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CRÔNICAS & ENSAIOS

Uma Crítica aos Costumes

GALENO PROCÓPIO M. ALVARENGA

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Esse livro faz parte do acervo de publicações do Psiquiatra e Psicólogo

Galeno Alvarenga. Disponibilizamos também a versão impressa, que

pode ser adquirida através do site do autor.

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Tags: Agressividade e Violência, Comportamento / Condutas, Crenças antigas

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Psicologia, Livros Psiquiatria, Médico vs Paciente, Sociedade: Valores e Cultura

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Índice

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Introdução

Valores

Homem: Ator engraçado e ridículo

Dois modos de pensar que não combinam

Ser Humano: Anjo ou Demônio?

Responsabilidade moral: Fato ou ficção

Satisfação e sofrimento: Dois lados da mesma moeda

Viva feliz realizando coisas ruíns

O Sequestro da Camisa Listrada

Valores: Informações resumidas

Agressividade e Violência

O Assalto

Brigas de Casais: Agressão ou Excitação Sexual?

Marido Violento: Este Incompreendido

Conheça o Estuprador

Agressividade e Violência: Informações resumidas

Aprenda a não ser tolo: três Marias vão ao médico

Maria Ingênua vai ao médico

Maria Cautelosa vai ao médico

Maria Sofisticada vai ao médico

As três Marias: Informações resumidas

Nosso povo

Entardecer de uma estrela: “BIG BROTHER”

Os maiorais

Amanhecer sem Futuro: Fortunato e Felicidade vão às Compras

Metamorfose

Fanfarra para um Homem Comum

A Fabricação do Homem Fora-de-série

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Um Lugar ao Sol

Nosso Povo: Informações resumidas

Início do universo - começo da vida

O nascimento do Universo

O BIG-BANG

A Explosão inicial: Agrupamento das Letras

O aparecimento dos Seres Vivos

Organismo Humano: O que são Seres Vivos?

Nascimento do Bebê: Primeiros contatos

Recém nascido: Ligação inicial com o Criador

Formação de Modelos: Relação mãe/filho

A Plantonista

Início do Universo – Começo da Vida: Informações resumidas

Emoções, sentimentos, memória e indivíduo

Emoção: A história de Geraldo

O que é emoção?

Sentimentos: Afetos secundários

Memória, Aprendizagem e Pensamento

Duas Memórias: Procedimento e Declarativa

O Eu e a Regulação Interna

Confidências à Meia-Noite

Emoções, Sentimentos e Memória e Indivíduo: Informações resumidas

Comportamento

Tenha Coragem de ter Medo

Como era Verde meu Vale

O Modelo da Lata de Lixo

AIDS: Você tem medo da Doença ou do Doente?

O Preço de uma Escolha: Adeus às Ilusões

Adivinhos: Esses Desadaptados

Comportamento: Informações resumidas

Sociedade e cultura

Os Donos do Poder

Nossas Origens Culturais: Chinesa e Grega

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Um desfecho inesperado

Loucos X Sem-tetos

O Conhecimento e as Diversas Línguas

Sociedade e cultura: Informações resumidas

Informação, comunicação e linguagem

Duas Mulheres Num dia Qualquer

TV e Pesquisas de Opiniões: Você Decide

Discurso: O Toque Sutil dos Sons

O Que se Esconde Por Trás dos Slogans

Informação, Comunicação, Linguagem: Informação resumidas

Lembranças, recordações, saudades

Mergulho no Passado: Uma História Verdadeira

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Para minhas filhas Jussara e Juliana

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Introdução

Quando eu era criança, meus amados e esforçados “professores”, imbuídos

das melhores intenções e empenhados em preparar-me para a

vida futura na sociedade, prescreveram-me algumas regras para avaliar

o comportamento humano quanto ao certo e errado.

Alguns, possivelmente preocupados em não me assustar, transmitiram-me

um único modo de “ver o mundo” com respeito à ciência,

filosofia, ética, religião.

Outros, menos apreensivos com a tranquilidade do espírito, alertaram-me

para a existência de mundos diferentes, bem como de formas

diversas para observá-los.

O primeiro grupo de “professores” – os convergentes e presos à

tradição dogmática e da certeza única – dificultou-me ou impediu-me

de observar, examinar e julgar os eventos e as relações humanas sob

prismas diferentes dos afirmados.

O segundo grupo de “professores” – os divergentes, defensores da

tradição crítica, assentados na dúvida construtiva – ensinou-me que

todo conhecimento envolve contradições, incertezas e princípios discutíveis,

pois nada é definitivo e universal. Esses mestres tiveram a coragem

e a humildade necessárias, dignas dos verdadeiros professores,

de criticarem as próprias hipóteses que possuíam e ensinavam. Graças

a eles, muitos alunos, como eu, puderam crescer sem se prenderem

rigorosamente a nenhuma idéia externa.

Deixo aqui minha gratidão a esses homens de mente crítica e flexível.

Devo muito a eles.

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Valores

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Homem: Ator engraçado e ridículo

“Lincha! Lincha!”; ”Assassino! Assassino!”. Frequentemente ouvimos

o povo gritar e xingar o suposto estuprador, criminoso ou sequestrador;

outras vezes, nem tão emocionados, escutamos o discurso oposto:

“Salve!, Viva!”: gritos seguidos de palmas e mais palmas, elogios e

exortações.

Frágil, física e intelectualmente, através dos tempos, o homem tem

se mostrado cômico, metido e ridículo. Após adquirir a fala, orgulhosa

e arrogantemente, o homem tem exibido uma superioridade sobre os

outros animais (baratas, ratos, maribondos, bactérias, mosquitos da

dengue e outros): jamais comprovada. Baseado nessa crença falsa, o

homem, através dos tempos, reivindicou para si a responsabilidade por

suas ações; condutas que de fato pertencem à natureza do organismo

biológico e da cultura.

Não somos nem tão poderosos, nem tão inteligentes como tem sido

apregoado; somos mais pra burros-autômatos que pra gênios-livres.

Baseado no continuado delírio de grandeza, o homem sancionou sua

importância na Terra. Qual importância seria?

Deixando escapar uma sabedoria suspeita, um amor próprio arrogante

e vazio, ele ora elogia, ora culpa a si próprio; de sobra, engrandece

e macula outros indivíduos. Ele exalta e arruína. Alguns homens,

classificados de criminosos, são torturados e assassinados; outros, ao

realizarem ações chamadas de elevadas (políticas, esportivas, religiosas,

científicas, artísticas) são dignificados e imortalizados. Mas, nem

o homem extraordinário, nem o ordinário, são responsáveis por suas

condutas.

Nós, da espécie “Homo sapiens” – devemos pronunciar isso de boca

cheia – fazemos parte de um grupo de seres semelhantes aos obedien-

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tes cupins, às ordeiras formigas, ás belas e simpáticas abelhas e aos

teimosos salmões. Esses animais, bem como todos não citados, formam

um batalhão de seres vivos disciplinados, em marcha continuada,

do nascimento à morte, na sua busca frenética e incansável por metas

imaginadas como sendo estabelecidas ou assentadas por eles próprios.

Todo organismo busca, antes de tudo, manter sua vida e a da espécie;

o resto é um sonho, preocupações secundárias e derivadas do

princípio fundamental: não morrer.

Nossos objetivos, julgamentos e decisões, jamais foram escolhas

livres. Sabemos que as coisas que acontecem raramente são as que

queremos. Muitas vezes temos, claramente, a impressão de que não

fomos nós os executores da ação, muito embora saibamos que nós é

que as fizemos: “Desculpe: eu não queria fazer isso”.

Quando nós “queremos” algo – tomar um café, ir ao cinema, encontrar

a namorada – utilizamos apenas uma pequeníssima parte do nosso

comando: a consciência voluntária. Mas o que empurra ou impulsiona

a conduta é o organismo total, no qual a consciência está incluída. A

consciência que “escolhe livremente” o desejado está subordinada

e fixada na totalidade do organismo, faz parte dele, e dele depende.

A ciência mostra que é a totalidade do organismo, não somente um

atributo ou aspecto dele, que leva, arrasta, empurra e conduz a pessoa

a fazer uma ou outra coisa. O poder da consciência é ínfimo diante da

potência extraordinária do restante do organismo.

A totalidade do organismo não é dirigida por nós: é comandada por

outras forças, com pouco, e, às vezes, nenhum poder nosso. Não basta

desejarmos ter uma boa disposição, uma inteligência elevada ou possuir

uma habilidade futebolística ou artística; tudo isso não acontece

apenas em virtude do nosso desejo e esforço, participam outros fatores,

altamente poderosos.

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A totalidade do organismo situa-se numa região pouco conhecida: a

nossa imensa ignorância. Ele não só se orienta por princípios ou paradigmas

inconscientes, como é comandado, também, por pressões biológicas

poderosas; ambas orientações não são acessíveis à consciência

e à nossa vontade e essas duas forças governam e promovem as ações

humanas. A frágil “consciência voluntária” faz parte do conjunto total;

nos propiciando somente a ilusão do livre-arbítrio, dando-nos a suposição

de que as condutas executadas foram decididas livremente por nós

ou que somos livres para agir.

O organismo, como um todo, no qual se instala a consciência voluntária,

não pode ser conhecido ou conscientizado através de nenhuma

técnica. Uma razão – dentre outras – para isso deriva do fato de que a

consciência só se mostra – é dada à conhecer – à medida que ela vai

sendo constituída, a cada instante, isto é, ela é estruturada ou desvelada

quando nós agimos. Não podemos conhecer esse mecanismo, pois

é impossível voltar nossa atenção para o objeto focalizado pela consciência

e, também, para ela própria; as duas atividades ocorrem juntas.

A estruturação da consciência é formada e deformada sem parar; não

podemos conhecer antecipadamente sua constituição ou produção.

A ciência comprovou que a consciência é instalada ou produzida,

automaticamente, devido a ações bioquímicas e biofísicas ocorridas

dentro do organismo diante dos estímulos do meio ambiente, quase

sempre, aleatoriamente e sem nosso conhecimento.

As intenções verdadeiras – as que se realizam e se tornam atos

– nascem de programas não exibidos em nossa consciência; temos

acesso ao resultado final, à conduta possível de ser observada pelos

órgãos dos sentidos. Agimos por intermédio de nosso corpo devido às

pressões externas e internas. O “querer amplo” é cumprido ou alcançado

através de várias ações biológicas: neuro-transmissores, peptídeos,

elementos sanguíneos, hormônios etc., provocadoras das emoções

sem-palavras e, por outro lado, acha-se influenciado ou dominado

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pelos modelos teóricos, princípios, ideologias, paradigmas etc., que se

manifestam, automaticamente, durante as interações do indivíduo com

acontecimentos fortuitos do meio ambiente. Não possuímos meios ou

aptidões para resistir a essas poderosas forças.

O homem é uma construção da evolução: ora dançamos a melodia

demoníaca, ora a dos anjos. Estamos aprisionados às forças que nos

obrigam a preservar a nossa vida e a da espécie. Inventamos explicações

mágicas ou semimágicas para a explicar a conduta; uma dessas

interpretações é a de que somos superiores e livres.

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Dois Modos de Pensar

que Não Combinam

Duas orientações básicas, quase opostas, invadiram e dominaram

nossas mentes, passando a fazer parte dos nossos estoques de saberes

culturais. Lançamos mão ora de uma, ora de outra forma, para apoiar e

dar direção às nossas ações e pensamentos.

A primeira informação fundamental afirma que para compreender

a conduta das pessoas, ou das coisas, devemos examinar e analisar as

cadeias de acontecimentos existentes entre eles; pesquisar como um

– ou alguns – evento anterior atua como causa necessária e suficiente

para a ocorrência da posterior. Usamos frequentemente as frases:

“Tudo tem sua causa”; “Precisamos conhecer as causas para resolver o

problema”.

A segunda orientação, estranha à primeira, afirma a responsabilidade

moral do homem diante da vida, de sua liberdade de escolha, ou

seja, atesta que sua conduta não depende de acontecimentos anteriores

existentes. Usamos, também, as frases: “É preciso ter “força” de

vontade”; “Com determinação venceremos”.

Você, leitor, deve ter percebido o desacordo entre esses dois princípios

básicos para a compreensão da conduta humana; ambos usados

por todos nós, dependendo do momento. Num instante esbravejamos

com nosso filho, afirmando que ele é um vagabundo, não faz os deveres

e não estuda como devia, pressupondo que, se ele “quisesse”,

tivesse “força de vontade”, fosse um bom filho, poderia “escolher” ser,

também, um bom aluno e tirar boas notas. Em outro momento, no

trabalho ou laboratório, o pai que acreditava na “liberdade de escolha”

estuda a sequência de fatos para verificar as causas da pressão arterial,

da obesidade, da criminalidade, do desemprego, do câncer, dos aciden-

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tes de trânsito, da possibilidade ganhar na sena, ou, ainda, ao deixar

entornar o café na roupa da amiga querida, apressa-se em falar: “Perdão:

foi sem querer”.

Portanto, uma crença afirma que o estado de espírito, o sentimento

e a vontade humana, bem como suas ações, relacionam-se ou dependem

de cadeias causais inquebrantáveis. A outra idéia – princípio, regra,

direção – declara que o homem é responsável por seus atos, isto é,

que nós poderíamos agir, se quiséssemos, de forma diferente de como

agimos. De onde nasceu esse “querer”? Onde ele está apoiado? No ar?

Afinal e resumindo: somos determinados por forças acima de nossa

vontade ou somos livres? Fabricados como somos – genética e culturalmente

– estimulados num certo momento por uma ou várias dessas

forças; não sabemos como a maioria delas age em nosso organismo

para determinar a formação de uma ou de outra conduta. Como deixar

de agir conforme determinam os fatores formadores da minha esquisita

e quase desconhecida estrutura?

Como usar a “liberdade” pretendida se estou aprisionado a um corpo

biológico de homem, sendo que, na minha cabeça mole e capaz de

ser esculpida, foram introduzidas, sorrateiramente, trilhões de idéias?

Sou regido, primeiramente, por forças de minha espécie, impossíveis

de serem contestadas, pois não posso nunca ser uma águia ou pulga;

depois, por valores da minha classe, de minha raça – se é que isso

existe – da igreja e da civilização na qual fui ; forças incorporadas, não

criadas por min, que não consigo ir contra.

Você não acha, pensando da maneira acima, que é uma idiotice

censurarmos ou elogiarmos João ou Maria; prender ou aplaudir Teresa

ou Frederico, por possuírem ou não uma determinada característica

que uma cultura particular inseminou no seu genoma de ser humano?

Devemos aplaudir uma pessoa por ela ter uma altura maior ou menor,

um nariz mais aquilino, uma cor da pele branca, preta ou amarela; uma

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grande inteligência ou falta dela? Nenhum desses atributos foram decisões

de seus possuidores.

Se pensarmos assim – aproveito o espaço para lhes dizer que esse

modo de pensar pode ser perigoso – chegamos à conclusão que tudo

o que existe é necessário e inevitável. Para essa, somente essa especulação,

culpar ou elogiar alguém, considerar outros cursos possíveis de

ação diferentes das tomadas por João ou Maria, acusar ou defender figuras

históricas, Cristóvão Colombo, Pedro Álvares Cabral, Dom Pedro I,

Tiradentes, Getúlio Vargas, FHC ou Lula, por agirem de um certo modo,

é uma conduta sem pé nem cabeça, tola e maluca, caso apoiarmos

nosso raciocínio nas cadeias de acontecimentos, um atuando no outro,

como foi descrito numa das orientações. Mas, se adotarmos o outro

ponto de vista, que esses senhores, do nada, construíram suas vidas,

poderemos aplaudi-los ou censurá-los, tudo dependerá do avaliador.

Acusar alguém nada mais é que interpretar superficialmente uma

pessoa, ou melhor, se prender apenas à tinta externa, a casca facilmente

visível. Denominar alguém de responsável ou irresponsável, culpado

ou criminoso, é um modo simples de escapar ao penoso e longo

esforço, sutil, chato e carregado de dúvidas visando a desembaraçar

os intrincados e desconhecidos laços que dão nascimento às intenções

humanas.

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Ser Humano: Anjo ou Demônio?

Sempre existiram pessoas altamente entusiasmadas com os feitos

espetaculares de A, com a insensatez de B, a violência de C ou a periculosidade

de D. Sempre admiramos alguns, desprezamos outros e

permanecemos indiferentes à maioria. Os julgamentos que realizamos,

favoráveis ou contra determinada pessoa, possivelmente, são semelhantes

às avaliações efetuadas diante de um quadro, de uma música e,

principalmente, de uma mulher: “Como é bela esta mulher!” ou “Detesto

este cara! Pô!”.

As avaliações de condutas como as acima citadas, igual à maioria

das que realizamos, são fáceis, simples e automáticas de se fazer; não

precisamos de esforço e nem de raciocínio para elogiar ou deplorar,

sentir amor ou ódio, satisfação ou vergonha; esse tipo de julgamento

emocional brota fácil da mente. Ninguém se esgota ao avaliar ações. A

avaliação explode rápida; sem estudo e sem o uso da razão e da lógica;

ela emerge sem querer, automaticamente, sem nossa vontade ou

desejo; ela é inconsciente.

Nós, frequentemente, simpatizamos ou antipatizamos por alguém,

amamos ou odiamos algo. Essas atitudes – puras reações motivacionais

e emocionais – geram emoções positivas ou negativas sem o uso da inteligência

e vontade, surgindo de repente, às vezes nos assustando ao

invadir e dominar nossa consciência sem que saibamos o porquê: uma

paixão violenta ou um ódio destruidor.

Por outro lado, é extremamente difícil – seria impossível? – arrumar

e organizar argumentos bem colocados, válidos, racionais, para culpar

ou justificar as ações de César, Pilatos, Átila, Jesus, Maomé, Buda, Moisés,

Hitler, Bush, Saddam Hussein e Lula.

Os “argumentos” usados por nós, quase sempre, são ruídos passa-

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geiros, pois a conduta de Pedro, ou de Paulo, pode ser admirada ou

não, numa, ou noutra ocasião. Podemos saudar euforicamente Ely,

ou amaldiçoá-lo. Sempre existem os dois lados. Se pensarmos mais a

fundo, denegrir ou enaltecer, criticar ou elogiar, “A” ou “B”, é tão idiota

como fazer sermões recriminando minha jabuticabeira que morreu à-

-toa; criticar a “maldade” do empertigado escorpião amarelo que picou

Joãozinho quando este brincava com o rabinho dele.

Partindo do princípio de que todos nós somos comandados ou condicionados

devido as nossas peculiaridades biológicas e socioculturais,

chegamos à conclusão que seria mais viável evitar toda atribuição de

responsabilidade ou todo julgamento moral. A escolha humana é muito

mais limitada que costumávamos supor. A evidência atual à nossa

disposição mostra que muitos dos atos frequentemente considerados

sob controle do indivíduo não o são. O homem é, muito mais que se

supõe, um objeto da natureza (cientificamente previsível); é isso que

todos os cientistas, biólogos, psicólogos, sociólogos e outros estão

tentando fazer; descobrir leis associando o comportamento estudado

e desconhecido com outros já estudados e conhecidos. Com o desenvolvimento

das ciências sérias, os disparates acerca da conduta irão

diminuir ou sumir.

O ser humano aprendeu, entre outras coisas, a valorizar ações. Os

hábitos, pensamentos, sentimentos e expressões – as condutas de

modo geral – podem ser, pelo menos em princípio, passíveis de serem

classificadas e submetidas a hipóteses e leis sistemáticas como acontece

com os comportamentos de outros objetos da natureza. Esse é o

trabalho conjunto da psicologia e de outras ciências relacionadas.

Pensando assim, a explicação e o peso da responsabilidade de toda

ação humana deve deixar de ser posta no indivíduo, João ou Maria, e

transferir-se para outros aspectos ou forças diferentes das comumente

chamadas pessoais: circuitos cerebrais, hormônios, neuro-transmissores,

lesões, drogas, educação, cultura, época, idade, doenças, pressões

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diversas, profissão etc. Todas essas estruturas: biológicas, bioquímicas,

psicológicas, culturais e religiosas possuem um maior potencial

explicativo que a que habita o fraco e isolado João Ninguém ou Pedro

o Grande, ou seja, o ser humano que foi atirado para um lado ou para

outro, por forças complexas e mal-estudadas, jamais esclarecidas pelos

“sábios”, que também, por sua vez, sofrem, como João Ninguém, as

ações dessas mesmas forças.

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Responsabilidade moral:

Fato ou ficção

Nada é universal e absoluto, tudo muda conforme o momento, o

local e as idéias dos “donos da verdade”. As regras morais, como tudo o

mais, variam diretamente com a distribuição do poder, a época, a moralidade

predominante. Sabemos que a ética nunca é a dos perdedores;

para dar uma impressão superficial e popular de justiça, fingimos

e exibimos nossas mentiras uns para os outros de maneira hipócrita.

Mantemos um suposto equilíbrio, uma pseudo-harmonia da justiça dos

fortes e dos fracos, dos “escolhidos” e dos “rejeitados”, dos dominantes

e dos domesticados.

Sem exceção, nós mesmos, julgadores não-julgados num momento,

querendo ou não, pertencemos a um ou outro grupo e, nesse caso,

tendenciosamente, enxergamos e avaliamos o mundo segundo o ponto

de observação provisoriamente ocupado por nós. Ora pertencemos

ao grupo médico, ora ao político; mas podemos representar e pensar

como o eleitor, lixeiro, pai, cliente, filho, irmão, católico, ateu, ocidental,

oriental, latino, mineiro e itabirano.

Sempre usamos, durante nossos julgamentos, a tela do momento –

pai ou filho, médico ou cliente – que nos cega; impede-nos de enxergar

o lado de lá, muitas vezes oposto, o que está sendo acusado ou elogiado.

Creio ser impossível julgar um povo sob a tela visual despreocupada,

otimista e folgazã do político; examinar o lixeiro através dos “olhos”

indiferentes do produtor do lixo.

Se não estudarmos como possíveis às grandes e poderosas correntes

do pensamento que nos dominam, o jogo complexo acerca da conduta

humana jamais será decifrado, existirão vultos desordenados, não-

-interligados, assentados na argila mole.

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A bela e admirada responsabilidade moral é uma ficção que começa

a desabar e a ficar fora de moda. É um dinossauro, uma criação pré-

-científica que deverá morrer quase sem deixar vestígios, sem foguetes

e sem luar. Espera-se, com o aumento do conhecimento, o desaparecimento

da antiga explicação, ou, no mínimo, sua reformulação quanto

aos princípios básicos. Usamos, constantemente, expressões “carregadas

de valor”; também, falsas noções de democracia, de liberdade

humana, na qual se fundamenta a idéia de responsabilidade. Espera-se

que essa idéia acabe para os homens esclarecidos e se alastre.

Há uma maneira rápida, mas complexa, para entender a conduta

negativa ou positiva de alguém; tomar seu lugar, representar seu

papel provisoriamente, se possível, imaginar os aspectos biológicos da

pessoa que estamos julgando e, também, as condições como o “clima”

intelectual, religioso e social da época e do lugar onde ela cresceu e desenvolveu

até chegar no ambiente onde agiu. Assim consegue-se obter

uma visão mais clara e aproximada dos motivos e ações que estamos

incriminando ou exaltando.

Caso conseguíssemos isso – sei que é impossível – todo o vocabulário

das relações humanas sofreria um abalo radical. Expressões

como: “Não devia ter feito isso”; “Como é que você pôde escolher X?”,

além de toda a linguagem, pejorativa e enaltecedora, usada por nossa

consciência para avaliarmos nós e os outros, passaria por uma transformação

total; as expressões linguísticas seriam muito diferentes das

atualmente usadas.

Se os progressos existentes nas neurociências e na psicologia continuarem,

caso não haja censuras constrangedoras, seremos obrigados

a usar novos modos de pensar, de avaliar e de conceituar os eventos

acerca da responsabilidade, do crime, do engrandecimento ou glorificação

de pessoas. Isso marcaria uma revolução no modo de raciocinar,

de julgar, maior que a guerra dos Canudos, do Iraque ou dos Cem-

-Anos.

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Caro leitor: acho que fui longe demais. Eu, pessoalmente, a princípio

entusiasmado, comecei a ficar amedrontado à medida que, automática

e inconscientemente, imaginava e escrevia. Achei estranho, talvez

insensato, não mais “poder” ou conseguir, por causa da minha transformação,

deixar de elogiar uma bela mulher, ou acusar alguns políticos

que odeio. O meu mundo – perderia minha identidade? – caso

isso ocorresse, seria esquisito; talvez, inabitável para meu eu antigo

e conhecido. Além disso, até que ponto deveria mandar para a lixeira

e, em seguida, esvaziá-la, inúmeras crenças contrárias aos fatos que

todos nós aceitamos como verdades verdadeiras, que têm servido,

pelos séculos e séculos, de suporte para elaboração do pensamento e

para explicar condutas; elogiando ou denegrindo pessoas. Seria muito

perigoso agir assim; o ser humano eliminar toda essa poderosa rede de

conceituações falsas relacionadas à responsabilidade, liberdade e livre

escolha.

O melhor é não esquentar a cabeça e continuarmos presos à estrutura

inexata; caso contrário, iria pelos ares toda uma classe de expressões

que usamos sem parar: “Você está errado!”; “Você precisa largar a

bebida!”; “Como é bondoso aquele senhor”; “Albertina é uma santa!”.

Tudo o que pensamos está impregnado por essas categorias de

uma forma tão arraigada, tão difundida e universal que afastá-las e

pensarmos de outro modo é quase, senão totalmente, impraticável.

Fica difícil, talvez esteja além de nossos poderes normais, conceber

qual seria nossa imagem do mundo se acreditássemos e empregássemos

seriamente essas idéias. As mudanças envolvidas são radicais;

por tudo isso, repito: estou arrependido. O melhor, ou menos ruim, é

deixar tudo como sempre foi. Não vale a pena pensar desse modo, pois

experimentaríamos consequências terríveis caso mudássemos nossa

maneira de avaliar. Por isso, vamos continuar a exclamar: “Viva Z!” ;

“Lincha X! Mata Y!”; é fácil e prático e, além disso, não dá trabalho a

nossa cansada cabeça.

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Satisfação e Sofrimento: Dois lados

da mesma moeda

A satisfação e o sofrimento são emoções responsáveis pelos impulsos

que levam um organismo – homem ou outro animal – a buscar ou

fugir de uma meta. Mas, um objetivo que era muito agradável num

momento, com o passar do tempo, torna-se menos prazeroso. Do mesmo

modo, uma meta provocadora de emoções ruins, pouco a pouco,

fica mais suportável. Portanto, o homem acostuma-se tanto aos prazeres

como aos sofrimentos da vida.

O sofrimento

O número dos batimentos cardíacos de um cão aumenta quando ele

é submetido a sessões de choques. Se os choques continuam sendo

aplicados por mais tempo, os batimentos cardíacos aumentados começam

a diminuir; tendem a retornar ao que era antes das aplicações. O

mesmo processo ocorre com respeito à respiração, salivação etc., diante

de estímulos negativos ou positivos para o cão. Quando isso ocorre

falamos que o cão tornou-se tolerante, de outro modo, seu organismo

acostumou-se aos choques elétricos, habituou-se ao “sofrimento”. Nós

homens, somos semelhantes ao cão da experiência quanto a esses

aspectos.

O prazer

Certos estímulos nos provocam prazer e, consequentemente, euforia;

assim, se estivermos diante de uma deliciosa e rica carne tostada,

suculenta e cheirosa, naturalmente com fome, ficamos animados,

alegres e contentes. Ocorre, numa primeira fase, uma reação prazerosa

produzida pela sensação visual, olfativa e mental (expectativa de comê-

-la), gerando no organismo uma grande quantidade de saliva e, além

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disso, os olhos ficam mais abertos, antevendo a possibilidade do prazer

durante a ingestão da carne. Quando a pessoa começa a mastigar,

saborear e engolir a carne, aparece a segunda fase: o prazer e entusiasmo

produzido pelo sabor e ingestão do alimento.

Mas há uma terceira fase; a chamada pós-reação, a que é importante

para essa matéria. Esta aparece à medida que o estômago vai ficando

cheio, variando conforme o comilão e o dia. Após certo tempo, o prazer

e euforia inicial, provocada pela visão, cheiro, gosto e ingestão da

carne, vai se acabando.

Horas ou dias após o indivíduo ter saboreado a carne, caso ela tenha

sido saborosa, ele tende a recordar o fato: “Aquele churrasco estava

uma delícia; vou ao restaurante outra vez”. O nosso amigo ficará propenso

a buscar novamente o mesmo estímulo positivo e prazeroso que

lhe excitou e lhe deu alegria: a carne tostada e cheirosa. A esperança

do seu organismo é obter, de novo, um prazer parecido ao sentido na

primeira experiência.

Assim, a representação mental da carne olhada e ingerida tende a

provocar o retorno do comilão ao restaurante. Essa idéia, por si só,

alivia em parte o estado desagradável ou aversivo provocado pela lembrança

da ausência do fato agradável: comer a carne cheia de gordura,

cheirosa etc.

Assim começa a cristalizar a adição, ou seja, a necessidade de comer,

outras e outras vezes, a carne apetitosa ingerida num certo dia e

produtora de prazer. O organismo “sofre” caso não busque e consuma

o desejado e prazeroso. As adições (pressões internas do organismo

percebidas pela consciência para alcançar a mesma fonte de prazer)

podem ser de bebidas, drogas, alimentos, internet, compras, dinheiro,

jogos, poder, passeios, transas etc., ou seja, atividades que produziram

e virtualmente continuam a produzir prazer no organismo do indivíduo

e, consequentemente, sofrimento devido à ausência.

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Vivemos à procura de alguma fonte favorita de prazer. Cada indivíduo,

durante certa época, conforme a cultura e “biologia”, terá suas

preferências singulares: para uns, a comida, para outros, o sexo; outros,

ainda, a novela, as visitas, a solidão, o programa do “Ratinho” ou

o “Fantástico”, a música, a leitura, e-mails, um cafezinho, contar piadas,

xingar, olhar o céu e, principalmente, torcer e morrer pelo Atlético.

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Viva feliz realizando coisas ruíns

Assim como ocorre a tolerância no cão que recebeu choques elétricos

repetidos ou um naco de carne, durante algum tempo, o ser humano

também, com o passar dos dias, meses ou anos, apresenta tolerância

diante do sofrimento ou do prazer causado por fontes continuadas

do mesmo estímulo: a mesma praça, a mesma casa, a mesma rua, a

mesma cama, o mesmo portão e televisão, a mesma secretária ou

vizinha, o mesmo marido ou mulher, a mesma iguaria: todos produzem

a maldita e terrível tolerância. O estímulo provocador de imenso prazer

passa a não provocar mais emoções agradáveis como antes; produz,

às vezes, indiferença, muitas vezes, pior ainda, o sofrimento e aversão:

“Que chatura! Não aguento nem ouvir a voz de meu marido!”; “Tenho

vontade de sumir ao ver minha mulher se aproximar de mim com sua

tosse antipática!”; “Não suporto mais essa comida”.

Estudos mostram que a droga que excitou muito o usuário, a companhia

antes agradável, o filme, o autor ou o programa de TV predileto,

todos eles, após algum tempo, não mais agradam como antes. O que

um dia nos atraiu muito, fornecendo-nos inclusive um significado para

viver, com o passar do tempo, perde seu encanto, vigor e importância;

torna-se um “nada”, um zero à esquerda, ou, algumas vezes, uma fonte

de sofrimento e irritação da qual procuramos fugir: “Que burrada! Porque

tanto tempo preso a isso”.

Como é estranha a vida! Diante disso, pergunto-me: O que fazer? De

forma automática o organismo pode aumentar a quantidade da fonte

produtora do prazer ou, também, procurar estímulos novos, isto é, de

qualidade diferente. Dessa forma, a pessoa poderá comer, comer e

comer ou, também, usar o alimento altamente temperado; se a bebida

estiver fazendo pouco efeito, a solução é beber e beber, mais e mais,

na busca do prazer anterior perdido; poderá também misturar diversas

bebidas, tomá-las de cabeça para baixo, pulando de pára-quedas

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ou debaixo d’água dentro de escafandro. Se o problema for o dinheiro,

que na quantidade atual não mais produz emoções positivas, seu

possuidor poderá armazenar mais e mais, fazer diversas aplicações, de

preferência as ousadas, pois essas provocam mais emoções.

Em qualquer área: fama, crença religiosa, transa, onde a fonte de

prazer acha-se enfraquecida, a técnica será a mesma: aumentar ou

diversificar os estímulos. Assim, para aumentar o prazer enfraquecido

diante das orações, o remédio é orar mais e mais, ou trocar, de tempos

em tempos, de religião ou de igreja; se as transas não causam mais

prazer, o amante poderá tentar transar mais e mais ou variar as técnicas,

criar fantasias imagináveis e inimagináveis, usar drogas que aumentam

o prazer ou, ainda, se tudo isso der errado, trocar, de tempos

em tempos, de parceiro.

Lamentavelmente, – eu não queria relatar o que se segue para não

tirar a alegria do leitor – qualquer remédio usado para aumentar o prazer

anterior, com o tempo, cedo ou tarde, irá diminuir, pois a tolerância

aparecerá novamente atrapalhando o novo prazer obtido através das

novas técnicas empregadas. Não há prazer ou sofrimento que resista

ao tempo. O homem, bem como alguns animais, acostuma-se a tudo:

seja bom, seja ruim. A dopamina, uma substância química produzida

por algumas células nervosas, mecanismo envolvido na produção do

prazer, se esgota quando os estímulos são exibidos e continuados por

muito tempo. A nascente dopaminérgica, diante de estímulos continuados,

esgota-se.

Mas, como diziam os escoteiros, num tempo longínquo, que não

tenho saudade, pois jamais fui ou pensei ser escoteiro: “Nem tudo está

perdido, ainda resta uma esperança, o escoteiro sorri na desventura e

caminha com as próprias pernas”. Existe uma solução aparentemente

estranha, mas que dá, na maioria das vezes, bons resultados. Aconselho,

convidando o prezado leitor, que nesse ponto pode estar um pouco

desesperado, a entrar no processo oposto; o outro lado da moeda,

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uscar o sofrimento em lugar do prazer. Não estou brincando! Falo sério!

Não pare aqui; prossiga a leitura, pois explicarei melhor como você

irá alcançar a felicidade através da execução das atividades chamadas

– só chamadas – de ruins. Vivemos alegres e satisfeitos por realizarmos

tarefas ruins, precisamos delas para ficarmos eufóricos e satisfeitos; as

tarefas boas são raras.

Noel Rosa (?) já cantava, na voz de Aracy de Almeida, em seus versos:

“Sofrer foi o prazer que Deus me deu/ Eu sei sofrer sem reclamar/

Quem sofreu mais do que eu; não nasceu/ Com certeza Deus já me

esqueceu?/É na dor que eu encontro o prazer/ Saber sofrer é uma arte

que pondo a modéstia à parte, eu posso dizer que sei sofrer.

Caso tenha errado, no autor ou versos, peço desculpas aos leitores.

Para mim, estou certo!

Quando um estímulo (o reforço) é negativo (desagradável para o

organismo) ele produzirá na pessoa ou no cão uma tonalidade afetiva

desagradável, como foi dito no caso do choque elétrico. Por outro lado,

afirmei ainda que a provocação de uma reação agradável no organismo

o leva a tentar aproximar-se do objeto desejado; ao contrário, quando

surge a reação desagradável, nossa tendência é nos afastar do objeto.

Guarde essa última afirmativa: fugir do ruim. Se não existisse o ruim,

não existiria o bom. A seguir uma explicação detalhada e espero ser

convincente.

Conforme a teoria, e todos vocês sabem disso, após a estimulação

desagradável, ocorrida quando somos submetidos a um estímulo

negativo ou danoso, aparece a pós-reação. Esta, nada mais é que o

prazer de ficar livre do desprazer. Isso mesmo: prazer. A ausência do

sofrimento provoca o prazer, término da estimulação negativa: entrar

num banho quente após estar “gelado” pelo frio; acabar com a secura

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da garganta tomando água; terminar a difícil arrumação etc. Atenção!

Aqui está o “pulo do gato”! Ao fugirmos, escaparmos, livrarmos do

acontecimento provocador do nosso sofrimento, nos sentimos bem,

eufóricos, alegres e satisfeitos. Schopenhauer, exagerando, escreveu:

““Só a dor é positiva””; para ele, o prazer seria a ausência da dor.

Passamos de um sentimento negativo – ação do estímulo ruim – para

um positivo, quando não mais estamos sendo estimulados por algo

aborrecido; o que nos fazia sofrer. Toca o telefone durante a madrugada.

Imaginamos ser uma notícia ruim. É um engano. Ficamos aliviados,

felizmente não era nada. A visita chata decide sair. Que bom! Se estiver

me afogando, ao conseguir voltar a respirar, surgem os sentimentos

de alegria e prazer, que nesse caso, podem ser enormes. Frases como:

“Renasci”, “Deus me salvou, vivi de novo”, são afirmadas, sem parar,

por todos nós, com grande satisfação. Portanto, ouvimos essas declarações

– saídas do fundo da alma – a todo o momento, quando a

pessoa se livra de um grande perigo: assalto, acidente, doença etc. Há

outros exemplos: após o alívio de uma dor de barriga, de dentes ou

de cabeça, nasce a nova emoção, os sentimentos de prazer e vigor. O

prazer sem-palavras que sentimos ao ficarmos livres dos sofrimentos

não só tranquiliza, como relaxa nosso organismo biológico. Para coroar

o evento orgânico e sem-palavras, em seguida ao alívio corporal, nosso

intelecto elabora um discurso sobre o fato sentido: surgem as explicações,

interpretações ou considerações da nossa cognição, de nossas

idéias, como as exemplificadas acima. Para o organismo biológico não

havia necessidade dessas considerações ou palavrórios.

Como a eliminação do fato ruim e, consequentemente, das emoções

negativas, dá nascimento ao prazer, o indivíduo, como ocorre no caso

dos estímulos positivos, passa a procurar os estímulos negativos para,

após alguns instantes, dias, meses ou mesmo anos, ficar livre deles e,

portanto, alcançar o prazer e a felicidade. Estou falando sério. É isso

mesmo que você está lendo: a pessoa começa a procurar realizar uma

atividade ruim; um ruim ou desagradável que ocorre somente duran-

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te sua execução; não quando ela termina. O autor da ação sabe, por

experiência própria, que ele, após terminar a atividade, alcançará a

emoção desejada: euforia, alegria, felicidade: tudo o que uma pessoa

sadia deseja da vida. Penso que agora vocês perceberam que eu tinha

razão. Estudamos e sofremos para passar no vestibular; quanta alegria

ao terminar o sofrimento. Fazemos um curso de vários anos; sabemos

que num dia ficaremos livres dele. Meu artigo parece que está sendo

delineado. Que alívio! Isso nos faz agir.

Vamos a um exemplo muito bem pesquisado: o salto de pára-quedas.

Os estudos mostram que no primeiro salto, antes do pára-quedas

se abrir, o pára-quedista apresenta vários sinais de terror: órbita ocular

ressaltada, batimentos cardíacos aumentados, respiração difícil e suor

profuso. Uma vez tendo chegado vivo ao chão, após um pequeno período

de estupor, aparece um alívio, um prazer por estar bem, ter ficado

livre do sofrimento. Nesse instante, começa a se instalar a euforia em

sua face. Quando isso ocorre, os pára-quedistas falam e gesticulam

alegres entre eles. Nota-se claramente a mudança do medo e do sofrimento

para a euforia; é esta que toma conta de seu organismo. Assistindo

um filme ou novela, vemos o herói, com o qual identificamos,

enfrentar perigos e perigos. Mais tarde ele supera as adversidades e

alcança o prazer. O espectador, também, ficará angustiado e, mais tarde,

aliviado e eufórico. O mesmo ocorre com alguém, sem treino, que

vai falar em público.Após o pavor inicial, lá no finzinho da fala, aparece

o sorriso e alegria quando ele percebe que cumpriu o dever. Outros

exemplos: encerrar uma conversa, um namoro complicado, urinar após

estar “apertado” etc.

Seguindo estudos feitos com diversos pára-quedistas, o efeito aversivo

inicial vai se acabando após pulos continuados; aparece a tolerância

ao sofrimento, semelhante ao descrito quanto ao choque no cão. O

mal-estar inicial, aos poucos, praticamente desaparece ou é tão leve

que a pessoa quase não o sente. Contudo, depois de aterrissar, os

pára-quedistas se sentem alegres e satisfeitos; um bem-estar bastante

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intenso, levando-os a pular outras e outras vezes.

O mesmo pode ser dito para o caso de entrar na sauna superquente;

a satisfação ocorre após ficar livre da sensação ruim de queimação e

falta de ar. Fato semelhante acontece com os praticantes de esportes

radicais (asa-delta, alpinismo, fórmula 1 etc.) e, também, com os que

fazem uso de penitências ou autoflagelação. Todos agem dessa forma

porque se “sentem bem” durante a atividade por saber que ela terminará

logo depois; irão se sentir muito bem após seu término. Durante

as chicotadas que a pessoa dá em si mesmo, ele, antecipando a

felicidade ao ficar livre delas, terá um prazer semelhante ao individuo

diante da carne tostada e cheirosa antes de degustá-la. Possivelmente,

após alguns dias sem experimentar a autoflagelação, forma-se na mente

de seu autor uma situação semelhante à ocorrida quando deixamos

de ingerir a carne tostada e gordurosa; surge a vontade de tornar a

obter o grande prazer conseguido com seu término.

Suponho que diversas ocupações profissionais, seguindo esse raciocínio,

têm seus adeptos devido ao mecanismo explicado acima.

Em diversas profissões, as atividades são realizadas com algum prazer

porque seus agentes estão pensando que “daqui a pouco” eles ficarão

livres delas, e, depois, aparecerá o prazer e alegria do alívio. Para

alguns, o alívio total, a imensa euforia, só aparecerá na aposentadoria.

Segundo minhas avaliações – sei que são tendenciosas – coloco no grupo

dos trabalhos “agradáveis” somente após seu término os limpadores

de esgotos, os professores de certos colégios, policiais que realizam

trabalhos de alto risco e incerteza, lixeiros, caixas de bancos etc. A lista

é enorme.

Também, se a hipótese é correta, uma pessoa acostumada a suportar

uma enorme dor, um grande calor, um exercício físico pesado,

tolerará dores atrozes, temperaturas mais altas e ginásticas terríveis

devido a sua “tolerância”. Algumas pessoas são exibidas pela mídia

como exemplos de pessoas capazes de suportar grandes sofrimentos;

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esses escolheram um modo complicado de obter prazeres enormes ao

ficarem livres dos terríveis padecimentos. Nós, amadores, jogadores da

terceira divisão dos martirizados, não chegamos aos pés desses felizardos-sofredores.

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O Sequestro da Camisa Listrada

Fim de semana. Nos sábados e domingos, como sempre, há mui tos e

muitos anos, visto minha velha e surrada camisa branca com oito listras

horizontais, finas, azuis e amarelas. Eu percebia que ela estava ficando

desbotada, alguns orifícios começaram a aparecer e, além dis so,

foi abrindo uma grande abertura junto ao meu peito, bem ao lado do

coração. Compreendia que, com a idade e também com muito trabalho,

ela não mais suportava os “embates da vida”. Aos poucos, para o

meu pesar, foram nascendo diversas feridas em sua pele, que não mais

cicatrizavam, por mais que ela fosse levada ao “hospital” para receber

alguns pontos.

Numa segunda-feira triste de outubro, perto do aniversário de minha

camisa, a antiga lavadeira, grávida de nove meses, entrou de licença. A

nova lavadeira, uma moça dengosa e alta, decidida e afirma tiva, logo

após tocar o interfone, passando por mim quase sem cum primentar,

subiu as escadas rapidamente dirigindo-se até a lavanderia para começar

o novo trabalho na minha residência.

A lavadeira antiga conhecia e amava, como eu, minha camisa. Tinha

por ela uma ternura especial. Eu sabia, mas não demonstrava, que ela

a protegia. Era lavada e passada com mais cuidado e carinho, estava

fraca, doente e, além disso, era mais “idosa” que as outras. Eu, como

a antiga lavadeira, sabia dos problemas de saúde da camisa listra da

e, por isso mesmo, a vestia com cuidado, em momentos especiais e

calmos, não só para que ela percebesse sua utilidade, mantivesse sua

autoestima e autoeficácia, mas também para que ela, sem se sentir

abandonada e esquecida, exercitasse e convivesse um pouco com o

mundo externo à gaveta. Eu e ela, nos fins de semana, recordávamos,

abraçados, os fatos bons e ruins vividos juntos.

Preocupado com a nova lavadeira, atento às possíveis reações dela

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para com a minha amada camisa, estava apreensivo, receava que, sem

conhecê-la, ela pudesse maltratá-la, ou, no mínimo, não dar à camisa a

atenção merecida.

Há muito a camisa listrada fazia parte da família, tinha ligações

estreitas comigo, minhas filhas e parentes mais chegados. Sabia que

para a nova lavadeira a camisa não tinha história e, sem história, ela

nada significava, pois nenhum fato vivido pela camisa se ligava a ou tros

eventos existentes na vida da lavadeira.

Não era uma camisa bonita de chamar a atenção e nem metida a

sebo. Era simpática, nem larga nem apertada, abraçava-me com a

suavidade e meiguice de quem conhece e ama o companheiro. Ela

encostava-se ao meu tórax com carinho, sem apertar-me. Tocava-me

suavemente quando precisava e às vezes massageava minha pele sofrida

e carente. Conhecia, como ninguém, meu corpo quente e amigo. A

camisa era calma e tolerante, não agredia abertamente, gostava mais

de uma ironia suave, um sorriso ou de um elogio gozador.

Minha camisa era superdiscreta e confiável. Eu e ela guardáva mos

nossos segredos diante de experiências vivenciadas juntos, que não

podiam, ou não deviam, ser contadas pra qualquer um. Mas nossa

relação não era constituída apenas de segredos. Minha camisa, ajudando-me,

testemunhou e partilhou de diversos acontecimentos bons e

ruins, alegres e tristes. Foi cobrindo meu corpo que ela, amedrontada,

enredada no meu peito, viu nascer minha primeira filha. Anos depois a

segunda, lá na Maternidade Otaviano Neves. Participando dos mes mos

eventos, pouco a pouco passamos a gostar e odiar as mesmas coisas.

Na maioria das vezes, ela me dava sorte, levando-me a usá-la diante de

situações especiais e complicadas. Sabia respeitar uma e ou tra cerimônia,

pois sempre foi bem educada e civilizada. Mas a camisa listrada

não participou apenas dos fatos bons, ela acompanhou-me também,

com toda a dedicação e sensibilidade, durante as situações tristes

vividas por mim: a doença, morte e velórios de parentes próxi mos e

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amigos.

Como ela acabou fazendo parte de minha vida e das minhas conversas,

muitas e muitas vezes, nos meus papos com amigos, me referia

a ela, contando seus modos, idiossincrasias, gostos e até mesmo julgamentos.

Quando me referia à camisa para outras pessoas, ou também

nas conversas solitárias comigo mesmo, batizei-a com uma frase, não

com um só vocábulo.

Chamava-a de “a camisa branca de listras horizontais”. Sei que era

um nome muito simples, pensei até em chamá-la de “A Globo”. Desisti:

ela não gostou do nome. Quando eu lhe contei meu dese jo, ela

confidenciou-me, educadamente, que “A Globo” era um nome muito

sofisticado e ela preferia ser chamada pelo apelido, pois já se acostumara

a ele.

Quando convidada, acompanhava-me sem se irritar para qual quer

lugar. Além disso, não tinha ciúme, pois não insistia em continuar

abraçada ao meu corpo quando era chegado o momento de largar-me

por instantes ou dias, para dar lugar a uma ou outra camisa, às vezes

mais bonita e faceira que ela. Costumava me dar conselhos: “Cuidado!

Não vista aquela vermelha. Não lhe fará bem”. Eu não sabia e nem perguntava

os motivos de sua preocupação. Era uma camisa de verdade.

Sentindo o prazer de seu tecido alisando meu corpo cansado e envelhecido,

juntos e isolados do mundo, somente eu e ela, olhá vamos nos

fins de semana, no sossego e calma do terraço, a cidade esfumaçada,

agitada e distante, lá longe.

Sábado, como sempre acontecia nos fins de semana, fui à sua procura

na gaveta onde ela me esperava limpa e cheirosa, pronta para o

abraço gostoso e singelo daquele dia especial. Tranquilo, ima ginando o

encontro carinhoso das tardes de sábado, o momento de aconchegar-

-se em torno do meu corpo, abri a gaveta sorridente e ale gre. Assustei-

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-me! Ao procurá-la, não a encontrei! Tornei a procurá-la. Nada! Comecei

a ficar em pânico. Onde estará minha camisa branca de listras

horizontais? Será? Imaginei o pior. Abri afoitamente uma por uma as

gavetas onde encontrei outras e outras companheiras: azuis, brancas,

vermelhas, listradas diversas, mais largas, apertadas, de man gas compridas

e curtas, velhas e novas, mas todas sem a história dela, uma

história especial e única. Ela não estava em lugar algum.

Dois dias depois, afinal, chega a segunda-feira. Espero inquieto,

olhando pela vidraça, a lavadeira nova e malvada. Toca o interfone.

Junto à porta de entrada, aguardo sua entrada. Altiva, pisando duro,

ela cruza a porta, espichando o pescoço e olhando para cima.

Bruscamente, irritado com sua postura de superior ou indife rença,

perguntei-lhe se se lembrava da camisa. Soberba e insensível, a lavadeira,

ignorando minha angústia enquanto subia, com passos largos

e antipáticos, a escada em direção à lavanderia, resmungou de forma

quase inaudível:

- Uma camisa toda esburacada… feia e velha, desbotada, que não

mais prestava para nada, esgarçada…

Ao virar o rosto em minha direção, via-se claramente que seu olhar

era de deboche. Ela criticava-me por me preocupar com artigo tão inútil.

Fiquei com vontade de pular em seu pescoço grosso e, ao mesmo

tempo, estava confuso por demonstrar, abertamente, minha preocupação

por um artigo tão desprezível para ela. Por outro lado, sentia culpa

e raiva de mim mesmo por estar envergonhado por de monstrar, diante

da lavadeira, meu amor à camisa. Após respirar fun do, com muito custo,

tomei coragem e decidi falar grosso:

- Sim, ela mesma! Gostava muito dela!

Falei o mais claro que pude, ao perder a vergonha de demons trar

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meu afeto à camisa. Meus sentimentos de culpa acabaram-se e continuei,

quase gritando:

- Onde você a colocou?

- Sei, não, senhor. Não prestava pra mais nada…. não sei se pus no

lixo, ou se a rasguei para limpar a pia. Nem pra isso ela servia. O pano

era ruim.

De repente, voltando a caminhar, arrematou:

- Por quê? O senhor usava aquilo?

Falou zombando, dando um risinho maroto.

Saí rápido, antes que perdesse a cabeça. Fui até o cesto de lixo, sonhando

poder encontrá-la. Nada! Não estava lá. Desci as escadas correndo.

Eram nove e cinco e o caminhão de lixo passava mais ou menos

nesse horário. Quem sabe? Não havia mais lixo, tudo estava va zio, não

havia mais a camisa branca de listras horizontais, mais nada! Solucei,

desolado.

Assim foi decretada a morte, o fim de minha querida camisa. Ela não

mais foi encontrada, nem para ser enterrada, cremada ou guarda dos

suas restos finais, como lembrança de nossas relações e história.

Uma camisa que fez parte de minha vida, simbolizando fatos que

presenciei e vivenciei. Para minha nova lavadeira, a amada camisa nada

significava, era apenas um pano velho e inútil, que merecia ser rasgado,

um trapo sem valor, uma qualquer, uma porcaria que não provocava

lembranças de nenhuma espécie, nem boas nem más.

Para mim, a camisa era parte de minha vida, recuperava me mórias

alegres e tristes, conversava comigo coisas que só nós dois sabíamos:

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as dificuldades e brigas que tive, as esperanças, tudo isso e muito mais.

Ela significava, só para mim, lutas, vitórias e derrotas, uma bandeira representando

várias fases e aspectos de minha auto biografia. A lavadeira,

sem ter criado nenhum vínculo com a camisa, a classificou como um

tecido desbotado e furado, uma fazenda rasgada e envelhecida, sem

valor, um pano que não tinha nada para contar e nada simbolizava.

Coitada de minha camisa, seu fascínio foi ignorado por quem não a

conhecia. Percebida por um ângulo genérico – pano – e não por um

singular – uma camisa com uma história – ela foi desvalorizada. A lavadeira

a olhou sob um ponto de vista diferente do meu, a consi derava

sob um aspecto imediato, prático e simples. Sob essa visão, a camisa

não possuía uma identidade própria, não tinha valor e signifi cado. Por

tudo isso, para a lavadeira minha amada camisa merecia ir para o lixo,

pois não servia nem para lavar a pia.

Pobre de mim! Perdi um pouco do meu passado, de minha me mória.

Quanta dor!

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Valores: Informações resumidas

Somente quando a pessoa possui um conhecimento inicial e básico

de que existem germens e bactérias capazes de produzir doenças,

terá sentido para ela a atitude de forçar as crianças a serem vacinadas

contra varíola, tétano etc. Quando as informações disponíveis para

raciocinar acerca das doenças são formadas por demônios e espíritos,

os problemas de saúde para esse grupo só serão resolvidos pelo curandeiro,

feiticeiro e, consequentemente, haverá atitudes diferentes da

médica quanto à vacinação e higiene.

Para o pensamento antigo as leis da natureza e as morais eram a expressão

da vontade divina. Quando a experiência mostrava o contrário

do afirmado pelas leis, sua defesa apoiava-se na “ignorância dos impenetráveis

desígnios divinos”. Depois, a garantia da unidade da lei moral

e natural deixou de ser Deus; passou a ser a razão humana; dando

nascimento às grandes ideologias do séc. XIX. Para os teóricos, a razão

deveria descobrir as regras de conduta e de organização da sociedade,

em harmonia com as leis da natureza.

Enquanto as leis da natureza são cada vez mais bem decifradas e dominadas

pelo exercício da razão (método científico), o crescimento das

ciências não ajudou praticamente nada para a descoberta ou elaboração

de uma ética individual e social.

O mundo desabou: as ideologias fracassaram, a própria razão caiu

do pedestal e espatifou-se. A crença de uma razão livre ou neutra para

fundamentar a ética individual e social foi enterrada.

Temos boas “razões” para duvidarmos da influência e do poder do

raciocínio na construção do julgamento moral. Existem dois processos

cognitivos trabalhando juntos: o raciocínio e a intuição. Historicamente,

o processo do raciocínio foi superenfatizado e priorizado. Agora

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sabemos que, na maioria das vezes, o raciocínio é gerado pelo julgamento

intuitivo. A intuição ocorre antes da razão, orientando-o; assim

foi destruída a crença do raciocínio objetivo.

Poucas vezes usamos o julgamento racional para avaliarmos a conduta

moral. Os estudos demonstraram que as pessoas se apóiam e

seguem mais suas intuições/emoções que suas reflexões morais.

Os filósofos usaram e abusaram da metáfora para descrever o conflito

entre a razão e as emoções; uma delas comparava a razão com a

divindade e as emoções com o animal existente em nosso organismo.

Platão relatou que Deus criou primeiro a cabeça do homem, encarregada

do raciocínio; depois foi forçado a criar um corpo com as paixões

para permitir a cabeça mover-se para um e outro lado. A intuição e,

também, o raciocínio e o julgamento, são processos mentais conectados

às emoções.

Intuição e raciocínio são palavras que indicam a compreensão de

duas formas de pensamentos diferentes. A intuição ocorre rápida e

automaticamente; a conclusão final é obtida por ela, isto é, não através

de um processamento envolvendo uma mente consciente e possível

de ser examinada ou avaliada pelo autor. Por outro lado, o raciocínio

ocorre mais lentamente, exigindo algum ou muito esforço, implicando,

no mínimo, passos que são acessíveis à consciência.

A intuição moral (“Ele não presta!”; “É um assassino!”; “Isto é um

absurdo”) pode ser examinada como um conhecimento que se manifesta

na consciência de forma repentina, produzindo um julgamento

moral impregnado de aspectos afetivos, sentidos como bons ou ruins,

prazerosos ou não-prazerosos. Além disso, seu possuidor sabe que não

alcançou a conclusão através de uma procura organizada e metódica;

ela formou-se automaticamente. Pensando assim, podemos afirmar

que a intuição moral é um processo mental semelhante à avaliação

estética: “Gostei desse quadro”; “Detestei essa melodia”; “Essa mulher

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é fantástica”. Num caso ou noutro, a pessoa observa algo e, instantaneamente,

o aprova ou o desaprova.

David Hume sintetizou essas idéias com a frase: ““A razão é escrava das

emoções”.”

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Agressividade e Violência

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O Assalto

Domingo: o relógio da igreja bateu quatro horas da tarde. Sérgio

escrevia no computador.

— Doutor! Doutor! Fui assaltada. Estou desesperada!

— Assaltada? Como? Onde? Fala, Flor.

— Não aguento nem falar, doutor. Vou assentar-me. Estou quase

desmaiando!

— Sente-se. O que foi? Conta! O que ocorreu?

— Quase me mataram. Estou com o pescoço todo ferido.

— Foi aqui perto?

— Não aguento falar.

— Pivetes? Quem foi?

— Estou nervosa demais.

Flor caminha na sala para um lado e outro. Assenta-se. Respira

fundo. Levanta-se. Passa a mão pelo pescoço, mostrando marcas de

unhas. Enfia os dedos nos cabelos crespos, levantando-os, dando a

impressão de uma vassoura virada.

— Roubaram-me, nem sei quanto! Sessenta reais, não… du zentos ou

trezentos…

— Como? Saiu de casa para passear com trezentos reais?

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— Não. Tinha cinco. O dinheiro que me roubaram, hoje, deve estar

valendo seiscentos reais. Mais ainda com a inflação. Fo ram cruzeiros,

cruzados, cruzados novos. Nem sei mais!

— Não estou entendendo nada. Como você foi assaltada, arranharam

seu pescoço, se você saiu sem dinheiro? Para piorar, você disse

que foi em cruzeiros, cruzados, reais. Que confusão!

— Fui assaltada, sim. Estou com ódio. Vou arrumar um ad vogado

para cuidar do caso. A mulher disse que eu fiz um abaixo-assinado

contra ela no emprego. Ela saiu do serviço. Ele, sem mo tivo, de repente

quase me enforcou. Olha meu pescoço: as marcas das unhas. Está tudo

doendo. Arrumaram um táxi para mim. Eu só tinha dois reais. A Edina

ficou lá.

— Não entendi. Quem te assaltou? O que roubaram?

