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tatix

TATIANA E RODRIGO

12.10.2018


O INÍCIO


Tem gente que não espera o amor aparecer, vai até ele e o pega

no laço. Mesmo quando ainda nem sabe que é o amor, ou que

virá a ser. Primeiro aparece a intuição, dá uma cutucadinha,

a pessoa ouve o instinto interior e quando vê já trouxe uma

grande paixão pra dentro da sua vida.

Não que ela imaginasse que essa história terminaria em um altar

dizendo ‘sim’, mas Tatiana tinha um objetivo definido quando

achou o perfil de Rodrigo, mais conhecido como Bob, no

falecido Orkut e o adicionou. Segundo ela, a ideia era apenas

fazer novas amizades.

−Eu morava com uma amiga, a Débora, e ficava impressionada

que a gente tinha a mesma idade, morava juntas, estudava

juntas, mas o círculo social dela tinha um milhão de amigos!

Só que ela era esportista, membro de liga universitária, e eu só

conhecia o pessoal da nossa sala da faculdade. Aí ela discordou

“não, não é assim não, dá uma olhada no grupo da UFV que

você encontra mais gente que você conhece”.

A tarefa parecia simples, só que tinha um “porém”. Quem conhece

a Tatix sabe de como a memória dela é maravilhosa... Só

que não. Depois de muito fuçar o grupo da universidade na

rede social, achou umas dez pessoas que ela conhecia. Ou pelo

menos achava que conhecia.


Outras pessoas tentariam começar a amizade de uma forma

mais tradicional, quem sabe com o famoso “Oi, tudo bem?”.

Mas não a Tatix. Sem explicar quem era ela e porque enviava

uma solicitação de amizade, mandou apenas uma frase que julgava

resumir tudo muito bem: “Te vi na reta”.

− Na hora eu pensei “Tá querendo me pegar” – lembra Bob.

Solicitação aceita, a amizade evoluiu do Orkut para o MSN,

que era melhor de bater papo. E como conversavam! Só conversavam,

diga-se de passagem, porque o primeiro encontro

demorou alguns meses para se acontecer.

Bob disse que queria levá-la ao restaurante italiano sonho de

10 em 10 universitários da UFV: o La Coccinella. O problema

era que estudante não tinha lá muita grana para bancar a programação,

por isso a demora em chamá-la para sair. Enquanto

isso, conversavam todos os dias pelo aplicativo de mensagens.


Conhecida por ter um amplo guarda-roupa, Tatix não pode

idealizar o look do primeiro encontro porque quando saiu de

casa naquele dia nem sabia que terminaria a noite conhecendo

Bob. Arrumou-se para ir ao aniversário de uma amiga e lá o

telefone tocou:

− Ó, tô com grana hoje, vamos?

Ela gelou. Não o conhecia direito, e se fosse um louco, psicopata?

Tudo bem que parecia gente boa nas conversas pela internet,

mas não custava nada se precaver. Chamou as amigas, incluindo

a aniversariante, para vigiar o encontro da janela.

Na primeira impressão, uma surpresa: ele era mais bonito do

que parecia pela foto do Orkut. Chegou a duvidar se era ele

mesmo, mas também não tinha certeza se ele estava tão diferente

assim ou a memória dela que não era grande coisa mesmo.

Para ambos, apesar de ser a primeira vez que se viam, a sensação

era de que já se conheciam há tempos. Tanto entrosamento

fez com que Tatix já esperasse um fim de noite especial.

No entanto, Bob decidiu surpreendê-la novamente.


- Aí a gente teve o encontro todo, foi engraçado. Levei ela em

casa e a Tatix já chegou com a chave balançando pra subir. Pensei

“É agora”. Aí eu falei “Boa noite”.

Não era bem o que ela esperava.

-Ele me levou até meu prédio e chegando lá achei que ele ia me

beijar, porque a gente tinha passado a noite inteira flertando,

ele tinha sido muito fofo durante o jantar. Quando ele chegou

na porta da minha casa, que achei que ia me beijar, acho que

já estava até de biquinho, aí ele me deu um tapinha nas costas

e foi embora.

