Revista ICONIC 19a - Eiko Senda
A Revista ICONIC, referência em conteúdo autoral e diversidade de vozes, acaba de lançar sua nova edição trazendo um panorama vibrante da cena cultural e criativa brasileira. Com matérias exclusivas e entrevistas especiais, a publicação reúne nomes de peso da música, moda, circo, teatro e estilo de vida alternativo, promovendo a riqueza de expressões e trajetórias que inspiram e transformam. Por Marilu Gomes Editora Chefe.
A Revista ICONIC, referência em conteúdo autoral e diversidade de vozes, acaba de lançar sua nova edição trazendo um panorama vibrante da cena cultural e criativa brasileira. Com matérias exclusivas e entrevistas especiais, a publicação reúne nomes de peso da música, moda, circo, teatro e estilo de vida alternativo, promovendo a riqueza de expressões e trajetórias que inspiram e transformam.
Por Marilu Gomes
Editora Chefe.
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I C O N I C
J U L H O & A G O S T O 2 0 2 5 N O . 1 9
Nesta Edição
Marcos Menescal
Teatro Municipal RJ
Marlene Querubin
40 anos do Circo Spacial
Kombi Nomades e Vibe de dois
Viajantes de Kombihome
Lívia e Janaina
KEN-GÁ Bitchwear - Moda
V A M O S F A L A R D E M Ú S I C A
Maestro Rogério Wanderley Brito
“ ...onde há arte, também
há espaço para a paz. ”
Eiko Senda
V A M O S N O S C U I D A R !
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EDITORIAL
MARILU GOMES
Editora Chefe
MTB sob o nº 0081549/SP
REGINA P STEINER
Diretora de Pauta e
entrevistas
GUILHERME F JÚNIOR
Diretor de Conteúdo
THIAGO MORENO
Diretor Comercial
WELCOME
Edição 2025
2a/19aEdição
Revista da Orquestra Sinfônica Jovem do
Bixiga
A Revista ICONIC, referência em conteúdo
autoral e diversidade de vozes, acaba de lançar
sua nova edição trazendo um panorama
vibrante da cena cultural e criativa brasileira.
Com matérias exclusivas e entrevistas
especiais, a publicação reúne nomes de peso da
música, moda, circo, teatro e estilo de vida
alternativo, promovendo a riqueza de
expressões e trajetórias que inspiram e
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PAUTAS AFRO
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Jornalista
CHEF
Luiz Thomé
IA (INTELIGENCIA
ARTIFICIAL)
Mirna Rubim
FOTO DA CAPA
Eiko Senda
Arquivo pessoal
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SUMÁRIOI C O N I C
CARTAS
DO ELEITOR
CAPA
EIKO SENDA
Nossa Leitora
Carlinha Tavares - Belem-PA
"Muito linda essa revista, estou
gostando demais conheci
recentemente pelo Instagram.”
Querida leitora Carlinha, agradecemos,
seu e-mail e sua participação.Equipe Redação
Nossa Leitora
Beth Guimarães
Gramado - RS
MARCOS
MENESCAL
KOMBI NÔMADES
"Amei a entrevista com a Mirna
Rubim. eu tive o privilégio de assistir
o musical A Noviça Rebelde, e
adorei demais a participação dela.
Show!"
Querida leitora Beth, , agradecemos,
Equipe Redação
Nossa Leitora
Sônia Guinler
Fortaleza - CE
MAESTRO
ROGÉRIO W BRITO
VIBE DE DOIS
"Muito linda a revista, que conteúdo
bacana e diverso"
Querida leitora, Sônia agradecemos.
Equipe Redação
Nosso Leitor
Felize Jhonas
Rio de Janeiro - RJ
"Excelente Dra Maria Berenice Dias,
que sublime sua participação e
importância na Justiça Brasileira.
Parabéns.”
Querido leitor, Felize, agradecemos.
Equipe Redação
MARLENE
QUERUBIN
LÍVIA E JANAINA
Queridos leitores e Queridas Leitoras
da Revista ICONIC,,, na medida do
possível vamos publicando, as
mensagens carinhosas enviadas por
vocês!
Infelizmente não podemos publicar
todas as mensagens, mas saibam são
todas lidas com carinho.
Um grande abraço
Marilu Gomes
Editora Chefe
receita saudável
e prática para facilitar
sua alimentação
Olívia Vieira
nutrição saudável
Omelete com legumes
I N G R E D I E N T E S
2 ovos;
1/2 tomate picado;
1/4 de cebola picada;
1/4 de cenoura ralada;
Sal e pimenta a gosto;
1 colher de sopa de azeite;
M O D O D E P R E P A R O
Bata os ovos em uma tigela com sal e pimenta.
Refogue a cebola e a cenoura em uma frigideira
com azeite até ficarem macias.
Adicione o tomate e misture por mais um minuto.
Despeje os ovos batidos sobre os legumes e
cozinhe até a parte de baixo dourar.
Dobre a omelete e cozinhe até os ovos firmarem
completamente.
ESQUECER?
JAMAIS
ESQUECER?
JAMAIS
Dinalva Oliveira
Teixeira
Dina - Vocês vão me matar agora?
Ivan - Não, um pouco mais à frente
Dina - Vou morrer agora?
Ivan - Vai. Agora você vai ter que ir.
Dina - Quero morrer de frente.
Ivan - Então vira pra cá.
Dinalva Oliveira Teixeira nasceu no
sertão baiano, município de Castão
Alves, em 16 de maio de 1945, filha
de Viriato Augusto de Oliveira e
Elza Conceição Bastos.
De origem humilde, com muito
esforço conseguiu entrar na
Universidade Federal da Bahia,
onde se formou em geologia no
ano de 1968, sempre participando
ativamente do movimento
estudantil, quando foi presa pela
primeira vez.
Nesta época conheceu Antônio
Carlos Monteiro Teixeira (também
desaparecido), colega de turma
com quem se casou em 1969. No
mesmo ano mudaram-se para o
Rio de Janeiro, onde faziam
trabalhos sociais nas comunidades.
Consta no Relatório Arroyo,
referente ao evento que ficou
conhecido como 'O Chafurdo de
Natal'. Na ocasião, os militares
realizaram um golpe contra a
Guerrilha do Araguaia, o que
resultou em diversos mortos.
Segundo o relato do evento,
Dinalva estaria com febre na
ocasião ,no dia 25 de dezembro de
1973, em que o acampamento da
Comissão Militar da guerrilha foi
atacado pelos militares, resultando
em sua morte. No entanto, outras
indicações apontavam que a
mulher foi morta só em 1974, o que
causa dúvidas até hoje.
'Dina' foi a mais famosa e temida de todas as guerrilheiras do Araguaia.
Militante do movimento estudantil baiano em 1967 e 1968, tendo sido
presa, casou com seu colega de turma Antônio Carlos Monteiro Teixeira -
que na guerrilha teria o codinome 'Antônio da Dina' - e mudaram-se para o
Rio de Janeiro, onde trabalharam no Ministério das Minas e Energia, e
como militantes comunistas faziam trabalho social nas favelas cariocas.
Sobrevivente do ataque à comissão militar da guerrilha no dia de Natal de
1973, que matou cinco guerrilheiros, incluindo o comandante geral
Maurício Grabois, Dina embrenhou-se na selva com outros companheiros e
desapareceu até junho de 1974, quando foi presa, fraca, doente e
desnutrida, sem comer açúcar ou sal há meses, vagando na mata perto da
localidade de "Pau Preto", com a companheira de guerrilha "Tuca", a
enfermeira parasitóloga paulista Luiza Augusta Garlippe.
Levada à base em Xambioá, permaneceu presa e foi torturada por duas
semanas, sem prestar qualquer informação aos militares do serviço de
inteligência do exército, CIEx, que sempre quiseram pegá-la viva.
Em julho, Dina foi levada de helicóptero para um ponto da mata, próximo
de Xambioá. Assim que pisou no solo, pressentindo que seria executada,
Dina perguntou ao sargento do exército Joaquim Artur Lopes de Souza,
codinome Ivan, chefe da equipe, “Vocês vão me matar agora?” , ao que Ivan
respondeu: “Não, um pouco mais à frente”.
Os dois caminharam lado a lado por uns quinze minutos, mantendo uma
conversa cordial, testemunhada por mais dois militares que vinham logo
atrás.
Dina encarou o executor nos olhos, que
lhe desferiu um tiro no peito, usando uma pistola calibre 45.
Dinalva não morreu de imediato, sendo-lhe desferido um
segundo tiro na cabeça. Enterraram-na ali mesmo,
o corpo jamais foi encontrado.
por Pedro G. Vale
ESPECIAL
EIKO SENDA
Entrevista com Eiko Senda
Por Regina Papini Steiner
Há artistas que atravessam o
tempo com a força de sua voz,
sua presença e sua coragem de
ser. Eiko Senda é um desses
nomes que não apenas cantam:
ela interpreta, vive e traduz o
mundo em música.
Nascida no Japão e naturalizada
brasileira, sua trajetória é uma
ponte poética entre culturas,
entre linguagens, entre mundos.
Eiko não é uma cantora de
modismos. Ao contrário: sua arte
é construída com densidade,
pesquisa e entrega. Desde os
anos 1980, quando começou a
despontar nos palcos alternativos
do Brasil, sua voz potente e seu
timbre inconfundível chamaram
atenção pela originalidade. Não
era só técnica era emoção bruta
e refinamento simultâneos.
Celebrar Eiko Senda é
reconhecer que a cultura
brasileira é muito maior do que
os holofotes indicam. É
compreender que há artistas
fundamentais que seguem
criando, emocionando, e
renovando a nossa escuta. Eiko
merece ser ouvida com atenção,
com calma, com reverência.
Porque sua arte não grita para
chamar atenção: ela canta para
tocar a alma.
Foto by Vitor Ceolin
Há raízes que atravessam mares. O
que da sua infância permanece
ecoando quando você pisa no palco?
Minha infância. Primeira vez que subi
no palco, acho que foi entre três para
quatro anos, cantando canto
gregoriano na Igreja Católica. Eu
gostava de inventar. E o padre, da Igreja
onde eu frequentava, um dia ouviu e
disse: 'Olha, ela tem uma voz boa.'
A partir daí, comecei a prestar mais
atenção, a aprender ouvindo. Eles
ficavam felizes em ver uma criança tão
pequena cantando em latim. Eu
cantava, imitando o que ouvia.
Atualmente, moro em Porto Alegre.
Sou uma das diretoras da Companhia
de Ópera do Rio Grande do Sul, ao lado
de Flávio Leite e Ângela Correio. Juntos,
estamos à frente de um movimento de
renovação cultural e de
conscientização sobre a importância da
arte visual. especialmente na área da
música e na produção musical.
Em meio a tantas mudanças, amores,
países e palcos, o que manteve viva a
chama dentro de você para continuar
cantando?
Bom, tudo começou no Brasil, com
um carioca, na verdade. Mas nos
conhecemos na Suíça, em Genève. Eu
estava fazendo um concerto de música
de câmara, cantando “Liederkreis”, de
Schumann. Ele assistiu à apresentação
e, depois, me disse que viu uma luz ao
redor do meu corpo.
Foto Arquivo pessoal
Foi algo quase místico. Nos
aproximamos, começamos a sair,
e logo estávamos juntos. Tivemos
três filhas.
Ficamos casados por 12 anos, mas,
com o tempo, percebemos que
não era o que ambos
esperávamos. Acabamos nos
separando. Eu estava em São
Paulo quando conheci meu
segundo marido.
Depois, me mudei para o Uruguai,
onde vivi por 20 anos. Lá,
mergulhei na vida doméstica fui
mãe, cuidei da casa, mas nunca
deixei de cantar. Durante esse
tempo, me apresentei em diversos
países da América Latina,
praticamente por toda parte.
Mas tudo na vida é cíclico e esse
casamento também chegou ao
fim. Hoje estou sozinha, morando
em Porto Alegre, e trabalhando
muito. Trabalhando de verdade.
Foto Arquivo Pessoal
"Como artistas, como seres humanos dignos,
nunca fomos verdadeiramente valorizados."
Eiko Senda
Como o projeto que você está desenvolvendo busca transformar esse
ambiente de medo e silenciamento em um espaço mais justo e
acolhedor para quem vive da arte?
Nós somos artistas, não é? E acredito que você também tenha alguma
conexão com a arte. A arte, por si só, nunca conseguiu se firmar dentro
de uma lógica administrativa tradicional, dentro dessa estrutura
concreta da sociedade capitalista. Muitas vezes, ela é usada como
produto, como imagem para vender mas não como expressão humana
profunda. Como artistas, como seres humanos dignos, nunca fomos
verdadeiramente valorizados. Foi a partir desse lugar que eu e a Flávia
começamos a conversar. Por que precisamos suportar, por exemplo,
assédio sexual? Eu mesma sofri isso diversas vezes ao longo da vida,
especialmente quando era mais jovem. E também o racismo por ser
oriental, enfrentei situações muito difíceis. Vi muitos colegas passarem
por isso também. E o mais doloroso é que, muitas vezes, não temos
como dizer 'não'. Temos contas a pagar, filhos para cuidar. A arte nos
move, mas o sistema tenta nos calar. Eu e a Flávia conversamos muito
sobre isso: vivemos constantemente com medo de perder o trabalho,
e acabamos aceitando situações que ferem nossa ética, nossos
valores, tudo aquilo que aprendemos com nossa família.
Por isso, sentimos a urgência de criar um ambiente mais saudável para
quem trabalha com arte. Somos, operárias da arte obreiras que
constroem beleza, reflexão e emoção. E eu realmente acredito que,
onde há arte, também há espaço para a paz.
As crianças também ficam mais felizes. Por exemplo, muitos filhos de
artistas crescem em lares com dificuldades para pagar as contas
básicas. A gente acompanha de perto essas realidades. E aí fica a
pergunta: essas pessoas não têm direito a viver com dignidade? Claro
que têm. Todos têm. Por isso, queremos mudar esse paradigma.
Estamos construindo uma base sólida com cantores e profissionais da
arte que não aceitam mais viver sob ameaças.
Chega de diretores de cena que impõem medo: ‘se você não fizer isso,
perde o trabalho’; de maestros com ego inflado que usam o poder para
manipular. Não precisamos mais desse ambiente tóxico. Estamos
criando nosso próprio espaço de trabalho com respeito, com
humanidade.
Esse é o nosso fundamento. E é
lindo ver isso acontecer. Porque o
verdadeiro diferencial está no olhar
humano.
A arte tem como matéria-prima o
ser humano. E quando isso é
esquecido, mesmo por grandes
gênios, a arte perde sua alma e se
torna desumanizada.
Afinal, para quem fazemos arte?
Para quem assiste? Para nós
mesmos? É um intercâmbio.
Mas, em muitos lugares, o público
está ausente. É como se tudo
tivesse se tornado apenas números:
quanto foi captado, quanto tem de
orçamento e morre aí.
E esquecem que é a próxima
geração que vai sustentar esse país,
essa sociedade. E eles estão sendo
excluídos do nosso campo de visão.
Por isso, é urgente incluí-los.
Como você vê a formação do
canto lírico no Brasil?
Sempre acreditei que o Brasil
tem, sim, uma tradição no canto
embora muitos brasileiros não
percebam. Existe, sim, um amor
por essa arte, ainda que vindo de
um grupo pequeno, quase como
uma tribo. Mas é uma tradição
valiosa.
E como incluí-los?
Para incluir e também incluindo
que eles tenham força de pensar.
Força de observar as coisas. Arte,
especialmente música, é muito
importante. Porque ativa uma parte
do cérebro onde nós não podemos,
por exemplo, influenciar com outras
coisas.
Foto Arquivo Pessoal
“...‘se você não fizer isso, perde o trabalho’; de maestros
com ego inflado que usam o poder para manipular. Não
precisamos mais desse ambiente tóxico.”
Eiko Senda
Foto arquivo pessoal
O país tem grandes maestros e professores. Lembro, por exemplo, da
Dona Leila Farah, que conheci, e da Isabel. Esses mestres deixaram um
legado importante o amor ao canto herdado de imigrantes italianos,
poloneses, alemães, portugueses e também da comunidade judaica.
Todos contribuíram para proteger e valorizar essa arte.
O canto, para muitos, está profundamente ligado à memória afetiva, à
história familiar. Por isso, eu cuido com respeito. Não se trata apenas de
querer subir num palco. Existe uma ligação íntima, quase ancestral, com
essa expressão artística.
Por outro lado, na pedagogia do canto, enfrentamos alguns desafios. Um
deles está ligado à própria sonoridade do português, que tem uma
fonética bastante particular. O som nasal, como no 'ão' ou no 'til', tende a
baixar o palato mole e estreitar a ressonância o que interfere na produção
de um som lírico, especialmente quando buscamos pureza nas cinco
vogais básicas.
Para quem deseja cantar repertório lírico, é necessário criar um espaço
fonético mais amplo, consciente, que permita clareza e projeção. E isso
exige adaptação e técnica, respeitando a língua, mas também
reconhecendo suas limitações naturais no canto operístico.
Quando cheguei ao Brasil, percebi de imediato que, foneticamente, não
estávamos preparados para o canto lírico. A posição da fala no português
mesmo sendo nosso idioma materno, aquele que usamos em casa
interfere diretamente na projeção vocal.
Mas isso não significa que devemos negar a língua. Pelo contrário,
precisamos cuidar de dois aspectos:
Ao cantar lírico, é fundamental preservar a clareza das cinco vogais puras.
Mas ao falar português, carregamos uma tradição sonora e um valor
nacional que dão à voz brasileira sua suavidade, profundidade e um
timbre único uma característica que, de certa forma, revela a identidade
do nosso povo.
De que maneira a diversidade étnica e cultural do Brasil influencia as
características vocais dos cantores brasileiros em comparação com
outros países da América Latina?
Aqui no Brasil, por exemplo, quando vamos para a Argentina
especialmente no Teatro Colón, percebo algo interessante: minhas
colegas, principalmente sopranos e mezzo-sopranos, geralmente têm
uma extensão vocal menor.
Isso me levou a refletir sobre a diversidade
brasileira. O Brasil tem uma população
enorme, entre 60 e 80 milhões de
pessoas com origem mestiça, resultado
da mistura dos povos indígenas, africanos
e dos diversos grupos de imigrantes que
chegaram ao longo da história.
Recentemente, vi dados mostrando a
porcentagem das diferentes imigrações
que formam nosso território. Essa mistura,
especialmente com a descendência afrobrasileira,
é muito significativa e influencia
também as características vocais que
observamos.
Isso influencia diretamente a função
muscular, especialmente a musculatura
relacionada à etnicidade, e altera
completamente a posição da laringe,
assim como a distância entre as pregas
vocais. É essa combinação que gera uma
característica vocal única, exclusiva do
cantor brasileiro.
Por isso, é fundamental cuidar desse
aspecto, mas também desenvolver um
método próprio que respeite essas
particularidades. Acredito que essa é uma
urgência na pedagogia do canto lírico no
Brasil.
Muitas vezes, as aulas de
canto carregam um ar
místico, diferente das aulas
de instrumentos ou de
pintura, que seguem
métodos e formatos
concretos, testados e
comprovados ao longo do
tempo seja no piano, na
flauta ou em outros
instrumentos.
No canto, porém, isso é mais
difícil, porque nunca houve
uma
sistematização
específica que levasse em
conta o idioma materno do
cantor. E o Brasil tem essa
fragilidade: muitos dos
grandes professores vieram
de imigrantes italianos e
alemães, que ensinaram
métodos para quem fala e
entende outros idiomas.
Mas para quem não tem essa
base, surgem dificuldades
fonéticas que, em casos mais
graves, podem até gerar
problemas nas cordas vocais,
exigindo tratamento.
Por isso, meu trabalho com as
jovens cantoras é criar um
novo caminho um método
que aceite e valorize o
português, mas que também
desenvolva uma técnica
perfeita e adequada à nossa
língua. E quando elas
conseguem, a sensação é:
‘Perfeito! Nossa, isso sim é
cantar!
Você acredita que há espaço para
a valorização dos compositores
brasileiros no gênero da ópera?
Acredito que a ópera talvez até
pudesse ser chamada de outra
forma. Em espanhol, temos a
'zarzuela'; em inglês, o 'musical'. Já
em alemão e italiano, o termo
'operetta' representa uma forma
mais leve da ópera, e é curioso
como esses nomes variam, mas o
conceito permanece.
Por que não termos algo assim
também em português? Por que
não reconhecer, por exemplo,
'Operetta do Malandro' como uma
grande obra? O texto do Chico
Buarque é maravilhoso.
Hoje, vejo artistas como João
Gulherme Ripper criando trabalhos
muito interessantes, e Ronaldo
Miranda também tem produzido
bastante. Então, por que não?
Estamos em um momento em que
estamos convidando compositores
gaúchos a criarem novas obras.
Nosso objetivo é fomentar uma
verdadeira renascença da ópera
brasileira com obras novas,
contemporâneas, que dialoguem
com o nosso tempo.
O que falta, muitas vezes, é
divulgação. Isso é curioso: estados
como São Paulo têm mais recursos,
mas ainda não mobilizam tanto
investimento nesse tipo de
iniciativa.
E o segundo ponto é o interesse, o
puro interesse artístico. Acredito
que ele possa ser estimulado a
partir do envolvimento com famílias
da literatura, por exemplo. Cito o
trabalho do Gabriel Schirato e da
Lívia Sabag, criaram um projeto
voltado à formação de novos
libretistas e compositores. Eles
estão construindo espaços para a
criação de óperas novas e é isso que
precisamos. Difundir esse tipo de
produção também tem um papel
educativo para o público. Afinal,
ópera é teatro cantado. O
espectador precisa entender o que
está sendo dito. Só assim, numa
segunda etapa, ele poderá ouvir
obras em outros idiomas com mais
familiaridade e sensibilidade. Não
sei exatamente como conseguimos
sobreviver nesse cenário, mas
acredito que a ópera brasileira pode
e deve ajudar a valorizar a nossa
língua.
Porque, infelizmente, o português
tem sido cada vez mais
simplificado, e em certos casos, até
descaracterizado. A arte pode ser
um caminho para preservar a
riqueza do nosso idioma.
Existe alguma aria que seja um espelho da sua alma? Alguma peça que te revele
inteira, sem máscaras?
Fidelio. Cantei muitas vezes ao longo da minha carreira mais de 200
apresentações. Tosca, Turandot, Aida, Nabucco... Repertório pesado,
dramático.
Mas sabe quando realmente me emocionei? Foi ao cantar Fidelio.
Eu havia estudado esse papel com minha mãe. É uma obra única, a única
ópera escrita por Beethoven o que por si só já a torna especial. Todos nós,
músicos, temos um carinho enorme por ela.
E eu me perguntava: por que Beethoven escreveu apenas uma ópera?
Depois de muito tempo, entendi. Em uma de suas cartas, ele dizia que
compor essa obra exigiu uma responsabilidade imensa. Cada nota, cada
palavra, carregava um compromisso profundo. Era demais, até para ele.
Há também outro relato marcante: quando Beethoven assistiu Così fan tutte,
de Mozart, ele teria dito: 'Aqui, não existem mulheres.'
Ou seja, ele buscava algo mais autêntico, mais verdadeiro na representação
feminina. É por isso que Fidelio tem um peso tão grande. É música com alma
e verdade. A mulher estava sendo tratada como um objeto. Não se falava de
amor verdadeiro era tudo superficial. Então, Beethoven decidiu escrever
Fidelio, como uma resposta. Ele quis mostrar o que realmente significa o
amor um amor corajoso, comprometido, verdadeiro. E é claro, com o passar
dos anos, enfrentando dores faladas e não faladas, a gente vai mudando
nossa forma de entender as coisas.
Dessa vez, ao interpretar novamente essa obra, senti que minha relação com
o texto se transformou. Passei a perceber mais profundamente o que ele
dizia sobre justiça, sobre verdade. A palavra 'verdade' se repete muitas
vezes. E é forte. Porque a verdade, de fato, nunca divide ela une.
A personagem Leonora ou Fidelio é a representação disso: ela insiste, luta,
resiste… tudo para encontrar a verdade. É essa força que me move hoje ao
cantar essa obra.
Que mudanças você gostaria de ver no
cenário operístico nacional nos
próximos anos?
Eu não sei se devo dizer, mas eu
gostaria de dizer que quem canta bem
tem que estar no cenário. Quem canta
bem e quem canta de verdade. A
intenção das palavras precisa estar
viva no momento em que projetamos
a voz. Nem todos que estão no palco
hoje têm essa conexão. Há muitas
pessoas bonitas, sim e não estou
criticando a beleza. Se alguém nasceu
bonito, deve agradecer aos pais. Isso é
um presente.
Mas a fragilidade começa quando nos
afastamos da nossa raiz verdadeira. E
essa raiz é o que nutre a flor que é a
ópera.
Quero falar dos cantores verdadeiros
aqueles que cantam com a alma, com
a voz, com entrega.
Percebo que hoje há uma tendência
muito voltada para o visual. Tudo
começou assim, com o apelo da
imagem. Não culpo os diretores de
cena, que fazem seu trabalho da
melhor forma.
Mas é preciso refletir: o que é mais
importante? A aparência ou a música?
A música, claro. A voz é a essência.
É a matéria-prima da ópera.
O que aconteceu, então? Esse
valor foi enfraquecido. E
começamos a ver contratações
baseadas mais na aparência do
que na qualidade vocal.
Há modas que mudam a cada 15
ou 20 anos. Quem sabe o próximo
ciclo traga de volta a valorização
de corpos mais diversos mulheres
mais volumosas, homens com
presença real.
Essas questões são muito
vulneráveis. E é essa
vulnerabilidade que enfraquece a
base do que deveria ser
verdadeiro e sustentável na arte.
A questão da sobrevivência na
arte, especialmente na ópera, tem
se perdido por causa de uma
estética que, muitas vezes, não
tem relação alguma com a música.
Fica tudo muito distante da
essência. Um olhar meramente
visual, superficial. E aí,
sinceramente, talvez seja melhor
assistir a uma série na Netflix ou
na HBO é mais coerente com esse
tipo de entretenimento.
Mas a experiência verdadeira da
ópera é outra. Basta olhar para
100 ou 150 anos atrás.
Lembro de um amigo da Lituânia ele
já faleceu, viveu mais de 100 anos.
Ele costumava contar como, ainda
jovem, escapou da Europa com sua
família. Ao embarcar no navio rumo
à América Latina, eles se despediram
no porto. Primeiro desembarcou em
Buenos Aires, depois veio para São
Paulo. Naquela época, tocava-se
muito Puccini. Era algo profundo,
transformador. Ele dizia que, do
fundo do horizonte, ainda no mar,
era possível ver o navio surgindo
como uma pequena ponta uma
imagem quase poética. E junto com
aquele navio, vinham também as
memórias, os valores, a conexão
com a música de verdade. Ele fazia
análises lindas sobre isso: a música
não era apenas entretenimento era
identidade, memória e sobrevivência
emocional. E aí eu me pergunto: por
que cantamos? Não é pelo ego. Ou,
pelo menos, não deveria ser. É por
cuidado humano. Pela memória,
pela alma coletiva.
