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Mala Direta
Básica
9912281412/2011-SE/SPM
Correcta Editora
JUNHO | 2025
Nº 309 • ANO 30
IMPRESSO FECHADO
Pode ser aberto pela ECT
Especial
lnteligência Artificial
VOCÊ JÁ
SABE O QUE
FAZER COM
A IA?
Ela já está presente na
vida das pessoas e das
empresas. Seu objetivo é
tornar produtos e serviços
cada vez mais assertivos e
personalizados, com custo
que caiba no bolso de todos
ENTREVISTA >>
Julia Normande Lins, diretora da Susep, explica que a Susep irá discutir as eventuais oportunidades
de melhoria no Sandbox regulatório e no Open Insurance e sua relação com o uso da IA
EDITORIAL
Nada supera a
Inteligência Humana.
Será?
Os especialistas no assunto afirmam que enquanto a Inteligência
Artificial não tiver capacidade de expressar
sentimentos ela não irá substituir o seu criador. Robôs
humanoídes servem muito mais para publicidade do que para
soluções viáveis. Hoje, a aplicação da IA está por toda parte e,
daqui a pouco, nem mais falaremos sobre ela, de tanto que estará
presente em nossas vidas.
Por hora, ainda vale a pena colocá-la no centro das discussões,
principalmente para que ela sirva de fator preponderante
para o desenvolvimento dos seguros inclusivos. Mesmo com algumas
iniciativas de seguradoras, os resultados ainda não aparecem.
Temos uma população com grande acesso a meios de
comunicação, como os aparelhos celulares, mas que ainda não
são impactadas por produtos que possam protegê-las de riscos
simples.
O órgão regulador do mercado brasileiro, a Susep, está atenta
às mudanças e lidera as atualizações necessárias para que as
companhias possam utilizar o Open Insurance e o Sandbox regulatório
com o objetivo de ampliar a penetração do mercado.
Por outro lado, as seguradoras devem investir no conhecimento,
tanto por parte dos seus colaboradores quanto dos corretores de
seguros, para a utilização das tecnologias em prol de um objetivo
comum.
O desenvolvimento de novas tecnologias já está avançado,
mas é preciso que as pessoas sejam capazes de aplicá-las e compreendê-las.
IA sem IH não irá gerar os resultados esperados.
Boa leitura!
Diretora de Redação
JUNHO • 2025 • Nº 309 • ANO 30
EXPEDIENTE
Diretora de Redação:
Kelly Lubiato - MTB 25933
klubiato@revistaapolice.com.br
Diretora de Negócios:
Graciane Pereira
graciane@revistaapolice.com.br
Repórter
Nicholas Godoy
Colaborador:
André Felipe de Lima
Diagramação e Arte:
Enza Lofrano
Tiragem:
12.000 exemplares
Circulação:
Nacional
Periodicidade:
Mensal
Os artigos assinados são de
responsabilidade exclusiva de
seus autores, não representando,
necessariamente, a opinião desta revista.
Esta revista é uma
publicação independente
da Correcta Editora Ltda e
de público dirigido
CORRECTA EDITORA LTDA
Administração, Redação e Publicidade:
Alameda dos Arapanés, 881 - cjto 22 -
Moema
CEP 04524-001- SÃO PAULO/SP
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Mande suas dúvidas,
críticas e sugestões para
redacao@revistaapolice.com.br
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ESPECIAL INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
EXPERIÊNCIA DO
CLIENTE
A IA consegue antecipar
realidades e, no setor
de seguros experimenta
muitas soluções para
melhorar o relacionamento
com os clientes. Alguns
resultados estão
aparecendo, mas as dúvidas
ainda predominam
>> PÁG. 16
SUBSCRIÇÃO
A Inteligência Artificial
empregada em diversas
frentes vai transformar
a subscrição de riscos
com modelos preditivos
e machine learning. Eles
irão substituir processos
manuais e baseados em
média estatística
>> PÁG. 08
O FUTURO
O que vem pela frente
é o grande desafio
das aplicações da ia,
considerando-se que
seu uso pode apontar o
caminho para a diminuição
das fraudes e a melhora
da comunicação com os
segurados
>> PÁG. 22
05
ENTREVISTA
A diretora de infraestrutura
de mercado e supervisão de
conduta da superintendência
de seguros privados (susep),
julia normande lins, explica as
mudanças que podem acontecer
tanto no sandbox regulatório
quanto no open insurance para
contemplar ataulizações relativas
à Inteligência Artificial.
26
HIPERPERSONALIZAÇÃO
O open insurance avança na sua
terceira fase, que permitirá aos
clientes acessarem e utilizarem
serviços de diferentes seguradoras
de maneira integrada, por meio de
plataformas e api’s e com maior
controle sobre seus dados.
32 Gente
Os artigos assinados são de
responsabilidade exclusiva de
seus autores, não representando,
necessariamente, a opinião desta revista.
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ESPECIAL INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
JULIA NORMANDE LINS
Inovação exige regulação multissetorial
AINDA ESTE ANO, CONFORME O PLANO DE REGULAÇÃO DA SUSEP, ESTÃO PREVISTAS MODIFICAÇÕES
REGULATÓRIAS TANTO NO ÂMBITO DO SANDBOX REGULATÓRIO COMO NO DO OPEN INSURANCE.
NESSE MOMENTO, A SUSEP IRÁ DISCUTIR E AVALIAR, EM CONJUNTO COM O MERCADO
SUPERVISIONADO E A SOCIEDADE CIVIL, AS EVENTUAIS OPORTUNIDADES DE MELHORIA EM
AMBOS OS ECOSSISTEMAS E NA RELAÇÃO DELES COM O USO DA IA E HIPERPERSONALIZAÇÃO.
A INFORMAÇÃO É DA DIRETORA DE INFRAESTRUTURA DE MERCADO E SUPERVISÃO DE CONDUTA
DA SUPERINTENDÊNCIA DE SEGUROS PRIVADOS (SUSEP), JULIA NORMANDE LINS, EM ENTREVISTA
EXCLUSIVA À APÓLICE
Revista Apólice — Como se encontra a regulamentação
que cerca a hiperpersonalização e o que a Susep idealiza
mais adiante no sentido regulatório?
Júlia Normande Lins — A regulamentação brasileira
já contempla a hiperpersonalização no setor de seguros, e
a Susep e o CNSP [Conselho Nacional de Seguros Privados]
vêm desbravando esse caminho com iniciativas que equilibram
inovação e proteção ao consumidor. O open insurance
permite o compartilhamento de dados de consumidores mediante
consentimento, visando, dentre outros, personalizar
ofertas. As normas que regulam o open insurance [Circular
Susep 639/2021 e Resolução CNSP 415/2021] criaram bases
técnicas e de governança — API’s padronizadas, consentimento
e segurança — que fomentam a hiperpersonalização.
Com o open insurance são reforçados os requisitos de certificação
digital e infraestrutura de segurança da informação.
Isso permite usar IA e analytics para coberturas específicas
sem comprometer a privacidade. O sandbox regulatório, por
André Felipe de Lima
A regulamentação brasileira já
contempla a hiperpersonalização
no setor de seguros, e a Susep
e o CNSP [Conselho Nacional de
Seguros Privados] vêm desbravando
esse caminho com iniciativas que
equilibram inovação e proteção ao
consumidor”
Julia Normande Lins
sua vez, que foi implementado em 2020, enquanto ambiente
em que insurtechs desenvolvem produtos inovadores, como
seguros que têm como parâmetro o comportamento do segurado,
com menos barreiras, sob supervisão regulatória, é
um espaço que permite o uso via IA e outras ramificações
da hiperpersonalização. Nesse ambiente, inovações são permitidas
e sempre devem acompanhar o cumprimento das
normas da Susep relacionadas não somente ao Sandbox,
5
ESPECIAL INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
JULIA NORMANDE LINS
Regular ecossistemas inovativos
e tecnológicos, como o de seguros
sob a lógica do open insurance e
do sandbox regulatório, representa
um dos maiores desafios
contemporâneos para órgãos
como a Susep. Esses ambientes
se caracterizam pela constante
mutação, pela experimentação e
pela imprevisibilidade — o que exige
um modelo regulatório dinâmico,
responsivo e orientado por princípios,
mais do que por regras fechadas e
prescritivas”
mas também à conduta do mercado supervisionado perante
o consumidor. Ainda no ano de 2025, de acordo com o
plano de regulação da Susep, estão previstas modificações
regulatórias tanto no âmbito do sandbox regulatório, como
no do open insurance. Nesse momento, a Susep irá discutir
e avaliar, em conjunto com o mercado supervisionado e a
sociedade civil, as eventuais oportunidades de melhoria em
ambos os ecossistemas e na relação deles com o uso da IA e
hiperpersonalização. Lembrando que os instrumentos normativos
que atualmente regulam a adequação dos produtos
aos diferentes perfis de consumo garantem que a personalização
baseada em dados e Inteligência Artificial não
se transforme em barreira ao acesso, mas sim em ferramenta
de inclusão, desde que respeitados os princípios de consentimento,
segurança, transparência e equidade. As pessoas
buscam, cada vez mais, produtos de seguro que reflitam seu
estilo de vida, suas preferências e até sua personalidade —
uma demanda que acompanha uma tendência mais ampla
de hiperpersonalização presente em diversos setores, como
varejo, saúde, mobilidade e entretenimento. No contexto
dos seguros, isso se traduz na valorização de coberturas sob
medida, precificação baseada em comportamento real, modelos
sob demanda e jornadas digitais adaptadas ao perfil
do consumidor. Trata-se de uma mudança de paradigma: o
cliente deixa de se encaixar em pacotes padronizados para
tornar-se protagonista na definição de sua proteção, exigindo
soluções flexíveis, relevantes e alinhadas ao seu cotidiano.
Essa tendência reforça a necessidade de o setor acompanhar
a evolução das expectativas do consumidor, adotando
tecnologias como Inteligência Artificial, análise de dados e
plataformas abertas, como o open insurance, para criar experiências
mais humanas, responsivas e personalizadas.
RA — Recentemente, a senhora declarou que a “tarefa
para 2025 é muito árdua” para regulamentação das novas
normas (inclusive adequando o uso da IA) que visam
à modernização do setor. O que será mais complexo para
regulação do setor até o fim do ano? O que dificulta a
atuação da autarquia nesse sentido?
JNL — Regular ecossistemas inovativos e tecnológicos,
como o de seguros sob a lógica do open insurance
e do sandbox regulatório, representa um dos maiores desafios
contemporâneos para órgãos como a Susep. Esses
ambientes se caracterizam pela constante mutação, pela
experimentação e pela imprevisibilidade — o que exige um
modelo regulatório dinâmico, responsivo e orientado por
princípios, mais do que por regras fechadas e prescritivas.
Um dos principais desafios é lidar com a assimetria temporal
entre a inovação e a norma: enquanto os ciclos de desenvolvimento
tecnológico são ágeis, interativos e globais, o
processo regulatório tende a ser mais lento, criterioso e limitado
por marcos legais. Isso exige da Susep a adoção de
uma postura mais adaptativa, em que a regulação por experimentação,
como no sandbox, permite observar a prática
antes de impor normativas definitivas. Além disso, há o
desafio da gestão de riscos emergentes: novas tecnologias,
como Inteligência Artificial, blockchain e precificação dinâmica,
trazem riscos ainda não plenamente compreendidos,
como vieses algorítmicos, opacidade decisória ou exclusões
disfarçadas. Reguladores precisam equilibrar a promoção da
inovação com a proteção ao consumidor e a estabilidade do
mercado, adotando uma abordagem que acompanha o ciclo
de vida da inovação, ajustando as exigências conforme
a maturidade da solução testada. Outro ponto de atenção
é o diálogo com múltiplos atores: ecossistemas inovadores
envolvem startups, big techs, seguradoras tradicionais, consumidores
com perfis diversos e novos intermediários digitais.
Isso exige uma regulação multissetorial, participativa e
transversal, com escuta ativa e constante revisão dos parâmetros
regulatórios. Em resumo, regular ambientes inovadores
exige abraçar a ideia de uma regulação viva, baseada
em dados, aprendizado contínuo e flexibilidade. A Susep, ao
criar o open insurance, ao fomentar o mercado com o sandbox
e abrir espaços de discussão como o Grupo de Trabalho
6
da Política Nacional de Acesso ao Seguro, está justamente
construindo essa nova arquitetura regulatória, em que a
norma não engessa, mas orienta o futuro do mercado.
Reguladores precisam equilibrar a
promoção da inovação com a proteção
ao consumidor e a estabilidade do
mercado, adotando uma abordagem
que acompanha o ciclo de vida da
inovação, ajustando as exigências
conforme a maturidade da solução
testada. Outro ponto de atenção
é o diálogo com múltiplos atores:
ecossistemas inovadores envolvem
startups, big techs, seguradoras
tradicionais, consumidores com
perfis diversos e novos intermediários
digitais. Isso exige uma regulação
multissetorial, participativa e
transversal, com escuta ativa e
constante revisão dos parâmetros
regulatórios”
RA — Falamos muito dessa “modernização do setor”, mas
ainda vivenciamos no país uma desigualdade econômica
que impacta diretamente no fomento e disseminação do
seguro, onde a existência de produtos verdadeiramente
inclusivos ainda é embrionária. Como aproximar a realidade
do open insurance ao que vem sendo discutido pelo
Grupo de Trabalho da Política Nacional de Acesso ao Seguro?
