O ENCANTO ATRAVÉS DOS MOVIMENTOS E NA PONTA DO PÉ
Esta reportagem cultural investiga as vivências de bailarinas na cidade de Paulista-PE, explorando os encantos e desafios de quem escolheu a dança como forma de expressão, profissão e existência. A partir de entrevistas sensíveis, registros visuais e observações em escolas particulares da região, o trabalho revela como a arte do movimento transforma vidas, mesmo diante das dificuldades estruturais e da pouca valorização cultural. Um olhar afetivo sobre o prazer de dançar na ponta do pé — e a força de quem insiste em fazer da dança um ato de resistência e beleza cotidiana.
Esta reportagem cultural investiga as vivências de bailarinas na cidade de Paulista-PE, explorando os encantos e desafios de quem escolheu a dança como forma de expressão, profissão e existência. A partir de entrevistas sensíveis, registros visuais e observações em escolas particulares da região, o trabalho revela como a arte do movimento transforma vidas, mesmo diante das dificuldades estruturais e da pouca valorização cultural. Um olhar afetivo sobre o prazer de dançar na ponta do pé — e a força de quem insiste em fazer da dança um ato de resistência e beleza cotidiana.
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REBECA FURTUNATO 20/06/2025
BEC´´S
O ENCANTO ATRAVÉS DOS
MOVIMENTOS E NA
PONTA DO PÉ: o prazer de
ser bailarina e os
desafios de viver a dança
em Paulista-PE
rebecafurtunato16@gmail.com
JUNHO 2025
09 May, 2026
QUANDO A DANÇA VIRA
ESCOLHA DE VIDA
Élide Leal é um desses nomes que
carregam a dança no próprio DNA.
Com 41 anos e quase 38 dedicados
à arte, ela cresceu com a certeza de
que a dança não seria apenas um
hobby, mas o fio condutor de sua
trajetória. “Minha mãe sempre me
incentivou. Comecei com quatro
anos e nunca mais parei. Minha vida
sempre girou em torno da dança”,
conta.
A história de Élide vai além dos
palcos. Empreendedora, ela fundou
o Nosso Espaço, escola que se
tornou referência em Paulista. Um
projeto que começou como um
desejo íntimo e se materializou
graças à sua insistência e ao apoio
de pessoas que acreditaram no
sonho. “No início, eu só dizia
‘quando eu tiver meu espaço...’. Nem
era um projeto formal, era uma
vontade. Depois de muitas
conversas com dois amigos, que se
tornaram meus sócios, o desejo
virou realidade. O nome ‘Nosso
Espaço’ surgiu naturalmente. Era um
espaço de todos nós.”
Foto: Acervo pessoal da entrevistada
Mas como manter uma escola de
dança em uma cidade com poucos
incentivos culturais? Em 2020,
durante a pandemia, a ameaça de
fechar as portas parecia inevitável.
“Eu realmente pensei em ir morar
fora. Mas os alunos não deixaram.
Fizeram uma vaquinha, arrecadaram
dinheiro. Isso me mostrou o quanto
o espaço significava para eles. A
gente não é só uma escola, somos
uma família.”
Foto: Acervo pessoal da entrevistada
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20 Jun, 2026
A DANÇA COMO DESCOBERTA
E IDENTIDADE
Isis Cordeiro, de 22 anos, também
tem Paulista como cenário de sua
formação. Formada em Educação
Física pela UPE, ela carrega no
corpo e na mente uma trajetória
múltipla, que vai do balé clássico à
dança contemporânea, passando
pela ginástica rítmica e pelo K-pop.
“A dança é parte do meu corpo, da
minha vida. Não existe vida sem
dança”, afirma. Isis começou a
dançar aindacriança e se
profissionalizou cedo.
Ela lembra que, aos 14 anos, já subia
nos palcos como integrante de
espetáculos importantes para a
cidade, como o “Mandala”.
Mas o caminho não foi fácil. Lesões,
inseguranças e a falta de
reconhecimento muitas vezes
colocaram sua determinação à
prova.
Foto: Acervo pessoal da entrevistada
“Passei por um processo muito difícil
após uma lesão no pé. Achava que
não ia mais conseguir dançar como
antes. Mas quando voltei ao palco
para meu primeiro solo
contemporâneo, percebi que ainda
era aquela bailarina. Foi um
momento de superação que me
marcou profundamente.”
Além de bailarina, Isis também é
professora de balé infantil, ginástica
rítmica e K-pop. E tem um olhar
crítico sobre os desafios enfrentados
por quem escolhe viver da arte em
Paulista. “A gente passa o ano todo
estudando, ensaiando, comprando
figurinos... e ainda escuta que o
ingresso do espetáculo de fim de
ano está caro. As pessoas não têm
noção do investimento que fazemos
para que a arte aconteça.”
