Pimenta - A História de uma Vida - Scpd.com.br

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P i m e n t a<br />

A História de uma vida<br />

2


“Caros leitores – gostaria de esclarecer-lhes<br />

que este livro fora escrito mediante a narrativa<br />

direta do Exu Pimenta e os vícios de linguagem<br />

foram mantidos a pedido dele”<br />

Renata A. Tavares<br />

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Índice<br />

Capítulo 1 ....................................................... 4<br />

Capítulo 2 ...................................................... 48<br />

Capítulo 3....................................................... 56<br />

Capítulo 4....................................................... 78<br />

Capítulo 5....................................................... 99<br />

Capítulo 6....................................................... 104<br />

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Capítulo Um - Vida Terrena<br />

Meu nome era Taso, eu morava nas<br />

terras, que beiravam o que vcs conhecem como<br />

rio Nilo.<br />

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Eu nasci (esta informação não é precisa)<br />

no ano de 660 DC.<br />

O vilarejo onde eu morava, não era<br />

muito grande, algo próximo a 200 habitantes,<br />

cada um com seu pedaço de terra.<br />

As construções eram de argila, madeira e<br />

plantas no telhado.<br />

Plantávamos nossa própria comida e<br />

tínhamos criação.<br />

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A água era carregada do rio em bolsas<br />

de couro ou poços eram cavados, e a água era<br />

transportada para áreas mais afastadas.<br />

Eu tinha pai, mãe, um irmão e duas<br />

irmãs.<br />

Eu era o mais velho.<br />

O meu pai, era um o homem que tinha<br />

mais posses do vilarejo, vivia dos cabritos, e<br />

das plantações, e algumas criações pequenas.<br />

Eu, como mais velho, estava sempre ao<br />

lado do meu pai aprendendo os afazeres dele.<br />

Sabia plantar, sabia o tempo da colheita,<br />

alimentar os animais, colocar para cria, sabia<br />

até como abater para comer.<br />

Meu pai estava me criando para ser seu<br />

sucessor.<br />

Os seus funcionários já gostavam de mim<br />

por meu jeito de tratar todos.<br />

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Sabia o nome de todos, sabia quem<br />

convocar para cada tipo de tarefa incluindo as<br />

viagens.<br />

Nas viagens eu ia no meu próprio animal<br />

e dele eu cuidava.<br />

Sabia o caminho, conhecia a região como<br />

a palma de minha mão.<br />

Sabia como se abrigar das tempestades,<br />

como se proteger do sol forte durante o dia e<br />

como procurar água quando a nossa estava por<br />

acabar.<br />

Como a cada viagem meu pai tinha um<br />

objetivo, caçar, procurar animais selvagens<br />

para trazer para nossa criação, arrebanhar<br />

funcionários, conquistar terras e outros, que<br />

tive que aprender tudo já com tão pouca idade.<br />

Quando eu completei nove anos, meu pai<br />

se foi, por conta de uma enfermidade.<br />

Foi quando ele resolveu sair para caçar e<br />

desta vez acabou que não me levou junto.<br />

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Os homens saiam para caçar, e alguns<br />

para pescar, ele se machucou com a própria<br />

caça.<br />

Demorou muito tempo para retornar da<br />

caçada.<br />

A demora era devida por ele estar<br />

voltando de carroça, já não reconhecia quase<br />

ninguém.<br />

Os funcionários cuidaram do ferimento<br />

como podiam e conheciam os recursos eram<br />

muito limitados e não tinha homem da capa<br />

branca (médico).<br />

Quando ele chegou foi tentado de todo o<br />

conhecimento para a cura.<br />

Nessa época era muito comum, macerar<br />

ervas, com sal, (se queimava a madeira, até<br />

virar cinza pra salgar os alimentos), os<br />

preparos de ervas foram feitos de todos os<br />

jeitos pelo povo da aldeia, mas não resolveu e<br />

ele morreu. De um ferimento na coxa.<br />

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Coisa tão simples nos dia de hoje de se<br />

curar mas, para nós não tinha como resolver.<br />

Quando ele se foi, minha mãe me<br />

chamou e falou que a partir daquele momento<br />

eu ficaria no lugar dele. Para cuidar de tudo o<br />

que ele tinha conseguido, para sustentar todos<br />

e aumentar os bens.<br />

Meu pai foi limpo, na própria cama que<br />

se encontrava.<br />

Minha própria mãe se encarregou de<br />

banhá-lo, limpar o ferimento do melhor jeito<br />

para deixar uma boa aparência e depois o<br />

vestiu com a melhor vestimenta que ele tinha.<br />

Colocou suas armas também junto.<br />

Deixou o como se estivesse preparado<br />

para um grande festejo.<br />

Ao mesmo tempo eu ordenei que nossos<br />

funcionários se encarregassem de fazer a caixa<br />

de madeira aonde ele seria colocado.<br />

10


Como ninguém da família tinha morrido<br />

até o momento não tinha cemitério ou lugar<br />

aonde colocar os mortos.<br />

Mandei os funcionários preparar um<br />

local, próximo a uma bela árvore e lá levamos<br />

meu pai para enterrar.<br />

Foi uma cerimônia muito triste e eu além<br />

da dor de perder meu pai estava com muito<br />

medo da grande responsabilidade que minha<br />

mãe me dera.<br />

Depois deste dia, eu fazia tudo o que eu<br />

tinha aprendido com ele, eu saia para caçar, ia<br />

num cavalo que mal enxergava do outro lado,<br />

os funcionários me colocavam no animal, as<br />

comidas iam todas no lombo do cavalo para<br />

salgar, e eu dava ordens para os funcionários<br />

do que tinha que ser feito.<br />

Sempre muito bem protegido por meus<br />

funcionários eu conseguia chegar ao destino e<br />

fazer o que tinha ido fazer.<br />

Na volta da minha primeira caça, quando<br />

eu adentrei a aldeia, todos saíram de onde<br />

11


estavam para saldar-me. A criança de nove<br />

anos que já caçava e comandava.<br />

Foi muito impressionante para mim. A<br />

sensação de poder que eu sentia era sem<br />

descrição. Entrando na vila, em primeiro de<br />

todos e com todos os funcionários atrás como<br />

respeito e as carroças abastecidas com as<br />

caças.<br />

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O olhar do povo era de muito respeito e<br />

espanto pois eu era muito pequeno para tal<br />

feito.<br />

Eu fui olhando nos olhos de todos, e eu<br />

vi uma moleca com a mesma idade que a<br />

minha, e os olhos dela não saiam de cima de<br />

mim.<br />

Eu também não conseguia parar de<br />

olhar, ela era linda.<br />

De cabelos negros, pele clara como leite,<br />

olhos negros marcantes.<br />

Eu nunca esqueceria aquele momento.<br />

Além da melhor sensação que eu tinha<br />

sentido desde que eu me lembrava, ainda sinto<br />

nascer uma grande paixão em momentos.<br />

Seu nome era Kiuza, a partir deste dia,<br />

eu não perdia ela de vista, e ela não me perdia.<br />

O tempo foi passando, eu fui indo cada<br />

vez mais longe nas caçadas, e com isso eu<br />

pensei:<br />

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Que estava indo caçar em terras que não<br />

eram minhas, e que não tinham dono, e era<br />

hora de fazer com que estas terras fossem<br />

minhas para que pudesse caçar o que estava<br />

em minhas terras.<br />

Sem imaginar as consequências, mas<br />

também se medo algum.<br />

Eu reuni todos os funcionários que eu<br />

tinha e os que eu não tinha, e a partir do dia,<br />

que eu tive esta idéia, fiquei, em torno de oito<br />

anos só viajando e cercando as terras que eu<br />

queria que fossem minha.<br />

Muitas vezes tinha guerras, porque a<br />

terra tinha dono, e a oferta que eu fazia, não<br />

era aceita, e então eu tomava as terras assim<br />

mesmo.<br />

Cada terra que eu fazia eu deixava pelo<br />

menos três funcionários, para cuidar, engordar<br />

a criação e a plantação.<br />

Deixava um trabalho grande para eles<br />

cuidarem das terras, das plantações e dos<br />

animais.<br />

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Meu plano era povoar estas novas terras<br />

com povo meu para que com o tempo eu só<br />

caminhasse em terras minhas.<br />

Os anos se passaram e minhas posses e<br />

animais iam aumentando.<br />

Com as trocas que também eram<br />

frequentes eu acabava tendo um outro tipo de<br />

riqueza que eram as pedras preciosas e ouro.<br />

De tudo quanto era tipo.<br />

Eu fui ficando conhecido, e incomodando<br />

muita gente, os conflitos eram freqüentes, as<br />

tentativas, de tomar minhas terras eram<br />

muitas.<br />

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As tentativas de invasão aconteciam<br />

muito, mas ao mesmo tempo eu crescia a<br />

quantidade de funcionários em cada terra<br />

apossada.<br />

As estratégias de defesa que eu<br />

desenvolvia, cada vez funcionavam mais.<br />

Os inimigos geralmente não conseguiam<br />

o que vinham tomar de mim.<br />

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E geralmente eu ainda fazia mais<br />