Como a premissa “inovação” pode ajudar a aproximar
a maior parte da população ao seguro?
JNL — A aproximação entre o open insurance e os
debates conduzidos pelo Grupo de Trabalho da Política Nacional
de Acesso ao Seguro passa pela valorização da inovação
como ferramenta de inclusão. O open insurance cria
uma infraestrutura aberta e interoperável que, aliada à regulação
da Susep e aos princípios discutidos no GT, viabiliza
novos modelos de oferta, distribuição e precificação de
seguros mais acessíveis à população. O compartilhamento
de dados (com consentimento), a padronização de APIs e a
atuação de novos agentes — como insurtechs e sociedades
iniciadoras — permitem a personalização de coberturas de
forma transparente e simples, com produtos que se ajustam
à realidade financeira e comportamental do cidadão.
Ao mesmo tempo, as inovações viabilizadas pelo open insurance
e pelo sandbox regulatório permitem que o seguro
chegue aonde antes não chegava: por canais digitais de uso
cotidiano [WhatsApp, aplicativos de transporte e fintechs],
em formatos flexíveis (microsseguros, seguros por demanda,
coberturas modulares), com linguagem acessível e contratação
ágil. Isso converge diretamente com os objetivos
do Grupo de Trabalho, que busca universalizar o acesso ao
seguro como instrumento de cidadania, proteção social e
estabilidade financeira. A digitalização das populações, inclusive
das camadas de baixa renda, é um fator crucial que
potencializa o impacto do open insurance e das políticas
de inclusão debatidas pelo Grupo de Trabalho. Além disso,
o avanço do acesso à internet móvel, a popularização dos
smartphones e o uso massivo de aplicativos para finanças,
comunicação e consumo têm transformado o perfil digital
do brasileiro. Mesmo em comunidades periféricas e em áreas
antes desassistidas, há uma crescente familiaridade com
meios digitais, o que abre espaço para modelos de seguros
digitais, acessíveis e centrados na experiência do usuário.
Com o open insurance, seguradoras menores e insurtechs
— muitas oriundas do sandbox regulatório da Susep — podem
competir em pé de igualdade com grandes grupos ao
acessarem dados relevantes de clientes que antes estavam
restritos aos incumbentes. Isso estimula a inovação em produto,
experiência e precificação, pois os novos entrantes
têm mais agilidade para desenvolver soluções personalizadas,
de baixo custo e distribuídas digitalmente. Além disso,
o open insurance cria um mercado de serviços agregados,
como análise de dados, iniciação de seguros, plataformas de
comparação, o que permite que empresas se especializem
em nichos antes inviáveis economicamente. Para o consumidor,
isso se traduz em mais poder de escolha, transparência
e produtos realmente úteis, reforçando o seguro como uma
ferramenta de proteção, liberdade e mobilidade social. Portanto,
a inovação deixa de ser apenas um vetor de eficiência
para o setor e passa a ser um meio estruturante para reduzir
desigualdades, fortalecer a confiança da população e tornar
o seguro uma ferramenta presente no cotidiano de todos os
brasileiros, em especial dos mais vulneráveis.
7
ESPECIAL INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
SUBSCRIÇÃO
Do tradicional
AO ALGORÍTMICO
8
TODOS NO SETOR DE SEGUROS,
INDEPENDENTEMENTE DO NÍVEL
HIERÁRQUICO, NÃO TÊM DÚVIDA
DE QUE A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
EMPREGADA EM DIVERSAS
FRENTES VEM TRANSFORMANDO
A SUBSCRIÇÃO DE RISCOS, COM
MODELOS PREDITIVOS E MACHINE
LEARNING SUBSTITUINDO
PROCESSOS MANUAIS E
BASEADOS EM MÉDIA ESTATÍSTICA.
ESSA REVOLUÇÃO TECNOLÓGICA
ESTÁ DITANDO O APETITE DAS
SEGURADORAS BEM COMO
AJUDANDO-AS NA REDUÇÃO DE
SINISTRALIDADE E DE FRAUDES
André Felipe de Lima
Em todas as rodas de bate-papo
na área de seguros, sejam elas
com corretores, seguradores, desenvolvedores
de TI ou atuários, o tema
prevalente é “Inteligência Artificial” (IA). A
visão holística sobre o assunto dita as cartas,
afinal a IA interconecta todas as ações
possíveis no campo securitário, desde a
subscrição ao processamento de sinistros.
Quem não internalizar de vez essa
nova realidade, ficará para trás. Ou pior:
sumirá de vez do mapa do mercado.
Vejamos a subscrição, por exemplo.
Trata-se de um processo notoriamente
de extrema complexidade em seguros,
mas que vem, graças ao emprego da
Inteligência Artificial, sendo agilizado e
refinado em todos os seus aspectos, possibilitando
às seguradoras preços mais
competitivos e personalizados. A detecção
de fraudes é outro ponto para o qual
a IA tem sido decisiva não somente no
setor de seguros mas também na saúde
suplementar.
Para se ter ideia do tamanho da
encrenca, nos Estados Unidos, a Coalition
Against Insurance Fraud (CAIF) estima
9
ESPECIAL INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
SUBSCRIÇÃO
BRÁULIO MELO,
da IBA
um custo anual assustador de US$ 308,6
bilhões atribuído à fraude em seguros,
sendo que o setor de property and casualty
(P&C) representa US$ 45 bilhões desse
valor. Dados do FBI indicam que uma
família americana média incorre em um
adicional de US$ 400 a US$ 700 por ano
em aumento de prêmios devido à fraude
em seguros.
Não é diferente no Reino Unido e
na Europa como um todo. Na terra do rei
Charles, a Association of British Insurers
(ABI) identificou, em 2023, 84.400 fraudes
em seguros no valor de 1,1 bilhão de
libras, correspondendo a um aumento
de 16% no número de reclamações detectadas
em comparação ao ano anterior.
No ano passado, o Insurance Fraud
Bureau deflagrou investigação de mais
de 6 mil sinistros de seguro de automóveis
suspeitos de fraude, que podem estar
vinculados a golpes de “colisão por
dinheiro”. No total, estima-se que esse
valor seja superior a 70 milhões de libras
em fraudes potenciais. No Brasil, pontualmente
em 2022, as fraudes em seguros
somaram quase R$ 825 milhões em
2022, representando 16% do total de
sinistros pagos naquele ano, conforme
apontam dados da Confederação Nacional
das Seguradoras (CNseg). Por aí
se mede a importância das ferramentas
de IA para todos os processos do seguro,
onde destacam-se para identificação rápida
de anomalias em dados de sinistros
e de segurados, superando as capacidades humanas em termos de
velocidade e eficiência no rastreio das fraudes.
Como acontece, contudo, com qualquer nova tecnologia
poderosa, existem riscos que devem ser cuidadosamente avaliados
e gerenciados por todos os profissionais do seguro. O fato é que,
apesar deste importante sinal, a IA melhorou o apetite de risco das
seguradoras. “A Inteligência Artificial vem ampliando a capacidade
das seguradoras de identificar, precificar e administrar riscos com
muito mais precisão. A IA permitiu que as seguradoras analisem
uma quantidade muito maior de informações para calcular o risco
de forma mais precisa. Isso fez com que riscos que antes eram recusados
por falta de dados confiáveis fossem aceitos e que sejam estabelecidos
preços mais adequados ao perfil de cada cliente”, avalia
Bráulio Melo, que membro do Instituto Brasileiro de Atuária (IBA) e
com mais de 20 anos de experiência em atuária, resseguros, gestão
de riscos e regulação do setor.
Baseada em Luxemburgo, a executiva brasileira Luanna Eroles
Knoener, líder de expansão internacional da Samplemed, empresa
que começou a atuar há quase 40 anos no Brasil com serviços
para subscrição de seguros oferecidos às seguradoras, trabalha com
produtos digitais na Samplemed há 5 anos. Ela comandou o projeto
s.360, sendo responsável pela internacionalização do software desenvolvido
com tecnologia brasileira para subscrição médica.
“Minha percepção é que, para análises de risco em vida e saúde,
as empresas de seguro ainda são bem tradicionais e preferem
estratégias que incluem análises médicas para se sentirem mais seguras
do risco, especialmente para propostas de capital mais alto. A
IA tem sido implementada mais para o atendimento ao consumidor
e para gerar novas jornadas. A análise de risco não é feita com IA
generativa. Por quê? Riscos em seguros de vida são casos de exceção
— não são os casos padrão — e Inteligência Artificial é treinada
com repetição de padrões, não exceção. Por isso, a inteligência humana
é essencial. Com isso em mente, participei de um projeto de
criação da nossa fundação mapeada de dados para análise de riscos,
que chamamos de ‘Banco de Riscos do s.360’. Fizemos uma base web
semântica que foi feita com pesquisa por mais de 10 médicos e taxonomistas,
para traduzir o conhecimento médico de uma maneira
que a máquina consiga entender e ser a fonte de referência passada
por curadoria médica antes de interagir com inteligências artificiais”,
destaca Luanna.
Para Aldo Pires, CEO da .add, empresa especializada em inovação
e tecnologia com mais de 25 anos de atuação no mercado e
escritórios em São Paulo, Rio de Janeiro e Miami, a Inteligência Artificial
não necessariamente melhorou o apetite de risco das seguradoras
no sentido de torná-las mais dispostas a assumir riscos maiores,
mas transformou a forma como esse “apetite” é gerido, tornando-
-o mais preciso, dinâmico e baseado em dados. “A IA tem permitido
uma análise muito mais refinada de riscos, com base em grandes volumes
de dados históricos, comportamentais e até climáticos. Essa
capacidade ampliada de análise reduz incertezas, melhora a precificação
e fortalece a tomada de decisão nas áreas de subscrição. A
IA não aumenta o apetite de risco em si, mas permite assumi-lo com
mais segurança e inteligência. Assim, algumas seguradoras podem
10
se sentir confortáveis em ampliar seu escopo de atuação — por
exemplo, aceitando riscos antes considerados altos — graças à confiança
nas análises geradas por IA”, assinala o executivo.
De forma bem objetiva, o uso de IA vem ajudando as seguradoras
a serem mais precisas e ágeis na avaliação de risco. Essa é a
opinião de Rodrigo Cunha, diretor de TI do Grupo Apisul, com foco
em seguros, gerenciamento de riscos, inteligência logística, regulação
de sinistros e meios de pagamento. Ele exemplifica que, com algoritmos
de aprendizado de máquina, é possível processar grandes
volumes de dados, inclusive aqueles não estruturados, como imagens,
sensores e redes sociais. Esses processos de IA, frisa Cunha,
ajudam a formar um perfil mais completo do segurado através de
uma análise mais individualizada, indo além dos modelos tradicionais
baseados em regras fixas. “Dessa forma, conseguimos personalizar
a precificação e cobertura com base em dados reais de comportamento
e exposição ao risco. Isso tem ampliado a capacidade da
área técnica em trabalhar com segmentos que antes eram considerados
muito arriscados ou até mesmo inatingíveis. Isso representa,
na prática, um ganho real de apetite de risco com mais segurança.
Além disso, com previsões mais confiáveis, conseguimos otimizar o
uso do capital, por exemplo, ajustando reservas de forma mais eficiente
ou tomando decisões de resseguro com mais embasamento”,
observa. Segundo o executivo do Grupo Apisul, isso libera margem
para a companhia assumir novos riscos de forma controlada. “Também
falamos sobre como o monitoramento em tempo real, usando
sensores ou telemetria, está permitindo uma gestão mais ativa do
risco. Isso diminui a imprevisibilidade e torna o apetite de risco mais
flexível, sem abrir mão da segurança. Claro que seguimos atentos
aos desafios como viés nos dados, explicabilidade dos modelos e
questões de privacidade. A área técnica de seguros tem um papel
essencial nisso, garantindo que as soluções estejam alinhadas com
a regulação e com boas práticas do setor. Mais do que aumentar o
apetite de risco, a IA permite que ele seja mais estratégico e embasado.
Essa é uma construção conjunta entre tecnologia e a área
técnica de seguros, que vem evoluindo com bastante consistência”,
resume.
Um modelo preditivo, reforça a
especialista, é também um tipo de
Inteligência Artificial que utiliza
dados históricos e algoritmos
estatísticos para prever resultados
ou comportamentos futuros”
LUANNA EROLES KNOENER,
da Samplemed
MODELOS PREDITIVOS
O mercado segurador brasileiro começou a investir em melhorias
e automatização de processos a partir de modelos preditivos
e machine learning, mas sua adoção, como explica Bráulio
Melo, ainda é gradual e longe de estar consolidada. A grande maioria
das seguradoras, afirma o atuário, ainda depende “fortemente”
de práticas convencionais baseadas em estatísticas agregadas e
decisões manuais. “O que percebo é que algumas seguradoras têm
liderado essa transformação, mas para utilizações distintas e não
homogêneas. Vejo, por exemplo, algumas utilizando para automação
da análise de sinistros e detecção de fraudes, enquanto outras
têm priorizado a experiência digital do usuário, com processos de
cotação em tempo real, com base no perfil e comportamento dos
segurados”, diz.
