08.08.2025 Visualizações

REVISTA CARACÓIS 2

A revista Caracóis está vinculada às produções artísticas do Centro de Excelência Professor Abelardo Romero Dantas, localizado em Lagarto-SE. Ela é composta por uma equipe dedicada de três professores e 19 alunos, responsáveis pela maior parte das seções presentes na revista. O conteúdo da revista tem como foco principal divulgar as produções dos estudantes, discutir temas relacionados à arte e à literatura, dar espaço às manifestações artísticas do povo lagartense. A publicação é organizada em diferentes seções, como matéria de capa — nesta edição, o destaque é o slam e rap — entrevistas, matérias de destaque, além de espaços para artes plásticas, cênicas e poesia. Há indicações de obras e artistas, e depoimentos de participantes. A revista Caracóis é um espaço dedicado às Artes e à Literatura, que incentiva a criatividade e a expressão dos estudantes.

A revista Caracóis está vinculada às produções artísticas do Centro de Excelência Professor Abelardo Romero Dantas, localizado em Lagarto-SE. Ela é composta por uma equipe dedicada de três professores e 19 alunos, responsáveis pela maior parte das seções presentes na revista. O conteúdo da revista tem como foco principal divulgar as produções dos estudantes, discutir temas relacionados à arte e à literatura, dar espaço às manifestações artísticas do povo lagartense. A publicação é organizada em diferentes seções, como matéria de capa — nesta edição, o destaque é o slam e rap — entrevistas, matérias de destaque, além de espaços para artes plásticas, cênicas e poesia. Há indicações de obras e artistas, e depoimentos de participantes. A revista Caracóis é um espaço dedicado às Artes e à Literatura, que incentiva a criatividade e a expressão dos estudantes.

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CARACÓIS

EQUIPE

ÍNDICE

COORDENAÇÃO GERAL

Produção Executiva:

Catiana Correia

Direção de Criação:

Renata Carvalho

CONTEÚDO E REDAÇÃO

Matéria de Capa:

Heloísa Monteiro, Júlia Silva,

Evely Nicole e Maria Eloisa

Repórteres:

Isabela Santos, Ariel Prata e Ícaro Bruno

Colunistas:

Samara Susan e Miguel Santos

Revisão de Texto:

Catiana Correia

Edição de Texto:

Rogério França

03 CARTA AO LEITOR

04 DESTAQUES

Arte no Meio especial: Tributo à

Beatriz Nascimento

06 ENTREVISTA

com Ajesk e Sabá

13 CAPA

A arte marginal no centro

18 GALERIA ARTE NO CEPARD

20 INDICAÇÕES

Arte e artistas para conhecer

21 POPULARIDADES

Esmiuçar Lagarto

CURADORIAS ARTÍSTICAS

Poesia:

Kathellen Giovana e Luana Santos

Arte na Entrada:

Letícia Lacerda

Arte no Meio:

Vitória Senna

Arte Circular:

Renata Carvalho

Fotografia:

Ana Menezes

SEÇÕES ESPECIAIS

23 PROCESSO DE CRIAÇÃO

Quintais

26 ENTREVISTA

com Arauto

31 POESIA

Poetas da escola

35 ARTE NA ENTRADA

Exposições de poesia e artes visuais

38 ARTE NO MEIO

Apresentações cênicas

41 ARTE CIRCULAR

Ocupar espaços

Depoimentos:

Renata Carvalho

Popularidades:

Vieira e Maria Eloisa

Colaboração:

Daniel Quelemente

43 NOTAS: ARTE E TECNOLOGIA

Dança e vídeo: possibilidades e

problemáticas

44 DEPOIMENTOS

Escuta e partilha: sentir juntos

Design Gráfico / Diagramação:

Renata Carvalho

Mídias Digitais / Redes Sociais:

Renata Carvalho

SUPORTE E MÍDIA

47 PARA PENSAR

Esta revista é uma produção do CE. Prof.

Abelardo Romero Dantas

Direção: Giselle Arcoverde

Coordenação: Cátia Santos

Alberto de Oliveira

Douglas Santana

Secretária: Aline França

Notas dos editores:

Optamos por manter a linguagem coloquial e as marcas de

oralidade para valorizar a voz e a autenticidade dos nossos

alunos e entrevistados. Acreditamos que a escola também é

espaço para escuta, expressão e identidade.


CARTA

AO LEITOR

Caro leitor,

A euforia do lançamento persiste nesta segunda edição. Afinal, sonhamos e

realizamos, mas essa realização é contínua e exige a manutenção de diversas

camadas para que uma revista se mantenha numa escola. Não é fácil, e, longe de

mim romantizar esse processo, preciso dizer que existe uma vibração muito bonita

que nos une em torno desse propósito. E cá estamos!

Viemos com uma edição que põe em evidência o hip hop e o slam, através de

artistas sergipanos: os meninos do grupo Arauto e a dupla Sabá e Ajesk. Todos eles

foram entrevistados e fizeram uma passagem, mais uma vez, marcante na nossa

escola. Uma parceria que espero que só cresça. Vocês poderão conferir os

trabalhos que se destacaram no Arte no Meio e no Arte na Entrada, além de ver

por onde andaram alguns dos trabalhos criados dentro da Eletiva Poéticas do

Movimento.

E por falar na Eletiva, tem aqui um texto muito especial sobre o processo de

criação de Quintais e uma coluna que discute videodança e TikTok; além de muita

poesia dos nossos alunos e depoimentos marcantes.

Continuamos por esmiuçar Lagarto através de histórias populares; tem mais

indicações de artistas e outra leitura no final para nos provocar! Não contarei mais.

Vamos ao que interessa, que é a próxima página...

Entrem e fiquem à vontade!

Saudações criativas!

3


ARTE NO MEIO ESPECIAL:

TRIBUTO À BEATRIZ NASCIMENTO

Samara Susan

DESTAQUES

Maria Beatriz do Nascimento, nascida em Aracaju, foi historiadora,

professora militante, poeta, roteirista e uma grande referência do

movimento negro e dos direitos humanos no Brasil. Filha de uma família

numerosa, como era costume na época, mudou-se aos sete anos para o

Rio de Janeiro, onde permaneceu pelo resto da vida. Sua imponência e

legado vão muito além do destaque como renomada intelectual

orgânica — Beatriz foi uma figura central do movimento negro no Rio de

Janeiro nos anos 1970. No campo acadêmico, foi pioneira ao construir

um pensamento negro sobre história e antropologia, destacando-se por

questionar as narrativas oficiais que reduziam e invisibilizavam os negros,

limitando-os à condição de escravos.

Beatriz é menos lembrada na poesia do que pelo seu trabalho

acadêmico, embora seja igualmente talentosa. Ela escreveu poemas

que exploram sua identidade negra e feminina, refletindo sobre seu

papel, suas dores e o reencontro com a ancestralidade. Mas seus versos

não se limitam à denúncia — eles constroem imaginários de liberdade e

diálogos consigo mesma.

Seus versos não se limitam à

denúncia — eles constroem

imaginários de liberdade e

diálogos consigo mesma.

Sua filha e curadora de seu legado, Bethânia Nascimento, nos permitiu apreciar

essa faceta de sua obra ao resgatar sua arte e reunir poemas inéditos de sua

mãe, que ressaltam a urgente poetização da resistência negra e mostram como a

arte é um caminho que ultrapassa a si mesma.

4


Diante de uma mulher negra tão ilustre, que merece urgentemente ser

rememorada, a professora Catiana teve a ideia de montar um sarau

com as poesias de Beatriz Nascimento, como forma de apresentar aos

estudantes meios de se reconhecer e se reelaborar. As turmas

participantes foram: 1ªD, 1ªE e 1ªF. A proposta consistiu na escolha de

um poema com o qual a pessoa mais se identificasse, para encená-lo.

Houve muitos ensaios, com todos se esforçando para dar o melhor de si

e encenar a força e a beleza de Beatriz Nascimento — à altura do que

ela merece.

Chegado o grande dia, a atmosfera do sarau, que recebeu o nome de

Arte no Meio Especial, lembrava a de tantos outros Arte no Meio já

realizados: luzes aconchegantes e um clima receptivo. A professora

Renata, idealizadora desse movimento artístico, estava presente. Foram

26 pessoas se apresentando. Imagino que nem mesmo as professoras

acreditavam que tantas pessoas iriam se voluntariar. Começamos com

uma poesia curta, como Beatriz sempre gostava de fazer,

profundamente reflexiva, que nos leva a questionar:

Um retrato,

Um espelho,

Um rosto

Um outro rosto.

Quantas faces de si em si mesma?

Beatriz Nascimento (Poesias e Aforismos)

As apresentações foram tocantes e as encenações trouxeram o tom que cada poema exigia. O

sarau foi uma experiência incrível tanto para quem apresentou quanto para quem assistiu. E o mais

importante: uma oportunidade de se reelaborar pela arte e pela voz dessa grande intelectual,

Beatriz Nascimento.

5


Ajesk e Sabá

ENTREVISTA

com Isabela Santos

EM MEIO A UMA OFICINA DE

ESCRITA CRIATIVA QUE

OPORTUNIZOU E MOBILIZOU O

POTENCIAL DOS ESTUDANTES,

A REVISTA CONVERSOU COM

AJESK E SABÁ, DUAS VOZES

POTENTES NA CENA DA ARTE

MARGINAL EM SERGIPE.

O ENCONTRO ACONTECEU NO

MESMO DIA EM QUE

PROPORCIONARAM AOS

ESTUDANTES A EXPERIÊNCIA

DA ESCRITA E DECLAMAÇÃO

POÉTICA.

É mulher preta, mãeAJESK

solo e arte-educadora.

Como multiartista, atua

na poesia, no slam,

como MC e artesã,

além de ser

slammaster.

É poeta, arteeducadora

e produtora

cultural. Estudante de

pedagogia na UFS,

coordena o Slam do

Mangue, um dos

principais coletivos de

poesia falada do

Estado.

PALAVRA E POTÊNCIA:

MULHERES E A POESIA MARGINAL

SABÁ

ISABELA - O que alimenta a sua poesia e qual o seu processo criativo?

AJESK - O que alimenta a minha poesia são as minhas vivências, as minhas parcerias diárias. As

minhas referências e a maternidade que eu vivo de forma solo. As potências que eu vejo que estão

inseridas ali no meu bairro, na minha quebrada, que estão ali na luta todo dia, juntamente comigo,

de forma individual, coletiva, são a realidade diária, o meu corre diário.

6


ISABELA - Como foi sua trajetória no hip hop?

AJESK - Bom, minha trajetória no hip hop — por incrível que pareça — começou na escola. Só que

eu não me enxergava como artista, não me enxergava como poeta. Eu estava ali, era dia da

Consciência Negra, e o trabalho era recitar uma poesia. E aí, olharam para quem, né? Para a

menina negra da sala. Então eu fui recitar, mas eu já tinha escrito outros poemas — inclusive, tinha

um poema meu que foi para a Academia de Letras. Só que eu nunca levei isso à frente; não era

algo em que eu me aprofundava.

Na escola, eu recitei Gritaram-me negra, da Vitória Santa Cruz, uma artista peruana. Eu recitei e

foi muito marcante. Eu lembro das expressões das pessoas e até para mim mesma. Quando eu

estava recitando, eu sempre tive essa questão de me expressar muito através do corpo — e a

gente veio falar justamente sobre isso (na oficina de slam e performance). Então, eu sempre tive

isso: de me expressar através do corpo. E, nessa poesia, eu fiz isso. Foi a primeira poesia que

recitei. Foi na escola.