— Doutor, eu já lhe falei que tinha um “pepino” para resol ver. Pois é

isso. Este é o pepino.

— Mas você foi roubada? Alguém levou seu dinheiro?

— Bem… saí com Edina, minha prima. Tem uma mulher lá no Palmital,

às vezes empresto-lhe dinheiro. Uma vez ou outra.

— Empresta dinheiro? Seiscentos reais?

— É… ou mais. Deve ser uns mil, com a inflação. O senhor sabe como

é… Tudo subiu. Mas ela me paga, desgraçada!

— Mas não foi um homem?

— Foi. Foi o marido dela. Eu nem o conhecia.

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— E emprestou dinheiro para ela?

— Coisa antiga. Gente fina, empresto há três anos.

— E nem conhecia o marido de sua amiga de três anos?

— Não! É… conhecia. Trabalha na “Fit” em Contagem.

— Que história confusa. Ainda não entendi nada!

— Eu também não. Estava no bar assentada com meu amigo, conversando.

Ele veio sem falar nada e quase me enforcou. Olha as marcas

das mãos dele. Tá doendo muito. Acho que queria me matar. Eu disse a

ele:

— Vamos conversar direito! Não tenho nada contra ele. O irmão

dele está condenado a vinte e cinco anos. Ouvi dizer que ele também

tem um ou mais processos na justiça. Acho que precisa urgente de um

psiquiatra. Deve estar louco da cabeça.

— Mas como? Por quê? Se você nem o conhecia direito…

— Ele é marido dela. Acho que ele ficou com ciúmes de mim. Eu

estava com Fred, que tem os olhos azuis. Agora eu só gosto de homem

de olhos azuis.

— Outro dia um “intaliano”, que também trabalha na “Fit”, me

cantou. Um homem lindo, doutor. Agora está usando homem branco

gostar de negra. Os brancos não estão gostando de brancas. As negras

são mais quentes.

— A cada hora a história fica mais confusa. Era um assalto e você

nem dinheiro para o táxi tinha. O cara te apertou o pescoço e você diz

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que era por ciúme?

— Foi no portão da casa. Ele saiu de repente. Eu estava com Edina,

conversando com a mulher dele… ele veio…

— Você não disse que estava no bar assentada? Que sua pri ma estava

lá fora? Você gostaria de…

— Não. Eu estava na porta da casa dele. Ele é mais velho, deve ter

uns cinquenta anos. Quem falou que gosto de velho?

— A história de assalto já está mudando para namoro.

— É… quando eu vou lá na casa dela. É, vou muito lá, ficamos horas

conversando. Ele sempre passa de um lado para o outro, só para me

vigiar. Ele anda pela casa e me olha com cara de apaixonado. Eu penso

é que ele está caído por mim. Depois que ele me agarrou no pescoço,

está tudo marcado. Olha aqui, ele me paga, aquele des graçado. Ele

ficou na cadeira assentado e começou a chorar. Ficou parado, chorando.

Aí, eles chamaram o táxi. O motorista ficou com dó de mim e só me

cobrou os dois reais que tinha.

— Como que ele ficou assentado, se foi na porta da casa? A cada

hora você conta que a cena foi num lugar diferente. O dinhei ro perdido,

quanto foi?

— Eu sempre emprestei dinheiro para ela, gente boa. É para ela pagar

o barracão onde mora. Mas ela falou que fiz um abaixoas sinado no

serviço dela.

— Você já falou sobre isso. Você sabe o que é abaixoassina do? Como

você iria fazer um abaixo-assinado no serviço dela? E para quê? Onde

ela trabalha?

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— Não sei, não senhor. Não sei o que é abaixoassinado. Ela trabalha

em casa de família como eu. Mas já foi despedida. Acho que é uma

assinatura. Não é? Ela perguntou-me se eu queria tro car a dívida que

ela tem comigo, que é de trinta reais, por um che que de oitenta reais.

Este cheque é de outra pessoa e vai vencer em janeiro. Eu ficaria com o

cheque e daria mais cinquenta reais para ela. Ela pensa que sou boba.

Acha que eu não sei o que é cheque pré-datado. Todo o dia a televisão

fala sobre isso. Que as pessoas não devem fazer compras a prazo,

que os juros estão altos e que é melhor dar cheques pré-datados para

pagar as compras. Ela quer é me tapear, dando-me um cheque. Ela não

me passa a perna nunca.

— Ela está te devendo trinta reais? Você não falou que tinha sido

assaltada em mais de seiscentos reais?

— Mas, e os juros? Eu lhe emprestei em cruzeiros, reais, não sei

mais, durante a inflação… foi muito dinheiro. Uns cinquenta reais ou

muito mais, até uns mil, não sei bem não. Eu sei é que ela me deve e

tem que me pagar.

— Talvez isto sirva para você aprender, Flor. A gente só aprende,

errando.

— Mas ela é amiga antiga. Ela trabalhava, o marido também. Ele é

paquerador, mas ela também tem um amante que dá dinheiro para ela.

Para isso ela não é boba não.

— Afinal, você os conhece há muito tempo. Gosta dela e em presta

dinheiro quando ela precisa. Estava na casa deles e ele se enfureceu.

Por quê?

— Já ouvi dizer que ele colocou até detetive para saber com quem

eu ando e aonde vou aos fins de semana. Eu já tinha notado. Lá na

rodoviária, onde passeio aos domingos, um homem sempre anda me

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vigiando. Quando fui tomar uma coca-cola, ele conversou comigo. Até

pediu-me um pouco do refrigerante e eu, boba, lhe dei o resto da lata.

Ele disse que a coca-cola estava com gosto de meus lábios. Acho que o

marido de minha amiga é apaixonado por mim. Ontem fui lá no bairro.

Depois fui até a casa dele junto com o amigo dos olhos azuis. Foi este

amigo que chamou o táxi para mim. Tinha muito tempo que não andava

de táxi. O motorista até que tentou me cantar. Foi muito simpático

comigo. No caminho…

— Termine a história. Passou para outra, a do motorista.

— É… bem… acho que ele me apertou o pescoço de ciúme. Tanto

que se arrependeu e chorou. Falou que na quinta-feira vem aqui em

casa trazer o dinheiro que sua mulher me deve. Mas que precisa muito

conversar comigo. Estou doida para chegar quinta. Ele não é de se jogar

fora. Será que saio com ele? O que… o que o senhor acha?

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Brigas de Casais: Agressão ou

Excitação Sexual?

Alguns casais usam com naturalidade as agressões físicas como

forma de resolverem brigas domésticas. Curiosamente, apesar da rai va

de ambos durante as desavenças, automaticamente eles aplicam certas

regras para suavizar a agressão. Entre as “leis” do permitido e do proibido

durante as lutas, encontram-se: “é proibido atacar pelas costas”,

“o lugar de chutar deve ser olhado com atenção”, “deve-se ter extremo

cuidado para não lesar as partes “nobres” como os seios, tes tículos, pênis,

olhos, estômago”, “os chutes ou coices são permitidos em resposta

a determinadas agressões verbais mais graves, mas não às leves”: “não

se pode usar objetos para agredir”, “deve-se evitar as brigas diante dos

filhos”, “se o companheiro estiver deprimido, gripa do e com diarreia,

ele deve ser respeitado, não podendo ser agredido nesse dia”.

Os homens envolvidos nesse tipo de briga agem com suas mu lheres

durante estas lutas excitantes como se estivessem educando um filho.

Ora a seguram, impedindo-a de se movimentar, ora a seguram para

que essa não saia à rua, ou para impedi-la de lhe atirar um objeto. Sua

agressão é mais simbólica que real – muito diferente do agressor típico

– mais para mostrar à companheira seu maior poder físico que para

feri-la. Sendo assim, os maridos só batem nos lugares apropriados,

usando apenas um pouco da força, com a palma das mãos, visando

controlar a agressão passageira da companheira/adversária.

As mulheres que participam dessas brigas geralmente atiram objetos,

quebram outros, rasgam as roupas do marido, xingam palavrões,

gritam para chamar a atenção ou para pedir socorro aos vizinhos. Esse

tipo de briga é frequentemente mostrado nas novelas da televisão.

Uma particularidade desses casais nos quais ambos são agresso res é

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que os dois são assertivos, isto é, nenhum tem medo do outro.

Esses agressores, marido e mulher, estão sempre prontos para responderem

às provocações recebidas. É comum o uso do álcool por um,

ou por ambos os cônjuges, situando-se em torno de 50% dos casos. As

brigas se dão geralmente durante discussões acerca de questões simples.

Essas vão aumentando de intensidade, pouco a pouco, passando

por períodos de uso de termos chulos até chegar às agressões físicas.

O interessante dessas brigas está no fato de que, muitas vezes, elas

fazem nascer um certo grau de excitação sexual, o que pode ser uma

razão automática ou involuntária de sua provocação. A excitação sexual

talvez seja despertada pela respiração ofegante de cada con tendor,

pelo roçar dos corpos quentes e lubrificados pelo suor, pela dança dos

agressores exibindo movimentos rápidos e também lentos. Toda a cena

provoca a lembrança do ato sexual, realizado frequente mente no mesmo

local onde, no momento, está ocorrendo a briga. Estudiosos do assunto

afirmam ser a agressão física um excitante para o organismo para

a realização de diversas ações, entre elas a sexual. Por tudo isso, estas

brigas terminam muitas vezes com os cônjuges rolando agradavelmente

na cama “entre tapas e beijos”, com o apare cimento do prazer, da

liberação de endorfinas endógenas e de oxito cina, bem como o retorno

à suave paz.

Estes comportamentos violentos continuam enquanto o casal estiver

morando junto, aumentando sua frequência nos períodos de piora nas

relações. Uma vez afastados um do outro por separações, as agressões

terminam. Mas quase sempre voltam com um novo ca samento, mostrando

que esses cônjuges apresentam um padrão de agressão física

ao lidar com certos problemas existentes, o qual pode ser interrompido

temporariamente, quando não há um cônjuge apro priado, ou seja,

pronto a aceitar o desafio e a entrar numa briga sim bólica de amigo-

-inimigo.

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Marido Violento: Este Incompreendido

O homem que agride sua companheira tem sido interpretado de diversos

modos: cada interpretador usa um ou vários modelos ou teorias

explanatórias. Um e outro grupo defende apaixonadamente seu ponto

de vista acerca do homem violento, convencido de sua veracidade. Entretanto,

seus opositores também têm suas certezas. Vejamos algumas

interpretações deste ser ainda não compreendido.

1 – A antiga psicologia dinâmica freudiana, hoje moribunda e em

extinção, interpretava o agressor da esposa como sendo sádico. O ato

de bater, para esse modelo, daria um alívio e prazer ao agres sor. Já sua

companheira, permitindo ser agredida, era classificada como masoquista

– a que gosta de apanhar.

2 – A Psicologia da Relação Objetal interpreta tanto o violento

como a vítima que aceita as agressões como possuidores de personalidades

patológicas. Os dois grupos estariam catalogados como

Transtornos da Personalidade Antissocial, “Borderline” e Narcisista.

Além disso, para essa teoria, estes agressores foram abusados e espancados

na infância.

3 – A Psicologia Cognitiva Comportamental explica a agressão

desses homens como proveniente de distorções perceptuais e de sua

tendência a atribuir causalidades incorretas à conduta da esposa. A

raiva deriva da pessoa ter, desde cedo, seu “processador de informações”

defeituoso. O seu possuidor seleciona e enfatiza apenas os

eventos provocadores de raiva, generalizando estes e, por outro lado,

negligenciando as informações não agressivas. O possuidor des se

“defeito” interpretativo fica sensível somente às ações “negativas” da

companheira.

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4 – A Biologia estuda as disfunções orgânicas do agressor provenientes

de distúrbios hormonais, lesões cerebrais, defeito nos neurotransmissores,

baixa de glicose, etc. Estas disfunções podem ser

exacerbadas pelas drogas ou álcool.

Entre os sinais genéticos, anatômicos e bioquímicos que têm sido

associados às agressões dos maridos estão o baixo teor de sero tonina,

as infecções cerebrais, um sistema nervoso autônomo pouco reativo, o

sexo masculino, a juventude e a baixa inteligência.

5 – A Teoria dos Sistemas explica a agressão como decorrente de

interações disfuncionais entre os familiares do agressor. Esta agres são

é cultivada pelo agressor e pela vítima. Uma briga pode ser uma forma

de preservar condutas que estão sendo úteis à manutenção do grupo

familiar, permitindo a cada um dos membros desempenhar um papel

aceito pelos demais familiares.

6 – O Modelo Ético-Religioso coloca o marido violento como responsável

por sua agressão. Possuindo o “livrearbítrio”, este tem condições

de distinguir o “certo” do “errado”. O agressor deve ser punido

por seus atos ao agir erradamente devido à sua “maldade” interna.

Através de punições, penitências e rezas, o agressor poderá ser perdoado

e se converter.

7 – O Modelo da Lei examina se o marido agressor infringiu, ou

não, o permitido pela lei. Desse modo, ele deve ser julgado de acor do

com o que consta na legislação em vigor. Deverá ser absolvido ou punido,

dependendo do exame das provas arroladas tanto em sua defesa,

como na acusação. É a parte formal que interessa e não os fatos em si.

8 – As feministas, por fim, veem o agressor como um produto das

instituições sociais que não criaram uma igualdade entre homens e

mulheres. Existe a agressão masculina devido a uma longa história do

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domínio dos homens sobre as mulheres, muitas vezes constru ída ou

apoiada pelas próprias mulheres. Criado com privilégios, o homem

acredita no seu direito de julgar e punir as mulheres que o desafiam.

Diante de tantas explicações, pergunto-me, qual é a certa? Não tenho

resposta.

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Conheça o Estuprador

Os estudos acerca da personalidade do estuprador têm mostra do

aspectos de interesse para o entendimento de sua conduta sob o ângulo

da psiquiatria. O estuprador geralmente é diagnosticado como tendo

um Transtorno da Personalidade Antissocial (irresponsabilida de social,

busca de risco, explorador, propensão ao uso de álcool e drogas, etc.).

A sua bioquímica cerebral mostra, entre outros, um déficit no neurotransmissor

serotonina. Os estudos mostram que uma diminuição

dessa substância no cérebro tem sido associada com atos impulsivos,

impensados, agressivos, suicidas, etc. O cérebro do estu prador parece

ser internamente pouco ativado, levando-o a procurar mais estímulos

externos para se sentir bem.

Os estupradores, em grande parte, mostram-se agitados, inquie tos e

explosivos. Tem sido relatado que a inteligência do estuprador é mais

baixa que a média da população. Essa deficiência mental tem sido atribuída

a fatores genéticos ou a lesões cerebrais sofridas du rante a vida

pré ou pós-natal. Eles têm, principalmente, menor com preensão verbal

e social. Com frequência, fazem uso de álcool e de drogas, agravando a

sua já reduzida capacidade de lutar contra seus impulsos.

Ainda cedo, os estupradores podem apresentar condutas desadaptadas

como a crueldade com os animais, o uso de armas e má

adaptação escolar. Na história de vida deles é frequente a enurese

noturna (urinar na cama), incêndios e alcoolismo dos pais. Alguns estupradores

podem fazer 150 vítimas durante sua vida, caso não sejam

presos ou mortos. Cerca de 70% deles já praticaram outros crimes

como assaltos, roubos e homicídios. Diversos estudos mostram que o

padrão criminoso incorporado na infância desses indivíduos não será

extinto com punições carcerárias. Como se sabe, todo e qualquer castigo

usado comumente não pune o padrão aprendido, pune somente o

indivíduo que praticou o crime.

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O estuprador, muitas vezes, ataca sua vítima com armas. Pes quisas

mostram que certas pessoas tornam-se mais agressivas ao lidar ou

mesmo visualizar armas. A maioria dos estupradores é formada de

jovens. Cerca de 61% deles têm menos de 21 anos. Sabe-se que os

jovens, principalmente do sexo masculino, praticam mais atos antissociais.

Um outro fator de importância é a maior taxa de testostero na

nessa idade, e esta parece atuar diminuindo a taxa de serotonina cerebral

e, consequentemente, aumentando a impulsividade. Muitos deles,

durante o ato criminoso, têm, ao mesmo tempo, raiva e medo. Daí sua

conduta confusa, na qual se misturam agressões e investida sexual.

Durante o ataque, o estuprador normalmente ameaça a vida ou a integridade

da vítima ou dos familiares. Além disso, não é raro ele ejacular,

defecar ou urinar na face ou corpo da vítima. Às vezes, introduz objetos

no ânus ou na vagina desta.

As vítimas dos estupradores vão, segundo os dados, desde os 15 meses

até os 82 anos, sendo que a maioria delas encontram-se entre 10 a

29 anos. A estatura da vítima é geralmente menor que a do estu prador.

Apenas cerca de 4% das vítimas facilitaram o estupro, o que é uma

taxa baixa quando comparada com as pessoas assassinadas. Nestas, a

percentagem chega a 22%. Apenas uma em cada quatro ví timas dos estupradores

dá queixa à polícia. Para outros autores, uma em dez. Para

terminar, a maior parte dos estupros ocorre dentro da própria casa da

vítima e cerca de 7% dos estupradores são parentes.

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Agressividade e Violência:

Informações resumidas

Para diagnosticar o criminoso é preciso conhecê-lo. A partir dos

4 anos ele inicia sua vida de desadaptado: bate e morde crianças e

adultos, é superativo, pirracento, irritável, difícil de se educar, seduzido

por aventuras, propenso às brigas, mentiroso, pratica pequenos roubos

na escola, em casa e nas lojas, e apresenta coordenação motora deficiente.

Mais tarde, rouba carros, vende e usa drogas, briga em bares,

assalta, frauda, abusa de crianças, dirige drogado ou alcoolizado, agride

mulheres, não paga suas dívidas e não fica no emprego. A disposição

subjacente existente no verdadeiro desajustado permanece durante

sua vida, com pouca ou nenhuma alteração, podendo mudar apenas

quanto à expressão do ato criminoso conforme a idade e condições

ambientais.

A maioria dos criminosos nasceu em verdadeiras “escolas” do crime;

ali aprenderam (aprendeu), dos pais ou companheiros, inconscientemente,

a conduta anti-social. A maioria apresentou problemas de

impulsividade, provavelmente, hereditários.

Uma serotonina baixa associa-se a impulsividade, ou seja, uma maior

rigidez da atenção e menor habilidade para agir diante dos problemas

enfrentados no dia-a-dia.

Foi sugerido que a serotonina baixa leva a uma maior sensibilidade

à rejeição; o indivíduo torna-se mais vulnerável à não-aceitação ou à

perda; fundamento dos sintomas existentes no Transtorno da Personalidade

“Borderline” ou Limítrofe. Tais pacientes geralmente apresentam,

também, os transtornos de personalidade histérica, narcisista e

anti-social.

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Os pacientes denominados “borderlines”, bem como os anti-sociais,

narcisistas e histéricos, parecem ter um fator comum: uma extroversão

extrema. Se isso é correto podemos especular que essas condições

estão associadas com o fracasso dos extrovertidos em fixarem ligações

com pessoas desejadas. Mas talvez seja o fracasso em conseguir

ligações, e não a extroversão, o responsável pela baixa da serotonina

produzida ou liberada nas sinapses neuronais desses indivíduos.

Níveis baixos de serotonina cerebral têm sido descritos na depressão,

atos suicidas, alcoolismo, medos exagerados, preocupações continuadas,

obsessão e compulsão, transtornos alimentares e, ainda, entre

os homicidas, principalmente quando esses têm uma estreita relação

com suas vítimas.

Parece que o meio social “normal” diário, principalmente, as relações

com pessoas desejadas, é que mantém um nível continuado e

apropriado de liberação de serotonina. Ora, se a pessoa é amada e respeitada

por outros que têm importância para ela, seus níveis de serotonina

tendem a ficar mais elevados e, talvez, a torne menos extrovertida,

ou mais “introvertida”. Quando a pessoa não consegue as ligações

desejadas – há rejeição – os níveis normais de serotonina abaixam-se

diante do fracasso em manter os contatos sociais imaginados. Ao mesmo

tempo, há uma tendência ao aparecimento de condutas associadas

à agressão impulsiva, a maior sensibilidade à rejeição e o pavor de ficar

só: sinais e sintomas descritos entre os pacientes com Transtorno de

Personalidade Borderline.

Estudos mostraram que um anti-social que teve seus pais ricos quando

criança, pode estar pobre ao chegar aos 40 anos, semelhante a uma

pessoa de nível socioeconômico baixo, devido a sua restrita capacidade

para aprender e compreender o complexo meio social, a pouca disciplina

e baixa tolerância à frustração. Ele se torna um desviado da sociedade

devido ao seu limitado repertório de alternativas para sobreviver.

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Cerca de 50% dos crimes são cometidos por 5 a 6% dos ofensores,

agindo, principalmente, contra pessoas. Este seleto grupo permanece

cometendo crimes desde cedo até a morte.

A sabedoria convencional, muitas vezes, sugere que a conduta está

sob controle do inato e do aprendido, ora é um, ora outro, o mais forte

ou mais poderoso. Se uma pessoa pobre apresenta um nível baixo

de serotonina, alguém poderia argumentar que sua pobreza é biologicamente

fundada. Entretanto, correlação não prova causalidade

e é possível que fatores associados à pobreza como a falta de poder,

deprivação das crianças, a dieta pobre, o isolamento social, o emprego

exigindo grandes esforços e baixa decisão, tudo isso, contribui para um

nível baixo de serotonina cerebral.

Um aspecto característico do espírito da delinquência é o culto à

proeza; uma incansável busca de sensações e emoções. O código deles

é a aventura, a ousadia, as situações carregadas de perigo. Excitam-se

fazendo o proibido, desafiando as autoridades, agindo contra a segurança,

a rotina e o estabelecido. Para os delinquentes, a obediência à

ordem produz tédio e ansiedade. Desdenham o progresso, os modelos

de disciplina usados na escola e no trabalho. A maioria apresenta

sonhos grandiosos de sucesso rápido, no qual o dinheiro é valorizado

para gastos imediatos – não a longo prazo – em que tudo é desperdiçado

num consumo impensado. Valorizam a trapaça e a manipulação,

inclusive a dos familiares e amigos.

As estatísticas acerca do crime – prevalência e incidência – situam-se

em torno dos 17 anos. Em torno dos 20 anos a taxa diminui em 50% e

em 85% aos 28 anos, ou seja, a maioria desiste de ser delinquente, de

agir criminosamente.

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Aprenda a não ser tolo:

três Marias vão ao médico

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Maria Ingênua vai ao médico

Imaginemos a seguinte situação: Maria, após sentir dores torácicas

e palpitações, procura Dr. José, um conceituado médico indicado por

uma amiga. Poucos dias antes, Maria havia visitado outros médicos.

Um deles diagnosticou hipocondria; um outro, dor anginosa; e um terceiro

lhe afirmou que, a qualquer momento, ela poderia ter um infarto

ou, um derrame. Maria estava apreensiva.

No consultório limpo e bem arrumado, Dr. José, atencioso, começou

o exame fazendo uma longa anamnese. Em seguida, a auscultou e,

após pedi-la para deitar-se na maca, fez um exame eletrocardiográfico;

também verificou, por diversas vezes, a pressão sanguínea e a temperatura.

Após todo o ritual médico, Dr. José, enquanto ainda olhava o traçado

do eletrocardiograma, pediu a Maria que se assentasse. Em determinado

momento, ele voltou seu olhar calmo e alegre em direção à Maria e

lhe disse com uma voz firme e bem postada:

— Você não tem nada!

Maria, talvez várias Marias diferentes, pode interpretar a afirmação

do Dr. José de diversos modos. Uma frase, como esta, pode ser interpretada

literalmente, isto é, como ela foi dita. Pode, também, provocar

outras informações além da contida apenas na frase emitida. Entre

essas estão as pistas fornecidas pelos diversos gestos do médico; pelos

conhecimentos que temos acerca dele; pelas idéias anteriores que

armazenamos acerca de doenças; pelos sintomas e sinais percebidos;

pelas opiniões emitidas por outros médicos e, finalmente, pela simpatia

ou antipatia que sentimos por ele.

A primeira Maria, que nessa matéria descrevo, a ingênua, faz par-

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te do enorme grupo das pessoas crédulas, que aceita a frase ouvida

sem contestá-la, sem fazer uso de outros conhecimentos e suposições

existentes em sua mente e que enriquecem as conclusões, permitindo

escolher um melhor caminho. Para o enorme grupo dos crédulos,

o afirmado por uma “autoridade”, como é o caso do Dr. José, é uma

verdade verdadeira, não sujeita a críticas.

Maria Ingênua da Silva não só aceita a frase “Você não tem nada”,

emitida pelo Dr. José, como também acredita que ele é uma pessoa

bem intencionada, ou seja, não teve outras intenções não reveladas

além da expressa na frase. E mais, Maria talvez acredite que os médicos

são todos competentes, portanto, Dr. José é uma pessoa capaz de

conhecer seu organismo e transtornos deste. Desse modo, ela acredita

que o exame foi perfeito e que a conclusão final expressa observações

acertadas. Resumindo: Maria pensa que o Dr. José sabe o que está

dizendo e é convincente.

Podemos dizer que Maria aceitou como corretas duas informações

que não foram expressas, além da afirmação transmitida. Em primeiro

lugar, ela acreditou ser a informação dada por Dr. José, “Você não tem

nada”, como a importante e que deve merecer sua atenção, de outro

modo, segundo a postura de Maria, não existe outra mensagem importante

para ela focalizar além da expressa pelo médico. Em segundo

lugar, para Maria, os meios usados pelo médico para examiná-la, bem

como sua maneira de lhe transmitir a informação, facilitaram a compreensão

dela e a conclusão final acerca do seu estado físico. Ela poderá

ir para casa tranquila, pois não tem nada: é uma pessoa saudável.

Para muitos autores a idéia transmitida que merece a atenção é a

que produz efeitos cognitivos, isto é, a que fornece informações fáceis

de se ligarem às outras informações antigas do “assimilador mental”,

ou seja, existentes na mente, no estoque de saberes armazenados,

prontos para serem utilizados na compreensão ou interpretação das

informações. O afirmado, “Você não tem nada”, uma vez unido ao já

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sabido, possibilitará à rede de idéias – modelos ou paradigmas gerais –

entender e extrair deduções.

Se a informação não é esperada, se ela é rara ou estranha àquela

mente, ela dificilmente será compreendida e, nesse caso, a informação

não será assimilada. Muitas vezes as pessoas enfrentam situações ou

notícias que não são assimiláveis; nessas ocasiões, elas usam expressões

como: “Isso é inacreditável!”; “Parece um sonho ou filme”; “Que

horror; terrível! ”, bem como outras frases que indicam que a informação

não pôde ser compreendida pelas idéias existentes. Assistimos,

perplexos, à catástrofe ocorrida na região central de Nova Iorque quando

os aviões espatifaram-se nos arranha-céus; nessa ocasião, ouvimos

diversas expressões verbais desse tipo.

Pacientes como Maria Ingênua aceitam, sem questionar, a idoneidade,

as boas intenções e a capacidade total do Dr. José e, possivelmente,

de quaisquer outros Doutores Josés. Maria, uma vez tendo ajustado

suas idéias às do Dr. José, por ser hipoteticamente ingênua, irá seguir

o caminho do menor esforço, construindo uma interpretação simples,

sem levantar suspeitas acerca da fala do médico.

Coitada das Marias desse vasto mundo. Em primeiro lugar, ela não

imagina que a informação importante poderia ser outra, estar oculta e

não ter sido dita. Os médicos usam muito isso, afirmam que o cliente

não tem nada, sabendo que apresenta uma doença grave, às vezes,

mortal. Em segundo lugar, o Dr. José poderia ainda não ter feito um

diagnóstico correto como afirmou, poderia ser um profissional incompetente,

estar distraído ou cansado no momento do exame, ter deixado

para trás um sinal ou sintoma fundamental para o diagnóstico mais

acertado, como se diz no jargão médico, pode ter “comido mosca”, ou

ainda, Maria pode ter uma doença difícil ou impossível de ser diagnosticada.

Ao ouvir Dr. José dizer: “Você não tem nada”, Maria interpretou a

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informação “não tem nada” no sentido de que seu organismo está funcionando

bem, suas dores e taquicardia devem ser esquecidas como

algo que não existe, pois “tudo é psicológico”. Ela conclui que o Dr. José

deseja que ela aceite essa implicação, ou seja, que ela, como ele, acredite

estar bem, sem doenças, não precisa se preocupar, podendo ter

uma vida normal. Em resumo: ela, por enquanto, não precisa procurar

ajuda médica.

Esta estratégia – interpretação ingênua – poderá produzir uma

compreensão adequada e sem riscos para o ouvinte, sempre que o

falante seja de fato bem intencionado e, acima de tudo, capacitado o

suficiente para perceber e comunicar o que é importante e evidente

para a pessoa com quem está se comunicando no momento. Apesar da

crença, as pessoas, frequentemente, nem são competentes continuadamente

e, também, nem sempre são bem intencionadas.

Maria sabe, – mas não prestou atenção a esse conhecimento – sem

o conhecimento de Dr. José, que outros médicos não só a examinaram,

como também deram-lhe diagnósticos diferentes; um suspeitou de

angina e da possibilidade dela vir a ter um derrame, o outro de hipocondria.

Mas Maria Ingênua só prestou atenção ao afirmado por Dr.

José; esqueceu as afirmações dos outros médicos. Seu defeito é não

relacionar o que ouve agora com o que ouviu ou vivenciou antes. Se

ela tivesse lembrado de suas dores, do que o outro médico lhe disse,

de histórias médicas escutadas ou lidas de outras pessoas, ela ficaria,

no mínimo, em dúvida diante do falado pelo Dr. José: “Você não tem

nada”. Poderia até pensar, caso suas interpretações fossem mais longe,

que ele talvez estivesse querendo dizer que “ela não tem nada” a ver

com o que aconteceu, ou mesmo, que ela não tem mais nada a fazer,

pois seu estado é grave.

Mas como, no desenrolar da consulta, ele não receitou nada, nem

indicou nenhum tratamento, ela imaginou a frase “Você não tem nada”

da maneira mais fácil e mais simples, sem ter trabalho mental. Lem-

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o o leitor que as crianças muito novas, bem como certos deficientes

mentais, acreditam, sem fazer críticas, em qualquer informação ouvida.

Maria é apenas ingênua como todos nós somos em inúmeras ocasiões.

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Maria Cautelosa vai ao Médico

A segunda Maria, a Cautelosa, menos ingênua que sua companheira,

a Maria Ingênua, após a consulta, sai do consultório com algumas dúvidas.

Afinal, o que o doutor quis dizer com a frase “Você não tem nada”,

se eu sinto dores e palpitações?

Maria Cautelosa acredita também, como a ingênua, que o emissor,

nesse caso, Dr. José, está bem intencionado. Mas ela duvida de dois

aspectos aceitos sem críticas por Maria Ingênua:

faz restrições a maneira como Dr. José impôs no espírito dela as

informações resumidas na frase “Você não tem nada”;

levanta dúvida a respeito de sua competência para realizar um

diagnóstico exato, isto é, absolutamente certo.

Para Maria Cautelosa, Dr. José ignorou outros conhecimentos já possuídos

por ela, pois, caso soubesse, fatalmente teria mais cuidado ao

formular a informação final, a tida como a mais importante: “Você não

tem nada”. Quando o Dr. José afirmou para Maria Cautelosa que ela

não tinha nada, imediatamente ela lembrou-se das diferentes informações

dadas pelos outros médicos visitados. Por tudo isso, a informação

resumo e importante transmitida pelo Dr. José à Maria não dominará

sua mente, pois esta já estava habitada por outras suposições surgidas

na sua consciência quando recebeu a informação do médico.

Os estoque de informações já existentes decorrentes das consultas

anteriores, fatalmente, como não estavam de acordo com as do Dr.

José, irão dificultar ou impossibilitar a aceitação das novas informações

dadas por ele, mesmo sendo elas possíveis de serem importantes. De

outro modo, como o ninho mental da paciente já estava povoado por

outras idéias antigas, diferentes e contrárias à nova informação, estas

combaterão as intrusas, as novas inimigas. Caso o ninho estivesse vazio,

sem idéias, seria mais fácil a idéia básica do Dr. José ali se instalar e

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prosperar, orientando outras crenças e condutas de Maria.

Vamos supor que a informação ouvida do Dr. José tranquilize a

mente de Maria e ela a aceite como sendo uma informação importante

e suficiente. Nesse caso, como sempre, a mente da ouvinte segue um

caminho que facilita a compreensão, a via de menor esforço. Entretanto,

aqui ela vai mais longe; não se deterá na primeira interpretação

importante que lhe vem à mente. Mesmo se sua mente apressada e

distraída tiver aceitado a primeira interpretação dada pelo Dr. José, ela,

sendo Maria Cautelosa, pensará outras possibilidades importantes.

Para isso ela irá recorrer ao estoque de recordações existentes em sua

memória como: o que ela sabe sobre o médico em particular; conhecimentos

armazenados a respeito de outros médicos; acerca da arte da

medicina; do que ela já leu ou viu nas TVs sobre acertos e erros médicos;

dos sintomas sentidos e que ficaram sem explicações. Aos poucos,

poderão surgir em sua memória lembranças de outros fatos vividos,

observados e experimentados por ela, por parentes e amigos. Durante

suas reflexões, ela lembra que ele não lhe receitou nada, não pediu

exames laboratoriais, despediu-se dela e deu por encerrada a consulta;

as dores e palpitações não foram explicadas.

Assim, Maria Cautelosa, após todo esse trabalho intelectual de recuperação

de lembranças e cruzamentos dessas com o afirmado pelo

Dr. José, poderá construir um arsenal poderoso de críticas mais seguro,

possibilitando uma avaliação melhor do que a aceitação simples do escutado

durante a consulta, permitindo-lhe examinar melhor, e mesmo

aceitar, ou, também, colocar em xeque o afirmado pelo Dr. José, ou

seja, fará uma interpretação menos ingênua.

Esse segundo modo de interpretar um acontecimento produzirá

uma compreensão mais rica e adequada do informado pelo médico,

mas, sem dúvida, é mais trabalhosa. A pessoa que fala, nesse caso, o

Dr. José, mesmo sendo, por hipótese, bem intencionado, também por

hipótese, poderá não ser capacitado ou competente o suficiente para

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fazer um bom exame, ou de perceber o que é importante para Maria

num certo momento.

Mas, infelizmente, apesar de nossos desejos, cheios de esperanças,

nem sempre as pessoas são bem intencionadas e capacitadas. A comunicação

humana pode ser inadequada e, para piorar, nem sempre

é honesta; pode faltar por parte do emissor tanto a competência,

como uma boa intenção. Liguem suas TVs e observem as propagandas.

A maioria delas tenta convencer as crianças, jovens e idosos a comprar

e comprar; usando os produtos anunciados todos ficarão mais

sadios, mais bonitos, charmosos e atraentes, cheirosos, importantes,

inteligentes e outros mais e mais. Tudo a baixo custo e sem esforço.

As propagandas nos informam e nos incentivam a imaginar que o uso

dos produtos é importante para nós. A propaganda tenta demonstrar

boa-fé e nos levar a seguir suas orientações. Todos sabemos que as

propagandas são geralmente muito competentes, atingem o desejado

com grande parte da população; mas a intenção delas é diferente da

vinculada.

A intenção subjacente nas propagandas, como a que ocorre em

grande parte das informações que escutamos, não é explicitada. Os

motivos, razões ou desejos dos donos do produto propagado, velados

ou bem escondidos, diferem e muito, dos desejos do telespectador;

o desejo fundamental de um lado é vender e vender e não ajudar os

compradores. Com os políticos, em grande parte dos casos, o padrão

é o mesmo. Por tudo isso, um ouvinte realmente mais sofisticado não

pode pensar como pensa Maria Ingênua: “Eu ponho a mão no fogo por

ele”, como se todos os emissores de informações fossem bem intencionados.

Creio que um comunicador verdadeiramente sofisticado, quase

sempre, não é bem intencionado.

Na hipótese aqui relatada, mesmo que Maria Cautelosa imaginasse

Dr. José como bem intencionado, ela seria forçada a fazer restrições

quanto a sua conduta, pois ele não tomou conhecimento de suas dores

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e palpitações, bem como foi incapaz de explicar essas queixas; motivos

de sua consulta. Portanto, o próprio Dr. José deveria estar ciente de

que sua afirmação não era a única informação possível de ser verdadeira,

pois ia contra o relatado pela cliente. Maria Cautelosa, através de

um grande esforço criativo, poderia imaginar uma outra interpretação

para tentar adequá-la à frase “Você não tem nada” dita pelo Dr. José.

Quem sabe ele estivesse querendo dizer “Você não tem nada” em relação

a algum aspecto do organismo, como a pressão arterial que está

boa, ou o intestino, por exemplo, que sempre funcionou bem”. É possível

supor que Maria Cautelosa não agirá conforme a intenção expressa

pelo Dr. José, ou seja, ir tranquila para casa imaginando não ter nada.

As duas estratégias de interpretações, a Maria Ingênua e a Maria

Cautelosa, pressupõem ser o Dr. José bem intencionado; elas não duvidarão

de possíveis motivos escondidos existentes nele para prejudicá-

-las, ou mesmo não ajudá-las como devia ser o trabalho médico; em

resumo, para elas seu caráter é de um homem bem intencionado. A

situação iria piorar caso Maria abandonasse esse pressuposto; se não

acreditar na boa intenção dele, ela não encontrará mais nenhuma interpretação

válida, pois, neste caso, sempre existiria a dúvida, acabou-

-se a confiança, essencial para pressupor o restante da informação.

Quando você aceita a boa intenção do emissor, não imaginará má-fé

ou mentiras em suas afirmações, mas quando você não acredita na

boa-fé ou honestidade do emissor, o receptor não mais poderá acreditar

em nenhuma estratégia otimista apresentada por ele, pois essa

postura pressupõe boa intenção. Em resumo: os ouvintes que reconhecem

ou detectam mentiras nas informações de outros usam estratégias

diferentes para assimilar o informado do que os que partem da suposição

da informação ser bem intencionada.

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Maria Sofisticada vai ao Médico

A terceira Maria, a Sofisticada, examina mais profundamente, e de

diversos modos, a frase construída por Dr. José após a consulta: “Você

não tem nada”. Para Maria Sofisticada, a conclusão de um exame médico,

resumida nessa frase, procura ligar diversos níveis de observações

feitas pelo médico. A informação “Você não tem nada” é mais rica do

que relatos de apenas alguns níveis como sua pressão está normal; seu

peso também; não apresenta edemas; não há sopros cardíacos; sua

memória está excelente etc.

Entretanto, às vezes, imaginamos estar compreendendo um evento

complexo – como um exame médico – ao isolar somente alguns níveis

e não outros. Um médico cardiologista tende a “enxergar” principalmente

os sinais e sintomas relacionados à área cardiovascular; um psiquiatra

selecionará os aspectos do comportamento, deixando de lado

características físicas etc. Uma minha amiga deu-me um bom exemplo

do aqui discutido ao me confidenciar: “Doutor, Marly é esperta porque

ela é paulista”. Sua conclusão foi estabelecida através de um fato – ter

nascido em São Paulo – que talvez não tenha ligação alguma com “esperteza”.

Os clientes ou ouvintes sofisticados – geralmente falantes competentes

– percebem que os emissores usam a informação para atingir

seus próprios fins. Estes podem, em alguns ou em muitos aspectos,

corresponder aos fins ou desejos do receptor. Deve ser notado que,

muitas vezes, as intenções dos emissores são altamente diferentes dos

objetivos dos receptores ou ouvintes; estimulo a mente do leitor para

os discursos políticos, algumas pregações religiosas e, principalmente,

propagandas existentes nas TVs, rádios, jornais etc.

Maria Sofisticada, partindo de intenções possíveis do Dr. José, aprofunda-se

mais, focalizando e imaginando diversas condutas do Dr. José

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durante o exame. Ela procura entender o que o levou a examiná-la por

tanto tempo, porque ele usou o eletrocardiograma e tomou a pressão

arterial tantas vezes. E suas dores? Ele nada falou a respeito delas. Seria

proveniente de uma outra doença ou de uma área da medicina que

ele não conhece? Quem sabe ele não gostou de mim? Talvez, por não

ter conseguido fazer um diagnóstico, decidiu mandar-me embora. Ele

sorriu ao dizer a frase “Você não tem nada”. Porque será? Uma minha

amiga foi diagnosticada como não tendo nada e morreu dias depois;

não pode acontecer o mesmo comigo?

Durante uma consulta médica são exibidos diferentes níveis para

o médico e o cliente. Em cada nível ou aspecto focalizado, formamos

compreensões diversas, às vezes, contraditórias, outras vezes as informações

obtidas se somam formando um todo mais compacto. Por

exemplo: “Essa criança tem gastrenterite”; ela apresenta vômitos,

febre, diarréia, desidratação etc. Cada um desses aspectos está aparentemente

separado, mas estão interligados através de uma teoria acerca

da doença.

O paciente, durante o relato de sua história médica, induz o ouvinte/

médico a dar mais importância a certos fatos que foram selecionados

pela mente dele. O médico prestará mais atenção a certos trechos da

conversa e, além disso, durante a consulta, ele focalizará, também, sua

atenção na conduta geral do cliente como: os termos usados, a construção

das frases, a ordem lógica, os temas fundamentais descritos, as

intenções por trás dos relatos e muito mais. Esses e outros aspectos

não citados indicam claramente que a compreensão da informação

obtida durante uma consulta, ou qualquer conversa, não é construída

apenas dos relatos e observações diretas; é preciso mais alguma coisa

que é, muitas vezes, a parte principal, importante ou básica da informação.

Podemos afirmar que a mente do receptor ou ouvinte vai da

mais simples, como Maria Ingênua, a mais complexa, como Maria Sofisticada;

o que a pessoa conhecia antes de receber a nova mensagem.

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Durante uma conversa, as inferências, deduções e suposições aparecem

na mente do ouvinte e observador quando as estruturas do

conhecimento dele são ativadas, isto é, quando o ouvinte recupera

experiências ou lembranças anteriores memorizadas e fundamentos

teóricos que passam a ser usados para ajudar a compreensão. Os

conhecimentos anteriormente armazenados, possíveis de estarem

relacionados ao tema discutido, uma vez recuperados da memória

autobiográfica do indivíduo e tornados acessíveis à consciência – pronto

para serem usados – irão participar ativamente na compreensão e

resposta à conversa que está em andamento.

Como não podia ser de outra forma, as memórias diversas armazenadas

e estimuladas pela conversa ou leitura sempre dependerão do

estoque existente e, também, de sua forma ou característica. Além

disso, é necessário que o já aprendido esteja pronto para aparecer na

consciência para ser utilizado. Eu posso ter um grande conhecimento

acerca de um assunto e, no momento da conversa, esse pode não me

vir à cabeça, portanto, de nada valerá. Quando o conhecimento se

torna acessível à consciência, ou seja, foi recuperado, ele possibilitará

uma compreensão mais ampla do que está sendo discutido por acrescentar

mais informações ao tema.

Maria Sofisticada armazenou uma grande quantidade de informações

que ela utiliza durante suas conversas com o Dr. José. Sendo

crítica e tendo boa memória, ela se lembra de minúcias do ocorrido

durante o exame, de outras consultas já realizadas, dos bons e maus

médicos em geral, leu muito sobre “erro médico”. “Não poderia estar

acontecendo o mesmo comigo?” Questionou. Ela foi a outros médicos,

um deles lhe disse que ela tinha “hipocondria”, o outro lhe falou na

possibilidade de infarto e derrame. Quem tinha razão? As indagações

de Maria Sofisticada poderiam prosseguir questionando a frase simples

do Dr. José: “Você não tem nada”.

Podemos afirmar que a melhor ou pior compreensão ou decodifica-

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ção de uma informação como a acontecida na consulta – ou em qualquer

conversa um pouco mais complexa- será sempre realizada através

dos dois caminhos: as informações fornecidas pelo emissor de um

lado, nesse caso, as do Dr. José; e a outra, a produzida pela maior ou

menor sofisticação da mente do cliente, ou ouvinte, de sua prontidão,

no momento, para recuperar as informações armazenadas, auxiliares à

compreensão, que irão acrescentar outros significados e inferências à

narração do discurso ouvido.

Uma maior riqueza e disponibilidade dos conhecimentos anteriores,

chamado por alguns de inteligência potencial, será fundamental para

uma compreensão mais sofisticada acerca das informações recebidas.

Esse fator é composto de estruturas de conhecimentos diversos estocadas,

tanto específicas como genéricas, possíveis de ser lembradas e

usadas no momento da interação com o focalizado.

As estruturas de conhecimento específicas, facilitadoras da compreensão,

existentes na pessoa, incluem representações ou lembranças de

experiências particulares, leitura de textos, aulas e discussões ouvidas

etc. Muitas vezes, ao ouvirmos uma parte da fala de um amigo – principalmente

dos inimigos – lembramos que ele, por exemplo, um pouco

antes, relatou situações que contradizem o falado.

As estruturas de conhecimento mais genéricas incluem os esquemas,

os enredos, modelos, estereótipos e outros conjuntos de conhecimentos

que conseguem facilitar e dar maior velocidade para a “digestão”

do texto ou conversa que está sendo assimilada.

São essas estruturas que irão fornecer à pessoa grande parte do conteúdo

necessário para interpretar, explicar, predizer e compreender a

conversa, o texto e os eventos que estão sendo enfrentados ou observados;

em resumo, são estas estruturas que nos permitem compreender,

predizer e explicar as experiências particulares e vividas por cada

um de nós no meio ambiente experimentado.

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Quando uma situação nos é muito familiar e superaprendida, o conteúdo

das estruturas, ou seja, determinadas lembranças relacionadas

ao observado são automaticamente estimuladas e ativadas com pouco

ou nenhum esforço nosso. Quando uma nova informação aparece e só

pode ser construída a partir de ciclos cognitivos de buscas e rebuscas

na memória – uso de maior esforço – e na informação acumulada de

várias fontes na memória autobiográfica, haverá muito mais dificuldade

para a compreensão. Portanto, o ouvinte, ao compreender a conversa

– neste caso particular, a consulta – uns mais e outros menos, irá

procurar construir significados para o que está sendo ouvido; ele tentará

explicar “porque” os episódios da conversa ou atos ocorreram e

“porque” o falante mencionou certas informações particulares naquele

dia.

Dando um exemplo: Mário decidiu escrever uma carta a Alice, sua

antiga amiga. Uma possibilidade adequada inclui “queria pedir ajuda”;

“sentiu-se solitário”, “tinha uma notícia importante para ela” etc. Seria

estranho inferir ou imaginar que Mário escreveu para Alice para “pegar

na caneta”.

Ao ouvir ou ler, esperamos por algo no futuro; uma conversa acerca

de uma pessoa entrando num restaurante ativa nossa mente para

pensar que alguém deve ter ido ali para comer, beber, conversar, pagar

etc., conforme nossa memória autobiográfica armazenou. Do mesmo

modo, uma história de vingança leva-nos a esperar que alguém fira o

outro que lhe fez algo desagradável anteriormente.

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As três Marias: Informações

resumidas

Deve ser lembrado que todos os comportamentos verbais, bem

como outros comportamentos comunicativos, visam, antes de tudo, a

prender a atenção do sujeito alvo. Não há possibilidade de nos comunicarmos

com alguém caso este não preste atenção às nossas informações.

Quando transmitimos uma determinada mensagem para alguém,

nós, como emissores, tentamos sempre formar na mente do receptor

ou ouvinte outras informações, além das literalmente expressas:

Pedro, interessado em conquistar Cláudia, ao vê-la, afirma: “Você tem

belos olhos”. Em outro caso, ele pretende ajudar uma pessoa que

está trocando o pneu furado do seu carro e lhe pergunta: “Seu pneu

furou?”. Essas informações, que têm recebido o nome de “intenções

informativas”, não são claramente verbalizadas. No caso do Dr. José, as

intenções informativas deste foram seus gestos calmos, o tom de voz, a

maneira de olhar etc.

As intenções informativas simples nada mais são do que outras informações

que a pessoa – a que emite a mensagem – tenta transmitir

além do expresso literalmente. Muitas vezes, após ouvirmos uma frase,

segundos depois, percebemos o que não tínhamos notado, falando

para nós mesmos: “Ah! Só agora, percebi. Que burro fui! Ele disse que

estava gripado como desculpa para não ir; fiquei preocupado à-toa.”

A provocação ou realização de uma intenção informativa é geralmente

intencional. Uma intenção de comunicar – ou uma “intenção

comunicativa” – procura tornar conhecida uma intenção informativa

inicial (de primeira ordem), a primeira informação, a que se deseja que

seja aceita pelo receptor. Podemos imaginar que Maria Sofisticada está

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ciente que Dr. José tem por intenção, ao demonstrar calma e falar que

não há nada, fazer com que ela acredite no que está sendo dito. Nesse

caso, podemos supor que Maria Sofisticada, não a Ingênua, está de

posse do seguinte raciocínio/complexidade: “Dr. José quer que eu saiba

que ele pretende fazer-me acreditar que ele não precisa fazer nada por

mim, pois tudo está bem”.

De maneira simples, podemos afirmar que a comunicação nada

mais é do que usar um meio, ou estratégia, especial para realizar

uma intenção informativa; de um modo mais seco e desagradável, de

administrarmos nosso egoísmo junto ao outro. Através de uma intenção

informativa fornecemos indícios, genuínos ou falsos, a respeito da

informação que desejamos que o outro acredite como verdadeira.

Nós, seres humanos, alguns mais, outros menos, usamos e abusamos

de técnicas para construir, ou melhor, inocular estados mentais e

emocionais nas pessoas. Constantemente estamos provocando intenções

como no exemplo:

“Luiz come diante de Marta, demonstrando extremo prazer pela

feijoada preparada por ela.”

Com esse gesto, Luiz tenta agradá-la para mudar as intenções de

Marta para com ele. Naquele dia, ela estava possessa. Era preciso

acalmá-la. Um observador que não conhecesse as intenções de Luiz

poderia imaginar que ele estivesse faminto. Por outro lado, se Marta

percebesse a intenção de Luiz – comer muito para agradá-la e acalmá-

-la – a conduta de Luiz poderia não surtir o efeito desejado.

Um comportamento comunicativo, construtor de idéias, emoções

e intenções no espírito dos receptores, pode ser feito por meios não-

-verbais e verbais. João pode estabelecer contato visual com Lúcia,

sua superiora; pode ainda olhar para o chão, andar devagar, esfregar o

rosto com as mãos etc., tudo isso para auxiliar a compreensão de sua

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intenção afirmativa; a de que está doente, precisa ir para casa e procurar

um médico.

Conforme o discutido, não há possibilidade clara e objetiva de sabermos

as intenções mais escondidas do Dr. José; sabemos as mais superficiais,

por exemplo, uma de suas intenções básicas foi fazer com que

Maria acreditasse no que dizia. Mas durante uma ironia podemos fazer

o oposto; falar algo de um certo modo que leva o receptor a saber que

o afirmado quer dizer outra coisa diferente. No caso do médico, o Dr.

José, ao fazer gestos e usar certos tons de voz, tentava mostrar calma

intencionalmente para provocar nas Marias que ele não estava tenso

e nem preocupado com estado físico delas, pois tudo estava bem. Mas

é possível que ele quisesse dizer alguma coisa a mais do que foi falado

e demonstrado pelos seus gestos. Hipoteticamente, tudo o que ele

fez pode ser falso; não só em virtude dele ter uma intenção falsa por

algum motivo próprio e desconhecido para nós, como também devido

a uma incapacidade dele de fazer o diagnóstico mais acurado. Se

pensarmos conforme essas hipóteses, o Dr. José podia estar enganando

Maria, fingindo que tudo estava bem, para, posteriormente, tomar

outras medidas necessárias junto a outros médicos ou familiares dela

devido a gravidade do caso.

Se alguém em quem você confia quer que você acredite em algo, há,

frequentemente, boas razões para que você acredite no falado. Essa

situação acontece nas relações usuais que temos com nossos pais e

educadores. Estes nos informaram, em épocas passadas, uma série de

dados e interpretações acerca das relações entre pessoas, da nossa

família, da constituição e formação do mundo etc., todas bem intencionadas.

Mais tarde, lamentavelmente, percebemos que muitas informações

eram falsas. Nossos educadores e pais nos informaram tudo

isso com a boa e santa intenção de nos ajudar; de não nos fazer sofrer

diante da realidade dura e crua. Além disso, eles foram competentes

para pôr em prática suas intenções; nos informar erroneamente acerca

do mundo e das pessoas.

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Quando uma pessoa tem uma intenção fundamental, espera-se que

ela se esforce para que outras crenças ligadas à principal sejam aceitas

para que a intenção principal seja realizada. Uma condição necessária

para que ocorra isso é a de que o receptor, ou alvo da intenção, acredite

que a informação que o comunicador quer transmitir é importante

e, também, que é verdadeira. Em outros termos, todo ato de comunicação

e, em particular, toda afirmação, contém uma presunção de sua

própria relevância, do contrário ela não seria emitida.

Se o ouvinte postular que o falante é bem intencionado e competente,

como fez Maria Ingênua e, portanto, que a afirmação dele é importante

e verdadeira para ela, nesse caso, fica simples e fácil decifrar a

mensagem. Isso acontece mais nas relações entre pais e filhos, menos

um pouco entre os cônjuges e amigos, e menos ainda em outros encontros.

Mas na terceira estratégia, a da Maria Sofisticada, a interpretação

fica extremamente mais complicada. Nesse caso, não se supõe que o

falante seja bem intencionado, também não se acredita piamente na

sua competência: todas essas características são examinadas através

de outros dados da experiência e do conhecimento geral do ouvinte

fora do contexto enfrentado no momento. Neste modelo admite-se ou

acredita-se somente que o Dr. José procura formar uma intenção no

ouvinte de que é bem intencionado e competente.

A Maria Sofisticada, como nas outras estratégias interpretativas,

deve seguir o caminho de menor esforço, mas não se deter na primeira

interpretação tida como importante que vem à sua mente – na primeira

idéia acomodada ao ninho – nem na primeira interpretação que o

falante pode ter pensado que fosse importante o suficiente para ele.

Quando se considera a ironia, bem como outras interpretações de

notícias e outros conteúdos que comentam o afirmado, isto é, informam

além das informações fornecidas literalmente pela fala ou escrita,

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torna-se evidente que os comunicadores usam muito suas interpretações

particulares acerca das informações primárias, e muitos interpretam,

por sua vez, as interpretações existentes, e assim por diante, tornando

o informado cada vez mais complexo e difícil de ser entendido

e exposto em nossa mente, ao mesmo tempo. Isso não implica que os

comunicadores, durante esse tipo de informação estejam conscientes

da complexidade de seus raciocínios. O que está implícito é que cada

uma dessas representações mentais assenta-se em diferentes camadas,

uma em cima da outra; sendo que cada uma das camadas terá que

ter um papel diferente na compreensão do ouvinte ou leitor. Por isso

elas são difíceis.

Boa parte da comunicação cotidiana se efetua entre pessoas que são

bem intencionadas umas em relação às outras; elas se conhecem bem

reciprocamente. Em tais circunstâncias, a técnica da Maria Cautelosa

– mesmo da Maria Ingênua – pode servir como estratégia de interpretação

“usual”; não havendo necessidades de utilizar níveis mais altos e

complicados como as envolvidas nas compreensões sofisticadas. Mas

quando a estratégia ingênua ou cautelosa fracassa, seria interessante

usar as estratégias sofisticadas para realizar deduções complexas.

O Dr. José transmitiu à Maria uma informação que pode, como vimos,

ser interpretada de diversos modos, indo do mais simples, aceitando

as intenções dele e sua alta competência; que foi bem codificada

na frase “Você não tem nada” sem outras intenções ou objetivos. Pode

também ser examinada sob a ótica mais complicadas como a das duas

Marias; Cautelosa e Sofisticada, que colocaram em dúvida suas intenções

explicitadas ou sua competência. Essas Marias utilizaram diversos

comentários ou análises das informações exibidas pelo Dr. José: o que

ele disse, gestos, histórias particulares delas e outros conhecimentos

adquiridos. Diversos outros exemplos nos levam a imaginar o uso de

técnicas semelhantes para examinar informações usadas frequentemente

por todos nós: “Vamos dar um tempo”; “Para mim está tudo

acabado”; “E agora José…”

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Nosso Povo

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Entardecer de uma estrela:

“BIG BROTHER”

Se ligo uma TV e vejo um jogo de futebol, uma corrida de carro ou de

maratonistas, eu chamo esses eventos de esporte; se assisto uma novela,

um filme, leio um romance ou uma poesia, observo uma pintura

ou ouço uma canção, chamo isso de arte. Essas atividades são fáceis

de categorizar. Do mesmo modo, se estudo num livro de Biologia ou de

Física, sei que eles descrevem ciências diferentes; ao ler a Bíblia, o Talmude

ou o Alcorão, sei que estou recebendo ensinamentos religiosos.

Cada uma dessas atividades ensina, emociona e, muitas vezes, promove

o desenvolvimento e crescimento do ser humano.

Por outro lado, se ligo a TV e vejo um amontoado de jovens bonitos

e atléticos, totalmente “perdidos na noite”, torna-se difícil encontrar

algum conceito conhecido e, principalmente, elegante para categorizar

os acontecimentos observados. Os telespectadores diante da tela, ao

assistirem o programa “Big Brother” ficam perdidos, como os “atores”

se encontram.

Aquilo não é arte, não é esporte, não é religião e muito menos,

ciência. Seria diversão pura e simples, com informação zero? Talvez

não seja nada…um nada que não constrói, que não contribui para o

desenvolvimento humano, que talvez só sirva para alimentar a bobice:

uma bobice altamente desenvolvida, que alcançou seu limite máximo,

possível e suportável.

As imagens mostradas naquele jardim zoológico chique, os rosnados

ouvidos – não há diálogos próprios do homem civilizado – nos incita

à regressão, isto é, a um retorno aos animais que nos habitam, que

dominaram o homem primitivo, que nascemos com eles, mas que a

educação e a cultura de alguns, não de todos, domesticou. Observan-

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do-os, enxergamos condutas que lutamos para ficar livres delas, pois,

somente assim, conseguimos construir uma sociedade dita civilizada.

Estranhamente, o “nada” exibido pela TV atraiu uma multidão de

pessoas, assim como riscos e rabiscos coloridos e em movimentos na

tela das televisões atraem as crianças recém-nascidas, ou seja, possuidoras,

até aquele instante, somente do cérebro biológico primitivo.

Como é triste ver seres humanos atraídos por rabiscos ou por um lixo

desses. Seria diversão ou regressão?

