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Revista ICONIC 19a - Eiko Senda

A Revista ICONIC, referência em conteúdo autoral e diversidade de vozes, acaba de lançar sua nova edição trazendo um panorama vibrante da cena cultural e criativa brasileira. Com matérias exclusivas e entrevistas especiais, a publicação reúne nomes de peso da música, moda, circo, teatro e estilo de vida alternativo, promovendo a riqueza de expressões e trajetórias que inspiram e transformam. Por Marilu Gomes Editora Chefe.

A Revista ICONIC, referência em conteúdo autoral e diversidade de vozes, acaba de lançar sua nova edição trazendo um panorama vibrante da cena cultural e criativa brasileira. Com matérias exclusivas e entrevistas especiais, a publicação reúne nomes de peso da música, moda, circo, teatro e estilo de vida alternativo, promovendo a riqueza de expressões e trajetórias que inspiram e transformam.
Por Marilu Gomes
Editora Chefe.

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I C O N I C

J U L H O & A G O S T O 2 0 2 5 N O . 1 9

Nesta Edição

Marcos Menescal

Teatro Municipal RJ

Marlene Querubin

40 anos do Circo Spacial

Kombi Nomades e Vibe de dois

Viajantes de Kombihome

Lívia e Janaina

KEN-GÁ Bitchwear - Moda

V A M O S F A L A R D E M Ú S I C A

Maestro Rogério Wanderley Brito

“ ...onde há arte, também

há espaço para a paz. ”

Eiko Senda


V A M O S N O S C U I D A R !

INSTITUTO

OMINDARÉ

Cuide de você!

W W W . I N S T I T U T O O M I N D A R E . O R G . B R


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Pedra Bela - SP Brasil

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EDITORIAL

MARILU GOMES

Editora Chefe

MTB sob o nº 0081549/SP

REGINA P STEINER

Diretora de Pauta e

entrevistas

GUILHERME F JÚNIOR

Diretor de Conteúdo

THIAGO MORENO

Diretor Comercial

WELCOME

Edição 2025

2a/19aEdição

Revista da Orquestra Sinfônica Jovem do

Bixiga

A Revista ICONIC, referência em conteúdo

autoral e diversidade de vozes, acaba de lançar

sua nova edição trazendo um panorama

vibrante da cena cultural e criativa brasileira.

Com matérias exclusivas e entrevistas

especiais, a publicação reúne nomes de peso da

música, moda, circo, teatro e estilo de vida

alternativo, promovendo a riqueza de

expressões e trajetórias que inspiram e

transformam.

M A R I L U G O M E S

Editora Chefe

Anyway, we hope you enjoy this one.

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@revistaiconic2020

COM A PALAVRA

Dr Fernando Santos

Advogdo

VOZ E CANTO

Maude Salazar

EDUCAÇÃO

Priscila Buares

FOTOGRAFA

Heloísa Bortz

SUBSCRIPTIONS

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RP ASSESSORIA

Projeto Gráfico

Revisão

EQUIPE

TAMIRES NOGUEIRA

FABIANA TAVARES

JORGE GOMES

PAULA TJIRÉ

ROBERTO LÍVIO

PEDRO G. VALE

OLÍVIA VIEIRA

CASSIO FERNANDES

NATHÁLIA BULSING

AMANDA RICCO

COLABORADORES

PAUTAS AFRO

Kodê Magalhães

Jornalista

CHEF

Luiz Thomé

IA (INTELIGENCIA

ARTIFICIAL)

Mirna Rubim

FOTO DA CAPA

Eiko Senda

Arquivo pessoal

http://www.grupoomindare.com.br


SUMÁRIOI C O N I C

CARTAS

DO ELEITOR

CAPA

EIKO SENDA

Nossa Leitora

Carlinha Tavares - Belem-PA

"Muito linda essa revista, estou

gostando demais conheci

recentemente pelo Instagram.”

Querida leitora Carlinha, agradecemos,

seu e-mail e sua participação.Equipe Redação

Nossa Leitora

Beth Guimarães

Gramado - RS

MARCOS

MENESCAL

KOMBI NÔMADES

"Amei a entrevista com a Mirna

Rubim. eu tive o privilégio de assistir

o musical A Noviça Rebelde, e

adorei demais a participação dela.

Show!"

Querida leitora Beth, , agradecemos,

Equipe Redação

Nossa Leitora

Sônia Guinler

Fortaleza - CE

MAESTRO

ROGÉRIO W BRITO

VIBE DE DOIS

"Muito linda a revista, que conteúdo

bacana e diverso"

Querida leitora, Sônia agradecemos.

Equipe Redação

Nosso Leitor

Felize Jhonas

Rio de Janeiro - RJ

"Excelente Dra Maria Berenice Dias,

que sublime sua participação e

importância na Justiça Brasileira.

Parabéns.”

Querido leitor, Felize, agradecemos.

Equipe Redação

MARLENE

QUERUBIN

LÍVIA E JANAINA

Queridos leitores e Queridas Leitoras

da Revista ICONIC,,, na medida do

possível vamos publicando, as

mensagens carinhosas enviadas por

vocês!

Infelizmente não podemos publicar

todas as mensagens, mas saibam são

todas lidas com carinho.

Um grande abraço

Marilu Gomes

Editora Chefe


receita saudável

e prática para facilitar

sua alimentação

Olívia Vieira

nutrição saudável

Omelete com legumes

I N G R E D I E N T E S

2 ovos;

1/2 tomate picado;

1/4 de cebola picada;

1/4 de cenoura ralada;

Sal e pimenta a gosto;

1 colher de sopa de azeite;

M O D O D E P R E P A R O

Bata os ovos em uma tigela com sal e pimenta.

Refogue a cebola e a cenoura em uma frigideira

com azeite até ficarem macias.

Adicione o tomate e misture por mais um minuto.

Despeje os ovos batidos sobre os legumes e

cozinhe até a parte de baixo dourar.

Dobre a omelete e cozinhe até os ovos firmarem

completamente.


ESQUECER?

JAMAIS

ESQUECER?

JAMAIS

Dinalva Oliveira

Teixeira

Dina - Vocês vão me matar agora?

Ivan - Não, um pouco mais à frente

Dina - Vou morrer agora?

Ivan - Vai. Agora você vai ter que ir.

Dina - Quero morrer de frente.

Ivan - Então vira pra cá.

Dinalva Oliveira Teixeira nasceu no

sertão baiano, município de Castão

Alves, em 16 de maio de 1945, filha

de Viriato Augusto de Oliveira e

Elza Conceição Bastos.

De origem humilde, com muito

esforço conseguiu entrar na

Universidade Federal da Bahia,

onde se formou em geologia no

ano de 1968, sempre participando

ativamente do movimento

estudantil, quando foi presa pela

primeira vez.

Nesta época conheceu Antônio

Carlos Monteiro Teixeira (também

desaparecido), colega de turma

com quem se casou em 1969. No

mesmo ano mudaram-se para o

Rio de Janeiro, onde faziam

trabalhos sociais nas comunidades.

Consta no Relatório Arroyo,

referente ao evento que ficou

conhecido como 'O Chafurdo de

Natal'. Na ocasião, os militares

realizaram um golpe contra a

Guerrilha do Araguaia, o que

resultou em diversos mortos.

Segundo o relato do evento,

Dinalva estaria com febre na

ocasião ,no dia 25 de dezembro de

1973, em que o acampamento da

Comissão Militar da guerrilha foi

atacado pelos militares, resultando

em sua morte. No entanto, outras

indicações apontavam que a

mulher foi morta só em 1974, o que

causa dúvidas até hoje.


'Dina' foi a mais famosa e temida de todas as guerrilheiras do Araguaia.

Militante do movimento estudantil baiano em 1967 e 1968, tendo sido

presa, casou com seu colega de turma Antônio Carlos Monteiro Teixeira -

que na guerrilha teria o codinome 'Antônio da Dina' - e mudaram-se para o

Rio de Janeiro, onde trabalharam no Ministério das Minas e Energia, e

como militantes comunistas faziam trabalho social nas favelas cariocas.

Sobrevivente do ataque à comissão militar da guerrilha no dia de Natal de

1973, que matou cinco guerrilheiros, incluindo o comandante geral

Maurício Grabois, Dina embrenhou-se na selva com outros companheiros e

desapareceu até junho de 1974, quando foi presa, fraca, doente e

desnutrida, sem comer açúcar ou sal há meses, vagando na mata perto da

localidade de "Pau Preto", com a companheira de guerrilha "Tuca", a

enfermeira parasitóloga paulista Luiza Augusta Garlippe.

Levada à base em Xambioá, permaneceu presa e foi torturada por duas

semanas, sem prestar qualquer informação aos militares do serviço de

inteligência do exército, CIEx, que sempre quiseram pegá-la viva.

Em julho, Dina foi levada de helicóptero para um ponto da mata, próximo

de Xambioá. Assim que pisou no solo, pressentindo que seria executada,

Dina perguntou ao sargento do exército Joaquim Artur Lopes de Souza,

codinome Ivan, chefe da equipe, “Vocês vão me matar agora?” , ao que Ivan

respondeu: “Não, um pouco mais à frente”.

Os dois caminharam lado a lado por uns quinze minutos, mantendo uma

conversa cordial, testemunhada por mais dois militares que vinham logo

atrás.

Dina encarou o executor nos olhos, que

lhe desferiu um tiro no peito, usando uma pistola calibre 45.

Dinalva não morreu de imediato, sendo-lhe desferido um

segundo tiro na cabeça. Enterraram-na ali mesmo,

o corpo jamais foi encontrado.

por Pedro G. Vale


ESPECIAL

EIKO SENDA

Entrevista com Eiko Senda

Por Regina Papini Steiner

Há artistas que atravessam o

tempo com a força de sua voz,

sua presença e sua coragem de

ser. Eiko Senda é um desses

nomes que não apenas cantam:

ela interpreta, vive e traduz o

mundo em música.

Nascida no Japão e naturalizada

brasileira, sua trajetória é uma

ponte poética entre culturas,

entre linguagens, entre mundos.

Eiko não é uma cantora de

modismos. Ao contrário: sua arte

é construída com densidade,

pesquisa e entrega. Desde os

anos 1980, quando começou a

despontar nos palcos alternativos

do Brasil, sua voz potente e seu

timbre inconfundível chamaram

atenção pela originalidade. Não

era só técnica era emoção bruta

e refinamento simultâneos.

Celebrar Eiko Senda é

reconhecer que a cultura

brasileira é muito maior do que

os holofotes indicam. É

compreender que há artistas

fundamentais que seguem

criando, emocionando, e

renovando a nossa escuta. Eiko

merece ser ouvida com atenção,

com calma, com reverência.

Porque sua arte não grita para

chamar atenção: ela canta para

tocar a alma.


Foto by Vitor Ceolin


Há raízes que atravessam mares. O

que da sua infância permanece

ecoando quando você pisa no palco?

Minha infância. Primeira vez que subi

no palco, acho que foi entre três para

quatro anos, cantando canto

gregoriano na Igreja Católica. Eu

gostava de inventar. E o padre, da Igreja

onde eu frequentava, um dia ouviu e

disse: 'Olha, ela tem uma voz boa.'

A partir daí, comecei a prestar mais

atenção, a aprender ouvindo. Eles

ficavam felizes em ver uma criança tão

pequena cantando em latim. Eu

cantava, imitando o que ouvia.

Atualmente, moro em Porto Alegre.

Sou uma das diretoras da Companhia

de Ópera do Rio Grande do Sul, ao lado

de Flávio Leite e Ângela Correio. Juntos,

estamos à frente de um movimento de

renovação cultural e de

conscientização sobre a importância da

arte visual. especialmente na área da

música e na produção musical.

Em meio a tantas mudanças, amores,

países e palcos, o que manteve viva a

chama dentro de você para continuar

cantando?

Bom, tudo começou no Brasil, com

um carioca, na verdade. Mas nos

conhecemos na Suíça, em Genève. Eu

estava fazendo um concerto de música

de câmara, cantando “Liederkreis”, de

Schumann. Ele assistiu à apresentação

e, depois, me disse que viu uma luz ao

redor do meu corpo.

Foto Arquivo pessoal

Foi algo quase místico. Nos

aproximamos, começamos a sair,

e logo estávamos juntos. Tivemos

três filhas.

Ficamos casados por 12 anos, mas,

com o tempo, percebemos que

não era o que ambos

esperávamos. Acabamos nos

separando. Eu estava em São

Paulo quando conheci meu

segundo marido.

Depois, me mudei para o Uruguai,

onde vivi por 20 anos. Lá,

mergulhei na vida doméstica fui

mãe, cuidei da casa, mas nunca

deixei de cantar. Durante esse

tempo, me apresentei em diversos

países da América Latina,

praticamente por toda parte.

Mas tudo na vida é cíclico e esse

casamento também chegou ao

fim. Hoje estou sozinha, morando

em Porto Alegre, e trabalhando

muito. Trabalhando de verdade.


Foto Arquivo Pessoal

"Como artistas, como seres humanos dignos,

nunca fomos verdadeiramente valorizados."

Eiko Senda


Como o projeto que você está desenvolvendo busca transformar esse

ambiente de medo e silenciamento em um espaço mais justo e

acolhedor para quem vive da arte?

Nós somos artistas, não é? E acredito que você também tenha alguma

conexão com a arte. A arte, por si só, nunca conseguiu se firmar dentro

de uma lógica administrativa tradicional, dentro dessa estrutura

concreta da sociedade capitalista. Muitas vezes, ela é usada como

produto, como imagem para vender mas não como expressão humana

profunda. Como artistas, como seres humanos dignos, nunca fomos

verdadeiramente valorizados. Foi a partir desse lugar que eu e a Flávia

começamos a conversar. Por que precisamos suportar, por exemplo,

assédio sexual? Eu mesma sofri isso diversas vezes ao longo da vida,

especialmente quando era mais jovem. E também o racismo por ser

oriental, enfrentei situações muito difíceis. Vi muitos colegas passarem

por isso também. E o mais doloroso é que, muitas vezes, não temos

como dizer 'não'. Temos contas a pagar, filhos para cuidar. A arte nos

move, mas o sistema tenta nos calar. Eu e a Flávia conversamos muito

sobre isso: vivemos constantemente com medo de perder o trabalho,

e acabamos aceitando situações que ferem nossa ética, nossos

valores, tudo aquilo que aprendemos com nossa família.

Por isso, sentimos a urgência de criar um ambiente mais saudável para

quem trabalha com arte. Somos, operárias da arte obreiras que

constroem beleza, reflexão e emoção. E eu realmente acredito que,

onde há arte, também há espaço para a paz.

As crianças também ficam mais felizes. Por exemplo, muitos filhos de

artistas crescem em lares com dificuldades para pagar as contas

básicas. A gente acompanha de perto essas realidades. E aí fica a

pergunta: essas pessoas não têm direito a viver com dignidade? Claro

que têm. Todos têm. Por isso, queremos mudar esse paradigma.

Estamos construindo uma base sólida com cantores e profissionais da

arte que não aceitam mais viver sob ameaças.

Chega de diretores de cena que impõem medo: ‘se você não fizer isso,

perde o trabalho’; de maestros com ego inflado que usam o poder para

manipular. Não precisamos mais desse ambiente tóxico. Estamos

criando nosso próprio espaço de trabalho com respeito, com

humanidade.


Esse é o nosso fundamento. E é

lindo ver isso acontecer. Porque o

verdadeiro diferencial está no olhar

humano.

A arte tem como matéria-prima o

ser humano. E quando isso é

esquecido, mesmo por grandes

gênios, a arte perde sua alma e se

torna desumanizada.

Afinal, para quem fazemos arte?

Para quem assiste? Para nós

mesmos? É um intercâmbio.

Mas, em muitos lugares, o público

está ausente. É como se tudo

tivesse se tornado apenas números:

quanto foi captado, quanto tem de

orçamento e morre aí.

E esquecem que é a próxima

geração que vai sustentar esse país,

essa sociedade. E eles estão sendo

excluídos do nosso campo de visão.

Por isso, é urgente incluí-los.

Como você vê a formação do

canto lírico no Brasil?

Sempre acreditei que o Brasil

tem, sim, uma tradição no canto

embora muitos brasileiros não

percebam. Existe, sim, um amor

por essa arte, ainda que vindo de

um grupo pequeno, quase como

uma tribo. Mas é uma tradição

valiosa.

E como incluí-los?

Para incluir e também incluindo

que eles tenham força de pensar.

Força de observar as coisas. Arte,

especialmente música, é muito

importante. Porque ativa uma parte

do cérebro onde nós não podemos,

por exemplo, influenciar com outras

coisas.

Foto Arquivo Pessoal


“...‘se você não fizer isso, perde o trabalho’; de maestros

com ego inflado que usam o poder para manipular. Não

precisamos mais desse ambiente tóxico.”

Eiko Senda

Foto arquivo pessoal


O país tem grandes maestros e professores. Lembro, por exemplo, da

Dona Leila Farah, que conheci, e da Isabel. Esses mestres deixaram um

legado importante o amor ao canto herdado de imigrantes italianos,

poloneses, alemães, portugueses e também da comunidade judaica.

Todos contribuíram para proteger e valorizar essa arte.

O canto, para muitos, está profundamente ligado à memória afetiva, à

história familiar. Por isso, eu cuido com respeito. Não se trata apenas de

querer subir num palco. Existe uma ligação íntima, quase ancestral, com

essa expressão artística.

Por outro lado, na pedagogia do canto, enfrentamos alguns desafios. Um

deles está ligado à própria sonoridade do português, que tem uma

fonética bastante particular. O som nasal, como no 'ão' ou no 'til', tende a

baixar o palato mole e estreitar a ressonância o que interfere na produção

de um som lírico, especialmente quando buscamos pureza nas cinco

vogais básicas.

Para quem deseja cantar repertório lírico, é necessário criar um espaço

fonético mais amplo, consciente, que permita clareza e projeção. E isso

exige adaptação e técnica, respeitando a língua, mas também

reconhecendo suas limitações naturais no canto operístico.

Quando cheguei ao Brasil, percebi de imediato que, foneticamente, não

estávamos preparados para o canto lírico. A posição da fala no português

mesmo sendo nosso idioma materno, aquele que usamos em casa

interfere diretamente na projeção vocal.

Mas isso não significa que devemos negar a língua. Pelo contrário,

precisamos cuidar de dois aspectos:

Ao cantar lírico, é fundamental preservar a clareza das cinco vogais puras.

Mas ao falar português, carregamos uma tradição sonora e um valor

nacional que dão à voz brasileira sua suavidade, profundidade e um

timbre único uma característica que, de certa forma, revela a identidade

do nosso povo.

De que maneira a diversidade étnica e cultural do Brasil influencia as

características vocais dos cantores brasileiros em comparação com

outros países da América Latina?

Aqui no Brasil, por exemplo, quando vamos para a Argentina

especialmente no Teatro Colón, percebo algo interessante: minhas

colegas, principalmente sopranos e mezzo-sopranos, geralmente têm

uma extensão vocal menor.


Isso me levou a refletir sobre a diversidade

brasileira. O Brasil tem uma população

enorme, entre 60 e 80 milhões de

pessoas com origem mestiça, resultado

da mistura dos povos indígenas, africanos

e dos diversos grupos de imigrantes que

chegaram ao longo da história.

Recentemente, vi dados mostrando a

porcentagem das diferentes imigrações

que formam nosso território. Essa mistura,

especialmente com a descendência afrobrasileira,

é muito significativa e influencia

também as características vocais que

observamos.

Isso influencia diretamente a função

muscular, especialmente a musculatura

relacionada à etnicidade, e altera

completamente a posição da laringe,

assim como a distância entre as pregas

vocais. É essa combinação que gera uma

característica vocal única, exclusiva do

cantor brasileiro.

Por isso, é fundamental cuidar desse

aspecto, mas também desenvolver um

método próprio que respeite essas

particularidades. Acredito que essa é uma

urgência na pedagogia do canto lírico no

Brasil.

Muitas vezes, as aulas de

canto carregam um ar

místico, diferente das aulas

de instrumentos ou de

pintura, que seguem

métodos e formatos

concretos, testados e

comprovados ao longo do

tempo seja no piano, na

flauta ou em outros

instrumentos.

No canto, porém, isso é mais

difícil, porque nunca houve

uma

sistematização

específica que levasse em

conta o idioma materno do

cantor. E o Brasil tem essa

fragilidade: muitos dos

grandes professores vieram

de imigrantes italianos e

alemães, que ensinaram

métodos para quem fala e

entende outros idiomas.

Mas para quem não tem essa

base, surgem dificuldades

fonéticas que, em casos mais

graves, podem até gerar

problemas nas cordas vocais,

exigindo tratamento.

Por isso, meu trabalho com as

jovens cantoras é criar um

novo caminho um método

que aceite e valorize o

português, mas que também

desenvolva uma técnica

perfeita e adequada à nossa

língua. E quando elas

conseguem, a sensação é:

‘Perfeito! Nossa, isso sim é

cantar!


Você acredita que há espaço para

a valorização dos compositores

brasileiros no gênero da ópera?

Acredito que a ópera talvez até

pudesse ser chamada de outra

forma. Em espanhol, temos a

'zarzuela'; em inglês, o 'musical'. Já

em alemão e italiano, o termo

'operetta' representa uma forma

mais leve da ópera, e é curioso

como esses nomes variam, mas o

conceito permanece.

Por que não termos algo assim

também em português? Por que

não reconhecer, por exemplo,

'Operetta do Malandro' como uma

grande obra? O texto do Chico

Buarque é maravilhoso.

Hoje, vejo artistas como João

Gulherme Ripper criando trabalhos

muito interessantes, e Ronaldo

Miranda também tem produzido

bastante. Então, por que não?

Estamos em um momento em que

estamos convidando compositores

gaúchos a criarem novas obras.

Nosso objetivo é fomentar uma

verdadeira renascença da ópera

brasileira com obras novas,

contemporâneas, que dialoguem

com o nosso tempo.

O que falta, muitas vezes, é

divulgação. Isso é curioso: estados

como São Paulo têm mais recursos,

mas ainda não mobilizam tanto

investimento nesse tipo de

iniciativa.

E o segundo ponto é o interesse, o

puro interesse artístico. Acredito

que ele possa ser estimulado a

partir do envolvimento com famílias

da literatura, por exemplo. Cito o

trabalho do Gabriel Schirato e da

Lívia Sabag, criaram um projeto

voltado à formação de novos

libretistas e compositores. Eles

estão construindo espaços para a

criação de óperas novas e é isso que

precisamos. Difundir esse tipo de

produção também tem um papel

educativo para o público. Afinal,

ópera é teatro cantado. O

espectador precisa entender o que

está sendo dito. Só assim, numa

segunda etapa, ele poderá ouvir

obras em outros idiomas com mais

familiaridade e sensibilidade. Não

sei exatamente como conseguimos

sobreviver nesse cenário, mas

acredito que a ópera brasileira pode

e deve ajudar a valorizar a nossa

língua.

Porque, infelizmente, o português

tem sido cada vez mais

simplificado, e em certos casos, até

descaracterizado. A arte pode ser

um caminho para preservar a

riqueza do nosso idioma.


Existe alguma aria que seja um espelho da sua alma? Alguma peça que te revele

inteira, sem máscaras?

Fidelio. Cantei muitas vezes ao longo da minha carreira mais de 200

apresentações. Tosca, Turandot, Aida, Nabucco... Repertório pesado,

dramático.

Mas sabe quando realmente me emocionei? Foi ao cantar Fidelio.

Eu havia estudado esse papel com minha mãe. É uma obra única, a única

ópera escrita por Beethoven o que por si só já a torna especial. Todos nós,

músicos, temos um carinho enorme por ela.

E eu me perguntava: por que Beethoven escreveu apenas uma ópera?

Depois de muito tempo, entendi. Em uma de suas cartas, ele dizia que

compor essa obra exigiu uma responsabilidade imensa. Cada nota, cada

palavra, carregava um compromisso profundo. Era demais, até para ele.

Há também outro relato marcante: quando Beethoven assistiu Così fan tutte,

de Mozart, ele teria dito: 'Aqui, não existem mulheres.'

Ou seja, ele buscava algo mais autêntico, mais verdadeiro na representação

feminina. É por isso que Fidelio tem um peso tão grande. É música com alma

e verdade. A mulher estava sendo tratada como um objeto. Não se falava de

amor verdadeiro era tudo superficial. Então, Beethoven decidiu escrever

Fidelio, como uma resposta. Ele quis mostrar o que realmente significa o

amor um amor corajoso, comprometido, verdadeiro. E é claro, com o passar

dos anos, enfrentando dores faladas e não faladas, a gente vai mudando

nossa forma de entender as coisas.

Dessa vez, ao interpretar novamente essa obra, senti que minha relação com

o texto se transformou. Passei a perceber mais profundamente o que ele

dizia sobre justiça, sobre verdade. A palavra 'verdade' se repete muitas

vezes. E é forte. Porque a verdade, de fato, nunca divide ela une.

A personagem Leonora ou Fidelio é a representação disso: ela insiste, luta,

resiste… tudo para encontrar a verdade. É essa força que me move hoje ao

cantar essa obra.


Que mudanças você gostaria de ver no

cenário operístico nacional nos

próximos anos?

Eu não sei se devo dizer, mas eu

gostaria de dizer que quem canta bem

tem que estar no cenário. Quem canta

bem e quem canta de verdade. A

intenção das palavras precisa estar

viva no momento em que projetamos

a voz. Nem todos que estão no palco

hoje têm essa conexão. Há muitas

pessoas bonitas, sim e não estou

criticando a beleza. Se alguém nasceu

bonito, deve agradecer aos pais. Isso é

um presente.

Mas a fragilidade começa quando nos

afastamos da nossa raiz verdadeira. E

essa raiz é o que nutre a flor que é a

ópera.

Quero falar dos cantores verdadeiros

aqueles que cantam com a alma, com

a voz, com entrega.

Percebo que hoje há uma tendência

muito voltada para o visual. Tudo

começou assim, com o apelo da

imagem. Não culpo os diretores de

cena, que fazem seu trabalho da

melhor forma.

Mas é preciso refletir: o que é mais

importante? A aparência ou a música?

A música, claro. A voz é a essência.

É a matéria-prima da ópera.

O que aconteceu, então? Esse

valor foi enfraquecido. E

começamos a ver contratações

baseadas mais na aparência do

que na qualidade vocal.

Há modas que mudam a cada 15

ou 20 anos. Quem sabe o próximo

ciclo traga de volta a valorização

de corpos mais diversos mulheres

mais volumosas, homens com

presença real.

Essas questões são muito

vulneráveis. E é essa

vulnerabilidade que enfraquece a

base do que deveria ser

verdadeiro e sustentável na arte.

A questão da sobrevivência na

arte, especialmente na ópera, tem

se perdido por causa de uma

estética que, muitas vezes, não

tem relação alguma com a música.

