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Cantico dos Canticos

O mais maravilhoso Estudo de Canatres de Salomão

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e o Espírito Santo desceu sobre ele em forma corpórea, como uma pomba; e ouviu-se do<br />

céu esta voz: Tu és o meu Filho amado; em ti me comprazo.<br />

WELINGTON CORPORATION<br />

1


INTRODUÇÃO<br />

Soldada de Shirion – Baal–Hermom – das forças armadas israelenses<br />

Sim. Eu sei que “Sunamita” significa pacífica. E pacificadora<br />

Veja que a bela moça está calma.<br />

E pacífica.<br />

http://www.rakkav.com/song/pages/song01.htm<br />

jewish traditional music ancient song of songs BALKANEL GROUP Serbia.mp3<br />

A EXTRAORDINÁRIA<br />

WELINGTON CORPORATION<br />

Indo aonde nenhum outro mestre ou profeta jamais ousou.<br />

2


Apresenta<br />

3


Preludio<br />

Uma observação preliminar. O Cântico <strong>dos</strong> cânticos é uma canção cuja melodia para nós é<br />

desconhecida. Ele é composto com uma melodia original, por Salomão. Suzanne Haik-<br />

Vantoura é uma musicóloga que compreendeu que a bíblia massorética possuía sinais que<br />

representavam notações musicais e gestuais <strong>dos</strong> músicos e que apesar da notação<br />

massorética (sinais que representam as vogais, tonalidades, expressividade do texto do<br />

Velho Testamento em hebraico) ser do segundo século d. C, eles remotam à tradições<br />

musicais da antiguidade.<br />

https://musicofthebiblerevealed.wordpress.com/tag/suzanne-haik-vantoura/<br />

http://www.rakkav.com/song/pages/song01.htm<br />

Desde os tempos antigos os judeus têm reverenciado Cânticos como sublime. Eles<br />

compararam Provérbios para o átrio exterior do templo; Eclesiastes coma o lugar santo; e<br />

Cantares de Salomão para o Santo <strong>dos</strong> santos. (Ibid)<br />

O Estudo do Livro de Cantares possui várias escolas de interpretação.<br />

O autor deste estudo em especial toma empréstimo de estu<strong>dos</strong> linguísticos, referencias<br />

geograficas, ecológicas, históricas, sociais e culturais de Israel, sua divisão politica, reino,<br />

tribo, a identificação da família na antiguidade oriental, a literatura da antiguidade, incluindo<br />

a do Egito, como bases para sua pesquisa.<br />

Não satisfeito traça alguns paralelos com a India, onde encontramos ainda hoje vários<br />

pontos culturais que nos fazem retroceder na história até o oriente e as tradições narradas<br />

5


em Cantares. Essa é uma das ferramentas mais interessantes da caixa de ferramentas<br />

do autor. A sociedade Israelita moderna foi transformada pelo seu contato com diversas<br />

nações. Embora mantenha suas tradições, não manteve seu vestuário. Ou seus enfeites.<br />

Ou não manteve alguns <strong>dos</strong> aspectos que o casamento israelita possuía na antiguidade.<br />

Uma noiva israelita da atualidade veste-se de modo similar a uma noiva norte-americana,<br />

inglesa, francesa ou brasileira. E se algum israelita ler este estudo, e quiser ver, ao<br />

menos como se vestia em seu passado, viajando na máquina do tempo, olhe para a<br />

India. E para o Paquistão. E para o Irã.<br />

A segunda ferramenta para compreender Cantares é que ele é uma canção. E sendo<br />

um cântico compartilha da essência das artes cênicas, da dança, do canto e da musica.<br />

Em alguns momentos compreender essa característica será de grande valia.<br />

Cantares é<br />

Um poema de amor - Um cântico de amor - Um cântico espiritual<br />

Ele caminha do coração apaixonado do homem pela sua amada aos mistérios do coração<br />

de Deus e do seu tremendo amor pelo ser humano, em especial por aqueles por quem,<br />

amando, se deu, e se entregando, os tornou seus, através da Igreja a quem considera Noiva.<br />

Em terceiro lugar é importante compreender a beleza do romance de Cantares. Ele nos<br />

ensina coisas extraordinárias, e traçará paralelos maravilhosos com a dimensão<br />

espiritual das Escrituras.<br />

Em quarto lugar será usada uma ferramenta que soará estranha para a maioria <strong>dos</strong><br />

estudiosos das Escrituras.<br />

“A voz do meu amado é doce”.<br />

O cântico convida você a interpretá-lo com doçura. Sem arbitrariedades, sem certezas<br />

absolutas, sem fixar limites. A ciência bíblica usa a palavra “tipologia” para dizer que uma<br />

coisa é “símbolo” de uma realidade espiritual. Há a “alegorização”, que basicamente ver os<br />

símbolos, as representações, as símiles, as parábolas evocadas por Cantares. Vou usar em<br />

vez da palavra “tipo” a palavra “representação”. E vou deixar as imagens de Cantares<br />

evocarem imagens, recordações, reminiscências, paralelos poéticos, nas representações de<br />

