Revista ICONC - Vânia Pajares - Nov Dez
Chegou a última edição do ano da Revista ICONIC! Encerramos 2025 em grande estilo com uma entrevista exclusiva com a Maestra Vânia Pajares, um símbolo de talento e liderança na música. E mais: Thiago Lemmos, Laura Finocchiaro, Kayla Oliveira, Henrique Sitchin, Ralf Zeq e Dra. Mirela Ward completam essa edição memorável, repleta de arte, reflexão e inspiração. Revista ICONIC — porque o ano só termina depois de uma boa leitura. Marilu Gomes Editora Chefe
Chegou a última edição do ano da Revista ICONIC!
Encerramos 2025 em grande estilo com uma entrevista exclusiva com a Maestra Vânia Pajares, um símbolo de talento e liderança na música.
E mais: Thiago Lemmos, Laura Finocchiaro, Kayla Oliveira, Henrique Sitchin, Ralf Zeq e Dra. Mirela Ward completam essa edição memorável, repleta de arte, reflexão e inspiração.
Revista ICONIC — porque o ano só termina depois de uma boa leitura.
Marilu Gomes
Editora Chefe
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I C O N I C
N O V E M B R O & D E Z E M B R O 2 0 2 5 N O . 2 1
Nesta Edição
Thiago Lemmos
Cantor
Laura Finocchiaro
Cantora
Henrique Sitchin
Cia Truks
Kayla Oliveira
Modelo
Dra Mirela Ward
Médica Homeopata
V A M O S F A L A R D E M Ú S I C A
Ralf Zeq
O Alquimista do Som
“... a regência que me escolheu.
Ela decidiu que me queria.”
Vânia Pajares
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O fim do ano se aproxima, trazendo luzes,
encontros e gratidão. É tempo de celebrar
conquistas e renovar esperanças. Mas,
entre os festejos, há quem não tenha
mesa farta, nem presente a
desembrulhar.
Por isso, este é também o momento de
olhar ao redor e estender a mão. Uma
pequena doação, pode fazer toda a
diferença. Gesto simples, mas capaz de
transformar o Natal de quem mais
precisa.
W W W . I N S T I T U T O O M I N D A R E . O R G . B R
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EDITORIAL
MARILU GOMES
Editora Chefe
MTB sob o nº 0081549/SP
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Diretora de Pauta e
entrevistas
GUILHERME F JÚNIOR
Diretor de Conteúdo
THIAGO MORENO
Diretor Comercial
WELCOME
Edição 2025
4a/21aEdição
Revista da Orquestra Sinfônica Jovem do
Bixiga
A Revista ICONIC, referência em conteúdo
autoral e diversidade de vozes, acaba de lançar
sua nova edição trazendo um panorama
vibrante da cena cultural e criativa brasileira.
Com matérias exclusivas e entrevistas
especiais, a publicação reúne nomes de peso da
música, moda, circo, teatro e estilo de vida
alternativo, promovendo a riqueza de
expressões e trajetórias que inspiram e
transformam.
M A R I L U G O M E S
Editora Chefe
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VOZ E CANTO
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ARTIFICIAL
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FOTO DA CAPA
Vania Pajares
arquivo pessoal
SUMÁRIOI C O N I C
CAPA
MAESTRA VÂNIA PAJARES
THIAGO
LEMMOS
KAYLA
OLIVEIRA
LAURA
FINOCCHIARO
HENRIQUE
SITCHIN
RALF
ZEQ
DRA. MIRELA
WARD
Falar de Vânia Pajares é falar de
excelência, sensibilidade e força.
Maestra, pianista e diretora musical,
ela é uma das figuras mais
respeitadas do teatro musical no
Brasil. De óperas grandiosas no
Teatro Municipal de São Paulo a
produções consagradas da
Broadway em solo brasileiro, sua
trajetória é marcada por uma
entrega visceral à arte e por uma
disciplina que combina rigor técnico
e paixão genuína pela música.
Em um universo ainda
majoritariamente masculino, Vânia
impôs seu talento com elegância e
autoridade. Sua presença à frente da
orquestra não é apenas uma questão
de comando, mas de conexão, entre
músicos, elenco e público. Ela traduz
partituras em emoção, transforma
compassos em pulsação viva e faz de
cada espetáculo um organismo em
harmonia.
Mais que uma maestra, Vânia Pajares
é uma contadora de histórias
sonoras. Sua regência ultrapassa a
técnica: é gesto, é escuta, é arte em
movimento. Sua trajetória inspira
não apenas artistas, mas todos que
acreditam na potência da música
como linguagem transformadora.
Em tempos de pressa e
superficialidade, a maestra Vânia nos
lembra que a verdadeira grandeza
está no detalhe, na escuta e na
entrega, marcas de quem não
apenas rege, mas faz a arte
acontecer.
Regina Papini Steiner
Quando e de que forma surgiu a
decisão de se dedicar à regência e à
direção musical, em vez de seguir
exclusivamente como pianista ou
intérprete?
Olha, é muito curioso isso. A gente
sempre diz, na educação musical, que
é o instrumento que escolhe a gente,
não o contrário. E realmente, é curioso
mesmo.
Eu já era pianista formada, pósgraduada
em pedagogia vocal e
musical, com mestrado também, e
cantora de formação. Mas, antes de
tudo isso, eu decidi fazer a graduação
em música porque queria saber
música.
Escolhi o curso de música com
habilitação em regência,
principalmente porque eram seis anos
de faculdade, ou seja, um mergulho
profundo no universo musical. Eu
nunca tive o desejo de reger. O que eu
queria, de verdade, era compreender a
música, me aprofundar nela.
Ao longo do curso, fui passando por
todas as disciplinas possíveis. Depois,
me pós-graduei, fiz o mestrado em
pedagogia vocal, e atuei por muitos
anos como pianista e cantora. Até que,
um dia, a batuta veio parar na minha
mão.
Ou seja, foi a regência que me
escolheu. Ela decidiu que me queria. E,
depois que regi minha primeira
superprodução de teatro musical,
nunca mais parei.
Hoje, eu amo reger. Amo
profundamente. Eu não sabia que seria
Foto Arquivo pessoal
algo tão forte. É o lugar onde me
sinto mais plena, porque, ali, a
gente é a música inteira. Faz parte
de todo aquele universo. É algo
que alimenta a alma de uma
maneira
simplesmente
inexplicável.
Quais foram os principais
desafios que você encontrou no
início da sua trajetória como
regente, especialmente atuando
no universo do teatro musical?
Bom, acho que o primeiro desafio
foi o mais básico: ser mulher.
Mulher, maestra, maestrina, tudo
começou por aí.
Até hoje, a gente ainda está
apenas dando os primeiros passos
para desconstruir essa crença
estrutural de que o lugar do
maestro é, por definição,
Foto Arquivo Pessoal
"O primeiro grande obstáculo foram os olhares e os
julgamentos. Eu senti, e ainda sinto, isso na pele."
Vânia Pajares
masculino. A regência não tem gênero.
E isso não significa dizer que, por ser mulher, alguém será uma boa
regente , ou que por ser homem, também será. O que precisamos é
eliminar o olhar sexista, esse viés que ainda persiste.
O primeiro grande obstáculo foram os olhares e os julgamentos. Eu
senti, e ainda sinto, isso na pele. A cobrança é muito maior. Uma
mulher no pódio, com a batuta na mão, precisa provar cem vezes
mais do que um homem. Quando um maestro é firme, dizem que ele
é exigente; quando é uma maestra, vêm outros adjetivos, e nem
sempre gentis.
É algo estrutural. Esse foi, e ainda é, um dos principais desafios.
Diminuiu, sim, mas ainda existe. E sigo abrindo caminhos, porque
acredito que a transformação acontece pela prática, não apenas pelas
palavras.
Em todas as entrevistas e workshops, repito isso: o respeito deve vir da
competência, da seriedade e da dedicação, e não do gênero de quem
está à frente.
Eu costumo dizer que sigo abrindo caminho para as jovens maestras
que vêm depois de mim, minhas alunas, principalmente. Que isso
continue mudando, se transformando.
Esse foi o primeiro grande desafio: o de ser mulher. E isso independe
da estética musical.
O segundo desafio foi atuar como diretora musical e regente de teatro
musical, uma estética muito diferente da que eu estava acostumada.
Apesar de sempre ter transitado entre o erudito, o pop e o rock, o
teatro musical tem suas particularidades. Então, precisei aprender,
estudar, mergulhar mesmo. Quando eu decido fazer algo, quero fazer
bem-feito, vencer cada desafio.
Outro ponto importante é a resistência física. Regendo teatro musical,
são, no mínimo, seis apresentações por semana. É completamente
diferente da rotina da música erudita ou popular, em que você faz um
concerto, uma récita de ópera e depois tem um tempo de descanso.
No teatro, não: são dois espetáculos no sábado, dois no domingo, mais
os da quinta e sexta, sem contar as apresentações extras e as ações
sociais.
Então, resumindo: meus principais desafios foram, primeiro, ser
mulher nesse espaço; depois, enfrentar as exigências da estética do
teatro musical e, por fim, lidar com a intensa resistência física que essa
rotina pede.
E entre todos os espetáculos musicais que você dirigiu, qual foi o que
mais marcou você em todo o contexto, artística e pessoalmente?
Tá. É como o filho. Então a gente não gosta mais de um do que de outro.
Todos se tornam especiais de alguma maneira para você. Você ama cada
um de uma maneira única. O que eu posso falar foi o musical O Filho que
me deu menos trabalho. Porque difícil sempre é, mas sempre tem
questões técnicas, operacionais, manutenção, a gente fica um ano inteiro
em cartaz. Então muitas questões com elencos, mudança de elenco,
imprevistos, pessoas que adoecem. Tem coisas tristes que a gente
enfrenta, inclusive, sabe? E que a gente não pode deixar o público ficar
sabendo disso. O que menos me deu trabalho, nesse sentido, foi o
Mudança de Hábito, Sister Act, em 2015. Foi o mais sossegado, sim — mais
tranquilo, digamos assim. Mas não se engane: foi extremamente difícil.
Não era só chegar, entrar em cena e reger. Houve muito trabalho por trás
disso.
Foto Crédito: https://entretenimento.uol.com.br/album/2015/03/02/veja-cena-do-musical-mudanca-de-habito.htm
“Vamos favorecer, inclusive, os teatros musicais
autorais brasileiros.
É esse o legado que eu quero deixar.”
Vânia Pajares
Foto arquivo pessoal
E quando você recebe o convite para dirigir um musical, qual é o
primeiro passo? Onde começa o mergulho no processo de criação e
direção musical?
O primeiro passo é mergulhar completamente. Pego tudo o que existe
escrito sobre a obra, não apenas a partitura musical, mas tudo o que se
relaciona à estética, ao estilo, à origem. Se há um livro que deu origem ao
musical, eu leio. Leio tudo o que cai nas minhas mãos.
Eu costumo dizer que, nesse momento, eu como, bebo e respiro a
partitura. Estudo todas as versões possíveis até encontrar a interpretação
que desejo construir. Essa é a minha liberdade enquanto diretora musical
e regente, afinal, nós somos coautores da obra.
Depois vem o trabalho prático: sentar ao piano, colocar a partitura nos
dedos, estudar cada linha vocal, compreender a estrutura, a estética, a
orquestração. Avaliar quais instrumentos serão necessários, o que posso
ou não ajustar nos arranjos. sempre respeitando os limites contratuais e os
direitos autorais.
E, a partir daí, já começo a pensar no elenco: que tipo de vozes essa obra
pede, quem pode dar vida a cada papel.
Mas, acima de tudo, o primeiro passo é esse: estudar. Dia e noite.
Como você consegue equilibrar as diferentes visões artísticas da equipe ,
diretores, cenógrafos, compositores, para que a obra alcance unidade
quando você assume a regência?
O meu departamento é sempre o musical, porém é tudo alinhavado,
conforme você falou e percebeu perfeitamente. A gente sempre respeita
muito a seara do outro, do co-criativo, dos outros criativos, porém a gente
dialoga. A maneira certa é essa. Olha, isso funciona, isso não. Podemos
mudar? Se a gente não pode mudar, temos que adaptar de outra
maneira. É assim que deve funcionar para criar o melhor show do planeta.
Como você trabalha com os cantores e
atores? E de que forma se comunica
com a orquestra para alinhar
interpretação, dinâmica e expressão?
A primeira coisa importante, quando
chego, é ter tudo muito claro. Antes disso,
já realizamos as audições, tanto para os
cantores quanto para os músicos da
orquestra, porque não estamos lidando
com um curso de formação, mas com
uma produção extremamente cara e
profissional. Cada musical tem suas
particularidades, então não dá para
improvisar; precisamos ver as
necessidades específicas de cada papel e
escolher os artistas certos.
O elenco é definido, e no meu primeiro
dia de ensaio, geralmente dois meses
antes da estreia oficial, que é o padrão
que sigo, eu preciso chegar sabendo
exatamente o que quero. Minha
concepção da obra já precisa estar muito
estruturada, incorporada, quase na minha
própria pele.
Claro que vou ajustar e mudar coisas ao
longo do processo, porque o processo
criativo exige flexibilidade. Mas o mais
importante é chegar no primeiro dia com
a linha interpretativa que pretendo seguir
já muito clara.
Depois vêm os ensaios de sala, tanto com
os solistas quanto com o ensemble, o
coro, onde passo todas as diretrizes.
Como todos já passaram pela audição,
são profissionais experientes, dominam
bem suas vozes e sua técnica.
Nesse momento, eu direciono os
detalhes: aqui o andamento será assim,
ali a regência segue dessa forma, neste
ponto você tem liberdade para usar um
drive ou explorar um efeito vocal diferente.
São orientações gerais, mas fundamentais
para a unidade do espetáculo.
Com o coro, o foco é sempre a sonoridade
do conjunto, o equilíbrio entre as vozes. E,
claro, conto sempre com um assistente,
porque o tempo de ensaio é curto e
precisamos aproveitar cada minuto da
melhor forma possível.
É alguém que trabalha comigo, lado a
lado. Juntos, cuidamos dessas
sonoridades, desse refinamento musical.
Temos, em média, um mês de preparação
para levantar toda a parte musical e
cênica antes de irmos para o espaço de
apresentação, onde acontece a “ mise-enscène”
a integração final entre som, cena e
movimento.
O musical muitas vezes envolve a
sobreposição de som amplificado
,microfones, efeitos, com a orquestra
acústica. Como você lida com o equilíbrio
sonoro e a articulação musical nessas
circunstâncias?
Isso tem uma resposta só, eu tenho que
ter o melhor sound designer comigo. O
desenho de som, o criativo responsável
pela cadeira de som, ele tem que ser o
meu parceiro amado, que vai valorizar
cada nota que os meus meninos vão
cantar, cada nota que os meus meninos
vão tocar, chegar no equilíbrio, é isso.
Porque, realmente, quando foge do
acústico, você precisa de alguém que seja
um mago.
Eu tenho algumas pessoas maravilhosas que já trabalhavam comigo,
“parceiraças”, porque o bom sound designer vai valorizar cada som que
você concebeu e que você produziu junto com o seu grupo. É assim.
Que estratégia você usa para manter a coesão entre a orquestra e o
elenco, especialmente se há pequenas latências ou atrasos?
Ah, não, isso aí não existe. A gente ensaia tanto... Que não tem espaço
para isso. Chega assim, tudo bonitinho. Agora, se acontecer algum
imprevisto, como se trata de profissionais...É no braço, “vem aqui”, tipo isso
aqui, “não vai, espera.” É no gesto. É na experiência também. Aí conta
muito a experiência da pessoa que já faz isso há muito tempo.
A vasta experiência que você tem na regência te proporciona esse
domínio.
Sim. Eu comecei a reger musical, mas ninguém sabe que eu já regia
indiretamente há muito tempo no Teatro Municipal de São Paulo,
quando eu fazia maestro interno e correpetição, que você tem que reger
do piano. E, aliás, é por isso que deu tão certo, por essa pluralidade de
competências, de capacitações, entendeu? Eu acho que é o lugar onde
eu tenho que estar mesmo, porque nunca foi fácil, tá? Porque às vezes
falam, “ai, tudo é fácil para a Vânia”. Nunca foi fácil. Continua não sendo,
e nunca será. Eu estudo muito. Mas essa abertura de visão, de entender
que música e cena envolvem tantas nuances, tantas coisas, dá um jogo
de cintura que é insubstituível. Então, é dessa maneira. É prática, é
prática.
O que mais desperta o seu interesse quando você recebe um convite
para reger um musical?
O que me atrai é saber que vou estar à frente de algo tão global, tão
universal, um espetáculo que reúne todos os elementos: cena, música,
figurino, cenário, luz, sonoridades. Isso, para mim, é algo indescritível.
Estar ali me dá um prazer imenso.
Muitas vezes eu já disse: é o lugar onde eu tenho que estar. É o meu
melhor lugar. É impressionante, realmente. Eu me sinto alimentada
por isso, profundamente.
Então, na verdade, eu não apenas aceito o convite, eu sou chamada
por ele. O que me atrai é justamente esse fazer artístico, essa entrega
total. O desafio também me move. Eu amo um bom desafio.
Eu amo ser colocada à prova, sabe? Aquela sensação de pensar: ‘Será
que eu consigo?’ e então dizer: ‘Eu vou!’ (risos). Isso me move.
Mas, acima de tudo, eu tento sair da individualidade. Penso sempre
no coletivo, no universal. Gosto de pensar que estou expandindo a
arte, levando-a para muitas pessoas, inspirando, transformando,
curando também a minha alma nesse processo, enquanto alimento
e sou alimentada pela arte.
Isso, para mim, é grandioso. É um ideal que me guia. E, claro, às
vezes preciso colocar os pés no chão ,mas acho que tenho
conseguido equilibrar bem esses dois mundos.
Como é que você vê o panorama atual do teatro musical no Brasil? O que
evoluiu? O que ainda falta? E quais são os grandes desafios?
Os grandes desafios estão aí. Hoje há um número enorme de títulos
sendo encenados, o que é maravilhoso. Mas, ao mesmo tempo, acredito
que o maior desafio do momento é valorizar mais o teatro musical
brasileiro.
Quando falo disso, é importante distinguir: há o teatro brasileiro de
gênero musical como, por exemplo, A Ópera do Malandro, um clássico, e
há o teatro musical biográfico, como os espetáculos sobre Elis Regina e
outros grandes artistas.
Mas o que eu defendo é o teatro musical brasileiro em sua essência
aquele em que a dramaturgia nasce junto com a música, em que ambas se
entrelaçam de forma orgânica. Esse movimento já começou, há iniciativas
lindas surgindo, mas ainda precisamos de muito mais.
Acho fundamental encontrarmos o nosso próprio modo de fazer teatro
musical, a nossa identidade estética e cultural. Precisamos romper esse
paradigma de que teatro musical é, necessariamente, uma estética de
língua inglesa. Temos uma riqueza imensa de histórias, ritmos e
sonoridades que merecem ocupar esse espaço.
Em que medida você acredita que a regência do teatro musical deve dialogar com
a inovação tecnológica, como recursos de multimídia, som, luz e projeções, sem
perder o caráter expressivo e musical da obra?
Dá para fazer as duas coisas tranquilamente. A tecnologia já faz parte do
nosso dia a dia. Por exemplo, quando preciso criar um arranjo, uso o
MuseScore para trabalhar nele.
Durante a regência de um musical, também utilizo recursos tecnológicos:
estou com meus fones de ouvido, com o Aviom, um mixer individual, para
equilibrar e misturar o som em tempo real. Tudo é computadorizado, com
Samples, porque, muitas vezes, é difícil encontrar certos instrumentos, como a
harpa, ou até os músicos especializados. Desde que eu comecei a reger, a
gente já fazia isso. E a gente consegue, sim, manter a qualidade artística, a
expressão. A qualidade humana nunca vai se perder.
Não tenham medo da inteligência artificial, não há comparação possível. Ela
pode e deve ser usada como uma assistente, uma secretária, digamos assim.
Eu mesma uso bastante, mas sempre como apoio, nunca como substituição.
Porque há algo que a tecnologia não alcança: essa alegria, esse prazer
profundo, esse entusiasmo quase divino que sinto quando estou regendo.
Esse ‘Deus dentro’ de nós, nenhuma inteligência artificial jamais vai ter
.
Qual o legado que você gostaria de deixar para a nova geração de regentes,
diretores musicais e músicos envolvidos principalmente com os musicais no Brasil?
Perfeito. Mulheres, assumam o seu lugar! Primeira coisa: não tenham medo.
Desbravem, aprendam pela prática.
Vocês vão enfrentar muito preconceito, eu ainda enfrento e enfrentarei
sempre. Mas sigam em frente. E, independentemente do gênero, estudem:
estudem músicos, atores, cantores. Sejam sérios. No Brasil, talento não falta,
ele transborda. O que falta, muitas vezes por uma questão cultural, e aqui me
incluo ,é disciplina.
É possível ser brasileiro e disciplinado sem perder a vida, a alegria, a paixão
pelo que fazemos. Isso é o que nos diferencia. Continuem fazendo, porque à
medida que mostramos nosso trabalho, o investimento público e privado
percebe: ‘Olha só que lindo!’ E assim aumentam as produções.
E para quê? Para que o Brasil seja o que merece: um lugar de cultura, uma
cultura brasileira viva, plural e reconhecida. Vamos favorecer, inclusive, os
teatros musicais autorais brasileiros. É esse o legado que eu quero deixar.
Recentemente, eu vi uma discussão entre maestra ou maestrina.
Isso é complexo. É, é complexo mesmo.
Veja, não me incomoda me chamarem de maestrina, está tudo bem. Pode me
chamar de Vânia também, é o nome que meus pais me deram, e eu gosto
dele.
A questão é a seguinte: a forma erudita, correta, é maestrina, o feminino de
maestro. Só que maestro, como você bem sabe, vem do espanhol e do italiano
e significa “professor”. E, nesses idiomas, o feminino seria maestra.
Só que maestra não é considerada norma culta no Brasil.
Então, veja, por isso eu digo que não me incomoda tanto. O que realmente me
incomoda é o desrespeito. Se quiserem me chamar de maestra, podem
chamar. No dicionário, maestrino é um regente menor, um regente de música
mais simples, e isso, por si só, já carrega um preconceito. As mulheres já
enfrentam tantos, não é? Mais esse ainda...
Mas, sinceramente, não me afeta. Eu até falo maestra de propósito, mesmo
sabendo que o termo correto é maestrina. No fim, tanto faz. É uma discussão
válida, claro, mas há tanta coisa mais urgente para discutirmos antes… Então
deixo esse tema na prateleira, para outro momento.
Dá pra traçar um paralelo. Você é o quê? “Sou músico.” Mas você é uma
mulher, e musicista? No português do Brasil, musicista é visto como algo
amador. É um problema do nosso idioma, lindo, mas cheio dessas armadilhas.
Veja, até a Elis Regina dizia: “eu sou músico”. A Alcione também. Duas
mulheres cis que sempre afirmaram isso. Porque, para elas, e pra muitas de
nós, musicista soa amador. E esse é o desafio: a língua, às vezes, não
acompanha o nosso tempo.
Durante suas apresentações, já aconteceu alguma falha técnica inesperada , como
problema de som, por exemplo? Conta pra gente alguma história marcante dessas
situações.
Nossa, muitas, muitas, muitas. Ah, já lembrei de uma. Justamente naquele
musical que eu comentei... É curioso, porque foi o “filho” que menos me deu
trabalho, mas, claro, deu trabalho também.
E foi numa apresentação... Posso contar algo triste? Foi no dia em que meu
pai faleceu. Eu estava regendo e não sabia que ele tinha morrido.
Deus me protegeu, sinceramente, porque eu não sei o que teria sido de mim
se soubesse. Ele estava ótimo, e, de repente, caiu morto. Só soube depois.
Eu estava no fosso da orquestra. Mesmo hoje, mais de dez anos depois,
ainda me emociona lembrar.
Era uma cena importante, toda dependia dele. Tinha uma mudança de
cenário, a música marcava essa transição, então muda a luz, entram os
atores... Tudo certo. Mas, naquele dia, entrou todo mundo, menos o
principal.
Eu percebi. A música terminou, e era uma cena longa. Cortei, o elenco
entrou, sentei, esperei a deixa do outro ator... mas ela nunca veio. Sabe
quando tudo começa a dar errado? Foi assim. Uma sequência de falhas,
uma energia estranha no ar. E, depois, eu soube o porquê.
E aí eu percebi que os meninos, os que estavam em cena, começaram a
improvisar.
No instante em que me levantei, peguei a batuta e chamei os músicos.
Eles também já estavam meio relaxados, achando que a cena seguiria
normalmente. Mas, de repente, todos voltaram à ativa, pegaram os
instrumentos rapidinho.
Pelo microfone interno, aquele que só eles escutam, o do PA, eu disse:
“Compasso 25, atenção! E... um, dois, três e... vai!”
E a cena mudou de novo, tudo se encaixou. O público nem percebeu o
que aconteceu. E é isso, esse é o nosso papel, o nosso objetivo. Fazer com
que nada disso transpareça. Que a mágica continue acontecendo, mesmo
quando tudo sai do planejado. Você entende como a direção musical tem
que conhecer o show a fundo? As cenas, as falas, os personagens, não é
só a música. Eu tenho que conhecer o show inteiro. Porque se algo tá
errado, se um cenário demora pra entrar, eu estou aqui, eu seguro,
continua tocando, continua tocando, continua tocando, já acabou a
música, mas eles seguem tocando. Aí, chegou no ponto que tinha que
entrar, resolveu. Relaxou.
Falando agora sobre o público: houve algum momento inesperado ou
marcante vindo da plateia que ficou gravado na sua memória?
Ah, várias situações desagradáveis. Sempre tem gente desrespeitosa, essa
praga dos celulares na plateia, por exemplo, é uma coisa absurda.
Tem gente que fala durante o espetáculo, canta junto, antecipa falas…
Isso está acontecendo cada vez mais.
Não vou nem citar nomes, mas tem musical por aí em que o público
praticamente narra a história junto!
Mas, sinceramente, isso sempre existiu
, a diferença é que agora está mais
frequente. Sempre há alguém
inconveniente.
De qualquer forma, eu prefiro falar
das coisas boas que já vivi com o
público, tá?
