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Revista ICONC - Vânia Pajares - Nov Dez

Chegou a última edição do ano da Revista ICONIC! Encerramos 2025 em grande estilo com uma entrevista exclusiva com a Maestra Vânia Pajares, um símbolo de talento e liderança na música. E mais: Thiago Lemmos, Laura Finocchiaro, Kayla Oliveira, Henrique Sitchin, Ralf Zeq e Dra. Mirela Ward completam essa edição memorável, repleta de arte, reflexão e inspiração. Revista ICONIC — porque o ano só termina depois de uma boa leitura. Marilu Gomes Editora Chefe

Chegou a última edição do ano da Revista ICONIC!
Encerramos 2025 em grande estilo com uma entrevista exclusiva com a Maestra Vânia Pajares, um símbolo de talento e liderança na música.
E mais: Thiago Lemmos, Laura Finocchiaro, Kayla Oliveira, Henrique Sitchin, Ralf Zeq e Dra. Mirela Ward completam essa edição memorável, repleta de arte, reflexão e inspiração.
Revista ICONIC — porque o ano só termina depois de uma boa leitura.
Marilu Gomes
Editora Chefe

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I C O N I C

N O V E M B R O & D E Z E M B R O 2 0 2 5 N O . 2 1

Nesta Edição

Thiago Lemmos

Cantor

Laura Finocchiaro

Cantora

Henrique Sitchin

Cia Truks

Kayla Oliveira

Modelo

Dra Mirela Ward

Médica Homeopata

V A M O S F A L A R D E M Ú S I C A

Ralf Zeq

O Alquimista do Som

“... a regência que me escolheu.

Ela decidiu que me queria.”

Vânia Pajares


DOE

R$ 25,00

V A M O S N O S A J U D A R !

Banco Bradesco

Agência: 2913

Conta Corrente: 8260-0

Instituto Omindaré

CNPJ 13 898 378/0001-04

O fim do ano se aproxima, trazendo luzes,

encontros e gratidão. É tempo de celebrar

conquistas e renovar esperanças. Mas,

entre os festejos, há quem não tenha

mesa farta, nem presente a

desembrulhar.

Por isso, este é também o momento de

olhar ao redor e estender a mão. Uma

pequena doação, pode fazer toda a

diferença. Gesto simples, mas capaz de

transformar o Natal de quem mais

precisa.

W W W . I N S T I T U T O O M I N D A R E . O R G . B R


CONTATO

FALE CONOSCO

CP 1/12990000

Pedra Bela - SP Brasil

revistaiconic3000@gmail.com

EDITORIAL

MARILU GOMES

Editora Chefe

MTB sob o nº 0081549/SP

REGINA P STEINER

Diretora de Pauta e

entrevistas

GUILHERME F JÚNIOR

Diretor de Conteúdo

THIAGO MORENO

Diretor Comercial

WELCOME

Edição 2025

4a/21aEdição

Revista da Orquestra Sinfônica Jovem do

Bixiga

A Revista ICONIC, referência em conteúdo

autoral e diversidade de vozes, acaba de lançar

sua nova edição trazendo um panorama

vibrante da cena cultural e criativa brasileira.

Com matérias exclusivas e entrevistas

especiais, a publicação reúne nomes de peso da

música, moda, circo, teatro e estilo de vida

alternativo, promovendo a riqueza de

expressões e trajetórias que inspiram e

transformam.

M A R I L U G O M E S

Editora Chefe

Anyway, we hope you enjoy this one.

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@revistaiconic2020

COM A PALAVRA

Dr Fernando Santos

Advogdo

VOZ E CANTO

Maude Salazar

EDUCAÇÃO

Priscila Buares

FOTOGRAFA

Heloísa Bortz

SUBSCRIPTIONS

SUBSCRIBE ONLINE

RP ASSESSORIA

Projeto Gráfico

Revisão

EQUIPE

TAMIRES NOGUEIRA

FABIANA TAVARES

JORGE GOMES

PAULA TJIRÉ

ROBERTO LÍVIO

PEDRO G. VALE

OLÍVIA VIEIRA

CASSIO FERNANDES

NATHÁLIA BULSING

AMANDA RICCO

COLABORADORES

PAUTAS AFRO

Kodê Magalhães

Jornalista

CHEF

Luiz Thomé

IA -INTENLIGÊNCIA

ARTIFICIAL

Mirna Rubim

http://www.grupoomindare.com.br

FOTO DA CAPA

Vania Pajares

arquivo pessoal


SUMÁRIOI C O N I C

CAPA

MAESTRA VÂNIA PAJARES

THIAGO

LEMMOS

KAYLA

OLIVEIRA

LAURA

FINOCCHIARO

HENRIQUE

SITCHIN

RALF

ZEQ

DRA. MIRELA

WARD



Falar de Vânia Pajares é falar de

excelência, sensibilidade e força.

Maestra, pianista e diretora musical,

ela é uma das figuras mais

respeitadas do teatro musical no

Brasil. De óperas grandiosas no

Teatro Municipal de São Paulo a

produções consagradas da

Broadway em solo brasileiro, sua

trajetória é marcada por uma

entrega visceral à arte e por uma

disciplina que combina rigor técnico

e paixão genuína pela música.

Em um universo ainda

majoritariamente masculino, Vânia

impôs seu talento com elegância e

autoridade. Sua presença à frente da

orquestra não é apenas uma questão

de comando, mas de conexão, entre

músicos, elenco e público. Ela traduz

partituras em emoção, transforma

compassos em pulsação viva e faz de

cada espetáculo um organismo em

harmonia.

Mais que uma maestra, Vânia Pajares

é uma contadora de histórias

sonoras. Sua regência ultrapassa a

técnica: é gesto, é escuta, é arte em

movimento. Sua trajetória inspira

não apenas artistas, mas todos que

acreditam na potência da música

como linguagem transformadora.

Em tempos de pressa e

superficialidade, a maestra Vânia nos

lembra que a verdadeira grandeza

está no detalhe, na escuta e na

entrega, marcas de quem não

apenas rege, mas faz a arte

acontecer.

Regina Papini Steiner



Quando e de que forma surgiu a

decisão de se dedicar à regência e à

direção musical, em vez de seguir

exclusivamente como pianista ou

intérprete?

Olha, é muito curioso isso. A gente

sempre diz, na educação musical, que

é o instrumento que escolhe a gente,

não o contrário. E realmente, é curioso

mesmo.

Eu já era pianista formada, pósgraduada

em pedagogia vocal e

musical, com mestrado também, e

cantora de formação. Mas, antes de

tudo isso, eu decidi fazer a graduação

em música porque queria saber

música.

Escolhi o curso de música com

habilitação em regência,

principalmente porque eram seis anos

de faculdade, ou seja, um mergulho

profundo no universo musical. Eu

nunca tive o desejo de reger. O que eu

queria, de verdade, era compreender a

música, me aprofundar nela.

Ao longo do curso, fui passando por

todas as disciplinas possíveis. Depois,

me pós-graduei, fiz o mestrado em

pedagogia vocal, e atuei por muitos

anos como pianista e cantora. Até que,

um dia, a batuta veio parar na minha

mão.

Ou seja, foi a regência que me

escolheu. Ela decidiu que me queria. E,

depois que regi minha primeira

superprodução de teatro musical,

nunca mais parei.

Hoje, eu amo reger. Amo

profundamente. Eu não sabia que seria

Foto Arquivo pessoal

algo tão forte. É o lugar onde me

sinto mais plena, porque, ali, a

gente é a música inteira. Faz parte

de todo aquele universo. É algo

que alimenta a alma de uma

maneira

simplesmente

inexplicável.

Quais foram os principais

desafios que você encontrou no

início da sua trajetória como

regente, especialmente atuando

no universo do teatro musical?

Bom, acho que o primeiro desafio

foi o mais básico: ser mulher.

Mulher, maestra, maestrina, tudo

começou por aí.

Até hoje, a gente ainda está

apenas dando os primeiros passos

para desconstruir essa crença

estrutural de que o lugar do

maestro é, por definição,


Foto Arquivo Pessoal

"O primeiro grande obstáculo foram os olhares e os

julgamentos. Eu senti, e ainda sinto, isso na pele."

Vânia Pajares


masculino. A regência não tem gênero.

E isso não significa dizer que, por ser mulher, alguém será uma boa

regente , ou que por ser homem, também será. O que precisamos é

eliminar o olhar sexista, esse viés que ainda persiste.

O primeiro grande obstáculo foram os olhares e os julgamentos. Eu

senti, e ainda sinto, isso na pele. A cobrança é muito maior. Uma

mulher no pódio, com a batuta na mão, precisa provar cem vezes

mais do que um homem. Quando um maestro é firme, dizem que ele

é exigente; quando é uma maestra, vêm outros adjetivos, e nem

sempre gentis.

É algo estrutural. Esse foi, e ainda é, um dos principais desafios.

Diminuiu, sim, mas ainda existe. E sigo abrindo caminhos, porque

acredito que a transformação acontece pela prática, não apenas pelas

palavras.

Em todas as entrevistas e workshops, repito isso: o respeito deve vir da

competência, da seriedade e da dedicação, e não do gênero de quem

está à frente.

Eu costumo dizer que sigo abrindo caminho para as jovens maestras

que vêm depois de mim, minhas alunas, principalmente. Que isso

continue mudando, se transformando.

Esse foi o primeiro grande desafio: o de ser mulher. E isso independe

da estética musical.

O segundo desafio foi atuar como diretora musical e regente de teatro

musical, uma estética muito diferente da que eu estava acostumada.

Apesar de sempre ter transitado entre o erudito, o pop e o rock, o

teatro musical tem suas particularidades. Então, precisei aprender,

estudar, mergulhar mesmo. Quando eu decido fazer algo, quero fazer

bem-feito, vencer cada desafio.

Outro ponto importante é a resistência física. Regendo teatro musical,

são, no mínimo, seis apresentações por semana. É completamente

diferente da rotina da música erudita ou popular, em que você faz um

concerto, uma récita de ópera e depois tem um tempo de descanso.

No teatro, não: são dois espetáculos no sábado, dois no domingo, mais

os da quinta e sexta, sem contar as apresentações extras e as ações

sociais.

Então, resumindo: meus principais desafios foram, primeiro, ser

mulher nesse espaço; depois, enfrentar as exigências da estética do

teatro musical e, por fim, lidar com a intensa resistência física que essa

rotina pede.


E entre todos os espetáculos musicais que você dirigiu, qual foi o que

mais marcou você em todo o contexto, artística e pessoalmente?

Tá. É como o filho. Então a gente não gosta mais de um do que de outro.

Todos se tornam especiais de alguma maneira para você. Você ama cada

um de uma maneira única. O que eu posso falar foi o musical O Filho que

me deu menos trabalho. Porque difícil sempre é, mas sempre tem

questões técnicas, operacionais, manutenção, a gente fica um ano inteiro

em cartaz. Então muitas questões com elencos, mudança de elenco,

imprevistos, pessoas que adoecem. Tem coisas tristes que a gente

enfrenta, inclusive, sabe? E que a gente não pode deixar o público ficar

sabendo disso. O que menos me deu trabalho, nesse sentido, foi o

Mudança de Hábito, Sister Act, em 2015. Foi o mais sossegado, sim — mais

tranquilo, digamos assim. Mas não se engane: foi extremamente difícil.

Não era só chegar, entrar em cena e reger. Houve muito trabalho por trás

disso.

Foto Crédito: https://entretenimento.uol.com.br/album/2015/03/02/veja-cena-do-musical-mudanca-de-habito.htm


“Vamos favorecer, inclusive, os teatros musicais

autorais brasileiros.

É esse o legado que eu quero deixar.”

Vânia Pajares

Foto arquivo pessoal


E quando você recebe o convite para dirigir um musical, qual é o

primeiro passo? Onde começa o mergulho no processo de criação e

direção musical?

O primeiro passo é mergulhar completamente. Pego tudo o que existe

escrito sobre a obra, não apenas a partitura musical, mas tudo o que se

relaciona à estética, ao estilo, à origem. Se há um livro que deu origem ao

musical, eu leio. Leio tudo o que cai nas minhas mãos.

Eu costumo dizer que, nesse momento, eu como, bebo e respiro a

partitura. Estudo todas as versões possíveis até encontrar a interpretação

que desejo construir. Essa é a minha liberdade enquanto diretora musical

e regente, afinal, nós somos coautores da obra.

Depois vem o trabalho prático: sentar ao piano, colocar a partitura nos

dedos, estudar cada linha vocal, compreender a estrutura, a estética, a

orquestração. Avaliar quais instrumentos serão necessários, o que posso

ou não ajustar nos arranjos. sempre respeitando os limites contratuais e os

direitos autorais.

E, a partir daí, já começo a pensar no elenco: que tipo de vozes essa obra

pede, quem pode dar vida a cada papel.

Mas, acima de tudo, o primeiro passo é esse: estudar. Dia e noite.

Como você consegue equilibrar as diferentes visões artísticas da equipe ,

diretores, cenógrafos, compositores, para que a obra alcance unidade

quando você assume a regência?

O meu departamento é sempre o musical, porém é tudo alinhavado,

conforme você falou e percebeu perfeitamente. A gente sempre respeita

muito a seara do outro, do co-criativo, dos outros criativos, porém a gente

dialoga. A maneira certa é essa. Olha, isso funciona, isso não. Podemos

mudar? Se a gente não pode mudar, temos que adaptar de outra

maneira. É assim que deve funcionar para criar o melhor show do planeta.


Como você trabalha com os cantores e

atores? E de que forma se comunica

com a orquestra para alinhar

interpretação, dinâmica e expressão?

A primeira coisa importante, quando

chego, é ter tudo muito claro. Antes disso,

já realizamos as audições, tanto para os

cantores quanto para os músicos da

orquestra, porque não estamos lidando

com um curso de formação, mas com

uma produção extremamente cara e

profissional. Cada musical tem suas

particularidades, então não dá para

improvisar; precisamos ver as

necessidades específicas de cada papel e

escolher os artistas certos.

O elenco é definido, e no meu primeiro

dia de ensaio, geralmente dois meses

antes da estreia oficial, que é o padrão

que sigo, eu preciso chegar sabendo

exatamente o que quero. Minha

concepção da obra já precisa estar muito

estruturada, incorporada, quase na minha

própria pele.

Claro que vou ajustar e mudar coisas ao

longo do processo, porque o processo

criativo exige flexibilidade. Mas o mais

importante é chegar no primeiro dia com

a linha interpretativa que pretendo seguir

já muito clara.

Depois vêm os ensaios de sala, tanto com

os solistas quanto com o ensemble, o

coro, onde passo todas as diretrizes.

Como todos já passaram pela audição,

são profissionais experientes, dominam

bem suas vozes e sua técnica.

Nesse momento, eu direciono os

detalhes: aqui o andamento será assim,


ali a regência segue dessa forma, neste

ponto você tem liberdade para usar um

drive ou explorar um efeito vocal diferente.

São orientações gerais, mas fundamentais

para a unidade do espetáculo.

Com o coro, o foco é sempre a sonoridade

do conjunto, o equilíbrio entre as vozes. E,

claro, conto sempre com um assistente,

porque o tempo de ensaio é curto e

precisamos aproveitar cada minuto da

melhor forma possível.

É alguém que trabalha comigo, lado a

lado. Juntos, cuidamos dessas

sonoridades, desse refinamento musical.

Temos, em média, um mês de preparação

para levantar toda a parte musical e

cênica antes de irmos para o espaço de

apresentação, onde acontece a “ mise-enscène”

a integração final entre som, cena e

movimento.

O musical muitas vezes envolve a

sobreposição de som amplificado

,microfones, efeitos, com a orquestra

acústica. Como você lida com o equilíbrio

sonoro e a articulação musical nessas

circunstâncias?

Isso tem uma resposta só, eu tenho que

ter o melhor sound designer comigo. O

desenho de som, o criativo responsável

pela cadeira de som, ele tem que ser o

meu parceiro amado, que vai valorizar

cada nota que os meus meninos vão

cantar, cada nota que os meus meninos

vão tocar, chegar no equilíbrio, é isso.

Porque, realmente, quando foge do

acústico, você precisa de alguém que seja

um mago.


Eu tenho algumas pessoas maravilhosas que já trabalhavam comigo,

“parceiraças”, porque o bom sound designer vai valorizar cada som que

você concebeu e que você produziu junto com o seu grupo. É assim.

Que estratégia você usa para manter a coesão entre a orquestra e o

elenco, especialmente se há pequenas latências ou atrasos?

Ah, não, isso aí não existe. A gente ensaia tanto... Que não tem espaço

para isso. Chega assim, tudo bonitinho. Agora, se acontecer algum

imprevisto, como se trata de profissionais...É no braço, “vem aqui”, tipo isso

aqui, “não vai, espera.” É no gesto. É na experiência também. Aí conta

muito a experiência da pessoa que já faz isso há muito tempo.

A vasta experiência que você tem na regência te proporciona esse

domínio.

Sim. Eu comecei a reger musical, mas ninguém sabe que eu já regia

indiretamente há muito tempo no Teatro Municipal de São Paulo,

quando eu fazia maestro interno e correpetição, que você tem que reger

do piano. E, aliás, é por isso que deu tão certo, por essa pluralidade de

competências, de capacitações, entendeu? Eu acho que é o lugar onde

eu tenho que estar mesmo, porque nunca foi fácil, tá? Porque às vezes

falam, “ai, tudo é fácil para a Vânia”. Nunca foi fácil. Continua não sendo,

e nunca será. Eu estudo muito. Mas essa abertura de visão, de entender

que música e cena envolvem tantas nuances, tantas coisas, dá um jogo

de cintura que é insubstituível. Então, é dessa maneira. É prática, é

prática.

O que mais desperta o seu interesse quando você recebe um convite

para reger um musical?

O que me atrai é saber que vou estar à frente de algo tão global, tão

universal, um espetáculo que reúne todos os elementos: cena, música,

figurino, cenário, luz, sonoridades. Isso, para mim, é algo indescritível.

Estar ali me dá um prazer imenso.


Muitas vezes eu já disse: é o lugar onde eu tenho que estar. É o meu

melhor lugar. É impressionante, realmente. Eu me sinto alimentada

por isso, profundamente.

Então, na verdade, eu não apenas aceito o convite, eu sou chamada

por ele. O que me atrai é justamente esse fazer artístico, essa entrega

total. O desafio também me move. Eu amo um bom desafio.

Eu amo ser colocada à prova, sabe? Aquela sensação de pensar: ‘Será

que eu consigo?’ e então dizer: ‘Eu vou!’ (risos). Isso me move.

Mas, acima de tudo, eu tento sair da individualidade. Penso sempre

no coletivo, no universal. Gosto de pensar que estou expandindo a

arte, levando-a para muitas pessoas, inspirando, transformando,

curando também a minha alma nesse processo, enquanto alimento

e sou alimentada pela arte.

Isso, para mim, é grandioso. É um ideal que me guia. E, claro, às

vezes preciso colocar os pés no chão ,mas acho que tenho

conseguido equilibrar bem esses dois mundos.


Como é que você vê o panorama atual do teatro musical no Brasil? O que

evoluiu? O que ainda falta? E quais são os grandes desafios?

Os grandes desafios estão aí. Hoje há um número enorme de títulos

sendo encenados, o que é maravilhoso. Mas, ao mesmo tempo, acredito

que o maior desafio do momento é valorizar mais o teatro musical

brasileiro.

Quando falo disso, é importante distinguir: há o teatro brasileiro de

gênero musical como, por exemplo, A Ópera do Malandro, um clássico, e

há o teatro musical biográfico, como os espetáculos sobre Elis Regina e

outros grandes artistas.

Mas o que eu defendo é o teatro musical brasileiro em sua essência

aquele em que a dramaturgia nasce junto com a música, em que ambas se

entrelaçam de forma orgânica. Esse movimento já começou, há iniciativas

lindas surgindo, mas ainda precisamos de muito mais.

Acho fundamental encontrarmos o nosso próprio modo de fazer teatro

musical, a nossa identidade estética e cultural. Precisamos romper esse

paradigma de que teatro musical é, necessariamente, uma estética de

língua inglesa. Temos uma riqueza imensa de histórias, ritmos e

sonoridades que merecem ocupar esse espaço.


Em que medida você acredita que a regência do teatro musical deve dialogar com

a inovação tecnológica, como recursos de multimídia, som, luz e projeções, sem

perder o caráter expressivo e musical da obra?

Dá para fazer as duas coisas tranquilamente. A tecnologia já faz parte do

nosso dia a dia. Por exemplo, quando preciso criar um arranjo, uso o

MuseScore para trabalhar nele.

Durante a regência de um musical, também utilizo recursos tecnológicos:

estou com meus fones de ouvido, com o Aviom, um mixer individual, para

equilibrar e misturar o som em tempo real. Tudo é computadorizado, com

Samples, porque, muitas vezes, é difícil encontrar certos instrumentos, como a

harpa, ou até os músicos especializados. Desde que eu comecei a reger, a

gente já fazia isso. E a gente consegue, sim, manter a qualidade artística, a

expressão. A qualidade humana nunca vai se perder.

Não tenham medo da inteligência artificial, não há comparação possível. Ela

pode e deve ser usada como uma assistente, uma secretária, digamos assim.

Eu mesma uso bastante, mas sempre como apoio, nunca como substituição.

Porque há algo que a tecnologia não alcança: essa alegria, esse prazer

profundo, esse entusiasmo quase divino que sinto quando estou regendo.

Esse ‘Deus dentro’ de nós, nenhuma inteligência artificial jamais vai ter

.

Qual o legado que você gostaria de deixar para a nova geração de regentes,

diretores musicais e músicos envolvidos principalmente com os musicais no Brasil?

Perfeito. Mulheres, assumam o seu lugar! Primeira coisa: não tenham medo.

Desbravem, aprendam pela prática.

Vocês vão enfrentar muito preconceito, eu ainda enfrento e enfrentarei

sempre. Mas sigam em frente. E, independentemente do gênero, estudem:

estudem músicos, atores, cantores. Sejam sérios. No Brasil, talento não falta,

ele transborda. O que falta, muitas vezes por uma questão cultural, e aqui me

incluo ,é disciplina.

É possível ser brasileiro e disciplinado sem perder a vida, a alegria, a paixão

pelo que fazemos. Isso é o que nos diferencia. Continuem fazendo, porque à

medida que mostramos nosso trabalho, o investimento público e privado

percebe: ‘Olha só que lindo!’ E assim aumentam as produções.

E para quê? Para que o Brasil seja o que merece: um lugar de cultura, uma

cultura brasileira viva, plural e reconhecida. Vamos favorecer, inclusive, os

teatros musicais autorais brasileiros. É esse o legado que eu quero deixar.


Recentemente, eu vi uma discussão entre maestra ou maestrina.

Isso é complexo. É, é complexo mesmo.

Veja, não me incomoda me chamarem de maestrina, está tudo bem. Pode me

chamar de Vânia também, é o nome que meus pais me deram, e eu gosto

dele.

A questão é a seguinte: a forma erudita, correta, é maestrina, o feminino de

maestro. Só que maestro, como você bem sabe, vem do espanhol e do italiano

e significa “professor”. E, nesses idiomas, o feminino seria maestra.

Só que maestra não é considerada norma culta no Brasil.

Então, veja, por isso eu digo que não me incomoda tanto. O que realmente me

incomoda é o desrespeito. Se quiserem me chamar de maestra, podem

chamar. No dicionário, maestrino é um regente menor, um regente de música

mais simples, e isso, por si só, já carrega um preconceito. As mulheres já

enfrentam tantos, não é? Mais esse ainda...

Mas, sinceramente, não me afeta. Eu até falo maestra de propósito, mesmo

sabendo que o termo correto é maestrina. No fim, tanto faz. É uma discussão

válida, claro, mas há tanta coisa mais urgente para discutirmos antes… Então

deixo esse tema na prateleira, para outro momento.

Dá pra traçar um paralelo. Você é o quê? “Sou músico.” Mas você é uma

mulher, e musicista? No português do Brasil, musicista é visto como algo

amador. É um problema do nosso idioma, lindo, mas cheio dessas armadilhas.

Veja, até a Elis Regina dizia: “eu sou músico”. A Alcione também. Duas

mulheres cis que sempre afirmaram isso. Porque, para elas, e pra muitas de

nós, musicista soa amador. E esse é o desafio: a língua, às vezes, não

acompanha o nosso tempo.

Durante suas apresentações, já aconteceu alguma falha técnica inesperada , como

problema de som, por exemplo? Conta pra gente alguma história marcante dessas

situações.

Nossa, muitas, muitas, muitas. Ah, já lembrei de uma. Justamente naquele

musical que eu comentei... É curioso, porque foi o “filho” que menos me deu

trabalho, mas, claro, deu trabalho também.

E foi numa apresentação... Posso contar algo triste? Foi no dia em que meu

pai faleceu. Eu estava regendo e não sabia que ele tinha morrido.

Deus me protegeu, sinceramente, porque eu não sei o que teria sido de mim

se soubesse. Ele estava ótimo, e, de repente, caiu morto. Só soube depois.


Eu estava no fosso da orquestra. Mesmo hoje, mais de dez anos depois,

ainda me emociona lembrar.

Era uma cena importante, toda dependia dele. Tinha uma mudança de

cenário, a música marcava essa transição, então muda a luz, entram os

atores... Tudo certo. Mas, naquele dia, entrou todo mundo, menos o

principal.

Eu percebi. A música terminou, e era uma cena longa. Cortei, o elenco

entrou, sentei, esperei a deixa do outro ator... mas ela nunca veio. Sabe

quando tudo começa a dar errado? Foi assim. Uma sequência de falhas,

uma energia estranha no ar. E, depois, eu soube o porquê.

E aí eu percebi que os meninos, os que estavam em cena, começaram a

improvisar.

No instante em que me levantei, peguei a batuta e chamei os músicos.

Eles também já estavam meio relaxados, achando que a cena seguiria

normalmente. Mas, de repente, todos voltaram à ativa, pegaram os

instrumentos rapidinho.

Pelo microfone interno, aquele que só eles escutam, o do PA, eu disse:

“Compasso 25, atenção! E... um, dois, três e... vai!”

E a cena mudou de novo, tudo se encaixou. O público nem percebeu o

que aconteceu. E é isso, esse é o nosso papel, o nosso objetivo. Fazer com

que nada disso transpareça. Que a mágica continue acontecendo, mesmo

quando tudo sai do planejado. Você entende como a direção musical tem

que conhecer o show a fundo? As cenas, as falas, os personagens, não é

só a música. Eu tenho que conhecer o show inteiro. Porque se algo tá

errado, se um cenário demora pra entrar, eu estou aqui, eu seguro,

continua tocando, continua tocando, continua tocando, já acabou a

música, mas eles seguem tocando. Aí, chegou no ponto que tinha que

entrar, resolveu. Relaxou.

