
(Cf. Mt 14, 22-36), no seguinte sentido:
Nosso Senhor o chamou, ele pôs-
-se a andar sobre as ondas. Em certo
momento, começou a afundar.
Pode-se conjeturar a situação assim:
ele não duvidava que Nosso Senhor
era Deus e pudesse mantê-lo sobre
as águas, mas a impressão das ondas
sobre as quais ele andava atuou, por
uma associação de imagens, sobre o
espírito dele, e criou um medo que
não era uma dúvida de Nosso Senhor,
mas uma pressão das impressões
como são na natureza humana.
Assim, há momentos de aridez
dessa graça que não importam em
nenhuma dúvida, mas nos quais o
jogo da impressão das ondas vem e
aperta a parte sensível, no sentido de
proceder como se houvesse só o risco.
E eu, em muitas circunstâncias vivo
isso; convicção tenho inteira, mas
as “ondas” muitas vezes me cercam
de todos os lados.
É uma impressão sensível que,
graças a Nossa Senhora, nunca influencia
o meu procedimento externo,
mas internamente supõe uma reação
contínua de minha parte e, portanto,
penosa. É uma batalha interna
como a que eu creio que São Pedro
devesse ter desferido para andar
sobre as águas.
Há certas situações que eu não sei
como resolver, em que tudo faz pensar
que não se conseguirá aquilo que se
quer... Peço e obtenho. Muitos e muitos
casos em minha vida foram assim.
Certeza “genazzaniana”
Durante a doença mesmo, começam
a operar-se fatos que outrora
me deixariam lanhado, como infidelidades
dentro do Grupo. Recordo-
-me de que, quando estava já na fase
de convalescença, uma pessoa se
aproximou de mim e disse: “Eu queria
dizer, com muita tristeza, que não
aguento mais, vou sair do Grupo”.
Antigamente me saltaria logo o
pensamento: “O culpado é você, analise
sua consciência, veja direito, bata
no peito, severidade consigo antes de
ter com os outros”. Lembro-me que
pensei: “A missão se realizará apesar
de tudo, e pela palavra de Genazzano
devo confiar que todas as coisas desencontradas
e trocadas que acontecem
no Grupo são provações para a
virtude da confiança, mas que, de fato,
Nossa Senhora impedirá isso e o
sustentará”. Ele permaneceu no Grupo
e melhorou muito.
Pouco depois de eu ter me restabelecido,
estava à noite deitado, quando
recebo um telefonema: “Dr. Plinio,
explodiu uma bomba colocada por
terroristas, na Sede da Rua Martim
Francisco. Mandamos chamar a polícia,
e se o senhor quiser ver como as
coisas estão correndo, venha”. 3
Desde a “graça de Genazzano”,
quantos e quantos fatos desse gênero,
impossíveis, inverossímeis, perigos
de estrondejar, de arrebentar
que se deram. Uma série de provações
de toda ordem mais uma vez
cortou o caminho de minha vida,
uma sucessão de coisas que dava para
naufragar, mas o barco foi atravessando,
avançando para a frente,
tranquilo. Navegando contra todas
as marés, contra todos os improváveis,
sempre amparado por essa
certeza “genazzaniana” é que eu tenho
conseguido levar até aqui a luta
terrível que estava diante de mim, e
cheguei até agora.
Tive tantos, tantos aborrecimentos
que, se não fosse a confiança em
Nossa Senhora de Genazzano, eu teria
morrido. Mas, com a confiança
n’Ela, me foi dado aguentar os piores,
os mais graves, com serenidade,
certo de que Nossa Senhora ajudaria
e me faria sair do apuro por causa
daquela promessa que Ela me fez
e que, portanto, eu, continuando para
frente – com calma! – mereceria
que essa situação se resolvesse. Assim
atravessei uma quantidade inimaginável
de apuros e, graças a Ela,
com as condições físicas compatíveis
com a minha idade, mantendo uma
produtividade bastante grande.
18
Nossa Senhora faz os impossíveis
acontecerem, mas depois de meu peito
esbarrar com toda a força no impossível
e de ele se colocar diante de
mim como um dragão hiante, pronto
a me devorar. E a “graça de Genazzano”
foi exatamente a celeste solução,
a seguinte resposta: “Eu farei. Vá para
frente, porque Eu farei!”
Depois dessa graça, sobrepaira
em minha alma a convicção – que resiste
a todas as impressões e a todas
as apreensões em sentido contrário –
de que, apesar do vaivém mais terrível,
mais embaralhado e mais complicado
que possa haver, prevalecerá
o desígnio de Nossa Senhora, que
é a vitória da Contra-Revolução. Ela
poderá ter todos os contornos de um
“rio chinês”, mas no ponto em que
as águas do mar virem as águas do
rio, tudo se transforma em canal e as
águas do rio cairão no mar inevitavelmente.
Eu tenho certeza de que
Nossa Senhora não mentirá em sua
promessa e que tudo sairá de acordo
com a maior glória d’Ela. E a mim,
me basta saber que a obra d’Ela não
se desmerecerá nas minhas mãos!
Ponha-se a coisa como se puser,
minha primeira obrigação é a da tranquilidade
absoluta: não me permitir a
mim mesmo nenhuma dúvida a esse
respeito, porque tenho uma promessa,
a qual não duvido nem um pouco
que tenha sido de Nossa Senhora.
Uma promessa que
se estende a todos
triunfo e da glória do Reino de Maria,
estenda-se também a todos. E
daí a minha contínua oração a Nossa
Senhora de Genazzano para nos ajudar.
Notem que não digo “para me
ajudar”, mas “para nos ajudar”.
E, portanto, a confiança nessa vinculação
e a esperança de obter isso
deve levá-los a uma tranquilidade
não idêntica talvez, mas análoga
à minha. Ou seja, por paus e por pedras,
seja de que modo for, nós chegaremos
ao nosso destino e Nossa Senhora
nos fará ver isto, aquilo, aquilo
outro, mas Ela não nos abandonará.
Devemos, então, com muita confiança,
enfrentar tudo o que aparecer.
Agora, eis-nos chegados ao caos,
portanto, à “Bagarre”, porque nós
sempre entendemos que a “Bagarre”
seria um caos sangrento, cruento, a
agitação e a perturbação de toda a ordem
e de todas as coisas. Essa perturbação
invadiu o mundo. Mais ainda:
o caos se levantou na vida cultural,
social e política dos povos como se
fosse um novo valor intelectual que
aparece. Do caos se espera, por uma
estranha gênese, a ordem; dele se espera
que nasça o bom e o verdadeiro,
quando ele é o mal e o desordenado.
Por isso, estranhos apóstolos do
mal percorrem todos os distritos políticos,
sociais, étnicos e religiosos da
Terra anunciando que o caos se fará
e que nele está a vitória, quando nós
proclamamos que o caos é a derrota,
é o advento do reino do demônio.
E esse reino só não se dará porque
nós, com a certeza de nossa fé, com
a certeza de nossa axiologia, afirmamos:
“Não se dará! Do caos não nascerá
a ordem, mas do esmagamento
dele ela nascerá. E nisso nós confiamos
firmemente, porque cremos na
vitória de Maria”. Aí está o mesmo
esquema: algo que parece improvável,
mas que por uma intervenção
de Nossa Senhora se realizará sempre
de modo maravilhoso. Essa realização
assim é própria à imagem e
à devoção a Nossa Senhora de Genazzano.
Eu não hesito em dizer que a expressão
invocativa de Nossa Senhora
do Bom Conselho se confundirá, talvez,
algum dia, com a de Nossa Senhora
da “Bagarre”. v
1) Do latim: racional, com base na razão.
2) Fórmula medieval de exorcismo, atribuída
a São Bento de Núrsia, que
consta na medalha que leva seu nome.
3) Em 20 de junho de 1969.
4) Do francês: conflito desordenado
e profundo. Palavra usada por Dr.
