Revista Dr Plinio 334
Janeiro de 2026
Janeiro de 2026
- Nenhuma tag encontrada…
Transforme seus PDFs em revista digital e aumente sua receita!
Otimize suas revistas digitais para SEO, use backlinks fortes e conteúdo multimídia para aumentar sua visibilidade e receita.
Publicação Mensal
Vol. XXIX - Nº 334 Janeiro de 2026
Olhar confiante posto
na Mãe de Deus
Manifestação do
Rodrigo H.
divino poder
Cerro Torres, Chile
Em certas montanhas encontramos fendas nas quais se vê a violência dos movimentos
telúricos, dos terremotos, que chegaram à formação dessas massas
potentes, e pode-se pensar na força de Deus. Como diz a Escritura, o Senhor
faz as montanhas saltarem como carneiros (cf. Sl 113, 4). Vemos como Deus Se manifestou
para mostrar aos homens o seu poder.
Tem isso algo de formoso? Sim, porque é belo o poder que está a serviço do bem. A
força a serviço da grandeza e do direito é magnífica em si mesma. Nesse sentido, a verdadeira
violência é a sacrossanta violência de Deus modelando o universo.
Aliás, não se pode falar de violência d’Ele, porque ela supõe um grande esforço, e
para Deus não há esforço; há grandes realizações operadas por um ato da vontade soberana
e onipotente.
Ao contemplar panoramas rochosos, poder-se-ia ajoelhar e exclamar: Sanctus, Sanctus,
Sanctus, Dominus Deus Sabaoth – O Senhor Deus dos Exércitos é três vezes Santo.
(Extraído de conferência de 14/1/1974)
Sumário
Publicação Mensal
Vol. XXIX - Nº 334 Janeiro de 2026
Vol. XXIX - Nº 334 Janeiro de 2026
Olhar confiante posto
na Mãe de Deus
Na capa,
Dr. Plinio em 1983.
Foto: Arquivo Revista
As matérias extraídas
de exposições verbais de Dr. Plinio
— designadas por “conferências” —
são adaptadas para a linguagem
escrita, sem revisão do autor
Dr. Plinio
Revista mensal de cultura católica, de
propriedade da Editora Retornarei Ltda.
ISSN - 2595-1599
CNPJ - 02.389.379/0001-07
INSC. - 115.227.674.110
Diretor:
Roberto Kasuo Takayanagi
Conselho Consultivo:
Jorge Eduardo G. Koury
Roberto Kasuo Takayanag
Vicente de Paula Torres Nunes
Redação e Administração:
Rua Virgílio Rodrigues, 66 - sala 1 - Tremembé
02372-020 São Paulo - SP
Impressão e acabamento:
Pigma Gráfica e Editora Ltda.
Av. Henry Ford, 2320
São Paulo – SP, CEP: 03109-001
Leia o QR Code para
acessar nossas redes sociais
Preços da
assinatura anual
Comum............ R$ 300,00
Colaborador ........ R$ 400,00
Benfeitor........... R$ 500,00
Grande benfeitor.... R$ 800,00
Exemplar avulso..... R$ 25,00
Serviço de Atendimento
ao Assinante
revistadrplinioassinatura@gmail.com
Segunda página
2 Manifestação do divino poder
Editorial
4 Servir-Te, ó Maria,
é reinar!
Piedade pliniana
5 Comunicai-me
as chamas de vosso zelo
Dona Lucilia
6 Uma dama afável e acolhedora,
que o mundo não quis compreender
Hagiografia
9 São Timóteo, audaz
invectivador dos maus
De Maria nunquam satis
12 A Salve-Rainha: um tratado
de teologia marial
Reflexões teológicas
18 Encontro impregnado
de enlevo
Questionando a Revolução Industrial
22 Cristo gladífero, modelo para
os católicos do século XXI
Luzes da Civilização Cristã
32 Entre o trágico e o feérico
Última página
36 Rainha da Paz e da Vitória
3
Editorial
Servir-Te, ó Maria, é reinar!
Ao iniciar o ano, em vez de olhar para o dia de hoje tentando desvendar, com os dados que ele nos apresenta, o
dia de amanhã, seria mais interessante colocarmo-nos na perspectiva grandiosa revelada nas palavras dirigidas
pelo Santo Padre Pio XII aos homens da Ação Católica italiana, a 12 de outubro de 1952.
Remontemos com o Papa até o século XVI. Desse distante ponto de mira veremos melhor o futuro que nos aguarda,
talvez em data não muito remota, se não tomarmos o caminho de uma verdadeira emenda.
Fala-nos o Papa de três revoluções religiosas sucessivas. A primeira teve como brado de guerra: “Jesus Cristo sim,
a Igreja não”. Clara alusão ao protestantismo que irrompeu no século XVI. A segunda lançou um brado de guerra
mais audacioso: “Deus sim, Jesus Cristo não”. O Sumo Pontífice se refere evidentemente ao deísmo do século XVIII,
que culminou com a festa do Ser Supremo durante a Revolução Francesa. Por fim veio uma terceira revolução, tendo
por lema: “Deus morreu, ou antes Deus nunca existiu”. É uma indiscutível alusão ao ateísmo do século XIX. Como
fato mais recente, o Papa indica uma consequência imensa no campo político, econômico e social: “Eis agora a tentativa
de construir o mundo sobre bases que não hesitamos em apontar como as principais responsáveis pela ameaça
que pesa sobre a humanidade: uma Economia sem Deus, um Direito sem Deus, uma Política sem Deus”.
Onde há uma Política, uma Economia e um Direito sem Deus? Praticamente, no mundo inteiro. É este mundo, do
qual se expulsou Deus, que se trata agora de organizar em bases novas.
Com efeito, nos Tempos Modernos o regime de união entre a Igreja e o Estado, que tem como corolário lógico a
soberania da Lei de Deus no Direito, na Política e na Economia, começou a ser falseado. Conservando embora as
aparências da união, o Estado laicizou gradualmente esferas cada vez mais vastas da vida temporal, e interveio abusivamente
no domínio espiritual. Aquilo que antes da Revolução Francesa era uma simples situação de fato, depois dela
passou a ser também uma situação de direito. Em outros termos, a vida temporal se foi tornando cada vez mais leiga
e ao mesmo tempo o laicismo passou a ser oficialmente proclamado como o próprio fundamento da organização
política, econômica e social. Em consequência, quase por toda a parte a Igreja foi sendo separada do Estado, e se tornou
oficial que Deus nada mais tem que ver com a existência terrena dos homens.
Tal é o golpe tremendo, a chaga profunda de que padece o mundo contemporâneo. O mais – guerras, crises, confusão
– não passa de consequência. E como não se faz cessar uma moléstia sem atacar as suas causas, enquanto não
abandonarmos o laicismo e não voltarmos para uma sociedade que seja autenticamente católica de direito e de fato,
estaremos caminhando de catástrofe em catástrofe até a crise que ponha fim a esta civilização.
Não é em vão que o Sumo Pontífice, falando do “inimigo” misterioso, autor de todas as desgraças de nossos dias,
o compara a Átila. Com efeito, a figura do famoso chefe huno passou para a História e para a lenda como a personificação
da força destruidora no auge de seu ímpeto, de sua universalidade, de sua invencibilidade. Ao que se conta,
ele mesmo se intitulava “flagelo de Deus” e se jactava de uma tal força de destruição que nem a erva renascia sob as
patas de seu cavalo.
Invadindo a Europa, já destroçara todas as linhas de defesa do Império Romano cristianizado. A conquista de Roma
representava para ele a derrota do mundo civilizado. A capital da Cristandade estava sem soldados, sem armas,
sem defesa. Nessa situação trágica, o Papa São Leão I saiu ao encontro do rei huno, seguido apenas de pequena comitiva
e confiando unicamente na Providência Divina. Segundo documentos antigos, Átila, ao se acercar do Santo Pontífice,
percebeu no céu os vultos de São Pedro e São Paulo que, com expressão terrível, ordenaram-lhe que retrocedesse.
Obedeceu-lhes o “flagelo de Deus”. Roma estava salva. Em face de Átila São Leão I passou a encarnar para todos
os séculos vindouros a virtude da confiança, pela qual o fiel, mesmo nas situações mais extremas, não perde o alento
e continua a lutar, esperando tranquilamente em Deus.
Caminhemos com ânimo calmo, vontade resoluta, sobranceria inalterável, nestes primeiros dias de um novo ano,
olhando menos para Átila e seu poderio tremendo do que para o Papa São Leão e seu admirável exemplo.
Nós vivemos dias de confusão, cheios de incógnitas pesadas e terríveis; dias em que só uma coisa deve ser certa: é
a deliberação de sermos cada vez mais de Nossa Senhora, mais unidos a Ela e dispostos a lutar por Ela.
Confiantes na intercessão onipotente de Nossa Senhora, continuaremos a lutar, certos de que a vitória será nossa.
Há uma frase latina que pode ser aplicada a Nossa Senhora: “Tibi servire, regnare est – servir-Te, ó Maria, é reinar”.
Nós queremos para nós esta forma de realeza: servir a Maria ilimitadamente, até a hora em que Ela nos acolha no Céu.*
* Cf. Catolicismo n. 25, janeiro de 1953 e conferência de 26/12/1989.
Declaração: Conformando-nos com os decretos do Sumo Pontífice Urbano VIII, de 13 de março de 1625 e
de 5 de junho de 1631, declaramos não querer antecipar o juízo da Santa Igreja no emprego de palavras ou
na apreciação dos fatos edificantes publicados nesta revista. Em nossa intenção, os títulos elogiosos não têm
outro sentido senão o ordinário, e em tudo nos submetemos, com filial amor, às decisões da Santa Igreja.
4
Piedade pliniana
Luis C.R. Abreu
Comunicai-me
as chamas de
vosso zelo
Minha Mãe, olhai para as condições de minha alma.
Vede serem elas tais, que eu não consigo de
nenhum modo me preparar convenientemente
para a missão tão grande que Vós quereis atribuir não só à
minha fraqueza, mas à minha pouca fidelidade.
E por isso, minha Mãe, tende pena de mim e fazei com
que vosso Coração Imaculado e Sapiencial seja como que
transplantado para meu peito pecador; que meu coração tíbio
e fraco já não seja senão um prolongamento do vosso,
e se possa dizer não ser mais o meu coração que pulsa, mas
que é o vosso Coração Imaculado que pulsa em mim.
Que eu não deseje outra coisa senão querer o que Vós
quereis, pensar o que Vós pensais, dar-me a Vós de um modo
superlativo e completo, para que as virtudes que defluem
Nossa Senhora da
de Vós e que de nenhum modo se podem encontrar em minha
miséria e minha falta de correspondência animem a mi-
Conceição - Mosteiro de
Santa Cruz, Coimbra
nha alma e me movam àquilo ao qual eu não sou capaz de
me mover.
Para que não aconteça, minha Mãe, a desventura das desventuras: que eu não esteja
pronto para o encontro convosco no dia em que me pedirdes um ânimo varonil, um espírito
decidido, um braço forte, no dia e na hora em que aparecerdes diante de mim pedindo-
-me que lute.
O meio para que essa desventura não suceda é pedir-Vos precisamente que façais de mim
um prolongamento de vossa pessoa, comunicando-me vossas virtudes e preparando minha
alma.
Eu estou como o paralítico à beira da piscina de Siloé: preciso de alguém para me carregar
e me jogar nas águas de vossa misericórdia. Eu Vos peço: mandai meu Anjo da Guarda
fazer isso e que, no momento oportuno, me fale e faça de mim um verdadeiro apóstolo dos
últimos tempos, no sentido pleno e autêntico da palavra, como está descrito por São Luís
Grignion de Montfort na sua Oração Abrasada.
Ó Coração Imaculado de Maria, fornalha ardente de caridade a exemplo do Coração Sagrado
de vosso Divino Filho, comunicai-me todas as chamas de vosso zelo, para que Vós,
cuja prece conseguiu que a água insípida, fria e banal se transformasse num vinho saboroso,
generoso e forte, façais de mim, pecador, um apóstolo dos últimos tempos.
(Composta em 28/7/1967)
5
Dona Lucilia
Arquivo Revista
Pravin Mishra(CC3.0)
Ainda tradicional, mas
eivado de espírito moderno,
o mundo formava um vazio
em torno de Dona Lucilia,
o qual tornava notória sua
posição contrarrevolucionária,
tantas vezes incompreendida.
Pequenos fatos de sua
vida ressaltavam aos olhos
de Dr. Plinio esse choque
entre ela e a Revolução.
Dona Lucilia nos fins
dos anos de 1960
A
respeito da oposição de
Dona Lucilia ao mundo
revolucionário, eu teria
mil fatinhos a contar, mas tão pequenininhos
que ficam na minha cabeça
como uma Via Láctea. Quando olhamos
para o céu, não vemos estrela
por estrela, e sim uma coisa esbranquiçada
dentro da qual sabemos que
estão as estrelas.
Posição contrarrevolucionária
de Dona Lucilia
Lembro-me de uma infinidade de
pequenos fatos que eram mais do
mundo com ela do que dela com ele.
Ou seja, o mundo tomava uma atitude
de um polido, mas real e completo
rechaço em relação a mamãe,
e ela, sempre afável, acolhedora, não
mudava de posição. Não que ela o
rejeitasse, porque tudo em torno dela
era ainda antigo, tradicional. Entretanto,
ele fazia o vazio em torno
dela.
