Um mundo mais humano
Caro amigo: Vale a pena lutar por um mundo melhor. Convido você a embelezá-lo para nossos filhos e os filhos de seus filhos. Eles são nosso fruto e nossa semente. Sua contribuição será preciosa e decisiva. O sucesso estará conosco. Não hesite!!! Ernesto Seguí
Caro amigo:
Vale a pena lutar por um mundo melhor. Convido você a embelezá-lo para nossos filhos e os filhos de seus filhos. Eles são nosso fruto e nossa semente. Sua contribuição será preciosa e decisiva. O sucesso estará conosco. Não hesite!!!
Ernesto Seguí
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O autor deste conto é
um idealista teimoso e
obstinado que sempre
acreditou que a justiça, a
liberdade e a dignidade
são valores capitais em toda
sociedade que pretenda
ser civilizada. Pelo fato
de a administração da
justiça depender do poder
legítimo de quem pode
decidir sobre os direitos do
outro, o escritor redigiu este
livro para convocar a outros
idealistas tão teimosos
quanto ele para assim unir
forças irmãs com a saudável
esperança de que algum dia
o mundo seja —realmente—
mais humano.
Um mundo mais humano
Seguí, Ernesto
Um mundo mais humano / Ernesto Seguí; ilustrado por María Lorena
Méndez. - 1a ed. - Rosario Ernesto Domingo Seguí, 2022.
Libro digital, PDF
Archivo Digital: descarga y online
Traducción de: Sandra Andrade Barbosa.
ISBN 978-987-88-4442-8
I. Méndez, María Lorena, ilus. II. Andrade Barbosa, Sandra, trad. III. Título.
CDD 144
Diseño y diagramación: edicionesdelrosario@gmail.com
Todos los derechos reservados.
1ra. edición en portugués: mayo 2022
© 2022, Ernesto Seguí
© 2022, de las ilustraciones, María Lorena Méndez
Um mundo mais humano
Ernesto Seguí
com ilustrações de
Lorena Méndez
Dedico este conto
àquelas pessoas que sonham com
um mundo melhor;
mais digno, mais justo,
mais tolerante, menos violento,
mais humano, mais lindo.
Dos teus sonhos de hoje e
da nobreza e generosidade da tua semente,
depende este próximo e mágico porvir.
ERNESTO SEGUÍ
“As pessoas são anjos com uma asa só,
a única maneira de voar
é nos abraçando uns aos outros.”
Luciano de Crescenzo
APRESENTAÇÃO.
RESUMO
Neste relato esperançoso, um jovem Herói e um Sábio vão
percorrendo diversos caminhos numa montanha.
Cada um desses caminhos está cheio de ensinamentos de
vida. Ambos protagonistas são guiados pelo desejo de ajudar a
reconstruir um mundo para que volte a ser —realmente— mais
humano.
A história acontece em 2051, em um mundo caótico,
insalubre e com sérios danos ecológicos. Os seus habitantes
dedicam a maior parte de seus esforços a conseguir sobreviver.
Nesta situação, cansativa e extenuante, vão deixando de lado
os valores e atributos que são necessários e essenciais para
salvaguardar a sua própria humanidade e a sua transcendental
dignidade.
Para reconquistar esses valores, quase esquecidos, o Sábio
transmite ao seu discípulo, as mais profundas convicções e as
mais nobres esperanças.
Ensina ao jovem aprendiz como deve ajudar ao mundo para
que os homens voltem a conquistar os valores e virtudes que
sempre marcaram a rota e o rumo em nossas vidas.
O diálogo entre o Sábio e o jovem Herói gira em torno
a perguntas cada vez mais inteligentes que o jovem faz e de
respostas cada vez mais agudas do Sábio.
Nesta travessia cheia de surpresas, o Mestre e o seu
Discípulo percorrem os Caminhos da Valentia, da Justiça, da
Bondade, da Harmonia, do Amor e da Fé.
