COMUNICACOES 255 - ANTÓNIO GAMEIRO MARQUES - EUROPA NUMA ENCRUZILHADA DIGITAL: E AGORA?
COMUNICACOES 255 - ANTÓNIO GAMEIRO MARQUES - EUROPA NUMA ENCRUZILHADA DIGITAL: E AGORA?
COMUNICACOES 255 - ANTÓNIO GAMEIRO MARQUES - EUROPA NUMA ENCRUZILHADA DIGITAL: E AGORA?
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#255
DEZEMBRO 2025 | ANO 38 | PORTUGAL | 3,25€
Comunicações
António
Gameiro Marques
Presidente do 35.º Congresso da APDC
EUROPA NUMA
ENCRUZILHADA
DIGITAL:
E AGORA?
.PT
A bandeira de
Portugal na internet
INESC COIMBRA
E INESC MN
Ciência que constrói
soluções para o Mundo
A ABRIR
2 | APDC | REVISTA COMUNICAÇÕES | DEZEMBRO 2025
EDITORIAL
SANDRA FAZENDA ALMEIDA
sandra.almeida@apdc.pt
2026: O ANO
DA VERDADE DIGITAL?
O
final do ano é sempre um momento
de balanço. Mas, neste ciclo,
é sobretudo um convite a olhar
em frente, com sentido de urgência.
Tudo indica que 2026 será um ano
decisivo para o digital. Não apenas pela tecnologia,
mas pelas escolhas que a Europa – e Portugal – terão
de fazer num mundo cada vez mais imprevisível.
Tanto no plano político como económico e tecnológico.
A União Europeia confronta-se com um desafio
estrutural: afirmar a sua soberania digital, sem abdicar
da inovação; reforçar a segurança, sem comprometer
a liberdade; e competir globalmente, sem pôr
em risco os seus valores. Para países como Portugal,
este contexto é exigente. Mas também abre uma janela
de oportunidade para ganhar escala, especialização
e relevância no espaço europeu.
A inteligência artificial (IA) está no centro desta
transformação. Depois do boom de projetos e de
investimentos, 2026 é apontado por muitos analistas
como o “ano da verdade” da IA. Ou seja, chegou o
momento em que a tecnologia terá de provar, de forma
clara, o seu valor económico, social e organizacional.
O foco desloca-se do hype para o impacto real:
produtividade, eficiência, confiança e responsabilidade.
Isso ficou claro na mais recente edição do EVOLVE,
que mostrou que a transformação digital chegou
em força às empresas. E que, se a tecnologia acelera,
são a liderança, a cultura e a capacidade de execução
que fazem a diferença.
O ‘À CONVERSA’ com António Gameiro Marques,
que faz a capa desta edição, reflete bem esta
encruzilhada: segurança, soberania e confiança
deixaram de ser temas técnicos, para se tornarem
questões centrais da democracia, da economia
e da coesão social. Num ecossistema digital
interdependente, proteger sistemas é proteger
pessoas e instituições.
Este caminho de reflexão e debate continuará
em 2026. Nomeadamente no 35.º Congresso
da APDC, sob o tema “Europe in the Digital Age:
Balancing Sovereignty, Security and Innovation”,
que terá exatamente António Gameiro Marques
como presidente. Será um congresso realizado
num momento crítico, com a ambição de colocar
Portugal no centro da discussão europeia sobre
o futuro digital.
Entramos, pois, no novo ano com mais perguntas
do que respostas. O que não é sinal de fraqueza,
mas sim de maturidade. O desafio está em saber
equilibrar ambição com responsabilidade, velocidade
com confiança, inovação com propósito. É este debate
que vamos continuar a promover: na APDC e nas
páginas desta revista. Afinal, o futuro não se adivinha,
constrói-se.
Um excelente ano!
Consulte aqui todas as edições
da Revista Comunicações
DEZEMBRO 2025 | REVISTA COMUNICAÇÕES | APDC | 3
14
À CONVERSA
Na 5.ª Edição do EVOLVE – Digital Transformation
Summit foram apresentados 17 projetos
tecnológicos – da energia à banca, da saúde
à indústria, do setor público aos media – que
redesenham processos, elevam a eficiência e criam
novas formas de servir pessoas, cidades e empresas.
40
Da otimização matemática à micro e nanofabricação,
o INESC Coimbra e o INESC MN ilustram duas
abordagens distintas e complementares, onde
investigação interdisciplinar, engenharia de ponta
e ligação à indústria se cruzam para gerar impacto
económico, social e tecnológico.
88
António Gameiro Marques, presidente do
35.º Congresso da APDC, é uma das vozes mais firmes
na defesa da soberania digital, da cibersegurança
e da confiança no ecossistema digital. Inquieto com a
dependência tecnológica da União Europeia, defende
uma sociedade digital assente na colaboração,
escolha estratégica e preservação de valores.
24
EM DESTAQUE
NEGÓCIOS
A .PT assegura o registo e o funcionamento de todos os
domínios .pt, ambicionando ser a plataforma de dados
do país e liderar o ecossistema digital em Portugal.
Com um crescimento acima da média europeia, aposta
também na promoção das competências digitais.
54
PORTUGAL DIGITAL
CIDADANIA DIGITAL
A associação Inspiring Girls Portugal prepara-se para
levar para o terreno um projeto, vencedor de um
prémio da APDC, que pretende quebrar barreiras de
género no acesso às carreiras científico-tecnológicas.
A iniciativa é dirigida a alunos do 3.º ciclo e do Ensino
Secundário.
4 | APDC | REVISTA COMUNICAÇÕES | DEZEMBRO 2025
FICHA TÉCNICA
06 A ABRIR
14 À CONVERSA
António Gameiro Marques, Presidente
do 35.º Congresso da APDC
24 EM DESTAQUE
5.ª Edição EVOLVE – Digital Transformation
Summit
38 5 PERGUNTAS
Adolfo Martinho, Diretor-Geral da DXC
Technology Portugal
40 NEGÓCIOS
.PT – A bandeira de Portugal na Internet
46 I TECH
José Manuel Paraíso, Country General
Manager da Kyndryl Portugal
48 BARÓMETRO RH
Tendências na área do talento e dos recursos
humanos
50 RADAR LEGAL
Digital Omnibus Package
52 VISÃO DOS ASSOCIADOS
Brighten – Inovação em Ecossistema
54 PORTUGAL DIGITAL
INESC COIMBRA E INESC MN
64 ESPAÇO ANACOM
Um novo papel na cibersegurança
66 APDC NEWS
88 CIDADANIA DIGITAL
Future STEMers – O Futuro por Nós
90 A FECHAR
92 AGENDA
COMUNICAÇÕES 255
PROPRIEDADE E EDIÇÃO
APDC
Associação Portuguesa
para o Desenvolvimento
das Comunicações
DIRETORA EXECUTIVA
Sandra Fazenda Almeida
sandra.almeida@apdc.pt
Av. João XXI, 78
1000 – 304 Lisboa
Tel.: 213 129 670
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Email: geral@apdc.pt
NIPC: 501 607 749
EDITORA | CHEFE DE REDAÇÃO
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SECRETÁRIA DE REDAÇÃO
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CONSELHO EDITORIAL
Adolfo Martinho; Filipa Brigola;
Dennis Teixeira; Diogo Madeira;
Fernando Braz; Fernando Marta;
Filipa Carvalho; Francisco Maria
Balsemão; José Manuel Paraíso;
Luísa Ribeiro Lopes; Marina Ramos;
Marta da Silva; Miguel Almeida;
Olivia Mira; Paolo Favaro;
Paulo Filipe; Pedro Coelho;
Pedro Faustino; Pedro Gonçalves;
Pedro Tavares; Rodrigo Cordeiro;
Rogério Carapuça; Sérgio Catalão;
Tiago Barroso; Vasco Almeida.
EDIÇÃO E DESIGN
F5C – First Five Consulting
Av. da Liberdade, 230 – 3º
1250-148 Lisboa
PERIODICIDADE
Trimestral
TIRAGEM
Digital
PREÇO DE CAPA
3,25 €
DEPÓSITO LEGAL
2028/83
REGISTO INTERNACIONAL
ICS N.º 110928
ERC N.º 128 111
DEZEMBRO 2025 | REVISTA COMUNICAÇÕES | APDC | 5
A ABRIR
IA TORNA-SE ALIADA
DOS CIBERCRIMINOSOS
O ritmo de evolução das ameaças
cibernéticas é cada vez mais intenso,
num cenário de convergência entre
conflitos geopolíticos, eventos climáticos
extremos e ciberataques a infraestruturas
críticas. E regista-se uma crescente
sofisticação operacional dos grupos
de ransomware, assim como o uso
estratégico de IA ofensiva, a padronização
dos acessos iniciais e a exploração
recorrente de vulnerabilidades. Tal está
a dar origem a um ecossistema de ameaças
mais dinâmico, opaco e imprevisível
e a um nível de profissionalização
sem precedentes dos ataques.
O aviso é da NTT DATA, no “Relatório
de Tendências e Ciberameaças –
1.º semestre de 2025". O trabalho
constata ainda que este ambiente
complexo está a contribuir diretamente
para a escalada do custo global do
cibercrime. Neste contexto, a cooperação
internacional e a resiliência organizacional
tornam-se elementos-chave para mitigar
ameaças dinâmicas e imprevisíveis, que
exigem respostas coordenadas que possam
ser adaptadas e orientadas por dados
de inteligência. É que a proteção já não
pode ser só reativa, sendo necessário
adotar uma postura de recolha proativa
de informação sobre ameaças, deteção
precoce, colaboração internacional
e fomentar uma cultura de cibersegurança
institucionalizada.
Regista-se uma
crescente sofisticação
operacional
dos grupos de
ransomware, assim
como o uso estratégico
de IA ofensiva,
a padronização
dos acessos iniciais
e a exploração
recorrente de
vulnerabilidades
NÚMEROS
5 BILIÕES
É o valor mais alto de sempre, em dólares,
alcançado por uma empresa em bolsa.
A Nvidia voltou a fazer história, animada
pela corrida à IA. Depois de anunciar
encomendas de chips de mais de 500 mil
milhões de dólares e planos para construir
sete supercomputadores para o governo
dos EUA, a sua capitalização bolsista bateu
máximos de sempre em Wall Street, tornando-
-se no final de outubro na primeira “five trillion
dollar baby”. Pouco mais de três meses antes,
tinha superado a fasquia dos quatro biliões.
4 BILIÕES
É quanto já valem, em dólares, a Apple
e a Microsoft em Wall Street, tornando-se
“four trillion dólar baby” e juntando-se
à Nvidia, dias antes desta voltar a bater
novo recorde. A Microsoft já tinha alcançado
esta fasquia, enquanto a Apple a atingiu
pela primeira vez na sua história.
Tudo graças à euforia do mercado,
nomeadamente em torno do futuro
com a IA, que está a impulsionar as
grandes cotadas do setor tecnológico.
600 MIL MILHÕES
É o total, em dólares, que a Meta vai
investir nos próximos três anos nos Estados
Unidos. Pretende reforçar a aposta no
desenvolvimento da IA, assim como investir
em infraestruturas, incluindo centros
de dados, para alcançar as suas ambições.
A dona do Facebook, Instagram e WhatsApp
diz que, desde 2010, já criou 30 mil postos
de trabalho especializados e 5 mil funções
operacionais, além de gerar mais
de 20 mil milhões de dólares em negócios
para subcontratados de diversos setores.
6 | APDC | REVISTA COMUNICAÇÕES | DEZEMBRO 2025
CITAÇÕES
“Temos um problema que
é um cancro da nossa sociedade
europeia e portuguesa
que é o crescimento da tecnocracia
e da burocracia. Temos
de sair desta rota onde estamos
a consumir recursos raros
para fazer face à burocracia
e tecnocracia, em vez
de investirmos esses recursos
para criar mais riqueza.”
CARLOS TAVARES,
Jornal de Negócios, 02/12/2025
FRAUDE DISPARA NAS EMPRESAS
PORTUGUESAS
Quase um terço das
empresas portuguesas
foi alvo de fraude no último
ano. E cerca de 76% ainda
não usam tecnologia para
a detetar. O alerta é do
Corruption & Fraud Survey
2025, da Deloitte.
O estudo mostra que 28%
das organizações reportaram
incidentes, sobretudo fraude
em meios de pagamento
(45%), apropriação indevida
de ativos (38%) e ciberataques
(34%). Apesar da crescente
SATISFAÇÃO NO
TRABALHO CAI
PARA MÍNIMOS
A satisfação no trabalho atingiu um mínimo
histórico em 2025, revela o novo HP Work
Relationship Index. Apenas 20% dos
knowledge workers dizem manter uma
relação saudável com o trabalho e os líderes
empresariais registam o maior declínio anual,
expondo uma quebra de confiança dentro
das organizações. O estudo indica, porém,
que 85% dos fatores que moldam o bem-estar
profissional dependem diretamente
das empresas, desde a qualidade da liderança
ao reconhecimento, propósito e flexibilidade.
Hoje, só 44% sentem propósito no que fazem
e 39% afirmam receber o reconhecimento
devido. A pressão também cresce, já que
62% dizem que as exigências aumentaram
e 45% sentem que o lucro vale mais do que
as pessoas. A IA surge como fator positivo:
consciencialização – 91%
já têm canais de denúncias
e 57% políticas de gestão
de risco – a maioria
das empresas continua
vulnerável. Mais de
três quartos não utiliza
tecnologias de deteção
automática e 72% não
planeia investir mais de
25 mil euros em ferramentas
avançadas no próximo ano.
Esta postura contrasta com
a tendência global, onde 73%
das organizações já recorrem
à IA para reforçar
a resposta antifraude.
O impacto financeiro
é significativo: 56% estimam
perdas entre 0,5% e 2%
da receita. Para a Deloitte,
as empresas permanecem
demasiado reativas,
apostando em controlos
imediatos em vez de
estratégias estruturais
de prevenção. E arriscam
ficar para trás num cenário
de fraude cada vez mais
sofisticado.
quatro em cada dez já a usam diariamente,
e quem tem acesso a ferramentas corporativas
é duas vezes mais propenso a relatar uma
relação saudável com o trabalho. A Geração Z
e os Millennials estão a redefinir expectativas
e a exigir flexibilidade, autonomia e liderança
orientada por valores. Ignorá-los é perder
talento e futuro competitivo, alerta este
trabalho.
“A maioridade digital é hoje
uma questão central que todos
os países estão a discutir,
cada um julgando que é um
problema seu quando, no fundo,
é um problema comum.
E se o tratarmos de uma forma
global, todos o faremos melhor,
porque aprendemos uns
com os outros. Teremos,
juntos, mais força, para regular
os novos oligarcas tecnológicos,
que são hoje uma ameaça efetiva
à nossa democracia.”
ANTÓNIO COSTA
CNN Portugal, 21/11/2025
“Há uma bolha nas empresas
de tecnologia ligadas à IA,
principalmente envolvendo
investimentos excessivos
em infraestruturas físicas,
como no caso dos centros de dados.
(…) Quando não se sabe o valor real
de uma tecnologia, não é possível
aos investidores atribuírem,
racionalmente, uma avaliação
aos investimentos.”
JERRY KAPLAN
Expresso, 11/11/2025
“A IA não precisa de ser
uma moda nem um inimigo.
Pode ser uma ferramenta –
poderosa, sim, mas uma
entre muitas. Tal como
a calculadora não matou a
matemática, a IA não precisa
de matar a criatividade.
Desde que saibamos usá-la
com discernimento, propósito
e ética. O problema não é o avanço
tecnológico, mas a pressa
em usá-lo sem reflexão e sem
ponderação racional!”
VERA CARRONDO
ECO, 10/11/2025
DEZEMBRO 2025 | REVISTA COMUNICAÇÕES | APDC | 7
A ABRIR
EDUCAÇÃO
COM IA:
UMA NOVA ERA
A IA está prestes a transformar
profundamente a educação –
da personalização do ensino ao apoio
aos professores. E os maiores desafios
passam por garantir segurança, equidade
e pensamento crítico, num sistema
de aprendizagem em rápida mutação.
Nesta nova era, a solução não passa por
proibir a tecnologia, mas sim por construí-la
de forma diferente, fundamentada na ciência
da aprendizagem, para atuar como parceira
de alunos e educadores e não apenas como
um atalho. Esta recomendação é da Google,
num position paper que aborda os desafios
da utilização da IA na formação dos alunos.
O documento identifica um ponto
de viragem: a IA pode personalizar
o ensino, simplificar conteúdos
complexos, criar experiências
interativas e aliviar sistemas
educativos sobrecarregados,
num contexto em que os resultados
do PISA têm caído globalmente
e faltam professores. A Google
destaca cinco áreas
de transformação – ligação
à ciência da aprendizagem,
personalização, acessibilidade,
tutorias adaptadas e apoio direto
aos docentes. Mas alerta para riscos
sérios: precisão limitada, segurança
dos jovens, viés, dependência excessiva
e desigualdades reforçadas se o acesso
não for garantido. E defende que
a verdadeira revolução será social, exigindo
a participação ativa de educadores,
governos e comunidades.
IA USADA
POR 40%
DOS JOVENS
EUROPEUS
Cerca de 40% dos jovens europeus
entre os 13 e 18 anos usam IA todos
os dias, sobretudo para estudar,
criar e explorar novos interesses.
A conclusão é de um estudo
encomendado pela Google, que
revela que entre os mais de sete
mil inquiridos, 81% dizem que a
tecnologia aumenta a criatividade,
65% afirmam que os ajuda a gerar
ideias e 47% consideram que facilita
a compreensão de temas complexos.
A IA já está também a entrar nas
escolas: 56% indicam que pelo
menos uma ferramenta inteligente
foi aprovada pelos estabelecimentos
de ensino, embora 28% digam que
isso ainda não acontece. Apesar da
forte adoção, os jovens mostram
cautela: 55% avaliam a credibilidade
do conteúdo que encontram online
e 46% verificam informação noutras
fontes. O estudo indica ainda que 32%
procuram apoio dos pais para hábitos
digitais saudáveis, reforçando que,
para esta geração, a IA é um recurso
valioso, mas que deve ser usado com
espírito crítico e equilíbrio.
Curiosidades
IMPLANTES QUE VIAJAM PELO CEREBRO
Um sistema de implantes cerebrais que têm a capacidade de viajar no cérebro humano, através do sangue,
e que tratam doenças graves sem cirurgias? Ao que parece, já não é ficção. Um grupo de investigadores
do MIT está a desenvolver esta solução para ajudar no tratamento de doenças neurológicas graves, eliminando os
riscos e custos associados às cirurgias. As conclusões deste trabalho foram publicadas na revista científica Nature Biotechnology.
A equipa desenvolveu um sistema bioeletrónico microscópico, sem fios, que pode navegar pelo sistema circulatório até chegar a
uma determinada região do cérebro. A tecnologia permite estimular eletronicamente e tratar a zona afetada. Chamaram ao sistema
“circulatronics”, estando o projeto em desenvolvimento há mais de seis anos, tendo sido testado para combater a inflamação no
cérebro, frequentemente ligada a doenças neurológicas. Agora, a meta é avançar para ensaios clínicos, num prazo de três anos,
através da recém-criada startup Cahira Technologies.
8 | APDC | REVISTA COMUNICAÇÕES | DEZEMBRO 2025
CITAÇÕES
TELCOS REDUZEM EM 85%
IMPACTO DOS CIBERATAQUES
Os operadores de telecomunicações europeus
reduziram em 85% o impacto dos ciberataques
em apenas dois anos, apesar do aumento das
ameaças que colocam em risco a conetividade
na UE. Em 2024, as telcos registaram menos
1,7 mil milhões de horas de conetividade
perdida, uma descida de 55% face a 2023, revela
o estudo “The Telecom sector's contribution
to Europe's security and resilience”, da
Connect Europe e da Copenhagen Economics.
A melhoria resulta de infraestruturas mais
robustas, melhor gestão de risco e processos
de resposta mais maduros. Mas o relatório
GENAI PODE RENDER 1,2 MIL
MILHÕES POR ANO AO ESTADO
A adoção da IA generativa pode aumentar
a produtividade da Administração Pública
portuguesa em 9% nos próximos 10 anos,
gerando um impacto económico anual
estimado de 1,2 mil milhões de euros.
Os dados são do estudo The AI opportunity
for eGovernment in Portugal, encomendado
pela Google. A análise indica que dois terços
dos trabalhadores do Estado – cerca
de 200 mil pessoas – poderão beneficiar
diretamente da tecnologia, integrando-a
em tarefas diárias. Atualmente, mais de
metade dos funcionários públicos já usa
ferramentas de IA e 80% acredita que serão
essenciais na próxima década. O relatório
recomenda por isso metas ambiciosas
na nova Agenda Nacional de IA,
começando por aplicações internas
de baixo risco e avançando para
serviços voltados para o cidadão,
como automatização
de formulários ou apoio
digital no Gov.pt –
onde o assistente
de IA já respondeu
a 17 mil conversas
no primeiro mês.
lança um aviso claro: a resiliência futura
está ameaçada pela falta de um ambiente
regulatório favorável ao investimento. Pelo que
recomenda três prioridades políticas: apoiar
o financiamento da segurança, simplificar
regulamentação, eliminando duplicações,
e colmatar a escassez de talento com uma
estratégia europeia de competências
em cibersegurança. Para a Connect Europe,
reforçar o investimento em conetividade
será decisivo para sustentar redes críticas
que suportam serviços essenciais,
da cloud à administração pública digital.
A Google defende que a transformação
poderá reduzir a burocracia, acelerar serviços
essenciais e tornar processos públicos mais
simples para cidadãos e empresas, desde que
acompanhada por regras de soberania, ética,
interoperabilidade e investimento continuado
em infraestrutura.
“A IA é simultaneamente motor de
eficiência e causa de instabilidade,
acelerando a transição para uma
economia onde o valor humano
dependerá cada vez mais da
capacidade de adaptação e de
aprendizagem contínua. A grande
questão da próxima década será
a capacidade de adaptação
e requalificação, para que
a inovação tecnológica amplie
– e não destrua – as oportunidades
de trabalho e desenvolvimento
humano.”
PAULO MONTEIRO ROSA
ECO, 07/11/2025
“Sem ciência, a democracia
enfraquece, a economia estagna e
o futuro torna-se refém do acaso.
Os países que hoje lideram o
mundo não chegaram lá por sorte.
Chegaram lá porque acreditaram
no poder transformador do
conhecimento (…). Portugal não
investe mais em ciência por ser
pobre. Portugal é pobre porque
ainda não percebeu que investir
em ciência é a única forma
de deixar de o ser.”
MARIA MANUEL MOTA
Expresso, 06/11/2025
“Uma reforma do Estado que
não toca na máquina do Estado
não reforma nada, pode mudar
processos, mas não reforma.
O Governo fala de ‘eficiência’
e ‘desburocratização’, mas para
já evita o essencial – isto é, ajustar
o tamanho da máquina
à produtividade da economia
e usar a digitalização para libertar
recursos. (…) Sem um plano que
defina quantos entram, quantos
saem e quanto se poupa,
o Estado apenas se reorganiza
para continuar igual.”
ANTÓNIO COSTA
ECO, 16/10/2025
“As redes sociais
industrializaram o reflexo idiota.
O algoritmo necessita de que
estejamos convictos de que
o outro é um idiota, pois
rentabiliza e monetariza
essa certeza – e a raiva
é o modelo de negócio.”
LUÍS PEDRO NUNES
Expresso, 16/10/2025
DEZEMBRO 2025 | REVISTA COMUNICAÇÕES | APDC | 9
A ABRIR
Curiosidades
EMPREGADO DOMÉSTICO ARTIFICIAL
É o sonho de qualquer pessoa: ter um
robô humanoide em casa que promete
deixar tudo num ‘brinco’. Espera-se que
seja possível já em 2026 nos Estados
Unidos e em 2027 noutros mercados.
Chama-se NEO, já foi apresentado
oficialmente e garantem que se trata
do primeiro robô humanoide 100%
pronto para o consumidor. Tem
capacidade para realizar variadas
tarefas domésticas, incluindo
“dobrar roupa, organizar prateleiras
e arrumar espaços”. Este ‘empregado
doméstico’, desenvolvido pela
1X Home Robots, vai custar
20 mil dólares ou uma subscrição
mensal. Equipado com um modelo
de linguagem avançado (LLM),
a mesma base de alguns sistemas
de IA, o robô tem capacidade de
aprendizagem e de memorização
das preferências do utilizador.
Vai além das capacidades
domésticas, integrando Wi-Fi,
Bluetooth e um sistema
de altifalantes em três níveis.
É também uma central de
entretenimento doméstico móvel.
Além do preço, há um senão: para
aprender, precisa de supervisão
humana, o que obriga a empresa
a monitorizar as tarefas através dos
olhos do robô. O que levanta questões
de privacidade.
Este ‘empregado
doméstico’,
desenvolvido pela
1X Home Robots, vai
custar 20 mil dólares
ou uma subscrição
mensal
IA ACELERA CORRIDA
À CLOUD HÍBRIDA
A cloud híbrida tornou-se no novo
pilar da adoção de IA e da agilidade
empresarial. Apesar de 70% dos CEO
admitirem ter chegado ao seu ambiente
cloud “por acidente”, o investimento
aumentou mais de 30% no último ano,
impulsionado por desafios de integração
de IA, novas exigências de soberania
e maior risco cibernético. O Cloud
Readiness Report 2025, da Kyndryl,
mostra que 75% dos líderes estão
preocupados com riscos geopolíticos
e 65% já ajustaram estratégias de
dados. A cloud híbrida e a multi-cloud
afirmam-se como norma: 84% utilizam
múltiplas clouds e 41% estão a repatriar
dados para on-premises. Para o estudo,
a IA é o principal motor desta mudança.
Cerca de 89% dos líderes reconhecem
que a cloud facilitou a sua adoção, mas
35% enfrentam barreiras de integração.
Mas estão a crescer as infraestruturas
especializadas, como IA privada
e neoclouds, otimizadas para cargas
de GPU. Com 82% das organizações
a sofrerem incidentes de
cibersegurança, 75% investem agora
em IA para proteção. Para a Kyndryl,
a cloud híbrida é a base estratégica
que permitirá integrar IA com
segurança, confiança e inovação
contínua.
10 | APDC | REVISTA COMUNICAÇÕES | DEZEMBRO 2025
NÚMEROS
Curiosidades
RECORDE DE
BILIONÁRIOS EM 2025
Aconteceu este ano na China, onde
surgiu um novo bilionário por dia.
Dados da última edição da “Hurun China
Rich List” diz que havia em outubro
1.434 indivíduos com fortunas superiores
a cinco mil milhões de yuan (cerca
de 601 milhões de euros), mais
340 do que no ano passado, com
um crescimento de 31%. Tudo graças
à valorização das bolsas e à ascensão
de empresas da “nova economia”.
O património combinado destes
multimilionários totaliza 30 biliões
de yuan (quase 3,6 biliões de euros),
um aumento de 42% face ao ano anterior.
Zhang Yiming, fundador da ByteDance,
a dona do TikTok, está na 2.ª posição,
com uma fortuna de 470 mil milhões
de yuan (56 mil milhões de euros),
mais 34%. O número de fortunas
acima dos 100 mil milhões de yuan
(12 mil milhões de euros) subiu de 26
para 41, com um crescimento de 59%.
Já o total de pessoas com património
acima de mil milhões de dólares
(857 milhões de euros) aumentou
36%, para 1.021.
FRAUDE
IMPULSIONADA
POR IA DISPARA
A fraude digital entrou numa nova era
e a IA está no centro da mudança. Um estudo
global do SAS e da ACFE revela que 77%
dos especialistas antifraude registaram uma
aceleração significativa no uso de deepfakes
e engenharia social nos últimos dois anos,
enquanto 83% preveem uma intensificação
destes esquemas até 2027. O alerta torna-se
mais preocupante quando cruzado com
outro dado: menos de 10% dos profissionais
sentem-se preparados para enfrentar ataques
potenciados por IA. A investigação demonstra
que modelos generativos tornaram a fraude
mais rápida, convincente e difícil de detetar,
criando um cenário de vulnerabilidade
crescente para empresas, governos e cidadãos.
Para conter o risco, são apontados caminhos
claros. A verificação de identidade avançada,
monitorização transacional em tempo real
e analítica comportamental de larga escala
serão essenciais para travar ataques antes
de se materializarem. Num ecossistema
em que a linha entre verdade e simulação
se torna cada vez mais ténue, a mensagem
é inequívoca: a defesa também terá de ser
inteligente.
CIBERSEGURANÇA 2026:
O ANO EM QUE NINGUÉM ESTARÁ
SEGURO
A Devoteam Cyber Trust antecipa um 2026
decisivo para a segurança digital, num cenário
onde a inteligência artificial, a computação
quântica e a globalização das infraestruturas
ampliam riscos e exigem novas respostas.
O relatório “10 Tendências de Cibersegurança
para 2026” alerta para a integração total
da IA – tanto na defesa como no ataque,
a urgência da criptografia pós-quântica e a
ascensão de modelos Zero Trust operacionais
em ambientes híbridos e multicloud. A gestão
contínua da exposição (CTEM) torna-se
linguagem comum entre segurança e negócio,
500 MIL MILHÕES
É o montante recorde, em dólares,
da startup mais valiosa do mundo.
Foi alcançado pela OpenAI
no início de outubro, na sequência
de uma venda de ações de alguns
funcionários da dona do ChatGPT,
que ainda não está cotada em bolsa,
operação que terá rendido 6,6 mil
milhões de dólares. A Bloomberg
diz que o recorde anterior pertencia
à SpaceX, do multimilionário
Elon Musk, com 400 mil milhões
de dólares. Em menos de um ano,
a OpenAI aumentou exponencialmente
o seu valor, graças à febre
em torno da IA, e aos vários acordos
que tem vindo a anunciar
com outros gigantes do setor,
como a Oracle e a Nvidia.
38 MIL MILHÕES
É a verba a investir, em dólares,
pela AWS e a OpenAI, no âmbito
de uma parceria estratégica de
longo prazo que ambas anunciaram.
Representa para a Amazon um passo
significativo na corrida à IA, face
a concorrentes como a Microsoft
e a Google. Já para a dona do ChatGPT,
permitirá reforçar a sua capacidade
de computação, acelerando
o desenvolvimento de novos modelos
de IA. Estima-se que esta parceria
registe um crescimento contínuo
ao longo dos próximos sete anos.
enquanto a identidade e o comportamento
passam a concentrar os principais controlos.