Essa história eu conto em todo
workshop que já dei. Eu tenho um
ritual antes de reger. Subo ao pódio,
confiro se está tudo em ordem, os
músicos chegam, afinam os
instrumentos… e então me sento para
esperar o terceiro sinal, o momento de
começar o espetáculo.
Sempre faço uma pequena entrega
interior. Dedico o show a Deus, ao meu
Eu Superior, chame como quiser: o
Universo, a energia maior, enfim.
Depois, olho para a plateia e escolho
uma pessoa.
É para ela que vou reger naquela
noite. Toda a energia vai para o
público, claro, mas de forma especial,
para aquele alguém.
Normalmente escolho uma criança,
porque é a primeira vez que está ali,
ou uma senhorinha, um senhorzinho...
alguém que me toque de alguma
forma.
Nesse dia, lembro perfeitamente, na
primeira fileira havia uma senhora
lindíssima, uma mulher preta, parecia
uma deusa etíope. Maravilhosa.
Olhei para ela e pensei: “Hoje, é para
você.”
Se não me engano, isso foi em 2011,
durante o Evita, lá no Teatro Alfa, que,
inclusive, depois mudou de nome.
E, ao final da apresentação, essa
senhora se aproximou de mim e
disse: “Olha, vocês acabaram de me
criar um problema enorme.”
Nossa, eu fiquei sem saber o que
dizer. Pensei: “Meu Deus, o que
aconteceu? O que a gente fez?”
E ela respondeu:
— Essa foi a coisa mais linda que
eu já vi na minha vida. Agora, não
consigo mais viver sem isso.
Foi fantástico. Eu fiquei tão tocada!
É exatamente isso que faz o nosso
trabalho valer a pena.
E ela, toda poderosa, respondeu:
— Diva, claro, né? Olha a própria!
(Risos)
Mas foi um retorno maravilhoso.
E o mais incrível é que, tempos
depois, em outro musical, em outro
teatro, ela apareceu de novo.
Chegou pra mim e disse:
— Diva, você lembra de mim?
Claro, como esquecer!
Se você pudesse voltar no tempo e
dar um conselho a Vânia, mais jovem,
no começo da carreira, qual seria?
Tenha mais calma, não se cobre
tanto. A gente não muda a
natureza. Então, assim, tenha mais
calma, isso significa tudo o quê?
Confia, tenha paciência, segue o
fluxo, segue o seu caminho,
continue fazendo. E não se cobre
tanto, permita-se errar, porque no
erro está a maior parte do aprendizado.
E se você for uma nota musical, qual será essa nota?
Ai, que difícil! Acho que um mi bemol. Eu gosto de mi bemol.
FESTIVAIS
DE TEATRO
por Roberto Lívio
International Theatre Festival of Kerala (Índia)
Localização: Thrissur, estado de Kerala, Índia.
Periodicidade: acontece todo ano, em dezembro.
Pontos de interesse: reúne grupos internacionais e
locais de teatro independente/experimental.
Por que pode interessar para você: se o seu
projeto de orquestra ou espetáculo quiser
aproveitar o “clima de fim de ano”, ou conectar
com festivais internacionais, esse é um bom
exemplo de evento nessa época.
Theaterfestival Spielart (Munique, Alemanha)
Localização: Munique, Alemanha.
Período: ocorre em novembro e dezembro (15-
17 dias nessa janela) em seu calendário regular.
Foco: teatro independente, abordagens
experimentais da arte cênica.
Relevância: mostra que há festivais de
teatro ativos no fim do ano em contextos
internacionais, o que pode inspirar formatos
ou programações para a sua orquestra ou
projeto de divulgação.
BOSKA KOMEDIA / Divine Comedy International
Theatre Festival (Kraków, Polônia)
Localização: Cracóvia (Kraków), Polônia. krakow.travel
Data: Inicia em 6 de dezembro de 2024.
krakow.travel
Tema exemplo: a edição 2024 usa o mote “You Are
So Fucking Special” para refletir sobre identidade,
singularidade e contexto social. krakow.travel
Utilidade para você: mostra como um festival pode
ter um tema forte, o que pode ajudar a moldar o
estatuto ou plano de divulgação de sua orquestra,
“fechando o ano” com um tema marcante.
Concurso para modelos plus e
acima de 60 anos!
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“Sou mais Plus”
Para participar e receber o regulamento:
e-mail: revistaiconic3000@gmail.com
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Alimentos
importantes que
ajudam no
crescimento do
cabelo
por Tamires Nogueira
Nutrientes-chave e alimentos
ricos
Proteína: O cabelo é formado
principalmente por queratina,
uma proteína. Uma ingestão
insuficiente de proteína pode
levar à queda de cabelo.
Exemplos: ovos, carnes
magras, peixes.
Ferro: O ferro transporta
oxigénio para os folículos
capilares; deficiência pode
causar queda.
Exemplos: carnes
vermelhas magras,
mariscos, feijões, folhas
escuras.
Ômega-3 (gorduras
saudáveis): Protegem os
folículos capilares de estresse
oxidativo.
Exemplos: peixes
gordurosos (salmão,
cavala), sementes de chia,
linhaça.
Vitaminas A, C, E, D, e minerais
como zinco e selénio:
Importantes para o crescimento
capilar e saúde do couro-cabelo.
Exemplos de alimentos:
Vitaminas C: frutas
vermelhas, pimentões,
laranja.
Folhas verdes escuras:
espinafre, couve — boa
fonte de ferro, folato,
vitamina A.
Ovos: boa fonte de
proteína, biotina, zinco.
Biotina (vitamina B7) e outras
vitaminas do complexo B:
Contribuem para a formação
da queratina.
Todos os dias: inclua uma
fonte de proteína (como ovo
ou peixe), uma porção de
folha verde escura, uma fruta
rica em vitamina C, e
algumas nozes/sementes.
2-3 vezes por semana: peixe
gorduroso (ômega-3) ou
marisco rico em zinco.
Evite dietas extremamente restritivas ou com pouca proteína/ferro, pois
isso afeta o cabelo.
Cuidado com suplementos: só se houver deficiência comprovada, e com
supervisão.
Alimentos específicos muito recomendados
Ovos: fonte excelente de proteína e biotina.
Peixes gordurosos (como salmão): ômega-3 + proteína.
Folhas verdes escuras (espinafre, couve): ferro, folato, vitaminas.
Frutas-vermelhas, pimentões, etc: vitamina C e antioxidantes.
Nozes e sementes: boa fonte de vitamina E, zinco, gorduras boas.
Mariscos (ostras, etc): rico em zinco, que participa do ciclo de
crescimento do cabelo.
Como cuidar do cabelo (além da alimentação)
Mantenha boa hidratação: o couro-cabelo seco dificulta o crescimento
capilar saudável.
Evite deficiência de nutrientes: embora suplementos existam, sem
deficiência demonstrada seu benefício direto para crescimento capilar é
limitado.
Tenha bons hábitos de cuidado capilar: cortes regulares para evitar
pontas duplas, escovação adequada, evitar excesso de calor ou produtos
agressivos.
Cuidar do couro-cabelo: boa circulação, limpeza, evitar estresse
excessivo e tensão no couro cabeludo favorecem o crescimento.
Atenção à dose: nutrientes em excesso (vitamina A, selénio, vitamina E)
podem provocar efeitos adversos, inclusive queda de cabelo.
VOCÊ TEM
1 SEGUNDO
A vida é passageria. Faça o máximo!
Diga NÃO a qualquer tipo de pré - conceito
Bazar&Brechó
whatsapp: 11 98269 2404
atendimento somente via whatsapp
Laura Finocchiaro é uma das vozes mais
marcantes da música contemporânea
brasileira, reconhecida tanto pela
técnica impecável quanto pela
capacidade de transmitir emoção em
cada interpretação. Com uma carreira
consolidada, ela transita com
naturalidade entre diferentes estilos,
mostrando versatilidade sem perder a
identidade artística.
Sua importância para a música vai além
do palco. Em sua entrevista, pude
perceber o quanto Laura contribui para
a valorização da cultura brasileira,
dialogando com diferentes públicos e
ampliando o acesso à música de
qualidade. Além disso, é referência para
novas gerações de músicos e cantores,
inspirando-os a unir disciplina técnica e
sensibilidade artística.
foto by Fernanda Chemale
LAURA
FINOCCHIARO
ENTREVISTADA POR
REGINA PAPINI STEINER
Participações em festivais, programas de
televisão e projetos colaborativos
consolidam sua imagem como uma
artista completa, cujo trabalho tem
impacto significativo na formação
cultural do público e na cena musical
nacional. Em cada performance, Laura
Finocchiaro reforça a relevância da
música como expressão artística, veículo
de emoção e instrumento de
transformação social.
Laura Finocchiaro é muito mais do que
uma intérprete: é uma referência de
dedicação, talento e influência no
cenário musical brasileiro, contribuindo
para a preservação e inovação da
música, e deixando um legado
duradouro para todos os artistas.
Regina Papini Steiner
Como você enxerga o papel do
artista nos dias de hoje?
Eu tenho sentido, primeiro, assim, eu
estou buscando me conectar com as
pessoas e estou sentindo muita
dificuldade. Não sei se é porque eu
tenho 63 anos e as pessoas se
assustam com o cabelo branco e
com o tamanho da história que é
gigantesca e não tem como negar,
né?
Só que a gente vivendo nesse mundo
que a gente vive capitalista,
neoliberalista, e onde os valores são o
poder e o dinheiro, parece que uns
são mais importantes que os outros.
Porque o que a gente viveu, eu não
posso jogar fora, mas já teve um
empresário que falou: “Laura, esquece
o teu nome, vamos mudar o teu
nome, eu te ponho em uma pista, tu
viras DJ internacional”, isso tem uns
20 anos atrás, e ele : “Esquece a tua
história porque a tua história é muito
grande e não vai acontecer”. Um
grande empresário de música
eletrônica, de coisa de DJ e tal, e eu
falei para ele, me desculpe, mas eu
não vou jogar fora. Se eu acertei ou se
eu errei, eu não sei, mas é a minha
história. Eu vejo um mundo onde as
pessoas têm a ilusão de estarem
conectadas porque a gente tem
todos os meios à nossa mão, mas, na
verdade, eu acho que a gente está
cada vez mais desconectado, não só
uns com os outros, mas com nós
mesmos.
É uma desconexão... não se
sabe mais comer, não se sabe
mais amar, não se sabe mais
fazer uma massagem, não se
sabe mais escutar o outro,
então a gente está perdendo a
sintonia fina. E tudo isso por
excesso de tela, excesso de
informação que vai causando
um nível de ansiedade muito
grande e as pessoas estão se
perdendo delas próprias. A
nível cultural acho que é um
ladeiro abaixo, não que não
tenham talentos, mas quem
tem talento não consegue
mostrar.
Você que tem se dedicado a
preservar a originalidade
sonora e poética, como tem
sentido esse desafio na
prática?
No governo Lula, com a
Margareth Menezes à frente do
Ministério da Cultura, houve
preocupação em adaptar os
editais. Eu preciso dizer: eu
escrevo, tento me fazer ouvir,
mas não adianta. Não tenho
cacife, nem pretendo criar um
partido para isso, eu não tenho
saco, sou roqueira, não sou
política.
Eu mando meus recados, mas,
pelo visto, eles não estão
chegando. O que eu digo para
ela e para todos que querem
cuidar da cultura é que não basta
apenas criar um edital e
disponibilizar dinheiro. É preciso
mudar conceitos, amparar de todas
as formas.
Não adianta um grupo, mesmo
pequeno, receber um fomento, e o
governo dizer: “Nós estamos
apoiando, olha, a verba foi para
fulano.” Se culturalmente o cenário
está prejudicado, é necessário um
trabalho de base, inclusive na mídia.
O governo também precisa investir
na divulgação.
Porque a gente até consegue acessar
os editais, mas não conseguimos
captar público. Recursos existem,
podem vir alguns para nos ajudar,
mas o público já se perdeu: perdeu o
hábito de ir a teatros, a shows, de
pagar ingressos. Isso precisa ser
recuperado, reconquistado, e o
governo tem que apoiar nesse
processo.
Não adianta só colocar dinheiro para
a realização de um projeto; é preciso
fazer a mídia chegar junto. Muitas
vezes, quando você pega um edital,
percebe que o valor destinado ao
projeto seria mais adequado para
investir em divulgação, se quisermos
realmente começar a reconstruir o
público e a cultura. Então não tem
concorrência, porque a gente não
consegue pagar a mídia, então a
gente está sempre no fim da linha, eu
falo a gente como assumindo o meu
lugar de artista independente, com
muito orgulho que eu tenho.
Então é isso. Eu acho que até
existem reuniões, mas os
grandes artistas, que
poderiam politicamente abrir
caminhos, não o fazem de
fato. Eles até aparecem,
lutam pela visibilidade,
fazem passeatas, participam
de movimentos como a
Anistia… É lindo de ver. Às
vezes ainda colocam um
artista jovem no palco, mas
isso não é suficiente.
Desculpe, não está ajudando
de verdade — muitas vezes
estão ajudando apenas o
próprio bolso.
Está tudo bem complicado. E
você, que viveu intensamente
esse cenário nos anos 80 e
90, sabe como era diferente.
Nos anos 80, eu tinha a
impressão, e acho que você
compartilha da mesma
percepção, de que havia uma
comunhão geracional, um
engajamento coletivo que se
perdeu hoje. A gente não
tinha a impressão que a
gente ia mudar o mundo?
Todo mundo acreditou, depois então
do movimento hippie, e do
movimento da contracultura, e
depois da guerra, e o Vietnã que
resistiu, e passou a segunda guerra, e
foi aquela contracultura, aquele
movimento de liberdade, libertação,
amor livre, consciência, e vamos
derrubar o sistema, e vamos ser
natural, eu sou natureba, não como
carne desde essa época dos anos 70,
vamos revolucionar o mundo com
amor, paz e amor, não era esse o
lema? E a gente começou a transar
com todo mundo, de manhã, de
tarde, de noite, graças a Deus. E não
importava se era homem ou se era
mulher, era amor. Eu estava vivendo
isso, eu estava ouvindo os mestres,
fazendo yoga.
O que você acha que aconteceu com
os artistas dessa geração? Será que
os grandes grupos acabaram
absorvendo ou sufocando o talento
independente?
Começou aquela coisa: os grandes
conglomerados começaram a nos
engolir. Eu percebi que tudo estava
acontecendo, nossas ideias sendo
apropriadas, sugadas e
transformadas em produto
comercial, sem respeito pelo
trabalho original. O mundo implodiu
de novo, e a nossa ideia de quebrar o
sistema por dentro não aconteceu.
Eu tinha como ídolos, além
dos Mutantes e da Rita Lee, a
Elis Regina, toda a cena dos
festivais, Tom Zé, Chico
Buarque, a Tropicália, a Jovem
Guarda… E, claro, tudo o que
tinha acontecido com a
música progressiva e aquele
“desbunde” do rock.
Quando vim para São Paulo
fazer shows, tinha o Arrigo
Barnabé, a Itamar Assumpção,
o Teatro Lira Paulistana, que
fervia de público. Lotava! E
quanto mais ousado ou louco
era o trabalho, mais o público
aplaudia.
Era Língua de Trapo,
Premeditando o Breque,
Grupo Rumo… e cantoras
maravilhosas como Vânia
Bastos, Tetê Espíndola, Ná
Ozzetti. Era uma verdadeira
riqueza cultural e criatividade.
Quanto mais louco o projeto,
mais o público amava.
Nesse momento eu também
tenho um programa numa
rádio pirata, a Antena Zero, é
uma web rádio que toca
música 24 horas no ar. Eu tive
a honra de entrevistar o
filósofo e músico que é o
Vladimir Safatle. Ele tem um
trabalho musical que
realmente quebra tudo:
mistura música erudita com
contemporânea. A filha dele
canta divinamente, e ele só
trabalha com divas que têm
essa força vocal, construindo tudo
com muita inteligência. Ele ainda
consegue trazer filosofia para a
música, algo que é raro.
Nessa entrevista, eu decidi focar
apenas na música dele. São apenas
58 minutos, então não dava para me
aprofundar tentando entender toda a
cabeça dele, mas aconteceu, e foi
político. Nos anos 80, todo mundo
acreditava que íamos quebrar o
sistema por dentro, não era só uma
questão musical. Mas acabou
implodindo. Ele fala sobre isso na
entrevista, apresenta sua teoria, e faz
todo sentido. O que aconteceu
depois é que o mundo foi se
tornando cada vez mais artificial,
como se estivesse ficando de
plástico. A gente viu a AIDS parando
o sexo. Eu vivi isso na pele. Minha
irmã mais velha, que era outra
pessoa, merece destaque nessa
entrevista: Lory Finocchiaro a maior
rockeira, que infelizmente não pôde
continuar, porque faleceu aos 34
anos. Ela foi baixista, compositora,
minha musa. Lory, teve curtametragem
premiado, virou ícone, e
mesmo depois de 30 anos a obra
dela continua influente, retratando
sua vida intensa de drogas e
rock’n’roll.
Eu e minha outra irmã; Débora
Finocchiaro, que é atriz, uma
estrelíssima, e estreia em Porto
Alegre num espetáculo sobre
mulheres, premiadíssima; ajudamos
Lory a atravessar esse momento
difícil.
E foi assim que nós sentimos,
na pele, o preconceito.
Aquele preconceito matava,
desagregava amigos,
familiares e nossa sociedade.
Tudo isso amplificado pelo
silêncio do governo. Foi um
genocídio silencioso até
conseguirem liberar o AZT,
que era um medicamento
problemático, mas ainda
assim melhor do que nada.
Lory Finocchiaro
FERNANDA CHEMALE/DIVULGAÇÃO/JC
Então, amiga, a partir daí, do
sexo, do meu primeiro
grande trauma, daquele
amor, tudo acabou ali. Foi
nesse momento que eu me
tornei militante, comecei a
cantar nas paradas, a ajudar.
Mas eu sempre fui tão louca, como
sou até hoje, que eu não ajudava
apenas as lésbicas. Percebi que a
questão maior era o amor em si, que
estava em prova: homem, mulher,
gay, bi, trans… Até hoje meu
pensamento é assim, e ainda não é
completamente compreendido.
Não fui levantar uma bandeira
esperando reconhecimento; não
surgiu um selo dizendo “isso é cultura
lésbica”. E eu falei: “Não, eu não sou
só isso, eu não sou lésbica., eu sou
humana.
E o movimento dizia que eu era
covarde, porque eu não queria
assumir que era lésbica. Mas eu
sempre dizia: desculpe, é muito além
disso.
Para lidar com a morte da minha
irmã, busquei o budismo. Cheguei a
fazer um CD de mantras, que se
tornou um dos mais ouvidos.
Participei por quatro anos,
aprendendo com a mãe do Lama
Michel, Bel Vilares, uma mestra em
budismo.
Eu fui cultivando esse lado espiritual
que já tinha e tentando trazer essa
perspectiva para a nossa cultura gay.
Mas não passava, porque ninguém
queria falar de amor. Ninguém quer
falar de amor de verdade. É remédio,
é AZT, é AIDS… mas não é amor.
Esse amor que eu defendo virou alvo.
Já fui atacada, quase cancelada,
porque disseram que minhas
palavras eram de plástico, que esse
amor que eu falo não existe, que é
coisa de branco… Burguês branco,
foto by Thiago dos Reis
foto by Fernanda Chemale
Como foi para você, nesse período
de intenso posicionamento político,
familiar, e social, trabalhar no
programa TV Colosso?
Foi a salvação.
É aí que eu vejo como sou protegida,
e como vale a pena continuar sendo
louca do jeito que sou, no sentido de
acreditar que sempre pode melhorar.
Ter uma fé absoluta: mesmo quando
tudo parece desabar, eu continuo
acreditando. E acredito de verdade,
nos anjos, na proteção de Nossa
Senhora.
E sempre, quando tudo parece
perdido, algo bom acontece. No meu
caso, foi a TV Colosso. Entrando
naquele momento de dor, com a
AIDS, a morte da minha irmã, o peso
do preconceito, eu vi uma luz. Fui
para Porto Alegre, vivi aquela
experiência, ajudei a família, levantei
a cabeça e continuei.
Eu mixei o disco dela. Minha irmã foi
guerreira e gravou seu álbum: Lory F.
Band, que depois entrou na lista dos
50 melhores.
No hospital, ela me pediu: “Laura,
mixa o disco pra mim. Só não tenha
pressa, minha música só vai ser
descoberta daqui a 20 anos.”E foi o
que aconteceu. Mas eu tive pressa,
pensei: “Essa fita pode se perder.”
Então, na mesma semana em que ela
morreu, entrei no estúdio e finalizei o
trabalho. Enquanto eu ainda
desmontava o quarto dela, em Porto
Alegre, o telefone tocou. Era
uma produtora do Luiz Ferré,
criador e diretor da TV
Colosso. E ela falou, Laura, a
gente vai fazer um programa,
infantil, e a gente está
buscando pessoas que
possam trazer alguma coisa
nova. A gente lembrou de ti.
Tu não quer tentar fazer
música pra cachorro? Como é
que é isso? Mas eles também
não sabiam direito. Não tinha
um briefing ainda. E foi ali
que uma nova fase começou.
Ele tinha a ideia de um
programa com personagens
de cachorros, mas nada
definido. Não sabia se queria
algo eletrônico, acústico,
mais careta, nada estava
claro. Era tudo muito
intuitivo, cheio de emoção.
Nesse clima, eu topei na hora
e chamei minha parceira de
sempre, a Leca Machado.
Sabe aquela pessoa que olha
uma flor e já transforma em
poesia? Ela é assim, a própria
poesia em forma de gente.
Além de poeta, a Leca é
redatora publicitária, então
tem um senso de ritmo e
criação muito rápido. Eu
disse: “É tipo produção,
vambora fazer!”, e a mágica
começou ali.
foto by Thiago dos Reis
Então, a gente misturou emoção com necessidade, ela precisava de
dinheiro, eu também. E, claro, não queríamos perder a oportunidade
de fazer um trabalho para a Rede Globo. Imagina: duas artistas
independentes, naquele momento da vida!
Eu ainda chorava muito, estava tomada pela dor, e esse convite veio
como um respiro. Foi como se Deus tivesse colocado aquilo no meu
caminho. Eu precisava compor música para crianças e não podia ser
qualquer música. Tinha que ser boa, divertida, verdadeira.
E foi um processo de cura.
O resultado? Dez sucessos. Não um ,dez!
O trabalho que eu e a Leca criamos serviu de referência para todo o
programa. A partir das nossas músicas, os outros compositores
encontraram uma base.
E o mais incrível: essa base nasceu de duas mulheres.
Os homens ficavam enlouquecidos. Quando viam a gente, olhavam
procurando o resto da equipe “cadê o pessoal?”, pensavam.
Mas não tinha ninguém. Era só a gente.
Como você enxerga o machismo no meio artístico e de que
forma aprendeu a lidar com ele ao longo da sua trajetória?
Em todos esses meus 43 anos de carreira, eu carrego uma
revolta enorme contra o machismo e com razão. Eu enfrento
isso desde o começo.
Quando comecei, eu já saí pro mundo sendo cantora,
compositora e guitarrista. E isso, naquela época, foi um
choque. Muita gente não aceitava.
E eu não parava por aí: fazia meus próprios arranjos, escrevia
as partituras, criava tudo. Era uma verdadeira guerrilha
artística nos anos 70 uma mulher fazendo tudo isso sozinha.
Eu chegava com tudo pronto: a composição escrita, gravada,
arranjada. Claro, não era num grande estúdio da Som Livre, era
no improviso, com um amigo que topei pelo caminho. Muitas
vezes eu dava parceria pra ele nas músicas, porque não tinha
como pagar. Eu dizia: “Vira meu parceiro.” E ele topava.
Foi assim que consegui gravar. Imagina: uma mulher jovem,
sem grana, em São Paulo, tentando viver de música. Eu vim
pra cá com 19 anos pra fazer um show e nunca mais fui
embora.
Como foi pra você viver e expressar esse momento de
descoberta e afirmação da sua identidade?
TV Colosso foi uma grande oportunidade de colocar em
prática todo o meu saber musical. Naquele momento, em 1993
o mesmo ano em que a Lory faleceu, eu já tinha cerca de dez
anos de carreira, mas estudava música desde os nove. Ou seja,
já trazia umas três décadas de vivência musical dentro de
mim. E eu senti: é agora.
O mais incrível é que, naquela época, eu já era assumidamente
gay. Já frequentava a noite, era muito livre. Nunca deixei
ninguém me prender e isso foi uma vantagem enorme na
minha vida.
A primeira pessoa a quem eu contei que era lésbica foi a
minha mãe. Eu pensei: não vou carregar culpa por ser quem
eu sou. Então fui e contei. Ela aceitou, ou não, mas o fato de
ela saber já resolveu tudo pra mim. Foi libertador.
Depois disso, percebi que muita gente sofria, se escondia, e eu
achava estranho, porque eu me sentia em paz. E levei toda
essa vivência, essa energia das pistas noturnas, do universo
gay, para a música infantil.
Como foi revisitar Malabi e dar uma nova leitura a uma obra
tão marcante da sua trajetória?
Aí o que aconteceu? Depois de 30 anos, o Canal Viva colocou
tudo no ar de novo. Só que dinheiro? Nunca mais. O dinheiro
foi naquela época, e depois… tchau, baby, tchau, tchau. Vai
entender. Já nem tento mais. Querem até roubar a Ronda.
Deixa pra lá. Pra mim, Nossa Senhora me ajuda. Fome eu não
passo. Então, que se dane.
Um maestro super sério me disse uma vez: “Laura, se você
estivesse nos Estados Unidos, só com essas dez músicas que
fez para a TV Colosso, você teria cobertura e limusine. Só com
a TV Colosso!”
Então, pra você ter ideia… eu não tenho nem limusine, nem
nada. É complicado. Mas mesmo assim, eu sigo em frente.
E aí, há dois anos, vi que voltou a passar no Canal Viva. Poxa,
que legal, né? Fiquei pensando: “Vai ver agora entra dinheiro
também.” Mas não entrou. Mesmo assim, a alegria de ver que
estava no ar de novo já valeu tudo.
Isso é algo que não tem palavra, sabe? Talvez, se eu tivesse
muito cacife para contratar um advogado, até dava pra brigar.
Mas teria que ser muito cacife, porque advogados não se
metem em causas de artistas independentes, principalmente
quando se trata de direitos coletivos. Eles não querem
enfrentar a Som Livre, nem a Sony.
