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Revista eMOBILIDADE+ Nº 11

A revista eMobilidade + dedica-se, em exclusivo, à mobilidade de pessoas e bens, nos seus vários modos de transporte (rodoviário, ferroviário, aéreo, fluvial e marítimo), conferindo deste modo espaço aos mais proeminentes “stakeholders” do setor, sejam eles indivíduos, empresas, instituições ou entidades académicas.

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Mobilidade

www.eurotransporte.pt/mobilidade-mais/

e- +

N.º11

jul/ago/set | 2025

Trimestral | Diretora: Cátia Mogo

FERROVIA

A bitola ibérica e a

interoperabilidade

com a Europa

t

t

OPINIÃO

FERNANDO

NUNES DA SILVA

Alta velocidade ferroviária

e o novo aeroporto de Lisboa

SINGAPURA

A CIDADE QUE VIVE NO FUTURO

t

renault scenic e-tech

100% elétrico, com assinatura esprit

Alpine que oferece muito mais do

que apenas espaço e conforto

polestar 2

De Lisboa ao Norte no silêncio

elétrico, numa viagem em família

com conforto e desempenho

Jeep Avenger 1.2

O SUV híbrido da Jeep para a era

moderna que alia a robustez da

marca à eficiência

e-MOBILIDADE 1


2 e-MOBILIDADE


e- Mobilidade +

EDITORIAL

POR EDUARDO DE CARVALHO

Revista n.º 11 | jul/ago/set 2025

EDIÇÃO TRIMESTRAL

Email: emobilidademais@invesporte.pt

DIRETORA

Cátia Mogo

EDITOR-EXECUTIVO

Eduardo de Carvalho

Rumo a uma mobilidade

mais inteligente, limpa

e integrada

A

mobilidade vive uma das suas maiores transformações em décadas.

A eletrificação do transporte, o avanço das infraestruturas

ferroviárias, o novo paradigma urbano e o combate às

emissões são hoje temas centrais no planeamento das cidades

e dos territórios.

Neste número, destacamos o papel crescente dos veículos elétricos na

transição energética. Com mais oferta e autonomia, estes veículos não

apenas reduzem as emissões diretas de CO2, como também impulsionam

a inovação no setor automóvel.

Mas a mobilidade sustentável vai além do tubo de escape: é crucial olhar

para as emissões não provenientes de gases de escape, como o desgaste

de pneus, travões e pavimentos, responsáveis por uma fração crescente

da poluição urbana.

Também dedicamos atenção ao futuro da ferrovia em Portugal. A tão

esperada ligação de alta velocidade entre Lisboa e Porto promete encurtar

distâncias, aliviar o tráfego aéreo e rodoviário, e reduzir significativamente

a pegada de carbono. Neste contexto, o debate sobre as ligações

intermodais com o novo aeroporto da região de Lisboa torna-se ainda

mais relevante.

Por fim, viajamos até ao futuro com o presente como guia: Singapura,

um exemplo de cidade inteligente, onde o planeamento urbano e a mobilidade

caminham de mãos dadas. O uso estratégico de dados, integração

de sistemas e foco no transporte coletivo mostram-nos que o futuro pode

— e deve — ser mais eficiente, inclusivo e conectado.

A mobilidade do século XXI já começou. E é nossa responsabilidade pensar,

planear e agir com visão e compromisso.

REDAÇÃO

Ana Filipe

Márcia Dores

DIRECÇÃO DE PUBLICIDADE

E MARKETING

Margarida Nascimento

Rui Garrett

ASSINATURAS

Fernanda Teixeira

COLABORADORES

António Macedo;

Filipe Carvalho

Frederico Gomes

DESIGN GRÁFICO / PAGINAÇÃO

Invesporte

IMAGENS

Pixabay.com | Freepik.com | Canvas

Shutterstock

EDITORA INVESPORTE,

EDITORA DE PUBLICAÇÕES

Edição, Redação e Administração

R. António Albino Machado, 35G

1600-259 Lisboa

Telefone: 215914293

Email: eurotransporte@invesporte.pt

Site: www.eurotransporte.pt

PROPRIEDADE

Eduardo de Carvalho

REGISTO ERC: Nº 127896

ESTATUTO EDITORIAL:

https://www.eurotransporte.pt/noticia/38/5193/estatuto-editorial-e-lei-da-transparencia/

Boa leitura.

+

www.eurotransporte.pt

www.eurotransporte.pt/mobilidade-mais/

e-MOBILIDADE 3


t

t

SUMARIO

JUL/AGO/SET 2025

REVISTA Nº 11

20

10 POLESTAR 2

De Lisboa ao Norte no silêncio

elétrico - uma viagem em família

26

12 RENAULT SCENIC E-TECH

E SUSTENTABILIDADE

Familiar, elétrico e com alma desportiva

o modelo 100% elétrico,

tem design SUV e assinatura esprit

Alpine e oferece muito mais

do que apenas espaço e conforto

16 JEEP AVENGER

Um SUV compacto que alia a

robustez da marca à eficiência

de um motor híbrido de 48V,

proporciona uma condução ágil,

conectividade moderna e um

design imponente.

26 TRANSPORTE RODOVIÁRIO

Os veículos elétricos são vistos

como a solução para reduzir a

poluição urbana, um estudo da

EIT Urban Mobility alerta para as

emissões não provenientes dos

gases de escape (NEE).

42 O PREÇO DO PASSEIO

À medida que as cidades se tornam

mais densas e digitais, o passeio —

antes reservado a carros estacionados

— tornou-se um espaço

disputado por entregas, transportes e

lazer. Para responder a esta pressão,

várias cidades testam a tarificação

dinâmica, ajustando em tempo real

o uso e custo do passeio conforme a

procura.

46 PERSPECTIVAS PARA 2050

O transporte ferroviário será transformado

por tecnologias avançadas,

com comboios ultrarrápidos, sustentáveis

e autónomos a ligar as grandes

cidades. A revolução ferroviária

oferecerá soluções mais eficientes,

inteligentes e ecológicas.

36

CIDADES

INTELIGENTES

50 OPINIÃO

POR FERNANDO NUNES DA SILVA

Alta velocidade ferroviária e o novo

aeroporto da região de Lisboa: um

casamento difícil?

56 FERROVIA

POR ANTÓNIO NABO MARTINS

A questão da bitola ibérica

e a interoperabilidade com a Europa

30

4 e-MOBILIDADE

PLANEAMENTO

URBANO

+

16

ACEDER A EDIÇÕES ANTERIORES

DA REVISTA DIGITAL


WWW.EUROTRANSPORT.PT

e-MOBILIDADE 5


Via Rápida

Farizon SuperVAN distinguida

nos Business Vans Awards 2025

A Farizon SuperVAN foi elogiada nos

prestigiados prémios Business Vans Awards

2025, no Reino Unido, tendo sido altamente

recomendada na categoria de

veículos comerciais 100% elétricos de

média dimensão.

t O reconhecimento por parte dos Business

Vans Awards solidifica a posição da

Farizon como uma opção líder no setor

dos veículos comerciais elétricos graças

ao seu nível de inovação, conectividade

inteligente e eficiência que se adaptam às

necessidades de qualquer empresa.

A Farizon SuperVAN é o primeiro modelo

da marca atualmente em Portugal

e está disponível numa ampla gama de

configurações – L1H1, L1H2, L2H1,

L2H2, L2H3 e L3H3.

Primeira bicicleta elétrica movida

a hidrogénio chega ao Alto Alentejo

t

A AREANATejo, em parceria com o Instituto Politécnico

de Portalegre, irá implementar um mini-laboratório

demonstrativo no âmbito do projeto SharedH2, aprovado

pelo Programa INTERREG SUDOE 2021-2027 que visa

testar soluções inovadoras para a produção de hidrogénio

verde a partir de energia solar, com aplicação em setores

como os transportes. O laboratório irá demonstrar todo o

ciclo do hidrogénio renovável — da produção à utilização

— com destaque para a bicicleta NEO, movida a célula de

combustível. Fornecida pela francesa Pragma Industries,

a NEO é a primeira e-bike a hidrogénio no mercado: sem

lítio, recarrega em 2 minutos, tem autonomia de 150 km

e potência de 250 W. Esta solução servirá fins educativos,

de sensibilização e promoção do hidrogénio como energia

limpa e alternativa, reforçando a aposta na mobilidade.

6 e-MOBILIDADE

+

t

Sete dicas NIU para ter a sua trotineta

elétrica em forma neste verão

A NIU, líder mundial no fornecimento de soluções

inteligentes de mobilidade urbana, elaborou um guia

com sete conselhos que poderá seguir para preparar a

sua trotineta elétrica para este verão:

1 - Seguro (não) obrigatório

2 - Limpeza profunda da trotineta

3 - Estado das rodas e pneus

4 - Manutenção da bateria

5 - Ajustar parafusos

6 - Verificar e alinhar os travões

7 - Verificar as luzes

Tanto a luz LED dianteira como a luz de travagem são

elementos obrigatórios para circular com uma trotineta

elétrica, pelo que é de vital importância fazer uma verificação

rápida para evitar infrações. Se encontrar alguma

lâmpada fundida deverá substituí-la o mais rápido possível.


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e-MOBILIDADE 7


ENSAIO

De Lisboa ao Norte

no silêncio elétrico

Uma viagem em família no Polestar 2

Partimos de Lisboa rumo a Ponte de Lima a bordo do Polestar 2. O objetivo era simples: provar que

viajar em família, de forma confortável e sustentável, é perfeitamente

possível — e surpreendentemente agradável.

POR EDUARDO DE CARVALHO

Um carro elétrico, dois adultos, duas crianças e

uma ideia bem clara: fazer uma viagem de Lisboa

até Ponte de Lima, passando por paragens

escolhidas com cuidado. Tudo isto sem o ruído

de um motor a combustão. Com a tecnologia

do Polestar 2 Long Range Dual Motor, a nossa família fez uma

viagem confortável e silenciosa, com carregamentos inteligentes

e paragens que juntaram lazer, desporto e tradição.

PARTIDA: PREPARAR O CAMINHO (E A BATERIA)

O Polestar 2, tem uma autonomia real a rondar os 490

km e um desempenho que rivaliza com berlinas desportivas,

afigurava-se como o parceiro ideal para uma aventura

com duas crianças. Equipado com 421 cv, tração integral

e uma bateria de 82 kWh, o modelo ofereceu não

apenas eficiência, mas também confiança para enfrentar

a autoestrada rumo ao norte.

8 e-MOBILIDADE

Pouco mais de uma hora depois da saída de Lisboa, a primeira

paragem técnica surgiu em Albergaria-a-Velha, onde

um carregador rápido permitiu elevar a bateria dos 35%

aos 85% em cerca de 30 minutos. Tempo suficiente para

lanchar, esticar as pernas e deixar as crianças descomprimirem

um pouco na estação de serviço. O planeamento foi

simples, graças a apps como o Miio e os serviços da Google,

que tornaram todo o processo intuitivo.