Plinio para se referir ao grande castigo
de Deus à humanidade, se es-
Arquivo Revista
Creio que essa promessa de algum
modo não é só para mim, mas
se estende também a todos os meus
filhos, tendo comigo a vinculação
que têm. Nossa Senhora, tendo-os
chamado sem mérito algum e dado
tantas graças, Ela os fez ver que
há uma vinculação entre cada um e
mim, que faz com que a promessa de
que a “Bagarre” 4 se dará e o Reino
de Maria virá, acompanhada da certeza
de que nós vamos participar do
Conferência realizada por Dr. Plinio em 1991
19
Mater Boni Consilii
Daiane Santos
VIII
Celeste Conselheira
Fachada do Santuário da
Mãe do Bom Conselho,
Genazzano
A alma verdadeiramente católica
deseja ser aconselhada por
outrem, e ninguém mais do que
Nossa Senhora para dar um bom
conselho. Entretanto, Ela, ao
aconselhar, muitas vezes o faz
imperceptivelmente, despertando
na alma desejos e pensamentos,
desviando o espírito das coisas vãs.
A
festa em honra de Nossa
Senhora do Bom Conselho
foi instituída no século
XV, na igreja dos Irmãos Eremitas
de Santo Agostinho, em Genazzano,
na Itália.
A Mãe do Bom Conselho
Esta é uma invocação muito bonita,
porque indica Nossa Senhora em
uma das tarefas mais maternas, mais
próprias à Rainha do Universo, que é
exatamente a de dar o bom conselho.
Como Rainha do Universo, Nossa
Senhora governa tudo. O próprio de
quem governa é não só dar ordens
como também dar conselhos. E para
aqueles que amam verdadeiramente
Nossa Senhora, todos os conselhos
d’Ela valem como ordem.
A invocação bem exata é Mãe do
Bom Conselho; é a Mãe considerada
enquanto dando um conselho, uma
orientação a um filho espiritual d’Ela,
a um filho gerado por Ela na ordem
sobrenatural, como somos todos nós.
Se quisermos penetrar mais a fundo,
Nossa Senhora, por sua intercessão
onipotente, obtém de Deus para
as almas perturbadas, que não sabem
o que fazer diante de certa emergência,
o conselho de que necessitam, a
solução que procuram e que pareceria
impossível alcançar; porque elas
analisam a situação e não encontram
em seus recursos intelectuais uma
orientação rectrix a seguir, precisando,
portanto, de um conselho para
saber como devem proceder.
Pedindo a Nossa Senhora do Bom
Conselho, a Nossa Senhora enquanto
Mãe dos homens desvairados, que
não sabem como se orientar, Ela se
compadece deles e os orienta.
Todos nós sabemos que o espírito
humano é susceptível de erro, de
grandes perplexidades e muitas vezes
não é capaz por si mesmo de atinar
com a solução de um problema
que tenha diante de si. Nessa situação,
é necessário o conselho de uma
mentalidade mais alta, que vê mais,
que irá explicar e traçar uma diretriz
para seguir.
Habitualmente nós consideramos
o conselho como uma norma para a
ação. Esse é o significado corrente
da palavra conselho. E, nesse sentido,
cabe dizer que para toda espécie
de ações, mesmo as interiores e espirituais,
Nossa Senhora pode dar um
conselho, uma norma.
Por exemplo: uma pessoa solitária
está com uma perplexidade espiritual
muito grande: continuará ou não
a ter uma devoção? Deixará ou não
20
de se abster disto ou daquilo? Como
fará? É um problema puramente
interior, relativo a um fazer que é
um mero fazer do espírito e que não
se traduz, a não ser por vias de consequências,
numa operação externa.
O homem pode ter perplexidades a
esse respeito e, tendo-a, precisa de
uma ajuda: um conselho espiritual,
um conselho para as dificuldades de
apostolado, para os estudos, para o
trato com os outros, para tudo.
Necessidade do conselho
e seu papel nas
instituições ocidentais
Nós podemos dizer que um dos
frutos da Idade Média, da Civilização
Cristã, é o ter tornado bem clara
essa necessidade do conselho como
uma norma de vida vigente até mesmo
nas instituições civis ocidentais.
Se analisamos a primitiva história
das monarquias pagãs do Oriente,
mesmo das grandes como a do
Egito, da Pérsia, da China, do Japão,
notamos que, em geral, o monarca
era absoluto, tinha o poder de dispor
dos seus súditos como entendesse e
quase não ouvia conselhos. De vez
em quando aparecia alguém que dava
um parecer a respeito de determinada
situação, mas o conselho como
uma instituição que o soberano consultava
com rotina, aquilo que nós
chamamos Conselho de Estado, não
existia. O monarca ficava no seu isolamento,
resolvendo as coisas por si
e tomando as decisões.
Na Idade Média vemos aparecer
a instituição do Conselho. Reconhecendo
a precariedade, a falibilidade
do espírito humano, os monarcas nomeavam
Conselhos, órgãos coletivos
diante dos quais o rei costumava
levar seus problemas mais importantes.
Estes eram debatidos em reunião
e o rei aceitava ou não a solução
proposta, mas habitualmente ele
resolvia tudo com o seu Conselho.
Essa ideia passou da monarquia
para as outras formas de governo
que havia na Idade Média. As repúblicas
aristocráticas governam-se por
Conselhos. Por exemplo, o famoso
Conselho dos Dez de Veneza, que
assessorava o Doge e tinha um po-
der enorme; as repúblicas burguesas,
as cidades livres da Alemanha, eram
governadas por Conselhos, sendo
o burgomestre a expressão de um
Conselho eleito pela cidade. Assim
foi se afirmando o princípio de que
ter um Conselho é o complemento
natural de todo governo.
Pedir conselho, uma postura
católica por excelência
Mas, se os homens devem pedir
conselhos uns aos outros, se devem reconhecer
que por si mesmos têm dificuldade
de encontrar a sua própria
via em circunstâncias espinhosas, então
é sobretudo verdade que convém a
eles, podendo se comunicar com Deus
por meio da oração, que a Ele peçam
o conselho. Deve ser um dos hábitos
de nossa vida espiritual, de nossa piedade,
pedirmos que Nosso Senhor nos
ilumine e nos faça compreender aquilo
que devemos fazer.
É conhecido o fato, mais de uma vez
mencionado por mim, de São Tomás de
Aquino: quando ele tinha problemas filosóficos
muito delicados e difíceis, que
Gabriele Bella (CC3.0)
Conselho dos Dez no Palácio Ducal no século XVIII - Museu Correr, Veneza
21
Mater Boni Consilii
não conseguia resolver, ele introduzia
a cabeça dentro do Sacrário e ficava
ali rezando para o Santíssimo Sacramento
até que viesse a solução desejada.
Essa postura de alma de não só pedir
conselho aos outros, mas, sobretudo,
de pedi-lo a Deus, no campo natural
e no campo sobrenatural, é a postura
católica por excelência.
Se nós vemos tantas pessoas que se
curam de uma ou outra doença, que
vão a Aparecida e deixam objetos de
cera para lembrar o milagre, pedem
graças de toda ordem e as recebem,
às vezes graças materiais, Deus Nosso
Senhor, a fortiori, que Se encarnou para
salvar as nossas almas – e não para
salvar os nossos corpos
que a morte vai devorar –,
Ele deseja nos dirigir, nos
fazer conhecer a verdade
e o bem no campo espiritual.
O mais alto, o mais
belo conselho é, evidentemente,
a Deus Nosso
Senhor, autor de toda
verdade, de todo bem e
de toda luz, que nós devemos
pedir, e a atitude
habitual de fazê-lo por
meio de jaculatórias, deveria
ser comum e corrente
entre nós em todas
as nossas perplexidades.
Como são os
conselhos d’Ela?
Ora, Nossa Senhora é
a intermediária de todas
as graças; é Ela quem leva
a Deus Nosso Senhor
os nossos pedidos e é
Ela quem traz para nós
a graça do bom conselho,
aquilo que o Espírito
Santo comunica a Ela
e que nós devemos saber
para nossa orientação.