Se eu tivesse dinheiro pra pagar um advogado de verdade, ele
até compraria a minha briga. Senão, ele diz: “Lau, tá tudo bem,
teu nome tá lá, eles dizem que é assim, e fica por isso mesmo.”
Eu já gastei dinheiro quando tive oportunidade, mas nem
assim adiantou.
E aí, depois, vi uma dupla de
produtores levantando o
espetáculo da TV Colosso.
Pensei: “Bom, agora vai dar pra
ganhar dinheiro.” Também
não.
Quando percebi que todo
mundo, de algum jeito, estava
tirando uma casquinha, e
minhas músicas estavam lá no
meio, eu falei: “Quer saber?
Então eu vou regravar.”
Porque eu amo Malabi, amo a
TV Colosso, amo as músicas
que fiz. Principalmente Malabi,
que era a música do
cachorrinho que eu falei… e eu
sei que ela é boa.
Como foi gravar Malabi no
Nordeste, com Buguinha
Dub? Que influência essa
região teve na construção
e no resultado da música?
Então eu tive a ideia: “Vou
regravar Malabi.” Quando
contei isso pra ele, ele
disse:
“Laura, você não sabe…
Malabi era a minha vida,
era o meu cachorrinho.”
E continuou: “Eu tenho dois
amigos que se chamam
Malabi — de tanto que
amavam o meu cachorro!”
O baixista que gravou a música
também tinha esse apego ao Malabi, e
até o percussionista tinha essa história
na vida dele. Quando percebi, tinha
uma verdadeira legião de Malabis ao
meu lado. Todo mundo amava o
Malabi.
Enquanto gravavam, era como se
estivessem viajando dentro da música,
tocando o Malabi com a mesma
paixão de antes. Ficou uma energia
mágica.
O produtor ainda falou: “Vamos
chamar uns vizinhos, umas crianças,
pra gravar um clima animista.”
Eu queria ter incluído, como na
versão original, o preâmbulo que a
Leca escreveu:
"Já veio primeiro, o ovo ou a galinha?
Por que a chuva cai de pé e corre
deitada?"
Mas ele disse: “Vamos chamar
algumas crianças, tá bom?” E vieram,
crianças da periferia de Olinda, sem
referência do Malabi. Elas tentavam
falar, mas não conseguiam: Malabi,
Bila, Malabila, Mamabila… nada. No
fim, só ficou: Olha o cachorrinho
mágico!
E foi assim que essa versão nasceu
com toda a magia e o carinho de
quem ama o Malabi de verdade.
Tudo foi feito com o mínimo de
recursos, com pouca grana, mas eu
ajudando em tudo, pagando e
coordenando a produção. Fiz tudo
através do meu selo, a minha
empresa, a Sorte Produções.
Voltei pra cá, masterizei o
trabalho com o Buguinha,
que é ótimo, e fui
esperando o momento
certo para lançar. Porque,
como sou da minha
geração, mesmo com
streaming e plataformas
digitais, eu ainda acredito
no valor de contratar um
assessor de imprensa para
um lançamento bem feito.
Sim, mas hoje em dia os
jovens… coitados, eles são
educados pra achar que
podem fazer tudo
sozinhos. Eles lançam suas
músicas nos streamings
sem envolver ninguém sem
jornalista, sem assessoria,
nada. Acham que é só
colocar no Spotify, postar
no Instagram, e pronto, tá
feito.
Eu não penso assim. Eu
acredito que é importante
enviar para os jornalistas,
mesmo que ninguém
escreva nada, mesmo que
ninguém dê atenção. É
parte do cuidado com o
trabalho,
da
responsabilidade de
divulgar com seriedade.
Eu pensei: “Vou lançar no Dia das
Crianças, vou dar de presente.” Aí
veio a inspiração. Tenho uma
sobrinha-neta, a Gabriela, que
nasceu no ano passado, ainda nem
tem um aninho. Então decidi
dedicar a ela, para os jovens do
século XXI conhecerem, e também
para nós, que somos eternas
crianças. Porque, sinceramente, eu
percebi que ainda tenho essa
criança muito viva dentro de mim.
Esse lançamento é para presentear
minha criança, as nossas crianças. A
gente precisa respeitar essa criança
que existe dentro da gente.
Além dos músicos, que eram um
monte de Malabi, eu fui fazer um
show no Centro Cultural Vergueiro,
agora em agosto. Durante o batepapo,
estava lá o Alessandro
Santos, que trabalha com vídeo e
tem 40 anos. Eu contei pra ele: “Vou
lançar Malabi, amo essa música!”
Quando a música ficou pronta,
mandei pra ele, e ele pirou.
Então eu falei: “Alessandro, tu mexe
com vídeo, toparia tentar fazer uma
animação a partir dessa capa?”
Nesse momento, o Ferré já tinha
me dado dois bonequinhos
inéditos do Malabi, porque o
Malabi, oficial aquele da TV Colosso,
era da Ação Livre e da Globo. Então
peguei os dois desenhos que o
Ferré me deu e entreguei para o
Alessandro.
E não é que ele fez o meu clipe
animado? Ficou incrível!
E aí, pra concluir, antes de
ontem Malabi saiu no Spotify,
foi lançado e, de repente,
apareceu em primeiro lugar
no radar, como destaque. Eu
não pedi nada pra ninguém,
não paguei nada, não fiz
acordo com o Spotify nada
disso. E aconteceu!
Agora eu não sei até onde
esse Malabi vai me levar…
Que mensagem você daria
para quem está começando
agora na música ou na arte?
Primeiro lugar: estude. Estude
música, tecnologia, corpo e
expressão. Se quer ser artista,
precisa desenvolver o corpo, a
técnica e a criatividade antes
de se jogar na vida. Não
coloque a carreira na frente
do ser: antes de ter ou
conquistar, é preciso ser.
Acredito na colaboração e numa sociedade baseada em
coletividade e horizontalidade. Tenho uma música que chama
“todo mundo para o mundo”: esse mundo está perdido, mas se
juntarmos forças, podemos melhorar. Parece ingênuo, mas é a
chave de tudo.
Vivemos um tempo de genocídios e perversidade, onde o dinheiro
compra tudo, até o poder. Nunca foi tão urgente que nos demos as
mãos, que trabalhemos de forma coletiva, em nome do ser humano
e do planeta. Os recursos naturais estão escassos precisamos agir
agora.
Precisamos ter consciência de que o sucesso vendido pelo
imperialismo é uma ilusão, um jogo da indústria. Todo mundo
merece brilhar, mas o sucesso precisa ser coletivo, não dá para um
se dar bem enquanto milhões ficam para trás.
A cultura é fundamental para viver e ser feliz. Por isso, é essencial se
preocupar em ser antes de ter, cuidar dos outros e do planeta. Isso
exige coragem, porque você vai enfrentar sistemas poderosos, e
ética, porque o mundo inteiro tenta corromper.
Já fui acusada de ser burguesa por defender a correção: se tem que
pagar o ECAD, se tem imposto a recolher, paga-se. Integridade é
essencial, mesmo que seja difícil.
Fotos: Marta Baião
E você, pudesse traduzir em uma canção o sentimento do Brasil
atual? Que ritmo, palavra ou imagem ele teria?
Que pergunta linda! Eu seria um punk rock synth, abusando de
sintetizadores e tecnologia, mas sempre aliada à inteligência
harmônica. É preciso criar músicas que desafiem a burrice da
inteligência artificial usar a tecnologia como recurso, mas nunca
deixar a máquina pensar por nós.
Minha música teria acordes dissonantes, pontes agudas, um pop
rock intenso, para acordar as pessoas. Precisamos de paz e amor,
mas não passivos. É hora de lutar pelos direitos do planeta, da
sociedade e da democracia, sem violência, mas com consciência.
Hoje, muita gente está anestesiada pelas telas e pelas fake news,
perdendo o discernimento a ponto de aceitar genocidas como
Netanyahu, Erdogan ou o bolsonarismo conduzindo suas vidas.
Minha música seria um chamado para acordar e resistir.
https://laurafinocchiaro.com.br/
Fotos: Thalita Arruda e Ivy Abujamra
Pesquisas recentes demonstram
que as abelhas desempenham
papel decisivo no reflorestamento
de regiões degradadas. No Brasil,
um estudo identificou 727 abelhas
de 85 espécies em áreas de
restauração da Mata Atlântica,
interagindo com 220 espécies
vegetais o que evidencia a
capacidade desses insetos de
ampliar a diversidade vegetal e
fortalecer
ecossistemas
fragilizados
Além disso, projetos de
meliponicultura (criação de
abelhas nativas sem ferrão) em
áreas amazônicas associam a
manutenção de colmeias à
recuperação de florestas em
Áreas de Proteção Permanente
(APPs), oferecendo renda às
comunidades locais e
simultaneamente promovendo a
restauração ambiental.
Esses exemplos reforçam que
abelhas não são apenas
polinizadoras agrícolas são
agentes-chave para a regeneração
florestal e conservação da
biodiversidade.
foto by arquivo pessoal
Ralf Zeq
entrevistado por Nathália Bulsing
Com apenas 27 anos, Ralf Zeq se consolidou como um
dos nomes mais promissores da produção musical
brasileira. Ex-baterista da banda Leões de Júpiter, ele
trocou o calor dos palcos pela precisão das cabines,
tornando-se o arquiteto sonoro por trás de projetos que
unem autenticidade e sucesso comercial. Em seu Half-
Time Studio, o produtor busca a essência dos artistas,
equilibrando a vanguarda tecnológica com a emoção
humana. Conversamos com Ralf sobre a ascensão
meteórica, o desafio da autocrítica e o futuro do áudio
na era da IA e do Dolby Atmos.
Quebra-Gelo e Início: Ralf, para
começarmos, você pode compartilhar sua
idade e onde nasceu? Qual foi o seu
primeiro contato decisivo com a
produção musical que o fez pensar "é isso
que eu vou fazer"?
Ralf Zeq: Tenho 27 anos e nasci em Lorena-
SP. Meu primeiro contato com a produção
musical foi aos 17 anos, quando comecei a
gravar uma banda da qual eu fazia parte,
chamada Canal XIII. Apaixonei-me pelos
processos de gravação e, principalmente,
pelos de pós-produção, como edição,
mixagem e as infinitas possibilidades que
essa arte pode proporcionar.
Ascensão Meteórica: Sua carreira
decolou muito rápido, alcançando grande
sucesso antes dos 30 anos. Você
consegue identificar um ou dois
momentos cruciais, um ponto de virada,
que o colocaram nessa trajetória?
Ralf Zeq: Acredito que um ponto crucial foi
ter observado como trabalhavam os outros
produtores da minha região quando
comecei. Geralmente, a tendência dos
profissionais era “não mexer” em nada, e isso
acabava engessando os artistas, gerando
músicas sem personalidade. Eu sempre
preferi dar mais liberdade aos artistas,
incentivando-os a extrair cada vez mais de si,
saindo da zona de conforto e buscando
sempre o potencial máximo tanto do artista
quanto o meu.
O Desafio da Juventude: Você sentiu, no
início da carreira, que sua idade era um
obstáculo para ser levado a sério em um
mercado historicamente dominado por
veteranos? Como você superou isso?
Ralf Zeq: Um artista muito novo é sempre
muito ingênuo e precisa da curva de
aprendizado para buscar e testar coisas
novas, amadurecendo o gosto musical e a
percepção sonora em geral. Por isso, eu
enfrentava a dificuldade de conseguir
clientes mais experientes. Porém, isso se
tornou um ponto positivo, pois tive a
oportunidade de trabalhar com vários novos
artistas e explorar, junto com eles, novas
sonoridades, formar carreiras e construir
laços. Isso acabou se tornando um dos meus
pontos fortes: identificar a identidade do
artista e explorar o talento dele ao máximo.
A Ponte Músico-Produtor: Como o fato
de você tocar tão bem, especialmente
bateria, te ajuda a se comunicar com os
músicos e a entender a performance na
cabine?
Ralf Zeq: Ser músico na produção musical
não é uma necessidade, mas facilita o
processo e a comunicação, acelerando o
trabalho.
Visão de Sucesso: O que significa ter
uma "carreira brilhante" para você nesta
fase da vida? É sobre números de
streaming, prêmios, ou o impacto cultural
e a satisfação pessoal?
Ralf Zeq: Uma carreira de sucesso, na minha
opinião, é ter estabilidade, reconhecimento
e clientes que possuam a mesma sinergia,
onde complementamos nossas ideias e
opiniões e temos liberdade criativa.
A Primeira Produção: Qual foi o
primeiro projeto que você produziu
que te deu a certeza de que a
produção seria seu caminho
definitivo?
Ralf Zeq: A primeira produção em que
tive certeza de que estava no caminho
certo foi uma música chamada
Torrentes, da minha primeira banda,
onde consegui extrair meu primeiro
trabalho profissional.
Da Demo ao Hit: Qual é o seu critério
para escolher um projeto ou uma
música que tem potencial para se
tornar um sucesso?
Ralf Zeq: Composição, originalidade,
conceito e profundidade.
Ralf Zeq: Acredito que foi quando um
colega de profissão muito influente e
conhecido nacionalmente disse que eu
era um dos melhores produtores do
país (embora eu ache um exagero).
Significou muito para mim ouvir isso
dele.
Momento de Dúvida: Houve algum
momento na sua carreira, mesmo
com o sucesso, em que você pensou
em desistir ou mudar de área? Como
superou?
Ralf Zeq: Acredito que, a cada três
meses, é comum ter uma pequena
crise existencial kkkk. Sempre bate
uma dúvida sobre o caminho. Mas
aprendi que resiliência, disciplina e
paciência são a chave de tudo.
Influências de Produtor: Quem são
seus maiores ídolos na área de
produção musical (nacional e
internacional) e qual a maior lição
que você aprendeu com eles?
Ralf Zeq: Finneas O’Connell, Rick
Rubin, Gabriel Luchinni, entre outros. A
maior lição que aprendi é nunca
colocar limite na criatividade e sempre
buscar um diferencial.
Melhor Elogio: Qual foi o elogio mais
memorável que você já recebeu de
um artista ou colega sobre a
sonoridade de uma produção sua?
foto by arquivo pessoal Instagram
O DNA de Baterista: A experiência
como baterista da Leões de Júpiter é
única. Além do ritmo, como a
dinâmica de trabalho em grupo e o
palco influenciam a sua liderança no
estúdio?
Ralf Zeq: Acredito que “liderança no
estúdio” não seja um fator que eu
busque muito. Vejo o papel do
produtor mais como o de ouvir,
sintetizar as ideias em comum entre
todos e ter uma postura democrática
sobre a obra trabalhada.
A Dupla Função na Banda: Você
também estava envolvido na edição
e finalização dos clipes da banda.
Essa familiaridade com o audiovisual
ajuda você a produzir a música
pensando no produto final
(clipe/visual) desde a captação?
Ralf Zeq: Com certeza! Quando estou
produzindo, costumo pensar no som de
forma visual. Às vezes, algumas músicas
saem do estúdio com parte do roteiro
do clipe pronta, pois construímos certas
faixas quase de forma
“cinematográfica”.
Ralf Zeq: A transição de músico para
produtor foi bastante natural conforme
fui evoluindo na profissão, mas com
certeza sinto falta da sensação dos
palcos. Sentir a troca de energia fluindo
entre os músicos e o público é algo
muito único e vivo e é algo de que
pretendo voltar a fazer parte em breve.
Nome do Estúdio: Por que o nome
Half-Time Studio? Existe uma
filosofia ou significado especial por
trás dele?
Ralf Zeq: O nome Half-Time Studio
vem de uma situação descontraída da
época em que eu estudava bateria.
Meu professor me passou um exercício
chamado Half-Time Shuffle. Eu sempre
fui muito ansioso e não gostava de
simplesmente fazer o exercício;
acabava mudando-o do meu jeito e
criando coisas em cima. O professor
achou isso da ora e um dia postou um
vídeo intitulado RALF-Time Shuffle.
Anos depois, quando fui abrir o estúdio,
lembrei dessa situação e achei legal
fazer o trocadilho com meu nome e
essa lembrança especial além de todas
as simbologias do nome e da relação
com o tempo.
A Transição de Papel: Qual foi o
maior desafio emocional ao transitar
do papel de músico de banda para o
de produtor/engenheiro? Você sente
falta de estar "apenas" tocando?
Estrutura Criativa: Qual é a diferença
na sua abordagem quando você está
produzindo artistas de grande nome
e quando está desenvolvendo um
talento novo e independente no
Half-Time?
Ralf Zeq: Minha abordagem é sempre
exatamente a mesma. O que muda
geralmente é apenas o tempo de
conclusão do trabalho, pois um artista
mais experiente tende a alcançar um
resultado satisfatório mais rapidamente.
Projetos Pessoais: Além de produzir
outros artistas, você ainda encontra
tempo e inspiração para desenvolver
projetos musicais próprios?
Ralf Zeq: Infelizmente, hoje em dia
estou off dos meus projetos pessoais,
mas estou me planejando para voltar
em breve.
O Ambiente: Como você descreveria
a atmosfera de trabalho no Half-Time
Studio? É mais técnica e focada ou
mais descontraída e experimental?
Ralf Zeq: Procuro sempre me colocar
dentro da cabeça do artista e pensar
como ele, para buscar um resultado
que mais se aproxime da identidade
dele. Nunca tento impor a “minha
identidade”, porém ela surge
naturalmente, pois é inerente ao ser
humano ter preferências sonoras.
Anatomia do Hit: O que é preciso
para uma música "grudar" no
ouvinte? Você foca mais no arranjo,
na letra, na performance vocal ou no
sound design?
Ralf Zeq: Acredito que o conjunto da
obra seja o que faz a diferença, mas
com certeza tudo nasce na
composição. Por isso, procuro sempre
lapidar as letras e, principalmente, as
melodias e o mapa musical (posição
dos versos, refrão, etc.).
Ralf Zeq: Com certeza, descontraída e
experimental. Acredito que, com um
ambiente mais leve, o artista se sente
mais desinibido e, por consequência, se
solta mais nas performances,
conseguindo extrair mais de si e da sua
essência.
O "Toque de Assinatura": Como você
equilibra a sua visão pessoal e a
"assinatura Ralf Zeq" com a
necessidade de respeitar a
identidade e a voz original do artista
que você está produzindo?
Fluxo Ideal: Descreva o seu processo
ideal quando um artista entra no seu
estúdio com uma demo: Onde
começa a sua intervenção e quais
são os primeiros passos cruciais?
Ralf Zeq: Sempre começo mudando
todo o instrumental para melhor
condizer com o que está sendo dito.
Isso sempre traz várias ideias, e o
processo de mexer nas letras, melodias
vocais e interpretação se torna mais
fácil.
Inovação e Gênero: Você persegue o "som do momento" ou tenta
intencionalmente criar o próximo som, o inexplorado?
Ralf Zeq: Eu prefiro sempre buscar o inexplorado, embora alguns clientes
prefiram seguir o som do momento. Nesse caso, tentamos sempre buscar um
meio-termo.
O Elemento Secreto: Qual é o plugin, técnica ou equipamento (seja
analógico ou digital) que você usa hoje e que considera essencial para dar
um toque único e diferenciado às suas produções?
Ralf Zeq: Meu plugin, técnica ou equipamento secreto é o sentimento. Hahaha.
Busco sempre passar emoção nas obras que faço, independentemente de qual
seja o sentimento escolhido.
Timbre de Bateria: Sendo um baterista experiente, qual é o seu segredo
para atingir o timbre de bateria ideal para cada gênero? Você confia mais
na captação acústica ou na manipulação digital?
Ralf Zeq: Acredito que uma boa captação seja o segredo: bons posicionamentos
e técnicas de microfonação, além de uma boa direção do artista.
.Mixagem de Referência: Você usa alguma música de referência (reference
track) específica durante a mixagem para garantir que o seu som esteja
competitivo? Se sim, qual?
Ralf Zeq: Sim! Sempre busco referências para mixagem, mas elas variam de
acordo com a música e o gênero com que estamos trabalhando no momento.
Influências Inesperadas: Quais outras fontes de arte (cinema, jogos, moda,
culinária, etc.) têm influenciado a sua estética sonora ultimamente?
Ralf Zeq: Ultimamente tenho me inspirado muito fora da música. Cinema, por
exemplo, tem influenciado demais a minha estética sonora, principalmente
trilhas que constroem atmosfera e tensão, tipo as do Hans Zimmer ou Trent
Reznor. Também absorvo muito de jogos, pela imersão e dinâmica sonora que
eles criam. E até a moda influencia: o visual e a atitude de certas marcas e artistas
acabam refletindo no som, na identidade. Acho que tudo que tem estética,
narrativa e emoção pode virar referência sonora.
IA na Criação: A IA está redefinindo o que é autoral. Você já a utiliza em
alguma fase do processo criativo (composição, mixagem)? Em que ponto
você traça a linha entre otimização tecnológica e perda de autoria humana?
Ralf Zeq: Eu utilizo IA apenas para separar músicas, mas raramente para fins
criativos. Acredito que a IA na produção musical tem muita utilidade em
ferramentas que agilizam o processo técnico — e, com isso, sobra mais tempo
para decisões criativas. Tenho certeza de que o uso de IA será cada vez mais
presente.
O Estúdio do Futuro: O produtor ainda precisa de um grande estúdio físico
de luxo, ou o futuro é mais "portátil" e acessível (baseado em nuvem e
comunicação remota)?
Ralf Zeq: O futuro é portátil! A melhor coisa é poder pegar o notebook e
trabalhar fora do estúdio. Faz muito bem para a mente — e isso acaba
influenciando em melhores resultados.
.Áudio Espacial e Imersão: O que o desenvolvimento de formatos como
Dolby Atmos e áudio espacial representa para o seu trabalho? Isso exige
uma nova mentalidade na hora de mixar, ou é apenas mais uma ferramenta
de distribuição?
Ralf Zeq: Acho incrível ver o avanço do áudio imersivo, mas pra mim o Dolby
Atmos ainda é uma ferramenta que precisa de um propósito artístico pra fazer
sentido. Não é só “mais uma forma de distribuir”, é uma nova forma de pensar o
som. Quando usado com intenção ,pra contar algo, criar uma experiência ele
realmente eleva o trabalho. Mas se for só por tendência, vira mais um modismo
técnico elitizado.
Novas Plataformas: Plataformas como TikTok e Reels exigem música que
seja instantaneamente cativante. Você já se pegou alterando a estrutura ou
a duração de uma música pensando em como ela performará nessas
mídias curtas?
Ralf Zeq: Sim, às vezes eu acabo pensando nisso, principalmente quando o
artista tem foco em TikTok ou Reels. A estrutura da música muda um pouco ela
precisa “acontecer” mais rápido. Mas tento equilibrar isso pra não virar algo
descartável. A música ainda precisa ter início, meio e fim, uma história. A
diferença é que hoje a introdução tem que segurar o ouvinte já nos primeiros
segundos.
Democratização: A facilidade de acesso a
softwares expandiu o mercado. Você vê
essa democratização como uma força
positiva para a música ou como um
desafio para a qualidade média?
Ralf Zeq: Eu vejo como algo extremamente
positivo. É lindo ver tanta gente podendo
criar com um notebook e um fone. Claro que
isso gera uma enxurrada de música mediana,
mas também trouxe muita originalidade que
antes não teria espaço. A qualidade média
pode ter caído, mas a autenticidade
aumentou e pra mim isso é mais valioso.
som gerado por máquina? E se ela
aprendeu com obras de outros
artistas? Acho que vai ser um desafio
ético enorme. Por isso, eu prefiro
usar IA só como suporte técnico, e
manter a criação onde ela sempre
pertence.
O Fator Latência Remota: Ao
trabalhar com músicos remotos,
como você gerencia os desafios
técnicos de latência e sincronia
para garantir que a performance
capture a mesma energia de uma
sessão presencial?
Atualização Constante: Com a tecnologia
mudando tão rápido, qual é a sua
estratégia para se manter atualizado sobre
novos plugins, técnicas de engenharia de
som e equipamentos?
Ralf Zeq: Eu gosto de aprender testando.
Normalmente é minha diversão ficar fuçando
plugins novos, vendo o que posso tirar deles.
Também acompanho produtores que
admiro, e troco muita ideia com outros
profissionais. A troca de bastidor é essencial.
Tento sempre me atualizar sem perder minha
identidade porque às vezes o “novo” não é
melhor, é só diferente.
Direitos Autorais e IA: Qual é a sua maior
preocupação ética ou legal no que diz
respeito ao uso de samples e composições
geradas por IA no futuro, especialmente
em relação a direitos autorais?
Ralf Zeq: Minha maior preocupação é a
fronteira entre influência e plágio. A IA vai
complicar muito isso. Quem é o dono de um
Ralf Zeq: Trabalhar remotamente
confesso que não é uma parada que
eu curto muito. Mas faço quando
necessário. A energia da sessão
presencial é insubstituível. A vibe
tem que estar alinhada mesmo à
distância e quando está, o resultado
é igual ou até melhor.
Produção Colaborativa: Você
utiliza plataformas de
colaboração online (Splice,
Sessionwire, etc.) com
frequência? Elas substituem o
estúdio tradicional?
Ralf Zeq: Sim, uso algumas
plataformas, mas não como
substitutas do estúdio. Pra mim, o
estúdio ainda é o centro da criação.
Essas ferramentas servem pra
expandir as possibilidades, não pra
substituir o contato humano. Gosto
de usar o digital pra agilizar, mas o
coração do trabalho ainda é a troca
ao vivo.
Tendências de Software: Existe alguma
nova tecnologia, plugin ou ferramenta que
você adotou recentemente e que
considera o próximo grande divisor de
águas na indústria da produção musical?
Ralf Zeq: Um que me surpreendeu
recentemente é o próprio Splice. Confesso
que eu tinha preconceito de usar antes, mas
a expansão criativa que traz aos projetos é
muito grande. Fora ferramentas como Ozone
que agilizam o processo um milhão de vezes
quando precisamos de resultados rápidos. A
revolução agora é deixar o digital mais
“humano”.
O Papel do Produtor na Era Digital: Em um
mundo onde o artista pode fazer tudo
sozinho em um laptop, qual é o novo valor
insubstituível que o produtor musical de
alto nível agrega ao projeto?
