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NÚMERO 1 . TRIMESTRAL
JULHO . AGOSTO . SETEMBRO . 2026
SNEET - SINDICATO NACIONAL
DOS ENGENHEIROS, ENGENHEIROS
TÉCNICOS E ARQUITECTOS
ARQUITECTURA . ENGENHARIA . SUBSTÂNCIA
ARQUITECTURA COMO
MÚSICA PETRIFICADA
A arquitectura, assim como a música, têm linguagem
universal e comum a todas as culturas
ENTREVISTA
Miguel Câncio Martins
A construção
da Quinta da Comporta
LUIZ MORAES JÚNIOR
Um português que
fez sucesso no Rio
de Janeiro, século xx
LIFESTYLE
> No Mimi, o omakaze
não tem nada de mini
> Porus Studio
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HOME VINTAGE SOFIA FONSECA, LDA É INTERMEDIÁRIA DE CRÉDITO VINCULADA, REGISTADA NO BP COM O N° 0007323, APRESENTANDO OU PROPONDO CONTRATOS DE CRÉDITO A CONSUMIDORES, DANDO ASSISTÊNCIA A CONSUMIDORES MEDIANTE A REALIZAÇÃO DE
ATOS PREPARATÓRIOS OU DE OUTROS TRABALHOS DE GESTÃO PRÉ-CONTRATUAL RELATIVAMENTE A CONTRATOS DE CRÉDITO QUE NÃO TENHAM SIDO POR SI APRESENTADOS OU PROPOSTOS. TENDO CONTRATO DE VINCULAÇÃO COM OS SEGUINTES MUTUANTES, NOVO BANCO SA, BANCO BPI SA, BANCO SANTANDER TOTTA SA, BANCO CTT SA,
BANKINTER SA SUCURSAL EM PORTUGAL, UNION DE CRÉDITOS INMOBILIÁRIOS SA ESTABLECIMIENTO FINANCIEIRO DE CRÉDITO SUCURSAL EM PORTUGAL, CAIXA GERAL DE DEPÓSITOS SA, SICAM - CAIXA CENTRAL E CAIXAS DE CRÉDITO AGRÍCOLA MÚTUO.
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AVENIDA 1.º DE MAIO, N.° 89B, 2845-603 - AMORA / SOFIAFONSECA@CENTURY21.PT
N O T A S
Nota de Abertura
Ficha Técnica
Presidente: João de Deus Gomes Pires
Vice-Presidente: Nuno Maria de Bragança
e Bourbon da Câmara Pereira
Director: Miguel Segarra
Comissão Científica: Jorge Costa (ISEC Lisboa)
Grafismo: Multipublicações
Propriedade: Sindicato Nacional
dos Engenheiros, Engenheiros Técnicos
e Arquitectos. - Praça D. João da Câmara, 19
3º Esq. - 1200-147 Lisboa
(+351) 213 240 800 - geral@sne.pt
Impressão: Jorge Fernandes Lda.
R.Qta Conde de Mascarenhas, 9
2820-653 Charneca de Caparica
Tiragem: 3000
Iniciamos hoje, com muito orgulho e após ultrapassarmos inúmeras dificuldades,
a edição da primeira revista deste Sindicato, que representa as
classes profissionais de Engenheiros, Engenheiros Técnicos e Arquitetos.
Seríamos muitos, mas não somos.
O movimento sindical sofreu, nos últimos anos, uma acentuada quebra
de apoios, de compreensão e de um entendimento responsável da sua
missão. E essa missão é, de forma indispensável, representar profissões
que estão entre as mais técnicas, abrangentes e diversas no domínio da
tecnologia e da criatividade – pilares fundamentais de toda a modernização
que aspiramos construir, guiados pela evolução ética e moral, rumo à harmonização
e à equidade social, sempre reclamadas por todas as gerações,
desde tempos remotos.
Todas as profissões que representamos têm, no entanto, um traço em
comum: a liberdade de acção e de criatividade que as torna autónomas e, por
vezes, distantes do movimento associativo, o qual nem sempre corresponde
às suas legítimas ambições, ao seu nível de desempenho, às suas dificuldades
ou à sua interactividade com outras actividades sócio-profissionais.
Ser um Sindicato tão diverso e abrangente é, de facto, um desafio. Responder
a tanta criação só é possível quando, dentro da originalidade e genialidade,
encontramos a humildade e o altruísmo que a sociedade tantas vezes negligencia
em favor do êxito e do reconhecimento individual, esquecendo o
colectivo. E é precisamente este colectivo que um Sindicato pretende ser: unir
e agregar, sem anular a individualidade. Tornar solidário cada técnico não só
o torna mais presente mas, também, mais humano e relevante, contribuindo
para mudar e fazer evoluir o espaço e a consciência colectivos – a base para
a construção de um mundo mais justo e melhor.
Um Sindicato não gere apenas as limitações dos seus representados.
Representa-os na plenitude da sua acção, consciente e inconsciente. Deve
ocupar um lugar activo, onde não caiba ao associado defender-se ou expor-se,
mas, sim, ser salvaguardado de todas as dificuldades executivas, para que
possa exercer a sua actividade com liberdade, honra e probidade.
Como associação colectiva, só poderemos ser aquilo que os associados
quiserem e souberem reivindicar, para o melhor exercício da sua actividade
– seja esta pontual ou permanente. Seremos sempre o espelho de cada
classe profissional, que apenas se afirmará pela força do seu exemplo e pela
qualidade da sua prestação, tanto técnica como humana.
Esta revista – Eixo! – tem o nome que desafia a inteligência e a criatividade
que distinguem o nosso desempenho profissional. Pretende ser o eixo que
liga as diversas profissões que representamos, o ponto de união entre todos,
independentemente da fase de actividade, de aprendizagem ou de exercício
profissional. Queremos unir gerações, partilhar experiências, transmitir saberes
e devolver à sociedade a confiança que sempre depositou em nós, no
caminho que nos torna únicos e soberanos.
Nuno Maria de Bragança e Bourbon da Câmara Pereira
SINDICATO NACIONAL DOS ENGENHEIROS, ENGENHEIROS TÉCNICOS E ARQUITECTOS 3
ENTREVISTA
A FORÇA DO
SINDI-
CALISMO
ENTRE
ENGEN-
HEIROS
E ARQUI-
TECTOS
4 JULHO > SETEMBRO 2026
ENTREVISTA
NUM MOMENTO DECISIVO PARA O FUTURO DO
SINDICALISMO DOS ENGENHEIROS, ENGENHEIROS
TÉCNICOS E ARQUITECTOS EM PORTUGAL, NÃO PODÍAMOS
DEIXAR DE ENTREVISTAR PARA O PRIMEIRO NÚMERO DA
“EIXO!” AQUELA QUE É UMA DAS VOZES MAIS EXPERIENTES
DO SECTOR: JOÃO DE DEUS PIRES, PRESIDENTE DO
SINDICATO NACIONAL DOS ENGENHEIROS, ENGENHEIROS
TÉCNICOS E ARQUITECTOS – SNEET
Trata-se de um engenheiro técnico, oriundo da
Marinha Mercante, com vasta experiência em
liderança sindical, da FESIC à UGT, e actualmente
presidente de um sindicato de referência. Foi
uma conversa sem reservas, onde percorremos
o seu percurso, debatemos desafios financeiros, o papel
da representação dos arquitectos, a relação com as ordens
profissionais, a importância da contratação colectiva, o tema
quente da fusão de ordens e sindicatos, a difícil atracção
dos jovens e as perspectivas para o futuro do sindicalismo.
Para começar, pode apresentar-se aos nossos leitores e
resumir o seu percurso?
Nasci em Lisboa e a minha ligação ao sindicalismo começou
ainda antes do 25 de Abril, quando fui convidado pelo
então presidente, general Oliveira Pinto, para integrar a
FESIC, uma federação que reunia sindicatos de quadros
superiores — engenheiros, economistas, advogados, entre
outros. Era um tempo em que os quadros superiores eram
bastante pressionados em termos salariais e de direitos. A
FESIC tornou-se, após o 25 de Abril, um refúgio para muitos
destes profissionais.
Posso perguntar-lhe onde estava no 25 de Abril de 1974?
Sou engenheiro técnico da Marinha Mercante e, curiosamente,
estava embarcado a caminho dos Açores quando
chegou a notícia da Revolução dos Cravos. Só regressei
a Lisboa meses depois, já no Verão. Mais tarde, dediquei-
-me a tempo inteiro ao sindicalismo, primeiro no Sindicato
dos Engenheiros da Marinha Mercante e, posteriormente,
noutras estruturas.
Como evoluiu a sua carreira sindical e quais foram os
momentos marcantes?
O meu percurso passou pela liderança dos Trabalhadores
Sociais Democratas (TSDs) e, em nome deles, fui eleito
presidente da UGT, onde estive 12 anos no executivo e
mais quatro em cargos de direcção, com responsabilidades
jurídicas e representação em comités europeus. Fui
o quarto presidente da UGT, sucedendo a Torres Couto, e
permaneci até 2014. Depois disso, assumi a presidência
do actual sindicato, especialmente convidado para ajudar
numa altura difícil em termos financeiros.
E, politicamente, como se define: de direita ou esquerda?
PSD centrista. PSD de esquerda.
Aliás, dizia-se logo após o 25 de Abril que o PSD até que
era um partido de esquerda, não é?
Há o PSD de direita e há os PSDs de esquerda.
DESAFIOS E CONQUISTAS
Que desafios encontrou ao assumir o sindicato e como
os ultrapassou?
Quando cheguei, em 2020, o sindicato enfrentava sérias
dificuldades financeiras. Em plena pandemia, conseguimos
negociar e saldar uma dívida de 30 mil euros à UGT,
reduzir a quota mensal para metade e renegociar a renda
da sede, baixando-a significativamente. Estas medidas
foram cruciais para o saneamento das contas. O mandato
foi renovado, sem opositores, num universo de cerca de
mil sindicalizados, com uma participação eleitoral superior
a 10%. A gestão durante a pandemia foi um grande teste.
SINDICATO NACIONAL DOS ENGENHEIROS, ENGENHEIROS TÉCNICOS E ARQUITECTOS 5
ENTREVISTA
PROMESSAS PARA
SEREM CUMPRIDAS
Eleita em Novembro de 2024, a nova direcção
presidida por João de Deus Pires, tem
um programa que deseja cumprir até 2028.
Aqui estão os principais pontos:
Contratação Colectiva
• Desenvolver uma política de contratação
colectiva independente e autónoma, privilegiando
os contratos de empresas e
sector de actividade.
• Actuar em unidade de acção com todos
os Sindicatos de Quadros Superiores e
Engenheiros no âmbito da FE- Federação
dos Engenheiros -, porque não é desejável
ter uma actuação separada sem fundamento
justificável.
• Pugnar por um correcto e adequado enquadramento
profissional dos associados,
mediante o estabelecimento de adequadas
carreiras profissionais nas áreas técnicas
e/ou gestão, de forma a permitir-lhes o
acesso aos mais altos níveis da hierarquia
tendo em conta as suas competências
profissionais e a formação académica.
• Negociar justas remunerações, tendo em
conta a degradação do poder de compra,
a situação quanto a enquadramentos
e ponderado ainda o leque salarial em
termos líquidos.
• Pugnar pela anualização das revisões
das tabelas salariais e outras cláusulas
de expressão pecuniária.
Promover a uniformização dos horários de
trabalho dos quadros a exercerem a sua
actividade na produção, ou em alternativa,
estabelecer compensações adequadas.
• Lutar pelo alargamento das isenções de
horário de trabalho.
• Utilizar a capacidade de todas as organizações,
onde o sindicato está filiado,
sempre que necessário.
Mantivemos a instituição a funcionar e conseguimos não
só estabilizar as contas mas, também, criar condições para
um futuro mais sustentável.
Como é a relação do sindicato com as entidades do sector?
Somos filiados na UGT, onde temos representação activa,
tanto através da federação dos engenheiros como do
próprio sindicato. Participamos nos órgãos de gestão e
nos conselhos gerais. A ligação às ordens profissionais é
fundamental, embora marcada por uma clara separação de
competências: as ordens tratam das questões deontológicas
e profissionais, e os sindicatos das questões laborais,
contratação colectiva e defesa dos direitos no trabalho.
Esta separação é saudável e necessária, mas há desafios.
Recentemente, a ordem dos engenheiros técnicos proibiu
que os dirigentes sindicais fossem simultaneamente dirigentes
da ordem, obrigando vários colegas a optar.
ARQUITECTOS: ESTRATÉGIAS DE APROXIMAÇÃO
O sindicato também representa arquitectos. Quais são os
principais desafios?
Representamos arquitectos, embora em menor número comparando
com engenheiros. Trata-se de uma profissão muito
liberal e com laços históricos mais frágeis ao movimento
sindical. Um dos grandes desafios é a ausência de carreiras
profissionais específicas para arquitectos, sobretudo na
Administração Pública e nas câmaras municipais. Muitos
trabalham com contratos individuais, sem enquadramento
colectivo, o que prejudica a defesa de direitos e a progressão
de carreira. Temos procurado estreitar relações com
a Ordem dos Arquitectos e apresentar propostas para a
criação de carreiras, à semelhança do que existe para
engenheiros. O diálogo avança lentamente, mas acreditamos
que é fundamental para garantir melhores condições
laborais aos arquitectos no sector público.
A CONTRATAÇÃO COLECTIVA
É UMA DAS NOSSAS PRIORIDADES
E UMA DAS ÁREAS ONDE MAIS
MARCAMOS A DIFERENÇA.
ACTUAMOS DIRECTAMENTE,
COM DELEGADOS SINDICAIS.
6 JULHO > SETEMBRO 2026
ENTREVISTA
DEFENDO UMA EVENTUAL FUSÃO
DAS ORDENS DOS ENGENHEIROS E
ENGENHEIROS TÉCNICOS, DESDE QUE
HAJA EQUILÍBRIO NA DISTRIBUIÇÃO
DE CARGOS E NENHUMA DAS PARTES
DOMINE A OUTRA
Pode dar exemplos da atuação do sindicato na contratação
colectiva?
A contratação colectiva é uma das nossas prioridades e
uma das áreas onde mais marcamos a diferença. Actuamos
diretamente, com delegados sindicais, em empresas
como a TAP — onde temos mais de 200 associados —, na
Carris, CP, Metro e diversas empresas públicas e privadas. É
através de contratos colectivos que conseguimos negociar
melhores condições de trabalho, salários e garantias para
os nossos representados.
Além disso, integramos a Federação dos Engenheiros
e a COFESINT (Confederação de Sindicatos da Indústria,
Energia e Transportes), que reforçam a nossa capacidade
de negociação e cobertura, especialmente em sectores
onde a representatividade individual dos sindicatos é menor.
Estas estruturas são essenciais para manter a força
do sindicalismo técnico em Portugal.
Fala-se muito na fusão de ordens e sindicatos. Qual é a
sua perspectiva?
O tema está em cima da mesa e tem gerado discussão.
Defendo uma eventual fusão das ordens dos engenheiros
e engenheiros técnicos, desde que haja equilíbrio na distribuição
de cargos e nenhuma das partes domine a outra.
Só assim se garante uma representação justa para todos. O
movimento sindical e as ordens têm origens diferentes: no
nosso caso, o sindicato criou a ordem; no outro, foi a ordem
que deu origem ao sindicato. São lógicas distintas, mas
a união, se feita de forma justa, pode fortalecer o sector.
