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Revista Dr Plinio 332

Novembro de 2025

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Publicação Mensal

Vol. XXVIII - Nº 332 Novembro de 2025

Medita nos teus

novíssimos…


Miguel Hermoso Cuesta (CC3.0)

O Juízo Final - Galeria de

Pinturas de Berlim

O Céu Empíreo

A

alma é feita para conhecer e querer. No Céu, ela conhece e quer o Ser sumamente próprio

a ser conhecido e querido, que é Deus. Disso lhe vem a felicidade.

Entretanto, em sua infinita bondade, Deus criou o Céu Empíreo, que é material e no

qual os homens estarão com seus corpos ressurrectos, pois o estado natural da alma é permanecer

ligada a um corpo. E como o corpo tem sentidos, e convém que ele seja feliz como é feliz a alma,

Deus cria um lugar de delícias, o Céu Empíreo, onde todos os sentidos têm delícias ao mesmo tempo,

de acordo com as delícias da alma. De maneira que esta vai vendo coisas novas em Deus e vai

recebendo sensações táteis que estão em correspondência com aquilo que ela vê em Deus. E o corpo

vai tendo delícias físicas que são apenas um magro complemento das espirituais.

Dou um exemplo. A meu ver, os concertos musicais deveriam ser acompanhados com jogos de

luz, aromatização adequada e servindo-se alguma coisa para ir tomando. De maneira que, ao

ser tocado o minueto de Boccherini, a luz da sala fosse de um belo dourado e se distribuíssem finos

bombons.

Ora, assim será o Céu Empíreo. Por essa maneira se completa o Reino de Deus: é o Céu espiritual,

no qual a alma goza da visão beatífica, mas também o Céu material, de uma beleza incalculável.

(Extraído de conferência de 4/3/1980)


Sumário

Publicação Mensal

Vol. XXVIII - Nº 332 Novembro de 2025

Vol. XXVIII - Nº 332 Novembro de 2025

Medita nos teus

novíssimos…

Na capa,

O Salvador

Museu Episcopal

de Vic, Espanha.

Foto: Flávio Lourenço

As matérias extraídas

de exposições verbais de Dr. Plinio

— designadas por “conferências” —

são adaptadas para a linguagem

escrita, sem revisão do autor

Dr. Plinio

Revista mensal de cultura católica, de

propriedade da Editora Retornarei Ltda.

ISSN - 2595-1599

CNPJ - 02.389.379/0001-07

INSC. - 115.227.674.110

Diretor:

Roberto Kasuo Takayanagi

Conselho Consultivo:

Jorge Eduardo G. Koury

Roberto Kasuo Takayanag

Vicente de Paula Torres Nunes

Redação e Administração:

Rua Virgílio Rodrigues, 66 - sala 1 - Tremembé

02372-020 São Paulo - SP

Impressão e acabamento:

Pigma Gráfica e Editora Ltda.

Av. Henry Ford, 2320

São Paulo – SP, CEP: 03109-001

Segunda página

2 O Céu Empíreo

Editorial

4 Sejamos apóstolos

dos novíssimos

Piedade pliniana

5 Misericórdia que preenche

um incomensurável abismo

Os Novíssimos – Morte

6 Vigilância e seriedade

perante a vida e a morte

Os Novíssimos – Juízo Particular

17 Meditações que alargam

os horizontes do espírito

Os Novíssimos – Inferno

21 O Inferno, a grei maldita

dos excomungados

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ao Assinante

revistadrplinioassinatura@gmail.com

Os Novíssimos – Céu

30 Alegrias que preparam

para a visão beatífica

Os Novíssimos – Ressurreição

36 A ressurreição dos corpos, alegria

sempiterna dos bem-aventurados

Última página

44 Levando refrigério

às almas...

3


Editorial

Sejamos apóstolos

dos novíssimos

nos teus novíssimos e não pecarás eternamente”, diz o Eclesiástico (7, 40).

Na Língua Portuguesa, a palavra “novíssimo” é um adjetivo que significa algo muito recente.

Mas no Latim tem outro sentido: as coisas últimas que vão suceder.

“Medita

Medita nas coisas últimas que te vão suceder e eternamente não pecarás. É uma promessa taxativa: se meditares

bem, com afinco, ser-te-á como que impossível pecar até o fim de tua vida.

Quais são esses novíssimos? A última coisa que nos acontece nesta vida é a morte, é claro. Com ela, cessa o

período de prova durante o qual a pessoa pode praticar a virtude ou pecar. É esse o primeiro dos novíssimos.

Imediatamente após a morte, vem o segundo novíssimo, o julgamento de Deus, que será tremendo para

quem foi corrupto, imoral e que, podendo pensar nas verdades eternas, não o fez por preguiça.

Contudo, para aquele que, por amor a Deus, levou uma vida dura, combativa, sendo por vezes odiado, caluniado,

mas que lutou como heroico cruzado, para esse – oh, felicidade! – as portas do Céu se abrem, o olhar

complacente do Pai Eterno o inunda, o Divino Salvador mostra seu Coração e diz: “Meu filho, durante toda

tua vida Me amaste. Ó filho dileto, que sempre lutou por Mim, meu Coração se abre para ti; tua morada eterna

é meu Coração, o encanto de tua vida será meu olhar. Meu nobre, santo, divino e majestoso amor te envolverá

como o firmamento envolve as aves, e tu voarás nesse meu amor como o passarinho voa no céu azul”. Eis

o terceiro novíssimo.

O quarto novíssimo, o Inferno, é de todos o mais silenciado por ser o que mais arrepia. Ora, é precisamente

no medo por ele causado que se encontra sua eficácia especial para salvar, quando bem meditado. Quando

uma verdade de Fé caustica, deve-se correr ao encontro dela, porque, causticando, ela limpa, desinfeta a chaga

e devolve a saúde, fazendo renascer o viço onde o pecado o tinha extinguido.

Diante da humanidade estão abertas as portas dos cárceres terríveis e sem remédio do Inferno, nos quais se

precipitam as almas que morrem fora do estado de graça. Os desgraçados, infelizes e culpados que para lá foram

não teriam se precipitado no Inferno se tivessem meditado nos novíssimos.

Portanto, quem não quiser cair no Inferno, medite nos novíssimos. Do contrário, chegará a hora mil vezes

desgraçada, em que a alma comparecerá diante de Deus para ser julgada e perceberá estar recusada por Ele

que, literalmente, a odeia.

Então, o condenado olhará para a clemente, a piedosa, a doce Virgem Maria, que sempre teve pena dele,

mas se deparará com um olhar glacial, indiferente, quando não carregado de censura e de cólera, e pensará:

“Se até esse olhar se fechou assim para mim, não há outro caminho senão jogar-me pelas portas desse cárcere

adentro e ir para o lugar ao qual, por minha maldade, por meus pecados e pelo mau uso do meu livre arbítrio,

fui destinado”.

Se queremos que as portas do Inferno estejam fechadas e por elas não passe ninguém, devemos ser os apóstolos

dos novíssimos. *

* Cf. Conferência de 21/5/1995.

Declaração: Conformando-nos com os decretos do Sumo Pontífice Urbano VIII, de 13 de março de 1625 e

de 5 de junho de 1631, declaramos não querer antecipar o juízo da Santa Igreja no emprego de palavras ou

na apreciação dos fatos edificantes publicados nesta revista. Em nossa intenção, os títulos elogiosos não têm

outro sentido senão o ordinário, e em tudo nos submetemos, com filial amor, às decisões da Santa Igreja.

4


Piedade pliniana

Samuel Hollanda

Virgen de la Fuensanta

Santuário de Nossa

Senhora de Fuensanta,

Múrcia, Espanha

Misericórdia

que preenche um

incomensurável abismo

ÓMaria Santíssima, Mãe nossa, sabemos que não somos dignos de nos aproximar

de vosso Divino Filho, pois conhecemos o incomensurável, o inexcogitável

abismo de indignidade que nos separa d’Ele.

Mas, ó Mãe, maior do que esse abismo é vossa misericórdia, vosso amor por cada

um de nós, especialmente por vossos filhos batalhadores do bom combate que

desde sempre intencionastes que lutassem por Nosso Senhor Jesus Cristo, nos dias

amargos em que vivemos.

Assim, Mãe de Misericórdia, vida, doçura, esperança nossa, que a vossa misericórdia

preencha esse abismo e faça descer até nós a plenitude da misericórdia do

vosso Divino Filho. Que vossa intercessão alcance para nós aquela perfeição moral,

aquela integridade de doação, aquele cumprimento inteiro da vocação, que é a

glória que Vós esperais de nós, e que nós queremos Vos dar por inteiro. Assim seja.

(Composta em 13/4/1990)

5


Os Novíssimos – Morte

Flávio Lourenço

Morte

Vigilância e seriedade

perante a vida e a morte

Miguel Hermoso Cuesta (CC3.0)

O Juízo Final - Galeria de

Pinturas de Berlim

Deus nos

acompanha com

sua graça e um dia

nos pedirá contas

de todos os tesouros

concedidos. Por

isso, adquirir o

hábito de ter uma

atenção crítica

sobre si mesmo é

tomar uma atitude

séria e forte perante

a vida. Se todos

nós prestássemos

atenção em nossas

almas como

prestamos em

nossos corpos, que

almas primorosas

teríamos!

6


Rijksmuseum (CC3.0)

No Evangelho, Nosso Senhor

criou uma parábola

para instruir e formar

as pessoas que O ouviam.

A parábola dos talentos

Era a história de um homem que

tinha dinheiro para empregar e foi

viajar. Ele chamou os seus servos e

deu-lhes o dinheiro para que aplicassem

na sua ausência. A um entregou

cinco talentos, a outro dois e ao terceiro,

um (cf. Mt 25, 14-30).

O senhor viajou e os três começaram

a se perguntar o que fariam. O

que recebeu cinco moedas fez render

o dinheiro. Ao cabo de algum tempo,

ele tinha cinco talentos a mais. O de

dois talentos fez render mais dois. O

terceiro, que tinha um talento só, pensou:

“Esse senhor é um homem severo

e vingativo. Se eu aplicar esse dinheiro

e perder, posso sofrer uma punição

muito grande. É melhor enterrar o talento

no chão, num lugar que só eu co-

A Parábola dos Talentos

nheça. Quando ele vier, desenterro-o

e o devolvo. Não serei passível de punição

porque, afinal, o dinheiro dele

está aqui. Naturalmente, também não

serei passível de prêmio, porque não

fiz nada por ele. Mas ficam elas por

elas, eu fico sem a recompensa e sem

o castigo. Vou vivendo. Acho que é a

melhor solução”.

Ele foi e enterrou o talento. Ao

cabo de algum tempo, o senhor desses

três servos voltou, chamou-os e

disse-lhes:

— Agora prestem as suas contas!

Um disse:

— Vós me destes cinco talentos,

eu ganhei mais cinco. Aqui estão.

O senhor chamou-o de servo

bom e fiel e manifestou o seu

agrado.

O que recebera dois

talentos apresentou-

-lhe dois a mais.

Foi chamado de

servo bom e

fiel e também recebeu uma manifestação

de agrado do senhor.

Chegou o último e disse ao dono:

— Vós sois um homem severo.

Por causa disso, eu enterrei o talento

e, agora que chegastes, aqui está.

O senhor castigou esse servo, porque

ele deveria ter feito render as

moedas e não o fez. Portou-se como

um homem preguiçoso.

7


Os Novíssimos – Morte

galleriaborghese (CC3.0)

O Julgamento Final - Galeria Nacional de Arte Antiga, Roma

O modo pelo qual muitas pessoas

antigas guardavam o seu dinheiro

contra roubos era enterrá-lo num lugar

que ninguém saberia. De vez em

quando, ainda se encontram na Europa,

no subsolo, caixas com moedas

que foram enterradas por antigos que

depois morreram e não tiveram tempo

ou não quiseram contar onde estava o

dinheiro. Então, esse foi castigado.

Esse ato pelo qual um senhor entrega

um, dois ou cinco talentos a

seus servos para que os façam render

e depois volta e pede contas, é

uma síntese do que se passará no Juízo

Final.

Deus nos criou com a alma que

Ele insuflou em nós, com o corpo,

com as condições em que nascemos

e em que vivemos, e nos deu um

mundo de circunstâncias favoráveis.

Pôs também junto a nós muitos obstáculos,

que constituem em torno de

nós um como que jogo. Trata-se de

utilizar as circunstâncias favoráveis,

de remover os obstáculos, e tirar daí

um bom resultado para Deus.

A graça de Deus

nos acompanha até

a hora da morte

Ao longo da vida, Deus faz muito

mais do que isso por nós. Com a

ação inapreciável da graça, Ele penetra

em nossa alma pelo Batismo,

tornando-nos membros do Corpo

Místico de Cristo, que é a Santa

Igreja Católica Apostólica Romana,

e com isso faz viver em nós a graça,

que é uma participação criada na

própria vida incriada d’Ele. Portanto,

Ele vive em nós, de algum modo.

Por outro lado, nós temos os Sacramentos

da Confissão e da Eucaristia,

temos o Rosário, temos a devoção

a Nossa Senhora; tantos e tantos

recursos a Igreja põe à nossa disposição.

Até a última hora da morte

temos a Unção dos enfermos, que

era tão mais belo e correto chamá-

-la de Extrema-unção, pois era dada

in extremis; 1 quando um indivíduo estava

em perigo de vida sério, real –

não precisava de ser extremo –, recebia

essa unção, a qual tonifica as forças

físicas e prepara a alma para enfrentar

a morte.

Tudo isso Deus nos dá. E nos

acompanha com a sua graça e com

seus auxílios até o fim, até o último

instante. Antes da alma se separar

do corpo, a graça está agindo em

nós. O Anjo da Guarda está rezando

por nós, está afastando de junto

de nós os demônios, Nossa Senhora

está pedindo por nós, na corte celeste

Santos e Anjos, de cuja existência

nem temos conhecimento, interessam-se

e rezam por nós.

Presta as tuas contas!

Contudo, ao morrermos, ouviremos:

“Presta as tuas contas!”, e num

relance nós veremos tudo o que recebemos,

tudo o que rendemos e o

8


que não rendemos. E Nosso Senhor

Jesus Cristo, a Santíssima Trindade,

exigirá as contas.

No Juízo Final, isso se repetirá de

maneira solene; será feito um julgamento

de todos os homens em conjunto.

Portanto, não é o juízo individual,

em que cada um é julgado e toma

o rumo que a justiça divina decretou.

Mas cada um será julgado

diante de todos, aos olhos de todos

se fará justiça e cada um seguirá o

caminho que mereceu.

Na Idade Média era usado um

modo de injuriar limpo, forte e belo.

Quando alguém queria lançar um

desaforo para outro, dizia: “Palha

para o Inferno!” Ou seja, os réprobos

serão palhas do Inferno quando

Nosso Senhor os mandar embora.

Os outros irão para o Céu.

Há uma verdade de Fé, absolutamente

certa: nenhum homem escapa

desse julgamento. Elias e Enoch,

que estão à espera do Juízo de Deus,

devem primeiro vir à Terra e enfrentar

o Anticristo, pelo qual serão

mortos, e depois, sim, ressuscitarão.

Ou seja, Elias e Enoch, com muito

mais de dois mil anos de existência

– ninguém sabe o dia da morte deles

quando será, ninguém sabe o fim

do mundo quando será –, depois de

uma vida tão venerável, tão admirável,

tão extraordinária, morrendo,

serão julgados e terão que prestar

contas: “Redde rationem tuam: Presta

as tuas contas!”

Isso vai acontecer com cada um

de nós. O Juízo Particular é terrível,

e o Juízo Final também.

A espanto ante a

iminência da morte

Lembro-me de que o primeiro homem

que eu vi morrer em minha vida

era um funcionário da Faculdade

de Medicina Veterinária onde eu

era bibliotecário, ainda em meu tempo

de estudante. Era um homem

de aspecto comum. Eu o encontrava

quando entrava e saía, dizia-lhe

“Bom dia” ou “Até logo”, mas nunca

prestei atenção nele. Eu trabalhava

na biblioteca e ele no almoxarifado.

Acho que ele também nunca prestou

atenção em mim.

De repente, ouvi um corre-corre

lá e alguém me disse: “No almoxarifado,

o Fulano de tal está morrendo”.

Eu fiquei impressionado e pensei

logo na alma dele. Mas havia o perigo

de ser um engano. Os funcionários

administrativos estavam lá, mas

os médicos já tinham ido embora. Estaria

morrendo mesmo ou não?

Era um homem de meia altura,

não muito gordo nem muito magro;

lembro-me de que tinha muito cabelo

castanho, uma expressão esquisita,

o que devia ser sinal de má saúde.

Ele era de raça branca, mas era muito

amarelo, de um amarelo sem sangue,

como a cor de cera de vela amarela.

Entrei no almoxarifado e encontrei

o sujeito com o avental de trabalho,

deitado no chão – ele tinha tido

um ataque cardíaco – com os dois

braços abertos em forma de cruz,

mas se via que não tinha uma intenção

religiosa, era algo casual; os

olhos vidrados, não vendo mais nada,

mas respirando.

Tomei depressa um táxi que estava

passando pela rua e fui pegar um padre

agostiniano da igreja da Aclima-

Flávio Lourenço

A morte de Madame de Bovary - Museu de Belas Artes de Rouen, França

9


Os Novíssimos – Morte

ção. 2 O sacerdote veio com boa vontade,

pegou o pobre coitado ainda com

vida e lhe deu a absolvição. Tudo isso

ocorreu muito rápido, mas eu percebi

que ele já tinha adiantado muito

os passos rumo à eternidade naquele

pequeno instante ou naqueles poucos

minutos em que nós não nos vimos.