Ralf Zeq: A Loudness War ficou pra
trás. Hoje o foco é dinâmica e
impacto emocional. É claro que
precisa ser minimamente alta o
suficiente pra ser competitiva, mas
as plataformas normalizam o
volume, então o que importa é a
sensação, não os LUFS. Prefiro uma
mix que respira, que te prende pelo
sentimento e não pelo volume. A
música precisa soar viva, não
comprimida até a alma.
O Preço do Brilho: Com uma
agenda intensa, como você lida
com a pressão de se superar a
cada novo projeto e,
crucialmente, o impacto
inevitável do trabalho na sua vida
pessoal e nos seus
relacionamentos?
Ralf Zeq: Hoje o produtor é o tradutor da
visão do artista. O artista pode qualquer coisa
com as infinitas possibilidades, mas nem
sempre sabe pra onde quer ir. O produtor é
quem organiza o caos, quem entende o que
está sendo dito e transforma em algo
coerente e emocional. A tecnologia mudou
tudo, mas o papel do produtor ainda é dar
sentido à arte.
Ralf Zeq: A pressão existe de querer
se superar, de entregar sempre algo
melhor. Mas aprendi a respeitar o
tempo de cada processo. Quando a
arte vira corrida, perde a alma. Tento
manter o equilíbrio entre exigência
e prazer. A vida pessoal sofre às
vezes, mas é questão de saber a
hora de desligar o estúdio e cuidar
da cabeça.
A Evolução da Mixagem: Há dez anos, a
tendência era buscar o volume máximo
(Loudness War). Qual é a sua filosofia
atual de masterização, considerando as
regras de volume das plataformas de
streaming?
Equilíbrio e Autocuidado: Você
tem alguma rotina, hobby, ou
estratégia específica para se
"desligar" completamente da
música e evitar o burnout que a
alta demanda da sua profissão
exige?
Ralf Zeq: Eu gosto de sumir um pouco do som de vez em quando. Assistir séries,
ouvir podcasts, jogar, ver filmes, ir para a academia, viajar, cuidar da Frida (minha
cachorrinha) qualquer coisa que me tire do estúdio e me lembre que o mundo
existe fora das ondas sonoras. Esses respiros trazem novas ideias. Burnout é real
demais e infelizmente já o vivenciei, então hoje eu tento cuidar bem mais da minha
energia.
A Crítica Interna: Sendo um produtor tão jovem e estabelecido, você sente mais
pressão da mídia/mercado ou a autocrítica é a sua maior adversária no estúdio?
Ralf Zeq: Com certeza a autocrítica é minha maior adversária. Eu me cobro demais,
às vezes mais do que o necessário. É uma luta constante entre buscar evolução e não
sabotar o próprio progresso. Mas acho que essa cobrança também me fez crescer
rápido. O segredo é transformar ela em combustível, não em freio.
Pior Erro: Qual foi o maior erro que você cometeu no estúdio no início da
carreira (técnico ou criativo) e qual a lição mais valiosa que ele te ensinou?
Ralf Zeq: Fazer Backups kkk me ferrei muito com projetos onde eu não havia feito
backup e acabei tendo uma HD queimada no processo. Ctrl + S e Backups são coisas
simples, porém essenciais. kkk .
Conquista Pessoal: Qual é o objetivo de vida (fora da música) que você está
buscando nos próximos anos?
Ralf Zeq: Fora da música, meu foco é qualidade de vida. Quero ter tempo para mim,
pra família e pros amigos, poder voltar a tocar mais. A vida passa muito rápido
quando a gente só trabalha. Acho que sucesso de verdade é estar em paz com o que
você cria e com quem você é.
Conselho e Legado: Qual é o conselho prático mais valioso que você daria ao
produtor jovem de 16 ou 17 anos que te admira?
Ralf Zeq: Pro produtor jovem que está começando: erre muito, mas erre com
propósito. Testa tudo, pergunta tudo, e principalmente: ouve o que você sente. A
técnica vem com o tempo, mas a sensibilidade é o que te diferencia. E não tenta ser
o produtor que o mercado quer tenta ser o que você gostaria de ouvir.
Projeto Atual: Qual é o projeto em que você está mais empolgado no momento
no Half-Time Studio e o que podemos esperar dele?
Ralf Zeq: Tô empolgado com os álbuns que tenho produzido no momento e
algumas novas singles. O novo álbum do Crônica Ativa que está prestes à sair, por
exemplo, é um dos trabalhos mais completos que já fiz na vida.
Mensagem Final: Como você gostaria que a sua jornada fosse contada daqui a
algumas décadas e que legado espera deixar na música brasileira e
internacional?
Ralf Zeq: Quero que minha trajetória seja lembrada como a de alguém que ajudou
artistas a se descobrirem, não só a soarem bem. Daqui a décadas, espero que olhem
pro que fiz e vejam verdade, evolução e identidade. Meu legado ideal é esse: inspirar
gente a acreditar que a música ainda é arte e que ainda dá pra mudar vidas com
som.
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Bio Construçã̃ o
por Jorge Gomes
Novas técnicas para Telhados
Principais inovações
Telhados com materiais “auto‐regenerativos”: por exemplo, telhas que
possuem aditivos termoplásticos que permitem que pequenos danos se
fechem sozinhos, prolongando a vida útil do teto. Sistemas “cool roof” ou
revestimentos de alta refletância: telhados claros ou com acabamento refletivo
que reduzem o aquecimento da cobertura, diminuindo a carga térmica sobre o
edifício e os custos com ar condicionado.
Coberturas verdes / “green roofs”: instalar vegetação sobre a
impermeabilização ajuda no isolamento térmico, no controle de água de chuva
e na melhoria da qualidade do ar em áreas urbanas.
Monitoramento inteligente & sensores integrados: telhados equipados com
sensores de umidade, temperatura ou deformação que permitem manutenção
preditiva antes que ocorra dano grave.
Painéis solares integrados ou telhas‐painel: telhados que não apenas cobrem,
mas geram energia, integrando fotovoltaicos de forma estética e funcional.
Membranas e técnicas modernas para coberturas planas: uso de membranas
sintéticas (PVC, TPO), aplicação a frio (sem chama), módulos pré‐fabricados que
reduzem falhas de instalação.
Aspectos a considerar
A adoção dessas técnicas exige planejamento adequado: escolha de materiais
compatíveis, avaliação das condições climáticas e da estrutura existente.
Custo vs benefício: algumas inovações têm custo inicial mais alto, mas tendem
a se pagar com economia de energia, redução de manutenção e maior
durabilidade.
Sustentabilidade: muitos dos avanços visam não só desempenho técnico, mas
menor impacto ambiental — escolha de materiais reciclados, redução de
desperdício na instalação, etc
A importância do uso de cristais.
Os cristais são ferramentas
especiais e poderosas para
alinhamento dos chacras e
proteção espiritual.
Tem sido utilizado a séculos e
com diversas funções. Um dos
poderes do cristal é amplificar a
energia e sustentar em um nível
alto de energia.
Cada pedra sintoniza e estabiliza
nossa energia, visando a melhora
e o aprimoramento.
Vamos apresentar dois
Pingentes:
Cornalina – segundo chakra,
equilíbrio emocional, trabalha
culpa, ansiedade, traz alegria,
movimento.
Altura: 6 cm
Largura: 3 cm
Comprimento: 6 cm
Peso: 35 g
Quartzo branco transparente –
Todos os chakras, limpeza astral,
proteção, paz, clarividência,
energia, cura, “curandeiro
mestre”, amplifica sua energia
positiva e limpa as negativas.
Altura: 7 cm
Largura: 3 cm
Comprimento: 7 cm
Peso: 45 g
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C U I D E , A C O L H A E A M E !
PROTEGER OS ANIMAIS SELVAGENS É PROTEGER A
NÓS MESMOS. QUANDO PERDEMOS UMA ESPÉCIE,
PERDEMOS UMA ENGRENAGEM DA MÁQUINA DA
VIDA. ELES MANTÊM O AR QUE RESPIRAMOS, A
ÁGUA QUE BEBEMOS E OS SOLOS QUE CULTIVAMOS.
Tire seu livro da gaveta, do pendrive, do
computador, do papel....
Nossas ediçõ̃ es serã̃ o de autores que tenham
obras relacionadas a Música, Canto, Voz,
Ópera, Dança, Fotografia e Coletânea de peças
teatrais.
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O dia só
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a um novo estado do ser. Cada
acorde da orquestra é um
chamado: levanta-te, tua dor já se
cumpriu. O som abre caminho, o
medo se transforma em sopro, e o
que era fim se revela início.
VOZES DE TRAVESSIA E
RESGATE DA ALMA
Por Maude Salazar autora do livro Yoga da Voz
Há músicas que não são feitas de
notas, mas de portais. A Cavalgada
das Valquírias, de Wagner, é uma
delas. Ela começa antes da
primeira trompa soar. Vibra nas
entranhas da terra, convoca ventos,
desperta coragem adormecida. É
uma canção de travessia, não sobre
a guerra, mas sobre o que vem
depois dela.
As Valquírias surgem como
emissárias do invisível. Não são
fúria, são ordem cósmica.
Recolhem os guerreiros que
cumpriram sua luta e os conduzem
Wagner compreendeu, talvez sem
saber, o poder mágico do som
como passagem espiritual. Em sua
música, o feminino não é
ornamento, é ponte. As Valquírias
cantam com espadas de luz. São
vozes de cura que atravessam o
medo, esse mesmo medo que
adoece a alma quando
esquecemos que o amor é mais
vasto que a dor.
No extremo oposto do mapa, as
Pombogiras se erguem entre velas
e gargalhadas. São filhas das
encruzilhadas, senhoras da palavra
e do perfume. Não recolhem
corpos, recolhem corações. Onde
há vergonha, elas devolvem voz.
Onde há medo, devolvem riso. São
mulheres que caminham no escuro
como quem conhece o caminho
da luz.
Lacan talvez as visse como espelhos
incendiados, figuras que devolvem
ao sujeito o próprio desejo, não
para puni-lo, mas para lembrá-lo de
que o prazer também é forma de
verdade. Laing, que acreditava na
loucura como outra face da
autenticidade, veria nelas a
coragem de ser inteira. Tanto a
Valquíria quanto a Pombogira
recusam a máscara imposta. São
seres que desobedecem ao destino
para criar sentido. Curam pelo
gesto de existir e por isso são
perigosas para o poder, libertadoras
para quem as escuta.
Entre o vento prateado das
Valquírias e o fogo vermelho das
Pombogiras, há um arco invisível, a
ponte que liga a elevação e a
vertigem, o dever e o desejo.
Ambas conhecem o poder, mas
não o usam para dominar, usam
para despertar. Representam o
feminino que sabe: o que sobe
precisa mergulhar, o que ama
precisa enfrentar a sombra.
A missão das Pombogiras é
espiritual. Elas não se limitam ao
desejo, despertam a centelha de
vida em quem perdeu vontade de
existir. Recolhem fragmentos de
alma esquecidos nas esquinas da
dor. São guardiãs do renascimento,
forças que limpam os escombros
do medo e devolvem à pessoa o
direito de sentir sem culpa, de
amar sem ferida, de rir sem pedir
permissão.
As Valquírias conduzem para o alto,
as Pombogiras conduzem para
dentro.
Umas abrem o caminho do espírito,
as outras o caminho do coração.
E entre ambas corre o mesmo rio
invisível: o da alma que precisa ser
ouvida antes de ser salva.
Quando a orquestra de Wagner se
ergue e a gira se acende, o mundo
vibra na mesma frequência de
resgate. A música e o riso se tornam
prece. O som volta a ser ponte. O
medo, raiz de todas as doenças da
alma, começa a se dissolver, não
porque desapareceu, mas porque
foi visto.
Valquírias e Pombogiras são vozes
do mesmo mistério: o chamado
para atravessar o escuro e
reencontrar o próprio eixo.
Ambas conhecem a arte de guiar
almas, não pela força, mas pela
escuta.Elas lembram ao humano
que o verdadeiro poder não está
em vencer, mas em compreender.
Que o sopro das Valquírias
desperte tua coragem. Que o riso
das Pombogiras devolva teu
brilho.E que, entre o trovão e a vela,
tu te lembres: a alma só adoece
quando esquece que nasceu para
atravessar o medo cantando.
Maúde Salazar é escritora e soprano lírico. Pesquisa a
voz como território de memória e expressão,
integrando canto, psicanálise e arte. Doutoranda em
Psicanálise e Teologia, investiga as relações entre
trauma, criação e escuta. Sua obra une palco e
palavra, tendo a voz como eixo vital. Inspira-se em
Jung, Laing, Clarissa Pinkola Estés e Hélène Cixous,
para quem escrever é deixar o corpo se fazer ouvir,
princípio que atravessa toda a sua criação.
Série: A Voz que Rasga o Véu
por Maude Salazar
Estreia – Texto-manifesto
Dando continuidade à série A Voz que Rasga o Véu, a Revista ICONIC
apresenta o segundo texto inédito de Maude Salazar.
Se o primeiro fragmento foi manifesto e origem, este é brasa e respiro: o
momento em que a voz se recolhe para queimar em silêncio.
Em A Voz que Queima em Silêncio, a autora nos conduz ao lugar entre o
som e o silêncio, onde a voz não se ouve, mas arde.
É um texto sobre o fogo interior da criação, o canto que amadurece no
escuro, e o mistério de pertencer à própria voz.
A Voz que Rasga o Véu
por Maude Salazar
Há dias em que não canto.
Mesmo assim o corpo canta em segredo.
Nas juntas, nas veias, nas margens do sono.
O som ferve por dentro como incenso esquecido no
altar do peito.
A garganta arde, não por uso, mas por memória.
Há brasas de um templo antigo acesas sob a pele.
O silêncio não é ausência.
É intervalo onde o fogo respira.
É a pausa em que o som se escuta voltando para casa.
Quando não canto, é porque o canto me atravessa
devagar.
Vem pelos ossos e pelos sonhos, pelos cheiros que
insistem.
Vem como vento morno em hora morta.
Vem e me reconhece.
Já tentei resistir.
O som me caça.
Encontra-me nos gestos pequenos,
no jeito de segurar um copo,
de fechar os olhos,
de engolir o pranto.
Não existe fuga para quem nasceu instrumento.
A voz não é minha.
Eu é que pertenço a ela.
Quando ela me toma não dói, arde.
É uma queima mansa que purifica o ouro.
Não sei cantar pouco.
Canto inteira ou me calo.
Quando me calo, o próximo canto nasce no
escuro.
Fica de vigília no fundo da respiração,
afina-se no silêncio,
prepara-se como quem unge um corpo para o rito.
Chega a hora e o fogo levanta a cabeça.
A pele sabe, a nuca arrepia, o ventre chama.
Abro a boca e não sai palavra, sai passagem.
O som não vem da garganta, sobe do chão,
atravessa os ossos, acende os olhos.
É então que compreendo sem pensar.
Não canto para brilhar.
Canto para não cair do abismo que me chama
pelo nome antigo.
Canto para lembrar o que o corpo jurou antes do
primeiro grito.
A plateia existe, mas não me guia.
O que me guia é o pulso da terra sob os pés.
O que me guia é a memória das águas nos
pulmões.
O que me guia é a luz que brilha sem sol dentro
do peito.
Se me calo de novo, não é fim.
É trabalho do fogo.
A brasa volta ao silêncio, aquece o que ainda
não tem nome,
prepara outra travessia.
No intervalo, caminho leve e escuto.
O mundo fala comigo pelas pedras, pelas
folhas,
pelas sombras que guardam perfume de rito.
Eu pertenço à voz.
Nasci para a chama que não queima e cria.
Quando ela chama, eu vou.
Quando ela recolhe, eu guardo.
E em ambos os tempos, sigo inteira.
Revista ICONIC
BAZAR&
BRECHÓ
Venha !
AGENDAMENTO
whatsapp: 11 98269 2404
com Edilaine
Você sabia que o Brechó e Bazar do Instituto Omindaré
transformam muito mais do que guarda-roupas?
Cada compra realizada ajuda a sustentar as ações sociais da
ONG, que atua em projetos de acolhimento, educação,
cultura e geração de renda para comunidades em situação
de vulnerabilidade.
Roupas, acessórios, livros e objetos cheios de histórias e com
um novo destino: fazer o bem!
Ao participar, você consome de forma consciente e
contribui para que o Instituto continue mudando vidas com
amor, arte e solidariedade.
CHEF
LUIZ THOMÉ
“Seu Luiz” como
carinhosamente é
conhecido, nasceu em
São Tomé das Letras.
Hoje vai nos apresentar
“PANETONE COM
TOQUE DE MINAS”
“Seu Luiz” é especialista
em Buffet à moda
Mineira. Ganhou o
mundo com a culinária
de Minas Gerais.
Panetone Mineiro
Romeu e Julieta
Rendimento: 2 panetones médios
Tempo de preparo: cerca de 3 horas
INGREDIENTES:
Esponja (pré-fermento):
½ xícara (chá) de água morna
2 colheres (sopa) de farinha de trigo
2 colheres (sopa) de açúcar
2 colheres (chá) de fermento biológico seco
Massa:
4 xícaras (chá) de farinha de trigo (aproximadamente)
½ xícara (chá) de açúcar
3 colheres (sopa) de manteiga ou margarina
3 gemas
1 ovo inteiro
½ xícara (chá) de leite morno
1 pitada de sal
1 colher (chá) de essência de baunilha ou panetone
Raspas de laranja ( dá perfume e leve acidez)
Recheio:
1 xícara (chá) de goiabada cortada em cubinhos pequenos
(passe-os rapidamente em farinha de trigo para não afundarem
na massa)
1 xícara (chá) de queijo minas meia cura ralado grosso
Finalização:
1 colher (sopa) de manteiga derretida
Açúcar de confeiteiro, raspas de queijo para polvilhar e rodelas
finas de laranja.
Modo de preparo
1.Prepare a esponja:
2. Misture todos os ingredientes da esponja e deixe descansar por 20 a
30 minutos, até formar bolhas.
3.Massa:
4. Em uma tigela grande, misture o açúcar, as gemas, o ovo, o leite
morno, a manteiga, o sal e a essência.
5. Junte a esponja e vá adicionando a farinha aos poucos, até obter
uma massa lisa e macia que desgrude das mãos.
6.Sove bem:
7. Trabalhe a massa por cerca de 10 minutos até ficar elástica. Cubra e
deixe crescer por 1 hora, ou até dobrar de volume.
8.Recheio:
9. Misture delicadamente a goiabada em cubos e o queijo ralado à
massa já crescida.
10.Modelagem:
11. Divida a massa em duas partes, coloque em formas de panetone (ou
assadeiras redondas forradas com papel-manteiga) e deixe crescer
novamente por 40 minutos.
12.Asse:
13. Leve ao forno preaquecido a 180 °C por 35 a 40 minutos, até dourar.
14.Finalize:
15. Pincele com manteiga derretida e, depois de frio, polvilhe açúcar de
confeiteiro. rodelas finas de laranja com um galho de alecrim ou
decore com fios de goiabada derretida.
? Dica Mineira Especial:
Para deixar ainda mais típico, sirva levemente morno, acompanhado de
um cafezinho coado na hora , licor caseiro de jabuticaba ou caçhacinha
ouro! O contraste do doce da goiabada com o sal do queijo é puro
encanto de Minas!
ChefLuizThomé
DESEJA UM FELIZ NATAL E UM
2026 CHEIO DE SAÚDE
Thiago
Lemmos
Entrevistado por Regina Papini Steiner
O cantor lírico Thiago Lemmos se
destaca não apenas por sua
técnica vocal precisa e refinada,
mas também por uma elegância
de palco na postura, no trajar, no
modo de interpretar que o torna
referência tanto na música
erudita quanto no teatro musical.
Sua versatilidade o leva a transitar
com segurança entre repertórios
exigentes e momentos de
espetáculo, sempre mantendo
uma presença cênica de alto nível.
Atualmente, Thiago integra a
equipe artística de um navio,
onde continua se destacando por
sua performance impecável,
encantando públicos de diversas
nacionalidades a bordo e
reafirmando seu compromisso
com a excelência artística.
Esse equilíbrio entre voz,
interpretação e apresentação
torna Thiago Lemmos um nome
singular no cenário brasileiro. Ele
representa um artista completo:
vocalmente
sólido,
dramaticamente envolvente e
esteticamente elegante. Para
quem busca conhecer um
intérprete que alia talento lírico e
presença refinada, ele é a perfeita
síntese dessa união rara.
foto by Enrico Vertaa
Como e quando começou a sua
relação com a música? O que
despertou esse primeiro interesse?
Minha relação com a música começou
super cedo. Eu ganhei um tecladinho
pequeno, de um tio meu. E aí minha
mãe, vendo a minha facilidade com a
música, me colocou para estudar
música. Eu tinha 10 para 11 anos. 11
anos. E aí ela me colocou no curso de
teclado. Eu comecei a aprender e
estudar música, teoria, leitura, sorfejo,
tudo. E me apaixonei. Eu comecei
cedo. Fiz escola de música, entrei
numa banda com 13 anos e logo me
apaixonei por esse universo. Depois
vieram as aulas de canto, canto coral,
solfejo… Fui estudando direitinho,
porque uma coisa foi puxando a outra
e eu sempre fui muito interessado.
Mais adiante, entrei na faculdade de
Geografia, sempre gostei de mapas, de
conhecer culturas, de entender o
mundo, e achei que fosse seguir por
esse caminho.
Mas, paralelamente, eu já tinha uma
banda, trabalhava como crooner, tinha
uns 20, 22 anos. Também participei de
musicais amadores em Florianópolis,
onde cresci. Fiz coral lírico, duas
óperas, e comecei a ganhar
experiência de palco. Até que surgiu
um teste para musical em São Paulo.
Fiz vários até passar, acho que no
quarto ou quinto deu certo, e me
mudei pra lá com muita coragem e
um pouco de cara de pau (risos).
Foi então que percebi que dava pra
viver da música. Até aquele
momento, mesmo cantando em
banda e fazendo coros,
O musical amador que fiz, ‘Vozes da
Primavera’, era um grande projeto: 80
cantores, orquestra ao vivo, cenário,
tudo no principal teatro da cidade
mas ninguém ganhava nada, era puro
amor à arte. Depois disso, entrei no
coro lírico profissional Polyphonia
Khoros, também em Florianópolis.
Eles tinham incentivo e faziam
apresentações belíssimas, mas era
esporádico. A maioria de nós dava
aula, fazia banda ou outros trabalhos
pra se sustentar. Aí com eles eu fiz
óperas, fiz concertos, fiz missas, mas
ainda assim eu não me considerava
vivendo da música ou da arte
Só quando fui pra São Paulo é que a
música virou realmente minha
profissão, meu caminho de vida.
ainda era algo esporádico, mais por
paixão. Em Floripa, com a banda, eu
trabalhava só nos fins de semana e o
que ganhava mal dava pra me
manter.
foto by arquivo pessoal Facebook
E por que o lírico e não o MPB?
Porque você teve banda?
Eu tive banda, eu cantei em banda de
baile, toquei em banda de pagode, eu
passei por todos os estilos. Eu me
considero um cantor “curadp” por ter
passado por tantas fases. Eu não
comecei na ópera, nem no canto lírico
comecei na música popular.
O grupo ‘Vozes da Primavera’, onde eu
participava, tinha um repertório
dividido: metade era mais operístico,
voltado para a música erudita, e a
outra metade trazia musicais da
Broadway. A maioria do pessoal ali
vinha do canto lírico, e eu entrei meio
no impulso, só com talento e vontade,
porque nunca tinha tido contato com
esse tipo de canto. Eu tinha 19 anos e
ficava impressionado vendo aquele
pessoal interpretar o Requiem de
Mozart, a Nona Sinfonia de
Beethoven… e eu sem noção de nada,
nem do lírico, nem dos musicais! (risos)
Até que pensei: ‘Se quero cantar isso,
preciso estudar, entender, aprender.’
Então comecei a fazer aula de canto
lírico, entrei para um coro erudito
profissional e participei de várias obras
, La Traviata, Boletos, Fantasia Coral de
Beethoven, Requiem de Mozart… Tudo
isso enquanto ainda era um iniciante
no meio erudito.
Fui ganhando técnica, aprofundando
o estudo, mas já tinha um bom ouvido,
um certo material vocal, e as coisas
foram acontecendo de forma muito
natural — nada planejado, tudo por
paixão e curiosidade.
foto by Rodrigo Negrini
Naquela época, teve algum cantor ou
artista que te inspirou e fez você
pensar: ‘é isso que eu quero pra
minha vida’? Quem foi sua maior
referência musical nesse início?
Olha, foi uma época de muitas
descobertas.
Minha professora me mostrava
gravações e referências de grandes
vozes. Como a minha voz sempre foi
mais leve, ela me direcionou para esse
tipo de repertório. No início,
trabalhávamos com lieds e canções,
ninguém começa cantando ópera logo
de cara. A gente passa primeiro pelas
áreas antigas, pelas canções, até
chegar à ópera.
Minhas principais referências eram
tenores de voz mais leve. O mais
‘pesado’ que eu ouvia era o Pavarotti.
Também ouvia muito Juan Diego
Flórez, Ramón Vargas, e o Gedda, entre
outros. E, embora fosse barítono, o
Fischer-Dieskau foi uma grande
referência pra mim, principalmente no
repertório de lied. As gravações dele
eram uma aula. Além disso, eu me
inspirava muito nos cantores com
quem trabalhava nas produções em
Florianópolis. Minha professora havia
sido aluna da Neyde Thomas, então
segui essa linha técnica. Trabalhei
também com o Rio Novello, marido da
Neyde, que nos acompanhava na
preparação vocal, ele inclusive nos
deixou há pouco tempo.
Tínhamos o concurso Aldo Baldin, que
selecionava os cantores das óperas, e
tudo aquilo era muito novo pra mim.
Eu tinha 20 anos e estava começando
a descobrir esse universo.
E vale lembrar que, naquela época, o
acesso era bem limitado, não existia
esse mar de vídeos e gravações no
YouTube ou Spotify. A gente caçava
material: baixava o que dava, trocava
CDs, procurava qualquer gravação
possível de uma ópera ou de um
Réquiem de Mozart. Era um
aprendizado na raça, mas cheio de
encantamento.
Houve um momento específico em
sua trajetória que marcou a virada
para o canto lírico? Aquele papel ou
experiência que se tornou um
verdadeiro divisor de águas na sua
carreira?
