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Publicação Mensal
Vol. XXIX - Nº 335 Fevereiro de 2026
Amor incondicional à Igreja
e à Cátedra de Pedro
Dalila A.
Universidade Nossa
Senhora do Lago - San
Antonio, Texas
Em Lourdes,
a dupla confirmação
A
proclamação do dogma da Imaculada Conceição teve um duplo aspecto. Em primeiro lugar,
a afirmação de um dogma de grande importância para o progresso da Mariologia na
Igreja. Em segundo lugar, do ponto de vista da oportunidade, porque a afirmação desse
dogma, tão profundamente anti-igualitário, esmagou o ceticismo do século.
Ora, também os milagres de Lourdes são de natureza a esmagar o ceticismo e vieram como uma
confirmação do dogma, uma vez que Nossa Senhora declarou ser a Imaculada Conceição. É uma espécie
de prêmio e de confirmação da veracidade do dogma definido.
Por outro lado, ao proclamá-lo, Pio IX fez precisamente o contrário do que satisfazer a Revolução,
e a Providência interveio produzindo uma série estupenda de milagres, que são, debaixo desse ponto
de vista, a confirmação da seguinte estratégia: em face da impiedade não se faz gentilezas nem se
recua, mas se enfrenta.
(Extraído de conferência de 8/12/1963)
Sumário
Publicação Mensal
Vol. XXIX - Nº 335 Fevereiro de 2026
Vol. XXIX - Nº 335 Fevereiro de 2026
Amor incondicional à Igreja
e à Cátedra de Pedro
Na capa,
Basílica de São Pedro,
Cidade do Vaticano.
Foto: Gabriel K.
As matérias extraídas
de exposições verbais de Dr. Plinio
— designadas por “conferências” —
são adaptadas para a linguagem
escrita, sem revisão do autor
Dr. Plinio
Revista mensal de cultura católica, de
propriedade da Editora Retornarei Ltda.
ISSN - 2595-1599
CNPJ - 02.389.379/0001-07
INSC. - 115.227.674.110
Diretor:
Roberto Kasuo Takayanagi
Conselho Consultivo:
Jorge Eduardo G. Koury
Roberto Kasuo Takayanagi
Vicente de Paula Torres Nunes
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Serviço de Atendimento
ao Assinante
revistadrplinioassinatura@gmail.com
Segunda página
2 Em Lourdes, a dupla
confirmação
Editorial
4 Ininterrupto
“Viva o Papa!”
Piedade pliniana
5 Intervenção de Maria
Dona Lucilia
6 Delicadeza
transformante
Gesta marial de um varão católico
8 Amor abrasado à Igreja e
o desejo de doar-se
Eco fidelíssimo da Igreja
13 “Oh, Santa Igreja! Oh, Céu na
Terra para minha alma!”
O pensamento filosófico de Dr. Plinio
16 A luta contra a “megalice” e o
desabrochar de todas as qualidades
Dr. Plinio comenta...
24 Grandes sonhos que se projetam
no futuro e fazem a História - I
Apóstolo do pulchrum
29 O embate entre a Revolução e a
Contra-Revolução - I
Última página
36 Virgo pulcherrima,
Mater meliflua
3
Editorial
Ininterrupto
“Viva o Papa!”
A
Festa da Cátedra de São Pedro celebra o Papado enquanto tendo uma cátedra infalível
que se dirige ao mundo inteiro. É, portanto, a infalibilidade pontifícia, a ortodoxia, aquilo
no que o Papa não erra nunca, que é objeto dessa comemoração.
Tudo quanto diz respeito à infalibilidade papal, sem ser afetado em nada pelas tristezas dos dias
presentes, é para nós um poema, pois o Papa é o centro da ordem e da beleza do universo.
Há um princípio da Escolástica muito pouco explorado pelos escolásticos de nossos dias, mas
quão saboroso e verdadeiro. É o princípio de São Tomás de Aquino denominado pelos medievais de
reductio ad unum. Tudo quanto existe tem que se encaixar em conjuntos, tem que se descobrir que
forma conjunto e esses conjuntos todos têm necessariamente um elemento central monárquico que
os compendia. Portanto, é o princípio monárquico considerado não mais como forma de governo,
mas muito mais alto do que isso, como exigência metafísica, ontológica, estética.
O Papa é, então, o princípio máximo dessa reductio ad unum. Nele está a plenitude do poder espiritual,
o simbolismo das chaves de ouro e de prata: “Tibi dabo clavis Regnum Cœlorum – Eu te darei
as chaves do Reino dos Céus” (Mt 16, 19). E então os medievais perguntavam o porquê das duas
chaves e a resposta era: “Uma é a chave de ouro, que liga e desliga as coisas do espírito, e outra é a
chave de prata, que liga e desliga as coisas da Terra”. E é o poder supremo e indireto do Papa também
na ordem temporal quando entra matéria de pecado.
Por exemplo, um decreto imoral de um rei, o Papa pode declarar nulo. Esse é o nosso ideal da
monarquia papal. E é a chave de prata, pois, uma vez que a chave do Céu é de ouro, a da Terra, organizada
cristãmente, é a de prata. Esse simbolismo é lindo!
Devemos, pois, oscular em espírito o Papado, esse princípio de sabedoria da autoridade que governa
a Igreja Católica. E, por meio de Nossa Senhora, agradecer a Nosso Senhor Jesus Cristo a instituição
dessa infalibilidade, dessa cátedra que é propriamente a coluna do mundo.
O fundo de nossa alma é a fidelidade ao Papado. Somos filhos e escravos do Papa. Nossa vida é
um ininterrupto “Viva o Papa!”*
*
Cf. Conferências de 21/2/1964 e 12/10/1965.
Declaração: Conformando-nos com os decretos do Sumo Pontífice Urbano VIII, de 13 de março de 1625 e
de 5 de junho de 1631, declaramos não querer antecipar o juízo da Santa Igreja no emprego de palavras ou
na apreciação dos fatos edificantes publicados nesta revista. Em nossa intenção, os títulos elogiosos não têm
outro sentido senão o ordinário, e em tudo nos submetemos, com filial amor, às decisões da Santa Igreja.
4
Piedade pliniana
José A.J.
Intervenção de Maria
ÓMãe do Bom Sucesso, dai-me a graça de aproveitar, no cumprimento de
minha missão, todos os recursos naturais, toda a experiência e todas as graças
que me obtivestes.
Dai-me, sobretudo, a convicção de que, de modo geral, a nenhum homem isso
basta para o cumprimento de suas missões mais importantes, se não for vossa intervenção
direta e extraordinária nos fatos.
Fazei-me crer nisso, desejar e pedir essas intervenções para nelas crer durante
dias mais duros, pedi-las e obtê-las para o esmagamento de Satanás e a vitória de
vossa realeza. Amém.
(Composta em 16/4/1974)
5
Dona Lucilia
Fotos: Arquivo Revista
Inclinações, preconceitos,
às vezes um modo de querer
imperativo, tudo se apaziguava
na presença de Dona Lucilia.
Na Igreja do
Sagrado Coração
de Jesus,
Dona Lucilia não tinha
um lugar fixo para
ouvir Missa. Ela costumava
ir à igreja aos domingos;
durante a semana
ela ia apenas para comungar,
mas era relativamente
raro, por causa da
dificuldade de locomoção
que possuía.
Como boa
brasileira, sem
roteiros muito fixos
Aos domingos, habitualmente,
ela chegava
na horinha da Missa começar.
Ela nunca foi de
uma grande pontualidade.
Comungava no altar-
-mor e rezava muito ali; depois se dirigia
à imagem do Sagrado Coração
de Jesus ou à de Nossa Senhora Auxiliadora,
passando de uma para outra,
de acordo com o lugar que tivesse
encontrado para assistir à Missa.
Ela ia do lado mais próximo primeiro,
ali rezava longamente; depois se
dirigia também para alguns dos outros
altares.
Ela rezava sempre diante da imagem
de Nossa Senhora de Lourdes;
depois, em frente do Menino Jesus
com os doutores no Templo. Nos outros
altares era um pouco conforme
as circunstâncias, não tinha nada de
muito fixo. Ela não era uma pessoa
de grandes fixidezes. O gênero brasileiro
não é de coisas muito fixas, move-se
um pouco de um lado para outro,
não muito cadenciado. Ela também.
Apenas os altares que mencionei
eram fixíssimos; indo à igreja, rezava
diante deles.
6
Relacionamento
suave e atraente
Por outro lado, no que se referia
ao relacionamento com mamãe, inúmeras
vezes, ao longo de minha vida,
eu notava, no convívio, que ela
tinha um certo modo de se dirigir
a mim – digo “a mim” porque é do
que me lembro, naturalmente –, que
era uma coisa curiosa: eu podia estar
no estado de espírito que estivesse,
muitas vezes não bom; ela falava
e eu tinha a impressão de que ela
entrava em minha alma, sem eu perceber,
pondo-me diante de um estado
de espírito tão atraente, tão suave,
tão diferente daquele em que eu
estava, desmanchando o mau castelo
que estava na minha alma, que eu
me tornava outro. Isso ela fazia com
tal delicadeza, que depois de ter falado
comigo, eu saía transformado
e alegre, satisfeito, e percebia que
era um verdadeiro transbordamento
do espírito dela. Dona Lucilia conseguia
de mim as modificações que
ninguém conseguiria.
Quem me conhece sabe que o
que eu quero, quero! Pois bem, “o
que eu quero, quero” com ela não
valia…
Quando eu era muito pequenininho
ainda, não sei por que ela começou
a me chamar “filhão”!
E eu não sei por
que também a chamava
de “mãezinha”, embora
ela fosse muito maior
do que eu quando eu era
menino. Era só ela chegar
e dizer:
— Filhão, tal coisa
não seria melhor do outro
jeito?
— É claro que é, é
evidente!
Eu tinha preconceitos
formados, inclinações
que eu não deveria
ter, aquilo tudo se apaziguava
num instante.
Ação que se prolongou
após a morte
Eu vejo com assombro,
pela descrição que fazem,
que os que recorrem a ela
afirmam receber graças assim.
Isso começou a ser relatado
antes de eu contar
como era minha relação
com mamãe, senão alguém
poderia dizer ser sugestão.
Mas não é.
Quando ela era viva, às
vezes eu pensava: “Uma
coisa curiosa: ela só tem
dois filhos, mas tem coração
para querer bem a
milhares de outros. Esse
amor fica aqui inútil; não
sei para que Deus criou
isso, no Céu se saberá”.
Nunca imaginei que ela
viesse a ter entre os meus
seguidores o papel que
tem. Nunca! Nunca imaginei.
E que tantos e tantos
rapazes se sentiriam
tratados como filhos nesse
contato com ela. v
(Extraído de conferências
de 31/7/1978 e
16/7/1982)
7
Gesta marial de um varão católico
Antonello (Getty Images)
Amor abrasado à Igreja
e o desejo de doar-se
Considerar a diversidade da Igreja Católica
constituía para Dr. Plinio um verdadeiro
regozijo. Entretanto, também o unum da
Igreja o encantava e este parecia-lhe por
vezes expresso na excelência da bondade,
que é o desejo de doar-se continuamente
aos demais, não com a intenção de
tirar algum proveito para si, mas pelo
bem encontrado nos outros, reflexos
do espírito da própria Santa Igreja.
Arquivo Revista
Quando Dona Lucilia faleceu,
encontraram várias fotografias
suas e de toda a família,
no meio dos objetos guardados
por ela.
Dotado de um espírito
categórico…
Numa dessas fotografias, eu estou
com alguns meses de idade nos braços
dela. Aliás, é uma foto muito escura,
porque as máquinas não eram
boas naqueles remotos anos de 1908,
1909. Dona Lucilia era ainda relativamente
moça, mas era uma pessoa
muito forte e bem constituída; está
comigo nos braços, sorrindo, muito
enlevada, muito satisfeita.
A fotografia original era bem menor,
mas o João mandou ampliar. Eu
nunca tinha prestado atenção
na minha fisionomia ali, carregado
nos braços dela; mas,
com aquilo ampliado, eu casualmente
olhei e percebi um aspecto
de meu modo de ser, de
meu temperamento, que eu reconheço
até hoje.
Os mesmos traços percebi
em outras fotografias minhas
posteriores, por exemplo, em
menino, mas já bem maior,
com uns dois ou três anos,
sentado numa cadeirinha que imitava
a cadeira de um homem adulto
daquele tempo.
Todos os cinco sentidos eu os tinha
largamente bons. A vista era comum,
mas dentro do comum, larga,
excelente. A audição – a qual fui
perdendo aos poucos junto com a
vista –, também muito boa, fina, apanhando
bem os sons. E assim o olfato,
o paladar, tudo muito amplo,
preciso, nítido, muito bom. Tudo isso
acompanhado de um feitio de
personalidade: aquilo que eu gostava,
gostava torrencialmente, e aquilo
de que não gostava, eu detestava.
