Revista VerAcidade - Jornal Noturno 024
Revista Laboratorial do turma do segundo ano do turno noturno (Jornal 024) de Jornalismo da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP). Referente ao ano de 2025.
Revista Laboratorial do turma do segundo ano do turno noturno (Jornal 024) de Jornalismo da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP).
Referente ao ano de 2025.
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Empréstimo é gota d’ água
Entre a rede de apoio
Saúde é prioridade
Seção de notas: Corpo & Espaço
O refúgio animal no coração do interior
5
Território em disputa: Aliança que resiste
sob tábuas e sonhos
Foto: Gustavo Mota
Pelo direito a cidade
Pessoas trans e carnaval em Bauru
“A universidade ainda é uma ilha”
A arte drag brilha em Bauru
Não existe cidadania sem enfrentamento
ao racismo
Seção de notas: Cultura
Inclusão: “A lei é muito bonita”
Superando barreiras e inspirando a inclusão
O clube do livro que acontece num bar
Em 2026, Norusca em campo o ano todo
Além da dança
Alex Garcia, de “Brabo” a cidadão
bauruense 6
15
Coluna de notas
Por Beatriz De Almeida
Quem cuida de quem cuida?
O direito à saúde, embora legalmente garantido
a todas e todos, enfrenta diariamente diversos
obstáculos, em maior parcela para as pessoas
que dependem apenas do serviço público, em
especial, as mulheres, que, em sua maioria, se
de seus companheiros. Em Bauru, existem 16
Unidades Básicas de Saúde (UBS), responsáveis
por oferecer atendimento em áreas essenciais
como Pediatria, Ginecologia, Clínica Geral,
Odontologia, Nutrição, Vacinação, entre outros.
O atual dimensionamento da rede, incluindo o
Programa Saúde da Família (PSF), não consegue
de espera e na sobrecarga - muitas vezes desnecessária
- dos serviços de urgência e emergência.
68 meses?!
Nos exames mais especializados, com responsabilidade
compartilhada com o Governo do
Estado, o problema se repete e com números
muito expressivos se observados a partir de
espera - que chegam a 268 meses -, incompatíveis
com a quantidade de atendimentos oferecidos
mensalmente em procedimentos para
pessoas com seios e útero.
Fila maior, nenhum exame
Em janeiro de 2025, 13.964 pessoas aguardavam
ser chamadas para o ultrassom vaginal. Dois
-
tes que precisam do ultrassom de mamas saltou
de 4.747 para 4.837 no mesmo período. Apesar
do crescimento na demanda, não houve oferta de
vagas ou realização efetiva desses exames durante
o período analisado.
Prioritários?
Em resposta a questionamentos feitos pela
coluna à Lei de Acesso à Informação, a Prefeitura
de Bauru informa que ainda não possui a aquisiendoscopia
e colonoscopia para pacientes encaminhadas
pela rede básica de atenção em saúde,
o que contribui para os altos números de espera.
No Centro de Diagnóstico por Imagem (CDI), o
município oferece vagas para esses procedimentos,
mas apenas para casos considerados prioritários,
como quando há suspeita de câncer apon-
E quem não tem dinheiro?
Para as demais pessoas, resta apenas enfrentar longos meses
de espera, nos quais o quadro de saúde pode se agravar, ou
recorrer ao atendimento em serviços privados. No entanto, essa
opção é inviável para a grande maioria que não tem recursos
financeiros para tal saída - realidade de muitas mulheres que
enfrentam ainda outras barreiras, como a dificuldade de locomoção
até as unidades de saúde. A coluna já constatou in loco
que essa dificuldade afeta, por exemplo, moradoras do Manchester
e Piquete, que, além da precariedade da estrutura
urbana, não dispõem de UBSs em seus territórios.
Discurso x Realidade
Enquanto isso, o discurso da prefeita Suéllen
Rosim sobre o tema não condiz com a realidade.
Na chegada a Bauru da carreta que ofertou
exames de mamografia pelo programa “SP Por
Todas”, ela disse: “Desde o começo do nosso
governo, nos preocupamos em melhorar o
acesso dos serviços voltados para as mulheres”.
