04.05.2026 Visualizações

Revista eMOBILIDADE+ Nº 14

A revista eMobilidade + dedica-se, em exclusivo, à mobilidade de pessoas e bens, nos seus vários modos de transporte (rodoviário, ferroviário, aéreo, fluvial e marítimo), conferindo deste modo espaço aos mais proeminentes “stakeholders” do setor, sejam eles indivíduos, empresas, instituições ou entidades académicas.

A revista eMobilidade + dedica-se, em exclusivo, à mobilidade de pessoas e bens, nos seus vários modos de transporte (rodoviário, ferroviário, aéreo, fluvial e marítimo), conferindo deste modo espaço aos mais proeminentes “stakeholders” do setor, sejam eles indivíduos, empresas, instituições ou entidades académicas.

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www.eurotransporte.pt/mobilidade-mais/

N.º14

Trimestral | abr/mai/jun | 2026

Diretora: Cátia Mogo

ENTREVISTA

POLESTAR

A VISÃO DE

MIGUEL PINTO

SMART CITIES

HONG KONG

A ARTE DE MOVER

MILHÕES TODOS

OS DIAS

TECNOLOGIA

A REVOLUÇÃO

SILENCIOSA DO

IOT AUTOMÓVEL

SUSTENTABILIDADE

VIDA ÚTIL DAS

BATERIAS DOS

VEÍCULOS

ELÉTRICOS

TRANSPORTE

A MOBILIDADE

QUE NÃO SE VÊ

Ford Mustang Mach-E

Num segmento competitivo,

este SUV elétrico mostra integração

na vida real, entre cidade,

autoestrada e família.

kia ev6

Há uma dualidade entre design

e engenharia que se revela na

estrada, curva após curva

e aceleração contínua.

polestar 2

É no uso diário e no contexto

familiar que este elétrico revela, de

forma clara e consistente, aquilo

que realmente é capaz de entregar.



Revista n.º14 | abr/mai/jun 2026

EDIÇÃO TRIMESTRAL

Email: emobilidademais@invesporte.pt

DIRETORA

Cátia Mogo

EDITOR-EXECUTIVO

Eduardo de Carvalho

REDAÇÃO

Ana Filipe

Márcia Dores

EDUARDO DE CARVALHO

Editor-Executivo

DIRECÇÃO DE PUBLICIDADE

E MARKETING

Margarida Nascimento

Rui Garrett

EDITORIAL

Amobilidade deixou de ser apenas um movimento físico. Hoje em

dia, é um reflexo do tempo, das escolhas tecnológicas e das pressões

energéticas que moldam a sociedade. O automóvel evoluiu

de uma máquina isolada para um sistema interligado. A Internet

das Coisas (IoT) automóvel transforma-o num organismo inteligente,

capaz de comunicar, antecipar e otimizar a experiência de utilização.

A mobilidade torna-se, assim, mais fluida, mas também mais dependente de

dados e de integração.

Na transição para a eletrificação, a questão da vida útil das baterias assume

um papel central. Mais do que a autonomia imediata, importa a durabilidade,

a degradação ao longo do tempo e a forma como estas unidades podem ter

uma segunda vida útil. A bateria deixa de ser apenas um componente técnico

para se transformar num ativo energético com impacto prolongado.

Em paralelo, o contexto económico continua a influenciar decisões e comportamentos.

O preço dos combustíveis não afeta apenas o utilizador final, mas

tem repercussões nas cadeias logísticas, na organização do transporte e na eficiência

global da distribuição de bens. A mobilidade é também uma extensão

direta da economia.

A nível urbano, Hong Kong mostra como a mobilidade pode ir além da funcionalidade,

podendo ser estruturante e cultural. Um sistema de transportes

públicos eficiente, integrado e utilizado por muitos mostra que, quando bem

concebida, a mobilidade coletiva pode ser o verdadeiro motor de uma cidade.

Num contexto de interligação entre tecnologia, energia e comportamento, a

mobilidade redefine-se como um sistema em permanente adaptação. É neste

cruzamento que se desenha o futuro. +

ASSINATURAS

Fernanda Teixeira

COLABORADORES

António Macedo;

Filipe Carvalho

Frederico Gomes

DESIGN GRÁFICO / PAGINAÇÃO

Invesporte

IMAGENS

Pixabay.com | Freepik.com | Canvas

Shutterstock

EDITORA INVESPORTE,

EDITORA DE PUBLICAÇÕES

Edição, Redação e Administração

R. António Albino Machado, 35G

1600-259 Lisboa

Telefone: 215914293

Email: eurotransporte@invesporte.pt

Site: www.eurotransporte.pt

eurotransporte.pt/mobilidade-mais/

PROPRIEDADE

Eduardo de Carvalho

REGISTO ERC: Nº 127896

ESTATUTO EDITORIAL:

https://www.eurotransporte.pt/noticia/38/5193/estatuto-editorial-e-lei-da-transparencia/


REVISTA N.º 14

ABR/MAI/JUN 2026

38

HONG KONG

SMART CITIES

10 À CONVERSA COM RUI REI

Desde outubro de 2025, Rui Ribeiro

Rei lidera a Transtejo Soflusa num

momento de transformação da

mobilidade na AML, apostando na

descarbonização, modernização da

frota e maior fiabilidade do transporte

fluvial.

14 MOBILIDADE SADIA

Crónica de António Gonçalves

Pereira em viagem rumo a Portalegre,

atravessando paisagens, para mais

uma EcoVolta da Ecomood, onde

se promove a mobilidade elétrica, a

sustentabilidade e a inovação de forma

leve, dinâmica e eficaz.

16 OS DESAFIOS DAS CADEIAS

DE ABASTECIMENTO E A

MOBILIDADE URBANA

António Soares aborda o papel

das cidades como motores do

desenvolvimento económico, social e

tecnológico. É nelas que se concentram

mercados, consumidores e produção,

mas também a inovação, onde as

tecnologias são testadas, ganham

escala e moldam comportamentos,

transformando a vida das populações.

20 ENTREVISTA

Num mercado elétrico competitivo, a

Polestar cresce em Portugal. Miguel

Pinto lidera desde 2022, conduzindo

a marca a resultados recorde com

visão estratégica e foco na transição

energética.

24 BATERIAS ELÉTRICAS

Uma bateria perde autonomia,

potência e fiabilidade ao longo do

tempo. Nos elétricos, esta evolução

define o valor do veículo. Em 2026, a

sua vida útil é central para confiança,

economia e sustentabilidade.

28 IOT AUTOMÓVEL

O automóvel vive uma transformação

estrutural: deixa de ser um objeto

mecânico isolado e passa a integrar um

ecossistema digital. Dados, software e

conectividade passam a definir função,

valor e evolução.

34 MOBILIDADE QUE NÃO SE VÊ

Dulce Pedrosa, da OPT, escreve

sobre mobilidade com enfoque nas

deslocações em transporte público de

passageiros, destacando sobretudo a

operação que sustenta e torna possível

o funcionamento de todo o sistema.

40 O DIA SEGUINTE AO

AUMENTO DOS COMBUSTÍVEIS

Filipe Carvalho analisa a transformação

do setor dos transportes, da eficiência

energética à eletrificação e à gestão de

dados em tempo real. A recente subida

dos combustíveis, após o fecho do

estreito de Ormuz, expõe um ponto de

inflexão estrutural na indústria.

48 TESTES COM ALMA

Num setor dominado por

especificações técnicas, Testes com

Alma da autoria de Eduardo Carvalho,

propõe uma leitura diferente,

acrescentando contexto, sensibilidade

e experiência real de utilização.

4 e-MOBILIDADE

+



Via Rápida

Citroën revela o Ami Rip Curl

A Citroën abriu encomendas do Ami Rip Curl, uma

edição limitada de micromobilidade inspirada no

surf e na parceria com a Rip Curl. Serão produzidas

1.600 unidades (Sunrise e Sunset), disponíveis a

partir de 29 de abril de 2026 por 9.290 €. Com base

no Ami elétrico, esta edição apresenta uma nova

identidade visual, com carroçaria preta, grafismos

de ondas, detalhes em amarelo ou violeta e um

interior personalizado. Mantém a autonomia de

75 km, os dois lugares e a carta AM a partir dos

16 anos. Destaca-se ainda pelo novo ecrã digital a

cores de 5,7”.

Rodoviária do Tejo acelera transição

com autocarros a hidrogénio e

elétricos

A Rodoviária do Tejo recebeu três autocarros urbanos

eCitaro fuel cell da Mercedes-Benz, fornecidos

pela Daimler Buses Portugal, que marcam a entrada

em Portugal de veículos que combinam baterias elétricas

com uma célula de combustível a hidrogénio.

Com uma autonomia superior a 650 km, estes veículos

reforçam a estratégia de descarbonização do

Grupo Barraqueiro e a modernização da sua frota.

A tecnologia permite uma operação elétrica com

baterias, hidrogénio ou ambos em simultâneo,

garantindo uma maior eficiência e flexibilidade no

contexto urbano. Os autocarros têm capacidade

para 33 passageiros sentados e 51 em pé e estão

equipados com USB a bordo, rampa de acessibilidade,

ar condicionado e MirrorCam.

A entrega destes autocarros representa um marco

na adoção de soluções de mobilidade pública

sustentáveis e foi destacada como sinal da crescente

aposta nacional em tecnologias de transporte

limpas e inovadoras.

Farizon e WeRide anunciam entrega de

2.000 Robotáxis em 2026

A Farizon New Energy Commercial Vehicle Group e a

WeRide, líder global em tecnologia de condução autónoma,

assinaram um acordo estratégico para acelerar o

desenvolvimento da mobilidade autónoma sustentável.

O plano prevê a entrega de 2000 Robotáxis GXR até

2026, impulsionando a sua comercialização em larga

escala a nível mundial.

Durante a cerimónia, foi apresentado o Robotáxi GXR

atualizado, baseado na Farizon SV, uma carrinha 100%

elétrica. O modelo deverá entrar em produção no

terceiro trimestre de 2026.

Em Janeiro de 2026, a WeRide operava 1023 robotáxis.

Com a nova frota, a empresa espera ter mais de

2.600 veículos em operação ainda em 2026, consolidando

a sua expansão rumo a dezenas de milhares de

unidades até 2030.

6 e-MOBILIDADE


AML defende criação de empresa

metropolitana para gestão dos resíduos

Politécnico de Leiria e Autoridade Nacional de

Segurança Rodoviária estabelecem parceria para

reforçar segurança nas estradas

O protocolo de cooperação assinado entre o IPLeiria e a ANSR

visa o desenvolvimento de soluções inovadoras para reduzir a

sinistralidade rodoviária em Portugal. O acordo foi celebrado

no dia 24 de abril, com a presença do Secretário de Estado da

Proteção Civil.

A parceria aposta na utilização da ciência de dados, da inteligência

artificial e da engenharia para melhorar a prevenção de

acidentes, a análise de informação e a definição de políticas mais

eficazes.

No âmbito desta parceria, o IPLeiria irá apoiar a ANSR na monitorização

da estratégia nacional de segurança rodoviária, na melhoria

da qualidade dos dados e no desenvolvimento de projetos

aplicados com impacto direto na redução da sinistralidade.

A Área Metropolitana de Lisboa (AML) defendeu a

criação de uma empresa metropolitana para a gestão

de resíduos durante o Conselho Metropolitano

de Lisboa, que teve lugar na Pousada do Castelo

de Palmela, no dia 23 de abril. Na reunião com o

Secretário de Estado do Ambiente, foi apresentada a

futura estratégia nacional de resíduos, prevista para o

mês de maio.

Carlos Moedas salientou a necessidade de uma

solução integrada à escala metropolitana, à

semelhança do que acontece com a mobilidade,

criticando a fragmentação atual do setor.

Foram ainda aprovados os documentos de gestão

da AML e da TML para 2025, bem como o plano

estratégico para o período de 2026 a 2030, que

incide sobre a mobilidade, a habitação, o ambiente e

a inovação, e que visa igualmente reforçar a presença

da AML nas instituições europeias.

Guimarães finalista da Semana Europeia

da Prevenção de Resíduos

Rede Expressos com descontos até 20% para os principais festivais

de verão

A Rede Expressos lança uma campanha de verão com descontos até 20% em viagens

para mais de 10 festivais, como NOS Alive, Rock in Rio Lisboa, Primavera Sound Porto,

Afro Nation e RFM SOMNII.

Entre junho e agosto, os bilhetes para destinos como Lisboa, Porto, Portimão e Figueira

da Foz terão reduções entre 15% e 20%, através de vouchers disponíveis online.

A iniciativa abrange ainda festivais como Vodafone Paredes de Coura, NEOPOP, Andanças

e Crato, reforçando a mobilidade sustentável num contexto de aumento dos

combustíveis. Os vouchers permitem viagens em grupo e podem ser usados até quatro

passageiros por reserva.

A Câmara Municipal de Guimarães é finalista europeia na categoria de Administração

Pública da Semana Europeia da Prevenção de Resíduos (EWWR) 2025, com a iniciativa

realizada entre 22 e 30 de novembro de 2025. O projeto, desenvolvido com o Laboratório

da Paisagem, Vitrus Ambiente e Resinorte, destaca-se pela promoção da prevenção e

gestão sustentável de resíduos. Guimarães integra a shortlist entre 51 nomeações e mais

de 13.100 ações europeias, concorrendo com projetos de Navarra e Álava. Os vencedores

serão anunciados a 4 de junho em Bruxelas, na EU Green Week. O reconhecimento reforça

o papel do município como referência ambiental e futura Capital Verde Europeia 2026.

e-MOBILIDADE 7


Via Rápida

Passe Ferroviário Verde atingiu um

milhão de assinaturas

O Passe Ferroviário Verde atingiu um milhão de assinaturas,

confirmando a forte adesão a uma solução

de mobilidade ferroviária sustentável e totalmente digital.

Lançado em outubro de 2024, este bilhete tem

vindo a promover a transferência modal e a reduzir o

impacto ambiental dos transportes.

Integrado na aplicação da CP e com autenticação

através da Chave Móvel Digital, regista atualmente

mais de 84% das reservas efetuadas em canais digitais.

O projeto foi distinguido internacionalmente, ao

alcançar o 2.º lugar na categoria de inovação digital

dos Transport Ticketing Awards 2026.

Desde o seu lançamento, foram registadas 3,8 milhões

de reservas em Intercidades, tendo contribuído

para uma redução anual estimada de 4.500 toneladas

de CO 2 .

22.º Congresso Ibérico “A Bicicleta e a Cidade”

A FPCUB e a ConBici vão organizar o 22.º congresso ibérico “A

Bicicleta e a Cidade”, que decorrerá entre 19 e 21 de junho de

2026, em Lisboa, e que será dedicado à mobilidade ativa (andar a

pé, bicicleta e transportes públicos).

O evento terá lugar em três locais emblemáticos da capital: a

EMEL (Quinta das Conchas),

o El Corte Inglés e o navio

elétrico da Transtejo Soflusa,

e reunirá especialistas,

decisores políticos e

entidades de Portugal e

Espanha para debaterem a

mobilidade sustentável.

O programa incluirá debates

e painéis sobre mobilidade

ativa, inovação urbana e

políticas públicas, com a

participação de instituições

nacionais e ibéricas ligadas

ao setor.

A iniciativa terminará

com um passeio de

bicicleta entre Lisboa e o

Seixal, sob o lema “Duas

Margens, Duas Rodas”,

que incluirá uma travessia

fluvial e promoverá a

intermodalidade.

Omniplus celebra 30

anos e reforça aposta na

eletromobilidade

Passageiros da FlixBus em Portugal e Espanha ajudam a

evitar mais de 130 mil toneladas CO 2 em 2025

Segundo o novo relatório de sustentabilidade da empresa, os passageiros da

FlixBus em Portugal e Espanha evitaram mais de 130 mil toneladas de CO em

2025, ao optarem pelo transporte rodoviário coletivo em vez do automóvel ou do

avião.

A análise indica que um autocarro pode reduzir até 83% das emissões na ligação

Lisboa–Porto em comparação com o automóvel, com cada passageiro a emitir,

em média, cinco vezes menos CO 2 por quilómetro.

A nível mundial, a FlixBus estima que tenham sido evitadas mais de 1,5 milhões

de toneladas de CO 2 em 2025, o que reforça o papel do transporte coletivo na

descarbonização da mobilidade.

A Omniplus, marca de serviços da Daimler

Buses, comemora 30 anos como referência

no apoio aos operadores de autocarros na

Europa. Aquilo que começou como uma rede

de oficinas evoluiu para um ecossistema integrado

de serviços digitais, eletromobilidade e

consultoria. Atualmente, a Omniplus dispõe

de mais de 600 pontos de assistência, incluindo

unidades certificadas para veículos elétricos

e de hidrogénio. A plataforma Omniplus

On está ligada a mais de 50 000 autocarros,

possibilitando diagnósticos em tempo real,

gestão de frotas e atualizações remotas. O

portefólio inclui também a eShop, peças em

3D, serviços de baterias e a Omniplus Charge,

dedicada às infraestruturas de carregamento e

de hidrogénio, apoiando a transição energética

do transporte público.energética e digital

do setor dos transportes públicos na Europa.

8 e-MOBILIDADE


PROMOVER A

MOBILIDADE URBANA

SUSTENTÁVEL

A TIS está a coordenar o projeto Shift2Sustain, financiado pelo programa Horizonte

Europa, que visa desenvolver, testar e avaliar medidas para melhorar a aceitação e a

eficácia dos Planos de Gestão da Mobilidade, apoiando mudanças comportamentais

em direção a escolhas de mobilidade mais sustentáveis.

Este projeto utiliza abordagens inovadoras, como jogos sérios, para cocriar medidas de

mobilidade e soluções de gamificação baseadas nos comportamentos, como forma de

promover a adoção de opções mais sustentáveis.

A TIS, em conjunto com o Município de Oeiras, irá

implementar estas abordagens na gestão da

mobilidade corporativa em centros empresariais, em

ações temporárias de realocação de espaço público e

em campanhas e medidas de promoção da mobilidade

sustentável nas deslocações para a escola.

Pode acompanhar este projeto em

https://shift2sustain.eu/.


À CONVERSA COM...

Rui Rei - Presidente do Conselho

de Administração da Transtejo Soflusa

O FUTURO NAVEGA NO TEJO

Desde outubro de 2025 à frente da Transtejo Soflusa, Rui Ribeiro Rei assume a liderança de

uma empresa-chave na mobilidade da Área Metropolitana de Lisboa num momento de profunda

transformação do setor. Entre a urgência da descarbonização, a modernização da frota e o

reforço da fiabilidade do serviço, o novo ciclo de gestão projeta o transporte fluvial como peça

central de um sistema de mobilidade mais sustentável, eficiente e integrado.

