Download do Livro Lucilia Diniz Frente & Verso

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Download do Livro Lucilia Diniz Frente & Verso

Lucilia Diniz

Frente&Verso


Lucilia Diniz

Frente & Verso


Lucilia Diniz

Frente & Verso


© Lucilia Diniz, 2004

Texto:

Lucilia Diniz

Coordenação ©Lucilia de projeto: Diniz:

Eduardo Logullo Copyright Editora CARAS S.A., São Paulo, 2004 – 1ª edição: Janeiro de 2004 - ISBN: 85-

7521-185-4 – Divisão Eventos Multimídia e Projetos Especiais - Luis Fernando Maluf (Geren-

Consultor: te), Fabio Cavicchiolli, Antonio Henrique Menendez, Andrea Liguori, Tathiana Vaz – Impressão

Francisco Guglielme e Acabamento: Jr. Brasilform Editora e Indústria Gráfica Ltda. - Todos os direitos para o Brasil

reservados à Editora CARAS S.A. – Av. Engenheiro Luís Carlos Berrini, 1253, 12º andar, -tel.:

Projeto gráfico: (11) 5508-2000, CEP 04571-011, São Paulo, SP, Brasil

Leticia Moura

Diagramação:

Douglas Watanabe

Fotos:

Vania Toledo

Scanning:

Felipe Caetano

Ilustrações:

Gustavo von Ha (página 16)

Guto Lacaz (páginas 8, 11, 46, 114, 140, 150, 160, 206, 216 e 240)

Marcelo Cipis (páginas 56, 58, 62, 82, 96, 100, 174 e 182)

Mario Cafiero (páginas 20, 50, 92, 104, 178, 186, 190, 194, 220, 224 e 244)

Revisão:

Claudio Eduardo Nogueira Ramos

TIPOLOGIA Frutiger e Matrix Script PAPEL Couche matte150g IMPRESSÃO no sistema XXX,

Gráfica XXXXXXX 1ª IMPRESSÃO janeiro 2004.


Dedico este livro ±

±àqueles que mais amo:

Manoella, pela autonomia;

Tiago, pelo companheirismo;

Giovana, pela criatividade,

e a minha Valentina pela inovação.


A vida

pode ser bem

mais leve

para quem

não oculta a

frente,

nem o

verso.


Poucos têm a oportunidade de conhecer Lucilia Diniz.

Seu carisma, pelo jeito de ser, surpreende e encobre

seus pensamentos. Irrequieta, tempestuosa, ela adota um

estilo de vida de sempre prosseguir, superando obstáculos.

Exigente e crítica, pensa de forma prática como

driblar as armadilhas que a vida traz. Com certeza, os

traços mais marcantes da sua personalidade são a perseverança

e a feminilidade. Forte e frágil, Lucilia expressa a

experiência vivida como lição aprendida para impulsionar

novas conquistas.

Neste livro, todos encontrarão situações que confirmam

suas reflexões. Não há seqüência de leitura, basta

abri-lo em qualquer página e lá estarão momentos de todos

nós. É uma obra de coragem e de auto-exposição, para ser

debatida e até contestada. Mas de grande valor existencial.

Francisco Guglielme Jr.


Sentimentos & Observações

O TEMPO – Hoje é o primeiro dia do resto de sua vida . . 17

FAMÍLIA – Pandora contemporânea . . . . . . . . . . . . . . . 21

LEMBRANÇAS – Arquivos vivos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 27

PROTEÇÃO – Pêndulo doméstico . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31

ROMPIMENTOS – Meu mundo caiu . . . . . . . . . . . . . . . . . 35

FALSO MORALISMO – Te perdôo por te trair . . . . . . . . . . . 39

ENVELHECER SEM MEDO – Viva a ampulheta . . . . . . . . . . . 43

AMIZADES – Além do horizonte . . . . . . . . . . . . . . . . . . 47

APRENDER A FICAR SÓ – No silêncio do quarto . . . . . . . . 51

VIAGENS – Terrenos minados . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 55

GAFES E TRAPALHADAS – A comédia dos erros . . . . . . . . . 59

MODA – Lances e relances . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 63

SOMATÓRIO DE ERROS – Erro ao quadrado . . . . . . . . . . . . 67

Dia & Noite

SUMÁRIO\

A PRIMEIRA VEZ – Sessão de estréia . . . . . . . . . . . . . . . . 73

A ÚLTIMA VEZ – Acabou-se o que era doce . . . . . . . . . . 76

RITUAL DAS REFEIÇÕES – Saber comer, saber viver . . . . . . 79

CUMPLICIDADE – Piscadelas de olho . . . . . . . . . . . . . . . . 83


HORA DO BANHO – Pro dia nascer feliz . . . . . . . . . . . . . . 86

VIDA DOCE – Alô, doçuras . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 89

ENCONTROS SUPERFICIAIS – Olá, muito prazer! . . . . . . . . . 93

ESPELHOS – Qual é a imagem real? . . . . . . . . . . . . . . . . 97

INVERDADES – Nunca fui santa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 101

A VERDADE – Sem alívio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 105

VULGARIDADES – Um jeito feio de estar no mundo . . . . . 108

DESAFIOS – Na mira do imaginário . . . . . . . . . . . . . . . . 111

VAMPIROS – Baixa voltagem . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 115

Dentro & Fora

USAR O OUTRO – Pista dupla . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 121

CONFIDÊNCIAS – Falar é prata, calar é ouro . . . . . . . . . . 124

BEM-ESTAR X SEXUALIDADE – De tudo, para todos . . . . . . . 127

RECONHECIMENTO – Rol da fama . . . . . . . . . . . . . . . . . . 131

EGOS INFLADOS – Infláveis & inflamáveis . . . . . . . . . . . . 134

INTUIÇÃO – Será que fiz bem? . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 137

ANSIEDADE – O dragão nosso de cada dia . . . . . . . . . . . 141

LIBERDADE – Liberdade ou independência? . . . . . . . . . . 144

PERFEIÇÃO – Perfeição pode ser imperfeita . . . . . . . . . . 147

DIPLOMACIA – Geografia humana . . . . . . . . . . . . . . . . . 151

DESVIOS – Desafinando o coro dos contentes . . . . . . . . 154

TERRITÓRIO – Áreas de proteção pessoal . . . . . . . . . . . . 157

LÍNGUAS DIFERENTES – Torre de Babel . . . . . . . . . . . . . . . 161

CAMA DE FILHO – Playground . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 164


Amores & Desamores

UM COMPANHEIRO – O companheiro mágico . . . . . . . . . 170

PRIMEIRO CASAMENTO – Cobaias e cientistas . . . . . . . . . . 175

SEGUNDO CASAMENTO – Pânico de ser gueixa . . . . . . . . 179

TERCEIRO CASAMENTO – Terceiro ato . . . . . . . . . . . . . . . 183

HOMENS SEDUTORES – Atração fatal? . . . . . . . . . . . . . . . 187

POSSE E SEDUÇÃO – As duas mosqueteiras . . . . . . . . . . 191

PIGMALIÃO – Projeto sentimental . . . . . . . . . . . . . . . . . 195

VOLTA AO PASSADO – Mil pontos de interrogação . . . . . . 198

AMANTES – O negócio é amar . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 203

ROMPIMENTOS – Dores de amores . . . . . . . . . . . . . . . . . 208

RITUAIS DE SEDUÇÃO – Jogo de damas . . . . . . . . . . . . . . 211

Verso & Reverso

DOM QUIXOTE – Nem mestre, nem aprendiz . . . . . . . . . 217

PREGUIÇA – Cadeira de balanço . . . . . . . . . . . . . . . . . . 221

LUXÚRIA – Amiga de fé, irmã, camarada . . . . . . . . . . . 225

ORGULHO – Pai herói . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 228

AVAREZA – A sete chaves . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 231

GULA – Homens das cavernas em ação . . . . . . . . . . . . 234

INVEJA – O quintal do vizinho . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 237

IRA – O leão está solto nas ruas . . . . . . . . . . . . . . . . . 241

DESCOBERTAS – Olhando pelas frestas . . . . . . . . . . . . . . 245


Sentimentos

&

Observações


O TEMPO

HOJE É O PRIMEIRO DIA

DO RESTO DE SUA VIDA

A cada vez que viramos uma página do

calendário, ou quando somamos um mês a

mais ou 30 dias a menos, ninguém se dá conta

dessa realidade aparentemente abstrata que

nos cerca: o tempo. É a partir da passagem

contínua do tempo que os ciclos se renovam, a

natureza se manifesta, os planetas permanecem

em órbita e nós, desesperados com esse

avanço ininterrupto do ponteiro, corremos

atrás de alguma coisa que possa anular o

efeito do tempo.

Anular ninguém consegue. Nem aqueles mais radicais,

que pedem em testamento para ter seus cérebros ou

corpos congelados por período indeterminado, até que a

ciência consiga ressuscitá-los. Acho isso meio macabro.

Difícil imaginar minha cabeça dentro de uma redoma, com

algum líquido estranho à volta. Será que me deixariam

ficar de óculos de sol? E com um colar básico, pelo menos?

Dá para brincar, mas o tema é assustador. Mesmo.

Prefiro nem comentar muito sobre a passagem do tempo

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em nós, míseros mortais, e focar o tema sobre realizações

inesperadas que os anos proporcionam à vida. O tempo é

soberano. O tempo aprimora, paralisa ou piora.

Prefiro sempre o melhor: o aprimoramento. Só o

tempo pode me transformar de gorda em esbelta, de

complicada em light. Apenas a passagem do calendário

seria capaz de trazer interpretações mais suaves sobre as

agruras da vida, para que não ficássemos o resto dos dias

procurando entender com quantos paus se faz uma

canoa, se São Jorge mora na Lua e porque os avós têm

cabelos brancos. Ganhamos sabedoria com o tempo, mas,

tristeza das tristezas, perdemos coisas essenciais como

viço, esbelteza, tônus e… É melhor parar por aqui, senão

começo a gritar.

Contra esses efeitos catastróficos do tempo, batalhamos

na manutenção contínua do corpo. Mas há efeitos

mais terríveis ainda: ficar com a cabeça velha, com aquele

papo de aranha e cheio de memórias nostálgicas. Devemos

celebrar o passado, mas não nos entregarmos a ele. Aliás,

já houve quem disse que passado e futuro eram as duas

grandes invenções da humanidade.

E se ninguém admite que o seu saldo de tempo

diminui dia-a-dia, só nos resta misturar um punhado de

resignação, duas colheres de loucura, 600 gramas de alegria,

dois quilos de perseverança e um litro de energia positiva

para continuarmos saltitantes ainda por longo tempo.


Decisões que iluminam o cotidiano só impulsionam a novas

e melhores conquistas. O tempo passa, mas não podemos

nos submeter à acomodação da cadeira de balanço, nem

ao fel do rancor, nem à paralisia do desânimo. O tempo

não pára e o show deve continuar.

O tempo depura, o tempo alarga, o tempo ajusta, o

tempo apaga, o tempo enobrece, o tempo desfaz. A areia

da ampulheta desce ou sobe, de acordo com a perspectiva

de quem aciona a direção. A areia do tempo pode cobrir

tudo, mas proponho ficar de plantão com uma pá e não

deixar nunca que a avalanche do esquecimento caia sobre

minha cabeça. A mesma cabeça, aliás, que jamais será

congelada para ser revivida no futuro, como um andróide.

Em matéria de congelados, prefiro os que sejam light, OK?

E vamos tratar logo de fazer com que o tempo seja nosso

sócio e não um inimigo.

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FAMÍLIA

PANDORA CONTEMPORÂNEA

Conheci certa vez uma menina, filha caçula

de um casal bondoso, trabalhador e bem-sucedido.

A menina e seus cinco irmãos moravam

em uma propriedade cercada por árvores

frondosas. Ali, o entrosamento em grupo estava

entre os valores essenciais para a harmonia

familiar. As reuniões festivas eram freqüentes,

assim como encontros com numerosos parentes,

fatos que passariam a ser marcantes na

memória da menina. Havia sinceridade, união

e alegria em meio à atmosfera de fartura, simplicidade

e amor – três pontos sempre desejados

pelo casal.

Acompanhei o crescimento dessa menina, que logo

me escolheu por confidente. Descobria, assim, que a sua

infância esteve repleta de momentos felizes, porém entremeados

de isolamento: eram muitos os compromissos de

seus pais, enquanto os irmãos viviam constantemente

atribulados com afazeres ou estudos. Desse modo, ela habituava-se

a receber a eventual atenção materna e a dividir

seus pensamentos com bonecas, aquarelas e livros de fadas.

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Com a chegada da adolescência, ela se viu confinada

à casa dos pais. Suas saídas e entradas eram controladas

segundo os princípios rígidos da moral impenetrável dos

pais, imigrantes europeus. Ela poderia ter tudo, mas não

alcançava o que ansiava: ser levada por descobertas, erros,

acertos e ímpetos de qualquer jovem. Logo perceberia que

a solução apenas ela poderia criar, se partisse de alternativas

que fossem socialmente aceitáveis. Casar, por exemplo.

Moça precoce, aos 14 anos ela inicia um romance com o

seu melhor amigo, decidida a conseguir a independência

absoluta do território familiar. Ingênua, acreditava ser essa

a grande opção. E, por certo, foi. Casada, viveu feliz por

algum tempo com o homem que escolhera.

Tempos depois, seu mundo caiu. O romance, tão aceso

no início, estava transformado em prato morno. A

menina que brincava de ser mulher pediu a separação.

Houve enorme desgosto na família, que passou a considerá-la

um problema ao cubo. Como fazer para preservar

a imagem familiar de prestígio e de ramificações empresariais

importantes? A irmã caçula apresentava a eles um

potencial explosivo e autodestrutivo. Separação homologada,

ela se viu na berlinda. Não poderia errar mais, sob

pena de receber penalidades máximas no âmbito familiar.

Mas como os corpos não são de ferro, lá se foi ela

rumo ao segundo casamento. Antes, garantiu-me ser uma

escolha mais amadurecida. O marido era empreendedor,


havia entre eles grande atração física e afinidades diversas.

Pausa. Vários anos mais tarde, depois de períodos de

esmagamento pessoal, ela estava prestes a sucumbir à

submissão imposta pelo marido, aos maus-tratos psicológicos

e ao papel de subserviência doméstica. Rompeu-se o

seu segundo casamento, com reação ainda mais dura da

família. Restou à menina que conheci, naquele período

transformada em animal acuado e indefeso, a punição

com o que foi considerado condizente ao peso da separação:

internação psiquiátrica.

Ela se submeteu, sentindo-se apagada, sem viço, sem

vigor, sem voz. Diagnóstico: tristeza. Cura: sem prazo. Suas

tentativas e erros estavam transformados em drama familiar

de grandes proporções. Os irmãos negavam apoio. Pior: os

irmãos a faziam sentir-se deformada, derrotada, aniquilada.

Sem contar que a sua opinião jamais voltaria a valer, por ela

“só ter cometido erros”. Garantiam que ela nunca acertaria

em decisão alguma. Qualquer que fosse a sua posição, essa

posição seria considerada incômoda ao grupo.

A minha amiga encurralada lembrava-me, naqueles

momentos de baixa estima, que algumas plantas do

deserto sobrevivem com apenas uma gota de água por

ano. Essa foi a metáfora que usava para me dizer que um

dia seria vitoriosa e voltaria a se sentir viva. Quisessem ou

não os seus irmãos. Ela estava certa: invejada por se manter

alerta, a perseverança seria a melhor resposta a dar.

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Excetuando-se o amor que recebia dos pais, ela sentia os

dardos do desprezo e da maldade lançados pelos outros

membros da família.

Ultrapassada aquela fase terrível, ela passou a entender

que se uma família propõe ajuda por outros ângulos,

também pode oferecer desilusão, frustração e desrespeito.

De nada adiantaria, pensava a minha sofrida amiga, o acúmulo

de trabalho e de poder se não se consegue lidar com

sentimentos humanos como a cordialidade, a fraternidade,

o amor ao próximo. Mas a garota que eu conhecera e que

se havia transfigurado em uma mulher maltratada, iniciava

então um processo de renovação mental, física e espiritual.

Como uma caixa de Pandora, ela aprendeu a lidar

com seus desejos escondidos, com suas idéias em ebulição

e com suas pequenas fadas invisíveis. Começava a sentir

algo poderoso: uma força estranha, luminosa e renovadora

a fazia encarar o mundo sem medo. Finalmente, surgia

a mulher que conseguiria olhar as feridas sem medo do

sangue, a mulher que enfrentaria traumas e a mulher

destemida que podia até gritar “danem-se todos”.

Era como se de dentro da caixa invisível de uma Pandora

moderna, aparecessem mil e uma faces de deusas,

amazonas, entidades mitológicas e espíritos delicados de

grande intensidade cósmica. Ela abriu a caixa e deixou

escapar Afrodite, Ísis, Zorya, Olulu, Maria, Juno, Diana,

Ixchel, Bona Dea, Astrea, Kupalo, Lakshmi, Maha Devi,


Yacy, Sophia, Shadai, Samana e mais uma série de pequenas

criaturas que só ela conhecia pelo nome, que só ela

sabia do poder de cada uma.

Desde então, a menina que conheci ainda habita a

alma dessa amiga, hoje uma mulher iluminada por uma

beleza que ela própria buscou, por uma fortaleza espiritual

que lhe foi dada depois do sofrimento, por uma conexão

planetária que adquiriu ao olhar as coisas simples da vida.

Minha amiga hoje é feliz. E conversa diariamente com suas

fadas protetoras, com suas mil e uma faces femininas.

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Foi um pequeno momento

Um jeito, uma coisa assim,

Era um movimento

Que aí você não pôde

mais gostar de mim direito

(Da Maior Importância, de Caetano Veloso)


LEMBRANÇAS

ARQUIVOS VIVOS

Histórias de amor às vezes podem dispensar

finais infelizes ou encerramentos aniquiladores.

Isso acontece quando os amores interrompidos

ficam como sinfonias inacabadas.

Entre os enigmas nas relações de amor existe a

estranha capacidade de se guardar na memória

alguém de quem ainda se gosta. Afinal, algo

forte não se apaga para sempre.

Tudo pode começar depois de três ou quatro encontros:

percebemos quando uma pessoa começa a nos interessar

para valer. Basta um telefonema, a mensagem deixada no

celular ou a simples menção de um encontro, a promessa

de um passeio ou a surpresa de encontros durante as caminhadas

matinais. A pele se enche de brilho, a espinha

permanece ereta, os olhos faíscam, o humor reluz. E, toque

após toque, aproximação após aproximação, o envolvimento

para tornar-se uma presença essencial.

A segunda fase tem início com o aprendizado do novo

eleito, nas suas características por determinados prazeres,

no tom da voz, nos gestos, na voz cheia de sedução, na

inteligência das observações, nas pausas, nos silêncios.

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Vamos supor que o eleito veio de longe, separado e economicamente

sem problemas, para buscar refazer a trajetória

dele em rumo ainda indefinido. De repente, parece

encontrar o que procura. Então, viva. Não há prazer igual a

estar com a pessoa certa no momento certo, com o sol

dourado detrás das árvores, a brisa suave, o champanhe no

ponto e nenhum minuto de pressa. Cena de cinema.

O indescritível continua. Mais empolgante ainda são

as rápidas separações: em dado momento, cada um vai

para a sua casa, toma banho, troca de roupa, torna-se

atraente e depois se apressa em telefonar para confirmar

a escolha do restaurante. O que mais desejar de um jantar

com vinhos, conversas dos deuses e revelações envolventes?

O que mais pedir quando há sinceridade no discurso

e nas intenções de aprimorar um encontro especial?

São etapas em que tudo ao redor se transforma na mais

magnífica das paisagens e o seu romance na meta determinante

da existência.

Na terceira etapa, essas duas pessoas já lidam com

aspectos de companheirismo. Apresentam solidez de planos,

revisões, mudanças, proposições, retomadas, definições,

reinvenções de metas. Atravessam meses de evolução

sentimental e pessoal. Tudo certo? Não. Um dia, por

obra e graça das forças inexplicáveis do destino, o ser amado

pede uma conversa séria. Nenhuma conversa que se diz

séria acaba sem deixar rastro.


Recebe-se a seguinte informação: o seu amado pretende

retornar para onde morava. Por aqui, muito amor,

mas também inadaptabilidades, saudades, vontade de rever

pessoas queridas. Argumentos terrivelmente simples.

OK, você que já pressentia tal possibilidade no começo,

pensou que isso desapareceria. E o seu coração faz crac

dentro do peito.

O baque é amortecido, contornado, disfarçado, assimilado,

deglutido, pensado e, finalmente, resolvido. Aquele

que poderia ser o enlevo de sua vida vai mesmo embora.

Você: arrasada, porém compreensiva. Ele: promessas, projetos,

garantias, declarações. Abraços e beijos no aeroporto.

O avião decola, você não derrama uma lágrima.

Durante as primeiras semanas, trocas diárias de emails,

ligações telefônicas e tudo bem. Dois meses depois,

raras mensagens. Seis meses à frente, ele a convida para visitá-lo,

para retomarem o impulso do romance e, quem sabe,

até pensar em morar por lá. Ele, animado. Você, apreensiva.

Surpresa: você decide não viajar ao encontro dele.

Nem manter contatos freqüentes. Se a decisão dele morar

longe é irrevogável, você prefere sair dessa. Mudar de

cidade, para ceder àquele chamado, seria anular-se

demais. Com infinita tristeza, você prefere sumir de cena,

mantendo a chama do que nunca fora acabado. Descobre

sozinha que é bem mais valioso manter boas lembranças

do que promessas que voam.

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PROTEÇÃO

PÉNDULO DOMÉSTICO

Dedico este texto à minha mãe Floripes, que sempre

inventava um jeito de nos proteger além da conta

Geralmente a família Diniz costuma citar

em muitas referências na imprensa a figura de

meu pai, Valentim, por ter sido ele o fundador

do nosso grupo de empresas. Eu também me

incluo entre os que vivem a citá-lo com amigos,

talvez devido à enorme consideração e à admiração

que mantenho por ele. Mas, de repente,

me dou conta de que a minha família não

deveria ser considerada um patriarcado. E a

minha mãe, Floripes, participa de qual parte

dessa história?

De origem portuguesa, ela mantém aquelas características

discretas das tradicionais mulheres européias, que,

por motivos agora já perdidos no tempo, preferiam deixar

os maridos brilharem por si, sozinhos, contanto que as

poupassem dos aspectos públicos. São mulheres que herdaram

comportamentos provenientes da dominação, e

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que embora tenham caráter forte, são discretas e se mantêm,

por vontade e tradição, em segundo plano.

Minha mãe deve ser reconhecida também por outros

valores. Enquanto meu pai se ocupava em fazer crescer

continuamente os negócios, ela agia como o pêndulo familiar.

Vinham dela a força, a perseverança, o senso de justiça,

o equilíbrio e, acima de tudo, o exercício diário de manter

a família em união.

Sua preocupação com os filhos continua exemplar.

Até hoje ela acha que precisamos comer mais, e vive a

comandar/coordenar pratos tentadores para nos seduzir

pelo estômago. Para minha mãe, vamos continuar a ser os

seus eternos meninos e meninas (ainda hoje deve ser difícil

aceitar que crescemos, saímos de casa e que ficamos

independentes). Bom, agora que também sou mãe de três

filhos, sei o quanto isso é duro. Mas fazer o quê? Regras

da vida são regras da vida.

Lembro-me de minha mãe, ainda hoje uma senhora relativamente

vaidosa e atenta ao mundo, como uma torre de

observação doméstica. Nada lhe escapava, apesar de nunca

deixar transparecer que estivesse ciente de tudo. Coisas da

contenção emocional dos europeus, talvez. Mas ela costumava

se manifestar, sim, a qualquer momento, quando se

fazia necessário defender um filho de alguma pequena

injustiça familiar ou proteger a prole de qualquer risco.

Como neste livro entro em temas inéditos na minha car-


eira profissional, decidi aproveitar para registrar meu afeto

por essa mulher que nos gerou e que sempre esteve oculta

dos holofotes da fama. Sua discrição e sua forma suave de

aceitar os contrapontos dessa família com personalidades tão

fortes fizeram dela uma lição permanente de harmonia, de

ternura, de sabedoria e de atuação pacificadora.

Então, começo a pensar que faz muito sentido aquela

frase popular que garante: Sempre existe uma mulher forte

por trás de um homem importante. Floripes Diniz está, portanto,

muito além de ser apenas uma rainha do lar.

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Ah, você está vendo

Do jeito que eu fiquei

E que tudo ficou

Uma tristeza tão grande

Nas coisas mais simples que

você tocou

A nossa casa, querido

Já estava acostumada

Guardando você

As flores na janela sorriam,

cantavam

Por causa de você

(Dolores Duran, na canção Por causa de você)


ROMPIMENTOS

MEU MUNDO CAIU

Os últimos ruídos que ouvi foram o da

chave dando voltas na porta e o carro saindo da

garagem. Depois disso, um silêncio incompreensível

e assustador se abateu pela casa. Olhei em

volta, completamente sem reação. Cada objeto

parecia reter a sua marca, o seu rastro. Meus

olhos pediam lágrimas, mas me faltavam forças

até para isso. Eu estava em estado de letargia

profunda e, ao mesmo tempo, com o pior dos

sentimentos: autocompaixão.

Na cabeça ainda ecoavam as últimas frases que trocamos.

Sim, a saída dele já estava definida entre nós. Eu

sabia que o dia D chegaria, mas durante o arrastado

processo da separação, preferi me portar como se aquilo

não fosse realidade. Fingi estar dentro de um filme, em

que o final seria, sobretudo, sorridente e feliz. Portei-me

como se ainda recebesse demonstrações de afeto – e não

o tratamento meramente educado que ele me dispensava.

Distanciado, a palavra melhor. Tratou-me assim para evitar

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qualquer ebulição súbita, qualquer atitude inesperada ou

outros princípios de discussão. E isso é o pior: quando

alguém se porta de modo calmo em situações de rompimento,

é porque a decisão já foi amadurecida, pensada e

tomada. Decisão. Uma palavra que me fazia tremer.

Mas agora lá estava eu, inerte no sofá, olhando para

o teto. Não tinha vontade de ouvir música, de falar, de

comer. Nada vezes nada. Náusea. O sol brilhava intenso lá

fora. Seria melhor que o dia estivesse cinza, chuvoso, com

intensidade dramática suficiente para combinar com o

meu estado de ânimo. Para não dizer que me faltava ação

por completo, eu sentia vontade de pegar o telefone e

ligar para o celular dele. Pedir uma revisão daquela decisão

drástica. Argumentar que fomos tão amigos e que

poderíamos pelo menos retomar tudo de forma civilizada,

tentar voltar o filme, sei lá.

Quantas vezes eu já havia repetido esse mesmo procedimento,

de ligar para ouvir apenas respostas vagas? O

resultado, no final, me deixava atônita. Pior do que se tivesse

evitado telefonar. E mais: com vergonha de ter, novamente,

disparado em busca de uma corda que se rompeu.

Sensação de gritar sozinha à beira do abismo.

Os amigos, há semanas, tentam me confortar.

Perante eles confirmo que ultrapassei o estágio de desamparo

e que começo a me sentir renovada, que bom, pronta

a rever a minha existência, disposta a corrigir inseguranças


emocionais, a fazer análise, qualquer coisa. Depois dos discursos

cheios de clichê e estereótipos, me pego ausente,

oca, com o olhar paralisado. No pensamento, uma única

missão impossível. Ele de volta.