Contudo, só agora, já em seu segundo
mandato como chefe do Poder Executivo, Suéllen
faz um gesto efetivo para amenizar o problema
que atinge, sobretudo, a saúde feminina.
Alívio?
Em maio, a Prefeitura contratou uma empresa privada
especializada em serviços de exames diagnósticos por
imagem, entre eles, a Ultrasonografia Transvaginal, de
Mamas, Pélvico Ginecológico e outros. Ao todo, serão ofertados
14 mil exames para quem se encontra na lista de espera.
A oferta, porém, irá atender apenas 20% dos pacientes desta
fila, que totaliza 70 mil pessoas. O exame com maior quantidade
de oferta será o US Tranvaginal, com 4.108 atendimentos
diante da demanda de 14.197 pessoas.
15
O REFÚGIO ANIMAL NO CORAÇÃO DO INTERIOR
Maria Cecília Gradin Itokagi e Pietra Perez
A cada segundo, 15 animais silvestres morrem
por atropelamentos - uma estimativa de 475
milhões de casos por ano. O dado impactante é do
Centro Brasileiro de Estudos em Ecologia de Estrada
e escancara uma realidade fortemente observada
também na região de Bauru, que conta
com uma instituição que exerce papel crucial na
reabilitação de vidas silvestres, vítimas dos impactos
da ocupação e da ação humana.
O Zoológico Municipal acolhe e reabilita
animais atingidos nas rodovias e também que sofrem
com as consequências da expansão urbana,
-
das, que, segundo a bióloga da unidade, Samantha
Pereira Lima, estão entre os principais motivos da
migração forçada das espécies selvagens para áreas
urbanizadas.
O espaço atua ainda em prol da preservação
e da manutenção da biodiversidade, do equilíbrio
ambiental, da educação e como núcleo de
Filhotes de macacos-prego
Fonte: Samantha Pereira Lima
O processo de urbanização de áreas verdes,
que dão lugar a rodovias e condomínios, por
exemplo, leva animais de vida livre a buscar alternativas
de ambientes em busca de alimentos e
parceiros para reprodução. “Mas não têm capacidade
para suportar [esses locais]”, diz a bióloga.
Samantha destaca o crescente número de
novos residenciais em Bauru. Embora seja exigido
um relatório de impacto ambiental para autorização
e construção desses empreendimentos, essa
medida acaba não sendo efetivamente respeitada.
“Querendo ou não, a gente está cada vez
difícil manter a fauna silvestre isolada do ser humano
(...) Na verdade, o ser humano é quem está
invadindo o espaço dos animais. Quem chegou
primeiro não fomos nós”, frisa a bióloga.
Esse contato é prejudicial não só para o
ecossistema, mas também para a saúde dos animais,
muitas vezes, alimentados inadequadamente
por seres humanos.
Outro problema recorrente em Bauru, as
queimadas - seja as criminosas ou as decorrentes
da estiagem - também forçam a fuga dos animais
de seus habitats naturais.
De acordo com a APASS - Associação Protetora
dos Animais Silvestres de Assis, a estiagem
até 30% no número de animais feridos pelo fogo.
Nos episódios de queimadas em Bauru, o
Corpo de Bombeiros e a Secretaria Municipal do
Meio Ambiente são acionados. A prioridade, em
meio à urgência, se concentra na eliminação dos
focos de fogo em detrimento do resgate dos animais,
que, em alguns casos, desenvolvem sequelas
decorrentes das lesões.
-
possibilitado de retornar à natureza, podendo ser
destinado para um Centro de Triagem de Animais
Silvestres ou também direcionado, se possível,
para o plantel do Zoológico de Bauru. “No caso de
sobrevivência, em que o animal está apto a voltar
para natureza, nós servimos de suporte aos animais
de vida livre”, explica.
A Polícia Ambiental também se responsabiliza
por resgate de animais em situação de risco
e aciona o Zoo em casos de necessidade de suporte
veterinário ou para a aplicação de anestésicos em
animais de grande porte, como a onça parda, muito
comum na região.
“Chega “Chega a a ser ser imensurável imensurável o o trabalho trabalhoque
o Zoológico que o Zoológico de Bauru de Bauru realiza realiza diante da
sociedade diante há da 45 sociedade anos”, Samantha há 45 anos”, Pereira
Samantha Lima. Pereira Lima.