Cristo, nas operações espirituais e proféticas contidas nas Escrituras, viajando no tempo,<br />

sem me limitar a história humana. Viajo para eternidade passada, caminho para a eternidade<br />

futura e no caminho passeio pelos jardins que o espírito plantou, Israel, a Igreja gentílica, a<br />

revelação concedida de Deus aos povos, raças tribos e nações. Eu uso livremente de<br />

associações de um modo que todo ser humano lê a história de sua própria existência.<br />

Relembrando. Através da reminiscência. Toda moça lembra-se do primeiro beijo. Todo<br />

filho lembra de fatos marcantes que envolveram eles e seus pais. Ver seu nome na lista de<br />

aprova<strong>dos</strong>, a festa de colação de grau daquela faculdade, o momento eletrizante em que<br />

você recebe a prova mais difícil de sua vida e descobre que tirou acima do necessário para<br />

passar. Nós associamos presentes a eventos, pergunte a sua esposa onde ela ganhou cada<br />

presente que Ela possui. Cada brinco. Cada jóia. E queria que você soubesse que se não<br />

permite que ela use enfeites você está em pecado e com certeza não irá herdar a salvação.<br />

Ao menos mereceria receber a mais longa e tediosa reprimenda espiritual dada pelo Senhor<br />

na frente de toda sua comunidade angelical. Porque você acha que o maior Cântico do<br />

Espírito Santo é justamente uma canção onde a amada é magnificamente enefeitada,<br />

ornada? Igrejas que proíbem atavios leram os dois versos de I Timóteo 2.9 e I Pedro 3.3 e<br />

6


asgaram os 177 versos de Cânticos! Violentaram os textos bíblicos, que formalizam o<br />

desejo que o cuidado com o interior deve suplantar o desejo de ornamenta-se, e nunca<br />

anulá-lo. O feminino é belo aos olhos do Espírito, que deseja ver espiritualmente esses<br />

atavios, essa ornamentação, também no coração da mulher.<br />

Com doçura é que a voz do Amado deve ser percebida em todo o contexto das Escrituras.<br />

Quando o interprete da Palavra de Deus se afasta de uma visão amorosa, liberta, plena,<br />

abundante de graça, misericórdia, compaixão e alegria, perderá sua viagem.<br />

Essa dimensão de entendimento das em Cantares significa que não “imponho” símbolos.<br />

Antes deixarei que as imagens nos conduzam até outras cenas das Escrituras, e que os<br />

textos nos relembrem realidades espirituais para nela meditarmos.<br />

O que o autor viu nos textos não limita o que cada leitor poderá enxergar ou associar.<br />

Temos aqui as limitações humanas de quem escreveu esse comentário, as suas<br />

limitações do conhecimento das Escrituras, suas limitações culturais, históricas, linguísticas<br />

e seus limites de conhecimento das realidades espirituais.<br />

Desejo dançar com a Sunamita, não forçá-la a caminhar comigo por lugares estranhos.<br />

Aconselho aos que forem ministrar aulas de Cantares basea<strong>dos</strong> neste estudo a<br />

comprarem essências de nardo, mirra, aloès, cálamo, cássia e distribuírem a multidão<br />

(com devolução das mesas e hiegienização <strong>dos</strong> frasquinhos, para apresentar a próxima<br />

turma). Não, não estou ganhando comissão para fazer essa propaganda de essências.<br />

7


Cantares usará a figura do amor humano, a menina, o pastoreio, o jardim, os irmãos, a mãe,<br />

o castelo e o muro, a tenda, até as tranças da moça adorável para contar o drama do amor<br />

de Deus manifesto na história humana, e também na história escondida, a história da<br />

eternidade e a história do grande amor, vivido por Ele, manifesto por Ele e só conhecido<br />

dele e <strong>dos</strong> seus profetas.<br />

Em Cantares Deus revela seu coração, descortina sua alma e manifesta seus sentimentos,<br />

através do tempo, não do tempo humano, mas do seu tempo, de seus dias refletindo sua<br />

eternidade.<br />

É um livro de belíssimos e de impressionantes mistérios, contado nos passos ligeiros da<br />

dançarina, da musa inspiradora que arrebata ao coração de Salomão, e nestes passos<br />

dança<strong>dos</strong> lemos um pequeno musical que conta e canta todas as histórias divinas numa só.<br />

Nós iremos dançar com a Sulamita e ela levará nosso coração a refletir sobre um amor que<br />

sublima a vida, que reinterpreta o mundo e que nos conduz a contemplação da eternidade e<br />

de uma paixão tremenda maravilhosa, manifesta diante de incontáveis testemunhas, que<br />

nos convidará a dançar com ele.<br />

Cantares é Salomão apaixonado pela moça de caráter pacifico e é igualmente o Espírito de<br />