Eu passei um tempo sem fazer nada voltado à arte. Fui trabalhar, entrei na área da saúde. Eu sou

técnica em enfermagem; a realidade da vida começou a silenciar a minha arte e o meu ser.

Quando a gente se sente silenciado, a gente não é nós mesmos.

Então, depois de um tempo, esse silêncio teve que se romper. Eu precisava gritar de alguma forma,

senão eu ia morrer por dentro. E aí eu voltei com a poesia. Comecei a gravar vídeos, primeiro na

internet, depois a recitar nas praças e, então, a participar de competições. Me tornei — me

encontrei — como MC de batalha de rima também, que era algo que eu achava que nunca ia

acontecer. Eu não tinha coragem de ir à praça rimar: “Meu Deus, que é isso? Eu não vou conseguir

fazer isso”. Mas com o tempo, a gente vai tomando coragem também. Vendo outras mulheres

assim como eu, estando ali na frente, isso me dá coragem. E é isso.

Então, eu sempre tive isso: de me

expressar através do corpo. E, nessa

poesia, eu fiz isso. Foi a primeira

poesia que recitei. Foi na escola.

7


ISABELA - Como é ser uma mulher negra, poeta e mãe solo?

AJESK - É muito difícil. É um atravessamento muito... nenhuma dor é individual, são dores coletivas.

Eu vejo outras mulheres também passando por isso, então é algo que me atravessa. Mas ao mesmo

tempo, meu filho é a minha força. Apesar de a maternidade ser algo injusto, assim, muitas vezes

voltado apenas às mulheres, o meu filho me traz coragem. Me traz força para continuar e escrever.

Quando eu falo de amor, eu só penso nele.

Então, quando eu falo das minhas dores, eu falo da dor que é ser uma mãe preta dentro de um

sistema que não é feito para mães pretas. Não é feito para a gente. Mas a maternidade — e o meu

filho — me trazem amor. Então, apesar de ser difícil, é algo que me dá coragem.

Eu nunca vi poesia falando de uma realidade

parecida com a minha, quando eu era

criança, por exemplo, ou pré-adolescente.

ISABELA - Como surgiu essa paixão pela poesia?

SABÁ - Então, eu sempre fui de escrever, nunca entendi, enquanto nova, o que era poesia. Como

eu disse, na oficina, a gente tem como poesia esses padrões que falam sobre flores, sobre amores.

Eu nunca vi poesia falando de uma realidade parecida com a minha, quando eu era criança, por

exemplo, ou pré-adolescente. Mas eu sempre escrevia, eu sempre critiquei novelas. Eu escrevia

texto criticando as novelas — novelas que traziam pessoas negras enquanto empregadas, enquanto

marginais, de uma forma pejorativa, criminosas. Sempre critiquei, fazia essas escritas e não

entendia que aquilo era poesia.

Quando eu adentro o movimento social, em 2017, a gente começa a se movimentar dentro da

periferia do 17 de Março, Santa Maria — bairros que eu morava na época. E, para além dessas

movimentações, a gente via que faltava arte dentro da periferia, faltava cultura dentro daquele

local que a gente morava, que a gente se movimentava.

Kelvin, que é um produtor do Slam do Mangue — mas na época ele era coordenador da gente,

enquanto Levante Popular da Juventude, o movimento social — dá a ideia do slam, traz o slam

como uma possibilidade que a gente não tinha conhecimento. E a gente começa a estudar,

entender essa movimentação, como era que se dava, e se colocar como desafio: se não aparecer

ninguém aqui para recitar, a gente tem que se apresentar. E aí ficou esse desafio de tentar

escrever uma poesia. Vamos tentar escrever. E aí, com 16 anos, eu dizia: “Meu Deus do céu!” Aí eu

comecei a assistir vídeos. O primeiro vídeo do slam que eu assisti foi da Gabi, do Grito Filmes. E aí

eu disse: “Poxa, então isso que é poesia marginal!”

8


Nesse momento eu consegui compreender que era para eu falar sobre coisas que eu sentia, sobre

coisas que eu passava, coisas que me atravessavam. Eu lembro que, na minha primeira poesia, eu

falo sobre paternidade ausente. Eu tive um pai ausente — um genitor. Na época, a conjuntura

política era bem assustadora, então eu estava dentro de um movimento social que me mostrava

aquilo — e eu critico isso na minha poesia. Eu consegui construir a partir do que eu vivia.

Quando eu disse: “Poxa, eu escrevi uma poesia pela primeira vez”, eu comecei a mostrar para as

pessoas. Mostrei para Kelvin, mostrei para outras pessoas que eram do movimento, e elas falavam:

“Mas você já escreveu alguma vez? Isso está muito bom”. Eu tenho vídeo dessa poesia, que é da

primeira vez que eu recitei no Slam do Mangue. A partir daí eu me vi, comecei a me ver enquanto

poeta. Eu consegui escrever outras coisas. Nesse entremeio, tive momentos de bloqueio criativo de

cinco anos. E eu não escrevia. Eu tive uma frustração com o movimento social, que pra mim era

muito libertador e que me salvava. Por conta disso, me distanciei da arte. Eu senti que não era pra

mim, que eu não queria mais saber dessas movimentações. Por conta disso, eu deixei de lado.

Então, eu não quero só escrever. Eu quero

disseminar para que as pessoas reconheçam

que elas também escrevem, se reconheçam

enquanto poetas, reconheçam que a história

delas tem valor, que cada pessoa é única.

Em 2023, quando entrei na universidade, me deu uma vontade de escrever por uma violência que

eu passei ali dentro, por uma deslegitimação. Eu quis escrever sobre algo na academia, e o

professor dizer que aquilo não fazia sentido... Isso, pra mim, é uma violência muito grande, ouvir

um professor dizer que a minha escrita não faz sentido, sendo que para mim fazia. Essa situação

me provocou a voltar a escrever poesia e não parei mais. Estou aqui até hoje. Isso consolidou em

mim ser poeta. Para além de poeta, arte-educadora.

Então, eu não quero só escrever. Eu quero disseminar para que as pessoas reconheçam que elas

também escrevem, se reconheçam enquanto poetas, reconheçam que a história delas tem valor,

que cada pessoa é única. Porque eu acho que é muita violência você ouvir que não faz sentido o

que você escreve, o que você vive, o que você passa. Então, eu quero estar nesse movimento.

A poesia, ela me move. Não tem como não se apaixonar pela poesia, porque ela marcou minha

trajetória enquanto adolescente do ensino médio, enquanto pessoa que passava por diversos

atravessamentos e que continua passando hoje — dentro da academia, dentro de outros espaços.

Então, é uma paixão contínua que vem atravessando diversos tempos da minha vida. E acho que é

isso.

9


ISABELA - Qual é o papel da arte engajada no espaço escolar? Você tem papéis diferentes —

você tem o papel de professora, o papel de produtora e o papel de artista. Como é que esses

encontros dessa arte engajada acontecem no espaço escolar?

SABÁ - Eu acho que uma coisa complementa a outra e, enquanto professora e artista, eu entendo

que é mais fácil compreender com arte. O uso do lúdico — ensinar com bola, com recursos

didáticos, com o nosso corpo, com a nossa palavra, com música — eu entendo que é mais fácil

para a criança, o adolescente e o adulto compreenderem e estarem ali. Não só de corpo, mas de

presença, de se sentir presente.

Mas é muito diferente eu adentrar uma escola na qual eu não trabalho, como aqui — onde estou

sendo convidada para ministrar uma oficina — e estão abrindo as portas da escola para mim. É

diferente trazer arte para um lugar onde eu trabalho, porque, naquele espaço, minha função não é

aquela. Às vezes eu não sou vista como artista. Às vezes eu sou vista como uma colaboradora, uma

funcionária. E se eu for atuar com arte, é algo muito específico dentro desse espaço de trabalho.

Muito específico do 20 de novembro, por exemplo: “Ah, vamos pensar no Dia da Consciência

Negra? Chama a Sabá porque ela faz tal coisa”. São coisas muito, muito pontuais. Não é do tipo:

“Vamos fazer porque a arte é necessária, porque ela está no currículo”. É mais como: “Vamos fazer

porque tem que cumprir a data”. E eu não quero isso. Então eu sempre me coloco nesse lugar: se

for para fazer, vamos fazer uma coisa contínua. Porque a arte, as lutas e todos esses

atravessamentos não acontecem só em um dia. Eles acontecem a vida toda.

Então, pra mim, é muito difícil dissociar a arte do artista. Eu sou professora, eu sou artista. Eu sou

aluna, eu sou artista. Eu estou em qualquer espaço e eu sou artista. E eu me coloco como artista,

sabe? Eu aprendo com a minha arte, eu ensino com a minha arte, e eu troco com ela. Então, pra

mim, a arte é essencial. Porque a arte existe porque a vida não basta. A gente se fortalece muito

através da arte — através das danças, da expressão. A forma como eu me expresso é a forma

como eu consigo me libertar.

10


Muitas vezes eu trago isso na sala de aula: eu quero que um aluno apresente um trabalho, mas na

sala, ele não pode se expressar. Na sala ele não pode trazer a ideia dele. Ele não pode trazer a

vivência dele. E aí, como é que eu quero que esse aluno, esse educando, fale em público, se, no

momento em que ele poderia se expressar — tirar uma dúvida, levantar a mão, falar — ele não

pode ter a palavra? Então a gente precisa trabalhar isso nos pequenos momentos.

Eu acho que a arte é essencial pra que a gente possa trabalhar nossas fraquezas, nossos

atravessamentos, a forma como a gente se expressa — nossas vergonhas mesmo, porque a gente é

pautado por uma sociedade que nos tira a subjetividade. Nos tira esse lugar de dizer: “Eu sou

único”. E de perguntar: “O que seria de mim, se eu não me tivesse?”. E o menino, a menina,

acabam sendo colocados nesse lugar de produção, onde todo mundo tem que ser igual. Porque

todo mundo aprende igual. Porque todo mundo sente igual. Porque todo mundo... tudo numa

caixinha só, sabe? E eu não vejo dessa forma. Porque, do mesmo jeito que eu não aprendo como

você, você não aprende como eu. E você não aprende como nenhum colega seu, sabe? E isso se

dá na escola, se dá no trabalho, se dá em todos os espaços. Então eu acho que a arte trabalha

subjetividades. A arte faz a gente se entender como pessoa no mundo. Que corpo é esse que está

no mundo, sabe? Enquanto subjetivo. Enquanto indivíduo.

ISABELA - Essa pergunta está muito ligada à anterior... então, como é fazer parte do Slam do

Mangue?

SABÁ - O Slam do Mangue me marcou porque ele me iniciou na poesia. Ele me fez. As pessoas

que estavam ali, tanto legitimaram a minha escrita quanto me deram a liberdade de escrever da

forma que eu bem quisesse. Então o Slam do Mangue me iniciou enquanto poeta e também

enquanto produtora. Eu pude produzir dentro desse slam. Pude produzir poesia, produzir eventos —

e isso dentro da periferia. E eu era muito nova, com 16 anos. O slam teve um momento em que

parou. Parou por causa da vida. A gente é produção independente. A gente se movimenta sem

recurso. Tudo isso a gente precisa correr atrás — seja de apoios (que muitas vezes a gente não

tem), seja tirando do nosso bolso mesmo. Então é muito difícil, sabe?