Fica tudo muito distante da

essência. Um olhar meramente

visual, superficial. E aí,

sinceramente, talvez seja melhor

assistir a uma série na Netflix ou

na HBO é mais coerente com esse

tipo de entretenimento.

Mas a experiência verdadeira da

ópera é outra. Basta olhar para

100 ou 150 anos atrás.


Lembro de um amigo da Lituânia ele

já faleceu, viveu mais de 100 anos.

Ele costumava contar como, ainda

jovem, escapou da Europa com sua

família. Ao embarcar no navio rumo

à América Latina, eles se despediram

no porto. Primeiro desembarcou em

Buenos Aires, depois veio para São

Paulo. Naquela época, tocava-se

muito Puccini. Era algo profundo,

transformador. Ele dizia que, do

fundo do horizonte, ainda no mar,

era possível ver o navio surgindo

como uma pequena ponta uma

imagem quase poética. E junto com

aquele navio, vinham também as

memórias, os valores, a conexão

com a música de verdade. Ele fazia

análises lindas sobre isso: a música

não era apenas entretenimento era

identidade, memória e sobrevivência

emocional. E aí eu me pergunto: por

que cantamos? Não é pelo ego. Ou,

pelo menos, não deveria ser. É por

cuidado humano. Pela memória,

pela alma coletiva.

Mas hoje eu gostaria de manifestar

algo importante: os cantores

precisam ter higiene emocional.

Tenho amigos italianos que vivem

na Serra do Rio Grande do Sul.

Suas famílias pais, avós, tiostodos

cantavam Va, pensiero de cor. Era

natural.

Quando fugiram da Itália, em

tempos de fome e guerra, levaram

com eles essa música como um

símbolo de resistência e saudade.

Cantavam Va, pensiero não por

vaidade, mas porque era uma

forma de manter viva a dignidade

e a esperança. Isso é lindo,

profundamente verdadeiro.

E a competição entre os cantores?

Nos anos 1960 e 1970, surgiu uma

cultura de estrelato muito

impulsionada pela figura de Maria

Callas. Aquela ideia de que para

ser reconhecido era preciso ser

uma “diva”, estar sempre

competindo, criando rivalidades.

Isso vendeu bem como drama,

como espetáculo.

Mas o que aconteceu foi que as

pessoas começaram a acreditar

que os cantores devem competir

entre si, falar mal dos colegas, dos

professores...

E no fundo, tudo isso é muito

pequeno. A comunidade do canto

é como uma tribo, uma irmandade

artística e não deveria ser

fragmentada por essa ilusão de

poder, de superioridade.


Estamos criando essa companhia justamente para quebrar essa crença tóxica

de que artistas precisam competir entre si. Aqui, todos estamos juntos.

Estamos fortes. Muitos cantores e artistas ficaram sem casa, sem apoio. A

maioria não tem salário fixo, não tem estabilidade. Muitos sequer conseguem

arcar com os próprios custos. Então, o que fizemos? Criamos o projeto Lírico

Solidário um apoio mútuo entre cantores. Não só no Brasil, mas também no

Uruguai, na Argentina, em Buenos Aires.

Onde pudermos reunir forças, estaremos unidos. Se alguém está em

depressão, vamos conversar. Se precisa de ajuda, contratamos alguém. Eu sou

pedagoga, temos colegas psicólogos, fisioterapeutas… todos colaborando

entre todos, para que possamos sobreviver emocional e artisticamente. E

nesse processo, percebemos algo ainda mais profundo: por que estávamos

competindo? Por que falávamos mal uns dos outros, sendo que todos vivemos

as mesmas dificuldades?

Isso vem sendo alimentadas por maestros manipuladores, que diziam: "você

canta pior que fulano", "você nunca vai chegar lá". É tóxico. Tóxico demais.

Isso destrói carreiras, apaga vozes potentes. Queremos acabar com isso o

quanto antes. Para que a próxima geração viva com mais sanidade, mais

leveza, mais verdade. E, no fundo, é isso que a música sempre foi: união. Meus

avós cantavam juntos para unir a família, para lembrar o que era bom. As

notas musicais são como pessoas.

Cada uma tem sua personalidade: o dó é diferente do ré, o ré do mi.

Nenhuma compete com a outra. Juntas, criam harmonia. Os filósofos gregos

já sabiam: não sobrevivemos sozinhos. Pitágoras, ao dividir as notas e estudar

a frequência, não só inventou a escala ele nos deu um mapa de ressonância,

de presença.E que tipo de música tem mais valor do que aquela que cura, que

sana, que preenche o vazio?

O filósofo alemão Max Picard dizia: o valor da música depende do silêncio que

ela contém. Quando escutamos, por exemplo, Lascia ch’io pianga da ópera

Rinaldo, de Händel, sentimos isso. O silêncio entre as notas é quase tão forte

quanto a melodia. E ali está a cura.


Se a sua voz fosse uma paisagem, qual que ela seria?

Um céu estrelado! Sabe qual é a primeira coisa que me toca? As estrelas.

Quando estou no meio do campo, sem luzes, sem cidade, apenas o céu aberto

é como estar no coração da galáxia. Um escuro imenso, silencioso… e, de

repente, aquelas estrelas brilhando. É lindo demais.

Deito na grama e olho para o céu. Tudo escuro, mas cheio de vida lá em cima.

E então penso: minha voz é como aquilo. Não sou a estrela sou parte daquele

conjunto. Um ponto entre muitos. Um fragmento da constelação.

Essa imagem me emociona. É uma paisagem que me traz paz. Me sinto

protegida quando estou no campo.

Desculpa, mas em São Paulo eu não me sinto bem. No campo, sim ali, me

sinto abraçada. Me sinto segura. Verdadeiramente segura!


Qual sua próxima programação?

Friedenstag. Essa obra é muito especial, muito particular e tenho certeza

de que você vai gostar, porque sei que você curte esse tipo de assunto! A

peça foi composta por Richard Strauss por volta de 1936 ou 1938. O

libreto é de Joseph Gregor, mas é importante lembrar que o colaborador

judeu de Strauss, Stefan Zweig, muitas vezes teve sua participação

censurada na época por conta do regime nazista.

A obra se chama Friedenstag (Dia da Paz) e tem uma carga simbólica

muito forte. Eu interpreto Maria, a esposa de um comandante militar ele

representa a guerra, a opressão. A cidade está sitiada, completamente

destruída, e Maria vive esse conflito emocional ao lado de um homem

dominado pela paranoia e pela obsessão pela vitória. É um retrato intenso

de como a guerra consome tudo, até os sentimentos mais íntimos.

Desde 1938 até hoje, essa obra quase não foi executada e por isso essa

primeira audição é extremamente significativa. Trazer Friedenstag aos

palcos novamente tem um peso simbólico enorme. É como se

estivéssemos abrindo uma janela no tempo, permitindo que aquela

mensagem de paz, escrita em meio ao avanço do nazismo, ecoe agora, em

um mundo ainda marcado por conflitos.

Essa apresentação não é apenas sobre música. É um ato de memória, de

resistência e de esperança. Interpretar Maria, essa mulher que representa

o equilíbrio entre o amor e o caos, é uma experiência profunda. E poder

apresentar essa ópera hoje é uma forma de lembrar que a arte sempre foi

e continua sendo um instrumento poderoso contra a guerra e a

intolerância.

Theatro Municipal de São Paulo

Friedenstag (Dia de Paz)** (80’)

Ópera em um ato de Richard Strauss com libreto de Joseph Gregor e Stefan Zweig

dias 19, 22, 25 e 27 de julho

Leonardo Neiva, Comandante

Eiko Senda, Maria

Eric Herrero, O Piemontês


Copyright © Herzsache - Academy for Heart Education


Fidelio - Beethoven

Fidelio é a única ópera de Beethoven. Conta a história de Leonore,

personagem que, disfarçada de homem (Fidelio – fiel), consegue um emprego

em uma prisão com o propósito de libertar seu marido, injustamente

condenado.

A ópera teve uma trajetória tumultuada, sendo revista diversas vezes.

Estreada em 1805, somente nove anos depois chegou à sua versão final, em

1814.

Beethoven não era um compositor vocal como Mozart ou Schubert. “Não

gosto de compor canções”, disse certa vez, e, sobre Fidelio, afirmou: “Esta

ópera vai me valer uma coroa de mártir”.

Bethoven teve dificuldades em conseguir uma abertura adequada para a

ópera: escreveu quatro! Para a estreia, em 1805, a abertura tocada foi a que

é hoje conhecida como Leonore nº 2. Duas outras “Leonores” foram escritas:

a que atualmente é chamada de nº 3 (1806) e a nº 1 (1808). Finalmente, em

1814, veio a Abertura Fidelio, que é geralmente usada hoje em dia.


A N O T A A Í

a receita!

por Olívia Vieira

Cuscuz nordestino

1/2 xícara (de chá) de flocos de milho;

2 fatias grossas de queijo coalho;

1 colher (de café) de sal;

1 xícara de água;

Ideal fazer numa cuscuzeira.


A importância da pimenta na

saúde da população:

sabor que cura

A pimenta, muito além de um

ingrediente capaz de acentuar

sabores e despertar sensações

picantes, é reconhecida pela

ciência como uma verdadeira

aliada da saúde. Com presença

marcante nas cozinhas de

diversas culturas, ela guarda

propriedades terapêuticas que a

tornam uma opção natural de

prevenção e bem-estar,

especialmente em tempos em

que a alimentação saudável

ganha protagonismo no

combate a doenças crônicas.

A principal responsável pelos

benefícios da pimenta é a

capsaicina, composto ativo

encontrado principalmente nas

variedades mais ardidas, como a

dedo-de-moça, malagueta e

jalapeño. Estudos indicam que

essa substância tem efeito

analgésico, anti-inflamatório e

termogênico — este último

capaz de acelerar o metabolismo

e contribuir para o controle de

peso corporal. Segundo a

nutricionista Fernanda Granja, “a

capsaicina estimula a liberação

de endorfinas, hormônios que

promovem bem-estar, o que

pode ajudar inclusive na

prevenção da depressão leve”.

Além disso, a pimenta é rica em

antioxidantes, como as

vitaminas A e C, que combatem

os radicais livres, ajudando a

prevenir o envelhecimento

precoce e reforçando o sistema

imunológico. Há ainda

evidências de que o consumo

regular e moderado pode

melhorar a circulação

sanguínea e reduzir os níveis de

colesterol ruim (LDL),

beneficiando a saúde

cardiovascular.

Em algumas populações,

principalmente na Ásia e

América Latina, o uso diário da

pimenta está ligado a uma

menor incidência de doenças

inflamatórias. No Brasil, com

sua grande biodiversidade de


espécies nativas, a valorização desse alimento também se traduz em

uma conexão com saberes tradicionais, principalmente de

comunidades indígenas e rurais, que utilizam a pimenta não só como

tempero, mas também como medicamento natural.

A pimenta, portanto, se destaca não só pelo aroma e calor que

oferece aos pratos, mas também pelo papel preventivo e

terapêutico. Um alimento acessível, versátil e potente, que pode — e

deve — estar no cardápio de quem busca mais saúde de forma

natural.

Para aprofundar os efeitos positivos da pimenta no

organismo, conversamos com a nutricionista e pesquisadora

Dra. Laura Mendonça, especialista em alimentos funcionais.

Nesta entrevista fictícia, ela explica os principais benefícios

da pimenta para a saúde da população e esclarece dúvidas

comuns sobre seu consumo.

Revista ICONIC: Dra. Laura, por que a pimenta é considerada

um alimento funcional?

Dra. Laura Mendonça: A pimenta é funcional porque, além de

suas qualidades nutricionais básicas, ela possui compostos

bioativos com efeitos benéficos comprovados para o

organismo. O principal é a capsaicina, que tem ação antiinflamatória,

antioxidante, termogênica e até mesmo

analgésica. Isso significa que seu consumo pode ajudar na

prevenção de doenças e na promoção da saúde como um

todo.


Revista ICONIC: E quanto ao sistema imunológico? A pimenta

ajuda mesmo?

Dra. Laura: Sem dúvida. Ela é rica em vitaminas A, C e E, além

de flavonoides, todos com ação antioxidante. Isso fortalece as

defesas naturais do corpo, prevenindo infecções e

contribuindo para a regeneração celular. É um recurso

natural e acessível para fortalecer o organismo.

Revista ICONIC: Existe um tipo de pimenta mais recomendado

do que outros?

Dra. Laura: Todas as pimentas têm propriedades benéficas,

mas quanto mais ardida, maior a concentração de capsaicina.

A malagueta, a dedo-de-moça e a cayenne, por exemplo, são

ótimas opções. Porém, pessoas com problemas gástricos

devem optar por versões mais suaves ou consumir em

pequenas quantidades.

Revista ICONIC: Há riscos no consumo exagerado?

Dra. Laura: Sim. Em excesso, a pimenta pode irritar o

estômago e o intestino, especialmente em pessoas sensíveis.

Pode também causar desconforto digestivo e, em alguns

casos, aumentar o refluxo. A recomendação é começar com

pequenas porções e observar a tolerância individual.

Revista ICONIC: Para finalizar, a senhora diria que a pimenta é

um “remédio natural”?

Dra. Laura: Eu diria que sim, desde que usada com

consciência. Ela carrega propriedades incríveis, e quando

inserida numa alimentação equilibrada, pode ser uma

verdadeira aliada da saúde. Sem esquecer que também torna

a comida muito mais saborosa!

Fabiana Tavares


VOCÊ TEM

1 SEGUNDO

A vida é passageria. Faça o máximo!

Diga NÃO a qualquer tidpo de pré - conceito


por Olívia Vieira

Ter um quentão sem álcool na sua festa junina é uma excelente forma de incluir todos os

convidados especialmente crianças, gestantes ou quem prefere evitar bebidas alcoólicas.

Tradicional nas festas de inverno brasileiras, o quentão costuma levar cachaça, ajudando

a aquecer quem se arrisca na quadrilha ao redor da fogueira.

Mas, para que ninguém fique de fora, preparei uma versão especial: sem álcool, mas com

todo o sabor e o calor da receita original. Aqui, o suco de uva entra no lugar da cachaça,

harmonizando perfeitamente com as especiarias típicas da bebida, como canela, cravo e

gengibre. Servido bem quentinho, esse quentão sem álcool é fácil de fazer, delicioso e

capaz de aquecer qualquer arraial. Uma alternativa saborosa que, com certeza, vai

conquistar adultos e crianças!

Ingredientes (40 porções)

1 garrafa de 500 ml de suco de uva

3 garrafas de 500 ml de água

500 g de açúcar

100 g de gengibre

Canela em pau (a gosto)

10 g de cravo

2 limões em rodelas

Modo de preparo : 30min

1.Coloque o suco, a água e o açúcar em uma panela.

2.Deixe aquecendo.

3.Depois coloque o cravo, o gengibre, a canela e as rodelas dos limões em um

tecido, pode ser em um pano de prato bem limpo.

4.Em seguida, coloque esse sachê dentro da panela.

5.Deixe levantar fervura, cerca de 10 minutos e está pronto o quentão.


Priscila Buares

Professora, jornalista, pedagoga, pesquisadora em

Educação, escritora, consultora editorial, publisher e

gestora de projetos.

Formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro

(UFRJ). Integra o GEPCEEJA - Grupo de Estudos e

Pesquisas em Currículo, Educação e Ensino de

Jovens e Adultos, onde desenvolve pesquisas

voltadas à Educação de Jovens e Adultos (EJA), com

atenção especial às políticas públicas.

Atualmente, é pesquisadora em EJA vinculada ao

IBMR e pesquisadora voluntária em Políticas

Educacionais pela COPPE Unesp. Coordena o projeto

EduPol - Laboratório de Políticas Educacionais, um

espaço independente voltado à análise crítica,

divulgação científica e articulação de ideias no

campo das políticas

educacionais.

Você sabe o que é Educação?

A palavra Educação está em

toda parte. Nos meios de

comunicação, nas campanhas

eleitorais, nas conversas de

família, no ambiente escolar.

Mas, afinal, o que é

Educação?

Muitas vezes, confundimos

Educação com boas maneiras

ou, apenas, com o ato de

frequentar uma sala de aula.

Essa visão reduzida a

transforma em algo raso,

comportamental, quase

decorativo. Mas Educação vai

muito além de regras de

etiqueta ou de presença

física em uma escola.

Ela não se resume a decorar

conteúdos ou tirar boas notas em

provas. Educação é muito mais do

que isso. Ela é um processo

humano, social, político e histórico.

Ela constroi olhares, desafia

realidades, movimenta culturas e

estrutura possibilidades de futuro.

Educação é um processo vivo,

contínuo e profundo. É o que molda

nossos valores, nossa forma de

pensar, agir, sentir e conviver. Está

presente nas palavras que

escolhemos, nas decisões que

tomamos, na maneira como

olhamos para o outro e para o

mundo. A verdadeira Educação

questiona o que nos foi ensinado

como natural. Ela nos faz perceber

o que está por trás das estruturas,

nos dá ferramentas para

compreender desigualdades e


coragem para transformá-las.

Educação não é apenas

transmitir conteúdo. Ela é,

acima de tudo, um processo

de formação integral do ser

humano. Forma sujeitos

capazes de pensar, criar,

questionar e transformar.

Educação é provocar

pensamento. É refletir sobre

o mundo em que vive, criar

novos caminhos, questionar o

que parece imutável e

transformar o que fere a

dignidade, a justiça e a

liberdade. Uma educação

significativa ensina a

argumentação, a escuta, a

dúvida e o recomeço.

A Constituição Brasileira, em

seu Artigo 205, diz que a

Educação é um direito de

todos e dever do Estado e da

família. Esse princípio deveria

garantir que toda pessoa,

independentemente de onde

nasceu, da cor da sua pele,

da sua renda ou condição

social, tivesse acesso a uma

educação de qualidade, uma

educação que promovesse o

desenvolvimento pleno, a

cidadania e a inserção digna

no mundo do trabalho.

Mas, na prática, sabemos que

muitas pessoas ainda são privadas

desse direito fundamental. A

exclusão educacional no Brasil não

acontece apenas pela falta de

acesso, mas também pela má

qualidade do que é oferecido. Uma

educação fragmentada e distante

da realidade dos estudantes não

forma cidadãos críticos nem

constrói possibilidades reais de

transformação. Ela reproduz

desigualdades, silencia culturas e

limita sonhos. Falta

comprometimento a longo prazo,

ou seja, tratar a Educação como ela

deve ser tratada, como um projeto

de país. Falar de Educação,

portanto, é também falar de

desigualdades e oportunidades

negadas, e entender que Educação

não é gasto. É investimento.


Educação é, acima de tudo,

um ato de construção de

humanidade. Não apenas no

sentido de transmitir

conhecimento, mas de formar

pessoas inteiras, conscientes

de si, sensíveis ao outro,

abertas ao diálogo e

comprometidas com o bem

comum. Educação desperta o

olhar para além do próprio

umbigo e ensina a ler o

mundo com criticidade. É um

caminho de descoberta, de

ampliação de horizontes e de

ressignificação do mundo,

onde cada aprendizagem

carrega um potencial de

transformação. Educação é

cultivar o pensamento crítico,

a sensibilidade e a

autonomia, virtudes essas

fundamentais para viver em

sociedade de forma justa e

consciente. Educação é abrir

caminhos para que cada

pessoa reconheça sua

potência e encontre sentido

no saber, na convivência e na

ação coletiva.

onde há silêncio imposto ou

pensamento único.

Porque Educação é, sobretudo,

acreditar na possibilidade de

mudança, imaginando futuros

possíveis e construindo, no

presente, realidades mais justas,

mais livres e mais humanas. Uma

sociedade que valoriza a Educação

é uma sociedade que escolhe

cuidar da sua própria dignidade. E,

se há um país destruído, pode ter

certeza, a Educação não está em

primeiro lugar.

“A educação, direito de todos e dever do

Estado e da família, será promovida e

incentivada com a colaboração da sociedade,

visando ao pleno desenvolvimento da pessoa,

seu preparo para o exercício da cidadania e

sua qualificação para o trabalho.”

Artigo 205 da Constituição Federal de 1988

“Falar de Educação, portanto, é também falar

de desigualdades, de oportunidades negadas

e de um país que ainda não entendeu que

Educação não é gasto. É investimento.”

Educação é diálogo, é escuta,

é encontro. Na troca entre

diferentes visões, histórias e

saberes é que ela se

fortalece e ganha sentido.

Não há verdadeira Educação


Lembrete

Não deixe para amanhã o pão de

queijo que você pode comer hoje!

sim

claro


Marcos

Menescal

“HOJE, EU TENHO

O OUVIDO

ABERTO.”

Marcos Menescal, foi entrevistado

por Regina Papini Steiner

A formação em canto lírico no Brasil oferece suporte

suficiente para quem quer seguir carreira? Como é

que está?

Eu acho que melhorou muito do ponto de vista da

formação global do cantor. Eu não sei... É muito difícil,

quando se trata da técnica vocal, você ter bons

professores e bons professores que encontrem bons

alunos e haja essa conexão. Há poucos bons

professores de canto. Mas o que ocorre é que os

cantores, os jovens cantores de hoje são muito mais

bem preparados do que os da minha época, mas muito

mais. Têm muito mais noção de estilo, muito mais

noção de fraseado, porque eles procuram mais.

Hoje em dia há muito mais facilidade. Naturalmente,

você vai no YouTube e ouve o que quiser. E eles

costumam ser muito interessados nisso e chegam

muito preparados do ponto de vista mesmo da

interpretação musical, do fraseado, etc. E nessa

geração, eu vejo, despontando, artistas muito, muito

interessantes.

Marcos Menescal, faz

parte da Diretoria

artística e cuida

principalmente da

escalação de elenco

do Teatro Municipal

do Rio de Janeiro.

“Hoje os cantores, têm

uma formação teórica

de leitura e de teoria

musical muito forte. Eles

saem das universidades

muito bem preparados.

De maneira que é uma

geração muito

interessante”


Havia uma certa dificuldade de entender os

estilos, como se deve cantar. Porque se lia muito

pela partitura. Partitura diz muita coisa, mas não

diz tudo. Se a gente pensar que os cantores

antigos, que não tinham gravação e tinham

partitura, tinham um ambiente teatral em que

eles, desde cedo, estavam em teatro ouvindo as

pessoas cantando, na minha geração justamente,

foi um hiato. Poucas óperas, poucas

oportunidades de ouvir ao vivo. Foi uma época

em que não vinham mais os grandes nomes

internacionais e havia pouca gravação no Brasil.

Era caríssimo, era muito difícil você ter. Então,

hoje não. Hoje você vai na internet, você tem

tudo, e eles procuram para saber exatamente

como se deve cantar determinada música,

determinado estilo. De maneira que, você vê um

jovem que canta Bellini absolutamente como

deve ser, canta Mozart, canta Barroco,

Monteverdi, o que seja, canta Alban Berg, o que

você quiser. Porque procuram e veem gente que

sabe fazer isso e imitam. É uma boa imitação

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essa. Não é uma má imitação, uma macaqueação,

não. É uma boa imitação. Você vê como é. Por

que ele desenvolve essa frase dessa maneira? E aí

você entende o que o cara está fazendo e faz

também. Entendeu?

“Porque se a gente for falar

de ópera, em ópera não se

improvisa.”

Como você vê o papel das

instituições públicas e privadas na

preservação e promoção da ópera?

É complicado. No Brasil, a gente

tem poucas instituições que fazem e

elas não têm muita continuidade. O

que aconteceu recentemente com o

Festival de Manaus foi uma tragédia.

Eles vinham há mais de 20 anos

com sucesso danado, de repente

cortam aquilo. Agora tem uma

verba mínima, eles estão fazendo o

que podem, estão retomando.

E volta e meia a gente vê uma

instituição que estava produzindo

há alguns anos e de repente para.

Existe também uma coisa que... Isso

me incomoda muito. Pessoas que

não são do ramo e lideram

instituições com ideias muito

inovadoras que não levam a lugar

nenhum. Porque se a gente for falar

de ópera, em ópera não se

improvisa. Ah, vou fazer uma coisa

aqui que vai ser legal, porque

remete a não sei o quê...


Isso costuma não dar certo. Tem gente que acha

bacana porque é muito moderninho, não sei o

quê, mas não, você desvirtua a obra

completamente, apresenta uma outra coisa que

não tem nada a ver e que acaba não agradando

tanto. Porque essas óperas, os grandes clássicos

que eu digo que seja La Traviata, Bodas de Fígaro,

são obras que estão aí há 100, 200 anos.

E pelo que elas são, não porque alguém inventou

em fazer uma outra coisa, uma gracinha. O que

está me preocupando hoje em dia é sobretudo a

inserção de coisas que não têm nada a ver com

aquela ópera, sabe? No municipal, do Rio, nessa

gestão e em gestões passadas se evita muito isso.

Isso não quer dizer que você não queira inovação,

criatividade, nada disso. Você não pode montar

La Traviata como ela foi feita em 1863.

Não, você tem que ir inovando. Mas dentro de

uma coerência, dentro de um respeito à obra, e

eu vejo que, muitas vezes, para fazer uma

gracinha e aparecer muito, desrespeitam a obra.

E ela vale pelo que ela é, não por essas “ideias

fantásticas e geniais” que costumam ter por aí.

Isso não serve para nada!

Talvez essas “idéias mirabolantes”, atrapalhe um

pouco o olhar do investidor?

É, mas de qualquer forma, são poucos

espetáculos. No Brasil, muito poucos espetáculos.

É muito difícil fazer uma carreira de cantor no

Brasil, a menos que a pessoa seja professora de

alguma universidade ou de alguma instituição, ou

cante no coro de algum teatro. Senão é muito

difícil viver. É um grupo muito pequeno, tem um

grupo, vamos dizer, de elite, de ótimos cantores

que conseguem sobreviver. Mas se acontece

algum problema, chega a uma determinada

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idade em que a voz começa a entrar em declínio,

a pessoa fica completamente desamparada,

porque, ao longo da carreira, não consegue fazer

um pé de meia suficiente para se manter.

Como você vê o papel das

instituições públicas e privadas na

preservação e promoção da ópera?

É complicado. No Brasil, a gente

tem poucas instituições que fazem e

elas não têm muita continuidade. O

que aconteceu recentemente com o

Festival de Manaus foi uma tragédia.

Eles vinham há mais de 20 anos

com sucesso danado, de repente

cortam aquilo. Agora tem uma

verba mínima, eles estão fazendo o

que podem, estão retomando.

E volta e meia a gente vê uma

instituição que estava produzindo

há alguns anos e de repente para.

Existe também uma coisa que... Isso

me incomoda muito. Pessoas que

não são do ramo e lideram

instituições com ideias muito

inovadoras que não levam a lugar

nenhum. Porque se a gente for falar

de ópera, em ópera não se

improvisa. Ah, vou fazer uma coisa

aqui que vai ser legal, porque

remete a não sei o quê...