Como Nossa Senhora
aconselha o íntimo de
Gabriel K.
nossas almas? Ela o faz pela voz da
graça, por meio de uma iluminação
interior, de um discernimento especial,
de uma palavra que vem de
um bom amigo ou de um bom diretor,
enfim, de um livro que encontramos.
Foi, por exemplo, o que aconteceu
comigo com O Livro da Confiança
do Abbé Saint-Laurent, que tanto
me ajudou nas vias da confiança.
Eu o comprei apenas para agradar a
um vigário amigo e gentil que me tinha
convidado para ir a uma feira de
livros.
De um modo ou de outro, Nossa
Senhora nos faz chegar o conselho
que nós queríamos.
Nossa Senhora Intercessora junto à Santíssima
Trindade - Museu Metropolitano de Nova York
Em todas as ocasiões é sumamente
importante a invocação de Nossa
Senhora enquanto Conselheira, enquanto
Padroeira que pede a Deus
que os montes se movam e os rios alterem
o seu curso para que a axiologia
do coração de seus filhos se desenvolva
de um modo reto e satisfatório.
Conselhos vindos pela
união de almas
Os bons conselhos aparecem na
alma sobretudo pela voz da vocação.
Sempre que ouvirmos algo em nosso
interior ou fora de nós que está na linha
da vocação; sempre
que sentimos um movimento
que nos dá, de repente,
apetência de algum
bem; sempre que a
graça inspire dentro de
nós apreensão diante de
algum mal; sempre que
recebamos uma influência
que nos santifica, devemos
tomar isso como
um bom conselho.
O modo pelo qual nós
recebemos de Nossa Senhora,
permanentemente,
bons conselhos, é nos
unindo àqueles que devem
ser os planetas em
torno dos quais nós devemos
gravitar como satélites.
O satélite não sai
da órbita porque ele gira
em torno de seu planeta.
Assim também nós não
saímos da órbita se estamos
unidos interiormente
com os que devem nos
aconselhar.
Não se trata apenas
de pedir um conselho,
mas de ter uma tal
união de almas, que, por
assim dizer, ambos tenham
o mesmo espírito,
a mesma mentalidade, a
22
mesma vontade; seguir
o que o planeta deseja,
antes mesmo de o ter
manifestado.
Há um exemplo maravilhoso
de união de
almas que eu estou lendo
agora na vida de Santa
Teresinha do Menino
Jesus: são as relações
fraternas dela com Celina,
irmã quatro anos
mais velha do que ela.
Durante muito tempo,
Celina não foi carmelita
porque cuidava do
pai, Monsieur Martin,
que estava muito doente.
Santa Teresinha, já
no Carmelo, se correspondia
com Celina, e as
cartas dela indicam essa
união de almas. Celina
teve a glória, não sei
como qualificar, de ser,
de algum modo, a inspiradora
de Santa Teresinha.
E Santa Teresinha,
pela união de almas,
quase que continuamente
tendendo para
Celina como para seu
próprio polo. O que,
evidente, nos dá uma vivíssima
desconfiança de que Celina
também venha a ser canonizada.
Vê-se aí quase uma espécie de
fusão de almas, uma interpenetração
por onde ambas vivem da mesma
graça. E Santa Teresinha tem trechos
de uma beleza inimaginável a
respeito disso.
Esses são os moldes pelos quais
nós recebemos os bons conselhos
de Nossa Senhora. Os mais preciosos,
fecundos e sadios dos bons conselhos
imponderáveis dentro da alma,
são os que nos vêm por certas
ideias, movimentos interiores, sugestões
que sentimos, os quais nos aproximam,
nos integram na nossa vocação,
e isso pela ação direta de uma
Celina e Santa Teresinha do Menino Jesus
alma, levando-nos para a santidade e
para o bem.
Nós deveríamos pedir a Nossa Senhora
que Ela, por essa forma, nos
encha dos conselhos maternais d’Ela
para assim alcançarmos não só a
maior das uniões com Deus, mas sobretudo
das uniões com Ela.
A Mãe do Bom
Conselho, auxílio dos
contrarrevolucionários
Nossa Senhora do Bom Conselho
é a Mãe dos aflitos – aflitos, porque
desorientados. Quem mais desorientado
em nossos dias que o contrarrevolucionário?
Tudo no mundo cotidiano,
no mundo revolucionário,
no mundo
do caos, parece falar
contra nós, mentir-nos e
levar-nos para o erro e
para o mal. Que remédio
há para isto a não
ser um bom conselho? E
quem o dá neste mundo
desvairado?
Ninguém mais e melhor
do que Nossa Senhora
do Bom Conselho!
Ela é, portanto, por
excelência, a Mãe e a
Conselheira do contrarrevolucionário
desgarrado
nas aflições e nas
penumbras, para não falar
nas trevas do mundo
de hoje.
Cabe aqui uma resolução
prática para nossa
vida espiritual: não fazermos
nada de importante
sem pedir a Ela
um conselho. A Nossa
Senhora nós devemos
pedir tudo e com frequência,
mesmo as coisas
pequenas, porque
Ela gosta de ser invocada
também nas oportunidades
aparentemente
secundárias. Não sabemos resolver
uma coisa? Rezamos: “Minha Mãe,
aconselhai-me”.
O habitual pedido do bom conselho
é uma postura altamente recomendável
para o contrarrevolucionário.
Nós vivemos numa batalha intelectual
e doutrinária, somos envolvidos
a todo instante pelas influências
da Revolução; e, ainda que sejamos
bons contrarrevolucionários e
procuremos assumir com fidelidade
a doutrina dada, sem embargo, a Revolução
é de tal maneira envolvente,
que muitos se queixam de notarem
em sua alma permeações revolucionárias.
Se assim é, haverá propósito
melhor que o de pedir a Nos-
Divulgação (CC3.0)
23
Mater Boni Consilii
Arquivo Revista
sa Senhora que nos consiga as luzes
e os conselhos e nos advirta sempre,
no interior da alma, contra as coisas
revolucionárias? Que Ela nos aconselhe
sempre: “Meu filho, aquilo é
revolucionário, não aceite. Aquilo é
heterodoxo, não aceite. Aquilo conduz
ao mal, é imoral, não aceite”.
Nesse sentido, a invocação de
Nossa Senhora do Bom Conselho
é idêntica à invocação de Nossa Senhora
da Fidelidade Contrarrevolucionária.
É por meio das orações
d’Ela que nós obteremos essa fidelidade.
Pedir para ser aconselhado
continuamente por
Nossa Senhora
Dr. Plinio em 6 de fevereiro de 1994
Nós podemos pedir a Ela que nos
dê os conselhos não só em toda ocasião
de dúvida, mas também naquelas
ocasiões nas quais não temos dúvidas
e nossa alma não se lembra de
pedir, ou não tem vontade de receber
os conselhos que nem pensamos
serem necessários. Imploremos
que Ela nos abra os olhos para
aquilo que precisaríamos ver, dizendo:
“Minha Mãe, dai-me o bom
conselho que Vós julgais conveniente,
mesmo numa hora em que eu
não perceba ser aquele assunto importante”.
Quer dizer, pedir para
ser aconselhado continuamente por
Nossa Senhora.
Quantos praticam com muito resultado
a devoção às almas do Purgatório,
pela qual pedem a elas que
os acordem de manhã cedo a tantas
horas? Se as almas do Purgatório,
por uma pequena oração, nos indicam
a hora certa, quanto mais Nossa
Senhora que é incomparavelmente
superior a todos os santos e, portanto,
também às almas do Purgatório.
Ela tem uma ciência de Deus como
ninguém; além do mais, Ela é Mãe
de Deus e Onipotência Suplicante.