Como informa o membro do IBA, o que é amplamente utilizado
fora do Brasil, mas que ainda não foi incorporado no mercado
local, é a subscrição automatizada
— instantânea e totalmente digitalizada
— para aceitar ou recusar propostas sem
intervenção humana. Melo cita ainda o
uso de IA para análise de imagem, áudio,
vídeo e texto, que, segundo ele, poderia
simplificar o processo de regulação de
sinistros, e o ajuste dinâmico de preços,
que se baseia no comportamento e no
uso dos clientes.
Luanna Eroles afirma, por sua vez,
que modelos preditivos não são IA generativa.
Um modelo preditivo, reforça a
especialista, é também um tipo de Inteligência
Artificial que utiliza dados históricos
e algoritmos estatísticos para prever
resultados ou comportamentos futuros.
“Ele faz parte do campo de aprendizado
de máquina, onde o sistema aprende
11
ESPECIAL INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
SUBSCRIÇÃO
Fora do Brasil, principalmente
nos Estados Unidos e na Europa,
[as tecnologias com IA] já são
amplamente aplicadas”
RODRIGO CUNHA, da Apisul
padrões a partir dos dados para fazer
previsões informadas. Eles são usados
em casos com perfil específico, normalmente
massificados, e algumas seguradoras
se sentem mais confortáveis com
eles, mas ainda há um grupo que tem
medo de modelo preditivo no Brasil
comparado com o que conheço fora.
Agora, no mercado internacional, isso já
é completamente normalizado, se roda
muito modelo preditivo para análise de
riscos”, observa Luanna.
No Brasil, embora modelos preditivos
e machine learning ainda não
estejam plenamente incorporados pelas
seguradoras como parte central de
todos os processos, o que se observa é
um movimento gradual, com avanços
em áreas específicas como: subscrição
automatizada em seguros de automóvel
e vida individual, com uso de IA para
precificação baseada em perfil de risco;
detecção de fraudes, onde algoritmos de
machine learning já superam abordagens tradicionais, e atendimento
a sinistros, com o uso de chatbots, além de análise de imagem e
de triagem automatizada. Além disso, a baixa qualidade de dados
históricos digitalizados e a falta de interoperabilidade entre sistemas
legados dificultam a adoção ampla e estruturada de modelos preditivos,
como atesta Aldo Pires.
No exterior, acentua ele, seguradoras usam dados não tradicionais,
como comportamento digital, hábitos de consumo e dados
de dispositivos IoT (como carros conectados e wearables), para precificação
e personalização de produtos. No Brasil, isso ainda é incipiente.
“Há uma tendência de as seguradoras operarem com modelos
de machine learning atualizados em tempo real, recalibrando o
apetite de risco à medida que os dados mudam. No Brasil, a maioria
das seguradoras ainda trabalha com modelos fixos e atualizações
periódicas, muitas vezes manuais”, pontua Pires.
Outra prática “bem interessante”, como argumenta o executivo,
é a utilização de testes A/B de algoritmos de subscrição e
campanhas automatizadas. “Aqui, ainda se depende fortemente de
decisões centralizadas e menos experimentação orientada a dados.
O conceito de insurance-as-a-service, com produtos modulares via
API’s, está em crescimento fora do Brasil. Por aqui, o modelo ainda é
limitado e concentrado em algumas insurtechs”, afirma.
Como assinala Rodrigo Cunha, as empresas no Brasil estão
em fase de transição, substituindo gradualmente processos manuais
e modelos baseados em médias estatísticas tradicionais por
abordagens mais inteligentes e individualizadas, especialmente
em precificação, detecção de fraudes e análise de risco. A adoção,
segundo ele, ainda é desigual porque grandes seguradoras
e insurtechs lideram o uso dessas tecnologias, enquanto players
menores enfrentam barreiras, como falta de dados estruturados,
limitações regulatórias ou baixa maturidade analítica. “Fora do
Brasil, principalmente nos Estados Unidos e na Europa, [as tecnologias
com IA] já são amplamente aplicadas”, enfatiza Cunha,
que cita as seguintes movimentações executadas lá fora que ainda
são incipientes aqui. Primeiramente, a precificação dinâmica e
personalizada com base em comportamento, como, por exemplo,
telemetria veicular real-time; underwriting automatizado com
modelos preditivos e análise de texto em tempo real. Exemplos:
documentos e histórico médico; o uso de LLMs e IA generativa
para atendimento ao cliente, triagem de sinistros e resumo de
apólices, modelos de risco baseados em dados externos, como
clima, geolocalização, redes sociais e imagens de satélite, e, por
fim, a automação de sinistros com visão computacional. Exemplo:
análise automática de fotos de colisão.
IMPACTO NA REDUÇÃO DA SINISTRALIDADE
Tema tão em evidência na área de saúde suplementar, as
fraudes estão comprometendo em 10% as receitas das operadoras
do setor, como indica o relatório Fraude no sistema de saúde
brasileiro, da PwC Brasil. Nos últimos cinco anos, como alerta a Federação
Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde), mais de 4
mil notificações de crimes e ações cíveis foram registradas contra
fraudadores de planos médicos e odontológicos. Outro dado alar-
12
mante foi apresentado pela Associação Brasileira de Empresas de
Saúde Suplementar (Abramge). Segundo a entidade, os desvios no
setor podem ter causado um prejuízo estimado em R$ 33 bilhões
em 2024. A Inteligência Artificial (IA) pode ser decisiva para a redução
de sinistralidade e, obviamente, para o combate às fraudes.
Luanna Eroles explica ser possível o uso de técnicas diversas
de IA para diferentes pontos, como as análises de omissão de informação
médica, inconsistência de informação e alertas de fraude,
que são feitos com base em machine learning ou em análises
mais avançadas de Inteligência Artificial. Como exemplo, inclusive,
ela frisa que a IA pode ser usada, “com consentimento”, para analisar
voz e detectar se a pessoa, por exemplo, é possivelmente fumante.
“Já tem empresas trabalhando [no setor médico] para detectar
biomarkers de diabetes por voz, coisas nunca pensadas antes. Tem
empresa americana que usa até delay de resposta a perguntas para
definir fraude. A base é uma diferença de milissegundos e é meio
militar para o meu gosto, mas funciona. Detalhe: por mais que tenhamos
muita tecnologia a oferecer na proteção contra fraudes, o
que mais reduz a sinistralidade em termos de volume de valor subscrito
é surpreendentemente a tele-entrevista. Só em 2024, com um
percentual de apenas 0,53% de casos tagueados [sic] como suspeita
de fraude, as tele-entrevistas da Samplemed protegeram cerca de
R$ 174,9 milhões para o mercado de seguros em capital de cobertura
de vida”, revela Luanna.
O fato é que há um empenho das seguradoras e operadoras
de saúde suplementar no uso de tecnologias avançadas de análise
preditiva com base em Inteligência Artificial (IA) para redução de sinistralidade
e de fraude. Resumidamente, os principais efeitos práticos
são os seguintes: a IA permite analisar dados comportamentais,
históricos e contextuais para antecipar o risco individual de sinistro,
ajustando preços e coberturas. “Por exemplo, em seguros de automóvel,
dados de telemetria, como velocidade, frenagens bruscas e
horários de uso do veículo, permitem precificar de forma personalizada,
variando o cálculo de risco periodicamente”, diz Aldo Pires,
sinalizando, em seguida, para outro efeito: “No combate à fraude
as seguradoras analisam grandes volumes de sinistros e detectam
padrões atípicos. Por exemplo, no seguro saúde há aplicações que
detectam suspeitas de fraudes quando um procedimento é apresentado
por um cliente, ou prestador de serviço. Assim a análise de
inconsistências em documentos ou vínculos suspeitos entre partes
envolvidas faz com que as autorizações de procedimento sejam
classificadas como suspeitas passando a ter um tratamento diferente
das outras que não apresentam esse padrão”.
Há também, como acrescenta Pires, aplicações de visão
computacional e análise de imagens em sinistros com fotos, especialmente
em seguros de automóveis e residencial. “A IA pode
analisar imagens enviadas pelos clientes para detectar edições,
imagens de banco de dados ou inconsistências com o laudo técnico.
Podemos citar ainda a utilização do processamento de linguagem
natural [PLN] que permite que a IA consiga ler e interpretar
textos de declarações, boletins de ocorrência e e-mails, cruzando
informações e detectando contradições ou tentativas de manipulação”,
salienta.
MARCOS KAPP,
da Split Risk,
Rodrigo Cunha também mostra
outro efeito prático da IA para redução
de sinistralidade e de fraudes, porém em
outro campo: “A automação no aviso e regulação
de sinistro através de IA e visão
computacional, o sistema avalia imagens,
vídeos ou relatos com rapidez e consistência,
acelerando a decisão sobre o pagamento
ou recusa do sinistro. Também
existe o monitoramento preventivo. Um
exemplo é nos seguros de transporte,
com a IA monitorando o comportamento
do motorista, rotas e sinais de risco,
ajudando a prevenir sinistros antes que
ocorram. Todos esses processos apoiados
e acelerados via Inteligência Artificial
permitem uma redução no custo operacional
com análise automatizada, tomada
de decisão mais rápida e assertiva e melhoria
da rentabilidade e sustentabilidade
das carteiras.”
DO VELHO AO NOVO
O que avançou da subscrição tradicional
até a subscrição algorítmica? O
CEO Split Risk, Marcos Kapp ressalta que,
nesse sentido, o processo vem sendo
gradual, mas indispensável para a segurança
da operação do setor. “Inicialmente,
testamos com um volume menor de
casos, até entender o comportamento
das ferramentas e identificar possíveis
falhas. Hoje, a grande maioria dos processos
de subscrição já acontecem sem
interação humana, com aprovação de
13
ESPECIAL INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
SUBSCRIÇÃO
ONTEM E HOJE
A Inteligência Artificial não apenas torna o
combate à fraude mais eficaz, mas também contribui
de forma direta para a sustentabilidade técnica das
carteiras, ao reduzir os sinistros evitáveis. O resultado
é uma operação mais eficiente, com produtos mais
acessíveis e preços mais justos para os bons riscos.
Vejamos como funciona essa transição sob a explicação
de Aldo Pires, CEO da .add.
ALDO PIRES, da .add
ASPECTO SUBSCRIÇÃO TRADICIONAL SUBSCRIÇÃO ALGORÍTMICA
Base de decisão
Fontes de dados
Experiência do subscritor +
estatísticas históricas.
Formulários manuais,
entrevistas, análise
documental.
Modelos preditivos baseados em big
data e IA.
Dados estruturados e não estruturados
(IoT, mídias sociais, comportamento).
Tempo de análise Dias ou semanas Em tempo real ou poucos minutos.
Padronização
Escalabilidade
Custo operacional
Precisão do risco
Alta variação entre
subscritores (decisão
subjetiva).
Limitada à capacidade da
equipe humana.
Alto, com forte dependência
de capital humano.
Média geral aplicada a
grupos amplos.
Decisões consistentes baseadas em
algoritmos treinados.
Altamente escalável.
Reduzido, com automação de
processos repetitivos.
Análise granular e personalizada de
risco individual.
Atualização de
modelos
Lenta, baseada em ciclos
longos.
Contínua, com aprendizado automático
(machine learning).
14
vistoria prévia em menos de três minutos, por exemplo. Mesmo assim,
revisamos frequentemente os casos aprovados ou recusados
pela ferramenta, para conferir que as validações estão de acordo
com as regras de aceitação. Isso nos garante continuar olhando
para as melhorias nos processos internos com a certeza de que
estamos no caminho certo”, afirma.
O avanço está, argumenta Luanna Eroles, na padronização
do processo e na abordagem estratégica mais “granularizada” de
subscrição possibilitada por processos consistentes. Ela explica: “A
granularidade que sistemas como o s.360 oferecem é que podem
diferenciar casos que antes eram declinados em nuances e sub quadros
clínicos, que podem ser aceites, garantindo a proteção de muito
mais famílias e de clientes que desejam obter proteção. Hoje, por
exemplo, o s.360 diferencia mais de 100 tipos de diabetes e cada
tipo tem um parecer. Porém essa abordagem, que hoje se tornou
tecnológica, foi determinada pela equipe de médicos subscritores
da casa. A inteligência humana sempre anda ao lado da tecnologia.”
LADO TÉCNICO DA ATUÁRIA
Membro do comitê técnico de seguros do Instituto Brasileiro
de Atuária (IBA) e líder técnico atuarial na 180 Seguros, Gustavo
Genovez frisa que a IA também começa a ser utilizada em vertentes
relacionadas aos cálculos de passivos atuariais, bem como na
mensuração de componentes necessários para elaboração de demonstrações
financeiras em normas internacionais de relatórios financeiros,
as chamadas “IFRS 17” (international financial reporting
standards). “No que se refere às provisões técnicas estimadas, tomemos
como exemplo a provisão de IBNyR [incurred but not yet
reported] ou provisão para sinistros ocorridos mas não avisados:
Tomando por base a metodologia de cálculo Chain Ladder, sem
prejuízo de utilização de demais metodologias, os modelos de IA
entregam bastante acuidade nas estimativas e aplicação dos fatores
de desenvolvimento de sinistros e, por consequência, no saldo final
estimado da provisão.
Além disso, complementa o atuário, os modelos de IA otimizam
o tempo despendido para execução destes processos, permitindo
que atuários dediquem mais tempo para análises de causalidade
dos resultados observados. “Por consequência, a identificação
das referidas causas pode ensejar melhorias operacionais em produtos,
estratégias de comercialização e experiência do cliente e/ou
estratégias de transferência de riscos, resultando impactos positivos
em rentabilidade, solvência e liquidez”, garante Genovez.