ESPOSENDE: CAVALOS EM VEZ DE QUILÓMETROS

A segunda paragem não foi motivada pela necessidade de

energia, mas sim por pura vontade de aproveitar o momento.

Em Esposende, a família assistiu ao Concurso de Saltos

Internacional que decorreu no Clube Hípico do Norte. O

Polestar permaneceu estacionado num dos parques das instalações

do hipódromo, enquanto o silêncio da mobilidade

elétrica deu lugar ao som dos cascos e dos aplausos.


Esta pausa ilustra uma das maiores vantagens de viajar com

um carro elétrico de autonomia longa: a liberdade de parar

porque se quer, e não porque se tem de carregar. A viagem

deixou de ser sobre o destino e passou a ser, literalmente,

sobre o caminho.

BRAGA: DORMIR COM VISTA E CARREGAR COM CALMA

O final do dia trouxe a chegada a Braga, onde a família ficou

instalada num hotel com carregamento lento (AC, 11 kW).

Durante a noite, o Polestar 2 carregou calmamente até aos

100%, sem pressa. Mais uma vez, a vida elétrica encaixou

perfeitamente no ritmo familiar: enquanto descansávamos

e as crianças dormiam, o carro preparava-se para o último

trecho da viagem.

PONTE DE LIMA: TRADIÇÃO E SUSTENTABILIDADE

Na manhã seguinte, com bateria cheia e energia renovada,

a viagem prosseguiu com destino a Ponte de Lima, uma

vila histórica do Minho, onde decorria a Feira Nacional do

Cavalo. Rodeados de tradição, cultura equestre e paisagens

verdejantes, vivemos o contraste entre o país rural e o futuro

elétrico que já é presente.

O Polestar estacionado entre viaturas convencionais despertou

curiosidade. Silencioso, com linhas escandinavas e um

interior minimalista mas acolhedor, foi quase uma atração

paralela. E, claro, mais uma oportunidade para mostrar que

é possível viajar pelo país de forma confortável, segura e

sustentável.

e-MOBILIDADE 9


Viajar em família,

especialmente com

crianças, pode ser um

desafio logístico, com

preocupações relacionadas

com o conforto, o entretenimento

e, claro, a eficiência de combustível

10 e-MOBILIDADE


Destaques da viagem

Conforto a bordo

Bancos ergonómicos, bom espaço traseiro

para uma cadeira de criança, climatização

eficiente e entretenimento com Google

integrado

Planeamento sem stress

As apps Miio e Google facilitaram todas

as decisões de carregamento

Autonomia sólida

Bastaram dois carregamentos rápidos

e um lento para garantir uma viagem

despreocupada

Integração com o quotidiano

Carregar no hotel, enquanto se janta ou

dorme, deixa de ser um “trabalho” e passa

a ser parte da rotina

CONCLUSÃO: VIAJAR EM FAMÍLIA SEM QUEIMAR

UMA GOTA DE COMBUSTÍVEL

Viajar em família, especialmente com crianças, pode

ser um desafio logístico, com preocupações relacionadas

com o conforto, o entretenimento e, claro, a

eficiência de combustível. No entanto, com o Polestar

2, estas questões tornam-se significativamente mais

fáceis de resolver, sem comprometer o desempenho. Ao

longo dos três dias e mais de 800 km de viagem, ficou

evidente que um carro elétrico pode ser uma excelente

opção para quem procura uma experiência tranquila e

sustentável.

Em primeiro lugar, a autonomia do Polestar 2 mostrou

ser mais do que suficiente para cobrir longas distâncias

sem a necessidade de paragens excessivas para carregar

a bateria. No caso do Polestar 2, não foi queimada uma

gota de combustível. Isto traduz-se num impacto ambiental

menor, o que é um ponto a favor para as famílias

preocupadas com a sustentabilidade.

O conforto é outro fator decisivo. O interior espaçoso e a

suspensão ajustada garantem que todos, especialmente as

crianças, façam uma viagem agradável, sem o desconforto

das longas deslocações de carro. Além disso, a tecnologia

de bordo, com sistemas de entretenimento e conectividade,

mantém as crianças ocupadas e distraídas durante a

viagem, tornando-a mais relaxante para os pais.

No entanto, o grande destaque vai para a experiência de

condução. O Polestar 2 proporciona um desempenho suave

e responsivo, tornando a condução ainda mais agradável,

sobretudo em viagens longas. O silêncio proporcionado

pelo motor elétrico, combinado com a ausência

de vibrações típicas dos motores de combustão, cria um

ambiente mais calmo e relaxante no interior do veículo.

No final desta experiência, ficou claro que viajar em

família sem se preocupar com o consumo de combustível

ou com o tipo de estrada é não só possível, como vantajoso.

O Polestar 2 oferece uma combinação de conforto,

sustentabilidade e desempenho, demonstrando que os

carros elétricos são uma excelente escolha para quem

viaja em família e procura uma opção mais eficiente e

moderna. +

e-MOBILIDADE 11


RENAULT SCENIC E-TECH

100% Elétrico

Renault Scenic E-Tech

100% Elétrico esprit

Familiar, elétrico e com alma desportiva

Se o antigo Scenic fosse uma pessoa, o novo não o reconheceria no espelho. Com 220 cv, alma

Alpine e emissões zero, o Scenic E-Tech elétrico não veio para reavivar memórias, mas sim para criar

novas. E que surpresa perceber que um carro familiar pode ser tão eficiente quanto entusiasmante!

POR EDUARDO DE CARVALHO

Se o nome “Scenic” lhe é familiar, não está sozinho.

Durante anos, o Renault Scenic foi o carro preferido

de milhares de famílias europeias. Mas o mundo

mudou — e o Scenic também. Agora renascido

como um modelo 100% elétrico, com design SUV e

assinatura esprit Alpine, este novo modelo oferece muito mais

do que apenas espaço e conforto.

Tive a oportunidade de conduzir a versão esprit Alpine,

com 220 cv, e garanto-vos que este Scenic não é só mais um

elétrico. É um verdadeiro sinal de que a Renault está a levar

a sério a mobilidade elétrica, imprimindo-lhe a sua própria

personalidade.

PRIMEIRAS IMPRESSÕES: SUV COM ALMA SCENIC

À primeira vista, o novo Scenic parece um SUV moderno:

robusto, com linhas bem definidas, faróis afilados e jantes de

20”. No entanto, há pormenores que o distinguem: a assinatura

Alpine, os detalhes em azul nos bancos e o interior minimalista

com dois ecrãs de grandes dimensões em forma de

L — um para o painel de instrumentos e outro para o sistema

multimédia com Android Automotive integrado.

A vantagem é que o sistema funciona de forma rápida e intuitiva,

permitindo aceder diretamente ao Google Maps, Spotify,

12 e-MOBILIDADE

+


comandos de voz com o Google Assistant e outras aplicações

úteis. Ou seja, não é necessário ligar o telemóvel por cabo

para ter tudo à mão.

POTÊNCIA ELÉTRICA (E SUAVE)

Com 220 cv, este Scenic tem uma resposta imediata, como

qualquer bom veículo elétrico, e também uma condução

bastante equilibrada. É suficientemente rápido (acelera dos

0 aos 100 km/h em cerca de 8,4 segundos), mas não é feito

para acelerações brutais. É no conforto e na estabilidade que

brilha: mesmo em curva, sente-se firme e a condução é fluida

e segura.

A versão esprit Alpine confere-lhe uma dose extra de carácter.

A direção é precisa, o chassis está bem ajustado e, apesar de

ser um carro pensado para a família, não perde o toque mais

emocional ao volante.

AUTONOMIA REALISTA E CARREGAMENTO RÁPIDO

O Scenic está equipado com uma bateria de 82 kWh, que

permite uma autonomia de até 625 km segundo o ciclo

WLTP. Na prática, são possíveis 450 a 520 km reais, dependendo

do estilo de condução, da utilização do ar condicionado

e da carga.

Nos postos de carregamento rápido (DC até 150 kW), é

possível carregar de 20% a 80% em cerca de 30 minutos. No

que se refere à corrente alternada (AC), destaca-se por aceitar

até 22 kW, o que é excelente para carregamentos rápidos em

locais públicos urbanos ou empresas.

PONTOS FORTES

• Excelente autonomia para a categoria

• Interior moderno com Google integrado

• Versão esprit Alpine com identidade própria

• Carregamento AC a 22 kW

(raro no segmento)

• Condução equilibrada e confortável

PONTOS A MELHORAR

• Tração dianteira limita um pouco

o espírito Alpine

• Preço inicial competitivo, mas versões topo

aproximam-se dos SUV premium

PREÇO DA UNIDADE ENSAIADA

57426.56€

e-MOBILIDADE 13


RENAULT SCENIC E-TECH

100% Elétrico

14 e-MOBILIDADE

+


ESPAÇO PARA A FAMÍLIA (SEM SACRIFÍCIOS)

Apesar da nova aparência de SUV, o Scenic continua fiel ao que

sempre o caracterizou: espaço e versatilidade. O porta-bagagens

tem 545 litros de capacidade, há bastante espaço para as pernas no

banco de trás e o piso plano é muito útil com crianças ou passageiros

mais altos.

Inclui também compartimentos de arrumação úteis, entradas

USB-C, bancos traseiros rebatíveis e um apoio de braço central

deslizante, ótimo para dividir o espaço ou esconder brinquedos,

cabos e snacks.

DETALHES ALPINE: ELEGÂNCIA COM ADN DESPORTIVO

A versão esprit Alpine do novo Scenic não tenta ser um carro

de corrida, mas também não passa despercebida. Os elementos

desportivos estão presentes, aplicados com discrição e bom gosto,

conferindo-lhe uma personalidade distinta, sem exageros.

As costuras azuis nos bancos, o volante revestido em microfibra

reciclada, os pedais em alumínio e os logótipos Alpine discretos

nas jantes e nos encostos de cabeça são pormenores que realçam

o ambiente interior e reforçam o ADN desportivo da versão, sem

comprometer o conforto.

Mais do que estética, estas escolhas transmitem uma sensação de

cuidado e intenção. O Scenic esprit Alpine não grita, insinua. E

é precisamente aí que reside o seu charme: no equilíbrio entre

sofisticação e espírito desportivo.

VEREDITO: O SCENIC CRESCEU (E ELETRIFICOU-SE)

O Renault Scenic E-Tech esprit Alpine é um dos melhores exemplos

de como um carro familiar pode ser moderno, bonito, eficiente

e divertido de conduzir, sem recorrer a combustíveis fósseis.

Trata-se de uma verdadeira reinvenção, com tecnologia de ponta,

uma autonomia sólida e muito conforto a bordo.

