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Revista Dr Plinio 337

Abril de 2026

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Publicação Mensal

Vol. XXIX - Nº 337 Abril de 2026

Frutos eternos de uma semente

plantada há 150 anos


Arquivo Revista

O mais precioso legado

Ninguém pode imaginar o

bem que ela me fez...

Mamãe me ensinou a

amar Nosso Senhor Jesus Cristo, ensinou-me

a amar a Santa Igreja Católica!

(Frases pronunciadas em 21/4/1968)


Sumário

Publicação Mensal

Vol. XXIX - Nº 337 Abril de 2026

Vol. XXIX - Nº 337 Abril de 2026

Frutos eternos de uma semente

plantada há 150 anos

Na capa,

uma das últimas

fotografias de Dona

Lucilia, um mês antes

de sua morte.

Foto: João S. Clá Dias

As matérias extraídas

de exposições verbais de Dr. Plinio

— designadas por “conferências” —

são adaptadas para a linguagem

escrita, sem revisão do autor

Dr. Plinio

Revista mensal de cultura católica, de

propriedade da Editora Retornarei Ltda.

ISSN - 2595-1599

CNPJ - 02.389.379/0001-07

INSC. - 115.227.674.110

Diretor:

Roberto Kasuo Takayanagi

Conselho Consultivo:

Jorge Eduardo G. Koury

Roberto Kasuo Takayanagi

Vicente de Paula Torres Nunes

Redação e Administração:

Rua Virgílio Rodrigues, 66 - sala 1 - Tremembé

02372-020 São Paulo - SP

Impressão e acabamento:

Pigma Gráfica e Editora Ltda.

Av. Henry Ford, 2320

São Paulo – SP, CEP: 03109-001

Segunda página

2 O mais precioso legado

Editorial

4 Hífen entre o passado

e o futuro

Piedade luciliana

5 Oração de uma esposa e mãe à

Santíssima Virgem

Dona Lucilia

6 Da pia batismal aos

primeiros anos de casamento

15 Extremosa mãe e

exímia educadora

30 Profunda união entre mãe e filho,

para além dos umbrais da eternidade

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assinatura anual

Comum............ R$ 300,00

Colaborador ........ R$ 400,00

Benfeitor........... R$ 500,00

Grande benfeitor.... R$ 800,00

Exemplar avulso..... R$ 25,00

Serviço de Atendimento

ao Assinante

revistadrplinioassinatura@gmail.com

44 Maternal intimidade com os

filhos até na eternidade

50 A missão de Dona Lucilia

continua…

53 Perpetuando um timbre de voz

Última página

56 “Mamãe também é assim”

3


Editorial

Hífen entre o passado e o futuro

Neste mês de abril, comemora-se o 150 o aniversário natalício de Dona Lucilia. Celebrando data tão significativa,

a presente edição traz uma seleção dos melhores comentários de Dr. Plinio a respeito de sua boníssima

mãe publicados nesta revista, 1 ao mesmo tempo que encerra com fecho de ouro a seção “Dona

Lucilia”.

Se sobre sua extremosa mãe todas as considerações de Dr. Plinio já foram dadas a conhecer, finda-se um capítulo,

não, porém, a ação de Dona Lucilia; esta continua hoje, no futuro e pela eternidade adentro.

Comentava certa vez Dr. Plinio: “Ela era verdadeiramente uma senhora católica... […] Eu estudei sua bela alma

com uma atenção contínua e era por isso mesmo que eu gostava dela. A tal ponto que, se ela não fosse minha

mãe, mas a mãe de um outro, eu gostaria dela da mesma maneira, e daria um jeito de ir morar junto a ela”. 2

“Eu via nela um reflexo daquilo que eu contemplava nas imagens do Sagrado Coração de Jesus, daquilo que

eu tinha aprendido na História Sagrada, no Catecismo, nas vidas dos Santos e naquilo que cercava a minha vida

religiosa. O fundo do meu amor a ela era esse.

“É evidente que o fato de ser minha mãe colaborava, mas muito secundariamente. O fato fundamental é que

eu a amava mais como filha da Igreja do que como minha mãe”. 3

“Ela foi um eco fidelíssimo, embora subconsciente, da Idade Média e enquanto o mundo inteiro ia decaindo e

abandonando o espírito dessa gloriosa era de fé, ela gerou um filho entusiasta da Cristandade medieval. Ela é o

hífen, a ponte entre tudo o que houve outrora e o futuro. Ela representava o último pranto do passado, chorando

por morrer. E o filho dela, Nossa Senhora destinou para fundar uma família de almas que seria o raiar da Idade

Média ressurrecta no Reino de Maria.

“A palavra hífen diz pouco: ela é a última semente de uma árvore esplendorosa que morre, mas da qual vai nascer

outra árvore ainda maior. Uma semente modesta, pequena, ignorada, sem deixar atrás de si outro rastro a

não ser o de ligar o passado ao futuro. E esse é o grande papel histórico dela, a grande missão; e talvez, sem ela

saber, deu nascimento à Contra-Revolução”. 4

Tudo quanto podemos admirar na pessoa de Dr. Plinio, em seus ensinamentos e em suas virtudes, devemos a

Dona Lucilia. Sem a fidelidade dela, não só a vocação de Dr. Plinio ficaria truncada, como também a de todos os

que Nossa Senhora chamou para segui-lo e que constituem a imensa falange de seus filhos espirituais e, a seu modo,

também dela, como afirmou Dr. Plinio em certa ocasião:

“Ela possui uma afetividade enorme. Ela tem um como que amor transbordante não só para com os dois filhos

que teve, como também para com os filhos que ela não teve. Dir-se-ia feita para ter milhares de filhos e que seu coração

palpita do desejo de conhecê-los. Entretanto, esses filhos não vieram nem poderiam vir nesse número exorbitante.

O que quis a Providência com isso? Eu só tive a resposta para tal indagação – e que resposta magnífica! –

quando comecei a ver que, em torno da sepultura do Cemitério da Consolação, os filhos começavam a florescer”. 5

Por isso, neste sesquicentenário, para dirigirmos a Dona Lucilia o nosso mais entranhado preito de gratidão,

fazemos nossas as palavras de seu querido “filhão”: “Mãezinha, muito obrigado! Amém, amém, amém!” 6

1) Números utilizados na presente edição: 90, 91, 92, 93, 94, 96, 103, 105, 109, 119, 122, 128, 141, 145, 165, 167, 175, 178,

187, 189, 192, 195, 203, 205, 206, 207, 216, 217, 227, 240, 259, 261, 289, 291, 303, 307, 316, 326.

2) CLÁ DIAS, João Scognamiglio. Dona Lucilia. Città del Vaticano-São Paulo: Libreria Editrice Vaticana; Lumen Sapientiæ,

2013, p.39.

3) Conferência de 22/4/1993.

4) Conferência, 30/10/1977.

5) Santo do Dia, 22/4/1993.

6) Idem.

Declaração: Conformando-nos com os decretos do Sumo Pontífice Urbano VIII, de 13 de março de 1625 e

de 5 de junho de 1631, declaramos não querer antecipar o juízo da Santa Igreja no emprego de palavras ou

na apreciação dos fatos edificantes publicados nesta revista. Em nossa intenção, os títulos elogiosos não têm

outro sentido senão o ordinário, e em tudo nos submetemos, com filial amor, às decisões da Santa Igreja.

4


Piedade luciliana

Oração de

uma esposa

Arquivo Revista

e mãe à

Santíssima

Dona Lucilia

em 1959

Virgem

Oh! Maria, Virgem Puríssima e sem mácula, Casta Esposa de São José, Mãe

terníssima de Jesus, perfeito modelo das esposas e das mães, cheia de respeito

e de confiança, a vós recorro e com os sentimentos da veneração, a

mais profunda, me prostro a vossos pés, e imploro o vosso socorro. Vêde, oh Puríssima

Maria, vêde as minhas necessidades, e as da minha família, atendei aos desejos

do meu coração, pois é ao vosso tão terno e tão bom, que os entrego.

Espero que, pela vossa intercessão, alcançarei de Jesus a graça de cumprir, como

devo, as obrigações de esposa e de mãe. Alcançai-me o santo temor de Deus, o

amor do trabalho e das boas obras, das coisas santas e da oração, a doçura, a paciência,

a sabedoria, enfim todas as virtudes que o Apóstolo recomenda às mulheres

cristãs, e que fazem a felicidade e ornamento das famílias.

Ensinai-me a honrar meu marido, como vós honrastes a São José, e como a Igreja

honra a Jesus Cristo; que ele ache em mim a esposa segundo o seu coração; que a

união santa, que contraímos sobre a terra, subsista eternamente no Céu. Protegei meu

marido, dirigi-o no caminho do bem e da justiça; pois tão cara como a minha me é a

sua felicidade. Encomendo também ao vosso materno coração os meus pobres filhos.

Sêde a sua Mãe, inclinai o seu coração à piedade; não permitais que se afastem do caminho

da virtude, tornai-os felizes, e fazei com que depois da nossa morte se lembrem

de seu pai e de sua mãe e roguem a Deus por eles; honrando a sua memória com as

suas virtudes. Terna Mãe, tornai-os piedosos, caritativos e sempre bons cristãos; para

que a sua vida, cheia de boas obras, seja coroada por uma santa morte. Fazei, oh Maria,

com que um dia nos achemos reunidos no Céu, e ali possamos contemplar a vossa

glória, celebrar os vossos benefícios, gozar de vosso amor e louvar eternamente o vosso

amado Filho, Jesus Cristo, Senhor nosso. Amém.

(Oração que Dona Lucilia habituou-se a rezar)

5


Dona Lucilia

Fotos: Arquivo Revista

Da pia batismal aos

primeiros anos de casamento

Das recordações da

infância de Dona

Lucilia, algumas

chegaram até nós

descritas por ela

mesma a seus

filhos. Outras,

porém, vieram

ao conhecimento

muitos anos após

seu falecimento,

graças ao filial zelo

do fiel discípulo

de Dr. Plinio, Sr.

João Clá, que as

consignou em sua

obra Dona Lucilia, da

qual transcrevemos

alguns excertos.

Aos vinte e nove dias do mez de junho de mil

oitocentos e setenta e seis, nesta matriz, baptizei

e puz os santos oleos a Lucilia, nascida a vinte

e dois de Abril ultimo, filha legitima do doutor

Antonio Ribeiro dos Sanctos e de dona Gabriela

dos Sanctos Ribeiro: foram padrinhos, a

Virgem Senhora da Penha e doutor Olympio

Pinheiro de Lemos, todos desta Parochia.

O Vigario: Angelo Alves d’Assumpção.

Nascida a 22 de abril de

1876, primeiro sábado

após as alegrias da

Páscoa, Lucilia era a segunda dos

cinco filhos de um casal de primos,

Dr. Antônio Ribeiro dos Santos

e Dona Gabriela Rodrigues dos

Santos.

Descendentes de antigas estirpes

da aristocracia paulista, Dona

Gabriela e Dr. Antônio contavam

entre seus ancestrais gloriosos nomes

de bandeirantes.

Infância passada

na pequena cidade

de Pirassununga

Foi em 1873 que Dr. Antônio se

estabeleceu com a família em Pirassununga,

a fim de ali exercer a advocacia.

Nomeado promotor da co-

6


marca de Belém do Descalvado, que

então incluía Pirassununga, habilitou-se

depois ao cargo de juiz de direito,

mas preferiu não seguir carreira,

talvez por questões de política local.

Outro motivo que o atraiu àquela

região foram as terras que Dona Gabriela,

sua esposa, herdara do pai, situadas

em Rio Claro, São Paulo.

Naquele meio agreste e monótono

do interior, o nobre e jovem casal

Ribeiro dos Santos estabeleceu-se

com coragem, decidido a prosperar.

Décadas mais tarde, ao contar as

recordações de infância, Dona Lucilia

ainda deixará transparecer a impressão

que lhe causava o grande contraste

entre a atmosfera da sociedade paulista

e aquele ambiente tão primitivo e

campestre, que ia disputando espaço à

mata tropical, quase tão inculta como

no período em que o Padre Anchieta

percorria as vastidões do Brasil.

As casas, por exemplo, eram desprovidas

de assoalho, sendo o chão

simplesmente de terra batida. Mesmo

as residências das notabilidades

locais não escapavam à regra. A primeira

moradia a ter vidraças nas janelas

foi a dos Ribeiro dos Santos,

considerada, por isso mesmo, de luxo,

já que as outras possuíam apenas

folhas de pau.

Havia um aspecto da pacata Pirassununga

que agradava deveras à

Casal Ribeiro dos Santos,

pais de Dona Lucilia

jovem Lucilia: era precisamente a

calma. Ela nunca tomou gosto pela

agitação da vida moderna, e várias

vezes se referia de forma comprazida

à tranquilidade do interior. Elogiava

a regularidade da vida, bem

como a dignidade das pessoas dentro

do sossego, ao comentar fatos locais

que revelavam a íntima consonância

de sua ordenada alma com a

natural serenidade da atmosfera que

a rodeava.

Cronologia de

algumas das datas

mais significativas

na vida de

Dona Lucilia

1876

22 de abril – Nascimento

de Lucilia Ribeiro dos

Santos na cidade de

Pirassununga, São Paulo.

29 de junho – Batismo

de Lucilia, na Igreja

Matriz de Pirassununga.

1893

Dr. Antônio Ribeiro dos

Santos, pai de Lucilia,

retorna com a família para

São Paulo. Primeiramente

instalaram residência no centro

da cidade e, pouco depois,

em dezembro deste mesmo

ano, em um espaçoso sobrado

perto da Estação da Luz, na

Rua Bom Retiro, n. 88.

1896

Na tranquila Pirassununga de outrora, a residência de Dona Lucilia

Dr. Antônio Ribeiro dos

Santos translada-se com

a família para uma bela

e espaçosa residência na

Alameda Barão de Limeira.

7


Dona Lucilia

Mas, ela sentia também, e muito,

o peso da monotonia daquelas longínquas

paragens. Referia-se ao vazio

da cidadezinha, especialmente

em alguns intermináveis domingos,

durante os quais até os ruídos da vida

quotidiana cessavam, pelo fato de

ninguém sair de casa. Quando um

cachorro ladrava, o som do seu latido

percorria os espaços vazios sem

encontrar nenhum anteparo, nenhum

obstáculo. Toda a cidade, de

um extremo ao outro, ficava “transparente”

a qualquer som e apenas

pulsava de vida vegetativa, como se

nada mais ali houvesse...

Propício meio para

desenvolver as qualidades

de uma alma admirativa

O sossego da pequena Pirassununga

muito ajudava a jovem Lucilia

a observar com atenção e a enlevar-se

pelos mais velhos. Sua capacidade

de admirar os predicados

alheios tinha origem na virginalidade

de alma, que ela soube manter intacta.

Com efeito, Dona Lucilia sempre

se conservará fiel, até seus últimos

dias, àquele notável senso admirativo,

àquele modo primevo e rico

de considerar os fatos e as criaturas

com que a inocência envolve a infância

de todos os cristãos.

Quando ainda jovem, ao contemplar

as qualidades de alma dos que

compunham seu ambiente, com instintiva

naturalidade as mitificava tanto,

que chegava a afastar suas sempre

bem-intencionadas vistas de tudo

o que neles pudesse não ser virtude.

Os senões que encontrava na conduta

das pessoas, reputava-os exceção.

Esse modo de considerar a realidade,

pelo qual a todos situava numa

clave de seriedade, distinção e

grandeza, estava muito presente em

todas as narrações dela, procurando

transmitir uma ideia arquetipizada

da vida e do convívio entre os homens.

Evidentemente, foi assim que o

sereno olhar de Lucilia se voltou para

seus pais, verdadeiras e luminosas

imagens de Deus, naquele seu primeiro

despertar para a vida.

Convento da Luz

Visitas à Capital

Embora Pirassununga tivesse experimentado

um crescimento realmente

digno de nota e já se pudesse

encontrar, nas numerosas casas

de comércio, todo o necessário para

a vida diária, os Ribeiro dos Santos

se habituaram a visitar a Capital, não

só para rever os parentes, mas também

para comprar objetos finos e

importados. Era encantador o modo

como Dona Lucilia, mesmo na extrema

ancianidade, narrava com luminosa

memória os múltiplos detalhes

das viagens da família a São Paulo:

“Mamãe planejava com muito cuidado

cada ida à capital da província.

Tudo era muito bem feito. Havia

umas canastras de vime, fechadas,

nas quais eram colocados os alimentos

especialmente preparados para o

percurso”.

O caminho para a estação, as despedidas,

os vagões muito bem-arrumados,

o pitoresco trajeto e, finalmente,

a chegada à Capital, tudo nos

lábios de Dona Lucilia se tornava como

que feérico e legendário. Tudo

narrava de modo tão leve e cativante,

que o ouvinte se sentia viajando

com ela. Era impossível à imagina-

8

Lucilia ainda menina


ção se recusar a compor as cenas tão

maravilhosamente descritas.

Em São Paulo, Dona Gabriela

nunca deixava de visitar o Convento

da Luz, levando a filha pequena.

As freiras abriam um pouco a cortina

do locutório para ver a menina,

conversar com ela e dar-lhe doces e

outros presentes. Lucilia ficava muito

agradecida e, assim como aconteceu

com sua mãe, teceram-se entre

ela e o convento liames de afeição

que perdurariam por toda a vida.

Também marcaram suas idas a

São Paulo as visitas que fazia à casa

de um parente, o Dr. Clemente

Falcão, no Vale do Anhangabaú. Para

quem conhece esse lugar tal como

é hoje – todo de concreto e asfalto,

perfurado por túneis, atravessado

por viadutos, coalhado de edifícios,

imerso em poluição, ruídos, correria,

multidões – talvez não seja fácil

conceber que, há pouco mais de cem

anos, ele guardava ainda ares bucólicos.

No meio do vale, por entre a

verdejante vegetação, serpeava um

piscoso riacho, que acolhia em suas

margens grupos de lavadeiras. Para

Lucilia, porém, o entretenimento

predileto era o de pescar lambaris,

diversão a que podia se entregar

quando das visitas ao mencionado

parente, cuja vistosa residência ficava

junto a uma das extremidades do

viaduto do Chá. Não era esta, entretanto,

sua única distração ao ar livre.

Os passeios da família, em elegantes

e confortáveis carruagens conversíveis,

do tipo landau, com a capota

abaixada nos dias de tempo

bom, levavam-na também a distantes

recantos da “São Paulinho”, frequentados

por pessoas da sociedade,

curiosas em verificar o crescimento

da Capital. Lucilia nunca se esquecerá,

por exemplo, das idas às obras do

Museu do Ipiranga, que lhe deram

ocasião de brincar, muito mocinha

ainda, junto aos alicerces da famosa

e monumental construção.

Recordações de sua

tenra infância

Um fato que marcou sua infância

ocorreu em 1878, quando, viajando

pela Província de São Paulo, Dom

Pedro II visitou a família Ribeiro dos

Santos em Pirassununga.

Durante o encontro na casa de

Dr. Antônio, Dom Pedro II – figura

de aspecto patriarcal – trouxe a pequena

Lucilia para junto de si e, dis-

1902

3 de setembro – Falecimento

de Da. Georgina Ribeiro

de Andrade, prima de

Lucilia. Estando na fazenda

de seu avô, em São João

da Boa Vista, Lucilia é

avisada em sonho de que

sua prima encontra-se mal

à morte. Pouco depois de

ter comentado o fato com

Dr. Antônio, este recebe

um telegrama confirmando

a autenticidade do aviso.

1903

27 de julho – Dr. Antônio

Ribeiro dos Santos,

esposa e filhas comparecem

a uma festa oferecida por

Antônio Penteado.

1904

Museu do Ipiranga

19 de abril – Lucilia envia

prendas para a Quermesse na

Santa Casa: uma cobertura

para teclado de piano,

trabalhada por ela mesma.

Participa ativamente como

vendedora da “Barraca

B”, com ornamentações

de crisântemos, onde eram

distribuídos bombons.

9


Dona Lucilia

traidamente, enquanto conversava,

passava a mão entre seus cabelos,

desfazendo-lhe um a um os frisados

cachos. Percebendo desmanchar-

-se aos poucos o esmerado penteado,

Lucilia deu mostras de

querer protestar, mas encontrou

– severo e fixo – o olhar

de seu pai, a lhe insinuar que

nada deveria dizer...

Seria um erro imaginar que

a admiração da jovem Lucilia

pelos lados enérgicos do pai,

inclusive quando aplicados à

sua própria educação, fosse

menor do que a tributada por

ela às outras qualidades. Assim,

narrará, até avançada idade, o

que se passou após ganhar do pai

o belo presente de um cordeirinho.

Lavou-o, secou-o e o adornou com

lindos laços de fita. Tratou-o com todo

o carinho, até o dia em que um respeitoso

escravo lhe confidencia:

— Sinhá pequena, eu queria dizer

uma coisa para a Sinhá ficar preparada.

Sinhô – o pai dela – vai mandar

matar o cordeirinho amanhã. Eu só

queria avisar.

