Revista Dr Plinio 337
Abril de 2026
Abril de 2026
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Publicação Mensal
Vol. XXIX - Nº 337 Abril de 2026
Frutos eternos de uma semente
plantada há 150 anos
Arquivo Revista
O mais precioso legado
Ninguém pode imaginar o
bem que ela me fez...
Mamãe me ensinou a
amar Nosso Senhor Jesus Cristo, ensinou-me
a amar a Santa Igreja Católica!
(Frases pronunciadas em 21/4/1968)
Sumário
Publicação Mensal
Vol. XXIX - Nº 337 Abril de 2026
Vol. XXIX - Nº 337 Abril de 2026
Frutos eternos de uma semente
plantada há 150 anos
Na capa,
uma das últimas
fotografias de Dona
Lucilia, um mês antes
de sua morte.
Foto: João S. Clá Dias
As matérias extraídas
de exposições verbais de Dr. Plinio
— designadas por “conferências” —
são adaptadas para a linguagem
escrita, sem revisão do autor
Dr. Plinio
Revista mensal de cultura católica, de
propriedade da Editora Retornarei Ltda.
ISSN - 2595-1599
CNPJ - 02.389.379/0001-07
INSC. - 115.227.674.110
Diretor:
Roberto Kasuo Takayanagi
Conselho Consultivo:
Jorge Eduardo G. Koury
Roberto Kasuo Takayanagi
Vicente de Paula Torres Nunes
Redação e Administração:
Rua Virgílio Rodrigues, 66 - sala 1 - Tremembé
02372-020 São Paulo - SP
Impressão e acabamento:
Pigma Gráfica e Editora Ltda.
Av. Henry Ford, 2320
São Paulo – SP, CEP: 03109-001
Segunda página
2 O mais precioso legado
Editorial
4 Hífen entre o passado
e o futuro
Piedade luciliana
5 Oração de uma esposa e mãe à
Santíssima Virgem
Dona Lucilia
6 Da pia batismal aos
primeiros anos de casamento
15 Extremosa mãe e
exímia educadora
30 Profunda união entre mãe e filho,
para além dos umbrais da eternidade
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Serviço de Atendimento
ao Assinante
revistadrplinioassinatura@gmail.com
44 Maternal intimidade com os
filhos até na eternidade
50 A missão de Dona Lucilia
continua…
53 Perpetuando um timbre de voz
Última página
56 “Mamãe também é assim”
3
Editorial
Hífen entre o passado e o futuro
Neste mês de abril, comemora-se o 150 o aniversário natalício de Dona Lucilia. Celebrando data tão significativa,
a presente edição traz uma seleção dos melhores comentários de Dr. Plinio a respeito de sua boníssima
mãe publicados nesta revista, 1 ao mesmo tempo que encerra com fecho de ouro a seção “Dona
Lucilia”.
Se sobre sua extremosa mãe todas as considerações de Dr. Plinio já foram dadas a conhecer, finda-se um capítulo,
não, porém, a ação de Dona Lucilia; esta continua hoje, no futuro e pela eternidade adentro.
Comentava certa vez Dr. Plinio: “Ela era verdadeiramente uma senhora católica... […] Eu estudei sua bela alma
com uma atenção contínua e era por isso mesmo que eu gostava dela. A tal ponto que, se ela não fosse minha
mãe, mas a mãe de um outro, eu gostaria dela da mesma maneira, e daria um jeito de ir morar junto a ela”. 2
“Eu via nela um reflexo daquilo que eu contemplava nas imagens do Sagrado Coração de Jesus, daquilo que
eu tinha aprendido na História Sagrada, no Catecismo, nas vidas dos Santos e naquilo que cercava a minha vida
religiosa. O fundo do meu amor a ela era esse.
“É evidente que o fato de ser minha mãe colaborava, mas muito secundariamente. O fato fundamental é que
eu a amava mais como filha da Igreja do que como minha mãe”. 3
“Ela foi um eco fidelíssimo, embora subconsciente, da Idade Média e enquanto o mundo inteiro ia decaindo e
abandonando o espírito dessa gloriosa era de fé, ela gerou um filho entusiasta da Cristandade medieval. Ela é o
hífen, a ponte entre tudo o que houve outrora e o futuro. Ela representava o último pranto do passado, chorando
por morrer. E o filho dela, Nossa Senhora destinou para fundar uma família de almas que seria o raiar da Idade
Média ressurrecta no Reino de Maria.
“A palavra hífen diz pouco: ela é a última semente de uma árvore esplendorosa que morre, mas da qual vai nascer
outra árvore ainda maior. Uma semente modesta, pequena, ignorada, sem deixar atrás de si outro rastro a
não ser o de ligar o passado ao futuro. E esse é o grande papel histórico dela, a grande missão; e talvez, sem ela
saber, deu nascimento à Contra-Revolução”. 4
Tudo quanto podemos admirar na pessoa de Dr. Plinio, em seus ensinamentos e em suas virtudes, devemos a
Dona Lucilia. Sem a fidelidade dela, não só a vocação de Dr. Plinio ficaria truncada, como também a de todos os
que Nossa Senhora chamou para segui-lo e que constituem a imensa falange de seus filhos espirituais e, a seu modo,
também dela, como afirmou Dr. Plinio em certa ocasião:
“Ela possui uma afetividade enorme. Ela tem um como que amor transbordante não só para com os dois filhos
que teve, como também para com os filhos que ela não teve. Dir-se-ia feita para ter milhares de filhos e que seu coração
palpita do desejo de conhecê-los. Entretanto, esses filhos não vieram nem poderiam vir nesse número exorbitante.
O que quis a Providência com isso? Eu só tive a resposta para tal indagação – e que resposta magnífica! –
quando comecei a ver que, em torno da sepultura do Cemitério da Consolação, os filhos começavam a florescer”. 5
Por isso, neste sesquicentenário, para dirigirmos a Dona Lucilia o nosso mais entranhado preito de gratidão,
fazemos nossas as palavras de seu querido “filhão”: “Mãezinha, muito obrigado! Amém, amém, amém!” 6
1) Números utilizados na presente edição: 90, 91, 92, 93, 94, 96, 103, 105, 109, 119, 122, 128, 141, 145, 165, 167, 175, 178,
187, 189, 192, 195, 203, 205, 206, 207, 216, 217, 227, 240, 259, 261, 289, 291, 303, 307, 316, 326.
2) CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Dona Lucilia. Città del Vaticano-São Paulo: Libreria Editrice Vaticana; Lumen Sapientiæ,
2013, p.39.
3) Conferência de 22/4/1993.
4) Conferência, 30/10/1977.
5) Santo do Dia, 22/4/1993.
6) Idem.
Declaração: Conformando-nos com os decretos do Sumo Pontífice Urbano VIII, de 13 de março de 1625 e
de 5 de junho de 1631, declaramos não querer antecipar o juízo da Santa Igreja no emprego de palavras ou
na apreciação dos fatos edificantes publicados nesta revista. Em nossa intenção, os títulos elogiosos não têm
outro sentido senão o ordinário, e em tudo nos submetemos, com filial amor, às decisões da Santa Igreja.
4
Piedade luciliana
Oração de
uma esposa
Arquivo Revista
e mãe à
Santíssima
Dona Lucilia
em 1959
Virgem
Oh! Maria, Virgem Puríssima e sem mácula, Casta Esposa de São José, Mãe
terníssima de Jesus, perfeito modelo das esposas e das mães, cheia de respeito
e de confiança, a vós recorro e com os sentimentos da veneração, a
mais profunda, me prostro a vossos pés, e imploro o vosso socorro. Vêde, oh Puríssima
Maria, vêde as minhas necessidades, e as da minha família, atendei aos desejos
do meu coração, pois é ao vosso tão terno e tão bom, que os entrego.
Espero que, pela vossa intercessão, alcançarei de Jesus a graça de cumprir, como
devo, as obrigações de esposa e de mãe. Alcançai-me o santo temor de Deus, o
amor do trabalho e das boas obras, das coisas santas e da oração, a doçura, a paciência,
a sabedoria, enfim todas as virtudes que o Apóstolo recomenda às mulheres
cristãs, e que fazem a felicidade e ornamento das famílias.
Ensinai-me a honrar meu marido, como vós honrastes a São José, e como a Igreja
honra a Jesus Cristo; que ele ache em mim a esposa segundo o seu coração; que a
união santa, que contraímos sobre a terra, subsista eternamente no Céu. Protegei meu
marido, dirigi-o no caminho do bem e da justiça; pois tão cara como a minha me é a
sua felicidade. Encomendo também ao vosso materno coração os meus pobres filhos.
Sêde a sua Mãe, inclinai o seu coração à piedade; não permitais que se afastem do caminho
da virtude, tornai-os felizes, e fazei com que depois da nossa morte se lembrem
de seu pai e de sua mãe e roguem a Deus por eles; honrando a sua memória com as
suas virtudes. Terna Mãe, tornai-os piedosos, caritativos e sempre bons cristãos; para
que a sua vida, cheia de boas obras, seja coroada por uma santa morte. Fazei, oh Maria,
com que um dia nos achemos reunidos no Céu, e ali possamos contemplar a vossa
glória, celebrar os vossos benefícios, gozar de vosso amor e louvar eternamente o vosso
amado Filho, Jesus Cristo, Senhor nosso. Amém.
(Oração que Dona Lucilia habituou-se a rezar)
5
Dona Lucilia
Fotos: Arquivo Revista
Da pia batismal aos
primeiros anos de casamento
Das recordações da
infância de Dona
Lucilia, algumas
chegaram até nós
descritas por ela
mesma a seus
filhos. Outras,
porém, vieram
ao conhecimento
muitos anos após
seu falecimento,
graças ao filial zelo
do fiel discípulo
de Dr. Plinio, Sr.
João Clá, que as
consignou em sua
obra Dona Lucilia, da
qual transcrevemos
alguns excertos.
Aos vinte e nove dias do mez de junho de mil
oitocentos e setenta e seis, nesta matriz, baptizei
e puz os santos oleos a Lucilia, nascida a vinte
e dois de Abril ultimo, filha legitima do doutor
Antonio Ribeiro dos Sanctos e de dona Gabriela
dos Sanctos Ribeiro: foram padrinhos, a
Virgem Senhora da Penha e doutor Olympio
Pinheiro de Lemos, todos desta Parochia.
O Vigario: Angelo Alves d’Assumpção.
Nascida a 22 de abril de
1876, primeiro sábado
após as alegrias da
Páscoa, Lucilia era a segunda dos
cinco filhos de um casal de primos,
Dr. Antônio Ribeiro dos Santos
e Dona Gabriela Rodrigues dos
Santos.
Descendentes de antigas estirpes
da aristocracia paulista, Dona
Gabriela e Dr. Antônio contavam
entre seus ancestrais gloriosos nomes
de bandeirantes.
Infância passada
na pequena cidade
de Pirassununga
Foi em 1873 que Dr. Antônio se
estabeleceu com a família em Pirassununga,
a fim de ali exercer a advocacia.
Nomeado promotor da co-
6
marca de Belém do Descalvado, que
então incluía Pirassununga, habilitou-se
depois ao cargo de juiz de direito,
mas preferiu não seguir carreira,
talvez por questões de política local.
Outro motivo que o atraiu àquela
região foram as terras que Dona Gabriela,
sua esposa, herdara do pai, situadas
em Rio Claro, São Paulo.
Naquele meio agreste e monótono
do interior, o nobre e jovem casal
Ribeiro dos Santos estabeleceu-se
com coragem, decidido a prosperar.
Décadas mais tarde, ao contar as
recordações de infância, Dona Lucilia
ainda deixará transparecer a impressão
que lhe causava o grande contraste
entre a atmosfera da sociedade paulista
e aquele ambiente tão primitivo e
campestre, que ia disputando espaço à
mata tropical, quase tão inculta como
no período em que o Padre Anchieta
percorria as vastidões do Brasil.
As casas, por exemplo, eram desprovidas
de assoalho, sendo o chão
simplesmente de terra batida. Mesmo
as residências das notabilidades
locais não escapavam à regra. A primeira
moradia a ter vidraças nas janelas
foi a dos Ribeiro dos Santos,
considerada, por isso mesmo, de luxo,
já que as outras possuíam apenas
folhas de pau.
Havia um aspecto da pacata Pirassununga
que agradava deveras à
Casal Ribeiro dos Santos,
pais de Dona Lucilia
jovem Lucilia: era precisamente a
calma. Ela nunca tomou gosto pela
agitação da vida moderna, e várias
vezes se referia de forma comprazida
à tranquilidade do interior. Elogiava
a regularidade da vida, bem
como a dignidade das pessoas dentro
do sossego, ao comentar fatos locais
que revelavam a íntima consonância
de sua ordenada alma com a
natural serenidade da atmosfera que
a rodeava.
Cronologia de
algumas das datas
mais significativas
na vida de
Dona Lucilia
1876
22 de abril – Nascimento
de Lucilia Ribeiro dos
Santos na cidade de
Pirassununga, São Paulo.
29 de junho – Batismo
de Lucilia, na Igreja
Matriz de Pirassununga.
1893
Dr. Antônio Ribeiro dos
Santos, pai de Lucilia,
retorna com a família para
São Paulo. Primeiramente
instalaram residência no centro
da cidade e, pouco depois,
em dezembro deste mesmo
ano, em um espaçoso sobrado
perto da Estação da Luz, na
Rua Bom Retiro, n. 88.
1896
Na tranquila Pirassununga de outrora, a residência de Dona Lucilia
Dr. Antônio Ribeiro dos
Santos translada-se com
a família para uma bela
e espaçosa residência na
Alameda Barão de Limeira.
7
Dona Lucilia
Mas, ela sentia também, e muito,
o peso da monotonia daquelas longínquas
paragens. Referia-se ao vazio
da cidadezinha, especialmente
em alguns intermináveis domingos,
durante os quais até os ruídos da vida
quotidiana cessavam, pelo fato de
ninguém sair de casa. Quando um
cachorro ladrava, o som do seu latido
percorria os espaços vazios sem
encontrar nenhum anteparo, nenhum
obstáculo. Toda a cidade, de
um extremo ao outro, ficava “transparente”
a qualquer som e apenas
pulsava de vida vegetativa, como se
nada mais ali houvesse...
Propício meio para
desenvolver as qualidades
de uma alma admirativa
O sossego da pequena Pirassununga
muito ajudava a jovem Lucilia
a observar com atenção e a enlevar-se
pelos mais velhos. Sua capacidade
de admirar os predicados
alheios tinha origem na virginalidade
de alma, que ela soube manter intacta.
Com efeito, Dona Lucilia sempre
se conservará fiel, até seus últimos
dias, àquele notável senso admirativo,
àquele modo primevo e rico
de considerar os fatos e as criaturas
com que a inocência envolve a infância
de todos os cristãos.
Quando ainda jovem, ao contemplar
as qualidades de alma dos que
compunham seu ambiente, com instintiva
naturalidade as mitificava tanto,
que chegava a afastar suas sempre
bem-intencionadas vistas de tudo
o que neles pudesse não ser virtude.
Os senões que encontrava na conduta
das pessoas, reputava-os exceção.
Esse modo de considerar a realidade,
pelo qual a todos situava numa
clave de seriedade, distinção e
grandeza, estava muito presente em
todas as narrações dela, procurando
transmitir uma ideia arquetipizada
da vida e do convívio entre os homens.
Evidentemente, foi assim que o
sereno olhar de Lucilia se voltou para
seus pais, verdadeiras e luminosas
imagens de Deus, naquele seu primeiro
despertar para a vida.
Convento da Luz
Visitas à Capital
Embora Pirassununga tivesse experimentado
um crescimento realmente
digno de nota e já se pudesse
encontrar, nas numerosas casas
de comércio, todo o necessário para
a vida diária, os Ribeiro dos Santos
se habituaram a visitar a Capital, não
só para rever os parentes, mas também
para comprar objetos finos e
importados. Era encantador o modo
como Dona Lucilia, mesmo na extrema
ancianidade, narrava com luminosa
memória os múltiplos detalhes
das viagens da família a São Paulo:
“Mamãe planejava com muito cuidado
cada ida à capital da província.
Tudo era muito bem feito. Havia
umas canastras de vime, fechadas,
nas quais eram colocados os alimentos
especialmente preparados para o
percurso”.
O caminho para a estação, as despedidas,
os vagões muito bem-arrumados,
o pitoresco trajeto e, finalmente,
a chegada à Capital, tudo nos
lábios de Dona Lucilia se tornava como
que feérico e legendário. Tudo
narrava de modo tão leve e cativante,
que o ouvinte se sentia viajando
com ela. Era impossível à imagina-
8
Lucilia ainda menina
ção se recusar a compor as cenas tão
maravilhosamente descritas.
Em São Paulo, Dona Gabriela
nunca deixava de visitar o Convento
da Luz, levando a filha pequena.
As freiras abriam um pouco a cortina
do locutório para ver a menina,
conversar com ela e dar-lhe doces e
outros presentes. Lucilia ficava muito
agradecida e, assim como aconteceu
com sua mãe, teceram-se entre
ela e o convento liames de afeição
que perdurariam por toda a vida.
Também marcaram suas idas a
São Paulo as visitas que fazia à casa
de um parente, o Dr. Clemente
Falcão, no Vale do Anhangabaú. Para
quem conhece esse lugar tal como
é hoje – todo de concreto e asfalto,
perfurado por túneis, atravessado
por viadutos, coalhado de edifícios,
imerso em poluição, ruídos, correria,
multidões – talvez não seja fácil
conceber que, há pouco mais de cem
anos, ele guardava ainda ares bucólicos.
No meio do vale, por entre a
verdejante vegetação, serpeava um
piscoso riacho, que acolhia em suas
margens grupos de lavadeiras. Para
Lucilia, porém, o entretenimento
predileto era o de pescar lambaris,
diversão a que podia se entregar
quando das visitas ao mencionado
parente, cuja vistosa residência ficava
junto a uma das extremidades do
viaduto do Chá. Não era esta, entretanto,
sua única distração ao ar livre.
Os passeios da família, em elegantes
e confortáveis carruagens conversíveis,
do tipo landau, com a capota
abaixada nos dias de tempo
bom, levavam-na também a distantes
recantos da “São Paulinho”, frequentados
por pessoas da sociedade,
curiosas em verificar o crescimento
da Capital. Lucilia nunca se esquecerá,
por exemplo, das idas às obras do
Museu do Ipiranga, que lhe deram
ocasião de brincar, muito mocinha
ainda, junto aos alicerces da famosa
e monumental construção.
Recordações de sua
tenra infância
Um fato que marcou sua infância
ocorreu em 1878, quando, viajando
pela Província de São Paulo, Dom
Pedro II visitou a família Ribeiro dos
Santos em Pirassununga.
Durante o encontro na casa de
Dr. Antônio, Dom Pedro II – figura
de aspecto patriarcal – trouxe a pequena
Lucilia para junto de si e, dis-
1902
3 de setembro – Falecimento
de Da. Georgina Ribeiro
de Andrade, prima de
Lucilia. Estando na fazenda
de seu avô, em São João
da Boa Vista, Lucilia é
avisada em sonho de que
sua prima encontra-se mal
à morte. Pouco depois de
ter comentado o fato com
Dr. Antônio, este recebe
um telegrama confirmando
a autenticidade do aviso.
1903
27 de julho – Dr. Antônio
Ribeiro dos Santos,
esposa e filhas comparecem
a uma festa oferecida por
Antônio Penteado.
1904
Museu do Ipiranga
19 de abril – Lucilia envia
prendas para a Quermesse na
Santa Casa: uma cobertura
para teclado de piano,
trabalhada por ela mesma.
Participa ativamente como
vendedora da “Barraca
B”, com ornamentações
de crisântemos, onde eram
distribuídos bombons.
9
Dona Lucilia
traidamente, enquanto conversava,
passava a mão entre seus cabelos,
desfazendo-lhe um a um os frisados
cachos. Percebendo desmanchar-
-se aos poucos o esmerado penteado,
Lucilia deu mostras de
querer protestar, mas encontrou
– severo e fixo – o olhar
de seu pai, a lhe insinuar que
nada deveria dizer...
Seria um erro imaginar que
a admiração da jovem Lucilia
pelos lados enérgicos do pai,
inclusive quando aplicados à
sua própria educação, fosse
menor do que a tributada por
ela às outras qualidades. Assim,
narrará, até avançada idade, o
que se passou após ganhar do pai
o belo presente de um cordeirinho.
Lavou-o, secou-o e o adornou com
lindos laços de fita. Tratou-o com todo
o carinho, até o dia em que um respeitoso
escravo lhe confidencia:
— Sinhá pequena, eu queria dizer
uma coisa para a Sinhá ficar preparada.
Sinhô – o pai dela – vai mandar
matar o cordeirinho amanhã. Eu só
queria avisar.
Ela então diz:
— Não é possível! Você está mentindo,
papai não faria uma barbaridade
dessas!
