Guardados da Memória - Machado de Assis

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Guardados da Memória - Machado de Assis

Dom JoãoVI

no Brasil

Guardados da Memória

Oliveira Lima

Ao fazer-se pública em Lisboa a partida iminente da Família

Real para o Brasil, foram grandes a ânsia e a confusão, conforme

relata o oficial da marinha britânica O’Neill, testemunha ocular

posto que não inteiramente digna dedesse acontecimento memorável.

Não faltariam decerto cenas dilacerantes. Muita gente quis

embarcar a força, falando O’Neill na sua imaginosa narração em senhoras

de distinção que se afogaram ao entrarem pela água adentro

para alcançarem botes que as transportassem para bordo dos navios

de guerra, onde não havia aliás mais lugar para os fugitivos, O que

deve ser verdade é que muita gente, não tendo tido o mesmo ensejo

que a Família Real de preparar-se para a longínqua viagem, partia

com a roupa do corpo, e que os navios estavam tão abarrotados que

dos dependentes dos fidalgos da comitiva, o maior número não encontrava

sequer onde dormir. Teria o dispersar sido tal que se conta

que o príncipe regente, ao chegar ao cais com o infante espanhol e

um criado, num carro fechado e sem libré da corte, como lhe fora

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Acadêmico

fundador da

Cadeira 39

da Academia

Brasileira de

Letras. Autor

do clássico

D. João VI

no Brasil.


Oliveira Lima

aconselhado para evitar as demonstrações do sentimento popular avesso à retirada,

não encontrou para o receber personagem algum e, a fim de não patinhar

na lama, teve que atravessar o charco sobre pranchas mal postas, sustentado

por dois cabos de polícia.

Estes pormenores do embarque de Dom João são dados pela Duquesa de

Abrantes, cujo depoimento não é contudo completamente merecedor de crédito,

e contrastam com a versão de uma gravura inglesa coeva, a qual reveste a

partida de toda a solenidade, destacando-se o coche do Paço entre magotes de

gente da corte e do povo que com respeito o circunda. Além da madeira e do

cobre receberem sem protesto quaisquer buriladas, os ingleses eram interessados

nesta variante porquanto o seu governo fôra no momento decisivo o mais

forte advogado da trasladação.

Os cronistas portugueses guardam sobre os transes da partida da corte um

silêncio curioso. Lamentam-na todos, censuram-na muitos, desculpam-na alguns

raros, mas calam no geral as peripécias que a acompanharam. Uma descrição

quase única feita pelo Visconde do Rio Seco, particular do regente e a

quem este incumbira especialmente dos aprestos da travessia, não deixa entretanto

dúvidas sobre os genuínos sentimentos da população da capital e abonam

a versão Abrantes em detrimento da versão inglesa:

“O muito nobre e sempre leal povo de Lisboa, não podia familiarizar-se

com a idéia da saída d’El-Rei para os Domínios Ultramarinos... Vagando

tumultuariamente pelas praças, e ruas, sem acreditar o mesmo, que via, desafogava

em lágrimas, e imprecações a opressão dolorosa, que lhe abafava na

arca do peito o coração inchado de suspirar: tudo para ele era horror; tudo

mágoa; tudo saudade; e aquele nobre caráter de sofrimento, em que tanto

tem realçado acima dos Outros povos, quase degenerava em desesperação!

Era neste estado de frenesi popular, que ele [o Visconde do Rio Seco] no seu regresso

para o cais de Belém foi envolvido em uma nuvem de verdadeiros filhos,

que desacordadamente lhe pediam contas do seu chefe, do seu príncipe,

do seu pai, como se ele fora o autor de um expediente, que tanto os fla-

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Dom JoãoVI no Brasil

gelava! A nada se poupou para serenar a multidão; desculpas oficiosas, protestações

sinceras de que ele nada influíra para tais sucessos, preces, rogos,

tudo era perdido para um povo, que no seu excesso de dor o caracterizava

de instrumento do seu martírio, sem se abster de o sentenciar de traidor! Ele

não foi para o seu quartel: levou-o a torrente; e no meio dos impropérios

avistou a guarda que lhe fora destinada; e reclamando a sua proteção tratou

de serenar o povo, protestando-lhe que tanto era inocente do que lhe acumulavam

que lhe assegurava de não embarcar visto acabar de ser nomeado

quarteleiro de Junot...”

A 27 de novembro anuira o príncipe regente às instâncias de Lord Strangford,

o qual parece ter querido aproveitar-se das angústias do momento –

que ele porventura não antecipara tamanhas – para fazer, muito à inglesa e

provavelmente por conta própria, o seu bocado de diplomacia assustadora.