Ela então diz:

— Não é possível! Você está mentindo,

papai não faria uma barbaridade

dessas!

Sorrindo, ele responde:

Dr. Antônio Ribeiro dos Santos

Dom Pedro II

— Sinhá pequena, é assim que vai

ser.

Sem perder um minuto, ela vai

correndo ao escritório do pai e lhe

diz, banhada em lágrimas:

— Papai!... Então papai vai matar

o cordeirinho? O senhor deu mesmo

essa ordem? Será possível?

— Minha filha, é verdade.

— Mas, como? Ele é tão bonzinho,

tão bonitinho, eu quero tão

bem a ele...

— Lucilia, deixe de ser ingênua.

É preciso enfrentar as coisas como

elas são. Isto será bom para que você

perca esse sentimentalismo. Sentimento,

sim; sentimentalismo, não!

Foi irredutível.

No dia seguinte, lá foi o cordeirinho

fazer parte do cardápio. Dona Lucilia

sempre mencionará o fato como prova

da bondade do pai, que usou um remédio

duro, vencendo o próprio afeto

paterno, a fim de curar a tendência para

o sentimentalismo de uma menina

daqueles tempos românticos.

Revestida da capa de

um cigano-chefe

Após esse passeio à fazenda, retornemos

com a pequena Lucilia

a Pirassununga.

Como se sabe, outrora era

muito difundida uma concepção

lendária acerca dos ciganos.

Estes percorriam as cidades

e o campo, às vezes

acompanhando algum espetáculo

circense, em geral

vistos com certa desconfiança

por terem seus costumes e

regras peculiares.

Menina ainda, quando os

ciganos passavam por Pirassununga,

Lucilia observava à

distância os movimentos deles,

através do buraco de uma fechadura.

Aconteceu, porém, que, devido

à prestação de serviços advocatícios

de Dr. Antônio a um chefe de ciganos,

este se tornou seu amigo e cabo

eleitoral, passando a frequentar o

escritório do pai de Lucilia, contíguo

à residência da família.

Num dia de eleições, em que a casa

e o escritório de Dr. Antônio formigavam

de amigos políticos, Lucilia

encontrou sobre o canapé da entrada

a capa do referido chefe. Era

uma espécie de poncho forrado com

tecido vermelho, que lhe pareceu

muito elegante. Atraída pelo manto,

analisou-o, acariciou-o e acabou por

vesti-lo, dando uns passeios pelo interior

da residência. Qual não foi o

espanto de sua mãe, Dona Gabriela,

ao vê-la revestida daquele traje:

sem demora o retirou dos ombros da

10


1905

4 de março – Lucilia

participa do segundo baile

no Clube Concórdia.

25 de março – Inauguração

do Palacete do Conde

Álvares Penteado.

Nessa ocasião teve lugar

o famoso “Baile Branco”,

ao qual Lucilia e seus

familiares compareceram.

Fazenda Santo Antônio das Palmeiras

tal como era na época de Dona Lucilia

filha, aconselhando-lhe nunca mais

tocar nos objetos dos visitantes...

Este pequeno mas quão pitoresco

episódio é ilustrativo do ambiente de

domésticas aventuras que marcaram

a vida provinciana e povoavam a infância

de Lucilia.

Mudança para a

capital paulista

Em 1893 – quatro lustros depois

de se ter fixado em Pirassununga –

terminava definitivamente a permanência

dos Ribeiro dos Santos nessa

cidade. Na ocasião, os filhos do casal

contavam respectivamente: Gabriel,

20 anos; Lucilia, 17; Antônio (Toni),

15; Eponina (Yayá), 11; e Brazilina

(Zili), 4. Dr. Antônio retornou com

a família para São Paulo, conservando

gratas recordações daqueles anos

que, para eles, foram heroicos.

Lucilia pôde rever diversas vezes

a Pirassununga de seus tempos

de menina, pois não era raro passar

férias na fazenda de um amigo

de seus pais, localizada em Santa Rita

do Passa Quatro, então distrito de

sua terra natal. Em 1892, Dr. Antônio

vendera a fazenda Santo Antônio

das Palmeiras para, três anos depois,

comprar outra, em São João da

Boa Vista: a Jaguary.

Algum tempo após ter-se mudado

para a capital, a família se instalou

em belo palacete no aristocrático

bairro dos Campos Elíseos, que começava

a viver seus esplendores, característicos

da Belle Époque.

Em conformidade com a

vontade de Deus, abraça

um novo estado de vida

No entardecer de certo dia, Dr.

Antônio, com sua característica paternalidade,

abordou a filha para tratar

do delicado tema do matrimônio.

Ponderou-lhe que os anos iam passando

e ela corria o risco de transformar-se

em tia solteirona, em torno

da qual os sobrinhos faziam festa.

Claro estava que Dr. Antônio, como

bom pai, não quereria forçar uma

decisão de Lucilia pelo casamento.

Nessa mesma ocasião, contou à filha

que certo amigo, Dr. João Procópio

de Carvalho, apresentara-lhe um jovem

advogado, Dr. João Paulo Corrêa

de Oliveira, descendente de ilustre

família de Pernambuco, muito fi-

1906

14 de julho – Primeira

Comunhão de Lucilia na

capela do Mosteiro da

Luz, em São Paulo.

15 de julho – Matrimônio

de Dona Lucilia Ribeiro

dos Santos com Dr.

João Paulo Corrêa de

Oliveira na capela do

Seminário Episcopal,

em São Paulo. O casal

estabelece residência à Rua

Martim Francisco, 20.

1º de agosto – Dona

Lucilia parte do Rio de

Janeiro rumo a Recife,

em viagem de lua de mel.

20 de setembro –

Dona Lucilia regressa

a São Paulo.

11


Dona Lucilia

no e inteligente. Considerava-o, por

tais motivos, o esposo mais conveniente,

ressalvando, entretanto, caber

a última palavra somente a ela.

Com a fisionomia sempre meiga

e afetuosa, Dona Lucilia em nada se

alterou diante da sugestão paterna.

Era uma nova manifestação daquela

temperança estável que já ia atingindo

seu pleno florescer. Se a vontade

da Providência assim se insinuava,

por que não se alegrar? Seu futuro

esposo deveria ser bom, dado haver

sido recomendado por Dr. Antônio.

O que mais faltava para seu assentimento?

No entanto, sempre comedida

e prudente, pediu a seu pai algum

tempo para pensar e, após muito

rezar e refletir, aceitou a proposta

de que lhe fosse apresentado

o digno e simpático

bacharel, de quem se tornou

noiva.

Quinze de julho de

1906! Data marcante

na crônica social

da cidade, em razão

de brilhante acontecimento

do qual nos

dá notícia o “Correio

Paulistano”, do dia

seguinte: “Realizou-

-se ontem, nesta capital,

o casamento da

exma. senhorita Lucilia

Ribeiro dos Santos,

filha estremecida do

Sr. Dr. Antônio Ribeiro

dos Santos, com o distinto advogado

Dr. João Paulo Corrêa de Oliveira.

(...) A cerimônia religiosa esteve concorridíssima,

sendo celebrada às oito

e meia da noite, na capela do Seminário

Episcopal. Pronunciou por esta

ocasião uma bela oração de bênção e

bons augúrios ao novo par, o Revmo.

Arcediago Dr. Francisco de Paula Rodrigues,

governador do bispado. (...)”

A casa de residência do Sr. Dr. Ribeiro

dos Santos estava lindamente

ornamentada. Os salões, de onde jorrava

fartíssima iluminação, achavam-

Dr. João Paulo Corrêa de Oliveira

-se artisticamente enfeitados de variadíssimas

flores das espécies mais

delicadas e raras, enfaixadas em lindos

tufos ou feitas em grinaldas que

se espalhavam por todos os lados.

A afluência à igreja de numerosos

convidados, pertencentes à mais alta

sociedade, despertou extrema curiosidade

entre o povinho que passava

defronte, atraindo uma pequena e

ruidosa multidão.

Contudo, nada encantou tanto

aquela gente como o extenso cortejo

Dona Lucilia com um de seus vestidos de certimônia. Acima,

Seminário Episcopal e Igreja de São Cristóvão, em 1905

12


Capela do Convento da Luz.

Em destaque, lembrança da Primeira

Comunhão de Dona Lucilia

de carruagens e automóveis que se

dirigiu à residência dos Ribeiro dos

Santos, logo após a cerimônia. Chamava

especial atenção o automóvel

dos noivos que, finamente ornado e

estofado de seda, abria o séquito.

Desejado encontro com

Jesus Sacramentado

Até o pontificado de São Pio X,

no início do século XX, a graça da

Primeira Comunhão ainda não se

estendera a crianças e adolescentes.

Não foi este, todavia, o único motivo

que manteve Lucilia longe desse Sacramento

até a proximidade de seu

matrimônio. Naquela época, a população

brasileira, embora fosse maciçamente

católica, assistisse às Missas

dominicais e participasse de todos os

eventos religiosos, não tinha o costume

de frequentar de maneira assídua

os Sacramentos.

Concorria para tal atitude contraditória

uma assanhada propaganda

anticlerical, e não poucos chefes

de família – como, por exemplo, Dr.

Antônio – achavam por bem manter

suas filhas e esposas afastadas dos

confessionários e, consequentemente,

da Comunhão.

Ora, para uma alma ardorosamente

devota do Sagrado Coração

de Jesus, a Comunhão constituiria o

ápice normal do trato íntimo com o

Divino Salvador. Daí significar não

pequena provação para a jovem Lucilia

o viver tanto tempo à espera

desse Sacramento. E, apesar da nunca

desmentida admiração que nutria

pelo pai, não conseguia esconder sua

mansa incompreensão diante da irredutível

atitude dele. Sem resultado,

porém. O matrimônio propiciar-

-lhe-ia afinal a oportunidade de rea-

1907

6 de julho – Nascimento de

Rosenda Corrêa de Oliveira,

filha de Dona Lucilia, na

cidade de São Paulo.

1908

13 de dezembro – Nascimento

de Plinio Corrêa de Oliveira,

na cidade de São Paulo.

1909

7 de junho – Batismo de

Plinio, na Igreja de Santa

Cecília, em São Paulo.

12 de novembro –

Falecimento de Dr. Antônio

Ribeiro dos Santos. Pouco

tempo depois, Dona Lucilia,

com seu esposo e filhos,

mudam-se para o palacete

Ribeiro dos Santos.

1910

2 de outubro – Dona Lucilia

é admitida na Irmandade

do Santíssimo Sacramento,

da Catedral de São Paulo.

1911

12 de setembro – Dona

Lucilia e Dr. João Paulo

comparecem à cerimônia

de inauguração do Teatro

Municipal de São Paulo.

13


Dona Lucilia

lizar o desejo, há tanto tempo acalentado,

de receber Nosso Senhor na

Sagrada Eucaristia. Nas vésperas do

casamento, Dr. Antônio procurou o

futuro genro e lhe disse:

— Dr. João Paulo, até agora não

permiti que Lucilia se confessasse e,

portanto, também que comungasse,

embora ela o quisesse deveras. Como

a situação nos meios eclesiásticos

se inclina para melhorar, sou

tendente a permiti-lo. Mas, de fato,

quem vai resolver o caso é o senhor.

Se quiser, ela se confessará e comungará

agora para o casamento.

Dr. João Paulo olhou para sua

noiva a fim de que ela manifestasse

seus anseios. Com a amenidade

de sempre, ela lhe disse que gostaria

Dona Lucilia com seu filho Plinio ao colo

muito de comungar regularmente, o

que, a partir de então, ficou combinado

entre os dois, e na véspera do

desponsório pôde confessar-se e fazer

a Primeira Comunhão, na sua

bem-amada capela do Convento da

Luz, adquirindo assim mais fortaleza

de alma para enfrentar as incertezas

de um novo estado de vida.

Um casamento vivido sob a

proteção de Nossa Senhora

Com saliente candura e limpidez

de olhar, encarava Dona Lucilia o estado

matrimonial e, ao mesmo tempo,

com elevação de espírito, colocava-se

sob o amparo e proteção da Santíssima

Virgem para o perfeito cumprimento

de seus deveres

de esposa e mãe. Pequeno

testemunho de suas

sublimes disposições nos

dá a oração por ela copiada

de próprio punho numa

época não muito posterior

ao casamento. Habituou-se

a rezá-la de memória,

mantendo o texto

escrito guardado em uma

gaveta. 1

De volta a São Paulo

após a viagem de lua de

mel, Dona Lucilia e seu

esposo fixaram residência

numa casa quase contígua

ao palacete Ribeiro

dos Santos. O casal foi

premiado por Deus com

dois filhos: em 1907 (6 de

julho) uma menina, que

recebeu o nome de Rosenda,

em memória da

falecida mãe de Dr. João

Paulo, à qual ele queria

bastante bem; e, em

1908 (13 de dezembro),

um menino, Plinio, assim

chamado de muito bom

grado por Dona Lucilia,

para atender à sugestão

de Dona Gabriela, que

sempre desejara ter alguém entre os

seus com este nome.

Um ato heroico prova a

virtude de Dona Lucilia

A bondade de que transbordava

o coração de Dona Lucilia iria doravante

derramar-se sem reservas sobre

os filhos. Sua maternidade faria desabrochar

um de seus mais sublimes

aspectos de alma ao ter de enfrentar

com heroísmo uma difícil situação.

Ao examiná-la, o médico constatara

que o parto seria arriscado.

Muito provavelmente, ela ou o nascituro

morreria. Assim, perguntou-

-lhe se não preferiria abortar, a fim

de salvar a própria vida.

Ante essa absurda inquirição, Dona

Lucilia, desagradada, respondeu:

— Doutor, esta não é uma pergunta

que se faça a uma mãe! O senhor

não deveria sequer tê-la cogitado.

Foi desse modo que, pouco tempo

antes de dar à luz seu filho varão, quis

a Providência pedir àquela extremosa

e resoluta mãe católica um excelente

ato de virtude. Assim, antes mesmo

do nascimento de Plinio, a maternalidade

de Dona Lucilia se exercia, em

relação a ele, com todo seu desvelo.

O menino nasceu num domingo

de manhã, enquanto Dona Lucilia

ouvia tocar os sinos da igreja de Santa

Cecília, chamando para a Santa

Missa. O recém-nascido era tão franzino,

que o berço, caprichosamente

preparado pela mãe, ficou grande

demais para ele. Contam pessoas da

família que ela, conversando um dia

com seu pai, manifestou aflição pelo

fato de Plinio não aparentar muita

saúde. Dr. Antônio tomou-o nos

braços, procurou a claridade junto à

janela e, olhando bem o neto, tranquilizou-a

com estas palavras:

— Este menino viverá muitos

anos!

v

1) Oração transcrita na página 5 desta

edição.

14


Fotos: Arquivo Revista

Dona Lucilia

Extremosa mãe e

exímia educadora

Princípios claros, bondade extrema,

afabilidade e cumprimento do dever,

eis alguns traços da formação dada

por Dona Lucilia aos filhos.

As primeiras recordações

que eu tenho de minha

mãe, em pequeno, são das

carícias que ela me fazia. É próprio a

uma criança gostar de ser acariciada,

sobretudo pela mãe.

Dona Lucilia possuía, como ninguém,

o conhecimento de o por onde

eu me sentiria melhor acariciado

e, portanto, como fazer para agradar-me

plenamente, incutindo em

mim um gosto muito grande pelas

carícias.

Eu sentia, com profunda comoção,

esse mundo de comprazimento

por parte de mamãe. Ora, quando

nos encontramos diante do afeto,

a forma do entusiasmo que se tem

chama-se emoção. Portanto, ficava

profundamente emocionado.

Mas, de outro lado, encantava-

-me com aquela ordenação que correspondia

ao que eu tanto apreciava,

ou seja, que ela me quisesse bem,

não apenas com um amor quase meramente

instintivo, por ser seu filho,

mas antes de tudo, porque eu amava

a Deus.

Preparando o Jacó que

lutaria contra o Esaú

Nela havia duas qualidades que

pareciam antitéticas, mas que se

completavam muito bem. Ela era

muitíssimo carinhosa enquanto notava

em mim, ou numa outra criança,

a debilidade da infância. Seu entranhado

carinho se debruçava para

amparar a criança na sua fragilidade.

1912

20 de janeiro – Baile

infantil no Clube

Internacional: Rosée e

Plinio participam vestidos

de ceifadores de trigo.

18 de maio – Tem início

a demolição da antiga Sé

de São Paulo, à qual

Dona Lucilia era muito

afeita. Em companhia

de outras senhoras

da família, ela esteve

presente à última Missa

celebrada no edifício.

10 de junho – O navio

Hohenstaufen, no qual

viajam Dona Lucilia e seus

familiares, parte do Rio

de Janeiro às 16h, rumo a

Hamburgo, Alemanha,

com escalas previstas

em Salvador, Ilha da

Madeira e Lisboa.

Julho – Dona Lucilia

é operada da vesícula

na Policlínica da

Real Universidade de

Frederico Guilherme, em

Berlim, Alemanha.

Julho - agosto – Viagem

por várias regiões da

Alemanha, passagem

pelo Reno até Colônia.

15


Dona Lucilia

Plinio com 2 anos

Quando menino, eu sentia muito

que minha debilidade de criança era

uma razão especial para ela me querer

bem. E não posso dizer quantas

vezes eu a vi sorrir a essa debilidade

e como ela a manuseava amavelmente,

afavelmente, delicadamente,

ora brincando, gracejando um

tanto, ora explicando um pouco

o mundo dos mais velhos, na

medida em que uma criança

pudesse compreender.

E eu me sentia “ultra”

à vontade com a tradução

que ela fazia do mundo

dos mais velhos para os

mais novos. Eu também

sentia muito isso nos cuidados

dela para conosco.

Mais especialmente, prestava

atenção no modo de ela

cuidar de mim, é natural. Quer

dizer, cuidados com a saúde, com

o corpo, com as maneiras – não fazer

brincadeiras abrutalhadas –, cuidado

com tudo. Um cuidado meticuloso

e afetuoso, tudo bem direito,

arranjado, como deveria ser, mas

de uma observação benevolente e

disposta a sorrir a qualquer pequeno

defeito, desde que não houvesse

a insistência nele. A persistência no

defeito ela não tolerava.

Por outro lado, sentia muito nela

uma espécie de guindaste: ela me

suspendia. Era dotada de uma fortaleza

de alma, por onde a força da

convicção dela fortalecia minhas

convicções. A retidão de sua conduta

dava-me retidão na minha. A repulsa

que ela fazia do mal, do erro

e do feio, fazia-me repudiá-los também.

Eu era um menino muito mole –

aliás, pode-se perceber isso pelas fotografias

–, e ela me animava enormemente.

Para usar uma figura da

Sagrada Escritura: de um lado, ela

apoiava em mim o Jacó, no que este

tinha de delicado em comparação

com Esaú; de outro lado, ela preparava

em mim o Jacó que lutaria contra

Esaú. Nesse sentido também,

fez-me um bem colossal!

Atitude ao ser acordada

durante um sono profundo

Lembro-me ainda de como era o

carinho de mamãe em minha mais

tenra infância, quando eu acordava

durante a noite com insônia. Eu percebia

que ela estava desvairada de

sono.

Eu me sentava sobre seu peito e

abria seus olhos com as mãos – aí minha

truculência já se anunciava... Ela

abria os olhos, olhava-me com afeto

e dizia-me: “Meu filho!”

Ela sentava-se na cama, trazia-me

para junto de si, tirava seu travesseiro,

punha-me sentado nele – eu era

uma criança de dois, três anos – e começava

a brincar comigo.

Naquele tempo eu pensava:

“Querer bem é isso e com ela eu me

arranjo!” Não era um pensamento

utilitário; a ideia era: “Eu preciso

querê-la assim e já a estou querendo”.

Ela me salvara daquele naufrágio,

o qual consistia em estar acordado

sozinho, num quarto escuro, onde

apenas entrava um pouco de luz

por uma fresta de porta. Ela tinha

me salvado do desespero,

e com que abundância, com

que bondade!

Quando vinha o sono,

ela me deitava, brincava

ainda um pouquinho

comigo, e eu dormia.

Desvelo durante

as doenças dos

filhos na infância

Uma coisa que eu, em

vida de mamãe, notava

muito – e ela a possuía em

alto grau – era uma forma de

presença que o simples trato comum

de uma dona de casa – quer dizer,

de uma senhora com o seu marido,

os seus filhos, a residência –

ela o fazia com uma ordenação interior,

do mais profundo do seu espírito

tão composto, harmonioso, sério,

elevado, mas tão afável, acolhedor,

virtuoso, que aquilo contagiava,

no sentido bom da palavra. E as

pessoas com isso ficavam de repente

distendidas, acalmadas e tranquilas.

Lembro-me, por exemplo, de que,

quando eu era pequeno, tive toda espécie

dessas doenças que criança tem:

crupe, coqueluche, caxumba. E, naturalmente,

quem tratava de mim era

Dona Lucilia. Mas, como toda criança,

começava a ficar torcendo para não ter

mais febre. E ela era uma campeã do

termômetro, vira e mexe o usava.

