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107 | Business Talks - GovTech Saúde

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Set.

#107 2025

Executive Breakfast


Business Talks | GovTech Saúde

Saúde pública digital:

futuro do SNS já começou

Da app SNS 24 à monitorização remota e à inteligência

artificial, a tecnologia já está a mudar o SNS. Mas o futuro

exigirá mais interoperabilidade, dados e sustentabilidade.

Assim como uma gestão da mudança eficaz.

O Com mais de 12 milhões de downloads,

segundo dados de julho último, a aplicação

móvel SNS 24 é um claro exemplo da forma

como a Saúde pública está a dar passos na

digitalização dos cuidados prestados aos

portugueses e a apostar na transformação

digital. Agora com uma nova versão, graças

a um investimento superior a 1,5 milhões de

euros, vindo do PRR, a app e o portal SNS 24

têm novas funcionalidades, uma navegação

mais simples e maior autonomia na gestão

da saúde pelo utilizador.

Mas se a mudança no Serviço Nacional de

Saúde (SNS) está em marcha, impulsionada

por investimentos sem precedentes,

graças à oportunidade de financiamento

do Plano de Recuperação e Resiliência

(PRR), persistem também muitos desafios.

Da atualização de infraestruturas ainda

obsoletas até à complexa gestão da mudança

organizacional, o caminho antecipa-se ainda

longo e com percalços. É que se a tecnologia

já está a mudar o status quo, o sucesso

dependerá da capacidade de transformar

processos, envolver profissionais e garantir

que a inovação gere um valor efetivo para

os cidadãos e para o sistema. Estas foram

as principais conclusões do “GovTech Saúde:

Inovação Digital no SNS”, um pequenoalmoço

executivo organizado pela APDC,

em parceria com a Huawei.

No encontro, que reuniu os principais

responsáveis do setor para discutir o futuro

da saúde pública em Portugal, Rogério

Carapuça, Presidente da APDC, relembrou

na abertura o “paradoxo de Solow” para

ilustrar que a mera introdução de tecnologia

não garante um aumento de produtividade.

A verdadeira transformação digital reside na

“mudança organizacional com tecnologia”,

um processo que exige tempo, formação e

uma redefinição dos processos de trabalho.

“Não é por se introduzir tecnologia que as

organizações ficam mais produtivas. Há

muita coisa a fazer para que isso aconteça.

As pessoas têm de ser formadas, têm que

aprender a utilizar as novas tecnologias e

os responsáveis da organização têm que

pensar como é que devem ser os processos

de negócio, dado que existe aquela

tecnologia”, salientou. Por isso, considerou

eventos como este fundamentais para ver

o que está a acontecer no terreno, o que

estão as organizações a fazer para tirar

partido da tecnologia, quais os problemas

que de levantam a quem lidera o processo e

como promover a colaboração e potenciar a

mudança de forma massiva.

TRANSFORMAR PARA GARANTIR

SUSTENTABILIDADE

No debate que se seguiu, ficou claro que,

apesar de todos os entraves e problemas,

não há outro caminho: só abraçando a

transformação digital é que se conseguirá

garantir um sistema eficiente e sustentável.

Mais aposta em dados clínicos estruturados

e interoperáveis, através do Datalake em

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Casa cheia neste segundo GovTech APDC, em parceria com a Huawei. Em

debate esteve a transformação digital de um dos setores mais relevantes

para os cidadãos, assim como os desafios e as oportunidades de um processo

considerado desafiante por todos os intervenientes.

construção. Expansão do Registo de Saúde

Eletrónico, alinhado com o Espaço Europeu

de Dados de Saúde, até 2029.Utilização

crescente da IA na triagem, monitorização

remota e apoio ao diagnóstico, com exemplos

já em curso em áreas como a diabetes e

oftalmologia. Necessidade de assegurar

sustentabilidade financeira e adaptação

organizacional, com impacto direto na

formação e reconversão de profissionais.

Estes foram algumas das frentes onde ficou

claro que é preciso avançar.

NA SPMS – Serviços Partilhados do Ministério

da Saúde, há muitos investimentos em

curso, com destaque para a renovação da

infraestrutura do SNS, a modernização

dos postos de trabalho e a evolução dos

sistemas centrais. Sandra Cavaca, presidente

desta entidade, Presidente do Conselho

de Administração da SPMS, destacou os

projetos da Rede de Informação da Saúde

Next Generation (RISNextG), que representa

um investimento de cerca de 24 milhões de

euros, a modernização dos sistemas core da

Saúde ou a expansão da Agenda 2.0.