OS JOVENS E OS SINDICATOS
Porque é tão difícil atrair jovens para o sindicato?
Existe ainda muito preconceito, alimentado por algumas
empresas, de que a filiação sindical pode prejudicar a
SINDICATO NACIONAL DOS ENGENHEIROS, ENGENHEIROS TÉCNICOS E ARQUITECTOS 7
PROMESSAS PARA
SEREM CUMPRIDAS
Função Pública
Continuar a pugnar por carreiras dignas e vencimentos adequados
para os associados. Constituir uma comissão sindical de colegas
da função pública que possa defender as posições do sindicato
junto dos parceiros sindicais e junto do governo. Tentar resolver os
velhos problemas dos engenheiros técnicos e das suas carreiras
na função pública, encontrando uma situação digna para os engenheiros
técnicos tendo em conta os demais sectores de actividade.
Considerando o princípio da igualdade que vincula a Administração
Pública, bem como a sua atribuição estatutária de representar e
defender os interesses gerais da profissão e dos seus associados,
propomos que:
A) Se proceda à publicação de um diploma legal que estabeleça
para efeitos académicos um regime especial de obtenção do grau
de licenciado pelos bacharéis e do grau de mestre pelos licenciados
pré-Bolonha;
B) Se proceda à publicação de um diploma legal que equipare para
fins estritamente profissionais os antigos bacharéis aos actuais
licenciados; ou em alternativa que:
C) Se proceda à alteração de todo o actual quadro legal que impede os
titulares do grau académico de bacharel, nos quais se inclui um elevado
número de engenheiros técnicos, de concorrerem aos procedimentos
concursais para preenchimento de lugares de técnico superior e dos
cargos de direção intermédia de 1.° e 2.° grau da Administração Pública
(Diretor de Serviços e Chefe de Divisão, respetivamente), e bem
ainda aos cargos de gestores públicos, em virtude de ser legalmente
exigido, para efeitos de admissão aos concursos, em todos esses
casos, o requisito habilitacional de licenciatura.
Ensino
Estabelecer uma política de colaboração com os Conselhos Directivos
e Associações de Estudantes dos Estabelecimentos do Ensino
Superior com o objectivo de inverter a tendência de isolamento
dos futuros diplomados com o Sindicato.
Adoptar uma política dirigida aos jovens diplomados de forma que
os mesmos se liguem ao sindicato desde a primeira hora. Ter uma
política agressiva de recrutamento para o sindicato dos futuros
engenheiros técnicos.
Ordens
Adoptar políticas de cooperação permanente com as Ordens
Profissionais representativas dos engenheiros, engenheiros técnicos
e arquitetos: OE - Ordem dos Engenheiros, OET - Ordem dos
Engenheiros Técnicos e a Ordem dos Arquitectos, principalmente
no que concerne a protocolos de colaboração para esclarecer as
questões sindicais, que são competência do sindicato.
Actuar conjuntamente sempre que os interesses e direitos dos associados
o exijam. Esta é uma área considerada essencial e estratégica
no futuro do sindicato e das suas lutas na defesa dos interesses
dos associados.
carreira. Muitos jovens receiam
não ser promovidos, ou até perder
oportunidades, se forem identificados
como sindicalizados. É um
resquício do passado que infelizmente
persiste, quase 50 anos
depois do 25 de Abril. Estamos a
trabalhar para mudar este cenário,
com acções de sensibilização,
contactos com associações de
estudantes nas universidades
e politécnicos e parcerias para
apresentar o papel do sindicato.
O objectivo é mostrar que a sindicalização
é, acima de tudo, uma
forma de defesa dos direitos e de
construção de carreiras dignas.
8 JULHO > SETEMBRO 2026
PROMESSAS PARA
SEREM CUMPRIDAS
Construção
Maior intervenção sobre o que tem vindo a ser
a prática desta actividade, num cenário em
que abrem novas empresas de construção,
diariamente, sem pessoal técnico especializado
(quadros superiores, técnicos ou mão-de-
-obra). Isto, numa perspectiva de salvaguarda
do património construído, face ao crescimento
exponencial da reabilitação do edificado e tendo
em conta a actual realidade sem qualquer tipo
do controlo sobre o que está a ser feito. Tal acção
poderá ainda valorizar o arquitecto e o seu
trabalho, integrando-o no processo, como factor
obrigatório. Vale a pena pensar numa proposta
de alteração de legislação para salvaguarda do
património construído e alargamento da actuação
do arquitecto, do engenheiro e do engenheiro
técnico - para além de valorizar a profissão,
atribui empregabilidade!
Arquivo
Intervenção sobre os espólios dos arquitectos
que nos deixaram um forte legado e exemplar
contributo, dada a sua prática profissional.
Como não existem recursos físicos para o efeito,
porque não uma associação, para estes fins, ao
Forte de Sacavém, ou outros, de modo a canalizar
estes processos? Actualmente, há falta de
pessoal para tratar do material, mas existem
as melhores condições que em qualquer outro
lugar, mas carece de pessoal porque o governo
não os orçamenta.
Tabelas de honorários
É lamentável a profissão de arquitecto não estar
regulamentada através de tabelas de remuneração
mínima. A OA diz, constantemente, que
não é de sua competência e que são ilegais.
Mas a realidade é que podem pagar o ordenado
mínimo a um arquitecto e isso é inadmissível.
Um arquitecto funcionário público ganha uns
miseráveis 1200€ e enquanto assim for, o particular,
que anda sempre por baixo, fará ainda
pior. Há inúmeras empresas de construção a
pagarem 700€ a arquitectos que, “cheios de
fome”, aceitam tudo!
De referir ainda que no tema da função pública e
dos engenheiros técnicos que abordam no programa,
é de incluir os arquitectos. Uma carreira
profissional de arquitecto, com progressão na
carreira - seja função pública ou privado.
ENTREVISTA
E isso é, então, uma das prioridades do sindicato para os
próximos anos?
O foco passa por consolidar a saúde financeira do sindicato,
reforçar a contratação colectiva e ampliar a representação,
principalmente entre arquitectos e jovens engenheiros.
Defendemos a criação de carreiras profissionais para arquitectos
na função pública, a equiparação de engenheiros
técnicos aos licenciados e a valorização das profissões
técnicas em Portugal. Apelo aos jovens e a todos os profissionais
do sector: juntem-se ao sindicato. Só com uma
voz forte e unida conseguimos garantir melhores condições
de trabalho, progressão de carreira e representação justa
perante o Estado e as entidades patronais.
Desafios e, também, oportunidades, certo?
O sindicalismo técnico enfrenta desafios, mas também
grandes oportunidades. Com uma liderança experiente,
propostas claras e uma visão de futuro, o sector pode continuar
a ser um pilar fundamental na defesa dos direitos de
engenheiros, arquitectos e outros profissionais técnicos
em Portugal.
“NÃO SEI QUE TIPO DE FEBRE DEU
AOS DIRIGENTES DO PSD”
A fechar a conversa com a “EIXO!”, João de Deus Pires
não quis deixar de deixar uma última mensagem sobre a
reformulação da Lei Laboral. Uma declaração destinada,
em particular, ao actual Primeiro-Ministro, Luís Montenegro,
à frente de um governo de coligação entre PSD e CDS:
“Lamento dizê-lo, mas como social-democrata e, portanto,
pelo motivo do Governo ser também um Governo social-
-democrata, com sociais-democratas, é lamentável que,
mais uma vez – pois esta não é a primeira vez –, lhe passe
pela cabeça fazer mexidas profundas na legislação laborar.
Não sei que tipo de febre deu aos dirigentes do PSD mas
a verdade é que, quando estão no poder, quando estão no
Governo, passa-se sempre esta história da reformulação da
legislação laboral ser um objectivo fundamental do partido,
quando não é. O partido é um partido de classe trabalhadoras,
é um partido de classes de trabalho e, portanto, esta seria
a última ideia. Se fosse para melhorar, tudo bem. Agora,
se é para piorar, para retirar direitos aos trabalhadores,
para discutir a lei da greve, isso é impossível. Eu, como
social-democrata, estou radicalmente contra e, enquanto
membro de uma organização sindical, irei estar contra.
E irei acompanhar a luta que a UGT decidir desencadear
contra esta relação laboral”.
SINDICATO NACIONAL DOS ENGENHEIROS, ENGENHEIROS TÉCNICOS E ARQUITECTOS 9
D E S I G N
MIGUEL CÂNCIO
MARTINS, O ARQUITECTO
DO EQUILÍBRIO
10 JULHO ABRIL > > JUNHO SETEMBRO 2026 2026
D E S I G N
NO SEU CAMINHO ENQUANTO
ARQUITECTO, MIGUEL CÂNCIO
MARTINS SEGUIU UM CONCEITO
DE IMPACTO REDUZIDO PARA
O MEIO ENVOLVENTE. UM DOS
EXEMPLOS PARADIGMÁTICOS É A
SUA “JÓIA DA COROA”, A QUINTA
DA COMPORTA, OU NÃO FOSSE,
TAMBÉM, UM SONHO DE VIDA
SINDICATO NACIONAL DOS ENGENHEIROS, ENGENHEIROS TÉCNICOS E ARQUITECTOS 11
D E S I G N
«SONHEI, IMAGINEI E DESENHEI
DURANTE MUITOS ANOS,
UM
UM LUGAR LUGAR ONDE ONDE AS PESSOAS PESSOAS SE SE
PUDESSEM REUNIR E SENTIR QUE QUE AQUI
PERTENCEM, AQUI PERTENCEM, QUE ESTÃO QUE ESTÃO EM CASA. EM
É CASA. ISSO QUE É ISSO A COMPORTA QUE A COMPORTA REPRESENTA
PARA REPRESENTA MIM: O ESPAÇO PARA MIM: E O TEMPO O ESPAÇO PARA
DESCONECTAR, E O TEMPO PARA DE DESCONECTAR, FORMA DE
A FORMA GENUINAMENTE A GENUINAMENTE PODER ME PODER
RECONECTAR COM COM OS OS VALORES
MAIS
MAIS FUNDAMENTAIS FUNDAMENTAIS VIDA»
VIDA»
12 JULHO > SETEMBRO 2026
A
história da Quinta da Comporta escreveu-se
com a história de uma vida. A vida de Miguel
Câncio Martins. Em criança, foram incontáveis
as viagens que fez com os pais até ao destino.
Já adolescente, ia de ferry com amigos e
sentia-se a chegar a casa assim que o barco se aproximava
da outra margem. Depois, começou a sonhar: que seria ali
que gostaria de ter um poiso para estar e receber amigos.
Só que Miguel não só tem muitos amigos, como a sua vida
de arquitecto e designer o levou a desenhar espaços de
restauração e hotelaria e a ganhar paixão pelos mesmos,
entrando em sociedades.
Por isso, sempre que voltava à Comporta, Miguel Câncio
Martins encostava-se ao chorão que hoje dá sombra
à entrada do Spa da Quinta e desenhava o seu sonho em
pensamentos vários. O melhor espaço para o restaurante,
a zona da piscina, a vista para os arrozais, os quartos mais
lá atrás, uma horta imensa e todo um conceito para se estar
sem horas e com tempo.
Propriedade da família Espírito Santo, havia um senão
quanto ao espaço - «foi sempre este, sempre», confirma
enquanto conversa num dos confortáveis sofás da esplanada
do restaurante e bebe o seu matinal chá de frutos
vermelhos: não estava à venda, pelo que Miguel lá teve que
adiar o sonho, uns anos, até ao dia em que o procuraram
para lhe dizer que podia passar dos esquissos ao terreno!
No centro da aldeia do Carvalhal, procurou ao máximo
manter vivas as tradições do passado, projectando-as
para o futuro. E, há cinco anos, abriu portas da sua Quinta
da Comporta que diz ser o que sempre sonhou mas que
continua a querer melhorar, todos os dias.
«Sonhei, imaginei e desenhei durante muitos anos, um
lugar onde as pessoas se pudessem reunir e sentir que
aqui pertencem, que estão em casa. É isso que a Comporta
representa para mim: o espaço e o tempo para desconectar,
de forma a genuinamente me poder reconectar com os
valores mais fundamentais da vida», explica.
A construção da Quinta da Comporta seguiu um conceito
de impacto reduzido para o meio envolvente. A Eira, centro da
propriedade e símbolo cultural da região manteve-se intacta,
sendo tudo pensado e criado a partir daqui. O edifício principal
de alojamento, reabilitado a partir de uma estrutura pré-
-existente, fica nas suas traseiras; o Spa Oryza e o restaurante
Inari Comporta, que a ladeiam, foram alçados a partir do uso
de vigas de madeira com mais de 100 anos, em estruturas de
A Quinta da Comporta foi o seu
grande projecto de assinatura em
Portugal. Arquitecto e designer,
Miguel Câncio dedicou toda a vida
a transformar espaços – depois de
se formar na escola de arquitectura
ESA Saint-Luc, em Bruxelas,
começou por trabalhar conceitos
de restauração como o Bar Fly ou
o icónico Buddha Bar, em Paris,
expandindo depois a sua linha de
actuação para lojas, residências
particulares e hotéis por todo
o Mundo (o Conrad Algarve, o
Hotel Heritage na Avenida da
Liberdade em Lisboa ou o Hotel
W Montreal são exemplos disso).
Conhecido internacionalmente pela
imaginativa procura de equilíbrio
entre forma & função bem como
utilidade & integração, no projecto
Quinta da Comporta essa base
seria elevada pelo compromisso
pessoal de manter a autenticidade,
respeitar a Natureza e integrar a
comunidade local. Esses valores
fundamentais guiaram todas as
fases do projecto de arquitectura
e todo o conceito de design e
sustentam a abordagem hoteleira
focada numa visão completa
de bem-estar.
SINDICATO NACIONAL DOS ENGENHEIROS, ENGENHEIROS TÉCNICOS E ARQUITECTOS 13
ENTREVISTA
14 JULHO ABRIL > > JUNHO SETEMBRO 2026 2026
D E S I G N
Esboços iniciais
800m2 que recriam os antigos celeiros de arroz; as Pool Villas,
num espaço mais reservado da propriedade, têm vista para a
eira e arrozais e retratam as tradicionais casas da Comporta
com os seus telhados em colmo. Sendo que o alojamento se
divide entre Townhouses, Suites e Pool Villas, mas, em todas
elas há luxo e simplicidade, há os tons do sítio e calmaria.
Depois, uma piscina infinita de 40 metros (aquecida por
painéis solares) e que continua a ser o cenário onde melhor
se ilustram as diferentes fases do ciclo dos arrozais.
Já na horta – garantida por um casal que a trata como
sua - plantam-se vegetais, frutos e ervas aromáticas, que
chegam todos os dias à cozinha do Inari.
Na carta de boas-vindas assinada pelo director do hotel,
Mário Morais, não se fala sobre serviços, amenities ou experiências
de luxo. Apresentada como um “Compromisso
para com a Natureza que a rodeia”, partilha antes as práticas
de sustentabilidade da Quinta da Comporta e convida os
hóspedes a fazer parte (ou a sua parte) para que possam
continuar a ser casa das cegonhas, a receber as andorinhas
e a acompanhar a rotina natural dos arrozais.