Deus nos convidando a dançar.<br />

Para sempre.<br />

O livro de Cantares traduz um enredo, um drama, um afastamento, um reencontro. Há<br />

nele zombaria, escravidão, desprezo familiar. Há nele o inigualável contraste da pobreza da<br />

noiva que é a escolhida em relação àquele que a desposa. A uma perseguição, risco de<br />

morte iminente, sofrimento. Há nele dança, festejos, um casamento, um banquete e uma<br />

apresentação magnifica da amada à sua corte.<br />

Há nele os desfiles das mulheres de Jerusalém, o cortejo nupcial com os solda<strong>dos</strong>. Um<br />

festival de visões e de citações ecológicas e geográficas.<br />

Cantares é rico em citações:<br />

Geográficas<br />

Ecológicas<br />

Adornos<br />

Estações<br />

Especiarias<br />

Aromas<br />

Climas<br />

Temporais<br />

Sociais.<br />

Sentimentais<br />

Emocionais.<br />

Ele é rico em sensações.<br />

Ele é rico na sonoridade, nas expressões de doçura nas quais as palavras são pequenas e<br />

curtas, carinhosas como Dodi, (amado) similar aos apeli<strong>dos</strong> carinhosos que as pessoas<br />

enamoradas se dão.<br />

Ele é rico na originalidade das suas palavras, algumas que na língua hebraica somente<br />

são encontra<strong>dos</strong> neste livro. Exisem cerca de 50 harpax, cinquenta palavras únicas que só<br />

são mencionadas no livro de Cantares.<br />

8


As dimensões psicológicas de cantares são múltiplas, elas tratam do romance à sexualidade,<br />

do desejo, da atração, da entrega, da paixão, da celebração da vida, da dança, da busca pela<br />

felicidade, da relação amorosa numa dimensão superior a dimensão erótica. To<strong>dos</strong> os<br />

trabalhos que tentam redefinir Cantares com uma redução ao erotismo é invariavelmente<br />

falha. Invariavelmente incompleta. Imprecisa.<br />

A ênfase do cântico não é a mesma do Kama Sutra indiano. A voz, a tônica, o acorde<br />

magistral que ecoa do inicio ao fim de Cantares é o ROMANCE.<br />

A dimensão espiritual de Cantares é o romance elevado a perfeição de Deus, é o<br />

amor divino. Numa símile diria que o romance é o amor em trajes de festa e o amor divino<br />

é o amor em trajes de guerra.<br />

O Espírito de Deus tomará do romance de um jovem rei pela jovem que guarda as<br />

vinhas e nele, neste romance, derramará sua voz, seu cântico, seu amor profundo,<br />

tendo como pano de fundo a sua história, a história da eternidade.<br />

Livro das Escrituras, Velho Testamento. O mais belo cântico de amor escrito. Um hino<br />

que possui em sua essência duas dimensões que se entrelaçam de modo<br />

maravilhoso: a dimensão do amor divino e a dimensão do amor humano. Nele, a<br />

paixão do amado pela amada, o amor de Deus pelo seu povo. Nele, o amor do Espírito<br />

pelo ser humano, de Cristo por sua Igreja, de Deus pela humanidade, do Senhor pelo seu<br />

povo, do príncipe pela pastora, do rei pela Sunamita.<br />

Cada pedaço, cada trecho do livro <strong>dos</strong> cânticos é repleto de imagens e abundante de figuras<br />

que entrelaçam o sacerdócio à terra, a ecologia ao amor, o clima às eras; O livro é repleto<br />

de sentimentos e de sensações. Ele retrata a dança, instrumentos. Em Cantares a amada<br />

dança. Ele evoca cheiros, nos fala de odores, fragrâncias, perfumes, especiarias! Evoca<br />

cores, árvores, plantas, pássaros, animais e a natureza em todas as suas estações, primavera,<br />

inverno, verão, outono. As suas palavras possuem ritmo, expressões de sonoridade e<br />

métrica, a natureza do livro é a de uma composição musical, de uma poesia cantada, uma<br />

canção, um cântico.<br />

As suas palavras possuem imagens sonoras que expressam ora doçura, ora raiva, ora<br />

frustração, ora júbilo, na língua original. E é magistral em todas as línguas, qualquer<br />

tradução, é encantadora.<br />

O Cântico <strong>dos</strong> Cânticos santifica a paixão entre o homem e a mulher, é uma<br />

declaração profética, sacerdotal, da beleza deste amor. É a mais importante<br />

declaração religiosa sobre o caráter do amor conjugal. Se lido, se amado, se exercido,<br />

traria uma qualidade conjugal maravilhosa para to<strong>dos</strong> os casais em todas as culturas do<br />

mundo. Todo posicionamento filosófico, doutrinário ou religioso que contradiga o<br />

cântico <strong>dos</strong> cânticos é um ato contra a liberdade do amor promulgada por Ele.<br />