Percebo que sofrer por rompimentos é estar a um

passo do masoquismo. Sofre-se, sente-se compaixão de si

próprio, suspira-se, inventam-se saídas, sofre-se, sofre-se e

conforma-se com o círculo contínuo de flagelação.

Descubro existir certa elegância na dor, que faz as pessoas

falarem baixo e se portarem de modo menos expansivo. A

dor nos amadurece.

Só que esses momentos de clareza acontecem como

fagulhas. Na grande parte das horas, sei que vou apenas

roer a minha obsessão de não aceitar a perda, de jamais

aceitar que alguém aperte a tecla delete na minha vida.

Isso nunca, porque fiz tudo para que a relação fluísse com

beleza, amei-o como ninguém, gastei anos ao lado dele.

Inadmissível agora ser tratada como personagem estranho.

Em que parte dessa história foram parar as cumplicidades,

as viagens, os planos, o casal considerado quase

modelo? Quando despencou o meteoro no lago? Quando

a lua deixou de furar o nosso teto para salpicar estrelas no

chão? Difícil captar o pensamento do outro. Mas estou

absolutamente certa de que ele foi imaturo, inconseqüente,

egoísta.

No estado de torpor em que permaneço, a única

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coisa que poderia me mover seria a vontade de buscar

forças, desconheço onde, para dedicar um longo tempo a

vigiar a vida dele. Nem seria difícil: conheço bem os seus

novos projetos de vida. Embora ele tenha garantido não

querer saber de casamento, considero isso apenas outra

hábil conversa para evitar cenas de mulher abandonada.

Óbvio que ele vai procurar parcerias. E depois descartá-las,

como fez comigo.

Preciso me levantar do sofá. Talvez uma caixa de

bombons me faça bem. Ou sair para a rua, mudar o corte

do cabelo, viajar para um país distante, fazer curso de italiano.

Sei que vou passar a minha vida tentando esquecer

esse rompimento. Nunca mais serei a mesma mulher. O

amor, como dizia aquela antiga canção, é o ridículo da vida.

E ele onde estará? Já se passaram duas horas e 17

minutos desde que saiu de casa. Será que ligo agora?


FALSO MORALISMO

TE PERDÔO POR TE TRAIR

Fica fácil explicar o que é falso moralismo:

é condenar algo e fazer exatamente o que condenou,

só que de forma escondida ou velada.

Aliás, para esse tema existe uma frase perfeita

do dramaturgo Nelson Rodrigues: “Se cada um

soubesse o que o outro faz na cama, ninguém

se cumprimentaria”.

Conheço, conhecemos e conheceremos batalhões

infindáveis de gente que age de modo dúbio, farsesco e

limitador. Apegam-se a detalhes ínfimos do comportamento

alheio, adoram comentar as agruras sentimentais dos

amigos, bisbilhotam a vida sexual de todos e, sobretudo,

mantêm uma máscara de padre no altar. Daqueles que

exigem punição, pedido de perdão e penitência.

Os falsos moralistas são altamente repressores e repressivos.

Detestam que os desmintam, odeiam ser rebatidos

em uma discussão e não aceitam argumentos contrários

à visão conservadora que exibem. Decotes, namoros,

demonstrações de afeto? Eles querem morrer só de

imaginar as cenas. Festas prolongadas, filhos que chegam

tarde e reuniões fora de casa? Não, o filho ou a filha deles

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são de outro meio, retrucam para negar a permissão.

Mas longe dos olhares comuns, distantes do altar que

ergueram a si próprios nas suas casas, eles aproveitam as

viagens para tomar todas, dançar todas, namorar todas e

pintar o sete do jeito que o diabo gosta. Na verdade, uma

cabeça antiga.

Existem ainda os falsos moralistas atualizados, com

layout moderno e sem denotar o tom policialesco que rege

a sua vida em grupo. Para eles, tudo pode até ser permitido.

Aos outros, apenas o dedo apontando, duro. Pessoas

assim são aquelas que vão para a happy hour e tomam

suco de laranja, embora estivessem loucas para pedir um

conhaque. Ou, quando saem com a esposa, se portam

como um controlador de vôo: inspecionam cada passo

dela, perguntam com quem estava falando, quem telefonou

no celular e coisas tão horríveis quanto.

Demonstrar ciúmes é um procedimento básico do falso

moralista, porque ele vive de consciência pesadíssima

por saber que pequenas traições, contanto que escondidas,

são com ele mesmo. Por sua vez, a esposa falsa moralista

é geralmente meio limitada, que estende toda a

repressão recebida no colégio interno para cima das filhas

moças. Mas, lá no fundo, ela adora contar piadas cabeludas

para as amigas e, de vez em quando, passa um batom

e resolve que hoje é dia de paquerar no shopping. Como

dizia o Geraldão, êta vida besta!


Falsos moralistas perigosos são os que condenam os

radicalismos políticos e agem de modo radical fora dos partidos,

ou mesmo aqueles que obrigam os filhos a ir à missa

e ficam em casa folheando Playboy. Falsos moralistas são

aqueles que fazem longos sermões para os filhos sobre os

problemas do uso de drogas e à noite fumam seu baseado

na festa dos amigos. Falsos moralistas são os padres que

condenam o homossexualismo e depois são flagrados com

adolescentes de calças arreadas. Falso moralismo é pregar

economia e gastar escondido, é ver alguém se dar mal e

falar “está vendo, não avisei?”, é defender uma vida saudável

e atacar uma bandeja de pururuca no boteco da

esquina, é ser a favor da paz universal e viver a atacar o vizinho,

é pedir perdão enquanto guarda mágoas antigas, é

mentir sabendo que está mentindo apenas para construir

uma referência forte para si próprio.

Se você é assim, consulte seu médico, porque o falso

moralismo é contagioso.

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De modo que meu espírito

Ganhe um brilho definido

Tempo, tempo, tempo, tempo

E eu espalhe benefícios

Tempo, tempo, tempo, tempo

(Oração ao tempo, de Caetano Veloso)


ENVELHECER SEM MEDO

VIVA A AMPULHETA

Somos angustiados desde a infância pela

noção da morte. O homem é o único animal a ter

esta noção. Cavalos, cães, tigres ou sapos

demonstram apenas seus instintos de sobrevivência,

não a consciência da sua finitude

enquanto seres vivos. Terrível isso? Não.

Fazer o quê? Só nos resta achar graça, muita graça.

Tudo que está no planeta integra um ciclo de começo, meio

e fim, seja rocha, material gasoso, célula, vegetal ou ameba.

Tudo começa e cumpre determinado ciclo de existência,

na lei natural em que se cede lugar à chegada de outras

criaturas, outras manifestações da Mãe Natureza.

Percebido isso, notado o que se chama inexorabilidade

da vida, ou seja, o que não tem mesmo jeito, só nos resta

viver, viver e viver. Cada segundo, cada fração de tempo.

Sem olhar muito para trás e sem querer saber o que vem

pela frente. Passado e futuro parecem ficções. O que existe

é o momento presente, aquele em que as coisas existem, em

que os atos são feitos, em que o sangue pulsa nas veias, em

que o nariz aspira oxigênio. Somos matéria. E dentro dessa

matéria está o enigma da vida, o mistério da alma.

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Bom, escrevi esse preâmbulo acima apenas para me

forçar, isso mesmo, me forçar a avaliar um assunto que

ninguém gosta de ouvir: saber envelhecer. Semanalmente

lemos reportagens que garantem métodos revolucionários

de conter a passagem do tempo no corpo

humano, além do avanço dos estudos sobre alimentação.

Para ver como o panorama é alentador, basta

lembrar que no início do século 20 a tuberculose ainda

era uma doença mortal.

Hoje podemos regenerar tecidos, alterar formas do

corpo, melhorar performances sexuais, calibrar os hormônios,

moldar a silhueta, adotar dietas rejuvenescedoras,

detectar problemas com antecedência, corrigir imperfeições,

alongar a estatura, acrescentar cabelos, extirpar

pêlos, polir a aura, renovar o espírito. Tudo parece possível,

tudo parece estar à mão e tudo nos faz acreditar que não

seremos anciãos decrépitos.

Mas e daí? O que precisamos ter sempre em mente é

que, em um belo dia, a matéria despenca. Ninguém, infelizmente,

descobriu o elixir da eterna juventude. Esse

tema é tão importante que os mitos de Narciso (autocontemplação

pela beleza) e de Fausto (a entrega da alma em

troca do não-envelhecimento) continuam presentes na

consciência coletiva da humanidade. Ninguém quer entrar

em degeneração física e atingir o fim de sua história. Eu

também não.


Então, vamos tratar de contornar o precipício desde já.

Envelhecer sem medo é possível, sim. Sempre parto da idéia

de que a minha cabeça está cada vez melhor: sem mágoas,

sem rancores, mais experiente, aberta a novidades, destemida,

jovial. O contraponto é que o invólucro da cabeça, o

tal do corpo, não acompanha esse ritmo, coitado. Então,

toda atenção a ele, o corpo. Não existe mente boa sem um

corpo são. Discordo radicalmente da possibilidade de um obeso

feliz. Creio que as pessoas até têm a capacidade de se

dizerem felizes, sem estarem nada felizes.

Envelhecer sem medo é complicado e simples ao

mesmo tempo, exatamente como acontece nas questões

elaboradas da vida. Quando o tempo avança e conseguimos

manter o corpo em bom estado de conservação,

a carga da passagem do tempo se torna bem mais leve. O

espelho deixa de assustar, as roupas não viram inimigas, a

alimentação se torna um prazer, o amor pode acontecer,

o olho continua a brilhar, os risos são constantes e o calendário

parece uma bobagem. Sem excessos, a trilha

pode ser longa.

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Quem me telefonou

Seus dramas contou

Pois se sentia sozinho

É meu amigo

É isso o que eu tenho

no mundo,

em qualquer lugar

(Quem perguntou por mim, de Milton Nascimento

e Fernando Brant)


AMIZADES

ALÉM DO HORIZONTE

Como quase todos os temas atuais, a

amizade também começa a virar mais um item

de consumo. Ter amizade hoje em dia passou a

significar enviar cartões virtuais, mandar

mensagens engraçadas pelo celular, cantar parabéns

bem alto, sair nas noites de sábado

para assistir um filme. Que pena.

Ainda acredito que amizade é algo muito mais à

frente disso tudo, além de abranger sentimentos de profundidade

incomparável. Nada se compara a uma amizade

sincera, de verdade, daquelas que se conta para ligar

até as 4 da madrugada, nem que seja para pedir alívio na

dor de cotovelo que não acaba nunca.

Acho espantoso como as pessoas agora utilizam

com freqüência a palavra amigo para gente que absolutamente

não nutrem um naco sequer de amizade.

Na grande parte das vezes, o que agora se chama amizade

é apenas, e olhe lá, uma forma de companheirismo

entre colegas de empresa, ou afinidades

entre conhecidos do mesmo bairro que saem para

shoppings e baladas.

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Amigo é um termo forte, que ressoa no peito. Quem

pode dizer que tem amigos nunca está só, nunca sente

desamparo, nunca sofre de carência afetiva crônica. Digamos

que os amigos preenchem aquele vácuo que qualquer

amor sempre deixa, mesmo durante as fases boas de

namoro e casamento. Um marido ou um namorado jamais

se equivale a um amigo, por mais que se esforce em parecer.

Uma briga de namorados pode significar trovões e relâmpagos

durante uma semana, porque nenhum dos dois toma

providências de avançar o terreno para pedir perdão. Na

amizade, um desentendimento costuma acabar em cenas

dramáticas bem exageradas, feitas para que o outro comece

logo a rir e a perceber a bobagem que estavam cometendo.

Claro, nem sempre que dois amigos brigam a coisa

acaba em bandeira branca. Mas se existir um fluxo contínuo

de afeto, a amizade se mantém viva, tenaz, gratificante,

envolvente e atraente. Amigos de verdade, aliás, não exigem

nada do outro amigo. Ou exigem? Não pedem exclusividade,

jamais reclamam se você andou sumido, não

inventam desculpas bobas para justificar faltas cometidas,

nem ligam para tomar satisfação de nada. Só sei que os

bons amigos deixam tudo fluir, flutuar, espairecer, pois

sabem que a amizade sobrevive a tremores de humores, a

chás de sumiço e até a falta de notícias.

Tenho amigos de anos a fio, verdadeiros tesouros da

vida. Costuma ocorrer que fiquemos algum tempo sem


nos ver. Quando vem o encontro, os primeiros diálogos

parecem uma continuidade da última conversa que mantivemos

há meses. Ou, quem sabe, anos antes. Sem

cobranças, sem expectativas, sem mágoas, sem rancores,

sem nada. Evitam tomar partido durante uma separação,

ou então tomam logo o seu partido, imediatamente. Só

perguntam sobre o trabalho depois de alguns minutos,

para fugir do papo-escritório. Sobre a família, esperam

primeiro você comentar algo. Namoros? Ah, isso cada

bom amigo adora dar o máximo de força, pedir detalhes,

esmiuçar quem são os pretendentes e rir das situações

acontecidas.

Os amigos são mesmo a alegria da vida. Mas, cuidado:

recuse as imitações.

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APRENDER A FICAR SÓ

NO SILÊNCIO DO QUARTO

Somos educados desde pequenos a conviver

em grupo, a resolver situações de modo coletivo,

a raciocinar segundo opiniões de consenso. OK.

O problema é que nas sociedades ocidentais,

diferentemente do que ocorre no Oriente, as

pessoas nunca são ensinadas a pensar por si, a

amadurecer opiniões e, o mais importante, a

aprender a viver só consigo próprio.

O pior é que todos, nem que seja por um momento,

acabam ficando sem ninguém. Então, logo surge o bicho da

ansiedade, que nos obriga a reagir do modo mais primário

possível: comer, falar, comer, falar. Confessar publicamente

que se está só parece um ato vergonhoso, por denotar um

raciocínio completamente errado: “Se estou só é porque

não encontro companhias, e se não encontro companhias é

porque devo ser alguém desinteressante”.

Para suprir essa ausência de alguém constantemente

ao lado (note-se que não estou falando de casamento),

vale qualquer coisa: ligar a tevê, o toca-discos, falar ao

telefone, abrir uma garrafa de vinho, comer doces e abrir

a geladeira de cinco em cinco minutos. Tudo ao mesmo

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tempo, lógico. Esse procedimento é comum, principalmente

em grandes centros urbanos, onde se convive no

trabalho com grandes quantidades de pessoas. Ao se

chegar em casa, parece faltar algo: multidão.

Engraçado é que deveríamos sentir alívio por chegar

em casa, sem ter que continuar a ouvir o rumor das ruas,

nem conviver na pressão dos aglomerados humanos. Mas

qual o quê. Mal se chega da rua e logo se inicia um ritual

de suprir o suposto vazio. Isso também vale para quem

mora com alguém: a aceleração é a mesma. Nunca se

está satisfeito, nunca se relaxa, nunca se acalma.

Podemos levar em conta que esse traço é um dos

males da civilização moderna. Mas prefiro conduzir o

assunto para outro lado, o de saber ficar só, o de aprender

a ser só. Ou como disse Gilberto Gil em uma bonita

canção, “eu preciso aprender a só ser”. Pois bem, quando

chegar a tal constatação, quando saber o momento

de ouvir a voz que vem do interior de cada um?

Ficar só é fundamental para se colocar as idéias em

ordem, para analisar os acontecimentos do dia, para

projetar o andamento da vida. Ficar só faz parte da

essência humana, do aspecto animal que obriga cada ser

a refletir, a se programar, a se corrigir. De nada adianta a

humanidade se refugiar em paraísos artificiais ou recursos

tecnológicos para fugir de si próprio. Precisamos

saber nos desligar, nos desplugar, nos desconectar. Ficar


só engrandece, amadurece, suaviza, acalma. Saber ficar

só é uma virtude.

Importante observar quanto a isso: quantas vezes

por semana tentamos fugir da situação de nos sentirmos

sós? E por que agimos assim? Vale mesmo falar

tanto ao telefone, assistir dezenas de filmes ruins na

tevê, perder incontáveis horas nos bares, exercitar sem

parar a musculatura da língua? Qual é o problema de

sentar, cerrar os olhos, meditar e descobrir como somos

grandiosos, interessantes e cheios de infinitas possibilidades?

Ficar só é uma arte, uma ciência, uma religião.

Reze para você mesmo.

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Viver é bom, nas curvas da estrada

Solidão que nada

Viver é bom, partida e chegada

Solidão que nada

(Solidão que nada, de George Israel, Nilo Romero e Cazuza)


VIAGENS

TERRENOS MINADOS

Nada tão próximo dos sonhos como as viagens.

Deslocar-se no mapa de um ponto a outro

continua a ser um fator físico que modifica a

percepção, aguça os sentidos e provoca aprendizado.

Mudar de paisagem, pisar em locais

desconhecidos, ter acesso ao novo: viajar é a

mais profunda forma de compreender a noção

de espaço e tempo.

Tudo pode ser assim, grandioso e importante. Contudo,

todo viajante também acumula histórias às vezes complicadas

ou situações esdrúxulas, porque o imprevisível faz

parte do espírito das viagens. Senão, qual seria a graça em

percorrer trajetos banais?

O preâmbulo acima serve apenas para fazer pensar sobre

outros aspectos do verbo viajar. Por exemplo: viajar com algum

amigo. Viajar e se aborrecer. Viajar e se arrepender. Tudo é

possível, a partir daquela hora em que se deixa a casa rumo a

paragens distantes. Principalmente se vamos acompanhados

por pessoas que irão conviver conosco 24 horas do dia.

Nos casamentos, as viagens são o grande teste para o

relacionamento. Mais do que no convívio diário, um casal

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em viagem precisa estar munido de cinco arrobas de

paciência e uma tonelada de companheirismo. Haverá

convivências obrigatórias em táxis, aviões, camas de

hotéis, visitas, refeições, compras, passeios, horários de

despertar e o diabo a quatro. Tudo com direito a permanecerem

juntos, cotovelo com cotovelo, por grandes

períodos do dia. Em lua-de-mel, lindo. Na vigésima

viagem, suplício. Conselho: no meio da viagem seria ideal

que cada um inventasse seus programas separados, desse

um tempo para o outro, pedisse para ficar sozinho no

hotel lendo um livro, etc. Trocando em miúdos, é muito

importante procurar trazer doses de alívio para que a

viagem do casal não se torne uma chatice.

Viagens com filhos também costumam ser transtornos,

principalmente se os seus rebentos vão dividir a

mesma suíte ou a mesma habitação. Tolerância zero para

tevês ligadas, banheiros molhados, correrias nos corredores

em dias chuvosos, reclamações constantes sobre a

culinária local e mais 217 pequenos imprevistos, de comprar

band-aid a trocar camisetas na megastore mais distante

da cidade visitada. Como se nota, viagens também

produzem olheiras.

Chega, entretanto, a pior das viagens. Trata-se daquela

que se convida um grande amigo, fazendo-se planos

antecipados de muita diversão, saídas à noite, roteiros mirabolantes,

bons jantares, museus, antiquários. Como são


poucos os que convivem ininterruptamente com amigos

próximos, descobre-se durante a viagem que eles se encaixam

na complicada categoria: de chatos. E que os hábitos

do amigo denotam certa avareza irritante, certa displicência

blasé, certos atrasos constantes, certas manias, certos modos

bobos de se comportar.

Até o terceiro dia, tudo podem ser flores. O impacto

da viagem ainda permanece forte e capaz de anular as discrepâncias.

Mas existe um momento – não se sabe quando

esse momento acontece exatamente – em que o amigo

começa a parecer o mais estranho dos seres em sua vida. E

a tragédia ocorre: descobrir, em silêncio, que ele o incomoda

bastante e que pode comprometer a viagem. Quando

se atinge esse ponto de ebulição, é importante ter uma

conversa direta e sincera, expondo o que incomoda.

Caso contrário, o sentimento de arrependimento crescerá

como o fermento da discórdia. E a sua tão bela viagem

poderá acabar em cara feia, trombas e falta de assunto. Ou

pior, antecipação do retorno. Ou pior ainda: término da

amizade. Antes de pegar o próximo vôo das férias, verifique

quem vai com você. Ou escolha a opção que sempre funciona:

viajar sozinho. O mundo continuará lindo.

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GAFES E TRAPALHADAS

A COMÉDIA DOS ERROS

Sim, cometer gafes é terrível. Ninguém admite

a possibilidade de parecer indiscreto, atrapalhado,

bisbilhoteiro, maldoso, sem educação ou desrespeitoso.

E quando acontece tudo isso ao mesmo

tempo? Mas existem formas, formas e formas de

se compreender ou analisar as gafes cometidas

por alguém. As piores são as que podem ser usadas

como instrumento para reforçar idéias contrárias

à presença de alguém, ou as que submetem

pessoas atrapalhadas a julgamentos sociais.

A velha sentença “falar de corda em casa de enforcado

poderia ser considerada a matriz da gafe. Quem nunca indagou

notícias de pessoas que já haviam morrido, quem nunca

tentou apresentar um inimigo a outro, quem nunca esqueceu

o nome do amigo próximo, exatamente na hora mais importante

da conversa? Atire a primeira pedra quem não revelou

indiscrições que não deveriam ser ditas naquele momento ou

quem nunca pediu informações constrangedoras?

Conheço gente que derrubou tinta nanquim em vestido

de noiva. Ou pessoas distraídas que abrem cartas dirigidas a

pessoas amigas e descobrem fatos de arrepiar os cabelos.

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Existem muitos que fazem revelações maliciosas sobre determinada

pessoa, para em seguida descobrir que abriu a boca

para alguém muito íntimo de quem atacou. E aqueles que

contam detalhes dos amigos e depois descobrem que o mesmo

amigo soube em detalhes do que foi comentado?

Uma coisa é certa: as mulheres são mais vítimas das

gafes do que os homens. A resposta? Elas falam mais, são

bisbilhoteiras de plantão e adoram instilar eventuais venenos.

Mulheres também amam implicar com certos personagens

ou enxergar disputas territoriais onde não existe nada.

O resultado: amizades que se rompem, pequenos escândalos,

discussões e toneladas de perigosos equívocos.

Precisamos, portanto, exercitar a ponderação, contar

até cem a cada vez que baixar a vontade de avaliar o comportamento

de alguém. Há situações em que as pessoas não

sabem lidar com comportamentos excêntricos, ou mesmo

traços marcantes, e transferem seus julgamentos para uma

linguagem repleta de cobranças sociais. E nada mais desagradável

do que ouvir um falso moralista, inspetor de salão

ou doutor-sabe-tudo. Pior ainda, passar por zen-vergonha,

que são os sonsos fingindo ser liberais. Mas na essência são

altamente repressores.

Vale refletir sobre isso. Gafes imperdoáveis não faltam:

ter mau caráter, ser ambicioso em excesso, demonstrar arrogância,

falar em demasia, mentir sem motivos, acolher fofocas,

repassar informações sigilosas, fingir amizade, roubar namo-


ado, atrair funcionários, ser presunçoso, entregar-se à preguiça,

esconder fatos, ocultar negligências, ser displicente, ocupar

espaço em ambientes públicos, achar graça em cometer pequenos

furtos, brincar de ser saudável e continuar com os mesmos

hábitos, não respeitar os ancestrais, enviar mensagens

anônimas, ouvir conversas alheias, captar informações de modo

sorrateiro, não limpar os pés no capacho, comer com ansiedade,

falar demais de si próprio, dar sinais de que não presta

atenção à conversa, mexer no controle remoto sem consultar

os demais, fazer ligações interurbanas na casa de alguém sem

pedir licença, fuçar arquivos do computador de um amigo,

pedir coisas emprestadas e nunca devolver, não demonstrar

gratidão, obrigar os amigos a conviver com o barulho das suas

crianças, criar animais domésticos apenas por modismo, gastar

além do que pode, aplaudir desgraças alheias, fumar em ambientes

fechados e dizer que é direito seu, casais que discutem

na rua, beijar ardentemente o parceiro em qualquer local público,

andar o tempo todo de mãozinhas dadas com o seu par,

falar alto em restaurantes, tratar mal os empregados, diminuir

o esforço de alguém, não ser gentil, criticar a opção sexual,

pedir favores profissionais a um profissional, ficar impassível na

hora em que recebe a conta, chegar atrasado a qualquer compromisso,

provocar temores, ser alarmista, contar vantagem,

fingir que não vê alguém, ser sovina, não amar o próximo, não

admitir que errou e, principalmente, nunca pedir desculpas.

O resto vale. Ou não?

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MODA

LANCES E RELANCES

Antes de iniciar essa costura, é bom esclarecer:

a moda não pode mais ser compreendida

como algo frívolo. O que usamos e vestimos

reflete exatamente a época em que vivemos, a

partir de uma série infindável de releituras, códigos,

símbolos e referências. Talvez o grande lance

da moda contemporânea seja o de permitir

milhares de combinações, escolhas e possibilidades,

no mesmo ritmo em que se compartimenta

por segmentos bem específicos de consumo.

Quero contar como foi e como passou a ser minha

relação com a moda. Quando me tornei obesa, tudo,

obviamente, era um gigantesco tormento. Aquele tormento

que os gordos conhecem bem: provar roupas que não

entram, raramente encontrar peças adequadas e tantas

outras situações deploráveis. No meu caso, eu só usava

calças fuseau com camisões por cima. Nada deslumbrantes,

porém corretos e discretos.

Depois das mudanças de layout ocorridas na minha

figura (e no layout da cabeça, também), detectei um fator

novo na vida: descobri que sou tridimensional. Isso mesmo,

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descobri pelo espelho a tridimensionalidade do corpo! No

tempo da obesidade eu só me via de frente e de costas.

Não havia lados, saliências, reentrâncias, volumes separados,

nada. Eu era uma massa compacta.

Adaptar-me ao meu novo perfil de mulher magra

também não foi nada fácil. Os ex-gordos demoram um

tempo para se livrar da sombra de sua antiga silhueta. Passei

então a ler muito, a buscar informações e a observar

preferências. Tudo me parecia novidade, mas seria preciso

encontrar a trilha própria. Coloquei todos os modelos que

gostava e os que não gostava, fiz testes com golas

redondas, babados de ombro a ombro, alças e decotes.

Maravilha dos deuses poder, finalmente, ter acesso ao que

me era proibido no tempo de obesidade.

Centímetro a centímetro, botão a botão, consegui

assim elaborar um estilo. Ou melhor, o meu mix de influências.

Hoje vejo que me visto de modo clássico, com toques

de perua. Gosto – e me permito – usar adereços, jóias,

roupas de cores fortes, cortes insinuantes e braços de fora.

Exatamente o contrário dos tempos de “roliça rebelde”.

Naquele período, bastava colocar um cinto para parecer

que explodiria tudo: figurino, cintura, costuras e até as

paredes ao redor. Ah, como é bom ser magra.

Como essas descobertas ainda são recentes, divirtome

combinando trajes ou arriscando combinações. Roupa

nova, adoro. Sinto raiva de quem tem corpo legal e não o


valoriza. Por exemplo: tenho horror daqueles que usam

roupa velha para ficar em casa, com figurinos destrambelhados,

molengos e com cara de relaxo. Amo estar sempre

impecável. Ninguém sabe o que pode acontecer no próximo

minuto, não?