Ele já estava com o olhar mais vidrado,

com o amarelo mais amarelado,

com o rosto mais inchado, mais alheio

à Terra, e parecia estar a meio caminho

entre o Céu e a Terra.

Aí eu tive a mesma impressão

pungente que tive depois, quando vi

outras pessoas morrerem, por exemplo,

meu pai. Aquele que não morre

de imediato fica muitas vezes no isolamento.

A pessoa tem um ataque ou um

problema qualquer, perde o contato

com a Terra e fica só, sem que

possa mostrar ter conhecimento de

que outros estão mexendo com ele,

olhando para um ponto fixo, como

que chupado pela morte que o vai

arrancando da vida. E naturalmente,

pensando, pensando, pensando…

Pensando no quê? No juízo que vai

vir. É uma coisa tremenda!

Últimos assaltos do demônio

na hora da morte

Eu li em livros de leitura espiritual

que esse isolamento é muito perigoso,

porque nessa hora o indivíduo

percebe que vem a morte e o demônio

o tenta com a tentação que parece

ser a mais frequente, porque quer

ver, num último assalto, se leva o sujeito

para o Inferno.

Há vários casos de pessoas que,

quando passam por um desastre ou

por uma situação inesperada, com

iminência de morte, sofrem um trauma

muito forte, a vida inteira se passa

diante delas como uma fita rapidíssima,

lembram-se de tudo. Com

senso crítico, elas se lembram de todas

as coisas que fizeram, e aí analisam

tudo o que não tinham analisado:

pecados que cometeram, mas

não perceberam que eram pecados;

atos de virtude que praticaram

e não sabiam que eram atos de virtude;

ações neutras – nem pecado

nem virtude diretamente –, praticadas

na despreocupação, sem pensar

em Deus, como se fossem uns ateus.

Tudo isso forma um dilúvio de setenta,

oitenta anos de existência, pelos

quais o homem, de repente, tem

obrigação de dar contas.

Talvez poderá vir a seguinte tentação:

“Para você não existe mais solução!

Tal ponto assim você não confessou

para o padre, não por má

vontade, mas porque se esqueceu. E

agora, se o padre não vem lhe dar a

absolvição, você está perdido, porque

não foi perdoado”.

Na realidade, esses pecados estão

incluídos nas confissões que a pessoa

fez, mas o demônio mente. Na hora

da morte, o sujeito está com a cabeça

atarantada e a tendência é desesperar,

ou, muitas vezes, blasfemar.

Como é perigoso e terrível o juízo!

De quantos tesouros Deus vai

nos pedir contas?

“Se eu soubesse, não

teria pecado...”

Paulo F.

A morte do pecador - Igreja do Senhor do Bonfim, Salvador

Em nós existem muitos tesouros,

mas há um – em função do juízo

– que é especial. Por causa da torpeza

do mundo de hoje, pelo fato de

se ter entregue à Revolução no grau

em que sabemos, esse tesouro quase

todos os homens ou não usam ou

destroem. E daí decorre uma série

de males que não têm conta.

Muitas vezes, um homem que está

para comparecer diante do juízo

de Deus lembra-se de tal mau pensamento,

tal mau olhar, tal coisa que

ele fez de repente, irrefletidamente.

Quantas ações más o homem comete

sem reflexão? Às vezes, não chega

a se dar conta de que são ações

más, ou, se chega a perceber, não o

faz por inteiro. Então, dir-se-ia: “Se

ele não percebeu, coitado, que culpa

ele tem de ter feito aquilo?”

A pessoa tem, então, vontade de

dizer a Deus: “Senhor, eu não perce-

10


bi. Eu não sabia”, para dar a entender

o seguinte, como se Deus pudesse ser

enganado: “Se eu soubesse, não o teria

feito! Logo, não tenho culpa. Não

me julgueis por causa disso”.

Paulo F.

O homem perdeu o hábito

de prestar atenção em si

A morte do justo - Igreja do Senhor do Bonfim, Salvador

Deus poderia dar a seguinte resposta,

e aqui nós tocamos no ponto:

“Ah, você não percebeu? Não sabia?

Eu não lhe dei um entendimento,

um senso capaz de notar o que

se está passando no seu corpo? Você

protegeu-o, consciente ou inconscientemente,

contra a morte e a doença,

cem mil vezes na vida.

“Ao se aproximar um mosquitinho

de sua mão, você percebeu logo

que estava se passando alguma coisa.

Esse mosquito levava um veneno

e você o espantou quase automaticamente,

e ainda limpou a mão com

um pouco de cuidado. Mais adiante,

dirigindo um automóvel, você desviou-se

depressa de um outro que vinha

desvairado, e não foi morto. Em

outra ocasião, havia uma comida estragada

no restaurante, você desconfiou

e mandou vir outro prato. Você

é capaz de perceber isso ou aquilo

que se passa em si. Por exemplo, você

conta direitinho para o médico o

que está sentindo. Às vezes inferniza

o médico de tanto contar sintomas

dos quais alguns vêm ao caso e outros

não vêm ao caso contar. O doutor

está impaciente e você ainda lhe

diz que sentiu uma pontada no pavilhão

da orelha durante a noite. A tudo

o que se passou com o seu corpo,

que atenção você prestou!

“Mas se você era capaz de prestar

atenção e de conhecer aquilo que se

passava no seu corpo, você não era

capaz de conhecer o que se passava

na sua alma? Então lhe foi dada

a capacidade de observação, de conhecimento,

portanto, para aquilo

que era secundário, para proteger a

vida terrena, e não lhe foi dada essa

capacidade para proteger o capital,

que é a vida eterna?

“Minha obra é perfeita e não comportaria

essa desordem. Você teve essa

capacidade, mas, por preguiça, por

indolência, para não ver a realidade

de frente, você não se habituou a

prestar atenção no que se passava no

seu interior. De repente, sente-se assaltado

por uma tentação – a qual você

pensa que pulou no seu pescoço na

última hora –, mas, de fato, havia alguns

dias que estava com aquela inclinação

má corroendo-o por dentro,

sem que tivesse tomado providências.

Você não quis prestar atenção, porque,

se prestasse, era obrigado a combater.

E você achou mais gostoso ir

brincando com a tentação, ir utilizando

um pouco da apetência deleitável

que ela dava, e achou melhor, por

causa disso, não prestar atenção.

“Você perdeu o hábito de prestar

atenção em si. Donde, do fundo de

sua alma, o pecado original, lançando

toda espécie de vermes a toda a

hora, conduziu-lhe a toda espécie de

perigos e você não se deu conta.

“Às vezes, você tropeçou nesses

perigos e caiu repetidamente. Depois

você se arrependeu, confessou-

-se. Mas, para emendar-se e não cair

de novo, você deveria ter tomado o

hábito de prestar atenção no que se

passa no seu interior. Como você

não o fez, o resultado é que a situação

se repetiu duas, cinco, cinquenta

vezes, e ainda assim você não tomou

esse hábito”.

Desconfiar do sobrenatural

e sucumbir em novos

assaltos do demônio

Qual o resultado? A pessoa acaba

perdendo a confiança em Deus e

pensa: “Pedi a Nossa Senhora e Ela

não me ajudou. O Memorare que

Dr. Plinio insiste tanto para nós rezarmos

e garante com a ênfase que

lhe é própria que “nunca se ouviu

dizer...” eu recorri quantas vezes a

Nossa Senhora e, entretanto, não recebi

ajuda! Eu não confio no Memorare,

não confio na oração. Eu já estou

de pé, pronto a blasfemar. Ou já

11


Os Novíssimos – Morte

estou entregue a mim mesmo, pronto

a desistir da vida espiritual, pronto

a não mais lutar. Não adiantou!

Eu fiz o possível, o auxílio não veio,

eu me deixei levar pela maciota”.

Quantas vezes isso se passa? De

tantos e tantos rapazes que se aproximam

de nós, quantos se afastam

logo no primeiro mês, no segundo

ou no terceiro? Por que saem? Em

última análise, por causa disso.

Eles deveriam tomar o hábito de

prestar atenção continuamente no

que se passa dentro deles. Como não

tomam esse hábito, são assaltados

pelo demônio de qualquer jeito. É

tentação de preguiça, de ira, de gula,

de inveja, e daí para fora. Todos

os vícios capitais assaltam e tomam

conta do homem.

Eu lhes garanto que se agora, enquanto

falo, eu não prestar atenção

no que se está passando em mim, alguns

trechos desta conferência ficariam

menos bons do que estão, porque

deixei de exigir de mim o necessário,

e me deixei levar pela preguiça.

Ou, de vez em quando, a conferência

sairia dos trilhos e perderia sua ordem,

pois eu começaria a falar daquilo que

tenho vontade e não daquilo que devo

dizer, de acordo com o esquema que

devo seguir. Inclusive seria capaz de

não fazer esquema, mas falar ao léu,

porque é mais agradável ir falando como

um doido que anda pela rua.

Portanto, devemos prestar atenção

em nós nas menores coisas, dia e

noite, e uma atenção crítica; discernir

o que é bom e o que é ruim, observar

de qual defeito meu procedeu

tal inclinação, quais são as principais

inclinações más que há em mim, pois

fui concebido no pecado original,

sou atormentado pelos demônios e

cometi pecados atuais que deixaram

em mim ainda mais tendências ruins.

Todo mundo vive hoje num ambiente

mau, porque o mundo hoje é péssimo.

Então, o ambiente também me

solicitou, e essas solicitações podem

ter deixado marcas em minha alma.

Samuel Hollanda

Bom Deus - Saint Chapelle

Se eu não tenho noção disso e não

me vigio a todo o momento – não digo

a maior parte dos momentos, mas

é a cada instante sem exceção – acabarei

fazendo o que não posso fazer,

quererei o que não devo querer, tenderei

ao que não devo tender.

Ora, isso é o mais difícil, na aparência,

para quem não tem esse hábito.

E vou dizer mais: parece impossível.

Mas eu pergunto: se não se fizer isso,

como vencer os próprios defeitos?

Se todos nós prestássemos atenção

em nossas almas como prestamos

em nossos corpos, que almas

primorosas nós teríamos! Ora, se

prestássemos ao nosso corpo a atenção

que prestamos às nossas almas,

que corpos esmolambados teríamos!

O homem não presta atenção

no seu destino eterno

Alguém me dirá: “Dr. Plinio, um

homem pensa num só assunto. Ele

não deve pensar em mais de um assunto

de uma vez, porque ele pensa

mal pensado. Então, se o senhor

está falando aqui a respeito do juízo,

o senhor não pode, ao mesmo

tempo, estar prestando atenção em

si, porque a atenção se divide e fará

mal uma coisa e outra. Em certas

horas, o senhor precisa se esquecer

de si mesmo e de sua vida interior,

para prestar atenção unicamente no

que está fazendo, é até um dever.

Do contrário, fará mal a sua conferência,

a qual tem obrigação de fazer

bem, ao menos tanto quanto possa!”

Qual seria minha resposta? “Sofista,

cale-se! Você está dizendo isso

apenas para criar-me um embaraço,

porque é um pouco difícil demonstrar

o contrário. Mas eu vou provar

que você está continuamente pensando

em mais de um assunto.

“Basta fazer uma pequena referência

capaz de lisonjear ou de contrariar

o seu amor-próprio, que seu sismógrafo

imediatamente registra aquilo com

uma vibratilidade extraordinária. Vo-

12


cê está sempre com a atenção posta

no que lhe é humilhante ou

no que lhe é elogioso. De tal

maneira que você pode

estar tratando do que

quiser, se alguém tocar

um pontinho no

seu amor-próprio,

você sente de imediato.

Você está

ou não está prestando

atenção

em dois assuntos?

Responda!

“E não é só consigo,

mas numa série

de pontos. Por

exemplo, se o elogio ou

a crítica diz respeito aos

senhores seus pais, aos seus

irmãos; ou se fizer um elogio a

uma pessoa com quem você tenha

rivalidade, seu amor-próprio percebe

e a inveja ferve. Não pode negá-lo,

porque eu sou homem como você e

sei como é a criatura humana.

“Você tem um verdadeiro caleidoscópio

de coisas nas quais continuamente

presta uma atenção viva,

de lança em riste, pronta a entrar em

ação caso se toque na questão. Você

presta atenção em vinte assuntos,

cinquenta, ao mesmo tempo. O que

você não faz é prestar atenção no

destino eterno de sua alma, nem nos

direitos de Deus; também não gosta

de se lembrar que Deus existe, e que

um dia você será julgado. Não é tema

que agrade as pessoas”.

Horror de lembrar as

verdades incontestáveis

Dr. Plinio em 1984

Quantas vezes acontece isso numa

roda social? Hoje em dia é a

época das doenças, todo mundo vive

no médico, acometido por uma

mazela qualquer; é uma intoxicação,

uma alergia... as pessoas usam caixinhas

de remédio com três, quatro,

cinco pastilhas. Umas são cor-de-rosa,

outras verde-claras, outras azulzinhas,

para dar a entender que tomar

remédio é quase como comer

um bombom… São as cores da mentira.

O mundo vive mentindo.

Imaginem que numa roda está se

conversando sobre doenças, médicos

bons e maus e, em certo momento,

quando a conversa morre um pouco,

uma pessoa se levanta e diz:

— Minhas senhoras, meus senhores!

Todos estão conversando sobre

um tema tão interessante, tão importante:

a saúde de seu próprio corpo.

Estão todos se ajudando. Pelo que

contam, cada um vai tomando um

pouco mais de experiência sobre esses

assuntos, vão sabendo quem são os

médicos de boa ou de má fama, quais

são os remédios bons, quais os maus.

Numa hora de doença, todas essas informações

podem ser interessantes.

Todos concordam.

— Está bem, tudo isso os senhores

fazem para evitar a morte, mas,

às vezes, o homem não consegue evitá-la.

Todos havemos de morrer.

Pronunciada a palavra “morte”,

uma névoa entra na sala. O homem

de hoje gosta de qualquer tema

menos deste, e se ele fala da

doença é para fugir da morte.

O homem é um inimigo

da morte. De repente

as fisionomias

mudam. Na mesma

roda, um começa

a conversar com a

outra, outro boceja,

outro abre

um jornal dando

a entender o seguinte:

“Cale-se!

Por que você veio

nos lembrar essas

verdades, entretanto,

incontestáveis?”

O indivíduo vai mais

longe e diz:

— Enquanto falo sobre isso,

vocês já perceberam o que está se

passando no seu interior?

Por mais liberal que seja o ambiente

que se está visitando, onde se

tolerem as maiores imoralidades, os

maiores desatinos, diante do qual se

podem dizer as coisas mais banais,

mais fúteis – porque a educação manda

tolerar o que dizem os visitantes –

se falarem deste ponto: “Vivam prestando

atenção no seu interior para

saber o que é pecado ou não, e assim

vocês terão o Céu”, a visita acaba

e em cinco minutos a pessoa tem

de sair da casa. Nenhum de nós tem a

menor dúvida a esse respeito.

São pessoas que não querem

prestar atenção no seu interior e que

vivem com outros que agem da mesma

forma. Não querem saber, porque

uma das coisas que a Revolução

mais calcou no homem foi o horror

de prestar atenção em si mesmo.

Arquivo Revista

Do morto, ninguém

mais quer se lembrar

Vejam como é o mundo. Quando

morre alguém, os parentes e conhecidos

vão fazer a visita de pêsames

no dia seguinte depois da mor-

13


Os Novíssimos – Morte

te, pois no próprio dia

do falecimento do indivíduo

a família está

acachapada de dor.

É uma convenção. Entrando

lá, procurem

conversar a respeito

do morto. Ninguém

quer. Morreu, não falam

mais dele, foi-se

embora. Vão dividir

as coisas do defunto

certamente, não tem a

menor dúvida, mas só

se fala dele para fazer

a divisão. Às vezes,

por cerimônia, põem

na sala de visitas uma

fotografia dele; se a

família tem dinheiro,

colocam-na numa

bonita moldura, mas

se a família é pobre,

põem uma moldurinha

de matéria plástica.

Depois não se fala

mais, porque o indivíduo

transpôs o limiar

da morte.

Há três ou quatro

dias essa pessoa era a vida e a animação

da família. Morreu, os parentes

têm terror de falar a respeito dela.

Desapareceu, foi-se embora, a eternidade

está longe, então todo mudo

procura recompor a vida sem aquele

que morreu; nem se lembram dele.

Quando prestam atenção em

si mesmos, porque se sentem tristes,

fazem uma espécie de exame

de consciência: “Por que estou triste?

Ah, estou me lembrando de fulano

de tal que morreu. Não vou

mais pensar!” E mudam de assunto:

“Agora estou me lembrando de

tal doença que talvez eu tenha. Enquanto

não chega o resultado do

exame, vai fazer mal para a saúde

eu pensar nele”.

Aí sim eles se controlam, fazem

exame interior e sabem o que se passa

dentro deles. Fora disso, não.

Flávio Lourenço

A boa morte - Igreja de São Martinho, Pau, França

Ou seja, para tornar a vida agradável,

eles fazem exame. Para servir

a Deus, para evitar que a alma se

lance nas mãos do demônio, não o

fazem. Quantos por cento de possibilidade

de salvação tem uma pessoa

que procede assim?

Diferença entre dois

tipos humanos

Entretanto, quando uma pessoa

tem o hábito de prestar atenção em

si, ela fica com uma fisionomia especial,

adquire uma outra dimensão

psicológica, interna. O olhar fica

consecutivo, ordenado, não borboleteia

de um lugar para o outro, seus

gestos em geral são ordenados, suas

atitudes têm propósito, tudo se segue

de acordo com certa lógica, certa

reflexão, com certa calma.

