Poltrona 47 – Três... é demais? - Moa Sipriano

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Poltrona 47 – Três... é demais? - Moa Sipriano

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Sobre mim-eu-mesmo: “Moa Sipriano produz exclusivamente literatura adulta que aborda

todos os meandros do universo gay masculino. Seus artigos realistas, contos polêmicos e

romances homoeróticos remetem à reflexão e promovem momentos excitantes de

surpreendentes descobertas.”

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Poltrona 47 Três... é demais?

Moa Sipriano

2004

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Dor. Angústia. Desejo. Prazer. Um misto de sentimentos. Sensações contraditórias invadem

meus pensamentos. Quero mais. Foi como usar uma droga poderosa, viciante. Não importa. Eu

precisava viver tudo aquilo. E não me arrependo do que fiz. Faria tudo outra vez. Ou talvez não...

não sei. Estou confuso. Preciso dormir.

Os primeiros raios de sol penetram o interior do meu quarto. Estou sozinho em minha cama,

meu reinado absoluto. Respiro fundo. Fecho os olhos. Tento colocar ordem nos últimos neurônios.

Preciso contar-lhe o que ocorreu. Minhas mãos tremem entre as teclas do Powerbook. A digitação

está a passos lentos. Os acontecimentos não esperam a minha falta de rapidez na datilografia

digital. Mas o meu diário eletrônico precisa ser escrito. Talvez amanhã eu já não queira recordar

todos os detalhes. Vamos lá, digo para mim mesmo, coloque tudo para fora. Agora!

Eu estava na praia de Gobsun, a mais bela da ilha de Lovland, fotografando três Subarus

para um catálogo automobilístico. Foram dois dias de trabalho intenso.

Eu e minha equipe, composta de cinco profissionais competentes, éramos manipulados pelos

caprichos da Natureza. Ora eram os ventos que brincavam de cobrir os carros com a areia fina. Ora

eram as nuvens cobrindo a luz do sol, impedindo assim uma boa exposição das futuras fotos. Já em

outros momentos delicados, todos tinham que aguentar o meu “bom humor”. Foram inúmeras as

situações em que minha tromba arrastava-se pelas areias brancas e quentes. Compreendo que sou

excêntrico demais na arte de fotografar carros.

Na quinta-feira, último dia de trabalho, eu estava exausto. As últimas imagens saíram por

pura intuição. Lou, meu assistente direto, assumira o controle de tudo. Segui para o pequeno chalé

que nos fora alugado para aquela produção. Tomei um rápido banho. Sou neurótico quanto à minha

higiene corporal. Peguei as chaves de casa e a inseparável mochila de lona com parte dos meus

pertences.

Atravessei a rua Weiss em direção ao ponto de ônibus mais próximo. De acordo com o

caseiro do chalé onde estávamos, dentro de poucos minutos para as oito passaria um ônibus que

me levaria para o outro lado da ilha. Uma das paradas ficava a menos de vinte metros da minha

querida e confortável casa.

O rapaz tinha razão. Quatro minutos para as oito da noite surgiu o capenga veículo prateado.

Entrei, paguei minha passagem ao motorista de cara amarrada e fui sentar na já tradicional

poltrona 47. Nem prestei muita atenção nas poucas pessoas que estavam no ônibus.

Fazia um calor sufocante, fora de época. Abri não só a minha janela como também as do lado

oposto da minha poltrona. Enquanto estava em pé, reparei que havia somente alguns funcionários

devido ao uniforme cinza e azul da própria empresa do Pássaro Prateado, no interior do

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veículo.

Na metade do caminho, em uma das paradas normais, um grupo de quatro pessoas

desembarcou. Permaneceram somente eu, o motorista e mais dois empregados. Um dos rapazes

falava muito alto. Contava as desventuras de sua vida profissional. Dizia impropérios sobre alguns

colegas de trabalho. E, é claro, “metia o pau” na diretoria da empresa. Na minha privacidade eu ria

daquela situação. Ria do seu péssimo português misturado com sua língua materna, o alemão.