Aprendi que estilo precisa ser um tom maior de se

encarar a vida, de se olhar para as situações, de se reagir

ao inesperado. Em moda vale perguntar, pedir opinião ao

espelho, não agir por impulso, namorar o vestido da vitrine,

evitar roupas que provoquem insegurança, saber como

mostrar o corpo, entender que nem sempre o menos é

mais e não se entregar a embalagens que não foram

desenhadas para você. Porque na esfera do estilo nem

tudo é necessariamente universal, usável ou duradouro.

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Vai, vai mesmo

Eu não quero você mais

nunca mais

Tenha a santa paciência

Ponha a mão na consciência

Deixe-me viver em paz

(Vai mesmo, de Ataulfo Alves)


SOMATÓRIO DE ERROS

ERRO AO QUADRADO

Acho que todo mundo já passou pela situação

de ter que dispensar alguém de sua vida.

Esse alguém pode ser funcionário, amigo,

namorado ou amante. Óbvio que a situação é

sempre delicada e nos deixa cheios de dedos

na hora de elaborar palavras elementares ou

para atingir o ponto de apertar o botão Sumase!

para sempre.

E como se chega a ponto tão crítico assim? Aí o bicho

pega. Cada história apresenta o seu roteiro, alguns parecendo

rocamboles, outros com jeito de labirinto. Mas há uma

unanimidade sobre o assunto: as pessoas são dispensadas

por pisadas na bola, por desatenção desmedida, por caráter

duvidoso, por mentiras seqüenciadas, por bajulação excessiva,

por falta de noção e por invasão de espaço alheio.

O problema, talvez, é não se perceber como cada um

difere do outro, exatamente do modo que os países

podem ser antagônicos em culturas, características geográficas

e idiomas. Se às vezes ocorrem aproximações,

são meros movimentos diplomáticos e políticas de boavontade.

No mais, tudo continua como antes.

Voltando ao começo do tema, para se atingir o ponto X

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de enviar alguém ao espaço, será preciso ter suportado

várias situações irritantes e diversas trapalhadas. Na maioria

das vezes, quem comete as infrações não percebe nada.

Ou quando leva uma chamada, arrepia-se feito jaguatirica

pronta a dar o bote. Incrível como existem personagens

sem a menor humildade para ouvir, aprender ou reconhecer

erros, mesmo que essa reprimenda seja feita em tom brando,

educado e aproximativo.

Conheço histórias de pessoas que vivem pulando de emprego,

sempre em atritos internos aparentemente bobos. Alegam

ser incompreendidas. Tudo bem, isso pode acontecer em

alguns casos. Na real, entretanto, a situação é a seguinte: é

gente de nariz empinado na alma, que jamais se dobraria perante

uma simples bronca. Pior: jamais se acham fora de rota,

jamais cometem deslizes, jamais deixariam de ser perfeitas.

Considero uma virtude poder ouvir alguém mais

experiente ou desfrutar dos conhecimentos mais amplos

de determinado amigo. Precisamos ter essa capacidade de

admirar, de reconhecer análises mais elaboradas, de aceitar

propostas rejeitadas, de compreender que não temos a

chave do mundo. Tento ser assim, torcendo meu orgulho

todo dia, baixando meu topete e engolindo palavras que

ficam prontas para pular da boca.

Então, espero que aconteçam aprendizados semelhantes

com quem convivo. Quando não há, exercito meu

lado de monja: olho para a janela, observo as nuvens e


agüento o tranco. Com litros de paciência. Suporto uma,

duas, três, quatro. Mas num belo dia a monja roda o

hábito. E aciona o seu comando invisível que dispara pequenos

raios e relâmpagos. Isso significa que aquela pessoa

que incomodava tanto já não irá mais pisar na bola,

muito menos dividir diálogos comigo. Não desejo nenhum

descaminho aos que cometem somatórios de erros. Ao

contrário: torço com sinceridade para que acertem o rumo,

percam a altivez e ganhem concentração na vida. Voilà!

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Dia

&

Noite


Na primeira manhã

que te perdi

Acordei mais cansada

que sozinha

Como quem perde o prumo

e desatina

(Na primeira manhã, de Alceu Valença)


A PRIMEIRA VEZ

SESSÃO DE ESTRÉIA

Ah, a primeira vez. Toda primeira vez é um

mergulho no desconhecido, seja em qualquer

tipo de ação ou de acontecimento. O resultado

pode ser bom, ruim, mediano, complicado,

inesquecível, marcante, desanimador, delirante,

traumático, apaixonante, repelente, dos deuses

ou dos infernos. Cada pessoa tem histórias a

contar sobre a primeira vez que fez algo.

A primeira vez pode ser sexo, uma estréia em teatro,

uma receita culinária, uma viagem de navio, um salto de

trampolim, um quadro, um beijo, a chegada de um filho,

um sutiã, um livro, um casaco de tricô, um doce, um amor,

um sonho.

A primeira vez pode significar embaraço, medo, erro,

primarismo, inexperiência, ousadia, arrojo, valentia, determinação,

preparação, desejo, impulso, delírio, bobagem,

sucesso. Quem disse que muitos não acertam logo na

primeira vez? Muitos, aliás, ficam marcados por seus

primeiros acertos profissionais, por mais que façam tentativas

posteriores. Muitos também desaparecem de cena

depois de uma estréia sem talento, depois de um beijo mal

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dado, depois de um bolo queimado. Quantos não sentem

saudade da primeira vez em que viram a neve, da primeira

vez que tomaram um pileque ou da primeira vez que sentiram

prazer com alguém?

Já nascemos com a estranha capacidade de querer

experimentar tudo o que aparece. Basta ver a criança na

fase oral, que coloca todos os objetos na boca, para que

possa compreender através daquele contato a textura, o

sabor, o volume e até se vale a pena insistir no aprendizado.

Os testes com a boca evoluem com o tempo, mas continuamos

curiosos e impelidos a fazer coisas que nunca

realizamos antes. Com medo ou sem medo, o que vale é se

jogar no tobogã da vida.

Quebrar a cara faz parte das experiências. Ainda bem.

Seria muito chato se todas as primeiras vezes fossem

momentos sublimes. Bem melhor poder contar, depois de

anos, como foi a sua reação quando se viu pelado ao lado

de alguém também pelado, por exemplo. Encolheu a barriga,

relaxou, aproveitou, ficou tímido, deitou e rolou?

Tudo se torna divertido e importante na formação de qualquer

um. Basta ter olhos divertidos para descomplicar os

novelos do passado.

A primeira vez em qualquer trabalho também é

dureza: tudo parece estranho e capaz de provocar o seu

imediato desligamento. A primeira vez em uma viagem é

quase uma aula sobre o mundo e a nossa função aqui nes-


sa imensidão planetária. E o primeiro medo? Pode ter

acontecido na roda-gigante, na escuridão do bosque, na

bronca do professor, no susto da madrugada, na perda do

amigo, no ciúme de alguém.

A primeira alegria talvez ninguém registre na memória,

porque sentir-se alegre faz parte da condição humana desde

a menor infância. A primeira decepção todos guardam dentro

do vinagre do rancor e estará sempre disponível quando

solicitada. A primeira conquista, essa sim, faz estufar a alma

e o peito de empresários a pilotos, de agricultores a escritores,

de conquistadores a conquistados.

Bom, se tudo tem, obrigatoriamente, uma primeira

vez, nem adianta se lastimar. Vale mais é armazenar sensações

calorosas, cálidas, amistosas, sensuais, bem-sucedidas,

curiosas, excitantes, apaixonantes ou mirabolantes.

Nem que a primeira vez tenha sido uma catástrofe. E daí?

Há sempre uma primeira vez. Certo?

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A ÚLTIMA VEZ

ACABOU-SE O QUE ERA DOCE

A última vez pode trazer vários sentimentos

e sensações: alívio, dor, concretização, perda,

vantagem, acúmulo, desfecho, solução, partida,

despedida, ausência definitiva de repetição, decisão,

interrupção, ponto final. A última vez

lembra lenços brancos na despedida e também

lembra felicidade por ter, finalmente, atingido

a esperada etapa final de um acontecimento. A

única carga terrível encerrada no termo a última

vez pode ser a expressão nunca mais.

A última vez, portanto, só se torna definitiva com a

passagem do tempo. Ninguém pode garantir que “esta é a

última vez que procuro por você”, como os namorados e

os amantes costumam proferir em momentos de pouca

lucidez. Se realmente não se encontrarão mais, é decisão

do destino. E cada um só poderá afirmar “a última vez que

o vi” depois de um longo período de confirmação do afastamento

definitivo. Senão estaremos diante da tragicomédia

da vida amorosa, que permite idas e vindas como as

marés, e onde nada costuma ser definitivo. Não é assim? O

compositor Noel Rosa escreveu uma letra que dizia assim:


“Jurei não mais amar, pela décima vez”. Isso, cá entre nós,

demonstrava a sua imensa sabedoria.

Bom, vamos mudar de canal? Fazer algo pela última

vez também pode provocar alívio, essa palavra linda que

parece um bálsamo para qualquer situação possível. Não é

delicioso sentir-se aliviado porque, pela última vez, fez a

aula final do curso, ou porque deixará de voltar àquela

situação X que tanto evitava? Às vezes o destino nos dá

uma rasteira e acabamos por voltar a situações que pareciam

absolutamente improváveis de acontecer novamente.

E lá vamos nós, murchos, de rabo entre as pernas.

De repente começo a perceber que pronunciar a

última vez é uma tarefa complicada e que, aparentemente,

só as situações de morte traduzem sua real amplitude.

Dizer que fará algo pela última vez? Quem garante

que não? Ninguém. Só as impossibilidades físicas

impedem algo de acontecer mais uma vez. Vamos supor,

por exemplo, que você teve um namoro com alguém da

Hungria, há muitos anos. Mesmo assim, não há garantia

de que a última vez que vocês se encontraram foi a última

vez definitiva. Nas voltas que o mundo costuma dar,

existem incontáveis possibilidades de se encontrar com o

seu antigo amor húngaro no meio da rua – por meio das

travessuras que o destino adora fazer com todos. Uma

amiga que tenho, outro exemplo, ficou pasma ao encontrar,

no trigésimo-segundo andar de um hotel de Tóquio,

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com um garçom cearense que conhecera muitos anos

antes no Brasil.

A última vez fica terrível quando sabemos que alguém

muito especial se foi para sempre, tornando uma situação

irremediável, sem volta, sem possibilidades físicas de contato.

Então podemos, assim, de verdade, dizer nunca mais ou que

houve uma última vez em tal história. OK, mas vamos virar

correndo esta página do livro porque prometo ser a última

vez em que escrevo sobre a última vez. Será que terei que

jurar dez vezes? Pela última vez, acredito que não.


RITUAL DAS REFEIÇÕES

SABER COMER, SABER VIVER

Acompanho com enorme interesse um movimento

que só existe na Europa, chamado de

slow food. A tradução do termo significa literalmente

comida lenta, ou comida sem pressa. É o

contrário de fast food, comida apressada, comida

de balcão e uma das pragas da vida moderna.

O movimento slow food procura trazer de volta o ritual

das refeições, a confraternização à mesa, a alegria de compartilhar

a comida com amigos, a leveza e a alegria que a alimentação

deveria sempre proporcionar aos comensais. Tudo

em ritmo desacelarado, para que cada pessoa possa valorizar

os aromas, as texturas e as receitas, além de encontrar

pessoas em busca de conversas amenas e inteligentes.

Vivemos em um país que, talvez pela péssima influência

dos hábitos norte-americanos, começa a abandonar o

costume de almoçar e jantar com a dignidade que o ato de

se alimentar pede de cada um. As pessoas optam, cada vez

mais, por lanches calóricos, sucos industrializados e locais

barulhentos. Poucos ainda se dedicam a sentir prazer no

ato de comer, que é uma ação quase sagrada, por ser a

única forma de se renovar a energia do corpo.

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Fico assustada ao ver pessoas comendo em pé, quase

enfiando um hambúrguer pela goela abaixo. Mesmo

quando têm um pouco mais de tempo, elas preferem

comer de modo apressado, como se estivessem sendo empurradas

por alguém. Comem, ou melhor, engolem,

sorvem refrigerantes o dia inteiro e reduzem sua alimentação

a uma cadeia de alta ansiedade.

Água, por exemplo, deixou de ser o líquido mais consumido

no planeta há mais de 20 anos. Você sabia disso? O

consumo de refrigerantes suplantou, com grande diferença,

o consumo de água. E por quê? Talvez o homem

contemporâneo considere ao pé da letra os slogans publicitários

dos refrigerantes, que prometem ação, emoções

fortes e muita adrenalina. Tomar água deve parecer coisa

da terceira idade.

Então, voltando à premissa inicial, vivo a falar, em

palestras ou em encontros menores, da importância de se

voltar a comer sem pressa. De nada adianta, inclusive, entrar

em dietas e continuar a comer de modo ansioso. Os resultados

serão sempre menores. Para reeducar a alimentação

também é preciso reeducar a atitude perante o alimento.

Nada tão simples e nada tão complexo quanto uma

simples berinjela ou um ovo. Procure observar como são os

legumes, as verduras, as proteínas que se transformam em

receitas elaboradas para vir à mesa. Procure apalpar as frutas,

cheirá-las, sentir a textura das cascas, saborear lenta-


mente uma mordida, deixar o paladar em êxtase. Há quanto

tempo você não faz isso? E por mais quanto tempo pretende

continuar almoçando um sanduíche de três andares?

A vida acaba ou se renova todos os dias. Precisamos

estar atentos à quantidade de toxinas e de alimentos equivocados

que ingerimos. Quem muda a alimentação, muda

de vida. E quem muda a forma de se comportar na hora das

refeições, enaltece o espírito e celebra a própria existência.

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CUMPLICIDADE

PISCADELAS DE OLHO

Ser cúmplice traz inicialmente um sentido

de alguém com quem se divide um delito, ou

algo errado. Certo? Errado. A cumplicidade

também costuma aparecer como uma participação

efetiva de algum parceiro em algo

específico. Trocando em miúdos, o cúmplice

pode ser o seu sócio de travessuras pela vida

afora, o avalista de todos os seus rompantes

inesperados e, melhor ainda, aquele que pisca

o olho feito um anjo protetor na hora que você

pede socorro publicamente.

Sob aspectos mais amplos, os cúmplices nem precisam

ser apenas duas pessoas. Pode-se muito bem inventar

uma confraria de cumplicidades sobre um mesmo

objetivo, sobre um tema aproximativo ou sobre formas

semelhantes de compreender o vaivém da vida. Com um

bando de gente amiga.

Um cúmplice entra em ação de modo silencioso,

porque aí reside a graça da cumplicidade. Não se deve evidenciar

nunca quais são as suas bases de sustentação. O

bom é deixar esse rastro de mistério, como se fosse uma

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rede de conexões e de senhas que só nós, os cúmplices,

conhecemos.

Para se estabelecer essas cumplicidades será preciso,

antes de qualquer ação, haver algum tipo de sintonia,

algum tipo de opinião em comum, algum direcionamento.

Não que da cumplicidade deva surgir necessariamente

uma obra ou um fato concreto. Ser cúmplice é ter uma

aliança invisível, para o que der e vier. De preferência em

situações que provoquem muitas risadas depois.

O bom humor deveria ser o combustível das cumplicidades.

Sabe aquele amigo que o incentiva a fazer traquinagem

com alguém bem chato, só para vocês se deleitarem

depois, às gargalhadas, com o ocorrido? Sabe aquela amiga

que passa bilhetes com deliciosas bobagens no meio de

uma reunião maçante? É isso. O melhor da cumplicidade é

tentar controlar o riso e viver inventando pequenos terrorismos

poéticos para testar a reação das pessoas. E quando

ninguém sabe a autoria de uma ação, por mais inócua que

seja, é um momento indescritível dividir a sensação de

vitória com algum cúmplice.

A cumplicidade corre em trilhos paralelos à amizade.

Cúmplices não se cobram por nada. De vez em quando até

atualizam as conversas, mas não ficam comentando ou

estendendo demais um assunto. Cúmplice ideal é aquele

rápido, que pega as coisas no ar, que sabe ser criativo,

inventivo, brincalhão e manter a cara mais séria do mundo.


Isso porque um cúmplice se torna co-autor da ação

cometida por você. Dá para entender? A cumplicidade gera

elos de aproximação, de quase dependência e de uma

intensa parceria moral. Um sinal com a mão, um telefonema

rápido, uma palavra ao ouvido, duas piscadelas de olho

e o roteiro está pronto. Com bons cúmplices ao lado,

suportamos qualquer baque na vida: eles sabem levantar

nosso ânimo, sabem arrasar com o caráter dos que nos fizeram

ficar mal, sabem como injetar ânimo em nossas

reações. Um cúmplice é um amigo com a elegância de um

mordomo, a sabedoria de um feiticeiro, a rapidez de um

matemático, a sensatez de um diplomata e a disposição

anárquica de um comediante. Tudo em segredo. Não é o

máximo? Procure já formar um time de cúmplices do bem.

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HORA DO BANHO

PRO DIA NASCER FELIZ

Habitar grandes cidades significa pouco

ou quase nenhum tempo privado, tempo para

se ficar a sós, tempo para colocar a cabeça em

ordem. Não vale dizer que existem por aí dezenas

de academias de ioga ou centros de meditação,

porque mesmo em situações assim estaremos

próximos a outras pessoas na idêntica busca

por isolamento, relaxamento, elevação e autoconhecimento.

Descubro, portanto, que o último

reduto a me permitir estar completamente isolada

é o banheiro.

Intuitivamente, com o passar do tempo, transformei o

meu banheiro em uma sala de banhos, com tudo a que

teria direito para sair renovada. Pena lembrar que a maioria

das pessoas considera que o banheiro apenas uma parte

na planta da casa reservada à higiene do corpo, nunca à

higiene mental. Muitos também tratam o banheiro de

modo relaxado, sem charme, sem elegância, por achar que

não é uma área nobre. Sempre penso que o banheiro

reflete a elegância da casa, a hospitalidade dos donos, a

personalidade dos que habitam um endereço.


Bom, mas como transformar de forma adequada esse

local? Primeiro, o banheiro precisa ter algumas referências

pessoais agradáveis, como uma planta bem-cuidada, uma

gravura que traga boas lembranças, toalhas nas cores que

se gosta e cheiros suaves. Nem é preciso gastar muito para

se obter resultados de efeito, simples e gostosos de ver.

Um quadro, uma toalha felpuda, um vaso de flores, uma

luz indireta, espelho polido, sabonete cheiroso e pronto.

Mas o melhor do banheiro está em saber aproveitar o

momento de se banhar na água que jorra do chuveiro.

Tenho tendência a me prolongar ali um tanto além do que

devia, embora procure me corrigir para evitar desperdício

de água – esse bem tão precioso para o planeta. Então

aproveito cada segundo em que ocorre o contato desse

líquido renovador com a pele, com os cabelos, com a alma.

A água é um elemento quase misterioso, por sua fluidez,

por sua rapidez, por suas capacidades adstringentes, por

sua mobilidade física de líquido. A água é algo sagrado.

E desse contato da água com o meu corpo saem as

impurezas adquiridas durante o dia, saem as idéias pesadas,

saem as sensações de desânimo, saem as amarguras

do espírito. Um banho é capaz de trazer novo ânimo,

ressaltar intenções, animar o cérebro, restaurar a umidade

da pele, recarregar as baterias do otimismo necessário para

enfrentar outras jornadas e, acima de tudo, colocar a

cabeça em ordem.

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Banhar-se às vezes é como chorar, deixar fluir aquilo

que precisa sair, aquilo que impede o fluxo energético,

aquilo que trava a garganta. Banhar-se é saber se renovar,

se gostar, se admirar, se cuidar. Um bom banho tem ação

terapêutica, arruma a desordem dos neurônios e traz luz

sobre fatos aparentemente obscurecidos pelo cansaço.

Meu banho, minha terapia de cada dia. Meus banhos,

meus momentos de isolamento do mundo. Meus

banhos, minha limpeza de alma, de aura, de ânimo. E viva

a água, essa seiva que traz vida à natureza, que movimenta

os ciclos ecológicos e que sempre significará fertilidade.


VIDA DOCE

ALÔ, DOÇURAS

Gostosuras, travessuras, doçuras e delícias.

Fiz, há pouco, um livro inteiramente voltado a

um dos temas mais preocupantes para quem

deseja se manter em forma: os doces. Parece,

inicialmente, um tema tolo, mas não é. E nem

está ligado apenas às questões de silhueta. Vou

explicar o porquê.

O açúcar, no grande painel da história da humanidade,

é um elemento recente: entrou em cena por volta do

século 16, a partir dos grandes descobrimentos e do crescimento

das legendárias rotas de comércio marítimo. A sua

forma refinada, que agora domina o consumo mundial, é

um processo bastante recente, advindo do século 20.

Entretanto, os confeiteiros já desenvolviam técnicas

apuradas do uso do açúcar, desde os grandes banquetes

das cortes francesas. Naquele período ninguém nem

sequer sonhava com taxas de colesterol, glicídios ou excesso

de glicose. O que valia era se empanturrar, viver

espremido entre espartilhos torturantes, administrar os

constantes problemas de saúde e morrer. Sem levar em

conta os malefícios bucais que o consumo do açúcar pro-

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duzia nos períodos em que a escova de dentes era uma

ficção científica. As pessoas ficavam sem dentes aos 30

anos. E depois ainda queremos glamourizar os personagens

que freqüentavam o Palácio de Versalhes.

Mas a humanidade sempre esteve voltada aos

sabores que adocicassem o paladar. Nos tempos antigos,

os escritos consagram os prazeres do mel e do néctar das

frutas. Poetas, profetas e pregadores sempre relacionavam

o sabor adocicado às visões do paraíso. No céu, os fiéis

teriam, entre outras recompensas, muito mel a jorrar das

fontes, muitas frutas doces colhidas à mão. A vida deveria

ser tão dura – e tudo tão precário – que só o sabor doce na

boca poderia proporcionar algum descanso, algum prazer

degustativo.

As doçuras continuariam a acompanhar a humanidade

desde sempre. Basta reparar nos contos tradicionais

europeus, indianos e chineses. Neles, sempre ocorrem

histórias com citações de tesouros com jarras de mel, de palácios

cercados por pomares de frutas doces ou até de casas

feitas de gulodices, como na história de João e Maria.

A literatura infantil, aliás, parece construir um mundo

sobre o sabor que mais encanta a criançada: o doce. Quase

tudo traz aspectos de doces elaborados, mágicos, mirabolantes

e tentadores. Bruxas oferecem bolos sedutores,

fadas mostram onde na floresta se encontram tortas de

maçã, animais falantes constroem abrigos repletos de


doces e até a Branca de Neve cai no truque de uma fruta

doce, a maçã envenenada.

Atualmente, o açúcar refinado tornou-se um dos

grandes vilões da saúde mundial. O seu uso indiscriminado

acarreta centenas de problemas, ciclos de obesidade,

blablablá (Nem vou entrar no assunto, porque este livro

não é sobre produtos light). Apenas tive a idéia de associar

o sabor doce à noção do prazer. O sabor doce, além de

provocar energia, saciar ansiedades e agradar as papilas da

língua, é algo que permanece no inconsciente coletivo da

humanidade. Tudo nos leva a crer que o bom será sempre

uma placa com os dizeres “Lar, doce lar” e nunca “Lar,

azedo lar”. Por isso, viva o bico do beija-flor e cuidado com

a cintura!

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Inocentes, as conversas começam, /

depois envolvem os sentidos, /

Meio a contragosto. / Depois não há

mais escolha, depois não há mais

sentido; / Até que some a diferença

entre sentido e nome.

(Elizabeth Bishop, em Conversação)


ENCONTROS SUPERFICIAIS

OLÁ, MUITO PRAZER!

Viver e trabalhar entre grandes cidades me

obriga, há tempos, a manter seqüências contínuas

de encontros rápidos, apertos de mão,

compromissos sociais e diálogos que às vezes

nem ultrapassam duas frases. É impressionante,

de qualquer forma, como situações

assim podem ser produtivas, marcantes e

decisivas na minha vida. Aprendo a extrair o

máximo do mínimo, sem me deixar levar por

impressões imediatistas – que sempre conduzem

idéias preconcebidas.

Encontros rápidos costumam ser considerados “encontros

superficiais”. Não deixam de ser, na acepção correta

do termo. Mas acredito que na superfície das coisas,

ações e pessoas se encontram películas bem acabadas,

interessantes e que me fazem observar com agudeza os

matizes do comportamento humano. Ninguém se parece

inteiramente com outra pessoa, por mais que as aparências

nos levem a pensar assim. Pequenas atitudes são

capazes de transformar uma conversa de dois, três minutos

em algo que permaneça por tempos na minha

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memória. Ou um encontro que seria passageiro em momento

histórico na vida de alguém. Por que não?

Isso depende da abordagem, da forma com que

alguém se aproxima, do modo de tocar, de sorrir, dos lampejos

de inteligência e, sobretudo, da naturalidade de

agir, ser e estar. Nunca deveríamos evitar a aproximação

de outras pessoas – a não ser quando o infalível radar da

intuição avisa que existe simulação naqueles contatos.

Mesmo assim, aprendi a sair dessas situações sem parecer

desagradável. Sugiro que cada um desenvolva as suas

próprias técnicas.

No roteiro dos incontáveis encontros em reuniões,

coquetéis, eventos, espetáculos ou meetings profissionais,

ocasionalmente ocorre de conhecermos alguém bastante

interessante, atraente e bem resolvido. Em geral, a primeira

reação é evitar que cresça a animação daquela descoberta,

porque os mandamentos sociais impedem

precipitações nos encontros. E o que acontece? Corta-se

qualquer possibilidade de desenvolver ligações um tanto

mais próximas, apenas por ser alguém que se conheceu

minutos atrás. Convencionou-se que agir assim seria

imprudente, deselegante, etc.

Discordo inteiramente. Apesar de não fazer dessa

posição uma prática comum, devemos, sim, demonstrar

curiosidade por quem nos desperte interesse. Afinal, estamos

no século 21, uma era em que vale mais ter valores


essenciais de caráter do que permanecer preso à rigidez

das normas sociais. Encontros prazerosos costumam deixar

um resultado de histórias maravilhosas em nossas vidas. É

só questão de saber escolher, de mirar olho no olho, de

apresentar segurança de atitude. Quando os caminhos se

cruzam, acontece uma superposição de idéias, sentimentos,

gostos, afinidades. Tudo pode ser válido, desde que

ninguém decida impor regras imediatas nos encontros que

começam de modo passageiro.

Vale lembrar que às vezes a gente se desgasta com

pessoas que estão de passagem. Mas em outras ocasiões

perdemos a oportunidade de transformar um encontro

superficial em um grande e único encontro.

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ESPELHOS

QUAL É A IMAGEM REAL?

Desde criança ficava intrigada com os

espelhos. Como e por que refletem imagens? O

que há do outro lado? Gostava de imaginar que

havia um mundo invertido dentro dos espelhos,

habitado por pessoas que andavam ao contrário

e que nos viam lá de dentro. Não deixa de

ser intrigante ver imagens refletidas. O espelho

tem um poder misterioso.