Falando agora sobre o público: houve algum momento inesperado ou

marcante vindo da plateia que ficou gravado na sua memória?

Ah, várias situações desagradáveis. Sempre tem gente desrespeitosa, essa

praga dos celulares na plateia, por exemplo, é uma coisa absurda.

Tem gente que fala durante o espetáculo, canta junto, antecipa falas…

Isso está acontecendo cada vez mais.

Não vou nem citar nomes, mas tem musical por aí em que o público

praticamente narra a história junto!


Mas, sinceramente, isso sempre existiu

, a diferença é que agora está mais

frequente. Sempre há alguém

inconveniente.

De qualquer forma, eu prefiro falar

das coisas boas que já vivi com o

público, tá?

Essa história eu conto em todo

workshop que já dei. Eu tenho um

ritual antes de reger. Subo ao pódio,

confiro se está tudo em ordem, os

músicos chegam, afinam os

instrumentos… e então me sento para

esperar o terceiro sinal, o momento de

começar o espetáculo.

Sempre faço uma pequena entrega

interior. Dedico o show a Deus, ao meu

Eu Superior, chame como quiser: o

Universo, a energia maior, enfim.

Depois, olho para a plateia e escolho

uma pessoa.

É para ela que vou reger naquela

noite. Toda a energia vai para o

público, claro, mas de forma especial,

para aquele alguém.

Normalmente escolho uma criança,

porque é a primeira vez que está ali,

ou uma senhorinha, um senhorzinho...

alguém que me toque de alguma

forma.

Nesse dia, lembro perfeitamente, na

primeira fileira havia uma senhora

lindíssima, uma mulher preta, parecia

uma deusa etíope. Maravilhosa.

Olhei para ela e pensei: “Hoje, é para

você.”

Se não me engano, isso foi em 2011,

durante o Evita, lá no Teatro Alfa, que,

inclusive, depois mudou de nome.

E, ao final da apresentação, essa

senhora se aproximou de mim e

disse: “Olha, vocês acabaram de me

criar um problema enorme.”

Nossa, eu fiquei sem saber o que

dizer. Pensei: “Meu Deus, o que

aconteceu? O que a gente fez?”

E ela respondeu:

— Essa foi a coisa mais linda que

eu já vi na minha vida. Agora, não

consigo mais viver sem isso.

Foi fantástico. Eu fiquei tão tocada!

É exatamente isso que faz o nosso

trabalho valer a pena.

E ela, toda poderosa, respondeu:

— Diva, claro, né? Olha a própria!

(Risos)

Mas foi um retorno maravilhoso.

E o mais incrível é que, tempos

depois, em outro musical, em outro

teatro, ela apareceu de novo.

Chegou pra mim e disse:

— Diva, você lembra de mim?

Claro, como esquecer!

Se você pudesse voltar no tempo e

dar um conselho a Vânia, mais jovem,

no começo da carreira, qual seria?

Tenha mais calma, não se cobre

tanto. A gente não muda a

natureza. Então, assim, tenha mais

calma, isso significa tudo o quê?

Confia, tenha paciência, segue o

fluxo, segue o seu caminho,

continue fazendo. E não se cobre

tanto, permita-se errar, porque no


erro está a maior parte do aprendizado.

E se você for uma nota musical, qual será essa nota?

Ai, que difícil! Acho que um mi bemol. Eu gosto de mi bemol.


FESTIVAIS‌

DE TEATRO

por Roberto Lívio

International Theatre Festival of Kerala (Índia)

Localização: Thrissur, estado de Kerala, Índia.

Periodicidade: acontece todo ano, em dezembro.

Pontos de interesse: reúne grupos internacionais e

locais de teatro independente/experimental.

Por que pode interessar para você: se o seu

projeto de orquestra ou espetáculo quiser

aproveitar o “clima de fim de ano”, ou conectar

com festivais internacionais, esse é um bom

exemplo de evento nessa época.


Theaterfestival Spielart (Munique, Alemanha)

Localização: Munique, Alemanha.

Período: ocorre em novembro e dezembro (15-

17 dias nessa janela) em seu calendário regular.

Foco: teatro independente, abordagens

experimentais da arte cênica.

Relevância: mostra que há festivais de

teatro ativos no fim do ano em contextos

internacionais, o que pode inspirar formatos

ou programações para a sua orquestra ou

projeto de divulgação.

BOSKA KOMEDIA / Divine Comedy International

Theatre Festival (Kraków, Polônia)


Localização: Cracóvia (Kraków), Polônia. krakow.travel

Data: Inicia em 6 de dezembro de 2024.

krakow.travel

Tema exemplo: a edição 2024 usa o mote “You Are

So Fucking Special” para refletir sobre identidade,

singularidade e contexto social. krakow.travel

Utilidade para você: mostra como um festival pode

ter um tema forte, o que pode ajudar a moldar o

estatuto ou plano de divulgação de sua orquestra,

“fechando o ano” com um tema marcante.


Concurso para modelos plus e

acima de 60 anos!

A Revista ICONIC, lança o concurso

“Sou mais Plus”

Para participar e receber o regulamento:

e-mail: revistaiconic3000@gmail.com

Haverá premio em $$$


Alimentos

importantes que

ajudam no

crescimento do

cabelo

por Tamires Nogueira

Nutrientes-chave e alimentos

ricos

Proteína: O cabelo é formado

principalmente por queratina,

uma proteína. Uma ingestão

insuficiente de proteína pode

levar à queda de cabelo.

Exemplos: ovos, carnes

magras, peixes.

Ferro: O ferro transporta

oxigénio para os folículos

capilares; deficiência pode

causar queda.

Exemplos: carnes

vermelhas magras,

mariscos, feijões, folhas

escuras.

Ômega-3 (gorduras

saudáveis): Protegem os

folículos capilares de estresse

oxidativo.

Exemplos: peixes

gordurosos (salmão,

cavala), sementes de chia,

linhaça.

Vitaminas A, C, E, D, e minerais

como zinco e selénio:

Importantes para o crescimento

capilar e saúde do couro-cabelo.

Exemplos de alimentos:

Vitaminas C: frutas

vermelhas, pimentões,

laranja.

Folhas verdes escuras:

espinafre, couve — boa

fonte de ferro, folato,

vitamina A.

Ovos: boa fonte de

proteína, biotina, zinco.

Biotina (vitamina B7) e outras

vitaminas do complexo B:

Contribuem para a formação

da queratina.

Todos os dias: inclua uma

fonte de proteína (como ovo

ou peixe), uma porção de

folha verde escura, uma fruta

rica em vitamina C, e

algumas nozes/sementes.

2-3 vezes por semana: peixe

gorduroso (ômega-3) ou

marisco rico em zinco.


Evite dietas extremamente restritivas ou com pouca proteína/ferro, pois

isso afeta o cabelo.

Cuidado com suplementos: só se houver deficiência comprovada, e com

supervisão.

Alimentos específicos muito recomendados

Ovos: fonte excelente de proteína e biotina.

Peixes gordurosos (como salmão): ômega-3 + proteína.

Folhas verdes escuras (espinafre, couve): ferro, folato, vitaminas.

Frutas-vermelhas, pimentões, etc: vitamina C e antioxidantes.

Nozes e sementes: boa fonte de vitamina E, zinco, gorduras boas.

Mariscos (ostras, etc): rico em zinco, que participa do ciclo de

crescimento do cabelo.

Como cuidar do cabelo (além da alimentação)

Mantenha boa hidratação: o couro-cabelo seco dificulta o crescimento

capilar saudável.

Evite deficiência de nutrientes: embora suplementos existam, sem

deficiência demonstrada seu benefício direto para crescimento capilar é

limitado.

Tenha bons hábitos de cuidado capilar: cortes regulares para evitar

pontas duplas, escovação adequada, evitar excesso de calor ou produtos

agressivos.

Cuidar do couro-cabelo: boa circulação, limpeza, evitar estresse

excessivo e tensão no couro cabeludo favorecem o crescimento.

Atenção à dose: nutrientes em excesso (vitamina A, selénio, vitamina E)

podem provocar efeitos adversos, inclusive queda de cabelo.


VOCÊ TEM

1 SEGUNDO

A vida é passageria. Faça o máximo!

Diga NÃO a qualquer tipo de pré - conceito


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atendimento somente via whatsapp






Laura Finocchiaro é uma das vozes mais

marcantes da música contemporânea

brasileira, reconhecida tanto pela

técnica impecável quanto pela

capacidade de transmitir emoção em

cada interpretação. Com uma carreira

consolidada, ela transita com

naturalidade entre diferentes estilos,

mostrando versatilidade sem perder a

identidade artística.

Sua importância para a música vai além

do palco. Em sua entrevista, pude

perceber o quanto Laura contribui para

a valorização da cultura brasileira,

dialogando com diferentes públicos e

ampliando o acesso à música de

qualidade. Além disso, é referência para

novas gerações de músicos e cantores,

inspirando-os a unir disciplina técnica e

sensibilidade artística.

foto by Fernanda Chemale

LAURA

FINOCCHIARO

ENTREVISTADA POR

REGINA PAPINI STEINER

Participações em festivais, programas de

televisão e projetos colaborativos

consolidam sua imagem como uma

artista completa, cujo trabalho tem

impacto significativo na formação

cultural do público e na cena musical

nacional. Em cada performance, Laura

Finocchiaro reforça a relevância da

música como expressão artística, veículo

de emoção e instrumento de

transformação social.

Laura Finocchiaro é muito mais do que

uma intérprete: é uma referência de

dedicação, talento e influência no

cenário musical brasileiro, contribuindo

para a preservação e inovação da

música, e deixando um legado

duradouro para todos os artistas.

Regina Papini Steiner


Como você enxerga o papel do

artista nos dias de hoje?

Eu tenho sentido, primeiro, assim, eu

estou buscando me conectar com as

pessoas e estou sentindo muita

dificuldade. Não sei se é porque eu

tenho 63 anos e as pessoas se

assustam com o cabelo branco e

com o tamanho da história que é

gigantesca e não tem como negar,

né?

Só que a gente vivendo nesse mundo

que a gente vive capitalista,

neoliberalista, e onde os valores são o

poder e o dinheiro, parece que uns

são mais importantes que os outros.

Porque o que a gente viveu, eu não

posso jogar fora, mas já teve um

empresário que falou: “Laura, esquece

o teu nome, vamos mudar o teu

nome, eu te ponho em uma pista, tu

viras DJ internacional”, isso tem uns

20 anos atrás, e ele : “Esquece a tua

história porque a tua história é muito

grande e não vai acontecer”. Um

grande empresário de música

eletrônica, de coisa de DJ e tal, e eu

falei para ele, me desculpe, mas eu

não vou jogar fora. Se eu acertei ou se

eu errei, eu não sei, mas é a minha

história. Eu vejo um mundo onde as

pessoas têm a ilusão de estarem

conectadas porque a gente tem

todos os meios à nossa mão, mas, na

verdade, eu acho que a gente está

cada vez mais desconectado, não só

uns com os outros, mas com nós

mesmos.

É uma desconexão... não se

sabe mais comer, não se sabe

mais amar, não se sabe mais

fazer uma massagem, não se

sabe mais escutar o outro,

então a gente está perdendo a

sintonia fina. E tudo isso por

excesso de tela, excesso de

informação que vai causando

um nível de ansiedade muito

grande e as pessoas estão se

perdendo delas próprias. A

nível cultural acho que é um

ladeiro abaixo, não que não

tenham talentos, mas quem

tem talento não consegue

mostrar.

Você que tem se dedicado a

preservar a originalidade

sonora e poética, como tem

sentido esse desafio na

prática?

No governo Lula, com a

Margareth Menezes à frente do

Ministério da Cultura, houve

preocupação em adaptar os

editais. Eu preciso dizer: eu

escrevo, tento me fazer ouvir,

mas não adianta. Não tenho

cacife, nem pretendo criar um

partido para isso, eu não tenho

saco, sou roqueira, não sou

política.

Eu mando meus recados, mas,

pelo visto, eles não estão

chegando. O que eu digo para

ela e para todos que querem


cuidar da cultura é que não basta

apenas criar um edital e

disponibilizar dinheiro. É preciso

mudar conceitos, amparar de todas

as formas.

Não adianta um grupo, mesmo

pequeno, receber um fomento, e o

governo dizer: “Nós estamos

apoiando, olha, a verba foi para

fulano.” Se culturalmente o cenário

está prejudicado, é necessário um

trabalho de base, inclusive na mídia.

O governo também precisa investir

na divulgação.

Porque a gente até consegue acessar

os editais, mas não conseguimos

captar público. Recursos existem,

podem vir alguns para nos ajudar,

mas o público já se perdeu: perdeu o

hábito de ir a teatros, a shows, de

pagar ingressos. Isso precisa ser

recuperado, reconquistado, e o

governo tem que apoiar nesse

processo.

Não adianta só colocar dinheiro para

a realização de um projeto; é preciso

fazer a mídia chegar junto. Muitas

vezes, quando você pega um edital,

percebe que o valor destinado ao

projeto seria mais adequado para

investir em divulgação, se quisermos

realmente começar a reconstruir o

público e a cultura. Então não tem

concorrência, porque a gente não

consegue pagar a mídia, então a

gente está sempre no fim da linha, eu

falo a gente como assumindo o meu

lugar de artista independente, com

muito orgulho que eu tenho.

Então é isso. Eu acho que até

existem reuniões, mas os

grandes artistas, que

poderiam politicamente abrir

caminhos, não o fazem de

fato. Eles até aparecem,

lutam pela visibilidade,

fazem passeatas, participam

de movimentos como a

Anistia… É lindo de ver. Às

vezes ainda colocam um

artista jovem no palco, mas

isso não é suficiente.

Desculpe, não está ajudando

de verdade — muitas vezes

estão ajudando apenas o

próprio bolso.

Está tudo bem complicado. E

você, que viveu intensamente

esse cenário nos anos 80 e

90, sabe como era diferente.

Nos anos 80, eu tinha a

impressão, e acho que você

compartilha da mesma

percepção, de que havia uma

comunhão geracional, um

engajamento coletivo que se

perdeu hoje. A gente não

tinha a impressão que a

gente ia mudar o mundo?


Todo mundo acreditou, depois então

do movimento hippie, e do

movimento da contracultura, e

depois da guerra, e o Vietnã que

resistiu, e passou a segunda guerra, e

foi aquela contracultura, aquele

movimento de liberdade, libertação,

amor livre, consciência, e vamos

derrubar o sistema, e vamos ser

natural, eu sou natureba, não como

carne desde essa época dos anos 70,

vamos revolucionar o mundo com

amor, paz e amor, não era esse o

lema? E a gente começou a transar

com todo mundo, de manhã, de

tarde, de noite, graças a Deus. E não

importava se era homem ou se era

mulher, era amor. Eu estava vivendo

isso, eu estava ouvindo os mestres,

fazendo yoga.

O que você acha que aconteceu com

os artistas dessa geração? Será que

os grandes grupos acabaram

absorvendo ou sufocando o talento

independente?

Começou aquela coisa: os grandes

conglomerados começaram a nos

engolir. Eu percebi que tudo estava

acontecendo, nossas ideias sendo

apropriadas, sugadas e

transformadas em produto

comercial, sem respeito pelo

trabalho original. O mundo implodiu

de novo, e a nossa ideia de quebrar o

sistema por dentro não aconteceu.

Eu tinha como ídolos, além

dos Mutantes e da Rita Lee, a

Elis Regina, toda a cena dos

festivais, Tom Zé, Chico

Buarque, a Tropicália, a Jovem

Guarda… E, claro, tudo o que

tinha acontecido com a

música progressiva e aquele

“desbunde” do rock.

Quando vim para São Paulo

fazer shows, tinha o Arrigo

Barnabé, a Itamar Assumpção,

o Teatro Lira Paulistana, que

fervia de público. Lotava! E

quanto mais ousado ou louco

era o trabalho, mais o público

aplaudia.

Era Língua de Trapo,

Premeditando o Breque,

Grupo Rumo… e cantoras

maravilhosas como Vânia

Bastos, Tetê Espíndola, Ná

Ozzetti. Era uma verdadeira

riqueza cultural e criatividade.

Quanto mais louco o projeto,

mais o público amava.

Nesse momento eu também

tenho um programa numa

rádio pirata, a Antena Zero, é

uma web rádio que toca

música 24 horas no ar. Eu tive

a honra de entrevistar o

filósofo e músico que é o

Vladimir Safatle. Ele tem um

trabalho musical que

realmente quebra tudo:

mistura música erudita com

contemporânea. A filha dele

canta divinamente, e ele só

trabalha com divas que têm


essa força vocal, construindo tudo

com muita inteligência. Ele ainda

consegue trazer filosofia para a

música, algo que é raro.

Nessa entrevista, eu decidi focar

apenas na música dele. São apenas

58 minutos, então não dava para me

aprofundar tentando entender toda a

cabeça dele, mas aconteceu, e foi

político. Nos anos 80, todo mundo

acreditava que íamos quebrar o

sistema por dentro, não era só uma

questão musical. Mas acabou

implodindo. Ele fala sobre isso na

entrevista, apresenta sua teoria, e faz

todo sentido. O que aconteceu

depois é que o mundo foi se

tornando cada vez mais artificial,

como se estivesse ficando de

plástico. A gente viu a AIDS parando

o sexo. Eu vivi isso na pele. Minha

irmã mais velha, que era outra

pessoa, merece destaque nessa

entrevista: Lory Finocchiaro a maior

rockeira, que infelizmente não pôde

continuar, porque faleceu aos 34

anos. Ela foi baixista, compositora,

minha musa. Lory, teve curtametragem

premiado, virou ícone, e

mesmo depois de 30 anos a obra

dela continua influente, retratando

sua vida intensa de drogas e

rock’n’roll.

Eu e minha outra irmã; Débora

Finocchiaro, que é atriz, uma

estrelíssima, e estreia em Porto

Alegre num espetáculo sobre

mulheres, premiadíssima; ajudamos

Lory a atravessar esse momento

difícil.

E foi assim que nós sentimos,

na pele, o preconceito.

Aquele preconceito matava,

desagregava amigos,

familiares e nossa sociedade.

Tudo isso amplificado pelo

silêncio do governo. Foi um

genocídio silencioso até

conseguirem liberar o AZT,

que era um medicamento

problemático, mas ainda

assim melhor do que nada.

Lory Finocchiaro

FERNANDA CHEMALE/DIVULGAÇÃO/JC

Então, amiga, a partir daí, do

sexo, do meu primeiro

grande trauma, daquele

amor, tudo acabou ali. Foi

nesse momento que eu me

tornei militante, comecei a

cantar nas paradas, a ajudar.


Mas eu sempre fui tão louca, como

sou até hoje, que eu não ajudava

apenas as lésbicas. Percebi que a

questão maior era o amor em si, que

estava em prova: homem, mulher,

gay, bi, trans… Até hoje meu

pensamento é assim, e ainda não é

completamente compreendido.

Não fui levantar uma bandeira

esperando reconhecimento; não

surgiu um selo dizendo “isso é cultura

lésbica”. E eu falei: “Não, eu não sou

só isso, eu não sou lésbica., eu sou

humana.

E o movimento dizia que eu era

covarde, porque eu não queria

assumir que era lésbica. Mas eu

sempre dizia: desculpe, é muito além

disso.

Para lidar com a morte da minha

irmã, busquei o budismo. Cheguei a

fazer um CD de mantras, que se

tornou um dos mais ouvidos.

Participei por quatro anos,

aprendendo com a mãe do Lama

Michel, Bel Vilares, uma mestra em

budismo.

Eu fui cultivando esse lado espiritual

que já tinha e tentando trazer essa

perspectiva para a nossa cultura gay.

Mas não passava, porque ninguém

queria falar de amor. Ninguém quer

falar de amor de verdade. É remédio,

é AZT, é AIDS… mas não é amor.

Esse amor que eu defendo virou alvo.

Já fui atacada, quase cancelada,

porque disseram que minhas

palavras eram de plástico, que esse

amor que eu falo não existe, que é

coisa de branco… Burguês branco,

foto by Thiago dos Reis


foto by Fernanda Chemale


Como foi para você, nesse período

de intenso posicionamento político,

familiar, e social, trabalhar no

programa TV Colosso?

Foi a salvação.

É aí que eu vejo como sou protegida,

e como vale a pena continuar sendo

louca do jeito que sou, no sentido de

acreditar que sempre pode melhorar.

Ter uma fé absoluta: mesmo quando

tudo parece desabar, eu continuo

acreditando. E acredito de verdade,

nos anjos, na proteção de Nossa

Senhora.

E sempre, quando tudo parece

perdido, algo bom acontece. No meu

caso, foi a TV Colosso. Entrando

naquele momento de dor, com a

AIDS, a morte da minha irmã, o peso

do preconceito, eu vi uma luz. Fui

para Porto Alegre, vivi aquela

experiência, ajudei a família, levantei

a cabeça e continuei.

Eu mixei o disco dela. Minha irmã foi

guerreira e gravou seu álbum: Lory F.

Band, que depois entrou na lista dos

50 melhores.

No hospital, ela me pediu: “Laura,

mixa o disco pra mim. Só não tenha

pressa, minha música só vai ser

descoberta daqui a 20 anos.”E foi o

que aconteceu. Mas eu tive pressa,

pensei: “Essa fita pode se perder.”

Então, na mesma semana em que ela

morreu, entrei no estúdio e finalizei o

trabalho. Enquanto eu ainda

desmontava o quarto dela, em Porto

Alegre, o telefone tocou. Era

uma produtora do Luiz Ferré,

criador e diretor da TV

Colosso. E ela falou, Laura, a

gente vai fazer um programa,

infantil, e a gente está

buscando pessoas que

possam trazer alguma coisa

nova. A gente lembrou de ti.

Tu não quer tentar fazer

música pra cachorro? Como é

que é isso? Mas eles também

não sabiam direito. Não tinha

um briefing ainda. E foi ali

que uma nova fase começou.

Ele tinha a ideia de um

programa com personagens

de cachorros, mas nada

definido. Não sabia se queria

algo eletrônico, acústico,

mais careta, nada estava

claro. Era tudo muito

intuitivo, cheio de emoção.

Nesse clima, eu topei na hora

e chamei minha parceira de

sempre, a Leca Machado.

Sabe aquela pessoa que olha

uma flor e já transforma em

poesia? Ela é assim, a própria

poesia em forma de gente.

Além de poeta, a Leca é

redatora publicitária, então

tem um senso de ritmo e

criação muito rápido. Eu

disse: “É tipo produção,

vambora fazer!”, e a mágica

começou ali.


foto by Thiago dos Reis

Então, a gente misturou emoção com necessidade, ela precisava de

dinheiro, eu também. E, claro, não queríamos perder a oportunidade

de fazer um trabalho para a Rede Globo. Imagina: duas artistas

independentes, naquele momento da vida!

Eu ainda chorava muito, estava tomada pela dor, e esse convite veio

como um respiro. Foi como se Deus tivesse colocado aquilo no meu

caminho. Eu precisava compor música para crianças e não podia ser

qualquer música. Tinha que ser boa, divertida, verdadeira.

E foi um processo de cura.

O resultado? Dez sucessos. Não um ,dez!

O trabalho que eu e a Leca criamos serviu de referência para todo o

programa. A partir das nossas músicas, os outros compositores

encontraram uma base.

E o mais incrível: essa base nasceu de duas mulheres.

Os homens ficavam enlouquecidos. Quando viam a gente, olhavam

procurando o resto da equipe “cadê o pessoal?”, pensavam.

Mas não tinha ninguém. Era só a gente.


Como você enxerga o machismo no meio artístico e de que

forma aprendeu a lidar com ele ao longo da sua trajetória?

Em todos esses meus 43 anos de carreira, eu carrego uma

revolta enorme contra o machismo e com razão. Eu enfrento

isso desde o começo.

Quando comecei, eu já saí pro mundo sendo cantora,

compositora e guitarrista. E isso, naquela época, foi um

choque. Muita gente não aceitava.

E eu não parava por aí: fazia meus próprios arranjos, escrevia

as partituras, criava tudo. Era uma verdadeira guerrilha

artística nos anos 70 uma mulher fazendo tudo isso sozinha.

Eu chegava com tudo pronto: a composição escrita, gravada,

arranjada. Claro, não era num grande estúdio da Som Livre, era

no improviso, com um amigo que topei pelo caminho. Muitas

vezes eu dava parceria pra ele nas músicas, porque não tinha

como pagar. Eu dizia: “Vira meu parceiro.” E ele topava.

Foi assim que consegui gravar. Imagina: uma mulher jovem,

sem grana, em São Paulo, tentando viver de música. Eu vim

pra cá com 19 anos pra fazer um show e nunca mais fui

embora.

Como foi pra você viver e expressar esse momento de

descoberta e afirmação da sua identidade?

TV Colosso foi uma grande oportunidade de colocar em

prática todo o meu saber musical. Naquele momento, em 1993

o mesmo ano em que a Lory faleceu, eu já tinha cerca de dez

anos de carreira, mas estudava música desde os nove. Ou seja,

já trazia umas três décadas de vivência musical dentro de

mim. E eu senti: é agora.

O mais incrível é que, naquela época, eu já era assumidamente

gay. Já frequentava a noite, era muito livre. Nunca deixei

ninguém me prender e isso foi uma vantagem enorme na

minha vida.


A primeira pessoa a quem eu contei que era lésbica foi a

minha mãe. Eu pensei: não vou carregar culpa por ser quem

eu sou. Então fui e contei. Ela aceitou, ou não, mas o fato de

ela saber já resolveu tudo pra mim. Foi libertador.

Depois disso, percebi que muita gente sofria, se escondia, e eu

achava estranho, porque eu me sentia em paz. E levei toda

essa vivência, essa energia das pistas noturnas, do universo

gay, para a música infantil.

Como foi revisitar Malabi e dar uma nova leitura a uma obra

tão marcante da sua trajetória?

Aí o que aconteceu? Depois de 30 anos, o Canal Viva colocou

tudo no ar de novo. Só que dinheiro? Nunca mais. O dinheiro

foi naquela época, e depois… tchau, baby, tchau, tchau. Vai

entender. Já nem tento mais. Querem até roubar a Ronda.

Deixa pra lá. Pra mim, Nossa Senhora me ajuda. Fome eu não

passo. Então, que se dane.