“Durante cerca de 20 anos, vamos ser

simpáticos, pouco ou nada se fez de

investimento substancial na área da saúde”,

referiu a gestora, considerando a RISNextG

como um enorme desafio, dada a rede

interna nacional do SNS. Em paralelo, está a

avançar-se com a modernização dos postos

de trabalho, sendo que o processo começou

pelos cuidados de saúde primários. Agora,

e tendo em conta as mudanças entretanto

ocorridas na organização do setor, está em

curso o levantamento de necessidades junto

das ULS para se avançar.

Já a modernização dos sistemas core,

com o SONHO V2, está e preparação a

migração, apostando-se em módulos.

Os primeiros serão as áreas de urgência,

consultas e cuidados continuados. Sendo

que ainda falta integrar nos sistemas base

três hospitais centrais: Santa Maria, Loures e

Amadora. Depois deste processo, “tudo será

mais fácil em termos de interoperabilidade”.

Já para o cidadão, esta responsável destaca

o Portal Tempos de Espera, também

renovado recentemente, e que disponibiliza

ao cidadão, num único local, informação

sobre os tempos de espera em serviços

de urgência e o tempo de resposta para

consultas e cirurgias programadas, por

instituição.

Outro projeto de grande relevância é o

Datalake, que permitirá a utilização de

dados primários e secundários para a

investigação e a melhoria dos serviços. A

interoperabilidade dos sistemas e a partilha

de dados com os setores privado e social

são outros dos grandes objetivos, alinhados

com o Regulamento do Espaço Europeu

de Dados. E Sandra Cavaca admite que


Business Talks | GovTech Saúde

Da atualização de infraestruturas ainda obsoletas do SNS até à complexa

gestão da mudança organizacional, o caminho antecipa-se longo. Os líderes

da SPMS, ACSS, INFARMED e ULS de Coimbra consideraram, num debate

moderado por Sandra Fazenda Almeida (APDC), que o sucesso da mudança

dependerá da capacidade de transformar processos, envolver profissionais e

garantir que a inovação gera valor efetivo.

algumas coisas se atrasaram: “A contratação

pública é uma coisa difícil para nós”. E

mostra-se preocupada com o pós-PRR

e com a sustentabilidade de todos estes

projetos.

EXEMPLOS DE EXCELÊNCIA

E qual é a perceção de quem está no terreno?

Alexandre Lourenço, Presidente do Conselho

de Administração da ULS de Coimbra, não

tem dúvidas da necessidade de adaptar

o SNS às novas realidades demográficas

e epidemiológicas. Comparando o SNS a

uma ponte construída para um rio que,

entretanto, mudou de curso, defende

a urgência de uma transformação que

coloque o cidadão no centro do sistema.

“Construímos um sistema de saúde

legacy, que essencialmente está muito

vocacionado para as condições agudas. Mas,

hoje, as expectativas e as necessidades da

população são muito diferentes do sistema

que nós criámos”, e há uma necessidade

de transformação digital. O problema

é que é um dos setores mais atrasados

nesse processo. “Existe muita resistência

a qualquer tipo de mudança neste setor”,

considera.

Na Unidade Local de Saúde de Coimbra,

que agrega oito unidades hospitalares e 69

unidades cuidados de saúde primárias, com

cerca de 10 mil trabalhadores, fazendo-se

diariamente 10 mil consultas e cerca de 250

cirurgias. “Estamos a falar de uma operação

logística bastante complexa e pesada”, refere

Alexandre Lourenço, até porque há áreas e

especialidades onde são o único prestador a

nível nacional, o que alarga ainda mais a sua

área de influência.

“É evidente que transformar este tipo

de organização, e particularmente uma

organização pública, é complexo. Deve

ser feito, do ponto de vista de governação,

numa lógica de envolvimento de todos os

atores”, explica, para mostrar que o processo

de mudança está em marcha. Assim, foi

definido um plano estratégico até 2030, que

assenta em três eixos prioritários: Identificar

os cuidados hospitalares que podem ser

prestados em casa ou na comunidade e

iniciar o processo de transferência; planear

as ações de digitalização de todas as áreas

analógicas da ULS; e investir cada vez mais

na prevenção, ao invés do foco na doença.

O gestor admite que se trata de “um

plano bastante ambicioso, mas que

tem um conjunto de instrumentos de

acompanhamento, implementação e

monitorização”. O processo exige ainda um

grande envolvimento interno e alterações

substantivas do modelo de governação,

mesmo nas áreas de tecnologias, para

a qual foram criados um departamento

de experiência do doente e de um

departamento de transformação digital.