Se está a pensar dar o salto para o elétrico, mas sem abdicar de espaço,

elegância e confiança numa marca com história, este Scenic

merece estar na sua lista de opções. +

O Renault Scenic esprit Alpine possui

o equilíbrio entre sofisticação e espírito

desportivo e é precisamente aí que

reside o seu charme

e-MOBILIDADE 15


JEEP AVENGER

1.2 E-Hybrid

Jeep Avenger

O SUV híbrido para a era moderna

A Jeep inova com o Avenger 1.2 E-Hybrid, um SUV compacto que alia a robustez da marca

à eficiência de um motor híbrido de 48 volts, proporcionando uma condução ágil, conectividade

moderna e um design imponente. É a escolha perfeita para quem procura potência

e sustentabilidade no trânsito urbano.

POR EDUARDO DE CARVALHO

O

Jeep Avenger 1.2 E-Hybrid 110cv 48v 4x2

DCT representa uma mudança significativa

na gama de veículos da Jeep, oferecendo

um modelo híbrido compacto que combina

desempenho, eficiência e o ADN tradicional

da marca. Este SUV inovador, com um motor 1.2 E-Hybrid

de 110 cv e uma bateria de 48 volts, representa a entrada da

Jeep no mercado dos SUV híbridos com tração 4x2. Com um

design moderno, um interior tecnológico e uma motorização

eficiente, este modelo está preparado para enfrentar os desafios

da mobilidade urbana, mantendo simultaneamente as

características de resistência e versatilidade que são a imagem

de marca da Jeep.

MOTORIZAÇÃO E DESEMPENHO

O coração do Jeep Avenger 1.2 E-Hybrid é a combinação de

um motor de combustão de 1.2 litros com um sistema híbrido

de 48V, que resulta numa potência total de 110 cavalos.

Esta motorização proporciona um equilíbrio interessante en-

16 e-MOBILIDADE

+


tre desempenho e economia de combustível, sendo ideal para

quem procura um veículo de elevada performance para utilização

diária, mas com um impacto ambiental mais reduzido.

A bateria de 48 volts que complementa o motor de combustão

permite uma eficiência energética significativa, otimizando o

consumo de combustível e reduzindo as emissões de CO2.

Ao contrário dos híbridos plug-in, este sistema híbrido não

necessita de uma recarga constante a partir de uma fonte externa,

uma vez que a bateria é recarregada enquanto o veículo

está em movimento, seja através da travagem regenerativa ou

da rotação do motor de combustão. Tal torna a condução do

Avenger 1.2 E-Hybrid ainda mais prática, sem a necessidade de

procurar uma estação de carregamento.

A tração 4x2 do modelo é outro ponto forte, já que, embora

o Avenger não seja um modelo todo-o-terreno puro como o

Wrangler, tem capacidade para enfrentar terrenos irregulares e

oferecer estabilidade em pistas mais desafiantes, graças ao seu

sistema de suspensão robusto e construção de elevada qualidade.

A caixa de velocidades DCT (Dual Clutch Transmission)

garante mudanças de velocidade rápidas e precisas, proporcionando

ao condutor uma experiência de condução ágil e sem

interrupções.

CARREGAMENTO E EFICIÊNCIA ENERGÉTICA

Embora o Jeep Avenger 1.2 E-Hybrid não seja um modelo

plug-in, o sistema híbrido de 48 volts proporciona um equilíbrio

excelente entre desempenho e eficiência. A bateria carrega

de forma automática durante a condução, através do sistema de

travagem regenerativa, no qual a energia gerada pela desaceleração

é convertida e armazenada na bateria.

No entanto, para quem deseja ter um controlo mais preciso

sobre o consumo de energia, o veículo oferece modos de condução

inteligente que priorizam a utilização da energia elétrica

sempre que possível, reduzindo o consumo de combustível do

motor de combustão. Este sistema é perfeito para quem se des-

e-MOBILIDADE 17 +


loca em cidades ou em zonas com muito trânsito, uma vez que

permite ao condutor poupar combustível e reduzir as emissões

de gases poluentes.

DESIGN EXTERIOR: ROBUSTEZ E SOFISTICAÇÃO

O Avenger 1.2 E-Hybrid foi concebido para oferecer um aspeto

moderno e atraente, mantendo as características tradicionais

de robustez e personalidade que definem a marca. Embora seja

um modelo compacto, o Avenger exibe uma presença imponente,

com linhas angulares e uma frente agressiva, realçada

pela emblemática grelha frontal de sete barras, um elemento

visual imediatamente associado a todos os veículos da Jeep.

A silhueta robusta e musculada do Avenger transmite uma sensação

de força e confiança, combinando elementos modernos e

sofisticados com a sensação de aventura característica dos SUV

da Jeep. Os faróis de LED com um contorno distintivo, o capot

alto e as saias laterais contribuem para a aparência agressiva e

dinâmica do modelo, garantindo simultaneamente uma visibilidade

e uma segurança aprimoradas.

A parte traseira do Avenger é igualmente marcante, com lanternas

traseiras de LED num formato vertical que realçam o perfil

do veículo e um para-choques traseiro robusto que reforça a

sua capacidade de enfrentar terrenos mais difíceis, caso o condutor

decida aventurar-se fora de estrada.

DESIGN INTERIOR: CONFORTO E TECNOLOGIA

O interior do Jeep Avenger 1.2 E-Hybrid reflete o compromisso

da marca com a inovação e o conforto. Ao entrar no

veículo, o condutor é recebido por um ambiente moderno e

tecnológico, com um painel de instrumentos digital e um ecrã

multimédia central de alta definição que oferece conectividade

com sistemas como o Apple CarPlay e o Android Auto,

bem como diversos recursos de navegação e assistência ao

condutor.

O volante multifunções, revestido a couro, proporciona uma

sensação de luxo e inclui comandos intuitivos que permitem

ao condutor controlar várias funções do veículo sem desviar

a atenção da estrada. Os bancos são projetados para oferecer

conforto tanto ao condutor como aos passageiros, com materiais

de elevada qualidade e pormenores sofisticados, incluindo

acabamentos em tecido e couro ecológico.

A conectividade é outro dos destaques, com uma central multimédia

que se integra perfeitamente com o smartphone do

condutor, oferecendo acesso rápido a aplicações, chamadas e

mensagens. O modelo inclui também carregamento sem fios,

bem como várias entradas USB e uma excelente capacidade

de armazenamento interno.

O FUTURO DA MOBILIDADE COM DNA JEEP

O Jeep Avenger 1.2 E-Hybrid 110cv 48v 4x2 DCT é, sem

dúvida, uma excelente adição ao portfólio da marca, combinando

a sua tradição com as necessidades de um mercado cada

vez mais orientado para a sustentabilidade e a eficiência. O seu

design robusto, a motorização híbrida e os recursos tecnológicos

fazem dele uma opção atraente para quem procura um

SUV compacto, eficiente e com a confiabilidade que apenas a

Jeep pode oferecer.

Com um futuro mais sustentável e moderno em mente, o

Avenger reforça a posição da Jeep enquanto marca capaz de

evoluir e inovar, mantendo-se fiel ao seu legado de aventura e

resistência sem prescindir das tecnologias do futuro. O Avenger

é, portanto, mais do que um simples SUV híbrido: é uma nova

forma de condução, que respeita o meio ambiente sem prescindir

da emoção de conduzir. +

18 e-MOBILIDADE

+


e-MOBILIDADE 19


MOBILIDADE

O automóvel como fator

central na mobilidade pessoal

Tendências

e perspetivas

globais

Apesar das inovações tecnológicas, o automóvel continuará a ser o

principal meio de transporte pessoal no futuro, segundo uma pesquisa

global. Embora os veículos autónomos e elétricos estejam a

ganhar espaço, a confiança na indústria automóvel e na mobilidade

pessoal continua forte, moldando a mobilidade do futuro.

20 e-MOBILIDADE


e-MOBILIDADE + 21


MOBILIDADE

Automóvel

A

mobilidade pessoal é um elemento fundamental

na vida diária das pessoas, refletindo-se diretamente

nas suas rotinas e interações com o espaço

urbano. Num estudo global, desenvolvido

pela Associação Alemã da Indústria Automóvel,

verificou-se que a esmagadora maioria dos cidadãos considera

a mobilidade pessoal uma prioridade no seu quotidiano. Em

países como a China e a Itália, 98% da população considera

este conceito “importante”. Já em Espanha, 83% dos inquiridos

partilham esta opinião, enquanto na Alemanha e em

França os índices são de 96%.

O AUTOMÓVEL: O CENTRO DA MOBILIDADE

PESSOAL NO FUTURO

A investigação mostra que o automóvel continuará a desempenhar

um papel central na mobilidade pessoal nas próximas

décadas. Nos países ocidentais industrializados, prevê-se que

o automóvel seja o principal meio de transporte nos próximos

dez anos. Uma análise mais detalhada dos resultados mostra

que o automóvel é, de longe, a forma de mobilidade mais

influente para o futuro: 55% dos inquiridos nos EUA acreditam

que será o principal fator de mobilidade pessoal nos

próximos dez anos. No Reino Unido (48%), na Alemanha

(47%) e em Espanha (cerca de 50%), o automóvel também

mantém uma posição de destaque.

Em França (41%) e na Itália (39%), embora numa proporção

um pouco menor, ainda há um número significativo

de pessoas que consideram o automóvel como o centro

da mobilidade pessoal futura. Em contraste, o transporte

público surge como o segundo fator mais importante para a

mobilidade pessoal, com destaque para a Espanha (26,9%),

o Reino Unido (18,8%) e a Alemanha (16,1%).

Nos países ocidentais analisados, o veículo autónomo é

outro fator relevante, ocupando o terceiro lugar em muitos

desses países. A Alemanha, por exemplo, considera o veículo

autónomo como o futuro da mobilidade pessoal, com

15,3% dos inquiridos a apontarem esta tecnologia como a

mais relevante. A Itália (15,7%), o Reino Unido (12%) e a

Espanha (8,8%) seguem uma tendência semelhante.

ESTADOS UNIDOS E CHINA:

DIFERENÇAS E INOVAÇÕES TECNOLÓGICAS

Nos Estados Unidos, para além do automóvel, o veículo autónomo

e os transportes públicos surgem como as alternati-

22 e-MOBILIDADE

+


vas mais influentes, com 11% e 7,3% dos inquiridos, respetivamente.

Na China, o padrão é diferente, refletindo o grande

foco nas inovações tecnológicas. A pesquisa revela que, para

os chineses, o carro continua a ser importante (17,9%), mas

o veículo autónomo é visto como o fator mais determinante

para a mobilidade pessoal futura, com 49,2% dos inquiridos

a indicarem esta tecnologia como a mais relevante. Além

disso, os táxis aéreos começam a surgir como uma alternativa

futurista, ocupando o terceiro lugar com 10,5%.