Se pusessem cinco,

quinze ou vinte pessoas,

obrigadas a ficar

quietas sem poder falar,

sem poder ler, numa

sala razoavelmente

confortável, durante

dez horas, por exemplo,

como não estão

habituadas a prestar

atenção em si, começariam

todas a prestar

atenção umas nas outras.

Ao cabo da primeira

hora, já se teriam

conhecido e não

mais prestariam atenção

recíproca. Aí apareceriam

as recordações

e as fantasias.

Ao cabo da segunda

e terceira hora, as

recordações e as fantasias

desapareceriam.

As pessoas estariam

agitadas, infernizadas.

Consultariam o relógio,

fariam sinal para

outro para perguntar

se o relógio está certo;

por quê? Porque estão sós, e sós podem

prestar atenção em si. Não querem,

porque o seu interior lhes contará

coisas desagradáveis.

Soltem essas pessoas na rua. Elas

olham para todos os lados, conversam

inconsideradamente, andam de

um modo descompassado, têm toda

a espécie de gestos, de atitudes, de

fisionomias que indicam a frivolidade,

a irreflexão, a mudança contínua

de estados de espírito interiores.

Se alguém filmasse essas fisionomias

através de um pequeno buraco

feito no teto, numa posição estratégica,

ou olhasse essas caras, poderia

facilmente dizer qual deles tem o

hábito de prestar atenção em si e de

governar-se a si próprio e quem não

tem esse hábito.

Quem está habituado a se governar,

senta-se calmamente numa pol-

14


trona, reza, põe em dia as suas orações.

Terminadas as orações, fica numa

certa tranquilidade e bem-estar,

tem vida interior, vive dentro de si

mesmo.

Quando a pessoa não é assim, esvoaça

para todos os lados, agita-se,

bate o pé; se tem um cigarro ao alcance,

fuma um pouquinho e o apaga

logo, porque fica enjoado; depois

pega outro cigarro, e assim enche os

cinzeiros. É a imagem da desordem

dentro da casa: quem tem desordem

dentro, tem fora.

Prestar atenção em si,

mas sem vaidade

Devo confessar que não é a maioria

– exprimamo-nos assim – que

tem o hábito de prestar atenção em

si mesmo. E eu estava ardendo de

desejo de um dia poder tratar disso.

Hoje se apresentou essa oportunidade

de um modo muito natural, e eu

aproveitei a ocasião.

Mas do que adiantará

dizer isso se as pessoas

não têm o hábito de prestar

atenção em si mesmas?

É um círculo vicioso: elas

vão esquecer. Saindo daqui

vão dizer que a conferência

foi fenomenal e depois vão

pensar em outra coisa. Porque

como isso não é agradável,

não volta à memória.

O homem que, na aparência,

não presta atenção em

si mesmo, presta bastante

atenção para afastar da

atenção o que lhe possa incomodar.

Então nós deveríamos

sair daqui com uma resolução

prática. Todavia, não

será a seguinte: “Passar o

dia inteiro prestando atenção

em si”.

Vamos falar com franqueza:

todos nós fomos

concebidos no pecado original,

e do nosso interior sai tudo

quanto é ruim. Acontece que muitas

vezes o homem se habitua a prestar

atenção em si próprio com vaidade.

Ele olha para as qualidades que tem

e encontra até as que não tem, formando

um panorama completamente

equivocado das coisas e de si próprio,

e fica com o que nós chamamos

de “espiritualite”, ou seja, uma visão

vaidosa de si e um gosto doentio de

se coçar a si próprio, e imaginar dentro

de si problemas espirituais que

não existem, para poder fazer uma

consulta e chamar a atenção do diretor

espiritual durante algum tempo.

A complexidade é tal, que nós devemos

prestar atenção sobre o modo

de prestar atenção.

Uma forma excelente

de curar o defeito

Dr. Plinio em 1994

Como podemos vencer isso e tomar

uma atitude séria e forte perante

a vida, se não somos sérios nem

fortes perante nós mesmos?

Eu proponho um primeiro passo

muito simples: começar a rezar

a Nossa Senhora para Ela nos dar

o desejo de prestar atenção em nós

retamente, não para nos admirarmos,

mas para encontrarmos os nossos

defeitos.

Um homem nunca deve prestar

atenção nas suas qualidades. O ideal

é ignorá-las e conhecer os seus defeitos.

As qualidades ele as encontrará

no Céu, maravilhosamente contabilizadas,

com os melhores juros que jamais

ninguém pagou: juros mariais!

Portanto, pratiquem uma ação

boa, interior ou exterior, e não pensem

mais. Ela entrará nas balanças

do Céu ainda mais carregada de ouro.

Como nós fizemos a Consagração

a Nossa Senhora segundo o método

de São Luís Maria Grignion de

Montfort, tornando-nos escravos de

Maria Santíssima, Ela toma essas

nossas pobres ações e as

oferece a Nosso Senhor:

— Meu Filho, aqui estão!

E Ele responderá:

— Minha Mãe, que pobre

frutinha sem sabor é

esta, mas veio de vossas

mãos, Vós sorristes para

este fruto e ele para mim ficou

saboroso.

Então, peçam todos os

dias, a qualquer momento,

mas também em ocasiões

fixas, determinadas do dia.

Por exemplo, por ocasião

da Comunhão, ou ao rezar

um dos terços do Rosário,

destiná-lo a isso; na hora

de dormir e de acordar. Já

são quatro ocasiões.

Tomem um dos mistérios

que estão rezando, os

gozosos, os dolorosos ou os

gloriosos, e peçam simplesmente

isto, digam a Nossa

Senhora: “Minha Mãe, du-

Arquivo Revista

15


Os Novíssimos – Morte

Tomas T.

Virgem Branca (coleção particular)

rante todas as contas deste terço que

vou rezar, ainda que eu me esqueça

dessa intenção, eu quero Vos pedir:

primeiro, chegar ao píncaro da

devoção a Vós”. Porque esse sempre

deve ser o primeiro pedido; tendo

isso, se tem todo o resto, pois traz

consigo a devoção a Nosso Senhor.

“Segundo, que Vós me deis a força,

uma disposição tal, que eu esteja

sempre prestando atenção em mim

e me guiando adequadamente”.

Peçam, peçam! Porque aquilo

que pode lhes parecer impossível se

tornará possível. As próprias palavras

que eu estou dizendo aqui podem

servir de oração. É uma oração

a mais simples possível.

Também é muito bom, é inapreciável,

quando assistimos à Missa,

na hora da Consagração, em que

Nosso Senhor Jesus Cristo renova

de um modo incruento o Sacrifício

do Calvário, os senhores pedirem,

por meio de Nossa Senhora,

que Ele ofereça o seu Sacrifício

por essa intenção.

É tão simples, por que não

o fazer metodicamente? Se

levarem daqui essa resolução,

eu poderei dizer que esta terá

sido uma noite bendita!

Ter a própria

alma nas mãos

Uma vez eu estava rezando

na Igreja de Nossa Senhora

da Luz e meus olhos caíram

naturalmente sobre a lápide

funerária, na capela-

-mor, onde está enterrado o

famoso Frei Galvão, um frade

franciscano fundador daquele

convento de freiras concepcionistas,

que é um ramo das

franciscanas.

No epitáfio está escrito:

“Aqui jaz Frei Antônio de

Santana Galvão”, e depois

vem o elogio: “Qui animam

suam in manibus suis semper

tenens, placide obdormivit in Domino”,

“que tendo sempre nas suas

mãos a sua própria alma, adormeceu

placidamente no Senhor”.

Eu fiquei empolgado com a sobriedade

e a riqueza desse elogio.

Era um homem que tinha nas próprias

mãos a sua alma, porque prestava

atenção nela constantemente

e tinha bastante virtude para fazer

dela o que queria. Que elogio, que

magnificência!

Querer-lhes muito bem é desejar-

-lhes este grande bem. v

(Extraído de conferência de

29/9/1984)

1) Do latim: nos últimos instantes da

existência ou de uma situação perigosa

ou comprometida.

2) Igreja Santo Agostinho, localizada no

Bairro Aclimação, na Zona Central

da capital paulista.

Santo Antônio de

Santana Galvão, à

esquerda, epitáfio

do Santo - Igreja de

Nossa Senhora da

Luz, São Paulo

Luis C. R. Abreu

16


Os Novíssimos – Juízo Particular

Flávio Lourenço

Juízo

Particular

Meditações que alargam

os horizontes do espírito

Diz-se que as

viagens alargam os

horizontes. Mas,

se o espírito se

habitua a meditar

sobre os Novíssimos,

ele cresce de

envergadura,

de tamanho, de

dimensão intelectual.

Nada melhor como

reação ao espírito

revolucionário.

Flávio Lourenço

No que diz respeito ao Juízo

Particular, como a todos

os Novíssimos, há

uma lamentável dificuldade do homem

em focalizar bem a matéria,

porque ele está muito em cena no

assunto. Então, é preciso introduzir

o tema com as retificações necessárias

à nossa psicologia.

Juízo das almas na porta do Céu - Museu Nacional de Arte da Catalunha

17


Os Novíssimos – Juízo Particular

Reflexo criado da

justiça de Deus

De que modo podemos conceber

facilmente como será o Juízo? Antes

de tudo, procurando realizar como

somos nos momentos em que nós

julgamos com justiça. O que significa

isso mais precisamente?

Imaginem-se lesados gravemente

em seus direitos mais fundamentais

por uma pessoa muito próxima

e, por uma razão qualquer, fosse justo

dizer: “Este esgotou a medida e

agora vou cobrar as contas!”

Cada um, no papel de juiz, o que

diria? Que distância poria entre si e

o miserável? Qual seria a increpação,

com que grandeza a faria, do alto

de que princípio, de que queixas,

de que fatos, com que acabrunhamento?

E por fim diria: “E, por causa

disso, descarrego sobre você, em

virtude dos direitos em mim lesados,

tal e tal punição! Comece!”

Isso que faríamos com justiça é

um pequeno reflexo criado – basta

dizer isso: criado! – daquilo que existe

infinitamente em Deus.

Um modo de julgar severo...

Imaginem um pai, por exemplo,

Adão, se tivesse que julgar Caim. Ele

gerou Caim, ele o entreteve, brincou

com ele, nutriu-o e fez de tudo por

ele.

Caim mata Abel, o filho da esperança

de Adão. Suponhamos que

Deus não tivesse punido tão espetacularmente

Caim e que fosse preciso

julgá-lo. E, então, Adão chamasse

Caim para o julgamento e executasse

uma sentença: “Eu te condeno

a ser, daqui por diante, um homem

afastado de todos; que não descanses

uma só vez na vida; que a todos

proclames, antes de aproximar-te de

cabeça inclinada e de olhos baixos:

‘Eu sou o infame Caim’. Eu te condeno

a, em cada noite que durmas,

sentir o horror do chão que tens debaixo

dos pés. E que procures fu-

gir de tua sombra, indo dormir mais

adiante.

“Vagabundo, eu te condeno a não

ter lugar estável e, portanto, a não

ter ocupação nem trabalho fixo; tu

vais vagabundear dentro de tua própria

alma, de tormento em tormento,

de remorso em remorso. Eu te

rejeito! Longe de mim! Começa a

fugir! Foge!”

No fundo, Adão condenaria tudo

isso, descarregando sua cólera sobre

Caim. Entretanto, ele é pai e não

o condenou ao Inferno. Adão sabe

que para Caim ainda há salvação, ele

a deseja para o filho. Mal o vê adentrar

no mato como um desesperado,

Adão se prostra e reza, pedindo

a Deus pelo filho.

...mas, de outro lado, o

julgamento de um pai

Outro modo seria se, durante o

julgamento, ele dissesse para Caim:

“Eu que te gerei, eu que brinquei

contigo e te fiz tal carinho, tal agrado,

tal coisa, te curei de tal moléstia,

de tal outra, logo tu, que eras tão

próximo de mim… tu fazes isso?”

Quando Caim fosse embora,

Adão diria: “Meu Deus, eu o gerei,

eu brinquei com ele, eu fiz isso…”

Essas duas posturas de alma dele

seriam, no que elas têm de extremo,

enormemente respeitáveis. Se Adão

tivesse julgado assim Caim e nós tivéssemos

assistido ao juízo, Adão sairia

engrandecido diante dos nossos olhos.

Ele diria a Caim: “Eu sou um degredado,

estou fora do Paraíso. Tu

és um filho de degredado e carregas

minha maldição. Mas, tu me viste fazer

penitência e eu te vi cometer um

pecado. Geme! Começa a soluçar e

some daqui!”

Depois Adão se voltaria para

Deus e diria: “Meu Deus, eu pecador,

gerei um pecador. Tende pena

de mim. Mais uma vez, tende misericórdia

de nós dois!”

Aqui, de passagem, entende-se

bem o que a “heresia branca” 1 tem

de errado. Não que ela minta quando

glorifica a misericórdia de Deus –

não pode ser – mas ela vê um só lado.

E ela nos dá de Deus uma ideia

menos excelente, menos sublime do

que compete a Ele, porque precisamos

ver a misericórdia e a justiça.

Caim matando Abel - Museu de Santa Cruz, Toledo

Flávio Lourenço

18


Flávio Lourenço

Para os condenados ao

Inferno, um julgamento

sem volta atrás

Entretanto, Deus não vai ser

assim conosco no dia do Juízo

porque, na hora de nos condenar,

Ele o faz para todo

o sempre, nós ficamos

atolados no ódio eterno a

Ele e nunca mais mudaremos.

E, por todas as eternidades,

das eternidades,

das eternidades,

vamos estar em relação

a Deus numa atitude de

blasfêmia eterna. E Ele,

com seus bem-aventurados,

do alto do Céu, vai

ter gáudio ouvindo nosso

gemido. Ele, que criou

o Inferno com todos os tormentos

– porque Deus é criador

do Céu e da Terra, criador

do Inferno! E quando, no Credo,

está dito visibilium omnium et invisibilium,

refere-se não somente aos

Anjos do Céu, mas também aos demônios.

Deus mantém na vida tudo quanto

existe. Nós estamos vivendo porque

somos mantidos por Ele. Se Ele

tirasse a mão, nós cairíamos no chão

e nos desfaríamos. Deus mantém na

vida os demônios e mantém no ser

os tormentos do Inferno para atormentar

o demônio. E, como nada há

na Criação que Ele não conheça e

de que não tenha sido o motor primeiro,

não há um tormento de um

demônio cuja causa última não seja

Deus. E é para lá que Ele condena

os malditos.

Então, a atitude de Deus não

é mais como a que Adão teria tido

com Caim, mas é a da descarga imediata

e completa da cólera d’Ele.

“Presta tuas contas!”

A expulsão dos vendilhões do Templo

Catedral de Santa Ana, Apt, França

Não me espanta que um homem

de setenta e dois anos morra de repente.

Mas não é impossível morrer

igualmente um jovem de vinte.

Seria surpreendente, não seria impossível.

Há casos desses e todos sabemos

perfeitamente. Ou seja, nenhum

de nós sabe, na hora de encostar

a cabeça no travesseiro, à

noite, se de fato não será nosso cadáver

que encostará…

Em outros termos: pôs a cabeça

no travesseiro, adormeceu, morreu.

E ali começa ou o Purgatório; de que

tamanho? Com que sofrimentos?

Com que dores? Ou o Inferno.

E, quando menos se pensa, antes

de eu ter acabado de levar esta xícara

aos lábios, morte súbita! Presença

de Deus!

Diante d’Ele, todas as ilusões do

mundo se desfazem como se fossem

uma figura. O Apocalipse diz que,

quando o mundo acabar, o céu se

enrolará como um pergaminho (cf.

Ap 6, 14). Assim também, quando

nós morrermos, a nossa vida

se enrolará como um pergaminho.

Não veremos mais nada,

todas as ilusões passaram

e veremos que só teve

valor real, para o bem

ou para o mal, o que nós

fizemos a favor ou contra

a Causa Católica. E,

aparecerá diante de nós

Deus, Nosso Senhor, em

seu poder e majestade.

E, com aquela ordem de

juiz que já julgou: “Rede

rationem tuam” – “Presta

tuas contas”.

Há pessoas que passam

por perigos de vida gravíssimos

– são casos excepcionais,

eu li num livro alguns deles

– e, em certo momento, a vida

inteira lhes passa diante da

memória.

Entretanto, diante de Deus, nem

é isso. Nossa vida está toda parada

e projetada na eternidade. E nós ali.

Nessa hora, Nossa Senhora não

reza mais por nós, Ela reza até nós

morrermos. O resto é instantâneo:

morreu, entrou imediatamente o Juízo.

Nessa hora, veremos o erro, o

desatino da nossa vida, ou – por que

não dizer? – o êxito, o gáudio, a alegria!

O julgamento da virtude

Se Deus é tão terrível no julgar o

pecado, Ele não seria justo se não

fosse simetricamente afável e bondoso

no julgar a virtude.

Para calcular o afeto de Deus por

nós, basta lembrar que Ele enviou

seu Filho a esta Terra para sofrer

tudo quanto sofreu, porque deseja

nossa salvação – e o faria para salvar

um só de nós! – e quer que compreendamos

o gáudio inefável, penetrante,

envolvente com que Ele

nos considera. Diz-nos uma só vez:

19


Os Novíssimos – Juízo Particular

“Meu filho”, e aquilo dura por toda

a eternidade…

Lembrar-nos-emos de todos os

nossos atos de virtude e teremos

um gáudio do qual não podemos ter

ideia, vendo-nos, de repente, e para

sempre, na presença de Deus, que

nos sorri e nos ama.