Todas as grandes religiões nasceram no Oriente (Cristã, Budista,

Islâmica etc.); todas as grandes Ideologias nasceram no Ocidente (Comunismo,

Democracia, Nacionalismo etc.). Nós participamos de uma

civilização Latino-Americana, diferente das orientais e ocidentais; mas,

por outro lado, sofremos pressões da religiosidade e ideologia de ambas.

Entretanto, segundo alguns pensadores, ainda temos condições de

nos libertar dos dois domínios e construir uma civilização Latina, mais

nossa, menos controlada, na qual nossos valores e identidades possam

emergir. Mas, para que isso aconteça, torna-se necessário jogar longe a

manta que nos encobriu e que não é e nunca foi nossa.

Gustave Flauber, no seu livro “Madame Bovary”, descreveu seus

personagens como idiotas: Ema Bovary; seu marido médico; o farmacêutico;

o amante e fazendeiro de botas brilhantes etc. Nós, agora,

possivelmente, seríamos também descritos por Flauber como personagens

idiotas no cenário global, ao gastar nosso tempo assistindo as

bobagens plagiadas e importadas de países europeus e americanos.

Há anos atrás, o filme “Eles Matam Cavalos, Não Matam? de Horace

McCoy que serviu de roteiro de “A Noite dos Desesperados” de Sydney

Pollack , mostrou-nos o esforço de uma mulher para vencer uma maratona

de dança e ganhar uns trocados durante a depressão dos anos 30

nos USA. Ela dança até a exaustão. Aqui a exposição pública vale 500

mil reais. E os cavalos como ficam? Eles são sacrificados quando não

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têm mais chances de sobrevivência, não são? Penso que já foram!

O “Big Brother” começou mal; a apresentadora, ao conversar com os

candidatos ao prêmio disse:

— Gente, os pares já estão se formando.

Isto foi falado cinco minutos após o início da atração.

— Será que alguém vai dormir juntinho essa noite? insinuou Marisa

imitando a cara de idiota da personagem Magda de “Sai de Baixo”.

Entre os participantes, Kleber mal chegou e foi dizendo:

— Gosto de menina malhada. Por isso, se tiver que traçar alguém,

que seja a Xaiane.

Parece que, com o tempo, ele não se mostrou tão fanático quanto ao

sexo feminino, como afirmou inicialmente para o público.

Para piorar, houve uma procissão pelas ruas do Rio e esquema de

exibição, divulgação, promoção e venda montado pela Globo. TV aberta

e fechada, rádios, revistas, jornais e internet, para operar em conjunto

e faturar publicidade. A promoção valeu: o programa de estréia

aprisionou uma audiência média de 49% em São Paulo, projetando um

público de 56 milhões de pessoas em todo o Brasil, um terço da população

brasileira. Nada a declarar… Eu devo estar errado.

Os animais/personagens foram mostrados para um público que

implora o comando de “Novos Deuses”. Com a ausência transitória do

Deus primeiro, único e puro, vários candidatos tentam apoderar-se da

vaga, infiltrando-se nas religiões e, muitas vezes, dominando-as, usurpando

o lugar e as idéias sagradas. O Deus maior e antigo está sendo

abandonado; as religiões nascidas do Oriente enfraqueceram e mor-

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em dominadas ou destruídas pelas ideologias dos países ocidentais.

O show e o espetáculo contaminam todos; como vírus, atingem

agora as igrejas. A representação teatral intromete-se e imiscui-se em

tudo; artistas, padres, pastores e participantes do “Big Brother”, todos

desejam o sucesso, o prestígio e o lucro financeiro. O Deus antigo, detentor

dos princípios de justiça, foi derrotado; em seu lugar nasceram

deuses diversos ligados à ideologia-religiosa do lucro; os novos deuses

sonham o dinheiro fácil e a fama.

Tudo está sendo transformado em espetáculo: o sequestro, o estupro,

a fuga, o incêndio, a doença do prefeito, a morte do promotor e do

comissário da ONU, os bombardeios no Iraque, a declaração da mãe da

terrorista-bomba. Há uma reiterada busca das celebridades; o limite, as

pegadinhas do Gugu ou do Faustão; a mulher – no Ratinho – que mais

xinga e bate no amante ou o senhor e senador que melhor age como

idiota. Na platéia, gritando histericamente, todos invejam, babando, o

idiota que representa, ou é a própria bobice humana.

“Tá tudo dominado!” Assistimos e vibramos com a exibição do Lixo

Cultural (Faustões, Ratinhos, Gugus, Leões, Xuxas, Gimenez etc.), que

constroem e destroem, com incrível rapidez, todo candidato à celebridade.

São eles que, antes de desaparecerem, como fumaças carregadas

de fuligem, irritaram nossos olhos e nosso cérebro.

A cultura é subjugada e derrotada pelo poder sem freio da diversão;

a vida se torna o desempenho de um papel desejado ou imaginado.

Estamos retrocedendo; em lugar de uma cultura “carnavalesca”, importamos

a “cultura do lixo” na qual tudo é embrutecido, vulgarizado

e banalizado, em que o espalhafatoso e imbecil é mais observado e

aplaudido do que o evento que, talvez, tivesse algum mérito.

O grupo dominante critica as relações na qual ainda restam laços

entre as pessoas envolvidas, ligações que nasceram de tradições e valo-

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es morais comuns aprendidas durante milhares de anos; tudo isso está

sendo jogado fora, abandonado, emporcalhado pelas sobras dos novos

deuses. A meta principal passou a ser o divertimento, a força mais

poderosa, insidiosa e perigosa existente; ela, aos poucos, segue o profundo

e profético pensamento de Nietzsche: “Sempre que um homem

almeja persistente e longamente parecer outro, acaba tendo dificuldade

de ser ele mesmo de novo”. O Brasil está seguindo a profecia.

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Os maiorais

Alguns sujeitos têm mais sorte que outros: são percebidos pela

população como possuidores de características muito “superiores” às

normais, por isso são chamados de “gênios”, “santos”, “heróis”, artistas

excepcionais, craques tipo Pelé ou Ronaldinho ou “grandes bandidos”

como o “Fernandinho” e o “Bandido da Luz Vermelha”. Esses indivíduos

não se transformaram apenas em bons médicos, excelentes atletas ou

artistas, eles se transformaram em mitos; chamo a atenção do leitor,

pois uma coisa é diferente da outra.

Alguns indivíduos abandonaram sua “humanidade”, isto é, as mazelas

e singularidades positivas e negativas próprias dos homens; sofreram

uma metamorfose, deixaram a pele humana e passaram a usar

vestimentas gloriosas dos maiorais; tornaram-se “heróis”, “santos” ou

“malfeitores” extraordinários.

Faço uma pergunta para mim mesmo: O que faz com que um determinado

indivíduo, aos poucos, deixe de ser homem e torna-se mito?

O que leva uma pessoa a receber uma categorização de tão alto nível?

Não estou falando de uma habilidade comum como “ter um bom

ouvido”, uma “bela voz” ou uma boa memória. E muito mais: Por que o

processo de cristalização dessas honrarias ou acusações se deu em torno

daquele determinado indivíduo e não de outro qualquer? De modo

concreto: por que Santo Antônio tornou-se santo numa certa época e

não antes ou depois e, além disso, santo casamenteiro; S. Judas Tadeu

metamorfoseou-se em protetor das “causas perdidas”; Fernandinho

Beria-Mar, virou um perigosíssimo bandido?

Frustro o leitor. Não tenho respostas; tenho especulações. Talvez

certos indivíduos são possuidores de determinados aspectos físicos,

intelectuais ou morais que se adaptam melhor a uma história mítica

preexistente, bem conhecida, contada repetidamente. Um certo modo

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de ser, de olhar, andar, bem como as roupas usadas etc. facilitariam

uma melhor assimilação conforme o modelo de “Cinderela”, enquanto

outro se assemelha mais ao estereótipo de “demônio”.

Todos nós, muito cedo, ouvimos, emocionados, histórias míticas ou

lendas, contadas pelos nossos pais, avós, professoras, entre elas: Gata

Borralheira, Chapeuzinho Vermelho, Robin Hood, Gúliver. Por outro

lado, também os jornais, filmes e TVs nos informaram acerca de bandidos

espetaculares e craques fora-de-série. Pode ocorrer que, mais

tarde, ao observamos certas condutas, determinamos e selecionamos

certos aspectos da pessoa e, após enfatizá-las, identificamos os atributos

com as características armazenadas em nossa mente do mito: “Oh!

É a própria Gata Borralheira!”; “Esse é outro Pelé!”; “É outro bandido

da mala”. Com as pistas e as noções memorizadas da lenda aprendida,

associamos alguns fatos percebidos do indivíduo alvo. Os fatos

selecionados e enfatizados, muitas vezes, são características quase ou

nada significativas, seja no aspecto físico, seja na conduta do indivíduo

observado para que seja dado o rótulo final de gênio ou de santo. De

posse das idéias da lenda armazenadas em nossa memória, assimilamos

o cidadão focalizado e passamos a classificá-lo disso ou daquilo.

Não sei se essa explicação tem algo de verdadeiro; mas é um palpite

meu nesse momento.

Mas vamos um pouco além dessa idéia; pois já penso ser ela simples

demais; até um pouco boba. Talvez ganhe mais sua atenção com

as novas suposições que acabei de ter. Na maioria das vezes, o rótulo

colocado é percebido pelo “rotulador” como tal, ou seja, como rótulo.

Nesse caso, o “rotulador” reconhece claramente que o rotulado não é

o personagem do mito. Exemplificando: a pessoa sabe que o símbolo

por ele usado ao chamar determinada mulher de “Gata Borralheira”

não representa a realidade; pois ela é, de fato, a lavadeira Teresa.

Entretanto, algumas vezes ficamos confusos e podemos confundir as

idéias estocadas em nossa mente com respeito ao mito com a pes-

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soa identificada e, posteriormente, rotulada. Nesse caso, passamos

a acreditar que Teresa é a “Gata Borralheira” e não a lavadeira. Não

se assustem, isso não tão raro assim; é bastante comum; isso torna a

coisa complicada. Passamos a denominar e, logicamente, a enxergar

ou tratar a pessoa rotulada conforme o rótulo usado: gênio, herói,

santo, milagreiro etc. Assim, passamos a acreditar totalmente na nossa

categorização, no rótulo usado, deixando de lado o exame ou as observações

possíveis de serem realizadas.

Vamos imaginar, como exemplo a afirmativa: “Minha mãe foi uma

santa”. Se repetimos isso diversas vezes, contamos para os outros e

para nós mesmos, aos poucos, para nós, ela se torna “santa”. Entretanto,

ela jamais agiu conforme as determinações dos candidatos a santos,

mas passamos a acreditar nas nossas idéias, que eram inicialmente

meras suposições e, numa época, sabíamos que estávamos conjecturando.

Aos poucos, com segurança, sem dúvida, passamos a acreditar

na nossa idéia delirante; que nossa mãe, sem dúvida nenhuma, foi

mesmo uma santa; não a do pau oco. Nesse caso, falamos que houve

uma transformação do real para o ideal. Como afirmou o “gênio” Pascal:

““Aja como se acreditasse; reze, ajoelhe-se e você acreditará, a fé

chegará por si””. Você poderá lembrar de outros rótulos: burro, bonito,

inteligente, esperto, molenga, educado.

Vamos a outro exemplo: por mais que a pessoa demonstre que ela é

gente como a gente, como ocorreu com Maria da Silva que tem diarréia,

menstruações dolorosas, alimenta e defeca, age, muitas vezes,

burramente, como todos nós, passamos a imaginá-la como santa, gênia

ou uma perigosa bandida, isso não importa; ela passa a ser classificada

como muito diferente de nós. Num grau semelhante e muito frequente,

não sei bem se pequeno ou grande, a rotulação inadequada ocorre

quando amamos ou odiamos alguém. Embevecido, arrebatado pelo

desejo e paixões avassaladoras, Amadeu visualiza e categoriza sua

amada não como ela é de fato: com sua perna fina e as coxas grossas,

um ombro mais alto do que outro, a testa cheia de rugas. Ele a enxerga

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sim, conforme os mitos que possui acerca da beleza e elegância e, inconscientemente,

como afirmou Pascal, passa a enquadrá-la: ““um corpo

esbelto, uma testa lisa e sedosa, olhos brilhantes e sedutores e uma

sagacidade de espantar, um amor de mulher””. A “sabedoria” popular

tem um provérbio para resumir tudo isso de forma mais simples e mais

exata do que escrevi: “Quem ama o feio, bonito lhe parece”.

Portanto, algumas pessoas se transformam em mito para um indivíduo

– como exemplifiquei acima – outros, para um grupo, país ou

para grande parte da população, como ocorreu com a Irmã Teresa de

Calcutá. Esta, como consta na sua história, viveu parte de sua vida

como uma santa, mas não toda a vida. Sei que é difícil ir contra esse

estereótipo para os seguidores do catolicismo; alguns leitores não gostaram,

franziram a testa reprovando minhas especulações. Mas essa

afirmação encaixa-se no exemplo geral do que estou descrevendo: uma

transformação ou um estereótipo mítico de uma pessoa que viveu, até

uma época de sua vida, como todos nós.

Podemos dizer, de uma outra maneira, que a população absorveu

a pessoa indicada, que ela se encaixou no assimilador mítico preexistente

(mito do herói, do rei justo, do fora-da-lei, do nobre, do santo,

do sábio etc.) como pessoa mítica, isto é, possuidora de características

excepcionais anteriormente já descritas para outras figuras mitológicas.

Esse encaixe do indivíduo ao mito do herói, santo ou demônio, apareceu

muito cedo na imaginação dos homens.

Uma vez iniciada a construção do mito, ou seja, a transformação de

um homem normal num mítico-excepcional, esta edificação continua

através de sua vida. A partir do seu reconhecimento como homem

extraordinário, seus novos feitos ou condutas, geralmente semelhantes

às de todos nós, passam a ser vistas de forma deformada pelo novo

estereótipo existente. A conduta do ser mítico é observada e julgada

com os novos óculos usados, o novo prisma deformador da realidade,

de acordo com o rótulo recebido: santo, herói, malfeitor, um amor de

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mulher, super-honesto ou outro qualquer.

Nomeado herói, santo, craque, grande artista, os esforços são feitos

para que ex-candidato à figura mitológica, uma vez empossado no

cargo, se estabilize, ou seja, não retorne à sua normalidade anterior, a

de um homem medíocre como são os homens comuns como eu e você

leitor. Dessa forma, os fatos ocorridos anteriormente – antes da pessoa

ter se tornado uma “figura mítica”, a “santa” ou o “herói” – passam

a ser examinados de maneira deformada; procuramos dar aos fatos

comuns uma conotação “santificada”, “heróica”, para se adaptar ao

novo status atingido. Ele não é mais um homem qualquer, logo, não

mais pode ser examinado como tal, ele agora é Chico Xavier, um santo,

um homem extraordinário, boníssimo; não poderemos mais enxergar

nele as características humanas que todos possuímos, pois ele é um

ser diferente; só pode ser examinado, observado e avaliado conforme

o molde mítico existente na mente dos observadores; sentimos mal,

asco, se usarmos nosso assimilador mental normal para examinar Moisés,

Chico Xavier, Madre Tereza, Freud, nosso pai, mãe e, logicamente,

nossa amada namorada.

Temos a tendência de manter inalterável um determinado modelo

que temos das pessoas com as quais lidamos. Assim, por exemplo, se

gosto de uma pessoa, procuro atos seus que comprovem minha hipótese,

inclusive os fatos que aconteceram antes de conhecê-la, por

outro lado, não percebo, não aceito ou não acredito nos eventos que

negam as crenças existentes em minha mente; se odiar, uso o raciocínio

oposto.

Muitas vezes, após aceitarmos por muito tempo algum indivíduo

como super-homem (herói, bandido etc.) damos uma rasteira no seu

prestígio, destruímos sua santidade ou heroísmo, transformando-o

num homem normal. Isso tem ocorrido entre os grandes estadistas e

mesmo entre os santos, alguns foram destituídos do status que gozavam.

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O candidato a covarde ou herói, demônio ou santo, dando tudo

certo, não surgindo nenhum acidente de percurso, se transforma em

mito e passa a ser admirado como tal. Mas não devemos nos esquecer

do essencial: fomos nós, os “rotuladores”, que o construímos, para isso

usamos mais os símbolos de histórias míticas anteriores, e menos a

realidade observada.

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Amanhecer sem Futuro: Fortunato

e Felicidade vão às Compras

Fortunato e Felicidade, casados e sem filhos, ele gerente de supermercado,

ela, caixa de banco, como seus amigos, jamais per deram uma

liquidação como aquela marcada para acontecer no fim de semana.

Os devotos fiéis, adoradores de mercadorias desne cessárias e descartáveis,

encurvados, avidamente procuraram nos encartes dos jornais

se inteirar do local e horário da sensacional liquidação, onde seriam

vendidas as novas e as velhas bugigangas indispensáveis para habitarem

nossas casas.

Às nove horas da noite de sábado, o casal saiu de casa e tomou o

ônibus em direção à loja onde ia ser realizada a grande liquidação.

Centenas – ou milhares de pessoas – companheiros de Fortunato e Felicidade,

submissos e obedientes, fazendo parte desse imenso exército

bem treinado de compradores fanáticos e compulsivos, esperavam,

preocupados, ocupar os primeiros lugares da fila, pois assim teriam

maiores chances de alcançar, antes dos outros, os ob jetos disputados.

Depois da longa viagem de ônibus, o casal chegou à porta da loja

ainda fechada, onde se descortinava uma enorme fila. Os sortu dos que

ocupavam os primeiros lugares sorriam satisfeitos perante os invejosos

concorrentes, um tanto desanimados com a diminui ção das oportunidades.

Dois a três minutos de atraso poderia ser fatal, tempo necessá rio

para que as mais cobiçadas ofertas, num piscar de olhos, desaparecessem

das prateleiras. A porta seria aberta às 6 horas da manhã de

domingo. A publicidade bela e colorida anunciou, por diversos dias, as

ofertas que seriam vendidas a “preços nunca vistos”.

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Na madrugada escura e fria, uma chuvinha miúda caía sem se importar

com a multidão solitária formada em torno do prédio. Tensos,

silenciosos, cada um por si, todos esperavam a sirene dar a partida: os

compradores imaginavam as fantásticas compras. De mãos dadas, do

lado de dentro da loja, vendedores rezavam pedin do a Deus para que

tudo acabasse o mais rápido possível, pois a tempestade dos desesperados

estava perto de desabar a qualquer momento.

A hora ia se aproximando: 5:00 horas, 5:30 horas. Todos, a postos e

em pé, começam a se preparar para a ação. Às 5:45 horas, os concorrentes/compradores

começam a tirar suas roupas, em se guida entregam

suas vestimentas e pertences aos funcionários/po liciais da empresa

ou aos parentes e amigos acompanhantes, pois, como foi anunciado,

todos fariam suas compras despidos. Os ami gos, caso tivessem, tomariam

conta das roupas e, posteriormente, serviriam de guardas para as

compras efetuadas.

5:48 horas. Centenas de compradores nus, debaixo da chuva, começam

a esquentar as pernas e as mãos na esperança de conse guirem

agarrar mais objetos no menor tempo possível.

6:00 horas. Finalmente a hora chega: o relógio da matriz, hoje pouco

frequentada, bate demoradamente às 6 horas desse domin go triste.

Toca a sirene estridente, carregada de energia potencial, que liberará,

em seguida, nos corpos ainda frios, uma imensa quan tidade de energia

cinética e calórica.

É dada a partida! Começa a competição desenfreada: homens e

mulheres nus expõem, uns para os outros, suas marcas corporais até

então bem escondidas. Hoje tudo será exposto à visitação do grande

público: gorduras caídas, seios e bundas murchas, cicatri zes, tatuagens,

manchas escuras, vermelhas e purulentas, espinhas, verrugas, rachas

e pintos murchos, tristes e desnecessários e sem fun ção no momento,

pêlos escuros, lisos e eriçados, louros, pretos, pin tados, descoloridos e

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ancos, em profusão. Tudo irreconhecível.

Como cavalos e éguas livres dos cabrestos, rinchando, ho mens e

mulheres ofegantes movem-se em disparada em direção ao cocho

onde estão expostos os alimentos cobiçados. Mantendo os olhos fixos

e esbugalhados, as mãos duras e esticadas em dire ção às prateleiras,

cada comprador saboreia, virtualmente, antes de agarrá-la, a mercadoria

sedutora à mostra.

Na arena da imensa loja, aterrorizados e enfurecidos, imagi nando

não conseguir alcançar a ração sonhada, animais aflitos dis putam a carne

ainda possível de ser abocanhada. Trava-se uma luta feroz. Corpos

tensos e agitados correm velozmente de um lado a outro, avançam,

recuam, caem, trombam e esfregam-se uns contra os outros, deixando

um rastro de suas sobras. Um odor fétido e asfixiante se desprende

de suas peles cobertas de suor. De suas bo cas semiabertas escorrem

salivas grossas e espumosas sem tempo de serem engolidas. De suas

bexigas, contraídas pelo desespero, pingam gotas de urina exalando

seu cheiro peculiar. De seus ânus relaxados pela incomensurável apreensão,

escorrem fezes semilí quidas e nojentas.

Entretanto, lá dentro, naquele momento, nesse campo de luta pela

sobrevivência, sem asco e sem atração, bumbuns desco nhecidos,

soltos, moles, que não seduzem e nem agridem, encos tam-se e afastam-se

indiferentes, presos aos seus donos na busca pela sonhada e

sedutora tigela amarela, da espreguiçadeira para ver a vida rolar, ou da

garrafa térmica colorida agarrada pelo sor tudo mais rápido.

Fortunato uiva ao segurar com suas mãos vigorosas um fer ro em

bom estado. Felicidade berra hilariante diante da posse da panela, que

sobrou na prateleira quase vazia. Prendendo a relíquia junto ao corpo,

ela corre, triunfante, para mostrá-la ao marido. Um homem magro, de

peito escavado, avança sobre Felicidade e puxa a panela presa entre os

seios.

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Os dois rolam pelo chão lutando pela posse do troféu. For tunato,

alertado pelos gemidos conhecidos, ao tentar salvar a pa nela de Felicidade,

abandona, por instantes, seu precioso ferro, correndo em auxílio

à mulher. Eufórico e agitado ao reconquistar a panela perdida, ele larga

Felicidade ferida no chão. O ferro de Fortunato, solto de suas mãos,

foi seguro rapidamente por uma mulher sardenta e magra, que foge

correndo com ele escondido entre as coxas gordas e brancas. Fortunato

avança como louco so bre a mulher que abocanhara seu ferro,

derrubando-a e ferindo-a no nariz. Levanta-se abraçando o ferro em

uma das mãos e a panela na outra, segurando-os contra o peito nu.

Tenta, esquecendo que não está vestido, escondê-los das outras feras

predadoras que dese jam apoderar-se do seu alimento. Felicidade consegue,

após alguns segundos, levantar-se. De sua boca ferida escorre

um sangue ralo, misturado à saliva que é cuspida no chão imundo. Ela

olha com pe sar para as prateleiras quase vazias. As mercadorias mágicas

estão chegando ao fim.

Empurrados de todos os lados, alguns caem e uivam, não por terem

sido jogados ao chão, mas sim porque a queda atrasou em alguns

segundos a ida ao alvo sonhado. Pisoteados, blasfemando, Felicidade e

Fortunato olham desolados para o sonhado conjunto de pratos fundos

avermelhados quando esse é pego por um homem alto de ombros

largos, bem em frente dos olhos espantados do ca sal, conjunto esse no

qual almoçariam junto à família no domingo de páscoa.

Fortunato soluça, seus olhos, encobertos pelos óculos verme lhos

que pegara num cesto quase vazio, lacrimejam. Um inimigo en furecido

abraça Fortunato por trás, dando-lhe uma “gravata”, numa tentativa de

apoderar-se do seu ferro. Jogado ao chão, e depois pi soteado, Fortunato

vê seus óculos vermelhos se espatifarem, óculos que iriam substituir

sua visão do mundo no próximo verão.

O estoque chega ao fim. Termina a liquidação. Agora só resta entrar

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na fila para procurar os guardas que tomaram conta das rou pas, dos

cartões de crédito e de cheques para fazer o pagamento.

As filas começam a se formar. Termina a festa com os uivos de alguns

que ainda rolam no chão agarrados a restos de papelões rasgados,

manchados de urina, fezes e sangue, mesas, cadeiras e peças quebradas,

copos, xícaras, tigelas, rádios, fios de cabelos e cabeleiras pisoteadas.

Entretanto, apesar de tudo, a multidão sai da loja esperanço sa, alegre

e animada. Segundo os anúncios estampados com letras enormes

nas paredes, no próximo ano haverá outra liquidação, maior ainda do

que a agora terminada e, na entressafra, a massa atenta detectará e

consumirá rapidamente todo e qualquer novo produto lançado. Alguns,

na fila, comentam eufóricos os novos medicamentos lançados,

imaginando usá-los logo, antes que desa pareçam do mercado ao

mostrar sua ineficácia. Uma vez vestidos, cantarolando, segurando com

firmeza o ferro e a panela, Fortunato e Felicidade, unidos, caminham

felizes sob a chuva miúda, satisfei tos pelo dever cumprido.

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Metamorfose

Final de férias. Começo de aulas. Naquela manhã, ao abrir os olhos,

percebi que meu corpo se transformara. Ao passar as mãos pelo meu

rosto, notei que este, bem como minhas pernas e braços, estavam diferentes.

Até meus órgãos sexuais não eram mais os que estava acostumada

a ver e tocar. Em pânico, sem rumo, a princípio procurei não mais

me examinar; tinha medo de descobrir coisas piores. Entretanto, a

curiosidade foi mais forte e, medrosamente, comecei a olhar e a pegar

nos novos tecidos que cobriam meu or ganismo. Tragicamente, concluí

que meu corpo não era mais o da menina de treze anos que conhecia.

A cabeça pesava. Cambaleando fui até o banheiro, ainda não me

despertara completamente. Apesar do sofrimento que antevia, senti

uma atração pelo espelho. Era preciso examinar-me melhor, mais uma

vez. Quase desmaiando, abri a torneira da pia, apanhei uma porção de

água fria e molhei, demoradamente, meu rosto es pantado. Desejava

ficar livre, o mais depressa possível, desse pesa delo. Diante do lavabo,

ainda sem olhar para o espelho, eu pergun tava-me: “Como seria vista

pelos outros?” Sempre de cabeça baixa, olhei fixamente para a água

que escorria devagar. Sabia que prote lava, até onde podia, a revelação

final. Mas, o que fazer? Não sabia, minha mente jamais trabalhara com

um problema como esse.

Tentava não fixar meus olhos no velho e conhecido espelho. Ele, até

aquela data, sempre fora calmo e honesto. Ali quieto, de pendurado

na parede, ele observava-me de longe, pronto, e talvez até desejando

revelar-me a verdade.

Era ele que todas as manhãs examinava-me minuciosamen te com

seu olhar crítico, justo e severo, às vezes, bondoso. Ja mais evitou dialogar

comigo inventando desculpas, como, por exemplo, dizendo que

estava ocupado com outra pessoa, ou sem tempo para mim. Ele sem-

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pre estava à minha disposição, bastava aproximar-me dele.

Era desse espelho amigo que eu recebia os mais diversos pa receres:

“Hoje você dormiu demais, não devia ter ficado até tarde vendo aquele

filme”, “Você está ótima”, “Que cara mais esquisita. Está com raiva?”

O espelho dava-me conselhos, alguns agradáveis, outros alarmantes:

“Está comendo demais, ficará gorda como uma elefanta.” Eu ficava

radiante quando ele, sorrindo, dizia-me: “Você hoje está linda! Este

penteado fica muito bem em você, conquista rá todos os colegas.”

Mas ele dava-me outras mensagens, além das críticas e elogios, dava-

-me apoio. Algumas vezes ele ficava penali zado com meu sofrimento:

“Estou com dó de você, mas nada posso fazer, é preciso acordar, pois já

está na hora de ir para a escola.”

Após rodeá-lo por alguns momentos, decidi examinar-me no espelho

pois, apesar do medo, eu confiava nele, ele era honesto. Queria acabar

com a dúvida, receber um diagnóstico final através daquela entrevista,

que acontecia todas as manhãs. Além disso, es tava curiosa para ver sua

reação diante do meu corpo. Pensando assim, levantei minha cabeça

e olhei, corajosamente, para o espe lho. Mas, logo em seguida, estava

arrependida do que havia feito. Vi, para minha tristeza, do outro lado

da parede, o que não queria ver: meu organismo transformado. Eu era

outra pessoa mesmo, não havia mais engano, não estava mais dormindo.

O meu amigo espelho, mais sério do que de costume, apesar de

manter sua pru dência e serenidade, ficou confuso. Deu-me a impressão

de ter fica do desapontado por não ter encontrado e dialogado com

a pessoa esperada. Logo após olhar-me, emudeceu. Também, não era

para menos, esperava conversar e emitir um parecer para uma pessoa,

não para aquela desconhecida. Engasgado, meu avaliador não conseguiu

dar-me nem mesmo o seu habitual bom dia.

Irritada com esse comportamento, pisei duro no chão e saí dali zangada.

Antes, fechei a cara e fiz caretas, as mais feias que co nhecia. Ele,

por sua vez, demonstrando ódio, devido aos meus mo dos grosseiros,

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fez o mesmo: franziu o cenho, fez caretas tão feias como as que havia

feito e pisou duro no chão. Ele comportou-se de um modo que jamais

tinha presenciado. Por instantes, abandonan do a costumeira neutralidade,

ele olhou-me com desdém. Dei-lhe as costas, dizendo palavrões.

Será que ele me estranhou?

O que vi no espelho, agindo como um jato de água fria, der ruboume.

Agora não mais podia negar a metamorfose: fui transfor mada,

durante a noite, numa outra pessoa, um ser estranho para mim mesma.

Acordei com um corpo e um raciocínio diferente do que possuía.

Bem que eu andava desconfiada de certos fatos, de algumas conversas

que ouvira, de olhares que, infelizmente, ape sar de ter suposto, não

decifrei, de enigmas e códigos escondidos. Como fui idiota!

Desajeitada no meu novo organismo, tentando entender a transformação

e acostumar-me com ela, decidi, após vestir roupas emprestadas

às escondidas, pertencentes ao meu irmão, sair rapi damente de

casa. Não queria que ninguém me visse daquele modo. Todos ainda

dormiam.

Sem rumo, caminhei em direção ao colégio, era lá o meu des tino

todas as manhãs, portanto devia ser também o daquele maldi to dia.

Andei devagar pelas ruas, atrasava minha chegada proposi tadamente,

mas acabei lá. Diante da porta de entrada esperei um pouco, escondida

atrás de uma árvore. Só entrei no velho prédio, quando tocou a sineta.

Do mesmo modo que notava que meu corpo estava trans formado,

percebia que também minha mente estava possuída por uma nova

compreensão, por novos fundamentos lógicos acerca do mundo e de

mim mesma. A nova mente produzia imagens es quisitas, concluía de

modo não usual. Além disso, não planejava e organizava os pensamentos

de forma objetiva e produtiva, mas, ao contrário, as imagens apareciam

desorganizadas, umas eram liga das às outras sem que existissem

elos ou razão para isso.

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Elas fundiam-se de um modo incompreensível. Entrei na es cola usando

esses novos óculos, para observar, entender e inter pretar as coisas,

as pessoas e os fatos.

A escola não era a mesma. Vi fisionomias coloridas, alvas e cinzentas,

todas tinham as faces congeladas, não havia contrações, nem gestos,

pareciam estátuas. Continuei minha marcha sonâmbula, como nuvens

levadas por ventos calmos. Eu penetrava, com leveza e delicadamente,

nos poros dos colegas enfileirados, um ao lado do outro. O que desejava?

Não sabia. Vi alguns rostos esculpidos em me lancias, eles fitavam-

-me. Estariam debochando da minha imagem?

Memórias de ontem, de como era, invadiam minha mente, comparava-me…

não compreendia… tinha saudades. Perdida, solu çava diante

desse mundo confuso. Continuei minha caminhada, no vos grupos.

Num, os participantes olhavam-se, noutro eles emitiam sons que não

compreendia: “Seria uma outra língua?”, perguntava-me sem resposta.

Alguns comentavam experiências passadas, mas sem nada falar, outros

estavam nus, tinham uma face triste, alguns riam, por nada. Chamou-

-me a atenção uma moça alta e gorda, que olhava para cima, de boca

aberta, parecia que ia engolir alguma coisa. Ao seu lado, agarrado a ela

pela blusa, um rapaz seguia uma abelha perdida.

Automaticamente, andava sem sair do lugar, estava presa à metamorfose,

não mais conseguia retornar ao passado. Minhas per nas não

me obedeciam, minha mente não mais sabia dar ordens para o novo

corpo. Pensava em sumir, acabar com tudo aquilo, com o pesadelo.

De repente, minhas pernas moveram-se sem que eu desejasse e fui

levada em direção à sala de aula. Atravessei um comprido corredor

iluminado por lâmpadas amarelo-avermelhadas, presas na parte mais

alta do teto. O corredor estreito, rodeado de grades altas, pintadas de

cinza e roxo, não tinha fim. De cada lado, mais e mais alunos, centenas,

milhares deles. Em certos momentos, todos pareciam iguais, em

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outros, transformavam-se. Eles olhavam-me e examinavam-me. A face

de alguns era achatada, muitos não tinham olhos, mas, mesmo assim,

seguiam-me os passos.

Suando frio, com o coração apertado, fui lançada numa sala. Esta,

como tudo ali, também mudava de forma, tamanho e cor, à medida

que eu olhava. Num certo momento, surgiu do escuro uma cadeira

– parecia sorrir para mim – era a mesma onde assentei-me durante

o ano passado. Foi nela que gravei meu nome antigo, num cantinho,

bem escondido. Aos poucos, o nome, desenhado com tinta dourada,

foi aparecendo, letra por letra e tornou-se mais visí vel no encosto da

cadeira.

Fiquei sem saber se devia ou não assentar-me nessa cadeira marcada.

Em dúvida, caminhei em direção a um canto escuro, no fundo

da sala, imaginando esconder-me. Esperei tensa o início, não sabia de

quê. Eu refletia: “Que pena hoje ser hoje, como foi bom ontem, quando

me conhecia melhor… tudo era mais fácil, eu sabia o que fazer. Ou

apenas achava que sabia?”

Escondida no canto observava os que entravam. Aos poucos a sala

ficou cheia. Examinava as fisionomias, todas indiferentes diante daquele

ambiente que eu percebia anuviado e deformado. Comparava-me

com eles. Eu era uma caloura naquele mundo estra nho. Assentei-me

com medo.

O professor, que entrara, retornou à secretaria, pois esquecera o

diário com os nomes dos alunos. Um alívio temporário. Pressentia que

daqui a pouco seria descoberta. Alguns alunos se levantaram após

a saída do professor: abraços, gargalhadas, saudações, brinca deiras,

gritos, conversas na sala apertada. Três deles, sem que sou besse o motivo,

caminharam em minha direção. Novo desespero! E agora? Mas,

ao contrário do que imaginara, eles aproximaram-se e trataram-me

com toda naturalidade e amabilidade possível, como qualquer colega

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masculino. Por que não notaram? Afinal, quem eu era para eles, um

homem ou uma mulher? E para mim?

A sala de aula estava abafada e quente. Permaneci como se es tivesse

amarrada à cadeira. Suava, estremecia diante de cada olhar, de cada

movimento. Tampei parte do meu rosto com as mãos, numa tentativa

tola de esconder minha nova identidade, esforçava-me para mostrar

supostos resíduos da menina que abandonara-me. Entretanto, criticava-me,

pois sabia que os sinais identificadores da adolescente de treze

anos não mais existiam. Por sorte, os colegas não compararam meu

organismo atual com o antigo. Eles perce biam somente o presente,

assim olharam-me como se tudo sempre tivesse sido desse modo. No

burburinho formado, aproximaram-se mais colegas, alguns deles velhos

conhecidos. Estremeci! Agora irão perceber meus cabelos curtos,

meu buço que começava a apa recer, minha voz, ora grossa, ora aguda

e irritante, minhas novas roupas e um modo masculino de falar, andar

e comportar-se.

— Que pena! Disse-me um dos colegas, olhando-me, enquan to

procurava um lugar para assentar-se perto de mim. E continuou – são

poucos os rapazes… esse ano não teremos um bom time de futebol.

Sem saber o que falar e receosa da voz que sairia, fingi concordar:

— Hum, hum.

Eu nunca gostei de futebol, deve ser péssimo levar pontapés e

tombos. Que tolice. Desejava sumir dali, escapar daquela prisão o mais

depressa possível, abandonar este eu que apossou-se de mim, e retornar

ao mundo antigo, com suas regras e padrões que conhe cia bem. O

eu anterior sabia agir, fazer ou não fazer o que devia, o que era certo e

o que era errado. Nesse organismo, aprisionada pelo ser estranho que

dominava-me, não mais sabia comportar-me. Assim, perguntava-me:

“Devia ou não olhar para minhas colegas como antes? Devia namorá-

-las? E diante dos meninos? Nova con fusão: “O que fazer? Como antes?

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Perdi a bússola original, estava perdida.

Fui treinada, e muito, para conquistar rapazes. Sabia com mi núcias

todas as técnicas, os diversos truques capazes de transformar um

jovem esperto num bobo. Bastava um certo olhar, um sorriso especial,

o uso de um certo tom de voz… Agora, com tristeza, vejo que esses

ensinamentos não me servem. O que faço com o antigo modo de pensar?

Jogo-o fora? Terei que aprender tudo de novo? A todo instante era

forçada a enfrentar nova situação, para a qual não tinha conhecimento

ou treino. Que azar! Porcaria! Oh meu Deus todo poderoso, ajude-me a

encontrar uma saída!

Repentinamente, deparo-me com mais um problema terrível. Notei

que uma menina começou a observar-me, a princípio, discre tamente.

Por sinal ela era dengosa e engraçadinha, de bom tama nho, simpática.

Aos poucos descobri que ela queria conquistar-me. “E agora, o que

fazer?” perguntava-me. Que horror! Namorar uma mulher? Ela foi se

aproximando, mais e mais… fingia nada querer, como distraída. Começou

a conversa num tom de voz suave e meló dico. Confesso que eu

estava envergonhada, pois sentia-me atraída pela sua maneira de falar.

Ela me cativava com seu jeito.

Confusa com a cena, intranquila, descobri que ela fazia uso, para

encenar e representar a conquista, dos mesmos gestos, da mes ma

técnica que eu empregava em situações semelhantes. Por outro lado,

estava claro como água: ela procurava atrair-me. Perguntou-me, com

voz adocicada, onde morava, onde estudei antes… Era o papo introdutório

para poder ir mais longe: marcar um encontro, fazer um elogio e

tudo mais. Diante de suas intenções cristalinas, sufocada, sem saber o

que fazer, comecei a gaguejar, às vezes fingia não entender o que dizia,

tentava ganhar tempo. Ela, insistente, sabia o que queria… Olhava-me

com ternura, como sempre fiz. Foi se aproximando, segura de suas pretensões.

Eu não visualizava ne nhuma saída, seria um escândalo o que

estava prestes a acontecer. Que vergonha!

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Alarmada, desejando interromper de qualquer forma aquele jogo

amoroso que se iniciara, imaginei, como último recurso, des maiar, na

impossibilidade de matar-me, como desejava. A cada ins tante ficava

mais sobressaltada. Suava frio e, para não cair, agarrei com firmeza os

braços da cadeira, coloquei meus pés no chão. Na quele momento estava

hipnotizada pelo rosto que habitava aquele corpo, pelo olhar que

fitava-me naquela manhã sem igual.

Num certo momento, quando ela girou o rosto para olhar-me mais

de perto, quase encostando o dela no meu, sua face foi ilumi nada por

um facho de luz, uma luminosidade ainda fria do sol da manhã que

entrara pela janela da sala. Fui tomada por uma terrível confusão,

assustada com o que deparei: vi, de maneira muito níti da, o próprio

fantasma ou alma, isso eu não sei.

Acontece que ela, ao atravessar a luz do sol, mostrou com ni tidez

seu rosto e seu próprio corpo que emergiram do escuro: sua pele era

branca e pálida, salpicada por pequenas sardas. As pistas afloraram

com exatidão, era um rosto, um olhar, um modo de agir que conhecia

muito bem, bem até demais… era o corpo e a manei ra de ser que eu

havia perdido naquela manhã.

Apavorada, pedi, mais uma vez, a ajuda divina. Sentia ener gias

desconhecidas e poderosas saindo de um e de outro corpo, trocas

de fluidos, encontros, misturas, construção de um só indi víduo. Essa

garota calma, que caminhava em minha direção, mei ga, serena, quase

angelical, que dispersava-se no ar e penetrava no meu organismo

transfigurado, era, nada mais nada menos, do que eu mesma antes da

metamorfose. Era minha imagem especular do dia anterior, talvez o

que restou de mim, da que conhecia. Ela era meu eu antigo. Apavorada,

gritei, gritei o mais que pude, ali mes mo na sala de aula, em busca

do socorro. Estava completamente transtornada…

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Acredito que mesmo desmaiada, não sei por quanto tempo, fiquei

gritando por ajuda. Quando abri os olhos, ainda gesticula va. Diante de

mim, nervosos, estavam meus pais debruçados sobre meu leito, segurando-me,

espantados. Minha mãe, aproveitando uma breve interrupção

da respiração, quando procurei mais ar para dar um novo grito,

berrou nos meus ouvidos:

— Acorda, Sônia! Acorda! O que foi, minha filha? O que está acontecendo?

Eu sonhara… Nunca imaginei que fosse tão difícil virar outra pessoa,

adquirir uma outra identidade, pior ainda, ser uma pessoa de outro

sexo. Como é difícil. Ainda bem que tudo terminou!

Era domingo. Não precisava levantar-me às seis horas da ma nhã.

Além disso, as férias estavam apenas começando. Um lindo céu azul,

de um azul claro e acolhedor, invadia alegremente meu quarto de menina,

iluminando minha mente e desejando-me bom dia e boas férias.

Eu permanecia sendo a mesma. Como fiquei feliz! Corri ao espelho

para dar a ele a boa notícia. Ele e eu sorrimos ao mesmo tempo. Estávamos

aliviados.

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Fanfarra para um Homem Comum

Na manhã daquele feriado vazio, ao ler as propagandas anun ciando

a fantástica liquidação, os olhos do adorador de produtos brilharam

diante das belas e coloridas imagens. Agindo como mãos protetoras

e estimulantes, ícones potencialmente maravilhosos socor reram o

desvalido consumidor, transportando-o para o porto amigo, seguro

e conhecido. Reanimado após desvencilhar-se do tédio das manhãs

sem trabalho, ele assimilou energias novas para suportar sua vida sem

importância.

A injeção mágica, aplicada à distância pelo executivo ou dono, introduziu

no organismo plástico e débil significados importantes. Animado,

realizadas as anotações necessárias, o consumidor telefo nou para os

mais chegados, relatando as vantagens da liquidação, as ofertas imbatíveis

e as compras planejadas. Tudo devia ser feito o mais rápido possível:

eram apenas 500 calcinhas para milhares de compradores.

Nem só disso vive o consumidor aflito e bem treinado pelos Pa vlovs,

Skinners e Watsons dos tempos modernos. Ele carrega consigo outros

interesses, tão importantes como as compras planejadas com entusiasmo.

Uma vez ou outra, sem tirar sua mente das propagandas, como

aperitivo, ele penetra com avidez e a fundo na vida íntima de alguns

de seus deuses preferidos. Devorando cada detalhe, fungando, tendo

os olhos bem abertos, ele esforça-se para encontrar, fora de si, um

modelo inspirador para sua desvalida vida. Detecta e memori za, com

um imenso entusiasmo – que não tem para si mesmo – cada atributo

insignificante da vida do ídolo que possa lhe servir de guia. Ludibriado,

aplaude o poder e o exibicionismo distante de seus pro prietários, donos

disfarçados de amigos. Ele sonha em participar de uma realidade

distante que jamais encontrará.

Condicionado de modo eficaz pelos adestradores, como cobaia

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mansa, domesticada e resignada, pateticamente come gato por le bre,

imaginando poder se transformar no inacessível modelo jovem, bonito

e elegante, usando a loção para a barba anunciada, lavando o rosto

manchado de cimento e ferrugem com o sabonete cheiroso propagado.

Treinado e educado para jamais criticar os poderosos, chefes, ídolos

e santos, e também sendo proibido de ter consciência do seu estado

desprezível, esse ser humano infeliz, possivelmente foi contido muito

cedo e reprimido por um pai ou uma mãe nervosa e mandona, que

instituiu um modelo de obediência total, sem questionamentos e sem

críticas. Essa potente marca, imprimida precocemente, dominou o

frágil cérebro do nosso amigo para o resto da vida.

Hoje seus pais estão muito longe, entretanto, seus rígidos prin cípios

e os sinais indeléveis continuam ordenando com precisão ao filho

obediente o modo de agir frente a outros adultos com poderes supostamente

semelhantes aos possuídos pelos seus antigos proprie tários.

Obedecer, obedecer sem saber o porquê, esta foi a regra fixa da. Submisso,

sai à procura de chefes, políticos, colegas, namoradas, sogras,

ídolos do futebol, amantes ocasionais, companheiros da con dução,

padres e pastores, vizinhos e colegas de trabalho, analistas e cartomantes:

qualquer um serve de inspiração para lhe dar conselhos acerca do

que fazer, em qualquer área, em qualquer ocasião. Quando escapa dessas

ligações, sobrando-lhe algum tempinho, esse indivíduo diverte-se

no salão de dança, na festinha familiar, no “shopping”, no casamento

do sobrinho, conforme determina a lei do cidadão bem comportado e

ordeiro. “Coitado: ele não sabe o que faz”.

Bem domesticado pelo meio ambiente cultural, semelhante à “casa

dos pais”, controlado e gratificado por todos os lados na apren dizagem

estímulo-resposta e pelos malabaristas dos símbolos – grita rias, mulheres

e homens jovens e bonitos, frases e mais frases – ele permanece

iludido e puro, trabalhando muito e recebendo pouco, em troca de sor-

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isos e de frases enganadoras, com intenções, quase sempre, opostas

às expressadas.

A técnica maldita alastrou-se como gripe asiática: fez o cão sali var

diante da sirene, confundindo-a com o bife de carne de primeira.

A prática perniciosa da venda da burla e ilusão ultrapassou as inocentes

propagandas de calcinhas, cremes dentais e cerveja. A “propaganda

enganosa” invadiu abertamente boa parte da assistência

mé dica e odontológica – tratamentos espetaculares e caros – alastrou-

-se como fogo na palha, alcançando as igrejas com suas pregações

acer ca das salvações milagrosas, representações teatrais, obediência

total e dízimos. Germinou com rapidez, dominando praticamente toda

a propaganda política e o esporte. Vivemos no mundo da trapaça, vale

mais o que simula melhor ser o que não é. Estamos todos presos, cada

vez mais afastados do mundo real, talvez, definitivamente perdidos,

nessa atmosfera fantástica da propaganda, da venda de ilusões e do

virtual. Sem terreno firme para pisarmos, estamos sem “lenço e sem

documentos”, atolados no palavrório enganador.

Por falta de ensino e experiência, o azarado não aprendeu a distinguir

os símbolos (sons e letras) do concreto (da linguiça), pois ainda

não se encontram à venda processadores mentais sofisticados, vendidos

em 24 suaves prestações, capazes de traduzir os símbolos em

coisas e eventos concretos, transformar o mapa em território. Coi tado:

satisfeito, continuará engolindo os sons e discursos dos outros, ou melhor,

seus dejetos, em lugar de vomitá-los, convencido de es tar devorando

canjiquinha, costelinha de porco, feijão, batatas fritas, queijo e

couve mineira.

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A Fabricação do Homem

Fora-de-série

Nossa cultura tem poucas fórmulas para usar como receitas para fabricar

os nossos atuais super-homens: he róis, santos e outros fora-de-

-série. A mente humana, es gotada, interrompeu sua fábrica criativa de

novos padrões capazes de transformar um homem comum num mítico.

Sem outra alternativa, só nos resta aplicarmos o modelo antigo existente

num ou noutro candidato a esse posto tão cobiçado. Para que os

candidatos possam se adequar aos modelos e símbolos pré-existentes

dos antigos mitos é pre ciso que eles exibam modos de agir e de pensar

sugerindo figuras míticas conhecidas. Quais seriam as características

necessárias para que um indivíduo, até certa época igual a todos os outros

homens, passe a ser percebido, observado e finalmente rotulado

de gênio, herói ou santo?

Sabemos que o fantástico sempre esteve presente na vida do candidato

a mito. O incrível dominou a vida dos santos, do nascimento à

morte, seu azar e ao mesmo tem po sua capacidade imensa de suportar

provações terríveis sem abandonar seus objetivos. Ouvimos inúmeras

histó rias acerca dos cavaleiros que realizaram façanhas sobre-humanas

na política, religião, esporte, proezas jamais rea lizadas por nós, pobres

mortais de segunda classe.

Um outro fator necessário à fabricação do mito tem sido seu nascimento

e sua morte diferentes da dos outros homens.

Histórias incríveis têm sido contadas para descrever o nascimento

da figura mítica, enquanto outros relatos asso ciam a morte do mito às

grandes catástrofes.

Uma associação da morte do herói com as desgraças sociais leva a

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população a imaginar uma ligação de causa lidade entre os dois fatos.

Na mente de seus adoradores, a morte do herói passa a ser “causa”

dos sofrimentos do povo, gerando o raciocínio de que, caso ele estivesse

vivo, os acontecimentos tomariam um rumo diferente. “A partir da

morte de minha amada não fui mais o mesmo homem”. Os heróis ou

santos não morrem como nós. As histórias nos mostram que a maioria

dos super-homens teve morte trágica. Não fica bem para um ser

excepcional ter uma morte devida a um nó nas tripas ou um engasgo

com um naco de carne. A morte desastrosa sempre estimulou a mente

popular, para lembrar e venerar mais e mais seu herói predileto por

algum tempo. Os mais velhos recordam alguns de nossos mitos e suas

mortes: João Pessoa, Getú lio Vargas, Juscelino Kubitschek e outros.

O processo de cristalização de personagens míticas não se restringe a

governantes. Como exemplo de mitos não-governantes podemos citar:

Padre Eustáquio e Ayr ton Senna. Mas, além desses heróis, o molde

mítico pode adaptar-se também a outros tipos, os chamados heróis-

-marginais ou vilões populares: Robin Hood, Escadinha, Mariel Mariscot,

Fernandinho Beira-Mar, Lúcio Flávio, Hus sein, Bush e outros.

A sabedoria também é um fator importante na feitura do mito. Não

se pode conceber um santo ou um herói burro. Um Ulisses da Odisséia,

ou o Guimarães, Einstein, Churchill ou Lenine, foram considerados,

todos, muito inteligentes. Incorporado à sabedoria, o homem-mito necessita

ser sa gaz e esperto, além de possuir a bravura e audácia, como

tem sido descrita pelos admiradores de Hitler e Stalin.

Precisa ainda ter uma força extraordinária, como Hér cules, Atlas, e

também, se possível, poderes imensos que possibilitam ligações com

outros deuses excepcionais, ou mesmo sobrenaturais: Lao-Tsé, Buda,

Confúcio e Maomé, entre outros.

Alguns homens que foram transformados em mitos assimilaram, ao

mesmo tempo, diversos estereótipos míti cos, eles se encaixaram entre

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os “plurimitos” ou “supermi tos”. Esses felizardos, inicialmente, tiveram

um nascimen to fantástico, depois, uma sabedoria superior ao homem

comum, além disso, possuíam a esperteza dos fora-de-série e ligações

poderosas com forças do bem ou do mal. Tinham ainda, para esnobar,

uma força física extraordi nária e feitos impossíveis para os normais.

Um exemplo desse supermito é o de Ulisses, o da Odisséia de Homero,

retratado há mais de 2.000 anos. Este mito encarna as pe ripécias

sensacionais de um herói capaz de causar inveja a qualquer candidato

a aprendiz de semideus ou de deus.

Lamentavelmente, muitos supermitos e mitos, da mesma forma

que se tornaram homens percebidos como superiores, rapidamente

se transformaram em antimitos. O povo, ora elege um homem a santo

ou guerreiro, ora o destrói, tão rapidamente como o construiu. O mito

anterior torna-se um covarde, demônio ou idiota. A história nos mostra

como a ascensão de diversos ídolos mundiais teve uma duração

efêmera: Hitler, Stalin, Mussolini, Getúlio Vargas e Collor são alguns

exemplos. Muitos – nem todos – anos depois de atingirem o status de

mitos, passaram a ter dores de barriga, câncer, doença de Alzheimer,

adoeceram e morreram, confusos, esqueléticos, fracos e submissos,

como possivelmente acontecerá a todos nós.

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Um Lugar ao Sol

O nascimento, o crescimento e a divulgação de al guns novos termos

que são lançados no mercado da fala diária, muitas vezes se espalham

ao sabor do vento: “Com certeza”, “Virgem Maria”, “Bumbum”, “Aí”,

“Nossa!”, “Na verdade”, “De repente”, “Quer dizer”, “Né”, são apenas

al guns exemplos. Uma grande parte dessas expressões de notam exclamações,

emoções, outras são apenas ruídos inofensivos sem utilidade

informativa.

Do mesmo modo, de tempos em tempos todos nós anotamos em

nossa memória, no computador ou agen das, novos nomes e endereços

de um e outro indivíduo que, temporariamente, foi batizado como “excelente

me cânico”, “grande conquistador”, “canalha”, “ótimo médico”,

“craque”, “língua ferina”, “perigoso bandido”, “próspero fazendeiro”,

“comerciante esperto”, “linda mulher”. Essas classificações, geralmente,

têm uma vida curta.

Não se conhece bem o processo da produção de novas palavras, bem

como a “descoberta” de características ex cepcionais de determinada

pessoa. Portanto, não sabemos como nasce, nem por que isso acontece

e também a ma neira como o sucesso ou desprestígio do indivíduo

se espa lha nas mentes dos seus admiradores ou críticos ferinos.

Num caso ou noutro, o indivíduo se transforma num exemplar que

será elogiado ou criticado, uma amostra ou modelo que facilitará a

comparação de um indivíduo ao outro, seja semelhante, seja frontalmente

oposto.

Cada um de nós defende e briga em defesa de nossos argumentos:

um afirma ser Edgard o melhor e mais ho nesto mecânico já encontrado

e, ao mesmo tempo, critica mos, emocionados, o profissional defendido

pelo amigo.

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Nota-se que certos estereótipos (rótulos, denomina ções ou lugares-

-comuns fixos) encaixam-se bem em torno de um determinado indivíduo,

mas não em outro e, mui tas vezes, esse encaixe tem o apoio de

grupos maiores, de uma comunidade, ou até de um país ou de quase

toda a população mundial: “Madre Teresa de Calcutá foi uma santa”,

“Bush é um demônio!”. Soa estranho e mesmo in tolerável para nossa

mente pensar ou imaginar o oposto: “Madre Teresa é um demônio”,

“Bush é um santo”. Estas últimas afirmações nos provocam um arrepio,

enquanto as primeiras fluem bem, são facilmente assimiladas, sem

causar o malestar anterior.

Conforme o ambiente sociocultural existente e vigo rando numa

época, certos conceitos e modelos ficam mais fáceis de serem atribuídos

a alguém, classificando o indi víduo de um certo modo e não de

outro. Essas suposições, muitas vezes palpites, podem permitir o desenvolvimento,

crescimento e reprodução das atribuições das pessoas

ro tuladas, ou seja, elas ficam encarceradas nos conceitos emitidos a

respeito delas, tudo dependendo do ninho social onde os conceitos

foram plantados ou lançados. Para que ocorra o crescimento de um

conceito, torna-se necessário que haja “fertilizantes’’ adequados, um

terreno propício, para o conceito “pegar” e “decolar”.

O lançamento, a instalação, a fixação e propagação de uma ideia

para classificar a conduta de determinada pessoa, boa ou má, às vezes

é lenta, outras, rápida.

O rótulo “João é muito inteligente”, uma vez acei to torna-se para

seus usuários uma verdade insofismável, autoevidente e “acima de

qualquer suspeita”, jamais ima ginada no seu oposto.

A partir da rotulação, os homens e as mulheres clas sificados passam

a ser tratados pelos conhecidos, amigos ou inimigos, conforme o rótulo

recebido. Se o indivíduo é denominado “engraçado”, “palhaço”, “gran-

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de contador de anedotas” e mesmo “filho da mãe”, uma vez acreditando

na rotulação, aprisionado à categorização, ele irá se esforçar como

pode para desempenhar, no carnaval ou no velório, o personagem

designado pelo roteiro. Já assisti, muitas vezes, colegas de sala de aula

rotulados de “engraçados” representarem, de tempos em tempos,

conforme os fatos existentes, o papel exigido pela turma, inventando

sempre que possível uma “graça” qualquer, mesmo uma graça sem

graça, pois, do contrário frustrariam a plateia e poderiam perder o conceito

recebido, passando a ser um qualquer, um João Ninguém, como

os colegas não classificados de alguma coisa. Da mesma forma, se a

pessoa recebe a clas sificação e os comentários necessários dos observadores

de que é “bonita”, “elegante’, “inteligente”, “bom de cama”,

“burro”, etc., deverá desempenhar esse papel nas ocasi ões esperadas,

não poderá ser “bom de cama” durante a discussão filosófica na qual

deveria representar o papel de “inteligente”.

Uma vez rotulado, forçado a agir como tal devido a pressões externas

e internas, o antigo cidadão, Carlos ou Diva, desaparece. Assim vai

se formando o novo ator, o transformado no rótulo, passando a agir de

acordo com o novo conceito: “Aninha é bonita”, “Dirce é inteligente”,

“Pedro é um crápula”.

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Nosso Povo: Informações resumidas

Uma conversa, ou um texto escrito, será espontâneo se for conduzido,

não por planos hierárquicos cognitivos, mas orientado e composto

pelas emoções submersas que irão formar o conteúdo e os objetivos.

Por isso, certas pessoas são “interessantes”, outras, “chatas”; uma nos

provoca emoções agradáveis, a outra, tédio, nos “enchem” de idéias

conhecidas e repetidas.

Pesquisas confirmam que as palavras com valências afetivas, expressões

faciais, fotos de pessoas, quando apresentadas num curto

espaço de tempo – mesmo subliminares – provocam emoções nos

sujeitos da experiência. Isso torna claro que o processamento afetivo

trabalha imediatamente após a apresentação do estímulo, ou seja,

antes do pensamento ser elaborado.

Ao contrário das emoções básicas, que são inatas, o raciocínio é

aprendido conforme a cultura em que vivemos. Ele é utilizado para

descrever ou compor os dados dispersos percebidos ou inventados,

originalmente isolados uns dos outros. Como o conhecimento através

da cognição é indireto, ao contrário das emoções que é direto, a cognição

dependerá da “leitura” realizada acerca da relação entre os fatos

– nem sempre adequada – pois se assenta no aprendizado e na linguagem

com as regras aprendidas.