16
Na chegada dos bichos ao parque, há sem-
-
dê-los. As vítimas são conduzidas para a realização
de exames, de sangue e de imagem, para que,
assim, recebam o tratamento adequado às suas
necessidades.
Samantha ressalta que, em muitos casos,
quando não há expectativa de vida com qualidade
e presente sofrimento, é necessário recorrer à eutanásia.
cuidados por dois tratadores; e o nível vermelho,
que exige que o animal esteja cambiado, ou seja,
fechado em outra área para evitar o contato direto.
A época de reprodução - agosto, setembro e
a serem cuidados, coincide com o período de aude
animais resgatados.
Veado sendo cuidado por veterinários
Fonte: Samantha Pereira Lima
“Em relação à reabilitação e soltura, esse
é um papel muito grande dos CRAS, o Centro de
Reabilitação de Animais Silvestres. No caso do Zoológico,
a gente tem que ‘rebolar’ e dar um jeito
porque nosso setor extra de internação é dos animais
de nosso plantel. Então, a gente tem que ter
um cuidado para não misturar com os animais de
vida livre”, explica.
A bióloga esclarece que esse contato pode
descontrolar o equilíbrio estabelecido com os animais
do plantel, adoecendo-os. Mas, infelizmente,
na maioria dos casos de resgates, os animais não
voltam para a natureza. “Uma vez tirado, é muito
difícil de ele retornar”.
a não recomendação de reprodução de algumas
espécies. “Não é simplesmente reproduzir por reproduzir.
Não adianta ter uma superpopulação de
uma espécie sem um trabalho para a reintrodução
para a vida livre”.
Existem três níveis de segurança estipulados
pelo Zoológico para o manejo dos animais: o
nível verde para os que não oferecem risco ao tratador;
o nível laranja, quando há a necessidade de
Imagem acima: araras-canindé despenadas
Imagem abaixo: veado-catingueiro com pata machuada
Fonte: Samantha Pereira Lima
VOCÊ
SABIA?
• O Zoológico de Bauru completa 45
anos em 2025;
• Em média, 300 mil pessoas visitam o parque
ao ano;
• Os primeiro “Zoológicos” surgiram como coleções de
pessoas da elite como um símbolo de status;
• O Zoológico Municipal de Bauru faz parte da AZAB, a
Associação de Zoológicos e Aquários do Brasil;
• Atualmente, há, em média, 700 animais de 170
espécies diferentes;
• Escolas públicas têm a isenção dos ingressos
para seus estudantes, e, para as escolas
particulares, os ingressos são metade
do valor.
17
“A universidade ainda é uma ilha”
Marcela Jardim
Muito mais do que abrigar instituições
de ensino superior, uma cidade universitária
deve garantir a seus estudantes — e à população
em geral — o pleno direito à cidade: moradia,
transporte, cultura, saúde e participação
política. Bauru, com sua forte presença acadêmica,
ainda caminha lentamente nesse sentido.
Apesar de sediar instituições como UNESP,
USP e outras da
rede privada, o que
falta para Bauru
ser, de fato, uma cidade
universitária?
Muitos alunos de fora — e até de bairros distantes
— se veem obrigados a arcar com aluguéis altos,
o que, somado à ausência de políticas de alimen-
A demanda por vagas em moradias públicas
é constante e não atendida. A inexistência
de uma política habitacional voltada ao estudante
leva muitos a alugar quartos ou apartamentos
em bairros próximos
ao campus,
com custos que
u l t r a p a s s a m
R$1.000 mensais.
S e g u n d o
o professor Adalberto
Retto, da
Faculdade de Arquitetura,
Artes,
Comunicação e
Design da UNESP,
é preciso repensar
a ideia de campus
e a própria lógica
urbana que isola
a universidade do
restante da sociedade.
“O campus, em um primeiro
momento, localiuma
‘ilha’, a partir do desenvolvimento extensivo
formado por loteamentos e condomínios”
Ele defende que as universidades devem
assumir um novo papel - “como parte inte-
Estudantes da UNESP Bauru em manifestação por conta do atraso do
auxílio estudantil, falta de moradias e poucas refeições no restaurante
universitário (Foto: Raissa Lino)
O estudante
Gabriel Diaz, de
Segundo ele, algumas dessas instituiçõesfo-
Araçatuba, relata
que encontrar
moradia em Bauru
foi difícil, especialmente
pelo
aumento dos preços
praticados por
imobiliárias quanque
o interessado
é universitário.