Ela notava que eu me impacientava

com o termômetro, pois, enquanto

não passasse a febre, ela não me

deixaria sair da cama, e eu preferia

não ter esse controle e levantar logo.

Então, não querendo acentuar

demais o uso desse instrumento, ela

punha a mão sobre a minha testa.

16


Só o sentir a mão de mamãe sobre

a minha fronte, já transmitia uma

impressão de frescor, de tranquilidade,

de suavidade e todas as minhas

impaciências passavam.

Às vezes mamãe vinha até mim e

eu pensava: “Que bom! Ela não vai

fazer baixar minha febre, mas aliviará

qualquer coisa em mim que está

fervendo!” Ela punha a mão na minha

testa e dizia: “Meu filho, você

ainda tem um pouco de febre...” Ela

fazia baixar a sensação de febre, e

era uma tranquilidade…

Muitas vezes a presença de Dona

Lucilia dava-me também a sensação

da proteção da Providência, pelo

modo de me sentir garantido de

tudo, pois ela me protegeria. Quando

pequeno, por ser ela minha mãe

e, portanto, uma pessoa mais poderosa

do que eu; depois, com o tempo,

isso continuava, mas de uma maneira

diversa.

“Sua voz alegre já

me diz tudo”

Eu tive, quando estava com uns

dez anos de idade, uma doença gravíssima

e contagiosíssima, chamada

angina diftérica, também denominada

crupe. Não é caxumba, que é uma

doencinha comum.

Crupe é uma doença infecciosa

medonha e muitas vezes mortal, porque

é uma infecção que dá na garganta,

e a pessoa fica prostrada com

uma febre elevadíssima. Atinge sobretudo

crianças, mas, às vezes, também

gente adulta, se não me engano.

A garganta vai inchando, inchando,

se fecha e impede a respiração; a

pessoa morre por falta de ar.

Eu me lembro de que acordei

uma manhã com a voz embargada,

e falei ao empregado: “Chame Dona

Lucilia!”

Ela veio, e eu disse:

— Meu bem, eu não me levanto

agora porque estou muito doente.

— O que é, meu filho?

Expliquei o que eu sentia. Ela pegou

uma caixa com brinquedos – dos

melhores, que me interessavam mais

–, pôs na cama e disse: “Vá brincando

aqui, enquanto eu consulto o médico”.

Lembro-me bem de que eu me

sentei para brincar, porque era um

brinquedo que não dava para utilizar

deitado. Senti meu corpo amolecer e

afundei na cama de novo.

Plinio por volta de 1919

Setembro – Chegada a

Paris. Dona Lucilia se

instala com seus familiares

no Hotel Royal, situado

na Avenue de Friedland.

31 de dezembro – Dona

Lucilia, em traje de gala,

comparece com a família ao

réveillon, num dos grandes

restaurantes de Paris.

1913

Março – Partida

para a Itália.

17 de abril – Dona Lucilia,

seus filhos e a Fraülein

Mathilde chegam ao

porto de Santos, a bordo

do navio Duca d’Aosta.

22 de junho – Dona

Lucilia felicita o Pe. Chico

(Mons. Francisco de

Paula Rodrigues) por

seu jubileu sacerdotal.

1915

9 de janeiro – Dona

Lucilia e Dr. João Paulo

comparecem ao baile no

Teatro Municipal, em

favor das crianças belgas.

17


Dona Lucilia

O médico que mamãe consultara

pelo telefone indicou alguns remédios.

Mas a doença era contagiosíssima.

Ela podia perfeitamente contratar

uma enfermeira para tratar

de mim, porque era muito doente

do fígado e, se ela tomasse

esse crupe, morria na certa.

Ela não quis saber de enfermeira,

do começo até o fim.

Havia, sobretudo, um momento

decisivo no crupe que

era especialmente contagioso,

a respeito do qual o médico,

homeopata, preveniu mamãe.

Eu tomava o remédio periodicamente

e minha febre ia

subindo. Ela telefonava para o

médico – que era amigo da família

e recebia os telefonemas de muito

bom grado – e ele dizia para ela:

“A senhora não se assuste, a febre do

Plinio ainda vai subir mais. Mas, em

certo momento, se o remédio fizer

bem, a membrana infeccionada que

ele tem na garganta será expelida. No

momento em que ele lançar fora essa

membrana, a senhora tenha um pano

qualquer sobre o colo e faça-o expelir

nesse pano. E mande imediatamente

uma das criadas levá-lo ao jardim,

onde já deve haver um buraco pronto,

e enterrá-lo bem fundo, porque

essa membrana é ultracontagiosa. E

se a senhora puser em qualquer outro

lugar da casa, pega em alguém”.

Ela podia contratar uma enfermeira,

pelo menos para essa hora,

mas não o fez. Lembro-me dela sentadinha

junto a mim. Em certo momento,

fiz sinal de que ia acontecer

qualquer coisa.

Mas eu estava julgando, com minha

mentalidade de menino, que ia

morrer. Mamãe me ajudou e expeli

a tal membrana na toalha colocada

sobre o seu colo. Ela imediatamente

a dobrou para evitar um pouco

a expansão dos micróbios. Depois

me agradou um pouquinho, chamou

uma empregada da casa e lhe disse:

Dona Lucilia pouco antes do casamento

“Madalena, pegue isto com a ponta

dos dedos e enterre no buraco que

foi feito lá no fundo do quintal”.

A Madalena foi correndo e fez como

Dona Lucilia mandara. Graças a

Deus, nem mamãe nem a Madalena

foram contagiadas. Dentro de alguns

dias, eu já estava restabelecido.

Quando expeli a membrana e minha

mãe viu que, portanto, o perigo

tinha passado, ela telefonou

ao médico para contar-lhe

o ocorrido, dizendo:

— Doutor Fulano!

Ele respondeu:

— A senhora não

precisa contar o resto.

Sua voz alegre já me

diz tudo...

Educando através

do maravilhoso

Quando eu tinha doze, treze

anos de idade, minha irmã, meus

primos e eu formávamos uma roda

grande de meninos, meninas, e tínhamos

grande entusiasmo por ouvir histórias

narradas por Dona Lucilia.

Ela, que era muito imbuída de

cultura francesa, nos contava

histórias de Alexandre Dumas,

como “Os três mosqueteiros”

que, naturalmente, adaptava,

tirando o que havia de inconveniente.

Então os mosqueteiros

D’Artagnan, Aramis,

Athos e Porthos eram personagens

familiares, como

se convivessem conosco.

Diariamente – como fazem

todos os meninos com

seus pais –, eu me levantava,

rezava, fazia a toilette e ia dizer

“bom-dia” para ela. Para esse

“bom-dia”, minha governanta

alemã queria horário fixo, sem dúvida,

mas ela já tinha compreendido

o jeito de ser brasileiro e que o horário

era fixo em linhas gerais, pois,

em certos dias, tudo começava mais

tarde, porque eu tinha ficado conversando

com Dona Lucilia.

Lembro-me dela, deitada na cama

– era doente, levantava-se tarde,

e essa cena dava-se em seu quarto,

pelas oito e meia da manhã –, quando

estava acabando de tomar o café.

Meu pai levantava-se mais cedo;

eu entrava pelo lado da cama onde

dormia meu pai e chegava até ela.

Abraçava-a, beijava-a várias vezes,

e depois ficava aos pés da cama, ou

sentado ou, muitas vezes, deitado, e

18


20 de março – Dona

Lucilia participa do Retiro

das Mães Cristãs.

21 de junho – Dona

Lucilia, com seus

familiares, comparece ao

enterro do Pe. Chico.

olhando para ela, numa atitude de

afeto em que entrava muitíssima admiração.

Ou, se quiserem, numa atitude

de admiração em que entrava

muitíssimo afeto.

Falávamos um pouquinho e eu

pedia para ela contar alguma história.

Mas então era uma história só

para mim.

Também moravam em casa uma

irmã e uma prima, as quais tinham

horários e afazeres de meninas, naturalmente

separados dos meus. E

elas, nessa ocasião, estavam fora;

eu então tinha mamãe só para mim,

única e exclusivamente.

E eu percebia que ela, com os

seus olhos marrom-escuros, prestava

atenção em mim e como que existia

só para mim. E conversávamos.

Ela então me contava esses contos

próprios para criancinhas: Gata Borralheira

etc. Mas o caso do qual eu

mais gostava era o do Gato de Botas,

que todos ouviram em pequeno. São

histórias mundiais; tenho a impressão

de que até na Índia, no Afeganistão,

se conta o caso do Gato de Botas.

Mas ela era muito imaginosa e eu

muito pormenorizado. No conto do

Gato de Botas – vê-se aqui uma espécie

de fermento de Contra-Revolução

que já trabalhava em mim –, o

grande personagem, para mim, não

era o gato. Eu achava mais ou menos

banal que um gato tivesse aquelas botas,

falasse; não me espantava muito

com isso. Entretanto, eu me interessava

enormemente por um dos personagens

da história do Gato de Botas,

que era o Marquês de Carabás.

Ela possuía essa intuição afetiva

das mães; além disso, com muito

senso psicológico, via por onde caminhava

meu interesse e fantasiava

a história de acordo com minha

curiosidade. Enquanto ela ia contando

a história, eu ficava à espera do

momento em que entrava o Marquês

de Carabás.

Eu conservo a confusa ideia de

que o Gato de Botas acabou sendo

aliado do Marquês de Carabás, mas

não me lembro bem por quê.

Mamãe apresentava o Marquês

de Carabás como um homem que

morava num castelo e saía a certa

hora numa carruagem toda dourada,

com os vidros de cristal bombeados,

plumas em cima do carro e várias parelhas

de cavalos tocados por cocheiros

com chapéu tricórnio, com plumas,

alamares etc., lacaios atrás. Ele

era dono de vastidões enormes que

1916

12 de dezembro – Dona

Lucilia comparece à

Missa de 7º dia por alma

de Da. Adelaide Prado

de Oliveira, na Igreja do

Sagrado Coração de Jesus.

1917

18 de fevereiro – Domingo

de Carnaval: Plinio usa a

fantasia de marajá, idealizada

por Dona Lucilia.

5 de março – Dona Lucilia

aparece na fotografia da

Irmandade do Santíssimo

Sacramento da Catedral

de São Paulo.

20 de novembro – Dona

Lucilia promove uma

festa em comemoração

da Primeira Comunhão

de Plinio e Rosée,

ocorrida no dia anterior.

19


Dona Lucilia

o olhar humano não podia alcançar,

com trigais dourados, agitáveis pelo

vento numa direção e noutra. O

Marquês, então, passeava olhando

os seus trigais de dentro de sua carruagem.

Eu achava essa situação maravilhosa

e tinha um verdadeiro entusiasmo

pelo Marquês de Carabás,

pelos adornos dele, pelos postilhões,

pelos lacaios etc. E quando chegava

a hora de ele entrar em cena, eu começava

com as perguntas.

Não pensem que tenha ficado estéril

o que ela contava com um encanto

extraordinário – ao menos para

mim.

A viagem à Europa em 1912

Em 1912 ela esteve sete meses na

Europa e fez ali uma operação de

vesícula biliar. Ela teve uma doença,

que hoje é muito comum e trata-se

facilmente. Mas, naquele tempo, era

uma doença gravíssima, e só havia

um meio de não morrer: fazer uma

operação que, no mundo inteiro, só

um médico alemão – que, aliás, era

também médico do Kaiser –, o Dr.

Bier, realizava. E consistia em tirar a

vesícula biliar.

Dr. Bier

Quando mamãe chegou

a Berlim, o médico

disse-lhe que ela era a segunda

senhora do mundo

da qual iria tirar a vesícula

biliar; a primeira tinha

sido uma senhora hindu.

Ela então foi operada.

Depois de consolidar a

saúde, viajou para a terra

de atração de todos os homens

naquele tempo, que

era a Cidade Luz: Paris.

Ela ia visitar aqueles lugares

históricos e queria que

minha irmã e eu – eu tinha

quatro anos e minha

irmã, cinco anos e meio –

fôssemos também. Então,

alguns parentes diziam

para mamãe:

— Para que você leva

essas duas crianças? Só

vão atrapalhar, não compreendem

nada; deixe-as

trancadas no quarto com

a governanta!

Ela respondia:

— Não sei qual é o futuro deles;

talvez tenham uma vida pobre e difícil

e nunca poderão vir à Europa!

Quem sabe qual é o dia de amanhã,

nas reviravoltas do mundo de hoje?

Quero que cada um deles possa dizer:

“Eu estive no Louvre, em Versailles

etc. Minha mãe me levou até lá”.

Alma admirativa

Lembro-me mais dela em Paris do

que em outros lugares, e lá, recordo-

-me bem de que a sua atitude era de

uma admiração constante.

Ela sabia perceber a cultura francesa,

o modo de ser francês, nas menores

coisas. E como quem fala com

criança, ela se dirigia à minha irmã

e a mim: “Prestem atenção nisto!

Olhem para aquilo! Vejam aquilo outro!”

Eram as coisas que as crianças

podiam admirar, como ela também.

Por exemplo, passávamos diante

de muitas lojas. Minha irmã queria

Plinio e Rosée em Paris

parar diante de lojas que vendiam

tecidos e eu, muito guloso, queria

parar diante daquelas que vendiam

comida.

É a índole masculina e a feminina…

O mundo dos tecidos para mim

é brumoso e inexistente. Mas o mundo

gastronômico altamente existente!

Passando diante de uma confeitaria,

eu olhava para a comida exposta

e, às vezes, elogiava alguma coisa.

Eu gostava muito de doces feitos

com café; os franceses fazem doces

de café de primeiríssima ordem! Se

ainda não tínhamos tomado lanche,

mamãe entrava para eu comer aquilo

que havia admirado. Ela me fazia

saborear, mas me fazia compreender

a fundo: “Olhe que delícia! Isto é assim,

de tal jeito”. Eu ia prestando

atenção para sentir o gosto da coisa.

E na saída eu pedia: “Posso levar alguns

doces?” E sempre podia!

Então, levava um pacotão para o

hotel e, lá, comedoria.

20


Desse modo ela me ensinou a ver

Versailles, o Louvre, a ver todas essas

coisas e a começar a compreendê-las

pela admiração intensa que

ela tinha por isso tudo.

Diante da dor alheia

Pouco tempo depois de esses primeiros

fatos da minha infância terem

se passado, arrebentou a Guerra

Mundial. Entendi mais ou menos

o que era essa guerra, mas tinha a

noção da distância enorme que havia

entre o Brasil e a Europa. Portanto,

era impossível que a guerra chegasse

até aqui. Enquanto a Europa

passava por todo aquele sofrimento,

no Brasil havia a boa vida tranquila

e folgada; o Brasil não entraria

em guerra, e por isso as pessoas

aqui gostavam de celebrar a tranquilidade

brasileira. Não só apreciavam

isso os brasileiros, mas os estrangeiros

oriundos de países que estavam

na conflagração e que tinham vindo

para o Brasil antes da guerra.

Eles tinham pais, irmãos,

filhos, netos, metidos na conflagração.

Isso lhes interessava,

mas, sobretudo, o que eles

possuíam era um bem-estar

de, pessoalmente, não participar

da guerra.

Tudo isso representava o sofrimento,

e eu notava que Dona Lucilia

tinha, em face desses fatos, uma

atitude muito mais pensativa e mais

séria do que as outras pessoas. Estas

comentavam, como ela, as notícias

que os jornais publicavam, por vezes

com sensacionalismo que impressionava

muito o público, é natural.

Por exemplo, acabava o almoço de

domingo, todos se espalhavam pela

sala de jantar e começavam a conversar

sobre esses assuntos. Lembro-me

até hoje de que quando um velho relógio

de parede, com um bonito som,

marcava duas horas da tarde, havia

sempre um espírito mais leviano e superficial

que dizia com uma voz que

dominava a todos: “Meus caros, agora

chegou a vez de nos divertirmos.

Você vai para onde? E você? Vamos

fazer os nossos programas”. Então,

uns iam passear nos arredores da cidade,

outros faziam visitas, enfim, essa

vida leve dos domingos.

1918

9 de fevereiro – Dona

Lucilia torna-se Irmã

contribuinte da Irmandade

do Santíssimo Sacramento

da Catedral de São Paulo.

Fevereiro – No

carnaval, Plinio usa

a fantasia de mago, e

Rosée, a de princesa

persa, ambas preparadas

por Dona Lucilia.

27 de março – A

Irmandade do Santíssimo

Sacramento da Catedral

nomeia Dona Lucilia para

a Guarda de Oração ao

Santíssimo Sacramento.

26 de maio – Dona

Lucilia comparece com

seu esposo à exposição

das obras do pintor

italiano Antônio Rocco,

no Palacete Prates.

1919

Castelo de Versailles. Em destaque, Carruagem de Versailles

6 de março – Falecimento

do Conselheiro João

Alfredo Corrêa de

Oliveira, tio de Dr. João

Paulo. Dona Lucilia e

seu esposo viajam para

o Rio de Janeiro.

21


Dona Lucilia

Dona Lucilia em Paris

Eu percebia que Dona Lucilia

acompanhava, mas que o espírito dela

ia para a compaixão por aqueles

que tinham sofrido, fazia oração por

eles para Nossa Senhora aliviar ou

até para evitar esse sofrimento. Mas,

sobretudo, fazia a reflexão sobre o

grande, o nobre, o magnífico tema da

dor. E dentro desse tema, outro ainda

mais bonito: o heroísmo, a coragem.

Isso ia formando a alma de um

menino...

Paciência com um

sobrinho surdo-mudo

Dona Lucilia tinha um sobrinho

surdo de nascença, com um temperamento

muito difícil. Às vezes, ele

ia à casa de minha avó materna, onde

morávamos, e começava a brigar

com ela. Mamãe ficava olhando

aquilo e, quando percebia ter chegado

a um certo paroxismo, aproximava-se

dele, tranquilizava-o e ia com

ele para uma saleta onde o entretinha

durante mais de uma hora. Sendo

surdo, não graduava bem o volume

de sua voz, e soltava

algumas palavras aos

gritos. Ao cabo de uma

hora e tanto, o Tito – era

o seu apelido doméstico

– saía tranquilo, beijava-

-a e ia embora.

Isso acontecia quando

ele e eu éramos meninos,

e até durante nossa

viagem a Paris. Os

pais do Tito estavam lá

com Dona Lucilia. Mamãe

demonstrava uma

tal paciência com o Tito,

sacrificando por vezes

os atrativos da viagem,

que quando preparava

a mala a fim de voltar

para São Paulo, encontrou

dentro um vestido

muito bonito, muito

fino, que ela não havia

encomendado. Ergueu-

-o e viu que estava de acordo com o

tamanho dela perfeitamente. Ficou

intrigada e, mexendo na vestimenta,

caiu um cartãozinho, escrito pela

mãe do Tito: “À querida

Tia Lucilia, mil agradecimentos

de Tito”.

Pitos equilibrados

Já contei o que se passava

quando, em criança,

eu fazia alguma coisa

errada. De um jeito

ou doutro, ficava esperando

a repreensão. Para

mim, a sanção suprema

da Fräulein era falar

com mamãe:

— Ich werde es Mutter

sagen!

O que significa: “Eu

vou dizer isso à mãe”.

Em alemão se diz “à

mãe” assim: Mutter.

Eu replicava:

— Mutter sagen? Não!

Não quero, porque vai

aborrecê-la! Ainda que

provisoriamente ela se sinta distante

de mim, não quero! Faça o que quiser,

mas isso eu não quero!

No entanto, quando a coisa era pesada

a Fräulein me acusava e mamãe

me mandava chamar. Vinha a criada:

— Sr. Plinio, Dona Lucilia mandou

chamá-lo.

Eu já sabia o que era e ia entristecido,

mas com a esperança de levar

um pito, porque eles me pareciam

maravilhosos.

Habitualmente, mamãe permanecia

deitada na chaise-longue. Ela

passava o braço pela minha cintura

– eu era menino, baixinho –, punha-

-me bem perto dela e me olhava com

um olhar penetrante, até o fundo da

alma.

Seus olhos eram marrom-escuros,

mas nessas horas ficavam pretos.

Olhava-me bem firme e dizia:

— Filhão, é verdade que você fez

isso?

Eu, atraidíssimo, tinha vontade de

dar-lhe um beijo, mas sabia não ser a

hora, pois ela não o receberia bem.

E respondia:

Agostinho Ribeiro dos Santos (Tito)

22


13 de março – Dona Lucilia

e seu esposo comparecem

à Missa de 7º dia por

alma do Conselheiro João

Alfredo, na Igreja do

Rosário, no Rio de Janeiro.

1920

Caderneta do Colégio São Luís, semelhante a de Plinio

— Sim, senhora, eu fiz isso.

— Mas, pense um pouco, não é

possível! Veja tal coisa assim...

Dito com tal gravidade, mas com

tanto afeto! Finalmente me perguntava:

— Você está arrependido?