O FUTURO DOS SISTEMAS DE PROPULSÃO:

RUMO À ELETRIFICAÇÃO

A nível mundial, há um amplo consenso sobre o futuro dos

sistemas de propulsão no setor automóvel, com uma clara

tendência para a eletrificação. Em França, 37,6% dos inquiridos

acreditam que os carros elétricos dominarão o mercado

automóvel. No Reino Unido, este número sobe para 55% e,

nos EUA, 50% dos inquiridos partilham esta visão. A Alemanha

(43%), Espanha (46%) e Itália (44%) também demonstram

uma forte tendência para a eletrificação dos automóveis.

O hidrogénio surge, por sua vez, como uma alternativa relevante,

especialmente na Itália (31%), China (29%), Espanha

(22%) e Alemanha (21%). Embora ainda esteja longe de ser

popular, o sistema de propulsão a hidrogénio é visto como

uma tecnologia promissora para o futuro da mobilidade.

CONFIANÇA NA INDÚSTRIA AUTOMÓVEL

E NA INOVAÇÃO TECNOLÓGICA

Apesar das transformações no setor, a indústria automóvel

continua a desfrutar de grande confiança nos países abrangidos

pelo estudo. A maioria dos entrevistados considera a

indústria um pilar de inovação e prosperidade económica.

Na China, 98% dos participantes consideram que a indústria

automóvel é essencial para a estabilidade económica, enquan-

e-MOBILIDADE + 23


MOBILIDADE

Automóvel

to noutros países, como Espanha (86%) e Alemanha (76%),

esta confiança também é significativa. Nos EUA, no Reino

Unido, em França e em Itália, cerca de 70% das pessoas partilham

a mesma opinião.

CONDUÇÃO AUTÓNOMA E PARTILHA DE DADOS

Outro dado interessante é a elevada aceitação dos veículos

autónomos. A predisposição para utilizar esta tecnologia é

significativa, variando entre 50% na Alemanha e impressionantes

98% na China, onde os inquiridos manifestam uma

grande confiança nas inovações tecnológicas.

Além disso, os resultados indicam uma grande disponibilidade

para partilhar dados de condução, com vista a impulsionar

inovações em termos de segurança e de experiência

de condução. A China destaca-se novamente, com 95% dos

inquiridos dispostos a partilhar os seus dados, seguindo-se

países ocidentais como Espanha (70%), EUA (66%), Reino

Unido (65%) e Alemanha (62%).

O FUTURO DA MOBILIDADE PESSOAL

Jürgen Mindel, diretor executivo da Associação Alemã da

Indústria Automóvel (VDA), resume os resultados do estudo:

“O índice de tendências de mobilidade oferece uma visão clara:

a mobilidade pessoal continua a ser uma parte central da vida

das pessoas em todo o mundo. O automóvel continua a desempenhar

um papel central, mas também é evidente que a indústria

automóvel é vista como um motor de inovação e prosperidade.

A aceitação de veículos autónomos e a disponibilidade

para partilhar dados mostram que estamos mais próximos de

uma revolução na mobilidade do que imaginávamos.”

Num mundo cada vez mais interligado e focado na sustentabilidade,

a mobilidade pessoal encontra-se num ponto de

viragem, em que inovações como a eletrificação dos veículos

e a condução autónoma moldarão o transporte no futuro próximo.

O automóvel, embora ainda predominante, será apenas

uma parte de um ecossistema de mobilidade mais amplo e

diversificado. EdeC +

24 e-MOBILIDADE

+


Outro dado interessante

é a elevada aceitação

dos veículos autónomos.

A predisposição para

utilizar esta tecnologia

é significativa, variando

entre 50% na Alemanha

e impressionantes 98%

na China, onde os

inquiridos manifestam

uma grande confiança

nas inovações

tecnológicas

e-MOBILIDADE 25


TRANSPORTE RODOVIÁRIO

O lado oculto das emissões

O lado oculto das emissões

no transporte rodoviário

O desafio das emissões não

provenientes de gases de escape

Embora os veículos elétricos sejam vistos como a solução para reduzir a poluição urbana, um

estudo da EIT Urban Mobility alerta para as emissões não provenientes dos gases de escape

(NEE), revelando os impactos ambientais ocultos na produção e no abate dessas tecnologias.

À

medida que o setor dos transportes rodoviários

evolui para soluções mais limpas e sustentáveis,

a eletrificação dos veículos é apontada como

uma estratégia essencial para reduzir a poluição

atmosférica nas grandes cidades. No entanto,

um estudo recente levado a cabo pela EIT Urban Mobility,

em colaboração com a Transport for London (TfL) e a Greater

London Authority (GLA), revela um novo desafio ambiental:

as emissões não provenientes dos gases de escape (NEE). Embora

os veículos elétricos (VE) sejam frequentemente vistos

como a solução ecológica definitiva, este estudo alerta para o

impacto ambiental oculto presente na sua produção, utilização

e eliminação.

EMISSÕES NÃO PROVENIENTES DE GASES

DE ESCAPE: O QUE ESTÁ REALMENTE EM JOGO?

A transição para veículos elétricos é um passo significativo

para reduzir as emissões de gases com efeito de estufa, um

dos principais responsáveis pela poluição urbana. No entanto,

26 e-MOBILIDADE


a análise do ciclo de vida dos veículos elétricos mostra que,

embora estes gerem menos emissões operacionais do que os

modelos a combustão, o seu impacto ambiental vai muito além

da fase de utilização. As emissões indiretas, como as associadas

à produção de baterias de lítio e cobalto, materiais essenciais

para os veículos elétricos, têm um papel importante neste

contexto.

A extração destes metais preciosos e o processo de fabrico das

baterias são intensivos em energia e geram grandes quantidades

de dióxido de carbono (CO2). Isto levanta a questão: os veículos

elétricos são realmente “livres de emissões”, como muitas

vezes se afirma? Além disso, o impacto ambiental não termina

quando os carros são produzidos. Se a energia utilizada para

carregar os veículos elétricos provém de fontes não renováveis,

como o carvão ou o gás natural, as emissões indiretas aumentam

consideravelmente, anulando parcialmente os benefícios

ecológicos da eletrificação.

O CICLO DE VIDA DOS VEÍCULOS

E AS EMISSÕES OCULTAS

O estudo realça a importância de se considerar o ciclo de vida

completo dos veículos, desde a sua produção até ao momento

em que são descartados. As emissões associadas à produção de

baterias, à geração de energia para carregamento e ao processo de

reciclagem de automóveis antigos representam uma parte significativa

do impacto ambiental destes veículos. Embora a reciclagem

de baterias de lítio tenha progredido, continuam a existir desafios

técnicos e económicos por superar. O processo de reciclagem

não é totalmente eficiente, podendo resultar numa quantidade

substancial de resíduos tóxicos e emissões adicionais quando os

veículos elétricos atingirem o fim da sua vida útil.

COMO REDUZIR OS IMPACTOS AMBIENTAIS

E PROMOVER UM TRANSPORTE SUSTENTÁVEL

Com base nas conclusões do estudo, a EIT Urban Mobility,

a TfL e a GLA delinearam várias estratégias para reduzir as

emissões não provenientes dos gases de escape e promover um

futuro mais sustentável no setor dos transportes rodoviários:

1. Promoção de energias renováveis para carregar veículos

elétricos

A transição para fontes de energia renováveis, como a energia

solar e eólica, é crucial para reduzir as emissões indiretas. O investimento

em infraestruturas de carregamento verde garantiria

que a eletrificação dos transportes resultasse numa diminuição

líquida das emissões.

2. Avanço na reciclagem de baterias

É fundamental aprimorar as técnicas de reciclagem de baterias

de lítio. As políticas públicas que incentivem a economia

circular podem reduzir a necessidade de novas matérias-primas

e minimizar o impacto ambiental dos processos de produção e

eliminação de baterias.

e-MOBILIDADE 27


TRANSPORTE RODOVIÁRIO

O lado oculto das emissões

3. Desenvolvimento de tecnologias de combustíveis alternativos

Para os setores em que os veículos elétricos ainda apresentam

limitações, como o transporte de cargas pesadas ou as viagens

de longa distância, o estudo sugere o uso de alternativas

como o hidrogénio verde e os biocombustíveis. Estas tecnologias

podem complementar a eletrificação e ajudar a reduzir a

dependência de combustíveis fósseis.

4. Planeamento urbano sustentável

Para reduzir a dependência do transporte individual e, consequentemente,

as emissões no setor, o estudo propõe políticas

públicas que incentivem o uso de transportes públicos, a

mobilidade ativa (por exemplo, a pé ou de bicicleta) e a criação

de zonas de baixas emissões (LEZ). A gestão inteligente

do tráfego pode também diminuir os congestionamentos e os

respetivos impactos ambientais.

5. Investimentos em infraestruturas verdes

A construção de redes de transporte público elétrico e a implementação

de tecnologias inteligentes de gestão de tráfego

podem ser essenciais para reduzir as emissões indiretas e

aumentar a eficiência do sistema de transportes urbanos.

RUMO A UM FUTURO SUSTENTÁVEL

PARA O TRANSPORTE PÚBLICO

O estudo sobre as emissões não provenientes dos gases de escape

levanta uma questão crítica: a eletrificação dos transportes,

por si só, não é uma solução definitiva para os desafios ambientais

enfrentados pelas grandes cidades. Embora os veículos elétricos

representem um avanço significativo, é fundamental que

as políticas públicas tenham em conta o ciclo de vida completo

dos veículos, desde a sua produção até ao seu abate.

A chave para um futuro sustentável no setor dos transportes

rodoviários reside num enfoque holístico que inclua investimentos

em energias renováveis, o desenvolvimento de tecnologias

alternativas e o planeamento urbano integrado. A EIT

Urban Mobility, a Transport for London e a Greater London

Authority reafirmam o seu compromisso com a transformação

dos transportes urbanos, recorrendo a dados, inovações

tecnológicas e políticas públicas sustentáveis, de modo a criar

cidades mais verdes e saudáveis para as gerações futuras.

Este estudo reforça a ideia de que a transição para um sistema

de transporte sustentável exige inovação e equilíbrio. O futuro

da mobilidade não só tem de ser mais eficiente, como também

tem de ser verdadeiramente sustentável, tendo em conta todos

os aspetos do ciclo de vida dos veículos e o seu impacto no

ambiente urbano. + EdeC

A análise do ciclo de vida dos veículos

elétricos mostra que, embora estes

gerem menos emissões operacionais

do que os modelos a combustão, o seu

impacto ambiental vai muito além

da fase de utilização

28 e-MOBILIDADE


e-MOBILIDADE 29


Planeamento urbano

COMUNIDADES MAIS SEGUR

O PODER DA TRANSFORMAÇ

Como seria viver numa cidade onde as ruas p

Ao projetar os espaços públicos para as pesso

vibrantes, inclu

30 e-MOBILIDADE +


AS, SAUDÁVEIS E VIBRANTES

ÃO DOS ESPAÇOS PÚBLICOS

romovessem a segurança, a saúde e a convivência?

as e não para os carros, criamos comunidades mais

sivas e sustentáveis.

e-MOBILIDADE 31


PLANEAMENTO URBANO

Espaços Públicos

Superblocos de Barcelona – Espanha

Reimaginar e remodelar os espaços públicos

significa muito mais do que criar ambientes

visualmente agradáveis: trata-se de dar vida

a comunidades mais humanas, inclusivas e

resilientes. A forma como concebemos as nossas

ruas e áreas comuns influencia diretamente a qualidade

de vida nas cidades, afetando o bem-estar físico, mental e

social da população.

