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Mala Direta
Básica
9912281412/2011-SE/SPM
Correcta Editora
MAIO | 2026
Nº 319 • ANO 31
IMPRESSO FECHADO
Pode ser aberto pela ECT
TECNOLOGIA
Seguro Cyber apoia a
transformação digital das empresas
Inteligência Artificial é a chave para
aperfeiçoar a jornada do cliente
TOKIO MARINE
CRESCIMENTO E
RESULTADOS
>>
Marcelo Goldman agora responde pela
recém criada vice-presidência Comercial
EDITORIAL
Estamos prontos
para incorporar a
Inteligência Artificial
O
s especialistas são unânimes ao afirmar que, em breve,
o uso da Inteligência Artificial será tão natural quanto
a energia elétrica. Ela é uma Tecnologia de Propósito
Geral (ou TPG, do inglês General Purpose Technology), uma inovação
tão profunda e abrangente que altera a própria estrutura
da economia e da sociedade.
O nosso pensamento é linear, mas o desenvolvimento da
IA é exponencial, com novas capacidades e aplicações. Por isso,
ainda temos alguma dificuldade de compreensão, que vai diminuindo
a cada dia.
Agora vivemos a era da IA Agêntica, aquela que será preparada
para tomar decisões por nós. Mesmo com todo o avanço
desta tecnologia, ainda é primordial o bom treinamento da
IA. Nas empresas, o desafio atual é a integração da IA preditiva,
generativa e agêntica para transformar as operações burocráticas
em estratégias de inteligência, com o objetivo de melhorar
a experiência do cliente.
Nisso estão incluídos produtos e serviços cada vez mais
personalizados e ajustados às necessidades de nichos, por enquanto.
A hiperpersonalização ainda é um objetivo a ser alcançado
em breve. O gargalo está em medir qual é o retorno real
de todo o processo de aplicação da IA nas operações, porque os
resultados podem ou não aparecer rapidamente.
Boa leitura!
MAIO • 2026 • Nº 319 • ANO 31
EXPEDIENTE
Diretora de Redação:
Kelly Lubiato - MTB 25933
klubiato@revistaapolice.com.br
Diretora de Negócios:
Graciane Pereira
graciane@revistaapolice.com.br
Repórter
Nicholas Godoy
Colaborador:
André Felipe de Lima
Diagramação e Arte:
Enza Lofrano
Tiragem:
12.000 exemplares
Circulação:
Nacional
Periodicidade:
Mensal
Os artigos assinados são de
responsabilidade exclusiva de
seus autores, não representando,
necessariamente, a opinião desta revista.
Esta revista é uma
publicação independente
da Correcta Editora Ltda e
de público dirigido
CORRECTA EDITORA LTDA
Administração, Redação e Publicidade:
Alameda dos Arapanés, 881 - cjto 22
Moema - CEP 04524-001- SÃO PAULO/SP
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Mande suas dúvidas,
críticas e sugestões para
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CONTEÚDO
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ESPECIAL TECNOLOGIA
SEGURO CYBER
A carteira de seguro cyber possibilita a ponte entre inovação e
confiança, atraindo investimentos e acelerando a transformação
digital do setor
>> PÁG. 08
Entrevista
Flávia Elizalde, diretora da McAfee Brasil, fala sobre a mudança
das ameaças à cybersegurança com o avanço da tecnologia
>> PÁG. 14
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
Sua aplicação transforma a operação das empresas e agiliza processos,
acelerando a tomada de decisão e a jornada dos clientes
>> PÁG. 16
SAÚDE
A inclusão dos riscos psicossociais
na NR-1 acelera mudanças dentro
das empresas e leva saúde mental
ao centro da gestão de risco
corporativo
>> PÁG. 22
06 CAPA
Tokio Marine cria a vice-presidência Comercial e Marcelo Goldman é
nomeado para o cargo. Ele será responsável pelos canais de varejo,
corporate e especiais
28 EVENTOS
• Encontro de Resseguros do Rio de Janeiro colocou em pauta temas
como Marco regulatório, riscos climáticos e tecnologia
• Inteligência artificial, novos modelos regulatórios e transformação
operacional dominaram os debates do Insurtech Brasil 2026
34 TRINCA
Clayton Palandrani foi o palestrante do almoço da Trinca, que reuniu
executivos da área de tecnologia de seguradoras e corretoras
Os artigos assinados são de responsabilidade exclusiva de seus autores, não
representando, necessariamente, a opinião desta revista.
4
CAPA
TOKIO MARINE
Uma história de crescimento e resultados
MARCELO GOLDMAN FOI PROMOVIDO AO CARGO DE VICE-PRESIDENTE COMERCIAL E
SERÁ O RESPONSÁVEL PELOS CANAIS DE VAREJO, CORPORATE E CANAIS ESPECIAIS
Kelly Lubiato
Há histórias no mercado de seguros
que só se revelam com o tempo.
A da Tokio Marine no Brasil é
uma delas. Quem acompanhou a
companhia no final dos anos 2000 sabe
que o cenário era delicado: quatro anos
consecutivos de prejuízo e rumores de
que a matriz japonesa poderia vender as operações brasileiras. O
que aconteceu depois é o que Marcelo Goldman, hoje vice-presidente
Comercial e Produtos Massificados da seguradora, chama
simplesmente de “reconstrução”.
“Foi um período de limpeza de carteira, de saída e entrada de
pessoas, de muita reorganização”, lembra Goldman, que chegou à
Tokio Marine em 2008, exatamente no meio da crise. “Em 2011, foi o
6
primeiro ano em que demos lucro. Fizemos até uma festa. O presidente
na época, o Akira, colocou todo mundo para sambar, só que
ninguém sabia sambar.”
O episódio esconde uma virada histórica. Naquele ano, a produção
da companhia era de 1,6 bilhão de reais. Hoje, a Tokio Marine
projeta fechar 2026 com R$ 16 bilhões, um crescimento de dez vezes
em quinze anos.
A recuperação não foi obra do acaso. Goldman, que atua no
mercado de seguros há mais de 40 anos, aponta três pilares que
sustentaram a virada: modernização tecnológica, eficiência operacional
e gestão de pessoas. “A gente tinha sistemas muito obsoletos.
Hoje somos muito elogiados na parte sistêmica”, comemora. O
reflexo mais visível desse esforço está no índice de despesa administrativa,
que a Tokio Marine mantém em 8,5%, enquanto a média
dos concorrentes está entre 13% e 20%. “Isso faz com que a gente
consiga ter preços mais competitivos. É uma vantagem real”.
O quadro de colaboradores também cresceu de 1.500 para
2.500 pessoas. Na precificação, a companhia investiu em modelos
preditivos e, mais recentemente, em inteligência artificial. “Queremos
olhar cada cliente e dar o preço correto para ele. Não adianta vender
muito e ter prejuízo. Mas também não adianta ter preços altos e não
vender nada. Tem que haver equilíbrio”, pondera o executivo.
O CORRETOR É O ETERNO PARCEIRO
O número de corretores parceiros da Tokio também cresceu
nos últimos 18 anos. “Quando entrei, eram em torno de 6 mil. Hoje já
está beirando os 50 mil”, conta Goldman. Para ele, esse crescimento
não é passivo, mas sim consequência direta da qualidade da relação
que a companhia construiu com o canal.
“O corretor é independente. Ele escolhe a companhia com
a qual quer trabalhar. Ele vem para onde tem bom processo, bom
sistema, boas pessoas e bom atendimento comercial”. Goldman vê
nesse relacionamento a principal frente de sua nova missão. “O meu
grande papel agora é ouvir, levar para casa as recomendações e tentar
implementar o mais rápido possível.”
A escuta ativa, aliás, é tratada como método, não como discurso.
A companhia realiza pesquisas regulares com corretores e
clientes finais, e os índices de NPS - Net Promoter Score - são descritos
por Goldman como “muito altos” nos dois públicos.
O vice-presidente da Tokio construiu sua trajetória nos produtos
massificados: automóvel, residência, vida, condomínio. Porém,
o seguro de automóvel continua sendo o principal motor da
companhia: hoje, o ramo representa cerca de 60% do faturamento,
com produção projetada de R$ 10 bilhões em 2026.
A estratégia do seguro automóvel está na variedade de produtos
para atender todos os públicos: do seguro mensal até coberturas
sofisticadas para perfis de maior risco. “O cliente tem todas as
opções dentro de uma única seguradora”, avisa Goldman.
Mas o crescimento não ficou restrito ao automóvel. O seguro
de fiança locatícia, lançado há sete anos, já coloca a Tokio Marine
como terceira colocada no mercado, com market share beirando
18%. Vida individual, condomínio, produtos PJ, como garantia e cyber,
completam uma carteira cada vez mais diversificada.
O meu grande papel agora é ouvir,
levar para casa as recomendações
e tentar implementar o mais
rápido possível”
A VALORIZAÇÃO DO PAPEL SOCIAL
DA SEGURADORA
A cobertura de despesa de aluguel
do seguro residencial ganhou uma nova
funcionalidade: movida pelo impacto social,
a Tokio ampliou a cobertura para mulheres
que sofreram violência doméstica. A
ideia surgiu dentro da equipe de produtos:
mulheres que sofrem violência e precisam
deixar o lar imediatamente podem acionar
a cobertura para custear um aluguel temporário
enquanto reorganizam a vida.
“No Brasil, são 250 mil casos por
ano de violência contra as mulheres. O
meu pessoal teve essa ideia e eu achei
fantástica”, diz Goldman, visivelmente
emocionado ao relembrar o depoimento
de uma corretora, ela mesma vítima de
violência doméstica, que se apresentou
após o anúncio da inovação em um congresso
regional. “O seguro tem um caráter
social. O mundo não vive sem seguro. Então,
por que não pensar em coisas nesse
sentido?”, questiona.
Porém outras novas coberturas já
estão no radar da seguradora. Goldman
adianta que a empresa já estuda um novo
produto para drones e que mexeu também
no seguro cyber. Para ele, cada produto
pode ser constantemente revisitado
para ser aperfeiçoado. “Queremos crescer
também nos produtos para pessoas jurídicas,
que oferecem uma grande oportunidade
de expansão”, explica.
Sobre o futuro, o executivo garante
que não há nada melhor do que conviver
e ouvir os corretores de seguros.
Por isso, é nesse lugar que ele quer estar,
continuando a contribuir para o crescimento
da Tokio, que cresce sempre acima
dos números do mercado. “Vamos crescer
sem descuidar dos resultados”, conclui.
7
TECNOLOGIA
SEGURO CYBER
Não tem muito tempo, era comum
surgir inesperadamente nas caixas
de e-mails das empresas o
alerta de que o “sistema estava crítico” e
de que havia algum hacker “passeando”
pela rede da companhia. Pânico generalizado
e, em alguns casos notórios que ganharam
manchetes, milhões perdidos. O
tempo exerceu seu papel de “engenheiro
silencioso” e fez com que as empresas,
cada vez mais dependentes de ecossistemas
digitais, passassem a “fechar suas
porteiras” contra indesejáveis invasores.
Convenhamos, “incêndio” em rede não
se apaga com extintor. É preciso de uma
verdadeira brigada tecnologicamente
organizada, de regras e, sobretudo, de
estratégia. Justamente em função disso
o seguro cyber deixou de ser pano de
fundo para tornar-se pauta prioritária
das reuniões do conselho de qualquer
empresa que verdadeiramente preze seu
negócio.
O seguro cyber não está mais
restrito a uma questão isolada de TI. Ele
deixou de ser apenas um meio de proteção
financeira para ser alçado ao posto
de instrumento de gestão de risco, de
desenho de arquitetura de segurança
e de sinalização de governança para in-
Risco invisível, proteção obrigatória
O SEGURO CYBER TRANSFORMA
INCERTEZA EM PLANO
ESTRATÉGICO QUE PROTEGE
DADOS, RECEITAS E REPUTAÇÃO.
PARA O MERCADO BRASILEIRO,
ESSA IMPORTANTE CARTEIRA
SECURITÁRIA RESUME COM
EXATIDÃO UMA PONTE ENTRE
INOVAÇÃO E CONFIANÇA, QUE
VEM ATRAINDO INVESTIMENTOS E
ACELERANDO A TRANSFORMAÇÃO
DIGITAL DO SETOR
ANDRÉ FELIPE DE LIMA
vestidores, reguladores e conselho de administração. A governança
de riscos cibernéticos é tratada como requisito estratégico e comercial,
ou seja, ela entra no planejamento estratégico e envolve a sigla
“GRC” (governança, riscos e compliance). Pode-se dizer, portanto,
que o seguro cyber “obriga” a empresa a internalizar o custo potencial
de falhas, tornando explícito o custo de não investir em segurança,
estimulando decisões de investimento mais racionais e, por fim,
contribuindo para a confiança de investidores, clientes e parceiros.
Nesse caso, “resiliência” definitivamente é a palavra da moda e assim
deverá permanecer daqui em diante, sem prazo de validade.