funcionários.<br />

No início, estes, eram tratados como<br />

escravos, alguns tentavam fugir ou lutar e<br />

acabavam mortos.<br />

Quando passaram estes anos, um dia<br />

olhei em volta, e pensei em cada lugar que eu<br />

tinha conquistado, em cada luta que eu tinha<br />

travado e achei que estava bom, que eu já<br />

estava cansado de viajar.<br />

Resolvi que iria mudar um pouco minhas<br />

ações frente a meus homens e minhas posses.<br />

Neste tempo eu comecei a ficar mais no<br />

vilarejo, e com o ouro que fui arrecadando, eu<br />

fui construindo cabanas, minha casa aumentou<br />

de tamanho, e cada casa que tinham minhas<br />

terras eu aumentei.<br />

Tive que conseguir cada vez mais<br />

funcionários pois as posses aumentavam e eu<br />

precisava cada vez mais de gente para cuidar.<br />

17


Os funcionários de confiança eram muito<br />

poucos.<br />

Estes homens acabaram viajando em<br />

meu lugar para levar os novos funcionários<br />

para as novas terras, levar animais e ver como<br />

as coisas estavam indo.<br />

Inclusive criar as famílias para que<br />

minhas terras fossem completas: plantações,<br />

criações, machos, fêmeas e suas crias.<br />

Nesta época, para você poder ter uma<br />

fêmea, você tinha que compra-la.<br />

Qualquer fêmea, você tinha a hora que<br />

queria. Para ser sua esposa reconhecida, tinha<br />

que ser comprada.<br />

Nesses anos todos que eu passei<br />

viajando e conquistando, eu tive quantas<br />

fêmeas eu quis.<br />

Eu tinha fêmeas fiéis a mim, nos quatro<br />

cantos onde que passei.<br />

O vilarejo começou a aumentar e eu<br />

comecei a preparar, uns comércios, para mim,<br />

18


dentro do vilarejo, em volta do meu vilarejo,<br />

que era à beira do rio, e por isso tinha muitas<br />

riquezas, tinha água em abundancia, peixe, e<br />

as criações tinham comida fácil.<br />

Existiam outros vilarejos, que não eram<br />

perto do rio, portanto esses eram mais pobre,<br />

bem mais pobre, eu era um homem invejado, e<br />

também tinham muitos homens que queriam<br />

minha cabeça.<br />

Algumas pessoas destes vilarejos não<br />

desejam lutar, e vinham pedir empregos.<br />

E eram bem recebidos, quando<br />

chegavam tinham um local, um espécie de<br />

celeiro, que os recém chegados, trabalhavam e<br />

dormiam. Eu nunca aceitei nenhum escravo em<br />

minhas terras, só os que eram capturados nas<br />

invasões.<br />

Com o tempo este povo ia conquistando<br />

a confiança dos meus fiéis funcionários, depois<br />

de certo tempo, os meus capatazes, estavam<br />

sempre me falando da evolução dos recém<br />

chegados, um se destacavam mais para<br />

19


plantação, outros pra criação, outros eram<br />

treinados para a guerra, o tempo ia passando,<br />

eles iam conquistando o direito de fazer uma<br />

família.<br />

Mulheres também vinham, às vezes<br />

vinham famílias inteiras, as mulheres<br />

trabalhavam na limpeza, criação, lavando<br />

roupa, ajudavam em partos, cuidavam dos<br />

animais.<br />

A cada período os capatazes vinham me<br />

contar o feito de cada um, e perguntavam se<br />

podiam dar mais confiança. Mas este povo<br />

novo estava sempre sobre a guarda dos meus<br />

homens de confiança.<br />

Sempre sendo observados com cautela.<br />

Depois de o tempo passado, é que os<br />

capatazes identificavam os homens ou<br />

mulheres que eram mais falantes e trazia para<br />

as prosas para perguntar das estratégias de<br />

guerra de cada povoado, e isso era feito muitas<br />

vezes, para ter certeza que ninguém caia em<br />

20


contradição, até que realmente se podia<br />

acreditar nas histórias.<br />

Meu povo nunca foi escravo. Todos que<br />

estavam lá eram livres e estavam ali porque<br />

queriam esta ali.<br />

Eu conquistei seis funcionários fiéis a<br />

mim, que eram quem cuidava dos outros<br />

funcionários, me protegiam e protegiam os<br />

meus.<br />

21


As tentativas de invasão e roubo eram<br />

muito freqüentes.<br />

O povo vinha na calada da noite,<br />

esperava os homens estar bêbados, para<br />

estuprar as mulheres, roubar os bens e<br />

mulheres, e matavam todos os homens.<br />

Os únicos que não dormiam eram os<br />

meus.<br />

Meu vilarejo nunca foi roubado nem<br />

minha família.<br />

As folgas que eu dava para meus<br />

funcionários, um a cada seis podiam beber. Por<br />

isso nunca fui pego.<br />

Então achei que era hora de fazer minha<br />

família, e para isso tinha que comprar minha<br />

mulher.<br />

A partir do momento que eu resolvi fazer<br />

isso, eu mandei um funcionário meu, na<br />

cabana do pai da moça, dizendo, que em dois<br />

dias, eu iria fazer uma visita, para uma prosa<br />

muito importante na vida da família dele.<br />

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Eu me preparei durante estes dois dias,<br />

eu mandei fazer uma vestimenta nova, muito<br />

formosa, eu mandei preparar, um animal que<br />

eu gostava muito, pra deixar formoso também.<br />

Mandei os meus homens reunir algumas<br />

armas, reunir algumas pedras preciosas, reunir<br />

algumas peças de ouro, que eu só conheci<br />

encarnado, (hoje eu não sei o que é isso. Exu<br />

que é exu não conhece ouro – só o estanho a<br />

prata).<br />

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Mandei reunir, 30 cabritos e cabras, 10<br />

cavalos, mandei 10 funcionários com as<br />

famílias, e o principal, eu peguei uma das<br />

minhas propriedades que era perto, e mandei<br />

esvaziar, para o pai dela, com plantação e<br />

tudo, mandei meus homens levar os animais e<br />

as famílias para lá, pra tocar as terras como se<br />

fossem minha. Para que cuidassem como se<br />

fosse eu.<br />

Tudo isso em dois dias. Eu dei uma<br />

cabana melhor para cada funcionário que veio<br />

daquela terra.<br />

Chegado o grande dia, eu me banhei,<br />

coloquei a veste nova e mais a minha<br />

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indumentária de guerra, peguei meu animal<br />