Colocar as pessoas no centro do planeamento urbano, em

vez de dar prioridade exclusiva aos veículos, é um princípio

essencial para construir cidades mais sustentáveis e

interligadas. Nesse sentido, ruas que acolhem e convidam

à convivência são fundamentais para a construção de uma

identidade urbana vibrante e para o fortalecimento do sentido

de pertença coletivo.

RUAS COMO ESPAÇOS DE CONVIVÊNCIA

Durante décadas, o planeamento urbano privilegiou a

fluidez do tráfego motorizado, relegando os pedestres para

um papel secundário. Felizmente, esta lógica tem vindo

a ser desafiada por cidades que reconhecem que as ruas

devem ser mais do que corredores de passagem: devem ser

espaços de encontro, lazer e mobilidade ativa.

Quando adaptadas para peões, ciclistas e utilizadores dos

32 e-MOBILIDADE +

transportes públicos, as ruas deixam de ser barreiras e passam

a ser pontes, promovendo a inclusão social, dinamizando

a economia e fortalecendo os laços comunitários.

SEGURANÇA COMO PILAR DO DESENHO URBANO

Uma das mudanças mais imediatas e visíveis das intervenções

urbanas bem-sucedidas é o aumento da segurança.

Calçadas acessíveis, boa iluminação, passadeiras elevadas,

ciclovias protegidas e mobiliário urbano apropriado reduzem

significativamente o risco de acidentes.

Além disso, os espaços públicos que estimulam a permanência

e a circulação de pessoas favorecem a vigilância

natural e desencorajam comportamentos de risco. O

resultado é um ambiente mais acolhedor, onde todos —

especialmente os mais vulneráveis, como crianças e idosos

— podem circular com liberdade e confiança.

SAÚDE E SUSTENTABILIDADE DE MÃOS DADAS

Promover a mobilidade ativa, como caminhar ou andar

de bicicleta, não é apenas uma estratégia de transporte,

mas também uma poderosa ferramenta de saúde pública.

Menos carros nas ruas significam menos emissões e menos

ruído, o que se traduz em melhorias diretas na saúde respi-


Rues aux écoles – Paris, França

ratória e cardiovascular da população.

Além disso, espaços urbanos verdes, acessíveis e integrados

no quotidiano das pessoas estimulam hábitos mais saudáveis,

oferecem refúgios para o bem-estar mental e criam

oportunidades para a socialização, o lazer e a reconexão

com a natureza.

CASOS REAIS DE TRANSFORMAÇÃO

A transformação dos espaços públicos em áreas mais

humanas e inclusivas tem vindo a ganhar força também

na Europa, onde várias cidades têm adotado abordagens

sustentáveis para o redesenho de ruas e praças. A seguir,

apresentamos exemplos europeus inspiradores, alinhados

com os princípios promovidos pelo World Resources Institute

(WRI), que demonstram como as ruas podem transformar-se

em motores de bem-estar, segurança e vitalidade

urbana.

Superblocos de Barcelona – Espanha

Considerado um dos projetos urbanos mais emblemáticos

da Europa, o conceito dos superilles (superblocos) de Barcelona

consiste na reorganização do tráfego em nove quarteirões,

com restrição de acesso a veículos e priorização

de peões, ciclistas e transportes públicos. As ruas internas

transformam-se em espaços de lazer com bancos, árvores,

parques infantis e esplanadas. O projeto reduziu o ruído,

melhorou a qualidade do ar e estimulou a vida comunitária,

servindo de modelo global para o redesenho urbano.

Rues aux écoles – Paris, França

A capital francesa tem vindo a implementar um ambicioso

programa de “ruas escolares”, que consiste no encerramento

parcial ou total de ruas em frente a escolas, sobretudo

nos horários de entrada e saída dos alunos. Além de

melhorar a segurança das crianças, estas áreas são transformadas

com jardins, pintura no asfalto e mobiliário lúdico.

Inspirado em práticas sustentáveis e em conformidade com

os princípios defendidos pelo WRI, o projeto promove a

mobilidade ativa, reduz as emissões e fortalece a ligação das

comunidades locais aos espaços públicos.

Parklaan – Roterdão, Países Baixos

Em Roterdão, a rua Parklaan foi alvo de uma requalificação

que reduziu o número de faixas de tráfego e introduziu infraestruturas

verdes, ciclovias e passeios mais amplos. Esta

intervenção privilegiou a circulação a pé, o uso da bicicleta

e o acesso aos transportes públicos, melhorando simultaneamente

a drenagem urbana com soluções baseadas na

natureza. O projeto integra o conceito de ruas completas

+

e-MOBILIDADE 33


PLANEAMENTO URBANO

Espaços Públicos

(complete streets), alinhado com os princípios do WRI,

que defendem ruas acessíveis a todos os utilizadores, e não

apenas aos condutores.

Västra Hamnen – Malmö, Suécia

Embora vá além de uma simples requalificação viária, o

projeto urbano de Västra Hamnen destaca-se pela integração

da mobilidade ativa e de um design centrado nas pessoas.

O bairro dá prioridade a ciclovias, ruas com tráfego

limitado e espaços públicos destinados ao convívio, como

praças e passeios à beira-mar. Ao incentivar a vida ao ar

livre, este modelo tornou-se uma referência em termos de

sustentabilidade urbana e qualidade de vida.

Estes exemplos europeus mostram que investir em ruas

mais humanas é uma tendência urbana global e viável. O

apoio institucional, o envolvimento da população e a aplicação

de princípios como a segurança rodoviária, a equidade

no acesso e a promoção da saúde são elementos-chave

para o sucesso dessas transformações.

Cada projeto mostra, à sua maneira, que cidades mais seguras,

saudáveis e vibrantes começam com a corajosa decisão

de reconquistar o espaço urbano para as pessoas.

CONSTRUIR UM FUTURO COLETIVO

A transformação dos espaços urbanos não se resume a uma

questão de infraestruturas. Trata-se de uma declaração de

valores que afirma que todas as pessoas, independentemente

da idade, condição física ou classe social, merecem viver

em comunidades seguras, saudáveis e vibrantes.

Investir em ruas concebidas para as pessoas significa

investir na equidade, na cidadania, na saúde pública e na

coesão social. Mais do que um objetivo técnico, trata-se de

uma opção ética e estratégica para o presente e o futuro das

cidades. EdeC +

A transformação dos espaços públicos

em áreas mais humanas e inclusivas

tem vindo a ganhar força também na

Europa, onde várias cidades têm adotado

abordagens sustentáveis para

o redesenho de ruas e praças

34 e-MOBILIDADE

+


Västra Hamnen – Malmö, Suécia

Parklaan – Roterdão, Países Baixos

e-MOBILIDADE + 35


SINGAPURA

A cidade que vi

Inovadora, verde e hiperconectada,

a cidade-estado asiática é referência

global em inteligência urbana — e prova

que o amanhã pode ser construído hoje.

Cidades inteligentes

36 e-MOBILIDADE +


ve no futuro

e-MOBILIDADE 37 +


Cidades inteligentes

38 e-MOBILIDADE +

Em Singapura, o futuro não é apenas uma

promessa, é o dia a dia. Mais do que uma

experiência pontual, tornou-se um estilo

de vida a sério. Os veículos autónomos

ainda estão em fase de testes, mas os

drones já fazem entregas aéreas, os semáforos “conversam”

com as ambulâncias e os peões, e uma rede de

transportes públicos cobre quase 80% da população

urbana, ligando-a de forma rápida e eficiente.

Para muitos, isso ainda parece uma história de ficção

científica. Em Singapura, é apenas mais um dia.

Com menos de 6 milhões de habitantes e um território

compacto de 721 km², a cidade-estado transformou

as limitações geográficas em vantagens estratégicas.

Desde 2014, quando lançou o programa Smart

Nation, Singapura tornou-se num laboratório urbano

global. É um exemplo de como a tecnologia, a sustentabilidade

e a gestão pública podem funcionar em

conjunto de forma eficiente, segura e inclusiva.

INOVAÇÃO EM ESCALA URBANA

O título de “nação inteligente” que Singapura carrega

não é apenas simbólico — é um marco inédito: trata-se

da primeira vez que esta designação foi atribuída a

uma cidade-estado.


Em Singapura, a inteligência urbana está por toda parte —

literalmente. Sensores espalhados por toda a cidade monitorizam

em tempo real o clima, o ruído ambiental, a qualidade

do ar e o fluxo de pessoas, fornecendo dados cruciais para a

tomada de decisões públicas. O transporte coletivo é otimizado

por algoritmos preditivos, e os serviços governamentais

— como o pagamento de impostos ou o agendamento

de consultas médicas — são acessados de forma integrada e

digital através do SingPass, o sistema nacional de identidade

eletrónica, que conta com mais de 4,5 milhões de utilizadores

ativos.

Estas tecnologias não estão à margem da vida urbana —

são parte essencial dela. E o reconhecimento internacional

confirma isso: em 2024, Singapura foi eleita a cidade mais

inteligente da Ásia e a 5.ª do mundo, de acordo com o IMD

Smart City Index.

TRANSPORTE: ENTRE ROTAS E ALGORITMOS

A solução para os congestionamentos em Singapura é reduzir

o trânsito, sem aumentar as estradas. O país apostou

nos transportes públicos para ser eficiente nas cidades. Os

números são impressionantes: a rede ferroviária está a aumentar

e vai passar de 230 km para 360 km até 2030, com

novas linhas como a Jurong Region Line e a Cross Island

Line. O planeamento é muito detalhado. Até 2026, a Circle

e-MOBILIDADE + 39


5 marcos

do urbanismo

inteligente em

Singapura

Cidades inteligentes

Line ficará concluída, ligando zonas portuárias e comerciais

importantes. Até ao fim da década, oito em

cada dez pessoas viverão a menos de 10 minutos de

uma estação de metro. Esta será uma conectividade

comparável às cidades mais avançadas do planeta.

Além disso, os testes com veículos autónomos e

com o sistema Vehicle-to-Everything (V2X) — onde

semáforos, carros e sensores dialogam — já mostram

resultados promissores na redução de acidentes e na

fluidez do tráfego.

MOBILIDADE AÉREA E ACESSÍVEL

Singapura não pensa apenas no solo. A Autoridade de

Aviação Civil (CAAS) está a testar corredores aéreos

para drones de carga urbana. Já existem empresas

locais de novas tecnologias a testar cadeiras de rodas

autónomas integradas em calçadas inteligentes, especialmente

para idosos.