N

um setor onde a pressão

sobre a fiabilidade, a

capacidade e a sustentabilidade

nunca foi tão

elevada, o transporte

fluvial no estuário do Tejo assume-se

como uma peça cada vez mais crítica

no equilíbrio da mobilidade metropolitana.

Entre exigências operacionais diárias

e uma transformação tecnológica em

curso, a gestão deste sistema implica

decisões estratégicas com impacto

direto na experiência de milhares de

passageiros.

É neste quadro que ouvimos Rui

Ribeiro Rei, numa conversa centrada

nos desafios concretos da operação, nos

investimentos em curso e na visão para

um modo de transporte que procura

afirmar-se como alternativa robusta,

eficiente e alinhada com as metas ambientais

e de mobilidade do futuro.

Como caracteriza o atual momento

da Transtejo Soflusa, do ponto de

vista operacional, financeiro e da

qualidade de serviço prestado aos

passageiros?

Atualmente, a TTSL está numa fase

de consolidação e, ao mesmo tempo,

de preparação para um novo ciclo de

Por MN/EDEC

10 e-MOBILIDADE


modernização. É uma fase exigente,

mas também muito importante, porque

assenta em resultados concretos e numa

operação de grande escala. Em 2025, a

empresa registou um volume de negócios

de 42,2 milhões de euros, realizou

cerca de 128 mil viagens e transportou

aproximadamente 21 milhões de

passageiros nas cinco ligações fluviais

em operação, com uma estrutura de 481

trabalhadores efetivos. Estes números

mostram bem a dimensão do serviço

público que prestamos e reforçam a

nossa prioridade estratégica: estabilizar

e melhorar a oferta, garantir fiabilidade

operacional, qualidade de serviço e

capacidade de resposta à evolução da

procura, sempre com uma orientação

clara para a modernização e para a sustentabilidade

do transporte fluvial.

tiva eficiente, tanto em tempo como em

impacto ambiental, num território com

dinâmicas urbanas e pendulares muito

intensas. Para reforçar esse papel, é

essencial garantir condições de operação

estáveis, capacidade de resposta ao

crescimento da procura e investimento

consistente na modernização da frota

e das infraestruturas, assegurando

conforto, acessibilidade e fiabilidade. É

nesse enquadramento que a expansão

da operação e o aumento de capacidade

devem assentar em prioridades claras:

estabilizar e melhorar a oferta de serviço

O crescimento da procura

tem de ser acompanhado

com reforço de capacidade,

maior resiliência

operacional e melhoria

contínua da experiência

do passageiro, desde a

previsibilidade das carreiras

até às condições de espera e

embarque

público, rentabilizar a frota disponível e

concretizar investimentos estruturantes

que permitam elevar o desempenho da

operação e responder de forma robusta

às necessidades atuais e futuras.

Quais são as principais prioridades

estratégicas para expandir a operação

fluvial e dar resposta sustentada ao

crescimento da procura?

Aliás, é precisamente à luz desses objetivos

que temos vindo a trabalhar. Por

um lado, a TTSL está a desenvolver um

trabalho específico de rentabilização da

frota disponível e, por outro, temos previsto

um investimento relevante no período

2025–2030, associado à melhoria

da oferta e à modernização do serviço.

E importa ter presente a dimensão da

operação: a TTSL opera com cerca de 30

navios, assegura cinco ligações fluviais e

dispõe de uma infraestrutura que inclui

terminais e pontões, para além de várias

centenas de trabalhadores que todos os

dias trabalham para assegurar o funcionamento

da operação. Tudo isto exige

um planeamento rigoroso, manutenção

contínua e uma gestão operacional muito

exigente para garantir níveis de serviço

consistentes. O crescimento da procura

tem de ser acompanhado com reforço de

capacidade, maior resiliência operacional

Como enquadra hoje o contributo

do transporte fluvial na mobilidade

metropolitana e que fatores serão

determinantes para consolidar o seu

papel como eixo estruturante?

Hoje, o transporte fluvial tem um papel

estruturante na mobilidade da Área

Metropolitana de Lisboa. Não só porque

cria ligações diretas entre margens e

responde a fluxos diários muito relevantes,

mas também porque é uma alterna-

e-MOBILIDADE 11


e melhoria contínua da experiência do

passageiro, desde a previsibilidade das

carreiras até às condições de espera e

embarque.

Em que fase se encontra o processo

de renovação e eletrificação da frota e

quais têm sido os principais desafios

na sua implementação?

No que respeita à renovação e modernização

da frota, o processo de eletrificação

e de transição energética é, sem dúvida,

um eixo determinante da nossa estratégia.

Tem impacto direto na eficiência,

na sustentabilidade e na qualidade do

serviço.

Nesse âmbito, importa sublinhar que a

TTSL já recebeu os 10 navios elétricos, e

esses navios já estão em operação, o que

representa um marco muito relevante no

processo de modernização da frota.

Naturalmente, a operação simultânea da

totalidade dos 10 navios tem sido condicionada,

pontualmente, por ocorrências

operacionais e técnicas que originam

docagens e intervenções de manutenção,

com impacto temporário na disponibilidade

de alguns navios. Ainda assim, a

nossa ambição mantém-se muito clara:

assegurar, a breve prazo, a operação dos

10 navios elétricos, consolidando plenamente

este novo modelo operacional.

Até que ponto as infraestruturas

fluviais existentes estão alinhadas com

as exigências futuras de qualidade,

acessibilidade e sustentabilidade, e

que investimentos serão determinantes

para essa evolução?

Na ligação fluvial Seixal – Cais do Sodré,

onde a operação já é totalmente elétrica,

os resultados confirmam uma redução

muito significativa do recurso a combustíveis

fósseis na operação fluvial, passando

de 1.421.900,40 litros em 2024 para

312.261,10 litros em 2025, o que representa

uma diminuição de 1.109.639,30

litros (-78,04%). Este resultado reforça

de forma clara o contributo desta aposta

para a descarbonização e para a redução

das emissões associadas à operação

fluvial. Acresce que, sendo 2026

o primeiro ano completo de operação

totalmente elétrica na ligação do Seixal,

prevê-se uma redução total, passando de

312.261,10 litros em 2025 para 0 litros

em 2026.

Nas ligações em que a transição elétrica

é mais recente, como Cacilhas – Cais do

Em matéria de

sustentabilidade ambiental,

o contributo da TTSL

para a descarbonização

do setor decorre, desde

logo, da nossa orientação

estratégica para a

transição energética, com a

eletrificação como elemento

central, em alinhamento

com os objetivos

nacionais e europeus de

sustentabilidade

Sodré, onde em determinadas alturas do

dia a operação é assegurada em simultâneo

por dois navios elétricos, é expectável

que esses benefícios se tornem progressivamente

mais evidentes, à medida

que a operação se estabilize e evolua para

um modelo 100% elétrico.

Importa também recordar que, desde 3

de novembro de 2025, foi retomado o

horário oficial dos dias úteis nesta ligação

fluvial, com o acréscimo de 38 carreiras

diárias, e a introdução dos navios

elétricos foi determinante para repor essa

oferta.

Relativamente à ligação fluvial Montijo

– Cais do Sodré, a concretização de uma

operação 100% elétrica depende, neste

momento, do reforço das infraestruturas

no terminal fluvial do Montijo, designadamente,

a aquisição e instalação de mais

um pontão. Esse investimento é essencial

para garantir a operacionalidade

plena com navios elétricos, assegurando

condições adequadas de atracação e de

operação regulares.

Este é, ainda assim, um caminho com

desafios, mas que certamente serão ultrapassados.

Estamos a falar de um projeto

pioneiro à escala europeia, e isso implica

também um investimento forte na formação

dos nossos trabalhadores, com novas

competências, novos procedimentos e

novas formas de trabalho ajustadas a esta

realidade. Ao mesmo tempo, a integração

com outros modos de transporte público

e a intermodalidade são fatores críticos

para reforçar a atratividade do transporte

fluvial. É fundamental assegurar uma

articulação eficaz com os restantes ope-

12 e-MOBILIDADE


radores e redes, para que o passageiro

veja a sua deslocação como um percurso

único, simples e coerente, e não como

um conjunto de etapas desconexas.

Que avaliação faz do atual modelo de

bilhética integrada e de que forma a

digitalização e a utilização de dados

podem potenciar ganhos na eficiência

operacional e na experiência do

passageiro?

Da mesma forma, a bilhética integrada

e a digitalização devem ser encaradas

como instrumentos essenciais para

melhorar a experiência do utilizador e

apoiar a gestão da operação. A aposta

em sistemas integrados, uso inteligente

de dados e processos mais digitais pode

aproximar-nos do passageiro, melhorar

a informação disponível, aumentar a

eficiência e reforçar o apoio à decisão.

De que forma a Transtejo Soflusa

está a contribuir para a descarbonização

do transporte público e para o

alinhamento com as metas ambientais

nacionais e europeias?

Em matéria de sustentabilidade ambiental,

o contributo da TTSL para a descarbonização

do setor decorre, desde logo,

da nossa orientação estratégica para a

transição energética, com a eletrificação

como elemento central, em alinhamento

com os objetivos nacionais e europeus de

sustentabilidade. Esta é uma visão a longo

prazo: queremos não apenas manter

a relevância da empresa na mobilidade

metropolitana, mas também ser parte

ativa na redução do impacto ambiental

do transporte público e na construção de

um modelo mais moderno e eficiente.

Quais são os principais constrangimentos

operacionais, técnicos ou de

infraestrutura que afetam a regularidade

do serviço e que medidas estão

a ser adotadas para mitigar esses

impactos?

Naturalmente, para reforçar a fiabilidade

e a experiência do passageiro, é

igualmente indispensável enfrentar os

constrangimentos que afetam a regularidade

do serviço sejam de natureza

técnica, operacional ou de infraestrutura

através de medidas de estabilização da

oferta, modernização e investimento,

com impacto direto na confiança dos

utilizadores.

Que visão tem para o transporte

fluvial no estuário do Tejo na próxima

década e como deverá a Transtejo

Soflusa posicionar-se nesse cenário?

Daqui a 10 anos, acreditamos que o

transporte fluvial no estuário do Tejo

se afirmará como um modo de transporte

público 100% sustentável, com

maior capacidade de resposta à procura

e com um papel ainda mais reforçado

na mobilidade da Área Metropolitana

de Lisboa, assumindo-se também como

referência para outros projetos europeus

semelhantes. Nesse cenário, a TTSL

estará posicionada como operador de

transporte público de referência, não

apenas pela consolidação e melhoria

das atuais ligações fluviais, através de

maior regularidade, fiabilidade, conforto

e atratividade mas também pela capacidade

de expandir a rede fluvial de forma

estratégica, através do desenvolvimento

de novas ligações em estudo, como a

Trafaria–Algés, enquadrada pela chegada

do Metro Transportes do Sul à estação

fluvial da Trafaria, a ligação ao Parque

das Nações e eventuais ligações entre

pontos no estuário, como Montijo, Barreiro,

Seixal e Porto Brandão, em função

do respetivo potencial de procura.

Paralelamente, a valorização dos navios

cacilheiros enquanto património

histórico e cultural permitirá reforçar a

dimensão turística do transporte fluvial

no estuário do Tejo, através da criação

de experiências e circuitos temáticos de

carácter regular e sazonal, sendo também

um gerador de receita interna para a

TTSL .

No fundo e para terminar queremos prevalecer

como a “voz do Tejo”, continuar

a unir pessoas, margens e oportunidades,

através de um transporte fluvial mais

sustentável, mais eficiente e mais humano

e a TTSL está pronta para abraçar esse

futuro.

e-MOBILIDADE 13


Mobilidade sadia

Diário de bordo

de uma viagem feliz

Eu não guio comboios. Portanto, estou a aproveitar para lhe escrever estas linhas, por entre

olhadelas às belas paisagens do nosso país, enquanto me desloco para Portalegre, onde a

Ecomood irá fazer mais uma edição das nossas EcoVoltas. Promoção da mobilidade elétrica, dos

desportos motorizados sustentáveis, da reutilização, da reciclagem, da energia renovável, da

sustentabilidade. De forma divertida e espectacular. Eficaz.

ANTÓNIO GONÇALVES PEREIRA

Coordenador da Ecomood / Climate Alliance Portugal

Embaixador do Pacto Climático Europeu

Éesta viagem que lhe vou

contar aqui, para que me

diga se não lhe parece muito

mais feliz e bem aproveitada

do que se me tivesse

metido no carro, desperdiçando quase

três horas da minha vida. Porque… se

conduzir, não trabalhe. Nem se distraia

demasiado com a paisagem. Digo

eu, enquanto bebo um gole.

PÉ, COMBOIO, METRO, METRO,

COMBOIO, COMBOIO

A jornada começou com 10 minutos

a pé em São Pedro do Estoril, até à

estação da CP. Pelo caminho vi que a

ribeira está já com menos água, mas

os patos não se importam. Cumprimentei

dois vizinhos, um deles já não

via há algum tempo. Está tudo bem lá

por casa. A seguir passei pelo jardim

infantil e pela escola primária onde

vários pais e mães, em stress, tentavam

arranjar um espacinho, até mesmo no

passeio, para parar o carro e ir largar

as crianças. E pensei “tão mais felizes

que elas seriam se, neste belo dia de

sol, esse percurso tivesse sido feito

de cargo bike. Quantos será que não

o poderiam ter feito, indo depois de

comboio?”

Pouco depois estava na estação. Ainda

vi um comboio a arrancar, o meu

proverbial azar. Esperei 12 minutos

pelo seguinte, tempo que aproveitei

para começar a pôr as redes sociais

da Ecomood em dia, tarefa continuada

depois já no comboio, por entre

deslumbramentos com a paisagem arrebatadora

da foz do Tejo. A espaços,

não evitei um sorriso ao passar pela

interminável fila parada de automobilistas

que, quase todos sozinhos,

rogavam pragas à vida por ali estarem.

E lá veio o pensamento: quanta desta

gente tem mesmo de estar ali e quantos

não poderiam perfeitamente estar

aqui comigo a usufruir da paisagem e

a adiantar serviço, descansadamente?

No Cais do Sodré, interface, desci

directo para o Metro. Uma paragem,

mudança de linha, duas paragens,

Santa Apolónia, interface, subi para o

comboio. Faltam 15 minutos para o

Intercidades arrancar, óptimo, dá para

comer qualquer coisa, entrar e responder

a alguns emails, já com o wifi da

CP, antes de começar a escrever o texto

que tenho de fazer para a e-Mobilidade+.

Baixado o tabuleiro para o com-

14 e-MOBILIDADE


putador, telefone a carregar na tomada

que pedi para haver no meu lugar e lá

comecei a pensar no título, que o tema

já vinha decidido desde o comboio

anterior. Já sei: Mobilidade Sadia.

Quando dei por mim, estava no Entroncamento.

Rápida mudança de comboio,

“é aquele verde ali”, mal tive tempo de

me acomodar e arrancámos. Aqui entre

nós, estava a contar acabar este texto

ainda nesta viagem mas, as minhas desculpas,

não vai dar. É que quando agora

levantei os olhos, tínhamos acabado de

passar pelo castelo de Almourol, já só o

vi de relance. Mas, afinal, já fiz todo o

resto do trabalho que trazia para fazer

e a paisagem continua deslumbrante, o

Tejo, as estações antigas, o verde arrebatador

da Primavera. Vou usufruir do

resto desta minha viagem, que também

mereço. Vemo-nos aqui amanhã à tarde,

depois de uma manhã que será certamente

muito divertida e gratificante,

com a AREANAtejo e umas centenas de

crianças e jovens de algumas escolas de

Portalegre. Olha… uma família de javalis,

ali ao pé daquele pequeno lago.

Bom, até amanhã, sim?

MAIS UMA HORA, MENOS UM

STRESS

Boa tarde. Tenho a dizer-lhe que o resto

da viagem de ontem correu muito bem,

descansadamente, por entre montes e

vales. À chegada, tive de esperar um

pouco pelo Ricardo, que tinha vindo

de carro do Porto com o Ecokart no

reboque e apanhou muito trânsito,

sobretudo para sair da Invicta. E lá fez

o resto da viagem em stress, a tentar recuperar

o tempo perdido. E sem poder

aproveitar para fazer mais nada que não

somente conduzir.

Já eu, ainda meti conversa com um

simpático casal de estrangeiros, também

eles deslumbrados com o nosso

país, que têm visitado sobretudo de

comboio. Quando saí em Portalegre,

depois de trocarmos contactos (ao que

parece, além do mais, ainda há hipóteses

de parcerias para futuros projectos),

deixei-os a caminho de Badajoz, a

próxima paragem das suas belas férias

ferroviárias.

Em suma, foram 4 horas bem aproveitadas

e felizes, em vez de 3 em stress

e sem poder fazer muito mais do que

estar agarrado ao volante. E olhe que eu

até gosto bastante de guiar.

Dá para fazer isto para todos os itinerários

e destinos? Claro que não. Temos

de recuperar e melhorar a nossa rede

ferroviária? Claro que sim. O transporte

colectivo e a integração entre modos de

transporte está perfeita? Nem pensar.

Precisamos de muito melhores condições

para andar de bicicleta? Obviamente.

Mas junte-se a mim na luta para

exigirmos que tudo isso seja feito, e urgentemente,

em vez de usar essas falhas

como desculpa para continuar a usar

somente o carro. E, entretanto, como

também não deve guiar comboios,

vá (re)pensado as suas deslocações.

Certamente que muitas delas serão mais

sadias, física e emocionalmente, se não

forem de volante nas mãos. Mais felizes.

Bom, vou ficar por aqui. É que estamos

a passar a estação da Praia do Ribatejo,

o que quer dizer que já a seguir é

Almourol. E hoje quero mesmo ver o

castelo e esse lindíssimo pedaço de Tejo

com mais atenção. Usufruir.

Boa viagem.

Nota: este texto está escrito no português de

Portugal que decidi adoptar, sem a maior parte

do (des)acordo ortográfico.

e-MOBILIDADE 15


16 e-MOBILIDADE


Opinião

OS DESAFIOS

DAS CADEIAS DE

ABASTECIMENTO

E A MOBILIDADE

URBANA

ANTÓNIO SOARES

Diretor de desenvolvimento de negócios

da Rodo Cargo

e-MOBILIDADE 17


OPINIÃO

Por António Soares

Mais do que nunca, as cidades são um polo privilegiado para o

desenvolvimento económico, social e tecnológico. É nas cidades

que se encontram os mercados, os consumidores e os pontos

de escoamento da produção. É também nas cidades que se

revela o génio humano, onde as tecnologias se materializam, são

experimentadas e alteram os comportamentos da população.