Mas hoje eu gostaria de manifestar
algo importante: os cantores
precisam ter higiene emocional.
Tenho amigos italianos que vivem
na Serra do Rio Grande do Sul.
Suas famílias pais, avós, tiostodos
cantavam Va, pensiero de cor. Era
natural.
Quando fugiram da Itália, em
tempos de fome e guerra, levaram
com eles essa música como um
símbolo de resistência e saudade.
Cantavam Va, pensiero não por
vaidade, mas porque era uma
forma de manter viva a dignidade
e a esperança. Isso é lindo,
profundamente verdadeiro.
E a competição entre os cantores?
Nos anos 1960 e 1970, surgiu uma
cultura de estrelato muito
impulsionada pela figura de Maria
Callas. Aquela ideia de que para
ser reconhecido era preciso ser
uma “diva”, estar sempre
competindo, criando rivalidades.
Isso vendeu bem como drama,
como espetáculo.
Mas o que aconteceu foi que as
pessoas começaram a acreditar
que os cantores devem competir
entre si, falar mal dos colegas, dos
professores...
E no fundo, tudo isso é muito
pequeno. A comunidade do canto
é como uma tribo, uma irmandade
artística e não deveria ser
fragmentada por essa ilusão de
poder, de superioridade.
Estamos criando essa companhia justamente para quebrar essa crença tóxica
de que artistas precisam competir entre si. Aqui, todos estamos juntos.
Estamos fortes. Muitos cantores e artistas ficaram sem casa, sem apoio. A
maioria não tem salário fixo, não tem estabilidade. Muitos sequer conseguem
arcar com os próprios custos. Então, o que fizemos? Criamos o projeto Lírico
Solidário um apoio mútuo entre cantores. Não só no Brasil, mas também no
Uruguai, na Argentina, em Buenos Aires.
Onde pudermos reunir forças, estaremos unidos. Se alguém está em
depressão, vamos conversar. Se precisa de ajuda, contratamos alguém. Eu sou
pedagoga, temos colegas psicólogos, fisioterapeutas… todos colaborando
entre todos, para que possamos sobreviver emocional e artisticamente. E
nesse processo, percebemos algo ainda mais profundo: por que estávamos
competindo? Por que falávamos mal uns dos outros, sendo que todos vivemos
as mesmas dificuldades?
Isso vem sendo alimentadas por maestros manipuladores, que diziam: "você
canta pior que fulano", "você nunca vai chegar lá". É tóxico. Tóxico demais.
Isso destrói carreiras, apaga vozes potentes. Queremos acabar com isso o
quanto antes. Para que a próxima geração viva com mais sanidade, mais
leveza, mais verdade. E, no fundo, é isso que a música sempre foi: união. Meus
avós cantavam juntos para unir a família, para lembrar o que era bom. As
notas musicais são como pessoas.
Cada uma tem sua personalidade: o dó é diferente do ré, o ré do mi.
Nenhuma compete com a outra. Juntas, criam harmonia. Os filósofos gregos
já sabiam: não sobrevivemos sozinhos. Pitágoras, ao dividir as notas e estudar
a frequência, não só inventou a escala ele nos deu um mapa de ressonância,
de presença.E que tipo de música tem mais valor do que aquela que cura, que
sana, que preenche o vazio?
O filósofo alemão Max Picard dizia: o valor da música depende do silêncio que
ela contém. Quando escutamos, por exemplo, Lascia ch’io pianga da ópera
Rinaldo, de Händel, sentimos isso. O silêncio entre as notas é quase tão forte
quanto a melodia. E ali está a cura.
Se a sua voz fosse uma paisagem, qual que ela seria?
Um céu estrelado! Sabe qual é a primeira coisa que me toca? As estrelas.
Quando estou no meio do campo, sem luzes, sem cidade, apenas o céu aberto
é como estar no coração da galáxia. Um escuro imenso, silencioso… e, de
repente, aquelas estrelas brilhando. É lindo demais.
Deito na grama e olho para o céu. Tudo escuro, mas cheio de vida lá em cima.
E então penso: minha voz é como aquilo. Não sou a estrela sou parte daquele
conjunto. Um ponto entre muitos. Um fragmento da constelação.
Essa imagem me emociona. É uma paisagem que me traz paz. Me sinto
protegida quando estou no campo.
Desculpa, mas em São Paulo eu não me sinto bem. No campo, sim ali, me
sinto abraçada. Me sinto segura. Verdadeiramente segura!
Qual sua próxima programação?
Friedenstag. Essa obra é muito especial, muito particular e tenho certeza
de que você vai gostar, porque sei que você curte esse tipo de assunto! A
peça foi composta por Richard Strauss por volta de 1936 ou 1938. O
libreto é de Joseph Gregor, mas é importante lembrar que o colaborador
judeu de Strauss, Stefan Zweig, muitas vezes teve sua participação
censurada na época por conta do regime nazista.
A obra se chama Friedenstag (Dia da Paz) e tem uma carga simbólica
muito forte. Eu interpreto Maria, a esposa de um comandante militar ele
representa a guerra, a opressão. A cidade está sitiada, completamente
destruída, e Maria vive esse conflito emocional ao lado de um homem
dominado pela paranoia e pela obsessão pela vitória. É um retrato intenso
de como a guerra consome tudo, até os sentimentos mais íntimos.
Desde 1938 até hoje, essa obra quase não foi executada e por isso essa
primeira audição é extremamente significativa. Trazer Friedenstag aos
palcos novamente tem um peso simbólico enorme. É como se
estivéssemos abrindo uma janela no tempo, permitindo que aquela
mensagem de paz, escrita em meio ao avanço do nazismo, ecoe agora, em
um mundo ainda marcado por conflitos.
Essa apresentação não é apenas sobre música. É um ato de memória, de
resistência e de esperança. Interpretar Maria, essa mulher que representa
o equilíbrio entre o amor e o caos, é uma experiência profunda. E poder
apresentar essa ópera hoje é uma forma de lembrar que a arte sempre foi
e continua sendo um instrumento poderoso contra a guerra e a
intolerância.
Theatro Municipal de São Paulo
Friedenstag (Dia de Paz)** (80’)
Ópera em um ato de Richard Strauss com libreto de Joseph Gregor e Stefan Zweig
dias 19, 22, 25 e 27 de julho
Leonardo Neiva, Comandante
Eiko Senda, Maria
Eric Herrero, O Piemontês
Copyright © Herzsache - Academy for Heart Education
Fidelio - Beethoven
Fidelio é a única ópera de Beethoven. Conta a história de Leonore,
personagem que, disfarçada de homem (Fidelio – fiel), consegue um emprego
em uma prisão com o propósito de libertar seu marido, injustamente
condenado.
A ópera teve uma trajetória tumultuada, sendo revista diversas vezes.
Estreada em 1805, somente nove anos depois chegou à sua versão final, em
1814.
Beethoven não era um compositor vocal como Mozart ou Schubert. “Não
gosto de compor canções”, disse certa vez, e, sobre Fidelio, afirmou: “Esta
ópera vai me valer uma coroa de mártir”.
Bethoven teve dificuldades em conseguir uma abertura adequada para a
ópera: escreveu quatro! Para a estreia, em 1805, a abertura tocada foi a que
é hoje conhecida como Leonore nº 2. Duas outras “Leonores” foram escritas:
a que atualmente é chamada de nº 3 (1806) e a nº 1 (1808). Finalmente, em
1814, veio a Abertura Fidelio, que é geralmente usada hoje em dia.
A N O T A A Í
a receita!
por Olívia Vieira
Cuscuz nordestino
1/2 xícara (de chá) de flocos de milho;
2 fatias grossas de queijo coalho;
1 colher (de café) de sal;
1 xícara de água;
Ideal fazer numa cuscuzeira.
A importância da pimenta na
saúde da população:
sabor que cura
A pimenta, muito além de um
ingrediente capaz de acentuar
sabores e despertar sensações
picantes, é reconhecida pela
ciência como uma verdadeira
aliada da saúde. Com presença
marcante nas cozinhas de
diversas culturas, ela guarda
propriedades terapêuticas que a
tornam uma opção natural de
prevenção e bem-estar,
especialmente em tempos em
que a alimentação saudável
ganha protagonismo no
combate a doenças crônicas.
A principal responsável pelos
benefícios da pimenta é a
capsaicina, composto ativo
encontrado principalmente nas
variedades mais ardidas, como a
dedo-de-moça, malagueta e
jalapeño. Estudos indicam que
essa substância tem efeito
analgésico, anti-inflamatório e
termogênico — este último
capaz de acelerar o metabolismo
e contribuir para o controle de
peso corporal. Segundo a
nutricionista Fernanda Granja, “a
capsaicina estimula a liberação
de endorfinas, hormônios que
promovem bem-estar, o que
pode ajudar inclusive na
prevenção da depressão leve”.
Além disso, a pimenta é rica em
antioxidantes, como as
vitaminas A e C, que combatem
os radicais livres, ajudando a
prevenir o envelhecimento
precoce e reforçando o sistema
imunológico. Há ainda
evidências de que o consumo
regular e moderado pode
melhorar a circulação
sanguínea e reduzir os níveis de
colesterol ruim (LDL),
beneficiando a saúde
cardiovascular.
Em algumas populações,
principalmente na Ásia e
América Latina, o uso diário da
pimenta está ligado a uma
menor incidência de doenças
inflamatórias. No Brasil, com
sua grande biodiversidade de
espécies nativas, a valorização desse alimento também se traduz em
uma conexão com saberes tradicionais, principalmente de
comunidades indígenas e rurais, que utilizam a pimenta não só como
tempero, mas também como medicamento natural.
A pimenta, portanto, se destaca não só pelo aroma e calor que
oferece aos pratos, mas também pelo papel preventivo e
terapêutico. Um alimento acessível, versátil e potente, que pode — e
deve — estar no cardápio de quem busca mais saúde de forma
natural.
Para aprofundar os efeitos positivos da pimenta no
organismo, conversamos com a nutricionista e pesquisadora
Dra. Laura Mendonça, especialista em alimentos funcionais.
Nesta entrevista fictícia, ela explica os principais benefícios
da pimenta para a saúde da população e esclarece dúvidas
comuns sobre seu consumo.
Revista ICONIC: Dra. Laura, por que a pimenta é considerada
um alimento funcional?
Dra. Laura Mendonça: A pimenta é funcional porque, além de
suas qualidades nutricionais básicas, ela possui compostos
bioativos com efeitos benéficos comprovados para o
organismo. O principal é a capsaicina, que tem ação antiinflamatória,
antioxidante, termogênica e até mesmo
analgésica. Isso significa que seu consumo pode ajudar na
prevenção de doenças e na promoção da saúde como um
todo.
Revista ICONIC: E quanto ao sistema imunológico? A pimenta
ajuda mesmo?
Dra. Laura: Sem dúvida. Ela é rica em vitaminas A, C e E, além
de flavonoides, todos com ação antioxidante. Isso fortalece as
defesas naturais do corpo, prevenindo infecções e
contribuindo para a regeneração celular. É um recurso
natural e acessível para fortalecer o organismo.
Revista ICONIC: Existe um tipo de pimenta mais recomendado
do que outros?
Dra. Laura: Todas as pimentas têm propriedades benéficas,
mas quanto mais ardida, maior a concentração de capsaicina.
A malagueta, a dedo-de-moça e a cayenne, por exemplo, são
ótimas opções. Porém, pessoas com problemas gástricos
devem optar por versões mais suaves ou consumir em
pequenas quantidades.
Revista ICONIC: Há riscos no consumo exagerado?
Dra. Laura: Sim. Em excesso, a pimenta pode irritar o
estômago e o intestino, especialmente em pessoas sensíveis.
Pode também causar desconforto digestivo e, em alguns
casos, aumentar o refluxo. A recomendação é começar com
pequenas porções e observar a tolerância individual.
Revista ICONIC: Para finalizar, a senhora diria que a pimenta é
um “remédio natural”?
Dra. Laura: Eu diria que sim, desde que usada com
consciência. Ela carrega propriedades incríveis, e quando
inserida numa alimentação equilibrada, pode ser uma
verdadeira aliada da saúde. Sem esquecer que também torna
a comida muito mais saborosa!
Fabiana Tavares
VOCÊ TEM
1 SEGUNDO
A vida é passageria. Faça o máximo!
Diga NÃO a qualquer tidpo de pré - conceito
por Olívia Vieira
Ter um quentão sem álcool na sua festa junina é uma excelente forma de incluir todos os
convidados especialmente crianças, gestantes ou quem prefere evitar bebidas alcoólicas.
Tradicional nas festas de inverno brasileiras, o quentão costuma levar cachaça, ajudando
a aquecer quem se arrisca na quadrilha ao redor da fogueira.
Mas, para que ninguém fique de fora, preparei uma versão especial: sem álcool, mas com
todo o sabor e o calor da receita original. Aqui, o suco de uva entra no lugar da cachaça,
harmonizando perfeitamente com as especiarias típicas da bebida, como canela, cravo e
gengibre. Servido bem quentinho, esse quentão sem álcool é fácil de fazer, delicioso e
capaz de aquecer qualquer arraial. Uma alternativa saborosa que, com certeza, vai
conquistar adultos e crianças!
Ingredientes (40 porções)
1 garrafa de 500 ml de suco de uva
3 garrafas de 500 ml de água
500 g de açúcar
100 g de gengibre
Canela em pau (a gosto)
10 g de cravo
2 limões em rodelas
Modo de preparo : 30min
1.Coloque o suco, a água e o açúcar em uma panela.
2.Deixe aquecendo.
3.Depois coloque o cravo, o gengibre, a canela e as rodelas dos limões em um
tecido, pode ser em um pano de prato bem limpo.
4.Em seguida, coloque esse sachê dentro da panela.
5.Deixe levantar fervura, cerca de 10 minutos e está pronto o quentão.
Priscila Buares
Professora, jornalista, pedagoga, pesquisadora em
Educação, escritora, consultora editorial, publisher e
gestora de projetos.
Formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro
(UFRJ). Integra o GEPCEEJA - Grupo de Estudos e
Pesquisas em Currículo, Educação e Ensino de
Jovens e Adultos, onde desenvolve pesquisas
voltadas à Educação de Jovens e Adultos (EJA), com
atenção especial às políticas públicas.
Atualmente, é pesquisadora em EJA vinculada ao
IBMR e pesquisadora voluntária em Políticas
Educacionais pela COPPE Unesp. Coordena o projeto
EduPol - Laboratório de Políticas Educacionais, um
espaço independente voltado à análise crítica,
divulgação científica e articulação de ideias no
campo das políticas
educacionais.
Você sabe o que é Educação?
A palavra Educação está em
toda parte. Nos meios de
comunicação, nas campanhas
eleitorais, nas conversas de
família, no ambiente escolar.
Mas, afinal, o que é
Educação?
Muitas vezes, confundimos
Educação com boas maneiras
ou, apenas, com o ato de
frequentar uma sala de aula.
Essa visão reduzida a
transforma em algo raso,
comportamental, quase
decorativo. Mas Educação vai
muito além de regras de
etiqueta ou de presença
física em uma escola.
Ela não se resume a decorar
conteúdos ou tirar boas notas em
provas. Educação é muito mais do
que isso. Ela é um processo
humano, social, político e histórico.
Ela constroi olhares, desafia
realidades, movimenta culturas e
estrutura possibilidades de futuro.
Educação é um processo vivo,
contínuo e profundo. É o que molda
nossos valores, nossa forma de
pensar, agir, sentir e conviver. Está
presente nas palavras que
escolhemos, nas decisões que
tomamos, na maneira como
olhamos para o outro e para o
mundo. A verdadeira Educação
questiona o que nos foi ensinado
como natural. Ela nos faz perceber
o que está por trás das estruturas,
nos dá ferramentas para
compreender desigualdades e
coragem para transformá-las.
Educação não é apenas
transmitir conteúdo. Ela é,
acima de tudo, um processo
de formação integral do ser
humano. Forma sujeitos
capazes de pensar, criar,
questionar e transformar.
Educação é provocar
pensamento. É refletir sobre
o mundo em que vive, criar
novos caminhos, questionar o
que parece imutável e
transformar o que fere a
dignidade, a justiça e a
liberdade. Uma educação
significativa ensina a
argumentação, a escuta, a
dúvida e o recomeço.
A Constituição Brasileira, em
seu Artigo 205, diz que a
Educação é um direito de
todos e dever do Estado e da
família. Esse princípio deveria
garantir que toda pessoa,
independentemente de onde
nasceu, da cor da sua pele,
da sua renda ou condição
social, tivesse acesso a uma
educação de qualidade, uma
educação que promovesse o
desenvolvimento pleno, a
cidadania e a inserção digna
no mundo do trabalho.
Mas, na prática, sabemos que
muitas pessoas ainda são privadas
desse direito fundamental. A
exclusão educacional no Brasil não
acontece apenas pela falta de
acesso, mas também pela má
qualidade do que é oferecido. Uma
educação fragmentada e distante
da realidade dos estudantes não
forma cidadãos críticos nem
constrói possibilidades reais de
transformação. Ela reproduz
desigualdades, silencia culturas e
limita sonhos. Falta
comprometimento a longo prazo,
ou seja, tratar a Educação como ela
deve ser tratada, como um projeto
de país. Falar de Educação,
portanto, é também falar de
desigualdades e oportunidades
negadas, e entender que Educação
não é gasto. É investimento.
Educação é, acima de tudo,
um ato de construção de
humanidade. Não apenas no
sentido de transmitir
conhecimento, mas de formar
pessoas inteiras, conscientes
de si, sensíveis ao outro,
abertas ao diálogo e
comprometidas com o bem
comum. Educação desperta o
olhar para além do próprio
umbigo e ensina a ler o
mundo com criticidade. É um
caminho de descoberta, de
ampliação de horizontes e de
ressignificação do mundo,
onde cada aprendizagem
carrega um potencial de
transformação. Educação é
cultivar o pensamento crítico,
a sensibilidade e a
autonomia, virtudes essas
fundamentais para viver em
sociedade de forma justa e
consciente. Educação é abrir
caminhos para que cada
pessoa reconheça sua
potência e encontre sentido
no saber, na convivência e na
ação coletiva.
onde há silêncio imposto ou
pensamento único.
Porque Educação é, sobretudo,
acreditar na possibilidade de
mudança, imaginando futuros
possíveis e construindo, no
presente, realidades mais justas,
mais livres e mais humanas. Uma
sociedade que valoriza a Educação
é uma sociedade que escolhe
cuidar da sua própria dignidade. E,
se há um país destruído, pode ter
certeza, a Educação não está em
primeiro lugar.
“A educação, direito de todos e dever do
Estado e da família, será promovida e
incentivada com a colaboração da sociedade,
visando ao pleno desenvolvimento da pessoa,
seu preparo para o exercício da cidadania e
sua qualificação para o trabalho.”
Artigo 205 da Constituição Federal de 1988
“Falar de Educação, portanto, é também falar
de desigualdades, de oportunidades negadas
e de um país que ainda não entendeu que
Educação não é gasto. É investimento.”
Educação é diálogo, é escuta,
é encontro. Na troca entre
diferentes visões, histórias e
saberes é que ela se
fortalece e ganha sentido.
Não há verdadeira Educação
Lembrete
Não deixe para amanhã o pão de
queijo que você pode comer hoje!
sim
claro
Marcos
Menescal
“HOJE, EU TENHO
O OUVIDO
ABERTO.”
Marcos Menescal, foi entrevistado
por Regina Papini Steiner
A formação em canto lírico no Brasil oferece suporte
suficiente para quem quer seguir carreira? Como é
que está?
Eu acho que melhorou muito do ponto de vista da
formação global do cantor. Eu não sei... É muito difícil,
quando se trata da técnica vocal, você ter bons
professores e bons professores que encontrem bons
alunos e haja essa conexão. Há poucos bons
professores de canto. Mas o que ocorre é que os
cantores, os jovens cantores de hoje são muito mais
bem preparados do que os da minha época, mas muito
mais. Têm muito mais noção de estilo, muito mais
noção de fraseado, porque eles procuram mais.
Hoje em dia há muito mais facilidade. Naturalmente,
você vai no YouTube e ouve o que quiser. E eles
costumam ser muito interessados nisso e chegam
muito preparados do ponto de vista mesmo da
interpretação musical, do fraseado, etc. E nessa
geração, eu vejo, despontando, artistas muito, muito
interessantes.
Marcos Menescal, faz
parte da Diretoria
artística e cuida
principalmente da
escalação de elenco
do Teatro Municipal
do Rio de Janeiro.
“Hoje os cantores, têm
uma formação teórica
de leitura e de teoria
musical muito forte. Eles
saem das universidades
muito bem preparados.
De maneira que é uma
geração muito
interessante”
Havia uma certa dificuldade de entender os
estilos, como se deve cantar. Porque se lia muito
pela partitura. Partitura diz muita coisa, mas não
diz tudo. Se a gente pensar que os cantores
antigos, que não tinham gravação e tinham
partitura, tinham um ambiente teatral em que
eles, desde cedo, estavam em teatro ouvindo as
pessoas cantando, na minha geração justamente,
foi um hiato. Poucas óperas, poucas
oportunidades de ouvir ao vivo. Foi uma época
em que não vinham mais os grandes nomes
internacionais e havia pouca gravação no Brasil.
Era caríssimo, era muito difícil você ter. Então,
hoje não. Hoje você vai na internet, você tem
tudo, e eles procuram para saber exatamente
como se deve cantar determinada música,
determinado estilo. De maneira que, você vê um
jovem que canta Bellini absolutamente como
deve ser, canta Mozart, canta Barroco,
Monteverdi, o que seja, canta Alban Berg, o que
você quiser. Porque procuram e veem gente que
sabe fazer isso e imitam. É uma boa imitação
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feugiat augue felis, ac malesuada
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semper nec velit ut pellentesque.
essa. Não é uma má imitação, uma macaqueação,
não. É uma boa imitação. Você vê como é. Por
que ele desenvolve essa frase dessa maneira? E aí
você entende o que o cara está fazendo e faz
também. Entendeu?
“Porque se a gente for falar
de ópera, em ópera não se
improvisa.”
Como você vê o papel das
instituições públicas e privadas na
preservação e promoção da ópera?
É complicado. No Brasil, a gente
tem poucas instituições que fazem e
elas não têm muita continuidade. O
que aconteceu recentemente com o
Festival de Manaus foi uma tragédia.
Eles vinham há mais de 20 anos
com sucesso danado, de repente
cortam aquilo. Agora tem uma
verba mínima, eles estão fazendo o
que podem, estão retomando.
E volta e meia a gente vê uma
instituição que estava produzindo
há alguns anos e de repente para.
Existe também uma coisa que... Isso
me incomoda muito. Pessoas que
não são do ramo e lideram
instituições com ideias muito
inovadoras que não levam a lugar
nenhum. Porque se a gente for falar
de ópera, em ópera não se
improvisa. Ah, vou fazer uma coisa
aqui que vai ser legal, porque
remete a não sei o quê...
Isso costuma não dar certo. Tem gente que acha
bacana porque é muito moderninho, não sei o
quê, mas não, você desvirtua a obra
completamente, apresenta uma outra coisa que
não tem nada a ver e que acaba não agradando
tanto. Porque essas óperas, os grandes clássicos
que eu digo que seja La Traviata, Bodas de Fígaro,
são obras que estão aí há 100, 200 anos.
E pelo que elas são, não porque alguém inventou
em fazer uma outra coisa, uma gracinha. O que
está me preocupando hoje em dia é sobretudo a
inserção de coisas que não têm nada a ver com
aquela ópera, sabe? No municipal, do Rio, nessa
gestão e em gestões passadas se evita muito isso.
Isso não quer dizer que você não queira inovação,
criatividade, nada disso. Você não pode montar
La Traviata como ela foi feita em 1863.
Não, você tem que ir inovando. Mas dentro de
uma coerência, dentro de um respeito à obra, e
eu vejo que, muitas vezes, para fazer uma
gracinha e aparecer muito, desrespeitam a obra.
E ela vale pelo que ela é, não por essas “ideias
fantásticas e geniais” que costumam ter por aí.
Isso não serve para nada!
Talvez essas “idéias mirabolantes”, atrapalhe um
pouco o olhar do investidor?
É, mas de qualquer forma, são poucos
espetáculos. No Brasil, muito poucos espetáculos.
É muito difícil fazer uma carreira de cantor no
Brasil, a menos que a pessoa seja professora de
alguma universidade ou de alguma instituição, ou
cante no coro de algum teatro. Senão é muito
difícil viver. É um grupo muito pequeno, tem um
grupo, vamos dizer, de elite, de ótimos cantores
que conseguem sobreviver. Mas se acontece
algum problema, chega a uma determinada
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feugiat augue felis, ac malesuada
enim ornare quis. Vivamus
semper nec velit ut pellentesque.
idade em que a voz começa a entrar em declínio,
a pessoa fica completamente desamparada,
porque, ao longo da carreira, não consegue fazer
um pé de meia suficiente para se manter.
Como você vê o papel das
instituições públicas e privadas na
preservação e promoção da ópera?
É complicado. No Brasil, a gente
tem poucas instituições que fazem e
elas não têm muita continuidade. O
que aconteceu recentemente com o
Festival de Manaus foi uma tragédia.
Eles vinham há mais de 20 anos
com sucesso danado, de repente
cortam aquilo. Agora tem uma
verba mínima, eles estão fazendo o
que podem, estão retomando.
E volta e meia a gente vê uma
instituição que estava produzindo
há alguns anos e de repente para.
Existe também uma coisa que... Isso
me incomoda muito. Pessoas que
não são do ramo e lideram
instituições com ideias muito
inovadoras que não levam a lugar
nenhum. Porque se a gente for falar
de ópera, em ópera não se
improvisa. Ah, vou fazer uma coisa
aqui que vai ser legal, porque
remete a não sei o quê...
Como a ópera pode dialogar com a cultura
brasileira e suas diversas expressões regionais?
É possível, desde que haja... desde que haja
inteligência e respeito pela obra.
Olha, eu vi uma valquíria muito interessante com
elementos feitos em São Paulo e no Rio, e não sei
se em algum outro lugar, direção do André Heller
Lopes, que trazia elementos do Nordeste, de
Maracatu. Tinha um cenário com muitas fitas do
Bonfim e a ópera estava ali, certinha, entende?
Esse tipo de diálogo é interessante. Mas, se você
tem uma ópera italiana, por exemplo, e de
repente insere trechos de samba no meio... pra
mim, isso é quase um assassinato artístico.