Estas iniciativas mostram que o conceito de cidade

inteligente não se fica pela eficiência, mas também

não esquece a inclusão tecnológica. A cidade é pensada

para todos.

TECNOLOGIA COM RESPONSABILIDADE

O reconhecimento facial permite aceder a edifícios

e bancos. O monitoramento ambiental é feito com

recurso a big data. A automação de serviços públicos

exige um compromisso ético. E Singapura leva isso a

sério.

O governo investe muito na cibersegurança e, em

2023, criou o Digital Trust Centre, um centro dedicado

à proteção de dados, ao uso ético da inteligência

artificial e ao combate à desinformação digital. A

confiança digital é um ativo estratégico.

1. Smart Nation (2014)

Lançamento da estratégia nacional de

cidade inteligente

2. SingPass

Identidade digital nacional, usada por

mais de 4,5 milhões de pessoas

3. Vehicle-to-Everything (V2X)

Sistema de comunicação entre veículos

e infraestrutura.

4. Rede de metro

360 km previstos até 2030, ligando

80% da população.

5. Digital Trust Centre

Centro nacional de ética digital

e proteção de dados

O QUE PODEMOS APRENDER COM SINGAPURA

Singapura não tenta ser uma cidade futurista apenas por

vaidade tecnológica. O seu objetivo é claro: proporcionar

qualidade de vida, eficiência urbana e sustentabilidade

ambiental através da inovação. E faz isso muito bem.

É um modelo que se pode repetir? Não, não é bem

assim. O segredo está menos na tecnologia usada e mais

na visão estratégica, no planeamento integrado e na

coragem de investir a longo prazo.

Enquanto outras cidades ainda discutem o que é ser

“inteligente”, Singapura já mostra claramente o que isso

significa na prática. A cidade usa dados, tecnologia e

design urbano para tornar a vida das pessoas melhor

todos os dias.

Em Singapura, o futuro está sempre presente — chega a

cada momento, como o próximo comboio. EdeC +

40 e-MOBILIDADE +


e-MOBILIDADE + 41


O preço do passeio

COMO A TARIFICAÇÃO DINÂMICA DE CARGAS

E DESCARGAS ESTÁ A TRANSFORMAR

AS RUAS URBANAS

À medida que as cidades se tornam mais densas e digitais,

o passeio — antes reservado a carros estacionados — tornou-se

um espaço disputado por entregas, transportes e lazer. Para

responder a esta pressão, várias cidades testam a tarificação

dinâmica, ajustando em tempo real o uso e custo do passeio

conforme a procura.

FILIPE CARVALHO

CEO Wide Scope

linkedin.com/in/filipecarvalhowidescope

Nas cidades movimentadas

de todo o mundo,

o passeio — ou lancil

— tornou-se um dos

espaços mais disputados

do ambiente urbano. Anteriormente

reservado a carros estacionados e carrinhas

de entregas, atualmente o passeio é

um ponto crítico para recolhas de transporte

por aplicação móvel, entregas de

comida, entregas de comércio eletrónico

e até esplanadas improvisadas. À

medida que as nossas cidades se tornam

42 e-MOBILIDADE

+

mais densas e digitais, o passeio emerge

como uma frente de inovação — e de

conflito.

Em resposta, um número crescente de

cidades está a testar a cobrança dinâmica

de taxas de utilização dos passeios

e das zonas de carga e descarga: uma

abordagem baseada na tecnologia que

trata o passeio como um espaço flexível

e gerador de receitas, ajustando o seu

custo e utilização em tempo real, de

acordo com a procura. Embora ainda

se encontre numa fase inicial, esta

estratégia tem o potencial de redefinir a

forma como as pessoas e as mercadorias

circulam nas ruas das cidades.

O QUE É A TARIFICAÇÃO DINÂMICA

DE PASSEIOS?

A tarificação dinâmica dos passeios

inspira-se em modelos como as portagens

dinâmicas ou a cobrança de taxas

de congestionamento. Em vez de se

cobrar uma taxa fixa ou de se aplicarem

regras estáticas ao estacionamento ou


às zonas de carga e descarga, o preço

para utilizar um espaço junto ao passeio

pode variar ao longo do dia, consoante

a procura, a localização e a finalidade.

Imagine uma rua movimentada no

centro de uma cidade durante a hora

de ponta da manhã. Uma carrinha de

entregas estaciona em segunda fila para

descarregar encomendas, bloqueando

uma faixa de rodagem e causando

engarrafamentos. Com um sistema de

passeio dinâmico, essa zona de carga

poderia cobrar uma tarifa mais elevada

durante os períodos de maior movimento,

desencorajando as entregas

nesse horário e incentivando-as a serem

realizadas mais cedo ou mais tarde, ou

noutras ruas menos congestionadas,

com tarifas mais baixas.

O mesmo princípio aplica-se às zonas

de embarque e desembarque de passageiros

de plataformas como a Uber ou

a Bolt. Ao ajustar os preços de forma

dinâmica, as cidades podem reduzir o

congestionamento causado por veículos

à procura de lugar para estacionar ou

a estacionar ilegalmente. Aplicações

móveis, sinalização em tempo real

e sistemas de pagamento integrados

permitem aos condutores e empresas

encontrarem lugares disponíveis e pagarem

de imediato.

A TECNOLOGIA POR TRÁS DA IDEIA

A tarifação dinâmica dos passeios é

possível graças a uma combinação

de sensores IoT, parquímetros inteligentes,

sistemas de câmaras e análise

de dados em tempo real. Estas ferramentas

monitorizam a ocupação dos

passeios por parte dos veículos, em

termos de quando, onde e durante

quanto tempo. Em seguida, os algoritmos

ajustam os preços, muitas vezes

consoante a hora do dia, o tipo de

veículo ou a zona.

Algumas cidades também utilizam

georreferenciação para criar zonas

virtuais de carga para frotas de entregas

ou serviços de transporte por aplicação.

Por exemplo, uma cidade pode

reservar certas zonas de passeio para a

Uber ou a Bolt durante os períodos de

maior movimento noturno, garantindo

recolhas mais seguras e previsíveis.

As aplicações móveis são fundamentais.

Ligam condutores, gestores de

frotas e operadores municipais, fornecendo

informações atualizadas sobre

lugares disponíveis, tarifas e opções de

pagamento em tempo real. Esta digitalização

substitui os sinais estáticos e

os parquímetros de moedas por uma

gestão flexível e baseada em dados.

PORQUE ESTÁ A GANHAR FORÇA?

Vários fatores impulsionaram o interesse

na tarifação dinâmica de deslocações:

Explosão do comércio eletrónico

As compras online dispararam, enchendo

as cidades de carrinhas de entregas

que precisam de parar junto a casas e

estabelecimentos comerciais. As zonas

de carga tradicionais, concebidas para

um número inferior de camiões, revelaram-se

insuficientes.

Crescimento das plataformas de

transporte

Serviços como a Uber, a Bolt ou a Lyft

geram milhares de paragens por dia.

As recolhas e as largadas sem regulação

levam ao estacionamento ilegal,

ao bloqueio de ciclovias e a passagens

perigosas para os peões.

Usos concorrentes

Atualmente, as cidades pretendem

utilizar os passeios para instalar esplanadas,

estações de carregamento de

veículos elétricos ou docas de trotinetes.

A pandemia acelerou esta tendência,

com muitas ruas a serem reconfiguradas

para as pessoas em vez de para os carros

estacionados.

A tarificação dinâmica oferece uma forma

de equilibrar estes usos concorrentes,

promovendo uma utilização mais

eficiente e justa do espaço limitado.

VANTAGENS PARA CIDADES

E CIDADÃOS

Os defensores desta medida afirmam

que a tarificação dinâmica pode trazer

vários benefícios:

Menos congestionamento

Ao desencorajar paragens prolongadas

nos horários de ponta, melhora o fluxo

de trânsito e diminui o estacionamento

ilegal.

Menos emissões

Menos veículos à procura de estacionamento

significam menos motores ao

ralenti e menos poluição.

Receitas para a cidade

As taxas cobradas podem ser reinvestidas

em passeios melhores, ciclovias ou

transportes públicos.

Mais justiça

A tarifação pode dar prioridade a determinados

utilizadores, como os serviços

de entrega, os lugares de estacionamento

para pessoas com mobilidade

reduzida ou os veículos limpos, através

de descontos ou horários reservados.

e-MOBILIDADE + 43


Tecnologias de Informação

Os agentes de IA

Melhor planeamento

Os dados recolhidos em tempo real

permitem às cidades planear e gerir o

espaço público de forma mais inteligente.

MAS NÃO SEM DESAFIOS

Contudo, o caminho não é simples.

Questões de equidade: os críticos

argumentam que tarifas mais elevadas

podem penalizar os pequenos negócios

ou os motoristas de entregas, transferindo

os custos para o elo mais frágil da

cadeia.

Privacidade e tecnologia: a monitorização

em larga escala exige câmaras

e sensores, levantando questões sobre

vigilância e proteção de dados. Quem

controla a informação? Como é armazenada?

Fiscalização: sem uma fiscalização

eficaz, como a leitura automática de

matrículas e a aplicação imediata de

multas, o estacionamento ilegal pode

persistir.

Adaptação dos utilizadores: os condutores

e as empresas precisam de se

adaptar a novas aplicações, sistemas

de pagamento e regras. Os pequenos

operadores podem ter dificuldade em

fazê-lo.

Resistência política: cobrar por algo

que costumava ser gratuito, como o

estacionamento junto ao passeio, gera

frequentemente oposição por parte dos

comerciantes e residentes.

PRIMEIRAS EXPERIÊNCIAS

E LIÇÕES

Cidades como São Francisco, Los Angeles

e Washington já testaram projetos-

-piloto de passeios dinâmicos, muitas

vezes em parceria com empresas de tecnologia.

No Reino Unido, alguns bairros

de Londres estão a testar passeios

flexíveis para entregas e plataformas de

transporte. Algumas cidades europeias

estão também a avaliar a aplicação de

tarifas associadas às emissões dos veículos,

atribuindo tarifas mais baixas às

carrinhas elétricas.

Os primeiros resultados mostram que

até ajustes modestos podem reduzir

o estacionamento em segunda fila e

melhorar a rotatividade dos lugares de

estacionamento. No entanto, também

revelam a importância de uma sinalização

clara, uma comunicação eficaz

e uma fiscalização justa para ganhar a

confiança do público.

O FUTURO DO PASSEIO

A disputa pelo passeio está longe de terminar.