Hoje, o espaço urbano, no

qual mais de 70% dos

europeus decide viver e

exercer as suas atividades

(United Nations, 2024),

enfrenta uma nova realidade, com desafios

importantes e críticos, nomeadamente

no abastecimento das cidades, na

mobilidade e na sustentabilidade.

A mobilidade e o abastecimento das

cidades na União Europeia atravessam

um momento de transformação profunda,

impulsionado por uma combinação

de fatores estruturais: o Pacto Ecológico

Europeu (European Commission,

2019), a crescente pressão regulatória

em matéria ambiental, a escassez de

mão-de-obra qualificada e a necessidade

de reforçar práticas de gestão e compliance

(conformidade) nas organizações.

Estes elementos não atuam de forma

isolada; pelo contrário, interligam-se

e amplificam-se mutuamente, criando

um ambiente em que a adaptação deixou

de ser opcional para se tornar uma

condição de sobrevivência.

As cidades europeias são hoje o epicentro

da atividade económica e social,

concentrando a maioria da população e

do consumo. Este fenómeno intensifica

a complexidade da mobilidade urbana

e do abastecimento, especialmente no

contexto do crescimento do comércio

eletrónico e da exigência crescente por

entregas rápidas e flexíveis. A chamada

“última milha” tornou-se simultaneamente

o ponto mais crítico e mais

dispendioso da cadeia logística, sendo

também aquele onde os impactos ambientais

e sociais são mais visíveis.

Neste cenário, o Green Deal surge

como um catalisador de mudança,

estabelecendo metas ambiciosas como

a neutralidade carbónica até 2050 e a

redução significativa das emissões no

setor dos transportes. A mobilidade

A mobilidade e o

abastecimento das

cidades na União

Europeia atravessam

um momento de

transformação profunda

urbana sustentável passa a ser não

apenas um objetivo político, mas uma

obrigação operacional para empresas

e autoridades públicas. No entanto, a

implementação destas políticas levanta

questões práticas complexas: como

conciliar eficiência económica com

sustentabilidade ambiental? Como

garantir o abastecimento contínuo das

cidades sem comprometer a qualidade

de vida dos cidadãos?

Um dos principais desafios reside

na transição energética das frotas. A

eletrificação dos veículos comerciais,

frequentemente apontada como solução

central, enfrenta ainda limitações

significativas ao nível da autonomia,

da infraestrutura de carregamento e do

custo de aquisição. Para os operadores

logísticos, especialmente os de menor

dimensão, o investimento necessário

pode ser proibitivo sem apoios claros e

estáveis. Acresce a incerteza tecnológica,

com alternativas como o hidrogénio

ou os biocombustíveis avançados ainda

em fases distintas de maturidade.

Paralelamente, as restrições crescentes

à circulação em centros urbanos — zonas

de emissões reduzidas, limitações

horárias e pedonalização — obrigam

a uma reconfiguração profunda dos

modelos operacionais. A consolidação

de cargas, a utilização de micro-hubs

urbanos e o recurso a mobilidade ativa,

como bicicletas de carga, são soluções

promissoras, mas exigem coordenação,

investimento e, sobretudo, uma mudança

cultural nas organizações.

É neste ponto que a gestão e o compliance

assumem um papel determinante.

Num ambiente regulatório cada

vez mais denso e dinâmico, as empresas

que não integrem a conformidade

legal e os princípios ESG (Environmental,

Social and Governance) na sua

estratégia correm riscos elevados —

não apenas de sanções, mas também

de perda de reputação e competitividade.

O compliance deixa de ser uma

função de controlo para se tornar um

elemento estratégico, capaz de orientar

decisões de investimento, inovação e

posicionamento no mercado.

Contudo, a tecnologia por si só não

resolve o problema. A verdadeira

transformação depende das pessoas

— e é aqui que emerge outro desafio

crítico: a retenção de talento. O setor

18 e-MOBILIDADE


da logística e dos transportes enfrenta

uma escassez crescente de profissionais

qualificados, desde motoristas a gestores

especializados em sustentabilidade e

transformação digital. Esta realidade é

agravada por uma perceção ainda pouco

atrativa do setor, frequentemente associada

a condições de trabalho exigentes

e baixa valorização.

Atrair e reter talento implica, portanto,

uma mudança profunda na proposta de

valor das empresas. Não basta oferecer

salários competitivos; é necessário criar

ambientes de trabalho que promovam

o desenvolvimento profissional, o

equilíbrio entre vida pessoal e laboral e

um propósito alinhado com os valores

das novas gerações. A sustentabilidade,

neste contexto, pode ser um fator diferenciador,

desde que seja assumida de

forma autêntica e integrada na cultura

organizacional.

Além disso, a formação contínua

torna-se essencial para acompanhar a

rápida evolução tecnológica e regulatória.

As competências exigidas hoje são

substancialmente diferentes das de há

uma década, e continuarão a evoluir. As

empresas que investirem na qualificação

dos seus colaboradores estarão melhor

posicionadas para enfrentar a incerteza

e aproveitar oportunidades emergentes.

Outro aspeto frequentemente subestimado

é a necessidade de colaboração

entre stakeholders. A mobilidade e o

abastecimento urbano não podem ser

geridos de forma isolada por empresas

ou autoridades públicas. É fundamental

promover modelos de governação

colaborativa, que envolvam operadores

logísticos, municípios, reguladores e até

os próprios cidadãos. Projetos-piloto,

zonas de experimentação e plataformas

de partilha de dados são exemplos de

iniciativas que podem acelerar a inovação

e reduzir riscos.

A nível europeu, existem já diversos

programas de financiamento e iniciativas

que incentivam esta cooperação,

mas a sua eficácia depende da capacidade

de implementação local. Países como

Portugal, com características geográficas

e urbanas específicas, devem adaptar as

soluções às suas realidades, evitando a

simples replicação de modelos de outras

regiões.

Importa também reconhecer que a sustentabilidade

não é apenas uma questão

O Green Deal surge como um catalisador de

mudança, estabelecendo metas ambiciosas como

a neutralidade carbónica até 2050 e a redução

significativa das emissões no setor dos transportes.

A mobilidade urbana sustentável passa a ser não

apenas um objetivo político, mas uma obrigação

ambiental, mas também económica e

social. Um sistema de mobilidade urbana

que seja ecologicamente sustentável,

mas economicamente inviável ou socialmente

injusto, não será duradouro.

Neste contexto, as empresas têm um

papel crucial não apenas como executoras

de políticas, mas como agentes

de mudança. A adoção de práticas de

gestão responsáveis, a integração de

critérios ESG e o compromisso com a

inovação podem posicioná-las como

líderes na transição para um modelo

mais sustentável. No entanto, isso exige

visão estratégica, coragem para investir

e capacidade de adaptação.

Por outro lado, os decisores políticos

devem assegurar um enquadramento regulatório

claro, previsível e equilibrado.

A instabilidade normativa ou a sobrecarga

burocrática podem comprometer

os investimentos e atrasar a transição.

É fundamental encontrar um equilíbrio

entre ambição e pragmatismo, garantindo

que as metas são alcançáveis e que

os instrumentos de apoio são eficazes.

A mobilidade e o abastecimento das

cidades europeias estão, assim, no

centro de uma encruzilhada. O caminho

a seguir não é simples nem linear,

mas é inevitável. A pressão para reduzir

emissões, melhorar a qualidade de

vida urbana e garantir a resiliência das

cadeias de abastecimento continuará a

intensificar-se.

Neste cenário, as organizações que conseguirem

alinhar estratégia, operações e

cultura com os princípios da sustentabilidade

e da boa governação terão uma

vantagem competitiva significativa. Mais

do que cumprir obrigações, estarão a

contribuir para a construção de cidades

mais habitáveis, eficientes e resilientes.

Em última análise, a questão não é se a

transformação vai acontecer, mas como

e com que velocidade. E essa resposta

dependerá, em grande medida, da capacidade

coletiva de integrar inovação,

talento, gestão e responsabilidade num

modelo coerente e sustentável.

e-MOBILIDADE 19


ENTREVISTA

Polestar em aceleração

A visão de Miguel Pinto para Portugal

Num mercado elétrico cada vez mais competitivo, a Polestar tem vindo a afirmar-se em Portugal,

registando um crescimento consistente e sustentado. Miguel Pinto, que lidera a operação nacional desde

2022, tem conduzido a marca sueca a resultados recorde, combinando visão estratégica, experiência

internacional e uma leitura pragmática da transição energética.

Por Eduardo de Carvalho

C

om formação em Engenharia

Mecânica pelo Instituto

Superior de Engenharia

do Porto e um Executive

MBA pela SP Jain School

of Global Management, Miguel Pinto

construiu um trajeto sólido ao longo

de mais de duas décadas na indústria

automóvel. Da distribuição ao retalho,

passando por mercados europeus e pela

região Ásia-Pacífico, acumulou experiência

tanto do lado dos fabricantes

como das redes de concessionários.

Iniciou a carreira na Mercedes-Benz e

consolidou uma parte significativa do

seu percurso na Porsche, onde permaneceu

por mais de dez anos, antes de

assumir o desafio de liderar a Polestar

em Portugal. Desde então, a marca tem

registado um crescimento consistente,

culminando num novo recorde de vendas

em 2025 e num arranque de 2026

que já evidencia uma subida de 24% no

primeiro trimestre.

É neste contexto de expansão e consolidação

que conversamos com Miguel

Pinto, sobre estratégia, eletrificação e

o posicionamento de uma marca que

procura diferenciar-se não apenas pelo

produto, mas pela forma como pensa a

mobilidade do futuro.

A Polestar nasceu como uma marca

focada exclusivamente em veículos

elétricos premium. Como está a

evoluir este posicionamento num

20 e-MOBILIDADE


mercado cada vez mais competitivo?

A Polestar mantém-se fiel à sua origem:

somos uma marca sueca premium

100% elétrica, orientada para o design,

para a tecnologia e para a sustentabilidade.

Num mercado cada vez mais

competitivo, essa clareza de posicionamento

torna-se uma vantagem. Diria

que a evolução passa por aprofundar

ainda mais aquilo que nos distingue —

uma abordagem escandinava minimalista,

uma forte integração digital e um

compromisso ambiental do qual não

abdicamos — e ao mesmo tempo, ir

alargando a nossa gama em segmentos

diferenciados sem diluir a identidade da

Polestar.

Qual é atualmente o principal fator

diferenciador da Polestar face a outros

fabricantes de veículos elétricos

premium?

O principal diferenciador da Polestar é a

combinação entre design, performance,

tecnologia e a completa transparência

ambiental. Acredito que a combinção

destes fatores numa única proposta de

valor é o que diferencia a Polestar.

A marca pretende aumentar as vendas

ou manter uma estratégia mais

focada no valor e na exclusividade?

A estratégia da Polestar passa por

crescer de forma sustentável, focada no

valor, e mantendo um posicionamento

premium sólido. Pretendemos garantir

Anunciámos a maior

ofensiva de produto da

nossa história que trará

quatro novos modelos às

estradas nos próximos

três anos. Para além do

fantástico Polestar 5 iremos

apresentar uma nova versão

do best-seller Polestar 4,

um novo Polestar 2, e o

novo Polestar 7 um SUV

compacto

qualidade de produto e também uma

experiência de cliente de referência. É

isso que temos vindo a fazer tendo, em

2025 registámos um recorde de vendas

a nível nacional e internacional. Em

2026, continuamos a crescer e no 1º

trimestre do ano fizemos os melhores

números de sempre a nível nacional e

internacional.

A recente expansão da gama com o

Polestar 5 parece indicar uma nova

fase na estratégia da marca. Que

fatores estiveram na origem desta

decisão?

O Polestar 5 materializa a ambição

da marca em termos de performance

elétrica, tecnologia e design.

Costumamos mesmo dizer que, sendo

um modelo com forte efeito aspiracional,

funciona como um “embaixador

tecnológico e emocional” da Polestar.

Representa tudo aquilo do que é a Polestar,

elevando a perceção da marca em

termos de design, engenharia e inovação

e reforçando sem dúvida o nosso

posicionamento premium.

Podemos esperar novos segmentos ou

formatos de carroçaria nos próximos

anos?

Sem dúvida. Anunciámos em Fevereiro

a maior ofensiva de produto da nossa

história que trará quatro novos modelos

às estradas nos próximos três anos. Para

além do fantástico Polestar 5 que referimos

anteriormente iremos apresentar

uma nova versão do best-seller Polestar

4, um novo Polestar 2, e o novo Polestar

7 um SUV compacto. Com a nossa

gama atual, estamos presentes em cerca

de 25% dos segmentos de mercado de

elétricos; após esta renovação, passaremos

a estar representados em aproximadamente

55% desse mercado.

A empresa tem vindo a apostar

fortemente no software e na conectividade.

Até que ponto é que o veículo

elétrico se está a transformar num

produto tecnológico?

A tecnologia é claramente um dos eixos

que nos distingue. O Polestar 2 cons-

e-MOBILIDADE 21


ENTREVISTA

Miguel Pinto

tituiu o primeiro automóvel do mundo

com Google integrado e ainda recentemente

anunciamos novas funcionalidades

tecnológicas para o Polestar 4 com

a Google também. Concordo quando

refere que, o automóvel elétrico é claramente

um produto tecnológico. O software

define grande parte da experiência

do utilizador, desde a eficiência energética

até ao infotainment e aos sistemas

de assistência à condução. Na Polestar,

temos essa prioridade bem presente e

desenvolvemos os nossos automóveis

de forma a serem capazes de evoluir ao

longo do tempo, aproximando-se mais

da lógica de um dispositivo tecnológico

do que de um automóvel tradicional.

Que importância têm as atualizações

remotas (OTA) na estratégia de desenvolvimento

da marca?

As atualizações OTA são fundamentais.

Permitem melhorar continuamente

o veículo após a entrega, acrescentar

funcionalidades, otimizar consumos e

atualizar sistemas sem necessidade de

deslocações desnecessárias às oficinas.

Isto reforça a relação contínua com o

cliente e prolonga o ciclo de vida tecnológico

do automóvel.

Na Polestar acreditamos

que a maior consciência

ambiental existe e uma

procura real por marcas que

demonstrem compromisso

concreto, e não apenas

discursos. A transparência

é essencial para construir

confiança. E é nesse espaço

que encontramos a Polestar

Como antevê a evolução da autonomia

e da eficiência energética na próxima

geração de veículos elétricos?

A autonomia continuará a evoluir bem

como o foco na eficiência energética.

Com maior aerodinâmica, novos

químicos de bateria, softwares mais

inteligente e arquiteturas elétricas ainda

mais avançadas permitirão extrair mais

quilómetros por kWh. Simultaneamente

os clientes ficarão cada vez mais confortáveis

com redes de carregamento mais

robustas e carregamentos mais rápidos.

O construtor tem metas ambiciosas

de neutralidade carbónica. Em que

ponto está atualmente o projeto

Polestar 0?

O Polestar 0 é um projeto que funciona

como um catalisador de inovação

para toda a indústria. Temos vindo a

conseguir reduzir significativamente a

pegada de carbono dos nossos modelos

e a desenvolver soluções cada vez mais

sustentáveis. O Polestar 0 continua em

curso com uma meta ambiciosa, difícil

mas extremamente importante: sermos

capazes de produzir um automóvel

verdadeiramente neutro para o clima.

Mesmo antes de atingir o objetivo final,

os avanços já estão a ser aplicados nos

veículos atuais.

Quais são os desafios para reduzir

a pegada ambiental na produção de

baterias?

Os maiores desafios estão ligados à extração

de matérias-primas, ao consumo

energético dos processos e à rastreabilidade.

Na Polestar, trabalhamos no

aumento da transparência, na utilização

de energia renovável e na investigação

de materiais alternativos, bem como na

circularidade e reciclagem. Neste último

ponto anunciámos no mês passado que

as baterias dos modelos Polestar 2 e Polestar

3 incluem agora pelo menos 50%

de cobalto reciclado.

A sustentabilidade é atualmente um

fator decisivo para o consumidor ou

continua a ser sobretudo um elemento

de reputação?

Para a Polestar a sustentabilidade é um

factor extremamente importante e que

está presente não só nos nossos produtos

mas também em tudo aquilo que fazemos.

Acreditamos que é cada vez mais

é um fator de decisão. O nosso perfil de

cliente assim o parece indicar. Temos

22 e-MOBILIDADE


uma faixa etária média dos nossos clientes

ao redor dos 45 anos, sensivelmente

10 anos abaixo da média do segmento

premium. Diria que são clientes que se

preocupam com o estado do planeta

atual e também com o estado em que o

iremos deixar para as gerações vindouras.

Na Polestar acreditamos que a maior

consciência ambiental existe e uma

procura real por marcas que demonstrem

compromisso concreto, e não apenas discursos.

A transparência é essencial para

construir confiança. E é nesse espaço que

encontramos a Polestar.

Como avalia o ritmo de adoção dos

veículos elétricos na Europa atualmente?

A Europa está numa fase de transição

acelerada, embora com assimetrias entre

países. O ritmo é positivo, mas depende

fortemente de políticas públicas consistentes,

infraestrutura e estabilidade

regulatória.

A autonomia dos modelos

já permite ligar as

principais cidades com uma

carga única, os preços dos

modelos são cada vez mais

competitivos e a estrutura

de carregamento cada

vez melhor. Apontaria a

necessidade de criar uma

infraestrutura de carga

ainda mais reforçada e o

investimento em literacia

tecnológica

Em mercados como Portugal, quais

são os principais obstáculos?

Em Portugal, diria que os obstáculos são

cada vez menores com vista à adoção de

uma mobilidade mais verde. A autonomia

dos modelos já permite ligar as

principais cidades com uma carga única,

os preços dos modelos são cada vez mais

competitivos e a estrutura de carregamento

cada vez melhor. Apontaria a

necessidade de criar uma infraestrutura

de carga ainda mais reforçada e o investimento

em literacia tecnológica como

dois alicerces capazes de incentivar ainda

mais pessoas a tomar o passo seguinte.

Os automóveis esses já existem.

Que papel podem as frotas empresariais

ter na aceleração da eletrificação?

Um papel absolutamente central. As

frotas permitem escala, previsibilidade

e ajudam a normalizar o uso do veículo

elétrico, acelerando também o mercado

de usados eletrificados mais tarde.

A infraestrutura de carregamento

continua a ser um ponto crítico.

Como trabalha a Polestar com os seus

parceiros?

A abordagem passa por colaboração

com operadores de carregamento, integração

digital de serviços e simplificação

da experiência do utilizador. O objetivo

é que o carregamento seja tão intuitivo

quanto abastecer.