Na verdade, houve dois momentos
marcantes na minha trajetória. O
primeiro foi quando tive meu primeiro
contato com o canto lírico. Foi ali que
me interessei de verdade, comecei a
estudar, montar repertório e
desenvolver a técnica. Passei cerca de
dois ou três anos nesse processo, ainda
em Florianópolis.
O segundo momento veio quando
migrei para o teatro musical. Não
segui diretamente para a carreira de
ópera ou canto lírico, embora tenha
realizado algumas experiências nessa
área, como já mencionei. Ao chegar
em São Paulo, o canto lírico acabou
ficando em segundo plano, mas
deixou uma base sólida que me
acompanhou. Essa formação me deu
uma vantagem no teatro musical, pois
não são muitos os cantores de musical
que possuem essa preparação clássica.
Vocalmente, eu tinha uma carta na
manga a mais. As produções sempre
me contrataram também pela minha
técnica. Mesmo não cantando lírico,
essa formação me deu suporte,
preparo vocal e uma percepção
musical diferenciada.
Então, mergulhei de vez no teatro
musical. Nesse período, fiz algumas
coisas pontuais de ópera e canto lírico,
como missas, mas foram raras
ocasiões. Acabei me dedicando ao
musical por bastante tempo, uns seis,
sete anos, sem voltar ao canto lírico.
Foi só em 2016, se não me engano, que
senti a necessidade de retomar esse
repertório e voltar aos estudos. Foi
quando conheci o professor Walter
Chamun, que além de ser um grande
professor de canto, é fonoaudiólogo.
Com ele, voltei a trabalhar técnica
vocal e repertório, iniciando uma
verdadeira retomada da minha voz, .
que durou anos.
Quando você começa a cantar outros
repertórios, é preciso revisitar toda a
técnica e o repertório que aprendeu. Foi
exatamente isso que fizemos: um
trabalho de reestruturação vocal para
colocar minha voz no lugar. Eu já tinha
30, 31, 32 anos, com o material mais
amadurecido e a consciência da
tessitura que iria trabalhar.
Eu achava que era um tenor um pouco
mais leve do que realmente sou. Com o
acompanhamento do professor, minha
voz se estabeleceu em um lugar mais
pleno — não só um tenor ligeiro, mas
também lírico. Hoje, canto na região do
lírico ligeiro, uma tessitura de tenor
bastante específica. É uma voz mais leve,
mas não limitada ao repertório de tenor
ligeiro; possui amplitude e presença
suficientes para explorar repertórios
mais variados. Meu grande dilema no
repertório lírico continua sendo estar
entre o lírico e o ligeiro, sempre
buscando me encaixar nessa tessitura.
Às vezes, você começa explorando um
tipo de voz, um tipo de papel, e vai
amadurecendo com o tempo, é um
processo construído justamente para
isso.
Hoje você faz parte de um corpo
artístico em navios, trabalhando com
uma companhia britânica. Thiago,
como surgiu essa oportunidade?
foto by Caio Gallucci
Ah, como tudo na minha vida, surgiu do
nada… mais ou menos. Tenho um pouco
de sorte; as coisas vão acontecendo, nem
sempre preciso sair correndo atrás
desesperadamente.
Aconteceu que veio a pandemia.
Ninguém sabia o que iria acontecer. Eu
estava em casa, olhando para o teto,
pensando: “Vamos fazer algo acontecer.”
Não sabia como ficaria o mercado de
musical. Eu já tinha feito alguns
concursos e tentava retomar o canto
lírico, mas em São Paulo praticamente
ninguém me conhecia. Eu estava
voltando ao repertório erudito e me
dando bem, mas, de repente, tudo
parou.
Então, estava no Instagram e vi o story
de um amigo que marcava a agente
dele uma agente do Reino Unido. Entrei
no perfil dela e descobri que ela
trabalhava com cruzeiros. No mesmo
dia, ela me respondeu e me enviou a
vaga que hoje ocupo.
O que eles buscavam? Um cantor
crossover para navio de cruzeiro, alguém
com boa base lírica para interpretar
ópera e repertório clássico, mas também
com facilidade para outros estilos, como
teatro musical. Era exatamente o meu
perfil. Percebi que a vaga se encaixava
exatamente no que eu podia oferecer. E
vou te contar uma coisa engraçada: para
um tenor lírico ligeiro, estou ganhando
dinheiro cantando Nessun Dorma aqui
no navio! A vida dá umas voltas
impressionantes; às vezes, o que
planejamos não acontece como
esperamos, e é preciso se reinventar.
Tem sido uma experiência
extremamente enriquecedora.
Comecei em 2022 e sigo até hoje
com a companhia. Já estou no
terceiro navio e começando um
novo repertório, sempre incluindo
algumas peças de ópera e
repertório erudito, o que é muito
interessante. Meu público é
basicamente britânico, mas o
navio atual também recebe
franceses, holandeses e outros
europeus, tornando tudo mais
internacional.
No espetáculo, eu entro cantando
Os Miseráveis, musical, e logo
depois apareço interpretando
ópera. O público fica surpreso e
impressionado, comentando:
“Nossa, eu não sabia que no Brasil
existia uma cena artística tão forte
de musical e ópera.
Para mim, isso também é muito
importante porque me permite
representar o Brasil de uma forma
diferente. Eles veem que há
pessoas saindo do país, cantando
ópera e musical, e se apresentando
para públicos estrangeiros
principalmente europeus, no meu
caso. É muito gratificante poder
mostrar essa outra face do Brasil.
Sabe, Regina? Eles realmente não
tinham ideia de que existiam
musicais no Brasil. É incrível
perceber como o nosso trabalho
pode surpreender e abrir
horizontes para o público
internacional.
Você também canta músicas brasileiras
ou prefere se concentrar no repertório
de musicais?
Não, eu canto músicas brasileiras e
também internacionais. Tenho alguns
shows solo. Um deles é inteiramente de
musicais, onde passo por todo o
repertório que já fiz nessa área.
O segundo show é mais internacional:
nele canto música brasileira, canções
italianas, francesas e também incluo um
pouco do meu repertório lírico. O
público adora, porque essas músicas
trazem memórias afetivas, lembram a
infância deles ou músicas que os pais
ouviam quando eram jovens.
A maioria dos passageiros nos navios é
mais velha, geralmente acima de 60
anos, e isso faz toda a diferença. Eles têm
um repertório musical vasto e uma
bagagem cultural que valoriza o que
apresento. Ter alguém como eu, capaz
de transitar entre lírico e musical com
esse tipo de repertório, cai como uma
luva: agrada e conquista esse público
que conhece, gosta e consome música
de qualidade.
Quais têm sido, Thiago, os maiores
desafios e as maiores recompensas de
trabalhar em um ambiente tão
diferente dos palcos tradicionais de
teatro?
Olha, os desafios são grandes. Trabalhar
no exterior, com uma produção
estrangeira, nunca é fácil. Quando
comecei em 2022, eu não conhecia
absolutamente ninguém. Só tive
certeza de que ia mesmo quando
eles me enviaram a passagem.
Entrei no avião, cheguei ao navio e
lá estava toda a equipe.
Além disso, existe a barreira da
língua. A maioria dos cantores que
vai para fora enfrenta isso, mesmo
que já fale inglês, italiano ou
alemão, dependendo do país para
onde vai. Tem uma barreira de
idioma, tem uma barreira de ideia
cultural. Os estrangeiros, os
europeus com quem eu trabalho,
eles têm uma forma de... uma
bagagem cultural diferente, uma
forma de trabalho diferente, uma
forma de se relacionar com as
pessoas diferente, não é a mesma
coisa. Mas, ao mesmo tempo, é
muito enriquecedor, porque abre
os horizontes. Desafio também de
ficar longe da família, longe dos
amigos, de você ficar um período
grande de tempo fora. Você não
está trabalhando em terra firme, você
está trabalhando em um lugar que se
movimenta. Então, até a sua forma de
cantar é diferente. O seu apoio não é o
mesmo, porque você não tem o apoio
do chão exatamente como você tem em
terra. Isso foi algo que descobri depois
de começar a trabalhar no navio. Já
tinha feito navio antes, mas nunca tinha
cantado um repertório tão exigente
vocalmente; antes, eu tocava em banda.
É totalmente diferente. Percebi que meu
apoio vocal precisava se ajustar, porque
o ambiente muda constantemente: uma
hora você está em um lugar frio, na outra
em um lugar quente.
Além disso, tem a questão do fuso
horário. Em cruzeiros, você passa por
dois, três ou até quatro fusos diferentes.
No ano passado, fiz uma volta ao mundo
e passei por todos eles, inclusive
atravessando a Linha Internacional da
Data. Saí do Hemisfério Ocidental para o
Oriental e, de repente, perdi 24 horas! Foi
como viajar no tempo. Literalmente: as
pessoas brincam que não existe
máquina do tempo, mas eu posso
garantir que existe, você atravessa a
linha e “ganha” ou “perde” horas de uma
maneira surreal.
Então, há todos esses fatores que
você precisa administrar. A
alimentação, por exemplo, muda
muito dependendo de onde você
está. A comida do navio não é a
mesma que você come no dia a
dia, então é preciso cuidar da
saúde, planejar horários e até levar
remédios e alguns alimentos
essenciais. Estar no mar exige um
planejamento maior, porque você
está fora de terra firme.
Mas, por outro lado, você está
cantando o que gosta, o que
passou anos preparando, para uma
plateia que te aplaude de pé. Cada
vez que termino Nessun Dorma,
eles se levantam para me aplaudir
é uma sensação maravilhosa.
Nos últimos anos, voltei a trabalhar
a técnica vocal, cantei algumas
missas e concertos, sempre junto
com o musical. Nunca deixei de
fazer nada, mas é verdade que
conseguir espaço no repertório
lírico depois dos 30, ainda mais
trabalhando com outras áreas, é
um desafio.
Então, ter a oportunidade de
cantar música erudita e também
meus musicais é incrível. E o
melhor: você não precisa vender
ingressos. O teatro está de portas
abertas, e os passageiros chegam,
se sentam e aplaudem de coração.
foto by Made Gayan
eEu já tenho a casa cheia para fazer
meus shows. E para um britânico, para
um francês, levantar e me aplaudir de pé
no final, isso para mim é uma
recompensa fantástica. Com certeza.
Porque eu sei que é uma plateia mais
formal, mais fria, que eles conhecem,
que eles não vão aplaudir qualquer
coisa, nem muito menos aplaudir de pé.
Cantar esse repertório já não é fácil —
ainda mais aqui no navio, onde
precisamos transitar entre diferentes
estilos ao mesmo tempo. Mas é uma
recompensa enorme pelo trabalho que
fazemos.
E o mais incrível: você conhece o mundo
através da sua arte. Tenho a
oportunidade de visitar lugares que
jamais imaginei, ou que talvez nunca
teria condições de conhecer. Fui da
Groenlândia à Polinésia Francesa, passei
pelo Caribe, África, Ásia, Europa e
Canadá. Em apenas três ou quatro anos
a bordo, conheci mais de 50 países, de
todos os continentes.
Lembra que eu falei que fiz geografia?
Agora estou visitando os lugares que
antes apenas desenhava nos mapas. De
certa forma, parecia que meu caminho
já estava traçado uma sensação de
realização, como se meu espírito já
soubesse disso.
Acabei me encontrando nisso porque
sempre tive interesse pelo mundo, pelas
culturas e pelos idiomas — e agora posso
cantar enquanto viajo. É uma forma
muito mais viável de viver essa
experiência do que tentar uma bolsa de
estudo ou uma vaga em um teatro, que
seriam caminhos muito mais difíceis.
E também é diferente de fazer
uma turnê musical, que exige
outro tipo de logística e esforço..
Thiago, essa convivência
multicultural influenciou de
alguma forma o seu repertório?
Sim, com certeza. Porque tinha
muitas coisas que eu não conhecia.
E você acaba também descobrindo
o que agrada mais a eles. Tem
coisas que às vezes você tem no
seu repertório, mas você não
coloca. Talvez eles não conheçam.
Mas não, eles gostam. Então você,
com essa troca, vai ouvindo o que
eles gostam mais. E aí você vai
adaptando o repertório também
para o gosto do público. Para você
não cantar coisas que eles não
conhecem ou não gostam.
Qual foi o lugar mais marcante
que você teve a oportunidade de
conhecer através da música?
Tem vários lugares, na verdade.
Não é só um. Há aqueles que são
inusitados ou impressionantes,
totalmente diferentes do que você
imagina, longe de casa. E há
aqueles que mexem mais com a
gente emocionalmente.
Para mim, como cantor lírico,
visitar a Itália e conhecer seus
teatros foi inesquecível, porque
nunca tinha ido.
Estar na Via Maria Callas, em
Catânia, em frente ao Teatro
Bellini, foi emocionante. E um
momento que nunca vou
esquecer: visitei o túmulo de
Bellini lá em Catânia e cantei um
trecho de uma de suas canções.
Foi simplesmente especial.
Thiago, você está mais vivendo o
presente ou já tem algum
planejamento para o futuro? Tem
vontade de voltar para o Brasil, ou
seus planos seguem no exterior?
O que você imagina para os
próximos passos da sua carreira?
O navio nunca é algo para
sempre. Praticamente todos que
trabalham cantando ou em
produções de navio ficam por
alguns anos. É uma oportunidade
fantástica de viajar, ganhar
experiência e um dinheirinho,
mas não é possível viver sempre
sem pisar em terra firme.
Claro que o trabalho em navio
estará sempre à disposição, e é
uma oportunidade que eu
sempre aceitaria quando possível.
Mas, sim, tenho vontade de voltar
ao Brasil e aos teatros, e planejo
fazer isso a partir do ano que vem.
Meu contrato termina em março
de 2026, e então vamos ver o que
acontece, mas voltar está nos
meus planos.
foto by Enrico Verta
E que conselho você daria para os cantores jovens que estão
começando a carreira?
Olha, Regina, quando a gente é jovem, às vezes quer tudo ao mesmo
tempo. Quer seguir todos os caminhos, ouvir todos os conselhos. E aí
começam as vozes de fora: “você tem que fazer isso, tem que fazer
aquilo”. Seja na música lírica, seja nos musicais, sempre existe alguém
dizendo o que é “o certo” a fazer: entrar num teatro de ópera, ter um
agente, cantar na Itália, na Alemanha… Parece até uma carreira pública,
uma escadinha obrigatória: começa no coro, depois vira solista, canta no
Municipal, depois vai pra Europa e termina virando o Pavarotti!
Mas o que eu aprendi é que o palco , pode soar clichê, é o mundo. Você
pode cantar na rua, numa praça, numa companhia itinerante, num navio,
onde for. O importante é não se limitar. O jovem cantor precisa estar
aberto às descobertas, porque o caminho de um não é, necessariamente,
o melhor caminho para o outro.
Estude. Faça os seus contatos. Mantenha a sua técnica sempre afiada e
tenha um repertório bem construído. A carreira é um processo — ela
evolui com o tempo. O repertório muda, o tipo de trabalho muda, e a
gente também muda junto com tudo isso.
Mas o mais bonito é perceber o quanto há para descobrir no mundo.
Você pode ser útil em qualquer lugar, pode emocionar plateias que
talvez nunca tivesse imaginado alcançar.
Por isso, esteja preparado: com a sua técnica, com o seu repertório, mas,
acima de tudo, com os seus sonhos. Porque sem o sonho, sem aquela
motivação que vem de dentro, nada acontece. Coloque os sonhos pra
fora, transforme o máximo possível deles em realidade e mantenha os
olhos abertos para o mundo. Às vezes, as melhores oportunidades estão
justamente onde a gente menos espera.
Qual canção ou ária você escolheria como símbolo da sua trajetória
artística e o que ela representa pra você?
Olha, não tem como escolher outra. Não tem. Seria Nessun Dorma, sem
dúvida. Porque essa ária resume exatamente o que eu acabei de dizer
antes. Às vezes, a gente se prepara para ser um tipo de cantor e a vida
vem e pede outra coisa.
Eu até brinco com meus amigos dizendo: “Quem diria, hein? Eu, um tenor
leve, ganhando a vida cantando Nessun Dorma!” (risos)
Mas é isso. Não tem como ser outra. Primeiro, porque eu acredito que
Puccini escreveu as melodias mais belas da ópera. Claro, existem outros
gênios, Verdi, Mozart, Bellini, Donizetti, todos maravilhosos. Mas a melodia
de Puccini sempre me tocou de um jeito especial.
E o mais curioso é que sempre me diziam: “Você não vai cantar Puccini,
porque é um tenor leve.” Pois é… nunca diga nunca. É, então… eu sempre
dizia que adorava ouvir Verdi e Puccini. Sempre fui apaixonado pelo
romantismo, pelo verismo, pelas óperas do século XIX, esse repertório
sempre falou muito comigo.
Mas eu ouvia: “Poxa, você é um tenor leve, não vai ter carreira cantando
Puccini.” Claro, eu sei que não vou subir num teatro para cantar Calaf, isso
é óbvio. Mas ficava aquela coisa na cabeça: “Não, eu tenho que cantar
Mozart, Donizetti, coisas mais leves.”
E aí vem a vida e muda tudo. Quando surgiu o convite para o navio, já veio
o repertório definido: “Você vai cantar isso, isso e… Nessun Dorma.”
Eu pensei: “Tá bom, então vamos lá!” (risos)
Na época, eu tinha cantado a ária apenas uma vez, em cerimônia, algo
pequeno. Fiz a audição como deu e acabei construindo uma carreira no
navio justamente com Nessun Dorma, uma peça que, teoricamente, não
era para a minha voz. E é engraçado, porque aquele papo entre cantores
é real a ária demora para “engolir”, para entrar no corpo. No primeiro ano,
eu ainda sofria para cantar como deveria. E olha que, além da ária, a
gente faz o bis no final, com coro e tudo.
Mas no segundo ano, já estava mais tranquilo. E agora, quando fui
ensaiar para a nova temporada, simplesmente abri a boca e ela saiu.
Saiu leve, natural, como se finalmente tivesse encontrado o meu lugar
dentro dela. O mais bonito de tudo é o processo aprender a ter paciência
e confiar no amadurecimento. Nossa carreira é de longo prazo:
começamos aos 20 e, se tudo der certo, o auge vem por volta dos 40.
Acabei de chegar nessa fase e sinto que a voz está madura, pronta. E, com
saúde, a gente canta pela vida inteira. É lindo perceber esse arco, essa
evolução, e entender que não adianta lutar contra o que a vida propõe. Eu
poderia ter dito “não” ao Puccini, por achar que não era para mim. Mas
aprendi que o importante é cantar o que te faz bem, o que se encaixa na
tua voz não o que mandam ou o que a “cartilha” determina. A voz muda,
o repertório muda, e é isso que torna essa jornada tão fascinante.
O que a vida no Mar ensinou sobre a arte, o mundo e sobre si mesmo?
Aprendi que a arte não tem lugar, hora ou idioma, ela é universal e
conecta o mundo pela emoção. Quando a gente amplia os horizontes,
descobre caminhos incríveis que não veria insistindo sempre na mesma
direção. A vida tem sua própria maré, e lutar contra ela não adianta, é
preciso seguir o fluxo, com paciência.
O mar me ensinou muito isso. No teatro, tudo parece pequeno; no
oceano, a imensidão mostra quantos horizontes ainda existem.
E convivendo com tantas nacionalidades, percebi que o ser humano é o
mesmo em qualquer lugar. Muda a cultura, o idioma, mas as emoções
são universais: amor, medo, alegria, saudade. No fim, todos se deixam
tocar pela arte ,e é isso que nos une.
Quais foram as mudanças na sua vida?
Aprendi a ter calma, a respeitar o tempo das coisas. A vida nem sempre
acontece no ritmo que a gente quer, e tudo bem. Essa experiência me
ensinou a conviver com as diferenças, a valorizar a troca com pessoas de
várias culturas e, principalmente, a me reencontrar como artista.
Eu sempre trabalhei em grandes companhias, com coros e elencos
enormes. Aqui, vim como solista, com meu próprio show, meu espaço,
minha responsabilidade. Foi um divisor de águas. Descobri minha força
no palco, sozinho, diante de um público estrangeiro que se emociona e
aplaude de pé. Essa foi a grande virada da minha carreira.
foto by Made Gayan
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Escolhas Sábias e
Qualidade de Vida:
Quando o Trabalho
se Alinha ao Nosso
Ritmo
Por Mirna Rubim
Há momentos na vida em que o peso das decisões
pode ser transformado em leveza.
Para muitos, a virada acontece quando percebem
que é possível viver de outro modo mais simples,
mais coerente, mais inteiro. No meu caso, o ponto de
inflexão surgiu quando compreendi que manter uma
escola física já não refletia mais o propósito que me
movia. O espaço era lindo, mas a estrutura tornou-se
pesada. Não queria sobrecarregar os professores,
tampouco viver sob o fardo das despesas de uma
instituição que já não correspondia ao meu novo
momento.
Em 2018, dois eventos aceleraram essa transição: a
instabilidade política que ameaçava as artes e uma cisão
entre os professores da escola. Naquele mesmo período,
eu vivia o auge de O Som e a Sílaba, peça de sucesso que
na época estava em turnê pelo Brasil. Foi então que a
intuição falou mais alto: decidi encerrar as aulas
presenciais e dedicar-me a escrever Voz Corpo e Equilíbrio.
Com o lançamento do livro, em 16 de abril de 2019 — Dia
Mundial da Voz —, nasceu também meu primeiro curso
online. Estava dado o primeiro passo para o universo
digital. Poucos meses depois, durante uma viagem à
Holanda, constatei que o ensino online me permitiria
viver e trabalhar em qualquer lugar do mundo. A escolha
por Portugal veio naturalmente: afinidade cultural,
reciprocidade fiscal e o desejo de estar mais próxima da
família.
A pandemia de 2020 consolidou o
que já estava em andamento.
Enquanto muitos precisaram se
adaptar às pressas, eu já vinha
migrando para o digital desde o
ano anterior. O confinamento
global apenas acelerou o
processo e confirmou que o
nomadismo digital seria meu
caminho. É curioso como as
crises podem revelar destinos
que já estavam sendo
discretamente preparados.
O primeiro sentimento que
emergiu nesse processo foi o
alívio. Deixar para trás o peso
financeiro e logístico da escola
física abriu espaço para a leveza.
Vieram também a curiosidade e a
ousadia as duas forças que
sempre me moveram.
O medo, por sua vez, nunca foi
um companheiro presente.
Talvez porque aprendi cedo a
planejar, a me preparar e a
confiar no processo. Cresci
acreditando que o medo pode
nos fazer fugir do leão ou
enfrentá-lo. Aprendi a enfrentálo,
com estratégia, fé e trabalho.
Trabalhar online trouxe uma forma de qualidade de vida
que vai além do conforto: trouxe saúde e presença. A
rotina presencial de uma escola de canto, com salas
fechadas pelo isolamento acústico e ar refrigerado,
sempre me deixava vulnerável a infecções. Descobri que
aulas online não apenas preservam a voz, mas também o
corpo. Mesmo constatando o hábito brasileiro de “nos
abraçarmos demais”, percebi o quanto o afeto pode
continuar existindo, e até florescer mesmo através de
uma tela.
O trabalho remoto também reconfigurou a rotina e a
energia criativa. O tempo antes gasto em deslocamentos
passou a ser investido em pesquisa, planejamento e
inovação pedagógica. O Zoom tornou-se palco e
laboratório. As aulas ficaram mais objetivas e
personalizadas, os cursos online ganharam público
internacional e, de repente, o canto conectava pessoas do
Brasil, da Europa e de tantos outros países. É inspirador
perceber que, quando usamos a tecnologia com propósito,
ela se torna uma extensão da nossa missão.
Claro, a disciplina é indispensável. Trabalhar online requer
foco e autocontrole, especialmente quando a casa é
também o ambiente de trabalho. Mas exige, acima de
tudo, autoconhecimento. Saber o ritmo próprio, o limite
do corpo, o tempo de pausa e de ação é o que diferencia
um profissional produtivo de um exaurido. Cada um
precisa encontrar a medida entre compromisso e
serenidade.
Mudar para Portugal foi uma
escolha de corpo e alma. Estar
próxima dos filhos e netos,
depois de tantos anos de uma
carreira intensa, é um privilégio.
Foi preciso viver o turbilhão
para merecer a calmaria. Hoje, o
trabalho continua intenso, mas
o ritmo é outro, mais orgânico,
mais humano.
A pandemia acabou por trazer
uma lição valiosa: às vezes,
precisamos de uma quarentena
não apenas para evitar
infecções, mas para nos
reconectar com quem somos. No
silêncio, descobrimos a própria
voz. No tempo desacelerado,
aprendemos a ouvir o corpo.
Passei a valorizar o que chamo
de sozinhez saudável: o prazer
de
estar só, em paz, cuidando da
mente e do corpo. Cozinhar
tornou-se um ato espiritual ,um
modo de colocar amor e energia
vital na própria nutrição.
Portugal também me devolveu
o contato com a terra. Hoje
cultivo um pequeno pomar e
crio galinhas poedeiras. Ao
cuidar da natureza, percebo
como ela devolve energia,
equilíbrio e propósito. A terra
ensina o tempo certo das coisas.
Qualidade de vida, para mim, é
o resultado de escolhas
conscientes. Sonhar, planejar,
executar e colher tudo com
propósito e sabedoria. Saber
quando agir e quando pausar.
Escolher o que faz sentido, e
não apenas o que dá resultado.
Muitos acreditam que trabalhar
menos ou viver com leveza é
sinônimo de acomodação. Eu
vejo diferente. A vida é um
pêndulo entre ganância e
preguiça, e o
equilíbrio está em reconhecer o
próprio ritmo. Trabalhamos
intensamente na juventude
para colher serenidade na
maturidade. E cada um tem seu
tempo, sua energia e sua
missão. O segredo é respeitar
isso.
De tempos em tempos, é preciso pausar. Dar alguns
passos para trás para poder avançar com mais
consciência. A vida plena não se constrói apenas com
sucessos contínuo, há fases de recolhimento necessárias
para que a melhor versão de nós floresça.
Liberdade, afinal, é saber escolher. É seguir o próprio
compasso sem se preocupar com o julgamento do mundo.
É reconhecer que o verdadeiro sucesso não está no
quanto se conquista, mas na serenidade com que se vive.
SEU
PET
Fabiana Tavares
O que levar e o que precisa para viajar com seu
PET para o Exterior.
