Paginação calçada portuguesa
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1
2
Créditos
designer
João Pedro Cavaco
Caetano
Organizações
Escola de Calçada da
Portuguesa
Câmara Municipal de
Lisboa
3
“Uma arte
e que
muit
pisa
4
os
m
Dinis de Abreu
Diário Popular
1965
5
16
Introdução
6
6
8
História
10
Icónicos
Calceteiro
18
Calçada
20
Material
22
34
Visuais
da calçada
24
Calçada
portuguesas
pelo mundo
Uma arte
30
no chão
32
Mestre
Património
7
Introdução
A arte da calçada
portuguesa, pouco vista
com olhos de ver, é uma
forma de pavimentação
de passeios que se
encontra em muitos
países, sobretudo nos
lusófonos. Conhecida
como um dos principais
ícones da cultura de
Portugal, logo chamada
de calçada portuguesa,
este estilo tradicional
de pavimentação eleva e
engrandece os espaços
pedonais.
São passeios e
praças com o chão de
intrincados mosaicos,
feitos de pequenas
pedras meticulosamente
dispostas para formar
padrões e até imagens
vívidas. Pois não serve
apenas para caminhar; é
uma viagem visual sob
os nossos pés.
Além fronteiras
de Portugal, encontra-
se esta arte que tem
como objetivo adornar
as ruas, por exemplo em
Olivença e por todas
as antigas colónias
portuguesas.
A habilidade dos
artesãos portugueses
na criação destes
pavimentos
deslumbrantes é de tal
forma reconhecida, que
são até procurados em
locais como Gibraltar.
É encontrada a
embelezar passeios,
em grande escala, nas
praças e átrios, onde
realmente brilha como
forma de arte. Outro
exemplo impressionante
é a representação
de Santa Isabel de
Portugal em Coimbra,
um testemunho da
beleza só alcançável
com o contraste entre
o basalto preto e o
calcário branco.
8
9
9
História
A calçada
portuguesa, tal como a
conhecemos hoje, é um
exemplo singular de como
o design pode emergir da
interseção entre função,
estética e cultura.
Apesar da sua
consolidação como
linguagem visual urbana
no século XIX, a sua
génese está enraizada
em práticas muito
anteriores, nomeadamente
nas soluções
construtivas do Império
Romano.
Os romanos, ao
desenvolverem redes
viárias extensas
por todo o império,
introduziram técnicas
de pavimentação com
pedras talhadas,
encaixadas manualmente
com precisão. Estes
sistemas, além
de resistentes,
apresentavam já uma
preocupação com a
composição rítmica e
modular das superfícies
— conceitos que
se cruzam com os
fundamentos do design
contemporâneo.
Esta herança técnica
manteve-se de forma
latente durante
séculos, até que, em
1842, em Lisboa, se
assistiu ao ponto de
viragem que define a
identidade visual da
calçada portuguesa.
Sob orientação do
Tenente-General Eusébio
Furtado, o pátio do
Castelo de São Jorge
foi intervencionado
com um novo tipo de
revestimento: pequenas
pedras de calcário
branco e basalto
negro foram aplicadas
manualmente, formando
padrões geométricos com
forte impacto gráfico.
Este projeto marcou
não só uma inovação
estética no espaço
público, como também a
institucionalização de
uma linguagem visual.O
êxito dessa primeira
aplicação levou,
poucos anos depois, à
criação de uma obra
de maior escala e
expressão simbólica:
a calçada da Praça do
Rossio, finalizada em
1849.
Com o padrão
ondulado “mar
largo”, inspirado no
movimento das ondas
do Atlântico, Lisboa
ganhava uma nova
paisagem sensorial
onde o chão comunicava
uma narrativa
identitária.
10
Este gesto projetual é
profundamente ligado
ao design enquanto
prática cultural — um
exercício consciente de
representar o espírito
nacional através da
superfície urbana.Ao
longo do século XIX,
este modelo expandiuse
por várias cidades
portuguesas, tornandose
parte integrante do
tecido visual urbano.
