José sobre o “salto” da pintura para a fotografia

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José sobre o “salto” da pintura para a fotografia

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Perfil

Fotógrafos artísticos

José d’Almeida

e Maria Flores

Vencedores da Missão da edição passada, as suas imagens despertaram

a nossa curiosidade. Quisemos ver mais e quando demos por nós… tínhamos

mergulhado no mundo de sonho e fantasia onde vivem estes dois verdadeiros

artistas. Descubra este fantástico trabalho a quatro mãos!

Perfil

José é formado

em design e artes

gráficas e Maria é

formada em artes

plásticas.

● Fotografam juntos

há praticamente

dois anos, mas foi

a pintura que cruzou

os seus caminhos.

● Devido à profunda

confiança e grande

cumplicidade entre

os dois artistas, são

os próprios a dar vida

às suas personagens.

● O ano de 2009

será um ano de muito

trabalho para a dupla,

estando já agendada

uma exposição para

o dia 28 de Fevereiro

na galeria de arte

de S. Bento.

38 O Mundo da Fotografia Digital

Cada uma das suas imagens parece

retirada de uma peça de teatro ou de

uma pintura a óleo, onde todos os

detalhes são pensados ao mais ínfimo

pormenor. Apesar de não se

considerarem fotógrafos no sentido

mais técnico e fundamentalista da

palavra, é à fotografia que recorrem

para espelhar o seu “universus

oníricos” em forma de alegorias.

Conheça o percurso destes fotógrafos

e deixe-se apaixonar pelas suas

imagens, assim como nós o fizemos.

Tudo começou

com a pintura

Foi a pintura que fez com que

os percursos de Maria Flores e José

d’Almeida se cruzassem e, desde

então, e em conjunto, têm criado um

projecto que certamente mexerá

consigo. Ela por talento e formação

académica e ele por vocação na área

das artes gráficas e pura devoção,

criaram um mundo paralelo, onde

o sonho comanda a fotografia.

José d’Almeida nasceu em Lisboa,

em 1965, e considera-se um cidadão

do mundo, para quem a idade é um

estado de espírito e não um mero

resultado algébrico, ou uma soma

cronológica. Um verdadeiro homem

dos sete ofícios, formou-se em design

e artes gráficas e teve o seu trabalho

patente numa série de exposições

colectivas no âmbito da pintura

e do desenho. Tal como dizia Fernando

Pessoa, ”O ser poeta e escritor não

constitui profissão, mas vocação…”

assim se vê José perante a pintura, o

desenho e a fotografia. Como o próprio

revelou, encara os projectos quase de

uma forma catártica, religiosa, como

uma tentativa existencial de se

reencontrar com o mundo e com

o Deus que há dentro de cada coisa.

A sua pintura é agora construída com

luz “num irradiar… pulsar de ideias,

analogias, metáforas e sentimentos”.

José sobre o “salto” da pintura para a fotografia

“A pintura é agora construída com luz,

num pulsar de ideias, analogias, metáforas

e sentimentos.”


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Perfil

40 O Mundo da Fotografia Digital

O Mundo da Fotografia Digital 41


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Perfil

Página anterior (esquerda)

Procure o seu estilo – Moda

Na outra face da moeda está Maria

Flores, formada em Artes Plásticas

pela Faculdade de Belas-Artes

de Lisboa. Também ela colecciona no

currículo várias exposições de pintura.

“Na altura, o meu curso possibilitou-me

uma primeira abordagem ao mundo

da fotografia e ao seu potencial

plástico e expressivo.” Daqui nasceu

uma inquietude e o interesse pela

fotografia, tendo ficado de certa forma

latente a concretização de projectos

nesta área, por sobreposição à pintura.

“Por impulso do ciclo criativo, comecei

a subdividir o meu interesse mais

efectivo e afectivo pela fotografia

e, como tal, foram surgindo trabalhos

na área, alguns convergentes com

o género artístico pictórico já vividos

e plasmados na pintura, surgindo

assim como que por arrastamento

e extensão”, conta-nos Maria.

Página anterior (direita)

À espera de outra maré

Assim sendo, depois da pintura,

a fotografia surge como um elo

unificador na esfera das vidas

pessoais e no percurso dos dois

enquanto artistas plásticos,

projectando nas suas obras as suas

sensibilidades e visões pessoais

do mundo. Numa expectativa de

ganharem juntos o que perderiam

separados, procuram transmitir com

as suas imagens “sinceridade

e autenticidade, sem falsos pudores

ou preconceitos que, na verdade, só

estrangulam a criatividade”.