O carregamento ultrarrápido e as

arquiteturas de 800 V vão mudar

a forma como usamos os veículos

elétricos?

Sim, vão aproximar ainda mais o veículo

elétrico da conveniência dos automóveis

a que a maioria está habituada,

especialmente em viagens longas. O

tempo deixa de ser uma barreira psicológica.

Estamos num ponto de viragem na

indústria automóvel. O que será decisivo

para a popularização do veículo

elétrico na próxima década?

Conforme referi anteriormente acredito

que, ao nível do produto já temos tudo.

Diria que a massificação poderá ser acelerada

com uma aposta ainda mais forte

na infraestrutura de carga e estabilidade

nas políticas, neste caso europeias, que

sejam capazes de transmitir confiança

não só aos clientes mas também aos

investidores.

A mobilidade do futuro será apenas

elétrica ou coexistirá com outras

tecnologias?

No meu ponto de vista a eletrificação

será dominante, sobretudo nos ligeiros

de passageiros, mas poderão coexistir

outras soluções em nichos específicos.

O importante é reduzir drasticamente as

emissões de forma pragmática e eficaz e

para isso contem com a Polestar.

e-MOBILIDADE 23


ENERGIA INTELIGENTE

Baterias elétricas

Ciência. Uso. Longevidade.

Uma bateria não envelhece silenciosamente. Com o tempo, vai perdendo autonomia, potência e

fiabilidade. Nos veículos elétricos, esta transformação não é apenas um pormenor técnico, mas sim

o eixo invisível que define o valor do automóvel ao longo do tempo. Em 2026, com a mobilidade

elétrica a acelerar em todo o mundo, a compreensão da vida útil das baterias deixou de ser uma

curiosidade técnica para se tornar uma questão central de confiança, economia e sustentabilidade.

Por Eduardo de Carvalho

No debate sobre baterias

de veículos elétricos,

a questão que surge

de imediato é quase

sempre a mesma: qual é

a sua durabilidade?

A resposta já não é teórica. Dados

recentes indicam que a maioria das

baterias modernas mantém um desempenho

elevado durante vários anos,

com uma degradação média de cerca

de 2% a 3% por ano, consoante o uso

e as condições ambientais.

Na prática, isto significa que, após

uma década, a maioria dos veículos

ainda mantém uma parte significativa

da sua capacidade útil, frequentemente

superior a 70%.

No entanto, a verdadeira história não

está na idade da bateria. Está na forma

como esta é utilizada.

A DEGRADAÇÃO: O DESGASTE

INVISÍVEL

A degradação de uma bateria de iões

de lítio não ocorre de forma súbita.

Trata-se de um processo lento, cumulativo

e, acima de tudo, irreversível.

Esta degradação manifesta-se essencialmente

de duas formas principais:

por um lado, através da perda progressiva

de capacidade energética, que

reduz a quantidade de energia que a

bateria consegue armazenar; por outro

lado, através do aumento da resistência

interna, que torna a entrega de potência

menos eficiente e mais exigente

para o sistema. O resultado é sempre o

mesmo: menos autonomia disponível

e um maior esforço do sistema para

responder às mesmas solicitações de

energia.

Estudos e modelos de envelhecimento

de baterias mostram ainda que este

processo não é linear. Pelo contrário,

a degradação tende a seguir trajetórias

não uniformes, com fases iniciais

de maior estabilidade, seguidas de

períodos em que o envelhecimento

se acelera de forma mais acentuada,

dependendo diretamente do padrão

de utilização, das condições térmicas e

dos ciclos de carga e descarga a que a

bateria é sujeita.

OS FATORES QUE REALMENTE

ACELERAM O DESGASTE

Se há um equívoco persistente na

mobilidade elétrica, é a ideia de que

a bateria de um veículo elétrico só se

degrada com o tempo. Na realidade,

o comportamento diário do utilizador

tem um impacto decisivo na

forma como esse desgaste se acelera

ou atenua ao longo dos anos. Fatores

como a temperatura ambiente, o tipo

de carregamento, os níveis de carga a

que a bateria é sujeita e a intensidade

de utilização têm um papel determinante

no ritmo de envelhecimento do

sistema.

O calor, por exemplo, acelera as

reações químicas internas e é um dos

principais inimigos da longevidade da

bateria. Já o frio extremo não provoca

necessariamente uma degradação estrutural

imediata, mas reduz temporariamente

o desempenho e a eficiência

da carga, afetando a disponibilidade

de energia. A utilização frequente de

carregamento rápido em corrente contínua

introduz um nível adicional de

stress térmico e elétrico, contribuindo

para o desgaste progressivo das células.

Da mesma forma, manter a bateria

durante longos períodos em estados

extremos de carga, muito próxima de

100% ou de 0%, acelera os mecanismos

de envelhecimento químico.

A isto soma-se a utilização intensiva

24 e-MOBILIDADE


e-MOBILIDADE 25


com ciclos profundos repetidos, que

aumenta o desgaste estrutural, bem

como a própria gestão eletrónica do

sistema, que pode mitigar ou agravar

estes efeitos, consoante a sua eficiência.

É nesta situação que a química da

bateria se torna determinante. Nem

todas envelhecem da mesma forma:

as baterias LFP (lítio-ferro-fosfato)

destacam-se pela sua maior durabilidade

e estabilidade térmica, ao passo

que as baterias com química NMC ou

NCA oferecem uma maior densidade

energética, mas são mais sensíveis a

condições de stress operacional. Esta

diferença não é apenas técnica; define

perfis distintos de utilização, desempenho

e longevidade ao longo do ciclo

de vida do veículo.

A esta equação junta-se um elemento

central: o Battery Management System

(BMS), o sistema eletrónico responsável

por monitorizar e controlar a

bateria de forma contínua. É este

sistema que regula a temperatura, a

tensão e a corrente, equilibra as células

e protege o conjunto contra condições

extremas. Na prática, funciona como

um guardião invisível da longevidade

da bateria, garantindo que esta opera

dentro dos limites ideais para maximizar

o seu desempenho e durabilidade

ao longo do tempo.

A AUTONOMIA COMO ESPELHO

DA DEGRADAÇÃO

Com o tempo, a perda de capacidade

da bateria deixa de ser apenas

um indicador técnico isolado para se

Se há um equívoco

persistente na mobilidade

elétrica, é a ideia de que

a bateria de um veículo

elétrico só se degrada

com o tempo.

Na realidade, o

comportamento diário

do utilizador tem um

impacto decisivo na

forma como esse desgaste

se acelera ou atenua

ao longo dos anos

tornar uma realidade que se faz sentir

de forma progressiva na experiência

diária de condução. A autonomia

real começa a diminuir de forma

subtil, muitas vezes impercetível nos

primeiros anos, mas suficiente para

alterar os padrões de utilização. Ao

mesmo tempo, o consumo energético

pode parecer aumentar, não porque

o veículo se torne menos eficiente,

mas porque há simplesmente menos

energia disponível em cada ciclo útil.

A previsibilidade das viagens torna-se

também mais sensível, exigindo maior

planeamento e atenção às margens de

segurança.

É precisamente neste ponto que a

degradação deixa de ser um conceito

abstrato para se tornar algo vivido

pelo condutor, não nos dados técnicos

ou nas curvas de desempenho, mas

na rotina, na forma como se planeia

uma deslocação, na confiança com

que se interpreta a autonomia restante

e na necessidade ocasional de ajustar

hábitos.

A boa notícia é que esta evolução pode

ser significativamente desacelerada

através de comportamentos relativamente

simples e consistentes. Evitar

carregar a bateria até 100% todos os

dias ajuda a reduzir o stress químico,

ao passo que minimizar a exposição

prolongada a temperaturas elevadas

protege as células de um envelhecimento

prematuro. Da mesma forma, é

preferível carregar a bateria lentamente

no dia a dia e reservar o carregamento

rápido apenas para situações de necessidade,

a fim de preservar a integridade

do sistema. Manter o veículo dentro

de uma faixa de carga moderada, em

vez de ciclos extremos frequentes, é

igualmente importante.

Mais do que restrições, estas práticas

representam uma lógica de gestão

equilibrada: não se trata de limitar

a utilização do veículo, mas sim de

evitar um desgaste desnecessário

num sistema eletroquímico sensível,

no qual pequenas decisões repetidas

ao longo do tempo têm um impacto

direto na longevidade e no desempenho

global.

CARREGAR MELHOR TAMBÉM É

CONDUZIR MELHOR

Entre os vários fatores que determinam

a longevidade de uma bateria,

há um que raramente é destacado: a

consistência do utilizador.

Ao longo de cerca de oito anos, o

proprietário de um modelo da Tesla

manteve uma rotina rigorosa: evitar

descargas abaixo dos 20% e limitar a

carga diária aos 80%. Sem exceções

sistemáticas e sem recorrer a carregamentos

rápidos. O resultado não é

teórico. É mensurável. Após centenas

de milhares de quilómetros, a bateria

mantém cerca de 90% da sua capacidade

útil, um valor que não só impressiona

como também ajuda a corrigir

uma ideia muitas vezes distorcida: a

degradação existe, mas é profundamente

influenciada pelo uso.

Este tipo de evidência empírica reforça

uma ideia central na mobilidade elétri-

26 e-MOBILIDADE


ca contemporânea: a tecnologia define o

potencial, mas é o comportamento que

determina o desfecho.

Num contexto em que a durabilidade

das baterias continua a ser um dos

principais critérios de decisão, esta

conclusão é difícil de ignorar: não basta

evoluir a química, é necessário refinar a

forma de utilização.

QUANDO A BATERIA “CHEGA AO

FIM”?

Geralmente, a bateria de um veículo

elétrico não falha de forma abrupta

ou inesperada. Pelo contrário, o seu

comportamento é marcado por uma

degradação gradual, em que o sistema

vai perdendo progressivamente a sua

utilidade até deixar de responder adequadamente

às exigências do utilizador.

A substituição só é necessária quando

a degradação atinge um ponto em que

a autonomia já não é funcional no dia

a dia, o desempenho já não satisfaz as

necessidades operacionais do veículo ou

surgem falhas técnicas ou questões de

segurança que comprometem a fiabilidade

do sistema. Ainda assim, mesmo

nesse momento, raramente se trata do

fim da vida útil da bateria, uma vez

que muitos destes sistemas continuam

a reter uma capacidade útil residual,

podendo ser reconfigurados ou reaproveitados

para outras aplicações menos

exigentes, antes de serem submetidos a

processos de reutilização ou reciclagem.

SEGUNDA VIDA: ENERGIA DEPOIS

DA ESTRADA

Após a sua utilização em automóveis,

muitas baterias ainda retêm capacidade

suficiente para desempenhar funções

relevantes em aplicações menos

exigentes, prolongando o seu ciclo de

vida muito para além da estrada. Nesse

sentido, surgem soluções de segunda

vida que incluem o armazenamento

de energia renovável, a utilização

em sistemas de reserva energética

e a integração em redes elétricas

inteligentes, onde a sua função passa

a ser a de estabilizar consumos,

absorver excedentes e apoiar a transição

energética. Este prolongamento da

utilidade permite otimizar o valor

do recurso e reduzir a pressão sobre

a produção de novas baterias e o

consumo de matérias-primas críticas.

É preferível carregar a bateria lentamente no dia a dia

e reservar o carregamento rápido apenas para situações

de necessidade, a fim de preservar a integridade do

sistema. Manter o veículo dentro de uma faixa de carga

moderada, em vez de ciclos extremos frequentes, é

igualmente importante.

A reciclagem surge, assim, como a etapa

final deste percurso; no entanto, a indústria

tem vindo a privilegiar cada vez

mais uma lógica de reutilização antes

da desmontagem, precisamente porque

muitas destas baterias ainda conservam

uma percentagem significativa da sua

capacidade operacional quando deixam

de ser adequadas para a mobilidade

elétrica. Muitas vezes, podem continuar

a ser úteis durante anos em sistemas

estacionários, antes de serem definitivamente

encaminhadas para processos de

recuperação de materiais.

A bateria de um veículo elétrico não é,

por conseguinte, apenas um componente

técnico isolado. É um compromisso

de longo prazo entre a tecnologia, a engenharia

e o utilizador, em que o valor

não se esgota no momento da compra

nem se limita à utilização automóvel. A

sua vida útil não depende apenas dos

anos ou dos quilómetros percorridos,

mas sobretudo das decisões diárias,

muitas vezes invisíveis, relativas à forma

como é carregada, como o veículo é

conduzido e como a energia é gerida ao

longo do tempo.

No centro da mobilidade elétrica está,

afinal, uma realidade simples, mas exigente:

a autonomia não desaparece de

repente. Esta é construída ou perdida,

ciclo após ciclo, ao longo de toda a sua

vida útil.

e-MOBILIDADE 27


MOBILIDADE CONECTADA

A revolução

silenciosa do

IoT automóvel

O automóvel está a atravessar uma transformação estrutural

que já não pode ser descrita apenas em termos de motorização,

eficiência energética ou design. Trata-se de uma mudança de

natureza: o veículo deixa de ser um objeto mecânico isolado para

passar a integrar um ecossistema digital contínuo, no qual os

dados, o software e a conectividade definem a sua função, o seu

valor e a sua evolução ao longo do tempo.

Por Eduardo de Carvalho

AIoT automóvel, a convergência

entre sensores, conectividade

e capacidade

de processamento integrada,

deixou de ser uma

tendência emergente para se afirmar

como a espinha dorsal, ainda invisível,

da mobilidade contemporânea. Mais do

que uma simples evolução tecnológica,

representa uma transformação estrutural

da indústria automóvel, com impacto

direto na forma como os veículos

são concebidos, utilizados, geridos e,

cada vez mais, valorizados como ativos

digitais.

Durante décadas, o automóvel foi

encarado como um sistema fechado,

essencialmente mecânico, com uma

relação limitada com o meio envolvente.

Esta lógica pertence hoje ao passado. A

nova geração de veículos posiciona-se

como plataformas digitais em circulação,

nas quais o hardware e o software

coexistem numa arquitetura cada vez

mais definida por dados.

Os veículos atuais estão equipados

com uma rede sofisticada de sensores,

unidades de controlo eletrónico e sistemas

de comunicação permanentes que

lhes permitem recolher e processar, de

forma contínua, informação sobre o seu

desempenho, a sua localização, as condições

ambientais e o comportamento

de condução. Parte deste processamento

ocorre a bordo, enquanto outra parte

é transferida para ecossistemas em nuvem,

onde os dados são agregados, analisados

e convertidos em serviços, como

a manutenção preditiva, a otimização de

rotas, a gestão de frotas e a personalização

da experiência do utilizador.

Esta transformação tem um efeito profundo:

o automóvel deixa de ser apenas

um meio de transporte para assumir

28 e-MOBILIDADE


um papel ativo na interpretação do

contexto em que se insere. O tráfego, as

condições meteorológicas, o estado das

infraestruturas e a interação com outros

veículos passam a integrar um sistema

dinâmico de leitura da mobilidade em

tempo real. Um sistema que não só reage,

mas também antecipa, redefinindo

silenciosamente a própria experiência

de condução.

A CAMADA QUE REORGANIZA

A OPERAÇÃO DO VEÍCULO

No epicentro desta transformação está

a telemática, frequentemente descrita

como o verdadeiro sistema nervoso do

automóvel conectado. É nesta camada

que o fluxo de dados adquire relevância

operacional, deixando de ser um mero

registo passivo para se tornar um instrumento

ativo de tomada de decisão.

Na prática, a telemática possibilita a

monitorização contínua dos veículos em

circulação, proporcionando visibilidade

sobre padrões de utilização, desempenho

e contexto operacional. A análise

destes dados possibilita a otimização

dinâmica de rotas, a diminuição do

consumo de combustível e, sobretudo,

a antecipação de avarias técnicas

antes que estas ocorram. A manutenção

deixa, assim, de ser reativa para passar

a ser preditiva, o que é mais eficiente e

menos disruptivo. Em paralelo, a gestão

de frotas deixa de se basear em registos

fragmentados e passa a uma abordagem

em tempo real, suportada por dados

consolidados e acionáveis.

O impacto deste paradigma estende-se

a vários setores. No setor da logística e

dos transportes, traduz-se em ganhos de

eficiência e redução de custos operacionais.

No setor dos seguros, abre caminho

a modelos de tarifação baseados no

uso e no comportamento real de condução.

Na mobilidade partilhada, permite

uma gestão mais precisa dos ativos e

da experiência do utilizador. Em todos

estes domínios, há um denominador

comum: o comportamento do veículo, e

do condutor, passa a constituir um ativo

mensurável, com implicações económicas

diretas e crescente relevância

estratégica.

QUANDO O AUTOMÓVEL PASSA

A COMUNICAR

A evolução das redes de telecomunicações,

em particular a expansão do 5G,

revelou-se um dos principais catalisado-

e-MOBILIDADE 29


MOBILIDADE CONECTADA

IOT Automóvel

O automóvel deixa de

ser apenas um meio de

transporte para assumir

um papel ativo na

interpretação do contexto

em que se insere. O

tráfego, as condições

meteorológicas, o estado

das infraestruturas e a

interação com outros

veículos passam a integrar

um sistema dinâmico de

leitura da mobilidade em

tempo real

res desta transformação. A combinação

de baixa latência, elevada largura de

banda e maior fiabilidade na transmissão

de dados está a redefinir o papel do

automóvel, que deixa de ser um sistema

isolado para se integrar em ecossistemas

de comunicação contínua e distribuída.

É neste contexto que surgem os sistemas

V2X (Vehicle-to-Everything), que

constituem uma das camadas mais

estruturantes da mobilidade conectada.

Estes sistemas possibilitam a comunicação

em tempo real entre veículos (V2V),

infraestruturas (V2I), peões (V2P) e

plataformas digitais (V2N), criando

uma rede digital na qual o automóvel

interage ativamente com o ambiente

circundante.

Na prática, esta capacidade traduz-se

numa nova geração de funcionalidades

com impacto direto na segurança e na

eficiência rodoviária: alertas de perigo

em tempo real, gestão inteligente dos

semáforos com base no fluxo efetivo de

tráfego, redução dos congestionamentos

e maior previsibilidade dos padrões

de circulação urbana. A infraestrutura

deixa de ser apenas um suporte físico

para também assumir um papel computacional.

O resultado é uma mudança de paradigma:

a mobilidade deixa de ser exclusivamente

reativa ao comportamento dos

utilizadores, passando a ser coordenada

em parte por dados. Trata-se de um

sistema em que a informação, a comunicação

e o tempo real convergem para

moldar, de forma progressiva, a circulação

nas cidades contemporâneas.