O estudo aponta ainda a fusão entre cloud,
dados e cadeia de software como superfície
única de ataque, a industrialização
do cibercrime e o impacto crescente
de regulamentações como NIS2, DORA
e AI Act. Num contexto de ataques mais
rápidos, baratos e automatizados, a Devoteam
defende que 2026 exigirá estratégias simples,
acessíveis e centradas nas pessoas, capazes
de transformar a cibersegurança numa
verdadeira vantagem competitiva.
DEZEMBRO 2025 | REVISTA COMUNICAÇÕES | APDC | 11
A ABRIR
IA FAZ 50% DO ATENDIMENTO
AO CLIENTE ATÉ 2027…
A IA está a transformar
o atendimento ao cliente em
Portugal. Segundo o relatório
State of Service, da Salesforce,
30% dos casos já são hoje resolvidos
por IA, percentagem que deverá
chegar aos 50% até 2027. Os líderes
portugueses colocam a tecnologia
no 6.º lugar das prioridades e veem
os agentes inteligentes como chave
para reduzir custos, aumentar
a satisfação e libertar equipas para
tarefas de maior valor. Na região
EMEA, os profissionais que utilizam
IA passam menos 20% de tempo
em tarefas rotineiras e ganham
quatro horas semanais para trabalho
especializado. O estudo mostra
ainda que 87% dos profissionais
portugueses desenvolveram
novas competências e 84%
dizem que os seus papéis
se tornaram mais
especializados
graças à IA.
Apesar dos
desafios na
segurança
– que atrasaram iniciativas
para 54% dos inquiridos, 95%
dos líderes afirmam que
os obstáculos foram menores
do que o esperado. A Salesforce
conclui que a IA está a remodelar
o serviço ao cliente e a criar
oportunidades de crescimento
e carreira.
BOM DIA!
EM QUE POSSO
AJUDAR?
Curiosidades
MODELOS DE IA VICIADOS
NO JOGO?
Sim, parece mentira, mas é verdade. Pelo
menos tendo em conta uma pesquisa que pôs
à prova o comportamento de quatro modelos
de IA avançados perante uma slot machine.
O resultado? A racionalidade vai fugindo das
decisões à medida que aumenta a liberdade
para apostar, tal como acontece com muitas
pessoas. Ou seja, à semelhança do que fariam
muitos humanos, principalmente os que têm
problemas de adição ao jogo, quanto mais
liberdade de ação se deu aos modelos de IA,
piores e mais arriscadas foram as decisões.
A pesquisa foi realizada por investigadores
do Instituto de Ciência e Tecnologia de
Gwangju, na Coreia do Sul, envolvendo quatro
modelos avançados de IA: GPT-4o-mini e
GPT-4.1-mini, da OpenAI; Gemini-2.5-Flash
do Google e Claude-3.5-Haiku da Anthropic.
Os resultados foram publicados na plataforma
arXiv e mostram que a cada um dos modelos
foram dados 100 dólares para apostar em
slot machines e a liberdade de escolher entre
apostar ou parar em cada jogada. Quando se
deu liberdade aos modelos para escolherem
os valores das apostas, as más decisões
aumentaram exponencialmente, revelando
mesmo comportamentos irracionais.
… E 2026 SERÁ O ANO DO
TESTE REAL À TECNOLOGIA
O entusiasmo em torno da IA está a dar lugar a dúvidas e 2026 será o ano
do teste à realidade, revela o SAS, que prevê que os projetos de IA generativa
deixem de ser avaliados pela novidade e passem a ser julgados pelo retorno
efetivo, a ética e o impacto operacional. Com CFO a exigirem resultados
em 6 a 12 meses, muitas iniciativas sem valor tangível serão suspensas.
O SAS antecipa ainda mudanças profundas nos papéis de liderança:
o CIO torna-se Chief Integration Officer, responsável por orquestrar
ecossistemas de agentes; equipas híbridas humano-IA tornam-se norma;
e novos cargos, como Chief Agent Officer, vão emergir. A tecnologia será
responsabilizada não só pelos ganhos, mas também por eventuais falhas.
O estudo destaca ainda a importância da IA responsável, da governança
e da gestão de dados para sustentar inovação. Em paralelo, prevê-se
a aceleração da computação quântica e um RH que passa a gerir tanto pessoas
como agentes. 2026 marcará o fim da euforia e o início da maturidade.
12 | APDC | REVISTA COMUNICAÇÕES | DEZEMBRO 2025
DEZEMBRO 2025 | REVISTA COMUNICAÇÕES | APDC | 13
À A CONVERSA
ABRIR
“TEMOS DE
ESCOLHER
ÁREAS ONDE SER
CHAMPIONS”
Depois de quase uma década à frente do Gabinete Nacional
de Segurança, António Gameiro Marques encerra um ciclo
determinante da sua vida profissional. Militar de carreira,
engenheiro, líder público e professor, é uma das vozes mais firmes
na defesa da soberania digital, da cibersegurança e da confiança
no ecossistema digital. Para si, segurança nunca significou medo,
mas sim confiança, responsabilidade e futuro. Uma visão
que agora leva para o 35.º Congresso da APDC, num momento
decisivo para Portugal e para a Europa.
TEXTO | ISABEL TRAVESSA
FOTOS | VÍTOR GORDO/SYNCVIEW
14 | APDC | REVISTA COMUNICAÇÕES | DEZEMBRO 2025
DEZEMBRO 2025 | REVISTA COMUNICAÇÕES | APDC | 15
À A CONVERSA
ABRIR
16 | APDC | REVISTA COMUNICAÇÕES | DEZEMBRO 2025
O mar entrou cedo na vida de António Gameiro Marques.
Cresceu na Figueira da Foz, com o Rio Mondego como
primeira paisagem de memória e a vontade de “abrir
horizontes” num país em transformação. Foi esse impulso
que o levou, aos 17 anos, à Escola Naval, iniciando um
percurso de quase cinco décadas ao serviço do Estado,
sempre no cruzamento entre comando, tecnologia
e estratégia. Uma formação onde o rigor das ciências
exatas nunca se desligou da liderança, do comportamento
humano e de uma visão profundamente humanista
do poder e da segurança.
Com o mar, vieram também as comunicações e os sistemas
complexos. Ainda numa fase inicial da carreira, aprofundou
a especialização tecnológica nos Estados Unidos,
tendo estado diretamente envolvido no desenvolvimento
e manutenção do software dos sistemas de combate das
fragatas da Marinha Portuguesa. A dimensão internacional
consolidou-se com a representação de Portugal junto
dos organismos da NATO responsáveis pelas TIC, cargo
em que acompanhou os primeiros ciberataques de grande
escala, despertando para a relação profunda entre
cibersegurança, geoestratégia e soberania. Promovido
a contra-almirante, foi diretor de tecnologias (CTO)
da Marinha e secretário-geral adjunto do Ministério
da Defesa Nacional.
Funções que reforçaram a sua convicção de que a
segurança não é apenas uma questão técnica ou militar,
mas um exercício permanente de responsabilidade política,
institucional e ética. Ao longo do seu percurso, defendeu
sempre que a tecnologia deve servir as pessoas e proteger
os valores fundamentais das sociedades democráticas.
Para António Gameiro Marques, segurança não é sinónimo
de controlo excessivo, mas de confiança: sistemas bem
concebidos, bem governados e compreendidos por quem
deles depende. Uma visão que o acompanhou nos anos
mais recentes, à frente do Gabinete Nacional de Segurança
e do Centro Nacional de Cibersegurança, num contexto
marcado por ameaças híbridas, desinformação e crescente
dependência digital.
Hoje, ao fechar esse ciclo, mantém a mesma clareza
de princípios. Acredita que a Europa só conseguirá afirmar-
-se na era digital se souber equilibrar soberania, segurança
e inovação – sem abdicar da liberdade, da democracia
e da cooperação. É com esta convicção que aceitou ser
presidente do 35.º Congresso da APDC, que se realiza
a 6 e 7 de maio de 2026, com o tema “Europe in the Digital
Age: Balancing Sovereignty, Security and Innovation”.
Inquieto com a dependência tecnológica da UE, defende
uma sociedade digital assente na colaboração, escolha
estratégica e preservação de valores.
DEZEMBRO 2025 | REVISTA COMUNICAÇÕES | APDC | 17
À A CONVERSA
ABRIR
DURANTE MUITOS ANOS, ESTEVE
ASSOCIADO ÀS DECISÕES MAIS
CRÍTICAS DA SEGURANÇA NACIONAL
E DIGITAL. QUEM É ANTÓNIO
GAMEIRO MARQUES DEPOIS
DE NOVE ANOS NO GABINETE
NACIONAL DE SEGURANÇA (GNS)
E NO CONSELHO NACIONAL
DE CIBERSEGURANÇA (CNCS)?
Continuo igual a mim próprio,
mas com uma 'mochila virtual' mais
preenchida. Tenho particularidades
que desenvolvi durante este trajeto,
outras tive de desenvolver devido
à minha profissão. Uma delas foi
a desconfiança. Por natureza, não
era uma pessoa desconfiada, mas
desenvolvi essa característica, que
está também um pouco associada
à perda de ingenuidade que a idade
traz. Todavia, continuo agarrado
a valores que os meus pais e os meus
avós me ensinaram e que tentei
fazer perdurar ao longo da minha
vida profissional, transmitindo-os
e praticando-os. Porque não basta
dizer, é preciso fazer e a melhor
maneira de liderar é pelo exemplo.
Acho que também desenvolvi ainda
mais uma componente que aprecio
muito: uma dimensão humanista
da relação entre as pessoas, por
oposição a uma postura tecnocrata.
Senti que tinha de a desenvolver
para equilibrar a minha própria
profissão. Sou oficial da Marinha
e no próximo ano faz 50 anos que
entrei na Escola Naval. Ao longo
da formação, desenvolvemos
muito conhecimento na área
das Ciências Exatas, mas
também nos ensinam Psicologia,
comportamento humano,
liderança, o desenvolvimento das
competências emocionais.
Isso, ao longo da nossa vida,
ajuda a adaptar-nos à realidade,
que muda muito rapidamente.
ESSES VALORES MANTIVERAM-
-SE SEMPRE AO LONGO DO SEU
PERCURSO...
Tentei que se mantivessem
sempre. Algo que hoje considero
também muito importante – e que
não foi desenvolvido na Escola Naval
nem na Marinha, já trazia comigo
e fui apurando – é a curiosidade
e a vontade de aprender coisas
“Continuo igual a
mim próprio, mas
com uma 'mochila
virtual' mais
preenchida. Tenho
particularidades que
desenvolvi durante
este trajeto, outras
tive de desenvolver
devido à minha
profissão. Uma delas
foi a desconfiança.”
novas, de questionar, no sentido
crítico do termo, em cooperação com
outras pessoas. Aliás,
a importância de cooperarmos
com os outros é algo que nunca
me cansei de dizer, quase
ad nauseam, quando dava aulas
ou fazia conferências. Porque os
problemas, atualmente, são muito
complexos para que uma só pessoa
ou organização consiga resolvê-
-los. Se pensarmos bem, as coisas
mais bem-sucedidas que o engenho
humano conseguiu fazer foi sempre
em cooperação, não foi em solidão.
Portanto, continuo a acreditar no ser
curioso, no trabalhar em cooperação,
no nunca desistir de aprender e no
criar ligações humanas.
NASCEU NA FIGUEIRA DA FOZ E,
DEPOIS, FOI PARA A MARINHA.
COMO FOI ESSE SEU PERCURSO?
A primeira imagem que tenho
na memória – tinha quatro anos
– foi quando o meu pai me
levou a conhecer a diretora
do Jardim Escola João de Deus,
a primeira escola onde andei na
Figueira da Foz, e eu não queria ir.
Lembro-me onde estávamos
e que tinha o Rio Mondego à minha
frente. Depois, fiz remo, fiz vela e
quando terminei o secundário – na
altura, o sétimo ano do liceu – fui
para a Escola Naval. Havia uma
grande indeterminação no país e
precisava de abrir horizontes. Uma
pessoa que prezo muito sugeriu-me
ir para a Escola Naval. Entrei a
1 de setembro de 1976 e integrei
o primeiro curso com cinco anos
letivos. Já tinha uma forte carga
tecnológica, porque a Marinha já
nessa altura planeava reformular-
-se e modernizar-se e precisava de
pessoas e de conhecimento nos seus
quadros, que permitissem dar esse
salto tecnológico. O que aconteceu
cerca de dez anos depois.
Ainda fui bastante tempo oficial
de guarnição nos navios e fiz
de seguida uma especialização
em Comunicações. No final, fui
selecionado, entre 28, para ir
para os EUA fazer um mestrado
18 | APDC | REVISTA COMUNICAÇÕES | DEZEMBRO 2025
em Engenharia Eletrotécnica e
Computadores, onde estive entre
1984 e 1987.
FOI AÍ COMEÇA O SEU PERCURSO
NAS ÁREAS TECNOLÓGICAS?
Cheguei a Portugal em 1987,
quando começava a despontar
o programa das novas fragatas.
Em 1988 fui para a Holanda,
onde durante ano e meio fui
preparado para estar na equipa
que desenvolveu o software do
sistema de combate do navio, com o
propósito de integrar a equipa que
fazia os testes de aceitação
de fábrica e de mar. Depois disso,
de 1991 a 1998, integrei a equipa que,
de seis em seis meses, ia para
o Reino Unido treinar e certificar
os navios. Depois, enveredei por
outro caminho.
FOI FAZER PARTE DA COMISSÃO
INSTALADORA DO CENTRO
NACIONAL DE SEGURANÇA. O QUE
O FEZ ACEITAR ESSE DESAFIO?
Fiz parte da comissão instaladora
do Centro Nacional de Segurança,
em 2012, o que surgiu quando
era Chief Information Officer da
Marinha. O grupo era liderado
pelo Almirante Torres Sobral,
meu antecessor no GNS, e tinha
pessoas de várias áreas: do Direito,
da Polícia Judiciária, da ANACOM,
“Quando, em 2007,
houve um grande
ciberataque à Estónia,
que parou o país
durante vários dias,
acompanhei todo esse
processo (...) Por isso,
fiquei desperto para
essa vertente.”
da Academia, da Fundação para
a Ciência e Tecnologia (FCT).
Antes estive na NATO, entre 2004
e 2007, onde era o representante
de Portugal em todos os comités
que tratavam com temas das
Tecnologias da Informação. Quando,
em abril e maio de 2007, houve um
grande ciberataque à Estónia, que
parou o país durante vários dias,
acompanhei todo esse processo
e as discussões ao nível do North
Atlantic Council, dos comités
políticos e técnicos. Por isso, fiquei
desperto para essa vertente.
A relação da cibersegurança com
a dimensão geoestratégica agrada-
-me muito, assim como a dimensão
da soberania.
NO FUNDO, A CIBERSEGURANÇA
ASSEGURA A SOBERANIA DIGITAL…
É um garante de uma dimensão
de soberania digital. Agrada-me
também muito o impacto que
o facto de vivermos cada vez mais
num mundo digital tem na forma
como percecionamos o mundo.
Refiro-me à desinformação
e ao risco de as pessoas
consumirem informação apenas
através das redes sociais, pois,
ao fazê-lo, acabam por ver apenas
uma perspetiva da realidade.
TRABALHAR DURANTE NOVE
ANOS PERMANENTEMENTE
NA ANTECIPAÇÃO DO RISCO MUDA
A FORMA COMO SE VIVE O DIA A DIA?
ISSO ACOMPANHA-O HOJE?
Todos temos uma ‘mochila às
costas’. Tentar antecipar o risco
requer três coisas: planeamento
com base em vários cenários,
ter apetência para o risco e saber
que riscos é necessário mitigar.
Ou seja, trata-se de uma matriz
de probabilidade de impacto,
em que se a probabilidade de
um impacto for acima de um
determinado nível, tenho de
perceber o que fazer para mitigar
esse risco. E fazê-lo a priori, não por
reação. Isto entrou na minha ‘pele’
e, por vezes, é penoso, sobretudo
para quem vive comigo, porque,
antes de algo acontecer, já estou a
pensar: “wish for the best, plan for
the worst”.
A SUA CARREIRA FOI MARCADA
POR CONTEXTOS DE ELEVADA
RESPONSABILIDADE E PRESSÃO.
O QUE É QUE O AJUDOU A MANTER
O EQUILÍBRIO ENTRE A VIDA
PROFISSIONAL E A VIDA PESSOAL?
A SUA ÂNCORA É A FAMÍLIA?
Sim, a família e os amigos
fortes, que se contam pelos dedos
da mão. Agora, o equilíbrio, isso
não consegui muito. Trabalhava
demais e não ia para o dia seguinte
com coisas pendentes. As questões
estratégicas, que requeriam
reflexão e pensamento, estudava-as
e depois abordava-as com os dois
subdiretores do CNCS e do GNS.
Tinha também algumas pessoas
a quem recorria, porque confiava
na sua opinião. Como é que gozava
férias? Com o computador atrás.
É saudável? Claro que não.
Por isso é que, a certa altura, senti
necessidade de mudar. Claro que
o Estatuto dos Militares das Forças
Armadas também me obrigou,
porque nos reformamos quando
fazemos 66 anos. Mas defendo que
as organizações também beneficiam
da mudança dos seus dirigentes.
Mudar é bom. É importante.
Refresca.
ESTEVE À FRENTE DE UMA ÁREA
CRÍTICA DO PAÍS, NUM PERÍODO
DE GRANDE INSTABILIDADE
GEOESTRATÉGICA E DE GRANDE
ACELERAÇÃO TECNOLÓGICA. QUAIS
FORAM OS GRANDES DESAFIOS QUE
CONSIDERA TER ENFRENTADO?
Enfrentámos desafios externos
e internos. Os internos foram
sendo resolvidos à medida que
iam surgindo. A nível externo,
DEZEMBRO 2025 | REVISTA COMUNICAÇÕES | APDC | 19
À A CONVERSA
ABRIR
o maior foi comum a todos nós:
a pandemia. Felizmente, estávamos
muito bem preparados, porque já
tínhamos conseguido atingir, no fim
de 2019, um nível de transformação
digital muito significativo: todos os
colaboradores tinham um portátil,
tínhamos feito formação sobre
a utilização do Teams e todas as
pessoas sabiam fazer reuniões
online. A organização estava
preparada, portanto a transição não
foi dramática. Mas a instituição tem
temas que não podem ser tratados
a partir de casa. São críticos e
não podem andar a circular na
internet. Aí, recorremos à nossa
cultura militar de organização do
trabalho por turnos. Havia sempre,
em média, entre 15 e 20 pessoas na
organização que, na altura, tinha
cerca de 110 pessoas, porque era
preciso garantir que a informação
classificada era tratada de acordo
com as normas internacionais
em vigor. Outro desafio foi
transmitir à sociedade que este
tema da segurança da informação
em geral, e da cibersegurança
em particular, é algo que não
é só técnico, é uma questão de
comportamento, que abrange
as áreas jurídica, financeira,
recursos humanos, e é, sobretudo,
um tema para as altas direções das
organizações. Recordo-me que,
no início, era difícil transmitir esta
ideia. Havia pessoas com cargos
de responsabilidade que
diziam: “Esse é um assunto dos
informáticos”. Estava tudo muito
segmentado.
O QUE LHE DEU O MAIOR
SENTIMENTO DE MISSÃO CUMPRIDA,
DEPOIS DESTES NOVE ANOS?
Não consegui concretizar
tudo a que me propunha. Tinha
os ‘doze trabalhos de Asterix’
e não consegui concretizar três.
Um deles, que era um desígnio
desde que entrei, era modernizar
e atualizar toda a legislação
que enquadra a tramitação
da informação classificada
no nosso país. Os famosos
SEGNACs [conjunto de normas
e regulamentos que definem os
procedimentos para proteger a
“Foi um desafio transmitir à sociedade que este
tema da segurança da informação em geral, e da
cibersegurança em particular, é algo que não é só
técnico, é uma questão de comportamento.”
Informação Classificada, como
segredos de Estado ou dados
confidenciais] são documentos do
fim da década de 80, princípios
da década de 90, ainda estão em
vigor. A legislação estava preparada,
mas com o 7 de novembro de
2023 [a queda do Governo], não se
concretizou. Mas o caminho ficou
traçado. Outra meia frustração,
que terminou a 4 de dezembro,
com a publicação do Decreto-lei
125/2025, do novo Regime Jurídico
da Cibersegurança Nacional, foi
a transposição da Diretiva NIS2
[Diretiva de Segurança das Redes
e da Informação]. Começámos a
trabalhar no documento em maio
de 2023. Mas houve outras coisas
que consegui, com a minha equipa:
pôr a cibersegurança no mapa,
transformar completamente a
forma como nos credenciamos,
com a criação de uma plataforma
onde as pessoas se credenciam
online. Conseguimos também pôr
o GNS e o CNCS no mapa, graças
a centenas de comunicações que
20 | APDC | REVISTA COMUNICAÇÕES | DEZEMBRO 2025
realizámos ao longo destes anos.
Costumava dizer que gastava uma
grande parte da minha energia
a fazer pontes, a pôr as pessoas
a falar umas com as outras, a tentar
fazê-las perceber que, para se fazer
alguma coisa de valor, tem de haver
cooperação interdepartamental.
ENQUANTO SOCIEDADE, ESTAMOS
PREPARADOS PARA LIDAR COM O
PROBLEMA DA DESINFORMAÇÃO,
AGORA MUITO MAIS AMPLIFICADO
COM A IA?
Acho que não estamos
preparados. Para estarmos,
temos de ter consciência do
que é a desinformação e de saber
como lidar com esse fenómeno.
Há pessoas que têm essa
consciência e, por isso, procuram
diferentes perspetivas sobre
a mesma notícia ou informação,
mas nem todas têm tempo ou
disponibilidade para o fazer.
Hoje em dia, a maior parte das
pessoas consome informação
por via das redes sociais, porque
já não veem telejornais, nem
leem jornais. Os órgãos de
comunicação social são um
elemento fundamental das
democracias. Com as redes sociais,
as pessoas consomem aquilo que
o algoritmo lhes diz, que já sabe
que elas gostam. Assim, existe
uma apetência cada vez menor
para ouvir o contraditório. E uma
democracia vive do contraditório.
A NIS2 ENTRA EM VIGOR A 4 DE
ABRIL. COMO É QUE VAI MUDAR
ESTRUTURALMENTE A FORMA COMO
AS EMPRESAS DEVEM ENCARAR O
TEMA DA CIBERSEGURANÇA?
Em primeiro, é o seu âmbito,
que é muito mais alargado.
Em segundo, é muito mais objetiva
nos requisitos, porque a NIS1
era demasiado ambígua, o que
fazia com que Estados-membros
semelhantes em termos de
dimensão económica e populacional
tivessem resultados completamente
distintos. Essa foi também uma
das motivações de fazer a NIS2
tão perto, digamos assim, da NIS1.
Um aspeto muito importante da
NIS2 é que responsabiliza o mais
“Um aspeto muito
importante da NIS2
é que responsabiliza
o mais alto dirigente
das organizações.
Trata-se de um tema
de liderança e os
dirigentes têm de
perceber que se uma
entidade não é segura
no espaço digital,
as pessoas não têm
confiança nela.”
alto dirigente das organizações.
Trata-se de um tema de liderança
e os dirigentes têm de perceber
que se uma entidade não é segura
no espaço digital, as pessoas não
têm confiança nela. As pessoas têm
de pensar que na internet há regras,
tal como no mundo físico.
A IDENTIFICAÇÃO OBRIGATÓRIA
DE ENTIDADES E A UTILIZAÇÃO DA
PLATAFORMA ELETRÓNICA DO CNCS
JÁ ESTÃO EM CURSO. NÓS TEMOS
UM TECIDO MAIORITARIAMENTE
COMPOSTO POR PME, QUE OLHAM
PARA ISTO APENAS COMO UMA
OBRIGAÇÃO REGULATÓRIA,
AO INVÉS DE UMA VANTAGEM.
ISTO NÃO VAI PREJUDICAR A SUA
IMPLEMENTAÇÃO?
Sim, vai. O foco tem de ser
completamente diferente. Tem de
ser: olhar para a NIS2 como etapa
de um caminho que vai tornar
a empresa mais apetecível para
os clientes. Por exemplo, havendo
duas empresas, uma delas com
certificação NIS2 e outra que
entrega o mesmo, mas que não
está certificada, provavelmente vou
optar pela primeira, porque é aquela
em que tenho mais confiança.
Eu costumava dizer que o nosso
negócio é 'vender' mecanismos
para aumentar a confiança nos
produtos que as diversas entidades
colocam no digital. Se o empresário
de uma média empresa, que tem
de cumprir a NIS2, não entender
isso, para além de se poder
prejudicar com coimas ou multas
pode mesmo perder mercado.
MAS ONDE ESTÃO OS MAIORES
DESAFIOS DE IMPLEMENTAÇÃO?
NA GOVERNANCE, CULTURA
DA EMPRESA, TALENTO OU
MATURIDADE TECNOLÓGICA?
OU EM TODOS?
Há um desafio de governance,
sobretudo para as empresas que
têm de cumprir não apenas a NIS2,
mas também a CER (Critical Entities
Resilience Act), que foi promulgada
pelo Presidente da República
em março. Nessas empresas,
os dirigentes têm duas opções.
Ou optam por criar dois verticais,
em que cada um trata uma das
componentes, com uma elevada
probabilidade de ineficiência. Ou
criam uma estrutura com uma
visão global, integrando depois as
nuances específicas da safety e
da security apenas na ponta dos
'ramos da árvore'. Relativamente
aos talentos, temos de fazer algo
como o que a APDC já desenvolve
há alguns anos, que são programas
de reskilling. O CNCS tem um
programa, com a C-Academy, no
âmbito do qual vai realizar ações em
todo o país para dar alguns pontoschave
fundamentais sobre a NIS2.
Em relação ao talento, temos de
mitigar o risco, requalificando-o.
Além disso, a maior dificuldade das
empresas é que têm de cumprir
várias normas e não têm pessoas
para isso. Por isso, recomendo que
se associem, que se agrupem em
áreas. Têm de cooperar.
ACEITOU PRESIDIR AO
35.º CONGRESSO DA APDC NUM
MOMENTO DECISIVO PARA
A EUROPA. O QUE O MOTIVOU?
O tema – “Europe in the Digital
Age: Balancing Sovereignty, Security
and Innovation” – foi a motivação.
Não só me é muito caro enquanto
cidadão europeu, como já no
último congresso foi abordado por
um dos oradores principais, com
base num documento publicado
em fevereiro deste ano pela União
Europeia, que considero ser um
referencial. Quando fiz o Programa
DEZEMBRO 2025 | REVISTA COMUNICAÇÕES | APDC | 21
À A CONVERSA
ABRIR
de Alta Direção de Empresas na
AESE, despertei para o tema. Em
março de 2014, fomos uma semana
a Xangai, onde tivemos formação
na China Europe International
Business School. Um professor dessa
escola, francês, que já lá estava há
algumas dezenas de anos, numa
das aulas disse-nos algo do género:
“Já repararam que nós, europeus,
não temos um sistema operativo,
não temos uma rede social, não
temos um browser de internet? É
tudo norte-americano”. Quando
regressei a Portugal, comecei à
procura. Agarrei em algo que na
área das tecnologias se tem como
referencial, que é o modelo OSI,
e fui analisar cada uma das suas
sete camadas, para ver onde é
que a Europa estava: e não estava
em sítio nenhum, a não ser numa
tecnologia, que ainda é líder
mundial, que é os ERP (Enterprise
Resource Planning) da SAP. Tudo
o resto era norte-americano ou
chinês. Algumas coisas podiam ser
concebidas na Europa, mas depois
eram construídas fora dela. Eram
transformadas em empresas nos
EUA, e muitas vezes fabricadas
em Taiwan ou na China. Na altura
pensei: “Queremos desenvolver
a sociedade digital, a economia
digital, e não temos controlo sobre
nenhum artefacto que usámos”.
A partir daí, comecei a seguir o
tema. Como cidadão europeu, isso
deixa-me inquieto. Por isso, ter a
oportunidade de nos juntarmos
num congresso para falar sobre
esse tema, numa altura em que
as questões da defesa dos nossos
valores estão cada vez mais em cima
da mesa, é aliciante.
SOBERANIA, SEGURANÇA
E INOVAÇÃO: COMO É QUE SE
CONSEGUE O EQUILÍBRIO NESTAS
TRÊS ÁREAS E DINAMIZAR
A EUROPA?
Não podemos almejar preencher
espaços que foram ocupados por
outros. Ou seja, duvido que haja
força política para, de um dia
para o outro, dizer que na Europa
só se usa o Linux europeu, ou
que vamos construir os portáteis
todos na Europa. Agora, podemos
“Duvido que haja
força política para,
de um dia para
o outro, dizer que
na Europa só se
usa o Linux europeu.
Agora, podemos
é fazê-lo noutras
áreas. Dar
competências
digitais aos nossos
cidadãos e fazer
melhor regulação.”
é fazê-lo noutras áreas. Dar
competências digitais aos nossos
cidadãos em força. E fazer menos e
melhor regulação. Ou seja, não
tão complexa, para que os
produtores de tecnologia, quer
de artefactos físicos, quer de
artefactos de software, que
queiram comercializar e veicular
toda essa tecnologia no espaço
europeu, tenham de cumprir
as regras europeias. Aí somos
capazes de ombrear pelo menos
com um dos blocos grandes.
E depois temos de escolher áreas,
nichos, onde ser champions para
a Europa. Isso também é possível
identificar.
QUAL É A SUA EXPECTATIVA PARA
O CONGRESSO DA APDC, UMA
INICIATIVA QUE CRUZA TANTOS
TEMAS?
Lembro-me de todos os
congressos a que fui na APDC
e de ter saído de cada um deles
com ideias novas. A minha
expectativa é que estes temas
sejam discutidos de forma
intelectualmente honesta,
sem medo de identificar o que não
está bem e, sobretudo, que daí
resultem caminhos concretos.
Para que quem de direito, neste
caso, quem nos governa, possa dar
seguimento. O que não podemos
é continuar a fingir que está tudo
bem, porque não está.