E já há muitas iniciativas a serem

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Rogério Carapuça, presidente da APDC, salientou na abertura que é crítico

garantir uma “mudança organizacional com tecnologia”. Já Sandra Cavaca,

presidente da SPMS, destacou os projetos estruturantes que estão já em curso

para esta transformação digital da Saúde.

implementas, com respostas integradas

centradas no cidadão, como o

desenvolvimento dos percursos clínicos

digitais do paciente ou instrumentos de

monitorização remota, nomeadamente

de pacientes com diabetes, utilizando

ferramentas de IA. Diariamente, a ULS

acompanha e ativa as suas respostas com

a informação disponível e de acordo com

as situações em concreto, para potenciar

as melhores respostas possíveis. Uma

estratégia que, por exemplo, já reduziu o

número de idas às urgências, assim como o

tempo de triagem e a permanência total do

paciente no serviço.

Esta ULS está ainda a desenvolver um

trabalho extenso na área dos dados. Assim,

já tem os dados dos cuidados hospitalares

e primários harmonizados, numa lógica

omnicanal, o que permite desenvolver

algoritmos preditivos. O projeto dispõe

de mais de sete milhões de euros de

financiamento do Horizonte Europa, sendo

Coimbra uma das organizações a nível

europeu que testa mais algoritmos de IA

neste momento.

INOVAÇÃO VS INVESTIMENTO:

EQUILIBRIO COMPLEXO

Mas, numa perspetiva nacional, é imperativo

saber como equilibrar a inovação tecnológica

na Saúde com a sustentabilidade, garantindo

modelos de negócio que funcionem. O

problema é que não há certezas, como

alerta André Trindade, presidente da ACSS –

Administração Central do Sistema de Saúde,

entidade que tem como missão assegurar

o planeamento e gestão dos recursos

financeiros do SNS.

“Não podemos ter sempre o topo da

inovação terapêutica e tecnológica em

simultâneo. É essencial medir o custoefetividade

e garantir modelos de negócio

viáveis. Há que saber fazer escolhas”, diz.

Essa é a competência da ACSS: “fazer os

checks and balances entre aquilo que é a

ambição legítima e desejada por todas as

instituições e aquilo que é possível com os

recursos que temos, com a limitação do

envelope financeiro disponível. É muito fácil

adotar uma determinada terapêutica ou

uma determinada tecnologia, mas temos de

perceber qual é o modelo de negócio que aí

vem”.

Destacando que neste painel de debate

está toda a cadeia de inovação do SNS

representada – “temos quem pensa as

soluções, quem as avalia, quem autoriza

que elas entrem no mercado e quem as

testa e dá o feedback” - considera que

a transformação não pode ser apenas

digitalização de processos burocráticos,


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Alexandre Lourenço, presidente da ULS de Coimbra, que participou

remotamente, não tem dúvidas da necessidade de adaptar o SNS às novas

realidades demográficas e epidemiológicas. Defende a urgência de uma

transformação que coloque o cidadão no centro do sistema.

mas sim uma verdadeira simplificação

e reorganização. O que não é fácil, em

organizações tão complexas como são, por

exemplo, os hospitais, “onde tudo acontece,

incluindo a inovação”.

“Tudo isto tem um preço. Estamos a falar

de um orçamento de 14 mil milhões de

euros para o SNS, que há poucos anos era

de nove mil milhões. Toda a componente de

inovação, seja terapêutica, seja tecnológica,

deixa sempre um lastro, quando se passa

de CAPEX para OPEX. É a velha história,

a questão do custo-efetividade e da

comportabilidade”, comenta.

Enquanto regulador do mercado de

medicamentos e produtos de saúde,

o Infarmed também desempenha um

papel essencial no SNS. Tanto em termos

de relacionamento com a indústria

farmacêutica, como na atuação no sistema

de saúde dos cidadãos. Rui Santos Ivo,

presidente do Conselho Diretivo, diz que têm

vindo a reforçar a capacidade do regulador

em recursos humanos e na adoção de

ferramentas tecnológicas e de utilização de

dados: “Temos que simplificar os processos e

torná-los mais eficazes e efetivos para quem

servimos, nomeadamente para as empresas,

e responder ao sistema de saúde”.