Sorrindo, ele responde:
Dr. Antônio Ribeiro dos Santos
Dom Pedro II
— Sinhá pequena, é assim que vai
ser.
Sem perder um minuto, ela vai
correndo ao escritório do pai e lhe
diz, banhada em lágrimas:
— Papai!... Então papai vai matar
o cordeirinho? O senhor deu mesmo
essa ordem? Será possível?
— Minha filha, é verdade.
— Mas, como? Ele é tão bonzinho,
tão bonitinho, eu quero tão
bem a ele...
— Lucilia, deixe de ser ingênua.
É preciso enfrentar as coisas como
elas são. Isto será bom para que você
perca esse sentimentalismo. Sentimento,
sim; sentimentalismo, não!
Foi irredutível.
No dia seguinte, lá foi o cordeirinho
fazer parte do cardápio. Dona Lucilia
sempre mencionará o fato como prova
da bondade do pai, que usou um remédio
duro, vencendo o próprio afeto
paterno, a fim de curar a tendência para
o sentimentalismo de uma menina
daqueles tempos românticos.
Revestida da capa de
um cigano-chefe
Após esse passeio à fazenda, retornemos
com a pequena Lucilia
a Pirassununga.
Como se sabe, outrora era
muito difundida uma concepção
lendária acerca dos ciganos.
Estes percorriam as cidades
e o campo, às vezes
acompanhando algum espetáculo
circense, em geral
vistos com certa desconfiança
por terem seus costumes e
regras peculiares.
Menina ainda, quando os
ciganos passavam por Pirassununga,
Lucilia observava à
distância os movimentos deles,
através do buraco de uma fechadura.
Aconteceu, porém, que, devido
à prestação de serviços advocatícios
de Dr. Antônio a um chefe de ciganos,
este se tornou seu amigo e cabo
eleitoral, passando a frequentar o
escritório do pai de Lucilia, contíguo
à residência da família.
Num dia de eleições, em que a casa
e o escritório de Dr. Antônio formigavam
de amigos políticos, Lucilia
encontrou sobre o canapé da entrada
a capa do referido chefe. Era
uma espécie de poncho forrado com
tecido vermelho, que lhe pareceu
muito elegante. Atraída pelo manto,
analisou-o, acariciou-o e acabou por
vesti-lo, dando uns passeios pelo interior
da residência. Qual não foi o
espanto de sua mãe, Dona Gabriela,
ao vê-la revestida daquele traje:
sem demora o retirou dos ombros da
10
1905
4 de março – Lucilia
participa do segundo baile
no Clube Concórdia.
25 de março – Inauguração
do Palacete do Conde
Álvares Penteado.
Nessa ocasião teve lugar
o famoso “Baile Branco”,
ao qual Lucilia e seus
familiares compareceram.
Fazenda Santo Antônio das Palmeiras
tal como era na época de Dona Lucilia
filha, aconselhando-lhe nunca mais
tocar nos objetos dos visitantes...
Este pequeno mas quão pitoresco
episódio é ilustrativo do ambiente de
domésticas aventuras que marcaram
a vida provinciana e povoavam a infância
de Lucilia.
Mudança para a
capital paulista
Em 1893 – quatro lustros depois
de se ter fixado em Pirassununga –
terminava definitivamente a permanência
dos Ribeiro dos Santos nessa
cidade. Na ocasião, os filhos do casal
contavam respectivamente: Gabriel,
20 anos; Lucilia, 17; Antônio (Toni),
15; Eponina (Yayá), 11; e Brazilina
(Zili), 4. Dr. Antônio retornou com
a família para São Paulo, conservando
gratas recordações daqueles anos
que, para eles, foram heroicos.
Lucilia pôde rever diversas vezes
a Pirassununga de seus tempos
de menina, pois não era raro passar
férias na fazenda de um amigo
de seus pais, localizada em Santa Rita
do Passa Quatro, então distrito de
sua terra natal. Em 1892, Dr. Antônio
vendera a fazenda Santo Antônio
das Palmeiras para, três anos depois,
comprar outra, em São João da
Boa Vista: a Jaguary.
Algum tempo após ter-se mudado
para a capital, a família se instalou
em belo palacete no aristocrático
bairro dos Campos Elíseos, que começava
a viver seus esplendores, característicos
da Belle Époque.
Em conformidade com a
vontade de Deus, abraça
um novo estado de vida
No entardecer de certo dia, Dr.
Antônio, com sua característica paternalidade,
abordou a filha para tratar
do delicado tema do matrimônio.
Ponderou-lhe que os anos iam passando
e ela corria o risco de transformar-se
em tia solteirona, em torno
da qual os sobrinhos faziam festa.
Claro estava que Dr. Antônio, como
bom pai, não quereria forçar uma
decisão de Lucilia pelo casamento.
Nessa mesma ocasião, contou à filha
que certo amigo, Dr. João Procópio
de Carvalho, apresentara-lhe um jovem
advogado, Dr. João Paulo Corrêa
de Oliveira, descendente de ilustre
família de Pernambuco, muito fi-
1906
14 de julho – Primeira
Comunhão de Lucilia na
capela do Mosteiro da
Luz, em São Paulo.
15 de julho – Matrimônio
de Dona Lucilia Ribeiro
dos Santos com Dr.
João Paulo Corrêa de
Oliveira na capela do
Seminário Episcopal,
em São Paulo. O casal
estabelece residência à Rua
Martim Francisco, 20.
1º de agosto – Dona
Lucilia parte do Rio de
Janeiro rumo a Recife,
em viagem de lua de mel.
20 de setembro –
Dona Lucilia regressa
a São Paulo.
11
Dona Lucilia
no e inteligente. Considerava-o, por
tais motivos, o esposo mais conveniente,
ressalvando, entretanto, caber
a última palavra somente a ela.
Com a fisionomia sempre meiga
e afetuosa, Dona Lucilia em nada se
alterou diante da sugestão paterna.
Era uma nova manifestação daquela
temperança estável que já ia atingindo
seu pleno florescer. Se a vontade
da Providência assim se insinuava,
por que não se alegrar? Seu futuro
esposo deveria ser bom, dado haver
sido recomendado por Dr. Antônio.
O que mais faltava para seu assentimento?
No entanto, sempre comedida
e prudente, pediu a seu pai algum
tempo para pensar e, após muito
rezar e refletir, aceitou a proposta
de que lhe fosse apresentado
o digno e simpático
bacharel, de quem se tornou
noiva.
Quinze de julho de
1906! Data marcante
na crônica social
da cidade, em razão
de brilhante acontecimento
do qual nos
dá notícia o “Correio
Paulistano”, do dia
seguinte: “Realizou-
-se ontem, nesta capital,
o casamento da
exma. senhorita Lucilia
Ribeiro dos Santos,
filha estremecida do
Sr. Dr. Antônio Ribeiro
dos Santos, com o distinto advogado
Dr. João Paulo Corrêa de Oliveira.
(...) A cerimônia religiosa esteve concorridíssima,
sendo celebrada às oito
e meia da noite, na capela do Seminário
Episcopal. Pronunciou por esta
ocasião uma bela oração de bênção e
bons augúrios ao novo par, o Revmo.
Arcediago Dr. Francisco de Paula Rodrigues,
governador do bispado. (...)”
A casa de residência do Sr. Dr. Ribeiro
dos Santos estava lindamente
ornamentada. Os salões, de onde jorrava
fartíssima iluminação, achavam-
Dr. João Paulo Corrêa de Oliveira
-se artisticamente enfeitados de variadíssimas
flores das espécies mais
delicadas e raras, enfaixadas em lindos
tufos ou feitas em grinaldas que
se espalhavam por todos os lados.
A afluência à igreja de numerosos
convidados, pertencentes à mais alta
sociedade, despertou extrema curiosidade
entre o povinho que passava
defronte, atraindo uma pequena e
ruidosa multidão.
Contudo, nada encantou tanto
aquela gente como o extenso cortejo
Dona Lucilia com um de seus vestidos de certimônia. Acima,
Seminário Episcopal e Igreja de São Cristóvão, em 1905
12
Capela do Convento da Luz.
Em destaque, lembrança da Primeira
Comunhão de Dona Lucilia
de carruagens e automóveis que se
dirigiu à residência dos Ribeiro dos
Santos, logo após a cerimônia. Chamava
especial atenção o automóvel
dos noivos que, finamente ornado e
estofado de seda, abria o séquito.
Desejado encontro com
Jesus Sacramentado
Até o pontificado de São Pio X,
no início do século XX, a graça da
Primeira Comunhão ainda não se
estendera a crianças e adolescentes.
Não foi este, todavia, o único motivo
que manteve Lucilia longe desse Sacramento
até a proximidade de seu
matrimônio. Naquela época, a população
brasileira, embora fosse maciçamente
católica, assistisse às Missas
dominicais e participasse de todos os
eventos religiosos, não tinha o costume
de frequentar de maneira assídua
os Sacramentos.
Concorria para tal atitude contraditória
uma assanhada propaganda
anticlerical, e não poucos chefes
de família – como, por exemplo, Dr.
Antônio – achavam por bem manter
suas filhas e esposas afastadas dos
confessionários e, consequentemente,
da Comunhão.
Ora, para uma alma ardorosamente
devota do Sagrado Coração
de Jesus, a Comunhão constituiria o
ápice normal do trato íntimo com o
Divino Salvador. Daí significar não
pequena provação para a jovem Lucilia
o viver tanto tempo à espera
desse Sacramento. E, apesar da nunca
desmentida admiração que nutria
pelo pai, não conseguia esconder sua
mansa incompreensão diante da irredutível
atitude dele. Sem resultado,
porém. O matrimônio propiciar-
-lhe-ia afinal a oportunidade de rea-
1907
6 de julho – Nascimento de
Rosenda Corrêa de Oliveira,
filha de Dona Lucilia, na
cidade de São Paulo.
1908
13 de dezembro – Nascimento
de Plinio Corrêa de Oliveira,
na cidade de São Paulo.
1909
7 de junho – Batismo de
Plinio, na Igreja de Santa
Cecília, em São Paulo.
12 de novembro –
Falecimento de Dr. Antônio
Ribeiro dos Santos. Pouco
tempo depois, Dona Lucilia,
com seu esposo e filhos,
mudam-se para o palacete
Ribeiro dos Santos.
1910
2 de outubro – Dona Lucilia
é admitida na Irmandade
do Santíssimo Sacramento,
da Catedral de São Paulo.
1911
12 de setembro – Dona
Lucilia e Dr. João Paulo
comparecem à cerimônia
de inauguração do Teatro
Municipal de São Paulo.
13
Dona Lucilia
lizar o desejo, há tanto tempo acalentado,
de receber Nosso Senhor na
Sagrada Eucaristia. Nas vésperas do
casamento, Dr. Antônio procurou o
futuro genro e lhe disse:
— Dr. João Paulo, até agora não
permiti que Lucilia se confessasse e,
portanto, também que comungasse,
embora ela o quisesse deveras. Como
a situação nos meios eclesiásticos
se inclina para melhorar, sou
tendente a permiti-lo. Mas, de fato,
quem vai resolver o caso é o senhor.
Se quiser, ela se confessará e comungará
agora para o casamento.
Dr. João Paulo olhou para sua
noiva a fim de que ela manifestasse
seus anseios. Com a amenidade
de sempre, ela lhe disse que gostaria
Dona Lucilia com seu filho Plinio ao colo
muito de comungar regularmente, o
que, a partir de então, ficou combinado
entre os dois, e na véspera do
desponsório pôde confessar-se e fazer
a Primeira Comunhão, na sua
bem-amada capela do Convento da
Luz, adquirindo assim mais fortaleza
de alma para enfrentar as incertezas
de um novo estado de vida.
Um casamento vivido sob a
proteção de Nossa Senhora
Com saliente candura e limpidez
de olhar, encarava Dona Lucilia o estado
matrimonial e, ao mesmo tempo,
com elevação de espírito, colocava-se
sob o amparo e proteção da Santíssima
Virgem para o perfeito cumprimento
de seus deveres
de esposa e mãe. Pequeno
testemunho de suas
sublimes disposições nos
dá a oração por ela copiada
de próprio punho numa
época não muito posterior
ao casamento. Habituou-se
a rezá-la de memória,
mantendo o texto
escrito guardado em uma
gaveta. 1
De volta a São Paulo
após a viagem de lua de
mel, Dona Lucilia e seu
esposo fixaram residência
numa casa quase contígua
ao palacete Ribeiro
dos Santos. O casal foi
premiado por Deus com
dois filhos: em 1907 (6 de
julho) uma menina, que
recebeu o nome de Rosenda,
em memória da
falecida mãe de Dr. João
Paulo, à qual ele queria
bastante bem; e, em
1908 (13 de dezembro),
um menino, Plinio, assim
chamado de muito bom
grado por Dona Lucilia,
para atender à sugestão
de Dona Gabriela, que
sempre desejara ter alguém entre os
seus com este nome.
Um ato heroico prova a
virtude de Dona Lucilia
A bondade de que transbordava
o coração de Dona Lucilia iria doravante
derramar-se sem reservas sobre
os filhos. Sua maternidade faria desabrochar
um de seus mais sublimes
aspectos de alma ao ter de enfrentar
com heroísmo uma difícil situação.
Ao examiná-la, o médico constatara
que o parto seria arriscado.
Muito provavelmente, ela ou o nascituro
morreria. Assim, perguntou-
-lhe se não preferiria abortar, a fim
de salvar a própria vida.
Ante essa absurda inquirição, Dona
Lucilia, desagradada, respondeu:
— Doutor, esta não é uma pergunta
que se faça a uma mãe! O senhor
não deveria sequer tê-la cogitado.
Foi desse modo que, pouco tempo
antes de dar à luz seu filho varão, quis
a Providência pedir àquela extremosa
e resoluta mãe católica um excelente
ato de virtude. Assim, antes mesmo
do nascimento de Plinio, a maternalidade
de Dona Lucilia se exercia, em
relação a ele, com todo seu desvelo.
O menino nasceu num domingo
de manhã, enquanto Dona Lucilia
ouvia tocar os sinos da igreja de Santa
Cecília, chamando para a Santa
Missa. O recém-nascido era tão franzino,
que o berço, caprichosamente
preparado pela mãe, ficou grande
demais para ele. Contam pessoas da
família que ela, conversando um dia
com seu pai, manifestou aflição pelo
fato de Plinio não aparentar muita
saúde. Dr. Antônio tomou-o nos
braços, procurou a claridade junto à
janela e, olhando bem o neto, tranquilizou-a
com estas palavras:
— Este menino viverá muitos
anos!
v
1) Oração transcrita na página 5 desta
edição.
14
Fotos: Arquivo Revista
Dona Lucilia
Extremosa mãe e
exímia educadora
Princípios claros, bondade extrema,
afabilidade e cumprimento do dever,
eis alguns traços da formação dada
por Dona Lucilia aos filhos.
As primeiras recordações
que eu tenho de minha
mãe, em pequeno, são das
carícias que ela me fazia. É próprio a
uma criança gostar de ser acariciada,
sobretudo pela mãe.
Dona Lucilia possuía, como ninguém,
o conhecimento de o por onde
eu me sentiria melhor acariciado
e, portanto, como fazer para agradar-me
plenamente, incutindo em
mim um gosto muito grande pelas
carícias.
Eu sentia, com profunda comoção,
esse mundo de comprazimento
por parte de mamãe. Ora, quando
nos encontramos diante do afeto,
a forma do entusiasmo que se tem
chama-se emoção. Portanto, ficava
profundamente emocionado.
Mas, de outro lado, encantava-
-me com aquela ordenação que correspondia
ao que eu tanto apreciava,
ou seja, que ela me quisesse bem,
não apenas com um amor quase meramente
instintivo, por ser seu filho,
mas antes de tudo, porque eu amava
a Deus.
Preparando o Jacó que
lutaria contra o Esaú
Nela havia duas qualidades que
pareciam antitéticas, mas que se
completavam muito bem. Ela era
muitíssimo carinhosa enquanto notava
em mim, ou numa outra criança,
a debilidade da infância. Seu entranhado
carinho se debruçava para
amparar a criança na sua fragilidade.
1912
20 de janeiro – Baile
infantil no Clube
Internacional: Rosée e
Plinio participam vestidos
de ceifadores de trigo.
18 de maio – Tem início
a demolição da antiga Sé
de São Paulo, à qual
Dona Lucilia era muito
afeita. Em companhia
de outras senhoras
da família, ela esteve
presente à última Missa
celebrada no edifício.
10 de junho – O navio
Hohenstaufen, no qual
viajam Dona Lucilia e seus
familiares, parte do Rio
de Janeiro às 16h, rumo a
Hamburgo, Alemanha,
com escalas previstas
em Salvador, Ilha da
Madeira e Lisboa.
Julho – Dona Lucilia
é operada da vesícula
na Policlínica da
Real Universidade de
Frederico Guilherme, em
Berlim, Alemanha.
Julho - agosto – Viagem
por várias regiões da
Alemanha, passagem
pelo Reno até Colônia.
15
Dona Lucilia
Plinio com 2 anos
Quando menino, eu sentia muito
que minha debilidade de criança era
uma razão especial para ela me querer
bem. E não posso dizer quantas
vezes eu a vi sorrir a essa debilidade
e como ela a manuseava amavelmente,
afavelmente, delicadamente,
ora brincando, gracejando um
tanto, ora explicando um pouco
o mundo dos mais velhos, na
medida em que uma criança
pudesse compreender.
E eu me sentia “ultra”
à vontade com a tradução
que ela fazia do mundo
dos mais velhos para os
mais novos. Eu também
sentia muito isso nos cuidados
dela para conosco.
Mais especialmente, prestava
atenção no modo de ela
cuidar de mim, é natural. Quer
dizer, cuidados com a saúde, com
o corpo, com as maneiras – não fazer
brincadeiras abrutalhadas –, cuidado
com tudo. Um cuidado meticuloso
e afetuoso, tudo bem direito,
arranjado, como deveria ser, mas
de uma observação benevolente e
disposta a sorrir a qualquer pequeno
defeito, desde que não houvesse
a insistência nele. A persistência no
defeito ela não tolerava.
Por outro lado, sentia muito nela
uma espécie de guindaste: ela me
suspendia. Era dotada de uma fortaleza
de alma, por onde a força da
convicção dela fortalecia minhas
convicções. A retidão de sua conduta
dava-me retidão na minha. A repulsa
que ela fazia do mal, do erro
e do feio, fazia-me repudiá-los também.
Eu era um menino muito mole –
aliás, pode-se perceber isso pelas fotografias
–, e ela me animava enormemente.
Para usar uma figura da
Sagrada Escritura: de um lado, ela
apoiava em mim o Jacó, no que este
tinha de delicado em comparação
com Esaú; de outro lado, ela preparava
em mim o Jacó que lutaria contra
Esaú. Nesse sentido também,
fez-me um bem colossal!
Atitude ao ser acordada
durante um sono profundo
Lembro-me ainda de como era o
carinho de mamãe em minha mais
tenra infância, quando eu acordava
durante a noite com insônia. Eu percebia
que ela estava desvairada de
sono.
Eu me sentava sobre seu peito e
abria seus olhos com as mãos – aí minha
truculência já se anunciava... Ela
abria os olhos, olhava-me com afeto
e dizia-me: “Meu filho!”
Ela sentava-se na cama, trazia-me
para junto de si, tirava seu travesseiro,
punha-me sentado nele – eu era
uma criança de dois, três anos – e começava
a brincar comigo.
Naquele tempo eu pensava:
“Querer bem é isso e com ela eu me
arranjo!” Não era um pensamento
utilitário; a ideia era: “Eu preciso
querê-la assim e já a estou querendo”.
Ela me salvara daquele naufrágio,
o qual consistia em estar acordado
sozinho, num quarto escuro, onde
apenas entrava um pouco de luz
por uma fresta de porta. Ela tinha
me salvado do desespero,
e com que abundância, com
que bondade!
Quando vinha o sono,
ela me deitava, brincava
ainda um pouquinho
comigo, e eu dormia.
Desvelo durante
as doenças dos
filhos na infância
Uma coisa que eu, em
vida de mamãe, notava
muito – e ela a possuía em
alto grau – era uma forma de
presença que o simples trato comum
de uma dona de casa – quer dizer,
de uma senhora com o seu marido,
os seus filhos, a residência –
ela o fazia com uma ordenação interior,
do mais profundo do seu espírito
tão composto, harmonioso, sério,
elevado, mas tão afável, acolhedor,
virtuoso, que aquilo contagiava,
no sentido bom da palavra. E as
pessoas com isso ficavam de repente
distendidas, acalmadas e tranquilas.
Lembro-me, por exemplo, de que,
quando eu era pequeno, tive toda espécie
dessas doenças que criança tem:
crupe, coqueluche, caxumba. E, naturalmente,
quem tratava de mim era
Dona Lucilia. Mas, como toda criança,
começava a ficar torcendo para não ter
mais febre. E ela era uma campeã do
termômetro, vira e mexe o usava.