Um maestro super sério me disse uma vez: “Laura, se você

estivesse nos Estados Unidos, só com essas dez músicas que

fez para a TV Colosso, você teria cobertura e limusine. Só com

a TV Colosso!”

Então, pra você ter ideia… eu não tenho nem limusine, nem

nada. É complicado. Mas mesmo assim, eu sigo em frente.

E aí, há dois anos, vi que voltou a passar no Canal Viva. Poxa,

que legal, né? Fiquei pensando: “Vai ver agora entra dinheiro

também.” Mas não entrou. Mesmo assim, a alegria de ver que

estava no ar de novo já valeu tudo.

Isso é algo que não tem palavra, sabe? Talvez, se eu tivesse

muito cacife para contratar um advogado, até dava pra brigar.

Mas teria que ser muito cacife, porque advogados não se

metem em causas de artistas independentes, principalmente

quando se trata de direitos coletivos. Eles não querem

enfrentar a Som Livre, nem a Sony.

Se eu tivesse dinheiro pra pagar um advogado de verdade, ele

até compraria a minha briga. Senão, ele diz: “Lau, tá tudo bem,

teu nome tá lá, eles dizem que é assim, e fica por isso mesmo.”

Eu já gastei dinheiro quando tive oportunidade, mas nem

assim adiantou.


E aí, depois, vi uma dupla de

produtores levantando o

espetáculo da TV Colosso.

Pensei: “Bom, agora vai dar pra

ganhar dinheiro.” Também

não.

Quando percebi que todo

mundo, de algum jeito, estava

tirando uma casquinha, e

minhas músicas estavam lá no

meio, eu falei: “Quer saber?

Então eu vou regravar.”

Porque eu amo Malabi, amo a

TV Colosso, amo as músicas

que fiz. Principalmente Malabi,

que era a música do

cachorrinho que eu falei… e eu

sei que ela é boa.

Como foi gravar Malabi no

Nordeste, com Buguinha

Dub? Que influência essa

região teve na construção

e no resultado da música?

Então eu tive a ideia: “Vou

regravar Malabi.” Quando

contei isso pra ele, ele

disse:

“Laura, você não sabe…

Malabi era a minha vida,

era o meu cachorrinho.”

E continuou: “Eu tenho dois

amigos que se chamam

Malabi — de tanto que

amavam o meu cachorro!”


O baixista que gravou a música

também tinha esse apego ao Malabi, e

até o percussionista tinha essa história

na vida dele. Quando percebi, tinha

uma verdadeira legião de Malabis ao

meu lado. Todo mundo amava o

Malabi.

Enquanto gravavam, era como se

estivessem viajando dentro da música,

tocando o Malabi com a mesma

paixão de antes. Ficou uma energia

mágica.

O produtor ainda falou: “Vamos

chamar uns vizinhos, umas crianças,

pra gravar um clima animista.”

Eu queria ter incluído, como na

versão original, o preâmbulo que a

Leca escreveu:

"Já veio primeiro, o ovo ou a galinha?

Por que a chuva cai de pé e corre

deitada?"

Mas ele disse: “Vamos chamar

algumas crianças, tá bom?” E vieram,

crianças da periferia de Olinda, sem

referência do Malabi. Elas tentavam

falar, mas não conseguiam: Malabi,

Bila, Malabila, Mamabila… nada. No

fim, só ficou: Olha o cachorrinho

mágico!

E foi assim que essa versão nasceu

com toda a magia e o carinho de

quem ama o Malabi de verdade.

Tudo foi feito com o mínimo de

recursos, com pouca grana, mas eu

ajudando em tudo, pagando e

coordenando a produção. Fiz tudo

através do meu selo, a minha

empresa, a Sorte Produções.

Voltei pra cá, masterizei o

trabalho com o Buguinha,

que é ótimo, e fui

esperando o momento

certo para lançar. Porque,

como sou da minha

geração, mesmo com

streaming e plataformas

digitais, eu ainda acredito

no valor de contratar um

assessor de imprensa para

um lançamento bem feito.

Sim, mas hoje em dia os

jovens… coitados, eles são

educados pra achar que

podem fazer tudo

sozinhos. Eles lançam suas

músicas nos streamings

sem envolver ninguém sem

jornalista, sem assessoria,

nada. Acham que é só

colocar no Spotify, postar

no Instagram, e pronto, tá

feito.

Eu não penso assim. Eu

acredito que é importante

enviar para os jornalistas,

mesmo que ninguém

escreva nada, mesmo que

ninguém dê atenção. É

parte do cuidado com o

trabalho,

da

responsabilidade de

divulgar com seriedade.


Eu pensei: “Vou lançar no Dia das

Crianças, vou dar de presente.” Aí

veio a inspiração. Tenho uma

sobrinha-neta, a Gabriela, que

nasceu no ano passado, ainda nem

tem um aninho. Então decidi

dedicar a ela, para os jovens do

século XXI conhecerem, e também

para nós, que somos eternas

crianças. Porque, sinceramente, eu

percebi que ainda tenho essa

criança muito viva dentro de mim.

Esse lançamento é para presentear

minha criança, as nossas crianças. A

gente precisa respeitar essa criança

que existe dentro da gente.

Além dos músicos, que eram um

monte de Malabi, eu fui fazer um

show no Centro Cultural Vergueiro,

agora em agosto. Durante o batepapo,

estava lá o Alessandro

Santos, que trabalha com vídeo e

tem 40 anos. Eu contei pra ele: “Vou

lançar Malabi, amo essa música!”

Quando a música ficou pronta,

mandei pra ele, e ele pirou.

Então eu falei: “Alessandro, tu mexe

com vídeo, toparia tentar fazer uma

animação a partir dessa capa?”

Nesse momento, o Ferré já tinha

me dado dois bonequinhos

inéditos do Malabi, porque o

Malabi, oficial aquele da TV Colosso,

era da Ação Livre e da Globo. Então

peguei os dois desenhos que o

Ferré me deu e entreguei para o

Alessandro.

E não é que ele fez o meu clipe

animado? Ficou incrível!

E aí, pra concluir, antes de

ontem Malabi saiu no Spotify,

foi lançado e, de repente,

apareceu em primeiro lugar

no radar, como destaque. Eu

não pedi nada pra ninguém,

não paguei nada, não fiz

acordo com o Spotify nada

disso. E aconteceu!

Agora eu não sei até onde

esse Malabi vai me levar…

Que mensagem você daria

para quem está começando

agora na música ou na arte?

Primeiro lugar: estude. Estude

música, tecnologia, corpo e

expressão. Se quer ser artista,

precisa desenvolver o corpo, a

técnica e a criatividade antes

de se jogar na vida. Não

coloque a carreira na frente

do ser: antes de ter ou

conquistar, é preciso ser.


Acredito na colaboração e numa sociedade baseada em

coletividade e horizontalidade. Tenho uma música que chama

“todo mundo para o mundo”: esse mundo está perdido, mas se

juntarmos forças, podemos melhorar. Parece ingênuo, mas é a

chave de tudo.

Vivemos um tempo de genocídios e perversidade, onde o dinheiro

compra tudo, até o poder. Nunca foi tão urgente que nos demos as

mãos, que trabalhemos de forma coletiva, em nome do ser humano

e do planeta. Os recursos naturais estão escassos precisamos agir

agora.

Precisamos ter consciência de que o sucesso vendido pelo

imperialismo é uma ilusão, um jogo da indústria. Todo mundo

merece brilhar, mas o sucesso precisa ser coletivo, não dá para um

se dar bem enquanto milhões ficam para trás.

A cultura é fundamental para viver e ser feliz. Por isso, é essencial se

preocupar em ser antes de ter, cuidar dos outros e do planeta. Isso

exige coragem, porque você vai enfrentar sistemas poderosos, e

ética, porque o mundo inteiro tenta corromper.

Já fui acusada de ser burguesa por defender a correção: se tem que

pagar o ECAD, se tem imposto a recolher, paga-se. Integridade é

essencial, mesmo que seja difícil.

Fotos: Marta Baião


E você, pudesse traduzir em uma canção o sentimento do Brasil

atual? Que ritmo, palavra ou imagem ele teria?

Que pergunta linda! Eu seria um punk rock synth, abusando de

sintetizadores e tecnologia, mas sempre aliada à inteligência

harmônica. É preciso criar músicas que desafiem a burrice da

inteligência artificial usar a tecnologia como recurso, mas nunca

deixar a máquina pensar por nós.

Minha música teria acordes dissonantes, pontes agudas, um pop

rock intenso, para acordar as pessoas. Precisamos de paz e amor,

mas não passivos. É hora de lutar pelos direitos do planeta, da

sociedade e da democracia, sem violência, mas com consciência.

Hoje, muita gente está anestesiada pelas telas e pelas fake news,

perdendo o discernimento a ponto de aceitar genocidas como

Netanyahu, Erdogan ou o bolsonarismo conduzindo suas vidas.

Minha música seria um chamado para acordar e resistir.

https://laurafinocchiaro.com.br/

Fotos: Thalita Arruda e Ivy Abujamra




Pesquisas recentes demonstram

que as abelhas desempenham

papel decisivo no reflorestamento

de regiões degradadas. No Brasil,

um estudo identificou 727 abelhas

de 85 espécies em áreas de

restauração da Mata Atlântica,

interagindo com 220 espécies

vegetais o que evidencia a

capacidade desses insetos de

ampliar a diversidade vegetal e

fortalecer

ecossistemas

fragilizados

Além disso, projetos de

meliponicultura (criação de

abelhas nativas sem ferrão) em

áreas amazônicas associam a

manutenção de colmeias à

recuperação de florestas em

Áreas de Proteção Permanente

(APPs), oferecendo renda às

comunidades locais e

simultaneamente promovendo a

restauração ambiental.

Esses exemplos reforçam que

abelhas não são apenas

polinizadoras agrícolas são

agentes-chave para a regeneração

florestal e conservação da

biodiversidade.


foto by arquivo pessoal

Ralf Zeq

entrevistado por Nathália Bulsing

Com apenas 27 anos, Ralf Zeq se consolidou como um

dos nomes mais promissores da produção musical

brasileira. Ex-baterista da banda Leões de Júpiter, ele

trocou o calor dos palcos pela precisão das cabines,

tornando-se o arquiteto sonoro por trás de projetos que

unem autenticidade e sucesso comercial. Em seu Half-

Time Studio, o produtor busca a essência dos artistas,

equilibrando a vanguarda tecnológica com a emoção

humana. Conversamos com Ralf sobre a ascensão

meteórica, o desafio da autocrítica e o futuro do áudio

na era da IA e do Dolby Atmos.


Quebra-Gelo e Início: Ralf, para

começarmos, você pode compartilhar sua

idade e onde nasceu? Qual foi o seu

primeiro contato decisivo com a

produção musical que o fez pensar "é isso

que eu vou fazer"?

Ralf Zeq: Tenho 27 anos e nasci em Lorena-

SP. Meu primeiro contato com a produção

musical foi aos 17 anos, quando comecei a

gravar uma banda da qual eu fazia parte,

chamada Canal XIII. Apaixonei-me pelos

processos de gravação e, principalmente,

pelos de pós-produção, como edição,

mixagem e as infinitas possibilidades que

essa arte pode proporcionar.

Ascensão Meteórica: Sua carreira

decolou muito rápido, alcançando grande

sucesso antes dos 30 anos. Você

consegue identificar um ou dois

momentos cruciais, um ponto de virada,

que o colocaram nessa trajetória?

Ralf Zeq: Acredito que um ponto crucial foi

ter observado como trabalhavam os outros

produtores da minha região quando

comecei. Geralmente, a tendência dos

profissionais era “não mexer” em nada, e isso

acabava engessando os artistas, gerando

músicas sem personalidade. Eu sempre

preferi dar mais liberdade aos artistas,

incentivando-os a extrair cada vez mais de si,

saindo da zona de conforto e buscando

sempre o potencial máximo tanto do artista

quanto o meu.

O Desafio da Juventude: Você sentiu, no

início da carreira, que sua idade era um

obstáculo para ser levado a sério em um

mercado historicamente dominado por

veteranos? Como você superou isso?

Ralf Zeq: Um artista muito novo é sempre

muito ingênuo e precisa da curva de

aprendizado para buscar e testar coisas

novas, amadurecendo o gosto musical e a

percepção sonora em geral. Por isso, eu

enfrentava a dificuldade de conseguir

clientes mais experientes. Porém, isso se

tornou um ponto positivo, pois tive a

oportunidade de trabalhar com vários novos

artistas e explorar, junto com eles, novas

sonoridades, formar carreiras e construir

laços. Isso acabou se tornando um dos meus

pontos fortes: identificar a identidade do

artista e explorar o talento dele ao máximo.

A Ponte Músico-Produtor: Como o fato

de você tocar tão bem, especialmente

bateria, te ajuda a se comunicar com os

músicos e a entender a performance na

cabine?

Ralf Zeq: Ser músico na produção musical

não é uma necessidade, mas facilita o

processo e a comunicação, acelerando o

trabalho.

Visão de Sucesso: O que significa ter

uma "carreira brilhante" para você nesta

fase da vida? É sobre números de

streaming, prêmios, ou o impacto cultural

e a satisfação pessoal?

Ralf Zeq: Uma carreira de sucesso, na minha

opinião, é ter estabilidade, reconhecimento

e clientes que possuam a mesma sinergia,

onde complementamos nossas ideias e

opiniões e temos liberdade criativa.


A Primeira Produção: Qual foi o

primeiro projeto que você produziu

que te deu a certeza de que a

produção seria seu caminho

definitivo?

Ralf Zeq: A primeira produção em que

tive certeza de que estava no caminho

certo foi uma música chamada

Torrentes, da minha primeira banda,

onde consegui extrair meu primeiro

trabalho profissional.

Da Demo ao Hit: Qual é o seu critério

para escolher um projeto ou uma

música que tem potencial para se

tornar um sucesso?

Ralf Zeq: Composição, originalidade,

conceito e profundidade.

Ralf Zeq: Acredito que foi quando um

colega de profissão muito influente e

conhecido nacionalmente disse que eu

era um dos melhores produtores do

país (embora eu ache um exagero).

Significou muito para mim ouvir isso

dele.

Momento de Dúvida: Houve algum

momento na sua carreira, mesmo

com o sucesso, em que você pensou

em desistir ou mudar de área? Como

superou?

Ralf Zeq: Acredito que, a cada três

meses, é comum ter uma pequena

crise existencial kkkk. Sempre bate

uma dúvida sobre o caminho. Mas

aprendi que resiliência, disciplina e

paciência são a chave de tudo.

Influências de Produtor: Quem são

seus maiores ídolos na área de

produção musical (nacional e

internacional) e qual a maior lição

que você aprendeu com eles?

Ralf Zeq: Finneas O’Connell, Rick

Rubin, Gabriel Luchinni, entre outros. A

maior lição que aprendi é nunca

colocar limite na criatividade e sempre

buscar um diferencial.

Melhor Elogio: Qual foi o elogio mais

memorável que você já recebeu de

um artista ou colega sobre a

sonoridade de uma produção sua?

foto by arquivo pessoal Instagram


O DNA de Baterista: A experiência

como baterista da Leões de Júpiter é

única. Além do ritmo, como a

dinâmica de trabalho em grupo e o

palco influenciam a sua liderança no

estúdio?

Ralf Zeq: Acredito que “liderança no

estúdio” não seja um fator que eu

busque muito. Vejo o papel do

produtor mais como o de ouvir,

sintetizar as ideias em comum entre

todos e ter uma postura democrática

sobre a obra trabalhada.

A Dupla Função na Banda: Você

também estava envolvido na edição

e finalização dos clipes da banda.

Essa familiaridade com o audiovisual

ajuda você a produzir a música

pensando no produto final

(clipe/visual) desde a captação?

Ralf Zeq: Com certeza! Quando estou

produzindo, costumo pensar no som de

forma visual. Às vezes, algumas músicas

saem do estúdio com parte do roteiro

do clipe pronta, pois construímos certas

faixas quase de forma

“cinematográfica”.

Ralf Zeq: A transição de músico para

produtor foi bastante natural conforme

fui evoluindo na profissão, mas com

certeza sinto falta da sensação dos

palcos. Sentir a troca de energia fluindo

entre os músicos e o público é algo

muito único e vivo e é algo de que

pretendo voltar a fazer parte em breve.

Nome do Estúdio: Por que o nome

Half-Time Studio? Existe uma

filosofia ou significado especial por

trás dele?

Ralf Zeq: O nome Half-Time Studio

vem de uma situação descontraída da

época em que eu estudava bateria.

Meu professor me passou um exercício

chamado Half-Time Shuffle. Eu sempre

fui muito ansioso e não gostava de

simplesmente fazer o exercício;

acabava mudando-o do meu jeito e

criando coisas em cima. O professor

achou isso da ora e um dia postou um

vídeo intitulado RALF-Time Shuffle.

Anos depois, quando fui abrir o estúdio,

lembrei dessa situação e achei legal

fazer o trocadilho com meu nome e

essa lembrança especial além de todas

as simbologias do nome e da relação

com o tempo.

A Transição de Papel: Qual foi o

maior desafio emocional ao transitar

do papel de músico de banda para o

de produtor/engenheiro? Você sente

falta de estar "apenas" tocando?

Estrutura Criativa: Qual é a diferença

na sua abordagem quando você está

produzindo artistas de grande nome

e quando está desenvolvendo um

talento novo e independente no

Half-Time?


Ralf Zeq: Minha abordagem é sempre

exatamente a mesma. O que muda

geralmente é apenas o tempo de

conclusão do trabalho, pois um artista

mais experiente tende a alcançar um

resultado satisfatório mais rapidamente.

Projetos Pessoais: Além de produzir

outros artistas, você ainda encontra

tempo e inspiração para desenvolver

projetos musicais próprios?

Ralf Zeq: Infelizmente, hoje em dia

estou off dos meus projetos pessoais,

mas estou me planejando para voltar

em breve.

O Ambiente: Como você descreveria

a atmosfera de trabalho no Half-Time

Studio? É mais técnica e focada ou

mais descontraída e experimental?

Ralf Zeq: Procuro sempre me colocar

dentro da cabeça do artista e pensar

como ele, para buscar um resultado

que mais se aproxime da identidade

dele. Nunca tento impor a “minha

identidade”, porém ela surge

naturalmente, pois é inerente ao ser

humano ter preferências sonoras.

Anatomia do Hit: O que é preciso

para uma música "grudar" no

ouvinte? Você foca mais no arranjo,

na letra, na performance vocal ou no

sound design?

Ralf Zeq: Acredito que o conjunto da

obra seja o que faz a diferença, mas

com certeza tudo nasce na

composição. Por isso, procuro sempre

lapidar as letras e, principalmente, as

melodias e o mapa musical (posição

dos versos, refrão, etc.).

Ralf Zeq: Com certeza, descontraída e

experimental. Acredito que, com um

ambiente mais leve, o artista se sente

mais desinibido e, por consequência, se

solta mais nas performances,

conseguindo extrair mais de si e da sua

essência.

O "Toque de Assinatura": Como você

equilibra a sua visão pessoal e a

"assinatura Ralf Zeq" com a

necessidade de respeitar a

identidade e a voz original do artista

que você está produzindo?

Fluxo Ideal: Descreva o seu processo

ideal quando um artista entra no seu

estúdio com uma demo: Onde

começa a sua intervenção e quais

são os primeiros passos cruciais?

Ralf Zeq: Sempre começo mudando

todo o instrumental para melhor

condizer com o que está sendo dito.

Isso sempre traz várias ideias, e o

processo de mexer nas letras, melodias

vocais e interpretação se torna mais

fácil.


Inovação e Gênero: Você persegue o "som do momento" ou tenta

intencionalmente criar o próximo som, o inexplorado?

Ralf Zeq: Eu prefiro sempre buscar o inexplorado, embora alguns clientes

prefiram seguir o som do momento. Nesse caso, tentamos sempre buscar um

meio-termo.

O Elemento Secreto: Qual é o plugin, técnica ou equipamento (seja

analógico ou digital) que você usa hoje e que considera essencial para dar

um toque único e diferenciado às suas produções?

Ralf Zeq: Meu plugin, técnica ou equipamento secreto é o sentimento. Hahaha.

Busco sempre passar emoção nas obras que faço, independentemente de qual

seja o sentimento escolhido.

Timbre de Bateria: Sendo um baterista experiente, qual é o seu segredo

para atingir o timbre de bateria ideal para cada gênero? Você confia mais

na captação acústica ou na manipulação digital?

Ralf Zeq: Acredito que uma boa captação seja o segredo: bons posicionamentos

e técnicas de microfonação, além de uma boa direção do artista.

.Mixagem de Referência: Você usa alguma música de referência (reference

track) específica durante a mixagem para garantir que o seu som esteja

competitivo? Se sim, qual?

Ralf Zeq: Sim! Sempre busco referências para mixagem, mas elas variam de

acordo com a música e o gênero com que estamos trabalhando no momento.

Influências Inesperadas: Quais outras fontes de arte (cinema, jogos, moda,

culinária, etc.) têm influenciado a sua estética sonora ultimamente?

Ralf Zeq: Ultimamente tenho me inspirado muito fora da música. Cinema, por

exemplo, tem influenciado demais a minha estética sonora, principalmente

trilhas que constroem atmosfera e tensão, tipo as do Hans Zimmer ou Trent

Reznor. Também absorvo muito de jogos, pela imersão e dinâmica sonora que

eles criam. E até a moda influencia: o visual e a atitude de certas marcas e artistas

acabam refletindo no som, na identidade. Acho que tudo que tem estética,

narrativa e emoção pode virar referência sonora.


IA na Criação: A IA está redefinindo o que é autoral. Você já a utiliza em

alguma fase do processo criativo (composição, mixagem)? Em que ponto

você traça a linha entre otimização tecnológica e perda de autoria humana?

Ralf Zeq: Eu utilizo IA apenas para separar músicas, mas raramente para fins

criativos. Acredito que a IA na produção musical tem muita utilidade em

ferramentas que agilizam o processo técnico — e, com isso, sobra mais tempo

para decisões criativas. Tenho certeza de que o uso de IA será cada vez mais

presente.

O Estúdio do Futuro: O produtor ainda precisa de um grande estúdio físico

de luxo, ou o futuro é mais "portátil" e acessível (baseado em nuvem e

comunicação remota)?

Ralf Zeq: O futuro é portátil! A melhor coisa é poder pegar o notebook e

trabalhar fora do estúdio. Faz muito bem para a mente — e isso acaba

influenciando em melhores resultados.

.Áudio Espacial e Imersão: O que o desenvolvimento de formatos como

Dolby Atmos e áudio espacial representa para o seu trabalho? Isso exige

uma nova mentalidade na hora de mixar, ou é apenas mais uma ferramenta

de distribuição?

Ralf Zeq: Acho incrível ver o avanço do áudio imersivo, mas pra mim o Dolby

Atmos ainda é uma ferramenta que precisa de um propósito artístico pra fazer

sentido. Não é só “mais uma forma de distribuir”, é uma nova forma de pensar o

som. Quando usado com intenção ,pra contar algo, criar uma experiência ele

realmente eleva o trabalho. Mas se for só por tendência, vira mais um modismo

técnico elitizado.

Novas Plataformas: Plataformas como TikTok e Reels exigem música que

seja instantaneamente cativante. Você já se pegou alterando a estrutura ou

a duração de uma música pensando em como ela performará nessas

mídias curtas?

Ralf Zeq: Sim, às vezes eu acabo pensando nisso, principalmente quando o

artista tem foco em TikTok ou Reels. A estrutura da música muda um pouco ela

precisa “acontecer” mais rápido. Mas tento equilibrar isso pra não virar algo

descartável. A música ainda precisa ter início, meio e fim, uma história. A

diferença é que hoje a introdução tem que segurar o ouvinte já nos primeiros

segundos.


Democratização: A facilidade de acesso a

softwares expandiu o mercado. Você vê

essa democratização como uma força

positiva para a música ou como um

desafio para a qualidade média?

Ralf Zeq: Eu vejo como algo extremamente

positivo. É lindo ver tanta gente podendo

criar com um notebook e um fone. Claro que

isso gera uma enxurrada de música mediana,

mas também trouxe muita originalidade que

antes não teria espaço. A qualidade média

pode ter caído, mas a autenticidade

aumentou e pra mim isso é mais valioso.

som gerado por máquina? E se ela

aprendeu com obras de outros

artistas? Acho que vai ser um desafio

ético enorme. Por isso, eu prefiro

usar IA só como suporte técnico, e

manter a criação onde ela sempre

pertence.

O Fator Latência Remota: Ao

trabalhar com músicos remotos,

como você gerencia os desafios

técnicos de latência e sincronia

para garantir que a performance

capture a mesma energia de uma

sessão presencial?

Atualização Constante: Com a tecnologia

mudando tão rápido, qual é a sua

estratégia para se manter atualizado sobre

novos plugins, técnicas de engenharia de

som e equipamentos?

Ralf Zeq: Eu gosto de aprender testando.

Normalmente é minha diversão ficar fuçando

plugins novos, vendo o que posso tirar deles.

Também acompanho produtores que

admiro, e troco muita ideia com outros

profissionais. A troca de bastidor é essencial.

Tento sempre me atualizar sem perder minha

identidade porque às vezes o “novo” não é

melhor, é só diferente.

Direitos Autorais e IA: Qual é a sua maior

preocupação ética ou legal no que diz

respeito ao uso de samples e composições

geradas por IA no futuro, especialmente

em relação a direitos autorais?

Ralf Zeq: Minha maior preocupação é a

fronteira entre influência e plágio. A IA vai

complicar muito isso. Quem é o dono de um

Ralf Zeq: Trabalhar remotamente

confesso que não é uma parada que

eu curto muito. Mas faço quando

necessário. A energia da sessão

presencial é insubstituível. A vibe

tem que estar alinhada mesmo à

distância e quando está, o resultado

é igual ou até melhor.

Produção Colaborativa: Você

utiliza plataformas de

colaboração online (Splice,

Sessionwire, etc.) com

frequência? Elas substituem o

estúdio tradicional?

Ralf Zeq: Sim, uso algumas

plataformas, mas não como

substitutas do estúdio. Pra mim, o

estúdio ainda é o centro da criação.

Essas ferramentas servem pra

expandir as possibilidades, não pra

substituir o contato humano. Gosto

de usar o digital pra agilizar, mas o

coração do trabalho ainda é a troca

ao vivo.


Tendências de Software: Existe alguma

nova tecnologia, plugin ou ferramenta que

você adotou recentemente e que

considera o próximo grande divisor de

águas na indústria da produção musical?