SE TIVESSE DE RESUMIR A SUA
MISSÃO NUMA FRASE, QUAL SERIA?
A minha missão é deixar um
legado que as pessoas possam usar.
Tão bem quanto eu usufruí do
legado deixado pelos meus avós
e pais.
22 | APDC | REVISTA COMUNICAÇÕES | DEZEMBRO 2025
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DEZEMBRO 2025 | REVISTA COMUNICAÇÕES | APDC | 23
EM A ABRIR DESTAQUE
24 | APDC | REVISTA COMUNICAÇÕES | DEZEMBRO 2025
5.ª EDIÇÃO EVOLVE – DIGITAL TRANSFORMATION SUMMIT
TRANSFORMAÇÃO
ESTÁ AÍ, E EM FORÇA!
A mudança tecnológica deixou de ser uma promessa para
se tornar uma aposta estratégica no país. De Norte a Sul,
da energia à banca, da saúde à indústria, do setor público
aos media, multiplicam-se os projetos que redesenham
processos, elevam a eficiência e criam novas formas
de servir pessoas, cidades e empresas.
TEXTO | ISABEL TRAVESSA
FOTOS | VÍTOR GORDO/SYNCVIEW
DEZEMBRO 2025 | REVISTA COMUNICAÇÕES | APDC | 25
EM A ABRIR DESTAQUE
AA transformação
digital das
organizações
nacionais entrou
numa nova fase:
mais madura, mais estratégica
e mais transversal. Esta foi a
grande evidência que resultou da
5.ª edição do EVOLVE – Digital
Transformation Summit, que
reuniu no Centro Cultural de Belém
líderes empresariais, especialistas
tecnológicos, reguladores e
inovadores, para um dia cheio de
demonstrações concretas do que já
está, efetivamente, a mudar, setor
a setor, empresa a empresa.
“A transformação digital deixou
de ser um horizonte aspiracional.
Está aqui, agora, e está a acontecer
em todos os setores de atividade,
das indústrias mais tradicionais
às mais digitalizadas”, começou
por garantir na abertura da
iniciativa a diretora-geral da APDC,
Sandra Fazenda de Almeida. É que
agora, já ninguém discute se deve
transformar-se, mas sim como
acelerar essa transformação.
Com esta nova edição do
EVOLVE, a associação pretende
demonstrar a velocidade e a
profundidade da mudança em
curso, com resultados concretos,
mensuráveis e, sobretudo,
replicáveis por outras organizações.
São soluções que respondem a
necessidades concretas e reais,
cocriadas entre tecnológicas e os
seus clientes e capazes de gerar
impacto imediato e sustentável.
UM MIX ONDE A IA DOMINA
Também o coordenador
científico do EVOLVE, Paulo
Cardoso do Amaral, considera que
se a transformação digital não é
de agora, o facto é que tem vindo
a acelerar com o avanço cada vez
mais acelerado da tecnologia.
Especialmente agora, com o
desenvolvimento da inteligência
artificial (IA). E esta tecnologia
disruptiva é, cada vez mais,
uma componente essencial
Paulo Cardoso do Amaral,
coordenador científico do EVOLVE,
destaca que a tecnologia por si só
não trás resultados. Tem de haver
confiança, responsabilidade, pessoas
e suporte do Estado. Só assim se cria
valor para as organizações.
em praticamente todos os casos
de mudança, numa mistura com
outras tecnologias e com outros
temas mais clássicos. Os exemplos
apresentados neste EVOLVE
comprovam-no.
Do laboratório, a IA passou
a ser uma promessa, para, mais
recentemente, ganhar força
e transformar-se em realidade.
De tal forma que “de repente,
estamos a deixar muitas coisas
nas mãos da tecnologia. E há
um tema que começa a surgir:
a consciência”. O responsável
pela seleção dos casos de estudo
diz que, agora, se trata de pensar
em “como é que, com tecnologia,
vamos incentivar a confiança
digital. Para sentirmos que
o que está do outro lado é uma
organização que inclui máquinas
e pessoas, mas que nos dá
confiança e nos permite ter uma
proposta de valor que vale a pena”.
É que a utilização da tecnologia
permite às organizações poupar
recursos e ganhar eficiência,
gerando mais lucro para reinvestir
e fazer com que o negócio se
desenvolva. Mas, para Paulo
Cardoso do Amaral, o processo
tem de incluir a confiança digital,
o que passa ainda pelo tema da
responsabilidade. “Não podemos
deixar a tecnologia fazer as coisas
por si só, sem a responsabilidade
de garantir que faz o que tem
de fazer”, alerta.
A realidade é que a tecnologia
está a fazer cada vez mais coisas
para os humanos e este movimento
vai intensificar-se nos próximos
anos, pelo que, na sua perspetiva,
terá de haver cada vez mais
regras para gerir o mercado.
Exemplo disso são os sucessivos
26 | APDC | REVISTA COMUNICAÇÕES | DEZEMBRO 2025
Reveja o evento
Aceda à galeria
de imagens
Os casos
apresentados na
5.ª edição do EVOLVE
demonstram que
as empresas estão
a utilizar tecnologias
com maturidade
e valor, mas também
com confiança
e responsabilidade.
regulamentos que estão a surgir
pelas mãos da Comissão Europeia,
como o AI Act, o DORA ou o MICA.
Já ao nível nacional, mostra-
-se preocupado: “o Governo
e a Assembleia da República
andam ambos distraídos, o que
tem como consequência a
incapacidade de as empresas
poderem tomar posições. Quando
se sabe que a vantagem é dos first
movers e quem fica para
trás perde”.
Traduzido, significa que
o país corre o risco de perder
oportunidades. O coordenador
científico do EVOLVE diz que “não
se pode pensar em tecnologia pela
tecnologia. A tecnologia tem de
criar confiança e tem de haver
responsabilidade. Isso implica
também lei, quer se queira quer
não. E serviços públicos que o
suportam”.
Através dos casos apresentados
nesta edição, diz já ser possível
ver exemplos de utilização de
tecnologias com maturidade
e criação de valor. Mas também
com confiança e responsabilidade.
E sempre com a certeza de que
a tecnologia é uma commodity
que está ao alcance de todos.
E como é que poderá ser
utilizada de forma sustentável
e criar uma vantagem competitiva?
“Claramente com pessoas”.
Como deixa claro, “a única coisa
Sandra Fazenda de Almeida,
diretora-geral da APDC, considera
que a transformação digital "está
a acontecer em todos os setores
de atividade, das indústrias mais
tradicionais às mais digitalizadas".
que a tecnologia faz é tratar de
bits e bytes, que são conhecimento
explícito. Sabemos que faz
com que as empresas tenham
realmente valor, se diferenciem
e se distingam, é o conhecimento
tácito, o know-how. O que significa
que só com o papel das pessoas
num processo de aprendizagem
de criação de valor conjunto é que
faz sentido”.
Estes foram os critérios utilizados
na seleção dos casos apresentados
neste EVOLVE, tal como nos
anteriores. E diz que ao longo das
sucessivas edições, a maturidade
dos processos de transformação
é crescente: “Os casos são reais. Isto
é sério. E mostram o crescimento
da transformação digital”.
Defende ainda que “sem
DEZEMBRO 2025 | REVISTA COMUNICAÇÕES | APDC | 27
EM A ABRIR DESTAQUE
Esta iniciativa
comprovou que
Portugal está a
dar passos sólidos
na transformação
digital, com casos
já consolidados de
utilização de IA,
cloud, automação,
analytics, algoritmos,
digital twins ou redes
avançadas.
Pedro Santos Guerreiro, diretor-
-executivo da CNN Portugal, e Ana
Sofia Cardoso, jornalista também da
CNN Portugal, foram os hosts deste
evento da APDC
empresas com sucesso não há
criação de valor económico e não
há riqueza”, pelo que o sucesso
também se faz “com o Estado, que
nos suporta da maneira certa.
Portanto, gostava de ver mais
Estado presente, para discutirmos
os passos seguintes que nos podem
levar à criação de valor económico
e à vantagem competitiva” do país
como um todo.
NO NÚCLEO DA ESTRATÉGIA
No conjunto, esta edição
comprovou que Portugal está a dar
passos sólidos na transformação
digital, com casos já consolidados
de utilização da IA, cloud,
automação, analytics, algoritmos,
digital twins ou redes avançadas.
Há empresas que reorganizaram
modelos comerciais com apoio
de plataformas CRM e IA. Há
entidades públicas que criaram
sistemas avançados de gestão
territorial ou de interação com o
cidadão. Há organizações de saúde
que personalizaram cuidados
com base em IA generativa. Há
players industriais que reforçaram
a sua resiliência, segurança e
eficiência. Há empresas de media
que reinventaram a experiência
audiovisual com IA em tempo
real. Há operadores energéticos
e químicos que adotaram
arquiteturas avançadas para
garantir continuidade operacional
e otimização de recursos. E até há
clubes desportivos e broadcasters
que já utilizam 5G e cloud para
transformar por completo a
produção de conteúdos.
Todos os casos apresentaram um
fio condutor comum: a tecnologia
deixou de ser um acessório ou
uma ferramenta isolada. Hoje,
está no núcleo da estratégia das
organizações, como reforçou no
final do evento, Pedro Santos
Guerreiro, diretor executivo da
CNN Portugal, que foi um dos hosts
do EVOLVE, a par de Ana Sofia
Cardoso, jornalista da CNN Portugal.
Trazendo um olhar humano
sobre a jornada de transformação
digital, salientou que “o que vimos
aqui não são apenas projetos, são
histórias. Histórias de pessoas que
estão a construir o futuro, enquanto
resolvem problemas do presente”.
Porque, na sua ótica, “a inovação
não acontece em salas fechadas.
Acontece quando empresas e
tecnológicas trabalham lado a lado,
quando há partilha, quando há
risco e quando há propósito”.
Neste encontro, ficou claro que se
trata de “um desafio da confiança,
legitimidade e responsabilidade,
que se faz através das empresas que
se querem prósperas, lucrativas e
inovadoras. Mas também através
do Estado e é preciso que este esteja
mais presente. É preciso criar
sistemas com legitimidade. E, já
agora, é preciso imaginar. Foi o que
fizemos. Com o acesso à imaginação
dos outros, para inspirar a nossa
própria”, considerou Pedro Santos
Guerreiro. Deixando claro que
todos os exemplos implicam
“um processo de transformação
cultural da própria empresa
e de compromisso da liderança”
e projetos “com princípio, meio e
sem fim. Que obrigam não apenas
a antecipar tendências, mas a
estar disponível e adaptar em
permanência”.
Para o jornalista, todos os casos
de transformação mostraram
“paixão”, tecnologia, pessoas e
colaboração. “Aqui estiveram
sempre, ou quase sempre, duas
ou mais pessoas. São parcerias,
alianças”, destacou, considerando
que, de todas as edições, esta 5.ª
foi a melhor, porque mostrou a
maturidade e a complexidade
dos processos. Para inspirar e
“ir criando futuro. E é por isso
que eu prevejo que as próximas
edições sejam ainda melhores,
porque essa é claramente a
tendência”.
E rematou: “Se há algo que
aprendemos hoje é que o futuro
não se prevê, constrói-se. E está a
ser construído agora, por todos os
que subiram a este palco”. É que
se o presente já é impressionante,
o futuro promete ainda mais.
O EVOLVE regressará em 2026,
no Porto e em Lisboa, com novas
histórias, novos desafios e novas
perspetivas sobre a revolução
digital que está a mudar o país.
28 | APDC | REVISTA COMUNICAÇÕES | DEZEMBRO 2025
REDESENHAR O PAÍS
COM CASOS INSPIRADORES
CASO 1 CASO 2
NOS | DAREDATA
AUTOMAÇÃO INTELIGENTE
É a primeira aposta da NOS
na automação inteligente,
para tirar partido da disrupção
tecnológica e da IA generativa,
que abre oportunidades
sem precedentes. A solução,
denominada Legal Inquirer's
Processor, já está em produção
e em utilização pela equipa
que dá resposta a cerca de 30
mil pedidos judiciais anuais de
entidades externas, permitindo
um workflow totalmente
automatizado, como explica
Maria Francisca Pinho, AI
Manager do departamento
AI & Insight, da NOS. “Passámos
a ter uma abordagem mais
orientada para os processos
como um todo”, destaca,
com um novo paradigma
de automação generativa
de todo o processo operacional,
ficando o humano com
a componente de supervisão,
correção e otimização”.
Nuno Brás, co-Founder
da DareData Engineering,
que criou com a NOS a
aplicação, explica que a
plataforma permite monitorizar
o que está a acontecer,
transmitir a informação
a um utilizador humano
e passar-lhe a responsabilidade
quando é necessário, usando
ainda a informação dada
na resposta para que esta
passe a fazer parte do sistema.
“Temos de garantir
a capacidade de adaptabilidade
à realidade. É a parte mais
difícil do processo”, para
a qual é necessária uma curva
de aprendizagem, porque
“o sistema não conhece tudo”.
Mais, a solução é replicável
noutros contextos que
necessitem de utilização
de automação inteligente.
Com uma estrutura versátil
e escalável, tem capacidade
de acelerar resultados em todas
as iniciativas impulsionadas
por IA generativa, incluindo
automação inteligente,
automação de serviço e
augmentation. Um caminho que
o operador de telecomunicações
está agora a endereçar.
CLARANET | GRUPO PESTANA
INOVAÇÃO SEGURA
COM IA GENERATIVA
Criado há mais de 50 anos,
o Grupo Pestana tem na sua
génese “servir as pessoas”,
como refere o seu CIO, Gonçalo
Oliveira. Com mais de cinco mil
colaboradores, tem desenvolvido
vários formatos de serviços,
encarando a tecnologia sempre
como um enabler, sempre
com a matriz de “gostamos do
que fazemos, do turismo e de
receber bem”. Agora, para o
maior grupo nacional de turismo
e o 13.º na Europa, o desafio é o
crescimento e permitir a todos os
colaboradores dos 17 mercados
onde está o grupo utilizarem a
tecnologia de forma segura, já
que estes usavam as ferramentas
de IA através dos seus devices
pessoais. Nesse sentido, e em
parceria com a Claranet Portugal,
a meta foi criar uma solução de
IA generativa segura e acessível
a todos os colaboradores, para
permitir a melhoria contínua, o
reforço da produtividade pessoal
e a inovação descentralizada,
tornando a organização mais
ágil e adaptável, mas sempre
dando prioridade à segurança
dos dados. O caminhou
passou por uma solução que
responde aos requisitos de
forma integrada e inovadora,
com base em modelos de GenAI
implementados on-premises
e assente numa infraestrutura
dedicada, exclusiva e otimizada
para IA. Vasco Afonso, Executive
Director da Claranet, explica
que foi “desafiante combinar
esta solução privada com LLMs
públicos” para toda a estrutura do
grupo, de modo a responder aos
três pilares da sua estratégia de
inovação: melhorar a experiência
do cliente, aumentar a eficiência
das operações e preparar a
organização para o futuro. Depois
da formação, fundamental para o
sucesso, a resposta surpreendeu,
dada a adoção massiva nos quatro
a cinco meses de aplicação.
Com aplicações em áreas como
o suporte ao atendimento ao
cliente, personalizar respostas do
hotel a reviews depois do checkout,
reforçar a produtividade
no back-office e nos serviços
partilhados, automatizar as
reservas e a resposta a questões
dos hóspedes ou facilitar a
produção de conteúdos.
DEZEMBRO 2025 | REVISTA COMUNICAÇÕES | APDC | 29
EM A ABRIR DESTAQUE
CASO 3 CASO 4
GLINTT LIFE | ULS SÃO JOSÉ
REGISTO CLÍNICO
ESTRUTURADO
NA OBESIDADE
O projeto nasceu no âmbito da
agenda Health from Portugal,
financiada pelo PRR, e juntou
cinco unidades de saúde
para co-criarem com a Glintt
Life, enquanto fornecedor
tecnológico, soluções que
recolhem dados clínicos e
custos. O objetivo é permitir
que as instituições possam
medir de forma eficaz o valor
que estão a entregar aos
utentes, criando respostas
que possam ser replicáveis.
O tratamento cirúrgico da
obesidade foi o primeiro piloto
para testar a solução, por ser
– como começou por explicar
Sérgio Sousa, Clinical Solutions
Consultant da Glintt Life – uma
jornada clínica multidisciplinar,
com um percurso clínico longo
para permitir avaliar o valor
gerado para o utente e um
elevado impacto económico
e social. Uma dimensão crítica
do projeto foram os resultados
reportados pelos clínicos, desde
que medidos de forma objetiva,
padronizada e consistente
no tempo. O desafio era existirem
registos não estruturados e em
texto livre, pouca padronização
e dificuldade em agregar e
analisar dados. E o caminho
foi, como salienta, “sempre
colaborativo” com todos os
parceiros envolvidos. O resultado
foi uma solução que permite
agregar dados de vários sistemas
de informação, estruturando
registos sem necessidade de
programação, com flexibilidade
e adaptação à evolução natural
das práticas clínicas. Criando
sempre confiança. Implementado
há mais de um ano, tem vindo
a ser reforçado com a experiência
no terreno. Leonor Manaças,
médica e diretora do Centro de
Responsabilidade Integrado de
Obesidade da ULS São José,
diz que já está a ser criada
uma “base de dados muito
importante, com 16 formulários
implementados, simples e
eficazes, e 140 variáveis distintas”.
E há já 2.180 utentes em registo,
estando agora a expandir-se
a solução para novos dados.
“Já estamos a melhorar
francamente, porque temos
a noção de como o estamos
a fazer”, diz, assegurando uma
capacidade de resposta muito
maior e “tempo para falar com
o doente”. Mais, a solução
é parametrizável e modular,
pelo que pode ser replicável
noutros serviços.
HPE | BONDALLI
CIBERRESILIÊNCIA IBÉRICA
EM NEAR REAL-TIME
Como maior produtor português
e um dos principais ao nível
ibérico no setor de químicos
industriais e com unidades fabris
em Portugal e Espanha,
a Bondalti, controlada pelo
Grupo José de Mello, opera
ainda na área da água e da
energia verde. Para garantir
a resiliência das suas empresas,
dando resposta às ciber
ameaçadas, à complexidade
tradicional de processos e aos
eventos disruptivos, operando
os data centers a partir do
mesmo local, desafiou a HPE
a encontrar uma solução.
O projeto avançou com a
implementação do HPE Zerto
Virtual Replication, integrando
todos os sites críticos da
Bondalti na Península Ibérica,
com destino a um data center
dedicado baseado em HPE
GreenLake. Entre as mudançaschave
esteve uma alteração
de mindset de “recuperar
se necessário” para “estar
sempre pronto a recuperar”.
Nélio Marques, diretor de IT,
Digitalização e Inovação da
Bondalti, diz que “a solução
permite não só sincronizar todo
o sistema como fazer
uma deteção permanente
da segurança”, como ainda ter
“capacidade de resposta a outros
tipos de incidentes ou eventos
disruptivos”. O gestor garante
que estão “perto de zero
de perda potencial de dados,
com uma automação muito forte
dos processos de recuperação,
proteção contra ransomware
e maior capacidade de
resiliência”. Fernando Rio Maior,
Hybrid IT Sales Specialist da
HPE, acrescenta que a solução
“tira toda a complexidade dos
ambientes de disaster recovery.
Com a virtualização, temos
a capacidade de ter uma espécie
de ‘máquina do tempo’, com
capacidade de voltar atrás até
30 dias, e ter tecnologia de
backup adicional. Com milhares
de pontos de restauro, seja
no data center original ou no
de destino. Recupera-se em
minutos perdendo segundos”.
Agora, está também já a olhar-se
para as regras da NIS2 e para
o tema do compliance, até
porque a empresa tem já vários
pilares nas medidas preventivas
e de monitorização.
30 | APDC | REVISTA COMUNICAÇÕES | DEZEMBRO 2025
CASO 5 CASO 6
DELOITTE | FUNDAÇÃO CHAMPALIMAUD
GENAI NOS CUIDADOS
ONCOLÓGICOS
Como hospital de cuidados
secundários em oncologia
e instituto de investigação
biomédica, a Fundação
Champalimaud aposta num
conceito de patient engagement
muito especializado e
numa aposta na medicina
personalizada. Criando, como
refere um seu CIO, Pedro Garcia
da Silva, “um círculo virtuoso
entre a descoberta científica
e a aplicação médica, para
encurtar o tempo go-to market
das descobertas médicas”.
A GenAI já dava alguma
facilidade na agilização
do processo onbording dos
pacientes, mas faltava endereçar
o tema da identificação
do histórico do paciente,
auxiliando a tomada de
decisões mais informadas.
E porque a instituição acredita
que a tecnologia tem
um papel a desempenhar na
re-humanização dos cuidados
de saúde, a meta foi integrar
ferramentas inovadoras para
melhorar a experiência do
doente, personalizar cuidados
e otimizar processos clínicos.
Como explica Filipe Ganhão,
LifeScience & Healthcare
Technology & Transformation
Lead Partner da Deloitte,
foi estabelecida uma parceira,
que abrangeu também
a Google, sendo o desafio
endereçado através do European
Healthcare CoE (Center of
Excellence), para desenvolver
uma solução assente em GenAI
que usa os LLMs da Google
para otimizar processos
administrativos e clínicos,
automatizar tarefas repetitivas
e permitir uma análise mais ágil
e precisa de grandes volumes
de dados clínicos em várias
línguas. Com interação com
o médico e permitindo
que este tenha mais tempo
para dedicar ao paciente.
Já implementada, usando
o cancro do pulmão como
ponto de partida, a GenAI
Streamlining Patient Onboarding
Process permitiu à Fundação
agilizar processos e a jornada
do paciente, sem comprometer
a qualidade do atendimento.
Já há ganhos de tempo
de consulta na ordem dos 20%.
CAPGEMINI | MICROSOFT | AUTORIDADE
MARÍTIMA
O FUTURO DA VIGILÂNCIA
MARÍTIMA
Nos temas da vigilância
marítima, do ponto de vista
nacional, é difícil uma vigilância
eficaz e eficiente na gestão
de recursos. O que tem
levado a Marinha a procurar
complementar os métodos
tradicionais com soluções
remotas, como os veículos aéreos
não tripulados. João Gaspar,
Capitão-tenente da Marinha
Portuguesa/Autoridade Marítima
diz que neste momento o foco é
nos sensores que equipam estes
veículos e nas suas capacidades,
que impactam a qualidade
dos dados que se vão obter.
Assim como na capacidade
de organizar os dados e de
os traduzir em conhecimento,
já que é com ele que se tomam
as decisões mais acertadas
e atempadas. O desafio foi
lançado à indústria e academia,
trazendo para cima da mesa
o cenário do narcotráfico por via
marítima, para se desenvolver
uma plataforma automática
para identificar e caracterizar
embarcações de alta velocidade
utilizadas neste tipo de
atividade. João Neves, diretor
de Tecnologia e Inovação da
Capgemini Engineering, adianta
que o projeto começou há cerca
de cinco meses, tendo-se criado,
também em parceria com a
Microsoft, “modelos específicos
e segmentados, que respondem
a situações concretas”,
para os diferentes tipos de
características. “Fala-se muito de
uma IA mágica. Aqui, não houve
prompts ou chatboots que nos
conseguissem treinar
o modelo. Tivemos de sintetizar
e criar imagens e transformámos
as imagens diurnas e noturnas
para alimentar e treinar o modelo.
Claramente, a tecnologia aqui cria
um valor bastante acrescentado
à operação da Marinha”,
acrescenta. Sendo a Microsoft
o pilar tecnológico do projeto,
com uma base robusta, escalável
e segura, Teresa Zawerthal, Public
Sector Account Executive da
tecnológica, deixa claro que este
foi um caso em que “quando
a IA encontra um propósito,
algo se transforma e nasce”,
transformando-se dados em
inteligência operacional. E, dada
a escalabilidade da solução,
“o céu é o limite’. A solução evolui
de acordo com as necessidades,
com eficácia e flexibilidade.
É o exemplo de como a
tecnologia avançada consegue
ter um papel central numa
atividade crucial”. E há muito
caminho pela frente.
DEZEMBRO 2025 | REVISTA COMUNICAÇÕES | APDC | 31
EM A ABRIR DESTAQUE
CASO 7 CASO 8
MEO EMPRESAS | CIF
SMART STADIUM 5G
AWS | SOVENA
CLOUD-FIRST: REVOLUÇÃO
NO NEGÓCIO GLOBAL
A necessidade de transição para
uma infraestrutura cloud única,
que desse suporte às operações
globais, levou a Sovena, o maior
vendedor de azeite engarrafado
no mundo, a desenvolver um
projeto de modernização da
infraestrutura da multinacional
portuguesa, que está em 11 países
e serve outros 70. Eduardo Alves
da Silva, CFO & CIO da empresa,
diz que havia “um sistema legacy
muito antigo e muito disperso,
cujo contrato precisava de ser
renovado. Isto foi um contrato
de fé, de passar para a cloud. Foi
fácil tomar a decisão. E ganhámos
muito em benefícios que fomos
depois tendo”. Com uma “cadeia
de valor que vai desde o campo
até à prateleira do supermercado
nos azeites e óleos vegetais”
e uma grande diversidade
geográfica, apostou numa
reconfiguração de toda a rede,
a partir dos seus 83 servidores
e dos dois data centers em
Portugal. O caminho passou por
uma migração completa para a
cloud da AWS, com um calendário
agressivo de dois meses de
transição. A migração saldou-se
num “êxito absoluto” e agora,
através do serviço Hipercare,
a empresa está a proceder
a ajustes e acertos. “Quando
falámos dos desafios de negócio
da Sovena e como podíamos
trabalhar com a tecnologia,
ficou claro que esta era a melhor
solução. Depois, foi um trabalho
de parceria”, acrescenta André
Rodrigues, country lead Portugal
da AWS. A Sovena dispõe agora
de uma infraestrutura única,
sem bloqueios de fluxos de
informação e de transmissão
de dados. Entre as vantagens
já percebidas estão a melhoria
do desempenho (relatórios SAP
três a cinco vezes mais rápidos),
maior escalabilidade, melhor
eficiência de custos e um suporte
operacional global.
É um piloto desenvolvido para
o CIF – Clube Internacional
de Foot-Ball, que tem mais
de 100 anos de vida. O objetivo
foi garantir a transmissão
automatizada e em direto
de jogos de um torneio amador,
incluindo a final, através de
uma rede privada 5G, com IA
e cloud. Como refere Fernando
Magarreiro, presidente do clube,
“o impacto do projeto foi grande
e excedeu as expetativas”, assim
como foi “um marco importante
para a divulgação do torneio e
do clube, dando-lhe identidade”.
A solução foi desenvolvida
pela MEO Empresas, “desde a
liderança tecnológica à gestão
do projeto, dando seguimento
a uma visão clara e um propósito:
do CIF voltar a mostrar o seu ADN
de inovação”, acrescenta Nuno
Teixeira Bernardo, Sales Director
of SOHO and SME segments
do operador. O projeto assentou
numa rede privada 5G, para
garantir segurança, resiliência
e transmissão à velocidade
necessária. Com implementação
de câmaras de alta-definição e
toda a componente
da infraestrutura, através
de cloud e com edição de
imagem com recurso a IA.
“O projeto permitiu que a
ambição de transmitir os jogos
do torneio fosse possível
chegando em várias plataformas
e devices a quem quisesse
acompanhar os quatro jogos”,
salienta. E o impacto no CIF,
como garante o seu presidente,
foi grande e “excedeu as
melhores expectativas”
de toda a comunidade
do clube. Acresce que torna
possível “criar um movimento de
monetização de todo o processo.
A partir do momento em que
trabalhamos com uma plataforma
que vai entregar uma solução
profissional, é mais fácil fazer
captação de publicidade.
E ter soluções pay-per-use
e assinaturas”, explica Nuno
Teixeira Bernardo, deixando claro
tratar-se de uma solução viável
do ponto de vista financeiro
e escalável, que vai para além
do futebol, abrangendo
quaisquer desportos.
32 | APDC | REVISTA COMUNICAÇÕES | DEZEMBRO 2025
CASO 9 CASO 10
CGI | E-BUPI
INTELIGÊNCIA GEOGRÁFICA
PARA O CIDADÃO
ERICSSON | NOS | TVI
BROADCASTING EM DIRETO
REINVENTADO COM 5G
É um caso de uso inovador, que
resultou de uma parceria entre a
NOS, a Ericsson e a TVI. Consiste
na cobertura e transmissão
ao vivo da corrida de São Silvestre,
realizada em dezembro de 2024,
no Porto. “Acreditamos que é um
caso que vai mudar a forma como
são feitas as transmissões ao vivo
em Portugal”, garante Nuno Roso,
Head of Cloud SW & Services
Portugal da Ericsson.
A NOS disponibilizou 5G
standalone e a Ericsson
demonstrou a conetividade
diferenciada numa rede ‘network
slicing’, com a TVI a fazer a
transmissão em direto da corrida,
num ambiente real e desafiante
em termos de cobertura e
público, o que permitiu testar
a tecnologia até ao limite.
“Desde os consumidores até
aos negócios e empresas, uma
única rede já não serve. É preciso
ter uma rede diferenciada e que
possa responder a cada use case”,
acrescenta o gestor, garantindo
que o 5G standalone permite aos
“operadores oferecer serviços
baseados em performance
e resultados”, sendo que
o leque de indústrias onde este
tipo de tecnologia se aplica
é vasto, mudando os modelos
de negócio. Pedro Dória, Head
of Mobile & Fixed Voice Devices
Engineering da NOS, reforça esta
ideia e explica que “o projeto
durou um mês, do início à
execução, para que as equipas
NOS e Ericsson pudessem fazer
a avaliação da estabilidade do
sinal, a definição de requisitos
mínimos e a identificação
da estratégia para a rede
e uma arquitetura operacional.
Porque tivemos de integrar
equipamentos 5G+. Foi um use
case de produção remota.
O sucesso do evento foi total”.
E a mudança para a TVI foi total,
já que anteriormente usava neste
tipo de corridas um carro exterior
e quilómetros de cablagens.
Implicava ter uma logística muito
maior e muito mais gente no
terreno. Com esta solução, além
da poupança orçamental,
há ganhos de produtividade e de
inovação”, assegura Pedro Vieira,
realizador de TV, da EMAV – TVI.