Um statement que é transversal e visível em detalhes espaços
e momentos, como Miguel Câncio Martins quis que o fosse e o
continue a ser. Ou não fosse ele o arquitecto sempre à procura
Ruinas, traves caídas e o arrozal da Comporta ao fundo
O cenário que hoje alberga o Spa da Quinta da Comporta
SINDICATO NACIONAL DOS ENGENHEIROS, ENGENHEIROS TÉCNICOS E ARQUITECTOS 15
D E S I G N
O Bar Fly, em Paris, marcaria o princípio da história
O impacto do espaço projectou Miguel Câncio Martins
do equilíbrio entre forma & função bem como utilidade & integração,
mantendo a autenticidade e respeitando envolventes.
Nasceu em Lisboa, licenciou-se em Bruxelas, iniciou a
vida profissional em Paris. Esta multiculturalidade, todas
estas experiências ajudaram a formá-lo e a ser o que é na
arquitectura, no design e como pessoa também?
A vida e a carreira são caminhos sinuosos que vão aparecendo
com alguns obstáculos, e que acabam por ser a nossa melhor
lição na vida. A minha carreira começou, de facto, em Paris,
em escritórios de Arquitectura. Entretanto, chegou a crise
do Golfo, não havia trabalho, e decidi abrir um bar com uns
amigos. Fui eu que o decorei, e a verdade é que teve muito
sucesso. A partir daí comecei a ter convites, desenhei o Barfly
que foi mais um sucesso, a que se seguiu o Budha Bar, que
ainda existe hoje - vai fazer 30 anos que o restaurante existe.
A partir daí apareceram outras oportunidades, umas que
não correram tão bem, mas outras que correram maravilhosamente
bem. O meu percurso tem sido assim, muito
internacional, e, a certa altura, a recolher um pouco os
frutos do que andei a semear.
Viajei muito por fora, conheci muita gente, tive sempre
um bom contacto com as pessoas, o que também acaba
por ter o seu retorno e as portas abrem-se… se bem que
há sempre umas que se fecham!
Pelo meio, também tenho os meus projectos pessoais, o
meu fio condutor.
Realmente, um dos projectos que me é mais importante
é o hotel Quinta da Comporta, com que já andava a sonhar
há 30 anos.
Mas diria que se não tivesse ido para fora, não seria o que
é hoje?
Nunca se pode dizer isso. Digo sempre que quando uma
pessoa está à frente de quatro portas e abre uma, nunca
sabe o que é que havia nas outras três portas e depois desta
porta há outra vez portas e andamos sempre a escolher
um caminho… Não vejo a vida assim. Vejo sempre a vida
no presente e no futuro. O passado já passou, não o vamos
refazer, reinventar, não sei como é que seria…
Mas em termos de influência nos seus traços?
Sou ambicioso e perfeccionista, criador e curioso. Essas é
que são as bases do caminho que escolhi e que quero fazer.
Quando tudo isso ainda me continuar a motivar e a chama se
mantiver acesa com estes quatro ingredientes, em qualquer
16 JULHO > SETEMBRO 2026
D E S I G N
Formas e cores de outros territórios, num bar de Paris
O Budha Bar mantém-se, ainda, a sua referência
sítio onde for haverá sempre uma maneira de dar a volta e
de conseguir fazer qualquer coisa… Poderia não estar aqui,
estar na diplomacia, por exemplo…
No fundo é o que é na sua Quinta da Comporta é: um espaço
de relações e diplomacia!
Sim, no fundo hoje sou diplomata de outra maneira, no meu ramo.
Neste seu percurso, quais foram os momentos mais relevantes?
Terá tido vários, mas quais é que elegeria?
Quando uma pessoa é desconhecida na área e faz o primeiro
projecto emblemático, começa a ter artigos e entrevistas e
as pessoas começam a interessar-se pelo nosso trabalho…
um marco importante foi ter feito o Budha Bar em Paris,
eu, um estrangeiro ali.
Foi de facto o momento determinante da sua carreira para
dar o salto?
Sim! Fiz a minha informação, já havia arquitectos e decoradores
com os negócios feitos e a correr bem, e eu optei por
projectos públicos.
Gosta bastante de projectos públicos!
Gosto de fazer projectos públicos, porque gosto de partilhar,
gosto de fazer coisas para os outros. Quando faço um projecto
para um cliente, faço-o com os olhos do cliente, faço-o para o
cliente, com a minha visão, com a minha imaginação, mas estou
sempre a pensar que quem vai ficar com ele depois é o cliente.
É uma abordagem muito importante ao trabalho e que
tento transmitir às minhas equipas, que não estamos a
fazer um projecto para nós, mas para os outros. Por isso,
há projetos que por vezes não queremos fazer, porque
também não correspondem à nossa filosofia.
Já rejeitou alguns?
Sim, já rejeitamos muitos projectos, e rejeitamos por várias
razões. Por vezes, porque a densidade não me agrada - não
trabalho densidade, outras porque o cliente procura um
SINDICATO NACIONAL DOS ENGENHEIROS, ENGENHEIROS TÉCNICOS E ARQUITECTOS 17
ENTREVISTA
D E S I G N
Um desafio de formas redondas,
fora e dentro do edifício
determinado gosto e eu não. Pode haver várias razões para
não se chegar a acordo. Mas são os projectos que me fazem
avançar, que me fazem crescer, que me interessam.
Destacou o Budha Bar, que de facto foi um marco na sua
carreira. Sente que foi reconhecido mais depressa e mais
cedo lá fora do que no seu país?
Sim, porque era também onde eu vivia. A verdade é que
estava numa praça, num mercado importante, que é França,
onde consegui fazer um projecto emblemático, numa capital
que é mundial, cosmopolita. Mas aquele era o meu mundo
também, era naquele meio que eu vivia, naquele cosmo que
estava a trabalhar. Portanto, tive a sorte de ser reconhecido
em Paris e Paris realmente teve um grande impacto e deu-me
uma visibilidade incrível! A partir daí comecei a ter convites
do Canadá, de Marrocos, Inglaterra, Singapura…
Tem projectos assinados por todo o Mundo!
Em todo o Mundo é uma força de expressão, mas quase…
Gostei imenso de trabalhar no Canadá, de fazer um casino
na Holanda, numa pequena cidade holandesa.
O seu pai também é arquitecto. Foi uma influência para si?
Claro que sim.
Foi por ele que foi arquitecto?
Acho que sim. Habituei-me a ver todos aqueles desenhos,
aquelas plantas em casa e desde pequenino que sempre
gostei do lado artístico, de desenhar. Aos cinco anos
desenhava carros - o meu pai mandou-me outro dia uns
desenhos meus, que fazia quando era pequeno. Portanto,
claro que isso marca.
Para além disso, sempre viajámos muito. Os meus pais
faziam questão que visitássemos Portugal, museus, edifícios,
e essa sensibilidade ficou sempre no meu subconsciente.
Depois disso, foi diplomata em Paris, em Bruxelas,
esteve nas Estradas de Portugal, pelo que nunca trabalhou
verdadeiramente como arquitecto. Mas diria que foi uma
formação óptima, de o ver em casa, entre desenhos. Optei
por esse caminho, e o que tem graça é que, mais tarde, fui
eu que convidei o meu pai para voltar a trabalhar comigo
no meu escritório, e fizemos uma sociedade.
Quais diria que foram as suas maiores influências?
Sou um bocado como uma esponja, absorvo ideias por onde
passo. Em tudo pode haver criatividade, e o que é incrível
hoje, mais com o digital, é perceber a efervescência da
criatividade que existe por aí fora, e que tem a ser vista. O
grande trabalho passa por ganhar visibilidade.
18 JULHO > SETEMBRO 2026
Mamula Island Hotel, em Montenegro,
ou uma aula de design
DENTREVISTA
E S I G N
Criatividade há, mas o importante não é só ser criativo,
não é só ter ideias, é saber aplicá-las, é saber ir até ao fim
dos projetos e concretizá-los.
Além de espaços públicos, já assinou bares, casas, casinos,
hotéis, restaurantes. O que é que gosta mais? Ou é o
desafio em si, o projecto em si?
As duas coisas, mas hoje estou mais voltado para a hotelaria
porque gosto do mundo da hotelaria, de receber. E gosto de
espaços públicos. Houve uma altura em que fiz as discotecas
todas, em Marbelha, na Sardenha, Paris… Outra em que fiz
muitas lojas. Há ciclos!
Hoje, do que mais gosto é de certeza da hotelaria e hospitality,
gosto do desafio de ter bom serviço, que se está a
perder muito. Estou muito empenhado em juntar a criatividade
com a criação do produto, mas também o desenvolvimento
e gestão desse mesmo produto.
A Quinta da Comporta é um pouco o seu sonho. Desde
adolescente que ia para aquele destino e gostava de, um
dia, poder vir a ter uma casa para levar os amigos. Só que o
Miguel tem muitos amigos, pelo que uma casa seria sempre
pequena e decidiu fazer uma grande, um hotel! Como é que
foi conseguir realizar esse seu sonho?
Vou para a Comporta desde pequeno e ou ficava em casa
de amigos ou tinha que voltar para Lisboa. Mas, sempre
que passava no Carvalhal, sempre que passava à frente dos
armazéns e granjas abandonadas, pensava que aquilo era
perfeito para vir a ser, um dia, um hotel. Na altura, até tinha
falado com amigos da família Espírito Santo nesse sentido,
e fui tentar negociar o terreno onde poderia gerir um hotel
(mantendo os Espírito Santo a posse do terreno).
Iniciámos as conversas, avançou-se um bocado, até que
um administrador entendeu que já havia uma marca hoteleira
no Grupo e não era preciso ninguém do exterior. Foi tudo por
água abaixo. Mais tarde, quando chegou a crise, vieram ter
comigo para saber se sempre queria fazer um hotel. Claro
que disse que sim.
Não tinha dinheiro nessa altura, mas comprei o terreno,
com a ajuda de uns sócios na altura. Em dois anos pusemos
aquilo de pé, tínhamos 200 pessoas a trabalhar todos os
dias, na obra, e toda uma equipa em Lisboa.
Gostava que a Quinta da Comporta fosse para além de uma
marca sua, uma marca na hotelaria em Portugal, uma referência?
Já estamos aí, acho eu.
Somos o hotel mais instagramável em Portugal, temos
160 mil followers no Instagram, mas o que é mais impor-
SINDICATO NACIONAL DOS ENGENHEIROS, ENGENHEIROS TÉCNICOS E ARQUITECTOS 19
D E S I G N
Cura, um dos restaurantes com assinatura sua
E uma das muitas casas particulares que criou
tante é ver as pessoas, quando vêm ao hotel - pessoas que
viajam muito, que conhecem o mundo - dizer que é um dos
melhores sítios onde estiveram. Há sempre melhores e mais
bonitos, mas o meu trabalho, o que tento, é dar o melhor do
que sei fazer. Quando vejo o retorno, a satisfação, é o mais
importante.
Faria sentido ter uma outra Quinta que não fosse na Comporta?
Sim, mas gosto de fazer sempre coisas diferentes.
Até estou a ver projectos lá fora, na Sicília, fora de Paris,
noutros sítios, e será com o mesmo ADN… será uma quinta,
mas não sei se terá o mesmo nome.
Não quero fazer uma cadeia, mas quero fazer uma colecção
de hotéis e de espaços para receber as pessoas.
Para além de criativo, é um inconformado? Gosta de continuar
a pensar, a sonhar e a criar?
Sim, sim, estou sempre a sonhar, sempre a escrever,
a desenhar!
Como é que se definiria?
Quem é o Miguel Câncio Martins?
Tenho um amigo meu, que é francês, que me definiu, como
criador de bonheur, criador de bem-estar. Acho que esse
título diz tudo, portanto, eu gosto de dar, gosto de partilhar.
E a sua marca, na arquitectura e no design?
A marca é um bocado como um camaleão, acho que o que
é importante é uma assinatura, é termos um fio condutor
quando fazemos os projectos.
Sou capaz de fazer um projecto mais moderno, mas gosto
mais de tradicional. Gosto de matérias, gosto de integração,
esses são os meus ingredientes, com os que eu gosto de
jogar e acredito que as pessoas sabem ver isso nos meus
projectos.
Já tem o reconhecimento que gostava de ter em Portugal?
Ou nunca o procurou? Não é um tema que o preocupe?
Não ando à procura disso. O que faço é para minha satisfação
pessoal e para servir, fazer para os outros. É claro que
é sempre agradável ter reconhecimento, receber prémios,
mas não é uma prioridade.
O prioritário é continuar a levar a sua marca ao mundo?
Sim, sim. Gosto da imagem que fez, da minha casa como
uma casa para partilhar com todas as pessoas que conheço
e de quem gosto. Como tenho amigos pelo mundo fora, irei
criar outras casas, outros hotéis.
NOTA: Esta entrevista e respectiva reportagem decorreram antes da
mais recente compra da Quinta da Comporta pelo Experimental Group.
20 JULHO > SETEMBRO 2026
S E C Ç Ã O
ARQUITEC-
TURA
COMO MÚSICA PETRIFICADA
Por: Filipe Xavier Oliveira
22 JULHO > SETEMBRO 2026
S E C Ç Ã O
“I have found among my
papers”, said Goethe, a leaf
in which I call architecture
frozen music. There is
something in the remark; the
influence that flows upon us
from architecture is like that
from music”. 1
SINDICATO NACIONAL DOS ENGENHEIROS, ENGENHEIROS TÉCNICOS E ARQUITECTOS 23
24 JULHO ABRIL > > JUNHO SETEMBRO 2026 2026
A MÚSICA É UMA ARTE
DE COMUNICAÇÃO
UNIVERSALMENTE ENTENDIDA,
E ASSENTE NA SEMIÓTICA,
PORQUE A COMPOSIÇÃO
DAS NOTAS MUSICAIS
REFERE-SE A SIGNOS COMUNS
A TODAS AS CULTURAS
Oescritor, romancista, e filósofo alemão, Johann
Wolfgang Von Goethe (1749 – 1832) proferiu uma
das mais belas, justas e perfeitas definições
de Arquitectura ao afirmar que Arquitectura é
Música Petrificada.
A Arquitectura é uma linguagem universal, assim como
a música, porque ambas comunicam o seu tempo, a partir
de uma linguagem própria, comum a todas as culturas. Na
música, tal como na Arquitectura, se analisarmos de um
ponto de vista filosófico em termos de expressão das suas
linguagens universais, verificamos que ambas possuem
propriedades composicionais, uma estrutura universal de
pensamento e de comunicação, ligada ao saber – fazer:
a técnica.
A música é uma arte de comunicação universalmente
entendida, e assente na semiótica, porque a composição
das notas musicais refere-se a signos comuns a todas as
culturas. Entendida como o abraçar de um todo, assenta
numa lógica sequencial no tempo, de notas musicais, que
compõem acordes, com diferentes entoações, em harmonia
entre si, ao qual se conjuga elementos como ritmo e
compasso, que dão origem a um projecto, uma melodia,
que quando interpretada, resultam em música. A música
pode ser entendida como uma conjugação estruturada
de uma linguagem pré-definida pelo compositor, sendo
que, o facto de estar sujeita a diferentes interpretações,
1 - GOETHE; “Conversations with Goethe in the Last Years
of His Life”, página 282; Por Johann Wolfgang von Goethe,
Johann Peter Eckermann, Margaret Fuller; Traduzido
por Margaret Fuller; Publicado por Hilliard, Gray, and
company, 1839; 414 páginas
SINDICATO NACIONAL DOS ENGENHEIROS, ENGENHEIROS TÉCNICOS E ARQUITECTOS 25
S E C Ç Ã O
de uma mesma melodia, por diferentes músicos, acresce-
-lhe o elemento surpresa e interpretativo, não sendo, por
isso, um todo, sempre igual, o que em muito contribui para
a sua manifestação enquanto arte performativa. Dito de
outra forma, para ser música não basta a leitura de uma
melodia numa partitura, é essencial que exista uma interpretação
da composição por parte do músico e que esta
seja entendida pelo público, enquanto tal.