Narciso, talvez por não ter sequer um espelho na penteadeira,

apaixonou-se por sua própria imagem refletida

na água de um pequeno lago. Ou teria sido naquilo que

hoje chamamos de “espelho-d’água”? Nos primórdios históricos

da Grécia e do Egito, os mais abastados usavam

superfícies de metal polidas para que pudessem mirar os

seus rostos. Essas peças eram de extremo valor e eram

enterradas junto com seus proprietários. Com a evolução

do tempo, o espelho continuou a ter status de riqueza.

Basta lembrar dos palácios barrocos e dos salões do período

clássico europeu. Depois seriam incorporados até em

lendas e folclores. Espelho, espelho meu: existe alguém

mais curiosa do que eu?

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E o medo que os espelhos provocavam (ou ainda

provocam em muita gente)? Alguns não gostam de olhar

para o espelho à noite, outros cobrem espelhos em casas

de pessoas que morreram, muitos têm pavor de quebrar

um espelho e os índios continuam perplexos perante a

contemplação dos espelhos.

Às vezes me divirto sozinha imaginando o que seria

de algumas amigas sem um espelho por perto. Acho que

morreriam de crise de abstinência caso fossem deixadas

três dias sem um espelho. Conheço mulheres que também

não sobreviveriam sem um estojo de maquiagem com

espelho. E a turma dos vaidosos que quer se contemplar a

todo instante, nem que seja para corrigir uma dobra da

blusa? E aqueles que colecionam espelhos pela casa? E os

voyeurs que colocam espelhos no teto do quarto? E os que

adoram banheiros espelhados?

A sociedade moderna está profundamente ligada ao

espelho. Em uma época de extrema vaidade, fica impensável

imaginar as pessoas sem o cumprimento do ritual do

retoque, da vigilância constante, da cumplicidade com a

imagem refletida. Parece até que precisamos estar bem

para não brigar com o espelho. O espelho é a entidade que

pauta a nossa vida estética. Ou não? Quem discordar que

atire a primeira pedra. No espelho.

Porém, gosto ainda de pensar sobre as seguintes questões

em torno do reflexo: a imagem nos espelhos côncavos


e convexos, as imagens distorcidas nos espelhos dos parques

de diversões e as imagens que temos de nós mesmos em

nossos espelhos domésticos. Qual seria a imagem real?

E se a projeção da imagem não passasse de um sonho

dentro de outro sonho? Por que ficamos tão atentos ao

espelho? Por que o reflexo daquele rosto é tão importante?

Por ser revelador do grau de conservação do corpo

ou por mostrar que somos uma coisa viva, com movimentos,

com olhos, com boca, com medos, com lógicas, com

cabelos, com superfícies físicas estranhas. Por que quando

estamos mal evitamos o espelho? Por que quando estamos

bem corremos ao espelho? Está percebendo como o espelho

é uma entidade a nos perseguir? Experimente ficar um

dia sem se olhar em qualquer superfície que reflita imagens.

Difícil, não? Está aí um dos mistérios da vida contemporânea:

a overdose do espelho.

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INVERDADES

NUNCA FUI SANTA

Existem situações que ocultamos pelo resto

da vida, até que, sem motivos aparentes, decidimos

contá-las. Aproveito agora para revelar

uma série de acontecimentos pouco conhecidos

da minha vida.

Ninguém imagina que, ainda menina, adorava escrever

cem vezes em um caderno o nome do cantor

Roberto Carlos. Diariamente fiz isso, até que minha mãe

descobriu e queimou o meu caderno de fã. Na mesma

época, sempre que me levavam à missa, eu dava um jeito

de furtar um missal da igreja. Colecionei dezenas.

Na adolescência, comecei a fumar cachimbo, escondida

de meus pais. Subia em uma grande árvore

que havia no fundo de nossa casa e ficava lá em cima,

pitando por horas a fio. Depois enjoei dessa mania e

passei a comprar perucas de todos os tipos: platinum

blonde, afro, oriental look, Chanel, camponesa, melindrosa

e psicodélica. Convidava algumas amigas, colocávamos

as perucas mais absurdas e saíamos para

caminhar pelo Parque do Ibirapuera. As pessoas não

acreditavam.

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102

Quando comecei a namorar, decidi que me especializaria

em atiçar os namorados alheios. Assim cumpri a

decisão: cada um ao seu tempo, namorei com mais de

dez rapazes e arranjei dez inimigas ferrenhas. Depois,

senti que havia chegado a hora de partir para uma longa

viagem. Era o auge do período hippie. Embarquei para a

Europa, deixando meus pais em desespero. Morei um ano

em Amsterdã, em uma comunidade que estudava os

ensinamentos de Hare Krishna. Viajamos até a Índia e o

Nepal, em trajeto que durou oito meses. Fomos detidos

algumas vezes, por porte de substâncias alucinógenas ou

por falta de vistos nos países que a nossa caravana maluca

atravessava.

Como sempre dei voltas na vida, retornei ao Brasil

disposta a buscar a paz que tanto procurava. Para outro

desgosto de meus pais, falei que desejava ir para um convento

e fazer voto de clausura. Fui levada, em uma manhã

fria de junho, ao convento da Ordem das Irmãs Dominicanas,

em Ubá, Minas Gerais. Lembro-me da despedida:

meus pais em prantos e eu sendo levada para uma área

restrita às internas. Permaneci no convento por dois anos

e meio, com voto de silêncio. Minha rotina era acordar às

4h30, rezar no quarto até as 6h30, ajudar na preparação

do café, limpar e varrer os corredores, rezar o restante da

manhã, etc. Em 1977, decidi que gostaria de voltar ao

convívio da sociedade. Comuniquei o fato à madre supe-


iora, que, a princípio, demonstrou certa irritação. Telefonei

a meus pais, que vieram me buscar, mais uma vez

muito comovidos.

Quatro dias depois de minha chegada em São Paulo,

promovi uma festa à fantasia no night club Papagaio,

então a casa mais fervilhante de São Paulo. A festa foi um

escândalo, com centenas de amigos, muito champanhe,

namoros e cenas engraçadas. De lá, partimos em grupos

para o Guarujá, onde continuamos no clima da festa. Foi

na casa de uma amiga, no Guarujá, que conheci, naquela

esticada, o rapaz que viria a ser o meu primeiro marido.

Seis meses depois, estávamos casados.

Que tal esse insight inédito da minha vida? Ninguém

soube disso até agora.

OK, tudo o que está escrito acima é mentira. Mas se

eu sustentasse as informações, poderia deixar de ser invenção.

Fiz isso apenas para mostrar como a manipulação

da informação pode ser algo perigoso. Quantas pessoas

que você conhece mentem por compulsão? Eu conheço

um monte. Mentir, infelizmente, passou a ser um jogo

social da vida moderna. Que pena. Seria melhor que todos

tentassem mudar as suas realidades de modo inventivo e

delirante. Sem precisar forjar filmes, sem precisar dar combustão

à mentira. Que, é bom que se diga, nem sempre

tem pernas curtas.

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A VERDADE

SEM ALÍVIO

Somos ensinados que dizer, saber e praticar

a verdade é o ato mais importante da vida.

Somos levados a acreditar que a verdade, sob

todos aspectos, conduz a situações melhor resolvidas,

onde o que estava nebuloso se torna

visível. Somos forçados a dizer a verdade em

situações comprometedoras, delicadas e que

podem transformar completamente o rumo da

história de cada pessoa. Todos concordamos

que a verdade esteja acima de tudo. Pois eu não

concordo. Quer saber por quê?

Na tragédia grega Édipo Rei existe uma frase que

continua marcante para mim: “É sempre terrível a verdade

quando ela não traz alívio”. Certíssimo estava Sófocles, o

autor desse clássico. A verdade, quando é exigida, pode

trazer uma seqüência de fatos desastrosos e impensáveis,

capazes de aniquilar alguém para sempre. Jamais defendi

que se ocultem fatos profissionais importantes, nem que

as pessoas apostem na duplicidade de suas intenções. Não

defendo os mitômanos, os mentirosos ou os dissimulados.

Ao contrário, adoro lidar com posições claras, luminosas e

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sinceras. Mas, em situações de relacionamentos pessoais e

na amizade, quando tudo corre aparentemente bem, para

que tentar arrancar depoimentos forçados, em busca de

supostas verdades?

Ninguém quer passar por tolo. Nem eu. Entretanto,

convenhamos um detalhe importante: vale mesmo saber

tudo de alguém, se esse alguém é muito importante na sua

vida? Vale querer descobrir se o seu namorado piscou o

olho para alguém na festa, ou se o seu amor trocou uns

beijos com uma desconhecida na última viagem à Europa?

Você também acha necessário revelar que teve sonhos

eróticos com um amigo em comum ou que sente estranha

atração pelo corpo do instrutor de tênis? Meus amigos e

amigas, em boca fechada não entra mosca e todos vivem

felizes para sempre.

São, por isso, chatas as pessoas que vivem querendo

discutir o relacionamento, sempre para cavar a tal da

verdade. Penso que nem as freiras na clausura dos conventos

estão livres de sentir ondas de desejo, nem os

nossos parceiros ou parceiras não deixam de cometer

várias pequenas traições por dia. Em pensamento, vontade

ou ação. E vamos agir como? Enlouquecer? Sair

pelas ruas disfarçadas de Sherlock Holmes? Virar megeras

indomáveis? Soltar os cachorros? Revirar lenços em

busca de marcas de batom, procurar telefones estranhos

nos bolsos do paletó, telefonar a todo o momento,


desconfiar de tudo e de todos? Olha, meu conselho é:

relax, baby.

A verdade, se não for na barra dos tribunais, pode

muito bem ser dita quando se quer, sem forçar a barra,

sem obrigações. Ou, quem sabe, omitir fatos que não fariam

mal a ninguém deixa de ser uma falta. Sejamos modernos

e menos arcaicos: se alguém gosta sinceramente de

nós e nós gostamos sinceramente desse alguém, nada de

cobranças para saber a verdade. Porque a verdadeira

elegância, senhores e senhoras, está em nunca perguntar

nada. Nem todos conseguem. Mas, volto a repetir, vale

saber a verdade se ela não traz alívio? De jeito algum,

baby. Sejamos light em tudo e menos dramáticos.

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VULGARIDADES

UM JEITO FEIO DE ESTAR NO MUNDO

Os conceitos de vulgaridade se alteram de

tempos em tempos e, muitas vezes, o repugnante

de antes se transforma no belo de agora.

Importante não querer armazenar tabelas

estéticas pela vida afora, mas ficar atento à

maleabilidade das interpretações, à mudança

inevitável que o tempo produz e ao ritmo incessante

de renovação do mundo contemporâneo.

O kitsch, o cafona e o brega são continuamente assimilados

na moda, nas artes plásticas ou na música, acrescentando

citações que só enriquecem suas criações e produtos,

além de propor convivências mais democráticas. Maneirismos,

manias, cores, excessos, colecionismos, misturas, contrastes,

releituras, replays, revisões: tudo pode conter gotas

de vulgaridade, sem perder nada em qualidade. Que bom.

Agora vamos descer a lenha? Vamos. Há vulgaridades

e vulgaridades, convenhamos. Ligadas a propostas estéticas,

serão sempre bem-vindas, louvadas e assimiladas com

muita bossa. Mas o que dizer quando a vulgaridade traz

apenas a banalização da burrice, o uso estúpido da sensualidade

e a reprodução de comportamentos agressivos?


Temos sido forçosamente obrigados a aceitar, pela TV,

essa avalanche ininterrupta de jovens pretendentes ao posto

de celebridades instantâneas. São pessoas que, paradoxalmente,

ficam famosas apenas porque ficaram famosas.

Tudo alimentado por exaltações à vulgaridade, pela falta

de propostas profissionais interessantes e por excesso de

oportunismo. Cultuam os próprios corpos de maneira

meramente exibicionista e, ao divulgarem em excesso suas

supostas possibilidades sensuais, se tornam os seres menos

sedutores do planeta. Ocos, sem conteúdo, com tempo

datado, os fenômenos da vulgaridade são perigosos. Mas,

sorte nossa, têm vida curta.

Triste é constatar que a vulgaridade ronda o nosso

calcanhar. Como se fosse um vírus sem controle, ela pode

atacar a qualquer momento, a toda hora, segundo a

segundo. A vulgaridade pode surgir no cabelo louro farmácia

da quarentona exibida, na risada alta do homem

que fuma no corredor do hotel, no rímel borrado da recepcionista,

na camiseta regata usada fora de hora, no barulho

do chiclete, no uso excessivo de celulares, na comida gordurosa,

no marketing religioso, nos cabelos com descuido,

na exibição de poder, na ostentação de dinheiro, no cinema

americano violento, no som alto do carro, nos bíceps estufados,

no carro parado em fila dupla, no jardim particular

mal cuidado, na gula, na informalidade obrigatória, na máfé,

na ultrapassagem do sinal vermelho, nos decotes no

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trabalho, nas pernas de fora dentro do ônibus, no consumismo

bobo, na vizinha que dispara palavrões pela janela,

no aeroporto lotado, na falta de assunto, na conversa

mole, nas modelos de lábios abertos, nas festas barulhentas,

no macarrão mole, na cabeça dura, no descontrole de

ações, na exposição das emoções, no excesso da palavra

eu, na falta de amor ao planeta. Tudo depende de limites:

vulgaridade é um modo doente de ver a Terra, um modo

viciado de conviver com o próximo, um jeito feio de se

estar no mundo, um egoísmo cheio de pontas.


DESAFIOS

NA MIRA DO IMAGINÁRIO

Dispor-se a um desafio é como empunhar um

arco-e-flecha determinando-se a acertar o mais

próximo possível do alvo. No início, há a insegurança

de conseguir firmar a flecha, de desconhecer

a trajetória a ser percorrida do momento

do impulso até a ponta da seta ser cravada no

alvo. Quando se consegue um arremesso bom,

ótimo. Chegar ao alvo é puro êxtase.

Uso essa imagem por considerar que desafios são

como apostas sobre a sua própria capacidade, conjugada à

potência dos instrumentos que serão utilizados para se

alcançar o objetivo pretendido. Olho, cálculo, músculos,

braços, mãos e decisão. Lá se vai a flecha, lá se vai a decisão

de fisgar o objetivo.

Para mim, essa imagem é muito importante, por significar

o resultado das alterações de corpo, mente e coração

a que me propus de alguns anos para cá. Decidi-me a

fazer uma manobra radical, implantando nos meus comandos

os chips invisíveis da determinação. Andava farta

de ver meus planos esmorecerem e de ser considerada

uma pessoa fraca, daquelas que nunca eram ouvidas para

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decidir nada e que mantinha uma aparência que traduzia

infelicidade completa. A partir daquele estado, só me

restaria fazer voto de clausura para entrar em algum convento

perdido na mais alta montanha do mais escondido

dos países. Entretanto, o alarme soou e eu disse a mim

mesma: não sou o que pensam.

Provei a mim, aos amigos, à família e a tudo o que me

cerca que eu armazenava uma gigantesca capacidade de

realizar, produzir e gerar boas idéias. Capacitei-me porque

assim quis, porque me decidi a cumprir o objetivo de nunca

mais ser uma pessoa passiva, desconsiderada, apática,

fora de forma, em processo contínuo de falta de estima e

confusa quanto ao que esperava da vida. Eu sabia que lá

dentro havia um dínamo, uma potência, uma força latente

de proporções desconhecidas. Sentia o rugido da fera.

A fera surgiu, eu me refiz, a vida foi inteiramente reconstruída,

adquiri excelente forma física, passei a propagar

minhas idéias, ganhei novos e fiéis amigos, tornei-me

independente da sombra da família, gerei negócios, consegui

administrar os vulcões emocionais, restaurei nova

ordem nas relações pessoais, ganhei maior confiança dos

filhos e, nada se compara a isso, pude encontrar a forma

exata de me expressar perante o mundo.

Apegar-se a desafios é, portanto, um exercício fundamental

para quem deseja ir além. Contra a acomodação,

contra a mesmice dos dias, contra o amortecimento


que nos impõem, só existe uma solução: decidir-se por

buscar seus objetivos. De nada adianta optar por escapismos

de religião, nem fugir da realidade que não se deseja

ver. Antigos pensadores orientais diziam que manter um

objetivo seria praticamente meio caminho andado para a

realização da meta desejada, do sonho pretendido, da

mudança almejada.

Nunca defendo positivismos ou esoterismos de butique:

apenas quero esclarecer, a quem quiser prestar

atenção em mim, que nada pode ser tão importante

quanto se pautar por objetivos. Alcançar um objetivo,

por menor que seja, já é o suficiente para trazer um

enorme bem ao coração.

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VAMPIROS

BAIXA VOLTAGEM

Talvez não exista na face da Terra alguém

que não seja vítima de alguma forma de vampirismo

emocional. Sabe do que estou falando?

Claro que sim. São aquelas pessoas sem luz

própria, geralmente complicadas e emaranhadas

em problemas diversos, e que sobrevivem

graças à energia alheia. Energia em vários sentidos:

profissional, financeira, sexual, emocional

e por aí afora.

Pois bem. Então essas pessoas – coitadas delas e

coitados de nós – precisam inventar uma gambiarra de

energia. Puxada diretamente de quem? De nós ou de outros,

as usinas geradoras de luz. Não que elas façam isso de

modo proposital. Não que todas sejam um estorvo. Na

maioria das vezes, essas pessoas mal têm consciência da

carência energética a que estão submetidas, nem ao uso

que fazem dos contatos humanos.

O vampirismo mais corriqueiro ocorre quando alguém

sente fascínio por outra pessoa e a tal pessoa escolhida

se torna a sua referência máxima de realização, de postura

e de layout social. Fascínio declarado, vampirismo de

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contrabando. Não estou inventando coisas. Basta analisar

com calma todos os que estão ao seu redor.

E os vampiros agem na calada da noite ou na calada

do dia. A sugação se processa mais ou menos assim: contam

seus problemas, pedem atenção ilimitada, requerem tempo

infindável, riem, choram, fazem lamúrias e parecem estar

sempre à espera do apocalipse. Depois, aliviam um pouco

essa dinâmica. Porém, novos ataques podem acontecer em

edição extraordinária.

Vampiros emocionais não são amigos. Os amigos

podem chorar, espernear, contar relatos tristíssimos e pedir

ajuda. Em contrapartida, existe um recarregamento mútuo

de baterias. Também estamos sujeitos a furar o pneu no

meio da vida e precisar de um ombro amigo. Por isso, não

se confunde amizade com vampirismo. Deu para entender?

Os vampiros são meio bajuladores, adoram demonstrar

simpatia, sabem tudo da sua vida e dizem conseguir

realizar qualquer tarefa. De repente, pimba: falam durante

meia hora sem parar, pedem sua opinião, inventam situações

absurdas, dão nó em pingo d’água, torram a sua

paciência, não registram nada do que você propôs e vão

embora, felizes da vida por ter encontrado algum ser disposto

a ouvir suas vampirices.

E você? Sente-se enfraquecido, zonzo, com a cabeça

confusa. Missão cumprida: o vampiro emocional conseguiu

o seu intento. Saiu todo serelepe, descarregou o seu


embrulho de confusão na sua cabeça, bebeu da sua disposição

e pronto. Aí você fala que está se sentindo sem

energia, não é assim?

O que nos traz consolo é saber que os sugados são

completamente antagônicos aos sugadores. Os primeiros

são poços intermináveis de alegria, experiência de vida,

decisão, resolução, amor-próprio e um bando de coisas

legais. Bom, enquanto isso, os segundos parecem fadados

ao amortecimento contínuo de suas vidas tão opacas, tão

bobas e tão desajeitadas. São pessoas que parecem ter

vindo ao mundo para não realizar nada além de depender

do fluxo de criatividade do outro. Rezemos por eles.

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Dentro

&

Fora


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Cada vez que te vierem propor

Personagens pra vida real

Jogue as máscaras fora ou não

Mas não se esqueça que é triste

o flagrante no fim

(Café, de Egberto Gismonti)


USAR O OUTRO

PISTA DUPLA

Há certas pessoas que adoram usar e abusar

de contatos profissionais, sociais ou sentimentais

para abrir caminhos por onde passam. Não elaboram

duas frases sem citar o nome de alguém, de

preferência famoso. É o chamado despejador de

nomes: basta pronunciar com segurança que é

amigo de fulano, ou que está ali para checar tudo

a pedido daquele ator ou empresário famoso.

Façanhas que costumam ser bem-sucedidas, já

que citar o nome certo no lugar certo funciona

como chave-mestra em várias situações.

Há pouco soube de um produtor de teatro que usou o

meu nome em cidades do Sul do Brasil para tentar apresentar

por lá a montagem beneficente de um grupo do qual eu

participei. Ok, nem me importei tanto. É impossível evitar

passagens desse tipo, principalmente quando lidamos com

pessoas de áreas distintas, em situações nunca repetidas.

Se nada impede que sejamos usados, só nos resta

tomar consciência de quem está ao redor. Será que todos

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merecem confiança absoluta? Em que momentos é essencial

falar menos, revelar menos? Ser usado pode ser o resultado

direto de palavras que proferimos a esmo.

Os que citam com constância o nome de amigos

poderosos por interesse próprio merecem até olhares de

compaixão. São pessoas sem repertório próprio, sem brilho

pessoal e sem carisma suficiente para circular com segurança.

O problema é que os despejadores de nomes jamais admitem

que acionaram da agenda um punhado de nomes cintilantes

para galgar escalas sociais. Seria como assumir que são

inodoros, incolores e insípidos. Gente de luz própria não precisa

de recursos desse tipo, nem pontuam a conversa com

artimanhas que não lhes pertencem.

Vale citar uma curiosidade. Existiu no século XIX uma

escola de pensamento que propunha o utilitarismo como

doutrina para conseguir prazer individual. Se todos aderissem

à prática, haveria um equilíbrio entre os interesses diversos e

a felicidade seria possível para um número maior de pessoas.

Hoje ninguém se atreve a defender coisas desse tipo…

Em determinadas ocasiões, porém, nossos amigos íntimos

podem usar do conhecimento que têm sobre nós para nos

defender em público. Nesse caso, trata-se de usar o conhecimento

de outra pessoa de forma altruísta, zelando pela imagem

do amigo por desfrutar de sua intimidade. Um bom exemplo de

que, às vezes, há fatos positivos para quem permite ser usado.

Desde pequenos, usamos em benefício próprio a pro-


teção biológica dos pais. Eles, por sua vez, usam os filhos

para dar continuidade a suas vidas, planos e histórias. Entre

amigos, ocorrem trocas constantes de idéias, confissões,

preferências e parcerias. Até na relação com os animais

domésticos há o uso explícito: o cão traz alegria, calma e faz

companhia, enquanto damos abrigo, alimentação e carinho.

Agora chego ao ponto essencial: o uso que existe num

relacionamento amoroso. Há quem prefira dizer que são trocas.

Mas qualquer troca exige uma situação de uso. A relação

serve para proporcionar prazer, companheirismo, divisão de

idéias comuns e conexões de confiança mútua. Geralmente

só temos essa visão quando avaliamos os antigos namoros

ou casamentos.

Sim, sempre houve e haverá algum tipo de uso. Quando

somos avisados de que alguém usou nosso nome de modo

impróprio, devemos cortar relações. Principalmente se houve

intenção de conseguir vantagens imediatas ou puxar o tapete

de outras pessoas. Porém, se a atitude foi inofensiva, vale lembrar

do antigo slogan de um fabricante de mate: use e abuse.

Basta não darmos peso excessivo aos verbos. Afinal, não são

esses os ossos do ofício de quem se tornou usável?

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CONFIDÊNCIAS

FALAR É PRATA, CALAR É OURO

Ah, como é bom poder contar segredos, revelar

situações íntimas, abrir o coração, mostrar

fatos desconhecidos. Ah, como é bom ter alguém

que nos ouve, alguém com quem se divide uma

confidência, alguém que compreende cada resgate

do nosso passado. Ah, mas como pode ser

perigoso fazer confidências!

Sempre vai existir um momento em que passamos a

sentir confiança em determinadas pessoas, a ponto de revelar

assuntos íntimos ou detalhes pessoais altamente

bombásticos. Bom, por mim, não considero mais nada

capaz de ser bombástico. Porém, existem muitos que, tão

logo recebem informações delicadas, sentem-se portadores

de algo precioso, de segredos que passam a significar

poder sobre alguém. E, em uma seqüência que varia

de situação a situação, revelam exatamente aquilo que

nunca poderia ter prosseguido adiante, por motivos óbvios.

Hoje são poucos os que ouvem um segredo e mantêm a

boca fechada. Falar muito, contar tudo e espalhar brasas

alheias virou uma especialidade quase profissional.

Dá a sensação de impotência e raiva descobrir que a


sua confidência caiu em bocas de Matildes, sem o menor

pudor ou acabamento final. A bem da verdade, passa a

existir arrependimento antecipado assim que acabamos de

contar algo importante a alguém não merecedor de confiança.

Passamos a desejar, ardentemente, que aquela

pessoa esqueça o que falamos. Ou que, pelas condutas

civilizadas, jamais toque outra vez no assunto.

Em tempo: contar mais do que se deve acontece com

freqüência quando se ultrapassa os limites do vinho, por

exemplo. Vinho é aquela bebida leve e traiçoeira que nos

impulsiona, sem que se perceba, a desfiar rosários de confidências,

gerando aproximações indevidas, ou criando

um delivery imediato de segredos. No vinho está o segredo.

Na manhã seguinte, o alarme grita na memória: “Para

que fui contar aquilo, meu Deus? Onde eu estava com a

cabeça? E agora? Ai, que vexame”. Frases clássicas de um

day after.

O único jeito é se fingir de morto, rezando para que a

outra pessoa tenha esquecido tudo. Claro que isso nunca

ocorre, mas é lindo acreditar em milagres. Quarenta e oito

horas depois, que tal uma discreta sondagem de terreno?

Pode-se telefonar à pessoa em questão, comentar a noite,

disfarçar e comentar meio sem-graça sobre a quantidade

de bobagens que foi falada por todos. Quando se trata de

alguém elegante, você até pode ouvir esta frase confortadora:

“Não se preocupe, tudo o que foi falado vai ficar

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entre nós”. Com certeza, esse é o maior bálsamo que se

pode ter em vida.

O problema, caindo na real, é que apenas 1% das

pessoas teria um comportamento tão impecável assim.

Então só resta tirar lição da tolice cometida para, em uma

próxima vez, exercitar o autocontrole, estancar o fluxo de

segredos, tratar de não falar sem refletir sobre as conseqüências,

e por aí afora. Tenha sempre em mente que, por

meio de uma confidência, sim, de uma simples confidência,

podem surgir golpes de estado, rompimentos amorosos,

perdas de cargos, maledicências em grupo, finais de

amizades, atitudes preconceituosas, decepções, sustos,

isolamento e, o pior, a fama de ser indiscreto. Repita

muitas vezes o velho ditado: “Em boca fechada não entra

mosquito”. E boa sorte.


BEM-ESTAR X SEXUALIDADE

DE TUDO PARA TODOS

Às vezes fico pensando como as pessoas se

entregam a impressões rasteiras sobre assuntos

que, de certa forma, seriam complexos. Ou

então como todos adoram chegar a conclusões

precipitadas e tolas em vez de se abrirem a

perspectivas renovadas do comportamento

humano.

Para localizar isso melhor, sou obrigada a me tomar

como exemplo. Todos sabem que atravessei mudanças

radicais de vida e que consegui demonstrar, de modo

inteiramente profissional, como é possível deixar de ser

uma pessoa abatida para se transformar em uma mulher

que se determinou a nunca mais esmorecer e a não mais

passar a imagem da deformada pela balança, sofredora

por não ter rumos e mal-amada depois de experiências

equivocadas. Tenho certeza absoluta de que essas conjunções

pessoais não mais se repetirão.