Por causa desse vazio – que se traduzia
em mil pequenas coisas – notava-se
a posição contrarrevolucionária
dela e como ela entrava em luta
com o mundo.
6
Arquivo Revista
É-me difícil especificar, mas dou
um exemplo: as senhoras, ao menos
aqui no Brasil – mas deve ser
pelo mundo inteiro –, vivem muito
mais de contar fatinhos do que de
comentar doutrinas. Em geral são
acontecimentos da vida delas, episódios
que se passaram com parentes
ou conhecidos do mundo no qual se
movem. Às vezes elas comentam o
fato, mas pouco; habitualmente são
meras narrações.
Dona Lucilia era de uma época
antiga, do velho Brasil sossegado,
tranquilo, do tempo do Império;
ela alcançou ainda a era dos escravos
e contava episódios com muitos
pormenores, para o detalhe dar o sabor
ao fato.
Mais ou menos a partir de 1920,
se estabeleceu no Brasil um estilo
de conversar muito americanizado:
as pessoas continuavam a contar fatos,
mas ultrarresumidos, ultrarrápidos
e sem detalhes de nenhuma espécie.
Percebe-se que o mundo não
gostava do modo de mamãe narrar,
porque o achava démodé. 1 Na concepção
dela, o suco do fato estava no
pormenor.
Ademais, ela tinha uma peculiaridade
frequente nas pessoas de idade,
mas que hoje em dia estas tomam
muito cuidado em evitar, porque
as mais novas não gostam: ela
repetia fatos já conhecidos… Tudo
isso, que parece insignificante, decorria,
no fundo, de uma posição
contrarrevolucionária e ocasionava
mil incompreensões. Eu
via que as pessoas formavam
o propósito de não procurá-la
para não ter que ouvir essas
histórias.
O fato do carneirinho
Lembro-me, por exemplo,
de um fato contado por ela
para manifestar o modo de seu pai
– a quem ela venerava – combater o
sentimentalismo nela.
Mamãe era uma menina de seus
10 anos, seu pai era fazendeiro, possuía
uma criação de gado – carneiros,
entre outros – e tinha lhe dado
de presente um carneirinho... Ele
deixava-a brincar e mimar o animal,
coisa de criança.
Um dia, o empregado da fazenda
– creio que ainda era um escravo –
aproximou-se dela e disse-lhe baixinho:
— Sinhazinha, eu vou lhe contar
uma coisa, mas não diga que fui eu
que falei.
Os homens eram chamados pelos
escravos de sinhô, a filha e a esposa
do dono eram chamadas de sinhá,
que era um modo de eles dizerem
senhor e senhora, e quando se
tratava de uma criancinha, chamavam-na
de sinhazinha.
— O que é? – perguntou a menina
Lucilia.
— Sinhô Doutor – que era o pai
dela – resolveu mandar matar o seu
carneiro e ele já está sendo preparado
para amanhã. E os carneiros,
quando estão sendo preparados para
Arquivo Revista
Em destaque,
Dr. Antônio
Ribeiro dos Santos,
pai de Dona
Lucilia. Ao lado,
Fazenda Santo
Antônio das
Palmeiras, como
era na época de
Dana Lucilia
7
Dona Lucilia
Arquivo Público do Estado de São Paulo (CC3.0)
serem mortos, ficam tristes. Seu carneiro
está chorando porque vai morrer
amanhã.
Ele não devia ter contado, foi
uma estupidez ou uma maldade. Ela
ficou alvoroçadíssima, porque para
uma criança de 10 anos saber que
vão matar seu carneiro... Foi correndo
falar com o pai – ela não contou
como soube – e pediu para ele não
matar o carneiro.
O pai a atendeu com toda a bondade
e disse: “Minha filha, eu tenho
muitos outros carneiros e podia
atender o seu pedido; teria gosto
em atendê-lo para você não chorar.
Mas você precisa aprender a viver:
a um animal não devemos querer
bem como a uma pessoa, porque
bicho não é gente. Com ele brinca-se
um pouco, mas quando chega a hora
de matar, mata-se! Portanto, vou
matar seu carneiro”.
Ele fez muito bem. Ela abraçou-o,
beijou-o, reiterou o pedido... O pai
tratou-a com muita bondade, mas no
dia e na hora marcada ela viu o homem
levar o carneiro para morrer.
É um fenômeno curioso, mas carneiros,
quando vão sendo levados para
morrer, choram. Esse carneiro foi
chorando e ela também chorou como
nunca. Mas o pai foi irredutível
para com ela.
Objeções modernas e
revolucionárias
Mamãe contava esse caso e as
pessoas que a ouviam faziam as seguintes
objeções modernas e revolucionárias:
“É um fato velho, passou-
-se há muito tempo e só casos recentes
interessam”. Esse é um dos dogmas
da conversação moderna.
Por outro lado, ela contava pormenorizadamente,
com vistas a
acentuar o episódio. Ora, para o espírito
moderno, bastava resumir numa
palavra o que o pai tinha feito e
como ela o recebeu, e já a essência
do fato estava mais do que contada.
Além disso, tratava-se de um fato
que, no fundo, não deixava de ter
uma certa nota de tristeza, porque
acabava dando a entender como a vida
é triste, como às vezes é preciso
massacrar sentimentos delicados para
impor o espírito de luta que a vida
deve ter. Ora, segundo a mentalidade
moderna, só convém contar episódios
alegres.
Resultado, como ela era uma senhora
respeitável, ouviam-na com
respeito, mas com fisionomia de monotonia.
Ela notava isso, mas não sabia
a razão, porque o espírito moderno
era outro mundo que estava
aparecendo. Ela percebia que, se
não contasse, cedia a alguma coisa
de mal que havia neles.
Detalhes que apresentam
interesse para quem tem
senso da tradição
Assim se poderiam dar vários
exemplos. Ela contava muitos fatos
antigos, do tempo em que ela era
menina ou moça.
Em São Paulo, quando os automóveis
começaram a ser fabricados
e a se introduzir, e mesmo quando
seu uso tornou-se generalizado, para
as ocasiões de solenidade
utilizavam-se ainda muito coches
com cavalo. Minha mãe
gostava de contar que o casamento
dela foi o primeiro
em São Paulo no qual os noivos
usaram automóvel. Eram
dois automóveis importados,
bonitos, ornamentados especialmente
para o casamento.
Para nós, porque temos o
senso da tradição, esses detalhes
apresentam um certo interesse,
mas não no mundo
afora. Assim havia centenas
de coisas que representavam
o choque dela com o mundo
revolucionário. v
(Extraído de conferência de
16/7/1982)
Rua de São Paulo no início do Século XX
1) Do francês: fora de moda.
8
Père Igor (CC 3.0)
Hagiografia
São Timóteo,
audaz invectivador
dos maus
Diante do mal e do erro, São
Timóteo não temia uma atitude
de ataque frontal. Sabendo que
podiam lhe advir inconvenientes e
perseguições, ele não se acovardava
e assim sacrificou a própria vida.
Há ocasiões nas quais devemos
ser jeitosos e há momentos em
que deve prevalecer a audácia.
No dia 26 de janeiro, a
Igreja celebra a festa de
São Timóteo, bispo e
mártir. A respeito dele diz D. Guéranger:
1
Por sua fama de santidade,
torna-se bispo de Éfeso
Timóteo, nascido em Listra, na Licaônia,
filho de pai gentio e mãe judia,
já praticava a religião cristã quando
o Apóstolo Paulo chegou àquela região.
Paulo, impressionado com a fama
de santidade de Timóteo, tomou-
-o por companheiro de viagem. Contudo,
por causa dos judeus que se convertiam
a Jesus Cristo e que sabiam
que o pai de Timóteo era pagão, Paulo
São Timóteo - Igreja de São Timóteo,
Paussac-et-Saint-Vivien, França
o circuncidou. Quando ambos chegaram
a Éfeso, o Apóstolo fê-lo bispo a
fim de que governasse essa Igreja.
Paulo escreveu-lhe duas cartas,
uma de Laodiceia e outra de Roma,
para orientá-lo no exercício de seu
cargo pastoral. Como Timóteo não
podia aceitar que se oferecessem aos
ídolos dos demônios o sacrifício devido
somente a Deus, um dia em que os
habitantes de Éfeso imolavam vítimas
a Diana durante uma de suas festas,
ele esforçou-se em dissuadi-los dessa
impiedade, mas eles o lapidaram. Os
cristãos o transportaram semimorto e
o levaram a um monte nas proximidades
da cidade, onde ele adormeceu no
Senhor, no nono dia das calendas de
fevereiro.
9
Hagiografia
Divulgação (CC3.0)
Martírio de São Timóteo - Biblioteca Vaticana
Após uma invectiva contra
uma mulher culpada,
inicia-se a perseguição
Ainda sobre São Timóteo, temos
esta ficha narrando uma visão de
Ana Catarina Emmerich: 2
Timóteo, discípulo de São Paulo,
foi feito prisioneiro na ilha de Quios,
ao mesmo tempo em que o Apóstolo
São João estava cativo na ilha de Patmos.
Sempre o vi alto, moreno, magro
e pálido. […] Foi muito estimado
por todos. Mantinha uma comunidade
de convertidos. Até os soldados que
o rodeavam queriam-lhe bem. Havia
uma mulher nobre, cristã, que caíra
em grave culpa. Enquanto Timóteo
celebrava os Sagrados Mistérios numa
pequena igreja, já no altar, conheceu
por revelação a culpa daquela pessoa
que chegava à igreja para ouvir Missa.
O santo bispo saiu então à porta e impôs
penitência à mulher, impedindo-a
de entrar. Em consequência disso, levantou-se
uma perseguição contra o
santo. Foi desterrado para a Armênia
e libertado. São Paulo o enviou como
bispo a Éfeso. Nessa cidade foi morto
porque havia condenado com veemência
as desordens e as orgias celebradas
naqueles dias, com máscaras,
levando ídolos em bacanais.
Ao aproximar ambos os trechos
– a hagiografia histórica de D. Guéranger
e a revelação mística de Ana
Catarina Emmerich –, notamos uma
concordância completa entre um e
outro.
Resoluto em desmascarar o erro
Maquete do templo de Diana
É importante considerar aqui dois
aspectos: em primeiro lugar, a coragem
dele invectivando o culto a Diana.
O templo dessa deusa, em Éfeso,
era dos mais célebres da gentilidade,
considerado uma das obras-primas
do mundo antigo.
Eu cheguei a ver reconstruções
desse templo e realmente era uma
beleza! Uma construção de mármore
branco que ficava no alto de uma escadaria
e tinha a forma quase de um
quadrado. A proporção entre a escadaria
encimada pelo templo dava um
aspecto muito bonito e agradável de
se ver. O teto era também bem proporcionado
e com uma figura no alto.
Não era mais a arte grega pura, mas
a helenística, que mistura algo do
Oriente e que hoje é censurada pelos
críticos de arte como pouco pura,
mas que não deixou de inspirar algumas
obras-primas muito importantes.
Ora, nesse templo, a deusa Diana
operava toda espécie de ações maravilhosas,
mirabolantes. Eram prodígios
do demônio que agia por esse
meio. E São Timóteo, indo àquele
local e querendo fazer cessar esse
culto, manifestou uma coragem,
uma capacidade de enfrentar o adversário
e uma decisão verdadeiramente
extraordinárias.
Em consequência, o que aconteceu?
Ele foi perseguido, lapidado e
morreu.
O mesmo aconteceu no fato da
mulher que foi à igreja onde ele ia celebrar
Missa. Ele teve uma notícia de
que ela pecara e achou que não podia
deixá-la aproximar-se dos Santos
Mistérios. Então exigiu que ela fizesse
uma penitência na entrada da igreja.
Ela não quis. Era uma mulher nobre.
Naquele tempo a nobreza tinha
uma grande situação, pelo menos em
vários países. Entrevê-se pela narração
que ela tomou uma atitude de revolta
e açulou muita gente contra ele.
Por isso ele quase morreu, foi expulso
da cidade e exilado na Armênia.
No estandarte, um
leão ou uma raposa?
Nos dois casos vemos a mesma
atitude. Diante do mal e do erro,
uma posição de ataque frontal e flagrante,
sabendo que poderiam vir inconvenientes,
perseguições. Ele não
Zee Prime(CC3.0)
10
se incomodava e numa dessas ele sacrificou
a própria vida.
Isso significa que se deva proceder
sempre assim? Nós não podemos
dizer que, muitas vezes, não procedemos
assim? Mas muitas vezes não
nos esgueiramos? Houve uma pessoa
que, com certo espírito, declarou que
o animal que deveria figurar em nosso
brasão não era um leão, mas uma
raposa, de tal maneira damos vueltas
y vuelteretas. E é verdade que nosso
leão sabe dar passos de raposa. Isso
não tem dúvida nenhuma.
Giotto di Bondone (CC3.0)
Saber quando imitar e
quando apenas admirar
O que acontece na vida de certos
Santos é que eles, por inspiração
divina, têm uma linha de conduta
que não é para ser seguida por todo
mundo, mas é para inspirar atitudes
em outros. São os tais Santos que fazem
as coisas que são para serem admiradas
e não são para serem sempre
imitadas. Mas, na beleza da sua
atitude, eles fazem algo que inspira
outros a, no momento oportuno, fazerem
o que eles fizeram.
É um pouco como São Francisco de
Assis com seu pai. Pedro Bernardone
brigou com São Francisco e lhe disse:
— Você não é meu filho!