A calçada portuguesa
passou a ser entendida
não apenas como
elemento funcional,
mas como dispositivo
gráfico em escala
arquitetónica, capaz de
representar símbolos,
histórias e valores
culturais através da
composição modular
de pedra.As mãos dos
calceteiros tornaramse
mediadoras entre a
tradição construtiva e
a linguagem visual do
espaço público.
A sua disseminação
pelos territórios do
império português —
como o Brasil, Angola,
Moçambique, Cabo Verde e
Macau — reforçou o seu
estatuto como exportação
cultural e estética.
Em cada contexto, os
padrões adaptaram-se ao
ambiente local, mas a
matriz visual mantevese
inconfundível. Assim,
podemos entender a
calçada portuguesa como
um sistema visual de raiz
clássica, reinterpretado
no século XIX como um
projeto de design urbano
identitário, funcional
e simbólico, com uma
forte componente de
storytelling visual.
11 11
Icónicos
A calçada portuguesa é
um símbolo emblemático
da cultura e História
de Portugal, presente
de norte a sul, em
cidades como Lisboa,
Porto, Sintra e
Funchal. Este elemento
de pavimentação, com
padrões geométricos
característicos,
representa não só a
herança portuguesa e
a ligação com o mar,
mas também a identidade
local de cada região.
Funciona como um
elemento decorativo e
funcional, enriquecendo
a paisagem urbana e
reforçando a memória
histórica de cada
cidade. Mais do que uma
simples pavimentação,
a calçada portuguesa é
um património cultural
de valor, preservando e
transmitindo a cultura
de gerações passadas
enquanto se adapta
ao ambiente urbano
contemporâneo.
12
Praça do Rossio
A Praça do Rossio (ou
Praça D. Pedro IV) é
uma das praças mais
emblemáticas de Lisboa,
localizada no coração
da Baixa Pombalina.
Com uma história rica,
foi palco de eventos
importantes, como festas
e execuções públicas,
e foi reconstruída após
o terremoto de 1755.
A praça é cercada por
edifícios históricos
de estilo pombalino e
neoclássico, incluindo
o Teatro D. Maria II,
o primeiro local onde
foi aplicada a calçada
artística portuguesa .
A calçada portuguesa da
praça, com seu padrão
ondulado, é uma das suas
características mais
marcantes, embelezando
o local com o seu
design geométrico. A
praça também é um ponto
turístico central,
cercada de cafés
e lojas, e é muito
frequentada por locais e
turistas. A estátua de
D. Pedro IV no centro,
homenageia o monarca
consolidando ainda mais
a importância histórica
da praça.
13
Icónicos
Praça do Município
A Praça do Município é
uma praça histórica localizada
no centro de Lisboa, próxima da
Câmara Municipal de Lisboa. É
uma área de grande importância
arquitetónica e cultural, com
destaque para a sua calçada
portuguesa, que apresenta
padrões geométricos refinados e
complementa o ambiente elegante
da praça. A praça é cercada por
edifícios de estilo neoclássico
e está próxima de outras áreas
turísticas da cidade, como a
Baixa Pombalina.
A Câmara Municipal, situada na
praça, é um edifício imponente
que destaca a importância
administrativa do local.
A praça, além de ser um ponto
de passagem e encontro, também
tem um significado histórico,
sendo parte do desenvolvimento
urbano de Lisboa após o
terremoto de 1755. É um espaço
de grande movimento, com um
ambiente vibrante, mas que
preserva a tranquilidade
necessária para desfrutar da
sua beleza.
14
1515
Icónicos
Padrão dos
Descobrimentos
O Padrão dos
Descobrimentos,
erguido junto ao rio
Tejo, em Belém, é um
dos monumentos mais
marcantes de Lisboa,
homenageando a era
das Descobertas
Portuguesas.
Construído
originalmente
em 1940 para a
Exposição do
Mundo Português e
reconstruído em 1960
por ocasião dos 500
anos da morte do
Infante D. Henrique,
o monumento celebra
os navegadores,
cartógrafos,
artistas e
cientistas que
projetaram Portugal
para o mundo.