Claro que tantas alterações não me fizeram perder a

feminilidade. Ou melhor, adquiri outra noção de feminilidade,

mais amadurecida, mais experiente e muito mais

decidida. Por estar antenada com as possibilidades de meu

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tempo, compreendo que não é tão difícil atingir metas físicas,

emocionais e até econômicas. Quando se quer, nada

parece longe, impossível ou inalcançável.

Pois bem. Então me pego em certos dias agindo

como uma máquina, feito uma personagem repleta de

ações a realizar, a executar, a criar, a pensar. Gosto de estar

em ação e de ver resultados daquilo que até pouco pouco

tempo atrás era apenas uma idéia. Acontecimentos assim

me animam, me deixam exultante, me impulsionam a outras

vontades de expansão. Gosto – e me permito – de estar de

bem com a vida. Em todos os sentidos.

Entretanto, muitos me vêem como uma mulher que

canaliza toda essa energia e esse dinamismo para um destino

único: a sexualidade. Pensam que por eu estar sempre

bem disposta e com gestos amplos, por achar graça com

quem está ao meu redor e por expor minha forma de ser

generosa perante o mundo, seria apenas para enaltecer a

minha libido. Ora, minha libido vai muitíssimo bem, obrigada.

Assim como também vão muito bem a minha

cabeça, o meu tronco e as minhas pernas. Cuido de cada

parte do corpo – e da psique – sem tentar enaltecer ou

forçar ciclos ou ritmos diferenciados.

Gosto de amar aquilo que me faz contente, gosto

de ser gentil com o que me possibilita troca de alegrias. Se

durante muitos anos estive escondida no sótão da falta

de amor-próprio, de cinco anos para cá posso propagar


que me abasteci de auto-estima suficiente para ser uma

outra pessoa. Livre, rejuvenescida, libertária, aberta, desencanada

e sempre disposta a inventar novas frentes de trabalho,

amor e amizade. Evidentemente que no meio de todas

essas possibilidades se encontra também o sexo, essa dádiva

com que os deuses contemplaram os seres viventes.

Mas é importante avisar aos navegantes: não confundam

energia de vida com mera disposição sexual. Acho

que os que pensam assim estão apenas projetando situações

complicadas das suas próprias vidas, em que deve faltar

disposição, idéias e sexo. Ainda bem que não pendo para

nenhum lado. Meus funcionamentos físicos, emocionais,

sexuais e espirituais andam no mesmo ritmo e passam

todos muito bem. São como filhos: gosto de todos e dou

atenção a todos. Certo?

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Vejam que situação

E vejam como sofre

um pobre coração

Pobre de quem acredita

Na glória e no dinheiro

Para ser feliz

(Saudades da Bahia, de Dorival Caymmi)


RECONHECIMENTO

ROL DA FAMA

Encontro pessoas que se transformam imediatamente

quando percebem a aproximação

de um fotógrafo ou de uma câmera de TV. Para

esses, a imagem parece ser a forma real da

vida, e não o contrário. É como se elas vivessem

eternamente estrelando um comercial de televisão,

só que o produto são elas mesmas e serem

aceitas pelo mercado é questão de sobrevivência.

A espontaneidade cedeu lugar ao posicionamento

de personagens, dos superegos e

dos ventríloquos de salão.

Foi-se o tempo em que bastava a frase deita-te na cama

e cria fama. A compreensão da palavra fama na sociedade

contemporânea obedece às obrigações da tresloucada sociedade

do espetáculo. Tudo deve ser espetacular, animado,

mega, produzidíssimo, ostentativo, festivo. Ninguém convida

mais para se tomar um prato de sopa, sorver um licor ou

ouvir um CD. Existe a obrigação de que todos os atos sejam

expostos, abertos, visíveis e compartilhados.

Claro que reconhecimento autêntico é a melhor das

recompensas para o nosso trabalho, mas é preciso criar defe-

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sas, muitas vezes contra nós mesmos. Para quê? Para domarmos

o ego que volta e meia insiste em nos convencer

que só ele pode reinar em nosso castelo. Não dá para deixar

relativa a vida em um único aspecto, não dá para viver

mendigando cinco milésimos de segundos de fama, e não

me corrija, nos dias de hoje basta isso para o novo ficar

antigo. É como um glacê, sem consistência seu destino é a

lata de lixo.

E ser reconhecido implica significados mais brandos,

como gratidão, agradecimento, identificação, observação,

aceitação. Fácil não é. Conquistar o tal reconhecimento é

processo longo, pressupõe aceitar nossas limitações e falhas.

Reconhecer que nem todos os valores ditados pela mídia são

necessariamente melhores do que os seus. Saber que existem

outras formas de viver com satisfação além dos flashes.

Por isso costumo dizer que não ando no encalço da

fama, nem atrás dos aspectos vazios da celebridade. Sou impulsionada

a concretizar propostas com o meu dínamo: idealizo,

busco, realizo, questiono, analiso e mostro resultados

finais aos públicos-alvos. Conquisto outras áreas porque jamais

forjei situações que trouxessem reconhecimento. Vale

notar aqui que jamais colocaria o meu rosto em algo que eu

mesma não acreditasse.

Se agora sou reconhecida em determinados setores,

isso se deve basicamente ao fato de ter conseguido atingir

metas a que me propus com seriedade nos últimos anos. Não


creio nas escaladas profissionais fáceis, nem em transformações

pessoais sem dificuldades.

Mudanças em série e que ainda vão continuar por bastante

tempo a me levar a outros meios de expressão. Continuo

inquieta e disposta a ser ajustada ao arrojo dos novos

tempos. Ser reconhecida é decorrência desse trabalho. Nunca

uma meta.

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EGOS INFLADOS

INFLÁVEIS E INFLAMÁVEIS

A vida moderna e os rituais sociais contemporâneos

nos levaram, nas duas últimas

décadas, a aprender a conviver com os chamados

egos inflados. E o que significa esse termo?

Não é bem uma forma de exibicionismo. Não

seria puramente ausência de altruísmo. Não se

trata apenas de assuntos auto-referentes. Nem

tampouco de pessoas que compreendem o

mundo somente a partir das idéias próprias.

Os egos inflados são isso tudo junto, mais uma

porção de intolerância, desatenção, invasão

de espaço alheio, desinteresse por opiniões

diferentes e algumas gramas de presunção,

isso só aprendi a duras penas.

Participei há pouco de uma montagem teatral beneficente

que reuniu um grupo de personalidades com

destaque quase permanente nos jornais, nas colunas sociais

e nas revistas. Altos profissionais de áreas diversas,

celebridades e instant darlings da mídia. Do processo de

encontros iniciais à convivência obrigatória dos ensaios


constantes, foi possível observar reações inesperadas e

humores oscilantes. Talvez eu tenha presenciado um pouco

da comédia humana relatada por Balzac.

Claro que revi amigos no grupo, além de ter feito

novas amizades. Da equipe de produção aos técnicos, dos

atores aos diretores, descobri gente com vontade de

aprender e humildade de reconhecer seus desacertos.

Como também alguns que vieram e saíram, deixando rastros

de estrelismos. Pessoas com dificuldades para dividir

encontros coletivos ou participar de uma criação em grupo.

A rápida passagem pelos palcos só me acrescentou.

Vi como seria possível lidar com a representação das

emoções, percebi que o esforço contínuo leva a performances

bem realizadas e compreendi o valor da tolerância

para se conviver em agrupamentos de pessoas diferentes.

Abri-me, como nunca fizera antes, a ouvir opiniões,

toques e sugestões. Observei ser inútil e pueril reagir com

ataques súbitos, principalmente quando se buscam objetivos

comuns, dentro de prazos determinados. Vi adultos que lembravam

crianças esperneando, caso alguém chamasse a sua

atenção ou pedisse correção no comportamento. Alguns

saíam e não retornavam mais aos ensaios. Vários abrandaram

explosões de ira com comentários bem-humorados.

Outros souberam derreter o iceberg do orgulho.

Quanto a mim, confesso que preferi deixar claro que

pouco sabia daquelas situações novas, e tudo o que acon-

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tecesse seria gratificante. Óbvio que durante certos

momentos senti ímpetos de abandonar a guerra e retornar

às minhas atividades profissionais. Não agi assim pela

decisão de enfrentar um desafio desconhecido. Porque existem

duas espécies de entusiasmo: o da alma e o do ofício.

Não sei se voltaria novamente aos palcos. Quem sabe?

Mas considero ter aprendido experiências importantíssimas.

Se como disse Caetano Veloso “de perto ninguém

é normal”, em grupos de convivência constante é onde se

revelam os verdadeiros personagens. Cada um com suas

manias, egos em expansão, colisões de idéias e pouco controle

verbal.


INTUIÇÃO

SERÁ QUE FIZ BEM?

Nem sei por onde começar este relato aturdido,

a fim de contar uma parcela do que me

ocorreu. Vamos lá. Após dar, por meses a fio,

alguns conselhos para minha melhor amiga

sobre relacionamentos, resolvi fazer o que era

certo, assim achava. Contar-lhe que ela estava

sendo traída pelo seu marido. Minha intuição

feminina dizia que algo andava estranho, nele o

comportamento oscilante, o cheiro de perfume e

outras minúcias. Minha amiga, baseada nas minhas

observações, resolveu colocar um detetive

para sondar essa situação nebulosa. Caso existisse

adultério, ela saberia logo. Contratou em

seguida uma agência especializada em serviços

secretos. Cinco dias depois assistiu, gelada, passada

e trêmula, o sinistro resultado. Na sala

daquele escritório, fotos digitais mostravam José

Roberto, seu marido, com a amante, namorada,

sei lá como chamaria a tal sirigaita.

Ao sair de lá, completamente desnorteada, cheia de

provas e com a listagem de endereços freqüentados pelos

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138

dois, sentiu que a minha intuição, mais uma vez, estava certa.

Seria uma lição de moral, um golpe de superioridade se

o pegasse. Parou o carro, abriu um envelope e viu a direção

do principal local que ele, seu marido José Roberto, costumava

ir com ela, a sirigaita-piranha-bandida. Chorou, e

telefonou, ainda fungando, para mim. Eu a incentivei a

prosseguir no seu intento. A minha intuição também pedia

vingança. E lá foi ela, feito uma barata tonta, em busca do

seu grande amor em um bar escondido dos Jardins. Estacionou,

desceu e caminhou desvairadamente até o local do

crime, ou seja, o bar. Olhou através da grande janela da

fachada e viu, logo na segunda mesa, ele, José Roberto, seu

marido, segurando as mãos dela, a monstra loira. Ele, de

costas, não a viu. Ela, a sirigaita, a viu. Mas desconhecia

quem ela fosse. Lágrimas grossas caíam do seu rosto.

Voltou arrasada, massacrada, destroçada.

Dá para imaginar como foi aquela noite? O que soube

é que ela disse tudo o que sentia ter direito. Saiu de casa, fez

as malas de José Roberto, quebrou um pufe e um cinzeiro,

xingou, bateu os pés, chorou, mostrou as fotografias. Tudo.

Estão separados desde aquela ocasião, com o divórcio

correndo por intermédio de advogados. Tenho o pressentimento

de que ele vai se arrepender. Mas enquanto isso, para

não cair em desespero, ela consulta oráculos esotéricos que

aprimoram a aura e a intuição. Usa cores indicadas para levantar

o astral, mudou o visual e sentiu que deveria pedir


demissão do seu emprego de fonoaudióloga. Isso foi outra

bomba: nunca mais conseguiu colocação no mercado. Algo

me diz que era preciso inventar, urgentemente, saídas alternativas

para esses casos.

Sentiu também intuições estranhas de que captaria

algum tipo de sorte nesse período, pois há dito: infelicidade

no amor traz sorte no jogo. Comprou montes de bilhetes

lotéricos – inteiros – e passou dias e dias e dias nos

bingos. Perdendo cifrões. Achou que inaugurava a categoria

infeliz no jogo e infeliz no amor.

Durante certa madrugada, perdeu o sono e ficou na

cama analisando a confusão que se tornara a sua vida.

Mas ela não é mulher de desistir fácil daquilo que se

propõe conseguir: estabilidade emocional e econômica.

Sentiu que poderia abrir um negócio próprio, conseguiu um

namorado interessante, mudou de casa e arrumou a vida.

Aconselhada por mim, pediu um alto empréstimo no banco

e apostou cada centavo nas minhas intuições.

Oh vida! Oh céus! Oh dias! Hoje, aos 34 anos, é uma

mulher endividada, amargurada, neurótica e assustada. Os

negócios não prosperaram, brigou feio comigo, a separação

continua emperrada e o tempo não pára. Puxa, mas

lá no fundo tenho a percepção de que tudo ainda poderia

dar certo. Bastaria que eu insistisse e não desistisse de

aconselhá-la. Minhas intuições ainda vão trazer resultados.

Pressinto isso ou pergunto isso?

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ANSIEDADE

O DRAGÃO NOSSO DE CADA DIA

Dias atrás me perguntaram no chat do meu

site como agir para controlar a ansiedade. Na

hora, confesso ter respondido de maneira simplificada,

mas depois fiquei a pensar sobre a

complexidade do tema. Ansiedade é a doença

dos tempos modernos e o epicentro de incontáveis

males.

Tecnicamente, a ânsia seria um sentimento oco, desprovido

de objetivos lógicos. Devido a causas psicológicas

inconscientes, o cérebro envia comandos que provocam no

corpo estados de angústia, necessidade imediata de suprir

carências desconhecidas, abrandar temores, saciar algo indizível,

preencher os vazios físicos, existenciais e emocionais.

A velocidade do cotidiano das grandes e das médias

cidades impôs ritmos tão acelerados que os surtos de ansiedade

nem sempre são percebidos de imediato. Milhões

de pessoas desconhecem porque continuam a agir

de modo ansioso, incorporando assim hábitos que passam

a destruir o corpo e a mente. Hábitos que corroem

a resistência orgânica, trazem envelhecimento celular e

acúmulo calórico.

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A ansiedade pode acometer também as pessoas

deprimidas, sem ser um componente psicológico ligado

apenas aos que apresentam comportamentos agitados.

Sob os impulsos da ânsia fala-se mais, come-se mais, bebese

mais, respira-se errado, dorme-se menos, travam-se os

músculos, altera-se a circulação, envelhecem-se as células,

crispam-se os gestos, turvam-se as idéias, perde-se a ponderação,

agita-se a alma, morre-se ao poucos.

São combustíveis da ansiedade o excesso de informação,

a obrigação do consumismo, a falta de silêncio, a poluição

visual, a velocidade dos deslocamentos, a degradação

do meio ambiente, a alimentação inadequada, os prazos curtos,

o esquecimento de hábitos simples, a demanda pelo

tempo, o desamor próprio e os desequilíbrios sociais.

Para se contornar o furacão da ansiedade – nem digo

acabar, por parecer uma missão improvável – seria preciso

buscar alterações radicais na qualidade de vida. Não quero

aqui passar nenhuma fórmula mágica antiansiedade, mas

o primeiro passo está em reconhecer que se é vítima desse

mal invisível. Depois, procurar abrandá-lo.

Parece fácil? É dificílimo. Para quem dispõe de tempo

livre, recursos e intenção de mudar, o processo de enfrentar

a ansiedade costuma obter resultados. Porém, a maioria

esmagadora das pessoas vive rotinas duras que permitem

quase nenhum controle. Aliás, este é o termo-chave: controle.

Ansiedade não se cura, apenas se controla.


Igual a um dragão dos tempos modernos, a ansiedade

pode atacar a qualquer momento, brotandodo

mais profundo abismo existencial de cada um. Longe de

ter controle dos surtos coletivos de ansiedade, o planeta

começa a produzir gerações com componentes genéticos

de angústia. E para abrandar esse rombo na estrutura psicológica

da humanidade, só uma pausa que nos faça

repensar tudo, refazer tudo, renovar tudo.

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144

LIBERDADE

LIBERDADE OU INDEPENDÊNCIA?

Assim caminha a humanidade: sempre em

busca de liberdade. Liberdade, clamam os grupos

políticos. Liberdade, bradam os jovens à

sociedade. Liberdade, pedem os que se sentem

oprimidos. Liberdade, acertam os casais. Liberdade,

anseiam os que não a têm. Liberdade,

abre as asas sobre nós.

E então somos envolvidos nesse gigantesco clamor

universal em que até fatos corriqueiros podem significar o

oposto da liberdade. Então, a busca pela liberdade parece

impulsionar, mover e empurrar cada um de nós, gerando

uma obrigação de pregar a importância de ser livre, de se

amar a liberdade e de proteger os que nos liberam de algo

considerado pesado.

Como não podia deixar de ser, essa característica não

apenas humana (os animais também desejam ser livres do

jugo de seus proprietários) acabou sendo incorporada por

outras formas de linguagem. Em algumas situações, virou

clichê, como na publicidade. Ninguém deveria se esquecer

daquela frase que dizia assim em um anúncio de jeans:

“Liberdade é uma calça velha desbotada”. Nos discursos


políticos, essa palavra é mais usada do que as vírgulas. No

campo das conquistas sociais, liberdade é o combustível de

cada avanço. Na economia, o mercado pede para ser livre.

E por aí afora.

Então precisamos tomar o refrigerante que traz sabor

de liberdade, precisamos correr atrás do autor que ninguém

jamais viu escrever com tanta liberdade, precisamos conhecer

aquele guru que anuncia uma vida espiritual plena de

liberdade. Daqui a pouco teremos o chiclete com sabor Tutti

liberdade, o miojo com molho Liberdade e a tintura de cabelos

no tom Liberdade.

Pois é. De repente, num momento qualquer do dia, a

gente pára e reflete sobre isso. Para que tanta liberdade?

O que fazer com tanta liberdade, ou melhor, com tanta

liberdade rotulada? Penso que se busca um objetivo que

virou outra banalização dos tempos modernos e uma

palavra que infelizmente foi esvaziada de seu conteúdo

real. Liberdade seria apenas ficar com alguém (mas manter

a mesma postura conservadora de gente que não quer

mudanças), liberdade seria sair da happy hour no instante

em que desejar, liberdade seria escolher o show mais conveniente,

liberdade seria optar pela roupa favorita? Liberdade,

atitude, estilo: três palavras que parecem não dizer

mais nada. E o termo liberdade prossegue na mesma

direção.

Prefiro dar ao termo liberdade o sentido de inde-

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pendência. Independência seria pensar de modo inteiramente

sem amarras, independência seria agir sem culpa,

sem pecado, sem peso. Independência é acreditar nas

mudanças, é apostar no novo, é não seguir tendências.

Independência para se conseguir ar puro, para se abrir ao

romance, para se levar a vida com leveza, para dar palavra

boa a quem precisa, para acreditar na amizade, para poder

falar o que pensa. Independência para observar borboletas,

para beijar na boca, para melhorar o planeta, para

respeitar os ancestrais, para alcançar o futuro. Independência

para deixar tudo fluir: pensamento, espiritualidade,

sexo, energia, intuição e sentimentos. Liberdade só vale

com independência.


PERFEIÇÃO

A PERFEIÇÃO PODE SER IMPERFEITA

Um dos meus maiores defeitos atende pelo

nome de perfeição. Sei que há muito tempo

deixou de ser virtude para se transformar em

um processo ininterrupto de procurar ajustes,

alterações e mudanças. Tudo em nome do perfeito,

da exatidão, do mais adequado, do que

não tem arestas, do que não erra. Quanta

chatice e quanta caretice, reconheço.

Por buscar a tal da perfeição, costumo sofrer decepções

ou ser obrigada a enfrentar as miragens da ilusão. Se

idealizo algo, passo a acreditar na melhor formatação possível

para a realização do que idealizei. Obviamente, na

maioria das vezes, preciso voltar atrás e reconsiderar decisões.

Sofro com isso, mas procuro me trabalhar para não

perder esse empenho. Nem me tornar obsessiva.

A perfeição é uma meta? É. A perfeição exige atenção

triplicada, organização mental, gavetas em ordem, equipe

sintonizada, propostas estruturadas, controle sobre excessos,

manutenção dos fluxos de informações e de atualizações,

boa intuição, disciplina e prática constante naquilo

que se faz. Todos esses aspectos anteriores também podem

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ser aplicados a outras modalidades da vida: relacionamentos,

amizades e negócios. Sempre dá certo? Não.

Tentar ser perfeito ou tentar encontrar a perfeição é

um sofrimento contínuo, aviso logo. Na verdade, tenho a

fórmula na mão. Mas como se eu fosse um cientista que

conhece bem a teoria, os experimentos tendem a não produzir

os resultados esperados. Já me acostumei ao estado

de chabu. Nem ligo mais quando uma idéia, que tinha

tudo para dar certo, é descartada por ser inviável. Nem ligo

mais quando o que me parecia perfeito se revela o mais

imperfeito do universo. Faz parte do show.

Perfeição seria poder falar o mínimo e obter o máximo.

Perfeição mesmo seria nunca pedir duas vezes a mesma

coisa, conviver com pessoas de iniciativa, ter amigos

com o mesmo tom de humor, não guardar rancor, ter sempre

uma saída para as soluções complicadas, acreditar que

a crise passa, receber a ligação esperada na hora marcada,

encontrar vaga em qualquer vôo, ter um amor que nunca

nos aborreça com bobagens e conseguir parceria dos filhos.

Perfeição é um final de semana sem acrescentar nenhum

grama a mais ao peso, é conseguir o vinho na temperatura

ideal, receber a visita inesperada daquele amor

que não sai da cabeça, ouvir elogio por um trabalho bemfeito,

ver que as plantas foram bem cuidadas durante a sua

ausência, receber pagamentos em dia, reservar doses de

alegria para o próximo dia.


A perfeição se esconde nos detalhes. Pode estar na

dobra do guardanapo, na luz bonita que entra pela janela,

no sino que toca ao longe, no cheiro de mato molhado, no

beijo que sela um grande amor, na boa notícia que chega

pelo e-mail, no aroma de tangerina no café da manhã, na

canção romântica que toca no bar, no sol que aquece a

areia, no som da cachoeira, na turbina do avião que me

leva de férias, no abraço de quem me recebe de volta, no

reencontro da rotina, na cumplicidade do amigo, nos cabelos

brancos dos pais, na paz que nos invade sem motivo.

A perfeição se oculta. Quando ela quer, aparece.

Quando não, corremos atrás. Isso não é perfeito?

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DIPLOMACIA

GEOGRAFIA HUMANA

Desde sempre ouço as pessoas dizerem:

“Fulano usa muita diplomacia”. Depois, fui informada

por amigos de que eu seria uma pessoa

extremamente diplomática. Então comecei

a perceber que este era um traço herdado de

meu pai, ele, sim, um diplomata nato. Agora

que chegamos ao final do parágrafo, vale questionar:

o que é diplomacia?

No entendimento mais correto do termo, seria a ciência

de negociar as relações exteriores de um país com outro.

Mas o uso corriqueiro dessa palavra ganhou outras interpretações

e também pode ser compreendido como uma espécie

de arte das negociações, ou certa astúcia em analisar

tudo o que está ao nosso redor, sem emitir opiniões imediatas

ou sem deixar de tratar bem qualquer pessoa.

Jamais me imaginei virando o rosto para alguém, por

mais que esse suposto personagem fosse extremamente

nocivo. Prefiro dispensar tratamentos cordiais, por uma

simples questão de atitude. Posso e tenho minhas opiniões

contrárias sobre pessoas diversas, mas só quem sabe disso

são meus amigos mais próximos.

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Ser diplomata na vida tem me ajudado a circular por

situações completamente opostas, sem deixar um rastro

de mal-entendimentos. Chego, olho, analiso, avalio, cumprimento,

converso, registro. De certa forma, é um comportamento

político. Seria capaz de apertar a mão de pessoas

com as quais aparentemente não tenho nada a ver,

apenas por uma questão de educação, trato civilizado e…

diplomacia.

Agir assim, de modo diplomático, tem suas compensações

sociais e pessoais. Socialmente me alivia, porque não

sou obrigada a demonstrar posições arredias a ninguém,

nem evidenciar que discordo das opiniões daquela pessoa

X, Y ou Z. De certa forma, é um jeito que encontro para me

poupar e não me aborrecer com minúcias alheias. Se fulano

pensa assim, deixa ele pensar exatamente assim. Nas internas,

comento e discordo das suas idéias. Mas publicamente

não convém, para que ele também não se sinta no direito

de revidar os meus pensamentos.

A outra vantagem de ser uma mulher diplomática é a

de exercitar por completo um lado que pede prudência,

paciência e análise. Aprendi a agir assim com meu pai, que

cada vez que o interrogam se entendeu determinado assunto

ele responde uma clássica sentença: Registrei. Portanto,

faço cá os meus registros da forma mais pessoal possível,

sem ter a obrigação de externar na hora julgamentos

precipitados, conceitos apressados ou avaliações incorretas.


Sem contar que atualmente as pessoas querem opinar

sobre tudo. Basta ligar a tevê e lá vão estar, a qualquer

hora do dia, um grupo de cidadãos discutindo o sexo dos

anjos, a inflação da Bulgária, a cor do cavalo branco de Napoleão

ou a neurose múltipla que foi descoberta na semana

passada. Por que todos querem emitir tantas opiniões

assim? O verbo achar, por exemplo, é um vício na boca de

milhões de seres. Ninguém mais diz eu considero, eu penso,

eu avalio.

Está aí uma descoberta que fiz agora: talvez eu seja

diplomática para evitar cair no lugar-comum do achismo.

Eu prefiro não achar nada sobre nada, mas pensar sobre

algo. Nada mais sensato, então, do que exercer nosso lado

diplomático nas relações humanas. Que tal imaginar que

cada pessoa é um país diferente e que os inter-relacionamentos

pedem a máxima atenção no que se diz, se age ou

se comenta? Registraram essa? Eu registrei.

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DESVIOS

DESAFINANDO O CORO DOS CONTENTES

Por ser um mestre em criar situações desviantes,

este tema é dedicado a meu irmão Arnaldo.

Um concerto de orquestra pode soar desafinado

por inteiro se um instrumentista resolve

tocar fora do tom. Uma gota d’água é o bastante

para atingir o ponto de vazamento. Um

minuto a mais ou a menos é capaz de mudar a

vida de qualquer pessoa. Um jeito diferente de

agir significa um desvio incontornável.

Conheço algumas histórias de vida que se aproximam

desse processo “desviante”. Talvez a mais marcante

seja a do filho de um amigo que desejava ser músico,

enquanto ele esperava que fosse cumprida a tradição

familiar: o rapaz se formaria em medicina. Depois dos

dramas típicos que acontecem nesses momentos de

decisão profissional, o clima fica aparentemente resolvido.

Aparentemente. Sim, porque convencer alguém que

sonha com determinada profissão a cursar uma área

oposta não é nada simples. Nem de fácil resolução. E o


filho desse amigo amargou seis longos anos até se formar

como médico. Dias depois da formatura, ele chamou o

pai, entregou-lhe o diploma e disse: “Aí está o que prometi.

Agora vou cuidar da minha vocação”. Partiu em seguida

para atuar como músico.

Esse seria um final triste? Talvez para os pais. Mas felicíssimo

para quem sente o alívio da decisão, o alívio de correr

em raia própria, o alívio de ser dono de sua própria trajetória.

