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AQUI e ALI - um ensaio projetual sobre inclusão em Itajobi

Breno Quaioti, 2020 Trabalho Final de Graduação - TFG FAU MACKENZIE Faculdade de Arquitetura e Urbanismo Universidade Presbiteriana Mackenzie Orientação: Lucas Fehr e Angelo Cecco O trabalho busca explorar o espaço rural brasileiro com o enfoque crítico na cidade de Itajobi – SP. Toma partido de análises recentes de arquitetos pesquisadores sobre o assunto para então concluir-se com um projeto urbano e arquitetônico de intervenção na cidade. para mais informações e gravação da banca de apresentação, entrar em contato via brenoquaioti@gmail.com

Breno Quaioti, 2020
Trabalho Final de Graduação - TFG FAU MACKENZIE
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo
Universidade Presbiteriana Mackenzie
Orientação: Lucas Fehr e Angelo Cecco

O trabalho busca explorar o espaço rural brasileiro com o enfoque crítico na cidade de Itajobi – SP.
Toma partido de análises recentes de arquitetos pesquisadores sobre o assunto para então concluir-se com um projeto urbano e arquitetônico de intervenção na cidade.

para mais informações e gravação da banca de apresentação, entrar em contato via brenoquaioti@gmail.com

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AQUI E ALI

um ensaio projetual

sobre inclusão

em Itajobi

Breno Quaioti


aqui e ali

um ensaio projetual sobre inclusão em Itajobi



Breno Quaioti

orientadores: Lucas Fehr e Angelo Cecco

AQUI E ALI

um ensaio projetual sobre inclusão em Itajobi

Itajobi, 2020

ilustração do autor

Trabalho final de graduação

Faculdade de Arquitetura e Urbanismo

Universidade Presbiteriana Mackenzie

São Paulo, 2020



Agradeço aos meus professores Angelo e Lucas, que fizeram deste trabalho

possível e sempre me incentivaram a ir mais longe.

Agradeço também as amizades feitas nesses quase 7 anos:

Em especial a A.A.A. Arquitetura Mackenzie, que me proporcionou os melhores

momentos na faculdade e tanto me ensinou nas gestões de 2015 e 2016. Junto à

Atlética, agradeço ao time de Handebol pelo amadurecimento construído e pela raça

conquistada nos anos em quadra! Handebrothers fez história!

Pela irmandade restaurada toda quarta à noite e agora marcada na pele,

Gabriel, Mauricio e Vander. Obrigado pelo videocrema.

Agradeço especialmente a Julia, Mauricio, Raul, Renata e Sofia pela sincronia,

parceria e pelo porto seguro que se tornaram nesse caminho! Fumumtit!

Aos que me acolheram e tanto me ensinaram. Pela parceria de ouro que

extrapolou os limites do espaço de trabalho, agradeço às incansáveis aulas na Rua

Dr. Sodré de Vitor Zanatta, Vinicius Figueiredo e Victor Piza. Que nossa parceria siga

trazendo bons resultados sempre!

Aos atuais companheiros de apartamento que tanto me inspiram e fazem das

tardes da praça Roosevelt mais leves: Mamá, mestre Zulian e velho Gabriel.

Agradeço,

Primeiramente ao meu pai, pelo apoio incondicional desde o primeiro dia e por

sempre acreditar em mim. Termino essa etapa da minha vida e começo outra ainda

maior. “A vida é uma eterna escola”. Obrigado a você e a Susi, pelo carinho e por me

trazerem sempre de volta pra casa.

A minha mãe, pelo amor imensurável que por vezes escapa aos olhos e pelas

longas conversas noite à dentro... Não poderíamos estar mais próximos. Obrigado a

você e ao Fábio, que me ensinam tanto sobre amar e cuidar.

A minha irmã, quem tanto me inspirou a sempre aprender mais a cada dia

simplesmente sendo um exemplo a ser seguido. Me vejo muito em você.

As melhores histórias de camaradagem, resenha, tit, noites no Kenzie e bons

momentos, agradeço ao Xorume! Em especial Futema, Digo, Déds, Tuts, Gihad, Maga,

Magris e Marinho.

A singela, embora barulhenta excursão pelo centro histórico de SP, agradeço

ao café com leite.

Por fim, todo meu carinho e gratidão à pessoa que fez este trabalho possível.

Pelo acolhimento caloroso nos últimos meses, por toda troca de amor, riso, lealdade e

aprendizado. Por me fazer uma pessoa melhor todos estes anos, seja em Barcelona,

Porto Alegre ou São Paulo. Obrigado Lonas!

Muito obrigado!



SUMARIO

_

_

PARTE 01

PARTE 02

PARTE 03

PARTE 04

PARTE 05

PARTE 06

PARTE 07

INTRODUÇÃO

APRESENTAÇÃO

RURALISMO (S)

APROXIMAÇÕES

A cidade grande

A cidade pequena

REFLEXOS DO ABANDONO

DIFERENTES INTERPRETAÇÕES

DE UMA PANDEMIA

NOVO NORMAL

O ENSAIO

06.1 WASHINGTON LUÍS

06.2 LEITURA URBANA

06.3 INSERÇÃO DO PROJETO

O projeto urbano

O parque cultural

06.4 PROGRAMA

CONCLUSÃO

BIBLIOGRAFIA

11

14

20

38

42

46

54

62

74

86

87

92

102

112

174

178



aqui e ali

O presente trabalho final de graduação

em arquitetura e urbanismo tem como objetivo

de pesquisa explorar o espaço rural brasileiro.

Com o enfoque crítico na cidade de Itajobi – SP,

o trabalho toma partido de análises recentes de

arquitetos já consagrados sobre o assunto para

então concluir-se com um projeto urbano e arquitetônico

de intervenção na cidade.

Enquanto os arquitetos se ocupavam

com as complexidades metropolitanas, o campo,

como introduzido no início desta pesquisa,

desenvolveu-se por conta própria e de diferentes

maneiras ao longo dos anos. O presente trabalho,

portanto, dedica-se ao território inexplorado

brasileiro e – no que se preza como trabalho urbano

– relaciona pontualmente o impacto social

na cidade provocado pelo desenho urbano existente.

Em uma conclusiva aproximação à cidade

de Itajobi é apresentado o projeto arquitetônico

e urbano, proposto como um convite à inclusão

de novas culturas para os limites daquela cidade

rural. O campo, que para muitos é tido como um

local de atraso, mostra suas riquezas e potencialidades

para o desenvolvimento mais humano e

sadio do país.

O presente trabalho busca este resgate.

introdução

11



12 13



aqui e ali

aqui e ali

apresentação

Em Raízes do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda traz um panorama

da formação e estruturação do território brasileiro. Segundo o autor, desde

os primórdios do período colonial até a segunda metade do século XVIII,

o desenvolvimento espacial brasileiro era configurado por uma robustez

do domínio rural em contraponto com um frágil cenário urbano. Em um

panorama geral, o domínio do ambiente rural neste caso é característico da

colonização portuguesa, que via os territórios de colônias como passagem

para enriquecimento e nunca como uma extensão da metrópole.

De acordo com Darcy Ribeiro, em “O Povo Brasileiro – a formação

e o sentido do Brasil” a formação do Estado de São Paulo sofreu grande

influência a partir das expedições Bandeirantes, que em suas andanças

desbravavam partes longínquas das terras brasileiras e muitas vezes acabaram

por se fixar em regiões distintas, tornando-se criadores de gado ou

lavradores.

Ainda segundo Darcy Ribeiro, um traço importante da formação

da população “caipira” – como designada pelo autor – é a não ascensão

dos grupos tribais à civilização, “mas sim a edificação [...] de uma entidade

étnica emergente que nasce umbilicalmente ligada a sociedade e a

uma cultura exógena por ela conformada e dele dependente”. Mas o autor

caracteriza a população paulista como uma constante mistura entre as

populações índias e os primeiros imigrantes brasileiros, se tornando fortemente

miscigenada e até mais tolerante que o restante do Brasil. Isto,

segundo o autor, se mantém até 1950, quando ocorre uma forte vinda de

estrangeiros, principalmente italianos, para o Estado de São Paulo - se

tornando inclusive mais numerosos que os “paulistas antigos”. Esta nova

leva de imigrantes europeus trouxe também um novo eurocentrismo para a

população.

[01] Croqui de residência rural. Desenho do autor.

Em questões de funcionamento social, a

sociedade colonial brasileira era pautada pelo patriarcado

como ditador da lei doméstica, muitas

vezes sobrepondo a instituição jurídica. O ambiente

doméstico, particularista e antipolítica predomina

na vida social da cidade rural, operando

uma invasão do público pelo privado - aspecto

este que ainda mostra suas similaridades na sociedade

atual, através do populismo e da figura

“paternal” que muitos políticos assumem e, no

ambiente rural, na sobreposição do particular ao

estado, por vezes referenciado como “neo-coronelismo”,

que comanda as pequenas cidades

rurais.

14 15



aqui e ali

aqui e ali

A partir da vinda da Corte Portuguesa para o Brasil

em 1808 é iniciada uma transição gradativa do

domínio rural para o urbano. Trazendo costumes

europeus, a decadência dos senhores rurais se

dá em concomitância com a ascensão das profissões

do meio urbano, como os liberais, os políticos

e a burocracia. Inicialmente, estes novos

postos profissionais são ocupados justamente

pelos senhores mais influentes dentro daquele

meio, ou seja, aqueles ligados às lavouras e aos

engenhos. Consequentemente, com a passagem

dos anos, estes mesmos senhores passam a ser

atraídos à vida urbana, levando consigo suas

mentalidades, valores e preconceitos.

[02] Embarque da

Família Real Portuguesa.

Nicolas Louis Albert

Delerive, 1807 – 1818

Com estes primeiros avanços do ambiente

urbano no território nacional e o consequente

aparecimento de seus primeiros problemas, surge

a visão romântica e idílica do mundo rural, que

de certo modo persiste até hoje como o principal

cenário do escapismo urbano. Um oásis inatingível

ainda preservado das mazelas da urbanização

com a imagem do homem feudal envolto em

uma aura de pureza e simplicidade. A idealização

saudosista deste cenário, portanto, já seria uma

prova da constatação nacional do novo rumo

econômico que seguiria o país.

Ainda segundo Sérgio Buarque de Holanda,

as dificuldades e a lentidão da transposição

da mentalidade da casa-grade para às cidades e

suas profissões se tornam mais compreensíveis

quando se considera que no Brasil, assim como

na maioria dos países de história colonial recente,

não existiam estabelecimentos intermediários

entre os meios urbanos e as propriedades rurais

produtoras. O país desenvolveria suas pequenas

cidades apenas posteriormente, a partir das necessidades

desses habitantes rurais que vivem

em comunidade e se equipararem comercialmente

com os grandes centros.

16 17



PARTE 01

RURALISMO(S)

diferentes abordagens do conceito

aqui e ali

A partir do rápido progresso urbano e

decremento da sociedade rural ocasionado pela

proibição do tráfego negreiro, a cidade grande

ganha maior protagonismo e o interior gradativamente

assume a identidade majoritária de produtor,

perdendo seu propósito residencial e político.

Neste momento, enfim, aquela reputação nostálgica

do interior passa a perder progressivamente

sua força para a ideia de um interior retrógrado,

abandonado e com tecnologias ultrapassadas ou

residuais da cidade grande.

[03] Fazenda (Ilustração

para “Pau Brasil), 1925.

Tarsila do Amaral.

[04] Cidade (Ilustração

para “Pau Brasil),1925.

Tarsila do Amaral.

[03] [04]

As cidades rurais brasileiras precisam de

um novo olhar, enxergando suas potencialidades

e suas necessidades, de forma a capacitá-las

para um futuro em que não seja mais necessário

viver nas grandes cidades para ter ofertas variadas

de trabalho, estudo ou ter grandes ofertas

culturais. A cidade rural precisa ser vista como

uma alternativa ao estilo de vida urbano, tão qualificado

quanto.

Este é um convite à aproximação.

18



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01

O espaço rural é um assunto ainda pouco abordado na academia

e nos livros de arquitetura. Para que se entenda melhor o campo em que

este trabalho irá se dedicar, neste capítulo é apresentado o termo “ruralismo”,

que abrange diversos cenários e diferentes discursos. No dicionário,

sua definição varia desde “utilização de cenas do campo na arte” até “conjunto

de princípios básicos de um sistema que preconiza a melhor maneira

de vida no campo; doutrina dos ruralistas; movimento com o objetivo de

implantar esse sistema, de defender essa doutrina”, mostrando o alcance

do termo e também uma sua indefinição.

PARTE 01

RURALISMO(S)

diferentes abordagens do conceito

Seu uso predominante é aquele que caracteriza a vida no ambiente

rural - de algo mais simples e rústico do que a vida na cidade. No presente

trabalho, o termo ruralismo será definido como o movimento que busca a

retomada e a valorização do ambiente rural como uma alternativa ao estilo

de vida das metrópoles, buscando a qualificação do campo e tornando-o

atrativo para seus moradores atuais e futuros. Nesta análise inicial, os autores

mencionados trazem em suas pesquisas panoramas internacionais

de uma condição do espaço rural ainda, segundo o autor deste trabalho,

distante da realidade brasileira. A análise predominantemente centrada no

hemisfério norte apresenta um espaço rural tecnológico, com poucos habitantes

e distante daquele antigo ambiente nostálgico.

[05] < Guggenhein,

2020. Imagem de

@socle.studio modificada

pelo autor

[06] “Haying”, 1909.

Fonte: Arcervo OMA

[05]

21



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Quase quatro décadas depois da publicação de Nova York Delirante

- o grande manifesto da cidade como um organismo vivo que comanda

e rege sua arquitetura -, Rem Koolhaas volta seu olhar, em 2010, para o

campo, como o ambiente de atuação dos arquitetos para as próximas gerações.

O arquiteto é um dos fundadores do Office for Metropolitan Architecture

(OMA) e codiretor do AMO – setor de pesquisa do escritório, além

de professor titular da Universidade de Harvard.

Koolhaas aborda em sua pesquisa vários pontos que estão causando

mudanças no perfil do campo: o “emagrecimento” dos vilarejos –

aumento da área povoada, mas com diminuição da intensidade de uso; a

perda do que era tradicional e peculiar de cada povoado devido a globalização

e a padronização geral da sociedade, seja através de imigrantes ou

de importação de tendências; a mecanização do campo, pois segundo ele

o cultivo e a pecuária hoje já são práticas digitais que podem ser realizadas

a partir de qualquer local.

Através destes três pontos, Koolhaas embasa sua teoria de que o

mundo rural está mudando de forma muito significativa e que estas alterações

estão passando despercebidas pela maior parte da população. Nas

publicações relacionadas a arquitetura é inegável a onipresença da condição

urbana e a negligência ao restante do planeta.

Um universo anteriormente ditado pelas estações do ano e pela

organização da agricultura agora é uma mistura tóxica de experimentos

genéticos, ciência, nostalgia industrial, imigração sazonal,

facilidade de compra de terras, subsídios maciços, habitação incidental,

incentivos fiscais, investimentos, turbulência política, em

outras palavras, mais volátil que a cidade mais acelerada.

O campo é uma amálgama de tendências que estão fora de nossa

visão geral e fora de nossa consciência. Nossa obsessão atual

apenas pela cidade é altamente irresponsável, porque não é possível

entender a cidade sem entender o campo.

Agora estamos apenas começando a aumentar nossa compreensão

das condições que antes eram inexploradas – um processo

para continuar mais.

(KOOLHAAS, 2014, tradução nossa)

[07]

Expansão das cidades rurais, 2010

[08]

Garotas da zona rural russa, 1909

[09]

Lely Orbiter Feeding Robot, 2010

Em fevereiro deste ano (2020) Rem Koolhaas e Samir Bantal, juntamente

ao AMO, lançaram uma exposição no Museu Guggenheim em Nova

York intitulada Countryside, the future (Campo, o futuro). A exposição é o

resultado de 10 anos de investigação sobre as áreas rurais com o objetivo

de trazer visibilidade para esta área, segundo o arquiteto, esquecida pela

arquitetura.

22 23



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Nas últimas décadas, eu tenho percebido que enquanto

grande parte das nossas energias e inteligência estiveram focadas

nas áreas urbanas do planeta – sob a influência do aquecimento

global, a economia de mercado, companhias de tecnologia americanas,

iniciativas africanas e europeias, politicas chinesas e outras

forças – o campo foi alterado de forma quase irreconhecível.

(KOOLHAAS, 2020, tradução nossa).