Há uma história de um Santo que

subiu ao Céu e entrou no gozo da

eterna bem-aventurança. Lá, Deus

deu ordem para ele voltar à Terra,

e ele desceu chorando. Viveu mais

tempo aqui, prestou serviços a Deus

e depois voltou para o Céu. 2

O Santo deixou uma narração do

fato em mãos de São Gregório de

Tours, famoso analista da história

francesa dos primeiros tempos. É, porém,

um caso excepcional, porque o

normal das almas é ficarem no Céu

para sempre. Nos homens penetrados

pela civilização moderna, só estas

palavras “para sempre” podem produzir

um certo desespero; em outros,

ao contrário, elas produzem um gáudio:

“Inteiramente, eternamente, absolutamente,

sem dúvida, nem sombra

nem nada. Agora eu comecei a viver!”

Pensar no Juízo

E, assim como nesta terra se celebra

o aniversário de alguém no dia

em que nasceu, mais belamente no

dia em que foi batizado, assim também

no Céu é concebível – lá não há

dias, mas por alguma adaptação – que

no dia em que um morreu, no Céu se

faça a festa dele, pois ele nasceu para

a vida eterna, para a vida verdadeira.

Então, diante de nós temos destinos

imensos, perspectivas colossais. E

eu tenho a impressão de que todas as

almas seriam muito maiores se se habituassem

a considerar isso. Cresceriam

de envergadura, de tamanho, de

dimensão intelectual. Digo mais, creio

que seriam muito mais inteligentes.

Diz-se habitualmente que as viagens

alargam os horizontes e os espíritos.

Eu não discuto a questão. Mas,

se o espírito viajasse desse extremo

que é o Inferno para aquele outro

extremo que é o Céu, ele faria a

maior viagem que há.

Alguém, sentado em uma cadeira,

numa sala, próximo a uma mesa, pode,

com o espírito, fazer uma viagem

de um tamanho que não tem fim,

uma coisa fenomenal. Assim o espírito

se alarga, toma proporções.

Então eu quereria que, como reação

ao espírito revolucionário, as

nossas almas se tornassem muito familiares

a essas meditações e, de

vez em quando, as repetíssemos. Há

uma infinidade de aspectos e não há

perigo de repetição; pode-se falar

um ano sobre este tema que ele não

se esgotaria.

v

(Extraído de conferência de

13/7/1981)

1) Expressão metafórica criada por Dr.

Plinio para designar a mentalidade

sentimental que se manifesta na piedade,

na cultura, na arte etc. As pessoas

por ela afetadas se tornam moles,

medíocres, pouco propensas à

fortaleza, assim como a tudo que signifique

esplendor.

2) Trata-se de São Sálvio, monge. Depois

que retornou do Céu, Sálvio tornou-

-se Bispo de Albi, em 574 e viveu até

o ano de 584. São Gregório de Tours

conta esse fato em seu livro Historia

Francorum, L. VII, col. 329-333.

Sailko(CC3.0)

A Corte dos Santos e Mártires, no Paraíso, glorificando a Cristo - Galeria Nacional de Londres

20


Os Novíssimos – Inferno

Flávio Lourenço

Inferno

O Inferno, a grei maldita

dos excomungados

Flávio Lourenço

“Ah, tu que eras meu

predileto, fizeste isso?

Não te quero! Para

todo o sempre, fora

de minha glória!”

Esta terrível sentença

Deus a profere sobre

os que, até o último

momento, recusam as

suas graças e o auxílio

de Maria Santíssima.

E para corresponder

aos desígnios divinos,

a virtude da seriedade

é um poderoso auxílio.

Inferno - Museu de

Belas Artes de Valência

Creio que a incompreensão de

algumas pessoas em relação

às magníficas descrições de

São João Bosco a respeito do Inferno

pode dever-se à carência da noção

exata do que é o pecado e do

porquê Deus o odeia.

21


Os Novíssimos – Inferno

Modo errado de considerar

os Mandamentos

Há pessoas que pensam que Deus

prescreveu os Dez Mandamentos,

mais ou menos como em pistas de

corrida de cavalos se estabelecem

obstáculos, os quais são calculados

para que o animal salte; e se ele assim

o fizer, ganha a corrida. O mérito

está em que o cavalo faça o esforço

necessário, e que o homem que o

monta seja capaz de conduzi-lo a tal.

Ora, não há nada na ordem natural

das coisas que estabeleça entre o

juiz da corrida e os obstáculos uma

aversão ou uma simpatia especial.

Ficou combinado que deve ser um

obstáculo de um determinado modo,

o qual deve ser saltado de tal jeito. É

algo convencional, corresponde a regras

de equitação, algumas das quais

meramente tradicionais, e o juiz dá o

prêmio de acordo com isso.

Muitos pensam que Deus pôs os

Dez Mandamentos assim, e disse:

“Eu vou dar ao homem obstáculos

para ver se ele faz o esforço necessário,

vence-os e vai para o Céu. Vou

pôr Dez Mandamentos, como poderia

colocar oito, cinco ou quinze. Poderiam

ser estes ou aqueles, isso tudo

é convencional. E, se uma pessoa

infringiu algum Mandamento, como

não merece entrar no Céu, então

mando para o Inferno”.

Ora, quem se coloca apenas nesse

ponto de vista, não compreende a

natureza do pecado e da virtude.

É certo que Deus, enquanto soberano

Senhor, tem o direito de ser

obedecido. E se Ele permite um obstáculo

em nossa santificação, é porque

quer de nossa parte o esforço

necessário para vencê-lo e nos santificarmos,

não tem dúvida. Mas não é

apenas isso que está em jogo, é algo

muito mais profundo.

Uma forma brutal de recusa

Ainda hoje meditava sobre isso

olhando para uma magnífica

Moisés com as Tábuas da Lei - Museu Hermitage, São Petersburgo

imagem de Nossa Senhora de Los

Reyes, de Sevilha, que me foi mostrada

pelo Sr. João, e no momento

está em meu escritório. Eu pensava:

“O que há nesta imagem? Se alguém

me insultasse baixamente, pesadamente,

me caluniasse, eu teria

uma certa facilidade em perdoar;

mas se me dissesse: ‘Eu não gosto

dessa imagem, porque a ideia que

faço de Nossa Senhora é segundo a

arte moderna’”.

Face a isso, eu diria: “Enquanto

você pensar assim, eu não posso perdoá-lo.

Estou atingido no mais fundo

de meu ser, e sua afirmação criou

entre nós uma incompatibilidade insanável.

E não pode haver meio ter-

mo entre uma coisa e outra: ou você

muda o modo de pensar, ou eu o tenho

na condição de meu inimigo capital

e atroz”.

Se esse homem hipotético tivesse

querido matar-me, eu teria mais facilidade

em perdoá-lo, do que se eu

soubesse que ele cometeu um tal pecado

de espírito que achou bonita

uma imagem horrenda do tipo moderno,

e julgou feia uma imagem

cheia de harmonia, de dignidade, de

beleza, como é aquela. A ideia do

que ele, ente humano, se faz da perfeição

que deve ter uma dama – é o

que está em jogo – é a ideia horrenda

de uma imagem de Nossa Senhora

esculpida por esses intérpretes da

Vicente Torres

22


arte moderna; e quando ele vê uma

imagem d’Ela régia, doce, forte, perfeita,

impressionante, esse miserável

diz: “Isso não me atrai. Atrai-me

aquilo”.

Por que razão fico atingido?

Sem dúvida, porque Ela é a Mãe de

Deus, e vejo naquilo um ultraje a

Ela. Mas há uma razão que eu não

posso esquecer quando dou esta

formulação irrepreensível, excelente

e que contribui para que eu me

sinta ofendido: pela minha natureza

de homem, na retidão que eu procuro

dar ao uso de minha natureza

e à construção de meu ser, por isso,

sou o contrário da imagem feia. E

eu sou alguém que procura, de um

modo ou de outro, parecer-se com

a verdadeira imagem

d’Ela. Meu próprio “eu”

também está empenhado

nisso.

E sinto-me recusado

brutalmente no que tenho

de mais essencial:

aquilo que eu gostaria de

ser, o ideal para o qual

eu tendo está sendo negado.

Uma bofetada, um

insulto, uma calúnia, um

atentado, nada injuria

tanto, quanto essa forma

de contestar alguém. É a

mais brutal recusa que se

possa fazer.

Ora, aumentem um

ponto e pensem em Deus

Nosso Senhor.

A expulsão de

Deus da alma pelo

pecado de impureza

Deus é puro espírito.

Não se pode dizer que

Ele seja casto, no sentido

de um homem ser casto;

Ele não tem corpo. Mas a

castidade, enquanto virtude

na alma, encontra

seu fundamento n’Ele.

Arquivo Revista

Quadro de Nossa Senhora de los Reyes - Escritório de Dr. Plinio

Ele não é puro, Ele é a Pureza, é a

Castidade.

Inclusive Nossa Senhora – até

Ela! – não se pode dizer ser Ela a

castidade, a pureza. Ela é o modelo

criado mais perfeito de castidade

e de pureza. É o reflexo mais magnífico

e mais adamantino que há na

Criação, enquanto sendo a pureza.

Mas a Pureza é Deus.

Ora, uma pessoa é tentada contra

a pureza. Deus sabe tudo, porque

a criou; o corpo foi criado pelas

leis da genética, da reprodução,

mas o foi por desejo e vontade d’Ele.

Está bem, Ele sabe que aquela pessoa,

concebida no pecado original,

será tentada. Mais ainda, Ele sabe

que o demônio, a quem Ele permite,

vai agravar a tentação da carne.

E sabe também que os maus, a quem

Ele permite, vão agravar a tentação

do demônio; e que, portanto, o demônio,

o mundo e a carne vão lutar

contra aquela pessoa.

Quando uma criancinha está deitada

no berço – podemos imaginar

um berço cor-de-rosa claro, com o

característico toldo de rendas e de

seda, com a fita pendurada em cima

–, ela está deitada, dormindo tranquila,

e a mãe vela por ela; já aí Deus

sabe tudo quanto aquela criatura vai

sofrer para atingir o Céu, e acompanha

sua vida. Se ela tiver o curso

normal de uma vida, não morrer, por

exemplo, antes do uso comum da razão,

Deus, a Corte Celeste sabem

que ela vai ser tentada.

E na tentação contra

a pureza, aparece claramente

uma utopia que

a pessoa reconhece como

tal: a perspectiva de

um deleite que ela sabe

ser ilícito, com a agravante

de que o deleite em si,

quando arrasta o indivíduo

para o pecado, é porque

é desordenado e pecaminoso.

Uma história em

câmara lenta

A pessoa sabe disso e

sente dentro de sua alma

a pureza, conhece-a e a

ama. Mas ela vê o pecado:

as delícias, o prosaísmo,

a hediondez e o mal.

Ela hesita entre frear-

-se ou não se frear. Nesse

momento, ela olha para

sua inocência na qual reflete

Deus Nosso Senhor;

olha para as graças batismais,

para tudo quanto

ela tem e decide: “Eu

prefiro a ti, ó demônio!”

E se joga… Essa é a his-

23


Os Novíssimos – Inferno

tória, passada em câmera lenta, de

todo pecado, de toda tentação contra

a carne.

Essa história às vezes é mais longa.

A pessoa, durante o dia, teve um

meio olhar, olhou de soslaio para algo

que não devia, com a ideia celerada

de que só um pouquinho daquele

prazer não lhe faria tanto mal.

Mais tarde, na hora de dormir, vem

a recordação; aquilo para o que ela

olhou de soslaio é inflado pela imaginação,

pelo demônio, por tudo

mais, e aparece enorme para ela. E

ela, que aparentemente está deitada

para repousar; começa a batalha

da apetência imunda, desordenada,

desregrada, de um lado, e da inocência

que procura defender-se de outro

lado. É a batalha do dia. Deus

olha e, em certo momento, vê tudo

quanto pôs naquela alma para ser

conforme a Ele ser rejeitado por ela

para ter aquela delícia.

É ou não é verdade que Deus tem

de sentir por aquela alma um horror

muito maior do que se víssemos

alguém preferir uma imagem estilo

moderno e deformado de Nossa Senhora,

à magnífica imagem de Nossa

Senhora de los Reyes? Por quê? Porque

foi rejeitada a pureza. Mas a pureza

é Ele! E, no fundo de sua alma,

no momento em que o homem consentiu,

ele deu uma ordem de expulsão

de Deus.

Alguém dirá: “Dr. Plinio, isso é

verdade, mas as pessoas não veem

isso tão claramente”. Eu digo: “Eu

bem sei. Não veem porque não querem.

E ainda quando estão em estado

de graça – estado de graça?

… era preciso um confessor saber

dizer isso bem – já por uma espécie

de fraude, não querem se lembrar

disso, de maneira a “não pecarem”.

Elas não têm a decisão tão

firme para se lembrarem disso sempre

e não pecarem. Pelo contrário,

pensam: “Eu não estou precisando

refletir sobre isso, isso é muito

triste. Eu não estou sendo tentado

no momento, coloque isso de lado.

Deixa-me pensar em outra coisa”. E

empurra o pensamento salvador, já

com a ideia malévola, mal-intencionada,

de encontrar barreira baixa,

caso queira ceder à tentação.

Não há nisso uma perversidade

especial? Na hora do perigo a pessoa

não se lembra, porque quando estava

ainda na graça de Deus já fez um

cálculo subconsciente: “Eu não quero

que o pecado me seja tão penoso,

caso eu resolva cometê-lo. Recuso

a graça do pensamento do Inferno

e do Céu. Eu a recuso para poder

cair mais facilmente…” E esse ainda

se pretende amigo de Deus?

Imaginem um homem que tenha

muita inveja. Cada um ponha o caso

em si, como sendo muito invejado

por outro. Esse que o inveja tem

vontade de matá-lo, mas, de outro

lado, receia que a polícia descubra e

as consequências sejam funestas; e,

ainda tem um restinho de consciência

pela qual, independente de recusa,

não leva a inveja tão longe. Não

quer chegar a matar. Vamos dizer

que os dois estejam viajando juntos

num ônibus e apareça alguém durante

a viagem e diga: “Quer comprar

uma Beretta? 1 Eu a vendo bem

barato, é contrabando, custa tanto”.

E o homem, que deseja dar um tiro

de Beretta no companheiro quando

ele estiver dormindo, não resolve

matá-lo ainda, mas compra a Beretta

e pensa: “Eu não estou resolvido a

matá-lo. Mas quero ter a possibilidade

de matá-lo, se eu quiser”. Este já

não pecou?

E nós não fazemos coisas dessas,

muitas vezes, em matéria de pureza?

Nós não queremos pecar, mas

olhamos de soslaio uma coisa, temos

uma conversa ou um tato imprudente,

qualquer coisa assim. E nós sabemos

que isso depois pode ser matéria

prima para um novo pecado.

Entretanto, não queremos nos privar

daquele regalo maldito e fugaz.

Fazemos. Nós não estamos armando

uma Beretta para lançar contra

Deus depois? É isso!

Ora, o que acontece? Deus, sendo

assim recusado e amando-Se in-

Sailko(CC3.0)

Meia concessão, matériaprima

para novos pecados

Tentação de Santo Antônio - Museu Pushkin, Moscou

24


finitamente – Ele tem o

direito de Se amar infinitamente,

porque Ele é

Ele – vendo-Se recusado,

despenca seu furor

sobre aquele que O rejeitou!

Alguém dirá: “Mas

Deus não mata logo o pecador,

e às vezes deixa-o

viver longamente”. Eu digo:

“É bem verdade. Não

só o deixa viver, como lhe

dá muitas graças ainda.

Deus fica enfurecido e,

se não o castigar na Terra,

o fará no Purgatório,

onde o fogo é do gênero

do fogo do Inferno. Mas

aqueles pecados ele vai

ter que pagar! De maneira

que é preciso pensar

bem no Purgatório…

É necessário que se façam

muitíssimas penitências

na Terra para não ir

para o Purgatório. E assim

mesmo é duvidoso

que consiga não ir. Lá está

a fogueira da cólera de Deus acesa

para aqueles a quem Ele ama e

que O amam, de tal maneira Deus é

ofendido pelo pecado.

A cólera divina

contra o pecador

Flávio Lourenço

Cristo Gladífero - Igreja do Salvador, Ejea de los Caballeros, Espanha

Mas, há mais. Nós temos junto a

Deus a proteção de Nossa Senhora,

dos Anjos, dos Santos, de todas as almas

santas que intercedem por nós

no Céu; e podem obter que a hora

da nossa morte vá sendo adiada para

recebermos novas graças, termos

novas ocasiões de nos arrepender.

Isso pode perfeitamente acontecer.

Ora, quanto mais Deus perdoa e o

homem recai, tanto mais é difícil obter

que Ele dê nova graça. E quanto

mais Ele concede novas graças, tanto

mais sua cólera se acende se aquele

cai de novo. Quando, afinal, a medida

estiver cheia, Deus o precipitará

no Inferno com o ódio redobrado,

pelo fato de aquela pessoa muitas

vezes haver recusado o perdão d’Ele.

É natural.

Imaginem que um parente meu,

alguém muito chegado a mim, me

inveje por algum ponto e tente várias

vezes matar-me; mas eu o perdoo

sucessivamente, reintroduzindo-o

em minha amizade. Há um

certo momento em que posso decretar:

“Não tem mais propósito!

Vou denunciá-lo à polícia; em nosso

país há pena de morte, você morrerá

executado”. E o outro, ao ser levado

para a execução, vê o denunciante

ali presente, que, de olho seco,

com a fisionomia encolerizada,

presencia despencar a justiça em cima

daquele. É natural.

Nós acharíamos muito duro ir

assistir à execução de alguém que

atentou uma vez contra a nossa vida.

Mas, se um homem atentou cinco,

sete, oito e sempre o

perdoamos, não é compreensível

que, como vítimas,

queiramos assistir à

execução?