Vitrúvio, mestre da construção Romana que viveu no primeiro
século antes de Cristo, faz referência no seu tratado
de Arquitectura, à ligação da música com a Arquitectura,
defendendo que o arquitecto deveria ter, entre outros saberes,
conhecimento musical. A razão da importância dos
conhecimentos musicais, estava ligado ao domínio das
leis harmónicas e matemáticas subjacentes ao conceito
de “comensurabilidade”, na procura da harmonia a partir
da qual nasceria a proporção entre elementos estruturais
e estruturantes da Arquitectura. A relação modular de
uma determinada parte relativamente ao todo, procura um
sistema de equilíbrio, que o relacionava com a anatomia
do ser humano.
Sobre a beleza, estado último da arte, Vitrúvio refere:
“Finalmente, o princípio da beleza atingir-se-á quando o
aspecto da obra for agradável e elegante e as medidas
das partes corresponderem a uma equilibrada lógica da
comensurabilidade”. 2
A “Arquitectura como música petrificada” é uma analogia
recorrente desde Goethe e que foi apanágio de inúmeras
referências e analogias por parte de nomes proeminentes
da Arquitectura moderna e que tem origem em Vitrúvio. Tal
como foi anteriormente referido esta analogia inconsciente,
surge do facto de ambas serem artes representativas da
cultura a que se destinam da qual são produto e renovação
em simultâneo, dialogando de forma universal, ao apresen-
Fig.1. “Architecture as Petrified
Music – a tectonic definition”
Fig.1.
2 - Vitruvius De Architecture, pp.41
26 JULHO > SETEMBRO 2026
S E C Ç Ã O
SINDICATO NACIONAL DOS ENGENHEIROS, ENGENHEIROS TÉCNICOS E ARQUITECTOS 27
S E C Ç Ã O
A “ARQUITECTURA COMO
MÚSICA PETRIFICADA”
É UMA ANALOGIA
RECORRENTE DESDE
GOETHE E QUE FOI APANÁGIO
DE INÚMERAS REFERÊNCIAS
E ANALOGIAS POR PARTE
DE NOMES PROEMINENTES
DA ARQUITECTURA MODERNA
E QUE TEM ORIGEM
EM VITRÚVIO
Fig.2
Linguística
Fig.2
Musicologia
Fig.2
Arquitectura
28 JULHO > SETEMBRO 2026
O PENSAMENTO ARQUITECTÓNICO EXPRESSA-SE
POR MEIO DO PROJECTO, DO DESENHO ENQUANTO
LINGUAGEM UNIVERSAL DE UM PENSAMENTO PRÉVIO
ASSENTE NA LOGICA, COMO SE DE UMA MELODIA
TRANSPOSTA EM PARTITURA SE TRATASSE. O ARQUITECTO
É, POR NATUREZA DA SUA FUNÇÃO, O “MAESTRO”
tarem estruturas compositivas e estruturantes semelhantes
entre si. A Arquitectura, tal como a música, só atinge o mais
elevado grau artístico quando existe, quando é interpretado,
sobre a forma de som ou de matéria, estabelecendo uma
ligação com o público a que se destina que é um princípio e
um fim em si mesmo. Para que tal suceda, para que exista
materialidade na arquitectura, é condição essencial existir
uma estrutura de suporte físico, cujo léxico na arquitectura,
resulta da conjugação de materiais, geometria, e cálculo,
as “notas musicais” da “música petrificada”.
A estrutura na sua condição de eficiência em função de
um determinado propósito assenta na harmonia, na lógica
da ligação entre os diversos tipos estruturais, os “acordes”,
que melhor materializem uma ideia prévia. Nesse sentido,
não será errado afirmar, que é uma constante da história
da Arquitectura, a técnica ligada ao vão, que por sua vez se
liga á expressão tecnológica de um determinado período. A
“métrica” traduz uma logica comum que organiza e estrutura
a materialidade, uma matriz conceptual que coloca o
conjunto de soluções estruturais em ordem, auxiliada pelo
ritmo da repetição dos próprios elementos estruturais, que
procuram vencer os desafios da gravidade: o espaço, os
vãos, aqui entendidos como “Compasso”. O pensamento
arquitectónico expressa-se por meio do projecto, do desenho
enquanto linguagem universal de um pensamento prévio
assente na logica, como se de uma melodia transposta em
partitura se tratasse. O arquitecto é, por natureza da sua
função, o “Maestro”.
A “Arquitectura como Música Petrificada” ainda hoje é
uma definição bela, justa e perfeita, e que seguramente
perdurará na nossa História.
FILIPE XAVIER
OLIVEIRA
( Beja, 1980)
Arquitecto, é formado pela FAUP
(2004) e Doutorado pela FAUL
(2016), inscrito na Ordem dos
Arquitectos desde 2005.
Foi oficial Arquitecto na Direcção
de Infraestruturas do Exercito de 2007 a 2013, tendo
executado inumeras obras entre as quais se destaca:
“Bloco de Alojamento de Sargentos”, “Arquivo Historico
Militar do Exercito”, e “Instalações Desportivas
e Picadeiro da Academia Militar”.
Técnico Superior Arquitecto na Camara Municipal
de Odemira de 2016 a 2018 na Divisão de Licenciamento,
Arquitecto da Divisão de Obras de 2020 a
2022, actualmente Arquitecto na Divisão de Inovação
Social, responsavel pelos projectos de Habitação no
ambito do PRR.
Arquitecto por conta propria desde 2005 tendo realizado
inumeros projectos. Seleccionado para a Bienal de
Veneza em 2014 em representação da Nova Zelandia.
fxo.arq1@gmail.com
SINDICATO NACIONAL DOS ENGENHEIROS, ENGENHEIROS TÉCNICOS E ARQUITECTOS 29
TECNOLOGIA
FACTOR
O
HUMANO
CYBER
NA
SEGURANÇA
O factor humano é, de longe,
o maior responsável pelas perdas
causadas por cyber ataques
Por: Porfírio
Trincheiras
30 JULHO > SETEMBRO 2026
TECNOLOGIA
A
digitalização progressiva das sociedades e dos
serviços essenciais não tem sido acompanhada
por um aumento das capacidades tecnológicas
dos utilizadores e funcionários das organizações,
nem pela consciencialização colectiva para
o problema da segurança, que em casos extremos pode
levar a falências e colocar em risco os serviços que damos
por adquiridos, como comunicações, sistemas de saúde,
banca, água, electricidade e, a breve trecho, a mobilidade
e as cidades inteligentes.
A segurança de um sistema informático compreende
múltiplas facetas. Por um lado, temos a qualidade tecnológica
dos sistemas, mas também a capacidade técnica das
equipas responsáveis pelo desenvolvimento, implementação
e manutenção dos mesmos e a capacidade dos utilizadores
para se protegerem e dessa forma protegerem também
as organizações.
Em cyber segurança entende-se por factor humano, sempre
que um ataque bem-sucedido teve como causa o mau
uso das tecnologias, por desleixo ou desconhecimento. O
factor humano é, de longe, o maior responsável pelas perdas
causadas por cyber ataques e, de facto, o mau uso das
tecnologias coloca em risco as empresas o sector público
e os serviços essências.
O factor humano é responsável por 95% das incidências
de segurança, segundo O “IBM Cyber Security Intelligence
Index Report”, ou seja, 19 em cada 20 ataques bem-sucedidos
poderiam ser evitados se conseguirmos mitigar de forma
eficaz o factor humano.
Para se colocar em perspectiva a dimensão do problema,
basta observar a afirmação de Sadie Creese, Professor de
Cyber Segurança na the University of Oxford, onde diz que
em 2025 os prejuízos causados serão equivalentes a 7.5%
do PIB mundial, próximo dos 10 triliões de dólares.
O FACTOR HUMANO É RESPONSÁVEL POR 95%
DAS INCIDÊNCIAS DE SEGURANÇA, SEGUNDO O “IBM CYBER
SECURITY INTELLIGENCE INDEX REPORT”, OU SEJA, 19 EM CADA
20 ATAQUES BEM-SUCEDIDOS PODERIAM SER EVITADOS SE
CONSEGUIRMOS MITIGAR DE FORMA EFICAZ O FACTOR HUMANO
SINDICATO NACIONAL DOS ENGENHEIROS, ENGENHEIROS TÉCNICOS E ARQUITECTOS 31
A CYBER SEGURANÇA ENTROU
NO VOCABULÁRIO DO CIDADÃO
COMUM APÓS UMA SÉRIE DE
ATAQUES BEM-SUCEDIDOS A
EMPRESAS CONHECIDAS, COMO
A VODAFONE EM 2022 OU AOS
HOSPITAIS DA CUF EM 2018
Perante esta constante ameaça, a primeira medida deverá
ser, sem dúvida, o envolvimento de todos os participantes no
funcionamento de uma organização nas questões de segurança.
Todos os colaboradores precisam estar consciencializados que
a segurança dos sistemas de uma empresa ou organização
é tão boa quanto a capacidade dos seus colaboradores de
serem membros activos na estratégia de defesa.
É, pois, crucial que todas as organizações disponham
de formação permanente sobre estas matérias, que deve
sensibilizar os mesmos para estas questões e formar os
utilizadores para o papel essencial que desempenham na
protecção dos dados e dos sistemas da organização.
A cyber segurança entrou no vocabulário do cidadão comum
após uma série de ataques bem-sucedidos a empresas
conhecidas, como a Vodafone em 2022 ou aos hospitais da
CUF em 2018. Muito se escreveu aí sobre a necessidade de
investimentos na melhoria da protecção dos sistemas, mas
muito pouco sobre a capacitação técnica dos utilizadores
enquanto agentes activos na segurança informática.
Na verdade, a maioria dos ataques acontecem pela manipulação
dos utilizadores que os leva a tomar acções que
colocam em causa a segurança. Jargões técnicos como
phishing ou smishing, por exemplo, não são mais que tentar
manipular um utilizador a aceder a um portal malicioso
através de um link num endereço de email (phishing) ou
sms (smishing).
A ASCENÇÃO DAS REDES SOCIAIS E A SOFISTICAÇÃO
DAS TÉCNICAS DE PHISHING
Durante algum tempo, o phishing representou pouco mais
que uma “chatice” de ter mais alguns e-mails, claramente,
falsos e fáceis de identificar. Contudo, com a utilização
massiva de redes sociais, é possível, hoje, produzir emails
32 JULHO > SETEMBRO 2026
TECNOLOGIA
de phishing muito precisos e de difícil detecção para
os utilizadores.
Através da análise dos perfis das redes sociais, das fotografias
colocadas, dos comentários e das interacções
é possível sem grande esforço criar todo um perfil de
uma pessoa.
É fácil saber quem é, que idade tem, que formação tem,
onde trabalha, quem são os familiares e amigos, quem são
as chefias, que locais frequenta, o que faz nos tempos de
lazer, e em muitos casos é possível saber se está de férias
e onde, que carro possui e respectiva matrícula, onde vive,
com quem vive e muito mais informação.
Toda esta informação que está online constitui a pegada
digital, que quanto maior, mais fácil é a vida do atacante,
na posse de toda esta informação. É possível criar phishing
bastante preciso que mesmo os mais atentos terão dificuldade
em validar a veracidade.
O antigo Primeiro-ministro australiano Tony Abbott, teve o
seu telefone e passaporte comprometido 45 minutos após ter
colocado uma fotografia no Instagram de um bilhete de avião!
Este caso releva como algo tão inocente como um bilhete
de avião colocado no Instagram pode abrir uma brecha
na segurança nacional de um país. Basta lembrar que em
Setembro de 2022, o Estado-Maior-General das Forças
Armadas foi atacado com sucesso e perdeu quantidades
alarmantes de documentos secretos da NATO.
Devemos, pois, encarar a preparação da sociedade civil
para as questões da segurança digital, e deve ser feito a
todos os níveis, a começar pela escola. Da mesma forma
que ensinamos aos nossos jovens o básico dos sinais de
trânsito, temos também de ensinar o básico da segurança
digital, sobretudo porque são os maiores consumidores de
internet e nem sempre os mais bem preparados. A escola
como local de formação tem aqui um papel de crucial importância,
sobretudo porque muitos dos nossos jovens não
tem no seio familiar pessoas com conhecimentos nesta
matéria que possam, de alguma forma, fazer esta formação.
Por outro lado, para as gerações mais velhas temos de
ter uma abordagem dentro das organizações, quer do ponto
de vista da formação e sensibilização, quer também do
ponto de vista de adoptar comportamentos mais seguros
na utilização privada da internet nomeadamente a informação
que deixam disponíveis nas redes sociais que serão
usadas para manipular e comprometer os utilizadores e,
por consequência, as organizações.
É preciso, ainda, deixar uma alerta, pois a Segurança
informática funciona como uma guerra tradicional, entre
quem defende e quem ataca, e a primeira linha de desejo
são os técnicos, programadores, administradores de redes
e sistemas e especialistas em segurança. Segundo o
Observatório da Emigração, 30% dos jovens entre 15 e 39
anos, emigrou. Entre estes jovens estão os mais qualificados,
e por consequência os mais aptos a lidar com estas
matérias. Não se ganham guerras sem forças de elite, e
Portugal maltrata as suas elites.
O perfil dos profissionais de Tecnologias de informação
é particularmente apto a emigrar e normalmente detêm
elevados conhecimentos de inglês, e, podem emigrar sem
sair de casa, trabalhando remotamente para qualquer tecnológica
no mundo inteiro.
A fiscalidade desempenha aqui um factor determinante.
Enquanto o modelo de tributar exaustivamente os salários
mais elevados for o escolhido, a emigração continuará a
ser o caminho.
A título de exemplo, numa empresa portuguesa com um
custo de 120 mil euros/ ano num especialista de segurança
informática, esse colaborador receberá a módica quantia
de 44.324,00€ por ano! Numa mesma empresa na Irlanda,
com os mesmos 120 mil euros de custo, o colaborador terá,
líquidos, 67.460,00€ por ano.
Já agora, vale a pena pensar nisto.
PORFÍRIO
TRINCHEIRAS
Licenciado em Engenharia Agrónoma
pelo Instituto de Agronomia
da UL. Gerente da Atelier Lógico.
Gestor de Redes e Sistemas na
Faculdade De Motricidade Humana
da Universidade de Lisboa, na
Faculdade De Arquitectura da Universidade de Lisboa,
no Instituto Superior de Ciencias Socias e Politicas
Universidade de Lisboa e na Faculdade De Medicina
Veterinária da Universidade de Lisboa. Consultor de
Redes Sistemas na NovaIMS da Universidade Nova de
Lisboa e Responsavel tecnico do Deparatmaneto de
TI da Egas Moniz School of Health & Science.
trincheiras@erlog.pt
SINDICATO NACIONAL DOS ENGENHEIROS, ENGENHEIROS TÉCNICOS E ARQUITECTOS 33
REABILITAÇÃO
EDIFÍCIOS
ANTIGOS DA CIDADE
DE LISBOA:
ESTRATÉGIAS DE REABILITAÇÃO 1
Por: Célia Maia
34 JULHO > SETEMBRO 2026
REABILITAÇÃO
Portugal, e em particular a
cidade de Lisboa, tem assistido,
nos últimos quatro anos, ao que
consideramos de total alteração
de paradigma face ao mercado
da construção.
