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Reforma Agraria socialista confiscatoria

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Operaç6es pega-fazendeiro" e<br />

"mutlrGes contra a Jagunçada"<br />

Frei Clodovis Boff, assessor pastoral do Bis,<br />

do Acre e Purus e presidente nacional da CPT. r<br />

Moacir Grechi. apresenta, de maneira por ass1n<br />

dizer didática. em artigo na MRevista Eclesiástica<br />

Brasileira", a tensão e a violência promovida pelas<br />

CEBs nas fazendas e seringais acreanos ( 1 ).<br />

Com o objetivo de "mostrar a forma concrerc<br />

que ruma a jé nas CEBs em termos de mobili<br />

zação libertadora", o Religioso servita conta ?<br />

guns casos. O próprio modo de ele se referir a t<br />

casos já diz muito: Moperaçio pega-fazendei<br />

Mmutirio contra a jagunçada" .. .<br />

" 1: tal a gravidade dos fatos narraclA<br />

-eu mais conveniente transcrever -,d<br />

de Frei C. Boff: ··<br />

A Conferência Nacional<br />

dos Bispos do m<br />

Brasil (ou melhor: seu da<br />

presidente, dom Ivo linh<br />

Lorscheiter) acha que do<br />

tudo já mudou: "Sub- radi<br />

versivo agora é quem for tes,<br />

contra a reforma agrá- Con<br />

ria". Mas quer mudar Tr<br />

mais ainda na reforma, li<br />

para acabar de uma vez<br />

com os latifúndios,<br />

'mesmo produtivos, a


Plinio Corrêa de Oliveira<br />

Carlos Patricio dei Campo<br />

A PROPRIEDADE PRIVADA<br />

E A LIVRE INICIATIVA,<br />

NO TUFÃO AGRO-REFORMISTA<br />

Editora Vera Cruz


\ \.


A PROPRIEDADE PRIVADA<br />

E A LIVRE INICIATIVA,<br />

NO TUFÃO AGRO-REFORMISTA<br />

I<br />

Plinio Corrêa de Oliveira<br />

A REFORMA AGRÁRIA<br />

SOCIALISTA E CONFISCATÓRIA<br />

Considerações doutrinárias<br />

II<br />

Carlos Patricio dei Campo<br />

A REFORMA AGRÁRIA<br />

SOCIALISTA E CONFISCATÓRIA<br />

Considerações econômicas


EDI'JORA VERA CRUZ LTDA.<br />

Rua Dr. Martinico Prado 246<br />

01224 - São Paulo<br />

Julho de 1985<br />

Fotocomposição direta a partir de arquivos da<br />

Editora ~ra Cruz e fotolitos<br />

Bandeirante S.A. Gráfica e Editora<br />

Rua Mairinque 96 - São Paulo<br />

Impressão e acabamento<br />

CLY - Companhia Lithografica Ypiranga<br />

Rua Cadete 209 - São Paulo<br />

Fotos<br />

Capa: Plantação: "Manchete''; Frei Clodovis<br />

Boff: '~gência Folhas"; D. Tuodardo Leitz e D.<br />

Ivo l..orscheiter: Bruno Santarelli .<br />

.Quarta capa: Nossa Senhora Aparecida e Caravana<br />

da TFP: Ângelo Randazzo; "Grito do lpiranga'':<br />

Museu Paulista da USP - Óleo de Pedro<br />

Américo; Embaixada soviética: Bruno<br />

Santarelli.<br />

Produção<br />

Capa e quarta capa: Ângelo Randazzo.


Dedicatória<br />

A São Francisco de Assis<br />

- ''il Poverello" -<br />

especial patrono dos pobres,<br />

este livro escrito com<br />

todo desvelo, pelos<br />

direitos e pelo bem-estar<br />

de pobres e ricos.<br />

Defende ele a<br />

propriedade privada e a<br />

iniciativa individua,<br />

na persuasão de que,<br />

extinta uma e outra, pobres<br />

e ricos descambarão juntos<br />

no precipício do comunismo,<br />

''vergonha de nosso tempo"<br />

(Cardeal Ratzinger,<br />

''Instrução sobre alguns<br />

aspectos da ''leologia da Libertação' ,,,<br />

em que só há miseráveis.


Ao leitor<br />

No momento em que A propriedade privada e<br />

a livre iniciativa, no tufão agro-reformista sai a lume,<br />

estende-se pelo País a agitação rural. Bandos<br />

organizados, não raro sanguinários, invadem as terras<br />

pertencentes a particulares. Aqui e acolá proprietários,<br />

cansados de apelar inutilmente para as<br />

autoridades competentes, se proclamam reduzidos<br />

à contingência de defender por si próprios seus<br />

direitos.<br />

Precisamente nesse momento pode parecer de<br />

pouco alcance prático a publicação de um livro escrito<br />

com o propósito de esclarecer os leitores sobre<br />

a legislação agrária vigente, sobre o sentido radicalmente<br />

igualitário que inspira o movimento<br />

agro-reformista, e começa até a contagiar alguns estudiosos<br />

dos problemas do solo urbano, tendendo,<br />

em última análise, a sujeitar o Brasil a um regime<br />

inteiramente oposto à propriedade privada e à livre<br />

iniciativa.<br />

Pelo contrário, todas essas circunstâncias dão<br />

à presente obra uma atualidade flagrante.<br />

Com efeito, por maior que seja a extensão dos<br />

movimentos de violência agro-reformistas, uma parte<br />

consideravelmente majoritária do território nacional<br />

ainda não está infestada pelas invasões. E,<br />

entretanto, a ela chega, de todos os quadrantes, a<br />

insólita notícia de que nosso pacífico País está sendo<br />

tumultuado por invasores de propriedades individuais,<br />

os quais procuram justificar suas investidas<br />

tomando por base toda uma fundamentação doutrinária,<br />

prestigiados, quando não incitados, por<br />

personalidades eclesiásticas e orga,nizações religiosas,<br />

ante o olhar indolente dos Poderes estatais!<br />

Tudo isto leva os brasileiros, e notadamente os<br />

agro-proprietários, a se interrogarem sobre a validade<br />

dos direitos que sempre tiveram por indiscutíveis<br />

e viram respeitados por toda a sociedade.<br />

Ajudar os agro-proprietários a manter inabalável<br />

a consciência desses direitos é condição indispensável<br />

para que queiram e saibam defendê-los<br />

com a prudência e a energia que a hora presente<br />

reclama, para o bem não só deles próprios como<br />

do Brasil.<br />

Só desse modo a ação coesa dos proprietários,<br />

ponderada, firme e clarividente, terá possibilidade<br />

de fazer sentir, de modo persuasivo e por vias legais,<br />

que na sua imensa maioria os proprietários<br />

rurais discerniram o perigo que ronda em tomo deles,<br />

e reclamam das autoridades competentes todas<br />

as medidas urgentemente necessárias para que cesse<br />

esta situação.<br />

IX


Quando o País inteiro vai entrando nas grandes<br />

controvérsias sobre matérias doutrinárias, técnicas<br />

e outras, preparatórias da eleição dos constituintes<br />

da Nova República, este livro de defesa da<br />

propriedade individual e da livre iniciativa - e das<br />

respectivas funções sociais - escrito com base nos<br />

ensinamentos tradicionais do Supremo Magistério<br />

Eclesiástico, só pode ser útil.<br />

Acresce que o agro-igualitarismo reformista vai<br />

conseguindo avançar pelo impulso de grupos articulados<br />

de agressores, apoiados, nos grandes centros<br />

urbanos, por intelectuais de esquerda servidos<br />

por incontáveis órgãos de comunicação social, através<br />

dos quais difundem para todo o País sua<br />

propaganda.<br />

Conseguem eles assim criar a ilusão de que os<br />

proprietários rurais constituem uma classe isolada<br />

da massa do País, e impostada exclusivamente na<br />

defesa egoística de seus discutidos direitos e<br />

liberdades.<br />

Assim, por exemplo, D. Ivo Lorscheiter, presidente<br />

da CNBB, criticou os empresários brasileiros<br />

que se opõem ao Plano Nacional de <strong>Reforma</strong><br />

Agrária proposto pelo atual Governo, afirmando<br />

que "sua resistência é indevida e indiferente à sensibilid'f'1e<br />

social" ("Jornal do Brasil", 27-6-85).<br />

E bom que estudiosos inteiraménte desvinculados<br />

dos interesses dos agro-proprietários, e com<br />

uma longa folha de serviços prestados na luta antiagro-reformista,<br />

chamem a si mais uma vez a tarefa<br />

de mostrar ao País que assim não é.<br />

Essa tarefa inclui a demonstração de que a propriedade<br />

fundiária se baseia nos inalteráveis princípios<br />

cristãos, e dispõe de toda uma larga justificação<br />

doutrinária que tem o direito de se fazer ouvir<br />

de modo altissonante, no ambiente nacional· ,<br />

bem como a demonstração de que é hora de defender<br />

tal direito, dentro da lei.<br />

A deixar passar esta hora, é de se temer que<br />

o Brasil caia na miséria que assola todos os países<br />

nos quais impera o igualitarismo total. Miséria que<br />

o Cardeal Joseph Ratzinger, Prefeito da Sagrada<br />

Congregação para a Doutrina da Fé, não hesitou<br />

em qualificar recentemente de "vergonha do nosso<br />

tempo,, (Instrução sobre alguns aspectos da '"Ieologia<br />

da Libertação'; Sagrada Congregação para a<br />

Doutrina da Fé, 6-8-84).<br />

Uma santa e forte inconformidade com essa<br />

perspectiva, é dever de todo brasileiro. Oxalá consiga<br />

A propriedade privada e a livre iniciativa, no<br />

tufão agr


,<br />

lndice<br />

I<br />

A <strong>Reforma</strong> Agrária <strong>socialista</strong> e confiscatória<br />

- Considerações doutrinárias<br />

Prólogo<br />

Liberdade dentro da lei· um direito da TFP. 5<br />

Parte I<br />

Análise de conjunto do ET e do PNRA..... 7<br />

Capítulo I - O debate nacional sobre o<br />

PNRA ................................................... 9<br />

J. O Congresso, simples "caixa de ressonância" 9<br />

2. Procedimento em desacordo com a abertura<br />

política ................ .............................. 10<br />

3. Outra condição para a autenticidade do debate:<br />

o conhecimento dos motivos que fundamentam<br />

os propósitos governamentais .......<br />

li<br />

4. Aspectos morais controvertidos na temática .<br />

agro-reformista..................................... li<br />

5. Inoportunidade da controvérsia nacional sobre<br />

a <strong>Reforma</strong> Agrária - crise na Igreja -<br />

o caso da Teologia da Libertação............. 12<br />

6. No Brasil em crise, a presença semilegalizada<br />

do comunismo - A CNBB, a mais influente<br />

força propulsora agro-igualitária do País .... 13<br />

7. A TFP cone/ama à estabilidade e à paz..... 14<br />

8. O País não quer a <strong>Reforma</strong> Agrária <strong>socialista</strong><br />

e conf,scatória . . . . . . .. . . . . . .. .. . . . .. . . . . . . . . . . .. . . . 14<br />

9. Face ao Estatuto da Terra, a voz isolada da<br />

TFP se ergueu .. . . .. .. .. .. .. .. . . .. .. .. .. .. .. .. .. .. . 15<br />

10. Um véu prudencial sobre o radicalismo do ET<br />

e do PNRA ........................................ 16<br />

Capítulo II - A propriedade privada e a livre<br />

iniciativa face ao ET e ao PNRA ....... . 17<br />

1. Das perguntas capitais .. ..... .. .. .. .. .. .. ........ 17<br />

2. A situação agrária brasileira: pensamento da<br />

TFP.................................................. 17<br />

A. Produção satisfatória da agricultura<br />

brasileira....................................... 18<br />

B Defeitos na estrutura........................ 18<br />

C A situação dos trabalhadores rurais .. ... 18<br />

D. A fragmentação em propriedades de dimensões<br />

familiares: uma panacéia? .. .... 18<br />

E. Grande, média e pequena propriedade, para<br />

cada qual um papel na agricultura... 18<br />

R Quando é aconselhável a pequena<br />

propriedade.................................... 19<br />

G. O Estado, senhor de latifúndio fabuloso 19<br />

H. ~nju~tip~s da desapropriação agro-<br />

1guahtar,a...................................... 19<br />

L O agro-igualitarismo <strong>socialista</strong> ............ 20<br />

XI


3. Propriedade privada, expropriação e indenização:<br />

a doutrina social católica explanada nas<br />

obras da TFP...................................... 20<br />

4. Debate oco e inconcludente - o Governo só<br />

dá conhecimento ao público de parte de seus<br />

motivos.............................................. 20<br />

5. Livre iniciativa: o direito de usar, em favor de<br />

si mesmo, a inteligência, a vontade e a sensibilidade<br />

próprias . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 21<br />

6. Livre iniciativa e princípio de subsidiariedade 22<br />

7. ET, PNRA e livre iniciativa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 22<br />

8. A faml1ia em crise, frágil apoio da propriedade<br />

familiar.......................................... 23<br />

9. Bem comum e direito dos pobres, na perspectiva<br />

dos agro-reformistas e na da TFP....... 24<br />

10. A proteção do Estado, um direito que também<br />

os empregadores possuem....................... 25<br />

Capítulo III - ET e PNRA na convulsão<br />

agrária brasileira...................................... 27<br />

J. O utopismo igualitário do ET e do PNRA. 27<br />

2. Uma seqüência de acontecimentos já em curso<br />

no Brasil desde o período Jango .......... 28<br />

3. A conquista do Poder pelos utopistas do<br />

igualitarismo ....................................... 28<br />

4. Para a conquista do Poder, um recrutamento<br />

feito por etapas.................................... 28<br />

5. Instrumentalização do Poder conquistado para<br />

a implantação das reformas igualitárias...... 29<br />

A. A Propaganda................................ 29<br />

B. A Força ........................................ 30<br />

C A Burocracia.................................. 30<br />

6. Afinidades do quadro descrito, com a situação<br />

brasileira....................................... 30<br />

7. Uma explicação que é do domínio da História 31<br />

Capítulo IV - O ET, árvore daninha da qual<br />

o PNRA é apenas um fruto nocivo........... 33<br />

J. Rejeição do PNRA sem revogação do ET? 33<br />

2. O ET institui as desapropriações coef,scatórias 34<br />

A. O INCRA impõe o valor da indenização 34<br />

B. Por le~ o valor não pode superar o declarado<br />

para efeitos do imposto territorial<br />

rural............................................. 34<br />

C O valor da indenização será pago em títulos<br />

da dívida pública ..................... 35<br />

D. Os bens expropriados não podem ser objeto<br />

de reivindicação ........ .. .. .. .. .. .. .... 35<br />

3. Que é um imóvel não sujeito à expropriação?<br />

Em que condições subsiste ele?................ 35<br />

4. O INCRA, o grande patrão da terra brasileira 37<br />

5. "Tensão social" e "zonas críticas" como causas<br />

de <strong>Reforma</strong> Agrária......................... 37<br />

6. O ET, uma verdadeira espada de Dâmocles 38<br />

Parte II<br />

No PNRA, socialismo x propriedade privada,<br />

autogestão x livre iniciativa - Alguns<br />

comentários ....... ................. ....... .. .. .. ....... 41<br />

Secção A. <strong>Reforma</strong> Agrária, um sacrifício certo<br />

e ingente, para obter uma vantagem incerta<br />

e vácua, à custa de riscos<br />

vertiginosos . . . .. .. . . . . . . . . . . . .. . . . . .. .. . .. 43<br />

Secção B.<br />

O utopismo agro-igualitário, fundamento<br />

filosófico-jurídico do PNRA . 47<br />

Secção C Em vez de aproveitar as terras ociosas<br />

da União, o PNRA impõe quase todo<br />

o peso da <strong>Reforma</strong> Agrária sobre os<br />

proprietários de terras particulares,<br />

visando-as prioritariamente como<br />

áreas de expropriação................... 53<br />

Secção D. Para "solucionar" os conflitos agrários,<br />

o Poder público se associará aos invasores,<br />

"assentando-os" nas terras arrancadas<br />

à força aos proprietários....... 59<br />

Secção E. O "assentamento': uma nova figura jurídica<br />

na qual o "assentado" se torna<br />

mero posseiro e usuário da terra; o direito<br />

de propriedade fica sendo do Poder<br />

público... ou deixa de existir . . .. . 63<br />

Secção R<br />

Burocracia ideologizada e gastos faraônicos<br />

para efetivar a utopia da •~ra de<br />

ouro" sonhada pelo PNRA como resultado<br />

da <strong>Reforma</strong> Agrária .. . .. . . . . . 79<br />

Secção G. Abalado o Estado de direito: pressões<br />

sobre todas as instâncias e órgãos do<br />

Poder público, especialmente o Poder<br />

judiciário, para fazer prevalecer o estranho<br />

conceito de "justa indenização"<br />

nas expropriações do PNRA.......... 97<br />

Conclusão<br />

Em vez de uma <strong>Reforma</strong> Agrária imposta autoritariamente<br />

e contrária à abertura, uma ampla<br />

consulta popular que exprima os desejos<br />

do País.................................................. 103<br />

Breve resenha das principais tomadas de posição<br />

da TFP em favor do direito de<br />

propriedade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 107<br />

XII


II<br />

A <strong>Reforma</strong> Agrária <strong>socialista</strong> e confiscatória<br />

- Considerações econômicas<br />

Introdução.............................................. 115<br />

Capítulo I - A atual estrutura agrária é legítiina,<br />

condizente com as características econômicas<br />

do País, e vem trazendo grandes benefícios<br />

para a Nação .............................. ... 117<br />

J. Nas últimas décadas houve significativo aumento<br />

na difusão da propriedade da terra.. 118<br />

2. A atual distribuição da propriedade da terra<br />

é fruto natural das características econômicas<br />

do Brasil e da política econômica seguida em<br />

relação ao setor agropecuário . . . . . . . . . . . . . . . . . . 120<br />

A. A terra como reserva de valor............ 120<br />

B. A terra como recurso produtivo.......... 121<br />

C Algumas ponderações....................... 121<br />

3. A atual estrutura agrária tem contribuído significativamente<br />

para o progresso e desenvolvimento<br />

do Brasil................................. 121<br />

A. Parte ponderável da renda agrícola foi<br />

transferida para financiar o desenvolvimento<br />

industrial e comercial . . . . . . . . . . . . . . 122<br />

B. O setor rural vem contribuindo com mais<br />

de 50% das divisas para financiar as<br />

importações . . . . . . . . . . . . . . . . . . • . . . . . . . . . . . . . . . . 122<br />

C A produção agrícola. e a de alimentos em<br />

particular, tem crescido mais do que a<br />

população...................................... 122<br />

D. O setor agrícola e os problemas sociais da<br />

população brasileira . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 123<br />

E. Sombras no quadro e conclusão . . . . . . . . . 125<br />

4. Latifúndio improdutivo: invenção tecnocrática<br />

e pretexto <strong>socialista</strong>........................... 127<br />

A. Latifúndio improdutivo: uma possível forma<br />

eficiente de ser produtivo . . . . . . . . . . . . . 127<br />

B. É nocivo para o País que os fazendeiros<br />

não trabalhem toda a terra aproveitável de<br />

que são donos?............................... 129<br />

C Conclusão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 129<br />

5. A pequena propriedade. também expropriável<br />

pelo PNRA......................................... 129<br />

6. A crise alimentar: um mito a serviço da <strong>Reforma</strong><br />

Agrária . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 131<br />

A. A produção mundial de alimentos....... 131<br />

B. Fome e produção de alimentos . . . . . . . . . . . 131<br />

Capítulo II - A <strong>Reforma</strong> Agrária: uma falsa<br />

solução .............................................. 133<br />

1. O PNRA: innão das Refonnas Agrárias latinoamericanas..........................................<br />

133<br />

2. A <strong>Reforma</strong> Agrária do PNRA: "massiva e<br />

vigorosa"....... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 135<br />

3. Conseqüências da aplicação do Estatuto da<br />

Terra................................................. 136<br />

A. A <strong>Reforma</strong> Agrária prejudicaria a eficiência<br />

e a produtividade na agropecuária.. 137<br />

B. A <strong>Reforma</strong> Agrária implantaria o socialismo<br />

na vida rural e destruiria as bases<br />

do sistema econômico vigente............. 137<br />

4. A Refonna Agrária na América Latina: um<br />

carrossel de fracassos............................. 139<br />

EL SALVADOR................................... 140<br />

CHILE .............................................. 141<br />

PERU ............................................... 142<br />

MÉXICO ........................................... 144<br />

5. E a <strong>Reforma</strong> Agrária no Nordeste?........... 145<br />

6. Então. por que <strong>Reforma</strong> Agrária?............. 147<br />

Capítulo III - A verdadeira solução para os<br />

problemas econômicos e sociais do campo . 149<br />

1. Medidas destinadas a reduzir o risco e aumentar<br />

a produção..................................... 149<br />

A. Revogar o Estatuto da Terra . . . . . . . . . . . . . . 149<br />

B. Neutraliwr a agitação rural organiwda. 150<br />

C Promover a regulariwção fundiária...... 150<br />

D. Criar mecanismos de seguro agrícola e<br />

preços mínimos, que diminuam os riscos<br />

da produção comercial...................... 151<br />

E. Tomar medidas para despenalizar a<br />

agropecuária . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . 151<br />

· 2. Medidas destinadas a melhorar a produtividade<br />

e a renda do trabalhador rural . . . . . . . . . . . . 151<br />

A. Aperfeiçoar a legislação trabalhista . . . . . . 151<br />

B. Aperfeiçoar a legislação que regula as relações<br />

contratuais entre o dono da terra<br />

e o produtor rural sem terra . . . . . . . . . . . . . . 151<br />

C Criar condições dentro do mercado de capitais<br />

para a aquisição de terras com financiamento<br />

a longo prazo................ 152<br />

XIII


D. Executar uma política adequada de pesquisa,<br />

assistência técnica e extensão rural,<br />

especialmente para os setores produtores<br />

de baixa renda................................ 152<br />

E. Ampliar e incentivar os planos educacionais<br />

para o homem do campo............ 152<br />

3. Medidas destinadas a incentivar o aproveitamento<br />

dos recursos naturais inexplorados . . . 152<br />

A. FOQ!r um levantamento minucioso das terras<br />

devolutas e favorecer a sua coloniwção 152<br />

B. Promover a irrigação no Nordeste....... 153<br />

Sumário e conclusões............................... 155<br />

1. Objetivo e método do presente estudo....... 155<br />

2. Teses essenciais do PNRA e as respostas correspondentes<br />

do presente estudo............... 155<br />

A. Acesso à terra................................. 155<br />

B. Aproveitamento da terra .. .. .. .. .. .. ..... .. 156<br />

C Os benefícios que a atual estrutura agrária<br />

tem trazido ao País .. .. .. .. .. ........... 156<br />

D. Os problemas sociais existentes........... 156<br />

E. Os objetivos da <strong>Reforma</strong> Agrária........ 156<br />

F. Medidas de política agrária................ 157<br />

3. Uma consideração final .. .......... .. ..... ...... 157<br />

Anexo I - A difusão da propriedade da terra<br />

e sua relação com a população empregada<br />

na agropecuária ...... .. .. .. .. .. ......... .. .. .. .. .. ... 159<br />

1. População empregada no campo.............. 159<br />

2. População ocupada apta a se tornar<br />

proprietária......................................... 160<br />

3. A porcentagem de proprietários ............... 160<br />

Anexo II - 350 milhões de hectares de terras<br />

devolutas na fronteira agrícola .................. 162<br />

J. Disponibilidade de terras........................ 162<br />

2. Aptidão agrícola das terras da Amazônia<br />

{fronteira recente) .. .. .. .. .. .. .. .. .. ........ .. ..... 163<br />

3. Uma observação final............................ 164<br />

Notas..................................................... 165<br />

XIV


Plinio Corrêa de Oliveira<br />

Nasceu em São Paulo, em 1908. Diplomado pela<br />

Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo,<br />

destacou-se desde a juventude como orador, conferencista<br />

e jornalista católico. Um dos fundadores<br />

da Liga Eleitoral Católica, foi o deputado mais<br />

votado do País para a Assembléia Constituinte federal<br />

de 1934.<br />

Professor de História da Civilização no Colégio<br />

Universitário da Universidade de São Paulo, bem<br />

como de História Moderna e Contemporânea nas<br />

Faculdades São Bento e Sedes Sapientiae da Pontifícia<br />

Universidade Católica de São Paulo. Foi Presidente<br />

da Junta Arquidiocesana da Ação Católica<br />

de São Paulo e diretor do semanário católico "legionário".<br />

Atualmente escreve para o mensário de<br />

cultura "Catolicismo''. A partir de 1968 foi convi-<br />

dado a colaborar na ''Folha de S. Paulo" e em vários<br />

outros órgãos de imprensa do País. Inúmeros<br />

artigos seus têm sido transcritos no Exterior. É ainda<br />

autor de numerosos livros.<br />

Católico convicto e militante, sua palavra e sua<br />

pena sempre estiveram a serviço de causas que interessam<br />

à Igreja ou à civilização cristã.<br />

Em 1960, fundou a Sociedade Brasileira de Defesa<br />

da ltadição, Família e Propriedade - TFP, e<br />

tem sido, desde então, Presidente do Conselho Nacional<br />

da entidade. Inspiradas em Revolução e<br />

Contra-Revolução e em outras obras do Prof. Plinio<br />

Corrêa de Oliveira, TFPs e associações congêneres<br />

se desenvolveram igualmente em quinze países<br />

das Américas, Europa e África.<br />

XVI


Plinio Corrêa de Oliveira<br />

Presidente do Conselho Naàonal da<br />

Soàedade Brasileira de Defesa<br />

da Tradição, Família e Propriedade<br />

I<br />

A REFORMA AGRÁRIA<br />

-<br />

SOCIALISTA E CONFISCATORIA<br />

Considerações doutrinárias


Quatro espadas<br />

O Estatuto da Terra<br />

O Decreto n? 55.891 e o Decreto n? 554<br />

O 1? Plano Nacional de <strong>Reforma</strong> Agrária<br />

Dâmocles tinha suspensa<br />

sobre a cabeça uma só espada.<br />

Sobre o empresário rural brasileiro pendem,<br />

para dizer pouco,<br />

uma lei - dois decretos - e o PNRA,<br />

quatro espadas!


Liberdade dentro da lei:<br />

um direito da TFP<br />

Nesta hora em que a TFP lança ao País<br />

um brado de alerta para a eventualidade, nada<br />

remota, da aplicação em todo o território<br />

nacional de uma <strong>Reforma</strong> Agrária <strong>socialista</strong><br />

e confiscatória, apraz recordar análoga atitude<br />

que a entidade assumiu vinte anos atrás.<br />

Um irresistível movimento de inconformidade<br />

com a orientação fortemente esquerdista<br />

do Governo João Goulart desfechara na<br />

Revolução de 64. E entre os gravames então<br />

formulados pela imensa maioria dos brasileiros<br />

contra o Presidente deposto, tinha acentuado<br />

realce a inconformidade de todo o<br />

País - exceção feita de amigos políticos<br />

a-ideológicos, de remanescentes de Partidos<br />

centristas que deles se haviam afastado, do<br />

PTB, de pequenas minorias fortemente ideologizadas,<br />

constituídas por eclesiásticos, plutocratas<br />

e intelectuais, bem como dos aderentes<br />

do sempre esquálido PCB - com as intenções<br />

agro-reformistas que aquele Governo<br />

acalentava.<br />

•'Agro-reformistas", acaba de ser dito. E<br />

o qualificativo é correto. Porém quiçá insuficiente,<br />

pois designa a reforma sem lhe especificar<br />

o espírito e o rumo. Dir-se-ia com mais<br />

precisão «agro-igualitárias", expressão que faz<br />

ver, ademais, o sentido do reformismo agrário<br />

nacional, pois este tende desde logo para<br />

a supressão das propriedades grandes e médias,<br />

e a transformação de nossa estrutura<br />

fundiária em uma imensa rede de assentamentos<br />

compostos de indivíduos nivelados no que<br />

diz respeito a sua condição pessoal enquanto<br />

"assentados" (cfr. Parte II, Comentário ao n?<br />

137).<br />

A vitória alçara ao Poder o Marechal Castello<br />

Branco, aureolado pelo prestígio que lhe<br />

valera seu desempenho nos campos de luta da<br />

Itália, em que atuara o corpo expedicionário<br />

brasileiro.<br />

Meses depois de empossado, o novo chefe<br />

de Estado apresentou ao Congresso o projeto<br />

de lei do Estatuto da Torra, o qual abria<br />

as portas do País para uma drástica <strong>Reforma</strong><br />

Agrária!<br />

A popularidade do Marechal e o otimismo<br />

desavisado dos vencedores fizeram com<br />

que ninguém no Brasil tomasse a sério a pos-<br />

5


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

sibilidade da aplicação de tal Estatuto. Para<br />

explicar sua promulgação, se lhe atribuíam as<br />

mais variadas causas, menos a explicação normal<br />

e lógica de que o Governo tinha pura e<br />

simplesmente propósitos agro-reformistas. De<br />

sorte que ele lançava muito naturalmente o<br />

Estatuto da Terra, prestes a aplicá-lo quando<br />

as circunstâncias o propiciassem.<br />

Fiel a sua posição doutrinária, definida<br />

pouco tempo antes em vibrante campanha<br />

anti-agro-reformista, a TFP considerou seu<br />

dever lançar aos Congressistas que iriam votar<br />

o projeto um respeitoso mas franco brado<br />

de alerta.<br />

E, após a açodada aprovação, pelo Congresso,<br />

do Estatuto da Terra (lei n? 4504, de<br />

30-11-64) e sua promulgação pelo Governo fe-<br />

. deral, a TFP quis consignar ante a História<br />

seu respeitoso mas formal desacordo, por<br />

meio de um Manifesto ao povo brasileiro sobre<br />

a <strong>Reforma</strong> Agrária, largamente divulgado<br />

pela imprensa.<br />

E foi a voz da TFP a única que teve a coragem<br />

de conclamar o País a uma posição de<br />

previdência e alerta contra o ''janguismo sem<br />

Jango", que acabava de penetrar assim na vida<br />

do campo.<br />

* * *<br />

"Coragem": é este o termo adequado. Pois<br />

o chefe de Estado não teria tido dificuldades,<br />

se assim o desejasse, para esmagar esta Sociedade.<br />

Mas dando mostras de uma grande-<br />

Titulo I<br />

za de alma que importa lembrar hoje, soube<br />

ele entender a pureza de intenções da entidade,<br />

o caráter apolítico de seu brado e o amor<br />

acendrado ao Brasil cristão que a movia. E<br />

deixou que ecoasse livremente, por todas as<br />

vastidões do Brasil, a voz inconforme mas polida<br />

da TFP.<br />

Na presente conjuntura, ante a perspectiva<br />

da aplicação ao País, de forma cumulativa<br />

e geral, do Estatuto da Terra (ET) e do 1. 0<br />

Plano Nacional de <strong>Reforma</strong> Agrária da Nova<br />

República (PNRA), os mesmos ideais, os<br />

mesmos propósitos, a fidelidade aos mesmos<br />

métodos de ação desassombrados e pacíficos<br />

levam esta Sociedade a análoga conduta.<br />

Anima-a neste passo a convicção de que<br />

o ilustre Presidente José Sarney proceda, face<br />

a este novo lance da TFP, inspirado no precedente<br />

do Marechal Castello Branco.<br />

Tonto mais é isto de esperar quanto o atual<br />

chefe de Estado foi conduzido à vice­<br />

Presidência da República, de onde ascendeu<br />

legalmente à Presidência, por um movimento<br />

de opinião de base intrinsecamente democrática.<br />

Ou seja, a "abertura política", mercê<br />

da qual é proclamada a liberdade de falar e<br />

de agir de absolutamente todos os brasileiros.<br />

S. Exa. prestigiou há pouco, com a concessão<br />

de uma audiência, os dirigentes do<br />

mesmo PC que há vinte anos atuara de modo<br />

a arrastar o Brasil a uma crise dramática.<br />

Não é crível que, gozando de tão ampla e confortável<br />

liberdade os comunistas, de igual liberdade<br />

não goze também a maior entidade<br />

civil anticomunista do País.<br />

6


Parte I<br />

Análise de conjunto<br />

do ET e do PNRA


Siglas utilizadas nesta obra<br />

CEBs - Comunidades Eclesiais de Base<br />

CEBs - Livro As CEBs... das quais muito se fala, pouco se conhece - A TFP as descreve como são<br />

CNBB - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil<br />

DMA - Livro Declaração do Morro Alto<br />

ET - Estatuto da Terra<br />

INCRA - Instituto Nacional de Colonização e <strong>Reforma</strong> Agrária<br />

MIRAD - Ministério da <strong>Reforma</strong> e do Desenvolvimento Agrário , .<br />

PNRA - Proposta para a Elaboração do l? Plano Nacional de <strong>Reforma</strong> Agrária da Nova Republica<br />

RA-QC - Livro <strong>Reforma</strong> Agrária - Questão de Consciência<br />

SC - Livro Sou católico: posso ser contra a <strong>Reforma</strong> Agrária?<br />

■<br />

■<br />

As notas de todo o trabalho estão remetidas para o fim do volume.<br />

Os destaques em negrito nas citações são sempre do autor desta obra.


Capítulo I<br />

O debate nacional sobre<br />

oPNRA<br />

1. O Congresso, simples<br />

"caixa de ressonância': ..<br />

Promulgado em 30 de novembro de 1964,<br />

o Estatuto da Terra (lei n? 4504) até agora não<br />

foi efetivamente aplicado no Brasil. Ou, mais<br />

precisamente, só teve aplicações raras, circunscritas,<br />

esparsas e esporádicas, de tal forma que<br />

não chegou a atingir no seu todo nossa tradicional<br />

estrutura agrária.<br />

Sendo intenção do atual Governo realizar<br />

a drástica <strong>Reforma</strong> Agrária (1) preceituada pelo<br />

ET, o sr. Nelson Ribeiro, Ministro da <strong>Reforma</strong><br />

e do Desenvolvimento Agrário, divulgou<br />

pela imprensa, no dia 28 de maio p.p.,<br />

uma Proposta para o 1 .° Plano Nacional de<br />

<strong>Reforma</strong> Agrária da Nova República (PNRA).<br />

Assinava o documento, com o sr. Ministro, o<br />

sr. José Gomes da Silva, presidente do Instituto<br />

Nacional de Colonização e <strong>Reforma</strong><br />

Agrária (INCRA).<br />

Embora a legislação em vigor permitisse<br />

ao Governo Sarney aplicar o ET e estabelecer<br />

um plano para tal aplicação, foi louvável<br />

desejo do chefe de Estado que o País se manifestasse<br />

previamente a respeito do PNRA.<br />

E assim o convocou para um debate nacional<br />

que deveria durar - nos termos da convocação<br />

- 30 dias.<br />

1àl debate repercutirá naturalmente no Congresso<br />

Nacional. Mas o PNRA deixa bem claro<br />

que o papel do Congresso nesse grande debate<br />

será o de uma simples "caixa de ressonância",<br />

sem função decisória alguma, ou pouco<br />

mais do que isso (cfr. tópico 128 do PNRA,<br />

transcrito na íntegra na Parte II deste trabalho).<br />

Com efeito, ao divulgar o PNRA, o Ministro<br />

Nelson Ribeiro afirmou que o Plano<br />

não será propriamente debatido no Congresso.<br />

A participação deste último - diz o documento<br />

de apresentação do PNRA - ~~ buscada<br />

pela manifestação dos partidos e das<br />

suas lideranç~ jd que se trata de simples operacionalização<br />

de lei jd votada e em execução<br />

há mais de quatro lustros".<br />

Selecionando do debate o que julgar mais<br />

aproveitável, o sr. Nelson Ribeiro elaborará<br />

um novo texto do PNRA, o qual será levado<br />

à apreciação do Presidente da República. E,<br />

se aprovado por este, começará a imensa reforma<br />

do ager brasileiro.<br />

9


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

2. Procedimento em<br />

desacordo com<br />

a abertura política<br />

Embora do ponto de vista estritamente<br />

constitucional, o Governo possa agir dessa<br />

maneira, trata-se, como é fácil ver, de um procedimento<br />

que destoa fortemente da abertura,<br />

em nome da qual o Governo justifica, em<br />

face da Nação, a sua própria existência.<br />

Com efeito, o ET só teve até agora - segundo<br />

já se observou - aplicações parciais<br />

e esporádicas, das quais, aliás, pouco têm falado<br />

os meios de comunicação social. Para o<br />

Brasil, é ele o grande desconhecido.<br />

Ademais, incontáveis brasileiros só têm<br />

acerca do agro-reformismo em geral, noções<br />

vagas. Quando de todo não as têm.<br />

E vendo o PNRA afirmar muito à vontade<br />

que tomou por base o ET, não imaginam<br />

qual é o fundo da realidade: é impossível, já<br />

agora, considerar o ET tal como o aprovou<br />

o Marechal Castello Branco e independentemente<br />

do volumoso contexto de atos oficiais<br />

que se seguiram.<br />

Na verdade, em uma atmosfera de desatenção<br />

geral, houve desde então um contínuo<br />

borbulhar legislativo. Foi ele aliás tão cauto<br />

e discreto - reflexo da aversão dos agroreformistas<br />

à publicidade - que a bem dizer<br />

não o notou o grande público.<br />

Seria portanto necessário que, previamente<br />

ao debate, o Poder executivo publicasse uma<br />

codificação do ET, e de toda a legislação baseada<br />

neste, ou complementar deste, a fim de<br />

que as elites intelectuais do País dispusessem<br />

de um texto coerente e completo sobre o qual<br />

exercer a sua análise.<br />

Sem tal, nem elas nem o grande público,<br />

para o qual filtram normalmente os conheci­<br />

. mentos dos mais doutos, terão condições de<br />

participação autêntica no grande debate nacional<br />

que o Governo acertadamente convocou.<br />

Com efeito, simplifica-se muito afirmando<br />

que o ET deve permanecer intacto como<br />

Título I<br />

no dia de sua promulgação, e só está em discussão<br />

o PNRA. O ET é indissociável de uma<br />

legislação posterior que o condiciona e a ele<br />

está aderida como os crustáceos à quilha do<br />

navio, ao cabo de uma longa navegação. No<br />

tempo decorrido entre sua promulgação, em<br />

1964, e abril de 1985, foram publicados nada<br />

menos de 696 leis, decretos, decretos-lei e outros<br />

atos oficiais sobre matéria agrária, todos,<br />

ou quase todos, próxima ou remotamente relacionados<br />

com o ET. E é esse conjunto -<br />

no qual as disposições se empilham, se circunscrevem,<br />

se revogam ou se revigoram -<br />

que se trata de aplicar, e não apenas o ET (2).<br />

Essa vegetação legislativa exuberante, até<br />

o momento não foi codificada. Pelo que,<br />

atualmente, nossa legislação nessa matéria<br />

constitui um caos (3). Ponderou-o bem, em<br />

expressivo texto, o anterior Ministro da Justiça,<br />

sr. Ibrahim Abi-Ackel, na Apresentação<br />

do livro Legislação Agrária (Coleção Textos<br />

Legais, Ministério da Justiça, Brasília, 1984,<br />

18~ ed., 2 vol., 1161 pp.):<br />

no problema da consolidação das leis<br />

ergue-se no centro do nosso Direito positivo.<br />

· ''O extenso número de textos normativos<br />

é a causa primordial das crescentes dificuldades<br />

acarretadas não s6 aos juristas, legisladores,<br />

juízes e executores, como ao povo em geral,<br />

privado da capacidade de entender a natureza<br />

e a extensão dos seus direitos. Neste último<br />

caso, o cipoal legislativo se insurge contra<br />

o princípio segundo o qual ninguém se escusará<br />

de cumprir a lei sob alegação de que<br />

não a conhece, consagrado na Lei de Introdução<br />

ao Código- Civil. . ...<br />

''Essa p/etora de leis, pontilhada de incógnitas,<br />

dúvidas e obscuridades, compromete e<br />

ameaça o Estado de Direito,, (op. cit., p. V).<br />

Essas palavras, concernentes à legislação<br />

brasileira em geral, descrevem perfeitamente<br />

a situação caótica em que se encontra a legislação<br />

agrária nacional.<br />

A não haver, pois, a codificação sugerida,<br />

que consistência e que alcance prático pode<br />

ter o debate?<br />

10


Considerações doutrinárias<br />

Ao ser elaborada tão complexa codificação<br />

das leis agrárias em vigor, pareceria mais<br />

consoante com o espírito de abertura, que o<br />

Poder executivo a complementasse com as melhorias<br />

sugeridas por estes vinte anos de pequenas<br />

experiências agrárias esporádicas, bem<br />

como pelas vertiginosas transformações gerais<br />

ocorridas no Brasil e no mundo. Seria de rigor,<br />

ademais, segundo o espírito da abertura<br />

política, que o Governo a convertesse em projeto<br />

de lei, para o qual pedisse a colaboração<br />

e a aprovação do Poder legislativo (4).<br />

Então, e só então, ao longo da tramitação<br />

do importantíssimo projeto na Câmara e no<br />

Senado, caberia com toda a adequação o<br />

grande debate nacional que o Governo convocou.<br />

Um Legislativo que seja, no caso, mais<br />

. do que a 'taixa de ressonância" a que o quer<br />

reduzido, para efeitos de <strong>Reforma</strong> Agrária, o<br />

PNRA; um público largamente informado, e<br />

por isso mesmo vivamente interessado na temática<br />

agro-reformista - eis as condições que<br />

seriam conformes com o espírito da abertura<br />

política.<br />

Poder-se-ia objetar, a isto, que as condições<br />

hodiernas exigem por vezes, do Poder público,<br />

deliberações rápidas e até fulminantes:<br />

qualidades impossíveis de obter no moroso<br />

processo aqui sugerido.<br />

Cada regime político apresenta suas vantagens<br />

e suas desvantagens. A democracia tem<br />

o inconveniente das morosidades, sempre que<br />

a opinião pública não esteja convencida da<br />

aguda urgência de uma deliberação.<br />

Ora, o Brasil não está persuadido dessa urgência.<br />

Então, ou se aceite a morosidade democrática,<br />

e se procure na legalidade e na coerência<br />

com as instituições democráticas alguma<br />

solução destra para tal situação; ou se<br />

rompa com a abertura - o que, pode-se estar<br />

certo, não é de temer que faça o atual Governo.<br />

Não se vê outra saída para isto que<br />

ameaça constituir-se num verdadeiro impasse<br />

nacional.<br />

Parte I, Capítulo /<br />

3. Outra condição para a<br />

autenticidade do debate:<br />

o conhecimento dos<br />

motivos que<br />

fundamentam os<br />

propósitos<br />

governamentais<br />

Deve-se acrescentar que tal codificação<br />

não bastaria para que o debate convocado pelo<br />

Governo tivesse autenticidade e animação.<br />

Pois para conhecer a motivação dos múltiplos<br />

dispositivos de tão importante codificação, seria<br />

preciso que o Governo publicasse pari<br />

passu a respectiva justificação .<br />

Só conhecendo, além dos desígnios do Exmo.<br />

sr. Presidente da República e de seu Ministro<br />

competente, os motivos em que se fundaram<br />

- isto é, a realidade agrária nacional<br />

como eles a vêem, as estatísticas em que tal<br />

visão se apóia, e os motivos documentados<br />

pelos quais eles esperam que a codificação<br />

proposta retifique o que há para retificar, extirpe<br />

o que há para extirpar e implante o que<br />

há para implantar - é que poderia a opinião<br />

pública formar um juízo objetivo e seguro sobre<br />

a propositura governamental.<br />

4. Aspectos morais<br />

controvertidos na<br />

temática agro-reformista<br />

A ser completa, a motivação dos propósitos<br />

governamentais teria de incluir ainda<br />

bma substanciosa explanação doutrinária.<br />

Pois, com freqüência, o PNRA alega princípios<br />

de justiça para fundamentar o que, de<br />

sua parte, a TFP - em uníssono com milhões<br />

de brasileiros - não hesita em qualificar de<br />

confisco agrário. E os mesmos princípios de<br />

11


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tiifão agro-reformista<br />