Eu invariavelmente estava:

— Estou.

— Está bem. Você promete a mamãe

que nunca mais faz isso?

— Prometo, sim senhora!

— Então agora dê um beijo em

mamãe.

Aí vinha o ósculo com delícias. E

eu pensava: “Ah! Que pito maravilhoso!

Que coisa incomparável! Que

contato de alma extraordinário!”

Ela toda me parecia aveludada nessa

ocasião.

Ao ver essa atitude de mamãe, dava-se

algo curioso comigo. Eu me comovia

profundamente, mas como

um homem se comove; não chorava,

mas me tocava a alma a fundo.

Depois ia brincar ou estudar, coisas

que me davam muito menos ânimo

do que estar com ela, mas ia e tocava

a vida.

Quando me encontrava de novo

com ela, era como se não tivesse

acontecido nada; ela, contente. E na

hora do “boa-noite” ela não repetia

a queixa, não voltava à carga. Aquilo

estava esquecido.

Era um equilíbrio muito equilibrante,

porque ajudava a criança tratada

assim a tomar equilíbrio.

Entrada no Colégio

Entrei no Colégio São Luís pelos

dez anos de idade.

Ora, aconteceu-me de, por essa

época, receber nota 6 em uma disciplina

e, inconformado, no boletim

escrevi sobre ela um “10”.

Cheguei a minha casa e encontrei

mamãe no quarto de toilette

dela – era uma espécie de sala de

estar que as senhoras tinham antigamente

–, sentada numa cadeira

de balanço perto da escrivaninha.

Lembro-me perfeitamente da cena.

Ela, com certeza, havia escrito

alguma coisa e estava descansando

um pouco.

Entrei e disse-lhe:

— Meu bem, aqui está o meu boletim.

Muito afetuosa, ela o abriu e seus

olhos caíram imediatamente naquele

empastelado.

Perguntou-me, então:

— O que é isto aqui? O que aconteceu?

— Mamãe, recebi esse boletim e,

mesmo debaixo da chuva, eu quis ver

quais eram as minhas notas e caiu

água sobre ele.

— Mas aqui em cima dessa nota

seis o que você escreveu? A letra é

sua. Por que você anotou uma coisa

em cima daquilo que o padre escreveu?

Você quer me explicar isso? Vamos,

explique!

21 de janeiro – Estadia de

Dona Lucilia com seus

familiares em Águas da

Prata, no Hotel Costa.

5 de outubro – Dona Lucilia

acompanha, do palacete Ribeiro

dos Santos, o deslocamento da

comitiva do Rei Alberto da

Bélgica e da Rainha Elisabeth,

em visita a São Paulo. Ela

apresenta a seus filhos as pessoas

que compõem essa comitiva.

6 de dezembro – Dona Lucilia

comparece a uma homenagem

aos Imperadores do Brasil,

na Igreja de São Bento,

promovida por senhoras

da sociedade paulista.

1921

8 de janeiro – Senhoras

paulistas, entre as quais Dona

Lucilia, enviam uma mensagem

à Princesa Isabel, para render-

-lhe homenagem por ocasião da

chegada das cinzas da Família

Imperial ao Rio de Janeiro.

23


Dona Lucilia

Ao saber do fato, mamãe – sempre

muito afetiva, mas também firme

–, por mais que quisesse minha

companhia, me disse:

— Se ficar provado que você não

merecia a nota que escreveu, inabilmente,

com seu próprio punho no boletim,

mandarei você para o Caraça.

Tratava-se de um colégio muito

bom de Minas Gerais, com regime

de internato, mas cuja fama em São

Paulo, por razões que ignoro, era a

de uma penitenciária de crianças.

Fiquei horrorizado e ela acrescentou:

— Eu vou passar um ano sem vê-

-lo, e você também vai passar um

ano sem me ver. Sofrerei muito mais

do que você, porque eu quero mais

bem a você do que você quer a mim.

Mas, se é para seu bem, eu o mando

para lá. Estando no Caraça, lembre-

-se de que sua mãe está chorando infeliz

porque você está na prisão. Mas

você vai para a cadeia.

Entrei numa grande depressão,

mas não disse nada a ela. Não pedi

perdão – o que era malfeito, pois devia

ter pedido. Ela não se aproximou

de mim para que eu a beijasse; todos

os dias, quando eu chegava do colégio

eu a beijava várias vezes, e ela

me beijava também. Entendi que eu

Colégio Caraça

não podia nem me aproximar, porque

era um falsário! Como é que um

falsário vai se aproximar de uma senhora

digna de tal veneração e pela

qual eu tinha tanta ternura? Saí e fiquei

muito abatido.

Se não me engano, era um sábado

e o Colégio São Luís já estava fechado.

Então, papai iria ao colégio somente

na segunda-feira. Fiquei esperando,

portanto, o resto de sábado,

domingo e parte da segunda-feira.

Mas eu nem ousei perguntar a

meu pai a que horas ele iria; fiquei

quieto, colocando-me de lado como

uma espécie de bicho doente e repugnante.

Naturalmente, a ideia de ir para o

Caraça causava-me horror.

Na segunda-feira, ao chegar a minha

casa, perguntei para o copeiro:

— Dr. João Paulo já voltou do

São Luís?

Tinha ele uma voz cantante:

— Já, sim, senhor.

— Onde ele está?

— Com Dona Lucilia.

Estavam no apartamento deles,

que era um prolongamento da casa.

Fui para lá e encontrei os dois conversando,

mas não tinham fisionomia

carrancuda. Mamãe muito calma

me olhou e disse:

— Filhão, venha cá e dê um abraço

e um beijo em sua mãe.

Eu corri em direção a ela.

Mamãe continuou:

— Você está inocente. Seu pai

foi falar com o padre, o qual mandou

chamar o funcionário que passa

a limpo as notas. O próprio funcionário

reconheceu que a sua nota

era dez e por engano ele anotou seis.

Agora, você não faça mais essa bobagem

de estar alterando notas; isso

é muito feio.

E não falou mais em me mandar

para o Caraça.

Na saída, ela me disse:

— Então, mais um beijo para mamãe.

Tirei várias vantagens desse fato.

Primeira: aprendi a ter temor reverencial

a mamãe. É sempre bom

ter medo dos superiores. Segunda

vantagem: aprendi a querê-la ainda

mais, por causa da perfeição moral

que eu notava nela. Terceira, a qual

vale todas as vantagens da Terra e

mais algumas do Céu: começou aí a

minha devoção a Nossa Senhora.

As notas de comportamento

Pode dar-se o caso – e desconfio

que hoje seja bem mais frequente do

que outrora – de uma mãe perder a

24


paciência com o filho sem ser justa,

porque está nervosa, irritada, os negócios

não vão bem, ou simplesmente

porque ela não controla os nervos, se

zanga fora de hora, depois agrada fora

de hora etc. Ela não é justa na hora

que pune nem na hora que premia.

Dona Lucilia foi um modelo no

sentido contrário. Em todas as ocasiões

de punir, ela punia mesmo; em

todas as horas de premiar, premiava

mesmo. Ela levava as coisas até os

últimos pormenores.

Por exemplo, ela prestava muita

atenção nas notas que eu tinha no

colégio. Naquele tempo, o Colégio

São Luís, dos padres jesuítas, era o

melhor de São Paulo.

Todos os meses, entregavam um

boletim para cada aluno com as notas

do aproveitamento do estudo

e do comportamento em cada matéria.

Eu mostrava o boletim a mamãe,

ela o abria e, às vezes, para evitar

que me esquecesse, dizia: “Olha,

vou ver antes a nota do comportamento.

Porque na nota do comportamento

você é o responsável. Se for

bom o comportamento, você merece

um prêmio; se for mau, você é culpado,

porque depende de você”.

Depois ela acrescentava para me

estimular: “A nota do aproveitamento

já não é tanto assim, porque eu

não sei se tive um filho burro ou inteligente.

Ainda não está demonstrado.

E se você é burro, não tem

culpa. Aparece aí a nota baixa, fico

vendo que o Plinio é burro. Mas não

vou punir um filho porque é burro,

pois não puniria um filho porque é

doente, por exemplo. Simplesmente

constato: meu filho é um burro”.

Mamãe olhava a nota do comportamento

e, em geral, sempre foi bem

boa: nove ou dez. Ela tolerava nove

em uma matéria ou duas, não mais

do que isso. Porque receber nove em

algumas matérias queria dizer que

estava decaindo no comportamento,

portanto no caráter, e era preciso

ver qual a razão dessa decadência.

No fim do ano, os padres distribuíam

um prêmio destinado a poucos

alunos. Então, para cada matéria havia

uma medalha de ouro e outra de

prata, correspondentes ao primeiro e

segundo lugar em cada disciplina.

E uma vez eu recebi quatro medalhas.

Era reputado um belo total no

Colégio São Luís. E eles prendiam

as medalhas no peito do aluno. Ma-

24 de fevereiro – Diversas

personalidades da

sociedade de São Paulo

enviam contribuições

para a Homenagem a

Dom Pedro II; Dona

Lucilia se conta entre as

melhores colaboradoras.

21 de novembro – Dona

Lucilia comparece às

cerimônias realizadas

no Mosteiro de São

Bento, por alma da

Princesa Isabel.

1º de dezembro – É fundada

a Associação “A tarde

da criança”, da qual Dona

Lucilia é sócia-fundadora.

16 de dezembro – A

Liga das Mães Cristãs,

da qual Dona Lucilia

participa, é transformada

na Liga das Senhoras

Católicas, em reunião na

Cúria, com a presença

de quarenta senhoras da

mais alta sociedade.

1922

Medalhas que Plinio recebeu no Colégio São Luís em 1920

Fevereiro – Por ocasião

do carnaval, Dona

Lucilia prepara por

última vez fantasias

para Plinio e Rosée,

em Águas da Prata.

25


Dona Lucilia

mãe ia sempre às festas de distribuição

de prêmios a fim de prestigiá-las

e para eu compreender que precisava

dar duro mesmo.

Mas nesse ano ela não foi.

Quando cheguei a casa, mamãe

estava me esperando. Toquei

a campainha, ela foi correndo

à porta e me vendo com as

quatro medalhas me abraçou

e beijou muito. Mas eram

quatro medalhas de prata,

não de ouro; não sei se ela

percebeu bem isso. Eu não

disse nada e vi que ela estava

muito contente.

Também no ano seguinte ela

não pôde ir à festa, pois sofria

muito do fígado. Quando cheguei

a casa, toquei a campainha, ela logo

atendeu a porta e perguntou:

— Então, filhão, como foi?

Eu estava com três medalhas. Ela

olhou e disse:

— Três medalhas só?!

— Mãezinha, uma é de ouro...

Então ela me abraçou e beijou

muito. Conto isso para notarem como

ela olhava para as menores coisas

Reação de bondade ao

saber o resultado de uma

prova de aritmética

Algo dessa bondade dos antigos

tempos ainda me foi dado conhecer

vendo-a praticada a meu favor.

Lembro-me de um fato característico

nesse sentido.

Quando eu era ainda menino,

meus tios, irmãos e irmãs de mamãe,

interessavam-se pela educação dos

filhos dela, assim como ela pela dos

sobrinhos. Um cuidado oriundo da

ideia de que todos eram parentes estreitamente

unidos e deviam uns aos

outros essa preocupação afetiva, carinhosa,

pelo futuro dos membros

mais novos da família.

E, naquela época, por volta de

1920, no fim do ano todos os alunos

Plinio em 1921

de colégios particulares tinham de

prestar exame num estabelecimento

do governo para efeitos de controle

de qualidade de ensino. Eu, juntamente

com um primo, fui fazer prova

de aritmética, para a qual estudara

com razoável empenho. Mas, talvez

por muita ansiedade de minha

parte, nervosismo de estudante, não

me saí bem. Os cálculos não batiam,

e desisti de prolongar aquela aflição.

Fui o primeiro a entregar o exame

aos professores e me retirei da sala.

Dirigi-me ao Jardim da Luz, próximo

ao local, e ali fiquei passeando,

à espera de meu primo.

Quando este veio me encontrar,

perguntei-lhe:

— Então, qual foi a reação dos

professores ao corrigirem a minha

prova?

— Olha, parece-me que sua situação

não é das melhores.

Na minha vã ilusão, posto que eu

sabia ter errado quase tudo, ainda tinha

esperanças de um resultado favorável.

Insisti, e ele me disse:

— Pela fisionomia dos examinadores

ao correrem os olhos pela sua

prova, não creio que você deva esperar

um bom resultado.

De fato, quando fui ver a nota

que havia recebido, estava

bem abaixo da média. Ou seja,

tinha sido reprovado. Agora

entra o aspecto compaixão

daquele tempo. Meu primo

e eu voltamos para nossas

respectivas casas, a dele

era mais perto e, portanto,

chegou antes de mim. Quando

se encontrou com seu pai,

irmão de mamãe, terá comentado

o meu fracasso no exame.

Ora, precisamente naqueles

dias mamãe se achava muito mal

de saúde. Então meu tio, preocupado

com a repercussão que a notícia

de minha nota poderia provocar

no já debilitado estado físico dela,

dirigiu-se imediatamente ao ginásio

e pediu que fosse atendido pelos

professores. Estes o receberam com

muita gentileza, e ele se explicou:

— Vim para verificar o exame de

um sobrinho. Sei que não está bom,

mas afinal de contas eu gostaria de

lhes dizer que a mãe dele é minha irmã,

e está num estado de saúde muito

delicado. Se ela souber que seu filho

teve uma nota ruim, pode piorar

ainda mais, e eu quero evitar que isso

aconteça.

Eles foram muito atenciosos, procuraram

minha prova no meio das

outras, e a mostraram para meu tio:

— Compreendemos a situação,

mas lamentamos: veja o senhor mesmo,

e se pergunte se poderia dar outra

nota senão a que demos.

Meu tio leu e viu que realmente

não cabia outra avaliação. A nota

dos professores tinha sido justa.

Agradeceu a atenção que lhe dispensaram

e saiu de lá em direção à

minha casa, onde ele mesmo deu a

notícia a Dona Lucilia.

Qual foi a atitude de mamãe?

Sem dúvida aquela nota representou

26


uma má surpresa para ela, pois não

podia esperar um resultado tão desfavorável.

Eu, por minha vez, receava

um pito, uma censura mais veemente,

levantando a hipótese de me

mandar para o internato do Colégio

Caraça, como ela já havia feito anteriormente,

por ocasião de uma nota

que eu modifiquei no meu boletim.

Mas mamãe percebeu que aquele

mau resultado se devia mais a um

nervosismo de minha parte do que a

qualquer outro fator. Ela me tinha

visto estudar muito, sabia de minha

boa vontade e a aplicação que eu deitara

para me sair bem nas provas. Em

virtude disso, a atitude dela foi inteiramente

diferente daquela tomada

quando alterei a nota baixa que me

haviam dado no Colégio São Luís.

Para meu espanto, mamãe fez um

comentário superficial, e em seguida

me disse:

Imagem do altar lateral do Santuário do

Sagrado Coração de Jesus, São Paulo

— À tarde, você chama seu primo

e vão os dois tomar um sorvete e se

distrair um pouco na cidade.

Dias depois era a festa do meu aniversário.

Tudo transcorreu normalmente,

sem nenhuma “sanção”. O

mesmo se verificou no Natal, não havendo

qualquer mudança na demonstração

do afeto dela para comigo, por

exemplo, dando-me presentes de valor

menor aos do ano anterior ou coisa

semelhante. Nada disso.

No próximo exame, eu passaria

com nota bem regular. Ela manifestou

seu contentamento, sem me fazer

grandes elogios. Tudo terminou

em boa paz. Era o carinho à moda

brasileira que evitava um castigo, e,

dessa forma, só contribuiu para me

aproximar ainda mais de mamãe.

A bondade e a compaixão de mamãe

eram reflexos da infinita misericórdia

do Sagrado Coração de Jesus,

e me foram de grande auxílio para

compreender essa divina clemência

que se debruça sobre cada homem.

Para o bem, tudo, até a vida

O que havia por detrás disso? Era

sempre o princípio: para o bem, tudo,

até dar a vida; para a bagatela

que não tem sentido, nada! Era o

sistema pelo qual se formou a minha

intransigência.

E, vendo-a querer-me bem daquela

maneira, aprendi com ela e

nela a querê-la bem do mesmo modo.

Isto é verdadeiramente união.

Quando se vê uma qualidade em

alguém e se ama de maneira a modelar

o espírito de acordo com aquilo,

dá-se a união. Porque é ver, admirar,

inalar, receber, acolher e modelar-se.

Isto é unir-se.

Uma alma de

presença agradável

Enfim, a inocência de Dona Lucilia

consistia, antes de tudo, na pureza,

nas virtudes próprias à boa católica,

comuns nas senhoras daquele

Setembro – Dona Lucilia

e seus familiares visitam a

“Exposição Internacional do

Centenário da Independência

do Brasil”, no Rio de Janeiro.

1923

29 de novembro – Dona

Lucilia comparece ao

Bailado Russo, no Teatro

Municipal de São Paulo.

1924

29 de abril – Dona

Lucilia comparece ao

banquete de nomeação de

Dr. Gabriel Ribeiro dos

Santos como Secretário da

Agricultura, no Trianon.

27 de novembro – Dona

Lucilia comparece ao

Festival da Liga das

Senhoras Católicas, no Teatro

Municipal de São Paulo.

1925

Setembro – Dona Lucilia

acompanha Da. Gabriela

Ribeiro dos Santos, sua

mãe, em viagem ao Rio

de Janeiro. Hospeda-se

no Palace Hotel, na

Avenida Rio Branco.

27


Dona Lucilia

tempo e que hoje se tornaram raras

devido à decadência moral do mundo.

Ela possuía essa inocência em alto

grau.

Entretanto, tinha outra forma de

inocência que tornava o convívio

com ela extraordinariamente agradável

e consistia em um desprendimento

de si mesma, pelo qual a última

coisa em que ela pensava era

na vantagem própria, nos seus direitos,

no que ela queria ou no que lhe

convinha. Ela pensava muito na vantagem

dos filhos, mas nas vantagens

dela, absolutamente não.

Por exemplo, se uma pessoa quisesse

ou lhe pedisse algo, encontrava

uma generosidade, um prazer em

dar, um contentamento em conceder,

que era extraordinário e feito

sem pretensão. Não se portava como

certas pessoas que, ao fazer algum

obséquio, ficam com uma fisionomia

e um ar de quem diz: “Olhe

aqui, você receba isto e veja que colosso

eu sou!”

Mamãe não era assim. Ela dava

aquilo que lhe pediam como uma

muito boa irmã concederia para outra

irmã. E se ela se lembrasse, depois,

de que podia dar mais algo que

a pessoa não tinha pedido, ela ia

atrás e dizia: “Olhe, eu me lembrei

de que ainda podia fazer por você

tal coisa assim!”, e fazia. Isso tornava

toda a presença dela muito agradável.

Devemos desejar encontrar muita

gente assim em nossa vida, e, quando

encontrarmos, saber reconhecê-

-las. Em geral, prestamos atenção

nas pessoas pelas razões mais fúteis

– porque riem ou fazem rir, são inteligentes,

mil banalidades –, e não pelo

verdadeiro valor que elas têm.

Resultado: habitualmente encontramo-nos

em estado de injustiça em

relação aos outros. Nós damos valor

a quem não tem, e não a quem tem.

E é muito bom sabermos procurar os

valores onde estão e nos unir a eles,

celebrá-los como merecem ser celebrados.

Eu fazia isso às torrentes com mamãe.

Quando ela estava numa sala,

quer em minha casa ou em outra, a

primeira pessoa para mim era ela.

Sendo outra residência, naturalmente,

ao chegar, eu saudaria primeiro

a dona da casa. Entretanto, logo depois

me dirigiria à mamãe. E assim a

punha em primeiríssimo lugar, com

os primeiríssimos agrados, nas primeiríssimas

manifestações de consideração,

de respeito etc.; o píncaro

era ela. Com isso eu tinha também a

intenção de fazer justiça a ela.

É recomendável que adquiramos

o hábito de fazer o mesmo com as

outras pessoas. Aprendamos a apreciar

as pessoas isentas de egoísmos

que encontremos em torno de nós.

Saibamos imitá-las, lavando, assim,

as nossas almas da influência da Revolução.

Princípios claros

incutidos nos filhos

Como Dona Lucilia concorreu

para que eu fosse contrarrevolucionário?

Enganar-se-ia quem supusesse

que ela fez discursos, explicando

que se deve ser combativo e contrarrevolucionário.

Ela realizou uma coisa muito melhor,

mais límpida, muito mais clara:

pôs em meu cérebro, em primeiro lugar,

a convicção de que Deus é o Ser

supremo, Criador de todas as coisas

e, portanto, merece nosso amor primordialmente.

Mais do que à mamãe,

eu deveria querer bem a Deus.

Isso ela me ensinou muito bem, com

o talento que têm as boas mães de

falar aos filhos de maneira que estes

ouvem a voz delas como ao longo da

vida não ouvirão voz nenhuma.