A revolta tomou conta daquela mulher. Subiu indignada até o

terceiro andar, colocou o pijama e imediatamente ligou o computador.

Em poucos minutos lá estava ele online também.

-Nós devíamos ter estendido a noite, né? – comentou Bob.

Ainda brava, ela concordou.

-Então me encontra em 15 minutos no gramado da UFV – chamou

ele.


Não teve dúvidas. Ela queria beijá-lo nem que fosse só para

tirá-lo de sua cabeça. Voltou a se vestir, agasalhando-se bem

por conta do frio, calçou um tênis e lá foi encontrá-lo novamente.

Se achou que chegaria já mandando ver, não foi bem

assim que aconteceu. Voltaram a conversar.

- Aí a gente passou a madrugada toda batendo papo, um frio

danado, demorou a beça pra ele me beijar. Eu já tava quase desistindo,

tinha até uma galera atrás da gente jogando rugby na

grama, eu lembro direitinho disso...

-Não, Tatix, isso foi outro dia – interrompe ele. – Quem joga

rugby às 11:30 da noite?

Com ou sem rugby, o fato é que o beijo finalmente saiu.


Datas, componentes dos cenários e outros detalhes são pontos

que eles não se lembram exatamente. Bom, algumas das coisas

esquecidas não chegam a ser um mero detalhe, como o dia

em que oficializaram a relação, mas o esquecimento tem certa

razão de ser.

O casal não sabe precisar um dia, foi algo entre três a seis meses

depois que se conheceram, quando Tatix decidiu colocar Bob

na parede sobre a natureza do relacionamento deles.

Isso porque desde o primeiro beijo eles se viam praticamente

todos os dias. Por acaso do destino, passaram até a trabalhar

juntos numa revista de economia, na qual se inscreveram sem

saber que o outro também havia tentando vaga para o mesmo

projeto. Além disso, Bob se tornou monitor de uma disciplina

que Tatix cursava. Tanta convivência aumentava a paixão, mas

ela precisava de segurança.


-Porque eu tava nessa dúvida, e eu ficava mesmo sem graça

de ligar e ele achar que eu tava pressionando, dando muito

em cima. Ou então eu ficava encanada de deixar de ligar e ele

pensar que eu tinha perdido o interesse, que não queria mais

nada. Aí cheguei um dia na casa dele muito estressada e ele perguntando

por que eu tava assim e eu falando que não era nada

e ele insistiu a tarde toda.

Aí eu fiquei puta e falei “Você quer saber por que eu tô estressada?

É porque a gente ta junto há meses e até agora você não me

pediu em namoro e eu não sei que porra é essa”.

Pasmo, ele respondeu:

-Ué, a gente já não tá namorando? Andou de mão dada de dia

já é namoro.

Para ela não era bem assim, era necessário dizer exatamente o

ponto em que se encontravam, mas conversar resolveu o conflito

de idéias.

Estavam enfim namorando.


UM PASSO DE CADA VEZ


O relacionamento havia evoluído, mas cada novidade precisava

ser assimilada e aprendida. Algumas em situações bem embaraçosas.

Após o primeiro encontro em maio e o pedido oficial

em alguns meses depois, a rotina do casal tinha passado por

poucos momentos marcantes até então. Por isso mesmo, Tatix

amou quando ele a convidou a passar um feriado na casa dos

pais dele em Botucatu, interior de São Paulo.

- Em outubro, na semana do meu aniversario teve a Semana do

Fazendeiro, um evento na UFV. Daí não tinha aula e era folga

pra todo mundo, a não ser para quem participava. Eu lembro

que todo mundo agendou viagem pra casa e eu ia ficar em Viçosa

porque tinha ido pra Cabo Verde recentemente. Ele chegou

todo bonitinho e falou “Olha, quero muito que você vá comigo

pra Botucatu”. Eu pensei “Gente, ele quer que eu conheça a

família dele e quer comemorar meu aniversário, que fofura, não

quer que eu fique sozinha em Viçosa pra gente comemorar lá”.