São Francisco tirou a roupa, ficou
quase nu diante do pai e respondeu:
— Graças a Deus, fique com essa
roupa, porque eu não sou mais filho
de Pedro Bernardone… Mais veridicamente
que nunca eu posso dizer
“Pai nosso, que estais no Céu…”
Não se deve deduzir daí que todo
mundo que brigue com o pai deva tirar
a roupa. Mas há algo no ato dele
que inspira a tomar uma atitude
enérgica nos momentos oportunos.
O Grupo tem lances de muita
energia e de uma energia bravia.
Mas há horas em que devemos ser
audaciosos e há horas em que devemos
ser jeitosos. Nós devemos admirar
nos Santos a audácia e o jeito.
São Francisco renuncia aos bens terrenos - Basílica de São Francisco de Assis, Itália
Santo Inácio de Loyola foi extremamente
audacioso e extremamente
jeitoso. E São Timóteo é um Santo
admirável, que nos mostra muita
audácia.
Audaciosos e jeitosos
Alguém me perguntará: “Dr.
Plinio, o que o senhor admira mais:
a audácia ou o jeito?
Eu sou obrigado, pelas circunstâncias,
a todos os jeitos e trejeitos,
mas meu coração e minha alma vão
para a audácia. Dizer de frente, dizer
no duro, de uma vez, romper,
enfrentar, rachar… oh, delícia! Oh,
maravilha! Só de dizer isso eu floresço,
se é que se pode dizer que um
homem é uma flor. O que se pode
fazer? Deus me livre de faltar com
a audácia numa hora em que devo
ser audacioso. Mas, Deus me livre de
faltar com o jeito na hora em que tenho
que ser jeitoso.
A audácia é uma virtude mais difícil
que o jeito. Ela supõe que se arrisque
a pele, enquanto muitas vezes
o medo se camufla atrás do jeito.
De maneira que mais vale a pena
insistir sobre a audácia do que sobre
o jeito. Entretanto, quando eu
notar que os membros do Grupo estão
muito audaciosos, preparem-se,
porque falarei sobre o jeito. Porque
não há coisa pior do que uma audácia
sem jeito.
v
(Extraído de conferência de
24/1/1969)
1) Guéranger, Prosper. L’Année Liturgique.
Le temps de Noël. 10.ed., Paris:
H. Oudin, 1891, t. II, p. 434-435.
2) Beata Ana Catarina Emmerick. Visiones
y Revelaciones Completas. Buenos
Aires: Guadalupe, 1952, t. X, p.
307-308.
11
De Maria nunquam satis
Sancta Dei Genetrix - Museu do
Convento de Jesus, Setúbal
Luis C.R. Abreu
A Salve-Rainha: um
tratado de teologia marial
Oração de sentido profundo, precioso e admirável, a Salve-Rainha
constitui uma base firme para nossa piedade, mesmo quando a aridez e
as dificuldades da vida toldam nossos horizontes. Nela Nossa Senhora
nos é apresentada como a Mãe por excelência, a exemplificação da
misericórdia, nossa vida verdadeira, a doçura de nossa existência,
a única razão de nossa esperança, a aliança entre o Céu e a Terra.
12
Nossa Senhora tem uma
peculiar forma de reinar,
que é a extrema misericórdia.
E para compreender bem o
significado da invocação “Mãe de Misericórdia”,
é preciso considerar duas
coisas: primeiro, o conteúdo dessa expressão;
segundo, o valor desse conteúdo
na realidade dos fatos.
Mãe por excelência
A palavra mãe já traz consigo a
ideia de misericórdia, porque uma
mãe se diferencia de um pai pelo
mesmo título mediante o qual Nossa
Senhora se diferencia de Deus.
Enquanto o pai representa a bondade
com uma forte nota de justiça, a
mãe representa a acentuação muito
maior da misericórdia e a justiça
reduzida a um limite mínimo. A
mãe é a benignidade, a indulgência,
a distensão, o perdão, tudo isso levado
até pontos inimagináveis; ela dá
equilíbrio ao lar. Um lar só com pai,
órfão de mãe, é muito mais vazio
do que um lar só com mãe, sem pai,
exatamente por causa da presença
desses fatores que têm uma influência
tão imensa na educação da prole,
na formação dos sentimentos etc.
Chamando Nossa Senhora de
“Mãe” na Salve Regina, tem-se a impressão
de que São Bernardo considerou
o vocábulo insuficiente e, para
frisar a presença da nota de misericórdia,
quis requintar e A chamou
“Mãe de Misericórdia”. Mãe que é
toda misericórdia; Mãe que não é
feita senão de misericórdia; Mãe que
é a exemplificação, quase a personificação
da misericórdia. Todas as outras
misericórdias de todas as outras
mães não são senão graus pequenos
da maternidade d’Aquela que é Mãe
por excelência e a misericordiosa
por excelência. Misericórdia como
a de Nossa Senhora não se encontra
em nenhuma mera criatura. Ela
é o último limite, o mais extremado e
categórico que se possa conceber da
virtude da misericórdia.
Por que essa misericórdia? É ela
necessária? Que papel ela desenvolve
na ordem concreta dos fatos e na
situação do universo? Para se compreender
isso bem é preciso ter em
mente a condição do homem.
A dispensadora da graça
Em consequência do pecado original,
o homem ficou com um fundo
de maldade, pelo qual, sem a graça
de Deus, ele viveria habitualmente
em estado de pecado mortal e iria
para o Inferno. A misericórdia divina
leva a imensa maioria dos homens
a procurar reerguer-se da posição
em que está, e sem isso não se
sabe qual o número de pessoas que
se perderiam. Na face da terra todos
os homens vivos estão continuamente
recebendo graças: os que estão
em pecado, para se converterem; os
que estão se convertendo, para se
santificarem; os santos para subirem
a graus ainda mais excelentes de
santidade. E, assim como estamos
envoltos pelo ar, estamos banhados
nessa graça de Deus que
nos convida a todo instante
e de todos os modos, a progredir
no bom caminho.
Essa graça não é sensível,
exceto em algumas circunstâncias;
é pela fé que sabemos
de sua existência.
Pela nossa aceitação,
ela nos transforma de
entes abjetos, cheios
de defeitos, repugnantes
e indignos da presença
de Deus, em entes
bons, sobre os quais
pode pousar a graça
de Deus, e obtêm-nos, assim, o agrado
d’Ele e a salvação eterna.
Toda forma de bem que se faz no
mundo se deve à graça e, se ela cessasse,
isso desapareceria. Ora, essa
graça não nos é devida nem temos
direito a ela, mas nos é dada por
misericórdia, porque Deus a quer
dar. É um dom gratuito – o dom dos
dons! – que nós recebemos e continuamente
o desmerecemos. Isso não
é literatura, é a realidade. Segundo
os teólogos, só houve uma criatura
que em todos os instantes de sua vida
deu uma correspondência completa
e a mais perfeita à graça de
Deus: Nossa Senhora. Nenhuma outra,
mesmo entre os Santos que estão
no Céu, correspondeu contínua
e perfeitamente. Isso significa que,
Arquivo Revista
São Bernardo (coleção particular)
13
De Maria nunquam satis
Luis C.R. Abreu
correspondendo em grau maior ou
menor à graça, com uma gratidão
maior ou menor – ou, às vezes, com
ingratidão –, não há quem corresponda
sempre como a lógica o exige.
Assim, os homens continuamente
estão convidando a Providência a
retrair suas graças. Ora, por que razão
Ela continua a nos favorecer?
É porque Nossa Senhora reza por
nós. Ela, que obteve graça diante de
Deus e foi o vaso de eleição perfeito,
sem nenhum defeito, sem o menor
desprimor, de uma qualidade excelsa,
em que o agrado de Deus incidiu
em cheio, Ela pode tudo quanto
quer. Costuma-se dizer a respeito
da oração dos Anjos e Santos: aquilo
que todos eles pedem, sem a intercessão
de Nossa Senhora não o obtêm;
e aquilo que Ela pede sem eles,
obtém, de tal maneira sua oração é
decisiva.
Nesse sentido, compreende-se
melhor a saudação angélica: “Ave,
Maria, cheia de graça, o Senhor é
contigo; bendita és tu entre todas as
mulheres”. Nossa Senhora está cheia
de graça. Com ela, a medida se encheu,
a perfeição chegou ao seu auge,
nada há que censurar. Por isso,
entre todas as mulheres que houve,
há e haverá, a bendita é Ela, apesar
de existirem tantas Santas. Deus está
com Ela inteiramente, pois Ela é o
tabernáculo da Santíssima Trindade.
Através da misericórdia,
Ela nos obtém cada
vez mais graças
Nunca deixemos de recorrer a
Nossa Senhora, contínua e incansavelmente,
mesmo nas piores circunstâncias
de nossa vida, porque é
a Mãe de Misericórdia, que resolve
e arranja tudo, perdoa todos os pecados
e salva um número incontável
de almas. Para nos salvar, Ela exige
apenas que aceitemos sua graça,
acreditemos e encaremos com seriedade
o que a Igreja Católica ensina
sobre sua misericórdia.
Note-se, entretanto, que não é
nem de longe o perdão relaxado e
imoral de um pai liberal, o qual perdoa
e quer bem seu filho que não vale
nada e se mantém obstinadamente
em todos os seus erros. O perdão
de Nossa Senhora não consiste em
aprovar os nossos defeitos; Ela os
abomina. Oxalá tivéssemos em relação
a eles uma centelha do braseiro
da abominação que Ela tem! Sua
misericórdia consiste em obter para
nós sempre mais graças e, com nosso
esforço, pelas vias que a Providência
traça na variedade da vida espiritual
de cada um, Ela nos levar para o
Céu. É a grande realidade da misericórdia
de Nossa Senhora!
Estou eliminando aqui a misericórdia
de Nossa Senhora no campo
temporal? De modo algum. Sabemos
que torrentes de graças temporais
Nossa Senhora espalha sobre
os homens. Mas, embora Ela tenha
intenção de favorecer-nos no campo
temporal, quer, sobretudo, o nosso
benefício espiritual, porque, através
desses fatos, compreendemos o
bem que Ela é capaz de fazer a nossas
almas.
O mais precioso fruto
da Redenção
Paixão de Cristo - Museu de Arte Sacra, Roma
Um aspecto maravilhoso da misericórdia
de Nossa Senhora é a presença
d’Ela ao pé da Cruz. Ela foi concebida
sem pecado original na previsão
dos méritos do Salvador, e quando
ouviu seu Filho divino dizer: “Consummatum
est” (Jo 19, 30), e se operou
a Redenção do gênero humano
num dilúvio de dores para Ele e para
Ela, Maria Santíssima sabia que naquele
momento a graça estava sendo
comprada também para Ela; e aquele
benefício feito por Nosso Senhor
a São João de lhe dar Nossa Senhora
como Mãe, Ele o dava para toda a
humanidade, pelo sacrifício d’Ele.
14
O fruto arquiprecioso
da Redenção, dentro dessa
perspectiva, foi colocado
numa Medianeira, de
maneira que os efeitos do
Sangue de Cristo, por nós
derramado, que nossos
pecados houvessem de
inutilizar, Nossa Senhora,
por suas orações, haveria
de obter que fossem
aproveitados. Há aí uma
espécie de instituição da
mediação magnífica com
um jogo de anacronismo
admirável da própria
Imaculada Conceição, e
que faz daquela doação a
São João uma verdadeira
maravilha.
Outra consideração
que me parece importante
no âmbito das intercessões
é compreendermos
Nossa Senhora enquanto
derrotando sozinha todas
as heresias. A Igreja
diz isso d’Ela na liturgia:
“Tu só esmagaste todas
as heresias no mundo
inteiro”. 1
Como Ela esmagou as
heresias? Por mil modos,
entre eles, sempre rezando
para que aqueles
que combatem a heresia sejam fortes,
enérgicos, intransigentes, destemidos,
para que não caiam nos seus
laços, mas, pelo contrário, desfiram
contra ela os piores golpes. E é por
isso que todos os grandes lutadores
contra a heresia foram grandes devotos
de Nossa Senhora. De outro
modo também, rezando para que os
hereges fossem confundidos nas suas
artimanhas, se liquidassem a si próprios
em muitas de suas tramas e para
que, aqueles dentre eles que correspondessem
à graça, de fato, pudessem
ser salvos. Essa dupla visão
parte, exatamente, da noção da Mãe
de Misericórdia.
Nosso Senhor Jesus Cristo aparece a Nossa Senhora
Igreja da Ressurreição, Portugal
Confiar sempre na
misericórdia de Maria
Há um Santo que tem esse pensamento
o qual jamais deixarei de repetir
e comentar, embora possa me tornar
enfadonho: o pior do pecado não
é o pecado, é a falta de confiança em
Deus na qual a alma cai depois do pecado
e que a leva ao desespero. Por
mais que possamos estar preocupados
com nossa vida espiritual, aborrecidos,
com receio, talvez, de incorrer
na cólera de Deus, devemos pensar:
“Não desesperarei nunca, porque
continuarei a rezar”. Bastará invocar
Nossa Senhora com muito empenho
Luis C.R. Abreu
e não deixar de fazê-lo todos
os dias, que Ela acabará
dando um jeito nessa
situação.
Eu conheço o caso de
uma alma em graves dificuldades
espirituais que
se salvou durante meses,
ou talvez anos, visitando
todo dia uma imagem
de Nossa Senhora, numa
igreja, e rezando três Ave-
-Marias. Isso não é um talismã.