Antes de minha irmã e eu aprendermos

a dizer “papai” e “mamãe”,

aprendemos a dizer “Jesus”. Minha

irmã era um ano e meio mais velha

do que eu. Mamãe, estando de vez

em quando em seu quarto, arranjando

alguma coisa, colocava minha irmã

nos braços e, apontando com um

dedo para a imagem de Nosso Senhor,

de modo que os olhos da criança

acompanhassem, dizia-lhe sorrindo

afetuosamente, meigamente:

“Onde está Jesus? Jesus está ali.

Agora repita: Jesus, Jesus”.

Minha irmã, que tinha muita vivacidade,

respondia: “Jesus, Jesus”.

Depois ela fez a mesma coisa comigo.

De maneira que mais tarde,

quando chegava a hora, espontaneamente

íamos aprendendo a dizer

“papai”, “mamãe”, como todas

as crianças.

A segunda ideia é que, em relação

a Deus, nós temos deveres os quais

são mais importantes do que as obrigações

para com qualquer pessoa na

28

Imagem do Sagrado Coração de

Jesus pertencente a Dona Lucilia


Terra. Devemos obedecê-Lo antes

e acima de tudo, cumprindo os Dez

Mandamentos.

Já no meu tempo de criança – nasci

em 1908 –, a preocupação principal

de um grande número de paulistas

era ficar rico. Ficou rico, acertou

na vida. Não ficou rico, foi um nulo.

Perdeu fortuna, tornou-se pobre, foi

um elemento negativo na vida, desprezado

por todo mundo.

Mamãe dizia o contrário: “Eu

prefiro ter um filho empobrecido,

tido em conta de nada, mas que

cumpra os Mandamentos da Lei de

Deus, do que um filho rico, a quem

todo mundo faça cortesias, mas que

não pratica os Mandamentos. A primeira

obrigação é fazer a vontade

de Deus; as outras coisas vêm depois”.

Fazer a vontade de Deus significa

conhecer o que Ele ensinou e

cumprir exatamente o que Ele mandou.

Não se pode relaxar, dizendo:

“Dou tal jeitinho”. É preciso, antes

de qualquer outra coisa, cumprir inteiramente

a vontade de Deus com

amor. Mas aprendi com mamãe que

as coisas verdadeiramente sérias devem

ser feitas até o último ponto do

exato.

v

20 de novembro – Dona

Lucilia comparece ao

Festival da Liga das

Senhoras Católicas, no Teatro

Municipal de São Paulo.

1926

Junho – Dona Lucilia

e familiares passam

férias em Santos.

1927

23 de fevereiro – Casamento

de Rosenda Corrêa de

Oliveira com Antônio

de Castro Magalhães.

25 de maio – Casamento

de Cornélia Procópio

Junqueira, sobrinha de Dona

Lucilia, com Marcos

Ribeiro dos Santos. Dona

Lucilia é madrinha e

oferece aos noivos um par de

castiçais de prata antiga.

1928

8 de março – Nascimento

de Maria Alice, neta

de Dona Lucilia.

Dona Lucilia com sua neta Maria Alice

Maio – Dona Lucilia

faz uma estadia em Águas

da Prata acompanhando

sua mãe, Da. Gabriela.

29


Dona Lucilia

Profunda união entre mãe

Fotos: Arquivo Revista

e filho, para além dos

umbrais da eternidade

Ao atingir a idade

madura, Dr. Plinio viu-se

obrigado a diminuir

gradualmente o convívio

com sua extremosa

mãe, a fim de levar

adiante os trabalhos

que lhe exigiam a

dedicação à Santa Igreja

e a manutenção de

sua nascente Obra. O

isolamento no qual esteve

Dona Lucilia haveria de

acrisolar sua devoção ao

Sagrado Coração de Jesus

e tornar mais sólidas as

virtudes em seu espírito.

30


O

isolamento em que mamãe

vivia, creio que se deu gradualmente.

Tenho uma certa

impressão de que, quando menina

– e o ambiente todo era muito

menos revolucionário do que é hoje

–, ela não sentiu esse colapso, esse

choque com o ambiente, mas com

uma ou outra pessoa dentro do ambiente,

e com uma ou outra atitude

singular de certos indivíduos. Então,

com algumas pessoas, cujo todo não

lhe agradava, ela demonstrava boa

vontade; era o contrário do que ela

achava que deveriam ser. Mas havia

também atitudes dissonantes, inesperadas,

tomadas por indivíduos a

quem ela queria bem e que a chocavam.

E isso dava a ela uma ideia triste

desta vida, onde situações assim

são possíveis. Depois, com a evolução

geral das coisas, o estilo de afetividade

dela, que era o estilo em curso,

digamos, até a primeira década

da República, portanto, até 1900,

passou gradualmente a ficar menos

em curso.

Dona Lucilia e seu bisneto,

no jardim da casa de

Dona Maria Alice

Martírio da alma

Então ela, que era muito benquista

anteriormente, passou a ser

menos querida. Embora ela continuasse

a querer bem aos outros,

passou a ser ignorada até o final

da sua vida, ficou completamente

posta à margem e enigmática

para todo mundo; inclusive para

as pessoas contemporâneas dela,

que foram adquirindo os novos

modos de ser e o novo estilo de

afetividade.

Eu mesmo presenciei várias

situações por onde ela ia compreendendo

que, em face de

sua bondade, as pessoas, na sua

grande maioria, ficariam indiferentes.

Entretanto, ela mantinha

sua posição por amor de algo infinitamente

mais alto, quer dizer, de

Deus Nosso Senhor.

Esse isolamento e essa incompreensão

graduais iam dando a ela uma

compreensão cada vez maior do que

era a vida, o ser humano, a realidade;

e determinavam um refugiar-se

axiológico no Sagrado Coração de

Jesus e em Nossa Senhora, que lhe

concediam aquilo que ela não tinha.

Ao longo da vida, ela foi constatando

que essa atitude das pessoas

não era apenas uma falha, mas que

quase se poderia dizer o contrário:

que, dentro do homem, a bondade

constitui um lapso, ou seja, de vez

em quando acontece de ser bom.

Mas, se não for fiel à graça, e por

razões religiosas, o ser humano é

estável e continuamente ruim. Portanto,

esta vida, essas criaturas humanas

terrenas que ela se preparava

para querer tanto, não eram senão

o contrário do que ela esperava,

das quais recebia apenas decepção

e ingratidão. E isso entre os

mais próximos!

22 de maio – Ainda

em Águas da Prata,

Dona Lucilia sofre uma

crise de tontura e precisa

permanecer em repouso.

1929

Maio – Dona Lucilia

viaja a Cambará, para uma

temporada na fazenda onde

residiam Rosée e seu esposo.

16 de maio – De Cambará,

Dona Lucilia escreve uma

carta a Plinio, na qual

manifesta apreensão pela

situação espiritual dele.

Julho – Dona Lucilia passa

alguns dias em Santos.

1930

11 de dezembro – Missa

e formatura de Plinio na

Faculdade de Direito do

Largo de São Francisco,

em São Paulo.

1931

22 de janeiro – Dona

Lucilia e duas senhoras da

Comissão das Filhas de

Maria do Sion visitam o

Arcebispo de São Paulo,

D. Duarte Leopoldo e Silva,

na Cúria Metropolitana.

31


Dona Lucilia

Quando meus pais eram vivos, todos

os dias eu almoçava com eles e,

terminada a refeição, saía correndo

para o trabalho. Eles estavam

tão habituados a isso que nem prestavam

atenção se eu tinha saído ou

não, pois tinham como certo que,

tendo acabado de almoçar, já estava

fora de casa. Mas, um dia, talvez por

ter esquecido algo em casa, voltei e

encontrei esta cena: os dois numa sala

de estar; meu pai sentado e minha

mãe, de pé, dizia para ele:

— Mas você acha mesmo que esse

menu está bom? O Plinio gostará de

comer esses pratos? Ou será melhor

fazer outra coisa?

Meu pai, que estava com sono e

com vontade de fazer a sesta, respondeu:

— Oh, senhora! Faça com ele o

que eu faria. Se eu tivesse que organizar

o menu, diria: “Rapaz, para o

jantar tem isto. Se você quiser, coma;

se não quiser, vá comer fora!”

Ora, era precisamente o que mamãe

não queria. Seu desejo era que

eu jantasse com ela. Ela não disse

nada, mas notei que ficou desapontada,

porque queria uma ajuda que

ele não deu. De fato, ele não podia

ajudar, pois essas são coisas que uma

dona de casa pensa e um homem

não. Ela ficou assim quietinha e depois

saiu da sala. Retirei-me de maneira

a não perceberem que eu tinha

presenciado a cena. Mas saí pensando:

“Bem se vê que pai é pai, mas

mãe é mãe!”

Dona Lucilia com sua irmã, Dona Yayá, no apartamento de Dona Lucilia

Preparativos para a

festa de aniversário

Compreende-se bem como isso

ia maturando a alma dela para fazer

o seguinte balanço: “Ou minha vida

foi vivida toda para Deus – e então

se explica –, ou se não tivesse sido vivida

para Ele, teria sido o maior erro

que se possa imaginar, porque passei

minha existência dando-me, dando-

-me, dando-me e recebendo dos homens

essa retribuição”.

De maneira que houve uma espécie

de gradualidade do martírio.

Mas martírio ao pé da letra, porque

era uma dor sofrida pela fidelidade

a uma determinada atitude de alma

e, portanto, um exílio branco, que,

nem por isso, deixava de ser um exílio

muito real, progressivo, injusto,

sem motivo e caminhando cada vez

mais para a incompreensão total. E

ela sempre fiel à sua posição. Isso caracteriza

bem o martírio da alma.

Ela teve também muitos desgostos

na vida íntima. Mas eu a via sofrer

com uma resignação, uma dignidade,

uma serenidade, uma força

e uma doçura extraordinárias! Nos

maiores sofrimentos físicos e morais

pelos quais a vi passar, era sempre a

mesma atitude. Nos padecimentos

morais, diante de algo que acontecia

e a fazia sofrer profundamente, a

atitude dela era o silêncio, um pouco

de recolhimento, normalidade, afabilidade,

bondade, humildade: Deus

quis, Deus fez, Deus seja bendito!

Desejo de ter sempre a

presença de seu filho

Mamãe comemorava muito mais

o meu aniversário do que eu o dela,

de maneira que o meu era mais festivo:

havia no almoço e no jantar um

menu redobrado.

Os preparativos começavam com

uma semana de antecedência – enquanto

eu, numa vida muito atrapalhada,

estava pensando em tudo,

menos no meu aniversário. Em geral,

ela me avisava durante uma refeição:

— Filhão, vai haver seu aniversário

no dia 13, que está chegando.

Eu caía das nuvens:

— É verdade, tem meu aniversário.

Ela então me perguntava:

— O que você quer neste ano para

o lanche de seu aniversário?

Eu escolhia o que fosse mais cômodo

para ela fazer, pois sabia ser

de seu agrado preparar pessoalmente

essa refeição. À medida que ela

foi ficando mais idosa, a cozinheira

começou a fazer quase tudo, mas ela

é quem dava o tempero.

Na realidade, para mim, a festa de

aniversário não representava nada

além de uma ocasião para agradecer

a Nossa Senhora os favores que me

32


havia concedido. Mas, dar a mamãe

a alegria de fazer a festa, era a razão

de minha festa. Aliás, com todos os

homens é assim: quando se tem mãe,

a festa é mais para ela do que para

o filho. No fundo, a festa de meu

aniversário era uma festa para ela, a

meu propósito.

Mamãe concordava com minhas

propostas e fazia indiretamente

umas contrapropostas:

— Você não preferia tal coisa ou

tal outra?

Em geral, era algo que ela sentia

estar mais na proporção de suas forças.

Eu concordava:

— Muito boa ideia! Façamos assim.

Evidentemente, eu tomava cuidado

para que ela não pensasse ser

uma resposta convencional. Às vezes

eu fingia certa perplexidade e dizia:

— Vamos pensar... É verdade, a

senhora tem razão, é uma boa ideia.

Desse modo ela ficava inteiramente

satisfeita, estava atendida

bem como ela queria.

Começavam, então, os preparativos.

No jantar de meu aniversário ela

sempre mandava me servirem um

pombinho, em recordação de nossa

estadia no hotel de uma estação

de curas na Alemanha, numa cidade

chamada Wiesbaden.

Num almoço nesse hotel, serviram

pombinhos e eu – sempre muito

interessado em assuntos gastronômicos

– comi vários deles, tendo manifestado

uma alegria enorme. Nos

dias subsequentes, quando o garçom

entrava, eu já ficava esperando

de longe, para ver se apareciam

os pombinhos e, quando, de fato, vinham,

eu dizia em voz alta:

— Mamãe, mamãe, olhe lá! Pombinhos!

Ela fazia sinal indicando que eu

não devia proceder assim na sala de

jantar de um hotel tão solene – basta

dizer que, no fundo do salão, havia

uma mesa reservada para o Kaiser e

as pessoas de sua corte...

Nas comemorações de aniversário,

era tradição entregar os presentes

depois do jantar. Apareciam, então,

alguns parentes e uns dois ou

três amigos que costumavam frequentar

minha casa. E, por volta de

meia-noite, meia-noite e meia, mamãe

oferecia um lanche com bolo

de aniversário para todos os convidados.

Julho – Correspondência

entre Dona Lucilia e

Dr. Plinio, que se encontra

no Rio de Janeiro.

1932

Janeiro – Correspondência entre

Dona Lucilia e Dr. Plinio,

que se encontra na fazenda de

uns amigos em Botucatu.

22 de janeiro – No

Santuário do Sagrado

Coração de Jesus, encontrase

exposto o Santíssimo

Sacramento em “laus

perene”, após a Missa das

8h00 até 19h30. Dona

Lucilia assiste à Missa e

reza por seu filho ausente.

29 de janeiro – Dona Lucilia

vai à Exposição de Arte

no Palacete Trocadero.

30 de janeiro – Dona Lucilia

começa a preparar uma

fantasia de carnaval para

sua neta, Maria Alice.

À esquerda, Dr. João Paulo no fim da vida.

À direita, fotografia do passaporte de Dona Lucilia

Fevereiro – Dona Lucilia

acompanha Dr. Plinio a um

hospital para a realização

de um exame radiológico.

Durante a estadia na fazenda

em Botucatu, ele teve uma

queda de cavalo, o que a

deixou muito preocupada.

33


Dona Lucilia

Dona Lucilia estava com a audição

muito diminuída, de maneira que, durante

muitos anos, ela ficava um pouco

à margem da reunião. Mas prestava

muita atenção no serviço, verificando

se todos estavam bem atendidos,

se tinham comido bastante, pois

era o papel da dona-de-casa.

Quando eu obtive para ela um

aparelho de audição, começou uma

espécie de vida nova. Muito expansiva,

Dona Lucilia voltou a tomar parte

nas conversas e, então, as festas

começaram a significar, novamente,

muito mais para ela.

Essa era a nossa despretensiosa

vida comum, mas que, para mim, era

um tesouro com valores sem nome!

Assim foi até o último dia 13 de dezembro,

antes da sua morte. Depois

tudo isso cessou. A morte de mamãe

acabou com os “13 de dezembro”

em minha casa, e as festas domésticas

terminaram.

Amoldando-se

ao temperamento

de todos

Dona Lucilia causava

a impressão de ser uma

pessoa de temperamento

tão irisado, que, bem

se poderia dizer, as cores

variavam conforme

a posição. Cada impressão

vivida, cada acontecimento,

cada circunstância,

determinavam a manifestação

de seu espírito

de forma singular, como

uma opala na qual incide

um raio solar fazendo

com que se desprenda

um colorido não muito

diferente, mas discretamente

irisado.

Nela conjugavam-se

firmeza e doçura, sem

que alterasse em algo o

seu modo de ser, pois ela

possuía uma flexibilidade

Da esquerda para a direita, Da. Rosée, Dona Lucilia

e Da. Maria Alice, e o pequeno Francisco Eduardo,

filho desta última, em fevereiro de 1956

de alma por onde adequava admiravelmente

o trato a cada pessoa com

quem se relacionava, sabendo apanhar

os lados razoáveis, dignos de estímulo

e de respeito, não deixando,

nem por isso, de compreender perfeitamente

os lados débeis. Mas a forma

de tratar os lados débeis, participava

da veneração que ela possuía aos aspectos

que admirava, e, no momento

de admirar, causava a impressão

de esquecer-se por completo da debilidade.

Esse modo de ser se exemplificava

no trato dela para com sua mãe,

Dona Gabriela, personagem de ampla

envergadura para aquele tempo.

Era uma senhora que, ao fim da vida,

tocava nas debilidades da idade,

pois era quase nonagenária. A forma

de Dona Lucilia a auxiliar nas mínimas

coisas, como apanhar um lenço

que caíra no chão e trocá-lo, era feita

com uma solicitude e uma alegria

como quem se deleitasse em praticar

aquela atitude, que encantava

presenciar tal cena. Quando Dona

Gabriela tomava alguma atitude

em que se fazia notar imponência,

dignidade ou firmeza de autoridade,

Dona Lucilia assumia uma posição

de vigilância para ver se também

os outros tinham feito como sua

mãe desejava, não como quem cobrasse,

mas esperando a participação

na mesma admiração e, portanto,

na mesma docilidade.

Mas, concluído o trato com Dona

Gabriela, caso ela fosse chamada para

tratar com uma criança da família

que vinha, por exemplo, lhe trazer

uma flor, Dona Lucilia era capaz de

penetrar na admiração que a criança

tinha pela flor, cuidando dela como

a criança gostaria que ela cuidasse,

levando a sério os lados que a criança

levava e, ao mesmo

tempo, proporcionando

ao pequeno uma sensação

de solicitude e proteção,

por onde ele se sentisse

completamente penetrado

e envolvido. E,

se nesse momento, fosse

necessário ministrar um

remédio a um parente

que adoecera, ela o fazia

com perfeição, entrando

também nas dores do

convalescente.

Era um modo de ser

embevecedor, mas nem

sempre admirado inteiramente,

sem que jamais

ela tenha denotado

amargura por não se sentir

retribuída.

Serenidade na

morte de Dona

Gabriela

A casa em que morávamos

era dessas residências

de antigamen-

34


te, térreas e enormes. E a distância

entre o quarto de dormir de Da. Gabriela

e o de mamãe era grande. Minha

avó tinha uma espécie de governanta

de casa muito boa, dedicada,

correta, que dormia ao seu lado. De

maneira que qualquer coisa que minha

avó quisesse, essa mulher atendia.

Ela estava inteiramente bem

atendida.

Minha mãe mandou puxar um

cordão elétrico, com campainha, da

cama de minha avó até a cama dela;

porque a mãe dela estava velha e,

em caso de urgência, podia levar certo

tempo de a tal governanta chegar

até o quarto de mamãe, e ela queria,

tocando a campainha, ir correndo

atender minha avó.

Quando a sua mãe morreu, fizeram-se

as exéquias e compareceu

muita gente. Cumprimenta um, recebe

abraço de outro, perde-se um

pouquinho a noção das coisas. Em

certo momento, me lembrei: mamãe,

onde estará? Comecei a procurá-la

e não a vi. Com certeza, pensei,

ela se sentiu muito abalada e foi para

o seu quarto, e é possível que esteja

com alguma indisposição. Fui ao

quarto dela para ver. Ela estava deitada,

em atitude inteiramente serena,

com uma fisionomia muito triste,

a posição composta e pensando.

É a tal coisa: o vagalhão não alcança!

Nunca eu vi vagalhão algum

atingi-la. Em duas vezes, porém,

quase a alcançou…

Plinio cai do cavalo

Certa ocasião, sentia-me muito

cansado e um amigo ofereceu-me de

irmos à fazenda dele, em Botucatu,

para descansarmos um pouco. Chegando

lá, resolvemos, como todos os

rapazes fazem, andar a cavalo.

Mas o caipira que preparou os

animais apertou mal a barrigueira

do meu cavalo. Eu não percebi,

montei e, antes mesmo de sairmos,

fiz um movimento meio brusco, virei

e tomei uma queda muito forte; bati

Uma das últimas fotografias

de Dona Gabriela

com a espinha numa pedra e passei

dois ou três meses andando de bengala.

Não dei maior importância à coisa.

Voltei a São Paulo e mamãe também

não se preocupou com o fato.

Certa noite, meu amigo veio à

minha casa e disse a Dona Lucilia:

“Olha, estive com meu tio – era um

dos melhores clínicos de São Paulo

naquele tempo – e ele mandou dizer

à senhora que vale a pena mandar

tirar uma radiografia da espinha

do Plinio, porque, às vezes, não

há sinal de perda de mobilidade das

pernas; mas, quando ele tiver 40, 50

anos, se manifesta uma lesão que pode

ser muito ruim. Era melhor tirar

uma radiografia”.

Ela ficou muito alarmada.