E a verdade é que as suas imagens

nos contam uma história, por vezes

dramática, irónica e objectiva, sendo

o objecto o elemento mais importante

da composição, estabelecendo a ponte

para o concreto. Entre representações

de pinturas, encenações de sátiras

sociais e conceitos, “os projectos

Em baixo

Par Deos

estão entre a fronteira ténue do onírico

(quase visionário) e a lucidez crítica,

onde é notório também o seu papel

intervencionista, política e socialmente

falando”, revelam-nos.

Certamente que a esta altura já

concluiu que os autores são os

próprios modelos das suas imagens,

e isso tem uma razão de ser... “Para

nós é mais fácil interpretar o papel do

que contratar um modelo para o fazer.

Nós sabemos exactamente as

posturas e expressões que queremos

e nem sempre é fácil transmitir essa

ideia a um modelo. Desta forma

preferimos ser nós a fazê-lo”,

confessa-nos José, sublinhando ainda

que a cumplicidade entre ambos é

o segredo do seu sucesso. “Por vezes

nem precisamos dizer nada. Basta

um olhar para percebemos tudo.”

Algumas das fotos de José e Maria

Em cima

Dar graxa ao cágado

foram criadas no exterior e, para esta

dupla, é um prazer “chegar ao espaço

e deixar fluir as energias que se

desprendem dele e, depois… sentir

o clique de algo que escapa e que,

por vezes, está acima da própria razão,

numa força intuitiva contínua; e aí

surgem as ideias… as fotos”.

O trabalho de estúdio vem quando

as impossibilidades físicas, temporais

e atmosféricas se impõem. Aí o registo

muda. “Não gosto de esperar pela

fotografia… gosto de concebê-la,

criá-la, é um “pensar e sentir com

as mãos”, o que implica um “sacrifício”

quase sempre gratificante, hilariante

e lúdico na concepção dos adereços

e objectos. Exemplo disso é a série

“Auto da Barca” (ver página oposta)

onde há um trabalho preparatório de

criação de objectos/adereços (barca

em cartão prensado com colagem

de textos, cordame, mastros). “Vai-se

construindo, digamos, uma instalação

preparatória e paralela à própria

fotografia, com elementos reais,

em espaço e tempo, de forma a darem

sentido ao momento fotográfico”,

conta-nos Maria, que quase sempre

recorre à reciclagem de materiais para

criar os seus adereços, em que “o que

se considera lixo, assume uma vida

e um sentido renovados”.

Estilo? José e Maria não conseguem

encontrar um estilo que os defina

enquanto artistas. “O nosso trabalho

é tão diversificado e heterogéneo

que seria difícil encontrar um rótulo

traduzível e definitivo.”

A técnica

Não só por opção, mas também devido

a outras vicissitudes, José e Maria

começaram o seu projecto a trabalhar

com uma Sony Cyber-shot W50,

que durante muito tempo foi a sua

companheira e extensão do seu

próprio olhar. “Ela, o seu temporizador

José e Maria sobre o seu estilo

“O nosso trabalho é tão diversificado e heterógeneo que será

difícil encontrar um rótulo traduzível e definitivo que nos defina.”

42 O Mundo da Fotografia Digital O Mundo da Fotografia Digital 43


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44 O Mundo da Fotografia Digital

À esquerda

Carta 101 - Vicius

e um tripé foram os testemunhos

intervenientes em quase todo o nosso

trabalho.” No entanto, devido

às exigências do mercado e pela

necessidade de projectar o seu

trabalho para um formato maior,

adquiriram recentemente uma Canon

EOS 400D com uma objectiva

18-55 mm. Mas para os dois artistas

os conteúdos sobrepõem-se aos

meios. “O nosso trabalho começa

muito antes da máquina fotográfica

e, talvez, o menos importante seja

o momento do disparo. Embora tenha

muito peso no trabalho fotográfico,

um bom equipamento, sofisticado

e de ponta, não é suficiente para

conseguir uma boa fotografia.”

Para obter boas imagens, José

e Maria elegem um protagonista de

destaque na fotografia: a luz natural

e as suas condicionantes. “Haver ou

não luz, esperar o momento certo ou

o facto de ela se esgotar subitamente

é muito importante. Já nos aconteceu

diversas vezes estar um dia a preparar

um cenário e quando tudo está pronto

para fotografar já não temos luz”,

relembram os artistas.