Como a ópera pode dialogar com a cultura

brasileira e suas diversas expressões regionais?

É possível, desde que haja... desde que haja

inteligência e respeito pela obra.

Olha, eu vi uma valquíria muito interessante com

elementos feitos em São Paulo e no Rio, e não sei

se em algum outro lugar, direção do André Heller

Lopes, que trazia elementos do Nordeste, de

Maracatu. Tinha um cenário com muitas fitas do

Bonfim e a ópera estava ali, certinha, entende?

Esse tipo de diálogo é interessante. Mas, se você

tem uma ópera italiana, por exemplo, e de

repente insere trechos de samba no meio... pra

mim, isso é quase um assassinato artístico.

Que mudanças você gostaria de ver no cenário

operístico nacional nos próximos anos?

Primeiramente, os diretores de instituições

deveriam ter conhecimento específico sobre a

área em que atuam. Isso é fundamental e,

infelizmente, nem sempre acontece. Caso não

tenham esse conhecimento, é essencial que

estejam bem assessorados por especialistas, e que

saibam escutar essas pessoas, em vez de impor

ideias desconectadas da realidade artística. É

possível ter um diretor leigo, por exemplo, no

comando de um teatro desde que ele seja um

bom gestor. Mas, nesse caso, é indispensável que

ele conte com um diretor artístico de sua

confiança, alguém competente, qualificado e,

acima de tudo, ouvido. Essa é a maneira correta

de se conduzir uma instituição cultural. E é

preciso acreditar no especialista: se eu não

entendo do assunto e você entende, cabe a mim

confiar no seu trabalho e não dizer a você como

deve fazer.

Então, isso é uma das coisas. Outra coisa... Eu sou

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muito tradicionalista, talvez eu seja um pouco

dinossauro, mas eu faço uma comparação com o

balé clássico. Você sabe que o Teatro Municipal

do Rio tem uma companhia de balé esplêndida,

não é?. E esses balés clássicos, eles levam coisas

de neoclássico, de moderno, eventualmente.

Agora, os grandes clássicos, que seja Lago dos

Cisnes, Gisele, Copélia, etc., eles fazem

absolutamente a rigor. Dentro de uma tradição,

sem inventar nada. E o público adora. Comparece,

ama. E eu gostaria que a ópera voltasse um pouco

a isso. O público sempre gosta. São poucos

espetáculos. Quem gosta de ouvir as

belas vozes e ver um espetáculo

grandioso acaba gostando e

aplaudindo muito no final. Mas eu

tenho certeza de que saiu assim... Só

que por que aquilo aconteceu? Eu

realmente não entendi. Às vezes,

falta lógica mesmo. Você diz uma

coisa, mas faz outra completamente

diferente. A gente vê muito isso: a

pessoa está cantando um

determinado texto, mas encena algo

que não tem absolutamente nada a

ver com o que está dizendo. E,

sinceramente, acho que isso não

funciona. Não é uma boa escolha.

Mas dentro de uma medida, sabe?

Não sendo radical. Dentro de uma

medida, de um equilíbrio, e sempre

pensando no que pode servir a obra.

O mais importante é a obra. Teve

um diretor aqui que eu gostei muito,

recentemente. Jovem diretor. Ele

dirigiu I Pagliatcci e Elixir do Amor.

E ele dizia, o meu interesse é contar

a história como ela é.


Que iniciativas no Rio de Janeiro você conhece ou já participou que estão renovando

ou ampliando o alcance da ópera no Brasil?

Começou uma agora, chama-se Ópera da Lapa. Estão fazendo, com a dificuldade que

você pode imaginar, óperas com piano e alguns cortes. Fernando Portari, esse grande

cantor brasileiro, extraordinário cantor brasileiro, ele é o diretor artístico dessa

companhia. Eles já fizeram Carmen e Tosca. Começaram ano passado. Agora vão fazer La

Traviata. E eu acho isso muito importante para que os jovens possam cantar e se

desenvolver. Existe muito pouco hoje em dia. Só esse grupo que conheço agora, as

escolas fazem, tanto a Unirio como a Universidade Federal, montam as óperas, muito

importante também. Mas não é como na minha época, porque na minha época havia as

sociedades líricas e a gente cantava muito mesmo, porque eram várias. Porque havia o

Inacen, Instituto Nacional de Artes Cênicas. Contemplavam com verbas a ópera, o teatro,

a dança e o circo. E, por exemplo, ABAL, Associação Brasileira dos Artistas Líricos, fazia

um espetáculo por semana durante o ano inteiro em um determinado teatro do Rio,

pequeno. Só aí você imagina o tamanho do campo que era. Eram quatro espetáculos por

mês, com troca constante de títulos. A gente cantava muito, mas muito mesmo. Eu era

jovem, estava começando, e cantava o tempo todo. Era maravilhoso às vezes, duas óperas

por mês. E havia muitas substituições também, porque com tanto espetáculo, sempre

tinha alguém passando mal ou com alguma dor. Aí chamavam: 'Vem fazer aqui, vem

cobrir ali'. Foi um período muito bom no meu início, sabe? Mas isso não existe mais.

Depois que o Collor acabou com o Inacen, de um ano para o outro, tudo desmoronou.

Que conselho você daria para esses jovens cantores líricos que estão começando?

Tenham paciência, calma, e que saibam esperar o momento justo, porque não se deve

sair cantando antes de saber cantar. Então a primeira coisa é ter uma base técnica. Hoje

estão começando muito cedo hoje, com 18, 19, 20 anos, estudem seriamente, sem pensar

muito em aparecer aqui e ali, porque senão vão aparecer mal e não vão para frente.

Então que estudem a técnica vocal e que saibam respirar e sustentar, para não ter

problema de voz, de forçar, de não sei o quê, porque quando não se tem uma boa

técnica e se força a voz, você dura muito pouco, porque começa a cantar, começa a

cansar e a coisa não vai. Então a primeira coisa é essa. Estudar música, procurar ter

cultura, procurar conhecer, procurar ouvir, procurar saber, vamos dizer um tenor, como

Pavarotti cantava essa ária? Como cantava o Beniamino Gigli? Como cantava Tito

Schipa?.

É interessante isso: quando você admira muito um cantor e só ouve aquele, acaba

ficando muito parecido com ele só que sempre abaixo, é claro. Ninguém é Pavarotti.

Então, se você tenta Lorem imitar ipsum o Pavarotti, dolor sit amet, no fim vira um mau Pavarotti. Agora, se você ouve

consectetur adipiscing elit. Nulla

vários cantores, começa a absorver diferentes qualidades e, aos poucos, constrói seu

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próprio estilo. Uma enim personalidade ornare quis. Vivamus artística própria, mas com cultura, com entendimento

de como as coisas semper devem nec ser velit feitas. ut pellentesque. Isso é fundamental. E depois, é preciso se expor:

participar de concursos, se apresentar. E esses jovens fazem isso, sim. Eles se inscrevem,

participam das audições. O que me preocupa é que, hoje em dia, alguns teatros só

aceitam candidatos em audições se eles tiverem um agente e isso, sinceramente, eu não

acho nada positivo, eu acho isso muito ruim, porque um jovem que não tem agente, ele

pode ser absolutamente promissor e ele não tem a chance de se apresentar em uma

audição. Audição é quem te dá o contrato, quando você não é conhecida, você precisa

dar audição, ser ouvida para que o teatro te contrate. E eu acho que isso é uma coisa

negativa que acontece hoje e que eu não acho nada bom.


No Theatro Municipal do Rio, felizmente, não enfrentamos esse problema. Lá, estamos

desenvolvendo um trabalho que é muito alinhado com o meu propósito: oferecer

oportunidades reais para que os talentos do coro possam se destacar. Começam com

pequenos papéis e, a cada temporada, ganham mais espaço, até alcançarem os papéis

principais. E temos conseguido apresentar protagonistas de grande qualidade, vindos

diretamente do coro.

Tivemos uma jovem do coro que brilhou em La Traviata e, depois, em L’Elisir d’Amore. Ela

se chama Carolina Morel uma verdadeira joia. Tem apenas 23 ou 24 anos e é um talento

raríssimo. Sua voz é daquelas que, mesmo sendo pequena, nunca se perde,

independentemente da orquestra. Ela tem esse dom de se fazer ouvir com clareza e

brilho. É uma artista superdotada, e estamos oferecendo todas as oportunidades

possíveis para que ela cresça. Já foi protagonista em L’Elisir d’Amore, interpretou a

Valencienne em A Viúva Alegre e, em todas as ocasiões, com um desempenho

absolutamente brilhante. O que eu mais amo hoje em dia, é ver isso. Trabalhar para que

eles possam realmente se desenvolver e aí você vê brotando esses talentos, são os novos

cantores é a nova geração que daqui a 5, 10 anos vai estar dominando o mercado todo.

Isso é lindo mesmo.

Os jovens cantores têm uma exigência muito grande também com relação às mídias,

mídias sociais estarem no mercado estarem aparecendo, você acha que isso pode

atrapalhar?

Não, eu não vejo isso como algo negativo pelo contrário, acho que é complementar. Hoje

em dia, é uma das formas que os jovens têm de aparecer, se propor, se colocar no meio

artístico. O problema não é usar essas plataformas. O que me preocupa é quando fazem

isso sem estarem realmente prontos. Vejo muitos jovens cantando de qualquer jeito e

publicando no Facebook, no YouTube, em várias redes. E aí, em vez de se promoverem

bem, acabam se expondo de forma precipitada.

É um erro grave. Daqui a dois, três anos, esses jovens já estão cantando bem mas o

problema é que alguém os ouviu antes, ainda despreparados, e formou uma má

impressão: 'Não, não é bom. Melhor não chamar.' E pronto, a oportunidade se perdeu.

Muitos cometem esse erro. É preciso saber usar as redes. Ainda assim, considero uma

ferramenta excelente de divulgação. É democrática e facilita o acesso ao mercado.

Muitas vezes, quando mencionam um cantor como uma possível contratação e eu não

conheço, a primeira coisa que faço é procurar no YouTube. Quero ver o que tem gravado.

Claro, a voz gravada nunca é a mesma coisa que ao vivo, no teatro mas já dá uma ideia.

Dá para perceber se canta bem, se tem um bom timbre ou se há algo que não agrada. A

projeção da voz, não dá para avaliar por ali, mas mesmo assim, você tem uma noção

inicial. Por isso, considero esse recurso muito importante.


Tem o caso célebre do contratenor

Jakub Orliński. Ele apareceu em um

festival de verão onde estava

estudando, e foi cantar de bermuda,

chamado de última hora. O pianista

dele, inclusive, estava de chinelo

parecia uma sandália Havaiana. Aquele

vídeo viralizou e impulsionou a carreira

dele. Mas por quê? Porque, quando

apareceu naquele vídeo, ele já estava

pronto. Já tinha todas as ferramentas,

toda a técnica. Não estava cantando de

qualquer jeito. E foi justamente isso que

fez a diferença. A partir daquele

momento, a carreira dele decolou. Hoje,

ele é célebre uma verdadeira

celebridade. E sim, maravilhoso,

absolutamente maravilhoso!

Quais são seus próximos projetos?

O meu foco tem sido, principalmente o

Coro do Municipal, porque houve um

processo seletivo, entraram vários

jovens. E vários desses jovens, alguns

desses jovens que estão em contrato

temporário, já foram protagonistas nas

obras. Esse é o meu foco, eu quero me

dedicar sempre a isso.

Eu queria que o Coro do Municipal

fosse igual ao Balé do Municipal. O Balé

do Municipal é uma fábrica de

excelentes bailarinos. E o Coro poderia

ser também. É preciso mudar um

pouco a mentalidade e investir nesse

sentido.O Balé traz poucos convidados.

Todos os papéis principais são

dançados pelos bailarinos da

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companhia, brilhantemente.

Assisti a duas récitas de O Lago dos

Cisnes e vi duas protagonistas

absolutamente fantásticas. Uma delas é

muito jovem, Manuela Rossalho um

talento impressionante. A outra, Juliana

Valadão, também brilhante. Um

verdadeiro espetáculo. E o mais bonito:

ambas são artistas de lá. Eu queria que

o Coro fosse assim também. Estamos

no caminho. Existe uma luz no fim do

túnel. Espero que a gente consiga. Eu

vou me empenhar ao máximo para

conseguir isso.

É fundamental orientar os cantores e,

acima de tudo, conhecê-los bem saber

exatamente do que são capazes, para

então oferecer o papel certo. Só assim

eles podem fazer um bom trabalho. É

extremamente prejudicial entregar a

um cantor, por mais talentoso que seja,

um papel que ele não tem condições de

interpretar. Isso pode comprometer

toda a trajetória dele.

Por isso, é essencial ter critério e nunca

ceder a pressões por amizade ou por

caridade. Isso não pode acontecer. A

escolha deve ser feita com seriedade e

responsabilidade.

Infelizmente, nem todos terão as

mesmas oportunidades a arte não

funciona assim. Alguns são mais

dotados que outros, e é preciso

respeitar esse fato.

O investimento deve ser feito em quem

realmente demonstra as melhores

condições artísticas. Claro que isso gera

descontentamento, e é preciso saber

lidar com isso. Faz parte do processo. O

importante é manter a convicção e não

se desviar do caminho. É isso que

procuro seguir.


satisfeito com a carreira que construí. De

verdade. Estou muito realizado.

Hoje, com quase 70 anos, não tenho mais

sonhos voltados para o futuro. Não fico

projetando. Meu foco está no presente: no

que estou fazendo agora, no que ainda quero

realizar e em continuar sendo bem-sucedido

dentro desse propósito atual.

O que te emociona fora dos palcos?

Tem algum sonho artístico seu que

você ainda não realizou? Que você

deseja realizar nos próximos anos?

Não, porque eu encerrei minha carreira.

Eu tive uma experiência muito bonita

em Brasília, dirigindo uma ópera, mas

foi uma experiência que me somou,

mas eu não pretendi seguir. Tive depois

alguns convites, mas não aceitei. Eu

gostava muito de cantar, até o

momento em que parei de cantar. E na

minha carreira, obviamente eu não fiz

tudo o que eu queria, mas eu fiz tudo.

Eu acho que eu fiz o que eu podia fazer.

O que eu tinha condições de fazer, eu

aproveitei, dentro das minhas

limitações, o que eu podia. De maneira

que, embora eu tenha tido uma carreira

modesta, eu tive uma carreira feliz,

porque eu não me senti preterido nem

nada disso. Aquilo que eu podia fazer, e

é muito importante que o cantor se

conheça bem, conheça as suas

limitações, senão ele pira muito.

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Tem gente que acha que pode cantar

Turandot, quando claramente não

pode. E aí se sente injustiçado, como se

estivesse sendo impedido injustamente.

Por isso, é fundamental que cada um

conheça bem seus próprios limites.

Saber até onde pode ir, reconhecer

quando ainda não está pronto seja por

falta de preparo vocal, físico ou

artístico. Isso faz parte.

No meu caso, sempre tive uma

consciência muito clara das minhas

limitações, e talvez por isso esteja tão

As pessoas, O que mais me emociona nas

pessoas é a capacidade de se abrir, abrir o

coração, a alma, os olhos e os ouvidos.

Pessoas dispostas a receber: a cultura, a

informação, o novo. Pessoas sem

preconceitos, ou que ao menos estão

dispostas a enfrentá-los.

Não falo apenas dos grandes preconceitos ,

de raça, de sexualidade , que todos sabemos

que precisam ser combatidos. Falo também

dos pequenos preconceitos, sutis, do tipo:

'isso não me interessa', 'isso não é pra mim'.

Eu admiro quem tem curiosidade, quem está

aberto. Passei muitos anos da minha vida

bastante limitado, preso ao que eu já gostava

e conhecia. Hoje não. Hoje tenho os ouvidos

abertos. Às vezes alguém me apresenta algo

que eu nem sabia que existia e eu paro para

ouvir, para entender, para sentir.

Gosto de pessoas assim. Porque com elas eu

também posso compartilhar: dizer, por

exemplo, 'Você conhece ópera? Não? Então

ouve isso aqui e me diz o que acha.' E a

pessoa ouve, está aberta.

Já outras dizem logo: 'Ah, não gosto disso.' E

nunca sequer ouviram. Isso, para mim, é

triste.

Muitas coisas me emocionam, mas a sua

pergunta me pegou de surpresa e essa é,

sem dúvida, uma das que mais me tocam:

ver alguém com a mente e o coração

realmente abertos.



As abelhas, como as conhecemos hoje,

evoluíram há cerca de 100 milhões de anos,

durante o período Cretáceo, quando os

dinossauros ainda existiam. Elas

provavelmente descenderam de vespas

carnívoras, que ao longo do tempo passaram

a se alimentar de néctar e pólen uma

mudança alimentar que transformou o curso

da vida na Terra.

Desde que surgiram, as abelhas

desempenharam um papel essencial na

polinização de plantas com flores

(angiospermas), que também estavam se

diversificando naquela época. Essa relação

simbiótica ajudou a moldar a biodiversidade

que conhecemos hoje.

Estudos fósseis mostram que:

As abelhas mais antigas conhecidas são

de cerca de 100 a 120 milhões de anos,

encontradas em âmbar (resina

fossilizada).

Elas se espalharam pelos continentes e

deram origem a mais de 20 mil espécies

diferentes no mundo atual.

As abelhas do gênero Apis (como a Apis

mellifera, abelha europeia) são produtoras

de mel em grande escala e vivem em

colmeias sociais. Essa prática de armazenar

mel surgiu como uma estratégia de

sobrevivência, permitindo que a colônia

tivesse alimento durante períodos de

escassez (invernos ou secas)

Vespa Carnívora

Poeticamente falando…

O mel pode ser visto como uma forma de

memória líquida do planeta. É o néctar

das flores, processado com sabedoria

ancestral pelas abelhas que, desde

tempos imemoriais, dançam sob o sol,

guiadas por estrelas invisíveis a olho nu,

conectando o céu e a terra por meio da

doçura.

Abelha Apis



Como que nasceu o Circo Spacial?

E quais foram os maiores desafios

no início?

O Circo Spacial nasceu em 9 de

agosto de 1985. E, por uma

coincidência do destino, nós

estreamos na cidade de

Valinhos. Na verdade, nós

estávamos em turnê pelo

Estado de São Paulo, e, ao

montar o circo, escolhemos

uma cidade que estivesse mais

próxima da capital, porque seria

a nossa próxima estreia,

digamos assim. Então, nós

estreamos em Valinhos para

depois ir para São Paulo, capital.

Normalmente, as pessoas de circo

têm a tradição de família

circense. A sua família é circense?

Não, eu rompi um pouco com

essa tradição. Aliás, rompi com

várias tradições do mundo do

circo, porque eu entrei, eu tinha

19 para 20 anos, eu, na verdade,

antes de montar meu circo, eu

trabalhei com o Circo Vostok, eu

fugi com o Circo Vostok,

literalmente. Ele esteve em

Cascavel em uma temporada

em 1978. E aí eu acabei indo

visitar esse circo a convite de

uma amiga jornalista, na época

estava fazendo uma grande

matéria com o circo.

E quando eu cheguei no circo,

eu já fazia teatro, fazia outras

atividades artísticas. Quando eu

pisei no circo, eu me encontrei,

falei, nossa, é aqui meu lugar. E

aí, depois de algumas conversas

com o pessoal do circo, eu

recebi o convite para ir dirigir e

trabalhar no departamento de

marketing. É uma grande

história, isso aí é uma longa

história. Resumidamente, eu

viajei com eles durante acho

que três, quatro anos, fui para a

América Latina, fui para o

Uruguai, para o Paraguai, para a

Argentina, para o Chile.

E depois, quando voltamos para

o Brasil, eu montei no Anhembii

um projeto que chamava Circo

Mágico, que era um projeto de

música, que se apresentou Ney

Matogrosso, se apresentou Elis

Regina, se apresentou vários

cantores da época, os Novos

Baianos e vários outros artistas.


Só que aí o Anhembi pediu esse

espaço, que era o pátio oficial

do circo, para montar o

sambódromo. E aí, quando nós

montamos essa estrutura, que

era uma estrutura que

pertencia ao grupo lá do Vostok,

eu devolvi e resolvi, junto com o

meu sócio na época, montar o

circo Spacial.

Como o circo Spacial se

reinventou para continuar

encantando o público ao longo

dos 40 anos?

Eu sempre digo que o circo é

contemporâneo, ele é moderno

e ele é atual. Então, o circo

Spacial, desde o começo, nós

tivemos a visão de sempre

trazer novidades, que é

pertinente ao mundo do circo.

O mundo do circo sempre vai

ouvir dizer que é a melhor

atração, que é o melhor circo,

que é o melhor... Porque isso

faz parte da nossa expertise,

digamos assim. E, ao longo dos

anos, a gente sempre... Eu

sempre acredito que a família

se renova. E aquela criança,

aquele pai, aquela mãe, aquela

família, independente da

constituição que ela é... Vários

modelos de família nós temos

hoje em dia.

O importante é que as pessoas

querem viver essa emoção, elas

querem ir ao circo, porque

sempre tem uma lembrança

afetiva que foi com seus pais,

com seus avós. Então, eu

sempre trabalho em cima de

espetáculo voltado para a

família. Eu acho que é por isso

que a gente consegue sempre

se manter em evidência,

sempre atrair o público, porque

a família tem que resgatar esses

momentos únicos vividos

juntos. E o circo é um dos

poucos espetáculos onde a

família pode ir reunida. Porque

existem vários outros

espetáculos que são

classificados ao produto, para a

criança, e, às vezes, não

chamam a atenção da família

toda. E o circo tem essa forte

presença de agradar um

espetáculo feito para a família.


Só que aí o Anhembi pediu esse

espaço, que era o pátio oficial

do circo, para montar o

sambódromo. E aí, quando nós

montamos essa estrutura, que

era uma estrutura que

pertencia ao grupo lá do Vostok,

eu devolvi e resolvi, junto com o

meu sócio na época, montar o

circo Spacial.

Como o circo Spacial se

reinventou para continuar

encantando o público ao longo

dos 40 anos?

Eu sempre digo que o circo é

contemporâneo, ele é moderno

e ele é atual. Então, o circo

Spacial, desde o começo, nós

tivemos a visão de sempre

trazer novidades, que é

pertinente ao mundo do circo.

O mundo do circo sempre vai

ouvir dizer que é a melhor

atração, que é o melhor circo,

que é o melhor... Porque isso

faz parte da nossa expertise,

digamos assim. E, ao longo dos

anos, a gente sempre... Eu

sempre acredito que a família

se renova. E aquela criança,

aquele pai, aquela mãe, aquela

família, independente da

constituição que ela é... Vários

modelos de família nós temos

hoje em dia.

O importante é que as pessoas

querem viver essa emoção, elas

querem ir ao circo, porque

sempre tem uma lembrança

afetiva que foi com seus pais,

com seus avós. Então, eu

sempre trabalho em cima de

espetáculo voltado para a

família. Eu acho que é por isso

que a gente consegue sempre

se manter em evidência,

sempre atrair o público, porque

a família tem que resgatar esses

momentos únicos vividos

juntos. E o circo é um dos

poucos espetáculos onde a

família pode ir reunida. Porque

existem vários outros

espetáculos que são

classificados ao produto, para a

criança, e, às vezes, não

chamam a atenção da família

toda. E o circo tem essa forte

presença de agradar um

espetáculo feito para a família.


Qual é o papel do circo na cultura

brasileira hoje?

Eu vejo, hoje e sempre, na

verdade, na cultura brasileira, o

circo foi a primeira casa de

espetáculo brasileira, o primeiro

espaço que estava no território

nacional inteiro. O circo estava

em qualquer espaço, tanto no

centro como nas periferias.

Então, no circo é que o público

tem o primeiro contato com a

dança, com o teatro, com a arte

plástica, com várias, com a

parte de artes visuais. Então, o

circo tem uma importância

muito grande. Ele é o formador

da cultura brasileira. Hoje nós

temos muitos espaços, temos

shopping com teatro, temos

grandes casas, mas, nesses

últimos 100 anos, quem fez

esse trabalho de levar a cultura,

de compartilhar, foi o circo.

A música, a presença da música,

tanto a música clássica como a

música sertaneja, como a MPB,

ela se fortaleceu no circo,

porque é o espaço que os

cantores, os artistas tinham

para se apresentar. Os artistas

de televisão, quantos circos não

receberam os maiores artistas?

Os Trapalhões, as

apresentadoras, o nosso circo

mesmo recebeu todo mundo,

Desde Eliana, Turma da Mônica,

Trapalhões e outros artistas

mais.

Então, o circo tem esse poder

de receber, ele congrega no seu

picadeiro todas as artes. E aí o

público tem esse primeiro

contato e se apaixona pelas

artes que ele está vendo ali e vai

em busca de depois assistir a

um show, assistir a um teatro,

assistir a um concerto.


O Circo Spacial oferece algum tipo

de formação ou programa para

novos artistas que desejam integrar

o elenco ou se desenvolver na arte

circense?

Nós temos as duas tendências, as

duas formações. O circo é uma

escola permanente.

O Circo Spacial tem uma escola

permanente. E durante dez anos,

inclusive, nós montamos uma

escola física em São Paulo, que

foi a Academia Brasileira de

Circo, que formou mais de mil

artistas na capital. Mas sempre,

durante esses 40 anos, nós

temos um mestre no picadeiro,

sempre que está ensinando os

jovens ou de família circense ou

alguém que queira entrar e que

esteja a fim de aprender. Nosso

picadeiro, muita gente que

aprendeu, hoje circula nos

maiores circos da Europa, dos

Estados Unidos e outros espaços.

Então, a gente tem uma transição

muito forte em ensinar nesse

aprendizado que os jovens têm

no nosso picadeiro. Hoje, nós

temos várias escolas de projetos

sociais que ensinam o circo em

várias cidades. E, muitas vezes,

eles ensinam o básico ali, aí eles

vêm para a gente e a gente torna

os profissionais, qualifica eles.

O Spacial viaja ou tem uma sede

própria?

Viaja. Nós temos hoje uma

unidade fixa que a gente chama

em São Paulo e temos a outra

unidade nossa que viaja. Sendo

espetáculo, às vezes, a gente vai

para a cidade somente com

espetáculo e, às vezes, também

vamos com os equipamentos. Aí

depende um pouco da turnê, do

patrocinador ou do contratante,

aí depende um pouco disso. A

nossa unidade fixa hoje está em

São Paulo, na Zona Sul, mas a

gente também... Essa própria

unidade fixa da capital ela é

itinerante pelas regiões

também.

Marlene, como você avalia as

políticas públicas e os incentivos

de patrocínio voltados para o

circo no Brasil?

As políticas públicas a gente

tem avançado bastante, é uma

luta muito grande. Nos últimos

20 anos, o circo se fortaleceu

através da UBCI, a qual eu sou

presidente, e a gente conseguiu

evoluir em muitas coisas. Hoje a

gente tem um PROAC que tem

prêmios especiais para o circo,

temos a Lei de Fomento na


capital que serve de referência

para muitas outras cidades. A

própria Funarte hoje tem um

programa de circo, claro que a

gente precisa avançar bastante.