Processo análogo pode ser aplicável, afirma ele, à provisão
para sinistros ocorridos, mas não suficientemente estimados, a chamada
IBNeR (incurred but not enough reported ); à provisão para
sinistros ocorridos, mas não pagos, tecnicamente conhecida como
IBNP (incurred but not paid); à provisão de prêmios não ganhos para
riscos vigentes não emitidos, a PPNG-RVNE, e às estimativas realistas
de fluxos de caixa comumente utilizadas para cálculo do teste de
adequação do passivo (TAP), mensurações em IFRS17 e respectivas
estimativas de ajuste ao risco não financeiro. “Estes componentes
atuariais também podem ser estimados através de processos estocásticos
e, por consequência, os respectivos testes estatísticos para
GUSTAVO GENOVEZ,
da 180 Seguros
identificação de distribuição de probabilidades
e processos de apuração dos
respectivos parâmetros são significativamente
otimizados e facilitados através da
utilização de algoritmos de IA”, observa
Genovez.
Segundo o especialista, a mensuração
dos passivos judiciais, notadamente
da provisão de sinistros a liquidar
(PSL) judicial, também é beneficiada pela
utilização de algoritmos de IA, tanto em
termos de eficiência no tempo despendido
para análise documental e processual,
quanto na precisão da classificação em
termos de possibilidade de perda (remota,
possível e provável) dos processos. “Os
modelos preditivos, determinísticos ou
estocásticos utilizados para determinação
dos percentuais de perda aplicáveis
a cada uma das respectivas probabilidades,
também são beneficiados pela
utilização de algoritmos de IA, tanto em
termos de acuracidade, quanto em termos
de eficiência em tempo de execução
dos referidos modelos”, assinala Genovez,
acrescentando que, em outra vertente
extremamente relevante, os algoritmos
de IA também contribuem para otimização
dos processos de coleta, armazenamento,
tratamento e processamento das
bases de dados necessárias para cálculo
dos passivos atuariais, permitindo que
atuários e equipes de TI e de engenharia
de dados dediquem tempo para as melhorias
acima descritas.
15
ESPECIAL INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
EXPERIÊNCIA DA CLIENTE
Quando o futuro
AINDA É HOJE
16
HÁ QUEM DIGA QUE A INTELIGÊNCIA
ARTIFICIAL CONSIGA ANTECIPAR
REALIDADES. TRATA-SE,
PORTANTO, DA “BOLA DE CRISTAL”
DA MODERNIDADE. O SETOR
DE SEGUROS, POR EXEMPLO,
EXPERIMENTA MUITAS SOLUÇÕES
DE IA, PRINCIPALMENTE NO
RELACIONAMENTO COM CLIENTES
E ALGUNS RESULTADOS ESTÃO
APARECENDO. AINDA PREDOMINAM,
CONTUDO, MUITAS INDAGAÇÕES EM
MEIO A TESTES E, DE CERTA FORMA,
MUITA PRECAUÇÃO E PARCIMÔNIA.
AFINAL, COMO REFORÇAM DOIS
FAMOSOS DITOS POPULARES, “O
SEGURO MORREU DE VELHO” E “O
FUTURO A DEUS PERTENCE”. ENTRE
A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E O
QUE VIRÁ PELA FRENTE, HÁ UM VÉU
AINDA A SER DESCORTINADO
André Felipe de Lima
O
que têm em comum Parshin Shojaee,
Iman Mirzadeh, Keivan Alizadeh,
Maxwell Horton, Samy Bengio
e Mehrdad Farajtabar? Todos, simultaneamente
e a partir da mesma fonte, vêm estimulando
reflexão no mundo da tecnologia
desde que publicaram, na primeira semana
de junho, sob a tutela da Apple, um artigo
no qual argumentam que a Inteligência Artificial
(IA) ainda apresenta lacunas e limites
de estruturação lógica que a impedem de
executar um modelo de raciocínio amplo,
complexo e capaz de verdadeiramente antecipar...
o futuro. O nome é extenso: The Illusion
of Thinking: understanding the strengths
and limitations of reasoning models via
the lens of problem complexity, ou, traduzindo,
A Ilusão do Pensamento: compreendendo
os pontos fortes e as limitações
dos modelos de raciocínio através da lente
da complexidade do problema, mas o fato
é que o artigo dos especialistas alerta a
sociedade e o mercado em geral, e de todas
as frentes, que a Inteligência Artificial,
apesar de sua extraordinária capacidade
transformadora do real e das situações cotidianas
e de consumo, ainda “engatinha”.
Mas também é fato que a IA está transformando
o dia a dia de todos nós, frisando:
para o bem ou para o mal. Deparamo-nos,
portanto, com o imprescindível e determinante
viés da ética. “Embora esses modelos
demonstrem desempenho aprimorado
em benchmarks de raciocínio, suas
capacidades fundamentais, propriedades
de escala e limitações permanecem insuficientemente
compreendidas. As avaliações
atuais concentram-se principalmente
em benchmarks matemáticos e de codificação
estabelecidos, enfatizando a precisão
da resposta final. No entanto, esse
paradigma de avaliação frequentemente
sofre com a contaminação de dados e não
fornece insights sobre a estrutura e a qualidade
dos rastros de raciocínio”, resumem
os seis articulistas, que para chegarem a
essa conclusão transcenderam avaliações
convencionais e submeteram os recursos
de Inteligência Artificial a quebra-cabeças
de indizíveis níveis de complexidade que
colocaram em xeque a capacidade da IA
de ir mais longe do que já é capaz. As chamadas
IA’s “pensantes” entraram em pane
diante das questões de lógica a que foram
submetidas e, inclusive, emitiram respostas
erradas e sem solução alguma para os
quebra-cabeças. Incapazes de solucionar
os problemas, as IA’s “jogaram a toalha” na
lona de testes matemáticos dos intrépidos
estudiosos e literalmente desistiram de
tentar processar respostas. Travaram mesmo.
A constatação é indelével: as IA’s
“pensantes” são um caminho sem volta.
O horizonte que sinalizam é vasto e fundamental
para solucionar questões do
mundo atual, porém ainda com restrições,
digamos, interpretativas. O mundo ainda é
“humano, demasiado humano”, já escreve-
17
ESPECIAL INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
EXPERIÊNCIA DA CLIENTE
ALEXANDRE MUNIZ,
da Generali
RICARDO VILLAÇA,
da ENS
ra no século 19 o filósofo Friedrich Nietzsche.
E a premissa permanece viva. Ou seja,
o pensamento humano ainda prevalece
diante de realidades aparentemente inescrutáveis.
A expressão “pé no chão” consiste
em um preceito muito familiar ao setor
de seguros. Por muito tempo tido como
uma indústria “conservadora” e que demorou
à beça para reconhecer que, daqui
em diante, o “digital” é quem dá as
cartas do jogo. Há uma discussão franca,
aberta, de que a IA realmente impulsiona
o mercado, sobretudo a partir da jornada
com o consumidor. Mas também prevalece
uma autoanálise: “Será que estamos
realmente prontos?”, indagam muitos gerentes
e diretores de TI das seguradoras em meio aos seus incansáveis
testes com as novas tecnologias embebidas em IA.
Diretor vice-presidente de tecnologia e operações da Generali,
Alexandre Muniz é categórico: “Segundo os especialistas da Apple,
a IA não formula nada novo. Ela trabalha em seu conhecimento
existente e não consegue trabalhar em seu conhecimento futuro.
Ou seja, isso muda um pouco o conceito de como é que se vê a IA.
Formular efetivamente coisas novas exige um toque humano. A IA
ainda não consegue fazer isso. Ela, conceitualmente, tenta reproduzir
o que nós somos hoje. O que nós vamos ser lá na frente, que é um
pouco a tônica também do artigo da Apple, e que eu concordo plenamente,
depende sempre do olhar humano. É difícil você eliminar
o olhar humano das profissões.”
Em meio às reflexões — por que não? — filosóficas, as áreas
de TI das seguradoras tradicionais e as insurtechs não alteram o plano
de negócios onde investimentos em IA na jornada do cliente são
indispensáveis. Já não há dúvida de que chatbots inteligentes, assistentes
virtuais, análise de sentimentos e modelos preditivos estão
tornando a experiência com o cliente mais fluida, rápida e personalizada.
Hoje, a Inteligência Artificial vem agilizando atendimentos em
canais digitais, inclusive WhatsApp, app’s e portais.
Coordenador acadêmico da Escola de Negócios em Seguros
(ENS), pontualmente da certificação avançada Estrategista em IA
para o mercado de seguros, Ricardo Villaça define a InteligênciaArtificial
como “decisiva” para tornar os canais digitais mais ágeis, hiperpersonalizados
e “disponíveis 24/7”, ou seja, 24 horas por dia nos sete
dias da semana. “Agentes virtuais permitem que seguradoras façam
cotações, tirem dúvidas e regulem sinistros diretamente pelo WhatsApp
ou app’s. Seguradoras que adotaram fluxos automatizados associados
à IA viram o tempo médio de atendimento cair até 80%.
Além disso, em alguns casos, a taxa de fidelização aumentou entre
15 e 20 pontos nos primeiros 12 meses. A automação com IA tem
sido não só uma inovação, mas um fator de fidelização. Lembrando
que automação sem IA não é IA”, salienta Villaça.
O Grupo Bradesco Seguros é exemplo de que a IA está funcionando
na comunicação com seus clientes nos canais digitais.
Os assistentes virtuais da seguradora, inclusive no WhatsApp e no
aplicativo, contam com linguagem natural e análise de sentimentos
para oferecer interações mais resolutivas. Em 2024, alcançamos uma
média mensal de 1,2 milhão de usuários únicos no app e 8,1 milhões
de consultas/transações por meio do app. Além disso, utilizamos IA
na subscrição de apólices, regulação de sinistros e identificação automatizada
de avarias, o que reduz prazos e melhora a experiência
do cliente”, revela o diretor de inovação, digital e dados no Grupo
Bradesco Seguros, José Loureiro.
Pesquisas apontam que, com IA, o tempo médio de espera
por atendimento caiu 94% em algumas seguradoras, de 47 para apenas
três minutos, e o tempo médio de interação com bots pode ser
de apenas 1,46 minutos, enquanto o atendimento humano gira em
torno de 24,8 minutos. “Mas o diferencial é ir além da mera automação,
construindo uma relação mais humana, confiável e empática,
mesmo em interações digitais. Acreditamos que a próxima fronteira
da IA no seguro é justamente essa humanização escalável”, prevê o
18
CEO da MJV Technology & Innovation, Mauricio Vianna.
O relatório Scaling gen AI in insurance (Escalonamento da geração
de IA em seguros), divulgado em abril deste ano pela Deloitte
e baseado em uma pesquisa com 200 executivos de seguros nos
Estados Unidos, indica que 76% das seguradoras já implementaram
IA generativa em uma ou mais funções de negócio, com seguradoras
de vida e acidentes ligeiramente à frente (82%) comparado a
70% das seguradoras de propriedades e casualty. Os resultados da
pesquisa revelam, todavia, lacunas na preparação das ferramentas
de IA generativa, embora as seguradoras mantenham um foco estratégico
em recursos para o desenvolvimento de soluções tecnológicas
que as aproximem ainda mais de seus clientes. “Em relação
à implementação das seguradoras, as iniciativas estão distribuídas
por diferentes estágios e funções entre os entrevistados. Embora
algumas seguradoras já tenham implantado a IA generativa em diversas
funções, o maior grupo ainda está em fase de escopo. Parece
que, após os experimentos iniciais com casos de uso e Poc’s [provas
de conceito], as seguradoras estejam adotando uma abordagem
mais comedida em relação à escala e à adoção. Um motivo para
essa abordagem pode estar relacionado ao fato de alguns líderes
do setor de seguros ainda ponderar os riscos potenciais em relação
aos benefícios potenciais, especialmente seguradoras com receitas
anuais inferiores a US$ 500 milhões. Embora 45% dos entrevistados
tenham afirmado que seus líderes acreditam que os benefícios da
IA generativa superem os riscos, a maioria acredita que os riscos superam
os benefícios ou está em dúvida quanto à proposta de valor
da IA generativa”, explicam, em artigo publicado em abril, os analistas
Sandee Suhrada, que lidera a área de estratégia de dados de
seguros e IA da Deloitte nos Estados Unidos, e Dishank Jain, gerente
adjunto do centro de serviços financeiros da Deloitte na Índia.
No Brasil, a maioria das seguradoras está empenhada nessa migração
para IA no atendimento ao cliente. Na Generali Seguros, por
exemplo, como revela Alexandre Muniz, alguns chatbots reduziram
em 50% o tempo de atendimento. “Também fizemos um projeto na
área de sinistro judicial com o qual reduzimos o tempo médio dos processos
judiciais em mais de 70%. Também reduzimos o custo em igual
monta, porque toda vez que se cria uma ação judicial, deve ser criada
uma provisão para isso”, diz Muniz, que antecipa: “No Brasil, devemos
fazer este ano ainda mais duas ou três grandes iniciativas [com base
em IA] que melhoram o tratamento, por exemplo, de dados de sinistro”.