Resolvemos, no dia seguinte, ir a

um hospital, no qual havia um parque

enorme, chamado Instituto

Paulista. Mamãe quis ir junto. Fomos

ela, meu amigo e eu; andamos

por todo aquele jardim etc., e eu me

apoiando na bengala. Depois eu quis

ir à capela desse instituto, onde tinha

recebido uma graça e uma consolação

colossal anos atrás, e fui rezar lá.

Eu nem estava pensando no negócio

da espinha...

2-10 de abril – Dona

Lucilia participa como

“Patronesse” da Semana

Festiva em Santa Cecília.

Setembro – Dr. Plinio

se submete à cirurgia de

extração das amigdalas.

Dona Lucilia foi avisada

apenas após o procedimento e,

muito impressionada, quis ir

ao hospital estar com o filho.

Novembro – Correspondência

entre Dona Lucilia e Dr.

Plinio, que se encontrava

no Rio de Janeiro.

21 de dezembro – Dona

Lucilia novamente participa

como “Patronesse”

da Semana Festiva

em Santa Cecília.

1933

12 de abril — O nome de

Dr. Plinio figura entre

os candidatos a deputado

designados pela Chapa Única

por São Paulo Unido.

Dona Lucilia pede o voto

de amigas e conhecidos

a favor de seu filho.

26 de abril – Manifesto

“Ao eleitorado Feminino”,

para motivar o voto

feminino, com a assinatura

de Dona Lucilia.

35


Dona Lucilia

Dr. Plinio em uma fazenda de Botucatu, em 1930

Quando afinal voltei, encontrei

mamãe sentada num local perto da

sala das radiografias, rezando o rosário

durante todo o tempo e com os

olhos úmidos de lágrimas. Eu disse:

“Mas mãezinha, o que é isso?” Ela

continuou a rezar e não respondeu.

Continuei:

— Mas me explique um pouco...

— Eu estou muito apreensiva –

afirmou ela.

— Mas, por que a senhora está

apreensiva?

— Conforme for o resultado, você

verá.

Daí a algum tempo, veio o médico,

que era conhecido nosso, com a

radiografia, e disse a ela:

— Não tem nada.

Ela perguntou:

— Mas, Doutor, o senhor garante

que não tem nada mesmo?

Ele a tranquilizou:

— Dona Lucilia, a senhora não

vai entender, mas posso mostrar um

pouco nesta radiografia que está tudo

perfeito.

Notei que ela teve um desafogo.

Dia da formatura

na Faculdade do

Largo São Francisco

Outro momento no qual

ela passou por grande aflição

foi quando cheguei quase

atrasado à minha formatura

na Faculdade de Direito.

Aí ela fez um drama comigo

que nunca fizera em outra

ocasião. Chamou-me para irmos

ao quarto dela, que era

longe, no outro lado da casa.

Entramos, era dia de formatura

e pensei que ela fosse

me dizer alguma coisa agradável;

ela passou a chave na

porta, coisa que nunca havia

feito, e pôs-se de joelhos

diante de mim.

Eu disse:

— Mas, mãezinha, o que é

isso?!

Ela respondeu:

— Você não sabe o que eu sofri

durante esse tempo, e você vai me

prometer que nunca mais repetirá isso.

Então percebi o que era.

Dei risada, ajudei-a a levantar-se.

Ela afirmou:

— Não, você não está tomando

a sério o que estou

dizendo, e a coisa é seríssima.

— Está bem, eu prometo

tudo o que a senhora quiser...

Passamos, então, à sala

onde estavam as outras pessoas.

Foram as duas vezes

que a vi assim.

Filial preocupação

com Dona Lucilia

Lembro-me de como foi o

dia da inauguração da Constituinte.

Com um mês de antecedência,

anunciaram que

os deputados eleitos da Chapa Única

por São Paulo Unido iriam juntos

para o Rio de Janeiro a fim de começarem

a exercer o mandato. Naquele

tempo, as cerimônias se realizavam

com muito mais solenidade do

que hoje. Eu queria absolutamente

que mamãe assistisse à minha posse.

As razões são evidentes: a ocasião e

porque eu a “transqueria” e, portanto,

achava que ela tinha que ir.

Convidei minha irmã e também

meu pai; eu mesmo paguei as despesas

dele, porque ele se encontrava

em condições econômicas péssimas.

Ora, eu me perguntava qual seria a

posição de Dona Lucilia com a situação

e julguei que ela poderia tomar

duas atitudes eventuais: uma, seria

levar em consideração que eu tinha

sido eleito deputado católico sem

nenhum compromisso com a República

e que, não sendo oficialmente

monarquista, iria desempenhar uma

missão sacralizante em oposição ao

laicismo republicano.

Mas, poderia ser que ela tomasse

a coisa do lado oposto, julgando que

assistiríamos apenas a uma função

Dr. Plinio por ocasião de sua formatura em

Direito, trajando a tradicional beca

36


Hotel Glória e Capela de

Nossa Senhora da Glória. Ao

fundo, o Pão de Açúcar

3 de maio — Eleições

para a Assembleia

Nacional Constituinte.

21 de junho — Dr. Plinio

é proclamado o mais

votado dos candidatos

eleitos, pelo Tribunal

Regional da Justiça

Eleitoral de São Paulo.

Fachada do

edifício da

Câmara Federal,

no Rio de Janeiro

da República: a inauguração de uma

Constituinte. No entanto, eu não levantei

nenhum problema com ela,

apenas perguntei se ela, minha irmã e

meu pai queriam ir. Ela aceitou com

a maior naturalidade. Assim começaram

os preparativos para a viagem.

No dia da inauguração da Constituinte,

fomos de automóvel, os quatro

juntos, ao Palácio Tiradentes, Sede

do Congresso Nacional. Para os

gostos do tempo, não era um palácio

bonito, mas era luxuoso, com ar imponente.

Entramos na Câmara, minha

mãe, meu pai, minha irmã e eu.

Logo me preocupei se tinham arranjado

um lugar conveniente para

minha mãe; talvez tivesse havido

uma dificuldade, ela não estivesse

tão bem instalada quanto eu desejaria.

Nessas ocasiões, há aventureiros

e gente de toda ordem que, de

vez em quando, força uma pessoa a

entregar o lugar, e ela não era de brigas.

Queria ver se ela estava sentada,

porque, conforme fosse, eu subiria lá

e me desdobraria com toda espécie

de cuidados e preocupações.

Eram três tribunas e custei um

pouco para encontrá-la. Pus-me de

costas para o gabinete da presidência,

procurando-a na tribuna da frente.

Devido à distância, não enxergava

bem; saí do meu lugar, fui andando

pelo corredor central dos bancos,

no sulco que dividia as cadeiras em

dois blocos, buscando-a com o olhar.

Quando cheguei perto, eu a vi bem e

percebi que estava rindo, contentíssima!

Muito afetuosamente, ela tomou

um lencinho e me fez um sinal,

querendo dizer que não me incomodasse,

porque estava bem instalada.

Ao lado dela, encontrava-se minha

irmã, que fazia o mesmo gesto. Eu as

saudei e voltei para minha cadeira.

Maior foi a alegria do afeto

do que a de vê-lo deputado

À noite, cheguei ao hotel para

jantar. Mamãe, que sofria muito do

fígado, tinha deixado aviso na recepção

de que não jantaria na sala de

jantar embaixo, porque estava um

pouco indisposta. Em geral, eram

pequenas indisposições, não me preocupei.

Fui ao meu quarto, tirei o

fraque com o qual estava e troquei

de roupa, colocando uma mais es-

13 de novembro – Dona

Lucilia e outros familiares

partem para o Rio de

Janeiro, para a inauguração

da Assembleia Constituinte.

15 de novembro – Sessão

solene de abertura da

Assembleia Constituinte.

1934

5 de janeiro – Falecimento

de Da. Gabriela

Ribeiro dos Santos.

11 de janeiro – Missa

de 7º dia por alma de

Da. Gabriela, na Igreja

de Santa Cecília.

Abril – Dona Lucilia

muda sua residência do

palacete Ribeiro dos Santos,

na Alameda Barão de

Limeira, para a Rua

Marquês de Itu, n.124.

37


Dona Lucilia

cura, adequada para o jantar. Mandamos

subir a refeição para ela, que

jantou sozinha.

Terminado o jantar, minha irmã e

meu pai ficaram no salão conversando

com conhecidos, e eu subi até o

quarto de minha mãe, para ver como

ela estava. Cheguei e encontrei-a de

chambre, na posição em que eu queria

que ela estivesse: numa cadeira

muito cômoda que havia no quarto

e que ela tinha mandado o copeiro

deixar bem em frente a um janelão.

O céu estava límpido, a Lua dourada

– há ocasiões em que, no Rio, a

Lua fica assim – que se refletia sobre

o mar do Flamengo de um modo lindíssimo.

Havia umas palmeiras colocadas

como que de propósito e que

aumentavam a beleza do panorama.

Mamãe estava sentada olhando para

aquilo muito atentamente, absorta

no cenário. Ela era muito sensível

a bonitos panoramas e coisas do gênero.

Não havia cadeira perto dela, então

eu me ajoelhei junto a ela que,

naquela época, já estava com problema

de audição; agradei-a e comecei

a conversar um pouquinho, perguntei

se estava contente, gostando

da viagem; comentamos um pouco

a Lua, porque estava dos luares mais

bonitos que há, era uma noite linda!

E, em certo momento, fiz algum gracejo

ligeiro, ao que ela me disse, como

gracejando também:

— Meu filho, você está gracejando

comigo, mas deixemos o gracejo

e falemos de uma coisa séria: você

não tem ideia do contentamento

Inauguração da Assembleia Constituinte, em 15 de novembro de 1933. Em destaque, Dr. Plinio

Assistentes da inauguração da Assembleia Constituinte. Em destaque, da

esquerda para direita: Dr. João Paulo, Dona Lucilia e Da. Rosée

que deu à sua mãe hoje. Você me fez

uma que eu não esquecerei até a hora

da morte.

Eu fiquei um pouco surpreso. Perguntei:

— Mas, por quê, meu bem?

— Eu estou contemplando o panorama,

mas, de fato, estou pensando

em você e lembrando-me de sua

fisionomia: no momento que era tão

absorvente para você estrear sua vida

política, situação que lhe impunha

deitar a atenção em tudo quanto

se estava passando ao seu redor, você,

entretanto, se preocupou sobremaneira

em arranjar-me um lugar

tão bom; e ainda, lá debaixo, lembrar-se

de sua mãe, voltando as costas

para a Constituinte, deixando seu

lugar à minha procura, para saber se

eu estava de fato bem instalada. Eu

tive uma tal impressão de desvelo e

de afeto com os quais me procurava,

que me valeu mais do que a alegria

de vê-lo deputado. Nunca me

esquecerei disso! Isso foi uma coisa

que me fez tanto bem, que até agora

eu vejo sua fisionomia me dizendo

adeus, e o seu olhar era a mesma coisa

que um beijo.

Eu fiquei meio pasmo, porque eu

estava disposto a fazer tanto mais…

Era um pequeno gesto banal e co-

38


mum, que nem me ocorreu de achá-

-lo extraordinário. No entanto, ela

estava encantada. Eu pensei em dizer:

“Mamãe, perto do bem que eu

lhe quero, é tão pequena coisa que

é uma bagatela, uma ninharia. A senhora

pense nisso com muito mais

profundidade, aí a senhora encontrará

a fórmula de benquerença”.

Mas eu não disse o que pensei, as

palavras me faltaram. Eu a agradei.

Depois desci para falar um pouco

com as pessoas.

Eu não posso me esquecer desse

pequeno dito dela, que marca muito

a atenção que ela possuía, mas também

marca muito a tabela de valores

das coisas, porque esse é o ânimo

materno: ela resolveu valorizar uma

coisinha pequena.

Durante todo esse tempo, ao longo

da conversa, o problema “República”

nem passou pela mente dela.

Ela só fixou o olhar no lado religioso

da missão, com a qual ela estava “ultra”,

“arqui” de acordo e mais nada.

Para grande número de senhoras,

o mais importante seria que o filho

fosse deputado. Carinho ou não carinho…

pondo carinho é melhor, mas

não pondo também iria bem, desde

que fosse um deputado muito votado,

com muito prestígio. Isso é que

seria o importante para contar junto

às amigas e orgulhar-se. Mas a tabela

de valores dela era inteiramente

diferente.

Despojamento de tudo,

até de seu filho

Ao longo dos anos, eu a via progredir

na dor, no isolamento, numa

espécie de despojamento de tudo,

ponto por ponto, até o mais crucial,

o mais interno e o mais doloroso.

Nunca comentei com ela, mas creio

que mamãe percebia meu afeto tanto

quanto possível crescente, minha

solicitude que se desdobrava, minha

vontade de agradá-la de todos os

modos, como mais não saberia fazer.

Pequenas circunstâncias fortuitas

levaram a que, em determinado momento,

mesmo a meu respeito, ela tivesse

algumas provações. Por exemplo,

eu percebia que ela experimentava

uma certa dificuldade em compreender

a razão pela qual eu dedicava

tanto tempo ao nosso Movimento,

deixando-a sozinha. O que

eu, no meio de mil carinhos, fazia

inexoravelmente, por saber ser a minha

obrigação.

Em certa ocasião, quando nos encontramos

fortuitamente num corredor

de nosso apartamento – estávamos

os dois a sós em casa –, ela parou

e me fez um agrado, algo assim.

Depois me olhou e, tendo-me nos

braços, disse: “Meu filho, eu só tenho

você no mundo, mas a você eu

tenho inteiro!” Aí foi a minha vez de

olhar para ela, como ela olhara para

mim.

1935

24 de junho – Falecimento

do Dr. Américo Rodrigues

dos Santos, tio de Dona

Lucilia; confortado com

os Sacramentos da Igreja,

graças à intervenção dela.

1º de julho – Missa de 7º dia

por alma de Dr. Américo

Rodrigues dos Santos, na

Igreja de Santa Cecília.

No segundo semestre –

Mudança de residência para a

Rua Itacolomi, 55 (número

alterado em 1936, para 625).

1938

3 de maio – Bênção das novas

máquinas do Legionário

por D. Duarte. Dona

Lucilia acompanha Dr.

Plinio nessa ocasião.

26 de julho – Dona Lucilia

recebe para um jantar em

sua residência o Almirante

Yamamoto, veterano de guerra

e líder católico do Japão.

1939

19 de setembro – Dona Lucilia

visita o novo Arcebispo

de São Paulo, D. José

Gaspar d’Afonseca e Silva,

na Cúria Metropolitana.

39


Dona Lucilia

Tais palavras me ficaram no espírito

para sempre. Tendo ela dito isso,

eu nada respondi, pois não existem

palavras capazes de exprimir os

próprios sentimentos em situações

como essa. Eu só a beijei e abracei,

como sempre fiz. Mas posso tranquilamente

dizer que ela me tinha mesmo,

e por inteiro!

Vê-se que, depois, a Providência

começou a exigir dela, até disso, um

certo desapego: “Não pense em mais

nada, nem em ninguém. Pense só em

Deus”.

Daí a calma que vemos em certas

fotografias dela já bem idosa.

É uma pessoa que viveu sua vida e

tem a sensação de que os vagalhões

todos vieram, mas não penetraram

nem desarranjaram em nada esse

tabernáculo interior, e que, portanto,

a vida estava feita. Alguma coisa

que nessa idade ainda viesse não era

mais nada. Ela estava se preparando

para o Céu.

Serenidade e desapego ante

a perspectiva da morte

Quando ela fez talvez uns oitenta

anos, notei que algo no seu modo carinhoso

de me tratar estava mudando

um pouco. Até então, desde pequeno,

ela me tratara como a pessoa

a quem mais queria bem na família,

a ponto de os familiares brincarem

com ela de todos os modos, dizendo

ser isso excessivo. Ela não se

incomodava e continuava do mesmo

jeito.

De repente, isso diminuiu. Depois

eu soube, por um dito dela, que ela

estava reduzindo as manifestações

de afeto porque percebia estar já

muito idosa e a morte estar se aproximando,

e eu sentiria demais a sua

falta se esse afeto mútuo fosse tão

grande. Ela preferia que isso declinasse

um tanto, para que a ausência

que eu sentisse dela fosse menor.

Não sei se chego a exprimir bem

todo o desapego que ia, a ponto de

me deixar pensar que ela estava esfriada

no afeto para comigo. É um

requinte difícil de imaginar!

Ela possuía uma gaveta na mesa

de toilette dela, onde guardava papéis.

Algum tempo antes de morrer,

vi que ela andava remexendo

aquilo e rasgando muitos papéis.

Uns dias depois de sua morte, fomos

verificar o que havia na gaveta,

e vimos que ela guardou o essencial;

e que fizera aquilo para não termos

trabalho com os papéis dela, quando

tivesse morrido. Observei, então,

que ela mandou jogar fora coisas

que eu teria gostado enormemente

de conservar. Mamãe fazia as contas

da casa – era uma empresa que

fornecia aos fregueses uma espécie

de notas, formando um caderno com

todos os dias do ano –, e escrevia, a

cada dia, as despesas. Tudo isso ela

jogou fora, pela preocupação de não

dar trabalho a ninguém. Vemos, assim,

a serenidade no transpor a morte,

com a tendência ainda de dar,

com isso, uma prova de amor e receber

uma prova de amor, que era o

carinho dela até onde chegava. Mas

na calma, vivendo a existência de todos

os dias.

De maneira que, quando ela adoeceu,

foi uma coisa completamente

inopinada. Ao cabo de dois, três

dias, estava morta.

“Senti a imensidade

que nos separava…”

A cena que mais me emocionou

na vida foi o encontro com minha

mãe, que Deus acabava de chamar

a Si. Mamãe faleceu bem idosa, com

92 anos, mas não tive a felicidade de

assistir à sua morte. A noite anterior

ao seu falecimento, ela passara com

problemas cardíacos muito acentuados.

Eu estava em meu quarto –

que ficava a um passo do dela – lendo

o jornal, com a intenção de logo

que me levantasse ir vê-la. De repente,

entraram no meu quarto e disse-

40


ram-me, da parte do médico

que a estava assistindo,

que, se eu quisesse encontrá-la

com vida, fosse depressa,

pois ela estava em seus

últimos momentos.

Por causa de implicações da diabete,

eu tinha sofrido uma amputação

no pé e o ferimento ainda não

estava cicatrizado. Como não tinha

muletas nem cadeira de rodas, mandei

vir duas vassouras e, apoiando-

-me nelas, dirigi-me o mais rapidamente

possível ao quarto de mamãe.

Quando entrei, o médico me disse:

“Ela já morreu!”

Ela já não estava lá. Não a alcancei!

E senti a imensidade que nos separava.

Deus e Nossa Senhora nos

uniam, e isto bastava. No entanto...

quando entrei no quarto e vi seu

corpo já sem vida, senti que aquelas

mãos, que tanto me haviam abençoado

e acariciado, não me acariciariam

mais; aqueles lábios, que tantas

coisas me haviam ensinado, não

me ensinariam mais; aqueles lábios,

enfim, que tanto haviam orado por

mim, não se moveriam mais...

Senti então, naquele momento,

passar-se algo comigo que me sacudia

de modo profundo e por inteiro,

como se eu fosse uma corda que

arrebentasse, e algo, que era quase

eu mesmo, separar-se categórica e

drasticamente de mim. Nunca, nunca

em minha vida tivera uma emoção

igual ou comparável àquela.

Na véspera, havia passado o dia

inteiro junto de mamãe, no quarto,

não saindo, a bem dizer, para nada.

Eu sabia que ela estava prestes a

morrer, e a razão de eu permanecer

ali era a consciência plena desse fato.

Mas – fato singular – aquele drama

da morte só se pôs, para mim, no

instante em que ela expirou e senti

a ausência do seu carinho... muito

mais do que isso, a própria ausência

dela. E, então, chorei copiosamente…

O médico contou-me como havia

sido aquele momento extremo:

Dona Lucilia estava com a respiração

curta, mas tão serena que não se

podia prever que morresse naquele

momento. De repente, fez o Nome

do Padre muito grande e morreu.

Sempre com a mesma paz, a mesma

serenidade, a mesma humildade. É

a calma e a glória no Céu, no plano

natural e no sobrenatural.

“Éramos um”

Tenho saudades dela, no sentido

de que eu gostaria imensamente

de osculá-la, de conversar com

ela, imensissimamente, mas na minha

alma é como se ela estivesse viva.

Não é que eu converse com ela,

mas aquela sensação da presença,

da convivência, eu tenho com ela; e

não sensação de ausência que eu teria,

quando mamãe vivia, por exemplo,

estando eu na Europa. E consi-

1940

Maio - junho – Dona

Lucilia passa uma temporada

em Águas da Prata.

16 de junho – Dona Lucilia

integra a Comissão de Honra,

criada para as comemorações

do centenário do Pe. Chico.

Dezembro – Mudança

de residência para a Rua

Sergipe, n. 401.

1943

Fevereiro – Dona Lucilia

passa uma temporada no

Guarujá com familiares.

1945

1º de outubro – Dona Lucilia

passa horas de muita aflição, ao

saber que um dos ônibus urbanos

que Dr. Plinio costumava usar

pegara fogo em São Paulo.