Aparentou, ao que consta, o enviado britânico só querer consentir na retirada

do príncipe regente se este prometesse abrir logo ao comércio os portos

do Brasil, ceder um à Inglaterra e estabelecer uma tarifa aduaneira insignificante

para as mercadorias. Se o não conseguiu, foi em parte porque Antônio

de Araújo se não deixou intimidar e reagiu contra a cilada, e em parte também

porque se encontrava no porto de Lisboa numa esquadra russa comandada

pelo Almirante Siniavin. Esta esquadra, não obstante a aliança existente

entre os dois impérios, recusou todavia mais tarde, a acreditarmos nas queixas

de Junot, fornecer-lhe auxílio para combater a insurreição portuguesa

patrocinada pelos ingleses, sem no entanto conseguir escapar à captura pela

esquadra inglesa quando o porto de Lisboa deixou de ser pelo governo britânico

considerado neutro.

A 28 publicava o príncipe regente de bordo a sua declaração e a 29 singrava

a esquadra para o Brasil, assistindo à partida, refere o despacho do Almirante

Sir Sidney Smith, a força francesa que no mesmo dia ocupara a capital e se apinhava

nos morros para contemplar, raivosa e impotente, a desaparição no horizonte

da presa mais cobiçada.

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Oliveira Lima

O’Neill insere na sua relação um incidente ao qual não teria por certo faltado

vibração dramática, mas que, não se achando confirmado em história alguma

ou por outro compilador de memórias da época, nem mesmo pela prolixa e

bisbilhoteira duquesa de Abrantes, deve ser considerado fruto da sua fantasia

céltica. Narra o irlandês que Junot, vindo as marchas forçadas adiante do grosso

das suas tropas, chegara a Lisboa a tempo de obter do regente uma audiência que

se teria realizado a bordo da nau Príncipe real, na manhã de 28 de novembro, com

a assistência de D. Rodrigo de Souza Coutinho, a quem a aproximação política

da Inglaterra ia restituir o valimento. À pergunta de Junot sobre as razões do

embarque da corte e à sua estranheza da desconfiança que semelhante ato denunciava,

Dom João haveria respondido que não podia deixar de nutrir desconfianças

de quem assim mandava invadir o seu país, e encarregado Junot de

declarar ao imperador dos franceses que o regente de Portugal desdenhava a

aliança ambiciosa e a proteção traiçoeira daquele que não trepidava em duramente

qualificar de dishonourable man (a expressão fica em inglês porque corre

exclusivamente por conta do Conde Thomas O’Neill).

A esquadra britânica esperava fora da barra a fim de comboiar a esquadra

nacional, e de muito lhe valeu no temporal que logo à saída do porto momentaneamente

a dispersou. Serenado o mar, os ingleses forneceram os navios portugueses

do muito indispensável que ainda lhes faltava; executaram-se alguns

reparos urgentes de avarias causadas pela borrasca; destacou-se para Inglaterra

uma das naus por incapaz, indo no seu lugar a Martim de Freitas e acompanhando

aquela à chalupa Confiance, comandante Yeo, despachada pelo almirante

para levar ao governo britânico as notícias da partida.

Lord Strangford acompanhou a frota anglo-lusa até o dia 5 de dezembro,

na altura entre Madeira e Açores, voltando então para a Inglaterra, donde pouco

depois embarcaria diretamente para o Rio de Janeiro. Também Sir Sidney

Smith somente partiria mais tarde, a 13 de março no Foudroyant, seguido pelo

Agamemnon, chegando ao Rio a 17 de maio de 1808.

Apesar da assistência inglesa, as incomodidades a bordo dos navios portugueses

foram, como era natural, consideráveis, sobretudo para as senhoras. É

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Dom JoãoVI no Brasil

suficiente referir que a bordo do Príncipe Real iam 1.600 pessoas no cálculo de

O’Neill. Descontando-se mesmo metade, pode-se imaginar a balbúrdia que

reinaria na nau. Muita da gente dormia no tombadilho, o que em latitudes tropicais

não é um positivo desconforto, mas o pior estava em que eram poucos

os víveres. Relatando estes pormenores, o oficial britânico encarece repetidamente

a atitude do príncipe regente que as informações ministradas lhe pintaram

muito deliberado, calmo e assente em tudo, como quem media perfeitamente o

alcance do ato que estava praticando. Este ato com efeito não era apenas de

segurança pessoal: trazia importantíssimas conseqüências políticas.

Para o Brasil o resultado da mudança da corte ia ser, em qualquer sentido,

uma transformação. A política estrangeira de Portugal, que era essencialmente

européia no caráter, tornar-se-ia de repente americana, atendendo ao equilíbrio

político do Novo Mundo, visando ao engrandecimento territorial e valia

moral da que desde então deixava de ser colônia para assumir foros de nação

soberana. E à nova nacionalidade que assim se constituía, foi o ato do príncipe

regente no extremo propício pois que lhe deu a ligação que faltava e com que

só um forte poder central e monárquico a poderia dotar.