Ela notava que eu me impacientava
com o termômetro, pois, enquanto
não passasse a febre, ela não me
deixaria sair da cama, e eu preferia
não ter esse controle e levantar logo.
Então, não querendo acentuar
demais o uso desse instrumento, ela
punha a mão sobre a minha testa.
16
Só o sentir a mão de mamãe sobre
a minha fronte, já transmitia uma
impressão de frescor, de tranquilidade,
de suavidade e todas as minhas
impaciências passavam.
Às vezes mamãe vinha até mim e
eu pensava: “Que bom! Ela não vai
fazer baixar minha febre, mas aliviará
qualquer coisa em mim que está
fervendo!” Ela punha a mão na minha
testa e dizia: “Meu filho, você
ainda tem um pouco de febre...” Ela
fazia baixar a sensação de febre, e
era uma tranquilidade…
Muitas vezes a presença de Dona
Lucilia dava-me também a sensação
da proteção da Providência, pelo
modo de me sentir garantido de
tudo, pois ela me protegeria. Quando
pequeno, por ser ela minha mãe
e, portanto, uma pessoa mais poderosa
do que eu; depois, com o tempo,
isso continuava, mas de uma maneira
diversa.
“Sua voz alegre já
me diz tudo”
Eu tive, quando estava com uns
dez anos de idade, uma doença gravíssima
e contagiosíssima, chamada
angina diftérica, também denominada
crupe. Não é caxumba, que é uma
doencinha comum.
Crupe é uma doença infecciosa
medonha e muitas vezes mortal, porque
é uma infecção que dá na garganta,
e a pessoa fica prostrada com
uma febre elevadíssima. Atinge sobretudo
crianças, mas, às vezes, também
gente adulta, se não me engano.
A garganta vai inchando, inchando,
se fecha e impede a respiração; a
pessoa morre por falta de ar.
Eu me lembro de que acordei
uma manhã com a voz embargada,
e falei ao empregado: “Chame Dona
Lucilia!”
Ela veio, e eu disse:
— Meu bem, eu não me levanto
agora porque estou muito doente.
— O que é, meu filho?
Expliquei o que eu sentia. Ela pegou
uma caixa com brinquedos – dos
melhores, que me interessavam mais
–, pôs na cama e disse: “Vá brincando
aqui, enquanto eu consulto o médico”.
Lembro-me bem de que eu me
sentei para brincar, porque era um
brinquedo que não dava para utilizar
deitado. Senti meu corpo amolecer e
afundei na cama de novo.
Plinio por volta de 1919
Setembro – Chegada a
Paris. Dona Lucilia se
instala com seus familiares
no Hotel Royal, situado
na Avenue de Friedland.
31 de dezembro – Dona
Lucilia, em traje de gala,
comparece com a família ao
réveillon, num dos grandes
restaurantes de Paris.
1913
Março – Partida
para a Itália.
17 de abril – Dona Lucilia,
seus filhos e a Fraülein
Mathilde chegam ao
porto de Santos, a bordo
do navio Duca d’Aosta.
22 de junho – Dona
Lucilia felicita o Pe. Chico
(Mons. Francisco de
Paula Rodrigues) por
seu jubileu sacerdotal.
1915
9 de janeiro – Dona
Lucilia e Dr. João Paulo
comparecem ao baile no
Teatro Municipal, em
favor das crianças belgas.
17
Dona Lucilia
O médico que mamãe consultara
pelo telefone indicou alguns remédios.
Mas a doença era contagiosíssima.
Ela podia perfeitamente contratar
uma enfermeira para tratar
de mim, porque era muito doente
do fígado e, se ela tomasse
esse crupe, morria na certa.
Ela não quis saber de enfermeira,
do começo até o fim.
Havia, sobretudo, um momento
decisivo no crupe que
era especialmente contagioso,
a respeito do qual o médico,
homeopata, preveniu mamãe.
Eu tomava o remédio periodicamente
e minha febre ia
subindo. Ela telefonava para o
médico – que era amigo da família
e recebia os telefonemas de muito
bom grado – e ele dizia para ela:
“A senhora não se assuste, a febre do
Plinio ainda vai subir mais. Mas, em
certo momento, se o remédio fizer
bem, a membrana infeccionada que
ele tem na garganta será expelida. No
momento em que ele lançar fora essa
membrana, a senhora tenha um pano
qualquer sobre o colo e faça-o expelir
nesse pano. E mande imediatamente
uma das criadas levá-lo ao jardim,
onde já deve haver um buraco pronto,
e enterrá-lo bem fundo, porque
essa membrana é ultracontagiosa. E
se a senhora puser em qualquer outro
lugar da casa, pega em alguém”.
Ela podia contratar uma enfermeira,
pelo menos para essa hora,
mas não o fez. Lembro-me dela sentadinha
junto a mim. Em certo momento,
fiz sinal de que ia acontecer
qualquer coisa.
Mas eu estava julgando, com minha
mentalidade de menino, que ia
morrer. Mamãe me ajudou e expeli
a tal membrana na toalha colocada
sobre o seu colo. Ela imediatamente
a dobrou para evitar um pouco
a expansão dos micróbios. Depois
me agradou um pouquinho, chamou
uma empregada da casa e lhe disse:
Dona Lucilia pouco antes do casamento
“Madalena, pegue isto com a ponta
dos dedos e enterre no buraco que
foi feito lá no fundo do quintal”.
A Madalena foi correndo e fez como
Dona Lucilia mandara. Graças a
Deus, nem mamãe nem a Madalena
foram contagiadas. Dentro de alguns
dias, eu já estava restabelecido.
Quando expeli a membrana e minha
mãe viu que, portanto, o perigo
tinha passado, ela telefonou
ao médico para contar-lhe
o ocorrido, dizendo:
— Doutor Fulano!
Ele respondeu:
— A senhora não
precisa contar o resto.
Sua voz alegre já me
diz tudo...
Educando através
do maravilhoso
Quando eu tinha doze, treze
anos de idade, minha irmã, meus
primos e eu formávamos uma roda
grande de meninos, meninas, e tínhamos
grande entusiasmo por ouvir histórias
narradas por Dona Lucilia.
Ela, que era muito imbuída de
cultura francesa, nos contava
histórias de Alexandre Dumas,
como “Os três mosqueteiros”
que, naturalmente, adaptava,
tirando o que havia de inconveniente.
Então os mosqueteiros
D’Artagnan, Aramis,
Athos e Porthos eram personagens
familiares, como
se convivessem conosco.
Diariamente – como fazem
todos os meninos com
seus pais –, eu me levantava,
rezava, fazia a toilette e ia dizer
“bom-dia” para ela. Para esse
“bom-dia”, minha governanta
alemã queria horário fixo, sem dúvida,
mas ela já tinha compreendido
o jeito de ser brasileiro e que o horário
era fixo em linhas gerais, pois,
em certos dias, tudo começava mais
tarde, porque eu tinha ficado conversando
com Dona Lucilia.
Lembro-me dela, deitada na cama
– era doente, levantava-se tarde,
e essa cena dava-se em seu quarto,
pelas oito e meia da manhã –, quando
estava acabando de tomar o café.
Meu pai levantava-se mais cedo;
eu entrava pelo lado da cama onde
dormia meu pai e chegava até ela.
Abraçava-a, beijava-a várias vezes,
e depois ficava aos pés da cama, ou
sentado ou, muitas vezes, deitado, e
18
20 de março – Dona
Lucilia participa do Retiro
das Mães Cristãs.
21 de junho – Dona
Lucilia, com seus
familiares, comparece ao
enterro do Pe. Chico.
olhando para ela, numa atitude de
afeto em que entrava muitíssima admiração.
Ou, se quiserem, numa atitude
de admiração em que entrava
muitíssimo afeto.
Falávamos um pouquinho e eu
pedia para ela contar alguma história.
Mas então era uma história só
para mim.
Também moravam em casa uma
irmã e uma prima, as quais tinham
horários e afazeres de meninas, naturalmente
separados dos meus. E
elas, nessa ocasião, estavam fora;
eu então tinha mamãe só para mim,
única e exclusivamente.
E eu percebia que ela, com os
seus olhos marrom-escuros, prestava
atenção em mim e como que existia
só para mim. E conversávamos.
Ela então me contava esses contos
próprios para criancinhas: Gata Borralheira
etc. Mas o caso do qual eu
mais gostava era o do Gato de Botas,
que todos ouviram em pequeno. São
histórias mundiais; tenho a impressão
de que até na Índia, no Afeganistão,
se conta o caso do Gato de Botas.
Mas ela era muito imaginosa e eu
muito pormenorizado. No conto do
Gato de Botas – vê-se aqui uma espécie
de fermento de Contra-Revolução
que já trabalhava em mim –, o
grande personagem, para mim, não
era o gato. Eu achava mais ou menos
banal que um gato tivesse aquelas botas,
falasse; não me espantava muito
com isso. Entretanto, eu me interessava
enormemente por um dos personagens
da história do Gato de Botas,
que era o Marquês de Carabás.
Ela possuía essa intuição afetiva
das mães; além disso, com muito
senso psicológico, via por onde caminhava
meu interesse e fantasiava
a história de acordo com minha
curiosidade. Enquanto ela ia contando
a história, eu ficava à espera do
momento em que entrava o Marquês
de Carabás.
Eu conservo a confusa ideia de
que o Gato de Botas acabou sendo
aliado do Marquês de Carabás, mas
não me lembro bem por quê.
Mamãe apresentava o Marquês
de Carabás como um homem que
morava num castelo e saía a certa
hora numa carruagem toda dourada,
com os vidros de cristal bombeados,
plumas em cima do carro e várias parelhas
de cavalos tocados por cocheiros
com chapéu tricórnio, com plumas,
alamares etc., lacaios atrás. Ele
era dono de vastidões enormes que
1916
12 de dezembro – Dona
Lucilia comparece à
Missa de 7º dia por alma
de Da. Adelaide Prado
de Oliveira, na Igreja do
Sagrado Coração de Jesus.
1917
18 de fevereiro – Domingo
de Carnaval: Plinio usa a
fantasia de marajá, idealizada
por Dona Lucilia.
5 de março – Dona Lucilia
aparece na fotografia da
Irmandade do Santíssimo
Sacramento da Catedral
de São Paulo.
20 de novembro – Dona
Lucilia promove uma
festa em comemoração
da Primeira Comunhão
de Plinio e Rosée,
ocorrida no dia anterior.
19
Dona Lucilia
o olhar humano não podia alcançar,
com trigais dourados, agitáveis pelo
vento numa direção e noutra. O
Marquês, então, passeava olhando
os seus trigais de dentro de sua carruagem.
Eu achava essa situação maravilhosa
e tinha um verdadeiro entusiasmo
pelo Marquês de Carabás,
pelos adornos dele, pelos postilhões,
pelos lacaios etc. E quando chegava
a hora de ele entrar em cena, eu começava
com as perguntas.
Não pensem que tenha ficado estéril
o que ela contava com um encanto
extraordinário – ao menos para
mim.
A viagem à Europa em 1912
Em 1912 ela esteve sete meses na
Europa e fez ali uma operação de
vesícula biliar. Ela teve uma doença,
que hoje é muito comum e trata-se
facilmente. Mas, naquele tempo, era
uma doença gravíssima, e só havia
um meio de não morrer: fazer uma
operação que, no mundo inteiro, só
um médico alemão – que, aliás, era
também médico do Kaiser –, o Dr.
Bier, realizava. E consistia em tirar a
vesícula biliar.
Dr. Bier
Quando mamãe chegou
a Berlim, o médico
disse-lhe que ela era a segunda
senhora do mundo
da qual iria tirar a vesícula
biliar; a primeira tinha
sido uma senhora hindu.
Ela então foi operada.
Depois de consolidar a
saúde, viajou para a terra
de atração de todos os homens
naquele tempo, que
era a Cidade Luz: Paris.
Ela ia visitar aqueles lugares
históricos e queria que
minha irmã e eu – eu tinha
quatro anos e minha
irmã, cinco anos e meio –
fôssemos também. Então,
alguns parentes diziam
para mamãe:
— Para que você leva
essas duas crianças? Só
vão atrapalhar, não compreendem
nada; deixe-as
trancadas no quarto com
a governanta!
Ela respondia:
— Não sei qual é o futuro deles;
talvez tenham uma vida pobre e difícil
e nunca poderão vir à Europa!
Quem sabe qual é o dia de amanhã,
nas reviravoltas do mundo de hoje?
Quero que cada um deles possa dizer:
“Eu estive no Louvre, em Versailles
etc. Minha mãe me levou até lá”.
Alma admirativa
Lembro-me mais dela em Paris do
que em outros lugares, e lá, recordo-
-me bem de que a sua atitude era de
uma admiração constante.
Ela sabia perceber a cultura francesa,
o modo de ser francês, nas menores
coisas. E como quem fala com
criança, ela se dirigia à minha irmã
e a mim: “Prestem atenção nisto!
Olhem para aquilo! Vejam aquilo outro!”
Eram as coisas que as crianças
podiam admirar, como ela também.
Por exemplo, passávamos diante
de muitas lojas. Minha irmã queria
Plinio e Rosée em Paris
parar diante de lojas que vendiam
tecidos e eu, muito guloso, queria
parar diante daquelas que vendiam
comida.
É a índole masculina e a feminina…
O mundo dos tecidos para mim
é brumoso e inexistente. Mas o mundo
gastronômico altamente existente!
Passando diante de uma confeitaria,
eu olhava para a comida exposta
e, às vezes, elogiava alguma coisa.
Eu gostava muito de doces feitos
com café; os franceses fazem doces
de café de primeiríssima ordem! Se
ainda não tínhamos tomado lanche,
mamãe entrava para eu comer aquilo
que havia admirado. Ela me fazia
saborear, mas me fazia compreender
a fundo: “Olhe que delícia! Isto é assim,
de tal jeito”. Eu ia prestando
atenção para sentir o gosto da coisa.
E na saída eu pedia: “Posso levar alguns
doces?” E sempre podia!
Então, levava um pacotão para o
hotel e, lá, comedoria.
20
Desse modo ela me ensinou a ver
Versailles, o Louvre, a ver todas essas
coisas e a começar a compreendê-las
pela admiração intensa que
ela tinha por isso tudo.
Diante da dor alheia
Pouco tempo depois de esses primeiros
fatos da minha infância terem
se passado, arrebentou a Guerra
Mundial. Entendi mais ou menos
o que era essa guerra, mas tinha a
noção da distância enorme que havia
entre o Brasil e a Europa. Portanto,
era impossível que a guerra chegasse
até aqui. Enquanto a Europa
passava por todo aquele sofrimento,
no Brasil havia a boa vida tranquila
e folgada; o Brasil não entraria
em guerra, e por isso as pessoas
aqui gostavam de celebrar a tranquilidade
brasileira. Não só apreciavam
isso os brasileiros, mas os estrangeiros
oriundos de países que estavam
na conflagração e que tinham vindo
para o Brasil antes da guerra.
Eles tinham pais, irmãos,
filhos, netos, metidos na conflagração.
Isso lhes interessava,
mas, sobretudo, o que eles
possuíam era um bem-estar
de, pessoalmente, não participar
da guerra.
Tudo isso representava o sofrimento,
e eu notava que Dona Lucilia
tinha, em face desses fatos, uma
atitude muito mais pensativa e mais
séria do que as outras pessoas. Estas
comentavam, como ela, as notícias
que os jornais publicavam, por vezes
com sensacionalismo que impressionava
muito o público, é natural.
Por exemplo, acabava o almoço de
domingo, todos se espalhavam pela
sala de jantar e começavam a conversar
sobre esses assuntos. Lembro-me
até hoje de que quando um velho relógio
de parede, com um bonito som,
marcava duas horas da tarde, havia
sempre um espírito mais leviano e superficial
que dizia com uma voz que
dominava a todos: “Meus caros, agora
chegou a vez de nos divertirmos.
Você vai para onde? E você? Vamos
fazer os nossos programas”. Então,
uns iam passear nos arredores da cidade,
outros faziam visitas, enfim, essa
vida leve dos domingos.
1918
9 de fevereiro – Dona
Lucilia torna-se Irmã
contribuinte da Irmandade
do Santíssimo Sacramento
da Catedral de São Paulo.
Fevereiro – No
carnaval, Plinio usa
a fantasia de mago, e
Rosée, a de princesa
persa, ambas preparadas
por Dona Lucilia.
27 de março – A
Irmandade do Santíssimo
Sacramento da Catedral
nomeia Dona Lucilia para
a Guarda de Oração ao
Santíssimo Sacramento.
26 de maio – Dona
Lucilia comparece com
seu esposo à exposição
das obras do pintor
italiano Antônio Rocco,
no Palacete Prates.
1919
Castelo de Versailles. Em destaque, Carruagem de Versailles
6 de março – Falecimento
do Conselheiro João
Alfredo Corrêa de
Oliveira, tio de Dr. João
Paulo. Dona Lucilia e
seu esposo viajam para
o Rio de Janeiro.
21
Dona Lucilia
Dona Lucilia em Paris
Eu percebia que Dona Lucilia
acompanhava, mas que o espírito dela
ia para a compaixão por aqueles
que tinham sofrido, fazia oração por
eles para Nossa Senhora aliviar ou
até para evitar esse sofrimento. Mas,
sobretudo, fazia a reflexão sobre o
grande, o nobre, o magnífico tema da
dor. E dentro desse tema, outro ainda
mais bonito: o heroísmo, a coragem.
Isso ia formando a alma de um
menino...
Paciência com um
sobrinho surdo-mudo
Dona Lucilia tinha um sobrinho
surdo de nascença, com um temperamento
muito difícil. Às vezes, ele
ia à casa de minha avó materna, onde
morávamos, e começava a brigar
com ela. Mamãe ficava olhando
aquilo e, quando percebia ter chegado
a um certo paroxismo, aproximava-se
dele, tranquilizava-o e ia com
ele para uma saleta onde o entretinha
durante mais de uma hora. Sendo
surdo, não graduava bem o volume
de sua voz, e soltava
algumas palavras aos
gritos. Ao cabo de uma
hora e tanto, o Tito – era
o seu apelido doméstico
– saía tranquilo, beijava-
-a e ia embora.
Isso acontecia quando
ele e eu éramos meninos,
e até durante nossa
viagem a Paris. Os
pais do Tito estavam lá
com Dona Lucilia. Mamãe
demonstrava uma
tal paciência com o Tito,
sacrificando por vezes
os atrativos da viagem,
que quando preparava
a mala a fim de voltar
para São Paulo, encontrou
dentro um vestido
muito bonito, muito
fino, que ela não havia
encomendado. Ergueu-
-o e viu que estava de acordo com o
tamanho dela perfeitamente. Ficou
intrigada e, mexendo na vestimenta,
caiu um cartãozinho, escrito pela
mãe do Tito: “À querida
Tia Lucilia, mil agradecimentos
de Tito”.
Pitos equilibrados
Já contei o que se passava
quando, em criança,
eu fazia alguma coisa
errada. De um jeito
ou doutro, ficava esperando
a repreensão. Para
mim, a sanção suprema
da Fräulein era falar
com mamãe:
— Ich werde es Mutter
sagen!
O que significa: “Eu
vou dizer isso à mãe”.
Em alemão se diz “à
mãe” assim: Mutter.
Eu replicava:
— Mutter sagen? Não!
Não quero, porque vai
aborrecê-la! Ainda que
provisoriamente ela se sinta distante
de mim, não quero! Faça o que quiser,
mas isso eu não quero!
No entanto, quando a coisa era pesada
a Fräulein me acusava e mamãe
me mandava chamar. Vinha a criada:
— Sr. Plinio, Dona Lucilia mandou
chamá-lo.
Eu já sabia o que era e ia entristecido,
mas com a esperança de levar
um pito, porque eles me pareciam
maravilhosos.
Habitualmente, mamãe permanecia
deitada na chaise-longue. Ela
passava o braço pela minha cintura
– eu era menino, baixinho –, punha-
-me bem perto dela e me olhava com
um olhar penetrante, até o fundo da
alma.
Seus olhos eram marrom-escuros,
mas nessas horas ficavam pretos.
Olhava-me bem firme e dizia:
— Filhão, é verdade que você fez
isso?
Eu, atraidíssimo, tinha vontade de
dar-lhe um beijo, mas sabia não ser a
hora, pois ela não o receberia bem.
E respondia:
Agostinho Ribeiro dos Santos (Tito)
22
13 de março – Dona Lucilia
e seu esposo comparecem
à Missa de 7º dia por
alma do Conselheiro João
Alfredo, na Igreja do
Rosário, no Rio de Janeiro.
1920
Caderneta do Colégio São Luís, semelhante a de Plinio
— Sim, senhora, eu fiz isso.
— Mas, pense um pouco, não é
possível! Veja tal coisa assim...
Dito com tal gravidade, mas com
tanto afeto! Finalmente me perguntava:
— Você está arrependido?
Eu invariavelmente estava:
— Estou.
— Está bem. Você promete a mamãe
que nunca mais faz isso?
— Prometo, sim senhora!