A Generali já investiu cerca de R$ 1 milhão no emprego de IA,
contabilizando um retorno de cerca de R$ 50 milhões. “Acreditamos
que essas iniciativas criam um nível de agilidade que proporciona
um retorno para a empresa de, no mínimo, 25%, podendo chegar,
em alguns casos, a 90% de retorno. Estamos falando de um retorno
muito alto em um ano e meio”, destaca o executivo, afirmando, inclusive,
que a Inteligência Artificial trará muitos benefícios, sobretudo
em dois níveis: no da personalização do produto ao cliente e no
relacionamento diário pós-venda, desdobrando-se, portanto, para
um atendimento mais humanizado.
A Zurich adota o clientecentrismo como um dos pilares da
sua cultura corporativa. Esse é um dos focos principais com que a
seguradora implementa a IA em seu negócio. Um dos principais
MAURICIO VIANNA,
da MJV Technology & Innovation
usos da IA na Zurich é a automatização
de processos relacionados à regulação
de sinistros, que é o momento de maior
contato dos clientes com as seguradoras.
Processos como cotações de reparo de
veículos e análise de sinistros de celular
também já contam com ferramentas nesse
sentido. No seguro celular é possível
uma indenização de um aparelho roubado,
por exemplo, em poucos minutos,
contando com o uso de IA para análise de
documentos, inclusive boletins de ocorrência,
e no seguro automóvel, a partir
de fotos enviadas pelo cliente via app ou
site, a IA analisa os danos e gera estimativas
para reparos, acelerando o processo
de indenização. “Com esse processo, ob-
SANDEE SUHRADA,
da Deloitte
19
ESPECIAL INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
EXPERIÊNCIA DA CLIENTE
aceleração. O mercado em geral ainda usa mais a IA ‘da moda’ do
que a IA ‘com propósitos’. A IA cada vez mais deve estar associada
aos desafios estratégicos das organizações. A ENS tem tido um papel
decisivo e essencial nesse processo, incentivando e entregando um
nível de educação no mesmo patamar do de países que estão se
desenvolvendo nesse sentido.”
CTO da Albatroz MGA, Vinicius Jorge assinala que a adoção de
IA está na agenda estratégica de todos os CEO’s e executivos do setor
de seguros globalmente. Ele cita o McKinsey Global Insurance Report
(2024), que destaca que a indústria está à beira de uma “mudança sísmica”
orientada por tecnologia, com foco em quatro áreas-chave para
posicionar as seguradoras nesta transformação. “O grande desafio
não é mais se implementar, mas por onde começar”, diz Jorge.
VINICIUS JORGE,
da Albatroz MGA
servamos uma redução de nove para um
dia para aprovação do sinistro”, argumenta
a diretora de marketing e clientes da
Zurich, Lucía Sarraceno.
A executiva afirma que mais de
50% de todos os sinistros anotados na
Zurich contam com IA em sua regulação,
sendo que mais de 40% dos sinistros de
seguro celular, garantia estendida, automóvel
e de crédito já são resolvidos em
um único contato do cliente com a seguradora.
“Essas iniciativas fazem parte de
uma transformação contínua com foco
na excelência da experiência. Um reflexo
disso é um avanço bastante significativo
da satisfação dos clientes com a Zurich: o
TNPS [transactional net promoter score],
índice através do qual é possível medir
essa satisfação, saltou mais de 30 pontos
entre 2018 e 2024, um indicador claro do
impacto positivo das ações implementadas”,
acrescenta Lucía.
O uso da IA ainda é recente no
mercado segurador brasileiro. Ricardo
Villaça, da ENS, observa que, nos últimos
anos, houve avanços importantes na automação
de processos, na personalização
de ofertas e na análise preditiva, mas, reforça
ele, ainda é preciso acontecer uma
‘virada de mindset” por parte de líderes
e de organizações: “É normal que essa
virada demore um pouco, mas podemos
ajudar a acelerar, principalmente com
cultura. Em toda revolução industrial, a
cultura é sempre um ponto de atenção e
LGPD É SUFICIENTE?
As seguradoras brasileiras, em sua maioria, sinaliza o executivo,
já possuem estruturas robustas de proteção de dados em conformidade
com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), não representando
a IA um risco adicional significativo neste aspecto. O principal desafio
emergente será, afirma Jorge, o gerenciamento do volume exponencial
de dados que a IA gerará. “Segundo a Deloitte, estimativas indicam
que a IA poderia adicionar mais de 10%, ou aproximadamente
US$ 12,5 trilhões, ao PIB global até 2032, intensificando ainda mais a
necessidade de gestão eficiente de dados. As companhias precisarão
tomar decisões estratégicas sobre como organizar esta nova massa
de informações, integrando-a às arquiteturas existentes e sistemas legados.
A modernização da infraestrutura de dados será fundamental
para sustentar o crescimento projetado do setor”, avalia Vinicius Jorge.
Apesar dos avanços, o setor, como avalia Marcella Campos,
gerente de inovação da MJV, ainda precisa evoluir a proteção de
dados dos clientes, mesmo com a existência da LGPD, fortalecendo
a governança de dados, garantindo que a complexidade e o volume
de informações tratados pela IA estejam em total conformidade
com a lei. “A transparência e aplicabilidade dos algoritmos são desafios
importantes, pois os clientes têm o direito de entender como
as decisões automatizadas são tomadas. Como vem sendo muito
falado como temática em feiras recentes, a necessidade de uma regulamentação
mais específica para a IA é evidente, pois a LGPD, embora
abrangente, não trata de todas as particularidades da tomada
de decisão autônoma. Superar esses desafios é essencial para que a
IA seja utilizada de forma ética e responsável, construindo um futuro
mais seguro para o mercado de seguros”, alerta Marcella.
Compartilhamento e proteção de dados, eis um ponto que
exige extrema atenção das seguradoras, principalmente no universo
atual do open insurance e sob o arcabouço legal da LGPD, como
alerta Alexandre Muniz, da Generali. Segundo o executivo, as seguradoras
precisam ter uma “dose de realidade”, porque “efetivamente”
o judiciário e as leis “não vão mudar” na velocidade em que a tecnologia
muda. “A parte de privacidade dos dados é talvez um dos
maiores desafios que temos aqui, mais do que a própria fraude, porque
a fraude é sempre uma exceção e está circunscrita a um volume
sempre menor da base de clientes, mas o uso intenso de IA pode ser
para uma base grande de clientes e estamos falando de informação
20
sensível desse cliente. Hoje, boa parte dos projetos de IA tem pouca
atenção a isso”, adverte Muniz, que afirma debater intensamente o
tema na Generali, que investe em governança de IA justamente para
proteger dados internos bem como dos clientes.
O executivo questiona, contudo, o destino das informações
dos clientes em um cenário de compartilhamento de dados. Para Muniz,
a legislação brasileira ainda não está “muito clara” nesse sentido.
“Na Europa, acredito que a lei [de proteção de dados] evoluiu mais
do que aqui no Brasil. Já existe tecnologia de IA em que são criados
ambientes fechados de IA para proteção dos dados do cliente. Mas
não sou tão otimista na criação de um arcabouço legal e regulatório
rápido. As empresas precisam ter um posicionamento diferenciado
e talvez as leis não consigam ser tão específicas e trabalhem mais na
parte psicológica, conceitual, vamos dizer assim, porque não vai realmente
conseguir acompanhar [os avanços da IA]. É importante que as
empresas tenham atenção a isso”, recomenda Muniz.
Diretor-executivo de tecnologia e operações da Zurich, Marcelo
Alvalá assinala que, no Brasil, mesmo com a vigência da LGPD,
o uso de IA exige cuidados adicionais para garantir que as informações
dos clientes sejam tratadas de forma segura, transparente e
ética. “É uma tecnologia relativamente nova em seu uso em larga
escala e a falta de clareza sobre os critérios utilizados pelos algoritmos
pode gerar insegurança, especialmente em decisões sensíveis,
como recusa de cobertura ou alterações contratuais”, diz o executivo,
que também alerta ser essencial estabelecer uma governança
clara sobre as responsabilidades em casos de falhas automatizadas,
além de mitigar possíveis vieses nos dados utilizados pelos sistemas.
ESTRADA LONGA
O desafio primário será sempre a segurança da informação e
a garantia de que os dados dos consumidores estarão preservados.
Internalizada a questão, os desenvolvedores executarão o passo
seguinte: a análise de dados comportamentais para oferecer soluções
proativas ao cliente. “Está em uso e em expansão”, frisa Ricardo
Villaça. “Mas tem potencial para avançar”, completa o acadêmico,
reconhecendo que as seguradoras estão paulatinamente buscando
a utilização de dados comportamentais — como padrão de uso, histórico
de sinistros e navegação digital — para criar ofertas mais aderentes
ao perfil do cliente. “De qualquer forma, o uso ainda pode ser
mais efetivo, tanto em modelagem de dados quanto em construção
de algoritmos, visando uma hiperpersonalização cada vez mais assertiva.
De fato, o que se fala de IA é da evolução contínua. As experiências
mais bem-sucedidas demonstram que clientes expostos a
recomendações personalizadas têm até três vezes mais chance de
renovar suas apólices, por exemplo. Se conseguirmos atuar acompanhando
o cliente em seus momentos de vida, estaremos sempre
apoiando ele de forma individualizada com o que é pertinente, consequentemente,
venderemos mais”, avalia Villaça.
Comportamentos como hábitos de direção, padrões de consumo
e interações digitais podem ser usados para antecipar demandas,
sugerir coberturas ajustadas ao perfil do cliente ou até ajudar
na prevenção de riscos. “Apesar das possibilidades associadas à
tecnologia, ainda vejo como uma questão incipiente no mercado
MARCELO ALVALÁ,
da Zurich
segurador. É necessário evoluir na governança
dos dados, na transparência dos
algoritmos e no cuidado com a privacidade,
em conformidade com legislações
como a LGPD. Em outras palavras, é uma
tendência muito promissora, que ainda
tem espaço para amadurecimento, especialmente
quando falamos de ética, equidade
e uso responsável das informações
dos clientes, a fim de que possa ser utilizada
em larga escala no setor”, pontua
Marcelo Alvalá.
Da perspectiva estratégica, essa
capacidade de personalização e proatividade
é o que diferenciará as seguradoras
de sucesso no futuro. Embora não esteja
100% consolidado, o mercado está em
um ponto de inflexão. Mauricio Vianna, da
MJV, sinaliza para pesquisas que mostram
que 62,7% das seguradoras brasileiras já
utilizam IA generativa para personalizar
produtos e serviços, ampliando a eficiência
operacional e a retenção de clientes.
Grandes players já estão colhendo frutos
significativos, com taxas de retenção
de clientes aumentando e uma melhora
na conversão de vendas ao oferecer produtos
customizados com base nesses
dados. “O desafio agora é aprofundar a
integração de dados de diversas fontes,
não apenas transacionais, mas também
de interações digitais, comportamento
em aplicativos, e até mesmo dados de IoT,
sempre com consentimento do cliente e
respeitando a privacidade”, sugere.
21
ESPECIAL INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
O FUTURO
‘E agora, José?’
Você marcha, José! José, para
onde?”. Assim o poeta Carlos
Drummond de Andrade termina
uma de suas mais famosas poesias. Fica,
então, a indagação do poeta que serve
também para o mercado segurador em
relação à Inteligência Artificial e de como
os profissionais do seguro, irão utilizá-
-la no dia a dia com o cliente. Para onde
irá “José” tendo pela frente a Inteligência
Artificial? Nessa caminhada é preciso
considerar o net promoter score (NPS)
negativo, um indicador, como lembra
Lucía Sarraceno, diretora de marketing e
clientes da Zurich, que mede a satisfação
do cliente com a empresa e que pode-
-se dizer ser uma consequência de como
toda a jornada do cliente é pensada em
cada produto pelas seguradoras. “Isso
vai muito além de ferramentas de Inteligência
Artificial. Tem a ver com cultura
de trabalho, experiência do usuário nos
canais — sejam digitais ou não —, relacionamento
com os clientes, processos
estabelecidos, qualidade dos produtos,
entre outros muitos fatores que vão influenciar
este indicador. É óbvio que a
IA tem permitido avanços em eficiência
e, principalmente, agilidade, que seriam
muito difíceis e custosos de atingir sem
a tecnologia, talvez até inviáveis financeiramente.
Mas tudo isso faz parte de
um movimento maior de foco no cliente
que envolve muitas ações, algumas delas
sem relação direta com a tecnologia”, diz
a executiva.
Para Marcella Campos, gerente de
inovação da MJV, um NPS negativo é reflexo
de gargalos na comunicação entre
seguradoras e consumidores porque se
o índice está baixo significa que a experiência
do cliente não está sendo boa, e é
exatamente aí que a IA entra. “Ao otimizar
processos, personalizar o atendimento
com chatbots inteligentes e até prever
O QUE VEM PELA FRENTE É O GRANDE DESAFIO
DAS APLICAÇÕES DA IA, CONSIDERANDO-SE QUE
CADA VEZ AS PESSOAS TERÃO DIFICULDADES EM SE
RELACIONAR COM OUTRAS PESSOAS
André Felipe de Lima
suas necessidades, a IA ajuda a transformar a frustração em satisfação,
resolvendo os problemas que causam um NPS ruim e criando
um relacionamento mais positivo e fluido entre o cliente e a seguradora,
tornando a jornada do cliente muito mais agradável e, claro, o
NPS mais positivo”, resume.