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Não é uma simples casualidade que o jovem fosse escolhido
para esta viagem imaginária. Depois deve voltar ao mundo real
com a missão de ajudar na sua reconstrução porque é a própria
integridade e dignidade do homem que estão em perigo. A sua
tarefa é restabelecer os valores que nos fazem humanos em um
mundo desolado e arruinado em que já estão quase perdidos.
Deve reencontrar e voltar a construir tudo aquilo que foi
se perdendo pela indolência de muitos homens que foram se
esquecendo, ano após ano, dos valores que nos fazem humanos.
Esses são os nossos ideais mais elevados, os nossos pontos
cardeais que devem nos guiar em nossa viagem pela vida...
Assim como um viajante que é orientado pelas estrelas de nosso
grandioso universo.
É um relato disciplinador para todos aqueles que sonham
com um mundo mais humano. Por isso, este pequeno livro pode
ser lido por crianças que ainda vivem em um mundo encantado.
Também, e com mais razão, pode ser desfrutado por aquelas
pessoas que já percorreram incansavelmente uma parte da
sua vida adquirindo suficiente fortaleza e sabedoria para
compreender que todos nós merecemos viver em um mundo
melhor, mais digno, mais justo, mais tolerante, menos violento,
mais humano, mais lindo.
Somos eternos aprendizes da vida!
Só quem possui o dom de cristalizar os seus ensinamentos
percorre o caminho em direção à sua própria sabedoria e com
ela se prepara para se nutrir do que é mais generoso e altruísta
do homem.
A vida é um eterno sonhar em busca de um mundo melhor!
De uma maneira muito especial desejamos isso para os
nossos filhos e para os filhos de seus filhos. Eles são o nosso fruto
e a nossa semente.
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O HERÓI E O SÁBIO
Cidade desconhecida - Ano 2051
Em 10 de dezembro do ano de 2051, em um povoado dizimado,
localizado na solidão de um enorme deserto, alguém se
aproximou rapidamente de uma pequena casa. Fugazmente se
inclinou diante da porta da casa e deslizou um envelope colorido
por uma fenda. Dentro da precária moradia encontrava-se um
homem e uma mulher em expectante silêncio.
Quando escutaram o barulho do papel passando pela
fenda, ambos se sobressaltaram. Eram conscientes de que o dia
—“esse” dia— tinha chegado e que logo deveriam tomar uma
decisão transcendente sobre a vida do pequeno Estevão.
Ele — com tão somente dez anos — dormia sem se preocupar,
desconhecendo as mudanças radicais que iam chegar à sua vida.
Os pais dele pegaram a carta que estava no chão, e muito
emocionados começaram a ler o que estava nela escrito. Apenas em
uma linha riscada com uma tinta meio borrada dizia aquilo que eles
não queriam saber: “Está na hora de enviar a criança ao Emissário”.
Ambos sabiam que não estava entre as suas faculdades
desobedecer a tão precisa ordem. Olharam pelo buraco da fechadura
da porta e viram —vagamente— que havia um homem com uma
longa capa que aguardava firmemente do outro lado da porta.
Sabiam que não podiam fazer o homem esperar, então
foram até perto da cama da criança. Entreolharam-se fixamente
durante alguns segundos que pareceram uma eternidade e, como
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consolando, o homem disse à sua mulher: É para o seu próprio
bem, ele vai conhecer um mundo diferente e vai se enriquecer
com esses novos conhecimentos. Retê-lo aqui, neste povoado
dizimado —embora pudéssemos— seria um ato de egoísmo. Um
novo horizonte e uma nova sabedoria esperam por ele. Talvez
depois volte para casa para nos ajudar.
Acordaram o pequeno Estevão com doçura e disseram que
se preparasse para uma longa viagem.
O menino — que sempre tinha confiado em seus pais —
não se alarmou com a ideia quando ouviu que devia partir. Sabia
que sempre tinham cuidado dele com especial dedicação e que,
aonde fosse, estaria bem.
Os pais vestiram-no com roupas simples. Tinha sido um dia
quente e cansativo e —na verdade— nesse povoado desértico
eles nunca tinham sentido frio.
Os três dirigiram-se à porta. A mãe —ao chegar— deu um
beijo suave e quase imperceptível na testa da criança. A emoção
a invadia.