Nos próximos anos, a tarificação

dinâmica poderá expandir-se juntamente

com outras ferramentas de cidades

inteligentes, como robôs de entrega autónomos,

estações de carregamento para

veículos elétricos e sistemas de trânsito

geridos por IA. O objetivo não é apenas

rentabilizar o passeio, mas sim geri-lo

como um recurso flexível e adaptável

que contribua para ruas mais seguras,

sustentáveis e eficientes. +

44 e-MOBILIDADE

+


e-MOBILIDADE 45


46 e-MOBILIDADE


FERROVIA

O futuro do transporte ferroviário

Perspectivas para 2050

Até 2050, o transporte ferroviário será transformado por tecnologias avançadas, com comboios ultrarrápidos,

sustentáveis e autónomos a ligar as grandes cidades. A revolução ferroviária oferecerá

soluções mais eficientes, inteligentes e ecológicas para passageiros e mercadorias, respondendo aos

desafios de mobilidade e sustentabilidade do futuro.

Quando nos aproximamos de um futuro em

que 75% da população mundial viverá

em áreas urbanas e a população global

atingirá os 9,5 mil milhões de pessoas, o

transporte ferroviário apresenta-se como

uma solução estratégica para enfrentar os desafios da mobilidade,

da sustentabilidade e da logística. Em 2050, a

conjugação de avanços tecnológicos e um novo modelo de

urbanização poderá transformar o transporte ferroviário

de formas atualmente apenas imagináveis. Neste artigo,

exploramos como as viagens ferroviárias para passageiros

e mercadorias podem evoluir com base nas tendências e

inovações previstas.

A TRANSIÇÃO PARA CIDADES INTELIGENTES:

A NECESSIDADE DE INFRAESTRUTURAS

FERROVIÁRIAS AVANÇADAS

Com o crescimento exponencial das populações urbanas,

as cidades inteligentes serão a chave para lidar com a

elevada procura de transportes. A infraestrutura ferroviária

terá de se adaptar, oferecendo soluções mais eficientes,

integradas e sustentáveis. As redes ferroviárias estarão

cada vez mais interligadas com outras formas de mobilidade

urbana, como autocarros autónomos, veículos de

transporte partilhado e bicicletas elétricas. O conceito de

“mobilidade como serviço” (MaaS) será uma realidade em

muitas cidades, onde os passageiros poderão planear as

suas viagens, comprar bilhetes e utilizar diferentes meios

de transporte através de uma única aplicação.

Além disso, as ferrovias do futuro deverão ser inteligentes,

com sistemas de monitorização em tempo real, capazes

de ajustar rotas, horários e capacidade com base na

procura e nas condições de tráfego. Tal resultará em via-

gens mais rápidas, eficientes e confortáveis, minimizando

o impacto ambiental e o congestionamento nas cidades.

TECNOLOGIAS DE PROPULSÃO:

MAGLEV E ENERGIAS SUSTENTÁVEIS

Em 2050, os sistemas de transporte ferroviário poderão

ser dominados por tecnologias como o Maglev (levitação

magnética), que oferece as vantagens da velocidade, do

baixo desgaste e da eficiência energética. Os comboios de

levitação magnética poderão atingir velocidades de até

500 km/h, permitindo reduzir significativamente os tempos

de viagem entre cidades.

Além disso, a utilização de energias renováveis será um

pilar central no futuro dos transportes ferroviários. Os

comboios elétricos, alimentados por fontes de energia

solar, eólica ou hidrelétrica, terão uma pegada de carbono

quase nula. A infraestrutura das linhas ferroviárias será

concebida de modo a maximizar a utilização dessas fontes

de energia limpas, com painéis solares instalados ao longo

das linhas ou sistemas de captura e armazenamento de

energia nas estações.

A REVOLUÇÃO DO TRANSPORTE DE MERCADORIAS:

FERROVIA E LOGÍSTICA 4.0

O transporte de mercadorias também será afetado pela

evolução das ferrovias. Em 2050, a logística ferroviária

será mais rápida e eficiente, graças à automação e à Internet

das Coisas (IoT). A utilização de comboios autónomos

para carga será uma realidade, permitindo operações mais

seguras e económicas, com menor necessidade de intervenção

humana.

Deste modo, as ferrovias estarão mais integradas em cen-

e-MOBILIDADE + 47


FERROVIA

Perspectivas para 2050

tros de distribuição e em plataformas logísticas urbanas,

facilitando o transporte de grandes volumes de mercadorias

de forma ágil e com baixo impacto ambiental. A

utilização de comboios modulares permitirá uma maior

flexibilidade nas operações de carga, com vagões que

poderão ser facilmente adaptados a diferentes tipos de

mercadorias, desde alimentos perecíveis até eletrónica e

equipamento pesado.

A tecnologia de rastreio em tempo real, combinada com

a análise de grandes quantidades de dados, permitirá às

empresas monitorizar a localização e as condições das

cargas, oferecendo mais previsibilidade e segurança na

cadeia de abastecimento. O transporte ferroviário de

mercadorias poderá, assim, tornar-se a opção mais competitiva

em termos de custo e impacto ambiental.

EXPERIÊNCIA DO PASSAGEIRO: OS COMBOIOS

DO FUTURO COMO ESPAÇOS MULTIFUNCIONAIS

A experiência dos passageiros também sofrerá uma

transformação radical. Em 2050, os comboios não serão

apenas um meio de transporte, mas sim espaços multifuncionais

que respondem às diversas necessidades dos

passageiros. Desde viagens curtas até longas distâncias,

as ferrovias oferecerão opções de conforto, conectividade

e personalização.

Os comboios do futuro estarão equipados com cabines

inteligentes, adaptáveis às preferências dos passageiros,

com assentos ergonómicos, controlo de temperatura e

até mesmo recursos de realidade aumentada. A conectividade

5G garantirá que os passageiros tenham acesso

à internet de alta velocidade durante toda a viagem,

enquanto a inteligência artificial ajudará a personalizar a

viagem, ajustando o ambiente de acordo com as preferências

individuais de cada utilizador.

Ainda, o conceito de “viagem como serviço” será cada

vez mais popular, com os comboios a oferecerem experiências

imersivas, como entretenimento, lazer e opções

de trabalho. As áreas de lazer poderão incluir lounges,

zonas de descanso e até espaços de coworking, permitindo

que os passageiros aproveitem o tempo durante a

viagem.

SUSTENTABILIDADE E DESAFIOS AMBIENTAIS

Dada a crescente pressão para reduzir as emissões de

gases com efeito de estufa e combater as alterações

climáticas, o transporte ferroviário será uma das formas

de mobilidade mais sustentáveis em 2050. Os comboios

do futuro serão projetados com materiais recicláveis,

sistemas de captura de dióxido de carbono e emissões

mínimas, ou até nulas.

A infraestrutura ferroviária também será mais ecológica,

com estações equipadas com painéis solares, sistemas de

recolha de água da chuva e jardins verticais que promovam

a biodiversidade nas áreas urbanas. O objetivo será

tornar as ferrovias não apenas eficientes, mas também

48 e-MOBILIDADE

+


ecológicas, em conformidade com as metas globais de

desenvolvimento sustentável.

DESAFIOS E OPORTUNIDADES: A TRANSFORMA-

ÇÃO DO SETOR FERROVIÁRIO

Embora o futuro do transporte ferroviário seja promissor,

não estará isento de desafios. A implementação

de tecnologias avançadas, como o Maglev e a

automação, pode implicar custos iniciais elevados,

exigindo investimentos substanciais por parte dos

governos e das empresas. Além disso, a integração entre

diferentes modos de transporte e a adaptação das

infraestruturas urbanas serão aspetos críticos.

Por outro lado, as oportunidades são vastas. O setor

ferroviário poderá tornar-se um dos principais motores

de inovação e sustentabilidade, criando novos

postos de trabalho e mercados. A colaboração entre

empresas de tecnologia, operadores ferroviários e

governos será essencial para superar os desafios e

construir uma infraestrutura ferroviária inteligente e

sustentável.

Os Comboios do futuro estarão

equipados com cabines inteligentes

NOTAS FINAIS

Em 2050, o transporte ferroviário estará profundamente

entrelaçado com a dinâmica das cidades inteligentes e da

economia global. Com o avanço da tecnologia, a crescente

urbanização e a procura de soluções mais sustentáveis, as

ferrovias deixarão de ser apenas um meio de transporte

para se tornarem um sistema multifacetado que responderá

às necessidades dos passageiros e da logística de forma

mais rápida, eficiente e ecológica.

Com um olhar atento ao futuro, a revolução ferroviária

representará não só uma transformação no setor dos transportes,

como também um passo importante para o futuro

das cidades e da mobilidade global. EdeC +

e-MOBILIDADE + 49


OPINIÃO

Alta velocidade ferroviária e o novo

aeroporto da região de Lisboa

Um casamento difícil?

A localização do novo aeroporto de Lisboa na margem sul do Tejo e o arranque da Alta Velocidade

Ferroviária abrem uma oportunidade única para integrar dois dos mais importantes

projetos de mobilidade do país. Mas a solução em estudo ameaça comprometer essa complementaridade,

contrariando as boas práticas europeias e reduzindo a atratividade do novo

aeroporto antes mesmo da primeira pedra ser lançada.

A

decisão de localizar o novo aeroporto

de Lisboa (NAL) na margem sul do

Tejo ao mesmo tempo que se dá início

à construção da rede de Alta Velocidade

Ferroviária (AVF), cria uma

situação favorável para assegurar a complementaridade

entre estes dois projetos estruturantes e

estratégicos para o país. No entanto, ao contrário

do que seria de esperar e a Comissão Europeia

recomenda1, a opção política parece encaminhar-

-se para servir o NAL através de uma navette a

partir da estação de Lisboa/Oriente, com todos os

inconvenientes para os passageiros, obrigados a

fazer mais um transbordo para chegar ao aeroporto.

Diminuir-se-á assim significativamente a sua

atratividade e inviabilizar-se-á a desejável complementaridade

entre os dois aeroportos localizados

nas principais áreas metropolitanas do país.

A situação é tanto mais estranha quanto os processos

de construção do NAL e da rede de AVF do

país estão ainda numa fase inicial e nenhuma obra

está adjudicada. Quando muitos países europeus

investiram milhares de milhões de euros para

conectar os seus aeroportos às suas redes de AVF,

Portugal, opta por seguir um caminho diferente,

desprezando a complementaridade sistémica entre

estas obras estratégicas e estruturantes para o

país.

FERNANDO NUNES DA SILVA

Professor universitário e Presidente da ADFERSIT

Como explicar uma tal entorse ao que as boas

práticas e a própria CE recomendam? Como se

desenvolveu um processo de decisão política

que conduziu a esta situação paradoxal? Para o

compreendermos teremos de recuar alguns anos

quando se decidiu modernizar a Linha do Norte

50 e-MOBILIDADE


Imagem gerada por IA

Atualmente, o tempo de percurso entre as duas capitais metropolitanas

pouco se reduziu em relação ao que o comboio a vapor

conseguia fazer no século passado. Perante este facto, e face

à oposição que alguns decisores políticos levantaram quanto a

dotar o país de uma rede de AVF, o governo optou por regressar à

solução de décadas atrás

e-MOBILIDADE 51


Opinião

Fernando Nunes da Silva

- com mais de 40 anos - de construir a nova linha

em bitola standard (UIC), mantendo a bitola ibérica e

fazendo passar a nova linha pelas estações existentes

da Linha do Norte que venham a funcionar como nós

ferroviários para os serviços regionais e suburbanos:

Aveiro, Coimbra e Leiria.