A gente precisa reconhecer essas movimentações independentes — que não deveriam, mas

precisam de apoio. Deveriam ser custeadas, sim, porque a gente está trazendo arte para a

periferia, sabe? Trazendo arte para diversos lugares onde ela não chega com frequência. E aí,

quando o slam retorna, eu já retorno com outra cabeça, né? Adulta. Porque... foi tipo: corta de

adolescente e volta como adulta. Hoje temos pessoas que são da formação antiga — Kelvin,

Kowalski, Júlia. E tem pessoas da nova formação, que estão somando com a gente, que seguem

somando. Tem Breno agora, na mídia. Somos um coletivo de dez pessoas, né? Teve Jéssica, que

hoje não faz mais parte, mas continua colaborando. Então, pra mim, ser do Slam do Mangue é me

reconhecer enquanto potência também. É aprender a trabalhar em coletivo, que não é fácil.

Trabalhar em coletivo não é fácil. Eu sou muito: “Vamos fazer assim, assim, assim...”, sabe? E tem

pessoas que não são assim. Tem gente que é mais devagar. Tem gente que precisa de um

empurrão. Tem gente que... sei lá! Mas é isso: eu me movimento de um jeito, e outras pessoas se

movimentam de outro. Então, é entender a subjetividade de cada um. Cada pessoa é atravessada

por vivências que, às vezes, a gente não consegue compreender. E tudo bem.

11


É uma movimentação bonita. Difícil, mas bonita. E a gente tem

um propósito, sabe? A gente tem um objetivo. Hoje, eu não tenho

mais vontade de deixar isso morrer, porque, quando a gente faz

um evento — por exemplo, esse último que a gente fez — tinha

muita criança prestando atenção nas poesias. Muita criança!

Porque é em praça pública, né? Então, as crianças estavam no

evento. As mães estavam no evento. A comunidade que mora ali

estava presente. E elas gostam.

Teve um senhor que me disse: “Isso aí que vocês fazem...pra mim,

é muito importante. Continuem. Não parem, não”. E pra mim isso

é gás pra continuar. É entender que a comunidade, às vezes,

não está acostumada com aquilo... Mas, quando chega, elas

abraçam. Elas tentam entender, elas somam. Enquanto juradas,

enquanto público... Fazem questão de estar ali. Perguntam

quando vai ter de novo. Então, pra mim, é muito rico estar nesse

movimento. Fazer esse movimento. Fazer parte dele e produzi-lo.

E é isso.

Ser artista marginal é abrir caminhos

e mentes — tocar as gerações mais

antigas (como minha avó, que hoje

entende a poesia que escrevo) e para

que a nova geração se reconheça

enquanto potência.

ISABELA - Complete a frase. Ser poeta marginal é...

SABÁ - Ser artista marginal, pra mim, é produzir arte fora dos espaços legitimados pelas

instituições.

É fazer com o que tem, no tempo possível e muitas vezes sem apoio.

É ser vista com desconfiança, como se arte de periferia não fosse arte de verdade.

É enfrentar barreiras pra se manter criando, porque a sobrevivência vem antes.

É viver numa luta constante entre o corre e o que se quer expressar.

É saber que sua arte incomoda porque denuncia.

É resistir criando, mesmo quando ninguém tá olhando.

É não separar a arte da vida, porque uma coisa sustenta a outra.

Mas acredito que ser artista marginal é abrir caminhos e mentes — tocar as gerações mais

antigas (como minha avó, que hoje entende a poesia que escrevo) e fazer com que a nova

geração se reconheça enquanto potência. Acredito que seja missão, pois como diz nossa

amada Conceição Evaristo: "O importante não é ser primeiro ou primeira, o importante é

abrir caminhos".

12


A ARTE MARGINAL NO CENTRO

CAPA

Heloísa Monteiro, Júlia Silva, Evely Nicole e Maria Eloisa

13I

Esta matéria de capa mostra o potencial da arte em transformar vidas. Aqui, contaremos a

emoção de receber grandes nomes da Arte Marginal no centro do conhecimento. Para isso, a

escola recebeu o Grupo Arauto para uma roda de conversa sobre hip-hop e as artistas Ajesk e

Sabá para uma oficina de escrita criativa.

CONTEXTUALIZANDO PARA ENTENDER

A arte tem o superpoder de nos mostrar a nós mesmos e ao outro, ou seja, é um processo de nos

encontrarmos ou nos aproximarmos. Esse movimento foi realizado aqui no CEPARD por meio do

Projeto Antirracismo na Escola, atrelado ao Selo Antirracista Beatriz Nascimento. A iniciativa busca

estimular o pensamento crítico, a reflexão e o incentivo à produção artística entre os estudantes. A

construção desse projeto atinge seus objetivos quando se torna um microfone e um palco para os

estudantes se expressarem. Foi nítida a vontade de dizer o que está guardado no peito e o desejo de

um encontro que nem se sabia que existia. A voz dos estudantes pôde ser ouvida, e o que eles

disseram nos falou sobre o estar no mundo.

OS ELEMENTOS DO HIP-HOP

O hip-hop tem muito a nos ensinar sobre consciência de classe, luta coletiva, posicionamento frente

às injustiças e à capacidade de se transformar através da arte, metamorforseando angústia e dor em

potência. A escolha por esse estilo musical demonstra o claro propósito de promover o fazer político

e social, mostrando que ele está presente em nosso cotidiano.

Não foi surpresa perceber que muitos estudantes já tinham contato com o hip-hop, conheciam

artistas e tinham versos na ponta da língua. Para outros, foi uma novidade que aquece e tem cara de

reencontro. A roda de conversa com o Grupo Arauto promoveu a reflexão sobre o autoconhecimento

e a posição social. Os integrantes do grupo nos mostraram como a música os afetou: Fernando

relatou que o rap o auxiliou no foco criativo; JB destacou a capacidade do rap de canalizar

sentimentos de raiva e direcioná-los para a arte, evitando a violência; e Daniel pontuou que o rap foi

um refúgio e é uma força constante em sua vida.


O nome do grupo

carrega essa essência:

como arautos, eles

denunciam, anunciam

e ecoam as vozes

muitas vezes

silenciadas pela

sociedade.

No ano de 2024, os artistas Kauã Skarkur e JB (MC do Arauto) fizeram um show no CEPARD e,

desde então, o Poli vem ganhando com a presença da música. Este ano, o Arauto se apresentou no

Festival de Arte Integrada, e a potência de sua presença foi logo percebida, o que levou à

organização deste momento. O Arauto vem ganhando visibilidade na cena do hip-hop com

apresentações enérgicas e letras que abordam questões sociais, culturais e políticas, utilizando o

rap como ferramenta de conscientização e transformação social. O grupo começou se

apresentando em pequenos eventos de bairro, sempre levando rimas carregadas de verdade e

vivências. Ao longo dos anos, com muita dedicação, paixão e compromisso com a cultura do rap, o

Arauto conquistou espaço e destaque, passando a fazer parte de grandes palcos em Sergipe e

região.

O grupo Arauto participou de festivais importantes como o Festival Sergipano de Artes Cênicas, que

demonstrou o diálogo possível entre o rap e outras expressões artísticas. Eles também marcaram

presença nas comemorações dos 170 anos de Aracaju, dividindo o palco com grandes nomes e

mostrando a força do hip-hop local. Desde o início, o Arauto nunca foi apenas música; sempre foi um

manifesto. O nome do grupo carrega essa essência: como arautos, eles denunciam, anunciam e

ecoam as vozes muitas vezes silenciadas pela sociedade. A rua foi a escola, e o microfone se tornou

um instrumento de transformação e consciência.

O grupo Arauto fala sobre a realidade de muitos estudantes,

especialmente os das periferias, que frequentemente se afastam

da escola devido a dificuldades econômicas, necessidade de

ajudar a família, violência e falta de motivação. Ao vê-los no

ambiente escolar, os alunos muitas vezes se reconhecem e

entendem que sua história é importante. As letras de suas músicas,

que abordam temas como racismo, desigualdade, violência, fé e

superação, estimulam o pensamento crítico e geram debates nas

salas de aula, promovendo a consciência social.

Ao vê-los no

ambiente escolar, os

alunos muitas vezes

se reconhecem e

entendem que sua

história é

importante.

14


Durante o encontro, o grupo destacou a importância de levar o hiphop

para a escola, onde muitos jovens estão formando sua visão de

mundo. Segundo os integrantes, essa cultura urbana ensina que,

mesmo as realidades mais desafiadoras, carregam potência

criativa, sabedoria e capacidade de transformação. Eles também

abordaram os quatro pilares fundamentais do hip-hop — o rap, o DJ,

o break e o grafite — e enfatizaram os valores que sustentam essa

expressão cultural: respeito, união, conhecimento e atitude.

O grupo de hip-hop Arauto compartilhou com os alunos uma apresentação marcada por reflexões

profundas sobre arte, identidade e transformação social. Por meio de relatos emocionantes, os

integrantes falaram sobre como o hip-hop foi fundamental em suas trajetórias pessoais. “Cresci com

dificuldades, mas foi na rima que encontrei minha voz”, afirmou Fernando, evidenciando o papel da

cultura como ferramenta de resistência e construção de consciência.

A apresentação despertou grande interesse entre os alunos, que acompanharam atentamente cada

fala, demonstraram curiosidade e participaram ativamente. A direção da escola agradeceu a

participação do grupo Arauto e reforçou a importância de ações como essa, que integram

educação e cultura, promovendo espaços de escuta, reflexão e inspiração. Que mais iniciativas

assim continuem a enriquecer o ambiente escolar, formando, informando e transformando.

Muitos se identificaram com os relatos e destacaram o quanto a atividade contribuiu para ampliar

seu olhar sobre a arte, a cultura periférica e a expressão por meio da palavra. Ao verem jovens

como eles usando a arte para vencer, os estudantes também entendem que podem fazer o mesmo.

O hip-hop os fortalece, mostrando que é possível transformar dor em força e voz em ação. Ele diz a

verdade que muitos tentam calar, a voz das ruas, das favelas, das periferias e daqueles que

cresceram com pouco, mas que carregaram muito dentro de si.

O hip-hop, além de crítica e conhecimento, é também autoestima e valorização da identidade preta

e periférica. Ele mostra que, mesmo sem dinheiro, privilégios ou palcos, as pessoas fazem arte,

poesia e transformam a dor em resistência. O hip-hop fala de amor, dor, fé, superação, da perda de

amigos, de crescer sem pai ou mãe, de lutar contra vícios, mas também de sonhar, de amar, de ter

fé e de vencer.

SLAM: POTÊNCIA E PERFORMANCE

Na tarde do dia 29 de maio de 2025, o Centro de Excelência Professor Abelardo Romero Dantas foi

tomado por uma energia única. Vozes potentes ecoaram pelo auditório, corpos se movimentaram

com emoção, e a poesia — viva, falada, encarnada — foi a grande protagonista do evento. A

atividade trouxe para a escola o universo do slam, um gênero literário que mistura arte, performance

e resistência.

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Mais do que uma competição poética, o slam é um espaço de expressão livre, onde a palavra ganha

corpo e transforma realidades. Em uma performance que exige voz, presença e entrega, muitos

artistas sobem aos palcos para denunciar ausências, afirmar existências e gritar aquilo que, na

maioria das vezes, é silenciado. Os slammers têm três minutos para apresentar suas poesias autorais

— são três poesias por poeta, podendo ser mais em caso de empate. A apresentação acontece sem

adereços ou trilhas sonoras; eles usam o que têm de mais autêntico: suas histórias. E a nota para a

poesia é dada por um júri.