preparado, os funcionários já com uma carroça<br />

toda preparada com os presentes e mais 30<br />

homens pra me acompanhar, e fui pro<br />

encontro. Quando eu cheguei, na propriedade<br />

do pai da moça, ele se encontrava sentado, na<br />

frente da cabana, perto da porteira, e estava<br />

me esperando. Quando ele viu a quantidade de<br />

homem que eu trouxe, mais a carroça com os<br />

presentes, ele se levantou, a mulher dele<br />

apareceu também, todos espantados, e sem<br />

entender o que estava acontecendo.<br />

25


O que não era o caso da moça, ela já<br />

estava pronta, toda formosa, os cabelos<br />

negros, preparados, ela apareceu por traz dos<br />

pais, antes de eu desmontar o animal, eu a vi<br />

olhando direto nos meus olhos, ela tinha muita<br />

felicidade no olhar, mas ainda tinha duvidas<br />

sobre o que eu tinha ido fazer lá.<br />

Eu desmontei, e quando eu desmontava<br />

em qualquer lugar que eu ia, os meus homens<br />

criavam um limite de proteção em torno de<br />

mim.<br />

Foi quando eu pedi permissão para o pai<br />

dela, se eu podia entrar na propriedade dele,<br />

para conversar.<br />

E ele estava começando a entender<br />

minha intenção, porque até então ele não tinha<br />

visto como a filha dele estava vestida.<br />

Foi me dado uma espécie de banco para<br />

sentar, que dava para sentar umas quatro<br />

pessoas, mas eu fiquei sozinho.<br />

Foi-me oferecido água, porque era<br />

sempre muito calor e estava muito quente,<br />

26


embora a distancia não fosse muito longa, eu<br />

viajei algo em torno de meia hora pra chegar,<br />

me foi oferecido água por educação.<br />

Como eu nunca fui um homem de perder<br />

tempo, eu cumprimentei todos os presentes, e<br />

fui direto ao assunto com o pai da moça.<br />

E eu disse assim: olhe moço, eu to cá<br />

hoje, com uma boa farda, com um bom animal,<br />

com todos estes presentes, que meu povo vai<br />

lhe trazer agora, que é ouro e pedras<br />

preciosas, e mais alguns trapos pra vocês<br />

fazerem roupa pra trocar por esta moça<br />

formosa que está ai atrás. E tem mais, aquela<br />

propriedade grande do meu capataz, que o<br />

senhor sabe quem é também será sua.<br />

27


Já foi desocupada, e agora tem os<br />

animais, cabrito, cabra, cavalo, é uma terra<br />

fértil, já com plantação e mais 10 homens da<br />

minha confiança pra lhe cuidar, então a partir<br />

de agora, o senhor passa a ser, além do pai da<br />

minha mulher, um homem rico, de posses e<br />

respeitado por minha ordem.<br />

Os funcionários que lá estão tem ordem<br />

para me levar pessoalmente qualquer um que<br />

lhe desrespeite de agora em diante. E que a<br />

sua família, os que nascerem daqui pra frente,<br />

tanto descendente direto, como dos vossos<br />

28


filhos, tenha a proteção e o direito a terra que<br />

eu lhe dei.<br />

Antes de o homem responder, eu fiz uma<br />

pausa e olhei nos olhos dele e nos olhos da<br />

mulher dele, e depois nos olhos da moça.<br />

Posso lhe falar que cada olhar refletia uma<br />

felicidade diferente.<br />

Eu mandei meus homens entregarem os<br />

presentes, e mandei a mulher dele receber. E<br />

perguntei a ela, se era suficiente, e se estava<br />

bom.<br />

A mulher como não tinha poder de fala<br />

ou de mando, simplesmente me acenou com<br />

um esboço de sorriso, e com aquilo eu pude<br />

perceber o tamanho da alegria dela, por estar<br />

se tornando uma mulher rica, respeitada e<br />

protegida.<br />

29


Eu perguntei ao macho se ele estava de<br />

acordo, ele se levantou, eu me levantei, ele<br />

caminhou na minha direção, olhou dentro dos<br />

meus olhos, olhou pra trás, para a filha, e falou<br />

pra mim:<br />

Agradecido, eu confio no senhor.<br />

E eu disse quem está agradecido sou eu.<br />

Agora eu me vou com a moça, ela pode<br />

deixar tudo o que é dela.<br />

E eu vou deixar 10 dos meus homens pra<br />

lhe escoltar até sua terra nova agora e em<br />

breve eu lhe faço outra visita.<br />

30


Eu estendi a minha mão para a moça, ela<br />

veio na minha direção, pegou na minha mão,<br />

olhou para mim, com um olhar, de que aquilo<br />

que estava finalmente acontecendo, era o<br />

resultado de uma espera longa, olhou para o<br />

pai e para a mãe, a mãe como toda fêmea,<br />

escorria lágrimas dos olhos, de felicidade.<br />

O pai veio na direção dela, olhou dentro<br />

dos olhos dela e só disse uma coisa, “vá fazer<br />

sua família”.<br />

Eu dei um sinal para meus homens,<br />

montei no cavalo, coloquei-a no lombo, e voltei<br />

pras minhas terras.<br />

31


Quando eu cheguei na minha cabana,<br />

todos os meus funcionários, as mulheres e as<br />

crianças, estavam reunidos em duas filas,<br />

esperando para eu passar no meio, para<br />

conhecer minha rainha.<br />

Os olhares eram de muito respeito,<br />

curiosidade e espanto por sua beleza.<br />

Ela desmontou com minha ajuda, eu<br />

desmontei e todos vieram cumprimentar minha<br />

mulher.<br />

Seu cheiro deixou todos inebriados com<br />

tal perfume, que até hoje eu não sei o que era<br />

como ela fazia tal mistura tão cheirosa.<br />

Eu já tinha escolhido três mucamas que<br />

iriam lhe servir o tempo todo. As mucamas a<br />

levaram pra conhecer os aposentos.<br />

Com o tempo ela iria poder conhecer a<br />

propriedade toda.<br />

Quando ela chegou na cabana, ela<br />

conheceu a todos meus familiares.<br />

32


Minha mãe de pronto se identificou muito<br />

com ela, meus irmãos foram todos muito<br />

respeitadores e acolheu ela como eu estava<br />

esperando.<br />

Haviam preparado presentes e uma<br />

refeição muito saborosa para sua chegada.<br />

O festejo aconteceu no início da noite<br />

pois, todos os funcionários que não estava<br />

presentes quiseram vir prestigiar e partilhar de<br />

minha felicidades.<br />

Este festejo foi noite adentro com muita<br />

comida, música e alegria.<br />

É muito importante falar que eu e meu<br />

povo sempre estávamos protegidos pelos<br />

homens.<br />

Para se dar um festejo destes só com<br />

muita proteção e estratégia para que se<br />

acontecer uma tentativa de invasão, que seja<br />

contida no início e o povo que está no festejo<br />

nem fique sabendo de imediato, só assim eu<br />

ficava tranquilo.<br />

33


Ao final do festejo retomamos a nossa<br />

cabana para finalmente descansar.<br />

Eu sentia a mesma felicidade quando a vi<br />

pela primeira vez quando eu voltava de minha<br />

primeira caçada.<br />

Foram dias de intensa felicidade.<br />

O tempo foi passando, e ela era uma<br />

mulher, que sempre que podia estar em minha<br />

companhia, nas viagens pequenas e nas visitas,<br />

eu levava junto.<br />

Fazia questão de sua companhia e<br />

proteção.<br />

Já se era sabido, por todos, que ela<br />

estava sempre comigo.<br />

Só não ia comigo quando eu achava que<br />

podia haver risco.<br />

Fazia muito passeio na minha<br />

propriedade com ela, aonde, pelo menos três<br />

dos meus rebentos foram feitos nestes<br />

passeios.<br />

34


Dentro das minhas terras tinham<br />

afluentes de rio, e em alguns passeios, eram<br />

escolhidos por mim, por ser formoso, e eu<br />

gostava de levar minha mulher, sempre<br />

cercados pelos meus homens, nunca tão perto<br />

pra ver ou ouvir, mas nunca tão longe que não<br />

pudesse me proteger.<br />

Nos meus passeios ou nas minhas<br />

viagens distantes, sempre, meu irmão ia<br />

junto. Em alguns momentos, eu já levava<br />

os meus filhos pra aprender.<br />

Estava fazendo como meu grande pai fez<br />

comigo.<br />

Alguns anos se passaram e eu tive<br />

alguns filhos.<br />

Logo após o nascimento do meu primeiro<br />

filho, minha mãe também morreu. Eu tinha 17<br />

anos.<br />

35


Ela teve uma infecção nos dentes, o<br />

médico da época, arrancou o que podia<br />

arrancar, queimou o que podia queimar.<br />

Queimou para fazer o que vocês chamam<br />

hoje de cauterizar.<br />

Mas não teve jeito, ela se foi.<br />

Fizemos então, minha mulher foi quem<br />

cuidou, uma preparação muito grande.<br />

Ela foi muito bem limpa, foi muito bem<br />

vestida com a túnica que ela mais gostava.<br />

Foi colocado todas as joias que ela mais<br />

gostava.<br />

36


Eu mandei preparar a caixa pois, ela<br />

queria ficar junto com meu pai.<br />

Assim que tudo estava pronto e<br />

preparado a cerimonia se iniciou e ela foi para<br />

junto dele.<br />

Sobraram meus irmãos que moravam<br />

todos comigo.<br />

Um dia eu percebi meu irmão de olhos<br />

grandes para minha mulher.<br />

Quis acreditar que eu estava<br />

caraminholando sozinho.<br />

Sempre que eu voltava de qualquer<br />

viagem, fosse pra ver terras distantes, fosse<br />

pra caça, ou fosse pra negócios, sempre minha<br />

volta era motivo de festejos.<br />

Alguns animais eram abatidos e assados<br />

na brasa, e a noite se estendia num festejo.<br />

E nos festejos, se come, se bebe e se<br />

dança.<br />

37


Depois de um tempo, eu comecei a<br />

perceber, nestes festejos que meu irmão<br />

depois de uma certa hora, que a bebida falava<br />

mais alto, ele se afastava um pouco, se<br />

amoitava em algum lugar.<br />

Na primeira vez, que senti falta dele, eu<br />

procurei até encontrar, ele estava encostado<br />

numa arvore, fumando, e não tirava os olhos<br />

da minha mulher, que não parava de dançar.<br />

Neste momento, olhei para meu capataz,<br />

e mostrei meu irmão com os olhos.<br />

O homem olhou pro meu irmão, olhou de<br />

volta para mim, acenou com a cabeça.<br />

Ele já tinha entendido tudo, e a partir<br />

deste dia, nenhum de nós teve mais sossego.<br />

Eu quis acreditar que nada estava<br />

acontecendo, mas como burro eu nunca fui, eu<br />

deixei um funcionário especial de olho nele.<br />

Passado alguns anos, eu voltei a viajar,<br />

viagens rápidas, eu ia até uma terra minha, e<br />

voltava.<br />

38


Quando se passaram dois anos dessas<br />

viagens, eu voltei e meus funcionários estavam<br />

esperando no caminho para me dar a noticia.<br />

Enquanto eu não estava em casa, meu<br />

irmão me traiu. Ele foi como uma erva daninha<br />

dentro da família (e todos meus funcionários<br />

eram considerados da minha família) ele<br />

utilizou de um poder que não tinha, e que os<br />

homens não sabiam que ele não tinha, ele<br />

começou a montar o exército, como ele fez<br />

isso??<br />

39


Roubando de mim, dando comida, e<br />

animais, para meus inimigos. E ele foi muito<br />

inteligente, porque meus homens não<br />

descobriram o que ele vinha fazendo.<br />