VEÍCULOS DEFINIDOS POR

SOFTWARE

Se a conectividade representa a comunicação,

o software simboliza a transformação

estrutural mais profunda do

automóvel contemporâneo.

Os veículos definidos por software

marcam uma mudança em relação

ao modelo tradicional da indústria

automóvel. O veículo deixa de ser um

produto finalizado no momento da

entrega, passando a ser uma plataforma

em constante evolução.

As funcionalidades podem ser atualizadas

remotamente, os sistemas podem

ser melhorados ao longo do tempo e

podem ser adicionadas novas capacidades

sem intervenção física. As atualizações

over-the-air tornam-se assim parte

integrante do ciclo de vida do automóvel.

Este modelo aproxima o setor automóvel

do universo das plataformas digitais.

O veículo passa a comportar-se como

um sistema evolutivo, semelhante a um

smartphone ou a um programa informático

complexo em constante atualização.

A NOVA ECONOMIA DA

MOBILIDADE CONECTADA

A consequência mais profunda desta

transformação é a reconfiguração do

próprio modelo económico da indústria

automóvel. O valor deixa de estar

concentrado no momento da venda do

veículo, o ponto de ancoragem tradicional

do setor, para se dispersar ao longo

do respetivo ciclo de vida, através de

uma lógica contínua de serviços digitais,

funcionalidades sob pedido, subscrições

e soluções baseadas na exploração de

dados.

Neste novo contexto, o automóvel assu-

30 e-MOBILIDADE


me progressivamente o papel de plataforma.

As receitas deixam de depender

exclusivamente do hardware, passando

a incorporar camadas de software,

conectividade e serviços num ecossistema

em que a atualização remota e

a personalização contínua se tornam

componentes estruturais do negócio.

As projeções de mercado refletem esta

mutação. O segmento global de veículos

conectados tem registado um crescimento

consistente e deverá ultrapassar

os 200 mil milhões de euros na próxima

década, impulsionado pela integração

da Internet das Coisas (IoT), pela

conectividade avançada e pela expansão

do software embarcado. Em paralelo,

a telemática e os sistemas V2X continuam

a ganhar escala, acompanhando

uma procura crescente por soluções de

mobilidade inteligente, mais eficientes e

orientadas para os dados.

Mais do que uma evolução incremental,

está em curso uma alteração de lógica.

O automóvel deixa de ser um produto

transacional com um início e um fim

de valor claramente definidos para se

afirmar como uma plataforma de serviços

contínuos em que o valor é permanentemente

atualizado, expandido e

redistribuído ao longo do tempo.

UM ECOSSISTEMA INDUSTRIAL

Esta transformação vai muito além do

próprio veículo. O que está em causa é

uma reconfiguração sistémica do ecossistema

industrial da mobilidade.

Os fabricantes de automóveis, os fornecedores

tradicionais de componentes,

os operadores de telecomunicações, as

empresas de software e os principais

intervenientes no domínio da computação

em nuvem começam a convergir

para um espaço operacional comum.

Neste novo contexto, a diferenciação

competitiva já não se baseia apenas na

engenharia mecânica, na eficiência produtiva

ou no design industrial. Depende

cada vez mais da capacidade de integrar

software, dados e conectividade em

arquiteturas tecnológicas complexas e

interoperáveis.

A mobilidade deixa de ser

exclusivamente reativa

ao comportamento dos

utilizadores, passando a

ser coordenada em parte

por dados. Trata-se de

um sistema em que a

informação, a comunicação

e o tempo real convergem

para moldar, de

forma progressiva, a

circulação nas cidades

contemporâneas

e-MOBILIDADE 31


MOBILIDADE CONECTADA

IOT Automóvel

Esta convergência está a redefinir cadeias

de valor e a introduzir novas hierarquias

no setor. A indústria automóvel

está a aproximar-se progressivamente

de um modelo típico das plataformas

digitais, em que a vantagem competitiva

não reside apenas na produção inicial,

mas sobretudo na capacidade de atualização

contínua, integração de serviços

e expansão funcional ao longo da vida

útil do produto.

A COMPLEXIDADE COMO NOVA

VARIÁVEL CRÍTICA

Apesar do seu potencial transformador,

a mobilidade conectada introduz

um conjunto de desafios estruturais

relevantes. A crescente dependência da

conectividade expõe o sistema a novas

superfícies de vulnerabilidade, com

particular incidência no domínio da cibersegurança.

Em simultâneo, o volume

de dados gerados pelos veículos levanta

questões cada vez mais complexas no

domínio da privacidade, da regulamentação

e da soberania digital.

A isto soma-se o aumento significativo

da complexidade arquitetónica dos

sistemas, exigindo-se, por conseguinte,

níveis superiores de coordenação entre

setores historicamente distintos, desde

a indústria automóvel até às telecomunicações,

passando pela energia

e pelo software. A mobilidade deixa,

assim, de ser um desafio circunscrito à

engenharia, passando também a ser um

problema de orquestração de sistemas

distribuídos.

Neste enquadramento, a Internet das

Coisas (IoT) automóvel consolida uma

mudança estrutural na forma como a

mobilidade é concebida. O veículo deixa

de ser o elemento central e isolado

do sistema para se transformar num

nó ativo de uma rede digital alargada,

na qual as infraestruturas, a energia, os

dados e o software interagem em tempo

real.

A engenharia continua a ser uma

componente essencial. No entanto, já

não é, por si só, suficiente para definir

o automóvel contemporâneo. Atualmente,

o que distingue um veículo não

é apenas aquilo que ele é, mas também

aquilo com que se comunica, com que

se conecta e a forma como evolui num

sistema que, por natureza, nunca está

verdadeiramente fechado.

32 e-MOBILIDADE


e-MOBILIDADE 33


SISTEMAS DE TRANSPORTE

A mobilidade que não se vê

Pensar em mobilidade é pensar em deslocações, no caso particular deste artigo, falamos

especificamente das deslocações de passageiros em transporte público e mais concretamente da

operação que está por trás e alimenta esse transporte.

U

m passageiro de transporte

público pretende

ter sempre um veículo

que lhe permita efetuar

a deslocação ao seu

local de destino, num horário previsível,

com pontualidade e com uma

duração razoável. Mas será que tem

noção de tudo aquilo que um operador

necessita para gerir e organizar até

que a imagem do operador, transposta

num motorista e numa viatura, chegue

até si?

Há uns meses li um livro que apresentava

o testemunho de motoristas de

vários transportes públicos, espelhando

as suas vidas que passam despercebidas

enquanto levam milhares de

pessoas até um destino, realidade que

me é próxima (Eles que nos levam,

Histórias de motoristas de transportes

públicos, Raquel Albuquerque,

Fundação Francisco Manuel dos

Santos). Ao ler este livro pensei: tal

como estes motoristas, existe um leque

alargado de pessoas que trabalham na

organização e definição da operação

todos os dias nos operadores, desde a

definição da própria rede de transportes

até ao processamento de salários,

passando pelo planeamento da oferta,

gestão dos recursos, gestão diária da

operação e gestão oficinal. Todos estes

intervenientes da operação têm um

foco: garantir que o passageiro tem um

transporte adequado às suas necessidades

com motoristas e viaturas a

realizar as viagens todos os dias.

Não se trata de um trabalho fácil: há

que respeitar as frequências das viagens,

há que garantir as regras laborais

e restrições próprias do serviço, há que

DULCE PEDROSA

Coordenadora da Área de Planeamento e

Operações da OPT - Optimização e Planeamento

de Transportes

contemplar as características próprias

da oferta como circuitos específicos,

com habilitações específicas para os

efetuar ou condicionantes horárias

dos próprios motoristas, para não

falar ainda da gestão diária de faltas

de última hora ou avarias das viaturas

na rua, quando nem sempre há

recursos em quantidades desejáveis, só

para citar alguns casos. Aliado a estas

condicionantes, há que garantir ainda

a eficiência da operação, minimizando

os custos do lado do operador, mas

de forma que a solução seja eficiente

e duradoura a longo prazo, indo ao

encontro de um equilíbrio: a minimização

de custos não pode ser vista

de forma imediata como se o objetivo

fosse só ter menos motoristas, há que

procurar manter o absentismo baixo

e um espírito de cooperação. Não esquecer

que estamos a lidar com gestão

de pessoas.

Foi com este objetivo que, há mais de

30 anos, foi construído o consórcio

formado pelas cinco maiores empresas

de transporte público rodoviário em

34 e-MOBILIDADE


Portugal (Carris, STCP, Horários do

Funchal, Grupo Barraqueiro e Vimeca)

e dois institutos (ICAT pela Faculdade

de Ciências da Universidade de Lisboa e

INEGI pela Faculdade de Engenharia da

Universidade do Porto). Este consórcio

deu origem ao sistema GIST, um

sistema pioneiro de apoio à decisão com

o propósito de apoiar os planeadores

com recurso a algoritmos que permitem

definir soluções de planeamento.

Este consórcio deu origem à empresa

OPT em 1992, e desde essa altura que

tem vindo, em conjunto com as empresas

de transporte público a evoluir

o sistema GIST dotando-o de funcionalidades

que vão ao encontro das

necessidades dos operadores, sendo um

sistema crucial da sua operação.

O sistema cresceu e hoje passados 30

anos, para além de ter aumentando

o seu leque de clientes, já não faz só

planeamento: faz gestão de redes, gestão

de recursos, gestão do escalamento de

longo prazo ou da operação do dia-a-

-dia, seja ela dos motoristas ou das viaturas

com gestão da frota e manutenção

prevista ou oficinal, operando 24/7, em

todos os dias do ano e resultando em

comunicação direta para vencimentos.

Um sistema crítico.

Tive o privilégio de acompanhar de

Foi com este objetivo que, há mais de 30 anos,

foi constituído o consórcio formado pelas cinco

maiores empresas de transporte público rodoviário

em Portugal (Carris, STCP, Horários do Funchal,

Grupo Barraqueiro e Vimeca) e dois institutos

(ICAT pela Faculdade de Ciências da Universidade

de Lisboa e INEGI pela Faculdade de Engenharia da

Universidade do Porto)

perto ao longo dos anos a evolução dos

clientes na gestão da sua operação e

poder apoiar e disponibilizar melhorias

que permitissem facilitar as suas tarefas

e as suas tomadas de decisão. Para citar

um exemplo, a gestão de uma operação

de centenas de motoristas diariamente,

com o absentismo diário e faltas de

última hora, requer um grande suporte

de informação e capacidade de decisão.

É necessário garantir descansos, horas

extra, condicionantes das viagens e os

horários que melhor se adequam ao

motorista. Com a utilização de algoritmos

matemáticos, é possível otimizar

a atribuição de serviços aos motoristas,

garantindo as suas restrições enquanto

se adequa o serviço às suas preferências,

indo a solução ao encontro, quer da

empresa quer dos motoristas.

Os sistemas de gestão e operação têm de

ser flexíveis e adaptativos, cada cliente é

específico e pode ter modos de operação

diferentes que vão desde acordos de

empresa diferentes que definem a criação

de planeamentos ou por exemplo a

gestão de férias, até à especificidade da

oferta pública, geografia da operação,

tanto pode ser aplicada em meio urbano

ou em meio suburbano ou interurbano

de longo curso. Na OPT e em particular

o sistema GIST abrange todas essas vertentes

contemplando ainda a capacidade

de comunicação com outros sistemas

como Sistemas de Apoio à Exploração,

Salários, entre outros.

Para a tomada de decisões os algoritmos

são cruciais, entram por exemplo, na

elaboração de soluções automáticas de

planeamento com a construção dos serviços

diários de motoristas e de viaturas

ou no cálculo de custos previstos de

operação. Para além de soluções heurísticas,

o uso de solver comercial como

e-MOBILIDADE 35


SISTEMAS DE TRANSPORTE

Por Dulce Pedrosa

o Gurobi para obter soluções exatas

sobre modelos matemáticos avançados

definidos pela OPT, garante um apoio

quer a planeadores quer a escaladores,

facilitando a sua operação e garantindo

as condições necessárias para a execução

da operação na rua todos os dias.

Dotar sistemas de indicadores que

expõem resultados e facilitam a análise

de resultados é crucial, permitindo aos

operadores ter uma análise sobre a operação

planeada e sobre o seu impacto

no dia-a-dia. Esses indicadores estão

presentes, quer para o planeamento a

longo prazo da operação, quer para a

própria operação efetuada, permitindo

ter por exemplo informação sobre a

previsibilidade do absentismo ou da

execução da operação, permitindo direcioná-la

para uma melhor eficiência.

Voltando ao motorista em si, este tem

hoje à sua disposição uma app que lhe

permite não só consultar o seu serviço

em detalhe para os próximos dias, pedir

A OPT está em evolução, e o seu software GIST de

planeamento e escalamento também, recorrendo

a tecnologias atuais como a IA e evoluindo

o seu produto. Atualmente está em curso o

desenvolvimento da versão 4 do sistema GIST

para trocar de serviço com um colega,

candidatar-se a períodos em extraordinário,

registar ocorrências ou fazer

pedidos de férias entre outros. Estas

funcionalidades permitem não só garantir

uma comunicação entre escaladores

e motoristas, mas também contemplar

que o serviço é executado com maior

fiabilidade.

Tal como a sociedade evolui com novos

desafios e objetivos, assim a OPT

acompanha essa evolução no sistema

GIST à medida que novos conceitos

de mobilidade vão ficando mais fortes

na nossa sociedade, exemplo disso foi

o desafio de implementação no BRT

da Metro Mondego, o primeiro BRT a

entrar em operação em Portugal, com

especificidades que vão desde a precisão

nos tempos de passagem ao segundo,

à gestão de carregamentos elétricos

de oportunidade e à sincronização de

passagens em via única.

A OPT está em evolução, e o seu software

GIST de planeamento e escalamento

também, recorrendo a tecnologias

atuais como a IA e evoluindo o seu

produto. Atualmente está em curso o

desenvolvimento da versão 4 do sistema

GIST. Brevemente será disponibilizado

o primeiro protótipo, assente em novas

ferramentas de desenvolvimento e com

uma solução mais eficiente, enquanto

responde às necessidades dos clientes

do sistema. E sim, adaptada às necessidades

dos clientes, uma vez que em

mobilidade e transportes não pode existir

uma ferramenta universal imposta,

ela tem de ser adaptativa.

Reforçamos o nosso compromisso com

a fiabilidade e a proximidade com clientes

e operadores, colocando a tecnologia

ao serviço de uma mobilidade mais

eficiente para todos os cidadãos.

36 e-MOBILIDADE


atosinhos (Mercado)

506

Matosinhos (Igreja)

505

Matosinhos (Praia)

205

Castelo do Queij

505

506

P. da Cidade (Norte)

Pr. Cidade Salvador

Foz (R. Farol)

204

505

Sendim (Cemitério)

506

205

204

205

506

204

Crestins

505

506

604

Norteshoppin

2M

204

Sr.ª da Hora

506

Pereiró

604

2M 205

204

205 2M

505

604

506

Fonte da Mour

Br. St.º Eugénio

204

11M

Bess

603-604

2M 205

2M

1M

Coimbrões

Coimbrões (Qta. Bela Vista)

505

Carvalhido

204

Hosp. St.º António

506

Arco do Prado

301

603-604

Mainça

704

704 803 204

Boavist

2M

505

3 0

2M 205

3 0-301

3

St.ª Luzia

Cedofeita

0-301

305

603

Maia (Estádio)

1M

604

505-506

2M

204 803

3 0-305

0

505

704

704

803

Lavrador

Amia

603

604

604 705 506

300-301

204

2M

803

Arca D'Água

3 0-305

Aliados

3 0-301 803 603 1M

1M 603

CAP

603

1M

1M

1M

1M

Maninho

Mogo

Gueifães

ISE

1M 204

603

603

Hosp. St.ª Maria

Trindade

305

604

Caves Vinho do Porto

General Torres

604

705

603

Azenha Nov

Marquê

705

603

1M 404

305

Agra

Pedrouços (J. Freguesia)

Pr. da Batalha

Milheirós (C. Saúde)

603-604 705 506

1M

Silva Tapada

404

Campo 24 de Agos

S. Lázaro

305

707

705-706-707

Antas

Bonfim

3 0-301

404

St.ª Justa

305

707

704

706-707

reosa

Estádio do Dragão

706-707

706-707

706

S. Gemil

205 803-804

205

Campanh

707

705

704

. Roque

803

705

Águas Santas

Forno

Freixo

704

205

205

704

705

706-707

Alto da Maia

Santegãos

803

Parque Nascent

704

Br. Cerco do Porto

Maia Shoppin

804

803

705-706-707

Palmilheira

704

rmesinde

803

704

Rio Tinto (Esc. Secundária)

705

Vilar

Formiga Cemitério

804 804

804

704

705

Alfena

9 de Agosto

705

804

705

Alto da Serra (Gondomar)

705

Alto da Serra (Valongo

Covilhã

804

S. Pedro da Cov

705

Valongo (Continente

Mapas Esquemáticos

A mais recente solução OPT para os passageiros

O InfoPub dispõe de uma nova funcionalidade para o auxílio à produção de mapas esquemáticos de

rede e spider maps, de forma automática, em formato vetorial. Esta funcionalidade reduz

consideravelmente o esforço necessário para produzir este tipo de informação, quer seja em suporte

físico ou digital.

Padrão Moreira

Godi

Maia (Zoo)

Maia (Câmara)

Vermoi

Monte Pened

603-604

706-707 706

Milheirós (Igreja)

A regada

Ardegães

Travage

603 706-707

Parad

Guifões

Custóias

Mosteiro

604 705

Valongo (Centro)

C. C. Londres

Padrão da Légua

Pedra Verd

S. Mame

Matosinhos (Câmara)

205 205

Fonte Luminos

Hosp. Magalhães Lemo

Hosp. Pedro Hispan

2M 205

Circunvalação - R. Senhor

Monte dos Burgo

3 0-305 1M

704-706-707

804 205

Rio Tinto (Estação)

Rio Tinto (Igreja)

Rio Tinto (C. Saúde)

3 0-301

3 0-301

804 205

2M 2M

Vale Formos

Covel

3 0-305

S. Caetano

Carvalha

St.ª Eulália

Salgueiros

204 803 704

3 0-301-305

Mercado da Fo

Pasteleira

Fluvial Norte

Lordelo

Planetário

Pr. da Galiza

3 0-301

Carm

Pr. da República

Pr. Filipa Lencastre

11M-2M

Bolhão

3 0-301-305

Cordoaria

300-301

3 0-301

Spider Map para a zona do Hospital de São João (Porto)

Geração automática sem pós-processamento

Mapas Esquemáticos

de Rede

Representam as linhas, paragens, pontos de

interesse e ligações em transporte público.