A única coisa que a gente sente

muita falta é um

reconhecimento do circo como

patrimônio imaterial, porque aí

nós teríamos um apoio maior

na circulação, porque o Circense

sempre foi autônomo, as

companhias circenses nunca

dependeram dos incentivos do

governo para poder circular,

que se dependesse tinham

morrido de fome, porque, na

verdade, o custo do circo é

muito alto e precisa entender. O

que nós precisamos mais é ter

um local para trabalhar, ter um

espaço destinado, ter um pátio

oficial que a gente chegue na

cidade e a gente saiba que

aquele terreno está à

disposição. Porque hoje muda

muito, você vai para um

terreno, daqui a pouco esse

terreno é vendido, porque são

raríssimos os espaços que a

prefeitura tem, que as

prefeituras têm, na grande

maioria hoje, são terrenos de

shopping, são terrenos de

incorporadora, que custa muito

caro para o circo. Aí o circo, em

vez de investir em

equipamento, em artista, tem

que investir em aluguéis e

terreno. Então o nosso desejo é

que o circo seja reconhecido

como patrimônio imaterial e a

gente tem dois processos, três

processos hoje em andamento.

Um é no IPHAN, que temos

lutado há 20 anos lá dentro

para poder andar. Outro já é da

Secretaria de Cultura do

município, que já está pronto,

só falta a publicação. E outro é

com a Secretaria Municipal de

Cultura do Estado de São Paulo.

Nos últimos anos, a gente tem

militado muito, porque a gente

acha esse reconhecimento

fundamental para a

preservação da arte circense.

Agora, com relação aos

patrocinadores, é assim, antes

da Lei Rouanet, nós tínhamos

muitos patrocinadores, e vou

falar do ‘case’ especificamente

do circo Spacial. Nós tínhamos

quatro patrocinadores anuais,

que nós tínhamos, fora os

patrocinadores locais. Com o

advento da Lei Rouanet, os

patrocinadores exigem que

você tenha um roteiro de um

ano com antecedência. Para o

circo, fica inviável. Na verdade,

como eu vou saber onde vou

estar daqui a um ano? Eu não

consigo pagar esse terreno com

antecedência para fazer um

roteiro.


O roteiro normal para um circo é de três meses. E eu sempre digo o

seguinte para o patrocinador, onde o circo estiver, está o público dele.

Você entende? Onde ele está, está o público dele. Porque naquele

momento que ele está assistindo com a família, qualquer mensagem

publicitária de qualquer marca, qualquer merchandagem, qualquer

ativação, ele vai estar recebendo muito feliz, porque é um momento que

está absorvendo a cultura, distraído, curtindo, de um momento de lazer.

Então, nós temos enfrentado, muitas agências hoje têm muita gente

jovem que não consegue entender essa força do circo, o quanto que o

circo traz de público, o quanto que o circo movimenta a economia, o

quanto que uma marca, é importante essa marca anunciar no circo

Então, eu vejo uma certa dificuldade em os novos. Eles só veem as redes

sociais. Eles correm lá nas redes sociais. Quantos você tem de

seguidores? Então, eu acho que é tudo muito fake, porque o circo é real.

As pessoas vão para o circo real. Você tem um público real. Nem sempre

esse público da TV, perdão, das redes sociais, é o público do circo. Então,

eu vejo que está um pouco perdido essa questão dos anunciantes, das

marcas. Eles precisam voltar a entender o circo como um veículo

alternativo, como um lugar ideal para divulgar suas marcas.


É bem complicado. É, e você

pode fazer várias campanhas.

Tanto, por exemplo, uma

embalagem vale-ingresso, como

a Troca, como o clube de

benefício, e de coisas. Dá para

fazer muitas campanhas com o

circo e beneficiar os dois lados.

Você vê o público ali

aplaudindo, gostando, você

pode fazer a validação a cada

final de espetáculo. Você sabe,

eu tenho campanha que a gente

fez com duas marcas

fortíssimas, uma foi com a

Bauducco e outra com a Melita,

que até hoje, 20 anos depois

que a gente fez a campanha, o

público ainda pergunta. Ainda

vale a embalagem? Olha o

retorno disso.

Diante de todos esses desafios,

como você enxerga o futuro do

circo no Brasil?

retornou com muita força,

porque você tem que ter hora

para tudo. Então, na verdade,

você viver esses momentos

prazerosos com a sua família e

o circo são momentos

inesquecíveis. Então, construir

esses momentos é importante.

Então, acho que os pais estão

tomando conta, estão tomando

ciência que é importante tirar

essa criança dentro de casa,

levar para um parque, levar

para um espaço de diversão,

levar para o circo. Então, acho

que a gente vai ser eterno, o

circo nunca vai acabar. Sempre

tem essa... A gente sempre se

reinventa dentro do tradicional,

que eu chamo, que o circo

sempre fez isso. Ele sempre

teve atual, sempre foi

contemporâneo, sempre trouxe

atrações que essas crianças

queiram ver e curti

Eu vejo com bons olhos, porque

acredito muito que as redes

sociais, as mídias, a ocupação...

Não sou contra, hein? Sou

totalmente a favor. Eu acho que

o uso está exagerado, os pais

deixaram muito essas telas nas

mãos das crianças, e agora já

está saturando. Então, todo

mundo vai voltar para viver isso

ao vivo. Tudo que é presencial,

eu vejo que já retornou,


Como é que vocês enfrentaram a

COVID-19?

Foi muito difícil. Na verdade,

durante esses 40 anos, a pior

época do circo foi a pandemia,

porque tivemos que encerrar as

nossas atividades dia 20 de

agosto de... Perdão, 20 de

março de 2000, e só retomamos

2023. Quer dizer, ficamos

praticamente quase três anos

paradas, porque não tinha

atividade, era tudo fechado, não

podia montar, não podia

transportar, não podia exibir,

não podia nada. Então, a gente

fez até algumas experiências

durante a pandemia, de fazer

live, de fazer um drive-in, mas

não funciona. O circo é a arte ao

vivo. As pessoas querem estar

ali presentes, querem

participar, querem sentir de

estar presentes. Então, o circo,

diferente da música, a música,

na pandemia, se deu muito

bem, conseguiu fazer girar

muita coisa. O circo, não. O

circo ficou totalmente inativo.

Na verdade, ficou inativo. Então,

estamos ainda voltando com

tudo 100%. Na verdade, os

circos, nesses últimos dois anos,

foram muito bem. Todos os

circos no Brasil, nós também.

Mas você recuperar três anos

parados não é fácil, não.

Como uma mulher dinâmica e à

frente de um projeto tão

grandioso como o Circo Spacial,

que conselho você daria às

mulheres que sonham em liderar

iniciativas de grande porte?

Eu acredito muito na força da

mulher. Na verdade, eu acredito

na força do profissional. Eu não

consigo fazer distinção homem

e mulher. Eu acho que você tem

que ser um profissional

competente. Se você é uma

mulher que resolve

empreender, então você tem

que se capacitar, saber o seu

objetivo, saber onde você quer

chegar e ir à luta. Nada cai do

céu. Eu, quando montei o circo,

tinha 26 anos. Fui viajar o Brasil

inteiro com uma mega

estrutura, comandando mais de

150 pessoas. Então você tem

que estar com o olhar muito

focado, planejamento, ter uma

organização, porque esse país é

muito instável. Você organiza

tudo e vem um plano

econômico, tira o seu chão.

Então, saber que você tem que

reiniciar sempre. E o circo é um

exemplo muito grande. Nós

escrevemos um livro, eu e a

doutora Suara Bastos, que se

chama “Gestão Espetacular”. E a

gente fala exatamente disso,

das mudanças.


Livro “Gestão Espetacular”

de Suara Bastos e Marlene Querubin

A gente está aberto às mudanças, porque o circo nos ensina que cada cidade

que você chega você tem que agir de uma maneira, você tem que fazer uma

estratégia de uma forma. Então você tem que estar apto à mudança. Todo

mundo que quer empreender tem que entender que você não vai montar um

negócio e vai ficar rico no primeiro mês. Tem que entender que existe um

investimento, que existe o retorno desse investimento, que você tem que se

qualificar, você tem que entender isso e trabalhar com profissionais

competentes. O nosso profissional mais competente são os nossos artistas. É o

nosso produto final. Mas não são só os artistas, eu tenho que trabalhar com

uma equipe de bastidores que vai montar a logística, a montagem, o

planejamento, a publicidade. Quer dizer, é um trabalho de equipe. Toda a

equipe tem que estar em sintonia, como uma orquestra.

Se um desafinar, cai tudo. Então, muitas vezes, o pessoal pergunta quem é a

atração do circo. Eu falo que a atração do circo são todos. Não existe uma

atração. Se não existe um espetáculo inteiro bom, o público sai falando mal.

Não adianta ter um artista espetacular e o resto é mediano. Eu sempre procuro

manter sempre no mesmo nível. Então, as estrelas têm que ser iguais, têm que

brilhar juntos, senão acaba não acontecendo. Então, eu sou muito a favor do

empreendedorismo. Acho que as pessoas têm que ir em busca dos seus

sonhos, quem tem coragem. Porque para empreender, você tem que ter

coragem. Então, não adianta aquela pessoa que não tem coragem, que não

sabe dormir com uma dívida, que você vai fazer, você vai fazer compromisso,

você tem que se entender. Então, eu brinco sempre. Você já acorda de manhã

devendo. Eu já vou para uma cidade devendo a temporada toda, digamos

assim. Eu já sempre estou investindo antes, sempre estou como um jogador.

Você está sempre jogando sem saber se vai ter o retorno ou não. Claro que,

com o tempo, você sabe todos esses riscos, mensura e consegue administrar.

Então, o empreendedor é andar numa corda bamba, ele tem que se equilibrar.


O que mais te emociona até hoje

quando as cortinas se abrem?

O que mais me emociona é

quando eu entro dentro do circo e

eu vejo a criança ali fascinada,

olhando para o espetáculo,

olhando para as luzes, tudo. Eu

me emociono profundamente

quando eu vejo aquele sorriso

espontâneo, batendo palma,

gritando. Acho que tudo valeu a

pena. Muitas vezes eu chegava de

reuniões cansada, estressada,

dizia, meu Deus, por que eu estou

ainda insistindo no circo? Sabe

aquele pensamento que vem? Aí

eu entro no circo e vejo que eu

esqueço tudo. Eu tenho prazer

quando eu vejo uma nova

produção, estrear uma nova

produção, um novo número, uma

nova lona. Tudo o que envolve o

circo. Eu acho que isso nos

motiva, nos dá energia. E quando

você recebe o público e você está

ali na saída, meu Deus, foi

fantástico, foi lindo, adoramos,

vou trazer outra pessoa. Então

você vê que o teu trabalho foi

bem feito, foi bem executado.

Claro, quando tem uma crítica,

não gostei disso, não gostei disso.

Ótimo, vamos melhorar.

Eu gosto muito disso também

quando tem uma avaliação lá. E

hoje o nosso maior avaliador é o

Google. Você vai lá no Google e

você não precisa de ninguém.

Hoje em dia, é só entrar no Google

ou nas redes sociais que o público

já diz tudo: "gostei disso", "não

gostei daquilo", "amei tal parte".

Antigamente, a gente precisava

fazer aquelas pesquisas formais,

com questionários, entrevistas.

Hoje não precisa mais — a resposta

está toda ali, visível, em tempo real.

Claro que isso traz benefícios, mas

também nos deixa muito expostos.

É como se estivéssemos todos sob

um telhado de vidro. Sempre

buscamos fazer o melhor, mas

agora precisamos ser ainda mais

cuidadosos, porque qualquer

detalhe vira assunto. A

vulnerabilidade é constante.

As pessoas falam o que pensam,

nem sempre com justiça. Já vi

comentários muito duros, não

sobre o nosso trabalho, mas de

colegas, que me deixaram chocada,

porque simplesmente não eram

verdade. E tem aqueles que

comentam só para provocar, para

ver a reação. Mas é isso: temos que

saber lidar. Faz parte dos tempos

modernos.


Que mensagem você deixaria para toda a equipe e os artistas que fazem

parte dessa trajetória vitoriosa do Circo Spacial ao longo desses anos?

Eu quero muito dizer para a minha equipe o tanto que eu sou grata por

cada um dedicar a sua vida nesse projeto. Acreditar no Circo Spacial,

acreditar na nossa história, fazer o dia a dia. Porque muitas vezes as

pessoas não se manifestam. E eu também não me manifesto. Mas eu

conheço no olhar, eu conheço no olhar o carinho, o amor.

Sabe quando aquela pessoa que levanta, tira um parafuso do lugar e

coloca no lugar certo, arruma uma roupa antes de entrar. São gestos

dessa equipe de momentos que só nós vivenciamos, momentos às vezes

terríveis que nós passamos juntos, que você olha e você fala, poxa, essa

equipe é uma equipe que vai estar sempre no meu coração. Então eu

sou eternamente grata. Porque eu sonho, mas se eu não tiver todo

mundo para realizar junto, não adianta nada. Eu digo sempre que um

sonho que você sonha sozinho é só um sonho. Mas um sonho que tem

uma equipe por trás é uma realidade. E eu sem dúvida nenhuma vejo

onde nós estivemos, o que nós fizemos, porque a gente tem uma


trajetória de muitos feitos. Então eu sinto muito orgulho dessa equipe,

muito orgulho mesmo, de coração. É o amor. Eu acho que o amor que

faz que move as pessoas, que move o projeto, e que move o circo todo.

Porque o circo tem que ser feito com amor, senão não passa para o

público.




R E C E I T A D E

TORTA DE ABÓBORA

D O C H E F L U I Z T H O M É

1 2

Corte a abóbora em tiras, e ferva em

uma panela grande.

Em uma tigela grande, amasse a

abóbora fervida, doure a cebola e

a carne moída.

3 4

Pré-aqueça o forno a 175 graus.

Asse por 30 minutos no forno préaquecido

ou até o queijo derreter.

Decore e bom apetite!


Mulheres que

Quebram Barreiras

e Conquistam

Espaço no Futebol

Masculino:

Uma Revolução

Silenciosa

por Nathália Bulsing


O futebol, paixão nacional e global, sempre foi um

universo predominantemente masculino. No entanto,

nas últimas décadas, uma revolução silenciosa tem

transformado esse cenário, com a ascensão de mulheres

que, além de brilharem nos gramados como jogadoras

icônica a exemplo de Marta, Formiga e Cristiane, têm

conquistado posições de destaque e influência em áreas

antes consideradas exclusivas para homens. Elas estão

quebrando barreiras, desmistificando preconceitos e

provando, com inquestionável competência, que o

talento e a paixão pelo esporte não conhecem gênero.


Liderança Feminina no Comando

dos Clubes: A Estratégia em Mãos

Competentes

A presença de mulheres em

cargos de gestão em grandes

clubes brasileiros é um dos mais

significativos avanços na busca

por igualdade de gênero no

futebol. Essas líderes não apenas

representam uma quebra de

paradigma, mas também trazem

novas perspectivas, modelos de

gestão e visões estratégicas que

enriquecem o ambiente esportivo.

Mirian Ponte, presidente do

Centro Sportivo Alagoano (CSA), e

Leila Pereira, presidente da

Sociedade Esportiva Palmeiras,

são exemplos notáveis e

inspiradores. Mirian Ponte, à

frente de um dos clubes mais

tradicionais do Nordeste, tem se

destacado pela sua gestão focada

na profissionalização e no

desenvolvimento do clube,

enfrentando os desafios inerentes

à administração de uma equipe de

futebol de grande porte. Sua

liderança é um testemunho da

capacidade feminina de gerenciar

complexidades e tomar decisões

cruciais que impactam

diretamente a vida de uma

instituição esportiva e sua torcida.

Leila Pereira, por sua vez,

assumiu a presidência de um

dos clubes mais vitoriosos e de

maior torcida do Brasil, o

Palmeiras. Sua ascensão ao

cargo máximo da diretoria do

clube não foi apenas um marco

histórico para o Palmeiras, mas

para todo o futebol brasileiro.

Com uma visão empresarial e

uma gestão assertiva, Leila tem

liderado o clube em um período

de conquistas expressivas,

tanto dentro quanto fora dos

campos, consolidando a marca

Palmeiras e garantindo sua

saúde financeira. A presença de

Mirian e Leila em posições tão

estratégicas demonstra a

confiança na capacidade de

liderança feminina e abre

portas para que mais mulheres

ocupem cargos de alto escalão

no esporte.


O Apito e a Bandeira em Mãos

Femininas: A Precisão da

Arbitragem Sem Gênero

A arbitragem, fundamental para

a lisura e a fluidez do jogo, é

outra área onde as mulheres

têm se destacado de forma

notável. A imagem de árbitras e

assistentes femininas em

partidas de alto nível do futebol

masculino, antes rara, agora é

cada vez mais comum e aceita,

um sinal de que a competência

técnica e o conhecimento das

regras superam qualquer

preconceito de gênero.

Nomes como Fernanda

Colombo Uliana, Ana Paula de

Oliveira e Neuza Back são

frequentemente vistos em

jogos do Campeonato Brasileiro,

Copas Nacionais e até mesmo

em competições internacionais.

Elas demonstram um profundo

conhecimento das regras,

excelente preparo físico e a

capacidade de tomar decisões

rápidas e assertivas sob

pressão.

Sua presença no Catar em 2022,

integrando a equipe de

arbitragem em jogos da fase de

grupos, foi um divisor de águas.

Não apenas pela sua

performance impecável, mas

pelo simbolismo que

representa: a confirmação de

que o talento e a dedicação

abrem portas em qualquer

esfera, independentemente do

gênero.

Da mesma forma, a árbitra

Edina Alves Batista consolidouse

como uma das principais

referências da arbitragem

brasileira. Com um currículo

recheado de atuações

consistentes e elogiadas, Edina

tem quebrado barreiras e se

tornado um exemplo para

outras mulheres que sonham

em seguir carreira na

arbitragem. Sua performance

em jogos decisivos e sua

seriedade no trato com os

jogadores e comissões técnicas

a credenciam como uma das

mais respeitadas árbitras do

cenário nacional e

internacional.


Um Crescimento Inegável e

Inspirador: O Futuro é Delas

O aumento da presença

feminina em funções de

destaque no futebol masculino

é um fenômeno que reflete uma

mudança cultural profunda e

um reconhecimento tardio, mas

bem-vindo, da capacidade e do

valor das mulheres em todas as

esferas da sociedade. Essas

profissionais não apenas

performam suas funções com

excelência, mas também

inspiram milhões de meninas e

mulheres a buscarem seus

próprios sonhos e a não se

limitarem por estereótipos.

O futebol, com sua vasta

audiência e seu poder de

mobilização, torna-se uma

plataforma poderosa para

promover a igualdade de

gênero. A cada jogo com uma

mulher na arbitragem, a cada

entrevista de uma presidente

de clube, a mensagem é clara: o

futebol é para todos, e o talento

não tem gênero.

Ainda há desafios a serem

superados, como a persistência

de preconceitos e a

necessidade de mais

oportunidades para as

mulheres em diversas áreas do

esporte. No entanto, o caminho

está sendo pavimentado por

essas pioneiras. A revolução

silenciosa continua, e é inegável

que o futuro do futebol, em

todas as suas facetas, será cada

vez mais feminino, diverso e

inclusivo. O legado dessas

mulheres não é apenas sobre

vitórias em campo ou decisões

administrativas; é sobre

redefinir o que é possível e abrir

um novo capítulo na história do

esporte mais popular do

planeta.


Kombi Nômades

Ka Maya, Druída e Aoni

Vibe de Dois

Ana, Anderson e Fiona

por Regina Papini Steiner

Amor, liberdade, quatro patas e uma Kombi: a vida sobre rodas

de dois casais e seus cães pelo mundo.

Em tempos em que a estabilidade parece estar ligada à rotina

das oito horas de trabalho, boletos e aluguel, dois casais

decidiram romper com a lógica tradicional e provar que é possível

viver de forma leve, e intensa, na estrada. Eles trocaram

apartamentos por uma Kombihome, e compromissos fixos por

mapas, horizontes e latidos.


Viajando com suas cachorras como verdadeiras companheiras de

jornada, esses casais têm redescoberto o mundo pelas janelas de

um motorhome adaptado. E não um motorhome qualquer...uma

maravilhosa Kombi. Mais do que uma aventura, trata-se de uma

escolha de vida: minimalista, conectada com a natureza e

profundamente afetiva.

O olhar de quem vê de fora pode ser enviesado por clichês “fuga de

responsabilidades”, “vida de Instagram”, “aventura passageira”, mas

quem acompanha de perto percebe que a estrada exige

organização, resiliência e coragem. A vida nômade não é um eterno

pôr do sol; há pneus furados, chuvas inesperadas, conexão fraca

com a internet, ausência de endereço fixo e saudade de um banho

demorado. Mas há também algo mais valioso: liberdade.

Os cachorros, longe de serem um empecilho, são parte do elo

afetivo dessa jornada. Elas não apenas acompanham, elas

transformam a experiência. São as primeiras a farejar um novo

terreno, as guardiãs da Kombi à noite e as responsáveis por fazer

qualquer paisagem parecer um lar. Em cada vídeo compartilhado

nas redes, há uma troca silenciosa entre humanos e cães que nos

faz repensar o que é, de fato, qualidade de vida.

Numa sociedade obcecada por produtividade e posse, esses casais

optam pelo tempo e pela presença. Não acumulam bens, mas

colecionam histórias. Não seguem uma rota fixa, mas traçam

caminhos com base em instinto, clima e curiosidade.

Viajar o mundo em uma Kombihome com seus cães não é apenas

um estilo de vida alternativo. É uma declaração de afeto à

liberdade, à convivência e à simplicidade.

E talvez, no fundo, uma provocação gentil para todos nós: o que,

afinal, nos impede de viver com mais sentido?

Vamos pegar uma carona com esses casais e conhecer a história de

cada um e as suas histórias!


Sete anos dentro de uma Kombi.

Como é que é isso para o casal?

Ka Maya: No começo, há uma

grande diferença. Isso por conta

do espaço, né? O estar 24 horas

acho que foi tranquilo para nós,

porque já trabalhávamos juntos

antes mesmo de viajar. Mas o

espaço foi bem difícil no começo.

Com o tempo, foi se adaptando.

estranho...

Druída: Eu tenho que sair, né?

Ka Maya: É verdade. Ah, é uma

situação...

E o que levou vocês a fazer essa

viagem? E principalmente de

Kombi.

Druída: É, foi adaptando.

E rolou alguma situação

engraçada no início ou durante

essas viagens?

Ka Maya: Ah, eu acho que o mais...

Nem sei se é engraçado, mas o

mais estranho é às vezes você

querer usar o banheiro ali dentro,

que fica... eu acho que é o mais

Druída: Ah, eu quando conheci a

Ká, ela falava muito de Kombi. O

tio, o avô, todos tinham Kombi. Eu

ficava achando estranho, Nossa,

uma mulher falar tanto de Kombi

assim... nem eu falo tanto de

Kombi! Na época, a gente tinha

um Fusquinha. Não tínhamos

condições de comprar uma

Kombi, então ficou aquele desejo

guardado, sempre presente nas

conversas, como uma lembrança


constante. Em 2016, meu pai

faleceu. Com a perda, veio um

seguro de vida uma quantia

pequena, mas suficiente.

Não pensei duas vezes: decidi que

era hora de realizar aquele sonho

antigo. Fui e comprei a Kombi.

Falei, uai, você só fala de Kombi?

Ka Maya: Realmente, no começo,

eu falei, nossa eu levei um susto,

né? De ele comprar essa ideia. Ele

gostava já de viajar também.

Então, a gente falou, vamos unir, o

útil ao agradável.

Druída: E aí, a princípio, era uma

lojinha,

Ka Maya: No começo, era só uma

lojinha. Eu via muito meu pai

trabalhando em feiras, às vezes,

vendendo as coisas, meu tio, ferro

velho, várias coisas dentro da

Kombi. Então, eu cresci dentro de

Kombi. Aí, quando a gente teve a

nossa, eu pensava como loja,

como empreendimento. Mas aí,

começou a surgir esse negócio de

motorhome no Brasil, de Kombi

Home. Então, bora montar uma

casa, né? E ele comprar essa ideia

de viajar.

Ka Maya: Então, a Kombi mesmo,

a gente não construiu. Fez com

marceneiros, esses marceneiros

comuns de casa. Não tinha, na

época, empresas especializadas

em fazer Kombi. E a gente achava

que, se fosse fazer, ia gastar mais

material pela inexperiência.

A gente trabalha construindo e

ensinando a construir casas de

bioconstrução e tudo isso.

E isso estamos falando que ano?

Druída: 2016.

Ka Maya: Na época, eu lembro

que não tinha muitas referências

no Brasil. A gente via referências

de fora. E poucos carros pequenos

como uma Kombi.

A Kombi chegou, vocês

construíram, foi uma construção

feita por vocês, a casinha?


E como vocês sobreviviam na

época que vocês estavam com a

Kombi (hoje ela está

reformando)? E como é isso hoje

para vocês?

Ka Maya: A gente vai intercalar. A

gente gosta também da roça,

dessa vida simples. Então, a gente

quer seguir nesse estilo. Deu certo,

graças a Deus. Seguir nesse estilo.

A gente fala nômade, né? Livre.

Mas a gente quer passar uma

temporada na estrada e

temporadas aqui na roça. Para

não deixar tempo, como já

passamos três anos.

Druída: Mesmo porque eu acho

que o trajeto mais longo é esse,

né? Que é o de três anos. Que a

ideia era concluir toda a Pan-

Americana, Que começa aqui na

Argentina e vai até o Alasca. E aí,

como não negaram o visto, fomos

até o México.

Ka Maya: Foi incrível. A jornada

toda. E aí acaba que a gente vai

sair, talvez, à Europa, não sei. A

Kombi que está terminando a

reforma agora.

E a gente está com o artesanato,

né? Respondendo um pouco mais

a pergunta que você fez. A gente

começou com o artesanato. Eu já

gostava de pintar, então fazia telas,

já com o propósito do projeto.

Então a gente, antes de sair,

conseguiu vender encomendas de

quadros. E depois, na estrada, a

gente foi desenvolvendo mais

artes, comprar bibliotecas, às

vezes.

Druída: Também, fizemos

voluntariado.


E o intercâmbio cultural? Deve

ter sido rico demais.

Druída: Muita coisa. Eu acho que

a principal é o orgulho mesmo de

ser brasileiro. A principal de tudo.

É porque a gente sempre fala mal,

né? Ai, meu país! Brasil está isso,

está aquilo. Nossa Senhora, o

Brasil é top demais na América

Latina.