1946

Janeiro – Mudança de

residência para a Rua Vieira

de Carvalho, n. 27, 2º andar.

20 de junho – Dona

Lucilia acompanha parte

da procissão de Corpus

Christi até o Largo da Sé.

41


Dona Lucilia

Quarto de Dona Lucilia

derem que ela está no Céu e eu aqui

na Terra!

Sobretudo nos últimos anos

da vida de mamãe, não era

a conversa, mas a presença,

uma coisa que eu não

sei explicar, e isso para

mim continua como se

ela estivesse viva.

E considero o xale

lilás guardado nessa

caixa, lembrando-me da

fisionomia prateada e lilás

da senhora que o portava,

e sinto-me ainda mais

emocionado. Não posso me

esquecer das conversas de mamãe

comigo, em horas sempre noturnas,

ela recostada em sua cama

e eu sentado junto a seus pés. Nessas

ocasiões, era-me dado notar nos

horizontes do seu olhar, nos imponderáveis

da voz, no trato de um carinho,

uma delicadeza e uma elevação

requintadas, que havia no espírito

dela muito mais do que suas palavras

exprimiam.

Percebia que ela possuía, por assim

dizer, dois horizontes e duas vidas.

Um, o horizonte da vida quotidiana

de uma dona-de-casa, inteiramente

imbricada no seu meio.

A maior parte dos que conviveram

com ela nesse ambiente nunca suspeitaram

que houvesse um outro panorama,

uma outra vida. Nesta, ela

meditava em subidas verdades, com

as quais a fé desdobrava os seus véus

de ouro completamente. A devoção

ao Sagrado Coração de Jesus, a Nossa

Senhora, abriam-lhe toda uma série

de firmamentos, concepções e

patamares de alma.

Nós dois nos achávamos tão envolvidos

naquele contexto espiritual,

os fios de linha daquele tecido eram

de tal maneira trançados, que nunca

trocamos palavra um com o outro

sobre esse ponto. Conversávamos

pelo olhar. Ela me apoiava e, a

partir de um certo momento,

eu passei a estimulá-

-la nessa disposição de

alma mais elevada. As

nossas conversas, quando

eram a sós e à noite,

poderiam ser comparadas

ao voo de dois pássaros

que, nem de longe,

chegariam até o Sol,

mas se deleitavam em ver

que os raios do astro soberano

batiam sobre suas asas.

Sem abandonarmos esse imbricamento,

nos entendíamos, falávamos

a linguagem do imponderável,

do inefável. Em seguida, nos

despedíamos afetuosamente; eu me

retirava para dormir e ela permanecia

na cama. Nunca voltei ao quarto

de mamãe para ver o que ela fazia

depois de eu sair. Creio que cada um

imergia em suas próprias cogitações.

Havia uma união de alma entre

ela e mim tão profunda, que vinha

dos mais íntimos alicerces do meu

ser, de meu espírito, que coincidiam

com os dela; de tal maneira que não

era só uma afinidade temperamental,

psicológica, enfim, os mil tipos

de afinidades que possa haver entre

mãe e filho, mas era uma coisa diferente;

do fundo da alma, o quanto

pode ser, eu sentia essa afinidade.

E fazíamos um só, de tal maneira

éramos unidos. Eu me lembro de que

uma arrumadeira portuguesa chamada

Ana, que tivemos quando morávamos

numa outra casa, fez a nosso

respeito um comentário, do qual mamãe

gostou muito. Com aquela simplicidade

portuguesa, Ana dizia o seguinte:

“Viver com a cordialidade

que a senhora vive com o Dr. Plinio,

nem marido e mulher, noivo e noiva

têm, porque eles, quando são felizes,

não possuem essa cordialidade”. Mas

era realmente um encanto contínuo

meu por ela, e um modo de tratar co-

42


26-28 de junho – Dona

Lucilia participa da novena

do Sagrado Coração de Jesus

na Igreja de Santa Cecília.

30 de novembro – Dona

Lucilia comparece, no Hotel

Esplanada, à recepção da

Família Imperial, oferecida

pela sociedade paulistana.

1950

15 de abril – Dr. Plinio despede-se

de Dona Lucilia antes de

viajar para a Europa, mas não lhe

revela que seu destino é a Europa.

mo eu nunca vi filho tratar mãe; e dela

comigo, talvez ainda mais, porque

nas menores coisas havia uma delicadeza

e uma solicitude em procurar interpretar-me,

mil coisas que os fatinhos

concretos não podem exprimir,

porque era o espírito com que o fatinho

era realizado.

Isso tem uma projeção espiritual,

quer dizer, de tal maneira éramos

um, que não é possível aderir a um e

não aderir ao outro.

Maravilhoso caminho

traçado por Deus

Sala de jantar do apartamento de Dona Lucilia

Lembro-me de que, alguns meses

antes de eu ser acometido pela

crise de diabetes, durante um almoço

com ela, senti qualquer incômodo

pelo qual tive a impressão de estar

gravemente doente. Meu pensamento

imediato foi: “Este convívio

tão bom entre ela e mim, haverá algo

semelhante assim na Terra? Se Deus

me levar, desfará isso. É um grãozinho

de areia no qual Ele é Rei. Estes

grãos de areia têm de ser desfeitos

desta maneira?”

Pouco depois, abatia-se sobre

mim a prenunciada doença, e meus

receios se confirmavam: “O desfazimento

final está para vir. Deus me

levará, e mamãe ficará sozinha. Ou

ela soçobra na ilucidez ou dar-se-á

conta de algo e também morre”.

Aquele grão de areia parecia estar

desfeito. Ora, não. Outros eram

os desígnios da misericordiosa Providência.

Sobrevivi à grave enfermidade

e, durante o longo período de

convalescença, minha casa se encheu

de amigos. Estes conheceram de

perto Dona Lucilia, e passaram a admirá-la,

a agradá-la com toda a espécie

de atenções e carinhos. Onde tudo

parecia o fim, no que dizia respeito

a ela, um frutuoso apostolado começava

a nascer.

Como não posso ficar maravilhado

diante do lindo traçado que Deus

desenhou ao longo deste caminho, e

cujos contornos foram obtidos pelas

súplicas de Maria Santíssima? v

22 de abril – Dona Lucilia

recebe vários bouquets, presentes

preparados com antecedência

por Dr. Plinio, tendo em vista

sua viagem para a Europa.

13 de junho – Em audiência

privada com o Santo Padre Pio

XII, Dr. Plinio pede uma

bênção para Dona Lucilia.

14 de julho – Casamento

de Maria Alice com

Eduardo Matarazzo.

28 de setembro – Dona

Lucilia vai à Igreja de Santo

Antônio, onde comunga e

reza pelo sucesso de Dr. Plinio

nas eleições como candidato a

deputado federal pelo Paraná.

43


Dona Lucilia

Maternal intimidade com

Fotos: Arquivo Revista

os filhos até na eternidade

A invariável bondade de

Dona Lucilia não cessou de

se fazer sentir mesmo depois

de sua morte, notadamente

em relação aos discípulos de

Dr. Plinio, que passaram a

pedir sua intercessão junto

a Jesus e Maria, vendo-se

sempre atendidos. Em

reconhecimento, um deles

procurou retratá-la em

pintura a óleo, com base nas

últimas fotografias dela. O

“Quadrinho” – como ficou

conhecido – encantou Dr.

Plinio e se tornou uma

vívida e constante lembrança

daquela figura materna,

diáfana e acolhedora...

44


1952

No que diz respeito

às devoções,

há dentro

da Santa Igreja uma liberdade

de acordo com o

movimento das almas. Por

exemplo, se eu comecei

uma novena a Nossa Senhora

e, de repente, me ocorre

pedir a Santo Antônio de

Pádua, pode ser uma prova

de inconstância e, portanto,

uma coisa não bem-

-feita; mas, em certas ocasiões,

pode ser que eu não faça

mal, porque conheci, pelo

movimento da graça, que

aquilo calhava melhor.

Intercessão de

Dona Lucilia junto

a Nossa Senhora

No tocante ao pedido de

intercessão de Dona Lucilia,

uma devoção conduz à

outra; ou seja, se for bem

vista e bem usada, a devoção

a ela leva ao afervoramento

na devoção a Nossa

Senhora. Se a devoção a Maria Santíssima

for bem praticada, conduz,

muito facilmente e sem alfândegas,

ao recurso a ela. Essas coisas são livres

como o ar.

Na Igreja, para tudo aquilo que

não é matéria de pecado há muita liberdade,

conforme os sopros da graça.

Para meu foro interno, é certo este

ponto: diminuir a devoção a Nossa

Senhora, nunca! Por exemplo, eu

ficaria apavorado se alguém diminuísse

a reza do Rosário para orar mais

a mamãe. Não! Adquiriu esse hábito,

deve conservá-lo até morrer! Entretanto,

pode-se pedir que Dona

Lucilia reze o Rosário conosco, aos

pés da Santíssima Virgem.

Não significa que o papel de mamãe

seja automático e que ela seria,

portanto, um botão o qual, pres-

O toque em escrófula pelo rei Henrique II na

Igreja de Saint-Marcoul do priorado de Corbeny

sionado, leva postalmente um pedido

a Nossa Senhora. Contudo, pode

haver favores que, pedindo por

meio de Dona Lucilia, nós obtemos

da Mãe de Deus, e que, não rogando

por esse meio, não obteríamos. Portanto,

nesse caso, é uma coisa que

depende de nós rogarmos a intercessão

dela, porque Nossa Senhora

quer essa intercessão para nos atender.

Se não houvesse essa intercessão,

não nos atenderia.

Tomemos como exemplo a cena

que se passava após a sagração do rei

da França. A escrófula é uma doença

localizada, que deixa a pele em estado

muito repugnante. E o rei tocava

os escrofulosos, dizendo: “Le roi

te touche, Dieu te guérisse”. 1 E muitos

saíam de lá se dizendo curados.

Imaginemos que um escrofuloso

afirmasse o seguinte: “O rei me cura

Fevereiro – Mudança

de residência para a Rua

Alagoas, n. 50, 1º andar.

1953

Junho – Dr. Plinio leva

Dona Lucilia e Dr. João

Paulo ao Cine República

para assistirem ao filme da

coroação da Rainha Elizabeth.

1956

4 de fevereiro – Dona

Lucilia é fotografada no

aniversário de 2 anos de seu

bisneto, Francisco Eduardo.

1958

27 de agosto – Dona Lucilia

comparece a um chá da Liga

das Senhoras Católicas.

1959

29 de janeiro – Dona

Lucilia comparece à reunião

de Encerramento da 7ª

Semana de Estudos de

Catolicismo, no Palacete

Lupércio de Camargo.

45


Dona Lucilia

pela graça de Deus. Então, muito

melhor do que ser tocado pelo rei

é ser tocado pelo Santíssimo Sacramento.

Logo, não quero ser tocado

pelo rei e vou comungar”. Talvez não

sarasse de sua escrófula...

Embora ele tivesse razão – é muito

melhor comungar do que ser tocado

pelo rei –, para obter aquela cura

era desígnio de Deus glorificar o monarca;

e, portanto, fazer a cura apenas

mediante o pedido do rei.

Vê-se, assim, como nessas mediações

não há nada de automático.

Nós estamos tão viciados na automação,

que temos uma tendência a

imaginar o automático.

Realizar o plano da

Providência recorrendo

a Dona Lucilia

Compreendo que uma alma aflita,

conhecendo que Nossa Senhora

quer que se peça determinada graça

por meio de Dona Lucilia, agarre-se

nela com a convicção confusa

de que, com isso, realiza o plano

da Providência. Não é que ela esteja

passando por cima da Providência,

mas está obedecendo à Providência.

Essas reflexões se desdobram em

comentários colaterais inúmeros. Por

exemplo, eu vi, mais de uma vez, pessoas,

homens e senhoras que, quando

deitam todo empenho em fazer alguma

coisa, por exemplo, algo caligraficamente

bem executado, dizem:

“Agora não me interrompa, porque

vou fazer tal coisa”. E se eriçam para

fora e se aplicam para dentro.

Não é nem um pouco o modo de

mamãe se aplicar. Poder-se-ia interrompê-la

em algo mais especial que

estivesse fazendo, que ela era absolutamente

a mesma. Interrompia, ou

então dizia: “Sua mãe agora não pode

atender, espere um pouquinho”.

Mas um “espere um pouquinho” que

convidava a ficar ali perto, junto dela.

Quando ela queria fazer as coisas

bem-feitas, não era com mania

de perfeição, pois esta deixa a pessoa

como que sem fôlego, ofegante.

Dona Lucilia sempre possuía fôlego,

embora se notasse que ela estava indo

além de suas forças. Tudo isso tinha

uma doçura que não sei descrever;

é só olhando para o Quadrinho.

Se querem saber qual é o principal

ponto de atração da alma de

mamãe para a minha, olhem para o

fundo do olhar dela no Quadrinho

e compreenderão. Aquilo diz muito

mais do que qualquer palavra ou

descrição. Olhem para o Quadrinho

e notarão que ele não exprime em

nada uma tendência de alma definida.

É uma espécie de benevolência

distinta para o que der e vier; voltada

para todos, mas no momento para

ninguém. Ela está apenas olhando.

Há ali duas atitudes diversas que

se ombreiam de tal modo que – para

os meus olhos de filho, pelo menos

–, constituem um encanto: é o tão

completo dar-se, com uma distinção

por detrás, que diz afavelmente:

“Conta, peso e medida em tudo, está

muito bem”.

46


A força de presença que ela tinha

era única, e o Quadrinho possui isso,

de maneira que, quando o recebi, eu

disse: “Este Quadrinho veio para reforçar

a sensação da presença dela”.

Comunicação de alma

por meio do Quadrinho

Quando um discípulo meu pintou

esse quadro – tendo como base uma

das últimas fotografias dela – fê-lo

durante uma longa viagem, dentro

de uma Kombi, nas condições mais

desfavoráveis que se possa imaginar

para um trabalho desse tipo. O resultado

foi que ele terminou a pintura

e não gostou. Então, apagou tudo,

exceto os olhos, que lhe pareciam ter

ficado bons. Assim, no pano, restaram

apenas aqueles dois olhos. E ele

tinha a impressão de que os olhos

dela lhe suplicavam que retomasse

a pintura. Ele então fez e, apesar de

outras vicissitudes, saiu aquela obra-

-prima.

Pois bem, eu me comovo imaginando

aqueles dois olhos no tecido.

Seria quase o que mamãe foi para

mim: dois olhos ao longo da vida...

Todo o resto, um tecido. Mas aqueles

dois olhos eram, para mim, um

firmamento!

Ainda me recordo do instante em

que, no fim de um longo expediente,

a pessoa que me trazia o Quadrinho

disse: “Fulano pintou um retrato de

Dona Lucilia e gostaria de oferecer

ao senhor”.

Algo constrangido, o meu interlocutor

abriu o envelope, tirou o quadro

e me apresentou, talvez pouco

confiante no meu favorável acolhimento.

De fato, devo confessar que,

embora eu conhecesse os dotes artísticos

do pintor, parecia-me um tanto

ousado pretender que ele lograsse

reproduzir na tela uma figura que

correspondesse à imagem de mamãe

como eu a conservava na alma.

Perguntar-me-ão: “Então o senhor

recebeu com dúvidas o quadro?”

Não. Eu o recebi sem nenhuma dúvida.

Era um gesto afetuoso para comigo,

o qual se tratava de tomar com

bondade, mas estava certo de que daquele

envelope não sairia sequer uma

decepção, apenas um bom desejo que

eu acolheria com gosto e carinho.

Não será difícil imaginar, pois,

minha surpresa, meu agrado, quando

me foi posto nas mãos. Olhei e lo-

1961

27 de janeiro –

Falecimento de Dr.

João Paulo Corrêa

de Oliveira.

2 de fevereiro – Missa

de 7º dia por alma de

Dr. João Paulo Corrêa

de Oliveira, na Igreja

de Santa Teresinha.

7-8 de outubro – Dona

Lucilia tem um súbito

ataque cardíaco; Dr.

Plinio encontrava-se em

Buenos Aires e volta às

pressas para São Paulo.

1964

Abril – Última

carta escrita por Dona

Lucilia, endereçada

a Da. Teresa Corrêa

de Oliveira, irmã de

Dr. João Paulo.

1967

Dr. Plinio no início da década de 1980

Dezembro — Dr. Plinio

é acometido por uma

grave crise de diabetes.

47


Dona Lucilia

go percebi uma semelhança com mamãe,

sobretudo no olhar, e numa

presença de estado de espírito, eu

quase ousaria dizer, uma comunicação

de alma, que eu achava estivesse

reservada para o Céu.

Rápida e silenciosamente, passei

por várias sensações: “Não, tem de

ser melhor! Mas é! Como? Não tem

dúvida!” etc. É evidente que a pintura

me tocara de modo profundo.

A moldura perfeita

Após contemplar o retrato, analisei

a moldura e, uma vez mais com

surpresa, verifiquei que, no seu gênero

e para seus efeitos, era perfeita.

A imagem de Dona Lucilia se

achava tão bem no interior da moldura

que, se ela própria tivesse escolhido

uma dentro daquele diapasão,

não seria diferente. A guarnição correspondia

inteiramente à época, ao

estilo e ao modo de ser da imagem

reproduzida no Quadrinho. Por assim

dizer, eu sempre a vi no ambiente

dessa moldura e, por isso mesmo,

ninguém pensaria em trocá-la...

Em seguida, passei a conjeturar

onde colocá-lo. A escolha natural era

a casa dela, e nesta, no meu escritório.

Não se encaixaria bem num dos

salões, já ornados com boas obras de

arte, nem no meu quarto de dormir,

pois eu queria estar acordado para

contemplar o olhar dela na pintura...

Portanto, ficou assente que ele

ocuparia lugar na mesinha em que

hoje se encontra.

Confiança, paz de

alma e alegria

Escritório de Dr. Plinio em seu apartamento

Ao ser posto ali, pareceu-me que

a imagem de mamãe ressaltou-se naquele

ambiente, e na pintura avivaram-se

características que eram bem

dela: sem nenhum esforço, sem dificuldade

alguma, trazer consigo um

sulco de luz, incutir confiança, paz de

alma, alegria e instalar-se naquilo que

era seu.

De tal maneira que, no conjunto

de móveis de minha primeira infância,

tão velhos, tão antigos, o Quadrinho

entrou como se fosse um

complemento natural. E ele é a alma

do escritório, embora neste haja

também um lindo Crucifixo, presente

dos membros do nosso Movimento

quando fiz 50 anos. Acontece

que este Crucifixo, imagem do

Homem-Deus, governa o escritório

como que acima dele, enquanto

o Quadrinho o faz ali dentro, é homogêneo

com aquele ambiente. Dir-

-se-ia que Dona Lucilia esteve ali há

pouco, sentou-se atrás do Quadrinho

e se pôs a nos observar através

dos olhos do seu retrato.

Cabe perguntarmos a que corresponde

o Quadrinho. Acredito que

ele simboliza a presença de uma

mãe, e de uma mãe tal que, quem

não tenha visto ao menos essa pintura,

não pode fazer exata ideia de como

ela foi. Quer dizer, para conhecê-la,

seria preciso contemplar com

essa fidelidade o Quadrinho, no qual

se tem a impressão de sentir até o leve

e discreto arfar da respiração de

Dona Lucilia, o pulsar do seu coração,

a sua tranquilidade sofrida e resignada,

prateada e lilás, e os anos

que se foram cumulando. Tudo isso

se sente no retrato e, sem isso, não

se pode dar por tê-la conhecido.

Reflexo do amor materno

de Nossa Senhora

Resta sabermos a que desígnio da

Providência corresponde o fato de

esta fisionomia assim se manifestar

e pairar dessa maneira sobre tantos

que invocam sua intercessão, marcada

por dita maternalidade, e que julgam

ter recebido um carinho, uma

forma de apoio interno, de proteção,

de ânimo doce para as coisas difíceis.

A que corresponde uma assistência

materna dentro da linha geral das vicissitudes

humanas?

Como modelo perfeito e exemplar,

acima de todos os outros amores,

bondades e doçuras maternais, está

o amor de Maria a Jesus, que d’Ela

nasceu após nove meses de uma gloriosa

gestação. Deus haveria de querer

que o primeiro olhar de Jesus na

Terra fitasse algo que fosse o resumo

de todas as maravilhas do universo:

os olhos do Menino se abriram e encontraram

o olhar de Nossa Senhora,

viram a face esplendorosa da Mãe,

discerniram sua alma e seu Imaculado

Coração. E então, podemos supor,

o Divino Infante sorriu.

48


Nossa imaginação se perde ao

tentar conceber como terá sido esse

primeiro olhar do Filho para a Mãe

incomparavelmente mais bela que

toda a Criação, a Rainha mais bela

que o reino.