Há uma mudança de posicionamento do seguro cibernético
dentro das organizações de uma forma geral. Hoje existe um produto
reativo para ativo estratégico de gestão de risco e integrado à
agenda de tecnologia, compliance e conselho de administração. “O
risco cibernético já é tratado como um risco corporativo relevante,
com potencial de afetar operação, reputação, continuidade dos negócios
e até valor de mercado. Esse movimento também aparece na
evolução do próprio mercado”, declara Victor Perego, integrante da
subcomissão de linhas financeiras da Federação Nacional de Seguros
Gerais (FenSeg).
8
VICTOR PEREGO,
da FenSeg
A carteira não para de crescer e a níveis percentuais animadores,
sinal de amadurecimento do mercado em relação ao seguro
cyber. Dados da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg),
como menciona Perego, apontam que a arrecadação do seguro de
riscos cibernéticos passou de R$ 103,2 milhões, em 2021, para R$
173,7 milhões em 2022, um crescimento de 68,4%. Em 2023, o segmento
arrecadou R$ 203,3 milhões (+17,1%) e, em 2024, alcançou
R$ 237,5 milhões, com nova alta de 16,8%.
Em 2025, houve, contudo, uma leve retração de -3,7% (R$
228,8 milhões), mas, como lembra Perego, o volume permanece
em patamar bastante superior ao observado no início da série.
“Outro ponto importante é que o processo de subscrição também
evoluiu. As seguradoras passaram a avaliar com mais profundidade
o nível de maturidade digital das companhias mais
complexas, considerando os diversos protocolos de segurança
implantados, políticas de backup, gestão de identidades, gestão
de vulnerabilidades e capacidade de resposta a incidentes. Na
prática, o seguro também atua como indutor de boas práticas de
governança e segurança cibernética”, enfatiza o representante da
FenSeg.
Gerente de linhas financeiras e cyber
da Zurich Seguros, Hellen Fernandes
salienta que o seguro não substitui controles
internos, políticas de segurança,
treinamento de equipes ou investimentos
em tecnologia, mas complementa
essas frentes ao oferecer avaliação de riscos,
transferência de parte da exposição
e suporte técnico, jurídico e operacional
em caso de incidente. “No caso da Zurich,
essa visão se traduz em uma abordagem
que combina prevenção, resposta e recuperação,
apoiando as empresas antes,
durante e depois de um evento cibernético”,
diz.
O “tripé” de gestão de risco agora
está, portanto, formado: tecnologia, governança
e seguro cibernético. “Quando
uma empresa nos procura para cotar o
produto, o próprio processo de cotação já
funciona como um assessment de maturidade:
o questionário de subscrição cobre
desde política de backup, gestão de identidade
e MFA [multi-factor authentication]
até resposta a incidentes e treinamento
de colaboradores. Em muitos casos, é a
primeira vez que o conselho ou a diretoria
recebe uma fotografia honesta do nível de
exposição da empresa”, observa o CEO da
Innoa Seguros, Rodrigo Pedroni.
Esse movimento, como acrescenta
o executivo, está sintonizado com uma
tendência global de maior interação entre
líderes de segurança e conselho de administração:
“O Cyberthreat Defense Report
9
TECNOLOGIA
SEGURO CYBER
HELLEN FERNANDES,
da Zurich
2026, da CyberEdge, mostra que mais da
metade das organizações [52,9%] já tem
conselheiros participando ativamente de
comitês de risco cibernético, um avanço
de quase 10 pontos percentuais em três
anos. O seguro cyber entra justamente
nessa pauta: é o instrumento que traduz
risco técnico em linguagem financeira,
algo que o conselho entende.”
Essa mudança de posicionamento
no mercado é real, estrutural e irreversível,
como pontua o diretor de desenvolvimento
de novos negócios do escritório
Carlini Advogados, Landulfo Ferreira
Júnior. “Durante anos, o seguro cyber foi
tratado como um produto de transferência
de risco puro. Você paga o prêmio,
transfere o problema para a seguradora
e segue em frente. Essa lógica funcionava
em um ambiente em que os ataques
cibernéticos eram eventos raros, de alto
impacto, mas baixa frequência. Esse ambiente
não existe mais”, afirma.
O advogado declara que estamos
vendo hoje uma reconfiguração completa
do papel do seguro dentro da arquitetura
de segurança das organizações,
mas alerta que a governança passa pelos
novos regramentos para as atividades de
maior risco. “Vou me ater ao mercado financeiro
neste ponto. A Resolução BCB
nº 498/2025 é o exemplo mais recente
e mais contundente: ao exigir que pelo
menos um diretor tenha experiência
comprovada em segurança cibernética e
ao tornar o seguro cyber condição de credenciamento para operar
no Sistema de Pagamentos Brasileiro, o Banco Central formalizou
algo que o mercado já sabia informalmente: risco cibernético é risco
estratégico, não risco operacional de TI. Já quanto à integração com
a arquitetura de segurança, o seguro cyber moderno não é mais um
produto que você contrata depois de montar sua estratégia de cibersegurança.
Ele é parte constitutiva dessa estratégia”, analisa Ferreira
Júnior.
O seguro deixa, portanto, de ser o último recurso e passa a
ser o interlocutor permanente da estratégia de segurança. Por fim,
como o advogado reforça, é obrigatório um novo olhar para a integração
destes pontos com compliance e a LGPD [Lei Geral de Proteção
de Dados]. As apólices cyber mais completas disponíveis no
mercado brasileiro, diz Landulfo, já contemplam esses custos de forma
específica: honorários de advogados para defesa em processos
administrativos perante a ANPD [Autoridade Nacional de Proteção
de Dados], custos de comunicação de incidentes, serviços de monitoramento
de crédito para titulares afetados. “Temos atualmente
a seguinte situação: a empresa que comprava seguro cyber no
passado perguntava: quanto custa me proteger se algo der errado?
A empresa que compra seguro cyber hoje pergunta: O que preciso
demonstrar — em termos de governança, processos e investimentos
em segurança — para que a seguradora me ofereça as melhores
condições e, mais importante, esteja ao meu lado com capacidade
real de resposta nas primeiras horas depois de um incidente?”, indaga
o advogado Landulfo.
RISCO ESTRUTURAL
Em setores regulados e de alta criticidade, como financeiro,
tecnologia, e saúde, o seguro cyber vem sendo incorporado como
cláusula contratual com valores mínimos de cobertura exigidos em
contratos com fornecedores críticos. Reguladores já começam a
empurrar o mercado nessa direção: o Banco Central, por exemplo,
passou a exigir seguro contra riscos cibernéticos para determinados
provedores de serviços tecnológicos que atuam no Sistema Financeiro
Nacional (SFN), o que “puxa” toda a cadeia de terceiros para
o quadro regulatório. É praticamente consenso no mercado que o
seguro cyber é indispensável (obrigatório, diríamos) de todo e qualquer
aparato contratual entre empresas. Há um discurso cada vez
mais explícito de que a segurança cibernética deve ser tratada como
prioridade estratégica — e o seguro aparece como um dos pilares
junto com tecnologia, processos e pessoas.
Frente a isso, o ataque cibernético deixou de ser evento eventual
e passou a ser risco estrutural, com o seguro cyber sendo exigido
por stakeholders (investidores, parceiros e conselhos empresariais).
Há uma mudança de underwriting (subscrição) mais técnico
e baseado em maturidade digital, porém com empresas com baixa
governança sendo excluídas ou penalizadas.
Sócia do escritório Demarest Advogados, Marcia Cicarelli explica
que em diversos setores a contratação do seguro cyber já é observada
como requisito contratual ou elemento relevante em processos
de due diligence. A evolução do processo de subscrição pelas seguradoras,
de fato, segundo a advogada, trouxe maior sofisticação téc-
10
nica, com ênfase na avaliação da maturidade digital, da robustez dos
controles de segurança de sistemas e na governança dos riscos. “Por
vezes, isso pode resultar na recusa do risco ou no aumento do prêmio
para algumas empresas que não demonstram níveis mínimos e razoáveis
de governança e controles de segurança. Ao mesmo tempo,
o próprio processo de subscrição pode auxiliar as empresas a adotar
medidas técnicas que melhorem de forma significativa seu risco.
Ou seja, mesmo que o seguro não seja contratado, já há um ganho
relevante pelas empresas de maturidade sobre seus riscos digitais e
cobertura securitária oferecida pelo mercado”, enfatiza Márcia.
Esse processo, como acrescenta a advogada, é individual
para cada empresa e diversos fatores são levados em consideração
no âmbito da subscrição, tais como setor de atuação do potencial
segurado, os riscos inerentes à sua atividade, o nível de sua exposição,
dentre outros.
O seguro cyber ganha definitivamente cada vez mais espaço
na estratégia corporativa, especialmente em empresas mais expostas
à digitalização, com operações dependentes de sistemas, dados
e cadeias de fornecedores, como observa Hellen Fernandes. Em alguns
setores e relações comerciais, ressalta a executiva da Zurich,
o seguro cibernético já começa a ser considerado por órgãos reguladores,
parceiros, investidores e conselheiros como um elemento
importante de maturidade na gestão de risco e decisório para o estabelecimento
de negócios.
Hoje, como destaca Perego, a análise de riscos mais complexos
considera diversos aspectos de boas práticas de gerenciamento
de risco cibernético, mas já há uma série de ofertas que são menos
restritivas em termos de adequação técnica, voltadas, sobretudo,
para empresas pequenas e médias. Isso faz com que empresas com
estruturas mais frágeis de governança digital encontrem maior dificuldade
de contratação ou enfrentem condições mais restritivas de
cobertura e precificação. “Mas esse processo também tem um efeito
positivo para o mercado, ao incentivar padrões mínimos de segurança
e fortalecer a cultura de prevenção. À medida que os ataques
geram impactos financeiros, operacionais e reputacionais cada vez
mais severos, o seguro cyber tende a ser visto menos como despesa
e mais como ferramenta de resiliência e continuidade dos negócios”,
argumenta.
Se por um lado o seguro cyber já é praticamente um pré-
-requisito contratual, com investidores, parceiros estratégicos, grandes
clientes e até licitações exigindo a comprovação de cobertura,
em outros setores ainda predomina, porém, a visão de custo, mas
isso, como explica Rodrigo Pedroni, está mudando rapidamente.
“Vejo duas razões principais para contratar: primeiramente, mesmo
a empresa com a melhor política de segurança da informação, ela
não consegue proteger 100% do risco. O hacker, do outro lado, está
sempre inovando e o relatório CyberEdge 2026 confirma isso: 80,7%
das organizações sofreram pelo menos um ataque bem-sucedido
nos últimos 12 meses e ameaças baseadas em IA [malware adaptativo,
phishing aprimorado, ataques a senhas] lideram as preocupações;
Segundo, contratar seguro cyber muitas vezes é mais barato
do que ter o melhor stack de segurança — não que a empresa não
deva investir em segurança, mas budgets são limitados e o seguro
RODRIGO PEDRONI,
da Innoa
entra como complemento financeiro inteligente”,
poderá.
Para Pedroni, hoje é possível contratar
uma apólice cyber a partir de cerca
de R$ 5.000/ano de prêmio, o que coloca
o produto ao alcance de pequenas
e médias empresas e derruba o mito de
que cyber é “coisa só de grande empresa”.
“Vale entender o que o seguro cyber
efetivamente cobre: ele ajuda a empresa
a detectar onde houve o vazamento, com
perícia forense; pagar multas regulatórias
aplicáveis; gerenciar a comunicação
ao mercado e aos titulares de dados afetados
e arcar com honorários advocatícios
e eventuais indenizações a terceiros
prejudicados. É uma apólice geralmente
anual e na modalidade claims made, ou
seja, a apólice que indeniza é a vigente no
momento da reclamação ou notificação e
não a vigente no momento do ataque”,
observa.
Isso é bem diferente de um seguro
de automóvel em que vale a apólice da
data da batida. “Por causa dessa característica,
sempre recomendamos aos clientes
contratar o seguro cyber o quanto
antes, mesmo que com uma cobertura
inicial modesta para baratear o prêmio. O
motivo: ao contratar, trava-se a chamada
data de retroatividade. Eventos ocorridos
depois dessa data ficam passíveis de cobertura,
ainda que só venham a ser descobertos
e reclamados anos depois e o
cliente pode ir aprimorando a apólice ao
11
TECNOLOGIA
SEGURO CYBER
variáveis muito mais sofisticado do que há três anos. Autenticação
multifator implementada em toda a organização, gestão ativa de
vulnerabilidades, segmentação de redes, backups testados e isolados,
plano de resposta a incidentes documentado e exercitado.
“O seguro, nesse modelo, não é apenas proteção financeira pós-
-incidente: é um programa de desenvolvimento de maturidade digital
do segurado ao longo do tempo. Nas grandes corporações, nas
empresas com operação internacional, nas organizações sujeitas a
regulação setorial intensa — sistema financeiro, saúde, energia — a
percepção estratégica já está consolidada.”, argumenta.
LANDULFO FERREIRA JÚNIOR,
da Carlini Advogados
longo do tempo sem perder essa proteção
retroativa”, resume Pedroni.