Que mudanças você gostaria de ver no cenário
operístico nacional nos próximos anos?
Primeiramente, os diretores de instituições
deveriam ter conhecimento específico sobre a
área em que atuam. Isso é fundamental e,
infelizmente, nem sempre acontece. Caso não
tenham esse conhecimento, é essencial que
estejam bem assessorados por especialistas, e que
saibam escutar essas pessoas, em vez de impor
ideias desconectadas da realidade artística. É
possível ter um diretor leigo, por exemplo, no
comando de um teatro desde que ele seja um
bom gestor. Mas, nesse caso, é indispensável que
ele conte com um diretor artístico de sua
confiança, alguém competente, qualificado e,
acima de tudo, ouvido. Essa é a maneira correta
de se conduzir uma instituição cultural. E é
preciso acreditar no especialista: se eu não
entendo do assunto e você entende, cabe a mim
confiar no seu trabalho e não dizer a você como
deve fazer.
Então, isso é uma das coisas. Outra coisa... Eu sou
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feugiat augue felis, ac malesuada
enim ornare quis. Vivamus
semper nec velit ut pellentesque.
muito tradicionalista, talvez eu seja um pouco
dinossauro, mas eu faço uma comparação com o
balé clássico. Você sabe que o Teatro Municipal
do Rio tem uma companhia de balé esplêndida,
não é?. E esses balés clássicos, eles levam coisas
de neoclássico, de moderno, eventualmente.
Agora, os grandes clássicos, que seja Lago dos
Cisnes, Gisele, Copélia, etc., eles fazem
absolutamente a rigor. Dentro de uma tradição,
sem inventar nada. E o público adora. Comparece,
ama. E eu gostaria que a ópera voltasse um pouco
a isso. O público sempre gosta. São poucos
espetáculos. Quem gosta de ouvir as
belas vozes e ver um espetáculo
grandioso acaba gostando e
aplaudindo muito no final. Mas eu
tenho certeza de que saiu assim... Só
que por que aquilo aconteceu? Eu
realmente não entendi. Às vezes,
falta lógica mesmo. Você diz uma
coisa, mas faz outra completamente
diferente. A gente vê muito isso: a
pessoa está cantando um
determinado texto, mas encena algo
que não tem absolutamente nada a
ver com o que está dizendo. E,
sinceramente, acho que isso não
funciona. Não é uma boa escolha.
Mas dentro de uma medida, sabe?
Não sendo radical. Dentro de uma
medida, de um equilíbrio, e sempre
pensando no que pode servir a obra.
O mais importante é a obra. Teve
um diretor aqui que eu gostei muito,
recentemente. Jovem diretor. Ele
dirigiu I Pagliatcci e Elixir do Amor.
E ele dizia, o meu interesse é contar
a história como ela é.
Que iniciativas no Rio de Janeiro você conhece ou já participou que estão renovando
ou ampliando o alcance da ópera no Brasil?
Começou uma agora, chama-se Ópera da Lapa. Estão fazendo, com a dificuldade que
você pode imaginar, óperas com piano e alguns cortes. Fernando Portari, esse grande
cantor brasileiro, extraordinário cantor brasileiro, ele é o diretor artístico dessa
companhia. Eles já fizeram Carmen e Tosca. Começaram ano passado. Agora vão fazer La
Traviata. E eu acho isso muito importante para que os jovens possam cantar e se
desenvolver. Existe muito pouco hoje em dia. Só esse grupo que conheço agora, as
escolas fazem, tanto a Unirio como a Universidade Federal, montam as óperas, muito
importante também. Mas não é como na minha época, porque na minha época havia as
sociedades líricas e a gente cantava muito mesmo, porque eram várias. Porque havia o
Inacen, Instituto Nacional de Artes Cênicas. Contemplavam com verbas a ópera, o teatro,
a dança e o circo. E, por exemplo, ABAL, Associação Brasileira dos Artistas Líricos, fazia
um espetáculo por semana durante o ano inteiro em um determinado teatro do Rio,
pequeno. Só aí você imagina o tamanho do campo que era. Eram quatro espetáculos por
mês, com troca constante de títulos. A gente cantava muito, mas muito mesmo. Eu era
jovem, estava começando, e cantava o tempo todo. Era maravilhoso às vezes, duas óperas
por mês. E havia muitas substituições também, porque com tanto espetáculo, sempre
tinha alguém passando mal ou com alguma dor. Aí chamavam: 'Vem fazer aqui, vem
cobrir ali'. Foi um período muito bom no meu início, sabe? Mas isso não existe mais.
Depois que o Collor acabou com o Inacen, de um ano para o outro, tudo desmoronou.
Que conselho você daria para esses jovens cantores líricos que estão começando?
Tenham paciência, calma, e que saibam esperar o momento justo, porque não se deve
sair cantando antes de saber cantar. Então a primeira coisa é ter uma base técnica. Hoje
estão começando muito cedo hoje, com 18, 19, 20 anos, estudem seriamente, sem pensar
muito em aparecer aqui e ali, porque senão vão aparecer mal e não vão para frente.
Então que estudem a técnica vocal e que saibam respirar e sustentar, para não ter
problema de voz, de forçar, de não sei o quê, porque quando não se tem uma boa
técnica e se força a voz, você dura muito pouco, porque começa a cantar, começa a
cansar e a coisa não vai. Então a primeira coisa é essa. Estudar música, procurar ter
cultura, procurar conhecer, procurar ouvir, procurar saber, vamos dizer um tenor, como
Pavarotti cantava essa ária? Como cantava o Beniamino Gigli? Como cantava Tito
Schipa?.
É interessante isso: quando você admira muito um cantor e só ouve aquele, acaba
ficando muito parecido com ele só que sempre abaixo, é claro. Ninguém é Pavarotti.
Então, se você tenta Lorem imitar ipsum o Pavarotti, dolor sit amet, no fim vira um mau Pavarotti. Agora, se você ouve
consectetur adipiscing elit. Nulla
vários cantores, começa a absorver diferentes qualidades e, aos poucos, constrói seu
feugiat augue felis, ac malesuada
próprio estilo. Uma enim personalidade ornare quis. Vivamus artística própria, mas com cultura, com entendimento
de como as coisas semper devem nec ser velit feitas. ut pellentesque. Isso é fundamental. E depois, é preciso se expor:
participar de concursos, se apresentar. E esses jovens fazem isso, sim. Eles se inscrevem,
participam das audições. O que me preocupa é que, hoje em dia, alguns teatros só
aceitam candidatos em audições se eles tiverem um agente e isso, sinceramente, eu não
acho nada positivo, eu acho isso muito ruim, porque um jovem que não tem agente, ele
pode ser absolutamente promissor e ele não tem a chance de se apresentar em uma
audição. Audição é quem te dá o contrato, quando você não é conhecida, você precisa
dar audição, ser ouvida para que o teatro te contrate. E eu acho que isso é uma coisa
negativa que acontece hoje e que eu não acho nada bom.
No Theatro Municipal do Rio, felizmente, não enfrentamos esse problema. Lá, estamos
desenvolvendo um trabalho que é muito alinhado com o meu propósito: oferecer
oportunidades reais para que os talentos do coro possam se destacar. Começam com
pequenos papéis e, a cada temporada, ganham mais espaço, até alcançarem os papéis
principais. E temos conseguido apresentar protagonistas de grande qualidade, vindos
diretamente do coro.
Tivemos uma jovem do coro que brilhou em La Traviata e, depois, em L’Elisir d’Amore. Ela
se chama Carolina Morel uma verdadeira joia. Tem apenas 23 ou 24 anos e é um talento
raríssimo. Sua voz é daquelas que, mesmo sendo pequena, nunca se perde,
independentemente da orquestra. Ela tem esse dom de se fazer ouvir com clareza e
brilho. É uma artista superdotada, e estamos oferecendo todas as oportunidades
possíveis para que ela cresça. Já foi protagonista em L’Elisir d’Amore, interpretou a
Valencienne em A Viúva Alegre e, em todas as ocasiões, com um desempenho
absolutamente brilhante. O que eu mais amo hoje em dia, é ver isso. Trabalhar para que
eles possam realmente se desenvolver e aí você vê brotando esses talentos, são os novos
cantores é a nova geração que daqui a 5, 10 anos vai estar dominando o mercado todo.
Isso é lindo mesmo.
Os jovens cantores têm uma exigência muito grande também com relação às mídias,
mídias sociais estarem no mercado estarem aparecendo, você acha que isso pode
atrapalhar?
Não, eu não vejo isso como algo negativo pelo contrário, acho que é complementar. Hoje
em dia, é uma das formas que os jovens têm de aparecer, se propor, se colocar no meio
artístico. O problema não é usar essas plataformas. O que me preocupa é quando fazem
isso sem estarem realmente prontos. Vejo muitos jovens cantando de qualquer jeito e
publicando no Facebook, no YouTube, em várias redes. E aí, em vez de se promoverem
bem, acabam se expondo de forma precipitada.
É um erro grave. Daqui a dois, três anos, esses jovens já estão cantando bem mas o
problema é que alguém os ouviu antes, ainda despreparados, e formou uma má
impressão: 'Não, não é bom. Melhor não chamar.' E pronto, a oportunidade se perdeu.
Muitos cometem esse erro. É preciso saber usar as redes. Ainda assim, considero uma
ferramenta excelente de divulgação. É democrática e facilita o acesso ao mercado.
Muitas vezes, quando mencionam um cantor como uma possível contratação e eu não
conheço, a primeira coisa que faço é procurar no YouTube. Quero ver o que tem gravado.
Claro, a voz gravada nunca é a mesma coisa que ao vivo, no teatro mas já dá uma ideia.
Dá para perceber se canta bem, se tem um bom timbre ou se há algo que não agrada. A
projeção da voz, não dá para avaliar por ali, mas mesmo assim, você tem uma noção
inicial. Por isso, considero esse recurso muito importante.
Tem o caso célebre do contratenor
Jakub Orliński. Ele apareceu em um
festival de verão onde estava
estudando, e foi cantar de bermuda,
chamado de última hora. O pianista
dele, inclusive, estava de chinelo
parecia uma sandália Havaiana. Aquele
vídeo viralizou e impulsionou a carreira
dele. Mas por quê? Porque, quando
apareceu naquele vídeo, ele já estava
pronto. Já tinha todas as ferramentas,
toda a técnica. Não estava cantando de
qualquer jeito. E foi justamente isso que
fez a diferença. A partir daquele
momento, a carreira dele decolou. Hoje,
ele é célebre uma verdadeira
celebridade. E sim, maravilhoso,
absolutamente maravilhoso!
Quais são seus próximos projetos?
O meu foco tem sido, principalmente o
Coro do Municipal, porque houve um
processo seletivo, entraram vários
jovens. E vários desses jovens, alguns
desses jovens que estão em contrato
temporário, já foram protagonistas nas
obras. Esse é o meu foco, eu quero me
dedicar sempre a isso.
Eu queria que o Coro do Municipal
fosse igual ao Balé do Municipal. O Balé
do Municipal é uma fábrica de
excelentes bailarinos. E o Coro poderia
ser também. É preciso mudar um
pouco a mentalidade e investir nesse
sentido.O Balé traz poucos convidados.
Todos os papéis principais são
dançados pelos bailarinos da
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semper nec velit ut pellentesque.
companhia, brilhantemente.
Assisti a duas récitas de O Lago dos
Cisnes e vi duas protagonistas
absolutamente fantásticas. Uma delas é
muito jovem, Manuela Rossalho um
talento impressionante. A outra, Juliana
Valadão, também brilhante. Um
verdadeiro espetáculo. E o mais bonito:
ambas são artistas de lá. Eu queria que
o Coro fosse assim também. Estamos
no caminho. Existe uma luz no fim do
túnel. Espero que a gente consiga. Eu
vou me empenhar ao máximo para
conseguir isso.
É fundamental orientar os cantores e,
acima de tudo, conhecê-los bem saber
exatamente do que são capazes, para
então oferecer o papel certo. Só assim
eles podem fazer um bom trabalho. É
extremamente prejudicial entregar a
um cantor, por mais talentoso que seja,
um papel que ele não tem condições de
interpretar. Isso pode comprometer
toda a trajetória dele.
Por isso, é essencial ter critério e nunca
ceder a pressões por amizade ou por
caridade. Isso não pode acontecer. A
escolha deve ser feita com seriedade e
responsabilidade.
Infelizmente, nem todos terão as
mesmas oportunidades a arte não
funciona assim. Alguns são mais
dotados que outros, e é preciso
respeitar esse fato.
O investimento deve ser feito em quem
realmente demonstra as melhores
condições artísticas. Claro que isso gera
descontentamento, e é preciso saber
lidar com isso. Faz parte do processo. O
importante é manter a convicção e não
se desviar do caminho. É isso que
procuro seguir.
satisfeito com a carreira que construí. De
verdade. Estou muito realizado.
Hoje, com quase 70 anos, não tenho mais
sonhos voltados para o futuro. Não fico
projetando. Meu foco está no presente: no
que estou fazendo agora, no que ainda quero
realizar e em continuar sendo bem-sucedido
dentro desse propósito atual.
O que te emociona fora dos palcos?
Tem algum sonho artístico seu que
você ainda não realizou? Que você
deseja realizar nos próximos anos?
Não, porque eu encerrei minha carreira.
Eu tive uma experiência muito bonita
em Brasília, dirigindo uma ópera, mas
foi uma experiência que me somou,
mas eu não pretendi seguir. Tive depois
alguns convites, mas não aceitei. Eu
gostava muito de cantar, até o
momento em que parei de cantar. E na
minha carreira, obviamente eu não fiz
tudo o que eu queria, mas eu fiz tudo.
Eu acho que eu fiz o que eu podia fazer.
O que eu tinha condições de fazer, eu
aproveitei, dentro das minhas
limitações, o que eu podia. De maneira
que, embora eu tenha tido uma carreira
modesta, eu tive uma carreira feliz,
porque eu não me senti preterido nem
nada disso. Aquilo que eu podia fazer, e
é muito importante que o cantor se
conheça bem, conheça as suas
limitações, senão ele pira muito.
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semper nec velit ut pellentesque.
Tem gente que acha que pode cantar
Turandot, quando claramente não
pode. E aí se sente injustiçado, como se
estivesse sendo impedido injustamente.
Por isso, é fundamental que cada um
conheça bem seus próprios limites.
Saber até onde pode ir, reconhecer
quando ainda não está pronto seja por
falta de preparo vocal, físico ou
artístico. Isso faz parte.
No meu caso, sempre tive uma
consciência muito clara das minhas
limitações, e talvez por isso esteja tão
As pessoas, O que mais me emociona nas
pessoas é a capacidade de se abrir, abrir o
coração, a alma, os olhos e os ouvidos.
Pessoas dispostas a receber: a cultura, a
informação, o novo. Pessoas sem
preconceitos, ou que ao menos estão
dispostas a enfrentá-los.
Não falo apenas dos grandes preconceitos ,
de raça, de sexualidade , que todos sabemos
que precisam ser combatidos. Falo também
dos pequenos preconceitos, sutis, do tipo:
'isso não me interessa', 'isso não é pra mim'.
Eu admiro quem tem curiosidade, quem está
aberto. Passei muitos anos da minha vida
bastante limitado, preso ao que eu já gostava
e conhecia. Hoje não. Hoje tenho os ouvidos
abertos. Às vezes alguém me apresenta algo
que eu nem sabia que existia e eu paro para
ouvir, para entender, para sentir.
Gosto de pessoas assim. Porque com elas eu
também posso compartilhar: dizer, por
exemplo, 'Você conhece ópera? Não? Então
ouve isso aqui e me diz o que acha.' E a
pessoa ouve, está aberta.
Já outras dizem logo: 'Ah, não gosto disso.' E
nunca sequer ouviram. Isso, para mim, é
triste.
Muitas coisas me emocionam, mas a sua
pergunta me pegou de surpresa e essa é,
sem dúvida, uma das que mais me tocam:
ver alguém com a mente e o coração
realmente abertos.
As abelhas, como as conhecemos hoje,
evoluíram há cerca de 100 milhões de anos,
durante o período Cretáceo, quando os
dinossauros ainda existiam. Elas
provavelmente descenderam de vespas
carnívoras, que ao longo do tempo passaram
a se alimentar de néctar e pólen uma
mudança alimentar que transformou o curso
da vida na Terra.
Desde que surgiram, as abelhas
desempenharam um papel essencial na
polinização de plantas com flores
(angiospermas), que também estavam se
diversificando naquela época. Essa relação
simbiótica ajudou a moldar a biodiversidade
que conhecemos hoje.
Estudos fósseis mostram que:
As abelhas mais antigas conhecidas são
de cerca de 100 a 120 milhões de anos,
encontradas em âmbar (resina
fossilizada).
Elas se espalharam pelos continentes e
deram origem a mais de 20 mil espécies
diferentes no mundo atual.
As abelhas do gênero Apis (como a Apis
mellifera, abelha europeia) são produtoras
de mel em grande escala e vivem em
colmeias sociais. Essa prática de armazenar
mel surgiu como uma estratégia de
sobrevivência, permitindo que a colônia
tivesse alimento durante períodos de
escassez (invernos ou secas)
Vespa Carnívora
Poeticamente falando…
O mel pode ser visto como uma forma de
memória líquida do planeta. É o néctar
das flores, processado com sabedoria
ancestral pelas abelhas que, desde
tempos imemoriais, dançam sob o sol,
guiadas por estrelas invisíveis a olho nu,
conectando o céu e a terra por meio da
doçura.
Abelha Apis
Como que nasceu o Circo Spacial?
E quais foram os maiores desafios
no início?
O Circo Spacial nasceu em 9 de
agosto de 1985. E, por uma
coincidência do destino, nós
estreamos na cidade de
Valinhos. Na verdade, nós
estávamos em turnê pelo
Estado de São Paulo, e, ao
montar o circo, escolhemos
uma cidade que estivesse mais
próxima da capital, porque seria
a nossa próxima estreia,
digamos assim. Então, nós
estreamos em Valinhos para
depois ir para São Paulo, capital.
Normalmente, as pessoas de circo
têm a tradição de família
circense. A sua família é circense?
Não, eu rompi um pouco com
essa tradição. Aliás, rompi com
várias tradições do mundo do
circo, porque eu entrei, eu tinha
19 para 20 anos, eu, na verdade,
antes de montar meu circo, eu
trabalhei com o Circo Vostok, eu
fugi com o Circo Vostok,
literalmente. Ele esteve em
Cascavel em uma temporada
em 1978. E aí eu acabei indo
visitar esse circo a convite de
uma amiga jornalista, na época
estava fazendo uma grande
matéria com o circo.
E quando eu cheguei no circo,
eu já fazia teatro, fazia outras
atividades artísticas. Quando eu
pisei no circo, eu me encontrei,
falei, nossa, é aqui meu lugar. E
aí, depois de algumas conversas
com o pessoal do circo, eu
recebi o convite para ir dirigir e
trabalhar no departamento de
marketing. É uma grande
história, isso aí é uma longa
história. Resumidamente, eu
viajei com eles durante acho
que três, quatro anos, fui para a
América Latina, fui para o
Uruguai, para o Paraguai, para a
Argentina, para o Chile.
E depois, quando voltamos para
o Brasil, eu montei no Anhembii
um projeto que chamava Circo
Mágico, que era um projeto de
música, que se apresentou Ney
Matogrosso, se apresentou Elis
Regina, se apresentou vários
cantores da época, os Novos
Baianos e vários outros artistas.
Só que aí o Anhembi pediu esse
espaço, que era o pátio oficial
do circo, para montar o
sambódromo. E aí, quando nós
montamos essa estrutura, que
era uma estrutura que
pertencia ao grupo lá do Vostok,
eu devolvi e resolvi, junto com o
meu sócio na época, montar o
circo Spacial.
Como o circo Spacial se
reinventou para continuar
encantando o público ao longo
dos 40 anos?
Eu sempre digo que o circo é
contemporâneo, ele é moderno
e ele é atual. Então, o circo
Spacial, desde o começo, nós
tivemos a visão de sempre
trazer novidades, que é
pertinente ao mundo do circo.
O mundo do circo sempre vai
ouvir dizer que é a melhor
atração, que é o melhor circo,
que é o melhor... Porque isso
faz parte da nossa expertise,
digamos assim. E, ao longo dos
anos, a gente sempre... Eu
sempre acredito que a família
se renova. E aquela criança,
aquele pai, aquela mãe, aquela
família, independente da
constituição que ela é... Vários
modelos de família nós temos
hoje em dia.
O importante é que as pessoas
querem viver essa emoção, elas
querem ir ao circo, porque
sempre tem uma lembrança
afetiva que foi com seus pais,
com seus avós. Então, eu
sempre trabalho em cima de
espetáculo voltado para a
família. Eu acho que é por isso
que a gente consegue sempre
se manter em evidência,
sempre atrair o público, porque
a família tem que resgatar esses
momentos únicos vividos
juntos. E o circo é um dos
poucos espetáculos onde a
família pode ir reunida. Porque
existem vários outros
espetáculos que são
classificados ao produto, para a
criança, e, às vezes, não
chamam a atenção da família
toda. E o circo tem essa forte
presença de agradar um
espetáculo feito para a família.
Só que aí o Anhembi pediu esse
espaço, que era o pátio oficial
do circo, para montar o
sambódromo. E aí, quando nós
montamos essa estrutura, que
era uma estrutura que
pertencia ao grupo lá do Vostok,
eu devolvi e resolvi, junto com o
meu sócio na época, montar o
circo Spacial.
Como o circo Spacial se
reinventou para continuar
encantando o público ao longo
dos 40 anos?
Eu sempre digo que o circo é
contemporâneo, ele é moderno
e ele é atual. Então, o circo
Spacial, desde o começo, nós
tivemos a visão de sempre
trazer novidades, que é
pertinente ao mundo do circo.
O mundo do circo sempre vai
ouvir dizer que é a melhor
atração, que é o melhor circo,
que é o melhor... Porque isso
faz parte da nossa expertise,
digamos assim. E, ao longo dos
anos, a gente sempre... Eu
sempre acredito que a família
se renova. E aquela criança,
aquele pai, aquela mãe, aquela
família, independente da
constituição que ela é... Vários
modelos de família nós temos
hoje em dia.
O importante é que as pessoas
querem viver essa emoção, elas
querem ir ao circo, porque
sempre tem uma lembrança
afetiva que foi com seus pais,
com seus avós. Então, eu
sempre trabalho em cima de
espetáculo voltado para a
família. Eu acho que é por isso
que a gente consegue sempre
se manter em evidência,
sempre atrair o público, porque
a família tem que resgatar esses
momentos únicos vividos
juntos. E o circo é um dos
poucos espetáculos onde a
família pode ir reunida. Porque
existem vários outros
espetáculos que são
classificados ao produto, para a
criança, e, às vezes, não
chamam a atenção da família
toda. E o circo tem essa forte
presença de agradar um
espetáculo feito para a família.
Qual é o papel do circo na cultura
brasileira hoje?
Eu vejo, hoje e sempre, na
verdade, na cultura brasileira, o
circo foi a primeira casa de
espetáculo brasileira, o primeiro
espaço que estava no território
nacional inteiro. O circo estava
em qualquer espaço, tanto no
centro como nas periferias.
Então, no circo é que o público
tem o primeiro contato com a
dança, com o teatro, com a arte
plástica, com várias, com a
parte de artes visuais. Então, o
circo tem uma importância
muito grande. Ele é o formador
da cultura brasileira. Hoje nós
temos muitos espaços, temos
shopping com teatro, temos
grandes casas, mas, nesses
últimos 100 anos, quem fez
esse trabalho de levar a cultura,
de compartilhar, foi o circo.
A música, a presença da música,
tanto a música clássica como a
música sertaneja, como a MPB,
ela se fortaleceu no circo,
porque é o espaço que os
cantores, os artistas tinham
para se apresentar. Os artistas
de televisão, quantos circos não
receberam os maiores artistas?
Os Trapalhões, as
apresentadoras, o nosso circo
mesmo recebeu todo mundo,
Desde Eliana, Turma da Mônica,
Trapalhões e outros artistas
mais.
Então, o circo tem esse poder
de receber, ele congrega no seu
picadeiro todas as artes. E aí o
público tem esse primeiro
contato e se apaixona pelas
artes que ele está vendo ali e vai
em busca de depois assistir a
um show, assistir a um teatro,
assistir a um concerto.
O Circo Spacial oferece algum tipo
de formação ou programa para
novos artistas que desejam integrar
o elenco ou se desenvolver na arte
circense?
Nós temos as duas tendências, as
duas formações. O circo é uma
escola permanente.
O Circo Spacial tem uma escola
permanente. E durante dez anos,
inclusive, nós montamos uma
escola física em São Paulo, que
foi a Academia Brasileira de
Circo, que formou mais de mil
artistas na capital. Mas sempre,
durante esses 40 anos, nós
temos um mestre no picadeiro,
sempre que está ensinando os
jovens ou de família circense ou
alguém que queira entrar e que
esteja a fim de aprender. Nosso
picadeiro, muita gente que
aprendeu, hoje circula nos
maiores circos da Europa, dos
Estados Unidos e outros espaços.
Então, a gente tem uma transição
muito forte em ensinar nesse
aprendizado que os jovens têm
no nosso picadeiro. Hoje, nós
temos várias escolas de projetos
sociais que ensinam o circo em
várias cidades. E, muitas vezes,
eles ensinam o básico ali, aí eles
vêm para a gente e a gente torna
os profissionais, qualifica eles.
O Spacial viaja ou tem uma sede
própria?
Viaja. Nós temos hoje uma
unidade fixa que a gente chama
em São Paulo e temos a outra
unidade nossa que viaja. Sendo
espetáculo, às vezes, a gente vai
para a cidade somente com
espetáculo e, às vezes, também
vamos com os equipamentos. Aí
depende um pouco da turnê, do
patrocinador ou do contratante,
aí depende um pouco disso. A
nossa unidade fixa hoje está em
São Paulo, na Zona Sul, mas a
gente também... Essa própria
unidade fixa da capital ela é
itinerante pelas regiões
também.
Marlene, como você avalia as
políticas públicas e os incentivos
de patrocínio voltados para o
circo no Brasil?
As políticas públicas a gente
tem avançado bastante, é uma
luta muito grande. Nos últimos
20 anos, o circo se fortaleceu
através da UBCI, a qual eu sou
presidente, e a gente conseguiu
evoluir em muitas coisas. Hoje a
gente tem um PROAC que tem
prêmios especiais para o circo,
temos a Lei de Fomento na
capital que serve de referência
para muitas outras cidades. A
própria Funarte hoje tem um
programa de circo, claro que a
gente precisa avançar bastante.