Rezar três Ave-Marias
não obriga Nossa Senhora;
é a misericórdia
d’Ela que toma essa ninharia,
a multiplica e faz
disso uma razão para nos
salvar. Então, devemos recorrer
sempre a Nossa Senhora,
em todas as situações,
porque Ela é nossa
Mãe de Misericórdia.
Há certos recuos ou
retardamentos da providência
de Nossa Senhora:
Ela nos dá as graças, mas
não logo, porque, se Ela
atendesse todos os nossos
pedidos imediatamente,
os sofrimentos desapareceriam
e a Terra se transformaria
num paraíso.
Ora, uma das maiores
graças que Maria Santíssima nos concede
são as cruzes, e muitas vezes Ela
tarda em nos dar a graça de sofrer,
a graça e o mérito do sofrimento. É
preciso também acrescentar que, em
algumas ocasiões, Nossa Senhora
demora a nos atender para provar a
nossa fé, isto é, para progredirmos na
fé e na confiança, e depois Ela nos dá
as graças de modo supereminente.
De maneira que, se algum de nós
esteja tardando em receber uma graça,
não deve considerar isso como
uma recusa de Nossa Senhora, mas
como uma promessa de que, se pedir
muito, obterá a graça com uma abundância
extraordinária. Nossa Senhora
15
De Maria nunquam satis
Flávio Lourenço
A Virgem com o Menino - Galeria Estense, Módena, Itália
é dadivosa, é distribuidora de graças.
Devemos então pedir que, assim como
Ela tem pena das almas do Purgatório
e abrevia os seus tormentos,
na medida em que convenha às nossas
almas Ela condescenda em abreviar
também essas grandes demoras e
nos dê aquilo que desejamos, sobretudo
se for para nossa vida espiritual.
Em geral, toda alma está precisando
receber alguma graça que fica um
pouco “encalhada” por uma razão ou
por outra, e às vezes há vidas espirituais
que estão encalhadas. Peçamos,
então, a Nossa Senhora uma graça de
desencalhe da vida espiritual.
Devemos considerar agora as três
invocações sucessivas da Salve Regina:
“Vida, doçura e esperança nossa”.
Que relação essas três invocações
têm com as duas anteriores?
São a aplicação delas.
Vida...
Qual é o sentido de se afirmar ser
Nossa Senhora nossa vida?
Dizer que algo é vida, significa
que nossa vida não seria vida se esse
algo viesse a nos faltar. Por exemplo,
uma mãe poderá alegar de seu filho:
“Meu filho é minha vida, pois sofro
tanto, tenho tantos aborrecimentos e
contrariedades, que aquilo que torna
minha vida respirável é meu filho!”
Ou, então, pode-se afirmar que nossa
vocação é nossa vida, porque, se
não fosse ela, a vida seria infeliz, miserável,
com uns prazeres tão frustros,
que não seria vida para nós.
Nesse sentido, Nossa Senhora é
verdadeiramente nossa vida. Se não
houvesse Nossa Senhora, não teríamos
nenhuma razão para esperar na
misericórdia divina; sem Ela não teríamos
esperança do Céu, ou algo que
justificasse qualquer alegria na Terra.
O que torna nossa vida “vivível”
é o conjunto de esperanças que a intercessão
de Nossa Senhora nos autoriza
a ter. E por isso Ela é nossa vida.
Nós vivemos por Ela! Se não fosse
Ela, cairíamos no desalento...
Doçura...
O que é doçura? É exatamente o
que torna doce aquilo que não seria
doce. Nossa Senhora é doçura porque
é inteiramente doce, afável, agradável
e condescendente para com
aqueles que A invocam. E porque Ela
é assim, existe doçura em nossa vida.
Ela obtém para nós e para os outros
a graça, portanto, a virtude, o
que há de doce na vida. Esta seria
a mais amarga e sinistra possível se
não fosse a doçura da virtude. Nos-
16
Nobel Foundation(CC3.0)
sa Senhora é, assim, nossa
doçura.
Um cético do século passado,
Anatole France, 2 dizia
que nada explica o trágico
absurdo no qual vivemos.
Ou seja, é o contrário do doce:
é um absurdo – e um absurdo
trágico! Mas esse “absurdo
trágico” existiria se
Nossa Senhora não fosse
uma aliança entre o Céu e
a Terra. Ele não existe por
causa d’Ela, pois Maria Santíssima
é a doçura que dá
bom gosto à vida humana.
Esperança nossa
Anatole France
Dr. Plinio em 1965
“Esperança nossa” é a
outra exclamação. Não é:
“sois uma esperança nossa”,
mas “sois a esperança
nossa”, a única razão de
nossa esperança, toda nossa
esperança! De tal maneira
que, por causa d’Ela,
nossa vida se torna doce;
nossa vida é vida, porque
Ela é nossa esperança.
O começo da Salve-Rainha contém
afirmações muito bem calculadas, com
um sentido profundo, precioso e admirável:
“Salve, Rainha, Mãe de misericórdia,
vida, doçura, esperança nossa,
salve”. Essa saudação, muito inteligentemente,
lembra a Nossa Senhora
por que razão vamos pedir o resto,
mas também dá-nos a nós mesmos essas
razões, para nos incutir ânimo, fervor
e confiança na oração.
A Salve-Rainha – em que muitos
titubeiam sem sequer imaginar que
possui uma construção tão racional,
tão lúcida, tão perfeita – é muito
bem elaborada. A primeira parte
é uma saudação marcada pelos dois
“salve”: “Ave, eu te saúdo, Rainha,
Mãe de misericórdia...”
A segunda parte já é uma transição,
que mostra qual é a posição do
pecador diante d’Ela: “A Vós bradamos,
os degredados filhos de Eva. A
Vós suspiramos gemendo e chorando
neste vale de lágrimas”.
Depois, a terceira parte é o raciocínio
acompanhado de uma súplica:
Arquivo Revista
“Eia, pois, advogada nossa,
esses vossos olhos misericordiosos
a nós volvei”. Ou
seja, nós Vos fazemos este
pedido por causa disso.
São três partes muito
bem calculadas: a glória
d’Ela, nossa necessidade,
nosso pedido. É tudo
admiravelmente bem pensado.
É um pequeno tratado
de teologia marial, de
grande beleza literária.
Para que a Salve-
-Rainha?
Quando se compreende
a Salve-Rainha nesses termos,
pode-se estar em dia
de aridez, sem vontade de
rezar, tentado ou do modo
que for: nem por isso Nossa
Senhora deixará de ser
aquilo que a Salve-Rainha
diz d’Ela. Assim, eu tenho
uma base firme para, mesmo
nos momentos mais difíceis
da vida, dirigir-me a Ela e ser
atendido. Esse é o sentido de analisar
racionalmente uma oração.
Quantas pessoas rezam a Salve-
-Rainha, mas quão poucas analisam
o que rezam! Notamos, através dessa
análise, como é verdadeira a piedade
católica. Ela nasce da fé, a qual
nos dá certezas e meios de viver. É
assim a piedade contrarrevolucionária
autêntica.
v
(Extraído de conferência
20 e 21/5/1965)
1) Antífona mariana: “Gaude, Maria Virgo,
cunctas haereses sola interemisti in
universo mundo - Alegrai-vos, Virgem
Maria, só vós esmagastes todas as heresias
no mundo inteiro”.
2) François Anatole Thibault (*1844 -
†1924). Literato francês de grande fama,
cuja opera omnia foi condenada
pela Santa Sé.
17
Reflexões teológicas
Encontro impregnado
de enlevo
Flávio Lourenço
O senso do sacral
traz a compreensão
de como todas as
coisas são sagradas
por efeito da Religião.
Por isso, ao venerar
o Divino Infante
e contemplar sua
Mãe Santíssima,
foram concedidas
graças aos Reis
Magos pelas quais
compreenderam estar
diante do Menino-
-Deus, Redentor do
gênero humano.
Colocaram-me à disposição
uma ficha a respeito de Nossa
Senhora e os Reis Magos,
pedindo que fizesse um comentário.
Trata-se de um excerto da obra intitulada
Mística Ciudad de Dios, de
Sor María de Jesús de Agreda. 1
Adoração dos Reis Magos - Catedral de Colônia, Alemanha
Três reis diante da doçura
e da majestade do Menino
Jesus e de Nossa Senhora
Aguardava a divina Mãe, com o Infante
Deus em seus braços, os devotos
18
e piedosos reis. Estava
com incomparável modéstia
e formosura…
Modéstia significa
de modo digno, com
modos incomparavelmente
bons.
…descobrindo, entre
a humilde pobreza, indícios
de majestade sobre-humana,
com algo
de resplendor em seu
próprio rosto. O Menino
tinha essa majestade
muito maior e derramava
grande refulgência
de luz, com que estava
toda aquela morada
transformada em Céu.
Entraram nela os três
reis do Oriente e, à vista
primeira do Filho e
da Mãe, ficaram muito
tempo admirados e suspensos,
prostrando-se
depois em terra, e nessa
postura reverenciaram e
adoraram o Menino, reconhecendo-O
por verdadeiro
Deus e Homem, e reparador do
gênero humano. E, com poder divino,
em vista e presença do dulcíssimo Jesus,
foram de novo ilustrados interiormente.
O encontro é muito bonito. Eles
chegam ao local, Nossa Senhora os
estava esperando. A primeira sensação
que eles têm é de um tal estupor,
que eles param. Depois de terem se
recobrado da admiração diante daquela
doçura e da majestade do Menino
Jesus e de Nossa Senhora, eles
se inclinam até a terra e prestam as
suas adorações. Depois disso, eles
sentem, ao considerar a face divina
do Menino Jesus, movimentos interiores
da graça: reconheceram que
se tratava do Menino-Deus, Redentor
do gênero humano.
Lição de sacral veneração
Reis Magos diante do Menino-Deus e sua Mãe
Santíssima - Catedral de Burgos, Espanha
Conheceram a multidão dos espíritos
angélicos que, como servos e ministros
do grande Rei dos reis e Senhor
dos senhores, assistiam com temor
e reverência. Levantaram-se e, de
pé, logo deram os parabéns à sua Rainha
e Senhora, pelo fato de ser Mãe
do Filho do Padre Eterno, e chegaram
a dar-Lhe reverência, postos de joelhos.
Pediram-Lhe a mão para beijá-
-la, como em seus reinos se costumava
fazer com as rainhas. A prudentíssima
Senhora lhes retirou sua mão e ofereceu
a do Redentor do mundo, e disse:
“Meu espírito se alegra no Senhor
e minha alma O abençoa e louva, porque,
entre todas as nações, vos chamou
e elegeu para que chegueis, com
vossos olhos, a vê-Lo e conhecer o que
muitos reis e profetas desejaram e não
conseguiram, que é o Eterno Verbo encarnado
e humanado. Engrandeçamos
e louvemos seu Nome, pelos sacramentos
e pela misericórdia para
com seu povo. Beijemos a terra que se
santifica com sua real
presença”.
Essas foram as palavras
de Nossa Senhora
para os Reis
Magos. É muito bonita
a declaração, e
termina nisto: beijar
o chão, considerando
que, uma vez que
o Menino Jesus está
na Terra, ela toda está
transformada num
altar sagrado, e os homens
devem oscular o
solo como quem oscula
um altar, por causa,
precisamente, da sacratíssima
presença de
Nosso Senhor Jesus
Cristo. Basta Ele estar
aqui para tudo ser
santificado e sagrado.
É algo muito bonito.
Em certos ritos católicos
do Oriente
existe este costume:
sempre que o fiel entra
na igreja, ele se
ajoelha e beija o solo, para indicar a
sua reverência e a sua convicção de
que, na Igreja, tudo é tão sagrado,
que nós não somos dignos, por nós,
de pisar naquele solo nem de entrar
naquele recinto, e que devemos osculá-lo
antes de entrar.
Os Reis Magos beijam o solo porque
uma vez que o Menino Jesus está
nesta Terra onde Nossa Senhora o
mantém no seu colo, a terra toda se
torna sacrossanta.
Isso é algo de se louvar por causa
do seu sentido sacral. Esse senso do
sacral é a compreensão de como todas
as coisas são sagradas pelo efeito
e pelo contato com a Religião; e
daí o espírito de veneração que devemos
ter para com tudo aquilo que,
de perto ou de longe, toque a Religião
ou toque em Deus Nosso Senhor.
É uma admirável lição que está
inculcada aqui.
Flávio Lourenço
19
Reflexões teológicas
Uma
hierarquia em
ordem inversa
Flávio Lourenço
Reis Magos junto à Sagrada Família - Mosteiro do Escorial, Madri
Com essas razões
de Maria Santíssima,
se humilharam de novo
os três reis…
Ou seja, inclinaram-se
de novo.
…adorando o Menino
Jesus, e reconheceram
o benefício
grande de ter nascido
tão cedo o Sol da Justiça
para iluminar as
trevas em que eles estavam.
Feito isso, falaram
ao santo esposo José,
engrandecendo sua
felicidade de ser esposo
da Esposa do mesmo
Deus...