A questão relevante não é mais se
ele vai se tornar pré-requisito de forma
ampla e sim com que velocidade essa
exigência vai expandir-se para além dos
ambientes hoje regulados, como analisa
o advogado Landulfo Ferreira Júnior. No
sistema financeiro, prossegue o especialista,
a discussão sobre se o seguro cyber
é opcional acabou em setembro de 2025,
com a Resolução BCB nº 498. Para qualquer
provedor de tecnologia que queira
operar conectado à rede do Sistema Financeiro
Nacional, a apólice deixou de
ser recomendação e virou credencial de
acesso.
“Sem seguro cyber válido, não há
credenciamento. Sem credenciamento,
não há operação. É uma equação simples
e sem margem de negociação. Due diligences
de fusões e aquisições passaram
a incluir a análise da maturidade em segurança
da informação e a existência de
apólice cyber como itens de avaliação de
risco do ativo. Veja, mesmo onde não há
obrigação regulatória formal, o mercado
já criou sua própria pressão de conformidade.
E temos um paradoxo na subscrição:
o mercado exclui quem mais precisa.
Aqui está a tensão difícil de abordar, mas
que precisa ser honesta e realisticamente
enfrentada”, afirma Landulfo.
O subscritor de cyber, como Landulfo
explica, analisa um conjunto de
RESSEGURADORAS
As resseguradoras vêm reduzindo ou redesenhando exposições
em linhas consideradas de acúmulo extremo (catástrofes naturais,
cyber e riscos geopolíticos) cortando coberturas ou impondo
termos mais seletivos em vários ramos. Ao mesmo tempo, grupos
como Munich Re, Hannover Re e Swiss Re mantêm apetite em riscos
de catástrofe, inclusive cibernética, mas com disciplina de subscrição
muito mais analítica, buscando crescer onde conseguem precificar
melhor o risco de agregação.
Estudos recentes indicam que este ano o risco cibernético
será cada vez menos definido por falhas isoladas e mais por interdependências
ocultas (cloud, provedores críticos, software amplamente
utilizado) levando seguradoras e resseguradoras a exigirem
maior clareza técnica e controles antes de assumir capacidade. O
foco explícito passa a ser a interrupção de negócios em infraestrutura
de nuvem e eventos que impactem simultaneamente milhares
de clientes, algo que ecoa exatamente a preocupação com “risco sistêmico”.
O mercado segurador acompanha essa mudança: o risco cibernético
deixa, portanto, de ser “nicho” e passa a ser linha central
de risco operacional e reputacional com evidências de que incidentes
relevantes podem reduzir em até 27% o valor de mercado das
companhias em casos com forte impacto reputacional. Isso reforça
a percepção do resseguro de que trata-se de risco de capital e de
solvência, não apenas de frequência/severidade tradicional, o que
explica a cautela em cenários de forte interconectividade digital.
Como assinala a advogada Marcia Cicarelli, o mercado de
resseguro global tem reagido ao risco cibernético com crescente
cautela e sofisticação técnica, sobretudo diante da sua natureza
sistêmica que permite a materialização simultânea de perdas em
múltiplos segurados a partir de um único evento crítico. Isso, como
ela reforça, têm se refletido em maior rigor na modelagem de risco,
na imposição de limites agregados, na segmentação de coberturas
e, em alguns casos, na introdução ou ampliação de exclusões relacionadas
a eventos de grande escala, como ataques generalizados
ou falhas de infraestrutura crítica. “Para o mundo corporativo, esse
movimento implica maior seletividade e disciplina na contratação,
reforçando a necessidade de maturidade em segurança e governança”,
diz.
As resseguradoras adotam análises muito mais rigorosas
sobre acúmulo de riscos, interdependência tecnológica e vulnerabilidades
concentradas em provedores de nuvem, softwares e in-
12
fraestruturas críticas. Como explica Victor Perego, esse movimento
influencia diretamente a capacidade, as condições e a precificação
das coberturas no mundo todo. “Para o ambiente corporativo, é
fundamental que cada empresa identifique dentro de sua cadeia
de valor potenciais concentradores de risco cibernético, como fornecedores
de infraestrutura, tecnologia ou serviços essenciais para
sua operação. Isso permite a adoção de medidas para mitigar essas
exposições, inclusive por meio da contratação de coberturas específicas
no seguro cyber voltadas à interdependência entre diferentes
elementos da cadeia de valor da empresa”, sinaliza.
Casos como SolarWinds, Kaseya, Moveit e CrowdStrike trouxeram
esse fantasma para o centro da mesa, como menciona Rodrigo
Pedroni. A resposta do resseguro tem sido tripla nesses casos.
O primeiro ponto diz respeito aos sublimites mais rígidos para
eventos catastróficos e exclusões para cyber war e infraestrutura
crítica; o segundo refere-se à precificação mais granular por setor e
por maturidade; e o terceiro às cláusulas que condicionam cobertura
à manutenção de controles mínimos durante toda a vigência da
apólice e não apenas no momento da contratação. “Para o mundo
corporativo, isso significa que cyber realmente deixou de ser ‘mais
uma linha’ e passou a ser tratado como risco estrutural, comparável
a catástrofes naturais em termos de potencial de acumulação”, destaca
Pedroni
COMPREENDENDO O RISCO
A maioria das seguradoras ainda partem de questionários
estruturados, mas vem migrando, quando o regulatório e a maturidade
do cliente permitem, para modelos híbridos que combinam
questionário inicial com algum nível de monitoramento contínuo.
Na Zurich, a executiva Hellen conta que a avaliação considera
fatores ligados à gestão do risco cibernético e pode envolver
uma análise estruturada do nível de preparo da empresa. “Consideramos
um framework da Nist [National Institute of Standards and
Technology ou, em tradução livre “Instituto Nacional de Padrões e
Tecnologia”] para abordar como a empresa identifica, protege, detecta,
responde e se recupera de riscos de segurança cibernética e
temos, inclusive, um estudo de maturidade de gestão da segurança
cibernética das empresas brasileiras, lançado em 2025, baseado
nesse trabalho intenso e detalhado que fazemos junto aos clientes”,
revela.
A ideia, segundo a executiva, é compreender não apenas
se determinados controles existem, mas se estão implementados,
documentados e testados. Esse olhar, como Hellen argumenta,
também ajuda a identificar oportunidades de melhoria para reduzir
a exposição ao risco: “Acreditamos que precisa existir uma aproximação
maior entre seguradoras e clientes na etapa de avaliação
e melhoria da maturidade digital. Diagnósticos técnicos, recomendações,
simulações e planos de resposta ajudam as empresas a
identificar fragilidades, priorizar ações e fortalecer sua governança.
Assim, a própria subscrição de risco do seguro cyber passa a
apoiar decisões corporativas não apenas de acesso ao seguro, mas
relacionadas à resiliência, continuidade dos negócios e preparação
para incidentes.”
MARCIA CICARELLI,
da Demarest
As seguradoras e os corretores,
como enfatiza Landulfo, estão repensando
os limites cibernéticos, o desenho da
cobertura e o monitoramento de riscos.
“Há cada vez mais uso de IA [inteligência
artificial] na subscrição incluindo o monitoramento
ampliado ao longo do prazo
da apólice. Gostaria de destacar o exemplo
mais recente e concreto desse movimento
é a parceria entre a Akad Seguros
e a Verta, anunciada há poucos dias. A
iniciativa combina cobertura securitária
com uma plataforma de inteligência que
mede, em tempo quase real, a maturidade
em cibersegurança, dados e inteligência
artificial, com o diferencial de reduzir
o processo de contratação de semanas
para minutos”, exemplifica Landulfo.
Levantamento da CNSeg aponta
que as seguradoras brasileiras projetam
investir R$ 2,8 bilhões em inteligência
artificial ao longo deste ano, com 68%
projetando que determinados processos
estarão totalmente automatizados nos
próximos cinco anos, especialmente em
sinistros, subscrição e operações. “Acredito
que vamos conviver com um modelo
de subscrição progressiva: a apólice
como instrumento de desenvolvimento
de maturidade. Em vez de recusar o risco,
a seguradora aceita o cliente em condições
mais restritivas e estabelece um roteiro
de melhorias que, se seguido, leva
progressivamente a melhores coberturas
e prêmios menores”, resume Landulfo.
13
TECNOLOGIA
ENTREVISTA
Protegendo a vida digital das pessoas
UM DAS PRINCIPAIS EMPRESAS DE SEGURANÇA DE DADOS DO MERCADO, A MCAFEE PASSOU A
TER FOCO EXCLUSIVO EM CIBERSEGURANÇA EMPREGANDO FORTE APORTE DE CAPITAL PARA
CRESCER GLOBALMENTE NESSE MERCADO. A COMPANHIA REORGANIZOU SUA ESTRATÉGIA EM
TRÊS GRANDES PILARES TECNOLÓGICOS: SECURITY OPERATIONS (SOC E DETECÇÃO/RESPOSTA),
DEVICE (ENDPOINT E DISPOSITIVOS) E CLOUD (PROTEÇÃO DE AMBIENTES EM NUVEM)
ANDRÉ FELIPE DE LIMA
Apólice conversou com Flávia Elizalde,
diretora da McAfee Brasil. Executiva transgênero
com mais de 30 anos de experiência no
setor de tecnologia, Flávia é física de formação,
doutora em astrofísica e lidera a McAfee
no Brasil desde 2019.
Revista Apólice — Como a McAfee atua
hoje no campo da cibersegurança no Brasil
oferecendo serviços que apoiam o mercado,
especialmente o setor de seguros
cibernéticos?
Flávia Elizalde — Acho importante
contextualizar rapidamente uma
mudança relevante na McAfee nesses
últimos anos, porque isso ajuda bastante
no entendimento da nossa atuação
hoje. A McAfee passou por uma
separação global em 2022. A nossa divisão
Enterprise, voltada para soluções
cooperativas de segurança digital, foi
desmembrada e hoje atua sobre outra
marca, a Trellox. Então, a McAfee atual
Flávia Elizalde
Entendemos que a proteção
digital deixou de ser uma
questão tech. Ela passou a
ser uma questão de proteção
da identidade, da privacidade
e da confiança das pessoas
no ambiente digital”
é uma empresa totalmente focada em proteção digital para consumidores
e famílias. Nosso foco está totalmente voltado para o
mercado consumidor, protegendo a vida digital das pessoas. Em
um cenário onde os ataques cibernéticos deixaram de atingir apenas
empresas, eles passaram a impactar diretamente os indivíduos
e as famílias. É super importante termos essa preocupação em
proteger as pessoas. Vemos, constantemente, pessoas passando
por fraudes digitais, perdendo dinheiro, tendo seus dados explorados
e sendo usados de maneira ilícita. Nossas soluções trabalham
de forma muito forte com inteligência artificial. A ideia é detectar
as fraudes, os golpes digitais, vazamentos de dados, tentativas de
phishing, que é capturar os seus dados pessoais sem autorização,
os deepfakes, que são os vídeos alterados através de inteligência
artificial, e diversos tipos de ameaça online. Entendemos que a
14
As pessoas precisam entender que segurança
digital não é apenas instalar um software
ou resolver uma questão técnica, ela
envolve comportamento e aí tem um ponto
bem importante: a prevenção, proteção de
identidade, privacidade e gestão de risco”
proteção digital deixou de ser uma questão tech. Ela passou a ser
uma questão de proteção da identidade, da privacidade e da confiança
das pessoas no ambiente digital.
RA — Há uma mudança de posicionamento do seguro cibernético
dentro das organizações de uma forma geral. Hoje existe um produto
reativo para ativo estratégico de gestão de risco e integrado à agenda
de tecnologia, compliance e conselho de administração. Diante disso,
como o seguro cyber está sendo incorporado à estratégia empresarial,
à arquitetura de segurança e à governança corporativa?
FE — Acho que isso também ajuda a explicar uma mudança
importante que está acontecendo dentro das empresas em relação
ao seguro cyber. Durante muito tempo, muita gente enxergava o
seguro cibernético quase como um produto reativo, ou seja, algo
que você contratava pensando só no que fazer depois do incidente.
Hoje, isso mudou bastante, o risco cibernético passou a entrar muito
mais na discussão estratégica das empresas, envolvendo governança,
compliance, reputação e continuidade operacional. O seguro
começa também a funcionar como um indicador de maturidade
digital daquela companhia, daquela organização, porque as seguradoras
estão olhando cada vez mais para o nível de governança, para
os controles de segurança também, para políticas internas e para o
grau de preparo daquela empresa diante das ameaças digitais. Eu
acho que isso é uma evolução bem positiva para o mercado porque
acaba incentivando uma visão mais preventiva e mais estruturada
da segurança digital e não só aquela visão reativa de uma reação
depois que o problema já aconteceu.
RA — O mercado brasileiro, principalmente o de seguro, está maduro
ou ainda em fase educacional em relação à cibersegurança? O Brasil
está atrasado em relação ao mercado internacional?