E nós, que quantas e

quantas vezes atentamos

contra Deus, pecamos

mortalmente contra Ele

e não ligamos, não é claro

que a cólera de Deus esteja

especialmente indignada

contra nós? É evidente.

Então dá-se o que há

de mais penoso, e que não

podemos calcular.

Dor dilacerante

de se ver apartado

de Deus

Certa vez, um padre jesuíta

disse na aula algo

sobre a morte, que nunca

me saiu do espírito: A

morte deve ser terrível.

Se se tirar do homem um

dedo, por exemplo, sem

anestesia, causará uma dor tremenda,

quanto mais arrancar a alma de

dentro do corpo! A composição do

homem é alma e corpo. Dissociar essa

composição, que coisa medonha!

Pois bem, há algo muito pior do que

isso, em comparação do qual a morte

é um jogo, uma brincadeira.

Quando o pecador morre e as ilusões

desta vida passam, ele compreende

que o fundamento da existência

dele está em Deus; que Ele lhe

deu o ser para adorá-Lo, e ele fez

essa imensidade de voltar-se contra

seu próprio fundamento, capitalmente,

de frente, e, portanto, ficou

torto, mal imbricado e errado.

Imaginem o tormento de um homem

que se conservasse vivo com

todo o organismo funcionando ao

revés. A transpiração, feita para eliminar

os líquidos que não convêm,

eliminasse o sangue bom, e dentro

ficasse apenas apodrecimento!

25


Os Novíssimos – Inferno

Os pulmões, que inalam

ar puro e expelem ar viciado,

ao contrário, absorvessem

o ar viciado e

ele, desfalecendo de asfixia,

inalasse quantidades

infinitas de ar asfixiante.

Ele respiraria asfixia para

todo o sempre; o coração,

bomba que distribui

o sangue no corpo, fizesse

o contrário, e ele tivesse

hemoptises contínuas,

vivesse em hemorragias

eternas. O seu coração

o extenua e o liquida;

é o inimigo que conspira

contra ele.

Imaginem, por exemplo,

que esse homem tivesse

os dentes do lado

de fora das bochechas,

de maneira que, na hora

de mastigar, tivesse que

apertar com a mão. Imaginem

horrores de toda

ordem: as unhas colocadas

por dentro da carne,

de modo a crescerem

continuamente sem

haver como apará-las, e

a pele doída e esticada de todos os

lados, sem arrebentar. Poderíamos

imaginar um corpo todo construído

assim; seria menos do que sente

o condenado quando se vê jogado

contra Deus.

É no próprio pedúnculo do seu

ser, o por onde ele é, que está virado

pelo avesso. E nele tudo não é senão

o avesso, o virado, o torto, o dilacerante.

Ele vive numa alucinação

permanente; reconhece ser merecedor

dos castigos, odeia Aquele que o

castigou merecidamente e sabe que

para ele não tem remédio nenhum.

E ele se encontra naquele estado, às

vezes, porque pecou por um só minuto…

Porque, não se esqueçam:

há almas que pecaram mortalmente

uma só vez e caíram no Inferno.

Uma só vez!

Anjos jogando demônios no Inferno - Museu

da Catedral de Múrcia, Espanha

Alguém poderia objetar: “Mas por

que Deus é tão generoso com uns e

menos com os outros?” É próprio à

misericórdia ser facultativa. Ele não é

obrigado a grau maior ou menor de

misericórdia. Está na perfeição d’Ele

ser justo, está na sua perfeição ser misericordioso.

Mas grau de misericórdia,

Ele dá como quiser. Desde que

Ele dê a cada um a porção de misericórdia

adequada, basta.

Quando Ele lança uma alma no

Inferno por um só pecado, quantas

graças Ele terá dado antes para

que aquele pecado não fosse cometido?

E que culpa não há naquele único

pecado que ofende de tal maneira

a Deus, a ponto de Ele determinar:

“Ah, tu que eras meu predileto,

fizeste isso? Não te quero! Para todo

o sempre, fora contigo!”

Flávio Lourenço

É uma coisa terrível,

tremenda!

Calcado aos pés,

excomungado

da Igreja

Há uma outra coisa

que nos dará uma ideia

do horror do Inferno.

As palavras que São

João Bosco viu na entrada

do Inferno são terríveis:

“Onde não há Redenção”.

Se houvesse mais estas

outras palavras, creio

que ainda estremeceria

mais: “Aqui não se pertence

à Santa Igreja Católica

Apostólica Romana!”

Imaginemos um pecador

dormindo e que, de

repente, acorda – acorda?

Não acorda! – nota

que compareceu diante de

Deus e que Ele o jogou no

Inferno, onde não existe a

Igreja; é a grei maldita dos

excomungados.

E ele, do fundo do Inferno,

pode considerar

os lugares da Terra onde rezou,

as cerimônias religiosas que o enlevaram,

os momentos em que na vida

teve contato com a história de tal

Santo, tal outro, com o enunciado de

tal dogma, com tal princípio do Direito

Canônico; no estudo de tal fato

da história da Igreja, quando sentiu

uma palpitação especial e disse: “Ó

Santa Igreja, sois verdadeiramente

minha Mãe!” Pois bem, ele se vê ejetado

da Igreja, excomungado.

A Igreja se divide em militante, na

Terra; padecente, no Purgatório; gloriosa,

no Céu. Fora da Terra, do Purgatório

e do Céu não há Igreja. Não

pertencer à Igreja… de repente dar-

-se conta de que está jogado fora dela!

Tenho a impressão de que, se isso

me acontecesse, eu me poria a delirar

imediatamente. Se eu pudesse deixar

26


Sailko(CC3.0)

de existir, deixaria de existir. Está bem,

o condenado ao Inferno se vê fora da

Igreja, nela não há mais nada para ele.

A Igreja é a cidadela magnífica, a

fortaleza fora da qual ele é o réprobo

que não pode entrar. E quando ele

a vê, só é atormentado por aquela visão.

É o abominado de maneira a não

haver ali lugar para ele! E ele vê, pelo

alto das ameias da muralha sagrada

da Jerusalém Celeste, uma procissão

que passa cantando o hino pontifício,

ou o que lhe causa maior horror, uma

canção com louvores a Nossa Senhora,

ele fica apavorado: “Eu podia ser

um daqueles…” Passa este, aquele,

aquele outro, nimbado de glória,

com Anjos voando por cima, protegendo-o.

É, por exemplo, um que foi

do Grupo, foi dos nossos, e vê seus irmãos

passando em cortejo.

Todos caminham para um trono

onde está Nossa Senhora, indizivelmente

mais majestosa, mais materna

e mais bela do que na Imagem de

Nossa Senhora de los Reyes. Todos

caminham para lá iluminados, contentes,

e ele pensa:

“Em tal cortejo, eu estive entre

esse e aquele. Em tal ocasião, viajei

com tal outro. E aqueles que estão

naquela ponta constituíram comigo

uma caravana… Ei-los que passam,

nimbados de alegria, de glória. E eu?

Estou fora da fortaleza, fora da Igreja.

A cólera de Deus pesa sobre mim.

Estou completamente retorcido, revirado,

abjeto. Tenho horror a mim

mesmo, e, entretanto, não tem mais

remédio. Deus me odeia, e o Coração

Sapiencial e Imaculado de Maria

fechou-Se para mim como uma

pedra! Naqueles lábios, cujo sorriso

durante tanto tempo me encantou,

só encontro uma censura tremenda:

‘Injuriaste meu Filho! Não és meu.

Retira-te! Calco-te aos pés, célula

maldita da cabeça da serpente que

Eu piso eternamente!’” Oh, horror!

Oh, horror! Oh, horror!

No despenhadeiro do

desespero eterno

E nós, que não gostamos de ouvir

falar do tempo que foge, mas ele

foge… Diziam os antigos pregadores

que no Inferno existe um relógio

– em sentido figurado, naturalmente,

não há hora, é a eternidade –

cujo pêndulo oscila entre o “sempre”

e o “nunca”. “Sempre ficarás, nunca

sairás. Sempre ficarás, nunca sairás!”

Sempre horror, nunca solução,

nunca arranjo. Penar, penar, penar,

porque “Deus, eterno e perfeito, te

Corte celeste glorificando a Cristo - Galeria Nacional de Londres

odeia. Foste um mole, Deus te queria

um firme; foste um inexorável, Ele

te queria um misericordioso. Deus te

rejeita. E agora, por toda a eternidade,

nem sequer te digo ‘arranja-te’,

porque para ti não há arranjo. Desconcerta-te,

geme e estoura, e depois

te recompõe para estourar de novo.

Não morrerás nem por um segundo.

E aquilo que talvez ambiciones como

suprema ventura, que é deixar de ser,

aquilo exatamente tu não terás. Tu serás

sempre, como Deus será sempre.

Deus, teu inimigo irreconciliável”.

Se nos lembrássemos sempre disso,

como seríamos diferentes! Como

prestaríamos mais atenção em combater

as ocasiões de pecado! Como

teríamos terror de cair de um momento

para outro no Inferno! E como

nós compreenderíamos melhor o

mal que há no pecado! Como poderíamos

adorar a Deus!

Porque um Deus tão puro, tão perfeito,

que odeia assim o pecado, só

pode ser por nós adorado com transportes

de amor. De tal maneira que,

se uma alma no Inferno fosse capaz

de amor, ela deveria dizer: “Senhor,

Vós vedes bem quanto eu estou sofrendo,

e eu mereço. Mas, tolerai que

eu Vos diga: eu amo e adoro o vosso

santo horror ao mal que eu fiz!” Mas

a alma não faz isso, ela está no Inferno,

se revoltou contra Deus e não

mais mudará de atitude. E se revolta

contra Ele, blasfema, e recebe pela

blasfêmia um novo castigo. É o despenhadeiro

do desespero eterno.

A ilusão da imortalidade

Meus caros, daqui para casa, da casa

para a cama, até a hora em que começar

o sono, para alguns já será a hora

da batalha. Notem, São João Bosco

só conta ter visto meninos, alunos

ou ex-alunos dele. Ele não fala de outros.

Por quê? Para fazer ver aos seus

duas coisas: primeiro, que se morre

em qualquer idade, e que nenhum de

nós sabe se vai chegar vivo à casa onde

pretende dormir. Nenhum de nós sa-

27


Os Novíssimos – Inferno

be, na hora de dormir, se vai levantar

depois ou se, na hora em que imergir

no sono, de fato não imerge na morte.

Quem pensa nisso antes de se deitar?

Quem tem o cuidado, por exemplo,

de oscular o chão e dizer: “Eu

sei, ó Deus, eu sei, ó Maria Santíssima,

minha Mãe, que posso, esta noite,

estar em condições de amanhã estar

sepultado na terra. Eu osculo essa

terra que talvez seja minha sepultura,

e peço que dela eu seja ressuscitado

para a glória eterna, quando

vierdes julgar os vivos e os mortos!”

Essa ilusão de que moço não morre

é responsável pela morte de muitos

moços. Quanta correria maluca,

quanta imprudência de saúde, quanta

imprudência de brigaria e outras coisas

que os levam para a morte, pela

ideia de que moço não morre. Se os

jovens se capacitassem de quanto podem

morrer, eles morreriam menos.

Mas a própria ilusão da imortalidade

os conduz ao fim, a morte já abre a

boca para eles.

Depois há também a ideia: “Eu sou

moço, Deus perdoa. Eu tenho

tanto tempo para viver!” Quem

lhe disse que você tem tanto

tempo para viver? É sua ilusão!

Veja os alunos de D. Bosco.

Quantos já estavam diretamente

no Inferno! E vem outra ilusão:

“Eu sou membro do Grupo

e provavelmente não vou

para o Inferno”. Vejam os alunos

de D. Bosco. Eram alunos

de um dos maiores Santos da

História, foram formados por

ele. Antes de dormir, ouviam o

“Boa Noite”, no qual ele contava

os sonhos, as graças que tinha

recebido.

Esses depois pecaram e alguns

foram para o Inferno. E

D. Bosco veio como mensageiro,

porque aquilo era um

aviso para os outros alunos a

fim de não caírem e se condenarem

também. E achamos

que nós, porque somos membros

do Grupo, não vamos cair no

Inferno? Que ilusão é essa? Não se

pode estar mais inteiramente iludido

do que isso.

Lenitivo celeste para a

Cruz da seriedade

Daí, meus caros, vem o verdadeiro

perfil moral do católico. O verdadeiro

católico pode ser sereno, jubiloso,

vivo, pode ser o que for, ele tem

um fundo de seriedade permanente!

Fundo de seriedade que se pode apreciar

muito bem, expresso na imagem

de Nossa Senhora de los Reyes. Aquela

tranquilidade, serenidade, mas sobretudo

aquela profunda seriedade. Por

quê? Porque tudo é sério. E estamos

jogando, de um momento para outro,

a mais séria das coisas: o nosso destino

eterno. Tudo é sério e tudo tem consequências

seríssimas. E, por causa disso,

a seriedade é o fundo de nossa alma.

É do alto da montanha da seriedade,

ou do profundo oratório da seriedade,

que o homem vê a vida.

Demônios colocando condenados no Inferno - Museu da

Catedral de Múrcia, Espanha

É diferente da alegria abobada,

festiva, tonta, que nos ficou por aí,

apesar de todos os desmandos e desastres

da vida moderna. E daí também

o fato de se estabelecer essa convenção

estúpida de que o moço deve

ser meio ventoinha, meio tonto, meio

irrefletido. Quem não aprendeu a refletir

em moço, nunca aprenderá em

velho, a não ser mediante graças muito

especiais. É uma loucura! Devemos

ser sérios a vida inteira.

Alguém dirá: “Mas, Dr. Plinio, uma

vida séria assim, quem aguenta?” Eu

devolvo a pergunta: “Quem aguenta

sua vida não séria? Pensa que eu não

sei o que é sua vida não séria? As frustrações,

as decepções, os isolamentos,

as ânsias e as inutilidades da existência

de quem não é sério; pensa que eu não

vejo, não espreito? Eu conheço bem o

tormento de quem não é sério, e digo:

os mil sofrimentos de quem é sério fazem

sofrer muito menos do que os tormentos

de quem não o é. É fora de dúvida!

E depois, sobretudo, para o católico,

há um lenitivo celeste para levar

a cruz da seriedade, e esse

lenitivo se exprime nestas palavras

inefáveis: Salve Regina Mater

misericordiæ, vita dulcedo et

spes nostra, salve. Reze a Nossa

Senhora, Ela sorrirá. E um sorriso

d’Ela dará forças para cem

anos de seriedade!

Flávio Lourenço

Aos que invocam o

nome de Maria, as

portas do Céu se abrem

Nenhuma imagem de Nossa

Senhora me causou tão grande

efeito como quando eu era

pequeno e, num momento de

merecida contrição, estava rezando,

não desesperado, mas

caminhando para o desespero,

diante de Nossa Senhora Auxiliadora,

na Igreja do Coração

de Jesus. Eu não posso me

esquecer disso jamais. Ela que

me ajude a não me esquecer

28


Arquivo Revista

Nossa Senhora Auxiliadora - Santuário do

Sagrado Coração de Jesus, São Paulo

disso até no meu último alento.

Quando eu estiver para morrer,

eu ainda desejo me lembrar

desse momento! A bem

dizer, desse momento eu vivo!

Não houve visão, não houve

revelação, houve uma graça

pela qual compreendi a pena

que Ela tinha de mim, que

Ela me perdoava, me convidava

a ser outro, a modificar-me,

a amá-La; e Ela me fazia ver

toda a beleza do caminho que

ficava diante de mim, se eu colocasse

meu caminho em nexo

com as vias d’Ela.

Eu era uma criança, não sabia

nada de Teologia; eu tinha

um catecismo estudado com

seriedade comum, mas não

mais que isso. Pois bem, a partir

daquele momento, eu entendi

bem que, no meu caso

concreto, mais do que em outros,

ou eu me agarraria a Ela

de um modo único, e Ela teria

a condescendência de me proteger

de um modo único, ou

não havia caminho para mim.

Compreendi também que, no

meio de mil dificuldades que aparecessem,

haveria um frescor de alma,

uma serenidade, uma tranquilidade

naquela promessa, que me acompanharia

até o fim dos meus dias.

De maneira tal que, quando eu, nas

mil ocasiões de minha vida, tive graças

de devoção a Nossa Senhora, eu

sempre me lembrava e punha em nexo

com essa graça de devoção primeira,

na Igreja do Coração de Jesus. Por

isso é que muitas vezes, na aridez inteira,

volto lá, em última análise, para

ver Aquela que uma vez me sorriu sem

ter sorrido. Eu volto a dizer, não houve

milagre, visão ou revelação. Houve

uma graça.

Lembro-me, por exemplo, de que

quando entrei como congregado mariano

em Santa Cecília, eu tinha então

uns 20 anos mais ou menos, escutava

o coro da Congregação cantar,

atrás da Igreja, uma cançãozinha

depois dos Salmos de Maria. Eu ia

me habituando às palavras em latim,

e interpretando. E até hoje me lembro

dessa canção. E a cançãozinha

me fazia recordar a graça da Igreja

do Coração de Jesus: “Si quæris

cœlum, anima, Mariæ nomen invoca.

Mariam invocantibus cælestis patet ianua

– Se tu queres o Céu, ó alma, invoca

o Nome de Maria. Aos que invocam

esse Nome, as portas do Céu

se abrem”. E eu pensava: “Que bonito!

Naquele momento as portas do

Céu se abriram para mim”.

Depois continuava o canto dos

congregados: “Ad Mariæ nome cælites

lætantur, tremunt inferi. Cœlum

tellus et æquora totiusque mundus iubilat

– Pela menção do Nome de Maria

Santíssima, os que estão no Céu

se alegram, e tremem os Infernos!”