Ka Maya : E o mais legal é que,

onde quer que a gente vá, sempre

tem alguém que reconhece: “Ah, é

do Brasil, é do Brasil!” As pessoas já

têm algumas referências e isso

abre espaço pra gente contar mais

sobre a nossa cultura.

São trocas muito ricas. E olha, a

gente chegou sem saber nada de

espanhol nada mesmo! Só isso já

mostra o tanto que vivemos e

aprendemos nessa jornada.

Com certeza. As pessoas nos

acolheram em vários países. Nos

recebiam nos seus quintais,

ofereciam suas comidas típicas

pra gente experimentar.

É incrível. Um tipo de viagem

completamente diferente daquela

em que você só pega um avião, vai

direto pro destino e pronto. Aqui,

tudo é conexão, vivência, troca

verdadeira.

Ka Maya: Foi incrível. A jornada

toda. E aí acaba que a gente vai

sair, talvez, à Europa, não sei. A

Kombi que está terminando a

reforma agora.

E a gente está com o artesanato,

né? Respondendo um pouco mais

a pergunta que você fez. A gente

começou com o artesanato. Eu já

gostava de pintar, então fazia telas,

já com o propósito do projeto.

Então a gente, antes de sair,

conseguiu vender encomendas de

quadros. E depois, na estrada, a

gente foi desenvolvendo mais

artes, comprar bibliotecas, às

vezes.

Druída: Também, fizemos

voluntariado.

Como é que vocês lidaram com

conflitos?

Ka Maya: Fronteira é sempre

complicado.

Druída: Muita burocrada.

Ka Maya: Burocracia e tudo mais.

Tensões de ter condições

financeiras, que a gente saiu sem

condições, então... Teve um

momento de conflitos entre casais

por conta das condições

financeiras, Não queríamos voltar,

mas não tínhamos muitas

condições.


também com o apoio das pessoas,

sabe? Eu sou muito grata, porque

foram elas que praticamente nos

empurravam, É muito bom. E aí,

graças a Deus, também foi fluindo

as mídias sociais, com a mídia

social, com todas elas, com as

parcerias, com os parceiros que

chegam.

O que vocês diriam para quem

quer começar a jornada de

estrada, de ir embora, vou largar

tudo e vou embora?

Então eram situações que, ainda

bem, a gente tem muita

paciência, muita paz e muita...

Vocês têm parceiros, vocês estão

fazendo parcerias, como é que

está a vida de vocês nesse

momento terra, nesse momento

chão?

Ka Maya: Com toda essa jornada,

com todo esse crescimento, foi

aumentando as pessoas, a gente

compartilhando os vídeos,

gostamos muito, tínhamos muita

vergonha, mas a gente viu que

criou uma família pela internet. E

a gente foi seguindo, aumentando

essa família, aumentando essa

família, passando, superando tudo

Ka Maya: Isso tem aumentado

muito, né? A insatisfação, o

estresse, a ansiedade, tudo isso de

uma vida que a gente já não

aguenta mais e quer Dá muito

certo. E, claro, problemas existem

em qualquer lugar — até mesmo

dentro de casa.

O importante é estar aberta às

oportunidades, sair da zona de

conforto, se permitir experimentar

o novo. Porque é uma experiência

de vida que realmente vale a

pena. Mesmo que a pessoa tente e

descubra que aquilo não é pra ela,

tudo bem. O essencial é ter vivido,

ter tentado. O pior seria pensar:

“Poxa, e se eu tivesse tentado?”

Então, experimente. Organize-se.

Vale a pena.



Que mensagem principal vocês gostariam de deixar para as pessoas

que acompanham vocês?

Ka Maya: Agradecer de coração. Agradecer eles gostarem pelo jeito da

gente, mesmo simples. E por toda a força que eles nos deram, nos dão

ainda. Seguir junto que a gente segue viajando e aqui na Roça.

Druída: Paz, amor para todos

Acompanhe a jornada do Casal Kombi Nômades:

https://www.youtube.com/@kombinomades

https://www.instagram.com/kombinomades/


Ex-advogados. E como foi isso?

Como é que foi largar, deixar

uma pseudo segurança, uma

estabilidade de vida, Pra seguir

estrada.

Anderson: Eu falo assim que hoje,

na confortável poltrona da história,

é mais fácil olhar pra trás e avaliar

o que a gente fez, né? Agora, na

época, foi um pouco de loucura

mesmo. A gente vem de família

humilde, Não temos, infelizmente,

o curso de herdeiro, Tanto eu

quanto a Ana. A Ana é filha de

professora, eu sou filho de faxineiro

e de pedreiro. Nós fomos as

primeiras pessoas na nossa família,

basicamente, a ter a possibilidade

de ter um ensino superior. E, a

muito custo, conseguimos se

formar em Direito. A Ana é Mestre

em Direito. E nós já vínhamos

advogando há algum tempo. Só

que aquela forma de viver que a

gente tinha ali, ela não nos

conectava com a nossa essência,

não fazia o que a gente chama de

nosso coração vibrar. E foi muito

tenso, assim, o fim, digamos, da

nossa carreira na advocacia,

porque o mundo corporativo, ele

estava nos destruindo por dentro.

Essa é a melhor palavra. No fim do

exercício da advocacia, a gente

estava com “burnout”, com vários

problemas, que nos apontavam

pra um caminho muito ruim de

vida.


Ana é gaúcha, eu sou de Floripa,

sou “manézinho” da ilha. E a gente

se conheceu na ilha, e quando a

gente se conheceu, a Ana falou

assim, vamos conhecer as praias

que existem em Florianópolis,

todas elas. Fomos pesquisar

quantas praias existiam em Floripa

( Florianópolis ). A gente viu que

existiam 100 praias catalogadas

numa legislação municipal. E na

época, a gente resolveu começar a

conhecer todas as praias e registrar

isso no Instagram. Isso foi 2018, E

nós tínhamos um projeto, aí

depois isso ele se desenvolveu, a

gente tomou gosto por fotografia,

por contar as lendas de

Florianópolis, que tem um folclore

super rico, E aí começamos a se

interessar muito por isso,

formamos um projeto que na

época chamava “Mochileiros de

Floripa”, em que a gente andava

pelas praias e trilhas da ilha,

contando sobre as histórias e as

lendas que existiam na cidade e

mostrando às pessoas que

existiam lugares alternativos

àquelas que elas estavam

acostumadas a ir.

Anderson: Não tínhamos a Kombi.

Exato, é, isso. Bom, isso passou um

ano e a gente foi se desenvolvendo

na internet, digamos assim

também, né? Vendo que ali era

um espaço que muita gente

gostava do que a gente falava, das

coisas que a gente vinha trazendo.

E em 2020, no início do ano mais

ou menos...

Ana: Em fevereiro nós compramos

a Kombi. A gente falou, vamos

comprar uma Kombi pra gente

conseguir rodar a ilha, depois fazer

umas viagens. Era mais ou menos

esse aí o...

Anderson: Em março estourou a

pandemia e a pandemia nos

mostrou que existia vida. Ela nos

mostrou que a gente podia ter

tempo de vida pra fazer outras

coisas que... Não só final de

semana. Isso, assim, e junto com

esse contexto meio conturbado

mental que a gente estava

passando e com a compra da

Kombi foi o suficiente pra que em

junho a gente chegasse ao ápice

de pedir demissão. E a gente

bolou... A gente tinha, um ano de

remuneração pra construir essa

Kombi, acabar a pandemia e cair

na estrada.

Vocês não tinham a Kombi ainda,

era com mochila?


E como foi a construção da

Kombi? Vocês mesmos colocaram

a mão na massa ou contaram

com alguma empresa

especializada? Foi tudo

artesanal?

Ana: Foi um processo longo

porque quando nós compramos a

Kombi ela estava em situação

muito, muito ruim... Logo depois

nós descobrimos que o motor

tinha sido adulterado. Então ela

não poderia ser regularizada.

Estava cheia de ferrugem. Ela

estava, assim, muito, muito ruim

mesmo.

E, finalmente, fomos pra parte da

casa. A gente começou a fazer ela.

Começamos a fazer sozinhos. Mas

aí, como o nosso crescimento na

internet nos trazia visibilidade, isso

também abriu as portas pra nós

fazermos parcerias com outras

empresas. E aí nós conseguimos,

assim, algumas parcerias que

foram fundamentais pro projeto.

Foi uma parceria do sistema

elétrico e também da construção

da casa.

Anderson: Estava pronta pra ir pro

ferro velho. Nós pagamos R$4.900

só nessa Kombi. Era R$5.000 mas

tinha R$100.000 de documento

atrasado. Nós pagamos R$4.000 à

vista e parcelamos duas vezes de

R$450 no cartão ainda.

Ana: Pelo valor, dá pra imaginar

como estava ela, né? E aí a gente

foi, assim, num processo muito

lento arrumando tudo. A gente

começou arrumando o motor dela.

Nós tivemos que fazer um motor

novo. Compramos um bloco.

Montamos o motor do zero pra

poder regularizar junto ao detran.

E aí, logo após isso, começamos a

fazer a lataria. Então, também

reformamos toda ela com um

chapeador, deixando tudo

certinho.


Anderson: Isso foi durante um

ano. A gente comprou ela, como a

gente falou, a gente comprou em

fevereiro. Em março estourou a

pandemia. A Kombi estava com o

eletricista e era um senhor. O

senhor já não podia trabalhar mais.

Então, a gente ficou ali uns três

meses sem conseguir mexer nela.

Aí, depois, a gente fez toda a

mecânica dela. Foram quatro

meses de mecânica. Fizemos o

motor do zero. Depois, a gente foi

fazer a lataria. Foram mais três

meses. E aí, depois, mais quatro

meses pra construção da casa. Isso

foi novembro de 2021, que foi o

exato momento que nossa grana

acabou. Em uma semana, a Kombi

ficou pronta e a gente saiu pra

viajar dessa forma, com três mil

reais no bolso.

Vocês realmente focaram neste

objetivo!

Anderson: A gente sempre

acreditou muito naquilo que a

gente estava fazendo de alguma

forma. Algo nos dizia que esse era

o nosso caminho de vida. E, graças

a Deus, a gente saiu. No primeiro

mês, a internet virou de uma

forma que já apagou o primeiro

mês de viagem. E assim, a gente

continuou viajando e vivendo

aquela liberdade que a gente

queria. Mas, ao mesmo tempo,

também tendo que sustentar

financeiramente isso.

Não tendo ninguém por trás da

gente. Então, foi um caminho que

a gente foi compartilhando a

nossa história também com as

pessoas e uma comunidade que a

gente criou na internet, que era

um lugar que a gente achava que

pra mim, a internet de antes era os

comentários do G1, né? Aquela

loucura que você vê ali, que é o

caos e gente falando mal. E, pelo

contrário, era uma loucura tão

grande que a gente tava fazendo

que muitos amigos não

entendiam o que a gente tava

fazendo. Os familiares, por mais

que não diziam não, ninguém

também falava, vai, porque assim,

por que vocês estão largando a

advocacia? Uma forma de vida tão

privilegiada que poucas pessoas

no Brasil têm pra fazer um negócio

desse.? Então, a gente entende

que as pessoas não conseguiam

compreender aquilo que a gente

tava fazendo. Mas, ao mesmo

tempo, a gente formou uma

comunidade na internet de

pessoas que nos impulsionava a

continuar. Então, esse movimento

gerou o que hoje é o Vibe de Dois,

que é uma comunidade muito

grande de pessoas, a gente tem

quase 800 mil pessoas inscritas


hoje no nosso canal no Youtube,

um alcance de mais de quase 5

milhões de pessoas mensais pelo

nosso canal.

movimento bem de desapego

mesmo, de emoções, de matéria, e

quando a gente saiu, a gente se

olhou e falou assim, tá, e agora?

E aí a gente teve que dinamizar a

nossa relação enquanto casal, a

gente teve que dinamizar uma

relação de trabalho, porque a

gente trabalha juntos também,

cozinha, a gente faz necessidades,

a gente se relaciona, a gente faz

tudo num espaço de três metros.

O bom é que, acho que desde

quando nós saímos, a gente já saiu

com essa consciência de que seria

um grande desafio. E a gente já

sabia que seria 8 ou 80. A gente ia

casar na estrada ou a gente ia

separar.

Como é a vida de vocês como

casal, com tudo o que viveram e

enfrentaram juntos?

Anderson: Primeiro que a gente

saiu pra viver dentro de um carro

de 3 metros, e a gente não tinha

experiência nenhuma, nós nunca

havíamos viajado de motorhome

na vida. Nós saímos e deixamos

tudo pra trás, a gente tinha uma

semana, como falei, a gente doou

muita coisa, nós tínhamos muitos

livros, a gente teve que desapegar

de tantas coisas que faziam parte

da nossa essência também, foi um

Ana: Sim, a gente

aprendeu

muito também, cresceu muito e

todo esse trajeto também foi de

uma mudança interna, porque nós

saímos daquela pessoa que

éramos, do mundo corporativo,

dos advogados, que tinha toda

uma imagem, para sermos

pessoas que vivem em uma

Kombi, que trabalham com

internet, isso também foi uma

mudança muito grande de quem

nós éramos e aí tentar descobrir

quem nós somos, porque acho

que hoje tudo na sua vida quando

alguém te pergunta: quem é você?

ah, eu sou fulano, eu sou

advogada, eu faço isso, eu faço

aquilo, mas e o que


você gosta? o que você é, além da

sua profissão, além daquele teu

círculo, a gente teve que descobrir

tudo isso de novo, e isso foi a partir

de mudanças muito grandes,

mudanças internas mesmo, e isso

foi dinamizando e mudando

completamente também a nossa

relação, acho que o primeiro ano

foi um ano de sobrevivência, de

descobrir como fazer as coisas e a

partir daí foi ficando cada vez mais

fácil, a rotina foi ficando cada vez

mais tranquila em relação a o que

fazer, porque a gente tem todos os

dias muitos desafios a nossa rotina

é de acordar e buscar água,

dinamizar, transformar um quarto

numa cozinha depois a cozinha

em um quarto de novo, então tudo

isso foi mudando muito aqui.

Anderson: É muito assim, a

estrada é muito intensa, a gente

vive muito todos os dias um dia

nosso, rende muita coisa, desde de

manhã quando a gente acorda,

até a noite, são muitas tomadas de

decisões aonde eu vou dormir,

aonde eu vou pegar a água,

acabou a água, acabou a luz é

seguro, não é seguro, não sou só

eu enquanto homem, se viajar

sozinha é uma coisa, a Ana

enquanto mulher é outra coisa,

nós enquanto casal é uma outra

parada, tem a Fiona.. Então, são

inúmeros os desafios que a estrada

te impõe, mas quando você se

coloca numa situação dessa

também você se conhece muito

mais rápido, porque você vê como

enfrenta os desafios como é que

você passa por eles e a estrada,

como a gente fala a estrada dá

tudo o que você precisa ela te

ensina assim como a vida, de uma

forma muito mais intensa, então a

nossa viagem na estrada, foi uma

escola e sempre a gente aprendia

aquilo que a gente tinha que

enfrentar ali na frente, é surreal

assim os desafios foram

aparecendo, parece que eram as

formações que a gente precisava

para seguir as etapas seguintes

então a gente é muito grato de

verdade a essa vida que a gente

vive hoje porque isso fez com que

a Ana e o Anderson que saíram de

Florianópolis já não são mais as

duas pessoas que chegaram aqui

nos Estados Unidos, e hoje a gente

se sente muito mais calmo, muito

mais tranquilo nos sentimos

pessoas muito melhores apesar de

termos nos submetido a situações

muito difíceis, desafiadoras foi daí

que surgiu assim esses novos seres


que hoje chegam aqui nos Estados

Unidos e a gente fala que o Alaska

territorial que a gente busca já faz

três anos e meio se tornou

também o Alaska da nossa

consciência porque essa viagem

além de ser uma viagem externa

se transformou num instrumento

interno que sem a gente saber nos

transformou numa outra coisa

graças a Deus.

Vocês pensam algum dia parar?

largar a estrada?

Anderson: a gente já passou

algumas ansiedades de pensar

sobre isso, hoje a gente resolveu

deixar como foco a gente chegar

até o Alaska e acreditar que a

estrada vai nos dar essa resposta

de que quando a gente chegar lá

que falta ainda muito, tem muita

coisa para fazer viver esse

momento que a gente lutou tanto

para chegar até aqui e também

depois usufruir das consequências

disso e deixar as coisas se

encaminharem a confiar um

pouco nos planos de Deus que vai

dar tudo certo.

Como é para vocês essa troca

entre a cultura brasileira, e as

diferentes culturas que

encontram pelo caminho?

Anderson: Eu acho que, como

brasileiros, a gente tem um

entendimento muito limitado do

que é a América Latina. A verdade

é que costumamos virar as costas

para a América do Sul. Quando

saímos do Brasil, a gente não fazia

ideia do que esperar o que era o

Uruguai, a Argentina, a Bolívia, o

Peru, o Equador, a Colômbia... A

gente colocava tudo no mesmo

pacote, sem saber o quanto cada

país é diferente e único.

O Uruguai foi o primeiro país em

que entramos, e já foi um choque

de realidade: a língua, a moeda, a

primeira noite dormindo fora, em

um país que não era o nosso. Foi

um início cheio de descobertas.

Mas é um bom começo de roteiro,

porque o Uruguai ainda tem uma

certa semelhança com o sul do

Brasil, então a transição é mais

suave.

Depois veio a Argentina, e com ela,

a travessia da Cordilheira dos

Andes, a neve, e um inverno

rigoroso na Patagônia. Foi a

primeira vez que enfrentamos

temperaturas abaixo de zero,

nevascas fortes. A gente não tinha

preparo nenhum nem nós, nem a

Kombi. Passamos muitas noites de

frio intenso. A Kombi quebrou, e

foi aí que começamos a aprender

mecânica na marra, na estrada. A

gente teve que aprender coisas

que nunca imaginou que um dia

precisaria saber.


E então veio a Bolívia um choque

cultural gigantesco. Convivemos

com o povo andino, com as

"cholitas", e já no Peru fomos

recebidos por manifestações.

Cruzamos por territórios indígenas,

por fazendas, por lugares onde a

vida segue um ritmo

completamente diferente do

nosso. Já vivemos tantas

experiências que parecem até

ficção.

No Equador, por exemplo,

estávamos saindo do litoral e

começando a subida pela

Cordilheira dos Andes. Paramos

para pegar as roupas de inverno no

bagageiro nosso “guarda-roupa” de

estrada e, por acaso, vimos do

outro lado da estrada uma reunião

de uma comunidade indígena

andina. Todos com aquelas roupas

coloridas, típicas, que a gente só

costuma ver em filmes ou revistas.

De repente, estávamos ali, com a

Kombi cercada por pessoas. A

gente oferecendo chimarrão, eles

oferecendo carne de alpaca. Um

senhor encostou na Kombi e

começou a tocar flauta andina,

enquanto a Ana dançava com eles.

Essas experiências não acontecem

nos pontos turísticos elas surgem

no meio do nada, no coração de

comunidades que ninguém nem

imagina que existam.

E são nesses encontros que a troca

acontece uma troca verdadeira,

que te ensina, te transforma e te

enriquece de um jeito que é difícil

colocar em palavras. Foi e está

sendo uma jornada incrível.

Ana: Ao longo desses anos a gente

acabou indo e conhecendo

pouquíssimos pontos turísticos dos

lugares, as vezes quando você sai

para fazer uma viagem de férias

você tem um roteiro super

fechado, super marcado porque

você tem dias x e você precisa

fazer isso nesse tempo é o que

você tem só que, e essa é uma das

coisas que a gente gosta tanto do

motorhome é essa liberdade de

poder justamente parar em

lugares que não são turísticos e

conhecer as pessoas e poder

conversar nós saímos do Brasil e

não sabíamos falar espanhol hoje a

gente já fala espanhol

fluentemente porque nós

aprendemos na estrada nós nunca


fizemos aula mas conversando

com as pessoas então a gente

brinca que o nosso espanhol ele é

misturado porque conforme nós

aprendemos palavras nos países a

gente até hoje fala essas palavras

com o sotaque que a gente

aprendeu, é um crescimento

muito grande e hoje ter um

conhecimento de mapa de pegar

um mapa, de entender as coisas

de saber onde se localiza e

também culturamente, como o

Anderson falou é incrível ter essa

troca com as pessoas e de

conhecer de verdade o que é um

país para além do marketing para

além do noticiário.

Como foi para vocês perceber, ao

longo da viagem, as diferenças na

geografia e nas realidades

políticas de cada país por onde

passaram?

Anderson: a América Latina desde

a Argentina até o México é algo

que nos encanta o povo latino é

um povo mágico que com sua

dificuldade com a sua falta de

estrutura consegue fazer magia na

vida e consegue sobreviver a

condições inimagináveis nesse

mundo, é impressionante a

capacidade do nosso povo de

sobreviver em condições das mais

doidas das mais loucas desde os

altos andinos da Bolívia, em que a

gente via as mulheres carregando

sacos de pedra tortinhas andando

até as crianças na Venezuela que a

gente via aquele olhar pouco

esperançoso passando por veias

abertas da América Latina

como diz o Eduardo Galeano. .

Chegando aqui nos Estados

Unidos situação gritante. A

primeira mudança de universo que

vivemos realmente radical foi em

um país que nos pareceu, de certa

forma, "doido". Aqui, encontramos

uma estrutura material que não

existe em nenhum outro lugar da

América Latina. Para quem vive

dentro de um carro, como a gente,

é o paraíso: fácil de viajar, tudo

funciona, tudo está à mão. A gente

até brinca dizendo que aqui é

"viajar no modo easy", porque você

não precisa se preocupar com

nada.

Mas, por outro lado, foi também

onde sentimos a maior frieza

humana da viagem algo que

nunca tínhamos experimentado. E

isso mexeu muito com a gente.

Tanto que, depois de quase quatro

anos na estrada, foi aqui que

enfrentamos nossa primeira

grande dificuldade psicológica.

Foram cerca de 20 dias bem

pesados mentalmente, por causa

desse choque humano, desse vazio

de conexão.

É curioso, porque a estrada vai te

ensinando o tempo todo, de todos

os lados. E, às vezes, quando você


acha que já está preparado, vem

uma situação totalmente nova,

que te desarma. A vida te mostra

um ponto de vista que você ainda

não tinha enxergado e isso muda

tudo.

A gente também teve a

oportunidade de conhecer de

perto a realidade dos imigrantes

brasileiros. Fomos acolhidos por

muitos alguns vivendo aqui com

documentação, outros em

situações mais vulneráveis, sem

legalidade. E isso nos mostrou um

outro lado da história, bem

distante daquela romantização do

“ah, vou sair do Brasil, ter um

carrão, uma vida fácil”. A vida real

fora do país é bem mais complexa

do que isso.

Do ponto de vista cultural, tudo

isso foi um enorme

enriquecimento. Mas é importante

dizer: enquanto viajantes, a gente

não se coloca como donos da

verdade, nem como paladinos da

justiça. Não estamos na estrada

para impor nosso ponto de vista,

mas para observar, aprender e

respeitar. A gente vê, escuta,

sente... E se concorda ou não com

algo, guardamos para nós não

cabe a nós dizer como os outros

devem viver.

Talvez essa postura tenha nos

dado a flexibilidade necessária

para transitar por tantos povos,

culturas e realidades diferentes. E,

no fim das contas, tem também o

nosso jeito de chegar: viajamos

numa Kombi 1986. E não tem

quem olhe pra ela e não abra um

sorriso. Ela cria uma ponte

imediata, aproxima, quebra o gelo.

A Kombi fala por nós antes mesmo

de qualquer palavra.


E como é viajar com a Fiona? Ela

lida bem com os deslocamentos?

E nas fronteiras, que cuidados

vocês precisam ter com ela?

Ana: A Fiona, olha, parece que

nasceu pra essa vida. Ela se

adaptou muito fácil à estrada,

desde o começo. Hoje ela já é uma

senhorinha está com 13 anos mas

continua firme, e a rotina da

viagem já faz parte dela.

Engraçado que, se ficamos muito

tempo parados num mesmo lugar,

ela começa a ficar inquieta, como

se dissesse: “E aí, vamos embora?”.

Ela tem o cantinho dela na Kombi

um banquinho, a caminha e

quando começamos a organizar

tudo para partir, ela já pula para o

lugar dela e fica ali, pronta pra

seguir viagem.

Ela é nossa companhia constante.

O Anderson sempre diz que viver

na estrada é uma espécie de

“solidão a dois”, porque mesmo

conhecendo outras pessoas pelo

caminho, no fim do dia somos só

nós dois. E a Fiona é nosso terceiro

elemento. Ela dinamiza tudo, dá

leveza. Muitas vezes é por causa

dela que a gente sai pra caminhar,

pra dar uma volta, respirar.

E os cuidados com ela são como

seriam em qualquer casa: passeio,

atenção, alimentação. Ela

entendeu que a Kombi é o lar

dela. Nunca fez necessidades aqui

dentro e quando precisa sair fora

do horário, vai até a porta e

arranha. É o jeitinho dela de avisar

que está na hora do passeio.

Viajar com a Fiona é, ao mesmo

tempo, a parte mais incrível e a

mais desafiadora da nossa jornada.

Ela é o nosso ponto de ansiedade

toda vez que chegamos a uma

fronteira. Cada país novo traz

aquela dúvida: “Será que vai dar

tudo certo com ela?”.

É sempre o momento mais

burocrático da viagem. Para entrar

em qualquer país, precisamos

emitir um documento chamado

Certificado de Vacinação

Internacional, específico para o

destino. Mas o complicado é que

cada país tem suas próprias regras,

exigências diferentes, prazos,

vacinas e até medicamentos

obrigatórios.


Então estamos sempre

pesquisando, tentando nos

antecipar: que documentos

precisam? Qual vacina é exigida?

Tem que dar vermífugo? Às vezes,

mesmo com tudo certo, ainda

passamos por momentos de

tensão, porque depende muito do

agente da fronteira e da

interpretação que ele faz das

regras.

Mas, no fim, tudo vale a pena,

porque ter a Fiona com a gente

transforma completamente a

experiência.

último país de expedição não a

última fronteira, porque vamos ter

mais uma fronteira que a fronteira

do Alasca, né?

Anderson: Ela é uma cachorra

viajante, as vezes por exemplo, eles

pedem prazos de vacina que a

gente não pode reaplicar na Fiona

porque ela já tem a vacina então a

gente fica sempre em uma

situação que são bem complexas,

as vezes a gente consegue os

documentos já fomos para a

fronteira sem documento da Fiona

mas até hoje sempre deu certo

sempre conseguimos passar as

fronteiras, sempre se deu um jeito

sempre conseguimos resolver, ela

tem 13 anos, Nunca ficou doente

na estrada . muito forte, ontem ela

tomou a vacina está meio

amuadinha hoje, que ela tomou a

vacina de raiva, que a gente vai

passar agora para o Canadá, que

vai ser nosso último país, né? a

gente vai precisar da fronteira para

passar para esse que vai ser nosso

Kombi Manezinha


Qual mensagem vocês gostariam de deixar para as pessoas que

acompanham o canal — tanto quem já está com vocês há mais

tempo quanto quem está chegando agora?