Bem entendido, esse conselho, no
mais das vezes, não virá de modo extraordinário…
As almas do Purgatório
quando acordam as pessoas pela
manhã, atuam discretamente. Nossa
Senhora, a fortiori... Ela não aparece,
mas desperta na alma certo pensamento,
desvia o espírito para outro
lado, nos faz notar, de repente, alguma
coisa…
Às vezes eu vejo pessoas abatidas,
tristes, com perplexidades e eu
tenho vontade de dizer: “Mas meu
caro, por que você vem pedir conselho
a mim? Você já pediu a Nossa
Senhora do Bom Conselho? Não
é uma coisa incomparável? Do que
adianta eu lhe dar um conselho, se
Nossa Senhora não reforçar o meu
conselho junto à sua alma? Simplesmente
pelo valor lógico do meu conselho,
eu posso muito pouco. Pelo
contrário, com o apoio d’Ela pode-
-se tudo”.
Peçam sem cessar o auxílio d’Ela
e obterão uma renovação na sua vida
espiritual, eficácia no seu apostolado,
sagacidade nos métodos de ação
em todos os campos. Ela sabe tudo,
pode tudo e para nós quer tudo.
Padroeira em
momentos difíceis
É preciso admitir como provável
que não estejamos todo o tempo juntos,
e que em muitas ocasiões, pessoas
às quais recorremos habitualmente
para pedir um conselho não estarão
ao nosso alcance. Teremos que
resolver nós mesmos, e haverá o perigo
de o desânimo e o desengano
invadirem nossas almas e as fazerem
cair no meio da via da confiança e do
sucesso.
Nossa Senhora do Bom Conselho
será, por excelência, nossa padroeira
nesta via de encontrar o conselho
que nos mantenha confiantes, certos
de que aquilo que é axiológico acontecerá,
e por essa maneira nos será
dada a vitória.
Mais do que nunca, a festa de Nossa
Senhora do Bom Conselho é a festa
dos contrarrevolucionários. É uma
festa individual de cada contrarrevolucionário,
pois ele tem a alegria –
que tão poucos homens na Terra têm
– de voltar-se para Ela e dizer: “Mãe
do Bom Conselho, Vós não me desamparareis.
Tende pena de mim e
dai-me uma orientação”. v
24
Mater Boni Consilii
IX
Gabriel K.
A imagem-pináculo da
devoção a Maria
No afresco da Mãe do Bom
Conselho de Genazzano
transparece a intimidade
do Menino com sua Mãe,
parecendo ambos estarem
prontos para uma confidência.
Do mesmo modo Nossa Senhora
trata as almas de seus eleitos e,
mesmo quando parece retirar-Se
daqueles que A abandonam,
conserva dentro da alma destes
uma promessa de que retornará.
Pelos acontecimentos que
vou narrar, veremos como
Nossa Senhora trata as almas
que Ela ama muito, das quais,
porém, se afasta. Afasta-se, mas continua
presente em estado de ruína
dentro delas. Ruínas que falam, eu
diria quase ruínas que cantam e que
convidam para a reconciliação, para
o perdão, para a reestruturação.
A veracidade da
história se comprova
No século XV não houve grandes
controvérsias a respeito da autenticidade
do milagre do afresco de
Nossa Senhora do Bom Conselho de
Genaz zano, mas, à medida que o racionalismo
foi progredindo na Europa,
as dúvidas começaram a nascer.
E no século XVII se perguntavam:
“Será que existiu na Albânia a igreja
de onde ele saiu? Será que esse quadro
veio da Albânia? Como se pode
provar isso?”
Ora, a Albânia se tornou, pela invasão,
um país majoritariamente muçulmano.
Isso explica bem porque
Nossa Senhora a tenha abandonado.
A nação albanesa estava separada
da Itália por algo parecido com a
cortina de ferro: 1 era um país turco e
a entrada de pessoas cristãs não era
permitida. Da Albânia não se tinha
notícia alguma.
Entretanto, continuou a haver lá
um certo número não tão pequeno
de católicos, os quais se conservaram
fiéis à sua Fé. Por razões ligadas à
política – cujos pormenores não é o
caso de explicar aqui –, foi permitido
a esses albaneses católicos continuar
com algumas práticas da Religião.
Apenas no século XVIII, com a
decadência do poderio turco, depois
de tantos anos de separação, foi possível
enviar alguns missionários ita-
25
Mater Boni Consilii
lianos para a Albânia, que começaram
a tomar contato com os católicos
albaneses que estavam, até então,
completamente isolados. Assim
puderam informar-se com facilidade,
de modo sumamente direto
e, portanto, com toda veracidade,
a respeito das circunstâncias da vida
religiosa albanesa, mandando relatórios
para a Santa Sé, como se faria
em qualquer missão.
O relatório explicava o que os
críticos queriam saber: que existia,
de fato, uma igreja da Anunciação,
em Scutari. Nela constava que havia
um quadro de Nossa Senhora do
Bom Conselho, o qual partira misteriosamente
antes da dominação
turca.
Tomou-se conhecimento também
de cantos e hinos religiosos que o povo
albanês cantava, pedindo a Nossa
Senhora que voltasse porque estavam
arrependidos.
Das ruínas, Nossa Senhora
voltará a fazer reinar seu
Imaculado Coração
Portanto, ficou um resíduo de fiéis
o qual Nossa Senhora não abandonou.
Mesmo tendo deixado a Albânia,
Ela continuou a ter sua mão
pousada lá, e o santuário em ruínas
continuou habitado pela predileção
d’Ela, passando a ser teatro de milagres
e lugar de peregrinação. E aí se
vê um deixar não deixado, um abandonar
não abandonado, um retirar
não retirado, quase mais bonito do
que o ficar.
Quanta bondade de Nossa Senhora,
quanta conservação de sua misericórdia!
As punições d’Ela são de
mãe que continua a conclamar para
a penitência, para a emenda, para
uma modificação de vida, e não para
o abandono completo e a destruição
da nação.
Todos esses fatos se deram porque
Nossa Senhora quis conservar a
fé entre os albaneses.
É a economia, o modo pelo qual
Nossa Senhora não trata o comum
das almas, mas as muito prediletas.
Por aí se compreende como é a misericórdia
d’Ela: mesmo quando Ela
castiga e parece se retirar, conserva
dentro da alma uma espécie de ruína,
de permanência de algo que é
um sinal de que Nossa Senhora não
a abandonou inteiramente, pois ainda
deseja e espera que essa alma seja
reconduzida ao bom caminho. E
esse algo é como uma lâmpada que
se acende no meio das ruínas, é uma
luz que continua a brilhar com graças
que continuam a ser recebidas,
é uma promessa de Nossa Senhora
que diz que Ela ainda voltará e fará
reinar a virtude, fará reinar seu Imaculado
Coração nos lugares que Ela
abandonou.
Nesse sentido, eu acho que o
afresco da Mãe do Bom Conselho é
feito para o desfile inaugural do Reino
de Maria. E aparecerá com uma
grande ênfase. Pode-se imaginar que
a Imagem apareça de corpo inteiro,
falando, movimentando-se, enfim,
como se Ela tomasse vida e depois
voltasse para dentro do quadro.
Atração causada pelo afresco
Há um outro dado curioso: eu li,
no livro do João Clá, que na Albânia
Ela chamava-se Nossa Senhora
dos Bons Ofícios e depois, em Genazzano,
passou a ser chamada Nossa
Senhora do Bom Conselho. Ora,
“Bons Ofícios”, a meu ver, equivale
a Auxiliadora, porque se alguém me
fez bons ofícios, significa que me auxiliou
em certas circunstâncias. Essa
coincidência com a invocação
da Virgem de Lepanto pareceu-me
muito interessante.
Que imagem, como esta, pode ser
apresentada como foco de devoção?
Certas imagens de Nossa Senhora das
Graças são muito expressivas, mas absolutamente
não são como esta.
A meu ver, a escravidão a Nossa
Senhora, ou seja, o pináculo da devoção
a Ela, deve voltar-se normalmente
para a imagem-pináculo, que
é a Mãe do Bom Conselho.
Quando estamos diante d’Ela somos
atraídos pela imagem e algo da
doçura e da suavidade d’Ela comunica-se
a nós, deixando-nos como que
suavemente hipnotizados.
Gabriel K.
26
É incrível, mas o olhar d’Ela e do
Menino chamam tanto a atenção...!