O slam nasceu na década de 1980, em Chicago, com Mark Smith, que buscava maneiras de tornar a

poesia mais "interessante". Ele criou a dinâmica de competição, que foi chamada de Grande Slam

de Poesia. O slam surgiu para romper com a elitização da poesia e trazê-la de volta às ruas. No

Brasil, nomes como Roberta Estrela D’Alva abriram caminho para que essa nova forma de arte

ganhasse fôlego e alcance. Roberta pesquisou sobre o slam e viajou para estudá-lo melhor. A partir

disso, ela criou o ZAP! Slam (Zona Autônoma da Palavra), o primeiro slam do Brasil.

Em 2017, com a iniciativa de Débora e Alan Jones, o slam chegou a Aracaju. Em Sergipe, esse

movimento vem crescendo com figuras como Sabá Poeta e Ajesk, que mostram como o corpo, a

palavra e a vivência podem se tornar ferramentas de enfrentamento, denúncia e transformação.

Como afirmam essas duas representantes do slam sergipano, "o corpo é palavra" e "a arte salva".

Para elas, não basta escrever: é preciso viver, sentir e fazer o corpo falar mais alto que a boca. Essa

potência foi sentida no evento do CEPARD, onde cada poesia recitada foi marcada por intensidade

e verdade.

Não há revolução sem luta.

Ajesk

Ao trazer o slam para o ambiente escolar, promove-se mais do que um evento artístico; cria um

espaço de escuta, empatia e construção crítica. Em tempos em que o silenciamento ainda é uma

prática cotidiana, dar palco à palavra é um ato político. Mas o slam não se limita ao palco. Ele

transporta a palavra para a sala de aula, para os corredores e para as vivências dos alunos.

Incentivar o uso do corpo para a expressão de emoções e ideias é reconhecer que a linguagem é

múltipla e que a arte tem um papel fundamental na formação humana. Como bem define Ajesk:

“Não há revolução sem luta”, e é na poesia falada que muitos jovens encontram sua forma de lutar.

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As slammers fizeram uma apresentação abordando o tema e a história do slam: como surgiu, o

que é, a retomada do Slam do Mangue e como funciona. Dentre as várias coisas apresentadas por

elas, no final, houve uma pequena oficina que aprofundou o conteúdo da palestra e demonstrou

como o slam acontece na prática. Sabá e Ajesk, duas grandes artistas, vieram ao CEPARD para

apresentar o slam aos alunos.

A maioria

participou com

coragem e

dedicação, indo à

frente do

público.

Depois das explicações sobre as características, a

história e as regras, as artistas fizeram uma oficina à

tarde no auditório, que consistia em os alunos

escreverem uma poesia para declamar na frente e

transformar esse momento em uma competição. Assim,

as poetas deixaram o evento o mais parecido possível

com um slam real. As pessoas começaram a declamar,

e todos os alunos, com o auxílio das artistas, fizeram

suas poesias. A maioria participou com coragem e

dedicação, indo à frente do público. Ao final, os alunos

com as melhores pontuações seriam premiados. Os

vencedores foram João, Susan, Raquel e Yasmin, que

criaram poesias autorais bem avaliadas pelo júri,

escolhido aleatoriamente.

Os alunos foram premiados com brindes entregues pelas artistas. Foi uma tarde muito boa e

didática, que permitiu aos alunos ampliar seus conhecimentos de forma diferente e divertida.

Foi uma tarde muito boa e didática, que

permitiu aos alunos ampliar seus

conhecimentos de forma diferente e

divertida.

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GALERIA ARTE NO CEPARD

18


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MÚSICA

Pitty - Admirável Chip Novo

Clube Dezenove — TV

Pink Floyd — The Wall

Gonzaguinha

Vanessa Rangel

Kate Bush

DANÇA

Marianela Nunez (bailarina) — destaque para ela como Kitri, em Dom Quixote

Pina Bausch

Quasar Cia de Dança

TEATRO

Piedade, a Seu Dispô — Interpretado por Isabel Santos - Texto: Euler Lopes

A Peleja de Leandro na Trilha do Cordel — Grupo Imbuaça - Texto: Iradilson Bispo,

Lindolfo Amaral e Manoel Cerqueira

Romeu & Julieta: Flor, Minha Flor — Grupo Galpão — Texto: William Shakespeare

LEITURA

Lynn Painter — Melhor do que nos filmes

Ana Maria Gonçalves — Um defeito de cor Ana Maria Gonçalves

Fiódor Dostoiévski — Noites brancas

C.C. Hunter — Eu e esse meu coração

J.D. Salinger — O Apanhador no Campo de Centeio

Carla Madeira — Tudo é Rio

Irvin D. Yalom — Quando Nietzsche Chorou

Matt Haig — A Biblioteca da Meia-Noite

Alan Moore e Kevin O Neill — A Liga Extraordinária 1898

Barry Windsor-Smith — Monstros

DOCUMENTÁRIO

Pedro Arantes — O Riso dos Outros

A Era de Ouro do Rock

CINEMA

Escritores da Liberdade

Capitão Fantástico

Somos Tão Jovens

INDICAÇÕES

pelos alunos e público

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MINHA INICIAÇÃO NO CANDOMBLÉ:

UM RENASCIMENTO ESPIRITUAL

POPULARIDADES

Vieira

@augustinhoart

Eu conheci o Candomblé através da minha mãe, em 2016. Ela frequentava um terreiro de uma

amiga dela e, com o tempo, eu comecei a ir junto. Na primeira vez que eu fui, senti medo, pois era

uma gira de esquerda e eu nunca tinha visto uma coisa daquele tipo. As giras de esquerda são

cerimônias dedicadas a entidades como Exus e Pombagiras, que trabalham na proteção, defesa e

abertura de caminhos. Essas giras têm uma energia mais intensa e direta, mas não têm nenhuma

relação com o mal. Com o tempo, comecei a sentir como se aquele lugar me esperasse desde o

dia que eu nasci.

Na chegada da minha adolescência, assumi um cargo no meu terreiro chamado “cambone”. O

significado da função “cambone” é auxiliar os orixás incorporados, cuidando da segurança do

médium e ajudando em suas necessidades físicas, como trocar roupas, entregar objetos sagrados,

etc. Esse foi o tempo que eu mais me apeguei à religião, pois eu comecei a sentir, de fato, a

palavra “amor ao próximo” no meu terreiro.

Com os anos se passando, eu mudei de estado e acabei me afastando da religião. Eu me senti

vazia por dentro, como se aquilo que me ajudava todos os dias a ser forte tivesse sumido. Em

2024, especificamente em agosto, eu conheci um terreiro no Sem-Terra. Foi onde eu comecei a me

aproximar novamente da religião e me senti amada novamente e acolhida. Lembro a sensação que

eu tive quando eu fui pra uma gira desse terreiro: eu me senti em casa. Por respeito à minha mãe

de santo, não vou divulgar o nome do terreiro. Ela me explicou que muitas pessoas malintencionadas

já foram até lá com o objetivo de causar problemas e isso a deixou bastante

abalada.

Fiquei frequentando esse terreiro, que foi construído em 2017 no quintal da casa da mãe de santo,

e logo depois alugaram um espaço maior pra continuar os cultos africanos. Frequentei até

fevereiro de 2025, mas me afastei do terreiro e da religião por causa do preconceito que a família

do meu pai tem contra ela. Espero um dia voltar a frequentar e sinto falta de me sentir amada

através dos meus guias.

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HERANÇA DE FÉ

POPULARIDADES

Maria Eloisa

Desde pequena cresci ouvindo as histórias que minha mãe contava sobre as procissões que ela ia

ao lado da minha avó e da minha tia. Sempre foi mais que um simples ritual religioso. Era um

momento sagrado, cheio de fé, canções e devoção. Minha avó era uma mulher guerreira, firme na

fé e no coração. Sempre fez questão de participar de todas as procissões da comunidade. Para

ela, caminhar com o povo cantando canções de fé e carregando suas orações no peito era uma

forma de estar em comunhão com Deus e também agradecer pelas graças recebidas.

Com o tempo, essa tradição foi passada para minha mãe, tia e primas, que, mesmo diante das

correrias da vida, encontravam um jeito de estar presentes. Minha avó falava que não importava o

tamanho da caminhada ou o calor que fizesse no dia, mas sim o objetivo por trás: a união, a

esperança e o ato de fé. Hoje percebo o quanto essa herança religiosa é valiosa.

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QUINTAIS

A criação de Quintais foi muito divertida e emotiva. Foi um processo que mexeu o tempo todo

com camadas muito especiais para o grupo. Nos primeiros laboratórios, houve muita conversa. Era

preciso entender como cada integrante lembrava de suas infâncias, como era estar na casa da

avó, se havia brincadeiras e como as relações aconteciam. Aos poucos, percebia-se que um

quintal era muito parecido com o outro. Desse modo, mapeou-se o que havia em comum e com

isso o roteiro começou a ser organizado.

Nessa fase, definimos o que entraria no

espetáculo: brincadeiras (queimado,

bolinha de gude, amarelinha, boneca de

pano, pique-congela, brincar de roda,

cê cererê cecê...); casa de avó (a figura

de uma mulher cozinhando ao centro e

os netos ao redor — cena revista no

decorrer dos ensaios); objetos de uso

doméstico (vassoura, peneira, chapéu,

panela, colher de pau); roupas de

pessoas especiais (cada um escolheria

uma peça de alguém especial em sua

vida para dançar com ela); casa de

farinha (parte do elenco vivenciou de

perto essa atividade com seus familiares

que trabalhavam nela); barro (muitos

brincaram na terra se sujando); flores

e/ou folhas (relação com a natureza e

com o saudosismo de um lugar, hoje, já

mais distante).

PROCESSO DE CRIAÇÃO

Daniel Quelemente

Renata Carvalho

Elenco

Eliane de Jesus

Luiz Gustavo Nascimento

Daniel dos Santos

Agda Santana

Anny Beatriz Teixeira

Julia Silva

Isabela Maria

Tainah Santos

Decidiu-se que começariam já em cena e, para isso,

logo foi pensada uma posição identificada como “foto

antiga de família”: aquelas em que os familiares estão

distribuídos na foto com os pais ou mais velhos, ao

centro, e a família ao redor. Essa cena, que dura 10

segundos — em silêncio, com troca de posição — é o

início de tudo. Nela já se mostram os objetos de uso

cotidiano que aparecerão ao longo do espetáculo. 23


A partir daí, as cenas se desenrolam. A sonoridade nordestina com Mestrinho e Krassik ambienta o

trabalho de casa como varrer, lavar pratos, peneirar. Nessas atividades, o elenco abordou essas

ações como coisas que faziam em casa também, especialmente com as mães e avós. Um trecho

da música Festejo de Cobraverde apressa o grupo a guardar esses materiais e então a “cena da

saudade” começa. O grupo vai até as roupas especiais e, em uma coreografia quase toda em

uníssono, dança em memória das pessoas que são tão importantes em suas vidas.

Um trecho do poema Saudade é

chorar sorrindo com o coração

chorando, de Anízio, faz a transição

de cena: as roupas especiais são

colocadas de volta na posição que

estavam. Depois desse momento mais

introspectivo, a animação retorna com

o instrumental Paisagem Nordestina,

de Oswaldinho, que conduz a “cena

dos costumes familiares”, como

tomar banho de rio, trabalhar na

casa de farinha, lavar e pendurar a roupa no varal. Nesse momento, por exemplo, duplas se

formam para a “cena do varal”: uma pessoa é a roupa e o seu par, com movimentos de torcer, pôr

no varal e prender, conduz o corpo à frente, que se movimenta como se estivesse sendo torcido,

pendurado e preso em um varal. A “tal roupa”, depois um vento forte, cai no chão, e cada par

puxa “a roupa” para cima e a coreografia segue para rio.