Como estrutura de missão
criada dentro do Ministério da
Justiça, o Balcão Único do Prédio
visa fomentar a interação com o
cidadão, para que este possa fazer
o registo dos seus terrenos nos
concelhos onde não existe outra
forma de cadastro.
O que abrange essencialmente
as zonas Centro e Norte, acima
do Tejo. Nasce com os graves
incêndios de 2017, perante o
total desconhecimento por
parte do Estado de quem são os
donos das propriedades, e visou
dar uma resposta rápida a essa
necessidade. Rodrigo Dourado,
técnico especialista da e-Bupi,
designa este problema como
um “elefante negro”, que se foi
avolumando num efeito ‘bola
de neve’. A tecnologia veio ajudar,
de uma forma mais expedita
e simplificada, a endereçar
o tema. “Uma das grandes
mais-valias do projeto é ser
colaborativo,sendo o cidadão
que vai contribuir para o cadastro,
completando-se o puzzle
com tecnologias de identificação
e inteligência geográfica,
os designados SIG – Sistemas
de Informação Geográfica”,
acrescenta.
O projeto, desenvolvido em
parceria com a CGI, envolve
ainda imagens de satélite de alta
resolução, geração automática
de polígonos, técnicas de
varrimento laser como o LIDAR
e deteção de alterações. Foi ainda
criada uma app móvel gratuita,
que permite ‘navegar’ pelos
limites de cada propriedade.
Assim como um algoritmo
de dedução de localização,
que ajuda os utilizadores
a encontrar os seus terrenos.
O BUPI liga todas as entidades
envolvidas e respetivos sistemas,
transformando um cadastro
predial num cadastro de natureza
multifuncional, que cruza
informação. Luís Fatela,
Director Consulting Services
da CGI, detalha que o BUPI é uma
“ferramenta geoespacial, que
evita deslocações e os custos
inerentes e valoriza o património,
tornando o processo de registo
mais transparente, porque
é o único local onde fica feito.
E é algo para o qual toda
a gente está a contribuir”.
E os dados comprovam-no:
já foram identificadas cerca
de três milhões de propriedades,
que cobrem 37% do território
das duas regiões e correspondem
a 1,5 milhões de hectares.
DEZEMBRO 2025 | REVISTA COMUNICAÇÕES | APDC | 33
EM A ABRIR DESTAQUE
CASO 11 CASO 12
DEVOTEAM | GALP
FINOPS EM AMBIENTE
MULTI-CLOUD
A jornada de FinOps da Galp é
muito mais do que uma jornada
de transformação digital, sendo
claramente de transformação
cultural e de mudança de mindset
das equipas. Quem o garante
é Inês Santos, Head of Strategy,
Portfolio and Performance do
grupo, que explica que o projeto
surge depois de, em maio
de 2023, se ter procedido a uma
reorganização na área de IT e de
se ter concluído que os custos
cloud eram elevados e com uma
trajetória de crescimento
de 20% a 30% ao ano. Acrescia
a limitada visibilidade dos custos
e o desconhecimento dos
recursos alojados na cloud.
Por isso, a Galp fez uma parceria
com a Devoteam, para tornar
os custos financeiros da cloud
sustentáveis. Pedro Caeiro, CTO
Distributed Cloud da Devoteam,
acrescenta que o processo
foi um verdadeiro exercício
multidisciplinar, onde a Devoteam
trouxe o apport tecnológico
e a experiência de outras
realidades. Depois de fazer
o mapa de maturidade da Galp,
partiu-se para a otimização, com
a identificação de poupanças
imediatas. E para “garantir que
o programa de transformação,
que ainda decorre, teria
resultados tangíveis
rapidamente”. O último
passo passou por garantir
a sustentabilidade da solução,
em três ações chave: governance
centralizada, monitorização
em tempo real e otimização
de custos. Os resultados foram
claros: mais de 600 iniciativas
implementadas num ano,
aumento dos workloads
e uma otimização anual
de 2,4 milhões de euros.
Foram, para a responsável da
Galp, “resultados extraordinários”.
Mas deixa claro que “o processo
é contínuo. Mantemos uma
equipa especializada de FinOps
para garantir uma gestão
eficiente dos recursos cloud.
Queremos aumentar nos níveis
de automatização e continuamos
a formar as equipas. O próximo
‘elefante na sala’ será a IA,
sendo que aqui pode ser usada
a framework que aplicámos
para a cloud. Já começámos
a movimentar as equipas, mas
é fundamental que a jornada
comece devagar”.
ACCENTURE | TALKDESK | NOVOBANCO
ORQUESTRAÇÃO
INTELIGENTE NA BANCA
DIGITAL
Nascido da resolução do BES,
o novobanco passou anos
difíceis, de desinvestimento
e contenção de custos. Com a sua
aquisição, em 2018, pelo fundo
americano Lone Star, foi lançado
um programa de transformação
da área comercial. O que levou
a repensar toda a atividade,
como explica Conceição
Matos, Transformation Director
da instituição, incluindo a
componente digital, telefónica
e presencial, de forma a gerir
melhor a alocação de recursos.
“Este projeto, que combina IA
com atendimento telefónico,
nasce dessa necessidade”,
diz a propósito do Inbound
Orchestrator, solução fornecida
pela Accenture e pela Talkdesk.
Sendo “o projeto muito
ambicioso e inovador em
inúmeros aspetos, do ponto de
vista da tecnologia, como enabler
dos objetivos do negócio, existe
uma série de desafios”, destaca
Rodolfo Vale, Sales Director Iberia
da Talkdesk. Nomeadamente,
como responder aos grandes
requisitos regulamentares
da banca ou à omnicanalidade,
tendo de se envolver
as pessoas que estão no balcão.
“Pelo que a gestão da mudança
e a facilidade de utilização deste
tipo de tecnologia tem de ser
grande, para que haja adoção”,
acrescenta, falando ainda na
necessidade do reporting, para
perceber se se está no caminho
certo e implementar melhorias.
E assentando a plataforma,
cada vez mais, na IA – sobretudo
generativa e agêntica
–, o caminho passará por
retirar cada vez mais às pessoas
as tarefas de menor valor
acrescentando, tornando toda
a operação muito mais eficiente.
A Accenture, pela sua capacidade
de execução e experiência no
desenvolvimento de projetos
omnicanal e de transformação
digital, a parceria com a Talkdesk
e a visão partilhada com
o novobanco da visão deste
serviço, também assumiu,
na perspetiva de António Brancal
Ribeiro, Senior Manager
de Technology, um papel
relevante. Agora, o caminho
do novobanco passa por “trazer
o que é a melhor tecnologia
e fazer evoluir a que têm.
A IA oferece coisas cada vez
melhores, que trazem novas
oportunidades de automação
e de personalização, que é o
que todos ambicionamos em
termos de contactos. E as coisas
acontecem a grande velocidade”.
34 | APDC | REVISTA COMUNICAÇÕES | DEZEMBRO 2025
CASO 13 CASO 14
SALESFORCE | PWC | SIMOLDES
DIGITALIZAÇÃO DO
PROCESSO COMERCIAL
INETUM | REN
RESILIÊNCIA DO IT EM
INFRAESTRUTURAS CRÍTICAS
Como operador de
infraestruturas críticas, uma
das grandes metas da REN foi
garantir a continuidade de
serviços em situações de falha
grave do IT. Jorge Mendes,
Head of IT Infrastructure &
Operations da REN, começa
por citar um estudo deste ano
da PwC, que mostra que apenas
2% das organizações aplicaram
todas as medidas de controlo
consideradas necessárias para
assegurar que os seus negócios
estão protegidos. “Um cenário
preocupante” e uma estatística
negra, da qual o operador
crítico de gás e eletricidade tem
tentado não fazer parte. Para
o alinhamento da gestão de TI
com o negócio, no que respeita
à resiliência, utiliza a framework
internacional NIST 2.0, muito
vocacionada para empresas
altamente digitalizadas e que
operam em áreas críticas.
Em algumas das componentes,
a REN apostou em reforçar as
suas competências. Tem ainda
de responder aos desafios
legislativos nacionais e europeus,
que impõem cuidados especiais
na proteção das infraestruturas
críticas, que cada vez menos
podem falhar. E a ameaça dos
eventos disruptivos que põe em
causa as infraestruturas críticas
é real, garante Jorge Mendes.
Para gerir o tema, o grupo tem
avançado com várias iniciativas,
desde uma abordagem de
data centers distribuídos às
plataformas de alerta multicanal,
passando pela sensibilização
dos utilizadores, que são
o elo mais fraco, entre outras.
Mais recentemente, em
colaboração com a Inetum,
foi feito um trabalho que visa
os fatores onde a empresa
considera não ser tão boa
a endereçar: identificação,
resposta e resolução. Assim,
foi feito um mapeamento
entre ativos e negócio e,
com base nele, foi realizada uma
análise de impacto do risco.
Depois, definiu-se um plano
de recuperação de desastre
e um plano de recuperação
tecnológica, seguindo-se
a implementação de um sistema
de recuperação de desastre.
Com este sistema, foi possível
criar em 2025 mais de 70 novos
procedimentos operacionais
de recuperação de desastre
e atuar de forma eficaz e fluída
em 23 testes de recuperação
de desastre. Sandra Monraia,
Sales Director da Inetum,
diz mesmo que “a resiliência
passou a ser um eixo estratégico
da competitividade. As empresas
estão cada vez mais alerta
a este tipo de desafios”.
Sendo uma empresa da área
dos moldes e das peças, presente
em vários países, a primeira
preocupação da Simoldes tem
sido sempre a transformação
digital no âmbito industrial. Pelas
características do negócio, com
escritórios perto dos clientes,
sobretudo os grandes fabricantes
automóveis, cada um desses
escritórios tinha a sua gestão.
O que levou a um ambicioso
projeto de transformação digital
do seu modelo comercial,
com o objetivo de centralizar
informação, sistematizar
o ciclo de vendas e aumentar
a produtividade das equipas,
como explica Hugo Carvalho,
Director Commercial and Costing
Management da Simoldes. “O
desafio foi garantir que as várias
informações existiam de forma
alinhada e fácil de aceder. E
como conseguíamos olhar para
um cliente de A a Z. Queríamos
saber como é que poderíamos
carregar num botão e termos
a informação. E como
garantíamos que a empresa,
em qualquer momento, tem toda
a informação atualizada
e o mais rapidamente possível,
permitindo cruzar clientes”,
detalha. Foi assim que teve início
um processo consultivo com
a Salesforce de mais de um ano,
para esta perceber o processo,
que “é uma operação complexa,
que envolve equipas de vários
países e dados de várias fontes”, e
ver como é que poderia agregar
toda a informação
e processos de standartização,
no âmbito da sua oferta,
acrescenta Joana Antunes,
Account Executive da Salesforce.
E os desafios na implementação
deste projeto “foram muitos
e variados”, deixou claro
Luís Côrte-Real, Customer
Transformation Partner da PwC.
Foi feito um assessment sobre
as diferentes intersecções
que eram mais adequadas
em resposta a este desafio,
à cultura e dinâmica das
equipas e a toda a otimização
de processos a fazer. No final,
o projeto foi “entregue à
velocidade da luz”. Para Luís
Côrte-Real , a palavra-chave
que foi um valor comum às três
organizações foi a confiança.
Digitalização completa
do processo comercial,
centralização da informação num
repositório único, padronização
dos fluxos de aquisição e uma
visão integrada do pipeline e das
oportunidades são já vantagens
percebidas. Além dos ganhos
significativos em eficiência,
qualidade de dados e controlo
de gestão, potenciando decisões
mais informadas.
DEZEMBRO 2025 | REVISTA COMUNICAÇÕES | APDC | 35
EM DESTAQUE
CASO 15 CASO 16
MAGYCAL | SPORT TV
SMART MOMENTS
A SPORT TV avançou com a reinvenção
da sua presença digital e elevou
a experiência dos fãs. Desta aposta
nasceu o projeto ‘Smart Moments’,
tendo em conta a estratégia que procura
a crescente digitalização
e inovação, para ser líder nos media.
Para Ricardo Botelho, Digital Marketing
Manager da empresa, perante a
multiplicidade de ofertas aos clientes, foi
necessário encontrar uma forma
de conseguir olhar para os oito canais ao
mesmo tempo, disponibilizando
o que de melhor passa neles. Foi deste
match entre a necessidade de inovar
e de dar mais conteúdo ao cliente que
surgiu a solução, que mistura IA para
disponibilizar tudo o que acontece
em emissão e para que os utilizadores
possam partilhar os momentos especiais
com outras pessoas.
O que diferencia esta ferramenta das
que existem no mercado, na perspetiva
de Carolina Rosa, Diretora Criativa e
de Marketing da Magycal, é o motor
de IA, que está sempre a trabalhar, e o
dar poder aos utilizadores de marcar
os momentos-chave, que podem
enviar aos amigos. Está agora a ser
desenvolvido um trabalho no sentido de
se conseguirem categorizar cada vez
mais momentos. O hub da Sport TV tem
quatro milhões de registos,
ou seja, pelo menos 25% a 30% da
população registada para um conteúdo
que é exclusivamente dado em Portugal.
“É muito importante continuarmos
com esta inovação, que nos abre
algumas janelas para monetização dos
conteúdos,
para ir buscar novos parceiros e reduzir
a procura de produtos pirateados”,
explica Ricardo Botelho, que refere
ainda a redução de parte dos custos
operacionais na obtenção e produção
deste conteúdo. E está aberta
a janela para outras formas de trabalhar
o digital, como a IA. A responsável
da Magycal garante que haverá
“novas camadas de interação
que podemos oferecer aos
utilizadores e que vão acrescentar
valor, assentes em IA”. “Vai ajudar
a reduzir tarefas mecânicas
e aborrecidas, libertando-os para tarefas
mais criativas e estratégicas”, salienta.
ANACOM
A TRANSFORMAÇÃO
DIGITAL DE UM
REGULADOR
A ANACOM está a desenvolver um profundo
processo de transformação digital, de forma
a responder à crescente complexidade da
regulação das comunicações, num ecossistema
tecnológico em rápida evolução. Para Augusto
Fragoso, diretor-geral de Informação e Inovação,
o papel do regulador não reside apenas
na defesa do consumidor e como garante
de direitos e da concorrência, mas também
como utilizador avançado de tecnologias.
Perante a aceleração da inovação, a proliferação
de atos regulatórios europeus e a convergência
entre setores, o objetivo é uma evolução para
um modelo de smart regulation, baseado
em dados, colaboração, regulação ex-ante
e centrada no fator humano. Sendo a informação
o principal ativo do regulador, já que é recolhida
junto do mercado, tratada de forma massiva
e transformada em decisões regulatórias,
políticas públicas e conhecimento acessível,
a governação de dados assume um papel central.
Neste âmbito, explica que a ANACOM está
a desenvolver verdadeiros digital twins
dos mercados que regula, através da criação
de múltiplos sensores e indicadores que
permitem observar o funcionamento dos setores
36 | APDC | REVISTA COMUNICAÇÕES | DEZEMBRO 2025
CASO 17
MINSAIT | DOMUS SOCIAL
OBSERVATÓRIO
DE HABITAÇÃO SOCIAL
em tempo quase real. Um dos pilares desta
estratégia é a GEO.ANACOM, uma plataforma
georreferenciada que mapeia infraestruturas,
coberturas de fibra, 4G e 5G, satélite e serviços
postais, sendo já essencial para a definição de
políticas públicas e avaliação de obrigações
regulatórias. E porque a transformação digital
inclui ainda novas plataformas de análise
de mercado, dados abertos, indicadores
interativos e um ecossistema avançado
de tratamento da experiência do consumidor,
Augusto Fragoso destaca ainda o Aexia,
um software de IA que analisa milhões
de interações, reclamações e dados não
estruturados, permitindo uma visão integrada
do comportamento do mercado. O maior
desafio passa agora pela capacitação de
recursos humanos, condição essencial para
sustentar uma regulação eficaz, inovadora e
preparada para o futuro.
Com cerca de 13 mil fogos e um
universo de 30 mil pessoas, a Domus
Social – Empresa de Habitação e
Manutenção do Município do Porto
tem ainda um número significativo
de pessoas que pedem habitação
– que tem vindo a aumentar, dadas
as dificuldades do mercado –, além de
um programa de apoio ao arrendamento
privado. Lourenço Pinheiro, diretor
de Atendimento Geral e Sistemas de
Informação da empresa, diz que todo
este universo precisou de ser integrado,
para se poder dispor de informação de
qualidade. Com muitos dados recolhidos,
foi necessário criar ferramentas para
compreender o território, pedidos de
habitação, apoios sociais atribuídos e as
necessidades das famílias, porque tudo
isto afeta a forma como se faz a gestão
da habitação. A solução encontrada,
desenvolvida em parceria com a Minsait,
passou pela criação de uma plataforma
analítica centralizada, que agrega dados
operacionais, sociais e económicos sobre
o parque habitacional municipal. Como
explica Ricardo Cruz Rodrigues,
Data & Analytics Delivery Manager
da Minsait, o desafio foi definir como
trabalhar os dados para tomar decisões
informadas. Acabou por se criar uma
plataforma modular e unificada,
que agrega os vários dados e conceitos
de negócio, e que continua a evoluir.
“Quem acede consegue ver de forma
unificada toda a gestão do parque de
inquilinos, do parque habitacional e fazer
cruzamento de informação”, acrescenta.
E está disponível a decisores e cidadãos,
transformando os dados dispersos
em informação clara, acessível e útil
para as decisões políticas e operacionais.
Além de reduzir o tempo de resposta,
tornou-se ainda num instrumento
de governação mais próxima, equitativa
e baseada em evidências. Ainda bastante
recente, a ambição e o maior desafio
da iniciativa passam agora, segundo
o responsável da Domus, por envolver
cada vez mais pessoas e entidades,
como a academia, de forma a criar
cada vez mais valor.
DEZEMBRO 2025 | REVISTA COMUNICAÇÕES | APDC | 37
5
5Perguntas a...
Adolfo Pedro
Gomes Martinho Santos
CEO DIRETOR-GERAL DA INETUM PORTUGAL DA DXC
TECHNOLOGY PORTUGAL
TEXTO | ISABEL TRAVESSA
FOTOS | VÍTOR GORDO/SYNCVIEW
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38 | APDC | REVISTA COMUNICAÇÕES | DEZEMBRO 2025
ATUAR EM MÚLTIPLOS
DOMÍNIOS
A DXC Portugal está a acelerar rumo ao futuro digital
com foco nos dados, IA, cloud e cibersegurança.
Na liderança da subsidiária nacional desde abril,
Adolfo Martinho garante que o mercado vive uma
oportunidade única, impulsionada pela IA e pelo
quantum computing. O caminho faz-se com parcerias
fortes, estabilidade operacional e talento capaz
de aprender e adaptar-se.
1QUAL TEM SIDO O FOCO ESTRA-
TÉGICO DA DXC TECHNOLOGY
PORTUGAL, FACE ÀS GRANDES
TENDÊNCIAS TECNOLÓGICAS,
COM DESTAQUE PARA A IA?
O nosso foco estratégico está centrado
no crescimento rentável e sustentável do
negócio, muito em linha com as diretrizes
definidas pela companhia a nível global.
No contexto local, a concretização desse
objetivo implica uma atuação em múltiplos
domínios. Entre eles estão os seguintes
alvos prioritários da nossa ação: reforço
do investimento nas áreas tecnológicas
essenciais para construir e impulsionar o futuro
dos clientes (dados, IA, cloud, cibersegurança
e consultoria tecnológica); desenvolvimento
contínuo das nossas capacidades de gestão
dos serviços críticos que sustentam o seu
presente (gestão de infraestruturas de IT,
implementação e gestão de aplicações,
serviços de modern workplace e serviços
de outsourcing de processos de negócio);
amplificação da marca DXC junto dos
mercados prioritários, procurando uma maior
proximidade destes; e aprofundamento
das relações locais com os nossos parceiros
estratégicos, criando ecossistemas que
permitam multiplicar o valor das soluções
que entregamos. Já na IA, centramos
a ação em três eixos fundamentais, o que
nos tem permitido crescer e executar projetos
de referência com algumas das maiores
empresas em Portugal: investimento
no desenvolvimento de ofertas de consultoria,
dados e IA, no sentido de dispormos dos
recursos e competências necessárias para
liderar o caminho de adoção por parte
dos nossos clientes; transformação dos
próprios modelos de delivery, para incorporar
e tirar o máximo de partido destas novas
tecnologias; e programa de capacitação
em IA, para dotar os nossos colaboradores
de um nível adequado de entendimento
e proficiência sobre conceitos, ferramentas
e questões éticas e legais associadas, para que
possam transformar a forma como trabalham
no seu dia a dia. Queremos que a adoção da IA
na DXC seja um processo sistémico e natural,
não deixando ninguém para trás.
2DE QUE FORMA A EXPERIÊNCIA
ACUMULADA – NA HP,
HPE E NA PRÓPRIA DXC – TEM
CONTRIBUÍDO PARA A SUA
LIDERANÇA, NESTA CONJUNTURA
DE ACELERADA TRANSFORMAÇÃO
E CONCORRÊNCIA?
Tive o privilégio de construir a minha carreira
profissional em empresas globais com
culturas muito marcantes, habituadas a gerir
diariamente complexidade e diversidade.
Todas foram capazes de criar fortes legados
de inovação e transformação. Em todas elas
há uma marca que reconheço e que procuro
cultivar na DXC: atuar no sentido de ajudar
a construir uma melhor empresa para a próxima
geração do que aquela em que entrámos.
E isso faz-se através do trabalho em equipa,
todos os dias, do compromisso com as
prioridades dos clientes, da criação de
condições que possibilitem o crescimento
contínuo dos colaboradores e do
aprofundamento constante das relações
com os parceiros de negócio.
3QUE PRIORIDADES VÊ PARA
REFORÇAR AS PARCERIAS DA
DXC COM GRANDES EMPRESAS E
SETORES CRÍTICOS EM PORTUGAL?
Ao longo da nossa história, a DXC tem
tido um papel de destaque na conceção
e entrega aos clientes de soluções críticas
para o seu negócio e com impacto real
na vida dos clientes e da sociedade em
geral. Na atual conjuntura, queremos
continuar a ter um papel decisivo nessa
transformação que, nos próximos anos,
será em grande medida ditada pela forma
como são capazes de incorporar nos seus
processos novas práticas e ferramentas
baseadas em dados massivos e IA.
Para que essa transformação possa avançar
de forma convicta e sem sobressaltos,
é também essencial assegurar a estabilidade
e a segurança das operações e dos sistemas,
vertentes em que a credibilidade e as
relações de confiança construídas entre
as pessoas de ambos os lados são
ingredientes determinantes.
4QUAL É A MAIOR
OPORTUNIDADE E O MAIOR
DESAFIO PARA O MERCADO
TECNOLÓGICO NACIONAL NOS
PRÓXIMOS DOIS ANOS?
Vivemos uma fase crucial, em que as
evoluções tecnológicas associadas à IA
e ao quantum computing constituem,
efetivamente, grandes oportunidades para
a evolução ou criação de novos modelos
de negócio. Assim as organizações sejam
capazes de as incorporar nos seus processos,
sem desvirtuar a relação com os clientes
e mercados em que operam. Quanto aos
principais desafios, destaco o ambiente
de incerteza causado nos negócios pela
situação geopolítica. E o crescimento
das ameaças no plano da cibersegurança,
à medida que os respetivos atores vão
também utilizando estas novas capacidades
tecnológicas para evoluir a sofisticação
e potencial impacto das suas ações.
5QUE CONSELHO DEIXA A
QUEM PRETENDE CONSTRUIR
CARREIRA NA TECNOLOGIA?
Curiosidade, brio, pragmatismo
e capacidade de trabalho em equipa são
atributos que considero fundamentais para
quem está a iniciar uma carreira profissional,
nomeadamente nas tecnologias de
informação. Vivemos num mundo em
constante mudança e aceleração, pelo
que o desenvolvimento deste tipo de
características, que potenciam as nossas
capacidades de aprendizagem e adaptação
ao longo da carreira profissional, serão
absolutamente críticas no futuro.
DEZEMBRO 2025 | REVISTA COMUNICAÇÕES | APDC | 39
NEGÓCIOS
40 | APDC | REVISTA COMUNICAÇÕES | DEZEMBRO 2025
A BANDEIRA
DE PORTUGAL
NA INTERNET
O .PT é responsável pela gestão do domínio
de topo de Portugal, assegurando o registo
e o funcionamento de todos os domínios .pt.,
e aposta na promoção das competências digitais.
Com um crescimento acima da média europeia,
a marca ambiciona ser a plataforma
de dados do país e liderar o ecossistema
digital em Portugal.
FOTOS | VÍTOR GORDO/SYNCVIEW
DEZEMBRO 2025 | REVISTA COMUNICAÇÕES | APDC | 41
NEGÓCIOS
Se a internet tivesse
bandeiras, a de Portugal
seria, sem dúvida,
o .pt. O domínio de topo
nacional tornou-se,
ao longo das últimas décadas, um
dos principais símbolos da presença
digital do país e uma marca de
confiança da identidade digital
portuguesa. A marca responsável
pela sua gestão, o .PT, chegou
este ano aos mais dois milhões
de registos, mas não quer ficar por
aqui: quer ser a plataforma que
agrega os dados digitais em Portugal
e tornar-se líder do ecossistema
digital em Portugal.
A história de Portugal na internet
começou há 37 anos, a 30 de junho
de 1988, quando a IANA – Internet
Assigned Numbers Authority
delegou oficialmente o .pt como
o domínio de topo correspondente
a Portugal. Nessa altura, ficou sob
a alçada da FCCN – Fundação para
a Computação Científica Nacional
que, entre outras funções, geria
o domínio. A autonomização da
gestão só vem a acontecer mais
de duas décadas após o registo
do primeiro domínio em Portugal,
o dns.pt, que teve lugar em 1991.
“O que aconteceu em Portugal foi
o que ocorreu noutros países:
[o domínio] surge na área académica
e, com o boom dos anos 2000,
extravasa para o mundo comercial
e começa a precisar de uma gestão
muito mais profissionalizada, mais
independente e dedicada apenas
ao domínio de topo”, explica Luísa
Ribeiro Lopes, presidente do
Conselho Diretivo Executivo do .PT.
Para dar resposta a esta
necessidade, é criada, em 2013,
a Associação DNS.PT, uma
associação privada sem fins
lucrativos, exclusivamente para gerir
a marca .PT. A entidade opta por uma
gestão multi-stakeholder, onde estão
representados “os vários interesses
da comunidade da internet
nacional”, realça Luísa Ribeiro Lopes:
o Estado, através da Fundação para
a Ciência e a Tecnologia (FCT);
as empresas da economia digital,
com a Associação da Economia
Digital (ACEPI); e os consumidores
através da Associação Portuguesa
“Passámos a ter
uma entidade cujo
foco e cuja missão
é gerir o domínio
de topo de Portugal
na internet.”
para a Defesa do Consumidor
(DECO).
Além dos associados fundadores, a
marca conta ainda com um conselho
consultivo, cujos pareceres emitidos
a todos os documentos de gestão
do .PT são obrigatórios, embora
não sejam vinculativos. O órgão é
composto por cerca de 20 entidades
públicas, privadas e do terceiro setor,
como o Instituto dos Registos e do
Notariado (IRN), o Instituto Nacional
da Propriedade Industrial (INPI),
a Sociedade Portuguesa de Autores,
a ANACOM - Autoridade Nacional
de Comunicações, o Centro Nacional
de Cibersegurança e a Fundação
Portuguesa da Juventude, entre
outras.
“Passámos a ter uma entidade cujo
foco e cuja missão é gerir o domínio
de topo de Portugal na internet, que
inclui o registo e a manutenção dos
domínios que são registados sob
o domínio .pt, bem como a gestão
de toda a infraestrutura técnica e dos
sistemas que suportam este domínio
de topo”, explica a presidente do .PT.
34 FUNCIONÁRIOS, UM CALL CENTER
E 120 REGISTRARS
O .PT é atualmente composto
por 34 pessoas e trabalha com um
call center em regime de outsourcing,
que faz o atendimento diário ao
cliente. A equipa é responsável pela
gestão do sistema de registo – que
permite ao cliente criar um domínio
.pt diretamente com a marca
ou através de agentes de registo
(registrars) –, que inclui a delegação,
a renovação e a manutenção do
domínio, de acordo com as melhores
práticas internacionais, bem como
a ligação com os registrars.
A marca tem protocolos com cerca
de 120 destas entidades – metade
das quais portuguesas e outras 50%
sediadas fora de Portugal –,
“que fazem o registo e o alojamento
do domínio” através de uma ligação
com o sistema do .PT, permitindo
ao cliente registar um domínio .pt
diretamente com estes agentes
de registo.
Qualquer entidade – singular
ou coletiva –, em qualquer parte
do mundo, pode fazer um registo
no domínio .pt, sendo que .PT
faz uma verificação dos dados
associados.
A inteligência artificial, como
42 | APDC | REVISTA COMUNICAÇÕES | DEZEMBRO 2025
seria de esperar, desempenha um
papel importante no trabalho e
na produtividade da marca: “Há
cerca de dois anos que temos um
sistema de inteligência artificial
que faz a verificação de 98% dos
domínios e cerca de 2% é que
vão para verificação com olho
humano. Verificamos todos os
dados das entidades que registam
o domínio e isso é feito também
por uma máquina treinada em
inteligência artificial”, explica
a presidente do .PT, referindo
ainda que os funcionários tiveram
também formação na utilização de
ferramentas de inteligência artificial.
“Utilizamos muito a inteligência
artificial, mas não nos estamos
a deslumbrar.”
200 PONTOS DE PRESENÇA
Foto cedida
O .PT tem apoiado vários projetos
que desenvolvam as competências
digitais dos cidadãos.
EM TODO O MUNDO
No que toca à parte técnica,
o .PT conta com três data centers
– o principal, onde estão alojados os
sistemas, em Lisboa, um no Porto
e ainda um em Viseu, a zona do
país com menor probabilidade de
ocorrência de um sismo – e mais de
200 pontos de presença espalhados
pelo mundo. Essas réplicas do
Segundo Luísa Ribeiro Lopes,
o valor da manutenção anual
de toda a infraestrutura do .PT
ronda os dois milhões de euros.
.PT a nível mundial permitem o
funcionamento dos domínios .pt em
situações críticas, como o apagão que
teve lugar em Portugal e Espanha, em
abril de 2025.