1- Artigo originalmente publicado em 12th
International Conference on Structural
Analysis of Historical Constructions, SAHC
2020, P. Roca, L. Pelà and C. Molins (Eds.))
SINDICATO NACIONAL DOS ENGENHEIROS, ENGENHEIROS TÉCNICOS E ARQUITECTOS 35
36 JULHO > SETEMBRO 2026
É FUNDAMENTAL ALERTAR
SOBRE ESTE ACTUAL PROBLEMA
MOTIVADO PELO FULMINANTE
CRESCIMENTO DO MERCADO
DA REABILITAÇÃO NUM UNIVERSO
ONDE A ESCASSEZ DE
MÃO-DE-OBRA QUALIFICADA
ATINGIU NÍVEIS PREOCUPANTES
E ALARMANTES
Numa cidade antiga em que a manutenção
dos edifícios foi nula durante anos, o Estado,
motivado pelas preocupações europeias,
fomentou uma série de incentivos fiscais
para os que optassem pela reabilitação do
património edificado, nomeadamente nas zonas que designou
por áreas de reabilitação urbana. Neste cenário,
encontramos edifícios antigos com carência de obra de
reabilitação que fazem parte do património histórico da
cidade de Lisboa e que vão desde o período medieval à
contemporaneidade: os edifícios designados por casas com
andares de ressalto (até à Carta Régia de D. Manuel, datada
de 1499); os edifícios seiscentistas (entre 1500 e 1755);
os edifícios pombalinos (entre 1755 e meados do século
XIX); os edifícios gaioleiros (entre meados do século XIX
e 1940); os edifícios de estrutura mista (recorrentes entre
1940 e 1950); e os edifícios de betão armado (recorrentes
entre 1940 e 1960 e na actualidade).
Com este artigo, pretendemos salientar os sistemas
construtivos destes edifícios, evidenciando as diferentes
tipologias já identificadas, as principais patologias que
revelam, e apresentar as estratégias de reabilitação sustentável
para os diferentes casos. É importante ainda referir
que são muito raros os casos em que as obras de reabilitação
a decorrer, ou já realizadas, respeitam projectos de
arquitectura e especialidades num contexto em que grande
SINDICATO NACIONAL DOS ENGENHEIROS, ENGENHEIROS TÉCNICOS E ARQUITECTOS 37
REABILITAÇÃO
parte das intervenções se apresenta como um verdadeiro
atentado ao património edificado, sem qualquer respeito
pelo respectivo valor histórico e arquitectónico.
É fundamental alertar sobre este actual problema motivado
pelo fulminante crescimento do mercado da reabilitação
num universo onde a escassez de mão-de-obra qualificada
atingiu níveis preocupantes e alarmantes, propondo-se,
para o efeito algumas estratégias de intervenção, através
de casos de estudo.
O QUE FAZER
Intervir no território e em património construído é um exercício
delicado e que exige conhecimentos teóricos e práticos
muito específicos, sobre o passado histórico, o valor arquitectónico
e os métodos construtivos.
Para além de representar um acto que envolve várias especialidades,
assume-se de modo complexo e diferente da
construção de raiz onde toda a acção é planeada sem grande
margem a alterações face ao inicialmente proposto. Em reabilitação
do património construído, as surpresas no decorrer
da obra podem ser inúmeras e cabe à equipa de projecto
prevenir-se nesse sentido. Cabe ao arquitecto o papel de
coordenar as várias especialidades, tendo necessariamente,
de nutrir capacidade crítica de avaliação do existente, sob o
valor histórico, cultural e arquitectónico presentes.
A cidade de Lisboa caracteriza-se de modo muito singular
face à tipologia construtiva dos seus edifícios que, ao atravessarem
várias épocas, são fruto de metodologias totalmente
distintas. Qualquer intervenção deve visar o respeito para
com o valor patrimonial do existente, mas também e acima
de tudo, para com a segurança destes edifícios, da cidade
e, logo, da população. Os métodos e os materiais utilizados
na recuperação, conservação ou restauro do património edificado
devem ser minuciosamente escolhidos e de acordo
com cada caso apresentado.
Num exercício entre o sensível e a capacidade técnica, há
que chegar a uma solução que simultaneamente respeite
o existente, programe eficientemente o futuro e cumpra
INTERVIR NO TERRITÓRIO E EM PATRIMÓNIO CONSTRUÍDO É UM
EXERCÍCIO DELICADO E QUE EXIGE CONHECIMENTOS TEÓRICOS
E PRÁTICOS MUITO ESPECÍFICOS, SOBRE O PASSADO HISTÓRICO,
O VALOR ARQUITECTÓNICO E OS MÉTODOS CONSTRUTIVOS.
38 JULHO > SETEMBRO 2026
REABILITAÇÃO
A CIDADE DE LISBOA
CARACTERIZA-SE DE MODO MUITO
SINGULAR FACE À TIPOLOGIA
CONSTRUTIVA DOS SEUS
EDIFÍCIOS QUE, AO ATRAVESSAREM
VÁRIAS ÉPOCAS, SÃO FRUTO
DE METODOLOGIAS DISTINTAS.
QUALQUER INTERVENÇÃO DEVE
VISAR O RESPEITO PARA COM O
VALOR PATRIMONIAL EXISTENTE
requisitos económicos que permitam a respectiva rentabilidade
financeira, sob prejuízo de deixar de fazer sentido uma
eventual recuperação.
Para isso, o profundo conhecimento sobre o passado
construtivo da cidade é essencial. Assim, seguem-se os
exemplos construtivos que marcaram e continuam a fazer
parte do parque urbano da cidade de Lisboa. Antes disso,
apresentaremos uma proposta de levantamento e estudo,
para que as possibilidades de sucesso neste tipo de intervenções,
seja superior.
ANÁLISE DO PATRIMÓNIO EDIFICADO
Na abordagem de um edifício para posterior recuperação, é
essencial a realização de um estudo rigoroso sobre o valor
histórico, arquitectónico e patrimonial e que tenha por base
a identificação construtiva do edifício, assim como possíveis
anomalias/patologias. São estes factores que irão orientar
a intervenção e a respectiva viabilidade económica.
Nos casos mais simples e que correspondem aos mais
recorrentes, após a identificação do pretendido, dá-se
início ao levantamento arquitectónico que tem por base a
identificação do período de construção, modelo estrutural e
geometria; ao levantamento patrimonial que visa a identificação
do valor cultural e material do edifício afecto; e ainda
ao levantamento e análise estrutural.
Em casos mais complexos, podem ainda realizar-se levantamentos
complementares, nas especialidades de arqueologia,
geotecnia, topografia, patologias do edificado e infra-estruturas.
Da análise mais simples e da qual resulta o
levantamento arquitectónico, é essencial recolher
informação sobre a época, tipo, sistema construtivo,
patologias e grau de danos. É o arquitecto,
com recurso ao engenheiro, que coordena este
processo, podendo ser necessária a intervenção
de técnicos específicos em ajulejo, estuques e
pinturas antigas.
Do levantamento físico do local, além da
confirmação do desenho existente, é essencial
avaliar rigorosamente toda a geometria do
espaço, análise estrutural aproximada, face à
localização, e tipologia estrutural e construtiva.
Posteriormente, e para uma melhor adequação
ao que será proposto, é importante a identificação
dos materiais de construção, possíveis
alterações ao sistema estrutural original, bem
como a distribuição, geometria e abertura
de fendas ou fissuras, graus de humidade e
salitres, tentando identificar a proveniência,
possíveis condensações e deformações de
sistemas construtivos.
O levantamento histórico visa, essencialmente,
a identificação de elementos que permitam datar
parte ou toda a construção, nomeadamente, a
partir dos materiais, quando originais. Entrevistas
aos habitantes podem ser necessárias e o
recusro ao projecto inicial, bem como toda a
documentação com registos de intervenções de
que foi alvo e materiais utilizados são essenciais.
Os objectivos são a aferição do valor cultural
do edifício e a identificação dos elementos,
materiais e características construtivas a preservar,
com vista à realização de um relatório
com registo gráfico de espaços notáveis e de
elementos construtivos e decorativos que, pelas
suas características, deverão ser preservados.
A existir, deve ser realizado o enquadramento
legal, no caso de existirem constrangimentos à
intervenção. É elaborado, em paralelo desenho
de levantamento.
Estes dados são essenciais para determinar
o valor patrimonial material dos edifícios, que
depende ainda da procura no mercado imobiliário,
de se configurarem como espaços ou elementos
SINDICATO NACIONAL DOS ENGENHEIROS, ENGENHEIROS TÉCNICOS E ARQUITECTOS 39
REABILITAÇÃO
arquitectónicos notáveis e da relação com acontecimentos
históricos. Assim, todas as informações retiradas dos levantamentos
referidos, depois de analisadas, podem contribuir,
significativamente, para a valorização do edifício afecto.
A partir deste ponto, gera-se a definição de medidas
correctivas, o plano de manutenção preventiva e soluções
de intervenção.
SISTEMAS CONSTRUTIVOS
DE EDIFÍCIOS ANTIGOS
Para o correcto e eficiente acto de reabilitação é essencial
o total conhecimento sobre a identidade e caracterização
do conjunto urbano existente. A data de construção, organização
funcional, materialidade e o sistema construtivo são
elementos que têm de ser dominados pelos projectistas.
Na cidade de Lisboa, a complexidade aumenta, por ser uma
cidade muito antiga e onde ainda conseguimos encontrar
várias tipologias construtivas.
— Pré-pombalinos —
As designadas casas com andar de ressalto, que datam
desde o período medieval, até 1499. D. Manuel, como medida
de prevenção de incêndios e combate à insalubridade,
deu ordem para que fosse respeitado o alinhamento entre
fachadas e cérceas e que fosse substituída a madeira por
alvenaria de tijolo e pedra como método construtivo.
Estas casas são caracterizadas por edifícios, em regra, de
2 a 4 pisos, com fachadas organizadas por ressaltos, altura
entre pisos muito reduzida e com várias compartimentações.
Este tipo de espaços, aos dias de hoje, são totalmente
reformulados, de modo a potenciarem outro tipo de usos e
respeitando outro tipo de vivência, associada ao século XXI.
As escadas de acesso aos apartamentos são muito inclinadas
e estreitas e não existe átrio de entrada no edifício. Os
apartamentos têm muito poucas aberturas para o exterior.
O sistema construtivo destes edifícios constitui as paredes
autoportantes em alvenaria de pedra e tijolo no piso
térreo e paredes superiores em madeira, à semelhança da
cobertura. A força é exercida sobre todo o embasamento
do edifício que fica mais leve à medida que vai ganhando
maior dimensão. As fundações são directas e contíguas e
os pisos são suportados por um sistemas de vigamento de
madeira de secção circular.
— Seiscentistas —
São edifícios que datam entre 1500 e 1755 e que, pelo
período em que se inserem, fazem parte integrante do que
dominamos por edifícios pré-pombalinos. As fachadas estão
alinhadas sem balanço e o sistema construtivo constitui-
-se por paredes em alvenaria de pedra e tijolo desde o piso
térreo até à cobertura. As escadas assumem ainda maior
inclinação se comparadas à tipologia que lhe antecedeu e
Edifícios que datam entre 1500 e 1755 e que, pelo período
em que se inserem, fazem parte integrante do que dominamos
por edifícios pré-pombalinos
40 JULHO > SETEMBRO 2026
REABILITAÇÃO
designam-se de “escadas tiro”, para ganhar mais espaço,
mas com reduzida funcionalidade. No embasamento e para
suporte de todo o edifício integram um sistema de arcos de
suporte no piso térreo em alvenaria de pedra ou tijolo maciço,
de modo a conseguir vãos de dimensões adequadas
ao estabelecimento de comerciantes.
— Pombalinos —
São os edifícios posteriores ao terramoto de 1755 que se continuaram
a construir até meados do séc. XIX. Fizeram parte do
plano de reconstrução da cidade de Lisboa, face a este desastre.
Ao contrário do modelo anterior, estes edifícios caracterizam-se
pelas suas fachadas sem um perfeito alinhamento,
produzindo ideia de ritmo e com altura entre pisos generosa,
especialmente, no que diz respeito nos pisos 0 e 1. As cérceas
mantêm a mesma ideia da tipologia anterior e são alinhadas
entre si e a distribuição para os apartamentos é realizada
a partir de um patim comum. Cada apartamento apresenta
duas portas de entrada, a nobre e a de serviço, o que potencia
ainda a ideia de diferenças ao nível socio-cultural, apesar
de não contemplarem instalações sanitárias. Estes edifícios
apresentavam-se integrados num planeamento delineado
para as zonas urbanas.
O sistema construtivo destes edifícios trouxe o conceito
de gaiola pombalina que consiste numa estrutura de
pórticos de madeira organizados de modo perpendicular
entre si. Paralelamente, cada um destes edifícios não é
pensado, estruturalmente, de modo isolado, estando desenhados
numa lógica de quarteirão e agregados entre si.
À semelhança dos modelos anteriores, a estrutura do piso
0 é realizada em alvenaria de pedra, ainda que adicione a
este um sistema de travamento em madeira. Em paralelo, o
sistema estrutural é ainda composto por pilares em pedra
aparelhada, as paredes de empena são em alvenaria de
pedra e as frontais em estrutura de madeira num sistema
de cruz de santo andré. As fundações são em alvenaria e
utilizam o recurso a um sistema de arcos e abóbodas para
maior e melhor embasamento.
— Gaioleiros —
Datam de meados do séc. XIX até 1930. Surgem com a
necessidade de expansão rápida dos centros urbanos e
De meados do séc. XIX até 1930. Surgem com a necessidade
de expansão rápida dos centros urbanos
SINDICATO NACIONAL DOS ENGENHEIROS, ENGENHEIROS TÉCNICOS E ARQUITECTOS 41
REABILITAÇÃO
numa altura em que a restruturação da cidade face ao
terramoto já não era o foco. Por isso mesmo, apresentam
uma estrutura mais débil, relativamente à tipologia anterior.
Dados essenciais para intervém nestes edifícios sob ponto
de vista da conservação ou reabilitação. Destacam-se dois
períodos, neste contexto, sendo que entre 1903 e 1930 passou
a ser evidenciado o tratamento das fachadas a partir
do movimento Art Deco.
São edifícios mais altos, com forte carácter estético, onde
a preocupação recaiu sobre as fachadas ricas em decoração.
Os lotes são estreitos e passou a existir a referência ao
saguão, área interior do bloco do edifício para iluminação e
ventilação natural, ainda que indirecta.
Estruturalmente, o objectivo era a construção massiva e
económica de modo a permitir maior rentabilidade num curto
espaço de tempo. As paredes exteriores são realizadas em
alvenaria de pedra argamassada e as paredes de empena
e saguões em tijolo maciço. As paredes interiores são em
alvenaria de tijolo ou tabique, os pavimentos em madeira
e as fundações directas e de fraca qualidade. Passou a
existir uma escada de serviço, exterior ao edifício, em ferro
e sempre localizada no alçado tardoz.
— Estrutura Mista —
Edifícios de rendimento dos anos 40 e 50. São edifícios que
distam totalmente das tipologias anteriores, pelo conceito
A grande inovação e transformação surge com
o betão armado
e pelo sistema estrutural, ainda que levem consigo parte do
passado, nomeadamente na composição das alvenarias.