FE — Quando comparamos o Brasil com mercados mais maduros
internacionalmente, penso que houve uma evolução muito
importante nos últimos anos. O tema da segurança digital ganhou
muito espaço dentro das empresas, dos conselhos e também do
mercado segurador. Mas eu ainda vejo o mercado brasileiro passando
por uma fase importante de educação e amadurecimento
principalmente porque as ameaças evoluem
em uma velocidade muito grande
e a inteligência artificial acelerou ainda
mais o cenário. É uma luta insana para
tentar acompanhar essa situação do
mercado. Existe uma necessidade muito
forte de conscientização, não só tecnológica,
mas cultural mesmo. As pessoas
precisam entender que segurança digital
não é apenas instalar um software ou resolver
uma questão técnica, ela envolve
comportamento e aí tem um ponto bem
importante: a prevenção, proteção de
identidade, privacidade e gestão de risco.
Normalmente, o ponto fraco da corrente
é o comportamento das pessoas. O Brasil
tem avançado bastante nisso, mas vemos
empresas muito mais preocupadas com
governança digital, com proteção de dados
e até na maturidade de segurança.
Mas ainda existe um espaço bem grande
para evolução, principalmente em educação
digital e prevenção.
RA — Como o seguro dialoga com frameworks
de segurança (ISO, NIST etc.)?
FE — Em se tratando dos frameworks,
como você menciona, tais
como o ISO e outros, acho que eles ajudam
muito a trazer estrutura e maturidade
para a discussão de segurança digital
dentro das corporações. Porque, no fundo,
eles ajudam as empresas a enxergar
a segurança digital não como um tema
isolado de tecnologia, como eu falei antes,
mas como parte da gestão de risco
e da própria governança cooperativa.
Hoje existe uma conexão cada vez maior
entre segurança digital, compliance,
continuidade operacional e a proteção
reputacional, que é superimportante.
Isso, naturalmente, acaba dialogando
também com o mercado segurador, porque
as seguradoras precisam entender o
nível de maturidade e disposição ao risco
em cada organização. No final, os frameworks
ajudam justamente nisso. Criar
processos mais consistentes, reduzir vulnerabilidades
e desenvolver uma cultura
de prevenção. Eu realmente acho que
essa visão mais integrada tende a crescer
cada vez mais nos próximos anos, no
Brasil e fora daqui.
15
TECNOLOGIA
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
ELA?
É POSSÍVEL
SEM
NA ESTEIRA DE SINISTROS, A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
(IA) VIROU AQUELE PERITO QUE NUNCA DORME, QUE
MANTÉM SEMPRE OS OLHOS ABERTOS PARA IDENTIFICAR
INCONSISTÊNCIAS E SINALIZAR POTENCIAL FRAUDE
COMPARANDO FOTOS, ORÇAMENTOS E HISTÓRICOS EM
TEMPO REAL
André Felipe de Lima
A
ciência não avança, a ciência
alcança... a ciência em si”. Gilberto
Gil e Arnaldo Antunes
acertaram na mosca. A letra da reflexiva
e poética música A ciência em si,
que integra o álbum Quanta (1997), de
Gil, aborda como a ciência, em sua essência,
não é apenas ensinada, mas assimilada
e integrada à nossa realidade.
A letra gira em torno da ideia de que a
ciência não é apenas um conjunto de
fórmulas transmitidas, mas algo que apreende-se, isto é, que incorpora-se
pela experiência e pelo entendimento profundo. No ano em
que lançaram a canção, Gil e Antunes talvez não soubessem que o
termo “inteligência artificial” surgira oficialmente em 1956, cunhado
pelo cientista da computação John McCarthy e utilizado pela primeira
vez durante a Conferência de Dartmouth, um evento histórico
realizado nos Estados Unidos, que reuniu os pioneiros da área para
discutir a criação de máquinas capazes de simular o raciocínio humano.
Mas é fato: a letra de A ciência em si de certa forma antevê o
que vivemos nesse exato momento: estamos diante de uma revolução
humana a partir do uso da inteligência artificial (IA).
16
17
TECNOLOGIA
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
CONRADO GORDON,
da Generali Brasil
RODRIGO TABAREZ,
da Deloitte
Rascunhos filosóficos à parte, Apólice
tenta entender como efetivamente ela
vem impactando o mercado de seguros
e suas principais variantes. Nas grandes,
médias e pequenas seguradoras, a IA deixou
de ser projeto-piloto de inovação e
virou rotina de backoffice, como aquele
sistema legado que todo mundo xinga,
mas ninguém vive sem ele. Prova disso
está nos estudos recentes que mostram
reduções de 30% a 50% no tempo de processamento
de sinistros e de atendimento
documental. Isso significa menos pilha de
processo em cima da mesa e mais decisão
saindo no mesmo dia.
Exemplo prático disso é o Agilitá,
um projeto lançado em 2022 pela Generali,
ou seja, antes do boom de inteligência artificial do mercado, que
combina IA, legal analytics, automação robótica (RPA), legal design
e ODR (online dispute resolution) em uma plataforma digital integrada.
A iniciativa surgiu em meio à desgastante judicialização que
cerca o mercado, reconfigurando e otimizando processos judiciais
com uma redução inicial de 72% do tempo médio de tramitação das
ações. Não significa, entretanto, que a tecnologia tenha convencido
o juiz a decidir mais rapidamente.
“Os números reforçam a magnitude da transformação: redução
de R$ 86 milhões em reservas, economia de R$ 4,2 milhões em
custos com perícias, aumento de 90% na taxa de acordos, mesmo
em cenários desfavoráveis, e uma economia projetada superior a
R$ 176 milhões em juros e correção monetária pelo encerramento
antecipado das ações. A percepção positiva da marca junto aos
clientes também avançou de forma relevante. Sob a ótica ESG, o
impacto vai além da eficiência financeira. Ao acelerar a resolução
de conflitos judiciais, o projeto contribui para a desjudicialização,
apoia a eficiência do Poder Judiciário e gera valor social concreto
para os segurados”, revela o Chief Insurance Officer da Generali
Brasil, Conrado Gordon.
O próximo passo, como revela o executivo, é integrar IA preditiva,
generativa e agentes de IA não para simplesmente automatizar
processos, mas para transformar operações tradicionalmente
burocráticas em estruturas estratégicas, inteligentes e orientadas
à experiência do cliente. “O desafio deixa de ser apenas eficiência.
Passa a ser a capacidade real de resolver, personalizar e gerar valor
percebido pelo consumidor”, destaca Gordon.
Estudo da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg)
indica que cerca de 80% delas já utilizam soluções de IA (tanto a tradicional
quanto a generativa). A mesma pesquisa mostra que a IA
generativa é o grande acelerador recente desses investimentos, com
estimativa de R$ 2,3 bilhões em 2025 e R$ 2,6 bilhões em 2026 em
iniciativas de IA no setor de seguros no Brasil.
Mas o roteiro não é só de encantamento. O “xis” da questão
(ou alerta, como queiram) é apontado por alguns relatórios cujos
dados mostram que mais da metade das seguradoras ainda não
consegue medir com precisão o retorno dos projetos de IA, tampouco
definir claramente quem manda nesse assunto lá dentro. Em vez
de redesenhar o processo, muitas empresas colocam a IA em cima
do fluxo antigo, o que significa instalar um motor moderno num
bonde, que continua preso ao trilho errado.
Apesar desse contexto, como muitos no setor afirmam categoricamente,
a IA já entrega ROI (return on investment ou retorno
sobre o investimento) concreto em seguros, principalmente em três
frentes: automação de sinistros (extração de dados, triagem e decisão),
detecção de fraude e eficiência em operações/atendimento e
reporting técnico atuarial.
Rodrigo Tabarez, sócio-líder da indústria de seguros na Deloitte,
e Jefferson Denti, líder do Deloitte AI Institute, explicam que
ainda existe uma diferença importante entre o discurso e a realidade
prática dentro das seguradoras. De um lado, dizem os dois consultores,
há um avanço consistente na adoção de IA, especialmente com
o surgimento da IA generativa, que ampliou significativamente o
18
potencial de automação, análise e interação com clientes. De outro,
muitas iniciativas ainda permanecem em estágio de piloto, principalmente
porque o principal desafio não está mais na tecnologia
em si, mas na capacidade das organizações de estruturar dados,
adaptar processos e evoluir seu modelo operacional e de “mindset”.
“A nossa experiência recente com seguradoras, somada aos estudos
globais da Deloitte, mostra que o setor está entrando em uma nova
fase: menos foco em experimentação e mais pressão por captura de
valor real, com atenção crescente a governança, risco e escalabilidade”,
afirma Tabarez.
O consultor complementa: “A inteligência artificial já entrega
ganhos relevantes, mas ainda de forma bastante concentrada em
casos com maior escala operacional e volume de dados não estruturados.
Em resumo, o ROI já é comprovado, principalmente em eficiência
operacional e redução de perdas”, embasa.
CTO da Icatu Seguros, Bernardo Carneiro reconhece esse cenário
inicial, porém alvissareiro, sobretudo quando a IA atua sobre
processos intensivos em dados, volume e repetição. Isso pode aparecer,
por exemplo, como explica o executivo, na triagem e análise
de documentos em sinistros, na detecção de fraudes, no apoio
à subscrição e no atendimento assistido com redução de tempo,
custo e retrabalho. “Acredito também que a próxima fronteira esteja
nos agentes autônomos: sistemas capazes de executar fluxos mais
completos, consultar bases, cruzar informações, acionar etapas e
apoiar decisões com mais autonomia. Mas o ponto crucial é que,
no nosso setor, essa autonomia da IA precisa vir acompanhada de
governança”, prevê.
No Grupo Bradesco Seguros, por exemplo, a IA já é aplicada
na identificação automatizada de avarias veiculares permitindo
maior agilidade na análise de danos e reduzindo em até 10%
o tempo de devolução dos veículos em casos de sinistro. Outro
exemplo da seguradora é o uso de speech analytics com inteligência
artificial para análise automatizada de 100% das ligações da
central de atendimento, permitindo atuação em tempo real em
situações críticas e melhoria contínua da experiência do cliente.
“Também utilizamos IA em biometria facial para reembolsos em
saúde suplementar, fortalecendo a segurança, reduzindo riscos
de fraude e trazendo mais transparência ao processo. Além disso,
aplicações em subscrição inteligente e análise documental vêm
reduzindo etapas operacionais e ampliando a eficiência dos processos
internos”, revela o diretor de Inovação, Digital e Dados do
Grupo Bradesco Seguros, José Loureiro.
Na opinião do executivo do Grupo Bradesco, a inteligência
artificial já entrega retorno concreto em frentes operacionais estratégicas
do setor segurador, especialmente em subscrição, atendimento,
prevenção a fraudes e regulação de sinistros. O principal
avanço observado, como afirma Loureiro, está na capacidade de
reduzir tempo operacional, aumentar a assertividade das análises e
melhorar a experiência do cliente.
Bernardo Carneiro aponta três riscos principais da IA Generativa.
O primeiro, diz ele, é informacional, já que a IA pode gerar respostas
convincentes, mas incorretas, em temas que afetam contratação,
cobertura ou orientação ao cliente. Já o segundo é decisório:
JEFFERSON DENTI,
da Deloitte AI Institute
à medida que esses sistemas passam a
apoiar triagem, subscrição e atendimento
cresce a exigência de transparência,
explicabilidade e revisão humana. E, o
terceiro, é de governança, pois o uso de
dados pessoais, a dependência de modelos
de terceiros e o avanço de agentes
mais autônomos tornam rastreabilidade,
segurança e responsabilidade questões
centrais. “No Brasil, o regulador e todas
as entidades estão atentas e em processo
de adaptação. Em mercados mais avançados,
como a Europa, a supervisão do
setor de seguros já discute de forma mais
madura temas como viés, explicabilidade,
segurança cibernética e supervisão
humana. O desafio é construir regras que
protejam o consumidor sem engessar
aplicações que, quando bem governadas,
podem melhorar muito o setor”, analisa.
Para Rodrigo Tabarez, os riscos são
claros e estão sendo tratados dentro do
arcabouço regulatório brasileiro. Os principais
pontos de atenção neste caso são,
segundo ele, o viés e discriminação em
decisões automatizadas; falta de explicabilidade
e de auditabilidade; uso inadequado
de dados (LGPD) e possíveis inconsistências
em interações automatizadas
com clientes. “No Brasil ainda não existe
uma regulação específica para IA em seguros,
mas de certa forma o uso já está coberto
por normas existentes. Por exemplo:
a Resolução CNSP 382/2020, que reforça
a necessidade de clareza e transparência
19
TECNOLOGIA
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
A próxima fronteira está nos agentes autônomos:
sistemas capazes de executar fluxos mais completos,
consultar bases, cruzar informações, acionar etapas e
apoiar decisões com mais autonomia”
BERNARDO CARNEIRO, da Icatu
na relação com o cliente, e a Resolução
CNSP 416/2021, que trata diretamente da
gestão de riscos e controles internos, incluindo
novas tecnologias. Além disso, a
Susep vem evoluindo o tema por meio de
iniciativas estruturantes, como o sandbox
regulatório, permitindo testes controlados,
e o open insurance, que cria base de
governança e compartilhamento de dados”,
atesta Tabarez.