A pesquisa de Koolhaas apresenta o espaço rural como uma área

completamente nova e inexplorada. A mudança da paisagem do campo

apresentada pelo arquiteto mostra como os hábitos do trabalhador rural

mudaram e como todo ambiente se alterou drasticamente nos últimos

anos. De acordo com uma nota de imprensa divulgada pelo museu, a exposição

pretende marcar uma mudança no foco do urbano para o rural, o

remoto, o deserto e o selvagem; os 98% do planeta que não são ocupados

por cidades.

[10]

Coutryside: The Future, 2020.

Solomon R. Guggenheim Museum

[10]

24 25



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Koolhaas não conclui sua pesquisa com um objetivo certeiro a ser

seguido pelo espaço rural – sua investigação se propõe a apresentar este

novo cenário e suas tecnologias para que dela se desperte o interesse

à aproximação. Efetivamente, esta pesquisa já vem sido citada repetidamente

como base de pesquisa para inúmeros arquitetos. Este é o caso de

Christopher Lee, também professor titular em Harvard GSD (Graduate

School Of Design) no setor de Design Urbano, onde leciona o curso intitulado

“The Countryside as a City”.

[11] Villa di Livia + Landsat 8 Satellite. Samir Bantal, 2020

Lee também é um dos fundadores do escritório internacional Serie

Architects, onde também trabalha constantemente com a exploração de

novas ideias tipológicas para cidades do mundo todo. Com enfoques teóricos,

inúmeras publicações e projetos de larga escala construídos em diversos

continentes, em 2018 o escritório levou o primeiro prêmio no concurso

proposto pelas Nações Unidas “Sustainable Cities and Human Settlements

Awards” (SCAHSA) – que buscava propor metas de desenvolvimento urbano

sustentável para serem implantadas em 2030.

Na academia, a proposta do curso ministrado por Lee é investigar

formas alternativas de urbanização em resposta aos desafios das cidades

em desenvolvimento na China. Essa investigação se dá através de

projetos para transformar vilarejos rurais chineses em pequenas cidades

que combinem as necessidades rurais e a cultura local com a inserção da

tecnologia e indústria. A proposta de projeto da disciplina é embasada por

um programa do governo Chinês que já está em curso no país para tornar

as áreas rurais atrativas, sendo assim uma alternativa às saturadas e insalubres

metrópoles.

Desta forma, espacialmente semelhante às modernas propostas

das “cidades jardim”, o projeto apresentado por Lee configura esta nova

tipologia de cidade rural em “frames” (requadros) que setorizam a organizam

o espaço de adensamento enquanto se mimetizam na paisagem rural

existente:

[12] Qatar Countryside + Granger. Samir Bantal, 2020

26 27



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[13] Dentro do frame:

O campo como uma

cidade

Implantação: O frame

externo consiste no programa

industrial e de

infraestrutura. O frame

intermediário contém

550 residências unifamiliares

com quintais interligados.

O frame central

contém 270 conjuntos

habitacionais, com 4

torres de 6 andares –

acolhendo um total de

1000 unidades residenciais

em todo o projeto.

Imagem: Harvard GSD,

2014.

[15] Frame central detalhado:

Ao delinear quatro arestas,

a estratégia de delimitação

não é promover

um núcleo urbano denso,

mas usar o frame

como um artefato arquitetônico

forte, simples

e claro para criar um

objeto estético e produtivo

através do uso

da paisagem. Imagem:

Harvard GSD, 2014

[16] Frame como limite:

O frame internaliza o

amplo campo agrícola

em um espaço coletivo

delineado para agricultura

e vida. Vendo

o projeto do exterior,

a extensão do campo

agrícola é ininterrupta. A

moldura permite a continuidade

e a porosidade

da borda com um leve

toque no chão. Imagem:

Harvard GSD, 2014

[14] O frame central:

Este contém os conjuntos

habitacionais em

apartamentos, também

servindo à rua mais movimentada

do complexo

– é o principal caminho

de circulação em que

os usuários podem caminhar

de sua casa para

todas as comodidades.

Imagem: Harvard GSD,

2014

28 29



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Na China, em 2011, foi atingida a marca de 51% da população

vivendo em áreas urbanas. A partir deste marco, houve a decisão de priorizar

os investimentos e projetos governamentais na urbanização e na

qualificação das áreas rurais em detrimento da expansão de cidades já

consolidadas. O objetivo deste projeto é tornar as áreas rurais novamente

atraentes para a população - para garantir a produção de alimentos necessários

através da melhora da qualidade de vida dos ambientes rurais.

Alguns projetos que estão acontecendo na China incluem a reconstrução

de casas de baixo padrão nos vilarejos e até a demolição total de alguns

povoados e sua reconstrução de forma agrupada, proporcionando maior

adensamento e novas ofertas de serviços comunitários. Além de melhorar

a infraestrutura básica e sanitária dos povoados rurais, o objetivo das

propostas é de desenvolver novas tipologias habitacionais e urbanas autossuficientes

que possam suportar uma economia dinâmica no campo,

provendo ofertas culturais e intelectuais para seus moradores.

Neste cenário, algumas propostas urbanísticas já vêm sendo desenvolvidas

no país, como a ousada aposta de construir a Nova Área de

Xiongan – uma nova capital chinesa criada do zero à 100km de distância

de Beijing e Tianjin, na província de Hebei. A proposta, que já está em

execução, é fruto de um extenso trabalho chinês sobre como se construir

uma cidade desta escala autossuficiente, sustentável e preparada para os

desafios metropolitanos do futuro. Arquitetonicamente, o projeto da cidade

surgiu de um concurso fechado, financiado pelo próprio governo chinês,

realizado em 2018 – no qual o autor deste trabalho participou juntamente

ao escritório Ricardo Bofill Taller de Arquitectura em Barcelona.

[17] The Rooftop, 2018.

Imagem: MIR.

Além da problemática chinesa a respeito da saturação de suas

metrópoles, o influente estudo de Koolhaas também fora citado em uma

recente publicação a respeito do espaço rural europeu por Vanessa Carlow,

diretora do Instituto de Urbanismo Sustentável da Technische Universitat

Braunschweig. Carlow também foi uma das fundadoras de um dos

maiores escritórios de arquitetura dinamarquês intitulado COBE – sua obra

publicada apresenta visões globais a respeito do campo, mas se debruça

mais a finco na situação local.

Em seu livro “RURALISM: The Future of Villages and Small Towns in

na Urbanizing World” a autora reitera a mudança drástica na paisagem rural

apresentada pelo AMO anteriormente e reforça com uma série de artigos

de diferentes autores sobre o tema, suas potencialidades, deficiências e

até projetos já desenvolvidos.

30 31



pt. 01

aqui e ali aqui e ali

pt. 01

Segundo a autora, as pequenas cidades rurais se estruturaram

nos últimos anos com tecnologias secundárias que não tinham mais uso

na metrópole. Em questões urbanísticas, é apresentado como poucos projetos

feitos nas academias metropolitanas foram desenvolvidos considerando

adaptações para uma realidade mais pacata e conservadora. Para

ela, os impactos desta realidade do campo resultaram na formação de um

espaço de expressiva concentração de renda, conservadorismo político,

pouca presença do Estado e o abandono populacional, que abdicaram

dos muitos potenciais que seriam explorados naquele local.

[18] ^ Westland – o cluster hortícola

holandês e o “Vale do Silício”

para o cultivo de plantas e inovação

verde. Foto: Luca Locatelli

Em um mundo urbanizado, a cidade é considerada como

o modelo e a medida de todas as coisas. A atenção dos arquitetos

e urbanistas esteve quase totalmente focada na cidade por

muitos anos, enquanto o espaço rural quase sempre esteve associado

a visões de declínio econômico, estagnação e resignação.

Entretanto, os espaços rurais estão sofrendo transformações tão

radicais quanto as cidades. Além disso, espaços rurais tem um

papel decisivo no desenvolvimento sustentável do nosso ambiente

– indissociavelmente interligado a cidade como recurso ou reserva.

O campo anteriormente segregado é agora atravessado

por fluxos globais e regionais de pessoas, bens, resíduos, energia

e informação, vinculando-o aos sistemas urbanos e permitindo

que eles funcionem em primeiro lugar.

(CARLOW, 2016, tradução nossa)

Por basear seus estudos principalmente na região rural da Dinamarca,

a realidade do campo em um país de proporções tão pequenas em

comparação com o Brasil é muito diferente. A pesquisa, assim como a de

Koolhaas, entende o espaço rural como o ambiente que mais se alterou

nos últimos anos e, assim, a autora propõe um modelo de desenvolvimento

independente do campo, voltado à sustentabilidade, complementando

as cidades grandes com o acesso à matéria prima, reservatórios naturais e

campos abertos de pesquisa e lazer, no qual a proximidade com as grandes

cidades possibilitaria e facilitaria essa integração.

A respeito das tecnologias referidas em todos os cenários apresentados,

um exemplo desta nova condição é o norte da Europa, onde as

condições climáticas e a falta de espaço físico de plantio impossibilitam a

produção tradicional de alimentos. Neste cenário, a Holanda se destaca.

Com uma área menor que a do estado do Rio de Janeiro, menor reserva

de água e uso reduzido de pesticidas, o país conseguiu aumentar a sua

produção agrícola de tal maneira a se tornar hoje o segundo maior exportador

de alimentos do mundo, segundo o Centraal Bureau voor de Statistiek

(Instituto Central de Estatística dos Países Baixos, CBS). O país é referência

em produção de hortaliças, frutas, queijos, lácteos e diversos outros

alimentos de altíssima qualidade, se caracterizando por produzir e vender

produtos de alto valor agregado.

32 33



pt. 01

aqui e ali aqui e ali

pt. 01

síntese Evidenciando as mudanças constatadas pelos autores, os projetos

A visão de ruralismo dos três arquitetos mencionados tem em comum

o mesmo ponto de partida: evidenciar as mudanças ocorridas no cenário

rural nos últimos anos, que passaram “despercebidas” para a maior

parte da população, e frisar a importância de trazer este ambiente como

objeto central de uma discussão arquitetônica. Pensar nas pequenas cidades

e vilarejos rurais como uma alternativa viável e sustentável para o crescimento

desproporcional e desenfreado que se vê hoje nas metrópoles.

a serem desenvolvdos devem dedicar-se à qualificação das cidades rurais

de forma de torná-las atraentes e receptivas tanto para seus habitantes

quanto para futuros moradores. Isto é, capacitar os remanescentes 98%

do território global a fim de não se repetir os equívocos do desenvolvimento

desenfreado e sem planejamento experienciados no passado. Além disso,

é vital a diversificação de oportunidades nas pequenas cidades, seja para

manter e incentivar a produção e o cultivo de alimentos, mas também para

que estas cidades sejam vistas como alternativas de habitação para pessoas

que buscam um estilo de vida diferente do que hoje é oferecido pelas

metrópoles.

[19] ^ Koppert Cress, The Netherlands, 2011. Ambientes altamente artificiais e estéreis

são propostos para criar a amostra orgânica ideal. As casas de vidro de hoje contêm

todos os ingredientes essenciais da vida, mas nenhum dos despedimentos: sol,

solo e água são emulados, otimizados e automatizados. Foto: Pieternel van Velden

34 35



cidades e pertencimento

PARTE 02

APROXIMAÇÕES

pt. 01

aqui e ali

parte 01: créditos iconográficos

[05] Fonte: Printscreen da publicação do escritório @socle.studio em 23/06/2020.

Fonte: Instagram modificada pelo autor.

[06 e 07] Fonte: Acervo AMO/ OMA (modificado)

[08 e 09] Fonte: Acervo AMO/ OMA (modificado)

[10] Foto: Laurian Ghinitoiu

[11 e 12] Fonte: Disponível em: < https://frieze.com/article/

rem-koolhaas-new-rural-sublime?language=en >.

Disponível em 27 jun. 2020.

[13 a 16] Fonte: Harvard GSD. Disponível em: < https://archinect.com/nicleedesign/project/within-the-frame-the-countryside-as-a-city>.

Disponível em 27 jun. 2020.

[17] Fonte: Printscreen da publicação do escritório @bofillarchitectura em

20/06/2020. Fonte: Instagram.

[18] Fonte: Acervo AMO/ OMA

[19] Fonte: Acervo AMO/ OMA

36



aqui e ali pt. 02

02

PARTE 02

APROXIMAÇÕES

cidades e pertencimento

[20] < Hospital

de la Santa

Creu, 2018.

Foto do autor.

[21]

Ver a cidade,

CCCB, 2018.

Foto: Laura

Tonding

As discussões a respeito de novas formas de se compreender e

habitar a cidade não são recentes. A partir da década de cinquenta, foram

diversos os intelectuais e movimentos culturais que trouxeram novas

perspectivas para defender formas inovadoras de se ocupar as cidades,

em oposição à vanguarda modernista, com seu modelo cartesiano. Esta,

derivada do zoneamento da cidade funcional, gerava espaços urbanos

ociosos e pouco convidativos em seu contexto. Ideais deste movimento já

haviam sido expressos nos três últimos congressos internacionais de arquitetura

moderna (CIAM) na Europa em 1951, 53 e 55 – onde se abordava

uma preocupação com uma cidade menos maquínica, mais humanizada e

vivenciável, diferente dos anos anteriores.

[20]

39



pt. 02

aqui e ali aqui e ali

pt. 02

Para elucidar essa nova tendência de valores urbanos, Jane Jacobs

lança em 1961 seu livro “Death and Life of Great American Cities” (traduzido

40 anos depois para “Morte e Vida das Grandes Cidades”) instaurando

novos princípios que consideram a diversidade de usos e de pessoas

como a principal maneira de trazer vitalidade para os espaços, sendo a

complexidade urbana a responsável por construir uma vida rica e densa de

significados, ao contrário do urbanismo racional e setorizado das cidades

americanas até então.

Ela [a diversidade] é antídoto para grande parte dos males

urbanos que ocorrem com o uso monofuncional. Diversidade de

usos, de nível sócio econômico da população, de tipologia das edificações,

de raças, etc. (Nesse sentido, a segregação é uma contradição

com o bem-estar). Mais importante do que a polícia, para garantir

a segurança de determinada rua, bairro ou distrito, por exemplo,

é o trânsito ininterrupto de usuários, além da existência do que a

autora chama de “proprietários naturais da rua”. Donos de padarias,

mercearias, lojas, pequenos serviços, são os muitos “olhos atentos”,

mais eficazes do que a iluminação pública. Trata-se da “figura pública

autonomeada”, a quem os moradores podem recorrer para deixar

um recado, uma chave, uma encomenda. A vida pública informal

impulsiona a vida pública formal e associativa. Algumas pessoas acumulam

relações e conhecimento, elas são únicas. A autogestão democrática

é que garante o sucesso dos bairros e distritos que apresentam

maior vitalidade e segurança. Isso significa a permanência

de pessoas que forjaram uma rede de relações: “Essas redes são o

capital social urbano insubstituível”. (MARICATO, 2001)

A exemplo de diversidade, o bairro Raval em Barcelona celebra

anualmente, por meio de intervenções artísticas, a presença de seus imigrantes

que ocupam a área central da parte velha da cidade. A cidade de

Barcelona, e principalmente a cidade velha, são por si só exemplos de espaços

densos, movimentados e seguros onde os “olhos atentos” mantem

a segurança espacial. Em 2018 fora celebrada, no natal, uma destas homenagem

aos imigrantes por meio da iniciativa da fundação Tot Raval – um

coletivo de cerca de cinquenta entidades sociais, escolas, instituições culturais,

associações comerciais e pessoas ligadas ao Raval que trabalham

em rede para melhorar a coesão social, coexistência e qualidade de vida

no bairro. A homenagem fazia parte de um projeto de intervenção urbana

chamado de Els Llums 2018 (As luzes, 2018) e consistia em luzes similares

às tradicionais decorações de natal da cidade, mas retratando diferentes

famílias e figuras conhecidas do bairro, além de uma exposição fotográfica

das pessoas que serviram como modelo para as luzes. A iniciativa foi fruto

de uma parceria entre uma fundação do bairro (#RavalKm0), a companhia

de iluminação pública da cidade e os designers Curro Claret e Maria

Güell Ordis (responsáveis pela conceituação) e uma série de comerciantes

locais. Todos os grupos envolvidos trabalharam de forma voluntária para

promover a revitalização comercial e social da Raval, gerando oportunidades

de treinamento e emprego no bairro.

[22] <

Rua desenhadas para as

pessoas, 2018. Rambla de

Fabra i Puig. Foto do autor

[23]

Els Llums, 2018.

Foto: Acervo Fundació

Tot Raval

[24]

Carrer Riera Alta,

Barcelona, 2018.