Sempre a pessoa trabalha com duas metas básicas; estas podem ou

não estar em harmonia. Uma parte do eu deseja alcançar os objetivos

relacionados à manutenção de si (egoísta): alimentar, ser um bom pintor

ou escritor, casar, arrumar um emprego. A outra parte refere-se a ligações

com pessoas (pró-sociais); agradar ou desagradar alguém. Tudo

indica que os dois objetivos trabalham juntos; busca-se, ao realizar

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113


uma atividade, mais ou menos implicitamente, fazer com que outras

pessoas fiquem sabendo e satisfeitas com a obra realizada; assim, as

duas metas se associam.

A nossa visão do mundo depende tanto do modo como o mundo é, e

como nós somos; o conhecimento do mundo depende da nossa capacidade

para construir modelos dele: produto da seleção natural e da

cultura. Portanto, nosso conhecimento depende, em grande parte, da

nossa característica biológica e das coisas como elas são.

Nós só podemos perceber, descrever e pensar acerca de qualquer

coisa em termos de sua relação com algo já conhecido; sempre relacionamos

alguma coisa às outras. Quando perguntamos o que algo

significa, nós só podemos responder colocando o indagado num todo

no qual imaginamos existir uma inter-relação no sistema geral. Portanto,

definimos o significado de algo conforme as coisas que podem ser

afirmadas acerca dele.

Nos nossos encontros com a realidade, principalmente nas relações

com pessoas, são despertadas inicialmente as emoções e, logo em

seguida, mas nem sempre, entram em ação as imagens, pensamentos,

raciocínios lógicos, aumentando a fonte de orientação para a conduta

imaginada ou a ser executada. As emoções, continuadamente, influenciam

o que estamos conhecendo ou pensando; num nível consciente

ou inconsciente. .

Parece que a procura por certas condutas, entre elas, as opiniões

emitidas durante conversas, a adesão a uma ideologia, a busca e participação

numa religião, o empenho em torcer por um time, tem a ver

com a necessidade de estar agindo conforme as idéias e valores de um

grupo significativo; “comungando” os ideais dos companheiros. Desse

modo, a pessoa se sente ligada ou religada, se incorporando num

grupo mais amplo do que seu organismo individual.

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Um organismo vivo trabalha fundamentalmente para sua manutenção

e reprodução; que nada mais é do que a manutenção da espécie a

que pertence. Para realizar essas duas tarefas – conservação do indivíduo

e da espécie – as células dos seres vivos contêm informações

necessárias para executar esses dois objetivos básicos que dirigem a

conduta: a manutenção e a reprodução da vida.

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Início do universo - começo da vida

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O nascimento do Universo

O homem sempre procurou conhecer seu meio e a si próprio, bem

como transmitir esse conhecimento aos outros. Nas suas tentativas de

obter essa sabedoria, ele descobriu o homem entre os Messias, mas

também entre os bandidos, entre os fortes e sadios, mas ainda entre

os doentes e fracos. Mas, pensando bem, o homem continua sendo um

procurado e não um encontrado. Ele é, ao mesmo tempo, o anjo e o

demônio; o sábio e o imbecil; o racional e o irracional; o incrédulo e o

fanático; o verdadeiro e o falso; o honesto e o desonesto; o prudente

e o imprudente. Ele é tudo isso; sua conduta continua a nos espantar.

Desde o surgimento do ser humano até hoje, cerca de 70 a 100 bilhões

de homens participaram dessa jornada da qual nós fazemos parte, isto

é, das prováveis 200.000 gerações que se sucederam na Terra.

Podemos nos enxergar como seres desamparados, ligados por uma

cadeia genética a todos os seres vivos e, também, unidos a todo o

Universo físico-químico. Carregamos no corpo e no cérebro vestígios

doloridos da evolução; nossas mãos são ex-nadadeiras modificadas; os

pulmões resíduos de tecidos do animal que vivia no pântano; o fêmur,

endireitado à força; o pé, uma antiga pata que servia para trepar em

árvores. Mas tem mais: nosso corpo foi aos poucos invadido por microorganismos

e hoje não podemos mais viver sem eles. Sabe-se que

diversas bactérias, que há muitos e muitos anos, possivelmente, parasitaram

ou se hospedaram em nosso corpo primitivo, muito diferente do

atual, agora são imprescindíveis à sobrevivência do nosso organismo.

Em resumo: somos um boneco reconstruído com pedaços costurados

de antigos animais; algumas partes de animais não mais existentes.

Aparecimento do Universo

Sabemos que a vida nem sempre existiu, e mais, sabemos que a

organização do Universo nem sempre existiu. A matéria manifestou-se

de um caos primordial e, sem um nome melhor para dar, essa explosão

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foi chamada de “Big-Bang”. Dela, originou-se, pouco a pouco, tudo que

existe no Universo. A expansão continua, com uma velocidade 15%

mais rápida do que a iniciada há 15 bilhões de anos atrás. Os produtos

reconstruídos dessa explosão inicial são bilhões de corpos celestes:

estrelas, planetas, cometas, luas etc. incluindo aí, naturalmente, nossa

galáxia, contendo o planeta Terra.

Na Terra, por motivos aleatórios e ainda não esclarecidos, surgiram

os seres vivos. Estes foram construídos com alguns poucos elementos

do mundo físico, entretanto, estão organizados de maneira bastante

diferente das chamadas substâncias físicas. Tudo indica que os seres

vivos despontaram há cerca de 4 bilhões de anos, sendo os homens

os caçulas dessa sequência evolutiva. Segundo os estudos, após sucessivas

transformações dos seres vivos, apareceram possivelmente

diversas espécies de homens diferentes há cerca de 4 milhões de anos,

segundo pesquisas recentes, há 6 milhões de anos.

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O BIG-BANG

O cosmo nasceu da explosão inicial, ou seja, do “Big-Bang”. A expansão

física criou probabilidade no espaço no qual processos dissipativos

(com dispersão, espalhamento) podiam ocorrer. Isso deu origem tanto

às grandes estruturas como às estrelas, planetas e, também, aos processos

de auto-organização com a emergência e evolução da vida. Esta

atividade ocorre devido às forças da natureza que são, na maioria dos

casos, de atração; deve ser lembrado que as entidades isoladas têm

mais alto potencial de energia do que as ligadas entre si.

Uma forma mais simples para entender a formação ou a organização

da natureza, incluindo aqui os organismos vivos, é imaginá-la estruturada

como a linguagem escrita. Esta última utiliza como elemento

fundamental para sua organização um alfabeto, ou seja, um conjunto

de letras adotadas por convenção. Nós empregamos o alfabeto latino

composto de vinte e seis letras se contarmos com o k, y e w. Para criarmos

uma palavra agrupamos algumas letras numa ordem determinada

e previamente convencionada. Quantas “palavras” – aqui expressando

conjuntos possíveis de combinações de letras – diferentes podem ser

compostas com quatro letras? Cerca de quatrocentas mil; com sete,

mais de dez bilhões de arranjos.

O leitor sabe que poucos conjuntos formados pela reunião de letras

ao acaso são palavras de verdade, tendo significado linguístico ou, de

outro modo, constatando nos dicionários. A palavra formada pelas

letras na ordem aqui escrita: l; i; g; a, ou seja, “liga”, tem um significado

que leva-nos a imaginar objetos, coisas ou letras juntas ou reunidas.

Entretanto, nenhuma dessas letras isoladas contém, mesmo num nível

ínfimo, referência a qualquer idéia do tipo de união. A idéia de “unir”

ou “ligar” só nasce com as quatro letras juntas na ordem indicada acima.

Se ligarmos as quatro letras de outros modos como agil, gali, iagl,

lgia etc. não iremos compreender nada do significado da palavra for-

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mada pela ordem mostrada em “liga”. Uma vez formadas as palavras,

pelo mesmo processo, ligando certas palavras a outras determinadas,

teremos relações entre as palavras, ou seja, as frases que são formadas

pela combinação de palavras; estas que são associações de letras.

A “água”, seguindo o raciocínio acima, é uma “palavra” composta de

“duas letras” – no sentido de elementos do meio ambiente – denominadas

oxigênio e hidrogênio, na qual cada um dos seus componentes,

H e O, não tem as propriedades do conjunto de dois átomos de hidrogênio

e um de oxigênio de uma maneira apropriada que produz suas

propriedades. Pois bem, o C (carbono) mais H (hidrogênio) formam

diversos compostos; uma combinação determinada de Ca (cálcio), H

(hidrogênio), O (oxigênio), Fe (ferro), Al (alumínio), Mg (magnésio) ,

cerca de aproximadamente cem deles, formam as pedras, formações

rochosas existentes. Estes átomos existem em todas as partes: no sistema

solar, nas estrelas da nossa Via Láctea e, também, nas galáxias mais

estranhas.

Finalmente, e mais tarde, nós também fomos formados pela combinação,

de um certo modo, de alguns elementos que bailavam no

Universo desde sua formação à procura de um ou mais pares. O que

diferencia um agrupamento físico do não-físico são os elementos utilizados

no fabrico de um e de outro e, principalmente, a organização

peculiar existente em cada grupo; os puramente físico-químicos e os

chamados de orgânicos. De outro modo: é o arranjo de um certo modo

dos átomos que fornecerá as características próprias e diferentes de

cada espécie; as vivas e as não-vivas.

Os átomos, que antigamente eram tidos como indivisíveis – daí a

origem da palavra – demonstraram ser compostos de elétrons, prótons

e nêutrons. Essas três partículas desempenham um papel de “letras”

com relação aos átomos. O núcleo dos átomos é constituído de prótons

e nêutrons (conjuntamente denominados núcleons). O número de

prótons determina a natureza física do elemento. Se houver 6 prótons

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é carbono, se 26, ferro, se 92, urânio etc. A quantidade de nêutrons

não afeta a identidade química.

Nas últimas décadas foram descobertas no interior dos núcleons estruturas

ainda menores, estas foram denominadas de quarks. O próton

é constituído de 2 quarks do tipo U (up) e um do tipo D (down). Para

um nêutron, tomam-se 2 d e 1 u. Conhecem-se quatro outras espécies

de quarks: s (strange), c (charmed), t (top) e b (bottom ou beauty). Em

resumo: os núcleons podem ser considerados como nossas palavras; os

quarks como as letras dessas palavras.

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A Explosão inicial: Agrupamento

das Letras

Todos os sistemas estão soldados por forças naturais: a força de gravidade

une os planetas, as estrelas e as galáxias; a força eletromagnética

une os átomos e as moléculas; a força nuclear forte une os núcleos

dos átomos; a força nuclear fraca não é responsável por qualquer

estrutura estável. O princípio da ligação é sempre o mesmo; agrupando

os elementos, a força transforma em energia uma parte de sua massa.

O Universo, no seu início – de quinze bilhões de anos atrás – situa-se

na base da escala. O calor extremo que predominava nessa época mantinha

todas as partículas de matéria em estado de dissociação completa

e permanente, ou, de outro modo, toda e qualquer associação era

imediatamente dissociada. Só havia letras, desorganizadas, desligadas,

soltas, bailando sozinhas; não havia possibilidade de formação de “palavras”;

muito menos de “frases”.

Não havia o menor vestígio de organização, era o caos primordial.

O Universo continua em expansão e esta provocou o resfriamento. A

temperatura e a densidade diminuíram com o passar do tempo. Com o

resfriamento torna-se possível o aparecimento dos episódios associativos:

primeiras formações de “palavras” utilizando algumas “letras” que

trombaram entre si e se fixaram devido às forças naturais existentes.

Assim iniciaram-se as primeiras organizações da matéria, ou seja,

o nascimento dos elementos, das primeiras palavras. Pouco a pouco,

lentamente, foram aparecendo outros elementos naturais que caracterizam

os níveis de complexidade do Universo. No início, tais episódios

ocorreram ao mesmo tempo, em todos os lugares do Universo. Posteriormente,

seu alcance passou a ser mais localizado.

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A partir do momento no qual a temperatura caiu abaixo de um

trilhão de graus – conforme estimativas – houve a possibilidade da

criação dos quarks se unirem, três a três, dando origem aos núcleons.

Quando a temperatura chegou a um bilhão de graus, uma fração dos

núcleos associou-se para gerar os primeiros núcleos de hélio; a primeira

“palavra” formada no Universo. Um milhão de anos após, surgiram

novas “palavras”; os primeiros átomos e as primeiras moléculas de

hidrogênio foram formados quando, graças à diminuição do calor, os

elétrons conseguiram se fixar e permanecer em órbita ao redor dos

prótons.

Uma centena de milhões de anos depois, aparecem as primeiras

galáxias, dando origem às estrelas do céu. Em seu centro incandescente,

as estrelas agrupam os núcleos em núcleos pesados (hélio, carbono,

silício, ferro). Com a morte das estrelas e lançados no espaço interestelares,

esses núcleos capturam elétrons e tornam-se átomos. Associando-se

entre si, os átomos formam moléculas e minúsculas estruturas

cristalinas: os grãos de poeira do espaço sideral. Sua aglutinação em

corpos sólidos extensos provoca a formação de asteróides e de planetas;

sobre alguns se depositam oceanos e atmosferas.

O nosso Sol apareceu quando a galáxia já tinha dez bilhões de anos e

as estrelas anteriores lançaram no espaço suas safras de núcleos pesados.

A temperatura no centro do Sol é de dezesseis milhões de graus.

Já a temperatura do centro da Terra deve ser de dez mil graus, pois

esta, ao contrário da lua e dos asteróides, não acabou de liberar para o

espaço o calor acumulado no momento de sua formação. A superfície

do Sol é, como foi dito, muito mais quente do que a da Terra, sendo,

graças a essa diferença de temperatura, a esse desequilíbrio térmico,

que a energia solar é aproveitada na Terra.

É a partir dessa informação solar que a biosfera cria e mantém a

vida. A cada minuto a Terra recebe uma imensa quantidade de energia

luminosa proveniente do Sol. Tal energia chega em forma de uma

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chuva de fótons amarelos que são absorvidos pelo solo. Essa energia,

convertida em calor, é depois remitida para o céu sob a forma de luz

infravermelha, sendo, portanto, poucos os fótons que são “predados”

ou capturados pela Terra, pois a maioria deles se perde no espaço.

Interações

Todos os sistemas agem ou exercem interação com o ambiente, com

o resto do Universo: os átomos absorvem e emitem luz; as moléculas

mudam de forma, associam-se e dissociam-se; as bactérias movem-

-se em direção às suas fontes de alimento. No interior dessas camadas

férteis, novas interações moleculares podem associar moléculas leves

ou gigantes em células vivas e em organismos vegetais ou animais.

Acredita-se que a vida celular surgiu na Terra há cerca de quatro bilhões

de anos, já a vida chamada de inteligente há não mais que alguns

milhões de anos.

A retirada de energia do sistema material, inevitavelmente, conduz

à destruição da ordem ou informação que ele mantinha; essa exige

esforço e trabalho, portanto, o uso de matéria. Assim é que a criação,

a construção, mudança ou adaptação de qualquer sistema – vivo ou

não-vivo, natural ou humano, individual ou social – só poderá ocorrer

através da destruição, queda, consumo ou demolição de outro sistema

ordenado. Assim, a energia necessária para a emergência e evolução

de vida na Terra – para a produção e manutenção da vida – deriva

da transformação ou destruição do Sol, bem como transformação da

rádio-atividade que ocorre no interior da Terra. (unindo e desunindo

quarks, átomos, moléculas etc., formando água, bactérias, vegetais,

animais etc., até chegar ao ser humano).

Da mesma forma, nós, homens, nossos parentes, outros animais e

vegetais, destruímos a organização ou ordem dos alimentos que nós

comemos ou do combustível queimado para alimentar nosso organismo

(hidrato de carbono, lípides, proteínas etc.) para nos mantermos

quentes, construirmos nosso corpo, em resumo, mantermos a integri-

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dade de nossa organização.

Do ponto de vista da termodinâmica, a Natureza aparece como uma

cadeia sem fim de transformação de energia originada no “Big-Bang”

, ou também, de acordo com outras teorias científicas, sistemas ordenados

emergem para a conversão mais eficiente de energia liberada do

que seus predecessores.

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O aparecimento dos Seres Vivos

A Paleontologia, a Antropologia, a Paleantropologia e a Pré-história,

bem como outras ciências do homem, nos ensinam que a vida nasceu

da matéria e que todos os seres vivos que existem ou existiram pertencem

a uma só árvore genealógica e que sua filiação chama-se evolução.

A vida surgiu da não-vida, pelo menos uma vez, em algum momento.

Os registros fósseis mostram que ela deve ter surgido há 4 bilhões de

anos. Mas, a partir desse momento, por mais de 3 bilhões de anos a

Terra foi habitada somente por organismos muitos simples, como os

seres unicelulares que se assemelham a bactérias e algas.

Ocorre uma transformação constante nas formas de vida existentes;

essas foram, aos poucos, tornando-se mais complexas. No início não

havia vegetais nem animais; esses últimos começaram a aparecer há 3

bilhões de anos após o aparecimento de seres unicelulares segundo a

ordem: Árqueo-bactérias e bactérias; aparecimento das Algas Azuis –

possibilitando a produção de oxigênio, transformando a cor cinzenta da

atmosfera para a azul atual, houve assim o aparecimento de diversas

espécies que utilizam oxigênio para viver até chegar nos mamíferos e,

finalmente, nos homens.

Aos poucos, uma antiga distinção entre a matéria inerte e a matéria

viva foi se desvanecendo. Sabe-se atualmente que tanto os sapos e homens,

como as pedras e as montanhas, são formados por átomos identificáveis

pelos físico-químicos. O que se estuda agora é como, em cada

organismo, vivo ou não, a matéria é composta e organizada de modo a

criar um determinado indivíduo. As moléculas biológicas, ou moléculas

gigantes, como as proteínas, agrupam, de um certo modo, milhões de

átomos (basicamente C, N, O e H), substâncias essas que existem no ar,

no solo, nas estrelas etc. Foi verificado que certos aminoácidos que dão

origem às proteínas podem ser facilmente formados quando a energia

elétrica passa através de uma simples mistura de gases. A absorção ou

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a emissão de radiação faz com que os sistemas mudem de um estado a

outro.

Uma vez formado, basicamente, o organismo trabalha para sua

manutenção e reprodução; que nada mais é do que a manutenção da

espécie a que pertence. Para realizar essas duas tarefas – conservação

do indivíduo e da espécie – as células dos seres vivos contêm informações

necessárias para esses dois objetivos básicos e que dirigem toda a

conduta: a manutenção e a reprodução da vida. Pois bem, essas instruções

estão escritas através de um alfabeto composto de quatro letras:

A, C, G, T (adenina, citosina, guanina e timina). Cada letra é formada

por uma molécula de quinze átomos denominados nucleotídeos.

O alinhamento dessas quatro letras em uma ordem resulta nas “palavras”,

que são os genes. Terminando o raciocínio: no núcleo de cada

célula viva existem várias dezenas de cromossomos (46 no homem),

onde cada um é formado por milhares de genes, ou seja, bilhões de

nucleotídeos, que, no total, englobam trilhões de quarks e de elétrons.

Existe uma sequência própria em cada indivíduo nessa construção.

As células vivas não passam de elementos químicos organizados de

uma certa combinação, uma maneira única de composição das substâncias.

Por exemplo, entre os mamíferos há cerca de mais de duzentas

espécies de células diferentes que, agrupadas de certo modo, originam

as “palavras” cães, gatos, elefantes etc. Com o acréscimo de algumas

variedades suplementares, não muitas, englobamos todos os seres

vivos da Terra: unicelulares, plantas e animais.

Os seres vivos, para sobreviverem, dependem de suas trocas com o

meio ambiente. Através dessas trocas ocorrem transformações, evoluções

e emergências. No começo houve formas de estruturas e comportamentos

mais primitivos; esses modos rudimentares se desenvolveram,

se enriqueceram e se diversificaram. Entretanto, jamais largaram

ou, se quisermos, livraram-se totalmente de sua origem: o ser vivo é

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um ponto de troca; por seus orifícios, moléculas e fótons penetram

sob forma de alimento, de respiração, de calor etc. A vida é um estado

excitado da matéria e sabemos que um átomo excitado transmite sua

energia para outro organismo, células ou átomos.

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Organismo Humano: O que são Seres

Vivos?

Os seres vivos são sistemas estruturados de uma certa forma. Tudo

o que ocorre em nós – ou em qualquer outro organismo vivo – acontece

em função do aparecimento, em cada momento, de determinadas

mudanças nas estruturas. O que observamos – do lado de fora – que

está ocorrendo num organismo, como o ser humano, que tem sido

chamado popularmente de conduta, nada mais é do que as mudanças

verificadas nas estruturas internas. Deve ser lembrado e enfatizado que

mesmo quando há uma ação do meio externo sobre o meio interno do

organismo, o ocorrido – o produto final – nunca é determinado pelo

meio. Explicando melhor: uma barata – isto é, um organismo – por

mais treinada que seja, nunca aprenderá a ler ou a falar, pois seu meio

ou estrutura interna não a capacita a realizar tal proeza; o organismo

da barata, sendo diferente dos homens, não tem condições de alcançar

esse aprendizado próprio – não superior – dos seres humanos.

O que notamos sob forma de ações através dos nossos órgãos dos

sentidos e cognições, a conduta observável do homem ou da barata em

um contexto determinado é, digamos assim, a representação externa,

visível para o observador, o possível de ser percebido, das mudanças

estruturais que estão ocorrendo lá dentro, no organismo vivo. No caso

da auto-observação, o observador é o próprio agente das ações.

Os seres vivos são sistemas estruturais dinâmicos, que se constituem

e se delimitam como redes fechadas de produção de seus componentes

a partir de substâncias que retiram do meio, ingeridas, inspiradas,

absorvidas pela pele etc. De outro modo: os seres vivos são verdadeiras

fábricas em constante funcionamento, encarregadas de produzirem

seus próprios componentes e, para isso, utilizam substâncias do meio

ambiente. Essas substâncias participam, transitoriamente, da continua-

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da renovação dos componentes do organismo impedindo a interrupção

da produção. Com a morte, a produção encerra-se; a fábrica se fecha,

os componentes – matérias-primas – que davam corpo àquele determinado

organismo, substâncias como o H, N, C, O, Ca, Fe, K e outros, se

separam daquelas ligações anteriormente existentes e passam a fazer

parte de outras organizações diferentes da antiga, contribuindo para a

formação de novas estruturas, isto é, as substâncias passam a ter outro

destino. Portanto, uma vez encerrada a existência de um organismo

vivo, seus componentes, dispersos, sem função naquele ex-corpo, passam

a fazer parte do estoque de substâncias físico-químicas do meio

ambiente, podendo ser, a partir de então, reaproveitadas para a constituição

de outros seres vivos, vegetais ou animais, ou para outra coisa

qualquer.

A fábrica viva, animal ou vegetal – bactéria, roseira, carrapato,

homem ou elefante – é uma continuada realização de si mesma,

através da produção incessante e renovada de seus componentes. Os

organismos-fábricas têm recebido os nomes de Sistemas Autopoiéticos

(do grego “autopoiesis” = autoprodução ou auto-renovação), Sistemas

Vivos, Sistemas Complexos e outros nomes.

Os sistemas autopoiéticos apresentam como característica mais

importante a sua capacidade de organização. Enquanto o sistema

autopoiético produz a si mesmo, o sistema alopoiético, seu oposto, é

construído pelo homem. Assim, o sistema alopoiético é resultado da

produção de algo diferente do produtor, como o computador, rádio

etc. Resumindo: existe uma espécie de organização – tipo máquina –

que é fabricada pelo homem, designada para nos servir e que produz

algo externo a ela mesma; por outro lado, existe uma segunda forma

de organização, a natural, onde se inclui o organismo vivo e, também,

os ecossistemas, como as sociedades, que se autoproduzem. As organizações

naturais como o homem, a roseira, a sociedade, o mosquito,

foram criadas por elas mesmas, através da evolução e de mudanças

continuadas; elas se auto-reproduzem, sendo sua identidade insepará-

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vel de sua história.

O sistema autopoiético, ao contrário do sistema alopoiético, é autônomo,

ou seja, coordena e subordina todas as mudanças que ocorrem

nele visando a manter sua própria organização. A conservação de sua

organização representa a sua constante fundamental, seu processo

básico, isto é, preservar a si próprio, evitar sua morte. Quando a coordenação

para sustentar a organização fracassa por algum tempo,

ou seja, quando as disposições e funcionamento das partes passam

a trabalhar anormalmente, fora do padrão habitual, surge o que chamamos

de doença. E mais, quando a desorganização atinge um grau

elevado, ou seja, essa passa a ser muito intensa, “sem remédio”, ocorre

o que chamamos de morte do sistema individual. A morte, num sentido

biológico, nada mais é do que a incapacidade do organismo, diante

de determinadas situações, pressões do meio interno e ou externo que

impedem o organismo de ser o que ele é. A autonomia de um organismo

tem sido definida através de termos como: “autodeterminação” ou

“autodecisão”. Esta é uma propriedade crucial existente em qualquer

sistema auto-organizado.

A meta máxima do organismo vivo é a automanutenção e a auto-

-renovação de si mesmo. Para que exista a conservação da organização,

o organismo assimila informações (alimentos, idéias, desorganizações)

produzidas no meio externo e interno devido às desordens resultantes

dessas trocas ou, de modo mais simples, em virtude do sistema estar

vivo.

Um sistema autopoiético perde sua identidade ao perder sua organização,

a barata perde, ao ser esmagada por um sapato, sua organização

de barata – transforma-se, entre outras coisas, em restos alimentícios

para formigas, mosquitos e bactérias. Por outro lado, o sistema alopoiético

também se mantém como uma unidade apenas enquanto sua

organização não variar; uma cadeira só será cadeira enquanto a sua organização

for a de uma cadeira; uma vez quebrada, poderá virar lenha,

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engala e porrete. Nesse caso, ela perdeu sua identidade de “cadeira”.

A organização de um sistema são as relações entre os seus componentes,

os que lhe dão sua identidade de classe, como as cadeiras, uma

fábrica de pregos, os seres vivos. O modo particular pelo qual realiza-se

a organização de um sistema particular – classe de componentes e as

relações concretas que se dão entre eles – constitui sua estrutura.

Nós não instruímos um sistema, não especificamos o que vai acontecer

nele. De maneira semelhante, se você põe um toca-fitas para

tocar, você não o instrui, você o aciona, você ativa o que o toca-fitas é

capaz ou foi preparado para fazer; suas funções são as determinadas e

possibilitadas pela sua estrutura. Assim, não se pode imaginar certas

pessoas agirem de um certo modo quando sua estrutura o orienta para

outro. Certas transformações estruturais são acionadas pelas interações

do organismo com o meio ambiente; outras, pela própria dinâmica

interna do sistema: agora, meu organismo está com sede; saio à

procura de água.

Mas dois sistemas totalmente iguais – duas baratas ou dois homens

– terão histórias diferentes de interações pessoais e de mudanças estruturais

que foram iniciadas de forma diferentes quando o organismo

começou sua existência como uma célula; ela terá uma história de vida

singular.

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Nascimento do Bebê: Primeiros

contatos

Morre um ser aquático expulso da vida intra-uterina, nasce uma

criança desvalida, necessitando de extrema ajuda externa. O recém-

-nascido esforça-se para sobreviver na atmosfera terrestre desconhecida:

grita, agita-se, chora, contrai-se, esperneia irado, chuta, agarra,

solta, sofre, ainda não tem alegria. Tem fome, busca calor humano,

expele sobras desnecessárias; inicia, fora da proteção intra-uterina,

uma jornada mais estimulante e perigosa.

Estruturas neurais selecionadas pela evolução, juntamente com

órgãos, neuro-transmissores, hormônios, peptídeos, canais, células,

água, muita água, sais, condutores, eletricidade, energia, tudo impele

o recém-nascido para explorar o ambiente, informar-se acerca dele,

aproximar-se ou afastar-se de áreas do mundo onde foi arremessado.

É aceita a idéia de que o indivíduo entra no mundo equipado com

um conjunto rudimentar de estruturas genéticas e padrões neurais

inatos, juntamente com programas de processamento de informações

rudimentares que, por sua vez, começam a desenvolver a relação com

o meio ambiente, conforme um curso genético controlado. Este programa

inicial permite ao recém-nascido lidar, de forma adaptada, com

estimulações fornecidas por grande parte das informações as quais ele

está exposto; assim ele consegue sobreviver.

Primeiras condutas: relação mãe/filho

Para agir é preciso que haja um motor interno impulsionando a

pessoa para explorar ou investigar o ambiente externo e interno; desse

modo, ela conhecerá e avaliará o que lhe proporcionará prazer ou

desprazer. A exploração do ambiente, caso provoque uma ansiedade

ligeira, agrada o organismo, entretanto, diante de grandes perigos, a

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ansiedade se torna desagradável e tende a provocar a fuga.

A criança é ativada internamente por necessidades básicas ou fisiológicas

de seu organismo; fome, sede, contato e segurança, mas,

também, exploração e curiosidade acerca do meio, esperança de que

as ações dêem certo. Para isso, ela movimenta-se em direção às metas

possíveis de produzir alívio às necessidades produtoras de desarmonias

e sofrimentos.

Sabe-se que os recém-nascidos são atraídos, ainda muito cedo, por

novidades do meio ambiente, levando-os a “explorar” o ambiente em

busca de recompensas e, nessa busca, são ativadas suas “esperanças”

de encontrarem algo que lhes dará satisfação, alegria ou felicidade.

Durante suas explorações, elas encontrarão também situações que as

farão sofrer, nesse caso, seus organismos, automaticamente, produzem

vocalizações (gritos, choros etc.) sinalizando pedido de socorro.

Os sinais que a criança possui ao nascer são poucos para indicar seus

desejos: ela olha, pega, chora, movimenta-se, engole, rejeita, excreta

etc. Meses após nascer, por não possuir ainda a linguagem simbólica

usada pelos adultos, ela não saberá explicar o que sente ou o que deseja

através de palavras. Seu sofrimento é informado ao cuidador através

da linguagem corporal, concreta e no presente, desajeitadamente

e em bloco. A mãe, para entendê-la, precisa decodificar as informações

usando seu assimilador mental sem-palavras que pode ser ótimo ou

não.

As crianças começam a mostrar o que elas são, como indivíduos

diferentes, logo após o nascimento. Certos recém-nascidos mostram-se

alertas e cheios de emoções e vigor, entrando facilmente em contato

com outras pessoas; outros, por sua vez, exibem mais calma e ordem,

são fechados, dão menos repostas emocionais aos pais. Alguns bebês

desistem facilmente quando não conseguem produzir a resposta esperada

em suas mães, outros se esforçam, tentam inúmeras vezes antes

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de desistir.

Nessa interação, de um lado temos o recém-nascido com suas características

inatas, geradas por genes particulares e diferentes para

cada indivíduo; de outro lado, há o externo à criança, a maneira como

o mundo vai tratá-la ou estimulá-la, especificamente, como os seus

criadores – geralmente os pais – irão provocar e ou responder às informações

dela.

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Recém nascido: Ligação inicial com

o Criador

Todas as mães, ou babás, sabem que o cuidado para com um recém-

-nascido nunca foi, nem será, fácil, simples ou previsível. Os problemas

surgidos são, em grande parte, estressantes, e mais, na maioria das

vezes, não-familiares, podendo ser decifrados e interpretados de diversos

modos, muitas vezes, contraditórios. Não é simples determinar ou

adivinhar o que o menino está desejando no momento do choro, ou

mesmo, se o que ele necessita poderá ser encontrado. Os sinais fornecidos

pela criança à mãe atenta precisam ser, primeiramente, registrados

na mente materna e depois interpretados, sendo que a seleção

e a avaliação dos dados importantes, que servirão de orientação, são

peculiares a cada um de nós. Isso dificultará a ação do responsável para

responder às informações rudimentares do bebê.

Uma ação inicial da criança após seu nascimento, bem como de

todos os mamíferos e aves, fundamental para que ela escape da morte,

é a de se ligar física e afetivamente a um outro animal da mesma

espécie e mais bem preparado. Esse protetor inicial é, na maioria das

vezes, a mãe do recém-nascido. Essa aproximação – o agarrar-se a um

adulto – é um processo instintivo, de origem biológica, fazendo parte

da conduta não-aprendida de diversos animais. Assistimos a essa cena

no recém-nascido humano, nas relações entre o bezerro e a vaca, o

cãozinho e a cadela e o pintinho e a galinha; mas não presenciamos

essa ligação entre os répteis e suas crias, pois esses não possuem esse

comportamento instintivo. O sistema de ligação afetiva, presente nos

mamíferos e aves, é um produto da evolução de sistemas motivacionais/emocionais

mais primitivos que não evoluíram nos animais chamados

de “inferiores”.

A aproximação mãe/filho, dito de outra forma, essa força interna

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agregadora, impele o bebê e sua mãe a buscar contato e satisfação

após o nascimento. Não devemos confundir a ligação inicial da mãe (ou

de outro criador disponível) e seu filho, que é biológica, com os “laços”

afetivos que aparecem posteriormente e que foram aprendidos; nesse

último caso, essas ligações fazem parte da história de vida de cada um.

Se o criador lê e interpreta acertadamente os sinais fornecidos pelo

recém-nascido, ou seja, responde funcionalmente aos pedido, exigências

ou súplicas dele, as ações produzidas pela criança serão reforçadas,

isto é, elas tendem a se repetirem de forma semelhante. Se

a criança chorou por estar com frio e a mãe interpretou o sinal corretamente,

agasalhando-o, formam-se padrões funcionais de informações

e interpretações conhecidos que se repetem em função de sua

eficiência. O oposto aconteceria como no caso da mãe agir de modo

inadequado: em lugar de agasalhar o bebê em resposta ao choro, esta

lhe dá a mamadeira. Nesse caso haverá uma tendência da criança em

diminuir a emissão das informações (choros, lamentos, expressões de

raiva etc.), pois elas não tiveram êxito, ou seja, não foram recompensadas

corretamente pelo criador, isto é, não foram aliviadas.

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Formação de Modelos: Relação

mãe/filho

Os modelos ou as representações internas na mente do recém-nascido

começam a ser construídas durante os períodos iniciais da vida. Esta

afirmação tornou-se uma idéia chave manifestada nos estudos cognitivos

e neurobiológicos do desenvolvimento. Portanto, a construção dos

modos de “ver o mundo”, entre estes, os modelos positivos ou negativos

com respeito às relações humanas e de si mesmo, começam a

ser estruturados logo após o nascimento, quando o cérebro da criança

começa a interagir com o ambiente, principalmente com o cérebro da

mãe.

As respostas dos pais a essa aproximação, quando eficientes, dão

origem à formação de um esquema ou modelo cognitivo na criança de

esperança e de prazer com respeito a futuras relações com pessoas.

Quando ocorre isso, o modelo inicial, uma vez ampliado, reforça o estado

emocional positivo da criança e atenua o negativo. A interação mãe/

filho ocorre primordialmente nos primeiros dias de vida, em função do

calor do contato, da alimentação, do odor e da estimulação táctil.

As experiências iniciais do bebê, provocadas durante suas relações

com os cuidadores, são assimiladas e tornam-se codificadas na memória,

dando origem à expectativa de possíveis contatos satisfatórios

com outras pessoas; o contrário é verdadeiro com respeito às ligações

deficientes e produtoras de sofrimento. Apesar da não existência plenamente

desenvolvida da memória episódica – memória para situações

concretas vividas – funciona, desde o nascimento, a memória de

procedimentos, também chamada de memória implícita, relacionada

ao aprendizado de ações motoras da criança, gestos, sorrisos, agarrar,

andar, ou seja, respostas inconscientes e automáticas provocados pelos

estímulos internos do organismo e do meio ambiente; uma memória

que está ligada a regiões e circuitos cerebrais relacionados às emoções.

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Essa memória inicial, exercendo um papel importante e básico na

criação dos modelos gerais do indivíduo, do meio físico e social, relaciona-se

também ao aprendizado inicial das ações morais, pois regula

as expectativas favoráveis, ou desfavoráveis, o que deve e o que não

deve ser feito no futuro e, também, a orientação para formar ou não

vínculos com uma ou outra pessoa. Agindo conforme essas regras,

aprendidas muito cedo, a pessoa, ao identificar-se com elas, irá sentir-

-se seguro, ao contrário, irá sentir-se estranho a si mesmo quando adotar

posturas que vão contra regras conhecidas. A criança, ao enfrentar

novas situações negativas parecidas com a antiga, irá manifestar diversas

emoções e condutas desagradáveis, semelhantes a exibida durante

a situação estressante primeira; sem decifrar o que o levou a sofrer tais

emoções e conduta, ou seja, sem se lembrar que, numa ocasião, teve

uma experiência ruim ou negativa daquele formato. Assim, as experiências

com o criador, positivas e negativas, formadas em decorrência

de boas ou más ligações, serão armazenadas na memória da criança e

utilizadas, posteriormente, na construção de todas as outras ligações.

Através desses contatos precoces serão esboçados os futuros modelos

ou padrões orientadores para a formação de laços afetivos futuros

com outras pessoas encontradas, entre eles, o cônjuge e os companheiros.

Conforme as diretrizes ordenadoras existentes na mente de

cada um, acentuamos ou atenuamos determinados estímulos percebidos

nas pessoas com as quais estamos em contato. Como subproduto

dessa relação construída – a primeira da vida da criança – novos esquemas

serão formados, apoiados no primeiro modelo e, também, nos

sinais emitidos pelas pessoas encontradas. Estes esquemas, nascidos

muito cedo, servirão de bússolas para clarear e facilitar o modo como o

indivíduo deverá postar-se, cumprimentar, falar, afinal, agir nas relações

interpessoais futuras.

Daí a extrema importância desse início de vida. Se o modelo inicial

do indivíduo for inadequado à realidade, e frequentemente é, as idéias

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construídas que se originaram dele, consequentemente, serão, como o

padrão, disfuncionais, conforme afirma o ditado: “pau que nasce torto

cresce torto”. Como resultado, não serão saudáveis as futuras ligações

afetivas do indivíduo possuidor do modelo defeituoso. Trabalhando

com uma representação imperfeita acerca das relações humanas, ela

não fornecerá ao seu possuidor o resultado por ele esperado: obtenção

de tranquilidade e prazer; poderá causar, ao contrário, sofrimento e

frustração.

Esse aprendizado, uma vez adquirido, passa a ser usado automática

e inconscientemente, ou seja, o seu possuidor não sabe ou não se

lembra de como ele foi adquirido. Pensando assim, a “amnésia infantil”

é natural para o aprendido durante os dois a três primeiros anos

de vida; o contrário do que muitos crédulos afirmam. Portanto, muito

pouca ou nenhuma memória desse período da infância é acessível às

recordações na idade adulta, entretanto, a conduta é determinada, em

grande medida, por esse aprendizado não consciente. A não-lembrança

de como a pessoa aprendeu não ocorre devido à repressão de memórias

traumáticas na fase do “Complexo de Édipo” como, erroneamente,

afirmava a teoria psicanalítica, mas sim, devido ao desenvolvimento

demorado da memória declarativa ou episódica, que nessa idade ainda

não está desenvolvida plenamente. A memória declarativa ou episódica

tem a ver com a memória de fatos concretos, singulares: a pessoa

lembra do que ocorreu com detalhes: do cheiro, cores, movimentos

etc., como ocorre com o primeiro sutiã, a primeira vez que dirigiu um

auto, um acidente etc.

Tudo indica que um inicial autoconceito negativo – uma baixa auto-

-estima – funcionará como um mecanismo central gerador de futuras

ligações defeituosas e estressantes. Assim vai sendo construído o ser

humano, preso aos primeiros modelos mentais formados; outros e

outros esquemas, padrões, ou ainda, representações acerca do mundo

externo e interno, vão sendo criados para serem usadas numa e outra

conduta.

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A Plantonista

Noite de sexta-feira; 22 de junho. Noite calma, calma demais para

aquela sexta-feira, com fogueiras e festas. Por sorte, o Hospital Psiquiátrico

São Judas Tadeu estava sossegado. Nos fins de semana, o número

de internações crescia com aumento dos bêbados, drogados, esquizofrênicos

e maníacos agitados.

Distante do hospital tranquilo, Clara, agitada, após ter vestido seu

short ultracurto, saiu com os amigos para os pontos de sempre. Em

cada local onde parou, fumou, bebeu e drogou-se como nas outras

vezes. No bar, assentada nas cadeiras cheirando a frituras, ela bebia e

discutia com os amigos dos fins de semana. Como suas palavras saiam

velozmente de sua boca pequena, uma boca que parecia nunca se

abrir, tornava-se difícil compreender o que Clara pronunciava. Entretanto,

o que era falado ou entendido tinha pouca importância, pois

os temas eram sempre os mesmos e conhecidos de todos: o custo de

vida, as paqueras, a praia melhor para viajar durante as férias e os lugares

da cidade que tinham uma melhor cerveja.

Clara era jovem, solteira, talvez até bonita, aparentando ter trinta

anos. Ao terminar o curso superior, conseguiu um emprego razoável;

um trabalho que não gostava, a não ser quando recebia o salário que

sempre achava que era pouco. Seus cabelos loiros avermelhados,

grossos e cheios de pequenas tranças, combinavam com suas roupas

coloridas e extravagantes. Não tinha limites; geralmente falava mais

do que devia, fumava muito e, às vezes, bebia tanto que não mais se

lembrava do que havia feito.

A noite estava terminando e o cansaço se instalou entre os amigos

do bar. Clara, jovem e forte, sozinha, continuou suas andanças pelos

botecos. Ora num, ora noutro, os pileques continuavam. Já bem tarde,

quando a manhã se aproximava, ao sair cambaleando de um dos bares,

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ela foi despertada por sons animados dos tambores, chocalhos, tamborins

e pandeiros. Estimulada e atraída, caminhou, automaticamente,

em direção aos sons produzidos por um grupo de rapazes que cantavam,

sambavam e tocavam pelas ruas da cidade adormecida.

Clara, sonolenta, cansada das conversas e pileques, uma vez despertada

diante da magia e força dos sons, aproximou-se do grupo e,

facilmente, se enturmou. Sem inibições, entrou na dança bamboleante

e, imediatamente, foi aceita, com entusiasmo, pelos componentes do

grupo. Sendo a única mulher presente, os rapazes, após formarem um

círculo em torno de Clara, começaram a gritar e a bater palmas, diante

de cada balançar excitante e ritmado do seu bumbum. Cada requebro

de Clara provocava urros que eram ouvidos à distância.

Encantada pelos sons do batuque, encorajada por gritos e palmas,

ela sonhava: dançava, pulava e requebrava; cadenciada conforme os

sons poderosos provocados pelas batidas dos tambores e berros da

platéia excitada. A cada gingado dela, mais brados e mais liberdade de

ação. Tudo dominava a mente receptiva de Clara.

Num rebolado mais ousado e violento, seu “short” apertado rompeu-se

de uma só vez, abrindo-se de cima a baixo no seu traseiro. O

entusiasmo dos presentes aumentou. A platéia foi crescendo; pessoas

que voltavam para casa e alguns moradores da vizinhança aproximaram-se

para presenciar o espetáculo inusitado. Clara, indiferente ao

acontecido, parece que se tornou, com o incidente, mais e mais animada.

Os uivos, à medida que ficavam mais fortes, gerava, da parte dela,

mais movimentos ritmados, na orgia que ali se instalara.

Não demorou muito para que Clara, para alegria de muitos e espanto

de poucos, tirasse de uma só vez, a blusa e restos do “short” rasgado,

passando a dançar, em plena praça, apenas de calcinha e sutiãs vermelhos.

A animação aumentava, contagiando todos os assistentes daquela

festa inesperada; não era sempre que surgia ali um acontecimento

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como aquele.

Outros e outros espectadores paravam para ver o espetáculo: casais

que voltavam cansados para casa, homens que se dirigiam ao trabalho,

andarilhos diversos. Moradores insones da vizinhança, diante do

barulho, largavam suas camas ou TVs e se debruçavam nas janelas para

desfrutarem da cena ousada, interessante, divertida e “ao vivo”. Alguns

poucos, desejosos de dormir, reclamaram do barulho e ameaçaram

chamar a polícia.

Clara, cada vez mais estimulada, dançando e cantando, alcançou o

clímax. Num piscar de olhos, como um furacão, tirou o resto de suas

minúsculas e últimas peças vermelhas. Exclamações de prazer e de

apoio dos assistentes foram ouvidas a centenas de metros; os tambores

rufavam estrondosamente com batidas superanimadas, enérgicas e

rápidas.

Mas, “o que é bom dura pouco”. Para tristeza da platéia alvoroçada,

de repente, a festa acabou. Chegaram os policiais. Clara, sem perceber,

continuava sua dança, mesmo sem os sons dos tambores, até que foi

paralisada pelos fortes braços de dois soldados. Através dos gritos de

um deles ela foi intimada a se vestir imediatamente. Os espectadores

pesarosos e frustrados, diante da interrupção brusca do prazer gozado

naquela noite fria de junho, exatamente quando imaginavam cenas

ainda mais ousadas e interessantes, se dispersaram tristonhos.

Clara mostrava-se agitada; embriagada, continuava a ter uma conduta

e conversa estranha, pois, aos berros, exigia dos policiais seus

direitos de cidadã por não ser uma qualquer:

— Tenho uma profissão. Ouviu! Não sou uma merda não! Solte-me!

Colocada no camburão; cada vez mais seguros de que se tratava de

uma doente mental, os policiais decidiram levá-la para o hospital de

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loucos. Cinco horas da manhã, o camburão chega à porta do Hospital

São Judas Tadeu que, felizmente, continuava, naquela noite de sexta

feira, sem a ocorrência de nenhum caso complicado; todos os pacientes

estavam calmos sem exigir cuidados especiais, não houve brigas entre

os internos e, até aquele instante, nenhum louco tinha sido levado

às pressas pela polícia ou familiares para ser internado.

O militar sonolento chega ao hospital trazendo Clara segura pelas

suas mãos fortes. Ela sai do camburão esperneando e gritando:

— Solte-me, solte-me. Idiota! Desgraçado!

O soldado, calmo quanto à sua força, indiferente aos berros, toca a

campainha. Chega à porta Mateus, com seus cabelos desarrumados e

seu rosto inchado:

— O que foi?

— Vim trazer esta louca, esta bêbada e drogada…

— Entra…, aqui está escuro, deixe-me acender a outra lâmpada…

— Esta mulher aí; apontando para Clara: — Estava dançando nua na

rua…, continuou a falar o policial, — Quando a agarramos…: disse que

era uma profissional de valor e não uma qualquer. É uma louca! Nesse

instante o soldado deu uma sonora gargalhada.

— Meus Deus! É você Dra. Clara! Exclamou Mateus olhando espantado

para ela.

— Estou dizendo para esse imbecil, há muito tempo, quem sou eu…

ele não acreditou… Falei com ele que hoje era o dia do meu plantão

aqui no hospital. Ele não quis me ouvir! Tornou a repetir, irritada.

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— Mas você me telefonou dizendo que não podia tirar o plantão,

pois estava acamada, com TPM, com uma dor terrível devido a enxaqueca.

— Tomei umas aspirinas; melhorei, saí para tomar uns ares.

O atendente levou a doutora para dentro do hospital, despediu-se

dos policiais, pedindo-lhes desculpas pelo ocorrido. Em seguida medicou

a médica com água doce e com um resto de café bem forte existente

na garrafa térmica. Logo depois, a Dra. Clara vestiu um jaleco e

assumiu o plantão daquele fim de madrugada fria e calma de junho.

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Início do Universo – Começo da

Vida: Informações resumidas

Os sistemas cerebrais dos animais foram construídos aos poucos,

não pela experiência ganha por cada organismo particular durante uma

vida; foram mantidos durante a seleção natural em função do chamado

reforço embrionário, isto é, a expressão de condutas que ajudaram os

indivíduos, de uma mesma espécie, a sobreviverem. Entre as experiências

mantidas pelo reforço embrionário estão os ataques ofensivos, as

fugas, os chamados ou vocalizações expressando sofrimento, a postura

ou sons indicando conquista ou poder, os jogos grosseiros, as atividades

exploratórias em busca de alimento e parceria, o abatimento e

tristeza diante da dor, a alegria ou esperança em alcançar o cobiçado

e outros comportamentos não-aprendidos e não-condicionados. Essas

condutas permaneceram porque elas se mostraram úteis e necessárias

à preservação do indivíduo e da espécie.

As unidades químicas básicas associadas às transmissões no sistema

cérebro/espinhal e relacionadas às emoções – neuro-transmissores –

são muito antigas, nos reportando ao período cambriano iniciado há

570 milhões de anos. É possível que as moléculas transmissoras clássicas

evoluíram há 1 bilhão de anos e permaneceram fazendo parte de

todos os organismos descendentes, passando por diversas mutações

e transformações. As novas formas de neuro-transmissores nascidos

através de mutações genéticas conservaram a propriedade de estimular,

excitando ou inibindo, as células vizinhas onde se encontram os

receptores apropriados.

Pesquisas modernas constatam que certos indivíduos são mais sensíveis

que outros aos estímulos provenientes de uma ou mais fontes.

Assim, alguns são mais propensos a reagir com raiva a fatos insignificantes

do meio; outros estão sempre atentos e supersensíveis aos

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sorvetes e pudins e, outros, ainda, ao bumbum e às curvaturas. Daí, um

estímulo interessante e atraente para uma determinada pessoa, pode

não ser um excitante para outra; também, estímulo potente para um

poderá ser um estímulo fraco para outro.

O estado do organismo, uma vez estimulado, fará com que ele responda

a determinados estímulos sensoriais e não a outros, por estar

mais sensibilizado em virtude das alterações nos sensores capazes de

gerarem respostas específicas e apropriadas à nova situação vivida. Se

meu sistema receptor estiver estimulado internamente com respeito à

fome, meu organismo ficará mais atento à possível presença de alimento

no meio exterior (minha geladeira, a pastelaria); o mesmo acontecerá

com respeito à irritação; nesse caso, em qualquer lugar e momento,

estarei pronto para xingar ou brigar; também, poderei estar superestimulado

com respeito ao sexo, ficando desperto e atento aos estímulos

relacionados a essa área.

As influências, genéticas e ambientais, bem como o uso de certas

drogas, podem produzir grandes variações individuais na produção,

liberação e efetividade de um determinado mecanismo do neurotransmissor.

De certa maneira, a atividade dos sistemas de punição e de recompensa

do organismo pode ser acessível ao portador através das emoções

subjetivamente experimentadas por ele.

Os seres humanos não são máquinas orgânicas que dão respostas

constantes aos estímulos. O animal culto responde aos estímulos conforme

esses são definidos e interpretados.

Durante os últimos meses de sua vida aquática, o feto torna-se

assustado quando a mãe fala. Acontece que a baixa frequência do som

provocado pela voz da mãe é transmitida através do corpo e do líquido

amniótico, que filtra a alta frequência. Esse som que viaja através do

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corpo, e não do ar, vibra contra a boca, mãos e corpo do feto. Esta bem

sentida estimulação tátil – não auditiva – causa uma aceleração do

coração e, em seguida, uma resposta exploradora quando o feto agarra

o que está flutuando, (cordão umbilical e seu próprio dedo) sugando-os

e provando o fluido amniótico.

No estágio de desenvolvimento embrionário, a duração da memória

biológica não excede a poucos minutos, pois durante esse estágio do

desenvolvimento a memória existente é de curta duração. Portanto,

caso as emoções da mãe provoquem excitação no feto, assim que a

mãe se acalmar, o feto também ficará tranquilo.

O feto não pode armazenar memórias capazes de serem evocadas

através de palavras, pois, nesse período de vida, ainda não se acha

desenvolvida a memória semântica (composição, através de símbolos,

do percebido). Esta inicia seu desenvolvimento a partir dos dois ou três

anos de idade. Nós só lembramos e comentamos, mesmo assim de

forma rudimentar, eventos a partir desse período. A idéia de que existe

uma “memória fetal” capaz de ser recuperada mais tarde através de

palavras não tem suporte empírico, ou seja, é uma crença não sustentada

pelos conhecimentos científicos atuais.

Mary Ainsworth mediu o choro das crianças após o nascimento;

algumas choram 3 minutos por hora, outras, 20 minutos. A curva de

choro cai no segundo trimestre e torna a subir no terceiro. Os meninos

que são mais cuidados e tocados durante as interações dificilmente

aumentam a quantidade de choro no terceiro trimestre, enquanto os

mais isolados choram mais.

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Emoções, sentimentos, memória

e indivíduo

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Emoção: A história de Geraldo

Geraldo, um jovem de vinte anos de idade, descrito pelos amigos

como sendo uma pessoa feliz, sempre gostou de esportes, principalmente

de futebol e corridas. Como bom estudante de Direito, ele espera

chegar bem alto na carreira de advogado. Naquela noite quente e

abafada de novembro, Geraldo e seus amigos assentaram-se nas arquibancadas

do estádio para assistir a uma partida de basquete. Enquanto

esperava o início do jogo, Geraldo, segurando numa das mãos um

pacote de pipocas, conversava animadamente com os amigos assentados

ao lado. Vagarosamente, ele ia retirando, com as pontas dos dedos,

algumas pipocas salgadas e ainda quentes que comprara ali mesmo e

as colocava com prazer na boca enquanto ouvia as considerações dos

companheiros acerca do jogo e observava moças sorridentes e belas

que por ali passavam a procura de um lugar e, talvez, de um namorado.

Alice, uma adolescente de cabelos curtos, passou diante do grupo

e provocou o olhar e a cobiça de todos; Geraldo, no momento em

que focalizava seus olhos bem abertos para a graciosa morena, sentiu

uma ponta de tênis no seu traseiro. Desviou seu olhar e pensamento

da moça para o ocorrido, ficando, por instantes, ligeiramente irritado.

Mas, em seguida, ajeitou-se novamente na arquibancada, perdendo de

vista a graciosa gazela de cabelos curtos. Ele continuou comendo pipocas

e examinando, detidamente, as diversas jovens que por ali transitavam.

Alguns minutos após o primeiro esbarrão, ele levou um segundo

chute, no mesmo lugar. Neste instante, enrijeceu-se, agora bem mais

irritado do que da primeira vez que recebeu o pontapé. Apesar disso,

Geraldo ainda conseguiu manter-se controlado. Parou por instantes

de comer a pipoca, calou-se, arredou como pôde, levando seu corpo

um pouco mais para frente, imaginando, nessa posição, ficar livre dos

chutes do vizinho de cima da arquibancada. Mas, mais uma vez, apesar

dos seus esforços, ele não conseguiu evitar um terceiro esbarrão, mais

forte ainda, quando algumas pipocas caíram ao chão.

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Geraldo se enfureceu. Tenso e trêmulo, colocou o pacote de pipocas

no piso, junto aos seus pés. Interrompendo a conversa tranquila, as

brincadeiras e gargalhadas, ele levantou-se bruscamente, girou seu corpo

para trás em direção ao desconhecido assentado no lance de cima

da arquibancada, preparando-se para agredi-lo caso este aceitasse a

briga. Uma vez tendo girado totalmente o pescoço e tronco para trás,

ele pôde, só agora, olhar e observar melhor, bem de frente, o mal-

-educado e chato, o perturbador de seu sossego e lazer. Num rápido e

completo exame do chutador, Geraldo teve sua atenção voltada para

os membros superiores do seu “agressor”. De suas mãos atrofiadas,

desciam pequenos dedos disformes que nasciam logo abaixo dos

ombros. Geraldo, ainda um pouco agitado e raivoso, ficou paralisado

com o que viu. Ele, antes de perceber os braços do vizinho incômodo,

estava possesso e decidido a “matar ou morrer” em defesa dos seus direitos,

ou, no mínimo, bater ou apanhar, mas com honra. Agora, diante

do que acabara de ver, sentiu sua raiva intensa e selvagem rapidamente

ser consumida e transformada numa mistura de simpatia, perdão

e até piedade para o agressor. Pálido, sorrindo sem graça, girou seu

corpo novamente em direção ao campo de basquete. Ainda tremendo,

abaixou-se pegando novamente o pacote de pipocas e enfiou seus dedos

finos nele, segurando algumas delas com dificuldade e levando-as

até sua boca seca. Ajeitou-se como pôde nas apertadas arquibancadas

do estádio, chegando o traseiro o mais pra frente possível, pois assim

esperava não ser mais chutado.

Aqui termina a história de Geraldo…

Comentários: Geraldo foi descrito como uma pessoa geralmente feliz,

significando sua disposição habitual, possivelmente, uma condição

geneticamente influenciada pelo seu sistema neural, operando mais

ou menos de forma continuada, gerando um modo que caracteriza o

estado emocional da pessoa. Nesse caso, seu traço de um humor feliz

significa uma pessoa animada; o mecanismo da atividade neural é atri-

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uído a atividade neuroquímica. Na noite do jogo, talvez, instigado pela

temperatura – um dia quente – ele sentiu mais a dor diante do impacto

do chute no traseiro e, além disso, o sofrimento emocional foi aumentado

pela interpretação formulada por Geraldo: “Isso é um abuso, uma

falta de respeito”, aumentando ainda mais sua raiva já desencadeada.

Tudo isso gerou o desejo ou a prontidão para agir, defender-se, quando

girou o corpo pronto para agredir o torcedor distraído.

Todo esse processo pode ser descrito como mudanças motoras e

sensoriais, mas, também, por ter abandonado a pipoca que, por ser

alimento, o acalmava, juntamente com o papo com os amigos, que

também tem um efeito tranquilizador. A interrupção brusca das emoções

agradáveis e calmantes , transformadas em emoções desagradáveis

e com possibilidade de produzir resultados incertos, levou Geraldo

a sofrer irritado, deixando por instantes sua animação e prazer com a

vida que existiam antes dos chutes. A raiva, consequentemente, gerou

certas condutas motoras expressivas (levantar-se, enrijecer-se, partir

para a briga). O próprio ato de movimentar-se para brigar aumentou ou

promoveu mais ainda a raiva inicial, conforme disse William James: “Se

recusarmos a expressar a paixão, esta morre”.

Mas a raiva existente no organismo de Geraldo, ao iniciar seu ataque

ao “inimigo”, transformou-se, prontamente, em outras emoções

após observar os braços e mãos do “agressor”. As novas emoções, bem

diferentes das ocorridas antes do chutes e durante esses, levaram-no

não ao ataque, mas à compaixão, união, um desejo de ajudar, ou, no

mínimo, de compreender o que aconteceu com o “agressor” distraído.