Ouvimos a Superintendência de
Seguros Privados (Susep) que, em nota
enviada à reportagem, argumenta o
seguinte: “O uso mais amplo da IA traz
uma série de desafios relacionados à
governança, à dependência tecnológica,
à explicabilidade dos modelos e à
gestão de terceiros. Para seguradoras e
corretoras, ganham relevância adicional
os riscos associados à proteção de
dados pessoais, ao uso responsável de
informações sensíveis, à exposição a incidentes
cibernéticos, além de riscos legais
associados a erros no processo decisório
automatizado delegado às IAs. A
materialização desses riscos pode gerar
impactos tanto em aspectos prudenciais
quanto de conduta das supervisionadas,
ocasionando eventuais não conformidades
regulatórias.”
José Loureiro destaca alguns
pontos de atenção importantes que
estão relacionados à privacidade de
dados, à transparência das decisões automatizadas, aos vieses algorítmicos
e à segurança da informação. “No mercado de seguros
lidamos com dados extremamente sensíveis. Por isso, o uso de IA
exige forte aderência à LGPD [Lei Geral de Proteção de Dados], à
governança robusta e aos mecanismos claros de consentimento e
de rastreabilidade das informações utilizadas pelos modelos. Outro
ponto importante é quando a tecnologia produz respostas fora
do contexto ou sem aderência às bases oficiais da companhia. Por
isso, trabalhamos com guardrails e delimitações técnicas que garantem
que os modelos utilizem apenas fontes autorizadas e confiáveis”,
observa Loureiro.
A Susep, em nota, afirma que acompanha o desenvolvimento
tecnológico e que vem agindo para adaptar-se a esse novo
cenário apresentado pelo rápido avanço da IA: “Nesse sentido, na
recente reestruturação da Susep, foi criado, por exemplo, um novo
departamento dedicado a ações de SupTech (tecnologia de supervisão),
dentro da Diretoria de Supervisão Prudencial (Disup), que
tem entre suas principais metas a adoção de modelos e ferramentas
de IA no processo de supervisão prudencial. Além disso, em
outras diretorias da autarquia, apesar de ainda não haver uma área
dedicada diretamente ao tema, já estão sendo desenvolvidos processos
de trabalho que levam em conta a SupTech e demais usos
de IA.”
IMPACTO
As áreas do mercado segurador lideram a adoção (sinistros,
fraude, pricing...) da IA já colhem frutos. Bernardo Carneiro diz que
a adoção mais madura está atualmente em frentes com alto volume
de interações e processos, como atendimento, produtividade comercial,
backoffice, sinistros e fraude. São áreas em que a IA e a automação
já mostram impacto claro em velocidade, escala, redução
de retrabalho e qualidade da execução. Em pricing e subscrição, o
potencial, frisa Carneiro, é “enorme”, mas a evolução tende a ser mais
cuidadosa, porque envolve explicabilidade, governança e decisões
sensíveis para o cliente.
“Na Icatu, temos exemplos concretos dessa aplicação. A
AVI, assistente de IA para corretores, apoia a gestão da carteira
e torna as interações comerciais mais rápidas e simples. Também
somos reconhecidos pelo uso de RPA no backoffice. Nosso centro
de excelência governa mais de 72 robôs, que processaram mais
de 600 mil transações em 2025, acelerando fluxos e aumentando
20
a consistência operacional. Em sinistros, a digitalização da jornada
também reduz fricção e melhora o acompanhamento por
clientes, beneficiários e corretores”, salienta Carneiro.
Os impactos mais mensuráveis aparecem principalmente
em eficiência operacional e experiência do cliente, lista José
Loureiro. Em sinistros, por exemplo, a automação da análise de
avarias reduz o tempo de processamento e melhora a produtividade
operacional. Loureiro prossegue afirmando que em atendimento,
as soluções baseadas em linguagem natural e análise
de sentimentos permitem interações mais rápidas, resolutivas e
personalizadas.
GARGALOS
Os projetos que conseguem escalar normalmente possuem
três pilares muito claros, como explica Loureiro: qualidade de dados,
integração com o negócio e mudança cultural. “A IA não pode
ser tratada apenas como um experimento tecnológico. Os projetos
mais bem-sucedidos são aqueles conectados a dores reais do
cliente e da operação, com governança estruturada, objetivos mensuráveis
e apoio efetivo da liderança. Outro ponto decisivo é a integração
entre tecnologia, processos e pessoas. Escalar IA exige revisão
de fluxos operacionais, padronização de dados e capacitação
contínua das equipes. O principal desafio ainda está justamente na
maturidade dos dados e na integração entre sistemas legados. Muitas
organizações ainda possuem bases fragmentadas ou processos
pouco estruturados, o que limita o potencial da IA em escala”, pontua
Loureiro.
Tabarez, da Deloitte, argumenta que hoje já é possível ver
um padrão muito claro no mercado: o desafio deixou de ser tecnológico
e passou a ser estrutural e organizacional. Projetos que
escalam normalmente têm, segundo ele, dados estruturados e
governados; integração com processos de negócio; métricas claras
de valor (ligadas ao P&L); arquitetura bem definida, com uso
de bases de conhecimento confiáveis; governança e gestão de
risco desde o desenho; bases de conhecimento bem estabelecidas
(Knowledge base); problema de negócio bem definido e
capacidade para repensar o trabalho e seus impactos após o uso
da IA.
Por outro lado, iniciativas que não escalam costumam enfrentar,
como os dois consultores argumentam, dados fragmentados;
experimentação, ou seja, excesso de pilotos sem industrialização,
o chamado “pilot purgatory”; falta de modelo operacional e
de governança claro e, por fim, foco na tecnologia e não no problema
de negócio e reestruturação do trabalho. “De forma cada vez
mais evidente, há um fator crítico adicional, a necessidade de estruturar
change management específico para o tema como parte
central da adoção, pois requer uma mudança relevante na forma
de trabalhar e passa por redefinição de papéis, revisão de processos
ponta a ponta, novas dinâmicas de interação entre humano
e tecnologia e capacitação contínua das equipes. Logo, capturar
valor em escala passa necessariamente por essa transformação de
mindset e modelo operacional, não apenas pela adoção da tecnologia”,
abrevia o consultor da Deloitte.
JOSÉ LOUREIRO,
do Bradesco
TODOS VEEM, TODOS SABEM
Viés e transparência precisam ser
tratados desde a concepção dos modelos
e não apenas na etapa final, frisa
Bernardo Carneiro. Isso, segundo ele,
envolve qualidade e representatividade
dos dados, critérios claros de uso,
monitoramento contínuo e, sobretudo,
capacidade de explicar como a tecnologia
apoia determinadas decisões.
“Em seguros, esse cuidado é essencial
porque estamos falando de relações
baseadas em confiança. Na Icatu, esse
tema conecta-se a uma agenda mais
ampla de governança de dados, privacidade
e segurança da informação. Em
2025, conquistamos a certificação ISO
27701:2019 nas três linhas de negócio
em que atuamos: seguro de vida, previdência
e capitalização. A certificação
reconhece a adoção de processos e
controles robustos de gestão da privacidade,
reforçando a transparência no
tratamento das informações e a padronização
dos nossos sistemas internos
de governança”, lembra o executivo.
O combate ao viés começa pela
qualidade e diversidade das bases utilizadas
nos modelos, avalia José Loureiro.
Além disso, como ele complementa, é
fundamental que exista supervisão humana,
monitoramento contínuo e critérios
claros de governança.
21
SAÚDE
NR-1
O custo invisível
da exaustão
corporativa
A INCLUSÃO DOS RISCOS PSICOSSOCIAIS
NA NR-1 ACELERA MUDANÇAS DENTRO
DAS EMPRESAS, PRESSIONA OPERADORAS,
AMPLIA DEBATES SOBRE GOVERNANÇA E
LEVA SAÚDE MENTAL AO CENTRO DA GESTÃO
DE RISCO CORPORATIVO
Nicholas Godoy
A
dor emocional costuma ser silenciosa e,
diferente de um acidente tradicional, não
deixa marcas visíveis imediatas, não paralisa
máquinas nem interrompe linhas de produção de
forma instantânea. Ainda assim, seus efeitos vêm se
acumulando dentro das empresas brasileiras há anos,
atravessando metas agressivas, jornadas exaustivas,
lideranças despreparadas, ambientes tóxicos e culturas
organizacionais incapazes de reconhecer o esgotamento
antes do colapso.
22
A farmacêutica Emily Guedes Albuquerque conhece bem
esse processo. Formada no fim de 2019, ela iniciou sua trajetória
profissional poucos meses antes do início da pandemia de Covid-19,
e o que deveria ser o começo de uma carreira, acabou se
transformando em um ciclo contínuo de sobrecarga física e emocional.
Trabalhando em uma grande rede de drogarias em São Paulo,
Emily passou a conviver diariamente com mudanças constantes de
protocolos, falta de funcionários, jornadas prolongadas e pressão
permanente dentro de um dos setores mais demandados daquele
período.
“Só de pensar que eu precisava ir para o trabalho eu começava
a chorar. Muitas vezes, eu estava me arrumando e começava
a chorar porque não queria ir, mas pensava que precisava, porque
tinha responsabilidade”, relata.
O cansaço rapidamente deixou de ser apenas físico, pois veio
acompanhado de picos de ansiedade, crises de pânico e o esgotamento
emocional progressivo. Em casa, Emily conta que já não conseguia
descansar e, nos dias de folga, a ansiedade antecipava o retorno
ao trabalho. “Todos os momentos, se eu não estava pensando
em algo que precisava resolver, eu estava pensando que teria que
trabalhar no dia seguinte”, lembra.
A situação evoluiu para um quadro severo de sofrimento
psicológico, acompanhado posteriormente de ideação suicida.
“Na minha cabeça seria melhor morrer do que ter que trabalhar”,
compartilha. O afastamento veio apenas depois de uma crise mais
grave de uma série de burnouts (distúrbio psíquico causado pelo
estresse crônico no ambiente de trabalho), quando já não havia
mais condições emocionais de continuar exercendo a função.
O relato de Emily deixa evidente uma realidade que durante
anos permaneceu invisível dentro das empresas brasileiras. A
diferença agora é que ela começa, finalmente, a entrar de forma
oficial no radar regulatório e no universo corporativo. A atualização
da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), promovida pela Portaria
nº 1.419/2024 do Ministério do Trabalho e Emprego, passa a incluir
formalmente os fatores de riscos psicossociais dentro do Gerenciamento
de Riscos Ocupacionais (GRO), obrigando empresas a identificarem,
monitorarem e adotarem medidas preventivas relacionadas
à saúde mental no ambiente de trabalho. A norma entrou em
vigor no dia 26 de maio deste ano.
A atualização dessa lei também amplia a necessidade de
documentação, rastreabilidade e demonstração prática das medidas
preventivas adotadas pelas empresas. Na prática, especialistas
apontam que as organizações precisarão demonstrar não apenas
políticas internas formais, mas evidências concretas de monitoramento,
prevenção e gestão dos fatores psicossociais dentro do ambiente
corporativo.
Ou seja, a mudança representa muito mais do que uma atualização
burocrática, ela inaugura uma nova lógica de gestão corporativa,
na qual saúde mental passa a integrar discussões relacionadas
à governança, produtividade, gestão de risco e até seguros
corporativos.
Os números ajudam a explicar a urgência do tema. Segundo
dados apresentados pela Docway, o Brasil registrou mais de
LAINE OLIVEIRA,
da Conduta Plus
500 mil afastamentos do trabalho por
transtornos mentais em 2025, alta de
16% em relação ao ano anterior. Dados
da Previdência Social apontam que
o país atingiu um recorde histórico de
mais de 546 mil licenças concedidas por
quadros ligados à saúde mental, impulsionados
principalmente por diagnósticos
de ansiedade, depressão e burnout,
condição que triplicou em relação a
2023. O impacto econômico também
passou a pressionar empresas e o setor
público, com custo próximo de R$ 1 bilhão
ao INSS apenas no último ano.
FERNANDA PASTORELLO,
do Pellegrina e Monteiro
23
SAÚDE
NR-1
VANESSA SAPIENCIA,
do Pellegrina e Monteiro
O avanço dos transtornos emocionais
no ambiente corporativo ocorre
em paralelo à consolidação da saúde
mental como pauta estratégica dentro
das empresas. A Organização Mundial
da Saúde (OMS) estima que, somente
no primeiro ano da pandemia, houve
aumento global de 25% nos casos de
ansiedade e depressão.
Diante desse cenário, especialistas
apontam que o tema deixou de ser
tratado apenas como uma questão pontual
de bem-estar para ocupar espaço
central nas discussões sobre produtividade,
gestão de pessoas, afastamentos
e sustentabilidade das operações corporativas.
O ADOECIMENTO INVISÍVEL
Durante muito tempo, o sofrimento
emocional dentro das empresas
foi tratado como fragilidade individual,
incapacidade de adaptação ou simples
consequência inevitável da rotina profissional.