O traçado atualmente aprovado para a ligação a Lisboa

foi definido quando o novo aeroporto da região

de Lisboa foi localizado na base aérea da OTA. A

decisão de construir o NAL na área do Campo de Tiro

de Alcochete, sem alteração deste traçado a partir de

Leiria, implica que o NAL seja apenas servido por

uma navette, depois da linha de AVF passar primeiro

por Lisboa/Oriente, utilizando a linha do Norte a

partir do Carregado. Tal rotura de carga, retira-lhe

competitividade em relação ao modo rodoviário e

penaliza toda a procura potencial do NAL situada no

centro do país.

Com efeito, face aos problemas técnicos de construem

vez de construir uma nova linha ferroviária e,

mais tarde, aquando do resgate financeiro do país, se

abandonou o projeto de uma rede de AVF para o país,

apesar da construção do primeiro troço da ligação de

Lisboa a Madrid ter sido já adjudicado.

Ao fim de mais de 30 anos de obras e de um investimento

superior ao que seria o da construção de uma

nova linha, a Linha do Norte continua sem prazo

de conclusão, com as consequentes perturbações e

atrasos no serviço ferroviário prestado. Atualmente, o

tempo de percurso entre as duas capitais metropolitanas

pouco se reduziu em relação ao que o comboio a

vapor conseguia fazer no século passado. Perante este

facto, e face à oposição que alguns decisores políticos

levantaram quanto a dotar o país de uma rede de AVF,

o governo optou por regressar à solução de décadas

atrás, desvirtuando o projeto inicial da rede de AVF

ao avançar para uma quadruplicação do corredor ferroviário

entre o Porto e Lisboa, revertendo a decisão

52 e-MOBILIDADE

+


O traçado atualmente aprovado para a ligação a Lisboa

foi definido quando o novo aeroporto da região de Lisboa

foi localizado na base aérea da OTA. A decisão de

construir o NAL na área do Campo de Tiro de Alcochete,

sem alteração deste traçado a partir de Leiria, implica

que o NAL seja apenas servido por uma navette

e-MOBILIDADE + 53


Opinião

Fernando Nunes da Silva

ção e do custo de uma linha de AVF que não utilizasse o

corredor da Linha do Norte entre o Carregado e Lisboa,

a IP optou por quadruplicar este troço da Linha do

Norte como forma de assegurar a ligação da linha de

AVF a Lisboa/Oriente. Esta opção não permite assegurar

o eficiente modelo de exploração que se pretende para

a AVF, prejudicando ainda a necessária melhoria dos

outros serviços ferroviários (regionais e suburbanos)

que utilizam o troço da linha do Norte, entre Carregado

e Lisboa, já no limite de capacidade. Aí circulam

atualmente mais de 700 comboios por dia, número que

será substancialmente aumentado com o reforço dos

suburbanos da Azambuja, a ligação da Linha de Cascais

à Linha de Cintura e a Alverca, e a necessidade de

reversão de marcha na Castanheira do Ribatejo, único

espaço onde tal será possível face aos condicionamentos

existentes nas outras estações deste troço da Linha do

Norte. O cumprimento do objetivo de ter uma ligação

entre as duas principais áreas metropolitanas do país em

1h15 min ficará assim irremediavelmente prejudicado.

Os problemas que se têm verificado com os concursos

para a construção dos primeiros troços da linha de AVF

entre o Porto e Lisboa - um dos quais ficou sem concorrentes

- abre uma janela de oportunidade para se lançar

um concurso para todo o troço Oiã – NAL, repensando

o traçado final desta linha na sua chegada a Lisboa e

evitando, com isso, introduzir mais atrasos na concretização

deste projeto.

54 e-MOBILIDADE

+


Com base nos estudos desenvolvidos quando se compararam

as localizações do NAL na OTA e no CTA,

justifica-se que, neste quadro, seja avaliado um novo

traçado da linha de AVF que faça a entrada em Lisboa

pela margem esquerda do Tejo, com um atravessamento

do rio em Santarém. Este novo traçado permite assegurar

que o NAL seja servido por uma ligação ferroviária

direta com uma “estação em linha” (tal como o era para

a Ota e será para o aeroporto Francisco Sá Carneiro no

Porto), o que é essencial quando se pretende que o NAL

venha a desempenhar o papel de hub aeronáutico. Por

outro lado, esta alternativa tem um custo de obra e um

prazo de realização muito inferior ao traçado atualmente

proposto, dado que não tem condicionamentos

urbanísticos como os que se verificam entre Vila Franca

de Xira e Alverca e tem menores impactes ambientais, o

que não deixará de se refletir em menores contratempos

e custos, nomeadamente, de expropriações e servidões.

Apesar desta alternativa apresentar uma maior extensão

(cerca de 175 km entre Soure e Lisboa), o facto de cumprir

integralmente os parâmetros exigíveis (em planta e

perfil) para uma velocidade máxima de 300 km/h, e evitar

situações que obrigam à redução da velocidade dos

comboios, nomeadamente no atravessamento das áreas

urbanizadas e das estações existentes no troço Carregado/Lisboa-Oriente,

faz com que este traçado, servindo

diretamente o NAL, apresente um tempo de percurso

que não põe em causa o objetivo de tempo de ligação,

sem paragens, entre Porto (Campanhã) e Lisboa, na

ordem da 1h15/1h20.

Esperemos que o governo resista à pressão dos anúncios

políticos e à pressa em lançar o concurso para a construção

do troço Soure/Carregado, comparando antes

as alternativas em presença e assegurando um bom e

duradouro casamento entre o NAL e a rede de AVF. +

1 A Comissão Europeia, na concretização da sua política de descarbonização

do sector dos transportes, recomendou que os aeroportos com mais de

15 milhões de passageiros por ano tivessem ligação ferroviária direta à rede

ferroviária de velocidade elevada ou de alta velocidade, o que claramente se

aplica ao projetado novo aeroporto para a região de Lisboa.

Com base nos estudos desenvolvidos quando

se compararam as localizações do NAL

na OTA e no CTA, justifica-se que, neste

quadro, seja avaliado um novo traçado da

linha de AVF que faça a entrada em Lisboa

pela margem esquerda do Tejo, com um

atravessamento do rio em Santarém

e-MOBILIDADE + 55


FERROVIA

A questão da bitola ibérica

e a interoperabilidade com a Europa

Faço em primeiro lugar um ponto de situação, pois apenas me vou referir a esta temática olhando para

o problema do transporte de mercadorias internacional.

É

verdade que a questão da

bitola ibérica, é um tema

complexo com implicações

significativas para a

interoperabilidade ferroviária

entre a Península Ibérica e o resto

da Europa. Mas também é verdade

que não é o único problema quando

falamos de Interoperabilidade.

Quando falamos de interoperabilidade

ferroviária em Portugal, somos

imediatamente enviados para uma e só

palavra – BITOLA.

Os principais problemas com a interoperabilidade

ferroviária na Europa

incluem uma grande diversidade de

variáveis de país para país, tais como:

a falta de harmonização de sistemas de

sinalização, corrente elétrica e gestão

de tráfego (como o ERTMS), com a

consequente incompatibilidade de material

circulante e até o próprio idioma

que deve ser utilizado por todos os

agentes responsáveis por comboios

transfronteiriços, depois, e não menos

importante, a falta de investimento em

infraestrutura e material circulante.

A título de exemplo refira-se que o

projeto europeu ERTMS visa substituir

todos os sistemas de sinalização

existentes na Europa por um único

sistema concebido para promover

a interoperabilidade entre as redes

ferroviárias nacionais e o transporte

ferroviário transfronteiriço. O ERTMS

visa assegurar uma norma comum,

que permita a circulação ininterrupta

de comboios por vários países, e, assim,

promover a competitividade dos

caminhos de ferro. Ou seja, segurança.

Mas falta a tração elétrica, o material

circulante, o idioma, a infraestrutura,

ça para mercadorias. A ligação Barcelona/Port

Bou inaugurada em 2010 e

ainda em obra a ligação Irun/Hendaye

(Y Basco). Há realçar que as mercadorias

não andam em alta velocidade,

felizmente.

Claro que era importante que a Ibéria

se ligasse ao resto da Europa na mesma

bitola, mas também é muitíssimo

importante perceber, porque é que

o tráfego ferroviário de mercadorias

continua a perder quota de mercado

e perceber, (é com a mesma bitola),

ainda melhor!? e, sendo Espanha um

ANTÓNIO NABO MARTINS

dos principias destinos das nossas

exportações?

Presidente Executivo da APAT

Talvez seja porque as infraestruturas

de carga/descarga são desadequadas?

Talvez seja porque a ferrovia segue

sendo menos apoiada?

Talvez seja porque este modo de

transporte contribui para mais sustentabilidade,

menos sinistralidade, mais

mobilidade, menos avarias, menos

a supraestrutura e até infoestrutura roubos e perdas de carga?

e claro está, no caso da P. Ibérica a Talvez seja porque o modelo de negócio

não traz retorno imediato?

bitola.

Porque tem havido alguma resistência

dos operadores ferroviários? fácil tenta encontrar uma solução se levan-

Talvez seja porque cada vez que se

– investimento – que é de tal ordem, tam vozes contra?

que muitos não vislumbram retorno Talvez seja por medo e falta de coragem?

e por isso mesmo não avançam a

velocidade alta e muito menos em Perguntas de difícil resposta.

alta velocidade.

Concluo para dizer que, já que não

Voltando à Ibéria, Espanha tem feito temos olhado para a ferrovia, pelo lado

um enorme investimento para comboios

de alta velocidade (passagei-

mobilidade de pessoas e bens, porque

do ambiente ou de facilitar a vida e a

ros) num processo com pelo menos não aproveitar a nova “política” de

30 anos, quase os mesmos em que investimentos, por mor da defesa e da

Portugal só desinvestiu. Nos últimos guerra, para olharmos para a ferrovia

anos tem igualmente investido nas como elemento fundamental para a

suas conexões fronteiriças com Fran- logística, seja ela militar ou civil? +

56 e-MOBILIDADE


Espanha tem feito um enorme investimento

para comboios de alta velocidade

(passageiros) num processo com pelo

menos 30 anos, quase os mesmos em

que Portugal só desinvestiu. Nos últimos

anos tem igualmente investido nas

suas conexões fronteiriças com França

para mercadorias

e-MOBILIDADE 57


58 e-MOBILIDADE

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