Fica-se com os olhos fixos no afresco,
desejando passar uma eternidade
olhando-o. A tal ponto que há momentos
em que não é possível sequer
recitar o Rosário; é preciso parar de
rezar... Fica-se sem saber o que dizer...
é um milagre permanente.
O olhar do Menino Jesus tem o
feitio de razão de um homem, por
assim dizer; Ele é um varãozinho. O
d’Ela é de Senhora, de uns trinta e
poucos anos, mas não é tão determinado
como o do Menino Jesus, não
tem os contornos do olhar d’Ele. É
meio impreciso, nota-se uma certa
incerteza. Entretanto, para ter o Menino
com essa idade, Nossa Senhora
deveria ser muito mais moça. A
característica da infância n’Ele, no
afresco, é precocemente maturada.
É um Menino que sabe o
que quer, dir-se-ia já dotado
de razão, embora Ele
não o deixe transparecer.
A testa de Nossa Senhora
na fotografia é ligeiramente
rosada. Ela está
com uma espécie de liberdade,
muito natural e quase
suave. A cor do seu vestido
é escura. As estrias,
no fundo, são de cores vivas.
Aquele como que fio
de metal que sai da orla do
manto, está muito costuradinho
no tecido de cima, e
faz gomos. Não tem nada
de apertado, tudo é muito
direito, muito natural.
Intimidade atraente,
cheia de sobrenatural
Entre Nossa Senhora
e o Menino Jesus há uma
intimidade própria para
uma confidência. É uma
intimidade tão grande que
a atmosfera está pronta
para o Menino Jesus dizer
uma coisa ao ouvido d’Ela, e Ela
responder a Ele ou dizer algo a Ele,
baixinho, e Ele responder. Não estão
fazendo confidência, mas está tudo
pronto para tal.
Imaginemos a língua que eles falavam,
o aramaico. Por exemplo,
no alto da Cruz Nosso Senhor disse
a Nossa Senhora: “Mulher, eis aí
teu filho” (Jo 19,26), com a conotação
de “Minha Rainha, eis aí teu filho”.
É preciso dizer, por mais que
se admire, o latim não estava à altura
d’Eles. A construção desse idioma
é muito arquitetônica, muito raciocinada,
mas não tem a graça, os afetos,
o carinho do aramaico.
Por outro lado, contemplando a
expressão fisionômica de Nossa Senhora,
se eu não a interpreto mal, é
um pouco rêveuse, 2 de alguém que
está se deleitando com a presença do
Dr. Plinio em 25 de setembro de 1988
Arquivo Revista
Menino Jesus e assim entregue a um
grau de elevação sobrenatural muito
alto; não é algo como tinha Santa
Teresa de Jesus, mas discreto, suave.
Nesse relacionamento seria legítimo
imaginá-Los prelibando o cálice
da amargura. Não é isso, porém,
que transparece no afresco. Tem-se a
impressão de que o mistério da vida
de Nosso Senhor o veriam depois, e
de que, no momento, Eles estão com
os olhos postos no encontro dos dois
no Céu, onde, por toda a eternidade,
Ele estaria num fastígio de glória inconcebível,
mas unido a Ela assim,
como no quadro.
Os atributos que lhe cabem por
ser Mãe do Homem-Deus, Esposa
do Divino Espírito Santo e Filha por
excelência de Deus Pai são inenarráveis,
celestiais. Evidentemente, não
são contestados por nada na pintura,
mas também não se deixam
ver de propósito.
Parece que o artista conheceu
Nossa Senhora
nesta vida e acabou pintando
algo do que ele viu
n’Ela, sem estar glorificada,
mas d’Ele e d’Ela pensando
na glorificação. Podemos
imaginar quando
Ela ouviu Nosso Senhor
dizer ao Bom Ladrão:
“Hodie mecum eris
in Paradiso – Tu estarás
hoje comigo no Paraíso”
(Lc 23, 43), como Nossa
Senhora ficou alegre com
isso, compreendendo que,
no meio da noite em que
Ele estava, a certeza de o
Paraíso estar próximo O
iluminava! v
1) Cortina de ferro: expressão
usada, durante a Guerra
Fria, para designar a divisão
existente entre os países capitalistas
e socialistas da Europa.
2) Do francês: sonhadora.
27
Mater Boni Consilii
X
Arquivo Revista
Diante da Mãe do
Bom Conselho
Por filial iniciativa, Dr. Plinio recebeu,
em ação de graças por seu octogésimo
aniversário, uma viagem a Genazzano,
prolongando-a depois por outras partes
da Europa. O ponto auge, entretanto, foi
suplicar à Santíssima Virgem graças para si
e para os seus, e também para toda a Igreja.
Por uma especial atenção arranjada
entre amigos pelo
João Clá, eu fiz um rápido
giro pela Europa por ocasião de meu
octogésimo aniversário. Na ocasião
estive em Genazzano.
Principal objetivo da viagem
Eu já tinha informações sobre essa
cidade, que representa para nós algo
de fundamental, através de uma esplêndida
reportagem do João, abundantemente
fotográfica. Do afresco de
Nossa Senhora eu já conhecia magníficas
reproduções, além da estampa,
modestíssima e comum que, em certo
momento de minha vida, me disse tacitamente
uma palavra que até agora
ecoa aos ouvidos de meu coração.
Eu não excluía por inteiro a ideia
de passar por Roma e visitar alguns
locais da Cidade Eterna, mas de modo
muito rápido, sem ter o menor intuito
de fazer uma parada longa; depois,
voltaria para São Paulo. Pois,
por mais que eu tivesse empenho em
estar com os diversos Grupos na Europa,
conhecer alguns lugares, venerar
Nossa Senhora e adorar a Deus
em vários santuários, não deixava de
ser verdade que Genazzano ocupava
a posição número um nas minhas
preocupações e no meu espírito.
Diante da Mãe do Bom
Conselho, pedir tudo
Assim sendo, quais foram os meus
verdadeiros propósitos, as verdadeiras
razões dessa visita a Genazzano?
Esta é a pergunta mestra a se pôr ao
começar estas minhas rápidas recordações
da viagem, mas eu a ponho
assim tão crua porque está claro que
eu quero responder de uma maneira
inteiramente franca.
Essa viagem nasceu do meu desejo
de fazer uma peregrinação para
agradecer a Nossa Senhora vários favores
– de forma especial a “graça de
Genazzano” –, apresentar reparação
por faltas e pedir-Lhe graças. O que
pedi a Nossa Senhora do Bom Conselho?
Tudo! Tudo quanto alguém
possa imaginar que se peça.
Nossa Senhora toca cada alma a
seu modo, e eu acho que a união de
almas existente entre nós não impede
que cada um seja levado por Nossa Senhora
de uma determinada maneira.
Por exemplo, Santa Teresa, a
Grande, foi favorecida maravilhosamente
com uma via mística extraor-
28
dinária, enquanto Santa Teresinha do
Menino Jesus não teve visões nem revelações,
viveu na aridez a “pequena
via”, que todos conhecem. Santa Teresinha
era filha espiritual de Santa
Teresa e não cometia uma infidelidade
passando por uma vereda diferente
da fundadora, porque era o caminho
que Deus lhe indicava. Ela vivia
isso num espírito carmelitano.
Portanto, o que eu vou dizer não
constitui para ninguém uma obrigação
de ser assim. Cada filho meu se mova
segundo seu próprio ímpeto de alma,
pois Nossa Senhora quer de cada um
a oração que este deve fazer. No meu
modo de ser, há uma forma de reverência
para com Ela, de maneira que
eu fico sempre com um certo receio
de estar pedindo algo não inteiramente
desejado por Ela e, portanto, ponho
sempre uma condicional.
Contudo, se uma oração é necessária
para fazer andar as coisas, para
mover a Contra-Revolução, de maneira
que a convivência dela com a
Revolução se torne insuportável; se
um desfecho dessa situação depende
de uma oração, então, façamo-la!