O pai — fingindo uma temperança que não tinha— abraçou
o filho com calma como se não lembrasse que o Emissário, de
longa capa, esperava muito perto deles.
A porta abriu-se. Não foi possível evitar o ranger dos trincos
enferrujados há séculos. Esses ruídos faziam parte do cotidiano
desse povoado perdido.
O tempo se esgotava e ambos os pais levaram a criança
delicadamente até que Estevão ficou ao lado daquele que viera
buscá-lo. Ele — que obedecia a estritas ordens — não evitou
fazer um gesto compreensivo, cavalheiresco, para com os pais.
Isso foi um sedante bálsamo para os atordoados sentimentos que
estouravam no peito dos pais.
Em silêncio, e com uma leve inclinação da cabeça, o cavaleiro
despediu-se. Pegou a criança com firmeza e doçura e montou-a
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em seu corcel alado. Um país muito longínquo esperava-os e uma
missão devia ser cumprida.
O menino — que continuava adormecido — deitou a
cabeça sobre as costas do cavaleiro e os seus frágeis bracinhos
agarraram um rígido e grosso cinto de couro que o Emissário
levava na cintura.
Ao parecer a suavidade do abraço reconfortou o ginete.
Tudo fazia pensar que era uma sensação nova e gratificante para
ele. Nessa altura a doçura era algo que tinha desaparecido com o
passar dos tempos.
Sem esperar mais e com um imperceptível movimento das
rédeas, o corcel começou a voar.
Os pais —abraçados— não conseguiram conter as lágrimas.
Era o seu único filho. No entanto, uma luz de esperança brilhava
em seus olhos. Era de se esperar que a criança voltasse algum dia.
Tudo aconteceu entre estrelas e firmamento e antes que a
criança acordasse, o emissário levou a sua cavalgadura alada ao
destino pré-determinado. Ao chegarem deslizou suavemente a
mão esquerda para trás e com um movimento delicado acordou
Estevão do que ele acreditava ser um sonho.
Tinha razões para acreditar nisso. Eles tinham chegado a um
lugar muito diferente daquele que ele conhecera durante a sua
curta vida. Não havia casas em ruínas, nem trincos enferrujados.
Era um lugar lindo, mas desabitado. Encontravam-se ao
pé de uma colina. Tinha apenas um ancião lá. Parecia que fazia
tempo que lá esperava.
Dirigiu-se decididamente ao Emissário e com sua ajuda
baixaram o menino à terra firme. Os dois se entreolharam. Um
halo de respeito marcava a relação entre eles. Não precisavam
falar. Cada um deles sabia o que devia fazer.
O ancião — que tinha toda a aparência de um Sábio — tomou
a mão direita do menino e com voz quase imperceptível pediu
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que o acompanhasse. Tinham pela frente um longo, desconhecido
e enriquecedor percurso juntos.
Thomas — este era o nome do sábio — parecia ter mais de
cento e cinquenta anos. A sua pele encarquilhada não dissimulava
— no entanto — a indiscutível estirpe que possuía.
Sem olhar para trás, afastaram-se do Emissário. O seu
sorriso mostrava satisfação pela travessia realizada.
Decididamente o Sábio dirigiu-se ao que parecia ser a
entrada de um túnel muito comprido que nascia — precisamente
— na ladeira dessa imponente montanha.
De nenhuma maneira podia-se ver o final desse túnel. Tudo
fazia pensar que estaria muito, muito longe ou que talvez... não
tivesse nenhuma saída.
Entraram na caverna. Estevão olhou surpreso o interior.
Resplandecentes luzinhas apareciam em toda parte. Gotas de
água cristalina espelhavam a luz que se filtrava por misteriosos e
pequenos lugares. Não se entendia como podia acontecer isso se
estavam debaixo de toneladas de pedras.
À direita do túnel corria um manancial e, em suas margens,
trevos verdes e coloridas flores davam um toque de alegria ao lugar.