Ana: Olha, tem uma mensagem que a gente sempre gosta de deixar

como reflexão. No ano passado, quando estávamos no México,

voltamos ao Brasil para participar da EXPO Motorhome o maior evento

de motorhomes do país e lá demos uma palestra com um título que

resume muito do que acreditamos: “Comece. Dê o primeiro passo em

direção àquilo que faz o seu coração vibrar.”

A gente sabe que não existe uma fórmula pronta de como viver a vida.

Por isso, acreditamos profundamente que o caminho se faz ao

caminhar. Quando você dá o primeiro passo em busca do que te

conecta com a sua essência, a vida, de algum jeito, vai mostrando por

onde vale a pena seguir.

Chegar até aqui não foi fácil. Não foi um mar de rosas. A estrada não é

só bênção, não é só uma vida incrível e leve o tempo todo. Ela exige

muito exige entrega, tolerância, flexibilidade. É um modelo de vida que

nem todo mundo se encaixaria, justamente por essa intensidade. Todo

dia é uma surpresa. Quando a gente abre a porta da Kombi, nunca

sabe o que vai acontecer e isso pode ser maravilhoso ou desafiador.

Mas, no fim, tudo vale a pena. Porque viver de forma alinhada com a

própria verdade, com os próprios valores, traz uma liberdade mental e

uma cura tão profundas que é difícil colocar em palavras. É sobre isso:

viver de um jeito que faça sentido de dentro pra fora.

Anderson: E, para além de tudo isso, tem algo que a gente sente

muito forte: nós temos 32 e 33 anos, somos da geração dos anos 90.

Crescemos num mundo que ainda carregava os resquícios da vida que

nossos pais viveram. Somos talvez a única geração que viveu essa

grande transição tecnológica: brincamos na rua, vimos a internet

discada nascer e, agora, estamos diante da inteligência artificial

transformando tudo.

Isso gera um caos interno enorme. Quem somos nesse mundo em

constante mudança? Onde nos encaixamos? Qual o nosso papel?

E é por isso que a viagem qualquer que seja, não precisa ser como a

nossa se torna uma ferramenta de transformação tão poderosa.

Quando você se distancia da própria rotina, do seu contexto, do seu


"mundinho", e consegue olhar para tudo de fora, você muda. A

perspectiva muda. E quando volta, você volta diferente. Volta com um

novo olhar para o mesmo lugar.

No nosso caso, chegar ao Alasca e depois voltar para Florianópolis não

é só voltar para casa é ressignificar Florianópolis, nossa família, nossos

amigos, a vida que deixamos para trás. A gente passou a dar valor ao

simples: à relação com minha mãe, com meu pai, com meu irmão,

com meus afilhados. Valorizar ver uma criança crescer, acompanhar

um nascimento, estar presente. Coisas que hoje, muitas vezes, não

podemos viver por causa da estrada.

Perdemos nossas avós enquanto viajávamos. A distância, às vezes, é

cruel. A saudade pesa. E como a Ana costuma dizer: pra viver uma

coisa, a gente sempre vai ter que abrir mão de outra.

Mas quando o sonho é verdadeiro quando ele nasce dentro da gente,

e não é uma expectativa imposta por outros a gente sente. E seguir

esse chamado, mesmo com todos os desafios, faz tudo valer a pena.

Acreditamos que cada pessoa tem uma missão nessa vida. E, de

alguma forma, sentimos que a nossa é essa: viver o que acreditamos

com verdade e inspirar outras pessoas a fazerem o mesmo. A seguirem

seus próprios sonhos. Suas próprias verdades.

E é isso.

Acompanhe a jornada do Casal

Vibe de Dois:

https://vibededois.com

https://www.instagram.com/vibededois/


7 de abril

por Roberto Lívio

O Dia do Jornalista, comemorado em 7 de abril, é uma data

em que se presta homenagem aos profissionais da

imprensa no Brasil. Como olhos e ouvidos aguçados,

jornalistas são responsáveis por coletar, apurar e divulgar

informações de interesse público, às vezes, até arriscando

suas próprias vidas. Por fornecerem as informações

necessárias à comunidade e cobrarem as autoridades, são

considerados "guardiões da democracia".

Por que 7 de abril?

A data foi escolhida em homenagem a João Batista Líbero

Badaró, um importante jornalista do século XIX. Ele foi

assassinado em São Paulo no dia 7 de abril de 1830, em

consequência de suas denúncias contra a corrupção e os

abusos de poder do governo da época. Conhecido por

posições liberais e pela defesa da liberdade de imprensa,

seus artigos criticavam o governo da época e o imperador

Dom Pedro I.

fonte: https://unidade.org.br/memoria-milton-belintani/


A crítica de arte no Brasil:

entre o esquecimento e a reinvenção

Por que críticos e curadores são essenciais para levar a

arte e o pensamento crítico às periferias

Uma exposição que

poucos conhecem

Enquanto este texto é escrito, está

acontecendo em São Paulo uma das

exposições mais importantes dos

últimos tempos: uma retrospectiva

dedicada a Andy Warhol, o artista

americano que criou a pop art um

movimento que revolucionou a arte ao

transformar objetos do cotidiano em

símbolos culturais poderosos. Warhol

desconstruiu barreiras entre o popular

e o elitista, o comercial e o artístico.

por Cassio Fernandes

No entanto, essa exposição, tão rica e fundamental, não

está recebendo a divulgação que merece. Fora dos

grupos já familiarizados com o mundo da arte, poucos

sabem que ela existe. Isso revela um problema maior: no

Brasil, a arte é um território intencionalmente elitizado e

ocultado, principalmente pela falta de políticas públicas

eficazes.

A arte como ferramenta de controle social

No Brasil, a arte muitas vezes é mantida distante das

periferias e das populações mais vulneráveis. O

governo, ao não fomentar políticas que

democratizem o acesso à cultura, contribui para que

essa arte seja exclusiva para poucos, mantendo a

população suburbana e necessitada longe das

ferramentas que poderiam despertar seu

pensamento crítico.


Quanto mais as pessoas são

privadas do contato com a arte e da

possibilidade de reflexão, menos

críticas elas se tornam diante dos

problemas sociais que enfrentam

diariamente. Assim, a elitização da

arte funciona como um mecanismo

silencioso de controle social

mantendo a ignorância e a

passividade.

A arte periférica que incomoda e é

invisibilizada

Enquanto isso, nas ruas das

periferias, a arte acontece de forma

vibrante, potente e urgente mas

segue escondida e invisibilizada

pelo sistema oficial. Os grafites

cheios de cor, que expressam

histórias, protestos e sonhos, são

apagados ou ignorados; os slams e

as rodas de poesia que dão voz aos

marginalizados não recebem o

mesmo espaço nem o mesmo valor.

Essa arte periférica incomoda,

porque ela mostra a realidade nua e

crua, a violência, a desigualdade, a

resistência. Mas, ao invés de ser

acolhida e valorizada, é muitas vezes

marginalizada e silenciada

justamente porque tem o poder de

despertar um olhar crítico que o

sistema quer sufocar.

O papel transformador dos críticos e

curadores

É aqui que entra a importância da crítica e da

curadoria no Brasil. O trabalho desses

profissionais vai muito além de escolher obras

ou escrever sobre elas. Eles são os tradutores da

arte para quem nunca teve acesso a ela. São os

mediadores que levam a arte às periferias, às

escolas, aos espaços onde o olhar crítico precisa

ser despertado.

Esses mediadores ajudam a deixar as pessoas

críticas pessoas que aprendem a enxergar além

da superfície, que entendem os problemas

sociais, que questionam e dialogam com o

mundo onde vivem. Eles são responsáveis por

criar pontes entre a arte e o público

marginalizado, traduzindo linguagens complexas

em experiências que fazem sentido para todos.

A arte que desperta e ensina

A arte tem o poder de mostrar o que muitos

não querem ver — os problemas do país, as

injustiças, as dores e as lutas. Ela é um espelho

que ajuda a sociedade a se reconhecer, a

pensar e a transformar.

Quando essa arte chega aos bairros periféricos,

não é só entretenimento: é educação estética e

política. É uma ferramenta para que as pessoas

possam se posicionar, resistir e até sonhar.


Conclusão: reinventar a crítica para um Brasil mais justo

Reinventar a crítica de arte no Brasil é, acima de tudo, um ato de justiça social. É

garantir que a arte não seja privilégio de poucos, mas direito de todos. É

reconhecer que os críticos e curadores são agentes fundamentais para

transformar a cultura num espaço de liberdade, de questionamento e de poder

popular.

Se queremos um Brasil onde todos tenham voz e vez, precisamos valorizar quem

ajuda a levar a arte e o pensamento crítico para quem sempre foi excluído.

Porque deixar as pessoas críticas é, no fim, deixar que elas vejam, entendam e

mudem o mundo ao seu redor.


A importância do uso de cristais.

Os cristais são ferramentas

especiais e poderosas para

alinhamento dos chacras e

proteção espiritual.

Tem sido utilizado a séculos e

com diversas funções. Um dos

poderes do cristal é amplificar a

energia e sustentar em um nível

alto de energia.

Cada pedra sintoniza e estabiliza

nossa energia, visando a melhora

e o aprimoramento.

Vamos apresentar dois

Pingentes:

Cornalina – segundo chakra,

equilíbrio emocional, trabalha

culpa, ansiedade, traz alegria,

movimento.

Altura: 6 cm

Largura: 3 cm

Comprimento: 6 cm

Peso: 35 g

Quartzo branco transparente –

Todos os chakras, limpeza astral,

proteção, paz, clarividência,

energia, cura, “curandeiro

mestre”, amplifica sua energia

positiva e limpa as negativas.

Altura: 7 cm

Largura: 3 cm

Comprimento: 7 cm

Peso: 45 g

Clique nas imagens para saber mais


AS INTELIGÊNCIAS ARTIFICIAIS NÃO ANULAM

A DIVERSIDADE HUMANA ELAS A

AMPLIFICAM.

QUANTO MAIS PESSOAS ÉTICAS E

CONSCIENTES AS UTILIZAREM, MAIS ESSES

SISTEMAS REFLETIRÃO

O BEM. SE AS PESSOAS DE BEM SE OMITIREM,

INEVITAVELMENTE, OS MODELOS SERÃO

IMPREGNADOS POR OUTROS NEM SEMPRE

COM OS MELHORES PROPÓSITOS

Por Mirna Rubim


INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E ARTISTAS:

O ENCONTRO DE DUAS FORÇAS CRIATIVAS

Desde que defendi meu TCC em Data Science e

Analytics pela USP-Esalq, em 2023, o universo da

Inteligência Artificial avançou em velocidade

galopante incluindo o campo das artes. O que

antes era visto com cautela ou até certo receio,

hoje desponta como um novo território de criação

e colaboração. Se na época a grande questão era

como o ChatGPT afetaria a pesquisa e a

empregabilidade do professor de canto, tema do

meu trabalho, hoje o debate se alargou: será que

as IAs estão apenas auxiliando os artistas ou, de

fato, cocriando com eles?

As ferramentas de IA vêm se tornando

protagonistas na democratização do acesso à arte.

Se por um lado, pessoas sem formação técnica

passaram a experimentar composição musical,

pintura digital e edição audiovisual com um nível

de refinamento que, até pouco tempo, dependeria

de anos de estudo e equipamento caro. Essa

acessibilidade não apenas aproxima o público da

produção artística, como também inaugura novas

linguagens estéticas, em que algoritmos e

sensibilidade humana se entrelaçam. Por outro

lado, os artistas estão se sentindo cada vez mais

ameaçados, principalmente porque vários

cientistas alegam que em meados de 2035 a IA

estará mais inteligente que os humanos. Eu,

sinceramente, não acredito nisso. As IAs podem se

tornar mais inteligentes em algumas áreas de

atividade repetitiva, que os próprios seres

humanos vão sentir tremendo alívio de se livrar

delas. Mas, lembre-se, que são seres humanos que

estão por trás dos códigos das IAs e que esses

códigos podem ser alterados a favor da

humanidade.


Na produção musical, por exemplo, plataformas

como kits.ai substituem com competência partes

do processo antes atribuídas a produtores

humanos uma mudança que traz benefícios

econômicos claros. Contudo, essa mesma

eficiência levanta dilemas importantes. Há uma

crescente preocupação com o uso indevido de

obras protegidas para treinar modelos de IA, sem

o devido consentimento dos autores. A questão

dos direitos autorais, que já era complexa no

meio digital, torna-se ainda mais delicada

quando vozes, rostos e estilos são reproduzidos

sem a mediação do criador original. Obviamente,

como é abordado na Europa, a regulação das IAs

é um tema urgente e prioritário. Essas

ferramentas estão correndo soltas agora mas as

regulações pelas instituições e pelos próprios

seres humanos serão feitas. Lembre-se: estamos

no olho do furacão da disruptura. Daqui a dez

anos poderemos olhar pra traz e analisar tudo

isso com mais dados e certezas. Além disso,

artistas começam a notar uma padronização

criativa: ao confiar demasiadamente em

sugestões automatizadas, corremos o risco de

homogeneizar a produção artística algo que vai

na contramão da própria essência da arte, que é,

por definição, diversidade e risco.

Soma-se a isso um impacto profundo e ainda

pouco discutido sobre o sistema de ensino.

Ao assumirem o papel de assistentes criativos

e provedores de conteúdo sob demanda, as

IAs desafiam o modelo tradicional de

aprendizagem baseado na mediação

constante de um professor. Isso não significa

que o educador perderá relevância ao

contrário, ele será ainda mais necessário

como curador, facilitador e guia crítico nesse

novo ecossistema. Mas será preciso repensar

o que se ensina, como se ensina e, sobretudo,

qual o valor da experiência humana nesse

processo. Ignorar essa mudança seria perder

uma oportunidade de evolução e abrir

espaço para a desinformação e o ensino

superficial se consolidarem como norma.

Economicamente, as estimativas não são

animadoras. Segundo relatório recente

publicado pelo El País, espera-se que, até

2028, a IA reduza em mais de 20% os

rendimentos dos setores musical e

audiovisual. Isso significa menos

remuneração para músicos, editores,

compositores e intérpretes. Ainda assim,

essa ameaça pode e deve ser mitigada com

regulamentações claras e o

desenvolvimento de tecnologias que

garantam a autoria e a originalidade das

obras.

Por outro lado, o World Economic Forum

aponta que, paralelamente à substituição

de funções tradicionais, haverá a criação de

novos empregos impulsionados pela

própria adoção da inteligência artificial.

Áreas como educação vocacional,

treinamento personalizado, curadoria de

dados, desenvolvimento de conteúdo

interativo e supervisão ética de sistemas

automatizados tendem a crescer nos

próximos anos. Trata-se, portanto, não

apenas de proteger profissões existentes,

mas de preparar as próximas gerações para

ocupar os novos espaços que já estão

surgindo.


Diante desse novo cenário, garantir a

proteção dos criadores torna-se uma

prioridade estratégica. Tecnologias

específicas vêm sendo desenvolvidas para

mitigar o risco de plágio e uso indevido de

obras artísticas. Algoritmos de verificação

textual e sonora, marcas d’água digitais

invisíveis e sistemas baseados em

blockchain já estão sendo aplicados para

rastrear autoria, validar originalidade e

registrar transações com mais segurança.

Embora ainda não amplamente difundidos,

esses recursos apontam caminhos

promissores para equilibrar inovação

tecnológica e justiça autoral, fortalecendo a

confiança de artistas e educadores nesse

ecossistema digital em transformação.

A verdade é que a IA não veio para substituir

os artistas, mas para ampliá-los. Ela

funciona como uma extensão técnica da

nossa criatividade. Pode sugerir harmonias,

oferecer ideias visuais ou realizar testes de

conceito que levariam dias em poucos

minutos. Pode analisar dados de público,

afinar a distribuição de conteúdo e até

prever tendências estéticas. Ela não pensa

como nós e justamente por isso nos desafia

a ir além.

No meu caso, interagir com a IA é como

conversar com uma versão aprimorada

de mim mesma. Alimentada pela minha

linguagem, histórico de pesquisas,

preferências e projetos, ela me ajuda a

tomar decisões estratégicas, revisar

conteúdos pedagógicos, organizar lives

com convidados renomados, propor

roteiros, escrever epígrafes para peças

de teatro, ajustar minha comunicação

nas redes e até planejar cronogramas de

postagens. Já reestruturei cursos, refinei

meu discurso artístico e encontrei

caminhos criativos para unir minhas

múltiplas facetas como cantora,

professora e empreendedora. Mais do

que uma ferramenta, ela se tornou uma

parceira ativa do meu processo de

criação.

Essa parceria entre artista e inteligência

artificial tem se mostrado especialmente

fértil no universo do canto, da pedagogia

vocal e da musicalização. No meu dia a

dia, já utilizo ferramentas como o PRAAT

e o VoceVista Video Pro para análises

acústicas detalhadas. No campo da

percepção musical, plataformas como

EarMaster e TonedEar oferecem

exercícios personalizados. Para a

composição assistida, AIVA, Amper Music

e Soundraw têm se mostrado valiosas

aliadas. Já os softwares de voz sintética,

como Descript, Respeecher e Voicemod,

vêm sendo explorados em contextos

pedagógicos e artísticos. Mais

recentemente, o uso de IA generativa

para criar arranjos vocais

estilisticamente coerentes vem

ganhando destaque. Na Tabela 1 eu

preparei um roteiro com essas

ferramentas e os dados principais para

sua utilização.


Tabela 1 – Lista de sugestão de IAs para músicos

Nome

Categoria

Principais

Recursos

Preço

Usabilidade

para

Professores de

Link

PRAAT

Análise Vocal

Análise de

espectrograma,

formantes, pitch,

intensidade

Gratuito

Alta – útil para

análise técnica

da emissão vocal

https://www.fon.

hum.uva.nl/praa

t/

VoceVista Video

Pro

Análise Vocal

Visualização de

formantes e

harmônicos em

Pago (licença

única)

Muito Alta –

excelente para

visualização em

https://www.voc

evista.com/

EarMaster

Treinamento

Auditivo

Exercícios de

percepção,

solfejo, leitura

Versão gratuita e

paga

Alta – ideal para

treinar afinação

e leitura

https://www.ear

master.com/

TonedEar

Treinamento

Auditivo

Intervalos,

acordes, escalas,

ditado melódico

Gratuito

Média – bom

complemento

para aulas

https://tonedear.

com/

AIVA

Composição

Musical

Geração de

trilhas musicais

com IA

Versão gratuita e

planos pagos

Média – útil para

explorar

estrutura

https://www.aiva

.ai/

Amper Music

Composição

Musical

Criação de

música

personalizada

Integrado ao

Shutterstock

Baixa – mais

voltado a trilhas

sonoras

https://www.shu

tterstock.com/di

scover/ai-music-

Soundraw

Composição

Musical

Geração de

música com

personalização

Pago

Média – útil para

experimentação

criativa

https://soundra

w.io/

Descript

Voz Sintética

Edição de áudio,

voz gerada por

IA, transcrição

Versão gratuita e

planos pagos

Alta – ideal para

criar maquetes e

revisar falas

https://www.des

cript.com/

Respeecher

Voz Sintética

Clonagem de

voz, dublagem

realista

Sob consulta

Baixa – uso mais

técnico e

comercial

https://www.res

peecher.com/

Voicemod

Voz Sintética

Modulação de

voz em tempo

real

Versão gratuita e

paga

Média –

interessante

para estudo de

https://www.voic

emod.net/


Em um cenário que se reinventa a cada clique, é urgente que artistas, educadores e

pesquisadores compreendam a IA não apenas como um fenômeno tecnológico, mas

como uma força cultural. Seu avanço é irreversível, e seu impacto, profundo.

Considerando os aspectos éticos envolvidos, é preciso destacar um ponto crucial.

Tenho escutado, com frequência, um temor crescente sobre o mau uso das IAs. E,

de fato, o risco existe. Os seres humanos são diversos sempre haverá quem atue

com integridade e valores sólidos, assim como haverá quem distorça os recursos

disponíveis por interesses questionáveis.

As inteligências artificiais não anulam essa diversidade: elas a amplificam.

Potencializam o que cada um carrega dentro de si. Por isso, defendo com convicção

que quanto mais pessoas éticas, generosas e conscientes estiverem utilizando e

alimentando esses sistemas, mais esses modelos refletirão o bem. Se as pessoas de

bem se omitirem, inevitavelmente, os modelos serão impregnados por outros —

nem sempre com os melhores propósitos.

Referências

1.DZ Techs. A geração de arte com IA: questões

éticas, vantagens e desvantagens. https://pt.dztechs.com/ai-art-generation-ethical-proscons

2.Kits.ai. The Pros and Cons of AI in Music

Production. https://www.kits.ai/pt/blog/thepros-and-cons-of-ai-in-music-production

3.Aela.io. Como a IA está mudando a arte.

https://www.aela.io/ptbr/blog/conteudos/inteligencia-artificialcomo-a-ia-esta-mudando-a-arte

4.El País. La IA recortará los ingresos de la

música e do setor audiovisual em mais de um

20% em 2028.

https://elpais.com/cultura/2024-12-04/la-iarecortara-los-ingresos-de-la-musica-y-elsector-audiovisual-en-mas-de-un-20-en-

2028-segun-un-informe-internacional.html

5.Tracklib. Veekens, D. Fake features: is there a

way to legally use AI generated vocals in music?

https://www.tracklib.com/blog/legally-use-aigenerated-vocals

6.UNESCO. Recomendação sobre a Ética da

Inteligência Artificial. 2021.

https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf00

00381137

7.World Economic Forum. The Future of Jobs

Report 2023.

https://www.weforum.org/reports/thefuture-of-jobs-report-2023

8.USP-ESALQ. Rubim, M. O impacto do ChatGPT

na pesquisa e empregabilidade do professor de

canto. TCC. MBA em Data Science and

Analytics. Universidade de São Paulo –

ESALQ, 2023.


Os pequenos influencers

e a sua alta exposição nas mídias

por Amanda Ricco

Em busca de engajamento, os pais transformam a rotina dos filhos

em conteúdo digital, levantando questionamentos sobre

privacidade, consentimento e segurança infantil na internet.

Antes mesmo de nascerem, muitas crianças já fazem parte do

universo das redes sociais. Publicações de ultrassom, quartos

decorados e enxovais personalizados costumam marcar a estreia

digital de quem ainda nem deu os primeiros passos.

O tema voltou a ganhar destaque após a influenciadora Virginia

Fonseca comparecer à CPI das Apostas Esportivas em abril de 2025

usando um moletom estampado com a imagem da filha Maria

Flor e a frase “Floflo biruta”, bordão associado à criança. O gesto,

feito diante das câmeras da televisão e do Congresso Nacional,

suscitou críticas sobre o uso da imagem da filha em espaços

públicos e reacendeu o debate: até que ponto essas crianças

participam desta exposição por escolha própria?


A prática de expor filhos nas redes

sociais não é novidade entre

celebridades, mas, com o

crescimento dos influenciadores

digitais, ganhou nova dimensão.

Virginia Fonseca, que acumula mais

de 45 milhões de seguidores,

compartilha diariamente momentos

da vida das filhas, gerando uma

legião de fãs adultos que

acompanham as crianças como

personagens de um reality show.

Com fãs clube das filhas Maria Alice e

Maria Flor, ambas pequenas, já são

comparadas e até antagonizadas por

seguidores.

Em contrapartida, a influenciadora

Viih Tube, que também é mãe e

expõe suas filhas e seu filho nas redes

e tem uma linha com produtos

voltados para crianças e bebês,

adotou uma postura mais cautelosa.

Em entrevista à revista Quem (edição

de abril de 2025), ela afirmou manter

uma relação longa e próxima com o

público, mas toma cuidados para

preservar a privacidade da filha,

como postar vídeos em horários

variados. “Vai ser um desafio, porque

nossos filhos nasceram com uma

mochila nas costas que não

escolheram, por terem pais públicos”,

declarou a criadora de conteúdo.

Na mesma edição, Virginia Fonseca

reconheceu a alta exposição das

filhas, mas disse não pretender

mudar sua postura: “Eles vão ter que

seguir o que eu fizer. Quando forem

maiores de idade e não quiserem,

tudo bem. Mas enquanto forem

menores, vai ser o que eu mandar.”

A exposição de crianças nas redes

sociais tem despertado alertas de

campanhas e órgãos de proteção. O

portal oficial do Governo Federal,

Gov.br, publicou em março de 2025 a

matéria “Campanha conscientiza

famílias sobre riscos de exposição de

crianças na internet”, destacando os

perigos da superexposição digital,

como assédio, uso indevido de

imagens e impactos no

desenvolvimento emocional das

crianças.

Em um cenário onde “crianças fofas”

geram curtidas e lucro, é essencial

lembrar: a infância não deveria ser

conteúdo, nem palco. Deveria ser,

antes de tudo, preservada.


C U I D E , A C O L H A E A M E !

PROTEGER OS ANIMAIS SELVAGENS É PROTEGER A

NÓS MESMOS. QUANDO PERDEMOS UMA ESPÉCIE,

PERDEMOS UMA ENGRENAGEM DA MÁQUINA DA

VIDA. ELES MANTÊM O AR QUE RESPIRAMOS, A

ÁGUA QUE BEBEMOS E OS SOLOS QUE CULTIVAMOS.


Tire seu livro da gaveta, do pendrive, do

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O dia só

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É como se, ao cantar, os personagens

nos emprestassem seus abismos. Suas

dores ressoam como ecos dos nossos

próprios silêncios. E talvez por isso a

ópera nos transforme tanto: ela nos

devolve partes esquecidas de nós

mesmos.

Mas o que, exatamente, a ópera

revela? E por que ela nos comove tão

profundamente, mesmo quando não

entendemos a língua em que se

canta?

Quando a Ópera Canta o Inconsciente

A alma humana em estado de

espetáculo: Freud, Jung e Laing no

palco da voz.

Por Maude Salazar autora do livro Yoga da Voz

Três pensadores ousaram olhar para

dentro da alma humana, Freud, Jung

e R. D. Laing, e, a partir deles,

podemos entender a ópera não só

como arte, mas como espelho do

inconsciente.

Introdução: Um palco chamado

alma

A cortina se abre. A orquestra anuncia

os primeiros acordes. Uma mulher

entra em cena, ofegante, com os

olhos marejados, e começa a cantar.

Mas o que ela canta não é apenas sua

história, é a nossa. A ópera não é só

entretenimento: é uma linguagem do

invisível. Ali, no exagero das emoções,

no esplendor das vozes, algo de muito

profundo se manifesta. Algo que

escapa à lógica e à razão, mas que

fala diretamente à alma.