Era importante também que a voz das pessoas do grupo aparecesse, que fossem trazidos ao

menos trechos de algumas dessas memórias. E escolheram colocar na “cena da avó” falas sobre o

que mais lembravam da cozinha, das comidas. Aqui, nos primeiros ensaios, definiu-se que Isabela

faria a avó, e assim ficou por um tempo, até o dia em que Isabela faltou e Luiz, na brincadeira,

assumiu o seu lugar. E foi uma oportunidade para refletir sobre o papel da mulher, tornando mais

provocativo ter a figura masculina nesse papel — uma posição que, historicamente, sempre foi

feminina, embora homens também devam ocupar. Todos acharam que fazia muito sentido e assim

ficou Luiz até hoje.

24


Claro que a cena das brincadeiras não poderia faltar. Esse tema despertou muita nostalgia no

momento do processo de criação. Nos laboratórios, houve muitas risadas e alegria. E, então, a

primeira música Cordestinos, de Mestrinho e Nicolas Krassik, retorna para ambientar esse momento

mágico. Eliane fala um pouco desse processo de criar com base nos movimentos das brincadeiras:

"As brincadeiras em cena, a gente teve que pensar quais seriam escolhidas. Escolhemos as

brincadeiras de acordo com o que já brincávamos, por exemplo: bolinha de gude, queimado, ioiô.

Depois de ter escolhido as brincadeiras, fomos criando, criando... foi difícil no começo, mas

conseguimos criar movimentações que fossem específicas: no queimado, a gente fazia o gesto da

bola; o ioiô, o braço balançava para cima e para baixo; e, para a bolinha de gude, a gente

agachava e fazia o movimento com o polegar”.

Tudo isso como se esses objetos estivessem com cada um. Assim como foi com o pular corda:

Daniel e Júlia seguram uma corda invisível e os outros pulam, numa coreografia em que uns vão

para frente e outros para trás. Nesse momento, foi inserido também o “cê cererê cecê”,

aproveitando que já estavam em duplas. Uma brincadeira vai dando lugar a outra, mas todas elas

têm dinâmicas e desenhos de cena específicos, numa fluência como se estivessem no parque,

naquela energia caótica que a criança tem.

Para finalizar e trazer a relação com a terra e a natureza, foi escolhido o clássico Tocando em

Frente, de Almir Sater e Renato Teixeira. Aqui o grupo põe as mãos no barro que está nas bacias

de alumínio e o espalha pelos seus corpos. Logo depois, todos pegam os galhos de flores ou

folhas e dançam todos em uníssono. Para este momento, escolheu-se criar a coreografia a partir

dos desenhos das linhas da palavra ESPERANÇA.

O figurino precisava ser simples e colorido, assim

como a maquiagem. As camisas laranjas traziam

a quentura do sol, e isso se estendeu à

maquiagem das meninas. Para as saias, tons

mais fechados, terrosos e noturnos, dialogando

assim com a maquiagem dos meninos.

Os retalhos cobrindo as saias reforçam a ideia

de ligação com o interior, a simplicidade e

alegria. A calça por baixo da saia remete à

forma como as avós de parte do elenco se

vestiam para lavar roupa no rio.

Quintais também é marcado pelos seus objetos cênicos, cheios de significados e memórias,

objetos esses que, no espetáculo, visitam um cotidiano muito presente na vida de muitas pessoas

e, principalmente, muitos lagartenses. Sobre isso, a bailarina Tainah falou um pouco de como tudo

foi pensado e a intenção dos objetos em cena: "São objetos que estão em todos os quintais,

fazem com que lembrem de cada infância, cada vivência, cada experiência. A intenção de cada

objeto é representar cenas do cotidiano: a peneira, a panela e a colher trazem o gostinho da

comida de vó, e o chapéu é sobre o sol de cada quintal".

Quintais tem o poder de emocionar e reviver memórias que nunca serão deixadas para trás,

mostrando como o passado pode ser usado como fonte de riqueza e aprendizado. O espetáculo

inteiro se volta às raízes, a essa herança deixada que passa de geração em geração — essa

cultura rica e viva relembra momentos que não devem ser esquecidos: os nossos quintais.

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Arauto

ENTREVISTA

com Ariel Prata e Ícaro Bruno

ARAUTO E A CONSCIÊNCIA

SOCIAL NA ESCOLA

Arauto é um grupo formado há sete anos por JB, Fernando e Daniel Black, que

uniram suas vozes e talentos. Um trio que conquistou o cenário do hip-hop nacional

com sua sonoridade única e letras impactantes.

Desde sua estreia independente pela gravadora OLD Produções, o Arauto já lançou

um álbum, Escritura Sagrada das Ruas (2017), e três EPs: Em Nome Daqueles Que

Ainda Sangram (2019), Império Diamante (2022) e o mais recente, Rúbricas (2024).

Cada trabalho é um marco na trajetória do grupo, que amadurece a cada

lançamento, sem perder a essência: letras que refletem a realidade das ruas, beats

poderosos e performances enérgicas.

Essa potência honrou o CEPARD com uma roda de conversa sobre o papel

transformador do hip-hop, explorando a história desse movimento, o processo de

composição, bem como seus elementos, sendo o principal deles o conhecimento.

ARIEL - Como suas experiências pessoais e as vivências da sua

comunidade influenciam a mensagem que vocês querem

transmitir através da música?

ARAUTO - Todas as nossas experiências e vivências influenciam

diretamente o que expressamos: seja na música, nas ideias, na

cultura. Tudo vem do que a gente vê, aprende e convive — das

minhas experiências, do Jonathan e do Fernando. Isso nos

influencia de forma total. A gente canta exatamente o que

vivencia. Ou seja, somos autênticos ao falar sobre a nossa

realidade.

ÍCARO - O desafio dessa tarde é aliar um projeto educacional

ao hip-hop. Como é possível fazer essa junção?

ARAUTO - O hip-hop, por si só, já é educação. É 100%

educação. Aprendi com o hip-hop muitas coisas que meus pais

não me ensinaram — não por negligência, mas por falta de

acesso mesmo — e também coisas que nem a escola me

ensinou. Histórias que não estão nos livros. Nesse sentido, o hiphop

salva. Ele me salvou. Não existe hip-hop sem educação. Na

minha visão, minha formação veio quase toda do hip-hop.

ARIEL - Os temas sociais estão sempre presentes no hip-hop, mas vocês já mostraram que podem

falar sobre o que quiserem. Fernando, você disse que, para escrever, é preciso observar a vida. Ou

seja, se fala de tudo. Qual a importância dessa diversidade temática?

ARAUTO - O rap, pra mim — como já falei várias vezes ao falar da paternidade — me ensinou a

perceber a vida em sua complexidade, a olhar com mais atenção pro que acontece ao meu redor,

pro que eu consumo, pra mensagem que é passada em cada verso. As mensagens do rap dos

anos 90 me salvaram. Então a importância disso é imensa, porque o rap não fala só de dor: ele

fala de cura, de superação, de transformação. Fala de salvar vidas. E foi depois do rap que

comecei a me interessar pelos estudos e percebi meu potencial criativo.

26


ÍCARO - Como vocês percebem a evolução do

hip-hop ao longo das últimas décadas? E quais

tendências ou inovações acreditam que moldarão

o futuro do gênero aqui em Sergipe?

ARAUTO - Eu falo aqui como autor, como

formador de opinião. O hip-hop tem muito a

ensinar, muito a mostrar. É uma das ferramentas

mais poderosas de transformação que eu conheço.

Um canal de expressão incrível. O hip-hop tem

quatro pilares principais: a dança (o break), o

grafite (arte visual), o DJ (que comanda os bailes e

apresentações) e o conhecimento. A gente

aprende e ensina com o que faz. Cada elemento

nos educa.

Hoje, o hip-hop é, sem dúvidas, a maior ferramenta

de transformação da periferia no Brasil. E essa

evolução é muito visível. Não só pelo rap — que é a

parte mais conhecida — mas também pelos outros

elementos que despertam consciência coletiva.

Duvido que alguém, hoje, em Sergipe, não saiba o

que é uma batalha de rima. Todo mundo já viu um

MC pegando o microfone pra se expressar. Isso

virou parte da nossa cultura.

As batalhas, por exemplo, são uma prova dessa força. Tem canais no YouTube com milhões de

inscritos: Batalha da Aldeia, Ana Rosa, Coliseu, Batalha da Norte... Tem batalha em todo canto do

Brasil. A Torre, em Salvador, por exemplo, é referência. O mais bonito é ver que hoje o hip-hop é

diverso: homens, mulheres, pessoas trans, LGBTQIA+ — todo mundo encontra no rap uma forma de

se expressar. E há 20 ou 30 anos, essa comunicação era muito mais limitada.

Hoje a gente vê jovens de 12, 13 anos fazendo rap, participando de batalhas, dançando, dando o

melhor de si. Isso virou algo constante. Mas o hip-hop sofreu muito pra chegar até aqui. Minha

percepção é de que, no futuro, o crescimento vai continuar. O rap, que é um dos pilares do hiphop,

hoje é o estilo musical mais ouvido do mundo. São lançadas cerca de 125 mil músicas por dia,

e 40% disso é rap. É um número absurdo.

Com muito trabalho, conseguimos ultrapassar até o rock — um gênero consolidado há décadas,

com bandas clássicas. Mas, nas plataformas digitais, o rap é mais ouvido. E o rap é hip-hop — não

dá pra separar. E esse crescimento só tende a continuar. Hoje está tudo muito acessível. Você

consegue gravar uma música com o celular. Pode baixar um app como o PlayLab, gravar, montar

um vídeo e lançar sua música. Não é um estúdio profissional, mas já é um meio de colocar seu

trampo na rua. A tendência é essa: crescimento e mais protagonismo. O hip-hop é presente. E o

futuro também é dele.

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ARIEL - Como vocês começaram, e o que diriam para quem está começando?

ARAUTO - Eu conheci o Daniel através do rap. A gente começou rimando junto. Um dia, ele me

chamou para escrever uma letra — não era aula nem nada profissional, era só um som para

compartilhar entre a gente e nossos amigos. A ideia de “ser músico” nem existia ainda.

O Jota já tinha um estúdio em casa e já gravava, era visionário. A gente colava lá. Fomos na casa

dele gravar essa música, e aí rolou a conversa: “vamos formar um grupo?”. Até então, eu só fazia

freestyle, nunca tinha gravado nada. Mas ali tudo começou.

Eu pensei: meu ídolo é do rap, e o professor do meu ídolo também. Então só tinha uma

opção: estudar. Estudar para estar no mesmo nível que esses caras. Foi assim que comecei

a aprender e a crescer. A gente vê a realidade mudar quando se dedica, quando curte de

verdade o que faz. Tem que participar: seminários, rodas de conversa, contato com o

público. O rap tem que estar presente desde o começo. Tem que aprender sempre.

Hoje eu posso estar aqui, conversando com vocês, falando da importância da professora, da

convivência na sala, da galera. Isso tudo é importante para a nossa história. Pode parecer

novidade para alguns, mas é real. Já está acontecendo. Para começar qualquer projeto, você

precisa acreditar no seu sonho. Todo mundo fala isso, né? Mas, irmão, o rap — apesar de hoje ser

um caminho para muita gente — não é fácil. Você vai sofrer. Talvez nem se sinta aceito na própria

família.