Também permite produzir mapas para zonas

específicas de uma rede, entre outros recursos.

SpiderMaps

Os Spider Maps evidenciam todos os serviços

de transporte público disponíveis a partir de

uma região de referência. A representação

esquemática não compromete o contexto

geográfico e reúne informação sobre:

• Paragens ou Pontos Notáveis

• Obstáculos geográficos

• Informação adicional de apoio à melhor

leitura do mapa

geral@opt.pt

www.opt.pt

e-MOBILIDADE 37


ONDE O

TRANSPORTE

PÚBLICO É

CULTURA

Hong Kong

38 e-MOBILIDADE


Às oito da manhã, numa plataforma de Hong Kong, milhares

de pessoas alinham-se com precisão quase coreografada.

Não há caos, não há hesitação. As portas abrem, os fluxos

cruzam-se em segundos, e o comboio parte exatamente à hora

prevista. É neste detalhe, repetido milhões de vezes por dia,

que se constrói um dos sistemas de transportes públicos mais

eficientes do mundo. Mas também é aqui, na pressão constante

da excelência, que se desenha o seu maior desafio.

Por Eduardo de Carvalho

e-MOBILIDADE 39


SMART CITIES

Hong Kong

E

ntre o Mar do Sul da China e

colinas densamente urbanizadas,

este território singular

nasceu de uma geografia

improvável e de uma história

marcada por encontros e tensões. Antigo

porto de pescadores transformado

em enclave estratégico do Império Britânico

no século XIX, Hong Kong cresceu

como ponto de contacto entre Oriente e

Ocidente, entre tradição e modernidade.

Ao longo de mais de um século de

administração britânica, consolidou-se

como um dos mais importantes centros

financeiros e logísticos do mundo, antes

de regressar à soberania chinesa em

1997 sob o princípio “um país, dois

sistemas”.

Mas mais do que a sua história política

ou económica, é o seu ritmo que define

Hong Kong.

Uma cidade vertical, comprimida entre

montanhas e mar, onde o espaço é

escasso e o tempo é precioso. Onde milhões

de pessoas se movem diariamente

com uma precisão quase invisível.

Onde o transporte não é apenas uma

infraestrutura, é o sistema nervoso que

mantém tudo vivo.

E é precisamente aí que Hong Kong se

torna um caso de estudo incontornável.

PORQUE FUNCIONA TÃO BEM?

A eficiência do sistema de transportes

de Hong Kong não é fruto do acaso,

mas sim o resultado de uma arquitetura

cuidadosamente concebida ao longo

A ferrovia define o território e a cidade cresce em

torno dela. A habitação, o comércio e os serviços

surgem alinhados com a rede, reduzindo distâncias

e reforçando a eficiência do sistema.

de décadas, na qual o urbanismo, a

economia e a operação convergem

de forma única. A extrema densidade

urbana cria uma procura contínua,

permitindo frequências superiores, uma

elevada taxa de ocupação e um nível de

rentabilidade incomum nos sistemas

de transporte público. Neste contexto,

os transportes públicos não competem

com o automóvel particular; pelo

contrário, são o modo de transporte

dominante.

A este enquadramento soma-se um

dos modelos mais estudados à escala

global: o “Rail + Property”. Ao integrar

o desenvolvimento imobiliário com a

expansão ferroviária, a cidade consegue

financiar uma parte significativa da

sua infraestrutura através das receitas

geradas em torno das estações. Mais do

que um mecanismo financeiro, tratase

de uma lógica de planeamento: a

ferrovia define o território e a cidade

cresce em torno dela. A habitação,

o comércio e os serviços surgem

alinhados com a rede, reduzindo

distâncias e reforçando a eficiência do

sistema.

Outro fator determinante é a integração.

Em Hong Kong, o metro, os autocarros,

os elétricos e os ferries não funcionam

de forma isolada, mas sim como uma

rede coordenada, concebida para

minimizar redundâncias e maximizar

a cobertura. Esta lógica é reforçada

40 e-MOBILIDADE


por uma operação altamente fiável,

com níveis de pontualidade próximos

dos 99,9% e frequências que, nas

horas de ponta, podem descer para

intervalos de dois minutos, criando uma

previsibilidade que torna o transporte

público uma escolha quase automática.

Por fim, há um elemento menos

tangível, mas igualmente crítico: a

cultura de utilização. Numa cidade

onde o espaço é limitado e o custo

de possuir um automóvel é elevado,

o transporte público não é uma

alternativa, mas sim a norma. Essa

adesão massiva não só sustenta o

sistema como eleva permanentemente

o nível de exigência quanto à sua

qualidade.

A EXCELÊNCIA COMO NORMA

No centro desta engrenagem, encontrase

a MTR Corporation, cuja operação

ferroviária alcançou um estatuto

quase mítico no setor. Com níveis de

pontualidade próximos dos 99,9%,

o sistema não é apenas eficiente: é

previsível, fiável e profundamente

integrado no quotidiano urbano.

Ainda assim, reduzir o sucesso de

Hong Kong ao metro seria claramente

redutor. A cidade construiu um

verdadeiro ecossistema de mobilidade,

onde autocarros, mini autocarros,

elétricos históricos que atravessam

a ilha e ferries que ligam margens e

comunidades funcionam de forma

complementar e articulada. Todo este

sistema é suportado por um modelo

de pagamento único, o Octopus,

que eliminou transtornos e tornou a

mobilidade praticamente invisível no

dia a dia. O resultado é uma realidade

rara à escala global: cerca de 70%

das deslocações são realizadas em

transporte público. Noutras cidades,

seria uma meta ambiciosa; em Hong

Kong é simplesmente a norma.

da procura. Para o utilizador, isto

traduz-se numa relação de confiança

rara, onde o planeamento excessivo se

torna desnecessário porque o sistema,

simplesmente, funciona. Ainda assim,

subsistem nuances. Nos segmentos

menos estruturados, como os mini

autocarros, persistem desafios ao

nível do conforto e da regularidade,

recordando que nem toda a rede

opera exatamente ao mesmo nível de

excelência.

Hong Kong não tem apenas bons

transportes, foi, em grande medida,

moldada por eles. A lógica que sustenta

o sistema é clara: a ferrovia estrutura

o território, enquanto os restantes

modos asseguram a distribuição fina

e a ligação entre pontos, criando uma

rede profundamente integrada. Esta

articulação permite uma mobilidade

surpreendentemente fluida, mesmo

num dos contextos urbanos mais densos

do mundo. Mas é precisamente essa

densidade que alimenta uma tensão

crescente.

No centro desta engrenagem, encontra-se a MTR

Corporation, cuja operação ferroviária alcançou

um estatuto quase mítico no setor. Com níveis

de pontualidade próximos dos 99,9%, o sistema

não é apenas eficiente: é previsível, fiável e

profundamente integrado no quotidiano urbano

QUALIDADE QUE SE SENTE

A qualidade do sistema não se

esgota nos números, manifesta-se,

sobretudona experiência quotidiana

de quem o utiliza. Pontualidade,

frequência e segurança são apenas a

base; o verdadeiro diferencial está na

consistência com que tudo funciona:

os tempos de espera são previsíveis,

a informação é clara e o sistema

responde com rapidez às dinâmicas

e-MOBILIDADE 41


SMART CITIES

Hong Kong

A eficiência tem um preço e, em Hong

Kong, esse preço mede-se em saturação.

Nas horas de ponta, o sistema opera no

limite: plataformas cheias, comboios

densos, fluxos intensos. Aquilo que

noutras cidades poderia ser interpretado

como falha, é aqui, em grande medida,

um efeito colateral do próprio sucesso.

Ainda assim, a forte dependência do

modo ferroviário levanta questões

estratégicas incontornáveis: Como

manter níveis de fiabilidade tão

elevados sob pressão constante? Como

expandir a rede, sem comprometer o

equilíbrio urbano? E como diversificar

a oferta, sem perder eficiência? Acresce

que eventos recentes, como a Pandemia,

evidenciaram uma vulnerabilidade

adicional: mesmo sistemas altamente

robustos não estão imunes a choques

externos.

SUSTENTABILIDADE: A PRÓXIMA

FRONTEIRA INVISÍVEL

Paradoxalmente, um dos sistemas de

mobilidade mais eficientes do mundo

enfrenta desafios ambientais relevantes.

Segundo o Oliver Wyman Forum,

Hong Kong ainda não está plenamente

alinhada com os objetivos do Acordo de

Paris, sobretudo devido à dependência

de uma rede elétrica intensiva em carbono.

A resposta está em curso, ainda

que de forma discreta, através de uma

transformação estrutural que passa pela

eletrificação total das frotas, pela exploração

do hidrogénio, pela criação de

estações energeticamente mais eficientes

e pela recuperação de energia através de

sistemas como a travagem regenerativa.

Sob a liderança de Jacob Kam, a MTR

Corporation tem vindo igualmente

a apostar em soluções de inovação

avançada, como os painéis solares

transparentes, particularmente relevantes

numa cidade vertical, onde cada

fachada pode, potencialmente, trans-

formar-se numa fonte de energia. Ainda

assim, a transição para um sistema

mais sustentável levanta uma questão

incontornável: quem financia este caminho?

Embora parte dos investimentos

permita retornos diretos, muitos exigem

uma visão de longo prazo que nem

sempre se alinha com as expectativas do

mercado. O financiamento verde surge

como instrumento central, mas enfrenta

42 e-MOBILIDADE


A eficiência tem um preço e, em Hong Kong, esse

preço mede-se em saturação. Nas horas de ponta,

o sistema opera no limite: plataformas cheias,

comboios densos, fluxos intensos

um desafio crítico: se apresentar custos

semelhantes aos modelos tradicionais,

perde atratividade. Neste contexto, o

desafio deixa de ser apenas tecnológico,

é, acima de tudo, estrutural.

MAIS DO QUE UM MODELO

Hong Kong é frequentemente apresentada

como um modelo a seguir, e

com razão. Mas é também um alerta.

Demonstra que a excelência operacional

é possível, que a adesão massiva ao

transporte público é alcançável e que

a integração sistémica é determinante

para o sucesso de uma rede de mobilidade.

Ao mesmo tempo, revela que esse

mesmo sucesso gera novas pressões,

que a sustentabilidade não depende

apenas da eficiência do sistema de

transportes e que a inovação tem de ser

contínua para acompanhar a complexidade

urbana.

Entre um presente exemplar e um futuro

incerto, o sistema de transportes de

Hong Kong funciona, à superfície, como

um relógio suíço. Mas, como qualquer

mecanismo de alta precisão, exige uma

recalibração constante. O futuro não

será definido apenas pela capacidade

de manter padrões elevados, mas pela

coragem de os reinventar, encontrando

um equilíbrio delicado entre eficiência,

sustentabilidade e viabilidade económica.

Porque, em Hong Kong, o transporte

público não é apenas uma infraestrutura:

é o próprio ritmo da cidade. E esse

ritmo, agora, precisa de evoluir.

e-MOBILIDADE 43


TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO

O DIA SEGUINTE AOS AUMENTOS

DOS COMBUSTÍVEIS:

A tecnologia como resposta

inevitável no sector dos transportes

Da eficiência energética à eletrificação e aos dados em tempo real, o sector adapta-se a um novo

paradigma de custos. Os recentes aumentos no preço dos combustíveis após o fecho do estreito de

Ormuz, e na sequência da escalada militar na região, não são apenas mais um ciclo volátil de mercado,

representam, cada vez mais, um ponto de inflexão estrutural no sector dos transportes.

No o “day after”, aquilo

que se observa não é

apenas uma preocupação,

mas uma clara

aceleração de tendências

tecnológicas que já estavam a ganhar

tração.

Se, durante anos, a inovação foi muitas

vezes encarada como uma vantagem

competitiva, hoje tornou-se uma questão

de sobrevivência operacional.

Num contexto de custos energéticos

elevados, a otimização deixou de ser

um “nice-to-have”.

As tecnologias de gestão de frotas

baseadas em algoritmos e inteligência

artificial permitem reduzir os consumos

de forma significativa, ao possibilitarem:

• otimização dinâmica de rotas com

base no trânsito e nos constrangimentos

reais da operação;

• análise de padrões de condução

para reduzir o desperdício;

• manutenção preditiva que evita

perdas de eficiência mecânica.

As empresas que já operavam com

sistemas telemáticos avançados estão a

conseguir amortecer parte do impacto.

As restantes enfrentam agora uma pressão

clara para digitalizarem rapidamente.

FILIPE CARVALHO

CEO Wide Scope

DADOS EM TEMPO REAL: O NOVO

COMBUSTÍVEL

A visibilidade operacional tornou-se

crítica. As plataformas que agregam

dados de veículos, condutores e condições

externas estão a permitir a tomada

de decisões em tempo real, algo que,

até há poucos anos, seria impensável

em larga escala.

Atualmente, um gestor de frota pode:

• reajustar rotas instantaneamente

com base no preço do combustível

por região;

• identificar os veículos menos eficientes

e retirá-los temporariamente

de circulação;

• simular cenários de custo antes de

executar operações.

Este nível de controlo não elimina o

impacto dos preços, mas permite geri-

-lo com uma precisão sem precedentes.

ELECTRIFICAÇÃO: DE TENDÊNCIA A

URGÊNCIA

Se antes a transição energética era sobretudo

impulsionada por regulamentação

e sustentabilidade, o aumento

dos combustíveis está a torná-la economicamente

inevitável.

Os veículos elétricos (VE), especialmente

em operações urbanas e de

última milha, começam a revelar vantagens:

• custos totais de operação mais

previsíveis;

• menor exposição à volatilidade

energética;

• integração com infraestruturas

inteligentes de carregamento.

No entanto, a adoção de veículos elétricos

ainda enfrenta desafios, nomeadamente

em termos de investimento

inicial, infraestruturas e autonomia, o

44 e-MOBILIDADE


que abre espaço para soluções híbridas

e modelos de transição.

SOFTWARE COMO

DIFERENCIADOR COMPETITIVO

Num cenário em que o hardware

(veículos) tem limitações físicas, é no

software que surge a maior margem de

inovação.

As startups e as grandes empresas estão

a apostar em:

• plataformas SaaS de gestão logística;

• algoritmos de otimização com

variáveis e restrições à dimensão

da realidade operacional;

• integração com marketplaces e

sistemas de aprovisionamento

energético.

O resultado é um setor onde a vantagem

competitiva passa cada vez mais

pela capacidade de integrar e interpretar

a tecnologia, e não apenas de

operar veículos.

NOVOS MODELOS DE NEGÓCIO

ESTÃO A EMERGIR

O aumento dos combustíveis está também

a catalisar mudanças estruturais

nos modelos de negócio:

• maior adoção de modelos “asset-

-light”, em que a empresa não possui

ativos (caminhões, motoristas,

etc.) e foca-se no planeamento e

gestão dos transportes, entregando

a execução a terceiros;

• crescimento de plataformas colaborativas

de transporte;

• contratos dinâmicos baseados no

custo energético variável.

As empresas mais ágeis tecnologicamente

conseguem ajustar-se rapidamente,

ao passo que as estruturas mais

rígidas enfrentam uma maior pressão.

O PAPEL DA INTELIGÊNCIA

ARTIFICIAL: DA TEORIA À

OPERAÇÃO NO TERRENO

Se, durante anos, a inteligência artificial

(IA) foi vista como uma promessa

distante no setor dos transportes, o

atual contexto de pressão sobre os

custos está a acelerar a sua aplicação

prática.

Hoje em dia, a IA não se limita à

análise de dados; está também integrada

nos processos operacionais diários

das empresas, muitas vezes de forma

invisível.

A seguir, apresentam-se sete casos de

utilização atual da IA:

1. Otimização de rotas em tempo

real (beyond GPS): uma empresa de

distribuição pode optar por um percurso

ligeiramente mais longo em quilómetros,

mas que evita zonas urbanas

congestionadas, reduzindo o tempo em

marcha lenta e, consequentemente, o

consumo total de combustível.

Em alguns casos, estas plataformas

conseguem reduzir os custos operacionais

entre 10% e 20%, apenas com decisões

de roteamento mais inteligentes.

2. Previsão do consumo energético

por viagem: antes de aceitar um novo

contrato, uma transportadora pode simular

o custo energético exato de cada

rota e decidir se a operação é rentável,

o que é crucial num contexto de preços

dos combustíveis voláteis.

3. Monitorização e formação de condutores:

o comportamento do condutor

pode representar variações significativas

no consumo de combustível

(até 20–30%). A IA está a transformar

dados telemáticos em ações concretas.

Através da identificação de acelerações

bruscas, travagens agressivas ou excesso

de tempo em marcha lenta, os sistemas

de IA enviam feedback em tempo

real para o condutor (através de uma

e-MOBILIDADE 45


TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO

Filipe Carvalho

aplicação ou de um painel de bordo no

veículo), sugerindo ajustes imediatos,

como reduzir a aceleração ou manter

uma velocidade constante.

Algumas empresas já gamificam este

processo, premiando os condutores

mais eficientes.

4. Manutenção preditiva com impacto

direto no consumo: veículos

mal mantidos consomem mais. A IA

permite antecipar falhas antes que

estas afetem a eficiência. São analisadas

vibrações anormais no motor, padrões

de consumo fora do normal e o desgaste

de componentes, como os pneus ou

os filtros.

Um sistema pode detetar que um filtro

de ar degradado está a aumentar o consumo

em 5–8% e agendar a manutenção

antes que o problema se agrave,

evitando custos cumulativos invisíveis.

5. Gestão inteligente de frotas

híbridas e elétricas: com a crescente

adoção de veículos elétricos, a complexidade

operacional aumenta, e é aqui

que a IA se torna crucial. O sistema

consegue decidir que tipo de veículo (a

combustão ou elétrico) deve ser utilizado

em cada rota, otimizar os horários

de carregamento com base nos preços

da eletricidade e garantir autonomia

suficiente sem comprometer os prazos.

Por exemplo, uma plataforma pode

atribuir automaticamente veículos

elétricos a rotas urbanas curtas e reservar

veículos a combustão para longas

distâncias, maximizando a eficiência

global da frota.

6. Compra inteligente de combustível:

uma das aplicações menos óbvias,

mas com impacto direto, é a otimização

da própria compra de combustível.

A IA monitoriza os preços em tempo

real em diferentes regiões, prevê tendências

de curto prazo e sugere onde

e quando deve ser efetuado o abastecimento.

Um camião em rota internacional pode

ser instruído a abastecer num país ou

região específica onde o preço é significativamente

mais baixo, mesmo que

isso implique um pequeno desvio, que

será compensado pela poupança.