Foto do autor

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2.1 a cidade grande

Segundo o senso de 2010, São Paulo é a cidade mais populosa

do Brasil. Fundada em 1554 quando rezada a primeira missa pelos jesuítas

Manoel da Nóbrega e José de Anchieta no então “Colégio São Paulo de

Piratininga”, hoje Pátio do Colégio, São Paulo cresceu a se tornar a capital

econômica do país, e por este motivo a cidade mais diversa, que mais atrai

e oferece recursos a seus moradores.

Em vias de funcionamento, vale ressaltar

que a metrópole se sustenta sobre uma complexa

malha de infraestrutura urbana e metropolitana.

A definição de infraestrutura urbana, segundo

Milton Braga, é aquilo que abrange a vida cotidiana

da cidade em suportes diretos, como os serviços

e vias públicas, passarelas e praças, além de

serviços de coleta de esgoto, abastecimento de

água e rede elétrica. A infraestrutura metropolitana

corresponde às demandas necessárias para a

escala da cidade e sua conexão com as cidades

vizinhas, como a rede de transporte coletivo (ônibus,

CPTM e metrô) e vias expressas.

Em uma escala monumental, São Paulo é estruturada em uma

complexa malha de pequenos bairros distintos que comportam diferentes

núcleos em meio ao funcionamento dessa megaestrutura que é a cidade.

Os bairros, formados através dessas trocas ao longo do tempo, qualificam

por fim uma identidade à cada região, seja por compartilharem um gabarito

próprio, um uso determinado, um padrão de arquitetura, uma classe

social, uma religião própria ou até uma língua ou herança histórica. Uma

das principais características de uma metrópole, portanto, é a existência

de aglomerados com características em comum, mas principalmente, a

constante troca entre esses diferentes locais, gostos e agentes.

Em resultado do constante deslocamento

das pessoas para diferentes bairros e dentro do

seu próprio, diversas relações com os espaços

são criadas. Bairros mais densos e com ruas movimentadas,

que mesclam habitação e comércios

ativos, eventualmente trazem a seus moradores

um sentimento mais expressivo de pertencimento

a aquele espaço. Em bairros mais corporativos,

por outro lado, onde a relação é exclusivamente

laboral, o fluxo de pessoas é quase idêntico dia a

dia – o espaço de circulação intensa em horários

de pico se torna, à noite e aos finais de semana,

um ambiente irreconhecível, findo. O mesmo fenômeno

está presente em regiões predominantemente

residenciais onde a rua, cercada de altos

muros, guaritas e iluminação baixa, torna o

caminhar público uma atividade quase que hostil

para os menos corajosos. Aquele ambiente, em

consequência de seu desenho e ocupação, não

criará vínculos afetivos com nada a seu redor, e

consequentemente pouco será valorizado e cuidado.

[25] <

Vão livre do MASP.

Fonte: FERRAZ,

Marcelo Carvalho

[org.] Lina Bo Bardi.

São Paulo: Instituto

Lina Bo e PM Bardi,

1933

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[26] Festa da Achiropita no Bairro d Bixiga.

Crédito: Divulgação CatracaLivre

[27] Liberdade.

Foto: @ig.hud

[28] República vira pequena África, 2019.

Foto: Heitor Salatiel

A imigração em São Paulo possui diversos pontos focais que envolvem

diferentes grupos. No centro da cidade, mais precisamente no bairro

da República, comunidades africanas diversas se apropriaram daquele

lugar ao longo dos últimos anos e, graças aos calçadões, espaços abertos

e parques, encontraram naquela região seu local de expressão. Por meio

de movimentos culturais, expressões artísticas e comércio de rua, a cultura

africana hoje é parte central na composição daquela paisagem. Assim,

aos poucos, os imigrantes não mais são estranhos naquela região, mas

possuem um papel fundamental na construção de uma sociedade mais

tolerante, plural e diversa.

Na Praça da República, todas as segundas-feiras a partir

das 19h, há uma cerimônia muçulmana com tambores africanos,

em que homens dançam e cantam para Alá, usando elementos

da cultura do continente, o que faz os rituais serem confundidos

com vodu. Mas essa vertente do Islã é chamada de Muridismo e

é praticada principalmente no Senegal. (DIAS, 2019)

Ao longo de toda sua trajetória, São Paulo manejou de forma muito

eficaz a apropriação de seus espaços públicos de maneira a fortalecer sua

própria imagem. Em uma metrópole com mais de 12 milhões de habitantes,

a cidade só pode crescer graças a pulsante insistência de diversos

grupos em se expressar – ocupar a cidade para poderem ver e serem

vistos. Caso esta ocupação não existisse, pouco ou nada novo surgiria

na capital. A livre expressão dos diferentes gostos existentes são o que

permitem a ela se inserir em um cenário global, conectado e em constante

mudança.

O que enriquece a metrópole são os encontros.

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2.2 a cidade pequena

[30] “Novos chegados em Itajobi”.

Arquivo pessoal: Aparecida Mancuso

A história de Itajobi começa em 1884, quando é doada a “Fazenda

Campo Alegre” e loteada em pequenas parcelas, para que o adensamento

das famílias rurais criasse um conforto coletivo e uma comunidade próspera.

Passados dez anos a cidade mostrara seu primeiro grande salto em

desenvolvimento com a vinda de imigrantes italianos, alemães e sírios, que

impulsionaram a agricultura de café e o comércio local. A partir desta massa

imigratória e do crescimento acelerado, em 1907 este então nomeado

“Campo Alegre das Pedras” torna-se “Vila Itajuby” e passa a apresentar

nos anos seguintes os primeiros sinais de infraestrutura urbana em praticamente

todo o seu perímetro. Finalmente, em 1919 fora fundado o município

de Itajobi, comarca de Itapolis.

Itajobi provem do Tupi para:

Ita: pedra (itaúna)

Juby: preciosa ou boa

A cidade, hoje com pouco mais de 14 mil habitantes, teve seu crescimento

ordenado de forma bastante similar as outras cidades do interior

brasileiro. Com densidade populacional muito baixa e com vínculos interpessoais

bastante fortes, a cidade se destacou nos últimos anos pelo plantio

de frutas cítricas, especialmente o Limão do tipo Tahiti (em 2018, Itajobi

e região representavam cerca de 80% de toda a produção brasileira). A

cidade, embora próspera, não crescera de forma proporcional ao crescimento

econômico – se não fosse por políticas habitacionais, estaria em

déficit habitacional e sua população em nada seria diversificada. Itajobi não

atrai novos habitantes, mas tem o corriqueiro hábito de trazer de volta seus

antigos moradores que saíram de casa quando jovens para “ganhar a vida”

em outras cidades e agora voltam em sua fase adulta para se aproximar de

seus familiares que permaneceram na cidade.

[29] Itajobi com ruas traçadas; ao fundo, a

igreja matriz. Fonte: arquivo pessoal Dra.

Lourdinha Bórsio Bataglia

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Urbanisticamente, a cidade fora planejada em etapas muito distintas

e pouco coesas – diferente da capital do estado, Itajobi não possui

uma malha urbana desenhada pela aglomeração de pessoas de mesmo

gostos. Seu traçado original foi desenhado para acolher os imigrantes estrangeiros

e, passado isso, sua expansão se deu quase que de forma mecânica

– novas pessoas viriam e assim novos loteamentos seriam feitos.

Nessa fórmula, nunca se prezara por de fato desenhar novos bairros. O

centro já estava consolidado com toda a infraestrutura urbana em meados

do século XX e o que viria a seguir, não importasse a distância deste, seriam

apenas casas isoladas.

[31]Diferença da malha urbana.

Diagrama do autor.

[32] > Cotidiano,2019.

Foto do autor

[32]

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A relação afetiva então presente nestes bairros, portanto, são bastante

semelhantes: por trás das grades residenciais é comum se ver em

primeiro plano a atalaia - uma singela varanda onde ficam os remanescentes

vigilantes da rua, à espreita para qualquer situação cotidiana. Na rua,

cercada de carros prateados, o baixo movimento de pessoas deixa o velho

vigilante entediado pois aquilo pouco se parece com as ruas de outrora. As

manifestações culturais que tomavam conta da praça pública estão longe

demais dali – a ponto de não se ouvir mais seu movimento, mesmo em

uma cidade tão pacata – e aquela rua possui poucos atrativos capazes de

enchê-la de vida novamente.

Em uma recente experiência de diversidade, Itajobi recebera em

sua parte mais ao norte 102 unidades habitacionais da CDHU (Companhia

de Desenvolvimento Habitacional e Urbano) voltadas as famílias brasileiras

em situação vulnerável de todo o país. A inserção destas novas famílias

trouxe, quase que de forma mandatória, um conjunto de novas culturas

(muitas vezes desconhecidas) para o convívio diário daquelas famílias tradicionais

que habitavam a cidade de forma tão despreocupada. O resultado

imediato desta, e de outras intervenções anteriores, não poderiam ter

sido diferentes: o acolhimento popular desejado, que nunca houvera sido

estimulado, resultara em um cenário de estranhamento na cidade – o que

eventualmente passou a atribuir a violência, o desemprego e o tumulto em

geral à vinda destes forasteiros para este ambiente conservador.

Itajobi ainda peca por bons espaços de convívio. Para estes novos

residentes da cidade, a tarefa de entender o contexto no qual agora

se encontravam fora difícil – nesta nova cidade não existiam (e ainda não

existem) centros públicos que enaltecem a história local, ou ao menos bibliotecas

públicas e museus para uma consulta mais ampla sobre conhecimentos

gerais e sobre a própria história de Itajobi. O que viriam a conhecer

de Itajobi nos anos seguintes, portanto, viria do convívio social natural – e

a cidade não seria para eles um agente facilitador.

Estranhamente, em resultado desta política de habitação desprendida

de cuidados de inclusão, a cidade de Itajobi se viu em uma condição

não muito favorável de envelhecimento: por um lado, a vinda de novos habitantes

fez da cidade um centro mais diversificado e com mais visibilidade,

mas ao mesmo tempo pareceu enfraquecer a identidade cultural da cidade;

por outro lado, caso não fosse incentivado o adensamento local, a cidade

estaria em constante inércia no cenário global – desprendida da onda

de desenvolvimento e globalização atual. A solução, talvez, para a reversão

deste ciclo vicioso, seja primeiro engrandecer as tradições e histórias locais

para que estas não se percam e, assim, permitir que novos enredos sejam

adicionados a esta história, favorecendo a cena cultural para livre expressão

de todos os novos e velhos moradores. Assim, como mencionado no

caso do centro das metrópoles, cada grupo se apropriará de seu território

e juntos complementarão a paisagem local.

Este estudo de pesquisa e projeto arquitetônico busca, portanto,

oferecer o acolhimento e o encontro.

[33] < Comércio de rua em Itajobi, 2019.

Foto do autor

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emancipação política

PARTE 03

REFLEXO DO ABANDONO

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aqui e ali

parte 02: créditos iconográficos

[20] Fonte: Acervo pessoal, ilustração do autor

[21] Fonte: Acervo pessoal.

[22] Fonte: Acervo pessoal. Foto do autor

[23] Fonte: Acervo Fundação Tot Raval

[24] Fonte: Acervo pessoal. Foto do autor

[25] Fonte: FERRAZ, Marcelo Carvalho [org.] Lina Bo Bardi. São Paulo: Instituto

Lina Bo e PM Bardi, 1933

[26] Fonte: Disponível em: < https://catracalivre.com.br/agenda/festa-nossa-senhora-achiropita-bixiga-sp/

>. Disponível em 27 jun. 2020.

[27] Fonte: Printscreen da publicação de @ig.hud em 28/06/2020. Fonte: Instagram.

[28] Fonte: Disponível em: < https://www.cartacapital.com.br/blogs/guia-negro/

no-centro-de-sao-paulo-surge-uma-pequena-africa/ >. Disponível em 10 jul.

2020.

[29] Fonte: Arquivo pessoal Dra. Lourdinha Bórsio Bataglia

[30] Fonte: Arquivo pessoal: Aparecida Mancuso

[31] Fonte: Diagrama do autor

[32] Fonte: Foto do autor

[33] Fonte: Foto do autor

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03 [34] < Desfile político, 2014. Foto do autor

Retomando à obra de Sérgio Buarque, em um contexto histórico,

a formação política do povo brasileiro fora tumultuada desde sua origem.

Como menciona o autor, desde os primórdios da história nacional já existia

a figura paternal antipolítica - como um trauma surgido da exploração colonial.

Um Estado desmoralizado, eventualmente, encontrara sua maneira de

exercer o poder na República Velha, com o auxílio dos latifundiários – quem

de fato retinha maior influência frente a população. Neste momento surgia

a figura do coronel no Brasil.

PARTE 03

REFLEXOS DOS ABANDONO

emancipação política

O termo coronelismo é um brasileirismo criado na República Velha

para definir uma complexa estrutura de poder oriunda da hipertrofia da

força privada (o coronel fazendeiro) sobre o poder público (o Estado). Muito

comum até o começo do século XX, o sistema consistia em os coronéis

se usarem de diversos recursos para manipular as eleições e manterem

aqueles que melhor representavam seus interesses próprios no poder. Em

suma, estes recursos ficaram conhecidos como o voto de cabresto, a fraude

nas urnas, a política do café-com-leite e principalmente a Política dos

Governadores: política na qual os governadores dos estados e o presidente

da República faziam acordos políticos, na base da troca de favores,

para governarem de forma tranquila. Os governadores e seus íntimos coronéis

não faziam oposição ao governo central e ganhavam, em troca deste

apoio, liberação de verbas federais. Esta prática foi criada pelo presidente

Campos Sales (1898-1902) e fortaleceu o poder dos coronéis em seus

estados.

Apesar do proclamado fim destas práticas em 1930 com a eleição

de Getúlio Vargas, algumas heranças ficaram e ainda prevalecem desta

prática histórica. A compra e coerção de votos e a fraude eleitoral ainda

são hábitos presentes nas eleições nacionais. Para muitos, o voto em branco

e nulo, apesar seu viés de protesto, também são tidos como marcas

destas práticas antigas para possibilitar a entrada de determinado candidato

no poder - já que reduzem a quantidade de votos necessários para a

eleição. Involuntariamente, uma herança bastante significativa desta época

foi a crença de que, em locais onde o Estado já é menos presente, os

maiores empregadores locais deveriam usar de sua influência popular para

manipulação política e criação de tendências a seu favor.

[34]

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[36] < Grito do Ipiranga às Margens do

Pendotiba. Fonte: J. Carlos, 1921

Segundo retrato de LEAL, 1997, a “decomposição do coronelismo

só será completa, quando se tiver operado uma alteração fundamental em

nossa estrutura agrária”. Contudo, como essa ação não se dá rapidamente

nem de forma contínua, além de apresentar contradições, ainda não foi

possível uma solução final satisfatória. O autor ainda afirma que o “atraso

cívico e cultural” do povo, e especificamente da população rural, seria um

dos maiores fatores de impedimento das mudanças políticas no Brasil.

Aproximando este cenário aos dias atuais, a figura do coronel se

desenvolve em um novo contexto. O território inexplorado permite naquele

espaço o fenômeno da distorção infrene de informações políticas e tendenciosas,

provindas daqueles que hoje “dominam” certa região – aqueles que

empregam nas lavouras parte significativa da população e concentram assim

a maior parte da renda. Fenômeno este de manipulação desgovernada

se esperaria ter sido barrado com o atual amplo acesso a informações,

mas recentemente provou-se ineficaz e justamente contrário – a disseminação

em massa de informação gera também a maior distorção possível

da mesma. Em seu mais recente estudo, Countryside – The Future, Rem

Koolhaas afirma:

[35] ^ As Próximas Eleições... “De Cabresto”.

Fonte: Storni, Careta, 1927. Apud:

Renato Lemos (org)

56 57



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Outra “terra incógnita” é sem dúvida de que temos uma situação

de “tabula rasa” com poucas informações a respeito. Existem

pouquíssimas pessoas verificando a legitimidade das informações

ou dos discursos propagados no campo ou em áreas não urbanas...

então o espaço rural se torna uma página em branco na

qual qualquer narrativa pode ser proferida sem o menor policiamento

tanto para um viés de extrema esquerda quanto de extrema

direita. Portanto, ao mesmo tempo em que favorece os banqueiros,

o espaço se torna totalmente suscetível à especulação,

assim como um território de produção abundante de alimentos

pode se tornar um ambiente de fome extrema...

(KOOLHAAS, 2012)

não a longo prazo) – suas frases de efeito com o tempo se desvendarão

em discursos de campanha e seus projetos, ricos em boas intenções, facilmente

cairão no abandono eminente.

Vale ressaltar, brevemente, em que contexto este discurso é propagado

do palanque: aquele com o microfone usa de sua familiaridade com

o público para apresentar “respostas” bastante pontuais, falando a linguagem

informal, sem se aprofundar muito em nenhuma medida específica.