De certa forma, também fui considerada “desviante” perante

os padrões pré-estabelecidos pela minha família. Por períodos

– de nada saudosa lembrança – fui analisada como outsider

completa. Por quê? Por tentar acreditar em mudanças,

por exigir mudanças, por querer mudar sempre.

Muitos não seguram as expectativas de irmãos, pais,

parceiros ou sócios. E acabam sem realizar nada de prazeroso

para si mesmo, nada de autoral, nada de verdadeiro.

Sobrevivem em um pântano de frustrações, daquelas que

mantêm o travo amargo por prazo indefinido. Quantas

pessoas se adaptam a rotinas medíocres, com temor de

serem classificadas como desviantes? Quantos atravessam

suas existências em linha reta, sem novidades, sem

nenhum fato que traga luz, explosão, renovação, brilho?

Quantos milhares vão continuar a nascer, a crescer e a

morrer na mais obscura e triste rotina, sem nem sequer

ter ímpetos de brigar para desviar o caminho de suas

vidas? Definitivamente, desolador.

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Acredito que os desvios de rota costumam trazer

belas surpresas. Certamente nada deve ser considerado

uma regra imutável, mas vale bastante apostar em

mudanças, em cambalhotas, em reviravoltas. Importante é

nunca esmorecer. Tornam-se grandiosos aqueles que enfrentam

oposição para demonstrar que estavam certos nas

escolhas, ou que desejavam investir em sonhos. Às vezes,

para nossas idéias passarem do preto-e-branco para o colorido

é necessário dar murros em ponta de faca.

Por isso, as palavras de ordem são: não se acomodar

jamais, não seguir retilíneo jamais. Um desvio aqui e outro

lá faz bem à saúde de todos.


TERRITÓRIO

ÁREAS DE PROTEÇÃO PESSOAL

Muita gente me fala sobre as tormentas

que passam por ter suas realizações não respeitadas,

suas vidas invadidas ou suas privacidades

devassadas sem permissão. Fico calada e

apenas exibo um leve sorriso. Longe de pretender

parecer ter respostas prontas para

tudo, apenas considero isso como questão de

ausência da imposição de limites. Ou melhor,

como falta de delimitação de território próprio.

Até os animais determinam seus limites por meio de

sons, rastros, dejetos e expressões de afaste-se. Ora, ora,

ora. Vale lembrar um fato fundamental que todos fingem

esquecer: o ser humano é um animal. Então, para que

aconteça alguma forma de convivência no mínimo tolerante,

seria preciso evidenciar os limites e extensões possíveis

para cada chato sem noção que circula por determinados

ambientes. Seja homem, mulher, papagaio, bandido,

político ou cachorro.

Quando digo ser importante delimitar territórios,

refiro-me a situações em que pessoas invasivas começam a

se sentir inteiramente à vontade para agir de qualquer

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modo, sem se preocupar se incomodam, se irritam ou se

são intrusos. Refiro-me principalmente às figuras conhecidas,

algumas dessas muito célebres pelo mau-caráter

empresarial, político ou pessoal, e que se acham no direito

de chegar, puxar conversa, pegar no seu braço e até dar

beijos no rosto.

Nunca estive fechada a conversar com desconhecidos,

ao contrário. Penso até que quase todo mundo que vemos

pela frente pode ter pureza de alma. Muitos dos que se

aproximam sem nos conhecer chegam de cara limpa, com

boas intenções. Se depois mudam, é outra história.

As velhas raposas dos encontros sociais não percebem

quando as evitamos ou fingem não ter compreendido

a mensagem. Esses invasores de território tão logo

encontram algum conhecido, vão lá abraçar, dar tapinhas

nas costas, perguntar como vai o trabalho, onde está

morando e outras chatices assim. Uma estranha compulsão

pela intimidade imediata, pela obrigação de parecer o

mais animado e simpático do planeta. Só que esse comportamento

é inconcebível em certos momentos.

Os intrusos profissionais não conseguem ser formais,

gentis, sorridentes e civilizados sem apertar o antebraço do

interlocutor. Adoram sentar no braço do sofá para trocar

duas frases, falam ajeitando a gola do seu vestido ou ajustando

o nó da gravata alheia. Ou começam a contar piadas

sem saber que você odeia ser platéia de piadistas de salão.


Também adoram exibir uma intimidade que jamais existiu.

O ataque dos invasores não perdoa.

Declaro aberta a campanha pela delimitação de território.

Cada chato desses que fique na sua, até que aconteça

a sinalização para avançar, ou o sinal verde para

andar mais alguns passos. Gente intrusa, seja político,

cunhado, genro, amigo do amigo ou pilantra, precisa de

limites, antes que tomem conta do planeta, dos salões,

dos encontros, das relações de amizade e dos contatos

profissionais. O pior é que eles estão por toda parte. Mantenha-se

firme e forte!

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LÍNGUAS DIFERENTES

TORRE DE BABEL

Para o meu irmão Abílio, que embora fale uma língua

diferente da minha, sempre acabamos por nos entender

Incontáveis acontecimentos desagradáveis

surgem por motivo bem simples: não saber lidar

com gente que fala outra língua. Nada a ver

com um brasileiro não poder se comunicar com

um búlgaro, ou um neozelandês sentir impasse

na hora de ser entendido por um peruano.

Aliás, há situações em que pessoas de idiomas

diferentes conseguirem se comunicar, inexplicavelmente.

A metáfora que uso aqui se refere exclusivamente

àqueles que desistimos de manter qualquer possível diálogo,

visto que pensam de modo oblíquo ou então analisam

de maneira oposta a maioria das situações consideradas

resolvidas.

São fatores complicados, mas vale a pena comentar

isso tudo. Exemplos? Conheço quem não se importe a

mínima em deixar de comparecer ao aniversário para o

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qual fora convidado pelo próprio aniversariante. Além de

nem se tocar, também é incapaz de justificar a sua ausência.

Não que seja apenas sinal de desinteresse (também é),

mas a pessoa que age assim simplesmente não compreende

porque os outros se chocam com a sua atitude.

Há gente que interpreta os valores da boa convivência

de jeito estranho à maneira que pensamos. Pode-se explicar

em detalhes a nossa posição, mas os que falam outra

língua vão permanecer na sua posição inarredável, sem

mover-se para trás ou para frente. Nem para os lados. Essa

pessoa simplesmente não entende a sua linguagem, ela

construiu (ou foi levada a construir) imagens do mundo

sob prismas diferentes, em que as coisas não têm peso

nenhum – ou passam a ter peso em excesso.

Muitos são simpáticos, educados e gentis. Isto é, na

medida do possível. Ficam boiando quando um tema determinado

é abordado e se questionam porque aquele

tema teria sido abordado. Ficam atônitos se são repreendidos,

porque a gramática de vida deles é outra. Cometer

deslizes? Desistir de objetivos? Nunca retornar a sua ligação?

Jamais responder e-mails? Discutir pontos de vista

bobos? Prometer muito e realizar pouco? Encerrar uma

atividade coletiva e sair sem demonstrar saudades do grupo?

Continuar a falar sobre futebol, mesmo depois que

você diz não gostar do assunto? Insistir para que você

coma pratos que você diz querer evitar? Repetir brinca-


deiras que incomodam? Todas essas ações, e muitas outras

mais, integram o repertório dos que falam outra língua. E

olha que nem entrei na questão de se relacionar com alguém

que fala outra língua de verdade.

Nem adianta reclamar ou tentar convencê-los de que

estão equivocados. Suas profundas certezas continuarão

arraigadas na mente, formando um dicionário próprio de

analisar o mundo e as pessoas. O único jeito, conselho de

quem já lidou demais com gente assim, é concordar com

tudo, em uma espécie de retirada estratégica de cena.

Não gaste palavras à toa. Não haveria diálogo, mas

apenas a confirmação de dois pontos de visão inconciliáveis.

Sem contar que lidar com gente que fala outra língua

dá trabalho, perde-se a paciência e utiliza-se mal o

tempo. Desista, mesmo quando são parentes ou amigos

próximos. Eles moram em outro planeta, gostam de coisas

diferentes das que gostamos, têm sensibilidades voltadas a

outros pontos e, sobretudo, se consideram certos em tudo.

Quem se habilita a fazê-los falar outra língua? Eu, não. Já

fiz muitas tentativas. Hoje fico no meu observatório.

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CAMA DE FILHO

PLAYGROUND

Para meus filhos Manoella, Tiago e Giovana, as três jóias

mais importantes da minha trajetória nesta vida

Primeiramente, quando o casamento não

vai bem, ir ao quarto dos filhos costuma ser

uma boa desculpa para evitar a presença

opressora do marido. Inventam, as mulheres,

que precisam ficar um tempo com as crianças e

depois somem por horas a fio. Essa justificativa,

quando ocorre com freqüência, denota que as

coisas entre o casal estão realmente afundando.

Fugir de marido chato só tem um refúgio

doméstico, portanto: o quarto dos filhos.

Mas comecei a descobrir, na época em que fazia isso,

que ficar no quarto das crianças é como se atingir um outro

universo. Parece que entramos na tela de um filme em

projeção contínua. Ou que retrocedemos algumas décadas

no tempo. Quem gosta de crianças, ou quem tem filhos,

como eu tive, conhece a indescritível sensação do que é a

cama de um pequeno ser com menos de dez anos.


Limitei a idade para entrar nessa viagem, porque

depois dos dez anos, entram em cena os efeitos especiais

da pré-adolescência. Mas voltando ao assunto, sempre

costumo dizer que sentar ou deitar ou conversar na

cama de um filho é uma das sensações mais gratificantes

da maternidade. Nesses momentos é que percebemos a

dimensão real (e irreal) daquela pessoa que colocamos

no mundo, de seu universo com aspectos ainda tão

restritos, de suas descobertas da vida, de suas expectativas

perante um longo tempo que prevê para sua vida.

A realidade da criança que está a seu lado é delirante,

permite tudo, alcança tudo e decifra tudo, de acordo com

códigos que só ela tem acesso. Existe naquela criatura

humana um fator real de desabrochamento, de crescimento,

de emissão de sinais. O que é o viver para uma criança?

É receber conforto, ser alimentada, ganhar atenção, ter

carinho, poder observar tudo ao redor. Tão pouco para os

adultos e tanto para elas.

Ternura é o nome do sentimento que me invadia

quando eu ia até a cama dos meus filhos. Para eles, era

sempre uma visita inesperada e um componente a mais

de alegria. Imediatamente se sentiam impelidos a me

mostrar novidades, pequenas bobagens, deliciosas tolices

do mundo infantil e que só nos enchem de amor. Sobre

os lençóis, objetos coloridos que não nos dizem nada.

Mas que para uma criança pode ser a chave do mundo.

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De um pequeno aeroplano de plástico ou de uma casa de

bonecas, tem-se um mundo inteiro à disposição da imaginação.

Sempre foi assim e sempre será: a infância tem

olhar minucioso, atento, detalhista, possuidor, sem limites.

Olhares rumo ao infinito.

Cama de criança também tem cheiro diferente. São

cheiros que nos levam de volta a algum lugar do passado,

como se nós mesmos nunca tivéssemos saído daquela

cama. São cheiros que misturam fragrâncias silvestres,

sabonetes, travesseiros, brinquedos de borracha, madeiras

claras, roupa lavada, sonhos com fadas. E as texturas? Nosso

tato de adulto se envolve na sensação de apalpar pelúcias,

substâncias molengas, mantas fofas, caixas bem lixadas,

cubos, esferas, losangos, varetas mágicas e pequenos

tapetes prontos para voar.

Toda essa ternura se mistura a uma vontade de encolher

a estatura para se juntar àquele pequeno planeta que

gira em torno daquela cama. A atmosfera se torna mais

tocante ainda quando contamos histórias cujas origens se

perdem no tempo, histórias de amigos alados, de árvores

falantes, de animais sábios, de viagens a reinos encantados,

de vôos sobre palácios dourados, de choupanas perdidas na

floresta. O grande escritor argentino Jorge Luiz Borges dizia

que a literatura infantil é a mais importante formação da

mentalidade de qualquer pessoa. Fazer sonhar é educar.

Por tudo isso, considero a cama de um filho como


uma das experiências mais bonitas da vida. De lá emanam

a pureza que perdemos, os aromas que lembram antigos

momentos, as cores que provocam efeitos sensoriais

retroativos, as formas que explicam como o mundo poderia

ser singelo e, o mais importante, aqueles dois

pequenos olhos que não sabem de nada. Mas que estão

abertos a tudo e que tentam nos proteger.

167


Amores

&

Desamores


170

UM COMPANHEIRO

O COMPANHEIRO MÁGICO

Uma vez soube que existiu nos anos 70 um

grupo musical chamado Companheiro Mágico.

Esse nome de vez em quando me vinha à cabeça,

sem motivos aparentes, mas talvez porque

encerrava um punhado de significados que pareciam

fazer sentido apenas para mim. Porém,

o tempo se encarregou de dizer que aqueles

meus devaneios tinham sentido.

Companheiro mágico. Duas palavras que traduzem a

combinação com que quase todos sonham: encontrar

alguém que reúna a capacidade de formar uma parceria

verdadeira, a partir da companhia física e, ao mesmo tempo,

exercer uma atuação mental capaz de trazer magnetismo,

encanto, crescimento, envolvimento e, sim, magia.

Se levarmos essa análise adiante, corremos o risco de

desistir da possibilidade de permanecermos abertos aos

grandes encontros. Todas as pessoas que conheço sabem

como se tornou desgastante a busca pelo romance, a

procura pela parceria perfeita. O mundo contemporâneo,

entre as suas enormes contradições, oferece recursos tecnológicos

que foram criados para melhorar a vida e propor-


cionar mais tempo livre. Entretanto, esses mesmos recursos

acabam por afastar as pessoas de convívios, de descobertas

e de aproximações. Ou, pior ainda, o ritmo da vida

moderna está tornando as pessoas auto-referenciais em

excesso. Poucos dizem nós. Muitos só conhecem a primeira

conjugação: eu sou, eu faço, eu tenho, eu quero.

Bom, voltando à busca do suposto companheiro

mágico, vale acreditar que esse termo, aparentemente

utópico, possa mesmo existir. Por que não? No momento

em que começamos a entender alguém, alguma estranha

luz transforma tudo em situações indescritíveis. Gostar de

alguém é algo indizível, próximo da plenitude. Então por

que, depois de reações adversas que não têm um

momento exato para ocorrer, “faz-se de triste o que se

fez contente”, como diz a letra da canção de Tom Jobim?

Pois é, o encontro de duas pessoas costuma sempre ser

algo enigmático.

Abracadabra. Mas se há enigma, há a possibilidade

da magia, não? Não a magia da flutuação, da alquimia ou

dos coelhos da cartola. Mas a magia que provém dos

olhares em silêncio, das mãos que se tocam, das perguntas

que não precisam ser perguntadas, dos detalhes que vão

atingir profundamente a alma do outro. Ser companheiro

é, antes de tudo, um exercício diário, minuto a minuto, de

compreensão, de manutenção e de busca pela harmonia.

Se a palavra é prata, o silêncio é ouro.

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172

De nada adianta projetarmos a busca do companheiro

perfeito no outro. Precisamos, antes de tudo, trazer

esse companheiro ideal dentro de nós. Ao se buscar a

parceria exata, estamos apenas tentando satisfazer uma

projeção de perfeição, uma idealização daquilo que sabemos

nunca estar aptos a realizar. Não é o companheiro

que precisa ser o mais sublime dos seres. Nós é que devemos

nos trabalhar para que esse fator do sublime aconteça

primeiro dentro de nós. Isso, claro, requer paciência,

inteligência e a capacidade de até se dispor a ser coadjuvante.

Tarefa aparentemente difícil em uma época em

que todos pretendem ocupar o papel de estrela convidada

na vida do parceiro.

O companheiro mágico existe, concluo. Só que essa

dádiva celestial raramente será alcançável. Pelo menos

enquanto houver demonstrações de egos inflados, surtos

de ansiedade, análises corriqueiras, palavras inúteis e desconhecimento

da psique humana. O companheiro mágico

existe, acredite. Você já esteve com ele, ou está agora com

ele bem aí do seu lado. Não dê uma palavra sequer. Feche

os olhos, respire lentamente e abra as pálpebras devagar,

como se estivesse desembarcando em um planeta estranho.

Comece a ver tudo a seu redor de outro modo. E a

observar esse ser que você conhece tão pouco. Ali dentro

mora o companheiro mágico. Para ter acesso a ele, basta

encontrar a senha que está dentro de você.


Vem sentar-te comigo, à beira do rio

Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos

Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.

(Enlacemos as mãos)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida

Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa

Vai para um mar muito longe, para o pé do Fado,

Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.

Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.

Mais vale saber passar silenciosamente

E sem desassossegos grandes.

(trecho de O Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa)

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Porque tu me chegaste

Sem me dizer que vinhas

E tuas mãos foram minhas

Com calma

Porque foste em minha alma

Como um amanhecer

Porque foste o que tinha de ser

(O que tinha de ser, de Tom Jobim e Vinícius de Morais)


PRIMEIRO CASAMENTO

COBAIAS E CIENTISTAS

Casar é complicado. E casar jovem pode ser

ainda mais problemático. Principalmente no

meu exemplo, aos 19 anos. Embora me considerasse

pronta e madura o suficiente para

enfrentar a missão, hoje percebo que mal passava

de uma adolescente bem desenvolvida.

Por ser filha caçula, mimada e controlada

pelos pais, viver oficialmente com alguém era

tão importante quanto atingir a tão desejada

declaração de independência sentimental,

emocional e existencial.

Joguei-me, portanto, de cara e coração em uma aventura

de exatos oito anos – o mesmo tempo que duraram os

meus outros dois casamentos. (Costumo até brincar que

esse é o limite de tempo que tolero nas relações amorosas.)

OK, mas casar, naquele momento, valeria como o primeiro

vôo solo de uma crisálida recém-saída do casulo. E assim

parti da casa paterna, no princípio pensando que estreava

uma vida em que só aconteceriam situações divinas e maravilhosas

para todo o sempre. Afinal de contas, essas eram

as palavras proferidas pelo padre na cerimônia.

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Alegria, alegria, alegria. Todo começo de união é leve

e pode conduzir os pares a estados próximos da plenitude.

Porém, com o passar dos anos, desenvolveu-se no meu

casamento uma estranha forma de amor. Estávamos tão

próximos, meu marido e eu, que desenvolvemos uma

relação como se fôssemos dois primos, sempre prontos a

rir e a se divertir com tudo e todos. Tamanha intimidade e

conhecimento mútuo em excesso nos afastaram gradativamente

de contatos físicos. Agíamos como parentes fraternos

que, por mero acaso, estavam casados. O resultado,

como não podia deixar de ser, nos impulsionou na direção

daquela palavra feia que faz tremer os casais: separação.

Romper o primeiro casamento foi como fazer desmoronar

uma utopia de felicidade, um reino de sonhos. E,

com menos de 30 anos, me deparei com uma mulher isolada,

magoada, com sentimento de rejeição, começando a

acumular quilos de rancor na alma e muitos quilos de

ansiedade na cintura. Para mim, a partir daquele momento,

o mundo caía de modo irreparável, tudo parecia estar

de ponta-cabeça. Reagi como agem os que perdem algo

que consideram de grande valia.

Passadas duas décadas dessa separação – que eu considerei,

imagine-se, a maior tragédia da humanidade – percebo

que também tive significativas parcelas de culpa na

separação. Conduzi e deixei os fatos se dirigirem a um

ponto sem retorno. Hoje garanto que desapareceram com-


pletamente as mágoas, as dores, os corações partidos, as

tristezas. Prefiro – e consigo – recordar situações interessantes

que atravessamos a dois, ou lembrar da forma com

que nos divertíamos como casal, dos anos que repartimos

prazeres, viagens, cama, mesa e idéias. Além de gerar dois

filhos, muito queridos.

Meu primeiro casamento trouxe, de forma que apenas

agora analiso, a base emocional para compreender envolvimentos,

sexualidades e as parcerias que acontecem debaixo

do mesmo teto. Tornei-me menos auto-referencial e mais

generosa, menos cobaia e mais cientista. Desenvolvi atitudes

para evitar a passividade feminina em excesso e

comecei a olhar o mundo com interpretações feministas.

Começava assim o prenúncio da série de mudanças

que ocorreriam depois em minha vida. Foi quase um prenúncio,

um relâmpago, do que viria à frente. Não me arrependo

de nada que aconteceu nesse primeiro casamento.

Ao contrário, só adquiri conhecimento e desenvoltura.

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SEGUNDO CASAMENTO

PÂNICO DE SER GUEIXA

Quem sai abalado do primeiro casamento,

inevitavelmente vai depositar mais esperanças

do que devia no segundo casamento. Assim acontece

com a maioria das pessoas, assim aconteceu

comigo, assim acontecerá ainda com muitos. E

agora que o tempo já se encarregou de trazer

alívio a tantas lembranças de sabor amargo, não

vejo problemas em rever esse período de tormentas

pessoais e de submissão absoluta.

Aliás, só a distância é que nos permite rever fatos

anteriormente complicados como uma série de cenas de

algum filme distante no subsolo da memória. Esta impressão

se torna ainda mais forte se conseguimos, durante esse

tempo, evoluir a cabeça, o corpo e o espírito, sabendo

deixar para trás os personagens que nos entristeceram e os

comportamentos equivocados que exibimos.

Meu segundo casamento foi uma fase de aprendizado.

No primeiro eu havia me casado muito jovem e saíra

magoada de uma experiência que tornou dois parceiros

em apenas dois bons amigos, sem cama nem mesa. Fui,

portanto, buscar em seguida algo que adicionasse aventu-

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180

ra, ação e trepidação em minha existência. Eu não chegara

aos 30 anos e queria aprender a decifrar o universo masculino.

Mal sabia eu o que me esperava. Em pouco tempo,

comecei a perceber que o papel reservado a mim naquela

relação era o da esposa submissa e completamente isolada

de grupos masculinos. Mulheres servem, todo playboy

pensa assim, para proporcionar prazer, cuidar de manter a

beleza e ficar calada.

Nada de emitir opiniões, nada de ousar no figurino,

nada de buscar um tanto de independência. Submeti-me a

situações frustrantes, em que eu me via forçada apenas a

representar o papel da mulher servil, prestativa, maternal e

máquina de fazer sexo. Qualquer ensaio de mudança, um

grito. Qualquer alteração de comportamento, uma reprimenda.

Gostasse ou não, eu precisava aprender que a

mulher era um segundo gênero, fraco, débil e acuado por

natureza. A mim cabia levar uma bandeja de aperitivos,

sorrir com educação, renovar o gelo, trocar a música, apresentar-me

sempre composta, jamais perder a linha, conversar

apenas com as outras esposas, dar boa noite, sair de

cena e ponto final.

O mais louco é que existem milhares de mulheres que

aceitam como normal esse procedimento, essas imposições

dos maridos. Seria como usar um manto invisível. E o mundo

cairia se alguém olhasse mais demoradamente para

mim. Meu lado feminino estava restrito a agradar o marido,


a cuidar das atividades do lar, a acompanhá-lo em eventuais

encontros sociais, a cuidar dos filhos, a dispor flores no jarro

e a aceitar tudo sem fazer cara feia.

Ninguém podia prever, talvez nem eu, que daquela

colossal submissão começava a brotar um sentimento de

mudança. Problemas com o corpo e o excesso de peso

apenas confirmavam a minha extrema falta de auto-estima

e era a radiografia da infelicidade. Lá dentro, o vulcão

começava a rugir, a querer entrar em erupção. Então chega

o tempo em que não se suporta mais a pressão e atingimos

o ponto X da decisão.

Como sempre, finalizar um casamento nunca é fácil,

principalmente quando dele se tem uma filha muito amada.

Mas quando estamos decididos não existem empecilhos,

e sim obstáculos que precisamos transpor. Lá fui eu

embora, mas decidida a nunca mais bater continência a

marido algum. Desde então, penso que os encontros sentimentais

precisam ter, para começo de conversa, respeito

pelo território do outro. Descobri que independência também

pode rimar com amor.

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TERCEIRO CASAMENTO

TERCEIRO ATO

Deveria iniciar esse parágrafo enaltecendo

o otimismo e as estranhas formas como quase

todos vivem a apostar em reviravoltas. Mesmo

quando essas tais reviravoltas signifiquem

fazer um lifting em situações de envolvimentos

amorosos, por exemplo. Bom, vamos passar logo

ao tema. Senhores e senhoras, meu terceiro

casamento.

Como a novela havia parado? Primeiro, contei sobre

o primeiro casamento, quando nós, feito dois namorados

nos tornamos amigos. Tão amigos que parecíamos primos

– e não mais um casal. Depois, veio o segundo round

amoroso da minha vida: virar esposa-modelo de um protótipo

de macho, daqueles para quem mulher é artigo de

cama, mesa e banho. Desta última jornada, saí amadurecida

à força. Em parte pelo sofrimento da submissão prolongada,

em parte por ter começado a desenvolver capacidades

que então desconhecia, como a força de vontade, os objetivos

e a determinação pessoal.

Seria natural, portanto, que me considerasse madura

o suficiente para me casar com um sábio, ou com um

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184

homem extremamente professoral, cheio de ensinamentos

e disposto a dividir seu conhecimento prático. Adivinha o

parceiro que chegou? Um homem mais velho, culto e que

trazia um jeito de estabilidade que eu não experimentara

anteriormente. Assim, meu terceiro casamento despontou

de modo antagônico aos dois anteriores. A meu lado estava

um companheiro cheio de paciência, bondoso, compreensivo,

dono de histórias para contar.

Hoje analiso aquele período como a minha plataforma

de lançamento: ele, como parceiro, foi o instrumento

ideal para quem, como eu, precisava desenvolver-se intelectualmente

e buscar soluções inteligentes, capazes de

mudar minha postura perante o mundo. Sim, ele pode ter

sido esse agente.

Só que existia o tempo certo para a aluna se tornar

independente do marido instrutor. Ele continuava no

personagem de estabilizador. Mas havia um problema:

tudo começou a ficar estável demais, zen demais, acomodado

demais. Eu, em ebulição, trocando de pele para

virar outra mulher. Ele, apegado a seus princípios imutáveis.

Ele sonhava com um carrossel, eu sonhava com

um supersônico.

Quando veio o rompimento, nenhum trauma de lado

a lado. A compreensão dele, a correção dele, a atenção

dele nunca o levariam a agir com tom intempestivo perante

a relação amigável que mantivemos por oito anos.


Ele percebeu que havia chegado o meu tempo de inventar

uma rota própria e de alçar planos profissionais maiores.

O saldo foi – e vai continuar – positivo. Ficaram lembranças

calmas, serenas e apaziguadoras. Não me senti

explorada, nem subjugada, nem atada a moralismos

machistas. Houve desligamentos simultâneos: cada parte

seguiu rumos diferentes. Cresci, mudei, evoluí, dei saltos.

Desde então adquiri notável poder de observar – e de me

surpreender – como são os homens, as mulheres, os seres.

Não voltei a me casar, embora continue disposta a encontros

duradouros. Encontros feitos de romance, encontros

de dois que se gostam, encontros que traduzam o termo

amantes naquele sentido dos amores épicos, enlevados,

faiscantes e envolventes. Não é fácil. Do terceiro casamento

para cá, considero-me outra pessoa. E. por isso, como

naquela canção de Roberto Carlos, “Só vou gostar de quem

gosta de mim”.