7. Simulação de cenários e tomada

de decisão estratégica: a IA não

atua apenas no nível operacional, mas

também apoia a tomada de decisões

estratégicas. Pode simular o impacto

de aumentos adicionais no preço do

combustível, testar a viabilidade da eletrificação

parcial da frota e prever margens

em diferentes cenários económicos.

Por exemplo, uma empresa pode

simular: “E se o combustível subir

mais 15% nos próximos três meses?” e

ajustar antecipadamente os preços, os

contratos ou as operações.

DE FERRAMENTA A

INFRAESTRUTURA CRÍTICA

Estes exemplos mostram que a inteligência

artificial deixou de ser uma

camada adicional para se tornar uma

infraestrutura crítica do setor.

Num ambiente onde as margens são

cada vez mais reduzidas, a diferença

entre o lucro e o prejuízo pode estar

em decisões tomadas em milissegundos

— e é precisamente aí que a IA

ganha relevância.

Mais do que automatizar, a IA está a

redefinir a forma como o setor dos

transportes pensa, planeia e age. E, no

atual contexto de pressão energética,

essa transformação deixou de ser opcional,

passando a ser estrutural.

A ADAPTAÇÃO TECNOLÓGICA

É A ÚNICA VIA

O “day after” aos aumentos dos combustíveis

não é um regresso à normalidade,

mas sim o início de uma nova

fase. A tecnologia deixou de ser um

facilitador para se tornar o principal

mecanismo de adaptação.

No setor dos transportes, a questão já

não é se as empresas vão investir em

tecnologia, mas sim a rapidez com que

o conseguem fazer.

Porque, num mundo onde o custo do

combustível é cada vez menos controlável,

a eficiência tecnológica é,

provavelmente, a única variável que

resta otimizar.

46 e-MOBILIDADE


e-MOBILIDADE 47


TESTE COM ALMA

por Eduardo de Carvalho

Polestar 2

Elétrico com alma

O Polestar 2 não é uma novidade no nosso histórico de ensaios, mas regressa agora a teste num

contexto diferente: utilização real, prolongada e, sobretudo, integrada na rotina familiar.

É precisamente neste cenário, fora das apresentações formais e dos primeiros contactos,

que um veículo elétrico revela o que realmente vale.

Mais do que números

ou especificações, o

objetivo foi perceber

como se comporta no

dia a dia: na gestão de

energia, na convivência com diferentes

perfis de utilização e na capacidade de

responder às exigências de uma mobilidade

contemporânea, onde a eficiência

tem de coexistir com conforto, tecnologia

e versatilidade. Numa abordagem

editorial alinhada com o ADN da

eMobilidade+, este não foi apenas mais

um ensaio. Foi um teste com alma,

vivido no quotidiano, em deslocações

reais, muitas delas em família, onde a

mobilidade se mede menos em números

e mais na forma como se vive.

Há sempre um momento em que a

relação muda. Inicialmente, analisamos:

consumos, autonomia, qualidade de

construção, comportamento dinâmico.

Mas, com o tempo, o carro deixa de

ser objeto de avaliação e passa a ser

48 e-MOBILIDADE


parte da rotina. Com o Polestar 2, esse

momento chega cedo.

Talvez porque já não é um estranho.

Para quem acompanha este tipo de

ensaios de forma consistente, incluindo

os mais pequenos lá de casa, o Polestar

não é novidade. É quase um “velho

conhecido”. Os miúdos reconhecem-no,

comentam o silêncio, antecipam o teto

panorâmico, pedem para ir atrás só

para olhar o céu. Há uma familiaridade

que não se constrói num único teste,

constrói-se ao longo de experiências

repetidas. E isso muda tudo.

UM ELÉTRICO QUE SE VIVE

NO DIA A DIA

Na prática, o Polestar 2 revela-se exatamente

aquilo que um elétrico premium

deve ser: equilibrado, intuitivo e fácil de

integrar no quotidiano.

Carregar em casa continua a ser um dos

seus maiores trunfos. Um ciclo completo

de carregamento ronda pouco mais

de 20 euros, permitindo autonomias

reais na ordem dos 350 km, valores

que, no contexto atual, continuam a

reforçar a vantagem económica face aos

motores de combustão.

Mas mais importante do que os números

é a forma como o carro gere essa

energia. A integração com o Google

Maps, nativa e exemplar, permite saber,

e-MOBILIDADE 49


TESTE COM ALMA

por Eduardo de Carvalho

com precisão, quanta bateria teremos ao

chegar ao destino. É um detalhe técnico

que elimina incertezas e transforma a

experiência de condução elétrica numa

rotina natural. Num segmento onde a

tecnologia pode facilmente tornar-se

excessiva, o Polestar 2 distingue-se pela

clareza. O sistema baseado no Google

Automotive afirma-se como um dos

mais bem conseguidos do mercado:

rápido, intuitivo e verdadeiramente

relevante na utilização diária. Não exige

adaptação, não distrai, simplesmente

funciona. Entrar, sentar, colocar o cinto

e arrancar, sem necessidade de botão de

arranque, é uma dessas evoluções naturais

que fazem todo o sentido num elétrico.

Depois de viver com este sistema,

regressar a soluções mais convencionais

soa, honestamente, a um passo atrás.

Mas é fora das fichas técnicas que este

ensaio ganha verdadeira profundidade.

Ao longo de uma semana de utilização

real, com a logística típica de uma família,

mochilas, casacos, snacks e os inevitáveis

“extras”, o Polestar 2 respondeu

com naturalidade. O porta-bagagens,

embora não seja dos maiores do segmento,

revelou-se suficiente, apoiado

por soluções inteligentes que facilitam

a organização, enquanto o compartimento

dianteiro acabou por ganhar uma

utilidade inesperada no dia a dia.

E depois há aquilo que não se quantifica.

O silêncio nas viagens, que devolve

espaço à conversa; o teto panorâmico,

que transforma cada percurso num

pequeno momento de descoberta para

os miúdos; a suavidade da condução,

que torna os trajetos mais longos menos

exigentes e mais fluidos. Neste cenário,

o carro deixa de ser apenas um meio

de transporte, passa a integrar-se na

experiência familiar, quase sem se dar

por ele.

DINÂMICA COM IDENTIDADE

Em estrada, o Polestar 2 continua a

justificar a sua posição no segmento

premium. A versão Dual Motor entrega

prestações convincentes, rápidas, seguras,

sempre disponíveis, mas sem perder

compostura.

Não é um desportivo puro. Nem pretende

ser. É um elétrico que privilegia o

equilíbrio.

A direção é precisa, a tração integral

transmite confiança e o comportamento

geral é sólido. Ainda assim, a configuração

com jantes de 20 polegadas e

suspensão mais firme pode penalizar

ligeiramente o conforto em pisos mais

irregulares, um compromisso que importa

considerar.

A convivência com diferentes versões

do Polestar 2 levanta uma questão interessante:

até que ponto precisamos de

mais potência?

A versão Single Motor, mais eficiente,

oferece autonomias reais mais consistentes

e um comportamento mais

confortável. Já a Dual Motor acrescenta

emoção, e fá-lo com competência.

No final, não há resposta universal. Há

perfis de utilização. E isso é, por si só,

um sinal de maturidade do produto.

UM DESIGN QUE CRIA LIGAÇÃO

Ao longo do ensaio, houve um elemento

que se repetiu de forma quase inevitável:

a curiosidade. “Que carro é este?”

foi uma pergunta frequente, sobretudo

por parte de quem ainda não está muito

familiarizado com a marca. O seu design

não procura o protagonismo, mas

também não passa despercebido, vivendo

num equilíbrio raro entre discrição e

presença, impondo-se de forma natural

através da coerência das suas linhas e

da identidade que transporta. Muitas

vezes, quem o observa não consegue

identificar de imediato a marca, ficando

apenas com a sensação de algo distinto,

bem resolvido e intencional.

Dentro de casa, o registo era outro. Não

houve estranheza nem descoberta. Os

mais novos já conheciam o Polestar de

ensaios anteriores e essa familiaridade

criou uma continuidade quase orgânica,

como se o automóvel já fizesse parte

do quotidiano há mais tempo do que

aquele sugerido pelo ensaio.

Mais do que uma simples experiência

de condução, este foi um exercício de

utilização real, vivido em diferentes

contextos e ritmos. O Polestar 2 afirma-

-se, assim, não apenas como um veículo

elétrico competente, mas também como

um produto com identidade própria,

coerente na sua proposta e consistente

na forma como se integra no dia a dia.

A experiência decorreu entre a estrada

e a cidade, mas sobretudo em contexto

familiar. E talvez esse seja o maior elogio

que se possa fazer a um automóvel:

quando deixa de ser alvo de análise e

passa, de forma silenciosa e natural, a

fazer parte da rotina. Porque há carros

que impressionam à primeira vista, e há

outros, como este, que ficam.

50 e-MOBILIDADE


e-MOBILIDADE 51


TESTE COM ALMA

por Eduardo de Carvalho

Um SUV para tudo

Mitsubishi Outlander PHEV

ao ritmo do quotidiano

Num panorama em que a eletrificação nem sempre responde às exigências de espaço e versatilidade

familiar, o Mitsubishi Outlander PHEV surge como uma proposta equilibrada: cinco lugares, tração

integral e capacidade de circular em modo elétrico no quotidiano. Num ensaio com alma, realizado

durante a Semana Santa, entre cidade e estrada, e com uma escapadinha até Braga, a histórica “cidade

dos arcebispos”, a questão coloca-se: estará este híbrido plug-in preparado para dar resposta à

mobilidade do dia a dia?

Antes de entrar na análise, importa dar enquadramento

ao nome. O Mitsubishi Outlander surgiu no

início dos anos 2000 como a evolução do Airtrek,

marcando a aposta da Mitsubishi nos SUV globais.

A designação “Outlander” remete para a ideia de

explorador, alguém que se aventura “fora de portas”, refletindo

o posicionamento do modelo: versátil, robusto e preparado para

diferentes cenários. Ao longo das gerações, esta filosofia manteve-se,

sendo reforçada com a introdução da tecnologia plug-in

hybrid, que colocou o Outlander entre os pioneiros da eletrificação

no segmento.

O Mitsubishi Outlander PHEV apresenta uma linguagem visual

distinta dentro da gama da Mitsubishi. A frente, dominada por

uma grelha escurecida e assinatura luminosa em LED dividida,

confere-lhe uma presença robusta e contemporânea, especialmente

na versão Noir Edition, onde os apontamentos em preto

reforçam o carácter mais assertivo.

De perfil, as jantes de 20 polegadas, os espelhos escurecidos e os

detalhes em cromado escuro prolongam essa identidade, enquanto

a traseira mantém coerência com uma assinatura luminosa em

“T” e uma estética limpa e equilibrada.

INTERIOR: CONFORTO E PERCEÇÃO DE QUALIDADE

No habitáculo, o Mitsubishi Outlander PHEV apresenta uma

qualidade percebida acima do esperado. Materiais suaves ao

toque, bancos em pele com padrão acolchoado e um ambiente

cuidado contribuem para uma sensação de robustez e conforto.

O painel digital de 12,3 polegadas fornece informação clara

e completa, enquanto o ecrã central de 9 polegadas assegura

conectividade através de Apple CarPlay e Android Auto. Ainda

assim, a resposta do sistema poderia ser mais fluida.

Importa referir que o modelo disponibiliza uma quantidade significativa

de informação ao condutor, desde dados de condução

a sistemas de assistência e limites de velocidade. Embora esta

abordagem tenha como objetivo reforçar a segurança, na prática

pode tornar-se algo intrusiva. Os alertas associados ao reconhecimento

de sinais, em particular os avisos de limite de velocidade,

revelaram-se por vezes excessivos e repetitivos, podendo

gerar alguma distração ou tornar-se ligeiramente aborrecidos

em utilização prolongada.

Os bancos dianteiros, com ajuste elétrico, aquecimento e função

de massagem, elevam o conforto em viagens mais longas.

Foi precisamente neste equilíbrio que

o modelo foi colocado à prova durante

a deslocação até Braga. Entre percursos

urbanos, vias rápidas e momentos de

maior fluxo associados à Semana Santa,

o Outlander revelou consistência

e previsibilidade, características

essenciais num ambiente familiar

52 e-MOBILIDADE


A posição de condução é natural e a ergonomia geral bem

conseguida.

ESPAÇO E VERSATILIDADE FAMILIAR

Na configuração ensaiada, o Mitsubishi Outlander PHEV apresenta-se

como um SUV de cinco lugares, privilegiando o espaço

e o conforto dos ocupantes. A segunda fila oferece boa habitabilidade

e flexibilidade, permitindo ajustar o habitáculo às necessidades

do dia a dia, seja em contexto urbano ou em viagens mais

longas. A bagageira revela-se um dos pontos fortes, com cerca de

495 litros de capacidade em utilização normal e mais de 1.800

litros com os bancos rebatidos, traduzindo-se numa solução

prática e versátil. No conjunto, responde com eficácia às exigências

familiares, com um acesso facilitado e uma organização do

espaço intuitiva.

SISTEMA HÍBRIDO: EFICIÊNCIA E SUAVIDADE

O Mitsubishi Outlander PHEV combina um motor a gasolina de

É fora da análise técnica que o

Mitsubishi Outlander PHEV revela

com maior clareza a sua proposta. No

contexto real de utilização marcado

por rotinas familiares, demonstra uma

capacidade consistente de adaptação,

sem exigir concessões relevantes

2.4 litros com dois motores elétricos, um em cada eixo, assegurando

tração integral e uma potência combinada na ordem

dos 252 cv. A bateria, com 22,7 kWh de capacidade, permite

uma autonomia elétrica até aproximadamente 80 km, suficiente

para grande parte das deslocações diárias em modo totalmente

elétrico.

O funcionamento do sistema revela-se particularmente bem conseguido,

alternando de forma inteligente entre os modos elétrico,

híbrido em série e híbrido paralelo, consoante as necessidades de

condução. Na prática, estas transições ocorrem de forma suave e

quase impercetível, contribuindo para uma experiência equilibrada,

silenciosa e consistente.

A isto juntam-se sete modos de condução: Power, Eco, Normal,

Tarmac, Gravel, Snow e Mud, que permitem adaptar o comportamento

do veículo a diferentes cenários, desde a condução

urbana mais eficiente até condições de menor aderência. Esta

versatilidade reforça o caráter multifuncional do modelo, aproximando-o

daquilo que o nome Outlander sempre representou:

capacidade para ir além do uso convencional, com segurança e

controlo.

e-MOBILIDADE 53


TESTE COM ALMA

por Eduardo de Carvalho

CONDUÇÃO: CONFORTO ACIMA DE TUDO

Em estrada, o Mitsubishi Outlander PHEV privilegia o conforto.

A suspensão absorve bem as irregularidades e o comportamento

é estável e previsível. A direção é leve, adequada ao posicionamento

do modelo, embora com feedback limitado.

A aceleração é progressiva e suficiente para o contexto, com o

apoio imediato dos motores elétricos. Em condução mais exigente,

o motor térmico torna-se mais presente, com algum aumento

de ruído.

Foi precisamente neste equilíbrio que o modelo foi colocado à

prova durante a deslocação até Braga. Entre percursos urbanos,

vias rápidas e momentos de maior fluxo associados à Semana

Santa, o Outlander revelou consistência e previsibilidade, características

essenciais num ambiente familiar.

Os vários modos de condução e o sistema S-AWC (Super All-

-Wheel Control) garantem boa tração em diferentes condições,

reforçando a versatilidade do conjunto.

EFICIÊNCIA E CARREGAMENTO

Em utilização real, os consumos do Mitsubishi Outlander PHEV

variam consoante o tipo de percurso, situando-se em cerca de 6,5

l/100 km em autoestrada e entre 8,5 e 9,5 l/100 km em cidade

quando a bateria está descarregada, enquanto o consumo elétrico

oscila entre os 18 e os 22 kWh/100 km. No que diz respeito ao

carregamento, em corrente alternada (AC) o processo completo

demora aproximadamente entre 6 a 7 horas, ao passo que em

corrente contínua (DC) é possível atingir 80% da carga em cerca

de 35 a 40 minutos. A possibilidade de recorrer ao motor a

combustão para carregar a bateria acrescenta ainda uma camada

adicional de flexibilidade, particularmente útil em contextos

onde o acesso a pontos de carregamento é limitado.

O VERDADEIRO TESTE

É fora da análise técnica que o Mitsubishi Outlander PHEV revela

com maior clareza a sua proposta. Na circunstância real de utilização

marcado por rotinas familiares, demonstra uma capacidade

consistente de adaptação, sem exigir concessões relevantes.

A condução em modo elétrico contribui para um ambiente a

bordo mais sereno, reduzindo o esforço em trajetos urbanos e

melhorando a qualidade da viagem. A organização do espaço,

aliada à progressividade do sistema híbrido, reforça a sensação de

equilíbrio que define o modelo.

Existem, naturalmente, pontos a rever. O sistema multimédia

não acompanha totalmente a evolução do segmento e os alertas

ao condutor podem revelar-se excessivos em determinadas

situações. Ainda assim, são aspetos que não comprometem a

consistência global.

Na configuração ensaiada, o Mitsubishi Outlander PHEV privilegia

o espaço e a funcionalidade, reforçando a sua vocação familiar

com uma abordagem mais racional e focada na utilização real.

Num ensaio com alma, realizado em período de Semana Santa e

com uma deslocação até Braga, destacou-se não por resultados

isolados, mas pela forma coerente como responde às exigências

do dia a dia.

Mais do que impressionar, cumpre. E fá-lo com consistência, que

é, no contexto real, o atributo mais relevante.

A isto juntam-se sete modos de

condução: Power, Eco, Normal,

Tarmac, Gravel, Snow e Mud, que

permitem adaptar o comportamento do

veículo a diferentes cenários

54 e-MOBILIDADE


e-MOBILIDADE 55


TESTE COM ALMA

por Eduardo de Carvalho

ID. BUZZ GTX

Onde a família

ganha energia

56 e-MOBILIDADE


Em utilização real, o Volkswagen ID. Buzz

GTX revela uma capacidade única de conciliar

desempenho e conforto, oferecendo uma experiência

a bordo que transcende a sua função original,

aproximando-se de um verdadeiro espaço de vida.

e-MOBILIDADE 57


Nononono TESTE COM no ALMA no no

Nono por Eduardo no nono de nononono Carvalho

Logo nos primeiros metros,

ainda antes de sair do parque

de estacionamento da escola,

o Volkswagen ID. Buzz GTX

revela uma notável capacidade

de marcar presença. Não passa

despercebido, muito pelo contrário. De

todos os carros que já conduzi, nenhum

gerou tantos olhares, comentários e

abordagens como este.