“Este ano, num estudo feito pela
Internet Society (ISOC) Internacional
com uma universidade holandesa,
fomos considerados um dos cinco
melhores domínios de topos em
termos de infraestrutura técnica.
Para nós, é muito importante,
porque é garantia de fiabilidade”,
considera Luísa Ribeiro Lopes.
O valor de manutenção anual de
toda a infraestrutura técnica ronda
os dois milhões de euros, sendo a
“Este ano, num
estudo feito
pela Internet
Society (ISOC)
Internacional com
uma universidade
holandesa, fomos
considerados um
dos cinco melhores
domínios de topos
em termos de
infraestrutura
técnica.”
PRINCIPAIS MARCOS
30 JUNHO 1988
IANA – Internet
Assigned Numbers
Authority delega
o .pt como domínio
de topo correspondente a
Portugal
3 OUTUBRO 1991
Com a instalação
do primeiro servidor
para gerir o ccTLD .pt,
é registado o primeiro
domínio em Portugal:
dns.pt
9 MAIO 2013
Criação da Associação
DNS.PT para gerir o TLD
(Top Level Domain)
de Portugal
2018
.pt comemora 30 anos
e é apresentada nova
imagem corporativa:
o .PT
Atingidos um milhão de
domínios .pt registados
2022
Novo domínio:
www.pt.pt
2025
Atingidos dois milhões de
domínios .pt registados
DEZEMBRO 2025 | REVISTA COMUNICAÇÕES | APDC | 43
NEGÓCIOS
“O nosso foco é
mostrar que ter um
nome de domínio
é diferente de ter
qualquer outra
presença digital
e mostrar o valor
acrescentado que o
nome do domínio pode
trazer a quem o tem.”
única fonte de receitas do .PT
o valor arrecadado com o registo
dos domínios. Cada domínio tem
um custo anual de 8,95 euros, sendo
que cada registrar pode “fazer
campanhas e apresentar um valor
mais baixo” ao consumidor.
MAIS DE DOIS MILHÕES
DE REGISTOS
Este ano, mais concretamente
a 10 de junho, Dia de Portugal,
o domínio .pt atingiu um marco
histórico: dois milhões de registos.
A maior parte dos domínios estão
ligados ao setor de comércio e
serviços, existindo também vários
domínios associados a organizações
sem fins lucrativos e à Administração
Pública – como é o caso do gov.pt, um
2.500.000
2.000.000
1.500.000
1.000.000
500.000
0
57.745
2004
79.906
2005
Foto cedida
O .PT tem promovido formações
na área da cibersegurança.
subdomínio do .pt, que é gerido pelo
Estado. Em termos geográficos,
a maioria dos domínios são registados
por entidades portuguesas – Espanha
é o segundo país com maior número
de registos de domínios .pt. – que
estão localizadas nas grandes cidades.
“Existe um desequilíbrio muito
grande entre o litoral e o interior
[do país] e entre Portugal
continental e as regiões autónomas.
A desigualdade que existe em
EVOLUÇÃO DOS DOMÍNIOS REGISTADOS
118.676
2006
184.809
2007
247.898
2008
295.796
2009
346.779
2010
403.574
2011
517.039
2012
600.467
2013
686.750
2014
778.037
2015
872.544
2016
976.370
2017
1.086.930
2018
1.210.201
2019
1.342.697
2020
1.479.891
2021
1.630.416
2022
1.782.215
2023
1.927.218
2024
2.081.213*
2025
termos sociais e económicos
reflete-se também na desigualdade
de distribuição em termos
geográficos no que diz respeito
aos nomes de domínio. Onde está
centrado o maior número de
empresas de comércios e serviços
com maior dimensão em termos
económicos é também onde está
centrado o maior número
de domínios.”
De acordo com Luísa Ribeiro Lopes,
o.pt continua a ser dos domínios de
topo com maior crescimento a nível
europeu – com um crescimento
médio de cerca de “7 ou 8% ao ano”,
enquanto na Europa não chega a 1%
–, sendo que o ano de 2025 superou
todas as expectativas da marca.
“O valor de dois milhões de registos
é muito importante, mas sabemos
que não corresponde ao número
de domínios que estão efetivamente
ativos e este é o trabalho que
estamos a fazer numa estratégia
desenvolvida até 2030. O nosso
foco é mostrar que ter um nome de
domínio é diferente de ter qualquer
outra presença digital e mostrar o
valor acrescentado que o nome do
domínio pode trazer a quem o tem”,
sublinha a presidente do .PT.
CIBERSEGURANÇA COMO PRINCIPAL
FOCO
A estratégia para 2030 definida
pelo .PT contempla quatro eixos,
sendo o da cibersegurança
o primordial. Desde 2015 que
* Fonte: .PT | Dados disponíveis a 11 de dezembro
44 | APDC | REVISTA COMUNICAÇÕES | DEZEMBRO 2025
A presidente do .PT refere que
a marca quer ser líder do
ecossistema digital em Portugal.
a entidade conta com um Centro
de Operações e Segurança para
prevenir, detetar e responder a
ameaças e incidentes relacionados
com a segurança de toda a
comunidade ligada ao .PT.
Além deste sistema, tem também
promovido formações na área da
cibersegurança, seja a nível interno,
seja junto dos agentes de registo.
“Nós nunca podemos dizer que
somos totalmente ciberseguros,
mas podemos, por um lado,
demonstrar que a nossa gestão e a
nossa infraestrutura é cibersegura
e, por outro lado, promover
a capacitação em termos de
cibersegurança”, afirma Luísa Ribeiro
Lopes, referindo que o .PT também é
requisitado para dar formação nesta
área, tendo estabelecidos protocolos
com entidades como o Centro
Nacional de Cibersegurança, a Polícia
Judiciária e a PSP.
O segundo passo estratégico passa
pela confiança e pela criação de valor
com o nome de domínio.
Desde a criação do .PT que
foi estabelecido o objetivo de
tornar o domínio de topo do país
numa referência, algo exigente
à época, uma vez que em Portugal,
à semelhança de outros países
do Sul da Europa, “a maior parte das
pessoas e das empresas achavam
que ter uma presença digital passava
por ter um domínio .com”. O desafio,
que implicou um trabalho intenso de
reconhecimento da marca,
por forma a angariar pessoas,
“As nossas receitas
servem para a gestão
da infraestrutura
e para termos
colaboradores
qualificados, mas
também para devolver
à comunidade aquilo
que a comunidade
nos dá.”
projetos e empresas para o domínio
nacional, foi ultrapassado há cerca
de quatro anos, quando o .pt passou
a ter uma quota de mercado superior
ao .com.
Atualmente, a criação de valor
do domínio .pt ganhou uma nova
dimensão: “Nós sabemos que o
nosso país se quer internacionalizar,
portanto, também temos de
ter uma palavra a dizer nesta
internacionalização, [que passa por]
usar também o domínio para [o país
se] internacionalizar. Isso tem sido um
foco: gerar confiança, gerar valor no
domínio do topo e internacionalizar”.
PLATAFORMA DOS DADOS
EM PORTUGAL
A regulamentação é o terceiro
passo da estratégia do .PT para 2030.
Isto é, fazer com que o domínio de
topo em Portugal esteja totalmente
em conformidade com toda a
regulamentação relacionada com
o setor, que está em constante
atualização.
Por último, o eixo estratégico
mais desafiante: tornar a marca
líder no ecossistema de dados
em Portugal: “Nós já temos um
embrião, o Ponto Digital, uma
plataforma que gerimos e que foi
financiada pela Comissão Europeia.
Queremos dar-lhe um boost e fazer
com que seja a grande plataforma
de dados do digital em Portugal”,
refere a presidente do .PT,
acrescentando que já abordou esta
temática com o atual Governo.
“Nós somos uma entidade
independente, transparente,
que não está sujeita aos ciclos
políticos e que pode perfeitamente
albergar estes dados tão essenciais.
Estamos a ouvir falar de grandes
data centers e grandes projetos em
termos de inteligência artificial que
só funcionam com dados fiáveis, e
nós queremos ser esta plataforma
que tem os dados digitais em
Portugal.”
“DEVOLVER À COMUNIDADE”
O crescimento do .PT tem levado a
marca a promover e apoiar projetos
que desenvolvam as competências
digitais dos cidadãos. Para Luísa
Ribeiro Lopes, isso levará não só
a que mais pessoas percebam a
importância de ter um domínio
.pt, mas também fomentará uma
sociedade mais igual e onde o digital
não reforça as desigualdades já
existentes.
Além da plataforma Ponto Digital,
que divulga as ações de formação
e capacitação na área do digital
a nível nacional, o .PT apoia, entre
outros projetos, o Apps for Good,
que desafia estudantes e docentes
a desenvolverem aplicações,
e iniciativas como o WIT KIDS,
da Women in Tech Portugal,
e o Engenheiras Por Um Dia,
do Governo, que visam desconstruir
preconceitos de género relacionados
com as carreiras ligadas à
engenharia, à tecnologia e à ciência.
“Embora tenhamos 89% da
nossa população a navegar na
internet, só cerca de 60% tem
competências digitais básicas.
As nossas receitas servem para
a gestão da infraestrutura e para
termos colaboradores qualificados,
mas também para devolver à
comunidade aquilo que
a comunidade nos dá, capacitando
as pessoas e tentando com que o
digital seja um enabler da igualdade”.
Numa era de elevada instabilidade
geopolítica, Luísa Ribeiro Lopes
acha difícil fazer “prognósticos”
relativamente ao futuro do
panorama digital, mas não tem
dúvidas de onde gostaria de ver a
marca: “O .PT tem que ser o líder
do ecossistema digital em Portugal
e fazer com que este ecossistema seja
mais justo, mais democrático e que
possa garantir uma coisa que é muito
importante no digital: a liberdade”.
DEZEMBRO 2025 | REVISTA COMUNICAÇÕES | APDC | 45
I TECH
JOSÉ MANUEL PARAÍSO
DO FORTRAN
AOS SISTEMAS CRÍTICOS
O Country General Manager da Kyndryl Portugal nunca planeou uma
carreira em tecnologia, mas construiu uma vida inteira à volta dela.
Do FORTRAN à IA, da curiosidade académica à liderança de sistemas
críticos, o seu percurso é um retrato de como o digital se tornou
indissociável da forma como trabalhamos, comunicamos e vivemos.
FOTOS | VÍTOR GORDO/SYNCVIEW
José Manuel Paraíso ainda
se lembra do dia em que
entrou, pela primeira
vez, na chamada “sala
do computador”, na
Universidade Católica, uma sala que
estava quase sempre fechada. Aluno
de Economia, a frequentar a cadeira
de Fortran IV, esperava encontrar
uma máquina imponente, cheia de
válvulas, algo quase cinematográfico.
Mas, quando a porta se abriu, o vazio
foi dececionante e teve a sensação de
que o computador tinha sido roubado.
Só mais tarde reparou num telefone
antigo, de disco, e numa estranha
máquina de escrever que, afinal,
era uma perfuradora de cartões.
Era assim que se programava: através
desses cartões, num sistema de
timesharing ligado a um computador
central que não se via.
Essa surpresa inicial ajuda a explicar
a relação que José Manuel Paraíso
mantém com o digital até hoje: curiosa,
pragmática e sem deslumbramentos.
Economista de formação, nunca
planeou seguir carreira em Tecnologias
de Informação. Ainda assim, construiu
um percurso de mais de quatro
décadas ligado à evolução tecnológica.
Hoje, Country General Manager
da Kyndryl Portugal, lidera uma
operação que trabalha com sistemas
críticos, espelhando bem a sua visão: a
tecnologia não é opcional, é estrutural.
O interesse começou cedo. Ainda na
universidade, surgiram os primeiros
contactos com a informática, depois
os computadores, do ZX Spectrum
à Apple. Programava por iniciativa
própria, “quase por desporto”, criando
pequenos programas – um deles viria
mesmo a ser usado no negócio do pai.
Apesar disso, ao terminar o curso em
plena crise dos anos 80, entrou no
mercado de trabalho sem saber que
a tecnologia seria o seu caminho.
Começou como analista funcional
numa software house portuguesa,
fazendo a ponte entre utilizadores
e programadores. “Não sabia escrever
código, mas sabia lê-lo”, recorda,
num tempo dominado por COBOL,
FORTRAN e grandes sistemas
empresariais da IBM e da então Digital.
Hoje, separar tecnologia de vida
pessoal é praticamente impossível.
O telemóvel é o centro de tudo: trabalho,
comunicação, informação e família.
José Manuel Paraíso lembra um
momento particularmente marcante,
quando em 2009 lhe foi entregue
um BlackBerry. Estava em Madrid,
passava grande parte do tempo em
trânsito e o novo telemóvel permitia-lhe
estar em permanente contacto com
tudo. Trouxe-lhe uma sensação de
liberdade. “A minha forma de desligar é,
na realidade, não estar nunca desligado.
É assim que me sinto mais tranquilo.”
Não se considera um techie, nem se
deixa seduzir pela versão mais recente
do equipamento, mas valoriza, acima
de tudo, o software e a integração.
É aí que surge a Apple como referência
Para José Manuel Paraíso separar
tecnologia de vida pessoal é
praticamente impossível e o telemóvel
está no centro de tudo.
Ouça este artigo
Tempo de escuta: 04ʹ31ʺ
APPS FAVORITAS
Spotify
Sobretudo ao fim de semana,
não dispensa o dispensa. “Dá-me a
liberdadede ouvir a música que me
apetece, quando quero.”
Sport Tracker
“É a aplicação com que registo
todo o exercício físico que faço”,
sobretudo de bicicleta.
Yahoo Finance
Há muitos anos que é utilizador
frequente. “Tem uma cobertura
muito interessante das notícias
económicas sobre as empresas
que sigo.”
46 | APDC | REVISTA COMUNICAÇÕES | DEZEMBRO 2025
“Tudo o que tem a
ver com inteligência
artificial, com
o aumento de
produtividade que
nos dá e o espetacular
de tudo o que com ela
conseguimos fazer,
é impossível não ser
adopter desse tipo de
tecnologia.”
clara. Mais do que a marca, é o sistema
operativo e a forma como tudo
funciona em conjunto – do iPhone
ao computador, até à Apple TV – que
o convence. Ligar um portátil a um ecrã
e começar uma reunião, ter música,
fotografias ou documentos disponíveis
em qualquer dispositivo, tudo de forma
automática, é para si decisivo.
Considera a inteligência artificial
como a grande revolução, logo a seguir
à revolução industrial e ao surgimento
da eletricidade. Na Kyndryl, utiliza
intensivamente o Copilot para
aumentar a produtividade, desde
organizar ideias antes de reuniões até
gerar atas automáticas no Teams.
A convicção é clara: “a IA não elimina
empregos, faz com que o nosso
trabalho seja melhor”.
O futuro será inevitavelmente mais
digital e mais inteligente. A IA trará
ganhos enormes de produtividade
e acesso ao conhecimento, mas
também riscos, sobretudo se mal
utilizada. O verdadeiro desafio,
defende, não está na tecnologia, mas
na forma como a sociedade a gere.
Num mundo já desigual, o digital
pode acentuar diferenças, mas não é
opcional. Como explica, José Manuel
Paraíso, o desafio está no equilíbrio.
Se pudesse mudar algo, começaria
pelas redes sociais: menos anonimato,
mais responsabilidade e maior cuidado
na utilização dos dados. Porque
a tecnologia não vai parar e quanto
melhor a soubermos usar, melhor
preparados estaremos para o futuro.
DEZEMBRO 2025 | REVISTA COMUNICAÇÕES | APDC | 47
Barómetro
RH
ESPAÇO RESERVADO A TENDÊNCIAS NA ÁREA DO TALENTO
E DOS RECURSOS HUMANOS
HP WORK RELATIONSHIP INDEX 2025
TRABALHADORES FELIZES,
EMPRESAS FORTES
A satisfação no trabalho atingiu um mínimo
histórico em 2025. Só 20% dos knowledge
workers dizem ter uma relação saudável
com o trabalho, com uma descida
de oito pontos em relação ao ano passado.
O recuo mais dramático regista-se entre
os líderes empresariais, de 17%, o que
mostra uma crise de conexão e confiança
no topo da pirâmide das empresas.
Os dados são da 3.ª edição do Work
Relationship Index (WRI), um estudo
anual da HP que olha para a forma como
as pessoas em todo o mundo se sentem
em relação ao seu trabalho. Este declínio
global afeta especialmente os mercados
desenvolvidos.
Mas este declínio não é inevitável.
As organizações que agirem rapidamente
estarão em melhor posição para reter talentos
e construir resiliência, já que têm nas suas
mãos 85% dos fatores que influenciam
a satisfação no local de trabalho: tecnologia,
reconhecimento, clareza de objetivos,
equilíbrio, colaboração, foco e fluxo. Abordar
esses pontos críticos pode diminuir a distância
entre a intenção da liderança e a experiência
dos funcionários. O que é visto como uma
oportunidade significativa para liderarem
as mudanças e reconstruírem relações
de trabalho mais fortes.
O estudo destaca que o sentimento
de realização dos trabalhadores tem impacto
direto no desempenho, retenção e inovação.
O Índice 2025 mostra que os colaboradores
estão sob pressão, com muitos a relatar
expectativas crescentes e uma sensação
TECNOLOGIA E IA: MULTIPLICADORES DE FORÇA
O ACESSO À IA E A FORMAÇÃO
AMPLIFICAM O OTIMISMO E A
PRODUTIVIDADE.
OS BENEFÍCIOS DA TECNOLOGIA
NÃO SÃO SENTIDOS DE FORMA
IGUAL PELA FORÇA DE TRABALHO.
A IA já faz parte
do trabalho
diário de 25% dos
trabalhadores do
conhecimento (+7%
em relação a 2024),
41% dos líderes
empresariais (+5%)
e 49% dos decisores
de TI (+18%).
42% das pessoas com uma relação saudável
com o trabalho utilizam ferramentas de IA
diariamente.
Os trabalhadores com acesso diário à IA
estão significativamente mais otimistas em
relação ao seu futuro no trabalho, graças
à melhoria da eficiência do seu fluxo de
trabalho.
Quase um em cada três trabalhadores não
tem formação em IA e 42% afirmam que
a sua empresa não tem uma estratégia clara
de IA. Colmatar esta lacuna é fundamental
para a transformação da força de trabalho.
58% dos decisores afirmam que a IA
os torna mais eficientes, contra 48%
dos líderes empresariais e apenas 30%
dos trabalhadores do conhecimento.
Embora a IA e a tecnologia sejam
comprovadamente facilitadoras
da produtividade, o acesso e a adoção
são desiguais entre os trabalhadores,
deixando muitos sem as ferramentas
necessárias para atingir o seu pleno
potencial.
48 | APDC | REVISTA COMUNICAÇÕES | DEZEMBRO 2025
Os profissionais realizados têm três vezes mais probabilidades de se
sentirem ligados aos colegas e de alcançarem o equilíbrio entre vida
pessoal e profissional, fatores que impulsionam a produtividade
de desconexão. Mais de seis em cada
10 trabalhadores de escritório afirmam que
as expectativas da sua empresa aumentaram
ao longo do último ano, enquanto quase
metade sente que o seu empregador prioriza
o lucro em detrimento das pessoas. Este é o
momento de agir.
É que os profissionais realizados têm três
vezes mais probabilidades de se sentirem
ligados aos colegas e de alcançarem
o equilíbrio entre vida pessoal e profissional,
fatores que impulsionam a produtividade.
Tendo em conta esta constatação, a liderança
com elevada inteligência emocional
– baseada na comunicação, transparência
e confiança – é um fator essencial.
E as organizações com relações de trabalho
saudáveis são as que registam um maior
crescimento.
Esta pesquisa global foi realizada entre 15
de abril e 20 de maio de 2025 em três grupos
de público, em 14 países. Foram inquiridos
18,2 mil trabalhadores de escritório, 14 mil
knowledge workers, 2,8 mil decisores de TI
e 1,4 mil líderes empresariais.
Consulte aqui o estudo
Para prosperar, os profissionais precisam de se sentir realizados, apoiados por
líderes que colocam as pessoas no centro da tomada de decisões e equipados com
a tecnologia e as ferramentas necessárias para trabalhar de forma mais inteligente.
REALIZAÇÃO
Sentimento de realização
sentida no trabalho
21% 15% 13%
2025
2025
(-8 p.p. do que 2024)
LIDERANÇA
Suporte dado pelos
superiores hierárquicos
2025
(-10 p.p. do que 2024)
FOCO NAS PESSOAS
As pessoas são incentivadas
a priorizar seu bem-estar ao
longo do dia.
(-11 p.p. do que 2024)
BARÓMETRO RH
MUDANÇA GERACIONAL
DE EXPECTATIVAS
AS GERAÇÕES MAIS JOVENS ESTÃO A REDEFINIR
AS NORMAS E PRIORIDADES DO TRABALHO.
Quatro em cada cinco trabalhadores da Geração Z abririam
mão de parte do seu salário em troca de mais flexibilidade
e autonomia na carreira.
51% tem projetos paralelos, demonstrando um forte desejo
de autonomia, crescimento e propósito, bem como
um maior nível de satisfação.
Como utilizadores mais frequentes de IA, a Geração Z também
revela níveis mais competentes, proficientes e especializados
de compreensão de IA.
A Geração Z também está a exigir mais – querem flexibilidade,
crescimento na carreira e alinhamento ético com
os empregadores – o que está a redefinir o futuro do trabalho.
27%
Até ao final de 2025,
a Geração Z
representará 27%
da força de trabalho
global.
A COLABORAÇÃO ENTRE GERAÇÕES CRIA VALOR
PARA TODAS.
Os trabalhadores mais jovens aceleram a adoção de tecnologia,
enquanto os colegas mais velhos trazem experiência no setor.
Os inquiridos de todas as gerações destacam as oportunidades
para aprender uns com os outros, equilibrando a rápida adoção de
tecnologia com a perspicácia empresarial.
A mentoria recíproca combina inovação com experiência,
aumentando a adaptabilidade em toda a organização. As empresas
que aproveitam a energia da geração mais jovem revelam novo valor.
DEZEMBRO 2025 | REVISTA COMUNICAÇÕES | APDC | 49
Radar
Legal
DIGITAL OMNIBUS
PACKAGE
ALÉM DA APARENTE IDEIA
DE DESREGULAÇÃO
O Omnibus não representa uma
desregulação, mas sim um ajuste ao
modelo normativo europeu. Ao clarificar
obrigações e reduzir redundâncias, quer
reforçar a eficácia da regulação digital,
sem abdicar dos pilares éticos e de proteção
que definem a liderança europeia.
POR: JOANA PINTO | PARTNER TECHNOLOGY TRANSACTIONS, ANTAS DA CUNHA ECIJA
Foi a 19 de novembro
que a Comissão
Europeia apresentou
o Digital Omnibus
Package, uma proposta
destinada a reorganizar e clarificar
o ecossistema regulatório digital
da União Europeia. Este pacote
surge num momento em que
a Europa tenta equilibrar duas
pressões simultâneas: garantir
a liderança ética e normativa
em matéria digital e, ao mesmo
tempo, evitar que a complexidade
regulatória comprometa a
competitividade das empresas.
A proposta tem sido tratada
por alguns como um sinal de
“desregulação encapotada”.
Mas essa leitura é, no mínimo,
pouco cuidadosa. E não resiste
a uma análise cuidada do que
está verdadeiramente em causa.
O QUE O OMNIBUS É E,
SOBRETUDO, O QUE NÃO É
Contrariamente ao que certos
discursos mais alarmistas sugerem,
o Omnibus não mexe na arquitetura
central da legislação europeia.
Os pilares do AI Act, do RGPD
e da NIS2 permanecem intactos.
O que a Comissão Europeia coloca
em discussão é uma intervenção
técnica, cirúrgica, desenhada para
eliminar redundâncias, harmonizar
conceitos e clarificar obrigações
que, na prática, criavam ruído
e incerteza. É, acima de tudo, um
exercício de afinação normativa
e não uma mudança de rumo.
Não se trata, porém, de um gesto
ingénuo ou neutro. O Omnibus
resulta de um processo informado
por meses de diálogo técnico,
feedback acumulado da indústria
e a constatação de que a execução
prática das normas europeias
exige mais do que boas intenções.
É a evidência de uma Europa que
começa a ajustar o seu modelo
regulatório às dinâmicas reais
do mercado digital global.
Importa, no entanto, clarificar
o essencial: nada muda de imediato.
O Omnibus é uma proposta
legislativa e seguirá o percurso
completo – Parlamento, Conselho
e trílogos – onde poderá sofrer
ajustamentos significativos.
Até à sua eventual aprovação,
o quadro vigente mantém-se
plenamente em vigor. Não se
trata de travar iniciativas de
conformidade ou de antecipar
um relaxamento regulatório.
Trata-se apenas de reconhecer
que a discussão legislativa está
a evoluir.
Ainda assim, não se pode
ignorar que a proposta desperta
receios legítimos. Há quem tema
que um prolongamento dos prazos
de transição abra espaço a uma
nova vaga de debates políticos
ou que a pressão internacional –
nomeadamente dos Estados Unidos
– leve a um recuo estratégico da
Europa na proteção de direitos
fundamentais. Outros receiam
que o foco na simplificação
acabe por diluir salvaguardas
O Omnibus resulta
de um processo
informado por meses
de diálogo técnico,
feedback acumulado
da indústria e a
constatação de que
a execução prática
das normas europeias
exige mais do que
boas intenções.
50 | APDC | REVISTA COMUNICAÇÕES | DEZEMBRO 2025
essenciais, sobretudo em sistemas
de inteligência artificial (IA) de alto
risco.
O RISCO REAL: A ARMADILHA INTER-
PRETATIVA
O verdadeiro risco, contudo,
não reside no conteúdo do
Omnibus, mas na forma como as
organizações leem o momento.
Uma interpretação excessivamente
simplista pode induzir a ideia
de que se pode “esperar para ver”,
relaxar mecanismos internos
ou assumir que certas exigências
estruturais serão flexibilizadas.
Essa abordagem não seria
apenas imprudente, seria
contrária ao próprio espírito
da regulação europeia.
A simplificação proposta
pela Comissão não elimina
responsabilidades, não substitui
avaliações de impacto, não reduz
exigências de documentação e não
altera o núcleo das obrigações
que recaem sobre providers,
deployers, importadores ou
distribuidores de sistemas de IA.
Pelo contrário, ao clarificar
conceitos e organizar obrigações,
a proposta expõe com maior nitidez
aquilo que sempre esteve implícito:
A Europa não
precisa de menos
regulação – precisa
de melhor regulação.
E o Omnibus poderá
ser um passo decisivo
nessa direção.
que conformidade em IA não
é um exercício pontual, mas um
processo contínuo.
EXECUÇÃO SUSTENTADA,
SEM PAUSAS
Em termos práticos, a mensagem
para as empresas é clara: aproveitem
a clarificação, mas não diminuam
o ritmo. A governança de IA continua
a exigir capacidade técnica,
processos robustos, documentação
auditável e mecanismos de
supervisão humana eficazes.
A proteção de dados mantém-se
como elemento estrutural e não
como detalhe acessório. A segurança
digital permanece indissociável
da gestão de risco em IA.
Em resumo, o Omnibus não
altera o essencial. A Europa
não abandona os seus valores,
aperfeiçoa a forma como
os traduz em prática. E este
movimento pede às empresas
maturidade, consistência na
forma como integram a regulação
no seu modelo de gestão e uma
leitura estratégica do que está
verdadeiramente em cima
da mesa.
CLARIFICAR PARA
CONSOLIDAR
O Digital Omnibus Package
não soluciona todos os desafios
da regulação digital. Mas, se for
bem conduzido, pode aproximar
a Europa do equilíbrio que
há muito se procura: um modelo
que protege sem paralisar,
que regula sem perder de vista
a realidade operacional
das empresas que sustentam
a economia digital.
O sucesso desta nova etapa
dependerá por isso também
da capacidade de aplicar com
maturidade as soluções que vierem
a ser aprovadas. A Europa não
precisa de menos regulação
– precisa de melhor regulação.
E o Omnibus poderá ser um passo
decisivo nessa direção.
DEZEMBRO 2025 | REVISTA COMUNICAÇÕES | APDC | 51
VISÃO DOS ASSOCIADOS
INOVAÇÃO EM ECOSSISTEMA
Num mercado marcado pela incerteza,
a Brighten acredita que crescer passa
por colaborar. A entrada na APDC reflete
essa convicção e reforça o seu compromisso
com a inovação e a transformação digital
das organizações.
Com a entrada na APDC,
a Brigten passou a
integrar um ecossistema
que promove a inovação, a
transformação digital e a
colaboração entre empresas que
moldam o futuro tecnológico do
país. O que lhe permite passar
a contribuir ativamente para
os debates estratégicos sobre
tecnologia e negócio, assim como
reforçar o seu posicionamento
como um parceiro que simplifica
operações e acelera o crescimento
das organizações.
Como refere Jorge Carvalho,
Managing Director da Brighten,
“acreditamos na partilha de
conhecimento e na construção
de relações que impulsionam
o desenvolvimento do setor”.
E o foco é simples: “Tornar as
operações mais eficientes, reduzir
desperdícios, melhorar margens e
dar às equipas uma visão unificada
do negócio para crescerem com
segurança”.
Para isso, disponibiliza um
portfolio de soluções de gestão
completo, graças não só ao trabalho
in-house mas também às parcerias
de referência de software houses
como a SAP, a Sage e a UiPath.
Tem ainda um ecossistema
de mais de dez parceiros
tecnológicos. Desenvolve também
B.I.
Ano de adesão à APDC
2025
Área de atuação e especialização
É uma consultora especializada em
transformar operações empresariais
através de tecnologia de gestão e de um
conhecimento profundo de indústria. Tem
como missão ajudar empresas de média e
grande dimensão a organizarem melhor
o seu negócio, ganharem controlo sobre
operações críticas e tomarem decisões
com maior confiança. Nesse sentido, tem
soluções de gestão que permitem integrar
todas as áreas de uma organização num
único modelo operacional, desde as
finanças e operações até à produção,
vendas e serviços, garantindo processos
mais claros, rápidos e eficientes.
52 | APDC | REVISTA COMUNICAÇÕES | DEZEMBRO 2025
GRANDE PERGUNTA
Tendo em conta que Portugal
se pretende afirmar
como hub europeu digital,
que políticas ou iniciativas
concretas deveriam ser
aceleradas para que
as empresas portuguesas,
como a vossa, possam
competir globalmente?