Destarte o mostrou compreender perfeitamente, com o senso filosófico que

distingue os historiadores alemães, o professor Handelmann, na Universidade

de Kiel, ao ponderar no seu excelente trabalho que até então representava o

Brasil nada mais do que uma unidade geográfica formada por províncias no

fundo estranhas umas às outras; agora porém iam essas províncias fundir-se

numa real unidade política, encontrando o seu centro natural na própria capital,

o Rio de Janeiro, onde passavam a residir o rei, a corte e o gabinete.

Observam as memórias do Almirante Sir Sidney Smith que, para o governo

francês, um motivo havia de fazê-lo estimar a trasladação da família de Bragança

e compensar, no seu conceito, o despeito de vê-la escapar à sorte comum das

caducas casas reinantes: pelo menos se obstava com tal deliberação a que as

colônias portuguesas caíssem nas mãos da Grã- Bretanha. O almirante éoprimeiro

a reconhecer que essas colônias estariam de fato perdidas para a metrópole

se Dom João não emigrasse para o Brasil. Os ingleses ocupa-las-iam sob

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Oliveira Lima

pretexto de as defender e, quando isto não acontecesse, a independência da

América portuguesa se teria efetuado ao mesmo tempo e com muito menos resistência

do que a da América espanhola. Retirar-se o príncipe regente para

bordo da esquadra portuguesa ou britânica e daí contemplar o desenrolar dos

acontecimentos, não resolvia absolutamente o problema que as circunstâncias

da Europa convulsa lhe tinham criado. Cada nova invasão do reino – e foram

três – daria origem a uma nova retirada, que já seria uma fuga, e entretanto o

Brasil se anarquizaria, sem governo que o fosse e sem razão determinante para

do seu seio brotar um governo próprio. Dom João fez pois a única coisa que

podia e devia fazer.

Ao pisar em terras brasileiras, com o pessoal e os acessórios que o acompanhavam,

o príncipe regente exclamou sem ambages que nelas vinha fundar um

novo Império. Dados o cenário e os atores, que espécie porém de monarquia

podia ele criar entre nós? Aquela somente a que com efeito deu nascimento,

uma monarquia híbrida, misto de absolutismo e de democracia: absolutismo

dos princípios, temperado pela brandura e bondade do príncipe, e democracia

das maneiras, corrigindo o abandono bonacheirão pela altivez instintiva do soberano.

Foi esta a espécie de realeza levada ao seu auge e tomando em consideração

a diversidade do meio político, pelo Imperador Dom Pedro II, personagem

em muitos traços parecido com o avô.

De Dom João VI se não podia na verdade esperar coisa diferente, visto por

um lado o orgulho da aristocracia transplantada, mais intimamente ligada com

a Família Real, cujos sofrimentos compartilhara e cuja confiança gozava, educada

nas máximas do direito divino e machucada pela sua atual relativa modéstia

de recursos em contraposição à gente abastada da terra; e dada por outro a

despretensão, que não excluía urbanidade nem deferência, gerada no intercurso

menos cerimonioso e mais direto dos graúdos locais com os vice-reis

representantes da suprema autoridade da metrópole. Os brasileiros estavam

pois inconscientemente preparados para a monarquia constitucional, assim

como os portugueses tinham por seus sentimentos e interesses que se manter

instintivamente aferrados à monarquia absoluta. Quando anos depois, ao cabo

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Dom JoãoVI no Brasil

do reinado americano de Dom João VI, se deu o movimento geral e impetuoso

de adesão do reino ultramarino ao programa revolucionário de Lisboa, encarnado

legal e ordeiramente nas cortes de 1820, os brasileiros ainda seriam arrastados

pela quimera liberal, ao passo que os portugueses eram instigados

pelo ideal da recolonização. Desde a chegada entretanto da corte que, antes de

degenerar num conflito político, uma hostilidade teórica se fora levantando

onde as circunstâncias tinham cavado um fosso de antipatia pessoal.

Os acontecimentos levavam disso a maior culpa, sendo contudo inevitável o

seu efeito. Dantes, em pleno período colonial, eram raríssimos os titulares, de

que só se conheciam os do velho reino, que vinham ocupar cargos da administração:

por isso mesmo mais se os respeitava. Agora, a distribuição de mercês

imaginada pelo príncipe regente em obediência aos impulsos do seu coração

generoso e aos ditames dos seus cálculos de governo, despertando ambições e

concorrências, servilismos e invejas, ia alterar sensivelmente a situação, e com

ela os costumes.