8
Meus sentidos e meu temperamento
não eram propensos
à indecisão, eram muito
decididos. Isso eu conservei
a vida inteira; mas, em contraposição,
energicamente
também não gostava de algumas
coisas.
Por exemplo, eu tinha
uma preguiça muito grande
de qualquer esforço físico,
uma execração de qualquer
trabalho que me fizesse
transpirar. Eu sentia horror,
repugnância da transpiração!
Ora, a minha fórmula para
todos os efeitos era: “Sombra,
sapato largo e água fresca”.
Também não gostava de
ter lutas com ninguém, detestava
as brigas. E tinha um
temperamento muito afetivo,
carinhoso até, tendo uma
vontade enfática de viver
bem com os outros. Possuía,
então, movimentos de sensibilidade
muito pronunciados, muito
categóricos. Eu acho que algo disso
dá para reconhecerem até hoje.
...e da capacidade de
saber ajeitar-se em
situações penosas
Na linha do apetite, eu o tinha primeiro
muito mau. Dona Lucilia e a
Fräulein tanto fizeram e apertaram
que, de preguiça, eu acabei tendo um
bom apetite. Elas diziam: “Tem de
comer!”, eu não queria. Um menino
qualquer se revoltaria, mas eu achava
mais cômodo comer sem fome. Revoltar
podia trazer consequências desagradáveis
na ordem moral, como
na ordem física traria subir uma ladeira,
coisa que toda a vida eu detestei!
Portanto, era melhor comer.
A solução intermediária era tapear.
Então, na mesa onde comíamos
havia uma espécie de mecanismo
de madeira por debaixo, para poder
ampliá-la, que ninguém via. E
a Fräulein cortava pedaços de pão,
passava manteiga e me dizia: “Tem
de comer!” Ao ouvir o passo dela se
distanciando, eu colocava os pedacinhos
de pão em ordem nas traves
embaixo da mesa. Quando ela voltava,
estava tudo comido!
Era a solução, eu não queria brigar.
Se eu não queria comer mesmo,
então punha lá. Não sei quando descobriram;
com certeza abriram a mesa
para pôr as tábuas e caíram os pedaços
no chão. Pode-se imaginar a
surpresa dela e de mamãe.
Percebe-se que aí já ia se desenvolvendo
também, em mim, um certo
senso político da condução das coisas
para evitar esse choque interior,
porque eu era, ao pé-da-letra, o que
se chama em francês muito douillet, 1
gostando das coisas muito almofadadas
e aconchegadas para mim.
Eu não estou dizendo que tudo isto
seja virtude, pelo contrário, há defeitos
graves que me deram trabalho
e me mantêm vigilante até hoje. Mas,
Arquivo Revista
enfim, se querem saber como
é a minha sensibilidade,
eu devo contar a verdade.
Senso vivíssimo da
própria dignidade
Isso contrastava também
com um outro aspecto. O
meu modo de ser tranquilo
e pacífico levava-me muito
a não entrar em brigas, mas,
graças a Nossa Senhora, eu
tinha – e ligado à sensibilidade
– um senso vivíssimo de
minha dignidade. Acho que
isso hauri de mamãe, algo
um pouco além da sensibilidade,
mais próprio da alma.
A ideia dupla de que
eu, enquanto pessoa, tinha
qualquer coisa de superior –
desculpem-me ao dizer isso
– eu não me explicava bem
esse ponto nem procurava
explicar, mas algo que me
impunha como um dever absoluto,
fazer-me respeitar, com a impossibilidade
e a proibição moral de eu, debaixo
de qualquer ponto de vista, fazer-me
de bobo ou algo semelhante,
que não fosse de menino respeitado.
E nisso eu creio que não entrava
vaidade nem amor-próprio. Era algo
ligado a uma outra ideia, que ultrapassava
a sensibilidade, mas como
que despertava em mim reações
muito vivas, e que merece ser nomeado
no jogo da minha sensibilidade.
Essa dignidade vinha da ideia de
que as famílias de meus pais, apesar
de não serem das mais antigas
do Brasil, possuíam uma categoria
muito alta e muito boa, e isso impunha
a obrigação de me fazer respeitar
não só enquanto pessoa, mas enquanto
membro daquela família. Eu
pensava: “Aquelas linhagens são superiores
em tais aspectos e, por causa
disso, elas têm uma irradiação no
próprio meio até maior do que seria
cabível com o conjunto dos pontos
9
Gesta marial de um varão católico
que elas têm. Isso eu preciso
assimilar e preciso ter. E
é uma obrigação minha fazer
valer isso por um princípio
de fidelidade ao que
tem de dom de Deus nessa
condição”.
Possibilidade de
casamento
Arquivo Revista
No que se refere ao Sexto
Mandamento, eu só concebia
haver uma inclinação
por uma moça nos limites
da idade do casamento. Eu
pensava em me casar, mas
não queria fazê-lo fora do
meu circuito social. Ademais,
compreendia que, para
ser um casamento direito,
eu precisaria ter uma espécie
de paridade fraterna
com minha esposa. Ou seja,
ela precisaria estar à minha
altura, devia me respeitar e
ter as mesmas ideias.
Para que um casamento
correspondesse a isso, não
esperava encontrar alguém
aqui no Brasil, talvez na Europa. Como
me parecia que o caminho de todo
homem era casar-se, então seria
um casamento resignado, muito
mais do que entusiasmado. Resignado
porque, enfim, eu achava que alguém
com a minha mentalidade eu
não poderia encontrar.
Combatividade e rejeição
à amizade sentimental
Com o tempo, percebi que minha
relutância em andar e em estar
de pé – porque eu procurava estar de
pé o menos possível –, decorria de
um mal-estar físico que eu não chegava
a notar. Qualquer um, estando
de pé, pode estar tão natural quanto
sentado, mas, para mim, não. Estar
de pé foi sempre um sacrifício e
estar sentado sempre algo agradável.
Dr. Plinio aos 24 anos
Com o progresso dos anos, dei-me
conta de que isso era um mal-estar
difuso de caráter físico, decorrente
de um desvio de espinha bem acentuado
– o qual nunca relacionei com
isso –, e que, portanto, não era tanto
preguiça quanto mal-estar. Além
disso, desde pequeno eu senti muita
dor nos pés para andar, e que se
acentuou com o tempo. Por falta de
discernimento, eu chamava isso de
preguiça.
Mas não deixa de ser verdade que
preguiça espiritual e psicológica eu
sempre tive em quantidades colossais.
Então, era preguiça de combater,
de esforçar-me. Contudo, por
causa da Contra-Revolução, sentindo-me
na batalha da vida para preservar
a minha fidelidade à Igreja, a
minha respeitabilidade como nascido
de família tradicional brasileira, digno
de todo respeito, enfim,
para preservar uma porção
de coisas, eu tive de desenvolver
uma combatividade
enorme; e compreendi que
era só levando a combatividade
e a desconfiança até o
último ponto que eu poderia
realmente ser um homem
combativo. Com meios-termos
eu não o conseguiria.
Compreendi também que
todo homem é ruim. Eu notava
o que era ruim em mim
e a maldade dos outros homens.
E, portanto, a ideia
primeira de que todas as
pessoas são boas e que as estimamos
por causa disso, feneceu
completamente, sendo
substituída pelo seguinte
pensamento: alguém é
bom quando corresponde à
graça, pois esta o ilumina e
transforma em algo muito
melhor do que se pode imaginar.
Mas se retiram a graça
da alma, surge um monstro.
E mesmo a quem eu tinha
mais veneração, pensei:
“Eu não venerarei bem enquanto
não encontrar o lado fraco, o lado
mole, não consentido, mas nativo,
originário”. Pus-me nessa pesquisa e
creio que encontrei, pois até lá chegou
o meu horror à amizade sentimental,
por tomar a pessoa como ela
não é. Preciso ver como ela é e querê-la
bem por amor a Deus, o resto é
conversa fiada.
Gostos carregados de
simbolismo e profundidade
Acho que com esses lineamentos
principais pode-se notar o que vai
muito além da sensibilidade, ou seja,
os gostos. Por exemplo, o gosto do
grandioso, do monumental, do forte,
o gosto das cores mais do que das
formas. Tudo isso se pode facilmente
deduzir do que acabo de dizer.
10
Eu sou muito mais sensível às cores
do que às formas, porque a cor é
um símbolo que me fala muito mais
do Absoluto, portanto de Deus, e tem
qualquer coisa de mais genérico e
mais alto do que a forma. Esta última
me fala muito mais do indivíduo. Eu
não quero dizer que isso deva ser para
todo mundo, mas é o que há em mim.
Havia na Renascença diferença
entre a escola veneziana e a escola
florentina. Os quadros florentinos
são de desenhos primorosíssimos
e cores muito discretas, apenas para
dar uma realidade ao que estava pintado.
E nos quadros venezianos, pelo
contrário, as cores são bonitas e muito
falantes, e o desenho tinha apenas
o necessário para se entender.
Quando li isso, senti-me veneziano!
Eu estive em Florença e gostei
muito, é uma cidade bonita. Mas, em
Veneza, eu me senti outro homem!
Sem comparação! É o modo de ser
de cada um.
Parece-me que o verum que no
desenho se vê, se entende, se pesquisa,
se entende na cor, é evidente. O
verum, a realidade, se sente muito
mais na cor do que no desenho.
Por que isso? Eu já me tenho perguntado
e não percebo bem por que
é. Talvez com o tempo eu chegue a
perceber.
O dar de si constituirá a nota
tônica do Reino de Maria
um só com ela, porque ela tinha muito
pouco egoísmo, tanto quanto se
pode dizer isso de uma pessoa concebida
no pecado original.
Essa forma de carinho eu tenho a
impressão que diferencia, distingue
a América do Sul da Europa e dos
Estados Unidos, muito definida e
agudamente. Eu falo menos do mexicano
e do centro-americano, pois
os conheço menos, mas suponho que
seja a mesma realidade. Acho que isso
ainda é mais acentuado no brasileiro
do que nos outros hispano-
-americanos, e era mais acentuado
em mamãe do que em qualquer outro
brasileiro que eu tenha conhecido.
Não quero dizer, portanto, que
absolutamente não haja em nenhum,
mas apenas falo dos que eu conheci.
Eu volto a dizer: a excelência dessa
bondade consiste no dar de si. O
carinho não é visto apenas como um
apoderar-se, mas muito mais como
um dar-se, o que era uma nota saliente
em Dona Lucilia.
Essa atitude torna o homem, tanto
quanto possível, de un vermisseau
et misérable pécheur, 2 num outro
Nosso Senhor Jesus Cristo. Disso
Ele foi o Mestre de um modo superperfeito,
verdadeiramente humano
e divino. O que tem de extraordinário,
debaixo desse ponto de vista,
é o quanto Ele Se dava, o querer
bem d’Ele era mais um dar-Se e oferecer-Se
do que um querer para Si
ou apropriar-Se.
Noto que o meu modo de querer
bem é esse. É muito difícil alguém me
ver procurar uma pessoa para obter
dela uma vantagem para mim, nem
tenho segundas intenções de tirar
proveito. Ou eu quero e quero, ou eu
não quero e passo por indiferente ou
inimigo, conforme for o caso.
Aliás, eu só sou inimigo de quem
ataca a Igreja e a Civilização Cristã.
Fora disso não sou inimigo de ninguém,
pode me fazer a pessoa o que
quiser que eu não fico inimigo dela.
Mas se atacar a Igreja, a Civilização
Cristã, eu desejo exterminar toda a
obra dessa pessoa, fazendo o que for
possível para liquidar, tolher a obra
que ela possa fazer.
NGA.(CC3.0)
Eu notava em mamãe algo como
uma característica do mundo novo
que ia nascer, mas que, curiosamente,
tem alguma relação com o romantismo
enquanto afetividade, não
enquanto escola de filosofia.
Ela tinha uma forma de carinho
envolvente para quem soubesse
compreender e agradecer, e uma
forma de querer bem onde havia
mais dom de si e, por causa disso,
uma faculdade de envolver, de penetrar,
de estabelecer um vínculo afetivo
absorvente, no sentido de formar
A Adoração dos Pastores, por Giorgione, pintura da escola veneziana,
Galeria Nacional de Arte de Washington D.C.
11
Gesta marial de um varão católico
E ninguém, em anos e anos de
convívio, viu-me com raiva de outro,
absolutamente não. Por exemplo,
nos estrondos que tive de enfrentar,
o menos colérico fui eu. Era, ao mesmo
tempo, o mais visado e o menos
colérico.
Essa propensão a dar-me, encontrando
aí uma espécie de repouso
para mim, eu recebi de mamãe, e
creio que é uma coisa que vai para os
séculos futuros, ou seja, no Reino de
Maria deve ser muito assim.
Amar o próximo por amor
ao espírito da Santa Igreja
Creio que Nossa Senhora deu esse
predicado à Península Ibérica
mais acentuado do que ao resto da
Europa. E deu mais aos portugueses
do que a outros reinos que havia lá.