Cada vez que alguém pronuncia

o Nome de Maria, mesmo

na Terra, há alegria no Céu,

e o Inferno estremece. Lembrando

aqui com piedade,

emoção, veneração comovida

esta cançãozinha latina de

minha remota juventude e de

minha querida Congregação

Mariana, sei que Nossa Senhora

sorri com indulgência, e

Satanás espuma.

A canção continua: “Culpæ

fugantor tenebræ, morbi,

dolores, ulcere, vincis solvuntur

compedes; nautis mitescunt

æquora – As culpas fogem, as

trevas se dissipam, as doenças,

as dores, as úlceras – entende-

-se no sentido físico, mas sobretudo

no sentido moral, as

provações infligidas pelo demônio

–, os vínculos são arrebentados;

para os navegantes,

as águas se tornam suaves”.

Depois retoma o conselho

inicial, como se fosse a tese e a

conclusão: “Si quæris Cœlum,

anima, Mariæ nomen invoca.

Mariam invocantibus cælestis

patet ianua”.

Eu ouvia cantar isso na Igreja de

Santa Cecília e tinha diante de meus

olhos uma imagem piedosa de Nossa

Senhora, mas sem nada de extraordinário,

que ainda está lá. Eu a fitava

muito. No entanto, em meu espírito,

pensava na imagem da Igreja

do Coração de Jesus, que ficou indelevelmente

no meu íntimo, a tal ponto

que, apesar de o valor artístico dela

ser tão inferior à de Nossa Senhora

de los Reyes, por exemplo, a não

poder ter comparação, ela me comove

mais. É o momento em que eu fui

perdoado!

v

(Extraído de conferência de

13/8/1983)

1) Famosa marca de armas de fogo de

origem italiana.

29


Os Novíssimos – Céu

Flávio Lourenço

Céu

Alegrias que preparam

para a visão beatífica

Gabriel K.

Quem conhece o

efeito tem vontade de

conhecer a causa, e

quanto mais magnífico

é o efeito, tanto mais

esplêndido é o que está

por detrás dele. Por

isso a plena felicidade

do homem só se

dará no Céu, onde

poderá contemplar

a Deus face a face.

Nós já tratamos muito a

respeito do Paraíso; vamos

então considerar

a visão beatífica, ou seja, a visão da

própria essência de Deus, face a face.

Conhecendo a causa se

compreende melhor o efeito

Paraíso - Museu Metropolitano de Nova York

Para compreendermos bem o que

é a visão beatífica com a forma de

30


deleite que ela dá, eu começo com

um exemplo criado, para subir, depois,

ao incriado.

Deus nos deu criaturas para que as

analisemos, vejamos o que elas têm

de bom e por aí tomemos um ponto

de referência para olhar para Ele e

adorá-Lo. De maneira que o processo

que eu vou seguir é muito legítimo.

Ocorre-me aqui, não sei por que,

exemplificar com duas construções

muito bonitas da Inglaterra. São

exemplos muito condignos, muito

adequados. Imaginemos alguém

colocado diante do Palácio do Parlamento

em Londres. É um prédio

muito bonito. Imaginemos, também,

alguém diante da Torre do Big Ben.

O Big Ben é lindo! Tem uma dignidade

e uma majestade extraordinárias!

Agrada muito vê-lo.

Eu sei que vou fazer um trabalho

quase contrário do que eu quero,

num primeiro momento, mas depois

verão onde quero chegar.

Imaginemos que, enquanto nós

estivéssemos atentos ao Big Ben,

uma pessoa nos dissesse: “Olhe aqui,

eu tenho uma fotografia representando

uma gravura do homem que

arquitetou o Big Ben”. Nós daríamos

uma olhadinha apenas por amabilidade

e ficaríamos com vontade

de dizer: “Não me interrompa agora

com essa fotografia, eu quero ver

a obra dele. Eu não sei como é o sujeito,

mais ou menos posso ter ideia,

mas não tenho nenhum empenho especial

em vê-lo, nem sequer o arquiteto

que reformou o Palácio do Parlamento

em Londres”.

Entretanto, imaginemos que esse

homem fosse tal que, olhando-o, víssemos

no seu rosto, espelhada perfeitamente,

a excelência intelectual e

moral que o levou a fazer aquilo.

Nós teríamos mais vontade de ver

a fotografia do arquiteto do que de

ver toda a sua obra. Por quê? Porque

nós veríamos a própria alma dele,

e nela, na sua causa próxima, aquilo

que originou o Big Ben ou a fachada

do Palácio do Parlamento como

são hoje. Então, vendo a causa se

vê sempre mais nobremente o que

há de bom no efeito, do que vendo o

próprio efeito, é evidente.

Discrepância entre

caras e almas

Um dos gáudios no Céu é que não

haverá essa confusão entre cara e alma

que há nesta pobre Terra. Às vezes

vemos pessoas que fazem coisas

magníficas, com umas caras tão pouco

“plaudendas”, 1 que se fica com

pena. Por outro lado, vemos outras

muito “plaudendas” que fazem coisas

imprestáveis, que também se fica

horrorizado!

Há um desacerto, por vezes aflitivo,

entre cara e alma – eu não digo

fisionomia, mas cara; são coisas diferentes.

A Providência, por assim dizer,

dispõe homens com um perfil

de ave de rapina, dos quais se espera

um voo, uma atitude altaneira; mas,

quando se começa a conversar com

eles, tem-se a impressão de que são

como uma espécie de águia cansada

que carrega o próprio bico, ou como

um tucano que vai levando aquele

bicão aonde pode.

Outra alma dá a impressão de

muito lógica, mas, ao conversar, diz

bobagens e não raciocina nada. De

repente, vem um sujeito qualquer

com a cara mais vulgar do mundo e

sai com raciocínios resplandecentes.

Uma das alegrias do Céu é que

as almas se conhecem inteiramente

umas às outras. E elas veem a virtude,

a santidade, junto com outros

predicados que Deus tenha querido

dar, como a inteligência, o vigor de

personalidade, o charme, a graça, ou

qualquer outra qualidade. Mas vê-se

mais do que nas obras que a pessoa

Diliff(CC3.0)

Palácio de Westminster - Londres

31


Os Novíssimos – Céu

deixou na Terra, porque, dentro da

causa, o excelente reside melhor do

que no efeito.

Papel da bem-

-aventurança no Céu

Assim sendo, São Tomás de Aquino

pergunta qual é o papel que faz

no Céu a eterna bem-aventurança,

ou seja, a visão de Deus face a face. 2

E ele enuncia o princípio preliminar

com a clareza de espírito e de linguagem

que lhe é própria; ele é seco, mas

riquíssimo, rico como um oceano. Pudéssemos

nós ver a alma de São Tomás

ou a alma de Santo Agostinho, o

que diríamos? Que coisa fantástica!

Então, São Tomás diz resumidamente

– depois eu farei um desdobramento

das palavras dele – que o homem

só é inteiramente feliz quando

possui tudo quanto pode ser desejado

e que existe. Não tendo aquilo, a felicidade

tem um lado defectivo.

E eu acrescento o seguinte:

quanto mais alto o ambiente

em que o homem vive, tanto

mais ele tem conhecimento

da perfeição da causa que

produziu aquele ambiente. E,

portanto, tanto mais ele deve

querer conhecer aquela causa

em si mesma.

Como será Deus,

que criou todas as

belezas do universo?

Um homem que vive na terra

tem vontade de conhecer a

Deus, por quê? Porque se alguém,

vendo o Big Ben teria

vontade de conhecer diretamente

a alma de quem o arquitetou,

ao ver o mar mover-se,

ou o Sol, as estrelas ou a natureza

inteira, como pode ele não

querer conhecer Aquele que

criou tudo isso? O homem pode

pensar: “Como o universo é

magnífico! Certamente é o nec

plus ultra”. 3 A consideração do mar,

por exemplo, tende para a seguinte

ilusão: mais do que ele não há.

Alguém que presta um pouco de

atenção, está de costas para o mar e

ouve o tilintar do sino de uma igreja

na praia, volta para trás e lhe vem ao

espírito toda a Igreja Católica. Pobre

mar! Pobre balde de água em comparação

com a Igreja! Aquele que fez o

mar, fez a Igreja! Ao examiná-la, cada

Santo é objeto de uma admiração

como se Deus tivesse criado apenas

aquele Bem-aventurado, tão admirável

é Deus em cada um dos seus

Santos. Ora, tudo quanto nós falamos

e que se sabe das magnificências

do Paraíso terrestre é menor do que

o Céu Empíreo, tão esplêndido! Se

com o mar desta pobre Terra nós ficamos

encantados, o que dizer dos rios

do Paraíso? O que dizer do Céu Empíreo?

E a pergunta vai subindo de

grau: como será Aquele que os fez?

Torre do Big Ben - Londres

Quem conhece o efeito

deseja conhecer a causa

Considerado n’Ele, eu vejo que,

pelo fato de ter inteligência, ser-me-

-ia possível conhecê-Lo. E, entretanto,

não posso conhecer? Eu serei

inteiramente feliz quando compreender

que, para além das maravilhas

que vejo, está Um que não posso

ver?

É ou não é verdade que seria mais

ou menos como um homem que está

com sede a ponto de beber um tonel

de água, mas a toma apenas em

pequenos cálices, e se lhe diz a cada

vez: “Veja como a água é boa, como

é cristalina! Agora vou lhe dar

de provar uma água ainda melhor!”,

mas nunca lhe dá a possibilidade de

matar a sede. É o caso de perguntar

se é caridade aquele cálice de água

que de vez em quando se lhe dá!

Quer dizer, como pode o homem ser

feliz no Céu Empíreo, quando

ele olha aquilo tudo e diz:

“Bem, mas por detrás há uma

beleza eterna, incriada, absoluta,

perfeita e não posso conhecê-la?”

O Céu não seria o

Céu se o homem não fosse capaz

de conhecer a Deus face

a face.

Ou seja, reduzindo tudo à

expressão mais singela, mais

rica e mais exemplar de São

Tomás de Aquino, quem conhece

o efeito tem vontade de

conhecer a causa. E quanto

mais magnífico é o efeito que

nós conhecemos, tanto mais é

esplêndida a causa que está se

apresentando por detrás.

Robin Heymans(CC3.0)

A plena felicidade do

homem consiste em ver

a Deus face a face

Ocorre-me um último

exemplo. Imaginem um teatro

onde está cantando um artista

com uma voz incomparável.

32


Um homem está sentado ali

para assistir àquele concerto,

mas o artista impôs uma condição:

todos os que assistirem

devem fazê-lo com os olhos

vendados, não podem vê-lo. É

ou não é verdade que o indivíduo

se perguntará, na entrada

do teatro, se vale a pena ouvir?

Quem vê o artista não vê

a beleza da voz. A alma do artista,

a pessoa não vê, a não ser

de algum modo. Imaginem,

pelo contrário, que se pudesse

ver a alma do artista com tudo

o que ele põe na arte, mas

fosse proibido vê-lo; valeria a

pena? Quem de nós quereria?

É possível que muitos de nós

não quiséssemos.

Isso seria muito menos do

que não poder ver a Deus no

Céu Empíreo. Sabendo que

bastaria um ato de vontade do

Ser eterno que criou tudo aquilo

para termos o gáudio superabundante

de vê-Lo, mas Ele

não quer ser visto por nós, exclamaríamos:

“Mas, Senhor, Vós fazeis

isso para que eu Vos ame, e Vos

escondeis atrás de vossas maravilhas?”

A partir disso, nós não só vemos

que é logicamente necessário que o

homem só tenha sua felicidade vendo

a Deus, mas compreendemos que todas

as maravilhas descritas a propósito

do Céu Empíreo não fazem outra

coisa na alma reta senão dar-lhe vontade

de ver a Deus. Aquilo tudo não

sacia. A pessoa quer a Deus infatigavelmente,

incessantemente, até que

possa vê-Lo face a face!

Essa é uma noção preliminar da

visão beatífica.

Gabriel K.

Nossa inteligência e nossa

vontade tendem para Deus

São Tomás de Aquino, no fundo,

coloca a mesma verdade apresentada

sob outro aspecto, para ficar mais

ao alcance do nosso espírito.

Nossa Senhora do Bom Sucesso (acervo particular)

É próprio da inteligência conhecer

o ser das coisas. A minha inteligência

é feita para conhecer aquilo que é. Ela

não é feita para conhecer aquilo que

não é. Por exemplo, quando se diz que

um homem que tem delírios é um infeliz,

é porque sua inteligência, seus

nervos, seu sistema cerebral, apresentam-lhe

imagens do que não é! Se lhe

apresentassem imagens do que é, ele

seria um homem são, e, debaixo desse

ponto de vista, feliz. Quando sua mente

apresenta imagens do que não é, ele

é um doente, um infeliz.

Ora, a suma felicidade de nossa

inteligência consiste em conhecer

Aquele que é de um modo absoluto.

É evidente. O próprio de nossa vontade

é querer o que é bom. Ora, se

nós sabemos que há alguém que é a

própria Bondade, Deus, nós não podemos

nos alegrar conhecendo “n”

coisas boas sem, em última análise,

desejar conhecê-Lo.

Imaginem que uma pessoa

tenha a felicidade, não sei em

que grau de intensidade – porque

é indizível –, de conhecer

Nossa Senhora. Ela diria:

“Minha Mãe, se é tal O que

Vos fez assim, posso conhecê-

-Lo? Posso amá-Lo?” A inteligência

e a vontade tendem

a isso. Por aí se compreende

bem o quanto é legítimo, direito

e necessário que, por essa

forma, na felicidade celeste,

a pessoa tenda com todas

as forças para o conhecimento

e para o amor de Deus como

algo que não tem paralelo

com tudo que ficou. E daí

aquela promessa de Nosso Senhor

que eu cito com frequência

porque me fala muito à alma:

“Serei Eu mesmo a vossa

recompensa demasiadamente

grande!” (cf. Gn 15, 1).

Aí é que nós teremos uma

ideia do que significa ver a

Deus face a face. Essa é a visão

beatífica.

O deleite acompanha

o amor a Deus

Não sei se conhecem a expressão

francesa “cortar em quatro um fio de

cabelo”. Não é cortar quatro pedacinhos

perpendiculares ao eixo, isso

qualquer um faz. Trata-se de cortar

em quatro na linha paralela ao eixo.

Há certas perguntas tão subtis que

São Tomás levanta, que se tem a impressão

de que ele cortou um fio de

cabelo em quatro!

São Tomás levanta a seguinte pergunta:

Na visão beatífica, o que é melhor?

É a própria visão ou o deleite? 4

A pessoa vê a Deus, ama-O vendo-

-O diretamente com aquele amor proporcionado

a quem O conhece dessa

maneira. De outro lado, tem um deleite

sem palavras. A pergunta é: por que

a pessoa ama? Porque Ele é Ele, ou

por causa do deleite que Ele dá?

33


Os Novíssimos – Céu

São Tomás mostra bem que o deleite

é um reflexo do amor e do conhecimento

que a pessoa tem, mas

ele faz umas comparações e dá uma

fundamentação que nos faz experimentar

ainda melhor o sabor

dessa verdade. Ele explica que

o deleite acompanha necessariamente

esse amor porque

uma coisa não existe sem a outra,

pois não podemos imaginar

um homem conhecendo

a Deus face a face, mas infeliz.

Quer dizer, há uma contradição

nos termos. E, para chegar

a essa conclusão, ele dá alguns

argumentos curiosos. Ele

afirma que, de quatro maneiras

diferentes, é necessário que o conhecimento

e o amor de Deus sejam

acompanhados do deleite.

A alegria é um preâmbulo

da visão beatífica

Triunfo de São Tomás - Santa

Maria Novella, Florença

Ele dá como primeira razão que

uma coisa pode ser necessária a outra

como preâmbulo. Há determinados

seres aos quais é necessário um

preâmbulo. O que é preâmbulo? Alguém

dirá: “É o hall!” Não, porque

o hall já faz parte do edifício. Imaginem

uma construção extrínseca ao

edifício, que prepare para entrar nele;

isso seria o preâmbulo no sentido

pleno da palavra.

Eu vou dar um exemplo minúsculo.

Já devem ter notado que, em todas as

igrejas católicas de algum estilo tradicional,

a arte sacra fez as portas de formas

múltiplas e magníficas. Poder-se-ia

fazer um álbum só com portas de igrejas,

ficaria esplêndido! Está bem. Por

mais magnífica que seja, a porta de toda

igreja dá acesso a um recintozinho

inicial protegido por um tapa-vento e

só depois se entra na igreja.

Eu já tive ocasião, por reformas ou

coisas do gênero, de estar numa igreja

com as duas portas abertas e ver diretamente

a rua. Tem-se uma impressão

de profanação, uma coisa desagradável,

embora saiba que é necessário,

por exemplo, quando lavam a igreja

ou estão consertando o tapa-vento;

ao tirá-lo, é desagradável ver direto fora.

É conveniente uma transição entre

a rua e o interior da igreja.

Portanto, o deleite é necessário à

visão beatífica como um preâmbulo.

Ou seja, uma série de coisas já dispõe

a alma com deleite para conhecer

a Deus. Quando ela, afinal, vê

a Deus, a alegria e o conhecimento

que ela tem são plenos de todas

aquelas alegrias e de todos os conhecimentos

anteriores.

Aquela alegria preparou a alma

para a visão beatífica. Como então a

alegria pode estar separada da visão

beatífica? É inteiramente impossível.

Nós poderíamos dizer que, quando

morrermos, transporemos esse tapa-vento

que é a vida, e entraremos

numa imensa igreja que é o Céu.

Nas Confissões, Santo Agostinho fala

do momento em que Santa Mônica

morreu. Ele chorou, mas depois conteve

as lágrimas; por quê? Porque ela tinha

transposto o limiar da eternidade,

tinha transposto o “tapa-vento”. Do

lado de lá, ela tinha a eternidade.