Todo o desenrolar do apresentador visa tornar o grande público suscetível

as condições que ele mesmo cria e apresenta, sem que a população possa

reconhecer suas verdadeiras necessidades. A realidade daquele no palanque

é outra: ele, diferente do público a quem se direciona, não é dependente

exclusivo das escolas ou hospitais locais por exemplo – ele possui

os recursos necessários para se estruturar independente do êxito de suas

promessas, e em momento algum deixaria isso transparecer.

Contudo, influência do coronel e a desinformação da população

por interesses próprios não são exclusividades da condição rural. A bancada

ruralista, junto à influência do agronegócio tem presença nos debates

das metrópoles e participação em muitas decisões políticas de âmbito nacional

e mundial. O que cabe à cidade rural e vilarejos de baixa população

é a emancipação política para que se reconheçam suas reais necessidades

e carências e assim se garanta maior participação estatal.

A figura do coronel hoje, portanto, não é comprovadamente associada

a acordos políticos como na República Velha, mas sim à desmoralização

da máquina do Estado. O movimento liberal, de crescente ascensão

mundial nos últimos anos, favorece este Estado-mínimo e assim credita

maior responsabilidade na figura do empresário/ latifundiário/ empregador

local – quer este a almeje ou não. O resultado desta condição atribui à cidade

rural o status de terra de especulação, onde seus moradores não reparam

nessa problemática e vivem a frágil ilusão do populismo na qual “alguém

está fazendo algo por nós”. O governo despreparado que esta nova

figura exerce não é arquitetado para melhorar a realidade local (certamente

Faltam espaços de debate na cidade rural. Falta voltar os olhos

para sua própria história no país e condição real na atualidade para que

se projete seu papel no futuro. O empoderamento da população para a

geração dessas discussões dentro de sua própria cidade é fundamental, e

neste cenário a arquitetura e o urbanismo tem seu dever a cumprir. Espaço

algum neste país deve ser deixado a deriva ou ser menosprezado.

[37] < “terra incógnita”, 2011. O espaço

não urbano no mundo (modificado).

Fonte: acervo OMA

58 59



sintomas de um vírus

ÇÕES DE UMA PANDEMIA

PARTE 04

DIFERENTES INTERPRETA-

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aqui e ali

parte 03: créditos iconográficos

[34] Fonte: Acervo pessoal, foto do autor

[35] Fonte: Storni, Careta, 1927. Apud: Renato Lemos (org)

[36] Fonte: J. Carlos, 1921

[37] Fonte: acervo OMA

60



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[38] < “Nova Iorque fantasma

em horário de pico”, 2020.

Foto: Jeenah Moon/ Reuters

[39] “ 3 de fevereiro em

Wuhan, China”, 2020. Foto:

Acervo National Geographic

No dia 1 de dezembro de 2019 surgiu um novo vírus em Wuhan, cidade

na província de Hubei, na República Popular da China. O vírus COVID-19

(do inglês, Corona Virus Desease 2019) tem sintomas similares a uma gripe

comum, mas pode evoluir de forma grave e ainda não possui nenhum tratamento

de eficácia comprovada. Muito contagioso, o vírus é letal principalmente

para aqueles que se enquadram no denominado “grupo de risco”, ou seja, idosos,

imunodeprimidos, diabéticos, hipertensos, quem tem insuficiência renal

crônica, doenças respiratórias crônicas ou doenças cardiovasculares.

O primeiro caso reportado foi no dia 31 de dezembro de 2019 e a

partir de então, na mesma semana já estariam confirmados mais de 40 casos

na cidade de Wuhan. A primeira morte decorrente da epidemia ocorreu dez

dias depois de seu primeiro diagnóstico. Em janeiro, o vírus já se espalhava de

forma descontrolada para outras cidades da China.

PARTE 04

DIFERENTES INTERPRETA-

ÇÕES DE UMA PANDEMIA

sintomas de um vírus

Em 23 de janeiro de 2020, Wuhan foi colocada em quarentena, sendo

a primeira cidade a decretar esta medida de extrema emergência, em uma tentativa

de se isolar o vírus para conter seu contágio. No dia seguinte, entretanto,

a Europa confirma seu primeiro caso – na França -, confirmando a globalização

do vírus. Em 11 de março de 2020, a Organização Mundial da Saúde toma

sua primeira medida de urgência e declara o surto uma pandemia – termo que

caracteriza a doença como global e em grande propagação.

[38] [39]

63



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4.1 a doença no Brasil

Dia 25 de fevereiro, em plena ressaca de carnaval, foi anunciado o

primeiro caso de COVID-19 no Brasil - um homem de 61 anos, do estado

de São Paulo e que retornava de uma viagem à Itália. A partir deste primeiro

caso, e seguindo as curvas de disseminação que estavam sendo registradas

em outros países, mais casos começaram a aparecer progressivamente.

Os primeiros casos consistiam em pessoas que estavam voltando

de viagens internacionais de países com alto número de infectados ou que

haviam entrado em contato com alguém que havia retornado.

A partir desta manifestação o clima muda radicalmente. Na semana

seguinte (16 de março), grandes empresas começam a adotar o trabalho

remoto, comércios fecham suas portas e mercados lotam com a busca de

suprimentos básicos. No final da semana, o governador do Estado de São

Paulo, João Dória (PSDB), decreta quarentena no Estado, inicialmente por

15 dias, mas que se estenderia, devido ao agravamento da situação, até

o atual momento de redação - quatro meses depois – com variados graus

de restrições a depender dos números de casos, óbitos e a capacidade do

sistema de saúde.

A situação no país se agravou na segunda semana de março de

2020 quando a comitiva do presidente Jair Bolsonaro retorno de uma viagem

aos EUA com muitos integrantes infectados pelo vírus. Na mesma

semana foi declarado que o vírus já estava na fase de transmissão comunitária

em São Paulo e no Rio de Janeiro (quando não é mais possível

conectar o infectado a sua origem, como uma viagem ou outra pessoa infectada).

Três dias depois, em meio ao aumento da tensão nacional com a

pandemia, o presidente, contrariando as indicações sanitárias de diversos

órgãos, foi às ruas em apoio a um ato pró-governo e contra o Congresso e

o Supremo Tribunal Federal.

[40] < “O presidente Jair

Bolsonaro cumprimenta

manifestantes em frente

ao Palácio do Planalto.”,

2020. Foto: Sérgio Lima/

AFP

[41] Sabado na praça

Roosevelt em quarentena.

Foto do autor.

64 65



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Passados mais de 100 dias de enfrentamento da pandemia, 1,5

milhão de casos confirmados e mais de 60 mil vidas perdidas, o combate

ao novo coronavírus gerou também consequências em outros campos

do cenário nacional. Hoje, no início de julho de 2020, o Brasil enfrenta

uma grave crise política com um presidente com altos níveis de rejeição

e atualmente sem partido político. Em meio a pandemia, dois Ministros

da Saúde pediram exoneração do cargo por não conseguirem implantar

suas políticas de forma satisfatória e serem constantemente contrariados

pelo próprio presidente; a pasta está a cerca de 50 dias sem a indicação

de um novo ministro, com um general tendo assumido o cargo de forma

interina. A pasta da Secretaria da Cultura também foi trocada duas vezes

neste período; o Ministério da Educação também fora abandonado duas

vezes e ainda segue sem nenhum responsável. Ainda em meio ao caos, o

ex-juiz Sérgio Moro abandonou o cargo de Ministro da Justiça, acusando

o presidente de estar envolvido em casos de corrupção e manipulação da

Polícia Federal, fragilizando em muito a imagem do presidente, que desde

então segue sendo acusado de envolvimento em cada vez mais casos de

corrupção, manipulação e disseminação de notícias falsas.

1,000,000

10,000

E.U.A.

Brasil

Russia

Inglaterra

Mexico Espanha

Italia Alemanha

França

Japão

Australia

China

4.2 a disseminação da notícia

Até o atual momento a única forma comprovadamente eficaz de se

combater o vírus é o distanciamento social. Achatar a curva de disseminação

da doença é a única maneira de se garantir leitos para o atendimento

da população – os tratamentos existentes são experimentais, demorados

e requerem extrema dedicação dos profissionais da saúde.

Esta ação preventiva, que fora adotada na grande maioria dos países,

obviamente tem seu impacto na economia, e por esse motivo foi alvo

de muita crítica e relutância. Sendo o Brasil o primeiro país subdesenvolvido

afetado em larga escala pelo vírus, abriu-se a discussão de que, aqui,

as consequências econômicas causadas pelas medidas restritivas adotadas

serão mais prejudiciais do que o próprio vírus. “O Brasil não pode parar

dessa maneira, o Brasil não tem essa condição. As consequências [econômicas]

serão muito maiores do que as pessoas que vão morrer por conta

do coronavírus” - afirmou Junior Durski, dono da rede de hamburguerias

Madero.

O próprio presidente Bolsonaro se posicionou ao longo dos primeiros

meses abertamente contrário às medidas sugeridas pela OMS, defendendo

de forma inconsequente a volta à normalidade dos trabalhos e

escolas. O principal argumento adotado se baseia na baixa mortalidade do

vírus e na crença da eficiência de medicamentos como a hidroxicloroquina,

mesmo sem qualquer comprovação científica e sem o apoio da Organização

Mundial da Saúde, que recentemente encerrou os testes com o medicamento

por não comprovar nenhuma grande eficácia no tratamento.

“O vírus chegou, está sendo enfrentado por nós e brevemente passará.

Nossa vida tem que continuar, empregos devem ser mantidos, o sustento

das famílias deve ser preservado, devemos, sim, voltar à normalidade” -

disse o presidente em 24/03 na rede aberta de televisão.

100

0

20 40 60 80 100 120 140 160

[42] < Casos confirmados

de covid-19 em países selecionados.

Apresentando

números de casos desde

o 100º caso registrado.

Números de 5 jul 2020.

Fonte: The Guardian

66 67



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O acesso à informação e a mobilização coletiva como a única maneira

de salvar milhares de vidas é o que traz este tema para o trabalho.

Todas as informações de prevenção e contenção da doença foram divulgadas

abertamente e de forma didática ao público para que se entendesse

que o esforço de fechar empresas e desacelerar a economia seria um

sacrifício necessário nos dias de crise - sempre salientando que perdas

econômicas ocorreriam e seriam difíceis, mas que o mais importante é a

preservação das vidas. Apesar de todos os esforços, em muitos lugares

foram formados grupos de relutância e descrença das informações científicas,

fortalecidos pela crise política e com alto poder de discriminação de

fake news.

[43] Apoiadores de intervenção

militar se aglomeram durante

discurso do presidente Jair

Bolsonaro em Brasília (19.

abr.2020). Foto: Gabriela Biló/

Estadão Conteúdo.

O país que se encontra em um estado de extrema polarização criara

nos últimos anos o hábito de questionar não a notícia, mas o noticiário.

O posicionamento político de cada plataforma de informação tornara-se

cada vez mais explícito e por esta razão parte significativa da população

passou a recorrer a meios de informação alternativos. A figura do coronel,

apresentada no capítulo anterior deste trabalho, é um exemplo claro de

formador de opinião que ganhara bastante visibilidade neste tipo de cenário.

Em cidades rurais a beira do colapso emocional e econômico, por

exemplo, este novo “coronel”, que poderia ser um latifundiário de renome

na cidade, mal sentiria o impacto econômico da crise. Este poderia então

usar de sua influência para manipular as informações ao seu favor, fortalecendo

a figura do presidente em detrimento do Estado, desacreditando

a gravidade da doença e as informações trazidas pela mídia profissional e

tradicional. Em avalanches de mensagens pelo aplicativo whatsapp (outra

importante fonte de disseminação de informações, nem sempre verdadeiras)

empresários, políticos e acionistas também instauraram o caos

e problematizam as condições de superação desta pandemia – a título

de exemplo, em abril deste ano o vereador do Rio de Janeiro e filho “02”

do presidente, Carlos Bolsonaro, foi identificado pela Policia Federal como

articulador de um esquema criminoso de fake news utilizado para atacar e

acuar ministros do STF e integrantes do Congresso.

Em todo o Brasil, o uso de informações e desinformações vem

sendo substancial na tentativa de se manter a ordem no país. Na capital

paulista, onde ocorrem constantes debates sobre o uso da cidade, o isolamento

segue ocorrendo há 132 dias e os números de óbitos pelo vírus

seguem crescendo de forma controlada. Por outro lado, no interior do estado,

a situação mostra sinais críticos: considerado o novo epicentro da

epidemia, em 25 de junho o interior registrou pela primeira vez um número

total de óbitos e de casos superior ao da capital. Nestas cidades, em sua

grande maioria, a adesão às políticas de isolamento é significantemente

menor que na capital e não se vê nenhum sinal de mudança próxima, mas

ao contrário, cresce uma recorrente pressão pela reabertura do comércio,

serviços e para o retorno “à normalidade”.

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pt. 04

A “normalidade” referida, todavia, vem se mostrando ultrapassada

à medida em que a população mundial vem se adaptando às novas rotinas

de trabalho. O exercício remoto, passada a fase de adaptação, permitiu à

população se atentar aos males rotineiros que já haviam se naturalizado

em suas atividades laborais pré-pandemia - como as exaustivas jornadas

de locomoção ao trabalho e o distanciamento constante da família e a sua

moradia. A título de exemplo, o próprio desenvolvimento deste trabalho de

monografia e toda a rotina de seu autor se alteraram drasticamente para se

adequar a esta realidade do “novo normal”. Todo este projeto de conclusão

de curso fora concluído longe do instituto acadêmico de formação, fora da

capital São Paulo (mais precisamente em Porto Alegre – RS e em Americana

–SP) e sempre com atendimentos virtuais programados.

cidades menores e a reaproximação com entes queridos surgiu como uma

alternativa agradável para se tomar proveito de uma situação tão excepcional

como esta. A que se preza esta pesquisa, este exercício de trabalho

remoto é compreendido como uma oportunidade única de se “redescobrir”

a vida no interior. Contanto que se estabeleça o acesso à internet,

as atividades laborais antes exclusivas às grandes capitais poderão agora

ser exercidas remotamente em acordo com uma qualidade de vida mais

pacata, típica de cidades menores.

Novas relações de adensamento urbano tanto em grandes capitais

quanto em pequenas cidades certamente serão um legado deixado

pela pandemia. Além dos problemas pontuados anteriormente a respeito

das condições sociais de ocupação na metrópole, o espaço urbano desta

também vinha mostrado seus sinais de saturação: Os tumultos diários na

rede de transporte público, os engavetamentos nas avenidas, a baixa qualidade

do ar e a especulação imobiliária são exemplos desta constatação,

que vinha se agravando nos últimos anos e agora, neste cenário atual de

extrema exceção talvez encontre uma solução a ser trabalhada.

Não se sabe quando exatamente o Brasil retomará suas atividades

públicas livremente. Hoje, no início de julho, já estão atuantes em muitos

centros do país as primeiras medidas de volta à livre circulação de pessoas

e a retomada gradual do comercio de rua - ainda que com os cuidados

necessários. A pandemia que marca o ano de 2020, por fim, terá suas

consequências trabalhadas por muitos anos à frente e este trabalho, ao

que lhe cabe, busca trazer um cenário de oportunidade criativa para que

aprendamos com os erros passados e elaboremos então soluções melhores.

Curiosamente, esta medida mencionada de regressar da capital

para o interior não fora uma exclusividade do autor. Seja para economizar

no aluguel ou para se aproximar dos familiares, acredita-se que uma

quantidade significativa de brasileiros optou por deixar os grandes centros

e voltar – mesmo que temporariamente – para suas cidades de origem. Em

tempos de tamanha tensão social no país, o sossego predominante em

[44] < Aeroporto Internacional

de Guarulhos deserto em abril

de 2020. Foto do autor.

70 71



cidade sustentável

PARTE 05

NOVO NORMAL

pt. 04

aqui e ali

parte 04: créditos iconográficos

[38] Fonte: “Imagem de cidade fantasma se repete enquanto Nova York caminha

para pico da pandemia”. Disponível em: < https://oglobo.globo.com/mundo/

nova-york-se-transforma-em-cidade-fantasma-diante-dos-efeitos-do-novo-coronavirus-1-24342291

> Disponível em 15 jun. 2020.

[39] Fonte: acervo Getty Image/ National Geographic

[40] Fonte: “Orientação para aglomeração é ‘não’ a todos, diz ministro da

Saúde sobre Bolsonaro”. Disponível em: < https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/03/orientacao-para-aglomeracao-e-nao-a-todos-diz-ministro-da-saude-sobre-bolsonaro.shtml

> Disponível em 25 jun 2020.