O professor Retto
ressalta que a simples
presença de uma universidade em uma
-
“Por vezes, a cons-
-
, avalia.
A localização periférica
da UNESP é também apontada pelos
estudantes como um dos entraves à inte
-
sária, tornando-se, com o tempo, insustentáveis”.
-
-
sária, tornando-se, com o tempo, insustentáveis”.
-
síveis. O professor destaca o potencial das universidades
para gerar desenvolvimento regional por
meio da transferência de conhecimento, inovação
e formação cidadã. “A universidade pode promover
o crescimento econômico e social do território,
desde que interaja diretamente com a sociedade
civil e com o tecido empresarial”
Adalberto Retto também ressalta o papel da
chamada “terceira missão” — a extensão universitária
— como elo entre a academia e a população.
O impacto urbano da universidade também
pode ser positivo. “A presença de jovens
que frequentam a universidade como ‘forasteiros’
anima setores da cidade com atividades
comerciais e culturais”, explica. Mas o professor
alerta: esse impacto precisa ser planejado
com responsabilidade e acompanhado por políticas
públicas que garantam o direito à cidade.
Questionado sobre o Plano Diretor de Bauru,
Retto observa que, embora não acompanhe
de perto a revisão atual, qualquer plano consistente
deve considerar a vocação universitária da
cidade. “Muitos dos alunos vêm de outros municípios,
o que criou, há tempos, um movimento
pendular cotidiano, conformando uma im-
, aponta.
Nesse sentido, Bauru precisa repensar
sua estrutura urbana e sua política pública. O
Plano Diretor em revisão deveria reconhecer
o papel estratégico das instituições de ensino
superior no desenvolvimento urbano e incorporar
suas demandas. A universidade pode, e
deve, participar dessas discussões como coordenadora
de projetos e por meio de conselhos
municipais, articulando conhecimento cientí-
A experiência universitária em Bauru
pode ser enriquecedora, como aponta o estudante
Gabriel Diaz, que elogia o acolhimento dos
moradores da cidade. No entanto, ele também
critica a infraestrutura urbana precária, o trânsito
mal planejado e a baixa acessibilidade. Para
ele, Bauru “tem potencial de se tornar uma cidade
universitária” — desde que haja maior investimento
público e uma legislação que reconheça
o universitário como cidadão de direito.
A compreensão de Bauru como uma cidade
universitária exige, portanto, mais do que a
manutenção das instituições já existentes. Exige
-
tica que incorpore a universidade como protagonista
do território. “A cidade é um campo de dis-
, adverte Retto.
Ao integrar o campus à cidade, ao promover
políticas de permanência estudantil e ao garantir
espaços públicos inclusivos, Bauru pode deixar
de ser apenas uma cidade com universidades e,
en-
Mobilidade urbana é um dos principais problemas de Bauru, principalmente
em dias e horários alternativos (Foto: Gabriel Sanches)
.
.
resenha
O clube do livro que acontece num bar
crítica e cerveja gelada, em um espaço de encontro e de trocas
Por Sarah Galindo
Quando somos crianças, o incentivo à leitura pode vir
de muitos lados — pais, escola, professores atentos.
Já na vida adulta, somos nós mesmos que precisamos
manter esse hábito aceso. Onde podemos saciar nossa
fome por sentido, por companhia, por novas ideias?
A resposta pode vir de onde menos se espera: de um
bar.
Entre o aroma de caldos e o tilintar de copos, participei
do encontro mensal do Cevadas Literárias, clube de
leitura que transforma o restaurante Cia do Caldinho,
em Bauru, em um palco de conversas profundas — regadas
a cerveja, empatia e literatura.
Na vida adulta, fazer parte de algo exige coragem — principalmente quando a mesa já está posta
e os assuntos parecem antigos conhecidos. Mas logo ao entrar, uma amiga e eu fomos acolhidas
com gentileza. Bruno, um dos idealizadores do projeto, nos recebeu com um sorriso, e Laís,
participante antiga, fez as apresentações. Era como chegar a uma casa onde, mesmo sem convite
formal, o lugar já era seu.