Foto: Acervo pessoal da entrevistada
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20 Jun, 2026
RESISTÊNCIA EM FORMA DE
MOVIMENTO
Liane Rafaelle, licenciada em Dança
pela Universidade Federal de
Pernambuco, é mais uma voz que
ecoa essa luta. Professora,
pesquisadora e artista, ela aponta
para as dificuldades estruturais e
sociais que cercam a dança na
cidade.
“Os desafios são muitos:
desvalorização profissional, baixos
salários, falta de incentivo público. Já
perdi oportunidades depois que me
tornei mãe, como se a maternidade
me invalidasse como artista.”
Mas, mesmo diante das
adversidades, Liane segue
dançando, ensinando e
aconselhando seus alunos a não
desistirem. “Sempre digo: faça por
amor, mas com consciência. Não
deixe ninguém te apagar. Se você
sentir que não está sendo valorizado,
monte o seu próprio grupo, siga o
seu caminho. Reinvente-se.”
Para ela, a maior coreografia que um
professor de dança em Paulista
precisa criar é a da resistência. “A
gente luta todos os dias para manter
a dança viva aqui.”
Foto: Acervo pessoal da entrevistada
UM PALCO QUE DESAPARECEU,
MAS A ARTE RESISTE
O desaparecimento do Teatro Paulo
Freire, antigo espaço cultural da
cidade, é um símbolo da negligência
com a arte em Paulista. Localizado
no Centro, o teatro abrigava
apresentações importantes de dança
e outras linguagens artísticas. Hoje,
restam apenas lembranças e ruínas.
“Dançar ali era um marco para a
gente. O espetáculo de fim de ano
se tornou uma tradição, arrecadando
alimentos para instituições locais.
Ver aquele espaço ser abandonado
foi muito doloroso”, lamenta Isis.
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O prazer de ver um aluno acertar um passo pela primeira vez
ou vencer um medo de palco é, para essas professoras, uma
das maiores recompensas.
20 Jun, 2026
A falta de estrutura física reflete a
ausência de políticas culturais
consistentes. Para muitas escolas e
artistas independentes, levar o nome
de Paulista para festivais fora da
cidade, como o Festival de Dança de
Joinville ou o Festival de Anguilla, é
um ato de esforço coletivo, muitas
vezes sem apoio financeiro.
“Cada viagem é uma luta por
patrocínio. A gente bate de porta em
porta, explica a importância da
dança, mas nem sempre encontra
respaldo. Mesmo assim, a gente vai.
Porque desistir não é uma opção”,
reforça Élide.
As salas de aula em Paulista são
muito mais do que espaços de
técnica. São lugares de acolhimento,
aprendizado emocional e
reconstrução. Isis faz questão de
ensinar aos seus alunos que o erro
faz parte do processo. “Vejo uma
geração que não aceita errar. Eles se
frustram na primeira dificuldade.
Mas a dança é isso: errar, tentar de
novo, cair e levantar.”
Liane complementa: “A dança ensina
a ter disciplina, paciência e
consciência corporal. Ensinar é
construir uma base não só técnica,
mas também emocional nos alunos.”
Para Élide, estar no palco é uma
experiência espiritual. “É um lugar
onde eu me encontro com Deus. O
palco é muito mais do que
movimento. É um estado de ser.”
Isis guarda na memória momentos
de superação. Ela relembra uma
apresentação onde, mesmo doente,
decidiu entrar em cena. “Na terceira
apresentação de Mandala, em 2019,
eu estava passando muito mal. Tinha
uma virose, vomitava sem parar. Mas
entrei em cena. Era um espetáculo
de 45 minutos direto, sem saída de
palco. Foi um dos momentos mais
desafiadores da minha vida, mas eu
precisava estar ali.”
Mesmo com tantas dificuldades, a
vontade de continuar pulsa forte
entre essas mulheres. “Meu objetivo
sempre foi esse: fazer com que a
dança afete. Que ela mexa com
quem dança e com quem assiste.
Que transforme vidas”, afirma Élide.
Liane reforça: “A gente precisa de
políticas públicas, de espaços físicos,
de reconhecimento. Mas enquanto
não vem, a gente resiste.”
Isis completa: “Temos que valorizar
as pequenas conquistas. Celebrar
cada avanço. Porque, se a gente não
valorizar a nossa dança, quem vai?”
Paulista pode não ter mais um
teatro, pode não ter um calendário
cultural consolidado, mas tem
bailarinas, professores e alunos que
transformam cada ensaio, cada
espetáculo e cada lágrima em um
novo ato de resistência. Ali, entre
músculos tensionados, figurinos
costurados à mão, sapatilhas de
pontas quebradas e aplausos que,
muitas vezes, vêm apenas dos
familiares e amigos mais próximos, a
dança segue viva. E enquanto
houver quem se levante na ponta
dos pés, Paulista continuará viva e
dançando.
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