Com 52 metros de
altura, tem a forma
de uma caravela
estilizada, com
figuras históricas
esculpidas que
parecem avançar rumo
ao mar.
16
À frente do
monumento, destacase
um impressionante
padrão de calçada
portuguesa, uma
gigantesca rosados-ventos
com cerca
de 14 metros de
diâmetro, feita com
pedras de calcário
branco e basalto
negro. Esta obra
foi um presente
da República da
África do Sul e
representa um mapamundo
onde estão
assinaladas as rotas
das descobertas
portuguesas, desde
o século XV. O
contraste das pedras
e o rigor geométrico
do desenho tornam
esta calçada uma
verdadeira obra de
arte ao ar livre,
refletindo a mestria
artesanal portuguesa
e a ligação profunda
do país ao mar e à
navegação.
17
O CALCETEIRO
18
profissão de
A calceteiro é uma
das mais tradicionais
e emblemáticas
de Portugal,
especializada na
criação da calçada
portuguesa, uma arte
de pavimentação com
vários tipos de
pedras.
No entanto,
essaprofissão,
historicamente
respeitada, tem sido
desvalorizada ao longo
do tempo. O trabalho
manual exigido, muitas
vezes realizado em
condições adversas
ao ar livre, é
fisicamente intenso e
de baixa remuneração
comparado a outras
profissões, o que
torna a profissão
menos atrativa para
muitas pessoas, em
especial das novas
gerações.
Além disso, a
automação e o uso
de máquinas para
pavimentação reduziram
a necessidade de
calceteiros, e a
profissão é hoje
vista como de pouco
prestígio social,
associada a um nível
socioeconómico
mais baixo e menor
escolaridade.
O que contribui para
o estigma social em
torno da profissão.
A profissão de
calceteiro, muitas
vezes transmitida de
geração em geração,
está ligada ao
artesanato e ao
trabalho manual
especializado.
Calceteiros mais
experientes são
vistos como mestres
da arte, criando
pavimentos com
padrões geométricos
e figuras
representativas da
cultura local
A falta de
visibilidade e
reconhecimento
do trabalho dos
calceteiros e a
formação informal do
ofício dificultam
a preservação dessa
tradição. Assim,
embora a profissão
seja essencial
para a manutenção
do património
cultural português,
a combinação de
fatores como a falta
de prestígio, baixo
nível de remuneração
e a substituição
por tecnologias
modernas, tem
contribuído para sua
desvalorização.
19
Calçada
A
calçada portuguesa
é uma forma
tradicional de
pavimento que vemos
nas ruas e praças
em Portugal. Para a
fazer, começa-se por
preparar o terreno.
Primeiro, o local
precisa ser limpo de
pedras, lixo ou outros
detritos que possam
atrapalhar. Depois,
faz-se uma escavação
no chão, para criar um
espaço onde a calçada
vai ficar firme e
resistente.
A seguir, colocase
uma base de
pedras partidas ou
areia grossa, para
dar estabilidade ao
terreno. Por cima
desta, coloca-se
uma camada fina de
areia, que serve
para nivelar o espaço
e garantir que as
pedras fiquem bem
assentes.
Agora vem a parte
mais interessante, a
colocação das pedras.
As pedras usadas na
calçada portuguesa
são cortadas com um
martelo à mão para
encaixar umas nas
20
outras de forma
perfeita.
O calceteiro, que é a
pessoa especializada
nesse trabalho, irá
colocar as pedras uma
por uma, de forma
muito cuidadosa,
seguindo o desenho
que foi escolhido.
Esses desenhos
podem ser simples
ou mais elaborados,
como ondas do mar,
estrelas ou até
símbolos históricos
como a rosa-dosventos.
As pedras são
colocadas de modo que
fiquem bem ajustadas
e formem o padrão
desejado.