[41] Fonte: acervo pessoal, foto do autor

[42] Fonte: The Guardian/ Johns Hopkins CSSE. Disponível em: < https://www.

theguardian.com/world/2020/jul/12/coronavirus world-map-which-countries-have-the-most-covid-19-cases-and-deaths

-world-map-which-countries-have-the-

-most-covid-19-cases-and-deaths> Disponível em 05 jul 2020.

[43] Fonte: Disponível em: < https://www.cnnbrasil.com.br/politica/2020/04/20/

pedido-de-inquerito-sobre-atos-pro-intervencao-cita-deputados-mas-nao-bolsonaro

> Disponível em 05 jul 2020.

[44] Fonte: acervo pessoal. Foto do autor.

72



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05

O adensamento urbano, enaltecido desde a argumentação proposta

por Jane Jacobs em 1961, nem sempre fora a solução mais trabalhada

entre os arquitetos. Passada a Primeira Revolução Industrial e a

mudança radical do funcionamento da cidade americana, muitos arquitetos

se debruçaram a se adaptar a este novo cenário, formando a cidade

tradicional, enquanto outros tornaram a critica-la. Em 1932, Frank Lloyd

Wright apresenta sua análise principal publicando o livro “The Disappearing

City” e, três anos depois expõe ao público - por meio de uma maquete

em grande escala exibida no Rockefeller Center, em Nova Iorque – seu

plano para uma cidade ideal: The Broadacre City.

PARTE 05

NOVO NORMAL

cidade sustentável

[45] < Poluição em Nova

York, 2016. Foto de autoria

desconhecida modificada

pelo autor.

[46] Frank Lloyd Wright

examina o modelo físico.

Fonte: Frank Lloyd Wright

Foundation, 1935

[45]

75



pt. 05

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pt. 05

O icônico projeto apresentado por Wright consistia fundamentalmente

em questionar o rumo de desenvolvimento tomado pelas cidades

americanas. “Wright gostava de citar Emerson*, poeta e filósofo americano,

que dizia que “as cidades forçam o crescimento e tornam os homens

loquazes e divertidos, no entanto, artificiais”. Wright, embora fosse do

interior, nunca foi exatamente introvertido ou casmurro, mas também não

era artificial. Wright julgava que a artificialidade era o resultado da vida

antinatural e a grande e tumultuosa metrópole industrial era fundamentalmente

antinatural.”

O nosso destino democrático não pode ser cumprido

pelo simples industrialismo, por maior que ele seja [...] somos

dotados, por natureza, de uma vasta agronomia. Na proporção

humana do industrialismo e da agronomia, produziremos a cultura

que cabe à democracia orgânica... (BLAKE, 1966)

Portanto Wright propunha em seu manifesto o modelo oposto ao adensamento

da cidade - segundo o arquiteto o ser humano só poderia se

desenvolver em sua totalidade quando em contato constante com a

natureza. Pensamento de extrema pertinência na época, uma vez que,

no início da Revolução Industrial, a presença das fabricas nas cidades – o

[47]

que era visto como grande marco da civilização - havia tornado aquele

espaço um ambiente insalubre, de péssima qualidade do ar. Assim, a

A natureza volta a ser ali um meio contínuo no qual todas

as funções urbanas estão dispersas e isoladas sob a forma

vida no campo passou a ser idealizada, sobretudo pelas classes sociais

não diretamente envolvidas na produção agrícola e a partir deste cenário

de unidades reduzidas. O alojamento é individual: não há apartamentos,

mas casas particulares, cada uma com pelo menos

surgira a proposta urbana.

quatro acres de terreno, que os ocupantes dedicam à agricultura

O projeto de Wright acontece em uma comunidade hipotética de

(atividade privilegiada da civilização dos prazeres, segundo F. L.

Wright) e aos lazeres diversos. Ora o trabalho está situado ao lado

10km² e seria uma declaração de planejamento e um esquema sócio-político

inspirado em Henry George, pelo qual cada família dos EUA rece-

do alojamento (oficinas, laboratórios e escritórios particulares), ora

se integra em pequenos centros especializados; unidades industriais

ou comerciais são cada vez mais reduzidas ao maior volume

beria um lote de 1 hectare de terra. Como descreve Françoise Choay em

seu livro “O Urbanismo”:

considerado viável, destinadas a um mínimo de pessoas. Acontecendo

o mesmo com os centros hospitalares e culturais, cujo

número compensa a dispersão e a escala geralmente reduzida.

Todas essas células (individuais e sociais) estão ligadas e religadas

entre si por uma abundante rede de rotas terrestres e aéreas:

[47] > The Broadacre City.

Fonte: Frank Lloyd Wright

o isolamento só tem sentido se pode ser rompido a qualquer momento.

(CHOAY, 1939)

Foundation, 1935

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Portanto a Broadacre City se apoia no partido de baixas densidades

habitacionais e na descentralização de processos industriais e

agrícolas, além de explorar as possibilidades de lazer no campo e de

uma complexa estrutura de locomoção urbana. Segundo Philip Gunn, a

obra de Frank Lloyd Wright é “o último de uma longa lista de críticos que

protestaram contra o patológico mundo urbano das grandes cidades

contemporâneas, pregando o retorno às origens rurais da Federação

Americana.” (GUNN, 1989).

[48, 49, 50] Exposição Broadacre City,

The Living City, 1958. Desenhos:

Frank Lloyd Wright, 1958

[48] [49]

78

[50]

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Passadas décadas de desenvolvimento urbano e feita a inclusão

da indústria no contexto urbano de maneira menos nociva, o crescimento

populacional e fabril dos últimos anos mostram hoje consequências

menos palpáveis que o “ar irrespirável” de Nova Iorque da década de 30,

mas consequências globais muito maiores – as quais devemos nos atentar

no desenho da cidade.

O desenvolvimento sustentável é um dos oito Objetivos de Desenvolvimento

do Milênio (ODM) estipulados pelas Nações Unidas na

virada do ano 2000, em Nova Iorque. Reinterpretar as cidades e a própria

maneira de se viver, consequentemente, são partes cruciais deste processo.

Neste contexto, estudos mais recentes como aquele mencionado

de Christopher Lee (Within The Frame: The Countryside as a City, 2014)

tornam-se fundamentais para que se explore alternativas do morar e do

projetar.

Inserindo a obra de Wright nos dias atuais, certamente a produção

e o consumo do alimento próprio, tal como a ampla área permeável,

seriam soluções que reduziriam em muito as emissões de carbono por

habitante da cidade. Em contrapartida, o baixo adensamento e a locomoção

por meio de transportes motorizados a qualquer estabelecimento de

necessidade própria seriam questões questionáveis da proposta, justamente

por se aproximarem da atual condição de uma série de cidades

rurais e subúrbios no mundo.

Em Cidades Caminháveis, 2012, Jeff Speck cita o recente estudo apresentado

por Scott Bernstein no “Centro de Tecnologia das Comunidades”,

em Chicago. No final deste estudo são apresentados uma série de

mapas referentes a emissão de carbono por residência em comparação

com o preço local de imóveis e o tamanho dos quarteirões.

[51] Mapa 01: Relação do tamanho de quadras de cada região.

Mapa 02: Relação de CO2 emitido por cada familia em cada região.

Fonte: Scott Bernstein: Reconnecting the Nation: Meeting the Challenge of

Rapid Ramp-up by Counting the Benefits of Livable Communities & Regions.

Como se vê nos esquemas, as regiões da periferia com maiores

quarteirões e famílias que se locomovem diariamente até o centro da cidade

à trabalho, consequentemente, são regiões com maiores emissões

individuais de carbono. Além do impacto ambiental, em questões monetárias,

embora uma residência unifamiliar na periferia da cidade seja mais

acessível do que um apartamento no centro, os gastos gerais se equiparam

quando considerado o gasto em locomoção diária.

[52] Relação de gastos em transporte e

moradia em diferentes cidades.

Fonte: Scott Bernstein: Reconnecting

the Nation: Meeting the Challenge of

Rapid Ramp-up by Counting the Benefits

porcentagem da renda porcentagem da renda

of Livable Communities & Regions.

gasta em transporte

gasta em moradia

80 81



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pt. 05

Atribuindo este estudo à condição rural, ainda citando Jeff Speck,

na maioria dos mapeamentos de carbono existentes, o campo aparece

como a região menos poluente enquanto os grandes centros urbanos são

facilmente identificados pela mancha de poluição.

Porém esta lógica de medição de poluentes não é completamente

confiável. A medição de carbono deveria ocorrer em uma escala pessoal,

assim como fez Bernstein, para que se entenda o quão sustentáveis são

os hábitos das pessoas em determinada região.

Os lugares devem ser julgados não pela quantidade de carbono

que emitem, mas pela quantidade de carbono que nos fazem

emitir. Em um dado momento, há um determinado número de

pessoas nos Estados Unidos que podem ser encorajadas a viver

onde deixam o menor impacto ambiental. E este lugar é a cidade

– quanto mais densa, melhor. (SPECK, 2012)

Cidades rurais, portanto, por mais que não concentrem em si uma

grande massa de gases poluentes como na metrópole, exigem de seus

habitantes que pratiquem hábitos muito mais poluentes do que aqueles

na grande cidade. Prova de que estes hábitos pessoais são os verdadeiros

determinantes na condição dos poluentes - a mesma análise de

satélite (retratada acima, imagem 53) que trouxe essa mancha de calor

nas capitais em abril do ano passado (2019) fez a mesma análise no ano

seguinte (2020) em meio a quarentena causada pela pandemia do Coronavírus

(imagem 54).

[53] [54]

As cidades que mais prosperarão no século XXI serão aquelas autossuficientes,

bem adensadas e com um convívio social seguro e fluido.

Enquanto não existem tecnologias acessíveis para viabilizar um transporte

eficiente e ecológico que permita o espraiamento urbano, o adensamento

e a vida na rua seguirão sendo a melhor alternativa para o melhor funcionamento

de pequenas e grandes cidades. O “novo normal” a ser adotado

após a pandemia de 2020 deve ser aquele que priorize a qualidade de

vida de seus habitantes, com hábitos saudáveis, e entenda as cidades –

independentemente de sua escala – como um organismo em constante

trabalho que compõe um cenário global muito maior.

[53] Manchas de poluição sobre São

Paulo e Rio de Janeiro capturadas por

imagens de satélite em abril, 2019.

Fonte: Seeg

[54] Manchas de poluição sobre São

Paulo e Rio de Janeiro capturadas por

imagens de satélite em abril, 2020.

Fonte: Seeg

82 83



intervenção projetual

PARTE 06

O ENSAIO

pt. 05

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parte 05: créditos iconográficos

[45] Fonte: Disponível em: < http://i.huffpost.com/gen/1240209/thumbs/o

-POLLUTION-facebook.jpg > Disponível em 13 jul 2020.

[46] Fonte: acervo Frank Lloyd Wright Foundation, 1935

[47] Fonte: acervo Frank Lloyd Wright Foundation, 1935

[48, 49, 50] Fonte: Disponível em: < http://www.mediaarchitecture.at/architekturtheorie/broadacre_city/2011_illustration_005_en.shtml

> Disponível em 13 jul

2020.

[51] Fonte: Scott Bernstein: Reconnecting the Nation: Meeting the Challenge of

Rapid Ramp-up by Counting the Benefits of Livable Communities & Regions.

[52] Fonte: Scott Bernstein: Reconnecting the Nation: Meeting the Challenge of

Rapid Ramp-up by Counting the Benefits of Livable Communities & Regions.

[53] Fonte: Seeg (Sindicato Empregados Estacionamento Garagem Estado São

Paulo)

[54] Fonte: Seeg (Sindicato Empregados Estacionamento Garagem Estado São

Paulo)

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06

6.1 washington luís

PARTE 06

O ENSAIO

intervenção projetual

Não nasci em Itajobi. Muito menos tive a pretensão ou sonho reprendido

de morar lá. Sempre foi – e ainda é – a cidade onde meus pais,

tios e avós nasceram e cresceram. É para onde todos eles voltam suas

orações diariamente e onde grande parte reside até hoje. Quanto a mim,

a minha relação com a cidade se resume a viagens breves ou a algumas

estadias um pouco mais longas. Eu vou explicar:

Eu nasci e cresci em Americana, São Paulo. Sempre morei em edifícios

altos - com vistas para outros edifícios altos - em um bairro central,

bastante estruturado na cidade. Minha infância ali se resumia a fazer esportes

no térreo murado do Edifício Marrocos (na época o maior da cidade),

jogar vídeo games na casa de amigos do condomínio ou ir para a casa de

outros amigos, em bairros residenciais para também jogar vídeo game ou

– raramente - brincar na rua. Uma infância privilegiada e, no entanto, muito

diferente daquela que meus primos itajobienses tiveram.

[55] Implantação explodida

do projeto.

Imagem do autor.

[56] Rancho cafundó, 2014.

Desenho do autor.

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Minhas passagens por Itajobi sempre foram pontuais. De 95 até

2010 minha relação com a cidade dependia do esforço dos meus pais

em tirar um final de semana para visitar a família. Esse esforço se resumia

em dirigir por 3 horas na Rodovia Anhanguera e Washington Luís na sexta-feira

à noite, passar o final de semana com a família e velhos amigos e

depois, no domingo logo depois do futebol, encarar as mesmas 3 horas

para voltar. A partir de 2010 creio que minhas visitas se tornaram mais

frequentes – ou talvez só mais significativas – pois agora minha mãe havia

se mudado pra lá, o que trouxe um novo significado para aquela cidade e

tudo o que representa.

Foram nessas viagens que eu conheci a unidade da minha criação.

Conhecer Itajobi significou conhecer melhor, também, Americana. Meus

primos de lá (com a exceção de um) não jogavam vídeo game, não moravam

em prédios altos e mal tinham muros em suas casas. Lembro de passar

tardes vendo provas a cavalo, com o barulho alto do locutor, o cheiro

forte de churrasco e cigarro impregnados na camisa e bota e os copos

de plástico com cerveja. Lembro também de sair de caminhonete com o

meu tio para pescar em um lago perto da cidade, o que nos ocupava até

o sol se pôr – em uma paisagem fantástica do horizonte limpo com nada

além de plantações de limão, cana ou eucalipto. As festas juninas eram

especialmente únicas, com a fogueira de São João, a oração do Terço e o

levantamento do mastro em homenagem aos 3 santos católicos homenageados

naquele mês: São Pedro, São João e Santo Antônio.

Naquele cenário não pareciam haver motivos para ficar em casa,

mas ainda assim, ironicamente, minhas maiores memórias ali são na verdade

em lugares privados. Ainda com o filtro do olhar de uma criança,

confesso que na maioria das vezes o usual era ficar recluso durante a

tarde, seja para receber pessoas na sala ou para correr na grama da chácara,

e no final do dia sair pra comer um lanche no Floresta ou uma pizza

no Grégio. Conversando então com os meus primos, descobri que a rotina

deles em dias de semana realmente se limitava aos contatos dentro do

espaço escolar e depois na casa de algum amigo, se não fossem pelos

seus avós que ainda mantinham o habito de sentar na calçada para ver

o movimento na rua e saudar os vizinhos, pouco ou nada acontecia em

espaços públicos.

Essa rotina sim, não se diferenciava muito daquela vivida em Americana.

Uma vez que as ruas já não eram consideradas tão seguras, brincar

desprotegido não poderia ser mais uma opção em lugar nenhum. Aquele

romantismo que cresci ouvindo dos meus pais em brincar na rua, ir em

quermesses e no “baile da cidade” foi cada vez mais desvendado como

coisa do passado, nostálgica. Aquela cidade saudosa já não passava de

um cenário idealizado que por algum motivo se perdeu ao longo dos anos.

O salão de festas havia caído em desuso, o clube privado de acesso

limitado perdera seu objetivo de lazer já que agora as reuniões familiares

aconteciam nos espaços residenciais unifamiliares, em sítios ou quintais.

As quermesses aconteciam cada vez menos e o fluxo na praça central já

não era mais tão convidativo.

[57] < Lagoa do bairro

do monjolinho.

Foto: Raul Oliveira

88 89



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Nada naquele lugar se assemelhava à cidade das histórias onde

meu pai formou sua primeira banda, a Estilo 6, em 1969 no auge dos

Beatles para tocar em bailes enormes do agora falido clube. A oferta de

entretenimento jovem certamente era outra – meu pai, os pais dele e seus

colegas participaram de grupos de teatro, escolas de samba da ala jovem,

carnaval de desfile de rua e inúmeros bailes abertos da cidade. Ambiente

de festa este que nada se aproximou a minha rasa adolescência em Itajobi,

que se resumia em frequentar chácaras isoladas da cidade com um som

alto, mas principalmente em circular de carro pela cidade como um sinal de

presença na noite, para que daí surgisse o convite para qualquer que fosse

a chácara da vez.