A ideia de que “todo mundo
passa por isso” ajudou a normalizar ambientes
emocionalmente adoecedores
em diferentes setores da economia.
Emily ouviu exatamente esse
discurso quando tentou demonstrar
sinais de esgotamento. “Toda vez que
eu falava que estava cansada ou sobrecarregada,
ouvia que era normal passar
por esse tipo de coisa, ou que só os
´fortes´sobrevivem”, compartilha.
A psicóloga e especialista em gestão de saúde da Conduta
Plus Consultoria em Seguros, Laine Oliveira, avalia que o Brasil vive
hoje uma verdadeira epidemia de saúde mental. “O nosso país ocupa
lugar no pódio no que diz respeito a diagnósticos de ansiedade,
depressão e estresse”, afirma.
Segundo ela, muitos sinais de adoecimento aparecem de forma
silenciosa e progressiva, dificultando sua identificação precoce
dentro das organizações. Entre os sintomas mais frequentes estão irritabilidade,
desmotivação, fadiga constante, distanciamento social, dificuldade
de concentração e ansiedade persistente. “O problema muitas
vezes não está apenas na quantidade de trabalho, mas na forma
como as pessoas se sentem dentro daquele ambiente”, observa Laine.
A especialista destaca ainda que uma das maiores dificuldades
das empresas continua sendo transformar discursos sobre bem-
-estar em ações permanentes e estruturadas. “Desde a pandemia, as
empresas abriram espaço para falar sobre saúde mental, mas muitas
vezes isso ainda acontece apenas em campanhas pontuais, como
Janeiro Branco ou Setembro Amarelo”.
Na avaliação dela, a NR-1 tende a acelerar uma mudança
importante ao obrigar as empresas a formalizarem planos de ação
relacionados aos riscos psicossociais dentro do Programa de Gerenciamento
de Riscos (PGR). Ela olha a atualização da Norma como reforço
para a necessidade de tratar saúde mental com a seriedade e a
importância que o tema exige.
Mais do que ações isoladas, Laine defende que as organizações
precisarão desenvolver estruturas contínuas de prevenção,
acompanhamento e gestão emocional. “A saúde mental passa a integrar
de forma mais direta a cultura organizacional e a gestão de
pessoas”, acrescenta.
SAÚDE MENTAL ENTRA NA MATRIZ DE RISCO
O impacto da nova NR-1, entretanto, não se limita ao ambiente
assistencial ou às áreas de recursos humanos. Fontes apontam
que a mudança regulatória começa a alterar a própria lógica de
exposição empresarial dentro das organizações.
Para Fernanda Pastorello, sócia especialista em seguros e resseguros,
e Vanessa Sapiencia, diretora de Compliance e Novos Negócios
do Pellegrina e Monteiro Advogados, a atualização da NR-1 amplia
a forma como o risco corporativo passa a ser compreendido. “A
saúde mental passa a compor de forma mais clara a matriz de riscos
corporativos das organizações, com potencial impacto regulatório,
trabalhista, previdenciário e securitário”, destacam.
Na visão das especialistas, o conceito de exposição empresarial
passa a incorporar fatores relacionados à cultura organizacional,
modelos de gestão, metas, jornadas e ambiente de trabalho. “O que
antes era frequentemente tratado como questão subjetiva passa a
ingressar no campo regulatório e fiscalizatório”, observam.
O reflexo atinge diretamente o mercado segurador. Segundo
elas, seguradoras já começam a avaliar fatores relacionados à maturidade
de governança, histórico de afastamentos, políticas internas
e capacidade preventiva das empresas. “O mercado segurador
percebe que os riscos psicossociais possuem elevado potencial de
sinistralidade e impacto financeiro indireto”, afirmam.
24
A tendência, segundo as advogadas, é que a lógica tradicional
de transferência de risco passe a conviver com uma abordagem
mais preventiva de gestão corporativa. Ou seja, programas preventivos
sólidos passam a exercer função estratégica não apenas para
redução de passivos trabalhistas, mas também para proteção reputacional
e sustentabilidade financeira.
Essa mudança começa a atingir inclusive produtos como seguro
D&O, Responsabilidade Civil Empregador e saúde empresarial,
já que transtornos mentais e adoecimentos emocionais passam a
influenciar diretamente discussões relacionadas à responsabilidade
corporativa, governança e dever de proteção do ambiente de trabalho
saudável.
O avanço dessa discussão, porém, não deve se limitar apenas
às estruturas regulatórias e securitárias. Para Jéssica Palin Martins,
advogada, psicóloga e especialista em saúde mental no ambiente
corporativo, a inclusão dos fatores psicossociais dentro da matriz de
riscos ocupacionais também altera a própria lógica de gestão das
empresas. “Muda completamente a forma de gestão da organização.
Não basta mais olhar apenas para hard skills. As soft skills passam
a ter peso importante”, comenta Jéssica.
Segundo ela, a mudança impacta inclusive os modelos tradicionais
de liderança corporativa. “Antes o líder precisava entregar
tecnicamente e assumia um time muitas vezes pelo status ou
GIOVANNA BORDON,
da Docway
pelo dinheiro. Agora ele também será
responsável por desenvolver o time e
cuidar do ambiente daquele departamento.
Entender de pessoas passa a ser
requisito de promoção”, complementa.
SAÚDE
NR-1
LUÍS FERNANDO ROLIM SAMPAIO,
da Unimed
Nesse cenário, cultura organizacional
passa a ter implicações jurídicas
mais concretas.. Ela observa ainda que
o crescimento dos afastamentos emocionais
funciona como um indicativo estrutural
de desequilíbrio organizacional.
Portanto, o aumento de afastamentos,
segundo ela, é o resultado de que aquela
empresa como um todo está doente e
não apenas o funcionário.
Para a psicóloga, empresas que
tratam saúde mental apenas de forma
reativa tendem a enfrentar maior dificuldade
para retenção de talentos, aumento
de rotatividade e crescimento da exposição
trabalhista e reputacional.
A PRESSÃO SOBRE OPERADORAS E
EMPRESAS
O avanço do adoecimento emocional
também vem pressionando operadoras
de saúde e empresas que atuam na
gestão de saúde corporativa.
Na Docway, o crescimento da demanda
relacionada à saúde mental já
é tratado como movimento estrutural.
Segundo Giovanna Bordon, superintendente
de Negócios da companhia,
casos de burnout, ansiedade, conflitos
entre vida profissional e pessoal, assédio
e esgotamento emocional passaram
a ocupar espaço central dentro da gestão
de saúde populacional das empresas.
“Hoje, as empresas entendem que
a saúde mental precisa ser acompanhada de forma estruturada e
contínua”, pontua.
Ela explica que a NR-1 acelerou uma mudança de postura importante
dentro das organizações, impulsionando o uso de dados,
monitoramento e diagnósticos populacionais para identificar fatores
de adoecimento e desenvolver estratégias preventivas mais eficientes.
“A saúde mental passou a ocupar espaço mais amplo dentro
das estratégias corporativas”, diz.
Operadoras também começaram a observar reflexos físicos
associados ao sofrimento emocional prolongado. Para Luís Fernando
Rolim Sampaio, diretor-executivo de Provimento da Seguros
Unimed, quadros de ansiedade, estresse crônico e burnout frequentemente
evoluem para manifestações psicossomáticas, ampliando
a procura por pronto-socorro, exames de alta complexidade e internações
hospitalares.
Esse avanço também já aparece nos números. O programa
Saúde Emocional promovido pela companhia passou de 6.419 pessoas
ativas, em 2023, para 11.783, em 2025. Segundo Sampaio, os
transtornos emocionais já figuram entre os principais fatores que
afetam qualidade de vida, produtividade e custos assistenciais das
empresas. “O burnout e os afastamentos psicológicos ganharam relevância
não apenas pelo impacto assistencial, mas também pelos
reflexos em produtividade, absenteísmo, engajamento e sustentabilidade
dos negócios”, afirma.
A seguradora também observa crescimento de fatores externos
que influenciam diretamente o ambiente corporativo, como
insegurança financeira, vícios digitais, apostas online e sobrecarga
emocional associada ao uso excessivo de redes sociais. “Muitas empresas
passaram a compreender que cuidar da saúde mental não
significa apenas oferecer suporte em momentos de crise, mas investir
em prevenção, acolhimento e qualidade de vida de forma contínua”,
acrescenta Sampaio.
Na sua avaliação, o cenário também vem pressionando empresas
e operadoras a atuarem de forma mais preventiva, acompanhando
fatores emocionais antes que eles evoluam para quadros
mais graves de adoecimento e afastamento.
PREVENÇÃO VIRA ATIVO CORPORATIVO
Enquanto parte das empresas ainda tenta compreender os
impactos práticos da NR-1, algumas organizações começaram a antecipar
mudanças antes mesmo da obrigatoriedade da norma.
É o caso da Prestex, empresa de logística ultraexpressa B2B
com atuação nacional. Em um setor historicamente marcado por
jornadas exaustivas, alta pressão operacional e elevados índices de
turnover, a companhia iniciou um processo de reorganização interna
focado na gestão da jornada de trabalho, redução do banco de
horas e fortalecimento de políticas de bem-estar físico e emocional.
Os resultados apareceram rapidamente. Entre 2024 e 2025, a
empresa reduziu em 80% o banco de horas dos colaboradores, aumentou
em 4,68% a produtividade e reduziu o turnover de 40,95%
para 25,65%.
A companhia também passou a implementar ações voltadas
ao cumprimento de pausas, escuta ativa, acompanhamento
26
próximo das equipes, treinamentos constantes e incentivos relacionados
à saúde física e mental.
Para Marcelo Zeferino, CCO da Prestex, a atualização da NR-1
apenas formaliza uma lógica que já deveria integrar há anos a cultura
corporativa das empresas. “Performance não é gerar resultado à custa
do adoecimento das pessoas. Uma mente sobrecarregada comete
erros, ignora protocolos e derruba o SLA. Cuidar de quem cuida da
carga é, na prática, proteção de fluxo de caixa e garantia de entrega”.
A fala resume uma percepção cada vez mais presente dentro
das organizações: saúde mental também passou a ser observada
como variável econômica e operacional.
Por trás dos indicadores, porém, houve uma reorganização
estrutural da operação. Segundo Raylika Medeiros, coordenadora
de Gente e Gestão da Prestex, a companhia passou a revisar jornadas,
pausas, clareza de papéis, relação entre lideranças e equipes,
além de fortalecer iniciativas voltadas à escuta ativa, desenvolvimento
de gestores e acompanhamento contínuo das equipes. “O
primeiro passo foi olhar para a estrutura do trabalho e não apenas
para ações isoladas de bem-estar”.
A executiva explica que a atualização da NR-1 apenas reforçou
uma percepção que a empresa já observava na prática, em que
saúde mental impacta diretamente produtividade, qualidade operacional
e sustentabilidade do negócio.
A Prestex também fortaleceu a integração entre áreas de
Gente & Gestão, Compliance e lideranças operacionais dentro da
estratégia de prevenção. “Ambientes desorganizados, jornadas excessivas
e falta de clareza geram impacto operacional, financeiro e
jurídico”, frisa Raylika.
Em sua avaliação, os riscos psicossociais já começam a ser tratados
pelas empresas como indicadores relevantes de gestão corporativa.
Ou seja, empresas que conseguirem conectar saúde mental,
gestão de pessoas, produtividade e governança terão operações
mais sustentáveis e eficientes no longo prazo.
RAYLIKA MEDEIROS,
da Prestex
O CUSTO DO ESGOTAMENTO
O avanço das discussões sobre saúde mental dentro das empresas
também vem posicionando temas relacionados à cultura organizacional,
liderança e governança corporativa.
Laine Oliveira observa que ambientes marcados por pressão
constante, insegurança emocional e ausência de escuta ativa tendem
a ampliar significativamente casos de ansiedade, esgotamento
e burnout. “Um líder pode adoecer uma equipe, mas também pode
ajudar a construir um ambiente emocionalmente saudável”, afirma.
Em sua visão, muitas lideranças ainda não estão preparadas
para lidar com sofrimento psicológico dentro das equipes, principalmente
porque elas próprias também convivem com sobrecarga
emocional.
Por isso, as empresas precisarão investir não apenas em protocolos,
mas também em desenvolvimento emocional de gestores,
capacitação contínua e construção de ambientes psicologicamente
seguros. “O trabalho continua sendo parte importante da nossa
construção pessoal, mas hoje começamos a compreender que vida
profissional e vida pessoal não devem competir entre si, mas caminhar
em harmonia”, observa a advogada.
Do outro lado dessa discussão,
Emily responde que essa conscientização
chega tarde para muitos trabalhadores
que passaram anos acreditando que o
sofrimento emocional fazia parte da jornada
profissional.
Hoje, já distante desse regime
que desencadeou esse sentimento negativo,
ela acredita que a principal mudança
necessária dentro das empresas
passa pelo reconhecimento do problema
e pela criação de estruturas reais de
apoio emocional ao colaborador. “Às vezes,
o local está adoecendo as pessoas e
ninguém percebe. Não é falta de vontade
de trabalhar. É uma situação que vai
cansando até você não conseguir mais”,
alerta Emily.