justiça, ele os invoca também para denunciar<br />

como radicalmente inaceitável o atual regime<br />

fundiário, constituído de grandes, médias e<br />

pequenas propriedades.<br />

Ora, pelo contrário, milhões de brasileiros<br />

estão persuadidos de que, em si mesmo,<br />

nada há de injusto em tal forma de distribuição<br />

da terra, contanto que a propriedade<br />

privada - quaisquer que sejam as dimensões<br />

- cumpra dedicadamente sua<br />

função social.<br />

5. Inoportunidade da<br />

controvérsia nacional<br />

sobre a <strong>Reforma</strong> Agrária<br />

- crise na Igreja -<br />

o caso da<br />

Teologia da Libertação<br />

Há, instalado presentemente no Brasil, um<br />

desacordo fundamental e amplamente difundido<br />

sobre o conceito de justiça.<br />

Ao Governo, que faz do nobre anseio de<br />

justiça no campo uma das mais importantes<br />

pilastras dos seus desígnios agro-igualitários,<br />

cabe, pois, definir ante a Nação o que entende<br />

por justiça, e em que argumentos esteia esse<br />

seu entendimento.<br />

Tal tarefa, já de si delicada, tanto mais o<br />

é para o Governo de um País oficialmente<br />

neutro em matéria religiosa e filosófica.<br />

Com efeito, a palavra justiça exprime um<br />

conceito moral. E este se define em função<br />

da Teologia e da Filosofia.<br />

Disso não se pode esquiwr o Governo, cuja<br />

missão específica é, em um de seus principais<br />

aspectos, velar por que reine a justiça no País.<br />

Alegará alguém que o Governo não tem<br />

que escolher nessa matéria. A partir de seu<br />

próprio ponto de vista laico, bastar-lhe-á ter<br />

em conta a fidelidade que lhe cabe manter em<br />

relação ao sentimento nacional. Sendo cató-<br />

Título I<br />

lica a muito grande maioria do povo brasileiro,<br />

agirá ele, pois, segundo o sentir do País.<br />

E, portanto, conforme o espírito da abertura,<br />

nortear-se-á em matéria de justiça pelas<br />

máximas sublimes da moral cristã. Ou, em outros<br />

termos, segundo o conceito cristão de<br />

justiça.<br />

Felizes os tempos em que tal resposta teria<br />

bastado para dirimir, mesmo na perspectiva<br />

laicista, esta questão. Mas todos os brasileiros<br />

sabem que, infelizmente, profundas divergências<br />

doutrinárias minam presentemente<br />

a unidade dos católicos em nosso País.<br />

Deriva isto - em considerável parte - das<br />

devastações operadas pela Teologia da Libertação,<br />

da qual vários erros acabam de ser condenados<br />

em recentes atos da Santa Sé (5). O<br />

rumoroso "caso Boff'' - que versa mais precisamente<br />

sobre a eclesiologia da Teologia da<br />

Libertação, porém não é isento de vinculações<br />

com matérias sócio-econômicas - deu ocasião<br />

a que quase vinte Srs. Bispos brasileiros<br />

se tenham declarado publicamente "inconformes"<br />

com a sábia medida da Santa Sé acerca<br />

do teólogo petropolitano. A atitude sem precedentes<br />

de tais Prelados bem indica a amplitude<br />

dessa grave desunião.<br />

Há que acrescentar, a esse respeito, mais<br />

um dado: é que exatamente o conceito de justiça,<br />

e suas aplicações práticas, são largamente<br />

empregados pela Teologia da Libertação, em<br />

cuja controvérsia o mencionado "caso Boff"<br />

não é senão o cone emergente.<br />

Os adeptos da Teologia da Libertação fazem<br />

girar sobre uma concepção radicalmente<br />

igualitária de justiça, a parte mais importante<br />

de sua argumentação agro-reformista.<br />

Essa justiça igualitária é oposta ao conceito<br />

cristão bimilenar, segundo o qual pensam<br />

os católicos tradicionais contrários à <strong>Reforma</strong><br />

Agrária.<br />

Levantando precisamente neste momento<br />

a questão agrária, o Governo não conseguirá<br />

evitar uma conexão entre o debate agroreformista<br />

e o debate teológico-filosófico instalado<br />

nos ambientes católicos. O PNRA es-<br />

12


Considerações doutrinárias<br />

tabelece aliás esta conexão, porque alude nove<br />

vezes de modo explícito à justiça, à maneira<br />

de fundamento filosófico-moral do que<br />

dispõe.<br />

Envolvendo-se com uma questão de justiça,<br />

o Governo laico se situa assim no centro<br />

de uma controvérsia religiosa e filosófica<br />

candente.<br />

O PNRA dá palpitante atualidade ao tema<br />

agro-igualitário, tão tensivo, no preciso<br />

momento em que no horizonte se vai delineando<br />

uma eventual crise religiosa, por sua vez<br />

tão tensiva ou mais. E por que o faz ele? -<br />

É difícil encontrar resposta.<br />

Seja como for, não terá ele agora outra<br />

coisa a fazer senão tentar definir mais a fundo<br />

sua posição em matéria de justiça, criando<br />

para si e para o País embaraços sem fim.<br />

6. No Brasil em crise, a<br />

presença semilegalizada<br />

do comunismo -<br />

A CNBB, a mais influente<br />

força propulsora<br />

agro-igualitária do País<br />

A presença sem.ilegalizada e organizada do<br />

PCB, e a perspectiva de legalização também<br />

do PC do B, só aumentam a gravidade deste<br />

quadro, de si já tão crítico.<br />

Alheia a temas estritamente políticos, sempre<br />

que não sejam relacionados com os princípios<br />

doutrinários concernentes à ordenação<br />

cristã da sociedade temporal, a TFP procura<br />

conviver harmonicamente com todos os regimes<br />

políticos.<br />

Em conseqüência, viu ela chegar e<br />

implantar-se a abertura democrática, e dispôsse<br />

a ajudá-la nos seus aspectos positivos, como<br />

seja a livre e inteira manifestação do pensamento<br />

do homem mediano da rua.<br />

Com efeito, de homens desses é constituí-<br />

Parte /, Capítulo I<br />

do um setor amplíssimo de nossa população.<br />

E nele se encontra hoje a maior reserva de<br />

equilíbrio e de bom senso do País em matéria<br />

sócio-econômica. Cumpre estimulá-lo a fazer<br />

uso de seu direito de voz e vez, no grande<br />

debate nacional.<br />

Também a título de cooperação, a TFP<br />

não se omitiu de convidar as autoridades a<br />

que abrissem os olhos para os corpúsculos em<br />

crescente fermentação, da intelligentsia de esquerda,<br />

do snobismo <strong>socialista</strong>, faceiramente<br />

- melhor se diria doidamente - apoiado<br />

por certo veio de pessoas dos bairros residenciais<br />

de luxo, pelos corrilhos demagógicos encastoados<br />

nos partidos políticos, pelos tecnocratas<br />

"no vento", pelos "conscientizadores"<br />

de sacristias como de reuniões das Comunidades<br />

Eclesiais de Base (CEBs).<br />

Esses múltiplos corpúsculos interligados<br />

e interefervescentes, que reciprocamente se<br />

elogiam e se sustentam, montam à uma o assalto<br />

ao princípio cristão da propriedade privada,<br />

ensinado pela Igreja há dois mil anos,<br />

e posto em prática pelas nações cristãs.<br />

Mas, sem embargo de sua robusta interarticulação,<br />

seriam eles pouca coisa se não contassem<br />

com o apoio de grande parte daquilo<br />

que Carlos de Laet - o brilhante polemista<br />

católico brasileiro das primeiras décadas deste<br />

século - intitulava o 4? Poder. Isto é, uma<br />

potência a existir extra-oficialmente ao lado<br />

dos três Poderes oficiais do Estado: Executivo,<br />

Legislativo e Judiciário. Esse 4? Poder era,<br />

em seu tempo, a Imprensa, hoje acrescida do<br />

Rádio e da Televisão.<br />

E em parte, também, de um outro Poder<br />

quiçá ainda maior. Ao 4? Poder, a realidade<br />

dos fatos acresceu um 5? Poder, a Conferência<br />

Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB),<br />

que é talvez a mais influente e propulsora força<br />

agro-igualitária do País (6).<br />

Quanto ao PCB e ao PC do B, minguados<br />

como estão, cabe-lhes entretanto, no conjunto<br />

deste dispositivo de ataque, uma tarefa<br />

ponderada e até cômoda. Consiste esta tão-só<br />

em manter de pé seus estandartes, para os quais<br />

13


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

sopra, nolens volens, mediata ou imediatamente,<br />

todo o vento publicitário produzido pelo<br />

mecanismo de foles agro-reformistas.<br />

Pelo que os partidários declarados do comunismo,<br />

dentro e fora do País, não têm poupado<br />

aplausos à <strong>Reforma</strong> Agrária tal como<br />

a preconiza o PNRA (7).<br />

Já antes, os corações dos comunistas haviam<br />

pulsado alegremente quando, em 1980,<br />

um documento aprovado pela 18~ Assembléia<br />

Geral da CNBB reunida em Itaici conclamava<br />

o povo - em vão - para a <strong>Reforma</strong> Agrária<br />

<strong>socialista</strong> e confiscatória (8). E, de passagem,<br />

mas em termos muito categóricos, defendia<br />

também a alteração do regime de propriedade<br />

urbana (9).<br />

Não surpreende, pois, que os comunistas<br />

brasileiros vibrem assanhados com a perspectiva<br />

da aplicação integral e cumulativa do Estatuto<br />

da Terra e do PNRA, proposta pelo sr.<br />

Nelson Ribeiro, Ministro da <strong>Reforma</strong> e do Desenvolvimento<br />

Agrário.<br />

7. A TFP cone/ama<br />

à estabilidade e à paz<br />

A TFP, sempre fiel a seus próprios ideais<br />

em todas essas ocasiões, dentro da mutabilidade<br />

dos regimes, procura também agora alertar as<br />

autoridades para a inoportunidade da aplicação<br />

do ET e do PNRA, no preciso momento em<br />

que essas forças desestabilizadoras - é o menos<br />

que se pode dizer delas - se conjugam, umas<br />

para promover de norte a sul do País uma luta<br />

de classes agrária, a qual já se vai transformando<br />

em revolta, e outras para justificar<br />

aos olhos do público, nos grandes e médios<br />

centros urbanos, essa revolta, mediante uma<br />

estranha inversão publicitária de papéis. Isto<br />

é, o invasor que agride a propriedade seria o<br />

homem pacífico e ordeiro. E o proprietário,<br />

que desajudado das autoridades defende seu<br />

direito, seria o agressor! Como se o direito de<br />

propriedade já estivesse abolido no Brasil.<br />

Tüulo I<br />

Nessa conformidade, a TFP alerta aqui o<br />

Governo e o povo para o fato básico de que<br />

o Brasil mediano, o Brasil sensato, o Brasil<br />

autêntico não quer nem o ET nem o PNRA.<br />

Quanto ao Estatuto da Terra, não falta<br />

quem pondere que, na realidade, ele é mero<br />

resíduo, em plena abertura, de um ato característico<br />

da era militar, promulgado às pressas<br />

e sob pressão, com o consenso de um Legislativo<br />

então inseguro e pouco influente.<br />

Segundo se alega, constitui o Estatuto da<br />

Terra uma contradição aberrante dentro do<br />

regime de abertura. E a aplicação do ET com<br />

base no PNRA só agravará tal situação.<br />

Ora, em princípio, a contradição consigo<br />

mesmo é causa de ruína em qualquer campo<br />

no qual se introduza: na personalidade individual,<br />

nas correntes de pensamento ou de ação,<br />

em todas as forças sociais, e nas próprias nações.<br />

Sabiamente adverte o Evangelho: "Se um<br />

reino está dividido contra si mesmo, um tal<br />

reino não pode subsistir" (Mr. Ili, 24).<br />

Premunir o regime, qualquer que seja, para<br />

que não entre em contradição consigo mesmo,<br />

não é combatê-lo. É prestar-lhe colaboração.<br />

Assim, uma abertura que imponha, por<br />

força de uma lei de um governo forte, a 130<br />

milhões de brasileiros, uma imensa <strong>Reforma</strong><br />

Agrária que a grande maioria deles não quer<br />

- e isto sem tempo suficiente para que eles<br />

se informem, opinem e debatam - tal abertura<br />

atenta contra si mesma, pois deixa de ser<br />

abertura.<br />

É o que a TFP deseja cordialmente fazer<br />

ver a todos os setores da população.<br />

8. O País não quer a<br />

<strong>Reforma</strong> Agrária<br />

<strong>socialista</strong> e confiscatória<br />

Mas - objetar-se-á - qual a prova de que<br />

a grande maioria dos brasileiros medianos não<br />

de'seja a <strong>Reforma</strong> Agrária?<br />

14


Considerações doutrinárias<br />

A resposta é simples.<br />

. Sempre que a <strong>Reforma</strong> Agrária tenta<br />

implantar-se, usa de artifícios que fogem à<br />

consulta popular. Viu-se isto no passado. E<br />

com mais clareza ainda no presente.<br />

Sirva de exemplo o histórico do ET.<br />

Mais de um órgão de imprensa relata que,<br />

ouvindo fazendeiros sobre o PNRA, obteve<br />

de um ou de outro esta resposta: "Sou contra<br />

o PNRA, não porém contra o Estatuto da<br />

Terra". Tais bravos agricultores só têm demonstrado<br />

assim que não conhecem bem o<br />

ET, pois este importa em uma autêntica e muito<br />

radical <strong>Reforma</strong> Agrária, como adiante se<br />

verá (cfr. Parte I, Cap. IV).<br />

O projeto do Estatuto da Terra, enviado<br />

ao Congresso Nacional em 26 de outubro de<br />

1964, causou desde logo estranheza na opinião<br />

pública, por ser extenso e prolixo, e por<br />

usar uma terminologia por vezes confusa.<br />

Mesmo para os setores especializados nos temas<br />

agro-fundiários, a leitura do documento<br />

se manifestava árdua e rebarbativa. Em conseqüência,<br />

não podia ser ele estudado e menos<br />

ainda assimilado pela opinião pública de<br />

média e pequena cultura, senão ao cabo de<br />

longa divulgação.<br />

Os debates no Legislativo seriam então a<br />

ocasião normal para que o público se esclarecesse<br />

sobre o conteúdo do projeto. Pois a<br />

natural ressonância que eles despertam na imprensa<br />

escrita e falada é de grande alcance para<br />

esse efeito.<br />

Mas a urgência então imposta pelo Executivo<br />

para a tramitação do projeto do Estatuto<br />

- como aliás também da emenda constitucional<br />

n? 10, que o tornava legalmente<br />

possível - estrangulou os debates.<br />

Senadores e deputados haviam deixado<br />

ver, desde o início, sua inquietação diante do<br />

Projeto, apresentando a este 425 emendas e<br />

9 substitutivos. Entretanto, em exíguos trinta<br />

dias, o Congresso Nacional tinha que examinar,<br />

emendar e votar um projeto de 133 artigos<br />

e mais de 500 parágrafos, incisos e alíneas.<br />

Mas as intenções do Governo surgido da<br />

Parte I, Capüulo I<br />

Revolução de 31 de Março de 1964 - dotado<br />

de poderes para suspender o Congresso -<br />

eram imperativas. Foi mister passar sobre tudo.<br />

Em 22 dias de debate e votação, o projeto<br />

do Estatuto da Terra teve de ser aprovado,<br />

para o que colaboraram os congressistas partidários<br />

de Jango, com representantes das correntes<br />

que acabavam de depor este último. Foi<br />

assim votada, e logo depois promulgada sob<br />

aplausos de parte dos governistas e de todos<br />

os janguistas, a lei de <strong>Reforma</strong> Agrária. Vencia<br />

o agro-igualitarismo que Jango impulsionara:<br />

neste particular, acabava por prevalecer<br />

um verdadeiro "janguismo sem Jango ...<br />

9. Face ao Estatuto<br />

da 'Ierra, a voz isolada<br />

da TFP se ergueu<br />

Mas o fato não chocou muito a opinião ·<br />

pública, adormecida sobre os louros da vitória<br />

de 31 de março de 1964, porque o agroigualitarismo<br />

- sempre temeroso dos debates<br />

doutrinários e científicos serenos e imparciais,<br />

servidos por uma publicidade autêntica<br />

e irrestrita - conseguira impingir aó País,<br />

a toque de caixa, que aceitasse, na euforia e<br />

no letargo da vitória, algo que ele não conhecia.<br />

Quiçá tudo isso pudesse ter sido evitado<br />

se as entidades privadas, a que incumbia tal<br />

missão, tivessem alertado com a necessária<br />

amplitude o público para o que sucedia.<br />

Da massa da população se ergueu, isolada,<br />

a voz dos quatro autores do livro <strong>Reforma</strong><br />

Agrária - Questão de Consciência (10),<br />

os quais, antes de se consumar a aprovação<br />

do Estatuto da Turra, enviaram a todos os deputados<br />

e senadores o documento O direito<br />

de propriedade e a livre iniciativa no projeto<br />

de emenda constitucional n. 0 5/64 e no projeto<br />

de Estatuto da Terra. Neste, analisavam<br />

os fortes traços confiscatórios de ambas as<br />

15


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

proposituras. O documento era datado de 4<br />

de novembro de 1964 (11).<br />

A 24 de dezembro, a TFP consignou perante<br />

a História sua consternação pela promulgação<br />

do ET no Manifesto ao povo brasileiro<br />

sobre a <strong>Reforma</strong> Agrária, que circulou<br />

largamente pelo País (12).<br />

10. Um véu prudencial<br />

sobre<br />

o radicalismo<br />

do ET e do PNRA<br />

Dada a insistência de certos meios de comunicação<br />

social em inculcar a impressão de<br />

que a maioria dos brasileiros apóia a legislação<br />

agro-reformista vigente, não será demais<br />

acrescentar, à demonstração do contrário, dois<br />

outros argumentos.<br />

Uma prova de que o País não deseja a <strong>Reforma</strong><br />

Agrária é o fato de que, a partir da publicação<br />

do PNRA, várias personalidades<br />

agro-reformistas, mais de uma ocupando situação<br />

oficial, vêm fazendo declarações à imprensa,<br />

nas quais atribuem ao ET e ao PNRA<br />

disposições sensivelmente menos radicais do<br />

· que eles efetivamente contêm.<br />

Registrando simplesmente o fato, não cabe<br />

aqui indagar se as contradições entre essas<br />

declarações e os textos dos documentos<br />

são de responsabilidade dessas personalidades;<br />

ou .se resultam - pelo menos em considerável<br />

parte - de uma desinformação otimista<br />

e favorável à <strong>Reforma</strong> Agrária.<br />

Neste caso, é preciso convir em que tal desinformação,<br />

beneficiando sempre o mesmo<br />

lado, parece por sua vez resultar de um trabalho<br />

metódico de pessoas impostadas em evitar<br />

que o público se choque conhecendo toda<br />

a verdade sobre o PNRA.<br />

Quiçá essas declarações não sejam de uma<br />

autenticidade a toda prova, mas se devam, em<br />

certo número de casos, ao radicalismo agro-<br />

Título I<br />

reformista de jovens repórteres empenhados<br />

em salvar a qualquer custo, de um naufrágio<br />

de popularidade, o PNRA.<br />

Esse é um problema que caberá à História<br />

resolver.<br />

De qualquer forma, não se conhece por<br />

enquanto caso algum de entrevistado que haja<br />

tornado público seu protesto, através da imprensa,<br />

contra a apresentação deturpada de<br />

seu pensamento.<br />

Todo o noticiário a esse respeito torciona<br />

os fatos também sob outro aspecto. Se a imensa<br />

maioria dos brasileiros de há muito brada<br />

e clama pela <strong>Reforma</strong> Agrária e esta ainda não<br />

foi aplicada, alega-se como explicação a forte<br />

oposição da classe dos fazeRdeiros. Assim,<br />

o noticiário apresenta a força anti-agroreformista<br />

como sendo exclusivamente dos fazendeiros<br />

e dirigida contra a classe dos<br />

trabalhadores.<br />

Que alcance concreto tem essa imputação?<br />

Num regime de direito, não se pode falar<br />

adequadamente em força a não ser em termos<br />

de influência eleitoral, porque esta é que tem<br />

o condão de alçar ou derrubar governos, de<br />

abrir o acesso a cargos ou de fechá-lo. O que,<br />

tudo, importa maximamente aos políticos.<br />

Se se comparar a força eleitoral dos fazendeiros<br />

e de suas famílias, com a de seus assalariados,<br />

aquela é patentemente muito<br />

pequena.<br />

Se os fazendeiros têm força, é porque eles<br />

têm a confiança de parte ponderável ou da<br />

quase totalidade de seus assalariados.<br />

Não é, portanto, apenas a classe dos fazendeiros<br />

que rejeita a <strong>Reforma</strong> Agrária, mas<br />

uma parte pelo menos muito considerável, senão<br />

a grande maioria, da classe dos que seriam<br />

os ''beneficiários" da reforma. O que descaracteriza<br />

a luta anti-agro-reformista como<br />

um lance da luta de classes e, pelo contrário,<br />

a caracteriza como uma luta entre uma minoria<br />

de empreiteiros do esquerdismo, teóricos e artífices<br />

da destruição do atual regime, contra<br />

a maioria cristã e sensata do País, na qual está<br />

incluída a grande maioria dos trabalhadores.<br />

16


Capítulo II<br />

A propriedade privada e a<br />

livre iniciativa<br />

face ao ET e ao PNRA<br />

1. Duas perguntas capitais<br />

A análise do ET e do PNRA foi feita até<br />

aqui na perspectiva da seguinte questão: qual<br />

a coerência da legislação agrária em vigor ou<br />

em elaboração, com a letra e o espírito das<br />

instituições que nos regem?<br />

Cabe agora considerar o ET, em conjunto<br />

com o PNRA - tão intimamente ligado<br />

a ele - em função de duas outras perguntas<br />

capitais:<br />

a) como fica a propriedade privada em face<br />

do ET e do PNRA?<br />

b) como fica, na mesma perspectiva, a livre<br />

iniciativa?<br />

Não se analisará aqui a situação da propriedade<br />

privada e da livre iniciativa diante<br />

do compacto emaranhado legislativo nascido<br />

no período 64-85, pois constitui este, como<br />

foi visto (cfr. Cap. I, 2), um magma dentro<br />

do qual não é possível a um particular - em<br />

prazo curto - destrinçar tudo quanto nele se<br />

contém.<br />

As questões delicadas e complexas só podem<br />

ser tratadas muito condensadamente em<br />

um estudo da natureza deste. Não obstante,<br />

o pensamento da TFP sobre propriedade privada,<br />

livre iniciativa e agro-reformismo se encontra<br />

largamente exposto em diversas obras,<br />

às quais a entidade deu muita difusão em todo<br />

o País, e que estão ao fácil alcance de todos<br />

os interessados (1).<br />

2. A situação agrária<br />

brasileira:<br />

pensamento da TFP<br />

Não é entretanto supérfluo apresentar, resumidamente,<br />

algumas das principais teses de<br />

<strong>Reforma</strong> Agrária - Questão de Consciência<br />

(RA-QC), relembradas na Declaração do<br />

Morro Alto (DMA) e por fim novamente reafirmadas<br />

em Sou católico: posso ser contra<br />

a <strong>Reforma</strong> Agrária? (SC), obras que condensam<br />

o pensamento da TFP sobre a situação<br />

agrária brasileira. É o que se passa a fazer:<br />

17


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

A. Produção satisfatória da<br />

agricultura. brasileira<br />

A agricultura brasileira, apesar dos consideráveis<br />

sacrifícios com que arca em prol da<br />

economia nacional, vai acompanhando satisfatoriamente<br />

a expansão demográfica. Dela<br />

procedem em magna parte as divisas com que<br />

se tem feito nossa industrialização. Ela vai assim<br />

cumprindo normalmente seu dever para<br />

com o País. As afirmações em sentido contrário,<br />

formuladas pelo agro-igualitarismo demagógico,<br />

carecem de fundamento (cfr. RA­<br />

QC, Parte 1, Secção III, Cap. III; Parte li,<br />

Cap. VII a XII; DMA, p. 6; SC, pp. 289 a<br />

291).<br />

B. Defeitos na estrutura<br />

É bem verdade que aqui e acolá se notam<br />

defeitos na estrutura como nas atividades rurais<br />

em geral. Entretanto, esses defeitos podem<br />

ir sendo sanados paulatinamente, com<br />

uma política, entre outras, de colonização e<br />

de estímulo rural, de que já no livro <strong>Reforma</strong><br />

Agrária - Questão de Consciência (pp. 10 a<br />

12) se podem encontrar vários fundamentos,<br />

e que foram mais largamente explanadas na<br />

Declaração do Morro Alto (pp. 19 a 27). Ver<br />

também Sou católico: posso ser contra a <strong>Reforma</strong><br />

Agrária?, pp. 335-336.<br />

C. A situação dos trabalhadores<br />

rurais<br />

Entre esses defeitos sobreleva a deficiente<br />

situação de tantos trabalhadores rurais, a<br />

qual, se é próspera em vários lugares, a ponto<br />

de proporcionar, a ponderável número deles,<br />

o acesso à condição de proprietários, em<br />

outros é deficiente, injusta e até desumana.<br />

Em <strong>Reforma</strong> Agrária - Questão de Consciência<br />

(pp. 10 a 12, 21-22, 113 a 117) e na Declaração<br />

do Morro Alto (pp. 6 a 8, 15-16, 28<br />

a 30) estão enumeradas várias medidas capa-<br />

Título l<br />

zes de promover a melhoria das condições de<br />

vida do trabalhador rural. Essas e outras medidas<br />

devem ser postas em prática segundo o<br />

comportem as condições que, pem aproveitadas,<br />

essas propriedades rurais proporcionam.<br />

Entre outras, cabe lembrar aqui:<br />

a) proteção contra o alcoolismo, o jogo,<br />

a prática das uniões ilegítimas e a prostituição;<br />

b) salário justo e familiar, proporcionado<br />

ao valor do trabalho, como também às necessidades<br />

do trabalhador e de sua família;<br />

c) remuneração que torne possível o acesso<br />

do trabalhador diligente e parcimonioso à<br />

condição de proprietário;<br />

d) melhoria do conforto e salubridade das<br />

habitações;<br />

e) assistência médica;<br />

f) elevação do nível de instrução e<br />

educação.<br />

D. A fragmentação em propriedades<br />

de dimensões<br />

familiares: uma panacéia?<br />

Enganam-se os que imaginam encontrar<br />

caminho para essas melhorias, em nosso País,<br />

fragmentando todas as grandes propriedades<br />

rurais e até as médias. Com o que - sonham<br />

- ficaria inaugurada para a agricultura brasileira<br />

uma era de ouro, baseada na divisão<br />

compulsória das terras e na transformação<br />

dos atuais trabalhadores rurais em pequenos<br />

proprietários (cfr. RA-QC, pp. 101 a 120, 145<br />

a 149, 181 a 188,218 a 222,252 a 262; DMA,<br />

p. 4; se, pp. 54-55, 103, 169 a 174, 326-327).<br />

E. Grande, média e pequena<br />

propriedade, para cada qual um<br />

papel na agricultura<br />

Muitos são os erros em que esse programa<br />

demagógico se funda. Em nosso tão extenso<br />

território, a estrutura rural deve constar<br />

de grandes, médias e pequenas propriedades,<br />

pois conforme a natureza do solo e da<br />

18


Considerações doutrinárias<br />

cultura se recomenda um ou outro tipo de<br />

propriedade rural. A experiência ·das pequénas<br />

propriedades, aliás, provou mal no Brasil,<br />

em não poucos casos. Muitas vegetam na<br />

penúria, quer por falta de vitalidade, quer em<br />

razão da incapacidade demonstrada pelo Poder<br />

público de lhes dar a conveniente assistência.<br />

Transformar nossa estrutura agrária<br />

em um vasto conglomerado de pequenas propriedades<br />

amparadas pelo Estado constitui,<br />

pois, sob todos os pontos de vista, erro gravíssimo<br />

(cfr. RA-Qe, pp. 62 a 69, 101 a 120,<br />

145 a 149, 181 a 188, 218 a 222, 252 a 262;<br />

DMA, pp. 8-9; se, pp. 95, 103, 169 a 174,325<br />

a 327).<br />

.<br />

F. Quando é aconselhável a<br />

pequena propriedade<br />

É bem verdade que o natural desenvolvimento<br />

da agricultura acarreta, em determinadas<br />

zonas, a necessidade da partilha de terras.<br />

Em via de regra, onde essa necessidade<br />

se manifesta, a partilha se vem fazendo regularmente<br />

pela iniciativa particular. Na ~edida<br />

em que convenha multiplicar as pequenas<br />

propriedades, o Poder público deve estimular<br />

esse fato sócio-econômico espontâneo, e<br />

dispensar especial apoio às companhias privadas<br />

de colonização (cfr. DMA, pp. 9,<br />

26-27).<br />

G. O Estado, senhor de latifúndio<br />

fabuloso<br />

Sendo o Poder público detentor de cerca<br />

de 4,6 milhões de quilômetros quadrados de<br />

terras incultas (cfr. adiante Nota 4), quase<br />

sempre aproveitáveis em proporções importantes,<br />

justo é que promova a partilha das terras<br />

de que ele assim pode dispor gratuitamente,<br />

antes de se atirar sobre os latifundiários par-<br />

. ticulares, que não são na realidade senão<br />

micro-latifundiários, em comparação com o<br />

Poder público, latifundiário-inoloc (cfr. RA-<br />

Parte 1, Capítulo li<br />

Qe, pp. 10, 111, 155-156, 157, 185; DMA, p.<br />

7; se, pp. 92 a 94).<br />

H. Injustiças da desapropriação<br />

agro-igualitária<br />

Nestas condições, o tentame da demagogia<br />

agro-igualitária, de promover a desapropriação<br />

de terras de domínio privado, consti-=<br />

tui grave injustiça.<br />

Tui injustiça ainda sobe de ponto com o<br />

fato de o Poder público não dispor de recursos<br />

financeiros para pagar, por seu justo valor,<br />

as terras que sejam desapropriadas, pelo<br />

que a demagogia agro-reformista tem sugerido<br />

continuamente, ao longo destes anos, a desapropriação<br />

por valor menor do que o real,<br />

segundo o critério do chamado custo histórico,<br />

mediante pagamento em títulos, inevitavelmente<br />

depreciados~ da dívida pública, ou<br />

pelo valor declarado para fins de tributação.<br />

O que é manifestamente injusto (cfr. RA-Qe,<br />

pp. 110-111, 123 a 121; DMA, p. 9; se, p. 232).<br />

As decisões do Supremo Tribunal Federal<br />

têm feito prevalecer o critério do valor do mercado,<br />

fato esse reconhecido pelo próprio Ministro<br />

Nelson Ribeiro (cfr. "Jornal do Brasil",<br />

9-6-85), o que implica no reconhecimento da<br />

injustiça dos outros critérios mencionados.<br />

Thmbém o PNRA admite, em mais de uma<br />

passagem, ser essa a jurisprudência firmada<br />

pelos tribunais (cfr. tópicos 373 e 374).<br />

Aliás, a ser feito esse pagamento, é incompreensível<br />

que o Poder público pão reconheça<br />

ao proprietário confiscado a opção entre<br />

esses títulos públicos, desde logo desvalorizados,<br />

e a escolha de áreas devolutas cujo valor<br />

seja equivalente ao valor venal da terra<br />

confiscada.<br />

Por vezes o agro-reformismo confiscatório<br />

tem sugerido outro meio de perseguição,<br />

ou s-eja, uma· dura pressão tributária sobre os<br />

proprietários médios ou grandes. O que muda<br />

a forma da injustiça, porém não a elimina<br />

em sua essência (cfr. RA-Qe, pp. 107 a 113,<br />

202-203; DMA, p. 9).<br />

19


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

I. O agro-igualitarismo <strong>socialista</strong><br />

O agro-igualitarismo confiscatório e demagógico,<br />

ao pleitear estas medidas, se manifesta<br />

inspirado pela doutrina <strong>socialista</strong> (quer<br />

a do capitalismo de Estado, quer a autogestionária),<br />

a qual, negando a inviolabilidade<br />

sagrada do direito de propriedade e visando<br />

estabelecer uma sociedade em que todos os<br />

níveis sociais e econômicos se igualem, outra<br />

coisa não é senão uma rampa de acesso· que<br />

conduz ao abismo comunista (cfr. RA-Qe,<br />

Parte I; DMA, p. 10; se, pp. 89 a 96, 161 a<br />

182, 187 a 189, 271 a 272, 301 a 304) (2).<br />

3. Propriedade privada,<br />

expropriação e indenização:<br />

a doutrina social católica<br />

explanada<br />

nas obras da TFP<br />

Cabe ainda apresentar aqui, resumidamente,<br />

as principais teses da doutrina social<br />

católica sobre o sagrado direito de propriedade,<br />

explanadas longa e detidamente nas já referidas<br />

obras da TFP:<br />

a) A propriedade privada constitui elemento<br />

necessário da ordem natural criada por<br />

Deus. Ela está assegurada no 7? e no 10?<br />

Mandamento do Decálogo: "Não furtarás.,<br />

e "Não cobiçarás as coisas alheias., (cfr. RA­<br />

Qe, pp. 33 a 36, 97 a 101, 185 a 188, 191 a<br />

204; DMA, pp. 10-11; se, pp. 156 a 160, 180<br />

a 182, 196 a 198, 213).<br />

b) Thl direito confere ao homem a faculdade<br />

de se apoderar legitimamente da coisa<br />

não possuída, que é naturalmente do primeiro<br />

ocupante (cfr. RA-Qe, pp. 33 a 36; se, pp.<br />

156 a 160, 180 a 182).<br />

c) Não é só a ocupação que confere ao homem<br />

o direito de propriedade. Também do<br />

trabalho decorre esse direito. Dono de si mes-<br />

Título I<br />

mo, o trabalhador é naturalmente dono do<br />

que sua inteligência ou seus braços produzem,<br />

e tem direito a uma compensação proporcionada,<br />

em razão do acréscimo de valor que seu<br />

trabalho produza quando aplicado ao bem de<br />

terceiros. Em qualquer dos casos, o trabalhador<br />

faz jus àquela remuneração da qual setorna<br />

dono (cfr. RA-Qe, pp. 34, 95 a 98, 187;<br />

se, pp. 156-157, 198).<br />

d) Esse direito de propriedade não pode<br />

ser extinto por ação do Estado, pois ele não<br />

é concessão do Estado. Provém tal direito, como<br />

acima foi dito, da ordem natural das coisas<br />

criada por Deus, a qual é anterior ao Estado,<br />

e da qual o próprio Estado deriva (cfr.<br />

RA-QC, pp. 33-34, 93, 105 a 107, 109; DMA,<br />

pp. 13-14).<br />

e) A desapropriação é legítima quando o<br />

bem comum a exige. Por exemplo, a desapropriação<br />

de uma faixa de terra necessária para<br />

que nela passe uma via pública indispensável<br />

para o tráfego. Mas, em tal caso, a desapropriação<br />

deve normalmente ser feita mediante<br />

o pagamento prévio e integral, pelo poder expropriante,<br />

do justo valor do imóvel expropriado.<br />

O que se mede habitualmente pelo valor<br />

de venda do mesmo (cfr. RA-QC, pp. 120<br />

a 127; DMA, p. 9; se, pp. 28 e 232).<br />

f) O direito de propriedade importa no direito<br />

de alienar o bem. Isto é, de o doar ou<br />

vender. E, como o filho é carne da carne e sangue<br />

do sangue de seus pais, é maximamente<br />

direito destes doar seus bens aos filhos. Ou<br />

de os deixar a estes por sucessão hereditária<br />

(cfr. RA-Qe, pp. 34 a 36, 130 a 133; SC, p. 180).<br />

4. Debate oco e inconcludente<br />

- o Governo só dá<br />

conhecimento ao público<br />

de parte de seus motivos<br />

Em conseqüência dos princípios enunciados<br />

no item anterior, o Governo deveria de-<br />

20


Considerações doutrinárias<br />

monstrar ao povo que, de fato, nas condições<br />

atuais do Brasil, o direito natural imprescritível<br />

do homem, ou o bem comum nacional<br />

exigem a <strong>Reforma</strong> Agrária.<br />

Tal demonstração, ele a deveria fazer em<br />

duas ordens de idéias:<br />

a) na linha da justiça, provando que a<br />

atual estrutura fundiária do País é injusta;<br />

b) na linha do bem comum social e econômico,<br />

demonstrando que a atual situação<br />

fundiária é contrária ao interesse coletivo, porque<br />

não produz suficientemente.<br />

Mas para isto seria indispensável que ele<br />

exibisse a argumentação· doutrinária correspondente,<br />

bem como estatísticas, pesquisas,<br />

análises e relatórios em abundância, para que<br />

o povo pudesse formar seu juízo sobre a matéria.<br />

Porém, nada disso fez ele.<br />

O debate do qual o Governo deveria ser<br />

o grande animador, mediante a apresentação<br />

de todo esse material probante, à míngua desses<br />

elementos só pode - pelo contrário - estiolar.<br />

Com efeito, fica ele assim sem sentido,<br />

carecendo dos elementos indispensáveis<br />

para a sua prossecução. O que mais uma vez<br />

faz notar o vazio do debate, que de outro lado<br />

o Governo estrangulou de início no exíguo<br />

prazo de trinta dias, e depois estendeu algum<br />

tanto até .o próximo dia 20 de agosto. Esse<br />

estrangulamento é particularmente danoso,<br />

se se tem em vista a inibição de descrever,<br />

analisar e concluir, tão freqüentes no mundo<br />

rural brasileiro (3).<br />

5. Livre iniciativa: o direito<br />

de usar, em favor de<br />

si mesmo, a inteligência,<br />

a vontade e a<br />

sensibilidade próprias<br />

É o momento de dizer, rapidamente embora,<br />

uma palavra sobre a livre iniciativa.<br />

Tanto se fala, em nossos dias, da liberda-<br />

Parte I, Capítulo li<br />

de individual, conseqüência natural da condição<br />

de ente dotado de alma e corpo, de inteligência,<br />

vontade e sensibilidade, como é o<br />

homem.<br />

Infelizmente, contu~o, o zelo por essa liberdade<br />

se aplica cada vez mais em restringir<br />

o poder do Estado na repressão da imoralidade,<br />

do vício e do crime. Vivemos, por exemplo,<br />

na era da anarquia penitenciária, do que<br />

fatos ocorridos recentemente no Brasil dão<br />

exemplos consternadores.<br />

Porém, os zelotas da liberdade dão cada<br />

vez menos mostras de seu empenho em defender<br />

as legítimas liberdades do homem de<br />

bem contra essa ação do Estado, ora invasora<br />

quase até as raias do totalitarismo, ora<br />

omissa quase até as raias da anarquia. Assim,<br />

a proibição de uma peça de teatro imoral p·ode<br />

dar ocasião a que se desencadeie contra o<br />

Governo um verdadeiro estrondo publicitário.<br />

E a eventual atuação da polícia contra piquetes<br />

grevistas pode ocasionar análogo efeito.<br />

Tudo em nome da liberdade.<br />

De maneira que propagar no palco o vício<br />

ou o crime seria um "direito humano".<br />

Usar de violência para impedir a colegas que<br />

trab~hem honestamente no sustento do lar,<br />

também seria um "direito humano".<br />

Ora, a liberdade do homem consiste essencialmente<br />

no direito de fazer o bem.<br />

Por disposição divina, o homem tem necessidades<br />

a enfrentar nesta vida, mas ao mesmo<br />

tempo, é dotado de recursos para prover<br />

a essas necessidades. Os problemas de cada<br />

homem devem ser resolvidos antes de tudo<br />

por ele mesmo,· isto é, com a utilização de seus<br />

dotes de corpo e muito principalmente dos de<br />

alma. O direito de utilizar em favor de si mesmo<br />

sua própria inteligência, sua própria vontade,<br />

os recursos de sua própria sensibilidade<br />

- nisso consiste a livre iniciativa. Negála,<br />

mutilá-la, criar-lhe entraves usurpatórios,<br />

é tratar o homem parcial ou inteiramente como<br />

coisa, como objeto inanimado.<br />

21


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

6. Livre iniciativa e<br />

. , .<br />

pr1nc1p10<br />

de subsidiariedade<br />

Nos casos em que o homem se encontre<br />

legitimamente impedido de prover por si às<br />

próprias necessidades, é natural que ele recorra<br />

à ação supletiva do grupo social que lhe<br />

é mais próximo, ou seja, a família.<br />

Quando a ação subsidiária da família se<br />

verifica legitimamente insuficiente, pode o homem<br />

recorrer a outros grupos menos próxi­<br />

. mos, como associações profissionais, caritativas<br />

etc.<br />

Na eventualidade de mesmo então não encontrar<br />

a ajuda necessária, está o homem no<br />

direito de recorrer, também subsidiariamente,<br />

à ação do grande grupo que sobrepaira a<br />

todos os outros, e na mais alta instância os<br />

protege: o Estado.<br />

O princ(pio de subsidiariedade, assim descrito,<br />

embora com o caráter algum tanto hirto<br />

das exposições esquemáticas, situa a livre<br />

iniciativa no âmago de um conjunto de círculos<br />

concêntricos sucessivamente destinados<br />

a ajudá-la.<br />

É ela exatamente o oposto do coletivismo,<br />

que se propõe estancá-la.<br />

Com efeito, o Estado coletivista impede<br />

toda iniciativa individual, suprime a família<br />

e os demais grupos intermediários entre o indivíduo<br />

e o Estado, e enfeixa tudo nas mãos<br />

do Poder público, dotado, para dominar a cada<br />

qual, do cetro da Propàganda monopolizada,<br />

e da terrível chibata da perseguição<br />

policial.<br />

7. ET, PNRA<br />

e livre iniciativa<br />

O PNRA (pretendendo-se quiçá inspirado<br />

em al~ma disposição do ET carente de<br />

Título l<br />

inteira clareza) encaminha o agricultor para<br />

a condição ambígua de mero "assentado",<br />

adstrito a explorar a terra sob a direção mais<br />

ou menos draconiana de uma pesada pirâmide<br />

de organismos estatais.<br />

Com os textos do ET e do PNRA em<br />

mãos, não é difícil provar que um e outro golpeiam<br />

a fundo - este mais ainda do que<br />

aquele - a iniciativa individual e deixam agonizante<br />

a propriedade rural.<br />

O ET, de sua parte, contém múltiplas disposições<br />

pelas quais o pequeno proprietário<br />

de dimensões familiares, freqüentemente, ou<br />

sempre, fica sem os meios de efetuar a exploração<br />

completa e a fundo da sua terra.<br />

Com efeito, para isso são µecessários recursos<br />

de capital destinado à compra de máquinas;<br />

de adubos, e de tudo quanto é preciso<br />

para explorar por si a gleba. A figura da<br />

pequena propriedade rural, como mais ou menos<br />

liricamente a idealiza o ET, corresponde<br />

a uma velha concepção de atividade agrícola,<br />

ainda desajudada de todos os contributos<br />

que lhe trouxe o progresso científico e técnico<br />

dos séculos XIX e XX. Concepção arcaica<br />

esta, que remonta a séculos ainda anteriores,<br />

em que o agricultor só tinha meios de tirar<br />

da terra - por assim dizer com suas próprias<br />

mãos - não muito mais do que o suficiente<br />

para se manter a si e aos seus.<br />

Hoje, com todos os recursos modernos, a<br />

produtividade agrícola aumentou muito. Mas<br />

tal aumento, o pequeno proprietário raramente<br />

tem os meios para o alcançar por si mesmo.<br />

O resultado é que precisa cooperativizarse<br />

para obter créditos, e também máquinas,<br />

que por si só ele jamais conseguiria adquirir.<br />

E, de fato, um regime cooperativista, quan-:<br />

do aplicado em circunstâncias como esta,<br />

muito facilmente acarreta a dependência de<br />

todos para com a direção da cooperativa. E,<br />

por outro lado, as cooperativas assim descritas<br />

podem por sua vez ter necessidade - por<br />

análogo mecanismo - de se porem so~ a dependência<br />

do Estado supercapitalista. E o coletivismo<br />

que passa a imperar.<br />

22


Considerações doutrinárias<br />

Em análoga direção rumarão, de seu lado,<br />

os "assentamentos" - dispostos à maneira<br />

de rede - do Brasil agro-nivelado. O titular<br />

de tais assentamentos - segundo os concebe<br />

o PNRA ( cfr. Parte II, Comentário ao<br />

n? 137)- ficará transformado praticamente<br />

em funcionário do assentamento. Ou, por vezes,<br />

até mesmo da cooperativa. Esta ajudará<br />

o assentado, ou o assentamento, na proporção<br />

em que ele possa produzir, e lhe imporá<br />

condições para que ele produza ( cf r. Parte II,<br />

Comentário ao n? 137). Em conseqüência, o<br />

"assentado" não poderá produzir senão o que<br />

a cooperativa queira, quando ela queira,<br />

quanto ela queira e como ela queira. E, em<br />

uma cooperativa, ou através do sistema cooperativo<br />

estatizado, o desfecho será o regime<br />

comunista, em que tudo depende do Estado.<br />

O quantum que o "assentado" auferirá,<br />

pelas horas que trabalhou, dependerá então<br />

do contrato com a cooperativa. A dependência<br />

do assalariado em relação ao seu empregador<br />

é bem menor que a do "assentado" em<br />

relação a seu assentamento ou a sua<br />

cooperativa.<br />

Aliás, cumpre notar, o PNRA define mal,<br />

ou de todo não define, o que seja um "assentado"<br />

(cfr. Parte II, Comentário ao n? 131).<br />

Sem embargo, essa ambigüidade não é tal que<br />

não permita entrever o desaparecimento virtual,<br />

em tal regime, da propriedade privada.<br />

E é possível afirmar também que a iniciativa<br />

individual, alma do regime da propriedade<br />

privada, fica coarctada de todos os modos pelo<br />

sistema de assentamentos, em cuja implantação<br />

o PNRA deita todo o empenho.<br />

Poder-se-ia alegar, contudo, que os "assentados"<br />

mandam no assentamento ou na cooperativa<br />

pelo exercício do voto e pelo direito<br />

de ser votado nas respectivas assembléias. Em<br />

conseqüência do que, a direção do assentamento<br />

ou da cooperativa ficaria dependente<br />

deles. E não seriam assim meros dependentes<br />

· da direção do assentamento ou da<br />

cooperativa.<br />

É ingênua tal objeção. Dentro de um as-<br />

Parte I, Capitulo II<br />

sentamento ou de uma cooperativa desse gênero,<br />

o eleitorado é limitado. Uma direção pode<br />

conhecer individualmente cada um dos "assentados",<br />

e quais os verdadeiros líderes naturais<br />

que em todos os grupos humanos surgem.<br />

Pode ainda dar a esses líderes naturais<br />

vantagens pessoais muito preciosas, conquanto<br />

pequenas, e com isso fazer com que tais<br />

lideranças exerçam sua influência no sentido<br />

desejado pela direção.<br />

8. A fam11ia em crise,<br />

frágil apoio da<br />

propriedade familiar<br />

É o momento de dizer agora uma palavra<br />

sobre a propriedade familiar, à qual tanto realce<br />

deu o ET e, em muito menor medida, o<br />

PNRA, cujas preferências se voltam decididamente<br />

para outras formas mais socializadas<br />

de utilização da terra.<br />

A propriedade familiar és em princípio, a<br />

mais simpática forma de propriedade imobiliária<br />

rural. Mas o caráter quase obsessivo<br />

com que a ela se referem certos agroigualitários<br />

tem muito de utópico.<br />

Com efeito, o otimismo deles os impede<br />

de ponderar a devastação que a crise da família<br />

vai fazendo de norte a sul do País, em<br />

todas as classes sociais. Um dos mais ruinosos<br />

aspectos dessa devastação consiste em que<br />

cresce a todo momento, nas cidades como no<br />

campo, o número de uniões de facto, feitas<br />

sem legalização canônica nem civil.<br />

Resultam elas, em geral, do relaxamento<br />

moral da juventude, à qual tantas vezes nem<br />

sequer ocorre a necessidade dessa dupla legalização,<br />

de sorte que a relação concubinatária<br />

se ata e desata despudoradamente. Aliás,<br />

sem maior censura do ambiente, trabalhado<br />

a fundo por tantos meios de comunicação social<br />

a serviço da corrupção.<br />

23


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

E ainda quando se trata de uniões genuinamente<br />

matrimoniais, já são elas contraídas<br />

com os olhos postos no eventual divórcio, ou<br />

mesmo em alguma separação de fato, especialmente<br />

mais cômoda quando os cônjuges<br />

não têm bens a p~tilhar. A isto se seguem<br />

com freqüência uniões concubinatárias sucessivas,<br />

agravadas pelo fato de serem adulterinas.<br />

Em suma, verdadeiras aventuras sexuais,<br />

ao longo das quais os filhos - quando os há<br />

- são distribuídos à matroca entre os pais,<br />

parentes, estabelecimentos beneficentes etc.<br />

Leis recentes, favorecenào dos mais variados<br />

modos a equiparação da concubina à esposa<br />

e dos filhos ilegítimos aos legítimos não<br />

têm feito senão agravar catastroficament; essa<br />

situação.<br />

Acrescente-se que a generalizada coeducação<br />

escolar entre os sexos e o uso de contraceptivos,<br />

como também a impunidade do<br />

aborto, trazem por suâ. vez pesado contributo<br />

para o ambiente de exacerbação sexual em<br />

que está afundando o mundo hodierno.<br />

E seria impossível terminar esta lúgubre<br />

enumeração de fatores de corrupção sem mencionar<br />

ainda a propaganda crescente pela legalização<br />

da homossexualidade, que os costumes<br />

modernos vão tornando gradualmente<br />

infrene.<br />

Ora, já o velho BT, como o novo PNRA,<br />

falam da propriedade familiar (ou do "assentamento"<br />

sob a forma de "unidade familiar"<br />

- cfr. Parte II, Comentário ao n? 137) como<br />

se a famíli~ - o eixo de tal propriedade, 0<br />

santuário abençoado, a rocha firme que comunicava<br />

outrora solidez e pujança a tudo<br />

quanto se apoiasse nela - não se encontrasse<br />

nos estertores de uma crise atroz.<br />

Com a família cedendo rapidamente lugar<br />

ao concubinato, volúvel por definição, que<br />

solidez, que durabilidade pode ter a propriedade<br />

ou o "assentamento" familiar?<br />

Isto; que salta aos olhos, parece não ter<br />

chamado a atenção de tantos agro.iguali­<br />

Wios.<br />

Tt'tulo /<br />

9. Bem comum e direito<br />

dos pobres, na perspectiva<br />

dos agro-reformistas<br />

e na da TFP<br />

Pressuposto implícito ou explícito das posições<br />

agro-igualitárias é que o direito de propriedade<br />

e a livre iniciativa são intrinsecamente<br />

opostos ao interesse social e ao bem comum,<br />

de sorte que quanto mais mutilados melhor.<br />

E, em conseqüência, se extintos, melhor<br />

ainda. Cabe mostrar o erro desse pressuposto.<br />

Não é possível que a ordem posta por<br />

Deus, infinitamente sábio e bom, seja contrária<br />

ao interesse social. A realidade é que o favorecimento<br />

dos interesses privados importa<br />

na promoção do bem comum. Pois a coletividade<br />

se compõe de indivíduos. E se determinada<br />

situação sócio-econômica favorece a<br />

todos, ipso facto favorece a coletividade.<br />

Algum leitor poderia perguntar se a TFP,<br />

tomando tão afirmativamente a defesa do direito<br />

de propriedade e da livre iniciativa, não<br />

negligencia a proteção e o favorecimento dos<br />

que nada têm. Segundo essa objeção, a TFP<br />

não guardaria na alma o espaço necessário para<br />

considerar as privações, as angústias e os<br />

dramas que freqüentemente flagelam o trabalhador<br />

manual. E esqueceria a "opção preferencial<br />

pelos pobres", tão enfatizada por S.S.<br />

João Paulo II.<br />

O contrário, porém, é que é a verdade.<br />

Desde logo, a melhoria das condiç6es de<br />

vida dos trabalhadores manuais no campo é<br />

tema insistentemente versado pela TFP (cfr.<br />

Cap. II, 2, C).<br />

Ademais, mesmo reformas fundl4rias locais,<br />

efetuadas nas zonas em que a necessidade<br />

delas fosse demonstrada com idoneidade<br />

cientifica, seriam apoiadas por esta Sociedade,<br />

sempre que, naturalmente, os fazendeiros<br />

atingidos pela expropriação recebessem<br />

prévia e justa indenização. A TFP contesta,<br />

24


Considerações doutrinárias<br />

isto sim, a necessidade de aplicar, em um território<br />

tão imenso e tão variegado quanto o<br />

nosso, uma <strong>Reforma</strong> Agrária compacta, estritamente<br />

uniforme e indiscriminada. Ela<br />

contesta a legitimidade de uma partilha compulsória<br />

e confiscatória de terras particulares,<br />

quando 540Jo do solo pátrio são ocupados por<br />

terras devolutas, quase sempre aproveitáveis<br />

em proporções importantes, pertencentes ao<br />

maior latifundiário do País, o Estado. Terras<br />

devolutas, sim, que este tem o direito e o dever<br />

de repartir, prioritariamente à expropriação<br />

de quaisquer terras particulares (4).<br />

A TFP impugna, de fato, uma <strong>Reforma</strong><br />

Agrária que visa reduzir nossa estrutura fundiária<br />

a uma imensa rede de "assentamentos"<br />

(cfr. Parte II, Comentário ao n? 137) - não<br />

"propriedades", note-se -<br />

autogestionários<br />

e cooperativizados, à maneira da utopia que<br />

o <strong>socialista</strong> Mitterrand não ousou realizar (5).<br />

E, entre outras razões pelas quais a TFP<br />

impugna tal reforma, ocupa lugar de destaque<br />

o fato de que esta não proporcionará ao<br />

pobre a condição de proprietário, mas o atirará<br />

numa aventura q.ue pode levá-lo à mais<br />

negra miséria.<br />

Tal <strong>Reforma</strong> Agrária empobrecerá certamente<br />

os ricos, como afirmou desejar, com<br />

espanto nosso, um Purpurado brasileiro. Parece<br />

ele imaginar que assim se enriquecerão<br />

os pobres. Com efeito, há quem imagine que<br />

simplesmente confiscar, dividir e distribuir os<br />

bem dos outros ponha os pobres na abastança.<br />

Ilusão simpliata que os fatos estão a desmentir<br />

do modo mais alamoroso! (dr. adiante<br />

Título li, CARi.OS PATRICIO DBL CAM­<br />

PO, Cap. II, 4).<br />

Nos paÍMI am que essa poHtica se instalou<br />

GOB1 todo o eaadal de suas conseqüheias<br />

lóaicas e raclioais, mina poc certo entre os ricos<br />

de out,om a pobreza. Mas entre os pobres<br />

de outrcna de Nina a riqueza. Pelo contrériG,<br />

jazem eles rwma indigência tão exmma<br />

4118 um já hoje cBebn: documento da Santa<br />

Sé afirma çonstituir a ~'vergonha de nosso<br />

tempo" (6).<br />

Parte /, Capü11/o li<br />

É para evitar que caiam numa situação<br />

mais ou menos análoga a essa todos os que<br />

vivem no campo - patrões ou assalariados<br />

- que a TFP vem lutando com destemor e<br />

afinco desde 1960.<br />

10. A proteção do Estado,<br />

um direito<br />

que também os<br />

empregadores possuem<br />

É bem verdade que, no relacionamento entre<br />

patrões e trabalhadores, estes constituem<br />

normalmente a parte mais fraca. Em conseqüência,<br />

mandam a justiça e a eqüidade que<br />

mais especialmente os proteja o Poder<br />

público.<br />

Mas isto absolutamente não conduz a que<br />

o Estado fique desobrigado de qualquer tutela<br />

dos direitos dos empregadores. Pois estes<br />

fazem parte da Nação. E a tal título tim<br />

direito a apoio sempre que, injustamente atacados,<br />

em virtude da lei ou por carincia de<br />

meios, não possam defender-se com os recursos<br />

próprios. Ou sempre que seja necessário<br />

à boa ordem que, para evitar a multiplicaçito<br />

indefinida das vinditas privadas, o Estado<br />

exerça em toda a sua amplitude a defesa dos<br />

direitos violados, sejam eles quais forem, e<br />

também os dos abastados e dos ricos.<br />

Assim, o ladrão é normabnente mais pt>bre<br />

do que o proprietário em cuja NSidhcia<br />

irrompe. Mas sua punição deve estar nas mãos<br />

do SSCilclo, seb pena de o proprietário fiear<br />

com o direiw de reprimir por si o rOllbo, persep.ir<br />

e encarcerar em estabelecimento próprio<br />

o ladl'io.<br />

O PQlular de "policias privadas" numa cid,4e<br />

conduziria a \1111 caos quase tão grilnde<br />

quanto .. uele a que conduz a impunidade do<br />

roubo. :d portanto indispensável que o Estado.<br />

colocado naturalmente acima dos interesses<br />

25


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

individuais e das classes sociais, conserve cio­<br />

. sarnente em suas mãos o direito de fazer Justiça.<br />

Diga-se entre parênteses que a omissão -<br />

cada dia mais freqüente - de tantas autoridades<br />

constituídas, no cumprimento desse dever<br />

soberano, tem estimulado no Brasil contemporâneo<br />

as invasões de terras e, por contragolpe,<br />

as reações individuais dos proprietários<br />

desajudados pelo Poder público. Vão estes tendendo<br />

a substituir, por agentes privados, a ação<br />

policial omissa, paralisada como está por influência<br />

de mais de um governo estadual.<br />

Titulo I<br />

E assim o Brasil vai correndo o risco, sempre<br />

maior, de se transformar em uma imensa<br />

e ensangüentada babel.<br />

Ora, para quem analisa o texto do PNRA,<br />

não é possível evitar a penosa impressão de<br />

que o documento está todo imbuído de concepções<br />

doutrinárias e de intenções cujo pressuposto<br />

é a máxima de famoso extremista do<br />

século passado: ''A propriedade é um roubo"<br />

- a qual é precisamente afim com o modo<br />

de agir das autoridades omissas, ante as invasões<br />

dos itnóveis rurais.<br />

26


Capítulo III<br />

ET e PNRA na convulsão<br />

agrária brasileira<br />

1. O utopismo igualitário<br />

do ET e do PNRA<br />

De modo geral, tanto o ET quanto o<br />

PNRA visam uma só meta, e esta é marcadamente<br />

utópica:<br />

a) Laicos ambos os documentos - como<br />

o é também o Estado brasileiro - eles fazem<br />

total abstração de uma existência post-mortem<br />

para o homem. E, portanto, do Céu como do<br />

inferno que, na perspectiva do laicismo, são<br />

meros símbolos das vicissitudes da vida terrena.<br />

Dir-se-ia que, para o ET e o PNRA, há<br />

um inferno, sim, mas este consiste na existência<br />

em uma sociedade desigual e injusta, como<br />

qualificam a atual, e aliás também todas<br />

as sociedades do passado. E o céu se lhes afiguraria<br />

a existência em uma sociedade na<br />

qual, abolidas todas as desigualdades, imperasse<br />

o que entendem por "justiça".<br />

b) Com efeito, não é difícil discernir que<br />

o ET e o PNRA vêem na igualdade o supremo<br />

critério de justiça, e a fonte da qual dimana<br />

para os homens a felicidade. Pelo contrário,<br />

a desigualdade é, segundo eles, a injustiça,<br />

responsável última pelas rivalidades,<br />

lutas, revoluções e guerras que assolam o gênero<br />

humano.<br />

c) Segundo a mente dos igualitários de todos<br />

os países e épocas, a efetivação dessa utopia<br />

igualitária tem precedência sobre todas as<br />

outras considerações. Assim se explica que, na<br />

lógica das várias correntes de pensamento radicalmente<br />

igualitárias, a comparação entre<br />

a prosperidade do Ocidente e a miséria do<br />

Oriente pouco diz. Pois o que máxime lhes<br />

importa é a fruição da ventura que o homem<br />

encontra no "paraíso" de uma sociedade de<br />

iguais.<br />

Nessa perspectiva se entende a insistência<br />

com que o PNRA se refere à justiça. E a parcimônia<br />

com que alude aos efeitos que possa<br />

ter, para a produção, a redistribuição igualitária<br />

das _teJras.<br />

27


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

2. Uma seqüência de<br />

acontecimentos já em<br />

curso no Brasil<br />

desde o período Jango<br />

Como essa meta igualitária do ET e do<br />

PNRA se insere no contexto dos acontecimentos<br />

in crescendo de que o País vem sendo<br />

teatro?<br />

Analisando com acuidade tais acontecimentos<br />

se verifica que eles vão se dispondo<br />

segundo uma seqüência já em curso no Brasil<br />

a partir do período Jango, e aplicada também,<br />

com estas ou aquelas adaptações, em outros<br />

países.<br />

Com efeito, de tempos para cá se tem desenvolvido<br />

em todo o País a atuação de minorias<br />

coligadas em prol da implantação, a<br />

curto prazo, da <strong>Reforma</strong> Agrária ( com vista,,<br />

a pr~o médio, para a <strong>Reforma</strong> Urbana e a<br />

<strong>Reforma</strong> Empre.sarial}. Movimento esse nitidamente<br />

igualitário, em cujo percurso se podem<br />

notar duas etapas: a) a conquista. do<br />

Poder; b) a ação niveladora do Poder<br />

conquistado.<br />

3. A conquista do Poder<br />

pelos utopistas<br />

do igualitarismo<br />

O igualitário conta essencialmente com a<br />

luta de classes para a demlbada 4m ctl.W estio<br />

em ~ima e o conseqüente nivelamentoctes-­<br />

tes com os que estão em baixo.<br />

Para alcançar o Poder, essa luta se descmvolve<br />

em três lances essenciais, aqui enuadttdos<br />

mwto sumária e, portanto, também muito<br />

simplificadamente:<br />

a} a propaganda •~onscientizadora,, ievolucionária,<br />

destinada a fazer notar as "con-<br />

Tillllo l<br />

dições sub-humanas" em que todos vivem, e<br />

assim atear o incêndio do descontentamento<br />

geral;<br />

b) a "pressão moral libertadora", também<br />

ela revolucionária, exercida por meio da agitação<br />

das massas "conscientizadas" para desestabilizar<br />

a ordem vigente;<br />

c) o golpe de força, isto é, a revolução e,<br />

se necessário for, a guerra civil.<br />

4. Para a conquista do<br />

Poder, um recrutamento<br />

feito por etapas<br />

O recrutamento de elementos para a efetivação<br />

desses três lances também se faz por<br />

etapas:<br />

a) Desde o início, tal movimento vai detectando<br />

e aglutinando todos os igualitários<br />

radicais esparsos na massa, que, como ele,<br />

queiram declaradamente chegar à meta da<br />

Qto.pia igualitária completa.<br />

b) Isto obtido, procura ele a cooperação<br />

ela wsta coorte de igualitários tímidos que, ou<br />

não ousam proclamar-se tais, ou só são igua­<br />

Udriosa,meias, isto é, desejosos de abater apenas<br />

algumas desigualdades, mas sem ânimo<br />

para-derrubá-las todas. Esses igualitários parc,iais<br />

aio os que, uma vez detectados e influeneiadc>s,<br />

passam a ser, via de regra, inocentesárets<br />

.que acompanham os radicais só até certo<br />

ponto, na viagem à utopia.<br />

e) Os inocenteMÍteis existem e atuam de<br />

modP inteiramente individual. A máquina do<br />

mOY'imento comunista também os detecta,<br />

forma e orienta segundo o sistema apropriada,<br />

metendo-lhes no espírito inadvertido palavras<br />

de ordem que transmitirão aos respec­<br />

ÜVOJI ambientes. Sempre que convenha, se lhes<br />

facilita discretamente o acesso a postos-chave,<br />

28


Considerações doutrinárias<br />

nos quais a ação deles cresça em eficácia. Bem<br />

entendido, tais inocentes-úteis habitualmente<br />

o são sem disto se darem conta.<br />

d) Mas há também inocentes-úteis absolutamente<br />

cônscios de que caminham na mesma<br />

direção que o Partido Comunista, e com<br />

ele não hesitam em entrar em franca<br />

colaboração.<br />

Diferencia-os dos comunistas o fato de<br />

que não têm as metas radicais destes últimos,<br />

e, portanto, pensam em se desvincular da colaboração<br />

com o movimento comunista a partir<br />

do momento em que este comece a trabalhar<br />

pela imediata implantação de medidas<br />

que - a tais inocentes-úteis - pareçam por<br />

demais "radicais".<br />

Em outros termos, na longa trajetória da<br />

situação sócio-econômica atual, rumo à implantação<br />

do igualitarismo total sonhado pelos<br />

comunistas, esses "inocentes-úteis" pensam<br />

ser "companheiros de viagem" do comunismo.<br />

Dispostos, bem entendido, a apear da<br />

revolução em marcha assim que entendam, e<br />

em seguida passarem a combater o<br />

comunismo.<br />

A História mostra que habitualmente se<br />

• dá o inverso: os comunistas é que atiram fora<br />

do trem em movimento a frente ampla dos<br />

"companheiros de viagem".<br />

e) Por vezes essa "viagem" em comum vai<br />

longe, e a frente ampla chega a derrubar a situação<br />

vigente, e sobe então ao Poder.<br />

A vitória é então apresentada ao público<br />

como pertencendo tanto, ou até mais, a toda<br />

a frente ampla do que só aos comunistas.<br />

Mas esses "companheiros de viagem" se<br />

vão assustando à medida que sentem faltar o<br />

chão da realidade sob os passos do governo<br />

revolucionário, o qual começa com efeito a<br />

voar para a utopia. Quando o percebem, os<br />

"companheiros de viagem" procuram evadirse<br />

das responsabilidades do Poder. E, se tardam<br />

em o perceber, são apeados pelos radicais,<br />

a quem sua presença passa a parecer<br />

insuportável.<br />

Parte /, Capitulo Ili<br />

5. Instrumentalização do<br />

Poder conquistado para<br />

a implantação das<br />

reformas igualitárias<br />

A Propaganda, a Força e a Burocracia são<br />

os três grandes instrumentos para a implantação<br />

das reformas igualitárias:<br />

A. A Propaganda<br />

Tomado o Poder exclusivamente pelos radicais,<br />

a Propaganda, cada vez mais monopolizada,<br />

vai iniciando o público nas supostas<br />

delícias da utopia igualitária.<br />

E, pari passu, vai ela difundindo o terror,<br />

lançando o canhoneio de sucessivos estrondos<br />

publicitários contra os que tenham a ousadia<br />

de se opor ao estabelecimento da tirania<br />

utopista, ou mesmo de recusar uma colaboração<br />

integral. Ou simplesmente, ainda, de<br />

não bater palmas entusiasmadas a tudo quanto<br />

as autoridades radicais dizem e fazem.<br />

Esse terrorismo publicitário teve outrora<br />

caráter preponderantemente ideológico. Atacava<br />

ele instituiçõs como a Igreja e as Forças<br />

Armadas, classes sociais como a aristocracia<br />

ou a burguesia, bem como as posições doutrinárias<br />

correlatas como o "ultramontanismo",<br />

o "espírito de castas", a propriedade privada<br />

( '!4 propriedade, eis o roubo", escreveu<br />

Proudhon). "Reacionário" era injúria de uma<br />

violência suprema, igualada só por uns poucos<br />

outros qualificativos, como "inimigo da<br />

classe operária", "capitalista" ou "burguês".<br />

Mais recentemente, o estrondo publicitário<br />

vem abandonando resolutamente esse tônus<br />

ideológico, para se concentrar na difamação<br />

pessoal contra os porta-estandartes da resistência<br />

antiutópica: sua vida doméstica ou<br />

profissional, pequenas peculiaridades de sua<br />

vida pessoal, nada disso é poupado pelo tufão<br />

revolucionário da difamação e da calúnia.<br />

29


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

Até que estejam arrasados os que comandam<br />

a oposição, e se lhes dispersem os subordinados<br />

(1).<br />

B. A Força'·<br />

Com o poder na mão exclusiva dos radicais,<br />

o emprego da força perde seu caráter arruaceiro,<br />

e se institucionaliza. A polícia, toda<br />

recrutada de então em diante entre os furiosos<br />

da radicalidade revolucionária, intimida<br />

os que a Prop~ganda não consegue convencer.<br />

E prende, tortura ou mata aqueles a quem<br />

a intimidação policial não consegue silenciar.<br />

No fundo de quadro se perfilam as Forças<br />

Armadas, também elas já então expurgadas<br />

de seus elementos "reacionários", e recrutando<br />

só radicais para seus quadros dirigentes,<br />

de alto a baixo. Cabe a elas "pacificar"<br />

os surtos revolucionários que a polícia não haja<br />

conseguido prevenir nem esmagar.<br />

C. A Burocracia<br />

Assim jugulada a nação pelo Poder público,<br />

senhor exclusivo da Propaganda e da<br />

Força, pode este agir com inteiro desembaraço,<br />

para a realização da utopia igualitária,<br />

usando o terceiro grande instrumento do processo<br />

nivelador, a Burocracia.<br />

Esta última tem por encargo reduzir a nação<br />

inerte, como faz com a madeira a plaina<br />

do carpinteiro. Isto é, ela lhe raspa implacavelmente<br />

todas as protuberâncias.<br />

Para tal, o órgão dirigente é a tecnocracia.<br />

E o meio de execução é a repartição pública<br />

no sentido mais amplo do termo. Ou seja,<br />

todo organismo de qualquer natureza, cultural,<br />

artístico, eclesiástico, recreativo etc., instituído<br />

e dirigido por funcionários do Estado.<br />

Ou então constituído por particulares<br />

(com o gostoso consentimento da polícia) e<br />

dirigido de cima para baixo, como de fora para<br />

dentro, pelo mesmo Estado.<br />

A burocracia igualitária é também, e por<br />

essência, totalitária. As hierarquias naturais,<br />

Título I<br />

nascidas da própria sociedade, são meios com<br />

que estas se governam a si mesmas no âmbito<br />

legítimo da iniciativa individual. O totalitarismo<br />

não pode suportar essas hierarquias<br />

que limitam sadiamente a ação do Estado. A<br />

onipotência estatal só se exerce sobre a massa<br />

inteiramente nivelada e amorfa.<br />

Totalitarismo completo e igualitarismo<br />

completo são termos correlatos.<br />

A fim de aplainar e conservar aplainada<br />

a massa, para obrigá-la ao trabalho indispensável<br />

para a vida, e à ordem indispensável para<br />

o trabalho, cumpre que a nação esteja inteiramente<br />

envolta e penetrada pela Burocracia.<br />

É isto missão da tecnocracia. Com tal objetivo<br />

arquiteta ela planos uniformes e gigantescos,<br />

a serem aplicados ao país inteiro.<br />

Esses planos supõem sistemas infindos de<br />

repartições concatenadas entre si, e de serviços<br />

públicos convergentes para as metas gerais.<br />

Entretanto, sem o fluxo vital da iniciativa<br />

privada, todo esse sistema facilmente se<br />

esclerosa.<br />

O remédio é a constituição de uma rede<br />

complementar de repartições, destinada a desburocratizar<br />

(leia-se "desesclerosar") as repartições<br />

já existentes. E possivelmente estas mesmas<br />

deverão ser, por sua vez, defendidas contra<br />

a "esclerosação" por uma rede menor e<br />

mais ativa, de desesclerosadores selecionados.<br />

E assim por diante.<br />

6. Afinidades do quadro<br />

descrito, com<br />

a situação brasileira<br />

Isso posto, é o caso de perguntar se existem<br />

afinidades entre todo esse quadro, de um<br />

lado e, do outro, o contexto em que se situa<br />

o atual agro-igualitarismo brasileiro.<br />

Antes de tudo, esse quadro geral é o do<br />

comunismo? Se realizado em toda a suara-<br />

30


Considerações doutrinárias<br />

dicalidade, sem dúvida não fica nada longe<br />

de tal. Mas é bem evidente que esse quadro<br />

comporta graus de realização eventualmente<br />

muito desiguais em alguns pontos, e menos<br />

em outros. E também níveis heterogêneos de<br />

radicalidade, sendo os graus de realização e<br />

os níveis de radicalidade variáveis conforme<br />

as condições de cada nação.<br />

De outra parte, quanto ao ET e o PNRA,<br />

já por versarem apenas sobre matéria agrária,<br />

não podem ser qualificados de inteiramente<br />

rarucais. Acresce que pouco ou nada<br />

se vê neles de concernente à ação policial. Motivo<br />

a mais para não serem considerados totalmente<br />

radicais.<br />

Isso não exclui, entretanto, que se possa<br />

dizer que eles apresentam, em muitos aspectos,<br />

sintomas preocupantes da influência, ora<br />

mais radical ora menos, das doutrinas e técnicas<br />

de ação do comunismo.<br />

O que, diga-se entre parênteses, de nenhum<br />

modo importa em afirmar que os autores<br />

do ET e do PNRA sejam inocentes-úteis,<br />

e menos ainda agentes, articulados por Moscou.<br />

Deduzir tal coisa simplesmente das afinidades<br />

entre os dois documentos e o pensamento<br />

comunista, é manifestar ignorância primária<br />

do que são as influências culturais, ou<br />

mais precisamente as osmoses culturais, de um<br />

campo ideológico para outro, mesmó no fragor<br />

do embate das idéias. Osmoses às quais<br />

por vezes não são imunes nem sequer os líderes<br />

mais fogosos de um lado e do outro (2).<br />

No que toca, por exemplo, ao nivelamento<br />

rural, à dependência dos "assentados" sujeitos<br />

a um sistema de "assentamentos" que<br />

evoca os kolkhozes, à propaganda organizada<br />

no meio rural, à autogestão forçosamente<br />

dirigida por micro-sovietes etc., o PNRA apresenta<br />

muitas analogias com o quadro geral há<br />

pouco descrito.<br />

Quanto ao contexto sócio-econômico no<br />

qual a aplicação cumulativa do ET e do<br />

PNRA está sendo prevista pelo Poder público,<br />

isto é, quanto ao movimento de invasão<br />

de terras que vai tentando forçar, "na lei ou<br />

Parte /, Capitulo Ili<br />

na marra", a implantação da <strong>Reforma</strong> Agrária,<br />

há que distinguir dois veios.<br />

Um deies é o dos grupos de mercenários<br />

adrede treinados para o que der e vier, e que<br />

vão sendo transportados discricionariamente<br />

de um ponto do País para outro, conforme<br />

as conveniências do assalto geral.<br />

E há também os agitadores "conscientizados"<br />

por Sacerdotes esquerdistas, pelas CEBs<br />

etc. Estes, mais numerosos porém menos dinâmicos<br />

que os primeiros, foram via de regra<br />

recrutados e treinados para a agitação segundo<br />

os métodos descritos acima esquematicamente.<br />

A planificação tecnocrática e burocrática<br />

da agricultura, feita por meio de organismos<br />

estatais existentes e de outros - numerosos<br />

a perder de vista - por criar, fazem pensar<br />

invencivelmente na planificação, esta sim absolutamente<br />

total, da Rússia soviética.<br />

7. Uma explicação que é<br />

do domínio da História<br />

Em nosso povo, não raras vezes mais afeito<br />

às controvérsias sobre pessoas que sobre<br />

planos e idéias, não faltará quem empraze a<br />

TFP a responder se qualifica aqui de prócomunistas<br />

ou semi-comunistas o tão pranteado<br />

Presidente Castello Branco, o ilustre<br />

Presidente José Sarney, e o dinâmico Ministro<br />

Nelson Ribeiro:<br />

- E o ET? E o PNRA? - dirão. Como<br />

pode ter sido promulgado um, e proposto o<br />

outro, sem que sejam acusáveis de semicomunistas<br />

ou pelo menos influenciados por<br />

doutrinas comunistas tais homens públicos?<br />

A resposta da TFP é simples. Aí estão o<br />

ET e o PNRA como dois fatos concretos. Foi<br />

mencionado acima o curioso fenômeno das<br />

osmoses culturais mútuas, tão relacionáveis<br />

com o assunto.<br />

. Se, ademais, se trata de analisá-los, no pre-<br />

31


A propriedade prfrada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

sente livro está a análise da TFP. Se se trata<br />

de lhes explicar as causas, o assunto foge ao<br />

âmbito deste estudo. Pois tal explicação é do<br />

domínio da História. Quando algum dia to-<br />

T1i11/u I<br />

dos os documentos atinentes às origens históricas<br />

do ET e do PNRA estiverem franqueados,<br />

será então possível responder a essa pergunta,<br />

com inteira segurança e objetividade.<br />

32


Capítulo IV<br />

O ET, árvore daninl1a<br />

da qual o PNRA<br />

é apenas um fruto nocivo<br />

1. Rejeição do PNRA sem<br />

revogação do ET?<br />

Pode ter causado estranheza, a certo número<br />

de leitores, a afirmação antes feita (cfr.<br />

Cap. I, 8) de que o ET, independentemente<br />

do PNRA, implica por si só numa autêntica<br />

e muito radical <strong>Reforma</strong> Agrária.<br />

Com efeito, é freqüente ouvir-se em rodas<br />

de fazendeiros - e fazendeiros de realce:<br />

1. que o Estatuto da Terra respeita integralmente<br />

o direito de propriedade, bem como<br />

o de livre iniciativa;<br />

2. que o 1? Plano Nacional de <strong>Reforma</strong><br />

Agrária da Nova República, pelo contrário,<br />

golpeia a fundo o direito de propriedade e a<br />

livre iniciativa.<br />

3. pelo que os lavradores devem pedir ao<br />

Exmo. Sr. Presidente da República, Dr. José<br />

Sarney:<br />

a) que mantenha o Estatuto da Terra e o<br />

aplique;<br />

b) que rejeite o 1? Plano Nacional de <strong>Reforma</strong><br />

Agrária da Nova República.<br />

Para esses bravos fazendeiros, o PNRA parece<br />

conter em si toda a presente ameaça agroigualitária<br />

e confiscatória contra a propriedade<br />

privada e a livre iniciativa.<br />

A realidade é bem outra. O PNRA é apenas<br />

o fruto de uma árvore daninha que poderá<br />

produzir ainda muitos outros, tão ou<br />

mais nocivos. Esta árvore é o Estatuto da<br />

Terra.<br />

Com efeito, o PNRA existe para dar cumprimento<br />

ao ET, o qual dispõe, em seu art.<br />

33, que a <strong>Reforma</strong> Agrária, tal como ali está<br />

estabelecida, "será realizada por meio de planos<br />

periódicos. nacionais e regionais. com<br />

prazos e objetivos deterff!inados. de acordo<br />

com projetos específicos ... ·<br />

E acrescenta o art. 34 do mesmo ET. "O<br />

Plano Nacional de <strong>Reforma</strong> Agrária [será] elaborado<br />

pelo INCRA e aprovado pelo Presidente<br />

da República ...<br />

E não só o PNRA existe em cumprimento<br />

do ET, mas as disposições do PNRA são<br />

como são, porque este foi elaborado em consonância<br />

com aquele, embora vá além dele.<br />

Um estudo comparativo dos dois documentos<br />

pode facilmente comprová-lo.<br />

33


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

Cabe pois fazer aqui uma análise do ET,<br />

ainda que sumária - a extensão do presente<br />

livro não comporta mais do que isto - para<br />

mostrar como a rejeição do PNRA não representará<br />

senão uma ilusória dilação de prazo<br />

da agonia da propriedade rural individual no<br />

Brasil, enquanto não se obtiver a revogação<br />

do próprio ET.<br />

A recordação de algumas disposições do<br />

ET tornará evidente o que foi dito.<br />

2. O ET institui<br />

as desapropriações<br />

confiscatórias<br />

Reza o art. 22 do ET que •~ o INCRA<br />

(Instituto Nacional de Colonização e <strong>Reforma</strong><br />

Agrária) autorizado, para todos os efeitos<br />

legais, a promover as desapropriações necessárias<br />

ao cumprimento da presente lei" (1).<br />

Fazendo uso irrestrito da faculdade de expropriar<br />

que o Estatuto da Terra lhe confere,<br />

o Poder executivo (do qual o INCRA não é<br />

senão um órgão) regulamentou parcialmente<br />

o próprio ET no Decreto 55.891, de 31-3-65.<br />

E outorgou ao INCRA, nesse decreto, poderes<br />

onímodos para impor o valor da indenização,<br />

que nunca poderá superar o valor declarado<br />

pelo proprietário para efeitos de pagamento<br />

de imposto territorial rural. Por outro<br />

lado, se o INCRA, ao expropriar a terra,<br />

cometer algum erro na estimativa do valor da<br />

propriedade, esta nunca voltará ao proprietário.<br />

Apenas o INCRA pagará, por ela, um<br />

valor retificado.<br />

A. O INCRA impõe o valor da<br />

indenização<br />

O Decreto-Lei n? 554, de 25-4-69, que dispõe<br />

sobre desapropriação por interesse social<br />

T1i11lo /<br />

de imóveis rurais para fins de <strong>Reforma</strong> Agrária<br />

estabelece que:<br />

''Art. 3.°. Na desapropriação a que se refere<br />

o artigo 1.~ considera-se justa indenização<br />

da propriedade:<br />

I - O valor fixado por acordo entre o expropriante<br />

e o expropriado;<br />

II - Na falta de acordo, o valor da propriedade,<br />

declarado pelo seu titular para fins de<br />

pagamento do imposto territorial rural, se<br />

aceito pelo expropriante; ou<br />

III - O valor apurado em avaliação, levada<br />

a efeito pelo expropriante, quando<br />

este não aceitar o valor declarado pelo proprietário,<br />

na forma do inciso anterior, ou<br />

quando inexistir essa declaração".<br />

Como se vê, se o INCRA oferecer ao proprietário<br />

uma indenização por preço inferior<br />

ao pedido por este último, o preço será avaliado<br />

em definitivo ... pelo próprio INCRA!<br />

B. Por lei, o valor não pode superar<br />

o declarado para efeitos<br />

do imposto territorial rural<br />

Do mesmo Decreto-Lei n? 554:<br />

''Art. 11. Na revisão do valor da indenização,<br />

deverá ser respeitado, em qualquer caso,<br />

como limite máximo, o valor declarado pelo<br />

proprietário, para efeito de pagamento do imposto<br />

territorial rurai e eventualmente reajustado<br />

nos termos do § 3. 0 do art. 3.º".<br />

O próprio PNRA menciona que os Tribunais<br />

vêm apontando o caráter inconstitucional,<br />

e portanto despótico e arbitrário (para<br />

não falar diretamente em ditatorial...) destas<br />

disposições. Com efeito, nele se lê:<br />

"O Poder Judiciário tem entendido que a<br />

justa indenização corresponde ao valor fixado<br />

em perícia levada ao efeito no curso da<br />

ação de desapropriação.<br />

"Por força desse entendimento, os artigos<br />

3.° e 11 do Decreto-Lei n. 0 554/69, que fixam<br />

o justo preço na desapropriação por interesse<br />

social para fins de <strong>Reforma</strong> Agrária, têm<br />

34


Considerações doutrinárias<br />

sido considerados incon~titucionais pelo Tribunais"<br />

(tópicos 373 e 374).<br />

C. O valor da indenização será pago<br />

em títulos da dívida pública<br />

Ainda do Decreto-Lei n? 554:<br />

''Art. 4.°. Parágrafo único. O valor da terra<br />

nua será depositado em títulos. especiais da<br />

dívida pública, e o das benfeitorias, em moeda<br />

corrente do País".<br />

· D. Os bens expropriados não podem<br />

ser objeto de reivindicação<br />

O Decreto-Lei n? 554 estabelece ainda:<br />

''Art. 14. Os bens expropriados, uma vez<br />

transcritos em nome do expropriante, não poderão<br />

ser objeto de reivindicação ainda que<br />

fundada na nulidade da desapropriação.<br />

Parágrafo único. Qualquer ação, julgada<br />

procedente, resolver-se-á em perdas e danos".<br />

Ou seja, quando o INCRA tiver deitado<br />

a garra em uma terra, ainda que injusta e ilegalmente,<br />

o proprietário jamais a recuperará.<br />

3. Que é um imóvel não<br />

sujeito à expropriação?<br />

Em que condições<br />

subsiste ele?<br />

A meta do ET é, confessadamente, eliminar<br />

as diferenças entre as propriedades agropecuárias,<br />

e implantar no ager brasileiro um<br />

sistema igualitário. Nada, ou como que nada<br />

mais de patrões e empregados, de empresários<br />

e assalariados. Nada mais de propriedades<br />

de valor desigual.<br />

Com efeito, diz o ET em seu art. 16: ''A<br />

<strong>Reforma</strong> Agrária visa a estabelecer um sistema<br />

de relações entre o homem, a propriedade<br />

rural e o uso da terra, capaz de promover<br />

Parte/, Capitulo IV<br />

a justiça social .... com a gradual extinção do<br />

minifúndio e do latifúndio".<br />

Mas, por absurdo que pareça, para efeitos<br />

de desapropriação, até a pequena propriedade<br />

de dimensões familiares pode ser considerada<br />

como latifúndio. Quanto mais certamente<br />

poderá ser qualificada como latifúndio<br />

a média ou a grande propriedade.<br />

Pois, segundo o ET, latifúndio é também<br />

o imóvel rural que "tendo área igual ou superior<br />

à dimensão do módulo de propriedade<br />

rural'; "seja deficiente ou inadequadamente<br />

explorado" ou "seja mantido inexplorado<br />

em relação às possibilidades físicas, econômlcas<br />

e sociais do meio, com fins especulativos"<br />

(cfr. ET, art. 4?, V, b; e Decreto 55.891, art.<br />

6?, IV, b). Assim, o próprio minifúndio será<br />

qualificado de latifúndio. O que é evidentemente<br />

forçar, até à aberração, o sentido de mini<br />

e de lati (do latim minus, isto é, pequeno,<br />

e tatus, isto é, grande!).<br />

Segundo o ET, estão isentos de<br />

desapropriação:<br />

a) "os imóveis rurais que .... não excederem<br />

de três vezes o módulo de propriedade"<br />

(art. 19, § 3?, a) .<br />

. Não obstante, se estiverem "deficiente ou<br />

inadequadamente explorados" segundo os critérios<br />

do INCRA, serão considerados latifúndios,<br />

e por isso passíveis de desapropriação<br />

(cfr. ET, art. 4?, V, b).<br />

b) "os imóveis que satisfizerem os requisitos<br />

pertinentes à empresa rural" (art. 19,<br />

§ 3?, b).<br />

c) Ademais, "não se considera latifúndio"<br />

(art. 4?, parágrafo único):<br />

- 'b imóvel rura~ qualquer que seja a sua<br />

dimensão, cujas características recomendem,<br />

sob o ponto de vista técnico e econômico, a<br />

exploração florestal racionalmente realizada,<br />

mediante planejamento adequado;<br />

- "o imóvel rural, ainda que de domínio<br />

particular, cujo objetivo de preservação florestal<br />

ou de outros recursos naturais haja sido<br />

reconhecido para fins de tombamento, pelo<br />

órgão competente da administração pública".<br />

35


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

Ora, os requisitos impostos pela lei para<br />

adquirir essa "não expropriabilidade" transformam<br />

o proprietário num virtual empregado<br />

do INCRA, órgão do Estado. E com isto<br />

suprimem toda a livre iniciativa.<br />

Ê isto fácil de provar.<br />

Por exemplo, o ET estabelece que não se<br />

considera latifúndio o imóvel rural apto para<br />

a exploração florestal a ser realizada ''mediante<br />

planejamento adequado": quem<br />

estabelece os padrões desse planejamento? O<br />

INCRA. Quem julga se o planejamento adotado<br />

pelo proprietário é "adequado", de conformidade<br />

com os padrões do INCRA? O<br />

proprietário e o INCRA? Só o INCRA? Em<br />

todo caso, se as idéias do proprietário sobre<br />

tal planejamento não concordarem com as do<br />

INCRA, este fica com a faculdade de disparar<br />

contra o proprietário... uma desapropriação.<br />

Outro exemplo. Que condições deve satisfazer<br />

o proprietário para que sua fazenda, sítio<br />

ou chácara seja qualificada de ''empresa<br />

rural"?<br />

Por um lado, o ET define: ''Empresa rural<br />

é o empreendimento .... que explore econômica<br />

e racionalmente imóvel rural, dentro<br />

de condição de rendimento econômico da região<br />

em que se situe e que explore área mínima<br />

agricultável do imóvel segundo padrões<br />

fixados, pública e previamente, pelo Poder<br />

Executivo,, (art. 4?, VI). ·<br />

De outro lado, o regulamento do ET, Decreto<br />

n? 55.891, de 31-3-65, art. 25, acrescenta:<br />

''Art. 25. O imóvel rural será classificado<br />

como empresa rural .... desde que sua exploração<br />

esteja sendo realizada em obediência<br />

às seguintes exigências .... :<br />

HJ - Que a área utilizada nas várias explotações<br />

represente porcentagem igual ou superior<br />

a 50% da sua área agricultável ....<br />

u// - Que obtenha rendimento médio, nas<br />

várias atividades de explotação igual ou superior<br />

aos mínimos fixados em tabela própria,<br />

periodicamente revista.<br />

HJ/l - Que adote práticas conservacionis-<br />

T/111/0 I<br />

tas e que empregue no mínimo a tecnologia<br />

de uso corrente nas zonas em que se situe.<br />

u1v - Que mantenha as condições de administração<br />

e as formas de exploração social<br />

estabelecidas como mínimas para cada região,,<br />

(Decreto n? 55.891, art. 25).<br />

Quem é o autor da "tabela periodicamente<br />

revista"? O Poder público.<br />

"Estabelecidas como mínimas" - por<br />

quem? Naturalmente pelo Poder público, é<br />

também a resposta.<br />

Na verdade, sem que muitos proprietários<br />

rurais presumivelmente o tenham percebido,<br />

as exigências para a classificação de sua propriedade<br />

como ''empresa rural" vêm sendo<br />

cada vez mais apertadas, em sucessivos<br />

decretos.<br />

Com efeito, o Decreto n? 72.106 de 18 de<br />

abril de 1973 (art. 44, I) eleva para 700Jo a porcentagem<br />

do inciso I do art. 25, acima transcrito.<br />

E o Decreto n? 84.685 de 6 de maio de<br />

1980 (art. 22, III, a) fixa um novo aumento,<br />

para 80%.<br />

Por outro lado, o mesmo Decreto n?<br />

84.685 estabelece o requisito, para a classificação<br />

como uempresa rural", que esta utenha<br />

grau de eficiência na exploração, calculado na<br />

forma do art. 10, igual ou superior a 100%"<br />

(art. 22, III, b).<br />

* *<br />

Tudo isto considerado, pergunta-se: que liberdade<br />

fica ao proprietário, com relação ao<br />

seu imóvel? De senhor de suas terras, passará<br />

a ser um virtual empregado do INCRA, ao<br />

qual deverá obedecer sob pena de ver sua '~mpresa<br />

rural" transformada em u/atifúndio<br />

expropriável".<br />

Análogas observações se poderiam fazer<br />

sobre a regulamentação dos imóveis rurais de<br />

exploração ou preservação florestal.<br />

É até normal que, para evitar alguma "má<br />

surpresa" de diretrizes arbitrárias do INCRA,<br />

o proprietário consulte esse órgão, para pe-<br />

36


Considerações doutrinárias<br />

d.ir aprovação prévia de seus planos, e até. para<br />

coisa de pormenor.<br />

Ou seja, ele agirá face ao INCRA, como<br />

o administrador face ao fazendeiro.<br />

4. O INCRA, o grande<br />

patrão<br />

da terra brasileira<br />

Parte /, Cap,iulo IV<br />

la a expropriação, o INCRA conserva a propriedade<br />

(cfr. Decreto-Lei n? 554, art. 14).<br />

Um ato nulo que produz efeitos! ...<br />

5. "Tensão social" e<br />

"zonas críticas" como<br />

causas de<br />

<strong>Reforma</strong> Agrária<br />

A explanação até aqui feita já é suficiente<br />

para comprovar que, com ou sem o PNRA,<br />

a direção agrícola efetiva dos imóveis rurais<br />

brasileiros, mesmo os ainda não expropriados,<br />

já está em mãos do INCRA. De tal sorte<br />

que, uma vez efetivamente aplicados o ET<br />

e os decretos que o regulamentam, se os proprietários<br />

não dirigirem seus imóveis rurais<br />

'~m obediência às .... exigências" do IN­<br />

CRA (Decreto n? 55.891, art. 25), ficam sob<br />

ameaça de desapropriação confiscatória.<br />

Assim, praticamente extintas a propriedade<br />

individual e a livre iniciativa, a política<br />

agrícola interna da propriedade rural passará<br />

a ser dirigida pelo órgão estatal, e o proprietário<br />

será para o Poder público, no que<br />

diz respeito ao seu imóvel - convém repetir<br />

- o que tradicionalmente o administrador da<br />

fazenda é em relação a ele.<br />

Alguém argumentará que o proprietário<br />

pode sempre recorrer à Justiça contra as exigências<br />

desmedidas do INCRA, e em especial<br />

quando ocorram expropriações injustas, ou<br />

feitas mediante indenização irrisória.<br />

É porém necessário considerar que nem<br />

todo proprietário tem condições de processar<br />

ó Poder público. Tanto mais quanto, por lei,<br />

o INCRA está obrigado a recorrer '~e ofício<br />

para o Tribunal Federal de Recursos., de "toda<br />

decisão que fixar o preço em quantia superior<br />

à oferta formulada pelo órgão expropriante,,<br />

(ET, art. 19, § 5?).<br />

Ademais, já se viu que ainda que seja nu-<br />

Por fim, é notória a importância que tanto<br />

o ET quanto suas regulamentações posteriores<br />

conferem às "zonas críticas., ou de "tensão<br />

social', para a determinação das áreas de<br />

prioridade para fins de <strong>Reforma</strong> Agrária.<br />

Assim, para o ET, '~ implantação da <strong>Reforma</strong><br />

Agrária em terras particulares será feita<br />

em caráter prioritário, quando se tratar de zonas<br />

críticas ou de tensão social,, (art. 15).<br />

E o art. 43 do mesmo ET diz:<br />

"O INCRA promoverá a realização de estudos<br />

.... visando a definir:<br />

"/- As regiões críticas que estão exigindo<br />

<strong>Reforma</strong> Agrária com progressiva eliminação<br />

dos minifúndios e dos latifúndios.,.<br />

Por sua parte, o Decreto-Lei n? 582, de<br />

15-5-69, estabelece (art. l?, parágrafo único):<br />

"Constituirão requisitos bdsicos para a<br />

. identificação das dreas onde se executarão os<br />

projetos da <strong>Reforma</strong> Agrdria, entre outros, os<br />

seguintes: ....<br />

'~) Manifesta tensão sociar,_<br />

Fica claro então que o PNRA, ao tomar<br />

esses conceitos de "tensão social" e de ''região<br />

crítica" como apelos à <strong>Reforma</strong> Agrária:<br />

não está senão recolhendo o .que estipulam<br />

o ET e sua vasta regulamentação.<br />

A par da imprecisão dos termos - pois<br />

não são eles definidos de modo claro - cumpre<br />

ressaltar a facilidade com que tais situações<br />

podem ser artificial, ou até dolosamente<br />

constituídas.<br />

_ Disto dá numerosos exemplos o órgão de<br />

37


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

cultura "Catolicismo" (n? 402 de junho de<br />

1984 e n? 406..:.407 de outubro-novembro de<br />

1984) que elenca de modo perfeitamente documentado<br />

as invasões de terras em curso no<br />

Brasil.<br />

6. O ET, uma verdadeira<br />

espada de Dâmocles<br />

O ET, por tudo quanto se acaba de ver,<br />

constitui uma verdadeira espada de Dâmocles,<br />

suspensa sobre a cabeça do fazendeiro.<br />

Pois .ainda que seja revogado o atual<br />

PNRA, o Executivo pode a qualquer momento<br />

promulgar, com base no ET, outro Plano<br />

de <strong>Reforma</strong> Agrária igual... ou pior. Sem que<br />

contra isso tenha qualquer defesa o<br />

proprietário.<br />

Poder-se-á objetar que certas disposições<br />

do Decreto-Lei n? 554/69, aplicáveis às desapropriações<br />

feitas com base no ET, não têm<br />

sido acolhidas pelo Judiciário, fundamentado<br />

este na Constituição Federal.<br />

Sem entrar na análise dessa objeção, basta<br />

realçar que qualquer inadvertência na redação<br />

de algum artigo da futura Constituição,<br />

alusivo à matéria, pode jogar por terra<br />

esta última e discutível barreira ...<br />

Para só falar em "inadvertências", e não<br />

aludir a pressões, oficiais ou publicitárias<br />

etc ....· ..<br />

A posição dos proprietários rurais se manifesta<br />

assim a mais precária, ainda sem<br />

PNRA. •<br />

* * *<br />

Acresce que o precário da situação dos<br />

proprietários rurais tende a contagiar a propriedade<br />

imobiliária urbana. Com efeito, o arquiteto<br />

Sarni Bussab, presidente da EMURB<br />

de São Paulo, declarou que "não se pode fazer<br />

uma discussão [a da reforma agrária] sem<br />

Titulo l<br />

a outra [sobre desenvolvimento urbano e ocupação<br />

do solo] " ("O Estado de S. Paulo",<br />

29-6-85). Segundo a notícia, essa foi a principal<br />

tese defendida pelos urbanistas e técnicos<br />

de órgãos de governo reunidos no 6? Encontro<br />

Nacional de Entidades de Planejamento<br />

Urbano, realizado em São Paulo em fins<br />

de junho p.p.<br />

Assim terá tido inteiro atendimento por<br />

parte do Poder temporal o deliberado pelo Poder<br />

espiritual - a CNBB - nos documentos<br />

Igreja e problemas da terra (18~ Assembléia<br />

Geral, 1980) e Solo urbano e ação pastoral<br />

(20~ Assembléia Geral, 1982), nos quais pede<br />

a completa remodelação fundiária interna<br />

do País, tanto rural quanto urbana. E tudo<br />

segundo critério estritamente igualitário<br />

(cfr. se, pp. 89 a 91, 100, 103, 179, 189; CEBs,<br />

pp. 47 a 50).<br />

A partir disso, nenhuma consideração<br />

doutrinária impedirá que o mesmo critério<br />

igualitário seja imposto à propriedade empresarial<br />

exercida na indústria ou no comércio<br />

(cfr. CEBs, pp. 48 a 50).<br />

A permanecer o ET, as avenidas de acesso<br />

à abolição da propriedade privada e da livre<br />

iniciativa estão abertas.<br />

* * *<br />

Como pôde o regime militar instituído em<br />

1964 promulgar o ET, e a luxuriante legislação<br />

agro-igualitária que se lhe seguiu?<br />

Como pôde a abertura revogar todas as<br />

medidas restritivas da liberdade dos prosélitos<br />

intelectualizados (PCB) e à mão armada<br />

(PC do B) do comunismo internacional, e deixar<br />

intacta a legislação francamente persecutória<br />

da propriedade privada e da livre<br />

iniciativa?<br />

Mais ainda: como pôde a abertura conduzir<br />

a que, enquanto <strong>socialista</strong>s e comunistas<br />

hoje exercem suas atividades sob as vistas<br />

benevolamente corteses do Poder público, se<br />

comece a aplicar maciçamente a legislação<br />

atentatória à propriedade privada e à livre ini-<br />

38


Considerações doutrinárias<br />

dativa? E corno pode o novo Governo, instalado<br />

sob a égide da abertura, conduzir-se como<br />

fiel continuador do regime militar, empreendendo<br />

o que este último promulgara,<br />

mas só ousara aplicar de modo esporádico e<br />

restrito, isto é, a legislação agro-igualitária?<br />

Intrincados problemas contemporâneos,<br />

que um dia caberá aos historiadores explicar.<br />

Não é oportuno _resolvê-los agora com recriminações<br />

estéreis e explicações forçosamente<br />

pouco documentadas.<br />

O momento pede que se voltem as costas<br />

a essas questões. E que se unam irmãmente,<br />

para pleitear a revogação indispensável, não<br />

só do PNRA corno do ET e de todas as suas<br />

Parte /, Cap,iulo IV<br />

seqüelas legais, quantos queiram salvar o Brasil<br />

e os preciosos restos de tradição cristã nele<br />

existentes.<br />

Assim, se permanecer em vigor o Estatuto<br />

da Terra, como verdadeira espada de<br />

Dâmocles sobre a benemérita classe dos fazendeiros,<br />

e se continuar o INCRA a dispor<br />

dos poderes verdadeiramente discricionários<br />

de que dispõe, a situação dos agricultores<br />

continuará como está, ainda que o Governo<br />

federal determine o arquivamento<br />

do PNRA. Ou seja, a mais precária<br />

possível quanto à estabilidade de seu direito<br />

de propriedade, e a sua livre iniciativa<br />

na gestão de seus imóveis rurais.<br />

39


Parte II<br />

No PNRA,<br />

socialisJDo x propriedade privada,<br />

autogestão x livre iniciativa<br />

- alguns comentários


■ Notação gráfica<br />

O texto oficial do PNRA, a seguir transcrito na<br />

íntegra em tipos itdlicos, está dividido em itens (1 a 8)<br />

e sub-itens, mas não tem seus parágrafos numerados.<br />

A numeração aqui feita, de 1 a 386, teve em vista facilitar<br />

as referências. O agrupamento em secções, dos tópicos<br />

do PNRA e dos respectivos comentários, é de<br />

responsabilidade do autor. As palavras ou frases do<br />

PNRA transcritas nos comentários do autor vão em<br />

negrito. Tomou-se como base a publicação mimeografada<br />

distribuída pelo próprio Ministério da <strong>Reforma</strong><br />

e do Desenvolvimento Agrário (Brasília, maio de 1985,<br />

69 pp.).


Secção A<br />

<strong>Reforma</strong> Agrária, um sacrifício certo<br />

e ingente, para obter uma<br />

vantagem incerta e vácua,<br />

à custa de riscos vertiginosos<br />

TEXID DO PNRA<br />

Ministério da <strong>Reforma</strong> e do Desenvo/vimenio Agrário<br />

MIRAD<br />

Proposta para a elaboração do<br />

1 .º Plano Nacional de <strong>Reforma</strong> Agrária da Nova República -<br />

PNRA<br />

Brasília, maio de 1985<br />

APRESENTAÇÃO<br />

Honrando os compromissos assumidos pela Aliança Democrática,<br />

estamos apresentando, para conhecimento e debate<br />

da Nação, a Proposta para a elaborafão do J.0 PLANO<br />

NACIONAL DE REFORMA AGRARIA, com que a Nova<br />

República dá início ao resgate desta imensa dívida social<br />

perante a sociedade brasileira.<br />

Assim fazemos, no cumprimento da lei n. 0 4.504, de 30 de<br />

novembro de 1964 (Estatuto da 'lerra) e em consonância com<br />

o 4.º Plano Nacional de Desenvolvimento, que o governo<br />

do presidente JOSÉ SARNEY acaba também de anunciar.<br />

Esses procedimentos têm sido adotados através de simples<br />

decretos do Executivo, como determina a lei em vigor mas<br />

entendemos que assunto de tal relevância deve ser antes discutido<br />

com a sociedade civil e com as legítimas representações dos<br />

trabalhadores e proprietários rurais. A audiência do Congresso<br />

Nacional é buscada pela manifestação dos partidos e das suas<br />

lideranças, já que se trata de simples operacionalização de lei<br />

já votada e em execução há mais de quatro lustros.<br />

Completa-se, com esta providência, o elenco de medidas<br />

preliminares iniciado com a criação do Ministério da <strong>Reforma</strong><br />

e do Desenvolvimento Agrário e a adaptação do Instituto Nacional<br />

de Colonização e <strong>Reforma</strong> Agrária às suas novas/unções.<br />

Esperamos que todos nos ajudem a implantar a <strong>Reforma</strong><br />

Agrária no Brasil e com isso, colocar em uso milhões<br />

de hectares de terras agricultáveis mantidos como<br />

reserva de valor; evitar que o País se transforme, dentro<br />

de uma década, em uma imensa praça de guerra, onde<br />

se multipliquem os conflitos agrários; estancar as migrações<br />

predat6rias que derrubem inutilmente florestas e pressionem<br />

as cidades já saturadas e incapazes de oferecer empregos<br />

e serviços; incorporar, enfim, à vida econômica e política<br />

da Nação, milhões de patrícios que estão atualmente afastados<br />

do nosso convívio de País que legitimamente aspira<br />

ao pleno desenvolvimento.<br />

NELSON RIBEIRO<br />

MINISTRO DA REFORMA E DO DESENVOLVIMEN­<br />

TO AGRÁRIO<br />

COMENTÁRIO<br />

A Proposta para a Elaboração do 1 .O<br />

Plano Nacional de <strong>Reforma</strong> Agrária da<br />

Nova República (PNRA) tem como pressuposto<br />

a lei n? 4504, de 30 de novembro de 1964,<br />

o Estatuto da Terra. Este, como já ficou visto<br />

(cfr. Parte I, Cap. I, 2), é complementado por<br />

cerca de 696 outros diplomas legais dispondo<br />

sobre a mesma matéria. O que torna o estudo<br />

do PNRA inviável para o homem comum, a cuja<br />

apreciação o mesmo PNRA foi submetido<br />

por louvável decisão do Governo Sarney.<br />

Acresce, para dificultar tal estudo, que o<br />

PNRA deverá ser executado '~m consonância<br />

com o 4.0 Plano Nacional de Desenvolvimento,<br />

que o governo do presidente José Sarney acaba<br />

também de anunciar". Tal circunstância tor-<br />

43


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

Titulo I<br />

nará ainda mais ampla a massa de material de<br />

estudo a ser analisado e tomado em conta.<br />

* * *<br />

Uma primeira motivação do PNRA, segundo<br />

a Apresentação do Ministro Nelson Ribeiro,<br />

é "colocar em uso milhões de hectares de<br />

terras agricultáveis mantidos como reserva de<br />

valor", de modo a "evitar que o País se transforme,<br />

dentro de uma década, em uma imensa<br />

praça de guerra, onde se multipliquem os conflitos<br />

agrários".<br />

1. Esse prognóstico importa em supor que<br />

existe no País uma gravíssima ameaça. Ora, tal<br />

suposição ou é considerada como obviamente<br />

verdadeira, pelos partidários da <strong>Reforma</strong> Agrária,<br />

ou devem eles dar à Nação amplas provas<br />

dela.<br />

Como nenhuma prova é sequer esboçada,<br />

só se pode concluir que eles consideram óbvia<br />

a existência de tal ameaça.<br />

E, a ser assim, é por sua vez evidente que<br />

tomam por autênticas as agitações agrárias tão<br />

artificiais, de que o Brasil está sendo palco, e<br />

entendem que:<br />

a) a não se fazer a <strong>Reforma</strong> Agrária pretendida<br />

pelo Governo, o nosso pacífico País se<br />

transformará na tal ''imensa praça de guerra";<br />

b) pelo contrário, se forem atendidas as intenções<br />

agro-reformistas do Governo, todos os<br />

problemas se resolverão, todo o ·País se aquietará<br />

etc.<br />

Como evidentemente o ponto de partida de<br />

toda a argumentação usada pelos partidários<br />

da <strong>Reforma</strong> Agrária consiste, neste ponto, na<br />

suposição de que a agitação agrária procede,<br />

não da manipulação de alguns setores da população<br />

rural por eclesiásticos e leigos influenciados<br />

pela Teologia da Libertação, e em estreita<br />

cooperação com comunistas de variados matizes,<br />

mas da autêntica indignação popular, seria<br />

preciso que fosse demonstrada a objetividade<br />

do pressuposto no qual se colocam. Ora, tal não<br />

se dá. De onde cair por terra todo o valor dessa<br />

argumentação, pelo menos para aqueles que<br />

vêem na fermentação revolucionária artificial<br />

a causa principal da agitação agrária.<br />

Porém o tema acarreta ainda outra indagação.<br />

Uma vez que os partidários da <strong>Reforma</strong><br />

Agrária estão persuadidos da autenticidade da<br />

agitação rural, devem eles explicar à Nação<br />

quais são, no seu modo de ver, as causas de tal<br />

agitação, até que ponto elas se fundam na situação<br />

de carência dos trabalhadores rurais,<br />

quais são as verdadeiras características dessa carência,<br />

e a amplitude dela no território nacional.<br />

Também nada disso se encontra no PNRA.<br />

3. Com uma franqueza na qual os promotores<br />

do PNRA devem ver a expressão de um<br />

cordial desejo de colaboração, ficam aqui feitas<br />

mais estas perguntas: até que ponto a agitação<br />

rural tem como causa esse estado de carência<br />

também nas zonas prósperas do Estado de<br />

São Paulo e de outros Estados do Brasil, onde<br />

entretanto ela se tem manifestado com impressionante<br />

pertinácia? Há algum nexo psicológico<br />

entre as agitações rurais e as agitações urbanas<br />

nesse Estado? Por exemplo, entre as agitações<br />

rurais da região de Ribeirão Preto (Guari-<br />

. ba, Sertãozinho, Bebedouro etc.) e as escandalosas<br />

greves dos metalúrgicos do ABC e de São<br />

José dos Campos (1)? Até que ponto o estado<br />

de carência é responsável pela conduta dos grevistas<br />

da metalurgia, não obstante serem eles<br />

os operários mais bem pagos do Brasil?<br />

4. Dir-se-ia que os próprios líderes de certas<br />

greves rurais e urbanas reconhecem o artificial<br />

de seu movimento, uma vez que não encontram<br />

meios de dar um mínimo de amplitude às<br />

ditas greves, sem o recurso a piqueteiros. Isso,<br />

que constitui uma confissão indireta da artificialidade<br />

subversiva,.não leva os promotores do<br />

PNRA a desconfiar que tal artificialidade, patente<br />

nesses casos, se projeta ao longo de ramificações<br />

subterrâneas cuja extensão ninguém do<br />

grande público pode conjecturar com firmeza.<br />

5. A tal propósito, cumpre finalmente perguntar:<br />

como vêem os promotores do PNRA<br />

a inércia de certas autoridades estaduais ante<br />

essa ação dos piqueteiros, a qual aos próprios<br />

grevistas inflige considerável prejuízo, pois lhes<br />

desfigura o movimento, e os torna antipáticos<br />

aos próprios colegas?<br />

44


Considerações doutrinárias<br />

Parte li, Seção A<br />

Todas estas são questões às quais é indispensável<br />

responder para que sobre o PNRA opine<br />

o País.<br />

. Entretanto, é forçoso reconhecer que elas<br />

são múltiplas e delicadas, e impõem assim um<br />

considerável prolongamento do prazo de debates,<br />

cuja dilatação até o dia 20 de agosto p.f.<br />

é manifestamente insuficiente para abarcar.<br />

6. Outro pressuposto do PNRA está em que<br />

a transformação das grandes e médias propriedades<br />

em "assentamentos" autogestionários e<br />

cooperativizados (cfr. Comentário ao n? 137),<br />

e que a substituição da familia proprietária, tanto<br />

quanto possível, pela família "assentada" resolverá<br />

os problemas do campo, sobretudo a situação<br />

de carência dos trabalhadores rurais, a<br />

qual costuma ser alegada por todos os propugnadores<br />

do agro-igualitarismo.<br />

Ora, a imensidade da transformação proposta<br />

tem proporção com a amplitude da alegada<br />

carência? E, de outro lado, o regime de<br />

salariado será de tal maneira defeituoso, que<br />

não poderia ser sujeito a progressivas melhorias,<br />

de maneira a evitar para o País a imensa<br />

reforma visada pelo PNRA? A situação dos trabalhadores<br />

rurais é bem essa, insinuada pelo<br />

PNRA? Os remédios apontados por ele são realmente<br />

eficazes para atingir tal fim? São os únicos?<br />

Onde as provas de tudo isso?<br />

Tumpouco sobre esses pontos o PNRA dá<br />

informações.<br />

7. Por que não publica o Governo todos os<br />

estudos feitos pelas administrações anteriores,<br />

e pela atual, de posse dos quais se sentiu capacitado<br />

para endossar o PNRA, assumindo por<br />

este modo toda a responsabilidade perante o<br />

Brasil, perante o mundo, perante a História?<br />

8. Convém ainda ponderar que a <strong>Reforma</strong><br />

Agrária é assunto inexcogitável se não for relacionado<br />

com a produção. Obviamente, esta é<br />

o fim da agricultura. E o valor de tudo quanto<br />

o PNRA propõe não pode ser auferido sem que<br />

se dê resposta a estas perguntas fundamentais:<br />

- a produtividade da atual estrutura agrária<br />

poderia ser maior? - de quanto? - a <strong>Reforma</strong><br />

Agrária aumentará essa produtividade? -<br />

por sua vez, de quanto?<br />

O Brasil vive principalmente da agricultura.<br />

Em não pequena parte, o mundo se abastece<br />

de produtos de origem agrícola procedentes<br />

do Brasil, dos quais é hoje o 2? ou 3? exportador<br />

a nível internacional (cfr. Título II, Cap. I,<br />

3, B). Se cair a produção brasileira, seremos responsáveis<br />

pelas carências daí decorrentes dentro<br />

e fora do País.<br />

Ora, o PNRA pouco ou nada diz, que habilite<br />

nosso público a formar um juízo sobre<br />

questões tão fundamentais.<br />

9. É o PNRA tão sucinto em dados justificativos,<br />

que nem sequer informa sobre se as<br />

múltiplas reformas agrárias que se têm feito pelo<br />

mundo, notadamente atrás da cortina de ferro,<br />

constituem exemplos alentadores para que se<br />

opere uma análoga reforma no Brasil... ( cfr. Título<br />

II, Cap. II, 4).<br />

Desprovido de todos esses dados, o homem<br />

médio da rua se vê numa alternativa: ou<br />

entregar-se a laboriosos estudos, comprar livros,<br />

assinar revistas, ler e quiçá anotar o material<br />

- aliás dispendioso - assim acumulado; ou<br />

então opinar sem ter sequer de longe conhecimento<br />

suficiente sobre a matéria.<br />

Opinando sem conhecimento, terá ele a sensação<br />

de que se joga no escuro. Abstendo-se de<br />

opinar, cerrando em conseqüência os lábios,<br />

cruzando os braços, e deixando cordata e passivamente<br />

implantar-se o PNRA, terá ele a sensação<br />

de que é o Brasil que se joga no escuro.<br />

Reduzir todo um povo a essa alternativa não<br />

é o que esse povo entende por abertura política.<br />

Tanto mais quanto, acerca desse salto no escuro,<br />

um só ponto é claro: é que tal "escuro",<br />

na realidade, constitui um abismo. Uma tão<br />

imensa reforma, no ponto mais vital de nossa<br />

economia, uma transformação total no País inteiro<br />

não pode deixar de levá-lo ao abismo se<br />

ela não for acertada.<br />

*<br />

Depois de vaticinar as conseqüências últimas<br />

que receia caso seja mantida a atual estrutura<br />

fundiária, a Apresentação deixa entrever<br />

o que será, na sua concepção, o Brasil afinal<br />

45


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

Tüulo I<br />

''resgatado" pela <strong>Reforma</strong> Agrária: "Esperamos<br />

que todos nos ajudem a implantar a <strong>Reforma</strong><br />

Agrária no Brasil e com isso .... incorporar, enfim,<br />

à vida econômica e política da Nação, milhões<br />

de patrícios que estão atualmente afastados<br />

do nosso convívio".<br />

O vaticínio sinistro ocupa seis linhas datilografadas.<br />

A profecia do futuro que devemos<br />

comprar a preço de tão alto risco - e, como<br />

adiante se verá, de tão ingente despesa - cabe<br />

em três linhas. E não poderia ser nem mais módica<br />

nem mais vaga. Um sacrifício certo e ingente,<br />

para obter uma vantagem incerta e vácua:<br />

que desproporção!<br />

Quantos são precisamente os ''milhões de<br />

patrícios" que a Apresentação vê ''atualmente<br />

afastados do nosso convívio de País que legitimamente<br />

aspira ao pleno desenvolvimento''?<br />

No que consiste esse ''convívio" do qual, segundo<br />

insinua a Apresentação, estariam afastados,<br />

no plano político, esses inidentificados<br />

''milhões de patrícios"? Não bastaria, para tal<br />

convívio, o exercício de todos os direitos políti-<br />

cos e de todas as liberdades civis que a lei assegura<br />

indiscriminadamente aos filhos deste País?<br />

Pensa porventura a Apresentação que, só com<br />

essas palavras, está tudo explicado aos<br />

brasileiros?<br />

E o convívio no plano econômico? No que<br />

consiste ele senão em participar na produção<br />

e no consumo? Mais uma vez: quantos são os<br />

brasileiros que a Apresentação do PNRA reputa<br />

excluídos presentemente de tal convívio?<br />

Ou pelo menos da normalidade desse convívio?<br />

Qual é o padrão de normalidade adotado, para<br />

efeito dessa classificação, para as condições<br />

de vida dos brasileiros, pelo PNRA? No que se<br />

funda esse padrão?<br />

* * *<br />

Comentada assim a sóbria e rápida Apresentação<br />

que S. Exa. o Ministro da <strong>Reforma</strong><br />

e do Desenvolvimento Agrário faz do vasto documento,<br />

é o momento de passar para a análise<br />

direta deste.<br />

46


Secção B<br />

O utopismo agro-igualitário,<br />

fundamento<br />

filosófico-jurídico do PNRA<br />

TEXTO DO PNRA<br />

1 • INTRODUÇÃO<br />

1. A necessidade de profundas modificações de estrutura<br />

agrária do País é social e politicamente reconhecida<br />

há várias décadas.<br />

2. Em 1946, a Assembléia Nacional Constituinte incorporou<br />

à Carta Magna o imperativo constitucional de ''promover<br />

ajusta distribuição da propriedade, com igual oportunidade<br />

para todos".<br />

3. Foram inúmeras as propostas de ampUação das bases<br />

legais para a reali~ção das transformações estruturais<br />

no campo, sempre mais e mais reclamadas pelos movimentos<br />

sociais, oriundas de entidades representativas dos<br />

diversos segmentos organi~dos da sociedade, ao longo<br />

das duas décadas seguintes.<br />

4. Na proposta do Plano »i,mal (1961/1963)<br />

reconheceu-se que a deficiente estrutura agrária constituía<br />

empecilho à expansão do mercado interno consumidor e, em<br />

conseqüência, do próprio processo de industrialização.<br />

5. Com a Emenda Constitucional n. 0 10, de 30 de novembro<br />

de 1964, foi dado um passo concreto a fim de se eliminar<br />

entraves ao cumprimento daquela disposição constitucional<br />

mencionada, suprimindo-se a exigência da prévia e justa indenização<br />

em dinheiro nos casos de desapropriações de dreas<br />

para fins de <strong>Reforma</strong> Agrdria, e substituindo-a pela indenização<br />

com Títulos Especiais da Dívida Agrdria.<br />

6. Mas só com a promulgação do bstatuto da 'lerra, em<br />

30-11-64, o Brasil passou a contar com um balizamento jurídicoinstitucional<br />

mínimo para instrumentar a necessdria transformação<br />

de sua estrutura agrária. No Estatuto estão os princípios<br />

e fundamentos filosófico-jurídicos que exigem e justificam<br />

a intervenção do Estado para a concreti~ção dessa<br />

mudança. Nele estão também delineadas as formas de ação<br />

govemamenta( consubstanciadas nas políticas de <strong>Reforma</strong> Agrária<br />

e Agrícola, os objetivos sociais, econômicos e polí'ticos a serem<br />

atingidos, bem como os instrumentos possíveis de serem<br />

utilizados e as diretrizes operacionais a serem seguidas na implementação<br />

daquelas políticas distintas. ·<br />

COMENTÁRIO<br />

'M necessidade de profundas modificações<br />

de estrutura agrária do País é social e politicamente<br />

reconhecida há várias décadas" (n? 1).<br />

- "Reconhecida" por quem?<br />

A leitura sumária dos três tópicos seguintes<br />

(n?s 2, 3 e 4) dá, à primeira vista, a impressão<br />

de que esse ''reconhecimento" é um clamor<br />

progressivamente emanado do mais profundo<br />

das aspirações populares do País, e expresso numa<br />

série impressionante de diplomas legais. A<br />

análise paciente e detida do texto mostra coisa<br />

diversa.<br />

O dispositivo da Constituição de 1946 mencionado<br />

no tópico 2 contém uma referência à<br />

''justa distribuição da propriedade". Porém<br />

uma distribuição justa não significa necessariamente<br />

uma distribuição igualitária.<br />

Nessa matéria, a justiça consiste em que, em<br />

toda a medida permitida pelas contingências<br />

neste vale de lágrimas, todos -indivíduos e famílias<br />

- tenham pelo menos o necessário para<br />

47


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

subsistir de modo suficiente e digno. Porém ela<br />

não exclui que, isso posto, alguns possuam mais<br />

do que outros. Pode-se até afirmar que, em determinadas<br />

condições, uma proporcionada<br />

abundância para todos só pode resultar da desigualdade<br />

nas atividades agropecuárias. E, neste<br />

caso, a injustiça estará na igualdade (cfr. Comentário<br />

ao n? 18).<br />

Ora, o PNRA, fazendo abstração disto que<br />

entretanto é óbvio, erige como princípio de justiça<br />

a igualdade na estrutura agrofundiária do<br />

País. Não propriamente a igualdade de propriedades,<br />

já que a propriedade individual, ele a<br />

omite quase totalmente, para só preparar um futuro<br />

fundiário baseado em "assentamentos" de<br />

posseiros, de usuários. Mas, de uma igualdade<br />

de situação, em face da terra, de todos os indivíduos,<br />

distribuídos pelo PNRA nesses formigueiros<br />

de desiguais dimensões, que serão -<br />

não o permita Deus - os assentamentos.<br />

Imagine o leitor formigas vivendo em situações<br />

idênticas, embora em formigueiros de tamanhos<br />

desiguais: terá uma idéia do que seja<br />

o igualitarismo de situações individuais, nos assentamentos<br />

de desiguais dimensões, previstos<br />

no PNRA (cfr. Comentário aos n?s 107 a 113,<br />

141-142, 147).<br />

Análogas ponderações se poderiam fazer<br />

acerca da "igual oportunidade para todos",<br />

também estabelecida pela Constituição.<br />

* * *<br />

"Foram inúmeras as propostas de ampliação<br />

das bases legais para a realização das transformações<br />

estruturais no campo, sempre mais<br />

e mais reclamadas" (n? 3). - This propostas,<br />

de que setores da população provinham? O<br />

PNRA se esquiva de especificar. Simplesmente<br />

passa dessa referência vaga, a um círculo mais<br />

restrito, dos que constituem o cerne ''mais e<br />

mais reclamante" de onde provêm as reivindicações<br />

reformistas. As propostas ''inúmeras"<br />

pareceriam provir de pessoas ou grupos "inúmeros".<br />

É absolutamente notório que os "movimentos<br />

sociais", as ''entidades representativas<br />

dos diversos segmentos organizados da so-<br />

Titulo I<br />

ciedade", desejosos da <strong>Reforma</strong> Agrária 'no<br />

longo das duas décadas seguintes", foram constantemente<br />

compostos de pequenas minorias de<br />

brasileiros, aglutinados em proporcional minoria<br />

de grupos.<br />

Mas o PNRA, usando esse hábil método expositivo,<br />

talvez consiga dar a muito leitor incauto<br />

a impressão de um clamor público crescente,<br />

de um gemido ascendente de dor e indignação,<br />

ao qual por fim ele, PNRA, vai trazendo<br />

o remédio necessário. Ou seja, a igualdade<br />

de situações individuais no regime de<br />

assentamentos.<br />

* * *<br />

Sempre brumoso, o PNRA continua: "Na<br />

proposta do Plano Trienal (1961/1963)<br />

reconheceu-se ...." (n? 4). - Quem, entre o<br />

grande público, conhece em que consiste esse<br />

''plano''? Em todo caso, o que dele refere o<br />

PNRA não importa na afirmação de que a "deficiente<br />

estrutura agrária" ali reconhecida deva<br />

ter como corretivo a organização radicalmente<br />

igualitária que o PNRA propõe. Não se vê<br />

portanto, por que razão ele figura nesse cortejo<br />

de aspirações igualitárias, com o qual o<br />

PNRA procura justificar suas teses.<br />

* * *<br />

Chega assim o documento à Emenda Constitucional<br />

n? 10, de 30 de novembro de 1964 (tópico<br />

4), e ao Estatuto da Terra, da mesma data<br />

(tópico 5), um e outro efetivamente igualitários.<br />

Entre o dispositivo da Constituição de 1946<br />

e os atos legislativos de 1964 - ou seja, em 18<br />

anos - o que de verdadeiramente representativo<br />

do País, e ao mesmo tempo de agroigualitário,<br />

consegue mencionar o PNRA? Nada.<br />

Ou pouco mais do que nada. Do que dificilmente<br />

se dará conta o leitor corrente, ao qual<br />

não sobra tempo nem paciência para pormenorizações<br />

e para uma análise detida como esta.<br />

* * *<br />

O PNRA aborda no tópico 6 um aspecto do<br />

assunto, não exclusivamente econômico. Ao falar<br />

do Estatuto da Terra, afirma com razão que<br />

48


Considerações doutrinárias<br />

nele ''estão os princ(pios e fundame,.tos<br />

filosóftco-juridicos que exigem e justificam a<br />

intervenção do Estado para concretização dessa<br />

mudança". Isto é, da <strong>Reforma</strong> Agrária.<br />

Apraz encontrar no PNRA o reconhecimento<br />

da importância dos princípios ''filosóficojurídicos"<br />

nessa matéria, a qual tantos espíritos<br />

- inclusive agricultores e homens de negócio<br />

anti-agro-reformistas - vêem como exclusivamente<br />

econômica (2).<br />

A preocupação pela justiça na área rural<br />

constitui, até, um dos aspectos dominantes do<br />

documento. Mas isto coloca o PNRA num campo<br />

que não é isento de problemas ( cfr. Parte I,<br />

Cap. 1, 5).<br />

TEX10 DO PNRA<br />

7. Decorridos 21 anos desde a promulgação do Estatuto,<br />

o mínimo que se pode dlur é que os resultados<br />

da ação são absolutamente frustrantes.<br />

8. De acordo com os dados do Censo Agropecuário de 1980,<br />

os estabelecimentos com área igual ou superior a J.000 hectares<br />

representavam cerca de lo/o do total de propriedades rurais e<br />

aproximadamente 45% da área total. Em contrapartida, os es~<br />

tabelecimentos com área iriferlor a 100 hectares corifiguravam<br />

quase 90% do total, mas sua participação era de apenas 20%<br />

na área total recenseada.<br />

9. Os dados do Cadastro de Imóveis Rurais do INCRA,<br />

cuja implantação foi posterior à promulgação do Estatuto. refletem<br />

em maior precisão a concentração da propriedade fundiária.<br />

já que individualizo o "imdvel rural'; que se constitui<br />

em uma unidade de propriedade e posse da terra, enquanto que<br />

o Censo Agropecuário do IBGE define o "estabelecimento agropecuário'!<br />

que se constitui em uma unidade de produção.<br />

10. Assim, os imóveis com mais de I.000 ha que em 1967<br />

ocupavam 449% da superffcie total dos imóveis rurais do Pais,<br />

passaram a deter 58,3% em 1984. No outro extremo. os imóveis<br />

com menos de 100 ha tiveram sua participação reduzida de<br />

18, 7%, em 1967, para 14,0o/o em 1984. A má distribuição da terra<br />

pode ser melhor avaliada pelas cifras coletadas no levantamento:<br />

os imóveis com mais de 1.000 ha representavam. em 1984,<br />

apenas 2,0o/o do total e os com menos de 100 ha, 83,2%. Destes<br />

últimos, 644% (em números absolutos mais de 1.700.000 Imóveis)<br />

possufam superjfcie iriferior a 25 ha.<br />

JJ. A concentração da posse da terra, historicamente garantida<br />

e contemporaneamente estimulada, fez prevakcer a<br />

injustiça social no campo. Enquanto, em 1984, constatavase<br />

a existência de 10,6 milhões de trabalhadores rurais sem ter•<br />

ra, os imóveis considerados segundo o Estatuto como latifún•<br />

dios (portanto, não cumprindo sua/unção social) apropriavam<br />

409 milhões de hectares. Esses imóveis apresentavam em 1972<br />

cerca de 25% da sua área aproveitável não explorada. Essa situação<br />

agravou-se de forma substantiva, tanto que, em 1984,<br />

passou a ser de 41% a área aproveitável não explorada.<br />

12. Essa injusta situação social relativa à posse e uso<br />

da terra é agravada ao se considerar que os proprietários<br />

de imóveis acima de J.000 ha, na sua totalidade, apresentavam<br />

até o fim de 1984 débito acumulado, para com o Estado (indi-<br />

Parte II, Seção B<br />

retamente lesando os Municípios), de 20,2 bilhões de cruzeiros,<br />

cifra relativa ao não pagamento dos tributos rurais.<br />

COMENTÁRIO<br />

O PNRA passa a descrever, nestes tópicos,<br />

o que ocorreu no Brasil em matéria agrária, "deco"idos<br />

21 anos desde a promulgação do Estatuto"<br />

(n~ 7). E, à maneira de tese que se propõe<br />

demonstrar, afirma com ênfase: "O mínimo<br />

que se pode dizer é que os resultados da<br />

ação [governamental] são absolutamente frustrantes"<br />

nesse período.<br />

Seguem-se então alguns dados estatísticos<br />

que serão analisados no estudo especializado do<br />

economis~ Carlos dei Campo (cfr. Título II,<br />

Cap. 1).<br />

TEX10 DO PNRA<br />

13. A tendência à concentração e ao uso indevido da terra<br />

pelos latifúndios/oi também acompanhada pelo aumento dos<br />

co,iflltos sociais e de mortes e violências de todo tipo.<br />

14. A estatística trágica dos coriflitos de terras mostrou,<br />

nos últimos tempos, a evolução que se vê na tabela J.<br />

1àbela 1: Corlf/itos pela terra e mortes. Brasil 1971/1984<br />

Ano<br />

1971<br />

1976<br />

1981<br />

1984(*)<br />

Ocorrências (n. 0 )<br />

109<br />

126<br />

896<br />

950<br />

FONTE: CONTAG, CPT, ABRA;(*) Estimativa<br />

COMENTÁRIO<br />

Mortos (n.º)<br />

20<br />

31<br />

91<br />

180<br />

O histórico feito nos tópicos precedentes<br />

desfecha em uma conclusão (n? 13), seguida de<br />

uma tabela estatística dos "conflitos pela terra<br />

e mortes" (Tabela 1).<br />

A conclusão dá ao leitor desprevenido a impressão<br />

de que o "aumento dos conflitos sociais<br />

e de mortes e violências de todo tipo" que<br />

"acompanhou", segundo o PNRA, "a tendência<br />

à concentração e ao uso indevido da terra<br />

pelos latifúndios" é fruto autêntico e indiscutível<br />

de tal tendência.<br />

Pois se uma coisa "acompanhou" outra,<br />

parece ser causada por esta outra.<br />

Talvez por isso, imaginando inteiramente<br />

explicado o agravamento da agitação agrária,<br />

o PNRA se abstém aqui de mencionar qualquer<br />

outra causa para o fenômeno. No que se mostra<br />

coerente com a Apresentação.<br />

49


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

Na realidade, esse modo de raciocinar constitui<br />

um erro que a sã filosofia exprime na fórmula<br />

"post hoc, ergo propter hoc" (depois disto,<br />

portanto em conseqüência disto).<br />

O efeito é posterior à causa, mas é errado<br />

supor que tudo quanto se segue a um fato é necessariamente<br />

efeito deste.<br />

Nesse falso silogismo incorre inadvertidamente<br />

a Introdução do PNRA. Em conseqüência,<br />

esta última - também aqui coerente<br />

com a Apresentação - se dispensa de qualquer<br />

referência à responsabilidade da agitação<br />

promovida pela esquerda católica, ou pelos movimentos<br />

políticos ateus. A culpa, o PNRA só<br />

a vê nas propriedades a que qualifica de<br />

"latifúndios".<br />

* * *<br />

Não deixa de causar estranheza que um Ministério<br />

não cite sequer uma fonte oficial sobre<br />

o número de "conflitos pela terra e mortes".<br />

E a estranheza sobe de ponto quando se<br />

constata que a "estatística trágica dos conflitos<br />

de terras" se baseia em dados fornecidos<br />

por três entidades pública e notoriamente agroreformistas<br />

e, a tal título, interessadas em dramatizar<br />

tais conflitos: a CONT AO - Confederação<br />

Nacional dos Trabalhadores da Agricultura;<br />

a CPT - Comissão Pastoral da Terra;<br />

e a ABRA - Associação Brasileira de <strong>Reforma</strong><br />

Agrária.<br />

Quanto à CPT, ela não só está interessada<br />

em dramatizar a "situação de violência no campo"<br />

(cfr. tópico 83), mas ela é um dos principais<br />

responsáveis por essa violência, como instigadora<br />

de conflitos (cfr. CEBs, pp. 171-201;<br />

"Catolicismo", n? 402, junho de 1984 e n?<br />

406-407, outubro-novembro de 1984).<br />

Pode-se confiar inteiramente nos números<br />

apresentados por essas entidades?<br />

TEXTO DO PNRA<br />

15. É patente o agravamento da questão agrária nacional.<br />

Ao longo desses mais de vinte anos de vigência do Estatuto da<br />

Terra foram intensas e variadas as lutas pela sua efetiva aplicação.<br />

O movimento sindical dos trabalhadores rurais - principais<br />

interessados no processo da <strong>Reforma</strong> Agrária - apesar<br />

Título I<br />

da violência da repressão sofrida no período, se organizou, cresceu<br />

e fortaleceu. Outras entidades representativas de diferentes<br />

segmentos da sociedade empenharam-se também nesse processo<br />

e, ao longo desses anos, proliferaram as análises e as denúncias<br />

sobre a evolução do quadro agrário, os erros, desvios,<br />

contradições e equívocos que se acumularam a cada/ase de ação<br />

do governo, bem como reivindicações e proposições alternativas<br />

para a questão.<br />

16. Assim, cumpre que se explicite, com objetividade, os<br />

principais conceitos e definições ora assumidos, bem como os<br />

equívocos e distorções identificados na formulação e aplicação<br />

das polfticas, planos, programas e projetos governamentais<br />

até o momento. Urge, ainda, oferecer ao amplo<br />

e democrático debate da sociedade e, em particular, das entidades<br />

representativas dos principais beneficiários da ação de<br />

governo, a estratégia global que se pretende adotar na aplicação<br />

do Estatuto da Terra e demais instrumentos legais disponíveis<br />

em relação aos métodos e procedimentos operacionais, além<br />

de se reclamar a ação executiva que o problema requer.<br />

COMENTÁRIO<br />

O PNRA elogia no tópico 15, não sem calor,<br />

os movimentos agro-igualitários que vieram<br />

atuando em favor da <strong>Reforma</strong> Agrária no<br />

período de vinte anos de vigência do ET, sem<br />

tomar o trabalho de discriminar entre os que,<br />

ao seu ver, o tenham feito legal ou ilegalmente,<br />

de modo ordeiro ou violento.<br />

QÚanto às reações anti-agro-reformistas, indiscutivelmente<br />

importantes durante o mesino<br />

período, já que o PNRA as responsabiliza -<br />

de modo aliás, muito fluido, se bem que claro<br />

- pela parca aplicação do Estatuto da Terra,<br />

o tópico 15 é vago. Mas encontra meios de, sem<br />

embargo, ser acusatório.<br />

No espírito de quem tiver lido esse tópico<br />

15, fica pairando a impressão de que "os equívocos<br />

e distorções identificados na formulação<br />

e aplicação das políticas, planos, programas e<br />

projetos governamentais até o momento" -<br />

referidos no n? 16 - lograram prevalecer por<br />

motivo da ação de não sabemos que confusas<br />

e poderosas forças malfazejas.<br />

Na propaganda agro-reformista religiosa·,<br />

como na atéia, essas forças costumam ser identificadas<br />

com o capitalismo cruel e inimigo dos<br />

pobres ...<br />

TEXTO DO PNRA<br />

17. Em relação aos princípios, conceitos e definições que<br />

norteiam as propostas das ações governamentais, com vistas ao<br />

atendimento das reivindicações da ampla maioria da Nação e<br />

cumprimento dos compromissos da Aliança Democrática, de<br />

50


Considerações doutrinárias<br />

restauração da democracia e de e/ etiva aplicação do Estatuto<br />

da Terra, torna-se indispensável esclarecer o entendimento que<br />

presidiu a elaboração do presente documento.<br />

18. Inicialmente, cabe salientar a total identidade dos conceitos<br />

essenciais que informam a definição de <strong>Reforma</strong> Agrária<br />

constante do Estatuto da Terra com o conceito de democracia<br />

implícito no mandamento constitucional imperativo de<br />

"promover a justa distribuição da propriedade, com igual<br />

oportunidade para todos''.<br />

"Art. 1. 0 ••••<br />

§ 1. 0 - Considera-se <strong>Reforma</strong> Agrária o conjunto de medidas<br />