Dessa forma, a avaliação do fato, “Tenho que agredir esse chato”, ao se

transformar num novo julgamento: “Coitado: tem os braços defeituosos;

não conseguirá me dar um murro”, fez mudar, também, as diversas

emoções existentes em um ou em outro momento. As interpretações

acerca dos chutes levados no traseiro passaram a ser perdoados, provocando

novas emoções, diferentes das anteriores, entre elas, talvez, a

piedade. Pode ainda ter pensado, se teve conhecimento para isso, que

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o problema do vizinho talvez tenha sido o uso de talidomida por sua

mãe durante a gravidez.

Ao perceber e imaginar os problemas do agente de seus aborrecimentos

anteriores, uma vez livre deles, Geraldo pode ter ficado envergonhado,

sentindo-se culpado do que pensou e de sua ação inicial:

querer brigar, bater, numa pessoa menos capacitada fisicamente. Essas

considerações mentais podem ter originado simpatia e tristeza e, possivelmente,

felicidade por não possuir o problema do “agressor”.

Em resumo: Geraldo teve raiva e dor ao ser chutado, essas são emoções

não-cognitivas; mais tarde, apresentou vergonha, piedade e tristeza

e, novamente, felicidade pela comparação; todas essas emoções são

chamadas de cognitivas, ou seja, aprendidas e relacionadas à maneira

de pensar cultural. Durante toda a descrição dos fatos, aconteceram

diversos processos geradores de emoções: a disposição de Geraldo

“feliz” é função de um sistema neural geneticamente influenciado que

opera mais ou menos de forma continuada para gerar e manter esta

característica emocional; as transformações no sistema de emoção ao

ser chutado foram devidas às atividades neuroquímicas instigadas pelo

ambiente (temperatura), ao processo emoção/dor que o levou à raiva,

e aumento dessa pelas ações sensório/motoras/expressivas necessárias

ao uso do pensamento: “Vou agredir esse chato”.

As ações orientadas pelas emoções são utilizadas como defesa nas

crianças de três semanas. Nessa idade, elas são capazes de sorrir junto

ao seu cuidador quando começam a estabelecer vínculos que irão aumentar

suas chances de sobrevivência; uma atitude que ocorre antes

delas serem capazes de processar as informações com imagens, pensamentos

e fazer uso da memória. Possivelmente, as expressões das

emoções iniciais são inatas e universais, emergindo antes da criança

ser capaz de defini-las.

A literatura acerca da evolução nos sugere que o sistema emocional

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153


precedeu o cognitivo na evolução. A emoção é um indicador, ou sinal,

importante para que haja a adaptação do animal ao meio ambiente.

Ela permite que o animal aja rapidamente – como fez Geraldo – diante

das emoções sentidas ligadas às incertezas. Diante da dor provocada

pelo fogo, por exemplo, retiramos a mão e, ainda, geralmente, ficamos

com raiva; esta motiva ações defensivas e, às vezes, xingamentos.

Por todas as razões acima descritas, o estudo das emoções, cada vez

mais, tem demonstrado uma extraordinária importância. Mas ainda

não está claro se o que é chamado emoção em um nível, relaciona-se

ao que chamamos emoção em outro. Serão as emoções básicas como

a felicidade, tristeza, medo e raiva, relacionadas às emoções mais

primitivas como o impulso sexual, domínio ou poder? Quais seriam as

ligações das emoções básicas com os níveis mais elevados das emoções

como o orgulho, ciúme, vergonha ou remorso? Interesse, tédio e

curiosidade seriam emoções? O que se sabe da relação acerca dos fortes

sentimentos associados aos julgamentos morais como admiração,

veneração, desprezo, meditação, contemplação e ponderação? Quais

são as bases da emocionalidade da simpatia, piedade ou compaixão e,

também, da crueldade e da ferocidade?

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O que é emoção?

Duas correntes antagônicas discutem a expressão ou o controle das

emoções. Uma supõe que as emoções devem ser expressas ou liberadas;

para esses, sua repressão (autocontrole) causaria problemas

físicos ou fisiológicos. A outra corrente defende o controle das emoções

através da razão; conforme essa idéia, nós podemos e devemos

dominar nossas emoções e isso seria possível se usarmos nossa mente

ou razão.

Tudo faz crer que as duas correntes estão equivocadas: não existe

raciocínio sem emoção. Nosso pensamento é guiado, na maior parte

das vezes, pelas emoções sentidas e, além disso, é conveniente e

necessário constantemente dominarmos e não expressarmos nossas

emoções. Somos animais domesticados do ponto de vista sociocultural

e, domesticados significa não liberarmos nossas emoções em toda e

qualquer situação.

Mas, o que é emoção? Emoção significa, literalmente, “movimento

para fora”. Certos “movimentos para fora” são percebidos por outras

pessoas; alguns, só pelo seu dono. O termo sentimento tem sido usado

para definir a experiência mental provocada pela emoção, ou seja, a

percepção e consciência da pessoa diante de sua própria emoção. De

um modo concreto: sentimento é ficar irado e saber que está irado.

Como as emoções podem ser, de maneira simplificada, agradáveis

e desagradáveis, elas nos sinalizam se devemos ou não aproximar ou

fugir da meta; podemos concluir que a motivação acha-se estreitamente

ligada à emoção.

Há uma grande diferença entre as pessoas quanto à procura para ser

recompensado pela conduta exploratória e a fuga diante da possibilidade

de sofrer. Por exemplo, os extrovertidos e os introvertidos diferem-

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-se tanto na maneira de expressarem as emoções, como no modo de

serem sensibilizados por estímulos idênticos. Essas dessemelhanças

podem ser tanto geneticamente determinadas – relacionadas ao temperamento

– quanto aprendidas socialmente.

Emoções ou impulsos inatos

Os milhares de eventos aleatórios que aconteceram no mundo exigiram

das espécies continuadas adaptações para conviver com o meio

incerto e constantemente em transformação. Algumas dessas adaptações

e readaptações gerais, repetidas por longos períodos, foram

mantidas em alguns organismos- padrões programados e adaptados

para sobreviverem conforme o meio particular. Entre esses padrões

mantidos e úteis a vários animais, estão os circuitos neurais capazes de

possibilitarem a expressão de determinadas emoções, pré-organizadas,

prontas para serem usadas diante de alguns estímulos percebidos no

ambiente externo e, também, no próprio organismo do observador.

Exemplos dessas emoções pré-organizadas são as reações emocionais

como o medo que aparece diante de um animal de grande porte ou

de uma grande envergadura (águias em vôo); certo tipo de movimento

como os dos répteis; determinados sons como os rugidos; certos estados

corporais como a dor sentida durante uma queimadura ou ataque

cardíaco, bem como diversas outras situações.

Os organismos mais simples, cujos cérebros incluem apenas estruturas

arcaicas, como os répteis, não possuindo estruturas cerebrais

evolutivamente modernas, executam, sem dificuldades, sua simplificada

seleção de respostas diante do meio ambiente. No caso dos répteis

não existe um “eu” consciente e complexo capaz de visualizar diversas

decisões possíveis; existe apenas um conjunto rudimentar de circuitos

neurais que comandam a conduta de forma mais ou menos automática,

não-reflexiva e, sobretudo, simples; uma vida com poucas escolhas.

Os impulsos básicos como a fome, a sede, a dor e as emoções bioló-

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gicas como a ativação física e mental, a aproximação ou fuga, a luta e

o acasalamento, todos, constituem conjuntos de eventos envolvendo

incertezas em função da relação do organismo com o meio ambiente.

O sistema motivacional/emocional dos organismos mais simples detecta

ou lê, internamente, as emoções surgidas no seu organismo diante

disso ou daquilo. A partir desse alerta interno, inicia-se a prontidão ou

a atenção voltada para examinar o ocorrido interna ou externamente,

para aproximar ou fugir conforme os sinais surgidos ou produzidos pela

modificação do estado corporal. Podemos concluir que a condição necessária

e suficiente para a existência das emoções consiste na leitura,

em resposta aos estímulos desafiadores ou provocadores, dentro e fora

do organismo.

A cognição nos seres humanos, com a evolução, tornou-se interligada

ao antigo sistema motivacional/emocional. A função cognitiva

aumentou ainda mais as informações possíveis para a sobrevivência do

organismo particular, ou seja, uma resposta mais sofisticada diante dos

acontecimentos eventuais. Resumidamente: os organismos mais evoluídos

e complexos, diante das incertezas, utilizam-se, além dos circuitos

primitivos, simples e automáticos, comuns a outros animais, circuitos

mais complexos, relacionados a neocórtex – setor mais moderno do

cérebro – facilitando a realização de respostas sofisticadas aprendidas

durante a vida de cada um.

Durante a evolução, todos os organismos, para sobreviverem, desenvolveram

sistemas perceptuais que podiam informá-los tanto da

existência das provisões do meio terrestre, como de possíveis predadores

e, também, da possibilidade de contato com outros organismos da

mesma espécie com os quais poderiam relacionar-se formando grupos

de apoio ou, ainda, acasalar-se. É desse modo que o organismo fica

informado ou orientado para agir em direção a uma ou outra meta, a

atraente ou a perigosa. As várias emoções, algumas opostas (prazer/

desprazer), são geradas pelas informações que emergem durante encontros

entre o organismo e o meio ambiente.

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Sentimentos: Afetos secundários

A reação emocional pode atingir alguns objetivos úteis: esconder-se

rapidamente de um predador, retirar a mão do fogo antes de queimá-

-la, expressar raiva em relação ao competidor, rosnar e latir, “fechar

a cara”, elevar o tom de voz, xingar nomes simbolizando ameaças e

desdém etc.

Mas o processo não termina aí, pois, nos seres humanos, há uma outra

fase: podemos sentir a emoção existente em nosso organismo, isto

é, a sensação percebida associada ao objeto desencadeador. Assim,

temos consciência de que algo está sendo perigoso ou, ao contrário,

agradável, isto é, percebemos o estado emocional corporal provocado

por alguma coisa ou pessoa. Este conhecimento, que de fato é um conhecimento

sobre o conhecimento – chamado de meta-conhecimento

– indica que algo, acerca de algo, foi percebido e sentido.

Através dos sentimentos, o indivíduo pode sentir determinadas emoções

ao enfrentar uma certa situação ou, também, senti-la sem vivenciar

a situação, apenas imaginando-a ao supor situações semelhantes

já vividas. Os sentimentos tornam-se os “qualificadores” da coisa que

é percebida/sentida ou recordada, como nos exemplos: “Gostei de ir

ao Rio de Janeiro”; “Detesto São Paulo”; “Não gostei do filme”; “Fiquei

encantado com a música” etc. Ao pensarmos dessa forma, estamos

“lendo” o estado do nosso corpo diante de cenas experimentadas ou

imaginadas. Isso é o que chamamos de sentimentos.

Os sentimentos são tão cognitivos como qualquer outra percepção.

Se não existisse a possibilidade de sentir os estados dolorosos ou

agradáveis do organismo, não haveria sofrimento ou felicidade entre

os homens. Podemos afirmar que as emoções e os sentimentos são

os sensores para o corpo durante seu encontro real ou virtual (imaginário)

com alguma coisa do ambiente, entre a natureza individual e as

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158


circunstâncias externas – inclusive o próprio eu físico e mental. Assim,

as emoções/sentimentos servem como alertas – indicadores internos

– ajudando-nos a nos informar, ou a outras pessoas, nossos estados

corporais. É uma característica altamente importante para nossa sobrevivência

quando bem “lida” e usada.

Uma vez conscientes dos sentimentos – ajudados pela parte mais

nobre do cérebro – podemos interpretar as emoções sentidas e sua

relação com os fatos e, desse modo, organizar e classificar as situações

concretas e os sentimentos relacionados, sob a forma de conceitos,

hierarquias e, ainda, relacionar uns com os outros. Isso nos permite

adquirir e elaborar estratégias mais eficientes para raciocinar e tomar

decisões mais sábias; o que não acontece com muita frequência.

A conduta final, produto acabado da seleção de determinada resposta

motora, fruto das composições desejadas e sentidas, situa-se

da quebra de um vaso na cabeça do inimigo, dos berros e nomes feios

expressos com ódio, até o abraço amigo do filho, a composição de um

conto, o telefonema pesaroso, ou, ainda, executar “Carinhoso”, suavemente,

na flauta.

O estado corporal existente num e noutro momento, ruim e negativo,

ou agradável e positivo, dependendo da disposição do organismo,

fornece tanto o que vamos pensar (sua forma), como a maior ou

menor rapidez da nossa mente. Exemplificando: quando o estado do

organismo encontra-se na faixa positiva (espectro agradável de sentimentos,

satisfação, alegria), há uma alteração no pensamento no

sentido de tornar mais rápido e mais rico em idéias. Assim, uma pessoa

mais feliz ou alegre terá um modo de pensar mais rápido e mais produtivo.

Ao contrário, quando a condição corporal é negativa (sentimentos

desagradáveis e pessimistas) ocorre o pensamento lento, repetitivo e

pobre. Assim, a pessoa é mais produtiva se está eufórica e animada e

improdutiva se triste e desanimada.

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Nos seres humanos, bem como em muitos animais, manifesta-se a

sensação da emoção diante do objeto que a desencadeou e, ao mesmo

tempo, diante da percepção do objeto causador do estado emocional

corporal. Sabemos que o animal – e nós – experimentará certas emoções

diante da visão do alimento ou de seu tratador antes de começar

a ingerir a comida; também, diante do que lhe deu uma surra por ter

urinado no tapete. Essa consciência proporciona uma estratégia de

proteção ampliada, levando o animal a se preparar melhor para evitar

ou aproximar-se da experiência prazerosa ou ruim. Mas há outras

vantagens: ao sentir a própria emoção, torna-se possível generalizar o

conhecimento e acautelar-se diante de situações semelhantes.

Nos seres humanos, apenas as estruturas do sistema límbico (amígdala

e cíngulo) não são capazes de sustentar o complexo processo das

emoções secundárias ou aprendidas, a rede é ampliada pelos córtices

pré-frontais e somatossensoriais. Vamos a um exemplo do aparecimento

da emoção secundária. Gabriel encontrou Inês. Eles, ex-namorados,

não se viam há anos. Na conversa mantida, ele ficou a par de vários

problemas que ela enfrentou durante os últimos meses. Ao ouvir o

relato de Inês, ele experimentou algumas emoções: antes da informação,

o cérebro de Gabriel formou as novas imagens a respeito dela e,

ao mesmo tempo, recuperou antigas lembranças de encontros anteriores,

entre elas, o aspecto físico atual e passado de Inês; ao mesmo

tempo, comparou seu próprio corpo presente e antigo. Ao criar tais

imagens e compará-las, seu coração bateu mais depressa, houve uma

ligeira mudança da coloração da pele, os músculos da face tornaram-se

diferentes, mostrando uma expressão feliz pelo encontro. Além disso,

houve pequenas mudanças no funcionamento visceral e no cérebro, ao

liberar moduladores peptídeos lançados na corrente sanguínea, produziu-se

uma transformação no sistema imunológico; houve, também,

uma mudança no ritmo da atividade dos músculos lisos das artérias

levando a pressão arterial a aumentar.

Em resumo, o encontro de Gabriel e Inês produziu emoções e pen-

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samentos nos dois organismos envolvidos, conforme a maneira como

cada um deles pensou acerca do acontecimento, das relações entre

eles passadas, das condições atuais e das predisposições corporais de

cada um Portanto, ocorreu uma sucessão continuada de alterações de

emoções, motivações e cognições e, também, de mudanças fisiológicas,

variando das mais fracas as mais fortes`, conforme o que foi conversado,

bem como as recordações recuperadas, e da maneira de um e

de outro reagir ao encontro. Conclui-se que as disposições pré-frontais

adquiridas – aprendidas – durante a vida pós-nascimento, necessárias

à existência das emoções secundárias, são distintas das disposições

inatas também chamadas de primárias (não-aprendidas), necessárias

às emoções iniciais da pessoa.

As emoções aprendidas, para serem expressas, necessitam do bom

funcionamento das emoções inatas ou primárias. Entre os pacientes

portadores de lesões pré-frontais, o processamento emocional, se

deteriorado, se limitará às emoções secundárias. Mas, as estruturas

que detonam as emoções primárias precisam estar intactas, pois, se

isso acontecer, os pacientes continuam a expressar as emoções primárias:

medo ou raiva repentina. Os pacientes que apresentam lesões das

estruturas associadas às emoções primárias apresentam diminuição

tanto das emoções primárias como das secundárias, isto é, não expressam

nenhuma emoção.

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Memória, Aprendizagem e

Pensamento

Aprendizagem e memória são conceitos fundamentais para a noção

da individualidade. Nossa maneira peculiar de pensar, sentir e agir

depende do que aprendemos e armazenamos em nossa memória durante

nossa vida. Ora, como cada indivíduo vive experiências diferentes

e particulares, tendo também uma idade, profissão, irmãos, colegas,

professores e muitas outras coisas mais desiguais, as pessoas terão,

forçosamente, memórias e histórias para contar diversas, bem como

mentes singulares para assimilar novos conhecimentos.

Aprendemos pelas experiências e o número delas é literalmente

infinito. A aprendizagem é um processo pelo qual nós adquirimos novos

conhecimentos; memória é o processo pelo qual nós retemos este

conhecimento obtido. Assim, podemos dizer que o aprendizado pode

ser definido como a aquisição de memória; cada um de nós adquire

memórias diferentes.

Nosso cérebro, automática e continuamente, filtra estímulos do

meio interno e externo; não deixa passar a maioria deles por não ter

importância para nós naquele instante, deixando entrar apenas os

relevantes. Os estímulos que passam pelo filtro existente na parte mais

primitiva do cérebro atingem, em seguida, as áreas mais modernas,

dando origem à formação da segunda fase da cadeia cognitiva: a organização

dos estímulos que passaram pelo filtro inicial e mais primitivo.

De outro modo, alguns estímulos tiveram acesso livre através do portão

selecionador do sistema talâmico, foram aceitos devido à suposta

importância de seu conhecimento para o organismo.

A cognição (pensamento) é definida como o processamento de

novas informações – as que atravessaram a barreira do filtro do tála-

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mo – através de antigos conhecimentos básicos já existentes que

foram armazenados através da experiência do indivíduo. Tem sido

verificado que o cérebro economiza esforço através do uso de experiências

anteriores, preservando, de forma condensada, idéias (modelos,

esquemas, padrões) de situações já vivenciadas antes, tudo isso facilita

a compreensão das informações que aparecem. Através desses resumos

esquemáticos de conhecimentos anteriores, as novas informações

recebidas são organizadas e processadas. O modelo representa, portanto,

padrões de pensamentos adquiridos durante o desenvolvimento

do indivíduo.

Os que adquiriram erros lógicos do pensamento durante o período

de desenvolvimento, trabalharão no futuro com “redes” ou “esquemas”

defeituosos para avaliar as informações futuras e, consequentemente,

estarão predispostos a experimentar mais problemas futuros.

Os termos, inferências arbitrárias, abstrações seletivas, supergeneralizações

e minimizações têm sido usados para descrever as distorções

existentes ou erros cognitivos básicos, de outro modo, classificar o

“pau nascido torto” e suas consequências para o aprendizado futuro

que leva a pessoa a cometer erros sistemáticos ao avaliar novas

informações, pois há um “defeito” no seu assimilador mental. Essas

cognições (raciocínios, pensamentos) são automáticas, involuntárias e

altamente plausíveis para o seu possuidor. Os esquemas podem representar

a base da memória de trabalho da pessoa, isto é, a memória

utilizada pelo indivíduo no momento de sua conversa, leitura para

compreender o escutado, lido ou pensado. Uma vez compreendida a

informação, pode ocorrer a resposta final do processo da pessoa diante

de uma informação: a execução motora da ação.

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Duas Memórias: Procedimento e

Declarativa

As memórias podem ser divididas em duas grandes classes quanto à

origem do conhecimento memorizado:

Uma memória, fruto dos acontecimentos que se sucederam na

vida particular do indivíduo; esta é uma memória instável, confusa,

desorganizada, mistura de ruídos falsos e verdadeiros;

Uma outra memória nascida dos genes; esta é inata, estável, abastecida

pelos acontecimentos organizadores de um passado anterior ao

indivíduo, bem protegida contra o “ruído” e a informação circulante.

As duas memórias trabalham juntas: a dos genes possibilita a aquisição

das memórias ocorridas após o nascimento. Deve ser lembrado

que cada espécie apresenta potencialidades diferentes para aprender

conforme as facilidades e limitações fornecidas pelos genes do indivíduo.

Por outro lado, dentro da mesma espécie, alguns indivíduos possuem

cérebros que são melhores arrumados, capazes de adaptarem-se

melhor às estimulações do meio ambiente desde a infância; podendo

aprender mais, podem se tornar mais “inteligentes”.

A memória disponível para cada pessoa numa certa idade estabelece

a individualidade de cada um. Somos quem somos porque nos lembramos,

não só de quem somos, mas, também, como nós fomos e onde

queremos chegar.

Memórias, procedimento e declarativa

Inicialmente, deve ser lembrado que nenhuma das memórias estudadas

localiza-se num só lugar; todas envolvem circuitos complexos. A

memória tem sido dividida em vários tipos e, frequentemente, autores

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diferentes, dão nomes diversos para o mesmo tipo de memória.

Dois tipos de memórias têm sido descritos: a memória de procedimento

(também chamada de processo, não-consciente, implícita, de

atividades), e a memória declarativa (recebendo ainda os nomes de

episódica, consciente, de eventos e explícita). Uma terceira memória

descrita, a memória de trabalho, que não será descrita aqui, é considerada

como um ramo ou subtipo da memória declarativa.

Os pesquisadores concordam que o uso dos dois sistemas de memórias

é uma regra mais do que uma exceção; as duas se sobrepõem, são

usadas conjuntamente; assim, ambas são recrutadas nas experiências

de aprendizagem. Na verdade, uma repetição constante de uma ação

pode transformar a memória declarativa (explícita) numa de procedimento

ou implícita, como pode ser observado na experiência de

aprender a dirigir um veículo. Nesse caso, há, inicialmente, um envolvimento

de um processo consciente, depois, automático ou inconsciente

– o motorista perito não fica pensando, ao dirigir, como ele aprendeu e

cada detalhe do aprendizado.

Memória de Procedimento (Processo mental inconsciente)

A memória de procedimento relaciona-se a atividades que são memorizadas

como ações: nadar, escrever, tocar um instrumento, digitar,

andar de bicicleta etc. Esta memória é aprendida lentamente, armazenada

através de atos repetitivos, após diversas tentativas, envolvendo

a associações de estímulos sequenciais. Ela permite o armazenamento

de informações acerca de relações entre acontecimentos, que são expressas,

primariamente, pela melhoria dos processos de atuação – não

pela familiaridade com certas tarefas – sem que o sujeito seja capaz de

descrever exatamente o que e como foi aprendido. Envolve, portanto,

sistema de memória que não tem acesso ao conteúdo do conhecimento

geral do indivíduo. Por isso é chamada de memória de processos

e não-consciente. Esta memória relaciona-se, anatomicamente, a

ativação de sistemas sensoriais e motores comprometidos na tarefa

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da aprendizagem; adquirida e retida devido à plasticidade do sistema

nervoso, que varia de indivíduo para indivíduo como um bom e mau

jogador de futebol, vôlei, tênis etc.

A memória de procedimento (inconsciente) inclui vários processos e

estes envolvem diversas áreas cerebrais:

O reconhecimento do estímulo encontrado é uma função dos córtices

sensoriais;

A aquisição de várias pistas dos estados afetivos sentidos envolve a

amígdala (uma região do cérebro);

A formação de novos hábitos motores e, talvez, hábitos cognitivos,

exige o neo-estriatum;

A aprendizagem de ações motoras novas ou a coordenação de

novas atividades irá depender do cerebelo. Desse modo, diferentes

situações vividas e, consequentemente, certas experiências de aprendizagem,

estimulam o cérebro, fazendo entrar em ação diferentes

subconjuntos de áreas, que agem em combinação com os sistemas de

memória explícita localizados, principalmente, no hipocampo.

Tem sido aceita por alguns teóricos a idéia de que o desenvolvimento

da conduta moral também seria adquirida através de meios

da memória de procedimento e inconsciente. Para seus defensores, a

pessoa geralmente não se lembra de forma consciente de que modo e

em quais circunstâncias ela assimilou as regras morais que governam

suas avaliações e a conduta moral ou ética. Sabe-se que essas foram

adquiridas quase automaticamente, como as regras da gramática que

usamos sem pensar e que governam cada linguagem nativa.

Memória Declarativa (O Processo Mental Consciente)

A memória declarativa tem sido também chamada de memória consciente,

semântica, episódica, de evento, de conhecimento, de lugares

etc. Ela, que envolve associações de estímulos simultâneos, permite o

armazenamento de informações acerca de um acontecimento simples

que ocorre num tempo e lugar particular, podendo ser aprendida e

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usada após uma única tentativa. De posse dessa memória, possuímos

um sentido de familiaridade com o fato, pessoa, lugar, daí o nome de

memória episódica, relacionada ao episódio.

Existem dois tipos de memórias declarativas: uma de curta duração

(de 3 a 4 horas), outra de longa duração (acima de 6 horas, podendo

durar dias, meses e anos). A primeira encarrega-se dos processos

declarativos enquanto pode-se formar ou não uma outra memória, a

de longa duração. Esta última, ao contrário da de curta duração, requer

uma cascata bioquímica complexa no hipocampo, que geralmente

leva horas para se instalar e poder, posteriormente, ser recuperada ou

resgatada.

A memória declarativa é adquirida através de circuitos que ligam

diversas regiões do córtex, principalmente os circuitos envolvidos com

a memória de trabalho e com o hipocampo. Assim é que lesões de

certa gravidade na região do lobo temporal não impedem o aprendizado

da memória de procedimento, apesar de dificultar ou impedir o da

memória declarativa, (episódica). De outro modo, essa região do lobo

temporal, principalmente o hipocampo, é responsável apenas pelo tipo

de memória declarativa e não a de procedimentos.

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O Eu e a Regulação Interna

O nosso “eu”- Maria, José, Lúcia, Antônio – pode ser entendido como

uma associação composta de diversos “eus” interdependentes que se

comunicam continuamente: o eu auto-eficácia, o eu auto-estima, ou o

eu pai, filho, namorado, aluno etc. Existindo, como existe um grupo de

várias pessoas, o “eu” global – se é que existe isso – trabalha com todas

as partes bem coordenadas de cada um dos “eus” ao mesmo tempo.

Mas nem tudo são flores; com frequência, essa harmonia entre os

vários “eus” é quebrada, isto é, falha. Não é raro observarmos alguns

“eus” menores e semipartidos agirem isoladamente ou, também,

terem ações uns contra os outros, como tem sido descrito, de maneira

dramática, nos Transtornos de Dupla ou Tripla Personalidade.

O eu é a maior estrutura do sistema cognitivo; é ele que circunda e

relaciona todas as informações relevantes derivadas da vida da pessoa.

O indivíduo pode ser examinado, por exemplo, como tendo uma

alta ou baixa auto-estima somente quando seus pensamentos e sentimentos

acerca dele mesmo estejam organizados de uma maneira que

indica uma avaliação relativamente coerente desse aspecto.

Do mesmo modo que um grupo de amigos, ou colegas, não pode ser

reduzido aos componentes individuais, não caracterizando as relações

funcionais entre eles, assim também o eu total não pode ser reduzido a

um e outro eu isolados; neste caso, não poderíamos chamá-los de grupo

ou de eu. Por definição sabemos que o grupo dos atleticanos tem

em comum torcer pelo Atlético. Assim também a mente não pode ser

reduzida a mecanismos separados, sem levar em conta a influência de

uma parte sobre a outra, tendo tanto as ações como os pensamentos

coordenados.

Assim como ocorre com cada indivíduo que faz parte do grupo dos

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atleticanos, no caso de Pedro ou de Maria – uma pessoa particular

– algumas funções cognitivas isoladas e diferentes, produzidas por

estruturas específicas diversas, funcionam em paralelo umas com as

outras, interagindo entre elas, visando a produzir estruturas e funções

de ordem mais elevada, com novas propriedades, isto é, diferentes das

existentes em cada uma das funções isoladas. Exemplificando: sabemos

que existem atleticanos altos e baixos, gordos e magros, pobres

e ricos, mas todos são chamados de atleticanos por interagirem, num

certo momento, formando um grupo que torce pelo Atlético. De outro

modo: indivíduos, isolados, reúnem-se, num certo momento, para

exibir o que têm de comum: torcer e morrer pelo Atlético. Assim, a

influência mútua entre os indivíduos gordos e magros, velhos e novos,

como no caso dos atleticanos, conduz a emergência de fenômenos de

nível social tais como certas formas de comentar, comportar-se, agir

em certos dias, ou seja, certas “normas” de opinião pública, valores e

condutas.

Podemos pensar que, tanto as estruturas mentais do indivíduo particular,

com as dos grupos, estão aprisionadas em modelos de relação ou

ligação, padrões esses que sugerem certas funções complexas – vestir a

camisa preta e branca, gritar “galo”, soltar foguetes, conforme o ocorrido

etc. que resultam das interações entre os componentes do grupo,

uns atuando nos outros, e determinadas idéias gerais que emergem do

grupo atuam sobre todos os componentes. O grupo pode ser caracterizado

como uma coleção de indivíduos interconectados por ligações;

cada um irá influenciar e é influenciado pelos outros com os quais ele

mantém esse tipo, apenas esse, de relação. Do mesmo modo, o eu

geral de cada um de nós é influenciado pelos diversos “eus” separados

e influencia os outros.

A mente (espírito, alma, eu ou consciência) revela ou reflete o mundo

circundante particular de cada homem; mas também mostra sua

própria operação interna, ou seja, a maneira particular de organizar os

conteúdos acerca do seu mundo. A natureza reflexiva – o exame de si

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mesmo – da mente – fornece a base para a apreensão e conhecimento

do eu. A representação do eu que resulta desse espelho, reflexo de milhões

de pensamentos e sentimentos experimentados pelo eu, formam

uma estrutura altamente complexa, difícil de ser entendida.

Para a construção de uma imagem de si mesmo como bom jogador

de futebol, o jovem craque necessita integrar um amplo conjunto de

fatos e avaliações pertinentes já vividas e experimentadas: o sucesso

naquilo que está sendo avaliado. Isso vale para qualquer área. Certos

pensamentos específicos acerca do eu, por exemplo, acerca de suas habilidades

futebolísticas, podem estimular ou ativar outros pensamentos

relacionados armazenados em sua mente (memória autobiográfica), os

quais, uma vez recuperados, expostos à consciência, tornam-se aptos

para serem reorganizados em grupos de novas ou de antigas ordens,

que podem ser cada vez mais elevadas; o novo conjunto formado pode

produzir outros conceitos ou auto-avaliações.

Para entender melhor, vou exemplificar: um pensamento acerca de

um encontro social poderá trazer à mente outros encontros sociais já

ocorridos e ligados a este. Durante o encontro, podem emergir, tornando-se

conscientes, avaliações globais acerca de nossa habilidade social

e, também, fornecendo padrões e prescrições com respeito de como

devemos nos comportar no futuro. Não devemos nos esquecer, é claro,

que a mente pode ser um “terreno desordenado para fantasias”; este

estilo, cada vez mais, parece estar aumentando por culpa do hemisfério

esquerdo, que é adepto das ficções e não da realidade, como acontece

com o hemisfério direito, que é mais observador.

O eu fornece também a integração para as várias estruturas psicológicas.

Os auto-esquemas existentes em cada eu singular irão influenciar

as condutas do indivíduo, bem como organizar os julgamentos acerca

delas. Mas sempre a organização é uma propriedade que emerge –

como no caso dos torcedores – derivada das interações existentes

entre os elementos. Nesse processo, cada elemento particular adota

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um estado que conduz a um alinhamento com o estado dos outros elementos

importantes. Um bom exemplo é a observação das bolhas de

ar que aparecem quando a água começa a ferver. Até um certo ponto,

elas estão desordenadas, sozinhas, desligadas. Ao começar a fervura,

há um certo movimento em uma direção; a partir daí, quase todas elas

se movimentam de um só modo.

Nós, com frequência, agimos como a bolhas de ar da água fervente.

Do mesmo modo que na panela nem todas as bolhas seguem a maioria,

no eu, também, alguns poucos elementos do eu podem discordar

dos outros, sendo incompatíveis e mesmo inimigos que não suportam

aparecer na mesma consciência ao mesmo tempo; como certas pessoas

que não podem ficar perto uma da outra numa reunião.

É muito difícil ou impossível manter uma amizade e, ao mesmo tempo,

competir com nosso amigo, mesmo sendo nosso cônjuge. Também,

é impossível ser “educado” e, ao mesmo tempo, espontâneo, pois este

último conceito indica não seguir as regras. Alguns “eus” isolados podem

ainda estar em conflito por outras causas; se um eu meu é inimigo

de Pedro, fica difícil para um outro eu meu ser amigo de André – uma

terceira pessoa – que é amigo de Pedro, isto é, do meu inimigo. Esse

fato é visto com frequência durante as separações; fica problemático

e difícil para o filho gostar do pai que a mãe fala mal e detesta, isto é,

gostar do inimigo da mãe/amiga.

É comum observar um elemento do sistema do eu – um eu isolado-

interagir somente com um número limitado de elementos da vizinhança.

Assim, não só é impossível como desnecessário cada elemento

interagir com cada outro; nossa competência para falar em público não

precisa ser considerada com respeito a nossa efetividade em torcer

pelo atlético ou nossa habilidade para descascar abacaxis ou fazer uma

salada de alface.

Mas agir de um certo modo, realizando um dado papel, significa

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comportar-se de maneira tal que esta esteja coerente com o exigido

em outros papéis. Vamos ao exemplo: para ser torcedor do Atlético o

meu eu terá que gostar também de futebol, provavelmente de esportes

de maneira geral, assistir jogos nas TVs, ler páginas de esporte nos

jornais etc. Cada uma dessas ações encontra-se interligada e em harmonia

com o meu papel de torcedor do Atlético, que na verdade não

sou, pois sou mais cruzeirense. Portanto, qualquer ação está sujeita à

confirmação – ou não-confirmação – de outras influências.

Se um elemento – conduta ou pensamento – está bem integrado aos

outros elementos, ele receberá mais influência e apoio desses elementos

e, nesses casos, ocorre mais segurança interna; fica mais fácil

resistir aos desafios que ocorrem pelas informações vindas de fora que

não estão de acordo com a conduta. Aqui retorno a pensar no grupo

dos atleticanos; qualquer ação de um membro do grupo está sujeita

à crítica ou apoio dos outros elementos. Se a ação é bem integrada às

normas do grupo, o torcedor ficará mais seguro e poderá enfrentar

melhor o desafio provocado pelas torcidas inimigas, como a cruzeirense.

Um indivíduo isolado fica mais vulnerável às influências e pressões

externas, enquanto que o mesmo indivíduo fazendo parte de uma

rede social de apoio tende a resistir mais, mesmo no caso de intensas

pressões sociais.

Os estudos com o eu e com os grupos mostram que, comumente,

surgem padrões de comportamentos que só emergem nos grupos,

nunca no indivíduo isolado. Um bom exemplo disso são as quebradeiras,

incêndios em ônibus, roubos grupais, depredações, pichações,

vandalismos, certos tipos de sexo etc. Assim como existem ações de

grupos destruidoras, existem ações benéficas; os grupos podem ser

formados para realizarem condutas pró-sociais diante de catástrofes;

nessas ocasiões são comuns o aparecimento de ações cooperativas

entre indivíduos. Tanto num caso como em outro, os indivíduos envolvidos

são afetados pela conduta anti-social ou pró-social que poderá

trazer mudanças transitórias ou duradouras para sua vida futura.

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Para finalizar essas idéias, deve ser lembrado que cada elemento do

eu pode ser caracterizado com respeito a sua atual avaliação: uns são

positivos, outros negativos; ou com respeito a sua posição: uns são

mais centrais, agindo com maior peso, maior papel e influência, outros,

mais periféricos, com menor potência. Assim, se é central ou importante

para Pedro chamar a atenção das pessoas, ele irá procurar agir de

modo a fazer brincadeiras, elogios, brigar, chorar etc., em resumo, tudo

aquilo capaz de provocar atenções.

Um sistema autopoiético (que vive para organizar a si mesmo, caso

do homem) deve possuir individualidade (ser único, singular). Essa

identidade resulta de sua diferenciação genética inicial e, mais tarde,

de sua ativa e continuada relação com situações de “não-eus” – o

meio ambiente, incluindo outros indivíduos diferentes. A identidade é

construída e conservada ativamente diante das perturbações encontradas

no meio ambiente. Assim nasce o “eu”, que é, ao mesmo tempo, o

conhecedor e o conhecido.

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Confidências à Meia-Noite

São nove e meia da noite: o telefone toca insistentemente. Pau lo,

cinquenta e dois anos, administrador de empresas, olha as horas no

relógio dependurado na parede. Apesar de cansado, após ter lecionado

todo o dia, ele se encontra animado e feliz. Resolve aten der o chamado,

imaginando: “Quem sabe, é ela.”

— Alô, é Paulo? Aqui é Cícero. Tudo bem?

— Cícero! Como vai? Sua voz sai baixa, demonstrando frustração.

— Mais ou menos. Todo dia, aqui no banco, meu chefe me aporrinha.

— Nas minhas aulas eu ensinei como lidar com chefes chatos. Você

tem usado o aprendido?

— Claro que sim. Mas com ele não adianta. Tudo que faço, ele acha

ruim.

— Mas não foi despedido, como imaginava. Ainda bem, não acha?

— Certo. Mas vou ser transferido. Até que gostei. E você, como vai?

— Tudo bem. Estou com sorte. Estes dias uma antiga amiga me…

— É? Você se lembra daquela moça que lhe falei? Ela canta no conjunto

em que toco.

— Sim. Lembro-me. Ela agora te largou, canta no coral, não é?

— É… Mas voltou… está impressionada com a técnica. Deu certo!

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— É… esta minha amiga… uma amiga dos tempos da facul…

— Eu, agora, é que não sei se a quero de volta ao conjunto. Vou levando.

Paulo, estou azarado. Preciso tocar, mas estou com dor na mão

direita. Fui ao médico e, para ele, eu não devo trabalhar com os dedos.

— Isso passa… é coisa simples. Você se impressiona com tudo. Exagera

qualquer dor ou mal-estar. A minha amiga morava aqui, há muitos

anos. Ela, ao contrário de você, sempre…

— Você acha que devo tirar licença médica? Conversei com um

amigo ligado ao diretor. Ele acha que devo cuidar de minha saúde em

primeiro lugar. Preciso emagrecer, estou com quinze quilos a mais.

— Puxa! É… precisa mesmo! Se você não for, pode piorar a situa ção.

E esta, como disse, não anda nada boa. Não é? Essa minha amiga fez

um regime, emagreceu seis quilos. Ela só come verd…

— Preciso emagrecer, sim. Vou começar a fazer ginástica, comer menos

doces: gosto de chocolate. Parei de fumar há três meses.

— É um grande passo. Agora já pode começar a emagrecer. A minha

amiga gosta de alimentos naturais como…

— Se for para o interior, irei me sentir isolado. Nunca fiquei longe

da família. Sempre morei com minha mãe, moro com ela atu almente,

após a separação com Fofó. Ficamos casados dois anos…

— Viver sozinho tem, também, algumas vantagens. Eu tenho pouco

medo da solidão… chego a gostar dela. Quando essa amiga me telefonou,

comecei a pensar…

— Acho que acabo me acostumando em Lavras. Não acha?

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— É evidente. Até logo. Um grande abraço.

Paulo não conseguiu falar nada do que desejava. Seu amigo, por

mais que ele tentasse, não quis escutar seu caso: a amiga, seu retorno,

sua conversa ao telefone. Tudo isso estava lhe atormen tando. Tomou

um café requentado e pegou uma revista para ler, mas não conseguiu

prestar atenção em nada. Sua mente estava ocupada com Maria. Pensou

em ligar para ela. O telefone tocou novamente.

— Paulo, tudo bem? Aqui é Dario, seu sobrinho. Estou lhe telefonando

para comunicar o nascimento do meu filho, Mário.

— Que bom! Você casou-se? Não sabia, hoje em dia há muito desses

casamentos modernos. Mário é um bonito nome, parece com o

nome…

— Não casei. Estou morando com aquela minha namorada, Clara.

Você a conhece. É aquela que trabalha na Secretaria da Educação.

— Lembro… é uma alta, morena, bonita! Que tal a vida a dois?

— Mais ou menos. Sinto-me muito preso. Ela é ciumenta. Por causa

disso, tive que abandonar as outras. Sempre gostei de várias.

— É sempre assim. Se estamos sozinhos, reclamamos, se encontramos

alguém, não suportamos. Amamos quem não nos ama e

somos amados por quem não amamos. É o nosso destino. Ela pa rece

ser uma boa moça, deve dar certo. Eu, grande parte de minha vida,

fiquei só. A gente, pouco a pouco, vai se acostumando. Esses dias, uma

antiga amiga telefonou-me. Ela é bonita e…

— A vida a dois é até boa. Não me arrependi. Mas filho, ainda mais

recém-nascido, é um saco. Chora a noite inteira. Não durmo mais como

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antes. Fico bocejando no trabalho. Estou precisando de sua ajuda. Vi

em sua casa, no fundo da garagem, uma banheira velha para dar banho

em recém-nascido. Você pode emprestá-la pra mim? Além disso,

preciso que você me indique um pediatra. Um que cobre barato, pois o

dinheiro está curto. Você elogia mui to o que cuidou de seus filhos.

— Sim. Tenho, sim. A banheira está estragada, mas ainda pode ser

usada. Esta minha amiga contou uma história interessante e cômica do

seu primeiro filho e do primeiro banho que ela foi dar numa banheira

como…

— Preciso de seus conselhos e experiência para cuidar bem do meu

filho. Ele é do saco roxo. Macho como nós. Espero que seja paquerador

como sempre fui. Ah! Ia esquecendo-me, estou preci sando de um

empréstimo. Não é uma grande quantia não. Apenas duzentos reais

para pagar algumas despesas extras que tive. Daqui a uma semana eu

te pago. Posso contar com você?

— Acho que sim. Vou procurar a banheira. Por falar em despe sa, esta

minha amiga gastou uma nota…

— Posso passar aí amanhã para pegar a banheira e o dinheiro?

— Amanhã à noite. Dou aulas durante o dia. Como sabe, moro só

e faço tudo sozinho. Se arrumasse uma companhia, talvez as coisas

ficassem…

— Vou desligar. O pirralho está berrando e minha mulher está me

chamando. Até amanhã.

— Até logo.

Paulo continuava a pensar em sua amiga. Discutia consigo se devia

ou não lhe telefonar. Precisava falar com alguém a respeito dela.

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Tinham sido amigos quando jovens. Maria, após estudar em Belo

Horizonte, foi para o Paraná, onde morava sua família. Mais tarde,

casou-se. Separou-se há cinco anos. Paulo a imaginava bo nita, alegre e

espontânea, como era quando se conheceram. Ela sempre gostou de

ler, frequentar teatro e cinema. Talvez ainda esteja capaz de aguentar

e de manter, por horas, uma conversa animada. A corrente de pensamentos

de Paulo novamente foi in terrompida pelo telefone, que volta

a tocar.

— Professor Paulo, aqui é sua ex-aluna Fátima. Desculpe-me incomodá-lo

às onze horas da noite. O senhor deve estar cansado… mas acontece

que preciso conversar com alguém como o senhor. Como sabe,

larguei meu marido há quase um ano. A princípio, fiquei feliz por ficar

livre do Haroldo. Entretanto, a cada dia mais, sinto-me terrivelmente

só. É muito ruim para uma mulher não ter um homem para conversar,

sair, jantar fora ou mesmo transar. Es tou desesperada. Ontem eu o vi.

Ele caminhava junto com uma mulher. Não sei quem é: sei que é mais

feia e mais velha do que eu. Mulher observa muito as outras. Além disso,

é muito magra para meu gosto. Se for uma namorada, ele escolheu

mal. Mas diabo! Mesmo assim fiquei com ciúmes. O que devo fazer

para ficar livre do fantasma do Haroldo?

— Isto acontece, Fátima. Toda separação é parecida. A pes soa, ao se

separar, lembra-se das coisas ruins que aconteceram e, portanto, fica

alegre e eufórica. Após um certo tempo, as coi sas mudam. Começa a

lembrar também dos bons momentos que passaram juntos. Aí a pessoa

fica triste. Eu, como você sabe, sou separado há seis anos. Creio que já

me acostumei um pouco com a vida longe da ex-mulher e filhos. Mas,

outro dia, recebi um tele fonema de uma antiga amiga. Ela contou-me…

— É! O senhor compreende mais do que minhas amigas esse tipo de

problema. Tem uma experiência pessoal, sabe como é difícil viver só. O

senhor não sente falta de uma companhia feminina de vez em quando?

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— Claro. Todos sentem. Mas é difícil encontrar a pessoa certa para

cada um. Não é que uma seja melhor do que outra. As pesso as são diferentes

e temos dificuldades em conviver com diferen ças. Eu, pessoalmente,

acho difícil. Essa amiga até que parece ter ideias parecidas com

as minhas. Quando ela telefonou-me, conver samos…

— Concordo. Já tentei algumas paqueras após o término do meu

casamento. Mas os homens que encontrei não me agradaram. Suas

conversas não me tocaram. Começo a conversar com eles e lembro-

-me do Haroldo. Faço imediatamente comparações. Ele é um ho mem

inteligente, culto, com uma grande cabeça, professor também como o

senhor. Um chato, às vezes. Ah! Você o conhece.

— Sim, conheço. Participei com ele de uma mesa redonda. Ele é sagaz.

Parece-se com a minha amiga. Ela é inteligente e culta. Há…

— É? Também encontrei um ex-namorado. Ele foi meu namora do antes

de conhecer Haroldo. Gostava demais dele. Naquela épo ca, gostava

muito do papo dele. Brigamos por nada. Agora foi uma decepção. Não

sei se eu melhorei ou se ele piorou.

— Isto acontece. Antes do Haroldo, você não tinha um crité rio tão

sofisticado para avaliar pessoas. Qualquer um servia. Agora fica difícil

encontrar um parecido. Comigo aconteceu diferente. Só hoje é que

vejo que esta minha amiga é uma raridade. Comparan do-a com diversas

que tenho encontrado, percebo que ela…

— Haroldo tem muitos defeitos. Eu sei disso. Todos nós temos defeitos.

Eu também não sou perfeita. Mas eu preferiria morar com ele,

a viver como estou. Não consigo dormir quando penso nele. E ele era

bom também para outras coisas, não era bom só de con versa, não.

— Entendo bem seu problema. Estou vivendo algo parecido com

esta amiga. Desde que a reencontrei…

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— Professor Paulo, tomei muito seu tempo. Desculpe-me mais uma

vez. Gosto demais do senhor, de suas ideias e conversa. Elas me fazem

tão bem! Depois, quando tiver na fossa outra vez, volto a lhe telefonar.

Boa noite.

— Boa noite. Telefone sempre que precisar. Seus problemas são muito

interessantes, lembram os meus…

— Até a próxima.

Paulo, apesar de tudo, ainda continuava feliz, mas engasgado. Automaticamente,

pega o telefone para discar para Maria. Talvez ela o escute.

Já é meia-noite. “Já é tarde, já deve estar dormindo. Ela levanta-se

cedo para trabalhar”… Paulo desiste.

Ele tentou, o dia inteiro, passar para outras pessoas sua vivên cia e

alegria. Ninguém se interessou por seu caso. Ninguém o ou viu. Cada

um queria falar acerca de seus problemas particulares, dando importância

às suas misérias e não às dos outros.

Paulo, impotente diante do seu fracasso em comunicar sua ale gria,

procura uma última alternativa, um ouvinte mais obediente, capaz

de prestar atenção ao seu relato, sem ter outros interesses. Tenso,

após tomar um rápido banho morno, penteou seus cabelos, já ralos.

Assentou-se comodamente diante do espelho que cobre toda a parede

lateral da sala de visita. Para não ser interrompido, desligou o telefone.

Postado diante do espelho, tendo à mão uma taça de seu vinho preferido,

começou a falar para sua própria ima gem refletida no espelho:

— Quando eu ainda era estudante de Administração de Empre sas,

conheci uma moça linda, alegre e inteligente por quem me apaixonei.

Ela era, antes de tudo, capaz de ouvir-me. Apesar de nunca brigarmos,

caminhamos cada um para seu lado. Não deixa mos pistas… vinte anos

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depois, como por milagre…

Paulo, às vezes sorrindo, às vezes tendo lágrimas nos olhos, continuou

a contar sua história para si mesmo diante do espelho imó vel

e acolhedor. Do outro lado, sua imagem refletida parecia feliz e ouvia

tudo atenta e seriamente. Cada emoção existente no rosto de Paulo

transmitia igual sentimento na sua representação. Esta não demonstrava

deboche, ironia ou enfado. A atitude simpática da ima gem favorecia

um relato tranquilo, sem temores. Sua figura refletida no espelho, ao

contrário dos outros ouvintes, respeitava não só a narração, como as

pausas, O reflexo no espelho não interrompeu, nem uma vez sequer,

seu relato, prestava atenção a cada detalhe.

Aos poucos, foi relaxando. Tranquilo e feliz, Paulo pôde con tar sua

longa história de amor. Uma história vivida por ele, que só interessava

a ele, talvez, quem sabe, também a Maria. Seu relato, carregado de

lembranças alegres, terminou às três horas da madru gada daquela

quinta-feira abafada. Após ter completado sua histó ria, Paulo foi deitar-

-se e, naquela noite, conseguiu dormir aliviado.

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Emoções, Sentimentos e Memória

e Indivíduo: Informações resumidas

Um ser humano pode sentir, pensar, aprender, criar, porque o seu

programa biológico assim o dotou, conjuntamente com a capacidade

para sofrer alterações programadas conforme interações com o meio

ambiente.

Os sistemas, estruturais e químicos, que integram as emoções, por

via nervosa ou sanguínea, funcionam continuadamente. Sabemos, às

vezes mais claramente, outras vezes, nem tanto, se estamos excitados,

famintos, felizes, raivosos, em alguma extensão. Com frequência, não

damos ouvidos para essas importantes informações fornecedoras de

pistas para sabermos “qual caminho devemos tomar”, como perguntou

Alice ao gato.

Dopamina

É provável que a dopamina seja o neurotransmissor mais antigo

existente no organismo de vários animais. Acredita-se que ele apareceu

há, aproximadamente, um bilhão de anos. As idéias atuais colocam

o sistema dopaminérgico assentado durante a expectativa de algo, isto

é, a busca de alguma coisa pretendida, entre elas, o término de uma

tarefa não desejada, contar um caso, assistir um jogo etc.

A dopamina é liberada nas sinapses neuronais quando o animal sai à

procura de alimentos, sexo ou outra coisa pretendida. Mas ela é liberada

ainda quando a mente representa – ainda sem agir – o que se deseja

alcançar, ou seja, quando criamos uma visão interna do que pretendemos.

Assim, ela prepara o organismo quando eventos possíveis são

procurados ou imaginados, ou seja, uma conduta virtual ou potencial.

Os sentimentos fazem parte da vida diária das pessoas. Todos os pro-

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cessos da cognição e da motivação, possivelmente, acham-se interligados

e ou comandados pelos estados emocionais experimentados pelos

indivíduos. A produção mais acentuada de noradrenalina e de dopamina

não só elevam o afeto positivo, mas também orienta nossa maneira

de pensar, aumentando e melhorando nossa criatividade ao solucionar

problemas. Além disso, torna mais interessante e agradável o envolvimento

com pessoas e eventos.

O abuso de algumas drogas acha-se relacionado à ativação de neurotransmissores:

a cocaína e a anfetamina reproduzem os efeitos da dopamina

e da noradrenalina, aumentando os níveis de uma e de outra; a

heroína e a morfina aumentam os níveis de endorfina.

As células que liberam dopamina do cérebro respondem mais às

recompensas não previstas, portanto, quando o agrado é esperado, a

dopamina liberada é menor, logo, o afeto positivo – entusiasmo pela

ação – deverá ser maior quando há um ganho inesperado. Um relacionamento

– ou emprego – altamente cobiçado provoca maior prazer

no seu início (maior liberação de dopamina). Entretanto, aos poucos,

ele se torna “sem graça” (menor produção de dopamina), às vezes, até

chato.

Neurohormônios Peptídeos

As emoções são ativadas pela excitação dos circuitos nervosos dos

neurotransmissores e, também, de peptídeos (um segundo sistema de

neuroquímicos). Alguns peptídeos – há centenas deles – merecem uma

atenção particular com respeito às emoções, entre eles, as endorfinas

e a oxitocina.

Os peptídeos são substâncias químicas que apareceram antes do

surgimento dos neurônios; através de mutações, eles sobreviveram

não só no sistema nervoso dos animais mais elevados, mas também,

nos insetos, minhocas, lombrigas e, além disso, em algumas plantas,

leveduras e bactérias.

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Alguns peptídeos: Oxitocina

A oxitocina é produzida no cérebro (núcleos supra-óticos e parvoventral

do hipotálamo), nos ovários e testículos, tendo importante ação na

conduta de afiliação (ligação da cria com o criador ou mãe). Sua produção

propicia, facilitando, a resposta sócio-sexual nos répteis, pássaros

e, também, em todos os mamíferos. Liberada durante o parto, a oxitocina

auxilia a contração uterina e produção do leite materno. Além disso,

ela é liberada durante a estimulação dos órgãos sexuais (mamilos,

clitóris, glande) e também durante o orgasmo masculino e feminino.

A oxitocina tem sido classificada de “selecionador” ou “estabilizador”

das preferências amorosas. Quanto mais o namorado fica apaixonado,

mais aumentam os níveis de oxitocina do seu organismo e, também,

mais será a sua atração e apego ao companheiro provocador do bem-

-estar e calma sentida.

Um beliscão ou chute, ao aumentar os níveis de cortisol, prepara

o animal ou pessoa para atacar ou fugir; uma leve e macia escovada

reduz os efeitos ruins do beliscão – efeito antiestresse – associado ao

aumento de oxitocina. Um sorriso nos tranquiliza devido a maior produção

de oxitocina cerebral.

Endorfina

A endorfina (morfina endógena) teve esse termo cunhado em 1970

como uma morfina produzida pelo organismo. Os opiáceos endógenos

– cadeia de 91 aminoácidos – são analgésicos poderosos, mas também

produtores de euforia e de sensação de paz. É liberada pelo organismo

em maior quantidade diante de pessoas que nos são simpáticas e

agradáveis.

No útero materno o feto está submerso num líquido contendo um

alto nível de endorfina, por isso, podemos imaginá-lo tranquilo, sem

dores e, talvez, eufórico. Ao nascer, ocorre uma queda repentina da en-

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dorfina existente, causando um sofrimento para a mãe e filho. Os altos

níveis são recuperados pelos contatos e comunicações mãe/filho.

A ligação mãe e filho é uma experiência extremamente agradável,

por isso, o recém-nascido tende a procurar novos contatos pelo resto

da vida, por serem as ligações – nem sempre são – uma fonte de euforia

e paz.

A separação, ao contrário da ligação, é aversiva e dolorosa; os mamíferos

e aves recém-nascidas, diante dela, emitem sons sinalizando

sofrimento. A região cerebral associada a essa chamada por socorro é

rica em opióides endógenos, talvez, oxitocina. Os “choros” implorando

o cuidado maternal-paternal associam-se a uma menor produção de

opiáceos endógenos nas regiões cerebrais ricas desses peptídeos (septo

e cíngulo). As vocalizações são reduzidas com aplicação de pequenas

doses de morfina.

Geralmente, uma pessoa procura a outra para receber, através dela,

sua cota de endorfinas ou oxitocina, visando a tranquilidade e euforia.

Quando ajudamos alguém, aumentamos nosso estoque dos benditos

neurohormônios e, também, ficamos mais calmos, satisfeitos e alegres.

Numa conquista – ou amizade – somos motivados a agradar o outro,

se possível, ultrapassar o esperado por ele; imaginamos receber dele,

por isso, a estima e o amor. Esse motivo social está entre as razões mais

fortes para que o ser humano – ou outros animais – aja em direção ao

outro.

Os apaixonados “doidamente” devem estar nadando nas endorfinas

e na oxitocina; felizes e tranquilos, dando pouca importância a outras

atividades, pois recebem suas “drogas” através do escolhido/amado.

Essa mesma conduta é observada entre os viciados em jogos, trabalhadores

ou ginastas compulsivas etc., ou seja, atividades que aumentam

os neurohormônios que produzem prazer e calma.

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Uma paixão intensa associa-se a uma baixa liberação de serotonina;

esta condição, por sua vez, leva o indivíduo a se tornar impulsivo e

obsessivo (pensar sem parar na amada). Entretanto, após os primeiros

encontros, os níveis de serotonina aumentam. Para tristeza dos apaixonados,

o namoro pode mesmo terminar ao diminuir a impulsividade e

obsessão.

Nem tudo é um prazer continuado; há um freio que impede o organismo

de continuar a gozar indefinidamente. Uma comida saborosa

torna-se, depois de algum tempo, indigesta; uma companhia atraente

tende a se tornar chata após alguns encontros. O prazer sentido, seja

devido à degustação do alimento, da relação sexual ou do interessante

bate-papo etc., torna-se, com o tempo, cansativo e aborrecido. Ocorre

que o próprio organismo, após a liberação dos neuro-transmissores

que nos provocaram prazer, libera outras substâncias que diminuem

as ações dos primeiros (antagonistas das substâncias liberadas). Desse

modo, há uma inibição do prazer inicial e o que era bom torna-se ruim.

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Comportamento

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Tenha Coragem de ter Medo

O medo é universal, atinge todos os homens e os ani mais chamados

de irracionais. Dele ninguém escapa. Trata-se de uma emoção caracterizada

por uma apreensão, com comprometimento físico, mental e

social. O indivíduo que nele se encontra, apresenta falta de ar, palpitações,

tremores, músculos fracos, dificuldade para pensar, falar e agir,

pois sua criatividade diminui. A pessoa torna-se “abobada” no momento,

agindo aquém de suas possibilidades nor mais. Alguns ficam paralisados

durante a crise de medo.

A palavra medo tem sido usada num sentido muito geral, abrangendo

uma série de quadros que têm origens, significados, evoluções

e tratamentos diferentes. O uso do termo “medo” no sentido geral

produz confusões e discussões, pois muitas vezes os envolvidos nes tas

falam de entidades diferentes.

Tentarei esclarecer algumas dúvidas. Psicológica e mesmo filosoficamente,

o termo “medo” tem sido usado no sentido restrito

como uma emoção negativa ou desagradável, com as características

já descritas, ocorrendo em todos os animais quando estes se sentem

ameaçados por um perigo real ou imaginado. A conduta natural diante

do medo será o animal ou o homem fugir do fator causador deste

e, caso tenha sucesso, haverá o término da emoção desagradável.