A única coisa que a gente sente
muita falta é um
reconhecimento do circo como
patrimônio imaterial, porque aí
nós teríamos um apoio maior
na circulação, porque o Circense
sempre foi autônomo, as
companhias circenses nunca
dependeram dos incentivos do
governo para poder circular,
que se dependesse tinham
morrido de fome, porque, na
verdade, o custo do circo é
muito alto e precisa entender. O
que nós precisamos mais é ter
um local para trabalhar, ter um
espaço destinado, ter um pátio
oficial que a gente chegue na
cidade e a gente saiba que
aquele terreno está à
disposição. Porque hoje muda
muito, você vai para um
terreno, daqui a pouco esse
terreno é vendido, porque são
raríssimos os espaços que a
prefeitura tem, que as
prefeituras têm, na grande
maioria hoje, são terrenos de
shopping, são terrenos de
incorporadora, que custa muito
caro para o circo. Aí o circo, em
vez de investir em
equipamento, em artista, tem
que investir em aluguéis e
terreno. Então o nosso desejo é
que o circo seja reconhecido
como patrimônio imaterial e a
gente tem dois processos, três
processos hoje em andamento.
Um é no IPHAN, que temos
lutado há 20 anos lá dentro
para poder andar. Outro já é da
Secretaria de Cultura do
município, que já está pronto,
só falta a publicação. E outro é
com a Secretaria Municipal de
Cultura do Estado de São Paulo.
Nos últimos anos, a gente tem
militado muito, porque a gente
acha esse reconhecimento
fundamental para a
preservação da arte circense.
Agora, com relação aos
patrocinadores, é assim, antes
da Lei Rouanet, nós tínhamos
muitos patrocinadores, e vou
falar do ‘case’ especificamente
do circo Spacial. Nós tínhamos
quatro patrocinadores anuais,
que nós tínhamos, fora os
patrocinadores locais. Com o
advento da Lei Rouanet, os
patrocinadores exigem que
você tenha um roteiro de um
ano com antecedência. Para o
circo, fica inviável. Na verdade,
como eu vou saber onde vou
estar daqui a um ano? Eu não
consigo pagar esse terreno com
antecedência para fazer um
roteiro.
O roteiro normal para um circo é de três meses. E eu sempre digo o
seguinte para o patrocinador, onde o circo estiver, está o público dele.
Você entende? Onde ele está, está o público dele. Porque naquele
momento que ele está assistindo com a família, qualquer mensagem
publicitária de qualquer marca, qualquer merchandagem, qualquer
ativação, ele vai estar recebendo muito feliz, porque é um momento que
está absorvendo a cultura, distraído, curtindo, de um momento de lazer.
Então, nós temos enfrentado, muitas agências hoje têm muita gente
jovem que não consegue entender essa força do circo, o quanto que o
circo traz de público, o quanto que o circo movimenta a economia, o
quanto que uma marca, é importante essa marca anunciar no circo
Então, eu vejo uma certa dificuldade em os novos. Eles só veem as redes
sociais. Eles correm lá nas redes sociais. Quantos você tem de
seguidores? Então, eu acho que é tudo muito fake, porque o circo é real.
As pessoas vão para o circo real. Você tem um público real. Nem sempre
esse público da TV, perdão, das redes sociais, é o público do circo. Então,
eu vejo que está um pouco perdido essa questão dos anunciantes, das
marcas. Eles precisam voltar a entender o circo como um veículo
alternativo, como um lugar ideal para divulgar suas marcas.
É bem complicado. É, e você
pode fazer várias campanhas.
Tanto, por exemplo, uma
embalagem vale-ingresso, como
a Troca, como o clube de
benefício, e de coisas. Dá para
fazer muitas campanhas com o
circo e beneficiar os dois lados.
Você vê o público ali
aplaudindo, gostando, você
pode fazer a validação a cada
final de espetáculo. Você sabe,
eu tenho campanha que a gente
fez com duas marcas
fortíssimas, uma foi com a
Bauducco e outra com a Melita,
que até hoje, 20 anos depois
que a gente fez a campanha, o
público ainda pergunta. Ainda
vale a embalagem? Olha o
retorno disso.
Diante de todos esses desafios,
como você enxerga o futuro do
circo no Brasil?
retornou com muita força,
porque você tem que ter hora
para tudo. Então, na verdade,
você viver esses momentos
prazerosos com a sua família e
o circo são momentos
inesquecíveis. Então, construir
esses momentos é importante.
Então, acho que os pais estão
tomando conta, estão tomando
ciência que é importante tirar
essa criança dentro de casa,
levar para um parque, levar
para um espaço de diversão,
levar para o circo. Então, acho
que a gente vai ser eterno, o
circo nunca vai acabar. Sempre
tem essa... A gente sempre se
reinventa dentro do tradicional,
que eu chamo, que o circo
sempre fez isso. Ele sempre
teve atual, sempre foi
contemporâneo, sempre trouxe
atrações que essas crianças
queiram ver e curti
Eu vejo com bons olhos, porque
acredito muito que as redes
sociais, as mídias, a ocupação...
Não sou contra, hein? Sou
totalmente a favor. Eu acho que
o uso está exagerado, os pais
deixaram muito essas telas nas
mãos das crianças, e agora já
está saturando. Então, todo
mundo vai voltar para viver isso
ao vivo. Tudo que é presencial,
eu vejo que já retornou,
Como é que vocês enfrentaram a
COVID-19?
Foi muito difícil. Na verdade,
durante esses 40 anos, a pior
época do circo foi a pandemia,
porque tivemos que encerrar as
nossas atividades dia 20 de
agosto de... Perdão, 20 de
março de 2000, e só retomamos
2023. Quer dizer, ficamos
praticamente quase três anos
paradas, porque não tinha
atividade, era tudo fechado, não
podia montar, não podia
transportar, não podia exibir,
não podia nada. Então, a gente
fez até algumas experiências
durante a pandemia, de fazer
live, de fazer um drive-in, mas
não funciona. O circo é a arte ao
vivo. As pessoas querem estar
ali presentes, querem
participar, querem sentir de
estar presentes. Então, o circo,
diferente da música, a música,
na pandemia, se deu muito
bem, conseguiu fazer girar
muita coisa. O circo, não. O
circo ficou totalmente inativo.
Na verdade, ficou inativo. Então,
estamos ainda voltando com
tudo 100%. Na verdade, os
circos, nesses últimos dois anos,
foram muito bem. Todos os
circos no Brasil, nós também.
Mas você recuperar três anos
parados não é fácil, não.
Como uma mulher dinâmica e à
frente de um projeto tão
grandioso como o Circo Spacial,
que conselho você daria às
mulheres que sonham em liderar
iniciativas de grande porte?
Eu acredito muito na força da
mulher. Na verdade, eu acredito
na força do profissional. Eu não
consigo fazer distinção homem
e mulher. Eu acho que você tem
que ser um profissional
competente. Se você é uma
mulher que resolve
empreender, então você tem
que se capacitar, saber o seu
objetivo, saber onde você quer
chegar e ir à luta. Nada cai do
céu. Eu, quando montei o circo,
tinha 26 anos. Fui viajar o Brasil
inteiro com uma mega
estrutura, comandando mais de
150 pessoas. Então você tem
que estar com o olhar muito
focado, planejamento, ter uma
organização, porque esse país é
muito instável. Você organiza
tudo e vem um plano
econômico, tira o seu chão.
Então, saber que você tem que
reiniciar sempre. E o circo é um
exemplo muito grande. Nós
escrevemos um livro, eu e a
doutora Suara Bastos, que se
chama “Gestão Espetacular”. E a
gente fala exatamente disso,
das mudanças.
Livro “Gestão Espetacular”
de Suara Bastos e Marlene Querubin
A gente está aberto às mudanças, porque o circo nos ensina que cada cidade
que você chega você tem que agir de uma maneira, você tem que fazer uma
estratégia de uma forma. Então você tem que estar apto à mudança. Todo
mundo que quer empreender tem que entender que você não vai montar um
negócio e vai ficar rico no primeiro mês. Tem que entender que existe um
investimento, que existe o retorno desse investimento, que você tem que se
qualificar, você tem que entender isso e trabalhar com profissionais
competentes. O nosso profissional mais competente são os nossos artistas. É o
nosso produto final. Mas não são só os artistas, eu tenho que trabalhar com
uma equipe de bastidores que vai montar a logística, a montagem, o
planejamento, a publicidade. Quer dizer, é um trabalho de equipe. Toda a
equipe tem que estar em sintonia, como uma orquestra.
Se um desafinar, cai tudo. Então, muitas vezes, o pessoal pergunta quem é a
atração do circo. Eu falo que a atração do circo são todos. Não existe uma
atração. Se não existe um espetáculo inteiro bom, o público sai falando mal.
Não adianta ter um artista espetacular e o resto é mediano. Eu sempre procuro
manter sempre no mesmo nível. Então, as estrelas têm que ser iguais, têm que
brilhar juntos, senão acaba não acontecendo. Então, eu sou muito a favor do
empreendedorismo. Acho que as pessoas têm que ir em busca dos seus
sonhos, quem tem coragem. Porque para empreender, você tem que ter
coragem. Então, não adianta aquela pessoa que não tem coragem, que não
sabe dormir com uma dívida, que você vai fazer, você vai fazer compromisso,
você tem que se entender. Então, eu brinco sempre. Você já acorda de manhã
devendo. Eu já vou para uma cidade devendo a temporada toda, digamos
assim. Eu já sempre estou investindo antes, sempre estou como um jogador.
Você está sempre jogando sem saber se vai ter o retorno ou não. Claro que,
com o tempo, você sabe todos esses riscos, mensura e consegue administrar.
Então, o empreendedor é andar numa corda bamba, ele tem que se equilibrar.
O que mais te emociona até hoje
quando as cortinas se abrem?
O que mais me emociona é
quando eu entro dentro do circo e
eu vejo a criança ali fascinada,
olhando para o espetáculo,
olhando para as luzes, tudo. Eu
me emociono profundamente
quando eu vejo aquele sorriso
espontâneo, batendo palma,
gritando. Acho que tudo valeu a
pena. Muitas vezes eu chegava de
reuniões cansada, estressada,
dizia, meu Deus, por que eu estou
ainda insistindo no circo? Sabe
aquele pensamento que vem? Aí
eu entro no circo e vejo que eu
esqueço tudo. Eu tenho prazer
quando eu vejo uma nova
produção, estrear uma nova
produção, um novo número, uma
nova lona. Tudo o que envolve o
circo. Eu acho que isso nos
motiva, nos dá energia. E quando
você recebe o público e você está
ali na saída, meu Deus, foi
fantástico, foi lindo, adoramos,
vou trazer outra pessoa. Então
você vê que o teu trabalho foi
bem feito, foi bem executado.
Claro, quando tem uma crítica,
não gostei disso, não gostei disso.
Ótimo, vamos melhorar.
Eu gosto muito disso também
quando tem uma avaliação lá. E
hoje o nosso maior avaliador é o
Google. Você vai lá no Google e
você não precisa de ninguém.
Hoje em dia, é só entrar no Google
ou nas redes sociais que o público
já diz tudo: "gostei disso", "não
gostei daquilo", "amei tal parte".
Antigamente, a gente precisava
fazer aquelas pesquisas formais,
com questionários, entrevistas.
Hoje não precisa mais — a resposta
está toda ali, visível, em tempo real.
Claro que isso traz benefícios, mas
também nos deixa muito expostos.
É como se estivéssemos todos sob
um telhado de vidro. Sempre
buscamos fazer o melhor, mas
agora precisamos ser ainda mais
cuidadosos, porque qualquer
detalhe vira assunto. A
vulnerabilidade é constante.
As pessoas falam o que pensam,
nem sempre com justiça. Já vi
comentários muito duros, não
sobre o nosso trabalho, mas de
colegas, que me deixaram chocada,
porque simplesmente não eram
verdade. E tem aqueles que
comentam só para provocar, para
ver a reação. Mas é isso: temos que
saber lidar. Faz parte dos tempos
modernos.
Que mensagem você deixaria para toda a equipe e os artistas que fazem
parte dessa trajetória vitoriosa do Circo Spacial ao longo desses anos?
Eu quero muito dizer para a minha equipe o tanto que eu sou grata por
cada um dedicar a sua vida nesse projeto. Acreditar no Circo Spacial,
acreditar na nossa história, fazer o dia a dia. Porque muitas vezes as
pessoas não se manifestam. E eu também não me manifesto. Mas eu
conheço no olhar, eu conheço no olhar o carinho, o amor.
Sabe quando aquela pessoa que levanta, tira um parafuso do lugar e
coloca no lugar certo, arruma uma roupa antes de entrar. São gestos
dessa equipe de momentos que só nós vivenciamos, momentos às vezes
terríveis que nós passamos juntos, que você olha e você fala, poxa, essa
equipe é uma equipe que vai estar sempre no meu coração. Então eu
sou eternamente grata. Porque eu sonho, mas se eu não tiver todo
mundo para realizar junto, não adianta nada. Eu digo sempre que um
sonho que você sonha sozinho é só um sonho. Mas um sonho que tem
uma equipe por trás é uma realidade. E eu sem dúvida nenhuma vejo
onde nós estivemos, o que nós fizemos, porque a gente tem uma
trajetória de muitos feitos. Então eu sinto muito orgulho dessa equipe,
muito orgulho mesmo, de coração. É o amor. Eu acho que o amor que
faz que move as pessoas, que move o projeto, e que move o circo todo.
Porque o circo tem que ser feito com amor, senão não passa para o
público.
R E C E I T A D E
TORTA DE ABÓBORA
D O C H E F L U I Z T H O M É
1 2
Corte a abóbora em tiras, e ferva em
uma panela grande.
Em uma tigela grande, amasse a
abóbora fervida, doure a cebola e
a carne moída.
3 4
Pré-aqueça o forno a 175 graus.
Asse por 30 minutos no forno préaquecido
ou até o queijo derreter.
Decore e bom apetite!
Mulheres que
Quebram Barreiras
e Conquistam
Espaço no Futebol
Masculino:
Uma Revolução
Silenciosa
por Nathália Bulsing
O futebol, paixão nacional e global, sempre foi um
universo predominantemente masculino. No entanto,
nas últimas décadas, uma revolução silenciosa tem
transformado esse cenário, com a ascensão de mulheres
que, além de brilharem nos gramados como jogadoras
icônica a exemplo de Marta, Formiga e Cristiane, têm
conquistado posições de destaque e influência em áreas
antes consideradas exclusivas para homens. Elas estão
quebrando barreiras, desmistificando preconceitos e
provando, com inquestionável competência, que o
talento e a paixão pelo esporte não conhecem gênero.
Liderança Feminina no Comando
dos Clubes: A Estratégia em Mãos
Competentes
A presença de mulheres em
cargos de gestão em grandes
clubes brasileiros é um dos mais
significativos avanços na busca
por igualdade de gênero no
futebol. Essas líderes não apenas
representam uma quebra de
paradigma, mas também trazem
novas perspectivas, modelos de
gestão e visões estratégicas que
enriquecem o ambiente esportivo.
Mirian Ponte, presidente do
Centro Sportivo Alagoano (CSA), e
Leila Pereira, presidente da
Sociedade Esportiva Palmeiras,
são exemplos notáveis e
inspiradores. Mirian Ponte, à
frente de um dos clubes mais
tradicionais do Nordeste, tem se
destacado pela sua gestão focada
na profissionalização e no
desenvolvimento do clube,
enfrentando os desafios inerentes
à administração de uma equipe de
futebol de grande porte. Sua
liderança é um testemunho da
capacidade feminina de gerenciar
complexidades e tomar decisões
cruciais que impactam
diretamente a vida de uma
instituição esportiva e sua torcida.
Leila Pereira, por sua vez,
assumiu a presidência de um
dos clubes mais vitoriosos e de
maior torcida do Brasil, o
Palmeiras. Sua ascensão ao
cargo máximo da diretoria do
clube não foi apenas um marco
histórico para o Palmeiras, mas
para todo o futebol brasileiro.
Com uma visão empresarial e
uma gestão assertiva, Leila tem
liderado o clube em um período
de conquistas expressivas,
tanto dentro quanto fora dos
campos, consolidando a marca
Palmeiras e garantindo sua
saúde financeira. A presença de
Mirian e Leila em posições tão
estratégicas demonstra a
confiança na capacidade de
liderança feminina e abre
portas para que mais mulheres
ocupem cargos de alto escalão
no esporte.
O Apito e a Bandeira em Mãos
Femininas: A Precisão da
Arbitragem Sem Gênero
A arbitragem, fundamental para
a lisura e a fluidez do jogo, é
outra área onde as mulheres
têm se destacado de forma
notável. A imagem de árbitras e
assistentes femininas em
partidas de alto nível do futebol
masculino, antes rara, agora é
cada vez mais comum e aceita,
um sinal de que a competência
técnica e o conhecimento das
regras superam qualquer
preconceito de gênero.
Nomes como Fernanda
Colombo Uliana, Ana Paula de
Oliveira e Neuza Back são
frequentemente vistos em
jogos do Campeonato Brasileiro,
Copas Nacionais e até mesmo
em competições internacionais.
Elas demonstram um profundo
conhecimento das regras,
excelente preparo físico e a
capacidade de tomar decisões
rápidas e assertivas sob
pressão.
Sua presença no Catar em 2022,
integrando a equipe de
arbitragem em jogos da fase de
grupos, foi um divisor de águas.
Não apenas pela sua
performance impecável, mas
pelo simbolismo que
representa: a confirmação de
que o talento e a dedicação
abrem portas em qualquer
esfera, independentemente do
gênero.
Da mesma forma, a árbitra
Edina Alves Batista consolidouse
como uma das principais
referências da arbitragem
brasileira. Com um currículo
recheado de atuações
consistentes e elogiadas, Edina
tem quebrado barreiras e se
tornado um exemplo para
outras mulheres que sonham
em seguir carreira na
arbitragem. Sua performance
em jogos decisivos e sua
seriedade no trato com os
jogadores e comissões técnicas
a credenciam como uma das
mais respeitadas árbitras do
cenário nacional e
internacional.
Um Crescimento Inegável e
Inspirador: O Futuro é Delas
O aumento da presença
feminina em funções de
destaque no futebol masculino
é um fenômeno que reflete uma
mudança cultural profunda e
um reconhecimento tardio, mas
bem-vindo, da capacidade e do
valor das mulheres em todas as
esferas da sociedade. Essas
profissionais não apenas
performam suas funções com
excelência, mas também
inspiram milhões de meninas e
mulheres a buscarem seus
próprios sonhos e a não se
limitarem por estereótipos.
O futebol, com sua vasta
audiência e seu poder de
mobilização, torna-se uma
plataforma poderosa para
promover a igualdade de
gênero. A cada jogo com uma
mulher na arbitragem, a cada
entrevista de uma presidente
de clube, a mensagem é clara: o
futebol é para todos, e o talento
não tem gênero.
Ainda há desafios a serem
superados, como a persistência
de preconceitos e a
necessidade de mais
oportunidades para as
mulheres em diversas áreas do
esporte. No entanto, o caminho
está sendo pavimentado por
essas pioneiras. A revolução
silenciosa continua, e é inegável
que o futuro do futebol, em
todas as suas facetas, será cada
vez mais feminino, diverso e
inclusivo. O legado dessas
mulheres não é apenas sobre
vitórias em campo ou decisões
administrativas; é sobre
redefinir o que é possível e abrir
um novo capítulo na história do
esporte mais popular do
planeta.
Kombi Nômades
Ka Maya, Druída e Aoni
Vibe de Dois
Ana, Anderson e Fiona
por Regina Papini Steiner
Amor, liberdade, quatro patas e uma Kombi: a vida sobre rodas
de dois casais e seus cães pelo mundo.
Em tempos em que a estabilidade parece estar ligada à rotina
das oito horas de trabalho, boletos e aluguel, dois casais
decidiram romper com a lógica tradicional e provar que é possível
viver de forma leve, e intensa, na estrada. Eles trocaram
apartamentos por uma Kombihome, e compromissos fixos por
mapas, horizontes e latidos.
Viajando com suas cachorras como verdadeiras companheiras de
jornada, esses casais têm redescoberto o mundo pelas janelas de
um motorhome adaptado. E não um motorhome qualquer...uma
maravilhosa Kombi. Mais do que uma aventura, trata-se de uma
escolha de vida: minimalista, conectada com a natureza e
profundamente afetiva.
O olhar de quem vê de fora pode ser enviesado por clichês “fuga de
responsabilidades”, “vida de Instagram”, “aventura passageira”, mas
quem acompanha de perto percebe que a estrada exige
organização, resiliência e coragem. A vida nômade não é um eterno
pôr do sol; há pneus furados, chuvas inesperadas, conexão fraca
com a internet, ausência de endereço fixo e saudade de um banho
demorado. Mas há também algo mais valioso: liberdade.
Os cachorros, longe de serem um empecilho, são parte do elo
afetivo dessa jornada. Elas não apenas acompanham, elas
transformam a experiência. São as primeiras a farejar um novo
terreno, as guardiãs da Kombi à noite e as responsáveis por fazer
qualquer paisagem parecer um lar. Em cada vídeo compartilhado
nas redes, há uma troca silenciosa entre humanos e cães que nos
faz repensar o que é, de fato, qualidade de vida.
Numa sociedade obcecada por produtividade e posse, esses casais
optam pelo tempo e pela presença. Não acumulam bens, mas
colecionam histórias. Não seguem uma rota fixa, mas traçam
caminhos com base em instinto, clima e curiosidade.
Viajar o mundo em uma Kombihome com seus cães não é apenas
um estilo de vida alternativo. É uma declaração de afeto à
liberdade, à convivência e à simplicidade.
E talvez, no fundo, uma provocação gentil para todos nós: o que,
afinal, nos impede de viver com mais sentido?
Vamos pegar uma carona com esses casais e conhecer a história de
cada um e as suas histórias!
Sete anos dentro de uma Kombi.
Como é que é isso para o casal?
Ka Maya: No começo, há uma
grande diferença. Isso por conta
do espaço, né? O estar 24 horas
acho que foi tranquilo para nós,
porque já trabalhávamos juntos
antes mesmo de viajar. Mas o
espaço foi bem difícil no começo.
Com o tempo, foi se adaptando.
estranho...
Druída: Eu tenho que sair, né?
Ka Maya: É verdade. Ah, é uma
situação...
E o que levou vocês a fazer essa
viagem? E principalmente de
Kombi.
Druída: É, foi adaptando.
E rolou alguma situação
engraçada no início ou durante
essas viagens?
Ka Maya: Ah, eu acho que o mais...
Nem sei se é engraçado, mas o
mais estranho é às vezes você
querer usar o banheiro ali dentro,
que fica... eu acho que é o mais
Druída: Ah, eu quando conheci a
Ká, ela falava muito de Kombi. O
tio, o avô, todos tinham Kombi. Eu
ficava achando estranho, Nossa,
uma mulher falar tanto de Kombi
assim... nem eu falo tanto de
Kombi! Na época, a gente tinha
um Fusquinha. Não tínhamos
condições de comprar uma
Kombi, então ficou aquele desejo
guardado, sempre presente nas
conversas, como uma lembrança
constante. Em 2016, meu pai
faleceu. Com a perda, veio um
seguro de vida uma quantia
pequena, mas suficiente.
Não pensei duas vezes: decidi que
era hora de realizar aquele sonho
antigo. Fui e comprei a Kombi.
Falei, uai, você só fala de Kombi?
Ka Maya: Realmente, no começo,
eu falei, nossa eu levei um susto,
né? De ele comprar essa ideia. Ele
gostava já de viajar também.
Então, a gente falou, vamos unir, o
útil ao agradável.
Druída: E aí, a princípio, era uma
lojinha,
Ka Maya: No começo, era só uma
lojinha. Eu via muito meu pai
trabalhando em feiras, às vezes,
vendendo as coisas, meu tio, ferro
velho, várias coisas dentro da
Kombi. Então, eu cresci dentro de
Kombi. Aí, quando a gente teve a
nossa, eu pensava como loja,
como empreendimento. Mas aí,
começou a surgir esse negócio de
motorhome no Brasil, de Kombi
Home. Então, bora montar uma
casa, né? E ele comprar essa ideia
de viajar.
Ka Maya: Então, a Kombi mesmo,
a gente não construiu. Fez com
marceneiros, esses marceneiros
comuns de casa. Não tinha, na
época, empresas especializadas
em fazer Kombi. E a gente achava
que, se fosse fazer, ia gastar mais
material pela inexperiência.
A gente trabalha construindo e
ensinando a construir casas de
bioconstrução e tudo isso.
E isso estamos falando que ano?
Druída: 2016.
Ka Maya: Na época, eu lembro
que não tinha muitas referências
no Brasil. A gente via referências
de fora. E poucos carros pequenos
como uma Kombi.
A Kombi chegou, vocês
construíram, foi uma construção
feita por vocês, a casinha?
E como vocês sobreviviam na
época que vocês estavam com a
Kombi (hoje ela está
reformando)? E como é isso hoje
para vocês?
Ka Maya: A gente vai intercalar. A
gente gosta também da roça,
dessa vida simples. Então, a gente
quer seguir nesse estilo. Deu certo,
graças a Deus. Seguir nesse estilo.
A gente fala nômade, né? Livre.
Mas a gente quer passar uma
temporada na estrada e
temporadas aqui na roça. Para
não deixar tempo, como já
passamos três anos.
Druída: Mesmo porque eu acho
que o trajeto mais longo é esse,
né? Que é o de três anos. Que a
ideia era concluir toda a Pan-
Americana, Que começa aqui na
Argentina e vai até o Alasca. E aí,
como não negaram o visto, fomos
até o México.
Ka Maya: Foi incrível. A jornada
toda. E aí acaba que a gente vai
sair, talvez, à Europa, não sei. A
Kombi que está terminando a
reforma agora.
E a gente está com o artesanato,
né? Respondendo um pouco mais
a pergunta que você fez. A gente
começou com o artesanato. Eu já
gostava de pintar, então fazia telas,
já com o propósito do projeto.
Então a gente, antes de sair,
conseguiu vender encomendas de
quadros. E depois, na estrada, a
gente foi desenvolvendo mais
artes, comprar bibliotecas, às
vezes.
Druída: Também, fizemos
voluntariado.
E o intercâmbio cultural? Deve
ter sido rico demais.
Druída: Muita coisa. Eu acho que
a principal é o orgulho mesmo de
ser brasileiro. A principal de tudo.
É porque a gente sempre fala mal,
né? Ai, meu país! Brasil está isso,
está aquilo. Nossa Senhora, o
Brasil é top demais na América
Latina.
Ka Maya : E o mais legal é que,
onde quer que a gente vá, sempre
tem alguém que reconhece: “Ah, é
do Brasil, é do Brasil!” As pessoas já
têm algumas referências e isso
abre espaço pra gente contar mais
sobre a nossa cultura.