Até que ele conseguiu reunir os homens<br />

necessários, ele preparou um festejo (como se<br />

eu estivesse chegando) fez com que meus<br />

homens bebessem e matou todos.<br />

Mas os meus homens eram muito bem<br />

treinados, poucos ficaram no festejo, não<br />

tinham 30 deles no festejo.<br />

Enquanto todos festejavam, os traidores<br />

não comiam, nem bebiam, e foi muito fácil<br />

executar seu plano.<br />

Mas a gritaria, das mulheres e animais,<br />

chamou atenção dos meus homens que<br />

lutaram, tentando proteger minha família. Mas<br />

ainda assim ele conseguiu fugir.<br />

Meu irmão matou meus funcionários,<br />

especialmente o que deixei de olho nele, e<br />

40


levou embora minha mulher para outro vilarejo,<br />

sem ouro nenhum.<br />

Só que ele era pobre, vivia dos meus<br />

bens, não tinha nada.<br />

Só que eu cheguei antes do que eles<br />

esperavam.<br />

Às vezes eu fazia isto para que nunca<br />

estivessem seguros de que eu dormia no<br />

ponto.<br />

Cheguei no dia seguinte, e eles me<br />

esperavam pelo menos 10 dias pra frente.<br />

Foi tempo de eu chegar, trocar de<br />

animal, reunir os homens, e ir para o vilarejo<br />

aonde ele tinha ido.<br />

Meus homens haviam seguido os rastros<br />

pra descobrir onde eles estavam escondidos.<br />

Nós fomos para o vilarejo, eu esperei<br />

anoitecer, fiz um plano muito bem feito, o<br />

número de homens que eu levei era seis vezes<br />

maior que o que tinha no vilarejo.<br />

41


óleo.<br />

Eu levei seis carroças com armamento e<br />

Eu fiz uma estratégia aonde, 1/3 dos<br />

homens eu mandei cercar a aldeia, por que se<br />

alguém escapasse eles estariam lá para pegar.<br />

Eu mandei cavar um fosso pra servir de<br />

armadilha, ao redor do vilarejo.<br />

Tudo muito silencioso.<br />

Nós esperamos dar meia noite para ter<br />

certeza que estavam todos bêbados e<br />

dormindo.<br />

A comemoração era desmedida pois,<br />

jamais imaginariam que eu estava de volta e há<br />

poucos metros deles.<br />

Invadimos a aldeia, também em circulo,<br />

e minha ordem era matar todos e quando<br />

encontrar ele e a mulher me chame.<br />

Depois de muito conflito, meus homens<br />

me chamaram para me mostrar onde estavam<br />

escondidos. Na cabana que eles estavam tinha<br />

47 pessoas, além de minha mulher e ele.<br />

42


Eu entrei primeiro, olhei nos olhos deles,<br />

mandei amarrar cada um dos 49 traidores num<br />

pedaço de pau, juntei todos e ateei fogo.<br />

Transformando toda aldeia numa grande<br />

fogueira.<br />

Saí decom muita raiva e dor.<br />

A mulher que eu amava havia se ido para<br />

sempre.<br />

43


A notícia do ocorrido alastrou-se<br />

rapidamente, a todos os vilarejos, e em pouco<br />

tempo, e eu recebi muita ameaça.<br />

Depois da matança, eu mandei chamar a<br />

família toda dela, à minha presença (eles ainda<br />

não sabiam do ocorrido) e eu contei com os<br />

menores detalhes o que aconteceu.<br />

A tristeza foi muito grande, assim como<br />

foi para mim, mas eu ainda não sei se foi por<br />

conveniência ou por obediência, eles<br />

permaneceram do meu lado, ate minha morte.<br />

Meu povo sofreu muitas baixas, saiam<br />

para caçar e não voltavam. Todos mortos<br />

espreitados.<br />

Meu filho mais velho foi encontrado<br />

amarrado numa arvore, com os pés pra cima,<br />

sem pele no corpo inteiro.<br />

Foi torturado e deixado para morrer e<br />

depois servir de alimento para os animais<br />

famintos.<br />

44


Você quando é poderoso, tem muitos<br />

inimigos, e depois deste feito, os inimigos<br />

cresceram mais ainda.<br />

E eu sempre me protegendo, sempre<br />

andando cercado.<br />

A aldeia foi crescendo e foram<br />

aparecendo novos comércios. De bebida, de<br />

grãos, de pós, temperos, pequenos animais,<br />

alguns animais selvagens (pequenos felinos,<br />

hienas, este tipo de animal era muito comum<br />

para mostrar poder, em negociações ficavam<br />

jogando alimento, para os animais para<br />

demonstração de poder) de carnes.<br />

Um dia, eu conheci uma fêmea, que veio<br />

de uma terra distante junto com a família. Pedir<br />

morada e trabalho.<br />

Eu me engracei com a mulher. Está foi<br />

minha ruína.<br />

Depois que esta família chegou, depois<br />

de passar pelo capataz, eu fui informado que<br />

uma mulher que embora maltratada pela vida,<br />

talvez pudesse me interessar.<br />

45


Comparando as mulheres, a outra era<br />

elegante, apesar de não ser rica, era muito<br />

elegante, e toda mulher elegante onde passa<br />

nunca faz muito estardalhaço, porque ela sabe<br />

o lugar dela e os outros também sabem seu<br />

lugar.<br />

Essa mulher nova, era uma mulher que<br />

quando eu olhei a primeira vez, notei que a<br />

força da vida saia por ela, era uma mulher que<br />

todos gostavam da presença dela, mas<br />

ninguém queria bulir nela.<br />

É como se ela fizesse bem para todo<br />

mundo, era uma mulher que sempre tinha uma<br />

flor presa no cabelo, sempre estava sorrindo, a<br />

risada dela se ouvia de longe, e foi assim que<br />

eu me encantei, ela não era tão formosa<br />

quanto à outra, mas a formosura vinha de<br />

dentro.<br />

A família ainda não tinha sua cabana,<br />

nem um ano tinha se passado de quando eles<br />

pediram abrigo e emprego, foi quando eu<br />

resolvi ter ela pra mim.<br />

46


O custo foi mais baixo, porque eu dei um<br />

pedaço de terra pequeno pra família, pai, mãe<br />

e irmãos pequenos, eu dei um casal de cavalos<br />

pra família e dei um cabrito e cinco cabras.<br />

Eu dei porque eu sou justo, porque eu<br />

não precisava dar nada. Se eu só tirasse de<br />

onde estava já estaria bom.<br />

Eu levei-a pra minhas terras, e como pra<br />

outra, ela foi apresentada, ganhou os mesmo<br />

presentes, e foi considerada rainha, e neste<br />

tempo todo, muita vestimenta foi feita pra ela,<br />

muitos adornos eram forjados, jóias para o<br />

cabelo, braceletes. (ela ate brilhava de tantas<br />

pedras preciosas, diamantes, rubis,<br />

esmeraldas).<br />

Existiam funcionários só para fazer jóias<br />

para a rainha.<br />

Eu comecei, a sair sozinho com a mulher<br />

para passeios, e viagens, e numa noite,<br />

dormindo na mata, no meio de uma viagem, eu<br />

fui surpreendido por uns 10 machos e quando<br />

eu acordei estava com o obé (faca) no meu<br />

47


pescoço, e minha mulher sangrando na barriga<br />

com a barrigada caindo, morrendo e me<br />

olhando, quando ela morreu, eles passaram a<br />

faca no meu pescoço bem devagar, para eu<br />

sentir tudo.<br />

Demora uns 3 minutos enquanto o<br />

sangue se esvai e finalmente se morre.<br />

Eles foram embora e nos largaram lá.<br />

Alguns dias se passaram, de 2 a 3, e<br />

meus homens encontraram-nos mortos<br />

assassinados.<br />

Nos colocaram em uma carroça e<br />

levaram os corpos para minhas terras.<br />

Nossos corpos foram preparados com<br />

muito cuidado.<br />

48


Fomos muito bem vestidos.<br />

Eles construíram as caixas de madeira,<br />

cavaram e me enterraram nas minhas terras, e<br />

a mulher nas terras dela.<br />

Minha morte aconteceu em 696. (esta<br />

data é aproximada).<br />

Nota: Cabe informar que fora perguntado ao<br />

Exu se em algum momento ele perguntara à<br />

Kiusa se ela era inocente. Se havia fugido ou<br />

sido sequestrada. Tal pergunta não aconteceu.<br />

49


Capítulo Dois - O Suplício<br />

50


Alguns anos se passaram, por voltar de<br />

12 anos, foi quando eu abri os olhos e não vi<br />

nada, e senti as madeiras fechadas em cima de<br />

mim, o ar não existia, eu achava que conseguia<br />

gritar, mas estava todo cortado, os<br />

pensamentos vinham e eu não entendia o que<br />

estava acontecendo.<br />

O ser humano normal, o que não tira a<br />

vida de outro. No momento que abrir os olhos,<br />

vai estar em outro lugar, já estará sendo<br />

auxiliado, para entender o que esta<br />

acontecendo.<br />

O tempo foi se passando, e a dor que eu<br />

tinha no corpo era muito grande, eu sentia as<br />

mordidas dos animais me comendo. Ratos,<br />

insetos, e cobras.<br />

Eu xingava, eu esbravejava, eu<br />

repudiava o criador o quanto eu podia.<br />

O ódio era tamanho que eu jamais<br />

poderia perdoar o criador pelo que eu sentia.<br />

51


Um dia eu escutei duas vozes me<br />

propondo um trato.<br />

Fiquei muito assustado pois, os únicos<br />

barulhos que eu escutava era dos animais<br />

roendo meu corpo ou a madeira da caixa.<br />

Eu não conseguia entender direito no<br />

início.<br />

As vozes me pareciam vozes de fêmea,<br />

mas eram vozes que eu não conhecia.<br />

Faziam-me propostas que eu ficava<br />

amedrontado e arrepiado.<br />

No início achei que eu estava delirando<br />

ou sonhando.<br />

Quando eu percebi que só podia ser uma<br />

proposta do demônio.<br />

Como o demônio tem várias caras e<br />

vozes, só podia ser eu pensei.<br />

Eu esbravejei, excomunguei e fui<br />

ameaçado. Se eu não aceitasse, o pior me<br />

aconteceria ali mesmo.<br />

52


Continuei achando que era delírio por<br />

estar só há muito tempo e que eu estava<br />

ficando louco.<br />

Eu mantive, a minha decisão e continuei<br />

xingando, esbravejando e negando qualquer<br />

aceitação da proposta.<br />

Mas a dúvida permanecia.<br />

Quando eu cansei de esbravejar, eu ouvi<br />

dois barulhos perto dos pés da madeira se<br />

quebrando, foi quando as duas vozes vieram<br />

falar no meu ouvido.<br />

Já que eu não iria aceitar a proposta, a<br />

tortura começaria ali.<br />

53


O que entrou no caixão foram duas<br />

cobras, e elas falaram para eu me preparar<br />

para a dor de não ter aceitado a proposta, ela<br />

começaram a me morder, e comer tudo o que<br />

sobrara da carne podre que ainda tinha.<br />

A dor era indescritível, a sensação de<br />

pânico, de não poder lutar, se defender e de<br />

não saber quando iria acabar, era infinita.<br />

Ate que eu desmaiei de dor, quando eu<br />

retomei a consciência, elas já tinham ido.<br />

O meu corpo passou por um período<br />

rígido, eu não conseguia me mover, de tanto<br />

veneno que fora depositado.<br />

54


Passaram alguns dias, uma das vozes<br />

voltou, dizendo que eu fui imobilizado, e a<br />

única coisa que não tinha sido imobilizada era a<br />

fala, para que a hora que eu sucumbisse eu<br />

pudesse aceitar a proposta.<br />

E foi embora.<br />

Como o buraco estava aberto chovia e a<br />

terra entrava, os animais entravam e todos se<br />

banqueteavam do meu corpo.<br />

55


Já tinha se passado, quando eu atinei,<br />