— Então agora dê um beijo em
mamãe.
Aí vinha o ósculo com delícias. E
eu pensava: “Ah! Que pito maravilhoso!
Que coisa incomparável! Que
contato de alma extraordinário!”
Ela toda me parecia aveludada nessa
ocasião.
Ao ver essa atitude de mamãe, dava-se
algo curioso comigo. Eu me comovia
profundamente, mas como
um homem se comove; não chorava,
mas me tocava a alma a fundo.
Depois ia brincar ou estudar, coisas
que me davam muito menos ânimo
do que estar com ela, mas ia e tocava
a vida.
Quando me encontrava de novo
com ela, era como se não tivesse
acontecido nada; ela, contente. E na
hora do “boa-noite” ela não repetia
a queixa, não voltava à carga. Aquilo
estava esquecido.
Era um equilíbrio muito equilibrante,
porque ajudava a criança tratada
assim a tomar equilíbrio.
Entrada no Colégio
Entrei no Colégio São Luís pelos
dez anos de idade.
Ora, aconteceu-me de, por essa
época, receber nota 6 em uma disciplina
e, inconformado, no boletim
escrevi sobre ela um “10”.
Cheguei a minha casa e encontrei
mamãe no quarto de toilette
dela – era uma espécie de sala de
estar que as senhoras tinham antigamente
–, sentada numa cadeira
de balanço perto da escrivaninha.
Lembro-me perfeitamente da cena.
Ela, com certeza, havia escrito
alguma coisa e estava descansando
um pouco.
Entrei e disse-lhe:
— Meu bem, aqui está o meu boletim.
Muito afetuosa, ela o abriu e seus
olhos caíram imediatamente naquele
empastelado.
Perguntou-me, então:
— O que é isto aqui? O que aconteceu?
— Mamãe, recebi esse boletim e,
mesmo debaixo da chuva, eu quis ver
quais eram as minhas notas e caiu
água sobre ele.
— Mas aqui em cima dessa nota
seis o que você escreveu? A letra é
sua. Por que você anotou uma coisa
em cima daquilo que o padre escreveu?
Você quer me explicar isso? Vamos,
explique!
21 de janeiro – Estadia de
Dona Lucilia com seus
familiares em Águas da
Prata, no Hotel Costa.
5 de outubro – Dona Lucilia
acompanha, do palacete Ribeiro
dos Santos, o deslocamento da
comitiva do Rei Alberto da
Bélgica e da Rainha Elisabeth,
em visita a São Paulo. Ela
apresenta a seus filhos as pessoas
que compõem essa comitiva.
6 de dezembro – Dona Lucilia
comparece a uma homenagem
aos Imperadores do Brasil,
na Igreja de São Bento,
promovida por senhoras
da sociedade paulista.
1921
8 de janeiro – Senhoras
paulistas, entre as quais Dona
Lucilia, enviam uma mensagem
à Princesa Isabel, para render-
-lhe homenagem por ocasião da
chegada das cinzas da Família
Imperial ao Rio de Janeiro.
23
Dona Lucilia
Ao saber do fato, mamãe – sempre
muito afetiva, mas também firme
–, por mais que quisesse minha
companhia, me disse:
— Se ficar provado que você não
merecia a nota que escreveu, inabilmente,
com seu próprio punho no boletim,
mandarei você para o Caraça.
Tratava-se de um colégio muito
bom de Minas Gerais, com regime
de internato, mas cuja fama em São
Paulo, por razões que ignoro, era a
de uma penitenciária de crianças.
Fiquei horrorizado e ela acrescentou:
— Eu vou passar um ano sem vê-
-lo, e você também vai passar um
ano sem me ver. Sofrerei muito mais
do que você, porque eu quero mais
bem a você do que você quer a mim.
Mas, se é para seu bem, eu o mando
para lá. Estando no Caraça, lembre-
-se de que sua mãe está chorando infeliz
porque você está na prisão. Mas
você vai para a cadeia.
Entrei numa grande depressão,
mas não disse nada a ela. Não pedi
perdão – o que era malfeito, pois devia
ter pedido. Ela não se aproximou
de mim para que eu a beijasse; todos
os dias, quando eu chegava do colégio
eu a beijava várias vezes, e ela
me beijava também. Entendi que eu
Colégio Caraça
não podia nem me aproximar, porque
era um falsário! Como é que um
falsário vai se aproximar de uma senhora
digna de tal veneração e pela
qual eu tinha tanta ternura? Saí e fiquei
muito abatido.
Se não me engano, era um sábado
e o Colégio São Luís já estava fechado.
Então, papai iria ao colégio somente
na segunda-feira. Fiquei esperando,
portanto, o resto de sábado,
domingo e parte da segunda-feira.
Mas eu nem ousei perguntar a
meu pai a que horas ele iria; fiquei
quieto, colocando-me de lado como
uma espécie de bicho doente e repugnante.
Naturalmente, a ideia de ir para o
Caraça causava-me horror.
Na segunda-feira, ao chegar a minha
casa, perguntei para o copeiro:
— Dr. João Paulo já voltou do
São Luís?
Tinha ele uma voz cantante:
— Já, sim, senhor.
— Onde ele está?
— Com Dona Lucilia.
Estavam no apartamento deles,
que era um prolongamento da casa.
Fui para lá e encontrei os dois conversando,
mas não tinham fisionomia
carrancuda. Mamãe muito calma
me olhou e disse:
— Filhão, venha cá e dê um abraço
e um beijo em sua mãe.
Eu corri em direção a ela.
Mamãe continuou:
— Você está inocente. Seu pai
foi falar com o padre, o qual mandou
chamar o funcionário que passa
a limpo as notas. O próprio funcionário
reconheceu que a sua nota
era dez e por engano ele anotou seis.
Agora, você não faça mais essa bobagem
de estar alterando notas; isso
é muito feio.
E não falou mais em me mandar
para o Caraça.
Na saída, ela me disse:
— Então, mais um beijo para mamãe.
Tirei várias vantagens desse fato.
Primeira: aprendi a ter temor reverencial
a mamãe. É sempre bom
ter medo dos superiores. Segunda
vantagem: aprendi a querê-la ainda
mais, por causa da perfeição moral
que eu notava nela. Terceira, a qual
vale todas as vantagens da Terra e
mais algumas do Céu: começou aí a
minha devoção a Nossa Senhora.
As notas de comportamento
Pode dar-se o caso – e desconfio
que hoje seja bem mais frequente do
que outrora – de uma mãe perder a
24
paciência com o filho sem ser justa,
porque está nervosa, irritada, os negócios
não vão bem, ou simplesmente
porque ela não controla os nervos, se
zanga fora de hora, depois agrada fora
de hora etc. Ela não é justa na hora
que pune nem na hora que premia.
Dona Lucilia foi um modelo no
sentido contrário. Em todas as ocasiões
de punir, ela punia mesmo; em
todas as horas de premiar, premiava
mesmo. Ela levava as coisas até os
últimos pormenores.
Por exemplo, ela prestava muita
atenção nas notas que eu tinha no
colégio. Naquele tempo, o Colégio
São Luís, dos padres jesuítas, era o
melhor de São Paulo.
Todos os meses, entregavam um
boletim para cada aluno com as notas
do aproveitamento do estudo
e do comportamento em cada matéria.
Eu mostrava o boletim a mamãe,
ela o abria e, às vezes, para evitar
que me esquecesse, dizia: “Olha,
vou ver antes a nota do comportamento.
Porque na nota do comportamento
você é o responsável. Se for
bom o comportamento, você merece
um prêmio; se for mau, você é culpado,
porque depende de você”.
Depois ela acrescentava para me
estimular: “A nota do aproveitamento
já não é tanto assim, porque eu
não sei se tive um filho burro ou inteligente.
Ainda não está demonstrado.
E se você é burro, não tem
culpa. Aparece aí a nota baixa, fico
vendo que o Plinio é burro. Mas não
vou punir um filho porque é burro,
pois não puniria um filho porque é
doente, por exemplo. Simplesmente
constato: meu filho é um burro”.
Mamãe olhava a nota do comportamento
e, em geral, sempre foi bem
boa: nove ou dez. Ela tolerava nove
em uma matéria ou duas, não mais
do que isso. Porque receber nove em
algumas matérias queria dizer que
estava decaindo no comportamento,
portanto no caráter, e era preciso
ver qual a razão dessa decadência.
No fim do ano, os padres distribuíam
um prêmio destinado a poucos
alunos. Então, para cada matéria havia
uma medalha de ouro e outra de
prata, correspondentes ao primeiro e
segundo lugar em cada disciplina.
E uma vez eu recebi quatro medalhas.
Era reputado um belo total no
Colégio São Luís. E eles prendiam
as medalhas no peito do aluno. Ma-
24 de fevereiro – Diversas
personalidades da
sociedade de São Paulo
enviam contribuições
para a Homenagem a
Dom Pedro II; Dona
Lucilia se conta entre as
melhores colaboradoras.
21 de novembro – Dona
Lucilia comparece às
cerimônias realizadas
no Mosteiro de São
Bento, por alma da
Princesa Isabel.
1º de dezembro – É fundada
a Associação “A tarde
da criança”, da qual Dona
Lucilia é sócia-fundadora.
16 de dezembro – A
Liga das Mães Cristãs,
da qual Dona Lucilia
participa, é transformada
na Liga das Senhoras
Católicas, em reunião na
Cúria, com a presença
de quarenta senhoras da
mais alta sociedade.
1922
Medalhas que Plinio recebeu no Colégio São Luís em 1920
Fevereiro – Por ocasião
do carnaval, Dona
Lucilia prepara por
última vez fantasias
para Plinio e Rosée,
em Águas da Prata.
25
Dona Lucilia
mãe ia sempre às festas de distribuição
de prêmios a fim de prestigiá-las
e para eu compreender que precisava
dar duro mesmo.
Mas nesse ano ela não foi.
Quando cheguei a casa, mamãe
estava me esperando. Toquei
a campainha, ela foi correndo
à porta e me vendo com as
quatro medalhas me abraçou
e beijou muito. Mas eram
quatro medalhas de prata,
não de ouro; não sei se ela
percebeu bem isso. Eu não
disse nada e vi que ela estava
muito contente.
Também no ano seguinte ela
não pôde ir à festa, pois sofria
muito do fígado. Quando cheguei
a casa, toquei a campainha, ela logo
atendeu a porta e perguntou:
— Então, filhão, como foi?
Eu estava com três medalhas. Ela
olhou e disse:
— Três medalhas só?!
— Mãezinha, uma é de ouro...
Então ela me abraçou e beijou
muito. Conto isso para notarem como
ela olhava para as menores coisas
Reação de bondade ao
saber o resultado de uma
prova de aritmética
Algo dessa bondade dos antigos
tempos ainda me foi dado conhecer
vendo-a praticada a meu favor.
Lembro-me de um fato característico
nesse sentido.
Quando eu era ainda menino,
meus tios, irmãos e irmãs de mamãe,
interessavam-se pela educação dos
filhos dela, assim como ela pela dos
sobrinhos. Um cuidado oriundo da
ideia de que todos eram parentes estreitamente
unidos e deviam uns aos
outros essa preocupação afetiva, carinhosa,
pelo futuro dos membros
mais novos da família.
E, naquela época, por volta de
1920, no fim do ano todos os alunos
Plinio em 1921
de colégios particulares tinham de
prestar exame num estabelecimento
do governo para efeitos de controle
de qualidade de ensino. Eu, juntamente
com um primo, fui fazer prova
de aritmética, para a qual estudara
com razoável empenho. Mas, talvez
por muita ansiedade de minha
parte, nervosismo de estudante, não
me saí bem. Os cálculos não batiam,
e desisti de prolongar aquela aflição.
Fui o primeiro a entregar o exame
aos professores e me retirei da sala.
Dirigi-me ao Jardim da Luz, próximo
ao local, e ali fiquei passeando,
à espera de meu primo.
Quando este veio me encontrar,
perguntei-lhe:
— Então, qual foi a reação dos
professores ao corrigirem a minha
prova?
— Olha, parece-me que sua situação
não é das melhores.
Na minha vã ilusão, posto que eu
sabia ter errado quase tudo, ainda tinha
esperanças de um resultado favorável.
Insisti, e ele me disse:
— Pela fisionomia dos examinadores
ao correrem os olhos pela sua
prova, não creio que você deva esperar
um bom resultado.
De fato, quando fui ver a nota
que havia recebido, estava
bem abaixo da média. Ou seja,
tinha sido reprovado. Agora
entra o aspecto compaixão
daquele tempo. Meu primo
e eu voltamos para nossas
respectivas casas, a dele
era mais perto e, portanto,
chegou antes de mim. Quando
se encontrou com seu pai,
irmão de mamãe, terá comentado
o meu fracasso no exame.
Ora, precisamente naqueles
dias mamãe se achava muito mal
de saúde. Então meu tio, preocupado
com a repercussão que a notícia
de minha nota poderia provocar
no já debilitado estado físico dela,
dirigiu-se imediatamente ao ginásio
e pediu que fosse atendido pelos
professores. Estes o receberam com
muita gentileza, e ele se explicou:
— Vim para verificar o exame de
um sobrinho. Sei que não está bom,
mas afinal de contas eu gostaria de
lhes dizer que a mãe dele é minha irmã,
e está num estado de saúde muito
delicado. Se ela souber que seu filho
teve uma nota ruim, pode piorar
ainda mais, e eu quero evitar que isso
aconteça.
Eles foram muito atenciosos, procuraram
minha prova no meio das
outras, e a mostraram para meu tio:
— Compreendemos a situação,
mas lamentamos: veja o senhor mesmo,
e se pergunte se poderia dar outra
nota senão a que demos.
Meu tio leu e viu que realmente
não cabia outra avaliação. A nota
dos professores tinha sido justa.
Agradeceu a atenção que lhe dispensaram
e saiu de lá em direção à
minha casa, onde ele mesmo deu a
notícia a Dona Lucilia.
Qual foi a atitude de mamãe?
Sem dúvida aquela nota representou
26
uma má surpresa para ela, pois não
podia esperar um resultado tão desfavorável.
Eu, por minha vez, receava
um pito, uma censura mais veemente,
levantando a hipótese de me
mandar para o internato do Colégio
Caraça, como ela já havia feito anteriormente,
por ocasião de uma nota
que eu modifiquei no meu boletim.
Mas mamãe percebeu que aquele
mau resultado se devia mais a um
nervosismo de minha parte do que a
qualquer outro fator. Ela me tinha
visto estudar muito, sabia de minha
boa vontade e a aplicação que eu deitara
para me sair bem nas provas. Em
virtude disso, a atitude dela foi inteiramente
diferente daquela tomada
quando alterei a nota baixa que me
haviam dado no Colégio São Luís.
Para meu espanto, mamãe fez um
comentário superficial, e em seguida
me disse:
Imagem do altar lateral do Santuário do
Sagrado Coração de Jesus, São Paulo
— À tarde, você chama seu primo
e vão os dois tomar um sorvete e se
distrair um pouco na cidade.
Dias depois era a festa do meu aniversário.
Tudo transcorreu normalmente,
sem nenhuma “sanção”. O
mesmo se verificou no Natal, não havendo
qualquer mudança na demonstração
do afeto dela para comigo, por
exemplo, dando-me presentes de valor
menor aos do ano anterior ou coisa
semelhante. Nada disso.
No próximo exame, eu passaria
com nota bem regular. Ela manifestou
seu contentamento, sem me fazer
grandes elogios. Tudo terminou
em boa paz. Era o carinho à moda
brasileira que evitava um castigo, e,
dessa forma, só contribuiu para me
aproximar ainda mais de mamãe.
A bondade e a compaixão de mamãe
eram reflexos da infinita misericórdia
do Sagrado Coração de Jesus,
e me foram de grande auxílio para
compreender essa divina clemência
que se debruça sobre cada homem.
Para o bem, tudo, até a vida
O que havia por detrás disso? Era
sempre o princípio: para o bem, tudo,
até dar a vida; para a bagatela
que não tem sentido, nada! Era o
sistema pelo qual se formou a minha
intransigência.
E, vendo-a querer-me bem daquela
maneira, aprendi com ela e
nela a querê-la bem do mesmo modo.
Isto é verdadeiramente união.
Quando se vê uma qualidade em
alguém e se ama de maneira a modelar
o espírito de acordo com aquilo,
dá-se a união. Porque é ver, admirar,
inalar, receber, acolher e modelar-se.
Isto é unir-se.
Uma alma de
presença agradável
Enfim, a inocência de Dona Lucilia
consistia, antes de tudo, na pureza,
nas virtudes próprias à boa católica,
comuns nas senhoras daquele
Setembro – Dona Lucilia
e seus familiares visitam a
“Exposição Internacional do
Centenário da Independência
do Brasil”, no Rio de Janeiro.
1923
29 de novembro – Dona
Lucilia comparece ao
Bailado Russo, no Teatro
Municipal de São Paulo.
1924
29 de abril – Dona
Lucilia comparece ao
banquete de nomeação de
Dr. Gabriel Ribeiro dos
Santos como Secretário da
Agricultura, no Trianon.
27 de novembro – Dona
Lucilia comparece ao
Festival da Liga das
Senhoras Católicas, no Teatro
Municipal de São Paulo.
1925
Setembro – Dona Lucilia
acompanha Da. Gabriela
Ribeiro dos Santos, sua
mãe, em viagem ao Rio
de Janeiro. Hospeda-se
no Palace Hotel, na
Avenida Rio Branco.
27
Dona Lucilia
tempo e que hoje se tornaram raras
devido à decadência moral do mundo.
Ela possuía essa inocência em alto
grau.
Entretanto, tinha outra forma de
inocência que tornava o convívio
com ela extraordinariamente agradável
e consistia em um desprendimento
de si mesma, pelo qual a última
coisa em que ela pensava era
na vantagem própria, nos seus direitos,
no que ela queria ou no que lhe
convinha. Ela pensava muito na vantagem
dos filhos, mas nas vantagens
dela, absolutamente não.
Por exemplo, se uma pessoa quisesse
ou lhe pedisse algo, encontrava
uma generosidade, um prazer em
dar, um contentamento em conceder,
que era extraordinário e feito
sem pretensão. Não se portava como
certas pessoas que, ao fazer algum
obséquio, ficam com uma fisionomia
e um ar de quem diz: “Olhe
aqui, você receba isto e veja que colosso
eu sou!”
Mamãe não era assim. Ela dava
aquilo que lhe pediam como uma
muito boa irmã concederia para outra
irmã. E se ela se lembrasse, depois,
de que podia dar mais algo que
a pessoa não tinha pedido, ela ia
atrás e dizia: “Olhe, eu me lembrei
de que ainda podia fazer por você
tal coisa assim!”, e fazia. Isso tornava
toda a presença dela muito agradável.
Devemos desejar encontrar muita
gente assim em nossa vida, e, quando
encontrarmos, saber reconhecê-
-las. Em geral, prestamos atenção
nas pessoas pelas razões mais fúteis
– porque riem ou fazem rir, são inteligentes,
mil banalidades –, e não pelo
verdadeiro valor que elas têm.
Resultado: habitualmente encontramo-nos
em estado de injustiça em
relação aos outros. Nós damos valor
a quem não tem, e não a quem tem.
E é muito bom sabermos procurar os
valores onde estão e nos unir a eles,
celebrá-los como merecem ser celebrados.
Eu fazia isso às torrentes com mamãe.
Quando ela estava numa sala,
quer em minha casa ou em outra, a
primeira pessoa para mim era ela.
Sendo outra residência, naturalmente,
ao chegar, eu saudaria primeiro
a dona da casa. Entretanto, logo depois
me dirigiria à mamãe. E assim a
punha em primeiríssimo lugar, com
os primeiríssimos agrados, nas primeiríssimas
manifestações de consideração,
de respeito etc.; o píncaro
era ela. Com isso eu tinha também a
intenção de fazer justiça a ela.
É recomendável que adquiramos
o hábito de fazer o mesmo com as
outras pessoas. Aprendamos a apreciar
as pessoas isentas de egoísmos
que encontremos em torno de nós.
Saibamos imitá-las, lavando, assim,
as nossas almas da influência da Revolução.
Princípios claros
incutidos nos filhos
Como Dona Lucilia concorreu
para que eu fosse contrarrevolucionário?
Enganar-se-ia quem supusesse
que ela fez discursos, explicando
que se deve ser combativo e contrarrevolucionário.
Ela realizou uma coisa muito melhor,
mais límpida, muito mais clara:
pôs em meu cérebro, em primeiro lugar,
a convicção de que Deus é o Ser
supremo, Criador de todas as coisas
e, portanto, merece nosso amor primordialmente.
Mais do que à mamãe,
eu deveria querer bem a Deus.
Isso ela me ensinou muito bem, com
o talento que têm as boas mães de
falar aos filhos de maneira que estes
ouvem a voz delas como ao longo da
vida não ouvirão voz nenhuma.