Os indivíduos enobrecidos, agraciados com hábitos e comendas, entenderiam

não lhes quadrar mais comerciar, sim viver das suas rendas ou, melhor

ainda, obter empregos do Estado. Avolumar-se-ia desta forma o número dos

funcionários públicos, com grande despeito e pronunciado rancor dos emigrantes

burocratas do reino, que tinham acompanhado a Família Real ou

chegavam seduzidos por essas colocações em que as fraudes multiplicavam

os ganhos lícitos, muito pouco remunerados.

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PATRONOS, FUNDADORES E MEMBROS EFETIVOS

DA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS

(Fundada em 20 de julho de 1897)

As sessões preparatórias para a criação da Academia Brasileira de Letras realizaram-se na sala de redação da Revista Brasileira, fase III

(1895-1899), sob a direção de José Veríssimo. Na primeira sessão, em 15 de dezembro de 1896, foi aclamado presidente Machado de Assis.

Outras sessões realizaram-se na redação da Revista, na Travessa do Ouvidor, n. o 31, Rio de Janeiro. A primeira sessão plenária da Instituição

realizou-se numa sala do Pedagogium, na Rua do Passeio, em 20 de julho de 1897.

Cadeira Patronos Fundadores Membros Efetivos

01 Adelino Fontoura Luís Murat Ana Maria Machado

02 Álvares de Azevedo Coelho Neto Tarcísio Padilha

03 Artur de Oliveira Filinto de Almeida Carlos Heitor Cony

04 Basílio da Gama Aluísio Azevedo Carlos Nejar

05 Bernardo Guimarães Raimundo Correia José Murilo de Carvalho

06 Casimiro de Abreu Teixeira de Melo Cícero Sandroni

07 Castro Alves Valentim Magalhães Nelson Pereira dos Santos

08 Cláudio Manuel da Costa Alberto de Oliveira Antonio Olinto

09 Domingos Gonçalves de Magalhães Magalhães de Azeredo Alberto da Costa e Silva

10 Evaristo da Veiga Rui Barbosa Lêdo Ivo

11 Fagundes Varela Lúcio de Mendonça Helio Jaguaribe

12 França Júnior Urbano Duarte Alfredo Bosi

13 Francisco Otaviano Visconde de Taunay Sergio Paulo Rouanet

14 Franklin Távora Clóvis Beviláqua Celso Lafer

15 Gonçalves Dias Olavo Bilac Pe. Fernando Bastos de Ávila

16 Gregório de Matos Araripe Júnior Lygia Fagundes Telles

17 Hipólito da Costa Sílvio Romero Affonso Arinos de Mello Franco

18 João Francisco Lisboa José Veríssimo Arnaldo Niskier

19 Joaquim Caetano Alcindo Guanabara Antonio Carlos Secchin

20 Joaquim Manuel de Macedo Salvador de Mendonça Murilo Melo Filho

21 Joaquim Serra José do Patrocínio Paulo Coelho

22 José Bonifácio, o Moço Medeiros e Albuquerque Ivo Pitanguy

23 José de Alencar Machado de Assis Zélia Gattai

24 Júlio Ribeiro Garcia Redondo Sábato Magaldi

25 Junqueira Freire Barão de Loreto Alberto Venancio Filho

26 Laurindo Rabelo Guimarães Passos Marcos Vinicios Vilaça

27 Maciel Monteiro Joaquim Nabuco Eduardo Portella

28 Manuel Antônio de Almeida Inglês de Sousa Domício Proença Filho

29 Martins Pena Artur Azevedo José Mindlin

30 Pardal Mallet Pedro Rabelo Nélida Piñon

31 Pedro Luís Luís Guimarães Júnior Moacyr Scliar

32 Araújo Porto-Alegre Carlos de Laet Ariano Suassuna

33 Raul Pompéia Domício da Gama Evanildo Bechara

34 Sousa Caldas J.M. Pereira da Silva João Ubaldo Ribeiro

35 Tavares Bastos Rodrigo Octavio Candido Mendes de Almeida

36 Teófilo Dias Afonso Celso João de Scantimburgo

37 Tomás Antônio Gonzaga Silva Ramos Ivan Junqueira

38 Tobias Barreto Graça Aranha José Sarney

39 F.A. de Varnhagen Oliveira Lima Marco Maciel

40 Visconde do Rio Branco Eduardo Prado Evaristo de Moraes Filho


Petit Trianon – Doado pelo governo francês em 1923.

Sede da Academia Brasileira de Letras,

Av. Presidente Wilson, 203

Castelo – Rio de Janeiro – RJ


Composto em Monotype Centaur 12/16 pt; citações, 10.5/16 pt.

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