De forma a colmatar as falhas

evidentes, os artistas recorrem

à câmara escura digital, às maravilhas

do Photoshop CS2. Outra das recentes

aquisições da dupla foi um disparador

remoto que se veio a relevar

Em cima

Tríptico Meya Culpa

fundamental para minimizar situações

caricatas e muitas vezes… divertidas.

“Ter apenas dez segundos para activar

o temporizador e ir a correr para

a frente da câmara com umas

barbatanas enfiadas nos pés

(ver imagem na página 41) deixou

de ser um problema para nós”,

recordam, divertidos.

Projectos

O ano de 2009 é sinónimo de trabalho

para os dois fotógrafos. Para já, está

agendada uma exposição na galeria de

arte de S. Bento, que estará patente

entre o dia 28 de Fevereiro e finais de

Março, e continuarão a colaborar com

o Centro Português de Serigrafia (CPS)

com edições numeradas dos seus

trabalhos. “É de louvar o empenho

desta associação no trabalho em prol

da cultura e a sua atitude cordial

e respeitosa ao abrir as suas portas

ao nosso mundo da fotografia”,

reconhecem José e Maria.

Paralelamente, irão decorrer

exposições de pintura de Maria Flores,

tendo como base as próprias

fotografias (entre 17 de Janeiro

e 18 de Fevereiro, na galeria

do casino Estoril).

Independentemente do sucesso do

seu trabalho, ambos reconhecem que

este não é um género fotográfico muito

fácil em Portugal. “As pessoas gostam

Equipamento

Perfil

José d’Almeida e Maria Flores

começaram a fotografar com uma

compacta Cyber-shot W50 da Sony,

que durante cerca de dois anos

registou as primeiras imagens da

dupla. Por força das circunstâncias

e para poderem projectar os seus

trabalhos para um formato maior,

adquiriram uma Canon EOS 400D com

uma objectiva 18-55 mm. Utilizam

também um cabo disparador para

terem tempo de preparar as suas

poses. Para fazer a edição das

imagens, Maria e José utilizam

o Adobe Photoshop CS2.

O Mundo da Fotografia Digital 45


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46 O Mundo da Fotografia Digital

Keep silent during the dream

À esquerda

Espelho meu, espelho meu...

Haverá maior anseio que o meu?

de imagens simples, directas, belas

e que não as obrigue a passar muito

tempo a tentar decifrar a mensagem

que se tenta transmitir”,

reconhecem José e Maria.

Apesar de se considerarem ainda

a “auto-gatinhar” pela fotografia,

pedimos aos autores que dessem

alguns conselhos a quem está agora

a dar os primeiros passos.

“Lembrem-se sempre que a verdadeira

protagonista e criadora da fotografia

é a luz e que, em fotografia, um minuto

antes ou um minuto depois pode fazer

toda a diferença entre o sucesso

e o fracasso”, afirmam, acrescentando

que “não nos devemos colocar,

a priori, envoltos em conceitos,

preconceitos e pudores. Não devemos

ter receio de errar, de sujarmos

os fundilhos, sujar os pés descalços.

Sermos nós mesmos em toda a nossa

autenticidade possível, conseguirmos

estar em estado de grau zero, calar

a mente, criar um vazio que só ele

pode conter e em que só nele

poderemos escutar a voz que

em nós dorme.”

Quando relembrámos os sacrifícios

que muitos fotógrafos fazem pela

fotografia, somos brindados com uma

verdadeira lição de vida, com que

encerramos este artigo sobre este par

de artistas cuja personalidade nos

encantou: “o sacrifício e o trabalho

contínuo são o caminho e a força que

pode produzir e se traduzir em

resultados gratificantes, devendo estar

sempre presente que, para chegar

ao oásis, temos de passar pelo

deserto. Não devemos perder o alento

com eventuais fracassos; eles são

uma constante que se verifica até no

percurso dos grandes fotógrafos”.

Inspire-se

As dicas de

José e Maria

Perfil

● Procure o seu estilo, siga a sua

intuição, pense com o coração

e liberte o seu lado criativo.

● Quem não aparece não é visivel,

não existe. Divulgue o seu trabalho,

não tenha receio.

● A câmara e a técnica estão

ao nosso serviço e não o contrário.

Não seja inteiramente escravo

da técnica.

● Procure alargar ao máximo a sua

cultura visual.

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