Al guns exemplos: percebo algo caminhando nos meus pés descalços,

olho e vejo que se trata de um escorpião. Sinto medo e cuidadosa e

rapidamente livro-me dele. Ao atravessar uma rua, vejo surgir inesperadamente

um carro em disparada, corro e me salvo do acidente ao

alcançar o passeio. Termina o meu medo.

Fobia: – Há um tipo de “medo” que tradicionalmente tem re cebido

por parte dos psiquiatras o nome de “fobia”. Nesta, a reação emocional

é semelhante à descrita para o medo, mas o objeto provo cador da

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emoção é praticamente inofensivo ou neutro.

Um indivíduo percebe algo caminhando em seus pés descalços,

vira-se e vendo que se trata de uma barata, corre e grita apavorado.

A barata, por si só, não é um inseto ameaçador. Na fobia, o medo é

subjetivo, isto é, fabricado pela mente de quem o tem a partir de um

estímulo determinado, que é interpretado pelo fóbico como ameaçador.

O fóbico, muitas vezes, utiliza as palavras nojento, asqueroso e

outras, para classificar e justificar a emoção sentida. Tanto na fobia

como no medo o indivíduo tenta escapar da ameaça ou do perigo real

ou subjetivo.

Doença do Pânico: – Na psiquiatria existe uma doença que tem

recebido o nome de “Doença do Pânico”. Trata-se de um quadro clínico

“parente” do medo e da fobia, mas com alguma diferença. O fator que

desencadeia a reação emocional de pavor no pânico, com frequência

não exige estímulo externo denominado ameaça dor. A pessoa acometida

da doença do pânico pode acordar à noi te, (sem estar sonhando),

ou estar vendo um programa na TV e, repentinamente, sentir, de forma

intensa e duradoura, as reações descritas acima para o medo, com

sensação de que morrerá. Não havendo objeto externo identificável,

ele não poderá fugir. Pode rá, posteriormente, ficar condicionado, isto

é, passar mal diante de situações ou objetos que eram neutros (não

produziam emoções), mas como a crise foi desencadeada num certo

lugar (sala de TV, usando uma camisa azul), a pessoa passa a sentir-se

mal nessas cir cunstâncias. São comuns frases como: “Não posso passar

no centro da cidade, me provoca um malestar”, “Quando escuto essa

música fico triste”, etc. Em todos esses casos, ocorreu o condicionamento

da pessoa. O contrário existe: ficar animado ou alegre diante de

um fato ou lugar.

Ansiedade: – O quarto grupo, com as características do “medo”,

atinge todos os mortais. A ansiedade faz parte de todos os quadros clínicos,

tanto da psiquiatria como da chamada, erroneamente, me dicina

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orgânica. Quase sempre, quando se utiliza o termo popular “nervosismo”,

estamos nos referindo à ansiedade no sentido que des creverei.

O estudo da ansiedade não é propriedade apenas dos médicos, psicólogos

e sociólogos, mas também dos filósofos, poetas, literatos, ou

seja, de toda a humanidade. Ansiedade é um estado emocional, agudo

ou crônico, de apreensão, diante do possível resultado nega tivo de

uma viagem, de um negócio, do namoro, de não dormir esta noite, etc.

Ansiedade, liberdade e cultura de massa – Esta ansiedade que aqui

discuto se liga, intimamente, ao conceito de “liberdade para” no sentido

de Erich Fromm. O indivíduo, através de sua consciência, visualiza

uma possibilidade de ação ou de mudança, na qual ele passa de um

estado já atingido e bem protegido para um desconhecido, ainda não

alcançado, incerto ou não-familiar. Ao contrário do medo no qual o

indivíduo foge, neste tipo de ansiedade a pessoa a procura, enfrenta

ou caminha junto dela, para alcançar o propósito idealizado, para se

sentir tranquilo. É uma emoção exclusiva do homem: envolve consciência,

hipóteses e previsões para agir ou não. Trata-se de uma ansiedade

produtiva, isto é, leva a pessoa ao crescimento.

A outra ansiedade, a improdutiva, leva a pessoa à “não-ação”, provocará

uma ansiedade neurótica ou patológica, ligada ao sen timento de

culpa pela não-realização, pelo não-crescimento ou ex pansão de si. Desejo

esclarecer o leitor que, em alguns momentos, a “não-ação” pode

constituir um propósito da pessoa na sua expansão. A criança procura,

a qualquer preço, andar, apesar do risco de cair, para desenvolver-se e

suplantar uma fase da sua jornada. Mais tarde, quando entra no pré-

-primário, ao desligar-se de sua família, fica ansio sa, chora, mas cresce

ao se expandir e vivenciar novos modos de ser. O primeiro emprego,

o primeiro namorado, o afastamento da família protetora, todas constituem

crises de readaptações, nas quais a pes soa passa de uma fase

mais pobre de desenvolvimento, para uma mais complexa. Esta irá

exigir-lhe maior habilidade e competência. Quanto mais o indivíduo for

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capaz de suportar essas ansiedades, mais ele se desenvolverá.

Muitas pessoas ainda pensam acerca das emoções como especulavam

os grandes filósofos anteriores ao século XVII. Spinoza acreditava

que a ansiedade podia ser abolida por meio do raciocínio lógico – a

supremacia da razão – ou da matemática.

Para ele e outros, a ansiedade e o medo eram emoções negati vas e

vergonhosas. Esta falsa crença tem provocado consequências graves: a

eliminação da ansiedade produtiva paralisa o crescimento individual.

Ao escapar da ansiedade produtiva a pessoa sofrerá, inevi tavelmente,

a ação da ansiedade neurótica devido ao não-crescimento do indivíduo.

Os governos totalitários, a mídia em geral, as religiões e outros hipnotizadores,

frequentemente procuram narcotizar e paralisar os indivíduos.

Para isso esforçam-se para transformá-los em “grupos de felizes”,

incentivando-os a realizarem, unidos, ações tolas e infantis. Esses

grupos tendem a aniquilar os sistemas individuais, em proveito de um

sistema grupal criado por dirigentes fora do grupo.

As pessoas têm duas alternativas com respeito às suas vidas: crescerem,

suportando uma carga de ansiedade ao se projetarem para o

ainda desconhecido, isto é, para um futuro incerto do vir-a-ser, ou permanecerem

estáveis, sem se arriscarem ou sem propósitos pró prios.

Nesta segunda opção, livram-se da ansiedade criadora ou sadia, mas

passam a apresentar sentimentos de culpa e tédio.

Têm sido criadas crenças e religiões diversas, ídolos, heróis, mitos

naturais e artificiais, para apaziguar e narcotizar esta multidão de

necessitados de uma orientação externa, já que não desenvolveram

uma interna. A ação da cultura fabricada tem fornecido paz e calma ao

indivíduo contra o sentimento de nulidade, mas, ao mesmo tempo, impede

o aparecimento da ansiedade produtiva, ou seja, do impulso que

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força o indivíduo ao crescimento. Ao decretar sua morte como sistema

individual, dando-lhe uma orientação externa, nossa cultura produz no

alegre indivíduo uma emoção inocente, pueril, por fazer parte de um

sistema maior, que nunca é questionado, aceito com fé, por pertencer

a este ou àquele grupo: “Sou membro do fã-clube de Emilinha”, “Sou

médico”, “Sou torcedor do Atlético”, “Sou sócio do PIC”, “Lavo-me com

o sabonete Y, o que me faz ser igual aos artistas de Hollywood”, “Moro

na zona sul da cidade, janto nos melhores res taurantes e viajo pela…”.

Os mitos são seguidos cândida e fielmente por grande parte da

classe média. Esta, uma vez hipnotizada, acompanha as mais estranhas

sugestões e prescrições dos seus donos. Aquele que ousa escapar do

cabresto é marginalizado do grupo ideológico, ou mesmo internado

como louco nos hospícios.

O seguimento hipnótico das ideologias míticas, consumidas por quase

todos atrás dos modismos, das últimas novidades, da úl tima casa

noturna aberta, buscando a relação sexual mais moderna e com a mais

recente aquisição da boate, confere-lhe o direito de seguir sua trajetória

no mundo, sem culpa e ansiedade, sem reclamar e questionar. A

massa que se submete ao novo modelo do penteado seguirá, talvez um

pouco mais animada, o novo político salvador de vidas perdidas.

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Como era Verde meu Vale

Muitos jovens, outros nem tão jovens, anseiam ter a vida contada na

Bíblia. Esses moços ambicionam no futuro, nada mais, nada menos, do

que o retorno ao mundo “bom, ordenado e belo”, imaginado e sonhado

descrito pelo mito do paraíso.

A rebelião dos jovens, que combate o estabelecido, explode ocasionalmente,

conforme o tempo, o vento e tempestades passageiras, nas

entressafras das suas “re voluções”. Não ocorre um questionamento

constante dos costumes por parte da juventude. O mal para a juventude

sonhadora, pura e ingênua, é a sociedade e a vida atual. A infelicidade,

para eles, está ligada à ordem social vigente formulada pelos seus

pais.

Os mais idosos já desistiram, há muito, dessa luta inglória: transformar

a atual sociedade imoral e corrupta numa decente e ordeira. A juventude

sonha e luta, mas não de maneira eficaz, para salvar o homem

“do mal do século”, transformar a história humana num conto de fa das

com um final feliz.

Esses loucos utópicos – deve ser lembrado que todos nós já vivemos

nossa loucura numa certa idade – expres sam de vários modos, conforme

a época e a cultura, sua atração pelo paraíso: o uso de roupas

grosseiras, des botadas e rasgadas de fábrica. Nudez diante dos outros,

principalmente de uma câmera de TV ou de uma máquina fotográfica.

Exibição de coxas ou de seios entre as mu lheres, para mostrar o proibido

pelas regras dos ordeiros e conformados. Badernas, gritos, urros e

destruição du rante jogos, formaturas, shows, missas, sermões e posse

de presidente da república. Colônias de nudistas para ho menagear e

defender o “naturalismo”, numa praia orna mentada pela cultura de

massa. Ato sexual nos teatros, filmes e praças, para combater o moralismo

tolo e ineficaz dos gagás.

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Todas essas exibições teatrais, histéricas e mistura das a rituais religiosos

ou pagãos, provocam, em seus exe cutores, uma excitação delirante:

orgasmos demorados e aplausos da grande massa entusiasmada

enquanto espera o retorno à Terra prometida. Os outros seres, surdos

aos berros dos jovens, observam, afastados e incrédulos, o extraordinário

entusiasmo enxertado à simplicidade hila riante. Para os jovens,

lá, muito longe, no alto, bem aci ma de nossas cabeças de homens e da

montanha, no céu azulado e estrelado, anjos decentemente enfeitados

da nudez divina e primitiva, de mãos dadas, cantam e bailam alegremente,

girando em volta do compenetrado, honrado e sempre vigilante

Deus.

Entusiasmados com essa fantasia maravilhosa, em alguns lares desse

mundo afora, pais não muito jovens, inoculados por essa pregação,

passaram a cultivar o ba nho coletivo. Também em algumas praias,

como ocorre no paraíso, desfilam homens, mulheres e crianças despidas.

Rapazes e moças desoladas exibem, diante da natureza viva, a

natureza morta: seios e pênis tristonhos e abando nados, órgãos esperando

por algum milagre dos que por ali passeiam.

Semelhante ao mito da nudez e do paraíso, de tem pos em tempos

nasce o mito dos protestos estudantis cô micos. Estes, organizados

pelos exploradores, vestidos de cordeiros explorados, combatem com

seus discursos in flamados o poder que eles, sem notar, exibem: roupas

de marca, palavras bem escolhidas e reveladoras de erudi ção, corte

de cabelo moderno e apurado, relógios, brincos e outras joias de alto

custo. Seu poder, exposto através das informações sem-palavras, mostra

claramente existir uma classe estudantil bem diferente da outra, da

desclas sificada logo ao nascer. Frequentemente, através de grita rias em

público, de algumas pedradas medrosas e cuida dosas, eles atacam o

pobre policial que pertence à classe que, hipocritamente, os líderes, do

lado de cima do limite, afirmam defender. Esta é a luta deles: alcançar,

através de ações dificílimas, perigosíssimas, carregadas de emoções

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intensas, um mundo melhor ainda para eles, ou seja, o paraíso para um

grupo especial e já escolhido.

Durante essas lutas coletivas, desordenadas e cômi cas, transformadas

em exibição teatral na praça pública, jovens fantasiados, tendo as

caras pintadas com esmero, com roupas típicas plantadas em desejos

inconfessáveis de cada um, gritam, por instantes, com muita raiva,

en quanto esperam a hora de ir jantar e beber no restaurante chique.

Ninguém sabe com clareza o que se pretende, a favor de quê e contra

quê se luta.

Todos sabem que há um protesto contra alguma coi sa. Rebelam-se,

talvez, contra eles mesmos, pelas prer rogativas que uns poucos têm

sobre a maioria, pelo poder que detêm, pela arrogância de um lado e a

humildade do outro. Reclama-se contra o atual em todas as áreas.

Tudo está errado! Exige-se um futuro melhor. Entre tanto, o que é

este futuro melhor? Nenhum deles sabe, nem nós, os mais velhos.

Tudo é vago, distante demais, impossível de ser até mesmo imaginado,

representado e muito menos verbalizado, o que eles mais fazem. Ninguém

consegue definir o que se quer, nem mesmo os lí deres dos movimentos.

Quase sempre a maioria deles fez – ou faz – parte e defendeu,

com o mesmo vigor, o “outro lado”, o lado do “estabelecido”, o agora

“combatido” com veemência.

Este mundo imaginário e buscado, principalmente pe los jovens

sonhadores e rebeldes, é nebuloso. Se não se conhece o fim desejado,

logicamente não será possível sa ber o meio para alcançá-lo. Nota-

-se que eles desejam um retorno ao mundo antigo, calmo e ordeiro,

sem lutas, com nudez e frutinhas naturais para serem saboreadas ao

som singelo de órgãos celestiais. Entretanto, os jovens são, ao mesmo

tempo, apaixonados pelo mundo natural e atraídos pelo moderno, pelo

desperdício do dinheiro na compra dos aparelhos de som e imagem

ultrassofisticados, pelo uso das últimas novidades em bebidas e drogas

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colocadas no mercado, tudo isso não tão natural assim.

Muitos discursos, artigos e livros dirigidos aos jovens buscam despertar

crenças antigas, plantadas firmemente pelos pais quando eles

eram crianças. Nós todos as temos. Essas histórias falam acerca de um

mundo imaginário or deiro, cheio de homens bons e honestos, igualdade

e liber dade para todos. Infelizmente, isso era uma mentira que

nossos pais ouviram de seus pais e, de boca em boca, a história, teimosamente,

continua a se alastrar. Este mundo imaginado nunca existiu e

nem existirá.

A juventude que procura alcançar essa utopia ainda acredita nela,

mas, à medida que se torna adulto, o sonho vai se acabando. Os jovens

receiam transformar-se em adultos, perceberem que o aprendido não

é o experimen tado. Crescer, para a juventude, significa tornar-se igual

aos pais, assumir seu lugar nessa bagunça total, na farsa e corrupção

desse estranho mundo habitado por anjos e demônios, metade céu,

metade inferno.

Talvez o sonho máximo desse grupo fosse viajar para o paraíso. Caso

o combustível não desse, pelo menos até Marte, no novo ônibus espacial

a ser construído após o úl timo acidente, ou, talvez, na nave dos

ETs. Para fazer essa viagem fantástica, “numa boa”, “de repente”, “com

certe za”, “né”, e junto com toda a patota, todos vestiriam um uniforme

superchique e moderninho. Bem, quando lá che gassem, prontamente

eles iriam se despir. Após cada um “ficar” rapidamente com os outros,

eles comeriam, abra çados, as frutinhas celestiais distribuídas por São

Pedro, dançando e cantando, diante do som “louco” produzido por

uma banda supermoderna e, evidentemente, tendo todos seus componentes

drogados com cogumelos do céu.

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O Modelo da Lata de Lixo

Todos vocês conhecem a “lata de lixo” mas prova velmente não

conhecem o “Modelo da Lata de Lixo”, um termo criado por alguns

cientistas desocupados. Eles falam que em qualquer sociedade sempre

se encontram pessoas que discutem e brigam por certas ideias, as

mesmas de sempre, anos após anos.

Conforme os criadores do Modelo da Lata de Lixo, ao se iniciar uma

discussão em mesas redondas, programas de TVs e rádios, sempre

aparecem, em todos eles, certos problemas que são os mesmos, várias

vezes repetidos, os quais dominam a atenção de todos no debate. Eis

alguns exemplos desses assuntos que “enchem” os programas, bem

como a fala dos debatedores: “Precisamos estudar melhor os discos

voadores”, “Com o imposto único o País irá retomar o crescimento”,

“Devemos combater as drogas a qualquer preço”, “Nosso problema é

a infância desassis tida”, “O problema do Brasil é a fome”, “Precisamos

acabar com a impunidade do país”, “O mal é o aumento do desemprego”,

“Devemos aumentar o lazer”, etc. O leitor lembrará de muitos

outros problemas importantes para serem dis cutidos com ardor.

Como é difícil pensar e trabalhar com muitas ideias ao mesmo tempo.

Sendo muitas delas contraditórias, ao ado tar o modelo da “Lata

de Lixo”, as discussões, bem como os problemas, se tornam simples

e fáceis de serem resol vidos. Através desse modelo, todos os grandes

problemas são facilmente equacionados na mente de seu defensor e,

mais ainda, sua vida. Mesmo quando o argumento não se encaixa no

discutido, os debatedores, seguros e tranquilos, lutam tenazmente pela

importância das brilhantes ideias.

Este modelo é construído da seguinte maneira: ao nascer, a criança

começa a adquirir um sentido do “bom” e do “mau”, do “certo” e do

“errado”, inicialmente através da observação da conduta dos compa-

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nheiros mais velhos, quando ainda não aprendeu a linguagem e, muito

menos, o raciocínio lógico. Um pouco mais tarde, são aprendidos os

valores e condutas, principalmente com o grupo de amigos e com os

“ensinamentos” da mídia. Durante a puberdade e a adolescência, o

aprendizado de valores será através da imitação dos companheiros de

grupo. Para alguns, esse é o período mais importante e crítico para a

aquisição de julgamentos do “certo” e “errado”. Depois, seus juízos de

valor vão se fixando cada vez mais através das reações cordiais ou hostis

com pessoas importantes para o com portamento do agente.

Alguns dos valores defendidos com ardor, uma vez as similados e

armazenados, passam a fazer parte dos objeti vos que devem ser seguidos

e dos julgamentos realizados pelo indivíduo. São eles que fornecem

o sentido para a vida de cada um. Muitos dos “tem de ser”, “devo

agir” e “tinha”, que proferimos constantemente para nós mesmos e

para os outros, nem são normas de conduta definitiva, nem são universais,

isto é, para todas as culturas. Os valores são apenas objetivos

individuais, temporários, seguidos por uns, rejeitados e amaldiçoados

por outros, variando con forme as diferentes culturas e subculturas,

podendo tam bém ser adotados como meios para outros fins. Por isso,

os valores podem, e devem ser, de fato, questionados.

Como temos diversos “professores”, cada um deles com uma opinião

própria, aprendemos valores-fins e meios antagônicos. Assim, de um

lado, como objetivo, aprende mos que devemos respeitar a professora,

por outro lado, avaliamos que é agradável conversar na sala de aula

sobre a nova namorada com o amigo. Aprendemos que devemos ser

honestos, mas também que precisamos passar de ano e, como não

estudamos, temos que colar. Ao escolhermos uma conduta contendo,

ao mesmo tempo, valores defen didos opostos, podemos, às vezes,

ficar confusos. Assim, agrada-nos fumar, mas desejamos ter boa saúde,

não que remos ser obesos, mas a carne gordurosa está uma delí cia.

Queremos viajar, mas precisamos trabalhar mais ainda – o que não nos

agrada – para ter um dinheiro sobrando, desejamos a vida com uma

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companheira compreensível e carinhosa, mas detestamos as limitações

impostas pela vida a dois ou a três.

Alguns valores podem tomar conta de nossos objeti vos ou meios a

vida inteira, como nos exemplos: aos de zoito anos Pedro decide ser

engenheiro e torna-se enge nheiro até a morte, José decide casar-se

aos 28 anos com Marta, a mulher dos seus sonhos. Poderá ficar para o

resto da vida preso a ela e aos filhos nascidos.

Diante de tantas alternativas, pergunta-se:

“Que caminho devo tomar?” Muitos só enxergam e têm interesse e

certeza da existência de um só objetivo e caminho para se chegar a ele,

sendo essa preocupação solitária que passa a coordenar, dirigir e a fornecer

signifi cados para a vida. Os que fazem parte desse grupo podem

passar a vida fazendo campanhas contra o aborto. Outros se preocupam

com o controle do armamento nuclear.

Alguns lutam a favor do estudo da homeopatia nas Faculdades de

Medicina. Outros lutam em prol da vida das cobras. Para esses, o voto

deve ser dado nas eleições para o candidato que defender esse ou

aquele problema parti cular: basta um deles, desde que se encaixe no

“Modelo da Lata de Lixo”. Adotando essa posição, o mundo fica fácil de

ser entendido, explicado e manuseado.

Felizmente, para a felicidade de todos, algumas vezes um problema

pode ser resolvido sem atrapalhar o outro. É possível tapar os buracos

da Rua da Esperança fazendo, ao mesmo tempo, um mata-burro na

Rua dos Sofredores e, também, prender os ladrões de galinha do Lambari.

Coro ando tantas obras, criam-se mais impostos e, como consequência,

aumenta-se os salários dos nobres e digníssimos deputados.

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AIDS: Você tem medo da Doença

ou do Doente?

Há dias, durante cerca de três horas, fiz uma viagem de ônibus para

o interior de Minas. O ônibus, cheio de passageiros assentados, carregava

também alguns em pé. De tempos em tempos, o veículo parava

na estrada para pegar ou descer viajantes. Nessas ocasiões, por vezes

va gava um novo assento no ônibus. Era comum ver o passa geiro em pé

continuar nessa posição alguns minutos, antes de decidir se assentar

no lugar disponível.

É curioso observar que a maioria das pessoas prefere não se assentar

numa cadeira ainda “quente”. Segundo a crença, essa pode transmitir

doenças. Pesquisas mostra ram mais do que isso: a maioria das pessoas

tem aversão a usar camisas, blusas, meias, sapatos, escova de den tes,

pentes, sabonetes que pertenceram a um estranho e, principalmente,

utilizar-se de uma privada estranha ao seu bem conhecido e amado

bumbum.

Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos, com a participação

de 260 estudantes americanos, mostrou uma aversão estranha e não

esperada. As perguntas e as res postas foram muito semelhantes às

abaixo:

— Você seria capaz de usar um blusão que pertenceu a um aidético?

— Acho que não.

— E se esse aidético for um homossexual?

— Pior ainda, de modo nenhum!

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— E se o blusão tivesse sido usado por um homem que perdeu uma

perna num acidente de carro?

— É… acho que não o usaria.

— Vestiria um blusão que pertenceu a um assassino?

— Não… nem pensar.

Outras perguntas foram feitas como “Como você se sentiria usando

um blusão novo?” Em seguida, perguntou-se acerca do uso do blusão

usado por um homem sadio, por um tuberculoso e um aidético-

-hemofílico. As mesmas perguntas foram feitas ao grupo de estudantes

america nos com respeito a dormir na cama e dirigir um carro usa do

por esse grupo de indivíduos.

Os resultados encontrados são interessantes: houve um elevado

índice de medo de “contágio”, mesmo quando o blusão, cama e carro

haviam pertencido a um homem saudável, em 33% dos entrevistados.

Uma surpresa: na pesquisa, 50% dos entrevistados não usariam um objeto

pertencente a um indivíduo que perdera uma perna num acidente.

Seria medo do azar?

Outros estudos relatam que tem sido difícil vender ou alugar casa

onde anteriormente morou um aidético. Também tem sido verificado

que os pais relutavam em matricular o filho numa escola frequentada

por um aluno com AIDS. Uma pesquisa mostrou que 32% dos entrevistados

acreditam que a AIDS pode ser transmitida pelo banho de

banheira e 35% que pode ser adquirida ao doar sangue.

A aversão pessoal é um sintoma de inúmeros trans tornos mentais,

na qual se inclui a personalidade “evitan te” (pessoa facilmente ferida

pelas críticas, que foge de atividades sociais, evita falar ou comer em

público, etc.). A aversão ao contágio é uma resposta comum em pesso-

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as consideradas “normais” e poucos são os defensores dos direitos dos

aidéticos que seriam capazes de vestir uma roupa que foi usada por

esse grupo e, muito menos, por um aidético homossexual. Por quê?

Sabe-se que o medo do contato com pessoas, doentes ou não, implica

mais do que o simples medo de contrair uma doença. Uma explicação

frequente das causas das doenças é a cultural-religiosa. Para essa

interpretação, apanha-se uma doença em virtude de transgressões

morais ou peca dos. Por trás dessa crença há uma suposição da existência

de um “mundo justo”, sugerindo um castigo e desvaloriza ção moral

da vítima dos azares físicos ou moléstias. Para esses, o atingido pelo

infortúnio deve “merecer” o ocorrido como punição por algo errado

que ele deve ter feito.

O descrito acima intuitivamente nos soa esquisito. Mas, sem estranharmos,

observamos uma conduta oposta: a todo o momento assistimos

fãs de artistas, esportistas, políticos, religiosos e outros famosos

sonhando em possuir e vestir a camisa e cueca que pertenceu a Ronaldinho

e outros, de tomar um banho com o sabonete usado pelo

cãozinho de Xuxa, ou usar sua calcinha e sutiã, de dormir na cama que

pertenceu, ou, se possível, com o “próprio” deus idolatrado, de viajar

no carro de alguém famoso, em resumo: tudo que poderá produzir

associações suposta mente “positivas”.

Acredito que é a emoção intuitiva, positiva ou negati va que sentimos

para um ou outro indivíduo, que promove os pensamentos favoráveis e

desfavoráveis que surgem para justificar o sentido pelo nosso organismo.

De outro modo, não são os pensamentos “lógicos” que dão origem

aos julgamentos feitos – vestir ou não o blusão – mas sim as emoções

presas em julgamentos cristalizados que são detonadas automática e

inconscien temente contra ou a favor de determinadas categorias de

pessoas diante da presença do fato exibido.

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Vocês sabem que existe uma ilusão de autoengrande cimento pessoal

devido a ligações não significativas, sub jetivas tolas, como ficar feliz

por morar no mesmo prédio ou bairro onde reside uma pessoa famosa,

usar a mesma marca de auto, o mesmo corte de cabelo, chinelos,

óculos etc., semelhantes ao do nosso ídolo. Alguns ficam felizes até em

virtude de associações tênues, como ter nascido no mesmo dia e mês

em que nasceu seu deusinho passagei ro. Esse é o ser humano, chamado,

por alguns, de animal superior e racional.

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O Preço de uma Escolha: Adeus às

Ilusões

Todos nós sonhamos com a possibilidade, por sinal impossível, de

transformar alguns fatos já vividos em ou tros. De outro modo, imaginamos

desviver o vivido. Essa mágica não se realiza. Cada um lembra,

amargamente, que podia ter estudado mais para aquele exame, não

de via ter tratado tão mal aquela namorada encantadora, há muito

devia ter mandado para o inferno o “amigo da onça” explorador, ter

tido mais cuidado ao dirigir, evitan do o acidente provocador das dores

do joelho. Pensamos: “Se tivesse agido de outro modo, estaria, possivelmente,

vivendo mais feliz do que estou”. Talvez sim, talvez não.

Quantos e quantos aborrecimentos podiam ter sido evi tados. Em resumo:

muitas decisões tomadas ontem com muita fé, hoje, em hipótese

alguma seriam realizadas.

O povo fala: “ninguém é perfeito”, portanto, todos nós, sem exceção,

demos nossos tropeços durante nossa passagem pela vida terrena.

Segundo as estatísticas nesse assunto, quase todas ou todas as pessoas

sentem-se ter rivelmente arrependidas de terem abandonado os estudos

muito cedo, queixam-se de que ninguém nada fez para dissuadi-los

disso. Outros lamentam um casamento preco ce, que estragou todos os

outros planos.

Há, ainda, os que se arrependeram de ter mantido uma amizade por

muitos anos, quando o melhor teria sido mandar “para o inferno” o

“amigo/inimigo” de longa data, e outros ainda, por fim, amaldiçoam a

hora fatídica do trá gico encontro que resultou numa gravidez e no nascimento

de um filho nascido num momento terrível, jogando por terra

as belas fantasias da juventude.

A psicologia costuma chamar esse arrependimento de “pensamento

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contrafactual”, isto é, nosso desejo de mudar os fatos que lamentavelmente

aconteceram no passado e não podem ser modificados.

Como o mundo caminha independentemente do que desejamos, um

pequeno, simples e tolo fato não-pensado, não-desejado e nem necessário

pode ocorrer. Tragicamen te, esse fato que não precisava existir

pode mudar para sempre nossas vidas. Um “escorregão numa casca de

ba nana” pode dar origem a um novo e árduo caminho, sem que nada

mais possa ser feito, destruindo para sempre a trajetória delineada,

carregada de emoções positivas que habitavam o organismo num tempo

longínquo que passou. Quanta saudade!

Pensando nos meus escorregões, nas minhas “burra das” malucas

pela vida afora, lembrei-me do encontro oca sional que tive com o

Sócrates. Esse meu amigo de infância tinha uma vida traçada para ser

boa. Era disposto, alegre, bonito e rico. Mas “estou lamentando antes

da hora”. Sócra tes conheceu a filha do aposentado da esquina, em

virtu de de pequenas coincidências, a princípio sem importância. Pouco

a pouco, esse conhecimento, que não precisava ter ocorrido o levou a

um caminho, é…bem! Vou lhes contar:

Eu caminhava a mando do cardiologista – fazia mi nhas caminhadas

para melhorar a pressão e observar a multidão – quando encontrei

Sócrates. Achei-o envelheci do. Sempre achamos o outro mais acabado

do que nós.

Penso que essa avaliação ocorre porque vemos todos os dias nosso

rosto e corpo no espelho e não vemos o do nosso amigo sumido.

Fomos colegas no colégio do bairro e do futebol da várzea. Nem eu,

nem ele, fomos craques, nem de futebol, nem dos estudos. Estudávamos

para passar de ano e jogá vamos para nos divertir. Entretanto, não

éramos os piores da sala nem do time. Um dia, um dia como qualquer

outro, sem nada de especial, nem chovia, nem ventava, o azul do céu

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de abril começava a escurecer, o Sol se punha, tran quilo. Sócrates ainda

era jovem, muito jovem, como era o narrador dessa tragicomédia.

Estava esquecendo: ele era um dos poucos do grupo que a família

tinha algum dinheiro. Falava-se, entre nós, que seu pai era grande fazendeiro

no norte de Minas. Nas nossas conversas não se comentava a

vida e os segredos familiares de e para ninguém. Essa regra – não havia

proi bições explícitas – era acatada e respeitada por todos, não podia

ser burlada.

Voltando ao Sócrates: ele, quando ainda era um gina siano – para

quem não sabe, “ginasiano” era quem cursava os quatro últimos anos

do atual primeiro grau – foi fisgado pela filha do aposentado. Lucélia,

uma bela morena, ou mulata, isso não importa, era de “fechar o

comércio”. Até aquela data, ela era inacessível aos jovens imberbes e

de sajeitados, mas nem por isso deixava de ser desejada por todos os

jovens que transitavam em torno de sua casa.

Dentro do nosso maniqueísta e acanhado campo per ceptual de

julgamento da conduta feminina, existiam, ra dicalmente opostos, dois

tipos de mulheres: de um lado, as santas ou virgens-santas que serviam

para se casar, de outro, as desinibidas e livres demais que podiam ter

algu mas outras serventias.

Até então, não havia meio-termo. Mas apareceu Lu célia. Nenhum

de nós pensava em aproximar-se dela para namorá-la, não porque a

rejeitássemos, mas sim devido à nossa incapacidade física e financeira,

ou pior do que isso, em virtude de nossa inabilidade, da falta de coragem,

pois não conhecíamos as estratégias e as táticas necessárias para

mantermos uma conversa e um relacionamento ade quado com uma

mulher daquele “pedigree”, capaz de fa zer todos os homens virarem

seus rostos em sua direção, quando passava pela rua. A presença de

Lucélia derrubou nossa regra simples para julgar as mulheres em dois

gru pos opostos. Ela era um dos únicos e raros artigos que conhecía-

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mos fora-de-série, pois não era, segundo nossa classificação, nem para

casar, nem para um programa com pessoas como as do nosso grupo.

Amedrontados, muito antes de darmos o primeiro passo em sua direção,

já ante víamos o fracasso caso ousássemos conquistá-la. O nosso

treino era pouquíssimo, a nossa única e, por sinal, péssi ma experiência,

era muito pequena: “mulheres de rua”, mulheres de “terceira classe”,

segundo nossa classificação sócio-religiosa da época, isto é, prostitutas,

semiprostitu tas ou candidatas a tal.

Enxergávamos Lucélia através desses óculos embaça dos e de lentes

não-flexíveis, de maneira confusa: éramos superatraídos por ela e também

tínhamos pavor de nos apro ximarmos. Assim, ao mesmo tempo,

sonhávamos em estar juntos e afastados dela. Tentar ou não tentar.

Mas pior que tudo: Lucélia era inacessível para nossas posses. Tínhamos

o delírio em nossas mentes, mas a realidade era outra.

Num fim de tarde, ficamos surpresos ou espantados, não sei bem,

quando vimos Sócrates de mãos dadas com Lucélia, passando na nossa

frente sorridente e orgulhoso da conquista. Não dava para entender. O

seu comporta mento gerou em todos nós uma imensa inveja misturada

com raiva. Pensei inicialmente que devia ser um encontro casual, sem

consequências, milagrosamente dentro do pa drão existente no grupo.

Mas fiquei intrigado, imaginando como foi que ele conseguira ganhar a

tão distante Lucélia, uma conquista que ninguém do grupo tinha conseguido,

nem imaginado.

Mas as pequenas diferenças foram, pouco a pouco, provocando

as grandes diferenças na vida do Sócrates. Muito lentamente ele ia

se transformando, à medida que sua paixão por Lucélia aumentava.

Primeiramente Sócrates abandonou os encontros com os companheiros,

mais tarde largou o futebol, depois, os estudos. A cada dia mais,

sua vida girava exclusivamente em torno dela. Lucélia também ficou

diferente do que era. Deixou de ser a jovem livre e alegre de outros

tempos, a que saía com os “bacanas” de terno e gravata, os que a bus-

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cavam em seus carros, de fato carros simples. Tornou-se uma donzela

séria, reca tada. Ao abandonar os “grã-finos”, somente saía com Sócrates.

Nós, de boca aberta, olhávamos e suspirávamos, seduzidos e

raivosos, ao ver o casal passar.

Após um curto período de dedicação exclusiva e de muita paixão,

Sócrates deu mais um ligeiro escorregão, provavelmente não-desejado

e não-programado. Um pe queno fato, sem os cuidados necessários,

transformou, de vez, a vida do Sócrates e produziu uma diferença ainda

maior. O fosso entre o antigo e o atual aumentou.

O inevitável ocorreu: Lucélia foi deflorada, nome dado na época

a certas minúcias do sexo. Em outras palavras, Sócrates “fez mal” a

Lucélia. Naquele tempo, diferente dos tempos modernos, o costume

obrigava o suposto autor a ca sar-se com sua “vítima”. À “boca pequena”

falava-se que ele havia caído no conto da gravidez indesejada, ou

melhor, os componentes do grupo tinham dúvida quanto ao autor real

da gravidez. Talvez tivéssemos inventado isso de inveja.

A partir de mais esse pequeno fato, a boa vida de Sócrates foi decepada

para sempre. Ele, que nunca havia trabalhado, passou a fazê-lo.

Ele, que sempre tinha algum dinheirinho sobrando no bolso para comprar

um doce ou ir ao cinema, teve que economizar. Os fatos negativos,

como bolas de neve, se acumularam. Sem alternativas, diante de sérias

dificuldades financeiras, Sócrates mudou-se da pensão razoável onde

morava, para o fundo do bar raco existente na casa do sogro. Era lá

onde funcionava um pequeno depósito de lenha. Era apenas um quartinho

apertado para dormir. O banheiro situava-se fora do quar to e não

havia cozinha, nem sala.

Sócrates passava parte do dia cuidando da esposa, que estava grávida,

pois logo no início da gravidez Lucélia foi despedida do emprego de

vendedora das Lojas Ca nadenses. Dia sim, dia não, enquanto sua sogra

cuidava dela, Sócrates vendia para vizinhos e pessoas amigas do ces

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fabricados por ele durante o dia e, à noite, trabalhava de porteiro da

Associação Comercial.

Tentou voltar aos estudos, mas faltou dinheiro para as mensalidades

e também tempo para frequentar a esco la e, por isso, abandonou o

colégio para sempre.

Foi deixando de lado, progressivamente, outras me tas anteriormente

planejadas como fazendo parte de seu futuro, frutos de sonhos de

criança e dos incentivos do pai: ser advogado na área criminal, ser famoso,

rico, par ticipar de júris com criminosos conhecidos, aparecer nas

notícias dos jornais, ter diversas mulheres apaixonadas por ele.

O mundo imaginado e esperado foi sendo tomado por um mundo

frio, monótono e sem sabor.

Sócrates foi sendo esmagado pelas pressões dos fa tos vindos de

todos os lados: despesas com o leite, rou pas, médicos e remédios.

Outros filhos foram nascendo, crescendo, dando mais e mais trabalho.

Ora era um que tinha dor de barriga, ora outro tinha tosse, um terceiro

dor de ouvidos. Uma boa parte do tempo eles choravam, de dia ou

de noite, de fome ou de desconforto, algumas poucas vezes sorriam,

pedindo colo ou companhia.

Nessa guerra inglória de partos continuados, abor tos espontâneos,

gritarias infernais dos diabinhos, Lucélia foi se desfigurando. Inferiorizada,

começava a não mais chamar a atenção dos homens nas poucas

vezes que saía de casa. Sócrates, cabisbaixo, examinava-a. Recordando,

comparava a Lucélia atual, gorda e encurvada, a que esta va viva à sua

frente dando sopinha ao filho, com a jovem bela e alegre do retrato,

colocado em cima da prateleira do guardalouça, a do dia do casamento.

Deprimida, des confiada, irritada, gastava o que não podia com os

filhos agitados e magros, com o alcoolismo do pai e a hiperten são da

mãe.

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Sócrates transformou-se num escravo das exigências do cotidiano,

dedicado integralmente às soluções para os entraves constantes da

vida familiar.

Não mais lhe sobrava tempo, nem mesmo capacida de, para pensar

acerca de si mesmo, do que fazer em seu próprio benefício. O mundo

imaginado durante sua juven tude ficava cada vez mais distante,

com menor importância para ele. Uma vez ou outra, ocasionalmente,

estimulado por uma notícia no jornal ou o encontro com um ex-companheiro,

ele lembrava-se de algumas cenas do passado, longínquas,

antigas e envelhecidas como sua cabeça atual. Lá, muito longe, o jovem

alegre parecia tão feliz. Agora transformou-se noutro, um trabalhador

em tempo integral para manter-se naquela miserável prisão iniciada na

noite fatídica. Os sonhos viraram fumaça, dispersaram-se: Só crates foi

levado para um outro mundo. O caminho, antes claro e perto, distanciou-se,

estreitou-se, ficou embaçado.

Naquela tarde sombria, abandonei minha caminhada para escutar o

desabafo de Sócrates. Morando sozinho, eu tinha enorme dificuldade

para entender uma pessoa pre sa a uma família. Ao ouvi-lo com paciência,

simpatia e até piedade, relatar, com uma voz embargada, seu

drama melancólico, eu me lembrava dos tempos que não voltam mais,

dos meus tropeços parecidos com o dele, dessa vida da qual sempre

tive medo. Escutava suas amarguras, sua nova história de vida, uma

vida para mim inútil e sem rumo. Imaginei que talvez, bem escondida

– ele não me confessou isso – sua vontade era de nunca ter feito tudo

aquilo.

Entretanto, como bom observador, pude notar, ao me despedir, uma

certa satisfação e alegria no seu semblante. Imaginei que, apesar de

tudo, das dificuldades com que vi via, ele estava desejando chegar em

casa, pois lá ele tinha proteção e segurança.

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Daqui a pouco ele teria ao seu lado seus filhos e sua mulher para

recebê-lo e com eles passaria a noite.

Nós nos despedimos friamente. Eu estava sem graça. Voltei para casa

pensativo. Sabia que estava livre de tudo aquilo que ouvira. Entretanto,

estava confuso: retornava para meu lar, um lugar onde não havia

ninguém para me aborrecer, onde gozava de completa liberdade,

entretan to na minha casa não havia ninguém, ninguém, ninguém mesmo.

Somente eu para me receber, conversar e apoiar.

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Adivinhos: Esses Desadaptados

Os videntes, bem como os que trabalham com búzios, cartas, tarô,

horóscopos, mapa astral e outros semelhan tes, ao tentarem predizer

o futuro do país, do artista ou do político, de fato só poderão observar

os “mapas” mentais que habitam suas próprias mentes. Esses leitores

miste riosos “leem” apenas seus próprios pensamentos e não os dos

outros. Não há outra possibilidade. Alguns, sem malí cia, outros, nem

tanto, descrevem para o consulente ávido por profecias a “realidade”

interna contida em sua mente, como se fossem eventos que irão acontecer.

Ninguém pode refletir ou descrever o que não se en contra armazenado

em sua própria mente, sua “memória autobiográfica”. Apesar

desse fato simples, eu só falo o que aprendi, só consigo discutir ou resolver

questões que tenho em mente e que conheço. Estranhamente,

os diver sos videntes atribuem suas visões a acontecimentos ex ternos,

até o momento da revelação desconhecidos para o vidente e o cliente.

O grande paradoxo dos videntes e outros semelhantes é que eles

jamais conseguiram prever seus próprios desti nos, sair de sua ignorância

a respeito de sua incapacidade para fazer o que dizem: eles ignoram

a própria ignorância.

Há uma verdade lógica impossível de ser negada: nada do que existe

fora de nossa mente pode ser obser vado, percebido, examinado ou

discutido em si. Tudo que conhecemos encontra-se intermediado pela

nossa mente.

Não existe objetividade nem nas ciências chamadas “exatas”. Tudo o

que é olhado, escutado, cheirado, etc., sempre o será por uma cabeça

que já possui algum co nhecimento ao nascer (inato) e, após o nascimento,

cada um tem seu aprendizado singular. O conhecimento antigo

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forçosamente servirá de suporte ao novo que vai sendo edificado. Não

pode ser de outro modo.

Cada um de nós tem uma história que é humana: vi veu e experimentou

certas situações, leu ou escutou algo, interessa-lhe observar determinados

aspectos do mundo, somente esses, num certo momento.

Qualquer observa dor de fatos apresenta sempre limitações: características

como a idade, sexo, maior ou menor conhecimento, a ado ção

de certa filosofia de vida, o viver um instante particu lar, etc. Tudo isso,

e muito mais, irá fatalmente modificar a percepção e interpretação do

fato ou as relações que estão sendo examinadas.

Sempre, sem exceção, todos nós, ao examinarmos um evento, lançamos

nele nossos desejos, noções gerais ou falta de conhecimento

acerca do fato, de modo que o observado mistura-se às nossas crenças.

Nós nunca atin gimos os fatos. Sempre damos nossas versões acerca

dele ou, de outro modo, trabalhamos, examinamos e interpre tamos

apenas as representações criadas ou construídas acerca dos eventos,

um simulacro ou amostra do evento, uma história reconstruída, modificada

e contada acerca do fato para e por alguém. Que pena!

Muitas vezes recebemos informações de segunda, terceira ou quarta

mão. Construímos as nossas versões dos fatos e estas sempre devem

corresponder às nossas crenças subjacentes, aos nossos desejos, ao

grupo social onde somos aceitos e do qual fazemos parte.

As versões são frequentemente carregadas de mitos, hipóteses e

deduções antigas, aprendidas cedo e, além dis so, muito longe da realidade.

Assim é que todos nós cons truímos nossos mitos particulares.

Na maioria dos nossos raciocínios não examinamos os métodos que

usamos para chegar às conclusões obtidas e, muito menos, não examinamos

as contradições possíveis de existir no nosso pró prio raciocínio.

Parece-me que os videntes fazem parte do grupo dos seres huma-

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nos. Talvez não! Não sei bem. Eles, caso es tejam certos, ao observarem

e raciocinarem, como nós, selecionam certos fatos, acentuam alguns

aspectos, eli minam e generalizam outros para construírem suas ideias

conforme seus planos e intenções. Além disso, como todos nós, ao examinarem

um acontecimento não valorizam e não selecionam aspectos

do fato que não interessam às hipóteses que formulam e que poderiam

contradizer as ex pressas no momento. O resto… vocês decidem.

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Comportamento: Informações resumidas

Historicamente, a ênfase para censurar e domesticar o homem foi

colocada no elemento destruidor deste. Mas é possível que muita raiva

e agressividade do homem derivaram das frustrações impostas pelos

processos educacionais.

Em todas as sociedades, as pessoas avaliam e comentam as ações de

outras, elogiando-as ou criticando-as. Certas condutas são tidas como

obrigatórias; as pessoas são forçadas a alcançá-las. Os que fracassam

em possuir tais virtudes são criticados e rejeitados.

A realidade social e nossa atividade na sociedade são guiadas por

uma ilusão. Não percebemos uma realidade, apenas vivenciamos um

modelo ou estruturação ilusória dela, criada pelo grupo dominante.

Entre as ilusões encontra-se a idéia de liberdade que se insere numa

forma particular de ideologia. Somos escravos de uma “liberdade”

inventada pelo modo de pensar ditado pela ideologia predominante.

Em 1530, Erasmo de Rotterdam escreveu ““Da Civilidade em Crianças””,

que teve 130 edições com traduções e imitações. O livro trata

do comportamento das pessoas em sociedade. É dedicado ao menino

nobre e escrito para a educação das crianças. O livro descreve, entre

outras coisas, como as pessoas olham e o significado de cada olhar: “O

olhar esbugalhado é sinal de estupidez; o fixo, de inércia; o cortante,

dos que têm propensão à ira; vivo e eloquentes, dos impudicos”. Escreve

também acerca da postura, vestuário, expressões faciais etc. : “Não

deve haver meleca nas narinas”; “O camponês deve limpar o nariz no

boné, o fabricante de salsichas, no braço”.

Antes dos livros de Erasmo, cada um mostrava com naturalidade sua

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nudez. As pessoas andavam e dormiam nuas; apenas alguns religiosos

não o faziam. Nos casamentos, a noiva se despia diante das damas de

companhia; a sexualidade era aberta.

A agressividade, como o sexo, era natural e aceita. Muitos homens

viviam para a violência; era natural matar e queimar em praça pública

homens, gatos e prisioneiros. A agressão era incentivada, bem como as

lutas, brigas e torturas; os afetos eram, também, totalmente liberados.

Num desenho de uma estalagem da época de Erasmo, nota-se a presença

de 80 a 90 indivíduos. Entre eles encontram-se pessoas comuns

reunidas com outras mais bem vestidas, possivelmente ricos e nobres

e, também, mulheres e crianças. Muitos suam e enxugam-se; um deles

limpa a bota em cima da mesa, outros têm relação sexual.

Pessoas desconhecidas dormiam na mesma cama; a etiqueta e “boa

educação” aconselhava “o inferior” a deitar-se primeiro, ficar espichado

para não se encostar no “importante”, e levantar-se primeiro sem

esbarrar no companheiro.

As necessidades fisiológicas eram “aliviadas” em qualquer lugar: ruas

e praças, diante de todos. Erasmo aconselhou ao educado, ao ver o outro

defecando na rua, olhar para outro lado, como se estivesse vendo

alguma coisa interessante, pois assim não o incomodaria. As pessoas

tomavam banhos nos banheiros públicos; para isso, saíam nuas de

casa.

Erasmo não foi o primeiro a descrever os costumes corretos que

deviam ser seguidos. Documentos escritos após o séc. Xlll (colocar em

romano), antes dele, descrevem normas tidas como adequadas, ou

seja, formas de “cortesia”. O modo usado na corte é que deu origem à

maneira “correta” de se comportar na sociedade civilizada: “Um homem

requintado não deve fazer barulho de sucção com a colher quando

estiver em boa companhia“; “Não deve escarrar em cima da mesa

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diante dos outros enquanto almoça; apenas no chão e, após escarrar,

deve passar o pé em cima para espalhar o escarro”; “A mão usada para

escarrar deve ser a que não esteja ocupada em partir a carne para os

visitantes”.

Quanto ao modo de falar, Erasmo prescreve: “Os educados não

devem falar “como bem sabe”; “um bocado de vezes”; “acamado”;

“defunto”. Devem falar: “perdão”; “desculpe”; “por favor”; “meu falecido

pai”; “é necessário que façamos isso”. O critério para considerar

essas condutas como “boas maneiras” decorre delas serem as usadas

pelos membros da elite; o contrário era incorreto por ser a própria dos

“inferiores sociais”. Outras regras: “As palavras antiquadas são impróprias

para a fala séria. Palavras muito novas podem levar a afetação; as

de baixo calão devem ser evitadas, pois os “baixos” as usam”.

Uma vez disseminadas as “boas maneiras”, as pessoas passaram a

se sentir envergonhadas ao agirem conforme o “modo errado”. Assim

a maneira ensinada e “correta” foi sendo exigida para todos os “bem-

-educados”.

Aos poucos, as pessoas começaram não só a agirem conforme as

regras, mas, também, exigindo a conduta “certa” dos outros: “Isso não

fica bem”; “Faça isso e não aquilo”.

O garfo, surgido no fim da idade média, era usado somente para retirar

os alimentos da travessa, não era usado para levar a comida à boca.

A igreja revelou-se, como ocorreu tantas vezes, um dos mais importantes

órgãos da difusão de estilos de conduta a serem seguidos pelos

“mais baixos”. Para padre La Salle, o modo correto de agir veio de Deus

e, por isso, devia ser seguido.

O livro, trazendo centenas de exemplos de “boas maneiras”, nos

mostra uma etiqueta um pouco diferente da dos nossos dias. Mas

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essas instruções ditadas por Erasmo, numa certa época, foram todas

consideradas certas e, portanto, exigidas.

Eu e você rimos das regras de etiqueta descritas acima. Erasmo descreveu

as maneiras usadas na corte como as corretas; eram os nobres

que sabiam e ditavam o modo de agir diante de convidados, nas festas

etc. Atualmente, como antes, livros têm sido publicados sobre etiqueta,

diferentes dos de Erasmo. Mas o livro de Erasmo era também,

naquela época, diferente dos anteriores. Será que os leitores de 2.500

irão rir de nossas regras acerca do comportamento do “homem bem-

-educado”?

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Sociedade e cultura

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Os Donos do Poder

Coitado do cidadão: aprisionado em si mesmo, sozinho, isolado do

exterior por uma pele fina e frágil, cercado por todos os lados pelos

donos do poder espalhados na natureza física, química, biológica e dos

homens.

Nos meus delírios de perseguição visualizo um complô, arquitetado

por homens tiranos, juntos aos seres vivos em geral e, também, pelas

almas penadas – tudo muito bem coordenado – visando a controlar

minha liberdade, bem como a sua. Não estou exagerando, darei exemplos,

todos eles escolhidos ao acaso; os não lembrados ficarão por

conta dos leitores.

Não acreditam? Pois vejamos: ora é uma mosca que vem pousar no

meu nariz; ora um cão que me observa, mostrando seus belos e pontiagudos

dentes, prontos para atacar-me. Mas não fica só nisso, depois

é o convite de formatura que exige minha presença, o telefone que

toca e me obriga a correr; o interfone oferecendo gás; a conta a pagar,

o presente de Natal e de aniversário, o forno que não mais esquenta e,

também, isso e aquilo. Mas tem também a chuva, a enchente, o imposto

de renda, o terremoto lá longe, o trombadinha bem perto. Na rua, o

carro disparado pronto para matar-me, obriga-me a correr desajeitado

e envergonhado pela falta de forma, o trânsito que não flui, a rua esburacada

e sem saída, meu time perdendo, o assaltante roubando meu

sossego, às vezes, meu sonho de tranquilidade, o frio que me obriga a

vestir o agasalho feio e fedendo a mofo, o calor que me faz suar e dormir

mal, o café frio, fraco, fedorento e com formiga no fundo.

Onde buscar, nessa Babel de desgraças, forças capazes de suportar e

orientar minha vida. Deus! Oh Deus! Onde está minha sonhada liberdade,

a escolha individual, meu livre-arbítrio? Milhares de outras forças,

além das minhas, me impelem a agir de um modo e de outro, não

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como gostaria. Estou aprisionado; a tudo isso e muito mais; a câimbra,

o espirro, a tosse, o pedinte e o flanelinha, o som do vizinho, a gritaria

dos meninos do colégio, a fumaça que me impede de enxergar os objetivos

imaginados e sonhados.

Ao envelhecer, aos poucos ou rapidamente, não sei mais, vou perdendo

a ilusão plantada cedo em minha cabeça mole da existência da

liberdade, uma idéia inoculada pela igreja e pela escola, logo que nasci.

Cansado de ser preso à família, ao partido político, à religião, ao time

de futebol, à profissão e a tudo mais, percebo que o aprendido, acerca

da liberdade, era tudo mentira, nascida de uma ideologia democrática

falsa, incoerente: ela me enganou durante anos.

Onde encontrar a liberdade proclamada e esperada, que me fazia

sentir feliz? “Foi um sonho que findou”, como diz a letra do poeta. Vejo

agora que a liberdade é uma balela, um conceito belo, como algumas

pessoas, mas sem conteúdo. Imagino, sem melhor idéia, que a inexistente

liberdade foi construída pelo poder cultural para amenizar nossa

infelicidade; foi fabricada, como várias outras ilusões, para nos amparar

e nos proteger nesse mundo confuso.

Os poderes que esmagam meu fraco organismo vão desde a mosca

que pousa, sem dar a mínima, de tempos em tempos, no meu velho

e cansado nariz, até os decretos-leis de FHC, de Lula e de outros, que

sei que virão. Mas, além disso, fui, há muito, dominado pelos dogmas

religiosos, pelas ideologias marxistas, machistas e democráticas; mais

tarde, aprisionei-me nas teorias científicas em voga; pulando de uma a

outra sem parar. Corri como um burro atrás do milho inalcançável, em

busca do “alimento” para minhas dúvidas. Desesperado, sem melhor

orientação interna, esmagado por pressões e decepções, daqui e dali,

agarrei-me, como náufrago desesperado, à “sabedoria” dos provérbios:

“macaco que mexe muito está querendo chumbo”.

As terríveis forças malignas do poder trabalham para o mesmo fim e,

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em bloco, tentam me derrotar; todas elas têm um aspecto em comum:

mudar meu comportamento, dirigir minha conduta para um rumo

alheio à minha vontade. Meu saudoso livre-arbítrio, sem dizer adeus,

desapareceu da minha vida há muitos anos; as forças do não-eu, em

conjunto, lutam contra minha consciência, me impedem de alcançar

minhas metas, se é que elas são minhas. Agora, já não tenho nenhuma

certeza.

Aceito a definição de poder como a “capacidade para produzir

determinada ocorrência”, ou, “a influência exercida por uma pessoa

ou grupo sobre a conduta alheia, através de algum meio”. Portanto,

para ser exercido o poder necessita-se de uma força atuante – a que

desencadeia a ação (a mosca e o governo) – e, também, de um poder

geralmente passivo ou bastante submisso – adequado para sofrer a

ação (eu, eu, eu). Uma mosca não modificará a conduta de um boneco

ao pousar em seu nariz; o imposto de renda, com todos os urros do

leão, não conseguirá fazer com que o morto preencha sua declaração

de renda.

Algumas vezes, muito raramente, o poder de um indivíduo ou grupo,

sobre o comportamento do cidadão está em concordância, ou se identifica,

com os objetivos ou necessidades deste, produzindo uma satisfação

dos dois poderes envolvidos, o ativo e o passivo. Por exemplo, se

você é convidado para ir almoçar na casa de um amigo – o que modificará

o seu comportamento habitual – há a possibilidade estatística de

você, naquele dia, desejar aquele encontro e até gostar das iguarias e

do vinho servido; caso tenha sorte. Isso acontecendo, os dois participantes

do poder – a força atuante e a passiva- podem atingir objetivos

comuns: isso raramente acontece.

Além disso, o poder tem possibilidade de ser exercido visando a

auxiliar uma pessoa; com um fim eticamente louvável. Convenço

minha filha que é bom para ela frequentar a escola, comer determinado

alimento, ter certos hábitos higiênicos etc. A aceitação de formas

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ásicas de conduta por parte dela poderá facilitar sua vida, aumentar

seu “poder pessoal” para tolerar e, talvez, driblar o poder institucional.

Mas, mesmo esses valores amplos e gerais, podem ser questionados;

posso estar equivocado e isso minha filha verificará com o tempo e

experiência para encontrar seu caminho.

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Nossas Origens Culturais: Chinesa e

Grega

Todos concordam que existe uma considerável diferença entre as

diversas culturas, afetando não somente as crenças acerca de aspectos

específicos do mundo, como também de seus sistemas de pensar,

linguagem, origens, valores etc. De modo resumido, as culturas diferem

quanto às maneiras pelas quais os habitantes conhecem o mundo.

Grécia Antiga – Individualismo

Duas são as formas existentes de colocação do poder: mudando

a nós mesmos, ou mudando o meio para que este esteja conforme

nossos desejos. Uma das mais notáveis características da Grécia antiga

(Jônicos e Atenienses em particular) era a colocação do poder no

indivíduo. Conforme essa crença, as pessoas desenvolvem um sentido

de “agente das ações”. A definição de felicidade para os gregos era “o

exercício dos poderes vitais através das linhas de excelência na vida…”

Como eles acreditavam na influência dos deuses, havia, de um lado a

intervenção divina, de outro, a ação humana independente. As duas

eram vistas como trabalhando juntas.

Para os gregos, sua vida diária estava imbuída com um sentido de

escolha própria, sem restrição social, semelhante a nossa idéia (errada)

atual de liberdade. O Estado Ateniense representava a união de indivíduos

livres para desenvolver seus próprios poderes e viver sua própria

maneira de ser, obedientes somente às leis criadas por eles mesmos,

leis essas que eles podiam criticar e mudar conforme seus desejos.

As pessoas sendo livres podiam discutir seus objetivos e criticar o dos

outros: mesmo as pessoas comuns participavam dos debates da praça/

mercado e assembléias políticas.