As preocupações na cidade são distintas e o foco é sobre
a salubridade e resistência das edificações. Surge um novo
material: o betão armado.
A fundação é realizada directamente e o recurso ao betão
é feito apenas nas zonas obrigatórias passando a existir a
partir desta data regulamentação para o efeito. As paredes
exteriores são em alvenaria de pedra argamassada. As paredes
interiores são em tijolo cerâmico perfurado e a caixa
de escada em tijolo cerâmico maciço. A escada de serviço
é em betão armado e estes edifícios raramente ultrapassam
os cinco pisos.
— Edifícios de Placa —
A grande inovação e transformação que surge com o betão
armado, numa tipologia de edifícios que passa a distinguir–se
de modo totalmente diferente. Apesar do interesse arquitectónico
das tipologias anteriores, pela identidade e pelo
que representam na inovação estrutural que potenciaram,
esta nova tipologia passa por ter início em edifícios público
assinados por arquitectos e engenheiros.
42 JULHO > SETEMBRO 2026
REABILITAÇÃO
O sistema construtivo é composto por lajes de betão
assentes em paredes portantes em alvenaria de pedra e
tijolo, vigas e pilares de betão e lajes maciças de 10 cm. As
paredes exteriores são em alvenaria de pedra argamassada,
as paredes divisórias e caixa de escada em tijolo cerâmico
maciço e interiores em tijolo cerâmico maciço perfurado.
Alguns edifícios apresentam variações nas paredes exteriores
em pedra calcária, paredes de empena em betão
armado e paredes interiores em blocos de betão.
— Edifícios de Estrutura em Betão Armado —
São os edifícios construídos nos anos 40, 50 e 60 e fazem
pare de um período de transição, com poucas alterações
ao anterior, onde os elementos em alvenaria tinham ainda
uma função estrutural complementar ao sistema de pórticos
de betão armado com varão em aço livro e laje aligeirada
(vigota e abobadilha).
PROPOSTA DE REABILITAÇÃO
DE EDIFÍCIO SEISCENTISTA
Datado de cerca de 1650, este edifício cercava as imediações
do Palácio da Bemposta, Paço da Rainha em Lisboa.
Edifício seiscentista, apresenta, em 2020 elevado estado
de deterioração no seu conjunto, ainda que, isoladamente,
alguns apartamentos permaneçam em razoável estado
de conservação.
Na sequência de uma ausente manutenção, com os passar
dos anos, o edifício foi cedendo, apresentando-se em alguns
pontos, em muito mau estado. Como qualquer edifício do seu
tempo, sem qualquer tipo de cuidado de conservação, apresenta,
na fachada, elevado índice de fendilhação, desagregação e
esmagamento de alvenarias. As cantarias estão quebradas ou,
em alguns casos, inexistentes. Os vigamentos interiores, por
manutenção isolada de cada proprietário, encontram-se em
razoável estado de conservação, à excepção do circundante
às zonas húmidas.
UMA POSSÍVEL PROPOSTA
DE INTERVENÇÃO
Tendo em conta o valor patrimonial do edificado, considerámos
nesta proposta os mais adequados meios de reabilitação,
respeitando as pré-existências ao nível das soluções e materiais.
Dado o estado avançado de degradação das fachadas
Noroeste, Nordeste e Sudeste do edifício, propõe-se e para
o efeito a reparação das paredes exteriores, com picagem
de superfície e elementos degradados e recomposição com
argamassas bastardas para o enchimento e argamassas tipo
RHP para o reboco de acabamento. Para a recuperação das
Estado avançado de degradação das fachadas
Noroeste, Nordeste e Sudeste do edifício
SINDICATO NACIONAL DOS ENGENHEIROS, ENGENHEIROS TÉCNICOS E ARQUITECTOS 43
REABILITAÇÃO
molduras dos vãos, propomos a respectiva réplica em pedra
de calcário, incluindo trabalhos acessórios. As pinturas da
parede serão feitas a tinta acrílica com prévia aplicação
de primário. A recuperação das paredes de alvenaria das
fachadas deverá ser realizada com argamassas à base
de cal e areia e sem aplicação de cimento, adequadas a
alvenarias antigas. A pintura deverá permitir a respiração/
troca de vapores, sendo utilizadas apenas e para o efeito
tintas aquosas à base de silicatos. Todas as cantarias serão
limpas através de métodos não abrasivos, a jacto de água e
escovagem, de modo a que sejam mantidas, na sua origem.
A reabilitação, negligenciada durante muitos anos em
que a construção de raiz em Portugal atingia o exponente
máximo, atingiu notoriedade desde 2017 em todos os núcleos
urbanos antigos. Foram contempladas medidas de
incentivo desde 2015, para que o foco da população alterasse.
Contudo, questiona-se sobre o verdadeiro sentido
da reabilitação que está a ser realizada. Em alguns casos
por desconhecimento técnico, noutros por falta de verbas
ou mesmo rentabilidade, afecta ao promotor.
Por ser o nosso papel, na qualidade de técnicos da construção
e reabilitação do património edificado, resta-nos
esclarecer e dissertar sobre o que é e em que consiste, de
facto a história do nosso património que deve ser preservado.
Assim, neste artigo, pretendemos fazer uma breve ilustração
sobre os principais sistemas construtivos ainda presentes
na cidade de Lisboa e que datam desde o período medieval.
Para concluir essa análise, introduziu-se, através da metodologia
do caso de estudo, uma proposta de reabilitação de
um edifício seiscentista, datado de cerca de 1650.
Estando inserido numa área de Património Classificado,
a nossa intervenção consiste apenas numa obra de conservação,
sem alterações ou ampliações.
Infelizmente, este é o espelho de recorrentes situações
na cidade de Lisboa onde, durante anos, se negligenciou
qualquer tipo de intervenção ao nível da conservação e
manutenção do património edificado.
Para maior gravidade e na expectativa que este artigo
sirva de alerta, este edifício está inserido numa área de
Património Classificado, no estado aqui descrito e sem que
a Câmara Municipal afecta dê o devido despacho ao pedido
de obras que foi solicitado no início de 2019 e ao qual ainda
não houve resposta.
Este artigo tem por objectivo a elucidação para os técnicos
do quão sensível é a actuação no património construído, pelo
bem cultural e material que isso representa, mas também
pela responsabilidade cívica associada. Paralelamente, os
conhecimentos técnicos aprofundados sobre as diferentes
44 JULHO > SETEMBRO 2026
tipologias existentes são essenciais para o tipo de solução
que pode ser proposta de modo a que nunca se comprometa
a estabilidade do edifício. Assim preservamos identidade
e segurança.
Contudo, talvez não esteja apenas nos técnicos a capacidade
de resposta. Com técnicos cada vez melhor qualificados,
com a devida formação, resta às autarquias dar eficientes
respostas ao que lhe é pedido, abandonando a recorrente
actividade amorfa e irresponsável, como se o trabalho a
realizar numa cidade antiga e debilitada fosse pura acção
de cosmética. O trabalho do arquitecto e do engenheiro é
muito sério, um dever e uma acção cívica com forte carácter
de responsabilidade e deve ser respeitado. Para isso,
é necessária e urgente uma eficiente resposta e uma mudança
de paradigma nos sistemas organizativos, presentemente
contaminados.
CÉLIA MAIA
REFERÊNCIAS
Arquitecta e Mestre, com pós-
-graduação na especialidade
de Desenvolvimento Urbano e
Sustentabilidade pela Faculdade
de Arquitectura da UL. É investigadora
e autora do livro Fernão
Simões de Carvalho, arquitecto
e urbanista (Caleidoscópio, 2019). Leccionou, desde
2012, no ISEC Lisboa, orientou Teses de Licenciatura
e participou como membro de júris académicos em
Provas de Mestrado. É Dirigente Sindical do SNEET,
desde 2012 e Vogal do Conselho Directivo da SRLVT da
Ordem dos Arquitectos desde Outubro de 2023. Fundou
o atelier BeCraft, arquitectura e coordenação de obra.
office@becraft.pt, www.becraft.pt
[1] Zienkiewicz, O.C. and Taylor, R.L. The finite element method.
McGraw Hill, Vol. I., (1989), Vol. II, (1991).
[2] APPLETON, JOÃO - Reabilitação de edifícios antigos,
Patologias e tecnologias de intervenção. 1ª Ediçao.
Amadora: Ediçoes Orion (2003)
[3] Springer Nature (2017) Springer - Manuscript preparation.
https://www.springer.com/gp/authors-editors/
book-authors-editors/manuscript-preparation/5636.
Accessed 16 Sep 2017
[4] Aguilar R, Marques R, Sovero K, et al (2015) Investigations
on the structural behaviour of archaeological heritage in
Peru : From survey to seismic assessment. Eng Struct
95:94–111. doi: 10.1016/j.engstruct.2015.03.058
[5] Carta de Atenas, Conclusão da conferência internacional
de Atenas sobre o restauro dos monumentos, Atenas,
Outubro (1931)
[6] PAIVA, JOSÉ - Medidas de Reabilitação energética de
edifícios. Lisboa: LNEC (2003)
HISTÓRIA
LUIZ
MORAES
JÚNIOR
Um português que
fez sucesso no Rio
de Janeiro, nas
primeiras décadas
do século xx
Por: Benedito
Tadeu de Oliveira
46 JULHO > SETEMBRO 2026
HISTÓRIA
SÃO DE SUA AUTORIA
O PROJECTO DO
DESINFECTÓRIO DE
BOTAFOGO, ACTUAL
HOSPITAL ROCHA MAIA,
INICIADO EM 1904 E
CONCLUÍDO NO ANO
SEGUINTE, BEM COMO O
PROJECTO DO SANATÓRIO
PARA TUBERCULOSOS DE
MENDES, NO ESTADO DO RIO
DE JANEIRO, DE 1914
SINDICATO NACIONAL DOS ENGENHEIROS, ENGENHEIROS TÉCNICOS E ARQUITECTOS 47
HISTÓRIA
PROJECTO DEFINITIVO DO PAVILHÃO MOURISCO
48 JULHO > SETEMBRO 2026
ASSINOU OBRAS
EMBLEMÁTICAS.
O TRABALHO E ACERVO DE LUIZ
MORAES JÚNIOR PODE NÃO
TER TIDO O RECONHECIMENTO
MERECIDO EM PORTUGAL.
MAS, NO BRASIL, O SEU NOME
CONTINUA A FIGURAR ENTRE OS
MAIORES DA ARQUITECTURA
Luiz Moraes Júnior nasceu em Faro, na região
de Algarve, Portugal, a 28 de Janeiro de 1868 e
graduou-se em Engenharia em Lisboa, tendo iniciado
a sua carreira profissional como engenheiro
ferroviário. Esse trabalho especializado deve ter
influenciado a sua futura carreira profissional, sobretudo nos
projectos de alguns pavilhões no Rio de Janeiro.
Emigrou para o Brasil em 1900, a convite do Padre Ricardo,
vigário-geral da Igreja da Penha, para executar obras de
reestruturação e embelezamento das fachadas da Igreja,
que foram concluídas em 1902. As suas principais realizações
enquanto engenheiro e construtor ocorreram sob
os auspícios, e durante a curta e brilhante trajectória, de
Oswaldo Cruz (1), a quem conheceu nos percursos diários
de comboio que faziam juntos até a estação do Amorim.
Por essa altura, Oswaldo Cruz dirigia-se para Manguinhos,
e Luiz Moraes para a Penha.
Entre os anos de 1903 e 1922, viria a projectar e a coordenar
a construção da sua obra mais significativa: o conjunto
arquitectónico histórico de Manguinhos, hoje candidato ao
título de Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO.
Nesta época, os edifícios mais importantes de Manguinhos,
ou seja, os que não eram construídos para residências de
funcionários, ou para depósitos ou pequenas estrebarias,
eram encomendados directamente ao engenheiro Luiz
Moraes Júnior.
SINDICATO NACIONAL DOS ENGENHEIROS, ENGENHEIROS TÉCNICOS E ARQUITECTOS 49
HISTÓRIA
Os primeiros projectos desse engenheiro, para o Instituto
Soroterápico Federal, (depois Instituto Oswaldo Cruz) em
1903, foram o cais de embarque e um pequeno biotério ao
lado das primitivas instalações da fazenda de Manguinhos.
Esse biotério fazia parte do seu projecto para as novas instalações
do Instituto, mas acabou por ter curta duração, já
que com a construção do principal edifício do novo complexo
arquitectónico, a partir de 1905, viria a ser demolido. Moraes
repetiria essa concepção, em linhas gerais, ao construir o
Biotério para Pequenos Animais, o Pombal, em 1904. Já o
cais permaneceu, abandonado e sem função durante muitos
anos, até que na década de 1970 foi definitivamente aterrado.
Do projecto original do novo complexo arquitectónico idealizado
em conjunto com Oswaldo Cruz, não foram construídos
o mictório e o W.C., o biotério para grandes animais, além
do pavilhão para desinfecção e incineração que estavam
previstos para o local onde foi construído o Pavilhão dos
Medicamentos Oficiais, hoje edifício do Quinino. A partir da
antiga Cavalariça construída para as primeiras instalações do
Instituto, demolida em 1935, Moraes projectou a implantação
de todos os outros edifícios do complexo arquitectónico
histórico de Manguinhos.
Oswaldo Cruz faleceu com apenas 45 (quarenta e cinco)
anos, em 1917, devido a uma insuficiência renal, e foi sepultado
perante uma comoção popular, no cemitério São João
Batista, no Rio de Janeiro. Coube ao seu sucessor Carlos
Chagas (2) concluir as obras pensadas por Oswaldo Cruz e
projectadas por Luiz de Moraes.
O engenheiro voltou a trabalhar para Manguinhos na década
de 1940, no projecto não executado para a portaria da
Avenida Brasil e na supervisão do projecto de sobrelevação
do Quinino, em 1943, desenvolvido por Nabor Forster, pela
Divisão de Obras do Ministério da Educação e Saúde.
Também é de sua autoria o projecto de reforma, ampliação
e adaptação do edifício da Intendência da Força Pública
do Estado de Minas Gerais para abrigar a filial do Instituto
Oswaldo Cruz, e do serpentário em Belo Horizonte, ambos
demolidos na década de 1950.
Serpentário,
Belo Horizonte
50 JULHO > SETEMBRO 2026
HISTÓRIA
No período de 1902 a 1917, Luiz Moraes Júnior acumulou
uma experiência notável na elaboração de projectos e na
coordenação de construções de edifícios destinados a
abrigar instalações sanitárias, hospitalares e laboratoriais.
Destacam-se, nessa área, o projecto e a obra da antiga
sede da Diretoria Geral de Saúde Pública (DGSP) em estilo
eclético, que acompanhou de 1905 a 1910, quando Oswaldo
Cruz era director desse órgão, entre 1903 e 1909. Outros
edifícios de grande importância na área da saúde pública
são a sede (demolida) da Polciclínica Geral do Rio de Janeiro
na Avenida Central, atual Rio Branco, de 1904, em estilo neo-
-renascentista alemão, e o edifício da Faculdade de Medicina
da Praia Vermelha, de 1914, construído pela firma do arquiteto
Antônio Januzzi e demolido pela Eletrobrás, durante o
Governo do ditador Ernesto Geisel em 1975.