Ao Brasil, deu mais do que à América
espanhola, como já tratei.
É preciso dizer que no europeu
há muito menos propensão para dar-
-se, mas também ele não tem certas
más propensões que nós temos. Por
exemplo, é fora de dúvida que os povos
sul-americanos, em parte, não
progrediram porque têm muito menos
propensão para o trabalho e para
a vida dura do que os europeus.
Eu diria o seguinte
nessa linha do dar-
-se: com essa propensão
que tenho, há em mim
um querer bem aos outros
que não é por querer
bem para mim, mas
é por causa de algo de
bom que está nos outros
e que corresponde
a um certo bem que
não sou eu e que não é
o outro, mas é o espírito
da Igreja Católica ao
qual me dei, tomado e
conhecido mais do que
se conhece uma pessoa.
Ou seja, sob certo
ponto de vista, eu
Arquivo Revista
creio conhecer a Igreja Católica melhor
do que conheço qualquer pessoa
com quem eu tenha tido contato
em minha vida; o espírito da Igreja
absolutamente em todos os seus aspectos,
mesmo os mais diversos uns
dos outros. Eu me regozijo com essa
diversidade e faço dela um banquete
para a minha alma.
Tudo o que pertence
à Igreja Católica eu
amo intensamente
Eu tenho pelo gótico o encanto
que todos sabem; porém, durante
o tempo em que havia embaixo
de meu apartamento o escritório
de uma agência de viagens, costumavam
colocar cartazes de propaganda
convidando a fazer turismo
no Oriente Próximo, e certa vez havia
uma fotografia muito bem tirada,
bonita, de uma igreja antiga, que
deveria ser dos armênios, das cristandades
primitivas. A parte detrás
da igreja dava de costas para o mar,
chegava ali um barranco com umas
pedrinhas, e a água entrava lá, mexia
com aquilo; mas tinha um quê
dos primeiros tempos da Igreja no
Oriente que depois não se recompuseram.
Dr. Plinio em 1987
Eu não pedi aquele cartaz para
mim só de medo de não ser compreendido,
mas eu amei aquilo intensamente.
Era um aspecto da Igreja.
Por exemplo, os verdadeiros aspectos
do canto dos melquitas. Aquilo
tudo é muito diferente da Idade
Média, mas eu me abraso de amor
por aquilo. Também pelo Rito Maronita;
o Rito Latino, nem preciso dizer!
Aquelas grandes mitras, os báculos
e tudo o mais!
O que é verdadeiramente da Igreja
eu amo incomparavelmente mais do
que quis bem a mamãe – todos sabem
bem disso – como o próprio foco de um
certo unum que é a Igreja, à qual eu me
dei e a quem amo mais do que a mim.
É algo na linha da mística comum,
um sentir o Espírito Santo na Igreja,
que é harmônico com o lado racional,
por onde, de fato, eu tenho uma
conaturalidade enorme com o tomismo
e com todo aquele modo de ensinar
de São Tomás, aristotélico, como
se fosse eu mesmo que pensasse
aquilo – eu sei que não seria capaz,
não tenho aquele talento.
Tenho a impressão de que o espírito
da Igreja que se manifestará
no futuro não está tanto numa
concepção doutrinária nova, mas
nessa nota do dar-se mais, em que
algo existe de criativo,
que eu não sei
bem como é. v
(Extraído de conferência
de 22/8/1987)
1) Do francês: aconchegante,
confortável. Diz-
-se da pessoa que possui
uma vida sem conflitos,
sem problemas.
2) Do francês: vermezinho
e miserável pecador,
segundo a expressão de
São Luís Maria Grignion
de Montfort no seu Tratado
da verdadeira devoção
à Santíssima Virgem.
12
Eco fidelíssimo da Igreja
Gabriel K.
“Oh, Santa Igreja!
Oh, Céu na Terra para
minha alma!”
O cintilar da Igreja com todas as suas
verdades, com todos os seus Santos, com
todo o seu passado, com o seu presente
é o que há de mais magnífico na Terra.
E dentro dessa magnificência, há o ápice
incomparável e sublime da Virgem-Mãe.
As graças são progressivas;
quanto mais a pessoa reza,
mais graças recebe; e
quando elas vêm, devemos saber
aproveitá-las, caso contrário, não
produzirão frutos na alma. A graça
é uma força sobrenatural que Deus
concede para caminharmos para
frente. E, concedendo-a, temos de
andar. Ficarmos parados até estarmos
inundados de graça para depois
resolvermos andar um pouco não é
o correto.
Como fazer, quando rezamos, para
ter amor à Igreja Católica, como
corresponder a essa graça? Devemos
desejá-la muito e estarmos atentos a
ela, e saber admirar. E quando admirarmos
algo, prestarmos atenção
e procurarmos compreender e amar
aquilo. Então nasce a união com a
Igreja Católica.
A Santa Igreja, o refúgio
e o bem-estar da alma
Qual é o maior “flash” que eu tive
com a Santa Igreja?
Não se pode dizer que eu tenha tido
um maior “flash”, porque quem
13
Eco fidelíssimo da Igreja
supõe um, supõe muitos
outros. Ora, eu tive um
só, não um “flash” modesto,
mas firme e seguro.
Iniciou-se com as primeiras
noções que eu tive
da Santa Igreja, em
que comecei a me dar
conta dela, da perfeição
dela e perdura até hoje.
São oitenta e três anos
nos quais eu não considero
algo da Santa Igreja
que não me dê um fundo
de “flash” meio parecido
com a Via Láctea no céu.
A Via Láctea parece
formar um caminho, uma
longa lista de estrelas em
tal quantidade que o céu
fica um pouco esbranquiçado,
percebe-se a olho
nu que tem estrelas pelo
meio. Por isso, chama-se
via, caminho, láctea, de leite,
porque é um branco leitoso.
Essa é a Via Láctea.
Nossa Senhora teve esta
misericórdia para comigo:
deu-me uma “via
láctea” na qual eu caminho desde o
início e, queira Ela, caminhe até ao
fim.
Nunca tive uma revelação, nunca
me apareceu um Santo, nem nada
disso. Tenho tido algumas consolações
interiores sobre a Santa Igreja
Católica, que é o meu grande entusiasmo
e a minha grande consolação,
é uma visão contínua da perfeição
e da santidade dela, da sua imutabilidade,
de que ela é o refúgio, é
o bem-estar da minha alma, é o Céu
na Terra para mim. E quando eu
quero fazer uma meditação sobre o
Céu, eu medito sobre a Igreja.
Concretamente, como isso se faz?
A Igreja, durante um dia comum,
confere a cada um de nós uma série
de impressões. Sobretudo a nós que
Nossa Senhora chamou para vivermos
tão junto da Igreja, tão dentro
Flávio Lourenço
Absolvição depois da confissão - Catedral do
Salvador, Aix-en-Provence, França
dela; nós estamos nos defrontando
com ela a todo momento.
Assim, há dois modos de notarmos
como é a Santa Igreja. Sabemos
como ela deve ser, sabemos qual é a
doutrina e a moral católica, portanto,
como é a santidade católica. E
muitas vezes nós entramos em contato
com as realidades da Santa Igreja
e percebemos de um modo vivo
essa moral existente nela.
O sigilo de confissão
jamais rompido
De que maneira isso se faz? Ora é
lendo a vida de um Santo, ora recebendo
um Sacramento como a Sagrada
Eucaristia, como a Confissão. Ainda
que tenhamos uma falta insignificante
para confessar, ainda que compareçamos
apenas para acusar-nos
dos pecados do passado e
receber a penitência, é impossível
que não sintamos
a sensação de alma que
foi lavada, foi limpa pelo
Sacramento da Confissão.
Entra-se no confessionário,
o padre é um desconhecido;
o que nós não
contaríamos a ninguém,
contamos para ele. E, às
vezes, é alguém que, como
homem, vemos não
merecer a nossa confiança,
mas sabemos que uma
coisa é certa: se nos confessamos
com ele, nunca
contará o que ouviu. Para
quem raciocina um pouco
já compreende a maravilha
que há nisso.
Se eu tivesse a coisa
mais terrível para me acusar
– uma dessas que, se
revelasse, poderia ocasionar
à minha vida uma revolução
–, eu deveria contar
ao padre com todo o
sossego, ainda que ele fosse
indigno. Mas até nos indignos
há esta sublimidade: é um padre
da Santa Igreja Católica Apostólica
Romana. Ou seja, pode ser um
homem que não mereça a nossa confiança,
entretanto, nós sabemos que
há nele uma força de Deus que o ajuda
neste ponto: o segredo da confissão
ele não quebra.
De onde vem essa sublimidade senão
da própria Igreja?
Alguém poderá dizer: “Não seria
mais bonito que Deus permitisse que
os padres nunca pecassem?” Eu digo:
“Não”. É mais bonito saber que para
eles, como para nós, o estarmos em estado
de graça supõe cuidado, vigilância,
sacrifício, luta. Assim, respeitamos
o padre bom; quando o encontramos, o
cumprimentamos com respeito: “Esse
é o ministro de Deus, um homem bom,
que leva uma vida santa. Que alegria
ter encontrado um bom padre!”
14
De outro lado, quando nos encontramos
com um padre indigno, sabemos
que sobre ele ainda pousa uma
graça de Deus, pela qual nunca se ouviu
dizer que um padre traísse o sigilo
de confissão. Não é só afirmar que nunca
houve um padre que traísse o segredo
da confissão, é mais: os caluniadores
não ousam difamar a esse respeito.
Isso não é uma verdadeira maravilha?
Ouvindo isso, não temos vontade
de exclamar: “Oh, Santa Igreja
de Deus! Oh, Céu na Terra para minha
alma!”?
O Papa, sucessor de Pedro
Consideremos a coisa debaixo de
um outro ponto de vista.
A Igreja é hierárquica e tem como
monarca o Papa, sucessor de São
Pedro. Há uma tal diferença entre o
Papa e todos nós, ele está numa tão
alta hierarquia, numa tão alta categoria,
que há uma distância enorme
entre ele e nós. Mas há algo curioso:
qualquer bom católico quando
fala do Papa, ainda que ele não esteja
contente com ele, fala dele com a
maior intimidade, e em sua voz entra
um eco de mais afeto do que se ele
falasse do seu próprio pai.
Isso é ou não é verdade? O que é
isso? É uma graça que Deus dá ao
Sumo Pontífice por ser o continuador
de São Pedro, o sucessor daquele
a quem Nosso Senhor disse: “Tu
és Pedro, e sobre essa pedra eu edificarei
a minha Igreja; as portas do Inferno
não prevalecerão contra ela”
(Mt 16, 18). Oh maravilha!
A sublime condição
de Virgem-Mãe
Considerando outro lado das maravilhas
que Deus fez na Igreja: é
muito bonito uma pessoa ser virgem,
mas é muito bonito, ao mesmo tempo,
ser mãe.
Lembro-me de ter lido uma carta
escrita por uma senhora a um escritor
meio francês meio italiano do século
passado: Joseph de Maistre. 1 Ele
era do Piemonte, uma parte de Itália,
e escrevia em francês com uma perfeição
completa. Uma senhora escreveu-lhe
uma carta lamentando não ter
o dom de escritor que ele tinha, porque
gostaria de poder escrever livros.
E ele respondeu com outra carta: “Minha
senhora, a senhora se lamenta de
não poder escrever livros. Mas a senhora
é mãe, gerou e gera filhos. Pobres
de nós que não fazemos um filho,
mas apenas um livro. Quanto um homem
vale mais do que um livro! Fique
contente com a sua condição de mãe”.
É uma observação muito fina.
Na Igreja o nosso espírito católico
fica meio atrapalhado diante dessa
sublimidade da condição de virgem,
depois da sublimidade da condição
de mãe. Nossa alma pediria uma certa
unidade nisso. Como é? O que é
melhor, ser virgem ou ser mãe?
A Igreja dá uma resposta sublime:
é ser Virgem-Mãe. Aquela que
foi virgem antes, durante e depois do
parto – notem a energia deste pensamento:
antes, durante e depois do
parto! – esta foi a Mãe perfeita e a
Virgem perfeita, Mãe do Filho perfeito,
Nosso Senhor Jesus Cristo. É
uma resposta que nos deixa…
Imaginem um homem que fosse
cego de nascença e recebesse de repente
a graça da visão num momento
em que ele, por acaso, estivesse
olhando para as estrelas durante
a noite. A primeira coisa que ele veria
seriam as estrelas luzindo, um belo
luar do sertão brasileiro brilhando
também em meio à escuridão. Esse
homem ficaria maravilhado.
Pois bem, isso é incomparavelmente
menos bonito do que o cintilar da
Igreja com todas as suas verdades,
com todos os seus Santos, com todo
o seu passado, com o seu presente. E
nós podemos dizer: “Somos convidados
a ser límpidas páginas desse torvo
presente, nós, os que somos fiéis em
meio à noite da infidelidade, que somos
a estrela no meio da noite”.