Quando todas as
pedras estão no lugar
certo, é necessário
apertar tudo para
garantir que elas
não se movam. Para
isso, utilizase
uma máquina ou
intrumento chamada
placa vibratória, que
pressiona as pedras
contra o chão. Isso
ajuda a fixá-las no
lugar, sem danificar
nenhuma delas.
A próxima etapa é
preencher os espaços
entre as pedras. Para
isso, espalha-se mais
areia por cima de toda
a calçada e depois
varre-se bem, fazendo
com que a areia entre
nos pequenos buracos
entre as pedras.
A areia ajuda a manter
as pedras no lugar
e evita que elas se
soltem com o tempo.
Por fim, limpa-se a
calçada para garantir
que tudo esteja bem
alinhado e bonito.
Depois de toda a
calçada pronta, ela
fica resistente a tudo
ou quase tudo.
Para se fazer os
desenhos na etapa de
preenchimento, há que
proceder à construção
de um molde inicial no
qual e a partir daí,
há que colocar no seu
interior as várias
pedras de maneira a
destacar o desenho
21
Calcário
A calçada portuguesa
é composta por pedras
naturais, como o
calcário branco e o
basalto negro, além de
materiais secundários
como granito, mármore
e arenito, em projetos
decorativos. Cada um
desses materiais possui
características únicas
que contribuem para a
criação de pavimentos
estéticos e duráveis,
podendo perdurar por
mais de uma vida sendo
bem feita e tendo a
manutenção devida .
O processo de extração
nas pedreiras consiste
em retirar as pedras em
blocos, que são depois
cortados e moldados
manualmente ou com
máquinas. As pedras
podem ter acabamentos
rugosos para garantir
aderência ou ser
alisadas, dependendo do
design.
A calçada portuguesa é
composta principalmente
por calcário branco. O
calcário branco é extraído
em regiões calcárias de
Portugal como Santarém,
Pêro Pinheiro, Batalha,
Fátima, Estremoz, entre
outras. É uma pedra clara,
fácil de trabalhar, porém
porosa. É utilizado
principalmente na base da
calçada e para preencher
espaços entre as pedras
de basalto negro, criando
contrastes visuais
marcantes.
Material
A calçada portuguesa é
tanto funcional quanto
decorativa, com padrões
geométricos que refletem
a cultura e a História
de Portugal. Esses
materiais, aliados ao
trabalho especializado
dos calceteiros, formam
um património único e
resistente, sendo um
símbolo da identidade
nacional.
22
Mármore
Já o mármore e o
arenito são usados mais
raramente, com o mármore
sendo escolhido para
áreas de prestígio devido
ao seu custo elevado e
estética refinada, e o
arenito para projetos
decorativos mais
específicos.
Basalto
O basalto negro,
proveniente de áreas
vulcânicas, é muito
resistente e denso,
ideal para áreas de alto
tráfego e para criar
padrões geométricos.
O seu alto grau de
dureza exige ferramentas
especializadas para corte
e assentamento.
Granito
O granito, mais comum, é
encontrado no Norte de
Portugal, especialmente
em regiões como o Minho
e Trás-os-Montes ou
nas Beiras. Trata-se
de uma pedra durável e
resistente ao desgaste,
sendo utilizada
sobretudo em locais de
maior tráfego. Embora
difícil de trabalhar, a
sua durabilidade torna-o
adequado para pavimentos
exigentes.
23
A
calçada artística
portuguesa é um
bem material, não
só como elemento
de design urbano, mas um
exemplo notável de como a
estética, funcionalidade
e a tradição se
encontram para formar
uma identidade visual
única com vários estilos
e como que um movimento
artístico.
Composta por pedras
naturais, não é
apenas uma solução de
pavimentação. Ao longo
dos séculos, a calçada
VISUAIS
tem sido moldada por
técnicas artesanais que
destacam o valor do
design manual, criando
padrões geométricos
e desenhos de vários
tipos artísticos que
refletem a história das
artes e a cultura de
cada local.