São ainda de sua autoria o projecto do desinfectório de
Botafogo, actual Hospital Rocha Maia, iniciado em 1904 e
concluído no ano seguinte, bem como o projecto do sanatório
para tuberculosos de Mendes, no Estado do Rio de
Janeiro, de 1914.
Moraes actuou, ainda, na área de construções residenciais,
entre as quais se destacam a residência de Oswaldo Cruz, de
1913, em Botafogo (demolida), o Palacete Seabra em estilo
parisiense na Praia do Flamengo, no 340, e o Rio Hotel na
Praça Tiradentes, todas no Rio de Janeiro.
Engenheiro esse que acompanhou Oswaldo Cruz aquando
de sua gestão como o primeiro prefeito de Petrópolis, Estado
do Rio de Janeiro; de Julho a Setembro de 1916, e projectou
o túmulo do grande cientista em 1917. Em Petrópolis projectou
a sua própria residência, o prédio do Grande Hotel e
o prédio do jornal Tribuna de Petrópolis.
Luiz Moraes faleceu no Rio de Janeiro em 1955, aos 87
anos, deixando um legado de obras quase esquecidas pela
historiografia da arquitetura brasileira. Ficaria ainda toda
uma curiosa biografia, como o facto de ser cônsul honorário
do Haiti no Rio e grande coleccionador de selos. Há uma
placa comemorativa dos 50 anos do Instituto Oswaldo Cruz
no hall do elevador do Castelo Mourisco, que homenageia o
engenheiro e reconhece a sua colaboração na composição
da imagem dessa mesma Instituição.
O Guia de Arquitetura Eclética no Rio de Janeiro, elaborado
pela Secretaria Municipal de Urbanismo e o Centro
de Arquitetura e Urbanismo da Prefeitura da cidade do Rio
de Janeiro, editado em 2001 pela Casa da Palavra, listou
nada menos que quatro projectos seus: o Centro Municipal
de Saúde (verbete 39), o Palacete Seabra (verbete 105), o
Instituto Oswaldo Cruz (verbete 142) e a ornamentação da
Igreja da Penha (verbete 143).
REFERÊNCIAS
BENEDITO TADEU DE OLIVEIRA
É arquitecto graduado pela Universidade de
Brasília – UnB (1980) e doutor em restauração
de monumentos pela Universidade
de Roma – La Sapienza (1985). Servidor da
Fundação Oswaldo Cruz – Fiocruz, desde
1987, foi também director do Instituto do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
– IPHAN de Ouro Preto, MG (2002-2009).
. ARAGÃO, H. B. de. Notícia Histórica sobre a Fundação do Instituto Oswaldo
Cruz (Instituto de Manguinhos). Separata das Memórias do Instituto
Oswaldo Cruz. Tomo 48, ano 1950. Rio de Janeiro: Serviço Gráfico do
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 1950.
. BENCHIMOL, J. L. (Coord.). Manguinhos, do Sonho à Vida: a ciência na
Belle Époque. Rio de Janeiro: Casa de Oswaldo Cruz/ Ed. Fiocruz, 1990.
. CHAGAS FILHO, Meu Pai, Casa de Oswaldo Cruz, Fundação Oswaldo Cruz,
Rio de Janeiro, 1993.
. DIAS, E. O Instituto Oswaldo Cruz, resumo histórico (1899-1918). Rio de
Janeiro: Manguinhos, 1918.
. OLIVEIRA, Benedito T. (coord.) COSTA, Renato. G.-R. e PESSOA, Alexandre J.
de Souza. Um lugar para a ciência: a formação do campus de Manguinhos.
Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2003.
. OLIVEIRA, Benedito T. de. A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em Minas
Gerais. Reflexões sobre a nova sede. Arquitextos, ano 14, n. 165.01, Vitruvius,
fev. 2014. Disponível em <https://www.vitruvius.com.br/revistas/
read/arquitextos/14.165/5068>.
(1) Oswaldo Gonçalves Cruz (São Luiz do Paraitinga, SP; 5 de agosto de
1872 — Petrópolis, RJ; 11 de fevereiro de 1917) foi um médico, bacteriologista,
epidemiologista e sanitarista brasileiro. Pioneiro no estudo
das moléstias tropicais e da microbiologia no Brasil, ingressou em
1900 como diretor técnico do Instituto Soroterápico Federal, no bairro
de Manguinhos, no Rio de Janeiro, transformado em Instituto Oswaldo
Cruz, hoje a Fundação Oswaldo Cruz, respeitada internacionalmente.
(2) Carlos Ribeiro Justiniano das Chagas (Oliveira, MG; 9 de julho de 1878
– Rio de Janeiro, RJ; 8 de novembro de 1934) foi um biólogo, médico
sanitarista, infectologista, cientista e bacteriologista brasileiro, que
trabalhou como clínico e pesquisador. Atuante na saúde pública do Brasil,
iniciou sua carreira no combate à malária. Destacou-se ao descobrir o
protozoário Trypanosoma cruzi (cujo nome foi uma homenagem ao seu
amigo Oswaldo Cruz) e a tripanossomíase americana, conhecida como
doença de Chagas. Ele foi o primeiro e até os dias atuais permanece o
único cientista na história da medicina a descrever completamente uma
doença infecciosa: o patógeno, o vetor (Triatominae), os hospedeiros, as
manifestações clínicas e a epidemiologia.Foi diversas vezes laureado
com prêmios de instituições do mundo inteiro, sendo as principais como
membro honorário da Academia Brasileira de Medicina e doutor honoris
causa da Universidade Harvard e Universidade de Paris.
SINDICATO NACIONAL DOS ENGENHEIROS, ENGENHEIROS TÉCNICOS E ARQUITECTOS 51
A N Á L I S E
ANÁLISE DO
DANO E DA
EXTENSÃO
DO GALGAMENTO
EM ESTRUTURAS
DE PROTECÇÃO MARGINAL
ATRAVÉS DE TÉCNICAS
DE VÍDEO
Por: 1 Ricardo Martins, 1 Ricardo Ferrão, 1,2 Ana Mendonça,
2
Rute Lemos, 2 Juana Fortes
1
ISEC Lisboa, Alameda das Linhas de Torres, 179, 1750-142 Lisboa
2
LNEC, Av. do Brasil, 101, 1700-066 Lisboa
52 JULHO > SETEMBRO 2026
INTRODUÇÃO
A
construção das estruturas de proteção marginal,
ou de defesa longitudinal aderente, tem
sido priorizada ao longo dos anos devido ao
facto de Portugal ter as suas zonas de maior
desenvolvimento económico no litoral e é onde
habita uma grande percentagem da população portuguesa.
As estruturas de proteção marginal são construídas
paralelamente à costa com o objectivo de proteger as zonas
costeiras contra a ação direta da agitação marítima,
o galgamento da onda e consequente inundação, bem
como a erosão costeira e pretendem servir de protecção
e abrigo contra inundações devido ao galgamento de ondas,
dissipando a energia destas na sua interação com a
estrutura. Estas defesas são também utilizadas em zonas
fortemente afectadas pela erosão costeira, minimizando o
risco de ocorrerem estragos em estradas, passadiços ou
edifícios nas suas proximidades.
É importante compreender e quantificar correctamente
os fenómenos que resultam da interacção das estruturas
marítimas com a acção das ondas, salientando-se o galgamento
e o dano.
METODOLOGIA
Os ensaios foram realizados no canal de ondas irregulares
(COI 1) do LNEC (Fig.).
Fig. 1 - COI 1 (esquerda)
e a estrutura de proteção marginal (direita).
Fig. 1
SINDICATO NACIONAL DOS ENGENHEIROS, ENGENHEIROS TÉCNICOS E ARQUITECTOS 53
A N Á L I S E
Para a avaliação da agitação, foram utilizadas as sondas 1
a 8 (Fig. 2) na 1ª fase dos ensaios, sendo que nos restantes
ensaios não foram utilizadas a sonda 5 (localizada no pé
da estrutura), a sonda 6 (sonda do espraiamento) nem a
sonda 7 (sonda da superestrutura).
Para a medição do espraiamento, foram utilizadas duas abordagens.
A primeira envolveu uma sonda resistiva posicionada
no talude da estrutura. A segunda utilizou uma metodologia
baseada em análise de vídeo, especificamente a fotogrametria.
A caracterização da evolução do dano foi realizada por
meio da contagem visual dos blocos. O sensor de posição
Kinect 2.0 foi empregue para a obtenção de modelos tridimensionais
de superfície.
A medição do volume de galgamento total envolveu a
utilização de um reservatório graduado no exterior do canal.
Uma sonda posicionada no reservatório interior do canal
complementou essa medição.
A extensão do galgamento foi medida por meio de técnicas
de vídeo. Para simular as condições observadas nas
marginais, que constituem um obstáculo à passagem da
água, foram colocados bancos, figuras e fitas com espaçamento
constante de 10 cm. Os parâmetros utilizados
nos ensaios foram o período de onda (Tp), e a altura da
onda (Hs). Foram testadas quatro condições de agitação:
Tp=12 s, Hs=3.9 m; Tp=12 s, Hs=5.1 m; Tp=16 s, Hs=4.2 m e
Tp=16 s, Hs=5.6 m. Realizou-se a comparação das distâncias
percorridas pela água em modelo e protótipo, sendo
o protótipo em escala real e o modelo em escala reduzida,
com e sem a presença de bancos.
Para a medição do galgamento individual, o cálculo do
volume de água associado a cada galgamento foi realizado
usando o sensor de posição Kinect Azure, permitindo a
obtenção de modelos tridimensionais de superfície para
análises detalhadas.
Fig. 2 - Localização das sondas ao longo do canal.
54 JULHO > SETEMBRO 2026
A N Á L I S E
RESULTADOS
Agitação
É possível observar na Fig. 3 que, para o mesmo período
de onda Tp=8 s, com o aumento da altura de onda aumenta
também a Hs nas sondas 2 a 5.
Na Fig. 4, para o período de onda Tp=16 s, verifica-se
que, com o aumento da altura de onda, aumenta também
a Hs, nas sondas 2 a 5.
Na Fig. 5 e na Fig. 6, observa-se uma boa concordância
em termos de repetibilidade para todas as sondas.
Fig. 3 - Altura significativa: análise da repetibilidade de ensaios Hs=3.4 a 6.3 m.
SINDICATO NACIONAL DOS Fig. 4 ENGENHEIROS, - Altura significativa: análise ENGENHEIROS da repetibilidade TÉCNICOS de ensaios Hs=3.1 E ARQUITECTOS e 4.9 m. 55
A N Á L I S E
Fig. 5 – Altura de onda significativa: análise da repetibilidade de ensaios Tp=8 s e Hs=5.1 m.
Fig. 6 - Altura significativa: análise da repetibilidade de ensaios Tp=8 s, Hs=6.2 m.
56 JULHO > SETEMBRO 2026
A N Á L I S E
GALGAMENTO
Caudal médio galgado total
Na Fig. 7 comparam-se as duas técnicas de medição
do galgamento, por sonda e reservatório graduado,
para a condição de agitação Tp=16 s Hs=7.5 m em 4
ensaios. É possível observar que a divergência entre
os dois métodos ocorre em todos os ensaios. Contudo,
os valores de galgamento demonstram repetibilidade.
Compararam-se as duas técnicas de medição do galgamento,
sonda e reservatório graduado, verificando-se para
a situação de agitação Tp=16 s e Hs=7.5 m diferenças de
19,1% em E1, de 18,4% em E2, de 8,93% em E3 e de 18,1%
em E4. A média das diferenças obtidas, entre técnicas,
corresponde a 8,3%.
Para a condição de agitação Tp=16 s, Hs=4.6 m registam-
-se variações percentuais de 8,5% no E1, de 37% no E2,
de 8,32% no E3 e de 21,6% no E4. A média das diferenças
obtidas, entre técnicas, corresponde a 18,6%.
Fig. 7 - Comparação do galgamento medido pela sonda e pelo reservatório graduado Tp=16 s, Hs=7,5 m.
SINDICATO NACIONAL DOS ENGENHEIROS, ENGENHEIROS TÉCNICOS E ARQUITECTOS 57
A N Á L I S E
Extensão do galgamento
Foi determinada a extensão do galgamento no coroamento
da estrutura para quatro condições de agitação. Compararam-se
os resultados da extensão do galgamento com
e sem bancos (Fig. 9).
Nas Tabelas 1 e 2 observa-se que, com o aumento de Hs,
aumentam os valores de extensão do galgamento.
Na Tabela 3, verifica-se que os valores do ponto de galgamento
máximo e médio são inferiores aos apresentados
na Tabela 1, demonstrando a influência dos bancos na
proteção das figuras. A presença de bancos ao longo do
coroamento da estrutura tem um impacto na extensão do
galgamento (Tabela 4). Quando há bancos, as ondas não
atingem distâncias tão grandes.
Estabilidade
Na Tabela 5, é possível observar a contagem
cumulativa dos blocos em cada um dos 8 ensaios
(E1 a E8) no método manual quanto no método
do Kinect, em baixa-mar (BM). Cada ensaio foi
comparado com o ensaio inicial a seco.
Em preia-mar (PM), o Kinect registou um total
de 72 blocos removidos, enquanto a contagem
manual indicou apenas 66 (Tabela 6). No entanto,
a avaliação dos danos usando o Kinect V 2.0 requer
uma abordagem cuidadosa, pois muitos dos
blocos contabilizados podem ter sido removidos
anteriormente e, ao serem deslocados, criam uma
área adicional de remoção.
Fig. 9 – Figuras, fitas e
bancos colocadas para a
medição da extensão
do galgamento.
58 JULHO > SETEMBRO 2026
A N Á L I S E
Tabela 1 - Ensaios para 4 condições de agitação sem bancos no modelo.
Tabela 2 - Ensaios para 4 condições de agitação sem bancos no protótipo.
Tabela 3 - Ensaios para 4 condições de agitação com bancos no modelo.
Tabela 4 - Ensaios para 4 condições de agitação com bancos no protótipo.
SINDICATO NACIONAL DOS ENGENHEIROS, ENGENHEIROS TÉCNICOS E ARQUITECTOS 59
A N Á L I S E
Conclusões
Os ensaios de galgamento
mostram que, embora haja
discrepâncias entre as duas
técnicas, com valores superiores
de galgamento obtidos através
da sonda, ambas são consistentes
e fornecem resultados
semelhantes nas repetições
individuais dos ensaios.
A presença de bancos ao
longo do coroamento da estrutura
tem impacto na extensão
do galgamento, impedindo as
ondas de atingir distâncias
tão grandes, proporcionando
alguma proteção aos bens
e pessoas.
Tabela 5 - Contagem cumulativa dos blocos em BM
Tabela 6 - Contagem cumulativa dos blocos em PM.
AUTORES
ANA MENDONÇA
Possui o grau de Doutora em “Dinâmica de
Fluidos Biogeoquímicos e suas Aplicações”,
obtido em maio de 2014, na Universidade
de Granada (Espanha).
É Investigadora Auxiliar no Departamento
de Hidráulica e Ambiente, do Laboratório
Nacional de Engenharia Civil (DHA/LNEC).
Desenvolve atividade nas áreas da modelação
física e numérica aplicadas ao
dimensionamento, segurança e exploração
de estruturas marítimas (quebra-mares,
estruturas de defesa costeira, emissários
submarinos, recifes artificiais e dispositivos
de aproveitamento de energia das ondas)
em zonas marítimas, portuárias e costeiras.
amendonca@lnec.pt
CONCEIÇÃO FORTES
Licenciada em Engenharia Civil e doutorada em
Engenharia Mecânica pelo Instituto Superior Técnico.