Ralf Zeq: Um que me surpreendeu

recentemente é o próprio Splice. Confesso

que eu tinha preconceito de usar antes, mas

a expansão criativa que traz aos projetos é

muito grande. Fora ferramentas como Ozone

que agilizam o processo um milhão de vezes

quando precisamos de resultados rápidos. A

revolução agora é deixar o digital mais

“humano”.

O Papel do Produtor na Era Digital: Em um

mundo onde o artista pode fazer tudo

sozinho em um laptop, qual é o novo valor

insubstituível que o produtor musical de

alto nível agrega ao projeto?

Ralf Zeq: A Loudness War ficou pra

trás. Hoje o foco é dinâmica e

impacto emocional. É claro que

precisa ser minimamente alta o

suficiente pra ser competitiva, mas

as plataformas normalizam o

volume, então o que importa é a

sensação, não os LUFS. Prefiro uma

mix que respira, que te prende pelo

sentimento e não pelo volume. A

música precisa soar viva, não

comprimida até a alma.

O Preço do Brilho: Com uma

agenda intensa, como você lida

com a pressão de se superar a

cada novo projeto e,

crucialmente, o impacto

inevitável do trabalho na sua vida

pessoal e nos seus

relacionamentos?

Ralf Zeq: Hoje o produtor é o tradutor da

visão do artista. O artista pode qualquer coisa

com as infinitas possibilidades, mas nem

sempre sabe pra onde quer ir. O produtor é

quem organiza o caos, quem entende o que

está sendo dito e transforma em algo

coerente e emocional. A tecnologia mudou

tudo, mas o papel do produtor ainda é dar

sentido à arte.

Ralf Zeq: A pressão existe de querer

se superar, de entregar sempre algo

melhor. Mas aprendi a respeitar o

tempo de cada processo. Quando a

arte vira corrida, perde a alma. Tento

manter o equilíbrio entre exigência

e prazer. A vida pessoal sofre às

vezes, mas é questão de saber a

hora de desligar o estúdio e cuidar

da cabeça.

A Evolução da Mixagem: Há dez anos, a

tendência era buscar o volume máximo

(Loudness War). Qual é a sua filosofia

atual de masterização, considerando as

regras de volume das plataformas de

streaming?

Equilíbrio e Autocuidado: Você

tem alguma rotina, hobby, ou

estratégia específica para se

"desligar" completamente da

música e evitar o burnout que a

alta demanda da sua profissão

exige?


Ralf Zeq: Eu gosto de sumir um pouco do som de vez em quando. Assistir séries,

ouvir podcasts, jogar, ver filmes, ir para a academia, viajar, cuidar da Frida (minha

cachorrinha) qualquer coisa que me tire do estúdio e me lembre que o mundo

existe fora das ondas sonoras. Esses respiros trazem novas ideias. Burnout é real

demais e infelizmente já o vivenciei, então hoje eu tento cuidar bem mais da minha

energia.

A Crítica Interna: Sendo um produtor tão jovem e estabelecido, você sente mais

pressão da mídia/mercado ou a autocrítica é a sua maior adversária no estúdio?

Ralf Zeq: Com certeza a autocrítica é minha maior adversária. Eu me cobro demais,

às vezes mais do que o necessário. É uma luta constante entre buscar evolução e não

sabotar o próprio progresso. Mas acho que essa cobrança também me fez crescer

rápido. O segredo é transformar ela em combustível, não em freio.

Pior Erro: Qual foi o maior erro que você cometeu no estúdio no início da

carreira (técnico ou criativo) e qual a lição mais valiosa que ele te ensinou?

Ralf Zeq: Fazer Backups kkk me ferrei muito com projetos onde eu não havia feito

backup e acabei tendo uma HD queimada no processo. Ctrl + S e Backups são coisas

simples, porém essenciais. kkk .

Conquista Pessoal: Qual é o objetivo de vida (fora da música) que você está

buscando nos próximos anos?

Ralf Zeq: Fora da música, meu foco é qualidade de vida. Quero ter tempo para mim,

pra família e pros amigos, poder voltar a tocar mais. A vida passa muito rápido

quando a gente só trabalha. Acho que sucesso de verdade é estar em paz com o que

você cria e com quem você é.

Conselho e Legado: Qual é o conselho prático mais valioso que você daria ao

produtor jovem de 16 ou 17 anos que te admira?

Ralf Zeq: Pro produtor jovem que está começando: erre muito, mas erre com

propósito. Testa tudo, pergunta tudo, e principalmente: ouve o que você sente. A

técnica vem com o tempo, mas a sensibilidade é o que te diferencia. E não tenta ser

o produtor que o mercado quer tenta ser o que você gostaria de ouvir.


Projeto Atual: Qual é o projeto em que você está mais empolgado no momento

no Half-Time Studio e o que podemos esperar dele?

Ralf Zeq: Tô empolgado com os álbuns que tenho produzido no momento e

algumas novas singles. O novo álbum do Crônica Ativa que está prestes à sair, por

exemplo, é um dos trabalhos mais completos que já fiz na vida.

Mensagem Final: Como você gostaria que a sua jornada fosse contada daqui a

algumas décadas e que legado espera deixar na música brasileira e

internacional?

Ralf Zeq: Quero que minha trajetória seja lembrada como a de alguém que ajudou

artistas a se descobrirem, não só a soarem bem. Daqui a décadas, espero que olhem

pro que fiz e vejam verdade, evolução e identidade. Meu legado ideal é esse: inspirar

gente a acreditar que a música ainda é arte e que ainda dá pra mudar vidas com

som.

foto by arquivo pessoal instagram



Bio Construçã̃ o

por Jorge Gomes

Novas técnicas para Telhados

Principais inovações

Telhados com materiais “auto‐regenerativos”: por exemplo, telhas que

possuem aditivos termoplásticos que permitem que pequenos danos se

fechem sozinhos, prolongando a vida útil do teto. Sistemas “cool roof” ou

revestimentos de alta refletância: telhados claros ou com acabamento refletivo

que reduzem o aquecimento da cobertura, diminuindo a carga térmica sobre o

edifício e os custos com ar condicionado.

Coberturas verdes / “green roofs”: instalar vegetação sobre a

impermeabilização ajuda no isolamento térmico, no controle de água de chuva

e na melhoria da qualidade do ar em áreas urbanas.

Monitoramento inteligente & sensores integrados: telhados equipados com

sensores de umidade, temperatura ou deformação que permitem manutenção

preditiva antes que ocorra dano grave.

Painéis solares integrados ou telhas‐painel: telhados que não apenas cobrem,

mas geram energia, integrando fotovoltaicos de forma estética e funcional.

Membranas e técnicas modernas para coberturas planas: uso de membranas

sintéticas (PVC, TPO), aplicação a frio (sem chama), módulos pré‐fabricados que

reduzem falhas de instalação.

Aspectos a considerar

A adoção dessas técnicas exige planejamento adequado: escolha de materiais

compatíveis, avaliação das condições climáticas e da estrutura existente.

Custo vs benefício: algumas inovações têm custo inicial mais alto, mas tendem

a se pagar com economia de energia, redução de manutenção e maior

durabilidade.

Sustentabilidade: muitos dos avanços visam não só desempenho técnico, mas

menor impacto ambiental — escolha de materiais reciclados, redução de

desperdício na instalação, etc


A importância do uso de cristais.

Os cristais são ferramentas

especiais e poderosas para

alinhamento dos chacras e

proteção espiritual.

Tem sido utilizado a séculos e

com diversas funções. Um dos

poderes do cristal é amplificar a

energia e sustentar em um nível

alto de energia.

Cada pedra sintoniza e estabiliza

nossa energia, visando a melhora

e o aprimoramento.

Vamos apresentar dois

Pingentes:

Cornalina – segundo chakra,

equilíbrio emocional, trabalha

culpa, ansiedade, traz alegria,

movimento.

Altura: 6 cm

Largura: 3 cm

Comprimento: 6 cm

Peso: 35 g

Quartzo branco transparente –

Todos os chakras, limpeza astral,

proteção, paz, clarividência,

energia, cura, “curandeiro

mestre”, amplifica sua energia

positiva e limpa as negativas.

Altura: 7 cm

Largura: 3 cm

Comprimento: 7 cm

Peso: 45 g

Clique nas imagens para saber mais


C U I D E , A C O L H A E A M E !

PROTEGER OS ANIMAIS SELVAGENS É PROTEGER A

NÓS MESMOS. QUANDO PERDEMOS UMA ESPÉCIE,

PERDEMOS UMA ENGRENAGEM DA MÁQUINA DA

VIDA. ELES MANTÊM O AR QUE RESPIRAMOS, A

ÁGUA QUE BEBEMOS E OS SOLOS QUE CULTIVAMOS.


Tire seu livro da gaveta, do pendrive, do

computador, do papel....

Nossas ediçõ̃ es serã̃ o de autores que tenham

obras relacionadas a Música, Canto, Voz,

Ópera, Dança, Fotografia e Coletânea de peças

teatrais.

saiba mais acessando:

https://www.institutoomindare.org.br/editora


inicia depois

O dia só

do café.


Convite Especial!

Você tem idéias para

um programa de TV?

Chegou a sua

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programas!

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a um novo estado do ser. Cada

acorde da orquestra é um

chamado: levanta-te, tua dor já se

cumpriu. O som abre caminho, o

medo se transforma em sopro, e o

que era fim se revela início.

VOZES DE TRAVESSIA E

RESGATE DA ALMA

Por Maude Salazar autora do livro Yoga da Voz

Há músicas que não são feitas de

notas, mas de portais. A Cavalgada

das Valquírias, de Wagner, é uma

delas. Ela começa antes da

primeira trompa soar. Vibra nas

entranhas da terra, convoca ventos,

desperta coragem adormecida. É

uma canção de travessia, não sobre

a guerra, mas sobre o que vem

depois dela.

As Valquírias surgem como

emissárias do invisível. Não são

fúria, são ordem cósmica.

Recolhem os guerreiros que

cumpriram sua luta e os conduzem

Wagner compreendeu, talvez sem

saber, o poder mágico do som

como passagem espiritual. Em sua

música, o feminino não é

ornamento, é ponte. As Valquírias

cantam com espadas de luz. São

vozes de cura que atravessam o

medo, esse mesmo medo que

adoece a alma quando

esquecemos que o amor é mais

vasto que a dor.

No extremo oposto do mapa, as

Pombogiras se erguem entre velas

e gargalhadas. São filhas das

encruzilhadas, senhoras da palavra

e do perfume. Não recolhem

corpos, recolhem corações. Onde

há vergonha, elas devolvem voz.

Onde há medo, devolvem riso. São

mulheres que caminham no escuro

como quem conhece o caminho

da luz.

Lacan talvez as visse como espelhos

incendiados, figuras que devolvem

ao sujeito o próprio desejo, não

para puni-lo, mas para lembrá-lo de

que o prazer também é forma de

verdade. Laing, que acreditava na

loucura como outra face da


autenticidade, veria nelas a

coragem de ser inteira. Tanto a

Valquíria quanto a Pombogira

recusam a máscara imposta. São

seres que desobedecem ao destino

para criar sentido. Curam pelo

gesto de existir e por isso são

perigosas para o poder, libertadoras

para quem as escuta.

Entre o vento prateado das

Valquírias e o fogo vermelho das

Pombogiras, há um arco invisível, a

ponte que liga a elevação e a

vertigem, o dever e o desejo.

Ambas conhecem o poder, mas

não o usam para dominar, usam

para despertar. Representam o

feminino que sabe: o que sobe

precisa mergulhar, o que ama

precisa enfrentar a sombra.

A missão das Pombogiras é

espiritual. Elas não se limitam ao

desejo, despertam a centelha de

vida em quem perdeu vontade de

existir. Recolhem fragmentos de

alma esquecidos nas esquinas da

dor. São guardiãs do renascimento,

forças que limpam os escombros

do medo e devolvem à pessoa o

direito de sentir sem culpa, de

amar sem ferida, de rir sem pedir

permissão.

As Valquírias conduzem para o alto,

as Pombogiras conduzem para

dentro.

Umas abrem o caminho do espírito,

as outras o caminho do coração.

E entre ambas corre o mesmo rio

invisível: o da alma que precisa ser

ouvida antes de ser salva.

Quando a orquestra de Wagner se

ergue e a gira se acende, o mundo

vibra na mesma frequência de

resgate. A música e o riso se tornam

prece. O som volta a ser ponte. O

medo, raiz de todas as doenças da

alma, começa a se dissolver, não

porque desapareceu, mas porque

foi visto.


Valquírias e Pombogiras são vozes

do mesmo mistério: o chamado

para atravessar o escuro e

reencontrar o próprio eixo.

Ambas conhecem a arte de guiar

almas, não pela força, mas pela

escuta.Elas lembram ao humano

que o verdadeiro poder não está

em vencer, mas em compreender.

Que o sopro das Valquírias

desperte tua coragem. Que o riso

das Pombogiras devolva teu

brilho.E que, entre o trovão e a vela,

tu te lembres: a alma só adoece

quando esquece que nasceu para

atravessar o medo cantando.

Maúde Salazar é escritora e soprano lírico. Pesquisa a

voz como território de memória e expressão,

integrando canto, psicanálise e arte. Doutoranda em

Psicanálise e Teologia, investiga as relações entre

trauma, criação e escuta. Sua obra une palco e

palavra, tendo a voz como eixo vital. Inspira-se em

Jung, Laing, Clarissa Pinkola Estés e Hélène Cixous,

para quem escrever é deixar o corpo se fazer ouvir,

princípio que atravessa toda a sua criação.


Série: A Voz que Rasga o Véu

por Maude Salazar

Estreia – Texto-manifesto

Dando continuidade à série A Voz que Rasga o Véu, a Revista ICONIC

apresenta o segundo texto inédito de Maude Salazar.

Se o primeiro fragmento foi manifesto e origem, este é brasa e respiro: o

momento em que a voz se recolhe para queimar em silêncio.

Em A Voz que Queima em Silêncio, a autora nos conduz ao lugar entre o

som e o silêncio, onde a voz não se ouve, mas arde.

É um texto sobre o fogo interior da criação, o canto que amadurece no

escuro, e o mistério de pertencer à própria voz.

A Voz que Rasga o Véu

por Maude Salazar

Há dias em que não canto.

Mesmo assim o corpo canta em segredo.

Nas juntas, nas veias, nas margens do sono.

O som ferve por dentro como incenso esquecido no

altar do peito.

A garganta arde, não por uso, mas por memória.

Há brasas de um templo antigo acesas sob a pele.

O silêncio não é ausência.

É intervalo onde o fogo respira.

É a pausa em que o som se escuta voltando para casa.

Quando não canto, é porque o canto me atravessa

devagar.

Vem pelos ossos e pelos sonhos, pelos cheiros que

insistem.

Vem como vento morno em hora morta.

Vem e me reconhece.


Já tentei resistir.

O som me caça.

Encontra-me nos gestos pequenos,

no jeito de segurar um copo,

de fechar os olhos,

de engolir o pranto.

Não existe fuga para quem nasceu instrumento.

A voz não é minha.

Eu é que pertenço a ela.

Quando ela me toma não dói, arde.

É uma queima mansa que purifica o ouro.

Não sei cantar pouco.

Canto inteira ou me calo.

Quando me calo, o próximo canto nasce no

escuro.

Fica de vigília no fundo da respiração,

afina-se no silêncio,

prepara-se como quem unge um corpo para o rito.

Chega a hora e o fogo levanta a cabeça.

A pele sabe, a nuca arrepia, o ventre chama.

Abro a boca e não sai palavra, sai passagem.

O som não vem da garganta, sobe do chão,

atravessa os ossos, acende os olhos.

É então que compreendo sem pensar.

Não canto para brilhar.

Canto para não cair do abismo que me chama

pelo nome antigo.

Canto para lembrar o que o corpo jurou antes do

primeiro grito.


A plateia existe, mas não me guia.

O que me guia é o pulso da terra sob os pés.

O que me guia é a memória das águas nos

pulmões.

O que me guia é a luz que brilha sem sol dentro

do peito.

Se me calo de novo, não é fim.

É trabalho do fogo.

A brasa volta ao silêncio, aquece o que ainda

não tem nome,

prepara outra travessia.

No intervalo, caminho leve e escuto.

O mundo fala comigo pelas pedras, pelas

folhas,

pelas sombras que guardam perfume de rito.

Eu pertenço à voz.

Nasci para a chama que não queima e cria.

Quando ela chama, eu vou.

Quando ela recolhe, eu guardo.

E em ambos os tempos, sigo inteira.


Revista ICONIC


BAZAR&

BRECHÓ

Venha !

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com Edilaine

Você sabia que o Brechó e Bazar do Instituto Omindaré

transformam muito mais do que guarda-roupas?

Cada compra realizada ajuda a sustentar as ações sociais da

ONG, que atua em projetos de acolhimento, educação,

cultura e geração de renda para comunidades em situação

de vulnerabilidade.

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um novo destino: fazer o bem!

Ao participar, você consome de forma consciente e

contribui para que o Instituto continue mudando vidas com

amor, arte e solidariedade.


CHEF

LUIZ THOMÉ

“Seu Luiz” como

carinhosamente é

conhecido, nasceu em

São Tomé das Letras.

Hoje vai nos apresentar

“PANETONE COM

TOQUE DE MINAS”

“Seu Luiz” é especialista

em Buffet à moda

Mineira. Ganhou o

mundo com a culinária

de Minas Gerais.


Panetone Mineiro

Romeu e Julieta

Rendimento: 2 panetones médios

Tempo de preparo: cerca de 3 horas

INGREDIENTES:

Esponja (pré-fermento):

½ xícara (chá) de água morna

2 colheres (sopa) de farinha de trigo

2 colheres (sopa) de açúcar

2 colheres (chá) de fermento biológico seco

Massa:

4 xícaras (chá) de farinha de trigo (aproximadamente)

½ xícara (chá) de açúcar

3 colheres (sopa) de manteiga ou margarina

3 gemas

1 ovo inteiro

½ xícara (chá) de leite morno

1 pitada de sal

1 colher (chá) de essência de baunilha ou panetone

Raspas de laranja ( dá perfume e leve acidez)

Recheio:

1 xícara (chá) de goiabada cortada em cubinhos pequenos

(passe-os rapidamente em farinha de trigo para não afundarem

na massa)

1 xícara (chá) de queijo minas meia cura ralado grosso

Finalização:

1 colher (sopa) de manteiga derretida

Açúcar de confeiteiro, raspas de queijo para polvilhar e rodelas

finas de laranja.


Modo de preparo

1.Prepare a esponja:

2. Misture todos os ingredientes da esponja e deixe descansar por 20 a

30 minutos, até formar bolhas.

3.Massa:

4. Em uma tigela grande, misture o açúcar, as gemas, o ovo, o leite

morno, a manteiga, o sal e a essência.

5. Junte a esponja e vá adicionando a farinha aos poucos, até obter

uma massa lisa e macia que desgrude das mãos.

6.Sove bem:

7. Trabalhe a massa por cerca de 10 minutos até ficar elástica. Cubra e

deixe crescer por 1 hora, ou até dobrar de volume.

8.Recheio:

9. Misture delicadamente a goiabada em cubos e o queijo ralado à

massa já crescida.

10.Modelagem:

11. Divida a massa em duas partes, coloque em formas de panetone (ou

assadeiras redondas forradas com papel-manteiga) e deixe crescer

novamente por 40 minutos.

12.Asse:

13. Leve ao forno preaquecido a 180 °C por 35 a 40 minutos, até dourar.

14.Finalize:

15. Pincele com manteiga derretida e, depois de frio, polvilhe açúcar de

confeiteiro. rodelas finas de laranja com um galho de alecrim ou

decore com fios de goiabada derretida.

? Dica Mineira Especial:

Para deixar ainda mais típico, sirva levemente morno, acompanhado de

um cafezinho coado na hora , licor caseiro de jabuticaba ou caçhacinha

ouro! O contraste do doce da goiabada com o sal do queijo é puro

encanto de Minas!


C‌h‌e‌f‌‌L‌u‌i‌z‌‌T‌h‌o‌m‌é‌

DESEJA UM FELIZ NATAL E UM

2026 CHEIO DE SAÚDE


Thiago

Lemmos

Entrevistado por Regina Papini Steiner

O cantor lírico Thiago Lemmos se

destaca não apenas por sua

técnica vocal precisa e refinada,

mas também por uma elegância

de palco na postura, no trajar, no

modo de interpretar que o torna

referência tanto na música

erudita quanto no teatro musical.

Sua versatilidade o leva a transitar

com segurança entre repertórios

exigentes e momentos de

espetáculo, sempre mantendo

uma presença cênica de alto nível.

Atualmente, Thiago integra a

equipe artística de um navio,

onde continua se destacando por

sua performance impecável,

encantando públicos de diversas

nacionalidades a bordo e

reafirmando seu compromisso

com a excelência artística.

Esse equilíbrio entre voz,

interpretação e apresentação

torna Thiago Lemmos um nome

singular no cenário brasileiro. Ele

representa um artista completo:

vocalmente

sólido,

dramaticamente envolvente e

esteticamente elegante. Para

quem busca conhecer um

intérprete que alia talento lírico e

presença refinada, ele é a perfeita

síntese dessa união rara.

foto by Enrico Vertaa


Como e quando começou a sua

relação com a música? O que

despertou esse primeiro interesse?

Minha relação com a música começou

super cedo. Eu ganhei um tecladinho

pequeno, de um tio meu. E aí minha

mãe, vendo a minha facilidade com a

música, me colocou para estudar

música. Eu tinha 10 para 11 anos. 11

anos. E aí ela me colocou no curso de

teclado. Eu comecei a aprender e

estudar música, teoria, leitura, sorfejo,

tudo. E me apaixonei. Eu comecei

cedo. Fiz escola de música, entrei

numa banda com 13 anos e logo me

apaixonei por esse universo. Depois

vieram as aulas de canto, canto coral,

solfejo… Fui estudando direitinho,

porque uma coisa foi puxando a outra

e eu sempre fui muito interessado.

Mais adiante, entrei na faculdade de

Geografia, sempre gostei de mapas, de

conhecer culturas, de entender o

mundo, e achei que fosse seguir por

esse caminho.

Mas, paralelamente, eu já tinha uma

banda, trabalhava como crooner, tinha

uns 20, 22 anos. Também participei de

musicais amadores em Florianópolis,

onde cresci. Fiz coral lírico, duas

óperas, e comecei a ganhar

experiência de palco. Até que surgiu

um teste para musical em São Paulo.

Fiz vários até passar, acho que no

quarto ou quinto deu certo, e me

mudei pra lá com muita coragem e

um pouco de cara de pau (risos).

Foi então que percebi que dava pra

viver da música. Até aquele

momento, mesmo cantando em

banda e fazendo coros,

O musical amador que fiz, ‘Vozes da

Primavera’, era um grande projeto: 80

cantores, orquestra ao vivo, cenário,

tudo no principal teatro da cidade

mas ninguém ganhava nada, era puro

amor à arte. Depois disso, entrei no

coro lírico profissional Polyphonia

Khoros, também em Florianópolis.

Eles tinham incentivo e faziam

apresentações belíssimas, mas era

esporádico. A maioria de nós dava

aula, fazia banda ou outros trabalhos

pra se sustentar. Aí com eles eu fiz

óperas, fiz concertos, fiz missas, mas

ainda assim eu não me considerava

vivendo da música ou da arte

Só quando fui pra São Paulo é que a

música virou realmente minha

profissão, meu caminho de vida.

ainda era algo esporádico, mais por

paixão. Em Floripa, com a banda, eu

trabalhava só nos fins de semana e o

que ganhava mal dava pra me

manter.

foto by arquivo pessoal Facebook


E por que o lírico e não o MPB?

Porque você teve banda?

Eu tive banda, eu cantei em banda de

baile, toquei em banda de pagode, eu

passei por todos os estilos. Eu me

considero um cantor “curadp” por ter

passado por tantas fases. Eu não

comecei na ópera, nem no canto lírico

comecei na música popular.

O grupo ‘Vozes da Primavera’, onde eu

participava, tinha um repertório

dividido: metade era mais operístico,

voltado para a música erudita, e a

outra metade trazia musicais da

Broadway. A maioria do pessoal ali

vinha do canto lírico, e eu entrei meio

no impulso, só com talento e vontade,

porque nunca tinha tido contato com

esse tipo de canto. Eu tinha 19 anos e

ficava impressionado vendo aquele

pessoal interpretar o Requiem de

Mozart, a Nona Sinfonia de

Beethoven… e eu sem noção de nada,

nem do lírico, nem dos musicais! (risos)

Até que pensei: ‘Se quero cantar isso,

preciso estudar, entender, aprender.’

Então comecei a fazer aula de canto

lírico, entrei para um coro erudito

profissional e participei de várias obras

, La Traviata, Boletos, Fantasia Coral de

Beethoven, Requiem de Mozart… Tudo

isso enquanto ainda era um iniciante

no meio erudito.

Fui ganhando técnica, aprofundando

o estudo, mas já tinha um bom ouvido,

um certo material vocal, e as coisas

foram acontecendo de forma muito

natural — nada planejado, tudo por

paixão e curiosidade.

foto by Rodrigo Negrini

Naquela época, teve algum cantor ou

artista que te inspirou e fez você

pensar: ‘é isso que eu quero pra

minha vida’? Quem foi sua maior

referência musical nesse início?

Olha, foi uma época de muitas

descobertas.

Minha professora me mostrava

gravações e referências de grandes

vozes. Como a minha voz sempre foi

mais leve, ela me direcionou para esse

tipo de repertório. No início,

trabalhávamos com lieds e canções,

ninguém começa cantando ópera logo

de cara. A gente passa primeiro pelas

áreas antigas, pelas canções, até

chegar à ópera.

Minhas principais referências eram

tenores de voz mais leve. O mais

‘pesado’ que eu ouvia era o Pavarotti.

Também ouvia muito Juan Diego

Flórez, Ramón Vargas, e o Gedda, entre

outros. E, embora fosse barítono, o

Fischer-Dieskau foi uma grande


referência pra mim, principalmente no

repertório de lied. As gravações dele

eram uma aula. Além disso, eu me

inspirava muito nos cantores com

quem trabalhava nas produções em

Florianópolis. Minha professora havia

sido aluna da Neyde Thomas, então

segui essa linha técnica. Trabalhei

também com o Rio Novello, marido da

Neyde, que nos acompanhava na

preparação vocal, ele inclusive nos

deixou há pouco tempo.