A mudança provocada pela NR-1
também começa a reposicionar o papel
da cultura organizacional dentro das empresas.
Mais do que uma discussão sobre
bem-estar, o ambiente de trabalho passa
gradualmente a ser observado como fator
relevante para sustentabilidade corporativa,
retenção de talentos e mitigação
de riscos.
“A empresa que utiliza a cultura de
forma intencional se destacará no mercado”,
afirma Jéssica Palin. “Agora, aquela organização
que apenas reage aos conflitos
quando eles já explodiram, terá dificuldade
para contratar, reter talentos e sustentar
crescimento”, completa.
27
EVENTO
ENCONTRO DE RESSEGURO
Mercado ressegurador brasileiro
afirma seu protagonismo
MARCO REGULATÓRIO, RISCOS
CLIMÁTICOS E TECNOLOGIA
MARCAM AS DISCUSSÕES SOBRE
O FUTURO DO MERCADO DE
SEGUROS NO BRASIL
Kelly Lubiato
O
Rio de Janeiro voltou a ser o centro
do debate ressegurador brasileiro.
Reunidos no Encontro de
Resseguro, organizado pela CNseg em
parceria com a Fenaber, líderes do setor,
reguladores e resseguradores colocaram
sobre a mesa as questões que mais pressionam
e, ao mesmo tempo, mais animam
quem atua nessa cadeia: um novo
marco regulatório ainda em processo de
assimilação, a urgência climática batendo
na porta das empresas, um mercado
global com excesso de capacidade e um
Brasil que, apesar de tudo, segue sendo
destino de interesse internacional.
A Lei Geral de Seguros (Lei 15.040),
em vigor desde dezembro de 2025, ainda
Alexandre Leal, Fernanda Guardado, Bruno Freire, Marc Lipman e Karsten Steinmetz
não passou pela revisão completa da Susep. Carlos Queiroz, diretor
responsável pela Supervisão Prudencial e de Resseguros da autarquia,
foi claro ao explicar que a expectativa é entregar a regulamentação
até o final de julho. Foram recebidas 200 propostas do mercado,
abrangendo pontos sensíveis como as regras para contratação,
as licitações e a atuação dos liquidantes de sinistros.
Para Queiroz, trata-se de uma fase importante, que precisa
ser conduzida com rigor para beneficiar todos os elos da cadeia. O
próximo passo é consolidar as análises técnicas e submetê-las ao
Conselho da Susep.
A nova legislação trouxe avanços concretos, entre eles a formalização
da mediação e da arbitragem como métodos extrajudiciais
de resolução de conflitos. Mariana Freitas de Souza, presidente
da CBMA, foi categórica ao defender a mediação como ferramenta
especialmente valiosa para o mercado de seguros, justamente porque
preserva as relações comerciais entre partes que negociam com
frequência entre si. “A mediação busca soluções consensuais entre
atores que continuarão sentados à mesma mesa”, resumiu.
A adaptação à nova legislação, no entanto, exigiu esforço de
toda a cadeia. Stephanie Fonseca, Deputy CEO da Guy Carpenter
e Head de Market Intelligence para a América Latina, enumerou
o que observou no mercado: revisão de processos internos, auditorias,
reformulação de formulários, melhorias na comunicação e
investimentos em integração de sistemas. Para ela, o resultado foi
positivo. “Vimos um profissionalismo muito forte em todos os elos
dessa cadeia”, disse.
28
Do lado das resseguradoras, Rafaela Barreto, presidente da
Fenaber, ponderou que o processo ainda está em construção. Existem
interpretações divergentes sobre exigências previstas na legislação,
o que exige cautela e aprofundamento técnico. O mercado,
como ela mesma disse, ainda atravessa uma fase de adaptação marcada
por incertezas.
Vera Carvalho Pinto, da Chubb, aproveitou para lembrar que
o resseguro é, por natureza, um mercado internacional. Ele não
sobrevive isolado. A necessidade de harmonização com práticas
e contratos globais é estrutural. “O mercado brasileiro reagiu com
muita maturidade a essas mudanças. Isso demonstra que já somos
um mercado mais moderno”, avaliou.
O BRASIL NO RADAR INTERNACIONAL
Rafaella Barreda, presidente da Fenaber, trouxe uma leitura
que merece atenção. O Brasil continua sendo um foco importante
para investidores internacionais, não por acaso, mas por razões
estruturais: dimensão territorial, população em processo de envelhecimento,
velocidade de inovação tecnológica e espaço para o
desenvolvimento de soluções inéditas. Os setores que mais devem
crescer, na sua avaliação, são os ligados à infraestrutura e à energia.
Ela foi direta ao explicar o papel específico do resseguro nesse
contexto: “Quando falamos de grandes projetos ou grandes riscos,
ou produtos que necessitam de capacidade financeira ou técnica,
aí sim o resseguro traz uma contribuição adicional para esse crescimento”.
O Brasil tem potencial imenso, mas ainda precisa aprender
a usar o resseguro como alavanca estratégica e não apenas como
exigência regulatória.
A executiva também chamou a atenção para uma mudança
de percepção que os eventos climáticos recentes, em especial as enchentes
no Rio Grande do Sul, impuseram ao mercado. O Brasil, que
historicamente era classificado como um país de baixa exposição a
catástrofes naturais, não pode mais se dar ao luxo dessa leitura. “Os
eventos climáticos estão mudando no mundo inteiro, aumentando
sua intensidade e capacidade de destruição”, advertiu.
O LADO DAS SEGURADORAS
O presidente da CNseg, Dyogo Oliveira, jogou luz sobre um
gargalo absolutamente crítico: a ausência de dados estruturados
sobre eventos climáticos no Sistema de Registro de Operações
(SRO). A CNseg está preparando um documento para encaminhar à
Susep com a proposta de incluir informações climáticas no sistema.
O diagnóstico é preocupante: hoje, o SRO não consegue identificar
se um sinistro ocorreu por enchente, alagamento ou vendaval. Sequer
é possível determinar se foi um evento climático que o causou.
Sem dados, não há modelagem. Sem modelagem, não há
precificação adequada. E sem precificação adequada, o mercado
fica exposto a surpresas desagradáveis, ou simplesmente recua de
coberturas que a sociedade cada vez mais precisa.
Dyogo também apontou outra deficiência: o Brasil possui
bons sistemas de previsão meteorológica de curto prazo, mas carece
de ferramentas capazes de antecipar cenários climáticos com
horizonte de seis a 18 meses. Para o resseguro, que trabalha com
Dyogo Oliveira, da CNseg
planejamento de longo prazo, essa lacuna
é estratégica.
Mas há otimismo. “Existe uma demanda
crescente da sociedade por proteção
contra riscos climáticos. Não só no
Brasil, mas no mundo inteiro. Essa é uma
grande oportunidade para o mercado”,
declarou o presidente da CNseg.
Sobre o seguro rural, Dyogo foi enfático
ao defender os três pilares da proposta
que a CNseg levou ao Congresso:
impedir o contingenciamento dos recursos
de subvenção, estruturar o Fundo de
Estabilização do Seguro Rural e ampliar a
troca de informações para a formação de
bases de dados. No período passado, dos
R$ 1 bilhão previstos em orçamento para
subvenção ao seguro rural em 2025, metade
dos quais foi contingenciada, o que
mostra a urgência do tema.
A GESTÃO ANTECIPATÓRIA DOS
RISCOS
Um dos painéis do evento reuniu
pesquisadores e representantes do governo
para discutir mudanças climáticas
e o papel do resseguro. José Marengo,
coordenador-geral de Pesquisa do Cemaden
e consultor da Organização Mundial
de Meteorologia, foi preciso ao descrever
o cenário: os eventos climáticos estão
mudando em frequência, intensidade e
distribuição geográfica.
Aloysio Lopes, Secretário Nacional
de Mudança do Clima, ressaltou a necessidade
de ampliar o acesso de diferentes
agentes econômicos a mecanismos de
29
EVENTO
ENCONTRO DE RESSEGURO
Claudia Prates, Aloisio Lopes, Glaucio Toyama, Lucca Rizzo e José Marengo
Rafaella Barreda, da Fenaber
proteção e financiamento. O governo
trabalha com um plano de adaptação robusto
e setorial, construído ao longo de
quase dois anos e meio, com prioridades,
metas e indicadores definidos. A convergência
entre política pública e instrumentos
privados de proteção, ele deixou
claro, é incontornável.
Lucca Rizzo, especialista em finanças
climáticas do ICS, trouxe a síntese que
talvez resuma melhor o espírito do painel:
é preciso abandonar modelos reativos e
avançar para uma gestão antecipatória
dos riscos. Sua afirmação sobre o papel
do seguro nesse contexto foi contundente:
“Não existe solução de financiamento
que não envolva o mercado de seguros.”
O exemplo do Caribbean Catastrophe
Risk Insurance Facility (CCRIF SPC)
foi apresentado como referência. O fundo
paramétrico regional do Caribe demonstrou, durante episódios
de furacões, que é possível disponibilizar recursos com muito mais
agilidade do que as estruturas tradicionais de financiamento permitem.
Esse modelo pode ser replicado no Brasil.
DISCIPLINA TÉCNICA EM SOFT MARKET
O pano de fundo econômico do evento não podia ser ignorado.
Marc Lipman, presidente do Lloyd’s América, deixou claro que
o mercado global opera hoje com excesso de capital e aumento de
competitividade. “As posições de capital estão mais fortes do que
nunca. Existe excesso de capacidade no mercado e isso naturalmente
aumenta a pressão sobre disciplina técnica”, disse.
Esse é o clássico dilema do soft market: com muita capacidade
disponível, a tentação de afrouxar critérios técnicos para ganhar
volume é real. Manter a disciplina nesse ambiente é o que separa os
players que terão longevidade daqueles que acumularão problemas
silenciosamente.
Bruno Freire, CEO da Austral Re, descreveu o ambiente como
um momento de transformações simultâneas: jurídicas, econômicas,
eleitorais e tecnológicas. “Ninguém sabe exatamente onde isso
vai chegar, mas certamente tudo vai mudar”, afirmou. A economista
Fernanda Guardado acrescentou a camada macroeconômica: a
expectativa da taxa Selic, que no início do ano apontava para 12%,
hoje se estabiliza em torno de 13%, com fatores externos gerando
pressão e incerteza.
Lipman foi além da questão de capacidade e destacou o que
considera o próximo grande tema da indústria: os riscos cibernéticos.
“Quando pagamos um sinistro, o risco já se materializou. O desafio
é minimizar os impactos antes dos sinistros acontecerem”, disse.
A atuação conjunta entre seguradores, resseguradores e sociedade,
para ele, é o único caminho para ampliar as coberturas e dar tranquilidade
aos clientes.
Os desafios são reais e complexos. A lacuna de dados climáticos
compromete a precificação. O soft market pressiona as margens
e as incertezas macroeconômicas e geopolíticas adicionam camadas
de imprevisibilidade.
30
EVENTO
INSURTECH BRASIL 2026
Da tendência à execução
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL,
NOVOS MODELOS
REGULATÓRIOS E
TRANSFORMAÇÃO
OPERACIONAL
DOMINARAM OS DEBATES
DO INSURTECH BRASIL
2026 E REFORÇARAM
A PERCEPÇÃO DE QUE
O SETOR ENTROU
DEFINITIVAMENTE
EM UMA NOVA FASE
DE MATURIDADE
TECNOLÓGICA
Nicholas Godoy
Daniel Matias, Luciana Amano, Ricardo Lisseri, Marcelo Biasoli e José Prado
A
transformação digital voltou a ocupar o centro das discussões
do mercado em mais um etapa do Insurtech Brasil ficial generativa tende a assumir um pa-
Nesse contexto, a inteligência arti-
2026, chegando a sua 9ª edição. Realizado no Expo Center
Norte, em São Paulo, o evento reuniu seguradoras, empresas de organizações. O especialista destacou o
pel cada vez mais estratégico dentro das
tecnologia, reguladores e especialistas para debater os desafios e avanço dos chamados agentes inteligentes,
capazes de interpretar linguagem
oportunidades de um setor que busca acelerar a adoção de novas
ferramentas sem perder de vista questões como governança, supervisão,
eficiência operacional e experiência do cliente.
sistemas e apoiar processos decisórios de
natural, executar tarefas, interagir com
Mais do que discutir tendências futuras, a edição deste ano forma mais autônoma.
trouxe à tona uma mudança de foco: o mercado começa a deixar
A conclusão foi que a tecnologia
para trás a fase de experimentação para concentrar esforços na implementação
prática dessas inovações.
complementar para se tornar parte da
deixará de ser apenas uma ferramenta
infraestrutura operacional, ou seja, mais
do que automatizar, a IA começa a alterar
a forma como as decisões são tomadas,
como os produtos são desenvolvidos e os
serviços são entregues ao consumidor.
ALÉM DO HYPE
A principal provocação do evento veio da palestra “Beyond the
Hype: Separating Opportunity from Noise in Insurance AI & Tech Trends”,
conduzida por Juan Mazzini, Global Head of Insurance da Celent.