A calçada portuguesa é
um elemento fundamental
do design urbano,
criando uma identidade
visual única da marca
Portugal.
24
Diversos elementos
fazem parte da calçada
portuguesa como
padrões; o ondulado,
que forma como que
ondas suaves; o padrão
de raio, com linhas
irradiando de um ponto
central; quadrados
concêntricos,
criando um efeito
tridimensional;
círculos,
interligados, para
fluidez visual; a
estrela, com desenhos
estelares; e a cruz,
com influências
barrocas e religiosas.
CALÇADA
Outros padrões
incluem, abstratos
ou figurativos,
florais, inspirados
em elementos naturais,
ou o labiríntico, com
linhas entrelaçadas.
Existem ainda
variações regionais,
como no Algarve, com
desenhos mais fluidos,
e em Lisboa, com
formas geométricas.
O padrão de escama de
peixe, com triângulos
repetidos, é típico
de zonas costeiras,
refletindo a ligação
de Portugal ao mar.
25
EUA
CALÇADA
PORTUGUESA
PELO MUNDO
26
A calçada
portuguesa é uma
forma tradicional
de pavimentação,
que combina arte,
funcionalidade e
identidade cultural.
Ao longo da
História, espalhouse
pelo mundo no
período colonial
e, mais tarde,
pela imigração
portuguesa. x
Está presente em
países como Brasil,
Angola, Moçambique,
Goa, Macau, França,
Luxemburgo, Suíça,
Canadá, EUA,
Argentina, Austrália,
entre outros.
´Hoje, é reconhecida
como um símbolo do
património português,
sendo aplicada em
praças, ruas e espaços
públicos, tanto por
razões históricas
como pela sua estética
visual. A calçada
portuguesa tornouse
assim num exemplo
duradouro de como o
design urbano pode
refletir cultura
e unir geografias
distintas.
Canadá
Brasil
rgentina
Suíça
França
Portugal
Luxemburgo
Macau(China)
Goa (India)
Austrália
Moçambique
Angola
27
28
Copacabana
(Rio de Janeiro, Brasil)
Uma das calçadas portuguesas
mais reconhecidas do mundo
encontra-se no Rio de Janeiro, no
Brasil, onde o seu padrão ondulado
em preto e branco é inspirado na
famosa Praça do Rossio em Lisboa.
No entanto, no Rio, esse padrão
ganhou uma escala monumental,
tornando-se numa das imagens mais
icónicas da cidade.
A calçada é composta por basalto
negro e calcário branco, materiais
típicos utilizados em Portugal,
o que garante a continuidade da
tradição portuguesa na arte de
calcetaria. O significado desta
calçada vai além da sua beleza
estética, representando as ondas
do mar e a relação íntima que o
Rio de Janeiro tem com o oceano.
Ela também simboliza a presença
cultural portuguesa no Brasil,
sendo um dos maiores marcos dessa
herança, adaptada ao urbanismo
moderno da cidade.
A calçada foi instalada nos
anos 1900 e, nos anos 1970,
foi redesenhada por Burle Marx,
mantendo o padrão original
e adaptando-o para os novos
tempos. Esse redesign tornou a
calçada ainda mais emblemática,
consolidando-a como uma obra de
arte urbana que mistura tradição e
modernidade.
A sua função é estética,
enriquecendo a paisagem da cidade;
turística, atraindo visitantes de
todo o mundo; e identitária, pois
reforça a ligação cultural entre o
Brasil e Portugal, sendo um símbolo
de uma herança que se reflete na
cidade até hoje.
29
Macau
(China – Centro Histórico)
Em São Domingos, em Macau, as
calçadas portuguesas apresentam
padrões como ondas, estrelas e
motivos florais, frequentemente com
influências chinesas integradas,
refletindo a rica fusão cultural da
região. Estas calçadas são feitas
com calcário branco e basalto negro,
materiais típicos usados pelos
calceteiros portugueses e pelos
trabalhadores locais que foram
formados nas técnicas tradicionais
de calcetaria.