Freud: A voz como retorno do

recalcado

Para Freud, o inconsciente guarda

tudo aquilo que reprimimos: desejos

inaceitáveis, dores antigas, memórias

silenciadas. Mas o que é recalcado

sempre retorna, às vezes nos sonhos,

às vezes na arte.

A ópera, sob essa luz, seria uma

formação de compromisso: um

espaço onde o desejo retorna

disfarçado de canto. É o que vemos

na célebre cena da loucura de Lucia

di Lammermoor, de Donizetti. Lucia


não fala, ela canta. E nesse canto, o

que emerge é um colapso emocional

que palavras não dariam conta de

expressar. É o inconsciente em plena

cena.

Para Freud, essa sublimação permite

que o que foi recalcado encontre

forma simbólica. O palco vira divã. E a

plateia, ao escutar, também elabora.

Jung: Arquétipos em cena.

Já para Jung, o inconsciente é mais

que pessoal, ele é coletivo. Em cada

um de nós, habitam imagens

universais: a mãe, o herói, o velho

sábio, a criança ferida. Essas imagens,

os arquétipos, estruturam nossas

experiências mais profundas.

E onde estão os arquétipos, senão na

ópera? Tosca, Carmen, Wotan, Violetta,

Don Giovanni, são mais do que

personagens: são espelhos dos

dramas humanos que atravessam

séculos. A jornada de cada um deles

ecoa rituais ancestrais, mitologias

esquecidas, dilemas eternos.

A ópera, assim, se torna uma travessia

simbólica. Cada ária é uma iniciação.

E quando escutamos profundamente,

algo em nós desperta, como se uma

parte antiga, arquetípica, fosse tocada

.

Laing: A loucura tem algo a dizer.

sintomas são mensagens, modos

legítimos de expressar uma dor que

não encontra lugar na sociedade.

Talvez por isso a ópera seja tão

poderosa: porque ela não tem medo

da intensidade. Ao contrário: nela, as

emoções são amplificadas. A raiva vira

vendeta, o ciúme vira punhal, a dor

vira canto.

E é na ópera que encontramos

algumas das mais belas

representações do desamparo

psíquico. Não é à toa que tantas

heroínas enlouquecem, Lucia, Elvira,

Ophelia. Mas na ópera, ao contrário da

vida, a loucura é dignificada. Ela é

ouvida. Ela canta.

A voz como fenda simbólica.

Mais do que palavras, a ópera nos toca

pelo som. Pela vibração da voz. Pelo

que ela carrega de indizível. A voz é

corpo. É desejo. É ausência. É resto,

aquilo que escapa ao significado, mas

insiste em existir.

Em uma nota sustentada, em um

vibrato de dor, em um agudo quase

impossível, há algo que não se explica,

apenas se sente. É nesse ponto que o

canto lírico nos atravessa. E se torna,

ele próprio, experiência de cura.

R. D. Laing nos convida a ir além: ele

não vê a loucura como falha, mas

como linguagem. Para ele, os


Epílogo: Escutar é amar o que ainda

não tem nome.

Talvez a ópera nos encante tanto

porque ela permite que o

inconsciente se manifeste sem pedir

desculpas. Ali, não há censura. Não há

moderação. Só emoção em estado

puro.

Escutar uma ópera, então, é mais do

que apreciar uma arte. É aceitar ser

tocado pelo que há de mais humano:

nossas feridas, nossos desejos, nossas

contradições. É deixar que a música

nos diga algo que ainda não sabíamos

sobre nós mesmos.

E, no fundo, é isso que a arte faz de

mais belo: ela canta o que a alma

ainda não ousou dizer em voz alta.


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CHEF

LUIZ THOMÉ

“Seu Luiz” como

carinhosamente é

conhecido, nasceu em

São Tomé das Letras.

Hoje vai nos apresentar

“Escondidinho de

Costelinha com Purê

de Mandioquinha e

Queijo Canastra”

“Seu Luiz” é especialista

em Buffet à moda

Mineira. Ganhou o

mundo com a culinária

de Minas Gerais.


Ingredientes

Ingredientes:

Para o recheio (costelinha):

800g de costelinha de porco

em pedaços pequenos

1 colher (sopa) de banha de

porco ou óleo

1 cebola roxa picada

3 dentes de alho amassados

1 colher (chá) de colorau

Sal e pimenta-do-reino a

gosto

1/2 xícara de cachaça

(opcional)

1 colher (chá) de melado de

cana (toque especial)

Cheiro-verde picado a gosto

Para o purê:

500g de mandioquinha

(batata-baroa) cozida e

amassada

2 colheres (sopa) de

manteiga

100 ml de creme de leite

Noz-moscada ralada a gosto

Sal a gosto

100g de queijo Canastra

ralado grosso

Sugestão de

acompanhamento:

Uma salada de folhas

amargas com vinagrete

de jabuticaba ou um

arroz de ora-pro-nóbis.

Modo de preparo:

1. Recheio de costelinha:

1.Tempere a costelinha com sal,

pimenta, alho e colorau. Deixe

marinar por 30 minutos.

2.Em uma panela quente com

banha, doure bem a carne.

Adicione a cebola e refogue.

3.Se quiser um toque especial,

flambe com a cachaça (ou apenas

adicione e deixe evaporar).

4.Junte o melado de cana e um

pouco de água. Cozinhe até a carne

ficar bem macia e caramelizada.

5.Finalize com cheiro-verde e reserve.

2. Purê de mandioquinha:

1.Em uma panela, aqueça a

manteiga e junte a mandioquinha

amassada.

2.Adicione o creme de leite e mexa

até formar um purê cremoso.

3.Acerte o sal, rale um pouco de nozmoscada

e misture bem.

3. Montagem:

1.Em um refratário untado, faça uma

camada com o purê, outra com a

costelinha e cubra com mais purê.

2.Salpique o queijo Canastra por

cima.

3.Leve ao forno a 200°C por cerca de

15 minutos ou até gratinar.


Lívia e Janaina

Ientrevistadas por Regina Papini Steiner


Em um universo da moda

que ainda insiste em

padrões rígidos e

narrativas elitistas,

a Ken-gá Bitchwear surge

como grito, festa e

manifesto.

Criada por Lívia Barros, de

Bauru (SP),

e Janaína Azevedo,

de São Paulo.

A marca é mais do que roupa: é performance, afeto e

insubordinação. Nascida em 2016, a Ken-gá desafia a estética

tradicional ao vestir corpos dissidentes com orgulho e

irreverência, costurando memórias afetivas com desejos

contemporâneos de liberdade e representatividade.

De bolsas em formato de bolo a vestidos que parecem ter saído de

um sonho kitsch de infância, cada coleção conta uma história

muitas vezes pessoal, sempre política.

A mais recente, “Glacê”, apresentada na 54ª Casa de Criadores, é

um mergulho doce e provocador nas festas de aniversário que

marcaram a infância das criadoras. Aqui, babados não são apenas

ornamentos: são escudos de identidade e expressão.

Na passarela da Ken-gá, cabem todas as existências que a moda

tradicional costuma ignorar com glitter, riso e resistência.

E é exatamente por isso que elas são ICONIC.


Qual foi a inspiração de vocês para

criar a marca?

Lívia: A marca, ela nasceu em 2016.

Eu estava numa fase querendo voltar

para a moda. Eu me formei em

moda. Estava passando um tempo

trabalhando com outras coisas. E aí

senti um desejo enorme de usar um

maio dourado. E aí não encontrava

esse maio dourado. Daí eu falei, bom,

tá aí, vou fazer uma marca. Aí surgiu

o nome de umas brincadeiras e tal. Aí

eu falei, bom, vai ser uma coisa de

moda praia. Mas também tem uma

coisa que não é só moda praia. Então

vai ser Beachwear. Aí a gente criou,

eu criei o nome Kenga Beachwear.

Falei para todo mundo. Um monte de

gente falou que jamais ia dar em

nada esse nome. Não ia pegar. Mas

eu falei: vai rolar. Eu acredito no meu

nome. Falaram para várias pessoas

no processo. Eu acredito. Eu acho

que vai rolar. Aí fui fazendo, fui

modelando. Fui criando a primeira

coleção. E aí a gente lançou em

dezembro de 2016.

Vocês duas são estilistas?

Lívia: Eu sou estilista. Ela é minha

parceira. E aí quando eu lancei a

marca, calhou que ela tinha sofrido

um acidente.

Ela ficou muito em casa, desde

aquele momento embrionário do

desejo. Foi ali que comecei a pilotar a

primeira coleção — o primeiro passo,

literalmente, para transformar em

realidade um conceito que viria a se

tornar o Kenga Beachwear.

Nesse processo, ela começou a me

ajudar. E, curiosamente, apesar de

sempre achar que não gostava de

moda, afinal, Janaína é médica, foi se

envolvendo cada vez mais. A gente

passou a trabalhar juntas nessa

empreitada.

Janaina: No comecinho da marca,

uma coisa que eu queria dizer. Ela

queria brincar. Quando ela deu o

nome Kenga Beachwear. Ela queria

brincar com essa coisa da palavra

Kenga.

Lívia: Sou nascida em Bauru. Então

qualquer coisa que você faz ali fora

da curva. Você já é a Kenga. É

verdade. Esse preconceito besta.

Exatamente. Pinta um cabelo. É uma

coisa muito alucinante. Eu desde

adolescente não me conformava.

Imagina. A marca nasceu desse

desejo. Tanto de ter um maiô

dourado assim. Que tivesse uma

gama de tamanhos maior. Porque na

época, eu lembro que eu cheguei até

em uma época. Uma loja

experimentar.


Janaina: Essa foi a vontade dela

entende? Rompeu uma barreira ali

nesse espaço.

Lembro que, quando começamos lá

em 2016, só de mencionar a palavra

“feminismo” já era um choque. As

pessoas torciam o nariz, diziam: “Ah,

não fala disso na sua marca, isso não

vai dar certo”. Era sempre o não: “não

isso”, “não aquilo”, “melhor não

mexer com esses temas”.

Mas ela veio justamente com a

proposta de subverter tudo isso, de

provocar uma mudança de

mentalidade. Queria dar um novo

significado às coisas, quebrar

padrões. Naquela época, até o nome

“Ken-ga com K” era algo impensável.

Ninguém usava, ninguém falava. Era

quase uma provocação.

E olha só: já tentaram até roubar o

nome da minha marca, o Beachwear.

Tentaram registrar, mas já estava

protegido. Isso só mostra que o que

parecia ousado demais lá atrás, hoje

é reconhecido como referência.

Funcionou.

Lívia: Sim, com certeza, deu um

toque fundamental. E é

impressionante como muita gente

não quer criar, só copiar. Vê que está

fazendo sucesso e já quer surfar na

onda dos outros.

Ainda bem que está tudo registrado,

tudo certinho, com a empresa

estruturada — porque isso é

essencial. E aí está a grande diferença

da Kenga: enquanto muitas marcas

seguem fórmulas prontas, a Kenga

veio com propósito, com identidade

própria, rompendo com o

convencional.

Janaina: Esse novo olhar. Era um

olhar ousado, mas sempre com bom

humor. Inclusive no que diz respeito

aos tamanhos a gente já trazia

opções além dos padrões

convencionais. E olha, até hoje o

mundo ainda peca muito nisso.

Naquela época, então, falar de

inclusão e diversidade nas passarelas

era quase inexistente. Era outro

cenário, bem diferente mesmo.

De lá pra cá, as coisas mudaram, sim

foram quase dez anos de

transformação. Mas ainda tem muito

caminho pela frente.

Lívia: A gente estava ali desde o

começo. Para a gente, sempre foi

algo natural. Não era uma bandeira

levantada por conveniência.

Janaina: A gente é LGBT, eu sou uma

mulher gorda, nossas amigas trans

sempre estiveram com a gente era o

nosso cotidiano, nossa vivência real.

Por isso, a inclusão e a diversidade

sempre fizeram parte da essência da

marca, de forma orgânica. Naquela

época, poucas marcas se

posicionavam assim. Até existiam,

mas nada comparado ao movimento

que vemos hoje.

Não falava-se tanto quanto fala-se

hoje.


Lívia: A gente estava ali assim, né?

Janaina: E ver quanta gente que

desfilou para a gente. Por exemplo,

tem a Verônica Valentino, que foi

atriz, ela ganhou o prêmio APCA. Pelo

Teatro com a Brenda. Ela cantou no

primeiro desfile.

Como a Ken-gá entende o papel da

moda como ferramenta de luta por

representatividade e transformação

social?

Lívia: Eu acho que é isso, é

fundamento da marca, né? A gente

está sempre ali buscando assim,

trazer tudo que faz parte do nosso

universo, do nosso mundo, também

sendo LGBT, ela como mulher gorda,

a gente vai trazendo ali tudo que

soma, né?

Janaina: Eu acho assim, né? Existem

alguns tipos de moda, existe a moda

dos criadores, essa moda

embrionária, a moda das marcas

autorais, que começa com essa

mudança, que são esses criadores

criativos que começam com a

mudança, porque a gente não tem a

pressão do capitalismo, das coisas

em cima, né? Então, é com pessoas

que começam e que pedem essas

mudanças. Depois que isso começa a

girar, aí que a outra moda, que é a

moda da venda, a moda mais

capitalista, aí que ela começa a tentar


se mexer, né? Depois que começam

essas demandas. Então, por exemplo,

o racismo estrutural na moda. Então,

não tinha ninguém que pegava, que

colocava as mudanças negras na

passarela. E aí começa-se a fazer, em

certos lugares, e aí a moda inteira se

reclama e a moda inteira se mexe

para começar a fazer. Então, a gente

tem essa parte criativa da moda, que

é ela que se mexe. E representativa.

Isso, isso. Que contrapõe com essa

outra parte da moda, né? Que é

bem..’establishment”..Que é a moda

conservadora e tal. Então, existe essa

dicotomia, né? Que é aquela coisa do

ganhar dinheiro, da moda que

precisa comprar e tal, e dessa coisa

da criatividade, né? As coisas meio

que caminham, parece uma

dicotomia, um paradoxo, mas

caminham juntas.

O que cada nova coleção da Ken-gá

quer dizer ao mundo?

Lívia: Eu acho que cada coleção traga

a sua própria história, seu próprio

tom, assim. A gente sempre quer que

a pessoa se emocione com aquilo.

Era muito legal de desfilar, eu acho

que a gente começou a desfilar já em

2017, 2018, né? Então, está junto na

trajetória da marca. A gente passou a

se comunicar muito por esse

momento que a gente criava o

conceito, criava a história da coleção,


e aí criava o universo todo dali. Esses

universos transitavam entre sempre

o humor, a crítica política, alguma

forma de subverter alguma coisa

sempre, que as nossas coleções

sempre têm essa questão dessa

subversão, que está ali, é um dos

pilares da marca.

Então, cada coleção a gente quer

trazer uma coisa, nessa última glacé a

gente trouxe uma coisa nostálgica,

uma memória, uma coisa bucólica, a

questão de achar que é uma marca. A

gente tem esse nicho que a gente

criou no nosso nicho, mas é uma

roupa assim, quando você quer se

sentir bem, é uma roupa que você

escolhe, porque pelos clientes, pelo

feedback que a gente tem, é muito

esse lugar que a gente acha muito

especial. Então, a gente, cada história

é uma. A glacê foi essa coisa bucólica,

no fim do ano a gente lançou um

apocalipse, que a gente não sabia

que era o que ia acontecer. Então, a

gente queria fazer essa coisa de

questionar as escolhas de tudo em

volta da nossa volta, toda a situação

que a gente está vivendo no mundo,

se o mundo terminasse, o Brasil com

certeza ia ser um carnaval. A nossa

próxima coleção vai vir uma coisa

mais apaixonada, uma coisa mais

intensa.

maneira como a gente vê as coisas,

como a gente entende as coisas.

Então, o que a gente mostra em cada

coleção é uma parte do que a gente

vive, é uma parte do que nós somos.

Então, teve a Sabadão Kenganejo, que

foi um homenagem à avó da Lívia,

que eram as nossas lembranças de

quando a gente vivia em casa, a coisa

do carnaval, que a gente ama o

carnaval, a gente quis misturar com

essa coisa da urgência ambiental,

como se o mundo fosse acabar.

Então, eu acho que na verdade o que

a gente quer transmitir para as

pessoas, que as pessoas sintam, é a

nossa maneira de ver o mundo, é a

nossa maneira de existir no mundo e

a nossa maneira de transformar isso

em roupa.

Janaina: Eu acho que uma coisa que

a gente quer mostrar, que a gente

chama de “kengaverso”, a gente gosta

de mostrar o nosso mundo, a


Como a Ken-gá enfrentou os desafios

do período da pandemia?

Lívia: Foi muito louco, porque a

gente estava no momento onde a

gente estava com altos planos. A

gente tinha vivido um carnaval, o

carnaval sempre é um momento que

a gente acha que as pessoas se

identificam mais, que elas se sentem

mais na liberdade de usar. Então, a

gente tinha vivido um momento

perfeito, um lugar perfeito, fechei

contratos, fechei tudo, enfim.

Uma semana, aí entrou o COVID. Aí

eu fiquei com aquela situação, meu

Deus, acabei de assumir aqui um

compromisso, aí eu pensei, na minha

cabeça, naquele momento, eu falei, é

coisa de três meses, daqui a três

meses tudo vai voltar. Fiquei com a

loja, falei, não, tudo bem, onde a

gente pudesse produzir e tal, não

tinha maquinário, aí colocamos o

maquinário e começamos, eu

primeiramente eu sozinha

produzindo, aí depois quando teve a

abertura veio uma costureira e aí a

gente conseguiu, querendo ou não

nessa época, até aumentar nossa

estrutura, que a gente não tinha

Atelier, passou a ter, o que fez muita

diferença naquele momento, foi um

ano muito legal para a marca, que a

gente teve bastante relevância no

cenário, que a gente fez um vídeo

que foi muito legal, saiu várias

mídias, foi um momento bom para a

marca, por incrível que pareça, mas a

questão de produção, aquela coisa, a

loja em si, a gente conseguiu manter

o período, mas acabou não rolando,

que foi um período realmente muito

desafiador, mas teve essa coisa da

gente acreditar e falar, vamos investir

no Ateliê, então a gente conseguiu

manter o período, porque foi ótimo,

porque ela acabou conseguindo ficar,

a gente tinha uma coisa para se

ocupar também, nesse momento que

era, foi até quando a gente começou

a curtir mais, a gente conseguiu

poder produzir sem tanta pressão,

sem aquela coisa desse aceleramento

que a moda tem.

Como funciona o seu processo criativo?

Quais são as referências e estilos que te

inspiram mesmo trazendo algo tão

autoral?

Lívia: Temos os grandes estilistas, a

gente é apaixonada pelo Galliano, a

gente sempre tem essas grandes

referências, que acho que é algo

imaginário, imaginares, eu gosto

muito da moda do 70, de 80, aquele

tema lá, o Courrèges, então tem

essas referências, mas são coisas que

moram meio que no meio imaginário,

então às vezes você busca uma coisa

ou outra, mas principalmente a gente

está ouvindo uma música, daí você

fala, nossa, isso aqui é assim, daí a

gente sempre vem primeiro com o

nome da coleção, que vai dar o tom,

e a trilha sonora, que máximo! Nossa,

eu acho que é isso.


Nossa, é bem isso mesmo. Vou

buscando inspiração em tudo ao meu

redor. Às vezes, é algo do passado —

tipo uma vibe dos anos 70, uma

estética que vi num clipe, numa

imagem antiga… Outras vezes, é algo

que vejo na rua, no dia a dia.

Teve uma vez, por exemplo, aqui perto

da minha casa, que um morador de

rua criou umas intervenções no chão,

com objetos presos de um jeito muito

único. Aquilo me tocou de verdade. Eu

estava trabalhando em umas peças de

escultura na época, e me inspirei nele.

É verdade, olha só! Acho que é o que a

gente já falou, acho que é um luxo a

gente poder ter essa liberdade, como

é uma marca que já tem todas essas

liberdades, a gente engatou nisso aí,

falou, não, não vou me obrigar a ficar

nessa coisa, de ter a tendência, de ter

que seguir por aquele caminho,

embora muitas vezes a gente esteja ali

transitando junto.

A Ken-gá se preocupa com o meio

ambiente? De que forma isso aparece

nas criações?

Lívia: Com certeza, temos sim e, para

falar a verdade, sempre foi algo muito

natural para a gente. Desde o início,

essa consciência ambiental já fazia

parte do nosso processo. Lembro que,

na primeira coleção, quando fui atrás

dos tecidos, já busquei materiais que

tivessem uma

história, uma origem diferente.

Um exemplo marcante foi o macacão

de lurex da segunda coleção, que fez

muito sucesso. O tecido era de um

lote encalhado numa loja do Bom

Retiro, que eu conhecia desde a

época da faculdade. Aquilo me

marcou. Quando vi que ainda estava

lá, comprei o lote inteiro. Usei tudo e,

no fim, esgotou. Foi ótimo

reaproveitamento com propósito e

estilo.

Teve uma coisa de influenciar, pelo

menos uma coisa local, que foi muito

louca, e daí passou, até passaram a

pedir mais, mas aquele lote estava lá

na parada, eu já tinha 10, 15, 20 anos

já. A gente compra muito lote. A

gente trabalha muito com tecido de

reúno, a gente fica bem busca, ter o

mínimo de...

Janaina: A gente reaproveita a peça.

Lívia: Até durante a pandemia isso

ficou muito evidente. A gente tem

uma parceria forte com uma fábrica

de tecidos, então já tínhamos ali

materiais de qualidade em mãos. E

num momento em que não dava

nem para sair e comprar mais nada, a

gente olhou para dentro literalmente

e usou tudo o que já tínhamos

disponível.

É assim que a gente trabalha: os

materiais entram, mas passam por

um processo. Nada é feito às pressas

ou por impulso. Cada peça tem um

tempo, uma história e uma intenção.


E as peças do ateliê de acervo, a

gente faz alocação para fazer rodar e

não ficar parada esse monte de peças

do acervo. E, uma vez rodada, a gente

faz um balcão para vender as peças.

E como é que vocês equilibram a

estética, o conforto e o discurso político

nas roupas?

Janaina: Quando a gente fazia os

brincos de acrílico, a gente usava de

resto os acrílicos. Os acrílicos

também, que eram acrílicos de reuso,

de refugo, isso já sempre teve

associado.

Lívia: Porque também, no começo,

quando você é pequena, daí acaba

não conseguindo comprar, e vira uma

coisa que foi natural, dá novas

chances. Olha com um novo olhar,

nunca nada é descartado, e hoje

também a gente trabalha

principalmente com a alocação do

nosso acervo, que a gente se viu com

um monte de peças aqui, a gente

sempre vai e refaz para o cliente.

Hoje, a gente optou por não fazer

mais produções em larga escala.

Preferimos manter esse cuidado de

produzir de forma consciente. Até

existe demanda por mais peças, mas

não acreditamos em produzir só por

produzir — não faz sentido deixar

produto parado.

Então, adotamos medidas que, pra

gente, já se tornaram naturais:

produzir de forma mais enxuta, com

propósito e responsabilidade.

Lívia: Eu acho que é assim, essa coisa

de tudo se encaixar, acaba sendo

meio natural. Desde a primeira peça

do Maiô Dourado, do Fatídico,

desenvolvi um tecido, desenvolvi um

acabamento, fui para a praia, fui para

a piscina, pesquisei se o peito pulava,

pulava, daí tinha uma coisa que eu

falava, amigos, fala forte alguma

coisa. Então a gente sempre teve esse

cuidado com a peça, porque não

adianta ser uma peça deslumbrante e

não ser vestível.

Agora estou fazendo umas

esculturas, que comecei na última

coleção e estou apaixonada pela

técnica. São peças que as pessoas

ficam super surpresas, até a bandeira

que a Isabelle Nogueira usou agora,

esses dias que foi para abrir o festival

aquela dela, lá no norte. E é uma

peça super confortável, ainda

acreditável, mas ela faz bem, ela

acomoda. Eu acho que é uma coisa

que é primordial, não adianta você

fazer uma coisa linda que machuca,

que não tem caimento.


Quais são os próximos passos para a

marca?

Janaina: A gente está focadas em

expandir ao máximo o serviço de

locação e torná-lo cada vez mais

profissional. Estamos explorando

diversos projetos e temos muitos

planos em mente. A Locação é algo

que já funciona bem e acreditamos

que pode ser expandido não só para

outros estilistas, mas para diferentes

segmentos. Também queremos

profissionalizar todo o processo de

locação estabelecer contratos claros,

prazos definidos e procedimentos

padronizados garantindo maior

segurança e eficiência, seja aqui ou

em outros mercados. O que mais?

Lívia: Muitos planos, a gente tem

uma coisa slow, crescer um pouco a

produção, começar a expandir, acho

que é o sonho de toda a marca.

Vocês recebem pedidos? Vocês recebem

pedidos para roupas sobre medida?

Lívia: Atendemos as clientes no

ateliê, só que com hora marcada. No

site é possível agendar diretamente

pelo próprio portal. Se preferir,

também pode fazer o agendamento

pelo Instagram.

Janaina: Instagram, a pessoa manda

uma mensagem entra no WhatsApp e

aí combina. Fala mais ou menos o

que ela quer para a Lívia, faz as

encomendas, tudo, aí a pessoa vem

pedir as medidas e tal.

Lívia: Desenvolvo, desde que a gente

vá dar uma “kengada” na roupa, eu

faço desenvolvimento, eu sempre

deixo claro para os clientes, para os

artistas que estamos abertas.

Janaina: A gente quer fazer

pequenas produções, pequenos

drops pontuais, de roupas, que nem

as roupas que a gente faz, que são

roupas diferentes e tal, com conforto,

mas sem grande, uma produção que

rode mais, não só fazer sobre

medida, ampliar o ateliê, a gente está

ampliando um pouquinho o ateliê.


Lívia: Olha, a gente sabe que a gente

é muito pequena, mas a gente tem

uma consciência que a gente já

influenciou coisas que até fogem, né?

É muito engraçado ver que a gente

realmente tem esse impacto.

Janaina: Por exemplo, o brinco FORA

TEMER. Muita gente copiou, muita

gente copiou, Tem gente que até

abriu marketshop.

Como vocês lidam hoje com esse

material tão autoral e único?

Janaina: Hoje a gente tem tudo

registrado. Alguém começa uma

historinha, a gente já manda, olha,

tem copyright! Tem gente de fora, de

Londres, usando o nosso nome lá.

Lívia: Estou morrendo de ódio! Tem

até cachaça que começa com K.

Janaina: Nós vamos acionar.

Valesca Popozuda compartilhou em suas redes sociais uma

foto com os brincos-protesto (Reprodução/Instagram)

Esse é original da Ken-gá

Lívia: Lidar com tantas cópias foi

frustrante. Naquela época, o universo

de proteção de design era tão

confuso que ficávamos sem saber o

que fazer e, no fim, acabamos até

desencanando para não gastar

energia com isso. Mas era irritante:

tínhamos apenas dois distribuidores

e, mesmo assim, eras um fenômeno

de alcance nacional parecia novela da

Globo, de tão comentado! Chegou a

acontecer de uma grande marca

reproduzir nossos brincos. Os

clientes iam até a loja do Pará xingar

o vendedor, achando que ele era o

copião… Foi uma loucura! Muito

doida toda essa situação.