Por uma dessas raridades que acontecem não se viam pássaros
nem pombos que beberassem lá. No entanto — e muito ao longe —
ouviam-se suaves gorjeios e melodiosos arrulhos que alegraram o
sorriso da criança. Era uma presença invisível, mas inegável.
Decidido, o ancião começou a percorrer o primeiro caminho
que se abria à direita. O menino não duvidou em ir atrás. Sabia
que Thomas cuidaria dele.
Essa tranquilidade em pouco tempo desapareceu quando
começaram a ouvir barulhos estridentes que vinham de fora.
Perceberam logo uma rara vibração e o chão começou a se mover
de forma preocupante.
O menino abraçou o ancião e ele — acalmando-o — lhe disse:
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—Não temas! Há um vulcão nesta montanha que começou a
vomitar a sua lava. Rápido! Por aqui que devemos avançar um pouco
mais por este caminho e estaremos protegidos da fúria do vulcão.
O menino pôs logo as suas perninhas em abrupta correria
para dentro do túnel. O ancião foi atrás calmamente até que
Estevão — cansado, parou debaixo de uma pequena e irradiante
entrada de luz. Era um brilhante reflexo e não se sabia por onde
entrava nem de onde vinha.
Thomas — ao chegar ao lado do menino — debruçou-se
para molhar as mãos no manancial e refrescar-lhe o rosto não
sem perceber que a criança tremia de medo.
— Por que é que estou tremendo? — perguntou Estevão.
O Sábio ancião lhe respondeu:
— Hoje palpitaste um sentimento que tu não conhecias
e que se apoderou do teu coração. É o medo e uma dessas
escuridões que nos paralisam. Devemos aniquilá-lo e é por isso
que devemos percorrer agora o Caminho da Valentia. Devemos
transitá-lo juntos.
Se conseguirmos chegar ao final do caminho estaremos
livres do medo.
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O CAMINHO DA VALENTIA
Tendo entrado no Caminho da Valentia, Thomas disse a
Estevão:
—A minha tarefa é te acompanhar por este caminho e pelos
outros desta montanha. Se conseguirmos percorrer todos eles e
atravessar as grades que há no fundo de cada um deles serás feliz
e poderás dar felicidade ao mundo. Se não conseguirmos, vamos
permanecer aqui dentro e não poderemos cumprir a tarefa que
nos foi encomendada.
O menino —que não deixava de tremer—não conseguia
entender como a sua vida tinha mudado em tão pouco tempo e por
que —precisamente ele— tinha que percorrer esses caminhos.
O Sábio —sabendo dos fantasmas que de improviso
começaram a acossar a criança— falou com ternura para
acalmá-la.
—A verdade é que o mundo faz séculos que perdeu os
seus valores mais essenciais. A paz transformou-se em guerra
e o planeta está praticamente destruído. O amor converteu-se
em ódio e ninguém ajuda o próximo. A justiça foi cada vez pior
administrada e julgou-se o homem como se fosse uma coisa.
A compreensão se transformou em indiferença e ninguém se
interessou em saber o que acontecia aos seus semelhantes. Tudo
se reduziu a uma luta pela supervivência a qualquer preço e
chamar “humanos” a esses seres virou uma ficção.
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Os homens se desmoronaram até os seus mais baixos
patamares e o Ser Superior vendo que a “humanidade” ia
desaparecer, enviou-te para salvá-la.
—A mim?
—Sim, a ti.
—E como eu poderia fazer essa tarefa se só tenho dez anos?
—Precisamente por isso tu foste um dos escolhidos. Não
estás contaminado e tens toda a doçura e simpleza de uma
criança. Eu tenho a obrigação de te guiar por estes caminhos.
Ao teu idealismo de criança vamos somar a sabedoria que
me deram os anos e juntos tentaremos realizar este percurso.
Tomara que possamos concluí-lo! Falou o sábio Thomas.
—O que é que devemos fazer primeiro?
—Devemos sentar, descansar e pensar, depois do mal
momento que passamos quando a entrada da caverna ficou
entupida de pedras.
O menino, cujas perninhas não paravam de tremer, aceitou
de bom grado o convite. Sentou perto do manancial e pegou
algumas flores aveludadas que cresciam nas margens.