E assim eu poderia passar uma
noite fazendo elogios sobre a Santa
Igreja.
v
(Extraído de conferências de
4/6/1989 e 26/9/1992)
1) Joseph-Marie de Maistre (*1753 -
†1821). Escritor, filósofo, diplomata e
magistrado.
Arquivo Revista
Dr. Plinio durante uma conferência em setembro de 1992
15
O pensamento filosófico de Dr. Plinio
A luta contra a
“megalice” e o
desabrochar de
todas as qualidades
O ponto de partida de toda “megalice”
é a pessoa não se conhecer a si mesma.
Não tendo uma ideia real de si, fica-se
sujeito a pânicos, a tensões que constituem
um verdadeiro sistema de compressão e
descompressão, gerando uma sensação
de instabilidade e de crise. O pior efeito
desse vício é a destruição do amor a Deus,
fundamento de todas as virtudes.
Flávio Lourenço
A
fim de tratar de modo
mais aprofundado a respeito
do problema da “megalice”,
1 que tenho mencionado em
outras ocasiões, há algumas observações
concretas que eu gostaria de fazer
antes de qualquer análise teórica
sobre o assunto.
O processo de
“carunchamento” dos
espíritos fervorosos
Imaginemos uma pessoa muito
correta, direita, que revela lealdade
e retidão de espírito, que pensasse
o seguinte: “Eu noto em mim,
de vez em quando, bons movimentos
interiores; são claramente frutos
da graça que me impulsionam a tomar
esta ou aquela atitude boa. Não
tenho nenhuma dúvida de que eles
são muito bons. Entretanto, quando
vou analisar qual é o desenvolvimento
deles, noto que, a partir de determinado
ponto, começa a misturar-se
neles alguma coisa que não é boa, e
resulta em “megalice”. De maneira
que quase todo movimento da graça
que existe em mim, acaba sendo
adulterado e dando numa complacência
para comigo mesmo, num
16
Virgem Puríssima - Catedral
de Ciudadela, Espanha
exagero de minhas qualidades etc.
Eu até tenho medo da graça, porque
já antevejo qual é o inimigo que vem
do outro lado das barricadas…”
Tal modo de pensar revela perfeitamente
o processo de “carunchamento”
de vários espíritos fervorosos:
começam a dedicar-se à Causa
de Nossa Senhora e se entusiasmam;
entusiasmando-se, ficam muito ardorosos;
ardorosos, passam a ser
admirados; admirados, ficam “megas”;
2 “megas”, se deterioram.
Tenho notado muitos casos assim
e, às vezes, fico numa situação muito
difícil, porque há certas coisas que
devem ser elogiadas, senão
pode haver desânimo;
mas há o perigo
de provocar “megalice”.
Então fica-se quase
sem saber para onde
se voltar. Ora, a postura
de nunca elogiar
não resolve, pois isso é
não governar bem. Eu,
que não sou muito largo
nisso, sou fundamentalmente
contrário a esse
sistema. Algum elogio
deve ser feito, e entre
nós há várias coisas a
serem louvadas.
“Megalice”
e impureza,
dois campos
de batalha?
Há também um outro
ponto que é delicado
para todo homem hoje
em dia, e, a fortiori, para
todo jovem: a pureza.
É um problema difícil e
que exige muito cuidado.
Compreende-se, pois,
que a atenção de um jovem
esteja concentrada
em grande parte nele.
O resultado é que se torna
difícil conduzir essas duas batalhas
ao mesmo tempo. Entre lutar contra
algo que, de si, redunda fácil e rapidamente
em pecado mortal, como é
a impureza, e combater um defeito
que, stricto sensu, conduz com bem
menos frequência a ele, parece que o
horror ao pecado mortal deve levar-
-nos a concentrar nossa atenção muito
mais na questão da pureza do que
na da “megalice”.
Por esse motivo, parece haver uma
espécie de dispersão das energias e
das atenções caso se cuide da questão
da “megalice” com muita insistência.
Esse é um ponto de vista que não é
Dr. Plinio em 1972
apenas defensável, mas que, sob vários
aspectos, é verdadeiro, embora
não o seja em todos. Como então
combater a “megalice”, uma vez que
a vigilância está atraída por outro adversário,
em particular nas atuais gerações,
nas quais a capacidade de vigilância
e a distância psíquica são, de
si, carentes, insuficientes e falhas? Isso
cria um problema muito sério.
Eu devo dizer que erram os que
separam a “megalice” da impureza.
Dois modos de manifestação
da “megalice”
Não creio que, na minha
geração e nas gerações
que a sucederam
imediatamente, esses
problemas fossem ligados
– ao menos não observei
que o fossem proximamente.
Porque a
“megalice” apresenta-se
nas gerações mais novas
com características
bem diferentes das que
ela tinha na geração antiga,
e essas características
dão-lhe um dinamismo
diferente.
Na minha geração,
evidentemente havia
pessoas vaidosas e até
doentiamente vaidosas.
Mas não era frequente
que a vaidade, o orgulho
ou algum defeito
dessa natureza, se apossasse
de um homem de
maneira a abalar nele
rapidamente todo o edifício
do amor a Deus.
Podia-se conceber,
por exemplo, um bispo
um tanto vaidoso por
ser grande orador – deve-se
deplorar isso num
bispo –, mas, daí a dizer
que ele era um homem
que estava com o amor
Arquivo Revista
17
O pensamento filosófico de Dr. Plinio
a Deus abalado nos seus
fundamentos porque era
vaidoso, seria exagerado
para um prelado dos antigos
tempos.
Mas nas gerações
que se foram sucedendo,
a “megalice” tomou
um aspecto de algo galopante,
inebriante, que
lhe conferiu um modo
de atuar que não corresponde
à psicologia das
pessoas para as quais foram
feitos os manuais
antigos de vida espiritual.
De sorte que, o modo
de tratar desses assuntos
na espiritualidade clássica
está um pouco defasado.
Isso nos obriga
a fazer um reestudo da
psicologia dessas gerações
atuais, para uma luta
eficaz contra a “megalice”
na vida espiritual.
Destruição do
amor a Deus
Arquivo Revista
De que forma isso se
dá? Sabemos que a “megalice”
produz uma destruição
do amor a Deus. Ora, o amor
a Deus é o fundamento de todas as
virtudes. E, entre nós, um dos aspectos
mais frisantes desse amor é o
amor à vocação. Então, desde que,
em virtude da psicologia especial
de uma certa geração, a “megalice”
passou a abalar rapidamente o amor
à vocação e o amor a Deus, ela passa
a ter primordial importância entre
os defeitos a serem combatidos,
o que significa ficar num plano praticamente
igual ao da impureza.
Há pessoas que caem na impureza
por causa da “megalice”. O trajeto
é o seguinte: ela fica “mega” e
com isso sofre um abalo no amor à
vocação; consequentemente cai numa
frustração, porque percebe que
Dr. Plinio em 1972
não é tudo quanto quereria ser; e
com isso vem um desespero. Nessa
hora, o demônio se apresenta dizendo:
“Tudo isso que você está sofrendo,
toda essa desordem interna
que está em você, decorrente
da frustração que você tem consigo
mesmo, tudo isso só tem uma saída:
já que a sua vida está um inferno,
cometa um pecado impuro, que
você se alivia e está acabado”. Com
isso ela pode vir a cometer um pecado
de impureza.
A crise da “megalice” nas
gerações antigas e nas atuais
O homem antigo podia fazer uma
ideia excessivamente vantajosa a respeito
de si mesmo. Ou ao
menos tinha a esperança
de, à força de tapeação,
conseguir impor uma
ideia excessivamente vantajosa
de si aos outros. E
esperava obter, por esse
meio, um efeito maior do
que habitualmente poderia
obter.
Mas, entre a ideia que
o indivíduo fazia de si –
ou pretendia que os outros
fizessem dele – e a
realidade, a diferença tinha
um limite.
Por exemplo, um catacego,
isto é, um homem
quase cego, não tinha
a “megalice” de ser
campeão de tiro ao alvo.
Ele compreendia
que possuía outras qualidades,
podia imaginar
que via melhor do que
na realidade, mas não se
achava diretamente capaz
de ser campeão de
tiro ao alvo. Um homem
de inteligência mediana
poderia ter a “megalice”
de considerar-se bem inteligente,
mas um gênio,
não. Uma pessoa amável e com notável
capacidade de seduzir, agradar
e atrair, podia julgar-se, por excesso,
a mais encantadora do ambiente no
qual vivia. Tudo isso poderia perfeitamente
acontecer, mas havia uma
proporção na diferença entre a imagem
e a realidade.
O pressuposto disso é que todos
mais ou menos sabiam o que eram,
e havia um certo limite nos seus exageros.
As gerações que vieram depois da
minha parecem não ter noção do limite
de suas próprias possibilidades,
e, por causa disso, qualquer um se
julga capaz, ou sonha ou é tentado a
sonhar com os triunfos mais delirantemente
universais.
18
Por exemplo, se eu fosse cantor e
imaginasse o seguinte: “Sou um dos
bons cantores de São Paulo”, quando
na realidade não passo de um
cantor agradável para ser ouvido
num salão, isso poderia me lisonjear.
Mas, imaginar-me descendo de avião
em Paris e multidões incontidas correndo
para me receber com aplausos,
carregando-me em triunfo, com
a televisão de Nova York filmando e
um funcionário do governo que chega
com um cartãozinho do Ministro
de Relações Exteriores desculpando-se
por não ter comparecido e pedindo-me
que reserve o dia seguinte
para almoçar com o Presidente da
República, que está ansioso por ouvir
o timbre de minha voz… Imaginar
uma vitória tão suprema, evidentemente
é capaz de me pôr louco!
Um triunfo proporcionado a
meus recursos não me põe louco,
mas a ficção pode fazer-me delirar.
Por quê? Porque é inebriante.
Nervosismos e inseguranças
gerados pela falta de
conhecimento próprio
Também em relação à possibilidade
de fracasso: se eu sei mais ou menos
o que sou, sei que não sou capaz
de reeditar as proezas oratórias de
Demóstenes; e sei também que não
há nenhum perigo de eu, ao fazer
uma conferência, de repente começar
a gaguejar. Podem acontecer outras
coisas, por exemplo, que eu não
saiba contar dinheiro na saída de um
restaurante; mas que eu não saiba
expor fluentemente uma ideia, não
vai acontecer.
Quando não se tem nenhuma ideia
real de si mesmo, fica-se sujeito verdadeiramente
a pânicos e tensões. A
alternação de um delírio de esperança,
um apogeu de esperança, com pânicos
horrorosos, constitui um sistema
de compressão e descompressão
contínua. Nesse sistema, as pessoas
se debatem no nervosismo, na insegurança
completa, que provoca uma espécie
de desabamento ou uma espécie
de golpes dados no ar completamente
errados, seguidos de fracassos
e outras coisas do gênero.
Há um ponto curioso: em geral,
todo “mega” o é com qualidades que
não possui. De maneira que a pessoa,
no lugar de aprimorar as qualidades
que tem, procura o golpe por
onde pode fazer brilhar as qualidades
que não tem. E daí vêm consequências,
a partir das quais eu não
sei até onde se chega.
Imaginemos alguém que seja realmente
dotado para negócios. Ele
não tem “megalice” alguma disso.
Ele vem de um banco, onde fez uma
transação importantíssima, puxa um
Estátua de Demóstenes - Palácio
da Justiça de Bruxelas
Jean Housen (CC3.0)
caderninho e tira de dentro algumas
incumbências. Às vezes são coisas
pequenas, como ver se foi colocado
um vidro na janela de casa.
Uma pessoa que não tenha jeito
para negócios, se for falar com um
banqueiro para uma transação qualquer,
se julga degradada se tiver que
executar uma incumbência pequena
logo depois…
Tudo gira, portanto, em torno do
fato de que as pessoas não têm um
conhecimento razoável, verdadeiro,
consistente, do que verdadeiramente
valem. Isso fica numa espécie de
lusco-fusco, uma espécie de indefinição.
Com – volto a dizer – apreensões
horríveis e esperanças tremendas,
representações enormes, truques
de toda ordem; cada um faz o
truque como consegue, bem ou mal
sucedido, pouco importa, e depois
tem, naturalmente, uma sensação de
instabilidade e de crise.
Aqui está descrita a “megalice”.
A necessidade de conhecer-se
a si mesmo
O ponto de partida desse problema
é a pessoa não se conhecer a si
própria. É não ter noção de qual é,
mais ou menos, a bitola dentro da
qual pode esperar alguma coisa de
si, mas jogar-se desde logo nas nuvens.
Ela não tem a ideia do que é e,
por causa disso, tem as maiores esperanças
e as maiores ilusões, mas
também as maiores apreensões e o
maior pânico. Vive num clima de insegurança
contínua e, com a insegurança,
vem todo o resto, inclusive as
crises de pureza.