[58] Banda Estilo 6,

1969. Acervo pessoal.

Então minha investigação em projeto surge dessa análise cronológica,

desde essa cidade ideal resgatada da memória familiar, passando pelas

cidades de Itajobi e Americana vividas desde 1995, a chegar na minha

mudança para São Paulo, em 2013, onde finalmente entendi o papel que o

Estado, as pessoas e o arquiteto poderiam obter na formação e incentivo

do espaço público.

Itajobi é rica em história, e esse trabalho visa explorar e resgatar

esta herança.

[59] O ipê e o limão do

cafundó. Foto do autor.

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6.2 leitura urbana

A malha urbana de Itajobi possui um formato

muito singular. Singular no sentido de ser inconfundível.

Seu desenho carrega em si a história

de formação da cidade; seus limites evidenciam

suas barreiras geográficas; sua malha, o processo

de crescimento.

Tecnicamente essa não se destaca de

inúmeras outras cidades do Brasil e do mundo, a

cidade possui 502m² de área total, sendo desses

apenas 1% ocupado pelo perímetro urbano. Muito

dependente das cidades vizinhas (principalmente

Catanduva), a população de aproximadamente

14 mil habitantes (IBGE, 2010) possui uma

faixa etária maior que a média nacional e pouco

investe nas próprias infraestruturas urbanas. A

densidade é de aproximadamente 28 hab/km²,

o que confere a esta o status de pouquíssimo

densa dentro dos parâmetros de comparação –

fenômeno bastante normal em cidades majoritariamente

rurais.

A singularidade aqui é formal. O perímetro

urbano de Itajobi é desenhado pelos cursos de

seus 3 principais canais d’água. Estes são: o Rio

Monjolinho, que cruza todo o perímetro urbano

no sentido norte e sul, o Córrego Cisterna, que

segue sentido Oeste limitando esta face do perímetro

e o Córrego do Barreiro, que segue sentido

Leste, fechando esta outra face. O encontro destes

3 dá sentido ao Ribeirão Três Pontes, próximo

a Matriz e onde fora fundada a cidade em 1919.

[59] Perímetro urbano

de Itajobi com os cursos

d’água. Imagem do autor.

92 93



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Próximo a este marco-zero da cidade está o conjunto mais tradicional

do município, com infraestruturas de maior valor e onde tudo funciona

de maneira mais “caminhável”. Esta região planejada fica bastante evidente

no olhar de satélite, onde se nota a malha regular e quarteirões ordenados

e quadrados.

Naturalmente estes cursos d’água causam uma deformação topográfica

na paisagem. Itajobi se comporta como um vale de duas quedas

causado pelo curso do Rio Monjolinho, que cruza a cidade longitudinalmente

e é interpretado de diferentes maneiras ao longo de seu curso. O

ponto mais baixo deste vale é no centro da cidade, onde o Monjolinho é

canalizado, e assim permite completar a paisagem conectando quadras

com um lindo desenho de piso em suas margens, favorecendo o pedestre

e conectando as ruas do centro.

Á duas quadras dali, no bairro Jardim Ferreira, o Monjolinho ainda

é canalizado, porém seu entorno segue como área verde permeável. O

córrego complementa o maior - e praticamente único - parque verde da

cidade, a Praça Nossa Senhora da Paz, entre as ruas Expedicionários e

José Belarmino.

Deste ponto em diante a água perde seu caráter paisagístico e passa

a se tornar uma barreira entre dois lados da cidade. A água segue seu

curso sem canalização e suas margens são ocupadas pela mata ciliar natural,

alta e abandonada. A partir daqui a água já tem seu volume bastante

reduzido e as casas vizinhas, que viram suas costas ao curso d’água, tem

em seus fundos de quintal uma área muitas vezes cercada, abandonada e

de nenhuma circulação e permanência pública.

[60] Centro de

Itajobi, 2020.

Foto do autor.

[60] [61] [62]

[61] Varzea do

rio Monjolinho,

2019.

Foto do autor.

[62] Rio Monjolinho,

2019.

Foto do autor.

94 95



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Em relação a áreas públicas permeáveis de Itajobi, o mapa da cidade

evidencia uma grande carência de parques verdes planejados. A única

referência da cidade é a já mencionada praça Nossa Senhora da Paz, localizada

no bairro do centro, sendo o único parque desenhado da cidade.

O projeto deste parque integra as margens do rio monjolinho às

áreas de convívio, e mantém a maioria de sua ocupação permeável e fluida,

além de oferecer equipamentos de academia pública e uma passarela

de madeira que transcende o rio, conectando os dois lados da cidade.

Este projeto é referência por sua aceitação na cidade e por sua abordagem

pioneira em explorar as margens do maior patrimônio da cidade, o rio monjolinho.

As duas principais praças do município são secas e possuem alguma

homenagem histórica à cidade, sendo essas a praça Nove de Julho,

com o Memorial dos Sertanejos e a Praça Padre Victor, com a Paróquia

Matriz de São Pedro.

As ruas com maior circulação de pessoas são, naturalmente, aquelas

com mais comercio instalados nela (Rua Pedro de Toledo, Rua Mal. Deodoro

e Avenida Catanduva). Com a exceção destes eixos, praticamente

todo o resto do perímetro urbano é ocupado por residências unifamiliares,

indústrias ou equipamentos urbanos. O gabarito predominante na cidade é

praticamente nivelado, sendo hoje as maiores edificações da cidade casas

com 2 ou 3 pavimentos, que pouco se destacam na paisagem.

Em paralelo a este cenário, Itajobi e outras cidades rurais vem

acompanhando em seu perímetro o surgimento de conhecidos fenômenos

urbanos da cidade grande: o surgimento de condomínios fechados e o

espraiamento descontrolado das cidades. Murar um conjunto residencial

significa excluir aqueles moradores do convívio da cidade e renunciar completamente

a rua externa, deteriorando em muito o passeio público e seu

contexto. A consequência desta intervenção compromete em muito a vida

urbana e, à longo prazo, compromete também o padrão de segurança da

cidade como um todo.

A monstruosa realidade dos bairros fechados aponta para um

mundo neofeudal, de uns poucos que mantém seus privilégios

amuralhados pela força e pelo controle. Uma urbanização que

instaura um “mundo fortaleza”, onde os ricos se desentendem do

resto da população, como se acreditasse que é possível se proteger

dos efeitos da deterioração do meio-ambiente e dos problemas

derivados da injustiça social e econômica.

(MONTANER, Josep. MUXI, Zaida. 2014. pg 71)

[63] < Áreas permeáveis de

Itajobi. Diagrama do autor.

96 97



pt. 06

aqui e ali aqui e ali

pt. 06

Ainda longe do centro de Itajobi, em maio de 2018 foram entregues

141 casas em um conjunto habitacional formado às margens da então asfaltada

Avenida Pedro Ronchi – o conjunto F, José Segundo, do “Programa

Morar Bem, Viver Melhor” da CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional

e Urbano). O programa previu residências unifamiliares de 56m²

em um loteamento totalmente novo, construído entre a avenida e o córrego

Monjolinho. Feito o loteamento e já com seus moradores (em sua maioria,

vindos de Pernambuco), a nova região da cidade muito carece de infraestrutura

urbana - ali não existem escolas, farmácias, padarias ou qualquer

serviço de uso diário de seus moradores – apenas casas idênticas replicadas

em paralelo - uma evidencia do desinteresse com qualquer estratégia de

planejamento urbano.

[66]

[67]

[64] ^ Governador Marcio França anunciando a

entrega das casas pelo plano “Morar Bem Viver

Melhor”, 2018. Foto: Acervo prefeitura de Itajobi

[65] ^ Moradias do plano “Morar

Bem Viver Melhor”, 2018.

Foto: Acervo prefeitura de Itajobi

Assim, o impacto social deste e de outros programas habitacionais

na cidade foram curiosamente semelhantes: os novos habitantes, que

vinham de uma situação de extrema vulnerabilidade, estão em geral contentes

com a política; agora possuem a casa própria e a oferta de trabalho

nas industrias ou no campo - com o transporte rural garantido diariamente.

Por outro lado, o morador tradicional de Itajobi pouco reconheceu ganho

com essa ação – este passou a ver nos últimos anos sua cidade mudar de

identidade significativamente:

[68]

[66] Churrasco em Itajobi, 2019.

Foto do autor.

[67] Vista do bairro Itajobi F -

José Segundo, 2019.

Foto do autor.

[68] Residência rural, 2019.

Foto do autor.

98 99



pt. 06

aqui e ali aqui e ali

pt. 06

01 suponhamos que Itajobi seja 02

um MacBook pro

Aos olhos deste morador tradicional de Itajobi, a cidade sempre

fora um campo seguro para sua criação – um ambiente com fortes vínculos

interpessoais, famílias conhecidas, pouca variedade de sobrenomes e

as mesmas ruas de sempre. A vinda repentina de imigrantes representou,

para este grupo, uma mudança expressiva nos hábitos já consolidados

naquele espaço – seriam novos hábitos, novas famílias e toda uma nova

cultura que agora se juntava a eles. A cidade consagrada naquele local

merecia uma moeda de troca que favorecesse as duas partes - a maneira

como fora implantado este loteamento é prova de que a política não visava

o conforto destas famílias e muito menos o favorecimento da cidade – Itajobi

então criara sua periferia, tão conhecida em cidades grandes.

Para explicar melhor este cenário, desenho:

O MacBook é um dos computadores com mais

potencial no mercado. Do tanto que ele oferece,

acredita-se que a maioria das pessoas desconhece

de todo seu potencial

só que o MacBook pro não tem

03 04

entrada USB

suponhamos entao que você

precise conectar um HD externo

ao seu MacBook pro. Neste caso o

HD seriam os imigrantes

Este HD externo vai te oferecer um milhão de

novas possibilidades, seria muito bom pra você

te-lo plugado por que assim o inimaginável

estaria ao seu alcance!

O adaptador USB no caso seria o

equipamento público cultural

Apesar de todas as suas potencialidades, o

Macbook pro simplismente não tem entrada USB

mesmo. É necessário um adaptador.

Chega a parecer irônico, afinal a entrada USB é

bem conhecida! Talvez nem todos saibam que

da pra plugar um HD externo nela!

05 Estranho que, para algumas 06

pessoas, o Macbook pro sem

adaptador ainda deixa um pouco a

desejar

E por fim, juntas, as peças se

completam

Apesar de todo o seu potencial existente, o Nenhuma dessas peças funciona muito bem

adaptador é fundamental pra que novas sozinhas, mas quando trabalhadas juntas e com

[69] Analogia da intervenção.

informações entrem. Sem ele não tem como calma, seu potencial é incrível

Desenho do autor

colocar o HD.

100 101



pt. 06

aqui e ali aqui e ali

pt. 06

6.3 inserção do projeto

O projeto responde à esta condição imigratória existente tomando

partido do maior patrimônio da cidade de Itajobi: O rio Monjolinho.

Em um olhar macro, percorrendo todo o limite urbano de norte a

sul, o córrego carrega um grande potencial geográfico de conectar ambas

as extremidades de cidade: do extremo sul - onde surgiu a cidade, onde

habitam as famílias mais tradicionais dessa história - com o Norte - onde

as novas famílias estão sendo instaladas e a cidade ainda está por se estruturar.

Portanto, para se entender a cidade e assim formular um programa

ideal do projeto, foram feitas uma seria de entrevistas com moradores de

variadas idades, origens e bairros. Como resultado esperado, diferentes

grupos pontuaram diferentes carências em cada bairro:

- De forma geral, o estudo evidenciou a carência de espaços de socialização para

o público jovem em toda a cidade (semelhante ao papel que o clube exercera no

passado), além de segurança, áreas culturais, áreas verdes e espaços de trabalho;

- A população residente nos novos conjuntos habitacionais pontuou a falta do

sentimento de segurança, a falta de comercio, áreas verdes, espaços de convívio

e escolas;

- Os residentes da região mais central da cidade também pontuaram a falta de

espaços culturais e áreas verdes, além de áreas esportivas e creches;

- No sul da cidade o mais notável foi a falta, também, do sentimento de segurança,

falta de espaços culturais, além de uma melhor manutenção da infraestrutura

urbana e do clube, que segue abandonado;

DIAGRAMA DE

Ocupação do espaço no tempo

[70] Diagrama de uso em horas

do dia. Desenho do autor

102 103



pt. 06

aqui e ali aqui e ali

pt. 06

Assim, a fim de elaborar um projeto urbano consistente que respeite

essa leitura social e urbana de Itajobi, a proposta se divide em duas

escalas de detalhamento.

[71] Diagramas sequenciais

de estratégia de intervenção.

Desenho do autor

Escala Macro: O projeto urbano

Primeiro, a estratégia de conectar ambas as partes - velha e nova

- da cidade e forçar o encontro entre os diferentes grupos, assumindo diferentes

pontos de atuação ao longo do trajeto da água.

Assim, a intervenção longitudinal urbana assume 3 pontos de atuação

ao longo do leito: um na região sul - no bairro do centro - um no centro

geográfico da cidade - junto aos novos conjuntos habitacionais - e o último

no extremo norte - no anel viário, próximo ao eixo industrial da cidade. O

partido visa interligar estes pontos de interesse trazendo maior fluidez para

a cidade e uma unidade e senso de comunidade entre os habitantes de

Itajobi.

No bairro do centro, ponto 03 do mapa abaixo, onde já se encontra

a infraestrutura urbana que atende a população, o projeto objetiva instalar

habitações sociais para novos moradores da cidade. Inserindo estes em

um centro consolidado e estruturado; a estratégia é estimular o encontro

entre este público novo e os moradores tradicionais daquele bairro.

104 105



pt. 06

aqui e ali aqui e ali

pt. 06

Em méritos projetuais, esta região possui uma

deficiência por ser uma região alagável pelo encontro

dos 3 principais córregos municipais, e por isso,

entende-se que o ideal seria verticalizar este adensamento,

estruturando-o em pilotis que respeitem o entorno

e a altura ideal.

Já no extremo norte da cidade, ponto 01 do

mapa, entre o bairro do Parque Industrial Abel Pasiani

e o Monjolinho, entende-se que por seu afastamento

das regiões mais adensadas da cidade e a localização

em uma estrada de fluxo rápido de carros, o ideal

seria a instalação aqui de um espaço de uso público

com restaurantes, refeitórios para os trabalhadores

das indústrias, salão de festas e eventos municipais

que atendesse à demanda populacional e principalmente

jovem. Este não substituiria o atual edifício do

clube na região mais central da cidade (embora abandonado),

mas receberia eventos de maior porte, não

comportados pela antiga edificação. O clube, por sua

vez, possui uma localização privilegiada de muito fácil

acesso e carrega uma herança histórica e uma bagagem

emocional que deve ser restaurada e incentivada,

esforço que cabe à diretoria do mesmo.

Entre os dois pontos, em meio ao leito do

Monjolinho e os novos conjuntos habitacionais, o

córrego ainda não possui uma identidade com seu

entorno, ali (como já mencionado) a água deixa de

ser uma potencialidade e se torna uma deficiência no

funcionamento da cidade. Os 6 bairros que tangenciam

o terreno de interesse projetual não se conectam

fisicamente e muito menos socialmente. O abandono

desta área ambiental, o rio poluído e o mato alto fazem

deste espaço um ambiente hostil – uma barreira

no meio da cidade. Eis o terceiro e principal ponto de

intervenção, que será trabalhado em uma escala mais

aproximada.

01

espaço

coberto de

lazer jovem

alternativa

ao recinto de

boiadeiro e ao

abandonado

clube da cidade

[72] Diagramas de intervenções

longitudinais. Desenho do autor

02

parque cultural

de Itajobi

área pública nas

margens do rio

monjolinho que supre

a carência de áreas

verdes municipais.

centros culturais para

exaltar a história local

e estruturas hoteleiras

para receber novos

moradores e conectar

os existentes

módulos comerciais,

escolas e restaurantes

para qualificar o bairro

03

habitações

sociais

verticais

conjuntos

habitacionais de

baixo gabarito

para adensar o

centro da cidade

e tomar proveito

da infraestrutura

aqui existente

106 107



pt. 06

aqui e ali aqui e ali

pt. 06

Escala Micro: O parque cultural da cidade

Onde a cidade é mais antiga, o córrego já fora pensado de maneira

a se encaixar na malha urbana, compondo a paisagem e criando espaços

de convivência em harmonia com as unidades comerciais. Assim, é

evidente que o curso d’água esbanja reconhecimento positivo como patrimônio

dentro da história da cidade – basta o cuidado e investimento para

torna-lo palpável.