dois anos neste sofrimento.<br />

Calado sem acreditar, xingando o criador.<br />

A dor persistia só que eu já não tinha<br />

mais nenhuma carne, só osso, mas era como<br />

se meu corpo estivesse intacto, eu o sentia<br />

assim.<br />

Foi quando eu tomei a decisão, de que,<br />

se era pra ficar uma eternidade trancafiado,<br />

que eu ficasse uma eternidade, fora dali.<br />

O curioso é que quando eu tomei a<br />

decisão, eu não precisei falar.<br />

56


Nota.: Que fique claro para o conhecimento do<br />

homem da terra, a madeira é absorvida pela<br />

terra, os vermes contido dentro do corpo,<br />

inerte, digere tudo, junto com a umidade da<br />

terra, e entra em decomposição muito rápida, e<br />

a madeira usada na minha época, era como<br />

uma caixa de frutas no dia de hoje, e também<br />

os sete palmos não eram respeitados, o normal<br />

eram 4 palmos no máximo, então quando o<br />

exú citou anos de suplicio no caixão, na<br />

verdade, sua alma estava encantada, pra sentir<br />

a penitência do vale da morte, que cada ser<br />

humano que merece tem a sua.<br />

Quero que fique claro: eu já estava no<br />

vale da morte ou dos suicidas que acaba sendo<br />

mesmo lugar e que meu sofrimento era<br />

completamente esperado pelo outro lado,<br />

principalmente pelo criador.<br />

Tudo o que eu estava passando fazia<br />

parte da minha penitencia por ter tirado tantas<br />

vidas.<br />

Havia outros sofredores como eu mas,<br />

ninguém se vê eu se encontra neste lugar.<br />

57


Capítulo Três - O Aprendizado<br />

58


Quando eu pensei na decisão as duas<br />

apareceram, olharam para mim, e é como se<br />

eu tivesse dormido novamente, ou como se eu<br />

tivesse piscado, quando abri os olhos eu estava<br />

em uma masmorra preso nos grilhões, pés,<br />

mãos e pescoço acorrentados.<br />

Quase não tinha luz, mas com o tempo a<br />

visão acostumou e eu conseguia ver tudo em<br />

volta.<br />

Que fique claro de novo, este novo lugar<br />

eram as profundezas do inferno, pois eu<br />

aceitara o trato e minha arma fora trocada com<br />

algum poderoso de lá.<br />

59


Era uma espécie de gruta onde tinha<br />

mais uns 200 animais como eu na mesma<br />

situação.<br />

Só que desta vez eu ouvia todos mas,<br />

ver era difícil.<br />

Eu estava como se eu tivesse 30 dias de<br />

morto, meu corpo estava em processo de<br />

apodrecimento.<br />

O chão deste lugar era cheio de canais,<br />

pequenos canais, e esses canais, eram uma<br />

mistura de sangue com vinagre, urina, fezes, e<br />

também o cheiro dos grilhões enferrujados, é<br />

um odor que vocês encarnados jamais irão<br />

sentir.<br />

Depois de passado este momento onde<br />

consegui me acostumar com tudo em volta,<br />

consegui identificar os cheiros, ai eu lembrei,<br />

de tudo, e fiquei mais revoltado porque aceitei<br />

o trato e fui acorrentado mesmo assim.<br />

Como eu podia estar preso? Eu aceitara a<br />

proposta. Por quanto tempo eu estaria preso?<br />

Quem me explicaria onde eu estava?<br />

60


Durante sete dias eu via o que hoje eu<br />

sei que é exu, mas pra mim, eram demônios<br />

encapados e com capuz, levando travessas de<br />

liquido, e servindo a todos que estavam nos<br />

grilhões.<br />

Eu fui o único que não fui servido.<br />

Porque eu estava revoltado, eu gritava,<br />

eu xingava, e insultava o tempo todo,<br />

sem parar.<br />

61


Até que quando deve ter se passado 60<br />

dias, um desses demônios, estava lá longe me<br />

olhando e eu xingando e insultando, ele parou ,<br />

virou e olhou para mim, eu só vi duas bolas de<br />

fogo me olhando.<br />

Se você pensa que eu me amedrontei, se<br />

engana.<br />

Eu xinguei e insultei mais ainda, porque eu não<br />

aguentava mais aquela situação.<br />

Ele caminhou na minha direção, com a<br />

capa fechada, parou perto de mim e não disse<br />

uma palavra, mas a capa se abriu, ele tinha<br />

uma bucha na mão, era preta, esverdeada, e<br />

cheirava muito forte.<br />

Ele olhou para mim, e enfiou a bucha na<br />

minha boca, como se tivesse me dando água.<br />

62


Mas era vinagre.<br />

Quando eu engasguei, ele tirou da minha<br />

boca, e aquilo parecia que se enchia sozinho.<br />

Ele espremeu aquela bucha com vinagre<br />

no meu corpo inteiro.<br />

Esse tratamento, vamos entender como<br />

tratamento, acontecia varias vezes por dia, o<br />

tempo todo, eu xingava, eu insultava, e as<br />

vezes vinham dois ou três demônios, para me<br />

dar o banho de vinagre. Nunca me foi trazido,<br />

nem água, nem alimento.<br />

63


Eu calculo que eu fiquei, nesta briga com<br />

os demônios, por uns 10 anos. Sempre na<br />

mesma posição.<br />

Um dia, eu comecei a perceber que<br />

alguns dos que estavam comigo, foram indo<br />

embora, eu não sabia por que. Então resolvi<br />

deixar de achar que ainda era dono de alguma<br />

coisa ou de alguém e que estava na hora de<br />

ser inteligente.<br />

Porque neste tempo todo alem de ser<br />

torturado com este liquido, eu era açoitado.<br />

Quando eu estava melhorando eu era<br />

açoitado novamente e era colocado o liquido<br />

(vinagre).<br />

Esses 10 anos, pareceram uma<br />

eternidade, porque os berros de todos nunca<br />

cessavam, então eu resolvi ser mais inteligente<br />

que todos.<br />

Eu decidi que faria qualquer coisa, que<br />

eu seria um demônio daqueles, mas pelo<br />

menos estaria solto.<br />

64


A partir do momento que eu decidi,<br />

apareceram três demônios na minha frente.<br />

O do meio abriu a capa e tirou uma<br />

bucha, só que esta bucha era clara, ele a<br />

colocou na minha boca, e eu acostumado com<br />

o gosto ruim, relutei no começo mas, então eu<br />

percebi que era água.<br />

Eu tomei tudo que me foi dado e<br />

agradeci com um movimento de cabeça.<br />

A partir deste momento eu continuei a<br />

ser testado, por pelo menos três vezes ao dia,<br />

um dos demônios vinham e espremia vinagre<br />

65


nas minhas feridas, e eu não gritei nem xinguei<br />

mais.<br />

A vontade era enorme mas, finalmente<br />

estava falando mais alto a inteligência.<br />

Eu apenas olhava para ele e baixava<br />

minha cabeça em comprimento.<br />

Eu calculo que mais meio ano se passou<br />

desse jeito.<br />

É muito difícil falar do tempo com<br />

certeza.<br />

O teste acontecia o tempo todo, não é<br />

porque eu resolvi ser bonzinho que o demônio<br />

acreditou.<br />

Ele me testou e testou e testou.<br />

Ate que um dia outra idéia eu tive, e<br />

quando um dos demônios estava passando.<br />

Eu o chamei com a educação e<br />

inteligência que eu tinha e fiz uma proposta<br />

para ele.<br />

66


Eu propus fazer o trabalho dele, e que<br />

ele ficasse no descanso, ele abria a capa, e<br />

espremeu mais vinagre em mim.<br />

Mais uns 10 dias se passaram e o mesmo<br />

demônio veio, para me jogar o vinagre, e água,<br />

e desta vez ele passou água nas minhas<br />

feridas, e foi quando eu soube que ele tinha<br />

aceitado minha proposta.<br />

A bondade não existe naquele lugar,<br />

educação muito menos.<br />

67


Depois que ele jogou água nas feridas,<br />

ele jogou nos olhos, eu fechei os olhos e<br />

quando abri os olhos eu estava em outra<br />

caverna, que não cheirava mal, esta era muito<br />

mais quente que a outra, e cheia dos demônios<br />

encapados, tantos que eu não conseguia nem<br />

contar, pareciam morcego em caverna, quando<br />

eu me dei conta eu já estava encapado<br />

também.<br />

O mais curioso, é que não se passou<br />

muito tempo e numa parte alta da caverna,<br />

como um platô, veio um demônio encapado,<br />

segurando um tridente, e o mais curioso é que<br />

ele falava com todos sem mexer a boca.<br />

Eu percebi que no meio de todos, tinham<br />

alguns chefes ou mandantes e o resto eram<br />

todos funcionários.<br />

Esse demônio que me libertou era um<br />

dos chefes, eu passei a trabalhar para ele por<br />

muitos e muitos anos.<br />

Aonde eu recebia os recém-chegados,<br />

onde eu torturava quem tinha que torturar,<br />

68


onde eu limpava o que tinha que ser limpo, até<br />

que um dia quando eu estava torturando um<br />

pobre coitado, recém-chegado como eu fui.<br />

Neste momento tudo voltou em minha<br />

cabeça mas, percebi que eram apenas<br />

lembranças do começo do meu aprendizado de<br />

como sobreviver nas profundezas do inferno.<br />

Eu tive uma idéia... E pensei... O que<br />

tenho que fazer para ser chefe?<br />

Se existe chefes eles fizeram por<br />

merecer.<br />

Como eles aprenderam? Quem ensinou?<br />

Tudo isto teria que ser descoberto e que<br />

levasse o tempo que for.<br />

Neste tempo todo eu fui fazendo<br />

amizade, e conhecendo todos os demônios.<br />

69


Fui aprendendo o que tinha que fazer<br />

para mandar.<br />

Eu não tive pudor nenhum em fazer<br />

qualquer coisa pra chegar a mandante.<br />

O que era mandado eu fazia e ganhava<br />

alguma confiança.<br />

As torturas eram as mais diversas que<br />

tinham.<br />

Ate separar partes de esqueletos inteiros,<br />

deixava cada parte num grilhão, por muito<br />

70


tempo, o necessário era reproduzir a dor, de<br />

como se estivesse encarnado.<br />

O tempo foi passando ate que um dia, eu<br />

fui chamado para outra caverna, aonde tinha<br />

outro superior.<br />

Este superior estava sentado num trono<br />

feito de osso de ser humano, com vários<br />

crânios em volta, e ele segurava um tridente,<br />

com três caveiras espetadas em cima.<br />

Eu fiquei parado olhando ate que ele<br />

mandou me chamar.<br />

Eu já havia até aprendido à forma de<br />

cumprimentar no inferno. Que é se ajoelhar,<br />

baixar a cabeça e colocar a mão fechada no<br />

peito, eu me abaixei, saudei o diabo, e ele me<br />

deu um novo posto de comando, a partir deste<br />

dia eu tinha acesso, a lugares que os outros<br />

não tinham, e em pouco tempo eu me tornei<br />

braço direito deste diabo.<br />

Como eu tinha livre caminhar para<br />

qualquer lugar, eu não perdia tempo, eu<br />

aprendia tudo que eu podia, do céu, inferno,<br />

71


dos encarnados e desencarnados, eu encontrei<br />

algo parecido com uma biblioteca, eram<br />

pergaminhos, da escrita do inferno, mas com<br />

toda verdade que podia existir. Aquilo era a<br />

escrita verdadeira.<br />

Quando eu falo escrita verdadeira, o que<br />

foi escrito tinha um propósito, um livro de<br />

72


como foi criado à doença e a cura, o ódio e o<br />

amor, etc.<br />

Eu li todos os escritos que existiam<br />

referentes à criação, ao ser humano, referentes<br />