Há tempos estava conversando
com dois amigos nossos a esse respeito.
Julgando auxiliá-los, eu disse o seguinte:
“Um bom modo de se saber o
que se é, é procurar prestar atenção
na opinião que os outros têm a respeito
de nossa pessoa. Essa opinião nunca
é inteiramente objetiva, mas oscila
entre um pouco mais e um pouco me-
19
O pensamento filosófico de Dr. Plinio
nos, daquilo que nós somos. Ela tem,
portanto, uma certa quota de verdade.
De maneira que, para a pessoa
começar a formar uma opinião a respeito
de si mesma, é interessante começar
por observar isso”.
Perguntei aos dois interlocutores
se haviam entendido e se achavam
útil esse método. Disseram-me
que sim. No entanto, percebia-se na
fisionomia deles uma perplexidade,
e um deles explicitou-a: “Dr. Plinio,
o senhor está enganado a nosso respeito.
O senhor julga que nós sabemos
o que os outros pensam, mas na
realidade nós desconhecemos. De
maneira que aquilo que o senhor nos
dá como ponto de referência, não
funciona”.
Como se diz em francês, “de fil
en aiguille”, fazendo o
fio passar por uma agulha,
conclui-se que o
pressuposto para resolver
este emaranhadíssimo
problema é ter conhecimento
do conceito
que os outros têm. É
preciso que fique bem
clara a importância desse
ponto: se eu entrever
o que os outros pensam
de mim, fazendo alguns
descontos criteriosos e
cautelosos, chego mais
ou menos ao que sou.
Eu nunca devo me
julgar conforme as críticas
que me fazem nas
más horas. Mas há uma
faixa, que não fica precisamente
no meio, dentro
da qual eu estou; esta
é a minha figura real.
Então nasceria o problema
de saber como
se julga, como se forma
uma opinião a respeito
do que os outros pensam
de nós.
A conversa a que aludi
estava nesse ponto:
Arquivo Revista
“O senhor baseou seu remédio num
pressuposto que não existe”. É o que
vou passar a fazer.
Como saber o que os
outros pensam de nós
Dr. Plinio em 1972
Para sabermos o que os outros
pensam a nosso respeito, devemos
analisar como é o trato dos demais
e como é que nós mesmos os tratamos,
porque é no trato que isso se exprime.
Consciente ou subconscientemente,
a impressão que eu causo a alguém
se reflete no trato que eu recebo.
Esse é o princípio fundamental.
Para isso posso fazer-me a seguinte
pergunta: o trato que os outros
têm para com alguém é de que
ele é especialmente inteligente; então
vou observar o trato que se tem
para com as pessoas habitualmente
tidas como inteligentes e verificar
se há um trato igual para comigo. Às
vezes é uma comparação escalpelante,
mas, se é para saber… é preciso
olhar! Não há outro modo.
Por exemplo, eu noto que os outros
têm para com os que são especialmente
inteligentes graus diferentes
de reconhecimento, manifestados
no modo de tratá-los. Então cabe a
pergunta: eu, em que grau sou colocado?
A resposta dá mais ou menos
o nível de inteligência que se possui.
Ou então, alguém que queira saber
se é agradável. Ele deve observar
como são tratadas as pessoas reconhecidamente
agradáveis e, depois,
observar como ele mesmo é tratado.
E isso pode ser feito
com todas estas qualidades
que a “megalice”
pleiteia – inteligente,
agradável, engraçado,
fino, rico, bonito, todas
as misérias que quiserem
–, porque a cada
qualidade corresponde
um modo de trato. Isso
é inevitável.
É assim que cada
qual pode situar-se e encontrar
o seu lugar, basta
perceber qual é a opinião
que os outros têm a
nosso respeito. Ela nunca
é tão boa quanto esperaríamos,
entretanto,
em geral, também não
é tão ruim como recearíamos.
Eu compreendo que
possa ser árduo fazer isso.
Aconselho que esse
exercício seja feito
aos poucos. Esta é uma
matéria que se deve tratar
de esguelha e não se
afundar nela, porque é
por demais dura. Mas aí
teremos uma revelação
20
a nosso respeito e a respeito dos outros.
A galeria dos homens
incompreendidos
Alguém poderia dizer-me o seguinte.
“Dr. Plinio, o princípio que
o senhor dá comporta numerosas e
importantes exceções. A História está
cheia de exemplos de pessoas que
foram desconhecidas no seu tempo
e aplaudidas nos séculos posteriores.
Elas constituem a grande galeria dos
homens incompreendidos. Eu não serei
também um desses incompreendidos?
O senhor mesmo me compreenderá
e terá visto em mim aquilo que
eu vejo e que eu não ouso dizer-lhe,
senão vou ser chamado de ‘mega’?”
Essa seria uma saída, é até uma
boa saída.
Mas a este eu responderia: “Meu
caro, para quem não sabe nada a respeito
de si mesmo, comece a julgar-
-se segundo esse critério. Numa segunda
etapa, verifique se você é exceção
ou não. Comece por conhecer
a regra. Depois, você vai ver também
que na História figuram muitas exceções,
porque ela propriamente consigna
as exceções e não as regras gerais,
ela é exatamente, até certo ponto,
uma galeria de exceções. Mas tais
exceções são muito menos numerosas
na vida quotidiana.
Outro poderia dizer-me então:
“Mas, Dr. Plinio, há um outro fato: é
que o filho da luz nunca é devidamente
admirado entre os filhos das trevas.
Nosso Senhor Jesus Cristo mesmo,
que continha em Si todas as perfeições,
não foi admirado; pelo contrário,
foi odiado pelo povo hebreu”.
Essa é uma afirmação que precisa
ser analisada com cautela. Que Nosso
Senhor Jesus Cristo foi odiado é
evidente. Mas que Ele não foi admirado
é incomparavelmente menos
evidente. Eu até tenho como certo
o contrário, pois o povo admirou-O
e odiou-O; reconheceu muitas das
Flagelação de Nosso Senhor - Museu Unterlinden, Colmar, Alsácia
qualidades incomparáveis que Ele tinha
e odiou-O por causa disso. Toda
a comoção que houve em Israel
por causa d’Ele, era uma prova
da admiração que se Lhe tinha, porque
ninguém iria deixar-se convulsionar
por um joão-ninguém. Ou seja,
o ser odiado por muita gente, ainda
mais quando a razão dominante
não é conforme à Doutrina Católica,
é um modo de admiração com um sinal
negativo na frente, mas é admiração.
O grande ódio só é produzido
por aquilo que é grandemente odiável.
Logo, havia grandeza.
Para fazer desabrochar
todas as qualidades, é
indispensável o esforço
Ao aconselhar esse exercício para
chegarem ao conhecimento de
si mesmos, eu não indico que verifiquem
que valor lhes dão os filhos
das trevas; eu digo que procurem ver
que valor lhes dão os filhos da luz.
E faço ainda um adendo que não é
propriamente um ponto de Doutrina
Católica, trata-se apenas de uma opinião
pessoal, mas, enfim, eu a tenho:
a pergunta “o que é que eu valho”,
está exagerada em sua importância.
As qualidades humanas são muitíssimo
elásticas e, assim como um
homem comum esforçado pode conseguir
muito de si, uma pessoa muito
dotada, se não for diligente, em geral
obtém pouco de si. Portanto, é mais
importante para um homem analisar
o esforço que ele faz para manter
o aproveitamento de suas qualidades,
do que conhecer quais qualidades
naturais possui.
O principal é saber se ele formou
uma ideia exata, segundo a Doutrina
Católica, do que a qualidade é, e se ele
tende para ela como se deve. O que é
uma coisa completamente diferente.
Por exemplo, o que é, segundo a
Doutrina Católica, um homem agradável?
Quais são os vários modos pelos
quais um homem pode ser agra-
Samuel Hollanda
21
O pensamento filosófico de Dr. Plinio
dável? Qual é o esforço que
uma pessoa faz para aproveitar
suas qualidades e se
tornar agradável? Sendo
que nem todo mundo tem
obrigação de ser agradabilíssimo,
é claro, mas, pelo
menos, razoavelmente,
qual é o esforço que se faz?
O problema todo está no
empenho, é preciso apelar
muitíssimo para o conceito
de esforço, que supõe um
ideal bem concebido, e, depois,
a aplicação da vontade
em fazer coisas penosas para
atingir aquele ideal.
O exemplo de
Demóstenes
Arquivo Revista
É conhecida a figura de
Demóstenes que alguns
consideram um dos maiores
oradores de todos os tempos.
O grande Demóstenes queria
aprender a ser um orador que impressionasse
as multidões nos comícios
populares de Atenas; no entanto,
ele era gago e, ademais, tinha por vício
um movimento de ombros muito
desajeitado. Ambas as coisas podiam
facilmente provocar vaia, pois o povinho
não perdoa o ridículo. Ele percebeu
que, colocando uns pedregulhos
dentro da boca, corrigia seu defeito de
dicção. Então ele se dirigia a um lugar
inteiramente ermo e lá falava em altos
brados. Pendurava também um escudo
sobre o ombro o qual ele tinha tendência
de mover, a fim de conservar
aquele membro na imobilidade. Ele
fez o que nós chamaríamos hoje em
dia de “educação de reflexos”. Esse foi
o meio pelo qual Demóstenes eliminou
em si dois defeitos que teriam cortado
sua carreira oratória.
Imaginemos um “geração-nova”
numa ilhota, sozinho… Em primeiro
lugar, o “geração-nova” é gregário,
não gosta de fazer nada a sós. E é evidente
que é cacete: quanto trabalho
Dr. Plinio em 1972
até descobrir que colocar pedrinhas
na boca corrige a gaguice; arranjar um
escudo e falar horas e horas ao vento,
sem ninguém notar, desenvolvendo
a voz e os pulmões, numa autocrítica
tremenda, até se tornar um grande
orador… Se Demóstenes fosse negligente
teria chegado a ser quem foi?
Nem de longe! Portanto, ao invés de
ficarmos em torcidas, esforcemo-nos
para ser, e aí de fato seremos!
Como sabemos, o esforço, quando
se tem em vista servir a Deus Nosso
Senhor, se consegue por meio da graça,
obtida por intermédio de Nossa
Senhora, Medianeira Universal, em
razão da misericórdia d’Ela e das orações
que nós fazemos. É assim que se
tem o ânimo para fazer esforço.
Aprimorar as qualidades
unicamente para a
maior glória de Deus
Tudo isso partindo do princípio
de ser legítimo à pessoa obter essas
qualidades. É legítimo a um católico
querer aprimorar sua inteligência?
É legítimo querer ser um
grande orador?
Em tese, sim. Se Deus
me concedeu meios para
conhecer minhas deficiências
humanas e naturais –
nem digo os defeitos morais
– está nos planos da Providência
que eu as corrija. De
maneira que, por esse prisma,
é legítimo. Mas a razão
pela qual eu devo desejar
esse aprimoramento é inteiramente
diversa. Eu não
devo querer aprimorá-las
para chegar a ser mais que
os outros, mas unicamente
para maior glória de Deus.
Portanto, com desapego,
despretensiosamente.
Imaginemos uma pessoa
nascida numa categoria
social distinta e que queira
ter as boas maneiras que
lhe são próprias. É uma muito boa
razão, é ordenado e está bem que seja
assim. Ou uma pessoa com muito
talento para pintura. Ela pode dizer:
“Eu tenho este talento, eu quero
aprender a pintar. Deus concede
o talento para a pintura para que os
que o têm exerçam-no para a manifestação
da sua glória. Eu vou, portanto,
pintar bons quadros”.
Mas, por esses exemplos, vê-se
quão perigoso é se servir de uma suposta
aptidão como mero pretexto
para a “megalice”. E como, portanto,
é preciso ter cuidado para não
ir atrás dessa razão meramente teórica.
É somente depois de se ter adquirido
um domínio muito grande
sobre a própria “megalice”, que se
pode permitir olhar as coisas debaixo
desse ponto de vista.
Nossa Senhora pede a
entrega de tudo para o
serviço da Santa Igreja
Para nós que temos uma vocação
de tanto alcance, esse raciocínio não
22
é oportuno, porque nós fomos suscitados
para um trabalho tão grande
dentro dos planos da Providência,
que devemos nos considerar como
convidados a uma dedicação integral.
Tudo quanto é nosso, Nossa Senhora
nos pede – como ao moço rico
do Evangelho – que demos a Ela para
seguir Nosso Senhor Jesus Cristo.
Nós devemos considerar que toda
nossa capacidade, nosso talento, devem
ser exercidos unicamente com a
intenção de servir a Igreja Católica e
nada mais. É o que é próprio a nós.
Do contrário cometemos uma infidelidade
para com a nossa vocação
e fazemos como Ananias e Safira,
que disseram entregar tudo, quando
na verdade conservaram algo consigo.