Portugal só conseguirá afirmar-se como
um verdadeiro hub digital europeu se
acelerar três prioridades muito claras.
Primeiro, tanto as empresas como o Estado
terão de investir, de forma consistente,
na qualificação avançada de talento,
garantindo que conseguem recrutar
e reter recursos altamente especializados.
Deveriam ainda ser criados mecanismos
e incentivos ao investimento das empresas
no desenvolvimento de competências
e no crescimento profissional dos seus
colaboradores. E promover conhecimento
e competências adicionais que não sejam
facilmente substituíveis pela utilização de
tecnologias, nomeadamente a inteligência
artificial (IA). Segundo, desenvolver políticas
de incentivo à modernização tecnológica
das organizações, com foco especial
nas PME, facilitando a adoção de soluções
que aumentem eficiência, competitividade
e capacidade de escala internacional.
Por último, reforçar a ligação entre empresas,
academia e Estado, criando programas
e iniciativas conjuntas de inovação aplicados,
garantindo que as novas gerações estão
melhor preparadas para as reais necessidades
do mercado de trabalho. Para empresas
como a Brighten, este alinhamento
é determinante: precisamos de um
ecossistema que reduza barreiras, acelere
a inovação e permita competir globalmente
com base em competência, produtividade
e valor acrescentado.
aplicações totalmente ajustadas
à realidade de cada cliente,
com automatização de tarefas
repetitivas para libertar equipas
para um trabalho de maior valor
e a criação de modelos avançados
de análise, que permitem
antecipar necessidades, prever
resultados e captar informação
em tempo real, incluindo a partir
de equipamentos industriais.
Tendo em conta o atual
contexto de elevada incerteza
e instabilidade, Jorge Carvalho
explica que a estratégia de
mercado da Brighten “passa por
ajudar as empresas a ganhar
eficiência, visibilidade e controlo”.
“Focamo-nos nos setores onde
entregamos resultados mais
rápidos e relevantes, simplificando
processos e garantindo que
cada investimento traz retorno
mensurável”, diz. Para isso, opera
através de modelos flexíveis,
ajustados à realidade de cada
organização. E privilegia relações
de longo prazo, que permitam
às empresas crescer de forma
sustentável e tomar decisões mais
informadas, mesmo em contextos
voláteis.
www.brightenconsulting.com
DEZEMBRO 2025 | REVISTA COMUNICAÇÕES | APDC | 53
PORTUGAL A ABRIR DIGITAL
CIÊNCIA QUE
CONSTRÓI
SOLUÇÕES
PARA O MUNDO
54 | APDC | REVISTA COMUNICAÇÕES | DEZEMBRO 2025
Da otimização matemática à micro e nanofabricação,
a ciência desenvolvida no universo INESC
traduz conhecimento avançado em respostas concretas para
alguns dos maiores desafios globais.
O INESC Coimbra e o INESC MN ilustram duas
abordagens distintas e complementares,
onde investigação interdisciplinar, engenharia de ponta
e ligação à indústria se cruzam para gerar impacto
económico, social e tecnológico.
FOTOS | VÍTOR GORDO/SYNCVIEW
DEZEMBRO 2025 | REVISTA COMUNICAÇÕES | APDC | 55
PORTUGAL A ABRIR DIGITAL
INESC COIMBRA
CIÊNCIA E DADOS
AO SERVIÇO DO AMANHÃ
A
partir de
Coimbra, modelos
matemáticos,
algoritmos
e sistemas de apoio
à decisão ajudam a enfrentar
alguns dos desafios mais complexos
da atualidade – da transição
energética à saúde, do ambiente ao
planeamento territorial. Com raízes
que remontam à segunda metade
dos anos 80, quando arrancou como
polo do Instituto de Engenharia
de Sistemas e Computadores
(INESC), e mais de duas décadas de
autonomia institucional, o INESC
Coimbra consolidou-se como uma
referência no ecossistema científico
e tecnológico nacional.
Afiliado à Universidade de
Coimbra, ao INESC Holding e ao
Instituto Politécnico de Leiria,
o instituto reúne mais de 100
investigadores – 59 integrados e 30
doutorandos – com competências
sobretudo no âmbito das
engenharias: eletrotécnica
e de computadores, informática,
geoespacial e mecânica, mas que
também tocam áreas como a gestão.
“Na matriz fundadora do INESC
Coimbra está, sobretudo,
a nossa natureza interdisciplinar.
Os problemas são cada vez mais
interdisciplinares e é possível
convocar competências de diversas
áreas que se complementam para
um objetivo comum”, refere Carlos
Henggeler Antunes, presidente
do Conselho de Administração
do INESC Coimbra. “A otimização
de sistemas de energia, em que
existem objetivos de natureza
económica, de natureza técnica
e de natureza ambiental, por
exemplo, ilustram essa natureza
interdisciplinar”, acrescenta.
O trabalho desenvolvido pelo
INESC Coimbra é, contudo,
muito mais abrangente. Sustenta
linhas de investigação que vão
desde os sistemas e métodos de
apoio à decisão e à análise de
dados geoespaciais, da energia
sustentável à gestão de recursos
hídricos, passando pela engenharia
estrutural computacional.
“Trabalhamos muito em modelos
e métodos de otimização, de
56 | APDC | REVISTA COMUNICAÇÕES | DEZEMBRO 2025
“Na matriz fundadora do INESC
Coimbra está, sobretudo, a nossa
natureza interdisciplinar.
Os problemas são cada vez mais
interdisciplinares e é possível
convocar competências de diversas
áreas que se complementam
para um objetivo comum.”
Carlos Henggeler Antunes
Presidente do Conselho
de Administração do INESC Coimbra
Fotos cedidas
“Trabalhamos muito
em modelos e métodos
de otimização,
de investigação
operacional. A
nossa principal raiz
está na otimização
matemática.”
investigação operacional. A nossa
principal raiz está na otimização
matemática”, afirma o responsável.
É esta base que permite a este
instituto operar sobretudo em
níveis de TRL (Níveis de Maturidade
Tecnológica) mais baixos,
desenvolvendo teoria, algoritmos
e metodologias que, depois,
sustentam aplicações de larga
escala. Produção que tem impacto
em diversos setores e comunidades,
por via de publicações em revistas
científicas, participação ativa em
projetos de investigação
e desenvolvimento, colaborações
e contratos com a indústria e
instituições públicas.
A equipa que dá corpo a todo
esse trabalho multidisciplinar tem
origem sobretudo na Universidade
de Coimbra (cerca de 75%), no
Instituto Politécnico de Coimbra
e no Instituto Politécnico de Leiria,
mas também integra alguns
investigadores de outras instituições
como o Politécnico de Viseu
e a Universidade da Beira Interior.
PROJETOS QUE MOLDAM SETORES
Nos últimos anos, vários projetos
tornaram o INESC Coimbra
particularmente visível, tanto
pela inovação científica como
pela relevância e impacto societal,
destacando-se nesse contexto três
eixos centrais: saúde, energia e
ambiente.
Na área da saúde, sobressai
o desenvolvimento de modelos
matemáticos e algorítmicos – hoje já
utilizando inteligência artificial (IA)
– para a otimização de tratamentos
de radioterapia. “O objetivo é
que sejam usados pelos médicos
oncologistas para modelar de forma
ótima, em intensidade e direção, os
feixes de radioterapia que atacam os
tumores, preservando ao máximo
os tecidos envolventes”, explica
Carlos Henggeler Antunes. Trata-
-se de um trabalho com elevado
potencial de aplicação prática,
desenvolvido em colaboração
com o Instituto Português de
Oncologia de Coimbra e com centros
internacionais como o MD Anderson
Cancer Center, em Austin, no Texas.
A energia é outro domínio
estruturante. O INESC Coimbra
esteve envolvido em projetos de
promoção da eficiência energética
enquanto consultor das empresas
do grupo EDP, no âmbito do PEPEC –
o Plano de Promoção da Eficiência
no Consumo de Energia, gerido
pela Entidade Reguladora dos
Serviços Energéticos em Portugal
(ERSE). “Desenhámos as medidas,
a implementação, a avaliação
das medidas de promoção da
eficiência energética, por exemplo,
na iluminação, na substituição
de motores por motores mais
eficientes, entre outros”, explica
o presidente do instituto.
Neste campo, incluem-se ainda
o estudo realizado aquando do
phasing out da central a carvão do
Pego, avaliando a viabilidade da sua
conversão para biomassa e o Plano
Regional de Promoção da Eficiência
Energética (PRAEE) para o Governo
Regional dos Açores. Em marcha
está também um projeto com
uma empresa do Grupo Somague
relacionado com a avaliação de
eficiência energética em edifícios
escolares. A investigação estende-
-se também a áreas emergentes
como o agrivoltaics, procurando
compatibilizar o uso agrícola
do solo com a produção fotovoltaica
– um tema cada vez mais crítico em
território nacional.
O INESC Coimbra tem igualmente
reforçado a sua reputação na
análise de dados geoespaciais.
O projeto UAS4Litter, que recorre
a drones e IA para detetar e
mapear o lixo marinho nas praias
portuguesas, é exemplificativo disso
DEZEMBRO 2025 | REVISTA COMUNICAÇÕES | APDC | 57
PORTUGAL A ABRIR DIGITAL
NÚMEROS
+100
Investigadores
7
Áreas científicas
de atuação
8
Instiuições associadas
700 MIL €
Volume de negócios
previsto para
2025/2026
mesmo. O drone equipado com
uma câmara digital que voa a uma
altitude de 20 metros permite detetar
e identificar o lixo em imagens
utilizando métodos manuais e
automáticos baseados em IA.
“Esta linha de investigação tem tido
alguma relevância internacional,
sendo que investigadores nossos
têm sido convidados pelo Ministério
do Meio Ambiente do Governo do
Japão para encontros e assessoria
relacionados com a monitorização
do lixo marinho costeiro”, refere
Carlos Henggeler Antunes.
PARCERIAS INTERNACIONAIS
E IMPACTO GLOBAL
Esta dimensão internacional
reflete-se ainda na participação
em iniciativas como o SenForFire
– Cost-Effective Wireless Sensor
Networks for Forest Fire Prevention
and Early Detection, financiado
pelo Programa Interreg Sudoe,
que pretende promover a prevenção
e deteção precoce de incêndios.
O projeto envolve uma equipa de
investigadores do Departamento
de Engenharia Informática da
Faculdade de Ciências e Tecnologia
da Universidade de Coimbra, bem
como de Andorra, Espanha e França.
Foto cedida
A contribuição da equipa portuguesa
passa pela análise inteligente dos
dados, que são georreferenciados
e multimodais, de modo a suportar
decisões que venham a ser tomadas
antes ou durante o combate a um
incêndio.
Ainda no campo da informação
geoespacial, o instituto é ainda
parceiro do SAFIR – Sentinel-Assisted
Forestry Insight and Research, que
aborda desafios críticos na gestão
florestal, particularmente na deteção
e gestão de distúrbios florestais como
quedas de árvores devido ao vento
e anomalias causadas por pragas.
A inovação desta iniciativa,
financiada pela Austrian Research
Promotion Agency, reside no uso
de tecnologias de ponta, incluindo
algoritmos de machine learning
para remoção de sombras e nuvens,
que visam refinar a qualidade
das imagens de satélite.
Do outro lado do Atlântico,
o trabalho conjunto com a
Universidade de Sherbrooke,
no Canadá, sobretudo na área da
mobilidade elétrica, também tem
sido bastante profícuo. Foram
alcançados, nomeadamente,
avanços significativos nos sistemas
de gestão de energia em veículos
elétricos que permitiram combater
o desgaste das baterias e melhorar
a eficiência dos motores. Apesar
de estarem numa fase menos
produtiva, também tem havido uma
grande participação em projetos
de pesquisa e desenvolvimento
da ANEEL – o regulador do setor
de energia elétrica do Brasil –
relacionados com smart grids,
sistemas de pré-pagamento
e à transição energética.
SUSTENTABILIDADE
FINANCEIRA E AMBIÇÃO CIENTÍFICA
Como associação privada
sem fins lucrativos, o INESC
Coimbra assenta num modelo
de financiamento equilibrado
que depende de várias vias.
“Os proveitos resultam do
financiamento da Fundação para
a Ciência e Tecnologia, de projetos
de cooperação internacional e de
prestação de serviços especializados
às empresas”, resume o presidente.
O responsável do INESC Coimbra
fala numa estrutura pequena, mas
sustentada sem endividamento.
Para este e o próximo ano, antecipa
um volume de negócios que rondará
os 700 mil euros.
Olhando para o futuro, a ambição
passa por aprofundar as áreas
nucleares de investigação, tirando
partido de novas abordagens
tecnológicas. “Queremos continuar
a expandir as nossas áreas
essenciais – transição energética,
informação geoespacial, otimização
da radioterapia – e ter o background
matemático, computacional e de
inteligência artificial necessário
para abraçar novos desafios”,
conclui Carlos Henggeler Antunes.
58 | APDC | REVISTA COMUNICAÇÕES | DEZEMBRO 2025
DEZEMBRO 2025 | REVISTA COMUNICAÇÕES | APDC | 59
PORTUGAL A ABRIR DIGITAL
INESC MN
MICRO E NANOFABRICAÇÃO
COM ESCALA GLOBAL
Numa ‘sala limpa’
em Lisboa, onde
cada partícula no ar
pode comprometer
semanas de
trabalho, produzem-se dispositivos
com componentes invisíveis ao
olho humano, mas essenciais para
sistemas que movem o mundo
moderno: sensores para robôs
industriais, chips óticos para
comunicações, estruturas para
lentes planares e biossensores
de alta precisão. No INESC
Microsistemas e Nanotecnologias
(INESC MN), há mais de três
décadas é construída, passo a passo,
uma competência nacional rara –
micro e nanofabricação ao nível das
melhores equipas internacionais.
Um trabalho que arrancou com
uma equipa que “aprendeu tudo
do zero”, como recorda o presidente
do Conselho de Administração
do INESC MN, Paulo Freitas, e a
partir do qual o instituto construiu
competências únicas e uma
ligação consistente à indústria
internacional, operando em níveis
de maturidade tecnológica (TRL)
significativamente superiores
ao tradicional no universo INESC.
Na sua essência, o instituto tem
como objetivos a investigação
e o desenvolvimento em áreas
estratégicas, nomeadamente
sensores magnetoresistivos
e eletrónica de spin, MEMS e
bioMEMS, materiais funcionais,
fotónica e metamateriais,
microsistemas para aplicações
biológicas ou biomédicas.
O início da história do INESC MN
é marcado logo por uma inovação
industrial. Como lembra Paulo
Freitas, o primeiro grande projeto,
no início dos anos 90, consistiu em
desenvolver “um circuito integrado
para os aquecedores da Vulcano”,
eliminando a necessidade da
chama piloto. Coincidiu com um
período marcado por um forte
investimento no instituto – 11 a 12
milhões de euros entre 1993
e 1995 – a que se juntaram depois
também projetos europeus.
Foi quando começaram a fazer
o que se designa de “personificação
de circuitos integrados”. “Trazíamos
da Alemanha – do Instituto de
Eletrónica de Estugarda – ‘bolachas’
(wafers) com transistors e, em
cima disso, fazíamos cinco níveis
de processamento para ligar
os transistors de várias formas
possíveis. Nunca se tinha feito
isso em Portugal e, durante muito
tempo, fomos os únicos a conseguir
fazê-lo”, recorda Paulo Freitas.
Seguiram-se anos de investimento
em tecnologias de ‘bolachas’, cuja
manipulação, num laboratório com
um ambiente altamente controlado,
abriu caminho à especialização que
hoje distingue o INESC MN, num
trabalho que se mede ao nível do
micrómetro (um fio de cabelo tem
cerca de 60 micrómetros). “Demos
conta de que se tratava de uma área
onde podíamos ser dos melhores
do mundo. Começámos a trabalhar
com a maquinaria da ‘sala limpa’ e
fomos investindo ao longo dos anos”,
recorda o investigador.
ESPECIALIZAÇÃO PROFUNDA
E TRLS ELEVADOS
O INESC MN trabalha tipicamente
em TRL entre 5 e 7 – e, por vezes,
até 8 –, considerando uma escala
que se estende até 9. Isto significa
que muitos dos dispositivos que
fabricam em ‘sala limpa’ podem
seguir diretamente para empresas,
que depois os integram em
produtos comerciais.
NÚMEROS
+80
Colaboradores
6
Grupos
de investigação
25%
Financiamento
via indústria
3,7 milhões
Proveitos
A infraestrutura é crítica para
este trabalho: o instituto opera uma
‘sala limpa’ de 200 m 2 (classe 10/100)
e uma área cinza adjacente também
de 200 m 2 , dispondo ainda de 170 m 2
de área laboratorial. Uma segunda
‘sala limpa’ está em construção
no Taguspark, em Oeiras, onde
será concentrada a atividade
industrial com maior exigência
de reprodutibilidade.
“Grande parte do nosso tempo
é passado a manter as máquinas
a trabalhar e a melhorar processos.
Já investimos cerca de 20 milhões
60 | APDC | REVISTA COMUNICAÇÕES | DEZEMBRO 2025
de euros nestas infraestruturas”,
sublinha o presidente do instituto.
O resultado é uma capacidade
nacional única de processamento
e micro/nanofabricação, que
permite ao INESC MN atuar num
conjunto de áreas tecnológicas
estratégicas.
SENSORES MAGNETORESISTIVOS,
FOTÓNICA E MEMS: TRÊS PILARES
TECNOLÓGICOS
O instituto tornou-se
particularmente reconhecido
no domínio dos sensores
“Um dos maiores projetos que temos
é com uma companhia alemã,
destinado a fabricar encoders
angulares. É um trabalho que
envolve equipas espalhadas
por todo o mundo.”
Paulo Freitas
Presidente do Conselho de
Administração do INESC MN
magnetoresistivos, tecnologia que
encontra aplicações transversais,
dos smartphones aos robôs
industriais. Estes sensores de
posição ou de corrente, chamados
encoders, estão presentes, por
exemplo, em bússolas digitais,
sistemas de focagem de lentes ou
sensores de corrente para veículos
elétricos. Áreas onde o INESC MN
trabalha com grandes empresas
internacionais. “Um dos maiores
projetos que temos agora – está
a entrar no segundo ano – é com
uma companhia alemã, destinado
a fabricar encoders angulares.
É um trabalho que envolve equipas
espalhadas por todo o mundo:
Holanda, Singapura, com quem
temos reuniões todas
as semanas”.
Outro eixo de crescimento
é a fotónica. “É uma área em que
começamos recentemente
e que está a crescer. Aí estamos
a trabalhar com a PICadvanced,
uma companhia de Aveiro que
faz desenho e integração de chips
óticos, para comunicações em
fibra ótica, etc. A nós compete-nos
fabricar, em ‘bolachas’ de silício,
onde colocar esses chips, e onde
podemos colocar sensores
de temperatura ou guias de
onda, por exemplo”. Ou seja,
permitindo dar à empresa “um
nível de processamento a que esta
não tem acesso”, como esclarece
o responsável do INESC MN.
Ainda no campo da fotónica,
o instituto também trabalha em
metasuperfícies. Ou seja, ‘bolachas’
onde existem muitas estruturas 3D,
que são fabricadas para fazer,
por exemplo, uma lente planar.
A terceira área estruturante
é a de MEMS – sistemas
microeletromecânicos –,
normalmente para aplicações na
área biológica. “Foi uma área que
teve início à volta do ano 2000 e em
que trabalhámos muito até 2005,
designadamente com hospitais para
DEZEMBRO 2025 | REVISTA COMUNICAÇÕES | APDC | 61
PORTUGAL A ABRIR DIGITAL
“Se nós queremos
produzir a sério,
temos de ter uma
fábrica, e não precisa
ser muito cara.
Bastaria
um investimento
de 40 a 50 milhões.”
a deteção no corpo humano
de biomarcadores característicos
de algumas doenças”, explica
Paulo Freitas, adiantando que
o INESC MN continua a atuar neste
campo, mas sobretudo em termos
académicos e não com o impacto
industrial com que operam
noutras áreas.
DA CIÊNCIA À INDÚSTRIA:
PARCERIAS GLOBAIS
Uma das características
que distinguem o INESC MN
é precisamente a intensidade da sua
ligação à indústria. “Normalmente,
nós nunca vamos à procura.
São as empresas que vêm ter
connosco porque somos conhecidos
e temos muitas publicações e
algumas patentes nestas áreas”,
afirma o presidente.
O instituto trabalha sobretudo
para fora do mercado nacional, com
empresas como a Bosch, a Infineon,
a Analog Devices ou a TDK, mas
também tem colaborações com
empresas nacionais como
é o exemplo da PICadvanced.
Entre os projetos mais
emblemáticos em que o INESC
MN participou recentemente
foi em parceria com a Sogrape.
Envolveu a construção de um
microespectrómetro para controlar
a maturação das uvas na zona
do Vinho do Porto. Paulo Freitas
salienta que “o projeto terminou
com resultados bastante bons e
alcançou bastante visibilidade, tendo
o processo também sido protegido”.
EQUIPA MULTIDISCIPLINAR
E CAPTAÇÃO GLOBAL DE TALENTO
Todos esses desenvolvimentos
são concretizados com base numa
equipa que reúne atualmente
cerca de 80 pessoas, incluindo
25 contratados, mas também alunos
de doutoramento, técnicos não
doutorados ou engenheiros não
doutorados. Os investigadores vêm
de várias áreas: física, engenharia
eletrotécnica, engenharia biomédica,
engenharia biológica e engenharia
mecânica. “Uma das nossas grandes
vantagens é estarmos junto
do Técnico, onde temos uma fonte
de alunos quase inesgotável”,
nota Paulo Freitas.
Apesar disso, manter os recursos
humanos é um dos principais
desafios com que o INESC MN
se depara. “Embora paguemos
bastante bem, na Holanda ou
na Alemanha os salários são mais
altos. Por isso a retenção de talento
é um problema real”.
Mas, por outro lado, o instituto
acolhe também regularmente
especialistas estrangeiros que
enriquecem o trabalho produzido
pelas suas equipas. “No âmbito dos
projetos europeus e de colaborações
com companhias internacionais,
temos bastantes pessoas que vêm
cá passar períodos de três ou seis
meses, ou às vezes mais tempo”.
A relevância do trabalho
desenvolvido em parceria com a
indústria permite ainda ao INESC
MN ter uma “fonte de financiamento
segura”. “O trabalho com indústrias
representa cerca de 25% do nosso
orçamento”, concretiza o presidente.
Em 2024, o INESC MN registou um
volume de proveitos de 3,7 milhões
de euros, um crescimento de 40%
face ao ano anterior, refletindo as
vendas de serviços tecnológicos
e a participação em projetos
europeus, PRR e FCT. Para o ano
de 2025, o orçamento ronda
os quatro milhões de euros.
AMBIÇÕES PARA O FUTURO:
UMA FÁBRICA NACIONAL
Entre os grandes objetivos
do INESC MN está a transição
de um centro de investigação
e prototipagem para uma operação
de fabrico. “Se nós queremos
produzir a sério, temos de ter uma
fábrica, e não precisa ser muito cara.
Bastaria um investimento de 40
a 50 milhões”, refere Paulo Freitas.
Esta unidade permitiria responder
mais eficazmente às necessidades
de empresas europeias e asiáticas,
incluindo parceiras chinesas que,
segundo explica, “têm dificuldade
em trabalhar com institutos
de investigação, mas compram
facilmente a uma fábrica”.
O plano seria começar por fabricar
‘bolachas’ e, depois, avançar para
algum desenho de produto,
que é onde está o “lucro”.
Num contexto em que a Europa
procura recuperar capacidade
industrial em áreas críticas como os
semicondutores e os microsistemas,
a ambição do INESC MN inscreve-
-se assim numa lógica de longo
prazo: transformar conhecimento
acumulado ao longo de décadas em
capacidade produtiva sustentável.
62 | APDC | REVISTA COMUNICAÇÕES | DEZEMBRO 2025
DEZEMBRO 2025 | REVISTA COMUNICAÇÕES | APDC | 63
ESPAÇO
UM NOVO PAPEL NA
CIBERSEGURANÇA
O regulador assume novas atribuições
e competências no domínio da cibersegurança
nas telecomunicações e nos serviços postais.
Com a publicação do Decreto-Lei
n.º 125/2025, de 4 de dezembro,
a ANACOM passa a ser também
a Autoridade Nacional Setorial
de Cibersegurança. Nesta nova
qualidade e no âmbito deste diploma,
o regulador integrará o quadro
institucional da cibersegurança,
no que respeita às comunicações
eletrónicas e aos serviços postais.
Nesta qualidade, desempenha,
entre outros, um papel relevante
na gestão e tratamento de incidentes
de cibersegurança no seu setor,
em estreita articulação com o
Centro Nacional de Cibersegurança
(CNCS). Cooperando na definição
de procedimentos de notificação,
resposta e recuperação de
incidentes, bem como na partilha
de informação operacional
necessária à prevenção, deteção
e mitigação de ciberameaças
aos serviços de comunicações
eletrónicas e postais. Desta forma,
contribui para a resiliência global
do setor e para a proteção dos
utilizadores.
A ANACOM vai participar
igualmente ao nível estratégico
da governação da cibersegurança
nacional, no âmbito do Conselho
Superior de Segurança
do Ciberespaço, órgão
de coordenação
estratégica que apoia
o Primeiro-Ministro
em matéria de
cibersegurança.
Neste enquadramento,
contribui para a
articulação institucional e para
a definição das orientações
estratégicas nacionais neste
domínio, reforçando a coerência
da resposta nacional aos riscos
e ameaças no ciberespaço.
O Decreto-Lei n.º 125/2025,
de 4 de dezembro, que transpõe a
chamada Diretiva NIS2, a Diretiva
(UE) 2022/2555, do Parlamento
Europeu e do Conselho, de 14 de
dezembro, destinada a garantir
um elevado nível comum de
cibersegurança em toda a União,
entrará em vigor no prazo de 120
dias.
Para mais informação
64 | APDC | REVISTA COMUNICAÇÕES | DEZEMBRO 2025
COMUNICAR SEM BARREIRAS:
GUIA PARA UTILIZADORES
COM DEFICIÊNCIA
O Dia Internacional das Pessoas
com Deficiência constitui uma
oportunidade para reforçar
compromissos e destacar
iniciativas que promovam uma
sociedade mais acessível e
inclusiva. Neste contexto,
a ANACOM voltou a afirmar a
importância de eliminar barreiras
no acesso às comunicações
eletrónicas, um elemento
essencial da vida moderna.
Estar ligado é, hoje, indispensável
para falar com a família,
marcar consultas, estudar,
trabalhar ou simplesmente
aceder à informação. Embora as
necessidades não sejam iguais
para todos, os direitos são
– e devem ser – plenamente
garantidos. Com esse propósito,
e em linha com o Regulamento
n.º 237/2024, em vigor desde 28
de junho de 2025, a ANACOM
apresentou um novo guia
dedicado a apoiar pessoas com
deficiência no acesso, utilização
e compreensão dos serviços de
comunicações eletrónicas. Este
regulamento estabelece regras
específicas que asseguram que
estes utilizadores possam aceder
aos serviços
em condições de igualdade
com os demais utilizadores
finais, reforçando a justiça,
a transparência
e a inclusão no setor.
O guia “Utilizadores de
Comunicações Eletrónicas com
Deficiência – Comunicar sem
barreiras: os seus direitos nas
comunicações” foi preparado
para explicar de forma simples,
direta e com exemplos práticos
os principais direitos das pessoas
com deficiência no âmbito das
comunicações eletrónicas.
Embora dirigido em primeiro
lugar aos próprios utilizadores,
é igualmente útil
para familiares, amigos,
cuidadores e profissionais que
lhes prestam apoio, oferecendo
informação clara, estruturada
e acessível.
DIREITOS EXPLICADOS DE FORMA
SIMPLES E PRÁTICA
O guia apresenta um conjunto
de direitos fundamentais que
visam eliminar obstáculos
no acesso e na utilização das
comunicações eletrónicas. Entre
os temas abordados destacam-se:
` Contratos acessíveis
` Escolha do formato das
faturas
` Nomeação de representante
` Atendimento adaptado
` Equipamentos e software
acessível
` Controlo de consumo
` Prioridade na resolução
de avarias
` Reclamações acessíveis
` Tarifários otimizados
Cada capítulo é apresentado
com orientações práticas,
garantindo que qualquer pessoa,
independentemente das suas
necessidades específicas,
compreenda como exercer
os seus direitos e a aceder
aos serviços essenciais de
comunicação, sem barreiras.
Com esta iniciativa, a ANACOM
reafirma o seu compromisso
com a inclusão digital e com a
defesa dos direitos de todos os
utilizadores. Ao disponibilizar
informação clara e recursos
adaptados, promove-se não
apenas o acesso equitativo às
comunicações, mas também a
autonomia e participação plena
das pessoas com deficiência na
sociedade.
Para mais informação
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DEZEMBRO 2025 | REVISTA COMUNICAÇÕES | APDC | 65
APDC NEWS
COMPETITIVIDADE DA EUROPA: UM ANO APÓS DRAGHI
A EMERGÊNCIA
DA AÇÃO CONCRETA
Um ano depois do relatório Draghi, será que a Europa – e Portugal –
tem conseguido transformar diagnósticos em ação? As conclusões
foram claras: há talento, meios e vontade. O problema é que falta ritmo,
coordenação, coragem e, efetivamente, avançar.
TEXTO | ISABEL TRAVESSA
FOTOS | VÍTOR GORDO/SYNCVIEW
A
UE27 está em risco
de perder o seu
lugar no Mundo.
Só uma estratégia
que garanta,
e depressa, mais união e agilidade,
é que permitirá criar as armas para
responder aos desafios geopolíticos
e económicos globais com que
se defronta. Vontade política e
capacidade de superar a burocracia
e a fragmentação mantêm-se
como os grandes desafios para
transformar ambição em ação
concreta.