Tínhamos o concurso Aldo Baldin, que

selecionava os cantores das óperas, e

tudo aquilo era muito novo pra mim.

Eu tinha 20 anos e estava começando

a descobrir esse universo.

E vale lembrar que, naquela época, o

acesso era bem limitado, não existia

esse mar de vídeos e gravações no

YouTube ou Spotify. A gente caçava

material: baixava o que dava, trocava

CDs, procurava qualquer gravação

possível de uma ópera ou de um

Réquiem de Mozart. Era um

aprendizado na raça, mas cheio de

encantamento.

Houve um momento específico em

sua trajetória que marcou a virada

para o canto lírico? Aquele papel ou

experiência que se tornou um

verdadeiro divisor de águas na sua

carreira?

Na verdade, houve dois momentos

marcantes na minha trajetória. O

primeiro foi quando tive meu primeiro

contato com o canto lírico. Foi ali que

me interessei de verdade, comecei a

estudar, montar repertório e

desenvolver a técnica. Passei cerca de

dois ou três anos nesse processo, ainda

em Florianópolis.

O segundo momento veio quando

migrei para o teatro musical. Não

segui diretamente para a carreira de

ópera ou canto lírico, embora tenha

realizado algumas experiências nessa

área, como já mencionei. Ao chegar

em São Paulo, o canto lírico acabou

ficando em segundo plano, mas

deixou uma base sólida que me

acompanhou. Essa formação me deu

uma vantagem no teatro musical, pois

não são muitos os cantores de musical

que possuem essa preparação clássica.

Vocalmente, eu tinha uma carta na

manga a mais. As produções sempre

me contrataram também pela minha

técnica. Mesmo não cantando lírico,

essa formação me deu suporte,

preparo vocal e uma percepção

musical diferenciada.

Então, mergulhei de vez no teatro

musical. Nesse período, fiz algumas

coisas pontuais de ópera e canto lírico,

como missas, mas foram raras

ocasiões. Acabei me dedicando ao

musical por bastante tempo, uns seis,

sete anos, sem voltar ao canto lírico.

Foi só em 2016, se não me engano, que

senti a necessidade de retomar esse

repertório e voltar aos estudos. Foi

quando conheci o professor Walter

Chamun, que além de ser um grande

professor de canto, é fonoaudiólogo.

Com ele, voltei a trabalhar técnica

vocal e repertório, iniciando uma

verdadeira retomada da minha voz, .


que durou anos.

Quando você começa a cantar outros

repertórios, é preciso revisitar toda a

técnica e o repertório que aprendeu. Foi

exatamente isso que fizemos: um

trabalho de reestruturação vocal para

colocar minha voz no lugar. Eu já tinha

30, 31, 32 anos, com o material mais

amadurecido e a consciência da

tessitura que iria trabalhar.

Eu achava que era um tenor um pouco

mais leve do que realmente sou. Com o

acompanhamento do professor, minha

voz se estabeleceu em um lugar mais

pleno — não só um tenor ligeiro, mas

também lírico. Hoje, canto na região do

lírico ligeiro, uma tessitura de tenor

bastante específica. É uma voz mais leve,

mas não limitada ao repertório de tenor

ligeiro; possui amplitude e presença

suficientes para explorar repertórios

mais variados. Meu grande dilema no

repertório lírico continua sendo estar

entre o lírico e o ligeiro, sempre

buscando me encaixar nessa tessitura.

Às vezes, você começa explorando um

tipo de voz, um tipo de papel, e vai

amadurecendo com o tempo, é um

processo construído justamente para

isso.

Hoje você faz parte de um corpo

artístico em navios, trabalhando com

uma companhia britânica. Thiago,

como surgiu essa oportunidade?

foto by Caio Gallucci


Ah, como tudo na minha vida, surgiu do

nada… mais ou menos. Tenho um pouco

de sorte; as coisas vão acontecendo, nem

sempre preciso sair correndo atrás

desesperadamente.

Aconteceu que veio a pandemia.

Ninguém sabia o que iria acontecer. Eu

estava em casa, olhando para o teto,

pensando: “Vamos fazer algo acontecer.”

Não sabia como ficaria o mercado de

musical. Eu já tinha feito alguns

concursos e tentava retomar o canto

lírico, mas em São Paulo praticamente

ninguém me conhecia. Eu estava

voltando ao repertório erudito e me

dando bem, mas, de repente, tudo

parou.

Então, estava no Instagram e vi o story

de um amigo que marcava a agente

dele uma agente do Reino Unido. Entrei

no perfil dela e descobri que ela

trabalhava com cruzeiros. No mesmo

dia, ela me respondeu e me enviou a

vaga que hoje ocupo.

O que eles buscavam? Um cantor

crossover para navio de cruzeiro, alguém

com boa base lírica para interpretar

ópera e repertório clássico, mas também

com facilidade para outros estilos, como

teatro musical. Era exatamente o meu

perfil. Percebi que a vaga se encaixava

exatamente no que eu podia oferecer. E

vou te contar uma coisa engraçada: para

um tenor lírico ligeiro, estou ganhando

dinheiro cantando Nessun Dorma aqui

no navio! A vida dá umas voltas

impressionantes; às vezes, o que

planejamos não acontece como

esperamos, e é preciso se reinventar.

Tem sido uma experiência

extremamente enriquecedora.

Comecei em 2022 e sigo até hoje

com a companhia. Já estou no

terceiro navio e começando um

novo repertório, sempre incluindo

algumas peças de ópera e

repertório erudito, o que é muito

interessante. Meu público é

basicamente britânico, mas o

navio atual também recebe

franceses, holandeses e outros

europeus, tornando tudo mais

internacional.

No espetáculo, eu entro cantando

Os Miseráveis, musical, e logo

depois apareço interpretando

ópera. O público fica surpreso e

impressionado, comentando:

“Nossa, eu não sabia que no Brasil

existia uma cena artística tão forte

de musical e ópera.

Para mim, isso também é muito

importante porque me permite

representar o Brasil de uma forma

diferente. Eles veem que há

pessoas saindo do país, cantando

ópera e musical, e se apresentando

para públicos estrangeiros

principalmente europeus, no meu

caso. É muito gratificante poder

mostrar essa outra face do Brasil.

Sabe, Regina? Eles realmente não

tinham ideia de que existiam

musicais no Brasil. É incrível

perceber como o nosso trabalho

pode surpreender e abrir

horizontes para o público

internacional.


Você também canta músicas brasileiras

ou prefere se concentrar no repertório

de musicais?

Não, eu canto músicas brasileiras e

também internacionais. Tenho alguns

shows solo. Um deles é inteiramente de

musicais, onde passo por todo o

repertório que já fiz nessa área.

O segundo show é mais internacional:

nele canto música brasileira, canções

italianas, francesas e também incluo um

pouco do meu repertório lírico. O

público adora, porque essas músicas

trazem memórias afetivas, lembram a

infância deles ou músicas que os pais

ouviam quando eram jovens.

A maioria dos passageiros nos navios é

mais velha, geralmente acima de 60

anos, e isso faz toda a diferença. Eles têm

um repertório musical vasto e uma

bagagem cultural que valoriza o que

apresento. Ter alguém como eu, capaz

de transitar entre lírico e musical com

esse tipo de repertório, cai como uma

luva: agrada e conquista esse público

que conhece, gosta e consome música

de qualidade.

Quais têm sido, Thiago, os maiores

desafios e as maiores recompensas de

trabalhar em um ambiente tão

diferente dos palcos tradicionais de

teatro?

Olha, os desafios são grandes. Trabalhar

no exterior, com uma produção

estrangeira, nunca é fácil. Quando

comecei em 2022, eu não conhecia

absolutamente ninguém. Só tive

certeza de que ia mesmo quando

eles me enviaram a passagem.

Entrei no avião, cheguei ao navio e

lá estava toda a equipe.

Além disso, existe a barreira da

língua. A maioria dos cantores que

vai para fora enfrenta isso, mesmo

que já fale inglês, italiano ou

alemão, dependendo do país para

onde vai. Tem uma barreira de

idioma, tem uma barreira de ideia

cultural. Os estrangeiros, os

europeus com quem eu trabalho,

eles têm uma forma de... uma

bagagem cultural diferente, uma

forma de trabalho diferente, uma

forma de se relacionar com as

pessoas diferente, não é a mesma

coisa. Mas, ao mesmo tempo, é

muito enriquecedor, porque abre

os horizontes. Desafio também de

ficar longe da família, longe dos

amigos, de você ficar um período

grande de tempo fora. Você não


está trabalhando em terra firme, você

está trabalhando em um lugar que se

movimenta. Então, até a sua forma de

cantar é diferente. O seu apoio não é o

mesmo, porque você não tem o apoio

do chão exatamente como você tem em

terra. Isso foi algo que descobri depois

de começar a trabalhar no navio. Já

tinha feito navio antes, mas nunca tinha

cantado um repertório tão exigente

vocalmente; antes, eu tocava em banda.

É totalmente diferente. Percebi que meu

apoio vocal precisava se ajustar, porque

o ambiente muda constantemente: uma

hora você está em um lugar frio, na outra

em um lugar quente.

Além disso, tem a questão do fuso

horário. Em cruzeiros, você passa por

dois, três ou até quatro fusos diferentes.

No ano passado, fiz uma volta ao mundo

e passei por todos eles, inclusive

atravessando a Linha Internacional da

Data. Saí do Hemisfério Ocidental para o

Oriental e, de repente, perdi 24 horas! Foi

como viajar no tempo. Literalmente: as

pessoas brincam que não existe

máquina do tempo, mas eu posso

garantir que existe, você atravessa a

linha e “ganha” ou “perde” horas de uma

maneira surreal.

Então, há todos esses fatores que

você precisa administrar. A

alimentação, por exemplo, muda

muito dependendo de onde você

está. A comida do navio não é a

mesma que você come no dia a

dia, então é preciso cuidar da

saúde, planejar horários e até levar

remédios e alguns alimentos

essenciais. Estar no mar exige um

planejamento maior, porque você

está fora de terra firme.

Mas, por outro lado, você está

cantando o que gosta, o que

passou anos preparando, para uma

plateia que te aplaude de pé. Cada

vez que termino Nessun Dorma,

eles se levantam para me aplaudir

é uma sensação maravilhosa.

Nos últimos anos, voltei a trabalhar

a técnica vocal, cantei algumas

missas e concertos, sempre junto

com o musical. Nunca deixei de

fazer nada, mas é verdade que

conseguir espaço no repertório

lírico depois dos 30, ainda mais

trabalhando com outras áreas, é

um desafio.

Então, ter a oportunidade de

cantar música erudita e também

meus musicais é incrível. E o

melhor: você não precisa vender

ingressos. O teatro está de portas

abertas, e os passageiros chegam,

se sentam e aplaudem de coração.


foto by Made Gayan


eEu já tenho a casa cheia para fazer

meus shows. E para um britânico, para

um francês, levantar e me aplaudir de pé

no final, isso para mim é uma

recompensa fantástica. Com certeza.

Porque eu sei que é uma plateia mais

formal, mais fria, que eles conhecem,

que eles não vão aplaudir qualquer

coisa, nem muito menos aplaudir de pé.

Cantar esse repertório já não é fácil —

ainda mais aqui no navio, onde

precisamos transitar entre diferentes

estilos ao mesmo tempo. Mas é uma

recompensa enorme pelo trabalho que

fazemos.

E o mais incrível: você conhece o mundo

através da sua arte. Tenho a

oportunidade de visitar lugares que

jamais imaginei, ou que talvez nunca

teria condições de conhecer. Fui da

Groenlândia à Polinésia Francesa, passei

pelo Caribe, África, Ásia, Europa e

Canadá. Em apenas três ou quatro anos

a bordo, conheci mais de 50 países, de

todos os continentes.

Lembra que eu falei que fiz geografia?

Agora estou visitando os lugares que

antes apenas desenhava nos mapas. De

certa forma, parecia que meu caminho

já estava traçado uma sensação de

realização, como se meu espírito já

soubesse disso.

Acabei me encontrando nisso porque

sempre tive interesse pelo mundo, pelas

culturas e pelos idiomas — e agora posso

cantar enquanto viajo. É uma forma

muito mais viável de viver essa

experiência do que tentar uma bolsa de

estudo ou uma vaga em um teatro, que

seriam caminhos muito mais difíceis.

E também é diferente de fazer

uma turnê musical, que exige

outro tipo de logística e esforço..

Thiago, essa convivência

multicultural influenciou de

alguma forma o seu repertório?

Sim, com certeza. Porque tinha

muitas coisas que eu não conhecia.

E você acaba também descobrindo

o que agrada mais a eles. Tem

coisas que às vezes você tem no

seu repertório, mas você não

coloca. Talvez eles não conheçam.

Mas não, eles gostam. Então você,

com essa troca, vai ouvindo o que

eles gostam mais. E aí você vai

adaptando o repertório também

para o gosto do público. Para você

não cantar coisas que eles não

conhecem ou não gostam.

Qual foi o lugar mais marcante

que você teve a oportunidade de

conhecer através da música?

Tem vários lugares, na verdade.

Não é só um. Há aqueles que são

inusitados ou impressionantes,

totalmente diferentes do que você

imagina, longe de casa. E há

aqueles que mexem mais com a

gente emocionalmente.

Para mim, como cantor lírico,

visitar a Itália e conhecer seus

teatros foi inesquecível, porque

nunca tinha ido.


Estar na Via Maria Callas, em

Catânia, em frente ao Teatro

Bellini, foi emocionante. E um

momento que nunca vou

esquecer: visitei o túmulo de

Bellini lá em Catânia e cantei um

trecho de uma de suas canções.

Foi simplesmente especial.

Thiago, você está mais vivendo o

presente ou já tem algum

planejamento para o futuro? Tem

vontade de voltar para o Brasil, ou

seus planos seguem no exterior?

O que você imagina para os

próximos passos da sua carreira?

O navio nunca é algo para

sempre. Praticamente todos que

trabalham cantando ou em

produções de navio ficam por

alguns anos. É uma oportunidade

fantástica de viajar, ganhar

experiência e um dinheirinho,

mas não é possível viver sempre

sem pisar em terra firme.

Claro que o trabalho em navio

estará sempre à disposição, e é

uma oportunidade que eu

sempre aceitaria quando possível.

Mas, sim, tenho vontade de voltar

ao Brasil e aos teatros, e planejo

fazer isso a partir do ano que vem.

Meu contrato termina em março

de 2026, e então vamos ver o que

acontece, mas voltar está nos

meus planos.

foto by Enrico Verta


E que conselho você daria para os cantores jovens que estão

começando a carreira?

Olha, Regina, quando a gente é jovem, às vezes quer tudo ao mesmo

tempo. Quer seguir todos os caminhos, ouvir todos os conselhos. E aí

começam as vozes de fora: “você tem que fazer isso, tem que fazer

aquilo”. Seja na música lírica, seja nos musicais, sempre existe alguém

dizendo o que é “o certo” a fazer: entrar num teatro de ópera, ter um

agente, cantar na Itália, na Alemanha… Parece até uma carreira pública,

uma escadinha obrigatória: começa no coro, depois vira solista, canta no

Municipal, depois vai pra Europa e termina virando o Pavarotti!

Mas o que eu aprendi é que o palco , pode soar clichê, é o mundo. Você

pode cantar na rua, numa praça, numa companhia itinerante, num navio,

onde for. O importante é não se limitar. O jovem cantor precisa estar

aberto às descobertas, porque o caminho de um não é, necessariamente,

o melhor caminho para o outro.

Estude. Faça os seus contatos. Mantenha a sua técnica sempre afiada e

tenha um repertório bem construído. A carreira é um processo — ela

evolui com o tempo. O repertório muda, o tipo de trabalho muda, e a

gente também muda junto com tudo isso.

Mas o mais bonito é perceber o quanto há para descobrir no mundo.

Você pode ser útil em qualquer lugar, pode emocionar plateias que

talvez nunca tivesse imaginado alcançar.

Por isso, esteja preparado: com a sua técnica, com o seu repertório, mas,

acima de tudo, com os seus sonhos. Porque sem o sonho, sem aquela

motivação que vem de dentro, nada acontece. Coloque os sonhos pra

fora, transforme o máximo possível deles em realidade e mantenha os

olhos abertos para o mundo. Às vezes, as melhores oportunidades estão

justamente onde a gente menos espera.

Qual canção ou ária você escolheria como símbolo da sua trajetória

artística e o que ela representa pra você?

Olha, não tem como escolher outra. Não tem. Seria Nessun Dorma, sem

dúvida. Porque essa ária resume exatamente o que eu acabei de dizer

antes. Às vezes, a gente se prepara para ser um tipo de cantor e a vida

vem e pede outra coisa.


Eu até brinco com meus amigos dizendo: “Quem diria, hein? Eu, um tenor

leve, ganhando a vida cantando Nessun Dorma!” (risos)

Mas é isso. Não tem como ser outra. Primeiro, porque eu acredito que

Puccini escreveu as melodias mais belas da ópera. Claro, existem outros

gênios, Verdi, Mozart, Bellini, Donizetti, todos maravilhosos. Mas a melodia

de Puccini sempre me tocou de um jeito especial.

E o mais curioso é que sempre me diziam: “Você não vai cantar Puccini,

porque é um tenor leve.” Pois é… nunca diga nunca. É, então… eu sempre

dizia que adorava ouvir Verdi e Puccini. Sempre fui apaixonado pelo

romantismo, pelo verismo, pelas óperas do século XIX, esse repertório

sempre falou muito comigo.

Mas eu ouvia: “Poxa, você é um tenor leve, não vai ter carreira cantando

Puccini.” Claro, eu sei que não vou subir num teatro para cantar Calaf, isso

é óbvio. Mas ficava aquela coisa na cabeça: “Não, eu tenho que cantar

Mozart, Donizetti, coisas mais leves.”

E aí vem a vida e muda tudo. Quando surgiu o convite para o navio, já veio

o repertório definido: “Você vai cantar isso, isso e… Nessun Dorma.”

Eu pensei: “Tá bom, então vamos lá!” (risos)

Na época, eu tinha cantado a ária apenas uma vez, em cerimônia, algo

pequeno. Fiz a audição como deu e acabei construindo uma carreira no

navio justamente com Nessun Dorma, uma peça que, teoricamente, não

era para a minha voz. E é engraçado, porque aquele papo entre cantores

é real a ária demora para “engolir”, para entrar no corpo. No primeiro ano,

eu ainda sofria para cantar como deveria. E olha que, além da ária, a

gente faz o bis no final, com coro e tudo.

Mas no segundo ano, já estava mais tranquilo. E agora, quando fui

ensaiar para a nova temporada, simplesmente abri a boca e ela saiu.

Saiu leve, natural, como se finalmente tivesse encontrado o meu lugar

dentro dela. O mais bonito de tudo é o processo aprender a ter paciência

e confiar no amadurecimento. Nossa carreira é de longo prazo:

começamos aos 20 e, se tudo der certo, o auge vem por volta dos 40.

Acabei de chegar nessa fase e sinto que a voz está madura, pronta. E, com

saúde, a gente canta pela vida inteira. É lindo perceber esse arco, essa

evolução, e entender que não adianta lutar contra o que a vida propõe. Eu

poderia ter dito “não” ao Puccini, por achar que não era para mim. Mas

aprendi que o importante é cantar o que te faz bem, o que se encaixa na

tua voz não o que mandam ou o que a “cartilha” determina. A voz muda,

o repertório muda, e é isso que torna essa jornada tão fascinante.


O que a vida no Mar ensinou sobre a arte, o mundo e sobre si mesmo?

Aprendi que a arte não tem lugar, hora ou idioma, ela é universal e

conecta o mundo pela emoção. Quando a gente amplia os horizontes,

descobre caminhos incríveis que não veria insistindo sempre na mesma

direção. A vida tem sua própria maré, e lutar contra ela não adianta, é

preciso seguir o fluxo, com paciência.

O mar me ensinou muito isso. No teatro, tudo parece pequeno; no

oceano, a imensidão mostra quantos horizontes ainda existem.

E convivendo com tantas nacionalidades, percebi que o ser humano é o

mesmo em qualquer lugar. Muda a cultura, o idioma, mas as emoções

são universais: amor, medo, alegria, saudade. No fim, todos se deixam

tocar pela arte ,e é isso que nos une.

Quais foram as mudanças na sua vida?

Aprendi a ter calma, a respeitar o tempo das coisas. A vida nem sempre

acontece no ritmo que a gente quer, e tudo bem. Essa experiência me

ensinou a conviver com as diferenças, a valorizar a troca com pessoas de

várias culturas e, principalmente, a me reencontrar como artista.

Eu sempre trabalhei em grandes companhias, com coros e elencos

enormes. Aqui, vim como solista, com meu próprio show, meu espaço,

minha responsabilidade. Foi um divisor de águas. Descobri minha força

no palco, sozinho, diante de um público estrangeiro que se emociona e

aplaude de pé. Essa foi a grande virada da minha carreira.

foto by Made Gayan


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Escolhas Sábias e

Qualidade de Vida:

Quando o Trabalho

se Alinha ao Nosso

Ritmo

Por Mirna Rubim

Há momentos na vida em que o peso das decisões

pode ser transformado em leveza.

Para muitos, a virada acontece quando percebem

que é possível viver de outro modo mais simples,

mais coerente, mais inteiro. No meu caso, o ponto de

inflexão surgiu quando compreendi que manter uma

escola física já não refletia mais o propósito que me

movia. O espaço era lindo, mas a estrutura tornou-se

pesada. Não queria sobrecarregar os professores,

tampouco viver sob o fardo das despesas de uma

instituição que já não correspondia ao meu novo

momento.


Em 2018, dois eventos aceleraram essa transição: a

instabilidade política que ameaçava as artes e uma cisão

entre os professores da escola. Naquele mesmo período,

eu vivia o auge de O Som e a Sílaba, peça de sucesso que

na época estava em turnê pelo Brasil. Foi então que a

intuição falou mais alto: decidi encerrar as aulas

presenciais e dedicar-me a escrever Voz Corpo e Equilíbrio.

Com o lançamento do livro, em 16 de abril de 2019 — Dia

Mundial da Voz —, nasceu também meu primeiro curso

online. Estava dado o primeiro passo para o universo

digital. Poucos meses depois, durante uma viagem à

Holanda, constatei que o ensino online me permitiria

viver e trabalhar em qualquer lugar do mundo. A escolha

por Portugal veio naturalmente: afinidade cultural,

reciprocidade fiscal e o desejo de estar mais próxima da

família.


A pandemia de 2020 consolidou o

que já estava em andamento.

Enquanto muitos precisaram se

adaptar às pressas, eu já vinha

migrando para o digital desde o

ano anterior. O confinamento

global apenas acelerou o

processo e confirmou que o

nomadismo digital seria meu

caminho. É curioso como as

crises podem revelar destinos

que já estavam sendo

discretamente preparados.

O primeiro sentimento que

emergiu nesse processo foi o

alívio. Deixar para trás o peso

financeiro e logístico da escola

física abriu espaço para a leveza.

Vieram também a curiosidade e a

ousadia as duas forças que

sempre me moveram.

O medo, por sua vez, nunca foi

um companheiro presente.

Talvez porque aprendi cedo a

planejar, a me preparar e a

confiar no processo. Cresci

acreditando que o medo pode

nos fazer fugir do leão ou

enfrentá-lo. Aprendi a enfrentálo,

com estratégia, fé e trabalho.


Trabalhar online trouxe uma forma de qualidade de vida

que vai além do conforto: trouxe saúde e presença. A

rotina presencial de uma escola de canto, com salas

fechadas pelo isolamento acústico e ar refrigerado,

sempre me deixava vulnerável a infecções. Descobri que

aulas online não apenas preservam a voz, mas também o

corpo. Mesmo constatando o hábito brasileiro de “nos

abraçarmos demais”, percebi o quanto o afeto pode

continuar existindo, e até florescer mesmo através de

uma tela.

O trabalho remoto também reconfigurou a rotina e a

energia criativa. O tempo antes gasto em deslocamentos

passou a ser investido em pesquisa, planejamento e

inovação pedagógica. O Zoom tornou-se palco e

laboratório. As aulas ficaram mais objetivas e

personalizadas, os cursos online ganharam público

internacional e, de repente, o canto conectava pessoas do

Brasil, da Europa e de tantos outros países. É inspirador

perceber que, quando usamos a tecnologia com propósito,

ela se torna uma extensão da nossa missão.

Claro, a disciplina é indispensável. Trabalhar online requer

foco e autocontrole, especialmente quando a casa é

também o ambiente de trabalho. Mas exige, acima de

tudo, autoconhecimento. Saber o ritmo próprio, o limite

do corpo, o tempo de pausa e de ação é o que diferencia

um profissional produtivo de um exaurido. Cada um

precisa encontrar a medida entre compromisso e

serenidade.


Mudar para Portugal foi uma

escolha de corpo e alma. Estar

próxima dos filhos e netos,

depois de tantos anos de uma

carreira intensa, é um privilégio.

Foi preciso viver o turbilhão

para merecer a calmaria. Hoje, o

trabalho continua intenso, mas

o ritmo é outro, mais orgânico,

mais humano.

A pandemia acabou por trazer

uma lição valiosa: às vezes,

precisamos de uma quarentena

não apenas para evitar

infecções, mas para nos

reconectar com quem somos. No

silêncio, descobrimos a própria

voz. No tempo desacelerado,

aprendemos a ouvir o corpo.

Passei a valorizar o que chamo

de sozinhez saudável: o prazer

de

estar só, em paz, cuidando da

mente e do corpo. Cozinhar

tornou-se um ato espiritual ,um

modo de colocar amor e energia

vital na própria nutrição.


Portugal também me devolveu

o contato com a terra. Hoje

cultivo um pequeno pomar e

crio galinhas poedeiras. Ao

cuidar da natureza, percebo

como ela devolve energia,

equilíbrio e propósito. A terra

ensina o tempo certo das coisas.

Qualidade de vida, para mim, é

o resultado de escolhas

conscientes. Sonhar, planejar,

executar e colher tudo com

propósito e sabedoria. Saber

quando agir e quando pausar.

Escolher o que faz sentido, e

não apenas o que dá resultado.

Muitos acreditam que trabalhar

menos ou viver com leveza é

sinônimo de acomodação. Eu

vejo diferente. A vida é um

pêndulo entre ganância e

preguiça, e o

equilíbrio está em reconhecer o

próprio ritmo. Trabalhamos

intensamente na juventude

para colher serenidade na

maturidade. E cada um tem seu

tempo, sua energia e sua

missão. O segredo é respeitar

isso.