Diversos gargalos históricos – como morosidade na regulação
de sinistros, atendimento genérico e falta de proatividade – estão
22
LUCÍA SARRACENO,
da Zurich
percepções negativas e gerar valor. De
qualquer forma, mais do que uma ferramenta
que acelera e retira gargalos, a IA
deve passar a ser usada no processo estratégico
e de compreensão do cliente”,
pondera Villaça.
FRAUDES
No mercado brasileiro, há uma incidência
de fraudes que preocupa o setor
de seguros e de saúde suplementar.
Os fraudadores, em muitos casos, também
fazem uso da Inteligência Artificial
para manipular informações ou até mesmo
imagens (fotos e, sobretudo, vídeos)
sendo superados com o uso da IA. Como avalia Ricardo Villaça, coordenador
acadêmico da ENS, processos automatizados com IA,
leitura de documentos via OCR, análise de imagem e linguagem
natural tornam o atendimento mais rápido e eficiente. Muitas seguradoras
passaram a monitorar o NPS em tempo real e a utilizar
IA para agir preventivamente quando percebem queda na satisfação.
“Isso mostra que, além de resolver gargalos, a IA pode reverter
MARCELLA CAMPOS,
da MJV
23
ESPECIAL INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
O FUTURO
JOSÉ LOUREIRO,
da Bradesco
sobre um sinistro. Como as seguradoras
ou operadoras de saúde suplementar
podem se defender em casos de fraudes
onde a IA também está presente no lado
das fraudes?
As seguradoras estão atentas às
fraudes e investem em IA generativa e
aprendizado de máquina para identificar
padrões de deepfakes e manipulações
visuais em tempo real, analisando
a autenticidade de mídias enviadas em
sinistros com uma precisão que supera
a capacidade humana. Mauricio Vianna,
CEO da MJV, afirma que, além da tecnologia,
a colaboração entre seguradoras
e a criação de bancos de dados compartilhados
de casos de fraude (sempre
respeitando a LGPD e o sigilo de dados)
são essenciais para que o setor como
um todo eleve sua capacidade de defesa.
“Também é fundamental o investimento
em treinamento contínuo das
equipes antifraude, capacitando-as a
reconhecer os novos métodos de manipulação.
É um jogo de gato e rato, onde
a inovação contínua é a nossa maior
arma”, observa.
Em saúde, por exemplo, ressalta
José Loureiro, diretor de inovação, digital
e dados da Bradesco Seguros, a IA
é essencial para identificação de comportamentos
atípicos em pedidos de
tratamentos, medicamentos e serviços.
“Ela complementa métodos tradicionais,
como o treinamento constante dos funcionários para um atendimento
mais efetivo”, salienta.
Com o avanço de tecnologias, como deepfakes e manipulação
de imagens e vídeos, surgem novos riscos que exigem
respostas igualmente sofisticadas por parte das seguradoras e
operadoras. Para enfrentar esse cenário, é essencial investir em soluções
que combinem análise preditiva, detecção automática de
anomalias e validação cruzada de dados. Ferramentas baseadas
em machine learning são capazes de identificar padrões suspeitos
em tempo real, mesmo quando há tentativas de mascarar fraudes
com recursos de IA. “Na Zurich, a plataforma Frops [Fraud Risk
Operational Performance System] é um exemplo concreto desse
avanço. A plataforma utiliza IA e machine learning para detectar
e prevenir fraudes em tempo real e tem sido uma aliada estratégica
no enfrentamento de fraudes sofisticadas. Com capacidade de
análise em tempo real e aprendizado contínuo, a ferramenta não
apenas automatiza 65% das investigações, como também reduziu
significativamente os falsos positivos – o que aumenta a precisão
das análises e evita que clientes legítimos sejam indevidamente
impactados. Isso contribui diretamente para a eficiência operacional
e para uma experiência mais justa e confiável para o segurado”,
descreve Marcelo Alvalá, diretor-executivo de tecnologia e operações
da Zurich.
Atualmente, mais de 90% dos sinistros da Zurich são analisados
pela solução, o que contribui para maior eficiência operacional,
redução de perdas financeiras e melhoria na experiência do cliente.
“Além da tecnologia, a atuação de equipes especializadas em análise
forense digital e a adoção de uma governança robusta de dados
são fundamentais para garantir a segurança e a integridade dos
processos. À medida que os métodos de fraude evoluem, a resposta
precisa ser cada vez mais integrada, adaptável e orientada por inteligência”,
completa Alvalá.
Segundo outra recente pesquisa da Deloitte — intitulada
Using AI to fight insurance fraud (Usando IA para combater fraudes
em seguros) — , 35% dos executivos de seguros escolheram a detecção
de fraudes como uma das cinco áreas prioritárias para desenvolvimento
de aplicações de IA generativa nos próximos doze
meses. O relatório da Deloitte projeta que a implementação de tecnologias
baseadas em IA no ciclo de vida de sinistros pode resultar
em economias substanciais: “Por implementar tecnologias orientadas
por IA através do ciclo de vida de sinistros e integrar análise em
tempo real, seguradoras P&C poderiam reduzir sinistros fraudulentos
e economizar entre US$ 80 bilhões e US$160 bilhões até 2032”,
destaca notícia do Insurance Journal alusiva ao estudo da Deloitte.
“As seguradoras têm investido massivamente no aprimoramento
de modelos de linguagem para identificar fraudes, inclusive aquelas
geradas por IA. A Deloitte identifica várias abordagens técnicas
em implementação: processamento de linguagem natural para
análise de dados, análise de padrões comportamentais e detecção
de anomalias em tempo real. Este é um risco inerente a todos os
mercados digitais, não exclusivo ao setor de seguros. A resposta
adequada é o investimento contínuo em tecnologias defensivas
mais sofisticadas que as utilizadas pelos fraudadores. Como indica
24
o relatório Deloitte 2024 Financial Services Industry Predictions, ‘a
IA é esperada para transformar investimentos de varejo, aumentar
fraudes bancárias e impulsionar novos mercados de seguros’, reforçando
a necessidade de estratégias defensivas proativas”, pontua
Vinicius Jorge, CTO da Albatroz MGA.
O uso da Inteligência Artificial vem sendo decisivo para as
estratégias de benchmarking das empresas do setor. Como explica
Ricardo Villaça, o que se diz atualmente não é se podemos aplicar
a IA em determinado tema, mas como aplicá-la. Se usada da forma
correta e unida a pessoas, o resultado tende a ser melhor. “Nesta
questão, a IA permite análises de desempenho mais sofisticadas e
assertivas, baseadas em múltiplos indicadores — conversão, churn,
sinistralidade, tempo de resposta, entre outros. Com isso, as empresas
conseguem se comparar ao mercado, identificar gaps, insights
e reagir com mais agilidade. Além disso, com IA, a capacidade das
análises é elevada. É como se o cérebro humano tivesse sua capacidade
ampliada. Atualmente, o benchmarking deixou de ser apenas
comparativo: tornou-se preditivo. Algumas seguradoras usam IA
para simular cenários e antecipar movimentos de concorrentes ou
mudanças no comportamento dos segurados. Além disso, é fundamental
que a IA esteja no planejamento estratégico e revisões táticas”,
resume Villaça.
PAPEL DO CORRETOR
Um recente estudo da OIT alerta que a IA deve impactar 31,3
milhões de empregos no Brasil e afetar 13 profissões, uma delas a
de trabalhadores da área de seguros. Para muitos especialistas, a IA
não é o “bicho papão” que pintam para ela. “A IA vai tornar as funções
mais nobres, não as eliminar. As atividades mais operacionais
e repetitivas tendem a ser automatizadas, o que permitirá a execução
de atividades mais nobres. O corretor consultivo, que orienta o
cliente, entende seus riscos e atua com inteligência de dados – terá
seu nível de serviço valorizado. A ENS oferece capacitações voltadas
a esse novo perfil. Toda revolução industrial nos demanda estudo e
flexibilidade”, concebe Villaça.
Sócio da insurtech Hubsegs, uma consultoria para corretores,
Lucas Vargas reconhece que o papel do corretor em mercados
mais evoluídos continua de extrema relevância e, mesmo não sendo
obrigatória a intermediação de seus serviços, a cultura do consumidor
vê o valor em sua intermediação. “Acredito que o impacto real
[da IA] será nas funções operacionais, administrativas e repetitivas,
que serão de fato automatizadas. O corretor terá que estar aberto
a essas mudanças e dominar a utilização de IA em suas operações
para conseguir manter-se no mercado. Acredito que o corretor do
futuro não tem medo de ser substituído porque ele entende o valor
da tecnologia nas suas operações e já está aplicando ou se preparando
para utilizá-la em diferentes fases da sua jornada de atendimento”,
frisa Vargas.
A jornada rumo à excelência no relacionamento com o
cliente é contínua e dinâmica. Logo, a combinação de tecnologia,
dados e atendimento humanizado tem elevado significativamente
a qualidade da experiência oferecida. No entanto, como lembra
José Loureiro, mais do que buscar uma “perfeição absoluta”,
LUCAS VARGAS,
da Hubsegs
o foco está em evoluir constantemente,
ouvindo o cliente, antecipando suas necessidades
e entregando soluções cada
vez mais personalizadas, acessíveis e relevantes.
Para Mauricio Vianna, estamos
construindo uma relação de seguro muito
mais inteligente e resiliente. “A IA nos
permite antecipar necessidades, simplificar
processos e oferecer um nível de personalização
impensável há poucos anos.
A IA é o principal vetor de inovação em
2025”, diz o executivo, referindo-se aos
alvissareiros percentuais em torno da IA.
“Cerca de 89% das seguradoras brasileiras
planejam investir especificamente em IA
generativa, com 92% já prevendo orçamento
dedicado para essa tecnologia.
Nos próximos anos, veremos um salto
significativo na satisfação do cliente no
setor de seguros, impulsionado por experiências
mais fluidas e proativas”, prevê
Vianna.
No entanto, sinaliza o executivo,
o desafio é manter essa evolução constante,
equilibrando a inovação tecnológica
com a essência humana do serviço.
“Acreditamos que o futuro do seguro
está em usar a tecnologia para ser mais
humano, mais compreensível e mais
presente na vida do segurado, transformando
o seguro de um ‘mal necessário’
para um ‘parceiro essencial’ na gestão de
riscos e bem-estar”, conclui.
25
ESPECIAL INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
HIPERPERSONALIZAÇÃO
HORA
CHEGOU
AO OPEN INSURANCE AVANÇA NA SUA TERCEIRA FASE, QUE
PERMITIRÁ AOS CLIENTES, CASO DESEJEM, ACESSAREM E
UTILIZAREM SERVIÇOS DE DIFERENTES SEGURADORAS DE
MANEIRA INTEGRADA, POR MEIO DE PLATAFORMAS E API’S
E COM MAIOR CONTROLE SOBRE SEUS DADOS, PODENDO
AUTORIZAR O COMPARTILHAMENTO DELES COM DIFERENTES
EMPRESAS E SERVIÇOS. QUANTO A SEGURADORES E
CORRETORES, A PALAVRA DE ORDEM DO MOMENTO PARA
ELES É “HIPERPERSONALIZAÇÃO”, COM A INTELIGÊNCIA
ARTIFICIAL DITANDO AS REGRAS DO JOGO. HÁ, CONTUDO,
MUITOS GARGALOS NESSE PROCESSO QUE SÃO DEBATIDOS
POR ESPECIALISTAS DE MERCADO OUVIDOS POR APÓLICE
André Felipe de Lima
No cenário atual de seguros
em rápida evolução, dois desafios
cruciais se destacam:
como atrair e reter clientes e como se
manter competitivo em um mercado
cada vez mais digital. As abordagens
tradicionais e universais não repercutem
mais, especialmente entre consumidores
mais jovens e antenados
em tecnologia, que esperam experiências
altamente personalizadas.
A solução? Hiperpersonalização”. A
recomendação é de Neeraj Malhotra,
especialista indiano em inovação
tecnológica e CEO da Acceltree
26
Software, uma fornecedora de tecnologia para os setores de seguros
e bancário, com sede em Pune, na Índia, e escritórios no
Canadá, nos Estados Unidos, na Malásia e no Sri Lanka. Em artigo
recentemente divulgado e intitulado The growing importance of
hyper-personalization in insurance (A crescente importância da
hiperpersonalização em seguros), Malhotra ressalta que a hiperpersonalização
não é mais “um luxo” e, sim, uma “expectativa”. Os
clientes de hoje, frisa o executivo, exigem experiências personalizadas
que estejam em sintonia com seus objetivos financeiros, estilos
de vida, perfis de risco e preferências de comunicação. “Simplesmente
dirigir-se a um cliente pelo nome e sobrenome em um
e-mail não é mais suficiente. Em vez disso, as seguradoras devem
utilizar IA, dados comportamentais em tempo real e análises preditivas
para criar experiências de seguro altamente individualizadas”,
sinaliza Malhotra.
Quem dita todo esse processo de
hiperpersonalização é a Inteligência Artificial,
norteando dados em tempo real e
análises comportamentais para oferecer
produtos e serviços financeiros personalizados
aos clientes. Para as seguradoras,
isso se traduz em: preços de apólices personalizados
com base em dados comportamentais
e de estilo de vida em tempo
real; gerenciamento de leads orientado
por IA, que se adapta à intenção do cliente;
personalização do processamento de
reivindicações, oferecendo autoatendimento
para usuários com conhecimentos
em tecnologia e reivindicações assistidas
para aqueles que preferem suporte humano
e recomendações de políticas preditivas
que antecipam as necessidades dos
clientes antes mesmo que eles perguntem.