que visem a promover melhor distribuição de terra, mediante<br />

modificações no regime de sua posse e uso, a fim de<br />

atender aos princfpios de justiça social e ao aumento de<br />

produtividade".<br />

'' 4rt. 2. 0 - É assegurada a todos a oportunidade de<br />

acess, à propriedade da te"ª• condicionada pela sua Junção<br />

social, na forma prevista nesta Lei".<br />

"Art. 16 -A <strong>Reforma</strong> Agrária visa a estabelecer um sistema<br />

de relações entre o homem, a propriedade rural e<br />

o uso da te"ª• capaz de promover ajustiça social, o progresso<br />

e o bem-estar do trabalhador rural e o desenvolvimento<br />

econiJmico do País, com a gradual extinção do<br />

minifúndio e do latifúndio".<br />

19. Essa identidade é, de fato, de tal forma significativa<br />

que demonstra, de forma patente, a impossibilidade da realização<br />

plena do amplo projeto democrático da Nova República<br />

sem a realização da <strong>Reforma</strong> Agrária.<br />

COMENTÁRIO<br />

Segundo o tópico 18, a democracia parece<br />

identificada com a justiça, a qual estaria perfeitamente<br />

definida no princípio constitucional<br />

que preceitua "ajusta distribuição da propriedade,<br />

com igual oportunidade para todos''.<br />

Da leitura do PNRA se deduz a conseqüência<br />

inevitável desse entendimento da justiça: a<br />

igualdade das situações agropecuárias individuais.<br />

É forçoso concluir que, nessa perspectiva,<br />

a justiça importaria também na supressão<br />

da hereditariedade das situações pessoais. Pois<br />

do contrário não haveria efetivamente a "igual<br />

oportunidade para todos'' que o PNRA parece<br />

entender do modo mais radical.<br />

* * *<br />

''.... a fim de atender aos princípios de jusliça<br />

social". - Bem se vê que as medidas preconizadas<br />

pelo PNRA podem ser encaixadas no<br />

conceito mais vago de "justiça social" do Estatuto<br />

da Terra. É de lamentar que o PNRA,<br />

o qual contém várias definições, se omita de<br />

enunciar com precisão os conceitos filosóficos<br />

e morais em que se baseia, limitando-se a uma<br />

. Parte II,. Seção B<br />

remissão aos ''princípios e fundamentos<br />

filosófico-jurídicos'' que norteiam o ET (cfr.<br />

n? 6). Mas seus anseios de igualdade- que freqüentemente<br />

afloram ao longo do texto -<br />

visam<br />

sempre uma igualdade de situações individuais<br />

no regime agropecuário, a qual não é<br />

compatível com a doutrina católica. (Sobre o<br />

igualitarismo, enquanto considerado do ponto<br />

de vista dos documentos tradicionais do Magistério<br />

Eclesiástico, cfr. RA-Qe, pp. 32-33,<br />

48-49, 62 a 68, 92 a 107, 177-180; se, pp. 80<br />

a 88, 180 a 182, 196 a 198).<br />

* * *<br />

Ao se identificar com o art. 2? do Estatuto<br />

da Terra, o qual declara "assegurada a todos<br />

a oportunidade de acesso à propriedade da terra",<br />

o PNRA se mostra contraditório, ou pelo<br />

menos altamente ambíguo.<br />

Com efeito, adiante se verá que ele visa assegurar,<br />

isto sim, o acesso à condição de "assentado"<br />

para grande número de trabalhadores<br />

da terra. Mas essa condição - que o PNRA<br />

também não define com clareza, · embora tal<br />

fosse absolutamente necessário, dado que ele<br />

fez do "assentamento" o vínculo normal e generalizado<br />

entre o trabalhador e a terra (cfr.<br />

Comentário ao n? 137) - difere muito sensivelmente<br />

do conceito de propriedade, como o<br />

estabelece o ensinamento tradicional da Igreja<br />

(cfr. RA-Qe, pp. 33-34, 97 a 101, 185 a 188,<br />

193 a 204; DMA, pp. 10-11; e se, pp. 156 ss.,<br />

180 a 182, 196 a 198 e 213). De sorte que, ou<br />

o ideal enunciado pelo presente artigo do Estatuto<br />

da Terra não constitui realmente a meta<br />

do PNRA ou, se constitui tal meta, então tudo<br />

quanto o PNRA afirma sobre o ''assentamento"<br />

precisa ser revisto, reajustado, remodelado.<br />

Tenha-se presente que este é um dos pontos<br />

mais importantes de todo, o PNRA.<br />

* * *<br />

É de se notar a cândida esperança do PNRA<br />

(~qui expressa com palavras do ET), de que<br />

simplesmente "a gradual extinção do minifún-<br />

51


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

dio e do latifúndio'', a qual estabelecerá um novo<br />

"sistema de relações entre o homem, a propriedade<br />

rural e o uso da terra", seja "capaz<br />

de promover a justiça social, o progresso e o<br />

bem-estar do trabalhador rural e o desenvolvi-<br />

Título I<br />

mento económico do País". Em suma, seja capaz<br />

de conduzir a uma era de ouro. Atitude de<br />

espírito que perpassa todo o PNRA (cfr. Comentários<br />

aos n? 5 178, 254, 271), e que traz;<br />

intrínsecos, todos os riscos das utopias.<br />

52


SecçO,o C<br />

Em vez de aproveitar as terras ociosas<br />

da União, o PNRA impõe quase<br />

todo


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

impor a desapropriação de nada menos que<br />

50% da área agrícola atualmente em uso, sob<br />

domínio privado (excluído o Norte do País -<br />

cfr. Título II, Cap. II, 2).<br />

Pari passu, o mesmo PNRA pretende utilizar<br />

para colonização tão-só 71, 7 milhões de hectares,<br />

ou seja, cerca de 15070 das terras devolutas<br />

(cfr. Cap. II, Nota 4). Ora, o Poder público<br />

não pode arrancar a terceiros o que estes póssuem<br />

legitimamente, sob a alegação de função<br />

social da propriedade, justiça social etc., quando<br />

tem sob seu domínio e poder muito mais do<br />

que o necessário para tal.<br />

Tão impressionante anomalia precisaria ser<br />

amplamente justificada pelo PNRA. Entretanto,<br />

sóbrio, lacônico, esquivo, o documento se<br />

limita, nestes tópicos, a afirmar que não descarrega<br />

sobre as terras devolutas todo o peso de<br />

suas intenções em matéria fundiária, porque tal<br />

seria dispendioso.<br />

Como pensa o PNRA que se deve proceder<br />

ao aproveitamento do fabuloso latifúndio agrário<br />

do Poder público?<br />

Ele poderia, pelo menos, dar aos proprietários<br />

rurais que serão golpeados pela expropriação<br />

agro-igualitária, uma participação compensatória<br />

nesse grande e lucrativo cometimento<br />

(cfr. Parte I, Cap. II, 2, H). Porém não há no<br />

texto sinal de que ele cogite dessa medida de<br />

. justiça.<br />

Dará ele talvez um lugar no desbravamento<br />

do latifúndio estatal, a outros brasileiros desejosos<br />

de aplicar seu capital, em regime de propriedade<br />

privada, no ager nacional? Assim deveria<br />

ser, já que à iniciativa privada se deve basicamente<br />

o êxito de todo o magnífico esforço,<br />

já quatro vezes secular, de desbravamento e povoamento<br />

da imensa parte hoje habitada e cultivada<br />

da "terra dadivosa e boa" que, em 1500,<br />

Pero Vaz de Caminha encontrou quase vazia e<br />

inaproveitada.<br />

Na realidade, o PNRA, sempre sonhador,<br />

como é vezo <strong>socialista</strong>, fala de um empreendimento<br />

faraônico, que custaria somas correlatamente<br />

grandes. Mas parece insinuar que essa<br />

obra ciclópica seria feita pelo Estado, quando<br />

fala da "infra-estrutura" custeada por ''gran-<br />

Titulo l<br />

des inversões oficiais". Pelo Estado capitalista,<br />

no que este não é tão distante do capitalismo<br />

de Estado ...<br />

Da inversão do capital privado e da livre iniciativa,<br />

nenhuma palavra.<br />

* * *<br />

A concepção do PNRA sobre o conjunto da<br />

agricultura brasileira é, assim, nitidamente <strong>socialista</strong>.<br />

Pois ele vê na agricultura, não uma atividade<br />

essencialmente privada, subsidiariamente<br />

ajudada pelo Estado na medida do necessário,<br />

mas, pelo contrário, uma atividade eminentemente<br />

estatal, para a qual o Poder público adota,<br />

segundo o critério dos burocratas e dos políticos,<br />

sistemas de exploração variados.<br />

Em suma, segundo a concepção do PNRA,<br />

o verdadeiro dono do solo, culto ou inculto, é<br />

o Estado ...<br />

TEXID DO PNRA<br />

28. O alinhamento dos principais equfvocos, omissões e distorções<br />

da ação governamental, identificados ao longo dos últimos<br />

vinte anos como decorrência das mais distilltas interpretações<br />

do Estatuto na formulação e aplicação das políiicas, planos,<br />

programas e projetos governamentais, possibilitam melhor<br />

entendimento do que se pretende implementar a partir de agora.<br />

29. Já o 1. 0 Plano Nacional de <strong>Reforma</strong> Agrária (PNRA),<br />

de 1966, demonstrava claramente a timidez com que o Poder<br />

Público se dispunha a agir em termos de promover o cumprimento<br />

do Estatuto. no tocante à <strong>Reforma</strong> Agrária .<br />

30. Basicamente, optou-se então pela tributação como principal<br />

instrumento de ação reformista, prevendo-se além disso<br />

a deflagração de uma série de atividades complementares como<br />

levantamentos cadastrais, discriminação de terras, implantação<br />

de áreas de demonstração etc., que nada ou quase nada<br />

significaram, em termos de mudanças no sistema de posse e uso<br />

da terra. A distribuição e redistribuição de terras e a criação de<br />

novas unidades de produção. pelo assentamento de famllias de<br />

trabalhadores rurais, ficou restrita à implantação de projetos<br />

de colonização com metas quantitativas meramente simbólicas.<br />

31. O 2. 0 PNRA, de 1968, incorporou metas igualmente sem<br />

significação frente à magnitude do problema, embora contivesse<br />

manifestação de intenções quanto a novos métodos de ação<br />

que permitissem maior agilidade operacional e barateamento dos<br />

custos.<br />

32. A tributação. colocada e,ifaticamente como instrumento<br />

capaz de desestimular o uso anti-social da terra, acabou por se<br />

tornar um instrumento inócuo até como fonte de receitas públicas,<br />

pela irifluência e pressão exercidas pelos grupos dominantes,<br />

com a inadimplência sem punição tornando-se lugar comum<br />

e a anistiaj,scal uma reivindicação permanente, na maioria<br />

das vezes, concedida, inclusive, com objetivos<br />

pollticos-partidários.<br />

33. Mais uma vez. prevaleceram as forças da contra-<br />

54


Considerações doutrinárias<br />

Parte li, Seção e<br />

reforma, e as novas mudanças governamentais significaram rude<br />

golpe no órgão encarregado da execução da <strong>Reforma</strong> Agrária,<br />

e suas proposições.<br />

COMENTÁRIO<br />

A certa altura do histórico daquilo que considera<br />

como vais-e-véns desacertados do período<br />

de vigência "tímida" do Estatuto da Terra<br />

(1966-1985), o PNRA faz uma vaga alusão a alguns<br />

responsáveis sombriamente malévolos:<br />

"Mais uma vez, prevaleceram as forças da<br />

contra-reforma" (n? 33).<br />

A esse propósito, cabe remeter o leitor ao<br />

Comentário ao n? 16, e insistir na pergunta: por<br />

que não designar essas forças malévolas? Por<br />

que não as distinguir assim das correntes nacionais<br />

honestas e dignas de respeito, que, movidas<br />

por um patriotismo cristão e sincero, e<br />

usando das liberdades conferidas pela lei, se tenham<br />

oposto, no plano doutrinário, ao<br />

agro-reformismo?<br />

TEXTO DO PNRA<br />

34. A partir de 1971, com a criação do INCRA e com o<br />

Plano de Integração Nacional consolida-se a desfiguração total<br />

da proposta de <strong>Reforma</strong> Agrária, como é aqui entendida. Essa<br />

desfiguração se acentuou ano a ano e culminou, de 1979 até hoje,<br />

com a total confusão estabelecida pelos Governos entre objetivos,<br />

meios, procedimentos, políticas, estratégias e tudo o mais<br />

que ora se quer ordenar.<br />

35. Da ênfase em projetos de construção de estradas destinadas<br />

a possibilitar a ocupação da Amazônia com excedentes<br />

populacionais do Nordeste, passou-se a concentrar recursos vultosos<br />

num processo ora denominado de "regularização f undiária"<br />

ora de "reorganização fundiária" e que na verdade nada<br />

significou além da dispersão desses recursos em projetos sem<br />

nenhum efeito em termos de efetiva mudança da estrutura agrária<br />

do País.<br />

36. Nesse mesmo período, os conflitos na fronteira agrfcola<br />

alcançam grande intensidade e a violência no campo passou<br />

a ser fator de intranqüilidade social, acabando por alcançar os<br />

santuários das reservas indígenas, adicionando novo componente<br />

à complexidade desse quadro. Sob a inspiração autoritária<br />

das concepções de segurança e desenvolvimento, imensas<br />

extensões de terras devolutas foram privatizadas, ao arrepio dos<br />

interesses da Nação e das suas futuras gerações. O privilegiamento<br />

aos grandes grupos econômicos, nacionais e estrangeiros,<br />

facilitou a devastação das florestas, a concentração<br />

anti-social da terra, o aniquilamento irreversível de grupos<br />

indígenas e a impunidade nas espoliativas relações de trabalho.<br />

Propiciou, em resumo, condições objetivas para o recrudescimento<br />

dos conflitos sociais.<br />

37. A polftica dos governos nesse período, ao estimular a<br />

indiscriminada apropriação de terras devolutas à revelia do próprio<br />

Estatuto, facilitou, também, o desenvolvimento da ideologia<br />

do especulador, da conivência oficial e do oportunismo no<br />

trato da questão fundiária. Assim, respaldada na impunidade<br />

institucional reinante, a terra tornou-se mais ainda objeto privilegiado<br />

da especulação por parte de grupos econômicos, negando<br />

de forma elementar até mesmo o tímido respaldo de sua<br />

função social, prevista na Constituição Federal.<br />

COMENTÁRIO<br />

" os santuários das reservas indígenas"<br />

(n? 36). - Os direitos dos atuais proprietários<br />

sobre as terras, o PNRA os restringe e mutila<br />

desinibidamente. Mas ao mesmo tempo ele se<br />

mostra de uma contraditória intransigência<br />

quanto aos direitos dos silvícolas sobre as terras<br />

que ocupam com pouquíssima vantagem para<br />

si próprios, e sem nenhuma vantagem para<br />

o bem comum. Não estão sujeitos tais direitos<br />

às limitações de sua função social?<br />

No que diz respeito aos imperativos de ''justiça<br />

social" (tópico 40), por que se mostra tão<br />

omisso o PNRA quando se trata de áreas ocupadas<br />

por silvícolas? '(cfr. Comentários aos n?s<br />

311 a 327).<br />

* * *<br />

Quais os "grandes grupos económicos, nacionais<br />

e estrangeiros", cujo ''privilegiamento<br />

••.. facilitou a devastação das florestas"?<br />

TEXTO DO PNRA<br />

38. A concentração da terra se avolumou. Trezentos e quarenta<br />

e dois (342) proprietários de latifúndios por dimensão controlavam,<br />

em 1984, uma área de 47,5 milhões de ha. Esta área<br />

supera em quase 5 milhões de hectares o total de terras em poder<br />

da legião de 2,5 milhões de minif undistas do País.<br />

39. Não foram portanto, atendidos os trabalhadores rurais<br />

e suas expectativas de acesso à terra, como também não o foram<br />

os pequenos e médios produtores rurais em suas esperanças.<br />

40. Ao contrário, assiste-se ao crescimento vertiginoso do<br />

êxodo rural, agravando o inchaço das cidades. Igualmente se<br />

frustraram todas as expectativas das populações urbanas, quanto<br />

à melhoria dos sistemas de abastecimento e preços dos alimentos,<br />

bem como as esperanças gerais quanto às promessas de justiça<br />

social.<br />

41. Apenas os grandes proprietários de terras, detentores<br />

de áreas acima de 1.000 ha, que representam somente 2% do<br />

total de imóveis rurais existentes no País, mas que controlam<br />

cerca de 60% da área total aproveitável, foram beneficiados ao<br />

longo destes 21 anos, fundamentalmente pela omissão dopoder<br />

público em frontal desrespeito aos dispositivos do Estatuto<br />

da Terra.<br />

42. São exatamente essas terras mantidas à margem do processo<br />

produtivo, situadas em regiões beneficiadas por investimentos<br />

públicos realizados nos últimos 50 anos, na construção<br />

de toda uma infra-estrutura econômica e social que serão objeto<br />

da ação prioritária de <strong>Reforma</strong> Agrária que se pretende<br />

implantar.<br />

55


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

Título I<br />

43. Este documento apresenta as propostas, a nível estratégico,<br />

para a elaboração do 1. 0 PNRA da Nova República. É<br />

encaminhado à sociedade brasileira para amplo debate, com o<br />

objetivo de se recolher cr(ticas e sugestões destinadas à elaboração<br />

do anteprojeto que serd submetido à apreciação e aprovação<br />

do Exmo. Sr. Presidente da República, com a ampla contribuição<br />

de todos os segmentos sociais, em particular os beneficiários<br />

potenciais da <strong>Reforma</strong> Agrária.<br />

COMENTÁRIO<br />

O PNRA deixa bem claro aqui o que, para<br />

todo brasileiro um pouco conhecedor de nossas<br />

leis, não oferece a menor dúvida: a última<br />

palavra em tudo quanto diz tespeito ao PNRA<br />

será de S. Exa. o Sr. Presidente da República,<br />

o qual, no presente lance, decidirá só por si acerca<br />

da maior reforma imposta a este País desde<br />

que é independente.<br />

Cabe, pois, insistir numa pergunta. Já que<br />

se fala tanto em reforma constitucional, não seria<br />

consoante com o espírito da abertura que,<br />

a par de eleições especialmente convocadas para<br />

reformar nossa Constituição, S. Exa. chamasse<br />

às urnas o povo brasileiro, para se pronunciar<br />

plebiscitariamente sobre a imensa e tremenda<br />

aventura agrária que o PNRA lhe propõe<br />

sem argumentos suficientes?<br />

Não seria precisamente isto o indispensável<br />

para que a Nação sentisse aberta diante de seus<br />

passos a livre escolha de seus próprios destinos?<br />

(cfr. adiante Título I, Conclusão)<br />

TEXID DO PNRA<br />

2 - OBJETIVOS<br />

44. A <strong>Reforma</strong> Agrária constitui programa de prioridade<br />

absoluta no_ concerto da po/(tlca de desenvolvimento agrícola,<br />

coriforme d,sposto no documento "Diretrizes Gerais de Polftica<br />

Econ6mica - Notas para o 1. 0 PND da Nova República. Maio<br />

de 1985 •; elaboradas pela Secretaria de Planejamento da Presidincia<br />

da República.<br />

45. Nesse 1. 0 PND da Nova República, a <strong>Reforma</strong> Agrária<br />

fica caracterizada como programa da drea soçial no sentido em<br />

que atenderá à "população de baixa renda, migrantes ou moradores<br />

de :onas de corif/ito social''.<br />

46. Os objetivos deste 1 .º PNRA foram estabelecidos em<br />

· C~Tl$onâncla com as diretrizes gerais de ação do Governo da Nova<br />

República.<br />

47. A <strong>Reforma</strong> Agrária se efetivará atraw!s de programas<br />

plurianuais e ações espec(ficas em·dreas prioritdrlas, procurando<br />

atingir os seguintes objetivos:<br />

Geral:<br />

48. Mudar a estrutura fundltlr/4 do Pafs, distribuindo<br />

e redistribuindo a terra, elimin,mdo progressivamente o latifúndio<br />

e o minifúndio e assegurando utn regime de posse e uso<br />

que atenda aos princípios de Justiça Social e aumento da produtividade,<br />

de modo a garantir a realizaçqo sócio-econômica<br />

e o direito de cidadania do trabalhador rural.<br />

COMENTÁRIO<br />

O tópico 48, que indica a meta geral da <strong>Reforma</strong><br />

Agrária, não contém uma só palavra sobre<br />

o direito de propriedade. Como se ele não<br />

devesse sobreviver às "distribuições e redistribuições<br />

de terra" que o PNRA se propõe fazer<br />

na sua .ação reformatória de toda a "estrutura<br />

fundidria" do País.<br />

Esse caráter infenso à propriedade privada<br />

e à livre iniciativa aflorará ainda mais nitidamente<br />

em outros tópicos do PNRA (cfr. Comentários<br />

aos n?s 107 a 113).<br />

TEXTO DO PNRA<br />

Específicos:<br />

49. a) Contribuir para o aumento da oferta de alimentos<br />

e de matérias-primas buscando o atendimento prioritdrio do mercado<br />

interno;<br />

50. b) Possibilitar a criação de novos empregos no setor<br />

rural, deforma a ampliar o mercado interno e diminuir a subutilização<br />

da força de trabalho,·<br />

51. c) Promover a diminuição do êxodo do campo, procurando<br />

atenuar a pressão populacional sobre as áreas urbanas<br />

e os problemas dela decorrentes.<br />

3 - METAS<br />

52. A extrema gravidade dos problemas ocasionados pelas<br />

distorções da estrutura fundldria evidencia-se atualmente na<br />

constatação de 10,6 milhões de beneficidrios potenciais da <strong>Reforma</strong><br />

Agrdrla (tabela 2), formados por trabalhadores sem terra,<br />

posseiros, arrendatários, parceiros, minifundistas e assalariados<br />

rurais, segundo dados fornecidos pelas Estatísticos Ca•<br />

dastrais do INCRA.<br />

53. O estabelecimento de metas de assentamento dessas/a•<br />

m11ias, dentro de um horlionte de tempo considerado exeqüfvel,<br />

onde estejam contemplados o planejamento e a caracterização<br />

das açiles previstas, dependerão diretamente da situação<br />

econômica e polftica do Pafs, da capacidade operacional<br />

do MIRADIINCRA e das demais instituições que estarão en•<br />

volvidas no processo de <strong>Reforma</strong> Agrdria.<br />

j4. Para o assentamento desses contingentes conta-se com<br />

um ·estoque de terras da ordem de 409,5 mUhlJes de hectares,<br />

pertencentes aos latifúndios por dimensão e explorarão. (l/im<br />

de uma estimativa de 71, 7 milh6es de hectares correspondentes<br />

a terras arrecadadas pela União.<br />

COMENTÁRIO<br />

O tópico 54 deixa ver claramente a desproporção<br />

entre as terras públicas e as privadas que<br />

conta utilizar o PNRA:<br />

a) do patrimônio privado "conta-se com um<br />

estoque de .... 409,5 fnilhiJea de hectares.,;<br />

56


Considerações doutriná.rias<br />

b) da fabulosa reserva de terras devolutas,<br />

das quais o Estado pode dispor sem confisco<br />

expropriatório, serão ''arrecadadas" tãosomente<br />

"71, 7 milhões de hectares".<br />

A desproporção choca. Entretanto, para<br />

justificá-la, o PNRA só oferece uma muito sumária<br />

explicação nos tópicos 25 e 26.<br />

TEX10 DO PNRA<br />

55. Desse.s beneficiários potenciais, estima-se que 3,5 milhões<br />

estão ou serão retidos em seus empregos pela dinlJmica<br />

da agrlcultwa empresarial brasileira, como ass~lariados permanentes<br />

ou tempordrlos (2,147 milhões de assalarzados permanentes<br />

e 113 dos 4,26 milhões de assalariados temporários).<br />

.56. Dessa forma, os beneficüJrlos potenciais da Refor­<br />

"'ª Ajrd;ia seriam cerca de 7.1 milhões de trabalhadores<br />

rural$. Por outro lado, considerando-se que o número de benejicidrios<br />

tend, a decrescer ao longo do processo promovido pela<br />

Re/(}rma Agrária, a atual proposta, com base nos parllmetros<br />

estabelecidos, previ o assentamento desses trabalhadores<br />

em JS anos.<br />

COMENTÁRIO<br />

':... pela dinlimica da agricultura empresarial<br />

brasileira" (n? 55). - Ao que parece, o<br />

PNRA prev&, portanto, a sobrevivência da iniciativa<br />

privada, em alguma medida, nos próximos<br />

"15 anos'! "horu.onte de tempo considerado<br />

exeqüivel" (cfr. n? 53) para que se proceda<br />

ao ''assentamento" de "cerca de 7,1 milhões<br />

de trdbalhadores rurais'! "beneficiários potenciais<br />

da <strong>Reforma</strong> Agrária" (n? 56), que o atual<br />

PNRA tem em vista.<br />

Caberá então a um outro PNRA, naturalmente<br />

inais radical, dispor à sua guisa do que<br />

reste de propriedade privada.<br />

TEX'IO DO PNRA<br />

57. o contingente de novos trabalhadores rurais sem terras<br />

que poderão futuramente surgir serd contemplado no prdprlo<br />

processo de reajustamento peri6dico das metas<br />

estabelecld(JS.<br />

58. Sem dr,lvlda. tal horizonte de tempo I longo quando<br />

se considera a sltutlfãO atual dessas famlllas. Entretanto, a redução<br />

desse prrzio de,Pellderd da pr6pria dln6mica das transformações.<br />

econ8mlc(ls. políticas e sociais da sociedade brasilelrrz<br />

~ em partltular, da consolidaçlo do processo de democratiZllçio<br />

dó Pafs.<br />

Parte II. Seção e<br />

Tabela 2: Trabalhadores Rurais Sem Terra ou com pouca<br />

Terra<br />

Brasit 1978 e 1984<br />

TIPO<br />

Minif undistas<br />

- Proprietários<br />

- Posseiros<br />

Parceiros<br />

Arrendatários<br />

Assalariados Permanentes<br />

Assalariados Temporários<br />

Outros Trabalhadores não Assalariados<br />

TOTAL<br />

FONTE: (l) Cadastro de lm6veis Rurais -<br />

NÚMERO (MIL)<br />

1978 (1) 1984 (2)<br />

1.469<br />

505<br />

273<br />

122<br />

1.104<br />

2.560<br />

713<br />

6.746<br />

1.872<br />

644<br />

433<br />

180<br />

2.147<br />

4.260<br />

1.104<br />

10.640<br />

INCRA; (2) Esti•<br />

mativa com base nas Estatfstlcas Cadastrais de 1978 e nas Estatlsticas<br />

1>-ibutárlas de 1984 - INCRA.<br />

59. Para fins deste PNRA estabeleceu-se o horizonte de tempo<br />

de 4 (quatro) anos. Nesse perfodo estima-se atender aproximadamente<br />

1,4 milhão de trabalhadores rurais sem terra ou com<br />

pouca terra.<br />

60. As metas propostas por quadriênio são as constantes<br />

da 1àbela 3.<br />

Tabela 3: Metils do l .D PNRA da Nova República parrz o<br />

período 198$/2000<br />

Quadrilnio/Trilnio<br />

Beneficidrios (milhões)<br />

1985-1989 1,4<br />

/989-1993 2,0<br />

1993-1997 2,0<br />

1997-2000 1,7<br />

TOTAL 7,/<br />

61. As metas para o quadriênio 1985/1989 apresentam-se<br />

mais reduzidas isto porque o desencadeamento do processo serd<br />

gradual e crescente. Dentro da meta proposta, tomou-se por<br />

parllmetro o ano-agrlcola, ou seja, o periodo que vai de agosto<br />

a julho.<br />

62. As metas anuais para o primeiro quadrilnio sio as da<br />

1àbela 4:<br />

1àbela 4: Metas do PNRA da Nova República para o quadrilnio<br />

198511989<br />

Quadrilnio<br />

1985-1986<br />

1986-1987<br />

1987-1988<br />

1988-1989<br />

TOTAL<br />

Benef,cidrlos (mil)<br />

100<br />

300<br />

450<br />

550<br />

1.400<br />

63. A modbtla da meta proposta para 198$/1986, (abrangendo<br />

o ano agrícola que se inicia em agosto de 1985), é explicada<br />

pel11 necessidade de reciclagem do INCRA, o braço operacional<br />

do MIRAD e das naturais dificuldades que fatalmente<br />

ocorrerllo com o desencadeamento de um Processo de mudança<br />

como o da <strong>Reforma</strong> Agrdrla.<br />

57


Secção D<br />

Para "solucionar" os conflitos agrários,<br />

o Poder público se associará aos invasores,<br />

''assentando-os" nas terras<br />

arrancadas à força aos proprietários<br />

TEXTO DO PNRA<br />

4 - ESTRATÉGIAS DE AÇÃO<br />

4.1 - Dinâmica e articulação das medidas de intervenção<br />

64. Uma <strong>Reforma</strong> Agrária com base no Estatuto da Terra,<br />

21 anos ap6s a sua promulgação, terá que ser suficientemente<br />

vigorosa e massiva, para corrigir as distorções hist6ricas agravadas<br />

pelas políticas dos últimos governos, que levaram a concentração<br />

da terra no Brasil a níveis extremos.<br />

65. Para a execução dessa <strong>Reforma</strong>, será preciso enfrentar<br />

uma estrutura agrária secular com flexibilidade e agilidade suficientes<br />

para dar respostas rápidas aos conflitos que se multiplicam<br />

e se somam à expulsão em massa de trabalhadores do<br />

campo.<br />

66. Uma <strong>Reforma</strong> Agrdria com essas caracterlsticas<br />

não poderd ser projeto apenas de um Ministério mas deverd<br />

constituir-se ,:,ecessariamente em um programa do<br />

Governo na sua totalidade.<br />

67. Todo um conjunto de políticas governamentais expresso<br />

nas políticas fiscal, cambial, de crédito, energética, de preços,<br />

de comercialização, de importação e exportação, precisará<br />

ser alterado para que o latifúndio não seja mantido artificialmente<br />

pelos recursos públicos, e se possa garantir o pleno desenvolvimento<br />

dos pequenos produtores.<br />

COMENTÁRIO<br />

"Uma <strong>Reforma</strong> Agrária com essas características<br />

não poderá ser projeto apenas de um<br />

Ministério mas deverá constituir-se necessariamente<br />

em um programa do Governo na sua totalidade"<br />

(n? 66). - Por sua vastidão, o PNRA<br />

exige realmente a colaboração de todos ou quase<br />

todos os órgãos governamentais, sejam eles da<br />

União, dos Estados ou dos Municípios. O que<br />

conferirá aos dirigentes supremos do esforço<br />

agro-reformista uma autoridade coordenadora<br />

super-ministerial, e os arvorará em uma espécie<br />

de "sub-governo" sob a égide do Presidente<br />

da República ... e capaz, em muitas ocasiões concretas,<br />

de fazer sombra a este.<br />

TEXTO DO PNRA<br />

68. A <strong>Reforma</strong> Agrária não será a simples reorientação da<br />

política fundiária posta em prática pelo sistema anterior, mas<br />

uma política inteiramente inovadora. Não se trata da mera legalização<br />

de situações pré-existentes, mas de uma intervenção<br />

efetiva no sentido de alterar o perfil da distribuição da propriedade<br />

da terra no Brasil. Por essa razão, será desencadeada nas<br />

áreas onde se torna mais necessária uma redistribuição de direitos<br />

possess6rios, com grande concentração de latifúndios, elevados<br />

índices de concentração de trabalhadores rurais sem terra,<br />

ou com parcela insuficiente, e formas injustas de relações<br />

de trabalho e produção. Assim, o intrumento para garantir a<br />

função social da terra será, principalmente, a desapropriação<br />

por interesse social.<br />

69. Nessas áreas, a discriminação, a regularização, a arrecadação<br />

de terras, s6 serão utilizadas à medida que a suposição<br />

da coexistência de terras devolutas com terras regularmente tituladas<br />

assim o justificar ou se, no decorrer da ação desapropriat6ria,<br />

os vlcios da pretensa titulação assim o determinarem.<br />

70. A discriminação de terras públicas será certamente importante<br />

nas áreas de fronteira agrícola em expansão ou áreas<br />

de ocupação antiga, onde fatores vários determinaram a ocorrência<br />

de situações atípicas, mas não se transformará num fim<br />

em si mesmo, devendo ser usada com os cuidados necessários<br />

para não regularizar situações de injustiça social. Ela será su-<br />

59


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

bordinada à estratégia global de mudança da estrutura agrária.<br />

71. As áreas de corl[lito deverão ser objeto de uma sistemática<br />

de intervenção específica.<br />

72. O MIRADIINCRA terá como atividade permanente<br />

a identificação de áreas de tensão e será organizado para dar<br />

respostas rápidas aos corl[litos existentes ou aos que vierem a<br />

surgir, simplificando os procedimentos que levem à desapropriação<br />

da área para assentamento dos trabalhadores ou à adoção<br />

das medidas que forem mais convenientes.<br />

73. Ao Poder Judiciário está reservado papel relevante na<br />

realização da justiça no meio rural, cabendo viabilizar em conjunto<br />

com o Ministério da Justiça a celeridade dos procedimentos<br />

e implementar mecanismos tendentes ao aparelhamento eficaz<br />

de uma Justiça Agrária.<br />

74. O processo iniciado com a desapropriação comp/etarse-á<br />

nos assentamentos de <strong>Reforma</strong> Agrária. O Estatuto prevê<br />

alternativas no que tange à forma desses assentamentos que incluem<br />

desde a propriedade familiar até formas comunitárias<br />

de apropriação. Os programas de <strong>Reforma</strong> Agrária devem ser<br />

suficientemente flexíveis para que possam atender às especificidades<br />

locais e regionais, evitando-se o erro de submeter maneiras<br />

de viver e trabalhar de populações inteiras a normas<br />

pré-moldadas.<br />

COMENTÁRIO<br />

" até formas comunitárias de apropriação".<br />

- Essas palavras parecem aludir ao sistema<br />

<strong>socialista</strong> autogestionário, cuja implantação<br />

é reivindicada em diferentes nações pelos<br />

programas agrários dos respectivos partidos <strong>socialista</strong>s<br />

(3).<br />

Segundo a perspectiva comunista clássica,<br />

ao cabo da era estatal totalitária, vigente hoje<br />

em todos os países sob influência soviética,<br />

ocorrerá a desagregação dos Estados. lendo<br />

destruído antes o capitalismo privado, o curso<br />

das coisas (ou a trama internacional de Moscou)<br />

deverá destruir também o capitalismo estatal.<br />

E toda a produção agropecuária ou industrial<br />

ficará a cargo de miríades de corpúsculos<br />

autogovernados por organizações internas,<br />

de microscópicas republiquetas totalitárias,<br />

mas autônomas em relação a qualquer estrutura<br />

coordenadora que se lhes sobreponha.<br />

A rejeição dessa utopia marxista não importa<br />

na repulsa da autogestão introduzida espontaneamente,<br />

quando aplicada sem espírito despótico,<br />

em casos concretos excecionais, e não<br />

como norma genérica de estruturação das empresas<br />

agrícolas, comerciais e industriais.<br />

Mas o PNRA se empenha categoricamente<br />

na implantação da autogestão em to


Considerações doutrinárias<br />

Parte li, Seção D<br />

particulares), a correção das políticas setoriais, inclusive dos chamados<br />

programas especiais, e seu ajustamento aos objetivos da<br />

<strong>Reforma</strong> Agrária (mudança da polltica de incentivos f,scais e<br />

redirecionamento do crédito rural).<br />

COMENTÁRIO<br />

A amplitude dos poderes de um eventual organismo<br />

supremo de execução da política agrária<br />

bem pode ser medida por estes tópicos (n?s<br />

75 a 82). Tal organismo, encarregado da execução<br />

de um plano quadrienal - tendo "como<br />

horizonte de planejamento os próximos 15<br />

anos" - de tal maneira se torna conhecedor<br />

especializado e quase monopolístico dos mil<br />

problemas acarretados pela aplicação dele, que<br />

pode facilmente ter meios para se tornar mais<br />

ou menos insubstituível em suas funções. Pois<br />

os períodos presidenciais se escoam e se sucedem,<br />

mas o tempo de ação dos grandes, médios<br />

e pequenos funcionários que constituem a burocracia<br />

estável desse órgão é de duração indefinida.<br />

Pelo menos até que se esgotem os 15 anos<br />

que constituem o "horizonte" dele.<br />

Os que de agora em diante forem nomeados<br />

serão participes presumíveis do mesmo pensamento<br />

agro-igualitário radical em que se inspira<br />

o PNRA. E poderão, portanto, constituir<br />

uma oligarquia burocrática <strong>socialista</strong> de que o<br />

Estado de direito, por tempo indefinido, provavelmente<br />

não terá meios de se libertar.<br />

Esta constatação é um primeiro dado para<br />

que o leitor possa avaliar o enorme poder ideológico<br />

e político que o PNRA constitui em favor<br />

do agro-reformismo. Inclusive, bem entendido,<br />

no campo do sufrágio popular, em que<br />

· obviamente este imenso poder de confiscar, distribuir<br />

e redistribuir terras ... e populações dá ao<br />

detentor os meios necessários para organizar as<br />

camarilhas eleitorais prontas a influenciar, em<br />

larguíssima medida, os pronunciamentos do<br />

eleitorado soberano.<br />

TEX10 DO PNRA<br />

83. o atendimento às demandas sociais mais urgentes inclui<br />

medidas visando a solução de co,iflltos e o combate<br />

à vioUncia no campo (desapropriação prioritária das<br />

áreas de co,ifllto) e ações que bi:squem es~a?~ar ~ hcodo desordenado<br />

de trabalhadores das areas de mmifund1os ou a expulsão<br />

massiva em áreas de latifúndio (desapropriação de lati-<br />

fúndios para responder à demanda de terra dos minifúndios;<br />

contenção de despejos).<br />

COMENTÁRIO<br />

'!... medidas visando a solução de conflitos<br />

e o combate à violência no campo (desapropriação<br />

prioritária das áreas de conflito)". - O<br />

PNRA faz várias referências à violência no campo,<br />

mas em nenhum momento se preocupa em<br />

salvaguardar o direito dos proprietários. Antes,<br />

para bem marcar que o ''combate" à violência<br />

não importa no uso da força do Poder público<br />

a fim de garantir os atuais proprietários, aí estão<br />

as palavras entre parênteses, no tópico 83,<br />

para indicar que esse ''combate" consiste na implantação<br />

da <strong>Reforma</strong> Agrária pela "desapropriação<br />

prioritária das áreas de conflito".<br />

Em termos mais claros, desde que um grupo<br />

de invasores ataque uma propriedade, está<br />

criado o conflito. Isto feito, a "solução" consiste<br />

em que o Poder público se associe aos invasores<br />

para os "assentar" nas terras assim arrancadas<br />

à força, das mãos do proprietário, e<br />

expulse a este da terra, metendo-lhe no bolso<br />

alguns títulos públicos irrisoriamente desva- .<br />

lorizados.<br />

E terá cessado o conflito pelo como que trucidamento<br />

do proprietário em favor dos invasores<br />

... Em outros termos, será a revolução agrária,<br />

tomada vitoriosa pelo Estado.<br />

TEX'IO DO PNRA<br />

84. A garantia de destinação social às obras feitas com o<br />

dinheiro público significa assegurar compensações dignas aos<br />

trabalhadores atingidos por grandes obras estatais e fazer com<br />

que os grandes investimentos públicos revertam em favor do conjunto<br />

da sociedade (desapropriação por interesse social de latifúndios<br />

em áreas circunvizinhas às grandes barragens para assentamento<br />

dos desalojados; desapropriação das áreas em torno<br />

de açudes e reservatórios para assentamento de trabalhadores<br />

e produção irrigada de alimentos para as cidades).<br />

85. A implantação de l!m "setor reformado': representado<br />

basicamente pelos assentamentos de <strong>Reforma</strong> Agrária, será a expressão<br />

concreta dessas ações e deverá ser s,eficientemente am~<br />

pia para representar o núcleo da nova estrutura agrária que se<br />

irá consolidar nos quinqüenios seguintes.<br />

4.2 • Definição das éreas prioritérias de <strong>Reforma</strong> Agréria<br />

86. Nos termos do art. 43 do Estatuto da Terra, o INCRA<br />

"promoverá a realização de estudos para o zoneamento do País<br />

em regiões homogêneas do ponto de vista sócio-econlJmico e<br />

das características da estrutura agrária, visando a definir:<br />

I - as regiões críticas que estão exigindo reforma agrária<br />

com progressiva eliminação dos minifúndios e dos latifúndios;<br />

61


A propriedade privada e a livre inicia1iva, no 11ifão agro-reformisla<br />

Tíwlo l<br />

II - as regiões em estágio mais avançado de desenvolvimento<br />

social e econômico, em que não ocorram tensões nas estruturas<br />

demográficas e agrárias;<br />

III - as regiões já economicamente ocupadas em que predomine<br />

a economia de subsistência e cujos lavradores e pecuaristas<br />

careçam de assistência adequada;<br />

IV - as regiões ainda em fase de ocupação econômica, carentes<br />

de programa de desbravamento, povoamento e colonização<br />

de áreas pioneiras•:<br />

87. No mesmo artigo estão ainda definidos o procedimen-<br />

10 e os elementos básicos para carac1erização das áreas<br />

prioritárias.<br />

•~rt. 43 ...<br />

§ 1. 0 - Para a elaboração do zoneamento e caracterização<br />

das áreas prioritárias, serão levados em conta, essencialmente,<br />

os seguintes elementos:<br />

a) a posição geográfica das áreas, em relação aos centros<br />

econômicos de várias ordens, existentes no País;<br />

b) o grau de intensidade de ocorrência de áreas em imóveis<br />

rurais acima de mil hectares e abaixo de cinqüenta hectares;<br />

c) o número médio de hec1ares por pessoa ocupada;<br />

d) as populações rurais, seu incremento anual e a densidade<br />

específica da população agrícola;<br />

e) a relação entre o número de proprietários e o número<br />

de rendeiros, parceiros e assalariados em cada área•:<br />

88. No art. 39 do decreto n. 0 55.891 de 31.03.65, constam<br />

disposições reguladoras a serem igualmente observadas:<br />

•~rt. 39 -A declaração de áreas prioritárias, feita.por decreto<br />

do Executivo, na forma do parágrafo 2. 0 do artigo 43 do<br />

Estatuto da Terra, obedecerá à seleção das áreas em que se incluam<br />

regiões críticas do zoneamento, caracterizadas pelos índices<br />

considerados como definidores de ocorrência de tensões<br />

nas estruturas demográficas e agrárias, geradores das condições<br />

determinantes da necessidade de reforma agrária, nos termos<br />

daquele Estatuto.<br />

§ I . 0 - A seleção referida neste artigo far-se-á tendo em<br />

conta os fatores descritos nos incisos seguintes:<br />

I - Os índices mais elevados que caracterizem as regiões<br />

críticas;<br />

II - A ocorrência de fatores de ordem sócio-política que<br />

tendam a agravar a situação crítica, evidenciada no zoneamento;<br />

III - As possibilidades de caráter técnico, financeiro e administrativo<br />

ocorrentes nas áreas que permitam uma ação conjugada<br />

dos respectivos órgãos regionais do IBRA e dos órgãos<br />

federais e estaduais da administração centralizada ou descentralizada<br />

atuantes nas respectivas áreas;<br />

IV -A existência de acordos internacionais já firmados ou<br />

em andamento, para financiamento ou prestação de assistência<br />

técnica visando à solução de problemas direta ou indiretamente<br />

ligados à reformulação agrária nas respectivas áreas;<br />

V - A proximidade dos grandes centros de concentração<br />

demográfica e dos principais centros consumidores do País, que<br />

determinem a exigência de mais intensiva exploração dos recursos<br />

da terra.<br />

§ 2. 0 - A delimitação das áreas prioritárias f ar-se-d levando<br />

em conta a área necessária para localizar os minifundistas,<br />

arrendatários, parceiros e trabalhadores rurais que se achem localizados<br />

nas áreas críticas e sejam candidatos a unidades a serem<br />

criadas'!<br />

89. O art. 33 do Estatuto da Terra determina que a "<strong>Reforma</strong><br />

Agrária será realizada por meio de planos periódicos, nacionais<br />

e regionais, com prazos e objetivos determinados, de<br />

acordo com projetos específicos'; dispondo ainda sobre elementos<br />

que devem necessariamente estar contidos nos mesmos.<br />

90. Assim é que do Plano Nacional de <strong>Reforma</strong> Agrária<br />

de,•erão constar entre outros elementos, a ''delimitação de áreas<br />

regionais prioritárias" e a "de/imitação dos objetivos que devem<br />

condicionar a elaboração dos Planos Regionais':<br />

91. Dos Planos Regionais que "antecederão, sempre, qualquer<br />

desapropriação por interesse social" - ressalvada a exceção<br />

prevista no art. 40, e seu § único, do decreto 55.89/ de 31.03.65<br />

- deverão igualmente constar, entre outros elementos, a "delimitação<br />

das áreas de ação" e a "extensão e localização das áreas<br />

desapropriáveis" para as quais poderão ser elaborados projetos<br />

específicos de ação.<br />

92. Com base nos estudos de zoneamento, portanto, serão<br />

identificados:<br />

93. J. "regiões homogêneas" ou "áreas regionais prioritárias"<br />

a serem delimitadas no Plano Nacional de <strong>Reforma</strong><br />

Agrária;<br />

94. 2. "áreas de ação" e "áreas desapropriáveis" a serem<br />

identificadas, delimitadas e localizadas no âmbito dos Planos<br />

Regionais de <strong>Reforma</strong> Agrária.<br />

95. Diversos estudos de zoneamento têm sido realizados<br />

pelo INCRA nos últimos anos.<br />

96. No âmbito desses estudos foram desenvolvidos indicadores<br />

variados, combinando dados censitários, cadastrais e outros,<br />

que ora estão sendo reavaliados à luz:, dos novos critérios<br />

de urgência, rapidez e amplitude da <strong>Reforma</strong> Agrária que se deseja<br />

implementar. Tais indicadores possibilitam o enriquecimento<br />

e a precisão das análises a nível nacional, bem como facilitam<br />

o trabalho a nível regfonal e estadual, o que resultará num encurtamento<br />

dos prazos para as definições e delimitações de áreas<br />

prioritárias.<br />

97. No tocante à identificação de áreas regionais prioritárias<br />

a serem definidas no PNRA, bem como à identificação, delimitação<br />

e localização das "áreas de ação'; das :'áreas desapropriáveis"<br />

e das que serão objeto de projetos de distribuição e<br />

redistribuição de terras - que deverão constar dos Planos Regionais<br />

de <strong>Reforma</strong> Agrária - além dos critérios e indicadores,<br />

constantes dos textos legais, em particular aqueles referidos no<br />

art. 20 do Estatuto da Terra, e outros que venham a ser incorporados<br />

como resultado das discussões a níveis naciona( regional<br />

e local que ora se iniciam. estão sendo considerados os seguintes:<br />

98. - incidência de co11flitos pela posse da terra;<br />

99. - incidência do complexo latif úndiolminifúndio;<br />

100. - incidência de latifúndios próximos aos grandes centros<br />

urbanos ou áreas densamente povoadas que estejam na iminência<br />

de ser utilizados para loteamentos imobiliários<br />

especulativos;<br />

101. - incidência de grande número de trabalhadores rurais<br />

sem terra ou com pouca terra, arrendatários, parceiros, posseiros.<br />

minif undistas e assalariados;<br />

102. - ocorrência de obras públicas, tais como barragens,<br />

açudes ou uso atual inadequado de bacias irrigáveis face à potencialidade<br />

de seus recursos e à sua função social;<br />

103. - existência de i11f ra-estrutura viária, de produção,<br />

armazenamento, comercialização e equipamentos sociais;<br />

104. - aptidão das terras.<br />

105. O MIRADIINCRA não definirá áreas prioritárias para<br />

a <strong>Reforma</strong> Agrária ou para a Colonização onde haja prováveis<br />

populações indígenas arredias.<br />

106. Após a aprovação do PNRA pelo Presidente da República<br />

serão intensificados os trabalhos de elaboração e ampla<br />

discussão com as representações a níveis regionais, estaduais<br />

e locais, dos Planos Regionais de <strong>Reforma</strong> Agrária, para que<br />

eles estejam elaborados até o final de julho próximo.<br />

62


Secção E<br />

O ''assentamento'! uma nova figura<br />

jurídica na qual o ''assentado" se torna<br />

mero posseiro e usuário da terra;<br />

o direito de propriedade fica sendo<br />

do Poder público... ou deixa de existir<br />

TEXID DO PNRA<br />

4.3 - Alternativas para Posse e Uso da Terra<br />

107. A <strong>Reforma</strong> Agrária determinará modificações substanciais<br />

nas formas de posse e uso da terra e nas relações de<br />

trabalho.<br />

108. Ao equacionar democraticamente os problemas da posse<br />

da terra, a <strong>Reforma</strong> Agrária proporcionará oportunidade a<br />

todos os que nela trabalham como parcelelros, arrendatdrios,<br />

assalariados, posseiros, ocupantes e pequenos proprietdrios,<br />

com drea insuficiente para a reprodução de seu sustento,<br />

para que redefinam as suas relações com os meios de produção<br />

e trabalho.<br />

109. Seguramente, a dinâmica da <strong>Reforma</strong> Agrária, através<br />

da participação democrática dos assentados, nos diversos<br />

momentos de sua implementação, ampliará as possibilidades para<br />

consolidação das formas mais adequadas de organização<br />

sócio-econômica dos beneficiários.<br />

110. O Estado deve respeitar as mais distintas formas de<br />

posse e uso da terra existentes, apoiando-se nelas para, em consonância<br />

com os próprios beneficiários da <strong>Reforma</strong> Agrária encontrar<br />

as soluções mais adequadas aos conflitos pela terra e<br />

para a legalização das situações de posse.<br />

111. Nesse sentido, reformar será também reconhecer como<br />

legitimas as suas experiências e saberes sufocados pelas matrizes<br />

culturais dominantes. Rejormar será compreender e libertar<br />

o potencial humano para o livre exerc(cio do trabalho e para<br />

a prática de seus direitos de cidadania.<br />

112. A estratégia de ação relacionada com a posse e uso<br />

da terra reafirmará na prática a função social da terra para que<br />

todos dela se beneficiem democraticamente.<br />

113. A heterogeneidade das situações concretas exigirá um<br />

amplo espectro de soluções. A vivência dos trabalhadores rurais<br />

será o ponto de partida para o equacionamento dos seus<br />

problemas. Assim, as alternativas de organização do assentamento<br />

poderão se concretizar sob as formas de:<br />

unidade familiar,·<br />

unidade de propriedade em comunhão;<br />

unidades associativas;<br />

ou unidades mistas.<br />

COMENTÁRIO<br />

O conjunto destes tópicos (n?s 107 a 113)<br />

dá o quadro da transformação do Brasil rural<br />

de hoje, no Brasil rural de amanhã.<br />

Cada uma de suas disposições é feita para<br />

exclusiva vantagem de ''parceleiros, arrendatários,<br />

assalariados, posseiros, ocupantes e pequenos<br />

proprietários" (n? 108). Só é excluído -<br />

e excluído inteiramente - desse quadro de distribuição<br />

de benefícios, o proprietário enquanto<br />

tal.<br />

Com efeito, a referência, aliás bem na cauda<br />

da lista dos beneficiados, aos pequenos proprietários,<br />

deixa claro que do banquete estão excluídos<br />

os grandes e médios proprietários.<br />

Ademais, a fobia do PNRA contra o proprietário<br />

é tão radical, que essa mesma referência<br />

ao pequeno proprietário vem carregada de<br />

caráter nitidamente discriminatório. Pois beneficiados<br />

só serão os ''pequenos proprietários,<br />

com área .insuficiente para a reprodução [sic]<br />

de seu sustento". Ou seja, os proprietários mi-<br />

63


A propriedade privada e a livre iniciativa, no t,qão agro-reformista<br />

nifundiários, irremissivelmente condenados a se<br />

proletarizarem. ·<br />

Todos os demais proprietários são sumariamente<br />

excluídos da participação da vida agrícola,<br />

na perspectiva do PNRA, sem a menor<br />

preocupação pela falta que possam fazer à agricultura<br />

nacional. Assim se vê que o PNRA os<br />

trata como parasitas que já agora não exercem<br />

função útil nenhuma. O que é desconhecer, não<br />

só a realidade atual, mas o imenso papel histórico<br />

dos fazendeiros, na expansão da fronteira<br />

rural interna do País.<br />

Pode-se dizer que os tópicos 107 a 113 do<br />

PNRA constituem o dobre de finados do direito<br />

de propriedade na agricultura brasileira.<br />

TEXTO DO PNRA<br />

114. São as seguintes as diretrizes que orientarão o processo<br />

de assentamento de trabalhadores rurais:<br />

115. - assegurar, nos termos da legislação vigente, o reconhecimento<br />

das formas de organização da produção e o sistema<br />

de apossamento pré-existentes;<br />

116. - erifatizar a participação efetiva dos beneficiários e<br />

dos seus órgãos de classe em todos os níveis de decisão;<br />

117. - impedir a reconcentração rJe terras, evitando a transferincia<br />

de domínio da propriedade a terceiros, não participantes<br />

como beneficiários preferenciais;<br />

118. - adotar o prazo mais curto possível para efetivar os<br />

assentamentos e reassentamentos;<br />

119. - evitar. ao máximo, o deslocamento de beneficiários<br />

de seus locd/s de origem, no processo de redistribuição<br />

de terras;<br />

COMENTÁRIO<br />

''Evitar, ao mdximo, Q deslocamento de beneficiários<br />

de seus locais de origem". - Em entrevista<br />

à imprensa, o sr. Ministro Nelson Ribeiro<br />

asseverou que este dispositivo tem por fim<br />

evitar a "desagregação da famflia" ("O Globo",<br />

6-6-85).<br />

É certo que a separação das famílias, im-.<br />

posta pela necessidade da expansão desbravadora,<br />

pode ter muito de doloroso. Mas constitui<br />

erro de modernos sociólogos pensar que tudo<br />

quanto é doloroso é necessariamente digno<br />

de ser evitado.<br />

Assim, o parto é doloroso. Mas daí não se<br />

deduz a legitimidade da limitação artificial da<br />

prole pelo uso de contraceptivos, do aborto etc.<br />

1àl é a doutrina católica, como vem sendo en-<br />

Título 1<br />

sinada desde os primórdios da Igreja até nos..­<br />

sos dias.<br />

Também é doloroso o trabalho: "Comerás<br />

o pão com o suor de teu rosto" (Gen. III, 19).<br />

Daí não se pode deduzir que o trabalho deva<br />

ser eliminado, ou pelo menos evitado sempre<br />

ao máximo.<br />

Dolorosa é a separação da filha que abandona<br />

seu lugar no lar paterno, para constituir<br />

com seu esposo outro lar. Daí não se infere ser<br />

um. mal o casamento.<br />

Assim também, dolorosa é a separação dos<br />

desbravadores que abandonam suas famílias e<br />

suas cidades para povoar outras terras. Mas em<br />

que situação estariam as três Américas, em nossos<br />

dias, caso as correntes imigratórias crescentes<br />

qÚe as vêm povoando desde .o século XVI<br />

até nossos dias se tivessem obstinado a ficar na<br />

Europa, "distribuindo e redistribuindo" ( cfr. tópico<br />

48) ao infinito os recursos gastos do velh9<br />

Continente, em lugar de aproveitar corajosamente<br />

os ubérrimos espaços novos que os descobrimentos<br />

abriram para o gênero humano?<br />

(cfr. Título II, Cap. I, 3, D).<br />

O Império nipônico, éin que situação demográfica<br />

estaria, caso as emigrações japonesas<br />

dos séculos XIX e XX não tivessem franquea ..<br />

do espaços imensos para seus excedentes populacionais?<br />

Apesar dessas emigrações, os minguados<br />

espaços insulares do Império do .Sol Levante<br />

são ainda hoje gravemente insuficientes<br />

para sua expansão demográfica ...<br />

Toria Deus sido menos compassivo para com<br />

os homens, do que o moderno reformismo brasileiro,<br />

quando lhes preceituou: ''Povoai toda ,<br />

a terra" (Gen. I, 28)? Como poderia tal povoa- ·<br />

mento de toda a terra fazer-se sem as separações<br />

que tanto condóem o sr. Ministro da <strong>Reforma</strong><br />

e do Desenvolvimento Agrário?<br />

A Abraão, bem-amado de ,Deus, preceituou<br />

Ele: "Sai de tua terra, de tua parentela, da casa<br />

de teu pai, para a terra que te indicarei" (Gen.<br />

XII, 1).<br />

Pelo contrário, o PNRA se propõe ''evitar<br />

ao mdximo" (n? 119) tais separações, dolorosas<br />

mas necessárias.<br />

Por essa estranha política, ficará o Brasil<br />

64


Considerações doutrinárias<br />

"distribuindo e redistribuindo" (cfr. tópico n?<br />

48) ao infinito a área ocupada, e deixando abandonada<br />

a maior parte possível de área inocupada.<br />

Nesse caso, não nos surpreendamos que,<br />

diante de nosso espantoso e confessado propósito<br />

de não ocupar o que é nosso, nações superpovoadas,<br />

alegando a função social da terra<br />

e os direitos humanos, exijam que não criemos<br />

obstáculos a que elas ocupem compactamente<br />

o que nós deixamos inaproveitado por<br />

motivos sentimentais.<br />

Nesse dia, a própria soberania sobre nossas<br />

áreas desocupadas periclitará.<br />

E a causa disso estará no sentimentalismo<br />

agro-reformista.<br />

* * *<br />

A esse argumento sentimental, o sr. José Gomes<br />

da Silva, presidente do INCRA e um dos<br />

autores do PNRA, soma outro argumento, este<br />

de caráter prático. Em entrevista à imprensa<br />

declarou ele: ''As reformas agrárias massivas.<br />

como tem que ser a brasileira. o pessoal [sic]<br />

tem que aproveitar a infra-estrutura existente ....<br />

Porque essa infra-estrutura responde a uma<br />

realidade econômica: um terreiro. um paiol,<br />

uma tulha. coisa que o valha. é fruto de uma<br />

necessidade" ("O Estado de S. Paulo", Suplemento<br />

Agrícola, 29-5-85, p. 8).<br />

Tal argumento desperta reflexões. Durante<br />

séculos veio a iniciativa particular procedendo,<br />

com energia indomável, à elaboração da "irif raestrutura<br />

11 necessária a seu próprio desenvolvimento.<br />

E isto, ela o fez à custa de trabalho, poupança<br />

e espírito de iniciativa, arrancando da<br />

própria terra os recursos necessários para tal.<br />

É verdade que, mais ou menos nos últimos<br />

cem anos, a ação do Estado coadjuvou dé modo<br />

expressivo o estabelecimento de "infraestrutura<br />

.. , por meio de estradas de rodagem,<br />

açudes, silos, armazéns etc. Sem embargo disso,<br />

a atuação da iniciativa privada continuou<br />

tão importante nessa matéria, que o Estado pôde<br />

prestar sua justa cooperação dentro do quadro<br />

de seus poderes normais, e de seus recursos<br />

correntes.<br />

No ano de 1985, o Poder público, munido<br />

Parte JJ, Seção E<br />

de recursos técnicos incomparavelmente mais<br />

eficazes do que os do passado, e confortado pela<br />

perspectiva de torrentes de dinheiro fornecidas<br />

pelo Banco Mundial (por exemplo, empréstimo<br />

de cem milhões de dólares para o programa de<br />

assentamentos no Nordeste - cfr. "O Estado<br />

de S. Paulo", 28-6-85), afasta arbitrariamente<br />

a colaboração da iniciativa privada, e se confessa<br />

impotente para análoga realização. A ponto<br />

de optar por expor o Brasil a um empreendimento<br />

vertiginosamente arriscado, o de uma <strong>Reforma</strong><br />

Agrária que revolva de ponta a ponta sua<br />

área cultivada.<br />

Oxalá a constatação do que há nisto de contraditório<br />

abra os olhos dos propugnadores do<br />

agro-reformismo nacional.<br />

TEXTO DO PNRA<br />

120. - estimular a exploração cooperativista condominlal<br />

e/ou comunitdria da terra. da produção, da comerciafü:,ação<br />

e da transformação agroindustrial.<br />

COMENTÁRIO<br />

Os condomínios e outras formas de propriedade<br />

associativa, nada têm de intrinsecamente<br />

mau. Pelo contrário, são legítimos, e podem<br />

prestar úteis serviços à agricultura, como à<br />

pecuária.<br />

Seria de censurar, entretanto, que essas formas<br />

associativas ou condominiais - pelas quais<br />

cabe aos interressados optar livremente, quando<br />

assim o prefiram - fossem impostas pelo<br />

Poder público, a título de regra geral aplicável<br />

a todos os fazendeiros que se encontrem em certas<br />

situações especificadas por lei.<br />

O "estímulo" que o PNRA pretende dar a<br />

tais formas de '~xploração .... da te"a, da produção,<br />

da comercialiV1ção e da transformação<br />

agroindustrial" faz recear essa intromissão indevida<br />

do Poder público. Na arquitetura geral<br />

do PNRA não se vê como ele escapará disso<br />

(cfr. Comentário ao n? 137).<br />

* * *<br />

Neste tópico, como em muitos outros, o<br />

PNRA se exprime em termos pouco claros: "Exploração<br />

cooperativista condominial e/ou co-<br />

65


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

munitária ": o que quer dizer tudo isto para o<br />

leitor, mesmo quando dotado de cultura geral<br />

média?<br />

"Cooperativista", ele tem a idéia do que seja.<br />

Mas o que será, aos olhos dele, uma ''exploração<br />

cooperativista condominial"? E uma<br />

"exploração cooperativista comunitária"? No<br />

que o significado, para ele confuso, de cada um<br />

desses três adjetivos condiciona o cooperativismo?<br />

No que, ainda, uma ''exploração cooperativista<br />

condominial" se conjuga com uma ''exploração<br />

cooperativista comunitária" (''condominial<br />

e comunitária") e de outro lado se diferenda<br />

da ''exploração cooperativista condominial"<br />

porém não ("ou") "comunitária"?<br />

Outras tantas charadas. É pelo menos arriscado<br />

introduzir o moderno "e/ou,, num texto<br />

oficial, sem muita ponderação ...<br />

A linguagem do PNRA é por vezes tão diversa<br />

da corrente que torna impossível ao homem<br />

comum da rua formar uma compreensão<br />

a respeito dele.<br />

Atirar esse projeto ao público dando-lhe<br />

apenas 30 dias - depois benevolamente dilatados<br />

para 80 - para que ele proceda a essa<br />

decifração, à força de engenho interpretativo ou<br />

de estudos especializados, equivale a renunciar<br />

a que seja autêntico o pronunciamento desse público<br />

sobre o PNRA. Pelo que aqui fica consignado<br />

o nosso apelo às autoridades competentes<br />

para que, no próximo PNRA a ser apresentado<br />

em substituição ao presente, esses termos<br />

- caso figurem - sejam acompanhados<br />

de definições precisas e acessíveis ao brasileiro<br />

de mediana cultura geral.<br />

* *<br />

O Brasil de hoje é um mundo. E, nesse Brasil,<br />

constitui por sua vez um mundo o conjunto<br />

das atividades agropecuárias.<br />

<strong>Reforma</strong>r cabalmente esse mundo com base<br />

em inteira amplitude de informações e de critérios<br />

de análise, tomados em consideração por<br />

especialistas de estofo os múltiplos aspectos morais,<br />

religiosos, sociológicos, jurídicos, cientí-<br />

Tüulo I<br />

ficos ou técnicos que tal reforma contém em si,<br />

coordenar todo o cabedal de estudos daí decorrentes,<br />

de maneira a construir um plano de grande<br />

envergadura, animado por uma nobre elevação<br />

de pensamento, e um atilado senso das<br />

realidades práticas, não só em matéria especificamente<br />

agrária, mas também nas atinências<br />

dessa matéria com as atividades industriais e<br />

comerciais e com o bem comum do Pais globalmente<br />

considerado, vazar todo esse plano em<br />

moldes técnicos e jurídicos de impecável coerência<br />

e clareza, numa linguagem correta e acessível<br />

ao público: essas seriam as tarefas preliminares<br />

ao PNRA que o País gostaria de ter visto<br />

executadas ponderadamente ao longo do tempo<br />

indispensável, com a mobilização de seus<br />

mais lúcidos talentos.<br />

Porém não há conhecimento de que assim<br />

tenha sido elaborado o PNRA.<br />

Daí uma sensação de aventura, que a divulgação<br />

dele causou a todo o Brasil.<br />

Paralelamente, a crítica completa ao PNRA<br />

suporia a montagem de um sistema de documentação<br />

e análise, de estruturação e redação,<br />

quase tão amplo como o que fora desejável para<br />

a elaboração dele. Os oitenta dias concedidos<br />

pelo Governo para que o País opinasse sobre<br />

os mil aspectos das múltiplas matérias incluídas<br />

no PNRA são de uma exigüidade proibitiva<br />

disto.<br />

Tui exigüidade se refletirá por força, nas carências<br />

inevitáveis de qualquer obra desejosa de<br />

analisar cabalmente perto de quatro centenas<br />

de tópicos do PNRA, ainda que em função apenas<br />

de dois princípios, o da propriedade privada<br />

e o da livre iniciativa.<br />

Máxime considerando que tal análise não<br />

pode abstrair da Constituição Federal, do ET,<br />

e da luxuriante vegetação legislativa sobre matéria<br />

agrária em vigor, forçoso é que cá e lá se<br />

deixem notar lapsos que tenham escapado ao<br />

autor do presente estudo, e à prestimosa equipe<br />

de auxiliares que o coadjuvaram.<br />

Desde já, agradece pois o autor todos os reparos<br />

que neste sentido se lhe queiram comunicar<br />

para uma nova edição.<br />

66


Considerações doutrinárias<br />

TEXTO DO PNRA<br />

4.4 - Participação da Sociedade Civil<br />

121. A <strong>Reforma</strong> Agrária é parte essencial do processo de<br />

consolidação de uma sociedade democrática. Trata-se de integrar<br />

à comunidade polftica, como cidadãos plenos, uma parcela<br />

significativa da população brasileira - os trabalhadores<br />

rurais - hoje marginalizados pela impossibilidade do livre<br />

acesso à terra em que trabalham.<br />

COMENTÁRIO<br />

No tópico 121, se evidencia um estranho<br />

pressuposto doutrinário do PNRA.<br />

Afü ma este que todos os trabalhadores rurais,<br />

indiscriminadamente, não são cidadãos plenos,<br />

e vivem marginalizados.<br />

A afirmação causa estranheza, uma vez que<br />

todos podem e devem estar em condições de<br />

exercer o direito de voto, devem ainda possuir<br />

título eleitoral e são obrigados a votar. Ademais,<br />

gozam dos direitos civis e políticos que a Lei<br />

assegura a todos os cidadãos. O que lhes falta,<br />

então, para serem ''cidadãos plenos"?<br />

O projeto o explíca desinibidamente: é a<br />

''impossibilidade do livre acesso à terra em que<br />

trabalham".<br />

Em outros termos, o assalariado, mesmo<br />

quando ganha largamente (e há muitos desses<br />

assalariados!), não está em condições de ser "cidadão<br />

pleno", pois não tem "acesso à terra em<br />

que trabalha".<br />

A conclusão é clara para o PNRA: o regime<br />

do salariado é incompatível com a plena<br />

democracia.<br />

Mas, por sua vez, tal conclusão conduz a<br />

outra: se esse regime é intrinsecamente antidemocrático,<br />

ele o é em todos os campos em que<br />

exista. No setor da lavoura, já foi dito. Mas também<br />

no setor industrial e no comercial. Ou seja,<br />

o PNRA, dispondo embora só sobre matéria<br />

rural, firma um princípio genérico que conduz<br />

à plena abolição do salariado também na<br />

área urbana, e à introdução compulsória da copropriedade<br />

(portanto, também da co-gestão e<br />

da co-participação nos lucros), dos industriários<br />

e comerciários. O que representa o desmantelamento<br />

autogestionário da empresa.<br />

Se é isto que o PNRA entende por "Nova<br />

República"""'."'"' é forçoso que o reconheçam in-<br />

Parte li, Seção E<br />

felizmente até seus entusiastas - esta terá dado<br />

um passo imenso rumo à esquerdização total<br />

do Brasil.<br />

TEXTO DO PNRA<br />

122. Um projeto com essa dimensão não pode serestringir<br />

à atuação sistemdtica do Estado. -Por ser do interesse<br />

não apenas dos seus beneficiários diretos, mas de toda a sociedade,<br />

exige· a participação ativa de todos os setores comprometidos<br />

com o projeto democrdtico.<br />

123. A participação da sociedade civil no processo de<br />

<strong>Reforma</strong> Agrdria não pode restringir-se ao apoio passivo<br />

às medidas governamentais que vierem a ser adotadas.<br />

É indispensdvel que ela atue na pr6prla definição dos<br />

seus objetivos que venha a ser dada pelo governo ao processo<br />

de <strong>Reforma</strong> Agrária.<br />

124. Entendemos que o PNRA já ~ ele mesmo. resultado<br />

do amplo processo de organização e mobilização social<br />

que perpassa a sociedade brasileira e que. mudando a correlação<br />

de forças polfticas, abre espaço para as reivindicações<br />

de forças sociais até então excluídas, e exige a democratização<br />

do poder do Estado, de suas políticas, de seus<br />

órgãos e de sua atuação.<br />

COMENTÁRIO<br />

Nestes três tópicos, o PNRA define os pressupostos<br />

políticos dos quais resulta, e os reflexos<br />

políticos que visa produzir antes de tudo.<br />

1. O PNRA sente de tal maneira o ciclópico<br />

do esforço exigido para a realização de sua<br />

utopia global que, apesar de ter disposto para<br />

si uma situação ímpar no novo Estado brasileiro,<br />

ainda considera insuficiente todo o potencial<br />

de ação daí decorrente: ''um projeto com<br />

essa dimensão não pode se restringir à atuação<br />

sistemática do Estado", afirma o documento<br />

com toda a naturalidade (n? 122).<br />

Estima ele que, ademais do Estado, tal projeto<br />

"exige a participação ativa de todos os se:..<br />

tores comprometidos com o projeto democrático"<br />

(n? 122).<br />

Quais são esses "setores''? Dir-se-ia que<br />

constituem uma parte da sociedade, pois quem<br />

fala em "setores comprometidos" faz pensar<br />

que existem, em contrapartida, "setores<br />

não-comprometidos".<br />

''Setores comprometidos" ... "setores engajados",<br />

as expressões se equivalem. A palavra<br />

"engajados" é característica no linguajar da esquerda.<br />

Designa ela alguém que assumiu um<br />

compromisso consigo mesmo e eventualmente<br />

com terceiros, e tem posição tomada na execu-<br />

67


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

ção de certo esforço, rumo a certa meta. A meta<br />

é a implantação do regime <strong>socialista</strong>, quando<br />

não do regime comunista. O "esforço" é o<br />

do PCB, do PC do B, ou de alguma organização<br />

"companheira de viagem", como as CEBs.<br />

Em suma, o "engajado" (a palavra passa de adjetivo<br />

a substantivo) é um idealista-ativista de<br />

esquerda.<br />

Segundo essa interpretação, o PNRA quer<br />

e até ''exige", não tanto a participação de todos<br />

os brasileiros, mas de uma parte deles, filiados<br />

aos "setores comprometidos com o projeto<br />

democrático", isto é, com o ''projeto" do<br />

qual o PNRA se considera elemento integrante<br />

e capital.<br />

Mas o PNRA deixa transparecer que tem<br />

metas políticas de dimensões não menos vastas<br />

do que suas metas sócio-econômicas.<br />

Ao que parece, os tais "setores comprometidos"<br />

devem acabar por abranger toda asociedade<br />

civil. Pois, imediatamente após se haver<br />

referido a tais ''setores", o PNRA continua:<br />

'-'4 participação da sociedade civil no processo<br />

de <strong>Reforma</strong> Agrária não pode restringir-se ao<br />

apoio passivo às medidas governamentais que<br />

vierem a ser adotadas" (n? 123).<br />

Ante a <strong>Reforma</strong> Agrária não se tem pois o<br />

direito de ser contrário, ou pelo menos neutro<br />

e silencioso (4). "É indispensável" que todas as<br />

forças vivas cooperem. Nada, pois, de multidões<br />

submissas, resignadas, emudecidas ante a ação<br />

governamental desenvolvida sem obstáculo, em<br />

toda a sua amplitude.<br />

Houve tempo em que um povo descontente<br />

com seu monarca conservava a liberdade de se<br />

exprimir através do silêncio. O rei aparecia: não<br />

havia aplausos. "O silêncio dos povos é lição<br />

para os reis", comentava-se.<br />

Esse silêncio, parece temê-lo o PNRA. E por<br />

isso arvora em condição para seu êxito, algo que<br />

é muito mais do que o simples aplauso. E convoca<br />

com timbre ufano de toque de clarim: "É<br />

indispensável que ela [a sociedade civil] atue na<br />

própria definição dos seus objetivos" (n? 123).<br />

Porém não se trata só de preceituar que assim<br />

deve atuar a sociedade civil. lrata-se ainda<br />

de conseguir que, abandonando a aliás lamen-<br />

Ttiulo I<br />

tável displicência com que se conduz ante os<br />

problemas do Estado, ela queira de fato prestar<br />

à <strong>Reforma</strong> Agrária o tipo de colaboração<br />

que dela exige o PNRA.<br />

Esclarecer mentes, movê-las à ação eficaz<br />

e dedicada, é coisa que se consegue maximamente<br />

em nossos dias pela propaganda. Isto é,<br />

pela mobilização dos meios de comunicação social,<br />

pela estruturação e dinamização de correntes<br />

de opinião, de modo que, todas à uma, executem<br />

a partitura ideológica, política etc., distribuída<br />

pelos magnatas propulsores da <strong>Reforma</strong><br />

Agrária.<br />

2. Além de reformar o Brasil, o PNRA quer<br />

assim reformar os próprios brasileiros. Cometimentos<br />

deste gênero não são originais em nosso<br />

século. Tentou-os a partir de 1917, e continua<br />

a tentá-los nos nossos dias, com melancólica<br />

mas inflexível insistência, a Rússia soviética.<br />

E essas quase sete décadas de insucesso não<br />

parecem nem de longe demovê-la de tal esforço.<br />

Resultados muito mais eficientes obtiveram,<br />

com a orquestração modeladora da mentalidade<br />

pública, o regime fascista e o nazista. Mas<br />

o caráter passageiro de seu sucesso publicitário<br />

todos o conhecem.<br />

Não se vê como descartar a apreensão de<br />

que o PNRA conduza o País, também neste domínio<br />

e não apenas no da produção rural, a alguma<br />

aventura não tão diferente destas.<br />

Com efeito, para quem se situa na perspectiva<br />

e na lógica dele, seria forçoso concluir que:<br />

a) a <strong>Reforma</strong> Agrária é indispensável para<br />

o Brasil;<br />

b) porém, ela não é realizável sem o apoio<br />

de toda a sociedade civil;<br />

c) e tal apoio só pode ser obtido por meio<br />

da propaganda que esclareça o povo sobre a eficácia<br />

com que essa reforma conduzirá o País<br />

ao Éden da agricultura estruturada em unidades<br />

familiares, ou preferivelmente organizada<br />

segundo as máximas do socialismo autogestionário;<br />

d) em conseqüência, um governo zeloso do<br />

bem comum deve suscitar, favorecer e estimular<br />

de todos os modos os talentos especializados<br />

em atear no coração das multidões tíbias,<br />

68


Considerações doutrinárias<br />

adormecidas, a chama sagrada das convicções<br />

e dos entusiasmos agro-igualitários.<br />

e) em contrapartida, esse governo deve ver,<br />

nos anti-agro-reformistas, inimigos do bem comum<br />

e da salut public. O que importará em os<br />

relegar ao canto, em os privar, quanto necessário,<br />

de voz e de vez. Para os que increparem os<br />

homens de tal governo, de contraditórios com<br />

seu rótulo democrático, restará sempre o recurso<br />

à máxima romana: Salus populi suprema !ex esto<br />

(Lei da XII Tábuas).<br />

Rótulo democrático, também o tinham oregime<br />

nazista e o fascista. Também o tem a Rússia<br />

comunista. E é precisamente pela aplicação<br />

abusiva da máxima romana, que julgaram (e no<br />

caso soviético ainda julgam) poder usá-lo sem<br />

contradição. Pois, alegavam e alegam, a democracia<br />

não pode descuidar de sua própria def e­<br />

sa ante os adversários.<br />

Quem remonte ainda mais o curso da História,<br />

deparará, no século XVIII, com o trio do<br />

Terror: Danton, Robespierre e Marat. Democratas<br />

e liberais até ao ponto do delírio, não julgaram<br />

que sua sanguinária ditadura constituísse<br />

um desmentido dos princípios que professavam.<br />

É que assim o exigia a salus populi, a salut public,<br />

em holocausto ao qual o famoso Comité<br />

ensanguentou a França inteira.<br />

* * *<br />

Longe de qualquer comentador ponderado<br />

afirmar que tais sejam os propósitos do Exmo.<br />

Sr. Presidente José Sarney, ou de seu dinâmico<br />

Ministro da <strong>Reforma</strong> e do Desenvolvimento<br />

Agrário.<br />

Entretanto, a História apresenta múltiplos<br />

casos de homens públicos - inclusive dotados<br />

de verdadeiro valor intelectual - que afirmavam<br />

certos princípios e os punham em vias de<br />

realização, sem se darem conta das últimas conseqüências<br />

a que tais princípios conduziam. Essa<br />

hipótese, que não discrepa da consideração<br />

devida a SS. Exas., vem naturalmente ao espírito<br />

quando se consideram as conseqüências lógicas<br />

inelutáveis destes tópicos do PNRA, tão<br />

densos e tão carregados de perigos. Conseqüên-<br />

Parte li, Seção E<br />

cias que, no febricitante desempenho de seus<br />

amplíssimos encargos, eles eventualmente não<br />

tenham medido em toda a sua extensão.<br />

3. Seja como for, a mobilização da opinião<br />

pública, o redator dessa parte do PNRA não<br />

a vê como uma quimera, mas como algo que<br />

já começou.<br />

Algo que teria nascido espontaneamente de<br />

um ''amplo processo de organização e mobilização<br />

social que perpassa a sociedade brasileira<br />

e que, mudando a correlação de forças políticas,<br />

abre espaço para as reivindicações de forças<br />

sociais até então excluídas, e exige a democratização<br />

do poder do Estado" (n? 124).<br />

É precisamente como se autodefinem as correntes<br />

de esquerda que vêm agitando o Brasil,<br />

com a colaboração tão ampla de grandes forças<br />

de opinião pública do País: os meios de comunicação<br />

social (4? Poder) e a CNBB (5?<br />

Poder).<br />

É, pois, na continuidade do sopro para a esquerda,<br />

que o PNRA deseja que sejam postos<br />

em ação não só o poder do Estado, como os<br />

impulsos vigorosos da sociedade civil, algum dia<br />

por fim inteiramente "conscientizada" e<br />

"engajada".<br />

TEXTO DO PNRA<br />

125. A participação das diferentes instituições, sindicatos,<br />

associações, grupos e movimentos da Sociedade Civil no processo<br />

de <strong>Reforma</strong> Agrária têm como base o reconhecimento pelo<br />

Estado das suas identidades específicas, do seu direito à autonomia<br />

e à representação direta dos interesses e reivindicações<br />

dos segmentos sociais que as constituem, da legitimidade das<br />

suas formas de organização, ação e participação social e de suas<br />

formas de expressão.<br />

126. Assim, para viabilizar este PNRA, tornando-o um projeto<br />

de toda a sociedade, é imprescindível, que canais permanentes<br />

de acesso às instâncias e agentes do Estado, responsáveis<br />

pela elaboração de planos e implementação de programas<br />

de <strong>Reforma</strong> Agrária sejam abertos às reivindicações e propostas<br />

de todas as forças sociais. Pressupõe-se também, uma ruptura<br />

com todos os artifícios autoritários, como a burocratização<br />

interna dos órgãos governamentais executores da <strong>Reforma</strong><br />

Agrária.<br />

127. É igualmente imprescind(vel que as informações<br />

sobre o processo de <strong>Reforma</strong> Agrdria fluam livremente<br />

para a sociedade, para que esta possa exercer o necessário controle<br />

sobre a sua implementação.<br />

COMENTÁRIO<br />

"É igualmente imprescindível que as infor-<br />

69


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

Título l<br />

mações sobre o processo de <strong>Reforma</strong> Agrária<br />

fluam livremente para a sociedade" (n? 127).<br />

-Esse ''fluir" para a sociedade das ''informações<br />

sobre o processo de <strong>Reforma</strong> Agrária" ninguém<br />

o poderá assegurar melhor do que os próprios<br />

órgãos diretivos dessa reforma. Pois deles<br />

dependem as melhores fontes de informação.<br />

A eles pertencem os mais amplos meios de<br />

fazerem ''fluir" para o público o manancial dos<br />

dados de que dispõem. Em suma, nesta matéria,<br />

os reis da propaganda agrária são eles. E<br />

mal avisados andarão os que contrariarem o<br />

curso "fluente" dessa reforma "indispensável"<br />

e "urgente", difundindo informações "antipatrióticas"<br />

sobre os efeitos do agro-igualitarismo<br />

...<br />

É para estes rumos que, na lógica de quanto<br />

dispõe, o PNRA encaminha o Brasil, possivelmente<br />

sem o advertir.<br />

TEXTO DO PNRA<br />

128. O Congresso Nacional deverá ser uma caixa de ressonância<br />

do amplo debate que se estabelecerá no País, em torno<br />

da <strong>Reforma</strong> Agrária. Para ele deverão convergir muitas das<br />

propostos o serem formulados pelos sindicatos e movimentos<br />

de trabalhadores rurais e urbanos, bem como os pleitos dos entidades<br />

patronais, os reivindicações de organizações civis e religiosos<br />

que atuam no campo, os análises dos estudiosos e as opiniões<br />

dos partidos políticos.<br />

129. Será, pois, mais do que nunca necessário um diálogo<br />

intenso entre o Legislativo e o Executivo.<br />

130. Aos principais interessados no Reformo Agrária, os<br />

trabalhadores rurais, está reservado papel central no suo efetivação.<br />

As entidades representativos dos trabalhadores, além de<br />

participar, como todos os demais forças sociais, da discussão<br />

dos propostos e dos políticos de Reformo Agrário, exercerão o<br />

seu direito de reivindicar e fiscalizar o suo execução. Respeitado<br />

o suo autonomia elos estarão presentes em todos os momentos<br />

e em todos os níveis do processo: no indicação das áreas a serem<br />

objeto de intervenção do Poder Público; no discussão do<br />

perfil dos assentamentos; na seleção de beneficiários, nos levantamentos<br />

para fim de desapropriação, na busca de soluções para<br />

corlflito de terras e em todas as demais situações em que os<br />

interesses dos trabalhadores estejam envolvidos.<br />

131. A participação do sociedade civil e a dos trabalhadores<br />

rurais em especial, no processo de <strong>Reforma</strong> Agrária, não pode<br />