São trocas muito ricas. E olha, a
gente chegou sem saber nada de
espanhol nada mesmo! Só isso já
mostra o tanto que vivemos e
aprendemos nessa jornada.
Com certeza. As pessoas nos
acolheram em vários países. Nos
recebiam nos seus quintais,
ofereciam suas comidas típicas
pra gente experimentar.
É incrível. Um tipo de viagem
completamente diferente daquela
em que você só pega um avião, vai
direto pro destino e pronto. Aqui,
tudo é conexão, vivência, troca
verdadeira.
Ka Maya: Foi incrível. A jornada
toda. E aí acaba que a gente vai
sair, talvez, à Europa, não sei. A
Kombi que está terminando a
reforma agora.
E a gente está com o artesanato,
né? Respondendo um pouco mais
a pergunta que você fez. A gente
começou com o artesanato. Eu já
gostava de pintar, então fazia telas,
já com o propósito do projeto.
Então a gente, antes de sair,
conseguiu vender encomendas de
quadros. E depois, na estrada, a
gente foi desenvolvendo mais
artes, comprar bibliotecas, às
vezes.
Druída: Também, fizemos
voluntariado.
Como é que vocês lidaram com
conflitos?
Ka Maya: Fronteira é sempre
complicado.
Druída: Muita burocrada.
Ka Maya: Burocracia e tudo mais.
Tensões de ter condições
financeiras, que a gente saiu sem
condições, então... Teve um
momento de conflitos entre casais
por conta das condições
financeiras, Não queríamos voltar,
mas não tínhamos muitas
condições.
também com o apoio das pessoas,
sabe? Eu sou muito grata, porque
foram elas que praticamente nos
empurravam, É muito bom. E aí,
graças a Deus, também foi fluindo
as mídias sociais, com a mídia
social, com todas elas, com as
parcerias, com os parceiros que
chegam.
O que vocês diriam para quem
quer começar a jornada de
estrada, de ir embora, vou largar
tudo e vou embora?
Então eram situações que, ainda
bem, a gente tem muita
paciência, muita paz e muita...
Vocês têm parceiros, vocês estão
fazendo parcerias, como é que
está a vida de vocês nesse
momento terra, nesse momento
chão?
Ka Maya: Com toda essa jornada,
com todo esse crescimento, foi
aumentando as pessoas, a gente
compartilhando os vídeos,
gostamos muito, tínhamos muita
vergonha, mas a gente viu que
criou uma família pela internet. E
a gente foi seguindo, aumentando
essa família, aumentando essa
família, passando, superando tudo
Ka Maya: Isso tem aumentado
muito, né? A insatisfação, o
estresse, a ansiedade, tudo isso de
uma vida que a gente já não
aguenta mais e quer Dá muito
certo. E, claro, problemas existem
em qualquer lugar — até mesmo
dentro de casa.
O importante é estar aberta às
oportunidades, sair da zona de
conforto, se permitir experimentar
o novo. Porque é uma experiência
de vida que realmente vale a
pena. Mesmo que a pessoa tente e
descubra que aquilo não é pra ela,
tudo bem. O essencial é ter vivido,
ter tentado. O pior seria pensar:
“Poxa, e se eu tivesse tentado?”
Então, experimente. Organize-se.
Vale a pena.
Que mensagem principal vocês gostariam de deixar para as pessoas
que acompanham vocês?
Ka Maya: Agradecer de coração. Agradecer eles gostarem pelo jeito da
gente, mesmo simples. E por toda a força que eles nos deram, nos dão
ainda. Seguir junto que a gente segue viajando e aqui na Roça.
Druída: Paz, amor para todos
Acompanhe a jornada do Casal Kombi Nômades:
https://www.youtube.com/@kombinomades
https://www.instagram.com/kombinomades/
Ex-advogados. E como foi isso?
Como é que foi largar, deixar
uma pseudo segurança, uma
estabilidade de vida, Pra seguir
estrada.
Anderson: Eu falo assim que hoje,
na confortável poltrona da história,
é mais fácil olhar pra trás e avaliar
o que a gente fez, né? Agora, na
época, foi um pouco de loucura
mesmo. A gente vem de família
humilde, Não temos, infelizmente,
o curso de herdeiro, Tanto eu
quanto a Ana. A Ana é filha de
professora, eu sou filho de faxineiro
e de pedreiro. Nós fomos as
primeiras pessoas na nossa família,
basicamente, a ter a possibilidade
de ter um ensino superior. E, a
muito custo, conseguimos se
formar em Direito. A Ana é Mestre
em Direito. E nós já vínhamos
advogando há algum tempo. Só
que aquela forma de viver que a
gente tinha ali, ela não nos
conectava com a nossa essência,
não fazia o que a gente chama de
nosso coração vibrar. E foi muito
tenso, assim, o fim, digamos, da
nossa carreira na advocacia,
porque o mundo corporativo, ele
estava nos destruindo por dentro.
Essa é a melhor palavra. No fim do
exercício da advocacia, a gente
estava com “burnout”, com vários
problemas, que nos apontavam
pra um caminho muito ruim de
vida.
Ana é gaúcha, eu sou de Floripa,
sou “manézinho” da ilha. E a gente
se conheceu na ilha, e quando a
gente se conheceu, a Ana falou
assim, vamos conhecer as praias
que existem em Florianópolis,
todas elas. Fomos pesquisar
quantas praias existiam em Floripa
( Florianópolis ). A gente viu que
existiam 100 praias catalogadas
numa legislação municipal. E na
época, a gente resolveu começar a
conhecer todas as praias e registrar
isso no Instagram. Isso foi 2018, E
nós tínhamos um projeto, aí
depois isso ele se desenvolveu, a
gente tomou gosto por fotografia,
por contar as lendas de
Florianópolis, que tem um folclore
super rico, E aí começamos a se
interessar muito por isso,
formamos um projeto que na
época chamava “Mochileiros de
Floripa”, em que a gente andava
pelas praias e trilhas da ilha,
contando sobre as histórias e as
lendas que existiam na cidade e
mostrando às pessoas que
existiam lugares alternativos
àquelas que elas estavam
acostumadas a ir.
Anderson: Não tínhamos a Kombi.
Exato, é, isso. Bom, isso passou um
ano e a gente foi se desenvolvendo
na internet, digamos assim
também, né? Vendo que ali era
um espaço que muita gente
gostava do que a gente falava, das
coisas que a gente vinha trazendo.
E em 2020, no início do ano mais
ou menos...
Ana: Em fevereiro nós compramos
a Kombi. A gente falou, vamos
comprar uma Kombi pra gente
conseguir rodar a ilha, depois fazer
umas viagens. Era mais ou menos
esse aí o...
Anderson: Em março estourou a
pandemia e a pandemia nos
mostrou que existia vida. Ela nos
mostrou que a gente podia ter
tempo de vida pra fazer outras
coisas que... Não só final de
semana. Isso, assim, e junto com
esse contexto meio conturbado
mental que a gente estava
passando e com a compra da
Kombi foi o suficiente pra que em
junho a gente chegasse ao ápice
de pedir demissão. E a gente
bolou... A gente tinha, um ano de
remuneração pra construir essa
Kombi, acabar a pandemia e cair
na estrada.
Vocês não tinham a Kombi ainda,
era com mochila?
E como foi a construção da
Kombi? Vocês mesmos colocaram
a mão na massa ou contaram
com alguma empresa
especializada? Foi tudo
artesanal?
Ana: Foi um processo longo
porque quando nós compramos a
Kombi ela estava em situação
muito, muito ruim... Logo depois
nós descobrimos que o motor
tinha sido adulterado. Então ela
não poderia ser regularizada.
Estava cheia de ferrugem. Ela
estava, assim, muito, muito ruim
mesmo.
E, finalmente, fomos pra parte da
casa. A gente começou a fazer ela.
Começamos a fazer sozinhos. Mas
aí, como o nosso crescimento na
internet nos trazia visibilidade, isso
também abriu as portas pra nós
fazermos parcerias com outras
empresas. E aí nós conseguimos,
assim, algumas parcerias que
foram fundamentais pro projeto.
Foi uma parceria do sistema
elétrico e também da construção
da casa.
Anderson: Estava pronta pra ir pro
ferro velho. Nós pagamos R$4.900
só nessa Kombi. Era R$5.000 mas
tinha R$100.000 de documento
atrasado. Nós pagamos R$4.000 à
vista e parcelamos duas vezes de
R$450 no cartão ainda.
Ana: Pelo valor, dá pra imaginar
como estava ela, né? E aí a gente
foi, assim, num processo muito
lento arrumando tudo. A gente
começou arrumando o motor dela.
Nós tivemos que fazer um motor
novo. Compramos um bloco.
Montamos o motor do zero pra
poder regularizar junto ao detran.
E aí, logo após isso, começamos a
fazer a lataria. Então, também
reformamos toda ela com um
chapeador, deixando tudo
certinho.
Anderson: Isso foi durante um
ano. A gente comprou ela, como a
gente falou, a gente comprou em
fevereiro. Em março estourou a
pandemia. A Kombi estava com o
eletricista e era um senhor. O
senhor já não podia trabalhar mais.
Então, a gente ficou ali uns três
meses sem conseguir mexer nela.
Aí, depois, a gente fez toda a
mecânica dela. Foram quatro
meses de mecânica. Fizemos o
motor do zero. Depois, a gente foi
fazer a lataria. Foram mais três
meses. E aí, depois, mais quatro
meses pra construção da casa. Isso
foi novembro de 2021, que foi o
exato momento que nossa grana
acabou. Em uma semana, a Kombi
ficou pronta e a gente saiu pra
viajar dessa forma, com três mil
reais no bolso.
Vocês realmente focaram neste
objetivo!
Anderson: A gente sempre
acreditou muito naquilo que a
gente estava fazendo de alguma
forma. Algo nos dizia que esse era
o nosso caminho de vida. E, graças
a Deus, a gente saiu. No primeiro
mês, a internet virou de uma
forma que já apagou o primeiro
mês de viagem. E assim, a gente
continuou viajando e vivendo
aquela liberdade que a gente
queria. Mas, ao mesmo tempo,
também tendo que sustentar
financeiramente isso.
Não tendo ninguém por trás da
gente. Então, foi um caminho que
a gente foi compartilhando a
nossa história também com as
pessoas e uma comunidade que a
gente criou na internet, que era
um lugar que a gente achava que
pra mim, a internet de antes era os
comentários do G1, né? Aquela
loucura que você vê ali, que é o
caos e gente falando mal. E, pelo
contrário, era uma loucura tão
grande que a gente tava fazendo
que muitos amigos não
entendiam o que a gente tava
fazendo. Os familiares, por mais
que não diziam não, ninguém
também falava, vai, porque assim,
por que vocês estão largando a
advocacia? Uma forma de vida tão
privilegiada que poucas pessoas
no Brasil têm pra fazer um negócio
desse.? Então, a gente entende
que as pessoas não conseguiam
compreender aquilo que a gente
tava fazendo. Mas, ao mesmo
tempo, a gente formou uma
comunidade na internet de
pessoas que nos impulsionava a
continuar. Então, esse movimento
gerou o que hoje é o Vibe de Dois,
que é uma comunidade muito
grande de pessoas, a gente tem
quase 800 mil pessoas inscritas
hoje no nosso canal no Youtube,
um alcance de mais de quase 5
milhões de pessoas mensais pelo
nosso canal.
movimento bem de desapego
mesmo, de emoções, de matéria, e
quando a gente saiu, a gente se
olhou e falou assim, tá, e agora?
E aí a gente teve que dinamizar a
nossa relação enquanto casal, a
gente teve que dinamizar uma
relação de trabalho, porque a
gente trabalha juntos também,
cozinha, a gente faz necessidades,
a gente se relaciona, a gente faz
tudo num espaço de três metros.
O bom é que, acho que desde
quando nós saímos, a gente já saiu
com essa consciência de que seria
um grande desafio. E a gente já
sabia que seria 8 ou 80. A gente ia
casar na estrada ou a gente ia
separar.
Como é a vida de vocês como
casal, com tudo o que viveram e
enfrentaram juntos?
Anderson: Primeiro que a gente
saiu pra viver dentro de um carro
de 3 metros, e a gente não tinha
experiência nenhuma, nós nunca
havíamos viajado de motorhome
na vida. Nós saímos e deixamos
tudo pra trás, a gente tinha uma
semana, como falei, a gente doou
muita coisa, nós tínhamos muitos
livros, a gente teve que desapegar
de tantas coisas que faziam parte
da nossa essência também, foi um
Ana: Sim, a gente
aprendeu
muito também, cresceu muito e
todo esse trajeto também foi de
uma mudança interna, porque nós
saímos daquela pessoa que
éramos, do mundo corporativo,
dos advogados, que tinha toda
uma imagem, para sermos
pessoas que vivem em uma
Kombi, que trabalham com
internet, isso também foi uma
mudança muito grande de quem
nós éramos e aí tentar descobrir
quem nós somos, porque acho
que hoje tudo na sua vida quando
alguém te pergunta: quem é você?
ah, eu sou fulano, eu sou
advogada, eu faço isso, eu faço
aquilo, mas e o que
você gosta? o que você é, além da
sua profissão, além daquele teu
círculo, a gente teve que descobrir
tudo isso de novo, e isso foi a partir
de mudanças muito grandes,
mudanças internas mesmo, e isso
foi dinamizando e mudando
completamente também a nossa
relação, acho que o primeiro ano
foi um ano de sobrevivência, de
descobrir como fazer as coisas e a
partir daí foi ficando cada vez mais
fácil, a rotina foi ficando cada vez
mais tranquila em relação a o que
fazer, porque a gente tem todos os
dias muitos desafios a nossa rotina
é de acordar e buscar água,
dinamizar, transformar um quarto
numa cozinha depois a cozinha
em um quarto de novo, então tudo
isso foi mudando muito aqui.
Anderson: É muito assim, a
estrada é muito intensa, a gente
vive muito todos os dias um dia
nosso, rende muita coisa, desde de
manhã quando a gente acorda,
até a noite, são muitas tomadas de
decisões aonde eu vou dormir,
aonde eu vou pegar a água,
acabou a água, acabou a luz é
seguro, não é seguro, não sou só
eu enquanto homem, se viajar
sozinha é uma coisa, a Ana
enquanto mulher é outra coisa,
nós enquanto casal é uma outra
parada, tem a Fiona.. Então, são
inúmeros os desafios que a estrada
te impõe, mas quando você se
coloca numa situação dessa
também você se conhece muito
mais rápido, porque você vê como
enfrenta os desafios como é que
você passa por eles e a estrada,
como a gente fala a estrada dá
tudo o que você precisa ela te
ensina assim como a vida, de uma
forma muito mais intensa, então a
nossa viagem na estrada, foi uma
escola e sempre a gente aprendia
aquilo que a gente tinha que
enfrentar ali na frente, é surreal
assim os desafios foram
aparecendo, parece que eram as
formações que a gente precisava
para seguir as etapas seguintes
então a gente é muito grato de
verdade a essa vida que a gente
vive hoje porque isso fez com que
a Ana e o Anderson que saíram de
Florianópolis já não são mais as
duas pessoas que chegaram aqui
nos Estados Unidos, e hoje a gente
se sente muito mais calmo, muito
mais tranquilo nos sentimos
pessoas muito melhores apesar de
termos nos submetido a situações
muito difíceis, desafiadoras foi daí
que surgiu assim esses novos seres
que hoje chegam aqui nos Estados
Unidos e a gente fala que o Alaska
territorial que a gente busca já faz
três anos e meio se tornou
também o Alaska da nossa
consciência porque essa viagem
além de ser uma viagem externa
se transformou num instrumento
interno que sem a gente saber nos
transformou numa outra coisa
graças a Deus.
Vocês pensam algum dia parar?
largar a estrada?
Anderson: a gente já passou
algumas ansiedades de pensar
sobre isso, hoje a gente resolveu
deixar como foco a gente chegar
até o Alaska e acreditar que a
estrada vai nos dar essa resposta
de que quando a gente chegar lá
que falta ainda muito, tem muita
coisa para fazer viver esse
momento que a gente lutou tanto
para chegar até aqui e também
depois usufruir das consequências
disso e deixar as coisas se
encaminharem a confiar um
pouco nos planos de Deus que vai
dar tudo certo.
Como é para vocês essa troca
entre a cultura brasileira, e as
diferentes culturas que
encontram pelo caminho?
Anderson: Eu acho que, como
brasileiros, a gente tem um
entendimento muito limitado do
que é a América Latina. A verdade
é que costumamos virar as costas
para a América do Sul. Quando
saímos do Brasil, a gente não fazia
ideia do que esperar o que era o
Uruguai, a Argentina, a Bolívia, o
Peru, o Equador, a Colômbia... A
gente colocava tudo no mesmo
pacote, sem saber o quanto cada
país é diferente e único.
O Uruguai foi o primeiro país em
que entramos, e já foi um choque
de realidade: a língua, a moeda, a
primeira noite dormindo fora, em
um país que não era o nosso. Foi
um início cheio de descobertas.
Mas é um bom começo de roteiro,
porque o Uruguai ainda tem uma
certa semelhança com o sul do
Brasil, então a transição é mais
suave.
Depois veio a Argentina, e com ela,
a travessia da Cordilheira dos
Andes, a neve, e um inverno
rigoroso na Patagônia. Foi a
primeira vez que enfrentamos
temperaturas abaixo de zero,
nevascas fortes. A gente não tinha
preparo nenhum nem nós, nem a
Kombi. Passamos muitas noites de
frio intenso. A Kombi quebrou, e
foi aí que começamos a aprender
mecânica na marra, na estrada. A
gente teve que aprender coisas
que nunca imaginou que um dia
precisaria saber.
E então veio a Bolívia um choque
cultural gigantesco. Convivemos
com o povo andino, com as
"cholitas", e já no Peru fomos
recebidos por manifestações.
Cruzamos por territórios indígenas,
por fazendas, por lugares onde a
vida segue um ritmo
completamente diferente do
nosso. Já vivemos tantas
experiências que parecem até
ficção.
No Equador, por exemplo,
estávamos saindo do litoral e
começando a subida pela
Cordilheira dos Andes. Paramos
para pegar as roupas de inverno no
bagageiro nosso “guarda-roupa” de
estrada e, por acaso, vimos do
outro lado da estrada uma reunião
de uma comunidade indígena
andina. Todos com aquelas roupas
coloridas, típicas, que a gente só
costuma ver em filmes ou revistas.
De repente, estávamos ali, com a
Kombi cercada por pessoas. A
gente oferecendo chimarrão, eles
oferecendo carne de alpaca. Um
senhor encostou na Kombi e
começou a tocar flauta andina,
enquanto a Ana dançava com eles.
Essas experiências não acontecem
nos pontos turísticos elas surgem
no meio do nada, no coração de
comunidades que ninguém nem
imagina que existam.
E são nesses encontros que a troca
acontece uma troca verdadeira,
que te ensina, te transforma e te
enriquece de um jeito que é difícil
colocar em palavras. Foi e está
sendo uma jornada incrível.
Ana: Ao longo desses anos a gente
acabou indo e conhecendo
pouquíssimos pontos turísticos dos
lugares, as vezes quando você sai
para fazer uma viagem de férias
você tem um roteiro super
fechado, super marcado porque
você tem dias x e você precisa
fazer isso nesse tempo é o que
você tem só que, e essa é uma das
coisas que a gente gosta tanto do
motorhome é essa liberdade de
poder justamente parar em
lugares que não são turísticos e
conhecer as pessoas e poder
conversar nós saímos do Brasil e
não sabíamos falar espanhol hoje a
gente já fala espanhol
fluentemente porque nós
aprendemos na estrada nós nunca
fizemos aula mas conversando
com as pessoas então a gente
brinca que o nosso espanhol ele é
misturado porque conforme nós
aprendemos palavras nos países a
gente até hoje fala essas palavras
com o sotaque que a gente
aprendeu, é um crescimento
muito grande e hoje ter um
conhecimento de mapa de pegar
um mapa, de entender as coisas
de saber onde se localiza e
também culturamente, como o
Anderson falou é incrível ter essa
troca com as pessoas e de
conhecer de verdade o que é um
país para além do marketing para
além do noticiário.
Como foi para vocês perceber, ao
longo da viagem, as diferenças na
geografia e nas realidades
políticas de cada país por onde
passaram?
Anderson: a América Latina desde
a Argentina até o México é algo
que nos encanta o povo latino é
um povo mágico que com sua
dificuldade com a sua falta de
estrutura consegue fazer magia na
vida e consegue sobreviver a
condições inimagináveis nesse
mundo, é impressionante a
capacidade do nosso povo de
sobreviver em condições das mais
doidas das mais loucas desde os
altos andinos da Bolívia, em que a
gente via as mulheres carregando
sacos de pedra tortinhas andando
até as crianças na Venezuela que a
gente via aquele olhar pouco
esperançoso passando por veias
abertas da América Latina
como diz o Eduardo Galeano. .
Chegando aqui nos Estados
Unidos situação gritante. A
primeira mudança de universo que
vivemos realmente radical foi em
um país que nos pareceu, de certa
forma, "doido". Aqui, encontramos
uma estrutura material que não
existe em nenhum outro lugar da
América Latina. Para quem vive
dentro de um carro, como a gente,
é o paraíso: fácil de viajar, tudo
funciona, tudo está à mão. A gente
até brinca dizendo que aqui é
"viajar no modo easy", porque você
não precisa se preocupar com
nada.
Mas, por outro lado, foi também
onde sentimos a maior frieza
humana da viagem algo que
nunca tínhamos experimentado. E
isso mexeu muito com a gente.
Tanto que, depois de quase quatro
anos na estrada, foi aqui que
enfrentamos nossa primeira
grande dificuldade psicológica.
Foram cerca de 20 dias bem
pesados mentalmente, por causa
desse choque humano, desse vazio
de conexão.
É curioso, porque a estrada vai te
ensinando o tempo todo, de todos
os lados. E, às vezes, quando você
acha que já está preparado, vem
uma situação totalmente nova,
que te desarma. A vida te mostra
um ponto de vista que você ainda
não tinha enxergado e isso muda
tudo.
A gente também teve a
oportunidade de conhecer de
perto a realidade dos imigrantes
brasileiros. Fomos acolhidos por
muitos alguns vivendo aqui com
documentação, outros em
situações mais vulneráveis, sem
legalidade. E isso nos mostrou um
outro lado da história, bem
distante daquela romantização do
“ah, vou sair do Brasil, ter um
carrão, uma vida fácil”. A vida real
fora do país é bem mais complexa
do que isso.
Do ponto de vista cultural, tudo
isso foi um enorme
enriquecimento. Mas é importante
dizer: enquanto viajantes, a gente
não se coloca como donos da
verdade, nem como paladinos da
justiça. Não estamos na estrada
para impor nosso ponto de vista,
mas para observar, aprender e
respeitar. A gente vê, escuta,
sente... E se concorda ou não com
algo, guardamos para nós não
cabe a nós dizer como os outros
devem viver.
Talvez essa postura tenha nos
dado a flexibilidade necessária
para transitar por tantos povos,
culturas e realidades diferentes. E,
no fim das contas, tem também o
nosso jeito de chegar: viajamos
numa Kombi 1986. E não tem
quem olhe pra ela e não abra um
sorriso. Ela cria uma ponte
imediata, aproxima, quebra o gelo.
A Kombi fala por nós antes mesmo
de qualquer palavra.
E como é viajar com a Fiona? Ela
lida bem com os deslocamentos?
E nas fronteiras, que cuidados
vocês precisam ter com ela?
Ana: A Fiona, olha, parece que
nasceu pra essa vida. Ela se
adaptou muito fácil à estrada,
desde o começo. Hoje ela já é uma
senhorinha está com 13 anos mas
continua firme, e a rotina da
viagem já faz parte dela.
Engraçado que, se ficamos muito
tempo parados num mesmo lugar,
ela começa a ficar inquieta, como
se dissesse: “E aí, vamos embora?”.
Ela tem o cantinho dela na Kombi
um banquinho, a caminha e
quando começamos a organizar
tudo para partir, ela já pula para o
lugar dela e fica ali, pronta pra
seguir viagem.
Ela é nossa companhia constante.
O Anderson sempre diz que viver
na estrada é uma espécie de
“solidão a dois”, porque mesmo
conhecendo outras pessoas pelo
caminho, no fim do dia somos só
nós dois. E a Fiona é nosso terceiro
elemento. Ela dinamiza tudo, dá
leveza. Muitas vezes é por causa
dela que a gente sai pra caminhar,
pra dar uma volta, respirar.
E os cuidados com ela são como
seriam em qualquer casa: passeio,
atenção, alimentação. Ela
entendeu que a Kombi é o lar
dela. Nunca fez necessidades aqui
dentro e quando precisa sair fora
do horário, vai até a porta e
arranha. É o jeitinho dela de avisar
que está na hora do passeio.
Viajar com a Fiona é, ao mesmo
tempo, a parte mais incrível e a
mais desafiadora da nossa jornada.
Ela é o nosso ponto de ansiedade
toda vez que chegamos a uma
fronteira. Cada país novo traz
aquela dúvida: “Será que vai dar
tudo certo com ela?”.
É sempre o momento mais
burocrático da viagem. Para entrar
em qualquer país, precisamos
emitir um documento chamado
Certificado de Vacinação
Internacional, específico para o
destino. Mas o complicado é que
cada país tem suas próprias regras,
exigências diferentes, prazos,
vacinas e até medicamentos
obrigatórios.
Então estamos sempre
pesquisando, tentando nos
antecipar: que documentos
precisam? Qual vacina é exigida?
Tem que dar vermífugo? Às vezes,
mesmo com tudo certo, ainda
passamos por momentos de
tensão, porque depende muito do
agente da fronteira e da
interpretação que ele faz das
regras.
Mas, no fim, tudo vale a pena,
porque ter a Fiona com a gente
transforma completamente a
experiência.
último país de expedição não a
última fronteira, porque vamos ter
mais uma fronteira que a fronteira
do Alasca, né?
Anderson: Ela é uma cachorra
viajante, as vezes por exemplo, eles
pedem prazos de vacina que a
gente não pode reaplicar na Fiona
porque ela já tem a vacina então a
gente fica sempre em uma
situação que são bem complexas,
as vezes a gente consegue os
documentos já fomos para a
fronteira sem documento da Fiona
mas até hoje sempre deu certo
sempre conseguimos passar as
fronteiras, sempre se deu um jeito
sempre conseguimos resolver, ela
tem 13 anos, Nunca ficou doente
na estrada . muito forte, ontem ela
tomou a vacina está meio
amuadinha hoje, que ela tomou a
vacina de raiva, que a gente vai
passar agora para o Canadá, que
vai ser nosso último país, né? a
gente vai precisar da fronteira para
passar para esse que vai ser nosso
Kombi Manezinha
Qual mensagem vocês gostariam de deixar para as pessoas que
acompanham o canal — tanto quem já está com vocês há mais
tempo quanto quem está chegando agora?