à personalidade do ser humano, as guerras, as<br />

curas e a família.<br />

Uma coisa que me chamou muita<br />

atenção, quando eu descobri este lugar, é que<br />

existia a evolução, eu percebi que existiam<br />

alguns demônios sempre escrevendo.<br />

Que eram uns demônios que já faziam<br />

parte da luz, que eram funcionários de algum<br />

EXU evoluído, portanto, nessa sala de<br />

informação, eu percebi que era dividido, ou<br />

separado por épocas, então eu comecei pela<br />

escrita original e fui lendo sobre a evolução, e<br />

fui vendo coisas que eu não tinha visto<br />

modernidades que eu não conseguia entender.<br />

A minha sede de aprender era tão<br />

grande, que eu fazia meu dever, e estava<br />

sempre aprendendo e lendo, com isso eu fui<br />

73


evoluindo na hierarquia, até chegar um dia que<br />

meu protetor, já não fazia mais nada.<br />

Foi quando um dia, eu tive outra idéia de<br />

conversar com ele, e perguntar o que ele<br />

queria fazer, ou o que queria que eu fizesse,<br />

uma vez que eu já era tão poderoso.<br />

Este dia ele parou, olhou pra mim e<br />

pediu pra vir com ele.<br />

Foi neste dia que eu conheci o inferno, e<br />

este dia eu nunca vou esquecer.<br />

74


Ele me tirou das profundezas e nós<br />

saímos para terra aberta, onde eu vi toda a<br />

fornalha pegando fogo, onde eu vi cada castelo<br />

de EXU, onde ele me mostrou o que um EXU<br />

poderoso que eu já era, onde eu podia pisar e<br />

o que poderia fazer.<br />

Depois que me foi apresentado à parte<br />

boa do inferno, eu tracei meu objetivo, de onde<br />

eu queria chegar.<br />

Quando eu tracei o plano, eu cheguei pro<br />

meu protetor, que nesta época era meu grande<br />

amigo, quando ele me apresentou o inferno ele<br />

me deu minha carta de alforria.<br />

Neste dia, ele, de chefe virou meu<br />

grande amigo. Que agora eu falo com toda<br />

honra que era EXU Capa Preta, toda honra e<br />

agradecimentos.<br />

75


Quando eu contei a ele meu plano ele<br />

disse, que eu tinha total condição, e permissão<br />

pra chegar aonde eu quisesse porque eu era<br />

dono de mim, e ainda iria ter uma ultima<br />

surpresa, e alegria como EXU, e que não<br />

demoraria muito.<br />

O tempo continuou passando e eu fui<br />

criando meus exércitos, diferente do que vocês<br />

imaginam quando falam exércitos, vocês<br />

pensam em 500, ou 1000 homens, os exércitos<br />

de EXU, é um numero que vocês não<br />

conseguem calcular, fazendo uma comparação<br />

bem simples, você imagine um formigueiro<br />

crescendo. Um exército de exu é como vários<br />

76


formigueiros, porque cada formigueiro é um<br />

funcionário graduado meu.<br />

Até que eu consegui atingir um numero<br />

tal de funcionários, que eu passei a ser<br />

chamado de general de guerra.<br />

Com isso, vieram meus castelos e as<br />

moradas de todos meus EXUS.<br />

Quando eu atingi a quantidade de<br />

funcionários e moradia necessária, pra um EXU,<br />

da minha categoria, e quando eu digo isso, eu<br />

não era poderoso porque eu me tornei um<br />

general de guerra, ou porque eu tinha uma<br />

falange sem fim, tudo o que eu conquistei, eu<br />

conquistei sem saber qual era o fim, porque<br />

meu amigo tinha me dito que a grande alegria<br />

ainda estava por vir, e eu não sabia o que era.<br />

Todos os meus funcionários, desde o<br />

mais ralé ate os capitães foram destaque,<br />

porque a minha linha de trabalho foi à<br />

doutrina, do bem maior.<br />

Os meus funcionários pegavam os EXUS,<br />

recém-chegados como eu fui, e fazia uma coisa<br />

77


diferente do que os demônios fizeram comigo,<br />

porque eu tinha agora as minhas profundezas<br />

do inferno, eu tinha minhas catacumbas, eu<br />

tinha meus grilhões. Portanto ninguém<br />

mandava no meu trabalho.<br />

Qual era o meu trabalho? Era o bem<br />

maior, era fazer com que, os EXUS que<br />

chegavam se tornassem funcionários cada vez<br />

mais rápidos.<br />

Portanto, eu criei um método de<br />

trabalho, aonde qualquer funcionário meu,<br />

pegava os EXUS recém-chegados, e ao invés de<br />

maltratar o tempo todo, ensinava como tinha<br />

que ser para sair dos grilhões mais rápidos. E<br />

com isso eu cresci.<br />

Ganhavam cada vez mais funcionários,<br />

aumentava o meu mando e ganhava meus<br />

pontos.<br />

Quando, eu já era um EXU rico, com<br />

funcionários e propriedades, o meu amigo,<br />

pediu uma convocação para uma conversa, e<br />

78


eu pedi que ele escolhesse qual castelo ele<br />

queria a conversa.<br />

E foi quando ele me trouxe a revelação,<br />

e foi quando ele disse que seria a última boa<br />

notícia, que ele havia prometido.<br />

79


Capítulo Quatro - O BEM<br />

80


Nesta conversa, ele me contou que<br />

chegara a hora, de ser me passada a<br />

concessão.<br />

Foi quando eu recebi a grande honra de<br />

poder me encontrar com a luz.<br />

Quando ele me contou, que eu tinha a<br />

concessão para encontrar a luz, neste<br />

momento eu me senti uma criança ignorante.<br />

Porque por todo o tempo que eu tinha<br />

passado no inferno, eu sequer tinha ouvido<br />

falar da luz.<br />

81


Nunca ia poder imaginar que existia<br />

alguma condição de tal encontro.<br />

Para mim a luz havia se ido e a escuridão<br />

mandava em tudo e todos.<br />

Foi quando ele me explicou que existem,<br />

alguns pontos no inferno, que nós temos a<br />

permissão de se encontrar com a luz, quando<br />

nos é solicitado.<br />

E, que esta concessão, era dada pelo<br />

criador.<br />

Neste momento eu só ouvia, não<br />

conseguia falar nada.<br />

Porque eu jamais pude pensar que um<br />

cão ruim como eu, encarnado e desencarnado,<br />

no começo da minha escalada, eu maltratei<br />

muito EXU, porque era o que eu havia<br />

aprendido, e eu só quis fazer com eles o que<br />

fizeram comigo.<br />

Ai eu recebo uma informação que eu fui<br />

agraciado com a permissão de me encontrar<br />

com a luz, que eu nem me lembrava mais que<br />

82


o bem existia, fazia tanto tempo que eu estava<br />

lá que eu não sabia que existia.<br />

Então meu amigo me explicou que eu iria<br />

trabalhar, junto com a luz em diversas<br />

situações, quando a luz me chamasse, poderia<br />

ser, pra uma troca, um resgate de alma do<br />

inferno, e que se eu aceitasse a proposta da<br />

luz, eu começaria a ganhar meus pontos com o<br />

criador.<br />

Foi neste momento que eu emiti a<br />

primeira palavra, e foi nesta hora que eu me<br />

lembrei de tudo o que aconteceu comigo,<br />

desde que eu nasci.<br />

83


Ai foi que eu perguntei a ele... Quer dizer<br />

que se eu juntar os pontos necessários, eu vou<br />

ser perdoado?<br />

Com tanto tempo passado, eu já nem<br />

lembrava de porque estava lá, eu só lembrava<br />

que eu era o EXU poderoso, o general de<br />

guerra.<br />

Foi quando meu amigo me disse que este<br />

pensamento, era o pensamento que todo EXU<br />

tinha quando recebia esta concessão.<br />

Mas que junto com a concessão vinha<br />

outra concessão, e que esta era o grande<br />

desafio de todo exu.<br />

Revelando, eu poderia tomar o corpo de<br />

um médium, e que a partir do momento em<br />

que eu tomasse o corpo de um médium eu não<br />

iria querer largar mais.<br />

Meu sábio amigo.<br />

Foi permitido a 27 exús Pimenta, a<br />

tomarem médiuns, mas eu sou o original.<br />

Porque os outros 26 Pimentas da falange<br />

84


são exus ligados diretamente a Oxóssi. E<br />

em todos os médiuns que eu baixei<br />

desde minha concessão, tinham como pai<br />

de cabeça, Oxóssi. Todos. E foi pra mais<br />

de 100 médiuns.<br />

E nestes anos todos em que tomei os<br />

médiuns, muitas vezes foi escondido, porque<br />

não era permitido pro médium.<br />

Ou eu baixava com o médium dormindo,<br />

ou no meio de uma seção qualquer pra depois<br />

ser excomungado, porque eu não tinha o poder<br />

85


que eu tenho hoje, muitas vezes aconteceu o<br />

exorcismo no corpo que eu peguei.<br />

Do século passado pra cá, este é o<br />

terceiro e último corpo que eu tomo (talvez,<br />

kkkkkkkkkkkkk).<br />

Os outros 26 exus Pimenta que<br />

trabalham na terra, sempre tomam médiuns<br />

filhos de Oxóssi.<br />

A diferença é que meu filho é filho de<br />

Zazi (Xangô).<br />

86


Com o caminho em Oxóssi.<br />

Eu me encantei pela pureza dele, e pela<br />

de um abiã. (novato)<br />

E, pra provar a todos que este médium<br />

esta rezado pra ser pai de santo, mas que não<br />

vai ser, e é por isso que ele foi escolhido, pela<br />

pureza, e pela determinação de em primeiro<br />

lugar, cuidar da família dele, que foi o que eu<br />

mais preservei, quando eu era encarnado.<br />

Agora vocês, que me ouvem, vão<br />

entender, porque eu nunca quis nenhum<br />

escravo.<br />

87


Eu sou o primeiro e último exu Pimenta,<br />

o resto é minha concessão.<br />

E que todos os outros, trabalham sob a<br />

minha supervisão, mas nenhum trabalha como<br />

eu, porque os exus Pimenta que eu permito<br />

trabalhar, principalmente na umbanda, ou<br />

quase na sua totalidade, usam um fio de conta<br />

verde, misturado com preto, e algumas<br />

ferramentas de trabalho, mais uma capa,<br />

parecida com uma capa de um mago com<br />

capuz, mais alguns utilizam uma panela de<br />

ferro, onde se coloca brasa, e mais o que cada<br />

exu agrega pra fazer sua macumba, sempre<br />

sob minha supervisão.<br />

Eu rodei o mundo de vocês, para<br />

escolher os médiuns, eu sai do da terra que<br />

vocês chama de oriente, onde todos que eram<br />

médiuns, eram tratados como bruxos, e eram<br />

queimados na fogueira, e em conversas, com<br />

outros exus disseram para procurar médiuns<br />

em outras terras, eu fui pra Europa,<br />

começando pela Inglaterra, Italia, e França,<br />

onde fiquei mais tempo, e este foi o pior, os<br />

médiuns eram queimados mais rapidamente.<br />

88


Médiuns mulheres eram mais fáceis de<br />

ser encontrados, nos cabarés, com mulheres<br />

que bebiam e fumavam, baixava, e começava,<br />

a falar, balbuciar, e logo os homens pegavam e<br />

amarravam e jogavam na fogueira.<br />

Eu conversava com meus companheiros<br />

no inferno, e compartilhava as experiências, e<br />

meu amigo me falou que foi criada uma religião<br />

na terra, onde somos cultuados, e alimentados,<br />

este é um povo sofrido, mas forte de corpo e<br />

alma, ai eu fui conhecer este povo, na África.<br />

Ali eu descobri que este povo criou uma<br />

religião que vocês chamam de candomblé, e<br />

tinha uma outra religião que eu baixei em 3<br />