A calçada não é apenas um elemento
funcional e decorativo, mas também
um símbolo da fusão cultural sinoportuguesa.
A sua importância histórica e
cultural é reconhecida pela
UNESCO, que a classifica como
Património Mundial. A preservação
das calçadas tem um papel crucial
tanto na conservação histórica
como na promoção do turismo,
atraindo visitantes que desejam
explorar a herança portuguesa
e chinesa de Macau.A calçada
portuguesa em São Domingos é um
elemento-chave da paisagem urbana
de Macau, combinando estética
e simbolismo para contar a
história de uma cidade marcada por
séculos de intercâmbio cultural
e que continua a preservar essas
influências no seu ambiente
urbano.
30
31
A
calçada
portuguesa,
outrora orgulho
das cidades
lusófonas,
é hoje uma arte em
risco. Pouco a pouco,
as mãos que outrora
desenhavam o chão com
paciência e precisão
vão desaparecendo. São
poucos os que aceitam
herdar o ofício de
calceteiro — um
trabalho exigente, de
longas horas sob o
peso do sol e com uma
remuneração que não
honra a sua mestria
. A arte da pedra,
tão profundamente
enraizada na
identidade urbana
portuguesa, vê-se
assim a definhar,
vítima da indiferença
dos tempos modernos.
Mais do que uma
questão estética,
a calçada levanta
hoje debates sobre
funcionalidade e
acessibilidade. A
sua beleza intemporal
contrasta com as suas
limitações práticas:
escorrega quando
molhada, soltase
com o tempo, e
exige manutenção
constante. As pedras,
moldadas pelo tempo e
pelo uso, por vezes
escondem armadilhas
— pequenas fendas,
relevos traiçoeiros —
que tornam o caminho
difícil para os
mais vulneráveis:
idosos, grávidas,
crianças em carrinhos
e utilizadores de
cadeira de rodas. Até
os sapatos reclamam da
aspereza deste tapete
de memórias.
As cidades, por
sua vez, cedem ao
pragmatismo. O
32Uma Arte
no Chão
33
Porto, em 2005, deu
lugar ao granito no
seu centro histórico,
numa decisão que
privilegiou a segurança
e a durabilidade. São
Paulo seguiu pelo mesmo
caminho, apagando da
Avenida Paulista quase
todos os vestígios do
calcário e do basalto
que antes desenhavam o
passeio. O betão impôsse
— mais barato, mais
liso, mais previsível.
Ainda assim, em alguns
cantos do mundo, a
calçada resiste. Em
certas regiões, nas
zonas mais emblemáticas,
continuam-se a contar
histórias com padrões
ondulados. Em Assunção,
no Paraguai, surge
discretamente à volta
do Super Centro — um
fragmento de tradição
que sobrevive fora do
seu berço.
A calçada portuguesa é
mais do que pedra. É
linguagem. É ritmo. É
memória dos pés que por
ela passaram e dos que
a desenharam. Mas hoje,
esse alfabeto visual
corre o risco de se
tornar silêncio.
Apesar de ser uma
profissão tradicional
e artesanal, o
trabalho de calceteiro
embora não muito bem
remunerado ainda é
bastante valorizado,
especialmente em áreas
históricas e turísticas
de Portugal. Cidades
como Lisboa, Porto,
Coimbra e Sintra, entre
outras, são famosas
pelas suas calçadas
ornamentadas, que
atraem tanto turistas
como estudiosos de arte
e arquitetura. Para
garantir que as calçadas
se mantenham vivas,
existem diversas escolas
e cursos especializados
que ensinam às novas
gerações a arte da
calcetaria.
Contudo, a profissão
de calceteiro tem vindo
a enfrentar desafios
devido à automação e ao
aumento da utilização de
técnicas de pavimentação
mais modernas. A
utilização de máquinas
para pavimentação tem
reduzido a necessidade
de trabalho manual em
grande escala, o que
coloca a profissão em
risco. Mesmo assim,
ainda existem muitos
mestres calceteiros que
mantêm viva a tradição
e a arte da calçada
portuguesa.