Nota-se o senso
de hierarquia. São
José era o chefe,
mas naquela família havia uma hierarquia
em ordem inversa: quem era
mais, era sempre menos. São José,
que era o menor de todos, era o chefe
da família; Nossa Senhora, que era
mais do que ele, estava sujeita a ele;
e o Menino Jesus, que era Deus, estava
sujeito aos dois. Os reis primeiro
olham para o Menino Jesus e para
Nossa Senhora; eles discernem com o
mesmo olhar o Menino Jesus e Nossa
Senhora e Os veneram com atos
de culto simultâneos. Depois de tudo
terminado e ditas as primeiras palavras
de Nossa Senhora, eles se dirigem
a São José. Então, depois da latria
a Deus, da hiperdulia a Nossa Senhora,
a dulia a São José. É perfeitamente
razoável e hierárquico, perfeitamente
anti-igualitário. Eles falam
com São José, louvando-o pela felicidade
de ser esposo da Mãe do Filho
de Deus e, por isso, lhe dão parabéns.
...admirados e compadecidos com
tanta pobreza, e que nela se encerrassem
os maiores Mistérios do Céu e da
Terra.
Ao chefe da família eles deram
parabéns por aquilo que podia envergonhá-lo:
felicitaram-no pela pobreza.
Vê-se a profundidade que tudo
isso tem.
Passaram três horas nessas coisas;
e os reis pediram licença a Maria
Santíssima para irem à cidade tomar
pousada, por não terem lugar para se
deter e a Sagrada Família estar ali.
É muito bonito que quando Nossa
Senhora está presente, Ela é a Rainha,
e eles, reis, não ousam sair do
lugar, a não ser pedindo licença. Ela
está presente, Ela manda.
O gênero humano inteiro,
representado pelos reis, prostrou-se
perante o Menino
Seguiam-nos algumas pessoas, mas
só os magos participavam dos efeitos
da luz e da graça. Os demais, que só
aparavam e atendiam
ao exterior, olhavam
o estado pobre e desprezível
da Mãe e de
seu esposo; ainda que
tenham tido alguma
admiração pela novidade,
não conheceram
o Mistério.
Ou seja, tudo isso
só foi visível para
os magos. Uma porção
de outras pessoas
não viram.
Despediram-se e
foram embora os reis.
Ficaram Nossa Senhora
e José, com o
Menino, sós, dando
glória à sua Majestade,
com novos cânticos
de louvor, porque
seu Nome começava
a ser conhecido
e adorado pelas gentes.
O que mais fizeram
os reis, eu direi
em próximo capítulo.
Que bonita cena! Os reis saem, e
quando estão um pouco mais longe,
elevam-se as vozes puríssimas e harmoniosíssimas
de Nossa Senhora e de
São José cantando para agradecer a
Deus essa primeira glória do Menino
Jesus: os magos, os reis que vieram
do Oriente e adoraram o Menino; o
gênero humano inteiro, representado
por esses reis, prostrou-se perante o
Menino. Então, uma grande alegria e
um grande cântico dos Anjos.
O cântico estava nos costumes
do Oriente. Por ocasião da visita de
Nossa Senhora a Santa Isabel, Ela
cantou. Logo, era inteiramente natural
que Nossa Senhora e São José tenham
composto um lindíssimo hino.
E poder-se-ia até imaginar esse canto,
os dois timbres de voz como se alternavam;
talvez fosse algum Salmo
do Antigo Testamento, adequado às
circunstâncias, escolhido para o momento.
Mas que coisa inefável, e co-
20
mo os Anjos, que viam isso, deviam
ficar absolutamente enlevados com a
cena, sobretudo vendo o Menino Jesus
ali, sendo objeto dessa adoração!
Conselhos de Nossa
Senhora aos reis
No dia seguinte, ao amanhecer,
os reis voltaram para oferecer ao Rei
Celeste presentes que tinham trazido.
Chegaram e, prostrados em terra,
O adoraram com nova e profundíssima
humildade e, abrindo seus tesouros,
como diz o Evangelho, Lhe ofereceram
ouro, incenso e mirra.
Falaram com a divina Mãe e A consultaram
a respeito de muitas dúvidas e
assuntos que tocavam os mistérios da
Fé e coisas pertencentes às suas consciências
e governos dos seus Estados...
Que beleza! Eles consultando a
respeito do governo dos seus Estados,
e Nossa Senhora, como Rainha
dos reis, dando orientação. Primeiro,
como Rainha das almas, ilustrando
essas almas; depois, como Rainha
dos reis, ensinando a governar.
...porque desejavam voltar instruídos
e informados a respeito de tudo,
e capazes de governar santa e perfeitamente
suas obras.
A grande Senhora os ouviu com sumo
agrado e, quando informava, conferia
com o Infante, em seu interior, tudo
o que havia de responder e ensinar
àqueles novos filhos de sua Lei Santa.
Portanto, Ela rezava e falava internamente
com o Menino Jesus. Pode-
-se imaginar o Menino Jesus deitado:
Ele era Deus e, no entanto, estava como
uma criança que não tem consciência
do mundo externo. Nossa Senhora
misticamente conversava com
Ele. Então perguntava a Ele o que
responder, e Ele falava a Ela. E Ele
que era, na aparência, sem inteligência
e sem voz, sabia e conversava com
Ela internamente. Pode-se imaginar
a sublimidade dessa conversa!
E como mestra e instrumento da Divina
Sabedoria, respondeu a todas as dúvidas
que Lhe propuseram, tão altamente,
santificando-os e ensinando-os de tal
maneira, que, admirados e atraídos pela
sabedoria e ciência da suave Rainha,
não conseguiam apartar-se d’Ela. E foi
necessário que um dos Anjos do Senhor
lhes dissesse que era sua vontade, e forçoso,
retornarem às suas pátrias.
Nossa Senhora era Rainha e podia
dizer: “Meus caros, agora chegou
a hora de voltar. Meus filhos, voltem”.
Mas a delicadeza d’Ela era tão grande
que, para não tomar Ela essa iniciativa,
mandou um Anjo falar. Vê-se nessa
atitude o requinte de polidez e de
delicadeza de alma de Nossa Senhora.
Não é maravilha que isso sucedesse,
porque as palavras de Maria Santíssima
foram ilustradas pelo Espírito
Santo e cheias de ciência infusa a
respeito de tudo quanto perguntaram e
ainda em muitas outras matérias.
Fica-se também com um pouco de
tristeza por deixar essas descrições
grandiosas e pensar nas coisas de todos
os dias, desta era de Revolução
em que nos encontramos. v
(Extraído de conferência de
12/1/1967)
1) Sor María de Jesús. Mística Ciudad de
Dios. Vida de María. Parte II, livro IV,
cap. XVI, n. 560-561; cap. XVII, n.
567. Convento de las Religiosas Concepcionistas
Agreda (Soria).
Os Reis Magos oferecem presentes ao Menino Jesus - Museu do Louvre, Paris
Luis C.R. Abreu
21
Questionando a Revolução Industrial
Cristo Gladífero
Sainte-Chapelle, Paris
Angelo Ovelha
Cristo gladífero, modelo para
os católicos do século XXI
Enfadado de uma civilização tão cheia de prazeres, o homem do
século XX aspira a um estado de vida selvagem irreal, no qual,
sem regras, possa gozar de todas as delícias e comodidades da
vida moderna. Entretanto, o homem verdadeiramente feliz não é
o do prazer, mas o da reflexão. A solução está em recorrer a Maria
Santíssima e ter uma mentalidade na qual a alma esteja disposta
a todos os sacrifícios, pois viver é preparar-se para o Céu.
Se eu devesse resumir as minhas
impressões a respeito
da década de 1970, diria que,
embora o fim do nosso século se dará
na década de 1990, tenho a impressão
de já estarmos assistindo ao
seu desenlace; o século XX é temporão,
morrerá de apoplexia precipitadamente.
Enquanto todos os séculos terminam
no fim normal de suas décadas,
tudo leva a crer que este se encerre
na década de 1980, executado com
pena capital pela justiça da História,
morrendo vinte anos antes. E, ao terminar
essas sete décadas e aureolar a
sua fronte com o octogésimo aniversário,
ele parece cair e morrer. Ao se
examinar, verifica-se que as razões
dessa morte correspondem a um fim
inglório de uma existência inglória.
22
O primeiro choque
com a mentalidade dos
homens do século XX
Este século eu o vi decorrer quase
inteiro. Embora nos primeiros anos
de minha vida, como todo mundo,
não tivesse senão uma noção muito
vaga das questões sócio-econômicas,
políticas e intelectuais, eu me
lembro do primeiro vislumbre desses
problemas, que foi um contraste entre
a tradição e o século XX.
Reporto-me a um fato que se deu
quando estive em Paris em menino,
na idade de mais ou menos quatro
anos: eu estava brincando no
meu quarto, quando ouvi, de repente,
um toque de clarim. Fui correndo
à janela e vi desfilar um batalhão de
couraceiros magnificamente aprestados
com couraças e elmos rutilantes,
que tocavam as trombetas. Era a
majestosa cavalaria de antes da Primeira
Guerra Mundial. Fiquei literalmente
encantadíssimo.
Uma pessoa muito mais antiga
que eu – naquela ocasião tinha mais
ou menos quarenta anos –, me observava
nesse gesto de admiração.
Então lhe perguntei:
— O que é isto?
— Ah, são couraceiros…
São coisas sem importância.
Fiquei aturdido. Como
uma coisa bela, tão
heroica, é sem importância?
O que tem valor
para esse homem?
Era o meu primeiro choque
com a mentalidade
do século XX. Ou seja, o
que falava de beleza, de
heroísmo e de grandes
horizontes, não tinha interesse
para aquele homem
prático. O que valia
era, antes de tudo, a
sua longa vida, e a teve
longa; seu dinheiro, que
não o teve; e sua saúde,
teve muitíssima. Com um pouco de
dinheiro, longa vida e saúde ele tinha
tudo o que queria na Terra. Era
o seu ideal.
Minha incompreensão nesse primeiro
choque foi total: viver é viver
muito e não viver bem? Se é ter saúde
como a querem ter os animais, então
não conte comigo, porque isso eu não
quero. Eu desejo viver sobretudo para
refletir, para ter ideais e não apenas
para comer, beber e dormir.
Muitos anos depois, eu compreendi
melhor a raiz pagã que havia na
atitude dessa pessoa que desprezava
os magníficos couraceiros. Quando
professor de História da Civilização
na Faculdade de Direito, estava
preparando um curso e tomei conhecimento
da história de uma rainha
da Babilônia, vencedora de muitas
batalhas que, sentindo-se mal de
saúde, mandou construir para si uma
sepultura sobre uma das portas mais
importantes da cidade. Nesse mausoléu,
ela mandou escrever: “Enquanto
vives, come, bebe e diverte-
-te, porque depois desta vida não há
nem prazer, nem dor. Está tudo acabado”.
Desfile dos Couraçados
Eu pensei: “Essa pagã que viveu
talvez dois mil anos antes de Cristo
tinha a mentalidade daquele homem
que menosprezava os couraceiros.
É sempre a mesma mentalidade do
pagão, para o qual viver é ter delícias,
alegrias efêmeras e transitórias,
e para quem a reflexão, a cogitação
das coisas mais altas e que estão para
além desta vida e lhe dão significado,
não têm importância.
O homem verdadeiramente
feliz não é o do prazer,
mas o da reflexão
Há, portanto, um choque: existem
homens que vivem só para o sensível,
para aquilo que se percebe e se
goza materialmente; mas há homens
de uma outra raça espiritual. Esses
compreendem que tudo quanto existe
nesta Terra não é senão um reflexo
de uma realidade muito mais alta;
que todos os estados de espírito do
homem, quando são virtuosos, são
reflexos de outra virtude que não habita
nesta Terra, mas transcende, e é
uma virtude absoluta, uma sabedoria
absoluta, um poder eterno, ou seja, é
o próprio Deus.
Para esses homens todas
as coisas da terra não
têm sentido senão quando
consideradas como
reflexos de Deus, e viver
é preparar-se para o
Céu, buscando encontrar
em cada coisa concreta
o que há de imagem
e semelhança com Deus.
Desse modo, as impressões
efêmeras, as sensações,
a agitação, o prazer
têm uma importância pequena
na vida, enquanto
a reflexão tem grande
importância. O ideal, esse
é o sentido da vida. O
homem verdadeiramente
feliz não é o do prazer,
mas o da reflexão.
Rama (CC3.0)
23
Questionando a Revolução Industrial
Divulgação (CC3.0)
E para essa ideia encontrei uma
expressão muito boa quando li, alguns
anos depois, a frase de um célebre
poeta francês, Paul Claudel, que
disse: “A juventude não foi feita para
o prazer, mas para o heroísmo”.
Eu pensei: “Essa é a explicação da
juventude na ordem natural das coisas.
A juventude existe para o heroísmo,
não para o prazer, porque toda
a vida humana existe para o heroísmo
e não para o prazer. Em todas
as idades da vida, deve-se ser herói
e não viver para o prazer. E essa
é a grande verdade que o século XX
rechaçou.
Uma parábola-síntese
do século XX...
Para fazermos um pouco ideia do
que pudesse ser a síntese do século
XX, imaginemos um encontro especial
que se desse nas proximidades
das pirâmides do Egito, em pleno
deserto.
Um automóvel moderno, magnífico,
concebido para que o homem de
prazer percorresse o deserto sem as
moléstias da poeira, do calor excessivo…
um veículo ideal, não só capaz
de correr muito, mas também com
acomodação magnífica para as pessoas
que viajassem nele: uma cabine
para os passageiros onde coubessem
Paul Claudel
Almoço dos artistas escandinavos no café Ledoyen – Museu de Arte de Gothenburg, Suécia
duas poltronas grandes que pudessem
ser usadas como camas; uma pequena
geladeira para conservar frescos
os alimentos; vidros escurecidos;
uma música discreta que servisse de
fundo para a paisagem; ventilação
refrigerada e todas as comodidades
que possamos imaginar… quase um
pequeno palácio ambulante.