ser vista como uma concessão do Estado. Trata-se, na realidade,<br />

de um requisito vital, para que o processo chegue a bom<br />

termo. Sem elas, o PNRA perderia a sua identidade e<br />

tornar-se-ia apenas mais um plano entre os muitos produzidos<br />

pela tecnocracia.<br />

COMENTÁRIO<br />

"Uma caixa de ressonância" (n? 128). -A<br />

metáfora não poderia ser mais expressiva. Ela<br />

deixa bem claro que a propósito do grande cometimento<br />

agro-reformista, as duas casas legislativas<br />

federais farão tão-só o papel de um ambiente<br />

ilustre, no qual se travem debates com<br />

repercussão· em todo o País.<br />

Mas a tarefa de legislar, não se lhes abrirá<br />

a menor brecha para que a exerçam nesta emergência.<br />

A aprovação, modificação ou rejeição<br />

do PNRA compete exclusivamente ao Presidente<br />

da República.<br />

Este tópico permite avaliar a amplitude do<br />

debate agrário que o PNRA espera. Fica-se entretanto<br />

desconcertado ao considerar que debate<br />

tão amplo deveria, segundo o pensamento inicial<br />

dos promotores do PNRA, travar-se e<br />

esgotar-se dentro de 30 dias!<br />

Segundo indicam o bom senso e a experiência<br />

corrente dos fatos, quanto maior o número<br />

de pessoas que participam de um debate, tanto<br />

mais longo tende este a ser.<br />

Ora, foi convocada para este debate uma nação<br />

de 130 milhões de habitantes, distribuídos<br />

em 8,5 milhões de km2. E imaginavam os responsáveis<br />

por ele que bastariam 30 dias para<br />

que a discussão chegasse a seu termo conclusivo<br />

natural!<br />

* * *<br />

Quem corre risco com essa limitação de prazo,<br />

embora oportunamente dilatado por mais<br />

50 dias? O próprio PNRA. Pois se for alheia<br />

a ele a sociedade civil, é improvável que ''o processo<br />

chegue a bom termo". Neste caso, ''o<br />

PNRA perderia a sua identidade e tornar-se-ia<br />

apenas mais um plano entre os muitos produzidos<br />

pela tecnocracia" (n? 131).<br />

O presente tópico não importa apenas sob<br />

esse aspecto. Ele deixa ver bem claramente<br />

quanto, segundo a sistemática do PNRA, é necessária<br />

a ação sobre a opinião pública já descrita<br />

(cfr. Comentários aos n?s 122 a 124).<br />

TEXTO DO PNRA<br />

5 - PROGRAMAS DE AÇÃO<br />

132. O PNRA terá a sua execução orientada de acordo com<br />

um conjunto de Programas que assumem funções e graus hierárquicos<br />

diferentes, mas que apresentam rígida complementariedade<br />

e dependência.<br />

70


Considerações doutrinárias<br />

Parte li, Seção E<br />

133. O Programa Básico, definidor e configurador do processo<br />

de transformação das relações de propriedade e das melhorias<br />

de condições de acesso à terra, é o Programa de Assentamento<br />

de Trabalhadores Rurais. Ele substantivará as<br />

ações de desapropriação por interesse social, tendo como fator<br />

de mobilização, deflagração e consolidação de todo o processo<br />

a organização sócio-econômica dos beneficiários, em unidades<br />

agrícolas de trabalho e produção, comercialização e industrialização<br />

capazes de promovê-los social e economicamente.<br />

134. Os Programas Complementares e os de Apoio<br />

apresentam características diferentes, sendo os primeiros de ação<br />

direta e substantiva e, os demais, de natureza acessória. No primeiro<br />

caso, se situam os Programas de Regularização Fundiária,<br />

Colonização e Tributação, geradores de produtos intermediários<br />

expressivos que, se não configuram um processo<br />

de <strong>Reforma</strong> Agrária, constituem segmentos de importância, no<br />

sentido de poderem assumir autonomia operacional em determinadas<br />

condições especiais. No entanto, sua implementação<br />

deverá guardar, preferencialmente, íntima correlação com as necessidades<br />

e exigências do Programa Básico.<br />

135. Os Programas de Apoio, com funções eminentemente<br />

adjetivas e supletivas, têm também destacada importância,<br />

pois representam uma das vertentes responsáveis pela viabilidade<br />

do processo, como o são os Programas de Cadastro Rural<br />

e de Desenvolvimento de Recursos Humanos. Vencida<br />

a primeira fase do desenvolvimento da <strong>Reforma</strong> Agrária, de<br />

natureza emergencial, eles condicionarão as ações de médio e<br />

longo prazo, em termos de consistência, amplitude e operacionalidade.<br />

O Programa de Apoio Jurfdico aos trabalhadores<br />

rurais, de corifiguração periférica, provoca efeitos multiplicadores<br />

à medida que assumir características preventivas e<br />

mediadoras no contexto dos conflitos sociais pela posse da terra,<br />

bem como de proteção às vítimas da prepotência, do arbítrio<br />

e da violência no campo. Por último, contrastando com essas<br />

atividades de caráter executivo, releva acentuar o Programa<br />

de Estudos e Pesquisas, que além de analisar e interpretar<br />

as informações fornecidas pelo Cadastro Rural e por outros<br />

levantamentos relacionados com a questão agrária, servirá de<br />

valiosa memória documental de um importante momento da<br />

história social brasileira. Ele também fornecerá o necessário embasamento<br />

para a formulação de polfticas coerentes e<br />

consistentes.<br />

136. Esse elenco de programas é esquematizado na tabela 5.<br />

Tabela 5: Esquema de Programas previstos no 1. 0<br />

PNRA da Nova República.<br />

Natureza dos<br />

programas<br />

Básico<br />

Complementar<br />

Apoio<br />

Denominação<br />

Assentamento de Trabalhãilores Rurais<br />

Regularização Fundiária<br />

Colonização<br />

Tributação da Terra<br />

Cadastro Rural<br />

Estudos e Pesquisas<br />

Apoio Jurídico<br />

Desenvolvimento de Recursos Humanos<br />

COMENTÁRIO<br />

Note o leitor o considerável número e a amplitude<br />

de ação dos "Programas Complemen-<br />

tares e de Apoio" que o PNRA imagina, além<br />

do "Programa Básico", o "Programa de Assentamento<br />

de Trabalhadores Rurais".<br />

Assim, os "Programas de Regularização<br />

Fundiária, Colonização e Tributação", os "Programas<br />

de Cadastro Rural e de Desenvolvimento<br />

de Recursos Humanos", o "Programa de<br />

Apoio Jurídico aos trabalhadores rurais", o<br />

"Programa de Estudos e Pesquisas" etc.<br />

Ora, todos esses Programas são de uma elaboração<br />

dispendiosa. E mais dispendiosa ainda<br />

é a sua aplicação. Tudo isso importará na<br />

constituição de uma burocracia sem fim, que<br />

pesará de modo inclemente sobre a tão onerada<br />

economia nacional.<br />

Porém, tal parece· não espantar nem atemorizar<br />

os autores do Plano. Visceralmente utopistas,<br />

percebe-se que eles se preocupam pouco<br />

com as despesas. Realmente o PNRA é um<br />

plano de luxo. E isto precisamente no momento<br />

em que os interesses do Brasil tanto pedem<br />

contenção de despesas!<br />

TEX10 DO PNRA<br />

5.1 - Programa Básico de Assentamento de Trabalhadores<br />

Rurais<br />

a) Caracterização<br />

137. A <strong>Reforma</strong> Agrária se concretizará através da organização<br />

dos trabalhadores rurais em novas unidades de trabalho<br />

e produção com estrutura associativa e administração<br />

autônomas, que constituirão os Assentamentos, cujas<br />

dimensões, formas possessórias e de gestão estarão condicionadas<br />

inclusive às decisões dos próprios beneficiários,<br />

à diversidade e às especificidades locais e regionais.<br />

138. Assim, se procurará diferenciar, deforma nítida, o processo<br />

de criação de novas unidades de produção do Programa<br />

de Assentamento de Trabalhadores Rurais, objeto central da Rei<br />

orma Agrária, daqueles assentamentos proporcionados pelo<br />

Programa de Colonização.<br />

139. Não somente será distinta a maneira de se obter a terra,<br />

como também os níveis de participação e de decisão dos beneficiários<br />

e do Poder Público. Será adotada preferencialmente,<br />

a desapropriação por interesse social para os Programas de<br />

Assentamento de Trabalhadores Rurais, e a utilização das terras<br />

públicas para o Programa de Colonização.<br />

COMENTÁRIO<br />

O tópico 137 é dos mais importantes do<br />

PNRA, pois define o ''assentamento" agrário,<br />

sucedâneo da propriedade privada.<br />

Com efeito, a definição de "assentamento'';<br />

do presente tópico, de nenhum modo correspon-<br />

71


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

T1iulo I<br />

de à que tem, na técnica jurídica brasileira, a<br />

palavra "propriedade" (cfr. Código Civil Brasileiro,<br />

art. 524).<br />

Que é um ''assentamento''? É mais fácil<br />

entendê-lo, dispondo em ordem didática as várias<br />

características que o PNRA aqui enumera:<br />

a) "Unidade de trabalho e produção".<br />

* A propriedade não se define assim. Ela<br />

constitui direito individual do proprietário sobre<br />

a coisa, com ou sem trabalho. .<br />

b) Constituída de "trabalhadores rurais".<br />

* O titular do assentamento é, portanto, normalmente<br />

plural, e abrange certo número de indivíduos.<br />

Está na índole da propriedade privada<br />

ser habitualmente individual.<br />

c) "Com estrutura associativa e administração<br />

autônomas".<br />

* A estrutura associativa obviamente não é<br />

essencial à propriedade individual.<br />

Os trabalhadores ''assentados" não serão,<br />

portanto, proprietários, ou o serão em dose residual<br />

e infinitesimal. Pois o poder de determinação<br />

das "dimensões, formas possessórias e<br />

de gestão" da área de nenhum modo estará inteiramente<br />

em suas mãos, mas nas dos órgãos<br />

competentes do Poder público. As "decisões dos<br />

próprios beneficiários" podem fazer-se ouvir a<br />

esse respeito, mas sem verdadeiro alcance decisório.<br />

Elas ~implesmente poderão ''condicionar"<br />

em alguma medida as ''formas possessórias e<br />

de gestão", tanto quanto o poderão a "diversidade<br />

e as especificidades locais e regionais".<br />

Ora, tal situação de modo algum corresponde<br />

à da propriedade plena, isto é, a propriedade<br />

na qual todos os direitos a ela inerentes (posse,<br />

uso, gozo e disposição) se acham enfeixados na<br />

pessoa do proprietário.<br />

Note-se de passagem que os ''assentados"<br />

são aqui qualificados de "beneficiários" (n?<br />

139), o que efetivamente bem exprime sua condição.<br />

Mas também a diferencia da condição de<br />

proprietário. Pois se há alguma coisa que, de<br />

si, a propriedade não é, essa coisa é um "benefício"<br />

conferido pelo Poder público. Ela não<br />

nasce da outorga de uma vantagem, op.erada pelo<br />

Poder público, mas da apropriação, do trabalho<br />

ou da herança.<br />

Aliás, ao que parece, os colonos das zonas<br />

de que trata o "Programa de Colonização" (tópico<br />

139) também não serão proprietários. Pois<br />

o PNRA qualifica também de "assentamentos"<br />

as novas unidades proporcionadas por tal Programa<br />

(n? 138).<br />

O que será então da propriedade rural individual,<br />

se - tanto na zona cultivada e habitada,<br />

como na zona inculta e, na melhor das<br />

hipóteses, habitada por índios - o mais substancial<br />

do direito de propriedade sobre a terra<br />

será exercido pelo Poder público?<br />

* * *<br />

Até aqui, a análise da concepção de assentamento<br />

se cingiu ao próprio texto do PNRA.<br />

Não foram mencionados autores que a corroborem.<br />

Será citado agora um só deles. Trata-se<br />

do próprio sr. José Gomes da Silva, autor oficial<br />

do PNRA e presidente do INCRA. Dois títulos<br />

que revestem de singular autoridade suas<br />

declarações.<br />

A tal respeito, declarou ele à reportagem de<br />

"O Estado de S. Paulo" (Suplemento Agrícola,<br />

29-5-85):<br />

"ESTADO - .... As terras vão ser entregues<br />

gratuitamente?<br />

"JOSÉ - Não, são pagas. Nós só damos<br />

conselho - de graça, só conselho! A terra é paga.<br />

Prazo? A lei permite pagar em até 20 anos.<br />

"Esse é outro detalhe importante que precisa<br />

ficar bem claro, que reforma agrária não<br />

significa loteamento. Necessariamente, a terra<br />

não precisa ser dividida, a lei não obriga a distribuir<br />

em propriedade familiar. É que existe<br />

uma conotação. A imagem de agricultura e o<br />

espírito de poupança do agricultor de origem<br />

européia: italiano, espanhol, português, é da<br />

parcela em propriedade familiar, em propriedade<br />

individual. Mas a lei não obriga isso. ....<br />

"ESTADO - O beneficiário não poderá<br />

vender a terra que ele adquiriu através<br />

do processo?<br />

"JOSÉ - Não, não pode. Nós estamos<br />

estudando inclusive algumas maneiras para evi-<br />

72


Considerações doutrinárias<br />

taro famoso caso da bicicleta: um cara [sic] da<br />

Transamazônica que acabou de receber o título<br />

e trocou por uma bicicleta.<br />

"ESTADO - Isso poderia ser evitado de<br />

que forma?<br />

''JOSÉ - Você, ao invés da dar um título<br />

de propriedade, dá uma concessão de<br />

uso.<br />

"ESTADO - Com um prazo determinado<br />

correspondente ao pagamento da ºdívida.<br />

''JOSÉ - É. Um mínimo. Nessa concessão<br />

de uso ele pode Jazer financiamentos, ele pode<br />

fazer qualquer tipo de operação, mediante autorização<br />

do INCRA, ele pode até agravar a<br />

propriedade com a hipoteca etc., desde que não<br />

dificulte a capacidade de pagamento dele. Mas<br />

não poderá vendê-la.<br />

"ESTADO - Mas aí não cai fora um pouco<br />

do espírito de propriedade. Quer dizer, o cidadão,<br />

será que ele vai se sentir<br />

proprietário?<br />

''JOSÉ - Esse conceito está mudando<br />

hoje um pouco. O conceito mais moderno<br />

hoje é o resultado do fruto do trabalho,<br />

não necessariamente a propriedade"<br />

(loc. cit., pp. 7-8).<br />

Mais claro não poderia estar que, a juízo<br />

do próprio autor do PNRA, este visa fazer da<br />

estrutura agrária brasileira uma imensa rede de<br />

unidades cujos titulares não são proprietários,<br />

e que não se chamam "propriedades", mas<br />

"assentamentos''.<br />

No dia em que a <strong>Reforma</strong> Agrária visada<br />

pelo PNRA se tiver estabelecido em todo o solo<br />

rural brasileiro, terá cessado de existir neste<br />

a propriedade individual.<br />

Poder-se-ia objetar a esta ponderação que,<br />

embora o "beneficiário" não seja um proprietário<br />

a título individual, ele é integrante de uma<br />

comunidade de "assentados", a qual exerce sobre<br />

a terra discriminada para ela um conjunto<br />

tão amplo de direitos, que pode ser comparado<br />

ao direito de propriedade. É a comunidade<br />

"assentada".<br />

O indivíduo seria então como que uma célula<br />

viva de um organismo global, o qual organismo,<br />

este sim, é proprietário. A propriedade<br />

Parte II, Seção E<br />

individual desapareceria. Mas subsistiria uma<br />

propriedade coletiva privada, a qual gozaria de<br />

ampla autonomia em relação ao Estado. Por onde<br />

pareceria afastado da realidade dizer que o<br />

PNRA visa criar o espantalho do comunismo<br />

mais radical, em que a terra pertencesse exclusivamente<br />

ao Estado.<br />

Pura ilusão. No PNRA (cfr. tópico 264), como<br />

na citada entrevista do sr. José Gomes da<br />

Silva ("O Estado de S. Paulo", Suplemento Agrícola,<br />

29-5-85, p. 7), são mencionadas expressamente<br />

as Cooperativas Integrais de <strong>Reforma</strong><br />

Agrária (CIRA), já criadas pelo ET (art. 79) e<br />

regulamentadas pelo Decreto n? 58.197, de 15<br />

de abril de 1966. Essas cooperativas deverão ser<br />

agora reformuladas de modo a se ajustarem ao<br />

PNRA (cfr. n? 264). Por sua própria natureza,.<br />

elas se destinam a ser superpostas aos assentamentos,<br />

e se revestirão, em relação a estes, de<br />

um caráter federativo e hegemônico. Governadas<br />

por seus órgãos diretores próprios, as decisões<br />

delas condicionarão a fundo os assentamentos<br />

"autônomos".<br />

Por sua vez, os poderes dessas entidades hegemônicas<br />

serão também, ex-natura propria, determinados<br />

por lei. Lei cujo cumprimento está<br />

normalmente afeto ao Poder executivo. E assim,<br />

é nas mãos do próprio Estado que ficará o poder<br />

sobre esses organismos federativos e hegemônicos.<br />

E se na base dessa pirâmide desapa-·<br />

rece o proprietário individual, do mais alto dela<br />

não desaparece o Estado. Pelo contrário, ele<br />

aparece investido de poderes muito mais amplos,<br />

capaz de intervir com redobrada meticulosidade,<br />

na vida e na produção de cada nesga<br />

do território nacional.<br />

Qualifique-se isso em tese como se quiser,<br />

em tal caso se estaria em presença de uma gigantesca<br />

hipertrofia do poder do Estado.<br />

E o "assentamento" autogestionário e cooperativizado<br />

não teria sido senão um meio de<br />

empurrar o Brasil no rumo apontado pelas utopias<br />

marxistas.<br />

Não é aqui o momento de provar que o socialismo<br />

autogestionário, cuja versão mais conhecida<br />

no Ocidente é o inexecutado plano da<br />

coligação socialo-comunista vitoriosa na França<br />

73


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

Tiíulo I<br />

quando das eleições de 1981, constitui, segundo<br />

a doutrina comunista, um passo mais "avançado"<br />

do que o próprio capitalismo de Estado<br />

(cfr. Parte II, Nota 3).<br />

* * *<br />

Acrescente-se de passagem - e este ponto<br />

tem sido realçado por autorizados juristas -<br />

a criação dos "assentamentos" como nova forma<br />

de vinculação do homem à terra, obviamente<br />

não pode ser imposta por um Plano ou regulamento<br />

emanado do Poder executivo. E, como<br />

nada dispõe a esse respeito o ET, seria indispensável<br />

que o Congresso votasse disposições<br />

legais próprias.<br />

• Avocando essa atribuição exclusivamente ao<br />

Poder executivo, o PNRA sugere ao Presidente<br />

Sarney um verdadeiro lance de autoritarismo ditatorial,<br />

no mais flagrante contraste com a abertura.<br />

Lance que, cabe esperar, ele não acederá<br />

em efetivar.<br />

* * *<br />

O que pensar da impossibilidade em que fica<br />

o assentado, de vender a terra que entretanto<br />

ele deve pagar? Como evitar que ocorra, na<br />

implantação dos "assentamentos", a mesma evasão<br />

verificada por ocasião da aplicação do ET?<br />

Com efeito, segundo informações disponíveis,<br />

de 500 mil lotes distribuídos de 1981 a 1984,<br />

cerca de 40% já tinham seu título de propriedade<br />

passado a outras mãos. E provavelmente<br />

essa porcentagem ainda crescerá algum tanto<br />

com o decurso do tempo.<br />

Um trabalhador rural ou urbano que adquire<br />

o título de propriedade de um lote e depois<br />

o vende, o faz por quê? - Em primeiro lugar,<br />

pode fazê-lo com intuito especulativo; ou então<br />

porque se formou uma miragem sobre a<br />

condição de pequeno proprietário rural, e essa<br />

miragem não correspondeu à realidade, preferindo<br />

ele retornar à condição de assalariado rural<br />

ou de trabalhador urbano; ou, por fim, porque,<br />

sendo ele trabalhador urbano, seus hábitos<br />

não se ajustaram à vida rural.<br />

O sistema de "assentamentos" preconizado<br />

pelo PNRA não estará isento de análogos<br />

problemas.<br />

A solução, vista com simplismo, consistiria<br />

em reter no assentamento as pessoas que para<br />

lá forem.<br />

Para isso há dois caminhos: aumentar-lhes<br />

de qualquer maneira o interesse pela permanência;<br />

ou, se isto for impraticável, aumentar a sua<br />

dependência, de maneira que se ele sair, as suas<br />

condições ainda serão piores do que eram quando<br />

ele fora assalariado urbano ou rural.<br />

Essa segunda solução apresenta desde logo<br />

o inconveniente de só atrair, em grande número,<br />

para os assentamentos, pessoas que, por falta<br />

de iniciativa pessoal e capacidade de trabalho,<br />

fracassaram tanto na condição de assalariado<br />

urbano ou rural, que até as condições precárias<br />

do PNRA lhes pareçam sedutoras.<br />

Isto ainda quando ele sabe de antemão que,<br />

se quiser sair, se desencadeará contra ele um mecanismo<br />

persecutório, de prejuízos materiais.<br />

Por exemplo, se, ao cabo de cinco anos ou dez<br />

de trabalho, quiser abandonar o assentamento,<br />

estará exposto a não levar consigo nada, a não<br />

ser o peso das fadigas e dos anos que lhe desgastaram,<br />

em proporções maiores ou menores,<br />

a capacidade de trabalho.<br />

Se este sistema de fixação nos assentamentos<br />

fracassar - o que constitui um perigo pelo<br />

menos para certas parcelas da população brasileira,<br />

volúveis a ponto de se habituarem até<br />

a um quase seminomadismo - a solução será<br />

a coerção policial com base em leis penais promulgadas<br />

adrede.<br />

Quer no caso da coerção econômica, quer<br />

no da coerção policial, nossa legislação agrária<br />

terá desembocado no regime de servidão da<br />

gleba, talvez não necessariamente como ele existiu<br />

na Idade Média, mas como a legenda negra<br />

que ainda paira no ar a respeito dessa época da<br />

História costuma apresentar.<br />

* * *<br />

Ainda a propósito da estabilidade do assentado<br />

na terra, convém lembrar quanto a preju-<br />

74


Considerações doutrinárias<br />

Parte //, Seção E<br />

dica - a ponto de a tornar quase quimérica -<br />

a atual legislação sobre o divórcio, bem corrio<br />

a gradual equiparação da concubina à esposa.<br />

Com efeito, essa legislação pressupõe uma<br />

dissolução moral da sociedade, que torna como<br />

que impraticável a magnífica estabilidade<br />

inerente ao casamento monogâmico e indissolúvel.<br />

E torna muito fácil que um dos esposos<br />

assentados abandone o outro. A f ortiori isso<br />

acontecerá com o concubino ou a concubina.<br />

Ora, o desatar desses vínculos facilmente<br />

pode trazer como conseqüência que, por razões<br />

emocionais e outras, uma das partes, ou ambas,<br />

queira abandonar o assentamento.<br />

O convívio constante e íntimo entre os dois<br />

sexos, inevitável no regime de assentamento, pode<br />

por sua vez facilitar a instabilidade das uniões<br />

conjugais concubinatárias, determinando situações<br />

de queixa ou de ciúmes que se tornem explicavelmente<br />

insuportáveis para estes ou aqueles,<br />

dentre os assentados, envolvidos em dramas<br />

passionais.<br />

Se outras circunstâncias faltassem para isso,<br />

bastaria lembrar que, no lar do assentado,<br />

por certo não faltará a televisão ...<br />

Diante de situações dessas, que a erosão moral<br />

vai tornando sempre mais freqüentes, qual<br />

a solução do PNRA? Manter uns e outros compulsoriamente<br />

no assentamento, inclusive com<br />

a projeção desse convívio forçado, no terreno<br />

da criminalidade?<br />

Utopista, quimérico, sonhador, o PNRA<br />

nem cogita de todas essas eventualidades ...<br />

TEXTO DO PNRA<br />

140. No Programa de Assentamento de 1rabalhadores<br />

Rurais, a concepção do projeto técnico do assentamento<br />

contará, em todos os n{veis e fases com uma participação<br />

direta dos beneficiários, em particular no que se refere às<br />

decisões sobre as formas possessórias e de uso da terra,<br />

evitando-se regular através de normas pré-estabelecidas<br />

as maneiras de viver e trabalhar dos beneficiários da <strong>Reforma</strong><br />

Agrária.<br />

141. A ação do Estado se circunscreverá à aplicação das<br />

medidas dispostas no Estatuto, as quais abrangem desde o uso<br />

dos instrumentos de legalização de posse da terra até as ações<br />

de pohíica agrícola necessárias para garantir a ocorrência de condições<br />

adequadas tanto para a produção como para a vida pessoal<br />

dos beneficiários.<br />

142. O Programa de Assentamento de Trabalhadores Rurais<br />

será direcionado, prioritariamente, às áreas de intervenção<br />

para <strong>Reforma</strong> Agrária, tendo a desapropriação por interesse social<br />

como seu Jato gerador primordial. Dentro dele, as distintas<br />

formas possessórias da terra, de caráter definitivo ou temporário,<br />

será o instrumento mediador das relações dos beneficiários<br />

com o Estado. Seu produto final será um complexo<br />

socialmente organizado capaz de proporcionar democraticamente<br />

condições adequadas de reprodução dos<br />

meios de vida e de trabalho.<br />

COMENTÁRIO<br />

No tópico 140 figura mais uma atribuição<br />

dos ''assentados": a ''participação direta': ''em<br />

todos os níveis e fases", na~"concepção do projeto<br />

técnico do assentamento".<br />

Aqui, ainda, a situação dos ''assentados" é<br />

ambígua, e distinta da dos proprietários.<br />

Com efeito, o leitor do PNRA - a menos<br />

que se entregue a mais outro estudo, isto é, o<br />

do "Programa de Assentamento de Trabalhadores<br />

Rurais", apenas esboçado no PNRA -<br />

fica sem saber em que medida a participação<br />

deles é decisiva.<br />

O PNRA se limita a esclarecer que a matéria<br />

sobre a qual se exercerá essa participação<br />

abrange ''as decisões sobre as formas possessórias<br />

e de uso da terra" (n? 140).<br />

Deste último particular parece depreenderse<br />

que essas "decisões" variarão de ''assentamento"<br />

(''unidade de trabalho e produção" -<br />

cfr. n? 137) para ''assentamento", o que d, a ao<br />

dispositivo caráter fortemente autogestionário<br />

e <strong>socialista</strong>.<br />

O tópico 140 prossegue: '!... evitando-se regular<br />

através de normas pré-estabelecidas as<br />

maneiras de viver e trabalhar dos beneficiários<br />

da <strong>Reforma</strong> Agrária". Dado que a palavra "evitando"<br />

não tem aqui caráter normativo, mas<br />

apenas de conselho, fica-se entendendo que os<br />

poderes competentes (•~itando-SE'' preferivelmente<br />

não regularão ''as maneiras de viver e trabalhar<br />

dos beneficiários da <strong>Reforma</strong> Agrária".<br />

Por sua vez, daí se deduz que o PNRA pressupõe<br />

que o Estado tem normalmente o poder<br />

de regular ''as maneiras de viver" dos cidadãos!<br />

Ou, pelo menos, qos "beneficiários" de seus<br />

programas sócio-econômicos!<br />

Se se considerar toda a amplitude de liberdades<br />

de que o homem naturalmente deve dis-<br />

75


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

por no tocante às suas "maneiras de viver",<br />

compreende-se que enorme extensão de poder<br />

o PNRA concede aos órgãos públicos em causa,<br />

pelo menos se verificadas determinadas<br />

circunstâncias.<br />

Com efeito, em cada situação concreta, a<br />

quem toca dizer se é o caso de "evitar" ou não<br />

o exercício de tais atribuições? Obviamente, e<br />

antes de ninguém, aos mesmos órgãos! Ou seja,<br />

desde que esses órgãos o queiram, exercerão<br />

esse poder.<br />

A conseqüência é tão abstrusa, que o leitor<br />

brasileiro, ao lê-la, pensará em algum erro de<br />

datilografia da edição do PNRA aqui tomada<br />

por base.<br />

Porém, como tantas coisas abstrusas, ela é<br />

simplesmente moderna. "Está no vento". Segundo<br />

o projeto autogestionário francês do Presidente<br />

Mitterrand, compete aos órgãos do sistema<br />

ditar normas até sobre o arranjo interno da<br />

residência das pessoas "autogestionadas" (5).<br />

Aliás, tal dispositivo do n? 140 está em contradição<br />

com os tópicos imediatamente anteriores<br />

(cfr. n?s 137 a 139), bem assim com os seguintes<br />

(cfr. n?s 141-142 e 147). Pois uns e outros<br />

não fazem outra coisa senão ''préestabelecer"<br />

as ''maneiras de viver e trabalhar<br />

dos beneficiários da <strong>Reforma</strong> Agrária", as quais<br />

devem ajustar-se a "unidades de trabalho e produção"<br />

com ''estrutura associativa" etc.<br />

O tópico 141 indica o âmbito no qual se ''circunscreverá"<br />

a ação do Estado: a matéria contida<br />

neste âmbito é tão vasta que ''circunscreve"<br />

... mais ou menos tudo, inclusive 'ti vida pessoal<br />

dos beneficiários"!<br />

No tópico 142 se lê que 'tis distintas formas<br />

possessórias da terra .... será [sic] o instrumento<br />

mediador das relações dos beneficiários com<br />

o Estado". - Confuso.<br />

Igualmente confusa a frase seguinte: "Seu<br />

produto final será um complexo socialmente organizado<br />

capaz de proporcionar democraticamente<br />

condições adequadas de reprodução dos<br />

meios de vida e de trabalho".<br />

TEXTO DO PNRA<br />

Titulo I<br />

b) Diretrizes operacionais<br />

143. As terras necessárias à realização dos Assentamentos<br />

deverão ser obtidas prioritariamente, através da desapropriação<br />

por interesse social dos latifúndios, admitindo-se, também, em<br />

condições especiais, a utilização dos demais mecanismos previstos<br />

no Estatuto.<br />

144. A adjudicação das terras se fará através dos distintos<br />

instrumentos de legalização de posse em função das condições<br />

naturais de cada área, dos sistemas de produção propostos, de<br />

sua localização em relação aos mercados consumidores e de decisões<br />

compartilhadas entre o Estado e os trabalhadores rurais<br />

beneficiários.<br />

145. O acesso à terra deverá ser efetivado imediatamente<br />

após a imissão de posse das áreas desapropriadas - para o caso<br />

de assentamento que exigir transferências de famílias -, mediante<br />

um processo seletivo expedito a ser conduzido em conjunto<br />

com as organizações de trabalhadores rurais, com a assistência<br />

e assessoria do Poder Público.<br />

146. Para as áreas já ocupadas, 011 com ocupação rarefeita,<br />

procurar-se-da- respeitar, na medida do possível, as situações<br />

existentes, desde que não se caracterizem como privilegiamento<br />

em relação às demais situações.<br />

COMENTÁRIO<br />

': ... desde que não se caracterizem como privilegiamento"<br />

(n? 146): sempre a nota acidamente<br />

igualitária do PNRA.<br />

TEXTO DO PNRA<br />

147. Os beneficiários da <strong>Reforma</strong> Agrária serão organizados<br />

em complexos agrfcolas de estrutura associativa. com<br />

autonomia administrativa e dimensionados essencialmente<br />

pela possibilidade de conhecimento mútuo das famllias, pelas<br />

possibilidades operacionais dos membros da organização em<br />

dirigi-los, e em função do tamanho adequado às explorações<br />

possíveis, ditadas pela aptidão agrícola dos solos e caracteristicas<br />

regionais.<br />

COMENTÁRIO<br />

Este tópico está em flagrante contradição<br />

com outro anteriormente analisado (cfr. n? 140),<br />

o qual recomenda que se evite ''regular através<br />

de normas pré-estabelecidas as maneiras de viver<br />

e trabalhar dos beneficiários da <strong>Reforma</strong><br />

Agrária".<br />

O que contém este tópico senão precisamente<br />

isso?<br />

*<br />

Para garantir o não "privilegiamento" recomendado<br />

no tópico 146, na distribuição das<br />

áreas, cuja igualdade repousa sobre a avaliação<br />

de tantos fatores, alguns dos quais variáveis segundo<br />

apreciação meramente subjetiva, o en-<br />

76


Considerações doutrinárias<br />

carregado da distribuição fica arvorado prati.:<br />

camente em déspota dos arranjos e rearranjos<br />

distributórios ...<br />

TEXTO DO PNRA<br />

148. O Poder Público deverá promover, de imediato, propostas<br />

de melhoria da capacitação dos beneficiários, objetivando<br />

atender aquelas demandas oriundas de um processo<br />

de reflexão participativa entre os beneficiários e o pessoal técnico<br />

e administrativo das distintas instituições governamentais<br />

que atuarão na área do assentamento.<br />

COMENTÁRIO<br />

As ''propostas de melhoria da capacitação<br />

dos beneficiários" são inteiramente facultativas?<br />

Pode o beneficiário escolher qualquer forma de<br />

''capacitação''? Não parece isto possível.<br />

O tópico faz pensar então em programas alternativos<br />

(ou em um só programa!) dentro do<br />

qual o mujique brasileiro, "beneficiário" do<br />

agro-igualitarismo, fará a sua escolha em uma<br />

estreita faixa de opções. Tal será a liberdade no<br />

agro-reformismo.<br />

A este propósito cabe uma pergunta: no que<br />

consistirão estes exercícios de "capacitação"?<br />

Poderá o mujique nacional protestar contra eles,<br />

julgando-os, por exemplo, excessivamente duros?<br />

A quem tocará, então, o poder decisório?<br />

Questões essenciais para a liberdade individual,<br />

que o PNRA deixa displicentemente na<br />

penumbra.<br />

Tal não espanta, aliás. Pois no trinômio<br />

Liberdade-Igualdade-Fraternidade há uma<br />

constante fricção (por vezes fatal para a Fraternidade)<br />

entre a Igualdade e a Liberdade.<br />

Em outros termos, sempre que os homens sejam<br />

livres, eles se desigualam. E, para manter<br />

entre eles uma igualdade real e inteira, é preciso<br />

submetê-los a um jugo de ferro.<br />

É esta a razão de fundo pela qual o PNRA,<br />

animado por um ardente "zelo missionário" para<br />

com a Igualdade, propõe um procedimento<br />

férreo em relação ao corpo social do País.<br />

Ou seja, ele o quer modelar como se não<br />

fosse matéria viva, mas sim inerte, tal qual faz<br />

com a argila o escultor. E essa modelagem não<br />

é menos pesada para o trabalhador "beneficiário"<br />

da <strong>Reforma</strong> Agrária do que para o pro-<br />

Parte li, Seção E<br />

prietário trucidado por esta. O primeiro perde<br />

a liberdade. O segundo a propriedade.<br />

TEXTO DO PNRA<br />

149. O MIRADIINCRA deverá promover gestões para a<br />

participação de Órgãos Estaduais e Administrativos Municipais<br />

no desenvolvimento e consolidação dos Assentamentos, através<br />

da promoção de difusão de Tecnologia, Crédito, Equipamentos<br />

Sociais Básicos e demais serviços públicos que são prestados<br />

à sociedade em geral.<br />

COMENTÁRIO<br />

De tudo o que se viu até agora - e do muito<br />

que ainda se verá em seguida - cabe considerar<br />

quanto o PNRA se mostra ingenuamente<br />

otimista:<br />

1. Ele não toma em linha de conta a influência<br />

obstinadamente negativa (e provavelmente<br />

refratária até à demagogia ideologizante do<br />

agro-reformismo - cfr. Comentário ao n? 249)<br />

da condição de funcionário público, sobre o trabalho<br />

das pessoas encarregadas de converter em<br />

ato este imenso planejamento. Nem com as misérias<br />

e fraquezas inerentes ao Estado, reputado<br />

pelo mesmo PNRA onisciente e onipotente.<br />

2. Ele não conta com as necessárias adaptações<br />

que um planejamento como esse deve<br />

prever, em função dos eventuais fracassos decorrentes<br />

dos fatores acima enumerados, bem<br />

como da inadaptação ou do desinterese de certos<br />

segmentos ou de todo o público. Faltam-lhe<br />

assim diretrizes sobre como proceder ante essas<br />

eventuais frustrações.<br />

* * *<br />

Todo o disposto nos tópicos do PNRA comentados<br />

nesta Secção (n?s 107 a 143) suporia<br />

uma muito menos imprecisa e incompleta enumeração<br />

das características que diferenciam o<br />

''assentamento" e a condição de ''assentado",<br />

da propriedade privada e da condição de proprietário,<br />

como atualmente existem. À falta disso,<br />

a execução do Plano não poderá evitar múltiplas<br />

e espinhosas confusões.<br />

Causa pasmo que essa diferenciação haja sido<br />

omitida em um plano de tal maneira prolixo<br />

e - quase se diria - imaginoso e verboso.<br />

77


Secção·F<br />

Burocracia ideologizada e gastos faraônicos<br />

para efetivar a utopia da<br />

''era de ouro" sonhada pelo PNRA<br />

como resultado da <strong>Reforma</strong> Agrária<br />

TEXTO DO PNRA<br />

5.2 - Programas complementares.<br />

5.2.1 - Regularização Fundiária<br />

a) Caracteriuzção<br />

150. A Regularização Fundidria é o processo através do qual<br />

se procurard arrecadar, legitimar ou adjudicar terras públicas<br />

que estejam ocupadas de boa fé ou de forma irregular por<br />

terceiros, tendo a "discriminação de terras devolutas" e a<br />

''arrecadação sumdria" como seus instrumentos legais de<br />

execução.<br />

151. É importante ressaltar, deforma inequ(voca, que não<br />

hd como se confundir Regularização Fundidria com <strong>Reforma</strong><br />

Agrdria. No entanto, a execução da <strong>Reforma</strong> Agrdria não deverd<br />

excluir a regularização como instrumento complementar de<br />

justiça social.<br />

152. Utilizada em perfodos recentes como o principal<br />

instrumento de pol(tica agrdria, a regularização f undidria serd<br />

repensada e direcionada deforma a considerar a prioridade da<br />

realir.ação da <strong>Reforma</strong> Agrdria. Isso exigird também uma revisão<br />

e o ajustamento das ações fundidrias desenvolvidas nos<br />

Programas Especiais, como o POWNORDESTE e o<br />

POLONOROESTE.<br />

153. Os instrumentos jurfdicos da regularização fundidria<br />

serão examinados, readequados e, se necessdrio, revogados, tendo<br />

em vista corrigir e superar a distorção que se formou com a<br />

transferência indevida das dreas tituladas para terceiros,<br />

geralmente jd proprietdrios de extensões considerdveis de terras.<br />

Assim, se considerard a hipótese de adoção do instituto da<br />

concessão de uso.<br />

154. Um eficiente trabalho de discriminatórias, quer<br />

administrativas, quer judiciais, levard à desmontagem de<br />

artimanhas e incorreções perpetradas contra os interesses de<br />

efetivos ocupantes. Ao mesmo tempo facilitard a revelação de<br />

disponibilidade das terras para novos assentamentos.<br />

155. O ajuizamento das ações discriminatórias pode darse<br />

mesmo em dreas prioritdrias para <strong>Reforma</strong> Agrdria, em<br />

per(metros ali encravados, cuja desapropriação, por hipótese,<br />

não se qfigure como a melhor alternativa em ,aziio da incidincia<br />

de eventuais t(tulos dominiais cuja origem seja espúria e,<br />

portanto, pass(vel de ser vulnerada judicialmente. O sucesso da<br />

discriminatória judicial, no caso, poderd dispensar o<br />

procedimento desapropriatório.<br />

b) Diretrius operacionais<br />

156. - As dreas de maior densidade populacional terão<br />

prioridade para a execução de ações discriminatórias, sem<br />

preju(zo daquelas que fazem parte dos programas sob a<br />

responsabilidade dos Governos Estaduais.<br />

157. -A regularir.açãofundidria levard em consideração,<br />

além da propriedade familiar, as formas de apropriação<br />

Condominial ou Comunitária da terra, dos recursos h(dricos<br />

e florestais, de maneira que os trabalhadores rurais não tenham<br />

o seu acesso cortado a bens fundamentais efetivamente<br />

incorporados a sua economia.<br />

158. - Serão estabelecidas formas de reconhecimento de<br />

posse e titulação capazes de articular dom(nios de us,if ruto<br />

comum com regras de apropriação privada, também<br />

adotadas por estes grupos familiares, desde que neste sentido<br />

tenham as comunidades rurais se manifestado favoravelmente.<br />

COMENTÁRIO<br />

'~propriação": de si a palavra indica o ato<br />

pelo qual alguém se torna proprietário. Ela soa<br />

mal, portanto, no imenso contexto do PNRA.<br />

A ser interpretada assim, constituiria avis rara,<br />

a voar em sentido oposto ao tufão agro-igualitário.<br />

No tópico 157 tal palavra parece entrar em<br />

79


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

estridência com os adjetivos "condominial" e<br />

''comunitário" (cfr. Comentário ao n? 120).<br />

Procurando, pois, para a palavra, um conteúdo<br />

que a harmonize com o rumo óbvio e esmagadoramente<br />

preponderante do PNRA, hostil<br />

à propriedade privada, parece dever se entender<br />

que ''apropriação" tem aqui o significado,<br />

mais amplo e impreciso, de ato pelo qual<br />

um bem sem dono nem posseiro é assumido para<br />

uso e posse de outrem que, entretanto, não<br />

lhe será especificamente proprietário, mas "assentado".<br />

O tópico seguinte (n? 158) se refere a ''regras<br />

de apropriação privada": que querem dizer<br />

essas palavras? Segundo a linguagem corrente,<br />

da qual não raras vezes discrepa o PNRA,<br />

dir-se-ia que se trata das regras segundo as quais<br />

a propriedade privada se constitui.<br />

Neste caso, o PNRA cogitaria aqui de hipóteses<br />

brumosas, em que parte das disposições<br />

vigentes sobre a propriedade seriam encaixadas<br />

- ''articuladas" - mutatis mutandis, na nova<br />

legislação agrária. Quiçá a título provisório, ou<br />

supletivo. É esta, pelo menos, a única hipótese<br />

interpretativa razoável que ocorre.<br />

Hipótese, convém ressaltar. Pois, na confusão<br />

do PNRA, a hermenêutica, neste, como em<br />

outros tópicos, não consegue ir além das<br />

conjecturas.<br />

TEX10 DO PNRA<br />

159. A orientação a ser adotada refere-se à demarcação dos<br />

perímetros desses domínios de usufruto comum, que não pertencem<br />

individua/mente a nenhum grupo familiar, e que lhes<br />

são essenciais, como coqueiros, castanhas, fontes d'água, babaçuais,<br />

pastagens naturais, igarapés e reservas de mata, de onde<br />

as famílias de trabalhadores rurais retiram palha, talos, lenha,<br />

madeira para construções e espécies vegetais utilizadas em cerimlJnias<br />

religiosas ou de propriedades medicinais reconhecidas.<br />

160. Parte-se do pressuposto de que a necessidade de titulação<br />

não destrua ou desarticule a organização e o sistema de<br />

apossamento pré-existente. Isso exigird a compatibilização dos<br />

cadastros declaratórios e fundiários para que seja possível conciliar<br />

o sistema cadastral e a titulação derivada, com estas formas<br />

de uso comum da terra. que abrangem, inclusive, a combinação<br />

da agricultura com extrativismo em áreas descontínuas<br />

e outras associações de sistemas produtivos adequados à realidade<br />

regional.<br />

161. - A Lei Federal 6.383176 deverd ser cuidadosamente<br />

T{tu/o l<br />

analisada, afim de se propor alterações que a compatibilize com<br />

a Ref arma Agrdria, particularmente no que tange à legitimação<br />

de posse, bem como feitas gestões junto aos Estados visando<br />

alterações e modernização de seus dispositivos legais.<br />

5.2.2. - Programa de colonização<br />

a) Caracteriuição<br />

162. Historicamente, a colonização tem sido o processo<br />

através do qual o Poder Público busca ocupar espaços vazios,<br />

reduzir áreas de tensão social, aproveitar terras públicas e<br />

reorientar fluxos migratórios, criando, ademais, novos centros<br />

de oferta agrícola.<br />

163. Cabe ao INCRA, ao lado de outros organismos do<br />

Estado, a implementação de programas de colonização oficial<br />

e fiscalização de projetos patrocinados por particulares.<br />

164. Durante praticamente toda a década de 70, foi dada<br />

grande atenção ao Território da AmazlJnia. A iniciativa<br />

governamental era justificada pela existência, "dentro da polhica<br />

federal de integração nacional e da ênfase na<br />

complementariedade entre o Nordeste e a AmazlJnia - de<br />

programas de impacto, como o Programa de Integração Nacional<br />

- PIN e o Programa de Redistribuição de Terras e Estimulo<br />

à Agroindústria do Norte e Nordeste - PROTERRA entre<br />

outros. O objetivo explicitado era um "desenvolvimento<br />

integrado': onde o Nordeste se caracterizava por ter ''elfcedente<br />

populacional baixo nível de renda, além do problema das secas"<br />

e a AmazlJnia como "área de baixa densidade populacional mas<br />

com grande potencial em recursos naturais'!<br />

165. A tabela 6 dá indicadores que expressam o peso da<br />

AmazlJnia na política de colonização então vigente.<br />

Tabela 6: Projetos de colonização oficial e respectivas áreas<br />

Grande Região Número de Projetos Área (mil ha)<br />

Norte 25 10.664,2<br />

Nordeste 14 683,7<br />

Centro-Oeste 07 764,3<br />

Sudeste 05 56,6<br />

&1 ru •6<br />

BRASIL 54 12.189,4<br />

Fonte: Anais do Simpósio Internacional de Experiência<br />

Fundiária (apêndices) - INCRA, Bras11ia, 1984, Pág. 662.<br />

166. Os projetos relativos ao Nordeste, ao Sudeste e ao Sul<br />

são decorrentes da necessidade de neutra/i7.0r situações de tensões<br />

sociais. No tocante ao Centro-Oeste, a participação de Mato<br />

Grosso e das co/oni7.0ções ali instaladas é fundamental.<br />

167. Apresentando custos elevados e longo prazo da<br />

maturação dos empreendimentos, a chamada coloni7.0ção oficial<br />

tem acumulado, ao lado de alguns resultados positivos, grande<br />

número de frustrações. Ingerências político-pessoais, indefinição<br />

na política de recursos humanos, nenhuma ou reduzida<br />

participação do trabalhador rural das Prefeituras e dos Governos<br />

Estaduais, assistencialismo e paternalismo, estigmati7.0ção do<br />

trabalhador rural dos movimentos sociais e sindicatos, má<br />

administração e uti/i7.0ção de variadas formas de intervenção<br />

por parte do INCRA, contribuíram, sem dúvida. para o fracasso<br />

da consolidação e emancipação de praticamente todos os<br />

projetos. O resultado apareceu através da perda de renda e evasão<br />

de parce/eiros. Sequer o desenvolvimento regional pode ser<br />

mencionado como bem sucedido.<br />

168. No momento em que se desencadeia um processo de<br />

<strong>Reforma</strong> Agrdria. cabe à colonização papel de relativa<br />

importância, como ação complementar na ocupação de terras<br />

públicas federais e estaduais. Por sua vez. os núcleos serão<br />

80


Considerações doutrinárias<br />

Parte li, Seção F<br />

criados em municípios ou Estados com disponibilidade de áreas<br />

capazes de absorver tanto a realocação voluntária de contingentes<br />

populacionais existentes em excesso em outras regiões, como<br />

aqueles provenientes de fluxos migrat6rios, sem f ,xação à terra.<br />

169. A ação governamental privilegiará, para todo o período<br />

de execução do PNRA, a colonização oficial, dando-lhe caráter<br />

de atividade voltada para promoção econômica, social e política<br />

de famt1ias de pequenos produtores.<br />

170. O MIRADIINCRA poderá atender solicitações de<br />

outros Ministérios visando à criação de empreendimentos de<br />

colonização que não se subordinam de forma imediata às ações<br />

explícitas de <strong>Reforma</strong> Agrária. Estão neste caso as situações<br />

relacionadas com a realocação de famílias afetadas pela<br />

implantação de grandes obras públicas e o apoio à instalação<br />

de províncias minerais, florestais ou ocupação de fronteiras.<br />

COMENTÁRIO<br />

Essa longa e dolorida enumeração dos<br />

fracassos da colonização oficial - tão<br />

contrastante com os êxitos da colonização<br />

privada - poderia ter avivado nos autores do<br />

PNRA a noção da visceral incapacidade do<br />

Estado para esse tipo de empreendimento.<br />

Sempre que em matéria social e econômica o<br />

Estado intervém transgredindo o princípio de<br />

subsidiariedade, que lhe circunscreve<br />

naturalmente a ação, ele começa a caminhar<br />

mancando de um e de outro pé (cfr. III Reis<br />

XVIII, 21).<br />

Não obstante, em vez de apoiar a<br />

colonização privada, o PNRA ainda pretende<br />

tomar medidas contra ela (cfr. tópicos 352-353).<br />

TEXTO DO PNRA<br />

b) Diretrizes operacionais<br />

171. - Não serão abertos novos projetos oficiais de<br />

colonização durante os anos agrícolas de 1986 e 1987. Nesse<br />

período, as diferentes unidades implantadas pelas administrações<br />

anteriores terão sua situação analisada com vistas à adoção de<br />

medidas que permitam sua integração ao processo de <strong>Reforma</strong><br />

Agrária ou sua emancipação.<br />

172. - No mesmo período será intensificada a fiscalização<br />

das áreas de colonização particular.<br />

173. - As formas de relação e apropriação da terra pelos<br />

parceleiros obedecerão os mesmos critérios já anunciados no<br />

capítulo referente ao assentamento.<br />

174. - As propostas de criação de núcleos de<br />

colonização serão discutidas com as entidades<br />

representativas dos trabalhadores rurais. Uma vez<br />

conhecida a população a ser beneficiada, ela terá participação<br />

e controle no planejamento e execução do projeto. Serão<br />

envolvidas também as instituições e organismos<br />

governamentais cujo apoio seja indispensdvel à realização<br />

do projeto. .<br />

175. - Serão criadas e adaptadas metodologias no sentido<br />

de prover o máximo de agilidade ao INCRA, tornando-o capaz<br />

de trabalhar com o máximo de autonomia a nível local.<br />

176. - Em todos os projetos, será dada ênfase à<br />

organização social dos parceleiros de forma que as unidades<br />

tornem-se autônomas ap6s a fase inicial de implantação.<br />

177. - Serão promovidas medidas no sentido de garantir<br />

aos parce/eiros apoio inicial para a exploração agrícola do lote,<br />

principalmente no que diz respeito ao preparo do solo, insumos<br />

básicos, créditos e assistência técnica. O mesmo será<br />

providenciado no que diz respeito aos equipamentos de serviços<br />

sociais básicos e irifraestrutura física.<br />

178. - Nas áreas de ~egurança Nacional previstas pelo<br />

Decreto-Lei n.º 1.164, através de trabalho conjunto INCRA­<br />

Institutos Estaduais de Terra, será estudada a viabilidade de<br />

tornar obrigat6rio o desenvolvimemo de empreendimentos de<br />

colonização, ou de transferir as terras para a jurisdição dos<br />

Estados, com a mesma finalidade.<br />

COMENTÁRIO<br />

'},is propostas de criação de núcleos de<br />

colonização serão discutidas com as entidades<br />

representativas dos trabalhadores rurais" (n?<br />

174). - Por quem? Presumivelmente, pelos<br />

órgãos onipotentes do agro-reformismo. Em<br />

tese, muito democrático. Na realidade, qual a<br />

autenticidade dessa "discussão" entre poderosos<br />

e sofisticados mini-técnicos locais implantados<br />

pelo PNRA, e os bons campônios deles<br />

dependentes para tanta coisa, e incapazes de<br />

manejar argumentos em uma discussão técnica?<br />

Ademais, o PNRA diz quais são as matérias<br />

admitidas a "discutir". Mas omite dizer a quem<br />

toca a decisão ...<br />

Por fim, o PNRA fala de ''entidades<br />

representativas dos trabalhadores rurais". Em<br />

tese, a direção destas entidades caberá aos<br />

trabalhadores. É isto irrepreensível segundo a<br />

estrita lógica da democracia. Mas, se não se<br />

tomar cuidado, essa "estrita lógica" facilmente<br />

conduz à utopia.<br />

Freqüentemente, no quadro de membros de<br />

uma associação há que distinguir entre núcleo<br />

e protoplasma. O primeiro é constituído por<br />

uma minoria de sócios verdadeiramente<br />

empenhados na consecução dos fins sociais.<br />

Uma minoria ativa, informada e ardorosa.<br />

Tal minoria reflete sobre os problemas<br />

sociais, discute-os dentro e fora das reuniões<br />

oficiais, e dá impulso ao protoplasma<br />

majoritário.<br />

Por sua vez, este é constituído por membros<br />

com pouco interesse pela associação, muitos dos<br />

quais nem sequer vão às reuniões estatu-<br />

81


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

tariamente obrigatórias, e só freqüentam com<br />

certa assiduidade os atos sociais recreativos ...<br />

se tanto.<br />

Isto se dá sobretudo com as associações nas<br />

quais o membro é inscrito compulsoriamente,<br />

por força da lei, como provavelmente o serão<br />

os trabalhadores rurais "agro-reformados".<br />

Nas reuniões gerais, a votação do<br />

protoplasma costuma dividir-se, segundo as<br />

simpatias de seus membros, por estes ou aqueles<br />

integrantes do núcleo. Faz-se a votação, e na<br />

aparência é o protoplasma que decide. Porém,<br />

vistas as coisas com um pouco mais de<br />

realidade, percebe-se que o protoplasma só<br />

optou dentro de uma faixa de problemas<br />

debatida pelo núcleo. E, correlatamente, dentro<br />

de uma faixa de soluções apresentadas por este.<br />

De onde se segue que, sem embargo das<br />

discrepâncias internas do núcleo (quando as<br />

há ... ), os membros desse exercem sobre os<br />

destinos sociais uma influência preponderante.<br />

E aí é mais fácil perceber a ação da política.<br />

Em muitos casos, da politicagem.<br />

Por meio dos órgãos estatais com os quais<br />

tem que se haver a direção do sindicato (em via<br />

de regra todos os diretores são recrutados no<br />

núcleo), esta pode ser facilmente manipulada,<br />

nolens volens, pelo Poder público. De sorte que<br />

receba vantagens, as quais por sua vez pode<br />

condividir com outros elementos do núcleo. E<br />

por aí o Poder público não terá dific.uldade em<br />

manipular as tais ''entidades representativas".<br />

O que, sobretudo, é verdadeiro em países latinos<br />

como o nosso, nos quais o espírito associativo<br />

é muito mais fraco do que em países anglosaxônicos<br />

ou germânicos.<br />

Nada destas realidades tem reflexo neste<br />

dispositivo do PNRA. Pois pouco se interessam<br />

pela realidade os navegantes dos mares serenos<br />

da utopia.<br />

Um pequeno comentário a outro aspecto do<br />

presente dispositivo: em uma mera ''proposta<br />

de criação de núcleos de colonização", terão de<br />

participar também 'bs instituições e organismos<br />

Título I<br />

governamentais cujo apoio seja indispensável<br />

à realização do projeto".<br />

Quanta complicação funcional, quanta<br />

rotina, quanta papelada, em suma, quanta<br />

burocracia, simplesmente para definir quais são<br />

estes organismos (pois há sempre nestas<br />

matérias situações intermediárias difíceis de<br />

definir); quantos calendários de vários<br />

representantes de entidades, difíceis de<br />

compatibilizar; quantas circulares convocatórias,<br />

atas e registros para pôr em marcha!<br />

E, por fim, como será pequeno o papel do<br />

mujique brasileiro dentro de toda essa<br />

complicada engrenagem!<br />

Tal a era de ouro preparada pelo PNRA para<br />

os atuais assalariados agrícolas "libertos" de<br />

seus patrões ...<br />

TEXTO DO PNRA<br />

5.2.3. - Tributação da terra<br />

a) Caracterização<br />

179. Este Programa ao lançar mão de procedimentos que<br />

visam tornar real o lançamento e a cobrança do Imposto sobre<br />

Propriedade Territorial Rural - ITR, de Taxa de Serviços<br />

Cadastrais, Contribuições Sindicais e Parqf,scal, além de cumprir<br />

com uma obrigação legal, busca, por um lado, proporcionar<br />

recursos para financiar as propostas de <strong>Reforma</strong> Agrária e,<br />

complementarmente a utilização do instituto de desapropriação<br />

por interesse social, desestimular os que exercem o direito de<br />

propriedade sem observância da função social do uso da terra.<br />

180. As análises efetuadas demonstram que a falta de ação<br />

enérgica na cobrança induziu a inadimplência, e, ainda, que os<br />

latifundiários são os responsáveis por grande parte dessa dívida.<br />

181. Tendo em vista este quadro, é da maior relevância que<br />

o INCRA exerça integralmente a função de cobrança,<br />

obedecendo às disposições contidas no Decreto-Lei n. 0 57/66 e<br />

Lei n. 0 2.830/80, que regulam a atualização da dívida e seu<br />

processo de execução fiscal.<br />

b) Diretrizes operacionais<br />

Curto Prazo:<br />

182. - Selecionar 2.000 maiores devedores, a nível nacional.<br />

A seleção deverá atingir, prioritariamente, impostos não pagos,<br />

os de 1984 e 1983, buscando para o devedor débitos de 1980 e<br />

1982;<br />

183. - estabelecer o caráter da impessoalidade do devedor,<br />

fixando fluxo contínuo nas execuções, sem conhecimento<br />

antecipado do devedor e da dívida a ser executada;<br />

184. - promover amplo envolvimento do pessoal do<br />

INCRA no processo, conscientizando-os para o exercício pleno<br />

dos interesses do Governo e da população rural,·<br />

185. - envolver os órgãos externos, de interesse direto no<br />

resultado da arrecadação, tornando pública a utilização do<br />

processo de execução fiscal,·<br />

186. - atualização, inscrição e notificação de todos os<br />

débitos relativos aos exercícios de 1980 a 1984;<br />

187. - contactar o Poder Judiciário no sentido de<br />

82


Considerações doutrinárias<br />

Parte II, Seção F<br />

facilitar a p;opositura das ações e esclarecimentos quanto à sistemática<br />

de atualização dos débitos;<br />

188. - fixar procedimentos que aumentem ao máximo a<br />

cobrança executiva via processamento de dados, através de critérios<br />

que visualizem econômica, social e politicamente a validade<br />

do universo dos débitos na cobrança administrativa e judicial<br />

da dívida ativa.<br />

COMENTÁRIO<br />

"Contactar o Poder Judiciário .... " (n? 187).<br />

- Expressão sem conteúdo jurídico definido.<br />

E ademais perigosa. Pois até que ponto a palavra<br />

exclui ... ou inclui o sentido de "pressionar"?<br />

Note-se que a inteira independência do Poder<br />

judiciário é condição essencial da ordem jurídica<br />

digna deste nome, democrática ou outra<br />

qualquer (ver também os Comentários aos n?s<br />

369, 372 a 375, 376 e 377 a 380).<br />

TEXTO DO PNRA<br />

Médio Prazo:<br />

189. - editar texto legal criando multa pecuniária para o<br />

contribuinte que não cumprir com a obrigação jtscal nos prazos<br />

determinados;<br />

190. - promover articulações com outras áreas ministeriais<br />

visando o lançamento, a fiscalização e a cobrança da Contribuição<br />

de Melhoria, de que fala o inciso li, do Art. 28, da<br />

Lei n.º 4.504, de 30 de novembro de 1964; a proibição para obtenção<br />

de crédito e incentivos públicos para os inadimplentes.<br />

Gestionar junto aos municípios no sentido de destinarem as receitas<br />

oriundas do ITR para as ações de <strong>Reforma</strong> Agrária.<br />

5.3 - Programas de Apoio<br />

5.3.1. - Cadastro Rural<br />

~aracteriz:.ação<br />

191. O Sistema Nacional de Cadastro Rura, criado pela Lei<br />

n. 0 5.868172, compreende os seguintes cadastros, cuja implantação<br />

e manutenção são de competincia do INCRA:<br />

- cadastro de Imdveis Rurais;<br />

- cadastro de Proprietários e Detentores de Imdveis Rurais;<br />

- cadastro de Arrendatários e Parceiros Rurais; e<br />

- cadastro de Terras Públicas.<br />

192. Desses cadastros, apenas o de imdveis rurais/oi efetivamente<br />

implementado e tem sido usado basicamente para o<br />

lançamento e arrecadação do imposto sobre a propriedade territorial<br />

rural, da contribuição ao INCRA e da contribuição sindical<br />

devida por empregadores e trabalhadores rurais.<br />

193. A relevlincia do Sistema Nacional de Cadastro Rura,<br />

como fonte de iriformações impresfindlveis para o planejamento<br />

e controle das ações de <strong>Reforma</strong> Agrária, impõe o redirecionamento<br />

de seu uso de maneira a que se ajuste às novas concepções<br />

e propostas relativas à questão agrária.<br />

/94. Nesse sentido, as atividades de cadastro serão redirecionadas,<br />

objetivando:<br />

195. J - utilizar o Sistema Nacional de Cadastro Rural<br />

como instrumento de apoio às medidas de <strong>Reforma</strong> Agrária,• e<br />

196. 2 - democratizar o acesso aos dados cadastrais e tributários<br />

promovendo a sua ampla disseminação, discussão e uso.<br />

Diretrizes Operacionais<br />

197. Aplicações previstas para o apoio às medidas de Rei<br />

arma Agrária:<br />

198. - fornecimento de subsi'dios para a formulação dos<br />

Planos Nacionais e Regionais de <strong>Reforma</strong> Agrária, a saber:<br />

199. • elaboração de estudos de zoneamento e colaboração<br />

na definição das áreas prioritárias de <strong>Reforma</strong> Agrária;<br />

200. • dimensionamento da demanda e da disponibilidade<br />

de terras desapropriáveis, a ni'vel de Estado, microrregião e<br />

munidpio;<br />

201. • identificação dos potenciais beneficiários da <strong>Reforma</strong><br />

Agrária: minijundistas, posseiros, ocupantes, arrendatários,<br />

parceiros e assalariados;<br />

202. • caracterização, identificação e controle dos imóveis<br />

rurais passi'veis de desapropriação por interesse social;<br />

203. • dimensionamento da disponibilidade de terras públicas<br />

como apoio às atividades complementares de <strong>Reforma</strong><br />

Agrária;<br />

204. • articulação com os órgãos fundiários para avaliação<br />

dos imóveis a serem desapropriados, com rigorosa fiscalização<br />

dos dados cadastrais dos imóveis classificados como empresa<br />

rural;<br />

205. - Atualização permanente dos dados cadastrais, objetivando<br />

um melhor conhecimento da estrutura agrária brasileira,<br />

através de:<br />

206. • atualização dos dados do Cadastro de Imóveis Rurais,<br />

utilizando amostragem quando conveniente e articulando<br />

a execução da coleta de dados com os órgãos estaduais de terra,·<br />

207. • reativação de Cadastro de Proprietários e Detentores<br />

de Imóveis Rurais e do Cadastro de Arrendatários e Parceiros<br />

Rurais,·<br />

208. • implantação do Cadastro de Terras Públicas, em articulação<br />

com o Serviço de Patrimônio da União e os órgãos<br />

estaduais de terra.<br />

209. Nas áreas em que for sendo implantada a <strong>Reforma</strong><br />

Agrária os registros cadastrais passarão a ser estreitamente vinculados<br />

aos Registros de lm6veis e baseados principalmente em<br />

levantamentos técnicos de campo, objetivando identificar, caracterizar<br />

e localizar com mais precisão os imóveis rurais, o que<br />

permitirá melhor controle do processo. Essa nova sistemática<br />

envolverá necessárias modificações na legislação de Registros<br />

Públicos.<br />

210. - Medidas de controle em apoio ao processo de <strong>Reforma</strong><br />

Agrária:<br />

211. • controle da aquisição dos imóveis rurais por pessoas<br />

de nacionalidade estrangeira;<br />

212. • controle dos contratos agrários de parceria e<br />

arrendamento.<br />

213. A democratização dos dados cadastrais, fundamental<br />

para estudos, pequisas e planejamento e como forma de conscientização<br />

da sociedade quanto às distorções da estrutura agrária<br />

e a importlJncia do processo de <strong>Reforma</strong> Agrária, se concretizará<br />

entre outras, pelas seguintes formas:<br />

214. - Publicação e divulgação imediata das Estati'sticas<br />

Cadastrais de 1978 e das Estati'sticas Tributárias de 1982, 1983<br />

e 1984, até hoje vedadas à divulgação;<br />

215. - Divulgação dos maiores im6veis do Brasil e de cada<br />

Unidade da Federação cadastrados no INCRA, bem como<br />

os localizados em terras indi'genas selecionadas;<br />

216. - Divulgação sistemática de estattsticas atualizadas<br />

sobre cadastro e tributação, com base em consultas aos usuários<br />

para a definição das tabulações necessárias;<br />

217. - Regulamentação do fornecimento das iriformações<br />

disponi'veis de forma a facilitar o acesso de usuários externos<br />

ao INCRA;<br />

83


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

Título I<br />

218. - Estabelecimento de convênios do INCRA com órgãos<br />

federais, estaduais e municípios, ligados ao setor rural, visando<br />

a criação e a alimentação de um sistema de informações<br />

agrárias destinado a subsidiar a f ,xação de políticas e programas<br />

do governo ligados à <strong>Reforma</strong> Agrária e ao desenvolvimento<br />

rural,·<br />

219. - Estabelecimento de convênios com Universidades<br />

e Centros de Pesquisa, com vista à análise e ao estudo dos dados<br />

cadastrais e tributários.<br />

COMENTÁRIO<br />

Atente o leitor para a amplitude da burocracia<br />

e dos gastos em que todas essas desiderata<br />

da luxuosa e complicada execução do<br />

PNRA importam.<br />

Os altos custos da <strong>Reforma</strong> Agrária podem<br />

ser considerados em seu aspecto estático: vencimentos<br />

do funcionalismo, aquisição ou locação<br />

de imóveis em que este se instale, móveis,<br />

equipamentos etc. etc.<br />

A análise das "Diretrizes Operacionais" de<br />

seus vários Programas dá ocasião para considerar<br />

os custos da <strong>Reforma</strong> Agrária em seu aspecto<br />

dinâmico. Tal análise permite avaliar, ainda<br />

que só muito por alto, o imenso vulto dos<br />

gastos necessários para que o mecanismo burocrático<br />

dinossáurico ponha em execução o<br />

PNRA. É fácil ver, percorrendo os vários itens<br />

dessas diretrizes, que os gastos operacionais assumirão<br />

por sua vez proporções faraônicas.<br />

E é nesse mar de dívidas que a <strong>Reforma</strong><br />

Agrária imergirá nosso País já insolvável - ou<br />

quase tanto - no plano externo e no interno.<br />

TEXTO DO PNRA<br />

5.3.2 - Apoio Jurídico<br />

a) Caracterização<br />

220. A realidade tem mostrado que a criação de um Programa<br />

de Apoio Jurfdico, como um serviço ao meio rural,<br />

visando prestar, diretamente ou mediante convênio com<br />

entidades e associações, assessoramento a trabalhadores<br />

rurais, é exigência da necessidade e dever do Estado de buscar<br />

justiça social, democratizando assim, o acesso aos instrumentos<br />

institucionais de defesa de interesses divergentes.<br />

221. A crescente utilização dos instrumentos institucionais<br />

públicos, principalmente organismos repressivos, na defesa de<br />

interesses privados, na maioria das vezes contrários aos<br />

interesses coletivos, que se transformam também em agravadores<br />

dos conflitos fundiários, fazem da assistência jurfdica<br />

valioso intrumento de recuperação ou aumento dos instrumentos<br />

de justiça social.<br />

222. O Programa será concretizado mediante convênios<br />

a serem firmados com os sindicatos de trabalhadores<br />

rurais. Este apoio, além de realizar-se no contencioso, de-<br />

verá estender-se à formação, preparação e reciclagem dos quadros<br />

jurídicos próprios dessas entidades reconhecidos pelo<br />

Programa.<br />

b) Diretrizes Operacionais<br />

223. - articulação com o movimento sindical dos trabalhadores<br />

rurais visando o estabelecimento de normas para<br />

a formação de convênios, e sua posterior efetivação;<br />

224. - realização de um programa de capacitação dos quadros<br />

técnicos-jurídicos a serem envolvidos no Programa.<br />

COMENTÁRIO<br />

A todas as despesas até aqui mencionadas,<br />

é necessário somar a execução deste "Programa<br />

de Apoio Jurídico .... visando prestar, diretamente<br />

ou mediante convênio com entidades<br />

e associações, assessoramento a trabalhadores<br />

rurais" (n? 220).<br />

* *<br />

Contra os ''interesses privados", o PNRA<br />

(n? 221) faz duas censuras:<br />

a) que são ''na maioria das vezes contrários<br />

aos interesses coletivos";<br />

b) que são ''agravadores dos conflitos<br />

fundiários".<br />

A afirmação da nocividade habitual do interesse<br />

privado, em rigor de lógica, conduz longe,<br />

nas vias do socialismo.<br />

Na realidade, o interesse privado não é incompatível<br />

com o interesse público, o qual, pelo<br />

contrário, é uma síntese harmônica de todos<br />

os interesses privados. E onde estes últimos definham,<br />

forçosamente também definha aquele.<br />

Sem dúvida, acidentalmente (o que não quer<br />

dizer raramente) há conflitos entre certos interesses<br />

privados e os da coletividade. Quando a<br />

ação - essencialmente mais fraca - dos indivíduos<br />

lesados não é suficiente para estes se defenderem,<br />

eles têm direito ao amparo do Estado.<br />

Este deve, então, corrigir a situação assim<br />

criada. Como aliás deve frear, de modo correlato,<br />

os interesses privados que se hipertrofiem.<br />

Mas desta afirmação não se deve concluir<br />

que o reto entendimento dos interesses privados<br />

implique em contradição com o dos interesses<br />

coletivos. Pois, como ficou dito acima,<br />

fundamentalmente o bem de uns resulta no bem<br />

dos outros.<br />

84


Considerações doutrinárias<br />

Parte II, Seção F<br />

Nada disso parece estar presente na algaravia<br />

deste texto, o qual tem visos de aceitar como<br />

verdadeiro o pressuposto marxista da luta<br />

de classes, e conceber o Estado como aliado natural<br />

e sistemático de uma das partes em conflito<br />

- o trabalho manual - contra a outra<br />

parte, o trabalho intelectual (científico, técnico<br />

ou diretivo) e o capital.<br />

Quanto à afirmação de que os interesses privados<br />

"se transformam também em agravadores<br />

dos conflitos fundiários", ela não podia faltar<br />

na pena de quem aceita como pressuposto<br />

o princ :pio da luta de classes. O agravamento<br />

dos conflitos fundiários tem causas muito complexas,<br />

entre as quais a atuação de agitadores<br />

agrários vinculados a organismos da esquerda,<br />

eclesiástica ou não (cfr. Comentários à Apresentação,<br />

e ao n? 250).<br />

Isto pressuposto, o texto se esclarece.<br />

* * *<br />

O tópico 222 ainda deixa mais claro esse aspecto<br />

conflitivo do PNRA: "O Programa será<br />

concreti:.ado mediante convênios a serem firmados<br />

com os sindicatos de trabalhadores rurais".<br />

O Programa não prevê convênios com os<br />

patrões, aos quais olha com a desconfiança carregada<br />

de anseios de destruição.<br />

A ''articulação com o movimento sindical<br />

dos trabalhadores rurais" (n? 223) fala nomesmo<br />

sentido.<br />

TEXTO DO PNRA<br />

5.3.3 - Estudos e Pesquisas Agrérias<br />

a) Caracteri::ação<br />

225. Vencida a fase inicial, imediata, da <strong>Reforma</strong> Agrária,<br />

tornar-se-d necessdrio contar-se com um conjunto de estudos<br />

e pesquisas a ela vinculadas, tendo em vista dar-lhe consistência,<br />

organizar um registro de memória do processo e informar<br />


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tiifão agro-reformista<br />

Titulo I<br />

que existem tarefas espec[ficas de capacitação para a realização<br />

de trabalhos espec[ficos, mas essas tarefas não podem se<br />

colocar como pré-condições e obstáculos ao início do processo<br />

da <strong>Reforma</strong> Agrária.<br />

243. Os recursos humanos para a realização de uma <strong>Reforma</strong><br />

Agrária no Brasil podem ser identificados e<br />

mobilizados:<br />

244. - nos movimentos sociais;<br />

245. - no meio técnico e profissional, particularmente<br />

através de suas associações de classe, como as de engenheiros<br />

agrônomos, geógrafos, economistas, advogados, médicos, veterinários,<br />

técnicos agrícolas, sociólogos, antropólogos, etc.;<br />

246. - no meio acadêmico, particularmente naquelas<br />

institllições que por sua produção científica e prática estejam<br />

interessadas na <strong>Reforma</strong> Agrária, tanto em instituições ligadas<br />

à Universidade como instituições autônomas (centros<br />

de pesquisa, institutos, etc.);<br />

247. - nas instituições não governamentais ligadas<br />

à promoção social, à educação popular, à assessoria e apoio<br />

aos movimentos sociais, à luta pela <strong>Reforma</strong> Agrária.<br />

248. - na Administração Pública Federal, Estadual e<br />

Municipal.<br />

COMENTÁRIO<br />

"Os recursos humanos já existentes na sociedade<br />

brasileira para a realização da <strong>Reforma</strong><br />

Agrária ...: A questão básica é a de identificar<br />

esse contingente e saber mobilizá-lo"<br />

(n? 242). - O texto alude obviamente aos<br />

múltiplos órgãos de esquerda que promovem<br />

no Brasil a conscientização e a agitação com<br />

rumo à revolução social.<br />

Se dúvida houvesse a tal respeito, bastaria<br />

considerar a referência às instituições do<br />

meio acadêmico que ''estejam interessadas na<br />

<strong>Reforma</strong> Agrária" (n? 246), bem como às<br />

''instituições não governamentais ligadas ....<br />

à luta pela <strong>Reforma</strong> Agrária" (n? 247). - O<br />

PNRA poderia ter usado aqui o vocábulo<br />

"ação". Mas a palavra "luta" foi por ·ele preferida,<br />

e se entende por quê.<br />

Com efeito, os primeiros movimentos a<br />

favor da <strong>Reforma</strong> Agrária começaram no<br />

Brasil depois de 1922, data da fundação do<br />

Partido Comunista, num contexto ideológico<br />

e operacional de luta àe classes. E foi sempre<br />

nesse contexto que continuou o tão intermitente<br />

e débil agro-reformismo nacional, até<br />

que a combinação nada proletária de certos<br />

setores políticos, intelectuais, religiosos e publicitários<br />

lhe veio dar, nos anos 60, o impulso<br />

(artificial no que toca aos trabalhadores<br />

manuais) que hoje tem.<br />

E também nos anos 60 e nos que se lhes<br />

seguiram, o agro-igualitarismo se tem sempre<br />

manifestadb ao público, como que enroscado<br />

na luta de classes.<br />

TEXTO DO PNRA<br />

249. Além da identificação dos órgãos mais diretamente<br />

ligados à questão da terra e particularmente da <strong>Reforma</strong><br />

Agrária, o grande problema é o de mobilizar as vontades<br />

e as consciências dos servidores públicos para os objetivos<br />

da <strong>Reforma</strong> Agrária, descentralizar a intervenção do<br />

Estado e aproveitar ao máximo os recursos dispersos existentes.<br />

A sociedade civil poderá exercer papel importante na<br />

identificação e ativação desses setores.<br />

COMENTÁRIO<br />

"Mobilizar as vontades e as consciências<br />

dos servidores públicos para os objetivos da<br />

<strong>Reforma</strong> Agrária". - Nessas palavras se manifestam<br />

mais uma vez os intuitos "missionários"<br />

ideológicos e psicológicos do PNRA, o<br />

qual, para fazer a sua reforma fundiária sente<br />

a necessidade de tornar efetiva uma outra<br />

reforma, a da mentalidade do País (cfr. Comentários<br />

aos n? 122 a 124; 283 a 288).<br />

5<br />

No caso concreto, o PNRA se mostra tão<br />

persuadido da escassez numérica dos adeptos<br />

da <strong>Reforma</strong> Agrária, que não tem esperança<br />

de lotar só com eles os incontáveis cargos burocráticos<br />

que visa criar. E, bem persuadido<br />

de que, fora dos corpúsculos de esquerda, só<br />

por exceção encontrará brasileiros desejosos<br />

de uma <strong>Reforma</strong> Agrária, resigna-se a constituir<br />

um mecanismo executor desta última,<br />

com elementos indiferentes ou desconhecedores<br />

do assunto, e a promover a conscientização<br />

deles e a sua preparação para a agitação<br />

(''mobilização das vontades e das consciências'')<br />

desses mesmos funcionários.<br />

* * *<br />

Como é evidente, esta inoculação da mentalidade<br />

agro-igualitária nos quadros do funcionalismo<br />

importará na constituição de um<br />

outro mecanismo, para executar essas atividades.<br />

E daí mais gastos ainda ...<br />

86


Considerações doutrinárias<br />

TEXTO DO PNRA<br />

250. Vista sob esse prisma, a grande questão não é a<br />

da capacitação de quadros para a <strong>Reforma</strong> Agrária mas a de<br />

identificação, mobiliUlção e organiUlção desses recursos<br />

humanos já existentes em função de um programa global<br />

de <strong>Reforma</strong> Agrária que surja de uma grande mobiliUlção<br />

nacional.<br />

251. A questão da capacitação, no entanto, se coloca à<br />

medida que se desenvolve o programa em função das atividades<br />

desencadeadas pelo programa. Ela se apresenta em sua<br />

dimensão essencialmente política, por um lado, já que a <strong>Reforma</strong><br />

Agrária é uma questão crucial para o desenvolvimento<br />

da democracia e do próprio País, e técnica, por outro, já que<br />

muitas de suas tarefas exigem conhecimentos e técnicas<br />

espec(ficas.<br />

252. A abordagem da questão recursos humanos não pode<br />

desconhecer que o INCRA terá papel fundamental na implementação<br />

das medidas legais, técnicas e administrativas da<br />

<strong>Reforma</strong> Agrária. É importante, portanto, refletir sobre a realidade<br />

dessa instituição à luz de sua história e de suas experiências<br />

mais recentes.<br />

253. Se várias instituições apresentam alto grau de motivação<br />

e mobilização em relação à <strong>Reforma</strong> Agrária é importante<br />

considerar que o INCRA sofreu nestes últimos anos ou<br />

décadas um processo caracterizado por:<br />

254. - compressão salarial repressão política interna,<br />

descrédito às medidas implementadas pela administração superior<br />

do órgão, desiriformação produzida pela direção com<br />

a conseqüente perda de visão global dos funcionários, experiências<br />

e programas mal sucedidos.<br />

COMENTÁRIO<br />

'~... um programa global de <strong>Reforma</strong><br />

Agrária que surja de uma grande mobilização<br />

nacional" (n? 250). - O PNRA, em<br />

mais de um de seus aspectos não é apenas<br />

um plano, nem apenas um programa. E nem<br />

mesmo um imenso conglomerado de planos e<br />

programas. Há de tudo isso nele, e em abundância.<br />

Mas também há nele acentuados traços<br />

de devaneio e de salto aventureiro rumo<br />

às regiões etéreas da utopia. Aqui está um<br />

exemplo.<br />

O PNRA se tem a si próprio em conta de<br />

plano. É impossível lê-lo sem considerar que<br />

esse plano tem também muito e muito de<br />

programático.<br />

Como é óbvio, vai ele surgindo numa atmosfera<br />

de tensão crescente. Essa tensão, o<br />

próprio esquerdismo nacional a vem produzindo<br />

nos campos e nas cidades (6).<br />

Eis que o PNRA aponta como 'b grande<br />

questão" (n? 250) a constituição de um movimento,<br />

quase todo ainda in ovo, a partir da<br />

Parte 11, Seção F<br />

''identificação" de agro-reformistas por enquanto<br />

ainda desconhecidos (e, portanto, é de<br />

supor, raros e silenciosos), de agroreformistas<br />

ademais esparsos e indolentes,<br />

que cumpre ''mobilizar e organizar". Estes<br />

são os parcos ''recursos humanos já existentes",<br />

de cuja ação o PNRA espera ''uma<br />

grande mobilização nacional".<br />

Impõe-se a pergunta: como pode um tão<br />

pequeno e fraco contingente inicial de ''recursos<br />

humanos" crescer certa e rapidamente, de<br />

maneira a abarcar multidões inteiras atraídas<br />

por ''uma grande mobilização nacional"?<br />

Uma multidão de tão denso teor agroigualitário,<br />

que dela surja ''um programa global<br />

de <strong>Reforma</strong> Agrária''?<br />

Não representa um salto no escuro o fato<br />

de que, antes mesmo de ter constituído um<br />

movimento agro-reformista de dimensões expressivas,<br />

a Nação seja convocada para discutir,<br />

em menos de três meses, toda a matéria<br />

contida no PNRA? Que certeza pode ter o<br />

PNRA de que os anseios da Nação, repercutindo<br />

no Legislativo federal como em "caixa<br />

de ressonância" (tópico 128), e discriminados<br />

como autênticos e inautênticos, em grau supremo<br />

e definitivo, pelo Sr. Presidente da República,<br />

surjam realmente dessa ''grande mobilização<br />

nacional"?<br />

Nenhuma, obviamente. Tunto mais quanto<br />

o PNRA reconhece que essa ''mobilização"<br />

ainda está por se fazer.<br />

Tudo isso posto, em que medida todo o<br />

PNRA é realmente um plano consistente, traçado<br />

com os pés na terra, e tendo em vista<br />

condições que lhe assegurem realizabilidade<br />

efetiva em tempo hábil? Em que medida é<br />

ele, pelo contrário, mero devaneio a partir de<br />

uma grande condição prévia, de nenhum modo<br />

ainda efetivada?<br />

Aliás, é difícil perceber no que se diferencia<br />

o PNRA (tão programático em muitos de<br />

seus traços) do ''programa global de <strong>Reforma</strong><br />

Agrária" que deve surgir de uma ''mobilização<br />

nacional" que ainda está para ser feita.<br />

Mas - dir-se-á - denunciando a amplitude<br />

da agitação agro-reformista em todo o<br />

87


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

Ttiu/o /<br />

País, não reconhece a TFP que boa parte dessa<br />

mobilização da opinião pública está feita,<br />

e que boa parte do País quer a <strong>Reforma</strong><br />

Agrária?<br />

É só ler o já citado livro CEBs, bem como<br />

os referidos números do mensário "Catolicismo"<br />

(cfr. Nota 5), para se ter em mãos as<br />

provas de que a agitação agrária resulta eni<br />

grande parte, e no que ela tem de mais ativo,<br />

da participação do clero esquerdista, consciente<br />

ou subconscientemente intoxicado com<br />

os erros professados em certos veios do movimento<br />

da Teologia da Libertação.<br />

Resulta isto da infiltração comunista em<br />

meios católicos, desde os primórdios insistentemente<br />

denunciada pela TFP às autoridades<br />

eclesiásticas (7).<br />

"' "' *<br />

A partir de 1984, a Santa Sé começou a<br />

agir clara e categoricamente contra os erros<br />

que circulam em certas obras doutrinárias<br />

inspiradas pel~ Teologia da Libertação (cfr.<br />

Comentário ao n? 271). Porém, anteriormente<br />

a isso, a penetração do esquerdismo em<br />

institutos de formação do Clero secular e regular,<br />

bem como dos Religiosos de um e outro<br />

sexo, e, no que diz respeito ao laicato, em<br />

universidades, editoras, revistas, livros e livrarias<br />

católicas, se fez impressionante.<br />

Daí proveio o recrutamento, para a esquerda,<br />

de certo número de pessoas intelectualizadas,<br />

de ambos os sexos, realmente aderentes<br />

do agro-igualitarismo, como do socialismo<br />

em geral. E até, em casos extremos, do<br />

comunismo.<br />

Esses grupos, que vão surgindo cá e lá pelo<br />

País afora, constituem apenas pequenos<br />

cenáculos efervescentes, de debates ideológicos<br />

sem ressonância externa, nada tendo que<br />

ver com os homens do campo. Estes são, em<br />

geral, dóceis paroquianos que nada entendem<br />

de temas ideológicos nem de questões sociais.<br />

Por sua fidelidade ao Vigário - a quem supõem<br />

representante indefectivelmente fiel do<br />

Pontífice Romano e da Igreja Católica - são<br />

entretanto facilmente mobilizáveis por ele para<br />

a agitação agro-reformista, a partir da<br />

"conscientização" efetuada nas Comunidades<br />

Eclesiais de Base (CEBs) rurais. Fazer a <strong>Reforma</strong><br />

Agrária seria então, para eles, tãosomente<br />

fazer a vontade do Vigário; logo, a<br />

vontade de Deus. Inteiramente alheios às notícias<br />

de imprensa, nem chega ao seu conhecimento<br />

o fato sintomático e notório de que<br />

há uma esquerda católica que preocupa a<br />

fundo a Santa Sé (cfr. Comentário aos n?s<br />

266 a 271), e cuja atuação é aplaudida sem<br />

rebuços pelo ateísmo militante e organizado,­<br />

do PCB e do PC do B.<br />

A esta atuação direta dos setores eclesiásticos<br />

adeptos da Teologia da Libertação, é<br />

preciso somar a dos sindicatos rurais, em<br />

grande número fundados por iniciativa desses<br />

mesmos .setores e por eles controlados através<br />

dos líderes das CEBs rurais ( cf r. CEBs, p.<br />

193).<br />

Aliás, segundo parece, não é esse o único<br />

contingente da agitação agrária. Existem ainda<br />

destacamentos de agitadores profissionais,<br />

vários dos quais nem sequer brasileiros, dotados<br />

de técnicas de ação e de mobilidade surpreendente,<br />

que lhes proporcionam atuar, a<br />

breve intervalo de tempo, em pontos diversos<br />

do território nacional.<br />

Como tudo isso difere da autêntica ''mobilização<br />

nacional" agro-reformista, sonhada<br />

pelo PNRA, e cuja efetivação ainda está para<br />

ele no estágio de ''grande questão"!<br />

TEXTO DO PNRA<br />

b) Diretrizes Operacionais<br />

255. - criação de um Centro de Estudos e Capacitação<br />

para a <strong>Reforma</strong> Agrária;<br />

256. - divulgação e debate do 1. 0 PNRA com administradores<br />

e técnicos das organizações governamentais federais,<br />

estaduais e municipais do PNRA, preparando-se para o domínio<br />

das concepções e propostas do Plano;<br />

257. - desenvolvimento de programas de curto e médio<br />

prazas de capacitação dos beneficiários da <strong>Reforma</strong> Agrária.<br />