Ana: Olha, tem uma mensagem que a gente sempre gosta de deixar
como reflexão. No ano passado, quando estávamos no México,
voltamos ao Brasil para participar da EXPO Motorhome o maior evento
de motorhomes do país e lá demos uma palestra com um título que
resume muito do que acreditamos: “Comece. Dê o primeiro passo em
direção àquilo que faz o seu coração vibrar.”
A gente sabe que não existe uma fórmula pronta de como viver a vida.
Por isso, acreditamos profundamente que o caminho se faz ao
caminhar. Quando você dá o primeiro passo em busca do que te
conecta com a sua essência, a vida, de algum jeito, vai mostrando por
onde vale a pena seguir.
Chegar até aqui não foi fácil. Não foi um mar de rosas. A estrada não é
só bênção, não é só uma vida incrível e leve o tempo todo. Ela exige
muito exige entrega, tolerância, flexibilidade. É um modelo de vida que
nem todo mundo se encaixaria, justamente por essa intensidade. Todo
dia é uma surpresa. Quando a gente abre a porta da Kombi, nunca
sabe o que vai acontecer e isso pode ser maravilhoso ou desafiador.
Mas, no fim, tudo vale a pena. Porque viver de forma alinhada com a
própria verdade, com os próprios valores, traz uma liberdade mental e
uma cura tão profundas que é difícil colocar em palavras. É sobre isso:
viver de um jeito que faça sentido de dentro pra fora.
Anderson: E, para além de tudo isso, tem algo que a gente sente
muito forte: nós temos 32 e 33 anos, somos da geração dos anos 90.
Crescemos num mundo que ainda carregava os resquícios da vida que
nossos pais viveram. Somos talvez a única geração que viveu essa
grande transição tecnológica: brincamos na rua, vimos a internet
discada nascer e, agora, estamos diante da inteligência artificial
transformando tudo.
Isso gera um caos interno enorme. Quem somos nesse mundo em
constante mudança? Onde nos encaixamos? Qual o nosso papel?
E é por isso que a viagem qualquer que seja, não precisa ser como a
nossa se torna uma ferramenta de transformação tão poderosa.
Quando você se distancia da própria rotina, do seu contexto, do seu
"mundinho", e consegue olhar para tudo de fora, você muda. A
perspectiva muda. E quando volta, você volta diferente. Volta com um
novo olhar para o mesmo lugar.
No nosso caso, chegar ao Alasca e depois voltar para Florianópolis não
é só voltar para casa é ressignificar Florianópolis, nossa família, nossos
amigos, a vida que deixamos para trás. A gente passou a dar valor ao
simples: à relação com minha mãe, com meu pai, com meu irmão,
com meus afilhados. Valorizar ver uma criança crescer, acompanhar
um nascimento, estar presente. Coisas que hoje, muitas vezes, não
podemos viver por causa da estrada.
Perdemos nossas avós enquanto viajávamos. A distância, às vezes, é
cruel. A saudade pesa. E como a Ana costuma dizer: pra viver uma
coisa, a gente sempre vai ter que abrir mão de outra.
Mas quando o sonho é verdadeiro quando ele nasce dentro da gente,
e não é uma expectativa imposta por outros a gente sente. E seguir
esse chamado, mesmo com todos os desafios, faz tudo valer a pena.
Acreditamos que cada pessoa tem uma missão nessa vida. E, de
alguma forma, sentimos que a nossa é essa: viver o que acreditamos
com verdade e inspirar outras pessoas a fazerem o mesmo. A seguirem
seus próprios sonhos. Suas próprias verdades.
E é isso.
Acompanhe a jornada do Casal
Vibe de Dois:
https://vibededois.com
https://www.instagram.com/vibededois/
7 de abril
por Roberto Lívio
O Dia do Jornalista, comemorado em 7 de abril, é uma data
em que se presta homenagem aos profissionais da
imprensa no Brasil. Como olhos e ouvidos aguçados,
jornalistas são responsáveis por coletar, apurar e divulgar
informações de interesse público, às vezes, até arriscando
suas próprias vidas. Por fornecerem as informações
necessárias à comunidade e cobrarem as autoridades, são
considerados "guardiões da democracia".
Por que 7 de abril?
A data foi escolhida em homenagem a João Batista Líbero
Badaró, um importante jornalista do século XIX. Ele foi
assassinado em São Paulo no dia 7 de abril de 1830, em
consequência de suas denúncias contra a corrupção e os
abusos de poder do governo da época. Conhecido por
posições liberais e pela defesa da liberdade de imprensa,
seus artigos criticavam o governo da época e o imperador
Dom Pedro I.
fonte: https://unidade.org.br/memoria-milton-belintani/
A crítica de arte no Brasil:
entre o esquecimento e a reinvenção
Por que críticos e curadores são essenciais para levar a
arte e o pensamento crítico às periferias
Uma exposição que
poucos conhecem
Enquanto este texto é escrito, está
acontecendo em São Paulo uma das
exposições mais importantes dos
últimos tempos: uma retrospectiva
dedicada a Andy Warhol, o artista
americano que criou a pop art um
movimento que revolucionou a arte ao
transformar objetos do cotidiano em
símbolos culturais poderosos. Warhol
desconstruiu barreiras entre o popular
e o elitista, o comercial e o artístico.
por Cassio Fernandes
No entanto, essa exposição, tão rica e fundamental, não
está recebendo a divulgação que merece. Fora dos
grupos já familiarizados com o mundo da arte, poucos
sabem que ela existe. Isso revela um problema maior: no
Brasil, a arte é um território intencionalmente elitizado e
ocultado, principalmente pela falta de políticas públicas
eficazes.
A arte como ferramenta de controle social
No Brasil, a arte muitas vezes é mantida distante das
periferias e das populações mais vulneráveis. O
governo, ao não fomentar políticas que
democratizem o acesso à cultura, contribui para que
essa arte seja exclusiva para poucos, mantendo a
população suburbana e necessitada longe das
ferramentas que poderiam despertar seu
pensamento crítico.
Quanto mais as pessoas são
privadas do contato com a arte e da
possibilidade de reflexão, menos
críticas elas se tornam diante dos
problemas sociais que enfrentam
diariamente. Assim, a elitização da
arte funciona como um mecanismo
silencioso de controle social
mantendo a ignorância e a
passividade.
A arte periférica que incomoda e é
invisibilizada
Enquanto isso, nas ruas das
periferias, a arte acontece de forma
vibrante, potente e urgente mas
segue escondida e invisibilizada
pelo sistema oficial. Os grafites
cheios de cor, que expressam
histórias, protestos e sonhos, são
apagados ou ignorados; os slams e
as rodas de poesia que dão voz aos
marginalizados não recebem o
mesmo espaço nem o mesmo valor.
Essa arte periférica incomoda,
porque ela mostra a realidade nua e
crua, a violência, a desigualdade, a
resistência. Mas, ao invés de ser
acolhida e valorizada, é muitas vezes
marginalizada e silenciada
justamente porque tem o poder de
despertar um olhar crítico que o
sistema quer sufocar.
O papel transformador dos críticos e
curadores
É aqui que entra a importância da crítica e da
curadoria no Brasil. O trabalho desses
profissionais vai muito além de escolher obras
ou escrever sobre elas. Eles são os tradutores da
arte para quem nunca teve acesso a ela. São os
mediadores que levam a arte às periferias, às
escolas, aos espaços onde o olhar crítico precisa
ser despertado.
Esses mediadores ajudam a deixar as pessoas
críticas pessoas que aprendem a enxergar além
da superfície, que entendem os problemas
sociais, que questionam e dialogam com o
mundo onde vivem. Eles são responsáveis por
criar pontes entre a arte e o público
marginalizado, traduzindo linguagens complexas
em experiências que fazem sentido para todos.
A arte que desperta e ensina
A arte tem o poder de mostrar o que muitos
não querem ver — os problemas do país, as
injustiças, as dores e as lutas. Ela é um espelho
que ajuda a sociedade a se reconhecer, a
pensar e a transformar.
Quando essa arte chega aos bairros periféricos,
não é só entretenimento: é educação estética e
política. É uma ferramenta para que as pessoas
possam se posicionar, resistir e até sonhar.
Conclusão: reinventar a crítica para um Brasil mais justo
Reinventar a crítica de arte no Brasil é, acima de tudo, um ato de justiça social. É
garantir que a arte não seja privilégio de poucos, mas direito de todos. É
reconhecer que os críticos e curadores são agentes fundamentais para
transformar a cultura num espaço de liberdade, de questionamento e de poder
popular.
Se queremos um Brasil onde todos tenham voz e vez, precisamos valorizar quem
ajuda a levar a arte e o pensamento crítico para quem sempre foi excluído.
Porque deixar as pessoas críticas é, no fim, deixar que elas vejam, entendam e
mudem o mundo ao seu redor.
A importância do uso de cristais.
Os cristais são ferramentas
especiais e poderosas para
alinhamento dos chacras e
proteção espiritual.
Tem sido utilizado a séculos e
com diversas funções. Um dos
poderes do cristal é amplificar a
energia e sustentar em um nível
alto de energia.
Cada pedra sintoniza e estabiliza
nossa energia, visando a melhora
e o aprimoramento.
Vamos apresentar dois
Pingentes:
Cornalina – segundo chakra,
equilíbrio emocional, trabalha
culpa, ansiedade, traz alegria,
movimento.
Altura: 6 cm
Largura: 3 cm
Comprimento: 6 cm
Peso: 35 g
Quartzo branco transparente –
Todos os chakras, limpeza astral,
proteção, paz, clarividência,
energia, cura, “curandeiro
mestre”, amplifica sua energia
positiva e limpa as negativas.
Altura: 7 cm
Largura: 3 cm
Comprimento: 7 cm
Peso: 45 g
Clique nas imagens para saber mais
AS INTELIGÊNCIAS ARTIFICIAIS NÃO ANULAM
A DIVERSIDADE HUMANA ELAS A
AMPLIFICAM.
QUANTO MAIS PESSOAS ÉTICAS E
CONSCIENTES AS UTILIZAREM, MAIS ESSES
SISTEMAS REFLETIRÃO
O BEM. SE AS PESSOAS DE BEM SE OMITIREM,
INEVITAVELMENTE, OS MODELOS SERÃO
IMPREGNADOS POR OUTROS NEM SEMPRE
COM OS MELHORES PROPÓSITOS
Por Mirna Rubim
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E ARTISTAS:
O ENCONTRO DE DUAS FORÇAS CRIATIVAS
Desde que defendi meu TCC em Data Science e
Analytics pela USP-Esalq, em 2023, o universo da
Inteligência Artificial avançou em velocidade
galopante incluindo o campo das artes. O que
antes era visto com cautela ou até certo receio,
hoje desponta como um novo território de criação
e colaboração. Se na época a grande questão era
como o ChatGPT afetaria a pesquisa e a
empregabilidade do professor de canto, tema do
meu trabalho, hoje o debate se alargou: será que
as IAs estão apenas auxiliando os artistas ou, de
fato, cocriando com eles?
As ferramentas de IA vêm se tornando
protagonistas na democratização do acesso à arte.
Se por um lado, pessoas sem formação técnica
passaram a experimentar composição musical,
pintura digital e edição audiovisual com um nível
de refinamento que, até pouco tempo, dependeria
de anos de estudo e equipamento caro. Essa
acessibilidade não apenas aproxima o público da
produção artística, como também inaugura novas
linguagens estéticas, em que algoritmos e
sensibilidade humana se entrelaçam. Por outro
lado, os artistas estão se sentindo cada vez mais
ameaçados, principalmente porque vários
cientistas alegam que em meados de 2035 a IA
estará mais inteligente que os humanos. Eu,
sinceramente, não acredito nisso. As IAs podem se
tornar mais inteligentes em algumas áreas de
atividade repetitiva, que os próprios seres
humanos vão sentir tremendo alívio de se livrar
delas. Mas, lembre-se, que são seres humanos que
estão por trás dos códigos das IAs e que esses
códigos podem ser alterados a favor da
humanidade.
Na produção musical, por exemplo, plataformas
como kits.ai substituem com competência partes
do processo antes atribuídas a produtores
humanos uma mudança que traz benefícios
econômicos claros. Contudo, essa mesma
eficiência levanta dilemas importantes. Há uma
crescente preocupação com o uso indevido de
obras protegidas para treinar modelos de IA, sem
o devido consentimento dos autores. A questão
dos direitos autorais, que já era complexa no
meio digital, torna-se ainda mais delicada
quando vozes, rostos e estilos são reproduzidos
sem a mediação do criador original. Obviamente,
como é abordado na Europa, a regulação das IAs
é um tema urgente e prioritário. Essas
ferramentas estão correndo soltas agora mas as
regulações pelas instituições e pelos próprios
seres humanos serão feitas. Lembre-se: estamos
no olho do furacão da disruptura. Daqui a dez
anos poderemos olhar pra traz e analisar tudo
isso com mais dados e certezas. Além disso,
artistas começam a notar uma padronização
criativa: ao confiar demasiadamente em
sugestões automatizadas, corremos o risco de
homogeneizar a produção artística algo que vai
na contramão da própria essência da arte, que é,
por definição, diversidade e risco.
Soma-se a isso um impacto profundo e ainda
pouco discutido sobre o sistema de ensino.
Ao assumirem o papel de assistentes criativos
e provedores de conteúdo sob demanda, as
IAs desafiam o modelo tradicional de
aprendizagem baseado na mediação
constante de um professor. Isso não significa
que o educador perderá relevância ao
contrário, ele será ainda mais necessário
como curador, facilitador e guia crítico nesse
novo ecossistema. Mas será preciso repensar
o que se ensina, como se ensina e, sobretudo,
qual o valor da experiência humana nesse
processo. Ignorar essa mudança seria perder
uma oportunidade de evolução e abrir
espaço para a desinformação e o ensino
superficial se consolidarem como norma.
Economicamente, as estimativas não são
animadoras. Segundo relatório recente
publicado pelo El País, espera-se que, até
2028, a IA reduza em mais de 20% os
rendimentos dos setores musical e
audiovisual. Isso significa menos
remuneração para músicos, editores,
compositores e intérpretes. Ainda assim,
essa ameaça pode e deve ser mitigada com
regulamentações claras e o
desenvolvimento de tecnologias que
garantam a autoria e a originalidade das
obras.
Por outro lado, o World Economic Forum
aponta que, paralelamente à substituição
de funções tradicionais, haverá a criação de
novos empregos impulsionados pela
própria adoção da inteligência artificial.
Áreas como educação vocacional,
treinamento personalizado, curadoria de
dados, desenvolvimento de conteúdo
interativo e supervisão ética de sistemas
automatizados tendem a crescer nos
próximos anos. Trata-se, portanto, não
apenas de proteger profissões existentes,
mas de preparar as próximas gerações para
ocupar os novos espaços que já estão
surgindo.
Diante desse novo cenário, garantir a
proteção dos criadores torna-se uma
prioridade estratégica. Tecnologias
específicas vêm sendo desenvolvidas para
mitigar o risco de plágio e uso indevido de
obras artísticas. Algoritmos de verificação
textual e sonora, marcas d’água digitais
invisíveis e sistemas baseados em
blockchain já estão sendo aplicados para
rastrear autoria, validar originalidade e
registrar transações com mais segurança.
Embora ainda não amplamente difundidos,
esses recursos apontam caminhos
promissores para equilibrar inovação
tecnológica e justiça autoral, fortalecendo a
confiança de artistas e educadores nesse
ecossistema digital em transformação.
A verdade é que a IA não veio para substituir
os artistas, mas para ampliá-los. Ela
funciona como uma extensão técnica da
nossa criatividade. Pode sugerir harmonias,
oferecer ideias visuais ou realizar testes de
conceito que levariam dias em poucos
minutos. Pode analisar dados de público,
afinar a distribuição de conteúdo e até
prever tendências estéticas. Ela não pensa
como nós e justamente por isso nos desafia
a ir além.
No meu caso, interagir com a IA é como
conversar com uma versão aprimorada
de mim mesma. Alimentada pela minha
linguagem, histórico de pesquisas,
preferências e projetos, ela me ajuda a
tomar decisões estratégicas, revisar
conteúdos pedagógicos, organizar lives
com convidados renomados, propor
roteiros, escrever epígrafes para peças
de teatro, ajustar minha comunicação
nas redes e até planejar cronogramas de
postagens. Já reestruturei cursos, refinei
meu discurso artístico e encontrei
caminhos criativos para unir minhas
múltiplas facetas como cantora,
professora e empreendedora. Mais do
que uma ferramenta, ela se tornou uma
parceira ativa do meu processo de
criação.
Essa parceria entre artista e inteligência
artificial tem se mostrado especialmente
fértil no universo do canto, da pedagogia
vocal e da musicalização. No meu dia a
dia, já utilizo ferramentas como o PRAAT
e o VoceVista Video Pro para análises
acústicas detalhadas. No campo da
percepção musical, plataformas como
EarMaster e TonedEar oferecem
exercícios personalizados. Para a
composição assistida, AIVA, Amper Music
e Soundraw têm se mostrado valiosas
aliadas. Já os softwares de voz sintética,
como Descript, Respeecher e Voicemod,
vêm sendo explorados em contextos
pedagógicos e artísticos. Mais
recentemente, o uso de IA generativa
para criar arranjos vocais
estilisticamente coerentes vem
ganhando destaque. Na Tabela 1 eu
preparei um roteiro com essas
ferramentas e os dados principais para
sua utilização.
Tabela 1 – Lista de sugestão de IAs para músicos
Nome
Categoria
Principais
Recursos
Preço
Usabilidade
para
Professores de
Link
PRAAT
Análise Vocal
Análise de
espectrograma,
formantes, pitch,
intensidade
Gratuito
Alta – útil para
análise técnica
da emissão vocal
https://www.fon.
hum.uva.nl/praa
t/
VoceVista Video
Pro
Análise Vocal
Visualização de
formantes e
harmônicos em
Pago (licença
única)
Muito Alta –
excelente para
visualização em
https://www.voc
evista.com/
EarMaster
Treinamento
Auditivo
Exercícios de
percepção,
solfejo, leitura
Versão gratuita e
paga
Alta – ideal para
treinar afinação
e leitura
https://www.ear
master.com/
TonedEar
Treinamento
Auditivo
Intervalos,
acordes, escalas,
ditado melódico
Gratuito
Média – bom
complemento
para aulas
https://tonedear.
com/
AIVA
Composição
Musical
Geração de
trilhas musicais
com IA
Versão gratuita e
planos pagos
Média – útil para
explorar
estrutura
https://www.aiva
.ai/
Amper Music
Composição
Musical
Criação de
música
personalizada
Integrado ao
Shutterstock
Baixa – mais
voltado a trilhas
sonoras
https://www.shu
tterstock.com/di
scover/ai-music-
Soundraw
Composição
Musical
Geração de
música com
personalização
Pago
Média – útil para
experimentação
criativa
https://soundra
w.io/
Descript
Voz Sintética
Edição de áudio,
voz gerada por
IA, transcrição
Versão gratuita e
planos pagos
Alta – ideal para
criar maquetes e
revisar falas
https://www.des
cript.com/
Respeecher
Voz Sintética
Clonagem de
voz, dublagem
realista
Sob consulta
Baixa – uso mais
técnico e
comercial
https://www.res
peecher.com/
Voicemod
Voz Sintética
Modulação de
voz em tempo
real
Versão gratuita e
paga
Média –
interessante
para estudo de
https://www.voic
emod.net/
Em um cenário que se reinventa a cada clique, é urgente que artistas, educadores e
pesquisadores compreendam a IA não apenas como um fenômeno tecnológico, mas
como uma força cultural. Seu avanço é irreversível, e seu impacto, profundo.
Considerando os aspectos éticos envolvidos, é preciso destacar um ponto crucial.
Tenho escutado, com frequência, um temor crescente sobre o mau uso das IAs. E,
de fato, o risco existe. Os seres humanos são diversos sempre haverá quem atue
com integridade e valores sólidos, assim como haverá quem distorça os recursos
disponíveis por interesses questionáveis.
As inteligências artificiais não anulam essa diversidade: elas a amplificam.
Potencializam o que cada um carrega dentro de si. Por isso, defendo com convicção
que quanto mais pessoas éticas, generosas e conscientes estiverem utilizando e
alimentando esses sistemas, mais esses modelos refletirão o bem. Se as pessoas de
bem se omitirem, inevitavelmente, os modelos serão impregnados por outros —
nem sempre com os melhores propósitos.
Referências
1.DZ Techs. A geração de arte com IA: questões
éticas, vantagens e desvantagens. https://pt.dztechs.com/ai-art-generation-ethical-proscons
2.Kits.ai. The Pros and Cons of AI in Music
Production. https://www.kits.ai/pt/blog/thepros-and-cons-of-ai-in-music-production
3.Aela.io. Como a IA está mudando a arte.
https://www.aela.io/ptbr/blog/conteudos/inteligencia-artificialcomo-a-ia-esta-mudando-a-arte
4.El País. La IA recortará los ingresos de la
música e do setor audiovisual em mais de um
20% em 2028.
https://elpais.com/cultura/2024-12-04/la-iarecortara-los-ingresos-de-la-musica-y-elsector-audiovisual-en-mas-de-un-20-en-
2028-segun-un-informe-internacional.html
5.Tracklib. Veekens, D. Fake features: is there a
way to legally use AI generated vocals in music?
https://www.tracklib.com/blog/legally-use-aigenerated-vocals
6.UNESCO. Recomendação sobre a Ética da
Inteligência Artificial. 2021.
https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf00
00381137
7.World Economic Forum. The Future of Jobs
Report 2023.
https://www.weforum.org/reports/thefuture-of-jobs-report-2023
8.USP-ESALQ. Rubim, M. O impacto do ChatGPT
na pesquisa e empregabilidade do professor de
canto. TCC. MBA em Data Science and
Analytics. Universidade de São Paulo –
ESALQ, 2023.
Os pequenos influencers
e a sua alta exposição nas mídias
por Amanda Ricco
Em busca de engajamento, os pais transformam a rotina dos filhos
em conteúdo digital, levantando questionamentos sobre
privacidade, consentimento e segurança infantil na internet.
Antes mesmo de nascerem, muitas crianças já fazem parte do
universo das redes sociais. Publicações de ultrassom, quartos
decorados e enxovais personalizados costumam marcar a estreia
digital de quem ainda nem deu os primeiros passos.
O tema voltou a ganhar destaque após a influenciadora Virginia
Fonseca comparecer à CPI das Apostas Esportivas em abril de 2025
usando um moletom estampado com a imagem da filha Maria
Flor e a frase “Floflo biruta”, bordão associado à criança. O gesto,
feito diante das câmeras da televisão e do Congresso Nacional,
suscitou críticas sobre o uso da imagem da filha em espaços
públicos e reacendeu o debate: até que ponto essas crianças
participam desta exposição por escolha própria?
A prática de expor filhos nas redes
sociais não é novidade entre
celebridades, mas, com o
crescimento dos influenciadores
digitais, ganhou nova dimensão.
Virginia Fonseca, que acumula mais
de 45 milhões de seguidores,
compartilha diariamente momentos
da vida das filhas, gerando uma
legião de fãs adultos que
acompanham as crianças como
personagens de um reality show.
Com fãs clube das filhas Maria Alice e
Maria Flor, ambas pequenas, já são
comparadas e até antagonizadas por
seguidores.
Em contrapartida, a influenciadora
Viih Tube, que também é mãe e
expõe suas filhas e seu filho nas redes
e tem uma linha com produtos
voltados para crianças e bebês,
adotou uma postura mais cautelosa.
Em entrevista à revista Quem (edição
de abril de 2025), ela afirmou manter
uma relação longa e próxima com o
público, mas toma cuidados para
preservar a privacidade da filha,
como postar vídeos em horários
variados. “Vai ser um desafio, porque
nossos filhos nasceram com uma
mochila nas costas que não
escolheram, por terem pais públicos”,
declarou a criadora de conteúdo.
Na mesma edição, Virginia Fonseca
reconheceu a alta exposição das
filhas, mas disse não pretender
mudar sua postura: “Eles vão ter que
seguir o que eu fizer. Quando forem
maiores de idade e não quiserem,
tudo bem. Mas enquanto forem
menores, vai ser o que eu mandar.”
A exposição de crianças nas redes
sociais tem despertado alertas de
campanhas e órgãos de proteção. O
portal oficial do Governo Federal,
Gov.br, publicou em março de 2025 a
matéria “Campanha conscientiza
famílias sobre riscos de exposição de
crianças na internet”, destacando os
perigos da superexposição digital,
como assédio, uso indevido de
imagens e impactos no
desenvolvimento emocional das
crianças.
Em um cenário onde “crianças fofas”
geram curtidas e lucro, é essencial
lembrar: a infância não deveria ser
conteúdo, nem palco. Deveria ser,
antes de tudo, preservada.
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PROTEGER OS ANIMAIS SELVAGENS É PROTEGER A
NÓS MESMOS. QUANDO PERDEMOS UMA ESPÉCIE,
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É como se, ao cantar, os personagens
nos emprestassem seus abismos. Suas
dores ressoam como ecos dos nossos
próprios silêncios. E talvez por isso a
ópera nos transforme tanto: ela nos
devolve partes esquecidas de nós
mesmos.
Mas o que, exatamente, a ópera
revela? E por que ela nos comove tão
profundamente, mesmo quando não
entendemos a língua em que se
canta?
Quando a Ópera Canta o Inconsciente
A alma humana em estado de
espetáculo: Freud, Jung e Laing no
palco da voz.
Por Maude Salazar autora do livro Yoga da Voz
Três pensadores ousaram olhar para
dentro da alma humana, Freud, Jung
e R. D. Laing, e, a partir deles,
podemos entender a ópera não só
como arte, mas como espelho do
inconsciente.
Introdução: Um palco chamado
alma
A cortina se abre. A orquestra anuncia
os primeiros acordes. Uma mulher
entra em cena, ofegante, com os
olhos marejados, e começa a cantar.
Mas o que ela canta não é apenas sua
história, é a nossa. A ópera não é só
entretenimento: é uma linguagem do
invisível. Ali, no exagero das emoções,
no esplendor das vozes, algo de muito
profundo se manifesta. Algo que
escapa à lógica e à razão, mas que
fala diretamente à alma.
Freud: A voz como retorno do
recalcado
Para Freud, o inconsciente guarda
tudo aquilo que reprimimos: desejos
inaceitáveis, dores antigas, memórias
silenciadas. Mas o que é recalcado
sempre retorna, às vezes nos sonhos,
às vezes na arte.
A ópera, sob essa luz, seria uma
formação de compromisso: um
espaço onde o desejo retorna
disfarçado de canto. É o que vemos
na célebre cena da loucura de Lucia
di Lammermoor, de Donizetti. Lucia
não fala, ela canta. E nesse canto, o
que emerge é um colapso emocional
que palavras não dariam conta de
expressar. É o inconsciente em plena
cena.