Igualmente nos sentimos pequenos

ao pensarmos noutro olhar d’Ele

para Nossa Senhora: o último. Antes

de o Redentor se despedir da Terra,

seus olhos se baixaram sobre os

de Maria e se entrecruzaram. Nessa

derradeira troca de olhares, havia

algo talvez ainda mais belo do que

houve na primeira, quando Ele entrou

na vida. E a face de Nossa Senhora

era mais formosa, sem comparação,

do que eram horríveis todos

os horrores da época. O amor

d’Ela era mais esplêndido do que era

hediondo o próprio deicídio. Entre

olhar e olhar, que nexo magnífico!

Nosso Senhor Jesus Cristo desejou,

portanto, um afeto de mãe

quando abriu os olhos; e quis um carinho

materno quando os fechou. Isso

basta para nos dar a entender o

significado do afeto de mãe e o papel

que ele deve desempenhar na

formação dos homens. Porque todas

as mães que vieram depois de Maria

Santíssima, precedendo-nos com

o sinal da fé, foram convidadas a serem

mães católicas, com a cintilação

de algo que Nosso Senhor viu em

Nossa Senhora.

E nas maiores alegrias, nas ternuras

mais delicadas, nos abandonos

mais terríveis, convinha que d’Eles

nos lembrássemos. Como a proporção

e a harmonia entre o grandioso

e a bondade teriam permanecido entre

os homens se todas as mães tivessem

sido inteiramente mães! Como a

palavra “doçura” teria tomado outro

sentido! E como a majestade materna

teria sido grandiosa! Infelizmente,

nas engrenagens do mecanismo da vida

humana, faltou muito do azeite do

amor materno.

O Quadrinho, imagem do

amor de Maria aos homens

E então podemos compreender os

desígnios da Providência em relação

ao Quadrinho, que vem representar

exatamente um reflexo desse amor

de mãe, uma centelha do insondável

carinho materno de Nossa Senhora

para conosco.

No Quadrinho, mamãe não parece

ter em vista a excelência, o estupendo

resplendor daquilo que um

dia ela alcançaria por meio das suas

orações. Porém, parece ter visto

a cada um inserido naquela mesma

intimidade, tratando com ela, com

sua distinção própria, nas distâncias

e até nos afagos, no calor da intimidade.

Ela está ali representada como

quem diz: “Diga-me como é você

e no que nos afinamos. É por aí que

nos quereremos inteiramente bem!”

Peçamos, pois, à Santíssima Virgem

que nos faça aproveitar dessa

imagem do seu amor aos homens,

para assim nos unirmos ainda mais a

Ela e a seu Divino Filho. v

1) Do francês: “O rei te toca, Deus te

cure”.

1968

Janeiro-abril —

Durante a convalescença

de Dr. Plinio, o Sr.

João Clá passa a

frequentar o apartamento

de Dona Lucilia e a

conviver com ela.

18 de março – Dona

Lucilia, atendendo a um

pedido do Sr. João Clá,

aceita ser fotografada

em seu apartamento.

20 de abril – Por volta

das 17h00, Dona

Lucilia recebe a Unção

dos Enfermos e o Viático,

das mãos de Fr. Jerônimo

van Hintem, OCarm.

21 de abril –

Falecimento de Dona

Lucilia. Às 17h00

o cortejo fúnebre parte

para o Cemitério da

Consolação. Na capela,

o corpo recebe a última

bênção da Igreja e

depois é levado ao

jazigo da família.

27 de abril – Às 11h30,

Missa de 7º Dia pela

alma de Dona Lucilia

Corrêa de Oliveira,

na Igreja de Santa

Teresinha, em São Paulo.

49


Dona Lucilia

A missão de Dona

Fotos: Arquivo Revista

Lucilia continua…

Discreta, afável,

acolhedora e, ao mesmo

tempo, parecendo

ser feita para ter uma

multidão de filhos,

Dona Lucilia, em vida,

sofreu muito por ver-se

frequentemente relegada

ao abandono, não tendo

sobre quem desdobrar

seus desvelos maternais.

Hoje, mundialmente

conhecida, não deixa

de interceder pelos que

a ela recorrem. E, por

incrível que possa parecer,

socorre até aqueles

que nem a conhecem,

como se verá nos relatos

aqui transcritos.

50


Auxílio discreto em

difícil situação

Em 1998, certo empresário de Teresina

faleceu, deixando ao filho vultosas

dívidas. Como consequência, o

Poder Judiciário confiscou ao herdeiro

todos os bens, deixando sua família

em delicada situação financeira.

Sem recursos para sustentar os

três filhos ainda pequenos, ele e a esposa

se viram obrigados a deixar as

crianças sob os cuidados da avó materna

e partir para Fortaleza em busca

de melhor emprego.

Na capital cearense, mais uma separação

lhes foi imposta: ele conseguiu

um trabalho em outra cidade,

porém sem possibilidade de levar

consigo a esposa.

Certo dia, vendo-se a mulher particularmente

abatida e com fome,

após ter estado quatro meses percorrendo

inutilmente grandes distâncias

à procura de emprego, ela sentou-se

no banco de uma praça e pôs-se a rezar,

suplicando a Deus ao menos o

suficiente para se alimentar.

Poucos instantes depois, aproximou-se

dela uma distinta senhora

pedindo-lhe indicação de algum restaurante

nas proximidades. Ela se

levantou e a levou a um estabelecimento

distante uma quadra de onde

estavam.

Chegando ao restaurante, a senhora

convidou-a para almoçar, o

que ela aceitou muito agradecida.

Durante a refeição, expôs algo de

suas aflições e foi ouvida com muita

bondade, recebendo por conselho

ter muita confiança e devoção ao Sagrado

Coração de Jesus.

Terminado o almoço, ela acompanhou

sua benfeitora até a rua caminhando

um pouco a seu lado, pois

lhe pareceu que ela não conhecia a

região e poderia precisar de mais algum

auxílio. Ao perguntar para onde

iria, a senhora indicou-lhe um edifício

do lado oposto ao que estava. Virou-se

para se certificar de qual se

tratava e ficou pasma quando, voltando-se

novamente para a senhora,

já não a encontrou a seu lado.

Algum tempo após o ocorrido, ela

encontrou um bom emprego e seu

esposo regressou a Fortaleza, já em

condições de reunir toda a família.

Por anos ela acreditou que aquela

senhora fosse a Virgem Santíssima.

Certo dia, porém, sua filha chegou

em casa mostrando-lhe um presente

que ganhara: uma biografia de Dona

Lucilia ricamente ilustrada. Para

sua surpresa, ao folhear o livro, reconheceu,

em uma das fotografias, a

sua benfeitora!

Ao lado, sem ser vista…

No Estado do Rio de Janeiro, outra

senhora foi favorecida com a

companhia de Dona Lucilia.

Todos os meses ela precisava ir

a uma cidade vizinha para adquirir

certo medicamento para seu pai,

aproveitando a viagem para fazer

compras em determinada loja de artigos

domésticos.

Numa dessas ocasiões, uma atendente

do estabelecimento aproximou-se

e, muito contente, disse-lhe

que havia recebido da “senhora” que

a acompanhara à loja na ocasião anterior,

um conselho muito certeiro.

Pensando haver um engano, explicou-lhe

nunca ter estado ali acompanhada

por alguém. No entanto,

retirando da bolsa uma foto de Dona

Lucilia, mostrou-a à funcionária,

perguntando se era aquela senhora

que a havia consolado. Com muita

ênfase, a moça assentiu, interessando-se

por saber quem era aquela

“senhora”.

Peculiar intervenção

a “vassouradas”!

Vivia certa senhora em Chia, Colômbia,

cidade localizada nas proximidades

de Tocancipá. Passava

ela por dificuldades no trabalho,

pois justo em frente à sua mesa estava

instalada uma colega de má índole,

que, embora se dizendo católica,

procurava arrastar os outros para

práticas esotéricas, além de favorecer

conversas licenciosas.

Numa ocasião em que foi assistir

à Missa, pediu um conselho a um

sacerdote, que lhe deu duas fotos

de Dona Lucilia e lhe recomendou

manter uma em sua bolsa e outra em

sua mesa de trabalho. Quando a colega

lhe insinuasse más conversas ou

práticas condenáveis, deveria pedir a

Dona Lucilia que a afastasse a “vassouradas”.

O pedido pouco convencional

deixou-a admirada.

Ela ouvira falar de Dona Lucilia,

mas mantivera-se incrédula quanto

à sua intercessão. Entretanto, dessa

vez, deu completa atenção à indicação

recebida, e, na primeira oportunidade

em que a companheira veio

com conversas obscenas, dirigiu-se a

Nossa Senhora: “Minha Mãe, peço-

51


Dona Lucilia

-Vos que mandeis Dona Lucilia tirar

minha colega daqui a vassouradas!”

Para sua surpresa, passados menos

de quinze dias, sua colega recebeu

transferência para outra seção,

em outro edifício, sem a haver solicitado.

Apesar de incialmente contrariada,

a referida colega acabou por

acatar a mudança, pois trazia benefícios

para si e para sua vida familiar.

Era essa a prova de tratar-se de

uma situação da Providência, por intercessão

de Dona Lucilia, pois ambas

as colegas se viram beneficiadas.

O salário do mês

recuperado...

Uma senhora, dona de casa, também

foi socorrida de modo surpreendente

e inusual por Dona Lucilia.

Sendo administradora das despesas

da casa, recebia de seu cônjuge o

salário obtido por ele no início de cada

mês. Um dia, porém, ela deixou

tal valor envolto em um papel sobre

a tábua de passar roupas, e o esposo,

julgando tratar-se de algum lixo, jogou

fora o embrulho.

Ao dar-se conta do desaparecimento

do dinheiro, a esposa pôs-se

a procurá-lo por toda a casa sem nenhum

êxito. Em conversa à noite, o

casal deu-se conta do acontecido: todo

o dinheiro do mês fora jogado no

lixo. E este havia sido coletado no

bairro naquele mesmo dia…

A situação prejudicava financeiramente

a família e criava desagradável

tensão entre esposos.

Foi nessa conjuntura que a mulher

lembrou-se de Dona Lucilia,

cuja extremosa bondade levava-a

a se compadecer dos aflitos.

Rezou a ela prometendo-lhe

executar alguma obra piedosa caso

fosse atendida.

Na manhã seguinte, contatou o

órgão responsável pela coleta de lixo

e dirigiu-se ao local de aterro sanitário

público, no intento de procurar

o valor perdido. Ora, o responsável

vedou-lhe a entrada por razões de

segurança e saúde, levando-a apenas

até onde eram processados os resíduos,

a fim de convencê-la a desistir.

Foi então que a felizarda senhora

viu passar diante de si uma enorme

esteira que transportava o material

a ser processado, e nela, o embrulho

à vista. Sem hesitar, aproximou-se e

apanhou o valor! Os funcionários ficaram

espantados, pois como encontrar

tão diminuto volume em meio

ao caos daquelas instalações?

O fato marcou a família, que pôde

confirmar o quanto Dona Lucilia estava

disposta a atendê-los, resolvendo

um caso na aparência insolúvel.

Dona Lucilia cuida

do filho enfermo

Uma senhora residente em Montes

Claros (MG) também registrou

um fato digno de consideração, operado

graças à intercessão de Dona

Lucilia.

No dia 26 de fevereiro de 2021, seu

filho sofreu um acidente de moto na

cidade de Juiz de Fora. Deu entrada

no hospital com TCE (traumatismo

cranioencefálico) grave, politrauma,

afundamento de crânio, encéfalo

afastado 1,8 cm, várias fraturas no

braço esquerdo e lesão no pulmão esquerdo.

Em suma, o jovem estava em

coma no grau Glasgow 3, o mais profundo

estágio, no qual o paciente não

responde a nenhum estímulo.

Após uma operação de craniotomia

descompressiva, o cirurgião resumiu

numa curta frase a gravidade

da situação: “Se ele sobreviver, terá

morte cerebral”. Ou seja, ficaria em

estado vegetativo.

A mãe do acidentado conservou

grande paz de alma, confortada pelo

fato de um sacerdote ter acorrido

ao hospital e administrado ao seu filho

a Unção dos Enfermos.

Conseguiu ela autorização para

visitá-lo no CTI todos os dias, mas

devido ao agravamento da pandemia

do COVID-19, tais visitas foram

canceladas. Era o dia 8 de março. A

mãe pediu à enfermeira-chefe que

colocasse a estampa de Dona Lucilia

junto a seu filho, para que ela cuidasse

dele em sua ausência.

No dia 12 de abril, o jovem teve

alta do CTI. Nos dias 21 e 22 – nos

quais se comemoram o aniversário

de falecimento e o de nascimento de

Dona Lucilia –, o rapaz demonstrou

alentadores sinais de melhora: sentou-se

e levantou a cabeça, causando

grata surpresa aos dois fisioterapeutas

que o assistiam. Um

deles, ignorando a relação de

datas, sugeriu à mãe marcar o

dia 21 de abril de 2021 para celebrar

tão marcante progresso.

Estava confirmado o sinal

de que o jovem vivia graças a

um milagre operado pela intercessão

de Dona Lucilia, como

em relato reconheceu mais

tarde a afortunada mãe.

Seu filho atualmente não apenas

vive, mas recuperou todos os

movimentos, formou-se numa Faculdade

e exerce, em boas condições,

sua profissão. v

52


Nas cartas de mamãe há uma ação de presença que vale mais do que o sentido

literal das palavras. Dir-se-ia, ao menos para meus ouvidos de filho, que aquelas

cartas têm uma espécie de acompanhamento subsônico, musical; é quase seu

timbre de voz, sua amenidade, dizendo as coisas correntes, no convívio diário.

(Extraído de conferência de 9/8/1981)

Pigeon querido!

Rio de Janeiro, 11-10-1925

Tive imenso prazer ao receber tua carta e muito, muito te agradeço o excelente

boletim. Dá-me tanto gosto com estas notas meu filho, que certamente este esforço te

reverterá em bênçãos, e por isto Deus te ajudará muito, e velará por ti com especial

carinho, e por isso, peço-te insistentemente para que não empregues mais esta expressão

de... + azarento... em relação a pessoa alguma, e muito menos a tua, pois como sabes,

você e Rosée são confiados a Deus antes de nascer, e portanto, com fé e amor a

Deus, vocês não poderão deixar de ser felizes, tanto mais que, por vocês eu rezo noite

e dia e é natural que as preces de uma mãe católica, mesmo de tão pouco mérito,

sejam atendidas por Nossa Senhora que também é mãe, e Nosso Senhor Jesus

Cristo. – Continua a estudar bem e não demais, a ponto de te prejudicar a saúde,

e farás uns bons exames e vencerás esta primeira “ étape”.

Espero que você e Rosée tenham feito a comunhão conforme lhes pedi.

[...]

Adeus, meus queridos... até domingo? Abraça por mim a teu pai e

Rosée, e você, filho de meu coração, lançando-te minha bênção envio-te

milhares de beijos e abraços.

De tua mãe extremosa,

Lucilia

Só agora à noite, teu tio entregou-me a cartinha de minha Rosete

querida. Beija-a por mim. [...] Escrevo-te com uma pena tão ruim, que só as

saudades d’uma prosa com vocês me obriga a usá-la.

53


Filho querido,

Carta de 16 de maio de 1929

Tua carta de ontem deixou-me bem apreensiva, como bem podes imaginar, pois, conquanto

tenha grande confiança em teus sentimentos, e na tua fé, tentação sempre é tentação, e por isso é

preciso que te lembres de que sabemos e conhecemos todos quem é o mephistópheles. E, portanto,

é tratar de fugir e às léguas, e agarrando-se a um Crucifixo! E o mais interessante é que, para

“obrar”, aproveita-se de minha ausência... gosta da sombra!

[...]

Com minha bênção, beijo-te e abraço-te muito e muito. De tua mamãe extremosa,

Lucilia

54

São Paulo – 19-4-1950

Filho querido de meu coração!

Com o coração transbordante de

saudades, venho dizer-te a enorme falta que

me fazes, pois parece-me ver-te entrar a

todas as horas, e ver-te em todos os lugares, e

o meu espirito voa – sem avião – em busca

do teu! Contudo, filho querido, procuro

ser calma, e agradecer a Deus e à Virgem

Santíssima, a graça de poder ver-te

realizar este sonho tão necessário e útil à tua

vida e a teus futuros trabalhos, e também a

felicidade de poderes ver, talvez ouvir e falar

mesmo ao nosso Papa! – E, tudo isso, em

companhia de tão bons companheiros! [...]

Agradeço-te imenso, tudo o que, como

excelente filho, fizeste para evitar-me a

angústia da travessia. Mandei acender

uma vela a Nossa Senhora das Graças,

e fiz muitas orações pela tua feliz chegada.

[...]

Conta-me tudo o que têm feito e o que

de bonito por aí já viram: Granada,

Alhambra... o túmulo de Dom Filipe,....

históricos palácios, conventos... e o que

mais? – Já comeram muitos figos de

capa-rôta e cerejas? – Penso ser agora

a época. – Quando seguem para Paris

para respirarem o já celebre “ doux air de

France”? [...] Muito cansada e com sono,

termino esta, enviando-te todas as minhas

bênçãos, e te pedindo para que veles bem pela

tua preciosa saúde.

Mais uma vez, que Deus te abençoe,

te faça muito feliz e envio-te saudosíssima,

muitos beijos e abraços.

De tua mamãe extremosa,

Lucilia


São Paulo, 23-04-50

Filho querido de meu coração!

De todo o coração, de toda a minha

alma, agradeço-te a carta tão afetuosa que

me deixaste, e que tanto conforto me trouxe,

e mais as lindas, “ belíssimas mesmo”, palmas

brancas, rubras, amarelas e lilases, que Zili

enviou-me pela manhã. Chorei é verdade,

mas, “graças a Deus”, foi de felicidade por ter

recebido eu, tão indigna,“ liberal ”, a imensa

dádiva dos Sagrados Corações de Jesus e

Maria Santíssima, de um filho tão santo,

tão bom e carinhoso, que abençôo de todas as

veras de minha alma, por quem peço toda

a proteção Divina, e a Luz do Divino

Espírito Santo. – Destas palmas, levei

duas para a capela do “sexto andar”, uma

para tua imagem do Imaculado Coração

de Maria em teu quarto, onde, como de

costume rezei por ti, e duas outras para a

imagem do Sagrado Coração de Jesus,

no salão (e o resto – muitas, na jarra do

imperador). [...]

Fui hoje ouvir missa e comungar por ti

na “minha” igreja do Sagrado Coração

de Jesus, onde encomendei uma missa

por tua intenção, e bom êxito em teus

empreendimentos.

[...]

Escreva-me sempre; sim? Vê se

encomenda a missa para Nossa Senhora

da Begoña por intenção de Rosée; sim?

Com muitas saudades, “espiritualmente”

[...] rezamos o terço, faço-te uma cruzinha

na testa, e... cubro-a de beijos e bênçãos.

Um longo e saudoso abraço, Pimbinchen

querido,de tua “manguinha” afetuosa,

Lucilia

Filho tão querido!

S. Paulo, 30-4-950

[...]

Você lembrou-se de mandar dizer a missa para Nossa Senhora da Begoña,

conforme te pedi? A que mandei dizer por tua intenção no dia três deste, no

Sagrado Coração de Jesus será ouvida com a minha máxima fé e amor, e também

comungarei, pedindo a Deus para que te abençoe, te faça sempre um verdadeiro

católico, reto, bom e justo, para Sua maior glória, e como sempre, o melhor e mais

querido dos filhos, por quem dou, até mesmo, os poucos dias que ainda me restam.

[...]

Escreve-me sempre; sim? Não te esqueças de mim em Nossa Senhora de Lourdes;

sim? Como vão teus amigos? estão também gostando muito? Recomenda-me a todos eles.

Com muitas saudades, abençoa-te, abraça-te

e beija-te muito, tua mamãe extremosa, Lucilia

55


Arquivo Revista

Imagem de Nossa

Senhora Auxiliadora,

Santuário do Sagrado

Coração de Jesus

“Mamãe também é assim”

Dona Lucilia teve como madrinha – quanto isso é expressivo! – Nossa Senhora da Penha,

invocada no bairro paulistano de mesmo nome, imagem à qual ela tinha uma profunda

devoção. A igreja da Penha era uma espécie de miniatura de Aparecida do Norte,

para onde se faziam romarias, peregrinações.

É interessante observar como, iniciando-se tão cedo essa vinculação de mamãe com Nossa Senhora,

essa primeira graça era ordenada para, desenvolvendo-se e frutificando-se nela, pousasse

um dia em mim.

Quando recebi a graça, que me marcou inteiramente a alma, da devoção à Santíssima Virgem,

diante da imagem de Nossa Senhora Auxiliadora, na igreja do Coração de Jesus, estando eu ajoelhado

e fitando de longe a imagem, rezando para Ela, na miséria e na aflição em que me encontrava,

conheci a misericórdia de Maria.

Então me veio logo o pensamento: “É compreensível, porque mamãe também é assim. Em Nossa

Senhora, é claro, num grau indizivelmente maior; porém, há uma semelhança”.

(Extraído de conferência em 29/6/1982)

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