Antes de minha irmã e eu aprendermos
a dizer “papai” e “mamãe”,
aprendemos a dizer “Jesus”. Minha
irmã era um ano e meio mais velha
do que eu. Mamãe, estando de vez
em quando em seu quarto, arranjando
alguma coisa, colocava minha irmã
nos braços e, apontando com um
dedo para a imagem de Nosso Senhor,
de modo que os olhos da criança
acompanhassem, dizia-lhe sorrindo
afetuosamente, meigamente:
“Onde está Jesus? Jesus está ali.
Agora repita: Jesus, Jesus”.
Minha irmã, que tinha muita vivacidade,
respondia: “Jesus, Jesus”.
Depois ela fez a mesma coisa comigo.
De maneira que mais tarde,
quando chegava a hora, espontaneamente
íamos aprendendo a dizer
“papai”, “mamãe”, como todas
as crianças.
A segunda ideia é que, em relação
a Deus, nós temos deveres os quais
são mais importantes do que as obrigações
para com qualquer pessoa na
28
Imagem do Sagrado Coração de
Jesus pertencente a Dona Lucilia
Terra. Devemos obedecê-Lo antes
e acima de tudo, cumprindo os Dez
Mandamentos.
Já no meu tempo de criança – nasci
em 1908 –, a preocupação principal
de um grande número de paulistas
era ficar rico. Ficou rico, acertou
na vida. Não ficou rico, foi um nulo.
Perdeu fortuna, tornou-se pobre, foi
um elemento negativo na vida, desprezado
por todo mundo.
Mamãe dizia o contrário: “Eu
prefiro ter um filho empobrecido,
tido em conta de nada, mas que
cumpra os Mandamentos da Lei de
Deus, do que um filho rico, a quem
todo mundo faça cortesias, mas que
não pratica os Mandamentos. A primeira
obrigação é fazer a vontade
de Deus; as outras coisas vêm depois”.
Fazer a vontade de Deus significa
conhecer o que Ele ensinou e
cumprir exatamente o que Ele mandou.
Não se pode relaxar, dizendo:
“Dou tal jeitinho”. É preciso, antes
de qualquer outra coisa, cumprir inteiramente
a vontade de Deus com
amor. Mas aprendi com mamãe que
as coisas verdadeiramente sérias devem
ser feitas até o último ponto do
exato.
v
20 de novembro – Dona
Lucilia comparece ao
Festival da Liga das
Senhoras Católicas, no Teatro
Municipal de São Paulo.
1926
Junho – Dona Lucilia
e familiares passam
férias em Santos.
1927
23 de fevereiro – Casamento
de Rosenda Corrêa de
Oliveira com Antônio
de Castro Magalhães.
25 de maio – Casamento
de Cornélia Procópio
Junqueira, sobrinha de Dona
Lucilia, com Marcos
Ribeiro dos Santos. Dona
Lucilia é madrinha e
oferece aos noivos um par de
castiçais de prata antiga.
1928
8 de março – Nascimento
de Maria Alice, neta
de Dona Lucilia.
Dona Lucilia com sua neta Maria Alice
Maio – Dona Lucilia
faz uma estadia em Águas
da Prata acompanhando
sua mãe, Da. Gabriela.
29
Dona Lucilia
Profunda união entre mãe
Fotos: Arquivo Revista
e filho, para além dos
umbrais da eternidade
Ao atingir a idade
madura, Dr. Plinio viu-se
obrigado a diminuir
gradualmente o convívio
com sua extremosa
mãe, a fim de levar
adiante os trabalhos
que lhe exigiam a
dedicação à Santa Igreja
e a manutenção de
sua nascente Obra. O
isolamento no qual esteve
Dona Lucilia haveria de
acrisolar sua devoção ao
Sagrado Coração de Jesus
e tornar mais sólidas as
virtudes em seu espírito.
30
O
isolamento em que mamãe
vivia, creio que se deu gradualmente.
Tenho uma certa
impressão de que, quando menina
– e o ambiente todo era muito
menos revolucionário do que é hoje
–, ela não sentiu esse colapso, esse
choque com o ambiente, mas com
uma ou outra pessoa dentro do ambiente,
e com uma ou outra atitude
singular de certos indivíduos. Então,
com algumas pessoas, cujo todo não
lhe agradava, ela demonstrava boa
vontade; era o contrário do que ela
achava que deveriam ser. Mas havia
também atitudes dissonantes, inesperadas,
tomadas por indivíduos a
quem ela queria bem e que a chocavam.
E isso dava a ela uma ideia triste
desta vida, onde situações assim
são possíveis. Depois, com a evolução
geral das coisas, o estilo de afetividade
dela, que era o estilo em curso,
digamos, até a primeira década
da República, portanto, até 1900,
passou gradualmente a ficar menos
em curso.
Dona Lucilia e seu bisneto,
no jardim da casa de
Dona Maria Alice
Martírio da alma
Então ela, que era muito benquista
anteriormente, passou a ser
menos querida. Embora ela continuasse
a querer bem aos outros,
passou a ser ignorada até o final
da sua vida, ficou completamente
posta à margem e enigmática
para todo mundo; inclusive para
as pessoas contemporâneas dela,
que foram adquirindo os novos
modos de ser e o novo estilo de
afetividade.
Eu mesmo presenciei várias
situações por onde ela ia compreendendo
que, em face de
sua bondade, as pessoas, na sua
grande maioria, ficariam indiferentes.
Entretanto, ela mantinha
sua posição por amor de algo infinitamente
mais alto, quer dizer, de
Deus Nosso Senhor.
Esse isolamento e essa incompreensão
graduais iam dando a ela uma
compreensão cada vez maior do que
era a vida, o ser humano, a realidade;
e determinavam um refugiar-se
axiológico no Sagrado Coração de
Jesus e em Nossa Senhora, que lhe
concediam aquilo que ela não tinha.
Ao longo da vida, ela foi constatando
que essa atitude das pessoas
não era apenas uma falha, mas que
quase se poderia dizer o contrário:
que, dentro do homem, a bondade
constitui um lapso, ou seja, de vez
em quando acontece de ser bom.
Mas, se não for fiel à graça, e por
razões religiosas, o ser humano é
estável e continuamente ruim. Portanto,
esta vida, essas criaturas humanas
terrenas que ela se preparava
para querer tanto, não eram senão
o contrário do que ela esperava,
das quais recebia apenas decepção
e ingratidão. E isso entre os
mais próximos!
22 de maio – Ainda
em Águas da Prata,
Dona Lucilia sofre uma
crise de tontura e precisa
permanecer em repouso.
1929
Maio – Dona Lucilia
viaja a Cambará, para uma
temporada na fazenda onde
residiam Rosée e seu esposo.
16 de maio – De Cambará,
Dona Lucilia escreve uma
carta a Plinio, na qual
manifesta apreensão pela
situação espiritual dele.
Julho – Dona Lucilia passa
alguns dias em Santos.
1930
11 de dezembro – Missa
e formatura de Plinio na
Faculdade de Direito do
Largo de São Francisco,
em São Paulo.
1931
22 de janeiro – Dona
Lucilia e duas senhoras da
Comissão das Filhas de
Maria do Sion visitam o
Arcebispo de São Paulo,
D. Duarte Leopoldo e Silva,
na Cúria Metropolitana.
31
Dona Lucilia
Quando meus pais eram vivos, todos
os dias eu almoçava com eles e,
terminada a refeição, saía correndo
para o trabalho. Eles estavam
tão habituados a isso que nem prestavam
atenção se eu tinha saído ou
não, pois tinham como certo que,
tendo acabado de almoçar, já estava
fora de casa. Mas, um dia, talvez por
ter esquecido algo em casa, voltei e
encontrei esta cena: os dois numa sala
de estar; meu pai sentado e minha
mãe, de pé, dizia para ele:
— Mas você acha mesmo que esse
menu está bom? O Plinio gostará de
comer esses pratos? Ou será melhor
fazer outra coisa?
Meu pai, que estava com sono e
com vontade de fazer a sesta, respondeu:
— Oh, senhora! Faça com ele o
que eu faria. Se eu tivesse que organizar
o menu, diria: “Rapaz, para o
jantar tem isto. Se você quiser, coma;
se não quiser, vá comer fora!”
Ora, era precisamente o que mamãe
não queria. Seu desejo era que
eu jantasse com ela. Ela não disse
nada, mas notei que ficou desapontada,
porque queria uma ajuda que
ele não deu. De fato, ele não podia
ajudar, pois essas são coisas que uma
dona de casa pensa e um homem
não. Ela ficou assim quietinha e depois
saiu da sala. Retirei-me de maneira
a não perceberem que eu tinha
presenciado a cena. Mas saí pensando:
“Bem se vê que pai é pai, mas
mãe é mãe!”
Dona Lucilia com sua irmã, Dona Yayá, no apartamento de Dona Lucilia
Preparativos para a
festa de aniversário
Compreende-se bem como isso
ia maturando a alma dela para fazer
o seguinte balanço: “Ou minha vida
foi vivida toda para Deus – e então
se explica –, ou se não tivesse sido vivida
para Ele, teria sido o maior erro
que se possa imaginar, porque passei
minha existência dando-me, dando-
-me, dando-me e recebendo dos homens
essa retribuição”.
De maneira que houve uma espécie
de gradualidade do martírio.
Mas martírio ao pé da letra, porque
era uma dor sofrida pela fidelidade
a uma determinada atitude de alma
e, portanto, um exílio branco, que,
nem por isso, deixava de ser um exílio
muito real, progressivo, injusto,
sem motivo e caminhando cada vez
mais para a incompreensão total. E
ela sempre fiel à sua posição. Isso caracteriza
bem o martírio da alma.
Ela teve também muitos desgostos
na vida íntima. Mas eu a via sofrer
com uma resignação, uma dignidade,
uma serenidade, uma força
e uma doçura extraordinárias! Nos
maiores sofrimentos físicos e morais
pelos quais a vi passar, era sempre a
mesma atitude. Nos padecimentos
morais, diante de algo que acontecia
e a fazia sofrer profundamente, a
atitude dela era o silêncio, um pouco
de recolhimento, normalidade, afabilidade,
bondade, humildade: Deus
quis, Deus fez, Deus seja bendito!
Desejo de ter sempre a
presença de seu filho
Mamãe comemorava muito mais
o meu aniversário do que eu o dela,
de maneira que o meu era mais festivo:
havia no almoço e no jantar um
menu redobrado.
Os preparativos começavam com
uma semana de antecedência – enquanto
eu, numa vida muito atrapalhada,
estava pensando em tudo,
menos no meu aniversário. Em geral,
ela me avisava durante uma refeição:
— Filhão, vai haver seu aniversário
no dia 13, que está chegando.
Eu caía das nuvens:
— É verdade, tem meu aniversário.
Ela então me perguntava:
— O que você quer neste ano para
o lanche de seu aniversário?
Eu escolhia o que fosse mais cômodo
para ela fazer, pois sabia ser
de seu agrado preparar pessoalmente
essa refeição. À medida que ela
foi ficando mais idosa, a cozinheira
começou a fazer quase tudo, mas ela
é quem dava o tempero.
Na realidade, para mim, a festa de
aniversário não representava nada
além de uma ocasião para agradecer
a Nossa Senhora os favores que me
32
havia concedido. Mas, dar a mamãe
a alegria de fazer a festa, era a razão
de minha festa. Aliás, com todos os
homens é assim: quando se tem mãe,
a festa é mais para ela do que para
o filho. No fundo, a festa de meu
aniversário era uma festa para ela, a
meu propósito.
Mamãe concordava com minhas
propostas e fazia indiretamente
umas contrapropostas:
— Você não preferia tal coisa ou
tal outra?
Em geral, era algo que ela sentia
estar mais na proporção de suas forças.
Eu concordava:
— Muito boa ideia! Façamos assim.
Evidentemente, eu tomava cuidado
para que ela não pensasse ser
uma resposta convencional. Às vezes
eu fingia certa perplexidade e dizia:
— Vamos pensar... É verdade, a
senhora tem razão, é uma boa ideia.
Desse modo ela ficava inteiramente
satisfeita, estava atendida
bem como ela queria.
Começavam, então, os preparativos.
No jantar de meu aniversário ela
sempre mandava me servirem um
pombinho, em recordação de nossa
estadia no hotel de uma estação
de curas na Alemanha, numa cidade
chamada Wiesbaden.
Num almoço nesse hotel, serviram
pombinhos e eu – sempre muito
interessado em assuntos gastronômicos
– comi vários deles, tendo manifestado
uma alegria enorme. Nos
dias subsequentes, quando o garçom
entrava, eu já ficava esperando
de longe, para ver se apareciam
os pombinhos e, quando, de fato, vinham,
eu dizia em voz alta:
— Mamãe, mamãe, olhe lá! Pombinhos!
Ela fazia sinal indicando que eu
não devia proceder assim na sala de
jantar de um hotel tão solene – basta
dizer que, no fundo do salão, havia
uma mesa reservada para o Kaiser e
as pessoas de sua corte...
Nas comemorações de aniversário,
era tradição entregar os presentes
depois do jantar. Apareciam, então,
alguns parentes e uns dois ou
três amigos que costumavam frequentar
minha casa. E, por volta de
meia-noite, meia-noite e meia, mamãe
oferecia um lanche com bolo
de aniversário para todos os convidados.
Julho – Correspondência
entre Dona Lucilia e
Dr. Plinio, que se encontra
no Rio de Janeiro.
1932
Janeiro – Correspondência entre
Dona Lucilia e Dr. Plinio,
que se encontra na fazenda de
uns amigos em Botucatu.
22 de janeiro – No
Santuário do Sagrado
Coração de Jesus, encontrase
exposto o Santíssimo
Sacramento em “laus
perene”, após a Missa das
8h00 até 19h30. Dona
Lucilia assiste à Missa e
reza por seu filho ausente.
29 de janeiro – Dona Lucilia
vai à Exposição de Arte
no Palacete Trocadero.
30 de janeiro – Dona Lucilia
começa a preparar uma
fantasia de carnaval para
sua neta, Maria Alice.
À esquerda, Dr. João Paulo no fim da vida.
À direita, fotografia do passaporte de Dona Lucilia
Fevereiro – Dona Lucilia
acompanha Dr. Plinio a um
hospital para a realização
de um exame radiológico.
Durante a estadia na fazenda
em Botucatu, ele teve uma
queda de cavalo, o que a
deixou muito preocupada.
33
Dona Lucilia
Dona Lucilia estava com a audição
muito diminuída, de maneira que, durante
muitos anos, ela ficava um pouco
à margem da reunião. Mas prestava
muita atenção no serviço, verificando
se todos estavam bem atendidos,
se tinham comido bastante, pois
era o papel da dona-de-casa.
Quando eu obtive para ela um
aparelho de audição, começou uma
espécie de vida nova. Muito expansiva,
Dona Lucilia voltou a tomar parte
nas conversas e, então, as festas
começaram a significar, novamente,
muito mais para ela.
Essa era a nossa despretensiosa
vida comum, mas que, para mim, era
um tesouro com valores sem nome!
Assim foi até o último dia 13 de dezembro,
antes da sua morte. Depois
tudo isso cessou. A morte de mamãe
acabou com os “13 de dezembro”
em minha casa, e as festas domésticas
terminaram.
Amoldando-se
ao temperamento
de todos
Dona Lucilia causava
a impressão de ser uma
pessoa de temperamento
tão irisado, que, bem
se poderia dizer, as cores
variavam conforme
a posição. Cada impressão
vivida, cada acontecimento,
cada circunstância,
determinavam a manifestação
de seu espírito
de forma singular, como
uma opala na qual incide
um raio solar fazendo
com que se desprenda
um colorido não muito
diferente, mas discretamente
irisado.
Nela conjugavam-se
firmeza e doçura, sem
que alterasse em algo o
seu modo de ser, pois ela
possuía uma flexibilidade
Da esquerda para a direita, Da. Rosée, Dona Lucilia
e Da. Maria Alice, e o pequeno Francisco Eduardo,
filho desta última, em fevereiro de 1956
de alma por onde adequava admiravelmente
o trato a cada pessoa com
quem se relacionava, sabendo apanhar
os lados razoáveis, dignos de estímulo
e de respeito, não deixando,
nem por isso, de compreender perfeitamente
os lados débeis. Mas a forma
de tratar os lados débeis, participava
da veneração que ela possuía aos aspectos
que admirava, e, no momento
de admirar, causava a impressão
de esquecer-se por completo da debilidade.
Esse modo de ser se exemplificava
no trato dela para com sua mãe,
Dona Gabriela, personagem de ampla
envergadura para aquele tempo.
Era uma senhora que, ao fim da vida,
tocava nas debilidades da idade,
pois era quase nonagenária. A forma
de Dona Lucilia a auxiliar nas mínimas
coisas, como apanhar um lenço
que caíra no chão e trocá-lo, era feita
com uma solicitude e uma alegria
como quem se deleitasse em praticar
aquela atitude, que encantava
presenciar tal cena. Quando Dona
Gabriela tomava alguma atitude
em que se fazia notar imponência,
dignidade ou firmeza de autoridade,
Dona Lucilia assumia uma posição
de vigilância para ver se também
os outros tinham feito como sua
mãe desejava, não como quem cobrasse,
mas esperando a participação
na mesma admiração e, portanto,
na mesma docilidade.
Mas, concluído o trato com Dona
Gabriela, caso ela fosse chamada para
tratar com uma criança da família
que vinha, por exemplo, lhe trazer
uma flor, Dona Lucilia era capaz de
penetrar na admiração que a criança
tinha pela flor, cuidando dela como
a criança gostaria que ela cuidasse,
levando a sério os lados que a criança
levava e, ao mesmo
tempo, proporcionando
ao pequeno uma sensação
de solicitude e proteção,
por onde ele se sentisse
completamente penetrado
e envolvido. E,
se nesse momento, fosse
necessário ministrar um
remédio a um parente
que adoecera, ela o fazia
com perfeição, entrando
também nas dores do
convalescente.
Era um modo de ser
embevecedor, mas nem
sempre admirado inteiramente,
sem que jamais
ela tenha denotado
amargura por não se sentir
retribuída.
Serenidade na
morte de Dona
Gabriela
A casa em que morávamos
era dessas residências
de antigamen-
34
te, térreas e enormes. E a distância
entre o quarto de dormir de Da. Gabriela
e o de mamãe era grande. Minha
avó tinha uma espécie de governanta
de casa muito boa, dedicada,
correta, que dormia ao seu lado. De
maneira que qualquer coisa que minha
avó quisesse, essa mulher atendia.
Ela estava inteiramente bem
atendida.
Minha mãe mandou puxar um
cordão elétrico, com campainha, da
cama de minha avó até a cama dela;
porque a mãe dela estava velha e,
em caso de urgência, podia levar certo
tempo de a tal governanta chegar
até o quarto de mamãe, e ela queria,
tocando a campainha, ir correndo
atender minha avó.
Quando a sua mãe morreu, fizeram-se
as exéquias e compareceu
muita gente. Cumprimenta um, recebe
abraço de outro, perde-se um
pouquinho a noção das coisas. Em
certo momento, me lembrei: mamãe,
onde estará? Comecei a procurá-la
e não a vi. Com certeza, pensei,
ela se sentiu muito abalada e foi para
o seu quarto, e é possível que esteja
com alguma indisposição. Fui ao
quarto dela para ver. Ela estava deitada,
em atitude inteiramente serena,
com uma fisionomia muito triste,
a posição composta e pensando.
É a tal coisa: o vagalhão não alcança!
Nunca eu vi vagalhão algum
atingi-la. Em duas vezes, porém,
quase a alcançou…
Plinio cai do cavalo
Certa ocasião, sentia-me muito
cansado e um amigo ofereceu-me de
irmos à fazenda dele, em Botucatu,
para descansarmos um pouco. Chegando
lá, resolvemos, como todos os
rapazes fazem, andar a cavalo.
Mas o caipira que preparou os
animais apertou mal a barrigueira
do meu cavalo. Eu não percebi,
montei e, antes mesmo de sairmos,
fiz um movimento meio brusco, virei
e tomei uma queda muito forte; bati
Uma das últimas fotografias
de Dona Gabriela
com a espinha numa pedra e passei
dois ou três meses andando de bengala.
Não dei maior importância à coisa.
Voltei a São Paulo e mamãe também
não se preocupou com o fato.
Certa noite, meu amigo veio à
minha casa e disse a Dona Lucilia:
“Olha, estive com meu tio – era um
dos melhores clínicos de São Paulo
naquele tempo – e ele mandou dizer
à senhora que vale a pena mandar
tirar uma radiografia da espinha
do Plinio, porque, às vezes, não
há sinal de perda de mobilidade das
pernas; mas, quando ele tiver 40, 50
anos, se manifesta uma lesão que pode
ser muito ruim. Era melhor tirar
uma radiografia”.
Ela ficou muito alarmada.
Resolvemos, no dia seguinte, ir a
um hospital, no qual havia um parque
enorme, chamado Instituto
Paulista. Mamãe quis ir junto. Fomos
ela, meu amigo e eu; andamos
por todo aquele jardim etc., e eu me
apoiando na bengala. Depois eu quis
ir à capela desse instituto, onde tinha
recebido uma graça e uma consolação
colossal anos atrás, e fui rezar lá.