COMENTÁRIO<br />

Novas "diretrizes operacionais", novas<br />

ampliações burocráticas, novas despesas.<br />

88


Considerações doutrinárias<br />

TEXTO DO PNRA<br />

6 - ARTICULAÇÃO DA AÇÃO DO GOVERNO<br />

258. A <strong>Reforma</strong> Agrária como programa prioritário do<br />

Governo, implicará numa ação articulada a nível de todo o<br />

Governo Federal, bem como dos Governos Estaduais e Municipais.<br />

Para tanto, requerer-se-á, um comprometimento, de todos<br />

os organismos que tenham ou venham a ter relação com<br />

os resultados esperados. Portanto, se fará necessário ampla<br />

articulação interministeria/ e intergovernamental em torno do<br />

programa de <strong>Reforma</strong> Agrária.<br />

259. Desse modo, buscar-se-á evitar que para todo um<br />

conteúdo redistributivista, contido neste PNRA, venham a se<br />

contrapor efeitos concentracionistas resultantes de po/aicas e<br />

projetos decorrentes da pr6pria ação governamental.<br />

260. Se, por um lado, alguns planos gerais deverão sofrer<br />

reavaliação tendo por referência as propostas de <strong>Reforma</strong><br />

Agrária, do mesmo modo o apoio também se efetivará por<br />

intermédio da elaboração e implementação de projetos especiais<br />

integrados, para o que será necessário o comprometimento<br />

de recursos, inclusive orçamentários, por parte dos 6rgãos<br />

setoriais que têm sob sua responsabilidade, o desenvolvimento<br />

de ações complementares fundamentais a realização<br />

dos assentamentos.<br />

6.1 - Politicas de Apoio à Produção e à Organização dos<br />

Assentamentos<br />

261. As políticas de apoio à produção e à organização<br />

dos Assentamentos deverão apresentar características particulares<br />

tendo em vista o a/endimento das especificidades do<br />

processo de <strong>Reforma</strong> Agrária.<br />

262. Nesse sentido, são recomendadas as seguintes<br />

medidas:<br />

a) Associativismo .<br />

263. - estímulo a todas as formas de associativismo<br />

e organização grupal dos assentados, em relação à terra,<br />

produção, instrumentos de produção, comercialização e bens<br />

e serviços comunitários;<br />

COMENTÁRIO<br />

'~ssociativismo": pode-se fazer uma<br />

idéia do que isto seja. O que é "organização<br />

grupal" enquanto algo distinto de uma<br />

associação?<br />

O leitor médio, se tiver uma memória<br />

bem acima da média, lembrar-se-á então do<br />

tópico 147 do PNRA, que fornece, de passagem,<br />

algo como um tímido esboço do que seja<br />

um assentamento: ''complexo. agrícola de<br />

estrutura associativa, com autonomia administrativa".<br />

Será isto o mesmo que "organização<br />

grupal''? Talvez sim. Talvez não.<br />

Com o espírito povoado por essas incógnitas,<br />

deverá o leitor continuar no seu estudo.<br />

Quando esbarrar no n? 264 (tópico seguinte),<br />

encontrará ele novas incógnitas.<br />

E tudo isso não o conduzirá a uma con-<br />

Parte li, Seção F<br />

clusão. Fa-lo-á lembrar, isto sim, do Comentário<br />

feito ao n? 120.<br />

TEXTO DO PNRA<br />

264. - revisão da concepção e atuação das Cooperativas<br />

Integrais de <strong>Reforma</strong> Agrária - CIRA, conforme estabelece<br />

o Art. 79 do Estatuto e a legislação complementar, de<br />

forma a viabilizar a sua inserção na atual proposta de <strong>Reforma</strong><br />

Agrária;<br />

COMENTÁRIO<br />

É surpreendente que o PNRA alegue o<br />

ET como ponto de partida para a ''viabilização"<br />

de um sistema neocooperativo. Com<br />

efeito, o ET toma como unidade de produção<br />

rural algo de conhecido e nítido: o direito de<br />

propriedade, em uma das suas variantes concretas,<br />

fácil de ser inteligida: a propriedade<br />

familiar (art. 4?, II).<br />

Pelo contrário, o PNRA, embora se presuma<br />

todo defluente do ET, omite, ou quase<br />

tanto, do panorama do Brasil agroreformado,<br />

a propriedade privada, inclusive<br />

quando familiar. E substitui a esta, uma entidade<br />

proteiforme, e ademais apenas esboçada,<br />

não porém definida: o 'rzssentamento"<br />

(cfr. Comentário ao n? 137).<br />

A partir dessa unidade nova, a livre iniciativa<br />

individual desaparece do panorama<br />

agrário tanto quanto a propriedade individual.<br />

O que é explicável, pois uma é corolário<br />

da outra.<br />

Mas um sistema cooperativo que já não<br />

tenha como unidade a pessoa, sua propriedade<br />

e sua livre iniciativa, mas grupos proteiformes<br />

e indefinidos, com uma autonomia<br />

em relação ao Estado apenas acenada, não<br />

pode ser identificado com o regime cooperativo<br />

que o ET tinha em vista.<br />

Com efeito, até que ponto o sistema cooperativo<br />

do PNRA será autônomo do Estado?<br />

Até que ponto as unidades que o constituem<br />

deixarão livre o indivíduo, ou se identificarão<br />

com pequenos sovietes (grupais, e não<br />

dependentes do Estado)? Em suma, até que<br />

ponto o PNRA abre, ou não abre, o caminho<br />

para o comunismo? Outras tantas questões<br />

89


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

T1iulo I<br />

que, para o homem de cultura geral mediana,<br />

ficam sem solução.<br />

TEXTO DO PNRA<br />

265. - realização de estudos objetivando levantar as alternativas<br />

legais, existentes, e as mudanças necessárias, para<br />

desburocrativzr as formas de associação já existentes<br />

ou a serem propostas.<br />

COMENTÁRIO<br />

O PNRA não é insensível ao perigo da burocratização,<br />

inerente à enorme máquina que<br />

ele cria. Tonto mais quanto ele constata a burocratização<br />

nas formas de associação ''já existentes"<br />

no âmbito da <strong>Reforma</strong> Agrária. É a<br />

e,cperiência palpável de um passado recente. Mais<br />

ainda. O PNRA teme o mesmo perigo para o<br />

futuro, isto é, para as ''formas de associação<br />

.... a serem propostas" (n? 265).<br />

É louvável esse temor. Mas o que pode fazer<br />

diante de tal perigo a imensa máquina<br />

agro-reformista sonhada pelo PNRA? De duas<br />

uma: ou somará a essa máquina burocrática<br />

mais alguns organismos, também burocráticos,<br />

incumbidos de "desburocratizar" a máquina;<br />

ou então se utilizará do enorme poder publicitário<br />

inerente à máquina, visando despertar<br />

nos funcionários desta o temor e a aversão à<br />

burocratização, para, por fim, obter que, mais<br />

ou menos espontaneamente, os burocratas<br />

dêem caça à burocracia... O que, no total, se<br />

patentearia bastante inverossímil.<br />

Esta alternativa mostra bem a debilidade<br />

da ação do Estado, o qual, sempre que arvora<br />

sua atuação sobre a sociedade - ou sobre<br />

um grande segmento dela, como no presente<br />

caso a lavoura - cai sob o peso do próprio<br />

fardo, ou então soma à sua missão políticoadministrativa,<br />

a de mentor da sociedade. E<br />

neste caso institui a tirania da propaganda, de<br />

cuja lúgubre nocividade dão mostras tantos<br />

exemplos históricos deste século (cfr. Comentário<br />

aos n?• 122 a 124).<br />

TEXTO DO PNRA<br />

b) Crédito Rural<br />

266. - estabelecimento de programa especial de crédito<br />

com o objetivo de atender às demandas espec(ficas dos assentados<br />

pela <strong>Reforma</strong> Agrária;<br />

267. - as linhas de crédito especial para os assentados<br />

no processo de <strong>Reforma</strong> Agrária deverão ser operacionalizadas<br />

através de procedimentos simplificados capazes de viabilizarem<br />

a sua utilização;<br />

268. - definição de condições especiais de juros e correção<br />

monetária para as diferentes modalidades previstas de crédito<br />

rural;<br />

269. - estabelecimento de novas condições para o crédi­<br />

. to grupal introduzindo-se abertura para a responsabilidade individual,<br />

tornando assim mais ágeis os procedimentos<br />

bancários.<br />

c) Pesquisa Agropecuária<br />

270. - participação das equipes de pesquisa e experimentação<br />

agropecuária deverá verificar-se desde a fase inicial de<br />

organização dos Assentamentos. Elas operarão em conjunto<br />

com as demais equipes envolvidas, de forma a assegurar ao<br />

empreendimento como um todo resultados permanentes;<br />

271. - a estrutura da ''pesquisa e experimentação';<br />

bem como a forma de atuação de seus técnicos, deverá<br />

se adequar, em termos de flexibilidade operativa, sensibilidade<br />

social e polltica, à natureza do processo de <strong>Reforma</strong><br />

Agrária;<br />

COMENTÁRIO<br />

O tópico 271 parece, à primeira vista, sonoro<br />

e vazio.<br />

Analisado com mais atenção, ele deixa<br />

transparecer a idéia de que, a "estrutura da<br />

'pesquisa e experimentação; bem como a forma<br />

de atuação de seus técnicos" deverão estar<br />

embebidas do espírito agro-igualitário.<br />

Parece subjacente a este texto a ressalva de<br />

que o PNRA não exige de seus técnicos, no<br />

foro interno, uma profissão de fé agroreformista,<br />

e tão-só que proceda como agroreformista<br />

em sua ação externa. O que é pedirlhe<br />

uma contradição ...<br />

A "adequação" da "sensibilidade social e<br />

política" parece, aliás, ir até além disto.<br />

Ademais, a ''pesquisa e experimentação" de<br />

um estudioso, e sua atuação como técnico, são<br />

imparciais por imperativo moral e científico.<br />

Apaixonado como se mostra, o PNRA parece<br />

exigir de seus técnicos algo que pode adulterar<br />

o próprio valor científico de seus estudos<br />

e de sua atuação.<br />

Uma vez mais, o PNRA, intensamente<br />

ideologizado e "missionário", tenta fazer do<br />

Estado brasileiro um Estado-pedagogo, mentor,<br />

quase se diria, diretor espiritual de seus<br />

técnicos, obviamente para assim melhor influenciar<br />

a população agrária: a "sensibilidade<br />

social e política" em relação ao ''processo<br />

90


Considerações doutrinários<br />

de <strong>Reforma</strong> Agrária" é função de todo um<br />

contexto moral (e portanto religioso), social e<br />

político, muito mais amplo do que o agrário.<br />

Ora, isto conduz necessariamente o Estado<br />

a adotar para si, e como que propor (!?)<br />

a seus técnicos a aceitação desse contexto mais<br />

alto, sem o qual a temática social e política<br />

fica flutuando no ar.<br />

Por sua vez, a adoção de tal contexto, pelo<br />

Estado, conduzirá, no presente momento, a<br />

complicações quase inextricáveis.<br />

Com efeito, ao mesmo tempo que vai atingindo<br />

proporções assombrosas a crise da família,<br />

anterior a nosso século, outra crise, contida<br />

temporariamente por força da Encíclica<br />

Pascendi Dominici Gregis (de 8 de setembro<br />

de 1907) do Papa São Pio X, e renascida sob<br />

o pontificado de Pio XI, isto é, a crise<br />

modernista-progressista, vai chegando agora a<br />

um auge até há pouco insuspeitado pela massa<br />

dos católicos.<br />

Enquanto a crise da família é moral e social,<br />

mas tem fundamento religioso, a crise<br />

modernista-progressista é teológica e filosófica,<br />

e tem profunda repercussão no campo<br />

sócio-econômico.<br />

Aliás, ambas as crises se entrelaçam, o que<br />

é forçoso em conseqüência das mútuas afinidades<br />

das suas temáticas, bem como do fato<br />

de coexistirem hoje no mesmo setor de opinião,<br />

formado pelos meios católicos no mundo<br />

inteiro.<br />

A expressão mais flagrante da crise da família<br />

é a simultânea liquidação, em crescente<br />

número de países, da legislação que a protegia:<br />

indissolubilidade do vínculo matrimonial,<br />

penalização do adultério, distinção entre esposa<br />

e concubina, entre filhos legítimos e ilegítimos,<br />

penalização do aborto e restrições à difusão<br />

de contraceptivos (cfr. Parte I, Cap. II, 8; Comentário<br />

ao n? 137).<br />

A crise teológico-filosófica teve, por sua<br />

vez, a expressão mais aguda na acolhida insultante<br />

que meios católicos deram a João Paulo<br />

II, por ocasião da recente visita à Holanda,<br />

em maio último.<br />

No Brasil, a crise sócio-econômica, levada<br />

Porte II, Seção P<br />

a um clímax pela publicação do PNRA, encontra<br />

em crise não só a família, mas também<br />

os meios religiosos (cfr. Parte 1, Cap. 1, 5; Co­<br />

_mentários aos n?s 250 a 254).<br />

Vem tendo larga disseminação entre nós a<br />

Teologia da Libertação, que versa ao mesmo<br />

tempo sobre temas teológicos - como seu nome<br />

indica - e sócio-econômicos: a "libertação"<br />

em foco é a dos trabalhadores manuais,<br />

que seriam objeto de injustiças onímodas e<br />

opressivas praticadas contra eles pelas classes<br />

dominantes.<br />

Recentemente, vários documentos de João<br />

Paulo II e uma importante Instrução da Congregação<br />

para a Doutrina da Fé, assinada pelo<br />

respectivo Prefeito, Cardeal Joseph Ratzinger,<br />

condenaram diversos erros que lavram em<br />

círculos de adeptos da Teologia da Libertação.<br />

E a mesma Congregação sujeitou uma das figuras<br />

brasileiras exponenciais dessa corrente,<br />

Frei Leonardo Boff, a um "período de obsequioso<br />

silêncio", em razão de erros eclesiológicos<br />

contidos em seu livro Igreja, Carisma e<br />

Poder (cfr. Cap. I, Nota 5).<br />

Para dar um idéia da efervescência em que<br />

se achava o ambiente religioso brasileiro quando<br />

dessas medidas, basta notar a reação, sem<br />

precedentes em 400 anos de existência do País,<br />

de cerca de 20 Srs. Bispos que se declararam<br />

publicamente "inconformes" com a decisão de<br />

Roma. Em face do que, a CNBB, em cujo papel<br />

estaria normalmente uma tomada de posição<br />

calorosa e automática, de "inconformidade"<br />

com os Srs. Bispos "inconformes", se<br />

tenha limitado a lançar sobre o caso um documento<br />

modelarmente hesitante e ambíguo.<br />

Nenhuma dessas dificuldades parece ter<br />

despertado a atenção do PNRA, o qual, navegando<br />

no éter da utopia, vai empilhando<br />

uma sobre as outras as soluções irreais, porque<br />

seu vezo de sonhar o afasta da consideração<br />

da realidade.<br />

E, em razão dessa inadvertência, a crise<br />

teológico-filosófica se emaranhará desde logo<br />

com a crise sócio-econômica (cfr. Parte I, Cap.<br />

1, 5).<br />

91


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

TEXTO DO PNRA<br />

272. - a orientação metodológica deverá ser no sentido<br />

de se utilizar como ponto de partida os sistemas de produção<br />

em uso, evitando-se as proposições apriorfsticas dos<br />

pacotes tecnológicos que tem caracterizado a ação dos<br />

agentes de pesquisa e extensão no Brasil;<br />

COMENTÁRIO<br />

Lamenta o PNRA que os ''pacotes tecnológicos"<br />

recheados de ''proposições apriorísticas",<br />

tenham ''caracterizado a ação dos agentes<br />

de pesquisa e extensão no Brasil".<br />

Quem, no decurso da leitura do PNRA, esbarra<br />

com esta acusação genérica, a qual<br />

abrange todos ''os agentes de pesquisa e extensão",<br />

é tentado a se perguntar se o PNRA<br />

não é, ele próprio, muito mais do que um grande,<br />

um imenso ''pacote tecnológico"; e qual o<br />

meio que tem o PNRA para inculcar nos seus<br />

técnicos a ''orientação metodológica" isenta de<br />

deformação, cuja carência aponta nos ditos<br />

"agentes" o mesmo PNRA.<br />

O presente tópico mostra quanto é difícil<br />

organizar qualquer coisa a partir da iniciativa<br />

oficial, no Brasil contemporâneo. Mas o<br />

PNRA não se detém com tão pouco. Ele preconiza<br />

uma nova "orientação metodológica",<br />

a ser instilada no espírito de seus próprios técnicos,<br />

e, sem se preocupar com o aumento de<br />

burocracia nem com os gastos que tudo isso<br />

importa, prossegue resolutamente para outros<br />

temas.<br />

TEXTO DO PNRA<br />

273. - a formulação de um projeto especial de "Produção<br />

Animal e <strong>Reforma</strong> Agrdria" (JNCRA/EMBRA­<br />

PA) visando propiciar fundamentação tecnológica para a pesquisa<br />

da produção animal atráves do co,ifinamento, produção<br />

animal de pequeno porte, etc.<br />

274. - o entendimento especial com a EMBRAPA e as<br />

instituições de pesquisa dos Estados e Municípios deverá ser<br />

articulado com vista à geração adequada de tecnologia e desenvolvimento<br />

de sistemas de produção especialmente dirigidos<br />

para o pequeno produtor e suas associações e formas grupais<br />

de exploração agropecuária.<br />

COMENTÁRIO<br />

Bem se vê que o PNRA sonha para si mesmo<br />

e para sua imensa maquinária, com desdobramentos<br />

insuspeitáveis.<br />

T1íu/o I<br />

No presente texto ele anuncia a necessidade<br />

de outro ''projeto" conexo com ele. É o<br />

''projeto especial de 'Produção Animal e <strong>Reforma</strong><br />

Agrária' aNCRA/EMBRAPA)". Tal<br />

acarretará, como é bem de ver, novos desenvolvimentos<br />

burocráticos.<br />

TEXTO DO PNRA<br />

d) Assistência Técnico-Educacional e Difusão de<br />

Tecnologia<br />

275. - a base da ação da Assistência Técnico-Educacional<br />

e Difusão de Tecnologia (ATEDT) se constituirá na mobilização<br />

das comunídades de <strong>Reforma</strong> Agrária, procurando adequar<br />

sua intervenção às diversas situações onde o processo<br />

ocorrer;<br />

276. - o sistema ATEDT não deverá interferir na autonomia<br />

dos grupos comunitários. Ao exercer seu papel, procurará<br />

dotar essas organizações de instrumelllos que lhes permitam<br />

ampliar sua capacidade reivindicatória, tais como:<br />

277. • divulgação, discussão e análise do PNRA e seus<br />

derivativos;<br />

278. • discussão e indicação em conjunto com as equipes<br />

de pesquisa, das alternativas de produção agrícola;<br />

279. • i,iformações sobre as políticas agrícolas relacionadas<br />

com a <strong>Reforma</strong> Agrária;<br />

280. • i,iformações sobre os serviços públicos possíveis<br />

de serem apropriados pelas comunidades;<br />

281. - na fase inicial do processo de organização dos Assentamentos,<br />

a ATEDT deverá centrar seus esforços no sentido<br />

de discutir com a comunidade a necessidade de satisfazer<br />

de imediato a subsistência das famílias, a partir dos alimentos<br />

passíveis de serem produzidos dentro da própria unidade<br />

de exploração, seja ela individual ou cooperativa.<br />

282. - à medida que o processo de <strong>Reforma</strong> Agrária for<br />

se consolidando, e que i,iformações técnicas mais concretas sejam<br />

obtidas, tornar-se-á possível a definição de tecnologias<br />

apropriadas para cada grupo social, caminhando a orientação<br />

para explorações agropecuárias de maior expressão comercial.<br />

COMENTÁRIO<br />

Novos planos, novas extensões de máquinas<br />

burocráticas etc. etc.<br />

TEXTO DO PNRA<br />

e) Educação<br />

283. - deverá ser promovida articulação direta com as<br />

instituições responsáveis pela formulação da política educacional<br />

para a zona rural tendo em vista adequá-la à dimensão<br />

sócio-cultural dos trabalhadores rurais e aos objetivos da <strong>Reforma</strong><br />

Agrária;<br />

284. - a política educacional para as áreas de <strong>Reforma</strong><br />

Agrária deverá formular propostas, desenvolver novos métodos,<br />

alocar e distribuir espacialmente os recursos, reorganizar<br />

e/ou constituir instituições que criem conhecimento novo, resgatem<br />

e aperfeiçoem o saber popular, democratizem os instrumentos<br />

de produção cultural, de modo a fortalecer a consciência<br />

dos trabalhadores rurais, a compreensão da realidade, a<br />

sua capacidade de intervenção na produção, na organização<br />

social e nos processos políticos;<br />

92


Considerações doutrinárias<br />

Parte li, Seção F<br />

285. - o processo educacional deverá abranger Educação<br />

Escolar, Alfabetização de Adultos e Formação Profissional;<br />

286. - a educação escolar não envolverá somente a adequação<br />

de conteúdo, mas também métodos educacionais, construção<br />

de unidades escolares acessíveis e aparelhadas, com processos<br />

profissionalizados e identificados com a problemática e<br />

características culturais da população;<br />

287. - as ações na área de alfabetização de adultos serão<br />

desenvolvidas de forma integrada com o MOBRAL, que será<br />

mobilizado para desenvolver ações bem definidas em termos didáticos<br />

pedagógicos e com um conteúdo diretamente relacionado<br />

à participação no processo de <strong>Reforma</strong> Agrária;<br />

288. - a Formação Profissional deverá ser conduzida pelo<br />

Serviço Social de Aprendizagem Rural (SENAR), que<br />

deverá ser mobilizado no sentido de buscar, em conjunto com<br />

a comunidade, soluções técnicas comuns à gestão comunitária<br />

e à cooperação no trabalho.<br />

COMENTÁRIO<br />

O PNRA e os órgãos por ele referidos ficam<br />

incumbidos de funções educativas tão amplas,<br />

que -se transformam em verdadeiros mecanismos<br />

de propaganda intelectual e da modelagem<br />

de mentalidades ( cfr. Comentários aos<br />

tópicos n? 5 122 a 124). O que coloca, a mais<br />

um título, os partidos políticos e as correntes<br />

ideológicas em proporções insignificantes face<br />

à ação ideológica do Estado: isto representa o<br />

revés do caráter democrático que o PNRA tão<br />

insistentemente alardeia como característica<br />

própria.<br />

O sentido comunitário e a propensão para<br />

a "gestão comunitária", do "Serviço Social de<br />

Aprendiuzgem Rural", deixam ver mais uma vez<br />

o sentido autogestionário do PNRA.<br />

TEXTO DO PNRA<br />

6.2 - A <strong>Reforma</strong> Agrária e o GETAT<br />

289. Criado em 1980 em caráter provisório, sob o argumento<br />

de agilizar a regularização fundiária e eliminar a tensão social<br />

decorrente da disputa pela terra no sudeste do Pará, oeste do<br />

Maranhão e norte de Goiás, o GETAT, teve suas atribuições e<br />

competências ampliadas em dimensão tal que, se por um lado,<br />

acabou por ser responsável por um conjunto de ações francamente<br />

superpostas ao poder local, do mesmo modo terminou<br />

por encarnar condições tão especiais que problematizam a unidade<br />

e coordenação do processo de <strong>Reforma</strong> Agrária que tem<br />

no MIRAD o organismo normatizador e no INCRA o principal<br />

executor direto.<br />

290. Desse modo, por se reconhecer o caráter particularmente<br />

tenso da região hoje sob a jurisdição do GETAT, o que<br />

determina que e5sa área tenha tratamento especial no processo<br />

da <strong>Reforma</strong>, faz-se necessário a rápida redefinição dos mecanismos<br />

e instrumentos de intervenção na região, de forma a<br />

torná-los não só compatíveis com o novo quadro sócio-político<br />

do País, como também, capazes de, através de uma ação inte-<br />

rinstitucional, promoverem, efetivamente, uma ampla revisão da<br />

posse e uso da terra na área.<br />

291. Assim, sob a perspectiva do PNRA é básico agilizar<br />

as medidas necessárias a que as atuais atribuições do Grupo possam<br />

ser progressivamente assumidas pelos órgãos permanentes<br />

responsáveis pela implementação da <strong>Reforma</strong> Agrária bem como,<br />

no que couber, pelos próprios Governos Estaduais e<br />

Municipais.<br />

6.3 - <strong>Reforma</strong> Agrária e Programas Especiais<br />

292. Para que as ações dos Programas Especiais atualmente<br />

existentes fortaleçam a <strong>Reforma</strong> Agrária torna-se necessária a<br />

sua compatibilização e adequação à estratégia de ação e às diretrizes<br />

do PNRA.<br />

293. Nesse sentido, recomenda-se que os Programas:<br />

294. • selecionem áreas de intervenção para a <strong>Reforma</strong><br />

Agrária em consonância com aquelas a serem estabelecidas pelo<br />

MIRADIINCRA;<br />

295. • viabilizem, nos seus orçamentos, a vinculação de recursos<br />

para a reorganização fundiária proporcionais à incidência<br />

de trabalhadores rurais sem terra ou com terra insuficiente<br />

nas suas áreas de abrangência;<br />

296. • condicionem a implantação de novas obras de irrfraestrutura<br />

ao prévio equacionamento da questão fundiária;<br />

297. • estabeleçam políticas de desenvolvimento rural integrado<br />

para as áreas de assentamento; .<br />

298. • estabeleçam, desde a fase de projeto, o lançamento<br />

e arrecadação da Contribuição de Melhoria, a ser regulamentada<br />

por legislação apropriada;<br />

299. • procurem dar preferência, nos projetos de barragens,<br />

e implantação dos assentamentos na própria região afetada pela<br />

obra, de forma a evitar ou minimizar as conseqüências do<br />

rompimento dos laços sociais, culturais, ambientais e as unidades<br />

de vizinhança dos trabalhadores rurais atingidos;<br />

300. • reoriente, em conjunto com o Instituto do Açúcar<br />

e do Álcool (IAA) os recursos do Fundo de Assistência Social<br />

(Estatuto da Lavoura Canavieira) para um apoio efetivo aos trabalhadores<br />

rurais, inclusive para investimentos em seus sítios;<br />

301. • estabeleçam praZo de cinco anos para as indústrias<br />

sucro-alcooleiras existentes se enquadrarem nos dispositivos do<br />

Estatuto da Lavoura Canavieira e da Lei Federal 4.870, de 1965,<br />

que exige a participação de 60% no fornecimento de cana-deaçúcar<br />

produzida por agricultores não ligados à pessoas físicas<br />

ou Jurídicas proprietárias da indústria. Desses 60%, pelo menos,<br />

20% devem pertencer a pequenos produtores que trabalhem<br />

diretamente a terra com a força de trabalho familiar;<br />

302. - as áreas de latifúndios por exploração de cana-de-açúcar,<br />

consideradas como prioritárias para fins de <strong>Reforma</strong> Agrária<br />

e reassentamento dos trabalhadores rurais, deverá ser de, no<br />

mínimo, dois módulos rurais por família. A área máxima a ser<br />

permitida para plantio de cana-de-açúcar será de, no máximo,<br />

50% dessa área por unidade familiar, não ultrapassando entretanto<br />

50 ha, ficando assim assegurado, ao restante da área o plantio<br />

de outras culturas não destinadas à produção sucro-alcooleira.<br />

6.4 - <strong>Reforma</strong> Agrária e Incentivos Fiscais<br />

303. Com base em dados e cadastros elaborados por inúmeras<br />

instituições observa-se que os projetos oriundos dos<br />

Incentivos Fiscais adquiriram predominantemente caráter<br />

anti-social, caracterizando-se como política de prioridade<br />

às grandes e médias empresas agropecuárias.<br />

304. Para que a polltica de incentivos fiscais se coadune<br />

com as propostas do PNRA, será necessário o reconhecimento<br />

e a superação das suas atuais distorções, não apenas para se otimizar<br />

os recursos dispendidos como, também, para orientar<br />

essas medidas governamentais no sentido da <strong>Reforma</strong><br />

Agrária.<br />

93


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

305. Sob este prisma, sugere-se as seguintes medidas:<br />

306. - realizar o levantamento dos projetos agropecuários,<br />

agroindustriais e de colonização inadimplentes, para que, nestes<br />

casos, os imóveis rurais envolvidos sejam tornados áreas de<br />

intervenção para a <strong>Reforma</strong> Agrária,·<br />

307. - ação junto aos Ministérios da Fazenda, do Planejamento<br />

(SEPLANJ, do Interior (MINTERJ e da Agricultura<br />

no sentido de assegurar, caso seja mantida a política de incentivos<br />

f,scais, que:<br />

308. • as áreas definidas como de intervenção para fins de<br />

<strong>Reforma</strong> Agrária não deverão ser objeto de investimentos oriundos<br />

de incentivo fiscal;<br />

309. • os imóveis classificados como latifúndios por exploração<br />

ou por dimensão, estejam ou não incluídos em áreas de<br />

intervenção para a <strong>Reforma</strong> Agrária, não possam ser beneficiados<br />

por incentivos;<br />

310. • os recursos alocados nessas áreas sejam transferidos<br />

para o PNRA.<br />

COMENTÁRIO<br />

Projetos, projetos e mais projetos. Em conseqüência,<br />

burocracia, burocracia e mais burocracia.<br />

Este é o fruto do obstinado sentido <strong>socialista</strong><br />

que se fez notar entre nós já no período<br />

Jango, cresceu sensivelmente no período subseqüente<br />

e, na fase da abertura política, favoreceu<br />

a eclosão de tendências macro-dirigistas<br />

como as do PNRA.<br />

Referem-se agora estes últimos tópicos (n? 5<br />

303 ss.) às desventuras dos "projetos oriundos<br />

dos Incentivos Fiscais": eles "adquiriram predominantemente<br />

caráter anti-social caracterizando-se<br />

[sic: um caráter que caracteriza!] como<br />

política" etc.<br />

Para obviar o mal, e ''otimizar os recursos<br />

dispendidos", o PNRA, sempre inventivo, ''sugere"<br />

logo em seguida várias medidas. É só lêlas<br />

para aquilatar todo o dispêndio em que<br />

importam.<br />

A sucessão de desastres produzidos pela<br />

mentalidade <strong>socialista</strong> é bem esta: uma necessidade<br />

por vezes real, freqüentemente exagerada,<br />

e em certos casos até simplesmente sonhada,<br />

leva um grupo de pensadores de esquerda<br />

ou de sonhadores, de ativistas ou de inocentesúteis,<br />

a preconizar uma interferência estatal.<br />

Esta é decidida e efetuada. Por sua vez, dela se<br />

originam as burocracias. E não tardam a aparecer<br />

os nós górdios dos burocratismos. Em conseqüência,<br />

aparece a necessidade de mais planos,<br />

mais repartições públicas, e maiores des-<br />

Thulo l<br />

pesas. E assim por diante, num verdadeiro círculo<br />

vicioso.<br />

Algum governante ou legislador de espírito<br />

simplista pode imaginar que para o País<br />

desentalar-se desse círculo, a solução estaria em<br />

algumas medidas drásticas que cortassem esse<br />

nó. Mas, na realidade, isso não basta: é necessário<br />

um repúdio vigoroso do socialismo, próprio<br />

a levar a Nação a sair por inteiro das traiçoeiras<br />

e resvaladias vias deste.<br />

TEXTO DO PNRA<br />

6.5 - <strong>Reforma</strong> Agrária e terras indlgenas<br />

3ll. As terras indígenas já identificadas abrangem aproximadamente<br />

67 milhões de hectares, o que constitui parcela<br />

bastante significativa do estoque de terras públicas e corresponde<br />

a cerca de 7,8% da superfície territorial do Pais.<br />

312. Estas áreas, de posse imemorial dos indígenas, estão<br />

sendo freqüentemente ameaçadas por não índios, acarretando<br />

graves conflitos e tensões sociais, além da ameaça à preservação<br />

e sobrevivência das comunidades indígenas, que tem<br />

como uma de suas conseqüências imediatas a expulsão do ,.,,_<br />

dio e a sua marginalização nas periferias dos centros urbanos.<br />

313. A estagnação progressiva no ritmo das delimitações<br />

e homologações carocterizando uma permanente ausência derespostas<br />

institucionais do GT-Interministerial do Decreto 88.JJB/83,<br />

tornou-se um estímulo ao agrovamento de relações interétnicas,<br />

nas regiões onde existem casos pendentes, e um incentivo à adoção<br />

deformas mais radicais de luta por parte dos índios.<br />

314. As terras indígenas, patrim8nio histórico, físico<br />

e cultural invioldvel. devem ser protegidas e defendidas<br />

por toda a sociedade. A garantia de seu uso pleno pelos indígenas<br />

é fundamental para evitar-se que, por meio de sucessivas<br />

invasões e apossamentos ilegítimos, se procure desestabilizar o<br />

processo de reestruturoção fundiária do PNRA.<br />

315. Assim, por sua interligação e apoio ao PNRA, devem<br />

ser tomadas as seguintes providências:<br />

a) Medidas de Urgência<br />

316. • acelerar o processo de demarcação de todas as áreas<br />

indígenas, mesmo que, numa primeiro etapa emergencial, se<br />

constitua apenas na f ,xação de limites paro assegurar a delimitação<br />

inicial,·<br />

317. • promover levantamento fundiário nas áreas de conflito<br />

pela terra, apresentando soluções articuladas com outras<br />

medidas previstas no PNRA,·<br />

b) Medidas de Médio Praio<br />

318. • controlar e impedir invasões de territórios indígenas<br />

promovendo os seguintes levantamentos:<br />

319. • das glebas de projetos fundiários do INCRA que incidem<br />

total ou parcialmente em reservas de índios;<br />

320. • dos imóveis rurois, que, para pagamento do Imposto<br />

Territorial Rural, se autodec/aram como situados dentro de<br />

terras indígenas,·<br />

321. • dos loteamentos de órgãos fundiários estaduais e projetos<br />

de colonização particular que coflfinam ou incidem em<br />

áreas indígenas,·<br />

322. • acionar instrumentos penalizadores para os casos<br />

de comprovada invasão e apossamento ilegítimo.<br />

94


Considerações doutrinárias<br />

c) Medidas Decorrentes<br />

323. • redefinir o sistema de cadastramento e adotar outros<br />

critérios para o preenchimento de informações acerca dos<br />

im6veis rurais;<br />

324. • estabelecer níveis de integração com o Cadastro do<br />

INCRA pela montagem de um projeto intitulado "Cadastramento<br />

de im6veis rurais confinantes e incidentes com áreas<br />

indígenas•:·<br />

325. • cancelar o registro em cadastro de im6veis rurais que<br />

incidirem nestas áreas indígenas;<br />

326. • estabelecer mecanismos de vigilância e controle permanente<br />

dos im6veis confinantes, visando delinear uma larga<br />

ação preventiva face aos conflitos de terra ef reqüentes invasões;<br />

327. •unificaras bases cartográficas em que forem plotadas<br />

as áreas indígenas visando, igualmente, agilizar as formas<br />

de apoio às decisões relativas ao processo técnico administrativo<br />

e político de demarcação dessas áreas.<br />

COMENTÁRIO<br />

Os presentes tópicos (n?s 311 a 327) confirmam<br />

quanto já antes foi dito acerca do radicalismo<br />

do PNRA (cfr. Comentário ao n? 36), na<br />

defesa dos direitos dos indígenas sobre os "67<br />

milhões de hectares" que ocupam, e que representam<br />

"7,8 % da superfície territorial do País"<br />

(n? 311). Imenso latifúndio, portanto, que o<br />

PNRA quer usado só pelos índios.<br />

Cabe apenas lembrar de passagem que, sem<br />

recusar aos silvícolas a simpatia a que fazem<br />

jus, nem lhes contestar os direitos que têm sobre<br />

as porções de terra necessárias para que conservem<br />

um justo teor de existência, bem como<br />

o de se civilizarem, seria indispensável indagar<br />

se as terras que ocupam estão na proporção de<br />

sua população. Pois é muito discutível - pelo<br />

menos - o direito deles sobre terras que não<br />

usam, ou que aproveitam só para as estéreis itinerâncias<br />

do nomadismo.<br />

Entretanto o PNRA silencia sobre isso. Tumbém<br />

silencia ele sobre as formas de aproveitamento<br />

do solo, em uso entre eles. Questão entretanto<br />

indispensável para apurar até que ponto<br />

os direitos dos índios nesta matéria são ou podem<br />

vir a ser acompanhados do exercício da<br />

função social respectiva.<br />

O PNRA reserva para o uso dos índios que<br />

vivem em regime tribal, em estado de nomadismo,<br />

ou então em estado sedentário, com a prática<br />

muito rudimentar de mera agricultura de<br />

manutenção própria, nada menos que "67 milhões<br />

de hectares" (n? 311).<br />

Ora, tomando em consideração que as esti-<br />

Parte li, Seção F<br />

mativas sobre essa população indígena variam<br />

entre 187 mil (CEDI, 1984) e 220 mil (FUNAI),<br />

ou mesmo 227 mil (CIMI, 1980), em todo o território<br />

brasileiro, daí se segue que a proporção<br />

entre homem e terra, para esses privilegiados<br />

do PNRA, é de cerca de 300 hectares (três quilômetros<br />

quadrados) por índio.<br />

Que vantagens traz esse privilégio para o<br />

bem comum do País? Com que critério foi estabelecido,<br />

em favor dos índios, tão enorme privilégio?<br />

Levando a pergunta mais a fundo, como<br />

coadunar o "privilegiamento" (terminologia<br />

gênero PNRA) de tais índios, com o agroigualitarismo<br />

radical e intransigente do PNRA?<br />

Visa este reformar toda a estrutura rural brasileira,<br />

à custa de gastos desconcertantemente<br />

vultosos, para impor ao ager, em nome da justiça,<br />

um regime radicalmente igualitário. Mas,<br />

ao mesmo tempo, conserva incólumes esses índios<br />

no fundo de seus intocáveis "santuários"<br />

ecológicos, e no gozo irrestrito de seu enorme<br />

privilégio. Por quê? Haverá para tanto explicações<br />

técnicas?<br />

Em caso afirmativo, cumpre que as enuncie<br />

o Ministério da <strong>Reforma</strong> e do Desenvolvimento<br />

Agrário. Com urgência, de maneira a ainda<br />

poderem ser discutidas, no presente debate<br />

público. Pois, se tais dados existem, não são do<br />

domínio do "homem da rua", do cidadão-tipo,<br />

o qual assim fica impedido de opinar sobre ponto<br />

de tanto interesse.<br />

O PNRA parece pleitear uma defesa absoluta<br />

desse imenso latifúndio em benefício dos<br />

índios, alegando uma ''posse imemorial" (n?<br />

312). Em seguida, refere ele as invasões ou ameaças<br />

de invasão freqüentes, dos não-índios, nas<br />

terras possuídas por silvícolas, com 'xraves conflitos<br />

e tensões sociais" daí decorrentes (n? 312).<br />

O zelo do PNRA pelos direitos dos indígenas<br />

ao seu latifúndio, bem como pela defesa<br />

deste contra as invasões que sofrem, prenhes de<br />

reais inconvenientes psicológicos e sociais, lembra,<br />

por singular contraste, a indolência - para<br />

não dizer a simpatia - do PNRA em favor<br />

das invasões desfechadas por aventureiros e<br />

agentes da subversão, nas terras cultivadas pertencentes<br />

a proprietários civilizados.<br />

95


A propriedade privada e a livre iniciativa, no t,efão agro-reformista<br />

Tlíulol<br />

As ''terras indígenas" são qualificadas pelo<br />

PNRA como ''patrimônio hist6rico, físico e<br />

cultural inviolável". Pelo que, sempre segundo<br />

o PNRA, essas terras "devem ser protegidas e<br />

defendidas por toda a sociedade" (n? 314).<br />

Pelo contrário, ad mentem do PNRA, as terras<br />

de proprietários civilizados podem ser arrancadas<br />

a estes por um confisco esbulhador.<br />

E qualquer invasão que nelas se faça justifica<br />

que a terra seja considerada ''área de conflito"<br />

ou ''área de tensão" e fique assim automaticamente<br />

exposta à expropriação confiscatória ( cfr.<br />

tópicos 72 e 83).<br />

Bem entendido, o PNRA não fala de expropriação<br />

do Poder público no que ele mesmo<br />

qualifica de "santuário" indígena (n? 36). Expropriação<br />

é medida punitiva, só aplicável a descendentes<br />

de povos civilizados.<br />

Por que, assim, dois pesos e duas medidas?<br />

TEXTO DO PNRA<br />

6.6 - <strong>Reforma</strong> Agrária e os Governos Estaduais<br />

328. A experiência recente do relacionamento entre o Governo<br />

Federal e os Governos Estaduais tem se caracterizado pelo<br />

estimulo, apoio e financiamento a projetos de regularização<br />

fundiária, sem explorar, concretamente. o potencial existente nos<br />

Estados, através dos seus Institutos de Terra, para executar projeto<br />

de assentamento de agricultores, dentro dos objetivos de<br />

um Programa de <strong>Reforma</strong> Agrária.<br />

329. Mesmo as ações de regularização fundiária, realizadas<br />

pelos Estados, foram direcionadas para a titulação pela titulação,<br />

ou seja, elegendo-se o tftulo como objetivo central do<br />

processo, sem se observar a possibilidade existente, dentro da<br />

esfera de competência dos próprios Estados, de se realizar um<br />

exame mais acurado da legitimidade dos tftulos de domfnio, noladamente<br />

dos médios e grandes imóveis.<br />

330. Na execução da <strong>Reforma</strong> Agrária, os Estados serão<br />

estimulados e convidados a participar da execução, em todas<br />

as suas fases, além naturalmente daquilo que é de competência<br />

dos Estados, como é o caso da discriminação das terras devolutas<br />

estaduais. Em casos espec(ficos, mediante convênio, o IN­<br />

CRA poderá se responsabilizar diretamente pela discriminação,<br />

até que o Estado assuma integralmente a tarefa que lhe compete.<br />

331. Em outros casos e mediante convênio, a execução de<br />

projetos de assentamento poderá ser delegada aos Estados que<br />

estejam estruturados para tal tarefa e se disponham a seguir as<br />

diretrizes do Plano Nacional de <strong>Reforma</strong> Agrária.<br />

332. Além dessas possibilidades de relacionamento na execução<br />

da <strong>Reforma</strong> Agrária entre os Governos Federal e Estaduais,<br />

combinações intermediárias e outras tarefas poderão ser<br />

delegadas, reciprocamente. dentro das condições especiais de cada<br />

Estado.<br />

333. As ações de apoio à produção e à organização serão<br />

da responsabilidade dos Governos Estaduais, no que se refere<br />

à provisão de serviços de assistência técnico-educacional, dif u­<br />

são de tecnologia e outros serviços, cuja execução já seja descentralizada.<br />

Nos demais casos, adotar-se-á o mesmo princ(pio<br />

levando-se em conta as situações espec(ficas de cada Estado.<br />

334. O princ(pio geral da descentralização é que o Estado<br />

se comprometa a seguir as diretrizes e orientações do Plano Nacional<br />

de <strong>Reforma</strong> Agrária e contemple, na ação dos seus organismos<br />

executores, o critério da participação dos beneficiários<br />

da <strong>Reforma</strong>.<br />

COMENTÁRIO<br />

A extensão destes comentários obriga a passar<br />

por alto os tópicos 328 a 334, os quais se<br />

relacionam menos diretamente com as preocupações<br />

que norteiam a presente análise.<br />

Entretanto, convém ressaltar que o autoritarismo<br />

do PNRA o leva a propor aqui várias<br />

medidas, das quais o mínimo que se pode dizer<br />

é que não deixam ilesa a autonomia dos Estados,<br />

valioso progresso já objetivado por importantes<br />

estadistas do Império, e· alcançado por<br />

fim pela Constituinte de 1891.<br />

A forma federativa do Estado brasileiro<br />

constitui condição essencial da unidade<br />

nacional.<br />

96


Secção G<br />

Abalado o Estado de direito: pressões sobre<br />

todas as instâncias e órgãos do<br />

Poder público, especialmente o Poder judiciário,<br />

para fazer prevalecer o<br />

estranho conceito de ''justa indenização"<br />

nas expropriações do PNRA<br />

TEXTO DO PNRA<br />

7 - AÇÕES IMEDIATAS (1985/1986)<br />

335. A gravidade e extensão dos corif/itos de terra em todas<br />

as regiões do País, o volume de excedentes populacionais<br />

em certas áreas da região Sul e Nordeste, bem como as distorções<br />

de políticas agrárias passadas, impõem que se estabeleçam<br />

medidas de curto prazo que apresentem resposta imediata a antigas<br />

reivindicações sociais.<br />

336. Essas medidas de curto prazo não constituem ações<br />

isoladas e, se procuram atender às exigências imediatas do presente,<br />

encontram-se vinculadas à visão de médio e longo prazos<br />

contida no Plano Nacional de <strong>Reforma</strong> Agrária.<br />

337. Da mesma forma. essas indicações não refletem<br />

vontades parciais e não representam fruto de um trabalho<br />

isolado de técnicos não identificados com a realidade<br />

rural mas traduzem reivindicações extrafdas da realidade<br />

social e econ6mica do campo. Tem, ademais, o consenso<br />

dos trabalhadores rurais, de suas organizações e dos movimentos<br />

sociais que os representam.<br />

COMENTÁRIO<br />

As "indicações" ( entenda-se: as "ações imediatas"<br />

preconizadas pelo PNRA para o biênio<br />

1985/1986) "não refletem vontades parciais":<br />

que vontades refletem elas então?<br />

Essas mesmas "indicações", assevera o<br />

PNRA, "não representam fruto de um trabalho<br />

isolado de técnicos não identificados com<br />

a realidade rural". - A tomar a frase em seu<br />

sentido natural, dir-se-ia então que elas representam<br />

o fruto de um trabalho isolado ou coletivo<br />

de técnicos identificados com a realidade<br />

rural.<br />

Algumas perguntas se impõem: É bem isso?<br />

Quem são esses técnicos? Quais os seus títulos?<br />

Qual sua. experiência da "realidade<br />

rural"?<br />

Assevera em seguida o PNRA que essas "indicações"<br />

exprimem "reivindi~ações extraídas<br />

da realidade social e econômica do campo". -<br />

Como, quando e onde esses técnicos não mencionados<br />

se entregaram à "extração" de tais reivindicações?<br />

A que agricultores, a que trabalhadores<br />

manuais ouviram?<br />

Afirma por fim o PNRA que as ditas indicações<br />

"têm, ademais, o consenso dos trabalhadores<br />

rurais, de suas organizações e dos movimentos<br />

sociais que os representam". - Tumbém<br />

aqui é forçoso perguntar: por que só o consenso<br />

dos trabalhadores rurais? De que maneira,<br />

quando e onde foram eles ouvidos? Foram<br />

consultados também os proprietários? Em caso<br />

afirmativo, por que omiti-los aqui? Em caso<br />

negativo, o PNRA se tem em conta de mero<br />

instrumento da luta de classes dos trabalhadores<br />

contra os patrões?<br />

Análogas perguntas poderiam ser feitas<br />

quanto às "organizações e movimentos sociais"<br />

97


A propriedade privada e a livre iniciativa, no t,efão agro-reformista<br />

Título 1<br />

que representam "os trabalhadores rurais".<br />

Por que não publicam os organizadores do<br />

PNRA todos os dados assim colhidos, para que<br />

os conheça a Nação, e alcance a devida densidade<br />

o debate nacional que o PNRA afirma desejar<br />

a esse respeito?<br />

TEXTO DO PNRA<br />

7 .1 - Medidas imediatas direcionadas à resolução dos conflitos<br />

sociais<br />

338. Segundo estimativas feitas pela CONTAG, ABRA e<br />

CPT em 1984, foram registradas 950 áreas declaradas e conhecidas<br />

de conflitos agrários distribu(das por todos os Estados,<br />

envolvendo 120 mil famílias de trabalhadores ou mais 'de<br />

meio milhão de pessoas.<br />

COMENTÁRIO<br />

O tópico exprime bem a enorme importância<br />

dos "conflitos agrários distribuídos por todos<br />

os Estados", para a deflagração da <strong>Reforma</strong><br />

Agrária (sobre a idoneidade das fontes aqui<br />

mencionadas pelo PNRA - CONTAG, ABRA<br />

e CPT - cfr. Comentário ao n?s 13 e 14).<br />

As autoridades agro-reformistas ficam desta<br />

f~r~~ dispensadas de provar ante o Poder judiciário,<br />

em cada caso concreto, a existência das<br />

condições que autorizam a desapropriação agrária<br />

confiscatória.<br />

O juiz da existência dessas condições não<br />

será um magistrado culto, sereno e imparcial.<br />

Será (e já o pode ser em virtude do Estatuto da<br />

Terra) qualquer magote de agitadores de sacristia<br />

ou de ativistas de esquerda. Agitadores e ativistas<br />

apaixonados, uniláterais por definição, e<br />

totalmente carentes de cultura jurídica. Pois, como<br />

foi visto (cfr. Comentário ao n? 83), bastará<br />

que esse magote faça alguma agitação, para<br />

que automaticamente se abra a jaula de dentro<br />

da qual pode saltar sobre o proprietário a onça<br />

do confisco.<br />

Pior justiça não poder haver ...<br />

TEXTO DO PNRA<br />

339. Pretende-se que essas principais dreas de co,lflitos<br />

se tornem o ponto de partida para a expansiio do processo<br />

de <strong>Reforma</strong> Agrária em suas respectivas regiões.<br />

~40. ~ra que isso se efetive, serão adotadas as seguintes<br />

prov1dênc1as:<br />

341. - análise dos levantamentos de co,lflitos de terra fei-<br />

tos por diferentes entidades, procurando uniformizar o sistema<br />

de coleta e tabulação dos dados;<br />

342. - seleção e hierarquização das áreas de ação;<br />

343. - determinação das medidas necessárias ao equacionamento<br />

dos problemas, incluindo:<br />

344. • a desapropriação por interesse social da área objeto<br />

de litígio;<br />

345. • a organização do assentamento e quantificação de<br />

possíveis excedentes;<br />

346. • a seleção de novas áreas visando a desapropriação<br />

e incorporação ao processo de reforma.<br />

347. Serão considerados núcleos prioritários aqueles de<br />

maior expressividade em termos de extensão de área e número<br />

de faml1ias envolvidas, e que tenham nas proximidades latif úndios<br />

que possam ser desapropriados para o assentamento de novas<br />

famílias e reassentamento daquelas que possuem áreas<br />

insu/icierrtes.<br />

COMENTÁRIO<br />

A par da expropriação de certas áreas em<br />

virtude de conflitos e tensões verificados dentro<br />

delas, o PNRA pretende valer-se dos mesmos<br />

conflitos e tensões para "a expansão do<br />

processo de <strong>Reforma</strong> Agrária em suas respectivas<br />

regiões".<br />

A redação do tópico 339 é um tanto confusa,<br />

mas o contexto deixa bem claro: a partir das<br />

áreas de conflitos "pretende-se" estender a <strong>Reforma</strong><br />

Agrária para as áreas circunvizinhas, ainda<br />

que não "conflitadas" nem "tensionadas"<br />

e assim, progressivamente, por contigüidade, implantar<br />

o agro-igualitarismo em todo o território<br />

brasileiro (excetuando-se, já se viu, os "santuários"<br />

indígenas ... e a quase totalidade de outro<br />

território.!'santuário", que é a imensidão das<br />

terras devolutas - e nem sequer ainda cadastradas,<br />

cfr. PNRA n?s 191, 192 e 208 - em mãos<br />

do Poder público ...). E isto sob o rótulo (título<br />

7.1) de "Medidas imediatas direcionadas à resolução<br />

dos conflitos sociais"!<br />

• • •<br />

O PNRA prevê nos tópicos 340 a 346 mais<br />

trabalhos e mais gastos, os quais divide em três<br />

grupos, sendo que o terceiro deles se subdivide<br />

por sua vez em três tipos de providências.<br />

Procede com evidente esbanjamento de tempo,<br />

de trabalho e de recursos, esse plano de luxo.<br />

98


Considerações doutrinárias<br />

Parte II, Seção G<br />

TEXTO DO PNRA<br />

7 .2 - Medidas imediatas de apoio ao Programa de Assentamento<br />

dos Trabalhadores Rurais<br />

348. - Desapropriação imediata das áreas cujos processos<br />

já estejam concluídos.<br />

349. - Suspensão imediata dos processos de licitação de<br />

terras arrecadadas pelo INCRA, com vistas à sua utilização para<br />

assentamento de trabalhadores.<br />

350. - Cancelamento imediato das concessões de terras<br />

públicas já autorizadas, mas ainda não efetivadas.<br />

351. - Suspensão imediata das concessões de terras públicas<br />

pelo período de um ano até que o MIRADIJNCRA tomem<br />

uma decisão definitiva quanto ao destino dessas terras.<br />

352. - Corte de todos os recursos destinados pelo INCRA<br />

à transferência de trabalhadores de uma região para outra via<br />

cooperativa ou empresas de colonização.<br />

353. - Revisão de todas as concessões de grandes extensões<br />

de terras públicas feitas nos últimos cinco anos a grupos<br />

econômicos ou colonizadoras particulares, fazendo com que,<br />

apuradas as irregularidades, revertam essas terras ao patrimônio<br />

público para assentamento de trabalhadores rurais.<br />

COMENTÁRIO<br />

O suntuoso catálogo de despesas do PNRA<br />

apresenta ainda estas seis "Medidas imediatas<br />

de apoio ao Programa de Assentamento dos<br />

Trabalhadores Rurais" (título 7 .2 do PNRA).<br />

TEXTO DO PNRA<br />

7 .3 - Medidas imediatas relacionadas com a colonização<br />

354. - Levantamento executivo da situação atual dos projetos<br />

de colonização e assentamento do INCRA.<br />

355. - Completo levantamento da situação dos loteamentos<br />

dos projetos de colonização e dos projetos de imigração e<br />

assentamento dos órgãos fundiários estaduais, das superintendências<br />

de desenvolvimento regional (ex. COLONE), de autarquias<br />

federais (CODEVASF, DNOCS), bem como dos projetos<br />

de colonização do GETAT na área de projetos especiais (ex.<br />

Grande Carajás) e sugerir medidas para sua adequação ao projeto<br />

governamental de <strong>Reforma</strong> Agrária.<br />

356. - Unificação pelo INCRA das bases cartognificas de<br />

plotagem das áreas de pretensão das empresas estatais, autarquias<br />

e companhias particulares e das áreas requeridas por Ministérios<br />

por meio de decreto presidencial já assinado.<br />

357. - Levantamento das áreas cadastradas em nome de<br />

empresas privadas de colonização e de empresas com projetos<br />

agropecuários.<br />

COMENTÁRIO<br />

Na lista dos gastos há ainda que somar quatro<br />

"Medidas imediatas relacionadas com a colonização"<br />

(título 7.3 do PNRA), bem como doze<br />

"Medidas imediatas de caráter legal", a seguir<br />

indicadas (título 7 .4).<br />

Assim, os gastos vão-se somando aos gastos.<br />

TEXTO DO PNRA<br />

7 .4 - Medidas Imediatas de Carãter Legal<br />

358. - Elaboração do Projeto de Lei, a ser submetido ao<br />

Congresso Naciona~ determinando que antes de qualquer despejo<br />

ou desocupação judiciais incidentes em imóveis rurais,<br />

o INCRA necessariamente seja cientificado para manifestar<br />

interesse na desapropriação da área ou reassentamento<br />

dos ocupantes, hipótese em que suspender-se-á a instância<br />

pelo prazo que a Lei conceder ao INCRA para viabilização<br />

de tais providências.<br />

359. - Providências imediatas através de ação conjugada<br />

com o Ministério da Justiça e Governos Estaduais, para desativação<br />

das milicias privadas e o desarmamento nas áreas<br />

de latifúndio, principalmente naquelas onde existem co,iflitos<br />

de terras ou disputas trabalhistas.<br />

COMENTÁRIO<br />

Dentre as medidas de caráter legal propostas<br />

pelo PNRA, algumas merecem especial destaque.<br />

Assim, esta: ''Antes de qualquer despejo<br />

ou desocupação judiciais incidentes em imóveis<br />

rurais, o INCRA necessariamente seja cientificado<br />

para manifestar interesse na desapropriação<br />

da área ou reassentamento dos ocupantes"<br />

(n? 358). - Este dispositivo equivale a aplicar<br />

o revólver da ameaça confiscatória na têmpora<br />

de qualquer proprietário que recorra ao<br />

Judiciário para obter, por via pacífica e legal,<br />

despejo ou desocupação de intrusos existentes<br />

na sua propriedade. O proprietário fica assim<br />

claramente colocado na postura de inimigo do<br />

bem comum, a quem se nega sequer o direito<br />

de recorrer livremente ao Poder judiciário para<br />

a defesa de seu patrimônio.<br />

-Tui o modo pelo qual o PNRA entende a<br />

democracia!<br />

Tui a fidelidade dele à teoria de luta de classes,<br />

segundo a qual todas as sociedades baseadas<br />

na propriedade privada se dividem em duas<br />

classes irremediavelmente antagônicas.<br />

E o PNRA. não é senão instrumento dessa<br />

luta.<br />

Tunto o é, que o tópico seguinte (n? 359)<br />

apela para o apoio do Poder público federal e<br />

estàdual para arrancar da mão- dos proprietários<br />

a possibilidade de defesa através de guardas<br />

particulares por eles contratados.<br />

A "desatiwção das milícias .priwdas" se refere<br />

evidentemente aos grupos armados que certos<br />

proprietários, desajudados por um Poder<br />

99


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

público ostensivamente inerte, têm constituído<br />

para defender contra invasores, também armados,<br />

os limites de sua propriedade.<br />

TEXTO DO PNRA<br />

360. - Cobrança dos débitos do ITR, dando prioridade<br />

aos maiores latifúndios.<br />

361. - Atuação conjunta com o IAA e o MTb no sentido<br />

do cumprimento da chamada "lei dos sítios" (Estatuto da Lavoura<br />

Canavieira, Decreto 57.020, Atos 18 e 19 do IAA e contratos<br />

coletivos de trabalho).<br />

362. - Condicionamento da liberação de financiamento<br />

e incentivos às empresas já instaladas ao comprovado cumprimento<br />

das obrigações sociais trabalhistas, bem como à fixação<br />

do trabalhador rural na terra em que reside e cultiva, em obediência<br />

ao Decreto-lei n.º 70.430.<br />

363. - Reexame da legislação e das políticas adotadas com<br />

relação a loteamentos urbanos em áreas rurais e medidas que<br />

evitem que os loteamentos para chácaras de recreio ou com<br />

simples finalidade especulativa na periferia das grandes metrópoles<br />

continuem a expulsar trabalhadores rurais.<br />

COMENTÁRIO<br />

"Medidas que evitem que os loteamentos para<br />

chácaras de recreio ...!'. - Este tópico estabelece<br />

mais uma restrição ao direito de propriedade,<br />

justificável em muitos casos concretos,<br />

mas cujo caráter genérico indefinido pode comportar<br />

também aplicações injustas.<br />

TEXTO DO PNRA<br />

364. - Revisão das portarias do GETAT (1980-1984) relativas<br />

à arrecadação de áreas para expansão urbana, visando assegurar<br />

aos "patrimônios urbanos" (povoados rurais e pequenas<br />

cidades) a plena posse dos recursos hídricos, garantir os direitos<br />

dos trabalhadores rurais implantados na área e assegurar<br />

o crescimento desses núcleos ou o desenvolvimento de atividades<br />

que seus habitantes considerem necessárias.<br />

365. - Revogação do Decreto n. 0 88.118 e sua substituição<br />

por outro que contemple a articulação institucional MINTER­<br />

MIRAD e outras entidades, no qual seja delineada nova sistemática<br />

de demarcação das terras indígenas, capaz de assegurar<br />

a defesa dos interesses dessas nações, respeitando os preceitos<br />

previstos no Estatuto do Índio e garantindo os direitos de participação<br />

direta dessas comunidades.<br />

366. - Imprimir plena eficácia aos mecanismos<br />

jurídico-administrativos encarregados da fiscalização, objetivando,<br />

num primeiro momento, através de procedimento administrativo,<br />

a desclassificação do imdvel nessas condições como<br />

empresa rural, e, num segundo momento, quando for o caso,<br />

via judicial mediante produção antecipada de prova.<br />

COMENTÁRIO<br />

"Imprimir plena eficácia aos instrumentos<br />

jurídico-administrati,vos": mais uma vez, o<br />

PNRA mostra seu receio da ineficácia, ou da<br />

T1íulo I<br />

eficácia insuficiente, das burocracias. Porém não<br />

diz que meios pretende usar para "imprimir"<br />

essa "plena eficácia".<br />

E, otimista, continua em frente.<br />

TEXTO DO PNRA<br />

367. - Estudar e revisar, no que for necessário, a Instrução<br />

n.º 21176 do INCRA que estabelece diretrizes para o procedimento<br />

administrativo da desapropriação, ~ em caráter de emergência,<br />

adotar um procedimento especial no qual desde a escolha<br />

da área a ser expropriada se tenha o acompanhamento de<br />

um Procurador especialmente designado, a fim de que não haja<br />

obstáculos burocráticos e nem ausência do necessário exame<br />

jurídico.<br />

368. - Estudo para readequar as normas regulamentares,<br />

tais como decretos, portarias, instruções, etc., às propostas deste<br />

1. 0 PNRA.<br />

COMENTÁRIO<br />

Trata-se de novo e imenso remanejamento<br />

legislativo e burocrático, causador de mais outras<br />

despesas, como sói ser nos países<br />

socializados.<br />

TEXTO DO PNRA<br />

369. - Desenvolver, imediatamente, intenso trabalho de<br />

sensibilização de todas as instâncias e 6rgãos do Poder Público,<br />

especialmente do Poder Judiciário, propugnando tanto<br />

pela constitucionalidade dos artigos 3. 0 e 11 do Decreto-lei n!'<br />

554/69 que fixam o preço justo na desapropriação por interesse<br />

social para fins de reforma agrária, quanto pela compatibilidade<br />

da justa indenização, inserida no texto constitucional,<br />

com o contido em tais dispositivos legais, para atingir ao final<br />

da discussão do preço no processo expropriatdrio custos compatíveis<br />

com a natureza e peculiaridade dessa desapropriação.<br />

COMENTÁRIO<br />

Mais um cometimento de ordem psicológico-ideológica,<br />

desta vez praticado sobre o Poder<br />

público, "especialmente o Poder Judiciário",<br />

de maneira a fazer prevalecer os desígnios do<br />

PNRA. O que constitui uma evidente violação<br />

das intenções democráticas proclamadas pelo<br />

próprio PNRA (quanto às pressões sobre o Judiciário,<br />

ver também os Comentários aos n?s<br />

187; 372 a 375; 376; 377 a 380).<br />

TEXTO DO PNRA<br />

7 .5 - Medidas imediatas de apoio a elaboração dos Planos<br />

Regionais de <strong>Reforma</strong> Agrária<br />

370. - Levantamento do Polígono das Secas, das áreas de<br />

latifúndio em torno dos açudes públicos, em um raio de l~ quilômetros,<br />

visando o assentamento de trabalhadores rurais e o<br />

100


Considerações doutrinárias<br />

Parte li, Seção G<br />

acesso à água aos produtores e comunidades circunvizinhas.<br />

371. - Levantamento das terras inaproveitadas dos baixos<br />

e vales úmidos para assentamento ,de trabalhadores rurais.<br />

COMENTARIO<br />

Às medidas anteriores ( cfr. Comentário aos<br />

n?s 354 a 357), somam-se mais duas, para<br />

"apoio à elaboração dos Planos Regionais de<br />

<strong>Reforma</strong> Agrária" (título 7 .5). E, por sua vez,<br />

novas despesas.<br />

TEXTO DO PNRA<br />

8 - RECURSOS E FONTES DE FINANCIAMENTO<br />

372. A Constituição Federal determina que as desapropriações<br />

por interesse social, para fins de <strong>Reforma</strong> Agrária, sejam<br />

efetivadas mediante justa indenização.<br />

373. O Poder Judiciário tem entendido que a justa indenização<br />

corresponde ao valor fixado em perícia levada ao efeito<br />

no curso da ação de desapropriação.<br />

374. Por força desse entendimento, os artigos 3.0 e 11 do<br />

Decreto-Lei n. 0 554169, que fixam o justo preço na desapropriação<br />

por interesse social para fins de <strong>Reforma</strong><br />

Agrária, têm sido considerados inconstitucionais, pelos<br />

Tribunais.<br />

375. O sentido da expressão "justa indenização" deve<br />

ser apurado em face da natureza da desapropriação<br />

por interesse social para fins de <strong>Reforma</strong> Agrária, que se<br />

constitui numa sanção do Estado à infringência de dispositivo<br />

constitucional que condiciona a propriedade privada<br />

ao exercício de uma função social.<br />

COMENTÁRIO<br />

Contrafeito, o PNRA observa que "os artigos<br />

3? e 11 do Decreto-Lei 554/69, que fixam<br />

o justo preço na desapropriação por interesse<br />

social para fins de <strong>Reforma</strong> Agrária, têm sido<br />

considerados inconstitucionais, pelos liibunais"<br />

(n? 374).<br />

A esse propósito, objeta o mesmo PNRA<br />

que "o sentido da expressão 'justa indenização'<br />

deve ser apurado em face da natureza da desapropriação<br />

por interesse social para fins de <strong>Reforma</strong><br />

Agrária" (n? 375). - "Deve": note-se o<br />

caráter imperativo da expressão.<br />

"Deve", por quê? A explicação do PNRA<br />

surpreende o leitor médio: é que a indenização<br />

confiscatória, nitidamente inferior ao valor venal<br />

do imóvel expropriado, "se constitui [segundo<br />

o PNRA] numa sanção do Estado à infringência<br />

de dispositivo constitucional" etc. (n?<br />

375).<br />

Esse extravagante entendimento do PNRA,<br />

sobrevindo só agora, visa pois explicar ao Po-<br />

der judiciário que este "deve" aceitar como válida<br />

a aplicação ao proprietário de um castigo<br />

de algum modo retroativo, uma vez que incidirá<br />

sobre fatos anteriores ao estabelecimento da<br />

referida sanção.<br />

Quem, entretanto, determina tal sanção não<br />

é o Judiciário, mas ... os técnicos dos órgãos de<br />

<strong>Reforma</strong> Agrária, aos quais compete decidir se<br />

tal ou tal propriedade cumpriu ou não sua função<br />

social, em termos de produtividade.<br />

Justiça paralela? (Ver também os Comentários<br />

aos n? 5 187, 369, 376, ·377 a 380).<br />

TEXTO DO PNRA<br />

376. A revisão desse entendimento do Poder Judiciário começará<br />

por um intenso trabalho de sensibilização de todas<br />

as instâncias e órgãos do Poder Público, pugnando tanto<br />

pela constitucionalidade dos artigos citados quanto pela compatibilidade<br />

da "justa indenização" com o contido em tais dispositivos<br />

legais, para atingir ao final da discussão do preço no<br />

processo expropria tório custos compatíveis com a natureza e peculiaridades<br />

dessa forma de desapropriação.<br />

COMENTÁRIO<br />

"Começará .. !': note o leitor o tom imperativo<br />

usado mais uma vez pelo PNRA em relação<br />

ao Poder judiciário, cuja independência entretanto<br />

é o baluarte indispensável de toda ordem<br />

legal digna desse nome (ver também os Comentários<br />

aos n?s 187, 369, 372 a 375, 377 a<br />

380).<br />

"Um intenso trabalho de sensibilização de<br />

todas as instâncias e órgãos do Poder Público<br />

... !': mais um manuseamento de importantes setores<br />

do Estado e da sociedade para o fim de<br />

impor o estranho conceito de desapropriação.<br />

TEXTO DO PNRA<br />

8.1 - Demanda de Recursos para 1985/1986<br />

3 77. Definindo-se a meta de propiciar acesso à terra a 100<br />

mil famaias no exercfcio 1985/86, e considerando um custo<br />

unitário de aproximadamente Cri 16.500.000 o montante total<br />

de recursos requerido seria da ordem de Cri 1.650 bilhões<br />

(em cruzeiros de maio de 1985), assim distribuídos:<br />

TDA's ....................... .<br />

Em moeda corrente ....... Cri 525 bilhões<br />

3 78. 1àis valores foram estimados tendo por base a expectativa<br />

de que as terras seriam obtidas, primordialmente, via desapropriação<br />

de latifúndios, com o seu valor representando cerca<br />

de 60% da cotação do mercado (média). Essa percentagem<br />

do atual valor de mercado das terras se apoia em duas premissas<br />

básicas:<br />

379. - a revisão do entendimento da expressão ''justa<br />

101


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

Título I<br />

indenização" pelo Poder Judiciário deforma que ela se constitua<br />

em sanção do Estado ao não cumprimento Constitucional<br />

da função social da terra, apoiada na firme atuação e na<br />

constante presença dos Procuradores do INCRA nas ações<br />

ajuizadas;<br />

380. - tendência à queda relativa dos atuais preços de mercado,<br />

elevados pela ação especuladora e pela impunidade do processo<br />

concentrador, tão logo seja iniciada a <strong>Reforma</strong>, a eliminação<br />

dos privilégios e a cobrança dos débitos f,scais.<br />

COMENTÁRIO<br />

O PNRA prevê o "acesso à terra" de "100<br />

mil famílias no exercício de 1985/86", o que importará<br />

no gasto de 1 · trilhão e .650 bilhões de<br />

cruzeiros (n? 377). Quantia fabulosa, que ainda<br />

assim será insuficiente se as desapropriações<br />

não se fizerem pelo "preço-sanção" correspondente<br />

a "600Jo da cotação do mercado" (n? 378).<br />

Desinibidamente, o PNRA toma como uma<br />

das "premissas básicas" (n? 378) de seus cálculos<br />

"a revisão do entendimento da expressão<br />

'justa indenização' pelo Poder Judiciário" ... (n?<br />

379). E acena com formas de pressão sobre este,<br />

a fim de fazer prevalecer a sua estranha teoria<br />

da "sanção" retroativa (ver também o Comentário<br />

aos n?s 372 a 375).<br />

TEXTO DO PNRA<br />

381. Para a captação dos recursos acima mencionados devese<br />

insistir em que o PROTERRA/FUNTERRA, não adquiriria<br />

terras mediante compra, mas sim por meio de desapropriação,<br />

sendo tais recursos utilizados para a indenização das berlfeitorias.<br />

As terras seriam pagas em TDA's.<br />

382. Os recursos alocados aos Estados do Nordeste já es-<br />

tão assegurados no orçamento do Projeto Nordeste e se destinariam<br />

à compra de terras, uma vez que esses valores são aceitos<br />

como contrapartida nos financiamentos externos já existentes.<br />

Tratar-se-ia, aqui, de mostrar a conveniência de melhor aplicar<br />

os recursos na indenização das áreas a serem desapropriadas.<br />

O INCRA dispõe de amparo nos convênios assinados com<br />

a SUDENE e Estados da região, no Programa de Desenvolvimento<br />

do Sistema Fundillrio do Nordeste e nos convênios assinados<br />

entre os Estados e o BNDES com a sua interveniência.<br />

383. As alternativas viáveis que se apresentam é a obtenção<br />

dos recursos dentro das atuais fontes orçamentárias, ou seja,<br />

FINSOCIAL, PIN-PROTERRA e excessos de arreéadação<br />

do Tesouro Nacional.<br />

384. Assim a distribuição por fonte manteria a proporcionalidade<br />

de 50% (cinqüenta por cento) cob~rtos pelo FINSO­<br />

CIAL e o restante distribuídos entre o PIN-PROTERRA e recursos<br />

alocados no orçamento da União direta e especificamente<br />

para a <strong>Reforma</strong> Agrária, co,lforme se explicita na tabela 6. Os<br />

ajustamentos necessários à adaptação do ano f,scal ao ano agrícola<br />

serão discutidos com a SEPLAN.<br />

385. Em relação aos TDA's, cabe esclarecer que o prazo<br />

de resgate dos mesmos deverá ser negociado em função do preço<br />

da terra que for acordado entre as partes.<br />

1àbela 6: Fontes de Recursos Internos para o Financiamento<br />

do 1. 0 PNRA da Nova República, 1985/86.<br />

(estimativa em Cri de maio de 1985)<br />

ORIGEM<br />

Cri bilhões<br />

FINSOCIAL 262<br />

PIN-PROTERRA 131<br />

Tesouro Nacional 132<br />

TOTAL 525<br />

386. Apenas para dar uma idéia da magnitude do custo<br />

anual do assentamento de 100.000 fam,1ias previsto para o ano<br />

agrícola 1985/1986, é da ordem de Cri 525 bilhões, ou seja, cerca<br />

de JJO milhões de dólares.<br />

Ministro da <strong>Reforma</strong> e do Desenvolvimento Agrário<br />

Dr. NELSON RIBEIRO<br />

Presidente do INCRA<br />

Dr. JOSÉ GOMES DA SILVA<br />

102


Em vez de uma <strong>Reforma</strong> Agrária.<br />

imposta autoritariamente<br />

e contrária à abertu~a,<br />

uma ampla consulta popular<br />

que exprima os desejos do País


A conseqüência de quanto foi exposto é<br />

que a aplicação do BT e do PNRA importaria<br />

em contradição flagrante com o espírito<br />

da abertura, na violação frontal do Direito<br />

Natural e da Lei revelada por Deus.<br />

Além do que, do ponto de vista da prosperidade<br />

nacional, constituiria uma verdadeira<br />

aventura. Ou seja, um lance que, da aventura<br />

tem a temeridade e as perspectivas sombrias,<br />

e de nenhum modo as· correspondentes<br />

possibilidades· de êxito. .<br />

Assim, sob todos os pontos de vista, o BT<br />

deve ser revogado mediante deliberação do<br />

Congresso. B o PNRA arquivado. ·<br />

Isto posto, no rumo das cogitações deste<br />

estudo só pode estar a sugestão de que a classe<br />

agrícola do Brasil - tão numerosa, tão respeitada<br />

e benquista, e por isto mesmo tão influente<br />

- peça que o Governo federal eneamlnhe<br />

ao Congresso e ponha ao alcance do<br />

público um projeto de consolidação de toda<br />

a nossa legislação agrária. para que sobre esté<br />

possa decidir a Nação. O povo brasileiro<br />

flauia então dotado dos meios necessários para<br />

formar uma idéia cristalina da situação legislatha<br />

agrária vigente, das reformas que nela<br />

queira introduzir o Governo e da regulamentação<br />

com que ele complementaria essas<br />

reformas.<br />

Assim, e só assim, poder-se-ia dizer que,<br />

consoante os princípios democráticos de que<br />

se ufana a abertura política, a Nação teria<br />

meios de debater o magno tema agrário, e de<br />

decidir sobre ele.<br />

Essa solução, a TFP a deseja com o maior<br />

empenho. Entre muitas razões de maior tomo,<br />

porque se nos evitaria assim a amarga<br />

contingência de afirmar que o Plano Nacional<br />

de <strong>Reforma</strong> Agrária governamental era<br />

mero produto da vontade do Poder executivo,<br />

sem o consenso deliberativo do Congresso,<br />

e sem os enriquecimentos que lhe adviriam<br />

do amplo debate, evidentemente necessário.<br />

Os fazendeiros que estejam de acordo com<br />

as aspirações da TFP aqui externadas, além<br />

de fazerem uso do livre e direto acesso aos salões<br />

presidenciais e ministeriais, garantido pelas<br />

leis em vigor, agiriam sabiamente se, nesse<br />

sentido, procurassem mobilizar para uma<br />

ação dentro da lei as múltiplas associações rurais,<br />

oficiais ou privadas, que florescem no<br />

País. Dispõem estas de largo prestígio em to-<br />

105


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

das as camadas da sociedade. Ademais, gozam<br />

de boa audiência junto aos mais altos órgãos<br />

governamentais. E está na missão delas<br />

defender a classe cujos direitos e interesses a<br />

legislação agrária vigente - máxime se aplicada<br />

com a alarmante amplitude prevista no<br />

PNRA - tem em vista golpear.<br />

E aqui fica consignada mais uma sugestão<br />

da TFP: se os agro-igualitários estão certos<br />

de que a <strong>Reforma</strong> Agrária é popular; se<br />

estão persuadidos de que ela só está sendo<br />

contida no Brasil por misteriosas forças econômicas,<br />

que aliás jamais indicam concretamente<br />

quais sejam, peçam ao Governo que<br />

aguarde as próximas eleições legislativas ou<br />

promova a realização de um plebiscito, depois<br />

de seis meses de iniciado o debate sobre a Re-<br />

Tüu/o I<br />

forma Agrária. Pois sua vitória seria<br />

irrefragável.<br />

De outro lado, os órgãos das associações<br />

rurais patronais cuidem de ter uma imprensa<br />

anti-agro-reformista que, ao menos em alguma<br />

medida, possa contrastar com o pendor<br />

nitidamente agro-igualitário, ou tendente à<br />

<strong>Reforma</strong> Agrária, de quase todos os nossos<br />

jornais. Que; nesse sentido, façam um grande<br />

esforço, junto ao Rádio e à TV. Enfim, que<br />

também eles apresentem ao Governo, como<br />

aspiração veemente da consciência nacional,<br />

o pedido de que o magno assunto da <strong>Reforma</strong><br />

fundiária não se decida tão-só no gabinete<br />

presidencial, mas seja entregue às urnas,<br />

em seguida a eleições previstas por lei, ou a<br />

votação plebiscitária.<br />

106


Breve resenha das principais<br />

tomadas de posição da TFP em favor<br />

do direito de propriedade<br />

A Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição,<br />

Família e Propriedade - TFP é, na<br />

atualidade, o maior movimento anticomunista<br />

civil da América Latina. E poucos são os movimentos<br />

congêneres que se lhe igualam no<br />

mundo. Em virtude de sua posição doutrinária,<br />

de sua organização e das memoráveis<br />

campanhas que realizou, a TFP ocupa lugar<br />

de inegável destaque na História do Brasil<br />

contemporâneo.<br />

No curso de duas décadas, a entidade vem<br />

difundindo livros, revistas e folhetos, promovendo<br />

abaixo-assinados e estampando mani-­<br />

festos e comunicados em jornais de grande<br />

circulação. Sócios e cooperadores seus podem<br />

ser vistos freqüentemente em campanhas públicas<br />

nas ruas e praças de milhares de cidades<br />

de porte grande, médio ou pequeno. Ela<br />

toma assim contato direto com o "homem da<br />

rua•: esclarecendo-o sobre as mais recentes<br />

manobras do socialismo e do comunismo. Tal<br />

é a atuação, ao mesmo tempo capilar e de<br />

grande alcance, da TFP.<br />

E o que faz a TFP em defesa do direito<br />

de propriedade? Muito ela já fez, e continua<br />

fazendo, o que pode ser facilmente comprovado<br />

pela leitura do elenco de atividades publicado<br />

a seguir.<br />

1. 26 de julho de 1960 - Por iniciativa do<br />

Prof. Plínio Corrêa de Oliveira, líder católico<br />

de renome internacional, com larga folha<br />

de serviços prestados à Igreja e ao País, fundase<br />

em São Paulo a Sociedade Brasileira de Defesa<br />

da Tradição, Família e Propriedade, entidade<br />

de caráter cultural e cívico, de inspiração<br />

católica. As primeiras atividades da TFP<br />

contra o comunismo se desenvolveram no decurso<br />

do debate travado em todo o País a propósito<br />

da <strong>Reforma</strong> Agrária.<br />

2. Outubro de 1960 - Artigo de lançamento<br />

do livro <strong>Reforma</strong> Agrária - Questão de<br />

Consciência, escrito pelo Prof. Plínio Corrêa<br />

de Oliveira especialmente para "Catolicismo".<br />

3. 10 de novembro de 1960 - Sai a lume <strong>Reforma</strong><br />

Agrária - Questão de Consciência, de<br />

D. Antonio de Castro Mayer, Bispo de Campos,<br />

D. Geraldo de Proença Sigaud, Bispo de<br />

Jacarezinho, Plínio Corrêa de Oliveira e Luiz<br />

Mendonça de Freitas. Tem início a grande luta<br />

doutrinária contra o agro-socialismo. Qua-<br />

107


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

tro edições no Brasil, com trinta mil exemplares.<br />

Uma edição na Argentina, uma na Espanha<br />

e uma na Colômbia. Total das sete edições:<br />

39 mil exemplares.<br />

4. 16 de novembro de 1960 - Os autores de<br />

RA-QC são convidados pela Comissão de<br />

Economia da Assembléia Legislativa de São<br />

Paulo a falar sobre o projeto de Revisão Agrária<br />

do Governo estadual. Animados debates<br />

no salão do plenário.<br />

5. 11 de julho de 1961- Inicia-se em Bagé<br />

(RS) o abaixo-assinado de 27 mil agricultores<br />

em repúdio ao agro-reformismo confiscatório<br />

e <strong>socialista</strong>. A moção contém um ato de<br />

solidariedade às teses de RA-QC. Em julho<br />

de 1963, os autores do livro fazem a entrega<br />

das 27 mil assinaturas ao Congresso Nacional.<br />

6. 29 e 30 de outubro de 1961 - Conferência<br />

do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em Belo<br />

Horizonte sobre <strong>Reforma</strong> Agrária, a convite<br />

da União Estadual dos Estudantes e dos<br />

Diretórios Acadêmicos de Engenharia, Medicina,<br />

Odontologia e Farmácia da Universidade<br />

de Minas Gerais. As conferências foram muito<br />

concorridas e aplaudidas.<br />

7. 9 de junho de 1962 - Os autores de RA­<br />

QC dirigem, através da imprensa diária, carta<br />

aberta ao Presidente João Goulart, sob o<br />

título A <strong>Reforma</strong> Agrdria e o cardter sagrado<br />

do direito de propriedade, apontando as graves<br />

conseqüências da reforma constitucional<br />

pretendida pelo Governo, que tornaria possível<br />

a desapropriação das terras por preço inferior<br />

ao justo valor, com pagamento em títulos<br />

da dívida pública resgatáveis a longo<br />

prazo.<br />

8. 21 de março de 1963 - Categórico telegrama<br />

dos autores de RA-QC ao Presidente<br />

da República, repudiando o intento de reformar<br />

a Constituição.<br />

9. 9 de maio de 1963 - Os Bispos co-autores<br />

de RA-QC publicam o edital <strong>Reforma</strong> Cons-<br />

Titulo I<br />

titucional e <strong>Reforma</strong>s de Base: esclarecimentos<br />

doutrinários, rebatendo a posição insustentável<br />

do ponto de vista da doutrina católica,<br />

assumida pela cúpula da CNBB, ao apoiar<br />

a reforma constitucional pretendida pelo Governo<br />

João Goulart.<br />

10. 19 de julho de 1963 - Os quatro autores<br />

de RA-QC lançam o manifesto A lavoura<br />

brasileira à beira da derrocada <strong>socialista</strong> -<br />

Apelo ao Congresso Nacional, apontando os<br />

aspectos de totalitarismo agrário, atentatório<br />

ao direito de propriedade, constante do substitutivo<br />

Afrânio Lages ao projeto de <strong>Reforma</strong><br />

Agrária do Deputado Milton Campos.<br />

Aprovado no Senado, o substitutivo foi derrotado<br />

na Câmara.<br />

11. Março-Abril de 1964- Com apoio da<br />

TFP, uma comissão de católicos mineiros promove<br />

uma interpelação à Ação Católica de<br />

Belo Horizonte para que defina com clareza<br />

_sua posição ideológica, e justifique em termos<br />

de doutrina católica seu apoio às "reformas<br />

de base" - uma das quais era a <strong>Reforma</strong><br />

Agrária - do Governo Goulart. Em 38 dias,<br />

209 mil católicos subscreveram o abaixoassinado.<br />

Silêncio constrangido da Ação<br />

Católica.<br />

12. 30 de março de 1964 - No seu derradeiro<br />

discurso televisionado, Goulart vituperou<br />

acerbamente aqueles que lutavam contra<br />

seus aliados, os "católicos esquerdistas", e<br />

contra as "reformas de base": "O veto desta<br />

minoria reacionária ao meu governo ....<br />

fortaleceu-se quando afirmei que as <strong>Reforma</strong>s<br />

de Base são um imperativo da hora em que<br />

vivemos ... Passaram a acusar de anticatólicos<br />

não apenas o Presidente da República, mas<br />

ao próprio Cardeal de São Paulo ... Não me<br />

cabe, porém, combater essa usurpação, pois<br />

a Ação Católica de Minas e de São Paulo já<br />

tomou essa iniciativa" ( cf r. "O Globo",<br />

31-3-64). Era tarde. Um dia depois foi removido<br />

do cargo.<br />

108


Considerações doutrinárias<br />

Breve resenha<br />

13. 8 de abril de 1964 - Os autores de RA­<br />

QC publicam pela imprensa e enviam aos<br />

membros do Congresso Nacional o estudo A<br />

<strong>Reforma</strong> Agrária Aniz Badra-lvan Luz: Janguismo<br />

sem Jango, em que denunciam manobra<br />

solerte para fazer aprovar lei de <strong>Reforma</strong><br />

Agrária fortemente dirigista e atentatória<br />

ao direito de propriedade. O projeto foi sustado<br />

no Senado, depois de ter sido aprovado<br />

na Câmara.<br />

14. Outubro de 1964 - Os autores de RA­<br />

QC lançam o livro Declaração do Morro Alto,<br />

no qual apresentam um programa positivo<br />

de política agrária sem eiva de socialismo.<br />

Duas edições, 22.500 exemplares.<br />

15. 4 de novembro de 1964- Distribuição<br />

entre deputados e senadores, do estudo O direito<br />

de propriedade e a livre iniciativa no projeto<br />

de emenda constitucional n.° 5/64 e no<br />

projeto de Estatuto da Terra. Neste documento,<br />

os autores de RA-QC analisam os fortes<br />

traços <strong>socialista</strong>s do referido projeto.<br />

16. 24 de dezembro de 1964 - Aprovados<br />

a emenda constitucional e o Estatuto da Terra,<br />

a TFP publica o Manifesto ao povo brasileiro<br />

sobre a <strong>Reforma</strong> Agrária, no qual consigna<br />

sua consternação diante do fato e reitera<br />

seu pensamento sobre a matéria.<br />

17. 2 de maio de 1971 - Ao término de uma<br />

concentração realizada nos últimos dias de<br />

abril em Porto Alegre, o MDB publicou um<br />

elenco de vinte princípios que constituíam a<br />

síntese programática do partido. O item 11 defendia<br />

a "imediata realização de uma profunda<br />

reforma agrária, sem recuos e sem distorções,<br />

atendida a advertência do Concílio Vaticano<br />

II". A este propósito, o Prof. Plinio<br />

Corrêa de Oliveira fez na "Folha de S. Paulo",<br />

no dia 2 de maio, um importante pronunciamento<br />

intitulado <strong>Reforma</strong> Agrária no programa<br />

do MDB.<br />

18. Maio-junho de 1971 - Como certos<br />

fautores de reforma agrária procuravam apre-<br />

sentar, infundadamente, os seus desígnios como<br />

sendo baseados na doutrina social católica,<br />

o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira publicou<br />

na "Folha de S. Paulo", nos dias 30 de<br />

maio e 6 de junho, dois artigos explanando<br />

qual é o verdadeiro pensamento dos Papas a<br />

respeito da prÓpriedade privada.<br />

19. Dezembro de 1971 - Lançamento dos<br />

Diálogos Sociais, uma série de três opúsculos<br />

que analisam, à luz da doutrina católica<br />

tradicional, em linguagem acessível e popular,<br />

problemas econômicos e sociais da atualidade.<br />

Cinco edições dos três opúsculos, num<br />

total de trezentos mil exemplares, foram vendidos<br />

pelas Caravanas da TFP.<br />

20. 5 de dezembro de 1972 - O Prof. Plinio<br />

Corrêa de Oliveira envia ao Ministro da<br />

Justiça, Prof. Alfredo Buzaid, um Relatório<br />

sobre o anteprojeto do Código Civil, assinalando<br />

aspectos do referido anteprojeto que<br />

atingiam as instituições da família e da propriedade<br />

privada.<br />

21. 19 de julho de 1976 - Inicia-se a difusão<br />

do livro A Igreja ante a escalada da ameaça<br />

comunista - Apelo aos Bispos silenciosos,<br />

no qual o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira,<br />

historiando os quarenta anos de crise progressista<br />

e "católico-esquerdista" no Brasil, denuncia<br />

a ação subversiva desenvolvida por certos<br />

setores do Clero no meio rural. A obra alcançou<br />

4 edições, num total de 51.000 exemplares,<br />

divulgados pela TFP em 1. 700 cidades<br />

do País.<br />

22. Novembro de 1977 - Lançamento do<br />

estudo Tribalismo indígena, ideal comunomissionário<br />

para o Brasil do século XXI, em<br />

que o Prof. Plínio Corrêa de Oliveira denuncia<br />

nova faceta da investida progressista no<br />

Brasil: a nova concepção missionária comunoestruturalista,<br />

que importa na eliminação de<br />

institutos como o da propriedade privada. Sete<br />

edições, 76.000 exemplares, além de dez mil<br />

109


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

exemplares de "Catolicismo", que reproduziu<br />

o texto.<br />

23. Julho de 1979 - Atendendo a inúmeros<br />

pedidos de amigos e simpatizantes, uma<br />

Caravana constituída por sócios e cooperadores<br />

da TFP percorreu propriedades rurais situadas<br />

na zona canavieira dos Estados de Pernambuco<br />

e Paraíba, numa intensa campanha<br />

de esclarecimento doutrinário anticomunista,<br />

adaptada às condições da população rural do<br />

Nordeste, especialmente dos trabalhadores.<br />

24. 22 de maio de 1980 - Tendo a CNBB ,<br />

em sua reunião plenária realizada em fevereiro,<br />

lançado o documento Igreja e Problemas<br />

da Terra, declaradamente agro-reformista, o<br />

Prof. Plinio_Corrêa de Oliveira publicou arespeito<br />

um artigo na "Folha de S. Paulo", no<br />

qual tomava firme posição contra a <strong>Reforma</strong><br />

Agrária <strong>socialista</strong> e confiscatória, e anunciava<br />

estar em preparação um estudo sobre o pronunciamento<br />

da CNBB (ver item abaixo).<br />

25. Fevereiro de 1981- Lançamento do livro<br />

Sou católico: Posso ser contra a reforma<br />

agrária?, no qual o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira<br />

e o economista Carlos Patricio dei Campo<br />

demonstram, com larga fundamentação<br />

doutrinária e sólida base econômica, que o<br />

católico contrário à <strong>Reforma</strong> Agrária confiscatória<br />

tem não só o direito, como também<br />

o dever de continuar a sê-lo. E isto em conformidade<br />

com o tradicional ensino do Supremo<br />

Magistério da Igreja. A obra alcançou<br />

um total de 24.000 exemplares, divulgados pela<br />

TFP em 1801 cidades.<br />

26. Abril de 1981 - A propósito do lançamento<br />

do livro Sou católico: Posso ser contra<br />

a reforma agrária?, o Prof. Plinio Corrêa<br />

de Oliveira e a TFP receberam mais de 100<br />

expressivas cartas de apoio de presidentes de<br />

sindicatos rurais, cooperativas , prefeitos municipais<br />

e fazendeiros, dos mais diversos pontos<br />

do Brasil.<br />

27. Maio de 1981 - Caravanas constituí-<br />

Título/<br />

das por jovens sócios e cooperadores da TFP,<br />

destinadas à difusão da obra Sou católico:<br />

Posso ser contra a reforma agrária?, estiveram<br />

presentes nas exposições rurais realizadas<br />

nas cidades de Paranavaí e Londrina (PR),<br />

Ourinhos, Barretos e Bragança Paulista (SP),<br />

e Uberaba (MG). Os stands montados pela<br />

TFP nesses certames receberam a visita de milhares<br />

de pessoas, que demonstraram grande<br />

simpatia em relação à entidade e vivo interesse<br />

pelo tema abordado no livro.<br />

28. Julho de 1981 - Na segunda quinzena<br />

de junho e na primeira de julho, a imprensa<br />

diária registrou uma série de declarações episcopais<br />

que constituíam uma violenta rajada<br />

agro-reformista de caráter publicitário. Em<br />

uma delas, D. Ivo Lorscheiter, Presidente da<br />

CNBB, chegou a apresentar a luta armada como<br />

a única solução, "em casos extremos", para<br />

a conquista de mudanças sociais. Nos dias<br />

20 e 21 de julho essas declarações foram analisadas<br />

pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira<br />

em dois artigos na "Folha de S. Paulo", intitulados<br />

respectivamente Começa a rajada e<br />

Ziguezague.<br />

29. 5 de outubro de 1981 - Diante da crescente<br />

ofensiva de elementos do Episcopado<br />

e do Clero contra a propriedade rural no Brasil,<br />

o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira publicou<br />

na "Folha de S. Paulo" o artigo A guerra<br />

do hissope, no qual advertia a classe dos<br />

fazendeiros para um tipo de guerra muito<br />

mais terrível do que a luta armada: ''A verdadeira<br />

bomba de nêutrons é a ação de certos<br />

Bispos e Sacerdotes, os quais ultimamente<br />

se têm servido de seu ministério sagrado<br />

praticamente tão-só para pregar a revolução<br />

social, por meio da <strong>Reforma</strong> Agrária <strong>socialista</strong><br />

e confiscatória".<br />

30. 31 de outubro de 1981 - Mais uma vez<br />

sai a público o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira,<br />

com o artigo <strong>Reforma</strong> Agrária e guerra psicológica,<br />

denunciando a importante operação<br />

110


Considerações doutrinárias<br />

de guerra psicológica igualitária, que era o<br />

projeto de lei de usucapião rural, proposto pelo<br />

Ministro da Justiça, Sr. lbrahim Abi-Ackel.<br />

31. 12 de agosto de 1982 - Mostrando a<br />

falta de consistência doutrinária dos propugnadores<br />

das reformas sociais esquerdistas, o<br />

Prof. Plinio Corrêa de Oliveira deu a lume o<br />

artigo Função social, porrete e faca, em sua<br />

coluna na "Folha de S. Paulo".<br />

32. Setembro de 1982 - Lançamento do livro<br />

As CEBs ... das quais muito se fala, pouco<br />

se conhece: a TFP as descreve como são,<br />

de Plinio Corrêa de Oliveira, Gustavo Antonio<br />

Solimeo e Luiz Sérgio Solimeo. O livro demonstra<br />

o caráter nitidamente subversivo das<br />

CEBs, as quais têm atuado em invasões de<br />

propriedades urbanas e rurais, agitação de fábricas,<br />

greves ilegais etc. Até o momento já<br />

se escoaram 72.000 exemplares da obra.<br />

33. Maio de 1984 - Tem início a difusão,<br />

por todo o Brasil, de Agitação social, violência:<br />

produtos de laboratório que o Brasil rejeita.<br />

Trata-se de um livreto da TFP, contendo<br />

13 histórias em quadrinhos, inéditas, abor-<br />

Breve resenha<br />

dando temas candentes do atual panorama<br />

brasileiro, sobretudo a atuação das CEBs. A<br />

obra visa sobretudo atingir as classes mais modestas<br />

da população, principalmente na zona<br />

rural. Em 7 meses foram difundidos 120<br />

mil exemplares.<br />

34. Junho de 1984 - O mensário de cultura<br />

"Catolicismo", divulgado em todo o Brasil<br />

pela TFP, focaliza o papel saliente assumido<br />

pela Comissão Pastoral da Terra (CPT)<br />

- organismo ligado à CNBB - e pelas Comunidades<br />

Eclesiais de Base (CEBs) em graves<br />

agitações verificadas em algumas regiões<br />

do País, resultando em invasões de propriedades,<br />

quebra-quebras e violências.<br />

35. Outubro de 1984 - lendo em vista o<br />

êxito do número publicado em junho, "Catolicismo"<br />

publica neste mês uma resenha<br />

completa do panorama de agitação rural e urbana<br />

que prossegue de modo crescente por todo<br />

o território nacional. A matéria chama a<br />

atenção de modo especial para o papel desempenhado<br />

pela chamada "esquerda católica" na<br />

articulação de tais movimentos.<br />

111


-~~'~


O BRASIL,<br />

país galardoado com a Fé católica<br />

desde o momento bendito da Primeira Missa,<br />

chamado, juntamente com as nações jovens do hemisfério,<br />

a se destacar algum dia entre todos os povos<br />

pela sua grandeza econômica e seu esplendor cultural.<br />

E, mais do que isso,<br />

a fazer brilhar aos olhos do mundo a verdadeira Luz de Cristo,<br />

que as trevas jamais conseguirão apagar.


Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá<br />

...<br />

Vista do pantanal matogrossense: fauna e flora exuberantes. Praticamente inexplorado,<br />

ele constitue, com seus 160 mil quilômetros quadrados, uma região<br />

de extraordinária beleza natural e de grande potencial econômico.<br />

Cataratas do Iguaçu: Deus brindou com caudalosos rios o imenso território<br />

brasileiro.<br />

Estas terras que Pero Vaz de Caminha encontrou incultas, tornaram-se fontes<br />

de riqueza, pelo espíri to empreendedor de incontáveis produtores rurais.<br />

CARTA DE PERO VAZ<br />

DE CAMINHA AO<br />

REI D. MANUEL<br />

"Esta terra, Senhor, ... tem, ao<br />

longo , do mar, nalgumas panes,<br />

grand~s barreiras, delas vermelhas,<br />

delas brancas e a terra por<br />

cima toda chã e muito cheia de<br />

arvoredos. De ponta a ponta, é<br />

tudo praia-palma, muito chã e<br />

muito formosa.<br />

Pelo sertão nos pareceu, vista do<br />

mar, muito grande, porque a<br />

estender os olhos, não podiamas<br />

ver senão terra e arvoredos, que<br />

nos parecia muito longa.<br />

Águas são muitas, infindas. E<br />

em tal maneira é graciosa que,<br />

querendo-a aproveitar, dar-se-á<br />

nela tudo, por bem das águas<br />

que tem.<br />

Porém o melhor fruto, que dela<br />

se pode tirar, me parece que será<br />

salvar esta gente. E esta deve ser<br />

a principal semente que Vossa<br />

A lteza em ela deve lançar".<br />

-;;zt,t.~Y~1.,~ o<br />

r e r:cr<br />

PERO VAZ DE CAMINHA<br />

Escrivão da esquadra de Cabral


A Primeira Missa celebrada no Brasil, a 1? de maio de 1500, poucos dias após o descobrimento.<br />

- Óleo de Victor Meirelles, Museu Nacional, Rio de Janeiro.<br />

''Manchet e"<br />

Poucas são na História as nações<br />

que receberam de Deus, logo<br />

ao nascerem, a graça inapreciável<br />

da Fé católica, apostólica e<br />

romana. O zelo ardente de missio-<br />

No século XX, um fruto do impulso evangélico<br />

dos primeiros missionários: índio da<br />

tribo Xavante, convertido à Fé católica,<br />

reza fervorosamente diante do Cruzeiro.<br />

nários como Anchieta e Nóbrega Os índios acolheram bem os descobridores<br />

expandiu a verdadeira Luz de portugueses. Desembarque de Cabral em<br />

e ·sto entre Os gentios aqui en- Porto Seguro. - Óleo de Oscar Pereira da<br />

ri<br />

SIiva, Museu do Ip1ranga.<br />

contrados. E, pari passu, os bra- e; --- ---<br />

. . , . . :::)<br />

vos m1sswnanos catequizaram os .g<br />

silvícolas que, desde logo, se mos- j<br />

traram abertos à influência da ~<br />

Igreja.<br />

Com uma força de alma nascida<br />

da Fé, nossos antepassados,<br />

sem as comodidades oferecidas<br />

hoje pelo progresso, dilataram as<br />

fronteiras do País, galgando serras,<br />

vencendo florestas, atravessando<br />

rios e transpondo pântanos.<br />

i


Desde o século XVI, a colonização do "hinterland" brasileiro foi favorecida pela prosperidade da lavoura canavieira.<br />

Os antigos engenhos são, ainda hoje, na paisagem nordestina, reminiscências vivas daquela época. (Gravura baseada<br />

em tela de Franz Post).<br />

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O trabalho humano de peneirar as cerejas<br />

do café, removendo pó e impurezas,<br />

exige prática e precisão de movimento.<br />

O arado puxado por cavalos ou bois, junto com outros instrumentos primitivos<br />

de tra~alho, foi utilizado, durante séculos, no lavradio da terra.<br />

Pastos verdejantes e árvores frondosas unem-se para formar uma bela moldura desta típica fazenda fluminense na Serra dos<br />

Órgãos, perto de Petrópolis.


A lavoura sempre foi a<br />

base da prosperidade<br />

nacional. O impulso<br />

que ela deu ao País se<br />

tornou notório ao mundo<br />

inteiro. Daí veio areputação<br />

de terra de fartura<br />

que o Brasil começou<br />

a ter já desde os fins o..•<br />

do século XIX. Éramos, ~<br />

"ü<br />

com os Estados Unidos a<br />

o<br />

·e<br />

e a Argentina, a Canaã ~<br />

o<br />

para a qual afluíam, ~<br />

cheias de esperança e de :<br />

dinamismo, as multi- 8<br />

dões da Europa, do<br />

Oriente Próximo e do<br />

. Extremo Oriente.<br />

C/l<br />

"'<br />

e<br />

~<br />

Um patriarca, com as características típicas<br />

da imigração italiana.<br />

No Vale do ltajaí, Santa Catarina, o<br />

clima e a vegetação com algumas características<br />

já setentrionais atraíram<br />

a imigração alemã, que deu à zona sua<br />

atual prosperidade.<br />

Ide e povoai toda a terra ... As valentes cÓrrentes de imigrantes que vieram ter<br />

no Brasil não temiam a natalidade. E, em conformidade com o mandato de<br />

Deus, concorreram poderosamente para o povoamento do solo e para a riqueza<br />

do País. Na foto, uma família de imigrantes italianos da colônia Barão de<br />

Antonina (SP).


Colonos pioneiros em Rolândia. O norte<br />

do Paraná recebeu uma colonização organizada<br />

por companhias oficiais e particulares,<br />

que transformou, em poucos anos,<br />

vastas regiões de mata virgem em centros<br />

de produção, progresso e dinamismo.<br />

Dentre os países em desenvolvimento, o<br />

Brasil é o que tem maior porce ntagem de<br />

proprietários. Na foto, um pequeno proprietá<br />

ri o rural, ufa no, se deixa fotografar<br />

Com a Segunda Guerra Mundial<br />

cessaram as migrações estrangeiras.<br />

Ao mesmo tempo, o surto<br />

Industrial exigia a concentração,<br />

nas grandes cidades, de importantes<br />

contingentes populacionais.<br />

Forneceu-os o interior brasileiro.<br />

Esta contribuição em gente foi<br />

realizada num clima de progresso<br />

tumultuário. Resultado: os problemas<br />

urbanos de tantos bairros<br />

operários.<br />

É o momento de atrair para novas<br />

epopéias de desbravamento o<br />

superávit de população das cidades<br />

e das zonas cultivadas, a fim<br />

de tornar o Brasil cada vez maior<br />

e mais rico.<br />

com seu trato r. Nele se ma nifesta o desejo ::, .----------------------------,=---­<br />

de afirmar-se, progredir e poupar, cons- ~<br />

truindo, para si e para os se us, um fu turo o<br />

garantid o contra as incertezas da vida. ~<br />

O infatigável espírito des bravador do povo<br />

brasileiro continua a se expandir. agora<br />

rumo ao muito a mplo alargamento das<br />

fronteiras agrícolas do País. Em junho de<br />

1984, colonos paranaenses pa rtiram de<br />

Curitiba, com destino ao Amazonas, o nd e<br />

se instalaram em terras do Projeto Novo<br />

Aripuanã, a convite do governo daquele<br />

Estado.


As pectos da lavoura de uma super-fa zendaempresa.<br />

A mecanização to rnou-se sua<br />

principal característica. substituindo o<br />

á rduo la bor huma no que outrora ma rcava<br />

a vida rural.<br />

O pa no rama é ma rcado po r galpões<br />

para a rmazena mento da colheita e a brigo<br />

da maquina ria. a presentada aqui em algumas<br />

fases de sua atividade. Dele estão<br />

ause ntes a sede-sola r pa ra as estadas do<br />

proprietá rio e sua família . E as casas dos<br />

colo nos não são mais de grossas pa redes de<br />

alve na ria.<br />

C hegou a seu auge o progresso. Foi-se o<br />

passado. leva nd o consigo va lo res morais e<br />

afeti vos, huma nos. que faze m fa lta ...


A agricultura brasileira, apesar dos consideráveis sacrifícios com que arca<br />

em prol da economia nacional, vai acompanhando satisfatoriamente a expansão demográfica.<br />

Dela procedem em magna parte as divisas com que se tem feito nossa<br />

industrialização. Vai ela cumprindo assim normalmente seu dever para com o País.


São Paulo<br />

Foto ABIM<br />

Flashes do desenvolvimento urbano e industrial. No<br />

Brasil, destacam-se cidades históricas e mundialmente<br />

famosas por seus monumentos e belas paisagens - como<br />

Salvador, Rio de Janeiro e Ouro Preto - bem como<br />

grandes metrópoles industriais, a exemplo de São Paulo,<br />

Belo Horizonte e Porto Alegre. Nas últimas décadas, em<br />

nosso país-continente, desenvolveu-se um possante parque<br />

industrial, modernas autopistas encurtaram as distâncias e<br />

se implantaram avançadas técnicas de telecomunicação.<br />

Entretanto, a agricultura constitui importante e indispensável<br />

pilar da economia nacional.<br />

Em muitos lugares, a pobreza das habitações ilude. O caráter precário das construções,<br />

favorecido pela amenidade do clima, engana o visitante. Dentro delas<br />

se leva uma vida da qual não está excluído o conforto. As antenas de televisão<br />

se multiplicam. E muitos dos moradores têm automóveis.


A agricultura brasileira, apesar dos consideráveis sacrifícios com que arca<br />

em prol da economia nacional, vai acompanhando satisfatoriamente a expansão demográfica.<br />

Dela procedem em magna parte as divisas com que se tem feito nossa<br />

industrialização. Vai ela cumprindo assim normalmente seu dever para com o País.


Vista aérea da fábrica de equipamentos Yillares (S . Bernardo do Campo - SP)<br />

Prensa de forjar, instalada na unidade da Indústria<br />

Villares, em Pindamonhangaba (SP).<br />

Barragem da CESP sobre o Rio Paraná,<br />

Lagoas (MS).<br />

em Três


Impelidos por líderes filocomunistas - como o ex-deputado Francisco Julião (em destaque) - camponeses marcham pelas<br />

ruas de Recife em apoio a Fidel Castro, no auge da agitação agrária promovida pelas Ligas Camponesas, em I 962.<br />

No comício do dia 13 de março de 64, no Rio, com a<br />

presença de J ango, oradores, cartazes e manifestantes<br />

deixaram bem claro quanto o PCB contava lucrar com a<br />

implantação da <strong>Reforma</strong> Agrária O AGRO-REFORMISMO INVESTE .. .<br />

No início da década de 60, correntes comunistas<br />

e esquerdistas, esteadas no governo<br />

janguista, tentaram - já então com apoio<br />

declarado de figuras da "esquerda católica" -<br />

implantar no Brasil a <strong>Reforma</strong> Agrária <strong>socialista</strong><br />

e confiscatória.<br />

Durante sensacional programa de TV, em deze mbro de 1960,<br />

D. Helder Câmara, o Arcebispo vermelho, então secretáriogeral<br />

da CNBB, faz a leitura, em nome do episcopado pa ulista,<br />

de um documento de apoio ao projeto de Revisão Agrária, de<br />

cunho nitidamente socializante, do governo do Estado de<br />

São Paulo.


... A TFP DEFENDE A<br />

PROPRIEDADE PRIVADA E<br />

A LIVRE INICIATIVA ·<br />

Os autores de RA-QC pronunciaram conferências sobre a<br />

temática do livro em várias cidades do País. Na foto, o<br />

Prof. PÍinio Corrêa de Oliveira dirige-se à_ classe rural de<br />

Bragança Paulista (SP).<br />

Opondo-se à primeira tentativa de introdução<br />

da <strong>Reforma</strong> Agrária no Brasil, nos<br />

anos 60, a TFP difundiu o best se/ler<br />

"<strong>Reforma</strong> Agrária - Questão de Consciência"<br />

- RA-QC. Quatro edições no<br />

Brasil, num total de 30 mil exemplares.<br />

À medida que RA-QC se difundia, ia<br />

entrando ar novo na atmosfera confinada<br />

que asfixiava as classes produtoras. E o<br />

público em geral começou a ver que a força<br />

de impacto da principal corrente agroreformista,<br />

isto é, o "esquerdismo católico",<br />

não passava de mito. Atingido o "esquerdismo<br />

católico" - centro nervoso da propaganda<br />

em favor da <strong>Reforma</strong> Agrária confiscatória<br />

- achava-se comprometido o próprio<br />

resvalar do Brasil rumo à esquerda.<br />

Em outubro de 1964, a TFP começa a<br />

difundir, por todo o Brasil, a "Declaração<br />

do Morro Alto", um programa positivo de<br />

política agrária. Duas edições, num total de<br />

22.500 exemplares.<br />

Em Belo Horizonte, o Secretário da Agricultura de Minas<br />

Gerais, Sr. Paulo Salvo, e líderes rurais conversam com o<br />

Prof. Plínio Corrêa de Oliveira antes da conferência na<br />

Faculdade de Medicina da UFMG, em 1961.<br />

O Prof. Plínio Corrêa de Oliveira com fazendeiros que<br />

subscreveram a "Declaraçii.o do Morro Alto".


O cardeal D. Vicente Scherer, arcebispo<br />

resignatário de Porto<br />

Alegre: "Nós sempre fomos favoráveis<br />

à reforma agrária e<br />

o bispado gaúcho tem-se batido<br />

por isso há muito tempo".<br />

("O Estado de São Paulo",<br />

1/7/78).<br />

D. Ivo Lorscheiter, Bispo de<br />

Santa Maria (RS), defendendo<br />

uma reforma agrária mais<br />

abrangente, que alcance inclusive<br />

os latifúndios produtivos, declara:<br />

"Todo latifúndio, por<br />

mais produtivo que seja, é concentrador<br />

e por isso gera problemas<br />

sociais". ("Jornal do Brasil<br />

", 30/ 5/ 85).<br />

Visão do plenário de Bispos da 18 ? Assembléia<br />

Geral da CNBB que, em fevereiro de<br />

1980, aprovou a <strong>Reforma</strong> Agrária.<br />

. . .<br />

l<br />

til<br />

g<br />

~<br />

ci<br />

o<br />

~<br />

D. Tomás Ba lduíno, Bispo de<br />

Goiás (GO): "O nome ve rdaa<br />

deiro não é reforma agrária, é<br />

revolução agrária, e isso não<br />

vem apenas com boa vontade,<br />

com gestos cordia is". ("O São<br />

Paulo". 15 a 2 1/ 2/ 80).<br />

D. Pedro Casaldá liga, Bispo de<br />

São Féli x do Araguaia ( MT),<br />

"Monsenhor Martelo e Foice",<br />

como se autodenomina em um<br />

de seus livros, declar~: "Malditas<br />

sejam todas as cercas!<br />

Malditas todas as propriedades<br />

privadas. .... Malditas sejam<br />

todas as leis, compostas habilmente<br />

por umas poucas mãos<br />

para amparar cercas e bois"<br />

('Tierra Nuestra Libertad",<br />

Ed itorial Guadalupe, p. 129).


A partir da reunião da CNBB<br />

realizada em Itaici em fevereiro de<br />

1980, um verdadeiro incêndio<br />

agro-reformista se propagou pelo<br />

Brasil. Na vanguarda dessa investida<br />

encontravam-se influentes<br />

personalidades eclesiásticas, cujos<br />

pronunciamentos favoreciam a<br />

implantação, no Pa(s, de uma reforma<br />

agrária <strong>socialista</strong> e confiscatória,<br />

bem como da agitação<br />

social.<br />

Lançado num momento em<br />

que o perigo a muitos parecia distante,<br />

o livro "Sou católico: posso<br />

ser contra a reforma agrária?';<br />

de autoria do Prof Plinio Corrêa<br />

de Oliveira e do economista Carlos<br />

Patdcio dei Campo, preveniu<br />

nosso meio rural contra tal onda<br />

de agitação.<br />

Recebida com calorosa simpatia,<br />

a obra alcançou, em poucos<br />

meses, uma tiragem de 29 mil<br />

exemplares.<br />

Nela, os autores sustentam,<br />

com base em sólida documentação<br />

doutrinária, que o católico<br />

contrário à <strong>Reforma</strong> Agrária <strong>socialista</strong><br />

e confiscatória pleiteada<br />

pela CNBB tem não só o direito,<br />

mas o dever de se manter nessa<br />

posição. E isto em conformidade<br />

cqm o ensino tradicional do Supremo<br />

Magistério da Igreja.<br />

~<br />

Na capital paulista, o lançamento da campanha de rua para a difusão do livro<br />

"Sou católico: posso ser contra a reforma agrária?".<br />

Caravanas constituídas por sócios e cooperadores da TFP, destinadas à difusão<br />

da obra "Sou católico: posso ser contra a reforma agrária?" estiveram presentes<br />

em exposições rurais, onde milhares de pessoas foram informadas das<br />

teses essenciais da obra anti-agro-reformista.<br />

Stand da TFP na Exposição Agropecuária de Londrina (PR), em 1981.


Em lvinhema (MS), invasores da gleba Santa .Idalina assistem a uma Missa celebrada no local por D. Teodardo Leitz, Bispo<br />

de Dourados (MS). A invasão recebeu franco apoio do Prelado e contou com a participação das CEBs e a orientação<br />

da CPT. A faixa sugere que as invasões de propriedade fazem parte da <strong>Reforma</strong> Agrária pleiteada pela CPT.<br />

NO QUE CONSISTE<br />

A "OPERAÇÃO PEGA-FAZENDEIRO"<br />

Frei Clodovis Boff, assessor<br />

pastoral do Bispo de Acre e<br />

Purus, D. Moacir Grecchi, narra<br />

na "Revista Eclesiástica Brasileira"<br />

(dezembro de 1980, pp.<br />

600-603), algumas "operações<br />

pega-fazendeiro", realizadas pelas<br />

CEBs daquela região. Vejamos<br />

uma:<br />

"Já fazia algum tempo que<br />

um seringalista do seringai 'Guanabara',<br />

no Alto Iacó, mancomunado<br />

a um desses fazendeiros<br />

paulistas que estão invadindo,<br />

'grilando' e ocupando a Amazônia,<br />

estava ameaçando de expulsão<br />

os seringueiros e lavradores<br />

de uns quatro seringais daquela<br />

área. Estes resistiram em<br />

conjunto. ... . Armaram-se com<br />

suas espingardas de caça e foram<br />

prender por conta própria o paulista<br />

e o seringalista. Depois de<br />

pegas, montaram-nos em dois<br />

jumentos e conduziram-nos, sob<br />

armas, em três dias de caminho,<br />

até um l:>atalhão do exército situado<br />

na fronteira com o Peru.<br />

.... Importa notar neste caso que<br />

a maioria absoluta daqueles homens<br />

estavam ligados às CEBs da<br />

região. A própria iniciativa e a<br />

estratégia da operação 'pegafazendeiro'<br />

foi discutida e liderada<br />

pelos membros mais atuantes<br />

das mesmas CEBs".<br />

O fazendeiro Honório Oli veira Corrêa, juntamente co m mais três<br />

de seus empregados, foi barbaramente assassinado por invasores<br />

de sua propriedade, a Fazenda Jandaia, localizada no município<br />

de Ourém (PA). Seu corpo permaneceu insepulto por vários dias,<br />

pois os invasores, num requinte de maldade, não permitirarr~ que<br />

seus fam iliares o reti rassem do local. Será esta mais uma vltlma<br />

da "operação pega-fazendeiro"?


Carlos Patricio dei Campo<br />

II<br />

A REFORMA AGRÁRIA<br />

SOCIALISTA E CONFISCATÓRIA<br />

Considerações econôtnicas


Carlos Patricio dei Campo<br />

Engenheiro agrônomo pela Universidade<br />

Católica do Chile.<br />

Formado em Economia Agrária (M.S.) pela<br />

Universidade da Califórnia, Berkeley (EUA).<br />

Professor de Econometria da Escola de<br />

Economia e Administração da Universidade<br />

Católica do Chile; professor de Economia<br />

Agrária e Desenvolvimento Econômico do<br />

Departamento de Economia Agrária da Faculdade<br />

de Economia e Administração da<br />

Universidade Católica do Chile.<br />

Como membro do Centro de Investigações<br />

Econômicas da Universidade Católica do Chile<br />

e do Departamento de Economia Agrária<br />

da mesma Universidade, participou e dirigiu<br />

vários trabalhos na área de desenvolvimento<br />

econômico e avaliação de projetos.<br />

Foi coordenador e professor do Programa<br />

de Pós-Graduação da Escola de Economia e<br />

Administração e do Departamento de Economia<br />

Agrária da Universidade Católica do<br />

Chile.<br />

Foi também assessor econômico do Departamento<br />

de Economia da Produção do Ministério<br />

da Agricultura do Chile e de várias<br />

entidades privadas.<br />

Radicado no Brasil desde 1972, trabalhou<br />

como assessor econômico de diversas empresas<br />

e vem prestando assistência administrativa<br />

e financeira à Sociedade Brasileira de Defesa<br />

da Tradição, Família e Propriedade.<br />

Em 1981, escreveu, juntamente com Prof.<br />

Plinio Corrêa de Oliveira, o livro Sou católico:<br />

posso ser contra a <strong>Reforma</strong> Agrária?, no<br />

qual trata dos aspectos econômicos do documento<br />

Igreja e problemas da terra, da CNBB.<br />

114


Introdução<br />

A proposta para a elaboração do 1? Plano<br />

Nacional de <strong>Reforma</strong> Agrária da Nova República<br />

(PNRA), preparada pelo Ministério da <strong>Reforma</strong><br />

e Desenvolvimento Agrário e pelo INCRA,<br />

para a aplicação do Estatuto da Terra, e submetido<br />

à discussão pública, alega como uma das razões<br />

básicas para implantar a <strong>Reforma</strong> Agrária<br />

a onda de violência que, segundo seus autores,<br />

assola a agricultura do País.<br />

A causa essencial dessa onda de violência seria<br />

a alta concentração na distribuição da propriedade<br />

da terra. Enquanto alguns poucos possuem<br />

grandes extensões, muitos outros (pequenos<br />

proprietários, assalariados, pequenos posseiros<br />

e parceiros) viveriam na pobreza, vendo-se<br />

obrigados a abandonar o campo, num verdadeiro<br />

êxodo rural, ou a, revoltados, invadir fazendas.<br />

Daí decorreria a urgência em desapropriar a<br />

terra dos que a possuem em excesso e distribuíla<br />

aos que pouco ou nada têm, para diminuir o<br />

êxodo rural, melhorar a situação dos trabalhadores<br />

e eliminar a violência.<br />

O caráter simplista - e errôneo em alguns<br />

aspectos - da visualização que os autores do Plano<br />

têm da situação do campo no Brasil será apresentado<br />

nestes comentários do ponto de vista econômico.<br />

Mostraremos que a <strong>Reforma</strong> Agrária<br />

proposta, além de não ser uma solução para os<br />

problemas da agricultura, provavelmente agravará·<br />

ainda mais os já existentes, dando origem a um<br />

verdadeiro caos social e econômico, que condu-<br />

. zirá à derrocada de toda a economia do País.<br />

Relacionaremos ainda um conjunto· de medidas<br />

provadamente eficazes para o desenvolvimento<br />

econômico e social da agropecuária, que<br />

deveriam constituir o fundamento de qualquer<br />

plano governamental destinado a promover efetivamente<br />

o bem-estar e a tranqüilidade de toda<br />

a Nação brasileira.<br />

* * *<br />

Antes de entrar na matéria, é interessante<br />

mostrar o simplismo com que é abordado no<br />

PNRA o problema da violência no campo. Ele<br />

fica evidente para qualquer espírito desapaixonado,<br />

especialmente ao considerar os dois seguintes<br />

aspectos da questão.<br />

• Em primeiro lugar, o número de conflitos pela<br />

posse da terra e o de mortes em decorrência<br />

deles. De acordo com o próprio PNRA (Th.bela<br />

1), no Brasil inteiro o número de conflitos aumentou<br />

da seguinte forma: em 1971 houve 109<br />

conflitos; em 1976, 126; em 1981, 896; e em 1984,<br />

115


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

Tüulo II<br />

950 conflitos. O número de mortos foi 20 em<br />

1971, 31 em 1976, 91 em 1981 e 180 em 1984.<br />

Por mais dolorosas que sejam estas cifras, e<br />

tendo em vista a imensidade do território nacional<br />

e de sua população, parece ridículo afirmar,<br />

com base em tais dados, que no campo brasileiro<br />

reina tal violência que justifique medidas de<br />

grande gravidade e radicalidade como as propostas<br />

no documento. Basta para isso considerar que<br />

o número de homicídios dolosos havidos na<br />

Grande São Paulo nos anos de 1983 e 1984 foi<br />

de 2.712 e 3.516, respectivamente (1). Se, para efeito<br />

de çomparação, considerarmos o ano de 1984,<br />

o número de mortos em conflitos por razões fundiárias,<br />

em todo o campo brasileiro, chega apenas<br />

a 50/o dos homicídios dolosos ocorridos no<br />

mesmo ano, só na Grande São Paulo.<br />

Em segundo lugar, atribuir só ao desespero<br />

de camponeses miseráveis os conflitos e mortes<br />

havidos nos campos, é contradizer a realidade evidente.<br />

Ninguém pode negar a existência de agitadores<br />

profissionais, de membros do Clero esquerdista<br />

e das Comunidades Eclesiais de Base<br />

- CEBs, que promovem artificialmente a violência,<br />

muitas vezes contra a própria vontade dos<br />

camponeses (cfr. CEBs, pp. 171-201; "Catolicismo"<br />

n? 5 402 e 406-407). É também inegável que<br />

muitos dos conflitos são gerados, não pelo de-<br />

sespero de miseráveis, mas por delimitações confusas<br />

ou titulações pouco claras, características<br />

dos países em forte expansão e de tamanho continental,<br />

como o Brasil.<br />

* * *<br />

O leitor notará sem dificuldade que o autor<br />

deste trabalho utilizou para a sua análise da <strong>Reforma</strong><br />

Agrária os instrumentos da teoria econômica<br />

neoclássica. Quer isto dizer que ele aceita,<br />

sem restrições, todos os princípios dessa escola?<br />

Cabe aqui um esclarecimento. O autor é inteiramente<br />

contrário ao socialismo, mas faz também<br />

restrições à escola neoclássica; tais restrições,<br />

entretanto, não afetam o emprego de sua metodologia<br />

(cfr. SC, pp. 271-274). Seria fugir à natureza<br />

e aos limites do presente trabalho fazer<br />

aqui a crítica da escola neoclássica. Nosso único<br />

objetivo é proceder à análise dos aspectos econômicos<br />

do PNRA.<br />

Uma observação final: o presente trabalho<br />

não se destina especificamente a especialistas na<br />

área econômica. Por essa razão, adotamos uma<br />

linguagem e uma forma de exposição um tanto<br />

mais acessíveis, mantendo, no entanto, o rigor na<br />

análise e a forma sintética no desenvolvimento<br />

do tema.<br />

116


Capítulo I<br />

A atual estrutura agrária<br />

é legítima, condizente com as<br />

características econômicas do País,<br />

e vem trazendo grandes<br />

benefícios para a Nação<br />

O PNRA afirma:<br />

"De acordo com os dados do Censo Agropecuário<br />

de 1980, os estabelecimentos com área<br />

igual ou superior a 1.000 hectares representavam<br />

cerca de 1% do total de propriedades rurais<br />

e aproximadamente 45% da área total. Em<br />

contrapartida, os estabelecimentos com área inferior<br />

a 100 hectares configuravam quase 90%<br />

do total, mas sua participação era de apenas<br />

20% na área total recenseada.<br />

"Os dados do Cadastro de Imóveis Rurais<br />

do Incra, cuja implantação foi posterior à promulgação<br />

do Estatuto, refletem em maior precisão<br />

a concentração da propriedade fundiária,<br />

já que individualizam o 'imóvel rural; que se<br />

constitui em uma unidade de propriedade e posse<br />

da terra, enquanto que o Censo Agropecuário<br />

do JBGE define o 'estabelecimento agropecuário;<br />

que se constitui em uma unidade de<br />

produção.<br />

''Assim, os imóveis com mais de 1.000 ha que<br />

em 1967 ocupavam 46,9% da superfície total<br />

dos imóveis rurais do País, passaram a deter<br />

58,3 % em 1984. No outro extremo, os imóveis<br />

com menos de 100 ha tiveram sua participação<br />

reduzida de 18, 7%, em 1967, para 14,0% em<br />

1984. A má distribuição da terra pode ser melhor<br />

avaliada pelas cifras coletadas no levantamento:<br />

os imóveis com mais de 1.000 ha representavam,<br />

em 1984, apenas 2,0% do total e os<br />

com menos de 100 ha, 83,2%. Destes últimos,<br />

66,4% (em números absolutos mais de 1.700.000<br />

imóveis) possuíam superfície inferior a 25 ha.<br />

''A concentração da posse da terra, historicamente<br />

garantida e contemporaneamente estimulada,<br />

fez prevalecer a injustiça social no<br />

campo. Enquanto, em 1984, constatava-se a<br />

existência de 10,6 milhões de trabalhadores rurais<br />

sem terra, os imóveis considerados segundo<br />

o Estatuto como latifúndios (portanto, não<br />

cumprindo sua função social) apropriavam 409<br />

milhões de hectares. Esses imóveis apresentavam<br />

em 1972 cerca de 25 % da sua área aproveitável<br />

não explorada. Essa situação agravouse<br />

de forma substantiva, tanto que, em 1984,<br />

passou a ser de 41% a área aproveitável não<br />

explorada".<br />

Em síntese, os parágrafos acima citados dão<br />

a entender que:<br />

1) Nas últimas décadas a posse da terra foise<br />

tornando cada vez mais inacessível para o trabalhador<br />

rural.<br />

2) Os grandes proprietários, cada dia com<br />

mais terra, foram progressivamente reduzindo<br />

117


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

a utilização das áreas que iam adquirindo,<br />

destinando-as mais para reserva de valor do que<br />

para produzir os alimentos de que o País<br />

necessita.<br />

3) A inacessibilidade da terra para o trabalhador<br />

trouxe como conseqüência o êxodo rural<br />

e a pobreza no campo.<br />

Provaremos a seguir o caráter unilateral destas<br />

afirmações contidas no documento.<br />

1. Nas últimas décadas,<br />

houve significativo<br />

aumento na difusão da<br />

propriedade da terra<br />

Antes de mais nada é necessário distinguir<br />

entre concentração e difusão da propriedade da<br />

terra. A concentração é um índice destinado a<br />

comparar o percentual de proprietários em uma<br />

faixa de tamanho de propriedades ( em relação<br />

ao total de proprietários) com o percentual de<br />

área representado por essa mesma faixa de propriedades.<br />

A difusão, como a palavra o indica,<br />

se refere ao número de proprietários comparado<br />

com a população rural. Portanto pode haver<br />

aumento na concentração da propriedade<br />

da terra, concomitante com aumento da sua<br />

difusão.<br />

Como demonstramos em trabalho anterior<br />

(cfr. PLINIO CORRÊA DE OLIVEIRA -<br />

Titulo II<br />

CARLOS PATRICIO DEL CAMPO, Sou católico:<br />

posso ser contra a <strong>Reforma</strong> Agrária?<br />

(SC), Editora Vera Cruz, São Paulo, 4~ ed.,<br />

1982, p. 277), em países como o Brasil, cuja colonização<br />

foi baseada na abertura de grandes<br />

fazendas, e que além disso está em fase de crescimento<br />

e com uma área enorme ainda por desbravar,<br />

à medida que cresce o número de propriedades<br />

a tendência natural é que a concentração<br />

da propriedade da terra também aumente.<br />

A razão é simples.<br />

À medida que ª\ grandes propriedades vão<br />

sendo divididas em propriedades menores, seja<br />

por herança, colonização ou conveniências<br />

comerciais, a velocidade de crescimento do número<br />

de propriedades médias e pequenas em relação<br />

ao número total de propriedades é superior<br />

à velocidade de crescimento da área das propriedades<br />

médias e pequenas em relação à área<br />

total das propriedades. Se a isso se acrescenta<br />

o fato de que a fronteira agrícola brasileira vem<br />

sendo aberta predominantemente por meio de<br />

grandes propriedades (o que aliás é necessário<br />

para tornar viável a exploração em regiões distantes<br />

dos centros de consumo e de difícil aces-.<br />

so ), o resultado final forçoso é um aumento na<br />

concentração da propriedade da terra. Isso nada<br />

tem de injusto, anormal ou negativo.<br />

Os dados do Quadro 1 abaixo mostram que<br />

tem havido um significativo aumento na difusão<br />

da propriedade da terra.<br />

O número de proprietários rurais cresceu,<br />

e de modo especial em relação ao total da população<br />

ocupada no campo. Em 1950 os pro-<br />

Quadro 1. -<br />

Porcentagem de proprietários em relação à População Economicamente<br />

Ativa (PEA) agrícola<br />

1950 1960 1970 1980<br />

PEA agrícola 9.886.934 11.825.940 13.090.358 12.661.017<br />

Produtores-proprietários(*) 1.668.143 2.401.322 3.094.861 3.415.883<br />

Porcentagem 16,9 20,30 23,60 26,9<br />

Fonte: Censos Demográficos 1950, 1960, 1970 e 1980. Censos Agropecuários 1950, 1960, 1970 e 1980.<br />

(*) Usado como estimativa do número de proprietários, pois o Censo Agropecuário refere-se ao número de estabelecimentos<br />

de exploração, sejam ou não proprietários. Por exemplo, arrendatários e parceiros figuram como estabelecimentos diferentes<br />

ainda que realizem sua exploração dentro do mesmo imóvel.<br />

118


Considerações econômicas<br />

prietários constituíam 17% da população ocupada<br />

no campo; em 1980 essa porcentagem aumentou<br />

para 270/o.<br />

Estas cifras são ainda mais significativas<br />

quando se excluem aquelas categorias de empregados<br />

que se podem considerar como dependentes,<br />

tais como as mulheres e aqueles que, por<br />

razão de sua idade, é normal não serem ainda<br />

proprietários, como os homens menores de 24<br />

anos. Em tal caso, como o mostra o Quadro 2,<br />

abaixo, a porcentagem de proprietários em relação<br />

à população agrícola potencialmente proprietária<br />

aumentou, de 300/o em 1950, para 45<br />

a 500/o em 1980 (ver Anexo 1).<br />

Estes percentuais devem ser analisados com<br />

cuidado, porque o seu aumento pode ter ocorrido<br />

por diminuição do número de pessoas ocupadas,<br />

mais do que por aumento do número de<br />

proprietários. No caso concreto, parece ter havido<br />

ambos os fenômenos.<br />

Tanto na hipótese de aumento da população<br />

ocupada (como indica o Censo Agropecuário)<br />

quanto na de diminuição (como<br />

mostra o Censo Populacional), o percentual<br />

de proprietários não variou significativamente<br />

(ver Anexo 1). O que pode ser afirmado<br />

com segurança é que o número de<br />

proprietários agrícolas - ainda que não se<br />

considere o número de posseiros, parceiros e<br />

arrendatários - mostra um nível de acesso à<br />

Capítulo/<br />

terra bem maior que o indicado pelo PNRA.<br />

É razoável imaginàr que o percentual de<br />

proprietários poderia ser maior, caso a agropecuária<br />

não tivesse sido penalizada pela política<br />

econômica seguida nas últimas décadas (ver<br />

nota 3).<br />

* * *<br />

Cabe aqui um parêntese para mostrar novamente<br />

a precariedade de alguns dados fornecidos<br />

pelo PNRA. Aparentemente para impressionar<br />

o leitor não especializado, fala ele de 10,6<br />

milhões de homens sem terra ou com pouca terra.<br />

Esta cifra foi obtida somando-se o número<br />

de minifundistas, posseiros, parceiros, arrendatários,<br />

assalariados permanentes, assalariados<br />

temporários e outros trabalhadores que constam<br />

nos cadastros do INCRA.<br />

Dois dados desinflam a primeira impressão<br />

que estes números podem causar. O primeiro<br />

é o fato conhecido de que muitos trabalhadores<br />

pertencem a mais de uma categoria simultaneamente.<br />

Por exemplo, um minifundista pode<br />

ser ao mesmo tempo parceiro, arrendatário ou<br />

empregado temporário em fazendas vizinhas.<br />

Portanto, a cifra citada pelo PNRA inflaciona<br />

o número real de trabalhadores sem terra ou<br />

com pouca terra.<br />

Em segundo lugar, cabe perguntar se nos<br />

10,6 milhões não estão incluídos jovens, mulhe-<br />

Quadro 2. -<br />

Porcentagem de Proprietários em Relação à PEA Agrícola Potencialmente<br />

Proprietária<br />

1950 1960 1970 1980<br />

PEA total 9.886.934 11.825.940 13.090.358 12.661.017<br />

PEA feminina 732.900 1.174. 759 1.257.659 1.610.507<br />

PEA masculina (10-24 anos) 3.653.889 4.151.472 ("') 4.502.157 4.087.693<br />

TOTAL 5.500.145 6.499.709 7.330.542 6.962.817<br />

Produtores-proprietários 1.668.143 2.401.322 3.094.861 3.415.883<br />

Porcentagem 30,3 36,9 42,2 49,05<br />

Fonte: Censos Demográficos 1950, 1960, 1970 e 1980.<br />

Censos Agropecuários 1950, 1960, 1970 e 1980.<br />

(*) Para o ano de 1960, o censo não fornece a população economicamente ativa masculina entre 10 e 24 anos. Foi calculada<br />

somando a população economicamente ativa masculina entre 10 e 19 anos (que figura no censo), mais uma porcentagem<br />

da população economicamente ativa masculina entre 20 e 29 anos (56,30Jo), calculada com base nos dados do censo demográfico<br />

de 1970.<br />

119


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

res e crianças. De acordo com os dados apresentados<br />

no quadro acima, baseados no último<br />

censo populacional e agrícola (1980), parece<br />

que do total dos trabalhadores sem terra,<br />

17% são mulheres e 31% são homens entre 10<br />

e 24 anos (2).<br />

2. A atual distribuição<br />

da propriedade da terra<br />

é fruto natural das<br />

características econômicas<br />

do Brasil e da política<br />

econômica seguida<br />

em relação ao<br />

setor agropecuário<br />

No mercado da terra, especialmente no caso<br />

do Brasil, intervêm diversos fatores que podem<br />

levar um observador alheio à realidade brasileira<br />

a concluir que se trata de um mercado<br />

que exige intervenção direta do Estado, para assim<br />

torná-lo compatível com o bem geral da Nação.<br />

Ora, na realidade não é assim. É o que mostraremos<br />

a seguir (3).<br />

A. A terra como reserva de valor<br />

Do ponto de vista econômico, a terra pode<br />

cumprir dupla função. Por um lado, ela é um<br />

recurso produtivo; ou seja, aplicando-se nela<br />

trabalho e capital, produz bens cuja venda resulta<br />

em renda ou lucro para o proprietário.<br />

Mas, por outro lado, a terra pode representar<br />

um investimento como reserva de valor ( como<br />

as aplicações em ouro ou em obras de arte).<br />

Ou seja, o proprietário espera um aumento<br />

do preço dela, sem maior interesse produtivo.<br />

Embora o desenvolvimento do mercado de<br />

capitais no Brasil, na última década, tenha sido<br />

considerável, este não tem ainda a amplitude,<br />

difusão e estabilidade suficientes para representar<br />

uma alternativa segura de investimento<br />

Tiíulo li<br />

para os excedentes financeiros de muitos brasileiros.<br />

Somam-se a isso as incertezas geradas pelas<br />

mudanças extemporâneas na política<br />

econômica.<br />

Este conjunto de fatores pode levar alguns<br />

a aplicar seus excedentes em terras, não com o<br />

intuito primeiro de produzir bens agrícolas, mas<br />

de manter ou aumentar seu patrimônio.<br />

No capítulo seguinte veremos que este comportamento,<br />

de si, não é prejudicial para o desenvolvimento<br />

econômico e social da agricultura.<br />

Bastam, por ora, algumas observações.<br />

Em primeiro lugar, não se sabe qual é a amplitude<br />

deste fenômeno. O mais provável é que<br />

não seja tão amplo quanto se diz. As estatísticas<br />

mostram que nos últimos anos o preço da<br />

terra tem tido uma tendência a estabilizar-se. A<br />

recessão econômica, o aperto da liquidez geral<br />

da economia e a paulatina eliminação dos financiamentos<br />

agrícolas subsidiados têm contribuído<br />

seguramente para tal estabilização. Estudos<br />

indicam ser provável que ela continue (4).<br />

Portanto, o fator reserva de valor, no mercado<br />

da terra, não seria tão importante.<br />

Em segundo lugar, esse comportamento, em<br />

vez de mostrar irracionalidade nos agentes econômicos,<br />

mostra neles, pelo contrário, a racionalidade.<br />

Ou seja, em uma visão que inclui não<br />

só o setor agrícola, mas toda a economia, o investimento<br />

em terras como reserva de valor obedece<br />

a uma lógica econômica (5).<br />

Em terceiro lugar, a aquisição de terras para<br />

reserva de valor - ou "especulativa", como<br />

é chamada comumente - exerce um papel estabilizador<br />

nos preços da terra, e torna mais fácil<br />

a previsão da evolução futura dos ditos preços.<br />

Portanto, deste ponto de vista, tem papel benéfico<br />

no mercado (6).<br />

Finalmente, no caso brasileiro, ninguém pode<br />

alegar que o fato de existirem proprietáriosinvestidores<br />

impede o livre acesso à terra daqueles<br />

que o desejem, e que tenham condições técnicas<br />

e financeiras para produzir. A ampla e<br />

acessível rede de intermediação na compra e<br />

venda de terras é uma prova palpável disto. No<br />

mesmo sentido, oferece possibilidades para o<br />

acesso à terra a existência de enormes áreas de-<br />

120


Considerações econõmicas<br />

volutas, muitas das quais são adequadas para<br />

a pequena agricultura (ver Cap. III, 9 e Anexo<br />

II).<br />

B. A terra como recurso produtivo<br />

A produção agrícola, como qualquer outra,<br />

é gerada pela intervenção simultânea do trabalho<br />

e do capital. No caso da agropecuária, estes<br />

fatores de produção apresentam um grau de<br />

heterogeneidade que não se encontra em outros<br />

setores da economia. Essa heterogeneidade é da<br />

própria natureza da agricultura: grande variedade<br />

de qualidade de terras, diversidade na localização<br />

em relação aos centros de consumo<br />

e vias de acesso, variações nas características climáticas,<br />

disponibilidade e qualidade da mãode-obra,<br />

diferenças de capacidade empresarial etc.<br />

Soma-se a essa heterogeneidade uma grande<br />

variedade de relações contratuais entre os fatores<br />

de produção: salariado, arrendamento e<br />

parceria, aluguel de máquinas e equipamentos,<br />

sistemas cooperativos etc.<br />

Tudo isso faz com que a agricultura apresente<br />

multiplicidade de combinações entre os fatores<br />

de produção, gerando os mais diversos tamanhos<br />

de unidades de exploração. Todos eles,<br />

em princípio, são igualmente eficientes (7). Mas,<br />

se a isto se acrescenta o fato, comprovado em<br />

vários estudos, de que o produtor agrícola brasileiro<br />

responde aos incentivos econômicos (8),<br />

chega-se à conclusão de que a estrutura agrária<br />

vigente, na qual convivem grandes, médias<br />

e pequenas propriedades, é adequada, em suas<br />

linhas gerais, para o melhor aproveitamento dos<br />

recursos e o bem-estar da Nação.<br />

Para defender a <strong>Reforma</strong> Agrária, os agroreformistas<br />

costumam citar estudos mostrando<br />

que a pequena propriedade tem maior produtividade<br />

e usa mais intensamente a mão-de-obra<br />

do que a grande. Eles se esquecem de considerar<br />

essa heterogeneidade dos recursos produtivos<br />

na agricultura. O fracasso das experiências<br />

de <strong>Reforma</strong> Agrária resulta, exatamente, de se<br />

tentar impor artificialmente uma estrutura fundiária<br />

alheia às características dos recursos naturais<br />

e à realidade econômica.<br />

C. Algumas ponderações<br />

Capítulo I<br />

Dois conjuntos de fatores de natureza política<br />

têm contribuído para criar desequilíbrios<br />

na distribuição da propriedade da terra.<br />

De um lado, uma série de medidas de política<br />

econômica, como os incentivos fiscais e os<br />

créditos subsidiados, têm provocado aumento<br />

na concentração da propriedade da terra.<br />

Por outro lado, o pequeno produtor rural<br />

é habitualmente penalizado por uma série de<br />

imperfeições do mercado, especialmente na pesquisa<br />

agrícola, no serviço de assistência técnica<br />

e extensão rural, no acesso aos insumos, na<br />

política de controle de preços dos alimentos etc.<br />

Isso tem feito com que, em decorrência da baixa<br />

renda obtida nas suas explorações, os bolsões<br />

de pobreza no campo se tenham concentrado<br />

nesta categoria de produtores. É o que veremos<br />

nos capítulos seguintes.<br />

Como estes aspectos negativos da realidade<br />

agrícola independem da estrutura fundiária,<br />

eles não invalidam a conclusão de que a atual<br />

distribuição da propriedade da terra está, em<br />

suas linhas gerais, de acordo com a realidade<br />

econômica do País e favorece o desenvolvimento<br />

e bem-estar geral da Nação (cfr. SC, p. 307).<br />

3. A atual estrutura agrária<br />

tem contribuído<br />

significativamente para<br />

o progresso e<br />

desenvolvimento do Brasil<br />

Chama a atenção o fato de que o PNRA<br />

não tenha dito uma palavra de elogio ao setor<br />

agropecuário. Para ele, tudo é ruim e precisa de<br />

uma mudança profunda.<br />

1àl posição obedece a uma lógica. De acordo<br />

com alguns setores agro-reformistas, é necessário<br />

implantar a <strong>Reforma</strong> Agrária para se<br />

criarem as condições para o desenvolvimento<br />

econômico. Ela se incluiria, portanto, entre as<br />

pré-condições do desenvolvimento.<br />

121


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tiifiio agro-reformista<br />

Tt'tulo li<br />

Este argumento teria certo propósito se a<br />

agricultura brasileira estivesse constituindo um<br />

obstáculo ao desenvolvimento nacional. Mas,<br />

pelo contrário, ela tem sido· o fundamento desse<br />

desenvolvimento.<br />

Como veremos a seguir, ela foi fonte de capital<br />

e de mão-de-obra que permitiram a industrialização<br />

do País, além de, ao mesmo tempo,<br />

ter fornecido alimentos em condições favoráveis<br />

para a crescente população urbana que o<br />

processo de desenvolvimento trouxe consigo (9).<br />

A. Parte ponderável da renda<br />

agrícola foi transferida para<br />

financiar o desenvolvimento<br />

industrial e comercial<br />

Recentes estudos mostram que, nas últimas<br />

décadas, as transferências do setor agropecuário<br />

medidas em termos de renda agrícola (taxação<br />

efetiva) variou entre 35 e 480/o, favorecendo<br />

o surgimento do Brasil industrial moderno<br />

(10).<br />

Carece de qualquer fundamento, portanto,<br />

a crença de que a agricultura tem sido um obstáculo<br />

para o progresso econômico e social do<br />

País.<br />

B. O setor rural vem contribuindo<br />

com mais de 50070 das divisas<br />

para financiar as importações<br />

O dinamismo da agricultura brasileira<br />

revela-se com clareza no fato de que, embora<br />

apenas cerca de 200/o da produção agrícola seja<br />

exportada, o Brasil se tenha constituído, no<br />

conjunto da economia mundial, na segunda ou<br />

terceira potência exportadora de produtos de<br />

origem rural (11).<br />

O Quadro 3 mostra a evolução das exportações<br />

agropecuárias.<br />

Portanto, a agricultura tem contribuído significativamente<br />

para a geração de divisas, indispensáveis<br />

para a compra de matérias-primas,<br />

bens de capital e tecnologia necessários para o<br />

desenvolvimento geral do País.<br />

C. A produção agrícola, e<br />

a de alimentos em particular,<br />

tem crescido mais<br />

do que a população<br />

É por todos reconhecido que a política econômica<br />

seguida nas últimas décadas tem sido<br />

prejudicial para a agropecuária (12). A enorme<br />

transferência de recursos da agropecuária, à<br />

qual fizemos menção acima, favoreceu a indústria<br />

e o comércio, mas às custas da penalização<br />

do setor rurali Apesar disto, como mostra o<br />

Quadro 4, a produção agropecuária aumentou<br />

numa proporção maior que a do aumento da<br />

população.<br />

Esse resultado foi conseguido por meio<br />

da abertura de novas fronteiras agrícolas e de<br />

mudanças tecnológicas importantes, especialmente<br />

em determinados setores da atividade<br />

rural.<br />

Entretanto, tem-se verificado nos últimos<br />

anos menor crescimento da área plantada, ao<br />

par de uma alteração na sua composição. Aumentou<br />

a proporção dos produtos de exportação<br />

e substitutivos de derivados do petróleo,<br />

Quadro 3. - Exportações Agropecuárias (em USS 1.000)<br />

· 1978 1979 1980 1981 1982 1983<br />

Valor O/o Valor O/o Valor OJo Valor O/o Valor O/o Valor O/o<br />

Pecuária 884 6,7 1.111 7,3 1.341 6,7 1.905 8,2 1.773 8,8 1.963 8,9<br />

Agricultura 6.956 54,8 7.750 50,8 10.166 50;5 10.194 43,8 8.343 41,3 9.47,6 43,3<br />

TOTAL 61,5 58,1 57,2 52,0 50,1 52,2<br />

Fonte: Banco do Brasil -<br />

CACEX<br />

122


Considerações econômicas<br />

. Capítulo I<br />

em detrimento dos produtos destinados ao<br />

mercado interno.<br />

Como vimos anteriormente, essa alteração<br />

não decorre da estrutura da propriedade da terra,<br />

mas principalmente do fato de se ter tornado<br />

mais rentável a i:iova composição (13).<br />

D. O setor agrícola e os problemas<br />

sociais da população brasileira<br />

A agricultura foi fonte não só de capital para<br />

o desenvolvimento industrial do País, mas<br />

também forneceu mão-de-obra. Na linguagem<br />

esquerdista, com laivos marxistas, tal fornecimento<br />

de mão-de-obra chama-se "êxodo rural".<br />

O processo migratório do campo para a cidade,<br />

como também para regiões novas, nada<br />

tem de anormal e negativo para o progresso social<br />

e econômico de uma nação. Pelo contrário,<br />

ele é indispensável fator de progresso, especialmente<br />

em países de dimensões continentais,<br />

como o Brasil (cfr. se, p. 280).<br />

Como aproveitar os vastos recursos naturais<br />

inexplorados, em regiões praticamente desabitadas,<br />

sem uma migração pujante e corajosa?<br />

Como conceber o nascimento e progresso de um<br />

setor industrial e comercial possante, sem o recurso<br />

a pessoas provenientes do campo, dispostas<br />

a adquirir qualificação e conhecime11tos que<br />

lhes permitam empregar-se e progredir nas novas<br />

oportunidades aparecidas?<br />

Uma prova do que acima afirmamos é o fato<br />

de nos países desenvolvidos a maioria da populaçã.o<br />

se concentrar nas áreas urbanas.<br />

Em trabalho anterior (cfr. se, pp. 337-342),<br />

baseado em minuciosos estudos de espeçialistas,<br />

mostramos que o processo migratório tem<br />

contribuído para mudar o perfil social da população<br />

do País, fazendo surgir uma numerosa<br />

e pujante classe média.<br />

Esta constatação surgiu da comparação entre<br />

a situação atual das pessoas (1973) com<br />

aquela que os pais tinham em idade semelhante.<br />

71,80Jo dos chefes de família pertenciam à<br />

classe "baixa" na época dos pais. Essa porcentagem<br />

reduziu-se para 46,70Jo em 1973. Por sua<br />

vez, a classe "média" na época dos pais correspondia<br />

a 26,20Jo do total, aumentando para<br />

49,90Jo em 1973.<br />

Por outro lado, em relação ao processo mi-<br />

Quadro 4. - lodices de Produção (1974-1976 - 100)<br />

POR HABITANTE<br />

10TAL<br />

Pecuária Agricultura Alimentos Pecuária Agricultura Alimentos<br />

1971 87,28 96,44 88,36 78,70 87,06 79,67<br />

1972 91,44 96,16 89,52 84,61 89,07 82,83<br />

1973 94,35 92,32 90,43 89,58 87,74 85,86<br />

1974 96,56 102,63 96,71 94,06 100,08 94,21<br />

1975 100,19 100,14 98,38 100,14 100,19 98,33<br />

1976 103,25 97,24 104,90 105,80 99,73 107,47<br />

1977 103,80 104,25 106,42 108,98 109,56 111,72<br />

1978 104,85 99,12 99,09 112,78 106,81 106,56<br />

1979 107,37 102,28 102,23 118,17 112,77 112,60<br />

1980 109,72 107,17 110,50 123,75 120,99 124,63<br />

1981 111,84 112,73 109,78 129,13 130,30 126,75<br />

1982 113,16 108,89 113,73 133,73 128,81 134,39<br />

1983 114,02 110,01 110,60 137,90 133,16 133,73<br />

Fonte: FAO -<br />

Production Yearbook<br />

123


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

...<br />

PROOUÇAO POR HABITANTE<br />

Título li<br />

120<br />

110<br />

100<br />

90<br />

-·-·-·-....<br />

_,"14._<br />

--<br />

., ....<br />

80<br />

1971 1972 1975 1974 1976 1977 1978 1979 1980 '981 1982 198ll<br />

ANO<br />

PRODUÇÃO<br />

TOTAL<br />

140<br />

130<br />

120<br />

li o<br />

100<br />

90<br />

80<br />

--r--19~7,_l--19-12t---19➔7-ll--19-l--74---.. +7-5--19➔7-6--l-9 ..<br />

77 ___ 1 ... 9-78--l--9 ... 7_9 __, ..<br />

9-80--1➔98_i __<br />

l_98 ... 2 ___ 19 ... 8ll ___ ➔<br />

ANO<br />

124


Considerações econômicas<br />

gratório, um dos estudos afirma textualmente:<br />

"O padrão geral de migração e mobilidade no<br />

Brasil coloca em 'xeque' a concepção popular<br />

segundo a qual a migração constitui um fator<br />

de deterioração das cidades, dos cidadãos e dos<br />

próprios migrantes. Os resultados aqui encontrados<br />

vêm juntar-se aos dados de vários estudos<br />

que mostram ser a migração um elemento<br />

de promoção tanto dos migrantes como dos naturais,<br />

e que opera como equalizador na estrutura<br />

social" (14).<br />

Fica evidente, portanto, a necessidade e conveniência<br />

do processo migratório para o crescimento<br />

econômico e social do País, e também<br />

que a agricultura efetivamente o possibilitou.<br />

Esta contribuição do setor agrícola para o<br />

desenvolvimento econômico geral não ocorreu<br />

em detrimento do nível econômico-social de<br />

seus membros. Pelo contrário, as estatísticas<br />

mostram que o salário rural, para todas as categorias<br />

de trabalhadores e em todos os Estados,<br />

apresentou durante as décadas de 60 e 70<br />

um crescimento anual significativamente superior<br />

ao da inflação, variando de 4,04 a 5,96, conforme<br />

as várias categorias (ver Quadro 5).<br />

É verdade que esta tendência parece ter mudado<br />

nos últimos quatro anos, especialmente<br />

em 1984 (Quadro 6). Mas isto não se liga a problemas<br />

intrínsecos do setor agropecuário, e sim<br />

à recessão econômica geral pela qual tem passado<br />

o País. Situação na qual todas as remunerações<br />

caíram em termos reais, entre as quais<br />

a dos operários não qualificados da construção<br />

civil, normalmente usada como termo de comparação<br />

para os operários rurais.<br />

O PNRA refere-se em vários de seus itens<br />

- o que, aliás, é largamente repetido por setores<br />

de esquerda - a um aumento da pobreza,<br />

concomitante com o aumento da concentração<br />

da renda. Em outros termos, que "os ricos ficaram<br />

mais ricos e os pobres mais pobres".<br />

Ora, a realidade é outra. Vários estudos<br />

mostram que na década de 60 houve<br />

aumento na concentração da renda, mas<br />

acompanhado de diminuição da pobreza.<br />

Na década de 70 os dados são inconcludentes<br />

sobre a concentração da renda, e indicam<br />

Capítulo I<br />

uma significativa diminuição da pobreza (15).<br />

Estas considerações mostram que nas últimas<br />

décadas todas as categorias sócioeconômicas<br />

melhoraram, porém umas mais do<br />

que as outras.<br />

E. Sombras no quadro e conclusão<br />

É bem verdade que houve distorções ao longo<br />

do processo descrito acima. Porém elas não<br />

decorrem da estrutura da propriedade da terra,<br />

mas se devem principalmente à penalização<br />

de que o setor agrícola tem sido objeto nas últimas<br />

décadas.<br />

Essa penalização - provada, como já dissemos,<br />

em numerosos e bem fundamentados estudos<br />

(16) - fez com que o processo de transferência<br />

de mão-de-obra fosse mais rápido do<br />

que o necessário, e que o processo de mudanças<br />

tecnológicas, especialmente no setor produtor<br />

de alii;nentos, fosse prejudicado.<br />

Isso provocou a formação de bolsões de pobreza<br />

no campo e nas cidades, especialmente<br />

nos setores populacionais de menor qualificação,<br />

como os pequenos produtores rurais e a<br />

mão-de-obra não qualificada das cidades (cfr.<br />

se, pp. 295-298).<br />

Não se pode deixar de mencionar aqui a<br />

contribuição negativa que teve a execução do<br />

2? Plano Nacional de Desenvolvimento, iniciada<br />

em meados da década de 70, que significou uma<br />

verdadeira estatização da economia e provocou<br />

o crescimento vertiginoso do endividamento externo.<br />

Essa política estatizante e intervencionista<br />

conduziu o País a um nível de vulnerabilidade<br />

sem precedentes, ante a crise financeira<br />

mundial.<br />

Sem recursos externos para fazer face simultaneamente<br />

aos compromissos gerados pela dívida<br />

externa e às necessidades de crescimento,<br />

e sem a capacidade de gerar recursos internos<br />

suficientes para manter o ritmo de crescimento,<br />

o País imergiu em um processo recessivo,<br />

agravado em suas conseqüências econômicas e<br />

sociais por uma inflação crescente.<br />

Isso intensificou a formação dos bolsões de<br />

pobreza e reduziu a capacidade de emprego,<br />

125


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

Título li<br />

diante de um Estado impotente para aliviar tal<br />

situação. Os recursos do Estado, em vez de serem<br />

destinados a melhorar as condições de saúde,<br />

saneamento e outras atividades inerentes à<br />

sua função, foram orientados para financiar os<br />

déficits das empresas estatais e as obras públicas,<br />

muitas das quais com longo prazo de<br />

maturação.<br />

As conseqüências negativas da recessão sofrida<br />

pelo País nos últimos anos merecem entretanto<br />

ser matizadas. Em primeiro lugar, as<br />

estatísticas oficiais de desemprego, publicadas<br />

Quadro 5. -<br />

Taxas Anuais de Crescimento dos Salários Reais por Categoria<br />

e Estado (1966-1979)<br />

Estado Administrador Capataz Tratorista Trab. Perm. Trab. Eventual<br />

AC la) 8,6(b) 8,7 l ,4 4,9 3,5<br />

AM(bl 6,2(d) 3,5 l ,9 0,6(a) -0,4(8 )<br />

PA (b) 5,9 2,5 3,6(a) 1,3(8 ) 0,0<br />

MA 7,4 2,6 4,0 3,3 5,0<br />

CE 4,6 4,7 2,7 4,9 6,6<br />

RN 3,6 2,9 2,9 4,3 6,5<br />

PB 5,2 5,3 5,1 5,5 7,1<br />

PE 5,7 5,2 4,2 4,4 5,6<br />

AL 5,2 6,5 6,6 4,7 6,7<br />

SE 7,5 5,2 5,4 4,4 6,2<br />

BA 6,1 5,2 5,8 4,6 7,1<br />

MO 6,2 5,3 3,1 5,4 7,2<br />

ES 6,5 4,6 6,8 6,4 7,2<br />

RJ 4,4 5,5 4,4 5,2 6,0<br />

SP (a) 6,7 - 5,9 5,4 6,8<br />

PR 6,5 5,8 4,2 4,1 4,5<br />

se 5,6 5,1 3,6 3,6 5,4<br />

RS 1,9 4,2 2,9 2,6 3,8<br />

MT 7,5 6,0 3,7 3,9 5,0<br />

GO 8,2 4,5 2,9 4,5 5,4<br />

BR 5,8 5,3 3,8 4,5 6,3<br />

(a) ref. período 1970/79; (b) ref. período 1973/79; (c) ref. diária; (d) estatística não significativa a 50/o<br />

Fonte: FGV /1979, apud C.S.C. Barros et alii, Análise do Trabalho na Agricultura Brasileira, in "Revista de Economia Rural"<br />

21 (3): 316 julho-setembro de 1983.<br />

Quadro 6. -<br />

Evolução dos Salários Agrícolas por Categoria(*)<br />

no Estado de São Paulo (1980/1984)<br />

Administrador Tratorista Mens. resid. Capataz Diar. resld.<br />

Ano<br />

1980 100 100 100 100 100<br />

1981 89 92 91 90 89<br />

1982 96 100 101 96 91<br />

1983 91 92 95 89 88<br />

1984 70 71 70 58 65<br />

(*) lndice simples, calculado a partir dos valores reais de março de 1980 = 100.<br />

Fonte: IEA - Secretaria da Agricultura do Estado de São Paulo, Progn6stico 84/85, p. 53, Quadro 22.<br />