Graças a Deus, eu não passei por isso. Mas muita gente sofre, é criticada, porque ninguém

entende o que está acontecendo. Não entendem que o rap é muito mais do que falam por aí —

polícia, mídia, sistema. Então, seja bem-vindo. Mas entenda: vão aparecer várias pedras no

caminho. E você vai precisar passar por elas. Cada pedra ensina alguma coisa. Goste do

processo, se apaixone por ele. Estude seus limites. Porque se você não souber até onde pode ir,

nunca vai crescer.

O medo vai vir — isso é fato. Mas você tem que dar um soco na cara dele e dizer: “Eu tô com

medo, mas vou continuar”. Esse é meu conselho. Serve para qualquer um, não só para quem é do

rap. Serve para quem quer começar um projeto, entrar numa faculdade, abrir um negócio, mudar

de vida. Comece — e encare. Viva o processo.

ÍCARO - Muito se fala que o rap salva vidas. Mas e para vocês? Como o rap salvou vocês?

ARAUTO - O rap salvou a gente não com mágica, mas com possibilidade. Porque a realidade da

periferia é violenta, dura. Muita gente pergunta: “Por que o rap fala tanto da polícia, da

violência?”. Isso é o que a gente vive. Quem vem da quebrada sabe. Crescemos num ambiente de

violência institucional. Eu mesmo vi muitas abordagens injustas, fraudulentas. É difícil até explicar

a sensação de estar na porta de casa ouvindo música e ter que ficar atento ao que pode

acontecer. A violência tira sua humanidade.

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Na periferia, a gente carrega a etiqueta de “perigoso”. Essa insegurança não vem do rap, vem da

marginalização que eles impõem sobre a gente. O que o rap faz é transformar essa raiva — uma

raiva justa, a raiva da injustiça. E essa raiva vira música, arte, resistência.

No nosso último show, nos 170 anos de Aracaju, subimos no palco com essa ideia: mostrar que o

rap é identidade. Tinha família, criança, adolescente ali. E a recepção foi surreal. Quando

descemos, fomos chamados para tirar foto — com a polícia. É, com as forças de segurança. Me

convidaram. E eu fui. Porque, dessa vez, partiu de mim também. Foi diferente. E a recepção foi

respeitosa. Não é que vamos esquecer tudo que já passamos por causa de um momento positivo,

mas é importante mostrar que a gente está ali. Que a gente é artista, sim. E vamos continuar

denunciando, sim.

A real é que não tem como falar de violência sem citar sua origem. A gente faz música sobre o

que sofre. Não é ataque, é relato. Tem muita coisa que nem chega à mídia. Mas estamos aqui

para nos posicionar. Como artistas, ativistas, rappers. A gente tem que falar.

ARIEL - Nas letras dos Racionais, por exemplo, a raiva tá muito presente. Mas hoje vocês estão

mostrando que dá pra falar de tudo...

ARAUTO - Essa pergunta é difícil… Porque o hip-hop nasce da marginalização. Ele é uma reação

à exclusão da cultura preta, da cultura periférica. Você citou a raiva nos Racionais — e é isso

mesmo. Aquela raiva era necessária. Era um grito de guerra. Eles vinham dos anos 80 e 90, uma

época de repressão ainda mais pesada. Chegaram a sofrer atentado da própria Polícia Militar.

Então, naquela época, era preciso gritar. Era preciso quebrar as correntes, desafiar.

Hoje, o cenário mudou um pouco, e existe espaço para outras vozes, outras formas de dizer. Tem

gente como o Borges, o Renan... e o próprio Arauto (risos) — com rimas que falam de saúde

mental, de reflexão. Ainda é resistência, mas com outras camadas. O rap continua sendo grito —

só que agora ele também conversa. Ele abraça, ensina, compartilha.

Nossa, velho... Se for pra falar do passado, eu me arrependo de muita coisa. Como já comentei

contigo, precisei passar por várias situações difíceis. Se eu não tivesse vivido tudo aquilo, talvez

nem soubesse quem realmente sou. Fiz muita besteira no passado. Mas, apesar disso, também vi

muita coisa maravilhosa.

29


Na época da escola, por exemplo, eu era bem doido. Estudava no prédio anterior da escola e, pra

entrar na equipe de atletismo — mais especificamente no salto em altura — eu pulava do segundo

andar direto em cima de uma ambulância que ficava lá embaixo! Pulava o muro da escola e ia

direto pra pista de treino. Não me arrependo. Já escapei da morte várias vezes! Aquele prédio era

altíssimo...

Enfim, fiz muita besteira, né? Se eu pudesse voltar atrás, talvez tivesse lido um livro a mais...

Queria ter começado a ler mais cedo. Mas, na escola, incentivavam a leitura de livros muito

difíceis. Aqueles clássicos pesados, sabe? Tipo, um Machado de Assis, forçando a cabeça. Desde

adolescente me forçavam a ler textos supercomplexos. Eu discutia bastante sobre isso — inclusive

com a Dali — por muitos anos.

Fui estudar outras áreas, descobrir outros tipos de leitura. E aí comecei

a gostar de ler. Isso me ajudou muito a me firmar como pessoa. Quanto

mais eu lia, mais eu ouvia, mais vocabulário e gramática eu desenvolvia

— e isso fez toda a diferença nas minhas aulas.

Com o tempo, comecei a descobrir livros que eu realmente gostava. Não estou dizendo que

Machado de Assis não seja importante, nem que a filosofia não tenha valor. Toda matéria na

escola tem sua importância. E, claro, o professor geralmente sabe o que é melhor pra gente. Mas,

às vezes, o que é considerado “melhor” não é o que a gente precisa naquele momento. Não é o

que enche nossos olhos ou toca nosso coração. Como aquilo não fazia sentido pra mim naquela

fase, fui buscar outras coisas. Fui estudar outras áreas, descobrir outros tipos de leitura. E aí

comecei a gostar de ler. Isso me ajudou muito a me firmar como pessoa. Quanto mais eu lia, mais

eu ouvia, mais vocabulário e gramática eu desenvolvia — e isso fez toda a diferença nas minhas

aulas.

Isso já responde aquela pergunta sobre estudar para se profissionalizar, para se desenvolver como

ser humano. A saúde é uma profissão, sim, mas também é um chamado. E todo conhecimento que

a gente adquire deve ser entregue em forma de algo novo, algo útil.

Aprendi a focar melhor. Minha dedicação melhorou. E minha forma de me expressar também.

Porque, se eu quero que você entenda o que estou dizendo, a responsabilidade de ser claro é

minha. Eu preciso estudar para isso. Estudar meus limites, entender o que preciso aprender para

entregar o meu melhor.

30


Um dia me disseram que, para eu me ver, bastava apenas me olhar num espelho.

Porém, quanto mais olho, mais vejo reflexos que não são meus.

Um demonstra ódio — grita comigo, independentemente do que eu faça.

Outro expressa tristeza — chora e lamenta a cada pergunta que lhe faço.

Um, aparenta ser normal e tranquilo, mas, quando me aproximo, desaparece.

No entanto, o outro me chamou a atenção.

Ele me disse:

"Eu quero existir.

Mais que tudo nesse mundo, eu quero viver.

Quero ser real.

Quero ter importância”.

SAMIRA 1ºA

Prisão da perda

Perdi, perdi a única coisa que sabia

Que amava

Que amo fazer

E agora

Palavras

Elas não veem

Se foram

Não voltam

Foram além

Perdido, onde estou?

Sem palavras

Para me guiar

Procuramos as coisas necessárias

Procuramos sempre

Procuramos nos lugares errados

Soleníssima, me dê essa calma na alma

Soleníssima, me dê essa visão

Por isso recito

Por isso vivo

Ou tento

A sua falta, me falta o sono

Suas doutrinas e dogmas me fazem falta

Não sei o que e por onde procurar

Pois tudo me falta

Que minha sina saúda a sua

KIRAYA 1ºC

Perdição

Do meu lar

Do meu libertar

Preso, prisão

Da presa presa

Feita de refém

Da louca

Solidão

Que ficou indefesa

LAMENTÁVEL PALHAÇA / LARA 1ºC

POESIA

Curadoria Kathellen Giovana e Luana Santos 31


Melancolia

É estranho sentir tanto,

quando o mundo parece seco.

As pessoas andam rápidas,

e eu fico preso nos detalhes

que ninguém nota.

Às vezes, choro por dentro

e ninguém percebe.

Não por querer esconder,

mas porque já me tornei silêncio.

Meus pensamentos se acumulam

como poeira debaixo da cama,

e mesmo limpando tudo,

alguma coisa sempre fica.

Eu observo demais,

escuto demais,

sinto demais.

Mas quando tento falar,

as palavras me traem.

Tenho mar inteiro dentro de mim,

Só que ninguém disposto a molhar os pés.

Há dias que minha pele não encaixa direito,

meu reflexo me parece um estranho,

meus sonhos pesam mais que meus ossos.

Eu queria gritar,

mas o grito morre na garganta

como se o mundo não merecesse ouvi-lo.

Talvez eu não seja melancólico,

Talvez eu só esteja cansado

de não me encaixar em lugar nenhum.

LÚCIO 1ºB

POESIA

Curadoria Kathellen Giovana e Luana Santos

32


Bar de desiludidos

Naquele dia

Eu subi na mesa e gritei

“Traz mais uma, garçom”

Ele trouxe

Tinha gosto de…

Desilusão

Olhei ao redor e era um bar cheio de desiludidos

Trabalho

Amigos

E amor

Os desiludidos apaixonados eram os piores

Pediam

Bebiam

E não paravam

Bradavam por seus amores

Que claramente nunca viriam

Todos os malditos apaixonados tinham uma única coisa em comum

Falta de um coração

Todos gelados

Sem sangue

O que a falta de um batimento não faz

O que a falta de quem se ama não faz

Nesse mesmo dia olhei pra mim e percebi que só sou mais um

Observei tanto

Que mal percebi a falta do meu próprio batimento

Observei tanto

Que só depois de muito, percebi que aqui é uma casa de espelhos

Não o maldito bar

Mas se fosse o bar eu ia pedir mais uma.

VITOR ANDRADE 3ºC

POESIA

Curadoria Kathellen Giovana e Luana Santos

33


Os olhos

Aqueles olhos dizem tantas coisas

Coisas que ninguém nunca poderia decifrar

Olhos tão brilhantes que ofuscam qualquer tristeza existente em mim

Olhos que me fizeram ver a melhor versão de mim

Ah, que olhos… daria tudo para apenas fitá-los em silêncio, aproveitando a visão do mar castanho

[que fazem meu coração acelerar

Olhos que me fazem ter borboletas na barriga se tiver que observá-los por mais de 10 segundos

Malditos olhos… olhos que me deixaram presa como um peixe em rede de pescador, que me

[agarraram como uma mãe abraçando seu filho.

E o sorriso, então?