Para o executivo, o setor segurador global vive um momento
decisivo em relação à inteligência artificial. Depois de anos marcados
por expectativas elevadas e projetos experimentais que em alguns
casos nem mesmo saiu do papel, a discussão começa a migrar
para uma agenda mais pragmática, focada em geração de valor e
transformação efetiva das operações.
Mazzini chamou atenção para o que classificou como “innovation
theater”, fenômeno em que empresas anunciam iniciativas inovadoras,
mas sem impactos concretos sobre produtividade e eficiência.
Segundo ele, o desafio agora é distinguir aquilo que representa valor
real do que permanece apenas no campo das promessas.
REGULAÇÃO MAIS DIGITAL
Na visão da Superintendência de
Seguros Privados (Susep), a transformação
digital extrapola a modernização
operacional das seguradoras e passa a
integrar uma agenda mais ampla de desenvolvimento
econômico e ampliação
da proteção da sociedade. Nesse contexto,
temas como eventos climáticos
extremos, baixa penetração do seguro e
31
EVENTO
INSURTECH BRASIL 2026
expansão da cobertura para novos segmentos
da economia passaram a ser tratados
em conjunto com a agenda.
Durante a palestra “Overview
Regulatório 2026: Perspectivas para
o Mercado de Seguros”, o superintendente
Alessandro Octaviani apresentou
iniciativas que vêm sendo conduzidas
pela autarquia para modernizar a supervisão
do setor e ampliar a eficiência
regulatória.
Entre os destaques estão a evolução
do Sistema de Registro de Operações
(SRO), com o recém lançado SRO 3.0,
o fortalecimento do Open Insurance, a
continuidade do Sandbox Regulatório e
a ampliação do uso de dados para monitoramento
das operações.
O momento serviu para preparar
o mercado para um ambiente cada vez
mais baseado em dados e interoperabilidade.
Sendo ótimo exemplo prático de
progressão, está o próprio sistema de registros
que, na visão da Susep, “passou a
desempenhar papel estratégico não apenas
para ampliar a eficiência operacional
das companhias, mas também para fortalecer
a supervisão e a capacidade de
resposta do setor diante de novos riscos”,
pontuou Octaviani.
Segundo o regulador, a transformação
digital exige uma mudança
equivalente na forma como o mercado
é supervisionado. “Migrar o mercado de
seguros para a era do Big Data exige também
migrar a fiscalização para essa nova
era”, disse.
Essa transformação já começa a
ser percebida na prática com a evolução
do SRO. A ampliação das exigências
de registro e integração de informações
vem impondo novos desafios operacionais
para seguradoras, registradoras e
fornecedores de tecnologia, reforçando a
importância da qualidade dos dados e da
interoperabilidade entre sistemas.
Essa discussão também foi aprofundada
durante o painel “Inovação
Regulatória”, que reuniu players de seguradoras
e corretoras para debater os
desafios trazidos pelo crescimento das
insurtechs, das MGAs e de novos modelos
de distribuição.
Henrique Volpi, Ricardo Gondim e Bruno Porte
Representando também a Susep, a diretora de Infraestrutura
de Mercado e Supervisão de Conduta Júlia Normande Lins
destacou que a própria autarquia vem passando por um processo
de adaptação diante das transformações do setor. Segundo ela, o
Sandbox Regulatório serviu não apenas como ambiente de testes
para empresas inovadoras, mas também como uma ferramenta
de aprendizado para o regulador. “O sandbox é uma caixinha de
areia para as empresas e talvez principalmente para o regulador”,
afirmou
Julia ressaltou ainda a importância da transparência e da definição
clara de responsabilidades dentro das novas estruturas digitais.
Para ela, à medida que surgem novos modelos de negócios, torna-se
fundamental garantir que o consumidor compreenda quem
responde por cada etapa da operação.
O debate também abordou o crescimento das MGAs, plataformas
digitais e novos modelos de distribuição. Para os participantes,
a expansão dessas estruturas amplia as possibilidades de acesso
ao seguro, mas exige maior clareza sobre responsabilidades, remuneração
e relacionamento com o consumidor, especialmente nos
momentos mais sensíveis da jornada, como a regulação de sinistros.
O OLHAR DAS LIDERANÇAS
Diante de tantos debates amplificados pelo Insurtech Brasil, a
visão do C-levels trouxe uma breve mensagem: de que a transformação
digital não depende apenas da adoção de novas ferramentas.
No painel “Tendências e Inovações na Voz das Lideranças do
Mercado”, executivos destacaram que o maior desafio do setor está
na capacidade de integrar inovação à estratégia corporativa e gerar
valor real para clientes e parceiros.
Para Marcos Couto, CEO da Alper Seguros, muitas aplicações
de inteligência artificial ainda se concentram em ganhos internos de
eficiência e o mercado ainda busca compreender como transformar
esses avanços em melhorias concretas na experiência do consumidor
e na distribuição de seguros. “A aplicação dessas soluções ainda
é baixíssima no mercado”, declarou.
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Para Ricardo Gondim, CTO da .add,
o avanço dessas tecnologias também altera
o perfil dos profissionais demandados
pelo mercado. Na medida em que
parte das atividades técnicas tende a ser
automatizada, ganham relevância competências
ligadas à comunicação, entendimento
de negócios e capacidade de
traduzir problemas complexos em soluções
práticas.
José Prado, Marcos Couto, Juan Mazinni e Alfredo Lalia Neto
Já Alfredo Lalia Neto, CEO da Sompo, defendeu que a discussão
sobre inteligência artificial precisa avançar da teoria para a
prática. Na avaliação do executivo, o cliente já não se impressiona
apenas com o discurso tecnológico e passa a exigir resultados visíveis
em produtos, serviços e atendimento.
A percepção compartilhada pelos participantes é de que o
futuro da inovação no setor dependerá menos da tecnologia em si
e mais da capacidade das organizações de promover mudanças culturais,
revisar processos e acelerar a execução.
QUANDO A IA CHEGA À OPERAÇÃO
A aplicação prática dessa soluções também foi tema do
evento. Representantes de seguradoras defenderam que a principal
transformação provocada pela IA não está apenas na geração automática
de código, mas na capacidade de acelerar ciclos completos
de desenvolvimento, reduzir tarefas repetitivas e permitir que profissionais
concentrem esforços em atividades de maior valor agregado.
A mudança, porém, vai além dos ganhos de produtividade.
À medida que atividades operacionais tendem a ser automatizadas,
ganham relevância competências ligadas à comunicação, compreensão
de negócios, contextualização de problemas e supervisão
dos processos executados por sistemas inteligentes.
Bruno Porte, CTTO da AXA no Brasil, relatou que a companhia
superou o ceticismo inicial em relação ao uso da IA em áreas como
programação, engenharia e design. Ele conta que as ferramentas
vêm sendo incorporadas gradualmente ao processo de desenvolvimento,
contribuindo para ganhos de eficiência e velocidade. “Precisamos
romper a barreira de acreditar que a IA poderia gerar eficiência
dentro da própria área de tecnologia”, comentou.
Já na Sompo, os impactos já aparecem de forma mensurável.
Daniel de Rosa, CIO, CTO e COO da seguradora, contou que projetos
que anteriormente exigiam cerca de cinco meses de trabalho de
uma equipe de oito pessoas, passaram a ser executados em aproximadamente
um mês, por apenas dois profissionais.
SEGUROS EMBARCADOS
Quando o seguro é oferecido no
momento certo, a chance de conversão
é muito maior. Os produtos massificados
e de menor valor agregado são os mais
apropriados para serem comercializados
nesta modalidade. Para Daniel Matias,
vice-presidente da Recarga Pay, é preciso
escolher o parceiro certo, que possua
o produto mais adequado ao seu público
e que ofereça um preço justo. “O produto
certo, na hora certa, proporciona um
churn baixo”. Como exemplo, ele citou o
produto oferecido em parceria com a Prudential,
cujo churn é menos de 20%.
A vice-presidente Head de Partnership
Distribution Latam da Prudential,
Luciano Amano, explicou que é desejável
lançar rapidamente um produto e depois
ir ajustando-o ao longo do caminho,
numa filosofia de startup. “Tínhamos um
produto em um parceiro cuja publicidade
falava muito sobre desemprego. Entretanto,
a maioria dos usuários era empreendedor”.
“Tudo acontece de forma muito rápida”,
acrescentou Marcelo Biasoli, Country
Manager da 123Seguro. “Os processos
precisam ser atualizados constantemente,
porque a dinâmica da mudança em
ciclos está muito agressiva”, avaliou. Para
que isso aconteça é necessário que seguradoras
e parceiros de tecnologia estejam
em sintonia.
De qualquer forma, neste cenário
de mudanças rápidas, as empresas devem
estar atentas à jornada do consumidor.
Apesar de ter uma oferta de produtos
maior, seu leque de opções também
crescerá. Quem souber utilizar os dados
disponíveis certamente terá vantagem
competitiva.
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EVENTO
TRINCA
Transformação digital redefine
a subscrição no mercado
corporativo de seguros
CLAYTON PALANDRANI FOI O PALESTRANTE DO ALMOÇO
DA TRINCA, QUE REUNIU EXECUTIVOS DA ÁREA DE
TECNOLOGIA DE SEGURADORAS E CORRETORAS
A
tecnologia deixou de ser um departamento de suporte
e passou a ocupar cadeira na mesa estratégica das
seguradoras. É o que revelam executivos do setor que
participaram do almoço promovido pela Trinca, parceira estratégica
dos times de tecnologia de seguradoras e corretoras, em São
Paulo, para debater como a transformação digital, com destaque
para a Inteligência Artificial, vem acelerando processos e aprimorando
a subscrição de riscos corporativos.
Para Artur Willig, Sócio e Diretor
Clayton Palandrani
O destaque do evento foi a palestra de Clayton Palandrani,
de Negócios da Trinca, o movimento é irreversível.
Na sua avaliação, as empresas
CIO & COO da Mitsui Sumitomo, cliente da Trinca, que traçou um panorama
detalhado da jornada digital da companhia. Em sua visão, a
mudaram e precisam internalizar a tecnologia,
“deixando de atuar de forma es-
área de tecnologia deixou de reagir às demandas das áreas de negócio
para assumir um papel ativo de proposição de soluções, atuando
de forma transversal nos níveis estratégico, tático e operacional.
o uso da IA, podemos incorporar algumas
tanque para um modelo dinâmico. Com
O diagnóstico que motivou a virada foi claro: o excesso de
mudanças que estão na ponta, transformando-as
em mudanças corporativas ro-
demandas nas áreas corporativas, especialmente em linhas como
garantia, transportes e responsabilidade civil, sufocava a capacidade
operacional da seguradora. “Às vezes, apenas 30% ou 40% das
questões que nos obrigam a olhar para
bustas com segurança e compliance. São
demandas recebidas conseguiam ser efetivamente entregues”, relatou
o executivo.
Gustavo Mayer, COO e co-fun-
soluções escaláveis.”
A resposta foi uma estratégia agressiva de digitalização construída
tendo a Trinca como parceira de tecnologia. A solução en-
gargalo que muitas organizações ainda
dador da Trinca, por sua vez, apontou o
contrada foi direcionar os negócios de menor complexidade para
não perceberam: a falta de preparo em
plataformas digitais, liberando as equipes especializadas para se
infraestrutura e arquitetura de dados. “O
concentrarem nas operações mais estruturadas e nos riscos complexos.
O movimento incluiu a criação de esteiras digitais para pro-
estarem preparadas para incorporar a IA.
principal desafio atual para as empresas é
dutos empresariais, transportes e responsabilidade civil, sempre
Muitas empresas talvez não saibam, mas
com foco na experiência do corretor, na autonomia operacional e
podem estar distantes de colher os benefícios
do uso da IA. O custo aumenta, mas
na inteligência de subscrição.
O resultado foi expressivo. “A estratégia permitiu transferir
o resultado não aparece”, alertou.
para o ambiente digital cerca de 60% a 70% das demandas recebidas,
enquanto os casos mais complexos permanecem sob análise
cultural como obstáculo silencioso. Para
Mayer também destacou a barreira
especializada das equipes técnicas. Os 30% restantes são utilizados
ele, as pessoas estão perdendo a janela
para entregar valor”, destacou Palandrani.
de oportunidade para adquirir letramento
A Inteligência Artificial entrou nessa equação como aliada
digital justamente no momento em que
direta dos subscritores. Ferramentas de IA passaram a processar
todos tentam entender e se adaptar ao
previamente as informações recebidas, priorizando riscos, analisando
perfis de operações e organizando dados para apoiar o trabalho
por criar espaços de experimentação den-
uso da IA. A solução, segundo ele, passa
das equipes técnicas. Os números validaram a aposta: em um ano,
tro das empresas, com ambientes seguros
a companhia dobrou sua capacidade de entrega de cotações e ampliou
a conversão de negócios.
dida e incorporada à rotina
onde a tecnologia possa ser testada, apren-
corporativa.
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