Um homem põe esse automóvel
no deserto e começa a viagem. A
certa altura, em sentido oposto, vem
de longe uma caravana. Andam em
camelos, lentamente, não têm nada
do que há nos automóveis. Eles
possuem apenas os trajes brancos
dos beduínos, porque o branco resiste
à luz e dá um pouco de frescor;
um pouco de tâmaras secas; água em
quantidade moderada; nada mais
que isso. Caminham, caminham e
caminham, ao sol.
É um contraste entre dois estilos
de vida, fantástico, em que todas as
superioridades parecem estar do lado
das pessoas que estão no automóvel.
Elas são o mundo civilizado: têm
um estilo de vida superdesenvolvido,
têm todos os progressos, têm inclusive
uma televisão no automóvel, o rádio
e as últimas notícias que acontecem
no mundo. Os beduínos têm um
estilo de vida que é o mesmo há séculos…
O beduíno passa, olha o carro como
se olhasse um camelo. Não tem
a menor inveja dos que viajam nele.
Os que estão no automóvel, pelo
contrário, olham os beduínos, riem
e dizem: “Pobres coitados, infelizes,
não são nada!” Mas, no fundo,
há um pouco de inveja: “Se eu pudesse
sair desse automóvel e montar
um camelo… Se eu pudesse fazer-me
um beduíno, eu me sentiria
mais completo. Eu não sou nada!
Quem sou eu? Um homem como
milhares de outros. Eu me perco na
poeira humana das grandes cidades,
eu não sinto minha personalidade…
Eu sou um anônimo aos meus próprios
olhos. Se eu fosse beduíno, eu
seria capaz de sentir a beleza da lua,
o esplendor dos areais, o gosto pelo
sol tórrido e a luta contra ele; as distâncias
e as delícias dos oásis… Eu
teria uma vida muito mais colorida,
mais plena de realidade do que viver
nesta irrealidade artificial deste ambiente
em que eu estou”.
Então alguns gostariam de parar e
oferecer aos beduínos: “Vocês que-
Flávio Lourenço
24
rem trocar um pouco? Vocês entram
nesta câmara de delícias e nós montamos
em seus camelos e andamos
um pouco. Contanto que vocês nos
emprestem também seus trajes e nós
lhes demos os nossos…” Porque, para
montar em camelo, é preciso estar
vestido como beduínos e representar
esse papel durante algum tempo.
Todos sentem isso, mas não têm
coragem de dizer uns para os outros,
porque têm medo, cada qual, de que
os outros zombem dele. Pelo medo
da risada, nenhum tem coragem de
dizer algo que todos pensam.
...que demonstra quão
ilusória é a vida carregada
de conforto e de delícias...
Em certo momento, surpresa: o
automóvel para e os passageiros percebem
que a altura diminui um pouco.
Surpresa geral. “O que pode ser
isso?” Se detêm e os beduínos também.
Mas estes olham com uma pequena
curiosidade despectiva e dizem:
— É natural, esse é um carro mecânico,
não é como os nossos camelos
que são fortes e vivos e que atravessam
todos os desertos. Ele pode
quebrar de um momento para outro.
Nossos camelos, não. Não morrem
de um momento para o outro,
têm uma resistência fantástica. É explicável
que isso se tenha quebrado.
Vejamos o que dizem os que estão lá
dentro.
Os que estão no automóvel abrem
as portas e saem para averiguar o
que aconteceu:
— Como pode ser que as areias
do velho deserto, areias moles e movediças
que os ventos empurram para
todos os lados, como pode ser
que elas tenham vencido o automóvel
magnífico, fabricado na melhor
fábrica de automóveis dos Estados
Unidos ou da Alemanha?
Imaginemos um Mercedes dos
mais cômodos, mais magníficos da
técnica alemã. Esse carro para…
e se verifica que o deserto em que
marchavam os faraós e onde transitam
camelos o venceu. Como pode
o passado de dois mil anos vencer
o progresso de hoje no que tem de
mais rápido e brilhante? É uma pergunta
que todos se põem.
Fora do carro, eles constatam que
aconteceu uma coisa muito simples:
os pneumáticos se esvaziaram e estão
colados na areia. Não podem andar
mais.
Eles se perguntam: como se esvaziaram?
É um final de viagem humilhante,
porque se o carro tivesse quebrado
por ter encontrado uma elevação
de areia muito grande ou por ter
se afundado nela... se, pelo menos,
uma peça de bronze dele tivesse quebrado...
Seria uma tragédia, mas um
bronze que se parte tem alguma dignidade,
pode-se dizer: “Eu tive uma surpresa!
Meu carro era todo ele de peças
de bronze! Mas o bronze, em sua
nobreza, não resistiu ao sol que vinha
sobre ele e se fundiu. Oh! Em que situação
estávamos! Era trágico!…”
Mas não foi isso que aconteceu
nessa cena que imaginamos. Foram
as partes moles que falharam, não foi
nem a borracha dos pneus, mas o ar
Beduínos
que estava aprisionado neles que escapou.
E só por isso o carro magnífico
está parado. E, faltando essa parte
mais vil, o resto não tem mais significação,
porque não se pode ficar nas
delícias da pequena casa ambulante
se ela não é mais ambulante. Acaba
a eletricidade, a comida, e a solução
é estudar qual a causa do ocorrido e
depois ver como sair do deserto.
Qual é a causa? Há alguns técnicos
nesse conjunto de pessoas e um
deles diz: “O carro está tão carregado
de confortos que o peso dessas
delícias esvaziou os pneumáticos.
Em contato com as areias do deserto,
o ar do pneu se tornou quente,
a borracha se tornou muito cheia,
o peso não diminuiu, veio o atrito e,
enquanto o carro rodava, pssit! Das
quatro rodas o ar escapou...”
...e como os confortos
do mundo trazem
consigo exigências
terríveis e inexoráveis
Qual é a solução? Os homens se
aproximam muito amavelmente dos
beduínos aos quais olhavam, até há
pouco, com desprezo e com gargalha-
Willem van de Poll (CC3.0)
25
Questionando a Revolução Industrial
Arquivo Revista
Dr. Plinio em 1981
das. E, com a ajuda de algum
intérprete, com discreto
sorriso e fazendo
cumprimentos amáveis,
lhes dizem:
— Senhores beduínos,
antes de tudo queríamos
vos dizer que impressão
encantadora vós nos fazeis…
Temos para convosco
a maior simpatia
e consideração. Porém,
vós vedes que o nosso
carro está quebrado e temos
que voltar ao Cairo.
Vós nos permitiríeis
viajar na parte de trás de
vossos camelos, agarrados
a vós? O camelo pode
transportar duas pessoas.
Vós não consentiríeis em pôr
mais um na garupa?
Os beduínos, homens práticos, fazem
duas objeções. Primeira:
— Sim, porém não queremos passar
fome. Temos um pequeno excedente
de tâmaras. Se vocês se contentarem
em comer cinco tâmaras
cada um em cada vinte e quatro horas
de viagem e nos permitirem comer
tâmaras à vontade... Essa é
umas das cláusulas do acordo.
Os homens ficam com medo de
que os beduínos se encolerizem e os
deixem no areal. Então, com sorriso
amarelo respondem:
— Mas é claro, senhores beduínos,
é um dever de justiça! As tâmaras
são vossas e já é muito que nos
deis cinco para comer.
— Sim, sim, porém há outra coisa:
água não! Temos pouca água. Se
encontrarmos um oásis no caminho,
vocês e nós beberemos água; se não
encontrarmos, vocês terão que se
arranjar como puderem, porque a
água é insuficiente para nós.
É uma dificuldade maior, mas
eles não podem desgostar os beduínos
e dizem:
— Senhores beduínos, mas é natural!
A água é vossa. Dai-nos somente
um lugar na garupa e estaremos
muito contentes.
E os beduínos respondem:
— Nós temos tâmara, água e camelo.
Vocês têm dinheiro. Nós queremos
seu dinheiro e todo ele. Senão,
não fazemos o transporte.
A necessidade tem leis terríveis e
inexoráveis.
— Senhores beduínos, aqui está
nosso dinheiro.
— Sim, sim, sim, vai bem!
Põem o dinheiro nas profundidades
dos bolsos, onde há de tudo…
arames, tâmaras, e muitas coisas velhas
e sujas misturadas.
E dizem:
— Subam aqui atrás e vamos.
Muito humilhados, depois de dez
horas de uma viagem terrível, voltam
ao Cairo os homens que a cidade
vira passar magnificamente num
carro que causava inveja a todos.
Veem-nos envergonhados, cansados,
com fome e com sede e, quando
se detêm junto ao hotel onde estavam
hospedados, ainda dizem aos
beduínos:
— Muitíssimo obrigado!
Está contada uma história. Os homens
do carro entram nas delícias de
um hotel moderno e os beduínos seguem
sua vida. Foi um
episódio no deserto…
Esse episódio tem semelhanças
com a história
do século XX.
O progresso do
mundo moderno
faz com que o
homem sonhe
com outros
estilos de vida
Com efeito, há pessoas
que vivem para as delícias,
são os homens característicos
do século
XX, que fabricaram
uma civilização tão cheia
de delícias, mas também tão pesada,
que não suportou seu próprio peso.
O mundo de hoje está como um automóvel
com os quatro pneumáticos
vazios e que não pode rodar. Por
quê? Porque é a “magnífica” civilização
do consumo, a “magnífica” civilização
do progresso. Esse progresso
é tão amplo, tão grande e, ao mesmo
tempo, tão complicado, que o homem
não aguenta seu peso e se põe
a sonhar com outros estilos de vida,
com outros modos de caminhar, com
outros jeitos de lutar. E isso explica
o aparecimento, em nossa época,
de uma escola de pensamento que é
original e que até há pouco era tida
como uma das coisas mais modernas
que pode haver: uma escola de pensamento
contrária à civilização.
A fadiga da civilização, o peso excessivo
dela, faz com que os homens queiram
fugir da civilização. Como se dá isso?
Que escola de pensamento é essa?
Qual é o drama do mundo moderno?
Depois dessa introdução que põe
tudo no seu lugar, vou discorrer sobre
isso.
Houve um filósofo famoso, Lévi-
-Strauss 1 que fundou uma escola de
pensamento chamada “antropologia
estruturalista”. Essa escola tem como
26
característica o seguinte: o homem,
para viver, tem que viver fazendo o
que lhe pareça agradável. Ora, a civilização
moderna, a cada momento, dá
ao homem uma delícia, mas impõe-lhe
uma coisa desagradável. Desse modo,
ao construir sobre o homem um castelo
antagônico de coisas agradáveis e
desagradáveis, ela não consegue realizar
a felicidade inteira da vida.
Ora, se civilização é o que dá ao
homem a felicidade inteira, então temos
que nos perguntar se o castelo
das coisas agradáveis construídas pelo
homem tem um valor maior do que
o cárcere das coisas desagradáveis.
A civilização moderna,
uma máquina de resolver
e de criar problemas
A civilização moderna, principalmente
a dos anos de 1970, resolve um
número espantoso de problemas, mas
a grande pergunta é esta: desses problemas,
quantos foram criados por
ela mesma? Ela não é uma máquina
de criar os problemas que resolve e
de resolver os problemas que cria?
E uma vida mais natural, menos
técnica, menos artificial não seria
mais própria ao homem? Não estamos
no pleno domínio da artificialidade?
Para o bem-estar do homem:
civilização, sim ou não? Técnica, sim
ou não? Essa é a interrogação.
Uma cidade grande produz muita
sujeira, é natural, e a eliminação dessas
coisas é um terrível problema!
Por exemplo, São Paulo é percorrida
por um histórico rio, o Tietê. Mil fatos
da história dessa cidade estão relacionados
com ele. Porém a cidade
cresceu, despejou nele muito de seu
lixo e, por causa disso, ele perdeu toda
sua conotação literária, toda sua
história, e a grande cidade não sabe
o que fazer com o rio…
O rio passa por São Paulo, penetra
no interior do Estado de São
Paulo com toda sua sujeira e percorre
uma extensão imensa e, sem nada
de artificial, pela gravidade e por um
jogo da natureza, alguns quilômetros
depois da metrópole o rio deixa no
seu leito todo o lixo e a água se torna
mais límpida.
Ou seja, o que a técnica não consegue
fazer, a natureza o faz. Sem ruído,
sem botões de pressão e descompressão,
sem fábricas imensas… mas
de maneira lenta, discreta, distintamente,
as águas se limpam e continuam
seu curso. Os homens fizeram algo
errado e a natureza corrigiu, mas
com que superioridade, com que dignidade
e com que eficácia!
Alguém que caia no Tietê, é como
se caísse no veneno. Alguém
que caia mais além da cidade de São
Paulo, encontra uma água mais limpa.
É a mesma água, purificada pela
natureza que Deus criou. Oh! O que
foi posto por Deus e que os homens
tantas vezes deformam!
O século XX foi regido pela
escola “estruturalista”
A escola “estruturalista” considera
o progresso uma quimera dos
homens. Seus adeptos chegam à radicalidade
inimaginável de afirmar
que a verdadeira maneira de viver é
a dos homens pré-históricos.
Rio Tietê na cidade de Barra Bonita
Pensadores tidos como atualíssimos,
cujos livros se vendem nas livrarias
mais modernas, se transformaram
nos detratores do progresso
do século XX e nos adoradores de
uma ordem de coisas que estava nas
origens da História da humanidade.