Se você vai viajar com seu pet para o exterior ,ou trazê-lo de outro
país para o Brasil, é essencial estar bem preparado e ter todos os
documentos e cuidados em dia. Aqui vai um guia com dicas
importantes + checklist dos principais documentos exigidos..
✅ O que fazer antes de viajar
1.Comece cedo — muitas exigências (vacinas, microchip, atestados) têm
prazos mínimos.
2.Verifique as regras do país de destino e do país de origem (ou de
trânsito). As exigências variam bastante. Por exemplo, para entrar no
Brasil com cão ou gato:
Precisa de certificado veterinário internacional (CVI ou
“International Veterinary Certificate / Pet Passport”) emitido por
veterinário oficial. Serviços e Informações do Brasil+2Serviços e
Informações do Brasil+2
Vacina antirrábica para animais com mais de 90 dias, e a viagem só
pode ocorrer 21 dias depois da vacinação se for a primeira.
Serviços e Informações do Brasil+1
Tratamento antiparasitário (interna e externa) alguns dias antes
da emissão do certificado. Serviços e Informações do Brasil+1
Verificar se o país de origem é considerado de “risco de raiva” ou
não, pois isso pode alterar requisitos. WorldCare Pet Transport+1
3.Confira com a companhia aérea: algumas exigem tamanho/porte para
o transporte do animal (cabine ou porão), especificações para o
kennel/carreta, restrições, documentação extra.
aenabrasil.com.br+2klm.com.br+2
4.Prepare fisicamente o pet: acostumá-lo ao kennel/carreta, verificar
saúde, evitar sedativos sem orientação, etc. klm.com.br+1
? Documentos e exigências principais
Aqui está uma checklist com os itens mais comuns: sempre confirme para
o país de destino porque pode haver exigências extras.
Certificado sanitário internacional ou “Passaporte de animal de
estimação” emitido ou endossado por autoridade veterinária oficial
do país de origem. APHIS+1
Vacinação antirrábica válida (normalmente para cães e gatos com
mais de 90 dias). Serviços e Informações do Brasil+1
Tratamento contra parasitas interno/externo (em alguns casos).
WorldCare Pet Transport
Identificação (microchip) em alguns países ou situações: importante
verificar se o destino exige. WorldCare Pet Transport+1
Atestado de saúde emitido por veterinário oficial, declarando que o
animal está apto para viagem/entrada. Serviços e Informações do
Brasil+1
Documentação da companhia aérea: autorização para transporte do
pet, especificações da caixa de transporte, peso/tamanho, etc.
static.voegol.com.br+1
Cópias dos documentos importantes + originais com você (viajar com
apenas originais pode ser arriscado se algo se perder). WorldCare Pet
Transport
Verifique se há quarentena exigida no país de destino ou no de origem
(ou no de trânsito). Alguns destinos exigem. Serviços e Informações do
Brasil+1
? Checklist resumido para você levar
Certificado sanitário internacional (CVI) ou passaporte do pet
Vacinação antirrábica válida
Comprovantes de tratamento antiparasitário (se exigido)
Identificação do animal (microchip ou outro conforme exigência)
Atestado de saúde emitido por veterinário oficial
Documentação da companhia aérea para transporte do pet
Caixa/kennel de transporte conforme exigência da companhia
aérea/destino
Cópias dos documentos + originais com você
Verificar se há requisitos de quarentena para retorno ou para o destino
Verificar legislação específica do país de destino (alguns têm regras extras)
BOA VIAGEM!
O L I V E I R A
Kayla
Foto by Alex Lyrio
Kayla Oliveira: elegância, coragem e
representatividade nas passarelas do mundo
Em um universo da moda ainda marcado por padrões
rígidos e exclusões silenciosas, a ascensão de Kayla
Oliveira é mais do que um feito estético, é um ato
político.
Modelo e mulher trans, Kayla vem conquistando espaço
nas passarelas internacionais com a mesma leveza com
que desafia estruturas históricas de preconceito e
invisibilidade.
Sua presença em desfiles de grandes marcas é um
lembrete de que a moda, quando se abre à diversidade,
ganha potência e verdade. Kayla não representa apenas
uma nova geração de modelos, mas também uma
mudança de paradigma. A beleza que ela exibe vai além
da superfície: é a expressão de uma trajetória marcada
por resistência, autenticidade e coragem de ser quem se
é, sem concessões.
Em entrevista à jornalista Regina Papini Steiner, para a
Revista ICONIC, Kayla destacou que sua missão é inspirar
outras pessoas trans a acreditarem em seus sonhos, sem
medo de ocupar espaços. Temos a certeza de quando ela
pisa na passarela, pensa em todas as meninas que nunca
se viram representadas. E quer que elas saibam que
também pertencem a esse mundo.
O impacto de Kayla é nítido não apenas nas campanhas
que protagoniza, mas na mensagem que carrega. Em
tempos em que o discurso de ódio ainda tenta silenciar
vozes diversas, ver uma mulher trans brilhar sob os
holofotes internacionais é um gesto de resistência e
beleza em seu estado mais puro.
Kayla Oliveira é, hoje, símbolo de uma moda mais
inclusiva, humana e plural. Sua caminhada prova que a
elegância também pode e deve ser sinônimo de
liberdade.
Gostaria que você começasse
compartilhando um pouco da sua
história, quem é Kayla Oliveira e como
foi o início da sua caminhada
profissional?
Bem, eu sou uma mulher trans que
nasceu em um pequeno povoado no
interior do Ceará, pertencente à cidade
de Catunda, fica a cerca de duzentos e
poucos quilômetros de Fortaleza. Foi
ali, nesse cantinho simples, que cresci
e comecei a descobrir o mundo, a
sonhar e a enxergar possibilidades
além do que eu conhecia.
Com o tempo, me encantei pela moda
e percebi que era ali que eu queria
estar. Saí do Ceará, fui para São Paulo
em busca de oportunidades, e hoje
estou em Milão, trabalhando
exatamente com o que sempre sonhei.
Além das passarelas, também atuo nas
redes sociais, onde compartilho um
pouco das minhas origens. Mostro
como é o lugar de onde vim, o
cotidiano do interior, as pessoas, os
costumes. Muita gente se surpreende
com essa realidade e tem gostado de
conhecer esse outro lado da minha
história. Acho bonito poder levar um
pedacinho do meu Ceará para o
mundo.
E quando é que surgiu o interesse pela
moda?
Eu venho de uma cidade muito
simples, onde por muito tempo não
havia nem energia elétrica. A energia
chegou por volta de 2009, e a internet
só apareceu lá entre 2019 e 2020. Foi
foto by Giu Meneghin
foto by Arquivo pessoal
só quando me mudei para a cidade
grande que tive meu primeiro contato
real com a internet e comecei a
descobrir um mundo de possibilidades
que eu nem imaginava.
Foi nesse momento que comecei a me
interessar por outras áreas e percebi
que talvez eu também pudesse trilhar
um caminho diferente. A partir daí, fui
atrás, busquei informações,
oportunidades, e, aos poucos, consegui
conquistar o espaço onde estou hoje.
Depois de um tempo, morei em
Grajaú e Bacabal, e foi lá que
tive meu primeiro contato com
a internet. Foi quando comecei
a ver os desfiles, as passarelas ,
tudo ainda pela tela. Quando
voltei a morar no Ceará, senti
que queria tentar algo maior,
então decidi ir para Fortaleza
procurar uma agência de
modelos. Em Grajaú e Bacabal
as cidades eram pequenas, não
havia oportunidades nesse
meio.
Conversei com meu pai e disse
que queria ser modelo. Ele me
apoiou completamente.
Quando cheguei a Fortaleza,
comecei a me inscrever em
agências, participei de alguns
castings, mas nada realmente
acontecia. Isso foi antes da
minha transição. Na época, os
agentes queriam que eu
mudasse meu corpo, que
entrasse na academia para ficar
mais forte só que esse nunca foi
o meu biotipo.
Lembro que uma vez, em uma
agência, perceberam que eu
estava passando pelo início da
transição. Disseram que eu
precisaria escolher entre seguir
a carreira ou continuar com o
processo, porque, segundo eles,
“não dava certo na moda”.
Naquele período, ainda não
existia esse reconhecimento das
meninas trans nas passarelas.
Então, escolhi seguir com a
minha transição e deixei um
foto by Giu Meneghin
pouco de lado o sonho de ser modelo.
Mais tarde, quando já tinha passado
por toda a transição, com meu cabelo
longo e a autoestima renovada, essa
vontade voltou a florescer. As pessoas
me paravam na rua e diziam: “Você é
modelo, né?” ou “Você parece uma
modelo”. Isso me deu força para tentar
novamente.
Soube que o Dragão Fashion Brasil
estava realizando um casting em
Fortaleza e resolvi me inscrever. Fui
muito bem recebida o pessoal me
tratou com muito carinho, gostaram
bastante do meu perfil. Aquilo
reacendeu de vez o sonho.
Não cheguei a desfilar naquela edição;
fiquei de stand-by, porque ainda não
tinha uma agência me representando.
E quando você não tem uma agência,
tudo é mais difícil. Os clientes
preferem lidar com agências, porque
conseguem acessar vários modelos ao
mesmo tempo, sem precisar contatar
cada um individualmente. Mesmo
assim, foi ali que senti que minha
história na moda poderia realmente
começar.
Como eu ainda não tinha uma
agência, acabei não participando
daquele desfile. Mas foi aí que pensei:
‘Agora eu vou para São Paulo, porque é
lá que tudo acontece. Vou procurar
uma agência e ver o que pode surgir’.
Quando cheguei em São Paulo, entrei
para uma agência — daquelas que,
depois a gente descobre, estão mais
interessadas em vender book do que
em realmente agenciar modelos.
Mesmo assim, segui em frente,
tentando aprender e aproveitar o que
podia.
Foi nessa época que conheci
algumas pessoas que me
disseram: ‘Olha, está
acontecendo um concurso de
uma agência grande, por que
você não participa? Acho que
seria ótimo pra você’. No
começo, fiquei meio resistente,
porque já estava envolvida com
essa primeira agência, mesmo
sabendo que não era o ideal.
Mas um amigo que conheci
nesse curso insistiu. Ele falou:
‘Kayla, tenta! É só se inscrever
online e depois comparecer à
avaliação’. Resolvi seguir o
conselho. Fiz minha inscrição, e
logo depois recebi um e-mail
confirmando
minha
participação.
No dia da seleção, esse meu
amigo — que também tinha se
inscrito — me ligou e perguntou:
‘E aí, você vai, né?’. Eu respondi:
‘Ah, acho que não… tá tudo bem
do jeito que tá’. Mas ele insistiu:
‘Vai sim! Eu já tô a caminho, se
arruma e vem’.
Acabei indo. No concurso,
passei na primeira etapa, e logo
marcaram outra data para a
segunda. Fui de novo, e passei
também. Na mesma semana,
veio a terceira fase — e, para
minha surpresa, consegui ficar
entre as três finalistas do estado
de São Paulo.
Na hora, eu nem acreditei.
Pensei: ‘Como assim? Do nada,
estou entre as finalistas de um
concurso de modelos, o mesmo
que revelou a Gisele Bündchen!’ Foi
um momento de puro espanto e
felicidade, como se de repente tudo
começasse a fazer sentido.
Foto by Arquivo pessoal
Depois disso, viriam outras etapas,
com meninas do Brasil inteiro
competindo. Eu acabei não chegando
à final, mas recebi um retorno que me
marcou muito. A equipe da agência
me disse: ‘Kayla, esses concursos
funcionam assim, nem sempre quem
vence é quem faz sucesso. E nós
gostamos muito de você. Queremos te
acompanhar, ver como vai ser o seu
desenvolvimento’. Aquelas palavras me
deram uma força enorme. Mesmo sem
ter ganhado, senti que alguma coisa
importante tinha começado ali.
Naquela época, meu cabelo não era
cacheado, eu alisava. A agência me
disse: ‘Queremos ver o seu cabelo
natural, e vamos continuar te
acompanhando’. Tudo bem. Voltei
para o Ceará e comecei a deixar o
cabelo crescer do meu jeito, natural.
Enquanto isso, eu seguia postando
bastante no Instagram, fotos simples
do meu dia a dia. Às vezes eu estava
no meio do roçado, fazia uma foto;
ou indo buscar alguma coisa, fazia
outra. Postava tudo com leveza,
mostrando minha rotina real.
O pessoal da agência, que já me
acompanhava desde o concurso,
continuou me seguindo nas redes.
Depois de um tempo, quase um ano
me observando, eles me procuraram
dizendo: ‘Kayla, estamos gostando
muito da sua evolução, do seu
trabalho, da sua autenticidade.
Queremos assinar um contrato com
você’.
Fiquei muito feliz. Assinei o contrato
e tudo já estava encaminhado para
eu voltar a São Paulo. Mas aí veio a
pandemia. Eu estava lá havia pouco
mais de um mês quando tudo parou.
A agência nos avisou: ‘Vamos mandar
todos os modelos de volta para casa,
porque não sabemos o que vai
acontecer’.
Eu não queria voltar. Tinha a
sensação de que, depois de tanto
esforço, estava finalmente no
caminho certo. Lembro que
perguntei: ‘Mas será que isso não vai
passar rápido?’. Foi um momento
difícil, de incerteza, mas também de
esperança.”
foto by Santalolla
Eu ainda relutei em voltar, porque
sabia que teria de gastar novamente
com passagem, mas a agência
insistiu: ‘É melhor ir, Kayla. Ninguém
sabe o que vai acontecer agora.
Depois a gente vê’. Acabei voltando
para casa acho que foi em fevereiro,
bem no momento em que os
aeroportos estavam começando a
fechar. Peguei um dos últimos voos e
fiquei um tempo no Ceará.
No dia do meu aniversário, uma
amiga postou um vídeo meu
desfilando em um corredor. Um
amigo dela, que era maquiador, viu o
vídeo e comentou: ‘Que linda!’. Ele me
seguiu no Instagram e disse que
queria me maquiar, que queria me
levar para São Paulo para fazer umas
fotos com um fotógrafo.
Avisei a agência, mas eles disseram
para eu não ir, porque ainda era um
período de muita incerteza
estávamos no auge da pandemia.
Mesmo assim, eu queria tentar. O
maquiador se ofereceu para pagar
tudo, passagem, hospedagem, fotos,
e eu senti que precisava aproveitar
aquela oportunidade. Então, fui.
A ideia era ficar apenas quatro dias,
mas as fotos ficaram lindas e a
agência gostou tanto que pediu para
eu permanecer mais um pouco.
Disseram que iam enviar o material
para alguns clientes e queriam ver o
retorno. Pouco depois, me ligaram
dizendo que as respostas estavam
sendo muito positivas e que seria
melhor eu ficar mais tempo, pelo
menos um mês , porque havia
chances reais de trabalho.
E foi exatamente o que aconteceu.
Aquela viagem que seria de quatro
dias virou uma mudança definitiva.
Comecei a trabalhar e, em menos de
um mês, fiz minha primeira
campanha para a marca Quem Disse,
Berenice?. Lembro da emoção de ver
minha foto exposta no shopping. Eu
passava na frente só para me olhar
parecia um sonho. Era a prova de que
tudo estava, finalmente, dando certo.
Kayla, quais foram as maiores
dificuldades que você encontrou? Sua
família sempre te apoiou?
Sim, minha família sempre me
apoiou, minhas tias me apoiam,
minha avó também me apoiava, todo
mundo sempre me apoiou. As
maiores dificuldades, a gente ser
trans, ser nordestina, ser do nordeste
também, isso também conta. É…
porque a gente vê tantas meninas,
não só eu, mas tantas outras, que
poderiam chegar muito mais longe.
Acho que isso ainda é uma barreira,
não apenas por ser do Nordeste, mas
também por ser uma mulher trans.
Existem tantas meninas incríveis,
talentosas, que mereciam ter mais
visibilidade e oportunidades.
Infelizmente, ainda pesa um pouco.
Mas acredito que, aos poucos, isso
está mudando, e que a gente está
abrindo caminho umas para as outras.
Eu acho que, muitas vezes, o público
cobra meninas trans como se fossem
meninas cis. Mas na hora de contratar,
não há essa mesma exigência, já
existe uma diferença.
É como se houvesse um filtro: ‘Ah, é
trans, não é trans’. Se tudo fosse
tratado de forma igual, acredito que
seria bem mais fácil. Mas, infelizmente,
essa distinção ainda existe.
Você tem muita personalidade, algo
que é raro de encontrar em modelos. E
fora do Brasil, como tem sido sua
experiência? Tem feito muitos
trabalhos internacionais?
Cheguei aqui em Milão faz pouco
mais de um mês, ainda nem
completou dois meses. Antes disso, já
tinha passado uma temporada no
México, mas agora estou de volta à
Europa para trabalhar.
Sim, estou trabalhando bastante. Vim
para Milão e já tenho contratos
fechados com outras agências em
diferentes países. Minha agência
principal, inclusive, não quer que eu
volte ao Brasil tão cedo. Eles
disseram: ‘Você passou bastante
tempo no Brasil, agora fica por aqui
mesmo’.
Em algum momento você pensou em
desistir? Teve algum momento em
que você se perguntou: ‘Por que
escolhi seguir essa carreira?
Às vezes, isso acontece, mas só no
começo mesmo especialmente
quando a agência me disse para
escolher entre continuar a carreira ou
seguir minha transição. Naquele
momento, pensei em desistir. Mas
hoje não; as dificuldades fazem parte
do caminho. Quando a gente ama o
que faz, os obstáculos se tornam
aprendizados. Cada desafio superado
é uma conquista, e quando você
vence, percebe o quanto é forte.
Acredito que, se você não gostar do
que faz, nem consegue chegar onde
deseja, porque acaba desistindo
antes mesmo de tentar. Para mim,
esse aprendizado começou em São
Paulo, com meu primeiro contrato de
trabalho para a marca Quem Disse,
Berenice?, na área de maquiagem.
foto by Pedro Apolin
Depois disso, vieram outros trabalhos
importantes: desfiles na São Paulo
Fashion Week e participações em
revistas como Vogue e Marie Claire.
E como você lida com a pressão
estética e todas as exigências do
mercado da moda? Como consegue
equilibrar isso no dia a dia?
Eu tento lidar da melhor forma
possível. É preciso manter o
equilíbrio, senão você acaba ficando
maluca cada pessoa vai dizer uma
coisa diferente. Se você ligar demais
para a opinião dos outros, se perde.
É fundamental se reconhecer, se
autoconhecer. Não é algo para
debater ou justificar; você ouve, mas
não absorve tudo. É importante
permanecer neutra, centrada em si
mesma e no que você realmente
acredita.
De que maneira suas origens
influenciam, ou influenciaram, seu
trabalho como modelo? De que
forma elas impactam sua trajetória
profissional?
Eu acredito que minhas origens
influenciam meu trabalho de
maneiras diferentes — às vezes de
forma positiva, outras nem tanto. Há
marcas que nos procuram
justamente por isso: ‘Ah, ela é
nordestina’. Geralmente, quando vão
contratar alguém, eles já têm uma
ideia do perfil que querem.
foto by Melkzada
Às vezes, esse perfil combina
exatamente com quem você é, e
então isso se torna uma vantagem.
Outras vezes, eles procuram algo
completamente diferente, alguém
que não tem nada a ver com você. É
um equilíbrio — e você precisa
aprender a lidar com essas
expectativas sem perder sua
essência.
Você sente que o mercado da moda
está mais aberto à diversidade hoje
seja regional, corporal ou cultural?
Antigamente, parecia que havia um
padrão muito definido, não é? Loira,
determinada estética… como você vê
essa mudança?
Sim, eu acho que mudou bastante.
Não totalmente, mas mudou muito.
No Brasil, vemos que a diversidade
de corpos é muito mais aceita. No
São Paulo Fashion Week, por
exemplo, meninas de todos os tipos
de corpo desfilam e são valorizadas.
Aqui fora, sinto que ainda não é tão
assim. Quando o público exige
diversidade, eles até fazem algumas
mudanças, mas logo voltam ao
padrão anterior, com corpos
extremamente magros.
Quanto à diversidade de beleza,
especialmente sobre não ser só
meninas loiras, as brasileiras estão
conquistando espaços importantes.
Por um tempo, não havia muitas
brasileiras nas passarelas e
campanhas internacionais, mas
agora estamos voltando com força.
Acho que estamos sendo muito bem
aceitas e conquistando nosso lugar
novamente.”
Você tem sonhos?
Sonhos, não tenho sonho. Tenho
metas em fazer esses desfiles da
semana de moda da próxima. Dessa
vez eu vim, não fiz nenhum, mas já
tenho experiência para fazer os
próximos. No próximo, na próxima
temporada, já vou voltar com tudo
mais preparada. Aí no foco de fazer
várias coisas e campanhas também
das grandes marcas mundiais que a
gente tem aí, que é conhecida
mundialmente da semana de moda.
Você pensa em usar a sua
visibilidade para inspirar outras
jovens da sua região e mostrar que
elas também podem conquistar seus
sonhos?
Eu acho que isso eu já faço de certa
forma, porque muitas meninas me
conhecem pelo meu Instagram e se
inspiram na minha história. Elas me
mandam mensagens, dizendo coisas
como: ‘Você é daqui, como eu, e
conseguiu realizar seu sonho.’
Isso mostra que a gente também
tem possibilidades e capacidade de
chegar aonde quer, não só como
modelo, mas em qualquer área da
vida.
Que conselho você daria para as meninas que hoje sonham em seguir o mesmo
caminho que você?
O meu conselho é que é difícil, não é fácil, mas nada da vida da gente é fácil.
Para elas irem atrás, vai ter muitas pessoas falando que não vai conseguir, vai ter
outras pessoas também falando que vai conseguir. O importante é ter o foco e
saber o que você quer, que você, fazendo aquilo que você realmente quer, você
consegue.
“E, Kayla, para nossa última pergunta: Fora das passarelas, longe das câmeras,
quem é a Kayla?
A Kayla, fora das passarelas, longe das câmeras, ela é bem quietinha, gosta de
estar com amigos, gosta de estar em casa. Soa assim, mais tranquila, mais na
minha. Gosta de estar lá em casa, no meio do mato, lá no interior, com os
bichinhos, com os animais, andando nos roçados. Igual eu posto as coisas no
Instagram, nos vídeos, lá que eu fico mais no meio das vacas, sou exatamente
daquele jeito. Totalmente o oposto das passarelas.
https://www.instagram.com/kaylago_/
Por
Roberto Lívio
Aqui estão três filmes com lançamento previsto para o final de 2025 que podem se
encaixar bem para você acompanhar:
O Agente Secreto
Lançamento no Brasil: 6 de novembro de 2025.
Thriller brasileiro dirigido por Kleber Mendonça Filho, estrelado por Wagner
Moura.
Uma ótima aposta se você quer algo com mais intensidade, história séria e
produção brasileira.
Wicked: For Good
Lançamento no Brasil: 4 de novembro de 2025.
Wikipedia
Produção dos estúdios Universal Pictures, será exibido
em formatos especiais como IMAX, 4DX, etc.
Ideal se você gosta de fantasia musical/adaptações
teatrais — clima mais “blockbuster de final de ano”.
Homo Argentum
Lançamento no Brasil: programado para 20 de
novembro de 2025.
Filme argentino de 2025 (com estreia internacional em
dezembro) — se você curte produções latino‐americanas
ou quer algo diferente do padrão Hollywood, ele pode
ser excelente.
DRA
MIRELA WARD
CONTATO
11 9889 66111
@mirelaward
Dra Mirela Ward - medica homeopata
https://share.google/fZD1p5PJz56F95WVB
Em tempos em que a pressa e o
imediatismo parecem ter tomado conta
até da saúde, ouvir a Dra. Mirela Ward falar
sobre medicina homeopática é quase um
respiro. Médica de formação sólida, Mirela
traz um olhar que vai além dos sintomas —
ela enxerga o ser humano como um todo,
corpo, mente e emoção em constante
diálogo.
Durante a entrevista, a Dra. Mirela reforçou
algo que muitos esquecem: tratar o
paciente é muito mais do que prescrever
medicamentos; é compreender a história
por trás da dor. Para ela, o grande desafio
da medicina moderna está justamente em
equilibrar o avanço tecnológico com a
sensibilidade do cuidado humano.
A homeopatia, segundo Mirela, é uma
ferramenta de reconexão. Ela defende que
cada organismo tem seu próprio ritmo de
cura e que o papel do médico é respeitar
esse tempo, estimulando o equilíbrio
interno e não apenas silenciando o
sintoma. É uma visão que contrasta com a
lógica da indústria farmacêutica, mas que,
aos poucos, tem ganhado espaço entre
profissionais que compreendem a
importância da medicina integrativa.
Como opinião, é impossível não destacar a
serenidade e a coerência com que a Dra.
Mirela fala sobre o tema. Sua abordagem
não é de enfrentamento à medicina
tradicional, mas de ampliação de
horizontes, de diálogo entre saberes. Em
um cenário em que a saúde se tornou
produto, vozes como a dela são necessárias
lembram que o verdadeiro cuidado nasce
do olhar atento e do escutar genuíno.
A entrevista com a Dra. Mirela Ward nos
convida a repensar o conceito de saúde:
menos remédio e mais consciência; menos
pressa e mais presença.
por Regina Papini Steiner
Doutora, o que a motivou a escolher a Medicina e, especialmente, a se
especializar em Homeopatia?
"Eu sempre gostei de cuidar de pessoas, de cuidar de gente."
Quando eu era adolescente, meu pai adoeceu, e pouco tempo depois meu
avô, que morava conosco, também ficou doente. Foi nesse período que decidi
cursar o técnico em enfermagem, queria me especializar ainda no ensino
médio.
Ao entrar no hospital, conhecer o fluxo, os pacientes, e perceber a
importância do cuidado, entendi o poder que há nos pequenos gestos.
Colocar um travesseiro no lugar certo, ajudar alguém a respirar melhor, ver o
alívio no rosto de uma pessoa, tudo isso me marcou profundamente.
Quando me formei em Medicina, meu primeiro interesse era a Psiquiatria. Fiz
estágios no Hospital das Clínicas da USP e no CAPS III de Jundiaí — cidade
onde cursei a faculdade. Durante essa vivência, percebi que havia ali um viés
muito político e uma abordagem com a qual eu não me identificava. O
modelo ainda trazia resquícios do sistema manicomial, e o modo de lidar com
o paciente não refletia o cuidado e o respeito que eu acreditava serem
essenciais.