Eu nem estava pensando no negócio
da espinha...
2-10 de abril – Dona
Lucilia participa como
“Patronesse” da Semana
Festiva em Santa Cecília.
Setembro – Dr. Plinio
se submete à cirurgia de
extração das amigdalas.
Dona Lucilia foi avisada
apenas após o procedimento e,
muito impressionada, quis ir
ao hospital estar com o filho.
Novembro – Correspondência
entre Dona Lucilia e Dr.
Plinio, que se encontrava
no Rio de Janeiro.
21 de dezembro – Dona
Lucilia novamente participa
como “Patronesse”
da Semana Festiva
em Santa Cecília.
1933
12 de abril — O nome de
Dr. Plinio figura entre
os candidatos a deputado
designados pela Chapa Única
por São Paulo Unido.
Dona Lucilia pede o voto
de amigas e conhecidos
a favor de seu filho.
26 de abril – Manifesto
“Ao eleitorado Feminino”,
para motivar o voto
feminino, com a assinatura
de Dona Lucilia.
35
Dona Lucilia
Dr. Plinio em uma fazenda de Botucatu, em 1930
Quando afinal voltei, encontrei
mamãe sentada num local perto da
sala das radiografias, rezando o rosário
durante todo o tempo e com os
olhos úmidos de lágrimas. Eu disse:
“Mas mãezinha, o que é isso?” Ela
continuou a rezar e não respondeu.
Continuei:
— Mas me explique um pouco...
— Eu estou muito apreensiva –
afirmou ela.
— Mas, por que a senhora está
apreensiva?
— Conforme for o resultado, você
verá.
Daí a algum tempo, veio o médico,
que era conhecido nosso, com a
radiografia, e disse a ela:
— Não tem nada.
Ela perguntou:
— Mas, Doutor, o senhor garante
que não tem nada mesmo?
Ele a tranquilizou:
— Dona Lucilia, a senhora não
vai entender, mas posso mostrar um
pouco nesta radiografia que está tudo
perfeito.
Notei que ela teve um desafogo.
Dia da formatura
na Faculdade do
Largo São Francisco
Outro momento no qual
ela passou por grande aflição
foi quando cheguei quase
atrasado à minha formatura
na Faculdade de Direito.
Aí ela fez um drama comigo
que nunca fizera em outra
ocasião. Chamou-me para irmos
ao quarto dela, que era
longe, no outro lado da casa.
Entramos, era dia de formatura
e pensei que ela fosse
me dizer alguma coisa agradável;
ela passou a chave na
porta, coisa que nunca havia
feito, e pôs-se de joelhos
diante de mim.
Eu disse:
— Mas, mãezinha, o que é
isso?!
Ela respondeu:
— Você não sabe o que eu sofri
durante esse tempo, e você vai me
prometer que nunca mais repetirá isso.
Então percebi o que era.
Dei risada, ajudei-a a levantar-se.
Ela afirmou:
— Não, você não está tomando
a sério o que estou
dizendo, e a coisa é seríssima.
— Está bem, eu prometo
tudo o que a senhora quiser...
Passamos, então, à sala
onde estavam as outras pessoas.
Foram as duas vezes
que a vi assim.
Filial preocupação
com Dona Lucilia
Lembro-me de como foi o
dia da inauguração da Constituinte.
Com um mês de antecedência,
anunciaram que
os deputados eleitos da Chapa Única
por São Paulo Unido iriam juntos
para o Rio de Janeiro a fim de começarem
a exercer o mandato. Naquele
tempo, as cerimônias se realizavam
com muito mais solenidade do
que hoje. Eu queria absolutamente
que mamãe assistisse à minha posse.
As razões são evidentes: a ocasião e
porque eu a “transqueria” e, portanto,
achava que ela tinha que ir.
Convidei minha irmã e também
meu pai; eu mesmo paguei as despesas
dele, porque ele se encontrava
em condições econômicas péssimas.
Ora, eu me perguntava qual seria a
posição de Dona Lucilia com a situação
e julguei que ela poderia tomar
duas atitudes eventuais: uma, seria
levar em consideração que eu tinha
sido eleito deputado católico sem
nenhum compromisso com a República
e que, não sendo oficialmente
monarquista, iria desempenhar uma
missão sacralizante em oposição ao
laicismo republicano.
Mas, poderia ser que ela tomasse
a coisa do lado oposto, julgando que
assistiríamos apenas a uma função
Dr. Plinio por ocasião de sua formatura em
Direito, trajando a tradicional beca
36
Hotel Glória e Capela de
Nossa Senhora da Glória. Ao
fundo, o Pão de Açúcar
3 de maio — Eleições
para a Assembleia
Nacional Constituinte.
21 de junho — Dr. Plinio
é proclamado o mais
votado dos candidatos
eleitos, pelo Tribunal
Regional da Justiça
Eleitoral de São Paulo.
Fachada do
edifício da
Câmara Federal,
no Rio de Janeiro
da República: a inauguração de uma
Constituinte. No entanto, eu não levantei
nenhum problema com ela,
apenas perguntei se ela, minha irmã e
meu pai queriam ir. Ela aceitou com
a maior naturalidade. Assim começaram
os preparativos para a viagem.
No dia da inauguração da Constituinte,
fomos de automóvel, os quatro
juntos, ao Palácio Tiradentes, Sede
do Congresso Nacional. Para os
gostos do tempo, não era um palácio
bonito, mas era luxuoso, com ar imponente.
Entramos na Câmara, minha
mãe, meu pai, minha irmã e eu.
Logo me preocupei se tinham arranjado
um lugar conveniente para
minha mãe; talvez tivesse havido
uma dificuldade, ela não estivesse
tão bem instalada quanto eu desejaria.
Nessas ocasiões, há aventureiros
e gente de toda ordem que, de
vez em quando, força uma pessoa a
entregar o lugar, e ela não era de brigas.
Queria ver se ela estava sentada,
porque, conforme fosse, eu subiria lá
e me desdobraria com toda espécie
de cuidados e preocupações.
Eram três tribunas e custei um
pouco para encontrá-la. Pus-me de
costas para o gabinete da presidência,
procurando-a na tribuna da frente.
Devido à distância, não enxergava
bem; saí do meu lugar, fui andando
pelo corredor central dos bancos,
no sulco que dividia as cadeiras em
dois blocos, buscando-a com o olhar.
Quando cheguei perto, eu a vi bem e
percebi que estava rindo, contentíssima!
Muito afetuosamente, ela tomou
um lencinho e me fez um sinal,
querendo dizer que não me incomodasse,
porque estava bem instalada.
Ao lado dela, encontrava-se minha
irmã, que fazia o mesmo gesto. Eu as
saudei e voltei para minha cadeira.
Maior foi a alegria do afeto
do que a de vê-lo deputado
À noite, cheguei ao hotel para
jantar. Mamãe, que sofria muito do
fígado, tinha deixado aviso na recepção
de que não jantaria na sala de
jantar embaixo, porque estava um
pouco indisposta. Em geral, eram
pequenas indisposições, não me preocupei.
Fui ao meu quarto, tirei o
fraque com o qual estava e troquei
de roupa, colocando uma mais es-
13 de novembro – Dona
Lucilia e outros familiares
partem para o Rio de
Janeiro, para a inauguração
da Assembleia Constituinte.
15 de novembro – Sessão
solene de abertura da
Assembleia Constituinte.
1934
5 de janeiro – Falecimento
de Da. Gabriela
Ribeiro dos Santos.
11 de janeiro – Missa
de 7º dia por alma de
Da. Gabriela, na Igreja
de Santa Cecília.
Abril – Dona Lucilia
muda sua residência do
palacete Ribeiro dos Santos,
na Alameda Barão de
Limeira, para a Rua
Marquês de Itu, n.124.
37
Dona Lucilia
cura, adequada para o jantar. Mandamos
subir a refeição para ela, que
jantou sozinha.
Terminado o jantar, minha irmã e
meu pai ficaram no salão conversando
com conhecidos, e eu subi até o
quarto de minha mãe, para ver como
ela estava. Cheguei e encontrei-a de
chambre, na posição em que eu queria
que ela estivesse: numa cadeira
muito cômoda que havia no quarto
e que ela tinha mandado o copeiro
deixar bem em frente a um janelão.
O céu estava límpido, a Lua dourada
– há ocasiões em que, no Rio, a
Lua fica assim – que se refletia sobre
o mar do Flamengo de um modo lindíssimo.
Havia umas palmeiras colocadas
como que de propósito e que
aumentavam a beleza do panorama.
Mamãe estava sentada olhando para
aquilo muito atentamente, absorta
no cenário. Ela era muito sensível
a bonitos panoramas e coisas do gênero.
Não havia cadeira perto dela, então
eu me ajoelhei junto a ela que,
naquela época, já estava com problema
de audição; agradei-a e comecei
a conversar um pouquinho, perguntei
se estava contente, gostando
da viagem; comentamos um pouco
a Lua, porque estava dos luares mais
bonitos que há, era uma noite linda!
E, em certo momento, fiz algum gracejo
ligeiro, ao que ela me disse, como
gracejando também:
— Meu filho, você está gracejando
comigo, mas deixemos o gracejo
e falemos de uma coisa séria: você
não tem ideia do contentamento
Inauguração da Assembleia Constituinte, em 15 de novembro de 1933. Em destaque, Dr. Plinio
Assistentes da inauguração da Assembleia Constituinte. Em destaque, da
esquerda para direita: Dr. João Paulo, Dona Lucilia e Da. Rosée
que deu à sua mãe hoje. Você me fez
uma que eu não esquecerei até a hora
da morte.
Eu fiquei um pouco surpreso. Perguntei:
— Mas, por quê, meu bem?
— Eu estou contemplando o panorama,
mas, de fato, estou pensando
em você e lembrando-me de sua
fisionomia: no momento que era tão
absorvente para você estrear sua vida
política, situação que lhe impunha
deitar a atenção em tudo quanto
se estava passando ao seu redor, você,
entretanto, se preocupou sobremaneira
em arranjar-me um lugar
tão bom; e ainda, lá debaixo, lembrar-se
de sua mãe, voltando as costas
para a Constituinte, deixando seu
lugar à minha procura, para saber se
eu estava de fato bem instalada. Eu
tive uma tal impressão de desvelo e
de afeto com os quais me procurava,
que me valeu mais do que a alegria
de vê-lo deputado. Nunca me
esquecerei disso! Isso foi uma coisa
que me fez tanto bem, que até agora
eu vejo sua fisionomia me dizendo
adeus, e o seu olhar era a mesma coisa
que um beijo.
Eu fiquei meio pasmo, porque eu
estava disposto a fazer tanto mais…
Era um pequeno gesto banal e co-
38
mum, que nem me ocorreu de achá-
-lo extraordinário. No entanto, ela
estava encantada. Eu pensei em dizer:
“Mamãe, perto do bem que eu
lhe quero, é tão pequena coisa que
é uma bagatela, uma ninharia. A senhora
pense nisso com muito mais
profundidade, aí a senhora encontrará
a fórmula de benquerença”.
Mas eu não disse o que pensei, as
palavras me faltaram. Eu a agradei.
Depois desci para falar um pouco
com as pessoas.
Eu não posso me esquecer desse
pequeno dito dela, que marca muito
a atenção que ela possuía, mas também
marca muito a tabela de valores
das coisas, porque esse é o ânimo
materno: ela resolveu valorizar uma
coisinha pequena.
Durante todo esse tempo, ao longo
da conversa, o problema “República”
nem passou pela mente dela.
Ela só fixou o olhar no lado religioso
da missão, com a qual ela estava “ultra”,
“arqui” de acordo e mais nada.
Para grande número de senhoras,
o mais importante seria que o filho
fosse deputado. Carinho ou não carinho…
pondo carinho é melhor, mas
não pondo também iria bem, desde
que fosse um deputado muito votado,
com muito prestígio. Isso é que
seria o importante para contar junto
às amigas e orgulhar-se. Mas a tabela
de valores dela era inteiramente
diferente.
Despojamento de tudo,
até de seu filho
Ao longo dos anos, eu a via progredir
na dor, no isolamento, numa
espécie de despojamento de tudo,
ponto por ponto, até o mais crucial,
o mais interno e o mais doloroso.
Nunca comentei com ela, mas creio
que mamãe percebia meu afeto tanto
quanto possível crescente, minha
solicitude que se desdobrava, minha
vontade de agradá-la de todos os
modos, como mais não saberia fazer.
Pequenas circunstâncias fortuitas
levaram a que, em determinado momento,
mesmo a meu respeito, ela tivesse
algumas provações. Por exemplo,
eu percebia que ela experimentava
uma certa dificuldade em compreender
a razão pela qual eu dedicava
tanto tempo ao nosso Movimento,
deixando-a sozinha. O que
eu, no meio de mil carinhos, fazia
inexoravelmente, por saber ser a minha
obrigação.
Em certa ocasião, quando nos encontramos
fortuitamente num corredor
de nosso apartamento – estávamos
os dois a sós em casa –, ela parou
e me fez um agrado, algo assim.
Depois me olhou e, tendo-me nos
braços, disse: “Meu filho, eu só tenho
você no mundo, mas a você eu
tenho inteiro!” Aí foi a minha vez de
olhar para ela, como ela olhara para
mim.
1935
24 de junho – Falecimento
do Dr. Américo Rodrigues
dos Santos, tio de Dona
Lucilia; confortado com
os Sacramentos da Igreja,
graças à intervenção dela.
1º de julho – Missa de 7º dia
por alma de Dr. Américo
Rodrigues dos Santos, na
Igreja de Santa Cecília.
No segundo semestre –
Mudança de residência para a
Rua Itacolomi, 55 (número
alterado em 1936, para 625).
1938
3 de maio – Bênção das novas
máquinas do Legionário
por D. Duarte. Dona
Lucilia acompanha Dr.
Plinio nessa ocasião.
26 de julho – Dona Lucilia
recebe para um jantar em
sua residência o Almirante
Yamamoto, veterano de guerra
e líder católico do Japão.
1939
19 de setembro – Dona Lucilia
visita o novo Arcebispo
de São Paulo, D. José
Gaspar d’Afonseca e Silva,
na Cúria Metropolitana.
39
Dona Lucilia
Tais palavras me ficaram no espírito
para sempre. Tendo ela dito isso,
eu nada respondi, pois não existem
palavras capazes de exprimir os
próprios sentimentos em situações
como essa. Eu só a beijei e abracei,
como sempre fiz. Mas posso tranquilamente
dizer que ela me tinha mesmo,
e por inteiro!
Vê-se que, depois, a Providência
começou a exigir dela, até disso, um
certo desapego: “Não pense em mais
nada, nem em ninguém. Pense só em
Deus”.
Daí a calma que vemos em certas
fotografias dela já bem idosa.
É uma pessoa que viveu sua vida e
tem a sensação de que os vagalhões
todos vieram, mas não penetraram
nem desarranjaram em nada esse
tabernáculo interior, e que, portanto,
a vida estava feita. Alguma coisa
que nessa idade ainda viesse não era
mais nada. Ela estava se preparando
para o Céu.
Serenidade e desapego ante
a perspectiva da morte
Quando ela fez talvez uns oitenta
anos, notei que algo no seu modo carinhoso
de me tratar estava mudando
um pouco. Até então, desde pequeno,
ela me tratara como a pessoa
a quem mais queria bem na família,
a ponto de os familiares brincarem
com ela de todos os modos, dizendo
ser isso excessivo. Ela não se
incomodava e continuava do mesmo
jeito.
De repente, isso diminuiu. Depois
eu soube, por um dito dela, que ela
estava reduzindo as manifestações
de afeto porque percebia estar já
muito idosa e a morte estar se aproximando,
e eu sentiria demais a sua
falta se esse afeto mútuo fosse tão
grande. Ela preferia que isso declinasse
um tanto, para que a ausência
que eu sentisse dela fosse menor.
Não sei se chego a exprimir bem
todo o desapego que ia, a ponto de
me deixar pensar que ela estava esfriada
no afeto para comigo. É um
requinte difícil de imaginar!
Ela possuía uma gaveta na mesa
de toilette dela, onde guardava papéis.
Algum tempo antes de morrer,
vi que ela andava remexendo
aquilo e rasgando muitos papéis.
Uns dias depois de sua morte, fomos
verificar o que havia na gaveta,
e vimos que ela guardou o essencial;
e que fizera aquilo para não termos
trabalho com os papéis dela, quando
tivesse morrido. Observei, então,
que ela mandou jogar fora coisas
que eu teria gostado enormemente
de conservar. Mamãe fazia as contas
da casa – era uma empresa que
fornecia aos fregueses uma espécie
de notas, formando um caderno com
todos os dias do ano –, e escrevia, a
cada dia, as despesas. Tudo isso ela
jogou fora, pela preocupação de não
dar trabalho a ninguém. Vemos, assim,
a serenidade no transpor a morte,
com a tendência ainda de dar,
com isso, uma prova de amor e receber
uma prova de amor, que era o
carinho dela até onde chegava. Mas
na calma, vivendo a existência de todos
os dias.
De maneira que, quando ela adoeceu,
foi uma coisa completamente
inopinada. Ao cabo de dois, três
dias, estava morta.
“Senti a imensidade
que nos separava…”
A cena que mais me emocionou
na vida foi o encontro com minha
mãe, que Deus acabava de chamar
a Si. Mamãe faleceu bem idosa, com
92 anos, mas não tive a felicidade de
assistir à sua morte. A noite anterior
ao seu falecimento, ela passara com
problemas cardíacos muito acentuados.
Eu estava em meu quarto –
que ficava a um passo do dela – lendo
o jornal, com a intenção de logo
que me levantasse ir vê-la. De repente,
entraram no meu quarto e disse-
40
ram-me, da parte do médico
que a estava assistindo,
que, se eu quisesse encontrá-la
com vida, fosse depressa,
pois ela estava em seus
últimos momentos.
Por causa de implicações da diabete,
eu tinha sofrido uma amputação
no pé e o ferimento ainda não
estava cicatrizado. Como não tinha
muletas nem cadeira de rodas, mandei
vir duas vassouras e, apoiando-
-me nelas, dirigi-me o mais rapidamente
possível ao quarto de mamãe.
Quando entrei, o médico me disse:
“Ela já morreu!”
Ela já não estava lá. Não a alcancei!
E senti a imensidade que nos separava.
Deus e Nossa Senhora nos
uniam, e isto bastava. No entanto...
quando entrei no quarto e vi seu
corpo já sem vida, senti que aquelas
mãos, que tanto me haviam abençoado
e acariciado, não me acariciariam
mais; aqueles lábios, que tantas
coisas me haviam ensinado, não
me ensinariam mais; aqueles lábios,
enfim, que tanto haviam orado por
mim, não se moveriam mais...
Senti então, naquele momento,
passar-se algo comigo que me sacudia
de modo profundo e por inteiro,
como se eu fosse uma corda que
arrebentasse, e algo, que era quase
eu mesmo, separar-se categórica e
drasticamente de mim. Nunca, nunca
em minha vida tivera uma emoção
igual ou comparável àquela.
Na véspera, havia passado o dia
inteiro junto de mamãe, no quarto,
não saindo, a bem dizer, para nada.
Eu sabia que ela estava prestes a
morrer, e a razão de eu permanecer
ali era a consciência plena desse fato.
Mas – fato singular – aquele drama
da morte só se pôs, para mim, no
instante em que ela expirou e senti
a ausência do seu carinho... muito
mais do que isso, a própria ausência
dela. E, então, chorei copiosamente…
O médico contou-me como havia
sido aquele momento extremo:
Dona Lucilia estava com a respiração
curta, mas tão serena que não se
podia prever que morresse naquele
momento. De repente, fez o Nome
do Padre muito grande e morreu.
Sempre com a mesma paz, a mesma
serenidade, a mesma humildade. É
a calma e a glória no Céu, no plano
natural e no sobrenatural.
“Éramos um”
Tenho saudades dela, no sentido
de que eu gostaria imensamente
de osculá-la, de conversar com
ela, imensissimamente, mas na minha
alma é como se ela estivesse viva.
Não é que eu converse com ela,
mas aquela sensação da presença,
da convivência, eu tenho com ela; e
não sensação de ausência que eu teria,
quando mamãe vivia, por exemplo,
estando eu na Europa. E consi-
1940
Maio - junho – Dona
Lucilia passa uma temporada
em Águas da Prata.
16 de junho – Dona Lucilia
integra a Comissão de Honra,
criada para as comemorações
do centenário do Pe. Chico.
Dezembro – Mudança
de residência para a Rua
Sergipe, n. 401.
1943
Fevereiro – Dona Lucilia
passa uma temporada no
Guarujá com familiares.
1945
1º de outubro – Dona Lucilia
passa horas de muita aflição, ao
saber que um dos ônibus urbanos
que Dr. Plinio costumava usar
pegara fogo em São Paulo.