—Como se chamam estas flores?
—“Pensamentos” respondeu Thomas e vão nos servir
de alimento ao longo do caminho. O seu valor nutricional está
comprovado e vai nos dar forças para o longo percurso que nos
espera.
—Vamos conseguir?
—Depende mais de ti do que de mim.
Eu vou ser o teu conselheiro, mestre e guia, mas a decisão
de atravessar cada uma das portas da grade que há no final de
cada caminho é somente tua. Não posso te obrigar a fazer isso.
Nem sequer posso fazer sozinho. Quando chegarmos ao final de
cada caminho, terás que estar preparado para tomar a decisão
de continuar para o próximo ou ficar prisioneiro nesta montanha.
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O mundo poderia chegar a perder a esperança que foi em ti
depositada.
—Por que devemos ir sempre juntos? Pelo menos tu
poderias salvar-te a ti mesmo. O mundo resguardaria —pelo
menos— a sabedoria que possuis.
—Seria um erro crasso que o mundo protegesse somente o
conhecimento!
—O saber, quando não é acompanhado do bem, pode
chegar a ser destrutivo. Saber não é suficiente. É preciso querer
esse saber... E desejá-lo com altruísmo para que o conhecimento
ajude e beneficie a todos.
Já tivemos longos séculos de guerra e de pseudociência
e aprendemos que o simples saber pode terminar matando e
destruindo —inclusive— os valores mais essenciais do homem.
Nós somos a esperança de salvar tudo aquilo que há de
valioso para o homem, que praticamente tem desaparecido da
face desta terra.
—Está bem! Vou seguir os teus conselhos e vou ver se posso
assumir as decisões que deva tomar embora me seja estranho
estar nesta situação sendo tão pequeno. Os meus pais nunca me
falaram sobre isso e não sei se vou ter a força para andar por
todos os caminhos que dizes que devo percorrer. De verdade
estou com muito medo.
—Claro. A tua vida mudou. Somos prisioneiros desta
caverna. Um terremoto estourou atrás de nós e não sabemos o
que é que nos espera pela frente. Por isso o primeiro obstáculo
que devemos superar é —precisamente— o medo de trilhar este
Caminho da Valentia.
—Como vou fazer isso, Thomas?
—Uma forma de deixar o medo de lado é compreendê-lo.
—Mas, é possível compreender o medo?
—Mais ou menos! É um sentimento que a razão não pode
encapsular. Os sentimentos e as emoções transitam pelo coração
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e não pela mente. Compreendê-lo —na verdade— não é possível,
mas podemos tentar “visitá-lo” com uma luz tênue, para ver o que
podemos descobrir nele.
—Façamos isso rápido porque quase não posso pensar.
—Esse é precisamente o efeito mais nefasto do medo. Ele
te paralisa. Não te deixa pensar. Obscurece o coração e termina
agoniando a mente.
Thomas fez uma pausa quando ouviu o novo barulho que
invadiu a caverna e disse:
—Veja como as paredes da caverna vão se aproximando e
ameaçam nos esmagar!
—Corramos para sair daqui! Disse apressadamente Estevão.
O ancião Sábio seguiu —com satisfação— os passos da
criança. Viu que nos seus olhos brilhava uma atitude decidida
que antes não tinha.
A corrida de Estevão foi interrompida por uma grade grossa
que era vigiada por um homem enorme. A criança ficou atônita.
Não tinha sequer imaginado que tantas dificuldades surgiriam.
Retomando os seus passos foi buscar um conselho do sábio
Thomas.
—O que devo fazer, Thomas?
—Deves convencer o guarda de que já superaste o medo.
—Como faço isso?
Há duas formas para enfrentar o medo: uma delas é ter
grande vontade de lutar. A outra é a ira que te dá coragem
suficiente para vencer o medo.
Se quiseres viver, deves tirar de ti tudo aquilo que te impede,
tudo o que te bloqueia, tudo aquilo que te paralisa. Quando em
ti surge a luta interior por tirar o medo de teu coração, a ira vem
para ajudar-te. Uma grande fúria contra aquilo que te imobiliza é
um bom antídoto contra o medo.