[74] Costurar a cidade. Diagramas

de intervenção viária conectando

os bairros. Desenho do autor

O projeto toma partido desta condição para, em uma primeira fase

de implantação, preservar o rio e construir pontes entre os dois lados do

vale, interligando os bairros, melhorando a circulação e delimitando o lote

de intervenção.

[73] Situação atual do rio

Monjolinho.

Desenho do autor

Feita a conexão entre ambas as partes do vale e analisado os entrevistados,

o projeto parte para qualificar e adensar esta região de maneira

responsiva à condição atual da região e da cidade

108 109



pt. 06

aqui e ali aqui e ali

pt. 06

O projeto do parque foi pensado para se instalar no centro geográfico

da cidade, entre a avenida Augusto Apendino e avenida Pedro Ronchi.

O terreno dispõe de 11,3 hectares (113 mil m²) e se comporta como

um vale, tendo o Córrego do Monjolinho cruzando seu eixo, formando um

desnível deste ponto até suas laterais Leste e Oeste de 10 e 15,5 metros,

respectivamente.

[75] ^ Masterplan de intervenção.

Desenho do autor

hotel

lojas

mercado

museu

galeria

feira

[76] Desenho do autor

boulevard

Assim sendo, o projeto abriga nesta área uma série de usos elegidos

a partir do levantamento presencial feito in loco na cidade, além das

unidades comerciais como instrumentos articuladores; desta forma, todos

estes elementos estão dispostos de maneira a se aproximarem com o entorno

urbano existente e se relacionarem entre si por meio de uma passarela

elevada que percorre todo o lote, trazendo unidade à intervenção;

escola infantil

quadra

policia

biblioteca

[78] Desenho do autor

[77] Desenho do autor

110 111



111.20

6.4 programa

0.1

0.11

0.10

0.2

0.8

0.9

0.1 Boulevard Comercial

0.2 Escola Infantil + Creche

0.3 Quadra Poliesportiva +

Vestiário e Cantina

0.4 Recepção + Base

Policial

0.5 Módulos Comerciais

0.6 Biblioteca

0.7 Área reservada a

eventos itinerantes

0.8 Complexo Cultural /

Museu + Galeria de Artes

0.9 Mercado + Horta

0.10 Hotel

0.11 Módulos Comerciais

0.3

0.4

0.7

0.6

0.5

0 25 50 100 200



pt. 06

aqui e ali aqui e ali

pt. 06

PASSARELA

“Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe

para a gente é no meio da travessia. ”

(ROSA, Guimarães. 1994, p.86)

A passarela representa a união dos diferentes grupos de Itajobi em

torno do maior patrimônio ecológico da cidade, o Rio Monjolinho e sua

mata ciliar. Como um marco, ela também exerce a função de evidenciar o

terreno residual, emoldurando-o e valorizando-o como mirante, de onde se

vê o patrimônio natural e também a cidade, sem barreiras ou distrações. O

processo de travessia pela passarela é o principal objetivo desta instalação

– ver a cidade por diferentes perspectivas e proporcionar encontros. A passarela

naquele momento se torna um monumento, simbolizando o futuro

tecnológico reservado ao campo, enquanto ressalta o passado tradicional

de sua natureza característica. Aos olhos externos, a ponte monocromática

impõe um aspecto monolítico em sua forma, com sua estrutura leve,

modular e “flutuante”.

Em sua tectônica, a passarela é estruturada em módulos de 3 x

4,8m soldados entre si que se repetem por todo o percurso, de maneira

a facilitar a execução em obra. A estrutura metálica de perfis C com alma

dupla e altura de 1,65 metros vencem vãos de até 24m, apoiados em uma

coroa em “V” soldada nos pilares cilíndricos de concreto - que possuem

diferentes alturas dependendo do desnível do terreno. A estrutura possui

um percurso quadrado de 206,4 metros em cada lado - sendo interrompida

somente no momento em que encontra o nível de acesso em um lado

e o terraço da biblioteca em outro - e 4 pontos de acesso intermediários:

a rampa que envolve o posto policial, a arquibancada das quadras esportivas,

a escadaria do complexo escolar e o acesso principal do museu.

Nestes casos isolados a passarela deixa de ser um espaço de circulação

de 2,4m de largura e se torna um espaço de permanência e aglomeração.

Em momento algum a passarela varia de nível, independente do caimento

do terreno;

[79] Perspectiva ilustrada

da passarela.

Desenho do autor

114 115



pt. 06

aqui e ali aqui e ali

pt. 06

.30

3.00

2.40

.30

1.2

tálico

ria LED

po em

e

zobé e

ferro

etálicos

de piso

incl. 2%

metálica

e para

LED

licas em

s nos

eitoril e

pilar

Suporte metálico

para luminária LED

Guarda-corpo em

pranchas de

mandeira azobé e

suporte de ferro

Suportes metálicos

das tábuas de piso

.30

Argamassa

niveladora incl. 2%

Cantoneira metálica

com suporte para

iluminação LED

Vigas metálicas em

"V" soldadas nos

apoios do peitoril e

encaixe do pilar

3.00

2.40

.30

45°

1.49

.10 .75

.10

.30

.30

.30

.05 .09 .16

45°

.08 .03 .43 .25 .21 .54 .21 .05

.05 .12 .15

1.00

.65

1.65

1.49

.10 .75

.10

.30

.05 .09 .16

.25 .08 .21 .54 .21 .05

.05 .12 .15

1.00

.65

1.65

Estrutura metálica em

perfís "C" contínuos

4,8 x 1,65

Alma metálica

duplicada

Piso em pranchas de

madeira azombé

Viga metálica perfil "C"

sentido longitudinal

Estrutura metálica em

perfís "C" contínuos

4,8 x 1,65Tirantes intertravados

em sentido "X"

Alma metálica

duplicada

Piso em pranchas de

madeira azombé

Viga metálica perfil "C"

sentido longitudinal

Tirantes intertravados

em sentido "X"

0 .1 .3 .5 1

1.2 1.2 1.2

2.4

.1 .02 .76 .02 .1

.43 .03

1

4.8

2.4

.02

.06

.26

1.2

1.5

.3

.05 .25 .25 .1 .1

.8

.1

.65

0 .1 .3 .5 1

[81] Modulação construtiva

[80] Corte transversal da passarela.

da passarela.

Desenho do autor

Desenho do autor

116 117



pt. 06

aqui e ali aqui e ali

pt. 06

BIBLIOTECA MUNICIPAL

Itajobi hoje não possui nenhuma biblioteca municipal de endereço

próprio. A atual divide espaço com a antiga rodoviária e sede do “espaço

do cidadão” de Itajobi. A ausência deste elemento é sentida pelos moradores,

que hoje não possuem um espaço de trabalho público e aberto.

A edificação proposta marca o principal acesso à passarela e ao parque,

simbolizando o acesso a informação e a educação de todos como o caminho

a ser seguido. Locada no ponto de maior visibilidade do complexo,

a biblioteca é um volume semienterrado, que se mimetiza no desnível do

terreno, dando protagonismo à passarela. A forma da edificação é fruto

do alinhamento das duas ruas tangentes, enquanto seu eixo de circulação

interno é a projeção do sentido da passarela. O pavilhão central visa direcionar

a principal sala de acervo ao centro do parque, homenageando a

paisagem existente, enquanto o outro é direcionado à passarela e à rua,

privilegiando esta paisagem.

[83] Maquina de imprimir

[82] Isométrica ilustrada da biblioteca.

livros e midiateca.

Desenho do autor

Desenho do autor

118 119



pt. 06

aqui e ali aqui e ali

pt. 06

CC

BB

107.50

PD 5,5

107.50

PD 5,5m

110.00

PD 3m

1.8

110.00

PD 3m

110.00

PD 3m

1.7

AA

2.0

107.50

PD 5,5

2.0

106.90

PD 7,5m

108,75

PD 6,25

107.50

PD 7m

1.13

1.6

1.4

1.2

110.00

PD 4,5

110.00

PD 4,5

1.7 1.9

1.5

1.3

109.40

PD 3,6m

1.9

1.11

1.11

1.10

1.11

0.0

1.12

AA

2.0

1.1

110.00

PD 4,5m

1.0

0.0

0.0

CC

BB

0.0 Estacionamento

1.5 Sala administração

1.6 Área de leitura de jornais

1.7 Sanitários

1.8 Corredor com acervo

1.12 ADM / Depósito

1.13 Plataforma elevatória

0

5

10 20

1.0 Acesso área coberta

1.1 Controle de acesso

2.0 Unidades Comerciais [84] Planta térreo biblioteca.

1.2 Balcão de recepção e controle 1.9 Área rebaixada - infantil

Desenho do autor

1.3 Lockers 120 1.10 Área de estudos

121

1.4 Computadores de consulta 1.11 Salas de reuniões



pt. 06

aqui e ali aqui e ali

pt. 06

BB

2.2

2.1

107.50

PD 5,5m

2.0

107.50

PD 5,5m

2.1

2.3

2.5

2.3

107.50

PD 5,5m

AA

2.2

2.1

2.0

107.50

PD 5,5m

107.50

PD 7m

2.4

AA

3.0

1.0

3.0

3.0

CC

BB

CC

106.90

PD 7,5m

108,75

PD 6,25

1.1

1.0 Mezanino

1.1 Multimídia - Impressão de Livros

2.4 Plataforma elevatória

2.5 Arquibancada de leitura

0

5

10 20

[85] Planta térreo inferior

2.0 Acervo

3.0 Unidades Comerciais

biblioteca.

2.1 Área de leitura

2.1 Área de leitura

Desenho do autor

2.2 Área 122descoberta de leitura 2.2 Área descoberta de leitura

123

2.3 Circulação principal

2.3 Circulação principal



pt. 06

aqui e ali aqui e ali

pt. 06

Todo o fechamento do edifício é autoportante. Os muros de arrimo

suportam a laje – em sua maior parte, caminhável – e fazem o fechamento

das empenas. Ambos os pavilhões de acervo são estruturados por lajes

alveolares pré-moldadas de 12m de comprimento e não possuem nenhum

pilar. A iluminação e a ventilação são controladas para a melhor preservação

do acervo, dispondo de apensa 3 aberturas, uma em cada extremidade

de cada pavilhão e outra em frente ao nível de acesso.

TRANSPARENCIA [86] SEC VIDROS: AA_biblioteca.

75

124

(tem 2 aqui)

Desenho do autor

125

0 1 3

10 20



pt. 06

aqui e ali aqui e ali

pt. 06

O edifício oferece duas salas de acervo, um salão de trabalho, 3

salas de reunião, espaço de recreação infantil, área de leitura e midiateca

– com impressão instantânea de livros. A divisão dos ambientes é feita

exclusivamente pela alteração de níveis, de forma a respeitar o desnível do

terreno e manter os ambientes amplos e conectados; em resposta a esta

condição, o pé direito tem diferentes alturas em diferentes situações.

BB 1:150

TRANSPARENCIA VIDROS: 75

(tem 2 aqui)

0 1 3

10 20

[86] SEC CC_biblioteca.

Desenho do autor

[87] SEC BB_biblioteca.

126

Desenho do autor

127

0 1 3

10 20



pt. 06

aqui e ali aqui e ali

pt. 06

COMPLEXO ESCOLAR E BOULEVARD COMERCIAL

A inclusão de uma creche e escola infantil no projeto busca a conexão

das gerações futuras desde o início do convívio social, para que

as crianças possam ser ensinadas de forma conjunta e com as mesmas

condições e oportunidades. Este complexo educacional é dividido em 6

blocos de ensino e 2 níveis de acesso, sendo o primeiro a recepção da

creche, seguido da sala de atividades com pé-direito duplo e em seguida

o bloco com a transposição. No andar superior o primeiro bloco comporta

a recepção e administração da escola, em seguida está a primeira sala de

atividades, então o pátio aberto e por fim a segunda sala de atividades.

[88] Desenho do autor

[89] Vista aérea boulevard.

Desenho do autor

128 129



pt. 06

aqui e ali aqui e ali

pt. 06

108.30

108.30

0.0

1.1

110.00

2.5

2.8

AA

1.0

2.0

2.4

105.80 105.80

AA

2.1 2.2

2.6

2.9

1.1

1.2 1.2

2.3

2.7

0.0 Módulo comercial

2.1 Recepção creche

2.2 Sala de amamentação

2.3 Sanitários

2.4 Sala de atividades

2.8 Sala de saúde

2.9 Área de funcionários

0

5

10 20

[90] Planta térreo inferior da

1.0 Recepção do boulevard

1.1 Bicicletário

escola_ creche.

1.2 Sanitários e Vestiários

2.5 Sala de educação dos pais

Desenho do autor

130 2.6 Sala de leite

131

2.0 Acesso ao complexo escolar 2.7 Sanitário infantil



pt. 06

aqui e ali aqui e ali

pt. 06

3.4 3.5

AA

3.1

3.0

109.00

3.2

3.3

3.6

3.7

3.9

3.8

3.10

3.6

3.7

3.9

3.8

3.11

3.12

3.13

3.14

AA

4.4

4.2

4.1

4.3

4.0

3.0 Acesso à escola

3.7 Apoio de mochilas

4.0 Acesso público

3.1 Recepção / Sala de espera 3.8 Depósito de brinquedos 4.1 Livraria pública

0 5 10 20

3.2 Sala de diretoria

3.9 Sanitários infantis

4.2 Café/ bar público

[91] Planta térreo superior

3.3 Depósito

3.10 Pátio descoberto

4.3 Sala de apoio à livraria

da escola_ escola infantil.

3.4 Sala dos professores

3.11 Acesso Controlado

4.4 Controle de acesso em dias

Desenho do autor

3.5 Sanitário 132 professores

3.12 Sala de informática

de aula

133

3.6 Sala de atividades

3.13 Livraria infantil



pt. 06

100.00

aqui e ali aqui e ali

pt. 06

105.00

110.00

2.0

0.0

105.00

106.00

AA

0.0

1.0

1.0

1.1 1.1 1.1

AA

0.0 0.0 0.0

0.0 0.0

109.00

0.3

0.2

112.50

2.1

2.1 2.1 2.2 2.2

111.50

110.00

0.0 0.0 0.0

0.1

2.3

0.0

0.0

0.0

0.1

0.1

0.1

0.1

112.50 111.00

110.00

115.00

0.0 Módulo Comercial

1.0 Creche

0.1 Módulo de Restaurantes

1.1 Escola Infantil

0 10 25 50

0.2 Livraria

[92] Boulevard comercial e

0.3 Café

2.0 Estacionamento

complexo escolar.

2.1 Acesso à escola

Desenho do autor

134 2.2 Boulevard comercial

2.3 Sanitários/ bebedouro

135



pt. 06

aqui e ali aqui e ali

pt. 06

Todo este complexo está imerso no novo boulevard comercial da

cidade – uma tentativa de aproximar a população ao parque - se destacando

dos módulos comerciais por seus telhados característicos. Cada

bloco mencionado é coberto por um telhado de madeira e telhas de barro

que se estruturam de maneira a permitir a entrada de luz natural por meio

de um shed voltado à face sul.

Passados os 4 blocos térreos, o conjunto linear forma uma curva,

alinhando-se com o sentido da passarela e obtendo novo partido. Aqui

estão a sala de informática e biblioteca infantil, que tem acesso exclusivo à

escola em horários de aula, e área de leitura. Passada a biblioteca infantil

está a outra fachada, que é de caráter de acesso público, oferecendo uma

livraria aberta, café e área de leitura. Nos finais de semana este ambiente

é integrado à sala de informática, aberta ao público, e à biblioteca infantil.

A área educacional é de livre acesso, aberta a todos de forma gratuita e

democrática.

TRANSPARENCIA CHAPA TRAPEZOEDAL: 60

VIDRO ENTRE PREDIOS (SÃO 2BLOCOS ): 60

TRANSPARENCIA VIDROS: 75

TRANSPARENCIA CHAPA TRAPEZOEDAL: 60

VIDRO ENTRE PREDIOS (SÃO 2BLOCOS ): 60

TRANSPARENCIA VIDROS: 75

[93] SEC AA_ escola infantil.

Desenho do autor

0

5

10 20

136 137



[94] Perspectiva da

escola infantil.

Desenho do autor

138 139



pt. 06

aqui e ali aqui e ali

pt. 06

CENTRO ESPORTIVO

ADMINISTRAÇÃO E POSTO POLICIAL

O centro esportivo complementa o complexo educacional, se propondo

a criar esta conexão também nas gerações já formadas, possibilitando

um espaço para a convivência entre todos da cidade de forma saudável

e com atividades que ressaltam o poder integrador do esporte.