Então, a noção de preâmbulo

enriquece essas noções que eu

estou dando aqui.

Gabriel K.

O deleite é um

coadjuvante e

aperfeiçoa a alma

Um outro modo pelo qual

uma coisa é necessária à outra,

diz São Tomás, é a título

de aperfeiçoamento. E ele dá

um exemplo vibrante: a alma é

necessária ao corpo para que este

viva. Os animais e as plantas

não têm alma espiritual, mas têm

um princípio de vida sem o qual não

são nada. Assim também é indispensável

que, para o homem conhecer e

amar inteiramente a Deus, ele se deleite.

Não se pode compreender que

ele conheça e ame sem esse complemento

dado à nossa natureza, que é

a felicidade com que Deus a inunda.

Isso está perfeitamente bem raciocinado

e demonstrado e nós não perdemos

nada em conhecer esse raciocínio,

porque ele aperta as cravelhas

das evidências salutares!

Depois, é também um coadjuvante.

São Tomás dá um exemplo que

espanta à primeira vista: um amigo

pode ser necessário a outro amigo

para fazer uma determinada ação.

Do mesmo modo, o deleite é necessário

ao conhecimento, à inteligência

e à vontade para serem perfeitos.

Como o homem tem também sensibilidade

– e eu não falo aqui apenas

da sensibilidade física, mas da espiritual,

muito mais fina, nobre e delicada

do que a mera sensibilidade física

– o auxílio dessa sensibilidade é indispensável

para que ele conheça inteiramente

bem a Deus, dada a natureza

humana. O homem, portanto, se alegra

na presença de Deus.

34


É como um raciocínio transformado

em música. A pessoa ouve o raciocínio

e percebe que é verdadeiro.

Dá o assentimento da inteligência e

da vontade porque nota que aquilo é

bom. Mas a musicalização desse raciocínio

ajuda a sensibilidade a querer

aquilo. É um coadjuvante do ato

da inteligência e do ato da vontade.

O Tantum Ergo, por exemplo, é

uma parte de um longo hino composto

por São Tomás em adoração do Santíssimo

Sacramento. É um raciocínio

perfeito que mostra como a Sagrada

Eucaristia é digna de amor. E, ao desenvolver

o raciocínio, a vontade ama.

Mas quando se canta isso com todo o

ser, é-se mais convidado para crer.

Esse é o papel da felicidade no

ato de adoração eterna. Está bem

apresentado, lógico e claro.

Onde há visão de Deus existe

alegria por concomitância

te alegria por concomitância natural,

não podem separar-se uma da outra.

O deleite é assim.

Quando um de nós estiver no

Céu, poderá lembrar-se desta reunião

na Terra e compor um hino de

adoração, dizendo: “Meu Deus! Eu

aqui estou unido a Vós, inundado

nesta alegria que é o preâmbulo de

Vós, ó meu Deus! Mas ela, ao mesmo

tempo, traz uma relação com a

vossa cognição, que é um aperfeiçoamento,

um coadjuvante, e é concomitante

convosco!”

Esse seria um ato de adoração

muito bonito. E com isso nós chegamos

a estalar mais uma semente.

Nossa Senhora

favorecerá nosso exercício

de pensamento

Nós devemos gostar da demonstração

daquilo que é meio óbvio.

Volto a dizer: não como quem duvida,

mas como quem quer conhecer e

aprofundar mais intensamente.

É ou não é verdade que, conhecendo

as quatro provas, nós antegozamos

melhor a felicidade? E não é

evidente, também, que lá teremos um

Dr. Plinio em 1981

Finalmente, é concomitante, quer

dizer, simultâneo. Eu gosto muito de

etimologia, faz-nos entrar no suco da

questão. Por exemplo, no meu modo

de entender, a framboesa, é assim: seu

melhor gosto se sente quando se estala

a semente! Ali dentro, no que ela tem

de mais interno, de mais ela mesma,

está o que há de mais cognoscitivo da

framboesa. Não sei se os outros sentem

a framboesa assim. É algo pessoal, mas

assim se toma o sabor das coisas.

As coisas concomitantes são as

que andam juntas umas com a outras.

Parece uma palavra supérflua,

mas é preciosa como uma imensa semente

de framboesa, pois, ao fazer-

-lhe a etimologia, ela atinge o seu

sentido. Isso é belo e digno.

São Tomás faz uma comparação:

o fogo e o calor são concomitantes,

vão juntos. Onde vai o fogo, vai o calor;

onde tem o calor, em algum lugar

há fogo. Ainda que o fogo esteja

à distância em que está o Sol, se tem

calor, tem fogo. Assim também, onde

há visão de Deus face a face, exisprêmio

por ter antegozado aqui? Teremos

uma capacidade que virá disso.

Os espíritos meticulosos que se detêm

na reflexão, que fazem a etimologia

da palavra, em seguida fazem a

construção do raciocínio e por último

criam metáforas comparativas para

completar o conhecimento, esses espíritos

fazem de si mesmos um bom

uso. Porque para isso Deus nos deu

inteligência, vontade e sensibilidade.

Portanto, ao pensar, não ter pressa.

Pelo contrário: vagar, detenção

e segurança, porque às vezes Nossa

Senhora favorece o nosso espírito

para dar um voo de águia e alcançarmos

diretamente uma conclusão.

Depois do gáudio da conclusão, refazemos

o caminho a pé. Como será

essa estrada etapa por etapa? v

(Extraído de conferência de

28/1/1981)

1) Do italiano plaudere: aplaudir

2) Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma

Teológica. I-II, q.2-4.

3) Do latim: grau máximo de perfeição.

4) Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma

Teológica. I-II, q.4, a.2.

Arquivo Revista

35


Os Novíssimos – Ressurreição

Flávio Lourenço

Ressurreição

A ressurreição dos

corpos, alegria sempiterna

dos bem-aventurados

Cada sofrimento bem

aceito nesta Terra é

como um cálice de

luz sorvido para toda

a eternidade, luz

que se refletirá nos

corpos ressurrectos.

Essa claridade, dentre

outros predicados,

é um dos atributos

do corpo glorioso.

Quanto maior tenha

sido em vida a força

contra o que afasta da

virtude, tanto mais

completa será a glória

da alma sobre o corpo.

Juízo Final - Museu de São Marcos, Florença

Vamos falar a respeito das

propriedades dos corpos

ressurrectos. O que tenho

a tratar tem relação com um problema

muito bonito e para o qual não

encontrei ainda uma solução que vá

até o fundo.

36


Para além das palavras,

um universo de matizes

Qual é, inteiramente, até o fim,

em todas as suas manifestações possíveis,

o pulchrum de uma bela frase,

de um texto literário? Esse pulchrum,

bem entendido, está antes de

tudo na substância do texto. Se ele

exprime algo de pulchrum, ele tem

o seu principal elemento de beleza;

se o que ele exprime é feio, não terá

expressão de beleza. Tudo isso considerado

em tese é simples. Um texto

exprimir! Como um texto exprime?

Uma palavra analisada no seu sentido

próprio sempre exprime um pensamento,

um conceito, dá uma ideia,

a qual pode ter pulchrum ou não.

Quando, às vezes, vemos uma descrição

atrozmente verdadeira de uma

coisa muito feia, o fato de ela nos tornar

a realidade presente – seja por via

imponderável, seja por via ponderável

– isso nos satisfaz, porque a verdade,

ainda quando horrenda, está expressa

de uma maneira tal que, por

assim dizer, a tocamos com a mão,

tem o seu quê de pulchrum.

Imaginem, por exemplo, alguém

que fizesse uma descrição de uma

agonia horrorosa, de um moribundo

que está se desfazendo, se arrebentando

aos pedaços e, ao mesmo tempo,

blasfema… Eu encontro o meu

exemplo: a agonia de Voltaire.

Já que pronunciei o nome dele,

todos os outros inconvenientes são

admissíveis; atrás do nome Voltaire

qualquer coisa pode se dizer. Ele,

antes de morrer, passou a mão num

vaso de imundícies e o bebeu; pouco

depois caiu morto. E sua criada de

quarto comentou: “Se um demônio

morresse, morreria como ele!”

Essa frase final da criada –, que era

uma pessoa que não tinha educação,

cultura, literatura – se fosse de um

membro da Academia Francesa, diríamos:

“Ele sabia que assistiria à morte

de Voltaire e preparou uma palavra

histórica para a ocasião. Como esse

comentário está enfeitadinho”. Não,

foi uma criada! Horrorizada – tinha

fé, ou pelo menos um resto de fé – teve

esse pensamento, o qual retrata tão

bem a realidade horrenda, que há nele

um certo mérito e valor. E nesse valor

se pode dizer que há uma razão de

pulchrum, uma certa conexão com ele,

de tal maneira o conceito de pulchrum

se alarga e se abre.

De outro lado, há palavras simples,

mas que dizem algo de extraordinário;

há palavras complicadas,

que às vezes não dizem nada.

Não sei porque me ocorrem exemplos

horrorosos, mas Juliano, o imperador

apóstata, na hora de morrer,

ferido durante a batalha, exclamou:

“Vincisti tandem, Galilæum, vincisti! –

Tu venceste, afinal, Galileu, Tu venceste!”

E entregou sua alma ao demônio.

Essa é uma exclamação simples,

mas tem algo da ênfase, do tom de

voz, que quase se ouve através dos

séculos. E aquela inferioridade infinita

dele em relação a Nosso Senhor

aparece. “Tu, ó Galileu, venceste,

finalmente venceste!” Como a dizer:

“Eu estou estraçalhado!” O estraçalhamento

aflora aí de um modo

magnífico. A palavra é uma constatação:

“Quem venceu foste Tu”.

Mas, no jogar a palavra, vincisti… e

no texto latino: “Vincisti tandem, Galilæum,

vincisti!”, isso tem repercussão;

são os imponderáveis…

Ora, isso também se passa no que

diz respeito à definição de São Tomás

sobre os corpos gloriosos.

Quatro conceitos na

linguagem corrente

Quatro são as suas qualidades dominantes:

impassibilidade, subtileza,

agilidade e claridade. 1 Cada uma

dessas propriedades tem tal luminosidade,

se aliam de tal modo entre si,

independente do sentido que têm,

formam um tal conjunto, que a meu

ver é uma coroa de pulcros.

São Tomás analisa a fundo cada

uma delas. Consideremos a impassibilidade.

2

Para a linguagem corrente, é impassível

aquele que não sente e não

está em condições de sentir o que os

outros queiram fazê-lo perceber, razão

pela qual ele também não se move.

Por causa disso se diz: “Fulano

permaneceu impassível”, equivalente

a “permaneceu imóvel”.

De outro lado, São Tomás atribui

a esses mesmos corpos uma quali-

Mulher em seu leito de morte - Museu de Belas Artes de Rouen

Flávio Lourenço

37


Os Novíssimos – Ressurreição

Flávio Lourenço

São Pedro na porta do Céu - Igreja de São Miguel, Cardona, Espanha

dade bem diversa: a subtileza. Ora,

a subtileza é a finura, a sensação do

que é delicado, matizado, do que é

diferente, a percepção exata. Parece

o contrário da impassibilidade. Então

temos uma impassibilidade majestosa

e uma subtileza vivaz.

A isso se acrescenta uma agilidade

surpreendente. Agilidade e subtileza

se encaixam muito bem, embora

pareçam protestar contra a impassibilidade.

E por fim, a claridade, que aparenta,

por sua vez, ser oposta à impassibilidade,

já que quem emite luz se comunica.

Quem se comunica, evidentemente

sabe que há outrem e, se sabe,

é porque sentiu, conheceu. Como

é tudo isso junto? As palavras soam

muito bem como introdução. Mas,

afinal de contas, o que cada um desses

atributos pode significar?

Um dom para a

alma batalhadora,

perseverante e perfeita

São Tomás de Aquino entende como

impassibilidade o privilégio que

têm os corpos ressurrectos: eles conhecem

pelos sentidos o que existe

fora deles. Ele refuta muito bem

a objeção de que os sentidos dos corpos

ressurrectos não terão exercício.

Ele diz: isso seria imagem mais

do sono que da vigília, e não convém

a quem está vendo Deus face a face

ter atitude de quem dorme.

E explica no que consiste essa

impassibilidade: no domínio total

da alma que se salvou sobre o corpo

ressurrecto. A alma, confirmada em

graça, está num estado de perfeição

e manterá nesse estado seu corpo

ressurrecto. Ele, por toda a eternidade,

estará com as perfeições magníficas

com as quais ressuscitou,

porque a alma posta em Deus não

consente que nem o tempo, nem o

lugar, nem os demônios, nem alguma

outra coisa que houvesse possa

diminuir em nada a perfeição do

corpo ressurrecto.

E São Tomás, afeito a toda a forma

de pormenor enriquecedor, que

não seja bagatela, explica: como no

Céu todos estão confirmados em

graça, não existe nenhuma possibilidade

de a alma pecar, e nenhum corpo,

portanto, consentir no pecado ou

perder qualquer de suas perfeições,

sob qualquer ponto de vista.

Apesar disso, como prêmio da virtude,

essa firmeza, para todos inabalável,

ainda é maior para aqueles

que praticaram maior virtude. De

maneira que quanto maior tenha sido

em vida a força contra os obstáculos,

tanto mais completo será o

domínio da alma sobre o corpo. Essa

impassibilidade para o mal e para

qualquer forma de diminuição, é

tanto mais total quanto mais a alma

tenha sido excelente, batalhadora,

perseverante e perfeita.

Nós podemos nos elevar desde já

e, genuflexos, pensar na impassibilidade

de Nossa Senhora. Aquela que

praticou a virtude de um modo perfeitíssimo,

no ápice da perfeição que

em todos os instantes da vida Deus

d’Ela quis. Nós podemos imaginar

o domínio da alma santíssima d’Ela

sobre o seu corpo santíssimo, é a impassibilidade

celeste d’Ela.

O demônio, que gostaria de atacar

todos os bem-aventurados e não

se atreve a se acercar de nenhum,

quando qualquer coisa toca n’Ela, se

afunda com desespero em suas dores,

em seus tormentos mais lancinantes.

Porque faz parte da impassibilidade

d’Ela causar nele um verdadeiro

terror, e ele se afundar.

Impassibilidade de

corpo e de alma

Há exemplos dessa impassibilidade

nesta Terra? Nós a encontramos

na arquitetura do Escorial. Ele tem

a forma de uma grelha e foi construído

assim por desígnios do Rei Filipe

II da Espanha, 3 para comemorar

a Batalha de Saint-Quentin, 4 na

França, na qual as tropas espanholas

venceram, em aliança com os franceses

católicos, contra os huguenotes,

os protestantes franceses, aliados a

tropas mercenárias ou não, de países

protestantes da Europa. Essa batalha

foi muito decisiva e deu-se no dia

de São Lourenço, cujo instrumento

de martírio foi uma grelha.

38


São Lourenço foi deitado sobre

uma grelha e acenderam fogo embaixo.

Ele, calmo e sereno, ali em cima,

quando estava inteiramente queimado,

disse: “Já estou queimado atrás

até o fim; virem-me de bruços”. Viraram-no

e ele foi queimado. Ele morreu

impassível, no sentido relativo da

palavra, porque seu corpo sofreu destruição,

mas sua alma era tal, que seu

corpo não teve uma contração, um

movimento de fugir do martírio; ele

não pediu para ser virado do outro lado

a não ser quando já havia sofrido

na parte do seu corpo que estava sobre

a grelha toda a destruição possível.

E foi um desafio aos que o matavam:

“Agora, virem-me de frente!”

Pode-se imaginar as labaredas que

começam a queimar-lhe o rosto, os

olhos, a língua, os lábios, o queixo, o

esôfago, a laringe, os pulmões, tudo;

e o mártir confessando a sua fé em

Nosso Senhor Jesus Cristo até o fim.

Quando ele ressuscitar, vai gozar de

um domínio sobre o seu próprio corpo,

todo ele glorioso, do qual nem sequer

podemos fazer uma ideia.

É uma imagem de impassibilidade

que na Terra podemos ter. É

uma impassibilidade de alma, mas

que exerce seu reflexo sobre o corpo,

quanto ao modo firme pelo qual este

recebe um tormento de espantar.

Mais impassível ainda é Aquela a

Quem temos de nos voltar sempre que

falamos de virtude, porque é o píncaro

da virtude, Nossa Senhora. Ela conservar-Se

de pé junto à Cruz até no

momento em que Nosso Senhor expirou

é algo que não tem qualificativos

como domínio completo sobre seu

corpo virginal e santíssimo. Dava para

desmaiar! Não. A Igreja canta: “Iuxta

crucem lacrimosa, stabat Mater dolorosa”.

5 Stabat é estar de pé. A Mãe, lacrimejando,

estava de pé junto à Cruz,

ereta como a própria Cruz.

Subtileza e agilidade

sublimam o corpo ressurrecto

Podemos falar algo a respeito da

subtileza. 6

Nós mais nos referimos a um espírito

subtil, uma linguagem, uma diplomacia

ou uma obra de arte subtil

do que a um corpo subtil. Ora, o corpo

glorioso estará tão penetrado pela

alma, que ele adquire qualidades

que têm um quê de espiritual e o tornam

capaz de movimentações, de inserções

e de percursos extraordinários.

É o corpo subtil.

Por causa do grande domínio que

a alma tem sobre seu corpo, ele se

torna capaz de penetrar, atravessar,

cortar, de estar em todos os lugares,

de dominar, portanto, a matéria.