Volante<br />

100<br />

93<br />

88<br />

84<br />

59<br />

126


Considerações econômicas<br />

pelo IBGE, mostram que os índices nunca foram<br />

muito altos, apesar de acusarem nítido<br />

aumento em relação aos da época anterior à<br />

recessão. Em segundo lugar, surgiu uma volumosa<br />

economia "subterrânea", que não aparece<br />

nas estatísticas oficiais de produção. Segundo<br />

alguns, ela pode representar 25 a 30% do<br />

produto nacional. Isto seguramente contribuiu<br />

para aliviar a situação de muitos que se<br />

viram sem emprego ou tiveram suas rendas<br />

diminuídas.<br />

Que dizer então sobre a necessidade de deter<br />

o "êxodo rural" por meio da <strong>Reforma</strong><br />

Agrária, alegada no PNRA?<br />

Embora as migrações sejam indispensáveis<br />

para o desenvolvimento da Nação, como medida<br />

provisória parece conveniente reduzi-las<br />

até que a economia recupere seu ritmo de crescimento.<br />

Mas, como veremos na capítulo II<br />

deste trabalho, a implantação do PNRA provavelmente<br />

incrementaria ainda mais o processo<br />

migratório; ou, pelo menos, não o<br />

reduziria.<br />

* * *<br />

Estas considerações levam a concluir que<br />

absolutamente não tem qualquer justificação<br />

atribuir à estrutura agrária a responsabilidade<br />

pela má situação social e econômica de alguns<br />

setores da população. Representa uma grave<br />

injustiça perseguir e espoliar uma classe que<br />

contribuiu e contribui :preponderantemente<br />

para o progresso da Nação, e que na atual conjuntura,<br />

por meio das exportações e da produção<br />

de alimentos, vem minorando as conseqüências<br />

da recessão econômica.<br />

É um espantoso paradoxo que se proponha<br />

um plano verdadeiramente <strong>socialista</strong> para o<br />

campo, com o qual se aniquilaria um dos segmentos<br />

mais competitivos do País, tendo em<br />

vista que a crise econômica, alegada como<br />

motivo para a aplicação do Plano, em boa<br />

parte foi provocada, e significativamente agravada,<br />

pelos monopólios ou quase monopólios<br />

criados exatamente pela estatização e dirigismo<br />

<strong>socialista</strong>s.<br />

Capítulo I<br />

4. Latifúndio improdutivo:<br />

invenção tecnocrática e<br />

pretexto <strong>socialista</strong><br />

A julgar pelas alegações do PNRA e de dirigentes<br />

de associações de fazendeiros, o latifúndio<br />

improdutivo é o bode expiatório de todos<br />

os problemas econômicos e sociais do<br />

País. Para o PNRA, sua existência impõe a <strong>Reforma</strong><br />

Agrária. P~ra os referidos dirigentes rurais,<br />

o latifúndio improdutivo torna aceitável a<br />

<strong>Reforma</strong> Agrária, mas limitada só a ele.<br />

Ora, poucos conhecem o conceito de latifúndio<br />

improdutivo definido pelo Estatuto da<br />

Terra, e menor ainda é o número dos que se<br />

têm detido em ponderar se realmente a existência<br />

dele é necessariamente nociva para a<br />

economia do País. É o que veremos a seguir.<br />

A. Latifúndio improdutivo:<br />

uma possível forma eficiente<br />

de ser produtivo<br />

O conceito corrente de latifúndio improdutivo<br />

é o de propriedade agrícola de tamanho<br />

desmesurado e mal explorada.<br />

Entretanto, o que caracteriza o latifúndio<br />

improdutivo, para o efeito de desapropriação,<br />

é uma criação arbitrária do Estatuto da Torra<br />

e legislação complementar, que decidiu dar esse<br />

nome a todas as propriedades entre um e<br />

seiscentos módulos rurais (17), que exploram<br />

menos de 70% da área aproveitável (18). Ele se<br />

distingue do latifúndio por extensão, que corresponde<br />

a todas as propriedades maiores de<br />

600 módulos.<br />

Portanto, o latifúndio improdutivo do ET<br />

não é necessariamente uma grande propriedade.<br />

O conceito de latifúndio improdutivo pode<br />

abranger propriedades quase de qualquer tamanho.<br />

De fato, de acordo com os dados cadastrais<br />

do INCRA, cerca de 53% das propriedades<br />

de 50 a 100 hectares, e 75 a 92% das propriedades<br />

superiores a 100 hectares cairiam<br />

127


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

nesta categoria. Ou seja, mais da metade dos<br />

proprietários de fazendas acima de 50 ha, e a<br />

grande maioria dos proprietários de fazendas<br />

acima de 100 ha, explorariam mal suas terras.<br />

E 73% da área agrícola do País estariam representados<br />

pelos latifúndios improdutivos,<br />

sendo passíveis de desapropriação (19).<br />

Diante da magnitude destas cifras, só cabem<br />

duas alternativas: ou a maioria dos fazendeiros<br />

brasileiros são proprietários incapazes e<br />

pusilânimes, que não sabem ou não têm interesse<br />

em trabalhar a terra, ou grande parte das<br />

fazendas que o INCRA cataloga como latifúndios<br />

improdutivos nada têm de improdutivo.<br />

Ora, o fazendeiro se caracteriza por seu dinamismo<br />

e eficiência, sendo sensível às variações<br />

nos preços e aberto às mudanças<br />

tecnológicas.<br />

Logo, tem-se forçosamente de concluir que<br />

é errado o critério aplicado pelo INCRA para<br />

definir o latifúndio improdutivo, com vistas a<br />

avaliar a eficiência no uso de recursos. Vê-se<br />

isto desde logo quando se considera a fonte<br />

dos dados e a metodologia que emprega para<br />

catalogar as fazendas.<br />

Os dados a partir dos quais elabora as estatísticas<br />

são obtidos através das informações<br />

fornecidas pelos próprios fazendeiros, obrigados<br />

pelo INCRA a preencher as Declarações<br />

para Cadastros de Imóveis Rurais de acordo<br />

com as suas instruções. Essas instruções e a<br />

metodologia empregada para elaborar as estatísticas<br />

facilmente podem conduzir a sobreestimar<br />

a área aproveitável e subestimar a área explorada<br />

(cfr. se, p. 314).<br />

Um erro característico consiste em considerar<br />

como áreas aproveitáveis não exploradas<br />

aquelas cobertas com mata natural (exceto as<br />

áreas destinadas a reserva legal) que não estão<br />

sendo exploradas no momento do cadastramento.<br />

Com isso a área aproveitável não explorada<br />

é sobreestimada, porque a abertura de<br />

áreas se dá por etapas, e é freqüente encontrar<br />

fazendas com áreas consideráveis de mata, reservadas<br />

para exploração futura.<br />

T,iulo li<br />

Nesta mesma linha de erros, o INCRA<br />

considera como áreas aproveitáveis não exploradas<br />

aquelas cobertas com pastagens e as de<br />

pastoreio temporário em fazendas sem pecuária.<br />

Ora, as mais elementares normas de conservação<br />

do solo exigem muitas vezes deixar a<br />

terra em descanso, para evitar perda de fertilidade<br />

e erosão. Acrescenta-se a isto o fato de<br />

que as normas de preenchimento do cadastro<br />

fazem com que facilmente o proprietário declare<br />

como destinadas a pastagens áreas que<br />

na realidade não são economicamente utilizáveis,<br />

e que portanto não comportam a existência<br />

de pecuária.<br />

Além da metodologia errada adotada para<br />

definir o latifúndio improdutivo, e que a torna<br />

inadequada para avaliar a eficiência de uma<br />

fazenda, podem existir razões econômicas que<br />

expliquem por que uma fazenda não é explorada<br />

em toda a sua potencialidade teórica. Entre<br />

as quais muitas estão ligadas às imperfeições<br />

do mercado e às atitudes do produtor frente ao<br />

risco.<br />

As informações do mercado e os conhecimentos<br />

técnicos não se difundem uniformemente<br />

entre os fazendeiros. Também não está<br />

garantida para todos a disponibilidade de insumos<br />

ao longo do processo produtivo. Estes<br />

fatores conduzem a disparidades na intensidade<br />

do uso da terra.<br />

Outro fator importante é a atitude do produtor<br />

face à incerteza. É sabido que na agropecuária<br />

as despesas são certas e as receitas incertas,<br />

em função do clima e de outros fatores<br />

que independem do produtor. Isso o obriga a<br />

correr sempre um risco, diante do qual ele bem<br />

pode deixar de cultivar parte de sua fazenda,<br />

à espera de dias melhores. Bem pode acontecer<br />

também que, para maior eficiência e melhor<br />

utilização das terras, numa visão dinâmica do<br />

processo produtivo agrícola, seja necessário<br />

explorar menos de 70% ou 80% (ver nota 19)<br />

da área teoricamente aproveitável.<br />

Tudo isto leva a concluir que, de si, a utilização<br />

do percentual de área explorada, como<br />

critério para medir o índice de eficiência, está<br />

errada e é arbitrária.<br />

128


Considerações econômicas<br />

B. É nocivo para o País<br />

que os fazendeiros não trabalhem<br />

toda a terra aproveitável<br />

de que são donos?<br />

Pelo dito acima, ficaram evidentes para o<br />

leitor os erros fundamentais na conceituação de<br />

latifúndio improdutivo, bem como na metodologia<br />

empregada para definir como improdutiva<br />

uma propriedade agrícola.<br />

Mas, em princípio, pode-se perguntar se,<br />

existindo áreas inaproveitadas, não seria de fato<br />

conveniente incorporá-las sempre à produção.<br />

Se tal incorporação for feita por imposição<br />

extra-mercado, isto é, por meio de medidas coercitivas,<br />

alheias à tecnologia existente e às relações<br />

entre os preços dos insumos e os dos produtos,<br />

bem poderá levar a agricultura a um desastre,<br />

especialmente em se tratanto de produtos<br />

não negociáveis no mercado externo. Ou seja,<br />

poderia provocar uma queda nos preços recebidos<br />

pelo produtor, em decorrência do excesso<br />

de oferta, o que geraria uma diminuição<br />

da renda agrícola ou obrigaria o Estado a gastar<br />

vultosos recursos para subsidiar o produtor<br />

e impedir assim a sua falência.<br />

Se nessas circunstâncias o Estado não intervier,<br />

poderá haver queda da receita e desemprego.<br />

O contrário do que imaginavam os autores<br />

da idéia.<br />

Agora, o que pensar da terra deixada sem<br />

produzir, e só como reserva de valor?<br />

Desde que não seja prejudicado o acesso à<br />

terra, para quem queira e tenha condições de<br />

produzir, tal tipo de situação não gera nenhum<br />

inconveniente para a economia.<br />

Mas é fácil perguntar-se: por que o investidor<br />

não arrenda suas terras, aproveitando o lucro<br />

proveniente da exploração, para somá-lo à<br />

valorização? A este propósito cabem duas explicações.<br />

Uma é que o preço do arrendamento que<br />

um produtor estaria disposto a pagar não seja<br />

atraente para o proprietário; trata-se aqui de um<br />

problema de renda. Outra é que, por mais compensador<br />

que fosse o preço do arrendamento, o proprietário<br />

não se interessasse em alugar; teríamos<br />

então um problema de racionalidade econômica.<br />

Capítulo I<br />

É provável que ambas as situações se dêem<br />

na realidade, mas não se sabe - e nem o PNRA<br />

o diz - em que proporção se dá uma e outra.<br />

No caso concreto do Brasil, é muito plausível<br />

que esta segunda hipótese não tenha maior importância,<br />

dada a facilidade de acesso à terra<br />

para aqueles que queiram e tenham condições<br />

de produzir.<br />

De qualquer forma, na carência dos dados<br />

acima, qualquer solução é arbitrária.<br />

C: Conclusão<br />

Portanto, nas condições concretas do Brasil,<br />

não têm justificação econômica medidas expropriatórias<br />

ou coercitivas que obriguem o pro­<br />

. dutor individual a utilizar por inteiro a terra potencialmente<br />

explorável que ele possua, e menos<br />

ainda .penalizá-lo.<br />

Por tudo quanto ficou dito acima, vê-se que<br />

o conceito de latifúndio improdutivo contido<br />

no Estatuto da Torra e no PNRA não é um conceito<br />

técnico, mas sim uma invenção tecnocrática<br />

que tem servido de pretexto para aqueles<br />

que querem impor uma reforma fundiária de<br />

caráter igualitário conforme com a utopia<br />

<strong>socialista</strong>.<br />

5. A pequena propriedade,<br />

também expropriável<br />

peloPNRA<br />

Os pequenos produtores rurais constituem<br />

um setor importante na agricultura brasileira.<br />

As unidades de exploração com menos de 50<br />

hectares representam 82 OJo do total, e perto de<br />

500Jo de sua área é dedicada à lavoura. É sabido<br />

que uma parcela significativa dos alimentos<br />

é produzida por essa categoria, embora a oferta<br />

de produtos agrícolas para o mercado se origine<br />

predominantemente nas propriedades<br />

médias.<br />

Está comprovado que os bolsões de pobreza<br />

se concentram na categoria dos pequenos<br />

produtores, cuja receita pode ser insuficiente pa-<br />

129


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

ra suas necessidades. Mas isto não significa necessariamente<br />

que a maioria deles viva em condições<br />

paupérrimas. Em estudo anterior, mostramos<br />

que a pequena parceria e o arrendamento<br />

são sistemas complementares de exploração,<br />

e que tanto o parceiro como o arrendatário podem<br />

ser configurados como assalariados que<br />

trabalham simultaneamente algumas áreas em<br />

parceria ou arrendamento. Algo similar se dá<br />

com o pequeno proprietário, que dedica sua<br />

propriedade à lavoura de subsistência e oferece<br />

seus serviços nas fazendas médias e grandes, como<br />

empregado temporário (ver se, p. 343).<br />

O PNRA, com a visão simplista característica<br />

dos agro-reformistas, atribui esta precariedade<br />

da situação do pequeno produtor à falta<br />

de terra. Daí a solução proposta - igualmente<br />

simplista - de expropriar as pequenas propriedades<br />

e fundi-las em unidades de exploração<br />

maiores - cooperativas ou comunitárias - ou<br />

assentar os pequenos produtores nos "latifúndios<br />

improdutivos" expropriados.<br />

Ora, alguns estudos mostram que o problema<br />

do pequeno produtor não é necessariamente<br />

a falta de terra (ver se, pp. 344-346).<br />

A baixa renda do pequeno estabelecimento<br />

(seja na pequena propriedade .familiar, seja em<br />

uma parceria, arrendamento ou posse) provém,<br />

em última análise, da baixa produtividade do<br />

trabalhador. Por sua vez, esta depende da produtividade<br />

da terra e do tamanho da área onde<br />

o trabalho se desenvolve, coeteris paribus.<br />

As evidências empíricas disponíveis revelam<br />

que a produtividade por hectare (renda bruta<br />

por hectare) nos pequenos estabelecimentos é<br />

maior do que nos grandes. Alguém poderia concluir<br />

daí que a causa dos problemas do pequeno<br />

produtor é a falta de terra. Mas o fato de<br />

que a renda bruta por hectare seja maior na pequena<br />

propriedade do que na grande, não significa<br />

que a renda líquida não possa ser aumentada<br />

pela maior eficiência no uso dos recursos<br />

e por uma mudança tecnológica.<br />

Isto parece refletir-se no fato de que, para<br />

imóveis de um mesmo tamanho, aqueles nos<br />

quais predomina a "exploração capitalista da<br />

terra" têm renda bruta por hectare considera-<br />

T1íulo li<br />

velmente maior (para as propriedades inferiores<br />

a 50 ha é quatro vezes maior).<br />

O que poderia indicar que a causa provável<br />

da baixa renda do pequeno produtor rural parece<br />

ser uma produtividade por hectare relativamente<br />

baixa, provocada por má organização<br />

e por uso de técnicas convencionais.<br />

É claro que com isso não estamos negando<br />

a existência de situações em que a exigüidade<br />

do tamanho da propriedade ou a qualidade da<br />

terra sejam fatores limitantes para melhora na<br />

produtividade do pequeno produtor. Esses fatores<br />

limitantes podem tornar inviável qualquer<br />

mudança técnica. Em que medida pesam uma<br />

razão ou outra? Não há dados disponíveis para<br />

responder a essa pergunta.<br />

Põe-se então a seguinte questão: por que o<br />

pequeno proprietário ou produtor usa técnicas<br />

precárias de produção, sendo que, em princípio,<br />

a substituição por técnicas e insumos não<br />

convencionais aumentaria significativamente<br />

sua renda?<br />

Há duas razões possíveis: ele pode não estar<br />

interessado em auferir essa maior renda, e<br />

portanto não aplica as novas técnicas; ou pode<br />

estar interessado, mas não ter condições de o<br />

fazer.<br />

A falta de interesse pode ter várias causas,<br />

de natureza mais psicológica do que econômica.<br />

É sabido que produzir envolve um risco, especialmente<br />

na agricultura. Esse risco surge da<br />

incerteza de se obter a produção imaginada<br />

quando se decidiu efetuar despesas e investimentos<br />

para produzir. É explicável, assim, que muitos<br />

pequenos produtores com escassez de capital<br />

e pouco acostumados com as incertezas prefiram<br />

não correr o risco inerente a uma exploração<br />

comercial, e utilizem a propriedade na<br />

produção do suficiente para a subsistência da<br />

família, obtendo receitas adicionais por meio<br />

do trabalho assalariado paralelo, dele e de seus<br />

familiares.<br />

Bem pode ser também que razões psicológicas<br />

mais profundas levem o pequeno proprietário<br />

a não se interessar por ter maior renda,<br />

que lhe permita progredir e crescer. Razões<br />

étnico-culturais podem explicar esta conduta,<br />

130


Considerações econômicas<br />

Capitulo I<br />

especialmente em determinadas regiões. Os autores<br />

do PNRA implicitamente reconhecem o<br />

peso desses fatores psicológicos que inibem o<br />

progresso econômico dos pequenos produtores,<br />

ao estabelecer normas que proíbem ao "beneficiário"<br />

da <strong>Reforma</strong> Agrária vender a área recebida,<br />

ou transferir seus direitos no assentamento.<br />

Razão alegada: eles poderiam vendê-los<br />

por preço aviltante.<br />

No caso do pequeno produtor que tem interesse<br />

em conseguir maior renda, duas podem<br />

ser as causas que o impedem de fazê-lo.<br />

Em primeiro lugar, a penalização sofrida pelo<br />

setor agrícola, e em especial pelo pequeno<br />

produtor, pode ter reduzido a rentabilidade das<br />

técnicas modernas, tornando mais lucrativo<br />

manter as convencionais.<br />

Em segundo lugar, certas imperfeições no<br />

mercado de capitais e na difusão de conhecimentos<br />

podem afetar especialmente o pequeno<br />

produtor. Isto redundaria em escassez tanto de<br />

capital quanto de conhecimento, ou ainda em<br />

falta de capacidade para aplicar técnicas mais<br />

modernas.<br />

6. A crise alimentar:<br />

um mito a serviço da<br />

<strong>Reforma</strong> Agrária<br />

Outro bode expiatório utilizado para justificar<br />

a <strong>Reforma</strong> Agrária é a ameaça de uma crise<br />

na produção de alimentos; e como conseqüência,<br />

a fome. Passemos a analisar sucintamente<br />

o assunto.<br />

A. A produção mundial de<br />

alimentos<br />

A ameaça de uma crise na produção de alimentos<br />

vem sendo levantada há décadas, tanto<br />

no Brasil como em todo o mundo. Quase sempre<br />

isto se faz com o intuito de promover "reformas<br />

de base". Ora, os fatos se têm encarregado<br />

de mostrar que no mundo, como um todo,<br />

existe sobra de alimentos (20).<br />

Os problemas de abastecimento têm-se reduzido<br />

a determinadas áreas do globo, especialmente<br />

na África. Países como a Índia, em que<br />

num passado não muito distante havia sérios<br />

problemas de abastecimento de alimentos, hoje<br />

em dia são exportadores de produtos agrícolas.<br />

Não devido a reformas agrárias, mas graças<br />

à adoção de técnicas modernas, que provocaram<br />

aumento explosivo na produção e na renda<br />

agrícola.<br />

O problema do mundo não é, portanto, falta<br />

de alimentos. Pelo contrário, muitas vezes tem<br />

havido excesso de produção. A carência de alimentos<br />

em determinados países surge da sua incapacidade<br />

econômica para produzir ou para<br />

adquirir os excedentes de produção das outras<br />

regiões do globo.<br />

B. Fome e produção de alimentos<br />

Muita coisa poderia ser dita sobre os índices<br />

utilizados para medir a incidência da desnutrição.<br />

Cientistas, e especialmente nutricionistas<br />

de renome mundial (21), têm· criticado o<br />

uso de tais índices como critérios fidedignos para<br />

medir o grau de incidência da desnutrição<br />

em uma população. Tanto do ponto de vista da<br />

ciência da nutrição, como do ponto de vista das<br />

técnicas estatísticas empregadas, muitos dos estudos<br />

sobre a fome têm sérias limitações, que<br />

tendem freqüentemente a sobreestimar as carências<br />

nutricionais da população e seus efeitos sobre<br />

o desenvolvimento intelectual e físico das<br />

pessoas.<br />

Não entrando no mérito desses aspectos da<br />

questão, pois escapam ao âmbito do presente<br />

trabalho, o que aqui especificamente interessa<br />

saber é se, no caso do Brasil, um aumento na<br />

oferta de alimentos resolve o problema da<br />

desnutrição.<br />

Várias razões levam a pensar que não. Todas<br />

elas ligadas aos hábitos alimentares e de<br />

consumo em geral, de amplas camadas da<br />

população.<br />

Em pormenorizado estudo realizado pelo<br />

Banco Mundial (22), mostra-se que no Brasil<br />

existem déficits nutricionais em famílias de renda<br />

131


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

média, e que nas camadas populacionais de menor<br />

renda uma parcela não muito ponderável<br />

da renda familiar total é gasta na compra de alimentos.<br />

Uma parte pequena do aumento da renda,<br />

nessa mesma categoria populacional, é destinada<br />

a aumentar o consumo de alimentos (23).<br />

Em outros termos, as pessoas preferem gastar<br />

em utensílios domésticos e outros bens duráveis<br />

a melhorar seu nível alimentar.<br />

Estas considerações indicam que uma maior<br />

disponibilidade de alimentos não melhoraria necessariamente<br />

o nível de nutrição.<br />

Apesar destas constatações, seria razoável<br />

pensar em uma estratégia econômica que per-<br />

Título li<br />

mitisse aumento na disponibilidade de alimentos,<br />

concomitantemente com a diminuição de<br />

seus preços.<br />

Excluindo a alternativa de importar alimentos<br />

a preços mais baixos que os vigentes no mercado<br />

interno, o melhor caminho para aumentar<br />

a disponibilidade de alimentos a menor preço,<br />

sem prejuízo para o produtor rural, consiste<br />

em diminuir os custos de produção e/ou as<br />

margens de comercialização. Ambos os objetivos<br />

são atingíveis através da melhoria na produtividade<br />

e eficiência agrícolas. Como veremos<br />

mais adiante, a <strong>Reforma</strong> Agrária não atinge estes-<br />

objetivos.<br />

132


Capítulo II<br />

A <strong>Reforma</strong> Agrária: uma<br />

falsa solução<br />

Antes de apresentar as justificativas para a<br />

afirmação de que o PNRA é uma falsa solução,<br />

veremos em que ele consiste, e em seguida<br />

analisaremos alguns dados que mostram a magnitude<br />

da <strong>Reforma</strong> Agrária proposta.<br />

J. O PNRA: irmão<br />

das <strong>Reforma</strong>s Agrárias<br />

latino-americanas<br />

Poucos leitores terão tido tempo de ler com<br />

atenção o PNRA. Sua extensão e o emaranhado<br />

de seus itens dificultam a visão clara de seus<br />

aspectos essenciais.<br />

Por isso, transcreveremos aqui alguns trechos<br />

ordenados de maneira a dar ao leitor uma<br />

visão ' de conjunto desses aspectos, de especial<br />

interesse para o presente trabalho.<br />

a) Objetivos da <strong>Reforma</strong> Agrária<br />

"Mudar a estrutura fundiária do País, distribuindo<br />

e redistribuindo a terra, eliminando<br />

progressivamente o latifúndio e o minifúndio<br />

e assegurando um regime de posse e uso que<br />

atenda aos princípios de Justiça Social'! ....<br />

"a) contribuir para o aumento da oferta de<br />

alimentos e de matérias-primas buscando o<br />

atendimento prioritário do mercado interno;<br />

"b) possibilitar a criação de novos empregos<br />

no setor rural, de forma a ampliar o mercado<br />

interno e diminuir a subutilização da força<br />

de trabalho;<br />

"c) promover a diminuição do êxodo do<br />

campo, procurando atenuar a pressão populacional<br />

sobre as áreas urbanas e os problemas<br />

dela decorrentes•!<br />

b) Onde a <strong>Reforma</strong> Agrária será realizada<br />

''A <strong>Reforma</strong> Agrária, por outro lado, será<br />

realizada em áreas de domínio privado, situadas<br />

em regiões já ocupadas, dotadas de<br />

infra-estrutura, com densidade demográfica<br />

apreciável, onde prevalecem graves distorções<br />

da estrutura agrária e tensão social, tendo por<br />

base procedimentos operativos simples que assegurem<br />

ocupações rurais produtivas de baixos<br />

custos, com agilidade e amplitude•!<br />

''As terras necessárias à realização dos Assentamentos<br />

deverão ser obtidas prioritariamen-<br />

133


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

te através da desapropriação por interesse social<br />

dos latifúndios, admitindo-se, também, em<br />

condições especiais, a utilização dos demais mecanismos<br />

previstos no Estatuto•:<br />

e) Tipos de estabelecimentos a implantar<br />

''A implantação de um 'setor reformado; representado<br />

basicamente pelos assentamentos<br />

de <strong>Reforma</strong> Agrária, será a expressão concreta<br />

dessas ações e deverá ser suficientemente<br />

ampla para representar o núcleo da nova estrutura<br />

agrária que se irá consolidar nos quinqüênios<br />

seguintes•:<br />

''A <strong>Reforma</strong> Agrária se concretizará através<br />

da organização dos trabalhadores rurais<br />

em novas unidades de trabalho e produção<br />

com estrutura associativa e administração<br />

autônomas, que constituirão os Assentamentos,<br />

cujas dimensões, formas possessórias<br />

e de gestão estarão condicionadas inclusive às<br />

decisões dos próprios beneficiários, à diversidade<br />

e às especificidades locais e regionais':<br />

•: ... estímulo a todas as formas de associativismo<br />

e organização grupal dos assentados,<br />

em relação à terra, produção, instrumentos<br />

de produção, comercialização e bens e<br />

serviços comunitários•:·<br />

''Assim, as alternativas de organização do<br />

assentamento poderão se concretizar sob as formas<br />

de:<br />

"unidade familiar;<br />

"unidade de propriedade em comunhão;<br />

"unidades associativas;<br />

"ou unidades mistas.<br />

"São as seguintes as diretrizes que orientarão<br />

o processo de assentamento de trabalhadores<br />

rurais:<br />

•: ... estimular a exploração cooperativista<br />

condominial e/ou comunitária da terra,<br />

da produção, da comercialização e da<br />

transformação agroindustrial':<br />

d) Preço e condições de "pagamento"<br />

''A Constituição Federal determina que as<br />

Tüulo li<br />

desapropriações por interesse social, para fins<br />

de <strong>Reforma</strong> Agrária, sejam efetivadas mediante<br />

justa indenização':<br />

"O sentido da expressão justa indenização<br />

deve ser apurado em face da natureza da desapropriação<br />

por interesse social para fins de <strong>Reforma</strong><br />

Agrária, que se constitui numa sanção<br />

do Estado à infringência de dispositivo constitucional<br />

que condiciona a propriedade privada<br />

ao exerclcio de uma função social':<br />

"Tais valores foram estimados tendo por base<br />

a expectativa de que as terras seriam obtidas,<br />

primordialmente, via desapropriação de<br />

latifúndios, com o seu valor representando<br />

cerca de 60% da cotação do mercado<br />

(média)':<br />

•: ... as terras seriam pagas em TDA 's ':<br />

"Em relação aos TDA's, cabe esclarecer que<br />

o prazo de resgate dos mesmos deverá ser negociado<br />

em função do preço da terra que for<br />

acordado entre as partes•:<br />

e) O apoio ao setor reformado<br />

"Todo um conjunto de políticas governamentais<br />

expresso nas políticas fiscal, cambial,<br />

de crédito, energética, de preços, de comercialização,<br />

de importação e exportação, precisará<br />

ser alterado para que o latifúndio não seja mantido<br />

artificialmente pelos recursos públicos, e<br />

se possa garantir o pleno desenvolvimento dos<br />

pequenos produtores•:<br />

•: ... estabelecimento de programa especial de<br />

crédito com o objetivo de atender às demandas<br />

específicas dos assentados pela <strong>Reforma</strong><br />

Agrária;<br />

'!,_ as linhas de crédito especial para os<br />

assentados no processo de <strong>Reforma</strong> Agrária<br />

deverão ser operacionalizadas através de<br />

procedimentos simplificados capazes de viabilizarem<br />

a sua utilização;<br />

'!_ definição de condições especiais de<br />

juros e correção monetária para as diferentes<br />

modalidades previstas de crédito rural,·<br />

'!_ estabelecimento de novas condições<br />

para o crédito grupal introduzindo-se abertura<br />

para a responsabilidade individual, tornan-<br />

134


Considerações econômicas<br />

do assim mais ágeis os procedimentos<br />

bancários'!<br />

f) Mobilização camponesa<br />

em prol da <strong>Reforma</strong> Agrária<br />

''Aos principais interessados na <strong>Reforma</strong><br />

Agrária, os trabalhadores rurais, está reservado<br />

papel central na sua efetivação. As entidades<br />

representativas dos trabalhadores, além<br />

de participar, como todas as demais forças sociais,<br />

da discussão das propostas e das políticas<br />

de <strong>Reforma</strong> Agrária, exercerão o seu direito<br />

de reivindicar e fiscalizar a sua execução.<br />

Respeitada a sua autonomia elas estarão<br />

presentes em todos os momentos e em<br />

todos os níveis do processo: na indicação das<br />

áreas a serem objeto de intervenção do Poder<br />

Público; na discussão do perfil dos assentamentos;<br />

na seleção de beneficiários,<br />

nos levantamentos para fim de desapropriação,<br />

na busca de soluções para conflito<br />

de terras e em todas as demais situações<br />

em que os interesses dos trabalhadores estejam<br />

envolvidos'!<br />

g) Algumas medidas em relação ao<br />

setor não-reformado<br />

•!,_ Elaboração de Projeto de ui, a ser submetido<br />

ao Congresso Nacional, determinando<br />

que antes de qualquer despejo ou desocupação<br />

judiciais incidentes em imóveis rurais,<br />

o INCRA necessariamente seja cientificado<br />

para manifestar interesse na desapropriação<br />

da área ou reassentamento dos<br />

ocupantes, hipótese em que suspender-se-á<br />

instância pelo prazo que a Lei conceder ao<br />

INCRA para viabili~ção de tais providências'!<br />

•~ tributação, de aplicação indistinta em<br />

todo o território nacional, deverá ser usada,<br />

tal como prescreve o art. 47, I, do Estatuto da<br />

Terra para 'desestimular os que exercem o<br />

direito de propriedade sem observância da<br />

função social e econlJmica da terra: Ela<br />

também constituirá uma das fontes de recursos,<br />

para a <strong>Reforma</strong> Agrária, e a pres-<br />

Cap1i11/o li<br />

s_ão fiscal dela decorrente contribuirá para evitar<br />

a reaglutinação dos latifúndios que forem<br />

afetados pela <strong>Reforma</strong>'!<br />

"O trabalho de contenção da expansão<br />

do latifúndio compreende basicamente as<br />

medidas de combate à apropriação de terra<br />

com fins especulativos (desapropriação dos latifúndios<br />

com maiores extensões de terras aproveitáveis<br />

sem utilização; tributação; proposta de<br />

· novas medidas legais, como o instituto da<br />

'área máxima' e a regulamentação e cobrança<br />

da Contribuição de Melhoria; revisão<br />

das concessões de grandes áreas a particulares),<br />

a correção das políticas setoriais, inclusive<br />

dos chamados programas especiais, e seu<br />

ajustamento aos objetivos da <strong>Reforma</strong> Agrária<br />

(mudança da política de incentivos fiscais e redirecionamento<br />

do crédito rural)'!<br />

2. A <strong>Reforma</strong> Agrária<br />

do PNRA:<br />

''massiva e vigorosa"<br />

O PNRA afirma que em 15 anos pretende<br />

"beneficiar" 7,1 milhões de trabalhadores rurais,<br />

para o que conta com um estoque de 409,S<br />

milhões de hectares, pertencentes a latifúndios<br />

improdutivos e latifúndios por extensão; e 71,2<br />

milhões de hectares arrecadados pela União.<br />

Em entrevista à imprensa, o presidente do<br />

INCRA afirma que o PNRA pretende dotar cada<br />

família beneficiária com uma média de 35<br />

ha (cfr. Suplemento Agrícola de "O Estado de<br />

S. Paulo", 29-5-85). O presidente do INCRA fala<br />

em famílias, e o PNRA fala indistintamente em<br />

famílias e em trabalhadores sem terra ou com<br />

pouca terra.<br />

Para efeito de estimar o número de beneficiários<br />

da <strong>Reforma</strong> Agrária em um lapso de 15<br />

anos, é explicável que - como aproximação -<br />

o PNRA considere como famílias a serem beneficiadas<br />

o número equivalente ao de trabalhadores<br />

individuais. Ou seja, considera que em<br />

15 anos todos se transformarão em chefes de<br />

família ou em solteiros não dependentes. Por-<br />

135


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

Tiíulo II<br />

tanto, para calcular a área a ser atingida, basta<br />

multiplicar os 7 ,1 milhões de trabalhadores por<br />

35 ha, o que dá um total de cerca de 250 milhões<br />

de hectares.<br />

Imaginando que o INCRA utilize prioritariamente<br />

para tais dotações as terras arrecadadas<br />

da União, então será necessário desapropriar<br />

cerca de 180 milhões de hectares de domínio<br />

privado.<br />

Excluindo a região Norte do País (por ter<br />

grande parte da área ainda não ocupada, sem<br />

infra-estrutura e com pequena densidade demográfica)<br />

e as áreas cobertas com mata (extrativa<br />

vegetal), a área total utilizada pela agropecuária,<br />

de acordo com o Censo Agropecuário<br />

de 1980, seria de 314 milhões de hectares. Supondo<br />

que esta tenha aumentado na proporção<br />

histórica (10 a 12% a cada 5 anos), hoje a área<br />

total seria de cerca de 350 milhões de hectares.<br />

Ou seja, o 1? PNRA pretende desapropriar<br />

50% da área agrícola de domínio privado, o que<br />

não exclui a hipótese de outros Planos futuros<br />

incidirem também sobre a outra metade.<br />

Portanto, é inegável que se trata de uma <strong>Reforma</strong><br />

Agrária "massiva e vigorosa".<br />

3. Conseqüências da<br />

aplicação do Estatuto<br />

da Terra<br />

As considerações feitas em várias partes deste<br />

trabalho mostram que os bolsões de pobreza<br />

existentes no meio rural, a migração exagerada<br />

e suas conseqüências no nível da renda e emprego<br />

no meio urbano, não têm relação com a<br />

estrutura da propriedade da terra. Por outro lado,<br />

a agropecuária tem contribuído significativamente<br />

para o desenvolvimento e o progresso<br />

do País.<br />

Antes de estudar as possíveis conseqüências<br />

da implantação do PNRA, é conveniente mostrar<br />

qual deve ser o papel da agricultura no desenvolvimento<br />

econômico, missão essa que<br />

qualquer medida em matéria agrária deve ter<br />

por meta facilitar e promover.<br />

Resumidamente, o papel da agricultura é o<br />

seguinte:<br />

1) Garantir o emprego de mão-de-obra, especialmente<br />

da não qualificada (fator abundante<br />

em um país em desenvolvimento), de forma<br />

equilibrada, permitindo também o fornecimento<br />

de trabalhadores para o setor não agrícola, na<br />

medida da expansão deste.<br />

2) Constituir elemento importante na expansão<br />

do mercado interno de produtos industriais<br />

e de serviços em geral.<br />

3) Fornecer alimentos e matérias primas de<br />

modo a que não se deteriorem os termos de intercâmbio,<br />

e ao mesmo tempo ser um gerador<br />

de divisas.<br />

4) Ser fonte de capital para o desenvolvimento<br />

econômico geral.<br />

Obviamente, só é possível à agricultura cumprir<br />

esse papel, de forma contínua, por meio<br />

do aumento da produção e da renda líquida,<br />

acompanhados um e outro de uma melhoria na<br />

produtividade e na eficiência. Caso não haja aumento<br />

na produtividade, os quatro itens acima,<br />

referentes à contribuição da agricultura para o<br />

desenvolvimento econômico global, entram em<br />

conflito.<br />

Assim, por exemplo, um aumento do emprego<br />

na agricultura, se fosse acompanhado de<br />

diminuição na produtividade média, poderia ter<br />

como conseqüência uma diminuição na oferta<br />

de produtos agrícolas para o mercado (alimentos<br />

e gêneros exportáveis), com a conseqüente<br />

diminuição da capacidade de compra de produtos<br />

industriais, e menor capacidade de poupança.<br />

Da mesma forma, um aumento na produção<br />

de exportáveis pode provocar diminuição<br />

na produção de alimentos para consumo interno<br />

etc.<br />

Mantendo constantes os termos do intercâmbio<br />

entre a agricultura e a indústria, somente<br />

é possível aumentar a renda dos que vivem<br />

das atividades agrícolas por meio de incremento<br />

da sua eficiência. Só assim a agricultura expandirá<br />

o mercado interno e será fonte de mão-deobra<br />

e de poupança. A chave para se inferir<br />

quais serão os resultados de um plano de <strong>Reforma</strong><br />

Agrária consiste, pois, em averiguar qual<br />

136


Considerações econômicas<br />

será o seu efeito na produtividade e na eficiência<br />

em geral.<br />

A. A <strong>Reforma</strong> Agrária prejudicaria<br />

a eficiência e a<br />

produtividade na agropecuária<br />

A pergunta central a responder, no caso concreto<br />

que estamos analisando, é a seguinte: que<br />

impacto teria na produtividade e eficiência da<br />

agricultura a transformação da atual estrutura<br />

da propriedade da terra (em que coexistem grandes,<br />

médias e pequenas propriedades) em outra<br />

na qual predominem a propriedade comunitária<br />

e coletiva, ficando a propriedade privada<br />

reduzida à pequena propriedade familiar e<br />

a um certo número de propriedades médias e<br />

grandes?<br />

Para responder convenientemente a esta pergunta,<br />

é preciso distinguir, de um lado, o que<br />

sempre se entendeu como <strong>Reforma</strong> Agrária -<br />

ou seja, expropriar a terra dos grandes e médios<br />

proprietários para distribuí-la aos sem-terra<br />

- e de outro, o conjunto de medidas de política<br />

econômica e financeira complementares, de<br />

si independentes dos aspectos expropriatórios.<br />

Tendo em vista que a estrutura atual da propriedade<br />

da terra está de acordo com as características<br />

do País, como foi demonstrado no capítulo<br />

anterior, poder-se-ia esperar como resultado<br />

o maior benefício possível, se fossem nela<br />

aplicados os vultosos recursos previstos no 1?<br />

Plano Nacional de <strong>Reforma</strong> Agrária.<br />

Com a <strong>Reforma</strong> Agrária, é bem provável que<br />

aconteça o contrário. Ou seja, que os vultosos<br />

recursos a aplicar se diluam no magma dos problemas<br />

atuais e dos futuros (criados pela própria<br />

<strong>Reforma</strong> Agrária), e não produzam os benefícios<br />

prometidos, conduzindo o País a um<br />

verdadeiro caos econômico e social. Por quê?<br />

Como já mencionamos, os problemas de<br />

produção e renda na agricultura se concentram<br />

no pequeno produtor rural, ou nos chamados<br />

produtores de baixa renda, que representam um<br />

setor majoritário da população rural. Os recursos<br />

humanos e financeiros até aqui aplicados<br />

na promoção do referido setor se têm mostra-<br />

Capítulo II<br />

do exíguos, diante da magnitude dos seus problemas.<br />

Que conseqüências desastrosas não se<br />

podem esperar de um plano visando aumentar<br />

ainda mais o contingente dos pequenos produtores,<br />

quando ainda não se teve condições para<br />

resolver os problemas dos atuais?<br />

Em segundo lugar, a opinião quase unânime<br />

dos especialistas (24) é de que, para evitar<br />

conseqüências negativas, como queda na produtividade,<br />

ao se impor uma transformação do<br />

uso e posse da terra, é necessário aplicar amplos<br />

programas de financiamento, formação de<br />

entidades para a comercialização de produtos<br />

e insumos agrícolas, assistência técnica e extensão<br />

rural etc. Ora, na atual falta de recursos do<br />

País, como qualificar um plano de Refor-ma<br />

Agrária que exige a aplicação de recursos enormes<br />

só para evitar as conseqüências negativas<br />

da aplicação do próprio plano?<br />

B. A <strong>Reforma</strong> Agrária implantaria<br />

o socialismo na vida rural<br />

e destruiria as bases<br />

do sistema econômico vigente<br />

Os fundamentos do sistema econômico de<br />

mercado são a propriedade privada dos meios<br />

de produção e a livre iniciativa. Ambos, essencialmente<br />

ligados entre si, são violados no<br />

Plano.<br />

A propriedade privada dos meios de produção<br />

é violada em sua essência, pelo fato de<br />

que o pr()prietário pode ser expropriado por razões<br />

arbitrárias e sem compensação justa, como<br />

propõe o PNRA.<br />

A livre iniciativa, por sua vez, é violada pelo<br />

fato de o Estado poder impor determinados<br />

sistemas de organização da produção e do consumo<br />

e impedir a livre transação da terra. Isso<br />

trará como conseqüência a diminuição da mobilidade<br />

dos recursos produtivos e o cerceamento<br />

do sistema de preços no seu papel de guia<br />

no uso e no destino dos recursos na agricultura.<br />

O fruto natural deste verdadeiro socialismo<br />

agrário é fácil de prever, e pode-se confirmar<br />

137


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

com a experiência dos países onde a <strong>Reforma</strong><br />

Agrária foi implantada:<br />

a) Queda nos investimentos e atraso<br />

tecnológico<br />

A falta de segurança do proprietário rural,<br />

proveniente do fato de que poderá ser expropriado<br />

arbitrariamente, aumenta o risco e a incerteza,<br />

desestimulando seus investimentos.<br />

Algo similar se daria com o "beneficiado"<br />

pela <strong>Reforma</strong> Agrária, pois estaria sujeito à<br />

mesma lei. Caso integre a equipe de uma lavoura<br />

coletiva, os frutos do seu esforço serão compartilhados<br />

por terceiros ou pelo Estado, com o desestímulo<br />

conseqüente.<br />

Alguém pode alegar que a queda dos investimentos<br />

privados poderá ser compensada pelo<br />

aumento dos investimentos públicos previstos<br />

no projeto. Teoricamente tal é possível. Mas,<br />

ainda que assim venha a ocorrer, os frutos desse<br />

investimento público serão seriamente prejudicados,<br />

dado que os seus beneficiários estarão<br />

desestimulados da maneira acima descrita.<br />

b) desorganização do processo<br />

produtivo agrícola<br />

A substituição do produtor experiente, com<br />

senso comercial e conhecimentos, por um conjunto<br />

de camponeses transformados artificialmente<br />

em pequenos produtores estabelecidos em<br />

propriedades familiares, lavouras coletivas ou<br />

sistemas mistos de produção, favorece um processo<br />

de tomada de decisões caótico e divorciado<br />

da realidade econômica.<br />

c) Queda e alteração na composição<br />

da produção agropecuária<br />

A diminuição nos investimentos, somada a<br />

uma desorgani~ação generalizada no processo<br />

produtivo agrícola, necessariamente trará como<br />

conseqüência uma queda na produção agropecuária<br />

global.<br />

Caso predomine a pequena propriedade familiar,<br />

é provável que seja alterada a composi-<br />

Tft11/o li<br />

ção da produção agrícola, aumentando a proporção<br />

de produtos característicos de produção<br />

em pequena escala (hortigranjeiros, produção<br />

animal de pequeno porte etc.), em detrimento<br />

dos que exigem áreas maiores.<br />

Esta mudança na composição da produção,<br />

divorciada das características de demanda dos<br />

produtos agrícolas, traz como conseqüência um<br />

desequilíbrio no mercado, exigindo subsídios<br />

governamentais crescentes e provocando desequilíbrio<br />

nos setores externos da economia.<br />

d) Insolvência dos "beneficiados" pela<br />

<strong>Reforma</strong> Agrária e conseqüente<br />

ônus crescente para o Estado<br />

Como os pequenos produtores formados pela<br />

<strong>Reforma</strong> Agrária seriam habitualmente carentes<br />

dos recursos que uma exploração comercial<br />

exige, a necessidade de ajuda financeira aumentaria<br />

o endividamento deles para com o Estado<br />

ou entidades particulares.<br />

O fracasso a se temer nas expectativas de<br />

produção, e o uso indevido dos financiamentos<br />

como "adiantamentos salariais", tornariam<br />

os "beneficiados" incapazes de saldar suas<br />

dívidas.<br />

g) Agravamento dos problemas de pobreza<br />

e emprego no campo<br />

Uma <strong>Reforma</strong> Agrária que tire a terra dos<br />

que a possuem, para distribuí-la entre os que<br />

não a possuem, inegavelmente poderá provocar,<br />

a curto prazo, uma paridade na distribuição da<br />

renda agrícola. Não por uma melhora significativa<br />

da situação dos "beneficiados", mas pelo<br />

empobrecimento dos atuais proprietários.<br />

Em outros termos, a <strong>Reforma</strong> Agrária não<br />

resolve o problema da pobreza no campo.<br />

É provável que a renda de uma minoria de<br />

"beneficiários" da <strong>Reforma</strong> Agrária aumente.<br />

Mas isto constituirá uma exceção dentro do setor<br />

reformado, pela própria natureza da estrutura<br />

produtiva que a <strong>Reforma</strong> Agrária pretende<br />

implantar.<br />

As mesmas razões que levam muitos dos<br />

138


Considerações econômicas<br />

atuais pequenos produtores a passar sérias dificuldades,<br />

pesarão sobre o pequeno produtor<br />

em regime de propriedade familiar. Suas expectativas<br />

de melhora provavelmente serão frustradas,<br />

por falta de condições e de conhecimentos<br />

para levar a cabo com eficiência uma produção<br />

• comercial. No caso dos assentados, isto ocorrerá<br />

pelos problemas próprios da tomada de decisões,<br />

que num sistema coletivo de produção<br />

conduz a impasses, retardando os trabalhos e<br />

favorecendo decisões erradas.<br />

Em relação aos assalariados, especialmente<br />

temporários, suas oportunidades de emprego<br />

poderão diminuir, pois numa estrutura produtiva<br />

em que predomine a propriedade familiar<br />

ou o regime de assentamento, ou sistemas<br />

mistos, a tendência natural é de evitar a contratação<br />

de pessoas alheias à família ou àquela<br />

coletividade. No primeiro caso devido ao tamanho<br />

da propriedade, e no segundo porque os<br />

assentados fariam tudo para impedir a entrada<br />

de novos contingentes, que os obrigariam a<br />

compartilhar entre um maior número de pessoas<br />

a produção obtida.<br />

Portanto, uma parte considerável da mãode-obra<br />

rural ficaria prejudicada, devido à diminuição<br />

nas oportunidades de emprego. No setor<br />

reformado, isto se daria pelas razões acima expostas,<br />

e no setor não-reformado, pela ameaça<br />

de expropriação, verdadeira espada de Dâmocles.<br />

Em síntese, a <strong>Reforma</strong> Agrária não resolveria<br />

os problemas da pobreza no campo e, pelo<br />

contrário, provavelmente os agravaria. Isto<br />

é de se temer, porque as medidas propostas não<br />

atacam o problema em sua medula, ou seja, não<br />

melhoram a renda por meio de aumento da produtividade<br />

e eficiência, especialmente dos pequenos<br />

produtores.<br />

4. A <strong>Reforma</strong> Agrária na<br />

América Latina:<br />

um carrossel de fracassos<br />

Ninguém pode afirmar que a <strong>Reforma</strong><br />

Agrária tenha sido um êxito na América Lati-<br />

Captíulo li<br />

na. A título de exemplo, basta analisarmos a sua<br />

aplicação em alguns países.<br />

Mas, antes de tudo, importa constatar que<br />

o Plano proposto para o Brasil se assemelha,<br />

em suas linhas essenciais, às <strong>Reforma</strong>s Agrárias<br />

aplicadas na América Latina:<br />

- Expropriação das propriedades grandes<br />

e médias "improdutivas";<br />

- Implantação de uma estrutura agrária<br />

baseada em pequenas propriedades familiares<br />

e/ou em regime coletivo de exploração (assentamentos,<br />

cooperativas, propriedades comunitárias<br />

etc.); ou então em sistemas mistos, em que<br />

o assentado trabalha para produzir seu próprio<br />

sustento em regime de propriedade individual,<br />

e simultaneamente em áreas coletivas, para a<br />

produção comercial;<br />

- Criação de um moloc estatal para dar assistência<br />

comercial, financeira e técnica aos "beneficiados"<br />

pela <strong>Reforma</strong> Agrária;<br />

- Formação de novos canais de comercialização<br />

de insumos e produtos, sob a dependência<br />

direta ou indireta do Estado;<br />

- Formação de organizações camponesas<br />

destinadas a "vigiar" e "controlar" a aplicação<br />

da <strong>Reforma</strong> Agrária.<br />

Por outro lado, podem destacar-se três traços<br />

comuns à generalidade das <strong>Reforma</strong>s Agrárias<br />

na América Latina:<br />

1) São elas apresentadas inicialmente como<br />

uma solução para a violência e as invasões de<br />

fazendas (mais ou menos isoladas, e na maioria<br />

das vezes criadas artificialmente) que precedem<br />

os movimentos pró-reforma. Aplicada a<br />

<strong>Reforma</strong> Agrária, o resultado é a generalização<br />

dos conflitos e invasões, especialmente pelos<br />

atritos e pressões dos próprios "beneficiados",<br />

e não tanto devido à auto-defesa dos proprietários<br />

afetados.<br />

2) A <strong>Reforma</strong> Agrária é inicialmente apresentada<br />

como atingindo só aquelas propriedades<br />

consideradas pelo órgão competente como<br />

improdutivas, especialmente as de tamanho<br />

grande e médio. Na realidade, depois de curto<br />

espaço de tempo ela é aplicada também nas propriedades<br />

consideradas produtivas, de qualquer<br />

tamanho, pois nestas os riscos de fracasso<br />

139


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

na execução da <strong>Reforma</strong> Agrária são menores.<br />

3) Ante o resultado desastroso da <strong>Reforma</strong><br />

Agrária, têm ocorrido duas atitudes: endurecimento<br />

do regime agro-<strong>socialista</strong> e implantação<br />

do comunismo em breve prazo (Cuba e Nicarágua);<br />

ou, respeitando o descontentamento generalizado<br />

da opinião pública, uma volta atrás,<br />

resultando uma estrutura agrária dual: o setor<br />

não-reformado, sobrevivente do naufrágio, que<br />

mantém uma agricultura comercial eficiente e<br />

com alta produtividade; e o setor reformado remanescente<br />

(muitos assentamentos e pequenas<br />

propriedades desaparecem no processo), com<br />

uma pequena minoria próspera, e a maioria produzindo<br />

para o seu próprio consumo e trabalhando<br />

paralelamente como assalariada no setor<br />

agrícola não-reformado, ou, por fim, indo<br />

empregar-se nas cidades.<br />

Em outros termos, a <strong>Reforma</strong> Agrária na<br />

América Latina tem sido uma fonte de violência<br />

e caos. Ante-sala da implantação do comunismo<br />

em alguns casos, e na maioria dos países<br />

um pesadelo que passa, mas deixa rastros<br />

lastimáveis.<br />

Passaremos a analisar a experiência da <strong>Reforma</strong><br />

Agrária em alguns países individualmente<br />

considerados, começando pelas mais recentes<br />

(25).<br />

EL SALVADOR<br />

a) Período e amplitude<br />

A <strong>Reforma</strong> Agrária em El Salvador se iniciou<br />

no ano de 1980. Transformou ela em cooperativas<br />

de produção todas as propriedades<br />

maiores de 500 hectares. Até dezembro de 1983,<br />

mais de 230/o das terras agricultáveis tinham sido<br />

destinadas aos trabalhadores sem terra. 8 O/o<br />

de todas as familias rurais foram "beneficiadas"<br />

pela <strong>Reforma</strong> Agrária.<br />

b) Características<br />

A execução da <strong>Reforma</strong> Agrária foi programada<br />

em três fases:<br />

Primeira fase - Expropriação de todas as<br />

Título li<br />

fazendas maiores de 500 hectares, para<br />

transformá-las em cooperativas de produção.<br />

Fase já concluída, e da qual surgiram 317<br />

cooperativas.<br />

A terra foi "paga" em bônus de longo prazo.<br />

O gado, as máquinas e os equipamentos foram<br />

pagos, parte em dinheiro e parte em bônus<br />

de curto prazo.<br />

As cooperativas formadas são dirigidas por<br />

um comitê "eleito" pelos membros delas. O IS­<br />

TA (Instituto Salvadorenho para Transformação<br />

Agrária) designa um co-diretor para cada<br />

cooperativa, a fim de dar-lhes assistência comercial<br />

e financeira.<br />

Segunda fase- Nesta fase deveriam ser expropriadas<br />

as fazendas entre 100 e 500 hectares,<br />

incluindo a maioria das fazendas mais bem<br />

trabalhadas do país.<br />

Por vias indiretas esta fase começou a ser<br />

aplicada com a <strong>Reforma</strong> Constitucional de dezembro<br />

de 1983. A área máxima permitida por<br />

pessoa é de 245 hectares. Os proprietários de<br />

áreas superiores a esse limite têm prazo de três<br />

anos para vender a diferença aos camponeses,<br />

sendo proibida a venda a parentes. O Governo<br />

expropriará sem compensação aqueles que, vencido<br />

o prazo, ainda possuam mais de 245<br />

hectares.<br />

Terceira fase - Afeta as terras que estavam<br />

arrendadas na época da promulgação da lei<br />

(abril de 1980). Arrendatários e parceiros têm<br />

o direito de pedir até 7 hectares da terra que trabalhavam<br />

em maio de 1980.<br />

Até dezembro de 1983, 60/o da terra de plantio<br />

tinham sido atingidos, por se enquadrarem<br />

nessa cláusula.<br />

c) Resultado depois de três anos<br />

- Desarticulação da produção e abandono<br />

de fazendas;<br />

- Contribuição para o aumento da taxa de<br />

inflação e esgotamento das reservas<br />

internacionais;<br />

- Diminuição de 8% na área plantada com<br />

os principais produtos agrícolas. No setor reformado<br />

essa diminuição foi de 21 %, afetando<br />

140


Considerações econômicas<br />

especialmente os produtos destinados à alimentação<br />

(a área plantada com milho diminuiu<br />

400Jo, e com feijão, 600Jo );<br />

- Falência dos "beneficiados". A maioria<br />

das cooperativas constituídas na primeira fase<br />

tem maciça dívida de capital, nenhum capital<br />

de trabalho e força laboral substancialmente<br />

maior do que a necessária para operar essas unidades,<br />

nas quais, além disso, a administração<br />

é débil. Os empréstimos destinados ao plantio<br />

foram usados pelos assentados, em grande parte,<br />

para se remunerarem pelo trabalho do cultivo.<br />

Recebem eles, pela venda de seus produtos,<br />

quantias insuficientes para pagar empréstimos<br />

que pediram com o propósito de produção e<br />

investimento;<br />

- Prosseguimento da agitação rural e da<br />

violência no campo (26).<br />

CHILE<br />

a) Período e amplitude<br />

A primeira lei de <strong>Reforma</strong> Agrária foi promulgada<br />

em 1962. E a segunda em 1967, pelo<br />

presidente democrata-cristão Eduardo Frei.<br />

Essa legislação permitiu ao governo marxista<br />

de Allende a implantação intensiva da <strong>Reforma</strong><br />

Agrária no período de 1970 a 1973.<br />

Nos anos de 1971 e 1972 foram expropriadas<br />

praticamente todas as propriedades superiores<br />

a 80 hectares de riego básico (1 hectare<br />

de riego básico é a superfície de terra equivalente,<br />

em capacidade produtiva, a 1 hectare de<br />

área irrigada standard).<br />

Foram redistribuídos 47% do total das terras<br />

agricultáveis.<br />

Foram "beneficiados" 51 OJo dos empregados<br />

permanentes nas fazendas e 13% das famílias<br />

camponesas.<br />

b) Características<br />

Estavam sujeitas a expropriação todas as<br />

propriedades superiores a 80 hectares de riego<br />

básico. Pouco antes da queda do Governo<br />

Allende, estava tudo pronto . para reduzir a<br />

Capítulo ll<br />

área máxima a 40 hectares de riego básico.<br />

A terra era "paga" 10% à vista, e o saldo<br />

em bônus com 20 anos de prazo.<br />

Desde o início ficou proibida para a iniciativa<br />

partiçular a divisão ou parcelamento das<br />

propriedades superiores a 80 hectares de riego<br />

básico. Também foram promulgadas leis impedindo<br />

que os trabalhadores fossem despedidos<br />

(inamovibilidade no cargo) e leis que organizavam<br />

os camponeses (sindicalização camponesa).<br />

Essas leis foram complementos essenciais<br />

da execução da <strong>Reforma</strong> Agrária.<br />

A fazenda expropriada era transformada em<br />

assentamento. Ou seja, em uma sociedade entre<br />

os camponeses e o Estado, pela qual este último<br />

se comprometia a dar assistência técnica<br />

e financeira aos camponeses. Posteriormente foram<br />

criados os Centros de <strong>Reforma</strong> Agrária<br />

(CERA), Comitês de Camponeses e Fazendas<br />

Estatais que, na prática, funcionaram como<br />

assentamentos.<br />

Nos assentamentos se destinava aos camponeses<br />

uma área para exploração individual e<br />

pastoreio. O resto ficava para a exploração comercial<br />

coletiva.<br />

O assentamento era dirigido por um comitê<br />

de camponeses eleitos entre si mesmos. Depois<br />

de três a cinco anos, os próprios membros<br />

deveriam decidir se continuavam em regime coletivo<br />

ou se transformavam o assentamento em<br />

pequenas propriedades familiares.<br />

c) Resultados<br />

- Grave queda na produção<br />

Enquanto na década de 60 o aumento anual<br />

do produto foi 2,60Jo na pecuária e 1,8% na agricultura,<br />

no ano agrícola 1971-72 a produção<br />

agropecuária diminuiu 3,6% (-6,8% na agricultura,<br />

+0,80Jo na pecuária), e no ano agrícola<br />

1972-73 a redução foi de 13,70Jo (-22,5% na agricultura<br />

e -6,4% na pecuária).<br />

- Grave crise cambial e esgotamento das<br />

reservas internacionais<br />

Ambos os efeitos foram - em boa medida<br />

- causados pela necessidade de importar alimentos.<br />

Entre os anos de 1965 e 1970 gastavam-<br />

141


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

se 18% das exportações para importar alimentos.<br />

Durante o período 1971-73 chegou a 50%<br />

o total das exportações consumidas para importar<br />

víveres.<br />

- Grave falta de alimentos<br />

o<br />

A queda na produção, a diminuição da capacidade<br />

para importar alimentos, e o aumento<br />

da capacidade de compra da população urbana,<br />

provocado por uma política salarial irresponsável,<br />

produziram grave falta de alimentos<br />

e a formação de mercados paralelos.<br />

- Caos e desorganização nos assentamentos<br />

Os assentamentos não cumpriam as exigências<br />

contábeis, necessárias para se conhecer o<br />

resultado final da produção. Não se sabia quais<br />

eram as dívidas para com a CORA (Corporação<br />

da <strong>Reforma</strong> Agrária) e o Banco do Estado.<br />

Os financiamentos para investimentos e capital<br />

de exploração eram gastos pelos assentados<br />

como "adiantamentos salariais", prejudicando<br />

a produção e tornando-os incapazes de<br />

pagar as dívida~ contraídas.<br />

Tendo o salário garantido, os assentados empregavam<br />

seu tempo na exploração da parcela<br />

individual, em detrimento da exploração coletiva<br />

comercial.<br />

- Queda do investimento privado<br />

O setor não-reformado com propriedades<br />

entre 40 e 80 hectares de riego básico, que ainda<br />

cultivava mais ou menos 30% da área agrícola<br />

total, diante do caos generalizado e do perigo<br />

da expropriação deixou de investir em iniciativas<br />

que exigiam longo período de<br />

maturação.<br />

- Aumento da pobreza e diminuição das<br />

oportunidades de emprego<br />

Vários estudos realizados entre os anos de<br />

1965 e 1970 - portanto, em tempos do Governo<br />

Frei e antes da aceleração da <strong>Reforma</strong> Agrária,<br />

ocorrida no período 1971 a 1973 (Governo Allende)<br />

- já mostravam que o ganho dos assentados,<br />

considerando os custos de capital, era inferior<br />

ao obtido pelos empregados permanentes do setor<br />

não-reformado. E na maioria dos casos era negativo.<br />

A receita obtida nos assentamentos representava,<br />

em média, 78% das despesas.<br />

Titulo li<br />

A situação se tornou ainda mais grave quando<br />

se acelerou a <strong>Reforma</strong> Agrária no período<br />

de Allende. Uma análise do resultado de 103 assentamentos,<br />

no período agrícola 1970-71, mostra<br />

que só em 7 deles as receitas foram superiores<br />

aos gastos, sem considerar nestes últimos a<br />

depreciação e os juros do capital.<br />

Tal como no Brasil, os bolsões de pobreza<br />

se concentravam entre os empregados temporários,<br />

muitos dos quais minifundistas. Eles representavam<br />

mais ou menos 50% da população<br />

ativa agrícola. Suas possibilidades de emprego<br />

diminuíram, tanto no setor reformado como<br />

no setor não-reformado, com o conseqüente<br />

agravamento em relação à situação anterior.<br />

- Aumento dos ''latifúndios improdutivos"<br />

No setor reformado, no ano agrícola<br />

1971-72, só foram explorados 19% da área aproveitável.<br />

Ainda mais, 62 OJo da área explorada<br />

eram dedicados a cereais.<br />

Isto revela sub-utilização da terra e tendência<br />

a cultivos extensivos, agravando o subemprego<br />

agrícola.<br />

- Aumento da violência no campo<br />

Entre 1960 e 1966 houve greves em 827 fazendas<br />

e 36 invasões de propriedades. Entretanto,<br />

já no Governo Frei, só em 1969 houve greve<br />

em 1.127 fazendas e 48 invasões.<br />

A partir de 1970 a situação se agravou ainda<br />

mais. Nesse ano houve greve em 1.580 fazendas,<br />

e só nos últimos três meses daquele ano<br />

houve 192 invasões de fazendas.<br />

Em 1971 as greves afetaram 1.758 fazendas,<br />

e outras 1.278 foram invadidas. Dezoito escritórios<br />

da CORA foram também invadidos (27).<br />

PERU<br />

a) Período e amplitude<br />

A primeira lei de <strong>Reforma</strong> Agrária foi promulgada<br />

em 1964, e a segunda lei em 1969, época<br />

em que propriamente foi posta em execução.<br />

Mais de 95% das áreas agrícolas dos 42 vales<br />

costeiros, e quase toda a área agrícola da serra,<br />

tinham sido atingidos até 1980.<br />

142


Considerações econômicas<br />

Foram expropriados 11.664 estabelecimentos<br />

agrícolas, e foram criadas 1.300 cooperativas<br />

de produção.<br />

b) Características<br />

Inicialmente estavam sujeitas à expropriação<br />

todas as fazendas com área superior a 150<br />

hectares, irrigadas ou equivalentes. Depois, em<br />

1975, os limites se reduziram a 50 hectares na<br />

costa e 30 hectares na região serrana.<br />

Qualquer fazenda não explorada diretamente<br />

pelo dono, independentemente do tamanho,<br />

podia ser expropriada.<br />

O proprietário era "indenizado" com opagamento<br />

de 10% à vista, e o saldo em bônus<br />

com 25 anos de prazo.<br />

A fazenda expropriada era transformada em<br />

Cooperativa Agrária de Produção - CAP ou<br />

em Sociedade Agrária de Interesse Social -<br />

SAIS. Em uma minoria dos casos as terras expropriadas<br />

foram destinadas a comunidades<br />

camponesas ou divididas em parcelas familiares<br />

individuais.<br />

Dentro das CAPs e SAIS, os camponeses<br />

mantêm o direito de explorar individualmente<br />

uma pequena área e criar um certo número de<br />

cabeças de gado. O restante - ou seja, a maior<br />

parte da área - é explorado em regime coletivo.<br />

A administração é feita por um comitê eleito<br />

entre os componentes das CAPs ou SAIS (neste<br />

último caso participam também as comunidades<br />

camponesas vizinhas da propriedade).<br />

c) Resultados<br />

- Queda da produção<br />

A agricultura havia crescido durante as décadas<br />

de 50 e 60 a taxas anuais de 2,8% e 3,7%,<br />

respectivamente. Na década de 70 o crescimento<br />

foi de 0,4% ao ano, ou seja, praticamente<br />

não aumentou a produção agropecuária depois<br />

da <strong>Reforma</strong> Agrária.<br />

A produção per capita diminuiu 20% nos<br />

10 anos posteriores.<br />

O que evitou a diminuição na produção total<br />

foi o aumento explosivo verificado na pro-<br />

Capitulo II<br />

dução avícola (17% ao ano), obtido em um número<br />

relativamente pequeno de granjas modernas,<br />

localizadas na vizinhança das grandes cidades.<br />

Essas granjas não haviam sido atingidas<br />

pela <strong>Reforma</strong> Agrária.<br />

- Necessidade crescente de importação de<br />

alimentos<br />

Na década de 60 eram gastos em média 60<br />

milhões de dólares anuais na importação de alimentos.<br />

Em 1977 o dispêndio em alimentos ultrapassou<br />

200 milhões de dólares.<br />

- Graves problemas de organização nas<br />

cooperativas de produção<br />

As CAPs originárias das fazendas comerciais<br />

litorâneas, de alta produtividade na época<br />

anterior à sua expropriação, apresentaram<br />

grave déficit financeiro e incapacidade para pagar<br />

seus compromissos externos e internos.<br />

Tal situação é atribuída à má organização<br />

e ao agravamento dos conflitos internos nas<br />

cooperativas de produção, resultando na perda<br />

dos seus técnicos e administradores mais<br />

capazes.<br />

Algo similar sucedeu nas cooperativas originárias<br />

de fazendas agrícolas e pecuárias, nas<br />

quais a produção cooperativa diminuiu, a distribuição<br />

dos lucros cessou, e só não faliram por<br />

causa do maciço apoio estatal recebido.<br />

- Agravamento do "êxodo rural"<br />

A população economicamente ativa total<br />

aumentou nas décadas de 60 e 70 a taxas de 23<br />

e 32%, respectivamente.<br />

O contrário se deu com a população agrícola<br />

economicamente ativa. Aumentou 12% na<br />

década de 60 e 10% na década de 70. Em outros<br />

termos, aumentou o êxodo rural e agravouse<br />

o problema do emprego no setor não<br />

agrícola.<br />

- Piora da situação das famílias rurais<br />

A <strong>Reforma</strong> Agrária só conseguiu atingir<br />

30% das famílias rurais. Salvo exceções, estas<br />

têm apenas mantido sua situação, ou até<br />

piorado.<br />

Os 70% restantes ficaram à margem e com<br />

suas oportunidades de emprego comprometidas,<br />

resultando daí o aumento no êxodo rural (28).<br />

143


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

MÉXICO<br />

a) Período e amplitude<br />

Podem-se distinguir quatro períodos na história<br />

da <strong>Reforma</strong> Agrária mexicana. Um primeiro<br />

período, que vai de 1915 a 1930, no qual<br />

60Jo da terra agrícola foram distribuídos entre<br />

250Jo das famílias rurais. No segundo período,<br />

que vai de 1930 a 1940, a <strong>Reforma</strong> Agrária foi<br />

aplicada mais amplamente, atingindo 290Jo da<br />

terra e cerca de 400Jo da população agrícola até<br />

1940. Um terceiro período, que vai de 1940 a<br />

1960, no qual o movimento agro-reformista diminuiu<br />

e foram dadas garantias aos proprietários<br />

privados de que suas terras não seriam expropriadas.<br />

Em 1960, o setor reformado cobria<br />

260Jo da área agrícola e 420Jo da população rural.<br />

No período que vai de 1960 a 1970 se reiniciou<br />

a política de expropriações, mas em áreas<br />

de terra de baixa produtividade. A <strong>Reforma</strong><br />

Agrária, em 1970, havia atingido em sua totalidade<br />

430Jo da terra agrícola, equivalente a 60<br />

milhões de hectares, e 660Jo da população rural.<br />

b) Características<br />

As fazendas expropriadas foram transformadas<br />

em ejidos. Existem dois tipos de ejidos.<br />

Os individuais, nos quais a propriedade pertence<br />

aos ejidarios, mas a terra é distribuída individualmente<br />

em base semi-permanente, não podendo<br />

ser vendida ou transferida a nãoejidarios.<br />

E os ejidos coletivos, em que a produção<br />

é feita coletivamente.<br />

' O dono da terra tem o direito de ficar com<br />

uma reserva equivalente a 100 hectares de terra<br />

irrigada, com garantia contra qualquer outra<br />

expropriação.<br />

Cerca de 80% dos ejidarios estabelecidos até<br />

o ano de 1970 provinham de fazendas tradicionais,<br />

sendo que 90% deles eram ejidos<br />

individuais.<br />

c) Resultados<br />

- Desde 1940 a produção agropecuária au-<br />

Tltulo li<br />

mentou, mas por causa do setor não-reformado<br />

Não se têm estatísticas confiáveis anteriores<br />

à Segunda Guerra Mundial. As posteriores<br />

mostram um significativo crescimento da produção<br />

agrícola, obtido pela incorporação de insumos<br />

modernos, facilitada por programas do<br />

Governo destinados especificamente a obter aumento<br />

da produtividade e eficiência.<br />

O setor que melhor respondeu a esses incentivos<br />

(além de uma minoria de ejidos orientados<br />

para a produção comercial) foram as fazendas<br />

privadas de tamanho médio e grande. Elas<br />

participaram com 54% da produção em 1960,<br />

e foram responsáveis por 800Jo do aumento havido<br />

entre 1950 e 1960, apesar de representarem<br />

apenas 40Jo do total do número de fazendas.<br />

A maioria dos ejidos mostra estancamento<br />

ou _queda na produção, o mesmo se dando com<br />

as pequenas propriedades familiares individuais.<br />

- A maioria dos ejidarios se transformaram<br />

em minifundiários ,<br />

Estudos mostram que a maioria das famílias<br />

ejidarias de fato se transformaram em minifundiárias,<br />

ou seja, usam o produto do ejido<br />

para seu próprio sustento e obtêm receitas monetárias<br />

em empregos fora do mesmo. Uma investigação<br />

sobre os dados referentes a 1960 mostra<br />

que 46% dos ejidos obtêm produção anual<br />

inferior a 80 dólares (média de 45 dólares), e<br />

38% obtêm entre 80 e 400 dólares (média de 280<br />

dólares). No mesmo ano, o salário mínimo rural<br />

anual era de 175 dólares.<br />

- Caos e conflitos nos ejidos coletivos<br />

Os ejidos coletivos representavam 5% do total,<br />

em 1950. Os conflitos internos, abusos e corrupção<br />

têm sido constantes na maioria dos<br />

casos.<br />

O sub-emprego de mão-de-obra e a frustração<br />

na captação das economias de escala, supostamente<br />

existentes na exploração coletiva ou<br />

comunitária, têm sido evidenciados na experiência<br />

ejidal mexicana (29).<br />

• • •<br />

Na breve resenha feita aqui a título de<br />

exemplo, fica mostrado que a <strong>Reforma</strong> Agrá-<br />

144


Consid(!rações econômicas<br />

ria é uma verdadeira aventura do ponto de<br />

vista social e econômico. Em 01.1tros países<br />

onde se realizou a .experiência de lleforma<br />

Agrária, como a Venezuela, a Bolívia e o<br />

Equador, em maiQr ou tnenor grau o. resultado<br />

foi o mesmo.<br />

Poder-se-iam alegar, em sentido contrário,<br />

exemplos de reforma agrária com êxito em países<br />

europeus, como a Itália, e em países .asiáticos,<br />

como o Japão e Formosa. Apesar de serem<br />

países com características naturais é hmnanas<br />

inteiramente diversas, -cuja experiência, portanto,<br />

não seria aplicável à América Latina, o<br />

tão propalado êxito de tais reformas, entretanto,<br />

é muito discutível.<br />

Estudos recentes sobre a refor..tn.4 agrária japonesa<br />

(30) proval'tl que ela teve impacto insignificante<br />

na produtividade agrícola. E que. o<br />

mesmo resultado teria sido obtidó s~. em vez<br />

de ter gasto volumosos recursos na aplicação<br />

da reforma agrária, se tivesse feito uma reforma<br />

da posse da terra (e nãó da propriedade),<br />

de modo à aperfeiçoar os contratos de arrendament(,)<br />

e parceria.<br />

Nas ultimas g,écadas o Japão vem alterando<br />

a legislação re:fe.r~nte .à agricultura, permitindo<br />

o reagrupatnento das explorações e tendendo<br />

assim a- restaurar a estrutur;a agrária vig~rtte<br />

antes da refor-ma. A razão disso foi a necessidade<br />

de deter a queda na eficiência e produtividade,<br />

que :ã ,agricultura japonesa vinha<br />

sofrendo.<br />

Estudos a .respeito da Ípdia, Paquistão,<br />

Filipinas e Malásia mostraltl que os sistemas<br />

de ar;rendament~ e .,Parceria, de si, -não são<br />

·.necessariamente )llenos eficientes que a pro­<br />

.dução em terrà própria, e que tais sistemas de<br />

exploração •,c;la terra são escolhidos, não apesar<br />

de sua m~nciência, mas por causa da sua<br />

eficiência.<br />

Portanto, o tão difundido slogan ~a terra<br />

par.a qu~m a trabálha" éS!á ficàlldo coisa do<br />

passado, quando se tem. coxno objetivo melhorar<br />

a produção a~ícola e o ganho dos t~abalhadores<br />

tu~~-<br />

5. E a <strong>Reforma</strong> Agrária<br />

no Nordeste?<br />

Capitulo li<br />

A análise feita até aqui - com base na qual<br />

mostramos que a <strong>Reforma</strong> Agrária não se justifica<br />

do ponto de vista econômico - tein como<br />

pressuposto fundamental que a atual estrutura<br />

da propriedade da terra resulta de um conjunto<br />

de fatores de natureza econômica. E mostramos<br />

que tais fatores atuam sobre agentes econômicos<br />

racionais, ou seja, sensíveis aos incentivos<br />

econômicos. Daí podermos afirmar que<br />

a atual distribuição da propriedade da terra é,<br />

em suas linhas gerais, adequada para obter o<br />

melhor desempenho sócio-econômico do setor<br />

agrícola, em vista das características dos recursos<br />

naturais, da política econômica específica,<br />

da tecnologia disponível e da natureza dos mercados<br />

de produtos e insumos.<br />

Ora, numerosos estudos mostram que no<br />

Nordeste, especialmente em determinadas regiões,<br />

tais pressupostos de racionalidade econômica<br />

não se verificam, constituindo obstáculos<br />

"estruturais" que impedem o progresso<br />

da região (31). Mais ainda. Independentemente<br />

da racionalidade dos agentes econômicos, as<br />

características do mercado de produtos (com exceção<br />

dos produtos de exportação produzidos<br />

nas zonas úmidas) impediriam o desenvolvimento<br />

da região, fazendo com que na situação<br />

de equilíbrio houvesse ainda abundantes terras<br />

sem utilização, paralelamente com desemprego<br />

e sub-emprego rural significativos (32). Isto explicaria<br />

o atraso crônico do Nordeste, os baixos<br />

níveis de renda e o fluxo migratório para<br />

as outras regiões do País.<br />

A solução seria, sob este prisma, transformar<br />

uma parte considerável dos camponeses<br />

sem terra (especialmente os temporários) em pequenos<br />

proprietários que produzissem principalmente<br />

para seu próprio consumo, garantindo<br />

um .nível de vida superior ao atual, porém<br />

sem provocar uma queda dos preços, que· poderia<br />

reduzir a renda e o emprego no setor não<br />

reformado.<br />

O risco de que o pequeno proprietário criado<br />

por essa <strong>Reforma</strong> Agrária fracasse, por fal-<br />

145


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

T1íulo II<br />

ta de conhecimentos e capacidade empresarial,<br />

praticamente não existiria no Nordeste, devido<br />

ao caráter primitivo das técnicas de produção,<br />

já de longa data empregadas e conhecidas pelos<br />

trabalhadores.<br />

* * *<br />

Medidas drásticas como a <strong>Reforma</strong> Agrária,<br />

ainda que aplicadas em uma região estritamente<br />

localizada, trazem conseqüências difíceis<br />

de prever. Como os próprios partidários da <strong>Reforma</strong><br />

Agrária reconhecem, uma vez iniciado<br />

o processo é impossível saber onde ele vai parar.<br />

A insegurança que ele produz nos demais<br />

setores da agricultura regional e no resto do<br />

País, bem como as exigências administrativas<br />

desproporcionadas às capacidades das agências<br />

engajadas no processo, provocam distorções cujo<br />

custo final para a sociedade é enorme, ainda<br />

que dificilmente quantificável. Vejam-se, a<br />

este propósito, as experiências feitas na América<br />

Latina.<br />

Tendo em vista o bem-estar de toda a sociedade,<br />

portanto, a <strong>Reforma</strong> Agrária só pode<br />

ser recomendada em situações extremas, e quando<br />

não haja nenhuma outra alternativa. Ora,<br />

no caso do Nordeste existem diversas opções<br />

sem os inconvenientes da <strong>Reforma</strong> Agrária, cuja<br />

aplicação deveria ser seriamente estudada para<br />

aliviar a situação de pobreza de muitos nordestinos.<br />

Vejamos algumas.<br />

Em primeiro lugar, aperfeiçoar os mercados<br />

de arrendamento e parceria. Ambos os sistemas<br />

são amplamente utilizados nas diversas regiões<br />

do mundo onde se dão situações similares às<br />

do Nordeste: abundante terra sub-utilizada, juntamente<br />

com sub-emprego ou desemprego rural<br />

significativos. O arrendamento e a parceria<br />

praticamente não existem no Nordeste, com exceção<br />

do cultivo do algodão em regiões do interior.<br />

Eventualmente poder-se-ia justificar a intervenção<br />

subsidiária do Estado para favorecer<br />

tais formas de relações contratuais, tornando<br />

atraente para o dono a exploração da terra e eliminando<br />

eventmµs inibições do trabalhador rural<br />

na exploração por conta própria.<br />

146<br />

Em segundo lugar, promover a irrigação no<br />

Nordeste. Enormes áreas hoje sujeitas aos riscos<br />

da seca poderiam ser transformadas em terras<br />

de alta fertilidade (ver Cap. Ili).<br />

A irrigação aumentaria significativamente<br />

o emprego da mão-de-obra e provavelmente diminuiria<br />

a sua sazonalidade, devido ao caráter<br />

intensivo das lavouras de regadio.<br />

Esta alternativa permitiria romper o círculo<br />

vicioso da economia rural nordestina, pelas<br />

possibilidades que a irrigação abre à produção<br />

de bens exportáveis, tanto para o Exterior quanto<br />

para as demais regiões do País onde o nível<br />

de renda é maior.<br />

A irrigação exigiria não só vultosos recursos<br />

para a realização das obras de infraestrutura<br />

próprias a ela, mas também recursos<br />

abundantes para dar assistência técnica e treinamento<br />

à mão-de-obra.<br />

Apesar de ser uma alternativa com resultados<br />

a mais longo prazo, ela incorpora uma das<br />

formas mais eficazes e eficientes para promover<br />

de modo estável a melhoria das condições<br />

de vida da população de menor renda, que é<br />

o aumento de seus conhecimentos e<br />

capacidades.<br />

As duas opções acima tendem a resolver o<br />

problema da população rural nordestina no próprio<br />

setor agrícola da região. Sem considerar a<br />

possibilidade de migração para os principais<br />

centros urbanos do País, cujo volume tratar-seia<br />

de diminuir, existe a opção de adestrar o trabalhador<br />

rural nordestino para trabalhar e colonizar<br />

as terras devolutas da Amazônia, mais<br />

férteis e com água abundante. Tem havido experiências<br />

de colonização. Algumas tiveram êxito<br />

e outras fracassaram, especialmente por falta<br />

de adestramente e apoio técnico e financeiro.<br />

O aspecto fundamental do qual depende o<br />

êxito ou o fracasso das experiências é a capacitação<br />

e a aq1:1isição de novos conhecimentos.<br />

À guisa de conclusão, pode-se afirmar que<br />

apesar de o Nordeste - sobretudo em determinadas<br />

regiões do interior - apresentar sig-<br />

*<br />

..