1946
Janeiro – Mudança de
residência para a Rua Vieira
de Carvalho, n. 27, 2º andar.
20 de junho – Dona
Lucilia acompanha parte
da procissão de Corpus
Christi até o Largo da Sé.
41
Dona Lucilia
Quarto de Dona Lucilia
derem que ela está no Céu e eu aqui
na Terra!
Sobretudo nos últimos anos
da vida de mamãe, não era
a conversa, mas a presença,
uma coisa que eu não
sei explicar, e isso para
mim continua como se
ela estivesse viva.
E considero o xale
lilás guardado nessa
caixa, lembrando-me da
fisionomia prateada e lilás
da senhora que o portava,
e sinto-me ainda mais
emocionado. Não posso me
esquecer das conversas de mamãe
comigo, em horas sempre noturnas,
ela recostada em sua cama
e eu sentado junto a seus pés. Nessas
ocasiões, era-me dado notar nos
horizontes do seu olhar, nos imponderáveis
da voz, no trato de um carinho,
uma delicadeza e uma elevação
requintadas, que havia no espírito
dela muito mais do que suas palavras
exprimiam.
Percebia que ela possuía, por assim
dizer, dois horizontes e duas vidas.
Um, o horizonte da vida quotidiana
de uma dona-de-casa, inteiramente
imbricada no seu meio.
A maior parte dos que conviveram
com ela nesse ambiente nunca suspeitaram
que houvesse um outro panorama,
uma outra vida. Nesta, ela
meditava em subidas verdades, com
as quais a fé desdobrava os seus véus
de ouro completamente. A devoção
ao Sagrado Coração de Jesus, a Nossa
Senhora, abriam-lhe toda uma série
de firmamentos, concepções e
patamares de alma.
Nós dois nos achávamos tão envolvidos
naquele contexto espiritual,
os fios de linha daquele tecido eram
de tal maneira trançados, que nunca
trocamos palavra um com o outro
sobre esse ponto. Conversávamos
pelo olhar. Ela me apoiava e, a
partir de um certo momento,
eu passei a estimulá-
-la nessa disposição de
alma mais elevada. As
nossas conversas, quando
eram a sós e à noite,
poderiam ser comparadas
ao voo de dois pássaros
que, nem de longe,
chegariam até o Sol,
mas se deleitavam em ver
que os raios do astro soberano
batiam sobre suas asas.
Sem abandonarmos esse imbricamento,
nos entendíamos, falávamos
a linguagem do imponderável,
do inefável. Em seguida, nos
despedíamos afetuosamente; eu me
retirava para dormir e ela permanecia
na cama. Nunca voltei ao quarto
de mamãe para ver o que ela fazia
depois de eu sair. Creio que cada um
imergia em suas próprias cogitações.
Havia uma união de alma entre
ela e mim tão profunda, que vinha
dos mais íntimos alicerces do meu
ser, de meu espírito, que coincidiam
com os dela; de tal maneira que não
era só uma afinidade temperamental,
psicológica, enfim, os mil tipos
de afinidades que possa haver entre
mãe e filho, mas era uma coisa diferente;
do fundo da alma, o quanto
pode ser, eu sentia essa afinidade.
E fazíamos um só, de tal maneira
éramos unidos. Eu me lembro de que
uma arrumadeira portuguesa chamada
Ana, que tivemos quando morávamos
numa outra casa, fez a nosso
respeito um comentário, do qual mamãe
gostou muito. Com aquela simplicidade
portuguesa, Ana dizia o seguinte:
“Viver com a cordialidade
que a senhora vive com o Dr. Plinio,
nem marido e mulher, noivo e noiva
têm, porque eles, quando são felizes,
não possuem essa cordialidade”. Mas
era realmente um encanto contínuo
meu por ela, e um modo de tratar co-
42
26-28 de junho – Dona
Lucilia participa da novena
do Sagrado Coração de Jesus
na Igreja de Santa Cecília.
30 de novembro – Dona
Lucilia comparece, no Hotel
Esplanada, à recepção da
Família Imperial, oferecida
pela sociedade paulistana.
1950
15 de abril – Dr. Plinio despede-se
de Dona Lucilia antes de
viajar para a Europa, mas não lhe
revela que seu destino é a Europa.
mo eu nunca vi filho tratar mãe; e dela
comigo, talvez ainda mais, porque
nas menores coisas havia uma delicadeza
e uma solicitude em procurar interpretar-me,
mil coisas que os fatinhos
concretos não podem exprimir,
porque era o espírito com que o fatinho
era realizado.
Isso tem uma projeção espiritual,
quer dizer, de tal maneira éramos
um, que não é possível aderir a um e
não aderir ao outro.
Maravilhoso caminho
traçado por Deus
Sala de jantar do apartamento de Dona Lucilia
Lembro-me de que, alguns meses
antes de eu ser acometido pela
crise de diabetes, durante um almoço
com ela, senti qualquer incômodo
pelo qual tive a impressão de estar
gravemente doente. Meu pensamento
imediato foi: “Este convívio
tão bom entre ela e mim, haverá algo
semelhante assim na Terra? Se Deus
me levar, desfará isso. É um grãozinho
de areia no qual Ele é Rei. Estes
grãos de areia têm de ser desfeitos
desta maneira?”
Pouco depois, abatia-se sobre
mim a prenunciada doença, e meus
receios se confirmavam: “O desfazimento
final está para vir. Deus me
levará, e mamãe ficará sozinha. Ou
ela soçobra na ilucidez ou dar-se-á
conta de algo e também morre”.
Aquele grão de areia parecia estar
desfeito. Ora, não. Outros eram
os desígnios da misericordiosa Providência.
Sobrevivi à grave enfermidade
e, durante o longo período de
convalescença, minha casa se encheu
de amigos. Estes conheceram de
perto Dona Lucilia, e passaram a admirá-la,
a agradá-la com toda a espécie
de atenções e carinhos. Onde tudo
parecia o fim, no que dizia respeito
a ela, um frutuoso apostolado começava
a nascer.
Como não posso ficar maravilhado
diante do lindo traçado que Deus
desenhou ao longo deste caminho, e
cujos contornos foram obtidos pelas
súplicas de Maria Santíssima? v
22 de abril – Dona Lucilia
recebe vários bouquets, presentes
preparados com antecedência
por Dr. Plinio, tendo em vista
sua viagem para a Europa.
13 de junho – Em audiência
privada com o Santo Padre Pio
XII, Dr. Plinio pede uma
bênção para Dona Lucilia.
14 de julho – Casamento
de Maria Alice com
Eduardo Matarazzo.
28 de setembro – Dona
Lucilia vai à Igreja de Santo
Antônio, onde comunga e
reza pelo sucesso de Dr. Plinio
nas eleições como candidato a
deputado federal pelo Paraná.
43
Dona Lucilia
Maternal intimidade com
Fotos: Arquivo Revista
os filhos até na eternidade
A invariável bondade de
Dona Lucilia não cessou de
se fazer sentir mesmo depois
de sua morte, notadamente
em relação aos discípulos de
Dr. Plinio, que passaram a
pedir sua intercessão junto
a Jesus e Maria, vendo-se
sempre atendidos. Em
reconhecimento, um deles
procurou retratá-la em
pintura a óleo, com base nas
últimas fotografias dela. O
“Quadrinho” – como ficou
conhecido – encantou Dr.
Plinio e se tornou uma
vívida e constante lembrança
daquela figura materna,
diáfana e acolhedora...
44
1952
No que diz respeito
às devoções,
há dentro
da Santa Igreja uma liberdade
de acordo com o
movimento das almas. Por
exemplo, se eu comecei
uma novena a Nossa Senhora
e, de repente, me ocorre
pedir a Santo Antônio de
Pádua, pode ser uma prova
de inconstância e, portanto,
uma coisa não bem-
-feita; mas, em certas ocasiões,
pode ser que eu não faça
mal, porque conheci, pelo
movimento da graça, que
aquilo calhava melhor.
Intercessão de
Dona Lucilia junto
a Nossa Senhora
No tocante ao pedido de
intercessão de Dona Lucilia,
uma devoção conduz à
outra; ou seja, se for bem
vista e bem usada, a devoção
a ela leva ao afervoramento
na devoção a Nossa
Senhora. Se a devoção a Maria Santíssima
for bem praticada, conduz,
muito facilmente e sem alfândegas,
ao recurso a ela. Essas coisas são livres
como o ar.
Na Igreja, para tudo aquilo que
não é matéria de pecado há muita liberdade,
conforme os sopros da graça.
Para meu foro interno, é certo este
ponto: diminuir a devoção a Nossa
Senhora, nunca! Por exemplo, eu
ficaria apavorado se alguém diminuísse
a reza do Rosário para orar mais
a mamãe. Não! Adquiriu esse hábito,
deve conservá-lo até morrer! Entretanto,
pode-se pedir que Dona
Lucilia reze o Rosário conosco, aos
pés da Santíssima Virgem.
Não significa que o papel de mamãe
seja automático e que ela seria,
portanto, um botão o qual, pres-
O toque em escrófula pelo rei Henrique II na
Igreja de Saint-Marcoul do priorado de Corbeny
sionado, leva postalmente um pedido
a Nossa Senhora. Contudo, pode
haver favores que, pedindo por
meio de Dona Lucilia, nós obtemos
da Mãe de Deus, e que, não rogando
por esse meio, não obteríamos. Portanto,
nesse caso, é uma coisa que
depende de nós rogarmos a intercessão
dela, porque Nossa Senhora
quer essa intercessão para nos atender.
Se não houvesse essa intercessão,
não nos atenderia.
Tomemos como exemplo a cena
que se passava após a sagração do rei
da França. A escrófula é uma doença
localizada, que deixa a pele em estado
muito repugnante. E o rei tocava
os escrofulosos, dizendo: “Le roi
te touche, Dieu te guérisse”. 1 E muitos
saíam de lá se dizendo curados.
Imaginemos que um escrofuloso
afirmasse o seguinte: “O rei me cura
Fevereiro – Mudança
de residência para a Rua
Alagoas, n. 50, 1º andar.
1953
Junho – Dr. Plinio leva
Dona Lucilia e Dr. João
Paulo ao Cine República
para assistirem ao filme da
coroação da Rainha Elizabeth.
1956
4 de fevereiro – Dona
Lucilia é fotografada no
aniversário de 2 anos de seu
bisneto, Francisco Eduardo.
1958
27 de agosto – Dona Lucilia
comparece a um chá da Liga
das Senhoras Católicas.
1959
29 de janeiro – Dona
Lucilia comparece à reunião
de Encerramento da 7ª
Semana de Estudos de
Catolicismo, no Palacete
Lupércio de Camargo.
45
Dona Lucilia
pela graça de Deus. Então, muito
melhor do que ser tocado pelo rei
é ser tocado pelo Santíssimo Sacramento.
Logo, não quero ser tocado
pelo rei e vou comungar”. Talvez não
sarasse de sua escrófula...
Embora ele tivesse razão – é muito
melhor comungar do que ser tocado
pelo rei –, para obter aquela cura
era desígnio de Deus glorificar o monarca;
e, portanto, fazer a cura apenas
mediante o pedido do rei.
Vê-se, assim, como nessas mediações
não há nada de automático.
Nós estamos tão viciados na automação,
que temos uma tendência a
imaginar o automático.
Realizar o plano da
Providência recorrendo
a Dona Lucilia
Compreendo que uma alma aflita,
conhecendo que Nossa Senhora
quer que se peça determinada graça
por meio de Dona Lucilia, agarre-se
nela com a convicção confusa
de que, com isso, realiza o plano
da Providência. Não é que ela esteja
passando por cima da Providência,
mas está obedecendo à Providência.
Essas reflexões se desdobram em
comentários colaterais inúmeros. Por
exemplo, eu vi, mais de uma vez, pessoas,
homens e senhoras que, quando
deitam todo empenho em fazer alguma
coisa, por exemplo, algo caligraficamente
bem executado, dizem:
“Agora não me interrompa, porque
vou fazer tal coisa”. E se eriçam para
fora e se aplicam para dentro.
Não é nem um pouco o modo de
mamãe se aplicar. Poder-se-ia interrompê-la
em algo mais especial que
estivesse fazendo, que ela era absolutamente
a mesma. Interrompia, ou
então dizia: “Sua mãe agora não pode
atender, espere um pouquinho”.
Mas um “espere um pouquinho” que
convidava a ficar ali perto, junto dela.
Quando ela queria fazer as coisas
bem-feitas, não era com mania
de perfeição, pois esta deixa a pessoa
como que sem fôlego, ofegante.
Dona Lucilia sempre possuía fôlego,
embora se notasse que ela estava indo
além de suas forças. Tudo isso tinha
uma doçura que não sei descrever;
é só olhando para o Quadrinho.
Se querem saber qual é o principal
ponto de atração da alma de
mamãe para a minha, olhem para o
fundo do olhar dela no Quadrinho
e compreenderão. Aquilo diz muito
mais do que qualquer palavra ou
descrição. Olhem para o Quadrinho
e notarão que ele não exprime em
nada uma tendência de alma definida.
É uma espécie de benevolência
distinta para o que der e vier; voltada
para todos, mas no momento para
ninguém. Ela está apenas olhando.
Há ali duas atitudes diversas que
se ombreiam de tal modo que – para
os meus olhos de filho, pelo menos
–, constituem um encanto: é o tão
completo dar-se, com uma distinção
por detrás, que diz afavelmente:
“Conta, peso e medida em tudo, está
muito bem”.
46
A força de presença que ela tinha
era única, e o Quadrinho possui isso,
de maneira que, quando o recebi, eu
disse: “Este Quadrinho veio para reforçar
a sensação da presença dela”.
Comunicação de alma
por meio do Quadrinho
Quando um discípulo meu pintou
esse quadro – tendo como base uma
das últimas fotografias dela – fê-lo
durante uma longa viagem, dentro
de uma Kombi, nas condições mais
desfavoráveis que se possa imaginar
para um trabalho desse tipo. O resultado
foi que ele terminou a pintura
e não gostou. Então, apagou tudo,
exceto os olhos, que lhe pareciam ter
ficado bons. Assim, no pano, restaram
apenas aqueles dois olhos. E ele
tinha a impressão de que os olhos
dela lhe suplicavam que retomasse
a pintura. Ele então fez e, apesar de
outras vicissitudes, saiu aquela obra-
-prima.
Pois bem, eu me comovo imaginando
aqueles dois olhos no tecido.
Seria quase o que mamãe foi para
mim: dois olhos ao longo da vida...
Todo o resto, um tecido. Mas aqueles
dois olhos eram, para mim, um
firmamento!
Ainda me recordo do instante em
que, no fim de um longo expediente,
a pessoa que me trazia o Quadrinho
disse: “Fulano pintou um retrato de
Dona Lucilia e gostaria de oferecer
ao senhor”.
Algo constrangido, o meu interlocutor
abriu o envelope, tirou o quadro
e me apresentou, talvez pouco
confiante no meu favorável acolhimento.
De fato, devo confessar que,
embora eu conhecesse os dotes artísticos
do pintor, parecia-me um tanto
ousado pretender que ele lograsse
reproduzir na tela uma figura que
correspondesse à imagem de mamãe
como eu a conservava na alma.
Perguntar-me-ão: “Então o senhor
recebeu com dúvidas o quadro?”
Não. Eu o recebi sem nenhuma dúvida.
Era um gesto afetuoso para comigo,
o qual se tratava de tomar com
bondade, mas estava certo de que daquele
envelope não sairia sequer uma
decepção, apenas um bom desejo que
eu acolheria com gosto e carinho.
Não será difícil imaginar, pois,
minha surpresa, meu agrado, quando
me foi posto nas mãos. Olhei e lo-
1961
27 de janeiro –
Falecimento de Dr.
João Paulo Corrêa
de Oliveira.
2 de fevereiro – Missa
de 7º dia por alma de
Dr. João Paulo Corrêa
de Oliveira, na Igreja
de Santa Teresinha.
7-8 de outubro – Dona
Lucilia tem um súbito
ataque cardíaco; Dr.
Plinio encontrava-se em
Buenos Aires e volta às
pressas para São Paulo.
1964
Abril – Última
carta escrita por Dona
Lucilia, endereçada
a Da. Teresa Corrêa
de Oliveira, irmã de
Dr. João Paulo.
1967
Dr. Plinio no início da década de 1980
Dezembro — Dr. Plinio
é acometido por uma
grave crise de diabetes.
47
Dona Lucilia
go percebi uma semelhança com mamãe,
sobretudo no olhar, e numa
presença de estado de espírito, eu
quase ousaria dizer, uma comunicação
de alma, que eu achava estivesse
reservada para o Céu.
Rápida e silenciosamente, passei
por várias sensações: “Não, tem de
ser melhor! Mas é! Como? Não tem
dúvida!” etc. É evidente que a pintura
me tocara de modo profundo.
A moldura perfeita
Após contemplar o retrato, analisei
a moldura e, uma vez mais com
surpresa, verifiquei que, no seu gênero
e para seus efeitos, era perfeita.
A imagem de Dona Lucilia se
achava tão bem no interior da moldura
que, se ela própria tivesse escolhido
uma dentro daquele diapasão,
não seria diferente. A guarnição correspondia
inteiramente à época, ao
estilo e ao modo de ser da imagem
reproduzida no Quadrinho. Por assim
dizer, eu sempre a vi no ambiente
dessa moldura e, por isso mesmo,
ninguém pensaria em trocá-la...
Em seguida, passei a conjeturar
onde colocá-lo. A escolha natural era
a casa dela, e nesta, no meu escritório.
Não se encaixaria bem num dos
salões, já ornados com boas obras de
arte, nem no meu quarto de dormir,
pois eu queria estar acordado para
contemplar o olhar dela na pintura...
Portanto, ficou assente que ele
ocuparia lugar na mesinha em que
hoje se encontra.
Confiança, paz de
alma e alegria
Escritório de Dr. Plinio em seu apartamento
Ao ser posto ali, pareceu-me que
a imagem de mamãe ressaltou-se naquele
ambiente, e na pintura avivaram-se
características que eram bem
dela: sem nenhum esforço, sem dificuldade
alguma, trazer consigo um
sulco de luz, incutir confiança, paz de
alma, alegria e instalar-se naquilo que
era seu.
De tal maneira que, no conjunto
de móveis de minha primeira infância,
tão velhos, tão antigos, o Quadrinho
entrou como se fosse um
complemento natural. E ele é a alma
do escritório, embora neste haja
também um lindo Crucifixo, presente
dos membros do nosso Movimento
quando fiz 50 anos. Acontece
que este Crucifixo, imagem do
Homem-Deus, governa o escritório
como que acima dele, enquanto
o Quadrinho o faz ali dentro, é homogêneo
com aquele ambiente. Dir-
-se-ia que Dona Lucilia esteve ali há
pouco, sentou-se atrás do Quadrinho
e se pôs a nos observar através
dos olhos do seu retrato.
Cabe perguntarmos a que corresponde
o Quadrinho. Acredito que
ele simboliza a presença de uma
mãe, e de uma mãe tal que, quem
não tenha visto ao menos essa pintura,
não pode fazer exata ideia de como
ela foi. Quer dizer, para conhecê-la,
seria preciso contemplar com
essa fidelidade o Quadrinho, no qual
se tem a impressão de sentir até o leve
e discreto arfar da respiração de
Dona Lucilia, o pulsar do seu coração,
a sua tranquilidade sofrida e resignada,
prateada e lilás, e os anos
que se foram cumulando. Tudo isso
se sente no retrato e, sem isso, não
se pode dar por tê-la conhecido.
Reflexo do amor materno
de Nossa Senhora
Resta sabermos a que desígnio da
Providência corresponde o fato de
esta fisionomia assim se manifestar
e pairar dessa maneira sobre tantos
que invocam sua intercessão, marcada
por dita maternalidade, e que julgam
ter recebido um carinho, uma
forma de apoio interno, de proteção,
de ânimo doce para as coisas difíceis.
A que corresponde uma assistência
materna dentro da linha geral das vicissitudes
humanas?
Como modelo perfeito e exemplar,
acima de todos os outros amores,
bondades e doçuras maternais, está
o amor de Maria a Jesus, que d’Ela
nasceu após nove meses de uma gloriosa
gestação. Deus haveria de querer
que o primeiro olhar de Jesus na
Terra fitasse algo que fosse o resumo
de todas as maravilhas do universo:
os olhos do Menino se abriram e encontraram
o olhar de Nossa Senhora,
viram a face esplendorosa da Mãe,
discerniram sua alma e seu Imaculado
Coração. E então, podemos supor,
o Divino Infante sorriu.
48
Nossa imaginação se perde ao
tentar conceber como terá sido esse
primeiro olhar do Filho para a Mãe
incomparavelmente mais bela que
toda a Criação, a Rainha mais bela
que o reino.