Isso na minha cabeça.

Não era bem assim. Bob não sabia sobre o aniversário, até

porque a informação não estava disponível perfil do Orkut

dela. A visita corria bem até essa data, quando ela não recebeu

a esperada surpresa, nem presente, nem sequer um “parabéns”.


Pelo menos não do namorado, porque os amigos e familiares

não paravam de ligar para a aniversariante. Estranhando o

celular que não parava de tocar, Bob perguntava quem ligava,

mas ela se recusava a responder, até o momento em que um

ex-namorado ligou para parabenizá-la.

- E ele ficou todo bravinho “Por que seu ex tá te ligando? O

que ele que com você?”. Aí eu falei “Ele quer me dar parabéns

porque hoje é meu aniversário”. A cara do Bob bateu no chão

e voltou. Porque ele não sabia, não fazia ideia, não tinha me

levado pra Botucatu pra comemorar nada. Ele só queria viajar.

Mal entendido desfeito, o modo era tentar reparar. Aproveitando

que a família dele já havia marcado de sair para comer

pizza, ele anunciou o aniversário dela para todos. Ao ouvir de

um dos parentes que Tatix era “pra casar”, ele cometeu a nova

falha no passeio.

-Ele mandou na lata “Deus me livre, nunca vou casar” – recorda

Tatix. – Minha sogra levantou da cadeira, pegou ele, levou

pra fora e falou “Não fala isso perto da menina, tadinha, ela

veio aqui hoje conhecer sua família”.


Apesar das gafes, o namoro sobreviveu e se fortaleceu. A grande

prova de fogo viria dali a mais de um ano, depois que ela se formou

e ele ainda tinha alguns períodos para encarar antes de se

graduar. Formada e diplomada, Tatix decidiu que não queria

encarar um relacionamento à distância. Já havia conhecido essa

situação e sofrido por isso anteriormente, motivo pelo qual não

via sentido em passar por tudo de novo.

-Falei que não queria mais viver isso e pra mim acabou. “Infelizmente

gosto muito de você, mas não vai dar”. Aí ele chegou

em mim e falou “Não, vamos fazer um pacto. Eu te prometo

que eu vou te ver uma vez por mês. Ou eu vou, ou você vem,

mas a gente vai dar um jeito de ser ver uma vez por mês. Se a

gente começar a falhar nesse pacto é porque não é prioridade

na nossa vida estar junto e então a gente pode acabar. Mas se a

gente conseguir se ver pelo menos uma vez por mês é porque

a gente tá se esforçando pra ficar junto então a gente continua

enquanto der”.

Soava como um bom plano, por isso decidiram manter o compromisso.

Mesmo com as dificuldades financeiras de uma

recém-formada e de um universitário, os dois conseguiam

cumprir o combinado e se encontrarem pelo menos uma vez

a cada trinta dias.


Mas nem todo o esforço dedicado ao namoro podia apagar os

problemas que cada um enfrentava e que acabavam por influenciar

no comportamento que tinham um para com o outro.

Ela em um emprego que não a satisfazia profissionalmente, ele

tendo que acostumar com a falta de sua companheira e sentindo-se

solitário em uma cidade que respirava festa e alegria.

Individualmente enfrentando suas próprias batalhas internas,

nem sempre sobrava carinho para dedicar ao outro e as tentações

externas de outras possíveis paixões bateram à porta do

casal. Abalados diante de um amor que fraquejava, parecia que

seria o fim até que o senhor “não vou casar nunca” decidiu ir

além: levou Tatix para comprar uma aliança de compromisso.

Ainda não era o aguardado pedido de casamento, mas, pela primeira

vez, essa possibilidade havia sido discutida e considerada

como um futuro real para os dois.