Durante a curta viagem, a noite se tornava cada vez mais abafada, densa. Não era possível

ver nada na estrada. Em uma das curvas o ônibus deu um tremendo tranco. Todos nós gritamos de

espanto, cada um com o seu trinado característico. O hábil motorista conseguiu encostar o veículo

na beira da estrada. O primeiro pensamento que me ocorreu foi que naquela hora, naquele trecho

da estrada quase ninguém passaria, ainda mais neste lado da ilha, uma região sem casas de

veraneio ou comércio... um pedaço praticamente deserto fora da temporada.

A porta foi aberta e os três homens foram verificar o que havia ocorrido. O cansaço impedia

os sentidos de ordenarem meu cérebro a tomar alguma atitude. Levantei-me lentamente e caminhei

para fora do ônibus. Vi os três discutindo fatos mecânicos. Uma portinhola lateral estava aberta na

bunda do possante. O motorista mexia em cabos e velas e fios. O rapaz de voz potente segurava

uma lanterna. Eu fiquei ali, tontificado, acompanhando tudo em silêncio.

Finalmente alguém notou que eu existia. Um dos empregados perguntou se eu tinha um

celular. Fiz um sinal de positivo com a cabeça e sem dizer uma só palavra voltei para dentro do

velho veículo para pegar o aparelho.

De volta à reunião de cúpula, entreguei o diminuto Motorola ao empregado. Ele me

agradeceu com um sorriso e discou rapidamente os números da Central de Apoio. O outro rapaz, o

que possuía um vozeirão, conversava com o motorista. Ambos discutiam o sexo dos anjos

mecânicos. Eu sem entender aquele dialeto de mecânica aprendido em cursos por correspondência,

permaneci em pé, recostado na lataria fria do Pássaro de Prata abatido.

“Bom, pelo jeito parece que ficaremos algumas horas esperando o resgate”, disse o rapaz que

estava com o celular, devolvendo-o para mim e novamente me presenteando com um belo sorriso,

que em nada combinava com o seu velho macacão e sua barba acumulada por três dias seguidos.

Após uns vinte minutos de discussões inúteis, finalmente os três homens resolveram aguardar o

resgate passivamente. O rapaz da potente voz tirou a camisa. Sentou-se no chão de areia e ficou

contemplando as estrelas.

Eu contemplava seu corpo. E foi difícil controlar o desejo. O motorista, um homem na faixa

dos sessenta, os cabelos prateados do mesmo tom da pintura do seu objeto de trabalho, percebeu a

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minha excitação.

“Vamos entrar. É mais seguro dentro do ônibus”, ele disse, sem convencer ninguém. Seus

olhos dissecavam meu corpo. Percebi que algo estava para acontecer.

“Vou ficar aqui mais um pouco”, disse o rapaz sem camisa. “Vocês são loucos em

permanecer dentro dessa estufa ambulante!”

Entrei e imediatamente fui para a “cozinha”. Permaneci sentado e quieto. O motorista e o

rapaz do belo sorriso conversavam em tom muito baixo, quase um sussurro. Aquela reação de

cumplicidade entre os dois estava me deixando fora de órbita. O volume cresceu entre minhas

pernas e baixos pensamentos rodopiavam em minha mente. Eu não tirava os olhos daquele

motorista. Ele retribuía o olhar, agora de maneira intensa. Ele me desejava, eu tinha certeza disso.

O tempo foi passando. Nenhuma alma sequer atravessara o nosso caminho naquela estrada

escura. Meu corpo transbordava suor. Um suor diferente. Gotas de desejo. Eu queria sexo.

Imaginava Voz Potente lá fora sem camisa. Imaginava Motorista e seu olhar penetrando todos os

orifícios do meu corpo. Mas eu não imaginava que em poucos segundos eu viveria uma

experiência nunca fantasiada nos meus delírios mais profundos.

Ele veio em minha direção. Começamos a conversar. Perguntou o que eu fazia, que região eu

morava da ilha; se eu era solteiro ou casado. A cada cinco palavras expelidas pela sua boca, meus

olhos desviavam a atenção daquela boca carnuda, moldurada por um bigode perfeitamente

aparado, e apontavam para o seu sexo, que ele fazia questão de manipular por cima da calça azul

anil do seu uniforme. Notando meu desejo agora incontrolável, ele se aproximou, quase que

encostando o membro rígido em meu rosto.