Num momento decisivo para
a Europa, este Digital Business
Breakfast APDC, realizado
a 13 de outubro, em parceria com
a Google, reuniu vozes nacionais
e comunitárias para fazer um
ponto de situação, um ano depois
do relatório de Mario Draghi. Todas
foram unânimes: apesar de todos
os diagnósticos e das medidas
entretanto anunciadas, Bruxelas
está a demorar demasiado tempo
a reagir. Tal como todos os seus
Estados-Membros, incluindo
Portugal.
“A Europa é hoje um dos
poucos lugares onde os valores
da democracia, da diversidade
e dos direitos humanos ainda
prevalecem. Mas sem uma
economia saudável, sem
competitividade e inovação,
esses valores não se sustentam”,
começou por alertar o presidente
da APDC, Rogério Carapuça,
na abertura desta iniciativa.
Por isso, é preciso agir com
urgência e garantir que o setor
digital é “um negócio saudável,
regulado, inovador e rentável”,
66 | APDC | REVISTA COMUNICAÇÕES | DEZEMBRO 2025
Para Rogério Carapuça (APDC)
é preciso agir com urgência
e garantir que o setor digital
é “um negócio saudável,
regulado, inovador e rentável”.
Filipa Brigola (Google)
defende que o país tem de elevar
a sua voz no contexto europeu
neste novo mundo digital.
o que é essencial para o equilíbrio
do modelo europeu. Uma ideia
reforçada por Filipa Brigola, Public
Policy Manager na Google Portugal,
que defendeu ainda a necessidade
de Portugal elevar a sua voz no
contexto europeu.
No debate que se seguiu, ficou
claro que a Europa se divide
entre a convicção e a hesitação.
Tem meios, talento e ambição, mas
falta-lhe ação, ritmo e velocidade.
Por isso, precisa de acelerar
e Portugal deve assumir o seu
papel ativo, deixando de ser um
espectador para passar a ser um
agente ativo de transformação.
Sofia Moreira de Sousa,
representante da Comissão
Europeia em Portugal, considera
que “a soberania nacional, tal
como a concebemos hoje, já não
existe”. A convicção: apenas uma
Europa mais integrada, com
união bancária e fiscal, será “um
parceiro global fiável”. E alerta que
“a lentidão do processo europeu já
não é compatível com a velocidade
do mundo”, reforçando que
a simplificação regulatória não
é sinónimo de desregulação, mas
Pedro Siza Vieira,
sócio da PLMJ
e ex-Ministro da
Economia, foi direto:
“A Europa precisa
de um salto político
ou arrisca uma
morte lenta.”
sim uma exigência para manter
a competitividade.
Com uma intervenção incisiva,
Pedro Siza Vieira, sócio da PLMJ
e ex-Ministro da Economia, foi
direto: “A Europa precisa de um
salto político ou arrisca uma morte
lenta”. E avisa que continuar “presa
à burocracia e à fragmentação
significa uma agonia lenta” para
a Europa. A solução passa por
novos mecanismos de decisão
e maior integração, com recursos
comuns. É que nem mesmo
a Alemanha – por muito forte
que seja – está preparada para
enfrentar sozinha os desafios
globais. A alternativa exigida? Mais
Europa, com agilidade e escala.
Já Miguel Costa Matos, deputado
da Assembleia da República
e Coordenador da Comissão
DEZEMBRO 2025 | REVISTA COMUNICAÇÕES | APDC | 67
APDC NEWS
Pedro Siza Vieira (PLMJ e NOVA School
of Law), Sofia Moreira de Sousa (CE
em Portugal) e Miguel Costa Matos
(Deputado pelo PS) debateram a
formas da Europa se conseguir manter
competitiva, numa sessão moderada
por Maria Castello Branco (CNN
Portugal).
de Orçamento, Finanças e
Administração Pública, alertou
para os gargalos internos. Segundo
ele, “a burocracia e os bloqueios
institucionais travam o país”,
mesmo quando este tem condições
para liderar em áreas como
cibersegurança, energia limpa
e criptoeconomia.
Advertiu ainda para o risco da
perda de talento: “Só um país que
valoriza o talento pode competir
Um ano após
Draghi, há consenso:
o diagnóstico
existe, mas o salto
decisivo depende
da capacidade de
agir. E em Portugal,
não basta ouvir os
alertas. É urgente
transformar
compromissos
em execução.
Um ano após a apresentação do relatório de Mario Draghi sobre o futuro
da competitividade, a opinião foi unânime: a Europa precisa de acelerar
e Portugal deve assumir um papel ativo, deixando de ser um espectador
e tornando-se num agente ativo de transformação.
numa Europa que quer reter
capital humano”. Recordando que,
apesar dos sinais positivos, a fuga
de cérebros continua a ser um
obstáculo.
A avaliação que emergiu do
debate foi de uma Europa dividida
entre convicção e hesitação, com
meios, talento e ambição, mas
sem ritmo. Um ano após Draghi,
há consenso: o diagnóstico existe,
mas o salto decisivo depende
da capacidade de agir. E em
Portugal, não basta ouvir os
alertas. É urgente transformar
compromissos em execução.
Reveja o evento
Aceda à galeria
de imagens
68 | APDC | REVISTA COMUNICAÇÕES | DEZEMBRO 2025
O jogo da época.
Uma fila sem fim.
Pagamentos sem falhas.
Há momentos que vale a pena pagar.
Conectividade que faz a diferença.
ericsson.com/WhenMomentsMatter
DEZEMBRO 2025 | REVISTA COMUNICAÇÕES | APDC | 69
APDC NEWS
EDUCAÇÃO PARA A CIDADANIA E BEM-ESTAR DIGITAL
PROIBIR NÃO PROTEGE,
EDUCAR SIM
O debate sobre o bem-estar digital das novas gerações tornou-se
urgente. E impõe-se uma abordagem educativa inclusiva e coletiva.
É que a proteção não passa por exclusão, mas sim por literacia,
diálogo e preparação.
TEXTO | ISABEL TRAVESSA
FOTOS | VÍTOR GORDO/SYNCVIEW
Oevento “Pela
Promoção da
Educação para
a Cidadania
e Bem-Estar
Digital”, da ‘MiúdosSegurosNa.Net’
e ‘Agarrados à Net’, em parceria
com a APDC e o apoio da Google.org,
reuniu representantes do sistema
educativo, do tecido associativo,
organismos públicos e especialistas
internacionais para debater os
desafios da presença das crianças
e jovens no mundo digital. E todos
foram unânimes: proteger no digital
significa, mais do que tudo, ter
capacidade para preparar para um
futuro com tecnologia. O que implica
também envolver todo o ecossistema:
pais, professores e colaboradores
do meio escolar.
Na abertura, a diretora executiva
da APDC, Sandra Fazenda Almeida,
deixou um alerta claro: “Não
é apenas onde termina a proteção
e começa o controlo. É como
preparamos os mais jovens para
70 | APDC | REVISTA COMUNICAÇÕES | DEZEMBRO 2025
Sandra Almeida (APDC) lançou o
mote, destacando o atual debate
europeu em torno da idade
mínima para aceder às redes
sociais e lembrando que o desafio
vai muito além disso.
A proibição do
telemóvel nas
escolas não
é a resposta.
O caminho certo
é a educação
digital, regras
partilhadas e
inclusão de alunos,
pais e professores
no diálogo sobre os
desafios do digital.
uma utilização equilibrada
e informada da tecnologia, sem
os afastar das competências que
o futuro exige”. O debate sobre
a idade mínima de acesso às redes
sociais – hoje em destaque na
Europa – não pode reduzir-se a um
número. “A grande questão não
é quando, mas como estamos a
preparar famílias, escolas e jovens
para que esse uso seja responsável
e consciente”, referiu.
A representante da Google Cloud
Portugal, Sofia Marta, reforçou
a importância da literacia digital
e do bem-estar digital, defendendo
que “proteger, respeitar e
capacitar” devem ser os três pilares
da atuação – especialmente na
adolescência, fase em que jovens
passam de “copilotos a motoristas
da sua vida digital”.
Também a ministra da Cultura,
Juventude e Desporto, Margarida
Balseiro Lopes, defendeu que
“educar para o digital não é
afastar, é dar ferramentas para
escolher bem”, sublinhando que
o verdadeiro desafio é encontrar
o equilíbrio entre o potencial do
digital e a preservação da empatia,
da atenção e do tempo partilhado
fora do ecrã.
Para Sofia Marta (Google Cloud),
a tecnologia é uma força positiva.
Desde que usada com equilíbrio e
literacia, para que os mais jovens
não corram riscos nos meios
digitais.
No painel principal, a keynote
a cargo da pesquisadora Jessica
Piotrowski, da Universidade
de Amesterdão, trouxe uma
mensagem contundente:
“As melhores políticas digitais
são as que protegem e empoderam
ao mesmo tempo”. E está contra
soluções simplistas, pois proibir
não ensina, apenas afasta e
empurra crianças para espaços
menos seguros.
A mesa-redonda que reuniu
representantes da comunidade
educativa, associações de pais
e jovens concluiu por consenso:
a proibição do telemóvel nas
escolas não é a resposta. O caminho
certo é a educação digital, regras
partilhadas e inclusão de alunos,
pais e professores no diálogo sobre
os desafios do digital.
Para Filinto Lima, presidente
da ANDAEP (Associação Nacional
de Diretores de Agrupamentos
e Escolas Públicas), a uniformidade
de regras nacionais para todos
os estabelecimentos públicos
coloca em risco a diversidade
de contextos. Defende que “cada
DEZEMBRO 2025 | REVISTA COMUNICAÇÕES | APDC | 71
APDC NEWS
Educar para o digital não é afastar,
é dar ferramentas para escolher bem,
sublinhou a ministra da Cultura,
Juventude e Desporto, Margarida
Balseiro Lopes, destacando o papel
de projetos como o ‘Agarrados à Net’.
Na keynote “Protecting Without
Excluding”, a investigadora Jessica
Piotrowski (Center for Research on
Children, Adolescents and the Media,
Universidade de Amesterdão), deixou
bem claro que “as melhores políticas
digitais são as que protegem
e empoderam ao mesmo tempo.”
escola deveria ter autonomia
para definir as suas regras
– com diálogo, recursos e escuta
à comunidade”.
Do lado das associações de pais,
Mariana Carvalho, da CONFAP,
defendeu que medidas punitivas
sem formação e apoio são “vazias”.
A prioridade deve ser a literacia
digital, a sensibilização, e o reforço
do apoio técnico e psicológico nas
escolas.
A voz dos mais jovens esteve
presente através de uma
representante do grupo consultivo
da UNICEF Portugal, Mathilda
Bravo Velez, para quem “as regras
sobre o digital são feitas para
nós… mas raramente nos ouvem.
Queremos participar – queremos
dar a nossa opinião”.
Reveja o evento
Aceda à galeria
de imagens
Realizado a 20 de outubro, este
encontro contou com uma mesaredonda
onde se debateu a situação
em Portugal. Contou com Mariana
Carvalho (Confederação Nacional
das Associações de Pais), Filinto Lima
(Associação Nacional de Diretores de
Agrupamentos e Escolas Públicas)
e Mathilda Bravo Velez (UNICEF).
72 | APDC | REVISTA COMUNICAÇÕES | DEZEMBRO 2025
DEZEMBRO 2025 | REVISTA COMUNICAÇÕES | APDC | 73
APDC NEWS
DATA CENTERS
ESTARÁ O PAÍS PRONTO
PARA UMA NOVA ERA?
Portugal reúne infraestruturas únicas – cabos submarinos, localização
estratégica, energia renovável, talento e conetividade global. Mas, para
se transformar num verdadeiro hub digital europeu, faltam decisões
rápidas, regulação clara e uma visão estratégica de longo prazo.
Não é tempo de hesitar, é hora de agir.
TEXTO | ISABEL TRAVESSA
FOTOS | LUÍS SERRANO/SYNCVIEW
A
inteligência artificial
(IA) está a reinventar
e a acelerar a
procura de data
centers. E há cada
vez mais projetos a instalarem-se
no mercado nacional. Mas será
Portugal capaz de conseguir captar
esta oportunidade e construir um
verdadeiro ecossistema digital
competitivo de referência europeia
e mundial? Esse foi o tema de fundo
da conferência “O Futuro dos Data
Centers em Portugal”, iniciativa
inserida no âmbito do ciclo Digital
Union, uma parceria com a VdA,
que teve ainda o apoio da Portugal
Data Centers.
A conclusão dos oradores deste
encontro, que decorreu a 5 de
novembro, em formato híbrido,
a partir do Auditório da VdA, em
Lisboa, é clara: o país tem tudo para
ser um hub europeu de data centers.
Mas este salto exige regulação
moderna, energia sustentável,
planeamento estratégico e
compromisso de vários atores:
do Estado à Indústria, da Academia
à Energia. Se essas condições
forem cumpridas, o setor poderá
ser uma das forças motrizes
do crescimento, da inovação e da
soberania digital nacional. E um
estudo da Portugal DC confirma-o:
há mais de 12 mil milhões de euros
74 | APDC | REVISTA COMUNICAÇÕES | DEZEMBRO 2025
Para o presidente da APDC,
o país tem todas as condições para
criar um verdadeiro ecossistema nos
data centers.
Rogério Carapuça
sublinhou a
conjugação de fatores
que torna Portugal
tão relevante:
localização atlântica
privilegiada,
ligações por cabos
submarinos,
conetividade
de fibra e um
sistema energético
competitivo.
de investimento previstos para os
próximos anos.
DA TEORIA ÀS SOLUÇÕES
O presidente da APDC, Rogério
Carapuça, sublinhou a conjugação
de fatores que torna Portugal tão
relevante: localização atlântica
privilegiada, ligações por cabos
submarinos, conetividade de
fibra e um sistema energético
competitivo. “Estas variáveis é
que fazem com que Portugal seja
interessante” para o investimento
global, destacou.
Mas com um alerta firme:
sem um quadro regulatório claro,
sem planeamento energético
e com burocracias excessivas,
o país corre o risco de desperdiçar
essa janela de oportunidade:
“É preciso criar as condições para
que este setor tenha o relevo que
ambicionamos”.
Uma posição reforçada por
Carlos Paulino, vice-presidente
da Portugal DC, para quem a
dimensão dos projetos de data
centers que estão a ser pensados
para o mercado nacional criam
a oportunidade de “servirem mais
de 200 milhões de pessoas, com
a melhor capacidade de cobertura.
É uma janela de oportunidade
absolutamente gigante”.
No painel sobre “Regulação,
Compliance e Segurança
Jurídica”, a General Counsel
e Chief Compliance Officer
da Start Campus, Daniela Silva
e Sousa, partilhou a experiência
de quem tenta criar um data
center em Portugal há anos:
“Há cinco anos que estamos a
tentar construir. O primeiro
edifício já está em operação desde
outubro do ano passado. Mas
o estatuto de interesse nacional
não resolve todos os problemas.
A complexidade regulatória
continua a ser um obstáculo”.
Também Magda Cocco, sócia
da área de tecnologia da VdA,
reforçou que o setor exige
uma visão integrada nos cabos
submarinos, fornecimento
de energia, licenciamento e
coordenação institucional.
“Não podemos resolver os
problemas dos data centers
sem pensar em todos os players”,
salientou.
Augusto Fragoso, diretor
de Informação e Inovação
da ANACOM, deixou claro que
o caminho passa por “repensar
a regulação de forma mais
integrada, criando um verdadeiro
one-stop-shop”. “Temos vindo
a acompanhar muito de perto
o mercado, nomeadamente em
termos de conetividade e de cabos
submarinos. Este é um setor que
é ainda um conjunto de players
e estamos a tentar perceber
junto dos atores quais são as
suas grandes preocupações e os
vários layers que são necessários”,
acrescentou.
OS DESAFIOS
DA SUSTENTABILIDADE
E DA ENERGIA
Já no painel sobre “Investimento
e Desenvolvimento do Setor
em Portugal”, Carlos Paulino,
também managing director da
Equinix, considerou que projetos
como a Start Campus, “de grande
densidade de computação,
conseguem pela primeira vez
servir o país praticamente em
todos os segmentos, desde o
edge ao retail, wholesale e aos
hyperscalers. Pela primeira vez,
estamos a conseguir juntar as
condições para que Portugal tenha
pelo menos a soberania
de alojamento de dados”.
Mas, como ressaltou o
Development & Delivery Director da
Atlas Edge, Paulo Costa, não basta
construir data centers: “Temos de
garantir que a sustentabilidade e
eficiência energética sejam
DEZEMBRO 2025 | REVISTA COMUNICAÇÕES | APDC | 75
APDC NEWS
Para debater a “Regulação,
Compliance e Segurança Jurídica”,
estiveram presentes Daniela Silva e
Sousa (Start Campus), Magda Cocco
(VdA) e Augusto Fragoso (ANACOM),
num debate moderado por Rui Franco
(Portugal DC e REN Telecom).
“Investimento e Desenvolvimento
do Setor em Portugal” foi o tema em
debate numa sessão que reuniu Pedro
Mota Soares (Apritel), Paulo Costa
(Atlas Edge), Alberto Peterman (Start
Campus), Carlos Paulino (Equinix) e
Hugo Moredo (VdA), moderada por
Jorge Mouta (Portugal DC e SIBS).
Que perspetivas para
a “Sustentabilidade e Eficiência
Energética nos Data Centers”?
António Coutinho (APE e EDP
Inovação), João Emanuel Afonso (REN)
e Bruno Veloso (ADENE) responderam
a Ana Luís de Sousa (VdA).
centrais. Este setor exige inovação
contínua – refrigeradores
eficientes, uso inteligente de
energia e compromisso com
energias renováveis”.
Alberto Peterman, Head of Design
da Start Campus, acrescenta
que os data centers, além de
terem de garantir a sua própria
sustentabilidade, “têm de apostar
em ser uma ferramenta para
gerar sustentabilidade em todas as
indústrias, usando a inteligência
artificial”. “É um tema que tem
de ser considerado para todos
os desenvolvimentos: portanto,
se queremos ter um mundo mais
clean, também precisamos ter mais
data centers com IA”, sublinha.
Do lado da energia, no painel
“Sustentabilidade e Eficiência
Energética nos Data Centers”,
o debate foi igualmente exigente.
O Head of Grid Planning da REN,
João Emanuel Afonso, alertou que
a capacidade energética disponível
poder ser um gargalo: “Se todos
os pedidos de ligação avançarem,
corremos o risco de ultrapassar os
limites da rede. É preciso triagem
rigorosa e planeamento integrado”.
Já representantes da energia
renovável, como o CEO da EDP
“Não podemos pedir
ao sistema energético
que faça em 25 anos
o que demorou dois
séculos a construir.
É hora de repensar
o modelo.”
António Coutinho
Inovação, António Coutinho,
reforçaram que a transição
energética e a digitalização devem
caminhar juntas: “Não podemos
pedir ao sistema energético que
faça em 25 anos o que demorou
dois séculos a construir. É hora
de repensar o modelo energético”.
E o país tem vantagens
naturais – um clima favorável e
complementaridade entre fontes
renováveis, uma localização
geográfica estratégica como
porta de entrada de cabos
submarinos e um potencial para
criar ecossistemas energéticos
distribuídos – que deve transformar
em argumentos competitivos.
Bruno Veloso, vice-Presidente da
ADENE – Agência para a Energia,
diz que a sustentabilidade deve
ser alavanca de competitividade
nacional. Adotando-se uma
abordagem integrada de incentivos
económicos, benefícios fiscais
e apoio à tecnologia eficiente.
Assim como a adaptação urgente do
76 | APDC | REVISTA COMUNICAÇÕES | DEZEMBRO 2025
“Inovação Tecnológica e Futuro
dos Data Centers e do Ecossistema
Digital em Portugal” esteve em
debate no último painel, que
reuniu Cláudia Alves (Google),
Ângelo Monteiro (NVIDIA) e
Rui Oliveira (Minho Advanced
Computing Center), com Sandra
Almeida (APDC) a moderar.
quadro regulatório energético, hoje
desadequado para a realidade dos
data centers.
NO CICLO DO VALOR DA IA
O futuro com IA esteve no centro
do debate da última sessão desta
conferência, sobre “Inovação
Tecnológica e Futuro dos Data
Centers e do Ecossistema Digital
em Portugal”. Os participantes
não têm dúvidas de que estamos
a entrar num novo paradigma
digital e que Portugal só terá um
papel relevante se for rápido,
flexível e capaz de criar valor sobre
as infraestruturas. E dependerá
também da capacidade tecnológica
para responder à IA, energia e
sustentabilidade e de um ambiente
de investimento e decisão compatível
com o ritmo europeu e global.
E já existem no país
infraestruturas de computação
críticas, como o supercomputador
Deucalion, como destacou o diretor
do Minho Advanced Computing
Center (MACC), Rui Oliveira.
O problema é que se continua a
depender da tecnologia totalmente
importada, seja hardware, software
base, plataformas, tecnologias
de gestão ou conhecimento
especializado, criando
dependências dos fornecedores.
Com uma visão muito mais
pragmática, Cláudia Alves, Senior
Strategic Negotiator – Third Party
Data Centers da Google, assegurou
que “os investimentos em data
centers crescem a uma escala sem
precedentes – mas que só avançam
onde existe energia disponível,
energia verde, processos claros e
previsibilidade. Sem isso, o capital
vai para outros mercados”.
Mais centrado nos mercados
globais, Ângelo Monteiro, Solution
Architect da gigante de chips de IA
NVIDIA, deixa claro que “o modelo
tradicional de data center, assente
em CPU e storage, não responde
às necessidades da IA. Estamos
a entrar na era das ‘AI Factories’,
onde eletricidade e dados entram...
e o que sai é conhecimento”.
Esta transição exige infraestruturas
mais densas, mais eficientes
e mais inteligentes, que permitam
computação massiva paralela,
infraestruturas dedicadas a treino
e inferência, redes de ultra-baixa
latência, software altamente
otimizado e sistemas pensados
de raiz para acelerar modelos
complexos. “A eficiência deixa
de ser um benefício – torna-se
uma condição indispensável para
o futuro”, remata. É o novo “ciclo
do valor” da IA.
Reveja o evento
Aceda à galeria
de imagens
DEZEMBRO 2025 | REVISTA COMUNICAÇÕES | APDC | 77
APDC NEWS
O FUTURO
NÃO ESPERA
PELA ESCOLA
O cenário é ambicioso, exigente e possível:
a tecnologia poderá transformar totalmente
a escola portuguesa. Mas só se o processo
for acompanhado de autonomia, formação,
interoperabilidade, visão pedagógica clara
e colaboração.
TEXTO | ISABEL TRAVESSA
FOTOS | VÍTOR GORDO/SYNCVIEW
A
transformação digital
no sistema educativo
é imparável, mas
os obstáculos que
subsistem – como
as desigualdades territoriais,
a resistência à mudança e a falta
de interoperabilidade – continuam
a condicionar a modernização das
escolas em Portugal. Esse foi o mote
para um GovTech APDC, em parceria
com a Huawei, sobre Educação,
que reuniu especialistas do sistema
educativo, municípios e associações.
Na abertura, o presidente
da APDC enfatizou que, depois
de décadas de evolução no sistema
educativo, a transição digital
e o impacto da inteligência artificial
(IA) colocam agora desafios
estruturais sem precedentes.
Para Rogério Carapuça, “temos
de preparar a geração Alfa, que
vai crescer já rodeada de aplicações
de IA. A escola tem de ser capaz
de os formar para um mundo
onde a IA estará em todo o lado”.
O debate que se seguiu deixou
claro que a tecnologia não é um
fim em si mesma. O verdadeiro
potencial só se alcança nas Escolas
quando se gere a mudança dos
processos e se capacita toda a
comunidade educativa. Urge mudar
processos, ganhar autonomia
e adotar práticas pedagógicas
inovadoras. E também meios
tecnológicos, a começar pelo acesso
à internet.
“No mínimo, a internet é como
a água e a luz: todas as escolas
têm de a ter, com qualidade
e segurança. E equipamento que
permita aos docentes e alunos
prepararem-se para o futuro”,
como sublinhou Salomé Branco,
vice-presidente da AGSE –
Agência para a Gestão do Sistema
Educativo, criada em setembro
último, com a extinção de quatro
entidades educativas.
No entanto, o desafio de garantir
inovação pedagógica numa escala
nacional requer mais do que
tecnologia: é necessário apostar na
simplificação administrativa e na
coordenação institucional entre
escolas, municípios e entidades
centrais. “Os papéis têm de estar
claros: saber qual é o papel do diretor,
do município e do Ministério”,
acrescenta a gestora.
Pedro Patacho, vereador da
Educação do Município de Oeiras,
foi claro ao afirmar que o atual
modelo centralizado de gestão
já não é suficiente: “Não há mais
condições de continuar a decidir
tudo a partir do Ministério da
Educação. É preciso libertar a força
que está nas comunidades locais”.
78 | APDC | REVISTA COMUNICAÇÕES | DEZEMBRO 2025
AS VOZES DA EXPERIÊNCIA
A experiência prática em Oeiras
mostrou que iniciativas inovadoras
dependem de autonomia, recursos
e capacidade técnica local.
Incluindo a própria infraestrutura
de rede que permitiu testar
soluções avançadas como realidade
virtual em contexto educativo.
Nuno Mantas, diretor do
Agrupamento de Escolas da Boa-
-Água, tem a visão clara de quem está
no terreno e se vê confrontado com
os desafios. No seu agrupamento,
os equipamentos e redes existem,
mas não há quem os possa gerir,
pelo que isso compromete o retorno
do investimento em tecnologia.
“Temos tecnologia, mas não temos
Salomé Branco (Agência para
a Gestão do Sistema Educativo),
Luís Pereira dos Santos (EDUQA),
Pedro Patacho (Câmara de Oeiras)
e Nuno Mantas (Agrupamento
de Escolas da Boa-Água):
um debate com perspetivas
distintas e complementares.
As escolas públicas são a
única instituição intensiva em
conhecimento. Mas como se pode
gerir bem um sistema que não escolhe
os seus recursos humanos? Esta é
uma contradição estrutural que,
para o presidente da APDC, trava a
modernização.
quem a opere no dia a dia”. Na sua
perspetiva, continua a tomar-se
na Educação muitas decisões, mas
não se garante que estas funcionam
em concreto.
O seu agrupamento exemplifica
bem que mudar é possível, ao
apostar em projetos pedagógicos
inovadores, trabalho interdisciplinar
e grupos heterogéneos, que
substituíram o modelo rígido de
turmas. “O professor faz diferença,
mas o que faz mais diferença é a
metodologia”, afirma, deixando claro
que se trabalha de forma diferente,
tentando, “com a tecnologia, suprir
ou capacitar cada vez melhor os
nossos alunos para encararem
os desafios”. E garante que a sua
experiência concreta mostra
resultados: “Quando os alunos
estão envolvidos, desaparecem
os problemas disciplinares”.
Já Luís Pereira dos Santos,
presidente do EDUQA, sublinhou
que sem uma didática e políticas
nacionais claras, os recursos
tecnológicos por si só não melhoram
a aprendizagem. “O principal não
é o digital. O principal é o professor
e a sua prática”, diz, defendendo que
tem de existir um “desígnio nacional
e de pensarmos que o caminho é
o digital na Educação”. Mas deixa
um alerta: “não queremos inundar
a sala de aula com o digital, porque
as inundações nunca são benéficas”.
No final, ficou o consenso:
tecnologia e IA oferecem
oportunidades enormes, mas só
farão diferença se a escola for capaz
de integrar estes recursos com
autonomia, formação e um quadro
estratégico claro. Como concluiu
um dos oradores, “se fingirmos
que isto não está a acontecer, será
absolutamente trágico”.
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Para os oradores, a escola só
conseguirá tirar partido da tecnologia,
incluindo a IA, se mudar processos,
ganhar autonomia e adotar práticas
pedagógicas inovadoras. Cindy
Barardo (APDC) moderou o evento,
que decorreu a 25 de novembro.
DEZEMBRO 2025 | REVISTA COMUNICAÇÕES | APDC | 79
APDC NEWS
TRANSFORMAR
TALENTO
EM FUTURO
O UPskill já arrancou oficialmente com
a formação da sua 5.ª edição. O compromisso
mantém-se: requalificar pessoas e alinhar
formação com emprego real em tecnologia,
através de uma cooperação win-win.
Em marcha está a preparação da 6.ª edição.
TEXTO | ISABEL TRAVESSA
FOTOS | VÍTOR GORDO/SYNCVIEW
O
Programa UPskill –
Digital Skills & Jobs
iniciou oficialmente
as ações de
formação da sua
5.ª edição. O modelo de cooperação
entre Estado, Empresas e Academia,
que se assume como um dos pilares
para responder à escassez de talento
e acelerar a competitividade digital
em Portugal, foi reiterado numa
cerimónia oficial onde foi sublinhado
o papel estratégico da requalificação
digital do país. Ao longo das edições
já realizadas, o UPskill já formou
mais de duas mil pessoas em cerca
de 20 áreas tecnológicas distintas,
envolvendo mais de 100 em presas
e 13 instituições de ensino superior.
Nesta 5.ª edição, o programa
inclui oito ações de formação,
envolvendo nove empresas
parceiras – Axians, DXC, Minsait,
Critical Networks, Inetum, NTT
DATA, Deloitte, Nibelis e Jolera
– e quatro instituições de ensino
superior: o ISCTE, Faculdade de
Ciências da Universidade de Lisboa,
Politécnico do Porto e Instituto
Politécnico do Cávado e do Ave.
80 | APDC | REVISTA COMUNICAÇÕES | DEZEMBRO 2025
Este lançamento da formação
contou com a presença do secretário
de Estado Adjunto e do Trabalho
e do líder do IEFP, além do diretor
da Faculdade de Ciências da
Universidade de Lisboa.
Marcaram presença os novos
formandos, que iniciam agora uma
formação intensiva de seis meses,
que combina ensino académico com
prática em contexto empresarial.
No total, 120 formandos iniciaram
esta formação intensiva de seis
meses, que combina ensino
académico com prática em
contexto empresarial.
Para o secretário de Estado
Adjunto e do Trabalho, o digital
já é o novo básico na Europa
e a inteligência artificial está
a atravessar toda a atividade
económica, tornando programas
como o UPskill essenciais para
garantir que a transformação
digital não deixa ninguém para trás.
E hoje, segundo Adriano Rafael
Moreira, há uma transformação
profunda no mercado de trabalho
português: “O problema já não é
a qualificação. É a economia que
não consegue acompanhar o ritmo
da nossa ‘indústria de ensino
superior’. Precisamos de acelerar a
economia para aproveitar a 100% o
talento que formamos”.