Ele é a constituição universal e soberana da paixão, na dimensão humana.<br />

Contudo, não existe somente uma dimensão em Cânticos, ele é uma dádiva humana, e é<br />

um canto de amor do Espirito de Deus, pela humanidade, por Israel, pela Igreja. Por isso<br />

nele existe uma leitura profética tão impactante quanto há em Salmos. Ele é tão cheio de<br />

imagens espirituais quanto os Evangelhos ou o Apocalipse. É uma história de amor que<br />

transita entre dois universos, entre duas realidades. Nos olhos do rei que apaixonado pede<br />

para que sua amada desvie seus olhos <strong>dos</strong> dele porque seu olhar o faz desvanecer,<br />

enrubescer, envergonhar-se lemos a belíssima história de amor que retrata de modo<br />

9


singular o descompasso de muitos corações. Dos nossos, <strong>dos</strong> personagens, de to<strong>dos</strong> os que<br />

se apaixonarem e de Deus. Um filme Indiano contado pelo mais sábio ser humano que<br />

viveu na terra, num dia apaixonado, de modo apaixonante, repleto de inspiração divina.<br />

Para compreendê-lo é importante conhecer antes alguns capítulos e de textos do Velho<br />

Testamento, lugares, paisagens, acontecimentos.<br />

Cantares possui 117 versos onde há um número surpreendente de palavras raras, palavras<br />

que ocorrem apenas no Cântico <strong>dos</strong> Cânticos, muitos só uma vez lá, ou que ocorrem<br />

pouquíssimas vezes em todo o resto do corpo do Antigo Testamento. Nele há cerca de 470<br />

palavras diferentes. E destas 470 palavras, cerca de 50 destes são “harpax legomena”. Esse<br />

termo místico significa que na língua hebraica só ocorrem em Cantares. O resultado é que<br />

muitas vezes há incerteza quanto ao exato significado destes termos e seu correto uso nas<br />

frases.<br />

“Como oleo purificado, como unguento derramado”- Cânticos utiliza como principal<br />

figura a comparação, a símile. As similes são facilemente identificáveis pela precedencia de<br />

“como” ou “semelhante”. Como as usadas nos versos: Semmelhante é usada 9 vezes -<br />

Cantares 5:6, 8, 11, 15; 6:4, 10, 13; 8:6, 10. “como” é usado 47X em 36 versos - Cantares<br />

1:3, 5, 7, 9, 15; 2:2, 3, 9, 17; 3:6; 4:1, 2, 3, 4, 5, 11; 5:11, 12, 13, 15; 6:5, 6, 7, 10; 7:1, 2, 3, 4,<br />

5, 7, 8, 9; 8:1, 6, 10, 14. Questione ao Espírito de Deus sobre a profundidade para<br />

compreender a profundidade destas comparações.<br />

A palavra hebraica para "Águia" é nesher; nun, shin, reish. As duas letras finais de nesher<br />

podemos dizer shar, que significa "canção". Em Hebraico, “cântico”, que inclui poesia,<br />

é chamado shir, como representado pelas letras hebraicas shin e reish de nesher<br />

(Jesus na Ecologia de Israel – Nivalda Gueiros Leitão)<br />

- Salomão, Shulamit - Sulamita, Shalom - paz, Ierushalaim - Jerusalém. Trata-se inclusive de<br />

uma ênfase à letra _ (shin) do hebraico e que é a 21ª letra do alfabeto - a letra que tem a forma<br />

do candelabro do Tabernáculo.<br />

A sibilação das palavras transmitidas pelo shin, Sholomoh, Shulamit, Shalom, Ierushlaim põe<br />

em evidência o desejo do autor, caprichoso em seus mínimos detalhes. Ierushalaim significa<br />

herança eterna de paz (Ierushaolam). E essa sibilação é como que um som trazido pelo sopro<br />

do Espírito Santo de Deus, como que a dizer:<br />

- Paz, paz, paz.<br />

O cântico retrata um grande amor vivido por um homem gerado por uma tragédia (o<br />

assassinato de Urias), fruto de uma paixão insana (vivido por Davi), tendo vivido em meio<br />

a uma família marcada por um incesto (Amon e Tamar) e tendo se tornado o mais<br />

10


poderoso e rico homem que a terra presenciou. E que, apesar de tudo isso, apaixonou-se<br />

por uma aldeã, por uma plebeia, por uma jovem comum, que correspondeu a esse amor<br />

louco!<br />

E enfrentando as tradições, as diferenças sociais, de ambos, conseguindo por fim desposála.<br />

E nesse amor Deus enxerga a sua própria odisseia, o seu próprio amor, e o seu<br />

apaixonado coração.<br />

A feliz unidade revelada em Cantares é inconcebível à parte do Espírito Santo.<br />

Um jogo de palavras, baseado no “sopro” divino do fôlego da vida (o Espírito Santo) de<br />

Gênesis 2.7 parece vir à tona em Cantares. Isso acontece em “antes que refresque o dia”<br />

(2.17; 4.6), no “soprar” do vento no jardim da Sulamita (4.16) e, surpreendentemente, na<br />

fragrância da respiração e do fruto da macieira (7.8).<br />

11


A Sublimidade De Cantares<br />

As Escrituras possuem outros Cânticos, nomea<strong>dos</strong> assim, compostos assim, to<strong>dos</strong> com<br />

estupendo e notório caráter profético. Essa lista não é exaustiva:<br />

Êxodo 15:1<br />

ENTÃO cantou Moisés e os filhos de Israel este cântico ao Senhor, e falaram,<br />

dizendo: Cantarei ao Senhor, porque gloriosamente triunfou; lançou no mar o<br />

cavalo e o seu cavaleiro.<br />

Êxodo 15:2<br />

O Senhor é a minha força, e o meu cântico; ele me foi por salvação; este é o meu<br />