Assim se constrói a hiperpersonalização,
hoje uma tendência irrevogável em
qualquer setor de mercado. São inúmeras
as pesquisas que apontam nesse sentido.
Uma realizada pela McKinsey, de 2023,
mostra que 76% dos consumidores têm
maior probabilidade de comprar de empresas
que personalizam sua experiência;
outra, da Accenture, divulgada um ano
antes, sinaliza que 80% dos clientes de
seguros buscam ativamente ofertas, mensagens
e preços personalizados de seus
provedores. Voltando o olhar para o nosso
mercado interno, a pesquisa E-commerce
Trends 2024, da Octadesk e Opinion Box,
indica que 70% dos clientes se sentem
mais confortáveis com empresas que oferecem
produtos personalizados.
Hoje, o que se vivencia é uma aproximação
forte entre os setores de seguros
e dos bancos. O open finance e, agora, o
open insurance, ambos empregados no
Brasil, destaca essa realidade, que transcende
o universo tradicional das apólices
que predominava poucos anos atrás. O
Banco Central do Brasil (Bacen) e a Superintendência
de Seguros Privados (Susep)
trabalham para integrar os dois modelos.
Quem não compreender essa aproximação
(ou mesmo rechaçá-la) moldada pela
hiperpersonalização não sairá do lugar. Em
2023, o Boston Consulting Group (BCG) revelou,
a partir de um de seus estudos, que
as seguradoras que desenvolveram suas
27
ESPECIAL INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
HIPERPERSONALIZAÇÃO
Hoje, podemos afirmar que,
entre dez empresas, ao menos
metade já emprega algum tipo de
Inteligência Artificial generativa
para comunicação com clientes”
RODRIGO AGUIAR, da Unimed
estratégias a partir da hiperpersonalização
dos produtos registrarão uma evolução
de receita de 2 a 3 vezes superior à
média de crescimento do setor e, ainda,
terão redução de índices de despesas entre
4 e 5 pontos percentuais até dezembro
deste ano.
Embora a hiperpersonalização
ofereça vantagens significativas, as seguradoras
precisam lidar com alguns
desafios. A pesquisa de seguros da
KPMG, de 2023, mostra que 67% dos
executivos de seguros citam preocupações
com a privacidade de dados como
o maior desafio para o desenvolvimento
de produtos padronizados em conformidade
com o perfil do consumidor. O
estudo revela ainda que 58% apontam
as limitações do sistema legado como
uma grande barreira. Do total de entrevistados,
51% destacam a conformidade
regulatória como um obstáculo rumo à consolidação da
hiperpersonalização. “Hoje, podemos afirmar que, entre dez empresas,
ao menos metade já emprega algum tipo de Inteligência
Artificial generativa para comunicação com clientes”, garante o
superintendente Comercial e de Produtos Saúde e Odontológico
da Seguros Unimed, Rodrigo Aguiar. A Seguros Unimed utiliza a
Inteligência Artificial em diferentes frentes. Na comunicação com
clientes, a central de atendimento é apoiada por IA. Nos processos
internos, há iniciativas em áreas como técnica e atuarial, incluindo
projetos voltados à subscrição automática de apólices e à análise
de risco com machine learning, além do uso de IA para prevenção
a fraudes. “Para garantir segurança e confiabilidade, a companhia
adota governança específica para IA, monitoramento contínuo dos
modelos em produção e conformidade com a LGPD”, acrescenta
Aguiar.
General manager Latam do InsureMO, Rafael Rodrigues lembra
que em mercados maduros, como Reino Unido, Japão e Índia, a
hiperpersonalização já constitui-se em prática comum em seguros.
“Vemos isso em prática. Seguros automotivos com precificação baseada
em uso [“UBI”, usage-based insurance ou seguro baseado no
uso], sendo impulsionada por telemática, cobertura de saúde ajustada
dinamicamente com dados de wearables, e seguros viagem
que são ativados automaticamente quando o cliente cruza uma
fronteira ou embarca em um voo. Na Índia, o aplicativo de transporte
Ola incorpora cobertura de acidentes pessoais diretamente
nas viagens usando nossa plataforma, adaptada dinamicamente
ao perfil do usuário e aos detalhes da viagem. No Japão, integrações
com marketplaces, como a Amazon, permitem a ativação de
produtos de nicho como seguro para animais de estimação ou
proteção de dispositivos móveis, com base no comportamento de
compra”, exemplifica Rodrigues.
Entender o cliente e criar produtos ou trilhas específicas, porém
agrupando o nicho, é algo usado há algum tempo pelo varejo,
que cada vez mais está na mira da indústria dos seguros, como ressalta
Luis Henrique Forster, cofundador da PDVBox. “Lembro-me
de desenhar produtos neste formato dez anos atrás, mas não havia
suporte tecnológico para serem lançados. O que é bem diferente
hoje em dia, onde temos capacidade de entender os costumes
do nosso consumidor e criar trilhas, produtos e modelos de negócios
mais aderentes a essas necessidades. Existe ainda um grande
passo para termos um movimento mais consolidado dessa linha,
quando pensamos na necessidade de termos base de dados para
podermos estudar e criar, mas acredito que, com a união do setor,
teremos cada vez mais a oportunidade de desenhar soluções
nichadas [sic] e específicas para as necessidades que o mercado
busca”, pontua Forster.
ON DEMAND
Cresce a investida em produtos pay-per-use ou sob demanda
em vários segmentos de mercado. No de seguros não é diferente.
Há exemplos de coberturas para drones, pets, bicicletas elétricas etc.
CEO da Fitinsur, Denise Oliveira acredita que o futuro do seguro
está na flexibilidade e na capacidade de o cliente pagar ape-
28
nas pelo que realmente usa ou precisa. “A Inteligência Artificial é
o motor que possibilita essa agilidade. Nossos produtos são desenhados
com a IA em sua essência para viabilizar essa modalidade.
Por exemplo, para seguros de drones a IA não apenas permite a
precificação dinâmica baseada no uso real [tempo de voo e distância
percorrida], mas também otimiza a gestão de sinistros, identificando
padrões e prevenindo fraudes de forma mais eficiente. A
capacidade da IA de processar e interpretar grandes volumes de
dados em tempo real é o que torna esses produtos viáveis e rentáveis
para nós, ao mesmo tempo em que oferece um valor inestimável
para o cliente, que ganha em flexibilidade e custo-benefício”,
afirma a executiva.
Rodrigo Aguiar tem outro ponto de vista: “Embora haja iniciativas
e cases pontuais voltados para produtos sob demanda,
como seguros para nichos específicos ou de menor duração, o
modelo ainda não se consolidou em larga escala no Brasil. O setor
securitário nacional está em processo de transformação digital, o
que cria espaço para esse tipo de inovação. No entanto, a estrutura
ainda tradicional do mercado, somada a desafios de regulação
e interoperabilidade, faz com que os produtos pay-per-use ainda
sejam mais exceção do que regra. A personalização e modularização
de coberturas, como têm sido feitas por algumas seguradoras,
com foco em bem-estar e saúde preventiva, sinalizam uma
tendência, mas sua popularização ainda depende de avanços no
uso estratégico de dados, Inteligência Artificial e novas parcerias
dentro do ecossistema de saúde e seguros.”
Para Forster, a grande busca do mercado hoje está, todavia,
em entender cada vez mais onde a “grama está gasta” e pavimentar
ali os produtos. “Sem Inteligência Artificial, esses modelos não
teriam como ser viabilizados, pois dependem de conhecer o público,
criar produtos aderentes e cuidar dessa demanda de vendas,
no modelo que for desenhado. Estamos atentos a essas mudanças,
em parceria com seguradoras e clientes, mapeando as oportunidades”,
pontua.
NOVOS CAMINHOS
Em mercados mais maduros, há aplicação de embedded insurance
(seguro embarcado) e usage-based insurance (seguro baseado
no uso) possibilitadas pela análise preditiva e pela integração
com dispositivos IoT (internet of things ou internet das coisas) e wearables.
No Brasil, segundo Rodrigo Aguiar, essas tendências ainda
estão em amadurecimento. Apesar de haver iniciativas promissoras,
como o uso de Inteligência Artificial e dados para personalização de
jornadas e predição de riscos, ainda há barreiras relevantes, como
argumenta o especialista: “A regulação, o baixo nível de interoperabilidade
dos dados e a falta de maturidade digital de parte do ecossistema
são alguns dos fatores que limitam uma adoção mais ampla
de modelos como embedded e usage-based insurance. Iniciativas,
como o open health, e o uso de tecnologias, como wearables e IoT,
indicam um caminho possível, mas ainda é necessário maior integração
entre os players, padronização de dados e estímulo à inovação
regulatória para alcançar o nível observado fora do Brasil”,
sinaliza.
O open finance brasileiro está
mais avançado que o open
insurance. Bancos, fintechs e
provedores de crédito já utilizam
dados interinstitucionais para
oferecer produtos financeiros
hiperpersonalizados. Esse grau
de maturidade ainda não foi
alcançado no seguro devido à
resistência cultural, sistemas
legados fragmentados e evolução
regulatória mais lenta”
RAFAEL RODRIGUES, da InsureMO
Denise Oliveira segue a mesma
linha opinativa e aponta barreiras. Para
ela, no Brasil, embora haja um crescente
interesse e algumas iniciativas pontuais,
ainda prevalece um estágio de amadurecimento.
“As seguradoras brasileiras
estão, sim, acompanhando essa tendência,
mas talvez não na mesma toada por
alguns motivos. O principal gargalo reside
na infraestrutura de dados e na cultura
29
ESPECIAL INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
HIPERPERSONALIZAÇÃO
Entender o cliente e criar produtos
ou trilhas específicas, porém
agrupando o nicho, é algo usado
há algum tempo pelo varejo, que
cada vez mais está na mira da
indústria dos seguros”
LUIS HENRIQUE FORSTER, da PDVBox
de compartilhamento e análise. Embora
existam dados, muitas vezes estão em
silos, não padronizados, ou carecem de
integração para permitir uma análise preditiva
robusta. A cultura de colaboração
entre seguradoras e empresas de tecnologia,
como a Fitinsur, está crescendo, mas
ainda há espaço para maior sinergia para
acelerar a adoção dessas inovações”, avalia
a executiva.
Para que isso aconteça em maior
escala no Brasil, Denise aponta alguns aspectos:
o primeiro deles é o investimento
em infraestrutura de dados na busca
por modernização dos sistemas legados
e pela criação de plataformas que permitam
a coleta, o tratamento e a integração
de dados de diversas fontes. O segundo
consiste na adoção de tecnologias avançadas
caracterizada pelo uso mais amplo de IA, machine learning
e IoT para análise preditiva e personalização. Um terceiro aspecto
refere-se ao desenvolvimento de ecossistemas baseado no
fomento à colaboração entre seguradoras, startups, insurtechs
e provedores de tecnologia para a criação de soluções integradas.
Por fim, Denise cita “educação” e “conscientização”. “Tanto dos
consumidores sobre os benefícios desses modelos, quanto das
próprias seguradoras sobre o potencial de transformação”, acrescenta.
Países como Reino Unido, Alemanha, Japão e Estados Unidos
avançaram significativamente na adoção de seguros embutidos e
baseados em uso (UBI), utilizando análise preditiva, dispositivos
IoT e wearables para oferecer coberturas contextuais, como seguro
automotivo precificado por quilometragem, seguros de vida e
saúde influenciados por dados de rastreadores de fitness, e seguros
viagem ativados automaticamente em pontos de compra ou
check-in. “No Reino Unido, seguradoras digitais incluem proteção
cibernética ou de dispositivos em compras online. Na Alemanha,
montadoras oferecem seguros automotivos baseados em uso junto
à venda do veículo. Na Índia, plataformas como Ola [transporte]
e Cred [serviços financeiros] usam o InsureMO para embutir ofertas
de seguros de curto prazo diretamente nas jornadas dos clientes,
emitindo mais de 600 mil apólices por dia em alguns casos”, assinala
Rafael Rodrigues, ponderando, contudo, que principal barreira
no Brasil não é a tecnologia, mas a falta de uma camada intermediária
neutra e flexível que possa conectar sistemas legados com
novos canais e fontes de dados.
O open insurance pode ser um catalisador para a aceleração
da hiperpersonalização, diz Denise Oliveira. “Isso significa que, em
vez de basear as ofertas apenas nos dados que a própria seguradora
possui, teremos uma visão 360 graus do cliente, permitindo uma
segmentação muito mais granular e a criação de produtos e serviços
que são incrivelmente relevantes para o seu perfil e momento
de vida. O open insurance, ao permitir esse fluxo de dados seguro
e consentido, é a base para a construção de modelos de IA mais
precisos e, consequentemente, de experiências hiperpersonalizadas
de alto nível”, afirma.