É Investigadora Principal no Núcleo de Portos
e Estruturas Marítimas do Laboratório Nacional
de Engenharia Civil, e chefe do Núcleo de Portos
e Estruturas Marítimas. Trabalha, desde 1989, nos
domínios da hidráulica marítima e engenharia
civil aplicadas às zonas costeiras e portuárias.
jfortes@lnec.pt
RICARDO FERRÃO
Licenciado em Energias Renováveis e Ambiente
na universidade ISEC Lisboa. Efectuou um Trabalho
Final de Licenciatura nas instalações do
Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC),
com o título “Análise de Espraiamento e Galgamento
Por Técnicas de Vídeo”, que resultou na
publicação de três artigos.
20200438@alunos.iseclisboa.pt
RICARDO MARTINS
Licenciado em Energias Renováveis e Ambiente
pelo ISEC Lisboa. Atualmente, desempenha funções
como trainee no Centro de Inovação e Desenvolvimento
Sustentável do Metropolitano de Lisboa.
20200238@alunos.iseclisboa.pt
RUTE LEMOS
Licenciada em Engenharia Civil e Mestre em Engenharia
Civil pelo Instituto Superior de Engenharia
de Lisboa, é Técnica Superior no Núcleo de Portos
e Estruturas Marítimas do Laboratório Nacional
de Engenharia Civil. Trabalha, desde 1990, nos
domínios da hidráulica marítima e engenharia civil
aplicadas à modelação física de estruturas costeiras
e portuárias. Outras áreas onde desenvolve
investigação são as técnicas fotogramétricas e os
levantamentos tridimensionais aplicados à evolução
do dano em modelos físicos de quebra-mares.
rlemos@lnec.pt
60 JULHO > SETEMBRO 2026
L I F E S T Y L E
1930 ADICO,
a cadeira que é
rainha das esplanadas
Omais provável é que já se tenha sentado numa
cadeira da Adico. E, isto, porque a larga maioria
das esplanadas em Portugal têm precisamente...
cadeiras da marca. Aquelas cadeiras de
ferro bem típicas dos cafés portugueses, que
foram criadas em 1930 por Adelino Dias Costa, considerado
um dos grandes empresários do seu tempo, nascido em
Avanca e que, depois de aos 20 anos se ter mudado para
Lisboa para cumprir o serviço militar, começou a trabalhar
na arte que o encantava: a serralharia. «Um empreendedor,
um homem com uma visão muito grande, a viver a euforia
dos anos 20 (...) e cuja paixão pela arte da serralharia se
manifestou rapidamente. A empresa começou por esses
anos com pequenos móveis metálicos, mas na década
de 30 avança para duas áreas distintas, as esplanadas
e mobiliário hospitalar», recorda hoje o CEO, Miguel Carvalho,
enquanto destaca a constante visão de mercado e
empresarial «muito fortes», com a Adico a ser a primeira
a ter dentro de portas uma máquina de fazer tubo.
Homem do mundo, terá sido na intersecção da sua
inspiração natural com a ligação à Escola Bauhaus que
se inspirou para os primeiros desenhos, aos quais desde
sempre atribuiu a assinatura “Durabilidade e Barateza”. Para
conseguir e entregar o que proclamava, optou por construir
peças simples: «Teve a capacidade de criar uma cadeira
que ganhou várias cópias», testemunha Miguel Carvalho.
Em paralelo com o mobiliário de exterior, a Adico sempre
trabalhou o hospitalar, sendo que, em 2019 – ano em
que esta área de negócio não representava mais de 5% –,
as cinco sócias actuais entenderam que na passagem de
testemunho para a geração seguinte não queriam que o
segmento acabasse. A decisão envolveu a compra de uma
unidade industrial, sua concorrente, com a criação de uma
empresa paralela – Adico Care – e gestão orientada para
o crescimento.
Na Adico, a cadeira portuguesa representa cerca de 40%
das vendas. Por isso, são vários os trabalhos para continuar
a alimentar resultados. «Afirmamo-nos como uma empresa
de exterior, mas, enquanto empresa com 100 anos, vamos
aos nossos arquivos e estamos constantemente a apresentar
novos clássicos e parcerias», destaca o CEO. Aliás, desde
há uns anos que a empresa se tem aberto a designers externos,
o que potenciou o caminho da internacionalização.
A exportar para cerca de 30 países, também aqui os ventos
são de mudança, tentando a gestão actual ajustar o perfil e
forma de fazer, transformando a exportação numa verdadeira
internacionalização. «Estamos a apostar em serviço e na
comunicação da marca a nível local», revela Miguel Carvalho.
E destapa que Japão, Canadá e Austrália são os três países
escolhidos para crescer, com entrada assegurada no primeiro.
Isto, com uma base segura em serviço e na comunicação
da marca, nomeadamente no digital.
Porque por cá a marca, essa manter-se-á discreta. «A
Adico é um excelente exemplo de uma empresa que descobriu
que tinha uma marca», na pré-Covid, mas que quer
ser mais que o produto em si. Quer deixar o lastro de empresa
centenária, com todas as emoções e histórias que
isso traz consigo. E como empresa centenária que é e que
decidiu manter-se actual e viva, garante que, por ali, não
deixará de haver a capacidade de gerar novos projectos. «A
Adico parece uma empresa com um caminho lento, mas há
sete anos estávamos com um volume de negócios de três
milhões de euros e o ano passado, no total das empresas,
passámos os 11 milhões de euros!»
62 JULHO > SETEMBRO 2026
SINDICATO NACIONAL DOS ENGENHEIROS, ENGENHEIROS TÉCNICOS E ARQUITECTOS 63
L I F E S T Y L E
Porus
No
Studio
há muito design para se sentar
64 JULHO > SETEMBRO 2026
TÉCNICAS DE ARTESANATO,
MATERIAIS EXCEPCIONAIS E
LINHAS SOFISTICADAS.
NO PORUS STUDIO, MARCA
PORTUGUESA DE MOBILIÁRIO,
PROCURA-SE CRIAR PEÇAS
CONTEMPORÂNEAS COM
DESIGN MODERNO E
INSPIRAÇÃO NO MUNDO
JERSEY
DINING CHAIR
Rushmore
armchair
É
uma marca portuguesa de mobiliário de luxo
contemporâneo. Na sua génese, e em quase
todas as linhas, a Porus Studio tem a conjugação
do artesanato português com materiais
excepcionais, estéticas diversas e estilos de
vida sofisticados. Como a própria marca refere, a colecção
de design contemporâneo transmite emoção através
de recriações coloridas de tesouros escondidos em todo
o mundo.
Aliás, é a própria que se apresenta como sendo uma marca
de mobiliário de luxo contemporâneo que combina o artesanato
português com materiais de excelência, estéticas
diversas e diferentes estilos de vida. “As peças de design
de luxo transmitem emoção através de recriações coloridas
de tesouros escondidos em todo o mundo. Através de uma
pesquisa contínua por novas ideias e perspectivas, a Porus
Studio ousa. Todos os produtos são concebidos e produzidos
rapidamente, sempre em transformação, com realidades
verbais, aspectos das suas emoções, design e arte.”
Através de uma procura contínua por novas ideias e perspectivas,
a Porus Studio tem procurado ousar e ganhar alguma
vantagem quando se procura a combinação de técnicas de
artesanato e alfaiataria com técnicas de processamento
industrial, criando produtos que se querem únicos.
Segundo a marca, a colecção contemporânea criará uma
ligação, interacção e comunicação entre aqueles que experienciam
diariamente o poder do design moderno, numa
Westinghouse
center table
Phoenix
bedside table
SINDICATO NACIONAL DOS ENGENHEIROS, ENGENHEIROS TÉCNICOS E ARQUITECTOS 65
L I F E S T Y L E
Jersey
dining chair
oferta de acessórios modernos, mobiliário de elevada
qualidade, peças de iluminação e estofos intemporais.
ENTRE O PREMIUM E O LUXO
Os designers do Porus Studio exploram o design refinado
através de uma selecção exclusiva de peças para
a sala de estar que incorporam tanto o artesanato de
alta qualidade como a estética de luxo. Desde mesas
de apoio esculturais a sofás e consolas, cada peça
é concebida para realçar interiores com elegância e
riqueza de materiais.
É o caso da cadeira de jantar Jersey, criada numa
inspiraçao que teve como fundo Nova Jérsia, onde as
praias de areia beijam o Atlântico e as fábricas de aço
ecoam com história. Inspirada pelo espírito dinâmico do
Garden State, esta cadeira convida a sentar e mergulhar
na sua história. O assento e o encosto procuram provocar
aconchego idêntico às ondas suaves da costa de
Jersey. Estofada num veludo macio — uma lembrança
táctil das areias beijadas pelo sol — oferece conforto e
intemporalidade.
“As nossas peças contemporâneas criarão ligação,
interacção e comunicação entre aqueles que vivenciam
diariamente o poder do design moderno.”
66 JULHO > SETEMBRO 2026
L I F E S T Y L E
Viúva Lamego
& Republic Of II BY IV
A
centenária Viúva Lamego
lançou recentemente
duas novas colecções em
conjunto com o atelier internacional
REPUBLIC OF
II BY IV, que vão buscar, no nome e
nas formas trabalhadas, a identidade
portuguesa. As colecções Colinas e
Marola nascem de uma parceria que
assinala a primeira colaboração da
marca histórica de azulejos com um
estúdio de design internacional, unindo
séculos de arte cerâmica portuguesa
com a sensibilidade moderna e escultural
da REPUBLIC OF II BY IV. Procura-se,
no trabalho, honrar o passado e, ao
mesmo tempo, dialogar fluentemente
com o presente. A colecção Colinas
(foto ao lado) encontra inspiração
nas dobras esculturais dos tecidos
plissados – trata-se de um conjunto
de azulejos modulares que evocam
as camadas rítmicas dos tecidos e
das colinas ondulantes. O nome de
baptismo reflete, assim, as formas
subtilmente esculpidas nos azulejos,
onde estrias verticais e horizontais
criam uma superfície dimensional em
camadas. Disponível em três formatos
versáteis, os azulejos têm aplicações
interiores e exteriores, capazes de conferir
sofisticação textural a ambientes
hoteleiros, comerciais e residenciais.
SINDICATO NACIONAL DOS ENGENHEIROS, ENGENHEIROS TÉCNICOS E ARQUITECTOS 67
L I F E S T Y L E
No
Mimi,
o omakaze não
tem nada de mini
68 JULHO > SETEMBRO 2026
O CONCEITO OMAKAZE
ESTÁ A GANHAR ADEPTOS
E CLIENTES EM PORTUGAL.
TENDÊNCIA CRESCENTE
NOUTROS PAÍSES, POR
CÁ TEM SIDO ESTE O ANO
COM MAIOR NÚMERO DE
ABERTURAS DE ESPAÇOS
COM ESTA PROPOSTA
GASTRONÓMICA
Rua Rodrigues
Sampaio nº 94
1150-281 Lisboa
MIMI CURATED
BY YAKUZA
Claro que se há quem não deixe qualquer tendência
vencedora passar à porta sem a agarrar é Olivier
da Costa. Por isso, e se já tem o seu mais que
bem-sucedido Yakuza, só precisou de arranjar
espaço e desafiar o seu de há anos, Alex Hatano,
para uma nova viagem gastronómica. O resultado é nem
mais que o Mimi, bem mais discreto mas de elegância
idêntica, que atravessou a Avenida da Liberdade para abrir
portas na Rua Rodrigues Sampaio.
Como em qualquer experiência omakaze, o que se desenhou
por ali foi uma viagem imersiva ao mundo dos sabores
asiáticos, numa partilha de saberes com o chef. Aliás, se for
ao Mimi – devia ir, digo eu -, peça para se sentar ao balcão.
É como estar na plateia a assistir a um bailado, onde uma
pequena equipa de seis pessoas vai cortando finíssimas
fatias de peixe, flambeia, coloca pratos e troca por outros,
trabalha o arroz e serve, numa sequência ritmada e célere.
Para que quem por ali está não se canse, antes queira mais
e mais, e o que vem a seguir.
O ritual tem 12 momentos, sendo que todos os dias serão
dias diferentes, em função, nomeadamente, do peixe que
ali chega.
Pode ser que lhe calhe a bela da ostra, santolas ou jaquinzinhos.
No nosso caso, os protagonistas foram outros.
Deixe-me então aqui partilhar a experiência. Para início
de conversa, como que uma tela ilustrada, de seu nome
Sensei (snack de rua no japão), de salicórnia com pimento
Aberto de Segunda
a Sábado
19:00-24:00
(Até Quarta-feira) |
19h00-01h00
(De Quinta a Sábado
Telefone:
+351 963 620 129
SINDICATO NACIONAL DOS ENGENHEIROS, ENGENHEIROS TÉCNICOS E ARQUITECTOS 69
L I F E S T Y L E
NOTA
=================================
ELEVAR O ADN YAKUZA
“O Mimi representa um novo posicionamento para a marca
Yakuza, conhecida pelas suas experiências asiáticas
arrojadas e sofisticadas. Aqui, a marca mostra a sua
maturidade e capacidade de se adaptar, explorando a
profundidade do Japão tradicional com uma abordagem
contemporânea, sem perder o seu carácter disruptivo. Nas
palavras de Olivier da Costa: «O Mimi não é um restaurante
by Olivier, é sim um manifesto da nossa confiança, do saber
fazer que cultivámos na Yakuza e da vontade de criar algo
verdadeiramente único e memorável.»”
vermelho e gamba cristal, e que se materializa em jeito
de uma finíssima fatia de “pão”… Só ver para comer!
Até ao fim.
Seguimos pela bela da Miso, aqui Asari Dashi e com
mais sabor. Resultado: sorvida até à última gota. Estava
belíssima, assim como belíssimo chegou o Kari-kari de
maguro trufado. Depois, palco ao Hagatsou Tataki e novo
aplauso, desta feita, para o tamboril no Blanc de sake.
Tempo para respirar ou limpar palato, com uma fresquíssima
selecção de sashimi e entraríamos no desfile
dos nigiri. Atenção, ao pormenor: como todo e qualquer
nigiri se deve comer à mão, no Mimi há cuidado em trazer
uma toalha quente à mesa (para ir limando as mãos a
cada nigiri que passa). Primeiro, niguiri toro – não sou
muito fã, mas nada a apontar; segundo: nigiri akami, espectacular;
terceiro: nigiri dourada, super fresco; quarto:
nigiri salongo, que surpresa; quinto: nigiri engawa, o meu
preferido da noite.
E se pensa que a dança fechou por aqui, pois mantenha
os sapatos calçados que ainda há tempo para um fantástico
pastrami de wagyu que, quem provou e comeu,
garante que não permite que fique uma migalha sequer.
No que diz respeito às bebidas, fique a saber que, claro,
no Mimi não podia faltar a Sapporo – cerveja japonesa
–, além de que há pairing de vinhos, champanhe e saque
que, tendo em conta os diferentes tipos peixes de cada
dia, também se vai ajustando.
Esta viagem do chef Alex tem um valor de 98€ por
pessoa (sem bebidas), sendo que o pairing de bebidas
terá um valor de 45€ por pessoa.
No nosso caso, foi uma viagem com memória!
70 JULHO > SETEMBRO 2026
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Desde 1966 comprometidos com a qualidade e excelência.
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