“Hoje vamos no carro das cores!”, diz o

mais novo, de seis anos, enquanto corre

para a porta deslizante. A irmã, de nove

anos, entra com a segurança de quem

já percebeu que há espaço para tudo:

pernas esticadas, mochila ao lado e até

aquele peluche que insiste em viajar

sempre connosco.

E é aqui que começa a diferença.

UM ESPAÇO QUE ACOMPANHA A

VIDA

No interior, o ID. Buzz GTX não impõe

limites, adapta-se. A amplitude do habitáculo

transforma o caos organizado

de uma família num cenário funcional,

onde cada objeto encontra o seu lugar e

cada passageiro o seu espaço.

Para as crianças, isso traduz-se em liberdade.

Para os adultos, em tranquilidade.

Entrar e sair é simples e quase intuitivo,

graças às portas deslizantes. Não há necessidade

de malabarismos em parques

de estacionamento apertados nem de

58 e-MOBILIDADE


ID. BUZZ GTX

O habitáculo transforma-se

num espaço onde a viagem em

si é importante. Um local onde

se discute o dia, se planeia o fim

de semana ou, simplesmente,

se partilha o percurso.

E isso, num carro familiar,

é um valor inestimável

se preocupar com portas a bater contra

carros vizinhos. Há fluidez e, num quotidiano

exigente, isso é muito valioso.

Sob a carroçaria com linhas apelativas,

encontramos um sistema elétrico de

340 cv com tração integral 4MOTION.

E, de repente, o que parecia apenas

um “carro de família” adquire outra

dimensão.

A aceleração é imediata, mas progressiva.

Não há sobressaltos, apenas uma

entrega contínua que transmite segurança.

“Parece um foguete... mas sem

barulho”, comenta a mais velha, entre a

curiosidade e o entusiasmo.

Para o condutor, o equilíbrio é evidente:

potência disponível quando necessário,

estabilidade reforçada e uma sensação

de controlo que inspira confiança,

sobretudo quando a prioridade está no

banco de trás.

SILÊNCIO QUE APROXIMA

Num elétrico, o silêncio não é apenas

a ausência de som, mas a presença de

tudo o resto.

Há conversas, perguntas e músicas repetidas

até à exaustão. No ID. Buzz GTX,

o habitáculo transforma-se num espaço

onde a viagem em si é importante. Um

local onde se discute o dia, se planeia

o fim de semana ou, simplesmente, se

partilha o percurso.

E isto, num carro familiar, é um valor

inestimável.

A bateria de 84 kWh responde com solidez

às exigências do dia a dia. A escola,

as atividades, as compras, as visitas:

tudo acontece sem ansiedade. E quando

chega o momento de uma escapadela, o

ID. Buzz GTX está à altura do desafio.

Carregar o veículo passa a fazer parte da

rotina, e não a constituir um obstáculo.

Em casa, durante a noite. Na estrada,

numa breve pausa. Simples, previsível e

integrado.

MAIS DO QUE MOBILIDADE

Volkswagen ID. O Buzz GTX não é

apenas um veículo elétrico, mas sim

uma nova forma de viver o automóvel

em família.

É o carro onde cabem mochilas, sonhos

e dias inteiros. Um carro onde a tecnologia

não complica e o espaço não

limita. Um carro com potência, mas

sem imposições.

No final de cada viagem, fica uma

certeza simples, curiosamente validada

por quem vai atrás: “Podemos ir outra

vez neste carro amanhã?” E talvez essa

seja a melhor definição de um elétrico

com alma.

e-MOBILIDADE 59


A BASE TÉCNICA

Por trás desta forma emocional existe uma base profundamente

racional. A plataforma E-GMP, que é partilhada com o Hyundai

Ioniq 5 e o Genesis GV60, define o ADN dinâmico do EV6.

A distância entre eixos de 2,9 metros confere estabilidade

longitudinal, ao passo que o posicionamento da bateria no piso

reduz o centro de gravidade e melhora o equilíbrio do conjun-

TESTE COM ALMA

por Eduardo de Carvalho

Kia EV6

Quando a engenharia

ganha emoção

Há uma dualidade no Kia EV6 que o torna particularmente interessante

do ponto de vista editorial: é simultaneamente um objeto de design e um

exercício de engenharia. Mas é na estrada, curva após curva, travagem

após travagem, aceleração após aceleração que começa por seduzir.

Desde o seu lançamento em 2022, o EV6 marcou

uma mudança de rumo para a Kia. Não apenas

pela sua estética, que continua a destacar-se num

mar de propostas previsíveis, mas também pela

forma como reflete a maturidade técnica da nova

geração de veículos elétricos do grupo.

Há uma tensão latente nas superfícies do EV6. A frente é

marcada por uma assinatura luminosa contínua, a traseira tem

uma barra que parece suspensa no espaço e a silhueta funde

crossover, fastback e coupé numa linguagem coerente.

No entanto, o impacto visual não é apenas estático. Prolonga-se

na experiência a bordo. A iluminação ambiente, subtil

mas omnipresente, e o silêncio da propulsão elétrica criam

uma atmosfera quase cinematográfica, que nos remete para o

imaginário de Tron. Não se trata apenas de um carro, mas sim

de um ambiente.

60 e-MOBILIDADE


KIA EV6

é um dos veículos elétricos

mais completos do mercado

atual. Não é o mais rápido,

nem o mais confortável, nem

o mais envolvente, mas

consegue fazer tudo bem,

de forma consistente e

coerente.

to. A arquitetura elétrica de 800 V, uma das mais avançadas

no segmento, não só reduz os tempos de carregamento, como

também proporciona maior consistência de desempenho,

melhor gestão térmica e menor degradação sob esforço prolongado.

Do ponto de vista mecânico, o esquema é convencional mas

eficaz, com uma suspensão MacPherson no eixo dianteiro e

um sistema multilink atrás, apoiados por um sistema de gestão

eletrónica de estabilidade e dinâmica (ESC e VSM) cuidadosamente

calibrado. A afinação privilegia o controlo dos movimentos

da carroçaria, resultando num compromisso claro entre

previsibilidade e exuberância.

AO VOLANTE

Com 320 cv e tração integral, a versão Kia EV6 GT-Line AWD é

rápida, mas nunca excessiva. A aceleração até aos 100 km/h em

cerca de 5,3 segundos é realizada com uma linearidade quase

clínica. Não há explosão, há progressão.

E é isso que define grande parte da sua personalidade.

Em curva, o comportamento é exemplarmente neutro. A

entrada é precisa, o apoio consistente e o controlo de rolamento

eficaz, graças a uma suspensão deliberadamente firme. Com

mais de 2.100 kg, a massa é significativa, mas está bem gerida.

Ainda assim, há limites: a direção é leve e pouco comunicativa,

o pedal do travão carece de mordente inicial e a transição de


TESTE COM ALMA

por Eduardo de Carvalho

massas revela alguma inércia quando o ritmo aumenta. O EV6

faz tudo bem, mas raramente surpreende.A gestão eletrónica

permite modular o caráter do veículo através dos diferentes

modos de condução. O modo Eco privilegia a eficiência,

suavizando o acelerador e reduzindo a resposta; o modo

Normal oferece o melhor compromisso global; e o modo Sport

intensifica a resposta, embora com alguma artificialidade e

maior rigidez do conjunto. Curiosamente, nenhum destes

modos transforma verdadeiramente o EV6; limitam-se a ajustálo.

A sua essência permanece inalterada: é eficaz, previsível e

controlado.

CONFORTO

É no ambiente urbano que

surge uma das principais

dissonâncias. A baixa

velocidade, a suspensão

mostra-se mais firme do que

o esperado, transmitindo

com clareza as pequenas

irregularidades do piso e

penalizando o conforto em

estradas degradadas. Este

comportamento resulta,

muito provavelmente, de

uma afinação orientada para

o controlo dinâmico, da

utilização de jantes de maior

dimensão e da elevada massa

do conjunto.Em autoestrada,

porém, o cenário é diferente.

O EV6 transforma-se num

verdadeiro gran turismo

elétrico: silencioso, estável, com

excelente isolamento acústico

e uma notável capacidade de

percorrer longas distâncias.

É neste contexto que a

engenharia e o propósito do

modelo se alinham com maior

clareza.

EFICIÊNCIA

Durante o ensaio, ao longo de

cerca de 450 km, o EV6 registou

uma média de 3,7 mi/kWh, um

valor sólido para um crossover

deste tamanho. Mais relevante

do que o número absoluto

é a consistência: mantém

uma boa eficiência mesmo

em autoestrada, beneficia

de um sistema de regeneração

eficaz e ajustável e tem capacidade para se aproximar, ou

até superar, a autonomia anunciada, consoante o estilo

de condução. A arquitetura de 800 V reforça esta lógica,

permitindo carregamentos rápidos e previsíveis, ao passo

que a compatibilidade com o ecossistema da Tesla amplia a

flexibilidade durante as viagens.

INTERIOR

O habitáculo confirma a ambição do modelo. Espaçoso,

bem construído e tecnologicamente avançado, posiciona-se

claramente acima da média do segmento. Embora os dois

ecrãs de 12,3 polegadas estruturem a experiência digital,

a interface híbrida com comandos táteis de dupla função

introduz uma camada de complexidade desnecessária, já que

a alternância entre a climatização e o sistema de informação

e entretenimento compromete a fluidez de utilização.Ainda

assim, o conjunto é consistente, com excelente habitabilidade,

construção de elevada qualidade e uma forte integração

tecnológica, reforçando a

perceção de um produto mais

próximo do universo premium.

No mercado português, o Kia

EV6 apresenta um posicionamento

que acompanha essa ambição,

com preços a iniciarem-se

em torno dos 50 000 euros e a

ultrapassarem os 60 000 euros

nas versões mais equipadas,

como a GT-Line AWD. Este enquadramento

reflete não apenas

o nível de equipamento e tecnologia,

mas também a maturidade

da proposta elétrica da marca.

O EV6 consegue um equilíbrio

entre um design diferenciador,

uma plataforma tecnológica

avançada, uma eficiência consistente

e uma forte componente

digital, afirmando-se como uma

proposta sólida e coerente. Ainda

assim, a decisão final dificilmente

será apenas racional, já

que este é um automóvel que

também procura conquistar no

plano emocional.

TESTE COM ALMA

O Kia EV6 é um dos veículos

elétricos mais completos do

mercado atual. Não é o mais

rápido, nem o mais confortável,

nem o mais envolvente, mas

consegue fazer tudo bem, de

forma consistente e coerente.

É um automóvel que demonstra

maturidade técnica. Privilegia

o controlo em vez do exibicionismo.

Substitui o dramatismo

pela precisão.

No entanto, fica a sensação de que poderia ir um pouco mais

longe, não em termos de números, mas de emoção.

Talvez esse seja o paradoxo do EV6: quanto mais perfeito se

torna, menos precisa de impressionar.

E isso, num mercado cada vez mais ruidoso, pode ser precisamente

a sua maior virtude.

62 e-MOBILIDADE


Patrocinado por:

Em cooperação com:

Congresso Mundial e Expo

de Mobilidade Sustentável

Conectando

o ecossistema

de mobilidade

sustentável.

Quero expor

09-11

Junho 2026


TESTE COM ALMA

por Eduardo de Carvalho

FORD

MUSTANG

MACH-E

A emoção que

entra na rotina


Num segmento cada vez mais

competitivo, o Ford Mustang Mach-E

afirma-se não apenas pelos números, mas

pela forma como se integra na vida real.

Num teste com alma, entre deslocações

diárias, autoestrada e viagens em família,

a análise deixa de ser puramente técnica

para se tornar prática: consegue um

Mustang elétrico acompanhar

o ritmo do quotidiano?

e-MOBILIDADE 65


TESTE COM ALMA

por Eduardo de Carvalho

O nome Mustang transporta uma carga emocional

difícil de replicar e a Ford optou por não a ignorar,

mas sim por a reinterpretar.

O Mach-E não é uma simples transposição

do passado para o universo elétrico e não prescinde

de uma condução envolvente

O

Mustang não se compreende

sem a sua história.

Desde 1964, quando

a Ford apresentou o

primeiro Ford Mustang,

que este modelo é um símbolo

de liberdade e emoção acessível, que

marcou gerações e definiu um segmento

próprio. Ao longo de décadas, evoluiu,

adaptou-se a crises, reinventou-se esteticamente

e tecnologicamente, mas nunca

perdeu aquilo que o tornou relevante: a

capacidade de criar ligação com quem

o conduz.

É precisamente essa herança que o Ford

Mustang Mach-E reinterpreta. Não se

trata de uma simples transposição do

passado para o universo elétrico, mas

sim de uma interpretação contemporânea

de um ícone, pensada para um

novo contexto de mobilidade. O nome

Mustang transporta uma carga emocional

difícil de replicar e a Ford optou por

não a ignorar, mas sim por a reinterpretar.

O Mach-E não é uma simples

transposição do passado para o universo

elétrico e não prescinde de uma

condução envolvente. A gama é ampla

e tecnicamente consistente, oferecendo

configurações de tração traseira ou integral,

baterias de capacidade standard ou

de autonomia alargada e níveis de potência

que variam entre os 269 cv e os

480 cv, sempre com a entrega imediata

de binário típica dos veículos elétricos.

A versão mais potente, o GT, acelera dos

0 aos 100 km/h em 3,7 a 4,0 segundos,

enquanto as versões intermédias privilegiam

uma resposta mais progressiva,

mas igualmente consistente. Em condução

real, mais do que a aceleração pura,

destaca-se a forma como o carro entrega

a potência: de maneira linear, previsível

e sempre disponível.

A direção é direta e suficientemente

comunicativa e o centro de gravidade

baixo, resultado da colocação da bateria,

contribui para um comportamento

estável em curva. As versões com tração

integral são particularmente eficazes em

pisos molhados, proporcionando uma

maior sensação de controlo e segurança.

Ainda assim, não se trata de um desportivo

puro. O peso faz-se sentir em

condução mais exigente e, em ritmos

elevados, há alguma perda de consistência

nas versões mais potentes, o que é

expectável num SUV deste segmento.

AUTONOMIA, CARREGAMENTO E

EFICIÊNCIA

Do ponto de vista técnico, o Ford

Mustang Mach-E apresenta valores

equilibrados, ainda que não se destaque

como referência absoluta no segmento.

A autonomia WLTP varia entre cerca

de 400 e 600 quilómetros, consoante a

versão, e é suportada por uma bateria

66 e-MOBILIDADE


com uma capacidade bruta de aproximadamente

98 kWh (cerca de 91 kWh

úteis). Em termos de carregamento,

suporta potências de até 150 kW em

corrente contínua e de até 11 kW em

corrente alternada.

Na prática, estes números traduzem-se

numa autonomia em autoestrada de

300 a 400 quilómetros, podendo aproximar-se

dos 450 quilómetros em condução

urbana ou mista. O carregamento

rápido permite recuperar dos 10% aos

80% em cerca de 35 a 40 minutos, o

que assegura uma utilização previsível

em viagens mais longas. A introdução

de uma bomba de calor de série

contribui para melhorar a eficiência em

condições de clima frio, reforçando a

consistência energética do conjunto.

Embora não seja o mais rápido a carregar

nem o mais eficiente da categoria,

cumpre com solidez e sem surpresas,

oferecendo uma experiência equilibrada

no dia a dia.

CONDUÇÃO COM CARÁCTER

No dia a dia, o Ford Mustang Mach-E

revela-se fácil e intuitivo de conduzir. A

posição ao volante é natural, a visibilidade

global é boa e os modos de condução

permitem ajustar o comportamento

do veículo entre uma condução mais

suave e uma resposta mais dinâmica,

consoante o contexto.

Em ambiente urbano, o silêncio de

funcionamento, a resposta imediata ao

acelerador e a facilidade de manobra

destacam-se, tornando a condução mais

fluida e menos exigente. Em autoestrada,

o conforto mantém-se, embora se

note algum ruído aerodinâmico e de

rolamento acima do esperado para um

veículo elétrico desta geração.

O sistema de regeneração permite, em

muitos cenários, conduzir com um

só pedal, o que contribui para uma

experiência mais relaxante, um aspeto

particularmente valorizado em contexto

familiar.

e-MOBILIDADE 67


TESTE COM ALMA

por Eduardo de Carvalho

VIDA A BORDO

No interior, o Ford Mustang Mach-

-E aposta numa abordagem digital,

dominada por um ecrã central vertical

de 15,5 polegadas e por um painel de

instrumentos digital de 10,2 polegadas.

O sistema é complementado pela integração

do Apple CarPlay e do Android

Auto, bem como por atualizações remotas

over-the-air.

O sistema é funcional e relativamente

intuitivo, embora nem sempre aproveite

da melhor forma o espaço disponível no

ecrã. A filosofia minimalista, inspirada

em abordagens do setor, nomeadamente

da Tesla, simplifica a interface, mas

pode exigir uma adaptação inicial.

Já o sistema BlueCruise representa um

passo importante na evolução da condução

assistida, ao permitir a condução

com as mãos livres em determinadas

circunstâncias e ao introduzir mudanças

automáticas de faixa, aumentando o

conforto durante a viagem.

O VERDADEIRO TESTE

É fora das especificações que o Ford

Mustang Mach-E revela todo o seu

potencial. Num contexto familiar, marcado

por deslocações constantes entre

a escola, atividades extracurriculares,

compras e fins de semana, integra-se

com naturalidade. O espaço interior é

equilibrado, o porta-bagagens responde

eficazmente às exigências do dia a dia e

o compartimento dianteiro acrescenta

versatilidade e facilita a organização.

O silêncio do sistema elétrico redefine

o ambiente a bordo: as conversas fluem

com naturalidade, o cansaço dissipa-se

e a viagem adquire uma importância

própria, deixando de ser apenas uma

deslocação para passar a fazer parte da

experiência.

Para além dos números, o Ford Mustang

Mach-E não precisa de ser o melhor

em termos de eficiência, velocidade

de carregamento ou tecnologia para se

afirmar como relevante. O que o distingue

é a forma consistente como conjuga

identidade, comportamento dinâmico,

soluções tecnológicas e capacidade de

integração na vida real.

Num teste com alma, há sempre um

momento que perdura, muitas vezes

vindo de quem segue no banco de trás:

“Vamos nele outra vez?”

E talvez essa seja a melhor síntese

possível. Um Mustang que deixou de

ser apenas um símbolo para passar, de

forma natural, a fazer parte do quotidiano.

MUSTANG MACH-E

Para além dos números, este

modelo não precisa de ser o

melhor em termos de eficiência,

velocidade de carregamento ou

tecnologia para se afirmar como

relevante. O que o distingue

é a forma como conjuga a

identidade e integração

na vida real

68 e-MOBILIDADE


e-MOBILIDADE 69


70 e-MOBILIDADE

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