É bem sabido o que aconteceu
(cf. At 5, 1-11).
Como, então, alguém
pode adquirir todas as suas
qualidades pelo desabrochar
de todas as potencialidades
que há nele?
Voltaire afirmava que,
se houvesse um exército
no qual todos os soldados
acreditassem firmemente
em Deus, lutando
contra um exército onde
todos estivessem certos
de que Deus não existe,
o esquadrão vitorioso
seria necessariamente
o daqueles que acreditavam
em Deus. É evidente,
pois não há maior estímulo
para se fazerem
bem-feitas todas as coisas
que o amor a Deus.
São Francisco
Solano, violinista
exímio por
amor a Deus
Exemplo disso podemos
encontrar em São
Francisco Solano, missionário
no Paraguai. Ele tocava violino
tão bem que, com os sons harmoniosos
que produzia, aplacava a sanha
dos bugres com os quais fazia
apostolado. Eu conheço poucas coisas
tão graciosas quanto imaginar índios
com os rostos pintados de preto
e vermelho, com penas no cabelo,
maus odores de toda espécie, um hálito
de assustar, pulando, produzindo
ruídos cacofônicos, com sanhas
antropofágicas, maus humores e infestados
por demônios, e São Francisco
Solano, vendo a tempestade
temperamental que subia, tomar o
violino e começar a tocar… Os selvagens
começavam a sorrir, sentavam-
-se... estavam aplacados.
Nem Davi tocando harpa para expulsar
os espíritos que estavam em
São Francisco Solano - Catedral de Lima, Peru
Saul me dá uma ideia tão magnífica
quanto São Francisco Solano nesse
fato. Saul era infestado pelos demônios
e tornou-se um filho das trevas,
mas não era um bugre.
Diante disso, imaginemos que
São Francisco Solano tivesse raciocinado
do seguinte modo: “Eu vou
ser um grande violinista, desenvolvendo
os dotes que Deus me deu.
Vou me fazer aplaudir nas principais
cortes da Europa e depois vou
para o Paraguai aplacar os índios”.
Ele não iria ao Paraguai e, se fosse,
não aplacaria os índios. Poderia inclusive
tocar melodias muito bonitas,
mas os índios acabariam por tomar
o violino, quebrá-lo na cabeça
de São Francisco, matá-lo e, fazendo
uma fogueira, comê-lo. É o destino
que poderia ter tido
esse grande violinista, se
fosse “mega”.
Como ele conseguia
tocar de modo tão extra-
Timoteo Reis
ordinário, tornando-se
emocionante para aqueles
bugres? Desejando
de toda alma a glória de
Deus no universo inteiro,
a propósito daqueles indígenas.
Amemos, portanto, as
coisas de Deus e nos entreguemos
à Causa de
Nossa Senhora com toda
a força, e nossas qualidades
naturais desabrocharão.
v
(Extraído de conferência
de 25/3/1972)
1) A partir do termo “megalomania”
Dr. Plinio criou
a palavra “megalice”, a fim
de designar o vício de quem
atribui a si mesmo qualidades
que não possui ou então
as exagera.
2) O que tem “megalice”.
23
Dr. Plinio comenta...
Marcio S.
Grandes sonhos que se
projetam no futuro e
fazem a História - I
Há na alma humana, quando ela procura viver em
estado de graça, uma forma de retidão perante Deus
que a leva a querer sacrificar-se. A oblação, para a
alma reta, é um sonho, e um sacrifício não é um
pesadelo. O verdadeiro amor pede a imolação.
Arquivo Revista
Começaremos a tratar dos seguintes
temas: o papel dos sonhos
enquanto aspiração, nostalgia
e esperança; o Reino de Maria
prefigurado no Antigo Testamento;
Jerusalém, a cidade perfeita; Salomão
se não tivesse caído; o Evangelho,
o Reino de Maria, a Cristandade,
a Idade Média, a gentilidade. Quando
o inocente sonha, ele planeja.
Do subconsciente à
idealização das aspirações
Dr. Plinio em 1981
Já tive ocasião de lhes dizer que
a expressão adequada para designar
sonhos é propriamente aspirações,
no sentido etimológico da palavra,
aquilo pelo qual aspiramos, que enche
os pulmões. É parecido com algo
que pensamos, figuramos rationabiliter,
1 razoavelmente, com compostura
24
Luis C.R. Abreu
mental e que constitui para nós uma
alegria e um entusiasmo. Nessas condições,
o sonho é em nós uma nostalgia,
uma esperança, uma aspiração.
Em todo homem o aspirar é, ao
mesmo tempo, uma nostalgia e uma
esperança. Acaba sendo o próprio de
cada episódio da vida e das circunstâncias
as mais diversas que a pessoa,
ainda que possa ter o máximo
de consciência, terá sempre um certo
elemento subconsciente. E muitas
vezes nós conscientizamos a dor
de certos episódios e não conscientizamos
a alegria e o bem-estar que a
acompanham. De maneira que, passada
a dor, o espírito humano percebe
que nem tudo quanto foi sentido
corresponde à imagem que se conservou,
mas que ficaram no subconsciente
certos elementos dos quais só
então se dá conta. Ele fareja esses
elementos e percebe haver algo que
não tinha percebido, mas que havia
vivido naquela ocasião, estava subconsciente
e era deleitável por este
ou por outro aspecto, e confere uma
nostalgia.
Em geral, é esse elemento esquecido
que incorporamos no nosso sonho.
Ou seja, aquilo que se prolonga
em nossas aspirações, ou aquilo de
que nos lembramos e incorporamos
a elas. Porque há um certo elemento
inefável que só se inala inteiramente
e que dá uma impressão especial depois
de passado o momento.
O mesmo se passa também com a
dor. Depois de passadas certas alegrias,
ao vermos um lugar, revermos
uma fotografia, uma pessoa, é aquela
dor que volta e da qual nem sempre
tínhamos consciência, apesar de
que o homem mais facilmente conscientiza
a dor do que a alegria. A dor
subconsciente é mais rara do que a
alegria subconsciente, mas, enfim, às
vezes é uma dor que vem à tona, e a
pessoa revigora aquilo com uma especial
pungência.
Recordações do passado que
se projetam para o futuro
Ambas as coisas se deram, por
exemplo, comigo, em duas circunstâncias.
Em muitas circunstâncias,
porque se dão com todo mundo,
mas só posso exemplificar com casos
meus, pois são os que conheço por
dentro. De maneira que não me levem
a mal.
Havia uma casa em um lugar de
São Paulo – ela já não existe, foi destruída
– que ficava vizinha a um prédio;
não era uma casa particular,
mas uma construção pública, na qual
fui muitíssimas vezes e onde tive de
enfrentar muitas lutas internas e externas
pela minha perseverança.
Lembro-me de uma sala onde me
comprazia muito estar. Havia ali
uma série de razões de gáudio para
mim, satisfações; o mobiliário, a decoração
eram bastante a meu gosto,
e a frequentei muito. Ora, por essas
ou aquelas razões, cessei de frequentá-la
e passei talvez anos sem
entrar nela.
Em certa ocasião tive de entrar ali
novamente; a sala era a mesma, mas
o aspecto material estava transformado,
os móveis não estavam mais
lá. Eu entrei e tive um choque à maneira
de estremecimento. Era a recordação
pungente de tudo quanto
naquela sala eu tinha sofrido, mas
foi aí que me dei conta – dentro de
uma intencional impassibilidade necessária
para aguentar o que eu estava
aguentando –, da enormidade do
que eu tinha sofrido.
Assim, as recordações do passado
se projetam para o futuro e influem
nos sonhos de um modo especial.
Como?
Vamos analisar, por assim dizer,
o substrato, as profundidades da alma
humana das quais o sonho pode
nascer.
Da gratidão ao desejo
de sacrifício
Há, na alma humana, quando
ela procura viver em estado de graça,
uma forma de retidão perante
Deus, Nossa Senhora e a Igreja, pela
qual ela, de tanto admirar quer sacrificar-se.
O verdadeiro amor pede
a imolação. E a pessoa sentiria uma
frustração e um vazio da vida se não
houvesse sacrifícios.
O Adão reto, se estivesse vivendo
no Paraíso, se soubesse não haver a
prova, entraria numa espécie de liquidação
criteriológica. Porque ele,
de tanto agradecer, em certo momento,
deveria dizer a Deus: “Meu
Senhor e meu Pai, o que posso fazer
por Vós, que seja algo que eu tire de
mim?”
25
Dr. Plinio comenta...
Flávio Lourenço
Há um trecho de
um Salmo que diz:
Quid retribuam Domino
pro omnibus…,
que retribuirei a Deus
por todas as dádivas
que Ele me fez? Calicem
salutaris accipiam,
et nomen Domini
invocabo (Sl 115,
4). Eu tomarei o cálice
da salvação e invocarei
o nome de Deus.
O cálice da salvação
contém o Sangue
infinitamente Precioso
de Nosso Senhor.
Ou seja, não tendo o
suficiente para retribuir,
eu alego a condição
de redimido pelas
dores d’Ele; invocarei
o nome e o holocausto
d’Ele para agradecer
aquilo que eu obtenho.
Mas a gratidão
tem uma apetência de
sacrifício.
E não é só a gratidão
pelo favor recebido,
é também o descompasso.
Alguém
que é muito maior do que nós – no caso
de Deus infinitamente maior, no caso
de Nossa Senhora incomensuravelmente
maior – e se digna estabelecer
relações conosco; nós tendemos, por
um amor à reta ordem do ser, de algum
modo, a compensar aquela defasagem
oferecendo algo, o qual, se nos
fizer falta, mais contente ficaremos.
Sonhar com a batalha, com
a dor, com o holocausto
Imaginem uma casa de caboclo,
na qual entra por bondade, vamos
dizer, uma rainha ou uma princesa, a
soberana do país ou a dona da fazenda.
Ela sabe que tem alguém doente
ali, então entra para fazer uma visita
de caridade, de gentileza.
Santa Isabel da Hungria dando esmolas - Museu
Suermondt-Ludwig, Aachen, Alemanha
Lá está a mãe da criança, a criança
e a família toda se for hora do almoço,
encantados com aquela presença.
Conversam um pouco… Na casa há
um bouquet de flores silvestres muito
bonitas que foram colhidas para alegrar
um pouco o ambiente. A dama,
rainha ou princesa, o vê e diz:
— Que lindas flores!
A dona da casa sorri, vai correndo
por detrás dela e o entrega ao lacaio:
— Por favor, deponha aos pés da
rainha quando ela chegar à sua casa.
É a retidão.
Alguém dirá: “Mas vai fazer falta
na casa”. A dona contestará: “Mas é
por isso! O gostoso está em que me
fará falta e a rainha notará. Ela verá
por aí como eu a quero e como fico
alegre em dar-lhe algo”.
A oblação, para a
alma reta, é um sonho.
E um sacrifício
não é um pesadelo.
Nessa perspectiva,
um homem reto,
quando não teve ainda
grandes sacrifícios
na vida, sonha com
os que vai ter! E depois
de os ter, diante
da imensidade – é
assim a alma humana
– do que sofreu, daquele
repelão que levou,
que poderia ser
chamado de repelão-
-revelação, percebe
que muito por detrás
desabrochou a ideia
gaudiosa do sacrifício
pago, da oblação
feita, do dever cumprido,
da dor que foi
sofrida e que se tocou
para frente. Essa é a
alma reta.
E projeta para o
futuro uma esperança
e um sonho: novas
lutas, novas batalhas,
até onde for, para
provar a dedicação até onde deve
ser. Pode-se e deve-se sonhar com a
batalha, sonhar com a dor, com a luta,
sonhar com o holocausto como
significado de uma vida. Isto é que
dá à vida o seu tônus.
Percebemos por aí quantas camadas
psicológicas existem nesse estado
de espírito chamado sonho, anseio,
aspiração, e como é interessante
irmos destilando essas várias camadas,
em si mesmo como nos outros,
com inteira imparcialidade e
formando ideias, noções.
Degustação de um bolo,
lembranças da geologia
Às vezes viajamos e vemos no caminho
um corte de terreno para a
26
estrada passar, e percebemos haver
camadas geológicas, qualidades
de terras diferentes superpostas. E
me lembro de duas coisas diferentes,
ambas fazem um pouco parte de
dois sonhos diversos. Recordo-me
desse sobrepor das camadas na alma
humana e, ao mesmo tempo, da época
em que eu era pequeno, em que
havia uma confeitaria – os meus sonhos
muitas vezes são gastronômicos
– numa loja, hoje proletarizada,
outrora das melhores de São Paulo,
Casa Mappin. Dividia-se em dois ramos:
Mappin Well, Mappin Store.
A Mappin Well é o produto abastardado
e degenerado do que existe
hoje na Praça Ramos de Azevedo.
A Mappin Store vendia objetos finos,
de luxo, pratas inglesas etc.