E o que é a agilidade? É, por sua

vez, dentro da subtileza, um modo

de ser. É a alma tomada como motor

primeiro, imediato do corpo; a alma

gloriosa comunica ao corpo uma

movimentação magnífica. E o corpo

sem nenhuma resistência – mais

submisso à alma do que o corpo de

Adão lhe era dócil no Paraíso –, em

qualquer lugar e de qualquer modo,

se move absolutamente como a alma

deseja e, por causa disso, com uma

velocidade e prontidão que nos deixam

desconcertados.

São Tomás explica que, terminada

a História da humanidade, os justos

contemplarão sempre a Deus face a

face e, ao mesmo tempo, conhecerão

o universo inteiro. Eles, em corpo e

alma, poderão transpor as maiores

distâncias de um momento para outro,

com toda rapidez e facilidade.

Pode acontecer de, ao olharmos

a cúpula celeste, nos perguntarmos:

Flávio Lourenço

El Escorial

39


Os Novíssimos – Ressurreição

“Onde o universo acaba?” Está bem,

poderá ser que percorramos com

nossos corpos todas essas distâncias

para, de algum modo, conhecer melhor

a Deus e louvá-Lo ainda mais.

Isso faremos com a maior facilidade,

sem esforço nenhum e com rapidez.

A vontade de conhecer o mundo

inteiro, a aflição do turismo, de viajar,

viajar, viajar, ver isto, aquilo, aquilo

outro... muito frequentemente as pessoas

se entregam a isso de um modo

desordenado, por agitação de alma,

por não serem capazes de pensar estável

e continuamente nas coisas sobre

as quais devem refletir. Há, portanto,

muito erro dentro disso.

Em si, o espírito humano deseja

conhecer tudo quanto sabe existir. E

no Céu, em seu estado de felicidade

celeste, essa vontade lhe será saciada.

Sobretudo os que tenham a alma

mais movediça, certamente mais do

que a minha, que sou sedentário por

definição. Eu me tenho tornado um

pouco menos sedentário, mas houve

tempo em que para mim ir de São

Paulo a Santos ou a Jundiaí era uma

viagem, e eu não gostava.

Ora, há almas que Deus fez de

outro modo, são alígeras, ligeiras,

gostam de estar em todos os cantos.

Está bem, elas receberão esse prêmio

na eternidade, sendo particularmente

rápidas em percorrer imensidades,

em ir por todos os lados, sem

nunca perderem a majestosa presença

de Deus diante de si. Uma eternidade

uniforme e ao mesmo tempo

variadíssima. Não só variada – sobretudo

porque em Deus elas verão

sempre algo de infinitamente novo

–, como também para regalo do seu

ser total e de seus corpos, portanto;

todas verão aspectos diferentes.

Elementos que manifestam

a infinita grandeza de Deus

São Tomás 7 estuda o assunto com

tanto afinco e seriedade, que refuta

até a objeção de alguns que, querendo

hipertrofiar essa noção da agilidade,

dizem que os corpos dos ressurrectos

são tão ágeis que nem atravessarão

os espaços intermediários.

A meu ver é um sonho medíocre.

Porque, por exemplo, a ir à Lua, é

agradável percorrer os espaços intermediários.

Já que se vai, é ou não é

deleitável percorrer esses vazios que

o luar enche? É claro! Dizia-se no

meu tempo que além do ar há o éter,

e digamos que alguém esteja viajando

no éter e, de repente, bate de

cheio em raios da Lua que descem;

sobe à lua pela avenida de seus raios.

A mim, isso dá alegria. Por que eliminar

esse espaço intermediário?

São Tomás diz ser inteiramente

impossível irmos de um corpo físico

a outro sem passar por esses espaços.

Quando vemos as estrelas no céu,

temos muita vontade de conhecê-las,

é bem verdade. Quem foi pequeno e

não pensou em conhecer as estrelas?

Quem, debaixo do regime ou da formação

revolucionária foi adolescente

e não ouviu alguma voz física ou psicológica

que lhe dizia: “Deixe dessa

cogitação, porque é tolice. Preocupe-

-se com o turismo, em ganhar dinheiro

ou em assegurar saúde, porque disso é

que o homem cuida. Estrela está para

lá, não é cogitação do homem”.

É o contrário. Deveria se formar a

pessoa assim: a criança olha para as

estrelas e diz para a mãe: “Mamãe,

quando nós vamos para lá?” E a mãe

responde: “Meu filho, um dia iremos

juntos, quando ressuscitarmos!”

Que jato de seriedade por cima da

bobice da criança! Que jato de esperança,

desde que a criança começa a

formar-se! “Então, se eu levar a minha

vida reta, um dia eu irei para lá”.

Por assim dizer, Deus não criou

esses seres com espaços intermediários

– não quero dizer fisicamente

Sailko(CC3.0)

Cristo sendo glorificado no Paraíso - Galeria Nacional de Londres

40


intermediários – entre Ele e nós para

nos dar vontade de chegar até Ele

e para nos dar a entender quanto Ele

é alto, infinito?

É uma ideia da grandeza d’Ele e a

promessa: “Meu filho, tu tens corpo.

No teu corpo há essa vontade que Eu

implantei e um dia exuberantemente

atenderei, se tu fielmente Me servires”.

Eu considero uma meditação própria

a dar vontade da outra vida e

das coisas celestes. Daí vem o que

diz respeito à agilidade.

A claridade da bem-

-aventurança refletida

no corpo glorioso

São Tomás 8 explica que a alma do

bem-aventurado domina tão completamente

o corpo, que a claridade

transparece através do corpo.

A alma está num estado de glória,

ela vê Deus face a face, vê Nossa Senhora,

contempla os mais altos Serafins.

Ela, portanto, está colocada numa

posição onde tudo quanto há de

mais esplêndido, de Deus, – não é

preciso dizer mais nada – ela vê, contempla;

isso enche, naturalmente, a

alma de claridade, e essa se difunde

pelo corpo. De maneira tal que o

corpo é todo reluzente das claridades

da alma.

Quem vê o corpo de um ressuscitado

lhe vê as virtudes, a santidade;

vê o gênero de virtude que praticou,

quais as modalidades, os matizes,

qual a intensidade. E, diz São Tomás,

que a claridade não é igual para todos:

é maior ou menor, conforme o

grau de virtude.

Quando Nossa Senhora se move

no Céu, que claridade! Para não dizer

a de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Quando se pensa na Humanidade

Santíssima d’Ele, as palavras faltam,

os conceitos estalam e as comparações

se evanescem, porque ninguém

pode ser comparado a Ele. Não podemos

ter uma ideia do que será.

Cálice da dor, o cálice

da luz beatífica

E, apenas para colocar nossa alma

no estado de espírito em que deve estar,

lembro que essa claridade não será

obtida por nossas almas no Céu,

nem transparecerá em nossos corpos,

se nós, nesta Terra, não tivermos passado

por muita penumbra, ou seja,

por muita perplexidade, desconcerto,

aflição, por muito sofrimento. Se

passarmos por todas essas trevas, nelas

nossa alma vai se iluminando, para

um dia marcar os nossos corpos.

São Tomás afirma que nos corpos

as cicatrizes dos sofrimentos, das

feridas, das doenças recebidas por

amor de Deus, brilharão com um esplendor

especial. 9 Eu quero pensar

nos corpos dos mártires, dos cruzados.

Que elogio se deve tributar a um

São Lourenço, a uma Santa Joana

d’Arc, a um Padre Damião, 10 sacerdote

da Congregação do Sagrado

Coração de Jesus que viveu em meados

do século passado, quando a Europa

ainda estadeava todas as pompas

da Belle Époque. Ele morreu na

ilha de Molokai, onde se internou

para tratar de leprosos, numa época

Padre Damião em seu leito de morte

em que não havia remédio para a lepra

e num clima onde a lepra era positivamente

contagiosa. Tendo deixado

tudo, ele tratou dos leprosos por

muitos anos.

Certo dia, fazendo conferência

para os leprosos, como fazia assiduamente,

ele disse: “Meus caros enfermos,

hoje tenho a alegria de vos

dizer que sou dos vossos; na hora de

tomar banho, a água estava quentíssima

e eu não senti a temperatura no

pé”. A moléstia terrível o havia atacado.

E ele tomava essa atitude de

alma de irmão em Nosso Senhor Jesus

Cristo, em Nossa Senhora, para

anunciar dessa forma que ele, por

amor àqueles outros, tinha se precipitado

num abismo de dores. E, para

consolá-los por serem leprosos, ele

queria dar o espetáculo da serenidade

de alma e do espírito de renúncia

com que um homem sai da saúde e

entra na lepra.

Tudo leva a crer que esse sacerdote

tenha morrido em odor de santidade.

Pode-se imaginar na lepra que

corrói o corpo inteiro, o brilho e esplendor

desse corpo ressurrecto?

Está bem, mas os tormentos da alma

doem mais do que os do corpo.

Não parece, mas é. E quem acha o

Divulgação (CC3.0)

41


Os Novíssimos – Ressurreição

contrário, é porque teve

poucos tormentos do corpo

e quase nenhum da alma.

Os tormentos da alma

são terríveis.

Nossas almas parecerão

particularmente gloriosas

no que mais tenham

sofrido. E muitas vezes

vêm sobre nós nesta terra

sofrimentos que trituram

a alma. Quando a alma

diz “sim” e bebe o cálice,

ela não sabe, mas ela está

bebendo um cálice de luz

para toda a eternidade.

Alegrias irradiantes

da Ressurreição

do Senhor

Ascensão do Senhor - Catedral de São Salvador de Saragoça

Assim temos uma ideia

do que foi a glória da Ressurreição

e compreendemos

a alegria cristã da

Páscoa: com todos os sinos

bimbalhando, com o

Judas sendo malhado e

com as crianças se preparando

para os piqueniques;

e nas casas de família,

as mães acendendo velas

bentas diante das imagens

de Nossa Senhora e

de Nosso Senhor para celebrá-Los,

reunir as crianças

para rezarem. Enfim,

tinha-se a impressão que até a natureza

se rejubilava quando dava o

meio-dia e soava a Ressurreição de

Nosso Senhor Jesus Cristo.

E terminemos com a seguinte

consideração: Nosso Senhor Jesus

Cristo, logo depois de ressurrecto,

transpondo com o seu Corpo glorioso

as paredes do Cenáculo, onde

presumivelmente Nossa Senhora

estava e aparecendo a Ela no esplendor!

E Ela passando do profundo

da dor em que Se encontrava

para a alegria irradiante. Podemos

imaginar o que terá sido. Comparável

só, não idêntico, à ressurreição

d’Ela.

Nosso Senhor ressuscitou por sua

própria vontade, sua própria força,

Ele era Deus. Podemos imaginar

que para a ressurreição d’Ela, operada

por Ele, com quanta reverência

e afeto Ele terá vindo, acompanhado

por não sei quantos Anjos,

por todos os que com a Ascensão

d’Ele já tinham subido, estavam na

Corte Celeste; todos rodeando Nossa

Senhora, a alma d’Ela entrando

no corpo ressuscitado por Ele. Glória!

Samuel Hollanda

Quando Ele nasceu, o

primeiro que viu foi Ela.

Quando Ela ressuscitou,

a primeira pessoa que Ela

viu foi Ele! Tudo estava

pronto para a Assunção.

Considerações para

encorajar na hora

suprema da morte

Sobre os corpos ressurrectos

foi dito tudo. Eu terei

alcançado o resultado

que desejava, se essas meditações

sobre a felicidade

e a alegria dos corpos

ressurrectos tiverem dado

a todos uma ideia muito

depreciativa das alegrias

da Terra. O que é tudo da

Terra comparado com isso?

E como, por uma alegria

de um minuto, expomos

tudo isso? Lembrem-

-se do que já foi falado sobre

o Inferno. Perde-se tudo

por uma alegria de um

minuto: um mau olhar…

Como se faz uma coisa

dessas?

Outra intenção era fazer

com que nossas almas

estejam muito mais prontas

para o sacrifício, compreendendo

quanto é proporcionado

que o homem

sofra nesta Terra, uma vez que terá

essa eternidade de gáudios a receber

no Céu, já a começar pelo primeiro

momento de ressurrecto, no fato da

ressurreição.

Terceiro lugar: dar coragem para a

morte. Quando chegar a hora da morte…

A morte é algo tão tremendo! Há

um certo momento em que cai como

que um peso, e aquela pessoa que era

familiar nossa e há um segundo estava

no convívio conosco, fazia parte

de nosso mundo, de repente lhe cai

um peso e ela é projetada para toda

a eternidade. “Aurum eorum et argen-

42


Arquivo Revista

tum eorum non valebit eos” (Ez 7,19). 11

O dinheiro, o ouro e a prata deles não

lhes adiantaram de nada. Há um momento

de um valor profundo.

Eu li a história de um Santo – não

me lembro do nome, infelizmente –

que tinha verdadeiro terror de morrer.

Mas era um tal pavor que, quando

falava da morte, ele se punha a

tremer. E eu pensava com os meus

botões quando lia isso: “Que Santo

clarividente! E como ele compreendia

bem o que é esse passo. Que

coisa terrível é a morte!” Ele rezava

para ter uma boa morte. Morreu

aos poucos, caso se possa dizer assim,

numa tranquilidade, numa serenidade,

vendo chegar aquela morte

da qual toda a vida ele tivera horror.

Algo extraordinário!

“No momento decisivo em que a

alma sai do corpo – o meu velho professor

jesuíta Pe. Costa dizia – tem

que haver uma dilaceração tremenda!”

Agora, um exemplo dado por

mim, não por ele. Havia um tormento

que se aplicava antigamente: inclinavam

duas árvores por meio de máquinas,

e amarravam a pessoa entre elas;

Dr. Plinio em 1980

tiravam as máquinas, elas voltavam à

posição normal e rasgavam o indivíduo,

como outrem pode rasgar uma

folha de papel. Essa sensação de dilaceração

do corpo provavelmente é

menos terrível do que a sensação da

alma que se separa do corpo.

E esse mesmo padre dizia: “Desde

que a criança nasce, ela começa

a carregar seu caixão rumo à sepultura”.

Verdade é! Quando ele disse,

eu, habituado às infâncias Belle

Époque, tendo um quarto com papel

de parede de fitinhas azul-claras, do

qual ainda me lembro, pensei: “Que

brutalidade diz esse homem!” Mas

logo depois refleti: “Mas como é verdade!

Como ele tem razão!”

Para além da morte,

esperança na ressurreição

Muitos anos depois, folheando uma

revistinha francesa, nessas seçõezinhas

que têm frases soltas, sem autor definido

li: “On entre on crie, c’est la vie;

on crie on sort, c’est la mort!” Entra-se

e solta-se um grito: é a vida; grita-se e

sai-se: é a morte. Entre dois brados está

a vida de um homem.

Está bem, nós devemos nos lembrar

que para além da morte existe a

ressurreição. E devemos afundar no

vale da morte com a esperança, com

o gáudio da ressurreição, confiando-

-nos a uma invocação de Nossa Senhora

que li outro dia de passagem,

e me pareceu muito bonita: Nossa Senhora

do Trânsito. Trans ire, ire trans:

atravessar. Provavelmente é isto que

queria dizer a invocação: Nossa Senhora

da travessia tremenda, que

quis morrer e nos ajudará a morrer.

Nossa Senhora do Trânsito. Sirva-nos

para esse trânsito essa esperança.

Ora, no momento, não é esse o

trânsito que temos diante de nós. Nós

temos diante de nós a vida, com tudo

o que ela deve carregar. “Talis vita, finis

ita”. 12 Se quisermos ter uma morte

corajosa, tenhamos uma vida corajosa.

Vivamo-la com coragem, com força,

energia, ênfase e resolução! v

(Extraído de conferência de

26/12/1980)

1) Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Super

Sent., IV d. 44, q. 2, prol.

2) Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Super

Sent., lib. 4, d. 44, q. 2, a. 1.

3) Felipe Carlos Maria e Francisco

(*1527 - †1598).

4) Ocorrida em 10 de agosto de 1557.

5) Do latim: Em prantos, de pé junto à

Cruz, estava a Mãe dolorosa.

6) Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Super

Sent., lib. 4, d. 44, q. 2, a. 2.

7) Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Super

Sent., lib. 4, d. 44, q. 2, a. 3.

8) Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Super

Sent., lib. 4, d. 44, q. 2, a. 4.

9) Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma

Teológica. III, q. 54, a. 4.

10) Jozef de Veuster, Pe. Damião de

Molokai SS.CC (*1840 - †1889). Foi

canonizado pelo Papa Bento XVI, em

11 de outubro de 2009.

11) “Sua prata e seu ouro não poderão

salvá-los”.

12) Do latim: “Tal vida, tal morte”.

43


Nossa Senhora resgatando as

almas do Purgatório - Igreja de

Nossa Senhora da Purificação,

Almendralejo, Espanha

Flávio Lourenço

Levando refrigério às almas...

Nos dias em que o calendário litúrgico comemora festas da Santíssima Virgem, Ela baixa

ao Purgatório inundada de felicidade.

Naturalmente, as chamas não A podem atingir, pois está cercada dos eternos frescores

do Céu, à maneira de uma garoa fina, leve, maravilhosa e fresca. Então, Ela desce ao Purgatório

levando essa atmosfera em torno de Si e pedindo a Nosso Senhor que liberte esta, aquela,

aquela outra alma...

Ao voltar para o Céu, Nossa Senhora sobe com um número incontável de almas, a quem Ela

encurtou o Purgatório por misericórdia. A outras, Ela diminui as penas, deixando entender que

não tardará muito a vir para libertá-las também.

Podemos pedir para Nossa Senhora refrigerar e encurtar o Purgatório de todas as almas, mas

especialmente das que foram contrarrevolucionárias e muito devotas d’Ela.

(Extraído de conferências de 2/7/1994 e 15/10/1994)

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