Acresce que o Infarmed está inserido num

sistema europeu, nomeadamente por via da

Agência Europeia de Medicamentos, sendo

norteado por uma estratégia europeia

conjunta, que aposta na digitalização,

nos dados e na IA. No âmbito das suas

responsabilidades, nesta “dupla função,

nacional e europeia”, já está a desenvolver

alguns projetos. Mas o seu líder diz que

a falta de competitividade em termos de

captação de talento especializado prejudica

os planos.

Ainda assim, estão a introduzir instrumentos

de monitorização e previsibilidade, para evitar

a falta de medicamentos no mercado, assim

como a fazer desenvolvimentos tecnológicos

em áreas como a farmacovigilância. E a

reforçar na área da avaliação clínica dos

novos medicamentos e dos novos efetivos

médicos, que vai passar a ser feita também

em conjunto a nível europeu. “Há que criar

condições para que o sistema, de facto,

possa funcionar. E aí a tecnologia pode ser

uma aliada enorme da nossa capacidade. Se

conseguimos dispor de mais informação e

um sistema mais inteligente, podemos ter

capacidade de fazer também uma alocação

de forma mais efetiva”, refere.

O caminho passa não só pelos elementos

tradicionais, como a avaliação das

tecnologias de saúde, em termos de

custo-efetividade, mas por introduzir um

sistema de saúde mais inteligente, com

mais informação. E colocar a IA ao serviço

de gestão desses dados. É que o Infarmed

emite, anualmente, cerca de 10 mil atos

de licenciamento de medicamentos, mais

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André Trindade, presidente da

ACSS: “é imperativo equilibra a

inovação tecnológica na Saúde

com sustentabilidade”.

Rui Santos Ivo, presidente do

INFARMED: “temos que simplificar os

processos e torná-los mais eficazes e

efetivos para quem servimos”.

de mil de inspeções, mais de cinco mil

de autorizações de medicamentos, entre

outros. E o gestor garante haver “um espaço

enorme onde, claramente, se pode criar

eficiência no sistema”.

O tema do Regulamento Europeu dos

Dados em Saúde, que entrou em vigor a

26 de março, tendo uma aplicação geral

prevista para 26 de março de 2027. Mas

a verdade é que a sua operacionalização

será feita até 2029, avança Sandra Cavaco.

Nesse sentido, a SPMS já avançou com a

criação de um grupo de trabalho, que já

está operacionalizado, sem perder o que já

tinha sido feito, e que junta os players de

saúde públicos e privados, assim como as

associações representantes dos doentes e o

setor social.

“Mas este é um desafio que temos até

2029, porque na verdade se trata de um

regulamento de mercado. Portanto, todas

as empresas tecnológicas que operam na

área da saúde vão ter que se adaptar, o que

exigirá alguma capacidade de investimento

por parte de cada uma das empresas. É um

desafio, porque ninguém pode ficar para

trás. Por outro lado, 2029 é já ali. E a SPMS

é algo complexa, porque não estamos a

começar do zero, é um comboio que vai

em andamento. Só há cerca de um ano

é que estamos a trabalhar com base no

regulamento do espaço europeu de dados”,

explica. E destaca um outro grande desafio,

que é o da implementação do Datalake,

considerado uma infraestrutura essencial

para a investigação na saúde. O projeto

está alinhado com os objetivos do Espaço

Europeu de Dados de Saúde e prepara o

país para um novo paradigma na gestão e

partilha de informação em saúde.

Os desafios são, como ficou evidente, muitos

e complexos. Há resistência à mudança e

falta de interoperabilidade entre sistemas, a

sustentabilidade financeira pós-PRR é uma

preocupação, assim como a necessidade

de garantir a segurança e a privacidade

dos dados. Mas se estes são obstáculos a

superar, a verdade é que as perspetivas são

animadoras. É que a tecnologia oferece

a oportunidade de criar um SNS mais

eficiente, mais próximo do cidadão e mais

capaz de responder aos desafios do futuro.

Sendo certo que a colaboração entre os

setores público e privado, a aposta na

formação dos profissionais e a criação de

uma cultura de inovação são fundamentais

para o sucesso desta transformação.


Business Talks | GovTech Saúde

Reportagem

Reportagem

fotográfica

Veja o vídeo

do evento aqui

digital business

community

o UPDATE tem como objetivo disponibilizar informação estruturada sobre cada uma das iniciativas promovidas pela APDC.

Pretemde-se facilitar, a todos os interessados, um arquivo com os conteúdos mais relevantes de cada evento, que poderá ser

consultado em www.apdc.pt

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