Eles tinham uma casa de chá muito
boa, na qual às vezes me levavam
e me serviam um bolo inglês que eu
nunca vi em outros lugares: era feito
de camadas de bolos cor de rosa,
verde pistache e outras, lembrando-
-me a geologia, embora não a conhecesse
naquele tempo. Uma dessas
camadas era molhada a licor.
Ainda me lembro de mim comendo
aquilo com apetite truculento, e
o olhar discretamente atento de Dona
Lucilia a me ver tomando um pedaço,
outro, outro, e o pânico da indigestão…
Aquela sucessão de impressões
me davam a ideia confusa
que dizia, no fundo, o seguinte:
“Não há nada como uma coisa boa
junto a outra coisa boa. Na sucessão
é mais gostoso do que se fosse uma
só”.
São as duas ideias que agora me
vêm juntas. Uma me lembra das alegrias
de um período em que a inocência
não tinha ainda tomado as
grandes pancadas. Outra me fala,
pelo contrário, das pancadas, para
mim terríveis, alternadas com outras
coisas que não foram pancadas, pelo
contrário, a alegria de as ter levado.
Tudo isso vem junto, formando as
várias “camadas de alma” que existem
em todos, desde que se deem ao
trabalho de se examinarem.
Compreende-se bem como a Revolução
faz mal procurando impor à
pessoa que não preste atenção nisso,
por ser bobagem… É o suco da vida!
Exatamente o melhor que fica da
vida é essa recordação, a qual é um
prelúdio do Juízo Final, quando encontrarmos
a par de todas as nossas
ações não boas, também as boas.
Então, tudo isso acaba formando
no fundo da alma uma amálgama
com perfumes diversos. Se pudesse
haver caleidoscópios de perfumes,
que, quando fosse o caso, a alma girasse
para sentir os aromas… Em geral,
quando se passa por lugares com
os quais temos nexo, quando percebemos,
algo disso se evola; nós nos
lembramos, gostamos, vivemos. É viver
projetando para o futuro, porque
tudo isso alimenta o sonho.
Explicitar o passado
Casa Mappin em 1932
Assim como os homens têm essas
recordações, também as têm os povos.
E o povo carrega em seu subconsciente
um mundo de impressões
que a História deixou e que a pessoa
não sabe explicitar a si mesma, a
não ser quando aprende a História;
só então ela confere e desperta uma
série de impressões no fundo da alma
e, subconscientemente, exclama:
“Ah! É mesmo! Oh! É verdade!”
Isso modela a mentalidade do homem
com o coeficiente de colaboração
que, volens in nolens, 2 todo mundo
dá para a formação da opinião
pública e para a marcação dos destinos
de um país. De maneira que
aprender História é explicitar o passado
e projetar para o futuro um rumo
que deve vir.
Nesse momento, convém pensarmos
em todos os homens que há na
Terra, de toda espécie, inclusive os
que estão dormindo ou agonizando
e perderam a consciência de si; todos
esses homens vivendo com tudo
isso se remexendo dentro deles, se
externando de cá, de lá, de um modo
ou doutro. Porque até no modo
de dormir, no de agonizar, o homem
indica quem ele é.
Pairando em cima de toda essa
complexidade, está a corte celeste, no
ápice da qual se encontra Nossa Senhora
e, no alto, Nosso Senhor Je-
Divulgação (CC3.0)
27
Dr. Plinio comenta...
sus Cristo, a Santíssima Trindade. Todos,
o tempo inteiro, prestando atenção
no que acontece, e vendo em nós
mesmos aquilo que não conhecemos,
mas que o amor a Deus, ou a tibieza,
ou o ódio a Ele, regulam a fundo de
algum modo. De maneira que não é
sem alguma responsabilidade nossa,
e às vezes com grande responsabilidade
nossa, que a História se passa.
E aí está a História e a essência do
momento presente. É Deus que paira,
Nossa Senhora e os Anjos que rezam,
os demônios que zumbem e atormentam,
há os que tentam, os homens que
cambaleiam, andam ou se precipitam.
Exercícios de presença
diante de Deus
Nós somos um ponto dentro
dessa reta. É uma beleza!
Como seria bom para
nós conjugar a nossa vocação
com a vida de piedade. Parar
e pintar, evocar diante de
nós esse quadro: todo o gênero
humano, dentro dele os
que pertencem à Santa Igreja
Católica; dentro da Santa
Igreja Católica, os chamados
mais especialmente para a
Contra-Revolução; e a corte
celeste, Anjos e Santos, Nossa
Senhora, Nosso Senhor
Jesus Cristo, Deus Padre e
Deus Espírito Santo, todos
olhando nesse nível e nós pararmos
e rezarmos. Como
faria bem isso!
Seria um ato de presença
da opinião pública e de
si mesmo diante de Deus.
Não olhar para si, somos um
ponto dentro da reta. Olhar
para o conjunto. Que nobre
e belo exercício seria!
Alguém diria: “Deve-se
rezar durante esse tempo
quantas coisas?” Tome um
terço, segure-o na mão, porque
é como se estivesse com
Arquivo Revista
a ponta do manto de Nossa Senhora
na mão, dá uma impressão inefável,
é incomparável! Pegue o terço, por
exemplo, mas no momento não reze,
deixe-se penetrar pelo quadro.
Querem algo que também diz
muito? Nosso Senhor Jesus Cristo
nos contemplando no alto da Cruz.
Já não são onze e meia, passaram-
-se três minutos, e todo este quadro
em algo já se alterou, como as sombras
e as luzes numa floresta. O Sol
não para, nunca cessará, vai se alterando,
tudo caminha. Assim essa
meditação caminha também.
Em três minutos o quadro se alterou…
Mas, vamos imaginar Nosso
Senhor Jesus Cristo do alto da
Crucificado (coleção particular)
Cruz sofrendo e pensando neste momento,
nesta hora. Ele teve em vista
a nós, em concreto, nesta hora, enquanto
fazíamos esta meditação, e
sofreu para que ela fosse feita. Provavelmente
Nossa Senhora, ao lado
d’Ele, conhecia tudo quanto Ele via
e pensava, e rezava por nós para que
isto saísse retamente.
Os que se agradam do que estou
dizendo e se deixam penetrar por
isso; os que são indiferentes, estão
pensando na abotoadura; os que birram…
todos eles, todos nós, causamos
a Ele e a Ela, naquela ocasião,
uma impressão: uma dor a mais ou
uma alegria que vinha atenuar-Lhes
um pouco o sofrimento.
De maneira que, por incrível
que seja, nós estamos
aumentando ou diminuindo
as dores de Nosso Senhor
Jesus Cristo na Cruz, porque,
nessa perspectiva, presente
e passado se fundem.
É uma meditação que vale
a pena ser feita. Alguém dirá:
“Mas não é usual em devocionários”.
Sê-lo-á no Reino
de Maria, porque ela é inteiramente
ortodoxa, eu lhes
garanto. Por que não fazê-la?
Tudo isso se relaciona, infelizmente,
apenas com o
item primeiro da exposição,
e eu passo, portanto, para o
segundo: O Reino de Maria
prefigurado no Antigo Testamento;
Jerusalém, a cidade
perfeita; Salomão se não
tivesse caído… v
(Continua no próximo número)
(Extraído de conferência
de 3/6/1981)
1) Do latim: racionalmente,
com o pensamento.
2) Variação da expressão latina
nolens volens: quer queira
quer não.
28
Apóstolo do pulchrum
O embate entre a
Revolução e a
Contra-Revolução - I
A luta entre a Revolução e a
Contra-Revolução é a oposição
fundamental entre duas
concepções de vida e é, no
mais profundo, uma questão
metafísico-religiosa. A Revolução
não tolera o plano divino no
qual os seres devem estar
numa harmônica gradação. A
beleza dessa unidade posta na
variedade pode ser contemplada
nos mais diversos aspectos da
criação e da Civilização Cristã.
Dário Alberto
Quando analisamos a luta entre a Revolução e a
Contra-Revolução, não devemos ver apenas o
combate de dois movimentos ou dois partidos,
e sim a oposição fundamental que há entre duas concepções
de vida, duas ordens de coisas profundamente diversas:
de um lado, a concepção católica e contrarrevolucionária
do universo, e, de outro, a ordem de valores revolucionária
que as hostes do mal visam implantar.
Como razão profunda dessa luta encontramos uma
questão metafísico-religiosa. Procuraremos mostrar, no decorrer
desta exposição, a existência dessa questão, que é a
Nossa Senhora do Apocalipse
(acervo particular)
29
Apóstolo do pulchrum
Divulgação (CC3.0)
Palácio Anitchkov, antigo Palácio Imperial em São Petersburgo
causa primeira e fundamental da divisão dos campos e dos
espíritos em revolucionários e contrarrevolucionários.
Dois mundos que se defrontam
A história da Revolução Russa de 1917, tão rica em episódios
de intrigas e traições, contém, entretanto, alguns outros
fatos, como o que abaixo relatamos, cheios de nobreza e de
profundo significado para os soldados da Contra-Revolução.
Referimo-nos a um acontecimento cujo protagonista
foi o grão-duque Nikolai Nikolaevich, 1 um fato que se
passou em São Petersburgo. Depois da renúncia do Imperador,
a desordem era completa. A polícia imperial debandou
e o palácio foi invadido. Discursavam nas ruas
os revolucionários, apregoando a hora da liberdade que
chegara, e, imbecilizado, o povo aplaudia.
Em determinado momento dos acontecimentos, passa
uma limousine com dois chauffeurs, tendo na frente o
brasão de armas da família do Czar: a coroa imperial sobre
uma espécie de almofada. É o grão-duque Nikolai Nikolaevich
que chega, pois, sabendo da desordem que reinava
em São Petesburgo, vai ao Palácio Imperial hipotecar
sua fidelidade ao Imperador. Ele ordena que o veículo
abra caminho por entre o populacho. Há oposição, cercam
o automóvel e, percebendo que se trata
de um grão-duque, começam a vaiar e a
partir os vidros.
A limousine para, o grão-duque desce. De
pé, no estribo do automóvel, com sua imensa
estatura e força de Hércules, começa ele
um discurso, descompondo a revolução.
Por fim, ordena a todos que se retirem;
o povo começa a recuar e desaparece. O
grão-duque vence e chega sem empecilhos
ao Palácio Imperial.
Esse fato nos evoca uma cena de
Maria Antonieta muito conhecida,
ocorrida durante a Revolução Francesa.
Surgindo de um balcão de seu palácio,
reduziu ao silêncio, com sua simples presença,
a massa sediciosa que momentos
antes lhe vociferava as piores injúrias.
Não temos, em ambos os casos, símbolos
de dois mundos que se defrontam
e que se excluem? A um espírito superficial
poderia parecer que se tratava
apenas de regimes, de formas de gover-
Divulgação (CC3.0)
30
Grão-duque Nikolai Nikolaevich
no em choque. De fato, havia muito mais. Tratava-se de
uma oposição irreconciliável entre duas ordens de valores,
entre duas maneiras de considerar o universo. Eram,
na verdade, duas “místicas” face a face, duas categorias
do espírito humano, duas ordens de valores supremos e
transcendentais, que se excluíam como o preto exclui o
branco, como o “sim” exclui o “não”.
Isso importa em dizer que, em última análise, estava
em jogo uma questão religiosa. Pois, na oposição entre
aqueles personagens históricos e a massa revolucionária,
estavam envolvidos os mais altos problemas do universo,
problemas que, pela sua grandeza e por sua amplitude,
encerram forçosamente uma questão religiosa.
Sob que aspecto pode-se afirmar isso? Como pode
uma maneira de encarar os problemas do universo encerrar
uma questão religiosa?
Pluralidade e hierarquização que
espelham a perfeição divina
Vamos procurar elucidar essa questão,
considerando o universo nas razões
de sua criação e em suas leis.
Analisando a criação, podemos nos perguntar por que
Deus, tendo em si toda a plenitude, desejou criar a imensa
quantidade de seres que compõem o universo.
Sendo infinitamente perfeito, não precisava criá-los.
E, se é verdade que não havia nenhum motivo que O impedisse
de dar existência ao cosmos, de outra parte razão
alguma existia que O obrigasse a fazê-lo. Em sua
bondade e sabedoria infinitas, Ele assim o quis. E então,
como que de um jorro, uma quantidade incontável de seres
foi por Ele produzida.
Deus Nosso Senhor, além de ter em si todas as perfeições,
vê também em Si todos os graus de perfeição possíveis.
Seu intuito, ao criar tão grande número de seres, foi
fazer com que estes não só espelhassem a sua perfeição,
mas a reproduzissem nos mais variados graus.
Assim se explica o caráter hierárquico que Deus imprimiu
ao universo. Esses graus de perfeição O espelham convenientemente.