Na conversa com Bruno, ele contou sobre os primeiros passos do Cevadas:
“Surgiu de uma conversa despretensiosa entre amigos que queriam retomar o hábito da leitura”.
No início, tudo era improvisado: grupo de WhatsApp, leituras individuais, encontros casuais em
bares da cidade.
“A gente se encontrava num bar e bebia uma cerveja enquanto falava dos livros. Era pra ser leve, divertido”.
Hoje, o clube tem endereço, microfone e caixa de som.
Cerveja gelada, cardápio na mesa, e começa o debate.
O clube se reúne sempre na última terça-feira do mês, e os
livros do próximo encontro são divulgados com antecedência
pelo Instagram @cevadasliterarias. A ideia é simples: uma
leitura por prazer, feita sem pressa, com liberdade para participar
— ou não — do encontro.
A bebida, embora esteja no nome, não é uma exigência. Há
quem beba, há quem não. Mas o ambiente é tão confortável,
tão descontraído, que tomar uma cerveja ali se torna quase
um gesto de relaxamento — como se o corpo dissesse: agora
posso ouvir com calma.
33
resenha
Na noite em que estive lá, o livro em discussão foi “Método: mudar”, de Édouard Louis — uma
O debate começou com uma apresentação breve sobre o autor e suas obras anteriores, oferecendo
contexto para quem talvez não tivesse lido o livro. Em seguida, Wilton, professor e primeiro a
as mudanças narradas por Louis.
leitura crítica — e não precisavam. Muitos falaram a partir do que sentiram, do que viveram, do
que reconheceram na história do autor.
tudo — até da própria origem — para construir uma nova vida.
O mais curioso é que o cenário — um restaurante popular, com ruído de talheres e cheiro de comida
no ar — não atrapalha a conversa. Pelo contrário. Dá a ela um tom real, cotidiano, humano. O
que era leitura solitária vira experiência coletiva.
Como disse Clécio, um dos participantes:
“É diferente de dar aula. Aqui a gente participa como leitor — e isso nos humaniza”.
Wilton também resumiu:
“Tem uma espontaneidade aqui que falta na universidade”.
O Cevadas Literárias não se propõe a formar críticos, nem leitores exemplares. Mas forma algo
mais raro: vínculos sinceros por meio da escuta. E, talvez, esse seja o maior elogio que se
pode fazer a um clube de leitura.
Bruno e Zé — os organizadores
— deixaram o convite aberto:
“
‘‘
E é isso. Entre um gole e outro, é de encontros que se faz um livro inesquecível.
Foto: Sarah Galindo, Bauru - SP, 2025 34
Além da dança
Maísa Bornato
percebia ser complicado. Principalmente por ser
uma mulher preta. Não tinha uma referência,
não me sentia representada.
Foi em uma festa junina escolar, onde
assistiu a sua amiga com um grupo de adolescentes
dançando Backstreet Boys, que Fran
descobriu um novo jeito de se expressar na
dança.
Não sabia que aquilo era um estilo
de dança, mesmo sendo diferente
da dança do clipe, eu gostei bastante.
E foi ali que ela entendeu o que
procurava no vasto universo das artes.
Assim que conheceu o street dance, logo fez
com que seu pai a matriculasse em uma escola
que oferecia essas aulas. Com muita dedicação
e professores muito bons, se encontrou.
Eu sempre quis ser professora e ser
professora de dança foi uma consequência.
Quando uma de suas professoras -
cou grávida e pediu para que ela a substituísse
durante a licença, a vocação se aorou
naturalmente, sem que ela planejasse.
Por sempre ter sido incentivada por seus professores,
para participar de aulas, workshops,
professora de dança Fran Manson (Foto: Fran Mnason)
Todos os dias são uma consequência de
quem sou. É assim que a bailarina de danças
afro-diaspóricas norte-americana Fran Manson
dene seu sucesso alcançado dentro do universo
das artes corporais.
A dançarina de 38 anos, nascida na cidade
de Bauru, tem como nome de batismo Francina
Manson do Nascimento e é apaixonada por dança
desde criança. Começou dançando com sua irmã
mais velha, quando ainda tinha apenas quatro
anos de idade. Na época, as duas dançavam lambada.