Consigo desenhar cada linha de seus dentes

Sentir a felicidade de risos e sorrisos

A leve batida falha do meu peito que quase sobe em meu esôfago

A necessidade dos meus músculos faciais também querendo se mover em sincronia

Consigo contar cada uma de suas pintas, como uma constelação

A minha constelação favorita, visível dia e noite

Os emaranhados de seus fios, que se entrelaçam uns nos outros

As bochechas crescentes ao sorrir e rir, que me deixam petrificada

O nariz perfeitamente desenhado

Que poderia olhar por horas e falar à beça

Os lábios convidativos que parecem me chamar

Mas apenas é coisa da minha cabeça

Do meu mundo onírico

Parece meio surreal, igual ao pintor, eu digo

Todas as características em conjunto

Formam um belo quadro de linhas e rabiscos

Uma nova Monalisa

O quadro sobre o qual escreveria se fosse poetisa.

CECÍLIA 2ºD

POESIA

Curadoria Kathellen Giovana e Luana Santos

34


TURMA 1ºB

OBRA: A ESTRUTURA DO OLHAR

As obras vieram de dentro da sala de aula, após os alunos do primeiro ano debaterem sobre

conceitos de estética e perfeição na arte. Cada sala criou junta um só quadro, tornando a

experiência criativa e aprendendo a trabalhar em conjunto. O destaque do 1ºB se dá pelo trabalho

em grupo bem executado: o conjunto de cores e elementos resulta em uma imagem criativa, que

desperta o interesse e curiosidade do espectador.

HELOYSA

EXPOSIÇÃO: INTERPRETAR E REFLETIR

A artista apresenta um mural suspenso, como se fosse um céu. Quando visto de baixo, deparamosnos

com frases que geram impacto diferente em cada indivíduo. Outra característica interessante

nesta exposição é a utilização de um elemento recorrente: os olhos. Cada frase é pensada para

que todos aqueles olhares estivessem direcionados ao espectador, como se todos fossem olhos

que já presenciaram algo em alguém ou em si mesmos ao longo da vida. Com a ideia de um

painel suspenso, Heloysa conduz o espectador a apreciar a exposição de um outro ângulo, mais

incomum: para cima. Além de propor a sensação de sempre manter a cabeça erguida, não

importa o que aconteça.

ARTE NA ENTRADA

Curadoria Letícia Lacerda

35


EFÊMERO

EXPOSIÇÃO: CARPE DIEM

João traz com essa exposição uma visão redirecionada sobre a dor. O artista quer levar o público a

enxergar a beleza que existe nos momentos difíceis, acolher esse sentimento que também faz

parte do “viver” e, acima de tudo, entender que o sofrimento, um dia, passa. Tudo isso se alinha

com o nome da exposição, Carpe Diem, que significa “aproveite o dia, não adie sua felicidade”. O

artista também utiliza muita criatividade para compor o painel. De forma espontânea, os materiais

trazidos têm muito a ver com os poemas, usando cores para destacá-los e apresentando elementos

que fazem lembrar de seus amigos.

SAMARA SUSAN

EXPOSIÇÃO: MEMÓRIAS SUSPENSAS

Samara escolheu a dedo seus poemas e fotografias, que expressam fortes memórias guardadas,

manifestadas sem aviso e que tomam conta da madrugada. A artista explora os elementos visuais

a seu favor, como cores, texturas e formas, para compor a identidade de sua exposição. Os jornais

representam sua mente, e as fotos e poemas espalhados fazem referência ao título da obra.

ARTE NA ENTRADA

Curadoria Letícia Lacerda

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TURMAS 2ºA, 2ºB e 2ºC

EXPOSIÇÃO: VANGUARDAS ARTÍSTICAS

Os alunos dos 2º A, B e C tiveram o desafio de criar telas inspiradas nas Vanguardas Artísticas,

vistas em sala de aula. A atividade prática consistiu em usar, além de materiais tradicionais,

texturas e elementos alternativos de forma ousada. As fotos apresentam as criações feitas pelos

alunos do 2ºC, que realizaram um ótimo trabalho, destacando-se não só pelo interessante uso

dos materiais, mas também pelas soluções que encontraram, conseguindo aplicar as

características das vanguardas de modo muito cuidadoso.

Ainda dentro do 2ºC, uma obra se destacou: o quadro inspirado no surrealismo, do grupo formado

por Gabriel Nascimento, Maria Clara Ferreira, Mariana Carvalho e Nicolly Dias. O quadro se

desfaz da lógica ao propor que o tubarão esteja nas nuvens, estimulando a imaginação e a livre

associação de ideias e imagens que exploram o inconsciente e a quebra da percepção da

realidade. A execução da obra revela um grupo engajado em seu fazer no processo criativo,

evidenciado pelo acabamento e cuidado.

ARTE NA ENTRADA

Curadoria Letícia Lacerda

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VÍTOR E DANIEL QUELEMENTE

FRAGMENTOS DE AMOR

O espetáculo Fragmentos de Amor nasceu de um convite

de Daniel para Vitor durante uma aula da Eletiva Poéticas

do Movimento. Eles perceberam que nunca haviam

trabalhado juntos e decidiram criar algo. Ao

compartilharem a ideia com Renata, ela sugeriu um

formato de espetáculo baseado em cenas independentes,

nas quais cada uma contava uma história diferente.

Assim surgiu a proposta de retratar as várias formas de

amor: o cuidado, o amor que machuca, a paixão, a

saudade e até a insistência em um amor que já se

desgastou. Cada cena traz um pedaço desse sentimento,

mostrando que o amor não é único, trazendo perguntas

que não são respondidas, como: “o amor se mede?”, “o

amor dói?” e “o que é o amor?”. Todos os textos são

autorais e construídos com muita entrega. Além das falas,

os passos da coreografia são fundamentais, pois ajudam a

contar essas histórias, transmitindo emoção e significados.

O nome Fragmentos de Amor reflete exatamente isso:

pequenos pedaços, diferentes formas de viver, sentir e

expressar o amor onde o público pode se identificar e

refletir sobre suas próprias vivências.

DEVANEIO A FLOR DA PELE

PÂMELLA FARIAS

Pâmella, ou Ella, carrega consigo a herança musical de seu

falecido pai, seu maior ídolo e fonte de inspiração. Seu amor

pelo jazz é herdado, como um laço que ainda a conecta a

ele. Em Devaneio a Flor da Pele, Ella transforma saudade em

expressão, dor em beleza. A obra mergulha na saudade e nas

memórias que o tempo não apaga, ressignificando a ausência

como presença constante. Com movimentos marcantes e

únicos, iluminação amarelada, que lembra um antigo filme, e

uma estética sensível, Ella borda sua história entre notas

musicais e emoções a flor da pele.

Além da influência do pai, a presença de seu namorado

também ecoa fortemente na obra, onde cada gesto é

memória e cada passo é homenagem.

ARTE NO MEIO

Curadoria Vitória Senna 38


O PALCO ABERTO

VITÓRIA, SOPHIA, SAMARA, ANTHONY, DANIEL, AGDA,

ELIANE, MARINNE, VITOR E RENATA.

O palco era aberto. Sem ordem, sem ensaio, sem

garantias... Só o chão cru, o tempo de cinco minutos e o

risco de se mostrar ali naquele espaço. Na escola, tantas

vezes marcada pelo julgamento, subir ao palco era mais do

que performar — era um ato de coragem! Em um ambiente

que constantemente exige contenção, expor-se é

resistência.

Corpos que se revelaram, vozes que se levantaram e

presenças que não pediram licença. Victória, com apenas

três semanas no Poli, surgiu com uma voz potente e única.

Não parecia estar começando, mas sim voltando de algum

lugar profundo e íntimo. Vitor, com sua escrita singular,

transformou seu corpo em texto vivo. Sofia, entre o medo e

a entrega, trouxe sua doçura na voz. Logo em seguida

tivemos Samara — aquela das palavras sempre benditas —

que não apenas fala, mas atravessa. Daniel, que estreia

dançando um solo — ele que nunca se furta ao risco —

colocou o corpo em jogo com uma entrega crua e

verdadeira. Eliane e Agda trouxeram à cena suas almas

dançantes unificadas num só corpo-presença que

preencheu vazios e tocava quem as via. Anthonny retornou

à cena como quem nunca devia ter saído, seus passos

soavam como um reencontro. Marinne, com seu jeito fofo e

tímido, cantou e se revelou ao público com sua voz calma,

doce e potente. E então, às 13h05, quando os corredores já

pediam volta às salas, quando a rotina chamava... eles

gritaram, chamaram por ela: Renata.

E ela dançou... dançou com a alma, com os poros. Foi mais

do que uma performance — foi presença, foi resposta, foi

afeto em forma de movimento. Todos presentes ali, nem

que seja por um instante, esqueceram as regras; foram

apenas corpos livres num espaço de criação... a arte move.

Ela cura. Ela convoca. Ela revela.

ARTE NO MEIO

Curadoria Vitória Senna

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ENTRE ALTOS E BAIXOS HÁ UM FLUXO CONTÍNUO DE

VIDA

ELIANE

Eliane é uma artista que, há três anos, vem crescendo e

amadurecendo artisticamente dentro da escola. Seu

espetáculo, Entre altos e baixos há um fluxo contínuo

de vida, fala sobre o tempo, que não para, e sobre a

vida, que segue apesar da dor e dos desafios. O

espetáculo reflete os altos e baixos que fazem parte do

caminho chamado “vida”. Mesmo em meio às dores,

sofrimentos, angústias e durezas da vida... é preciso

seguir, sobreviver e, principalmente... viver! Por mais

difícil que seja, é preciso encontrar uma forma de ser

feliz, do jeito que você consegue. Esse trabalho nasce

também da dor, da exaustão e da rotina engessada.

Surge de um momento em que a própria artista se

sentiu sufocada, sem tempo para si, para sua família e

para seus amigos. E, a partir desse incômodo,

transformou sofrimento em arte, dor em expressão e

rotina em poesia.

ARTE NO MEIO40

Curadoria Vitória Senna


OCUPAR ESPAÇOS

Renata Carvalho

ARTE CIRCULAR

Fazer arte na escola é um desafio diário, mas ela acontece por aqui — e muito. Uma das ações

que fazemos é o Arte Circular, que consiste em levar os trabalhos cênicos para outros lugares

além dos pátios da escola. Levar para outras escolas, de Lagarto e outras cidades; levar para

eventos e para onde passar, partilhar e aprender. Nesta 2ª edição da Caracóis, fizemos questão

de falar sobre isso, especialmente porque a agenda da Eletiva Poéticas do Movimento esteve

cheia! Levamos quatro trabalhos para dançar por aí — e para tantos públicos. Além de, é claro,

participar das ações da Escola, como o Concurso de Poesia Falada e o São João do Poli.

Por onde passamos este ano:

I CIRCUITO DE ARTE E CULTURA MOVIMENTE

Linha, laço, cor e nó

Quintais

Amarílis em risco

FEIRINHA GEEK

Quintais

PRAÇA POPULAR

Linha, laço, cor e nó

Quintais

ENCONTRO CULTURAL DE LAGARTO

Quintais

Amarílis em risco

ABERTURA VILA DO FORRÓ NO FESTIVAL DA MANDIOCA

Quintais

SÃO JOÃO DO FREI CRISTOVÃO

Pés no chão, festa no ar

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Alguns dos lugares por onde passamos nos anos anteriores:

GALERIA DE ARTE SESC CÍCERO ALVES DOS SANTOS — VÉIO / 2023

ESCOLA ESTADUAL DR. EVANDRO MENDES / 2023 e 2024

MOSTRA INTEGRADA CIENTÍFICA C.E. DEP. JONAS AMARAL / 2024

CIENART / 2024

ASILO SANTO ANTÔNIO / 2024

FEIRA DAS NAÇÕES DO C.E. PROF. LUIZ ALVES / 2023 e 2024

FESTIVAL DO LIVRO DE LAGARTO / 2023

ABERTURA DO I CONCURSO DE POESIA FALADA E.M. ADELINA MARIA / 2023

ENCERRAMENTO DO CURSO DE GESTÃO DE PEQUENAS EMPRESAS NO C.E. DOM MÁRIO / 2023

ABERTURA DO III ENCONTRO REGIONAL DA JUVENTUDE / 2023

CONFERÊNCIA INTERMUNICIPAL DE EDUCAÇÃO DE SERGIPE / 2021

E seguiremos itinerantes — a espalhar o que aprendemos na nossa escola e a aprender com

outros: em outras escolas, nas praças, nos encontros culturais e com todos que a vida

proporcionar. Afinal, o lugar da arte é por todos os lados.