De tempos em tempos, é preciso pausar. Dar alguns

passos para trás para poder avançar com mais

consciência. A vida plena não se constrói apenas com

sucessos contínuo, há fases de recolhimento necessárias

para que a melhor versão de nós floresça.

Liberdade, afinal, é saber escolher. É seguir o próprio

compasso sem se preocupar com o julgamento do mundo.

É reconhecer que o verdadeiro sucesso não está no

quanto se conquista, mas na serenidade com que se vive.



SEU

PET

Fabiana Tavares

O que levar e o que precisa para viajar com seu

PET para o Exterior.

Se você vai viajar com seu pet para o exterior ,ou trazê-lo de outro

país para o Brasil, é essencial estar bem preparado e ter todos os

documentos e cuidados em dia. Aqui vai um guia com dicas

importantes + checklist dos principais documentos exigidos..


✅ O que fazer antes de viajar

1.Comece cedo — muitas exigências (vacinas, microchip, atestados) têm

prazos mínimos.

2.Verifique as regras do país de destino e do país de origem (ou de

trânsito). As exigências variam bastante. Por exemplo, para entrar no

Brasil com cão ou gato:

Precisa de certificado veterinário internacional (CVI ou

“International Veterinary Certificate / Pet Passport”) emitido por

veterinário oficial. Serviços e Informações do Brasil+2Serviços e

Informações do Brasil+2

Vacina antirrábica para animais com mais de 90 dias, e a viagem só

pode ocorrer 21 dias depois da vacinação se for a primeira.

Serviços e Informações do Brasil+1

Tratamento antiparasitário (interna e externa) alguns dias antes

da emissão do certificado. Serviços e Informações do Brasil+1

Verificar se o país de origem é considerado de “risco de raiva” ou

não, pois isso pode alterar requisitos. WorldCare Pet Transport+1

3.Confira com a companhia aérea: algumas exigem tamanho/porte para

o transporte do animal (cabine ou porão), especificações para o

kennel/carreta, restrições, documentação extra.

aenabrasil.com.br+2klm.com.br+2

4.Prepare fisicamente o pet: acostumá-lo ao kennel/carreta, verificar

saúde, evitar sedativos sem orientação, etc. klm.com.br+1


? Documentos e exigências principais

Aqui está uma checklist com os itens mais comuns: sempre confirme para

o país de destino porque pode haver exigências extras.

Certificado sanitário internacional ou “Passaporte de animal de

estimação” emitido ou endossado por autoridade veterinária oficial

do país de origem. APHIS+1

Vacinação antirrábica válida (normalmente para cães e gatos com

mais de 90 dias). Serviços e Informações do Brasil+1

Tratamento contra parasitas interno/externo (em alguns casos).

WorldCare Pet Transport

Identificação (microchip) em alguns países ou situações: importante

verificar se o destino exige. WorldCare Pet Transport+1

Atestado de saúde emitido por veterinário oficial, declarando que o

animal está apto para viagem/entrada. Serviços e Informações do

Brasil+1

Documentação da companhia aérea: autorização para transporte do

pet, especificações da caixa de transporte, peso/tamanho, etc.

static.voegol.com.br+1

Cópias dos documentos importantes + originais com você (viajar com

apenas originais pode ser arriscado se algo se perder). WorldCare Pet

Transport

Verifique se há quarentena exigida no país de destino ou no de origem

(ou no de trânsito). Alguns destinos exigem. Serviços e Informações do

Brasil+1


? Checklist resumido para você levar

Certificado sanitário internacional (CVI) ou passaporte do pet

Vacinação antirrábica válida

Comprovantes de tratamento antiparasitário (se exigido)

Identificação do animal (microchip ou outro conforme exigência)

Atestado de saúde emitido por veterinário oficial

Documentação da companhia aérea para transporte do pet

Caixa/kennel de transporte conforme exigência da companhia

aérea/destino

Cópias dos documentos + originais com você

Verificar se há requisitos de quarentena para retorno ou para o destino

Verificar legislação específica do país de destino (alguns têm regras extras)

BOA VIAGEM!


O L I V E I R A

Kayla‌

Foto by Alex Lyrio


Kayla Oliveira: elegância, coragem e

representatividade nas passarelas do mundo

Em um universo da moda ainda marcado por padrões

rígidos e exclusões silenciosas, a ascensão de Kayla

Oliveira é mais do que um feito estético, é um ato

político.

Modelo e mulher trans, Kayla vem conquistando espaço

nas passarelas internacionais com a mesma leveza com

que desafia estruturas históricas de preconceito e

invisibilidade.

Sua presença em desfiles de grandes marcas é um

lembrete de que a moda, quando se abre à diversidade,

ganha potência e verdade. Kayla não representa apenas

uma nova geração de modelos, mas também uma

mudança de paradigma. A beleza que ela exibe vai além

da superfície: é a expressão de uma trajetória marcada

por resistência, autenticidade e coragem de ser quem se

é, sem concessões.

Em entrevista à jornalista Regina Papini Steiner, para a

Revista ICONIC, Kayla destacou que sua missão é inspirar

outras pessoas trans a acreditarem em seus sonhos, sem

medo de ocupar espaços. Temos a certeza de quando ela

pisa na passarela, pensa em todas as meninas que nunca

se viram representadas. E quer que elas saibam que

também pertencem a esse mundo.

O impacto de Kayla é nítido não apenas nas campanhas

que protagoniza, mas na mensagem que carrega. Em

tempos em que o discurso de ódio ainda tenta silenciar

vozes diversas, ver uma mulher trans brilhar sob os

holofotes internacionais é um gesto de resistência e

beleza em seu estado mais puro.

Kayla Oliveira é, hoje, símbolo de uma moda mais

inclusiva, humana e plural. Sua caminhada prova que a

elegância também pode e deve ser sinônimo de

liberdade.


Gostaria que você começasse

compartilhando um pouco da sua

história, quem é Kayla Oliveira e como

foi o início da sua caminhada

profissional?

Bem, eu sou uma mulher trans que

nasceu em um pequeno povoado no

interior do Ceará, pertencente à cidade

de Catunda, fica a cerca de duzentos e

poucos quilômetros de Fortaleza. Foi

ali, nesse cantinho simples, que cresci

e comecei a descobrir o mundo, a

sonhar e a enxergar possibilidades

além do que eu conhecia.

Com o tempo, me encantei pela moda

e percebi que era ali que eu queria

estar. Saí do Ceará, fui para São Paulo

em busca de oportunidades, e hoje

estou em Milão, trabalhando

exatamente com o que sempre sonhei.

Além das passarelas, também atuo nas

redes sociais, onde compartilho um

pouco das minhas origens. Mostro

como é o lugar de onde vim, o

cotidiano do interior, as pessoas, os

costumes. Muita gente se surpreende

com essa realidade e tem gostado de

conhecer esse outro lado da minha

história. Acho bonito poder levar um

pedacinho do meu Ceará para o

mundo.

E quando é que surgiu o interesse pela

moda?

Eu venho de uma cidade muito

simples, onde por muito tempo não

havia nem energia elétrica. A energia

chegou por volta de 2009, e a internet

só apareceu lá entre 2019 e 2020. Foi

foto by Giu Meneghin


foto by Arquivo pessoal

só quando me mudei para a cidade

grande que tive meu primeiro contato

real com a internet e comecei a

descobrir um mundo de possibilidades

que eu nem imaginava.

Foi nesse momento que comecei a me

interessar por outras áreas e percebi

que talvez eu também pudesse trilhar

um caminho diferente. A partir daí, fui

atrás, busquei informações,

oportunidades, e, aos poucos, consegui

conquistar o espaço onde estou hoje.

Depois de um tempo, morei em

Grajaú e Bacabal, e foi lá que

tive meu primeiro contato com

a internet. Foi quando comecei

a ver os desfiles, as passarelas ,

tudo ainda pela tela. Quando

voltei a morar no Ceará, senti

que queria tentar algo maior,

então decidi ir para Fortaleza

procurar uma agência de

modelos. Em Grajaú e Bacabal

as cidades eram pequenas, não

havia oportunidades nesse

meio.

Conversei com meu pai e disse

que queria ser modelo. Ele me

apoiou completamente.

Quando cheguei a Fortaleza,

comecei a me inscrever em

agências, participei de alguns

castings, mas nada realmente

acontecia. Isso foi antes da

minha transição. Na época, os

agentes queriam que eu

mudasse meu corpo, que

entrasse na academia para ficar

mais forte só que esse nunca foi

o meu biotipo.

Lembro que uma vez, em uma

agência, perceberam que eu

estava passando pelo início da

transição. Disseram que eu

precisaria escolher entre seguir

a carreira ou continuar com o

processo, porque, segundo eles,

“não dava certo na moda”.

Naquele período, ainda não

existia esse reconhecimento das

meninas trans nas passarelas.

Então, escolhi seguir com a

minha transição e deixei um


foto by Giu Meneghin


pouco de lado o sonho de ser modelo.

Mais tarde, quando já tinha passado

por toda a transição, com meu cabelo

longo e a autoestima renovada, essa

vontade voltou a florescer. As pessoas

me paravam na rua e diziam: “Você é

modelo, né?” ou “Você parece uma

modelo”. Isso me deu força para tentar

novamente.

Soube que o Dragão Fashion Brasil

estava realizando um casting em

Fortaleza e resolvi me inscrever. Fui

muito bem recebida o pessoal me

tratou com muito carinho, gostaram

bastante do meu perfil. Aquilo

reacendeu de vez o sonho.

Não cheguei a desfilar naquela edição;

fiquei de stand-by, porque ainda não

tinha uma agência me representando.

E quando você não tem uma agência,

tudo é mais difícil. Os clientes

preferem lidar com agências, porque

conseguem acessar vários modelos ao

mesmo tempo, sem precisar contatar

cada um individualmente. Mesmo

assim, foi ali que senti que minha

história na moda poderia realmente

começar.

Como eu ainda não tinha uma

agência, acabei não participando

daquele desfile. Mas foi aí que pensei:

‘Agora eu vou para São Paulo, porque é

lá que tudo acontece. Vou procurar

uma agência e ver o que pode surgir’.

Quando cheguei em São Paulo, entrei

para uma agência — daquelas que,

depois a gente descobre, estão mais

interessadas em vender book do que

em realmente agenciar modelos.

Mesmo assim, segui em frente,

tentando aprender e aproveitar o que

podia.

Foi nessa época que conheci

algumas pessoas que me

disseram: ‘Olha, está

acontecendo um concurso de

uma agência grande, por que

você não participa? Acho que

seria ótimo pra você’. No

começo, fiquei meio resistente,

porque já estava envolvida com

essa primeira agência, mesmo

sabendo que não era o ideal.

Mas um amigo que conheci

nesse curso insistiu. Ele falou:

‘Kayla, tenta! É só se inscrever

online e depois comparecer à

avaliação’. Resolvi seguir o

conselho. Fiz minha inscrição, e

logo depois recebi um e-mail

confirmando

minha

participação.

No dia da seleção, esse meu

amigo — que também tinha se

inscrito — me ligou e perguntou:

‘E aí, você vai, né?’. Eu respondi:

‘Ah, acho que não… tá tudo bem

do jeito que tá’. Mas ele insistiu:

‘Vai sim! Eu já tô a caminho, se

arruma e vem’.

Acabei indo. No concurso,

passei na primeira etapa, e logo

marcaram outra data para a

segunda. Fui de novo, e passei

também. Na mesma semana,

veio a terceira fase — e, para

minha surpresa, consegui ficar

entre as três finalistas do estado

de São Paulo.

Na hora, eu nem acreditei.

Pensei: ‘Como assim? Do nada,

estou entre as finalistas de um

concurso de modelos, o mesmo


que revelou a Gisele Bündchen!’ Foi

um momento de puro espanto e

felicidade, como se de repente tudo

começasse a fazer sentido.

Foto by Arquivo pessoal

Depois disso, viriam outras etapas,

com meninas do Brasil inteiro

competindo. Eu acabei não chegando

à final, mas recebi um retorno que me

marcou muito. A equipe da agência

me disse: ‘Kayla, esses concursos

funcionam assim, nem sempre quem

vence é quem faz sucesso. E nós

gostamos muito de você. Queremos te

acompanhar, ver como vai ser o seu

desenvolvimento’. Aquelas palavras me

deram uma força enorme. Mesmo sem

ter ganhado, senti que alguma coisa

importante tinha começado ali.

Naquela época, meu cabelo não era

cacheado, eu alisava. A agência me

disse: ‘Queremos ver o seu cabelo

natural, e vamos continuar te

acompanhando’. Tudo bem. Voltei

para o Ceará e comecei a deixar o

cabelo crescer do meu jeito, natural.

Enquanto isso, eu seguia postando

bastante no Instagram, fotos simples

do meu dia a dia. Às vezes eu estava

no meio do roçado, fazia uma foto;

ou indo buscar alguma coisa, fazia

outra. Postava tudo com leveza,

mostrando minha rotina real.

O pessoal da agência, que já me

acompanhava desde o concurso,

continuou me seguindo nas redes.

Depois de um tempo, quase um ano

me observando, eles me procuraram

dizendo: ‘Kayla, estamos gostando

muito da sua evolução, do seu

trabalho, da sua autenticidade.

Queremos assinar um contrato com

você’.

Fiquei muito feliz. Assinei o contrato

e tudo já estava encaminhado para

eu voltar a São Paulo. Mas aí veio a

pandemia. Eu estava lá havia pouco

mais de um mês quando tudo parou.

A agência nos avisou: ‘Vamos mandar

todos os modelos de volta para casa,

porque não sabemos o que vai

acontecer’.

Eu não queria voltar. Tinha a

sensação de que, depois de tanto

esforço, estava finalmente no

caminho certo. Lembro que

perguntei: ‘Mas será que isso não vai

passar rápido?’. Foi um momento

difícil, de incerteza, mas também de

esperança.”


foto by Santalolla


Eu ainda relutei em voltar, porque

sabia que teria de gastar novamente

com passagem, mas a agência

insistiu: ‘É melhor ir, Kayla. Ninguém

sabe o que vai acontecer agora.

Depois a gente vê’. Acabei voltando

para casa acho que foi em fevereiro,

bem no momento em que os

aeroportos estavam começando a

fechar. Peguei um dos últimos voos e

fiquei um tempo no Ceará.

No dia do meu aniversário, uma

amiga postou um vídeo meu

desfilando em um corredor. Um

amigo dela, que era maquiador, viu o

vídeo e comentou: ‘Que linda!’. Ele me

seguiu no Instagram e disse que

queria me maquiar, que queria me

levar para São Paulo para fazer umas

fotos com um fotógrafo.

Avisei a agência, mas eles disseram

para eu não ir, porque ainda era um

período de muita incerteza

estávamos no auge da pandemia.

Mesmo assim, eu queria tentar. O

maquiador se ofereceu para pagar

tudo, passagem, hospedagem, fotos,

e eu senti que precisava aproveitar

aquela oportunidade. Então, fui.

A ideia era ficar apenas quatro dias,

mas as fotos ficaram lindas e a

agência gostou tanto que pediu para

eu permanecer mais um pouco.

Disseram que iam enviar o material

para alguns clientes e queriam ver o

retorno. Pouco depois, me ligaram

dizendo que as respostas estavam

sendo muito positivas e que seria

melhor eu ficar mais tempo, pelo

menos um mês , porque havia

chances reais de trabalho.

E foi exatamente o que aconteceu.

Aquela viagem que seria de quatro

dias virou uma mudança definitiva.

Comecei a trabalhar e, em menos de

um mês, fiz minha primeira

campanha para a marca Quem Disse,

Berenice?. Lembro da emoção de ver

minha foto exposta no shopping. Eu

passava na frente só para me olhar

parecia um sonho. Era a prova de que

tudo estava, finalmente, dando certo.

Kayla, quais foram as maiores

dificuldades que você encontrou? Sua

família sempre te apoiou?

Sim, minha família sempre me

apoiou, minhas tias me apoiam,

minha avó também me apoiava, todo

mundo sempre me apoiou. As

maiores dificuldades, a gente ser

trans, ser nordestina, ser do nordeste

também, isso também conta. É…

porque a gente vê tantas meninas,

não só eu, mas tantas outras, que

poderiam chegar muito mais longe.

Acho que isso ainda é uma barreira,

não apenas por ser do Nordeste, mas

também por ser uma mulher trans.

Existem tantas meninas incríveis,

talentosas, que mereciam ter mais

visibilidade e oportunidades.

Infelizmente, ainda pesa um pouco.

Mas acredito que, aos poucos, isso

está mudando, e que a gente está

abrindo caminho umas para as outras.

Eu acho que, muitas vezes, o público

cobra meninas trans como se fossem

meninas cis. Mas na hora de contratar,

não há essa mesma exigência, já

existe uma diferença.


É como se houvesse um filtro: ‘Ah, é

trans, não é trans’. Se tudo fosse

tratado de forma igual, acredito que

seria bem mais fácil. Mas, infelizmente,

essa distinção ainda existe.

Você tem muita personalidade, algo

que é raro de encontrar em modelos. E

fora do Brasil, como tem sido sua

experiência? Tem feito muitos

trabalhos internacionais?

Cheguei aqui em Milão faz pouco

mais de um mês, ainda nem

completou dois meses. Antes disso, já

tinha passado uma temporada no

México, mas agora estou de volta à

Europa para trabalhar.

Sim, estou trabalhando bastante. Vim

para Milão e já tenho contratos

fechados com outras agências em

diferentes países. Minha agência

principal, inclusive, não quer que eu

volte ao Brasil tão cedo. Eles

disseram: ‘Você passou bastante

tempo no Brasil, agora fica por aqui

mesmo’.

Em algum momento você pensou em

desistir? Teve algum momento em

que você se perguntou: ‘Por que

escolhi seguir essa carreira?

Às vezes, isso acontece, mas só no

começo mesmo especialmente

quando a agência me disse para

escolher entre continuar a carreira ou

seguir minha transição. Naquele

momento, pensei em desistir. Mas

hoje não; as dificuldades fazem parte

do caminho. Quando a gente ama o

que faz, os obstáculos se tornam

aprendizados. Cada desafio superado

é uma conquista, e quando você

vence, percebe o quanto é forte.

Acredito que, se você não gostar do

que faz, nem consegue chegar onde

deseja, porque acaba desistindo

antes mesmo de tentar. Para mim,

esse aprendizado começou em São

Paulo, com meu primeiro contrato de

trabalho para a marca Quem Disse,

Berenice?, na área de maquiagem.

foto by Pedro Apolin


Depois disso, vieram outros trabalhos

importantes: desfiles na São Paulo

Fashion Week e participações em

revistas como Vogue e Marie Claire.

E como você lida com a pressão

estética e todas as exigências do

mercado da moda? Como consegue

equilibrar isso no dia a dia?

Eu tento lidar da melhor forma

possível. É preciso manter o

equilíbrio, senão você acaba ficando

maluca cada pessoa vai dizer uma

coisa diferente. Se você ligar demais

para a opinião dos outros, se perde.

É fundamental se reconhecer, se

autoconhecer. Não é algo para

debater ou justificar; você ouve, mas

não absorve tudo. É importante

permanecer neutra, centrada em si

mesma e no que você realmente

acredita.

De que maneira suas origens

influenciam, ou influenciaram, seu

trabalho como modelo? De que

forma elas impactam sua trajetória

profissional?

Eu acredito que minhas origens

influenciam meu trabalho de

maneiras diferentes — às vezes de

forma positiva, outras nem tanto. Há

marcas que nos procuram

justamente por isso: ‘Ah, ela é

nordestina’. Geralmente, quando vão

contratar alguém, eles já têm uma

ideia do perfil que querem.

foto by Melkzada


Às vezes, esse perfil combina

exatamente com quem você é, e

então isso se torna uma vantagem.

Outras vezes, eles procuram algo

completamente diferente, alguém

que não tem nada a ver com você. É

um equilíbrio — e você precisa

aprender a lidar com essas

expectativas sem perder sua

essência.

Você sente que o mercado da moda

está mais aberto à diversidade hoje

seja regional, corporal ou cultural?

Antigamente, parecia que havia um

padrão muito definido, não é? Loira,

determinada estética… como você vê

essa mudança?

Sim, eu acho que mudou bastante.

Não totalmente, mas mudou muito.

No Brasil, vemos que a diversidade

de corpos é muito mais aceita. No

São Paulo Fashion Week, por

exemplo, meninas de todos os tipos

de corpo desfilam e são valorizadas.

Aqui fora, sinto que ainda não é tão

assim. Quando o público exige

diversidade, eles até fazem algumas

mudanças, mas logo voltam ao

padrão anterior, com corpos

extremamente magros.

Quanto à diversidade de beleza,

especialmente sobre não ser só

meninas loiras, as brasileiras estão

conquistando espaços importantes.

Por um tempo, não havia muitas

brasileiras nas passarelas e

campanhas internacionais, mas

agora estamos voltando com força.

Acho que estamos sendo muito bem

aceitas e conquistando nosso lugar

novamente.”

Você tem sonhos?

Sonhos, não tenho sonho. Tenho

metas em fazer esses desfiles da

semana de moda da próxima. Dessa

vez eu vim, não fiz nenhum, mas já

tenho experiência para fazer os

próximos. No próximo, na próxima

temporada, já vou voltar com tudo

mais preparada. Aí no foco de fazer

várias coisas e campanhas também

das grandes marcas mundiais que a

gente tem aí, que é conhecida

mundialmente da semana de moda.

Você pensa em usar a sua

visibilidade para inspirar outras

jovens da sua região e mostrar que

elas também podem conquistar seus

sonhos?

Eu acho que isso eu já faço de certa

forma, porque muitas meninas me

conhecem pelo meu Instagram e se

inspiram na minha história. Elas me

mandam mensagens, dizendo coisas

como: ‘Você é daqui, como eu, e

conseguiu realizar seu sonho.’

Isso mostra que a gente também

tem possibilidades e capacidade de

chegar aonde quer, não só como

modelo, mas em qualquer área da

vida.


Que conselho você daria para as meninas que hoje sonham em seguir o mesmo

caminho que você?

O meu conselho é que é difícil, não é fácil, mas nada da vida da gente é fácil.

Para elas irem atrás, vai ter muitas pessoas falando que não vai conseguir, vai ter

outras pessoas também falando que vai conseguir. O importante é ter o foco e

saber o que você quer, que você, fazendo aquilo que você realmente quer, você

consegue.

“E, Kayla, para nossa última pergunta: Fora das passarelas, longe das câmeras,

quem é a Kayla?

A Kayla, fora das passarelas, longe das câmeras, ela é bem quietinha, gosta de

estar com amigos, gosta de estar em casa. Soa assim, mais tranquila, mais na

minha. Gosta de estar lá em casa, no meio do mato, lá no interior, com os

bichinhos, com os animais, andando nos roçados. Igual eu posto as coisas no

Instagram, nos vídeos, lá que eu fico mais no meio das vacas, sou exatamente

daquele jeito. Totalmente o oposto das passarelas.

https://www.instagram.com/kaylago_/


Por

Roberto Lívio

​Aqui estão três filmes com lançamento previsto para o final de 2025 que podem se

encaixar bem para você acompanhar:

O Agente Secreto

Lançamento no Brasil: 6 de novembro de 2025.

Thriller brasileiro dirigido por Kleber Mendonça Filho, estrelado por Wagner

Moura.

Uma ótima aposta se você quer algo com mais intensidade, história séria e

produção brasileira.


Wicked: For Good

Lançamento no Brasil: 4 de novembro de 2025.

Wikipedia

Produção dos estúdios Universal Pictures, será exibido

em formatos especiais como IMAX, 4DX, etc.

Ideal se você gosta de fantasia musical/adaptações

teatrais — clima mais “blockbuster de final de ano”.

Homo Argentum

Lançamento no Brasil: programado para 20 de

novembro de 2025.

Filme argentino de 2025 (com estreia internacional em

dezembro) — se você curte produções latino‐americanas

ou quer algo diferente do padrão Hollywood, ele pode

ser excelente.


DRA

MIRELA WARD

CONTATO

11 9889 66111

@mirelaward

Dra Mirela Ward - medica homeopata

https://share.google/fZD1p5PJz56F95WVB

Em tempos em que a pressa e o

imediatismo parecem ter tomado conta

até da saúde, ouvir a Dra. Mirela Ward falar

sobre medicina homeopática é quase um

respiro. Médica de formação sólida, Mirela

traz um olhar que vai além dos sintomas —

ela enxerga o ser humano como um todo,

corpo, mente e emoção em constante

diálogo.

Durante a entrevista, a Dra. Mirela reforçou

algo que muitos esquecem: tratar o

paciente é muito mais do que prescrever

medicamentos; é compreender a história

por trás da dor. Para ela, o grande desafio

da medicina moderna está justamente em

equilibrar o avanço tecnológico com a

sensibilidade do cuidado humano.

A homeopatia, segundo Mirela, é uma

ferramenta de reconexão. Ela defende que

cada organismo tem seu próprio ritmo de

cura e que o papel do médico é respeitar

esse tempo, estimulando o equilíbrio

interno e não apenas silenciando o

sintoma. É uma visão que contrasta com a

lógica da indústria farmacêutica, mas que,

aos poucos, tem ganhado espaço entre

profissionais que compreendem a

importância da medicina integrativa.

Como opinião, é impossível não destacar a

serenidade e a coerência com que a Dra.

Mirela fala sobre o tema. Sua abordagem

não é de enfrentamento à medicina

tradicional, mas de ampliação de

horizontes, de diálogo entre saberes. Em

um cenário em que a saúde se tornou

produto, vozes como a dela são necessárias

lembram que o verdadeiro cuidado nasce

do olhar atento e do escutar genuíno.

A entrevista com a Dra. Mirela Ward nos

convida a repensar o conceito de saúde:

menos remédio e mais consciência; menos

pressa e mais presença.

por Regina Papini Steiner


Doutora, o que a motivou a escolher a Medicina e, especialmente, a se

especializar em Homeopatia?

"Eu sempre gostei de cuidar de pessoas, de cuidar de gente."

Quando eu era adolescente, meu pai adoeceu, e pouco tempo depois meu

avô, que morava conosco, também ficou doente. Foi nesse período que decidi

cursar o técnico em enfermagem, queria me especializar ainda no ensino

médio.

Ao entrar no hospital, conhecer o fluxo, os pacientes, e perceber a

importância do cuidado, entendi o poder que há nos pequenos gestos.

Colocar um travesseiro no lugar certo, ajudar alguém a respirar melhor, ver o

alívio no rosto de uma pessoa, tudo isso me marcou profundamente.