Eu sempre fui incentivada por ela, dançar
era uma brincadeira para gente.
Aos sete anos ela iniciou aulas de ballet, às
quais se dedicou por aproximadamente seis anos.
Neste intervalo ela também deu início a aulas de
ginástica rítmica, e, apesar de gostar bastante,
A professora dançando durante um evento de dança
(foto: Fran Mnason)
35
Professora Fran dando aula durante um evento de hip hop (foto: Fran Manson)
eventos e competições, aproveitou todas as
oportunidades para aprender sobre as danças
afro-diaspóricas norte-americanas, as
quais segue estudando.
Em sua época de vestibular, as poucas
faculdades de danças eram voltadas para
danças contemporâneas. A abertura para os
estilos
urbanos ainda tem acontecido gradativamente.
A faculdade de dança tem começado
abrir mais esse leque, porque antigamente era
voltada mais para dança clássica e contemporânea.
Algumas faculdades de dança têm abordado
mais as danças de ruas e, agora, tem até uma pós-
-graduação em danças urbanas, mas é muito novo.
A primeira turma é deste ano, e isso é feito tudo na
rede particular. Ela tem como formação o curso
de Educação Física da Unesp, onde se graduou em
2007.
Na mesma época, ela começou a ser convidada
para dar aulas em outras cidades e, posteriormente,
realizou workshops em diversos locais
do país.
Fran também deu aula em muitos lugares
da Cidade sem limites, como escolas e studios de
dança, e conta porque nunca ixou de exercer a pro-
ssão em sua cidade-natal. Eu volto porque meu
intuito é primeiramente ser professora, e não conseguimos
fazer isso simplesmente só pingando nos
lugares. Não vamos participar do processo de formação
de uma pessoa. Eu gosto de ver as pessoas
crescendo, tendo uma formação iniciante, intermediária
e avançada, poder vê-las melhorando.
Tenho amigos que não trabalham dessa maneira.
Percebo que eles não conseguem ter uma referência
do que querem passar ali para o aluno. Ir no
evento é só um momento, não basta apenas um
dia para alcançar tudo que se pode desenvolver.
Foi na escola Sigma que Fran teve liberdade
para se entender como professora e coreógrafa
e se consolidou como referência na cidade. Mas a
atuação na rede pública também ocupa papel importante
em sua trajetória.
Fran conheceu a DEA - Divisão de Ensino
às Artes, da Secretaria Municipal de Cultura, após
sua mãe comentar com ela que a Prefeitura havia
aberto concurso para professores de dança. Na
época, por ser para instrutor de dança em geral,
não me deixava confortável, pois sabia que não
conseguiria, por exemplo, dar uma aula de bal-
36
let com anco. Por já estar dando aula de danças
urbanas para um número considerável de turmas,
preferiu, então, não prestar a prova naquele momento.
Alguns anos depois, a administração pública
entendeu a necessidade de ter um prossional
indicado para cada modalidade. A coreógrafa foi
contatada para que pudesse aplicar a seleção para
a vaga de instrutor de danças urbanas, mas ela não
aceitou, pois preferiu prestar o concurso, no qual
foi aprovada para o trabalho que segue desempenhando
dez anos depois.
Apesar de destacar a importância de ter
um espaço que dá oportunidades para que a população
conheça diferentes movimentos culturais,
Fran tem consciência de que a DEA é um ponto
de cultura para trazer informação. Aqui é só
uma parcela, é uma forma de aproximar a pessoa
para conhecer, até porque é um estilo de música
que não se ouve muito. É uma dança que não
vemos com tanta frequência na cidade.
Durante toda sua trajetória, a artista atuou
como coreógrafa nos maiores festivais de danças
urbanas, como o Rio H2K Hip Hop District, Meeting
Hip Hop e no Festival de Dança de Joinville,
onde ela também alcançou um marco. Em 2017,
recebeu o prêmio de Melhor Bailarina do evento,
que tinha como principal característica premiar,
em sua maioria, bailarinas clássicas.
Fran já recebia, há algum tempo, convites
para participar da equipe de coreógrafos de
grandes artistas brasileiros, mas tinha
medo de sair de Bauru e abrir
mão de ser professora.