“Pegue”, ele disse. Olhei para o vão no corredor. O outro rapaz estava sentado bem à frente,

o olhar fixo em nossa direção. E também manipulava seu sexo, que estava fora do macacão. Vi os

poucos pelos do seu peito em contraste com a fartura na parte baixa do seu corpo.

“Pegue”, repetiu o motorista. “Eu sei que você gosta. Vamos, abra o zíper. Tire-o para fora”.

Ele segurou minha cabeça e com os dentes abri lentamente a porta do paraíso. Prontamente minha

boca sugou aquele membro pulsante. O homem do cabelo prateado gemia e apertava minha cabeça

de encontro ao seu corpo compacto. O suor escorria pelo meu rosto. O ar fugia dos meus pulmões.

Eu estava sufocado de tanto prazer e medo.

“Pare”, ele disse, quase que num grito sufocado. “Não quero terminar na sua boca.”

O rapaz de sorriso perfeito já estava ao nosso lado. “Faça o serviço no meu amigo aqui”,

disse num sussurro o velho homem. Obedeci e novamente meus lábios encontraram um novo

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membro mais do que rígido, implorando atenção e cuidados. Enquanto eu “fazia o serviço”

naquele empregado, as mãos habilidosas do motorista tocavam em meu sexo. E sua boca carnuda

beijava a floresta negra em meu peito.

“Fique de quatro, quero enrabar você”. Agora Sorriso Perfeito me conduzia para sentir

outros prazeres. Obedecendo cegamente, meu corpo posicionou-se à espera da penetração.

“Ora, ora, estamos em festa?”, a potente voz rasgava o interior do veículo. “Vamos comer o

viado!”, ele disse, esfregando as mãos e aguardando a sua hora de participar da “farra”, enquanto

colocava a camisa suja de graxa. Motorista segurou seu braço. “Olhe o respeito, meu caro. Só

estamos aproveitando o momento. Ninguém aqui é o que você disse”, notei o medo estampado na

face do rapaz. “Estamos combinados?”, a mão pesada segurava com mais força o pulso de Voz

Potente.

“Abra as pernas”, disse o meu Sorriso Perfeito. Ele baixou minha calça de agasalho. Senti

sua saliva lubrificar meu ânus. Percebi que Motorista, agora um verdadeiro comandante, colocava

um preservativo no membro do colega. Voz Potente permanecia em silêncio, visivelmente

extasiado com tal cena. Senti Sorriso Perfeito todo dentro de mim. Ele não poupou meu corpo,

penetrando-me de uma só vez. Vi estrelas no interior do ônibus. Não vi o tempo passar. E nem uma

única alma a trafegar pela velha estrada.

Sou um cara de sorte!

Sorriso Perfeito entrava e saía num perfeito sincronismo. Seus movimentos demonstravam

muita prática na arte do sexo. Minhas pernas estavam ficando sem ossos. Meus instintos perderam-

se na estrada. Eu só sentia prazer. O prazer de ser penetrado. O prazer de ser observado. O prazer

de ser um objeto. O prazer de ser desejado.

“Coloque minha vara na sua boca”, disse Motorista, o comandante da situação. Nem esbocei

reação, pois quando percebi minha boca já sentia novamente o gosto daquele membro perfeito. Em

sincronia, meu corpo controlava os movimentos. Prazer na frente e atrás. Boca e ânus ocupados

com os sentidos do sexo. E Voz Potente continuava em silêncio, apreciando o filme erótico que

passava bem diante do seu olhar azul opaco.

Sorriso Perfeito apertava minhas nádegas. Os movimentos tornaram-se mais rápidos e

intensos. Senti suas unhas machucarem minhas costas quando o seu gozo jorrou para dentro do

meu corpo. Eu não podia gritar de prazer, pois minha boca ora mordia, ora engolia ou sufocava-se

com o outro membro a dar fortes estocadas em minha garganta que deixou de ser virgem.