—Eu nunca tive ira!
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—Vais precisar dela para lutar —com ímpeto e coragem—
por aquelas coisas que valem a pena! Não ficas com raiva de
pensar que os teus pais moram em um povoado triste com pessoas
que não se falam, carentes de todo carinho? Inclusive morrem
as plantas, e os pássaros —quando emigram— nem fazem escala
nesse povoado. Tudo é triste, sombrio e carente de vida.
—Eu nunca tinha percebido isso com clareza porque não
conhecia outro mundo com que comparar. Agora que vejo a
beleza deste caminho, o frescor do seu manancial, a luminosidade
dos seus cristais e ouço —de longe— o canto alegre dos pássaros,
compreendo que outro mundo diferente é possível e desejo
fervorosamente que os meus pais também possam desfrutar de
um mundo assim.
—E não te dá raiva pensar que eles não têm nada disso
e que se nós não fizermos algo para mudar isso, esse povoado,
nesse árido deserto, será uma triste muralha que vai asfixiá-los
pelo resto dos seus dias?
—Na verdade sinto pela primeira vez, dentro de mim, um
fogo interior que me dá forças para lutar por mudar tudo aquilo
que antes via como normal e agora —somente agora— advirto
que é muito triste e deprimente.
Meus pais merecem um mundo melhor!
—Somente os teus pais merecem uma vida melhor?—
Perguntou logo o ancião à criança.
—Pensando melhor, acho que não. Como no mundo que eu
conheço, nestes curtos 10 anos, só estive em companhia dos meus
pais somente pensei neles. Agora acho que ninguém merece a
solidão, nem a incompreensão, nem o silêncio, nem a indiferença.
Tenho certeza que o amor que os meus pais me deram deve
reinar no mundo todo.
—É por isso —refletiu Thomas— que estamos aqui hoje.
Temos essa nobre tarefa a cumprir.
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—Nós dois vamos mudar o mundo?— perguntou Estevão.
—Não é exatamente assim. Mas juntos podemos sair deste
túnel e, se conseguirmos, algo importante vamos poder fazer.
—Quero sim! Estou decidido!
O soldado que vigiava a grade tinha ouvido com atenção a
conversa entre o sábio e Estevão e rapidamente se persuadiu de
que, apesar dos seus escassos 10 anos, ele tinha uma atitude de
valentia e generosidade que o fazia digno de seguir o seu caminho.
Sem duvidar, o soldado abriu-lhes a grade e falou:
—Já estão prontos para ir ao caminho seguinte. Boa sorte!
O ancião pegou o menino pela mão e juntos seguiram o caminho.
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25
O CAMINHO DA VERDADE
A caverna —um pouco mais adiante— comunicava-se com
um caminho tão lindo como o anterior, mas com características
mais solenes. Era o Caminho da Verdade. Não hesitaram em
ingressar nele. Ao fazê-lo, Thomas parecia estar na sua própria
casa. Acontece que durante toda a sua vida tinha se dedicado a
buscar a verdade e tinha feito dela a sua paixão e o seu culto.
O menino, imbuído das vibrações do novo caminho, logo
ensaiou a sua primeira pergunta:
— Existe a verdade?
Thomas não hesitou em responder: — Com certeza existe,
mas não é fácil de encontrar.
— Por quê?
— Porque requer de uma atitude especial de espírito.
— Qual é essa atitude? perguntou Estevão.
— Uma bastante difícil de encontrar em nossos dias:
Deve-se “querer” a verdade, embora nem sempre seja
conveniente o que ela nos ensina.
Nem todas as verdades são iguais. Algumas nascem no
mundo exclusivo das coisas e por não nos tocar tão diretamente,
elas têm maior aceitação. Outras se referem ao mundo interior
dos homens, às suas convicções, atitudes e crenças. Elas podem
ofender a quem não quer ouvir essas verdades porque suas
mentes tornam-se cegas diante da realidade. Há séculos que
o homem fechou-se muito em si mesmo e, portanto, enxerga a
verdade através da sua lente deformada.