Deus, portanto lhe farei uma habitação; ele é o Deus de meu pai, por isso o<br />

exaltarei.<br />

Números 21:17<br />

Então Israel cantou este cântico: Brota, ó poço! Cantai dele:<br />

Deuteronômio 31:19<br />

Agora, pois, escrevei-vos este cântico, e ensinai-o aos filhos de Israel; ponde-o na<br />

sua boca, para que este cântico me seja por testemunha contra os filhos de Israel.<br />

Juízes 5:12<br />

Desperta, desperta, Débora, desperta, desperta, entoa um cântico; levanta-te,<br />

Baraque, e leva presos os teus cativos, tu, filho de Abinoão.<br />

2 Samuel 22:1<br />

E FALOU Davi ao Senhor as palavras deste cântico, no dia em que o Senhor o<br />

livrou das mãos de to<strong>dos</strong> os seus inimigos e das mãos de Saul.<br />

Salmos 33:3<br />

Cantai-lhe um cântico novo; tocai bem e com júbilo.<br />

Salmos 40:3<br />

E pôs um novo cântico na minha boca, um hino ao nosso Deus; muitos o verão, e<br />

temerão, e confiarão no Senhor.<br />

Salmos 69:12<br />

Aqueles que se assentam à porta falam contra mim; e fui o cântico <strong>dos</strong> bebedores<br />

de bebida forte.<br />

Salmos 69:30<br />

Louvarei o nome de Deus com um cântico, e engrandecê-lo-ei com ação de graças.<br />

Salmos 77:6<br />

De noite chamei à lembrança o meu cântico; meditei em meu coração, e o meu<br />

espírito esquadrinhou.<br />

Salmos 96:1<br />

CANTAI ao Senhor um cântico novo, cantai ao Senhor toda a terra.<br />

Salmos 98:1<br />

CANTAI ao Senhor um cântico novo, porque fez maravilhas; a sua destra e o seu<br />

braço santo lhe alcançaram a salvação.<br />

Salmos 118:14<br />

O Senhor é a minha força e o meu cântico; e se fez a minha salvação.<br />

Salmos 126:2<br />

Então a nossa boca se encheu de riso e a nossa língua de cântico; então se dizia<br />

entre os gentios: Grandes coisas fez o Senhor a estes.<br />

Salmos 144:9<br />

A ti, ó Deus, cantarei um cântico novo; com o saltério e instrumento de dez cordas<br />

te cantarei louvores;<br />

Salmos 149:1<br />

12


LOUVAI ao Senhor. Cantai ao Senhor um cântico novo, e o seu louvor na<br />

congregação <strong>dos</strong> santos.<br />

Cantares 1:1<br />

CÂNTICO <strong>dos</strong> cânticos, que é de Salomão.<br />

Isaías 5:1<br />

AGORA cantarei ao meu amado o cântico do meu querido a respeito da sua vinha.<br />

O meu amado tem uma vinha num outeiro fértil.<br />

Isaías 12:2<br />

Eis que Deus é a minha salvação; nele confiarei, e não temerei, porque o Senhor<br />

Deus é a minha força e o meu cântico, e se tornou a minha salvação.<br />

Isaías 25:5<br />

Como o calor em lugar seco, assim abaterás o ímpeto <strong>dos</strong> estranhos; como se<br />

abranda o calor pela sombra da espessa nuvem, assim o cântico <strong>dos</strong> tiranos será<br />

humilhado.<br />

Isaías 26:1<br />

NAQUELE dia se entoará este cântico na terra de Judá: Temos uma cidade forte, a<br />

que Deus pôs a salvação por muros e antemuros.<br />

Isaías 30:29<br />

Um cântico haverá entre vós, como na noite em que se celebra uma festa santa; e<br />

alegria de coração, como a daquele que vai com flauta, para entrar no monte do<br />

Senhor, à Rocha de Israel.<br />

Isaías 42:10<br />

Cantai ao Senhor um cântico novo, e o seu louvor desde a extremidade da terra;<br />

vós os que navegais pelo mar, e tudo quanto há nele; vós, ilhas, e seus habitantes.<br />

Isaías 54:1<br />

CANTA alegremente, ó estéril, que não deste à luz; rompe em cântico, e exclama<br />

com alegria, tu que não tiveste dores de parto; porque mais são os filhos da mulher<br />

solitária, do que os filhos da casada, diz o Senhor.<br />

Isaías 55:12<br />

Porque com alegria saireis, e em paz sereis guia<strong>dos</strong>; os montes e os outeiros<br />

romperão em cântico diante de vós, e todas as árvores do campo baterão palmas.<br />