Na diferença dos segundos, enquanto Sorriso Perfeito ofegava e descansava seu corpo em

cima do meu, nossos suores se misturando num doce elixir, Motorista o agora senhor-

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comandante urrava de prazer. Tirou violentamente o membro rígido da minha boca macia,

esfolada. Vi seu líquido quente escorrendo pelo couro vermelho da poltrona do seu lado esquerdo.

“Puta que o pariu”, ele gritava, sua respiração ofegante enchia o recinto de sons sensuais.

“Que boca. Caralho. Que boca!”, Motorista sentou-se numa outra poltrona. Sorriso Perfeito saiu do

meu corpo. Tirou o látex cheio da sua essência, deu um nó na ponta e jogou o preservativo no meio

da estrada.

“Pô, cara. Não tinha outro lugar pra você jogar essa porra?”, disse Voz Potente. Um duplo

olhar dos homens que acabavam de saciar seus instintos fez com que ele voltasse à sua posição

inferior. Sorriso Perfeito fechou o macacão e foi descansar o espírito satisfeito numa das primeiras

poltronas vazias.

Motorista limpou o sexo com um lenço. Enxugou a mão e o rosto com o mesmo tecido. Eu

estava arrumando meu agasalho, quando o homem do bigode prateado disse: “Ainda não acabou,

rapaz. Venha até aqui”, ele segurou em meu braço e puxou-me em sua direção. Meu corpo caiu

sentado em seu colo e sua boca procurou a minha. E senti pela primeira vez o gosto de um

Marlboro vencido em meus lábios.

Voz Potente admirava, maravilhado, tudo ao seu redor. Notei que acariciava timidamente o

sexo. Notei que havia o desejo íntimo de “participar” daquele momento, mas ele não sabia o que

fazer. Motorista leu meus pensamentos. “Vamos rapaz, quero ver você ‘dar um trato’ em nosso

amigo tímido aqui”, ordenou o velho fumante.

“Não, eu tô fora. Prefiro ficar só olhando a sacanagem de vocês”, disse Voz Potente,

tentando nos convencer de sua falsa indignação. Mas suas palavras não refletiam seu desejo.

Troquei um olhar com o meu Motorista. Vi em seu olhar a aprovação dos meus atos futuros.

Não perdi tempo. Aproximei meu corpo de Voz Potente. Peguei em suas mãos, que estavam

úmidas e frias. Com extrema ternura e delicadeza, comecei a chupar os dedos da mão direita. Voz

Potente perdeu a ação. Minha língua percorria cada dedo, cada vão. Engoli em movimentos

delicados seu dedo indicador. Percebi que aquilo me abria o terreno. Sem perder tempo, procurei o

sexo de Voz Potente com uma das mãos. Agora seu membro estava pronto para o prazer. Deixei de

chupar os dedos. Procurei um abraço que foi prontamente retribuído. Senti as costas largas e lisas

se arrepiarem com a passagem das minhas mãos viris.

Retraí um pouco meu corpo. Afastei-me de Voz Potente. Trocamos um olhar. Desviei minha

atenção para Motorista. Ele umedecia os lábios com a língua quente. Entendi o recado. Voltei a

atenção para Voz Potente e procurei sua boca. Relutante, ele fugia das minhas investidas.

“Não vou beijar a porra da sua boc...”. Não o deixei terminar a frase. Eu era mais forte do

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que ele. E não só fisicamente. Fiz valer minha vontade. Lábios cerrados, Voz Potente percebeu que

não sairia dali sem sentir o beijo de um macho. O beijo de um homem experiente. Ele entregou os

pontos. Nossas línguas se tocaram. Foi um beijo longo, quente, profundo. Voz Potente descobria o

prazer de uma boca masculina. E entregou-se a esse prazer com muito prazer. Ele queria mais.

Retirei meus lábios dos seus. Trocamos outro olhar. E juntos observamos Motorista tocando em si

mesmo.

“Continuem, não parem vocês dois”, o velho comandante exigia em gritos sufocados.

Sentado confortavelmente na poltrona revestida de couro, ele socava uma deliciosa punheta

enquanto observava dois machos entrelaçados.