A situação voltou a ficar mais favorável quando ele também se

formou e puderam voltar a traçarem planos juntos.


-Eu dei um fumo na Tatix antes. Ela falava ‘’Ah, quero trabalhar

em revista, não sei o quê” e ela se formou e foi trabalhar na

escola da família dela. Eu perguntei “Pra que você se formou?”.

Eu ficava puto dela ter baixado as expectativas. E eu “Faz um

mestrado, se inscreve e vai, você tá perdendo tempo aí’.

- Foi você que achou pra mim o edital – lembra ela.

- Fui eu que te levei. Dezoito horas de viagem.

A aprovação no mestrado significou um avanço para a carreira

de Tatix, mas também para o relacionamento dos dois. Antes

muito distantes um do outro, agora moravam no interior de São

Paulo em cidades vizinhas e se conseguiam se ver toda semana,

isso quando não passavam ainda mais tempo juntos.

Após dois anos, tiveram que reavaliar os planos quando o mestrado

dela chegou ao fim. Na iminência de ser chamada pelo

concurso em que havia sido aprovada, ela decidiu voltar para

Minas. Bob não titubeou e decidiu ir junto.

Ainda sem ter sido convocada e ele ainda se estruturando para

montar a própria empresa de assessoria ambiental, moraram

por sete meses na casa da mãe de Tatix até que se estruturassem

financeiramente para começar uma nova vida a dois.


RUMO AO ALTAR: A SAGA


O primeiro passo da nova vida foi decidir onde iam morar. Ela

era jornalista concursada federal em Muzambinho e ele professor

de geografia concursado do estado de São Paulo, podendo

dar aulas em Mococa, fronteira com o sul de Minas. Assim, decidiram

por Guaxupé, cidade que oferecia boa estrutura e estava

próxima às cidades onde os dois trabalhavam.

Bob já tinha certeza de que Tatix era a mulher da vida dele, por

isso era inevitável fazer novos planos. Mas a medida que o tempo

passava, por várias vezes ele ouviu um ultimato disfarçado

de comentário:

-Com mais de 30 anos eu não caso – dizia ela.

Mas essa era só a primeira parte. Quem casa, quer casa, diz o

ditado. Tatix argumentava que não via sentido em gastar em

aluguel um valor que daria para ser a mensalidade de um financiamento

do imóvel próprio. Assim, compraram um lote e

começaram a construção.

Passo importante, mas não o definitivo para seguirem adiante.

-Se é pra casar eu quero festa – declarou a futura noiva.


Não pela ostentação, mas como ambos haviam estudado fora de

suas cidades natais e feito diversas amizades que hoje moravam

distantes, uma festa seria a ocasião perfeita para celebrarem a

união junto às pessoas especiais de suas vidas.

Ok, ia ter festa. Mas podiam marcar para alguns anos dali pra

frente? Isso também não, porque esbarrava em mais uma situação:

ela não acreditava em noivado longo.

- Eu sempre falei pra ele “eu detesto noivado de mil anos”.

Sabe? A pessoa que fica noiva só pra mudar de status? Pra mim

o noivado é um período de cerca de um ano para preparar

o casamento. Ele falou várias vezes “vamos ficar noivo”. E eu

“você vai me pedir em casamento e a gente vai casar o ano que

vem?” e ele “não, a gente não vai casar o ano que vem”. E eu

“então nem me pede, porque se for pra me pedir, eu vou marcar

a data pra daqui um ano”.

Dando aulas no ensino fundamental, médio e superior e ainda

já fazendo um mestrado, depois de um tempo Bob sentiu que já

tinha condições de fazer o tão aguardado pedido.

Faltava só o anel.


Tatix sempre havia comentado que para pedir em noivado a

aliança deveria ser em ouro branco. Disposto a realizar todos

os sonhos da amada, ele comprou um solitário do jeito que ela

sempre havia mencionado e começou a preparar o ambiente

para que o momento fosse perfeito.