Domingos Lopes, presidente
do IEFP, sublinhou que o UPskill
representa um modelo de cooperação
inovador entre Estado, Empresas
e Academia, com respostas ágeis
e alinhadas com as necessidades
do mercado. Para o gestor, “este
programa não só desenha perfis
formativos com as empresas, como
compromete a contratação de pelo
menos 80% dos formandos que
concluam com sucesso”.
“O UPskill não é um projeto
de betão nem uma formação
em abstrato. É um encontro
entre quem quer mudar de vida,
instituições académicas com
capacidade formativa e empresas
que têm vagas concretas para
preencher”, sublinhou o presidente
da APDC. Rogério Carapuça
destacou que o programa se destina
a quem procura uma verdadeira
NÚMEROS
5.ª
EDIÇÃO
UPSKILL
8
Ações de Formação
9
Empresas Parceiras
4
Instituições
de Ensino Superior
120
Formandos
reconversão para carreiras no
digital, o que é valorizado pelas
próprias empresas que aderem.
Já Manuel Garcia, coordenador
nacional do UPskill, reforçou o
carácter evolutivo do modelo.
“Nunca existem duas edições
iguais. Em cada edição adaptamos
programas e conteúdos às
necessidades emergentes do
mercado, porque este é dinâmico
e este programa tem de o
acompanhar”. Os números das
cinco edições do UPskill traduzem
uma responsabilidade crescente:
“quando olhamos para estes
resultados, percebemos que temos
a obrigação de pensar já no futuro.
O acordo atual, para mais três
edições, termina em 2026, mas
o desafio permanece: a economia
portuguesa precisa de crescer em
salários, e isso só se faz com mais
produtividade. E a produtividade
ganha-se com tecnologia e com
pessoas qualificadas”.
Com o arranque da 5.ª
edição também se lançaram os
preparativos da 6.ª edição, que
será a última no âmbito do acordo
atualmente em vigor – mas que já
abre a porta a novas empresas de
todos os setores para apresentarem
necessidades de talento qualificado
no 1.º trimestre de 2026.
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DEZEMBRO 2025 | REVISTA COMUNICAÇÕES | APDC | 81
APDC NEWS
RECONFIGURAR O DIGITAL
COM TALENTO FEMININO
Cinco projetos, uma ambição comum: reescrever o futuro da tecnologia
com mais mulheres. Porque o talento feminino não é apenas necessário,
é transformador. E está pronto para ganhar escala, abrindo caminho
para uma nova geração que não quer apenas usar tecnologia,
mas sim construí-la.
TEXTO | ISABEL TRAVESSA
FOTOS | VÍTOR GORDO/SYNCVIEW
N
a sua primeira edição,
o Women Shaping
Tech consagrou
cinco iniciativas
que apostam
em mulheres nas áreas STEM –
Ciência, Tecnologia, Engenharia e
Matemática. Com apoio financeiro e
visibilidade, vão levar a programação,
a robótica e as oportunidades
de talento tecnológico a escolas,
empresas e regiões ao nível nacional.
Os vencedores foram anunciados
no âmbito do STEM Women Congress
Lisboa 2025, sendo esta iniciativa
da APDC apoiada por 12 empresas
tecnológicas comprometidas com
a diversidade, a inclusão e a
promoção do talento feminino no
setor das tecnologias.
Foram selecionados cinco
projetos, de entre 17 candidaturas
que representavam mais de 400 mil
euros em apoios, considerados os
que apresentaram maior potencial
de impacto e escalabilidade.
O fundo disponível, alimentado
pelas contribuições das empresas
parceiras – .PT, Accenture, AWS,
DXC Technology, Google, Huawei,
Inetum, MEO, NOS, NTT Data,
Vodafone e Celfocus – permitiu
apoiar financeiramente cada um
dos vencedores, para os fazer
crescer e gerar mudança real no
terreno.
“O Women Shaping Tech é mais
do que um prémio. É uma ação
concreta para acelerar a igualdade
82 | APDC | REVISTA COMUNICAÇÕES | DEZEMBRO 2025
de género no setor. Estes projetos
representam o futuro: são
sementes de transformação que
queremos ajudar a crescer”, afirma
a diretora executiva da APDC,
Sandra Fazenda Almeida.
Este apoio financeiro e
institucional permitirá que os
projetos vencedores alcancem mais
regiões, mais escolas e mais jovens.
Especialmente em comunidades
onde o acesso à educação
tecnológica e à motivação para
áreas STEM ainda é limitado.
OS PROJETOS PREMIADOS
Future STEMers
“O Futuro por Nós”
Leva role models femininas a escolas
de todo o país, com especial foco
nas regiões do interior, inspirando
raparigas do 3.º Ciclo e Secundário
a explorar carreiras em Ciência
e Tecnologia. Inclui toolkit pedagógico
e desafio criativo sobre profissões
emergentes.
Apoio: 15.000 €
Women in Smart Logistics
Iniciativa no setor da logística pesada
que visa atrair e capacitar mulheres
para funções tecnológicas de alto valor
– como gestão digital de frotas
e análise de dados – combinando
estágios remunerados e mentoria.
Apoio: 10.000 €
Barrinho Transportes
Technovation Girls Portugal
Versão nacional do programa global
que capacita raparigas dos 8 aos 18 anos
em programação, design thinking e
empreendedorismo tecnológico. Já formou
mais de 1,4 mil jovens e gerou centenas
de aplicações com impacto social.
Apoio: 10.000 €
Associação EdRuptiva
Educação Tecnológica
Inclusiva para Crianças
Programa educativo que ensina
programação, robótica e eletrónica
a crianças e jovens, promovendo
a igualdade de género desde cedo
e desenvolvendo competências
digitais essenciais.
Apoio: 10.000 €
AgroTechWomen
Projeto agro-tech que combina
aeroponia, IoT e formação
tecnológica para jovens mulheres
do Alentejo, promovendo
empreendedorismo, conhecimento
tecnológico e agricultura sustentável.
Apoio: 10.000 €
DEZEMBRO 2025 | REVISTA COMUNICAÇÕES | APDC | 83
APDC NEWS
WSA PORTUGAL 2025
QUANDO A
TECNOLOGIA
MUDA VIDAS
O talento nacional volta a brilhar no
panorama global da inovação digital.
Com os oito projetos premiados, o WSA
Portugal 2025 revela que o futuro do país
– na saúde, ambiente, inclusão, cidades,
educação ou comércio – está a ser
construído por soluções tecnológicas com
propósito e impacto real.
TEXTO | ISABEL TRAVESSA
SOLUÇÕES
VENCEDORAS
POR CATEGORIA
Categoria Health & Well-Being
App de treino cognitivo em realidade virtual,
com dezenas de milhares de utilizadores
e estudos clínicos em curso.
Categoria Environment & Green Energy
Plataforma de digital twin para gestão inteligente
de resíduos, já usada em mais de 50 cidades
e com reduções de custos até 35%.
Categoria Inclusion & Empowerment
Solução de atendimento em Língua Gestual
Portuguesa, em canais digitais e físicos
– avançando a inclusão da comunidade surda.
Categoria Culture & Heritage
Já são conhecidos os
vencedores do WSA
Portugal 2025, um
concurso nacional
liderado pela APDC
que destaca soluções digitais
mais inovadoras e com maior
impacto positivo na sociedade.
Os oito projetos premiados, um
por cada categoria da competição,
vão agora representar Portugal
no World Summit Awards (WSA),
uma iniciativa mundial que
envolve a participação de 182
países membros da ONU e uma
rede de mais de 16 mil peritos
digitais.
“Os vencedores do WSA
Portugal 2025 refletem a
capacidade de inovação do
nosso ecossistema digital,
mas sobretudo a sua vocação
para criar soluções com
impacto real na vida das
pessoas e das comunidades”,
refere Sandra Fazenda Almeida,
diretora executiva da APDC.
Mais do que um prémio,
o WSA é um selo de excelência
internacional, que coloca
Portugal no mapa da inovação
global. As soluções premiadas
demonstram que, em solo
nacional, somos capazes
de conceber tecnologia com
propósito para as mais
diversas áreas, da saúde
à sustentabilidade, passando
pela inclusão, cidades
inteligentes, educação
e economia digital.
De acordo com o timeline
definido para o concurso
mundial do WSA, até janeiro
de 2026, o júri online composto
por um painel internacional
diversificado de especialistas
vai selecionar 15 a 18 soluções
em cada categoria, criando
uma lista de finalistas. Esta
shortlist será depois analisada
pelo Grand Júri, que elegerá as
cinco melhores soluções em
cada categoria. As vencedoras
do WSA marcarão depois
presença no Global Congress já
agendado para 20 a 22 de maio,
em Viena, Áustria.
Permite aos espectadores criar conteúdos
desportivos em tempo real com IA – democratiza
a participação e inovação no entretenimento.
Categoria Smart Settlements & Urbanization
Tecnologia de IA e visão computacional aplicada
a segurança e eficiência urbana, com elevada
precisão operacional.
Categoria Business & Commerce
Smart System
Sistema inteligente de triagem e entrega que
moderniza logística e e-commerce: já processa
93% das encomendas.
Categoria Government & Citizen Engagement
Plataforma no-code de inteligência territorial
em tempo real, adotada por 27 municípios,
que reforça transparência e participação cívica.
Categoria Learning & Education
Machine‐driven Identification of Talent
84 | APDC | REVISTA COMUNICAÇÕES | DEZEMBRO 2025
Solução que usa IA e psicometria para identificar
talento TIC antes da formação. Já testada em larga
escala.
humaniza-te
Quando tudo se apaga
liga-te melhor
A qualidade da rede MEO foi reconhecida por muitos durante o apagão
e é reconhecida agora também como operador com Rede Móvel com
fiabilidade imbatível com base nos dados do Ookla® RootMetrics®.
Rede Móvel
com f iabilidade imbatível
meo.pt
DEZEMBRO 2025 | REVISTA COMUNICAÇÕES | APDC | 85
Melhor Rede Móvel com fiabilidade imbatível com base nos dados do Ookla® RootMetrics®, referentes ao 1º semestre de 2025. Todos os direitos reservados. Sabe mais em
meo.pt/liga-te-melhor
APDC NEWS
INOVAÇÃO E RESILIÊNCIA DIGITAL:
AS LIÇÕES DO APAGÃO
PREPARAR
O SISTEMA PARA
O INESPERADO
O apagão ibérico foi mais do que uma falha
técnica: foi um alerta. Num contexto de
transição energética acelerada e digitalização
profunda, a robustez das infraestruturas
críticas depende da integração entre energia,
tecnologia e comunicações.
TEXTO | ISABEL TRAVESSA
FOTOS | VÍTOR GORDO, SYNCVIEW
O
apagão de 28
de abril expôs
a fragilidade de
sistemas críticos
cada vez mais
interligados. Neste Executive
Breakfast APDC, em parceria com
a Capgemini, ficou claro que
a resiliência deixou de ser apenas
energética. É digital, tecnológica
e estratégica. Decisores do
setor energético e tecnológico
sublinharam que as soluções
existem, mas que o tempo para
O apagão foi o mote para este Executive
Breakfast APDC, em parceria com
a Capgemini, que decorreu a 12 de
dezembro.
as implementar está a encurtar
rapidamente.
Na abertura, Rogério Carapuça,
presidente da APDC, destacou
que o incidente veio confirmar
uma realidade incontornável:
a tecnologia digital é hoje um
pilar essencial da resiliência
das infraestruturas críticas,
em particular da rede elétrica,
permitindo antecipar, mitigar
e responder a eventos extremos.
Na keynote “Velocity of
Impact”, Rodrigo Maia, Global
Head of Research and Innovation
da Capgemini Engineering,
enquadrou o apagão como
o resultado do choque entre a
velocidade da inovação tecnológica
e a inércia natural de sistemas
altamente regulados, cuja
modernização decorre em ciclos
longos e com investimentos
de enorme escala.
O desafio, defendeu, não
é travar a inovação, mas garantir
confiança, segurança
e aplicabilidade prática.
A inteligência artificial e o machine
86 | APDC | REVISTA COMUNICAÇÕES | DEZEMBRO 2025
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reportagem
completa
Rogério Carapuça, presidente da
APDC, sublinhou que a tecnologia
digital é essencial para assegurar a
resiliência das infraestruturas críticas.
No debate
moderado por
Sandra Fazenda
Almeida, diretora
executiva da
APDC, destacou-
-se a importância
de novas
abordagens
à gestão de risco
e à regulação
para fazer face
à complexidade
do sistema
elétrico.
learning já geram valor real,
desde que integrados de forma
responsável e sem promessas
de soluções milagrosas.
No debate que se seguiu,
moderado por Sandra Fazenda
Almeida, diretora executiva da
APDC, ficou claro que a crescente
complexidade do sistema elétrico –
impulsionada pela descentralização
da produção e pela explosão de
dados – exige novas abordagens
à gestão de risco e à regulação.
Como explicou Bruno Marçalo
Nunes, Head of System Management,
da REN, o sistema elétrico é uma
máquina de equilíbrio permanente.
O incidente do apagão ocorreu
em segundos, apesar de terem
sido ativados os mecanismos
automáticos de proteção. E a
recuperação só foi possível graças
ao treino intensivo das equipas
e a processos rigorosamente
preparados.
Do lado da EDP Inovação, o seu
CEO, António Coutinho, alertou
para a forte interdependência
entre setores críticos e para
fragilidades que ainda subsistem.
Nomeadamente nas comunicações
e na autonomia energética
de infraestruturas essenciais,
sublinhando que a resiliência tem
custos que a sociedade precisa
de reconhecer.
O consenso final foi claro:
a transição energética e digital
só será sustentável se a energia,
a tecnologia e as comunicações
forem pensadas como um único
ecossistema. Com investimento
estruturado, experimentação
controlada, regras claras
e uma visão estratégica que coloque
a resiliência no centro das decisões
afirma Rogério Carapuça.
DEZEMBRO 2025 | REVISTA COMUNICAÇÕES | APDC | 87
CIDADANIA DIGITAL
FUTURE STEMERS – O FUTURO POR NÓS
INSPIRAR RAPARIGAS
PARA O MUNDO STEM
A associação Inspiring Girls Portugal prepara-se
para levar para o terreno um projeto, vencedor
de um prémio da APDC, que pretende quebrar
barreiras de género no acesso às carreiras
científico-tecnológicas. A iniciativa é dirigida a mais
de 200 alunos do 3.º ciclo e do Ensino Secundário.
FOTOS | VÍTOR GORDO/SYNCVIEW
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88 | APDC | REVISTA COMUNICAÇÕES | DEZEMBRO 2025
É
urgente garantir
que todas mulheres,
independentemente
do local onde nascem,
tenham as mesmas
oportunidades profissionais que
os homens – sobretudo nas áreas
ligadas à Ciência e à Tecnologia,
onde estão sub-representadas.
Foi com esta premissa que a
associação Inspiring Girls Portugal
criou o Future STEMers – O Futuro
por Nós, um projeto para incentivar
jovens raparigas a explorarem as
áreas STEM (Ciência, Tecnologia,
Engenharia e Matemática) e as
profissões do futuro. A iniciativa
foi uma das vencedoras do prémio
da APDC Women Shaping Tech,
que visa reforçar projetos que
fortaleçam a representatividade
feminina no setor.
“Além de inspirar as jovens,
queremos que invistam na
exploração das carreiras na área
STEM, que experimentem estas
tecnologias emergentes, que
pensem de que forma a inteligência
artificial (IA) vai mudar as
profissões do futuro e como é que
isso as vai impactar nas suas vidas
profissionais”, explica Joana Frias
Costa, Presidente da Inspiring Girls
Portugal.
O projeto-piloto, criado
especificamente para o prémio
da APCD, é dirigido a estudantes
do 3.º ciclo e do Ensino Secundário
e decorre em contexto de sala
de aula. Apesar de o foco serem
as alunas, os rapazes também são
incluídos, permitindo-lhe contactar
com mulheres com carreiras nestas
áreas e reconhecer a importância
da diversidade de género.
Os 15 mil euros angariados com
o prémio atribuído pela APDC são
essenciais para conseguir levar
o Future STEMers a dez turmas,
oito das quais em estabelecimentos
escolares localizados em zonas do
interior. De salientar que a iniciativa
está orientada também para
colmatar as desigualdades regionais
que se sentem nestas áreas STEM,
devido à falta de oferta no interior
do país. Deve assim chegar, por
exemplo, a escolas em Montenegro,
O prémio atribuído pela APDC é essencial para
conseguir levar o Future STEMers a dez turmas,
oito das quais em estabelecimentos escolares
localizados em zonas do interior. Objetivo:
colmatar as desigualdades regionais.
Montemor-o-Novo, Vizela e Viseu.
Prevê-se, por turma, um total
de dez sessões, cada uma com
duração de cerca de duas horas
e meia a três horas, onde os alunos
vão reconhecer os seus talentos
e interesses, para poderem
explorar caminhos profissionais
futuros, mas também experimentar
tecnologias emergentes e imaginar
as profissões do futuro.
A IA, como seria de esperar,
também estará presente nas
sessões e não apenas enquanto
ferramenta de trabalho:
“Os homens dominam esta área
e a IA vive de dados que estão
completamente enviesados
do ponto de vista do género.
É dramático se não tivermos mais
mulheres a alimentar estes dados.
NÚMEROS
10
Turmas onde irá decorrer
o projeto
mais de 200
Estudantes impactados
com a iniciativa
700
Voluntárias da Inspiring Girls
Portugal
15 mil
Valor do prémio
Vamos explorar o papel da IA
no desenvolvimento das profissões,
os vieses de género e ajudar
a reconhecê-los.”
MENTORA NA ÁREA STEM
E UM TOOLKIT PARA O FUTURO
O Future STEMers inclui ainda
uma sessão de mentoria online,
para cada turma, com uma role
model. Isto é, uma mulher com
carreira ligada à área STEM que
integra a rede de 700 voluntárias
da Inspiring Girls Portugal ou,
eventualmente, de empresas que
apoiam o prémio Women Shaping
Tech, da APDC.
O projeto deverá decorrer entre
fevereiro e abril de 2026 e,
no final, cada turma irá entregar
à Inspiring Girls uma carteira
de profissões que imaginam irão
existir no futuro. A organização
sem fins lucrativos irá selecionar
uma turma vencedora, que será
premiada com uma visita de estudo
a uma empresa da área tecnológica.
Apesar de se tratar de um
projeto-piloto, a iniciativa já prevê
ferramentas de médio-longo prazo,
como um toolkit que será entregue
aos docentes e às equipas escolares
para que possam, de forma
autónoma, replicar as atividades
desenvolvidas pelo Future STEMers
e manter a curiosidade dos
estudantes.
Joana Frias Costa, ainda assim,
não fecha a porta à ampliação da
iniciativa com o apoio de parceiros
públicos e privados. “É muito
importante as empresas saberem
que precisamos de financiamento
para, efetivamente, concretizarmos
o nosso trabalho no terreno.”
Conheça aqui
o programa
DEZEMBRO 2025 | REVISTA COMUNICAÇÕES | APDC | 89
A FECHAR
CRIAR AGENTES DE IA MAIS RÁPIDOS
E BARATOS…
Tornar acessível, a qualquer programador,
técnicas avançadas de personalização
de modelos, até agora reservadas
a especialistas em machine learning,
para criar agentes de IA mais rápidos,
mais baratos e mais precisos. Essa foi
a meta da AWS com o lançamento de
novas capacidades no Amazon Bedrock
e no Amazon SageMaker. Com o novo
Reinforcement Fine Tuning (RFT) no
Bedrock, é possível adaptar modelos de
forma automática usando feedback humano
ou de IA, alcançando ganhos médios de
66% em precisão. Esta abordagem permite
usar modelos mais pequenos e económicos
para executar tarefas frequentes.
Já o SageMaker AI introduz personalização
serverless, reduzindo processos que antes
levavam meses para apenas alguns dias.
Os programadores podem optar por uma
experiência guiada por um agente, que gera
dados sintéticos e conduz todo o processo,
ou por uma abordagem auto-guiada com
controlo total. Com estas inovações,
a AWS democratiza técnicas avançadas,
permitindo criar agentes de IA mais rápidos,
eficientes e adaptados às necessidades
de cada empresa.
… E NOVAS
CATEGORIAS PARA
IMPULSIONAR A IA
AGÊNTICA
A AWS expandiu a sua AI Competency com três novas categorias dedicadas à IA agêntica,
respondendo à rápida evolução do mercado rumo a sistemas autónomos. Segundo a
IDC, 23% das organizações esperam implementar totalmente esta tecnologia no próximo
ano, percentagem que sobe para 65% até 2027. As novas categorias – Aplicações de
IA Agêntica, Ferramentas de IA Agêntica e Serviços de Consultoria de IA Agêntica –
identificam parceiros com capacidade comprovada para criar agentes inteligentes capazes
de compreender contexto, raciocinar e agir com mínima intervenção humana. A AWS
reforça que estes parceiros aceleram em 25% a passagem da experimentação para soluções
produtivas. A tecnológica anuncia ainda novos benefícios: mais 25 mil dólares em fundos de
marketing para parceiros certificados e um processo automatizado de validação que reduz
em 70% o tempo de aprovação. Com mais de 60 parceiros de lançamento, esta é a maior
expansão de sempre da AWS na área da IA, posicionando a IA agêntica como a próxima
etapa da automação empresarial em larga escala.
Acelerar
a cloud
híbrida com
soluções
de IA e
segurança
Há um novo conjunto de
inovações para impulsionar
a adoção de cloud híbrida
e responder à crescente procura
de infraestruturas preparadas para
IA. Foi anunciada pela HPE, que
reforçou o portefólio GreenLake
com novas capacidades em
virtualização, segurança e gestão
inteligente, ajudando organizações
a reduzir custos, simplificar
operações e acelerar resultados.
O HPE Morpheus Software ganha
destaque como alternativa de
virtualização empresarial, com
redução significativa de custos
de licenciamento, segurança zero
trust integrado e suporte para
Kubernetes e contentores. A HPE
reforçou também a proteção
de dados com as novas appliances
StoreOnce 5720 e 7700, capazes
de acelerar a recuperação de cargas
críticas. Em colaboração com
a NVIDIA, surge o Alletra Storage
MP X10000, que cria uma camada
ativa de dados para pipelines
de IA, e uma versão reforçada
do Private Cloud AI, agora com
GPUs Blackwell. As melhorias à
GreenLake, incluindo CloudPhysics
Plus e um Marketplace renovado,
facilitam planeamento, aquisição
e governação da cloud híbrida.
As novidades começam a chegar
ao mercado em 2026.
90 | APDC | REVISTA COMUNICAÇÕES | DEZEMBRO 2025
ESIM ENTRE SMARTPHONES ANDROID
Há uma nova funcionalidade que permite a transferência simples e intuitiva de eSIM e a conversão
de cartão SIM físico para eSIM entre smartphones com sistema operativo Android da Google.
Foi lançado pela Vodafone e permite que ambas as migrações possam ser feitas de forma direta,
sem necessidade de leitura de um QR Code ou de contactar o serviço de apoio ao cliente. Desenvolvida
em parceria com a Google, esta funcionalidade garante a rápida e simples migração de perfis eSIM
entre dispositivos, refletindo o compromisso da Vodafone em disponibilizar soluções digitais avançadas
e convenientes, que elevem a experiência dos clientes. As duas empresas têm vindo a consolidar a sua
parceria nos últimos anos, tanto a nível internacional como nacional, através de iniciativas marcadas
pela inovação tecnológica.
AGENTIC AI
PARA MAINFRAME
AJUDAR EMPRESAS
NOS DESAFIOS COMPLEXOS
Chama-se AdvisoryX e é um
grupo global de consultoria
criado pela DXC Technology
para ajudar as empresas
a enfrentar os seus desafios
estratégicos, operacionais e
tecnológicos mais complexos.
É que um estudo global
da tecnológica vem destacar
contradições significativas
na forma como as organizações
priorizam e operacionalizam
a IA: embora seja uma
prioridade ao nível da liderança,
muitas empresas não dispõem
do caso de negócio, do modelo
operacional e da governação
necessários para transformar
a ambição em resultados.
94% enfrentam desafios
de execução e os projetos-
-piloto não conseguem escalar.
O AdvisoryX reúne
a experiência da DXC
em estratégia corporativa,
excelência operacional,
transformação tecnológica,
pessoas e cultura, finanças
e risco, bem como experiência
do utilizador.
Destina-se a acelerar o desenvolvimento de aplicações e soluções,
aumentar a agilidade operacional e desbloquear novos insights
de negócio, ampliando a utilização de IA pelos clientes na
plataforma. É uma nova solução lançada pela Kyndryl que combina
a sua profunda experiência em mainframe com a Agentic AI
e as capacidades de computação híbrida. Os serviços de Agentic AI
para mainframe foram concebidos para permitirem a prestação
de serviços integrada com IA, acelerando a tomada de decisão
e simplificando processos complexos na gestão de aplicações
e infraestruturas. E podem ser combinados com as funcionalidades
da Estrutura de Agentic AI da Kyndryl, permitindo um planeamento
fluido de agentes e fluxos de trabalho. Os clientes beneficiarão
da tomada de decisão mais inteligente e resolução proativa
de problemas; maior fiabilidade e conformidade mais fluida
no ciclo de vida do software; acesso a conhecimentos profundos
e à IA para colmatar lacunas de competências, tirando partido
do conhecimento interno das suas organizações; e resposta
mais rápida a oportunidades e ameaças emergentes, com
ambientes de TI mais resilientes e modernos.
Mais performance
dos data centers de IA
Para responder à crescente procura de desempenho e escalabilidade
da conetividade de cargas de trabalho de IA, a Nokia expandiu e reforçou
o seu portefólio de redes de data center. E está a tirar partido do poder
da IA para impulsionar uma maior eficiência e confiabilidade nas operações
de data center. Juntas, estas inovações oferecem um desempenho e uma
confiabilidade extremos, que são necessários para dar suporte a cargas
de trabalho avançadas de treino de IA, impulsionadas pela crescente procura
de aplicações de IA agêntica pelo mercado. É que o surgimento e a adoção
generalizada de aplicações para IA agêntica está a remodelar os requisitos
dos centros de dados, provocando uma rápida evolução nas soluções de rede.
A IA está a impulsionar esses avanços, que representam uma oportunidade
para a inovação de rede e a transformação operacional. Essas são as forças
por trás dos desenvolvimentos mais recentes no portefólio de comutação
de centros de dados da fabricante.
DEZEMBRO 2025 | REVISTA COMUNICAÇÕES | APDC | 91
AGENDA
JAN
6 A 9 JANEIRO
CES
A Consumer Electronics Show
é uma das principais feiras de
tecnologia do mundo e uma
oportunidade para conhecer
as mais recentes inovações
e tendências tecnológicas.
Reúne marcas globais,
startups, media e decisores de
todo o mundo.
Local: Las Vegas
Organizador: Consumer
Technology Association
Saiba mais
28 JANEIRO
CONFERÊNCIA IA
NO SETOR PÚBLICO:
BALANÇO E FUTURO
Especialistas, decisores
e academia analisam
o presente e refletem
sobre o futuro da IA no
setor público: da saúde
à justiça, passando
ainda pela agricultura,
educação e cidades
inteligentes. Será ainda
abordado o papel do
Ecossistema Empresarial
na Adoção Responsável
da IA no Estado.
& EVENTOS
FEV
2 E 3 FEVEREIRO
2.ª CIMEIRA
INTERNACIONAL SOBRE
RESILIÊNCIA DE CABOS
SUBMARINOS
Governos, reguladores,
fabricantes, peritos e
academia reúnem-se para
MAI
ABR
MAR
aprofundar a cooperação
internacional, identificar
desafios e promover soluções
que reforcem a segurança e a
resiliência desta infraestrutura
crítica.
Local: Porto
Organizador: ANACOM
Saiba mais
12 E 13 MARÇO
BUILDING THE FUTURE
Este encontro, dirigido
a gestores, profissionais
de tecnologia e
empreendedores, abordará
estratégias e soluções
de alavancagem da
transformação digital das
empresas. Haverão ainda
sessões de demonstração da
implementação das últimas
tendências da tecnologia.
Local: Lisboa
Organizador: imatch
27 E 29 MARÇO
TECSTORM
É a maior competição
tecnológica a nível
universitário em Portugal.
Centenas de estudantes de
todo o país vão trabalhar
em equipa para criar
soluções tecnológicas com
impacto real em diferentes
setores: Fintech, Mobilidade,
Construção, Energia e
Conectividade.
Local: Técnico Innovation
Center, Lisboa
Organizador: JUNITEC, IST
Saiba mais
14 ABRIL
DIGITAL MARKETING
EUROPE 2026
Destinada a profissionais
de marketing, criadores
de conteúdos, analistas de
dados e publicitários, esta
conferência internacional
anual aborda as mais recentes
estratégias e técnicas que
irão transformar o marketing.
Mais de 40 especialistas de
renome internacional estarão
presentes.
Local: Lisboa
Organizador: Digital
Marketing Europe
Saiba mais
Artificial e Microsoft Azure.
Conta com especialistas
da indústria a partilhar
conhecimento, workshops
práticos e oportunidades
de networking.
Local: Lisboa
Organizador: Azure & AI User
Group Portugal
Saiba mais
6 E 7 MAIO
35.º DIGITAL BUSINESS
CONGRESS
“Europe in the Digital
Age: Balancing
Sovereignty, Security
and Innovation”, trata-se
do mote do 35.º Digital
Business Congress,
que a APDC realiza em
maio de 2026. O evento
será presidido pelo
contra-almirante António
Gameiro Marques, que
durante nove anos esteve
no centro das decisões
mais sensíveis da
segurança da informação
e da soberania digital
em Portugal.
Local: Lisboa
Organizador: APDC
Saiba mais
INICIATIVAS
Local: Auditório da
Reitoria da Universidade
Nova de Lisboa
Organizador: APDC
Saiba mais
Saiba mais
18 ABRIL
GLOBAL AZURE 2026
Trata-se de um evento de
referência para profissionais
de tecnologia que pretendam
aprender sobre Inteligência
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DEZEMBRO 2025 | REVISTA COMUNICAÇÕES | APDC | 93
A ABRIR
94 | APDC | REVISTA COMUNICAÇÕES | DEZEMBRO 2025