Na minha condição de Fundador, eu
me sinto mandatário para fazer essa
oração, porque está na natureza
mesma das coisas.
Eu não quero dizer que foi essa a
razão mais premente, a que imediatamente
me levou a Genazzano, mas eu
me limito a estabelecê-la como ponto
de referência, por tratar-se de uma
questão que me toca no fundo da alma.
Que Ela queime etapas!
Supliquei, pois, que, se fosse o
desígnio d’Ela, condescendesse em
mandar a “Bagarre” e o “Grand Retour”,
1 condições que as circunstâncias
tornam óbvias para que seja
implantado o Reino de Maria. O
“Grand Retour”, entretanto, pedi
sem condições, porque isso é tão da
glória e tão da graça d’Ela que eu fico
sem saber o que dizer.
Mas por que fazer essa oração à
Mãe do Bom Conselho e não a Nossa
Senhora de Lourdes ou de Fátima,
ou a qualquer outra invocação?
Porque aquela comunicação sobrenatural
de Nossa Senhora, aquela
palavra inefável – sobre a qual eu não
tenho nenhuma dúvida –, tranquilizou-me
sobre o ponto central que tinha
sido a causa de minha enfermidade:
a minha vocação se realizaria!
E tranquilizado dessa maneira pela
Santíssima Virgem, é natural que
eu fosse a Genazzano para dizer:
“Minha Mãe, os anos se passaram.
Eu continuo na certeza de que minha
vocação se realizará. Mas quando?”
Por isso, eu pedi a Ela, avidamente,
que queimasse as etapas!
Além disso, pedi empenhada e insistentemente
algumas coisas difíceis
de obter, de forma especial uma graça
de caráter espiritual e interior para
mim. Foi com esse espírito que eu
me dirigi a Genazzano, ponto principal
da minha peregrinação.
Perdoai, Senhora, os
nossos pecados
Como eu ia em visita de desagravo,
era natural que eu também fizesse
um pedido de perdão.
Tendo Nossa Senhora me conservado
a vida até os oitenta anos – sessenta
dedicados ao apostolado –, e
tendo em vista o vale profundo onde
as coisas chegaram no mundo e as
circunstâncias em que nos encontramos
dentro do Brasil especificamente,
eu tomei a ousadia de falar um
pouco com Nossa Senhora a respeito
de prazos e recitei-Lhe uma frase
que se canta numa das horas do Ofício:
“Veni Domine, noli tardare, relaxa
scelera plebis tuæ Israel”. 2 Transposto
para Ela seria: “Vinde Senhora,
não tardeis, e perdoai os delitos
do vosso povo, Israel”.
Eu sei bem que o povo de Nossa
Senhora no Novo Testamento é
a Santa Igreja Católica. Então, como
membro dela, não mais do que
isso, eu pedi perdão pelas inumeráveis
ingratidões da Esposa Mística
de Cristo; e se, em algum sentido
da palavra, o Grupo pode chamar-
-se o povo de Nossa Senhora dentro
da Igreja de hoje, que Ela perdoasse
todos os defeitos, pecados,
desobediências, omissões etc., minhas
e de todos os outros. E que isso
não seja razão para adiar ainda
mais uma situação que chega a um
paroxismo verdadeiramente inimaginável.
Dr. Plinio diante dos restos mortais do Bem-aventurado Stefano Bellesini
Arquivo Revista
29
Mater Boni Consilii
Nenhuma manifestação
especial do afresco
Eu não quero dizer que se passou
algo entre Ela e mim, mas é evidente
que há coisas que se passam entre
a alma e a Santíssima Virgem,
porque no católico piedoso há sempre
uma relação de ordem sobrenatural
que se estabelece com Ela, com
Deus, sempre por uma ação da graça.
E muitas vezes é uma ação intensiva,
sensível, por meio da qual Nossa
Senhora dispensa muitos favores.
Entretanto, apesar de eu ter recebido
aquela graça sensível, tão importante
e que todos já conhecem,
devo dizer as coisas como são, com
toda franqueza, porque o que Nossa
Senhora faz é sempre o melhor e,
portanto, não há razão para esconder
o que Ela faz, muito menos para
mentir: em Genazzano
– eu estive longamente lá,
quatro dias, e nós ficamos
rezando horas no Santuário
–, em nenhum momento
da minha oração eu notei
mudança de fisionomia
no afresco. Tive a impressão
de que estava absolutamente
comum, sem manifestação
especial, nem
mesmo as de rotina – porque
é quase de rotina a
pessoa chegar lá e o quadro
exprimir-se. Ele esteve
tão imóvel e tão inexpressivo
quanto costuma estar
o que eu tenho no meu
quarto, o qual, entretanto,
foi instrumento de uma
tão esplêndida manifestação
de Nossa Senhora para
comigo.
Como me seria agradável
e alegre dizer que Ela
sorriu para mim, que Se
manifestou desse ou daquele
modo, ou que Ela
me tivesse dito: “Quando
estiver com Fulano, diga-
Arquivo Revista
Dr. Plinio diante da sepultura da Bem-aventurada Petruccia
-lhe que Eu o quero muito especialmente…”
Então, logo que eu descesse
do avião no aeroporto, telefonaria
para lhe dizer: “Venha encontrar-me
a tal hora, porque eu tenho
uma mensagem de Nossa Senhora
de Genazzano para você”. Não é
verdade! Não foi o que se deu, nem
foi o que Ela julgou bom fazer. Foi
uma aridez completa.
Eu esperava uma graça mais sensível,
mais reluzente, como a que tive
no Hospital Sírio-Libanês, mas esta
não veio. Também esperava que isso
se desse por ocasião da visita ao
Bem-aventurado Stefano Bellesini...
Nada! São as disposições d’Ela.
É preciso dizer que coisas dessas
não são raras em minha vida. Durante
o período do meu desastre, a
Sagrada Imagem de Nossa Senhora
de Fátima estava aqui em São Paulo,
e tiveram o belo gesto de pô-la
no quarto de mamãe, onde eu estava
todo metido em aparelhos, tendo-
-A sempre diante dos olhos. Naturalmente,
eu rezei tomando a imagem
em conta, mas ela foi insensível para
mim durante todo esse tempo, como
se fosse uma boneca de pau.
Entretanto, a Santíssima Virgem
nos ajudou poderosamente em muitas
circunstâncias decisivas, donde se
deduz que a não manifestação de sinais
externos é uma provação a que
Ela nos quer sujeitar e à qual está
sujeito o comum dos fiéis. Isso não
quer dizer nem um pouco que Nossa
Senhora não nos atenda.
Uma visita que me deixou
com a alma plena!
Em Genazzano, o meu intuito era
prestar culto a Nossa Senhora,
como também venerar
e pedir graças diante
dos restos mortais do Bem-
-aventurado Stefano Bellesini
– que não estão propriamente
na igreja, mas
numa capela ou salão contíguo,
anexo – e rezar no
lugar onde está sepultada a
Bem-aventurada Petruccia.
O nosso João já deixou
em Genazzano a marca de
cem passagens dele por
lá, de maneira que é muito
bem visto pelos padres.
Nós tivemos toda facilidade
de entrar e permanecer
no Santuário, e estivemos
várias vezes rezando
ali longamente diante de
Nossa Senhora.
Eu tive conhecimento
de que, ao contrário do
que temia, em São Paulo
a notícia de minha viagem
tinha sido acompanhada
de uma onda de graças,
e isso me tranquilizava e
alegrava muito. Fui, por-
30
tanto, agradecido a Nossa Senhora e
com o espírito desanuviado quanto a
esse ponto capital.
Uma noite eu consagrei a percorrer
a cidadezinha de Genazzano, que
é um verdadeiro encanto. Passando
por aquelas ruelas e olhando ao
redor, nota-se que algo de sociedade
orgânica e daquele modo de viver
italiano, da Itália autêntica, ainda
se impregna naquilo. As graças ligadas
ao antigo estado de espírito ficam,
por assim dizer, como um resto
de fumaça aderente às velhas paredes,
aos velhos muros, de maneira
que ainda se pode sentir que houve
alguma coisa nesse sentido.