Mestre
Calceteiro
O José Martins nasceu
na freguesia da Alma
e cresceu na povoação
de Valbom, onde deu
os primeiros passos de
uma vida marcada pelo
trabalho e pela ligação
à terra. Desde jovem,
mostrou-se observador e
curioso, qualidades que
o levariam, anos mais
tarde, a encontrar o
seu caminho na arte da
calçada portuguesa.
Aos dez anos, após a
mudança da família para
uma quinta em Castelo
Branco, viu-se obrigado
a deixar a escola após
o 2.º ano e começou a
trabalhar. Foi aí que
surgiu a oportunidade de
aprender com Domingos
Riscado, um calceteiro
experiente e respeitado.
Primeiro, observava.
Depois, ajudava durante
as pausas. Até que, com
o tempo e persistência,
começou a assentar as
primeiras pedras.
O trabalho nas aldeias
foi o seu principal
palco. Enfrentou o frio
rigoroso do inverno, o
calor intenso do verão
e as exigências físicas
do ofício. No entanto,
nunca desanimou. Pelo
contrário, sentia
orgulho em cada rua
calcetada, em cada
mosaico de pedra
34
construído com precisão
e arte.
José aprendeu a ler as
pedras com o olhar, a
escolher o lado certo,
a prever encaixes
perfeitos. Para ele,
cada calçada é um
reflexo do artista que
a faz — e acredita que
nenhuma máquina poderá
substituir o saber e
o toque humano de um
verdadeiro calceteiro.
Com o passar dos anos,
viu a profissão perder
força entre os jovens.
Reconhece que o trabalho
é duro, mas lamenta
o desinteresse pelas
tradições e pelo saber
manual. Ainda assim, já
ensinou alguns e mantém
viva a esperança de que
a calçada portuguesa
continue a ser
preservada.
Hoje, com décadas de
experiência, José
Martins representa não
apenas um ofício, mas
uma herança cultural.
Um mestre da pedra
e do silêncio, cuja
vida é uma homenagem à
dedicação, ao esforço e
ao orgulho de construir
com as próprias mãos a
beleza dos caminhos por
onde todos passam.
35
Património
A calçada portuguesa
está atualmente em processo
de candidatura à
UNESCO como Património
Cultural Imaterial da
Humanidade, em reconhecimento
ao seu valor
histórico, cultural e
estético. Este reconhecimento
pretende destacar
a calçada como uma
expressão única de arte
urbana, com uma forte
ligação à identidade
portuguesa e à tradição
artesanal.
Presentes em várias
cidades por todo o
mundo, as calçadas são
compostas por padrões
geométricos criados com
basalto negro e calcário
branco, que representam
a ligação
de Portugal com o mar
e a sua herança arquitetónica.
Além de
funcional, a calçada
portuguesa serve como
um símbolo cultural,
refletindo a evolução
histórica e os valores
artísticos que fazem
parte da paisagem urbana
do país.
A calçada,
com os seus
padrões
característicos,
vai
além de
uma simples
pavimentação,
funcionando
também como um
importante elemento
identitário e memória
coletiva.
Além disso, ela contribui
para o turismo
e para a preservação
cultural, reforçando a
ligação entre as gerações
passadas e as
futuras. A sua candidatura
à UNESCO busca
assegurar a proteção
e promoção da calçada
como um legado cultural
único de Portugal.
36
37
Bibliolografia
Empedrados artísticos de Lisboa: a arte da calçada-moisaco / Ed.
M. Bairrada; fot.
Karin Monteiro, Manuel Cabral ; il. Abel dos Santos. [Lisboa:
E.M. Bairrada], 1985.
Olhar o chão = Ein blick auf den boden portugiesische Steinpflaster
= Regarder le
sol = A glance at portuguese mosaic pavement / Ana Cabrera, Marília
Nunes; fot.
Henrique Nunes. [Lisboa] : Imprensa Nacional - Casa da Moeda,
imp. 1990. ISBN
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