Não podia Deus criar uma única criatura que por
si só refletisse todas as suas perfeições tão bem como
o conjunto dos seres criados? Não nos parece que essa
questão possa ser considerada como objeto de uma opinião
unânime dos filósofos, mas somos muitíssimo pro-
A criação - Catedral
de Pádua, Itália
Flávio Lourenço
31
Apóstolo do pulchrum
pensos a pensar que isso seria metafisicamente impossível.
Deus criou um universo composto de muitas criaturas
para que elas, de um lado pela sua pluralidade, de
outro pela sua hierarquização, espelhassem convenientemente
a perfeição divina.
A razão de ser da criação consiste em dar glória a
Deus, espelhando de modo completo e pleno as perfeições
que n’Ele existem.
Essas considerações são importantes para a exata compreensão
do que seja a “Causa Católica”. Poder-se-ia conceituá-la
como sendo o ideal que visa fazer com que a criação
dê glória a Deus, considerada entretanto a criação em
seu todo e não somente em um ou outro de seus aspectos
parciais. É o conjunto das famílias, das cidades, das nações,
da humanidade e, em última análise, do universo inteiro,
que se trata de fazer com que dê glória a Deus.
A beleza se encontra na unidade
posta na variedade
De acordo com a Escolástica, a beleza consiste na
unidade posta na variedade. Julgamos um objeto belo
quando seus elementos variados formam um todo uno.
Os seres fragmentados, sem unidade, não têm nem beleza,
nem capacidade de atração. É a unidade que dá beleza
aos seres, é ela que dá o valor, por seus elementos diversos
e variados. Portanto, a unidade é a forma da beleza;
e a variedade é a sua matéria, elemento secundário,
mas indispensável, da beleza.
De certo modo, cada ser tem em si essa unidade e essa
variedade. É fácil percebê-lo em todos os seres concretamente
considerados. Examinemos, por exemplo, a alma
humana. Verificamos que ela tem inteligência,
vontade e sensibilidade. Eis a variedade na alma
humana. Mas essa variedade está posta na
unidade da pessoa do homem.
O princípio da unidade na variedade tem suas leis,
que consubstanciam o que chamamos de estética do universo.
No estudo dessas leis encontramos a explicação de
muita coisa da Idade Média que encanta os membros do
nosso Movimento, e que faz parte da maneira de ser e de
atuar de nossa família de almas.
Analisemos, em primeiro lugar, as leis da variedade.
Para bem entendermos essa lei, vamos servir-nos de
um exemplo. Tomemos uma sala com vários objetos: poltronas,
quadros, lustres, tapete, cortinas. Aí está a variedade
de elementos. Em que condições, entretanto, será
autêntica essa variedade?
Só o será quando cada um dos objetos for muito tipicamente,
muito caracteristicamente ele mesmo. Digamos
que todos esses objetos fossem feitos de uma única
substância – a matéria plástica, por exemplo, tão a gosto
do mundo moderno – e que seus formatos não diferissem
entre si como deveriam, parecendo-se o lustre com a poltrona
e vice e versa; não teríamos variedade. O característico
é, pois, um sinal distintivo da variedade autêntica,
é nele que a verdadeira variedade se realiza.
É essa a razão pela qual tanto nos maravilhamos com
aspectos ricos, característicos e típicos que encontramos
na organização política e social da Idade Média. E é por
isso que defendemos tanto as coisas sadiamente típicas.
O equilíbrio das variedades harmônicas
Por que, por exemplo, temos um movimento de simpatia
e admiração para com um andaluz característico?
É porque nele estão muito nítidas todas as notas que o
tornam diferente de um biscainho ou de um navarrês.
Jorge Láscar (CC3.0)
Lionel Allorge (CC3.0)
Salas do Castelo de Versailles
32
Arquivo Revista
Dr. Plinio, em 1980, durante uma conferência sobre o cavaleiro andaluz
Se nada houvesse senão o homem standard moderno, não
haveria variedade. Julgamos bonito, na Espanha antiga,
o soberano intitular-se “rei de todas as Espanhas”. Sim,
porque cada uma de suas regiões era como que uma pequena
Espanha, com sua arquitetura, suas danças, suas
músicas, tudo muito característico.
Nesse mesmo sentido, é muito interessante, na sociedade
medieval, a diferença nítida que havia entre as
classes sociais. Um guerreiro era tipicamente guerreiro.
Os monges, os comerciantes, os artesãos, os camponeses,
eram marcadamente aquilo que eram. Podemos
imaginar uma rua de uma aldeia medieval: passa um nobre
precedido de um cortejo, logo após um clérigo, depois
um artesão, passa, por fim, um frade. O que torna
essa cena interessante? É o fato de cada um desses elementos
ser autenticamente ele mesmo.
O mesmo podemos admirar no estilo gótico que, sendo
cheio de variedade, conserva uma profunda unidade,
e por isso é equilibrado e harmônico.
A civilização moderna, pelo contrário, odeia a variedade
e idolatra uma pseudounidade. Ela detesta tudo o
que é típico, e, em geral, ama o que é promíscuo e confuso.
Abolindo a variedade e colocando em seu lugar uma
uniformidade sem o menor sentido, a Revolução destrói
a semelhança da criatura com o seu Criador.
Além disso, as diversas coisas devem manifestar um
certo contraste, uma certa oposição, para que sua beleza
seja mais completa.
Contrastes hierárquicos na Santa Igreja
A Igreja Católica tem, em suas instituições, muitas
variedades que chegam ao contraste. Imaginemos, por
exemplo, um cortejo papal entrando no Vaticano. Notamos,
desde logo, os Prelados da Igreja Oriental com toda
a pompa peculiar ao Oriente. Mais adiante, os frades
franciscanos, vestidos de maneira paupérrima, com os
seus simples buréis. Seguem os Príncipes, representando
a nobreza; mais atrás, os militares soberbamente fardados.
Por fim, entra o Papa, rodeado de um fastígio de
glória, enquanto humildes religiosas, rezando, inclinam-
-se à sua passagem.
Há magnífico contraste entre o Papa, que está no pináculo
do poder, diante do qual todos se ajoelham, e um
humilde irmão leigo, que protesta se alguém se ajoelha
diante dele. Essa oposição está cheia de harmonia. É
precisamente nesse contraste, nesse extremo de aspec-
33
Apóstolo do pulchrum
RiccardoP1983 (CC3.0)
Cortejo com Pio XII na Sede Gestatória
tos antagônicos, que a variedade se reveste de toda a sua
riqueza.
O mundo moderno odeia as variedades
postas por Deus no universo
É doloroso verificar como, no mundo moderno, a beleza
está mutilada pela uniformização que a Revolução
impõe aos quatro cantos da terra.
Quis a Divina Providência criar todas as coisas hierarquizadas.
Fazendo os minerais, os vegetais, os animais,
os homens e os Anjos, estabeleceu dentro de cada
uma dessas categorias uma imensa gama de graus intermediários.
Essa hierarquia, cheia de diversidade, é
ao mesmo tempo inteiramente harmônica. Há uma infinidade
de nuances entre os diversos graus, que faz com
que neles não haja saltos bruscos.
Sem esses graus intermediários, aliás, o mundo seria
agreste e inóspito. Imaginemos que o homem vivesse
num mundo em que só houvesse minerais, e que a Providência
o fizesse tirar daí o alimento indispensável ao
seu sustento. Ele se sentiria mal, pois há um abismo entre
o homem e os minerais. Porém, quando junto a si ele
tem vegetais e animais, estabelece-se uma escala natural,
que produz nele uma sensação de bem-estar.
A hierarquia orgânica e cheia de gradações é agradável
ao espírito contrarrevolucionário porque constitui
uma unidade cheia de variedade. Essa lei da gradação,
transposta para o campo político-social, produziu a
sociedade medieval, em que as classes sociais formavam
uma hierarquia suave, com uma infinidade de status intermediários
entre o vilão e o rei.
A Revolução, pelo contrário, odeia a existência de sociedades
com esses entrosamentos cheios de graus, orgânicos
e articulados entre si. Quando muito ela chega
a tolerar que “novos ricos” se arvorem em senhores do
universo, considerando párias todos os outros, sobretudo
as elites tradicionais.
Por que a Revolução quer a eliminação dos graus intermediários
da sociedade? Vejamos os motivos.
Exemplos da sociedade medieval
Consideremos de um lado um rei; de outro, um plebeu
de baixa categoria; e, entre eles, toda uma gradação intermediária,
de acordo com os princípios de beleza que
acabamos de expor. O rei e o plebeu se completam; a be-
34
leza do estado do plebeu vem, de certo modo, do fato de
haver o rei, e a beleza do estado do rei vem do fato de haver
plebeus.
Se só houvesse reis, e não plebeus, pouca significação
teria o ser rei. Pois é a existência do plebeu que dá ao rei
um grande valor.
Tomemos o inverso. Imaginemos, numa botica medieval,
o ourives trabalhando no lusco-fusco, algumas pedras
preciosas aqui, um cálice acolá. Além, um agradável
odor de saborosos quitutes, os móveis de carvalho,
uma cançãozinha de criança. Em uma palavra, o bem-
-estar plebeu. Isso é evidentemente agradável; contudo,
se o mundo todo fosse somente assim, seria horroroso.
O rei e o plebeu, pois, se completam, dão-se um ao outro.
Colocada diante desse quadro e desejando destruí-lo, a
Revolução tinha duas soluções: fazer com que todos fossem
reis, ou com que todos fossem plebeus. Sendo impossível
a primeira solução, adotou a segunda, muito mais conforme,
aliás, ao seu espírito democrático. O resultado é que esses
valores desapareceram quase totalmente da sociedade.
Elemento de formosura na criação
Há ainda um outro interessante tipo da variedade: o
da transformação. Existe no mundo uma transformação
constante, um movimento contínuo. Mas as variedades
de movimento postas por Deus no universo são graduais,
harmônicas, a exemplo das gradações da hierarquia que
analisamos na lei anterior. Essa harmonia do movimento
constitui um elemento de formosura na criação.
Para exemplificar, consideremos o desenvolvimento da vida
humana em um varão
justo. O homem nasce,
desabrocha com um
movimento rico em harmonia
na adolescência e
nobremente se torna maduro;
envelhece em dignidade
e, quando Deus
chama sua alma, é como
que a colheita de um
fruto precioso, que vai
ser levado para o Céu. É
uma bela trajetória.
No entanto, o que
quer o espírito revolucionário?
Ele pretende
que o homem deva ser
mocinho até cair morto.
Arranjados ou pintados,
todos devem parecer
ter a mesma e jovem
idade.
A Revolução não tolera o plano divino que estabeleceu
a desigualdade nas idades. Quando, entretanto, é forçada
a reconhecer a sua existência – que não pode ser, aliás,
objeto de contestação – procura fazê-lo com uma brutalidade
colossal, desconhecendo as gradações entre as
idades e desprezando a velhice que para nada serve, já
que nada produz…
Pode-se concluir isso observando a vida de uma família
antiga e a de uma família moderna. Na primeira,
reúnem-se em uma mesma sala os avós, os pais, as
crianças, os parentes, os amigos; as mais variadas idades
convivem juntas, conversando: variedade na unidade.
Na família moderna, se os pais promovem uma recepção,
os filhos não devem comparecer. Se estes dão
uma festa, os pais – e sobretudo a mãe – devem ausentar-se…
Os pais são chamados pelos filhos de “os velhos”,
e não querem ter com eles maior convívio. É que
a Revolução odeia esse entrosamento, essa articulação
entre as idades, que é uma marca da perfeição divina
que Deus pôs na criação.
Passemos ao estudo das leis da unidade. v
(Continua no próximo número)
(Extraído de conferência de 1/2/1965)
1) Nikolai Nikolaevich Romanov (*1856 - †1929). Comandante
em chefe dos Exércitos Russos durante o primeiro ano da
Primeira Guerra Mundial.
Almoço em família - Museu de Belas Artes de Rouen, França
Flávio Lourenço
35
Nossa Senhora Estrela
do Mar - Basílica da
Assunção de Nossa Senhora,
Maastricht, Holanda
Luis C.R. Abreu
Virgo pulcherrima,
Mater meliflua
Há um cântico a Nossa Senhora que A invoca como Virgo pulcherrima e Mater
meliflua – Ó Virgem lindíssima, ó Mãe melíflua, da qual escorre mel. Ela está
toda circundada de mel.
A conjugação entre a beleza e a doçura não é puramente fortuita, porque há certas formas
de beleza que, sendo embora majestosas, exalam doçura de todos os modos e, no exalá-la,
constituem um novo feitio de beleza, que está muito acima da trivialíssima palavra
“simpatia”.
Simpatia é um modo muito comercial de dizer o que está expresso nessa canção, ou seja,
essa forma de beleza que não é só lindíssima, mas tão doce que atrai toda espécie de benevolência,
exatamente pela bondade que exala.
Nossa Senhora é a Mãe melíflua. Todos aqueles que se aproximam d’Ela sentem sua doçura.
(Extraído de conferência de 24/8/1965)