Para Freud, essa sublimação permite
que o que foi recalcado encontre
forma simbólica. O palco vira divã. E a
plateia, ao escutar, também elabora.
Jung: Arquétipos em cena.
Já para Jung, o inconsciente é mais
que pessoal, ele é coletivo. Em cada
um de nós, habitam imagens
universais: a mãe, o herói, o velho
sábio, a criança ferida. Essas imagens,
os arquétipos, estruturam nossas
experiências mais profundas.
E onde estão os arquétipos, senão na
ópera? Tosca, Carmen, Wotan, Violetta,
Don Giovanni, são mais do que
personagens: são espelhos dos
dramas humanos que atravessam
séculos. A jornada de cada um deles
ecoa rituais ancestrais, mitologias
esquecidas, dilemas eternos.
A ópera, assim, se torna uma travessia
simbólica. Cada ária é uma iniciação.
E quando escutamos profundamente,
algo em nós desperta, como se uma
parte antiga, arquetípica, fosse tocada
.
Laing: A loucura tem algo a dizer.
sintomas são mensagens, modos
legítimos de expressar uma dor que
não encontra lugar na sociedade.
Talvez por isso a ópera seja tão
poderosa: porque ela não tem medo
da intensidade. Ao contrário: nela, as
emoções são amplificadas. A raiva vira
vendeta, o ciúme vira punhal, a dor
vira canto.
E é na ópera que encontramos
algumas das mais belas
representações do desamparo
psíquico. Não é à toa que tantas
heroínas enlouquecem, Lucia, Elvira,
Ophelia. Mas na ópera, ao contrário da
vida, a loucura é dignificada. Ela é
ouvida. Ela canta.
A voz como fenda simbólica.
Mais do que palavras, a ópera nos toca
pelo som. Pela vibração da voz. Pelo
que ela carrega de indizível. A voz é
corpo. É desejo. É ausência. É resto,
aquilo que escapa ao significado, mas
insiste em existir.
Em uma nota sustentada, em um
vibrato de dor, em um agudo quase
impossível, há algo que não se explica,
apenas se sente. É nesse ponto que o
canto lírico nos atravessa. E se torna,
ele próprio, experiência de cura.
R. D. Laing nos convida a ir além: ele
não vê a loucura como falha, mas
como linguagem. Para ele, os
Epílogo: Escutar é amar o que ainda
não tem nome.
Talvez a ópera nos encante tanto
porque ela permite que o
inconsciente se manifeste sem pedir
desculpas. Ali, não há censura. Não há
moderação. Só emoção em estado
puro.
Escutar uma ópera, então, é mais do
que apreciar uma arte. É aceitar ser
tocado pelo que há de mais humano:
nossas feridas, nossos desejos, nossas
contradições. É deixar que a música
nos diga algo que ainda não sabíamos
sobre nós mesmos.
E, no fundo, é isso que a arte faz de
mais belo: ela canta o que a alma
ainda não ousou dizer em voz alta.
BAZAR&
BRECHÓ
Venha !
Roupas, acessórios, brinquedos,
livros, eletrônicos, produtos artesanais,
doces e muito mais!
AGENDAMENTO
whatsapp: 11 98269 2404
com Edilaine
CHEF
LUIZ THOMÉ
“Seu Luiz” como
carinhosamente é
conhecido, nasceu em
São Tomé das Letras.
Hoje vai nos apresentar
“Escondidinho de
Costelinha com Purê
de Mandioquinha e
Queijo Canastra”
“Seu Luiz” é especialista
em Buffet à moda
Mineira. Ganhou o
mundo com a culinária
de Minas Gerais.
Ingredientes
Ingredientes:
Para o recheio (costelinha):
800g de costelinha de porco
em pedaços pequenos
1 colher (sopa) de banha de
porco ou óleo
1 cebola roxa picada
3 dentes de alho amassados
1 colher (chá) de colorau
Sal e pimenta-do-reino a
gosto
1/2 xícara de cachaça
(opcional)
1 colher (chá) de melado de
cana (toque especial)
Cheiro-verde picado a gosto
Para o purê:
500g de mandioquinha
(batata-baroa) cozida e
amassada
2 colheres (sopa) de
manteiga
100 ml de creme de leite
Noz-moscada ralada a gosto
Sal a gosto
100g de queijo Canastra
ralado grosso
Sugestão de
acompanhamento:
Uma salada de folhas
amargas com vinagrete
de jabuticaba ou um
arroz de ora-pro-nóbis.
Modo de preparo:
1. Recheio de costelinha:
1.Tempere a costelinha com sal,
pimenta, alho e colorau. Deixe
marinar por 30 minutos.
2.Em uma panela quente com
banha, doure bem a carne.
Adicione a cebola e refogue.
3.Se quiser um toque especial,
flambe com a cachaça (ou apenas
adicione e deixe evaporar).
4.Junte o melado de cana e um
pouco de água. Cozinhe até a carne
ficar bem macia e caramelizada.
5.Finalize com cheiro-verde e reserve.
2. Purê de mandioquinha:
1.Em uma panela, aqueça a
manteiga e junte a mandioquinha
amassada.
2.Adicione o creme de leite e mexa
até formar um purê cremoso.
3.Acerte o sal, rale um pouco de nozmoscada
e misture bem.
3. Montagem:
1.Em um refratário untado, faça uma
camada com o purê, outra com a
costelinha e cubra com mais purê.
2.Salpique o queijo Canastra por
cima.
3.Leve ao forno a 200°C por cerca de
15 minutos ou até gratinar.
Lívia e Janaina
Ientrevistadas por Regina Papini Steiner
Em um universo da moda
que ainda insiste em
padrões rígidos e
narrativas elitistas,
a Ken-gá Bitchwear surge
como grito, festa e
manifesto.
Criada por Lívia Barros, de
Bauru (SP),
e Janaína Azevedo,
de São Paulo.
A marca é mais do que roupa: é performance, afeto e
insubordinação. Nascida em 2016, a Ken-gá desafia a estética
tradicional ao vestir corpos dissidentes com orgulho e
irreverência, costurando memórias afetivas com desejos
contemporâneos de liberdade e representatividade.
De bolsas em formato de bolo a vestidos que parecem ter saído de
um sonho kitsch de infância, cada coleção conta uma história
muitas vezes pessoal, sempre política.
A mais recente, “Glacê”, apresentada na 54ª Casa de Criadores, é
um mergulho doce e provocador nas festas de aniversário que
marcaram a infância das criadoras. Aqui, babados não são apenas
ornamentos: são escudos de identidade e expressão.
Na passarela da Ken-gá, cabem todas as existências que a moda
tradicional costuma ignorar com glitter, riso e resistência.
E é exatamente por isso que elas são ICONIC.
Qual foi a inspiração de vocês para
criar a marca?
Lívia: A marca, ela nasceu em 2016.
Eu estava numa fase querendo voltar
para a moda. Eu me formei em
moda. Estava passando um tempo
trabalhando com outras coisas. E aí
senti um desejo enorme de usar um
maio dourado. E aí não encontrava
esse maio dourado. Daí eu falei, bom,
tá aí, vou fazer uma marca. Aí surgiu
o nome de umas brincadeiras e tal. Aí
eu falei, bom, vai ser uma coisa de
moda praia. Mas também tem uma
coisa que não é só moda praia. Então
vai ser Beachwear. Aí a gente criou,
eu criei o nome Kenga Beachwear.
Falei para todo mundo. Um monte de
gente falou que jamais ia dar em
nada esse nome. Não ia pegar. Mas
eu falei: vai rolar. Eu acredito no meu
nome. Falaram para várias pessoas
no processo. Eu acredito. Eu acho
que vai rolar. Aí fui fazendo, fui
modelando. Fui criando a primeira
coleção. E aí a gente lançou em
dezembro de 2016.
Vocês duas são estilistas?
Lívia: Eu sou estilista. Ela é minha
parceira. E aí quando eu lancei a
marca, calhou que ela tinha sofrido
um acidente.
Ela ficou muito em casa, desde
aquele momento embrionário do
desejo. Foi ali que comecei a pilotar a
primeira coleção — o primeiro passo,
literalmente, para transformar em
realidade um conceito que viria a se
tornar o Kenga Beachwear.
Nesse processo, ela começou a me
ajudar. E, curiosamente, apesar de
sempre achar que não gostava de
moda, afinal, Janaína é médica, foi se
envolvendo cada vez mais. A gente
passou a trabalhar juntas nessa
empreitada.
Janaina: No comecinho da marca,
uma coisa que eu queria dizer. Ela
queria brincar. Quando ela deu o
nome Kenga Beachwear. Ela queria
brincar com essa coisa da palavra
Kenga.
Lívia: Sou nascida em Bauru. Então
qualquer coisa que você faz ali fora
da curva. Você já é a Kenga. É
verdade. Esse preconceito besta.
Exatamente. Pinta um cabelo. É uma
coisa muito alucinante. Eu desde
adolescente não me conformava.
Imagina. A marca nasceu desse
desejo. Tanto de ter um maiô
dourado assim. Que tivesse uma
gama de tamanhos maior. Porque na
época, eu lembro que eu cheguei até
em uma época. Uma loja
experimentar.
Janaina: Essa foi a vontade dela
entende? Rompeu uma barreira ali
nesse espaço.
Lembro que, quando começamos lá
em 2016, só de mencionar a palavra
“feminismo” já era um choque. As
pessoas torciam o nariz, diziam: “Ah,
não fala disso na sua marca, isso não
vai dar certo”. Era sempre o não: “não
isso”, “não aquilo”, “melhor não
mexer com esses temas”.
Mas ela veio justamente com a
proposta de subverter tudo isso, de
provocar uma mudança de
mentalidade. Queria dar um novo
significado às coisas, quebrar
padrões. Naquela época, até o nome
“Ken-ga com K” era algo impensável.
Ninguém usava, ninguém falava. Era
quase uma provocação.
E olha só: já tentaram até roubar o
nome da minha marca, o Beachwear.
Tentaram registrar, mas já estava
protegido. Isso só mostra que o que
parecia ousado demais lá atrás, hoje
é reconhecido como referência.
Funcionou.
Lívia: Sim, com certeza, deu um
toque fundamental. E é
impressionante como muita gente
não quer criar, só copiar. Vê que está
fazendo sucesso e já quer surfar na
onda dos outros.
Ainda bem que está tudo registrado,
tudo certinho, com a empresa
estruturada — porque isso é
essencial. E aí está a grande diferença
da Kenga: enquanto muitas marcas
seguem fórmulas prontas, a Kenga
veio com propósito, com identidade
própria, rompendo com o
convencional.
Janaina: Esse novo olhar. Era um
olhar ousado, mas sempre com bom
humor. Inclusive no que diz respeito
aos tamanhos a gente já trazia
opções além dos padrões
convencionais. E olha, até hoje o
mundo ainda peca muito nisso.
Naquela época, então, falar de
inclusão e diversidade nas passarelas
era quase inexistente. Era outro
cenário, bem diferente mesmo.
De lá pra cá, as coisas mudaram, sim
foram quase dez anos de
transformação. Mas ainda tem muito
caminho pela frente.
Lívia: A gente estava ali desde o
começo. Para a gente, sempre foi
algo natural. Não era uma bandeira
levantada por conveniência.
Janaina: A gente é LGBT, eu sou uma
mulher gorda, nossas amigas trans
sempre estiveram com a gente era o
nosso cotidiano, nossa vivência real.
Por isso, a inclusão e a diversidade
sempre fizeram parte da essência da
marca, de forma orgânica. Naquela
época, poucas marcas se
posicionavam assim. Até existiam,
mas nada comparado ao movimento
que vemos hoje.
Não falava-se tanto quanto fala-se
hoje.
Lívia: A gente estava ali assim, né?
Janaina: E ver quanta gente que
desfilou para a gente. Por exemplo,
tem a Verônica Valentino, que foi
atriz, ela ganhou o prêmio APCA. Pelo
Teatro com a Brenda. Ela cantou no
primeiro desfile.
Como a Ken-gá entende o papel da
moda como ferramenta de luta por
representatividade e transformação
social?
Lívia: Eu acho que é isso, é
fundamento da marca, né? A gente
está sempre ali buscando assim,
trazer tudo que faz parte do nosso
universo, do nosso mundo, também
sendo LGBT, ela como mulher gorda,
a gente vai trazendo ali tudo que
soma, né?
Janaina: Eu acho assim, né? Existem
alguns tipos de moda, existe a moda
dos criadores, essa moda
embrionária, a moda das marcas
autorais, que começa com essa
mudança, que são esses criadores
criativos que começam com a
mudança, porque a gente não tem a
pressão do capitalismo, das coisas
em cima, né? Então, é com pessoas
que começam e que pedem essas
mudanças. Depois que isso começa a
girar, aí que a outra moda, que é a
moda da venda, a moda mais
capitalista, aí que ela começa a tentar
se mexer, né? Depois que começam
essas demandas. Então, por exemplo,
o racismo estrutural na moda. Então,
não tinha ninguém que pegava, que
colocava as mudanças negras na
passarela. E aí começa-se a fazer, em
certos lugares, e aí a moda inteira se
reclama e a moda inteira se mexe
para começar a fazer. Então, a gente
tem essa parte criativa da moda, que
é ela que se mexe. E representativa.
Isso, isso. Que contrapõe com essa
outra parte da moda, né? Que é
bem..’establishment”..Que é a moda
conservadora e tal. Então, existe essa
dicotomia, né? Que é aquela coisa do
ganhar dinheiro, da moda que
precisa comprar e tal, e dessa coisa
da criatividade, né? As coisas meio
que caminham, parece uma
dicotomia, um paradoxo, mas
caminham juntas.
O que cada nova coleção da Ken-gá
quer dizer ao mundo?
Lívia: Eu acho que cada coleção traga
a sua própria história, seu próprio
tom, assim. A gente sempre quer que
a pessoa se emocione com aquilo.
Era muito legal de desfilar, eu acho
que a gente começou a desfilar já em
2017, 2018, né? Então, está junto na
trajetória da marca. A gente passou a
se comunicar muito por esse
momento que a gente criava o
conceito, criava a história da coleção,
e aí criava o universo todo dali. Esses
universos transitavam entre sempre
o humor, a crítica política, alguma
forma de subverter alguma coisa
sempre, que as nossas coleções
sempre têm essa questão dessa
subversão, que está ali, é um dos
pilares da marca.
Então, cada coleção a gente quer
trazer uma coisa, nessa última glacé a
gente trouxe uma coisa nostálgica,
uma memória, uma coisa bucólica, a
questão de achar que é uma marca. A
gente tem esse nicho que a gente
criou no nosso nicho, mas é uma
roupa assim, quando você quer se
sentir bem, é uma roupa que você
escolhe, porque pelos clientes, pelo
feedback que a gente tem, é muito
esse lugar que a gente acha muito
especial. Então, a gente, cada história
é uma. A glacê foi essa coisa bucólica,
no fim do ano a gente lançou um
apocalipse, que a gente não sabia
que era o que ia acontecer. Então, a
gente queria fazer essa coisa de
questionar as escolhas de tudo em
volta da nossa volta, toda a situação
que a gente está vivendo no mundo,
se o mundo terminasse, o Brasil com
certeza ia ser um carnaval. A nossa
próxima coleção vai vir uma coisa
mais apaixonada, uma coisa mais
intensa.
maneira como a gente vê as coisas,
como a gente entende as coisas.
Então, o que a gente mostra em cada
coleção é uma parte do que a gente
vive, é uma parte do que nós somos.
Então, teve a Sabadão Kenganejo, que
foi um homenagem à avó da Lívia,
que eram as nossas lembranças de
quando a gente vivia em casa, a coisa
do carnaval, que a gente ama o
carnaval, a gente quis misturar com
essa coisa da urgência ambiental,
como se o mundo fosse acabar.
Então, eu acho que na verdade o que
a gente quer transmitir para as
pessoas, que as pessoas sintam, é a
nossa maneira de ver o mundo, é a
nossa maneira de existir no mundo e
a nossa maneira de transformar isso
em roupa.
Janaina: Eu acho que uma coisa que
a gente quer mostrar, que a gente
chama de “kengaverso”, a gente gosta
de mostrar o nosso mundo, a
Como a Ken-gá enfrentou os desafios
do período da pandemia?
Lívia: Foi muito louco, porque a
gente estava no momento onde a
gente estava com altos planos. A
gente tinha vivido um carnaval, o
carnaval sempre é um momento que
a gente acha que as pessoas se
identificam mais, que elas se sentem
mais na liberdade de usar. Então, a
gente tinha vivido um momento
perfeito, um lugar perfeito, fechei
contratos, fechei tudo, enfim.
Uma semana, aí entrou o COVID. Aí
eu fiquei com aquela situação, meu
Deus, acabei de assumir aqui um
compromisso, aí eu pensei, na minha
cabeça, naquele momento, eu falei, é
coisa de três meses, daqui a três
meses tudo vai voltar. Fiquei com a
loja, falei, não, tudo bem, onde a
gente pudesse produzir e tal, não
tinha maquinário, aí colocamos o
maquinário e começamos, eu
primeiramente eu sozinha
produzindo, aí depois quando teve a
abertura veio uma costureira e aí a
gente conseguiu, querendo ou não
nessa época, até aumentar nossa
estrutura, que a gente não tinha
Atelier, passou a ter, o que fez muita
diferença naquele momento, foi um
ano muito legal para a marca, que a
gente teve bastante relevância no
cenário, que a gente fez um vídeo
que foi muito legal, saiu várias
mídias, foi um momento bom para a
marca, por incrível que pareça, mas a
questão de produção, aquela coisa, a
loja em si, a gente conseguiu manter
o período, mas acabou não rolando,
que foi um período realmente muito
desafiador, mas teve essa coisa da
gente acreditar e falar, vamos investir
no Ateliê, então a gente conseguiu
manter o período, porque foi ótimo,
porque ela acabou conseguindo ficar,
a gente tinha uma coisa para se
ocupar também, nesse momento que
era, foi até quando a gente começou
a curtir mais, a gente conseguiu
poder produzir sem tanta pressão,
sem aquela coisa desse aceleramento
que a moda tem.
Como funciona o seu processo criativo?
Quais são as referências e estilos que te
inspiram mesmo trazendo algo tão
autoral?
Lívia: Temos os grandes estilistas, a
gente é apaixonada pelo Galliano, a
gente sempre tem essas grandes
referências, que acho que é algo
imaginário, imaginares, eu gosto
muito da moda do 70, de 80, aquele
tema lá, o Courrèges, então tem
essas referências, mas são coisas que
moram meio que no meio imaginário,
então às vezes você busca uma coisa
ou outra, mas principalmente a gente
está ouvindo uma música, daí você
fala, nossa, isso aqui é assim, daí a
gente sempre vem primeiro com o
nome da coleção, que vai dar o tom,
e a trilha sonora, que máximo! Nossa,
eu acho que é isso.
Nossa, é bem isso mesmo. Vou
buscando inspiração em tudo ao meu
redor. Às vezes, é algo do passado —
tipo uma vibe dos anos 70, uma
estética que vi num clipe, numa
imagem antiga… Outras vezes, é algo
que vejo na rua, no dia a dia.
Teve uma vez, por exemplo, aqui perto
da minha casa, que um morador de
rua criou umas intervenções no chão,
com objetos presos de um jeito muito
único. Aquilo me tocou de verdade. Eu
estava trabalhando em umas peças de
escultura na época, e me inspirei nele.
É verdade, olha só! Acho que é o que a
gente já falou, acho que é um luxo a
gente poder ter essa liberdade, como
é uma marca que já tem todas essas
liberdades, a gente engatou nisso aí,
falou, não, não vou me obrigar a ficar
nessa coisa, de ter a tendência, de ter
que seguir por aquele caminho,
embora muitas vezes a gente esteja ali
transitando junto.
A Ken-gá se preocupa com o meio
ambiente? De que forma isso aparece
nas criações?
Lívia: Com certeza, temos sim e, para
falar a verdade, sempre foi algo muito
natural para a gente. Desde o início,
essa consciência ambiental já fazia
parte do nosso processo. Lembro que,
na primeira coleção, quando fui atrás
dos tecidos, já busquei materiais que
tivessem uma
história, uma origem diferente.
Um exemplo marcante foi o macacão
de lurex da segunda coleção, que fez
muito sucesso. O tecido era de um
lote encalhado numa loja do Bom
Retiro, que eu conhecia desde a
época da faculdade. Aquilo me
marcou. Quando vi que ainda estava
lá, comprei o lote inteiro. Usei tudo e,
no fim, esgotou. Foi ótimo
reaproveitamento com propósito e
estilo.
Teve uma coisa de influenciar, pelo
menos uma coisa local, que foi muito
louca, e daí passou, até passaram a
pedir mais, mas aquele lote estava lá
na parada, eu já tinha 10, 15, 20 anos
já. A gente compra muito lote. A
gente trabalha muito com tecido de
reúno, a gente fica bem busca, ter o
mínimo de...
Janaina: A gente reaproveita a peça.
Lívia: Até durante a pandemia isso
ficou muito evidente. A gente tem
uma parceria forte com uma fábrica
de tecidos, então já tínhamos ali
materiais de qualidade em mãos. E
num momento em que não dava
nem para sair e comprar mais nada, a
gente olhou para dentro literalmente
e usou tudo o que já tínhamos
disponível.
É assim que a gente trabalha: os
materiais entram, mas passam por
um processo. Nada é feito às pressas
ou por impulso. Cada peça tem um
tempo, uma história e uma intenção.
E as peças do ateliê de acervo, a
gente faz alocação para fazer rodar e
não ficar parada esse monte de peças
do acervo. E, uma vez rodada, a gente
faz um balcão para vender as peças.
E como é que vocês equilibram a
estética, o conforto e o discurso político
nas roupas?
Janaina: Quando a gente fazia os
brincos de acrílico, a gente usava de
resto os acrílicos. Os acrílicos
também, que eram acrílicos de reuso,
de refugo, isso já sempre teve
associado.
Lívia: Porque também, no começo,
quando você é pequena, daí acaba
não conseguindo comprar, e vira uma
coisa que foi natural, dá novas
chances. Olha com um novo olhar,
nunca nada é descartado, e hoje
também a gente trabalha
principalmente com a alocação do
nosso acervo, que a gente se viu com
um monte de peças aqui, a gente
sempre vai e refaz para o cliente.
Hoje, a gente optou por não fazer
mais produções em larga escala.
Preferimos manter esse cuidado de
produzir de forma consciente. Até
existe demanda por mais peças, mas
não acreditamos em produzir só por
produzir — não faz sentido deixar
produto parado.
Então, adotamos medidas que, pra
gente, já se tornaram naturais:
produzir de forma mais enxuta, com
propósito e responsabilidade.
Lívia: Eu acho que é assim, essa coisa
de tudo se encaixar, acaba sendo
meio natural. Desde a primeira peça
do Maiô Dourado, do Fatídico,
desenvolvi um tecido, desenvolvi um
acabamento, fui para a praia, fui para
a piscina, pesquisei se o peito pulava,
pulava, daí tinha uma coisa que eu
falava, amigos, fala forte alguma
coisa. Então a gente sempre teve esse
cuidado com a peça, porque não
adianta ser uma peça deslumbrante e
não ser vestível.
Agora estou fazendo umas
esculturas, que comecei na última
coleção e estou apaixonada pela
técnica. São peças que as pessoas
ficam super surpresas, até a bandeira
que a Isabelle Nogueira usou agora,
esses dias que foi para abrir o festival
aquela dela, lá no norte. E é uma
peça super confortável, ainda
acreditável, mas ela faz bem, ela
acomoda. Eu acho que é uma coisa
que é primordial, não adianta você
fazer uma coisa linda que machuca,
que não tem caimento.
Quais são os próximos passos para a
marca?
Janaina: A gente está focadas em
expandir ao máximo o serviço de
locação e torná-lo cada vez mais
profissional. Estamos explorando
diversos projetos e temos muitos
planos em mente. A Locação é algo
que já funciona bem e acreditamos
que pode ser expandido não só para
outros estilistas, mas para diferentes
segmentos. Também queremos
profissionalizar todo o processo de
locação estabelecer contratos claros,
prazos definidos e procedimentos
padronizados garantindo maior
segurança e eficiência, seja aqui ou
em outros mercados. O que mais?
Lívia: Muitos planos, a gente tem
uma coisa slow, crescer um pouco a
produção, começar a expandir, acho
que é o sonho de toda a marca.
Vocês recebem pedidos? Vocês recebem
pedidos para roupas sobre medida?
Lívia: Atendemos as clientes no
ateliê, só que com hora marcada. No
site é possível agendar diretamente
pelo próprio portal. Se preferir,
também pode fazer o agendamento
pelo Instagram.
Janaina: Instagram, a pessoa manda
uma mensagem entra no WhatsApp e
aí combina. Fala mais ou menos o
que ela quer para a Lívia, faz as
encomendas, tudo, aí a pessoa vem
pedir as medidas e tal.
Lívia: Desenvolvo, desde que a gente
vá dar uma “kengada” na roupa, eu
faço desenvolvimento, eu sempre
deixo claro para os clientes, para os
artistas que estamos abertas.
Janaina: A gente quer fazer
pequenas produções, pequenos
drops pontuais, de roupas, que nem
as roupas que a gente faz, que são
roupas diferentes e tal, com conforto,
mas sem grande, uma produção que
rode mais, não só fazer sobre
medida, ampliar o ateliê, a gente está
ampliando um pouquinho o ateliê.
Lívia: Olha, a gente sabe que a gente
é muito pequena, mas a gente tem
uma consciência que a gente já
influenciou coisas que até fogem, né?
É muito engraçado ver que a gente
realmente tem esse impacto.
Janaina: Por exemplo, o brinco FORA
TEMER. Muita gente copiou, muita
gente copiou, Tem gente que até
abriu marketshop.
Como vocês lidam hoje com esse
material tão autoral e único?
Janaina: Hoje a gente tem tudo
registrado. Alguém começa uma
historinha, a gente já manda, olha,
tem copyright! Tem gente de fora, de
Londres, usando o nosso nome lá.
Lívia: Estou morrendo de ódio! Tem
até cachaça que começa com K.
Janaina: Nós vamos acionar.
Valesca Popozuda compartilhou em suas redes sociais uma
foto com os brincos-protesto (Reprodução/Instagram)
Esse é original da Ken-gá
Lívia: Lidar com tantas cópias foi
frustrante. Naquela época, o universo
de proteção de design era tão
confuso que ficávamos sem saber o
que fazer e, no fim, acabamos até
desencanando para não gastar
energia com isso. Mas era irritante:
tínhamos apenas dois distribuidores
e, mesmo assim, eras um fenômeno
de alcance nacional parecia novela da
Globo, de tão comentado! Chegou a
acontecer de uma grande marca
reproduzir nossos brincos. Os
clientes iam até a loja do Pará xingar
o vendedor, achando que ele era o
copião… Foi uma loucura! Muito
doida toda essa situação.