médiuns e não gostei, que fugia da minha<br />

educação, da minha doutrina, e era a magia<br />

negra, e que os médiuns daquela época, o<br />

equivalente de hoje de pai de santo, que<br />

faziam maldade, e os sacrifícios, inclusive<br />

sacrifícios humanos, e quando eu entendi o que<br />

se tratava, eu me retirei e segui o meu plano,<br />

que era o candomblé.<br />

89


O candomblé criou uma linguagem<br />

própria, de onde três nações nasceram, neste<br />

tempo, eu só baixava, em médiuns muito<br />

pobres, mas era quem tinha fé.<br />

Isso chegou ao século passado. Nesta<br />

terra que vocês habitam, e foi criada a<br />

macumba, chamada umbanda.<br />

Logo no começo, do século, e o povo era<br />

negro, igual na África.<br />

Neste tempo eu tomava um médium, do<br />

Oxóssi, na terra que vocês conhecem como<br />

Bahia.<br />

Embora, a umbanda, tenha nascido num<br />

lugar chamado Rio de Janeiro.<br />

Este médium faleceu na primeira guerra<br />

mundial.<br />

Quando ele estava prestes a morrer, os<br />

meus companheiros no inferno me avisaram, e<br />

eu recebi a nomeação de outro médium, no Rio<br />

de Janeiro. Eu tomei este médium por 40 anos,<br />

depois, eu fiquei alguns anos no inferno,<br />

90


aguardando, a nomeação do próximo, que é o<br />

médium que eu tomo até hoje.<br />

Quando eu soube da data de nascimento<br />

dele, me foi imposto, 16 anos, pra que eu<br />

pudesse começar a me manifestar, embora, a<br />

luz começasse a dar indícios, de que este<br />

homem, era médium nos primeiros dois anos<br />

de vida, a partir disto eu nomeei, dois<br />

funcionários pra cuidar dele, até o dia em que<br />

eu fosse incorporar ele.<br />

Quando eu tive a permissão pra baixar<br />

neste médium ele não estava preparado, e<br />

levou quase 20 anos pra ele estar preparado,<br />

mas eu tive que começar a mostrar minha<br />

presença, na forma de proteção que o ser<br />

humano precisa.<br />

91


Evitando acidentes, evitando doenças,<br />

ajudando a família, quando chegaram os 20<br />

anos que me foram dados, o médium se casou<br />

com uma fêmea, que já era da macumba, e<br />

que levou este médium à primeira mãe de<br />

santo da vida dele, embora, ele desde os 18<br />

anos na terra, ele já me sentia, e ao exu do<br />

santo Sr. Tranca Ruas das Almas, Guardião.<br />

92


O médium sabia, sem contar pra<br />

ninguém, que alguma coisa estranha acontecia<br />

com ele.<br />

Foi quando, já casado com esta fêmea,<br />

ele sentia a necessidade de ajuda espiritual,<br />

porque sem saber, ele sentia que um egum lhe<br />

acompanhava, que era uma jovem sua parente,<br />

que havia morrido há três anos.<br />

93


Foi quando ele foi introduzido na<br />

umbanda, e seu primeiro ebó eku, fora tirado.<br />

Quatro anos depois, o médium passou a<br />

frequentar um terreiro de uma mãe de santo, e<br />

lhe fora dito que deveria fazer um buri para<br />

Oxóssi, que Oxóssi estava cobrando, mais<br />

precisamente o cabloco Sultão das Matas,<br />

cobrava este buri.<br />

94


Isso aconteceu porque o médium sempre<br />

teve uma ligação muito forte com a mata,<br />

mesmo sendo das pedras, que é Zazi.<br />

E sempre sentindo a presença da lua em<br />

vossa vida, e da tempestade ou o raio que é<br />

Zazi.<br />

Quando, eu tomei o primeiro médium, e<br />

isso já tem muitos e muitos anos, eu senti<br />

novamente, todos os prazeres carnais, a<br />

bebida, o fumo, o toque no ser humano, o<br />

cheiro.<br />

No inicio era muito difícil, fazer com que<br />

o médium bebesse.<br />

Na primeira vez, que eu tomei um<br />

médium e que eu senti tudo isso, que eu não<br />

senti há muito tempo, pisar no solo, sentir o<br />

solo, tocar o ser humano, eu pensei... Pra luz<br />

eu não vou nunca mais, sabe por quê? Porque<br />

na luz as regras são outras, na luz eu teria<br />

quase que nada de contato com as coisas que<br />

eu gosto.<br />

95


Agora, se eu continuasse sendo EXU, no<br />

grau que eu já tinha atingido, veja só, eu<br />

estava trabalhando com a luz, ganhando meus<br />

pontos, e tomando quem eu quisesse, bebendo<br />

e fumando.<br />

E o próximo passo, depois da Luz, seria a<br />

reencarnação.<br />

Muito bem, passado esta experiência<br />

formidável, tinha a parte das responsabilidades<br />

também que eu fui aprendendo rapidamente.<br />

96


O trabalho com a luz é um trabalho<br />

infindável, a cada segundo de vocês da terra, a<br />

luz, esta entrando em contato com todos meus<br />

funcionários, pra pedir que minha parte seja<br />

cumprida.<br />

O que significa, parte cumprida é:<br />

Dar o socorro aos humanos quando<br />

precisam.<br />

Usando um médium, ou o corpo de um<br />

médium para tal socorro.<br />

É mandar os funcionários dar o pronto<br />

atendimento nos seres humanos que<br />

desencarnam nos acidentes fatais.<br />

É resgatar uma alma perdida, no que<br />

você chama de vale da morte, ou dos suicidas.<br />

97


Explicando melhor... O ser humano se<br />

mata (este é o pior pecado para o criador. O<br />

ser humano se matar e também matar o<br />

próximo) e que o vale do suicida se apresenta<br />

do jeito que cada um merecer, dando um<br />

exemplo, o meu foi dentro do caixão.<br />

Cada um tem o seu lugar reservado.<br />

Quando vocês pensam no vale do<br />

suicida, vocês imaginam um lugar frio, sem<br />

alimento, sem bebida, e que fica todo mundo<br />

andando, e brigando um com o outro.<br />

98


Isso que eu falei existe claro.<br />

E que este lugar é um lugar que só os<br />

EXUS da minha confiança e mais eu, pisamos<br />

pra fazer a troca quando a luz pede.<br />

E pra deixar muito bem explicado...<br />

Nenhum EXU gosta de pisar neste lugar,<br />

este lugar tem os olhos do criador em<br />

cima o tempo todo, é um lugar maldito<br />

até pra EXU.<br />

Ás vezes a luz pede o resgate de uma<br />

alma, e quando eu e meus funcionários<br />

estamos descendo para o resgate, o criador dá<br />

uma ordem e um clarão vem e leva tudo o que<br />

tiver lá, até eu... Por isso nenhum EXU gosta de<br />

pisar lá porque é o lugar de maior risco ate<br />

mesmo para mim.<br />

A troca, dessas almas condenadas, é<br />

quando eu ganho a maior quantidade de<br />

pontos.<br />

Os outros trabalhos para luz, que não<br />

seja resgate de alma no vale do suicida, são<br />

resgates de riscos, mas o mais importante é a<br />

99


negociação, porque as outras almas pedidas<br />

pela luz, geralmente estão na falange de outros<br />

EXUS.<br />

Neste momento, ou vão os meus<br />

funcionários, ou eu dependendo do EXU que é<br />

ou da alma em questão, para que aconteça a<br />

negociação.<br />

Então eu me sento com o EXU dono da<br />

alma, e pergunto o que ele quer para troca.<br />

Sempre a troca, é funcionário meu, às<br />

vezes um castelo inteiro.<br />

Com isso, com todo o trabalho que eu<br />

realizo pra luz, e já tenho pontos suficientes<br />

pra ir pra luz, há mais de 50 anos.<br />

100


Capítulo Cinco – Trabalho<br />

com Médiuns<br />

101


Com todo o conhecimento acumulado,<br />

hoje no tempo atual, este é o ultimo médium<br />

que eu tomo. Talvez... kkkkkkkkkkkkkkk<br />

O meu trabalho hoje, é voltado à limpeza<br />

do ser humano e sua cabana, abertura dos<br />

caminhos, alguns tipos de curas realizadas no<br />

próprio ser humano ou em outro que ele tenha<br />

bem querer.<br />

A cura só não vai acontecer por dois<br />

motivos,<br />

1- Se o ser humano que estiver sendo<br />

curado não tiver Fé.<br />

102


2- Se o criador não permitir.<br />

O EXU que contou a vossa historia, é um<br />

EXU que vem da linha de Oxóssi, e que é<br />

conhecido com EXU Pimenta.<br />

As características deste EXU, que se não<br />

estiver no seu ambiente de trabalho, pra ele<br />

fazer seu trabalho, um metro quadrado basta,<br />

mas é um EXU que gosta mais de aprender que<br />

ensinar, é um EXU, que fuma charuto e bebe<br />

pinga o tempo todo que estiver em terra.<br />

Conheço tudo que existe no mundo de<br />

vocês, estou sempre aprendendo com vocês e<br />

ensinando.<br />

É um EXU que vocês nunca irão ver<br />

sentado, que nunca para de caminhar, e<br />

enquanto ele caminha ele resolve o problema<br />

de todos, é um EXU, que erra porque ainda<br />

esta aprendendo.<br />

Este EXU adquiriu com este médium seu<br />

maior grau de rumbê (educação).<br />

103


Ainda tem choques, no sentido cultural, pois<br />

hoje em dia é tudo muito diferente da época<br />

em que era encarnado, e para isso conta com a<br />

ajuda de seus funcionários, que lhe contam<br />

tudo sobre o mundo atual. E mais a corrente<br />

natural, onde o que um exu aprende o outro<br />

naturalmente também sabe.<br />

Trabalha vestido com sua capa, é um EXU<br />

que não usa chapéu, sua capa possui um<br />

capuz, igual ao capuz de mago, que o utiliza<br />

quando realiza as suas curas e trabalhos, com<br />

uma vela e seu capuz vestido.<br />

104


Uso chapéu apenas nos festejos de EXU.<br />

Trata-se de um EXU alquimista. Fuma<br />

charuto qualquer e pinga qualquer, e que<br />

dentro da sua alquimia, a sua pinga tem o<br />

gosto do que precisar ter, da melhor bebida, do<br />

melhor remédio, ou do pior veneno, este sou<br />

eu pra quem quiser conhecer, sou simples.<br />

Eu vou deixar a minha melhor chave:<br />

EU SOU O CÃO QUE FAZ O CERTO DAR<br />

ERRADO E O ERRADO DAR CERTO.<br />

Pra quem acreditar em mim.<br />

Eu sou Marabô, dono de todos os grãos<br />

de areia do seu mundo.<br />

Conhecido como EXU Pimenta.<br />

105


Capítulo Seis – Entendendo<br />

o que é EXU<br />

106


Exu é o orixá da comunicação. É o<br />

guardião das aldeias, cidades, casas e do axé,<br />

das coisas que são feitas e do comportamento<br />

humano. A palavra Èsù em yorubá significa<br />

“esfera” e, na verdade, Exu é o orixá do<br />

movimento.<br />

Ele é quem deve receber as oferendas<br />

em primeiro lugar a fim de assegurar que tudo<br />

corra bem e de garantir que sua função de<br />

mensageiro entre o Orun e o Aiye, o mundo<br />

material e o mundo espiritual, seja plenamente<br />

realizada.<br />

Na África na época das colonizações, o<br />

Exu foi sincretizado erroneamente com o diabo<br />

cristão pelos colonizadores, devido ao seu estilo<br />

irreverente, brincalhão e a forma como é<br />

representado no culto africano, um falo<br />

humano ereto, simbolizando a fertilidade.<br />

Por ser provocador, indecente, astucioso<br />

e sensual, é comumente confundido com a<br />

figura de Satanás, o que é um absurdo na<br />

construção teológica yorubá (língua falada),<br />