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Um outro aspecto da civilização grega foi seu sentido de curiosidade

acerca do mundo e a pressuposição que ele poderia ser compreendido

através da descoberta de regras que regessem os eventos. Os gregos

especulavam acerca da natureza dos objetos e dos eventos que os

circundavam e criaram modelos explicativos a seu respeito. As construções

desses modelos foram feitas categorizando ou classificando

os objetos e os acontecimentos, criando regras acerca deles visando à

descrição sistemática da realidade, a predição e a explicação dos fatos

e eventos. Esta postura possibilitou invenções nos campos da física, astronomia,

geometria, lógica formal, filosofia racional, história natural,

história, etnografia e outras áreas.

Antiga Civilização Chinesa – Harmonia

A antiga civilização chinesa contrastava com a civilização grega. Sua

ênfase, ao contrário do “agente pessoal”, foi colocada na “obrigação

social, reciprocidade ou agente coletivo”. Os chineses sentiram que o

individualismo era parte do ajuntamento da coletividade ou família,

assim, a conduta do indivíduo deveria ser guiada pelas expectativas do

grupo, não dele isolado, do qual fazia parte. O sistema moral chinês

fundamental, o Confucionismo, foi essencialmente elaboração das

obrigações que deviam existir entre o imperador e o sujeito, pais e

filhos, amigo e amigo, marido e mulher, irmão e irmão mais jovem. A

sociedade chinesa levou o indivíduo a se sentir fazendo, ou sendo, parte

integrante de uma grande e complexa totalidade, de um organismo

social onde os papéis prescritos acerca de relações eram os guias para

a conduta ética. Os direitos dos indivíduos foram construídos de forma

que a pessoa “dividisse” ou compartilhasse dos direitos com a comunidade

como um todo. O respeito pelo sistema hierárquico tinha prioridade

sobre a maioria das outras ações, principalmente as individuais.

Essa ênfase na agência coletiva resultou na valorização chinesa da

harmonia grupal. Esta ocorre quando os ocupantes de um grupo social

realizam suas funções sem transgredirem os limites de deveres ou

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expectativas que acompanham essas funções. Dentro do grupo social,

qualquer forma de confrontação, como o debate, foi desencorajada

entre os chineses, ao contrário dos gregos.

A civilização chinesa foi, na antiguidade, tecnicamente mais avançada

que a grega, por exemplo: sistema de irrigação, tinta, porcelana,

roda do carrinho de mão, broca para furar, barcos, compartimentos

para água, leme para barco, técnicas de imunização, técnicas astronômicas

de observação, sismógrafos etc. Muitos desses ganhos tecnológicos

foram postos em funcionamento quando a Grécia não tinha

nenhum. Mas, na China, esse progresso tecnológico não surgiu devido

à investigação ou teoria científica, mas sim por meios artesanais, ações

grupais isoladas diante de tentativas para solucionar problemas práticos

comuns encontrados durante atividades do dia-a-dia, sem a construção

de modelos formais do mundo.

Assim, as crenças – ou princípios – fundamentais dessas duas civilizações

refletem suas existências sociais: a holística versus a analítica. O

pensamento holístico está envolvido numa orientação do contexto ou

campo como um todo; inclui atenção às relações entre um objeto focalizado

e seu campo, bem como uma preferência para explicar e predizer

acontecimentos baseados em tais relações. A abordagem holística

prende-se no conhecimento/experiência baseado mais do que no da

lógica abstrata. É um conhecimento dialético, enfatizando as mudanças

e reconhecendo contradições e necessidade de perspectivas múltiplas,

buscando um “caminho intermediário” entre proposições opostas.

O pensamento analítico, ao contrário, está envolvido com o isolamento

do objeto de seu contexto, uma tendência a focalizar atributos

do objeto para colocá-lo numa categoria; na preferência do uso de

regras acerca da categoria para explicar e predizer a conduta do objeto.

A inferência ou suposição faz parte dessa estrutura de descontextualização

do conteúdo, utilizando-se da lógica formal e, ao mesmo tempo,

fugindo da contradição. Assim, o pensamento holístico é associativo

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e sua computação reflete semelhança e contiguidade; o pensamento

analítico seleciona sistemas de símbolos representacionais, e sua computação

reflete regras de estrutura.

Uma diferença intelectual fundamental entre essas civilizações é a

de que a chinesa vê o mundo como uma coleção de encaixes (justaposições)

de substâncias ou matérias. Isto contrasta com as idéias Platônicas

descrevendo os objetos como individuais e com certas particularidades,

as quais permitem propriedades, que são universais, como a

“dureza” ou a “brancura”. Os gregos estavam inclinados a ver o mundo

como uma coleção de objetos separados, os quais são categorizados

com referência a algum subconjunto de propriedades universais que

caracterizam cada um desses objetos.

Para os chineses, as partes (objetos) só existem dentro do todo,

sendo inseparáveis. Para os gregos, o foco é o objeto central e seus

atributos. Aristóteles explicou que a pedra cai por ter ela a propriedade

de “peso” enquanto uma folha tinha a propriedade de “leveza”. Os

chineses, ao contrário, reconheciam que todos os eventos se devem às

operações de campos de força, pois eles já conheciam o magnetismo

e a ressonância acústica. A idéia de cirurgia vem do Ocidente; tirar o

órgão estragado para consertar o mal; entre os chineses essa idéia era

um contra-senso, pois, para eles, a saúde depende no equilíbrio e fluxo

de forças naturais através do corpo.

Em lugar da lógica, os chineses desenvolveram a dialética, a qual

envolve reconciliação, transcendência ou mesmo aceitar contradições

aparentes. Para a tradição intelectual chinesa não há necessidade da

incompatibilidade entre a crença de “A” e “não-A”, ambas têm mérito.

Na verdade, o espírito de Tao, ou princípio yin-yang, “A” pode atualmente

implicar “não-A”, ou seja, o estado oposto de problemas pode

existir simultaneamente com o estado de transtorno (querela, luta).

Isso indica encontrar o meio entre os extremos, aceitando que as duas

partes da disputa podem ter direito a sua porção, ou que as duas pro-

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posições opostas podem conter alguma verdade não notada.

Os chineses procuram, intuitivamente, (perceptuais-emocionais, pré-

-atentivos), conhecimentos instantâneos através da percepção direta.

Isto resulta em focalizar um momento particular e casos concretos no

pensamento chinês. Os gregos favorecem a epistemologia da lógica e

dos princípios abstratos, vendo a experiência concreta e direta como

sendo não confiável e incompleta. Junto com as descobertas dos gregos

da lógica formal, foi o desenvolvimento das ciências. O crescimento

das ciências, mais tarde, foi proibido, por muitos anos, após o séc. VI;

nessa ocasião a tradição empírica da ciência grega foi grandemente

enfraquecida. O combate à ciência empírica ocorreu em virtude da

convicção, por parte dos filósofos, que era possível compreender as

coisas através da razão apenas, sem recurso dos sentidos.

Nós, latino-americanos, herdamos os dois modos de pensar, ora tendemos

para um lado, ora para o outro.

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Um desfecho inesperado

O paciente do leito 33, aprisionado na cadeira de rodas, foi arrastado

por um auxiliar sonolento da enfermaria até o anfiteatro ainda vazio;

esperava o início da reunião clínica.

A discussão do caso do paciente do leito 33, marcada para às 10 h da

manhã, fazia parte das reuniões das sextas-feiras realizadas no anfiteatro

do Hospital das Clínicas da Universidade. Ela despertou pouco

interesse entre os estudantes por ser uma história médica banal, semelhante

a muitas outras ali discutidas. Por isso, os responsáveis pelo

“caso” tiveram dificuldades em persuadir e arrebanhar alunos e professores

para a reunião.

Naquele templo sagrado, seria discutido a doença e o tratamento do

paciente do leito 33; entretanto, com frequência, era ali também que

o professor Protásio, inimigo mortal do professor Tertuliano, aproveitava

a oportunidade para agredir seu colega e adversário, enquanto

externava seus raciocínios clínicos. Durante as discussões acaloradas,

verdadeiras torcidas organizadas formavam-se a favor de um ou de

outro professor. A apresentação do “caso do leito 33? era mais uma

oportunidade para que o professor Protásio mostrasse, além de seus

conhecimentos de urologia e da extraordinária retórica, a incompetência

e burrice do adversário.

Para alegria dos responsáveis pelo caso, a sala foi ficando cheia de

alunos. Nas primeiras cadeiras do anfiteatro divisava-se senhores de

fisionomia séria, cabelos grisalhos, ligeiramente obesos, tendo o rosto

não só bem barbeado como também marcado pelas rugas. Alguns pareciam

cansados, outros conversavam animados esperando o início da

sessão. Na parte alta do anfiteatro, jovens robustos, de roupas soltas,

riam e brincavam, andando, de um lado ao outro, pelo salão.

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O paciente do leito 33, imobilizado na cadeira de rodas, vestia o

uniforme azul desbotado do hospital, uma roupa larga para seu corpo

macerado. Seus olhos fundos e fixos, embutidos na sua cabeça inclinada

para baixo, pareciam examinar a claridade produzida pelo reflexo da

luz que incidia no piso. O rosto ossudo e magro era coberto por uma

pele morena-esverdeada; os cabelos pretos, amassados onde ele se

deitara, mostravam alguns poucos fios brancos; suas mãos, penduradas

nos braços esqueléticos, exibiam veias finas onde corria um sangue

descorado e morno.

Instalado na parte mais baixa da sala, de frente para a platéia, o paciente

do leito 33 podia ser observado por todos. Além do mais, como

sua cadeira não era fixa com as outras, o seu corpo podia ser levado

para um lado ou outro da sala, isso facilitava a aproximação e o exame

dos mais curiosos.

Submetido às pressões daquele mundo estranho, ainda não bem

esclarecido, o paciente do leito 33 tentava compreender a peça que

ali seria representada e da qual ele participaria. Não era difícil notar o

contraste entre ele e os outros, não só quanto às roupas usadas, como

também no que diz respeito ao aspecto físico; os mais velhos usavam

jalecos de mangas compridas, gravatas, sapatos pretos, conversavam

como se trocassem segredos; os mais jovens calçavam tênis, vestiam

camisas coloridas e aventais de mangas curtas, discutiam animadamente

acerca de futebol e de paqueras e, de repente, davam estrondosas

gargalhadas. Algumas moças abraçavam e beijavam os companheiros;

um rapaz, de gestos delicados, usava brincos e tinha os olhos pintados.

Finalmente, a sessão foi aberta. Os professores iniciaram a leitura e

os comentários acerca do caso. O interrogatório começou em seguida;

perguntas e mais perguntas foram feitas. O paciente, quase sem pensar,

ia respondendo aos inquiridores as perguntas que eram as mesmas

feitas, antes, na enfermaria.

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A partir daquele momento seu “caso” estava sendo alvo de especulações

de famosos mestres da medicina; um caso interessante para

alguns, chato para outros, um passatempo para uns e até mesmo uma

obrigação para muitos. Iniciadas as discussões, o protagonista da representação

usou e abusou das contrações faciais adequadas para cada

frase pronunciada: gesticulou, sorriu, elevou e abaixou o tom de voz,

isto é, exibiu uma técnica artística elegante, apurada e bem estudada

para representar: era preciso impressionar os assistentes.

Como um condenado na sala do júri diante dos juízes, o paciente do

leito 33 acompanhava visualmente as discussões que começavam. Ele

submetia-se, angustiado, àquela pantomima ruidosa, esquisita, que estava

sendo encenada. Por não entender a maioria das palavras pronunciadas,

ele esforçava-se para compreender, pelo menos, as expressões

faciais, os movimentos dos membros, o tom e a altura das vozes, afinal,

a mímica corporal dos faladores. Mas, por mais que tentasse, continuava

não assimilando o significado daqueles sinais diferentes dos conhecidos

por ele. Desse modo, as mensagens transmitidas, agindo como

corpos estranhos, não eram traduzidas para sua mente diferente.

Algumas vezes ele tentou compreender o significado dos sorrisos

que, ocasionalmente, recebia de algumas jovens; olhares que levaram

o paciente do leito 33 a recordar os flertes afetuosos que recebera de

Teresa quando começou a namorá-la. Mas, naquela sala, as moças,

prontamente, davam-lhe as costas e não mais o observavam. Teresa,

ao contrário, o fitava com seus olhos pequenos, pretos e redondos, por

um longo tempo, com doçura, depois eles se beijavam.

Derrotado, ele procurou interpretar a cena que se descortinava

naquele teatro do absurdo, através de lembranças antigas, recuperadas

com dificuldade de sua mente. Assim, ele tentou visualizar representações

de espetáculos vistos quando ainda era criança; despertados e

parecidos com o que assistia no momento. Lenta e penosamente, de

sua memória distante e enfastiada, afloraram fatos esparsos: o circo na

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praça com os números de marionetes, os palhaços de roupas largas e

vozes fanhosas, os macacos usando óculos e de saiotes, brigas e tapas

de mentira no picadeiro e as canções melosas, monótonas e repetitivas

que saíam dos discos antiquados e rachados da vitrola.

Alguns observadores mais experientes ali presentes sabiam que

as pistas fornecidas pela história do paciente – sinais e sintomas – às

vezes eram deixadas de lado, já que o desejo de massacrar o rival podia

ser o fator mais poderoso; entretanto, a maioria dos presentes, não

percebendo motivos velados, emocionava-se com a oratória brilhante

e a dedicação demonstrada para com o paciente.

As acaloradas discussões cresciam como as tempestades de verão:

inicialmente, pingos leves e esparsos, depois, tempestades barulhentas.

Assim, os ilustres professores, esquecendo por momentos o paciente,

lançavam farpas alimentadas por uma ironia elegante. Como

as discussões complicadas geralmente motivavam mais a platéia,

os professores, comumente, transformavam problemas simples em

quebra-cabeças complexos; através desses era mais fácil escancarar a

ignorância do adversário.

As hipóteses e deduções do Dr. Protásio foram magistralmente elaboradas;

ele argumentava sorridente, saboreava cada frase proferida

e, principalmente, sabia onde desejava e precisava chegar. Aos poucos,

ele foi descortinando seu diagnóstico, seguindo uma linha de raciocínio

sinuosa e complicada, como gostava. O ponto final da oratória terminou

abruptamente, após citações de artigos estrangeiros recentes. Foi

uma conclusão bela, triunfal e emocionante, demonstrando grande

erudição. Coube a este professor a decisão final: o paciente deveria

submeter-se a uma cirurgia radical. Ninguém ousou ir contra sua argumentação.

Anotações apressadas foram feitas no prontuário.

O paciente do leito 33, encurvado, continuava sem entender a verborréia.

Apesar de atordoado, percebia que sua vida estava nas mãos

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daqueles doutores agitados e falantes. Enquanto assim refletia, seu

pensamento foi cortado pelo tom de voz áspero do professor, ao decretar

uma sentença inapelável:

— Os testículos e o pênis devem ser amputados na próxima semana.

A reunião precisava terminar; a hora do almoço aproximava-se;

todos tinham fome e, além disso, os médicos, daqui a pouco, deveriam

estar em seus consultórios. Por tudo isso, o grupo apressou as conclusões

finais; alguns presentes ainda fizeram pequenos comentários:

— Para mim, disse um: — seria melhor tirar apenas o terço distal do

pênis; assim o restante poderia ser usado.

— Não! retrucou outro: — Deverá ser todo extirpado, para evitar um

retorno do câncer.

— Também, um terceiro afirmou: — Com 42 anos, para que um pênis?

Já tem filhos… e o que ganha não dá pra nada.

Desse modo, os médicos decretaram o fim da fria e monótona vida

sexual do paciente do leito 33. A sessão estava terminada. O enfermeiro

entrou no salão e empurrou a cadeira de rodas cheia de grilos

em direção à enfermaria fria. Lá, o paciente passaria o fim de semana.

Naquele sepulcro, de paredes nuas e brancas, cada um, confrontando

sua solidão, meditava acerca do sofrimento. Estendido no leito 33,

ele rezava para que ele, ou seu vizinho tivesse, pelo menos, uma boa

morte.

Acabada a reunião, o almoço alegre e farto, os planos para a noite, a

cerveja gelada, o esporte do fim de semana, a transa com a namorada,

o passeio ao sítio e o esquecimento da vida atribulada.

Segunda-feira; os alunos sorridentes, queimados de sol, regressaram

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à enfermaria; era dia de visita aos leitos. Alguns debruçavam curiosos

sobre os órgãos genitais do paciente do leito 33 para observá-los, como

se examinassem uma escória, que seria desprezada ainda naquela

semana. Ninguém percebeu lágrimas salgadas que jorravam de seus

olhos quase fechados e que deslizavam pelo seu rosto envergonhado,

manchando o uniforme azul.

A cirurgia foi perfeita, um sucesso! Foram retirados, como determinado,

os testículos e todo o pênis, conforme a decisão dos professores.

— Mas e agora? Perguntava apreensivo o paciente para si mesmo

e continuava refletindo: — Como conviver com minha mulher, ou as

outras, e mesmo meus amigos? Meus planos estão enterrados para

sempre… sinto vergonha de mim mesmo, fiquei aleijado neste lugar, o

mais importante do homem. E agora, o que fazer com este corpo?

A partir da cirurgia, o paciente do leito 33 somente imaginava o que

não mais poderia realizar: suas aventuras, seu maior e talvez único

prazer; estava tudo acabado… a vida não tinha mais valor, toda ela fora

construída em torno do orgulho de ser homem. Era melhor morrer do

que viver assim.

Nos dias que se seguiram, o paciente do leito 33 voltou a sorrir para

os médicos e estudantes que vinham vê-lo para contar-lhe o sucesso da

cirurgia. Já confortado, ele agradecia a ajuda dos bondosos amigos da

medicina.

Numa tarde cinzenta de verão, aproximou-se do leito a simpática

enfermeira Lúcia, acompanhada da bonachona assistente social Clara,

cada uma com seus sorrisos costumeiros; estavam ali para prepará-lo

para deixar o hospital. A cicatriz já se formara no lugar onde antes habitava

um pênis. A enfermeira, carinhosamente, lhe ensinou qual seria a

melhor maneira de fazer xixi após a cirurgia.

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— Não será difícil, ela lhe explicou: — É só assentar no vaso ou agachar

no chão, como fazem as mulheres. Entendeu? Não precisa preocupar-se,

é uma pequena mudança; logo irá se acostumar.

As explicações se sucederam. Havia, segundo ela, diversos outros

modos agradáveis de gozar uma boa vida sexual e, com sabedoria de

quem conhece, demonstrando até certa excitação ao fazer uso de gestos

desenhados com suas mãos brancas e delicadas, a caridosa enfermeira

lhe ensinou novas técnicas de fazer sexo.

Finalmente, a alta hospitalar; 12 de dezembro, um calor asfixiante,

uma viagem na poltrona dura e estreita no velho ônibus, a saudade de

sua casinha em Chaves das Botas. Mas sua mente não abandonava o

terrível pensamento: “Estou sem saída, sou um castrado”.

Antônio dos Santos Filho chegou exausto na rodoviária da cidade;

Teresa o esperava; melancólica por costume. Recebeu-o com um

abraço envergonhado e desconfiado. Os filhos, vendo o pai desfigurado

pela magreza e palidez, choraram amedrontados e se esconderam, uns

agarrados aos outros, na saia da mãe. Neste instante, Antônio chorou.

A noite em Chaves das Botas estava quente. Antônio pouco comeu

da sopa de macarrão que Teresa fez com carinho e foi cedo para o

quarto. Deitado, evitou encostar-se em Teresa, que o esperava pronta

para ser usada. Ele permaneceu mudo ao lado da mulher. O sono não

veio por mais que tentasse. O plano imaginado nos momentos de solidão

renasceu. Impelido pela obsessão que o dominava, ele levantou-

-se, procurando não acordar Teresa. Mas, ao sair do catre, esbarrou na

perna de sua mulher, que gritou espantada:

— O que foi Antônio ?

— Nada mulher; vou ao quintal…mijar…

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Antônio caminhou cambaleando para o terreiro escuro, quente e

abafado como ele. As idéias, antes confusas, foram, aos poucos, ficando

mais claras. A coragem aumentava. Sentia internamente uma

pressão para agir. O plano elaborado no silêncio do hospital estava

prestes a ser executado. Suava frio, apesar de tudo, tinha medo. Automaticamente,

agachou-se para urinar como fazem as mulheres. Lembrou

novamente a sessão clínica; os ensinamentos da enfermeira e da

assistente social, dos que lutaram tanto para mantê-lo vivo a qualquer

preço.

Agora estava livre para agir; desprezava todos e tudo; nada mais lhe

importava. Era preciso concretizar o que imaginara, acabar com tudo

aquilo, de uma vez por todas. Trêmulo, lembrou dos médicos que lutaram

tanto para mantê-lo vivo; vacilou por instantes; sentia culpa por

decepcioná-los e desprezar o que eles tanto valorizam. Antes de partir

em direção à macabra e terrível ação, Antônio apalpou, pela última

vez, a cicatriz formada no seu corpo desfigurado. Nesse exato momento,

não teve mais dúvidas.

Sua mulher, sem dormir, preocupada com a demora, levantou-se

e, após acender uma vela, dirigiu-se ao quintal iluminando apenas o

estreito trilho por onde caminhava. Teresa, amedrontada, gritou por

Antônio, a princípio, timidamente. Nada, nenhuma resposta. Ouviu-se

somente, no sossego da noite, o piado de uma coruja distante. Novo

chamado, agora mais estridente; o silêncio parecia ser, a cada instante,

mais intenso. Agora ela escutava somente os sons apressados do seu

coração aflito e sua própria respiração ofegante. Mal segurando a vela

que estava quase se extinguindo, trôpega, ela observava cada vestígio

de vida e de esperança encontrada. De repente, no escuro, percebeu

que algo balançava na penumbra. Paralisada, ergueu um pouco mais

sua cabeça aproximando a chama mais perto do vulto para ver melhor,

quase encostando a chama nele. Nesse instante, Teresa soltou um urro,

antes de cair desmaiada, diante do que acabara de ver: no galho da

mangueira, havia um corpo suspenso. Não havia mais Antônio.

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Dependurado num cipó fino, um pouco acima do chão, ele parecia

mais magro ainda. O laço, ao entrar na carne existente em volta do

seu pescoço, produziu um profundo e feio canal roxo. Sua fisionomia

parecia mais serena do que antes, seu rosto, mais belo. De seu corpo

morno, pingos de suor, imitando gotas de orvalho, desciam preguiçosamente

pela sua face e caíam no solo, fertilizando a terra empobrecida.

Naquela silenciosa noite de dezembro, um aroma novo e diferente foi

criado: a fusão do odor emanado da terra, o suor do corpo de Antônio

e o perfume adocicado das mangas maduras.

Antônio parecia sorrir; zombou da vida, com a ajuda do frágil cipó.

Sem a sabedoria dos professores da medicina, derrotou, com simplicidade,

as sábias teorias dos doutores ilustres. Desafiou os que afirmaram

saber o que era melhor para ele; preferiu morrer a viver curado

para sempre, alcançando a liberdade através de sua morte.

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Loucos X Sem-tetos

Resta-nos esperar um pouco para assistirmos à trans formação de

uma multidão de “loucos” em um exército de sem-teto (sem-casa, ou,

mais vulgarmente, pedidores de esmolas). Muitos dos loucos “soltos”

– ou seriam aban donados? – pelos seus “defensores”, depois de

um certo tempo irão morrer de inanição, outros serão queimados,

atropelados ou assassinados pelos seus próprios compa nheiros ou

inimigos, nas ruas ou nos barracões inabitáveis e também em “abrigos

para velhos e loucos”. Os que es caparem desse morticínio morrerão de

cirrose, hepatite, tuberculose e pneumonia assentada na desnutrição,

alco olismo e outras drogas.

Compreenda melhor a verdadeira história da “Liber tação dos Loucos”.

Em 1900, o número dos pacientes men tais internados nos hospitais

psiquiátricos americanos era de 150.000. Este número cresceu para

445.000, em 1940. Em 1955, dobrou para 819.000 (citado por John Q.

La Font, 1994). Os gastos ocorridos com esta população preocupa ram

o governo americano. Era preciso armar, rapidamente, uma estratégia

capaz de diminuir essas despesas e, ao mesmo tempo, agradar à opinião

pública.

Nos anos sessenta o quebracabeça foi maquiavelica mente solucionado.

A estratégia foi inteligentemente mon tada. Sempre todos

criticaram a assistência médica dada ao paciente mental nos hospitais

psiquiátricos. Na época da criação da brilhante ideia para economizar

gastos pú blicos, grandes nomes da psiquiatria mundial como Laing,

Szasz, Gofman faziam, com toda razão, pesadas críticas ao internamento

desnecessário e à péssima assistência psi quiátrica hospitalar.

Mas como tirar os pacientes do hospital sem ferir a opinião pública?

A ideia para esse dilema foi magistral e simples. Criou-se uma lei

proibindo o internamento invo luntário. A partir daí, todas as interna-

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ções tornaram-se mais difíceis de serem concretizadas. Além disso, os

pa cientes internados podiam escolher, a partir da promulga ção da lei,

em continuar ou não hospitalizados.

O povo apoiou com entusiasmo a lei. O povo jamais conhece a fundo

as intenções reais e implícitas dos gover nantes, pois os discursos explicitados,

em sua maioria ou totalidade, têm sido usados para esconder

o que não pode ser mostrado. O movimento que tirou o louco do

hospital e o despejou na rua como lixo, recebeu o eufêmico nome de

“movimento em defesa da liberdade dos indivíduos estig matizados e

desprotegidos socialmente”.

O resultado da reforma foi rápido e eficiente como desejavam os

governantes preocupados com as despe sas, jamais com a qualidade de

vida do paciente psiqui átrico. O número de internados nos USA caiu

para menos de 200.000. Suas famílias, quando existiam, não tinham

capacidade nem competência para tê-los em casa. Os pa cientes, uma

vez “libertados” e sem apoio familiar, foram transferidos dos péssimos

hospitais psiquiátricos para as ruas selvagens das grandes cidades ou

abrigos miseráveis e sem assistência médico-psiquiátrica.

Os dados mostram que nos USA houve um cresci mento assustador

dos sem-tetos após a vigência dessa lei. Estes aumentaram para

500.000 a 600.000 indivíduos.

Outras estatísticas falam de 3.000.000 deles. Desses, segundo as

estatísticas, 90% são doentes mentais graves: esquizofrênicos, alcoólatras,

deprimidos, dependentes de drogas, epilépticos, demenciados

(caduquice) e débeis mentais.

Por outro lado, a população ficou à mercê de possí veis ataques de alguns

desses ex-pacientes. Há tempos, o New York Times publicou uma

reportagem relatando cri mes no metrô de Nova Iorque. As vítimas,

usuários do metrô, foram atiradas debaixo dos trens. Dos dez assas-

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sinatos relatados, nove foram praticados por esquizofrêni cos delirantes

e que nunca tinham visto suas vítimas. Um outro estudo feito na Suécia

mostrou que 20% das mu lheres sem-teto morreram durante os três

anos da pes quisa, sendo que algumas delas foram assassinadas pelos

próprios companheiros. Essa taxa de mortalidade é doze vezes maior

do que as ocorridas com uma amostra de mu lheres de mesma idade.

Em resumo: os “loucos”, nos Estados Unidos, se trans formaram em

sem-teto. A ideologia capitalista, desde sua origem, não tolera cidadãos

que não produzam trabalho. Os primeiros “hospitais” eram depósitos

de “vagabundos”, destinados a afastá-los dos “sãos” trabalhadores.

O gover no capitalista esvaziou os hospitais, lançando os pacientes

na rua e sem dono, abandonando-os à sua própria sorte.

Surpreendentemente, vemos ativistas dos partidos chamados de

“progressistas” como os principais defen sores dessa covarde trapaça.

Aproveita-se da insensatez provisória ou perene dos doentes mentais,

prometendo-lhes a liberdade inexistente. Foram, de fato, jogados no

inferno das ruas, sem comida e sem lugar para dormir. De forma ilógica

falam do direito do cidadão, inclusive do direito à assistência médica,

mas, com a alta hospitalar é-lhes negado esse direito.

Todos sabem – os políticos interessados em economizar fingem não

saber – que este tipo de indivíduo não consegue distinguir e escolher

o que é o melhor para ele próprio, uma conduta que faz parte de sua

própria doença. O Estado, apoiado por diversos políticos e pelo povo

ingênuo, atuando como o bandido ou marginal, passa o “conto do

vigário” no incauto e desprotegido paciente, lucrando com a ingenuidade

de sua vítima e, estranhamente, recebe as honras e os aplausos da

galera por estar “libertando os loucos”.

A história ocorrida nos USA, que está sendo reformu lada, foi copiada

em Minas. Lá nos Estados Unidos consta tou-se que a “caridade” para

com o paciente, de fato, foi sua desgraça. A lei foi modificada para a

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adoção de uma “Jurisprudência Terapêutica”. Segundo esta, o alvo

passa a ser o melhor para a saúde do paciente, isto é, o interna mento

ou tratamento pode e deve ser involuntário, desde que beneficie o

paciente.

Vamos matar muitos “loucos” para acordarmos e aprendermos

a lição. É possível, desde que pensemos, an tecipar acontecimentos

ilógicos antes de sua ocorrência. Posso, ao perceber que a escada está

quebrada, trocá-la antes de minha queda. De qualquer modo, com o

dinhei ro economizado devido à “liberdade” dos “loucos inúteis”, com

a diminuição dos gastos com a saúde desses pacientes sem voz e sem

prestígio social, torna-se possível aumentar os salários dos nobres

vereadores, deputados, senadores e outros protegidos. E os políticos

continuarão a ser os gran des defensores dos desassistidos.

Talvez o governo e os políticos tenham razão: o me lhor – ou menos

ruim – para os “loucos” abandonados é ter uma morte rápida.

Torna-se difícil fazer uma escolha entre viver num péssimo hospital

psiquiátrico ou morrer bêbado, drogado, doente e agredido numa rua

escura e sem saída.

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O Conhecimento e as Diversas

Línguas

Alimentadas pelo modo de pensar dominante exis tente em cada

época, constantemente nascem novas pa lavras. Uma manifestação

verbal importante socialmente produzida num local populoso poderá

influenciar outras regiões e grupos.

Assistimos constantemente ao aparecimento de mo dos diferentes

de nomear fatos e situações, apropriados a cada geração, grupo ou

sociedade. Essas maneiras de classificar são simbolizadas ou expressas

em linguagens diferentes, variando conforme a idade, o sexo, o grupo

social e cultural, a profissão, o lugar, a época e outras va riáveis.

Pode-se afirmar que cada indivíduo tem seu vocabu lário próprio,

usa mais certas palavras e não outras, enfa tiza mais certos aspectos da

realidade e pouco, ou nada, outros. Notamos que há uma grande diferença

entre a fala do presidente e a do ministro, do clérigo, advogado,

mé dico, futebolista, sem-teto, idoso, jovem, trombadinha, prostituta,

bandido e político.

Por outro lado, cada um de nós altera seu modo de falar conforme

atua diante de uma ou outra situação, na hora da briga ou do amor,

perante os filhos, pais, médicos, clientes, amigos, inimigos, torcedores,

amante. Em cada uma dessas ocasiões, fazemos uso de linguagens

diferen tes, pulamos de uma para outra, automaticamente, sem esforço

e inconscientemente. Algumas vezes não entende mos a linguagem de

um grupo ou de outro.

As linguagens referidas acima (do presidente, bandido, futebolista

e outras) coexistem, se expressam e se mistu ram. Todos os modos de

nomear coisas e eventos sobrevive ram em grupos diversos e separados

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242


e germinaram, durante certos períodos, na vida sociocultural de um

grupo deter minado. As palavras que ainda vivem, as que resistiram ao

tempo ainda dominam a mente de seus possuidores em ra zão de sua

utilidade, do contrário teriam desaparecido.

Os vários discursos, indo do professor universitário ao analfabeto, do

servente ao presidente, nasceram e germi naram da existência simultânea

de modos antagônicos de viver quanto às ideologias, aspectos

socioeconômicos, reli giões diversas, várias profissões, sexo, idade. Em

resumo: de diferentes grupos com objetivos e condutas variadas. Convivem

ao mesmo tempo, de forma harmoniosa e con flituosa, modos de

falar antigos e modernos, onde alguns terão vida longa, outros, curta.

Algumas palavras são mais potentes, tomam o lugar de outras mais

frágeis, que, às vezes, desaparecem para sempre. Outras renascem

com força total após anos de hibernação. Durante as lutas de palavras

contra palavras, despontam acasalamentos que geram novas palavras

ou novas formas de manifestações de ideias sociais, misturas de uma

e de outra, ou de di versas delas. Das crias são conservadas, em maior

quan tidade, os “genes” das dominantes e poderosas e podem desaparecer

os genes mais fracos.

As palavras, como os seres vivos, nascem, crescem e morrem. Algumas

resistem mais, como insetos, estando mais bem adaptadas ao

meio, habitam a mente, em todas as épo cas, de todos os grupos socioculturais.

Não são extermina das, por mais que haja grupos contrários à

sua proliferação.

Cada linguagem, nascida de um grupo sociocultural específico, ingrediente

do bolo total existente, se distingue das outras. Cada língua,

fiel à suas convicções e princípios orientadores, enfatiza um ou outro

aspecto: uma prioriza a função, a outra, o tema, outra, ainda, a religião

ou o social. Algumas poucas são dramáticas.

Apesar da existência de diversas linguagens, quase todas convivem

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243


entre si, apesar de que uma ou outra pode ser obstáculo ao crescimento

ou manutenção da outra. Por exemplo: o Brasil tem sido invadido

pela linguagem e, li gado a ela, pelos costumes próprios dos nativos da

língua inglesa. Também percebe-se a invasão de conceitos e ter mos da

linguagem de uma área no território de outras: “Precisamos fazer um

diagnóstico melhor da nossa econo mia”, “Só fazendo uma cirurgia radical

iremos acabar com a violência”, “Para curar esse câncer, há necessidade

de processos invasivos, pois assim iremos exterminar a do ença”.

Os exemplos, relacionados ao uso de termos de de terminada linguagem

de um grupo (médicos, na economia e na violência, da guerra, na

medicina etc.) são inúmeros, viajando na boca de todos nós de forma

automática. Usa mos sem parar uma linguagem híbrida, tudo naturalmente

sem esforço. Aos poucos, alguns termos podem ir mudan do de

habitat, passando, por exemplo, da linguagem mé dica para a popular:

“O país está esquizofrênico”.

Um aspecto importante para a sobrevivência longa de uma palavra

é a de que o discurso onde ela habita, precisa, para viver ou sobreviver,

apoiar-se fora dele, isto é, uma linguagem não pode ser gerada e

desenvolvida do nada.

Ela precisa alimentar-se de objetos observáveis, os que atingem

nossos sentidos, muito próximos ou muito afastados. A linguagem não

resiste à falta de objeto, sem este ela forçosamente desaparece.

Quando assistimos às conversas dos intelectuais – que fogem dessa

orientação – não percebemos no seu “bate-papo” nada além de uma

teia vazia: palavras e mais palavras sem referenciais, nuas, impossíveis

de serem compreendidas. Trata-se de um tipo de linguagem da qual

nada sabemos, pois ela não nos informa nem sua posição social, nem

as intenções, nem a época, nem o destino, nem nada. Os intelectuais,

estando acima das “coisas re ais”, discursam sobre o nada. Estudar o

discurso em si mesmo, ignorando sua orientação externa, é tão absurdo

como estudar o sofrimento mental sem examinar como esse

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foi desenvolvido, bem como o contexto que facilitou ou dificultou o

aparecimento dele.

A língua não trabalha com palavras neutras ou sem emoções, como

os psicanalistas acreditavam. Não existe uma palavra válida e eficiente

que não pertence a ninguém, a nenhuma época e nenhuma idade, etc.

Um termo só so breviverá e funcionará caso seja contaminado pelas

inten ções, prazeres, sofrimentos e objetivos implícitos – rara mente

explícitos – de uma pessoa ou grupo sociocultural.

Um lavrador iletrado, residindo pra lá dos confins da Cidade de Nossa

Senhora do Socorro, ingenuamente mer gulhado em uma existência

imaginada como imutável e inabalável, vive, apesar de tudo, num meio

contendo vá rios sistemas linguísticos interagindo e em constante mudança.

Ele deve cantar suas modinhas caipiras numa forma poética e emocional,

reza a Deus numa linguagem apro priada à sua religião, fala de

um modo coloquial e espon tâneo com seus familiares e amigos íntimos,

ou seja, numa terceira língua. Quando colher e vender seu feijão

e milho usará a linguagem comercial, quando casar, diante das autoridades

da cidade, ele usará uma outra língua: a oficial, do cartório.

Para cada ato desses, pressupõe-se linguagens e ter mos diferentes,

porém estas línguas não estão ordenadas hierarquicamente na consciência

do lavrador. Ele usa ora uma, ora outra. A cada instante, automaticamente,

troca de língua. Cada linguagem usada nasceu e cresceu

em ni nhos diferentes. O lavrador, possivelmente nunca procurou,

nem mesmo imaginou, examinar uma linguagem usada – bem como

o mundo descrito ou interpretado por ela – com a lente da outra. Por

exemplo, examinar a linguagem usada no cotidiano e familiar com os

“olhos” da linguagem da ora ção ou da canção. Ele não deve imaginar

que se fizesse isso – examinasse um dos mundos vividos com as “lentes”

da outra linguagem – o “mundo” olhado não seria o conhecido,

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245


seria outro, talvez muito diferente do lido com a linguagem inicial. Ele

enxergaria novos mundos.

A linguagem e o mundo da oração, a linguagem e o mundo da canção,

do trabalho e comércio, dos costumes, a linguagem específica e o

mundo da administração rural, a moderna e o mundo do trabalhador

braçal que chega em casa para descansar. Todas essas linguagens descrevem

mundos determinados, usam certas palavras apropriadas para

aque le mundinho, os descortinados por cada uma delas.

Cedo ou tarde, cada um desses mundos, dependendo do poder ou

vigor da linguagem, poderá perder seu esta do de equilíbrio sereno e

amorfo. Muitos mundos, antes estáveis, que foram imaginados firmes

e eternos, quando examinados sob o prisma complacente e tolerante

da lín gua-mãe, de sua própria linguagem tendenciosa e toleran te, desabaram,

olhados sob outros óculos, mais neutros e impiedosos.

Cada grupo de palavras nos leva a formar imagens de um contexto,

no qual elas nasceram e viveram. Portanto, todas as palavras são

povoadas por intenções e emoções, nelas são inevitáveis as harmonias

e as desarmonias de gênero, de orientações, de idade, de indivíduos

diferentes.

A palavra pronunciada, ou escrita, numa conversa ou discussão é, ao

mesmo tempo, uma palavra emitida por uma determinada pessoa, e

também ideias, conceitos ou lógicas emprestadas de outros. Não foram

criadas por seu possuidor, já existiam quando ele nasceu. Ela se torna

“própria” quando o falante a povoa com sua intenção, com seu acento

particular – caso o tenha – quando ele a domina através do seu discurso,

tornando-a familiar ao dar sua orientação semântica e expressiva

particular.

Alguns falam sem pôr um acento ou linguagem “pró pria”, como se

estivessem distantes do falado. A fala ecoa de modo estranho, pois as

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linguagens usadas não foram assimiladas, ficam “entre aspas”, foram

decoradas.

A visão do mundo de uma geração, se formulada em palavras, torna-

-se necessariamente uma prisão para a gera ção seguinte ou as seguintes.

Cada geração deve exigir sua própria linguagem, nascida de uma

época e numa cultura.

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Sociedade e cultura: Informações

resumidas

É arriscado examinar um povo a partir das experiências de outro

povo ou cultura; examinar as mulheres com os “olhos” dos homens; os

clientes com os olhos dos médicos; os negros com os valores dos brancos

etc. Usar um tipo de linguagem para examinar uma outra pode não

ser o ideal, entretanto, algumas vezes, produz uma melhor compreensão

de uma ou de outra parte.

Quem sou eu? Posso conceber-me como um sistema físico de bilhões

de átomos; um sistema biológico de trinta bilhões de células; um

sistema orgânico com de centenas de órgãos; um elemento no sistema

familiar, urbano, profissional, social, nacional ou étnico. Ao fazermos

uma escolha quanto à avaliação, há algo de pessoal e, além disso, selecionando

uma delas, deixamos de lado as outras possíveis e válidas.

Compreender uma pessoa – ou uma cultura – é apreender o significado

das experiências e das ações do outro, de outro modo, reconhecer

como as experiências e ações da pessoa se referem a outras experiências

e ações possíveis vividas por ela. Quando isso ocorre adquirimos

ou tomamos posse do significado das experiências e comportamentos

que queremos compreender. Qualquer ação tornar-se-á compreensível

quando ela é relacionada a outras ações e experiências da mesma

pessoa e, nesse caso, a parte passa a ganhar sentido sob o “olhar” do

conjunto total.

Cada sociedade enfrenta mais ou menos os mesmos problemas:

abrigo, comida, doenças, criação dos filhos, morte, amor, cooperação.

Cada uma dá suas respostas singulares. Por isso, o mundo real, construído

inconscientemente pelos padrões linguísticos de cada grupo

ou sociedade, impede a percepção de outros mundos reais, pois cada

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língua tende a pontuar e categorizar a realidade de maneira própria e,

desse modo, não percebe e classifica outros.

Podemos colocar um recém-nascido em qualquer cultura; ele se

comportará razoavelmente nela apesar de possíveis limitações genéticas:

um índio numa cultura negra, um esquimó numa cultura equatoriana

etc. Os seres humanos não foram geneticamente programados

para serem membros desta ou daquela ordem social. Mas o que é possível

geneticamente não é permitido nas culturas ou sociedades, pois

em nenhuma delas é tolerado uma diversidade exagerada de modos de

vida.

A ordem social, para o pensamento antigo, teve seu fundamento na

vontade divina; o discurso político repetiu e reproduziu a desigualdade

dessa ordem tida como divina. Um exemplo marcante encontra-se nos

famosos versos do hino inglês: “o rico em seu castelo – o pobre em seu

portão – Deus os fez poderosos ou humildes – e ordenou sua condição”.

Levy Strauss pediu aos habitantes de uma aldeia que desenhassem

a disposição espacial das cabanas conforme a crença de grupos antagônicos.

O grupo dos “conservadores” desenhou as cabanas dispostas

simetricamente em torno de um círculo, tendo no centro um templo

maior. Já o grupo dos “revolucionários” desenhou a aldeia como dois

aglomerados distintos separados por uma fronteira invisível. Conclui-

-se que a percepção do espaço social (divisão concreta) dependerá de

constantes ocultas na mente do grupo de observadores e não da disposição

objetiva das construções

Para Althusser os homens, de fato, expressam, não a relação entre

eles e suas condições de existência, mas o modo como eles vivenciam

a relação e suas condições de existência: isso pressupõe tanto uma

relação real quanto uma “imaginária” vivida. Na ideologia, a relação

real é inevitavelmente investida da imaginária. É impossível isolar uma

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249


ealidade cuja coerência não seja mantida por mecanismos ideológicos,

se a retirarmos, ela se desintegrará.

Para ter sentido queimar bruxas é necessário ter, como parte do

ambiente intelectual/cultural, as afirmações de que há demônios e que

algumas pessoas podem se aliar a eles para fazer mal aos sem poder.

Do mesmo modo, para “ter sentido”, para alguns homens, agredir

mulheres, é preciso que haja um ambiente cultural onde esses homens

aprenderam essa “verdade”; o mesmo pode ser pensado para a crença

de que podemos e devemos bater nos filhos. Para que fossem aceitas

as antigas idéias de que as mulheres não podiam votar, era necessário

que houvesse uma crença plantada culturalmente acerca da incapacidade

e submissão das mulheres aos homens.

As falsas crenças da inferioridade da mulher, da existência de espíritos,

bruxos e feiticeiras, de que a Terra era o centro do universo, jamais

foram estabelecidas em fatos possíveis de serem observáveis, ou logicamente

inferidas. Mas essas idéias que dominaram a mente humana

durante séculos foram defendidas com vigor pelos grandes sábios da

época. Todas elas foram construídas em cima de princípios visando a

justificar e proteger necessidades de um ou outro grupo detentor do

poder.

Uma vez semeada, nascida e desenvolvida, uma crença básica-tronco

tende a dar nascimento a galhos e brotos, permitindo a formação de

outras suposições não observáveis dela derivada. Assim, a idéia original

inexata passa a ser uma condição para a formação de novas idéias,

logicamente, falsas. Logo, para entender uma determinada crença ou

opinião torna-se necessário conhecer sua base cognitiva não revelada,

implícita e inconsciente, inclusive para seu possuidor.

Não tem sentido falar de atitudes diante da educação ou do capitalismo,

a não ser que saibamos o que essas categorias significam para o

indivíduo que as discute. Não poderá existir uma mudança de atitude

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sem que haja, também, uma transformação correspondente no conhecimento

básico: o que fornece o suporte à crença que se quer mudar

da atitude.

Aristóteles, ao defender a escravidão, baseou-se, “razoavelmente”,

nas idéias da época acerca de supostas diferenças individuais que eram

falsas. A oposição feita a Galileu foi, principalmente, devido a uma

ordem social que tinha pontos de vista rígidos e errados acerca da criação

do mundo, da natureza das coisas; esses impediam imaginar uma

outra realidade. A falsa crença da inferioridade dos negros apoiou-se

na manutenção do poder político e exploração de mão-de-obra.

Estudos mostram que condições ambientais semelhantes dão nascimento

a formas parecidas de compreensão do meio ambiente físico e

humano. Estas situações definem, de maneiras mais ou menos específicas

para os indivíduos, as propriedades de coisas, pessoas, grupos e

ações.

Os governos empregam inúmeros recursos para fornecer uma aparência

de uma linha política razoável. A censura e certas formas de

propaganda são esforços para moldar, ou imprimir, a compreensão e

opinião da população conforme o desejado pelos governantes.

Uma atitude contém em si uma ordenação mais ou menos coerente

de diferentes dados. Observações e raciocínios diversos utilizados pela

pessoa devem estar arrumados e unificados para facilitar os argumentos

apresentados. O que a pessoa diz em certo ponto precisa estar ligado,

de maneira inteligível, com o que se afirmara antes ou dirá depois,

assim como as partes de uma história precisam estar interligadas.

Uma determinada atitude encontrará resistência caso vá contra sistemas

que imperam: socioculturais e religiosos. Há uma tendência para

buscar a estabilidade. Por outro lado, uma transformação numa parte

muito poderosa do sistema pode iniciar um processo até então inexis-

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tente e, consequentemente, alterar o sistema amplo como um todo.

Podemos afirmar que: 1) uma atitude é uma organização de experiências

e dados referentes a um objeto; uma estrutura de ordem hierárquica,

cujas partes funcionam de acordo com sua posição no todo;

2) uma determinada atitude é uma estrutura semi-aberta que funciona

como parte de um contexto mais amplo. Ela tem o caráter de um

compromisso com a orientação da cultura, sendo parte dependente do

sistema mais vasto.

Para muitos, as atitudes deformam as observações, a percepção e o

pensamento. Elas funcionam como fontes de enganos, nos tornam sugestionáveis

para certas experiências. As crenças, por trás das atitudes,

são mais do que uma expressão do conhecimento. As necessidades e

os interesses são pontos decisivos na elaboração da crença, e tornam-

-se responsáveis pelas semelhanças e diferenças entre os grupos.

As atitudes têm objetos, ou seja, formam imagens mentais; seus conteúdos

nascem desses objetos, tão direta e inexoravelmente quanto

uma emoção específica surge de determinada visão de uma situação.

As oposições ou opiniões diferentes entre os indivíduos resultam das

diferenças do conteúdo cognitivo, ou do nível de conhecimento, de

um e outro indivíduo. Se um tem apenas um conhecimento parcial dos

fatos ele estará enfrentando uma situação diferente do que tem uma

visão mais abrangente.

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Informação, Comunicação e

Linguagem

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Duas Mulheres Num dia Qualquer

— Maria, o gás acabou?

— Está no fim, D. Marta.

— Telefone para saber o preço do botijão.

— O grande custa R$ 147,00 e o pequeno R$ 35,00.

— O quê? Que absurdo, Maria! O grande tem um pouco mais de três

vezes o gás dos pequenos. Nesse caso, vale a pena comprar três dos

pequenos, fica mais barato.

— Mas, D. Marta, os pequenos acabam mais depressa. Um pe queno

não dura nada!

— Ora, Maria, se reunirmos três dos pequenos, eles vão durar mais

ou menos o mesmo tempo de um grande.

— Não, D. Marta. O grande dura três meses aqui em casa, o pe queno

não dura nem quinze dias.

— Não tem jeito, Maria. Se o grande é um pouco mais de três vezes

maior, ele deve durar o mesmo tanto de três e meio botijões pequenos.

É a lógica.

— Eu não entendo de lógica, não. Mas sei, pois sou a cozinheira, que

o botijão pequeno dura muito pouco. A senhora não se lembra que,

antes de colocarmos os grandes, tinha todo dia de trocar o bo tijão?

A senhora é cabeleireira, sabe fazer penteados, mas não sabe quanto

tempo dura um botijão de gás. Todas as minhas colegas falam a mesma

coisa, nenhuma gosta de botijão pequeno. A gente começa a cozinhar

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e o gás acaba.

— Maria, escute: um pacote de arroz de cinco quilos não dura a mesma

coisa que cinco pacotes de um quilo?

— Não sei, não! Gás é diferente, arroz não pega fogo, nem sobe no

ar, ele serve pra gente comer. Quem come gás ou planta gás? O botijão

de gás grande tem mais gás e é muito mais pesado. Um entre gador de

gás carrega um pequeno com facilidade, mas o grande, nem pensar, é

carregado no carrinho.

Quando o homem veio colocar o botijão grande, ele estava tão pesado

que amassou o dedo dele, saiu muito sangue.

Ele ficou com ódio, o outro ainda riu dele. Se fosse um pequeno, ele

levantava com um dedo. Lá perto de casa tem um homem que carrega

o botijão de gás nos dentes, amarrado no arame.

— Está falando de outras coisas, raciocinando errado.

— A senhora não compreende, porque nunca mexeu na cozi nha. Se

eu colocar na mesa um bolo grande, ele não vai durar mais do que se

colocar muitos pequenos?

— Depende de quantos pequenos. Se for um número de bolos com o

mesmo peso do bolo grande, os pequenos vão durar o mesmo tempo

que o bolo grande.

— Nunca! Quando faço um bolo pequeno, ele acaba logo. O bolo

grande fica vários dias sem acabar, mais do que o de vários boli nhos.

Acaba sendo jogado fora, de tanto durar.

— É porque, ficando velho, as pessoas não o comem.

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— Agora a senhora viu que eu tenho razão! O bolo dura mais porque,

quando é grande, dura mais, igual ao gás. Se a senhora cami nhar três

léguas, o tempo gasto vai ser o mesmo do que a soma dos tempos

de caminhar uma légua três vezes. Uma légua lá na roça a gen te

caminha em 1 hora, mas três léguas, nem Tonico, meu primo, que

caminha o dia inteiro atrás de vaca no pasto, não consegue caminhar

em três horas, ele vai gastar muito mais e lá todo mundo fala

que não tem ninguém que caminha mais depressa do que Tonico. A

senhora, se fosse caminhar três léguas, era capaz de demorar umas 6

horas, ou nem conseguir chegar no final da caminhada. Se a senhora

colocar três lâmpadas de 50 watts, elas vão clarear a sala igual a uma

de 150 watts? É uma graça. Por que a senhora colocou na sala uma

lâmpada forte, em vez de três pequenas?

— Mas, Maria, caminhar e luz são diferentes.

— Eu sei que é diferente, mas, ao mesmo tempo, é igual. No primeiro

caso é o gás, no outro, o bolo, no outro, ainda, a légua e a luz.

Pois bem, o gás a gente não vê, mas pega fogo e serve para cozinhar,

o bolo a gente faz usando o gás e come, e a légua a gente não vê

tam bém, como o gás, mas passa por ela, a atravessa, sabe que ela

existe sem nunca tê-la visto, e a luz, bem, luz eu não sei o que é, mas

se ela não existisse a gente não ia enxergar nada. Mas todas essas

coisas são iguais também, pois para comer o bolo, para gastar o gás,

para ir de um lugar ao outro e para a luz clarear, principalmente a da

lamparina lá da roça – as da cidade são diferentes – gasta-se um certo

tempo. Co meçamos num momento e terminamos num outro momento,

diferen te do início. E aí é que está, a gente sempre gasta mais

tempo com as coisas maiores, mais compridas que as mais curtas.

— Isso eu sei, Maria, eu estou falando de proporções. Se uma coisa é

proporcional à outra, elas gastam o mesmo tempo.

— A senhora é mesmo cabeça dura. O caso do bolo, da caminha da,

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da luz não deu para perceber?

— Mas nesse caso entram outros fatores que modificam o tempo

final. Você está raciocinando errado, usando metáforas para concluir

e isso sempre é perigoso, falando de uma coisa e explicando essa

com os termos de uma outra. Para explicar um acontecimento, é

necessá rio explicá-lo com palavras que têm seu significado apenas na

situação examinada. Assim, se você tentar explicar uma coisa através

de uma palavra retirada de uma outra explicação dá tudo errado e

o resultado é essa confusão que você está fazendo. Você não pode

explicar o tem po de duração do gás através do tempo gasto na caminhada.

Assim, no caso da caminhada, entram outros fatores que

modificam o tempo final. É difícil para você entender.

— A senhora é muito engraçada. As patroas todas que conheci são

assim. Parecem-se com o pastor lá da igreja onde frequento. Quando

lhe perguntei por que eu não podia abraçar meu namorado antes

do casamento, e podia depois, ele começou a falar de valores, normas,

pecado, uma porção de coisas, que não entendi nada. Acho que

ele também não entende o que explica. As patroas fazem o mesmo,

quando perdem uma discussão começam a falar palavras difíceis,

pois com elas escondem o que não sabem. Deixe pra lá. Compre o

botijão pequeno e depois a senhora vai falar: “Maria, você está gastando

gás demais!” Sempre é a gente que fica com a culpa, a corda

arrebenta para o lado mais fraco. Nunca muda!

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TV e Pesquisas de Opiniões: Você

Decide

Todos sabem que a compreensão de afirmações sim ples exige basicamente

uma proposição com um sujeito e um predicado. O sujeito

refere-se a um exemplar específi co ou a um ou mais membros de uma

categoria (José, no primeiro caso, um médico ou os médicos, os livros,

etc., no segundo). O predicado pode se referir a uma ação espe cífica

(atendeu um paciente, apresentou um programa de auditório), ou a

uma relação entre o sujeito e um atributo dele (é gordo, tem o cabelo

preto).

A frase “um ator apresentou um programa” exige mais dificuldade

e também maior tempo para ser assimilada e compreendida do que

“Sílvio Santos apresentou um pro grama”. Nesse último caso, há uma

ativação de imagens, noções ou modelos já formados e conhecidos na

mente do ouvinte, portanto mais fáceis de serem ativados. Ficará mais

difícil ainda assimilar a afirmativa: “um gato apre sentou um programa”.

Tente, meu caro leitor, imaginar o que essa proposição quer informar.

É melhor lembrar de “Ratinho”. Por isso mesmo é difícil e chato conversar

com intelectuais, pois sua fala dificilmente ativa algum fato já

experimentado ou visto por nós. O mundo deles não é o meu, talvez

não seja também o seu. Tudo indica que as afirmações repetidas são

mais fáceis de serem julgadas e, além disso, acreditamos mais nelas,

pela repetição, do que as ouvidas ou lidas pela primeira vez.

A compreensão de uma informação utiliza-se do lido, ouvido ou

experimentado. O estoque de informações exis tentes em cada mente

servirá de base para se fazer novos julgamentos, a probabilidade de um

acontecimento ocor rer, emitir qualquer opinião sobre o assunto X ou Y.

Assim, interpretamos a frase “João é mau”, ou “Maria é simpática”, em

função de modelos ou ideias que possuímos, aprendi das anteriormen-

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te.

Serão elas que servirão de “processadores” para a in formação recebida.

Por isso mesmo, fica difícil, ou impos sível, assimilarmos uma frase

ou imagem: “Hitler e Stalin amavam as crianças e os pássaros”. Não

temos processa dores mentais para isso.

Acontecimentos familiares e não-familiares.

A descrição dos eventos que ouvimos, na sua maio ria, se constitui

de situações familiares e, por isso mesmo, fáceis de serem entendidas,

também fáceis de serem es quecidas, como a que servirá de exemplo:

“Na noite de sexta-feira, fui ao restaurante Luar do Inferno. Lá, pedi um

bife com batatas e um copo de vinho. Terminei, veio a con ta, paguei e

saí”. Todos os fatos são comuns, talvez o nome do restaurante possa

ser novo. Poderiam ter ocorrido fatos mais excitantes: “encontrei um

conhecido…, discutimos…, ele ficou nervoso, pegou o garfo, avançou,

etc.” Nessa úl tima descrição, possivelmente, o ouvinte ficará um pouco

mais curioso com a cena mostrada, podendo retê-la um pouco mais.

Além disso, ao ouvir a narrativa, talvez se lembre de fatos e emoções

semelhantes já vividas.

Uma premissa fundamental para a informação é que ela deve fornecer

para o receptor algum conhecimento que ele ainda não possuía.

Deve, ainda, convencê-lo de ser verdadeira. Nada mais chato do que

ouvir uma “informa ção” conhecida:

— “Os atleticanos odeiam os cruzeirenses”, ou seja, ouvir uma não-

-informação.

Outro aspecto importante: as pessoas são mais facil mente influenciadas

por informações que permitem a elas, sem dificuldade, construírem

uma ideia, imagem ou mo delo concreto do acontecimento que

está sendo descrito. As ideias ou padrões mais utilizados pelas pessoas

consis tem em representações mentais de situações, envolvendo pesso-

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as e acontecimentos particulares e ou concretos. Os modelos mais utilizados

podem ser formados de diversas maneiras: devido a experiências

diretas, por ouvirmos re latos de outras pessoas, lendo jornais, revistas,

etc. e, por último, assistindo TVs.

Segundo as estatísticas, um americano médio vê 4 horas de TV por

dia. Como foi dito, adquirimos modelos do mundo de diversos modos,

um deles é quando assistirmos TVs. Portanto, muitas de nossas ideias a

respeito da moda, da conduta sexual, da educação de crianças, acerca

da ci ência, etc., são formadas através dessa “leitura” fácil e pre guiçosa

que é a TV. Lamentavelmente, os modelos obser vados, aprendidos, incorporados

e utilizados pelo indivíduo nas televisões, frequentemente

baseiam-se em comporta mentos de pessoas fictícias ou raras, vivendo

acontecimen tos pouco prováveis e em situações não-comuns. Por tudo

isso, podemos supor que o modo de enxergar e lidar com o mundo,

do americano médio, ao incorporar suas ideias básicas com os ensinamentos

da TV, assenta-se em fun damentos falsos ou não-usuais. Desse

modo, ele irá com preender ou assimilar os fatos concretos e reais do

mundo através de estacas podres e fincadas no lamaçal.