Como ela era apaixonada com luzes, decorou a casa com luzinhas

de Natal, mesmo dezembro estando longe. Já havia programado

fazer um jantar romântico quando a quase noiva veio

com a bomba:

- Você acredita que eu descobri que o anel de noivado tem que

ser dourado?

Indignado, mas sem poder externar a insatisfação, o pedido

teve que ser adiado. Mas em pouco tempo ele já tinha um novo

plano. Estavam com viagem marcada para Gramado, no Rio

Grande do Sul, cidade que inspira o romantismo.

Seria a oportunidade perfeita.


Bob programou-se para trocar a aliança de ouro branco pela

dourada numa loja franqueada dentro do aeroporto de Guarulhos,

de onde sairiam para ir para Gramado. No entanto,

chegaram ao local já perto do momento de embarque, o que

impediu que o plano fosse concretizado.

-Eu fiquei frustrada – relembra Tatix. – A gente foi pra lá e

tava tudo muito romântico, muito lindo, muito fofo. Teve um

dia que a gente foi jantar num restaurante bacana. Depois no

hotel tinha uma piscina, a gente nadou junto, uma delícia. Aí

chegando no quarto ele diz “olha, eu tenho uma coisa pra te dar

que você vai gostar muito”. E eu achando que ele ia me pedir

em casamento. Quando ele me deu o presente, era uma Go Pro,

uma câmera.

- A minha proposta inicial era colocar o anel na câmera, ela

abrir como se fosse uma decepção e estaria a aliança lá. Mas ela

decidiu mudar de cor e não tinha dado tempo de trocar o anel

antes da viagem – explica Bob.

Segunda tentativa desfeita, era hora de partir para o Plano C:

Natal. Anel dourado devidamente trocado, cidade cheia de luzes

como ela gostava, tudo pronto para o pedido ser realizado.

Até que...


- Acredita que eu descobri que não precisa ser dourado, pode

ser ouro branco mesmo? Até prefiro ouro branco, acho mais

bonito –comentou ela.

Bob teve que respirar fundo.

-Aí eu peguei, joguei o anel lá em casa e “ah, não sei mais o que

vou fazer com esse isso”. Aí eu falei “não, já fiz o negócio de trocar

mesmo, vou deixar aqui em casa e penso pra frente”.

Logo após o Natal, já tinham uma viagem marcada para o Rio

de Janeiro no início do ano que estava prestes a começar. Deixou

para pensar no Plano D depois da viagem, mas um novo fato

veio estragar tudo. Quando voltaram, a casa estava toda revirada.

Haviam sido assaltados e o anel de noivado estava entre os

itens levados pelo ladrão.

Depois de tanto planejar e sonhar o pedido perfeito, eis que já

não tinha nem anel para contar história. Também não tinha

condições de comprar uma nova aliança como a anterior,

porque dentre os outros prejuízos do assalto estava o computador

dele, no qual estava toda a sua pesquisa de mestrado. Sem

dados, sem diploma. Um outro gosto amargo para lidar.


A frustração deu lugar ao desprendimento. Comprou uma

nova aliança, a quarta da história, porém mais simples que as

anteriores. Decidido a seguir em frente, aproveitou uma nova

oportunidade. Havia sido aprovado para a segunda etapa de

um concurso para professor universitário no Paraná e decidiu

de uma vez por todas que o pedido seria feito em Curitiba.

Não que o cenário estivesse inspirando romantismo. A prova

estava marcada para o mesmo dia em que o ex-presidente Lula

iria depor diante do juiz Sérgio Moro e o clima na cidade não

era nada amistoso. Mas a tensão no ar não os prejudicou. Ao

contrário, ajudou a criar a situação planejada.

Bob já havia feito reserva em um restaurante sofisticado, mas

não podia revelar isso para que ela não desconfiasse. Como a

maioria dos estabelecimentos estavam fechados diante do clima

tenso na cidade, foi fácil sugerir que fossem para o ponto já

escolhido.