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É o que antigamente era chamado de “fanatismo ideológico”
e era uma forma vergonhosa de aniquilar a verdade.
Os interesses egoístas, a intransigência, o fanatismo
ideológico, a cegueira deliberada, as lutas pelo poder,
a violência, o desejo de dominar o outro e tantos outros
atos de barbárie produzem a asfixia da verdade. Tudo
isso foi uma fonte fecunda de intolerância entre os homens.Inclusive
houve guerras para “impor” verdades
“pela força”.
Foram séculos de escuridão que nos levaram onde nós
estamos hoje.
— A verdade não deve ser respeitada porque vale por si
mesma? perguntou o menino.
— Vejo, Estevão, que a tua agudeza cresce minuto a minuto
e tu já fazes perguntas como se fosses um adulto. É isso, a verdade
tem um valor próprio e vive nas mentes das poucas pessoas livres
que ainda habitam neste planeta. São os Sábios que amam a
verdade. Eles têm forças suficientes para resistir à mesquinhez do
egoísmo. Não vendem a sua mente nem o seu espírito.Enfrentam
—com grandiosa liberdade— os interesses do poder do dinheiro
que quer “comprar” a verdade e o conhecimento que o Sábio
possui. O poder político —por sua vez— pode virar autoritário,
menosprezando a verdade e a sabedoria, que bem utilizadas,
poderiam melhorar o mundo. Quem está numa situação de poder
—muitas vezes— busca impor as suas ambições mesquinhas pela
força sem sequer perceber a quantos danifica e prejudica.
— Não é possível modificar essa situação tão lamentável?
— perguntou Estevão.
— Precisamente para isso estamos percorrendo as
entranhas desta montanha. Se nós conseguirmos sair daqui,
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algo muito importante poderemos fazer. A luz deve ser levada a
todos os corações escuros que têm sempre rejeitado a verdade
quando percebem que ela é uma adversária perigosa dos seus
avarentos interesses. Talvez consigamos tirar dos néscios as
vendas que cegam os seus olhos. É imprescindível contar com a
solidariedade e o altruísmo para que os homens possam conviver
em paz, harmonia e concórdia.
— Poderemos cumprir com tão importante tarefa? —
perguntou Estevão, cada vez mais entusiasmado.
O ancião olhou fixamente para ele e disse com doçura:
— Tudo depende de ti , lembra-te de que eu somente posso te
aconselhar, mas a decisão de percorrer cada um destes caminhos
é somente tua. Eu não posso decidir por ti. Toda a minha vida
amei a verdade. Hoje é hora de que tu a ames também. Ela fará
crescer os teus pensamentos e sentimentos.
— Meus pais sempre amaram a verdade e consideraram
que sempre deve estar presente no nosso pensamento e no nosso
sentir, disse Estevão.
— Tu tens essa mesma convicção? —perguntou Thomas—
sem tirar os olhos do rosto de Estevão.
— Nunca tinha pensado nisso. Em meu mundo infantil
eu nunca tinha me colocado diante de tal questão. Mas hoje eu
percebo que não sou o mesmo de ontem e que em pouco tempo
amadureci a passos gigantescos. Acho que já estou pensando
como um homem adulto. Eu entendo que a verdade é essencial
em nossas vidas.
— É ótimo que a tua mente cresça. Tu sempre deverás
resguardar a liberdade de pensamento e a simpleza e bondade
da infância no lugar mais requintado do teu coração. Lembra-te
de que é preciso que “queiramos” a verdade, e para isso tu deves
ter a alma livre de egoísmo. A generosidade é necessária para
que a verdade floresça e se consolide no mundo. O pior “vírus”
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que carcome a verdade é a pobreza de espírito. Quem tem um
espírito medíocre, sem ambições espirituais, embriagado de
onipotência, nunca atinge nem os contornos mais superficiais da
verdade. É preciso ter paixão por ela, dedicar-lhe a vida inteira
e aceitá-la como guia e rumo do projeto que escolhamos para
deixar a nossa pegada no caminho. Somente quem tiver espírito
livre, aberto à verdade, será terra fértil para que ela germine. O
resto é estéril: aridez e desolação.