Apocalipse 5:9<br />

E cantavam um novo cântico, dizendo: Digno és de tomar o livro, e de abrir os<br />

seus selos; porque foste morto, e com o teu sangue compraste para Deus homens<br />

de toda a tribo, e língua, e povo, e nação;<br />

Apocalipse 14:3<br />

E cantavam um como cântico novo diante do trono, e diante <strong>dos</strong> quatro animais e<br />

<strong>dos</strong> anciãos; e ninguém podia aprender aquele cântico, senão os cento e quarenta e<br />

quatro mil que foram compra<strong>dos</strong> da terra.<br />

Apocalipse 15:3<br />

E cantavam o cântico de Moisés, servo de Deus, e o cântico do Cordeiro, dizendo:<br />

Grandes e maravilhosas são as tuas obras, Senhor Deus Todo-Poderoso! Justos e<br />

verdadeiros são os teus caminhos, ó Rei <strong>dos</strong> santos.<br />

Mas somente um é chamado de Cântico <strong>dos</strong> cânticos.<br />

13


FORMOSA<br />

Formosa - Yapheh - (yapheh) é um adjetivo que significa beleza, usado para descrever a<br />

beleza das mulheres (Gênesis 12:11, 14, 2Sa 13:01, Esther 2:7). E boa aparência ou belos<br />

homens (2Sa 14:25). usos estão em Cantares de Salomão) - Gen 1:11, 14; 29:17; 39:6; 41:2,<br />

4, 18; Dt 21:11; 1 Sa 16:12; 17:42; 25:3; 2Sa 13:1; 14:25, 27; 1Rs 1:3, 4; Ester 2:7; Jó 42:15;<br />

Ps 48:2; Pr 11:22; Eclesiastes 3:11; 5:18; <strong>Cantico</strong>s 1:8, 15, 16; 2:10, 13; 4:1, 7; 5:9; 6:1, 4, 10;<br />

Jer 11:16; Ez 31:3, 9; 33:32; Amós 8:13.<br />

Ele fez tudo formoso no seu tempo.<br />

Ele também pôs a eternidade no coração deles, mas para que o homem não vai descobrir a<br />

obra que Deus fez desde o princípio até o fim. (Eclesiastes 3:11).<br />

Há uma misteriosa conexão entre a palavra “formosura”, “tempo” e “eternidade” nas<br />

Escrituras. Salomão associará anos mais tarde, quando já um ancião a palavra formoso com<br />

o tempo. A expressão “formoso em seu tempo” evoca a mocidade, a beleza da juventude,<br />

a beleza da criança, ao instante em que a mulher atinge o apogeu de sua beleza, o instante<br />

em que o homem atinge o apogeu de sua força, virtudes que serão afetadas pelo processo<br />

do envelhecimento natural. Percebemos a transitoriedade da vida, e sabemos que tais<br />

momentos são passageiros, ainda que venham a durar anos ou mesmo dezenas de anos,<br />

Não se mantém. Não é eterno. Porém o texto nos surpreende. Ele associa-se com o<br />

conceito de “eternidade”, implantada no coração humano. Uma vocação para não querer<br />

envelhecer, não desejar morrer, antes manter a saúde, a beleza, a virilidade, para todo o<br />

sempre. Há um sonho no espírito humano. Uma das engrenagens mestras que movem a<br />

ciência é a manutenção da eterna juventude e a busca da imortalidade humana. Milhares de<br />

pessoas hoje buscam camaras criogencias para manutenção de seus corpos após a morte na<br />

esperança de um dia ressuscitarem e serem restauradas.<br />

14


A revelação contida em Eclesiastes vai além da percepção do desejo de imortalidade<br />

humana. Diz que a ETERNIDADE foi colocada no espírito humano. Que de algum modo<br />

o ser humano entende que nele habita um espírito que não cessa com a morte física. Que<br />

há algo que aponta para a existência de um universo no qual a morte não possui domínio.<br />

Que há uma dimensão que não é afetada pelo tempo. Em sua alma ecoa a dimensão<br />

angelical, em sonhos, em percepções, em inspirações momentâneas ele sente, ele é tocado<br />

pelos poderes espirituais ao seu redor. Dom Richardson nos concederá uma maravilhosa<br />

visão sobre a profundidade do testemunho divino, e tremendas revelações sobre sua pessoa<br />

concedida aos povos, raças, tribos e nações, preparando-as para conhecerem a Cristo, seu<br />

amor, e seu projeto.<br />

Fator Melquisedeque<br />

https://drive.google.com/file/d/0B_fUj9Htg3KaYTVpVGhzcjM2dHM/edit?usp=sharing<br />

Há uma razão para que a eternidade tenha sido implantada na esfera humana. Porque no<br />

Projeto divino há um convite, um chamado, um desejo COMPARTILHADO. Do mesmo<br />

modo que o espírito humano anseia viver eternamente, o Espírito de Deus anseia que o ser<br />

humano seja purificado, seja limpo, seja curado, seja transformado, para receber o<br />