A regulamentação existe, como acentua Rodrigo Aguiar, e
o ecossistema está sendo desenvolvido, mas a aplicação plena da
hiperpersonalização baseada em open insurance ainda enfrenta
desafios, como a padronização de APIs, a interoperabilidade entre
plataformas e, principalmente, a confiança do consumidor no uso
seguro dos seus dados. “No futuro próximo, espera-se que essa integração
entre hiperpersonalização e open insurance não apenas
melhore a experiência do cliente, como também fomente novos
modelos de negócio, produtos on demand e parcerias entre seguradoras
e fintechs e insurtechs, tornando o mercado mais dinâmico
e centrado no usuário”, anseia Aguiar.
Por outro lado, como compara Rafael Rodrigues, Reino
Unido e Austrália, por exemplo, estão avançados na implementação
de frameworks de open insurance integrados a ecossistemas
de open data. Os dois países já possibilitam que seguradoras,
com consentimento do usuário, acessem dados bancários,
30
indicadores de estilo de vida e scores de risco de terceiros para
customizar coberturas em tempo real. “O open finance brasileiro
está mais avançado que o open insurance. Bancos, fintechs e
provedores de crédito já utilizam dados interinstitucionais para
oferecer produtos financeiros hiperpersonalizados. Esse grau de
maturidade ainda não foi alcançado no seguro devido à resistência
cultural, sistemas legados fragmentados e evolução regulatória
mais lenta”, alerta Rodrigues.
SINTONIA FINA
O cenário que se desenha no setor de seguros sob a égide
do open insurance exige que a área de negócios das seguradoras
esteja em sintonia com três especialistas de TI essenciais no processo
de hiperpersonalização no mercado securitário: o engenheiro de
dados, a quem cabe toda arquitetura de informação e organização e
armazenamento de dados; o cientista de dados, que coleta, analisa
e interpreta os dados para deles extrair informações valiosas e ajudar
a seguradora a tomar decisões estratégicas, e, por fim, o engenheiro
de machine learning, que viabiliza a implementação dessas
estratégias de decisão em produção, fazendo com que as ofertas
adequadas cheguem aos clientes corretos. Essa aproximação das
seguradoras com os especialistas ainda não está em franca evolução
no mercado brasileiro de seguros. Rodrigo Aguiar explica o porquê:
“A aproximação está em fase de amadurecimento no mercado
brasileiro de seguros, embora já existam sinais claros de evolução.
Os principais gargalos enfrentados pelas seguradoras incluem a escassez
de profissionais especializados, a baixa integração entre as
áreas de negócios e tecnologia e a infraestrutura legada, que muitas
vezes não está preparada para suportar a complexidade dos projetos
baseados em dados.”
Denise Oliveira vê avanços, mas também barreiras. Ela
explica que o setor tem reconhecido a importância desses profissionais
e investido na contratação e no desenvolvimento de
talentos. No entanto, os principais gargalos , segundo ela, concentram-se
na cultura organizacional, escassez de talentos e lacuna
de conhecimento.
Mas há soluções para esses gargalos, como opina Denise,
que incluem quatro ações: investimento em capacitação interna,
onde programas de treinamento e desenvolvimento para equipes
de negócios e TI possam promover uma linguagem comum e um
entendimento mútuo dos desafios e oportunidades; recrutamento
estratégico, cujo foco em atrair e reter talentos de dados e IA
oferecem não apenas remuneração competitiva, mas também um
ambiente de trabalho inovador e projetos desafiadores; criação de
equipes multidisciplinares, ou seja, formação de squads que integram
profissionais de negócios, dados e tecnologia desde o início
dos projetos, garantindo que as soluções sejam desenvolvidas
com uma visão holística, e, por fim, a parceria com startups e insurtechs,
que trazem expertise em dados e IA em seu DNA, podendo
complementar as capacidades internas das seguradoras e acelerar
a inovação. “Acreditamos que, à medida que o mercado de seguros
no Brasil amadurece, a sinergia entre negócios e tecnologia se
tornará cada vez mais forte, impulsionando a hiperpersonalização
A capacidade da IA de processar
e interpretar grandes volumes de
dados em tempo real é o que torna
esses produtos viáveis e rentáveis
para nós, ao mesmo tempo em
que oferece um valor inestimável
para o cliente, que ganha em
flexibilidade e custo-benefício”
DENISE OLIVEIRA, da Fitinsur
e a criação de valor para todo o ecossistema”,
finaliza Denise.
No mais, em relação à hiperpersonalização
de produtos, resta à indústria
securitária brasileira ficar atenta ao que
recomenda o indiano Neeraj Malhotra,
para quem as empresas que hesitam
correm o risco de ficar para trás à medida
que as expectativas dos clientes continuam
a evoluir. As seguradoras, sugere
o CEO da Acceltree Software, precisam
agir agora, não apenas para se manterem
competitivas, mas para redefinirem como
o seguro agrega valor na era digital. A
hora chegou.
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gente
APOIO AOS NEGÓCIOS
O Grupo Exalt
apresentou Carlos
Eduardo Nascimento
como novo gerente
Técnico e de Backoffice.
Com 32 anos
de experiência em
seguradoras de grande
porte, o executivo
traz em sua bagagem
o conhecimento em
gestão de seguros patrimoniais, massificados e varejo,
assumindo a liderança do setor, reportando-se ao
CEO, Alexandre Federman.
O Grupo Exalt reforça sua estrutura e capacidade
de inovação, visando oferecer soluções cada
vez mais eficientes para o mercado. “A chegada do
Carlos Nascimento é um reforço importante para o
nosso time e para a evolução contínua do Grupo
Exalt. Com a equipe completa, estamos preparados
para um ano de crescimento com foco na inovação,
principalmente, na proximidade com novos parceiros
de negócios. Tenho certeza que a experiência
dele trará contribuições valiosas para seguirmos na
condução do plano de expansão”, concluiu Alexandre
Federman, CEO do Grupo Exalt.
DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
Com o objetivo
de fortalecer as ações
e projetos da agenda
social, ambiental e climática
(SAC) no setor
segurador, a Confederação
Nacional das
Seguradoras (CNseg)
apresentou Claudia
Prates como a nova
Diretora de Sustentabilidade
da entidade. A executiva traz consigo uma
trajetória de 28 anos no Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social (BNDES), tendo sido
Diretora entre os anos de 2016 e 2019.
“Estou bastante empolgada em trabalhar
no setor segurador, que tem um papel crucial na
construção de produtos e soluções para aumentar
a resiliência climática e na proteção de indivíduos e
empresas em relação às consequências dos eventos
extremos, cada vez mais frequentes, fruto do
aumento da temperatura global. Acredito que o
País tem um longo aprendizado no gerenciamento
de riscos climáticos e a parceria das Seguradoras,
Bancos e Comunidade Científica terão um papel
importante nessa trajetória.”, avalia Claudia.
LIDERANÇA REFORÇADA
Dois novos executivos
chegam à Alper
para fortalecer seu time
de liderança. Bruno
Guaglianone assume
como diretor da recém-
-criada Diretoria de Vida,
enquanto Fernando
Laurito Costa chega
para somar na liderança
da área de Resseguros na
Alper Re. As contratações contribuem para a estratégia
de expansão da companhia.
A nova estrutura sob comando de Guaglianone
unifica as frentes comercial e de relacionamento, permitindo
uma atuação mais integrada, com visão 360° do
cliente, maior agilidade
e assertividade nas soluções
- tudo isso alinhado
ao propósito da Alper
de transformar a forma
como o mercado enxerga
o seguro de vida.
Já Fernando
Laurito Costa traz para
a Alper Re uma sólida
trajetória de 30 anos no
mercado de seguros e resseguros. Com experiência
como underwriter em seguros e resseguros, na área
comercial, controladoria, gestão de resseguros e corretagem,
Fernando chega para fortalecer as soluções de
proteção para clientes e parceiros com seu profundo.
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TRIO DE PESO
Para compor a
equipe da BVIX , três
novos profissionais chegam
com foco na expansão
das operações e diversificação
do portfólio
de produtos em âmbito
nacional. Foram contratados
Mary Hellen
Fernandes, executiva de
contas com atuação no Rio de Janeiro; Dilmo Moreira,
novo gerente técnico de seguros de pessoas; e Márcio
Braga, gerente comercial da mesma área.
Mary Hellen Fernandes será responsável pela
atuação comercial no estado do Rio de Janeiro. “Meu
desejo de trabalhar na BVIX Seguradora vai além de
uma simples oportunidade profissional; é uma chance
de ser um agente de transformação. Estou motivada a
unir forças com uma equipe tão comprometida e focada
em impactar positivamente a vida das pessoas”, afirma.
Dilmo Bantim Moreira assume como gerente
técnico de seguros de pessoas. Ex-presidente do CVG-
-SP, tem longa trajetória
em seguradoras
nas áreas de Saúde,
Previdência, Pessoas
e Benefícios. “Estou
motivado para contribuir
com o crescimento
da BVIX e
desejo inspirar novas
gerações de profissionais,
transformando a relação entre seguradoras e
clientes em uma parceria mais colaborativa”, destaca.
Márcio Braga, novo gerente comercial de seguros
de pessoas, tem experiência em seguros de
Vida, Saúde e Dental. “Encontrei na BVIX um ambiente
acolhedor e colaborativo, que me inspira a
trabalhar em equipe. Meu foco será expandir a carteira
de seguros de pessoas com soluções personalizadas,
priorizando a inclusão e a proteção, além
de estreitar os laços com os corretores e escutar as
demandas do canal de distribuição e dos clientes”,
afirma.
MUDANÇA NO SEGURO GARANTIA
A Sompo anunciou a contratação de João
Alfredo Di Girolamo Filho como novo Diretor de
Garantia. O executivo
chega com a missão de
liderar a área estratégica
de Seguro Garantia,
ampliando a presença
da companhia em setores
como construção
civil, infraestrutura e
mercado judicial.
“O segmento
de Garantia tem crescido
de forma consistente, atingindo R$ 4,5 bilhões
em 2024, refletindo sua relevância para o desenvolvimento
econômico e a segurança jurídica. Estou
entusiasmado em contribuir com os planos da
Sompo para ampliar sua atuação com soluções inovadoras
e sustentáveis”, afirma o novo diretor.
MAIS
COMUNICAÇÃO
A Oneglobal
anunciou a nomeação
de Gutembergue
Barbosa Junior como
o novo gerente global
de Marketing & Comunicação.
A contratação
fomenta a estratégia
de expansão e consolidação da companhia diante
do cenário internacional, fortalecendo a equipe liderada
por Renata Banzato, diretora da área.
“Estou absolutamente orgulhoso e honrado
em compartilhar com todos este novo desafio
profissional. Esta é uma empresa que há muito
tempo admiro por sua trajetória de sucesso e
pelas incríveis pessoas que têm construído essa
história”, afirmou Barbosa.
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PROPRIEDADES E RESPONSABILIDADES
A corretora Galcorr trouxe Denise Bellezi
para ser a nova superintendente da área de Property
& Casualty (P&C), responsável por seguros
patrimoniais e de responsabilidade
civil.
Com mais de 25 anos
de experiência no
mercado segurador,
Bellezi chega para
ampliar a atuação da
empresa no segmento
corporativo.
Denise Bellezi
assume a nova
posição com o desafio de ampliar a presença da
Galcorr no mercado de seguros empresariais, com
foco em produtos que atendam às necessidades
das empresas. “É com grande satisfação que chego
para contribuir nesse momento tão estratégico
para a Galcorr, com perspectivas de crescimento,
e queremos entregar soluções completas, que realmente
agreguem valor ao cliente corporativo”,
destaca.
ATENDIMENTO EM SÃO PAULO
A Mapfre trouxe o executivo Leonardo
Marins para ser o novo diretor territorial para o
estado de São Paulo, abrangendo as regiões da
capital e do interior.
Com mais de duas
décadas de experiência
no setor, o
executivo assume a
missão de liderar o
time comercial local,
em um momento de
expansão e reorganização
estratégica da
companhia no país.
Ele se reportará diretamente a Karine Brandão,
diretora-executiva comercial do Canal Corretor.
“Chego à companhia com o compromisso
de contribuir para um modelo comercial mais direto,
próximo e adaptado à realidade dos corretores
e clientes. São Paulo é um mercado exigente e estratégico,
e vamos atuar de forma coordenada para
gerar mais valor e oportunidades”, afirma Leonardo
Marins.
AMPLIANDO A OPERAÇÃO
A WIT Insurance ampliou suas operações com
foco na oferta de soluções consultivas para o mercado
de seguros empresariais.
A empresa passa a contar
com uma nova estrutura
de liderança e profissionais
com experiência no
setor, como parte de sua
estratégia de crescimento
e diversificação.
Entre os novos
líderes estão Helton
Neroni e Daniel Nunes
Silva, com passagens
por seguradoras como Zurich e Chubb. Neroni assume
como gestor da WIT Insurance, enquanto Silva
ocupará a função de gerente de contas.
A consultoria oferece produtos que vão desde
seguros corporativos
– como garantia e
crédito – até proteção
patrimonial, cobertura
de frotas, cargas e riscos
cibernéticos. A expansão
da vertical de
seguros acompanha
o portfólio já consolidado
da WIT em áreas
como câmbio, investimentos,
imóveis e crédito
estruturado.
A consultoria pretende ampliar a presença de
mercado com uma abordagem baseada na escuta
ativa e na análise aprofundada de riscos. “Nosso foco
é oferecer soluções personalizadas que combinem
proteção e eficiência, adaptadas às necessidades específicas
de cada organização”, afirma Daniel Silva.
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