Voltei a atenção ao meu segundo objeto de desejo. Minha boca agora procurava seus

mamilos. Mordi e beijei e lambi cada um inúmeras vezes. Voz Potente urrava de prazer. Era

evidente a sua primeira vez. E os seus gritos aumentavam o meu desejo de possuí-lo cada vez

mais.

Sem palavras, minha língua percorria sua barriga. E num só movimento, pus abaixo a calça

de elástico na cintura. Procurei e encontrei seu sexo tímido. E novamente “fiz o serviço”.

Voz Potente ofegava e quase não conseguia inspirar o ar abafado do interior do velho ônibus.

Sorriso Perfeito dormia a sono solto nas poltronas dianteiras. Motorista continuava a manipular o

seu membro para cima e para baixo, extasiado com o show que estávamos lhe proporcionando.

“Fode o cu dele. Fode o cu dele com a língua!”, gritou Motorista, adivinhando aquilo que me

cega de prazer numa relação de sexo com outro homem. Virei o corpo de Voz Potente. Ele havia se

entregado aos meus cuidados. E não houve qualquer resistência de sua parte. Abri suas pernas.

Agachei-me. Senti o cheiro de graxa nos tecidos que estavam logo abaixo de mim. Senti o cheiro

de suor na peça íntima depois de um dia inteiro de trabalho. Nada disso me incomodava. Mordi

suas nádegas com certa força. Voz Potente engoliu um grito seco. Minha boca procurava seu ponto

central. E saciei todas as nossas vontades com minha língua a penetrar aquele macho arredio.

Enlouqueci. Saí de mim. A razão evaporou-se por alguns instantes. Quando ela retornou, já

não podia fazer mais nada. O meu sexo estava dentro dele. Eu cavalgava naquele homem com toda

a força do meu ser.

“Mais, filho da puta, quero mais”, Voz Potente mordia o couro da poltrona. “Não pare. Isso é

muito bom!”, havíamos perdido a noção da realidade. Entregamos nossos corpos aos braços da

Luxúria. Sexo sem proteção. Medo com razão. Conflitos em minha consciência. E meu corpo não

obedecia as ordens da alma. Continuei. Como um animal selvagem. Rasgara a dignidade de Voz

Potente. Ele queria. Eu continuava. Explodi num gozo demorado. Deixei a marca dos meus dentes

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cravada nas costas de Voz Potente. Ele chorava. De satisfação.

Retirei meu sexo ainda rígido do seu corpo. Ele voltou-se para mim e pude notar em seu

olhar um “muito obrigado pelo prazer”. Voz Potente procurou a minha boca. Outro longo beijo foi

trocado. Saliva misturada com suor. Corações em ritmo acelerado.

“Quero terminar na sua boca”, sussurrou Voz Potente em meu ouvido. Motorista somente

nos observava, diminuindo os movimentos em seu sexo vigoroso. Ele sabia que o show ia

continuar.

Voz Potente deitou-se entre duas poltronas. Sorriso Perfeito acordara e sonolento veio

cambaleando em nossa direção. Ajoelhei-me e pus-me a chupar com prazer e satisfação àquele que

há poucos minutos eu havia deflorado. Ele tinha minha essência dentro do seu corpo. Eu queria

sentir o sabor da sua essência a escorrer pela minha garganta. Direitos iguais. Questão de cega

honra.

Motorista se levantou, ficando ao lado de Sorriso Perfeito. Um tocava o sexo do outro. Teve

início uma troca de punhetas. Agora eu comandava a festa. Todos estavam sincronizados com o

meu ritmo. Voz Potente delirava. Motorista e Sorriso Perfeito pareciam estar em outro plano. Os

olhos fechados e as mãos a tocarem os sexos em perfeita harmonia.

“Eu vou gozar. Eu vou gozar. Caralho!”, urrou Voz Potente. E o seu leite invadiu minha

boca, descendo imediatamente para o meu íntimo, sem nenhuma gota a ser desperdiçada.

O membro perdia lentamente a sua rigidez. Pousei minha cabeça em uma de suas coxas

macias. Os pelos finos produziam cócegas em minhas narinas. Víamos Motorista e Sorriso Perfeito

aumentarem seus movimentos. Uma chuva quente jorrou em meu rosto e nas coxas de Voz

Potente.