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DANÇA E TECNOLOGIA: POSSIBILIDADES E PROBLEMÁTICAS

Miguel Santos

Gostaria de começar esse texto com duas provocações: dancinha de TikTok e videodança são as

mesmas coisas? Ambas nascem de momentos de popularização da tecnologia, isso as torna

iguais? Por favor, não pare de ler, continue. Prometo ser coerente.

Na década de 1970, quando surge a videodança, a dança era limitada aos palcos do teatro —

poucos pessoas tinham acesso. Nessa década, também acontece a popularização da TV. Nessa

mesma época de começo da massificação da televisão, surge a videodança, com o objetivo de

tornar acessível a arte, de apresentar outras formas de expressão artística. Tendo em vista isso, a

dança ganha suporte nessa tecnologia, revolucionando o acesso.

O videodança é a junção entre a câmera e a dança; juntos, eles expressam sentimento, criam uma

história. O papel da câmera é compor a coreografia, criar movimentos, ou seja, a linguagem do

corpo e a linguagem da câmera têm o mesmo peso. O uso da câmera é essencial para o criador;

o uso da edição por trás de cada vídeo é base necessária para compor a coreografia. As edições

fazem com que o público enxergue o entrelaçamento entre artista e tecnologia. Com a

tecnologia, o trabalho do coreógrafo pôde alcançar mais pessoas do que ao vivo no teatro. Bem,

se você não conhecia videodança, agora sabe, e aqui inicia efetivamente nossa provocação.

De um lado, vemos no vídeodança uma expressão de arte como em Analivia Cordeiro, bailarina,

coreógrafa, videoartista, arquiteta e pesquisadora corporal. O trabalho de Analivia Cordeiro

articula dança, mídias eletrônicas (computer dance) e videoarte. Um exemplo é o espetáculo

"M3x3", uma versão em low resolution da primeira obra de videoarte brasileira e uma das três

primeiras obras de computer-dance mundiais feita em 1973, processada no Centro de

Computação da UNICAMP e gravada nos estúdios da TV Cultura de São Paulo.

Por outro lado, temos o TikTok, uma das maiores plataformas de vídeo, com grande estímulo ao

baixo esforço para a compreensão de qualquer tema. Aqui, vou ser categórico: dança de TikTok

não é arte, não pode ser considerada como arte. Isso por um motivo claro: há falta de essência

em cada vídeo. Os principais vídeos são as “dancinhas”, como são chamadas. Quem usa a

plataforma o faz por optar por conteúdos fáceis, rápidos e virais, diminuindo e desvalorizando o

trabalho de quem faz videodança. Ele só existe por conta da popularização das câmeras, assim

como, antes, a popularização da TV massificou a produção cultural, ficando sem essência, sem

alma – e o TikTok segue no mesmo caminho.

As tais “dancinhas” não geram um sentimento de curiosidade no espectador. Isso porque já

sabemos qual será o próximo movimento, enquanto, no videodança, não sabemos qual será o

próximo movimento ou gesto do corpo. Enquanto para a videodança, a câmera e a edição focam

naquilo que não paramos para olhar no dia a dia, no TikTok eles são objetos de captação e

manutenção de audiência, pois os produtores de conteúdo muitas vezes copiam o que já existe.

Depois ter dito tudo isso só posso reafirmar: dancinha de TikTok não é arte, e sim uma estratégia

de reproduções sem essência para atingir likes —seja para monetizar, seja para atender ao ego de

quem faz.

ARTE E

TECNOLOGIA

43


Participei de alguns dos espetáculos produzidos pela professora Renata, amiga de longa data.

A minha experiência se baseia em sentimentos que não são expressados habitualmente, mas nos

detalhes de cada parte desses espetáculos; deixei amor e angústias que estavam trancadas e,

sutilmente, criei meu novo "eu", cheio de esperança, sensibilidade e força.

Karoline Carvalho

A arte me curou da ansiedade. Desde 2023, quando aprendi a tocar percussão, eu

comecei a ter os primeiros contatos com essa linguagem. Em 2024, compus minha

primeira música; nisso, meu contato com a arte aumentou muito. Eu era bastante ansioso

de 2022 a 2023, tinha crises de ansiedade frequentemente, e a arte chegou em minha

vida como um ombro amigo e um cafuné bem feito. Fui me aproximando das artes e

descobrindo como eu poderia me encaixar nesse meio. Desde 2023, eu fui adentrando

cada vez mais nesse universo artístico, aprendendo mais e a ser uma pessoa melhor

através da arte, e me tornando um artista. Hoje, com a ajuda da arte e da energia do Axé

Music, sou um artista percussionista avançado e compositor musical.

Essa foi a forma como a arte mudou minha vida e minha trajetória.

Guilherme Fonseca :)

A literatura fez com que eu me abrisse

para novos mundos, me ajudou na

concentração e até mesmo na minha

vida acadêmica.

Sueli vitória

Foi engrandecedor estar com vocês nesse

projeto. Aprendi muito nessa tarde, mesmo

estando na posição de quem ensina. Toda a

minha gratidão a vocês do CEPARD pela

recepção e acolhimento.

JB (Arauto)

A literatura me permitiu transbordar tudo aquilo que não soube expressar totalmente em

palavras diretas. Por meio dela, pude me reconhecer nas coisas que criava e acabei

percebendo quem realmente almejo ser como pessoa. Ao observar as diferentes escritas de

diversos autores, percebi que não sou um empecilho para a minha própria vida, sou apenas

humana. E, mesmo com erros e momentos que poderiam me deixar mal, continuo lidando com

as coisas de forma positivamente humana, evoluindo constantemente por meio das

informações e reflexões que recebo dos outros. Isso tem me proporcionado um maior senso

das experiências de cada pessoa e me tornado alguém melhor, tanto para mim quanto para

os outros.

Samira Lanne

DEPOIMENTOS

44


Charlinho divo♥

Desde novinha, eu amo pintar, desenhar e dançar. Sempre tento melhorar no que eu faço.

Quando eu danço, me traz uma paz; você esquece de tudo e foca só naquilo, nos passos,

nos giros. O ballet me fez chegar a lugares incríveis, a medalhas, viagens. Na pintura, eu

sempre pedia para minhas irmãs imprimirem desenhos para eu pintar, de bonecas, princesas

e até de desenhos animados. Sempre gostei das cores e aproveitava bastante. Bom, o

desenho... quando eu olho para os meus desenhos antigos, eu falo: "Meu deus, como eu

melhorei, viu!". Juro, mudei bastante, pegando ideias, ajuda na internet, sempre tentando. Já

me estressei muito quando eu queria o desenho de um jeito e ficava de outro, mas nunca

desisti, apenas melhorei. Eu gosto demais e amo costurar também, minha avó me ensinou

bem. Espero seguir naquilo que quero: ser designer de moda. Então é isso, beijos! ♥

Kathellen Vitória dos Reis

Dia inesquecível!!! Agradeço imensamente o convite. E, por mais que tenha sido nossa a

apresentação, acabei aprendendo muita coisa. Perceber aqueles olhos fixados em nossas

falas acabou abrindo vários horizontes para fazermos mais projetos como este.

Fernando (Arauto)

A arte, pra mim, sempre foi mais do que um simples passatempo. Ela chegou como

abrigo e uma forma linda de tornar melhor aquilo que, às vezes, pesa demais. Ela me

ensinou que existe beleza até naquilo que consideram imperfeito ou no que, de

imediato, não é entendido. Agradeço muito pela arte existir, fazendo-me viver e

experimentar a vida de maneira mais crítica. Sempre quando vivencio essa diva da

arte — seja praticando ou apreciando — é como se eu atravessasse portas invisíveis.

Sinto-me em um novo universo dentro de mim, onde tudo ganha possibilidades e faz

sentido. Resumindo, a ARTE é uma mini querihdan que eu amo muitoouuuuu!

A literatura me provoca, me transforma, me faz questionar e também acalmar. Cada

história que leio deixa marcas, me empresta outros olhos, outras formas de enxergar o

mundo e a mim mesmo. Essa tanti me lembra que a vida não é feita só de fatos, mas

também de interpretações, de sentimentos, de tudo aquilo que não se vê, mas se

sente. Ela me leva pra lugares que nunca fui, me faz sentir coisas que nem sabia que

estavam aqui dentro. Às vezes, um simples parágrafo me faz fechar o livro, olhar pro

nada e pensar: “Gentéh… isso me providenciôô, me refez, me deixou pensando na vida

inteira, me fez parecer um tanti reclamão”.

DEPOIMENTOS

45


Amo arte. Adoro arte. Para mim, música é a maior forma de arte. Simplesmente, a música

consegue unir as pessoas; na música se depositam sentimentos. Então, em várias situações, a

música consegue me ajudar a pensar em como agir, como reagir a certas situações, ou até

superar desafios de maneiras mais simples. É nessa forma de arte que eu encontro refúgio,

encontro outro mundo para poder fugir. Absorvo informações importantes e deixo a realidade

de lado para poder viver no outro lado. A música também ama.

Mi

O encontro sobre hip-hop do grupo regional Arauto foi incrível. Eles não só falaram,

mas viveram a música ali, explicando as origens do rap. Aprendi que o hip-hop é uma

ferramenta poderosa para expressar ideias. As histórias pessoais dos integrantes

tornaram tudo mais real, mostrando o impacto cultural desse estilo. Foi uma

experiência muito inspiradora. A palestra sobre poesia slam foi bem interessante. As

palestrantes, que eram do meio, não só definiram a poesia falada, mas a

apresentaram. Elas falaram das origens do slam, mostrando como esse movimento

ganhou força. Compreendi o papel do slam na manifestação e crítica social. A

palestra me mostrou a importância dessa arte.

Maria Isabelly Reis Oliveira

A arte sempre me trouxe a sensação de estar em casa, de estar no lugar certo. Desde bem

pequena, até hoje, a arte me move a lugares incríveis, me faz conhecer pessoas incríveis. Dançar,

pra mim, é como se eu estivesse no céu, brilhando juntamente com outras estrelas! A arte sempre

estará presente em mim, e quero que chegue a muitas mais pessoas.

A arte me faz querer ser quem eu sou e me mostra muito mais o meu lugar!

Tatah

É até difícil falar de somente um projeto no Poli, mas vou falar de um dos meus favoritos,

que é o Arte no Meio. É um projeto simplesmente incrível e inexplicável. Ver aquela sala de

arte se tornar um palco sagrado para quem pisa ali, tanto como artista quanto como

público, é mágico. A sensação de presenciar cada espetáculo, show, apresentação, é

simplesmente surreal. É um amor e vontade por mais que não dá pra explicar. Pena que

são só 30 minutos, porque sempre fica um gostinho de quero mais.

Daniel

DEPOIMENTOS

46



A EQUIPE

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