Como compreendemos os fatos, e nos expressamos conforme os

modelos de condutas existentes e armazena dos em nossa mente, e

como muitos de nossos modelos situacionais são formados através de

programas de auditó rio do Gugu, Leão, Faustão e muitos outros, bem

como das novelas de TV, podemos compreender como anda a mente

do telespectador fanático e como funciona o que tem sido vulgarmente

chamada de “formadora de opiniões”.

Como se sabe, quase a totalidade dos programas de TV tem como

meta o seguinte: um patrocinador, uma au diência, muita movimentação

e provocação de emoções. Para que se cumpra esse objetivo,

enfatizam-se inúmeras “ficções” sensacionalistas e teatrais. O ouvinte

distraído, tendo sua mente preparada para assimilar o que está sen do

exibido, com o programa incorpora, lentamente, es sas ideias. Elas pe-

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netram sorrateiramente: os costumes, o modo de se expressar, o jeito

teatral, os cabelos, as rou pas, os namoros, a forma de beijar e tudo

mais visto na magnífica TV.

Mais tarde, as mesmas TVs, apostando na plasticida de da mente já

semiformada, imprimem na mente plástica do telespectador julgamentos

e valores para eventos e fa tos, parâmetros para julgá-los, executa

suas “pesquisas” de opiniões. Nestas, o telespectador inconsciente,

quase dormindo, é perguntado para “estimar as taxas de crimes no

Brasil”, “quem é mais inteligente, se o homem ou a mulher”, “quem fez

o gol mais bonito”, “quem deverá ser escalado”, etc.

Ora, o respondedor, como um cão bem ensinado, não mais rosnando,

soltando gotas de saliva, irá responder uti lizando-se das “informações”

ou “conhecimento” ditado e inoculado anteriormente pelos

senhores do poder e dos pro gramas preferidos: jogos, novelas, pegadinhas,

etc., isto é, os mesmos que fazem a “pesquisa de opinião” do

povo.

O leitor deve lembrar que a mente do telespectador ao assistir a TV

já está, na sua maioria, pronta para assimilar e adotar as infiltrações

dos programas. Mais tarde, feliz, o telespectador e seu repórter preferido

comemoram o re sultado das pesquisas de “opiniões”. O que o

telespectador responde – nos Ibopes da vida – a perguntas tais como:

“você decide”, “se você é a favor disque…”, “em quem você votaria se a

eleição fosse hoje”, “sua opinião sobre o novo presidente”, nada mais é

do que a opinião mais ouvida, mais pronunciada pelos atores, locutores

mais simpáticos e bonitos, pelas TVs, jornais e rádios mais ouvidos,

vistos, lidos e queridos e, também, dos companheiros do teles pectador

que seguem o mesmo tipo de vida.

Vou lhes contar um caso. Há alguns anos, antes da eleição do F.

Collor, numa tarde, eu estava no barbeiro. Num certo momento do

papo, perguntei a ele – um ilustre senhor de cabelos brancos – em

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quem iria votar. Ele ficou sério, compenetrado. Demorou um pouco e,

de repente, dando uma de pensador profundo, respondeu-me num

tom de voz baixo, ao pé do ouvido, quase inaudível: “Doutor, estão

dizendo aí, TVs e rádios, que Collor vai ganhar. Vou votar nele”. Ele

mostrou o discutido acima: o voto no pos sível ganhador, segundo os

orientados pelos rumores…

As TVs, lançando certo tipo de notícia e não outras, ou seja, informando

algumas áreas e não informando outras – o modo de falar em

público, de alourar os cabelos das morenas e mulatas, mais recentemente

das mais “idosas”, de se vestir e agir, etc. – levam as pessoas

que a veem, a imaginar que o costume, o lazer, a compra a crédito e os

costumes de modo geral mostrados são os certos para to das as pessoas,

em todos os lugares. Nada mais absurdo!

Lamentavelmente, muitos só têm a TV como fonte de informação e

amigos que assistem a mesma TV. Nesse caso as informações só são

transmitidas por essas fontes: TV, amigos e familiares que assistem os

mesmos progra mas. Existindo apenas um único professor, a maneira de

pensar, avaliar e concluir desse infeliz telespectador, dian te das perguntas

feitas nas pesquisas das TVs, fatalmente será a ensinada nessas

“escolas” conforme as receitas e modas passageiras transmitidas. O

telespectador, anima do, não percebe que vomita o alimento deteriorado

doa do pela TV para seu organismo submisso e complacente, bem

preparado para engolir todo e qualquer lixo. Solitá rio, cansado e corrompido,

mais tarde, deslizando na sua poltrona desbotada e rasgada,

exalta-se satisfeito por ter “opinado” o que todos opinaram. Sorri por

ter contribuído para a “pesquisa”, principalmente, porque sua avaliação

foi a “certa”, ou seja, estava de acordo com a maioria dos seus

iguais, como disse solenemente meu barbeiro.

Algumas vezes assisti a um programa de TV que fin ge ser sério: “O

Globo Repórter”. Estava curioso acerca de certo assunto anunciado.

Pude perceber, na área que conheço um pouco, que inúmeras “infor-

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mações” forne cidas estavam erradas, outras enfatizavam aspectos de

pouca ou nenhuma importância em detrimento de outras e, muitas vezes,

anunciava-se uma “grande e moderna descoberta da ciência” que

eu tinha lido há vinte anos atrás. Para meu azar, muitos clientes amigos

e interes sados no meu conhecimento, telefonavam-me ou escre viamme,

antes ou depois do programa, para comunicar-me os “novos dados

científicos” que foram transmitidos em “primeira mão”.

Já recebi de clientes recortes de jornais e de revistas leigas, descrevendo

artigos mal entendidos pelo repórter articulista. Logicamente, se

ele não entendeu o assunto que lera, jamais poderia escrevê-lo adequadamente.

Os artigos recebidos continham informações confusas e

er radas acerca de novos tratamentos para a esquizofrenia, depressão,

ansiedade, doença de pânico, etc… O médi co ou o leigo, que imagina

aprender através dessa fonte de informação, estará redondamente

enganado e perdido nesse atoleiro.

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Discurso: O Toque Sutil dos Sons

Os políticos – bem como outros manipuladores de opiniões – nas

campanhas eleitorais sempre abusaram de discursos carregados de

termos com forte carga emocio nal, introduzidos em frases grandiosas,

expressos de uma maneira direta, simples e, sobretudo, superficial.

Para que um vocábulo no discurso tenha o poder de operar milagres é

preciso que seja uma palavra de natureza especial, dife rente das pronunciadas

todos os dias. Ela precisa ser uma palavra que não somente

designa a coisa, mas que seja sentida como sendo a própria coisa

expressa.

Esta palavra mágica deve atingir as fantasias do elei tor distraído,

propor soluções fáceis, rápidas e simples – in tuitivas – ainda que

equivocadas, para resolver problemas humanos difíceis, custosos ou

impossíveis. As fantasias, utopias ou crendices populares são estimuladas

pelo dis curso do político, transformadas em projetos possíveis de

serem executados.

Mas, por outro lado, o discurso político, semelhante às ideias descritas

pelos diversos mitos, exorta a manu tenção do existente. Os políticos,

junto a companheiros pertencentes às mesmas castas, lutam por

conservar a mente do povo às escuras. O discurso político, defendendo

as ideias convergentes, tem como lema: “Nunca examine se seu modo

de pensar é, ou não, correto”.

O povo é aplaudido caso saiba de cor o hino nacional, trabalhe muito

sem reclamar, não faça greves, guarde di nheiro na poupança, participe

ativamente de partidos polí ticos, principalmente votando e apoiando

seus candidatos, contribua para todas as campanhas de ajuda aos

necessi tados, seja um bom soldado na guerra ou na paz, trate com

respeito os poderosos, frequente assiduamente a igreja, mantenha

amizades sólidas com certas pessoas, cuide de sua saúde e da famí-

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lia conforme mandam os padrões, não desperdice (nem água e nem

energia elétrica), respeite as autoridades e a lei, procure certo tipo de

conforto e de lazer no lugar e momento adequado para ele. Tudo como

ensinam os antigos mitos e o catecismo paroquial.

Assim, como estamos presos aos nossos genes que nos impedem

de ser outro animal diferente do que somos, e de escapar das características

específicas que herdamos, também, desde nosso nascimento,

fomos aprisionados nas normas de conduta, de relacionar e de pensar

ditadas pela cultura, ou seja, construídas antes de nascermos pelos que

nos antecederam. Amarrados pelo resto de nossa vida a essas duas

vertentes, colaboramos inocentemente para a conservação do modelo

encontrado e impresso em nos sa mente, imaginando-o como certo e

melhor. Na maioria dos casos, sem consciência disto, não exercitamos

nossa criatividade para escaparmos ou, pelo menos, tentarmos escapar,

ou ainda avaliar este padrão.

Pois bem, o discurso político desperta, para conservar, muitas metas

controvertidas dos nossos antepassados. Es timula a mente sonolenta

dos eleitores com palavras be las, sonoras e vagas, o reservatório onde

dormem crenças, sonhos, medos e esperanças armazenadas durante

anos, na maioria das vezes ilusórias. O político apresenta-se ao eleitor

como um intermediário capaz de conduzi-lo, com mestria, para a travessia

fantástica, partindo de sua vida atual e conhecida, mas também

chata, difícil e injusta, para chegar à vida paradisíaca, tranquila, feliz e,

sobretu do, muito, muito longínqua.

As eleições terminam e tudo fica como sempre este ve. A quimera

afundou-se na realidade indiferente, fria e sem alma. Alguns poucos

dominam muitos, para o bem-estar dos de sempre, conforme rezam os

diversos mitos do poder, cumprindo assim a profecia.

Os discursos não param após as eleições, eles conti nuam, mesmo

nas entressafras, mas nestas servem para justificar as contradições

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existentes nos mitos citados du rante os discursos proferidos nos palanques

eleitorais.

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O Que se Esconde Por Trás dos

Slogans

“Fome zero”, “Eu te amo”, “O principal no relaciona mento familiar é

o amor e a compreensão”, “Tudo pelo so cial”. Frequentemente, pensamos,

falamos e escrevemos dessa maneira. Muitos são capazes de discutir

acalorada mente sobre as ideias contidas nessas frases, defendendo-as

ou atacando-as. Mas, afinal, o que elas afirmam?

Creio que ninguém saberá com precisão o que signi ficam. Para cada

um de nós, as palavras “amor”, “ódio”, “compreensão”, “social” e outras,

terão significados dife rentes. Além disso, uma situação altamente

complexa, como a qualidade de vida familiar, não poderia ser atribuí da

apenas a dois fatores, onde as palavras mágicas “amor” e “compreensão”

tornam-se explicações causais pelo bem-estar ou não da família.

É raro questionarmos o nosso in terlocutor, ou nós mesmos, acerca do

sentido, dimensão e significado das palavras que estão sendo utilizadas.

O psicólogo Kurt Lewin escreveu, entre outros, o arti go “O modo

de pensar Aristotélico versus o modo de pen sar Galileico”. Nesse, ele

critica a linguagem da Psicologia e da Psiquiatria quanto à descrição de

um fato, uma ma neira que, infelizmente, continua. Para esse autor, o

modo Aristotélico de se expressar, próprio da linguagem comum, descreve

uma pessoa como “rica” ou “pobre”, “bonita” ou “feia”, “gorda”

ou “magra” e assim por diante. Já a maneira Galileica, ao descrever os

mesmos fatos, é mais precisa.

Assim, em lugar de afirmar que o dia esteve quente, cita a temperatura

alcançada de 32ºC, que João pesa 100 quilos para indicar porque

está dizendo que ele é gordo.

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A linguagem da Psicologia e da Psiquiatria é muito semelhante à popular,

até mesmo nos artigos chamados “científicos” destas especialidades.

Não é raro encontrar mos, entre os psicólogos, afirmações como

as seguintes: “Maria é uma moça carente”, “Marta é perversa”, “Álvaro

está deprimido”, “Alfredo é esquizofrênico, mas seu irmão Carlos é normal”.

O leitor certamente se lembrará de cen tenas de outros exemplos

semelhantes.

Discussões acaloradas, que terminam, às vezes, em brigas, ocorrem

em assembleias, programas de TVs, sala de aula, etc., devido ao uso

dessa linguagem. Nessas, em virtude da indefinição dos conceitos

causadores da discus são, nunca se chega, nem se poderia chegar, a um

acordo. Se os conceitos utilizados nas disputas fossem mais bem definidos,

as discussões provavelmente não ocorreriam. Fica difícil discutir,

por exemplo, “violência”, pois esse ter mo tem conotações e denotações

muito diferentes para diferentes modos de pensar.

Com frequência, utilizamos a linguagem de dois mo dos diferentes:

para representar nossa experiência pes soal ou para comunicar nosso

modelo ou representação acerca do assunto. Assim, discutem-se fatos

diferentes, causados por fatores diferentes, utilizando um único vocábulo.

Que experiência e que representação do mundo cada um dos

que enunciam a palavra “violência” estaria querendo expressar? O

“mapa” utilizado foi um só para designar “territórios” diversos.

Usam-se, a todo o momento, palavras que têm o mes mo som ou grafia,

mas com significados, conotações e de notações as mais diversas.

O que pretende dizer alguém que usa as frases: “Tudo pelo social”,

“Defenderemos a nossa soberania”, “Fome zero” (seria no Palácio da

Alvorada ou na residência do presiden te?). Todas são frases usadas

para se obter um efeito emo cional, mágico ou hipnotizador, sem importância

para o real. Cada cidadão que as ouve, receberá e entenderá

uma comu nicação diferente conforme a emoção que lhe foi inoculada.

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Atrás de uma palavra ou frase nem sempre está um objeto concreto.

Palavras não são coisas, são representa ções e ligações entre coisas.

Não resolveremos os nossos problemas de comunicação empregando

palavras mágicas, procurando sinônimos das mesmas, gritando-as diante

dos altofalantes. Muita gritaria, às vezes, acalma e deixa de lado as

ações possíveis para dar soluções para os proble mas existentes. Antes

de acreditar ou não em uma palavra ou seguir a ideia que ela parece

traduzir, precisamos pri meiramente descobrir seu significado, pois o

símbolo nem sempre traduz a coisa simbolizada.

Quando um hipnotizador diz a alguém: “agora você se sentirá melhor,

mais disposto e terá mais forças para enfrentar seus problemas”,

cada hipnotizado entenderá a comunicação de acordo com suas experiências

particulares ou memória autobiográfica. As frases citadas no

início e ao longo desse texto despertarão em cada leitor certas fantasias

e sentimentos próprios. A maioria das frases do nosso dia-a-dia,

por serem altamente genéricas, atingem todos e acerca de quase tudo

e, ao mesmo tempo, de quase nada. Por exemplo, uma frase muito

repetida: “Devemos fazer tudo pelo social”.

Os termos empregados são vagos, abrangentes ao extremo, ou seja,

estamos diante de uma linguagem su perficial. O que é “tudo” e “social”

para cada um dos leito res ou ouvintes?

Alguns, usando agora uma linguagem menos super ficial, poderão

pensar que a ideia fala acerca de possíveis aumentos de salários, de

menor inflação ou mais saúde. Para outros, a mesma frase poderá suscitar

ideias opostas: menores salários, maiores taxas de inflação e mais

doen tes. Os desejos e aspirações de cada um ditarão o tipo de ideia

que poderá surgir pelo uso do termo vago. Este modo de comunicar

pode ser chamado de “mágico” no sentido de que, não comunicando

nada, fornece suposições para cada cabeça.

Como hipnotizador, os emissores da mensagem con seguem di-

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zer tudo e não dizer nada ao mesmo tempo, sem que haja meios de

desmenti-la, pois o enunciado não pos sibilita a comprovação. Os políticos,

pregadores fanáticos, psicólogos que escrevem sobre autoajuda,

curandeiros de modo geral, são useiros e vezeiros em pronunciamentos

desse tipo. Ao recebermos uma comunicação, expressa em linguagem

superficial e “Aristotélica”, ficamos sem refe rências, como ocorreu com

o homem que corria atrás de outro, conforme a historinha “Sócrates”

de N. O. Scarpi.

Um homem, gritando, corre atrás de outro que foge:

— Assassino! Assassino!.

Pergunta Sócrates ao homem que grita.

— Um assassino! Que vem a ser um assassino?

— Pergunta idiota! Um assassino é um sujeito que mata.

— Então, um açougueiro?

— Cretino! Quero dizer um homem que mata outro homem.

— Seria, portanto, um soldado?

— Não, um homem que mata outro homem em tem pos de paz.

— Compreendo, um carrasco.

— Eu quero dizer um homem que mata outro homem em casa dele.

— Ah! Entendi! Um médico?

Confuso, o perseguidor desistiu da perseguição.

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Informação, Comunicação, Linguagem:

Informação resumidas

A descoberta das motivações, discursos e condutas inconscientes

dos seres humanos originaram os primeiros golpes desferidos na idéia

existente do homem como criador de suas ações e raciocínios.

Não se pode mais aceitar a concepção totalmente determinista de

que a autonomia, imaginada por nós na programação de nossas ações,

seria mera ilusão; como se tudo fosse a realização de um programa

antecipadamente fixado. O programa existente não contém todas as

respostas previstas anteriormente. Mas, por outro lado, não podemos

considerar a consciência e a vontade como manifestações extremas e

livres fazendo parte de um princípio vital misterioso, de forças extrafísicas,

atuando na matéria.

A auto-organização inconsciente existente em cada organismo

humano deve ser considerada como o fenômeno primordial no mecanismo

do querer (vontade, desejo), do planejamento ou da intenção

direcionada ao futuro. É a associação semi-automática de nossa consciência

e vontade que dá origem à consciência voluntária; esta é, suposta

e erradamente, imaginada como fonte de nossa determinação; este

mecanismo propiciou a ilusão do livre-arbítrio.

Nós sabemos que, na realidade, as coisas que acontecem raramente

são as que queremos. Temos, muitas vezes, a impressão de que não

fomos nós os executores da ação, muito embora saibamos que nós é

que as fizemos: “Foi sem querer”; “Perdão; não queria fazer isso”.

Acontece o seguinte: o nosso querer faz uso de uma parte de nós

mesmos – um atributo chamado de consciência voluntária – ao passo

que a totalidade de nosso organismo nos leva – arrasta, empurra,

conduz – a fazer outra coisa. A totalidade do organismo não é dirigida

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por nós; é comandada por outras forças independentes do nosso poder

ou querer. Essas forças são orientadas por princípios ou paradigmas

inconscientes, trabalhando em conjunto com os fatores biológicos; as

duas ações, em parte, nos comandam.

A totalidade, ou organismo como um todo, como uma força que nos

leva a agir orientada para o futuro, de fato, não pode ser conhecida

ou conscientizada através de nenhuma técnica. Um motivo para o seu

não-conhecimento, ou a sua não-conscientização, deriva do fato de

que ela não é fixa, ao contrário, vai sendo constituída e estruturada à

medida que nós agimos. Isso torna impossível o conhecimento da estruturação,

pois ela está, continuamente, sendo formada e modificada.

A estruturação dessas forças é determinada de um lado pelos milhares

de acontecimentos, fora do nosso organismo, que nos atingem num

determinado momento sem nosso conhecimento, de outro, pelos

eventos automáticos que ocorrem dentro do organismo.

Podemos afirmar que o “querer real”, aquele que se manifesta e se

mostra eficaz, o que de virtual torna-se real ao se realizar, é construído

ou nasce de programas impossíveis de serem revelados à nossa

consciência. Nós só temos acesso ao produto, ao resultado final, que

é a conduta visível e observável. O homem produz ações através dele;

o querer amplo – não o específico – é realizado através de todas as

células, neuro-transmissores, hormônios, glóbulos sanguíneos etc. e,

também, a partir dos modelos teóricos, paradigmas, princípios, pensamentos

automáticos etc. durantes as continuadas interações do indivíduo

com os fenômenos aleatórios do meio ambiente. Quase iguais

à abelha, amarrados e obedientes nesses poderosos processos ordenadores

automáticos, somos ejetados para o que chamamos de nosso

caminho futuro, de nossa liberdade de ação e de decisão.

Nosso futuro é fabricado através da memória armazenada que,

durante nosso confronto com o meio ambiente, torna presente o passado;

expõe o estocado recuperado num dado momento; este sempre

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será uma parte da totalidade de um organismo particular possuidor de

uma auto-organização singular. Fica claro que a memória, surgida num

momento, em parte, somente em parte, através de nosso querer, é um

dos elementos e foi construída, inicialmente, por um organismo que

segue seus próprios princípios de organização biológica e de aprendizado,

não acatando, nem se importando, com nossos desejos, comandos

e valores aprendidos culturalmente. Não adianta querer estar bem

disposto, se o organismo não trabalha para isso. O organismo agindo

aleatoriamente criou a nossa memória, que depende de nosso querer

específico para se apresentar. Não podem conviver num mesmo sistema

sem interagir o organismo/memória e o nosso querer consciente;

essas interações fabricam novos fenômenos: uma mistura de ações

conscientes movidas por vontade próprias mas, também, ações dominadas

e orientadas pelos processos inconscientes, automáticos e

biológicos.

O resultado é um trabalho conjunto: uma consciência voluntária

de um lado e, de outro, fenômenos desvelados, automáticos e inconscientes.

Assim, a consciência voluntária e a vontade que emerge na

consciência sob a forma do querer, desejos e impulsos devem ser compreendidos

como resultados simétricos de interações entre a consciência-

memória do passado – e o querer inconsciente auto-organizador

do futuro.

A consciência voluntária deve ser examinada como sendo resultado

de uns poucos elementos do organismo antes memorizados, que

intervêm, secundariamente, nos processos de resposta organizadora às

estimulações do meio ambiente, como programas parciais, subprogramas,

sem tanta importância. A consciência voluntária, também, nasceu

do processo maior que é inconsciente.

A vida do inconsciente não pode ser reduzida a um fenômeno secundário,

resultante do recalcamento ou censura de desejos e ilusões

por meios conscientes. O querer inconsciente é o conjunto de meca-

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nismos pelos quais nosso organismo inteiro – total e compacto – reage

aos estímulos aleatórios, às novidades e aos estímulos eventuais

esperados e conhecidos. O querer inconsciente não precisa, na maioria

das vezes, para se realizar, aparecer ou desvelar-se – tornar-se consciente

e sujeito a exame – e se transformar em desejo. Se tivéssemos

uma visualização muito grande dele, como memória dos processos

auto-organizadores, isso poderia impedir seu aparecimento e bloqueá-

-lo. Para a sobrevivência do sistema, às vezes, é melhor que ele continue

inconsciente. Quando falamos ou escrevemos, se começarmos a

examinar, usando nossa memória consciente, exageradamente, como

estamos usando nosso conhecimento ao expormos nossas idéias, elas,

geralmente, terão dificuldade para aparecerem.

O desejo tem como mãe o organismo natural e inconsciente total,

como pai a memória explicitada consciente e carregada de regras que

podem ser examinadas. Por tudo isso, nosso querer não é da ordem do

querer inconsciente “puro”, mas a emergência do querer inconsciente

na consciência consciente.

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Lembranças, recordações,

saudades

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Mergulho no Passado: Uma

História Verdadeira

Advertência à Guisa de Introdução

Essa história me foi contada, portanto, tentarei descrevê-la da maneira

como a ouvi. Por isso, todos os relatos que serão descritos abaixo

são de exclusiva responsabilidade do jovem narrador.

Este cursou a Faculdade de Medicina há muitos anos, como inúmeros

outros médicos, se é que os colegas mais velhos ainda se lembram.

As cenas selecionadas e narradas por ele, as interpretações e

críticas feitas às pessoas e aos costumes da época, bem como seu ponto

de vista, de que algumas vezes discordo, são percepções formadas

por sua mente carregada de energia, mas ingênua que, ao começar o

curso médico, ao chocar-se com o complicado mundo dos adultos, aos

poucos foi perdendo as belas ilusões adquiridas na infância. Ele, como

seus colegas, por acaso decidiu ser médico, por acaso nasceu e passou

no vestibular num certo ano. A fatalidade existente na vida de cada um

dos jovens levou-os a entrarem juntos na faculdade, permitiu a formação

de um grupo coeso, anteriormente desagregado.

Eu, como narrador do narrador, esforcei-me o quanto pude para

descrever fielmente o que me foi contado, quase que diariamente, ao

pé do ouvido, por esse jovem estudante. Preservei intactas também

suas explicações acerca dos fatos ocorridos durante seu curso médi co.

Entretanto, observei, e vocês verão que tenho razão, que ele pró prio,

algumas vezes, duvidou das interpretações simbólicas que deu aos

eventos. Acho natural essa sua dúvida. Nem sempre fomos amigos e

concordamos em tudo. Já brigamos muitas e muitas vezes, em certas

ocasiões mal nos cumprimentávamos.

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Examinando sua mente inquieta dia após dia, pois sempre es tivemos

ligados, pude notar que ele jamais ficou preso a uma ideia por muito

tempo, pois estava sempre saltando de um lado a outro, à procura de

um pouso acolhedor.

Chamava-me a atenção sua incerteza ao tomar partido a favor ou

contra um ou outro modo de pensar, pois, geralmente, ao comba ter ou

defender uma ideia, ele próprio descobria prontamente razões contrárias

às defendidas ou atacadas. Isso, segundo percebi, custou-lhe por

vezes o isolamento social e, ao mesmo tempo, estranhamente, uma

fusão e entendimento com todos os que pensavam diferente dele.

Assim é que, por sorte ou azar, não sei bem, foi levado a não fazer

par te de nenhuma agremiação política, científica, cultural ou religiosa

e, ao mesmo tempo, internamente, aceitava e pertencia a todos esses

grupos heterogêneos. Desejo ainda comunicar-lhes que seu modo de

selecionar os fatos do seu mundinho acadêmico foi fragmentário e

parcial – por isso peço-lhes desculpas em nome dele – como deve ter

acontecido com todos jovens, pois cada um selecionava aquilo que

supunha ser “interessante e inesquecível”.

Possuía muita coragem e fé em si mesmo e, ao mesmo tempo, como

é comum nos valentes, pouca capacidade e competência para diferenciar

o mutável do imutável. Por isso mesmo trombou decepcio nado em

vários muros intransponíveis. Suas características de jovem aventureiro

e impetuoso, por sinal muito humanas, até me atraíam. Confesso com

certo orgulho que devo a ele grande parte do que sou. Ele foi meu

instrutor e crítico. Dele nasceram, bem ou mal erigidas, todas as ideias

básicas ou princípios em que construí e organizei meu raciocínio atual.

Vivo, até hoje, encarcerado intimamente ao núcleo desse jovem inquieto,

meu preceptor diário e carregarei até o túmu lo suas marcas e emoções

impressas em minha mente. Entretanto, sei que algumas dessas

nódoas indeléveis são muito primitivas e conscien temente preferiria

viver sem elas, mas elas não me abandonam. Não podia ser de outro

modo. Às vezes lamento, outras vezes louvo, sua vida desassossegada,

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leve e curiosamente ligada a mundos tão variados. Muitas vezes imagino

que poderia ser tudo tão mais simples… Será?

Lastimo sua completa incapacidade para se conduzir através de um

caminho sempre na mesma direção. Isso ele nunca conseguiu e talvez

jamais o desejasse.

Ele dirigiu sua vida em ziguezagues, ora para um lado, ora para

outro. Rodopiou e capotou várias vezes, fez curvas e mais curvas,

algumas imensas, em certas ocasiões, andou em círculos, sempre obstinadamente,

em busca do sonhado caminho orientador. Apesar dessa

procura teimosa, ele jamais encontrou uma saída nobre para escapar

e descansar desse labirinto onde se aprisionou. Acredito que vocês,

os simpáticos e ligados a ele como eu, o compreenderão. Talvez seus

amigos e colegas tivessem lutas semelhantes e batessem nos mesmos

obstáculos intransponíveis. Os inimigos, nem tanto. É possível que

alguns felizardos – ou seriam azarados? – tenham encontrado prontamente

o caminho acolhedor e definitivo. Ele jamais desejou isso. Como

seu aluno e admirador, nesse instante seu portavoz, quero de público

agradecer a todos vocês, que conviveram e ajudaram a formar a mente

do meu tutor, exatamente no período mais crítico de sua vida. Ele e

vocês, estudantes desse tempo longínquo, assistiram, participaram e

viveram cenas e problemas semelhantes, sofreram e entristeceram-se,

regozijaram-se e consolaram-se juntos. O jovem narrador estruturou-se

ou, quem sabe, desestruturou-se, a partir dessa união grupal singular,

desse contato estreito, formado através da soma das esquisitices

existentes em cada um. Foi nessa boa, ainda que imatura mãe, que

ele e muitos de vocês, como crianças amedrontadas, se apoiaram e se

sentiram protegidos ao buscar o carinho e a compreensão. Este gru po

confortou e aliviou as “dores do mundo” que pesavam sobre sua cabeça

frágil de iniciante a adulto. Este jovem ligado profundamente a esse

grupo foi, e sempre será, o produto de cada um de vocês. Seus colegas

amigos, cada um a seu modo, imprimiram uma marca indes trutível.

Nenhum jamais escapará dessa cunhagem misteriosa.

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Talvez vocês, como ele, segundo especulei, tenham sofrido os mesmos

azares do preço das transformações. Percebi que, à medida que

ele foi alcançando degraus e conhecimentos mais elevados, mais

amedrontado ficou. A ignorância inicial, bem como a não consciência

desta, lhe dava segurança, falsa, eu sei, mas confortável, muitas vezes

procurada.

Ele nunca me confessou abertamente seu desejo de parar de crescer,

parar com tudo, regressar de vez ao tempo da incompetência quase

total, apesar dele saber que o caminho escolhido não tinha re torno.

Entretanto inferia, nos seus rodeios, que é sua marca, dúvidas e mais

dúvidas, algumas vezes um desejo velado de voltar ao tempo da inocência

e da irresponsabilidade.

Parece-me que para cada pulo dado para o crescimento, para cada

estágio alcançado, mais ele se sentia aprisionado. Passou a ser controlado

pelas normas da classe, pelos clientes, pela família, pelos

deveres e compromissos diversos e, terrivelmente, pior ainda, pela

sua consciência aumentada acerca de tudo isso. Pouco a pouco, ele foi

abandonando quase tudo que amava. Os antigos e inocentes hábi tos e

prazeres, altamente atraentes numa época, foram trocados, com pesar,

por obrigações pesadas comandadas por pressões externas. Ele passava

a não mais mandar na sua vida. Confessou-me, abafado, que muitas

vezes sentiu saudades da vida anterior, passando a ter inveja, nos dias

de maior desespero, da vida do pássaro cantando na lavoura ou da

abelha pousando nas flores. “É terrível!”, confessou-me: “Gosta ria de

poder, ainda que por instantes, responder diretamente ao meio, sem

ser incomodado pelos pensamentos”.

Todos vocês, como ele, entraram na faculdade em busca de uma

sabedoria que não possuíam. Cedo, ainda na escola, ele verificou que

lá não havia este conhecimento. Continuou sua procura em campo

aberto, junto ao cliente e à vida cá de fora. Mas, depois de muita luta,

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chegou à conclusão que este ancoradouro tão esperado e sonhado não

existia, apesar dele ser procurado por todos. Ora, como seria bom se

existisse algo em que pudéssemos, continuamente, nos apoiar e ter

certeza! Decepcionado, percebeu que não havia nada que re sistisse à

ação da história. As verdades encontradas serão, no futuro, mentiras,

cada uma desmentida pela outra que dura algum tempo. Tudo que

numa época foi imaginado ser um porto seguro, numa outra ocasião

poderá ser um abismo perigoso. O jovem narrador agarrou-se a uma

ideia, a outra, a várias delas, acreditando estar protegido, caso se

apoiasse em várias ao mesmo tempo.

Mas sempre, mais tarde, percebeu que se prendia a mitos, a ilu sões,

a estacas podres e ocas e novamente se sentia desprotegido, afundava-

-se. As verdades aprendidas na escola eram mentiras, menti ras que

todos acreditavam numa época, todas anunciadas com muita fé. Agora,

esse inconformado, condicionado pelo treinamento, conti nua teimosamente

sua caminhada, como um rato que vai ao mesmo bebedouro diversas

vezes à procura da água que lá não existe, atrás de uma verdade

que possa servir de apoio às outras. Para viver, ele finge desconhecer

essa “verdade” lógica.

Mas ele, como vocês, tem que prosseguir sua caminhada em direção

ao fim, e assim, penosamente, aprendeu que a verdade é vi vida, ela

pertence a cada um, num certo momento. Jamais poderá ser ensinada

nas escolas ou nos templos.

Naquele tempo, na velha escola de paredes altas e brancas e de

porões escuros, os pequenos e inseguros alunos ouviam respeitosamente

seus deuses do momento, afirmando suas verdades durante as

aulas magistrais. Os professores eram vistos por cada um dos alunos

espantados, como super-homens inatingíveis e invejáveis, possuidores

de conhecimentos eternos. Hoje, tristemente, ao nos lembrarmos

de suas aulas, temos pena deles, de suas prisões e de seus obstinados

esforços para defenderem as ideias médicas da época, agora em desu-

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so, perdidas no tempo, ridículas. Temos que prosseguir vivendo nessa

incerteza. Reconheço que ele aprendeu, lá, hábitos e costumes que

não mais servem para hoje, mas não deixo, às vezes, de ter inveja da

vida que ele me contou, daquele mundo sedutor cada dia mais distante,

que guardava seus encantos, prazeres, belezas e aromas simples.

Aprisionado até à alma ao estudante daquela época, vivemos, eu e ele

ao mesmo tempo, dois estilos de vida, às vezes em conflito.

Toda e qualquer queixa contra suas ideias, bem como contra o ponto

de vista adotado, deve ser encaminhada a ele próprio. Farei tudo para

que receba as críticas que porventura vierem. O narrador atual, naquela

época ainda um embrião, será um mero instrumento de suas recordações.

Como suas histórias sempre me fascinaram e por isso gravei cuidadosamente

boa parte de seus relatos, não foi difícil para mim reproduzi-las.

Devido ao pequeno espaço, fui obrigado, embora contraria do,

a cortar boa parte do anotado, que guardo carinhosamente para outras

ocasiões. Selecionei somente uma pequena amostra. Peço-lhes desculpas

por isso.

O Relato

Manhã de novembro. Um táxi levou-me até à Estação Rodoviá ria,

em Belo Horizonte. Assentei-me na poltrona, espichei meus ve lhos pés

magros, ainda fortes, no suporte, deitei-me e fechei os olhos. Dentro

do ônibus frio instalou-se o silêncio próprio de um grupo cansado pelo

passar do tempo. A algazarra inicial durou pouco e se transformou

apenas no barulho monótono do motor. Preso ao som acolhedor e

tranquilizante, despertei com a melodia “Carinhoso” que estava sendo

tocada no altofalante. Fechei os olhos para o presente, pouco a pouco

fui hipnotizado pelo som e silêncio.

Estava entrando naquele mundo que começara há muitos anos.

Senti que era essa a razão da minha ida: um mergulho gostoso ao pas-

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sado distante, ao curso médico feito. Sabia que, agora, isso me dava

segurança e pesar, que essa volta estava supervisionada pelas nossas

experimentadas mentes, pelos novos conhecimentos adquiridos. Já

não éramos mais os jovens inocentes que fizeram e passaram no vestibular

para Medicina. Aos poucos, entrei em transe e penetrei naquele

tempo.

Estávamos nas vésperas do vestibular, mais precisamente numa noite

escura, feia e fria de fevereiro. Eu acabara de completar 19 anos. A

chuva que caíra por todo o dia havia dado uma trégua para que pudéssemos

sair de casa. Nesta noite realizávamos um compromis so começado

há anos. Ali estávamos, jovens ambiciosos, lutando por uma vaga

na Faculdade de Medicina. Tentávamos dar o passo mais audacioso na

nossa vida de estudante. Todos aqueles caminhantes inquietos e tensos

se punham em torno do portão principal, ainda fechado, do prédio.

Dali a pouco as portas seriam abertas para a realização do vesti bular.

Todos tinham um só objetivo: conseguir uma vaga na escola.

Nos meses que antecederam as provas, todos nós estudamos compulsivamente,

durante os dias úmidos, tristes e chatos daquele ano. O

céu, durante três meses, talvez temeroso e nervoso como nós acerca

do risco da empreitada, solidário derramou continuadamente filetes de

lágrimas frias e brilhantes nos telhados esverdeados e sujos das casas.

A chuva miúda provocara nos livros e cadernos um insu portável cheiro

de mofo que impregnara tudo. Apenas foram preser vados nossos neurônios

que precisavam, através de grande esforço, ser mantidos limpos

e secos para realizarem seu papel. Eram eles que deviam armazenar

ordenadamente milhares e milhares de fatos e te orias, a maioria delas

inúteis e que, durante o vestibular, fariam sua última viagem, pois logo

depois seriam jogadas no lixo eliminadas para sempre.

Havia medo estampado nos olhos dos postulantes a um lugar. Predominavam

as dúvidas. Junto ao temor imperava também uma alegria

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ou alívio, pois, se tivéssemos sorte, poderíamos expulsar as detestáveis

matérias que invadiram e dominaram nossas mentes. Es távamos na

reta final, não havia mais tempo para aprender nada. Dis farçadamente,

olhava espantado e amedrontado para os meus rivais do momento:

— Aquele ali tem uma grande cabeça, sinal de inteligência… uma

vaga será dele. E aquela mulher morena de cabelos pretos cache ados?

Bonita. Estranho… desejando entrar na Faculdade de Medicina? Será

que passa?

Examinava um a um os “inimigos da noite” e construía julgamen tos

acerca deles.

Alguns brincavam desajeitadamente para espantar o medo, ou tros

fumavam, mas todos tentavam camuflar a apreensão. Eram pou cas as

vagas para muitos candidatos. Diziam, sem muita certeza, que certos

lugares já estavam reservados para alguns poucos escolhidos e apadrinhados

de sempre.

Abriram-se as portas e, vagarosa e preguiçosamente, os candida tos

foram procurando seus lugares nas salas.

Pareciam tentar, no seu passo lento, adiar o inicio da decisão. Assentei-me

no lugar indicado. Tirei a velha caneta Parker 51 do bol so do

surrado e largo paletó cinza, que servia para disfarçar minha magreza

de 50 quilos, meus ossos fortes e estufados, cobertos por uma pele

sem rugas e sedosa de atleta amador desnutrido. Tremi ao assinar a

lista que passava de mão em mão. A sala era comandada por um velho

professor da Faculdade, fungando sem parar através de suas largas e

proeminentes narinas. Isso punha-me irritado.

— Quem seria ele? Na certa um professor famoso. Será que al gum

dia eu, um “pé rapado” qualquer, desajeitado, poderia estar no lugar

por ele ocupado e dando provas para futuros alunos? Oh! que bom

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seria!

Três dias de provas escritas: Biologia, Física e Química. No dia da

prova de Física, uma violenta tempestade caiu sobre a cidade. As luzes

se apagaram e ficamos às escuras por mais de uma hora, coman dados

pelo velho, e agora, para minha decepção, fraco professor. Essa era a

prova que eu mais estava preparado. Entretanto, com as trevas, a conversa

e a cola foram gerais. Esperei que a prova fosse anulada. Não foi.

Começaram aí, ainda muito cedo, minhas transformações na maneira

de ver o mundo dos adultos da elite. O mundo construído e sonhado

anteriormente começava a quebrar-se, e continuaria, através do confronto

com a nova realidade, a despedaçar-se.

Depois, começaram as provas orais. Na de Botânica, fui exa minado

por um velhinho simpático. Via todos os professores velhos como sábios

e obesos, ao contrário dos candidatos magros, jovens e com cara

de débeis mentais. Eu nada sabia acerca dessa prova, pois não havia

essa matéria no curso científico. Lembro-me bem de sua voz cavernosa

e fraca ao chamar-me. Tive pavor naquele momento. Olha va atraído

para a porta de saída do grande anfiteatro onde se realizava a prova,

imaginando poder passar correndo por ela o mais depressa possível.

Entretanto, como um réu diante do juiz, automaticamente caminhei

em direção à grande mesa, cheia de plantas e folhas soltas, atrás da

qual parecia se esconder o professor, na certa esperando um deslize

meu, pronto para me condenar.

Olhou-me fixamente nos olhos, passou suas mãos manchadas de

pintas negras sobre o bigode e disse-me, num tom que jamais decifrei:

— O senhor tem um nome e sobrenome importantes…

Não descobria por que ele falara. Qual a importância? Por ter coragem

de tentar medicina? Por ser um nada? Mas não havia tempo para

pensar. O inquérito estava apenas começando. Ele devia estar queren-

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do distrair-me e pegar-me. Mais tarde, vim a saber que na facul dade

havia professores, que nunca foram meus parentes, nem amigos, que

tinham sobrenomes iguais aos meus. De fato, eu era um “João Ninguém”,

fazia parte do grupo de pobres, dos filhos de viúvas, como disse

muito bem um da turma. Sem nome e sem poder para ajudar-me,

esperava a sorte e a simpatia do velho professor. Não tive outra alternativa

a não ser, engasgado e trêmulo, balbuciar:

— É… certo… espero honrar meu nome.

— Qual seria esse nome? – perguntei-me, confuso. Não sabia.

O professor, lentamente, separou uma planta que estava den tro de

um pequeno vaso e perguntou-me, com um tom de voz até aí amistoso:

— Classifique essa Salvina.

Acredito, até hoje, que o nome que ouvi foi esse mesmo. Nunca quis

saber ao certo nada acerca desse maldito vegetal, se é que ele ainda

existe. Tonto, assustado, olhei para a planta… percebia que ja mais encontraria

uma saída. Olhei novamente para o vaso, fingia estar pensando

quando, na realidade, nada pensava. Sem saída, fixei meus olhos no

vaso uma vez mais e, sem outra coisa para fazer, respondi com uma voz

em falsete, lá do fundo, fazendo tudo para que ela não fosse ouvida:

— É… é… é uma planta… aquática! – falei o final, fingindo firmeza.

— O quê? Sua expressão e voz agora já não eram as de antes. Respondi

rápido:

— Não! Foi brincadeira, o senhor a colocou dentro d’água. Eu…

A partir daí fui me arrastando no exame, já não era mais senhor dos

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meus atos. Passei a fazer tudo automaticamente, entreguei meu destino

a qualquer Deus que porventura existisse, estivesse disponí vel e

tivesse coragem para ajudar-me naquela hora maldita.

Como a Física era o meu forte, entrei resoluto e confiante para a prova

oral. Lá estava, como sempre, um velho careca, encurvado e magro,

cara fechada, que mais tarde fiquei sabendo que era professor, não de

física, mas de dermatologia. Coisas do passado. O exame, ou melhor, o

inquérito, começou. Não concordávamos. Ele não tinha es tudado nos

livros de Física adotados no curso científico. Só mais tarde descobri que

seus conhecimentos de “física” foram obtidos através da leitura do almanaque

da Saúde da Mulher que, lamentavelmente, naquele ano, por

falta absoluta de tempo, não pude ler. Ele, emperti gado, com grande

orgulho e sabedoria, me fez duas perguntas:

— Como você sabe que uma água está fervendo na panela? O que é

balança doida?

As respostas não eram as óbvias e descritas nos livros de Física, eram

da “física” existente na mente dele, as do almanaque. Eu devia, como

adivinho, descobrir o que ele desejava e, infelizmente, não adi vinhei.

Dancei nesta.

Acordei ao ouvir a voz calma de uma colega, que se sentara ao meu

lado no ônibus. Ela, durante o vestibular, havia despertado a atenção

do meu tutor logo após o término das provas, quando ca minhava ao

lado do Parque Municipal, esguia e vagarosamente, em direção à sua

casa. A colega do ônibus, ao contar-me um caso atual, obrigou-me a retornar

ao presente, à turma dos idosos, largando por minutos a turma

antiga, a dos jovens, muito mais atraente e animada. Eu não imaginei

que ela se tornaria minha colega, tinha cara de crian ça. Interessado em

retornar ao ano do vestibular, ansioso pela volta, procurei, após ouvi-

-la, cortar delicadamente o assunto. Eu desejava conversar com a colega

antiga. Vim ao encontro para isso, para es conder a realidade atual e

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encontrar a daquele tempo, quando ainda existiam vários caminhos a

seguir.

Agora, os acontecimentos, uma vez cristalizados pelos anos, não

mais permitiam escolher novas opções, os espaços já tinham sido ocupados.

Percebia claramente que nos encontros procuramos esconder,

de todos os modos possíveis, a penosa realidade experimentada, os

planos e sonhos imaginados na juventude, que se transformaram em

decepções, em nada, vencidos que foram pelos fatos crus e dolorosos.

Inspirado pelo ônibus, precisava voltar, o mais rápido possível, às narrações

do jovem que vivera num tempo em que ele podia imaginar e

planejar o que desejasse. Hoje, ele se acha preso à história construída

por ele próprio, composta por fatos que preferiria não ter usado na

edificação. Mas sentia saudade daquela época em que tinha poucos

fatos para prendê-lo, hoje ele os tem de sobra. Antes, sua vida era um

confronto vazio com o mundo real, com poucas e ingênuas teorias

acerca dele. Hoje, aos poucos, querendo ou não, transformou-se numa

outra pessoa, através das lambadas recebidas na face, produzidas pelos

acontecimentos indesejáveis. Fingi dormir. A colega falava mais baixo e

bondosamente calou-se, sem entender minha sonolência fingida.

O vestibular terminou: agora, impacientes, esperávamos o resul tado.

Nada mais havia para ser feito. Passei ou não? Essa era a pergunta

que ocupava as mentes ansiosas e sofridas. Foi um longo período de

expectativas, que me colocaram mais tenso ainda. Evitei as conversas

de sempre, pois não queria ouvir a boataria. Um dia a notícia temida e

esperada: saiu a lista dos aprovados! Vagarosamente, para adiar o impacto,

fui vê-la. Entrei timidamente no porão escuro e mal iluminado,

local onde, naquele tempo, funcionava a secretaria da Faculdade de

Medicina. Acima da entrada do porão, dos dois lados, saíam duas escadas

laterais, que conduziam ao saguão, entrada principal da acanhada

escola. O pequeno cômodo estava repleto dos companheiros de

infortúnio que se aglomeravam em torno da única lista colocada. Uns

liam em voz alta, própria dos desinibidos, os nomes dos aprovados e,

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por que não, com certo orgulho comentavam e conjeturavam acerca

dos que não haviam passado.

Alguns saíam do tumultuado porão, pulando e urrando alegre mente,

outros, ao contrário, cabisbaixos e com lágrimas nos olhos, caminhavam

lentamente para o espaço vazio e acolhedor do pequeno jardim

existente em frente da escola.

Chegou a minha vez. Sem o desejar, fui empurrado pelos de trás, até

ter a lista sob meus olhos amedrontados. Agora teria que encarar e

clarear, querendo ou não, minhas dúvidas. Passei ou não? Ainda tentei

evitar fixar meus olhos na lista ameaçadora e perigosa. Não tinha mais

jeito. Fui lendo com o coração oprimido, a respiração ofegante, suando

e quase desmaiando de terror. Passei por vários no mes, o meu nada.

Continuava minha procura, não encontrava nada. Minhas esperanças

estavam desaparecendo… um nome, mais outro, esse é conhecido,

esse não, puxa, até fulano passou, só eu não? Ab surdo! Por fim, lá

embaixo na lista, quase no fim, entre os últimos, o visualizei. Eu! Passei!

Urra! Segurei rápido e envergonhado minha ex pressão emocional

repentina, que aliviava minha angústia mas, como bom itabirano e mineiro,

saí do porão orgulhoso e de cabeça baixa, andando lenta e pausadamente,

disfarçando meu encantamento com a mudança de status.

Estava sem ar, mas aliviado. Não precisava ter vergonha de encarar a

família, que me esperava em casa, e acreditou e investiu nesse jovem

atirado e confuso. Mas havia ainda um pesadelo. “E agora José? A festa

acabou…”, onde conseguir o dinheiro para o curso e os caros livros?

Tonto como se tivesse levado uma violenta e pesada paulada na

cabeça, – como levei durante um tumultuado jogo de futebol, – caminhei

sem rumo e sem saber o que fazer, triste e alegre ao mesmo tempo.

Também, com umas notas daquelas! Que vergonha! Andei cambaleando,

bêbado, lembrei-me do dia que bebi mais do que devia, ao

ser campeão de futebol juvenil no meu bairro. Peguei uma condução,

qualquer uma servia, pois não sabia onde queria ir. Fui parar na Ave-

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nida Getúlio Vargas. Desci, caminhei mais e, automaticamente, voltei

à Faculdade de Medicina. Vi-me, desolado, passando novamente por

baixo das velhas escadas. Entrei outra vez no porão. Queria confirmar

minha colocação.

Olhei, agora mais calmo, para o quadro com a lista. Havia poucos

candidatos à volta. Estava confirmado, de fato havia passado. Era

verdade, mas não como esperava. Saí do porão decidido e, de repen te,

retornei ao que sempre havia sido, animado e corajoso. Já não era o

medroso estudante do científico. Agora sabia claramente onde queria

chegar. Subi rápido e confiante as escadas, pois sendo agora um primeiranista

de Medicina, e não mais um candidato a este curso, tinha

outros direitos: reclamar minhas notas. Liberto, convencido e encorajado

por essas ideias com o novo posto alcançado, fui até o diretor da

Faculdade de Medicina, tentando uma audiência com ele. O velho e

cansado diretor recebeu-me pronta e gentilmente. Fui di reto ao assunto:

— Examinei a lista dos aprovados. Imagino que há um erro nas notas.

Merecia uma outra, coisa melhor.

Ele olhou-me com ternura, passou suas suaves mãos sobre meus

ombros, e imediatamente deu ordens à secretária para subir minhas

notas para examiná-las. De posse delas, olhou-as uma vez, mais outra

vez, fixou seus olhos complacentes nos meus e disse-me espantado:

— Mas você foi aprovado! Não está feliz?

— Eu sei, mas vim aqui para reclamar das notas, fiz provas boas…

— Ora meu filho, vá para casa, comemore com seus amigos e família

seu sucesso…

Envergonhado com o fracasso da missão, ainda irritado com as

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notas, saí apressado da sala e voltei a caminhar pelas ruas. Só cheguei

a casa à noite. Dei a notícia à família. Penso que tinha a fisionomia tão

sem graça, desapontada e sem alegria que não produzi – ou não percebi

– entusiasmo nos familiares. Talvez eles, confiando em mim mais do

que eu próprio, não esperassem outro resultado a não ser aquele. Este

foi mais um das dezenas de outros aborrecimentos que enfrentaria na

minha vida de estudante do curso de Medicina, que ora estava iniciando.

Entretanto, como todo início, também este teve seus encantos e,

ao mesmo tempo, seus desencantos.

Vejo-me andando pelas ruas de Belo Horizonte durante o tro te, com

toda minha energia, rodeado de colegas fortes e jovens, de peles lisas e

corpos magros e esbeltos. Devido à minha magreza, fui transformado,

após uma boa dose de cachaça, em “Miss Sífilis”. Meu corpo foi enrolado

em gazes, esparadrapos e tintas diversas. Outros, mais esbeltos,

viraram lindas mulheres. Um colega esnobe fantasiou-se de palhaço, o

que lhe assentou muito bem, um outro vestiu-se de baiana desengonçada,

outro de pirata, etc. Desfilamos orgulhosa mente pela Avenida

Afonso Pena: foi nosso dia de glória e esperança em conseguir namoradas

melhores que as antigas. À noite, no DCE instalado na velha sede

da Av. Afonso Pena, o Magnífico Reitor falou para o seleto grupo de

garotos entusiasmados e ingênuos acerca do que é uma Universidade.

Ainda embriagado pela cachaça e pelas fes tas, nada assimilei do que

foi dito. Percebi, pela sua empolgação, que ele deve ter falado bonito.

Estava, sem querer, forçado a virar adulto. Como é difícil!

Ainda ouvia o tom de voz exaltado e belo das frases do Reitor, quando

fui despertado pela estridente e nada melodiosa voz de um co lega,

avisando-nos de nossa chegada à cidade onde iríamos almoçar.

Chegamos. A fome incomodava nossos organismos, mas nestes não

mais habitavam os jovens famintos de antigamente. Não mais conseguimos

sentir o prazer do sabor das laranjas do simpático e gago Tião

Laranjeiro. Naquela época, qualquer “feijão com arroz” era in gerido

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com prazer e voracidade. Hoje temos diante de nós alimentos sofisticados,

entretanto, procuramos em vão os jovens esfomeados de antes

para saboreá-los, e não os encontramos.

Na minha mente ainda morava o terrível, mas talvez bondoso para

muitos, professor de anatomia, fumando, dando sua primeira aula para

o curso médico, na sala comprida, escura e estreita. Subi à procura de

um lugar, não havia cadeiras, e sim degraus, onde me sentei, espantado

e curioso, com o “encanto do início”.

O carrancudo professor ia dar a primeira aula. Havia uma expec tativa

geral, todos estavam atentos. Diante do professor, estendido na maca

suja e enferrujada, descansava um cadáver frio, triste e magro, cheirando

a formol. Ele fora levado até ali por um servil bedel que, segundo

fiquei sabendo posteriormente, cantava os alunos mais bo nitos,

ajudando-os a escolher as melhores “peças” para estudar. Não fiz parte

dos escolhidos. Sem decodificar acuradamente o que via, confundi

o cadáver com um boneco de cera e, desse modo, almocei tranquilo

naquela tarde. Só depois fiquei sabendo que o “boneco” era um ex-

-homem, que teve antes uma vida, um nome, uma mãe, talvez pai,

alegrias e tristezas, como eu…

O barulho próprio do início das refeições atraentes despertou-me

do sonho. Fui chamado pelos colegas, que já começavam a comer o

tiragosto e a tomar vinho. Entretanto, mesmo diante do grupo, após

o efeito do primeiro gole, continuei a enxergar as aulas soníferas do

professor de Histologia e Embriologia, gordo, pequeno, pegajoso e

monótono. Durante essas aulas, dormíamos, principalmente quando as

cortinas eram fechadas para mostrar as lâminas. Um a um cada professor

foi aparecendo na minha mente.

O almoço estava sendo servido. Fui obrigado a abandonar o passado

para retornar ao presente, pois precisava comer alguma coisa. Na sala

barulhenta, com as mesas abarrotadas de iguarias, os antigos cole-

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gas comiam, contavam piadas e casos médicos. O gru po alegremente

transformava o presente no passado, na juventude perdida no tempo,

voltava aos sonhos que não mais podemos ter. Partimos no ônibus em

direção ao nosso destino. Recostado, ajudado pela leve embriaguez

ocasionada pelo vinho, avidamente regressei à faculdade…

Lá estava o cadáver estendido sobre a mesa fria, tendo na sua orelha

o número 33. Ele não tinha mais nome nem identidade, só um número.

Agora sua residência era a sala de anatomia.

Seus olhos negros embaçados, distantes, sem expressão, in crustados

no seu rosto esquelético, olhavam-me com ternura e com preensão.

Vendo-o todas as manhãs, recebendo ensinamentos dele, ficamos

amigos, ligados intimamente. Sentíamos sua falta nos fins de semana.

Sabíamos que ele estava sendo explorado, e que em troca pouco lhe

era dado, talvez respeito e agradecimento internos. Iden tificados com

ele, resolvemos batizá-lo carinhosamente com o nome de Gaspar. Assim

começávamos a descobrir, com mais clareza, os desníveis sociais, o

sofrimento de uns em benefício de outros, a gran de ajuda do indigente

para nossa aprendizagem. No salão grande, cheio de janelas altas e antigas,

estavam as outras mesas. Lá descansa vam corpos desconhecidos

de ex-homens.

Aos poucos, estava envelhecendo, vinte anos, vinte e um… Sa bia

que o tempo das brincadeiras, da irresponsabilidade estava aca bando,

faltava pouco para isso. A tristeza começava a dominar e inun dar nosso

corpo. No olhar de todos via-se o fantasma da formatura, como agora

vemos, receosos, o da velhice. Havia pressa, e ao mesmo tempo

medo, de terminar o curso. A maioria arrumou uma namorada firme

no quarto ou no quinto ano, ficava noivo no sexto e casava no primeiro

ano da profissão. Foi a essas mulheres jovens, animadas, corajosas,

belas e atraentes que a maioria dos colegas se agarrou, como crianças

apavoradas e desamparadas. Uma vez protegidos, eles tiveram forças

para enfrentar o ainda desconhecido e perigoso mun do médico. Estes

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felizardos seguiram em frente com menos temor. Os isolados, sem ninguém

para os amparar, tiveram que se apoiar nas próprias e trêmulas

pernas.

Com a proximidade da formatura, cada um procurava ganhar conhecimentos

também fora da escola: o Hospital São Vicente de Paula,

velho, com seu teto alto, frio e de grandes enfermarias, a antiga Santa

Casa, com suas paredes descascadas e comidas pelas mulheres grávidas,

anêmicas e desnutridas que lá eram internadas, o Instituto Raul

Soares, com seu laboratório de vanguarda, alguns loucos inter nados e

a maioria fora dele, o Hospital Militar e finalmente as diversas cadeiras

da escola que abrigavam alguns com mais sorte.

Eram poucas as opções. Cada um fazia o que podia para aprender.

A formatura aconteceu no dia 8 de dezembro na Secretaria de Saúde.

A tarde estava fria e chuvosa, relembrando o vestibular já quase

esquecido. A emoção, que era enorme, talvez maior do que a do vestibular,

impediu-me de memorizar o que foi discursado. Lá estavam os

ex-estudantes assentados nas desconfortáveis cadeiras colocadas no

palco, agora representando, para a plateia de amigos e familiares, o

drama dos médicos recém-formados. Tremi ao ouvir meu nome e receber

os abraços dos homenageados. Cada um no seu canto, cada um

na sua dor e solidão. Terminávamos uma jornada, o que passou, passou.

Agora caminharíamos à procura de um sonho. Até onde iríamos?

Ninguém podia saber. Quais fracassariam? Ninguém sabia, ninguém

falava: todos tinham medo. Mas, como sempre, “todo início tem seu

encanto”. Agora a vida nos pertencia, faríamos dela o que quiséssemos,

não mais seríamos julgados pelos professores. Estava novamente

enganado. Agora enfrentaríamos examinadores mais severos: o clien te

e a nossa terrível consciência. Agora nosso erro poderia ser fatal, sem

retorno, não mais teríamos a salvadora segunda época.

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