posto que não esteja em oposição à Deus,<br />

muito menos é considerada uma personificação<br />

do mal. Mesmo porque nesta religião não<br />

existem diabos ou entidades encarregadas<br />

107


única e exclusivamente de coisas ruins como<br />

fazem as religiões cristãs. Estas pregam que<br />

tudo o que acontece de errado é culpa de um<br />

único ser que foi expulso; pelo contrário, na<br />

mitologia yoruba, bem como no candomblé,<br />

cada uma das entidades (Orixás) tem sua<br />

porção positiva e negativa assim como o<br />

próprio ser humano.<br />

De caráter irascível, ele se satisfaz em<br />

provocar disputas e calamidades àquelas<br />

pessoas que estão em falta com ele.<br />

No entanto, como tudo no universo<br />

possui de um modo geral dois lados, positivo e<br />

negativo, Exu também funciona de forma<br />

positiva quando é bem tratado. Daí ser Exu<br />

considerado o mais humano dos orixás, pois o<br />

seu caráter lembra o do ser humano que é de<br />

um modo geral muito mutante em suas ações e<br />

atitudes.<br />

Conta-se na Nigéria que Exu teria sido<br />

um dos companheiros de Oduduà (divindade<br />

primordial) quando da sua chegada a Ifé(antiga<br />

cidade Yoruba no sudoeste da Nigéria.<br />

Evidências da povoação da cidade foram<br />

encontradas e remonta a 500 aC) e chamavase<br />

Èsù Obasin. Mais tarde, tornou-se um dos<br />

108


assistentes de Orunmilá e ainda Rei de Ketu,<br />

sob o nome de Èsù Alákétú.<br />

A palavra elegbara significa “aquele que<br />

é possuidor do poder (agbará)” e está ligado à<br />

figura de Exu.<br />

Um dos cargos de Exu na Nigéria, mais<br />

precisamente em Oyó, é denominado Èsù<br />

Àkeró ou Àkesán, que significa "chefe de uma<br />

missão", pois este cargo tem como objetivo<br />

supervisionar as atividades do mercado do rei.<br />

Exu praticamente não possui ewós ou<br />

quizilas. Aceita quase tudo que lhe oferecem.<br />

Os yorubás cultuam Exu em um pedaço<br />

de pedra porosa chamada Yangi, ou fazem um<br />

montículo grotescamente modelado na forma<br />

humana com olhos, nariz e boca feita de<br />

búzios. Ou ainda representam Exu em uma<br />

estatueta enfeitada com fileiras de búzios tendo<br />

em suas mãos pequeninas cabaças onde ele,<br />

Exu, carrega diversos pós de elementais da<br />

terra usados de forma bem precisa em seus<br />

trabalhos.<br />

Exu tem a capacidade de ser o mais sutil<br />

e astuto de todos os orixás. E quando as<br />

109


pessoas estão em falta com ele, simplesmente<br />

provoca mal entendido e discussões entre elas<br />

e prepara-lhes inúmeras armadilhas. Diz um<br />

orìkì que: “Exu é capaz de carregar o óleo que<br />

comprou no mercado numa simples peneira<br />

sem que este óleo se derrame”.<br />

E assim é Exu, o orixá que faz o erro<br />

virar acerto e o acerto virar erro.<br />

Èsù Alákétú possui essa denominação<br />

quando Exu, por meio de uma artimanha,<br />

conseguiu ser o rei da região, tornando-se um<br />

dos reis de Ketu. Sendo que as comunidades<br />

dessa nação no Brasil o reverenciam também<br />

com este nome.<br />

Todos os assentamentos de Exu<br />

possuem elementos ligados às suas atividades.<br />

Atividades múltiplas que o fazem estar em<br />

todos os lugares: a terra, pó, a poeira vinda<br />

dos lugares onde ele atuará. Ali estão<br />

depositados como elemento de força diante dos<br />

pedidos.<br />

110


Brasil<br />

No Brasil, no candomblé, Exu é um dos<br />

mais importantes Orixás e sempre são os<br />

primeiros a receberem as oferendas, as<br />

cantigas, as rezas, é saudado antes de todos os<br />

Orixás, antes de qualquer cerimônia ou evento.<br />

O Exu Orixá não incorpora em ninguém para<br />

dar consultas como fazem os Exus de<br />

Umbanda, eles são assentados na entrada das<br />

casas de candomblé como guardiões, e em<br />

toda casa de candomblé tem um quarto para<br />

Exu, sempre separado dos outros Orixás, onde<br />

ficam todos os assentamentos dos exus da casa<br />

e dos filhos de santo que tenham exu<br />

assentado.<br />

É astucioso, vaidoso, culto e dono de<br />

grande sabedoria, grande conhecedor da<br />

natureza humana e dos assuntos mundanos daí<br />

a assimilação com o diabo pelos primeiros<br />

missionários que, assustados, dele fizeram o<br />

símbolo da maldade e do ódio. Porém "… nem<br />

completamente mau, nem completamente bom<br />

… ", na visão de Pierre Verger no texto de sua<br />

autoria "Iniciação" - contido no documentário<br />

"Iconografia dos Deuses Africanos no<br />

Candomblé da Bahia", Exu reage<br />

111


favoravelmente quando tratado<br />

convenientemente, identificado no jogo do<br />

merindilogun pelo odu okaran.<br />

Sacrifício para Exu.<br />

Exu recebe diversos nomes, de acordo<br />

com a função que exerce ou com suas<br />

qualidades: Elegbá ou Elegbará, Bará ou Ibará,<br />

Alaketu, Agbô, Odara, Akessan, Lalu, Ijelu<br />

(aquele que rege o nascimento e o crescimento<br />

de tudo o que existe), Ibarabo, Yangi, Baraketu<br />

(guardião das porteiras), Lonan (guardião dos<br />

caminhos), Iná (reverenciado na cerimônia do<br />

padê).<br />

A segunda-feira é o dia da semana<br />

consagrado a Exu. Suas cores são o vermelho e<br />

o preto; seu símbolo é o ogó (bastão com<br />

cabaças que representa o falo); suas contas e<br />

cores são o preto e o vermelho; as oferendas<br />

são bodes e galos, pretos de preferência, e<br />

aguardente, acompanhado de comidas feitas<br />

no azeite de dendê. Aconselha-se nunca lhe<br />

oferecer certo tipo de azeite, o Adí, por ser<br />

extraído do caroço e não da polpa do dendê e<br />

portar a violência e a cólera. Sua saudação é<br />

112


"Larôye!" que significa o bem falante e<br />

comunicador.<br />

Consiste o padê em um prato de farofa<br />

amarela, acaçá, azeite-de-dendê e um copo de<br />

água ou cachaça, que são “arriados” para Exu.<br />

Na nação de angola ou candomblé de<br />

Angola Exu recebe o nome de Aluvaiá, Pambu<br />

Njila, e Legbá, no Candomblé Jeje.<br />

Não deve ser confundido com a entidade<br />

Exu de Umbanda. Os exus de umbanda<br />

sao entidades de pessoas desencarnadas<br />

que, por motivos de evoluçao espiritual,<br />

retornaram a terra para cumprir essa<br />

missão junto aos seus seguidores. Essas<br />

entidades são confundidas com esu ou<br />

exu do Candomblé devido à proximidade<br />

que Exu tem com os homens. Entretanto,<br />

não são considerados orixás como o Exu,<br />

e sim quiumbas - conhecedores das<br />

vontades de homens e mulheres no<br />

plano terrestre, tendo vivido em épocas<br />

diferentes, porém com os mesmos<br />

problemas, desejos e sonhos.<br />

113


Arquétipos<br />

Seus filhos são sensuais, dominadores e<br />

inteligentes. Gostam da vida cercada de<br />

barulho, muitas pessoas e romances de todo<br />

tipo. Adoram festas e não se prendem a<br />

ninguém, são muito impulsivos. Mas se amam<br />

alguém, dão sua vida se for preciso, sem<br />

pensar em nada. Gostam de ajudar e trabalhar,<br />

mas podem se tornar vingativos e<br />

extremamente crueis.<br />

PRECE DE EXU<br />

Nota: Capítulo Seis – Entendendo o que é EXU<br />

Texto extraído do Wikipedia em 03/07/2012<br />

http://pt.wikipedia.org/wiki/Exu_%28orix%C3%A1%29<br />

Sou EXU, Senhor. Pai permite que assim<br />

te chame, pois, na realidade, Tu o és, como és<br />

meu criador. Formaste-me da poeira Ástrica,<br />

mas como tudo que provém de Ti, sou real e<br />

eterno.<br />

114


Permite Senhor, que eu possa servir-Te<br />

nas mais humildes e desprezíveis tarefas<br />

criadas pelos teus humanos filhos. Os homens<br />

me tratam de anjo decaído, de povo traidor, de<br />

rei das trevas, de gênio do mal e de tudo o<br />

mais em que encontram palavras para exprimir<br />

o seu desprezo por mim; no entanto, nem<br />

suspeitam que nada mais sou do que o reflexo<br />

deles mesmos. Não reclamo não me queixo<br />

porque esta é a Tua vontade.<br />

Sou escorraçado, sou condenado a<br />

habitar as profundezas escuras da terra e<br />

trafegar pelas sendas tortuosas da provação.<br />

Sou invocado pela inconsciência dos<br />

homens a prejudicar o seu semelhante. Sou<br />

usado como instrumento para aniquilar aqueles<br />

que são odiados, movido pela covardia e<br />

maldade humanas sem contudo, poder negarme<br />

ou recorrer.<br />

Pelo pensamento dos inconscientes, sou<br />

arrastado a exercer a descrença, a confusão e<br />

a ignominia, pois esta é a condição que Tu me<br />

impuseste. Não reclamo Senhor, mas fico triste<br />

por ver os teus filhos, que criaste à Tua<br />

imagem e semelhança, serem envolvidos pelo<br />

turbilhão de iniquidades que<br />

Eles mesmos criam, e eu, por Tua lei<br />

inflexível, delas tenho que participar.<br />

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No entanto, Senhor, na minha infinita pequenez<br />

e miséria, como me sinto, grande e feliz<br />

quando encontro n'algum coração, um oásis de<br />

amor e sou solicitado a ajudar na prestação de<br />

uma caridade.<br />

Aceito sem queixumes, Senhor, a lei que,<br />

na Tua infinita sabedoria e justiça, me<br />

impuseste, a de executor das consciências, mas<br />

lamento e sofro mais porque os homens até<br />

hoje, não conseguiram compreender-me.<br />

Peço-Te, Oh Pai infinito, que lhes perdoe.<br />

Peço-Te, não por mim, pois sei que<br />

tenho que completar o ciclo da minha<br />

provação, mas por eles, os teus humanos<br />

filhos.<br />

Perdoa-os, e torna-os bons, porque<br />

somente através da bondade do seu coração,<br />

poderei sentir a vibração do Teu amor e a<br />

graça do Teu perdão.<br />

Fleruty (Exu Tiriri)<br />

(Esta prece foi psicografada por A. J. Castro, da Cabana de Lázaro)<br />

Tipos de EXUS<br />

EXU PAGÃO: é aquele que não sabe distinguir o<br />

Bem do Mal, trabalha para quem pagar mais. Não é<br />

confiável, pois se pego, é castigado pelas falanges do<br />

Bem, então volta-se contra quem o mandou.<br />

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EXU BATIZADO: é todo aquele que já conhece<br />

o Bem e o Mal, praticando os dois conscientemente; são<br />

os capangueiros ou empregados das entidades, a cujo<br />

serviço evolui na prática do bem, porém conservando<br />

suas forças de cobrança.<br />

EXU COROADO: é aquele que após grande<br />

evolução como empregado das Entidades do Bem,<br />

recebem por mérito, a permissão de se apresentarem<br />

como elementos das linhas positivas, Caboclos, Pretos<br />

Velhos, Crianças, Oguns, Xangôs e até como Senhoras.<br />

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