* * *

O resgate chegou quarenta minutos após o término da nossa festa particular. Quando

surgiram as luzes amarelas e vermelhas do guincho mecânico, estávamos sentados no chão de

areia, na frente do Pássaro de Prata abatido, jogando uma partida de truco, à luz baixa da forte

lanterna, que havia sido colocada num arbusto próximo ao acostamento. O sonho havia acabado.

Éramos quatro homens convivendo com serenidade o nosso destino. Nem lembrávamos mais do

incidente com o velho ônibus.

Não foi possível consertar o grande Pássaro de Prata com os recursos disponíveis. O resgate

chamou um carro de apoio, que chegou surpreendentemente rápido até onde estávamos. O piá que

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dirigia um velho Ford deixou cada um de nós em suas respectivas residências. Descobri que

Motorista morava próximo de minha casa. Uma distância pouco maior que oitocentos metros

separavam nossas residências. Fui o último a ser “despachado”. Agradeci ao jovem pela carona

quando o seu carro estacionou bem em frente ao meu cuidado jardim.

“Vocês ficaram mais de três horas naquele fim de mundo apenas jogando cartas?”, disse o

mirrado rapaz com aparente espanto. “Eu detesto jogo de cartas.”

Sua voz fina demonstrava falta de maturidade. Sorri com delicadeza e abri a porta do Corcel

II todo enferrujado. “Sim, jogamos as cartas da vida”, respondi, ainda com o sorriso automático

nos lábios.

Confuso, o jovem acenou-me um “boa noite”. Vi o carro perder-se na escuridão. Entrei. Fui

direto para o chuveiro. A água escalpelante escorria pelo meu corpo. Joguei litros de sabonete

líquido com essência de erva-doce em uma das mãos. Ensaboei todo o corpo. O cheiro da limpeza

purificava minha alma.

Batidas na porta. Enrolado numa toalha branca, o corpo ainda umedecido e morno, fui

atender a visita inesperada. Tive um sobressalto ao certificar-me quem era o inusitado visitante.

“Posso entrar?”, ele disse. Meus olhos surpresos deram a devida permissão. Fechei a porta.

Deixei cair a toalha. Senti seu abraço. O cheiro de Marlboro recém tragado invadiu minhas

narinas. Sua boca procurou a minha.

“Como você encontrou minha casa?”, perguntei atônito. Ele despiu-se, espalhando a gravata

cinza, a camisa branca e a calça azul do seu uniforme pelo chão da sala. Não havia resposta. Não

era necessário usar a razão naquele momento. Os seus olhos novamente dissecavam meu corpo,

que agora estava fresco, limpo, com maior desejo de reviver os prazeres recém conquistados. Notei

novamente o mesmo olhar. Idêntico ao do primeiro encontro. Ele me desejava não para mais

alguns minutos apenas... ele me desejava para sempre, eu tinha certeza disso.

“Pegue”, ele ordenou. Não obedeci de imediato. Segurei sua mão pesada e o levei para o

chuveiro. Novos jatos de água fumegante envolviam corpos em delírio. Com as mãos repletas de

erva, cuidei do seu corpo com carinho. A espuma deslizava em seu peito; escorria pela sua barriga

sem barriga, caindo em suaves camadas pelo piso molhado.

“Chupe”, ordenei. Motorista sorriu e tomou meu sexo em suas mãos, acariciando-o

lentamente. Ajoelhou-se no piso molhado. Sua boca macia rivalizava em temperatura com o jato

de água que descia pelo chuveiro. Fechei os olhos. Deixei meu corpo viajar. Eu estava em boas

mãos.

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“Pare”, eu disse. “Não quero terminar na sua boca”, agora era a minha vez de dar as ordens.

Motorista sorriu. Fechei o chuveiro. Retiramos o excesso de água de nossos corpos. Fomos

para o meu quarto. Nos entregamos aos prazeres com a complacência da Luxúria.

Misturamos nossos corpos pelo resto da madrugada. Eu desejei aquele homem. E meu desejo

foi prontamente atendido. Mais do que eu esperava.

Tudo começou na poltrona 47. Mais uma vez. E eu sabia que não seria a última.

FIM

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