Lívia: Esses dias passei por uma

situação.. veio uma pessoa que fez

uns croquis que era para eu fazer, só

que eu entendi o que ela queria... Era

com a minha estética, com as coisas,

só que eu não ia assinar. Aí eu fiquei

super passada. Falta de ética!

Que conselho vocês dariam aos jovens

estudantes de moda que desejam

desenvolver um estilo autoral e

inovador?

Lívia: Eu acho que a dica maior é

aquela de acreditar no seu sonho.

Por mais que falem que vai dar

errado, se você tiver muita certeza

daquilo, se lutar por aquilo. Fazer

acontecer. Não só acreditar e ficar

esperando acontecer de fato.

Acreditar e ir lá e fazer as coisas dão

certo. Você consegue se expressar e

aí tudo parece que foi melhor. Eu

demorei muitos anos da moda para


descobrir isso. Eu acho que essa é a grande dica que eu dou para quem está

começando. Acredite nos seus sonhos e vá atrás. Até ela que é médica,

acredita nos seus sonhos.

Arriscar, acreditar e arriscar.

Janaina: Tem tanta gente que tem que se julgar. Você vê assim, apesar dessa

coisa dessa desindustrialização, tem tanta gente tão criativa e tem tantos

novos estilistas tão bons. Tem tanta gente tão talentosa, tão boa, tão nova

surgindo. É tão efervescente apesar das restrições. Olha quanta gente boa sai

do lugar que não tem tanto apoio. Todo mundo tem que ter sonho. O que te

bota para frente é o seu sonho, a esperança.

Qual seria uma frase para expressar o que é a Ken-gá?

Lívia: Deus é Fiel

Janaina: Deus A!

Lívia: A gente tem uma frase que se transformou até em uma obra, que eu

fiz uma obra física que está aqui, inclusive, quem quiser visitar, está aqui na

Rua 7 de Abril, 123, eu acho, na Galeria das Artes. Tem uma frase que eu

acho que é muito a coisa da Ken-gá, que foi uma coleção que a gente criou,

chama da Boleia Mística, que foi inspirada numa história que a Janaina ouviu

de uma caminhoneira que transicionou aos 66 anos. Foi incrível desenvolver

essa coleção. Havia toda uma história em torno da ideia de usar uma “frase

de caminhão” que não fosse machista nem vulgar. Passei meses quebrando a

cabeça, especialmente numa época em que morava em Guarulhos e

encarava aquele trânsito diário. Até que, em um desses longos

congestionamentos, pensei: “Deus é fiel”. Pronto a frase perfeita! Ela se

tornou o principal da coleção e ganhou até um lugar no meu braço, quase

como um selo pessoal.

Agora, estamos transformando essa ideia em uma instalação física, um passo

natural para a expansão da Ken-gá. Um dos nossos objetivos futuros é

mergulhar também no universo das artes visuais. Acreditamos que a moda é

só uma das formas de expressão queremos explorar esse diálogo criativo

entre tecido, cor e espaços artísticos.

https://www.kengabitchwear.com/



Entrevistado por Regina Papini Steiner

Em um país onde a música é força

cultural e ferramenta de transformação

social, é inadmissível que segmentos

tradicionais como bandas e fanfarras

sigam sendo tratados com descaso

institucional. Nesse cenário, a criação de

uma cartilha voltada a orientar, valorizar

e profissionalizar esses grupos, escrita

pelo maestro Rogério Wanderley Brito,

surge como um ato de resistência, mas

também de reparação.

Bandas e fanfarras não são apenas

formações musicais são espaços de

disciplina, pertencimento, expressão e

inclusão. Em muitas cidades do Brasil,

especialmente em regiões do Norte e

Nordeste, elas são o único contato de

crianças e adolescentes com a prática

musical organizada. Ainda assim, esses

grupos vivem à margem: sem recursos,

sem reconhecimento formal e, muitas

vezes, enfrentando uma burocracia que

os empurra para o amadorismo e o

improviso.

foto by Vera Papini


Qual que é o principal objetivo da cartilha?

Essa cartilha, na realidade, vem ao

encontro da minha história. Porque

quando comecei a minha carreira como

maestro de bandas e fanfarras, eu não

tinha onde procurar o conteúdo, onde

procurar um método, onde ter... Tudo

era muito empírico. A gente aprendia na

raça. Quando eu aprendi a tocar corneta,

por exemplo, o meu regente, ele tocava

um toque, aí a gente decorava e tentava

imitar, por imitação. Então, isso tudo

durante muitos anos, foi feito assim.

Então, esse livro, ele é calcado em cima

da prática de ensino coletiva. Existem no

mundo inteiro manuais, ou métodos que

trabalham a partir do nível 1, do começo.

Então, ele pressupõe que o cara já toca.

Eu abaixei o nível para meio. Então, esse

manual é para qualquer pessoa que tem

o mínimo de conhecimento musical.

Mínimo, mínimo, mínimo. A base da base

da base da base. E você vai ter uma

filosofia muito calcada em cima do

próprio Paulo Freire: Que é o

aprendendo, ensinando, ensinando,

aprendendo. Então, o próprio... Eu penso

assim, Regina, sendo muito claro eu não

estou escrevendo esse livro para o papa,

para o arcebispo, para o vigário. Eu estou

escrevendo para o coroinha.

O seu público-alvo são principalmente os

estudantes e as escolas? A cartilha é

voltada para quem está começando na

música?

Eu escrevi 30 músicas especialmente

para esse projeto. A estrutura do

material é dividida em dois grandes

blocos: um manual do professor e 10

cadernos específicos, organizados por

instrumentos um para trompete,

trombone, tuba, eufônio, trompa,

percussão (prato, bumbo, caixa) e um

caderno exclusivo só com as músicas.

Essas 30 composições são todas

baseadas no folclore brasileiro e na

música popular brasileira, pensadas para

crianças em fase inicial de aprendizado.

Ou seja, são obras escritas dentro dos

níveis 0, 0.5 e 1, voltadas para iniciantes

absolutos.

Esse trabalho segue um conceito

chamado parâmetros técnicos musicais,

criado nos anos 1950 por John Philip

Sousa, que serviu de base para a

metodologia adotada nas High Schools

dos Estados Unidos, com foco na

formação contínua do aluno desde o

primeiro contato com o instrumento.

Quando desenvolvi projetos musicais em

cidades como Taubaté, Atibaia e

Bragança Paulista, usei esse mesmo

modelo: um método coletivo, inclusivo,

onde mesmo quem nunca teve contato

com a música consegue evoluir e

participar de apresentações como as

tradicionais do 7 de Setembro, que

exigem rapidez no aprendizado.

Todo o meu trabalho de composição e

escrita musical foi pensado em função

dessas dificuldades técnicas enfrentadas

por iniciantes, justamente para dar a eles

uma base sólida e acessível desde o

começo.


Então, na realidade, eu escrevi o método

pensando naquele cara que é lá do

interiorzão, que é lá dos rincões do

Nordeste, o mesmo de São Paulo

mesmo, que não tem conhecimento, o

professor de educação física que tocou

numa fanfarra e que eu gostaria de

manter, porque tem muito instrumento

jogado debaixo do porão, debaixo da

escada.

Com a sua cartilha, um estudante pode

começar sozinho? Ela oferece uma base

suficiente para que ele inicie e, caso queira

se aprofundar, possa seguir se

desenvolvendo por conta própria?

Mesmo quem nunca tocou nenhum

instrumento, no primeiro ensaio já sai

tocando?

É, é partindo do som. A ideia é partir do

som. Não importa a nota que ele dê, não

importa o que ele está fazendo, mas

todo mundo vai tocar junto e tocar

naquele primeiro momento, e daí ele vai

calcando.

Eu escrevi música com uma nota só,

música com duas notas, música com três

notas. Aí eu vou aumentando a

dificuldade em uma tonalidade que é

comum, que é simples.

É um livro específico para um professor,

porque você precisa ter um professor,

depois você vai crescer no nível, que a

ideia é escrever nível 1,5, 2, 3, 4, 5, que os

parâmetros curriculares educacionais,

musical, vai até o nível 6. Então, a ideia é

que o cara tenha condições de ir

crescendo, porque o que acontece

também é falta de repertório para esse

grupo. Não existe repertório para esses

grupos.

Esses grupos querem tocar uma música

que ele não consegue, porque tem

dificuldade técnica. Então, quando foram

criados os parâmetros técnicos nos

Estados Unidos, virou para o mundo

inteiro, hoje o mundo inteiro usa, só na

América Latina que não usa. É engraçado

isso.


Os países latinos e o Brasil não usam

esse parâmetro técnico. Na realidade,

também, a FUNARTE lançou um livro em

2003 publicando esses parâmetros

técnicos, mas é pouco usado no Brasil. E

lá no pequeno guia prático para bando

de música, que é da FUNARTE, que é

gratuito, que está lá no site da FUNARTE.

Está disponível, ninguém vai pesquisar. E

lá está toda a história, está tudo definido,

a cada padrão. Se o cara aprender uma

nota a cada ensaio, ele chega no final do

ano e sabe tocar.

Essa é a ideia. É construir o aprendizado

juntos. Rubem Alves tem um texto que é

muito interessante em que ele fala

exatamente isso. Eu queria aprender a

construir a música através de sons, de

notas, e, a partir dali, um dia aprender o

que significam aquelas bolinhas.

Porque a gente começa com as bolinhas,

começa com querer encher de teorias.

A cartilha será no formato físico, vai ser

digital também? O interessado poderá ter

acesso físico e um e-book?

Vai ter e-book, vai ser feito digital

também, vai ser feito em livro. É porque

a editora que acreditou no projeto

pensou e já tem algumas pessoas. O livro

físico vai lançar em agosto em São Paulo.

Mas já está rodando, por exemplo, no

Uruguai,Venezuela e na Colômbia. São

três países que já estão tendo acesso a

esse primeiro livro, o livrão. Porque é

para qualquer língua, é para qualquer

grupo.

E outra coisa, eu só tenho corneta, eu só

tenho trompete, eu só tenho qualquer

grupo que consegue tocar o que está

escrito. Eu não tenho tal instrumento,

como é que eu vou fazer? Não, não tem

problema. Como está escrito, soa com

qualquer instrumento.

Quais são os resultados que você espera

alcançar com a cartilha?

Os mesmos resultados que eu alcancei

no projeto de Taubaté, por exemplo. O

que eu estou trazendo é exatamente a

minha prática de Taubaté, que é um

projeto que eu tinha lá chamado.

Taubaté é o Vale da Música, que tinha 50

escolas que tinham bandas e fanfaras,

eram quase 40 mil crianças estudando

música, que teve o resultado com a

banda, a banda chegou ao Campeonato

Mundial, através de quê? Da base.

Atibaia é a mesma coisa. A música de

cidadania existe até hoje em Atibaia, e é

um projeto que começou desse jeito.

Então, lá, o projeto, no começo dele, foi

feito assim. Naquela época, era a prática

pela prática. Eu usava o projeto sem

pensar teoricamente em tudo. Então, o

que eu fiz agora? Eu teorizei tudo isso,

coloquei no papel o que era cada coisa, o

que significava cada coisa. Outra coisa, o

livro tem uma linguagem extremamente

lúdica. Não tem nada... A história do

trompete... Quer saber a história do

trompete? Vai pesquisar o trompete. Está

lá o que o trompete tem a função, o tipo

de som que o trompete tem.


Na realidade, o que eu faço é uma

linguagem de conversação. Estou

conversando com o aluno, estou

conversando com a criança. Não tenho

nada de grandes teorias. É prática, olha.

Faz assim. Pode ser que funcione assim.

Se fizer assim com o lábio, vai emitir o

som. É uma conversa como se estivesse

conversando com você.

Faz assim com a boca. Vai emitir um

som. Ele emitiu um som. Vou fazer uma

música com esse som. É por aí o

caminho.

Como você está vendo o movimento das

bandas e fanfarras atualmente?

Hoje, por exemplo, começa agora às 2

horas o Congresso Nacional de Bandas e

Fanfarras. É o maior congresso que já

teve em toda a história. Uma que está

tendo o suporte da FUNARTE. Se você

pegar a programação, tem palestras

maravilhosas de coordenador da

FUNARTE. Vai falar sobre a Lei Rouanet,

vai falar sobre a Lei de Incentivo. Eu

estou como diretor técnico hoje,

pedagógico da Confederação.

você faz o seu trabalho. Então, a gente

está “linkando” a banda e a fanfarra à

educação. Com o apoio da própria

FUNARTE. A FUNARTE também enxergou

isso. Perfeito! A gente esteve com a

FUNARTE.

Porque, na realidade, banda e fanfarra é

cultural. Por outro lado, a FUNARTE

sempre encarou a banda marcial, a

fanfarra, como algo escolar. E a banda de

música com o Guarda-Chuva deles.

Então, o Guarda-Chuva deles era a banda

de música. Banda e fanfarra, eles não

queriam nem saber. Eles achavam que

era uma coisa da educação, da escola.

Hoje, eles já começam a ver que pode ser

ambas as coisas, tanto cultural como

educacional. Então, a nossa preocupação

agora é dar um suporte educacional.

Perfeito! Então, vai ter palestra não só

minha, mas de um outro maestro doutor

sobre como ensaiar, como fazer. Então, a

gente está preocupado na formação do

regente. Tanto que a gente está com 20

estados.

A gente deixou de pensar só em

concurso de banda e teve a visão

pedagógica da coisa. Porque é onde você

tem o investimento. Não adianta... A

cultura é um lugar difícil de se trabalhar

porque não tem investimento para todo

mundo. E na educação, você consegue

fazer. Entrando nas escolas, você

consegue formar uma boa base e depois


Filiaram mais seis, no ano passado para

cá, mais seis estados. Coisa que não

acontecia. Era uma coisa que estava

morrendo, estava difícil. Vai ter o

concurso? Vai ter o concurso. Vai ter o

nacional? Vai ter o nacional. Mas isso é a

ponta do iceberg. A gente precisa

construir agora uma base.

E vocês têm algum plano para avaliar o

impacto da Cartilha nas escolas, nas

comunidades?

Sim! O próprio livro já orienta sobre

como tirar dúvidas. Qualquer coisa que o

leitor quiser comentar, perguntar ou

entender melhor, pode entrar em

contato não só comigo, mas também

com a equipe pedagógica. Estamos

preparados para responder em tempo

real, oferecendo o suporte necessário.

Além disso, a editora, em parceria com a

FUNARTE, vai viabilizar esse apoio em

diferentes cidades. Se alguém precisar

de suporte técnico ou pedagógico em

uma determinada região, eu e uma

equipe especializada poderemos nos

deslocar até lá para oferecer oficinas,

orientações e acompanhamento.

Como no momento não estou vinculado

a nenhuma banda específica, tenho mais

flexibilidade para atuar diretamente

nesses atendimentos, o que facilita

muito esse trabalho de apoio no campo.

Existe intenção de produzir novas edições

futuramente?

Você sabe que a editora vive de venda,

não é? Não podemos esquecer que

também isso é um negócio.4

A editora vai enxergar como um negócio.

Se funcionar, eu tenho o número 2, o

número 3, o número 4, o número 5 e o

número 6. Já me preparo, já comecei a

fazer um para madeiras, para flauta.

Para chegar à elaboração da cartilha, você

contou com a participação de alunos ou da

comunidade? Houve algum tipo de

colaboração ao longo do processo ou foi

uma iniciativa totalmente sua?

Eu acho que a colaboração foi durante a

minha vida inteira. Tanto que o meu

agradecimento, a primeira página de

agradecimento, eu agradeço os meus

mestres, o próprio Paulo Ko, meu

mestre, o Júlio César, em memória. Eu

agradeço os colégios que eu trabalhei, os

pais, os professores. Eu coloco pessoa

por pessoa. Chocolate, Domingo Saco,

Márcia Visconti, eu coloco todas essas

pessoas que influenciaram na minha

trajetória, porque esse livro, na

realidade, é uma construção de uma

trajetória toda. Não é de um momento

que eu parei para escrever o livro, então

eu vou teorizar.


Isso já estava organicamente dentro de mim. Tudo foi muito orgânico. Por isso

que eu te falei que a minha preocupação era escrever um livro que eu falasse

como se estivesse conversando com alguma pessoa, uma linguagem bem

acessível, bem direta, sem rodeio. Preocupado com o que a pessoa aprenda.

Você gostaria de agradecer alguém que foi essencial para a realização desse sonho?

Quem foram as pessoas que mais contribuíram nesse momento da sua trajetória?

A editora, a Brink Mobil, que foi a primeira que acreditou, porque eu já venho há

bastante tempo falando sobre isso. Mesmo na Confederação, demorou para

acreditar também. Sempre que eu vinha para a Confederação, tanto que eu me

afastei durante uns anos, porque eu não acreditava mais. Tinha uma posição

sempre de concurso, de competição, e eu sempre, mesmo no meu trabalho, me

preocupei com a formação. Então, tem muito o que agradecer aos maestros, os

maestros municipais, o Júlio César Pereira de Santos, que me memória, o Paulo

Kó, o Domingos Sacco, o Chocolate, a maestrina Márcia Visconte. Essas pessoas

foram de extrema importância na minha carreira. E o Colégio Consolata, que foi o

primeiro colégio que eu trabalhei.

A diagramação, tudo o que ele citou, foi com muito carinho. A equipe da editora,

de confecção, de introdução, e uma outra pessoa que eu não posso deixar de

agradecer, essa é a pessoa que eu preciso agradecer muito, que eu falo para ela

que foi minha co-autora, mas ela não quer que eu fale isso. Que é a Vanilda. A

Vanilda fez toda a parte de revisão, revisão pedagógica, revisão, tudo o que eu

citava. Porque, às vezes, você viaja, você é artista, e ela colocava no chumbo,

vamos falar assim, vai nessa linguagem. Então, eu tenho muito que agradecer a

ela. Eu considero ela uma co-autora desse livro.

O que você está pretendendo realizar? Oficinas, eventos associados à cartilha?

A ideia é que esse primeiro contato que eu vou ter hoje, com os presidentes das

associações, que eles entrem em contato com a editora e peçam para a editora

para que eu possa, a editora, fazer que eu vá dar palestra, dar workshop. Eu tenho

dois workshops prontos, já preparados. Um que eu já apliquei, inclusive, na banda

de Cubatão, dois meses atrás. Vou aplicar na banda do Rio Grande do Sul

também, agora eu estou indo para o Rio Grande do Sul. Que, assim, são oficinas

rápidas de prática.


A maioria das oficinas que existem hoje são voltadas para bandas que já estão em

atividade abordam aspectos práticos, como ensaio, repertório, execução. Mas o

que eu quero é atuar diretamente com bandas que estão começando do zero.

Meu projeto é justamente esse: estar presente no início. Por exemplo, se uma

fanfarra vai começar amanhã, a ideia é que a editora viabilize minha ida até lá.

Chego, oriento, mostro como iniciar o trabalho, como estruturar o grupo. É esse

acompanhamento que eu quero oferecer.

E estou totalmente disponível para isso. Dentro do meu contrato com a editora,

estou à disposição para realizar esse tipo de apoio presencial, especialmente

nesse momento inicial, que é tão decisivo para o futuro das bandas.

Quais foram os maiores desafios enfrentados para a produção do seu livro?

Olha, pra mim, o processo começou com uma verdadeira tempestade de ideias.

Fui colocando tudo no papel despejando tudo que eu tinha na cabeça. Depois

disso, mergulhei em leitura. Reservei cerca de um mês e meio só para estudar os

principais métodos disponíveis no Brasil e fora dele.

Li o método do João Barbosa, da FUNARTE, da Universidade do Ceará, da

Universidade Federal de Minas Gerais, além dos métodos internacionais como o

Carl Fischer e o da Yamaha. Queria entender como cada um organizava o ensino,

os processos, as propostas pedagógicas.

Minha intenção era compor músicas específicas para esse público. Então, o

método traz três blocos: músicas compostas por mim, músicas folclóricas

brasileiras que todo mundo conhece mas que reescrevi e adaptei para esse tipo

de formação e músicas populares brasileiras que têm apelo para apresentações.

Tem “Vermelho”, do Falamansa, músicas do Tim Maia, "Da Cor do Mar", entre

outras. É um repertório simples, acessível, mas musicalmente interessante.

O maior desafio, no entanto, foi montar o livro em si. Porque, no começo, ele

cresceu demais. Eu queria colocar tudo, sabe? Aquela vontade de fazer “o livro da

vida”. Aí entrou em cena a Vanilda, que foi fundamental no processo editorial. Ela

me disse uma coisa que eu nunca esqueci: “O livro da sua vida você faz na sua

casa. Aqui é o livro que o regente vai usar. ”No ponto mais caótico, o material já

tinha 150 páginas. E não podia ser assim. Precisava ser funcional, direto, leve de

ler. Hoje, o manual principal tem 70 páginas. Os cadernos por instrumento têm no

máximo 35, porque são feitos para acompanhar o conteúdo do professor. O aluno

vê no caderno o mesmo exercício trabalhado em sala, em sequência. Tudo

alinhado, com lógica pedagógica. Chegar nesse equilíbrio foi, sem dúvida, a parte

mais difícil mas também a mais gratificante.




Edilaine e Horácio

Os pets deixaram de ser apenas animais de estimação para se tornarem

verdadeiros membros da família. Hoje, cães, gatos e até espécies exóticas

ocupam um lugar de afeto, cuidado e protagonismo na rotina de milhões de

brasileiros. Essa mudança no relacionamento entre humanos e animais trouxe

transformações significativas no comportamento das famílias, nas práticas de

consumo e até na forma como a saúde e o bem-estar animal são tratados.

Essa pauta propõe investigar os novos hábitos da "família multiespécie", o

crescimento do mercado pet que movimenta bilhões anualmente no Brasil e

as questões sociais e éticas que surgem com esse fenômeno, como o aumento

da adoção responsável, o ativismo contra o abandono, a humanização dos

animais e o impacto emocional que eles geram na vida dos tutores.

Revista ICONIC, através do jornalista Fabiana Tavares, traz essa

pauta tão importante, com a colaboração de Edilaine Moraes.

Nesta edição iremos falar do IOP - Instituto Onça -Pintada.


Fundado em 2002 pelos biólogos Anah Jácomo e Leandro Silveira, que

estudam as onças desde a década de 80, o Instituto Onça-Pintada (IOP) é a

primeira instituição focada na conservação da espécie no mundo, atuando

por meio de pesquisas científicas em todos os biomas brasileiros.

Além disso, o IOP mantém a maior população de onças-pintadas em

cativeiro com fins de reprodução para conservação.

O IOP tem se consolidado como uma das instituições mais relevantes na

conservação da onça-pintada, Anah, Leandro e seu filho Tiago lideram o

Instituto, unindo esforços em pesquisas e projetos para proteger o maior

felino das Américas e símbolo da conservação da biodiversidade brasileira.

Com sede no estado de Goiás, o instituto atua em diversas frentes: desde a

pesquisa científica sobre a espécie e seu habitat natural até ações de educação

ambiental, manejo de conflitos com pecuaristas e reabilitação de animais

feridos ou órfãos. A missão vai além da preservação do animal em si o IOP

busca garantir o equilíbrio dos ecossistemas nos quais a onça-pintada é

predadora de topo, exercendo papel fundamental no controle populacional de

outras espécies e na saúde das cadeias alimentares.

O trabalho do Instituto também é reconhecido internacionalmente, e serve de

modelo para outras iniciativas de conservação. Suas ações abrangem biomas

como o Pantanal, Cerrado, Amazônia e Mata Atlântica, regiões onde o

desmatamento e a expansão agrícola colocam em risco a sobrevivência da

espécie.

A importância do Instituto Onça-Pintada reside na sua abordagem científica,

mas também comunitária: promove o diálogo entre a conservação e o

desenvolvimento sustentável, mostrando que é possível proteger a natureza

sem comprometer os meios de vida das populações locais.

Proteger a onça-pintada é, sobretudo, proteger o Brasil selvagem e a riqueza

natural que ainda pulsa em seus biomas.

Para conhecer e colaborar com as ações clique no link:

https://www.institutooncapintada.org.br


Por

Roberto Lívio

Flow (Letônia, animação sem diálogos): Venceu o Oscar de Melhor Animação e foi

indicado ainda como Filme Internacional. É uma fábula visual com animais

refugiados em um barco durante uma enchente, impregnada de sensibilidade

ecológica. Flow, animação da Letônia dirigida por Gints Zilbalodis, é uma obraprima

sensorial e emocional, que conquista pela ousadia de contar uma história

sem diálogos. Vencedora do Oscar 2025 de Melhor Filme de Animação e indicada

também a Melhor Filme Internacional, a obra transcende barreiras linguísticas e

reforça o poder do cinema puramente visual.

Uma parábola sobre refugiados climáticos, a convivência entre diferentes e a

resiliência diante do caos. Sem palavras, o filme convida o espectador a refletir

sobre cooperação em tempos de crise sem precisar de vilões ou heróis evidentes.

Gostei demais, indico o filme, Já assistiu?


Homens e Guerras

Os homens criam guerras como criam filhos:

com ego, com pressa e com medo. Fazem

armas como quem molda ferramentas para

proteger a insegurança que os corrói desde

dentro. Chamam de honra o que, no fundo, é

só orgulho ferido. Chamam de estratégia o

que, na verdade, é pavor de ceder o próprio

lugar no mundo.

A guerra é invenção de homens que não

sabem dançar. Que preferem esmagar ao

invés de escutar. Que têm tanto medo de

serem atravessados pelo outro, que cavam

trincheiras em vez de fazer pontes.

Vejo as guerras e escuto tambores que não

sabem ritmar com o coração do povo. Só

sabem marchar.

Quem alimenta a guerra são os que têm

medo do feminino, do ancestral, do circular.

Porque a guerra é reta, é linha dura, é falo em

chamas. Enquanto a paz exige escuta, exige

troca, exige desarme não só das mãos, mas

do espírito.

Exu não faz guerra. Exu abre caminhos.

Porque guerra fecha, endurece, enclausura.

Exu gira, transita, pergunta. Exu pergunta: por

que tanto homem ainda acredita que matar é

uma forma de resolver?

Homem que só aprende a dominar, nunca

aprende a conviver. E quem não aprende a

conviver, repete guerras com nomes

diferentes: guerra de nação, guerra de classe,

guerra de gênero, guerra de ego.

Enquanto o tambor do mundo bater só em

marcha, não haverá descanso. Mas quando

bater em roda, em ginga, em celebração

talvez os homens se lembrem que a terra é

chão de axé, não de sangue.

Exú Veludo

Boa noite!

Omindaré



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