Apesar disso, sempre tive uma forte ligação com a área. Sou apaixonada por
estudar psicanálise, comportamento humano e terapias. Sempre me
interessei por esse olhar mais profundo sobre o ser humano. Mas essa
experiência acabou sendo um divisor de águas: percebi que aquele tipo de
prática não era o que eu buscava para a minha atuação médica.
Depois de formada, comecei a trabalhar como médica em postos de saúde, na
área de Saúde da Família. Foi nesse contexto que tive meu primeiro contato
com a Homeopatia inicialmente como paciente. Eu sofria de uma dermatite
atópica que não melhorava de forma alguma, e foi através do tratamento
homeopático que encontrei alívio.
A partir dali, o passo para a Medicina foi natural. Descobri que minha vocação
estava em ajudar o outro, em promover saúde e bem-estar. A Medicina
sempre foi esse caminho de dedicação e escuta. Já são mais de 20 anos
cuidando de pessoas, primeiro como enfermeira, depois como médica, e
continuo encontrando sentido nesse ato de servir com empatia e propósito.
E desde então, me apaixonei pela Homeopatia. Percebi que os medicamentos
podiam tratar desde uma insônia ou ansiedade até uma alergia, ou seja, atuar
no equilíbrio do corpo e da mente ao mesmo tempo. Essa visão integral do ser
humano, de enxergar e cuidar da pessoa como um todo, me encantou
profundamente.
A medicina integrativa tem justamente essa proposta: preocupar-se com
cada detalhe, desde a qualidade do sono até o funcionamento do intestino. É
fascinante poder olhar o paciente de forma completa, e acredito que é na
Homeopatia que encontramos essa verdadeira essência do cuidado.
O que mais me encanta na
Homeopatia é a possibilidade de olhar
o paciente por inteiro. Quando você vai
a um psiquiatra, ele quer saber apenas
da ansiedade ou da depressão. O
proctologista, do intestino. Já o
homeopata quer conhecer tudo: como
está seu dia a dia, seu sono, sua
alimentação, se o intestino funciona
bem, se a menstruação mudou, se a
menopausa tem causado
desconfortos. É um cuidado integral,
humano.
E isso é o que me apaixona: na
Homeopatia, a gente aprende a cuidar
de pessoas , não de doenças.
É possível que uma pessoa que já
esteja em tratamento alopático
também seja tratada com a
homeopatia? Ou, dependendo do caso,
essa transição não é recomendada?
Em outras palavras, é viável combinar
os dois tipos de tratamento?
Então, a medicina integrativa ela vai
abrangir, lógico, com outras áreas,
então tem muito paciente que é
encaminhado, por exemplo,
fibromialgia, eu tenho tratado muito
esse tipo de quadro no SUS, quem me
encaminha é um colega ortopedista,
porque são pacientes difíceis de lidar,
as dores elas são muito generalizadas,
às vezes são articulares, às vezes são
ósseas, às vezes são musculares, então
são pacientes muito difíceis de tratar,
então normalmente eu trato em
conjunto, por exemplo, com um colega
ortopedista. Outros colegas que me
encaminham, por exemplo, são os
ginecologistas, aquela paciente que tem uma menopausa muito difícil, tá
nessa transição e aí a gente sabe que tem poucos medicamentos da alopatia
para tratar uma mudança de humor brusca, que é a diminuição do hormônio,
aumenta um, diminui outro e tal, e aí você vê que assim, na alopatia, você não
vai ter um “gap” que nem a gente tem na homeopatia, é só de plantas, pra
menopausa a gente tem mais de 10.
Quando falamos em mudanças de humor, a nossa botânica especialmente a
brasileira, é riquíssima. Temos uma flora incrível, com inúmeras plantas e
ervas capazes de tratar essas oscilações emocionais e os famosos fogachos,
aquelas ondas de calor tão comuns na menopausa. Já na alopatia, o
ginecologista enfrenta uma grande dificuldade, porque simplesmente não
dispõe da mesma variedade de opções que nós, homeopatas, temos à
disposição. Então sim, Regina, a gente consegue tratar em conjunto o
paciente.
Quais são os princípios fundamentais que norteiam a prática da homeopatia?
A base da homeopatia vem de Hipócrates, com o princípio similia similibus
curentur, ou seja, “o semelhante cura o semelhante”. Um exemplo prático:
tenho muitos pacientes alérgicos, e um dos medicamentos que costumo usar
é o Dolichos, conhecido popularmente como pó de mico. Quando essa
substância é dinamizada e transformada em medicamento homeopático, ela
justamente trata aquele tipo de coceira intensa, irritante, semelhante à
causada pelo próprio pó de mico. Ou seja, usamos o princípio do semelhante
para aliviar o sintoma no paciente. Outro exemplo clássico é a beladona, que
muitos conhecem da alopatia ela está presente em diversos medicamentos
para cólica, por exemplo. A beladona é uma planta, da qual se extrai a
atropina, e na homeopatia ela é usada de forma dinamizada para tratar
quadros de rubor, inflamação e febre. É muito eficaz em casos infecciosos em
que o paciente apresenta vermelhidão intensa, congestão e calor, justamente
porque, em doses maiores, a planta provoca esses mesmos sintomas. Ou seja,
novamente aplicamos o princípio do semelhante curando o semelhante.
Doutora, temos visto cada vez mais
crianças sendo tratadas com
homeopatia. Na sua experiência, essas
crianças acabam crescendo mais
equilibradas e saudáveis? Como a
homeopatia contribui nesse processo?
Hoje, a gente vive um viés muito
farmacológico. A criança tem uma
infecção, e logo recebe um antibiótico.
O problema é que, a longo prazo, o uso
excessivo desses medicamentos pode
causar alterações metabólicas,
enfraquecer a imunidade e até afetar a
dentição é comum vermos dentes
amarelados por causa do uso
contínuo. Assim, a criança entra num
ciclo: toma antibiótico, melhora um
pouco, mas logo adoece de novo, e
cada vez com infecções mais
resistentes.
Quando introduzimos a homeopatia, o
foco muda ela atua diretamente no
fortalecimento da imunidade. Há
estudos, inclusive de pesquisadores
brasileiros como a doutora Leonii
Bonamin, que mostram em laboratório
que doses homeopáticas de
determinadas substâncias estimulam
a produção de linfócitos, as células
responsáveis por proteger o
organismo. Ou seja, ao longo do
tratamento, a criança passa a adoecer
menos e se torna mais resistente
naturalmente. Então, por exemplo, a
Dra. Leoni tem um estudo muito
publicado que eu gosto de
recomendar, que é, por exemplo, o que
é a canthares vesicatoria. Em doses
homeopáticas, a gente usa ela muito
pra infecção de urina. O que ela fez?
Em um dos estudos mais interessantes
da doutora Leoni Bonamin, foram
usados camundongos infectados com
Escherichia coli, bactéria responsável
por grande parte das infecções
urinárias, especialmente em mulheres.
Ela administrou doses homeopáticas
de Cantharis vesicatoria, o mesmo
medicamento que usamos em
consultório para tratar infecções
urinárias recorrentes, e observou um
aumento dos receptores de linfócitos
naquela região. Ou seja, a resposta
imunológica local foi potencializada.
Isso mostra que determinadas
substâncias, quando usadas em doses
homeopáticas.
Uma criança que tenha feito
tratamento a longo prazo com
alopatia, ela pode migrar pra
homeopatia?
O que mais me encanta nesses mais de
dez anos de clínica é ver, na prática, a
mudança real na vida dos pacientes.
Recebo muitas crianças com crises
respiratórias, bronquite, asma, uso
constante de corticoides, antibióticos
e bombinhas. Quando iniciamos o
tratamento homeopático, o sistema
imunológico delas começa a se
fortalecer. Aos poucos, vão reduzindo
o uso das medicações tradicionais e,
muitas vezes, deixam de ter aquelas
crises recorrentes nas mudanças de
temperatura, tão comuns aqui em São
Paulo. É nítido como o corpo aprende a
reagir melhor. E, sinceramente, a
minha maior felicidade é ver essas
crianças diminuindo o uso de
antibióticos. Isso, pra mim, é uma
grande vitória.
Tenho pacientes que acompanho
desde o nascimento e que, com
orgulho, posso dizer que há mais de
dois ou três anos não usam
antibióticos. E isso, hoje, é raro,
principalmente com essas mudanças
bruscas de temperatura. O que mais
acontece é a criança ir ao prontosocorro
e já sair com antibiótico e
corticoide. Na homeopatia, fazemos o
processo de forma gradual, muitas
vezes em conjunto com o pediatra ou
o pneumologista, substituindo aos
poucos os medicamentos tradicionais.
O resultado é visível: melhora do sono,
da disposição, da imunidade e,
principalmente, da qualidade de vida.
Crianças que antes viviam doentes
hoje fazem natação, praticam esportes
e têm uma rotina muito mais saudável.
A medicina tradicional tem se
mostrado mais receptiva à
homeopatia? Existe hoje uma boa
convivência entre os médicos alopatas
e os homeopatas?
Não. A gente ainda enfrenta uma certa
resistência, uma “briga” velada,
digamos assim. Mas, felizmente, hoje
temos o CRM reconhecendo e
fiscalizando a prática, e também uma
Câmara Técnica de Homeopatia no
CREMESP, formada por médicos
homeopatas. Isso é fundamental,
porque garante seriedade e segurança
tanto para o profissional quanto para o
paciente.
Por isso é tão importante ter o título
de especialista, o RQE — Registro de
Qualificação de Especialista. Isso
mostra que o médico passou por toda
a formação, é acompanhado e pode
responder tecnicamente caso algo
aconteça. Infelizmente, há muitas
pessoas não médicas se apresentando
como terapeutas homeopáticos, e isso
é perigoso, porque só o médico tem a
formação para diagnosticar, pedir
exames e acompanhar o tratamento
de forma segura e integrativa.
O que ainda falta é informação. Muitos
colegas, inclusive médicos,
desconhecem que a homeopatia é
uma especialidade reconhecida, com
prova de título, com fiscalização do
CREMESP e da AMB. É uma área ainda
pouco falada nas faculdades, e isso
acaba gerando preconceito e
desinformação. Então, por exemplo,
eu só tive contato com a homeopatia
depois que me formei, Regina. Na
faculdade de medicina, a gente não
tem essa especialidade na grade, e
esse é um dos motivos pelos quais
ainda é raro encontrar médicos
homeopatas.
Saiu, inclusive, um censo da USP que
mostra bem essa diferença: enquanto
só em São Paulo há cerca de 5 mil
cardiologistas, o número de médicos
homeopatas registrados é de apenas
850. É muito pouco, né? Na minha
turma, por exemplo, nós éramos 65
formandos em medicina — a maioria
foi pra oftalmologia ou cirurgia… e
homeopata, só eu!
Pelo nosso último censo de
especialistas ,que depois posso até te
enviar, dá pra ver que a homeopatia
ainda é uma especialidade, digamos
assim, de médicos mais experientes. A
maioria dos meus colegas homeopatas
tem mais de 40, 50, 60 anos e
geralmente já são especialistas em
outras áreas, como pediatria ou
otorrinolaringologia.
Isso acontece porque muitos acabam
ficando insatisfeitos com as limitações
da alopatia em alguns casos. Por
exemplo, cólica de recém-nascido,
dentição ou insônia em bebês, é muito
difícil tratar, porque há poucas opções
de medicamentos. Então, o pediatra vê
essa dificuldade e acaba migrando
para a homeopatia, onde encontra
alternativas eficazes.
O mesmo vale para o otorrino: aquele
paciente com sinusite ou rinite de
repetição, que já tentou de tudo
loratadina, corticoide, prednisolona , e
não melhora. Quando ele vê que a
homeopatia traz bons resultados,
desperta o interesse em se
especializar.
Por isso, a gente costuma dizer que a
homeopatia é uma segunda
especialidade, é o caminho que muitos
médicos escolhem depois de anos de
prática clínica.
fotos arquivo pessoal
É exatamente esse cuidado que faz
com que a homeopatia tenha uma
grande procura na área pediátrica. A
mãe que acabou de ter um bebê,
naturalmente, não quer sobrecarregar
o recém-nascido com uma série de
medicamentos , antibióticos, dipirona,
paracetamol, prednisolona e tantos
outros. Então, quando percebe que o
filho está com cólicas persistentes e
nada resolve, mesmo depois de vários
remédios para dor ou gases, ela busca
a homeopatia.
No consultório, entramos com algo
muito mais suave, com doses seguras,
praticamente sem efeitos colaterais, e
sempre com o acompanhamento
médico adequado. Aos poucos, essa
mãe vê os resultados: melhora nas
cólicas, depois na dentição, depois nos
resfriados, e percebe que a criança
está mais resistente, mais equilibrada.
Por isso, a homeopatia acaba se
destacando tanto entre os pediatras e
pais de primeira viagem. porque
oferece uma alternativa menos
agressiva, mais natural e, acima de
tudo, segura. É um tratamento que
respeita o ritmo do corpo e fortalece,
desde cedo, o sistema imunológico
que está apenas começando a se
desenvolver.
Muita gente ainda tem uma visão
equivocada sobre a homeopatia,
acreditando que se trata apenas de
um efeito placebo. Como a senhora
responde a esse tipo de crítica?
É muito difícil, viu? Eu até queria te
mostrar, mas não tenho aqui comigo
agora, o CREMESP lançou várias
revistas com pesquisas excelentes
sobre homeopatia. Muita gente ainda
fala “ah, é placebo, não funciona”, mas
aqui em São Paulo mesmo nós temos
três grandes pesquisadores
reconhecidos internacionalmente: a
doutora Leoni Bonamin, o doutor
Marcus Zuliman e o doutor Paulo
Rosenbaum. Os dois últimos, inclusive,
são da USP e estão entre os principais
nomes mundiais na pesquisa
homeopática.
Então, há sim muita pesquisa séria
sendo feita. Em congressos de
homeopatia, a gente vê trabalhos em
diversas área, inclusive na agricultura.
Hoje, você vai ao supermercado e
encontra ovos com selo “livre de
gaiola”, “natural” e “produzido com uso
de homeopatia”. É real! A homeopatia
está sendo aplicada na agropecuária,
em criações de galinhas, peixes e
outros animais.
Na UERJ, por exemplo, há um grupo
que pesquisa o uso de substâncias
como zinco e mercúrio solúvel em
tanques de peixes — e os resultados
mostram menor contaminação e
menor perda dos animais. Na
veterinária também: a doutora Ana
Torres, aqui de São Paulo, fez um
trabalho incrível no zoológico, usando
homeopatia para fortalecer a
imunidade e até tratar o estresse dos
animais em cativeiro.
Ou seja, como dizer que é placebo?
Esses resultados são concretos,
observáveis. Temos ainda pesquisas
em Betim, com residência médica em
homeopatia, mostrando eficácia em
doenças respiratórias; e estudos
laboratoriais aqui em São Paulo que
comprovam aumento de receptores
imunológicos.
Infelizmente, existe uma resistência
grande, porque a maioria das
pesquisas depende de financiamento
e como não há grandes indústrias por
trás da homeopatia, a área ainda
recebe pouco investimento. Mas,
felizmente, a produção científica vem
crescendo cada vez mais, e com
resultados muito positivos.
A homeopatia, se você for ver, é
fascinante também nesse aspecto
econômico. Um frasquinho de
medicamento homeopático custa, em
média, 30 ou 40 reais e dura de dois a
três meses e ainda assim é capaz de
alterar positivamente a imunidade do
paciente. Já na contramão, quando
você observa o mercado farmacêutico
tradicional, uma simples vitamina
pode custar 80 reais ou mais. Claro,
isso movimenta uma indústria muito
maior, com um custo de laboratório e
de produção bem mais alto e,
consequentemente, com muito mais
interesse financeiro envolvido.
A senhora acredita que parte dessa
resistência à homeopatia vem da
influência e do poder econômico da
indústria farmacêutica? Até que ponto
essa disputa de interesses impacta o
reconhecimento e o avanço da
medicina integrativa no Brasil?
A gente percebe, hoje, uma certa falta
de opção entre os colegas médicos em
algumas áreas, especialmente
naquelas em que a alopatia não tem
conseguido oferecer respostas
efetivas. É o caso, por exemplo, das
infecções de repetição em crianças ou
das ondas de calor e alterações
hormonais da menopausa. São
situações que comprometem o bemestar
e a qualidade de vida do
paciente, mas que, dentro da medicina
tradicional, contam com poucas
alternativas: ou o médico opta pela
reposição hormonal que nem sempre
é possível ou fica restrito a duas ou
três opções de tratamento.
Já na homeopatia, temos uma gama
muito mais ampla. Contamos com
várias plantas e minerais que podem
ajudar a equilibrar o organismo e
aliviar esses sintomas. Essa
diversidade é uma das grandes forças
da medicina integrativa.
Mesmo com as dificuldades
estruturais, até mesmo em grandes
centros como São Paulo, temos visto
um aumento importante no número
de pais e pediatras buscando
especialização em homeopatia. Isso
mostra que há um reconhecimento
crescente de sua eficácia e segurança.
No meu consultório, observo dois
perfis predominantes: crianças, cujos
pais procuram tratamentos mais
naturais e menos agressivos, e idosos
que já tiveram boas experiências com
a homeopatia no passado e voltam a
buscá-la quando outros métodos não
resolvem. Eu costumo brincar que sou
o “final da linha”: quando o paciente
chega, ele geralmente diz “já tentei de
tudo, nada deu certo, então resolvi
procurar a homeopatia”.
E, de fato, ela tem oferecido respostas
muito positivas, especialmente nos
casos de insônia, menopausa e, mais
recentemente, nos problemas ligados
à saúde mental. Vivemos uma
verdadeira epidemia de ansiedade e
depressão, e nesses casos a
homeopatia tem se mostrado uma
aliada valiosa, ajudando o paciente a
reencontrar o equilíbrio sem os efeitos
colaterais dos medicamentos
tradicionais. Porque a homeopatia
oferece um tratamento que não vai
“chumbar” o paciente, não vai reduzir
a cognição o que é essencial,
principalmente em crianças. Seria
maravilhoso se os pais pensassem
primeiro na homeopatia, antes de
partir para medicamentos alopáticos
mais fortes. Quando uma criança com
ansiedade ou depressão é tratada com
remédios tradicionais, muitas vezes
sofre efeitos que comprometem o
aprendizado e o reflexo, tornando o
processo cognitivo mais lento. A
homeopatia, por outro lado, não causa
esse tipo de alteração é mais segura,
natural e com menos efeitos
colaterais.
O mesmo vale para os idosos. Muitos
vêm até nós relatando que, após
iniciar tratamentos convencionais,
começaram a sentir perda de
memória, dificuldade de concentração
e até desânimo para realizar as
atividades diárias. Já com a
homeopatia, o sono se torna mais
reparador, sem aquele efeito de
sedação que deixa o paciente
sonolento e vulnerável a quedas ou
confusão mental. É um tratamento
que busca o equilíbrio, não apenas o
alívio imediato. Mas ainda há um
grande desafio: a desinformação entre
os próprios colegas médicos. Apesar
de termos a homeopatia disponível no
SUS inclusive, eu atuo nessa área
muitos profissionais não sabem
sequer que podem encaminhar o
paciente para esse tipo de
atendimento. O problema começa na
formação: temos um número enorme
de faculdades de medicina, mas
poucas abordam o que é de fato a
homeopatia.
Por isso, existe um preconceito
enraizado. Muitos dizem que é
placebo, que não há comprovação
científica. No entanto, se pesquisarem
no PubMed, encontrarão mais de 40
mil referências sobre homeopatia.
Falta conhecimento, não evidência. E
isso faz com que muitos pacientes
ocultem dos seus médicos o fato de
estarem fazendo tratamento
homeopático, por receio de serem
julgados. Muitos colegas ainda têm
uma certa resistência, uma ignorância
mesmo, de achar que a homeopatia
não funciona. Por isso, acabam nem
considerando ou encaminhando o
paciente. Felizmente, eu tenho a sorte
de trabalhar com alguns pediatras que
compreendem a importância desse
trabalho conjunto — eles me ligam,
conversam, dizem: “Estou te
encaminhando um paciente com
determinada dificuldade, vamos tratar
juntos?”. Isso é maravilhoso, mas ainda
é raro. São poucos os profissionais que
têm essa abertura. Esse diálogo entre
especialidades deveria começar lá
atrás, ainda na faculdade de medicina,
para que o futuro médico entenda que
a homeopatia é uma ferramenta
complementar e extremamente
valiosa no cuidado com o paciente.
Eu percebo que essa parceria é muito
mais frequente com psicólogos. Tenho
vários colegas da área que me
encaminham pacientes porque têm
receio dos medicamentos alopáticos
muitas vezes eles interferem no
tratamento psicológico, deixam o
paciente mais dopado, com a cognição
comprometida. Então, eles preferem
que eu faça uma avaliação
homeopática e que a gente conduza o
caso em conjunto. Funciona muito
bem.
O mesmo acontece com
fisioterapeutas temos um trabalho
integrado e resultados excelentes. Já
com os médicos, infelizmente, é
diferente. Muitos ainda não entendem
bem o papel do homeopata. Quando
encaminham, é quase sempre aquele
caso em que dizem: “Olha, já tentei de
tudo, agora vai pro homeopata”. É
como se fosse a última alternativa,
quando na verdade, poderia ser o
primeiro passo.
Ao longo da sua trajetória, o que a
prática da homeopatia te ensinou em
relação à saúde, à natureza humana e
à sua própria maneira de ver a
medicina?
Cada homeopata teria uma resposta
diferente, mas pra mim o que a
homeopatia mais ensina é a
humanização. Quando um paciente
chega com dor, independentemente
do tamanho ou da causa, essa dor
importa, e meu papel é acolher, não
julgar. Muitas vezes, por trás de uma
insônia, há uma perda, um medo, uma
sobrecarga. A escuta qualificada cura
tanto quanto o remédio.
Na homeopatia, a gente trata o todo ,o
corpo, a mente e o contexto. É comum
começar cuidando de uma criança e,
com o tempo, estar cuidando da
família inteira. Isso é o que me
apaixona na minha especialidade:
poder olhar para o ser humano como
um todo, algo que, infelizmente, a
medicina tradicional vem perdendo.
O que você diria aos jovens médicos
que têm interesse em se aprofundar
na homeopatia? Que conselhos ou
orientações você deixaria pra eles?
Primeiro, eu daria boas-vindas. É raro encontrar um médico que se apaixone por
pessoas e não apenas por doenças. Ser homeopata é isso: cuidar de vidas, não de
partes do corpo. É apaixonante. Estude muito, porque a homeopatia está em
constante evolução.
Hoje temos um volume enorme de pesquisas, especialmente da linha do Dr.
Sankaran, na Índia. Surgem novas plantas, novos estudos, e é preciso se atualizar
o tempo todo. Mas além disso, precisamos estudar psicanálise, logoterapia, Jung,
Freud, para aprender a acolher o paciente com sensibilidade.
A homeopatia é um aprendizado contínuo: novas descobertas, novas aplicações.
Recentemente, por exemplo, os indianos usaram a Justicia adhatoda em casos de
Covid, e agora na Europa há um boom do Viscum album, usado inclusive em
pacientes oncológicos.
Então, a quem chega agora, eu diria: seja bem-vindo! Tenha fôlego e curiosidade,
porque é uma área viva, em constante movimento e quanto mais estudamos,
mais descobrimos o poder da natureza em cuidar das pessoas.
Responsabilidade não é fardo, é poder.
Quem sabe caminhar com consciência
nunca tropeça nos próprios desejos.
Ah, meu filho, responsabilidade não é coisa de
ferro nem de corrente pesada, não. É
malandragem fina: é saber que cada ação tem
eco, que cada escolha é ponte ou armadilha.
Muitos querem poder, querem brilho, querem
conquista, mas esquecem que sem
responsabilidade o brilho some, o poder se
volta contra, e a conquista escorrega pelos
dedos. Quem entende isso caminha firme,
sem medo, respeitando o próprio caminho e o
dos outros. Responsabilidade é luxo de quem
sabe jogar o jogo da vida sem se perder nos
atalhos.
Ser responsável é saber esperar, escolher bem,
pagar o preço sem reclamar, porque a vida
cobra, e cobra caro. É malícia fina, é olhar para
o próprio passo e para o passo do outro, é
saber que liberdade sem juízo é desastre certo.
Quem entende isso caminha firme, ri do azar e
transforma cada dificuldade em chance de
crescer. Responsabilidade, meu filho, não é
castigo, é poder disfarçado de dever.
Exú Veludo
Boa noite!
Omindaré
TECNOLOGIA
TRANSFORMA O ENSINO E
AMPLIA O ACESSO À
EDUCAÇÃO
por Cássio Fernandes
O avanço da tecnologia digital vem mudando
radicalmente a forma como as pessoas aprendem,
tornando o ensino mais acessível, flexível e
dinâmico. Plataformas online, vídeos educativos,
aplicativos interativos e aulas virtuais oferecem
novas possibilidades para estudantes de diferentes
perfis, permitindo que aprendam no próprio ritmo
e de qualquer lugar, sem depender exclusivamente
de salas de aula físicas ou de horários rígidos.
Essa transformação se intensificou com a pandemia
de COVID-19, que acelerou a adoção de
ferramentas digitais em escolas, cursinhos e
projetos educativos. Mesmo após o retorno das
atividades presenciais, a educação online
consolidou-se como uma alternativa permanente
para muitos estudantes, especialmente aqueles que
enfrentam barreiras econômicas ou de tempo.
Pessoas que não podem arcar com cursinhos caros
ou que trabalham em horários que impossibilitam a
frequência a aulas presenciais agora podem
estudar e fazer cursos para o Enem, vestibulares e
concursos a partir de casa, utilizando recursos
tecnológicos que tornam o aprendizado mais
prático, interativo e eficiente.
Entre os recursos mais utilizados estão aulas
gravadas, vídeos educativos, quizzes online,
simulados digitais e plataformas de
acompanhamento de desempenho. Esses recursos
permitem que o estudante revisite conteúdos
sempre que necessário, pratique habilidades
específicas e receba feedback imediato, tornando o
processo de aprendizagem mais personalizado e
adaptado às suas necessidades individuais.