Alguém objetará: “É uma escola
de extravagantes, de loucos! É uma
minoria muito insignificante que, por
esnobismo, tomou essa importância;
nós não devemos dar ouvidos a essa
escola. Na realidade, ela só tem importância
por causa de sua extravagância,
porque o homem do século
XX gosta da extravagância. Porém,
essa escola não pode fazer sucesso,
não pode ter muitos adeptos”.
Respondo que a grande maioria
do século XX está afundada nesse
pensamento, ainda que por vezes
não o perceba. Qual é a prova? É a
atitude do homem do século XX, do
homem do Ocidente, e mais especialmente
do burguês do Ocidente
– não do proletário – viciado nas delícias.
A atitude do burguês face ao
comunismo é inteiramente característica
nesse sentido. Os burgueses
sabem perfeitamente que o comunismo
oferece um teor de vida muitíssimo
mais pobre do que se tem no
Ocidente. Eles sabem que, se o co-
José Reynaldo da Fonseca - REFON(CC3.0)
27
Questionando a Revolução Industrial
Arquivo Revista
Dr. Plinio em 1981
munismo se instalar, eles serão reduzidos
ao estado operário, perderão
as fortunas que adoram, o conforto
que querem tanto e ficarão reduzidos
a zero. Porém, a resistência burguesa
contra o comunismo diminui a
olhos vistos, e os anos de 1970 foram
de capitulação e de fugas as mais
vergonhosas face ao comunismo.
Em todos os países ocidentais, a
burguesia deixou de ser a força viva
e ativa contra o comunismo e começou
a considerar a possibilidade
da implantação dele como uma coisa
que não é desejável, mas que no total
não é uma tragédia.
Como explicar que esses homens
estejam dispostos a deixar suas casas
confortáveis, as fortunas que acumularam
e sua vida deliciosa, e se resignem
a ponto de ser comunistas? Como explicar
que nas últimas eleições em São
Paulo, um candidato comunista tenha
obtido quase a maioria dos votos no
bairro mais rico de São Paulo? Como
explicar uma coisa dessas?
Evidentemente, é porque há na
alma do homem do nosso século
uma contradição: ele gosta muitíssimo
do progresso, do lucro, do dinheiro,
porém ele está farto do progresso,
do lucro e do dinheiro. Então,
para não lutar, permite que essas
coisas lhe caiam das mãos.
Uma senhora da alta sociedade de
São Paulo contou-me que suas amigas
estavam tão indiferentes ante a
perspectiva do comunismo que, se o
implantassem em São Paulo – todas
muito ricas – a única coisa que os comunistas
haveriam de fazer era dar a
elas o endereço do lugar onde teriam
que fazer trabalhos manuais. Elas tomariam
o ônibus, iriam para lá.
O gozo legítimo não existe
numa vida sem o sofrimento
Esse é o drama da sociedade do
Ocidente. O homem é tão gozador,
que se revolta contra uma lei posta
por Deus na natureza, segundo a
qual todo gozo legítimo custa algo ao
homem e ele precisa sofrer para obter
esse gozo e para manter-se nele.
O prazer verdadeiro é inseparável do
sofrimento. Ora, o homem do século
XX sonha com uma vida sem nenhum
sofrimento, só feita de prazer.
A civilização lhe dá prazeres, mas
exige certo sofrimento, certo esforço.
A vida selvagem, pelo contrário, não
exige esforço – ao menos na aparência
– e dá alguns prazeres; o homem
moderno desejaria somar as duas coisas
que em si não são somáveis: ter
uma forma de selvageria imaginária,
gostosa, fácil, e o não fazer esforço.
Um missionário com certa experiência
em tribos selvagens contou-me
que, numa ocasião em que ele conversava
com um selvagem, voou na
direção deles um besouro; o selvagem
interrompeu o diálogo, pegou o
inseto, tirou-lhe asas e o comeu cru!
O missionário confidenciou-me que
teve necessidade de fazer esforço para
não deixar transparecer sua repugnância.
E o índio explicou-lhe: “Devemos
pegar a comida quando ela
passa diante de nós. Passou o besouro,
ele é comível? Nós o comemos,
porque não sabemos quando passará
um outro”. Essa é a vida do selvagem.
O homem moderno quer
imaginar um estado
selvagem irreal
Porém, o homem civilizado não
quer ouvir isso. Ele quer imaginar
um estado selvagem irreal, com as
delícias de uma civilização. E assim
ele tem uma mentalidade que não é
adaptável a nada: nem à civilização
e sequer ao estado de selvageria. Se
ele fosse selvagem, venderia sua alma
para ser civilizado. Como é civilizado,
farto da civilização, permite que
esta desmorone e que os comunistas
lhe arranquem a civilização das mãos.
Por quê? Porque ele chegou a um estado
de deterioração onde qualquer
situação é impraticável e inaceitável.
Seu desejo imoderado de prazer o
tornou incapaz da modesta felicidade
dos selvagens ou da boa felicidade
dos civilizados. Por quê? Porque
quer somente o prazer e não quer
outra coisa que não seja ele.
Para esse tipo de homem, esta civilização
é pesada. E assim como os pneumáticos
daquele automóvel não aguentaram
o peso das delícias que havia
no carro, o homem do século XX não
aguenta mais o peso da civilização.
28
A mentalidade do
homem do século XX
Qual é a mentalidade do homem
do século XX? Qual é mentalidade
do homem que virá?
Para compreender bem isto, nós
não temos que olhar para o século
XX, mas para a mentalidade que
se está formando hoje em dia. Que
mentalidade é essa? Atualmente, o
mundo está em perigo de uma guerra
universal, e todos os homens que
têm o mínimo de cultura para abrir
um jornal e ler as notícias percebem
que essa é a realidade que temos
diante dos olhos.
O que pode significar a guerra
mundial? O Papa João Paulo II fez
há dias uma declaração sobre isso na
homilia 2 durante uma Missa que celebrou
no Dia da Paz. 3 Citando informações
recebidas de cientistas, o Papa
afirmou que apenas duzentas, das
mais de cinquenta mil bombas nucleares
existentes atualmente no mundo,
seriam suficientes para destruir
a maior parte das cidades importantes.
Se a guerra prossegue e se detonam
todas as cinquenta mil bombas,
o que restará do mundo? Portanto, a
guerra pode ser uma hecatombe pior
que o dilúvio.
O homem moderno,
construtor do sim e do não
Enquanto o homem moderno
construía suas delícias, arquitetava
também sua condenação e sua destruição.
O trabalho do progresso foi
simultaneamente um serviço técnico
fabuloso para fazer grandes cidades
e para destruir as grandes cidades
que construíram. Os mesmos
homens do século XX que levantaram
os arranha-céus, construíram as
bombas; edificaram o sim e o não; o
preto e o branco. E nós estamos na
hora em que o “não” pode desatar-
-se, agredir o “sim” e destruí-lo de
um momento para o outro.
E o Papa afirmou que isso ainda
não é tudo. Uma guerra nuclear causará
terríveis reduções de recursos
de alimentação, porque os resíduos
radioativos serão levados pelo vento
sobre as terras e podem provocar alterações
tais nas plantações, que elas
tornar-se-ão inúteis para a alimentação.
Então, os poucos que não forem
mortos terão dificuldade de sobreviver
em razão da deterioração da natureza.
Haverá alterações na camada de
ozônio, de maneira que o homem será
exposto a perigos terríveis ainda
desconhecidos; poderá haver perigosas
mutações genéticas que podem
provocar a geração de monstros. E
João Paulo II acrescentou: é urgente
que o povo mantenha abertos os
olhos diante desse perigo.
Isso que ele disse com tanta clareza,
mais ou menos todos sabem; e todos
mais ou menos temem. E nessa
perspectiva eu creio notar que começa
a se estabelecer um estado de espírito
contraditório terrível – ao menos
no Brasil, que é o país onde vivo
e conheço diretamente. Pessoas
que não tinham reação contra o
comunismo e estavam dispostas a
Arranha-céus de Tóquio
abandonar suas fortunas porque estão
fartas de riquezas, diante do perigo
da morte têm um medo que não
tinham diante do perigo comunista.
Tinham antigamente, mas não têm
mais diante do perigo comunista.
Por causa disso, as pessoas começam
a sentir uma fatalidade, como
se a guerra, se não eclode agora,
pode explodir de um momento
para outro; se não é em determinado
lugar, é em outra parte da Terra
e por razão diversa. Mas a guerra,
cedo ou tarde, é inevitável; consequentemente,
o futuro deles é a
bomba atômica e o fim de sua vida
farta, não como o selvagem, mas
como as pobres vítimas das bombas
atômicas de Hiroshima e Nagasaki,
no Japão, no fim da Segunda Guerra
Mundial. Os que não morreram
por uma desintegração instantânea
e horrível, transformados em pó no
primeiro choque, sobreviveram com
doenças em quantidade e dores terríveis.
Os que não ficaram doentes
existem para cuidar dos doentes e
tudo se transforma em uma enfermaria.
Esse é o fim do século XX que começou
com tanto brilho.
Morio(CC3.0)
29
Questionando a Revolução Industrial
Onde encontrar
a solução para
essa situação
irremediável?
Charles Levy (CC3.0)
E essas pessoas que se
habituaram continuamente
a gozar a vida, vendo repentinamente
esse fim trágico
que se põe diante delas,
teriam uma solução.
Porém, como estão endurecidas,
a solução sequer
lhes ocorre.
Essa solução seria rezar.
Pedir à Virgem, Mãe de
Misericórdia, que os salve
dessa situação. Deus tudo
pode. E se Maria Santíssima
Lhe pede algo, Ele o
faz certamente. Dizem certos
teólogos que Nossa Senhora
é chamada “a onipotência
suplicante”, Aquela
que tudo pode por suas súplicas.
Ela não é onipotente
por sua própria natureza, mas sua
oração pode tudo. Os teólogos dizem:
o que todos os Anjos e Santos
do Céu pedissem sem Maria Santíssima,
não o obteriam. Porém, o que
Maria Santíssima pede sozinha, sem
os Anjos e os Santos, Ela obtém. De
tal maneira Ela é amada por Deus.
Então pedir a Nossa Senhora:
“Minha Mãe, salvai-me! Salvai os
que eu quero!”
Entretanto, atualmente ninguém
pede o auxílio de Deus. Ao mesmo
tempo, todos olham a morte com um
começo de ódio e de cólera, como se
ela fosse uma fatalidade indignante,
que não se pode aceitar. É necessário
morrer, porém de pé e com indignação.
Isso é a véspera da blasfêmia,
porque essa revolta, no fundo, é contra
o próprio Deus.
Eles não pedem a Deus, quando
poderiam salvar-se se o fizessem.
Eles se revoltam contra Deus no momento
em que Ele lhes deixa antever
o castigo para que se salvem. Se eles
Bomba atômica de Nagasaki
orassem agora, poderiam evitar a
guerra. Deus lhes deixa ver o perigo
para que evitem a guerra, para que
peçam, para que regenerem os costumes,
para que voltem à prática dos
Mandamentos e se façam bons católicos.
As portas da salvação, inclusive
terrena, estão abertas para eles.
Porém eles não querem. Preferem a
imoralidade e os prazeres; preferem
ser mortos nesses prazeres que começar
a levar uma vida dura, difícil,
vida de um verdadeiro católico apostólico
romano. Essa é a contradição
espantosa desses homens que estão
cegos.
Diz a Escritura que o amor do
prazer faz com que o homem fique
cego. Os homens de hoje são incapazes
de ver a terrível realidade em
que estão, por isso eles se submergem
no ódio e no dilúvio dos castigos.
Em 1917, Nossa Senhora apareceu
em Fátima e disse: “A Rússia
espalhará seus erros por toda parte,
muitas nações desaparecerão
etc.” E ameaçou
o mundo com um castigo
universal se os homens
continuassem nas vias da
imoralidade. Ao invés de
ouvir a Santíssima Virgem,
amá-La e modificar o seu
procedimento, esses homens
continuam no pecado;
veem o castigo e morrem
blasfemando. Esse é o
homem mau de amanhã.
É necessário que haja
homens inocentes
e combativos
Como será o homem do
século XXI? Será isso? Valerá
a pena que haja um século
XXI? Para haver um
século XXI blasfematório,
não é melhor que Deus feche
a História e faça o fim
do mundo?
A resposta é a seguinte. Para que
haja um século XXI que seja o que
Nossa Senhora disse em Fátima –
Ela prometeu que por fim o seu Imaculado
Coração triunfará – para que
Ela triunfe é necessário que haja homens
inocentes, que tenham a mentalidade
oposta à mentalidade do século
XX. Como seria essa mentalidade?
Todos nós admiramos os mártires
das primeiras eras do Cristianismo.
Porém, no tempo dos mártires,
não se poderia prever como seriam
os Cruzados. Os mártires morriam
sem possibilidade de lutar. Eram heróis
na defesa passiva. Depois veio
uma outra forma de heroísmo que
nasceu do seio fecundo da Igreja Católica:
o heroísmo na carga de cavalaria
e na luta contra os mouros. Posteriormente
vieram outras formas de
esplendor moral católico, ao longo
dos séculos.
Nós vivemos no tempo da guerra
psicológica revolucionária. Esta-
30
mos em uma guerra, que não é de armas
– a guerra de armas poderá sobrevir
de um momento para outro –,
mas é a guerra de inteligência contra
inteligência. É um choque de mentalidades,
de habilidades, de argumentações,
de organizações, onde o erro
procura conquistar alma por alma
e os bons católicos procuram defender
alma por alma e reconquistar alma
por alma. Há, portanto, duas forças:
a força do bem e a força do mal.