DIREITO a participar de sua ETERNIDADE. Deus deseja intimamente que “formoso ao<br />

seu tempo” seja mudado para “formoso eternamente”.<br />

15


A HISTÓRIA DE SALOMÃO<br />

Há uma tremenda diferença entre Davi e Salomão. Porém, dezenas de similaridades.<br />

Salomão herdou do pai a musicalidade e a inspiração. Um poeta por excelência, um luthier,<br />

um estadista, um cantor e instrumentista. Não está declarado, mas quem escreveu este<br />

estudo é um musico. E nós músicos reconhecemos músicos com certa facilidade. Salomão<br />

fabrica instrumentos únicos e é autor de milhares de canções. Tinha um pai que organizou<br />

a primeira orquestra de Israel. Viveu sua infancia16 e adolescência ouvindo as dezenas de<br />

melodias inpiradas da boca do maior menestrel, do maior cantor, musico e compositor de<br />

Israel. A facilidade que Salomão possui de compor cânticos, sua proximidade com Davi e<br />

mesmo com o Templo, sua vida próximo <strong>dos</strong> maiores mestres de musica de sua era, Hemã,<br />

Asafe e Jedutum, sua capacidade na escolha de uma madeira especialíssima para confecção<br />

de instrumentos que originariam um dia os violões, guitarras, alaúdes e seus parentes nos<br />

indicam com “maestria” o grau de musicalidade de Salomão. E nos conduzem a reconhecêlo<br />

como exímio cantor. Até porque a moça de Cantares reconhece a beleza e suavidade de<br />

sua voz.<br />

...e eis a voz do meu amado que está batendo: abre-me, minha irmã, meu amor, pomba<br />

minha, imaculada minha, porque a minha cabeça está cheia de orvalho, os meus cabelos das<br />

gotas da noite...<br />

Salomão escreveu cerca de 1005 cânticos. (I Reis 4.32,33) mas, somente um destes foi<br />

preservado. Sendo Salomão seu autor, o livro foi provavelmente escrito depois de ele<br />

tornar-se rei, ter adquirido muitas carruagens do Egito e ter ampliado suas vinhas até o vale<br />

de Jezreel. O rabino Akiba (135 d.C.) afirmou que este era o mais sagrado <strong>dos</strong> Livros<br />

Sagra<strong>dos</strong> de Israel. Foi considerado sagrado por sua alegoria do relacionamento amoroso<br />

entre Israel e o Senhor da Aliança. Como tal, era lido anualmente pela nação por ocasião da<br />

Festa da Páscoa.<br />

Esse Cântico de Amor, porém, foi também apreciado e julgado sagrado por Israel devido à<br />

sua descrição áurea do amor conjugal. Este livro eleva o relacionamento entre esposo e<br />

esposa a um alto plano de dever sagrado e experiência espiritual, cumprindo a ordem divina<br />

da intimidade conjugal de Gênesis 2.24. Enfatiza também a importância de adiar tal<br />

intimidade, “nem desperteis o amor” (8.4), até o momento propício, que é simbolizado no<br />

Casamento.<br />

A grande diferença entre Salomão e seu pai é que Salomão manejava com maestria<br />

um alaúde, mas não a espada. Salomão não guerreou como seu pai, não esteve em<br />

batalhas sangrentas, não viveu sob o toldo das estrelas junto a batalhões de mercenários,<br />

em lutas dramáticas e sobrevivendo a custa de livramentos espetaculares. Davi havia<br />

participado de batalhas até não ter mais condições físicas de restar num campo de combate.<br />

Um guerreiro por excelência. Salomão não possui tais capacidades, não era um guerreiro<br />

porque as lutas de seu amado pai haviam lhe proporcionado uma dádiva única. A paz. Davi<br />

vencera to<strong>dos</strong> os inimigos. Israel pela primeira, única e ultima veza em toda sua história<br />

milenar gozava de paz, ainda que por submissão através da força com algumas nações, com<br />

to<strong>dos</strong> os seus vizinhos.<br />

Salomão significa pacifico. Ele é filho do maior rei de Israel, filho de Davi. Seu pai era<br />

poeta, um profeta e um grande musico. Sua mãe é Betseba, a maior paixão da vida de seu<br />

pai e também a fonte de seu maior pecado. Davi a conheceu muito jovem, desposada de<br />

um de seus mais valorosos guerreiros. A história do Rei Arthur e de Lancelot é a resposta<br />

literária para a tragédia que envolve o episódio com Betseba. Em dias de guerra quando seu<br />

16


esposo estava lutando as guerras de Israel Betseba foi com suas servas banhar-se num<br />

riacho próximo ao palácio do rei e ele ao vê-la banhar-se, contemplando sua extrema<br />

formosura, a deseja. Informa-se com seus servos sobre quem é a moça que se banhou ao<br />

lado de seu castelo e descobre que ela é esposa de um de seus mais valentes e nobres<br />

solda<strong>dos</strong>. E que pertencia a sua guarda pessoal conhecida como “os valentes de Davi”.<br />