Quando me formei em Medicina, meu primeiro interesse era a Psiquiatria. Fiz

estágios no Hospital das Clínicas da USP e no CAPS III de Jundiaí — cidade

onde cursei a faculdade. Durante essa vivência, percebi que havia ali um viés

muito político e uma abordagem com a qual eu não me identificava. O

modelo ainda trazia resquícios do sistema manicomial, e o modo de lidar com

o paciente não refletia o cuidado e o respeito que eu acreditava serem

essenciais.

Apesar disso, sempre tive uma forte ligação com a área. Sou apaixonada por

estudar psicanálise, comportamento humano e terapias. Sempre me

interessei por esse olhar mais profundo sobre o ser humano. Mas essa

experiência acabou sendo um divisor de águas: percebi que aquele tipo de

prática não era o que eu buscava para a minha atuação médica.

Depois de formada, comecei a trabalhar como médica em postos de saúde, na

área de Saúde da Família. Foi nesse contexto que tive meu primeiro contato

com a Homeopatia inicialmente como paciente. Eu sofria de uma dermatite

atópica que não melhorava de forma alguma, e foi através do tratamento

homeopático que encontrei alívio.

A partir dali, o passo para a Medicina foi natural. Descobri que minha vocação

estava em ajudar o outro, em promover saúde e bem-estar. A Medicina

sempre foi esse caminho de dedicação e escuta. Já são mais de 20 anos

cuidando de pessoas, primeiro como enfermeira, depois como médica, e

continuo encontrando sentido nesse ato de servir com empatia e propósito.

E desde então, me apaixonei pela Homeopatia. Percebi que os medicamentos

podiam tratar desde uma insônia ou ansiedade até uma alergia, ou seja, atuar

no equilíbrio do corpo e da mente ao mesmo tempo. Essa visão integral do ser

humano, de enxergar e cuidar da pessoa como um todo, me encantou

profundamente.

A medicina integrativa tem justamente essa proposta: preocupar-se com

cada detalhe, desde a qualidade do sono até o funcionamento do intestino. É

fascinante poder olhar o paciente de forma completa, e acredito que é na

Homeopatia que encontramos essa verdadeira essência do cuidado.


O que mais me encanta na

Homeopatia é a possibilidade de olhar

o paciente por inteiro. Quando você vai

a um psiquiatra, ele quer saber apenas

da ansiedade ou da depressão. O

proctologista, do intestino. Já o

homeopata quer conhecer tudo: como

está seu dia a dia, seu sono, sua

alimentação, se o intestino funciona

bem, se a menstruação mudou, se a

menopausa tem causado

desconfortos. É um cuidado integral,

humano.

E isso é o que me apaixona: na

Homeopatia, a gente aprende a cuidar

de pessoas , não de doenças.

É possível que uma pessoa que já

esteja em tratamento alopático

também seja tratada com a

homeopatia? Ou, dependendo do caso,

essa transição não é recomendada?

Em outras palavras, é viável combinar

os dois tipos de tratamento?

Então, a medicina integrativa ela vai

abrangir, lógico, com outras áreas,

então tem muito paciente que é

encaminhado, por exemplo,

fibromialgia, eu tenho tratado muito

esse tipo de quadro no SUS, quem me

encaminha é um colega ortopedista,

porque são pacientes difíceis de lidar,

as dores elas são muito generalizadas,

às vezes são articulares, às vezes são

ósseas, às vezes são musculares, então

são pacientes muito difíceis de tratar,

então normalmente eu trato em

conjunto, por exemplo, com um colega

ortopedista. Outros colegas que me

encaminham, por exemplo, são os


ginecologistas, aquela paciente que tem uma menopausa muito difícil, tá

nessa transição e aí a gente sabe que tem poucos medicamentos da alopatia

para tratar uma mudança de humor brusca, que é a diminuição do hormônio,

aumenta um, diminui outro e tal, e aí você vê que assim, na alopatia, você não

vai ter um “gap” que nem a gente tem na homeopatia, é só de plantas, pra

menopausa a gente tem mais de 10.

Quando falamos em mudanças de humor, a nossa botânica especialmente a

brasileira, é riquíssima. Temos uma flora incrível, com inúmeras plantas e

ervas capazes de tratar essas oscilações emocionais e os famosos fogachos,

aquelas ondas de calor tão comuns na menopausa. Já na alopatia, o

ginecologista enfrenta uma grande dificuldade, porque simplesmente não

dispõe da mesma variedade de opções que nós, homeopatas, temos à

disposição. Então sim, Regina, a gente consegue tratar em conjunto o

paciente.

Quais são os princípios fundamentais que norteiam a prática da homeopatia?

A base da homeopatia vem de Hipócrates, com o princípio similia similibus

curentur, ou seja, “o semelhante cura o semelhante”. Um exemplo prático:

tenho muitos pacientes alérgicos, e um dos medicamentos que costumo usar

é o Dolichos, conhecido popularmente como pó de mico. Quando essa

substância é dinamizada e transformada em medicamento homeopático, ela

justamente trata aquele tipo de coceira intensa, irritante, semelhante à

causada pelo próprio pó de mico. Ou seja, usamos o princípio do semelhante

para aliviar o sintoma no paciente. Outro exemplo clássico é a beladona, que

muitos conhecem da alopatia ela está presente em diversos medicamentos

para cólica, por exemplo. A beladona é uma planta, da qual se extrai a

atropina, e na homeopatia ela é usada de forma dinamizada para tratar

quadros de rubor, inflamação e febre. É muito eficaz em casos infecciosos em

que o paciente apresenta vermelhidão intensa, congestão e calor, justamente

porque, em doses maiores, a planta provoca esses mesmos sintomas. Ou seja,

novamente aplicamos o princípio do semelhante curando o semelhante.


Doutora, temos visto cada vez mais

crianças sendo tratadas com

homeopatia. Na sua experiência, essas

crianças acabam crescendo mais

equilibradas e saudáveis? Como a

homeopatia contribui nesse processo?

Hoje, a gente vive um viés muito

farmacológico. A criança tem uma

infecção, e logo recebe um antibiótico.

O problema é que, a longo prazo, o uso

excessivo desses medicamentos pode

causar alterações metabólicas,

enfraquecer a imunidade e até afetar a

dentição é comum vermos dentes

amarelados por causa do uso

contínuo. Assim, a criança entra num

ciclo: toma antibiótico, melhora um

pouco, mas logo adoece de novo, e

cada vez com infecções mais

resistentes.

Quando introduzimos a homeopatia, o

foco muda ela atua diretamente no

fortalecimento da imunidade. Há

estudos, inclusive de pesquisadores

brasileiros como a doutora Leonii

Bonamin, que mostram em laboratório

que doses homeopáticas de

determinadas substâncias estimulam

a produção de linfócitos, as células

responsáveis por proteger o

organismo. Ou seja, ao longo do

tratamento, a criança passa a adoecer

menos e se torna mais resistente

naturalmente. Então, por exemplo, a

Dra. Leoni tem um estudo muito

publicado que eu gosto de

recomendar, que é, por exemplo, o que

é a canthares vesicatoria. Em doses

homeopáticas, a gente usa ela muito

pra infecção de urina. O que ela fez?

Em um dos estudos mais interessantes

da doutora Leoni Bonamin, foram

usados camundongos infectados com

Escherichia coli, bactéria responsável

por grande parte das infecções

urinárias, especialmente em mulheres.

Ela administrou doses homeopáticas

de Cantharis vesicatoria, o mesmo

medicamento que usamos em

consultório para tratar infecções

urinárias recorrentes, e observou um

aumento dos receptores de linfócitos

naquela região. Ou seja, a resposta

imunológica local foi potencializada.

Isso mostra que determinadas

substâncias, quando usadas em doses

homeopáticas.

Uma criança que tenha feito

tratamento a longo prazo com

alopatia, ela pode migrar pra

homeopatia?

O que mais me encanta nesses mais de

dez anos de clínica é ver, na prática, a

mudança real na vida dos pacientes.

Recebo muitas crianças com crises

respiratórias, bronquite, asma, uso

constante de corticoides, antibióticos

e bombinhas. Quando iniciamos o

tratamento homeopático, o sistema

imunológico delas começa a se

fortalecer. Aos poucos, vão reduzindo

o uso das medicações tradicionais e,

muitas vezes, deixam de ter aquelas

crises recorrentes nas mudanças de

temperatura, tão comuns aqui em São

Paulo. É nítido como o corpo aprende a

reagir melhor. E, sinceramente, a

minha maior felicidade é ver essas

crianças diminuindo o uso de

antibióticos. Isso, pra mim, é uma

grande vitória.


Tenho pacientes que acompanho

desde o nascimento e que, com

orgulho, posso dizer que há mais de

dois ou três anos não usam

antibióticos. E isso, hoje, é raro,

principalmente com essas mudanças

bruscas de temperatura. O que mais

acontece é a criança ir ao prontosocorro

e já sair com antibiótico e

corticoide. Na homeopatia, fazemos o

processo de forma gradual, muitas

vezes em conjunto com o pediatra ou

o pneumologista, substituindo aos

poucos os medicamentos tradicionais.

O resultado é visível: melhora do sono,

da disposição, da imunidade e,

principalmente, da qualidade de vida.

Crianças que antes viviam doentes

hoje fazem natação, praticam esportes

e têm uma rotina muito mais saudável.

A medicina tradicional tem se

mostrado mais receptiva à

homeopatia? Existe hoje uma boa

convivência entre os médicos alopatas

e os homeopatas?

Não. A gente ainda enfrenta uma certa

resistência, uma “briga” velada,

digamos assim. Mas, felizmente, hoje

temos o CRM reconhecendo e

fiscalizando a prática, e também uma

Câmara Técnica de Homeopatia no

CREMESP, formada por médicos

homeopatas. Isso é fundamental,

porque garante seriedade e segurança

tanto para o profissional quanto para o

paciente.

Por isso é tão importante ter o título

de especialista, o RQE — Registro de

Qualificação de Especialista. Isso

mostra que o médico passou por toda

a formação, é acompanhado e pode

responder tecnicamente caso algo

aconteça. Infelizmente, há muitas

pessoas não médicas se apresentando

como terapeutas homeopáticos, e isso

é perigoso, porque só o médico tem a

formação para diagnosticar, pedir

exames e acompanhar o tratamento

de forma segura e integrativa.

O que ainda falta é informação. Muitos

colegas, inclusive médicos,

desconhecem que a homeopatia é

uma especialidade reconhecida, com

prova de título, com fiscalização do

CREMESP e da AMB. É uma área ainda

pouco falada nas faculdades, e isso

acaba gerando preconceito e

desinformação. Então, por exemplo,

eu só tive contato com a homeopatia

depois que me formei, Regina. Na

faculdade de medicina, a gente não

tem essa especialidade na grade, e

esse é um dos motivos pelos quais

ainda é raro encontrar médicos

homeopatas.

Saiu, inclusive, um censo da USP que

mostra bem essa diferença: enquanto

só em São Paulo há cerca de 5 mil

cardiologistas, o número de médicos

homeopatas registrados é de apenas

850. É muito pouco, né? Na minha

turma, por exemplo, nós éramos 65

formandos em medicina — a maioria

foi pra oftalmologia ou cirurgia… e

homeopata, só eu!


Pelo nosso último censo de

especialistas ,que depois posso até te

enviar, dá pra ver que a homeopatia

ainda é uma especialidade, digamos

assim, de médicos mais experientes. A

maioria dos meus colegas homeopatas

tem mais de 40, 50, 60 anos e

geralmente já são especialistas em

outras áreas, como pediatria ou

otorrinolaringologia.

Isso acontece porque muitos acabam

ficando insatisfeitos com as limitações

da alopatia em alguns casos. Por

exemplo, cólica de recém-nascido,

dentição ou insônia em bebês, é muito

difícil tratar, porque há poucas opções

de medicamentos. Então, o pediatra vê

essa dificuldade e acaba migrando

para a homeopatia, onde encontra

alternativas eficazes.

O mesmo vale para o otorrino: aquele

paciente com sinusite ou rinite de

repetição, que já tentou de tudo

loratadina, corticoide, prednisolona , e

não melhora. Quando ele vê que a

homeopatia traz bons resultados,

desperta o interesse em se

especializar.

Por isso, a gente costuma dizer que a

homeopatia é uma segunda

especialidade, é o caminho que muitos

médicos escolhem depois de anos de

prática clínica.

fotos arquivo pessoal


É exatamente esse cuidado que faz

com que a homeopatia tenha uma

grande procura na área pediátrica. A

mãe que acabou de ter um bebê,

naturalmente, não quer sobrecarregar

o recém-nascido com uma série de

medicamentos , antibióticos, dipirona,

paracetamol, prednisolona e tantos

outros. Então, quando percebe que o

filho está com cólicas persistentes e

nada resolve, mesmo depois de vários

remédios para dor ou gases, ela busca

a homeopatia.

No consultório, entramos com algo

muito mais suave, com doses seguras,

praticamente sem efeitos colaterais, e

sempre com o acompanhamento

médico adequado. Aos poucos, essa

mãe vê os resultados: melhora nas

cólicas, depois na dentição, depois nos

resfriados, e percebe que a criança

está mais resistente, mais equilibrada.

Por isso, a homeopatia acaba se

destacando tanto entre os pediatras e

pais de primeira viagem. porque

oferece uma alternativa menos

agressiva, mais natural e, acima de

tudo, segura. É um tratamento que

respeita o ritmo do corpo e fortalece,

desde cedo, o sistema imunológico

que está apenas começando a se

desenvolver.

Muita gente ainda tem uma visão

equivocada sobre a homeopatia,

acreditando que se trata apenas de

um efeito placebo. Como a senhora

responde a esse tipo de crítica?

É muito difícil, viu? Eu até queria te

mostrar, mas não tenho aqui comigo

agora, o CREMESP lançou várias

revistas com pesquisas excelentes

sobre homeopatia. Muita gente ainda

fala “ah, é placebo, não funciona”, mas

aqui em São Paulo mesmo nós temos

três grandes pesquisadores

reconhecidos internacionalmente: a

doutora Leoni Bonamin, o doutor

Marcus Zuliman e o doutor Paulo

Rosenbaum. Os dois últimos, inclusive,

são da USP e estão entre os principais

nomes mundiais na pesquisa

homeopática.

Então, há sim muita pesquisa séria

sendo feita. Em congressos de

homeopatia, a gente vê trabalhos em

diversas área, inclusive na agricultura.

Hoje, você vai ao supermercado e

encontra ovos com selo “livre de

gaiola”, “natural” e “produzido com uso

de homeopatia”. É real! A homeopatia

está sendo aplicada na agropecuária,

em criações de galinhas, peixes e

outros animais.

Na UERJ, por exemplo, há um grupo

que pesquisa o uso de substâncias

como zinco e mercúrio solúvel em

tanques de peixes — e os resultados

mostram menor contaminação e

menor perda dos animais. Na

veterinária também: a doutora Ana

Torres, aqui de São Paulo, fez um

trabalho incrível no zoológico, usando

homeopatia para fortalecer a

imunidade e até tratar o estresse dos

animais em cativeiro.

Ou seja, como dizer que é placebo?


Esses resultados são concretos,

observáveis. Temos ainda pesquisas

em Betim, com residência médica em

homeopatia, mostrando eficácia em

doenças respiratórias; e estudos

laboratoriais aqui em São Paulo que

comprovam aumento de receptores

imunológicos.

Infelizmente, existe uma resistência

grande, porque a maioria das

pesquisas depende de financiamento

e como não há grandes indústrias por

trás da homeopatia, a área ainda

recebe pouco investimento. Mas,

felizmente, a produção científica vem

crescendo cada vez mais, e com

resultados muito positivos.

A homeopatia, se você for ver, é

fascinante também nesse aspecto

econômico. Um frasquinho de

medicamento homeopático custa, em

média, 30 ou 40 reais e dura de dois a

três meses e ainda assim é capaz de

alterar positivamente a imunidade do

paciente. Já na contramão, quando

você observa o mercado farmacêutico

tradicional, uma simples vitamina

pode custar 80 reais ou mais. Claro,

isso movimenta uma indústria muito

maior, com um custo de laboratório e

de produção bem mais alto e,

consequentemente, com muito mais

interesse financeiro envolvido.

A senhora acredita que parte dessa

resistência à homeopatia vem da

influência e do poder econômico da

indústria farmacêutica? Até que ponto

essa disputa de interesses impacta o

reconhecimento e o avanço da

medicina integrativa no Brasil?

A gente percebe, hoje, uma certa falta

de opção entre os colegas médicos em

algumas áreas, especialmente

naquelas em que a alopatia não tem

conseguido oferecer respostas

efetivas. É o caso, por exemplo, das

infecções de repetição em crianças ou

das ondas de calor e alterações

hormonais da menopausa. São

situações que comprometem o bemestar

e a qualidade de vida do

paciente, mas que, dentro da medicina

tradicional, contam com poucas

alternativas: ou o médico opta pela

reposição hormonal que nem sempre

é possível ou fica restrito a duas ou

três opções de tratamento.

Já na homeopatia, temos uma gama

muito mais ampla. Contamos com

várias plantas e minerais que podem

ajudar a equilibrar o organismo e

aliviar esses sintomas. Essa

diversidade é uma das grandes forças

da medicina integrativa.

Mesmo com as dificuldades

estruturais, até mesmo em grandes

centros como São Paulo, temos visto

um aumento importante no número

de pais e pediatras buscando

especialização em homeopatia. Isso

mostra que há um reconhecimento

crescente de sua eficácia e segurança.

No meu consultório, observo dois

perfis predominantes: crianças, cujos

pais procuram tratamentos mais

naturais e menos agressivos, e idosos

que já tiveram boas experiências com

a homeopatia no passado e voltam a

buscá-la quando outros métodos não

resolvem. Eu costumo brincar que sou

o “final da linha”: quando o paciente

chega, ele geralmente diz “já tentei de


tudo, nada deu certo, então resolvi

procurar a homeopatia”.

E, de fato, ela tem oferecido respostas

muito positivas, especialmente nos

casos de insônia, menopausa e, mais

recentemente, nos problemas ligados

à saúde mental. Vivemos uma

verdadeira epidemia de ansiedade e

depressão, e nesses casos a

homeopatia tem se mostrado uma

aliada valiosa, ajudando o paciente a

reencontrar o equilíbrio sem os efeitos

colaterais dos medicamentos

tradicionais. Porque a homeopatia

oferece um tratamento que não vai

“chumbar” o paciente, não vai reduzir

a cognição o que é essencial,

principalmente em crianças. Seria

maravilhoso se os pais pensassem

primeiro na homeopatia, antes de

partir para medicamentos alopáticos

mais fortes. Quando uma criança com

ansiedade ou depressão é tratada com

remédios tradicionais, muitas vezes

sofre efeitos que comprometem o

aprendizado e o reflexo, tornando o

processo cognitivo mais lento. A

homeopatia, por outro lado, não causa

esse tipo de alteração é mais segura,

natural e com menos efeitos

colaterais.

O mesmo vale para os idosos. Muitos

vêm até nós relatando que, após

iniciar tratamentos convencionais,

começaram a sentir perda de

memória, dificuldade de concentração

e até desânimo para realizar as

atividades diárias. Já com a

homeopatia, o sono se torna mais

reparador, sem aquele efeito de

sedação que deixa o paciente

sonolento e vulnerável a quedas ou

confusão mental. É um tratamento

que busca o equilíbrio, não apenas o

alívio imediato. Mas ainda há um

grande desafio: a desinformação entre

os próprios colegas médicos. Apesar

de termos a homeopatia disponível no

SUS inclusive, eu atuo nessa área

muitos profissionais não sabem

sequer que podem encaminhar o

paciente para esse tipo de

atendimento. O problema começa na

formação: temos um número enorme

de faculdades de medicina, mas

poucas abordam o que é de fato a

homeopatia.

Por isso, existe um preconceito

enraizado. Muitos dizem que é

placebo, que não há comprovação

científica. No entanto, se pesquisarem

no PubMed, encontrarão mais de 40

mil referências sobre homeopatia.

Falta conhecimento, não evidência. E

isso faz com que muitos pacientes

ocultem dos seus médicos o fato de

estarem fazendo tratamento

homeopático, por receio de serem

julgados. Muitos colegas ainda têm

uma certa resistência, uma ignorância

mesmo, de achar que a homeopatia

não funciona. Por isso, acabam nem

considerando ou encaminhando o

paciente. Felizmente, eu tenho a sorte

de trabalhar com alguns pediatras que

compreendem a importância desse

trabalho conjunto — eles me ligam,

conversam, dizem: “Estou te

encaminhando um paciente com

determinada dificuldade, vamos tratar

juntos?”. Isso é maravilhoso, mas ainda

é raro. São poucos os profissionais que


têm essa abertura. Esse diálogo entre

especialidades deveria começar lá

atrás, ainda na faculdade de medicina,

para que o futuro médico entenda que

a homeopatia é uma ferramenta

complementar e extremamente

valiosa no cuidado com o paciente.

Eu percebo que essa parceria é muito

mais frequente com psicólogos. Tenho

vários colegas da área que me

encaminham pacientes porque têm

receio dos medicamentos alopáticos

muitas vezes eles interferem no

tratamento psicológico, deixam o

paciente mais dopado, com a cognição

comprometida. Então, eles preferem

que eu faça uma avaliação

homeopática e que a gente conduza o

caso em conjunto. Funciona muito

bem.

O mesmo acontece com

fisioterapeutas temos um trabalho

integrado e resultados excelentes. Já

com os médicos, infelizmente, é

diferente. Muitos ainda não entendem

bem o papel do homeopata. Quando

encaminham, é quase sempre aquele

caso em que dizem: “Olha, já tentei de

tudo, agora vai pro homeopata”. É

como se fosse a última alternativa,

quando na verdade, poderia ser o

primeiro passo.

Ao longo da sua trajetória, o que a

prática da homeopatia te ensinou em

relação à saúde, à natureza humana e

à sua própria maneira de ver a

medicina?

Cada homeopata teria uma resposta

diferente, mas pra mim o que a

homeopatia mais ensina é a

humanização. Quando um paciente

chega com dor, independentemente

do tamanho ou da causa, essa dor

importa, e meu papel é acolher, não

julgar. Muitas vezes, por trás de uma

insônia, há uma perda, um medo, uma

sobrecarga. A escuta qualificada cura

tanto quanto o remédio.

Na homeopatia, a gente trata o todo ,o

corpo, a mente e o contexto. É comum

começar cuidando de uma criança e,

com o tempo, estar cuidando da

família inteira. Isso é o que me

apaixona na minha especialidade:

poder olhar para o ser humano como

um todo, algo que, infelizmente, a

medicina tradicional vem perdendo.

O que você diria aos jovens médicos

que têm interesse em se aprofundar

na homeopatia? Que conselhos ou

orientações você deixaria pra eles?


Primeiro, eu daria boas-vindas. É raro encontrar um médico que se apaixone por

pessoas e não apenas por doenças. Ser homeopata é isso: cuidar de vidas, não de

partes do corpo. É apaixonante. Estude muito, porque a homeopatia está em

constante evolução.

Hoje temos um volume enorme de pesquisas, especialmente da linha do Dr.

Sankaran, na Índia. Surgem novas plantas, novos estudos, e é preciso se atualizar

o tempo todo. Mas além disso, precisamos estudar psicanálise, logoterapia, Jung,

Freud, para aprender a acolher o paciente com sensibilidade.

A homeopatia é um aprendizado contínuo: novas descobertas, novas aplicações.

Recentemente, por exemplo, os indianos usaram a Justicia adhatoda em casos de

Covid, e agora na Europa há um boom do Viscum album, usado inclusive em

pacientes oncológicos.

Então, a quem chega agora, eu diria: seja bem-vindo! Tenha fôlego e curiosidade,

porque é uma área viva, em constante movimento e quanto mais estudamos,

mais descobrimos o poder da natureza em cuidar das pessoas.


Responsabilidade não é fardo, é poder.

Quem sabe caminhar com consciência

nunca tropeça nos próprios desejos.

Ah, meu filho, responsabilidade não é coisa de

ferro nem de corrente pesada, não. É

malandragem fina: é saber que cada ação tem

eco, que cada escolha é ponte ou armadilha.

Muitos querem poder, querem brilho, querem

conquista, mas esquecem que sem

responsabilidade o brilho some, o poder se

volta contra, e a conquista escorrega pelos

dedos. Quem entende isso caminha firme,

sem medo, respeitando o próprio caminho e o

dos outros. Responsabilidade é luxo de quem

sabe jogar o jogo da vida sem se perder nos

atalhos.

Ser responsável é saber esperar, escolher bem,

pagar o preço sem reclamar, porque a vida

cobra, e cobra caro. É malícia fina, é olhar para

o próprio passo e para o passo do outro, é

saber que liberdade sem juízo é desastre certo.

Quem entende isso caminha firme, ri do azar e

transforma cada dificuldade em chance de

crescer. Responsabilidade, meu filho, não é

castigo, é poder disfarçado de dever.

Exú Veludo

Boa noite!

Omindaré


TECNOLOGIA

TRANSFORMA O ENSINO E

AMPLIA O ACESSO À

EDUCAÇÃO

por Cássio Fernandes


O avanço da tecnologia digital vem mudando

radicalmente a forma como as pessoas aprendem,

tornando o ensino mais acessível, flexível e

dinâmico. Plataformas online, vídeos educativos,

aplicativos interativos e aulas virtuais oferecem

novas possibilidades para estudantes de diferentes

perfis, permitindo que aprendam no próprio ritmo

e de qualquer lugar, sem depender exclusivamente

de salas de aula físicas ou de horários rígidos.

Essa transformação se intensificou com a pandemia

de COVID-19, que acelerou a adoção de

ferramentas digitais em escolas, cursinhos e

projetos educativos. Mesmo após o retorno das

atividades presenciais, a educação online

consolidou-se como uma alternativa permanente

para muitos estudantes, especialmente aqueles que

enfrentam barreiras econômicas ou de tempo.

Pessoas que não podem arcar com cursinhos caros

ou que trabalham em horários que impossibilitam a

frequência a aulas presenciais agora podem

estudar e fazer cursos para o Enem, vestibulares e

concursos a partir de casa, utilizando recursos

tecnológicos que tornam o aprendizado mais

prático, interativo e eficiente.


Entre os recursos mais utilizados estão aulas

gravadas, vídeos educativos, quizzes online,

simulados digitais e plataformas de

acompanhamento de desempenho. Esses recursos

permitem que o estudante revisite conteúdos

sempre que necessário, pratique habilidades

específicas e receba feedback imediato, tornando o

processo de aprendizagem mais personalizado e

adaptado às suas necessidades individuais.