Considerações econõmicas<br />

Capitulo li<br />

nificativas distorções nos diversos mercados, especialmente<br />

da terra e do trabalho, a <strong>Reforma</strong><br />

Agrária não constitui uma alternativa válida,<br />

pelos riscos a ela inerentes, e sobretudo_ pela<br />

existência de opções eficazes para resolver os<br />

problemas sociais e econômicos da agropecuária<br />

nordestina.<br />

6. Então, por que<br />

a <strong>Reforma</strong> Agrária?<br />

Uma leitura objetiva do que até agora dissemos<br />

deixa claro que a <strong>Reforma</strong> Agrária imposta<br />

pelo Estatuto da Terra não tem nenhuma<br />

justificação econômica. Pelo contrário, consti-<br />

tui uma aventura, que muito provavelmente conduzirá<br />

o País a um verdadeiro caos econômico<br />

e social.<br />

Tudo isto, de si, invalida tal <strong>Reforma</strong> Agrária.<br />

Entretanto, um elemento adicional torna o<br />

PNRA ainda mais fora de propósito: a existência<br />

de alternativas comprovadamente válidas para<br />

resolver os problemas da agropecuária. É o<br />

que veremos no capítulo seguinte.<br />

Portanto se, no terreno sócio-econômico, a<br />

<strong>Reforma</strong> Agrária proposta pelo PNRA não tem<br />

nenhuma justificação, só cabe entendê-la como<br />

tendo objetivos ideológicos e doutrinários. Ou<br />

seja, a instauração de um regime <strong>socialista</strong> e<br />

igualitário na vida rural, muito provavelmente<br />

como passo inicial para sua instauração em todos<br />

os setores da vida do País.<br />

147


Capítulo III<br />

A verdadeira solução para<br />

os problemas<br />

econômicos e sociais do campo<br />

O pressuposto fundamental subjacente no<br />

conjunto de medidas que aqui se exporão é<br />

que a maior ou menor pobreza existente na<br />

agricultura provém da baixa produtividade rural,<br />

conseqüência direta do atraso relativo do<br />

setor. Desse modo, a solução do problema é<br />

independente da distribuição da propriedade<br />

da terra, e reside na modernização da agricultura:<br />

melhoria da capacitação do produtor e<br />

da mão-de-obra, melhor difusão de informações<br />

e aperfeiçoamento dos diversos mercados,<br />

de modo que o produtor possa utilizar<br />

seus recursos o mais eficientemente possível<br />

(33).<br />

Portanto, qualquer política econômica<br />

adequada para a agricultura deve incluir quatro<br />

requisitos básicos:<br />

1) Diminuição da incerteza e do risco _na<br />

produção agropecuária;<br />

2) Eliminação das imperfeições nos diversos<br />

mercados que intervêm na agricultura;<br />

3) Supressão da penalização do setor agropecuário<br />

em relação aos demais setores da<br />

economia nacional; e<br />

4) No caso específico do Brasil, incentivo<br />

a investimentos para a exploração dos enormes<br />

e riquíssimos recursos naturais.<br />

Dado que o produtor brasileiro se tem<br />

mostrado reativo aos estímulos econômicos, é<br />

de esperar que, respeitados esses princípios,<br />

haja aumento ainda maior na produção agropecuária,<br />

melhora no nível de emprego e renda<br />

do setor agrícola, e eliminação dos bolsões de<br />

pobreza que atingem alguns setores rurais.<br />

Vejamos agora algumas medidas em<br />

concreto.<br />

1. Medidas destinadas a<br />

reduzir o risco<br />

e aumentar a produção<br />

A. Revogar o Estatuto da Terra<br />

Um dos fatores que geram maior incerteza<br />

é a vigência do Estatuto da Terra, uma lei cuja<br />

aplicação pode ser mais ou menos densamente<br />

<strong>socialista</strong> e confiscatória de acordo com a vontade<br />

do Governo.<br />

Um exemplo do caráter arbitrário da legislação<br />

vigente são as exigências para que uma<br />

149


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

fazenda não seja classificada como "latifúndio<br />

improdutivo". Quando o ET foi promulgado,<br />

em 1964, exigia-se que pelo menos 50% da<br />

área aproveitável estivesse sendo cultivada.<br />

Posteriormente a exigência foi aumentada para<br />

70o/o. Logo a seguir, em 1980, aumentou-se<br />

para 80%. É difícil imaginar algo mais arbitrário<br />

que tais critérios e suas mudanças, dos<br />

quais, no entanto, depende o futuro do<br />

fazendeiro.<br />

Durante anos a agropecuária conviveu<br />

com o ET, ignorando-lhe o conteúdo ou imaginando<br />

que não seria aplicado. Hoje ela está<br />

diante de um plano para a sua drástica aplicação,<br />

que de um dia para outro poderá deixar<br />

o produtor brasileiro na iminência de perder<br />

praticamente todo o patrimônio que lhe pertence,<br />

formado ao longo de gerações e/ou que<br />

ele mesmo formou, por seu esforço e dedicação.<br />

Em razão do quê? Em razão dos critérios<br />

arbitrários elaborados com base em elucubrações<br />

teóricas, sem fundamento na realidade.<br />

Alguns poderão dizer que não é necessário<br />

revogar a lei, mas que basta aperfeiçoá-la. Por<br />

exemplo, criando mecanismos que permitam<br />

ao produtor participar na elaboração dos critérios<br />

que definem a expropriabilidade das fazendas<br />

e se defender de medidas lesivas aos<br />

seus interesses.<br />

Ora, a experiência indica que tais dispositivos<br />

são ineficazes, pois no processo expropriatório<br />

intervêm vários interesses ideológicos e<br />

políticos, bem como pressões de toda ordem.<br />

E a criação de tais dispositivos funcionaria como<br />

mero subterfúgio para manter a vigência<br />

de uma lei ameaçadora.<br />

Os próprios agro-reformistas declaram que<br />

a <strong>Reforma</strong> Agrária é um processo que, uma<br />

vez iniciado, ninguém sabe onde se detém. É<br />

um salto no escuro. As <strong>Reforma</strong>s Agrárias realizadas<br />

nos mais diversos países provam-no à<br />

saciedade.<br />

Portanto, nada mais necessário do que eliminar<br />

tal diploma legal (bem como a legislação<br />

complementar), próprio a gerar incertezas<br />

da magnitude daquelas produzidas por um<br />

processo de <strong>Reforma</strong> Agrária.<br />

B. Neutralizar a agitação rural<br />

organizada<br />

Titulo li<br />

Ninguém nega existirem situações de pobreza<br />

que exigem rápida solução. Mas também é<br />

certo que elas não justificam medidas tão extremas,<br />

como sejam invasões e violência física.<br />

Pois existem soluções alternativas de ordem legal<br />

e econômica, segundo estamos expondo ao<br />

longo deste trabalho.<br />

Mas sobretudo é certo que, por detrás de alguns<br />

magotes de ativistas, existe uma verdadeira<br />

rede de agitadores que arrastam para a subversão<br />

os camponeses, muitas vezes contra a<br />

própria vontade destes (cfr. CEBs, pp. 171-201;<br />

"Catolicismo", n? 5 402 e 406-407).<br />

A experiência dos outros países revela que<br />

com freqüência as organizações camponesas,<br />

desde logo ou dentro de curto prazo, terminam<br />

controladas por agitadores políticos de esquerda,<br />

cujo intuito é subverter a ordem estabelecida,<br />

para implantar o caos e justificar assim medidas<br />

radicais. E fica ressaltado, desde já, que<br />

a implantação de medidas radicais, como a <strong>Reforma</strong><br />

Agrária, de nenhum modo reduz a agitação.<br />

Pelo contrário, aumenta-a, à maneira de<br />

um efeito que se alimenta da própria causa.<br />

Tudo isto gera incerteza, inibe o investimento<br />

e retrai o emprego e a produção. Portanto,<br />

é indispensável tomar medidas preventivas que<br />

evitem a formação de uma verdadeira indústria<br />

da agitação no campo.<br />

C. Promover a regularização<br />

fundiária<br />

Outro fator de incerteza são as delimitações<br />

confusas e titulações pouco claras, que abundam<br />

num país de dimensões continentais e em<br />

fase de desbravamento. Tais situações são fonte<br />

de conflitos, inibindo o bom desenvolvimento<br />

da produção.<br />

Se realmente o intuito do PNRA fosse promover<br />

a paz e a concórdia na vida rural, deveria<br />

incentivar os programas de regularização<br />

fundiária.<br />

150


Considerações econômicas<br />

D. Criar mecanismos de<br />

seguro agrícola e preços mínimos,<br />

que diminuam os<br />

riscos da produção comercial<br />

Um dos fatores que mais inibem o produtor<br />

rural é a incerteza inerente ao processo produtivo<br />

agrícola. Isto é especialmente grave quando<br />

se trata do pequeno produtor rural que, com<br />

o fim de diminuir seu risco, prefere não produzir<br />

em escala comercial, mas só para seu próprio<br />

sustento.<br />

Seguro agrícola e preços mínimos que atendam<br />

a essa categoria de produtores podem constituir<br />

fator de estabilidade, garantindo considerável<br />

aumento da produção, especialmente de<br />

alimentos.<br />

Os sistemas hoje existentes, como o<br />

PROAGRO, estão vinculados ao crédito rural,<br />

não abarcando aqueles produtores que financiam<br />

sua produção com recursos próprios ou<br />

por meio de outros sistemas de financiamento.<br />

E. Tomar medidas para despenalizar<br />

a agropecuária<br />

Muitas vezes o produtor rural paga um alto<br />

preço por seus insumos, para proteger a indústria<br />

nacional. Ou, por outro lado,. recebe um<br />

preço baixo por seus produtos, para assegurar<br />

o salário real do setor urbano. Isso produz distorções,<br />

tanto no mercado de produtos como<br />

no de fatores de produção, aumentando a concentração<br />

da renda pessoal e favorecendo o aparecimento<br />

de bolsões de pobreza.<br />

É necessário que se adote, em relação ao setor<br />

agrícola, uma política comercial e cambial<br />

que não o penalize em relação aos demais setores<br />

da economia.<br />

Há uma série de regulamentos e portarias<br />

que controlam o comércio de produtos agropecuários,<br />

prejudicando a renda do produtor. Algumas<br />

delas são necessárias para ordenar o mercado,<br />

mas muitas constituem verdadeiras barreiras<br />

que impedem a competitividade na comercialização<br />

e favorecem a formação de monopólios<br />

ou quase monopólios, com prejuízo<br />

Cap1íulo Ili<br />

tanto para o produtor como para o consumidor.<br />

É indispensável reduzir tais controles, para<br />

assim permitir ao produtor o acesso direto<br />

ao consumidor, evitando uma intermediação<br />

monopolística e tornando mais viável a entrada<br />

de outros na comercialização.<br />

2. Medidas destinadas a<br />

melhorar a produtividade<br />

e a renda do<br />

trabalhador rural<br />

A. Aperfeiçoar a<br />

legislação trabalhista<br />

É sabido que a legislação vigente cria condições<br />

que incentivam a contratação de trabalhadores<br />

volantes, em detrimento dos trabalhadores<br />

permanentes ou colonos.<br />

O sistema de colonato cria estabilidade e favorece<br />

a concórdia e o bom relacionamento. O<br />

contrário sucede com o sistema de trabalho temporário:<br />

favorece a proletarização do homem<br />

do campo, cria instabilidade e pode prejudicar<br />

o relacionamento entre o fazendeiro e o trabalhador<br />

rural.<br />

B. Aperfeiçoar a legislação<br />

que regula as relações contratuais<br />

entre o dono da terra<br />

e o produtor rural sem terra<br />

Para ser produtor agrícola independente não<br />

é necessário ser dono da terra. Pelo contrário,<br />

abundam situações em que o produtor não tem<br />

capital para comprar a terra, mas tem conhecimentos<br />

e condições suficientes para explorá-la.<br />

Daí surgem as figuras legais do arrendamento<br />

e da parceria.<br />

Com uma adequada legislação, o sistema de<br />

arrendamento e o de parceria promovem excelente<br />

uso dos recursos produtivos da terra, do<br />

capital e do trabalho.<br />

É sabido que existem dispositivos criando<br />

151


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

direitos para os parceiros e arrendatários, o que<br />

faz com que os proprietários evitem o uso de<br />

tais sistemas. A solução não consiste em<br />

eliminá-los, mas em aperfeiçoá-los, e assim abrir<br />

outros caminhos para que muitos trabalhadores<br />

rurais possam, por sua conta e risco, ter acesso<br />

à terra e chegar a ser proprietários no futuro.<br />

C. Criar condições dentro do<br />

mercado de capitais para a<br />

aquisição de terras com<br />

financiamento a longo prazo<br />

Assim como existem hoje condições para se<br />

adquirir casa própria com financiamento a longo<br />

prazo, não seria difícil imaginar mecanismos<br />

financeiros que permitissem a compra de terras<br />

com financiamentos a médio e longo prazo.<br />

D. Executar uma política adequada<br />

de pesquisa, assistência técnica<br />

e extensão rural,<br />

especialmente para os setores<br />

produtores de baixa renda<br />

É por todos reconhecida a importância da<br />

pesquisa, especialmente de tipo biológico, para<br />

aumentar a produção e a renda do setor agrícola.<br />

No Brasil, nas últimas décadas, esta temse<br />

desenvolvido amplamente, especialmente sobre<br />

os cultivos de exportação. Desta forma tem<br />

sido possível, entre outros objetivos, tomar economicamente<br />

aproveitáveis as regiões de cerrado,<br />

que por sua extensão têm um peso ponderável<br />

na expansão da produção agropecuária.<br />

Sem prejuízo das pesquisas orientadas para<br />

produtos de exportação, seria conveniente incentivar<br />

as pesquisas referentes a produtos para<br />

o mercado interno.<br />

Como já foi dito anteriormente, os problemas<br />

de pobreza atingem especialmente os pequenos<br />

produtf)res, sejarn eles, ou não, proprietários<br />

de terra.<br />

Sabe-se qqe.as causas prin~pais dos problema$<br />

.de~'.$ã o uso de técnicas precárias de prodnção<br />

e a dificuldade de acesso ao mercado fi­<br />

JtattCJitó e comercial.<br />

152<br />

Título II<br />

Tais dificuldades seriam solucionadas mediante<br />

o incremento dos serviços de ey;tensão<br />

rural e assistência técnica. Desvinculando-se<br />

tais setvi.ços do crédito subsidiado, eies poderão<br />

ampliar o raio de ação das iniciativas já<br />

em andamento, por meio do Sistema Brasileiro<br />

de Assistência Técnica e Extensão Rural -<br />

SIBRATER ou outras vias.<br />

O sistema conta, atualmente, com 2.500 escritórios<br />

esparsos pelas 25 unidades da Federação,<br />

com um total de 9 mil técnicos (34).<br />

E. Ampliar e incentivar<br />

os planos educacionais para<br />

o homem do campo<br />

Historicamente, o setor agrícola não tem si.­<br />

do favorecido pelos planos educacionais governamentais<br />

na mesma proporção que o setor ur~<br />

bano. Mas é amplamente conhecido o impacto.<br />

que têm na produtividade e na renda agrícola<br />

os investimentos em educação. Daí a necessl;.<br />

dade de incentivar os planos já existentes, alén)'<br />

de procurar meios para interessar em tais empreendimentos<br />

a iniciativa particular.<br />

3. Medidas destinadas<br />

a incentivar o<br />

aproveitamento dos<br />

recursos naturais<br />

inexplorados<br />

A. Fazer um levantamento minucioso<br />

das terras devolutas e<br />

favorecer a sua colonização<br />

O Brasil possui imensas extensões ine,tploradas,<br />

que pertencem aos Poderes públicos. :Essas<br />

áreas se localizam especialmente na Ama ...<br />

zônia, mas existem também de modo ponde.tável<br />

nas demais .re.siões dá.. Federação.<br />

Parece evidentt t ntCéssidadé de fazer. urb<br />

levantamento detalmtdo dessas áreas, como.httuito<br />

de liberá•láS para a colo'iiização, e ~ fàr


Considerações econômicas<br />

cilitar assim o acesso à terra àqueles que o<br />

queiram.<br />

É verdade que muitas áreas devolutas requereriam<br />

obras de infra-estrutura para se tornarem<br />

úteis à produção. Mas é verdade também<br />

que muitas áreas de fronteira agrícola apresentam<br />

hoje facilidades de acesso e canais de comercialização<br />

inexistentes até há poucos anos.<br />

A área das terras devolutas na Amazônia ultrapassa<br />

350 milhões de hectares, dos quais um.a<br />

importante porcentagem é viável para.a pequena<br />

agricultura. Não é difícil imaginar, portanto,<br />

que o total das terras devolutas supera os 400<br />

milhões de hectares (35) (ver Anexo II).<br />

É inegável que a colonização das terras tem<br />

um custo relativamente alto. Mas é de se prever<br />

que esse custo seria menor que o das conseqüências<br />

desastrosas da <strong>Reforma</strong> Agrária para a economia<br />

do País.<br />

B. Promover a irrigação no Nordeste<br />

Estudos recentes realizados pela SUDENE<br />

mostram que o potencial de irrigação pública<br />

do Nordeste alcança 2 milhões de hectares, existindo<br />

outros 2,7 milhões que podem ser atingidos<br />

por meio de pequenos sistemas privados de<br />

irrigação.<br />

Há vários projetos para o semi-árido nordestino,<br />

um dos quais prevê a captação de<br />

águas do São Francisco, levando-as para os<br />

Estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Parafüa<br />

e Pernambuco através das vertentes dos<br />

rios secos e intermitentes da região. Especialistas<br />

estrangeiros concluíram que este projeto é<br />

viável do ponto de vista técnico e econômico 1<br />

e constataram a similaridade dos solos com o<br />

Capítulo 1/1<br />

das regiões áridas irrigadas do Oeste americano,<br />

que constituem hoje a região mais produtiva<br />

do mundo (36). ·<br />

Segundo estudos do DNOCS, um hectare irrigado<br />

gera 2,2 empregos permanentes na agricultura,<br />

a um custo aproximado de 8 mil dólares.<br />

Cada emprego permanente na agricultura<br />

gera, por sua vez, dois empregos indiretos em<br />

outros setores. Ou seja, cada hectare irrigado<br />

gera 6,6 empregos.<br />

Sendo o Nordeste uma regiio de relativa<br />

densidade demográfica, onde se concentram os<br />

menores níveis de renda do País, e da qual surgem<br />

os mais importantes fluxos migratórios para<br />

os grandes centros urbanos, nada ma.is adequado<br />

dó que realizar tais projetos de irrigação,<br />

com o intuito não só de diminuir o processo<br />

migratório, mas de criar uma atividade<br />

agrícola altamente intensiva, com repercussões<br />

significativas na renda e na produção agrícola.<br />

Se um dos objetivos c;lo PNRA é gerar empregos,<br />

parece ser ntenos dispendioso f~ê-lo<br />

por meio da irrigaçãõ do que por meio da Re-,<br />

forma Agrária. Neste último caso, o custo estimado<br />

pelo PNAA é de 3.500 dólares por famí,.<br />

lia ( custo, aliás, subestimado pelo fato de incluir<br />

apenas os gastos de responsabilidade do<br />

INCRA, excluindo os de infra-estrutura e assistência<br />

técnica e financeira). No caso da irrigação,<br />

entretanto, o custo se reduz a çerca de<br />

2.000 dólares por familia.<br />

É claro que o assunto exige análise aprofundada,<br />

que escapa a.os objetivos deste trabalho.<br />

Mas este mero exercfcio de cálculo revela que<br />

existem opções convenientes e vantajosas para<br />

se aumentar o emprego e diminuir o fluxo<br />

migratório.<br />

JS3


Sumário e conclusões<br />

1. Objetivo e método do<br />

presente estudo<br />

Tivemos como objetivo mostrar que o Estatuto<br />

da Terra, cuja aplicação está consubstanciada<br />

no 1? Plano Nacional de <strong>Reforma</strong> Agrária<br />

(PNRA) da Nova República, baseia-se em<br />

premissas erradas, constituindo uma falsa solução<br />

para os problemas da agropecuária bra-·<br />

sileira, e poderia trazer graves conseqüências,<br />

tanto para a agricultura como para a economia<br />

do País.<br />

Chegamos assim à conclusão de que o<br />

PNRA não tem nenhuma justificação, tanto do<br />

ponto de vista econômico quanto do ponto de<br />

vista social. Mostramos também o fracasso das<br />

experiências de <strong>Reforma</strong> Agrária em vários países<br />

da América Latina.<br />

Para maior clareza e brevidade, dispusemos<br />

a análise em três tópicos:<br />

a) A atual estrutura da propriedade da terra<br />

é legítima, condizente com as características<br />

econômicas do País, e vem trazendo grande benefício<br />

para a Nação;<br />

b) A <strong>Reforma</strong> Agrária é uma falsa solução,<br />

do ponto de vista econômico;<br />

c) Existe um conjunto de medidas de política<br />

agrária comprovadamente eficazes para resolver<br />

os problemas da agropecuária.<br />

2. Teses essenciais do PNRA<br />

e as respostas<br />

correspondentes<br />

do presente estudo<br />

A. Acesso à terra<br />

• Posição do PNRA:<br />

Com o passar do tempo, um número pequeno<br />

de proprietários e fazendeiros detém uma<br />

proporção cada vez maior da terra, fazendo com<br />

que o acesso a ela se torne progressivamente<br />

mais difícil para a maior parte dos que vivem<br />

no campo, especialmente para os trabalhadores<br />

rurais.<br />

* Conclusão deste estudo:<br />

O acesso à terra não tem sido dificultado<br />

pela estrutura agrária vigente. Pelo contrário,<br />

tem havido aumento na difusão da proprieda-<br />

155


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

de da terra, podendo-se afirmar que em torno<br />

de 50% dos que vivem no campo, suscetíveis<br />

de serem proprietários, de fato o são. O verdadeiro<br />

problema, que muitas vezes dificulta o<br />

acesso à terra, é a baixa rentabilidade e produtividade<br />

das pequenas explorações no campo.<br />

B. Aproveitamento da terra<br />

• Posição do PNRA:<br />

Grande parte dos proprietários não exploram<br />

adequadamente suas terras, e outros as<br />

mantêm inexploradas como reserva de valor,<br />

com o que mais de 70% das terras do Brasil<br />

constituem os chamados latifúndios<br />

improdutivos.<br />

* Conclusão deste estudo:<br />

Com base em numerosos estudos, provamos<br />

que a agricultura brasileira é eficiente e responde<br />

aos incentivos econômicos, e que o conceito de<br />

latifúndio improdutivo é uma invenção arbitrária<br />

do Estatuto da Terra, ambígua e prenhe de<br />

erros. Muitos dos chamados latifúndios improdutivos<br />

nada têm de improdutivo. As terras<br />

mantidas como reserva de valor, no caso do Brasil,<br />

em princípio não prejudicam o acesso à terra<br />

e o bem-estar da Nação. Além do mais, o fenômeno<br />

é provavelmente de magnitude menor do<br />

que correntemente se imagina.<br />

C. Os benefícios que a<br />

atual estrutura agrária tem<br />

trazido ao País<br />

• Posição do PNRA:<br />

Abstém-se completamente de elogiar o setor<br />

agrícola. Pelo contrário, atribui a ele a responsabilidade<br />

pelos problemas sociais existentes<br />

tanto no campo como na cidade.<br />

* Conclusão deste estudo:<br />

A atual estrutura agrária tem tido um papel<br />

fundamental no progresso da Nação. A<br />

agropecuária financiou o desenvolvimento industrial<br />

por meio de onerosa transferência de<br />

rendas. Contribuiu Córn mais de 50% das divi-<br />

Titulo li<br />

sas para a importação de bens de capital, matérias<br />

primas e tecnologia. Sua produção, tanto<br />

de bens exportáveis como de alimentos, cresceu<br />

mais do que a população. Tudo isto sem sacrificar<br />

os trabalhadores do campo, que têm tido<br />

um aumento real de salários.<br />

D. Os problemas sociais existentes<br />

• Posição do PNRA:<br />

Atribui a violência no campo à miséria e à<br />

falta de oportunidades dos camponeses para o<br />

acesso à terra. Para o documento, os bolsões de<br />

pobreza existentes decorrem da estrutura da propriedade<br />

da terra.<br />

* Conclusão deste estudo:<br />

A violência no campo tem sido descrita com<br />

exagero. Na realidade ela se deve especialmente<br />

à atuação de agitadores. Muitos dos conflitos<br />

de terras são provenientes também de demarcações<br />

confusas, próprias a países de dimensões<br />

continentais e em fase de desbravamento,<br />

como o Brasil. Os bolsões de pobreza existentes<br />

decorrem especialmente da penalização sofrida<br />

pelo setor agrícola, fruto de uma política<br />

econômica desfavorável.<br />

E. Os objetivos da <strong>Reforma</strong> Agrária<br />

• Posição do PNRA:<br />

A <strong>Reforma</strong> Agrária aumentará a renda e o<br />

emprego dos que trabalham no campo, diminuirá<br />

o êxodo rural e aumentará a produção de<br />

alimentos.<br />

* Conclusão deste estudo:<br />

A <strong>Reforma</strong> Agrária provavelmente não aumentará<br />

a renda nem o emprego na agricultura,<br />

nem aliviará o ·êxodo rural. Pelo contrário,<br />

a própria natureza das medidas propostas e a<br />

experiência dos países onde se executou a <strong>Reforma</strong><br />

Agrária mostram que os resultados são<br />

opostos aos que os autores do PNRA imaginam.<br />

A razão disso reside no- fato de que a Refornia<br />

Agrária, de si, não ataca o cerne do pro-<br />

156


Considerações econômicas<br />

Sumário e conclusões<br />

blema, que é a produtividade e a eficiência agrícola,<br />

especialmente do pequeno produtor rural.<br />

F. Medidas de política agrária<br />

• Posição do PNRA:<br />

Propõe um conjunto de medidas comerciais<br />

e financeiras, de assistência técnica e extensão<br />

rural, mas tendo como pré-condição a <strong>Reforma</strong><br />

Agrária. O prioritário seria a reforma da<br />

estrutura da propriedade da terra.<br />

* Conclusão deste estudo:<br />

Apresenta sugestões para um plano positivo<br />

de política agrária, que permita aumento da<br />

produtividade e da eficiência agrícola. Considera<br />

absurdo executar uma <strong>Reforma</strong> Agrária<br />

que provoque aumento explosivo do número de<br />

pequenos produtores, sendo que os atuais já padecem<br />

de sérias deficiências em matéria tecnológica<br />

e em assistência financeira.<br />

* * *<br />

Os dados analisados neste estudo levam a<br />

concluir que absolutamente não tem qualquer<br />

justificação atribuir à estrutura agrária a responsabilidade<br />

pela má situação social e econômica<br />

de alguns setores da população. Pelo contrário,<br />

representa uma grave injustiça perseguir<br />

e espoliar uma classe que contribuiu e contribui<br />

preponderantemente para o progresso da<br />

Nação, e que na atual conjuntura, por meio das<br />

exportações e da produção de alimentos, vem<br />

minorando as conseqüências da recessão<br />

econômica.<br />

É um espantoso paradoxo que se proponha<br />

um plano verdadeiramente <strong>socialista</strong> para o<br />

campo, com o qual se aniquilaria um dos segmentos<br />

mais competitivos do País, tendo em vista<br />

que a crise econômica, alegada como moti-<br />

vo para a aplicação da <strong>Reforma</strong> Agrária, em<br />

boa parte foi provocada, e significativamente<br />

agravada, pelos monopólios ou quase monopólios<br />

criados exatamente pela estatização e dirigismo<br />

<strong>socialista</strong>s.<br />

3. Uma consideração final<br />

Ao longo de todas estas páginas, quisemos<br />

deixar em evidência, do ponto de vista estritamente<br />

sócio-econômico, que a <strong>Reforma</strong> Agrária<br />

carece de fundamento.<br />

Ora, se isto é assim, chega-se à conclusão<br />

de que existem necessariamente, por detrás da<br />

insistência na aplicação da <strong>Reforma</strong> Agrária,<br />

razões de natureza ideológica. Isto, de fato, não<br />

é nenhuma novidade. A história dos últimos<br />

tempos se encarrega de mostrar que a <strong>Reforma</strong><br />

Agrária tem sido uma das pontas de lança de<br />

qualquer programa esquerdista, seja <strong>socialista</strong><br />

ou comunista.<br />

Em última análise, será no terreno doutrinário<br />

e dos princípios morais que se decidirá<br />

o futuro da agropecuária brasileira. No fundo,<br />

portanto, está envolvido um problema religioso.<br />

É o embate entre adeptos da Toologia da Libertação,<br />

que defendem um mundo igualitário,<br />

imerso na luta de classes e revoltado contra qualquer<br />

alienaç~o, e aqueles que, fiéis à doutrina<br />

tradicional católica, defendem uma ordem<br />

sócio-econômica hierárquica, harmonicamente<br />

desigual, baseada na concórdia das classes<br />

sociais que, sob o influxo da Fé, da Justiça e<br />

da Caridade cristã, amam e respeitam<br />

mutuamente.<br />

Que Nossa Senhora Aparecida, Padroeira<br />

do Brasil, proteja esta grande Nação e a conduza<br />

pelos .caminhos da Fé verdadeira, nos quais<br />

encontrará q autêntico progresso material que<br />

todos almejamos.<br />

157


Anexo I<br />

A difusão da propriedade da terra<br />

e sua relação com a<br />

população empregada na agropecuária<br />

1. População empregada no<br />

campo<br />

As fontes mais usadas para calcular a população<br />

ocupada no campo são os censos populacionais<br />

e os censos agropecuários.<br />

No Quadro 1 aparece o número de pessoas<br />

ocupadas no setor agropecuário nos anos<br />

de 1970 e 1980, de acordo com ambos os<br />

censos.<br />

Como se depreende do quadro acima,<br />

existem discrepâncias significativas entre ambos<br />

os censos, especialmente no que se refere<br />

ao número de mulheres empregadas.<br />

Há também discrepâncias quanto à variação<br />

no emprego entre um ano e outro. De<br />

acordo com o Censo Populacional, a população<br />

empregada teria diminuído entre os<br />

anos de 1970 e 1980. E de acordo com o Censo<br />

Agropecuário ela teria aumentado (tanto<br />

para homens como para mulheres) no mesmo<br />

período.<br />

Parte das discrepâncias pode ser explicada<br />

pelas diferenças nas defi_nições de pessoa<br />

ocupada, que ambos os censos empregam.<br />

O Censo Populacional define como População<br />

Economicamente Ativa (PEA) aquelas<br />

pessoas de 10 anos ou mais que "durante todos<br />

os 12 meses anteriores à data do censo,<br />

Quadro 1. -<br />

População Ocupada<br />

H<br />

1970<br />

Censo Populacional 11.813 1.257<br />

Censo Agropecuário 10.125 4.556<br />

Fonte: Censo Agropecuário e Populacional -<br />

Nota: Cifras em milhares.<br />

M<br />

IBGE.<br />

1980<br />

T H M T<br />

13.090 11.050 1.610 12.660<br />

14.681 12.030 5.393 17.423<br />

159


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

Título II<br />

ou parte desse período, exerceram tr~balho remunerado,<br />

em dinheiro e/ou produtos ou mercadorias,<br />

inclusive os licenciados com remuneração<br />

por doença, com bolsas de estudo,<br />

etc., e os sem remuneração que trabalharam<br />

habitualmente 15 horas ou mais por semana<br />

numa atividade econômica, ajudando a pessoa<br />

com quem residiam''.<br />

O Censo Agropecuário define como pessoal<br />

ocupado "todas as pessoas com pu sem<br />

remuneração, que na data no Censo s~ encontravam<br />

executando serviços ligados às atividades<br />

do estabelecimento" (no quadro acima<br />

só foram consideradas as pessoas a partir de<br />

14 anos). O pessoal ocupado aparece distribuído<br />

nas seguintes categorias:<br />

a) Responsável e membros não remunerados<br />

da famz1ia. O produtor ou administrador<br />

que fosse responsável pela .direção do estabele­<br />

·cimento e os membros de sua fàmília que ajudavam<br />

na execução dos trabalhos, sem receber<br />

qualquer tipo de remuneração pelos serviços<br />

prestados;<br />

b) Empregados permanentes. Pe$soas contratadas<br />

para a execução de tarefas permanentes<br />

ou de longa duração, mediante remuneração<br />

em dinheiro ou em quantidades fixas de<br />

produtos, inélusive os membros da fa:tttilia dos<br />

em.pregados permanentes que efetivamente os<br />

auxiliâssem na execução de suas resp~ctivas<br />

tarefas;<br />

e) Empregados temporários. Pessoas contratadas<br />

para a execução de tarefas eventuais ou .<br />

de curta duração, mediante remuneração em dinheiro<br />

ou em produtos, inclusive os membros<br />

da família desses empregados que os auxilias­<br />

-sem na execução dos trabalhos;<br />

d) Parceiros. Pessoas diretamente subordinadas<br />

ao responsável, que executavam tarefas<br />

mediante o recebimento de 1/4 da produção ob- , ,<br />

tida com seu trabalho, e seus familiares que as<br />

awdliassem na execução de suas .tarefas;<br />

e) Outra condição. Inclui t-odas as p.essoas<br />

cujo regime de 'trabalho diferia dos .abran.gidos<br />

pelos grupos anteriores, tais oomo agregados,<br />

moradores etc.<br />

A diférença de ambos -as censos .etn relação<br />

ao número de mulheres empregadas poderia<br />

explicar-se pelo fato de o Censo Populacional<br />

pôr como condição para que uma pessoa sem<br />

remuneração (ajudando a pessoa com quem reside)<br />

seja considerada como economicamente<br />

ativa, que ela habitualmente empregue pelo menos<br />

15 horas por semana em dito serviço.<br />

Pelo contrário, o Censo Agropecuário não<br />

põe nenhuma condição de habitualidade (freqüência,<br />

assiduidade) e de número mínimo de<br />

horas. Daí uma possível explicação para que o<br />

número de mulheres que aparecem como empregadas<br />

seja maior no Censo A~opecuário do<br />

que no Censo Populacional.<br />

2. População ocupada apta<br />

a se tornar proprietária<br />

Para efeito de calcular o percentual de proprietários<br />

em relação à população suscetível de<br />

se tornar proprietária, foram deduzidos do total<br />

as mulheres e os homens menores de 24 anos.<br />

A razão de não considerá-los aptos a serem proprietários<br />

é, no caso das mulheres, o fato de serem<br />

habitualmente dependentes, e no caso dos<br />

homens menores de 24 anos o de ser normal que<br />

ainda não sejam proprietários.<br />

No Quadro 2 do Capítulo I, trabalhamos<br />

com os dados do Censo Populacional. Se tivéssemos<br />

trabalhado com o Censo Agropecuário,<br />

o resultado final não seria significativamente diverso.<br />

Neste caso, a população suscetível de ser<br />

proprietária no ano de 1980 seria de 7 ,5 milhões,<br />

obtido da seguinte forma: total de pessoal ocupado:<br />

17,423 milhões; mulheres empregadas:<br />

5,393 milhões; homens menores de 24 anos:<br />

4,449 milhões. Perfazendo, portanto, o total de<br />

7,58 'milhões de pessoas suscetíveis de serem<br />

proprietárias.<br />

3. A porcentagem de<br />

propristários<br />

Dado que o Censo Agropecuário não informa<br />

o pessoal ocupádo por idade, o número de<br />

1GO


Considerações econômicas<br />

homens menores de 24 anos foi obtido com base<br />

nas cifras do Censo Populacional, ajustadas pela<br />

diferença no número de homens empregados<br />

de ambos os censos.<br />

Se o número de produtores proprietários é<br />

igual a 3,416 milhões, então, de acordo com o<br />

Censo Agropecuário, a percentagem de proprie-<br />

Anex-os<br />

tários em relação à população suscetível de ser<br />

proprietária será de 45 O/o.<br />

Portanto, quer se faça o cálculo com base<br />

no Censo Populacional, como no Capítulo 1,<br />

quer no Censo Agropecuário, o percentual de<br />

proprietários varia entre 45 e 490/o do total da<br />

população suscetível de ser proprietária.<br />

161


Anexo II<br />

350 milhões de hectares<br />

de terras devolutas<br />

na fronteira agrícola<br />

"Sendo o INCRA .... o maior proprietário<br />

de terras na região (73% das terras da Amazônia<br />

estão sob sua jurisdição) ... "<br />

1àl constatação está contida em estudo recente<br />

(ANNA LUIZA OZÓRIO DE ALMEI­<br />

DA, "Seletividade perversa na ocupação da<br />

Amazônia", Pesquisa e Planejamento &onômico<br />

14 [2]: 353-398, Rio de Janeiro, agosto 1984),<br />

o qual fornece valiosas informações para uma<br />

idéia aproximada sobre a ordem de grandeza da<br />

disponibilidade de terras na Amazônia e sua aptidão<br />

agrícola.<br />

Uma vez que no debate sobre a <strong>Reforma</strong><br />

Agrária no Brasil é de importância fundamental<br />

conhecer mais pormenorizadamente a situação<br />

das terras devolutas, faremos aqui uma breve<br />

resenha dos principais dados do referido<br />

estudo.<br />

Preliminarmente, é conveniente observar, de<br />

acordo com a autora, que as diversas fontes de<br />

informação (Censo Agropecuário de 1980 do<br />

FIBGE, Cadastro de Imóveis de 1978 do IN­<br />

CRA, e dados primários dos projetos de regularização<br />

fundiária do INCRA) apresentam discrepâncias<br />

significativas em relação à disponibilidade<br />

de terras. Tuis discrepâncias são explicadas<br />

pelas diferenças conceituais adotadas e<br />

pelo fato de a coleta de informações abranger<br />

áreas diferentes.<br />

Entretanto, apesar dessa precariedade, as informações<br />

permitem uma estimativa da ordem<br />

de grandeza, e servem para chamar a atenção<br />

sobre a necessidade e urgência de se fazer um<br />

levantamento rigoroso das disponibilidades d.e<br />

terra na região.<br />

Também é necessário ter presente que, segundõ<br />

a autora, a fonte principal relativa à aptidão<br />

dos solos é o Projeto Radam Brasil. Embora<br />

baseado em técnicas modernas de análise,<br />

os seus dados relativos à aptidão dos solos<br />

são pouco representativos da região amazônica<br />

como um todo, e carecem de precisão suficiente,<br />

por falta de exploração in loco.<br />

1. Disponibilidade de terras<br />

A autora divide a fronteira agrícola em duas<br />

grandes regiões:fronteira recente, que inclui os<br />

Estados de Rondônia, Acre, Amazonas, Pará e<br />

Mato Grosso e os Torritórios de Roraima e Amapá;<br />

e afronteira antiga, que inclui o Maranhão, Mato<br />

Grosso do Sul, Goiás e Distrito Federal.<br />

162


Considerações econômicas<br />

De acordo com o quadro 1, na fronteira recente<br />

haveria 313 a 393 milhões de hectares de<br />

terras disponíveis, e na fronteira antiga 37 a 47<br />

milhões. Portanto, na fronteira agrícola total haveria<br />

um mínimo de 350 milhões e um máximo<br />

de 440 milhões de hectares disponíveis.<br />

Dada a precariedade das informações e a<br />

grande diferença entre os valores mínimos e máximos,<br />

poder-se-ia com segurança dizer que há<br />

no mínimo 350 milhões de hectares legalmente<br />

disponíveis na região da fronteira agrícola.<br />

2. Aptidão agrícola<br />

das terras da Amazônia<br />

(fronteira recente)<br />

A análise da aptidão do solo não abrange<br />

toda a área considerada acima como disponível.<br />

Segundo a autora, isto se deve a certas li-<br />

Anexos<br />

mitações metodológicas do projeto Radam Brasil.<br />

As informações respectivas aparecem identificadas<br />

como Amazônia na primeira coluna<br />

do quadro 2. Na segunda coluna aparecem os<br />

resultados de uma análise similar feita nas terras<br />

da Amazônia sob jurisdição do INCRA, disponíveis<br />

para ocupação. Desta forma, pode-se<br />

ter uma idéia das características do solo da<br />

Amazônia em geral, e das terras disponíveis em<br />

particular.<br />

Os solos foram catalogados em quatro categorias,<br />

cujas definições são as seguintes:<br />

"a) O grupo I congrega as terras. 'boas; isto<br />

é, as classificadas pelas fontes como sendo<br />

boas e regulares para as culturas anuais e perenes<br />

nos níveis de manejo primitivo e semidesenvolvido.<br />

Este tipo de terra permite que o produtor<br />

inicie com culturas anuais e técnicas rudimentares<br />

e passe, com o tempo, para culturas<br />

perenes e técnicas melhoradas sobre a mesma<br />

área de solo.<br />

Quadro 1.<br />

Disponibilidade de terras de fronteira de acordo com diversas fontes<br />

(em 1.000 ha.) ·<br />

Área total FIBGE - 1980 INCRA - 1978 INCRA- 1982<br />

geográfica Ocupada Disponível Ocupada Disponível Apropriada Não apropriada<br />

Fronteira recente 443.232,3 78.229,9 365.002,4 130.382,2 312.850,1 50.102,1 393.130,2<br />

Fronteira antiga 132.302,7 94.821,9 37.480,8 85.645,3 46.657,4<br />

TOTAL 575.535,0 173.051,8 402.483,2 216.027,4 359.507,5 - -<br />

Fonte: Anna Luiza Ozório de Almeida, op. cit, p. 366.<br />

Quadro 2. -<br />

Aptidão dos solos na Amazônia<br />

Grupos Amazônia Amazônia<br />

de Área sob jurisdição do INCRA<br />

solo (em 1.000 ha.) OJo Área (em 1.000 ha.) OJo<br />

I 11.982,00 3,3 838,06 0,5<br />

II 54.679,00 14,6 27.186,48 16,2<br />

III 88.908,70 23,8 31.652,43 18,9<br />

IV 217 .899,30 58,3 108.187,08 64,4<br />

TOTAL 373.469,00 100,0 167.864,06 100,0<br />

Fonte: op. cit., Tabelas 4 e 6, pp. 378 e 384.<br />

163


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

Titulo li<br />

b) O grupo II corresponde a terras 'boas para<br />

primitivos; isto é, as classificadas pelas fontes<br />

como sendo boas e regulares para culturas<br />

anuais ou perenes (ou ambas) no nível de ma­<br />

.nejo primitivo, mas não necessariamente no nível<br />

semidesenvolvido. Este tipo de terra permite<br />

a implantação do produtor com técnicas rudimentares,<br />

mas não comporta uma melhoria<br />

do seu nível de manejo, impedindo uma efetiva<br />

acumulação de capital sobre a mesma área<br />

ocupada.<br />

c) No grupo III estão reunidas as terras<br />

'boas para semidesenvolvidos; isto é, as classificadas<br />

pelas fontes como sendo inaptas para<br />

culturas anuais e perenes no nível de manejo<br />

primitivo e as boas e regulares no nível de manejo<br />

semidesenvolvido. Esse tipo de terra admite<br />

acumulação apenas a partir de um nível<br />

técnico inicial já semidesenvolvido. Esse é o caso<br />

de muitos dos sulistas que têm chegado na Amazônia<br />

nos últimos anos, mas não da maioria dos<br />

outros migrantes que demandam as terras da<br />

região.<br />

d) As terras do grupo IV são aquelas que<br />

este trabalho considera 'deficientes; isto é, as<br />

classificadas pelas fontes como sendo inaptas<br />

para o nível de manejo primitivo e inaptas, ou<br />

cuja aptidão é desconhecida, para o nível<br />

semidesenvolvido. Não oferecem perspectivas de<br />

fixação ou acumulação, a não ser para aquela<br />

pequena minoria de produtores que já chegam<br />

com nível de manejo desenvolvido" (pp.<br />

374-376).<br />

De acordo com os critérios empregados, a<br />

autora considera o solo classificado nas categorias<br />

1, II e III como adequado para o pequeno<br />

produtor agrícola. Uma parte para migrantes<br />

de baixíssimo nível técnico (1 e parte do II),<br />

e outra parte para os de nível intermediário (III<br />

e parte do II). Estas três categorias representam<br />

cerca de 35 a 400/o da área total.<br />

Projetando estes dados para toda a área disponível,<br />

pode-se estimar que 120 a 140 milhões<br />

de hectares das terras disponíveis na Amazônia<br />

seriam aptos para a pequena agricultura. A autora<br />

observa ser provável que esta área seja bem<br />

maior, pois grande parte dos solos classificados<br />

na categoria IV são de aptidão desconhecida.<br />

3. Uma observação final<br />

A autora conclui que essa extensa área amazônica<br />

disponível para o pequeno produtor rural<br />

exige, para sua efetiva utilização econômica,<br />

vultosos investimentos em infra-estrutura,<br />

extensão rural e assistência técnica. O que faz<br />

com que seja uma opção dispendiosa em relação<br />

às estimativas para a redistribuição (leiase<br />

"<strong>Reforma</strong> Agrária") das terra já apropriadas.<br />

A autora não apresenta nenhuma cifra ou<br />

análise que fundamente sua afirmação. Em todo<br />

caso, e sem levar em conta os aspectos morais<br />

da questão, não parece razoável considerar<br />

os investimentos em infra-estrutura como custos<br />

exclusivamente atribuíveis à colonização<br />

agrícola, por serem eles necessários para o normal<br />

aproveitamento de recursos minerais e outros,<br />

das extensas áreas desocupadas que o Brasil<br />

possui. Em outros termos, os benefícios que<br />

o País aufere das obras de infra-estrutura são<br />

muito maiores do que a mera renda obtida pelos<br />

produtores que colonizam as novas áreas.<br />

Por outro lado, deve-se considerar que o dispêndio<br />

com assistência técnica e extensão rural<br />

não representa um custo adicional para a colonização,<br />

na opção <strong>Reforma</strong> Agrária X colonização<br />

das terras devolutas; pela simples razão<br />

de que essas medidas de apoio se referem ao<br />

agricultor, e não à localização das terras. O custo<br />

delas não pode, portanto, entrar em cogitação<br />

para o efeito de decidir qual das duas opções<br />

é a menos dispendiosa.<br />

Como vimos ao longo deste trabalho, a <strong>Reforma</strong><br />

Agrária proposta não tem justificação<br />

econômica e não representa uma verdadeira e<br />

legítima opção para a formação de novos produtores.<br />

A partir desta perspectiva, o aproveitamento<br />

das extensas áreas disponíveis na Amazônia<br />

representa um verdadeiro caminho que o<br />

Brasil deve trilhar.<br />

164


Notas<br />

Capítulo I<br />

TÍTULO I, PARTE I<br />

(1) <strong>Reforma</strong> Agrária ... O tema andou mais ou menos<br />

esquecido nestes últimos anos, talvez em conseqüência<br />

dos acontecimentos nacionais e internacionais<br />

que se têm desenrolado, tão absorventes para o grande<br />

público. O debate nacional aberto ex abrupto, de<br />

norte a sul do País, pela publicação do PNRA faz reviver<br />

o tema - de maneira tensiva, e até com algo de<br />

dramático - na atenção de todos. E, revivendo, tomou<br />

ele significado idêntico ao que já lhe era atribuído<br />

anteriormente.<br />

A expressão <strong>Reforma</strong> Agrária tinha, desde há muito,<br />

na linguagem quotidiana, um conteúdo de contornos<br />

não inteiramente definidos, porém denso de significação.<br />

Se bem que esta não esteja expressamente<br />

incluída nem em reforma nem em agrária, o brasileiro<br />

médio entende por <strong>Reforma</strong> Agrária uma remodelação<br />

compulsória de nossa estrutura fundiária, mediante<br />

a desapropriação de terras com indenização sensivelmente<br />

inferior ao preço do mercado. Um confisco<br />

drástico e mal velado, um atentado contra o direito de<br />

propriedade, portanto.<br />

Sem dúvida, poder-se-ia falar de uma reforma<br />

agrária sadia, que constituísse autêntico progresso, em<br />

harmonia com nossa tradição cristã. Mas não é este<br />

o significado corrente de <strong>Reforma</strong> Agrária.<br />

De qualquer forma, para evitar possíveis confusões,<br />

fica declarado que, neste estudo, a reforma agrária<br />

igualitária, esquerdista e malsã, é sempre mencionada<br />

com iniciais maiúsculas: <strong>Reforma</strong> Agrária.<br />

(2) Desejosa de conhecer toda a legislação agrária<br />

vigente, para poder opinar sobre o PNRA nos termos<br />

da convocação feita ao País, a TFP se dirigiu para tal<br />

ao Serviço de Controle e Informações do Senado Federal.<br />

Atendida com cordialidade e presteza, ela obteve,<br />

aliás gratuitamente, nada menos de 1.757 folhas de<br />

computador contendo o ementário dessa legislação.<br />

Por outro lado, a TFP compulsou também várias compilações<br />

da legislação agrária à venda nas livrarias especializadas.<br />

O que - bem pode avaliar o leitor - não<br />

seria absorvível por ninguém no curto espaço de 30<br />

dias.<br />

(3) Muito boas coletâneas e sínteses desse material<br />

têm sido editadas. Destacam-se, por exemplo:<br />

- ADRIANO C:AMPANHOLE, Legislação<br />

Agrária, Atlas, São Paulo, 1985, 13~ ed., 592 pp.<br />

- INCRA, Vade-mécum agrário, Centro Gráfico<br />

do Senado Federal, 1978, 7 vol., 3.393 pp.<br />

- JUAREZ DE OLIVEIRA, Estatuto da Terra,<br />

Saraiva, São Paulo, 1985, 2~ ed., 334 pp.<br />

- MINISTÉRIO EXTRAORDINÁRIO PARA<br />

ASSUN10S FUNDIÁRIOS, Coletânea, Brasília, 1983,<br />

784 pp.<br />

- MINISTÉRIO DA JUSTIÇA, Legislação Agrária,<br />

Coleção Textos Legais, Brasília, 1984, 18~ ed., 2<br />

vol., 1.161 pp.<br />

- PAUl.O TORMINN BORGES, Estatuto da Ter-<br />

165


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

ra - com a legislação pertinente ementada, Pró-Livro,<br />

São Paulo, 1979, 275 pp.<br />

Porém, por melhores que sejam, essas coletâneas<br />

não apresentam ao estudioso a possibilidade de abarcá­<br />

Ias todas.<br />

Assim, não é impossível que algum erudito, muito<br />

especializado em transitar nessa jungle, encontre<br />

inesperadamente dentro dela algum dispositivo legal<br />

que devesse ter sido tomado em linha de conta nesta<br />

ou naquela parte do presente trabalho.<br />

Se isso se der, o autor ficaria grato que lhe fosse<br />

comunicado tal achado. Porém, não o acolheria sem<br />

reservas. Pois dificilmente o próprio erudito pode estar<br />

seguro de que não encontrará, mais cedo ou mais<br />

tarde, outro dispositivo legal que invalide seu achado ...<br />

(4) Um primeiro passo para essa codificação foi<br />

dado pouco antes de encerrar-se o período presidencial<br />

anterior, com a publicação no "Diário Oficial" da<br />

União, em 13 de março de 1985, do Esboço parcial de<br />

anteprojeto de consolidação de diplomas agrários, elaborado<br />

pelo Ministério para Assuntos Fundiários. O<br />

texto deveria ser "enviado aos Líderes dos diversos Partidos<br />

Políticos, aos Governos estaduais, à Ordem dos<br />

Advogados do Brasil, ao Instituto dos Advogados Brasileiros,<br />

a entidades de classe preocupadas com a matéria<br />

agrária, ademais de a entidades outras e pessoas<br />

também interessadas nela" ("Diário Oficial", Brasília,<br />

13-3-85, p. 4344). Incorporadas as sugestões recebidas<br />

de todas essas pessoas e entidades, o texto serviria de<br />

base a um ''eventual projeto-de-lei a ser submetido ao<br />

Congresso Nacional" (id., ib.).<br />

O PNRA parece ter ignorado completamente esse<br />

trabalho, que, por outro lado, era apenas parcial, como<br />

indica o próprio título, abrangendo tão-só os livros<br />

V e VI da futura consolidação legislativa agrária,<br />

projetada pelo Governo anterior.<br />

O caráter infenso à propriedade privada é aliás manifesto<br />

nesse Esboço parcial.<br />

(5) Em outubro de 1976, a Teologia da Libertação<br />

(TL) foi objeto de estudos por parte da Comissão Teológica<br />

Internacional - cuja função é assessorar a Sagrada<br />

Congregação para a Doutrina da Fé. Tais estudos<br />

foram concluídos e resumidos numa Declaração<br />

datada de 30-6-77 (cfr. COMISIÓN TEOLÓGICA IN­<br />

TERNACIONAL, Teo/ogía de la Liberación, BAC,<br />

Madrid, 1978, pp. 183 a 210). Aí são apontadas concepções<br />

errôneas da TL, como, por exemplo, "uma parte<br />

importante das análises inspiradas no marxismo e<br />

no leninismo" (p. 190).<br />

No discurso inaugural da III Conferência do Episcopado<br />

Latino-americano em Puebla, a 28 de janeiro<br />

de 1979, João Paulo II apontou erros da TL, particularmente<br />

quanto à cristologia e eclesiologia (cfr.<br />

"La Civiltà Cattolica", n? 3230, 16-1-85, pp. 120-121).<br />

Em setembro de 1983 a Santa Sé voltou a se ocupar<br />

da TL, em reunião que contou com a presença de<br />

S.S. João Paulo II. Na ocasião, o Cardeal Joseph Ratzinger,<br />

Prefeito da Congregação para a Doutrina da<br />

Fé, apresentou trabalho de sua autoria, mais tarde reproduzido<br />

por diversas revistas (p. ex. "La Documentation<br />

Catholique", de 7-10-84, pp. 902 ss. e "SEDOC"<br />

de maio de 1984) e mais recentemente em seu livroentrevista<br />

Rapporto sul/a Fede (Ed. Paoline, Milano,<br />

1985, pp. 184 ss.). Muitas idéias desse trabalho, que critica<br />

particularmente a opção marxista da TL, foram<br />

acolhidas na Instrução sobre alguns aspectos da "Teologia<br />

da Libertação", divulgada pela mesma Congregação<br />

com data de 6 de agosto de 1984, e aprovação<br />

explícita de João Paulo II.<br />

Anteriormente, a Congregação para a Doutrina da<br />

Fé já se havia pronunciado contra o emprego da análise<br />

marxista pela TL, em conferência de imprensa presidida<br />

pelo próprio Cardeal Ratzinger, assessorado pelo<br />

Arcebispo Jérome Hammer, hoje Cardeal, secretário<br />

da mesma Congregação (cfr. "l.!Osservatore Romano",<br />

14-4-84, p. 5).<br />

Em maio do mesmo ano o Dicastério convidara<br />

um dos expoentes da TL, Frei Leonardo Boff OFM,<br />

a explicar-se a respeito de seu livro Igreja, Carisma e<br />

Poder. Após colóquio do Cardeal Prefeito com o frade<br />

franciscano, ocorrido em setembro de 1984, aquela<br />

Congregação voltou a tomar nova medida contra o teólogo<br />

de Petrópolis, enviando-lhe, em março de 1985,<br />

notificação a propósito de certas opções "insustentáveis"<br />

do seu mencionado livro (cfr. "La Documentation<br />

Catholique'', 5-5-85, pp. 484 ss.). Pouco tempo depois,<br />

a Santa Sé impôs ao frade brasileiro um ''período<br />

de obsequioso silêncio" ("Jornal do Brasil",<br />

10-5-85).<br />

Na visita ad limina dos Bispos do Peru (pátria do<br />

Pe. Gustavo Gutiérrez, chamado "o pai da TI.!' e também<br />

objeto de preocupações por parte da Santa Sé),<br />

João Paulo II confirmou sem equívocos as advertências<br />

da Instrução da Congregação para a Doutrina da<br />

Fé (cfr. "l.!Osservatore Romano", 5-10-84, p. 1).<br />

João Paulo II voltou a recomendar a mesma Instrução<br />

em vários outros pronunciamentos, entre os<br />

quais: homilia durante a Missa pela Evangelização dos<br />

Povos, em São Domingos, República Dominicana (cfr.<br />

"l.!Osservatore Romano", 13-10-84, p. 4); aos Bispos<br />

do Equador em visita ad /imina (cfr. "l.!Osservatore<br />

Romano", 24-10-84, p. 4); ~os Bispos da Bolívia em visita<br />

ad limina (cfr. "l.!Osservatore Romano", 8-12-84,<br />

p. 5); discurso aos Cardeais e Prelados da Cúria Romana<br />

(cfr. "l.!Osservatore Romano", 22-12-84, pp. 1,<br />

4 e 5); aos Bispos, Sacerdotes, Religiosos, Religiosas<br />

166


Noras<br />

e seminaristas, na catedral de Quito (cfr. "l.!Osservatore<br />

Romano", 28/29-1-85, Suplemento, p. XVI); ao<br />

Clero, Religiosos, Religiosas, seminaristas e leigos, em<br />

Lima (cfr. idem, p. XXXII); aos fiéis, em Ayacucho,<br />

Peru (cfr. idem, p. XXXIX); aos trabalhadores, em Trujillo,<br />

Peru (cfr. idem, p. XLIV); aos nativos, em Iquitos,<br />

Peru (cfr. idem, p. XLVII).<br />

No momento em que este livro está sendo concluído,<br />

circula pela imprensa, com visos de autorizada, a<br />

notícia de que a Santa Sé, impressionada com o apelo<br />

dos Srs. Bispos inconformes, suspenderá ou atenuará<br />

sensivelmente a medida disciplinar tomada em relação<br />

a Frei Leonardo Boff. O que presumivelmente acarretaria<br />

análoga atitude do Sr. Cardeal D. Eugênio Sales,<br />

Arcebispo do Rio de Janeiro, em relação a Frei Clodovis<br />

Boff.<br />

A TFP não está habilitada a confirmar nem a contestar<br />

essa notícia. E menos ainda lhe é dado prognosticar<br />

em que termos precisos ocorreria o eventual cancelamento<br />

ou atenuação da medida disciplinar.<br />

Contudo parece certo que o noticiado ato da Santa<br />

Sé não importará num desautoramento das censuras<br />

por ela mesma feitas a certos erros em curso nos ambientes<br />

influenciados por essa teologia: erros esses<br />

enunciados nos documentos acima citados. De sorte<br />

que a causa das querelas entre católicos não será removida<br />

.com isso.<br />

(6) Já em 1970, havia detectado esse fato a revista<br />

•~érica Latina'' (editada em russo), do Instituto para<br />

a América Latina da Academia de Ciências da Rússia<br />

soviética:<br />

"O processo revolucionário de libertação nacional<br />

na América Latina nos últimos anos confirma que<br />

a solução de muitos problemas sociais, econômicos e<br />

políticos no continente está ligada de modo indissociável<br />

aos problemas agrários. .. ..<br />

A grande força política nas regiões rurais é atualmente<br />

a Igreja Católica. Modernizando os métodos de<br />

trabalho, ela visa ampliar sua irifluência junto aos trabalhadores.<br />

Nos últimos tempos, sobretudo os representantes<br />

da ala esquerda da Igreja Católica têm desempenhado<br />

grande atividade, a qual utiliza, na luta<br />

pelos camponeses, todos os meios possíveis, tais como<br />

a criação de sindicatos, cooperativas rurais (o que<br />

é sobretudo característico para o Chile), ligas de camponeses,<br />

sindicatos de trabalhadores, organização de<br />

comícios e marchas na cidade (como, por exemplo, no<br />

Brasil, no começo dos anos 60)" (A. D. GALKINA,<br />

Organizações contemporâneas de camponeses da América<br />

Latina, in ''América Latina", Moscou, n? 1,<br />

janeiro-fevereiro de 1970, pp. 47-48).<br />

Isto, que era lamentavelmente verdadeiro para os<br />

anos 60, se veio tornando cada vez mais tal, ao longo<br />

das duas últimas décadas.<br />

(7) Disto é exemplo o seguinte despacho da agência<br />

TASS, publicado em primeira página pelo jornal<br />

"Pravda", de Moscou:<br />

"Rio de Janeiro - Acaba de realizar-se nesta cidade,<br />

uma reunião dos quadros diretivos do PCB. Em<br />

mais de 60 anÕs de existência, apenas por um perlodo<br />

insignificante esse Partido permaneceu na legalidade.<br />

Após a revolução de 1964, foi ele obrigado a atuar clandestinamente,<br />

e a primeira reunião legal de sua direção<br />

é tomada no país como um marco notável na vida<br />

dos comunistas brasileiros.<br />

No documento resultante da reunião destaca-se<br />

que os comunistas consideram tarefa fundamental garantir<br />

a unidade de todas as forças progressistas do<br />

país.<br />

Atualmente - diz o documento - o PC preconiza<br />

o fortalecimento da luta contra a iriflação, a realização<br />

da reforma agrária, a estabilização dos níveis salariais,<br />

o direito à greve, a maior aplicação de capitais<br />

nas empresas estatizadas, a revisão do sistema de impostos<br />

e outras medidas econômico-sociais correspondentes<br />

aos interesses das massas trabalhadoras" ("Pravda",<br />

5-6-85).<br />

(8) O jornal comunista "Voz da Unidade'', órgão<br />

oficial do PCB, em seu n? 1, de 30 de março a 5 de<br />

abril de 1980, faz os mais francos elogios ao documento<br />

então divulgado pela CNBB:<br />

"O documento 'Igreja e problemas da terra' .... pode<br />

ser considerado como um marco de relevância no<br />

trabalho que há cerca de 28 anos a CNBB vem dedicando<br />

ao problema da terra, tanto a nível de estudos<br />

teóricos como através de atuação prática, com a Pastoral<br />

da Terra. A importância do documento se deve,<br />

antes de tudo, ao inequívoco posicionamento crítico<br />

em relação ao regime capitalista e em relação ao modelo<br />

de desenvolvimento econômico que vem sendo imposto<br />

ao país pelos vários governos militares. Neste sentido,<br />

a votação com a qual o documento foi aprovado<br />

- 172 votos a favor, 4 contra e 4 abstenções - assume<br />

um significado especial, já que nunca se havia conseguido<br />

reunir tantos votos em torno às posições progressistas<br />

no seio da CNBB".<br />

E conclui: "Ao condenar claramente o capitalismo,<br />

o modelo econômico vigente e ao declarar-se favorável<br />

a uma autêntica <strong>Reforma</strong> Agrária, a 18~ Assembléia<br />

Geral da CNBB deu uma valiosa contribuição<br />

para, como diz o próprio documento de Itaici, 'a<br />

construção do Homem novo, base de uma nova<br />

sociedade"'.<br />

O documento da CNBB é analisado pormenori-<br />

167


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

zadamente no livro de PLINIO CORRÊA DE OLI­<br />

VEIRA / CARLOS PATRICIO DEL CAMPO, Sou<br />

católico: posso ser contra a <strong>Reforma</strong> Agrária?, Editora<br />

Vera Cruz, São Paulo, 1981, 360 pp.<br />

(9) Cfr. Sou católico ... , p. 189.<br />

A CNBB consagrou à <strong>Reforma</strong> Urbana o documento<br />

Solo urbano e ação pastoral, emanado de sua<br />

Assembléia Geral de 1982. Uma breve análise crítica<br />

desse documento pode ser encontrada no livro de PLI­<br />

NIO CORRÊA DE OLIVEIRA/ GUSTAVO ANTO­<br />

NIO SOLIMEO - LUIZ SÉRGIO SOLIMEO, As<br />

CEBs ... das quais muito se fala, pouco se conhece -<br />

a TFP as descreve como são, Editora Vera Cruz, São<br />

Paulo, 1982, pp. 48 a 50.<br />

(10) PLINIO CORRÊA DE OLIVEIRA em colaboração<br />

com D. GERALDO DE PROENÇA SI­<br />

GAUD, D. ANTONIO DE CASTRO MAYER e Economista<br />

WIZ MENDONÇA DE FREITAS (Editora<br />

Vera Cruz, São Paulo, 1962, 4~ ed., XX-498 pp.).<br />

Cabe registrar aqui que o Sr. D. Geraldo de Proença<br />

Sigaud, Arcebispo Emérito de Diamantina, desde<br />

1969 assumiu posição que contrastava com a linha de<br />

pensamento de RA-QC, distanciando-se na matéria dos<br />

demais autores do livro.<br />

Do Sr. D. Antonio de Castro Mayer, Bispo Emérito<br />

de Campos, não conhece esta entidade nenhum pronunciamento<br />

que indique modificação no modo de<br />

pensar sobre a questão agro-reformista. Mas, distanciado<br />

presentemente da TFP, e além disto inteiramente<br />

absorvido por outras atividades, S. Exa. não tem participação<br />

na presente obra. ·<br />

Quanto ao economista Luiz Mendonça de Freitas,<br />

apesar de não ser mais sócio da TFP, em recente comunicação<br />

ao autor informou que continua inteiramente<br />

solidário com as teses do livro.<br />

(11) O documento foi publicado na íntegra em "Catolicismo",<br />

n? 168, dezembro de 1964. Resumos foram<br />

publicados no "Diário de Notícias", Rio de Janeiro,<br />

15-11-64; "Diário de S. Paulo", 15 e 19-11-64; "Diário<br />

Popular", São Paulo, 16-11-64; "O Globo", Rio de Janeiro,<br />

17-11-64; "Folha de S. Paulo", 17-11-64; "Estado<br />

de Minas", Belo Horizonte, 17-11-64; ''A Gazeta",<br />

Florianópolis, 18-11-64; "Diário do Paraná", Curitiba,<br />

19-11-64; "O Estado do Paraná", Curitiba, 22-11-64;<br />

"Diário Popular", Curitiba, 24, 28 e 30-11-64; "Liberal",<br />

Santa Vitória do Palmar (RS), 28-11-64; "Unitário",<br />

Fortaleza, 29-11-64 (cfr. Meio Século de Epopéia<br />

Anticomunista, Editora Vera Cruz, São Paulo, 1981,<br />

4~ ed., p. 131). O texto integral do documento pode<br />

ser encontrado em PLINIO CORRÊA DE OLIVEI­<br />

RA - CARLOS PATRICIO DEL CAMPO, Sou católico:<br />

posso ser contra a <strong>Reforma</strong> Agrária?, Editora Vera<br />

Cruz, São Paulo, 1982, 4~ ed., pp. 211 a 237.<br />

(12) O documento foi publicado na íntegra em<br />

"Catolicismo", n? 169, janeiro de 1965; "Diário de Notícias",<br />

Rio de Janeiro, 25-12-64; "Diário de S. Paulo",<br />

27-12-64; "O Estado de S. Paulo", 30-12-64; "Diário<br />

do Rio Doce", Governador Valadares (MG), 30-12-64;<br />

"O Globo", Rio de Janeiro, 5-1-65; "Diário de Notícias",<br />

Porto Alegre, 8, 9 e 10-1-65; "Estado de Minas",<br />

Belo Horizonte, 10 e 12-1-65; "O Diário", Ribeirão Preto,<br />

10-1-65; ''A Nação", Blumenau (SC), 14, 15, 16 e<br />

17-1-65; "Jornal da Manhã", Ponta Grossa (PR), 16,<br />

20, 21, 22, 23, 24 e 26-1-65; "Diário da Região", São<br />

José do Rio Preto (SP), 17-1-65; "A Notícia", São José<br />

do Rio Preto (SP), 17-1-65; "O Comércio", Amparo<br />

(SP), 17-1-65; "Correio do Ceará", Fortaleza, 18-1-65;<br />

''A Notícia", Campos (RJ), 20-1-65; "Voz do Povo",<br />

Olímpia (SP), 23-1-65; "Gazeta de Notícias", Fortaleza,<br />

24-1-65; ''A Tribuna", Blumenau (SC), 25-1, 1 ?, 8,<br />

15 e 22-2-65, 1? e 8-3-65; "O Estado do Paraná", Curitiba,<br />

31-1-65; "Folha do Comércio", Campos (RJ),<br />

20-2-65; "O Pão de Santo Antonio", Curvelo (MG),<br />

21-2-65 e 7-3-65. Resumos foram publicados em ''A Gazeta<br />

Esportiva", São Paulo, 27-12-64; "Diário Popular",<br />

São Paulo, 28-12-64; "Estado de Minas", Belo Horizonte,<br />

31-12-64; "O Dia", São Paulo, 31-12-64; "Unitário",<br />

Fortaleza, 10-1-65; ''A Gazeta", Florianópolis,<br />

11-1-65; "Diário de Notícias", Salvador, 17-1-65; "Tribuna<br />

do Ceará", Fortaleza, 19-1-65; "Gazeta Comercial",<br />

Juiz de Fora (MG), 9-2-65; "Diário Mercantil",<br />

Juiz de Fora (MG), 10-2-65; "Cidade de Barretos", Barretos<br />

(SP), 18-3-65 (cfr. Meio Século de Epopéia Anticomunista,<br />

Editora Vera Cruz, São Paulo, 1981, 4~ ed.,<br />

pp. 131-132). O texto integral do documento pode ser<br />

encontrado em PLINIO CORRÊA DE OLIVEIRA -<br />

CARLOS PATRICIO DEL CAMPO, Sou católico:<br />

posso ser contra a <strong>Reforma</strong> Agrária?, Editora Vera<br />

Cruz, São Paulo, 1982, 4~ ed., pp. 239 a 244.<br />

Capítulo II<br />

(1) São as seguintes as publicações da TFP que versam<br />

mais amplamente sobre essa temática:<br />

1. <strong>Reforma</strong> Agrária - Questão de Consciência (ver •<br />

Cap. 1, nota 9).<br />

2. Declaração do Morro Alto, dos mesmos autores<br />

de <strong>Reforma</strong> Agrária-Questão de Consciência, Editora<br />

Vera Cruz, São Paulo, 1962, 2a. ed., 32 pp.<br />

3. PLINIO CORRÊA DE OLIVEIRA - CARLOS<br />

PATRICIO DEL CAMPO, Sou católico: posso ser contra<br />

a <strong>Reforma</strong> Agrária?, Editora Vera Cruz, São Paulo,<br />

1982, 4~ ed., 360 pp.<br />

4. Coleção "Diálogos Sociais": I - A propriedade<br />

privada é um roubo?; II - Devemos trabalhar só para<br />

168


Notas<br />

o Estado?; III - É anti-social economizar para os filhos?,<br />

Editora Vera Cruz, São Paulo, 5~ ed., 1973.<br />

Nessas obras, a TFP apresenta uma visão de conjunto<br />

das questões referentes à propriedade privada,<br />

à livre iniciativa e ao agro-reformismo. Enquanto no<br />

presente estudo cinge-se ela tão-só ao necessário para<br />

apreciar o ET e o PNRA.<br />

Para o leitor desejoso de aprofundar o estudo da<br />

posição global da TFP nessas matérias, são aqui mencionados<br />

com freqüência tópicos dos trabalhos anteriores,<br />

de maneira a lhes facilitar a consulta.<br />

(Essas obras, bem como os manifestos, comunicados<br />

e outras publicações da TFP, podem ser encontradas<br />

na Editora Vera Cruz, Rua Dr. Martinico Prado<br />

246, CEP 01224, São Paulo, telefone 221-8755).<br />

(2) Ver também PLINIO CORRÊA DE OLIVEI­<br />

RA, O socialismo autogestionário: em vista do comunismo,<br />

barreira ou cabeça-de-ponte?, Mensagem das<br />

Sociedades de Defesa da Tradição, Família e Propriedade<br />

de 13 países, "Catolicismo", n? 373-374, janeirofevereiro<br />

de 1982.<br />

(3) O prazo de trinta dias estabelecido inicialmente<br />

não tardou em parecer insuficiente para crescente<br />

número de brasileiros.<br />

Assim, as manifestações em favor de uma ampliação<br />

de prazo começaram a afluir ao Palácio do<br />

Planalto.<br />

Desde logo a TFP se pronunciou no mesmo sentido,<br />

mediante duas cartas do autor deste livro ao sr.<br />

Presidente da República, respectivamente datadas de<br />

28 de maio e 12 de junho p.p. Aqui deixa ela consignado<br />

seu aplauso por haver sido atendida aquela aspiração<br />

que, aliás, acabou se tornando geral no Brasil.<br />

Entretanto, a simpática dilatação do prazo até o<br />

dia 20 de agosto p.f. deixa ainda de pé o que acima<br />

foi dito quanto à insuficiência de tempo para que o<br />

público acabe de estudar e debater o amplo e palpitante<br />

tema.<br />

(4) Não existe um levantamento atualizado do<br />

montante das terras devolutas no Brasil. Assim, não<br />

resta outra solução senão fazer uma estimativa com<br />

os dados disponíveis.<br />

De acordo com o Censo Agropecuário de 1980,<br />

a área ocupada com estabelecimentos dedicados à exploração<br />

agrícola ou pecuária era, naquele ano, de<br />

3.695.870 quilômetros quadrados, correspondentes a<br />

estabelecimentos individuais, de cooperativas, de entidades<br />

públicas, de entidades religiosas e outras.<br />

Admitindo que a área urbana de todos os Municípios<br />

brasileiros seja de 200 mil quilômetros quadrados<br />

(dois mil metros quadrados por habitante das cidades!),<br />

a área ocupada total no Brasil - rural e ur-<br />

bana - seria de cerca de 3,9 milhões de quilômetros<br />

quadrados.<br />

Sendo a área total do território brasileiro de 8,5<br />

milhões de quilômetros quadrados, restariam aproximadamente<br />

4,6 milhões de quilômetros quadrados (ou<br />

seja, cerca de 54% do território) para as terras<br />

devolutas.<br />

(5) Cfr. PLINIO CORRÊA DE OLIVEIRA, O socialismo<br />

autogestionário: em vista do comunismo, barreira<br />

ou cabeça-de-ponte?, Mensagem das Sociedades<br />

de Defesa da Tradição, Família e Propriedade de 13 países,<br />

"Catolicismo", n? 373-374, janeiro-fevereiro de<br />

1982, p. 30.<br />

(6) No documento Instrução sobre alguns aspectos<br />

da "Teologia da Libertação" de 6 de agosto de 1984,<br />

afirma o Cardeal Ratzinger, Prefeito da Sagrada Congregação<br />

para a Doutrina da Fé: "Um fato marcante<br />

de nossa época deve ocupar a reflexão de todos aqueles<br />

que desejam sinceramente a verdadeira libertação<br />

dos seus irmãos. Milhões de nossos contemporâneos<br />

aspiram legitimamente a reencontrar as liberdades f undamentais<br />

de que estão privados por regimes totalitários<br />

e ateus, que tomaram o poder por caminhos revolucionários<br />

e violentos, exatamente em nome da libertação<br />

do povo. Não se pode desconhecer esta vergonha<br />

de nosso tempo: pretendendo proporcionar-lhes liberdade,<br />

mantêm-se nações inteiras em condições de escravidão<br />

indignas do homem. Aqueles que, talvez por inconsciência,<br />

se tornam cúmplices de semelhantes escravidões,<br />

traem os pobres que eles quereriam servir" (Documentos<br />

Pontifícios, n? 203, Vozes, Petrópolis, 1984, p. 39).<br />

Capítulo III<br />

(1) Estrondos publicitários análogos, procedentes<br />

de outros setores da esquerda, têm tentado - quão inutilmente!<br />

- atirar por terra a TFP. E normalmente será<br />

mais outro estrondo publicitário que se seguirá à presente<br />

publicação. Bem exatamente como o furibundo<br />

estrondo publicitário na Venezuela, que tentou, em 1984,<br />

extinguir a Associação Civil Resistência, coirmã das<br />

TFPs naquele país. Ainda desta vez inutilmente, pois,<br />

diga-se de passagem, os autores desses estrondos sempre<br />

acabam por tropeçar nas próprias pernas.<br />

A perseguição conseqüente ao manifesto da Associação<br />

Civil Resistência (em fins do mês de junho)<br />

contra a lei de custos, preços e salários, promulgada<br />

pelo governo pró-<strong>socialista</strong> de Caracas, teve como revide<br />

a campanha difamatória de violência sem precedentes<br />

destinada a arrasar a associação e dispersar os<br />

seus componentes. Foi tão longe a campanha, cujas<br />

primeiras manifestações já se fizeram notar no início<br />

do mês de agosto, que estes se viram obrigados pelas<br />

169


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

circunstâncias a deixar o país. Fora dele, em lugar de<br />

se dispersarem, passaram a prestar serviços dedicados<br />

a outras TFPs. E assim, sempre fiéis ao mesmo ideal,<br />

aguardam confiantes o dia em que Nossa Senhora de<br />

Coromoto, patrona da Venezuela, lhes abra novamente<br />

as portas da Pátria.<br />

(2) Por exemplo, ao longo das lutas ideológicas,<br />

políticas e militares dramáticas e violentas entre a França<br />

revolucionária e a Europa monarquista (1789-1815), é<br />

fato notório que houve permeações ideológicas de parte<br />

a parte. De tal sorte que, depois do Terror, a França<br />

foi evoluindo gradualmente para a República do Diretório,<br />

o Consulado, a ditadura coroada de Napoleão<br />

e, por fim, o regime monárquico não ditatorial dos Bourbons;<br />

e, paralelamente, as nações monárquicas foram<br />

inalando influências republicanas, as quais determinaram<br />

a evolução em todo o Continente das monarquias absolutas<br />

para monarquias constitucionais, e destas para<br />

repúblicas democráticas.<br />

Essas transformações de um lado e de outro teriam<br />

sido impossíveis sem as permeações culturais que<br />

freqüentes vezes se operaram na mente de republicanos<br />

e de monarquistas dos mais fogosos. E sem que,<br />

nem uns nem outros, advertissem que estavam caminhando<br />

rumo ao mal cujo avanço queriam tolher.<br />

Capítulo IV<br />

(1) Adotando o critério seguido por ADRIANO<br />

CAMPANHOLE (Legislação Agrária, Editora Atlas,<br />

São Paulo, 1985, 13~ ed.), em todas as citações do ET<br />

aqui feitas se substituiu IBRA por INCRA. Com efeito,<br />

o Decreto n? 1.110, de 9 de julho de 1970, extinguiu<br />

o IBRA e o INDA e criou, em seu lugar, o INCRA.<br />

TÍTULO I, PARTE II<br />

(1) Cfr. Técnicas de guerrilha rural e urbana e Revolta<br />

''espontânea" ou agitação planejada, visando a<br />

<strong>Reforma</strong> Agrária?, "Catolicismd' n? 402, junho de 1984,<br />

pp. 3 a 5 e 14 a 20; Ivinhema e Guariba: ensaio de revolução<br />

social?, "Catolicismo" n? 406-407, outubronovembro<br />

de 1984, p. 3; As táticas da ''guerrilha metalúrgica",<br />

"Catolicismo" n? 413, maio de 1985, p. 15.<br />

(2) Sobre a importância dos aspectos doutrinários<br />

da questão agrária, cfr. HENRY MAKSOUD, Motivos<br />

para rechaçar a proposta de <strong>Reforma</strong> Agrária, in<br />

"Visão", 10-7-85. ·<br />

(3) Cfr. PLINIO CORRÊA DE OLIVEIRA, O socialismo<br />

autogestionário: em vista do comunismo, barreira<br />

ou cabeça-de-ponte?, Mensagem das Sociedades<br />

de Defesa da Tradição, Família e Propriedade de 13 países,<br />

"Catolicismo", n? 373-374, janeiro-fevereiro de 1982.<br />

(4) A abertura tem propugnadores radicais que a<br />

comprometem.<br />

Por exemplo, mesmo os que no regime militar mais<br />

bradavam contra a Lei de Segurança Nacional, uma<br />

vez instaurada a abertura, não consta que se tenham<br />

empenhado em fazê-la cessar.<br />

Por estranha coincidência, essa lei pode agora ser<br />

instrumentalizada por eles contra os adversários ideológicos<br />

ou políticos.<br />

Assim, um Prelado, destacado promotor das liberdades<br />

civis e políticas, não duvidou em declarar que<br />

agora quem for contra a <strong>Reforma</strong> Agrária é subversivo.<br />

Pois - diz - "se quem se opõe às normas vigentes<br />

em um regime é chamado de subversivo, não existe<br />

outra denominação para eles".<br />

O mesmo Prelado se manifestou também favorável<br />

à desapropriação não só dos latifúndios improdutivos,<br />

como também dos produtivos, num assomo de<br />

radicalidade agro-igualitária.<br />

Esse Prelado está no píncaro do mais alto organismo<br />

episcopal brasileiro. É o Sr. D. Ivo Lorscheiter,<br />

que, além de Bispo no próspero e florescente centro<br />

geográfico sul-riograndense (Santa Maria), é também<br />

presidente da CNBB (cfr. "Jornal do Brasil", 30-5-85).<br />

(5) Cfr. PLINIO CORRÊA DE OLIVEIRA, O socialismo<br />

autogestionário: em vista do comunismo, barreira<br />

ou cabeça-de-ponte?, Mensagem das Sociedades<br />

de Defesa da ll'adição, Família e Propriedade de 13 países,<br />

"Catolicismo", n? 373-374, janeiro-fevereiro de 1982,<br />

Capítulo II, n? 9.<br />

(6) Cfr. CEBs, pp. 171 a 201; "Catolicismo" n? 402,<br />

junho de 1984; e "Catolicismo" n? 406-407, outubronovembro<br />

de 1984.<br />

. (7) Já em 1968 a TFP promovera duas campanhas<br />

em nível nacional: a denúncia do programa subversivo<br />

do Pe. Joseph Comblin e o abaixo-assinado a S.S.<br />

Paulo VI pedindo medidas contra a infiltração esquerdista<br />

nos meios católicos (1.600.368 assinaturas).<br />

Em 1969, a edição especial de "Catolici~mo" denunciando<br />

os organismos semiclandestinos que promovem<br />

a revolução comuno-progressista na Igreja teve<br />

165 mil exemplares esgotados em venda de rua. Desde<br />

então, três livros foram dados a lume pela TFP, para<br />

desmascarar novas manobras da comunistização dos<br />

ambientes católicos: PLINIO CORRÊA DE OLIVEIRA,<br />

A Igreja ante a escalada da ameaça comunista - Apelo<br />

aos Bispos silenciosos, Editora Vera Cruz, São Paulo,<br />

1976, 224 pp.; PLINIO CORRÊA DE OLIVEIRA, Tribalismo<br />

indlgena, ideal comuno-missionário para o Brasil<br />

no século XXI, Editora Vera Cruz, São Paulo, 1977,<br />

128 pp.; PLINIO CORRÊA DE OLIVEIRA / GUS­<br />

TAVO ANTONIO SOLIMEO - LUIZ SÉRGIO SOLI­<br />

MEO, As CEBs ... das quais muito seja/a, pouco seco-<br />

170


Notas<br />

nhece - A TFP as descreve como são, Editora Vera<br />

Cruz, São Paulo, 1982, 256 pp.<br />

Para maiores dados sobre estas campanhas, e demais<br />

atuações da TFP, ver Meio século de epopéia anticomunista,<br />

Editora Vera Cruz, São Paulo, 1980 (especialmente<br />

pp. 175 a 183, 190 a 197).<br />

TÍTULO II<br />

(1) Dados do Cartório de Escrivães do DEGRAN.<br />

(2) É reconhecida a precariedade das referências<br />

sobre emprego na agricultura. Contradições evidentes<br />

existem entre os censos agropecuário e populacional<br />

e os dados cadastrais do INCRA, provenientes muitas<br />

vezes do uso de metodologias e conceitos diferentes.<br />

Essa precariedade deveria ser mostrada no PNRA, para<br />

evitar conclusões e resoluções precipitadas (ver Anexo 1).<br />

(3) A idéia subjacente às considerações que se seguirão<br />

é a de que a distribuição da propriedade da terra<br />

é em boa medida resultante de uma série de fatores de<br />

ordem econômica, como características dos recursos<br />

naturais, política econômico-financeira adotada para<br />

o setor agrícola etc. Em outros termos, a estrutura produtiva<br />

agrícola se modifica e se adapta em função da<br />

lucratividade relativa das diversas culturas, das mudanças<br />

tecnológicas, da política governamental em relação ao<br />

desbravamento, da rentabilidade do setor agrícola em<br />

relação aos demais setores da economia etc.<br />

Assim, por exemplo, o maior incentivo aos setores<br />

de exportação e de produção de álcool tem provocado<br />

em algumas regiões a tendência a aumentar o tamanho<br />

das propriedades, pois tal tipo de atividades<br />

normalmente exige maior escala de operação. Como<br />

também os financiamentos subsidiados e os incentivos<br />

fiscais para as regiões de fronteira agrícola têm contribuído<br />

para que aumente o número de propriedades<br />

de maior tamanho em relação ao que existiria, caso<br />

tais medidas de política econômica não tivessem existido.<br />

Portanto, a distribuição da propriedade da terra<br />

é em grande medida um fato resultante, e não condicionante<br />

do desempenho econômico e social do setor<br />

agropecuário.<br />

(4) JOÃO SAYAD, "Especulação em terras rurais,<br />

efeitos sobre a produção agrícola e o novo ITR", Pesquisa<br />

e Planejamento &onômico 12 (1): 87-108, Rio<br />

de Janeiro, abril 1982.<br />

(5) Aqui estamos considerando uma racionalidade<br />

do ponto de vista privado. Bem pode ser que, do<br />

ponto de vista da economia como um todo, o benefício<br />

privado seja anulado por um custo social. Não existem<br />

estudos que avaliem este custo. Entretanto, é presumível<br />

que no caso concreto do Brasil, com abundantes<br />

terras devolutas e ágil mercado de terras, esse custo seja<br />

mínimo. Ademais, é sabido que muitas vezes a intervenção<br />

estatal feita com o intuito de equiparar benefícios<br />

privados e sociais produz ainda maiores distorções<br />

na economia.<br />

(6) Cfr. SAYAD, art. cit.<br />

(7) J. O. BRAY, "lntensidad de uso de la tierra en<br />

relación ai tamaiio dei predio en el Valle Central de<br />

Chile", Revista Finis Terrae, n? 24, Santiago, 1959.<br />

(8) A. C. PASTORE, A resposta da produção agrícola<br />

aos preços no Brasil, APEC, São Paulo, 1973; A.<br />

DELFIM NETTO et ai., ''Agricultura e desenvolvimento<br />

econômico no Brasil", Estudos ANPES n.º 5, São Paulo,<br />

1965.<br />

(9) MAÍLSON FERREIRA DA NÓBREGA, Desafios<br />

da política agrícola, Gazeta Mercantil-CNPq,<br />

São Paulo, 1985.<br />

(10) JOÃO DO CARMO OLIVEIRA, "Transferência<br />

de recursos da agricultura no Brasil: 1950/74",<br />

Pesquisa e Planejamento &onômico 14 (3): 773-822,<br />

Rio de Janeiro, dezembro 1984.<br />

(11) NÓBREGA, op. cit.<br />

(12) Existe uma farta literatura que avalia a penalização<br />

sofrida pela agricultura durante este período.<br />

Ver, entre outras obras: <strong>Reforma</strong> Agrária - Questão<br />

de Consciência, Editora Vera Cruz, São Paulo, 1960,<br />

Parte II, Cap. IX, pp. 298-306; Cap. X, pp. 328-339.<br />

A. C. PASTORE, Exportações Agrícolas e Desenvolvimento<br />

Econômico, Fundação Centro de Estudos do<br />

Comércio Exterior, Cadernos n? 2, Rio de Janeiro, 1979.<br />

H. G. JOHNSON, Economic Policies Toward Less Deve/oped<br />

Countries, Washington, Brookings Institution,<br />

1967, pp. 70-76. G.E. SCHUH, ''A modernização da<br />

Agricultura Brasileira: Uma interpretação", in C. R.<br />

CONTADOR, Tecnologia e Desenvolvimento, Rio de<br />

Janeiro, IPEA/INPES, 1975. A. VEIGA, "Efeitos da<br />

Política Comercial Brasileira no Setor Agrícola", in P.<br />

F. CIDADE DE ARAÚJO; G. E. SCHUH, Desenvolvimento<br />

da Agricultura: Análise de Política Econômica,<br />

São Paulo, Pioneira, 1977, pp. 15-32. F. B. HOMEM<br />

DE MELO, ''A Política Econômica e o Setor Agrícola<br />

no Período de Pós-Guerra", Revista Brasileira de &onomia,<br />

33 (1): 25-63, Rio de Janeiro, janeiro-março 1979.<br />

J. R. MENDONÇA DE BARROS, "Política e Desenvolvimento<br />

Agrícola no Brasil", in Ensaios sobre Política<br />

Agrícola Brasileira, São Paulo, Secretaria da Agricultura,<br />

1979, pp. 9-35; JOÃO DO CARMO OLIVEI­<br />

RA, "Incidência da taxação implícita sobre produtos<br />

agrícolas no Brasil: 1950/74", Pesquisa e Planejamento<br />

Econômico 14 (2): 399-452, Rio de Janeiro, agosto 1984.<br />

(13) Ver nota 3. .<br />

(14) J. PASTORE, Desigualdade e mobilidade social<br />

no Brasil, EDUSP, São Paulo, 1979, p. 184.<br />

(15) G. S. FIELDS, "Who Benefits from Econo-<br />

171


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tufão agro-reformista<br />

mie Development: an Examination of Brazilian Growth<br />

in 60's", American Economic Review 67 (4): 570, setembro<br />

1977; DAVID DENSLOW Jr. e WILLIAM G.<br />

TYLER, "Perspectivas sobre pobreza e desigualdade<br />

da renda no Brasil", Pesquisa e Planejamento Econômico<br />

13 (3): 863-904, Rio de Janeiro, dezembro 1983,<br />

JOSÉ PASIORE, HÉLIO ZYLBERSTAJN e CARMEN<br />

SILVIA PAGorIO, Mudança social e pobrtmi no Brasil·<br />

1970-1980, FIPE-PIONEIRA, São Paulo, 1983; GUY<br />

PFEFFERMANN e RICHARD WEBB, Poverty and<br />

Income Distribution in Bmzil, World Bank Reprint Series:<br />

Number 259, Washington, 1983.<br />

(16) Ver nota 12.<br />

(17) Um módulo rural é definido como o número<br />

de hectares suficiente para ser explorado por uma família,<br />

que lhe permite manter-se e progredir. O tamanho<br />

do módulo varia de acordo com a região, dependendo<br />

da qualidade da terra e de outros fatores.<br />

(18) Mais exatamente, de acordo com o INCRA,<br />

latifúndio por exploração é a propriedade com área entre<br />

um e 600 módulos, em que a parte explorada é menor<br />

ou igual a 700Jo da área explorável, e/ou em que o "coeficiente<br />

de condições sociais" e o "coeficiente de produtividade''<br />

sejam ambos maiores que 1 (INCRA, Manual<br />

de Cálculo, Departamento de Cadastro e Tributação,<br />

Brasília, 1974, p. 22).<br />

O "coeficiente de condições sociais" considera três<br />

aspectos: ·<br />

a) Fator de "participação e dependência", que mede<br />

aspectos como lugar de moradia do proprietário, administração<br />

da exploração, origem da renda do proprietário,<br />

natureza do proprietário (pessoa jurídica ou<br />

física) etc.<br />

b) Fator de "ocupação", que mede o bem-estar dos<br />

residentes no imóvel por meio de um coeficiente que<br />

relaciona o número de pessoas residentes por módulo<br />

e o número de pessoas residentes por casa de moradia<br />

existente na propriedade.<br />

e) Fator de "responsabilidade na exploração", que<br />

estima em que medida o proprietário explora diretamente<br />

a propriedade ou a dá em arrendamento ou<br />

parceria.<br />

Em geral, o coeficiente está calculado de maneira<br />

a serem favorecidas as propriedades pequenas e médias,<br />

exploradas diretamente pelo proprietário, e que<br />

fazem uso intensivo de mão-de-obra.<br />

O "coeficiente de produtividade'' é um fator que<br />

pretende estimar a intensidade de exploração da fazenda,<br />

tomando em conta o percentual de terra explorada, grau<br />

de investimentos e o rendimento dos diversos cultivos<br />

e explorações.<br />

Infelizmente, não se dispõem de informações para<br />

saber em que medida esses coeficientes contribuí-<br />

ram para caracterizar os imóveis considerados como<br />

"latifúndios por exploração". Em todo o caso, parece<br />

depreender-se da lógica dos referidos coeficientes que<br />

um imóvel em que se explore mais de 700Jo de sua área<br />

explorável, dificilmente terá ambos os coeficientes simultaneamente<br />

maiores que 1. Isto indicaria que o fator<br />

mais importante na definição do "latifúndio por<br />

exploração" é a porcentagem de área explorada.<br />

(19) Vimos considerando que a área explorada deve<br />

representar no mínimo 700Jo da área explorável, para<br />

que uma propriedade agrícola não seja classificada como<br />

latifúndio improdutivo. As estatísticas fornecidas pelo<br />

INCRA, e incluídas no texto, baseiam-se em tal percentual.<br />

No entanto, de acordo com o Decreto n? 84.685<br />

de 6-5-80, art. 22.111, essa exigência teria aumentado<br />

para 800Jo. Diante disso o leitor pode julgar por si próprio<br />

se os critérios utilizados pelo INCRA são objetivos.<br />

Ou se, pelo contrário, carecem de idoneidade científica<br />

e podem, a justo título, ser considerados arbitrários.<br />

(20) C. PETER TIMMER, WALTER P. FALCON<br />

e SCOTT R. PEARSON, Food Policy Analisys, Published<br />

for The World Bank, Baltimore, The Johns Hopkins<br />

University Press, 1983; LADISLAU DOWBOR,<br />

Fome: alguns dados básicos, [Biblioteca da Pontifícia<br />

Universidade Católica de São Paulo], 1983.<br />

(21) J. C. WATERLOW e G. A. o. ALLEYNE, Má<br />

nutrição protéica em crianças: evolução dos conhecimentos<br />

nos últimos dez. anos, São Paulo, 1974; J. TRÉ­<br />

MOLIERES, G. PÉQUIGNOf, S. BONFILS e R. DE­<br />

RACHE, "Remarques sur les méthodes employées pour<br />

apprécier un état de nutrition", Annales de la Nutrition<br />

et de l;tllimentation 4 (1950): 321-357; J. TRÉMO­<br />

LIERES, G. PEQUIGNOT, F. VINIT e Y. SERVIL­<br />

LE, "Les enquetes sur la consommation alimentaire.<br />

Intérêt pour la santé publique et le bien-être social",<br />

Annales de la Nutrition et de /'Alimentation 6 (1952):<br />

81-116; J. C. WATERLOW, "Buts et utilization des apports<br />

et allocations alimentaires recommandés", Cahiers<br />

de Nutrition et de Diététique 13 (1978): 253-259;<br />

M. AUTRET, "Politique des 'Standards' alimentaires<br />

- Les 'standards' FAO-OMS nous concernent-ils?", Cahiers<br />

de Nutrition et de Diététique 13 (1978): 267-279;<br />

. J. MIROUZE, J. L. RICHARD, J. BRINGER e L.<br />

MONNIER, "Les états de denutrition chez l'adulte. Étude<br />

critique des index nutritionnels", Cahiers de Nutrition<br />

et de Diététique 16 (1981): 251-258; H. DUPIN, "Calimentation<br />

dite normale'', Cahiers de Nutrition · et de<br />

Diététique 18 (1983): 190-194.<br />

(22) PETER KNIGHT e RICARDO MORAN, Brr:zsil.<br />

pobreza e necessidades básicas, Zahar, Rio de Janeiro,<br />

1983.<br />

(23) Ou seja, a elasticidade-renda no consumo de<br />

alimentos é pequena. No estudo a que fazemos refe-<br />

172


Notas<br />

rência, a elasticidade é estimada a partir da relação entre<br />

consumo de calorias per capita e despesa total per capita.<br />

Essa elasticidade é igual a 0,2 nas famílias no vigésimo<br />

percentil nas áreas urbanas, e igual a 0,3 para<br />

as famílias nas áreas rurais. Chama a atenção essa baixa<br />

elasticidade porque, de acordo com o estudo, o déficit<br />

nutricional dessas camadas populacionais seria de 400<br />

calorias per capita nas áreas urbanas e 300 calorias per<br />

capita nas áreas rurais.<br />

O estudo em referência afirma: "Os dados do EN­<br />

DEF (Estudo Nacional de Despesa Familiar) também<br />

sugerem que a propriedade de bens de consumo duráveis,<br />

como TV's, geladeiras, liquidificadores e mesmo<br />

automóveis, pode ser preferida por grande número de<br />

famílias urbanas pobres e não tão pobres à satisfação<br />

de suas necessidades calóricas" (p. 47).<br />

(24) WORLD BANK, Land Reform, Sector Policy<br />

Paper, Washington, 1975.<br />

(25) Uma proporção significativa da literatura especializada<br />

manifesta-se partidária da <strong>Reforma</strong> Agrária.<br />

Seus autores pertencem, em sua grande maioria,<br />

às escolas econômicas estruturalista e marxista. De modo<br />

geral, eles apresentam dupla visualização da <strong>Reforma</strong><br />

Agrária: uma quando recomendam aplicá-la, e outra<br />

quando avaliam seus resultados.<br />

Quando se trata de recomendar sua aplicação, usam<br />

especialmente argumentos de natureza econômica: aumento<br />

de produção e emprego, melhora na produtividade<br />

e renda etc. Ao avaliar os resultados, no entanto,<br />

a ênfase se desloca para aspectos um tanto colaterais:<br />

melhora no espírito associativo e participativo, conscientização<br />

política, aumento da solidariedade e espírito<br />

comunitário, queda do paternalismo etc. A avaliação<br />

econômica fica relegada a segundo plano, e dentro<br />

dele limitada a casos particulares, enfatizando especialmente<br />

a redução na disparidade da renda. Quanto<br />

aos resultados econômicos globais, quase sempre alegam<br />

ter faltado tempo para que a experiência produzisse<br />

todos os seus frutos.<br />

Em outros termos, para recomendar a <strong>Reforma</strong><br />

Agrária se usa o enfoque econômico, e na avaliação<br />

dos resultados predomina o enfoque ideológico, marcado<br />

por um espírito igualitário e <strong>socialista</strong>.<br />

Para os efeitos do nosso estudo, selecionamos os<br />

autores que empregam métodos de análise objetivos.<br />

E na ausência deles, extraímos de outros os dados necessários<br />

para formar o quadro mais objetivo possível<br />

da realidade.<br />

(26) BANCO INTERAMERICANO DE DESAR­<br />

ROLLO, Progreso .Económico y Social en América Latina,<br />

Informe 1983; US DEPARTMENT OF STATE,<br />

Report on Status of Land Reform in E/ Salvador, Washington,<br />

1984; OFICINA DEL INSPECTOR GENE-<br />

RAL PARA AUDITORIA/AMÉRICA LATINA -<br />

AIO-DEPARTAMENTO DE ESTADO DE EEUU, Informe<br />

sobre la situación de la <strong>Reforma</strong> <strong>Agraria</strong> en E/<br />

Salvador, Centro de Estudios Económico Sociales, Guatemala,<br />

1984.<br />

(27) RAFAEL YRARRÁZAVAL, "<strong>Reforma</strong> <strong>Agraria</strong><br />

en Chile", Ciencia e Investigación <strong>Agraria</strong> 6 (1): 3-13,<br />

janeiro-março 1979; SOI..ON BARRACI..OUGH (coord.),<br />

Diagnóstico de la <strong>Reforma</strong> <strong>Agraria</strong> en Chile (Noviembre<br />

1970-Junio 1972), Proyecto "<strong>Reforma</strong> <strong>Agraria</strong> y Desarrollo<br />

Rural" (PNUD-FAO), Instituto de Capacitación<br />

e Investigación en <strong>Reforma</strong> <strong>Agraria</strong>, Santiago, Chile,<br />

1972; ALBERTO VALDÉS, "La transición ai socialismo:<br />

Observaciones sobre la agricultura chilena", Seminario<br />

de Desarrollo y Empleo Rural, Ibadan, Nigeria,<br />

abril 1973; WORLD BANK, Land Reform in Latin<br />

America: Bolivia, Chile, Mexico, Peru and Venezuela,<br />

World Bank Staff Working Paper n? 275, abril<br />

1978.<br />

(28) JOSÉ A. PORTUGAL VIZCARRA, Crisis y<br />

política agraria en e/ Peru: Problema y solución, Consultoria<br />

de Proyectos Agro-Industriales, Lima, 1981;<br />

CARLOS AMAT Y LEON et ai., Realidad dei campo<br />

peruano después de la <strong>Reforma</strong> <strong>Agraria</strong>, Centro de Investigación<br />

y Capacitación-Editora Ital Peru, Lima, 1980;<br />

WORLD BANK, Land Reform in Latin America: Bolívia,<br />

Chile, Mexico, Peru and Venezuela, World Bank<br />

Staff Working Paper n? 275, abril 1978; World Bank<br />

Tables, 1984; FAO, Production Yearbook, 1983.<br />

(29) WORLD BANK, Land Reform in Latin America:<br />

Bolívia, Chile, Mexico, Peru and Venezuela, World<br />

Bank Staff Working Paper n? 275, abril 1978.<br />

(30) HIROMITSU KANEDA, "Structural Change<br />

and Policy Response in Japanese Agriculture after<br />

the Land Reform", Economic Development and Cultural<br />

Change 1980: 469-486.<br />

(31) Um dos estudos mais completos sobre a economia<br />

rural nordestina, tanto pelos dados quanto pela<br />

metodologia usados, é o realizado pelo Banco Mundial<br />

em convênio com a SUDENE (GARY P. KUTCHER,<br />

PASQUALE L. SCANDIZZO, The Agricultura/ Economy<br />

of Northeost Brazil, Baltimore, Toe Johns Hopkins<br />

University Press, 1981).<br />

Baseado em um modelo econométrico, o estudo<br />

constata que as propriedades familiares empregam, para<br />

maximizar seus lucros, mais mão-de-obra do que o necessário.<br />

O contrário sucede com as propriedades maiores,<br />

que poderiam obter aumento significativo em seus lucros<br />

aumentando o emprego. Também constata que as<br />

propriedades maiores poderiam aumentar significativamente<br />

a utilização de capital, dado que o custo do<br />

dinheiro seria ponderavelmente menor que a renda adi-<br />

173


A propriedade privada e a livre iniciativa, no tefão agro-reformista<br />

cional. Ou seja, as propriedades maiores não estariam<br />

sendo eficientes no uso dos recursos.<br />

Baseado em um modelo de programação linear,<br />

o estudo mostra que as propriedades maiores, em seu<br />

conjunto, não têm restrições de capital e trabalho no<br />

atual nível de produção. Desta forma conclui que, se<br />

elas quisessem empregar seus recursos fixos e variáveis<br />

de modo a maximizar os lucros (tomando em conta<br />

o risco e outros fatores), elas empregariam em média<br />

90% a mais de trabalho, e aumentariam em 30% sua<br />

produção.<br />

Estas conclusões, entretanto, deveriam ser ponderadas<br />

tendo em vista as limitações próprias à metodologia<br />

usada. Uma delas é que as funções de produção<br />

tipo Cobb-Douglas, utilizadas no estudo, são estimadas<br />

a partir de informações ex-post, ou seja, relacionam<br />

volume de produção obtida com quantidade de<br />

recursos empregados. No entanto, para efeito de tomar<br />

decisões, o produtor rural trabalha com produção<br />

esperada, que normalmente difere da produção obtida,<br />

especialmente em regiões de regimes pluviais aleatórios,<br />

como o Nordeste. Este pode ser, portanto, um<br />

fator de erro sistemático, que tende a invalidar, para<br />

efeito de avaliação da eficiência do produtor, a comparação<br />

da estimativa do valor da produção marginal<br />

(VPM) com o preço dos insumos.<br />

O fato de que os coeficientes de regressão múltipla<br />

(R 2 ) estimados para as diversas funções de produção<br />

sejam significativamente baixos (entre 0,369 e 0,646)<br />

revela a ausência de variáveis relevantes no modelo, tornando<br />

duvidosas as conclusões obtidas a partir delas.<br />

No modelo de programação linear adotado, os autores<br />

reconhecem que a quantidade de capital disponível,<br />

utilizada na matriz de restrições, pode estar sobreestimada.<br />

Isso poderia fazer com que a solução do<br />

modelo, indicando sub-utilização da terra e da mãode-obra<br />

nos atuais níveis de produção, mais se deve a '<br />

uma efetiva restrição de capital que à ineficiência dos<br />

produtores.<br />

(32) Os dados sobre desemprego e sub-emprego rural<br />

no Nordeste, utilizandos no estudo aqui referido, se contradizem<br />

com as informações de que na generalidade<br />

dos Estados nordestinos o salário rural sofreu aumen-<br />

to significativamente maior que a inflação, entre os anos<br />

de 1966 e 1979 (ver Capítulo I, Quadro 5). Na ausência<br />

de sindicatos de trabalhadores rurais atuantes, tal<br />

aumento do salário real revelaria escassez relativa de<br />

mão-de-obra, ao contrário do que as estatísticas mostram.<br />

Os autores reconhecem que as estatísticas sobre emprego,<br />

especialmente da mão-de-obra volante, são precárias.<br />

De qualquer forma, é inegável que o Nordeste,<br />

em relação a outras regiões do País, apresenta níveis<br />

de renda significativamente inferiores e persistentes bolsões<br />

de pobreza.<br />

(33) A importância da agricultura como um setor<br />

dinâmico nos países em vias de desenvolvimento tem<br />

sido amplamente tratada em numerosos estudos.<br />

Uma política comercial não prejudicial para a agricultura,<br />

uma melhora em sua eficiência com a adoção<br />

de novas técnicas, especialmente aquelas não poupadoras<br />

de mão-de-obra, investimentos em pesquisas tecnológicas,<br />

programas educacionais e de extensão rural<br />

etc., são medidas amplamente recomendadas (C.<br />

P. KINDLEBERGER, Economic Deve/opment, Nova<br />

York, McGraw-Hill, 1965, Cap. 12; H. G. JOHNSON,<br />

Economic Policies Toward Less Developed Countries,<br />

Washington, Brookings Institution, 1967; G. E. SCHUH,<br />

O Desenvolvimento da Agricultura no Brasil, Rio de<br />

Janeiro, APEC, 1976; P. F. CIDADE DE ARAÚJO;<br />

G. E. SCHUH (coord.), Desenvolvimento na Agricultura:<br />

Educação, Pesquisa e Assistência Técnica, São<br />

Paulo, Pioneira, 1975).<br />

Outros estudos têm medido especificamente os ef eitos<br />

favoráveis da eliminação da proteção negativa dos<br />

produtos agrícolas (E. A. VALDÉS, "Tolde Policy and<br />

Its Effect on the Externai Agricultural Trade of Chile<br />

1945-1965", American Journal of Agricultura/ Economics,<br />

55 (2): 154-164, maio 1973).<br />

(34) NÓBREGA, op. cit.<br />

(35) ANNA WIZA OZÓRIO DE ALMEIDA, "Seletividade<br />

perversa na ocupação da Amazônia", Pesquisa<br />

e Planejamento Econômico, 14 (2): 353-398, Rio<br />

de Janeiro, agosto 1984.<br />

(36) NÓBREGA, op. cit.<br />

174


A TFP RECOMENDA<br />

As doutrinas propugnadas pela TFP estão expostas em diversas publicações - livros, manifestos,<br />

declarações, comunicados, cartas abertas etc. Conhecer os livros difundidos pela TFP é indispensável<br />

para quem queira se formar um panorama autêntico e completo da luta contra o comunismo, em nosso<br />

País, no decurso dos últimos 50 anos.<br />

• REFORMA AGRÁRIA - QUESTÃO DE CONSCIÊNCIA (1960)<br />

D. Geraldo de Proença Sigaud, Arcebispo de Diamantina - D. Antonio de Castro Mayer, Bispo de Campos - Prof.<br />

Plínio Corrêa de Oliveira - Luiz Mendonça de Freitas<br />

Best-seller polêmico que alertou o povo brasileiro contra a <strong>Reforma</strong> Agrária <strong>socialista</strong> e anticristã dos anos 60.<br />

520 pp. - Quatro edições em português, três em espanhol. Total: 39 mil exemplares.<br />

• DECLARAÇÃO DO MORRO ALTO (1964)<br />

Pelos mesmos autores de RA-QC<br />

Programa positivo de política agrária com o objetivo de resolver a fundo os problemas do campo, sem desfigurar a<br />

estrutura rural vigente.<br />

32 pp. - Duas edições, 22.500 exemplares.<br />

• COLEÇÃO DIÁLOGOS SOCIAIS (1971)<br />

1. A propriedade privada é um roubo?<br />

2. Devemos trabalhar só para o Estado?<br />

3. É anti-social economizar para os filhos?<br />

32 pp. cada - Nove edições em espanhol, cinco em português. Total 459 mil exemplares.<br />

• SOU CATÓLICO: POSSO SER CONTRA A REFORMA AGRÁRIA? (1981)<br />

Plínio Corrêa de Oliveira e Carlos Patrício del Campo<br />

Mostra que não há consonância entre os ensinamentos tradicionais do Supremo Magistério da Igreja e a <strong>Reforma</strong> Agrária<br />

preconizada pela CNBB no documento Igreja e problemas da terra.<br />

360 pp. - Quatro edições em português, 29 mil exemplares.<br />

• O SOCIALISMO AUTOGESTIONÁRIO: EM VISTA DO COMUNISMO,<br />

BARREIRA OU CABEÇA-DE-PONTE? (1981)<br />

Plinio Corrêa de Oliveira<br />

Mensagem das TFPs de 13 países. Põe em evidência que o programa autogestionário da coligação socialo-comunista<br />

vitoriosa na França em 1981 visa a desagregação Qa sociedade atual em corpúsculos autônomos, meta final da utopia<br />

anárquica.<br />

33,5 milhões de exemplares em 155 publicações de 69 países.<br />

• AS CEBs ... DAS QUAIS MUITO SE FALA, POUCO SE CONHECE<br />

- A TFP AS DESCREVE COMO SÃO (1982)<br />

Plínio Corrêa de Oliveira, Gustavo Antonio Solimeo e Luiz Sérgio Solimeo<br />

Demonstra o caráter nitidamente subversivo das Comunidades Eclesiais de Base - CEBs, as quais têm atuado em invasões<br />

de propriedades urbanas e rurais, agitações em fábricas, greves ilegais etc.<br />

256 pp. - Seis edições em português, 72 mil exemplares<br />

Pedidos à EDITORA VERA CRUZ LTDA.<br />

Rua Dr. Martinico Prado, 246 - telefone 221-8755<br />

CEP 01224 - São Paulo, SP


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