Por fim, minha estadia em Genazzano
estava encerrada. Mas eu devo
dizer que saí de lá na paz de minha
alma, muito animado, muito encorajado.
Animado, vem do latim anima,
ou seja, com a alma plena!
Uma coisa é positiva: essa viagem
trouxe muitas graças para os
membros do Grupo em São Paulo e
no mundo inteiro, o que eu interpreto
como um sinal de que Nossa Senhora
queria a viagem e de que Ela
me ouviria.
Minha visita à Mãe do Bom
Conselho atingiu a sua meta
Eu seria atendido no que eu pedi
em Genazzano ou não? Qual seria
o resultado da prece que fiz? Eu
teria que deduzir isso em seco do seguinte:
a Doutrina Católica nos ensina
que Nossa Senhora é Mãe de misericórdia
e ouve todas as preces que
Lhe são dirigidas. Nessas circunstâncias,
Ela ouve a minha também. E o
que for para o meu maior bem e para
o maior bem da Causa d’Ela, sem
dúvida ouvirá. Evidentemente não
rezei só por mim, mas por todos os
membros do Grupo: os que foram,
os que são e os que serão chamados;
pedi muito por essas três categorias.
No decurso da viagem, algo com
relação ao Segredo de Maria 3 que
eu queria saber e sobre o que eu tinha
refletido muitas vezes sem conseguir
elucidar, se tornou mais claro
para mim.
Inesperadamente, no decorrer do
tempo, eu fui recebendo e continuo
a receber algumas das graças que pedi,
e tenho com isso a fundada esperança
de que receba todas. Portanto,
minha visita atingiu sua meta! Deixemos
o tempo dizer. 4 v
1) Do francês, literalmente: “grande retorno”.
No início da década de 1940,
houve na França extraordinário incremento
do espírito religioso, quando
das peregrinações de quatro imagens
de Nossa Senhora de Boulogne.
Tal movimento foi denominado de
“Grand Retour”, para indicar o imenso
retorno daquele país a seu antigo e
autêntico fervor, então esmaecido. Ao
tomar conhecimento desses fatos, Dr.
Plinio começou a empregar a expressão
“Grand Retour” no sentido não só
de “grande retorno”, mas de uma vinda
de uma torrente avassaladora de
graças que, através da Virgem Santíssima,
Deus concederá ao mundo para a
implantação do Reino de Maria.
2) Hora tercia: Responsorium. Quare tardas,
Deus? Veni: et libera populum
tuum; te enim expectat omnis Israel. V/.
Veni, Domine, noli tardare: relaxa facinora
plebis tuæ.
3) Misteriosa forma de aliança de Nossa
Senhora com as almas, descrita por São
Luís Grignion de Montfort, pela qual
Maria atua de modo especialíssimo,
tornando mais fácil e frutuosa a vida espiritual.
Cf. Dr. Plinio n. 156, p. 27.
4) Cf. Conferências de 26/4/1966,
14/6/1967, 16/12/1975, 16/12/1985,
19/7/1988, 22/8/1988, 21/9/1988,
8/10/1988, 5/11/1988, 6/11/1988,
6/1/1989, 8/4/1989, 26/4/1995.
Arquivo Revista
31
Apóstolo do pulchrum
Arquivo Revista
Perfeições opostas
e harmônicas
Uma pessoa habituada a fazer exercícios de transcendência
a propósito de tudo leva uma vida entretida, porque vai
ao fundo das coisas e se reporta ao Ser que é a fonte de
todas as delícias na Terra: Deus, Nosso Senhor.
Há um método pelo qual podemos transcender
dos seres criados até o Criador. Vejamos
qual é.
O mar, atraente e dominador
Tendo diante de mim um panorama, ou seja, um conjunto
de objetos que cabem num mesmo golpe de vista e
possuem certa inter-relação, sinto algo ao contemplá-lo
e devo procurar explicitar o que ele exprime.
Consideremos um panorama marítimo composto de
dois elementos puros e um elemento que, na falta de melhor
expressão, poderíamos chamar de misto. Os primeiros
são: a terra enquanto terra, e o mar enquanto
mar; o elemento misto é o ponto onde os dois elementos
puros se tocam, misturam-se e entrando numa espécie
de confronto.
A seguir, eu farei uma descrição de cada elemento.
O mar, massa líquida enorme, de uma cor leve, ligeiramente
tendente ao azul – ao menos para minha vista
– quase se poderia dizer que é um pouco azul-verde,
um pouco água marinha. Percebe-se que ele vem de muito
longe e, sem estar propriamente revolto, está num movimento
contínuo colossal, deslocando-se dentro de si
mesmo, massas e massas de água de um lado para outro,
discreta, mas possantemente; e, tendendo a espraiar-se,
pede para conquistar e entrar na terra. O mar tem qualquer
coisa de dominador, de avassalador.
Por outro lado, há algo curioso: ele avança, vai para
frente, mas convida quem está perto a entrar nele. É um
avançar fascinante, que não só não dá à pessoa vontade
de fugir, mas dá vontade de entrar nele. Tem-se a ilusão
– pode ser algo subjetivo, aliás, não é inteiramente uma
ilusão –, de que, imerso nessas águas, há uma delícia de
estar ali e de morar dentro delas; e que há um deleite para
o corpo em afagar o frescor dessas águas, em saborear
o salgado; para o olfato, em sentir o cheiro dessas maresias
que dessas águas se desprendem; e para os músculos,
uma alegria, ora em se deixar levar como uma molécula
que o mar arrasta, ora em contrariá-lo, entrando
nele quase como numa espécie de luta, para ter a alegria
de revolvê-lo.
Quer dizer, nós, que somos habitantes da terra, sentimo-nos
atraídos para dentro do mar como um pássaro
para o ar, por exemplo.
32
Confronto entre a terra e o mar
Essa sensação causada pelo mar, entretanto, é contrariada
pela impressão que causa a terra ao aparecer sob
a forma de montes, os quais dão ideia de que não foram
cortados por mãos de homem, mas por uma ventania impregnada
e quase vaporizadora de ar do mar, que joga
a umidade salgada, marinha, de encontro à montanha
e a corrói, umedece-a e torna impossível qualquer vegetação.
Por outro lado, essa montanha lambida, cortada, mutilada,
causa a impressão de que se sente meio afrontada
e procura olhar o mar de cima, redarguindo com uma
segurança extraordinária: “Adiante tu não irás. Meu poder
é fixo, estável, inamovível. Contenho-te. Tu morres
ou me feres. Inferior a ti, eu não sou. Eu sou sólida, não
líquida. Eu permaneço, tu és variável. Tu és a fantasia,
eu sou a realidade palpável, efetiva, física. Tu és mais a
realidade espiritual, etérea”.
E o mar responde: “Substância cega, estúpida, parada.
Eu continuarei a te injuriar e a te corroer, a te lamber
e a te desprezar. Eu sou o espírito, superior a toda a
tua carranca. Onde tu, para te afirmares, fazes carranca,
eu, para me afirmar, resplandeço e passo”.
Eu sentiria o confronto desses dois elementos dessa
forma. Compreendo que possa entrar aqui algo de subjetivo,
que outros sintam diferentes notas dentro disso ou
considerem secundárias as que eu acabo de dar. Mas a
mim, elas me falam muito.
Amenidade da zona intermediária
Agora vejamos a zona intermediária. Trata-se da
praia, amena, sem os orgulhos e a pretensão das montanhas,
quase tão graciosa como o mar. Dir-se-ia que é um
pouco de fundo de oceano que dorme ou sonha ao pé da
montanha e sobre o qual este vem passear.
Em relação a essa praia, o mar é afável, entra nela
branco, sorrindo em espuma; ele a visita, mas não a ocupa;
e retira-se deixando presentes, como as conchas e as
ostras. Dir-se-ia que há uma amizade entre os dois elementos.