Localizado no 40º andar de um prédio, de noite a vista da cidade

era recheada de luzes, bem ao estilo que Tatix gostava. O

cardápio era comida italiana assim como no primeiro encontro

deles. Só faltava uma coisa...


-Eu fui pegar o bilhetinho pra entregar junto com a aliança.

Não quis entregar no meio da comida com medo dela não ver.

Imagina perder o quarto anel? Aí fiz um bilhetinho.

- O bilhete tinha três quadradinhos pra assinalar, como um

check. O primeiro estava escrito “luzinhas” e tinha um check.

O segundo quadradinho era “jantar italiano”, porque a gente se

conheceu no La Coccinela e ele queria me pedir em casamento

num lugar que tivesse comida italiana do mesmo jeito.

O segundo quadradinho também já estava assinalado. E o último

quadradinho estava branco e escrito “pra sempre comigo?”

e era pra eu assinalar, e o bilhete veio com a caixinha da aliança.

Dali pra frente eu só chorei.

Entre sorrisos e lágrimas, ela conseguiu dar a única resposta

possível: sim.

Vencida essa nova fase, tudo começou a fluir melhor dali em

diante. Bob foi aprovado no concurso para professor universitário

no Paraná enquanto Tatix recebeu convite para o pós-doutorado

mesmo antes de defender a tese dela. Novidades profissionais

que abrem espaço para que a obra da casa deles possa

terminar antes do previsto.


Dores de cabeça só com a preparação do casamento, algo que

quem já casou sabe bem do que se trata. Decisões infinitas para

se tomar a respeito de tudo: data, local, convidados, convites,

cardápio, roupas, atrações... Uma correria e uma loucura que

muito em breve eles sentirão saudades.

Ao olharem para toda a estrada percorrida em dez anos juntos,

os dois enxergam com orgulho a construção do relacionamento.

Não foi um amor arrebatador, daquele que a primeira vista

tinham certeza de que passariam o resto da vida juntos.

Mas assim como a casa que estão construindo, o relacionamento

foi se definindo em tijolo por tijolo a cada dificuldade vencida,

a cada nova experiência vivida. Nessa obra, a admiração

mútua foi a argamassa que selou os tijolos e fez com que a estrutura

permanecesse firme.


- Para mim foram dez anos de amizade, de amor que foi se

desenvolvendo – define Tatix. – Eu fui vendo que ele é um cara

apaixonado por psicologia, filosofia... Ele tem a capacidade de

citar textos abrindo aspas, coisa que eu nunca vou fazer, porque

eu tenho uma memória horrível. Ele gosta de animais, de meio

ambiente, tem facilidade absurda pra aprender outros idiomas.

Ele dá aula com uma paixão que eu nunca vi alguém dar, ele

gosta realmente. Apesar de ter dado aula em escolas que tinham

infra-estrutura terrível, ele ia todo dia felizão porque sabia

que modificava a vida dos alunos de alguma forma, sabe? Cada

ato dele me fez admirá-lo mais e o amor foi crescendo diretamente

proporcional à admiração.


Da mesma forma, perceber todo o companheirismo de Tatix

fez aquele cara que dizia que não ia casar nunca descobrir o

tanto que estaria perdendo caso não tivesse lutado pelo casamento

que tão facilmente rejeitava antes.

-São as qualidades morais que fazem você gostar da pessoa. É

uma mistura de amor e muito empenho de fazer as coisas acontecerem.

Passar tudo que a gente passou, não só de distâncias,

mas também de grana, a gente superou muita barreira para

conseguir se ver e não vai mudar porque tudo vai acontecendo

naturalmente.

Apesar do tanto que amadureceram, no fundo ainda são os

mesmos de dez anos atrás. Ela preocupada em planejar o futuro,

ele pedindo calma para que tudo aconteça no tempo

próprio. Diferenças que não precisam ser superadas, porque se

complementam.

Hoje e sempre.

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