Além da democratização do acesso, a utilização das
ferramentas digitais contribui para o
desenvolvimento de competências importantes para
o século XXI, como autonomia, disciplina,
organização e pensamento crítico. Estudantes que
participam de aulas online aprendem a gerir seu
próprio tempo, buscar soluções de forma
independente e interagir de maneira produtiva em
ambientes digitais, habilidades essenciais tanto para
a vida acadêmica quanto para o mercado de
trabalho.
Especialistas em educação destacam que a
tecnologia, quando planejada e aplicada de forma
consciente, não substitui o papel do professor, mas
amplia suas possibilidades de mediação, permitindo
um ensino mais inclusivo, equitativo e conectado às
necessidades dos alunos. A educação digital surge,
assim, como um grande aliado na redução das
desigualdades, oferecendo oportunidades de
aprendizado de qualidade para quem antes tinha
acesso limitado a cursos especializados ou aulas
presenciais.
Em um cenário cada vez mais digital e globalizado, a
tecnologia se consolida não apenas como
ferramenta pedagógica, mas como um instrumento
de transformação social, permitindo que mais
pessoas tenham acesso ao conhecimento e possam
se preparar de maneira eficiente para os desafios
acadêmicos e profissionais do século XXI.
temas ousados e desafiadores,
equilibrando técnica refinada e uma
profunda sensibilidade artística.
A Cia Truks, sob sua direção, tem
explorado linguagens híbridas,
mesclando performance física,
narrativa contemporânea e
elementos tecnológicos, criando
experiências imersivas que fogem
do convencional.
foto by Arquivo pessoal Henrique
Henrique
Sitchin
Cia Truks
por Regina Papini Steiner
Em entrevista à Revista ICONIC, o
ator e diretor Henrique Sitchin, à
frente da Cia Truks, revelou um
pouco do processo criativo que vem
conquistando público e crítica.
Conhecido por sua abordagem
experimental, Sitchin não foge de
Queremos que cada espetáculo seja
uma conversa viva entre atores e
espectadores”.
A entrevista, conduzida por Regina
Papini Steiner, evidencia não só a
paixão de Sitchin pelo teatro, mas
também seu compromisso em
manter a arte como instrumento de
transformação social e cultural. É
inegável que Henrique Sitchin e a
Cia Truks vêm consolidando um
espaço de referência no teatro
contemporâneo
brasileiro,
mesclando inovação, coragem e
autenticidade.
Henrique, para começar, você
poderia nos contar como surgiu a Cia
Truks e qual foi a inspiração para criála?
E se a gente fizer um trabalho juntos,
nós? Um grupo nosso? E foi aí que
nasceu a Truks. Eu trabalhava, nessa
época, também, por causa do teatro
de fantoche. Assim, modéstia à parte,
Nós começamos, eu e Verônica
Gerchman, que namorávamos na
época , fazendo teatro de fantoches
para festas de aniversário. Ela havia
aprendido a técnica no Rio de
Janeiro, no FuraBolo, um teatro de
bonecos muito tradicional, com mais
de 15 anos de história. Quando veio
morar em São Paulo, sugeriu: “Vamos
criar nosso próprio teatro”. Até o
pessoal do FuraBolo nos apoiou,
especialmente Maria Luíza Lacerda,
uma referência do teatro de bonecos
no Brasil.
Começamos a apresentar nosso
trabalho também em escolas. Uma
vez, fomos à Escola Casinha
Pequenina, da família de Cláudio
Saltini, outro bonequeiro importante.
Ele nos assistiu e se encantou com o
que fazia. Naquela época, ele
trabalhava na Companhia Cidade
Muda, um dos grupos mais influentes
do teatro de bonecos nos anos 1980
em São Paulo, e nos perguntou se
queríamos criar um grupo juntos. Foi
a gente fazia um teatro muito
bonitinho mesmo. Era muito bom.
Então, a gente abriu várias frentes.
Inclusive, eu trabalhava, nessa época,
com uma professora de literatura
infantil que havia visto o nosso
trabalho também com fantoche. E
nessas oficinas de literatura infantil,
com a Maria da Graça Mendes Abreu,
ela chama. A gente, eu conheci ”A
Bruxinha”, o personagem Bruxinha
da Eva Furnari. E eu gostava muito da
Bruxinha. A Bruxinha tinha umas
coisinhas assim, tipo, ela está
andando na rua e encontra dois
sapos. Ela vai lá, faz um gesto mágico
com a varinha e transforma os sapos
em patins. No quadrinho seguinte,
calça os patins, mas, em vez de
deslizar, sai pulando como um sapo.
Depois, já com sono, deita a
cabecinha sobre uma almofada para
descansar. Daqui a pouco, a almofada
ganha vida, é um dragão e sai voando
com ela. E eu achava que isso era tão
bacana para o teatro de bonecos.
assim que nasceu a Truks.
Logo cedo aprendi que, com bonecos,
podíamos fazer coisas que seria
impossível com atores. Fazer voar,
Henrique, e quais eram suas
principais referências artísticas
naquela época?
por exemplo, era fascinante. No
nosso teatro, tínhamos uma cena em
que uma bruxa se transformava em
fada: eu segurava a bruxa em uma
mão, a fada na outra, um pouco de
talco e, ao assoprar, saía fumaça e a
transformação acontecia. Como eu
faria isso com atores? Era mágico, e
foi esse fascínio pela bruxinha que
me acompanhou sempre.
Quando nos juntamos com Cláudio e
Eduardo, compartilhei meu projeto
de trabalhar com essa personagem.
Foi então que, através da escola,
conhecemos Eva Funari. Marcamos
uma reunião para tratar de direitos
autorais, e, após ouvir nossa
proposta, Eva nos surpreendeu:
ofereceu autorização para que
pudéssemos explorar o projeto como
quiséssemos.
Nascia assim, em 1990, a Companhia
Truks, formada por mim, Verônica,
Cláudio e, com grande orgulho, Eva
Furnari como membro do grupo, meu
ídolo máximo. Em poucos dias, ela já
estava em minha casa ajudando a
confeccionar bonecos, enquanto
Eduardo Amos dirigia.
Naquela época, Eduardo, diretor da
Companhia Cidade Muda, propôs:
“Vamos fazer algo inovador, diferente
de tudo que existe em São Paulo”. No
Rio, o Grupo Sobrevento já trabalhava
com técnicas semelhantes, mas aqui
era novidade. Eduardo, que havia
estudado teatro japonês Bunraku no
Peru com um bonequeiro francês,
sugeriu que aprendêssemos a
manipular um boneco
simultaneamente por três pessoas.
Chamamos essa técnica de nossa,
inspirada no Bunraku, mas adaptada
ao nosso estilo. Era curioso porque, à
época, manipular bonecos à vista do
público era estranho; no Brasil, o
comum eram fantoches tradicionais
ou marionetes em que o
manipulador não aparecia. Com o
tempo, aprimoramos a técnica,
dando ao trabalho a nossa cara e
tornando essa forma de manipulação
mais natural e reconhecida.
Percebemos que não era interessante
que a criança pegasse o boneco e
manipulasse na frente dela;
queríamos que a interação fosse mais
foto by Alberto Rocha
lúdica. Foi aí que ficamos cada vez mais animados: nosso trabalho passou
a refletir a forma como as crianças brincam — conversar com o boneco,
imaginar histórias. Essa essência de brincar como crianças é o que
continua guiando nosso trabalho até hoje.
Henrique, como vocês conseguem unir arte visual, dramaturgia e música
no palco? De que forma essas linguagens se encontram e se
potencializam?
Sim, isso foi se desenvolvendo aos poucos. Eu digo “particularmente”
porque essa é uma prática minha, não de todos os grupos — cada um tem
seu próprio método, e ainda bem, porque a arte deve ser assim: única e
feita do seu próprio jeito. No meu caso, o que mais importa é o projeto
dramatúrgico. Primeiro penso na ideia do espetáculo: de onde ela vem, se
é sobre um personagem, um tema ou até uma imagem que me inspira. Em
alguns trabalhos, foi justamente uma imagem que funcionou como
disparadora do espetáculo, algo que disse: “É disso que quero falar”.
A partir da ideia central do espetáculo, todos os demais elementos vão se
encaixando: o texto, verbal ou não, a música, a iluminação, o figurino e a
ação dos atores com os bonecos. No caso da bruxinha, por exemplo, não
havia fala, apenas imagens. Em Senhor dos Sonhos, o boneco Lucas não
para de falar, pois é um menino sonhador que transforma a cama em nave
espacial cada elemento reflete seu mundo imaginativo.
A função dos atores também varia: em alguns espetáculos são
companheiros do protagonista, como em Senhor dos Sonhos, e em outros
atuam como agentes do destino, em “Sonhatório”, trabalhamos com
objetos: três “loucos” brincam e manipulam elementos de maneira
particular o ator desarruma o cabelo, veste o avental do avesso e está
pronto para a cena. Cada espetáculo, assim, encontra sua própria
linguagem e ritmo.
foto by Alberto Rocha
Henrique, como você enxerga o trabalho
da Truks hoje, em um mundo tão
digital? De que forma o teatro se
mantém relevante diante das novas
tecnologias?
Hoje, vivemos algo parecido com o
avanço da inteligência artificial. Mesmo
assim, acredito que sempre
precisaremos da respiração no palco ,
de ver um ser humano vivo, presente,
diante de nós. Tenho uma frase que
Essa é uma pergunta linda, e vou
começar com uma historinha. Em 1988,
ainda com o Teatro de Fantoches, eu e
Verônica fomos convidados para
participar de um festival internacional
de teatro de bonecos em Nova Friburgo,
no Rio de Janeiro. Foi um evento
marcante para toda uma geração de
bonequeiros. Durante um dos debates,
um americano pediu a palavra e disse,
em tom de desespero: “Estou em
pânico. Nos Estados Unidos já estão
fazendo teatro com hologramas. Eles
usam dezenas de projetores que criam
imagens no palco, muito mais
interessantes do que nossos
bonequinhos”.
Naquele momento, muitos acharam
costumo repetir: para cada tanto de
tecnologia, será necessário o mesmo
tanto de poesia.
Apresentamos muito em escolas
públicas, principalmente nas periferias,
onde o acesso à arte é menor. E é nesses
lugares que o teatro mostra seu
verdadeiro poder. As crianças podem se
divertir com jogos no celular, mas
dificilmente se comovem com eles. No
teatro, sim. Muitas choram, se
emocionam, se transformam. E eu me
pergunto: será que a inteligência
artificial conseguirá fazer isso um dia?
Talvez. Mas, por enquanto, acredito que
o humano, o olhar, a presença, a
emoção, continuará sendo
absolutamente necessário.
que o teatro de bonecos estava com os
dias contados. Mas o tempo provou o
contrário. De 1988 para cá, o teatro de
bonecos não só resistiu como ficou mais
forte, mais poético e mais humano.
foto by Thiago Cardinalli
Henrique, você disse que a magia é
muito humana, como quando uma
criança manipula seu brinquedo ou
pega um lençol e transforma em algo
imaginário.
um grupo muito privilegiado. Por
termos começado no início, as
oportunidades eram maiores do que
hoje. Sei que há muita gente talentosa
que não está tendo as mesmas chances
que tivemos.
Sim, é humano, profundamente
humano. Gosto de imaginar, e não sei
exatamente de onde veio essa imagem,
os humanos pré-históricos contando
suas histórias: a caçada do dia, ao redor
de uma fogueira na caverna, usando
pedrinhas ou gravando símbolos nas
paredes. Desde sempre, existe essa
relação do homem com o contar
histórias, com o se reunir para ouvir
narrativas, seja em volta de uma
fogueira ou em um teatro. Isso é nosso,
é humano, e será para sempre.
Quando começamos, em 1990, por
exemplo, trabalhávamos com Eva
Furnari, desenvolvendo um projeto
diferente e original, inspirado em livros
que já eram um grande sucesso na
época. Abrimos muitas portas em
escolas e, desde cedo, começamos a nos
apresentar nelas com frequência. Entre
1994 e 1996, por exemplo, chegamos a
recusar convites para apresentações aos
domingos na época, trabalhávamos de
segunda a sexta e precisávamos
descansar com a família.
Construímos assim uma rede de escolas
que se manteve por muitos anos, e
Como a Cia Truks consegue se manter?
Considerando as políticas culturais
atuais, especialmente para o tipo de
arte que vocês realizam, como o grupo
garante sua sobrevivência?
ainda hoje temos apresentações
regulares. Tive escolas que nos
recebiam todo dia 1º de outubro,
sempre com um espetáculo diferente.
Fomos muito agraciados com essas
oportunidades, mas, claro, sempre
Ah, aí você pegou na jugular! Como é
que a gente sobrevive? Há 35 anos! Sim,
35 anos! Falando sério, sinto que somos
trabalhamos com dedicação e
qualidade. Sem isso, não teríamos
conquistado a confiança das escolas
nem a possibilidade de voltar ano após
ano.
Para manter a qualidade, quando íamos
às escolas, levávamos uma torre de luz
enorme, cerca de 500 quilos de
material, e chegávamos três horas antes
para montar tudo. Mais tarde, alguns de
nossos projetos também foram
contemplados pelo Programa Municipal
de Fomento ao Teatro da Prefeitura de
São Paulo. Foi algo muito importante.
Criamos um espaço chamado Centro de
Estudos e Práticos de Teatro de
Animação um nome mais abrangente
para o que tradicionalmente se chama
Teatro de Bonecos.
A ideia surgiu porque muitas pessoas
foto by arquivo pessoal - Henrique
Trabalhávamos com seriedade, sem
fazer concessões. Por exemplo, em 1994
fomos à televisão pela primeira vez,
participando do programa Jô 11 e Meia.
A repercussão foi impressionante e, a
partir daí, surgiram convites de todo o
Brasil, o que ajudou o grupo a crescer e
se manter. Mas sempre trabalhando
com qualidade.
Tivemos até situações curiosas, como
quando a Coca-Cola nos pediu para
colocar uma garrafa em cena, sugerindo
que a bruxinha bebesse um
refrigerante. Nem respondemos nunca
fizemos concessões comerciais em
nosso trabalho.
nos procuravam, perguntando: “Como
vocês fazem isso?” Na época, não havia
escola nem referência formal para
aprender. Então pensamos: por que não
criar um centro onde essas pessoas
pudessem aprender?
Fizemos oficinas, convidamos grupos
para trabalhar e ministrar cursos, e
assim nasceu o projeto, que durou cerca
de 10 anos e se tornou uma importante
referência na formação de artistas do
teatro de animação. O projeto também
permitiu manter todos com trabalho
fixo. Ele terminou em 2012 e, a partir de
então, enfrentamos uma fase difícil,
especialmente entre 2015 e 2016, que foi
bastante desafiadora.
Não sei exatamente qual foi o principal
fator, mas havia várias questões
envolvidas. Uma delas era a situação
política do país na época. Muitas escolas
queriam saber se nossas peças tinham
conteúdo ideológico, perguntando
coisas como: “O que vocês vão fazer?
Decidimos então entrar com alguns
projetos e conseguimos patrocínio.
Hoje, esses projetos ajudam a manter a
companhia. Atualmente, somos 12
pessoas vivendo exclusivamente da
Truks, o que considero um grande
orgulho.
Vocês são de esquerda ou de direita?”
Eram os pais, a Associação de Pais e
Mestres; todos queriam saber se havia
conteúdo político nas peças. A situação
foi ficando complicada. Mais
recentemente, conversando com o
pessoal do Grupo Giramundo, de Minas
— outro grupo muito importante —
Henrique, imagino que a pandemia
tenha sido um grande desafio. Como a
Truks lidou com esse período? Vocês
recorreram às mídias digitais ou
encontraram outras formas de manter o
trabalho?
refletimos sobre esses desafios comuns
do teatro de bonecos no país. Nessa
conversa, veio a pergunta inevitável:
“Vocês vivem do quê?” Eu expliquei que
estamos passando por uma crise. Antes
fazíamos uma média de 300
apresentações por ano; hoje nem
chegamos a 100, e a situação está difícil.
Quando um ator sai, especialmente
quem manipula partes complexas do
boneco, leva anos para recuperar o nível
anterior. Temos pessoas que estão há
seis ou sete anos conosco, e não
podemos perder esse talento.
O pessoal do Grupo Giramundo
comentou sobre a Lei Rouanet, e eu
confesso que nunca tinha buscado.
A gente tentou se adaptar, mas foi um
período de desespero. O que nos salvou
foi um projeto aprovado pelo Fomento
ao Teatro, em que montamos pequenas
apresentações online sobre histórias de
vida de pessoas importantes.
Entrevistávamos as pessoas
virtualmente e depois reuníamos todo o
elenco de máscara para filmar. Esse
projeto gerou um pequeno recurso
mensal para cada integrante, o que
ajudou, mas foi muito difícil.
Durante a pandemia, também
perdemos membros do grupo que
seguiram outros caminhos. Tentamos
produzir vídeos e explorar plataformas
como o YouTube, mas rapidamente
percebemos que não era nossa praia. Eu
passei a escrever projetos para a Lei
Rouanet, muitos dos quais foram
aprovados mais tarde e se tornaram
viáveis.
O desafio imediato da pandemia exigiu
improviso e criatividade. Foram
Já Cidade Azul marcou uma mudança:
foi a primeira vez que senti que queria
dizer algo do meu coração, falar sobre
algo sério. Contamos a história de um
menino em situação de rua, um
espetáculo emocionante que abordava
uma questão social presente ao nosso
redor. Lembro de um dia, parado no
momentos
assustadores,
farol da Henrique Schaumann com a
desanimadores e tristes, diante de toda
a tragédia que o mundo enfrentava. A
experiência nos fez questionar: se algo
assim acontecer de novo, como vamos
sobreviver?
Rua do Brasil, e olhando de lado vi um
garotinho descalço, com roupas
rasgadas, brincando com duas latas
uma de Coca-Cola e outra do Leite Leve,
do então prefeito. Foi uma imagem que
reforçou a urgência de contar histórias
que refletem a realidade do nosso país.
qual espetáculo você considera o
verdadeiro divisor de águas na
trajetória da Cia Truks? Aquele que
marcou uma mudança importante para
o grupo?
E aquilo para mim foi muito... E ele
pegava as latas, ele segurava a lata
grande aqui, e a outra lá, que ele fazia
um cachorrinho. E eu olhei e falei, gente,
ele está fazendo teatro de bonecos, e da
melhor qualidade
Ah, a Bruxinha é muito importante,
extremamente importante. Mas, sete
anos depois, em 1997, fizemos Cidade
Azul, que considero o verdadeiro divisor
de águas da Cia Truks. A Bruxinha era
lúdica, bonita, com um diálogo direto
com as crianças uma peça que ainda
hoje provoca a mesma reação que
provocava em 1990.
foto by arquivo Site Cia Truks
Enquanto brincávamos com o boneco,
ele interagia, e aquela imagem ficou na
minha cabeça. Foi aí que percebi:
preciso fazer esse espetáculo. A cena
era carregada de contradições, os
símbolos do poder, aquele menino tão
frágil, mas também tão poderoso,
brincando, se divertindo, rindo. Naquela
época, havia rumores de que crianças
nas periferias poderiam ser violentas,
mas ele estava ali, apenas sendo uma
criança. Para mim, isso foi muito
marcante.
Cidade Azul foi, sem dúvida, um divisor
de águas. Depois vieram outros
trabalhos importantes: Senhor dos
Sonhos, Vovô e O Zoológico. Neste
último, tivemos a coragem de trabalhar
de forma intensa com objetos. Cada
espetáculo representou um passo no
amadurecimento do grupo, explorando
novas possibilidades e linguagens
dentro do teatro de bonecos. O Vovô
também foi um espetáculo muito
importante. Conta a história do meu
avô, que foi, de certa forma, um “vovôpapai”
para mim, e continua sendo uma
grande referência para toda a nossa
família. Criar um espetáculo inspirado
nele foi profundamente emocionante.
Cada obra da Truks tem sua
particularidade, mas eu diria que os
momentos mais marcantes da
companhia são: A Bruxinha, Cidade
Azul, Vovô e, depois, O Zoológico, que
trouxe uma mudança significativa no
nosso jeito de criar e explorar o teatro
de bonecos.
Henrique, você acredita que os bonecos
sempre terão espaço para se reinventar
e crescer dentro do teatro
contemporâneo?
Eu acredito que sim. O boneco é muito
querido; o ser humano gosta de vê-lo.
Não sei exatamente qual é o mecanismo
mental, mas há algo de fascinante em
ver a vida reproduzida nos bonecos.
Brinco que eles são feitos à nossa
imagem e semelhança. Ao manipulálos,
é como se estivéssemos brincando
de ser Deus, controlando a vida daquele
serzinho — embora talvez também
sejamos controlados de alguma forma.
Vejo que vêm surgindo gerações
incríveis, jovens fazendo trabalhos
maravilhosos, muito criativos e bem
executados. O teatro de bonecos
brasileiro é de altíssima qualidade.
Ainda enfrentamos aquela síndrome do
“vira-lata”, que valoriza sempre o que
vem de fora, mas o nosso é, de fato,
muito bom e merece reconhecimento.
Olha, estivemos recentemente no Sesc,
no dia 24 de maio, apresentando O
Vovô. Agora, nos dias 11 e 12 de outubro,
tivemos outra temporada. No dia 12, ao
final do espetáculo, aproximou-se um
casal com um sotaque muito marcado,
hispânico. Eles disseram: “Olá, buenas
tardes... somos da Espanha, moramos
em Madrid e nunca vimos nada
parecido.” Fiquei impressionado —
receber esse reconhecimento de
alguém da Europa foi realmente
emocionante.
Eu brinco que, nos anos 90, existiam o
Guia da Folha, o caderno de cultura do
Estadão, do Jornal da Tarde. Muitas
vezes, os críticos assistiam aos
espetáculos no fim de semana anterior
e a crítica saía na sexta-feira. Da quinta
para a sexta, eu não dormia de tanta
ansiedade. Ficava pensando: o que vão
falar do meu espetáculo? O que o
público vai pensar?
Hoje em dia, quando sai uma crítica, eu
olho e penso: “Ai, nossa, é grande...
depois eu leio com calma.” Então, esse
longo caminho me fez ficar, acho que,
E se você fosse um boneco, Henrique...
qual boneco da Cia Truks você seria, e
por quê?
Ai, e aí se fosse eu? Olha, essa é uma
surpresa. Olha, eu não sei, eu estou
assim... Acho que é engraçado, os anos
vão passando e a gente vai ficando
menos sério. Pelo menos está
acontecendo comigo, eu não sei
quantas pessoas, mas passando dos
60...Perde-se a paciência com um
monte de coisa, mas também muitas
outras coisas a gente começa a levar na
brincadeira. Também há muito da carga
de seriedade.
um pouco mais leve, mais brincalhão,
mais irreverente. Eu até brinco, o
pessoal brinca, eu dirijo a Truks há
muitos anos. Então, a gente fala, às
vezes, a gente chama, com essa coisa de
também os atores acabarem fazendo
outras coisas, eu chamo integrantes
antigos da companhia. E aí, quando a
gente começa a trabalhar lá nos
ensaios, outro dia, até a Camila, que foi
uma das, ela ficou na Truks entre 2005 e
2014. Então, a gente foi ensaiar outro dia
e aí ela olhou assim e falou, nossa, não
te reconheço, Henriquinho, paz e amor,
porque perto do que você era, que eu
era. Então, eu seria esse boneco, seria
bem, assim, brincalhão, irreverente,
Olha, estivemos recentemente no Sesc,
no dia 24 de maio, apresentando O
Vovô. Agora, nos dias 11 e 12 de outubro,
tivemos outra temporada. No dia 12, ao
final do espetáculo, aproximou-se um
casal com um sotaque muito marcado,
hispânico. Eles disseram: “Olá, buenas
tardes... somos da Espanha, moramos
em Madrid e nunca vimos nada
parecido.” Fiquei impressionado —
receber esse reconhecimento de
alguém da Europa foi realmente
emocionante.
Eu brinco que, nos anos 90, existiam o
Guia da Folha, o caderno de cultura do
Estadão, do Jornal da Tarde. Muitas
vezes, os críticos assistiam aos
espetáculos no fim de semana anterior
e a crítica saía na sexta-feira. Da quinta
para a sexta, eu não dormia de tanta
ansiedade. Ficava pensando: o que vão
falar do meu espetáculo? O que o
público vai pensar?
Hoje em dia, quando sai uma crítica, eu
olho e penso: “Ai, nossa, é grande...
depois eu leio com calma.” Então, esse
longo caminho me fez ficar, acho que,
E se você fosse um boneco, Henrique...
qual boneco da Cia Truks você seria, e
por quê?
Ai, e aí se fosse eu? Olha, essa é uma
surpresa. Olha, eu não sei, eu estou
assim... Acho que é engraçado, os anos
vão passando e a gente vai ficando
menos sério. Pelo menos está
acontecendo comigo, eu não sei
quantas pessoas, mas passando dos
60...Perde-se a paciência com um
monte de coisa, mas também muitas
outras coisas a gente começa a levar na
brincadeira. Também há muito da carga
de seriedade.
um pouco mais leve, mais brincalhão,
mais irreverente. Eu até brinco, o
pessoal brinca, eu dirijo a Truks há
muitos anos. Então, a gente fala, às
vezes, a gente chama, com essa coisa de
também os atores acabarem fazendo
outras coisas, eu chamo integrantes
antigos da companhia. E aí, quando a
gente começa a trabalhar lá nos
ensaios, outro dia, até a Camila, que foi
uma das, ela ficou na Truks entre 2005 e
2014. Então, a gente foi ensaiar outro dia
e aí ela olhou assim e falou, nossa, não
te reconheço, Henriquinho, paz e amor,
porque perto do que você era, que eu
era. Então, eu seria esse boneco, seria
bem, assim, brincalhão, irreverente,
solto, que é como eu estou me sentindo, eu estou me sentindo bastante assim.
Então, acho que seria esse personagem por aí.
foto by Alberto Rocha
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Graças a uma equipe talentosa e dedicada,
chegamos à nossa última edição de 2025 com muito
orgulho. Agradecemos profundamente o empenho
de todos os profissionais que fazem a Revista
ICONIC acontecer, e a você, leitor, que caminha
conosco a cada página.
Desejamos um Feliz Natal e um 2026 repleto de
saúde, conquistas e inspiração!
Marilu Gomes
Editora Chefe