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HOMENS SEDUTORES

ATRAÇÃO FATAL?

Um, dois, três: a sorte está lançada. Quando

eles entram no ambiente, mulher alguma deixa

de esboçar reação. Um homem sedutor vira

acontecimento onde quer que passe. E como elas

percebem? Ora, por meio de um simples gesto

parado no ar, de um olhar que parece desnudar

corpo e alma, ou de um magnetismo físico que

obrigatoriamente atrai os olhares.

O curioso dessa situação é que os sedutores sabem

como seduzem. Pior ainda: eles sabem a intensidade do

impacto que provocam. Algo ainda pior? Às vezes eles fingem

não saber do poder. E nós, mulheres, presas indefesas,

na mira dessas feras impiedosas, entramos no jogo de brincar

de difícil. Jogamos os cabelos, evitamos olhar naquela

direção perigosa, puxamos assuntos longos com o interlocutor

mais próximo, estendemos a conversa sobre qualquer

assunto e sorrimos do modo mais enigmático possível.

Quando existe um homem sedutor de alta intensidade,

é bem provável que no mesmo instante, no mesmo

recinto, cerca de dez mulheres estejam arrastando a asa,

discretamente. Elas são capazes disso: saber que existe

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concorrência forte no salão, mas acreditar firmemente na

sua vitória. Isso nem sempre acontece.

Sempre haverá um homem sedutor disposto a jogar

seu charme, a exibir-se como um deus que escapou do

Olimpo, a fazer tremer uma mulher apenas com um simples

olhar. O que vem depois, ninguém garante. Seduzir é

quase uma prática esportiva, ou não?

Depois de efetivada a sedução, aquele mesmo homem

que parecia prometer um festim diabólico, pode se

revelar tão sem graça quanto um picolé de chuchu. Acredite

quem quiser.

Existem, ainda bem, outros tipos de homens sedutores,

diferentes desses cheios de estampa. Penso naqueles

mais discretos, que só costumamos reparar nos últimos

momentos, exatamente quando estávamos quase indo

embora da festa. Sabe aquele ser absoluto, insinuante e

belo, que faz qualquer uma pedir outro drinque e comentar

que ainda vai ficar “mais um tempo” por ali?

Aliás, essa frase funciona bem para se livrar de possíveis

concorrentes. Se foi detectado um clima entre aquele

homem sedutor e você, e que ninguém ainda percebeu a

grandeza do lance, é bom tratar logo de limpar a área de

possíveis concorrentes. Eis uma seqüência de frases úteis

para mandar as amigas embora: 1) “Hum, se você quiser,

pode ir, porque ainda vou demorar mais uns 40 minutos por

aqui”; 2) “Você vai ficar comigo por mais quanto tempo?


Marquei um encontro daqui a duas horas”; 3) “Depois não

vou sair com você, preciso passar de novo no escritório”; 4)

“Saindo daqui ainda preciso passar em dois eventos profissionais”.

Depois de uma frase dessas, qual amiga ficaria

dando sopa no salão e atrapalhando o seu flerte fatal?

Então, tudo resolvido, você está só na área e o sedutor

discreto continua lá no canto, sempre à espreita. Pega

mal se aproximar e puxar conversa? Pega. Ou não? E se ele

for o homem da sua vida? E se você for a mulher que ele

esperou durante anos? Peça outro drinque, crie coragem e

dê um alô. Somos adeptos dos filmes de suspense. Então,

boa sorte.

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POSSE E SEDUÇÃO

AS DUAS MOSQUETEIRAS

Um texto para minha irmã Vera, que conheceu

muito bem as trapalhadas dessas duas mosqueteiras

Atenção: essa conversa é fechada a homens.

Podemos começar? OK. Então aquelas duas

amigas tão liberais – e aparentemente satisfeitas

com as suas liberdades conquistadas –

começaram a dar sinais de que estariam fingindo.

Fingindo que não desejavam envolvimentos

sérios, fingindo que apenas buscavam seduzir

possíveis parceiros e fingindo ser avançadas.

Resultado: confusão, aborrecimentos, mal-entendidos

e rompimento de amizade.

Vamos supor que as tais amigas são uma dupla de

mulheres bem-sucedidas, desenvoltas e com enorme disposição

de aproveitar o que a vida traz de melhor. Gostam

de viajar, freqüentam bons restaurantes, têm vida profissional

equilibrada, são convidadas para as melhores festas,

sabem cuidar bem do corpo, conversam com inteligência

e, melhor de tudo, adoram namorar homens bonitos. Qual

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o problema? Nenhum. Principalmente quando atingimos

uma etapa histórica em que dá para ser, simultaneamente,

feminista, feminina, fêmea, fatal, fina, faceira e feliz.

As duas amigas, vez por outra, não se importavam em

confessar que estavam a fim do mesmíssimo homem, um

personagem meio calado, discreto, independente, bemcuidado

e sorridente. Um homem que não se aproximava

com as velhas cantadas de sempre, um homem que provocava

um misto de atração e curiosidade, um homem, enfim,

para mulher nenhuma encontrar defeito.

Pois esse homem foi conquistado pelas duas amigas,

cada uma por seu turno. Ele marcava encontros em datas

diferentes, enquanto elas faziam o teatrinho de desconhecer

que o mancebo saía com ambas. Só que a dupla de

mosqueteiras não se importava nada com o fato, bem

como adorava contar – de pestanas piscando – como os

encontros eram maravilhosos, divertidos, blablablá e uma

série de adjetivos cabíveis.

Passados dois meses, a situação começou a tomar

contornos mais ou menos previsíveis. As duas amigas se

descobriram envolvidas pelo mesmo homem, que, por sua

vez, não parecia estar envolvido com nenhuma delas. Ele

pretendia boa companhia, namoro, champanhe e bom

humor. Nada mal, não? Mas no meio do trajeto surgiu

uma pedra no escarpim de cada uma delas: o ciúme.

Os sinais de posse começaram em sintonia baixa e


cresceram à medida que elas descobriam brilhos insuspeitos

no olhar da outra. Aliás, as mulheres percebem a léguas de

distância quando existe ameaça de concorrência. E logo pipocaram

as pequenas tiranias: telefonar para ele com maior

insistência (muitas vezes só para atrapalhar o encontro da

outra), deixar recados irônicos no celular da amiga, convidálo

para viagens prolongadas, não responder mensagens da

amiga ou telefonar dizendo: “Liberei ele hoje para você, mas

saiba que sou a dona”. Estado velado de guerra.

Obviamente o resultado foi desastroso para as duas

amigas que viraram rivais peçonhentas durante um tempo.

Acusaram-se de usurpadoras, conquistadoras irrefreáveis,

dissimuladas e por aí afora. Depois, deram boas risadas da

situação e voltaram às boas. Claro que o alvo da disputa

percebeu a manipulação dupla (homens só admitem manipular)

e pulou fora de vez. Elas, as duas amigas, decidiram

que conquistas, de agora em diante, só se for cada uma

por si. E Deus por todas.

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PIGMALIÃO

PROJETO SENTIMENTAL

Conheço mulheres que almejam conhecer

um homem rude, simples e tosco para transformá-lo

imediatamente em um príncipe

encantado, louro, de olhos azuis, gentil, perfumado,

sensual e educado. Sei de mulheres

que ignoram essa balela, e que continuam a

tentar, a tentar e a tentar modificar seus

pares. Mulheres que adorariam viver dentro

das páginas dos contos de fadas.

Claro que é um tanto incômodo ter namorados que

diferem muito dos seus padrões sociais, culturais e econômicos.

Incômodo porque é uma saia-justa permanente. Mas,

curioso notar, quando os homens fazem isso, a aceitação é

bem facilitada, e as tais eleitas, consideradas sereias fora

d’água, um dia acabam por ganhar estilo, ficam atraentes

pra valer e se tornam interessantes de verdade. Talvez essa

trajetória faça parte da vida de muitas mulheres.

Bom, voltando ao lado oposto, coitadas daquelas

que procuram dar pedigree ao namorado. Primeiro porque

todos cochicham quando elas passam. Segundo, por

ser uma situação meio patética. Terceiro, porque está fa-

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dado a não dar certo. Quarto, por parecer falta de senso.

Quinto, porque a humanidade é preconceituosa mesmo;

uma pena.

Lembro-me de uma antiga novela, inspirada em texto

de Shakespeare e atualizada na época para Pigmalião 70,

onde a personagem vivida por Tonia Carrero queria transformar

um feirante simplório, interpretado na trama pelo

ator Sergio Cardoso, em um homem finérrimo. Deu certo?

Nem é preciso responder. Claro que são poucas as que

chegam a extremos assim, mas ao ajustar-se o foco encontramos

comparações aproximativas.

E alto lá: quero emitir concepções sociais libertárias.

Aviso que continuo muito a favor de qualquer forma de

amor. Mas isso não me impede de analisar determinados

comportamentos caricatos, como, por exemplo, daquelas

que preferem não perceber as limitações do parceiro,

forçando a sua presença em momentos que só geram

desconforto geral. Geralmente mulheres assim moldam o

namorado de maneira artificial, para construir nele uma

projeção de valores que são mal resolvidos nela própria.

As pessoas não são, pelo menos até a hora em que

escrevo este texto, marionetes de ventríloquo. Então porque

tentar mudar alguém que nunca pediu para ser transformado?

Isso é compreensível se houvesse solicitação da

pessoa que deseja se aprimorar, ou daquele que pede correções

de rumo das atitudes. Aí, sim. Fica lindo elaborar


alguém, acompanhar o seu crescimento intelectual, a sua

busca pelo refinamento.

Por outros aspectos, nada tão feio quanto impor trajes,

assuntos, posturas, discursos e comprometimentos em

pessoas que ficariam bem mais interessantes sem lapidações

artificiais. E outra coisa: por que não aceitar o

namorado do jeito que é? Só não vale deixá-lo colocar as

botas em cima da mesa. O resto vale a pena, o resto é

lucro. Precisamos nos esforçar para evitar a mania de querer

idealizar ou construir pessoas. Isso só dá certo no palco ou

no cinema. Ou melhor, nem no palco e nas telas dá certo,

não é Shakespeare?

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VOLTA AO PASSADO

MIL PONTOS DE INTERROGAÇÃO

Era uma vez um daqueles momentos em que

se olha para fora da janela e se decide procurar

um antigo namorado que não sai da memória.

Aliás, dizer “aqueles momentos” é modéstia,

pois já existia vontade diária de ouvir a voz

dele. Por tudo isso, teria sido importante utilizar

o controle remoto da emoção para conter esse

ímpeto. Mas que nada.

Ex-namorados que vivem grudados na nossa memória

significam que o amor valeu? Ou será, em hipótese

contrária, que foram um pedregulho no sapato? Como

dizia um antigo bolero, quizás, quizás, quizás. Mas se considerarmos

válida a primeira possibilidade, buscar namoros

passados pode ser um passatempo divertido. Entretanto,

ao se procurar via telefone, atenção: há procedimentos

básicos. Primeiramente, telefona-se a um amigo em comum.

Assim como quem não quer nada. Depois de 15 minutos

de assuntos sem sentido, pergunta-se displicentemente

sobre o ex. O que todos esperam ouvir é a seguinte

frase: “Ah, ele vive perguntando por você”. Ledo engano.

Diálogos assim só acontecem em novelas.


A resposta costumeira para a questão acima será sempre

evasiva, com informações que trazem mal-estar: “Ah,

não tenho visto ele, não. Parece que já está namorando de

novo”. Você, do outro lado da linha, passada. Bem-feito.

Quem mandou perguntar? Mas, alto lá, quem falou que o

romance está acabado? Ele também não enviou, pouco

tempo atrás, sinais de simpatia, que logo foram interpretados

por seus amigos como uma “tentativa de reaproximação”?

Puxa, como gostamos de nos iludir. Evidente

que nem deveria haver tentativa de aproximação alguma,

mas aquela simples mensagem ainda paira na sua cabeça

como um néon de loja de flores.

Então, por bem ou por mal, você decide procurar

aquele amor, cutucar aquela ferida, mexer em vespeiro, levantar

a poeira. Tudo ao mesmo tempo. O máximo que

pode acontecer é ouvir um não, repete para si mesma. De

repente, surge uma série de dúvidas: 1) como vou reagir se

me tratar friamente; 2) o que devo dizer se falar que ainda

prefere “dar um tempo”; 3) o que fazer se me convidar para

sair; 4) como manter o controle se disser que fui culpada

pelo fim da nossa história; 5) e se atender uma secretária

eletrônica; 6) e se atender uma voz de mulher nada eletrônica;

7) e se todas as boas lembranças forem por água abaixo

com esse telefonema? Mil pontos de interrogação.

Às 20 horas em ponto, horário que você considerou

civilizado, é o momento escolhido para telefonar ao seu ex-

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200

grande-talvez-futuro amor. Você já tomou banho, vestiu-se

como quem vai a um restaurante, perfumou-se, tomou

duas taças de champanhe, abriu e fechou a janela 126

vezes, ajeitou todas as almofadas da sala, penteou o cabelo

21 vezes, ensaiou frases, passou hidratante nas mãos seis

vezes, pensou em voltar a fumar, conferiu 19 vezes se o

celular está ligado, colocou um CD de jazz, olhou para o

relógio de 45 em 45 segundos. Finalmente, oito da noite.

Melhor pensar pouco e telefonar logo.

Barulho do teclado: tictictictictictic. Errou o número.

Volta novamente. Tictictictic-tictictictic-tictictictic. Do outro

lado, o ruído da campainha: truuuuuu. Segundo ruído: truuuuu.

Terceiro ruído: truuuuuu. Quarto: truuu – “Alô.”. É

ele. Você, lívida, respira fundo. Tenta fazer voz firme, sedutora,

convincente, sem mágoas. Tudo ao mesmo tempo:

“Olá, sou eu. Há quanto tempo…”. Ele: “Oi. E aí, tudo

bem?”. Você, ainda sem graça, tenta ser conveniente:

“Tudo ótimo. Você pode falar agora?”, propõe. Ele: “Agora

não, desculpe, porque começou o Jornal Nacional e depois

vou ter que sair em seguida. Dá para ligar amanhã ou outro

dia?”. Você, atônita, mas sem demonstrar o terremoto:

“Claro. Não tem problema. Ligo depois. Tchau. Um abraço”.

Ele: “Um abração também”. E desliga. Ploft.

Nem será preciso descrever o estado de calamidade

pública da sua fisionomia. Durante dez minutos você permanece

paralisada, sem ação nem para se levantar do


sofá. Sente-se a última das mulheres, a derradeira criatura

na fila dos insensatos, a mais inútil criação da natureza, a

mais desamparada das desamparadas. Aquele passado

que foi tão importante para vocês dois desmorona em

câmera lenta, como as torres de Nova York. Só que a única

vítima parece ter sido você.

E aí vem a ressaca moral, com a dúvida cruel: valeu a

pena remexer em um romance passado, mesmo quando

esse romance parecia não ter acabado? Teria sido melhor

reter boas lembranças ou desintegrar tudo com um único

contato? Quizás, quizás, quizás.

201


Quanto tempo longe de você

Quero ao menos lhe falar

A distância não vai impedir

Meu amor de te encontrar

Cartas já não adiantam mais

Quero ouvir a sua voz

Vou telefonar dizendo

Que estou quase morrendo

De saudades de você

(Eu te amo, te amo, te amo, de Roberto Carlos e Erasmo

Carlos)


AMANTES

O NEGÓCIO É AMAR

Homens e mulheres disfarçam, mudam de

assunto e ninguém aceita encarar um assunto

polêmico: amantes. Entretanto, quantas pessoas

do seu círculo de amizades – para não se

estender muito – têm ou tiveram tórridos e

calientes amantes?

Evitar um tema tão recorrente na literatura, no cinema,

na TV e na vida real seria apenas camuflar um falso

moralismo. Nem vamos aqui entrar na discussão moral que

pretende analisar os casos extraconjugais como a mais terrível

das traições. Cada pessoa tem critérios próprios para

compreender ações alheias – ou explicar os seus próprios

métodos de atuação no território sentimental.

Há romances tão vulcânicos que aniquilam pessoas,

histórias de vida, agrupamentos familiares e êxitos profissionais.

Existem aqueles seres que se entregam a uma paixão

de forma avassaladora, como se novas esferas da existência

fossem construídas para sustentar o amor que sentem um

pelo outro. Lembro de uma canção da bossa nova que diz:

“amor ciumento/amor vira-lata/amor que só cria caso/amor

vagabundo/ Mas não interessa: o negócio é amar”.

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204

Se o negócio é amar, vamos todos encarar a face de

Cupido. Mas por que não conhecer algumas opções que

comumente surgem entre os amantes? A mais clássica,

sem dúvida, é a que envolve dois parceiros casados em

uma história paralela, repleta de lances dramáticos, momentos

de puro êxtase, desfechos lacrimosos, cenas de

cinema e a agonia permanente que as vidas duplas proporcionam.

Quando esse amor é do tipo explode coração, o

casal assume tudo e manda o mundo oficial para o espaço.

Pois é, às vezes surge um antagonismo: para se construir a

felicidade própria se torna necessário provocar um turbilhão

de infelicidades em volta. Lei da compensação? Sei lá.

Ninguém gosta de estar do lado que foi rompido.

Prefiro, por isso tudo, usar a palavra amante no sentido

daquele que traz o romance, de jeito calmo, galante, sedutor,

cheiroso, porém menos explosivo. Continuo a acreditar

nas parcerias que dão certo, no casamento com proposta de

durar para sempre e nos amores transformadores, capazes

de mudar definitivamente a vida de duas pessoas. Mas

quando essa junção de mundos não se torna possível, por

vários motivos, vale optar pelo amante versão número dois.

O amante ideal sabe manter situações que tragam

prazer, júbilo, celebração à vida, parceria, alegria, sexo,

romance, diversão, viagens, expansão de sentimentos.

Poucos alcançam a sorte de ter encontros grandiosos

assim. Encontros que se tornam leves por não exigir com-


promissos bilaterais nem amarrações imediatas. Vale agir

com tanta pressa ao se lidar com um assunto tão fugidio

quanto o amor? Negativo.

Ninguém passa a vida inteira em um parque de diversões.

Existem períodos quando tudo brilha na luz perfeita,

na cenografia exata. Depois podem ocorrer curtos-circuitos,

escuridão, silêncio e tédio. Fazer o quê? A vida é repleta de

lances inesperados, como dados jogados ao acaso. Por

vezes tangenciamos os sonhos de encontrar a leveza no

amor. Vale tentar.

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Quando olhaste bem

nos olhos meus

E o teu olhar era de adeus

Juro que não acreditei

(Atrás da porta, de Chico Buarque)

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ROMPIMENTOS

DORES DE AMORES

Há um tanto de engano em pensar que a

verdadeira percepção do rompimento amoroso

surge de imediato, logo após algo brusco, dolorido

e de forte impacto. Do momento em que o

cérebro armazena que uma relação se rompeu,

e até o fato vir nos atingir, passam-se intervalos

de tempo. Quanto tempo, ninguém saberia precisar.

Mas num belo dia a tempestade despenca

sobre cabeça, tronco e membros.

Romper, desligar-se, ser desligado, descartar ou ser

descartado. Muitas palavras e verbos podem ser empregados

para revestir um dos momentos mais determinantes que

acometem a vida emocional da maioria dos homens e mulheres.

(Vale até lembrar: vida emocional é uma espécie de

trajetória repleta de emoções, sustos, novas experiências,

imprevistos, delícias, dores e prazeres. Se fosse um percurso

linear, reclamaríamos da monotonia. Pois é. Caso não existissem

altos e baixos, nem haveria romances, canções, novelas

e tampouco aprimoramento sentimental.)

Entretanto, subitamente acontece. Choque, espanto,

resoluções. No início do fim seremos fortes e prometemos


a nós mesmos que daqui a pouco a perda passa. Dor, eu?

Tristeza, eu? Ninguém admite ser observado com compaixão

nessas etapas de separação, porque significaria

expor publicamente uma série de frases diretíssimas: “estive

iludido”, “me enganei” ou, muito pior, “perdi o meu tempo”.

Sim, é chato. Sim, é quase caricato. Mas quando se

enfrenta rompimentos de forte intensidade, percebe-se que

a imagem do coração partido se transforma em uma projeção

próxima do palpável. Difícil seria escapar desses fragmentos

amorosos, desses cacos. Hoje, ao notar alguns

comportamentos públicos, considero admiráveis aquelas

pessoas que, ao se separar, conseguem dizer, poucos dias

depois: “OK, estou feliz”. Que bom. E a tristeza foi para

onde? Abalar-se por amor parece ter ficado contraproducente,

ultrapassado e inútil. Que pena. (Falamos de amor,

não de paixões para pronto uso.)

Rompimento continua, queira-se ou não, uma palavra

assustadora. Puf. A bolha de sabão some e deixa

apenas um pequeno sinal líquido no chão. Será possível

reverter essa situação? Talvez. Penso ser sempre melhor

partir do pressuposto de que os romances só retornam

quando não houve desfechos dramáticos ou rastros de

incômodos. De fazer um pouco de drama, ninguém escapa.

Mas o que dizer daqueles que perdem o prumo, o

tino, o senso? Importante saber entrar e se desfazer de

tudo com elegância, controle, dignidade. A última lem-

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brança de um rompimento pode ser a primeira saudade

para a possível volta.

E quando alguém perguntar se a situação continua

dolorosa, responda sempre que sim. Fica bonito, sincero,

ponderado. Choro também pode, principalmente em ombros

amigos. A angústia de uma separação geralmente

custa a passar. Não se esconda disso. Porque se a dor de

um rompimento de tendões, por exemplo, é forte, a do

coração, nem se fala. Ou melhor: fala-se, sim.


RITUAIS DE SEDUÇÃO

JOGO DE DAMAS

Existe um momento na vida em que

percebemos ter desenvolvido olhares agudos e

perspicazes sobre situações diversas. Nada mais

parece chocar tanto ou nos deixar boquiabertos

como antes – pelo menos perante comportamentos

sociais. Vamos direto ao ponto? Falo dos

jogos de sedução.

Quando, como e com quem ocorrem os jogos de

sedução? A qualquer momento, em qualquer local, com

qualquer pessoa. São pequenos ritos de convencimento, de

exibição sutil, de mise-en-scène de salão. As trocas de

olhares servem para enviar códigos sutis, devidamente captados

pelas partes interessadas. Às vezes sem ninguém suspeitar

de nada. E aí é que fica o melhor lado da história: agir

sem deixar pistas.

Mas ninguém deve pensar que esses códigos são indecifráveis.

Eis que surge o lado perigoso da história: estar com

pessoas que conseguem perceber exatamente as mensagens

da sedução enviadas de um emissor para um receptor

– ou receptores. Até aí, nada de mais, porque o flerte

sempre faz parte dos encontros e, por isso mesmo, nada tão

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humano. Mas agora desponta uma nova categoria: a dos

homens que estão aptos a serem seduzidos pelas mulheres.

Historicamente, é uma conquista feminista, embora

existam famosos relatos de mulheres sedutoras do passado.

Mas quando essa prática se torna um procedimento

comum, então estamos diante de alterações importantes

nos jogos de sedução. A situação funciona mais ou menos

assim: duas ou três amigas em comum detectam um alvo

interessante. Conversam entre si sobre a balística necessária

para atingir aquele alvo disponível.

Subitamente, todos os recursos femininos da sedução

podem ser colocados em ação. Bateria de olhares, apontar.

Tropa das conversas interessantes, avançar. Note-se aqui

algo importante: muitas mulheres já não se importam em

desejar namorar o mesmo homem. Há um acordo tácito de

que a exclusividade virou artigo raro e, como homens interessantes

são eventos raríssimos como a aparição dos santos,

por que não dividir? Namorar desse jeito é simples,

moderno e produtivo. Conheço várias situações parecidas

em que os participantes vivem felizes da vida. Mas vale

avisar: dividir não significa ser coletivo. É uma questão de

agendamento, de customização, de planejamentos individuais.

Cada encontro é formado separadamente, a dois.

Espero que isso esteja claro.

Sem moralismos ou falsos pudores, os homens aptos

a serem seduzidos por mulheres são um fato social em


crescimento vertiginoso. Primeiro porque eles já deviam

andar aborrecidos de sempre ter que iniciar uma aproximação.

Segundo, por que as mulheres do século 21 decidiram

que podem agir com atuações semelhantes às dos

homens, sem perder o rebolado. Ou, como dizia Che Guevara:

é preciso endurecer, sem jamais perder a ternura…

Cada mulher conhece bem suas táticas e seus arsenais

de conquista. Toda mulher almeja desenvolver seus talentos

de sedutora, sem nunca precisar ser vulgar, pegajosa ou fácil.

A sedução é um ritual pleno de delicadezas, sutilezas, avanços,

recuos, acordos, avaliações, armazenamento de dados,

persistências e conquistas prazerosas. Lembrei-me agora de

uma referência musical importante, cantada por Rita Lee, em

que o refrão diz tudo: “Toda mulher é meio doida / Toda mulher

quer ser feliz / Toda mulher é meio Leila Diniz”. E, para

quem não sabe, Leila Diniz foi precursora no Brasil dessa liberação

feminina que fez a mulher escolher seus parceiros com

a maior naturalidade. Viva nós e vivam eles.

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Verso

&

Reverso


DOM QUIXOTE

NEM MESTRE, NEM APRENDIZ

Relato dedicado a Francisco Guglielme Jr., meu conselheiro

de todas as horas, de todas as direções e de todos os prumos

Nas minhas últimas férias resolvi fazer

uma viagem pelas páginas do texto que é

considerado o mais importante romance da

literatura ocidental: Dom Quixote. O intertítulo

original dessa obra de Miguel de Cervantes,

publicada originalmente em 1604, já traz a

pompa e a circunstância da leitura: O Engenhoso

Fidalgo Dom Quixote de La Mancha.

A envolvente história de Cervantes relata as andanças

de um fidalgo andarilho e idealista, acompanhado

por seu fiel escudeiro, Sancho Pança. No trajeto do livro

acontecem várias seqüências de paixões, desilusões,

lutas, perdas, conquistas, aprendizados, situações de

limite e acontecimentos de sonho. Quixote se lançou por

caminhos que não conhecia, apenas pelo intuito de ganhar

sabedoria através da observação dos personagens

que encontrassem, e por meio das manifestações da

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218

natureza. Sancho era a voz que o enchia de lições, sempre

retiradas de coisas mínimas ou de parábolas visionárias

sobre a vida.

O mais belo nesse grandioso romance está na atitude

de entrega, de confiança e de comunhão entre duas pessoas

aparentemente opostas. Um fidalgo, por sua condição

de nobreza, dificilmente dividiria pão, vinho e abrigo

com um escudeiro. Cervantes foi moderno para o seu tempo

por criar dois personagens literários que conseguiram

alterar bastante a concepção social do mundo. Um aprendeu

com o outro, e vice-versa.

Vamos fechar o zoom. Muitas vezes nos portamos

como fidalgos anteriores a Quixote: com arrogância, presunção

e orgulho. E isso independe de recursos econômicos.

A soberba pode ser encontrada pela vida afora, em

grupos diversificados, em situações corriqueiras. Quantas

vezes já presenciamos cenas de pessoas de nariz empinado,

sobretudo sem motivo aparente? Quantas vezes encontramos

alguém que prefere morrer atado a suas idéias preconcebidas,

sem nunca se abrir para o novo e para a novidade?