Nós devemos ser, no momento atual,
os cruzados dessa luta de mentalidades.
Devemos ter a mentalidade
oposta à do mundo.
O ideal do verdadeiro
católico é ser um outro
Cristo, inclusive em seu
aspecto gladífero
Como é a mentalidade oposta?
É uma mentalidade que quer o ideal
mais do que qualquer coisa. Que
está disposta a qualquer sacrifício,
contanto que possa conhecer, amar,
servir e lutar por seu ideal; está disposta
a levar a vida mais dura, contanto
que veja o seu ideal vitorioso.
E esse ideal não é abstrato, que se
perde nas nuvens; ele tem um nome:
é Nosso Senhor Jesus Cristo!
Ser como Cristo é seguir seus
exemplos, fazer o que Ele fez. Esse
é o ideal: ter uma civilização cristã,
uma Igreja autenticamente católica!
Mas… Cristo teve muitos aspectos.
Em sua vida nós O vimos
perdoando, nós O vimos chorando
próximo à sepultura de Lázaro,
nós O vimos suando Sangue
no Horto das Oliveiras, nós O vimos
morrendo, clamando em alta
voz: “Eli, Eli, lamá sabachtháni? –
Meu Deus, Meu Deus, por que Me
abandonastes?”(Mt 27, 46). Nós O
vimos em todas as situações…
Em todos os episódios da História
da Igreja, o católico tem que ser
como Ele. Nós O vimos, também,
pegando um açoite e expulsando os
comerciantes do Templo; nós O vimos
dizendo palavras duras aos fariseus.
Em nossa época temos que imitar
Nosso Senhor Jesus Cristo, especialmente
quando tinha o açoite
nas mãos. Temos de imitá-Lo, sobretudo
quando Ele dizia as mais
duras verdades aos fariseus. E para
dizer qual é o perfil moral do homem
católico no século XX, devemos
pensar em Nosso Senhor Jesus
Cristo não tanto como está na narração
de sua vida terrena no Evangelho,
mas como previu São João
no Apocalipse.
Ele prevê um momento de castigo
e de maldição na terra. Ele prevê
a destruição, o fim do mundo. Ele
vê a segunda vinda de Cristo, que ele
chama de Cristo Gladífero: um cavaleiro
magnífico montado sobre um
cavalo branco e que vem armado de
tal maneira que em sua boca Ele traz
uma espada. Ele vem para lutar!
Christianus alter Christus – o cristão
é um outro Cristo. Tal deve ser
nossa semelhança com Nosso Senhor
Jesus Cristo, ser um cristão gladífero,
o católico gladífero que vem
para a luta, para dizer “não” ao comunismo,
“não” aos moles, “não”
aos sofistas, aos mentirosos, e para
lançar-lhes na face todos os seus erros
com energia e com lealdade, sem
temor, enfrentando qualquer perigo
e a morte se necessário for, contanto
que Cristo Gladífero vença. Essa é a
figura do católico.
Nada nos leva a pensar que estejamos
no fim do mundo, mas estamos,
sim, diante de uma tragédia
que é uma prefiguração dele. Agora
o Cristo Gladífero não virá pessoalmente,
mas Ele espera de nós
que sejamos todos juntos um “Cristo
Gladífero” a abrir as paredes, a destruir
as dificuldades com o gládio da
língua e fazer vencer a boa causa.v
(Extraído de conferência de
5/1/1980)
1) Claude Lévi-Strauss (*1908 - †2009).
2) https://www.vatican.va/content/john-
-paul-ii/pt/homilies/1980/documents/
hf_jp-ii_hom_19800101.html
3) 1º de janeiro de 1980. Solenidade de
Maria Santíssima Mãe de Deus. XIII
Dia Mundial da Paz.
Cristo expulsa os vendilhões do Templo – Gemäldegalerie, Berlim
Flávio Lourenço
31
Luzes da Civilização Cristã
coral_fg (CC3.0)
Entre o trágico e o feérico
Cercada por precipícios e montanhas que dão a impressão de
serem um Fujiyama quebrado a socos, a cidade de Cuenca, na
Espanha, causou verdadeiro encanto em Dr. Plinio. Ele, tão
encantável com as sorridentes belezas francesas, sentiu-se
embevecido com a seriedade do temperamento espanhol, capaz
de gerar um convento para homenagear Nosso Senhor no transe
de sua vida em que até o discípulo amado O abandonou.
M.Peinado (CC3.0)
Na primeira viagem que eu fiz à Europa, depois
de desmantelada a Ação Católica em São Paulo,
eu estava em Madrid e reservei um dia para
visitar o Cardeal Segura, que era, naquele tempo, Arcebispo
de Sevilla. Eu já tinha estado nessa cidade. Telefonei para
o Palácio Episcopal e me disseram que o Cardeal não se
encontrava ali, estava de férias na cidadezinha de Cuenca,
distante cerca de cem quilômetros da Capital.
Então contratei um taxista e fui para Cuenca.
Montanhas que parecem quebradas a socos
A estrada passa por aquelas montanhas da Espanha
que dão a impressão de um Fujiyama quebrado, não por
mãos de artista, mas por socos. As montanhas são todas
quebradas e espatifadas, vão subindo e, de repente, acabam
tragicamente. A toda hora tem-se a impressão de encontrar,
numa de suas cristas, D. Quixote que passa e Sancho
Pança atrás, montado no seu burro. É uma atmosfera
meio trágica e meio feérica, a seu modo, grandiosa.
Eu não sabia que a Espanha era assim, e pensei:
“Olha um monte quebrado. Outro monte quebrado. Oh,
que história é essa? Essa gente quebrou tudo quanto é
montanha!” Depois dei-me conta de que era uma peculiaridade
do panorama e concluí: “Mas é uma coisa
curiosa… É o sismógrafo do temperamento espanhol.
Assim se fazem as reconquistas”.
32
PMRMaeyaert (CC3.0)
Jorge Franganillo (CC3.0)
Uma cidade encantadora
Depois de alguns montes, cheguei à cidade de Cuenca.
É um lugar dos mais engraçadinhos que tenho visto
em minha vida.
No lado por onde entrei havia uma pracinha, encantadora!
Pequena, toda calçada com pedras, uma mureta
baixa, também de pedra e uma montanha na qual subia
um mato ralo, mas engraçadinho e cheio de vitalidade.
Encostada naquela mata havia uma fonte com dois “torneirões”
que me pareceram ser de bronze, jorrando água
continuamente, abundante, caudalosa e um pouco rabugenta.
A água, em geral, cai cristalina e faz um barulho
agradável. Aquela fazia um ruído grandioso, de um certo
gênero de rabugice que eu gosto. Quando a rabugice é
coragem e a coragem está a serviço da Fé, aí me agrada.
O motorista quis parar para
beber água. Então desci um
pouco do automóvel para andar,
enquanto o esperava, e me
deparei com um convento que
parecia de brincadeira de boneca,
tão pequeninho era, mas
sério e direitinho, e que datava
do século XVII. 1
Passava por perto um senhor
do povo. Vendo-me, ele percebeu
logo que eu não era espanhol.
Dirigindo-me a ele, perguntei:
— Por favor, que convento é
esse?
Ele respondeu-me com ar de
dignidade:
— ¡Pues! Son las Hijas de la
Angustia.
Almas vítimas chamadas a enriquecer
o tesouro espiritual da Santa Igreja
O título me encantou. Se há uma coisa que o homem
não quer ter é angústia, isso lhe causa terror. As Filhas
da Angústia são aquelas que carregam todas as angústias
por amor a Nosso Senhor Jesus Cristo, para converter
as almas, para chamá-las do pecado para a virtude,
para enriquecer o tesouro da Igreja, de maneira que ela
possa, na ordem sobrenatural, ter os recursos indispensáveis
para se expandir. Elas são vítimas expiatórias, vocação
que toda a vida admirei com transportes de admiração.
Em qualquer canto do mundo um convento chamado
“das Angústias” não se encheria, porque as pessoas têm
mais medo da angústia do que da dor.
Jorge Franganillo (CC3.0)
33
Luzes da Civilização Cristã
Enrique Íñiguez Rodríguez (Qoan) (CC3.0)
Um convento atrair com o nome de Filhas da Angústia
pareceu-me magnífico! Tive vontade de mandar vir
uma cadeira de qualquer barzinho para ficar observando
e me embevecendo com esse tipo faustoso de almas
que se acolhem debaixo das sombras da angústia para
viver e para homenagear Nosso Senhor naquele transe
de sua vida em que até o discípulo amado O abandonou!
Se fosse esta minha vocação, e houvesse uma ordem
religiosa dedicada às angústias, nela eu ingressaria, porque
esta é a militança da alma, que vale ainda mais que
a do corpo. Tomar a angústia de frente e dizer: “Viverei
dentro da angústia para consolar Nosso Senhor, dar
honra e glória a Ele e a Nossa Senhora. Do outro lado
me espera o Céu, mas durante esse tempo eu pago os
meus pecados, expio pelos revolucionários e obtenho a
derrota da Revolução. Lá vamos nós!”
Eu estava encantadíssimo com o Convento das Angústias,
com a dignidade do homem, com a sonoridade
da pedra, com o resmungo da fonte, com a largura das
torneiras, tudo aquilo formava um todo que me deixava
maravilhado.
Eu, tão encantável pelo Trianon de Versailles e por todas
as belezas francesas tão sorridentes, entretanto ali
estava embevecidíssimo até o extremo de minha alma, e
no que ela tem de mais sério, com as Filhas da Angústia
e com Cuenca.
Espanha aburguesada, oposta à heroica
Espanha dos grandes tempos
Mas tive de entrar no automóvel novamente e continuar
o percurso. A estrada dava a volta no morro e passava
por um arco; eu não pude mandar parar o carro,
mas percebi que abaixo havia um precipício e no meio do
caminho uma pedra que cortava o acesso da estrada; então
os espanhóis tinham-na furado e aberto um caminho
por dentro dela, fazendo assim um arco. A estrada era
quase um desafio ao precipício.
Eu me perguntei: “Será que este carro cabe? Este
‘mosquitão’ de ferro em que estou passa por esse arco
tão estreito?” O automóvel, com os para-lamas meio trêmulos,
uma buzina precária… o que eu podia ver do automóvel
dava-me a impressão de ser pouco seguro. Por
fim ele passou e chegamos ao centro de Cuenca.
Essa parte da cidade era ainda mais alta que o local
onde estão Las Hijas de la Angustia. O centro da cidade revelava
uma Espanha um pouco burguesa, muito diferente
da atmosfera heroica da Espanha dos grandes tempos.
Havia uma pracinha pública de cidadezinha entre média
e pequena, aconchegadinha, onde eu tive a impressão
curiosa de que ninguém trabalhava. Os homens pa-
34
rados na pracinha, conversando, e as senhoras deviam
estar trancadas em casa fazendo o jantar.
A melhor confeitaria de Cuenca
Eu tinha fome e sede, pois fizéramos uma viagem longa.
Então mandei o taxista ir para a melhor confeitaria de
Cuenca, perguntando-me: “O que será a melhor confeitaria
de Cuenca? Que doces vou encontrar lá? Enfim, vamos...”
Chegamos à confeitaria. Era uma sala grande com
mesinhas encostadas à parede e que enchiam todo o
perímetro. Havia uma espécie de faixa grande, toda de
couro, que circundava toda a parede. Os encostos e o assento
das cadeiras eram forrados de couro também. Até
os espelhos tinham arranjado um jeito de envelhecer.
A pessoa se olhava no espelho e saía meio oblíqua…
Mas tudo muito limpo e bem arranjado.
Uma orquestra completa estava tocando, em
pleno dia, uma música solta. E quase todas as mesas
cheias. Os homens, ou conversando com uma
animação extraordinária, ou – surpresa para
mim – jogando dominó, que aqui no Brasil é uma
brincadeira para crianças. Eles jogavam as partidas
numa torcida! Eu fiquei entretidíssimo e quis
ver como funcionava por dentro a cabeça de um homem
desses.
Não me lembro como eram os doces da melhor confeitaria
de Cuenca. Não deviam ser nem muito ruins nem
muito bons, porque me esqueci deles, mas fiquei encantado
e pensando: “Se pudesse trazer mamãe, eu viria
morar em Cuenca, porque sinarquia não tem! Aqui eu
respiro e tenho tempo de pensar”.
v
(Extraído de conferências de 17/5/1980 e 6/5/1988)
1) Ermida Santuário de Nuestra Señora de las Angustias.
AdriPozuelo (CC3.0)
Jorge Franganillo (CC3.0)
35
Flávio Lourenço
Virgen del Rosario de Lepanto - Igreja de Santo Domingo, Granada
Rainha da Paz e da Vitória
Não se pense que a paz dessa gloriosa Rainha é a dos charcos e dos pântanos. É
a paz do Céu, que brilha em todo o seu esplendor, enquanto no Inferno o mal,
manietado e esmagado, padece tormentos eternos.
A Rainha da Paz é, por excelência, a Rainha da Vitória, que conduz ao triunfo, entre
terríveis lutas, as ovelhas de Cristo.
Essas lutas são entre os filhos de Maria e os adeptos da serpente, separados entre si por
uma irredutível inimizade.
(Extraído do Legionário de 13/5/1945)