Além da democratização do acesso, a utilização das

ferramentas digitais contribui para o

desenvolvimento de competências importantes para

o século XXI, como autonomia, disciplina,

organização e pensamento crítico. Estudantes que

participam de aulas online aprendem a gerir seu

próprio tempo, buscar soluções de forma

independente e interagir de maneira produtiva em

ambientes digitais, habilidades essenciais tanto para

a vida acadêmica quanto para o mercado de

trabalho.


Especialistas em educação destacam que a

tecnologia, quando planejada e aplicada de forma

consciente, não substitui o papel do professor, mas

amplia suas possibilidades de mediação, permitindo

um ensino mais inclusivo, equitativo e conectado às

necessidades dos alunos. A educação digital surge,

assim, como um grande aliado na redução das

desigualdades, oferecendo oportunidades de

aprendizado de qualidade para quem antes tinha

acesso limitado a cursos especializados ou aulas

presenciais.

Em um cenário cada vez mais digital e globalizado, a

tecnologia se consolida não apenas como

ferramenta pedagógica, mas como um instrumento

de transformação social, permitindo que mais

pessoas tenham acesso ao conhecimento e possam

se preparar de maneira eficiente para os desafios

acadêmicos e profissionais do século XXI.


temas ousados e desafiadores,

equilibrando técnica refinada e uma

profunda sensibilidade artística.

A Cia Truks, sob sua direção, tem

explorado linguagens híbridas,

mesclando performance física,

narrativa contemporânea e

elementos tecnológicos, criando

experiências imersivas que fogem

do convencional.

foto by Arquivo pessoal Henrique

Henrique

Sitchin

Cia Truks

por Regina Papini Steiner

Em entrevista à Revista ICONIC, o

ator e diretor Henrique Sitchin, à

frente da Cia Truks, revelou um

pouco do processo criativo que vem

conquistando público e crítica.

Conhecido por sua abordagem

experimental, Sitchin não foge de

Queremos que cada espetáculo seja

uma conversa viva entre atores e

espectadores”.

A entrevista, conduzida por Regina

Papini Steiner, evidencia não só a

paixão de Sitchin pelo teatro, mas

também seu compromisso em

manter a arte como instrumento de

transformação social e cultural. É

inegável que Henrique Sitchin e a

Cia Truks vêm consolidando um

espaço de referência no teatro

contemporâneo

brasileiro,

mesclando inovação, coragem e

autenticidade.


Henrique, para começar, você

poderia nos contar como surgiu a Cia

Truks e qual foi a inspiração para criála?

E se a gente fizer um trabalho juntos,

nós? Um grupo nosso? E foi aí que

nasceu a Truks. Eu trabalhava, nessa

época, também, por causa do teatro

de fantoche. Assim, modéstia à parte,

Nós começamos, eu e Verônica

Gerchman, que namorávamos na

época , fazendo teatro de fantoches

para festas de aniversário. Ela havia

aprendido a técnica no Rio de

Janeiro, no FuraBolo, um teatro de

bonecos muito tradicional, com mais

de 15 anos de história. Quando veio

morar em São Paulo, sugeriu: “Vamos

criar nosso próprio teatro”. Até o

pessoal do FuraBolo nos apoiou,

especialmente Maria Luíza Lacerda,

uma referência do teatro de bonecos

no Brasil.

Começamos a apresentar nosso

trabalho também em escolas. Uma

vez, fomos à Escola Casinha

Pequenina, da família de Cláudio

Saltini, outro bonequeiro importante.

Ele nos assistiu e se encantou com o

que fazia. Naquela época, ele

trabalhava na Companhia Cidade

Muda, um dos grupos mais influentes

do teatro de bonecos nos anos 1980

em São Paulo, e nos perguntou se

queríamos criar um grupo juntos. Foi

a gente fazia um teatro muito

bonitinho mesmo. Era muito bom.

Então, a gente abriu várias frentes.

Inclusive, eu trabalhava, nessa época,

com uma professora de literatura

infantil que havia visto o nosso

trabalho também com fantoche. E

nessas oficinas de literatura infantil,

com a Maria da Graça Mendes Abreu,

ela chama. A gente, eu conheci ”A

Bruxinha”, o personagem Bruxinha

da Eva Furnari. E eu gostava muito da

Bruxinha. A Bruxinha tinha umas

coisinhas assim, tipo, ela está

andando na rua e encontra dois

sapos. Ela vai lá, faz um gesto mágico

com a varinha e transforma os sapos

em patins. No quadrinho seguinte,

calça os patins, mas, em vez de

deslizar, sai pulando como um sapo.

Depois, já com sono, deita a

cabecinha sobre uma almofada para

descansar. Daqui a pouco, a almofada

ganha vida, é um dragão e sai voando

com ela. E eu achava que isso era tão

bacana para o teatro de bonecos.

assim que nasceu a Truks.


Logo cedo aprendi que, com bonecos,

podíamos fazer coisas que seria

impossível com atores. Fazer voar,

Henrique, e quais eram suas

principais referências artísticas

naquela época?

por exemplo, era fascinante. No

nosso teatro, tínhamos uma cena em

que uma bruxa se transformava em

fada: eu segurava a bruxa em uma

mão, a fada na outra, um pouco de

talco e, ao assoprar, saía fumaça e a

transformação acontecia. Como eu

faria isso com atores? Era mágico, e

foi esse fascínio pela bruxinha que

me acompanhou sempre.

Quando nos juntamos com Cláudio e

Eduardo, compartilhei meu projeto

de trabalhar com essa personagem.

Foi então que, através da escola,

conhecemos Eva Funari. Marcamos

uma reunião para tratar de direitos

autorais, e, após ouvir nossa

proposta, Eva nos surpreendeu:

ofereceu autorização para que

pudéssemos explorar o projeto como

quiséssemos.

Nascia assim, em 1990, a Companhia

Truks, formada por mim, Verônica,

Cláudio e, com grande orgulho, Eva

Furnari como membro do grupo, meu

ídolo máximo. Em poucos dias, ela já

estava em minha casa ajudando a

confeccionar bonecos, enquanto

Eduardo Amos dirigia.

Naquela época, Eduardo, diretor da

Companhia Cidade Muda, propôs:

“Vamos fazer algo inovador, diferente

de tudo que existe em São Paulo”. No

Rio, o Grupo Sobrevento já trabalhava

com técnicas semelhantes, mas aqui

era novidade. Eduardo, que havia

estudado teatro japonês Bunraku no

Peru com um bonequeiro francês,

sugeriu que aprendêssemos a

manipular um boneco

simultaneamente por três pessoas.

Chamamos essa técnica de nossa,

inspirada no Bunraku, mas adaptada

ao nosso estilo. Era curioso porque, à

época, manipular bonecos à vista do

público era estranho; no Brasil, o

comum eram fantoches tradicionais

ou marionetes em que o

manipulador não aparecia. Com o

tempo, aprimoramos a técnica,

dando ao trabalho a nossa cara e

tornando essa forma de manipulação

mais natural e reconhecida.

Percebemos que não era interessante

que a criança pegasse o boneco e

manipulasse na frente dela;

queríamos que a interação fosse mais


foto by Alberto Rocha

lúdica. Foi aí que ficamos cada vez mais animados: nosso trabalho passou

a refletir a forma como as crianças brincam — conversar com o boneco,

imaginar histórias. Essa essência de brincar como crianças é o que

continua guiando nosso trabalho até hoje.

Henrique, como vocês conseguem unir arte visual, dramaturgia e música

no palco? De que forma essas linguagens se encontram e se

potencializam?

Sim, isso foi se desenvolvendo aos poucos. Eu digo “particularmente”

porque essa é uma prática minha, não de todos os grupos — cada um tem

seu próprio método, e ainda bem, porque a arte deve ser assim: única e

feita do seu próprio jeito. No meu caso, o que mais importa é o projeto

dramatúrgico. Primeiro penso na ideia do espetáculo: de onde ela vem, se

é sobre um personagem, um tema ou até uma imagem que me inspira. Em

alguns trabalhos, foi justamente uma imagem que funcionou como

disparadora do espetáculo, algo que disse: “É disso que quero falar”.


A partir da ideia central do espetáculo, todos os demais elementos vão se

encaixando: o texto, verbal ou não, a música, a iluminação, o figurino e a

ação dos atores com os bonecos. No caso da bruxinha, por exemplo, não

havia fala, apenas imagens. Em Senhor dos Sonhos, o boneco Lucas não

para de falar, pois é um menino sonhador que transforma a cama em nave

espacial cada elemento reflete seu mundo imaginativo.

A função dos atores também varia: em alguns espetáculos são

companheiros do protagonista, como em Senhor dos Sonhos, e em outros

atuam como agentes do destino, em “Sonhatório”, trabalhamos com

objetos: três “loucos” brincam e manipulam elementos de maneira

particular o ator desarruma o cabelo, veste o avental do avesso e está

pronto para a cena. Cada espetáculo, assim, encontra sua própria

linguagem e ritmo.

foto by Alberto Rocha


Henrique, como você enxerga o trabalho

da Truks hoje, em um mundo tão

digital? De que forma o teatro se

mantém relevante diante das novas

tecnologias?

Hoje, vivemos algo parecido com o

avanço da inteligência artificial. Mesmo

assim, acredito que sempre

precisaremos da respiração no palco ,

de ver um ser humano vivo, presente,

diante de nós. Tenho uma frase que

Essa é uma pergunta linda, e vou

começar com uma historinha. Em 1988,

ainda com o Teatro de Fantoches, eu e

Verônica fomos convidados para

participar de um festival internacional

de teatro de bonecos em Nova Friburgo,

no Rio de Janeiro. Foi um evento

marcante para toda uma geração de

bonequeiros. Durante um dos debates,

um americano pediu a palavra e disse,

em tom de desespero: “Estou em

pânico. Nos Estados Unidos já estão

fazendo teatro com hologramas. Eles

usam dezenas de projetores que criam

imagens no palco, muito mais

interessantes do que nossos

bonequinhos”.

Naquele momento, muitos acharam

costumo repetir: para cada tanto de

tecnologia, será necessário o mesmo

tanto de poesia.

Apresentamos muito em escolas

públicas, principalmente nas periferias,

onde o acesso à arte é menor. E é nesses

lugares que o teatro mostra seu

verdadeiro poder. As crianças podem se

divertir com jogos no celular, mas

dificilmente se comovem com eles. No

teatro, sim. Muitas choram, se

emocionam, se transformam. E eu me

pergunto: será que a inteligência

artificial conseguirá fazer isso um dia?

Talvez. Mas, por enquanto, acredito que

o humano, o olhar, a presença, a

emoção, continuará sendo

absolutamente necessário.

que o teatro de bonecos estava com os

dias contados. Mas o tempo provou o

contrário. De 1988 para cá, o teatro de

bonecos não só resistiu como ficou mais

forte, mais poético e mais humano.

foto by Thiago Cardinalli


Henrique, você disse que a magia é

muito humana, como quando uma

criança manipula seu brinquedo ou

pega um lençol e transforma em algo

imaginário.

um grupo muito privilegiado. Por

termos começado no início, as

oportunidades eram maiores do que

hoje. Sei que há muita gente talentosa

que não está tendo as mesmas chances

que tivemos.

Sim, é humano, profundamente

humano. Gosto de imaginar, e não sei

exatamente de onde veio essa imagem,

os humanos pré-históricos contando

suas histórias: a caçada do dia, ao redor

de uma fogueira na caverna, usando

pedrinhas ou gravando símbolos nas

paredes. Desde sempre, existe essa

relação do homem com o contar

histórias, com o se reunir para ouvir

narrativas, seja em volta de uma

fogueira ou em um teatro. Isso é nosso,

é humano, e será para sempre.

Quando começamos, em 1990, por

exemplo, trabalhávamos com Eva

Furnari, desenvolvendo um projeto

diferente e original, inspirado em livros

que já eram um grande sucesso na

época. Abrimos muitas portas em

escolas e, desde cedo, começamos a nos

apresentar nelas com frequência. Entre

1994 e 1996, por exemplo, chegamos a

recusar convites para apresentações aos

domingos na época, trabalhávamos de

segunda a sexta e precisávamos

descansar com a família.

Construímos assim uma rede de escolas

que se manteve por muitos anos, e

Como a Cia Truks consegue se manter?

Considerando as políticas culturais

atuais, especialmente para o tipo de

arte que vocês realizam, como o grupo

garante sua sobrevivência?

ainda hoje temos apresentações

regulares. Tive escolas que nos

recebiam todo dia 1º de outubro,

sempre com um espetáculo diferente.

Fomos muito agraciados com essas

oportunidades, mas, claro, sempre

Ah, aí você pegou na jugular! Como é

que a gente sobrevive? Há 35 anos! Sim,

35 anos! Falando sério, sinto que somos

trabalhamos com dedicação e

qualidade. Sem isso, não teríamos

conquistado a confiança das escolas

nem a possibilidade de voltar ano após

ano.


Para manter a qualidade, quando íamos

às escolas, levávamos uma torre de luz

enorme, cerca de 500 quilos de

material, e chegávamos três horas antes

para montar tudo. Mais tarde, alguns de

nossos projetos também foram

contemplados pelo Programa Municipal

de Fomento ao Teatro da Prefeitura de

São Paulo. Foi algo muito importante.

Criamos um espaço chamado Centro de

Estudos e Práticos de Teatro de

Animação um nome mais abrangente

para o que tradicionalmente se chama

Teatro de Bonecos.

A ideia surgiu porque muitas pessoas

foto by arquivo pessoal - Henrique

Trabalhávamos com seriedade, sem

fazer concessões. Por exemplo, em 1994

fomos à televisão pela primeira vez,

participando do programa Jô 11 e Meia.

A repercussão foi impressionante e, a

partir daí, surgiram convites de todo o

Brasil, o que ajudou o grupo a crescer e

se manter. Mas sempre trabalhando

com qualidade.

Tivemos até situações curiosas, como

quando a Coca-Cola nos pediu para

colocar uma garrafa em cena, sugerindo

que a bruxinha bebesse um

refrigerante. Nem respondemos nunca

fizemos concessões comerciais em

nosso trabalho.

nos procuravam, perguntando: “Como

vocês fazem isso?” Na época, não havia

escola nem referência formal para

aprender. Então pensamos: por que não

criar um centro onde essas pessoas

pudessem aprender?

Fizemos oficinas, convidamos grupos

para trabalhar e ministrar cursos, e

assim nasceu o projeto, que durou cerca

de 10 anos e se tornou uma importante

referência na formação de artistas do

teatro de animação. O projeto também

permitiu manter todos com trabalho

fixo. Ele terminou em 2012 e, a partir de

então, enfrentamos uma fase difícil,

especialmente entre 2015 e 2016, que foi

bastante desafiadora.


Não sei exatamente qual foi o principal

fator, mas havia várias questões

envolvidas. Uma delas era a situação

política do país na época. Muitas escolas

queriam saber se nossas peças tinham

conteúdo ideológico, perguntando

coisas como: “O que vocês vão fazer?

Decidimos então entrar com alguns

projetos e conseguimos patrocínio.

Hoje, esses projetos ajudam a manter a

companhia. Atualmente, somos 12

pessoas vivendo exclusivamente da

Truks, o que considero um grande

orgulho.

Vocês são de esquerda ou de direita?”

Eram os pais, a Associação de Pais e

Mestres; todos queriam saber se havia

conteúdo político nas peças. A situação

foi ficando complicada. Mais

recentemente, conversando com o

pessoal do Grupo Giramundo, de Minas

— outro grupo muito importante —

Henrique, imagino que a pandemia

tenha sido um grande desafio. Como a

Truks lidou com esse período? Vocês

recorreram às mídias digitais ou

encontraram outras formas de manter o

trabalho?

refletimos sobre esses desafios comuns

do teatro de bonecos no país. Nessa

conversa, veio a pergunta inevitável:

“Vocês vivem do quê?” Eu expliquei que

estamos passando por uma crise. Antes

fazíamos uma média de 300

apresentações por ano; hoje nem

chegamos a 100, e a situação está difícil.

Quando um ator sai, especialmente

quem manipula partes complexas do

boneco, leva anos para recuperar o nível

anterior. Temos pessoas que estão há

seis ou sete anos conosco, e não

podemos perder esse talento.

O pessoal do Grupo Giramundo

comentou sobre a Lei Rouanet, e eu

confesso que nunca tinha buscado.

A gente tentou se adaptar, mas foi um

período de desespero. O que nos salvou

foi um projeto aprovado pelo Fomento

ao Teatro, em que montamos pequenas

apresentações online sobre histórias de

vida de pessoas importantes.

Entrevistávamos as pessoas

virtualmente e depois reuníamos todo o

elenco de máscara para filmar. Esse

projeto gerou um pequeno recurso

mensal para cada integrante, o que

ajudou, mas foi muito difícil.

Durante a pandemia, também

perdemos membros do grupo que

seguiram outros caminhos. Tentamos

produzir vídeos e explorar plataformas


como o YouTube, mas rapidamente

percebemos que não era nossa praia. Eu

passei a escrever projetos para a Lei

Rouanet, muitos dos quais foram

aprovados mais tarde e se tornaram

viáveis.

O desafio imediato da pandemia exigiu

improviso e criatividade. Foram

Já Cidade Azul marcou uma mudança:

foi a primeira vez que senti que queria

dizer algo do meu coração, falar sobre

algo sério. Contamos a história de um

menino em situação de rua, um

espetáculo emocionante que abordava

uma questão social presente ao nosso

redor. Lembro de um dia, parado no

momentos

assustadores,

farol da Henrique Schaumann com a

desanimadores e tristes, diante de toda

a tragédia que o mundo enfrentava. A

experiência nos fez questionar: se algo

assim acontecer de novo, como vamos

sobreviver?

Rua do Brasil, e olhando de lado vi um

garotinho descalço, com roupas

rasgadas, brincando com duas latas

uma de Coca-Cola e outra do Leite Leve,

do então prefeito. Foi uma imagem que

reforçou a urgência de contar histórias

que refletem a realidade do nosso país.

qual espetáculo você considera o

verdadeiro divisor de águas na

trajetória da Cia Truks? Aquele que

marcou uma mudança importante para

o grupo?

E aquilo para mim foi muito... E ele

pegava as latas, ele segurava a lata

grande aqui, e a outra lá, que ele fazia

um cachorrinho. E eu olhei e falei, gente,

ele está fazendo teatro de bonecos, e da

melhor qualidade

Ah, a Bruxinha é muito importante,

extremamente importante. Mas, sete

anos depois, em 1997, fizemos Cidade

Azul, que considero o verdadeiro divisor

de águas da Cia Truks. A Bruxinha era

lúdica, bonita, com um diálogo direto

com as crianças uma peça que ainda

hoje provoca a mesma reação que

provocava em 1990.

foto by arquivo Site Cia Truks


Enquanto brincávamos com o boneco,

ele interagia, e aquela imagem ficou na

minha cabeça. Foi aí que percebi:

preciso fazer esse espetáculo. A cena

era carregada de contradições, os

símbolos do poder, aquele menino tão

frágil, mas também tão poderoso,

brincando, se divertindo, rindo. Naquela

época, havia rumores de que crianças

nas periferias poderiam ser violentas,

mas ele estava ali, apenas sendo uma

criança. Para mim, isso foi muito

marcante.

Cidade Azul foi, sem dúvida, um divisor

de águas. Depois vieram outros

trabalhos importantes: Senhor dos

Sonhos, Vovô e O Zoológico. Neste

último, tivemos a coragem de trabalhar

de forma intensa com objetos. Cada

espetáculo representou um passo no

amadurecimento do grupo, explorando

novas possibilidades e linguagens

dentro do teatro de bonecos. O Vovô

também foi um espetáculo muito

importante. Conta a história do meu

avô, que foi, de certa forma, um “vovôpapai”

para mim, e continua sendo uma

grande referência para toda a nossa

família. Criar um espetáculo inspirado

nele foi profundamente emocionante.

Cada obra da Truks tem sua

particularidade, mas eu diria que os

momentos mais marcantes da

companhia são: A Bruxinha, Cidade

Azul, Vovô e, depois, O Zoológico, que

trouxe uma mudança significativa no

nosso jeito de criar e explorar o teatro

de bonecos.

Henrique, você acredita que os bonecos

sempre terão espaço para se reinventar

e crescer dentro do teatro

contemporâneo?

Eu acredito que sim. O boneco é muito

querido; o ser humano gosta de vê-lo.

Não sei exatamente qual é o mecanismo

mental, mas há algo de fascinante em

ver a vida reproduzida nos bonecos.

Brinco que eles são feitos à nossa

imagem e semelhança. Ao manipulálos,

é como se estivéssemos brincando

de ser Deus, controlando a vida daquele

serzinho — embora talvez também

sejamos controlados de alguma forma.

Vejo que vêm surgindo gerações

incríveis, jovens fazendo trabalhos

maravilhosos, muito criativos e bem

executados. O teatro de bonecos

brasileiro é de altíssima qualidade.

Ainda enfrentamos aquela síndrome do

“vira-lata”, que valoriza sempre o que

vem de fora, mas o nosso é, de fato,

muito bom e merece reconhecimento.


Olha, estivemos recentemente no Sesc,

no dia 24 de maio, apresentando O

Vovô. Agora, nos dias 11 e 12 de outubro,

tivemos outra temporada. No dia 12, ao

final do espetáculo, aproximou-se um

casal com um sotaque muito marcado,

hispânico. Eles disseram: “Olá, buenas

tardes... somos da Espanha, moramos

em Madrid e nunca vimos nada

parecido.” Fiquei impressionado —

receber esse reconhecimento de

alguém da Europa foi realmente

emocionante.

Eu brinco que, nos anos 90, existiam o

Guia da Folha, o caderno de cultura do

Estadão, do Jornal da Tarde. Muitas

vezes, os críticos assistiam aos

espetáculos no fim de semana anterior

e a crítica saía na sexta-feira. Da quinta

para a sexta, eu não dormia de tanta

ansiedade. Ficava pensando: o que vão

falar do meu espetáculo? O que o

público vai pensar?

Hoje em dia, quando sai uma crítica, eu

olho e penso: “Ai, nossa, é grande...

depois eu leio com calma.” Então, esse

longo caminho me fez ficar, acho que,

E se você fosse um boneco, Henrique...

qual boneco da Cia Truks você seria, e

por quê?

Ai, e aí se fosse eu? Olha, essa é uma

surpresa. Olha, eu não sei, eu estou

assim... Acho que é engraçado, os anos

vão passando e a gente vai ficando

menos sério. Pelo menos está

acontecendo comigo, eu não sei

quantas pessoas, mas passando dos

60...Perde-se a paciência com um

monte de coisa, mas também muitas

outras coisas a gente começa a levar na

brincadeira. Também há muito da carga

de seriedade.

um pouco mais leve, mais brincalhão,

mais irreverente. Eu até brinco, o

pessoal brinca, eu dirijo a Truks há

muitos anos. Então, a gente fala, às

vezes, a gente chama, com essa coisa de

também os atores acabarem fazendo

outras coisas, eu chamo integrantes

antigos da companhia. E aí, quando a

gente começa a trabalhar lá nos

ensaios, outro dia, até a Camila, que foi

uma das, ela ficou na Truks entre 2005 e

2014. Então, a gente foi ensaiar outro dia

e aí ela olhou assim e falou, nossa, não

te reconheço, Henriquinho, paz e amor,

porque perto do que você era, que eu

era. Então, eu seria esse boneco, seria

bem, assim, brincalhão, irreverente,


Olha, estivemos recentemente no Sesc,

no dia 24 de maio, apresentando O

Vovô. Agora, nos dias 11 e 12 de outubro,

tivemos outra temporada. No dia 12, ao

final do espetáculo, aproximou-se um

casal com um sotaque muito marcado,

hispânico. Eles disseram: “Olá, buenas

tardes... somos da Espanha, moramos

em Madrid e nunca vimos nada

parecido.” Fiquei impressionado —

receber esse reconhecimento de

alguém da Europa foi realmente

emocionante.

Eu brinco que, nos anos 90, existiam o

Guia da Folha, o caderno de cultura do

Estadão, do Jornal da Tarde. Muitas

vezes, os críticos assistiam aos

espetáculos no fim de semana anterior

e a crítica saía na sexta-feira. Da quinta

para a sexta, eu não dormia de tanta

ansiedade. Ficava pensando: o que vão

falar do meu espetáculo? O que o

público vai pensar?

Hoje em dia, quando sai uma crítica, eu

olho e penso: “Ai, nossa, é grande...

depois eu leio com calma.” Então, esse

longo caminho me fez ficar, acho que,

E se você fosse um boneco, Henrique...

qual boneco da Cia Truks você seria, e

por quê?

Ai, e aí se fosse eu? Olha, essa é uma

surpresa. Olha, eu não sei, eu estou

assim... Acho que é engraçado, os anos

vão passando e a gente vai ficando

menos sério. Pelo menos está

acontecendo comigo, eu não sei

quantas pessoas, mas passando dos

60...Perde-se a paciência com um

monte de coisa, mas também muitas

outras coisas a gente começa a levar na

brincadeira. Também há muito da carga

de seriedade.

um pouco mais leve, mais brincalhão,

mais irreverente. Eu até brinco, o

pessoal brinca, eu dirijo a Truks há

muitos anos. Então, a gente fala, às

vezes, a gente chama, com essa coisa de

também os atores acabarem fazendo

outras coisas, eu chamo integrantes

antigos da companhia. E aí, quando a

gente começa a trabalhar lá nos

ensaios, outro dia, até a Camila, que foi

uma das, ela ficou na Truks entre 2005 e

2014. Então, a gente foi ensaiar outro dia

e aí ela olhou assim e falou, nossa, não

te reconheço, Henriquinho, paz e amor,

porque perto do que você era, que eu

era. Então, eu seria esse boneco, seria

bem, assim, brincalhão, irreverente,


solto, que é como eu estou me sentindo, eu estou me sentindo bastante assim.

Então, acho que seria esse personagem por aí.

foto by Alberto Rocha

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Graças a uma equipe talentosa e dedicada,

chegamos à nossa última edição de 2025 com muito

orgulho. Agradecemos profundamente o empenho

de todos os profissionais que fazem a Revista

ICONIC acontecer, e a você, leitor, que caminha

conosco a cada página.

Desejamos um Feliz Natal e um 2026 repleto de

saúde, conquistas e inspiração!

Marilu Gomes

Editora Chefe



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