Eu poderia enumerar dezenas de questões assim.

Melhor avisar logo que ninguém está a salvo do contágio

da soberba. Evidentemente que todos já dissemos

algo em tom que mais tarde nos deixaria arrependidos, ou

cometemos gestos que poderiam ter sido menos ríspidos.

O importante é ter a noção exata desses acontecimentos e


atos, para atenuá-los, corrigi-los ou mudá-los completamente.

Precisamos estar de olhos e coração abertos para

ouvir o que pessoas, comuns ou especiais, nos têm a dizer,

mesmo quando não as indagamos sobre nada. Muitas

vezes, da observação dita em palavras diretas surgem soluções

para coisas que andavam complicadas.

Olhar nos olhos, dividir, pedir opinião, escutar também

a voz das pessoas sem erudição, prestar atenção ao acaso,

consultar a natureza: são incontáveis as possibilidades de se

compreender aspectos desconhecidos da existência humana.

Nem é preciso eleger um Sancho Pança fiel, nem se considerar

um fidalgo dono da verdade. Cada pessoa pode ser

Sancho, fidalgo, rei, ascensorista, arquiteto, costureira, mestre,

aprendiz e, acima de tudo, um ser disposto a criar parcerias

de alma com pessoas diferentes. A multiplicidade de

pontos de vista engrandece a condição humana.

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PREGUIÇA

CADEIRA DE BALANÇO

Decidi pensar alguns tópicos sobre os sete

pecados capitais, um tema sempre citado e, na

verdade, tão pouco conhecido. Primeiro foi

importante descobrir que os sete pecados não

estão ligados à Bíblia, mas apenas trazem

interpretações segundo os códigos dos cristãos

da Idade Média. E, para começar, vamos levantar

da cadeira e falar sobre a preguiça, este

que, entre os sete pecados, talvez deva ser o que

confessamos com maior facilidade.

Ter preguiça faz parte da condição humana e do comportamento

dos animais. Quem nunca ficou admirando um

gato se espreguiçar? Quem nunca sentiu prazer em ficar

pegando brisa na espreguiçadeira da varanda? Sentir preguiça

é uma espécie de reação física à aceleração forçada do

cotidiano. O corpo também gosta de sossego, moleza e do

bem-bom. Os que negam isso sofrem de hiperatividade.

Mas a preguiça também pode nos levar à estagnação,

ao marasmo, à acomodação, à inércia, ao conservadorismo.

Os preguiçosos compulsivos rejeitam qualquer possibilidade

de movimentos inesperados, de alterações no percurso pre-

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viamente traçado, de atividade extra. Depois que sentam,

incorporam o espírito da moleza, como se estivessem

acometidos de uma ausência, de um distanciamento

inexplicável. Pensando melhor, a preguiça em excesso,

acho, deve ser capaz de deixar alguém em estado de

contemplação zen. Ficar sem fazer nada é esvaziar a mente.

E esvaziar a mente é o primeiro passo para a meditação.

Brincadeiras à parte, a preguiça pode ser extremamente

perigosa, por produzir acomodação diante de situações

injustas. Ai, que preguiça!, falam aqueles que só reclamam

da falta de ações dos governantes, quando poderiam

colaborar com ações elementares de cidadania. Ai, que

preguiça!, constatam os alienados, aqueles seres incapazes

de nem sequer analisar o mundo, a vida e a vida paralisada

que levam. Essa é a pior forma de se ter preguiça:

esperar que as mudanças aconteçam por si, sem mover

uma palha para conseguir ajustes. Acho intolerável conhecer

gente assim, que só espera mudanças e que não se

move do lugar.

Por outro aspecto, sentir preguiça se torna essencial

quando estamos em uma atmosfera preguiçosa: mormaço,

praia, sombra, água fresca, barulho de vento nos

coqueiros, nenhum compromisso à vista. O pior é que

existe gente que, mesmo em lugares paradisíacos, continua

em ritmo elétrico, sem conseguir se desligar da agonia

urbana. Preguiça deixa de ser pecado quando a natureza


pede que fiquemos calmos, calados e com movimentos

arrastados.

Preguiça combina também com manhãs de domingo,

finais de tarde no campo, a moleza súbita depois do

almoço, a vontade de olhar para a janela, a lembrança de

momentos de prazer, as pausas depois do amor e os

primeiros minutos após o despertar. Ter preguiça, afinal, é

pecado ou não? Pecado é apostar na imobilidade. Pecado

é saber que deveria – e poderia – fazer um movimento,

mas permanecer sem ação. E, cuidado, ela ataca a qualquer

hora. Contra a preguiça vale um arsenal de munição

contrária: guaraná em pó, clorofila, banho gelado, puxão

de orelha, alongamento ou, caso se prefira, dar uma corrida

pelo quarteirão.

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LUXÚRIA

AMIGA DE FÉ, IRMÃ, CAMARADA

Para minha grande amiga Hebe Camargo,

mulher que irradia uma energia capaz de ultrapassar

as vibrações de qualquer forma

Ela é minha amiga, daquelas que a gente

pode contar a todos os momentos. Companheira

disposta a enfrentar qualquer parada, mulher

de fibra que não há quem deixe de admirá-la. O

nome dela é Hebe Camargo e sempre quis fazer

alguma homenagem pública a ela.

Obviamente falo de uma mulher que exerce um lado

extremamente aproximativo, de forma que todos no seu

entorno se mantêm em permanente imantação. Aliás,

Hebe é um ímã: atrai olhares, sorrisos, afetos e demonstrações

de carinho. Mas prefiro me deter sobre outros

aspectos de sua personalidade: o da sedução, no sentido

mais amplo que essa palavra possa ter.

A sedução de Hebe não está ligada a apelos sensuais

nem as jogadas pessoais deliberadamente feitas para

encantar. Ela seduz por outros caminhos. Seduz por irra-

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diar bem-estar, mesmo quando sabemos que possa estar lá

com suas dores. Hebe seduz por sua naturalidade perante

qualquer assunto, dos mais complicados aos cotidianos.

Sua reação será sempre íntegra e livre de estereótipos,

porque ela não oculta quando está indignada, feliz ou ressabiada.

Hebe, enfim, seduz por se manter espiritualmente

jovem, em meio a seus ataques de ira e de cidadania, em

meio a suas gargalhadas contagiantes. Uma supermulher.

Os amigos dela costumam dizer que formamos um

grupo de seus amantes. Gostamos de segui-la, contemplála

e amá-la por Hebe ser do jeito que é, por nos seduzir

com pequenos detalhes, por viver para insuflar alegria de

vida em todos que a rodeiam.

Lembro-me de um réveillon que passamos juntas, a

bordo de um iate em Angra dos Reis. Quem já passou por

experiências marítimas prolongadas sabe que, a partir de

determinado momento, o programa se torna meio tedioso,

repetitivo e, principalmente, cansativo. Pois enquanto

todo mundo já estava com a cara meio jururu, Hebe não

perdia o rebolado: era a mais disposta, a mais brincalhona

e a que menos se importava com os contratempos do trajeto

– além da demora dos festejos que as datas especiais

costumam ter.

Ali, no meio do mar, percebi como ela exerce controle

sobre suas ações, como sabe ser altruísta e jamais baixar o

astral. Essa mestra também pode às vezes parecer uma


menina travessa, ou, de repente, dar conselhos dignos de

um sábio. Daqui a minutos, tudo vira uma gargalhada só.

Não há quem não se deixe seduzir. Também, pudera.

Por isso tudo posso me considerar uma seduzida pela

Hebe. Tenho certeza de que se, por acaso, amanhã eu estivesse

perdida no meio da neve do Pólo Norte, poderia

contar com a sua ajuda. Hebe não tem horas, não tem

preconceitos, não tem protocolo, não tem má vontade.

Hebe Camargo é uma pessoa rara. E tão saborosa quanto

uma taça de champanhe. Mil brindes a essa amiga.

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ORGULHO

PAI HERÓI

Para meu querido pai, Valentim, que sempre

se declara orgulhoso por ter realizado os seus sonhos

de um homem disposto a vencer

Eu não poderia escrever um livro sem reservar

um capítulo especial a meu pai, Valentim

Diniz. Ele talvez seja o homem-modelo da minha

vida e o personagem cuja trajetória mais admiro

e que nunca deixarei de comentar. Motivos

não faltam. Mas como este volume passeia

entre lembranças e resoluções pessoais, escolho

apenas um fato curioso de minha infância para

ser o tema do texto dedicado a ele.

Sempre percebi meu pai como um homem altivo,

seguro de si. Desde pequena costumava observá-lo, sem

que ele percebesse que carinhosamente eu espionava os

seus atos. Era uma admiração secreta. Aos poucos, como

acontece quando observamos alguém especial, passei a

notar uma peculiaridade, quase em forma de pureza: papai

se considerava inatacável.


Explico melhor. A sua história é a odisséia de um vencedor.

Trabalhou arduamente a existência inteira. Ainda

hoje, aos 90 anos, ele, como sócio-fundador, participa das

reuniões, opinando com tino e apuro mental.

Meu pai, enquanto alicerçava o seu conglomerado

empresarial, considerado um império sem precedentes no

setor do varejo no Brasil, jamais deixou de ser zeloso com os

filhos. O crescimento dos negócios, o seu tino comercial e a

sua diplomacia social o elevaram ao posto de herói – para filhos

e descendentes, e para muitos empresários também.

Essa noção gerou nele um comportamento altaneiro,

de homem elegante e que deixava claro ter adquirido por

merecimento aquela posição na vida, nas finanças e no

trato com o mundo. Não passaria a idéia de que o destino

pudesse provocar reveses, ou que a má sorte o escolhesse

para pregar uma peça de desencanto. Ele seria

sempre um contemplado e as coisas ocorreriam em harmonia

e equilíbrio.

Lembro-me, então, de uma passagem na minha infância,

quando ele costumava nos levar para passear de carro.

São Paulo era uma cidade calma e diferente da atual loucura

urbana. Era uma festa sair com papai. Tudo parecia um filme.

Com um detalhe: para nosso espanto, ele raramente obedecia

a um sinal fechado. Essa pequena contravenção, hoje

percebo que lhe dava muito prazer, no entanto, perante nós

vinha o discurso: “Todos me conhecem e quando me virem

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passar vão frear seus carros”. Grande mentira! Mas, acreditávamos

e percebíamos sua satisfação com a situação.

Essa lógica de vencedor parecia afastá-lo de qualquer

causalidade ou evento funesto. Seu argumento, na época,

fazia sentido: ele era Valentim Diniz, homem considerado

exemplar. Portanto, merecia que, vez por outra, lhe dessem

passagem preferencial. Ninguém poderia considerá-lo

infrator; era um pai de família e empresário passeando

com os filhotes. Bons tempos. São Paulo não permite mais

essa liberdade. Mas, para nós, foi determinante observar a

segurança paterna perante tudo.

Hoje analiso que o raciocínio dele era desprovido de

sentimentos de superioridade: era uma compensação afetiva

ou a certeza de que receberia a retribuição amorosa da

cidade onde investira todo o seu potencial, toda a sua disposição

de imigrante. Seria inadmissível, portanto, que

alguém se tornasse seu desafeto ou que os sinais de trânsito

atrapalhassem o seu passeio de guerreiro, mesmo

quando cometia um pequeno pecado.


AVAREZA

A SETE CHAVES

Para Alcides, meu irmão e a pessoa mais

generosa que existe na face da Terra,

exatamente o oposto dos que praticam a avareza

Responda rápido: quantas vezes encontramos

pessoas simpáticas, acolhedoras, sorridentes,

versáteis em qualquer assunto, e que,

perante uma aproximação posterior mais aprofundada,

revelam-se terrivelmente sovinas?

Socorro. A avareza assusta. Principalmente

quando provém de quem não deveria nunca praticar

a sovinice, o pão-durismo, a ausência de

partilha. Socorro.

Detesto, execro e afasto-me de pessoas assim. Nenhuma

chance de convivência seria possível. OK, ninguém

está obrigado a ser perdulário, a pagar todas as despesas

dos amigos ou a pouco se importar com um monte de

gastos inúteis. Isso também seria tolice, principalmente se

não envolver os tão valiosos ritos de amizade, amor, prazer

e generosidade. Mas, cá para nós, conviver com os

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avaros não dá pé. E esse nefasto pecado capital, é bom

que se diga bem alto, acomete qualquer classe social.

Catar tostões, economizar migalhas, reter o inútil,

temer ficar na pobreza, jamais ofertar com o coração,

negar a quem precisa? Acho que não existem atitudes

mais feias e desconcertantes, para quem as pratica e para

quem as assiste, geralmente em meio ao constrangimento.

Ser sovina é o princípio dos malefícios sociais do mundo,

desde os tempos imemoriais.

O avarento é assustado, egocêntrico, exclusivista e

ultrapassado. Ele evita encontros numerosos, para nunca

ser posto à prova em possíveis divisões finais de gastos. O

avarento vai às compras sozinho para, desta forma estúpida,

nunca se ver obrigado a pagar um objeto sequer ao

acompanhante. Existem pessoas de mãos tão fechadas

– esse exemplo aconteceu com um velho conhecido meu –

que cobram até um creme dental que fora incluído, por

praticidade, em meio às enormes compras que o pão-duro

fazia. Dá para crer? Pois é, aconteceu.

Já li sobre mendigos que amealharam fortunas, descobertas

depois de suas mortes, geralmente ocultadas sob

assoalhos de casas abandonadas ou dentro de velhas malas.

E isso não saiu dos romances de Victor Hugo, não. A

avareza, na sessão acredite se quiser permanece muito

bem fornida. No Japão, há poucos anos, um homem idoso,

encontrado morto em um casebre na mais absoluta penúria,


mantinha escondido, soube-se depois, uma conta astronômica

no banco. Dispensam-se os comentários, não?

Exemplos existem aos montes. O pior é descobrir, assim

meio por acaso, durante um jantar simpático, que aquele

amigo bem-sucedido é do tipo que faz questão de contar os

tostões, jamais arredonda contas, escapole na hora das gorjetas

e finge não ver o guardador de automóveis. Triste também

é ficar sabendo que aquela pessoa – que sempre

lamentava a falta de recursos – tem belas somas de dinheiro

aplicadas no exterior. Conheci personagens assim.

Terrível, o pecado da avareza. Terrível encontrar quem

não divide, quem não abre a mão, quem não sente prazer

em ser generoso, quem se compraz no mero acúmulo de

valores pessoais, quem não entendeu ainda que dividir é

parte essencial da vida. Pai, afasta de nós o cálice dos sovinas.

Eles não herdarão reino algum. Bem-feito.

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GULA

HOMENS DAS CAVERNAS EM AÇÃO

Fui gorda. Ou melhor, obesa. Sei onde a coisa

pega quando se fala em gula. Não que todo obeso

seja necessariamente um glutão, mas é óbvio

que a maioria come em demasia. Há centenas de

explicações. Disposição genética, ansiedade, desequilíbrios

hormonais, psicológicos, o pudim a

quatro. Mas o tema deste capítulo é a gula, considerada

um dos pecados capitais e um dos hábitos

mais ancestrais da humanidade. Por isso,

vale um passeio rápido pelo túnel do tempo.

Na Antiguidade Clássica, a Grécia foi uma sociedade

de gente esbelta, enquanto Roma defendia a vida prazerosa,

a sensualidade e a disposição guerreadora: comer

muito, se divertir muito, lutar muito. Tudo muito. A saudável

dieta grega, mais os esportes, privilegiou corpos tão perfeitos

que ainda hoje são considerados exemplos acadêmicos

insuperáveis. Roma bem que tentou o ideal grego,

mas acabou descambando para a circunferência rotunda

das cinturas, pernas e flancos. Comiam tanto que inventaram

o vomitório: vomitava-se para se voltar à mesa e

recomeçar novamente.


Na Idade Média, as pessoas se alimentavam de modo

absurdo: com exageros, sem talheres, em grandes quantidades,

em condições péssimas de higiene, mais o consumo

imenso de carnes e, claro, nenhum planejamento nutricional.

Também, pudera, morria-se antes dos 40, de doenças ligadas

aos excessos alimentares, ao sedentarismo e às pestes.

Voltando mais ainda na linha do tempo, sabe-se que

a alimentação do homem das cavernas era um show animalesco.

Primatas que também eram, comiam a caça em

grandes nacos, jogavam os ossos para o alto e brigavam

pelo pedaço que o outro mastigava. Mulheres e crianças?

Ficavam com os restos, já que não existia noção nuclear de

família. Moleza não devia ser.

Cito os homens das cavernas, os romanos e os castelões

da Idade Média como exemplos radicais sobre a

gula. Mas sempre me vêm essas imagens quando encontro

pessoas glutonas. A gula transforma o rosto das pessoas

em máscaras de feras: nada em volta passa a ter importância,

apenas olhar para a comida e querer saciar algo insaciável.

Já vi quem comesse 12 pedaços de pizza. Homem

primata, gula selvagem.

A gula é uma estranha forma de compulsão. Não se

consegue parar, porque o cérebro não emite ordens para

interromper a refeição. Os glutões não pensam no que vem

depois. Só pensam no antes e no durante. Dos sete pecados

capitais, a gula talvez seja o que mais traz arrependi-

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mentos: dilata, infla e provoca tristeza. O filme A Comilança

mostra a melhor metáfora: transfere-se para a boca o prazer

da libido, e come-se até a morte dos comensais.

Uma tragédia contemporânea é comum: ver pais que

incentivam filhos e amigos a competirem para ver quem

come mais. Ou produzindo quantidades quase industriais

de guloseimas para o uso doméstico. Ou a moça desiludida

que devora uma caixa de bombons enquanto assiste a um

programa de televisão. A gula é triste, deprimente e insensata.

Os resultados da gula são de difícil retorno. Nada

como celebrar o prazer dos sabores com a comida. Mas,

cuidado: a gula é traiçoeira.


INVEJA

O QUINTAL DO VIZINHO

Para Sônia, minha irmã, que, por diversas ocasiões,

me fez sentir inveja de suas atitudes perante a vida

Impossível encontrar alguém que jamais

tenha cometido o pecado da inveja. Impossível,

mesmo. Mais intrusa do que a preguiça ou a

gula, a inveja é sorrateira e, pimba, quando

menos se espera lá está ela, terrível, à espreita,

aguardando o momento certo de se manifestar,

de mostrar suas unhas roxas.

Arrisco até a dizer que existem os profissionais da

inveja, aquela categoria que não pode ver nada de aproveitável

ou desfrutável na vida alheia, sem que sinta imediatamente

as punhaladas da inveja. Não seria à toa que

muitos consideram os invejosos como seres com olhares do

tipo seca pimenteira, ou, mais popularmente, com o conhecido

olho gordo. Pé de arruda neles.

A inveja, como a luxúria, a ira e a avareza, é bastante

perceptível. Fica nítido. Muda o tom da voz, o gestual e o

tratamento. Difícil para o invejoso ocultar esse sentimento

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arroxeado que corrói a sua alma. A inveja talvez seja prima

do ciúme, por provocar a sensação quase semelhante de

vazio no coração, de assento perdido, de preterimento

pessoal, de favorecimento inexplicável. A inveja é amarga,

avassaladora e capaz de causar imensa destruição. Nunca

é bom duvidar da palavra de um invejoso, porque para ele

o quintal do vizinho será sempre o mais belo, o mais verde

e o mais tentador. Inveja mata. Nos dois sentidos.

Há ainda aquele tipo de inveja pequena, boba, que nos

acomete quando não temos mais nada a pensar. Comigo já

aconteceu uma história de inveja, que hoje acho bastante

engraçada. Sou canceriana, ligada em família, e sempre fui

meio fascinada pela minha irmã Sônia. Fascinada, como

assim? Explico esse episódio que vem a seguir com calma.

Durante as primeiras fases de turbulência emocional

da minha vida de casada, eu invejava essa irmã por ela ser

casada com um médico desligadão, charmoso e, confesso,

uma espécie de homem perfeito para o sonho de qualquer

mulher. Em tempo: eles continuam casados e felizes até

hoje. Então, a minha inveja era repleta de subterfúgios,

como convém aos invejosos educados. Eu queria porque

queria descobrir como um casal daqueles podia se dar tão

bem e qual seria a fórmula mágica daquele amor.

Por duas vezes cheguei a pedir para me hospedar na

casa de Sônia, apenas para fazer observações de suas qualidades

secretas como esposa. Pode? Pode, sim. Eu a pers-


crutava, disfarçadamente. E suspirava ao vê-la de óculos,

lendo livros, com ares intelectuais. Como minha irmã era

muito desligada e dinâmica, fiquei a imaginar ser esse o clima

exato para deslanchar o seu charme. E que talvez por

tanto dinamismo, ela nunca chegasse ao fim de um livro.

Obviamente aquelas observações não levaram a nada.

Agora são lembranças curiosas que voltam. Assumo-as

como um ataque bobo de inveja em uma mulher pouco liberada,

como eu era. Não foi inveja baixo-astral, nem de

roer unhas pelos cantos. Foi inveja de querer ser aquela pessoa,

de querer se transformar em alguém quase mitificado.

Hoje a inveja é algo raríssimo em minha vida. Invejo apenas

os prazeres simples da vida e as pessoas que sabem levar a

existência com doses intermináveis de bom humor.

E viva o pé de arruda!

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IRA

O LEÃO ESTÁ SOLTO NAS RUAS

Você sabia que, pelos preceitos cristãos, a ira

só é pecado quando acontece com freqüência? Ao

se ocorrer um ataque de ira voltado a defender a

justiça ou a abrandar alguma situação indigna,

ela passa a ser considerada manifestação do

poder divino, de defesa da vida e da busca de

correção. Trocando em miúdos: para a ira não

ser pecaminosa, é preciso existir um fundamento

justo.

Aliás, a bem da verdade, ter ira não significa sentir raiva.

A raiva seria, digamos assim, uma demonstração de pequeneza

do ser humano, de mesquinhez das relações pessoais.

A ira tem magnitude, atitude e objetivo. A ira é

soberana, a raiva é rasteira. A raiva dá chineladas, a ira solta

um leão nas ruas.

Durante a minha vida aprendi que a ira pode trazer

alterações importantes. Tive poucos ataques de ira, mas

foram suficientes para mudar completamente uma série

de situações que se haviam tornado insuportáveis. Por

exemplo: quando decidi que não seria mais uma mulher

obesa e coitadinha, senti uma força inexplicável, estra-

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nha e vulcânica, que vinha lá de dentro. Era a ira.

Irava-me por ter me deixado ser maltratada durante tantos

anos, por haver chegado ao fundo do poço da falta

de estima. A partir dessa ira, decidi que seria uma mulher

destemida, audaciosa e com metas profissionais

ambiciosas. A partir da ira, mandei tudo para o espaço:

gorduras, passividade, desamor, desatenção, falta de

objetivos e sofrimentos. A ira trouxe renovação e fôlego

novo. Em retrospectiva, agora percebo também que consegui

me libertar de três casamentos sob o impulso altamente

necessário da ira. Em cada um deles (conforme

conto aqui neste livro, em capítulos separados), deixeime

ser dominada por parcerias equivocadas, que me

consumiam lentamente. Quando eu percebia o tamanho

do embrulho em que estava metida, gritava Shazam!,

ficava irada e me soltava definitivamente, saindo para

outra jornada existencial. A ira foi a chave certa, a solução

correta, para romper coisas tão desgastantes e inúteis

em minha vida sentimental.

A partir daí, passei a analisar que a ira derruba estruturas

apodrecidas. A ira invade terrenos minados. A ira é

destemida. A ira movimentou os revolucionários, os grandes

criadores, os rompantes artísticos e as derrubadas de situações

tirânicas. Sentir ira envolve fúria, muitas vezes.

A ira também me fez reunir forças para interromper

encontros furados, falsas amizades e negócios que anda-


vam errados. Quando a ira traz justiça, não ficamos dominados.

E o melhor: é uma manifestação que pode durar

pouco, como uma tempestade de raios seguida por um

inesperado céu azul. Coisas da natureza humana.

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DESCOBERTAS

OLHANDO PELAS FRESTAS

Para minha neta Valentina, que me fez

ter olhares novos para tudo na vida

Coisa boa na vida? Resposta: Descobrir algo,

descobrir pessoas, descobrir lugares, descobrir

novidades próximas e nunca percebidas, descobrir

os segredos do mundo. Ter olhos novos para

o novo, não se retrair perante fatos reveladores,

manter os sete buracos da cabeça sempre prontos

para conhecer novidades.

Sempre me senti uma mulher destemida, pronta a

olhar pelas frestas em busca do desconhecido, a desejar

situações que parecem misteriosas, a subir no sótão só

para fuçar objetos perdidos no tempo. Tudo isso parece me

completar de modo misterioso, como se as descobertas de

cada dia fossem condições essenciais para a vida fluir.

Muitas vezes me pego distraída, mirando alguma coisa

minúscula e tão repleta de pequenos segredos.

Talvez por pensar assim, evito pessoas acomodadas.

Não gosto de quem pouco se importa com a cor da asa da

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246

borboleta que acabou de passar, ou com quem não fica

curioso perante ruídos inexplicáveis ouvidos na madrugada.

Tudo pode ser fascinante, tudo tem interpretações múltiplas,

tudo ensina, tudo revela. Então como não gostar de

ser um descobridor 24 horas ao dia?

Tem gente que leva a existência como se estivesse

eternamente em uma cadeira de balanço, permitindo ao

marasmo invadir a mente como um maremoto. Outros se

submetem à repetição mecânica das situações, por medo

de ousar, por receio de dar saltos, por temor de apostar na

descoberta. Alguns esperam que as oportunidades despenquem

do teto ou que os lampejos da sorte enviem aviso

de chegada.

Há enorme diferença entre ser prudente e ser acomodado.

A prudência até que pode ser um componente

posterior das descobertas, quando se chega a um ponto

que nos faz pensar se vale mesmo continuar avançando.

Para se estar aberto a descobrir novidades, é preciso ter

noção de atuar como em um jogo: perde-se, ganha-se,

empata-se, recua-se, avança-se, desiste-se. O mais importante

é saber que, sob qualquer circunstância, o resultado

que as descobertas trazem será produtivo, fará refletir,

trará impulsos mentais, reavaliará métodos, proporcionará

novas interpretações sobre a vida.

Então, mãos à obra. Entre no jogo das descobertas:

puxe aquele assunto que deseja conversar com alguém


especial, siga a trilha de João e Maria, assista um programa

naquele canal que nunca chamou a sua atenção, ouça

conversas de pessoas desconhecidas, abra na página 207

daquele livro e leia a terceira frase, converse com alguém

diferente pelo menos uma vez ao dia, jogue-se de férias

em destinos absolutamente desconhecidos, prove receitas

culinárias ousadas, ouça o CD daquele artista estranho,

espie de vez em quando pelo buraco da fechadura, roube

um beijo, envie mensagens surpreendentes a um amigo,

visite um museu, abrace quem nunca foi abraçado, colecione

fotos de girafas, aprenda a dançar ritmos difíceis,

cheire flores exóticas, brinque de fantasma com os sobrinhos,

conquiste alguém especial, cultive um cacto raro,

aprenda canto, olhe a paisagem de binóculos, assista um

filme da Nova Zelândia, abra um champanhe no café da

manhã do próximo domingo, abra a janela, abra o sorriso,

abra o coração, abra a mente, abra-se para o universo.

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