Igualmente nos sentimos pequenos
ao pensarmos noutro olhar d’Ele
para Nossa Senhora: o último. Antes
de o Redentor se despedir da Terra,
seus olhos se baixaram sobre os
de Maria e se entrecruzaram. Nessa
derradeira troca de olhares, havia
algo talvez ainda mais belo do que
houve na primeira, quando Ele entrou
na vida. E a face de Nossa Senhora
era mais formosa, sem comparação,
do que eram horríveis todos
os horrores da época. O amor
d’Ela era mais esplêndido do que era
hediondo o próprio deicídio. Entre
olhar e olhar, que nexo magnífico!
Nosso Senhor Jesus Cristo desejou,
portanto, um afeto de mãe
quando abriu os olhos; e quis um carinho
materno quando os fechou. Isso
basta para nos dar a entender o
significado do afeto de mãe e o papel
que ele deve desempenhar na
formação dos homens. Porque todas
as mães que vieram depois de Maria
Santíssima, precedendo-nos com
o sinal da fé, foram convidadas a serem
mães católicas, com a cintilação
de algo que Nosso Senhor viu em
Nossa Senhora.
E nas maiores alegrias, nas ternuras
mais delicadas, nos abandonos
mais terríveis, convinha que d’Eles
nos lembrássemos. Como a proporção
e a harmonia entre o grandioso
e a bondade teriam permanecido entre
os homens se todas as mães tivessem
sido inteiramente mães! Como a
palavra “doçura” teria tomado outro
sentido! E como a majestade materna
teria sido grandiosa! Infelizmente,
nas engrenagens do mecanismo da vida
humana, faltou muito do azeite do
amor materno.
O Quadrinho, imagem do
amor de Maria aos homens
E então podemos compreender os
desígnios da Providência em relação
ao Quadrinho, que vem representar
exatamente um reflexo desse amor
de mãe, uma centelha do insondável
carinho materno de Nossa Senhora
para conosco.
No Quadrinho, mamãe não parece
ter em vista a excelência, o estupendo
resplendor daquilo que um
dia ela alcançaria por meio das suas
orações. Porém, parece ter visto
a cada um inserido naquela mesma
intimidade, tratando com ela, com
sua distinção própria, nas distâncias
e até nos afagos, no calor da intimidade.
Ela está ali representada como
quem diz: “Diga-me como é você
e no que nos afinamos. É por aí que
nos quereremos inteiramente bem!”
Peçamos, pois, à Santíssima Virgem
que nos faça aproveitar dessa
imagem do seu amor aos homens,
para assim nos unirmos ainda mais a
Ela e a seu Divino Filho. v
1) Do francês: “O rei te toca, Deus te
cure”.
1968
Janeiro-abril —
Durante a convalescença
de Dr. Plinio, o Sr.
João Clá passa a
frequentar o apartamento
de Dona Lucilia e a
conviver com ela.
18 de março – Dona
Lucilia, atendendo a um
pedido do Sr. João Clá,
aceita ser fotografada
em seu apartamento.
20 de abril – Por volta
das 17h00, Dona
Lucilia recebe a Unção
dos Enfermos e o Viático,
das mãos de Fr. Jerônimo
van Hintem, OCarm.
21 de abril –
Falecimento de Dona
Lucilia. Às 17h00
o cortejo fúnebre parte
para o Cemitério da
Consolação. Na capela,
o corpo recebe a última
bênção da Igreja e
depois é levado ao
jazigo da família.
27 de abril – Às 11h30,
Missa de 7º Dia pela
alma de Dona Lucilia
Corrêa de Oliveira,
na Igreja de Santa
Teresinha, em São Paulo.
49
Dona Lucilia
A missão de Dona
Fotos: Arquivo Revista
Lucilia continua…
Discreta, afável,
acolhedora e, ao mesmo
tempo, parecendo
ser feita para ter uma
multidão de filhos,
Dona Lucilia, em vida,
sofreu muito por ver-se
frequentemente relegada
ao abandono, não tendo
sobre quem desdobrar
seus desvelos maternais.
Hoje, mundialmente
conhecida, não deixa
de interceder pelos que
a ela recorrem. E, por
incrível que possa parecer,
socorre até aqueles
que nem a conhecem,
como se verá nos relatos
aqui transcritos.
50
Auxílio discreto em
difícil situação
Em 1998, certo empresário de Teresina
faleceu, deixando ao filho vultosas
dívidas. Como consequência, o
Poder Judiciário confiscou ao herdeiro
todos os bens, deixando sua família
em delicada situação financeira.
Sem recursos para sustentar os
três filhos ainda pequenos, ele e a esposa
se viram obrigados a deixar as
crianças sob os cuidados da avó materna
e partir para Fortaleza em busca
de melhor emprego.
Na capital cearense, mais uma separação
lhes foi imposta: ele conseguiu
um trabalho em outra cidade,
porém sem possibilidade de levar
consigo a esposa.
Certo dia, vendo-se a mulher particularmente
abatida e com fome,
após ter estado quatro meses percorrendo
inutilmente grandes distâncias
à procura de emprego, ela sentou-se
no banco de uma praça e pôs-se a rezar,
suplicando a Deus ao menos o
suficiente para se alimentar.
Poucos instantes depois, aproximou-se
dela uma distinta senhora
pedindo-lhe indicação de algum restaurante
nas proximidades. Ela se
levantou e a levou a um estabelecimento
distante uma quadra de onde
estavam.
Chegando ao restaurante, a senhora
convidou-a para almoçar, o
que ela aceitou muito agradecida.
Durante a refeição, expôs algo de
suas aflições e foi ouvida com muita
bondade, recebendo por conselho
ter muita confiança e devoção ao Sagrado
Coração de Jesus.
Terminado o almoço, ela acompanhou
sua benfeitora até a rua caminhando
um pouco a seu lado, pois
lhe pareceu que ela não conhecia a
região e poderia precisar de mais algum
auxílio. Ao perguntar para onde
iria, a senhora indicou-lhe um edifício
do lado oposto ao que estava. Virou-se
para se certificar de qual se
tratava e ficou pasma quando, voltando-se
novamente para a senhora,
já não a encontrou a seu lado.
Algum tempo após o ocorrido, ela
encontrou um bom emprego e seu
esposo regressou a Fortaleza, já em
condições de reunir toda a família.
Por anos ela acreditou que aquela
senhora fosse a Virgem Santíssima.
Certo dia, porém, sua filha chegou
em casa mostrando-lhe um presente
que ganhara: uma biografia de Dona
Lucilia ricamente ilustrada. Para
sua surpresa, ao folhear o livro, reconheceu,
em uma das fotografias, a
sua benfeitora!
Ao lado, sem ser vista…
No Estado do Rio de Janeiro, outra
senhora foi favorecida com a
companhia de Dona Lucilia.
Todos os meses ela precisava ir
a uma cidade vizinha para adquirir
certo medicamento para seu pai,
aproveitando a viagem para fazer
compras em determinada loja de artigos
domésticos.
Numa dessas ocasiões, uma atendente
do estabelecimento aproximou-se
e, muito contente, disse-lhe
que havia recebido da “senhora” que
a acompanhara à loja na ocasião anterior,
um conselho muito certeiro.
Pensando haver um engano, explicou-lhe
nunca ter estado ali acompanhada
por alguém. No entanto,
retirando da bolsa uma foto de Dona
Lucilia, mostrou-a à funcionária,
perguntando se era aquela senhora
que a havia consolado. Com muita
ênfase, a moça assentiu, interessando-se
por saber quem era aquela
“senhora”.
Peculiar intervenção
a “vassouradas”!
Vivia certa senhora em Chia, Colômbia,
cidade localizada nas proximidades
de Tocancipá. Passava
ela por dificuldades no trabalho,
pois justo em frente à sua mesa estava
instalada uma colega de má índole,
que, embora se dizendo católica,
procurava arrastar os outros para
práticas esotéricas, além de favorecer
conversas licenciosas.
Numa ocasião em que foi assistir
à Missa, pediu um conselho a um
sacerdote, que lhe deu duas fotos
de Dona Lucilia e lhe recomendou
manter uma em sua bolsa e outra em
sua mesa de trabalho. Quando a colega
lhe insinuasse más conversas ou
práticas condenáveis, deveria pedir a
Dona Lucilia que a afastasse a “vassouradas”.
O pedido pouco convencional
deixou-a admirada.
Ela ouvira falar de Dona Lucilia,
mas mantivera-se incrédula quanto
à sua intercessão. Entretanto, dessa
vez, deu completa atenção à indicação
recebida, e, na primeira oportunidade
em que a companheira veio
com conversas obscenas, dirigiu-se a
Nossa Senhora: “Minha Mãe, peço-
51
Dona Lucilia
-Vos que mandeis Dona Lucilia tirar
minha colega daqui a vassouradas!”
Para sua surpresa, passados menos
de quinze dias, sua colega recebeu
transferência para outra seção,
em outro edifício, sem a haver solicitado.
Apesar de incialmente contrariada,
a referida colega acabou por
acatar a mudança, pois trazia benefícios
para si e para sua vida familiar.
Era essa a prova de tratar-se de
uma situação da Providência, por intercessão
de Dona Lucilia, pois ambas
as colegas se viram beneficiadas.
O salário do mês
recuperado...
Uma senhora, dona de casa, também
foi socorrida de modo surpreendente
e inusual por Dona Lucilia.
Sendo administradora das despesas
da casa, recebia de seu cônjuge o
salário obtido por ele no início de cada
mês. Um dia, porém, ela deixou
tal valor envolto em um papel sobre
a tábua de passar roupas, e o esposo,
julgando tratar-se de algum lixo, jogou
fora o embrulho.
Ao dar-se conta do desaparecimento
do dinheiro, a esposa pôs-se
a procurá-lo por toda a casa sem nenhum
êxito. Em conversa à noite, o
casal deu-se conta do acontecido: todo
o dinheiro do mês fora jogado no
lixo. E este havia sido coletado no
bairro naquele mesmo dia…
A situação prejudicava financeiramente
a família e criava desagradável
tensão entre esposos.
Foi nessa conjuntura que a mulher
lembrou-se de Dona Lucilia,
cuja extremosa bondade levava-a
a se compadecer dos aflitos.
Rezou a ela prometendo-lhe
executar alguma obra piedosa caso
fosse atendida.
Na manhã seguinte, contatou o
órgão responsável pela coleta de lixo
e dirigiu-se ao local de aterro sanitário
público, no intento de procurar
o valor perdido. Ora, o responsável
vedou-lhe a entrada por razões de
segurança e saúde, levando-a apenas
até onde eram processados os resíduos,
a fim de convencê-la a desistir.
Foi então que a felizarda senhora
viu passar diante de si uma enorme
esteira que transportava o material
a ser processado, e nela, o embrulho
à vista. Sem hesitar, aproximou-se e
apanhou o valor! Os funcionários ficaram
espantados, pois como encontrar
tão diminuto volume em meio
ao caos daquelas instalações?
O fato marcou a família, que pôde
confirmar o quanto Dona Lucilia estava
disposta a atendê-los, resolvendo
um caso na aparência insolúvel.
Dona Lucilia cuida
do filho enfermo
Uma senhora residente em Montes
Claros (MG) também registrou
um fato digno de consideração, operado
graças à intercessão de Dona
Lucilia.
No dia 26 de fevereiro de 2021, seu
filho sofreu um acidente de moto na
cidade de Juiz de Fora. Deu entrada
no hospital com TCE (traumatismo
cranioencefálico) grave, politrauma,
afundamento de crânio, encéfalo
afastado 1,8 cm, várias fraturas no
braço esquerdo e lesão no pulmão esquerdo.
Em suma, o jovem estava em
coma no grau Glasgow 3, o mais profundo
estágio, no qual o paciente não
responde a nenhum estímulo.
Após uma operação de craniotomia
descompressiva, o cirurgião resumiu
numa curta frase a gravidade
da situação: “Se ele sobreviver, terá
morte cerebral”. Ou seja, ficaria em
estado vegetativo.
A mãe do acidentado conservou
grande paz de alma, confortada pelo
fato de um sacerdote ter acorrido
ao hospital e administrado ao seu filho
a Unção dos Enfermos.
Conseguiu ela autorização para
visitá-lo no CTI todos os dias, mas
devido ao agravamento da pandemia
do COVID-19, tais visitas foram
canceladas. Era o dia 8 de março. A
mãe pediu à enfermeira-chefe que
colocasse a estampa de Dona Lucilia
junto a seu filho, para que ela cuidasse
dele em sua ausência.
No dia 12 de abril, o jovem teve
alta do CTI. Nos dias 21 e 22 – nos
quais se comemoram o aniversário
de falecimento e o de nascimento de
Dona Lucilia –, o rapaz demonstrou
alentadores sinais de melhora: sentou-se
e levantou a cabeça, causando
grata surpresa aos dois fisioterapeutas
que o assistiam. Um
deles, ignorando a relação de
datas, sugeriu à mãe marcar o
dia 21 de abril de 2021 para celebrar
tão marcante progresso.
Estava confirmado o sinal
de que o jovem vivia graças a
um milagre operado pela intercessão
de Dona Lucilia, como
em relato reconheceu mais
tarde a afortunada mãe.
Seu filho atualmente não apenas
vive, mas recuperou todos os
movimentos, formou-se numa Faculdade
e exerce, em boas condições,
sua profissão. v
52
Nas cartas de mamãe há uma ação de presença que vale mais do que o sentido
literal das palavras. Dir-se-ia, ao menos para meus ouvidos de filho, que aquelas
cartas têm uma espécie de acompanhamento subsônico, musical; é quase seu
timbre de voz, sua amenidade, dizendo as coisas correntes, no convívio diário.
(Extraído de conferência de 9/8/1981)
Pigeon querido!
Rio de Janeiro, 11-10-1925
Tive imenso prazer ao receber tua carta e muito, muito te agradeço o excelente
boletim. Dá-me tanto gosto com estas notas meu filho, que certamente este esforço te
reverterá em bênçãos, e por isto Deus te ajudará muito, e velará por ti com especial
carinho, e por isso, peço-te insistentemente para que não empregues mais esta expressão
de... + azarento... em relação a pessoa alguma, e muito menos a tua, pois como sabes,
você e Rosée são confiados a Deus antes de nascer, e portanto, com fé e amor a
Deus, vocês não poderão deixar de ser felizes, tanto mais que, por vocês eu rezo noite
e dia e é natural que as preces de uma mãe católica, mesmo de tão pouco mérito,
sejam atendidas por Nossa Senhora que também é mãe, e Nosso Senhor Jesus
Cristo. – Continua a estudar bem e não demais, a ponto de te prejudicar a saúde,
e farás uns bons exames e vencerás esta primeira “ étape”.
Espero que você e Rosée tenham feito a comunhão conforme lhes pedi.
[...]
Adeus, meus queridos... até domingo? Abraça por mim a teu pai e
Rosée, e você, filho de meu coração, lançando-te minha bênção envio-te
milhares de beijos e abraços.
De tua mãe extremosa,
Lucilia
Só agora à noite, teu tio entregou-me a cartinha de minha Rosete
querida. Beija-a por mim. [...] Escrevo-te com uma pena tão ruim, que só as
saudades d’uma prosa com vocês me obriga a usá-la.
53
Filho querido,
Carta de 16 de maio de 1929
Tua carta de ontem deixou-me bem apreensiva, como bem podes imaginar, pois, conquanto
tenha grande confiança em teus sentimentos, e na tua fé, tentação sempre é tentação, e por isso é
preciso que te lembres de que sabemos e conhecemos todos quem é o mephistópheles. E, portanto,
é tratar de fugir e às léguas, e agarrando-se a um Crucifixo! E o mais interessante é que, para
“obrar”, aproveita-se de minha ausência... gosta da sombra!
[...]
Com minha bênção, beijo-te e abraço-te muito e muito. De tua mamãe extremosa,
Lucilia
54
São Paulo – 19-4-1950
Filho querido de meu coração!
Com o coração transbordante de
saudades, venho dizer-te a enorme falta que
me fazes, pois parece-me ver-te entrar a
todas as horas, e ver-te em todos os lugares, e
o meu espirito voa – sem avião – em busca
do teu! Contudo, filho querido, procuro
ser calma, e agradecer a Deus e à Virgem
Santíssima, a graça de poder ver-te
realizar este sonho tão necessário e útil à tua
vida e a teus futuros trabalhos, e também a
felicidade de poderes ver, talvez ouvir e falar
mesmo ao nosso Papa! – E, tudo isso, em
companhia de tão bons companheiros! [...]
Agradeço-te imenso, tudo o que, como
excelente filho, fizeste para evitar-me a
angústia da travessia. Mandei acender
uma vela a Nossa Senhora das Graças,
e fiz muitas orações pela tua feliz chegada.
[...]
Conta-me tudo o que têm feito e o que
de bonito por aí já viram: Granada,
Alhambra... o túmulo de Dom Filipe,....
históricos palácios, conventos... e o que
mais? – Já comeram muitos figos de
capa-rôta e cerejas? – Penso ser agora
a época. – Quando seguem para Paris
para respirarem o já celebre “ doux air de
France”? [...] Muito cansada e com sono,
termino esta, enviando-te todas as minhas
bênçãos, e te pedindo para que veles bem pela
tua preciosa saúde.
Mais uma vez, que Deus te abençoe,
te faça muito feliz e envio-te saudosíssima,
muitos beijos e abraços.
De tua mamãe extremosa,
Lucilia
São Paulo, 23-04-50
Filho querido de meu coração!
De todo o coração, de toda a minha
alma, agradeço-te a carta tão afetuosa que
me deixaste, e que tanto conforto me trouxe,
e mais as lindas, “ belíssimas mesmo”, palmas
brancas, rubras, amarelas e lilases, que Zili
enviou-me pela manhã. Chorei é verdade,
mas, “graças a Deus”, foi de felicidade por ter
recebido eu, tão indigna,“ liberal ”, a imensa
dádiva dos Sagrados Corações de Jesus e
Maria Santíssima, de um filho tão santo,
tão bom e carinhoso, que abençôo de todas as
veras de minha alma, por quem peço toda
a proteção Divina, e a Luz do Divino
Espírito Santo. – Destas palmas, levei
duas para a capela do “sexto andar”, uma
para tua imagem do Imaculado Coração
de Maria em teu quarto, onde, como de
costume rezei por ti, e duas outras para a
imagem do Sagrado Coração de Jesus,
no salão (e o resto – muitas, na jarra do
imperador). [...]
Fui hoje ouvir missa e comungar por ti
na “minha” igreja do Sagrado Coração
de Jesus, onde encomendei uma missa
por tua intenção, e bom êxito em teus
empreendimentos.
[...]
Escreva-me sempre; sim? Vê se
encomenda a missa para Nossa Senhora
da Begoña por intenção de Rosée; sim?
Com muitas saudades, “espiritualmente”
[...] rezamos o terço, faço-te uma cruzinha
na testa, e... cubro-a de beijos e bênçãos.
Um longo e saudoso abraço, Pimbinchen
querido,de tua “manguinha” afetuosa,
Lucilia
Filho tão querido!
S. Paulo, 30-4-950
[...]
Você lembrou-se de mandar dizer a missa para Nossa Senhora da Begoña,
conforme te pedi? A que mandei dizer por tua intenção no dia três deste, no
Sagrado Coração de Jesus será ouvida com a minha máxima fé e amor, e também
comungarei, pedindo a Deus para que te abençoe, te faça sempre um verdadeiro
católico, reto, bom e justo, para Sua maior glória, e como sempre, o melhor e mais
querido dos filhos, por quem dou, até mesmo, os poucos dias que ainda me restam.
[...]
Escreve-me sempre; sim? Não te esqueças de mim em Nossa Senhora de Lourdes;
sim? Como vão teus amigos? estão também gostando muito? Recomenda-me a todos eles.
Com muitas saudades, abençoa-te, abraça-te
e beija-te muito, tua mamãe extremosa, Lucilia
55
Arquivo Revista
Imagem de Nossa
Senhora Auxiliadora,
Santuário do Sagrado
Coração de Jesus
“Mamãe também é assim”
Dona Lucilia teve como madrinha – quanto isso é expressivo! – Nossa Senhora da Penha,
invocada no bairro paulistano de mesmo nome, imagem à qual ela tinha uma profunda
devoção. A igreja da Penha era uma espécie de miniatura de Aparecida do Norte,
para onde se faziam romarias, peregrinações.
É interessante observar como, iniciando-se tão cedo essa vinculação de mamãe com Nossa Senhora,
essa primeira graça era ordenada para, desenvolvendo-se e frutificando-se nela, pousasse
um dia em mim.
Quando recebi a graça, que me marcou inteiramente a alma, da devoção à Santíssima Virgem,
diante da imagem de Nossa Senhora Auxiliadora, na igreja do Coração de Jesus, estando eu ajoelhado
e fitando de longe a imagem, rezando para Ela, na miséria e na aflição em que me encontrava,
conheci a misericórdia de Maria.
Então me veio logo o pensamento: “É compreensível, porque mamãe também é assim. Em Nossa
Senhora, é claro, num grau indizivelmente maior; porém, há uma semelhança”.
(Extraído de conferência em 29/6/1982)