Vale ressaltar a localização do centro esportivo e educacional no

meio urbano; ambos são locados na fachada leste do complexo de maneira

a ocupar as empenas residenciais existentes, e usarem os terrenos

baldios como vias de acessos convidativas ao parque. A ideia de conectar

esta faixa leste com o centro comercial e de educação infantil visa aproximar

as diferentes faixas etárias de ensino básico, se aproximando das

escolas existentes EMEF Ruth Dalva, colégio Objetivo e ainda aos novos

loteamentos da CDHU, que atualmente não possuem nenhuma estrutura

voltada ao esporte ou educação.

[95] Quadra poliesportiva.

Desenho do autor

O posto policial e recepção do parque são medidas responsivas

à demanda da população. Esta edificação ocupa a fachada

sudoeste do parque e oferece uma rampa para o acesso universal

ao nível da passarela e, junto a ela, vagas abertas de automóveis

para visitantes e módulos comerciais estratégicos em uma avenida

arterial da cidade – a avenida Augusto Apendino.

MÓDULOS COMERCIAIS

O comércio tem papel crucial dentro do projeto. Entendido como

uma engrenagem que mantem todos os polos ativos, funcionais e atrativos,

os diversos módulos comerciais propostos têm como objetivo a

qualificação e a diversificação de oferta ao público alvo, da CDHU e suas

proximidades. Em sua implantação, os módulos comerciais são locados

transversalmente à rua existente no novo bairro da cidade – desta forma

estes elementos nivelam em platôs o desnível existente e não agem como

barreira visual ao parque, tornando-o convidativo.

[96] Módulos comerciais.

Desenho do autor

140 141



pt. 06

aqui e ali aqui e ali

pt. 06

MERCADO, HORTA E HOTEL

O mercado, a horta orgânica e o espaço de feira também se encaixam

neste contexto de qualificar a oferta comercial do entorno do projeto.

A implantação estratégica à oeste do terreno tem a intenção de se conectar

com os recentes loteamentos da região e ainda oferecer melhor acesso

com a avenida Pedro Ronchi. No aspecto programático, a intenção é criar

um microciclo da alimentação, possibilitando que crianças e outros estudantes

possam acompanhar as origens, o tratamento e a comercialização

dos seus alimentos. A feira, em específico, também visa a inclusão do pequeno

produtor (agricultor familiar) no espaço de convívio urbano, já que

hoje este não tem visibilidade dentro da cidade ou um espaço para vender

seus produtos de forma direta e apreciativa. Assim, entre os dois extremos

da passarela, está reservada uma área para receber estruturas itinerantes

de comércio, como eventos gastronômicos ou outras atividades culturais.

[97] Mercado e Hotel.

Desenho do autor

[98] Horta pública.

Desenho do autor

142 143



pt. 06

aqui e ali aqui e ali

pt. 06

BB

1.1

1.3 1.0

1.3

1.2

AA

AA

1.3

118.95

118.95

115.95

0.8

0.7

0.6

118.95

0.3

0.0

0.2

0.1 0.1

0.1

0.4 0.5

118.95

CC CC

BB

0.0 Acesso ao mercado

0.7 Loja venda produtos locais da horta

0.1 Estantes de produtos

0.8 Espaço de depósito da feira

[99] Planta térreo

0 5 10 20

0.2 Área de espera para os caixas

mercado e hotel.

0.3 Estacionamento carrinhos 1.0 Recepção do hotel

Desenho do autor

0.4 Açougue (vista externa)

1.1 Bicicletário

0.5 Padaria 144 (acesso e vista externa) 1.2 Playground

145

0.6 Frigorífico

1.3 Espaço público coberto



pt. 06

aqui e ali aqui e ali

pt. 06

BB

AA

AA

1.0

118.95

118.95

118.95

115.95

0.4

0.5

0.6

121.95

0.0 0.1

121.95

0.2

0.3

0.7

0.6 0.7 0.7

CC CC

0.7

0.7

BB

0.0 Acesso principal

0.7 Espaço plantio mudas - Horta

0.1 Sala ADM 01

[100] Planta 1 pavim.

0 5 10 20

0.2 Sala ADM 02

1.0 Core central hotel

mercado e hotel.

0.3 Sala ADM 03

Desenho do autor

0.4 Acesso serviço

0.5 Copa 146 funcionários

147

0.6 Laboratório tratamento mudas



pt. 06

aqui e ali aqui e ali

pt. 06

BB

1.0

115.95 1.1

AA

1.2

1.3 1.3

AA

0.5

0.4

0.5

0.3 0.2

115.95 113.95

0.6

0.7 0.7 0.7

115.95 115.00 114.25

CC CC

0.1

0.0

BB

2.1 2.1 2.1 2.1 2.1 2.1 2.1 2.1

2.0

2.0

0.0 Pista acesso estacionamento 0.7 Fachada ativa - Módulos

0.1 Controle de acesso

comerciais

2.0 Praça seca (peatonal)

[101] Planta subsolo

0 5 10 20

0.2 Elevadores principais

2.1 Circulação controlada de

mercado e hotel.

0.3 Acesso de serviço

1.0 Acesso estacionamento hotel carros

Desenho do autor

0.4 Área de descarga caminhões 1.1 Drop-off

0.5 Depósito 148 mercado e horta 1.2 Hall de acesso

149

0.6 Passagem peatonal - escadaria 1.3 Depósitos



pt. 06

aqui e ali aqui e ali

pt. 06

Arquitetonicamente, o mercado funciona no térreo da edificação e

o andar superior comporta o laboratório de tratamento de sementes, mudas

e a horta de plantação planejada. Esta, por sua vez, compõe a fachada

da edificação e também pode ser vista desde o interior do mercado por

meio da pele de vidro que cerca o pé-direito duplo do ambiente; evidenciar

a plantação do alimento é uma maneira de conscientizar a população sobre

o consumo consciente do alimento.

[102] SEC AA_ mercado.

Desenho do autor

0 1 3

10 20

150 151



pt. 06

aqui e ali pt. 06

HOTEL

O hotel divide espaço com a piazza do mercado e responde a uma

deficiência da cidade em oferecer um espaço de qualidade para receber

seus visitantes. A edificação representa a conexão da cidade com o todo,

a possibilidade de receber novas pessoas. O edifício assume o papel de

ponto de referência dentro do complexo por sua altura frente ao entorno

existe – esta seria a mais alta edificação da cidade, um novo mirante da

cidade para os itajobienses e seus convidados.

A planta do hotel é inteira modulada em uma malha de 1,5 x 1,5

metros, assim foi possível espelhar a mesma disposição simetricamente encaixando

os apoios de concreto, shafts e áreas molhadas por todo o edifício.

Este, por sua vez, está estruturado em um core central de concreto e outros

31 apoios, que vencem vãos de 3 metros e descarregam seus esforços em

8 apoios térreos mais o core, resultando assim em uma planta baixa livre de

pilares e com balanços de 3 metros em toda sua extremidade.

[103]

[103] Planta tipo

A_ hotel.

Desenho do autor

[104] Planta tipo

B_ hotel.

Desenho do autor

0

1

3 5 10

152 153

[104]



pt. 06

aqui e ali aqui e ali

pt. 06

O subsolo do edifício do hotel divide a laje com o subsolo do mercado.

Essa estrutura é uma solução para vencer o desnível existente entre

o térreo dessas edificações com a queda de nível natural do terreno, além

de suprir a necessidade de garagem para os hospedes do hotel, consumidores

do mercado e visitantes da praça. A empena do pavimento inferior,

que naturalmente seria uma superfície cega criada pela garagem, é ocupada

por módulos comerciais voltados à parte seca do complexo projetual.

Dos 11,3 hectares de intervenção, o projeto mantém 60% desta

área permeável, livre de intervenções projetuais e ocupa a porcentagem

remanescente com edificações ou pavimentações secas. Entre essas, a

área de intermédio entre o mercado, o hotel e o museu foi especialmente

destinada à praça cívica do parque da cidade – onde seriam realizadas

atividades recreativas impraticáveis em solo permeável e ainda manteriam

a paisagem livre para a contemplação da arquitetura proposta.

[105] SEC BB_ hotel.

Desenho do autor

0 1 3

10 20

0 1 3

[106] SEC CC_

hotel e mercado.

Desenho do autor

01 3 10 20

40

TRANSPARENCIA VIDROS: 75

(segundo andar + açogue e padaria)

154 155



[107] Perspectiva

externa do hotel.

156 Desenho do 157 autor



pt. 06

aqui e ali aqui e ali

pt. 06

MUSEU DE ITAJOBI

O museu de Itajobi é criado com a proposta de, assim como o

Museu Histórico de Bacurau (filme de 2019 de Kleber Mendonça Filho e

Juliano Dornelles), criar um espaço legítimo para que a cidade fale de si

mesma para o resto do mundo. As exposições trariam diversos objetos e

utensílios do cotidiano da população para representar a realidade de Itajobi

e seus moradores. O espaço dependeria diretamente da vontade e da interpretação

que a população local faz de si mesma, exaltando memórias,

saberes, crenças e líderes. O ato de registrar a história da cidade é também

uma forma de criar segurança de que o passado é valorizado e que as

mudanças culturais e populacionais que estão sendo inseridas na cidade,

não irão apagar esta memória, mas sim criar e enriquecer novos capítulos.

Além de registrar a história da cidade, o museu tem como objetivo integrar

seus moradores ao território e ao tempo, principalmente em um cenário

marcado pela xenofobia, a possibilidade de entender o espaço e se sentir

pertencente a uma história é forma de inclusão e resistência.

[108] Desenho do autor. [109] Perspectiva interna

do museu de Itajobi.

Desenho do autor

158 159



pt. 06

aqui e ali aqui e ali

pt. 06

AA

2.0

109.00

1.4

1.4

110.98

2.0

105.00

2.1

CC

BB

1.3 1.1 108.20

1.1 108.20

1.2 1.3 1.4

BB

1.0

108.20

108.20

1.5

AA

CC

102.50

1.0 Acesso ao complexo (nível da 2.0 Acesso à galeria

passarela)

0 5 10 20

1.1 Exposições

1.2 Acesso à galeria inferior

[110] Planta museu de Itajobi.

1.3 Áreas externas

Desenho do autor

1.4 Praça 160 externa inclinada

161

1.5 Praça externa plana



pt. 06

aqui e ali aqui e ali

pt. 06

AA

105.00

CC

2.2

2.1

BB

2.3

2.3 2.4

2.5

105.00

BB

2.1 2.1

105.00

2.8

2.9

2.6

2.12

102.50

2.7

2.10

102.50

102.00

2.11

AA

CC

2.0 Acesso à galeria (nível +109,00m) 2.7 Camarim 02

2.1 Galeria de artes

2.8 Foyer / Café

0 5 10 20

2.2 Recepção/ Depósito

2.9 Auditório

2.3 Sanitários

2.10 Palco elevado

[111] Planta da galeria de arte de

2.4 Secretaria

2.11 Área externa

Itajobi. Desenho do autor.

2.5 Administração

162

2.12 Coxia/ Bastidores

163

2.6 Camarim 01



Dino.

(2020)

Dino.

(2020)

pt. 06

aqui e ali aqui e ali

pt. 06

A galeria de arte e sua cobertura funcionam de forma conjunta ao

museu. Os dois espaços oferecem, além de suas funções tradicionais de

lazer e cultura, um palco para a livre expressão dos moradores da cidade.

A cobertura da galeria é um espaço livre de ampla vista para o vale - ambiente

propício para que as pessoas se apropriem, vejam e sejam vistas.

Sob esta cobertura estão os espaços expositivos da galeria, com acesso

controlado para exposições itinerantes. O espaço conta ainda um teatro,

com camarins e estruturas necessárias para apresentações cênicas, permitindo,

também sua abertura para a contemplação do parque.

[112] SEC AA_ complexo cultural.

Desenho do autor.

0 1 3

10 20

TRANSPARENCIA VIDROS: 75

164 165



6.6

3.6

7.2

3.6

6.6

7.2

Dino.

(2020)

pt. 06

aqui e ali aqui e ali

pt. 06

Juntos, o museu e a galeria compõem um complexo cultural de

1900 m². O museu assume a forma de um pavilhão que complementa

o percurso da passarela e se estende por mais 21,6 metros em balanço

livre. Essa robusta estrutura é estabilizada por uma treliça metálica que se

apoia no complexo da galeria e então se estende de forma independente.

A galeria, por outro lado, se encaixa nesse contexto de forma semelhante à

biblioteca – mimetizada no desnível do terreno favorecendo sua cobertura

como espaço de contemplação do parque e da cidade.

1.8 1.8

1.8 1.8

4

3.6 3.6

7.2

.9 .9 .9 .9 .9 .9 .9

.9

14.4

7.2

72

7.2 7.2 7.2 7.2 7.2 7.2 7.2

21.6 14.4 21.6

4

7.2 7.2

[113] SEC BB_ complexo cultural.

Desenho do autor.

0 1 3

10 20

TRANSPARENCIA VIDROS: 75

166 167



Dino.

(2020)

pt. 06

7.2 7.2

4

aqui e ali aqui e ali

pt. 06

7.2 7.2

7.2 7.2 7.2 7.2 7.2 7.2 7.2

4

72

7.2

21.6 14.4 14.4

21.6

7.2

7.2 7.2

.9

3.6 3.6

7.2

4

.9 .9 .9 .9 .9 .9 .9

6.6

3.6

1.8 1.8

7.2

7.2

3.6

1.8 1.8

21.6 14.4 14.4

21.6

6.6

7.2

.9

7.2

.9 .9 .9 .9 .9 .9 .9

3.6

1.8 1.8

7.2

3.6

1.8 1.8

6.6

[114] SEC CC_ complexo cultural.

Desenho do autor.

0 1 3

10 20

TRANSPARENCIA VIDROS: 75

168 169



[115] Perspectiva externa do

complexo cultural.

170 Desenho do 171 autor



PARTE 07

CONCLUSÃO

pt. 06

aqui e ali

parte 06: créditos iconográficos

[55] Fonte: diagrama do autor

[56] Fonte: desenho do autor

[57] Fonte: acervo pessoal. Foto: Raul Oliveira

[58] Fonte: acervo pessoal

[59] Fonte: diagrama do autor

[60, 61, 62] Fonte: fotos do autor

[63] Fonte: diagrama do autor

[64, 65] Fonte: acervo prefeitura de Itajobi

[66, 67, 68] Fonte: fotos do autor

[69, 70, 71, 72] Fonte: desenhos do autor

[60, 61, 62] Fonte: fotos do autor

[73] Fonte: foto do autor

[74 a 115] Fonte: desenhos do autor.

172



aqui e ali pt. 07

07

Os pavilhões previstos para ocupar o Parque da Cidade procuram

de maneira responsiva atender ao partido do projeto, enquanto expressam

sua própria identidade frente ao entorno. O parque, portanto, é um experimento

de implantações diversas que gozam da condição de se projetar

baseando-se nas deficiências ou potencialidades do local, que hora se mimetizam

em meio ao desnível – como a biblioteca e a galeria de arte – e

hora se impõem frente à paisagem – como a passarela e o museu.

Mesmo de baixo gabarito, o complexo criado pretende “gritar” sua

representatividade frente ao cenário existente. Sua estrutura de identidade

própria se destaca da paisagem, convida e abraça a população na experiência

de se desvendar o novo.

PARTE 07

CONCLUSÃO

O cenário apresentado sobre Itajobi se repete na vasta maioria das

cidades do interior do Brasil. Ricas em suas próprias histórias, estas cidades

rurais vivem uma condição quase que nostálgica, onde pouco se fala

sobre seu papel no futuro e pouco se extrai sobre suas potencialidades

próprias. O sentimento de não pertencimento dessas cidades no debate

político nacional vem trazendo consequências desastrosas na formação do

povo brasileiro, uma cidade que não se sente parte de um país, é incapaz

de valorizar seus próprios espaços e moradores e também incapaz de contribuir

para a melhoria do país como um todo.

O exercício de projeto acadêmico aqui não se limitou em esforços

orçamentários, mas ousou experimentar baseando-se em todo o potencial

encontrado em histórias e tradições de uma cidade rural no interior

do Estado de São Paulo. Uma cidade pode ser projetada por arquitetos e

urbanistas, mas ela só é realmente construída a partir de memórias, de encontros

e de pessoas. Nós, como arquitetos, podemos apenas tentar criar

os espaços para que estes laços sejam formados e assim, nossos projetos

construídos.

175



176 177



aqui e ali

aqui e ali

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178 179



Itajobi, 2020

ilustração do autor



Breno Quaioti

São Paulo, 2020

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