—Eu já conheci o deserto, disse Estevão. Agora conheço
o vergel deste caminho. A frescura do seu manancial e o verde
das plantas. A luz, que irradia por todos os cantos, me permitiu
compreender que a aridez obscurece a vida e eu amo muito a vida
e a verdade. Meus pais ensinaram-me a amá-la com o exemplo.
Gostaria de poder algum dia voltar a estar com eles para fazer
com que eles conheçam este mundo distinto que nunca antes
conheceram.
O Sábio não pôde conter um sorriso de satisfação e em
forma enigmática lhe disse:
— Talvez o teu sonho se torne realidade...
Estevão viu a luz de esperança que brilhava nos olhos do
sábio ancião. Sentiu que recebia uma nova razão para continuar
lutando. Gestos de compreensão cruzaram-se espiritualmente
entre eles. O menino sentiu-se cada vez mais próximo do seu
guia. Não tinha dúvidas de que estava nas mãos de um homem
que o acompanhava não só por dever mas também por amor.
Era como a imagem do avô carinhoso de que seus pais tanto lhe
tinham falado, mas que ele nunca conheceu.
Enquanto tudo isso acontecia, os passos de ambos os
viajantes subterrâneos os aproximavam da segunda grade. Desta
vez não estava vigiada por nenhum soldado. Ao seu lado havia
um homem em pé próximo de um pequeno escritório com um
livro muito grosso.
30
—O que devemos fazer agora? — perguntou Estevão.
—Uma coisa muito simples, respondeu Thomas. Esse homem
que tu vês estudando, é meu aluno. É um verdadeiro amante do saber.
Tem dedicado toda a sua vida ao estudo e percebe rapidamente os
corações de quem “quer” a verdade. Ele tem fé na minha palavra. A
fé também é um caminho para alcançar a verdade... principalmente
para todas aquelas verdades inapreensíveis à nossa mente e
invisíveis para os nossos olhos.
Dito isso, ambos se aproximaram do estudioso leitor. Thomas
o cumprimentou com apreço. O homem apertou a sua mão com
inocultável satisfação e respeito. Tinha reencontrado o seu Mestre
depois de tantos anos. Thomas lhe contou, com voz pausada, tudo
o que o menino tinha aprendido ao longo do caminho da verdade
e o homem assentiu com alegria. Poucos tinham transitado esse
caminho e aprendido tanto como Estevão, apesar de sua pouca
idade. Olhou com deleite para o menino e percebeu que ele
estava crescendo a passos gigantescos.
Ele será —sem dúvidas— um veemente defensor da Verdade
por cima dos egoísmos e dos interesses mesquinhos dos poderosos.
Merece transpor a grade.
Dito isso, o vigia não hesitou em abrir a grade para que o
Sábio e o menino prosseguissem o seu caminho. Bem merecido o
tinham, pensou com satisfação. Bastou um olhar para se despedirem.
Os viajantes continuavam a sua travessia que cada vez trazia mais
entusiasmo a Estevão.
PARA CONTINUAR LENDO
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Índice
APRESENTAÇÃO.10
O HERÓI E O SÁBIO 13
O CAMINHO DA VALENTIA 19
O CAMINHO DA VERDADE 27
O CAMINHO DO BEM E DA BONDADE 33
O CAMINHO DA HARMONIA 39
O CAMINHO DO AMOR 45
O CAMINHO DA JUSTIÇA 53
O CAMINHO DA FÉ 65
CARTA ABERTA: Pensando um mundo mais humano 71
PALAVRAS DE ANA RUSSO 75
33
Caro amigo:
Vale a pena lutar por um mundo melhor. Convido você a
embelezá-lo para nossos filhos e os filhos de seus filhos. Eles são
nosso fruto e nossa semente. Sua contribuição será preciosa e
decisiva. O sucesso estará conosco. Não hesite!!!
Ernesto Seguí