E nós temos aqui, em última análise, duas formas
de beleza, porque tanto o monte quanto a água têm
sua beleza, que não são contraditórias, mas são perfeições
opostas e harmônicas, cuja harmonia é afirmada
nessa faixa central, que faz exatamente a nota de síntese
entre uma coisa e outra.
Exclamações que brotam do espírito
Depois de feita essa descrição do quadro, vem uma exclamação
que talvez pareça abstrata demais, pelo que
vou ter que explicá-la antes. É muito mais interessante
primeiro fazer a exclamação e depois explicá-la, mas
neste caso, didaticamente, vou inverter o método.
Quem olha só para o mar neste quadro, contempla um
elemento na sua própria natureza e no seu próprio modo
de ser, enchendo a quem o considera. Tem-se a sensação
de plenitude: um mar enorme, admirabilíssimo, a cuja
majestade e grandeza nada falta, nem sequer os encan-
Gabriel K.
33
Apóstolo do pulchrum
tos graciosos. Ele contém toda forma de poder, de charme,
de brilho, toda imensidade, mas, ao mesmo tempo,
possui todo o encanto dos seres miúdos que boiam na
sua superfície. Tudo nele está presente. A pessoa sente-
-se de tal maneira cheia, que tem vontade de tomar um
barco leve e ir visitar o mar, esquecendo-se da terra.
Se quiserem comprovar como é efetiva essa sensação
de plenitude do mar, imaginem alguém que estivesse
num barco e, de repente, ouvisse tocar um telefone portátil,
e um terceiro dissesse: “Estão chamando o senhor
para resolver um caso”. Ele teria vontade de pegar logo
o telefone e resolver imediatamente o caso para livrar-se
dele. Ou seja, ali, de momento, a pessoa tem tudo. Não
quer nada da terra, sente-se inteiramente atendido, ao
menos durante algum tempo.
Não tem dúvida nenhuma que a montanha, vista de
dentro dela mesma, é perfeitamente insignificante. Mas
quem a vê do mar, portanto, beneficiada pelo contraste,
depois de tanto patinar dentro das massas fluídas, não
pode deixar de olhar e exclamar: “Ó estabilidade, ó força,
ó continuidade, substância sobre a qual eu me apoio e repouso,
em vez desse mar continuamente encantador, mas
no fundo traiçoeiro e que me extenua de tanto pedir que o
admire. Eu volto para a tua mediania, volto para a tua pacatez
como para a casa paterna, como quem tira os vestidos
de gala depois de uma festa e põe o pijama. Tu és o
terra-a-terra, és o contínuo, o palpável, o proporcionado a
mim, meu habitat normal, do qual eu fugi num momento
de infidelidade quando me superei a mim mesmo, mas ao
qual eu volto sentindo que o meu lugar é esse”.
Plenitudes que transcendem a Deus
Mas, no retorno, há uma espécie de plenitude também.
Aí temos, então, duas plenitudes opostas e harmônicas,
cuja harmonia é fisicamente demarcada ou simbolizada
numa faixa de contato. Entretanto, é muito raro essas
duas substâncias plenas mostrarem tão claramente
no que se harmonizam, formando uma unidade. No caso
desse panorama marítimo, qual é o elemento que costura
melhor essas duas plenitudes? Quase se diria que as
ondas são como fios de linha que vão costurando a beleza
do mar à beleza da terra, e, portanto, atraem e agradam.
Isso é uma plenitude por cima das plenitudes, porque
os contrários harmônicos formam uma plenitude. A própria
expressão “contrários harmônicos” forma uma plenitude
de expressão de contrário harmônico. Eu poderia,
inclusive, descrever a altaneria das montanhas e do
mar, e mostrar como isso desenvolve a ideia do confronto
das duas plenitudes.
Assim eu veria o panorama, e a exclamação que, feitas
as reflexões, sairia dos meus lábios seria: “Oh, plenitude”.
Dessa plenitude eu faço a transcendência.
Deus não é pleno, Ele é a plenitude e pode ser comparado
tanto a um oceano infinito de perfeições, como a
uma montanha, a uma rocha estável que ninguém abala.
Ele criou tais seres para serem suas semelhanças neste
sentido. E eu, contemplando esses elementos, posso pensar
nas qualidades, nos atributos infinitos de Deus que
ali se refletem, e desejar o dia em que os verei face a fa-
Arquivo Revista
34
Eduardo Terço
Marcos Ramos
ce de um modo incriado, como nem de longe agora posso
imaginar.
Dessa forma está feito o exercício de transcendência
que me deixa extasiado. E quando eu deixo essa plenitude
despertar uma impressão inteiramente conforme a
minha razão e a minha fé, eu digo: na Terra, esta verdade,
este bem, esta beleza que eu estou sentindo, são um
antegozo do Céu.
Transcendência e entretenimento
Eu gostaria de fazer uma relação entre isso e o entretenimento.
Quem vai à praia e olha dessa forma o panorama, tem
longamente com o que se entreter. Ora, quem vai de rádio
ligado para saber questões de guerra no mundo ou
cotações da bolsa, este não entendeu nada. Causa mal-
-estar imaginar que alguém possa estar de rádio ligado
diante de um lugar como esse.
Portanto, uma pessoa habituada a fazer exercícios desses
a propósito de tudo leva uma vida entretida. Por quê?
Porque vai ao fundo das coisas e se reporta ao Ser que é a
fonte de todas as delícias na Terra: Deus, Nosso Senhor.
Seria muito bonito fazer um exercício tomando algumas
imagens de Nosso Senhor Jesus Cristo ou de Nossa
Senhora que me pareçam representá-Los bem, e imaginar
onde eu Os colocaria nesse panorama, de maneira a
servir-Lhes de moldura.
Isso leva para um outro mar de assuntos que é o mundo
dos possíveis. Por exemplo: onde ficaria bem uma capelinha,
que capelinha e em que lugar. Onde ficaria bem uma
Cruz, que Cruz e em que lugar. Isso faz ressaltar belezas
que dormem no panorama e que nossa imaginação evoca
de dentro dele para povoá-lo pela concepção de nossa arte.
Esse é um passeio entretido.
Por exemplo, dois companheiros que, sentados numa
cadeira de lona comentassem o panorama, poderiam
passar uma manhã inteira ali. Ao concluir suas considerações,
viessem anunciar-lhes que o almoço está pronto
e que comeriam dos frutos do mar que eles admiraram e
da terra que consideraram. Iriam depois fazer uma sesta
desanuviada e tranquila, já não mais pensando nisso.
No entanto, as considerações que fizeram ficariam como
um fruto colhido no fundo de seu subconsciente, uma riqueza
adquirida no fundo de sua alma.
Assim, nós poderíamos fazer mais turismo do que
percorrendo quinhentos quilômetros, a cento e cinquenta
por hora.
A meu ver, isso é viver.
v
(Extraído de conferência de 27/12/1974)
35
Gabriel K.
Visitação - Catedral
de Notre-Dame, Paris
Matrem me dicent omnes generationes
“Q
uia respexit humilitatem ancillæ suæ. Ecce enim ex hoc beatam me dicent omnes
generationes – porque olhou para a humildade de sua serva, todas as gerações me
chamarão bem-aventurada” (Lc 1, 48). Essas palavras inspiradas fazem parte do
Magnificat, o cântico supremamente nobre e enternecedor que a Virgem Santíssima entoou
quando de seu encontro com sua prima Santa Isabel.
Quanta verdade contêm essas palavras! Ao longo de dois mil anos de existência da Igreja,
não faltou sobre a face da Terra quem proclamasse as virtudes da Mãe de Deus.
Na realidade, Maria também poderia ter proclamado: “Matrem me dicent omnes generationes”,
ou seja, “todas as gerações chamar-me-ão Mãe”.
Maria Santíssima é a Mãe por excelência do Filho perfeitíssimo nascido de seu seio virginal.
E porque é a Mãe de Jesus, é também a Mãe de todos os homens, e até o fim do mundo
não passará uma geração em que não haja alguém que A aclame como Mãe.
(Extraído de conferência de 3/5/1991)