Professora Fran e uma de suas turmas do DEA
(foto: arquivo pessoal)
Com todo o reconhecimento e por compreender
com a maturidade que um plano
não anula o outro,
passou a aceitar essas propostas.
Em 2021, participou do clipe Sem ltro
da cantora Iza, e, junto dela, se apresentou no
programa Caldeirão do Huck e no Prêmio Multishow.
Depois disso, já foi assistente coreógrafa
do show da Ludmilla no Rock in Rio, onde também
se apresentou. Ela também trabalhou com
Pabllo Vittar e Anitta.
37
Hoje, a professora tem se preocupado com
o futuro da dança. Em tempos de busca por likes
nas redes sociais e por aprovação social, muitas
pessoas têm se privado de experimentar, aprender
e se desenvolver. Eu percebo a diculdade
em fazer as pessoas terem uma cabeça de determinação
perante os desaos. A arte é movida
por desaos. Então, se eu conseguir tornar
alguém pelo menos responsável, dedicado em
alguma coisa, já vai ser um avanço.
Apesar de ter conquistado tantos marcos,
vivido tantas experiências, chegado em tantos
lugares e ainda ansiar muitas outras coisas, Fran
não se distancia das reexões sobre seu ofício e
sua trajetória. Eu não teria o macro se eu não
tivesse o micro. Minha maior felicidade é poder
ser constante.
38
Para ouvir no busão (com fone
de ouvido, por favor)
A música Bauru, da banda
bauruense Seu Migué, é uma
bem-humorada homenagem à
cidade, combinando ritmo envolvente
com uma boa dose de
elementos da identidade local.
Com uma pegada afetuosa, a canção
percorre marcos culturais de
Bauru, destacando suas personalidades
e episódios curiosos,
como o “sequestro do Bauruzinho”
- o controverso boneco que
habita as margens da rodoviária.
Para ver e lembrar que até a
enxurrada tem história
O curta-metragem Empoçados:
os rios contam Bauru
(2023), dirigido por Liene Saddi
e André Turtelli Poles, é uma
obra sensível, que retrata a história
da cidade a partir da perspectiva
das águas que a cortam.
Capa do curta-metragem
Ao trazer à tona os rios e córregos
que foram canalizados
ou soterrados com o avanço
-
lação entre o que foi constru-
Para ler e ver que Bauru é mais
que um sanduíche
Bauru, uma cidade sem limites,
escrito por Márcia Regina
Nava Sobreira e Sandra de Cássia
Ribeiro, traça o panorama
abrangente da cidade, abordando
aspectos históricos, geográ-
-
nizada em capítulos temáticos,
a obra retrata aspectos a partir
da fundação do município até
episódios mais recentes, passando
por tópicos como economia,
arte, esportes, saúde,
monumentos e símbolos locais.
A banda bauruense, Seu Migué
A canção também levanta a
moral do esporte local, mencionando
os meninos do basquete
e as meninas do vôlei,
sem esquecer do histórico Norusca.
E tem mais: a letra e o
clipe brincam com referências
- para o bem e para o mal - que
só quem conhece Bauru entende
de verdade, estreitando laços
afetivos com quem ouve.
Costurando com carinho, crítica,
irreverência e pertencimento,
Bauru vale como um bom
recorte de retrato da cidade.
Com abordagem estética que
mistura documentário, narrativa
histórica e elementos poéticos,
os rios testemunham o
crescimento desordenado da
cidade e os impactos ambienem
um panorama envolvente
e crítico, que resgata memóver
e sentir o território urbano.
-
cos de abrangências nacional e
internacional, a produção é um
com a natureza escondida sob
para pensar Bauru — e a cidades
— a partir do compromisso com
a sustentabilidade e com respeito
à sua história invisibilizada.
O livro Bauru, a cidade sem limites
Pensando para crianças e adolescentes
do Ensino Fundamental
II e professores, o livro traz
também um caderno de atividades
e jogos, tornando-se ferramenta
útil para a aprendizagem.
Mas com linguagem acessível e
recursos visuais, que incluem fotos,
mapas e documentos históricos,
o livro vale para todo mundo
que se interesse sobre partes da
história e da trajetória de Bauru.
Por Gabriel Sanches