Lívia: Esses dias passei por uma
situação.. veio uma pessoa que fez
uns croquis que era para eu fazer, só
que eu entendi o que ela queria... Era
com a minha estética, com as coisas,
só que eu não ia assinar. Aí eu fiquei
super passada. Falta de ética!
Que conselho vocês dariam aos jovens
estudantes de moda que desejam
desenvolver um estilo autoral e
inovador?
Lívia: Eu acho que a dica maior é
aquela de acreditar no seu sonho.
Por mais que falem que vai dar
errado, se você tiver muita certeza
daquilo, se lutar por aquilo. Fazer
acontecer. Não só acreditar e ficar
esperando acontecer de fato.
Acreditar e ir lá e fazer as coisas dão
certo. Você consegue se expressar e
aí tudo parece que foi melhor. Eu
demorei muitos anos da moda para
descobrir isso. Eu acho que essa é a grande dica que eu dou para quem está
começando. Acredite nos seus sonhos e vá atrás. Até ela que é médica,
acredita nos seus sonhos.
Arriscar, acreditar e arriscar.
Janaina: Tem tanta gente que tem que se julgar. Você vê assim, apesar dessa
coisa dessa desindustrialização, tem tanta gente tão criativa e tem tantos
novos estilistas tão bons. Tem tanta gente tão talentosa, tão boa, tão nova
surgindo. É tão efervescente apesar das restrições. Olha quanta gente boa sai
do lugar que não tem tanto apoio. Todo mundo tem que ter sonho. O que te
bota para frente é o seu sonho, a esperança.
Qual seria uma frase para expressar o que é a Ken-gá?
Lívia: Deus é Fiel
Janaina: Deus A!
Lívia: A gente tem uma frase que se transformou até em uma obra, que eu
fiz uma obra física que está aqui, inclusive, quem quiser visitar, está aqui na
Rua 7 de Abril, 123, eu acho, na Galeria das Artes. Tem uma frase que eu
acho que é muito a coisa da Ken-gá, que foi uma coleção que a gente criou,
chama da Boleia Mística, que foi inspirada numa história que a Janaina ouviu
de uma caminhoneira que transicionou aos 66 anos. Foi incrível desenvolver
essa coleção. Havia toda uma história em torno da ideia de usar uma “frase
de caminhão” que não fosse machista nem vulgar. Passei meses quebrando a
cabeça, especialmente numa época em que morava em Guarulhos e
encarava aquele trânsito diário. Até que, em um desses longos
congestionamentos, pensei: “Deus é fiel”. Pronto a frase perfeita! Ela se
tornou o principal da coleção e ganhou até um lugar no meu braço, quase
como um selo pessoal.
Agora, estamos transformando essa ideia em uma instalação física, um passo
natural para a expansão da Ken-gá. Um dos nossos objetivos futuros é
mergulhar também no universo das artes visuais. Acreditamos que a moda é
só uma das formas de expressão queremos explorar esse diálogo criativo
entre tecido, cor e espaços artísticos.
https://www.kengabitchwear.com/
Entrevistado por Regina Papini Steiner
Em um país onde a música é força
cultural e ferramenta de transformação
social, é inadmissível que segmentos
tradicionais como bandas e fanfarras
sigam sendo tratados com descaso
institucional. Nesse cenário, a criação de
uma cartilha voltada a orientar, valorizar
e profissionalizar esses grupos, escrita
pelo maestro Rogério Wanderley Brito,
surge como um ato de resistência, mas
também de reparação.
Bandas e fanfarras não são apenas
formações musicais são espaços de
disciplina, pertencimento, expressão e
inclusão. Em muitas cidades do Brasil,
especialmente em regiões do Norte e
Nordeste, elas são o único contato de
crianças e adolescentes com a prática
musical organizada. Ainda assim, esses
grupos vivem à margem: sem recursos,
sem reconhecimento formal e, muitas
vezes, enfrentando uma burocracia que
os empurra para o amadorismo e o
improviso.
foto by Vera Papini
Qual que é o principal objetivo da cartilha?
Essa cartilha, na realidade, vem ao
encontro da minha história. Porque
quando comecei a minha carreira como
maestro de bandas e fanfarras, eu não
tinha onde procurar o conteúdo, onde
procurar um método, onde ter... Tudo
era muito empírico. A gente aprendia na
raça. Quando eu aprendi a tocar corneta,
por exemplo, o meu regente, ele tocava
um toque, aí a gente decorava e tentava
imitar, por imitação. Então, isso tudo
durante muitos anos, foi feito assim.
Então, esse livro, ele é calcado em cima
da prática de ensino coletiva. Existem no
mundo inteiro manuais, ou métodos que
trabalham a partir do nível 1, do começo.
Então, ele pressupõe que o cara já toca.
Eu abaixei o nível para meio. Então, esse
manual é para qualquer pessoa que tem
o mínimo de conhecimento musical.
Mínimo, mínimo, mínimo. A base da base
da base da base. E você vai ter uma
filosofia muito calcada em cima do
próprio Paulo Freire: Que é o
aprendendo, ensinando, ensinando,
aprendendo. Então, o próprio... Eu penso
assim, Regina, sendo muito claro eu não
estou escrevendo esse livro para o papa,
para o arcebispo, para o vigário. Eu estou
escrevendo para o coroinha.
O seu público-alvo são principalmente os
estudantes e as escolas? A cartilha é
voltada para quem está começando na
música?
Eu escrevi 30 músicas especialmente
para esse projeto. A estrutura do
material é dividida em dois grandes
blocos: um manual do professor e 10
cadernos específicos, organizados por
instrumentos um para trompete,
trombone, tuba, eufônio, trompa,
percussão (prato, bumbo, caixa) e um
caderno exclusivo só com as músicas.
Essas 30 composições são todas
baseadas no folclore brasileiro e na
música popular brasileira, pensadas para
crianças em fase inicial de aprendizado.
Ou seja, são obras escritas dentro dos
níveis 0, 0.5 e 1, voltadas para iniciantes
absolutos.
Esse trabalho segue um conceito
chamado parâmetros técnicos musicais,
criado nos anos 1950 por John Philip
Sousa, que serviu de base para a
metodologia adotada nas High Schools
dos Estados Unidos, com foco na
formação contínua do aluno desde o
primeiro contato com o instrumento.
Quando desenvolvi projetos musicais em
cidades como Taubaté, Atibaia e
Bragança Paulista, usei esse mesmo
modelo: um método coletivo, inclusivo,
onde mesmo quem nunca teve contato
com a música consegue evoluir e
participar de apresentações como as
tradicionais do 7 de Setembro, que
exigem rapidez no aprendizado.
Todo o meu trabalho de composição e
escrita musical foi pensado em função
dessas dificuldades técnicas enfrentadas
por iniciantes, justamente para dar a eles
uma base sólida e acessível desde o
começo.
Então, na realidade, eu escrevi o método
pensando naquele cara que é lá do
interiorzão, que é lá dos rincões do
Nordeste, o mesmo de São Paulo
mesmo, que não tem conhecimento, o
professor de educação física que tocou
numa fanfarra e que eu gostaria de
manter, porque tem muito instrumento
jogado debaixo do porão, debaixo da
escada.
Com a sua cartilha, um estudante pode
começar sozinho? Ela oferece uma base
suficiente para que ele inicie e, caso queira
se aprofundar, possa seguir se
desenvolvendo por conta própria?
Mesmo quem nunca tocou nenhum
instrumento, no primeiro ensaio já sai
tocando?
É, é partindo do som. A ideia é partir do
som. Não importa a nota que ele dê, não
importa o que ele está fazendo, mas
todo mundo vai tocar junto e tocar
naquele primeiro momento, e daí ele vai
calcando.
Eu escrevi música com uma nota só,
música com duas notas, música com três
notas. Aí eu vou aumentando a
dificuldade em uma tonalidade que é
comum, que é simples.
É um livro específico para um professor,
porque você precisa ter um professor,
depois você vai crescer no nível, que a
ideia é escrever nível 1,5, 2, 3, 4, 5, que os
parâmetros curriculares educacionais,
musical, vai até o nível 6. Então, a ideia é
que o cara tenha condições de ir
crescendo, porque o que acontece
também é falta de repertório para esse
grupo. Não existe repertório para esses
grupos.
Esses grupos querem tocar uma música
que ele não consegue, porque tem
dificuldade técnica. Então, quando foram
criados os parâmetros técnicos nos
Estados Unidos, virou para o mundo
inteiro, hoje o mundo inteiro usa, só na
América Latina que não usa. É engraçado
isso.
Os países latinos e o Brasil não usam
esse parâmetro técnico. Na realidade,
também, a FUNARTE lançou um livro em
2003 publicando esses parâmetros
técnicos, mas é pouco usado no Brasil. E
lá no pequeno guia prático para bando
de música, que é da FUNARTE, que é
gratuito, que está lá no site da FUNARTE.
Está disponível, ninguém vai pesquisar. E
lá está toda a história, está tudo definido,
a cada padrão. Se o cara aprender uma
nota a cada ensaio, ele chega no final do
ano e sabe tocar.
Essa é a ideia. É construir o aprendizado
juntos. Rubem Alves tem um texto que é
muito interessante em que ele fala
exatamente isso. Eu queria aprender a
construir a música através de sons, de
notas, e, a partir dali, um dia aprender o
que significam aquelas bolinhas.
Porque a gente começa com as bolinhas,
começa com querer encher de teorias.
A cartilha será no formato físico, vai ser
digital também? O interessado poderá ter
acesso físico e um e-book?
Vai ter e-book, vai ser feito digital
também, vai ser feito em livro. É porque
a editora que acreditou no projeto
pensou e já tem algumas pessoas. O livro
físico vai lançar em agosto em São Paulo.
Mas já está rodando, por exemplo, no
Uruguai,Venezuela e na Colômbia. São
três países que já estão tendo acesso a
esse primeiro livro, o livrão. Porque é
para qualquer língua, é para qualquer
grupo.
E outra coisa, eu só tenho corneta, eu só
tenho trompete, eu só tenho qualquer
grupo que consegue tocar o que está
escrito. Eu não tenho tal instrumento,
como é que eu vou fazer? Não, não tem
problema. Como está escrito, soa com
qualquer instrumento.
Quais são os resultados que você espera
alcançar com a cartilha?
Os mesmos resultados que eu alcancei
no projeto de Taubaté, por exemplo. O
que eu estou trazendo é exatamente a
minha prática de Taubaté, que é um
projeto que eu tinha lá chamado.
Taubaté é o Vale da Música, que tinha 50
escolas que tinham bandas e fanfaras,
eram quase 40 mil crianças estudando
música, que teve o resultado com a
banda, a banda chegou ao Campeonato
Mundial, através de quê? Da base.
Atibaia é a mesma coisa. A música de
cidadania existe até hoje em Atibaia, e é
um projeto que começou desse jeito.
Então, lá, o projeto, no começo dele, foi
feito assim. Naquela época, era a prática
pela prática. Eu usava o projeto sem
pensar teoricamente em tudo. Então, o
que eu fiz agora? Eu teorizei tudo isso,
coloquei no papel o que era cada coisa, o
que significava cada coisa. Outra coisa, o
livro tem uma linguagem extremamente
lúdica. Não tem nada... A história do
trompete... Quer saber a história do
trompete? Vai pesquisar o trompete. Está
lá o que o trompete tem a função, o tipo
de som que o trompete tem.
Na realidade, o que eu faço é uma
linguagem de conversação. Estou
conversando com o aluno, estou
conversando com a criança. Não tenho
nada de grandes teorias. É prática, olha.
Faz assim. Pode ser que funcione assim.
Se fizer assim com o lábio, vai emitir o
som. É uma conversa como se estivesse
conversando com você.
Faz assim com a boca. Vai emitir um
som. Ele emitiu um som. Vou fazer uma
música com esse som. É por aí o
caminho.
Como você está vendo o movimento das
bandas e fanfarras atualmente?
Hoje, por exemplo, começa agora às 2
horas o Congresso Nacional de Bandas e
Fanfarras. É o maior congresso que já
teve em toda a história. Uma que está
tendo o suporte da FUNARTE. Se você
pegar a programação, tem palestras
maravilhosas de coordenador da
FUNARTE. Vai falar sobre a Lei Rouanet,
vai falar sobre a Lei de Incentivo. Eu
estou como diretor técnico hoje,
pedagógico da Confederação.
você faz o seu trabalho. Então, a gente
está “linkando” a banda e a fanfarra à
educação. Com o apoio da própria
FUNARTE. A FUNARTE também enxergou
isso. Perfeito! A gente esteve com a
FUNARTE.
Porque, na realidade, banda e fanfarra é
cultural. Por outro lado, a FUNARTE
sempre encarou a banda marcial, a
fanfarra, como algo escolar. E a banda de
música com o Guarda-Chuva deles.
Então, o Guarda-Chuva deles era a banda
de música. Banda e fanfarra, eles não
queriam nem saber. Eles achavam que
era uma coisa da educação, da escola.
Hoje, eles já começam a ver que pode ser
ambas as coisas, tanto cultural como
educacional. Então, a nossa preocupação
agora é dar um suporte educacional.
Perfeito! Então, vai ter palestra não só
minha, mas de um outro maestro doutor
sobre como ensaiar, como fazer. Então, a
gente está preocupado na formação do
regente. Tanto que a gente está com 20
estados.
A gente deixou de pensar só em
concurso de banda e teve a visão
pedagógica da coisa. Porque é onde você
tem o investimento. Não adianta... A
cultura é um lugar difícil de se trabalhar
porque não tem investimento para todo
mundo. E na educação, você consegue
fazer. Entrando nas escolas, você
consegue formar uma boa base e depois
Filiaram mais seis, no ano passado para
cá, mais seis estados. Coisa que não
acontecia. Era uma coisa que estava
morrendo, estava difícil. Vai ter o
concurso? Vai ter o concurso. Vai ter o
nacional? Vai ter o nacional. Mas isso é a
ponta do iceberg. A gente precisa
construir agora uma base.
E vocês têm algum plano para avaliar o
impacto da Cartilha nas escolas, nas
comunidades?
Sim! O próprio livro já orienta sobre
como tirar dúvidas. Qualquer coisa que o
leitor quiser comentar, perguntar ou
entender melhor, pode entrar em
contato não só comigo, mas também
com a equipe pedagógica. Estamos
preparados para responder em tempo
real, oferecendo o suporte necessário.
Além disso, a editora, em parceria com a
FUNARTE, vai viabilizar esse apoio em
diferentes cidades. Se alguém precisar
de suporte técnico ou pedagógico em
uma determinada região, eu e uma
equipe especializada poderemos nos
deslocar até lá para oferecer oficinas,
orientações e acompanhamento.
Como no momento não estou vinculado
a nenhuma banda específica, tenho mais
flexibilidade para atuar diretamente
nesses atendimentos, o que facilita
muito esse trabalho de apoio no campo.
Existe intenção de produzir novas edições
futuramente?
Você sabe que a editora vive de venda,
não é? Não podemos esquecer que
também isso é um negócio.4
A editora vai enxergar como um negócio.
Se funcionar, eu tenho o número 2, o
número 3, o número 4, o número 5 e o
número 6. Já me preparo, já comecei a
fazer um para madeiras, para flauta.
Para chegar à elaboração da cartilha, você
contou com a participação de alunos ou da
comunidade? Houve algum tipo de
colaboração ao longo do processo ou foi
uma iniciativa totalmente sua?
Eu acho que a colaboração foi durante a
minha vida inteira. Tanto que o meu
agradecimento, a primeira página de
agradecimento, eu agradeço os meus
mestres, o próprio Paulo Ko, meu
mestre, o Júlio César, em memória. Eu
agradeço os colégios que eu trabalhei, os
pais, os professores. Eu coloco pessoa
por pessoa. Chocolate, Domingo Saco,
Márcia Visconti, eu coloco todas essas
pessoas que influenciaram na minha
trajetória, porque esse livro, na
realidade, é uma construção de uma
trajetória toda. Não é de um momento
que eu parei para escrever o livro, então
eu vou teorizar.
Isso já estava organicamente dentro de mim. Tudo foi muito orgânico. Por isso
que eu te falei que a minha preocupação era escrever um livro que eu falasse
como se estivesse conversando com alguma pessoa, uma linguagem bem
acessível, bem direta, sem rodeio. Preocupado com o que a pessoa aprenda.
Você gostaria de agradecer alguém que foi essencial para a realização desse sonho?
Quem foram as pessoas que mais contribuíram nesse momento da sua trajetória?
A editora, a Brink Mobil, que foi a primeira que acreditou, porque eu já venho há
bastante tempo falando sobre isso. Mesmo na Confederação, demorou para
acreditar também. Sempre que eu vinha para a Confederação, tanto que eu me
afastei durante uns anos, porque eu não acreditava mais. Tinha uma posição
sempre de concurso, de competição, e eu sempre, mesmo no meu trabalho, me
preocupei com a formação. Então, tem muito o que agradecer aos maestros, os
maestros municipais, o Júlio César Pereira de Santos, que me memória, o Paulo
Kó, o Domingos Sacco, o Chocolate, a maestrina Márcia Visconte. Essas pessoas
foram de extrema importância na minha carreira. E o Colégio Consolata, que foi o
primeiro colégio que eu trabalhei.
A diagramação, tudo o que ele citou, foi com muito carinho. A equipe da editora,
de confecção, de introdução, e uma outra pessoa que eu não posso deixar de
agradecer, essa é a pessoa que eu preciso agradecer muito, que eu falo para ela
que foi minha co-autora, mas ela não quer que eu fale isso. Que é a Vanilda. A
Vanilda fez toda a parte de revisão, revisão pedagógica, revisão, tudo o que eu
citava. Porque, às vezes, você viaja, você é artista, e ela colocava no chumbo,
vamos falar assim, vai nessa linguagem. Então, eu tenho muito que agradecer a
ela. Eu considero ela uma co-autora desse livro.
O que você está pretendendo realizar? Oficinas, eventos associados à cartilha?
A ideia é que esse primeiro contato que eu vou ter hoje, com os presidentes das
associações, que eles entrem em contato com a editora e peçam para a editora
para que eu possa, a editora, fazer que eu vá dar palestra, dar workshop. Eu tenho
dois workshops prontos, já preparados. Um que eu já apliquei, inclusive, na banda
de Cubatão, dois meses atrás. Vou aplicar na banda do Rio Grande do Sul
também, agora eu estou indo para o Rio Grande do Sul. Que, assim, são oficinas
rápidas de prática.
A maioria das oficinas que existem hoje são voltadas para bandas que já estão em
atividade abordam aspectos práticos, como ensaio, repertório, execução. Mas o
que eu quero é atuar diretamente com bandas que estão começando do zero.
Meu projeto é justamente esse: estar presente no início. Por exemplo, se uma
fanfarra vai começar amanhã, a ideia é que a editora viabilize minha ida até lá.
Chego, oriento, mostro como iniciar o trabalho, como estruturar o grupo. É esse
acompanhamento que eu quero oferecer.
E estou totalmente disponível para isso. Dentro do meu contrato com a editora,
estou à disposição para realizar esse tipo de apoio presencial, especialmente
nesse momento inicial, que é tão decisivo para o futuro das bandas.
Quais foram os maiores desafios enfrentados para a produção do seu livro?
Olha, pra mim, o processo começou com uma verdadeira tempestade de ideias.
Fui colocando tudo no papel despejando tudo que eu tinha na cabeça. Depois
disso, mergulhei em leitura. Reservei cerca de um mês e meio só para estudar os
principais métodos disponíveis no Brasil e fora dele.
Li o método do João Barbosa, da FUNARTE, da Universidade do Ceará, da
Universidade Federal de Minas Gerais, além dos métodos internacionais como o
Carl Fischer e o da Yamaha. Queria entender como cada um organizava o ensino,
os processos, as propostas pedagógicas.
Minha intenção era compor músicas específicas para esse público. Então, o
método traz três blocos: músicas compostas por mim, músicas folclóricas
brasileiras que todo mundo conhece mas que reescrevi e adaptei para esse tipo
de formação e músicas populares brasileiras que têm apelo para apresentações.
Tem “Vermelho”, do Falamansa, músicas do Tim Maia, "Da Cor do Mar", entre
outras. É um repertório simples, acessível, mas musicalmente interessante.
O maior desafio, no entanto, foi montar o livro em si. Porque, no começo, ele
cresceu demais. Eu queria colocar tudo, sabe? Aquela vontade de fazer “o livro da
vida”. Aí entrou em cena a Vanilda, que foi fundamental no processo editorial. Ela
me disse uma coisa que eu nunca esqueci: “O livro da sua vida você faz na sua
casa. Aqui é o livro que o regente vai usar. ”No ponto mais caótico, o material já
tinha 150 páginas. E não podia ser assim. Precisava ser funcional, direto, leve de
ler. Hoje, o manual principal tem 70 páginas. Os cadernos por instrumento têm no
máximo 35, porque são feitos para acompanhar o conteúdo do professor. O aluno
vê no caderno o mesmo exercício trabalhado em sala, em sequência. Tudo
alinhado, com lógica pedagógica. Chegar nesse equilíbrio foi, sem dúvida, a parte
mais difícil mas também a mais gratificante.
Edilaine e Horácio
Os pets deixaram de ser apenas animais de estimação para se tornarem
verdadeiros membros da família. Hoje, cães, gatos e até espécies exóticas
ocupam um lugar de afeto, cuidado e protagonismo na rotina de milhões de
brasileiros. Essa mudança no relacionamento entre humanos e animais trouxe
transformações significativas no comportamento das famílias, nas práticas de
consumo e até na forma como a saúde e o bem-estar animal são tratados.
Essa pauta propõe investigar os novos hábitos da "família multiespécie", o
crescimento do mercado pet que movimenta bilhões anualmente no Brasil e
as questões sociais e éticas que surgem com esse fenômeno, como o aumento
da adoção responsável, o ativismo contra o abandono, a humanização dos
animais e o impacto emocional que eles geram na vida dos tutores.
Revista ICONIC, através do jornalista Fabiana Tavares, traz essa
pauta tão importante, com a colaboração de Edilaine Moraes.
Nesta edição iremos falar do IOP - Instituto Onça -Pintada.
Fundado em 2002 pelos biólogos Anah Jácomo e Leandro Silveira, que
estudam as onças desde a década de 80, o Instituto Onça-Pintada (IOP) é a
primeira instituição focada na conservação da espécie no mundo, atuando
por meio de pesquisas científicas em todos os biomas brasileiros.
Além disso, o IOP mantém a maior população de onças-pintadas em
cativeiro com fins de reprodução para conservação.
O IOP tem se consolidado como uma das instituições mais relevantes na
conservação da onça-pintada, Anah, Leandro e seu filho Tiago lideram o
Instituto, unindo esforços em pesquisas e projetos para proteger o maior
felino das Américas e símbolo da conservação da biodiversidade brasileira.
Com sede no estado de Goiás, o instituto atua em diversas frentes: desde a
pesquisa científica sobre a espécie e seu habitat natural até ações de educação
ambiental, manejo de conflitos com pecuaristas e reabilitação de animais
feridos ou órfãos. A missão vai além da preservação do animal em si o IOP
busca garantir o equilíbrio dos ecossistemas nos quais a onça-pintada é
predadora de topo, exercendo papel fundamental no controle populacional de
outras espécies e na saúde das cadeias alimentares.
O trabalho do Instituto também é reconhecido internacionalmente, e serve de
modelo para outras iniciativas de conservação. Suas ações abrangem biomas
como o Pantanal, Cerrado, Amazônia e Mata Atlântica, regiões onde o
desmatamento e a expansão agrícola colocam em risco a sobrevivência da
espécie.
A importância do Instituto Onça-Pintada reside na sua abordagem científica,
mas também comunitária: promove o diálogo entre a conservação e o
desenvolvimento sustentável, mostrando que é possível proteger a natureza
sem comprometer os meios de vida das populações locais.
Proteger a onça-pintada é, sobretudo, proteger o Brasil selvagem e a riqueza
natural que ainda pulsa em seus biomas.
Para conhecer e colaborar com as ações clique no link:
https://www.institutooncapintada.org.br
Por
Roberto Lívio
Flow (Letônia, animação sem diálogos): Venceu o Oscar de Melhor Animação e foi
indicado ainda como Filme Internacional. É uma fábula visual com animais
refugiados em um barco durante uma enchente, impregnada de sensibilidade
ecológica. Flow, animação da Letônia dirigida por Gints Zilbalodis, é uma obraprima
sensorial e emocional, que conquista pela ousadia de contar uma história
sem diálogos. Vencedora do Oscar 2025 de Melhor Filme de Animação e indicada
também a Melhor Filme Internacional, a obra transcende barreiras linguísticas e
reforça o poder do cinema puramente visual.
Uma parábola sobre refugiados climáticos, a convivência entre diferentes e a
resiliência diante do caos. Sem palavras, o filme convida o espectador a refletir
sobre cooperação em tempos de crise sem precisar de vilões ou heróis evidentes.
Gostei demais, indico o filme, Já assistiu?
Homens e Guerras
Os homens criam guerras como criam filhos:
com ego, com pressa e com medo. Fazem
armas como quem molda ferramentas para
proteger a insegurança que os corrói desde
dentro. Chamam de honra o que, no fundo, é
só orgulho ferido. Chamam de estratégia o
que, na verdade, é pavor de ceder o próprio
lugar no mundo.
A guerra é invenção de homens que não
sabem dançar. Que preferem esmagar ao
invés de escutar. Que têm tanto medo de
serem atravessados pelo outro, que cavam
trincheiras em vez de fazer pontes.
Vejo as guerras e escuto tambores que não
sabem ritmar com o coração do povo. Só
sabem marchar.
Quem alimenta a guerra são os que têm
medo do feminino, do ancestral, do circular.
Porque a guerra é reta, é linha dura, é falo em
chamas. Enquanto a paz exige escuta, exige
troca, exige desarme não só das mãos, mas
do espírito.
Exu não faz guerra. Exu abre caminhos.
Porque guerra fecha, endurece, enclausura.
Exu gira, transita, pergunta. Exu pergunta: por
que tanto homem ainda acredita que matar é
uma forma de resolver?
Homem que só aprende a dominar, nunca
aprende a conviver. E quem não aprende a
conviver, repete guerras com nomes
diferentes: guerra de nação, guerra de classe,
guerra de gênero, guerra de ego.
Enquanto o tambor do mundo bater só em
marcha, não haverá descanso. Mas quando
bater em roda, em ginga, em celebração
talvez os homens se lembrem que a terra é
chão de axé, não de sangue.
Exú Veludo
Boa noite!
Omindaré