Movido pelo desejo ele a convida para jantar com ele no palácio. A moça se sente honrada<br />

e certamente Davi utilizou-se de to<strong>dos</strong> os seus recursos para seduzi-la. E conseguiu.<br />

Mesmo casada ela consente em ter uma noite com o rei e depois volta para casa. Porém<br />

nessa única experiência extra-conjulgal fica grávida e manda avisar ao rei. Após vários<br />

planos de tentar encobrir sua culpa não funcionar, incluindo embebedar ao esposo de sua<br />

amante grávida, Davi querendo evitar a vergonha do acontecimento e a exposição da<br />

situação embaraçosa ao publico decide colocar um sórdido plano em ação na qual faz o<br />

marido de Betseba ir para a mais perigosa frente de batalha tendo em mãos uma carta na<br />

qual havia, sem que soubesse disso, sua própria sentença de morte. Na carta que Urias<br />

carregou para o general à frentes de uma longa batalha para tomada de uma cidade estavam<br />

ordens para que o infeliz soldado fosse conduzido a pior frente de batalha e em algum<br />

momento, abandonado pelos companheiros. Assim cumpre a ordem imoral, sem<br />

pestanejar, o general Joabe. E Urias morre naquela mesma noite. O rei é avisado da morte<br />

de Urias e envia servos para avisar a Betseba do triste fim de seu esposo. Dias após ele<br />

manda recolher a belíssima moça viúva em seu palácio. Sendo considerado um nobre por<br />

to<strong>dos</strong> os seus contemporâneos, ainda mais pelo fato de aceitar a esposa grávida – de outro<br />

homem - pois de nada desconfiavam, senão Joabe, que tudo sabia. Porém enquanto<br />

representava seu sórdido papel o Espírito de Deus revelou toda a trama ao profeta do reino<br />

de Davi. A criança que iria nascer desta união ilegal, morre. Porém meses depois nasceria<br />

uma segunda criança. Essa criança é Salomão a quem Davi chamou de PAZ. Porque agora<br />

entendia que poderia sentir a paz que a culpa de suas ações torpes haviam dele retirado.<br />

Muitos dramas viveria Davi em virtude desta paixão seguida da morte de um amigo.<br />

Incluindo o drama de sua filha Tamar, possuída por um de seus filhos, Amon. Tamar foi<br />

vingada através de um filho de outra esposa de Davi, Absalão e Absalão morreria nas mãos<br />

do mesmo general que um dia recebeu a carta que enviou para Urias para a morte, em<br />

virtude de um motim que terminou em tragédia.<br />

Porém seu arrependimento e sua conduta futura mostraram ser ele um <strong>dos</strong> mais singulares<br />

homens que já viveu sobre a terra. Deus o chama de “meu amado”. Suas canções de<br />

louvor e adoração eram tão cheias do espírito de Deus que ainda podemos nelas ler<br />

profecias que um dia se cumprirão sobre a terra. Mil anos antes da crucificação leremos no<br />

salmo 22 a exata reconstrução da cena do calvário. Davi envelheceu e deixou o reino para<br />

seu filho Salomão. Salomão teve um passado conturbado. E sob a sombra de um futuro<br />

incerto Salomão recebeu por intermédio de um sonho uma dádiva que transformaria toda<br />

sua vida. O Espírito de Deus se manifesta num sonho e pergunta-lhe o que gostaria de ter.<br />

E ele responde:<br />

- Capacidade de discernir entre o certo e o errado. Sabedoria para poder julgar com justiça<br />

as causas de meu povo.<br />

E Deus lhe concedeu o que solicitou. E num patamar que nós desconhecemos. Temos<br />

uma vaga noção de seu discernimento através de Eclesiastes e do livro de Provérbios e de<br />

sua capacidade de julgar os corações humanos restou-nos uma única decisão jurídica, que é,<br />

para to<strong>dos</strong> que leem uma das mais inteligentes e justas decisões que a história nos legou.<br />

Quase imprescindível em cursos de Direito deixar de mencionar a cena das prostitutas e da<br />

espada.<br />

Salomão Foi um grande administrador, sua riqueza narrada nas Escrituras é para nós quase<br />

que mítica.<br />

17


Um pouco antes da morte de seu pai, quando já envelhecido, é dito que Davi sente muito<br />

frio num dramático inverno em Israel. Os conselheiros solicitam a vinda de uma jovem<br />

para aquecer ao rei. Uma moça da região de Sunem, Abisaque, é conduzida até o palácio e<br />

sua única missão é dormir ao lado do rei para aquecê-lo, e assim ela o faz até os últimos<br />

dias daquele inverno, no qual Davi falecerá. Ela é conhecida pelo povoado de onde viera, é<br />

Sunamita. Suném estava localizada em uma elevação de terras a cinco quilômetros ao norte<br />

do vale de Jezreel. Sunen é conhecida como a atual Sulan,<br />

סּולַם.‏ Hebrew: ; سول م (Arabic: Shulen Sulam<br />

18


Sobre Sunamita<br />

As duas pronunciam são possíveis, Sunamita ou Sulamita. Porque podemos pronunciar<br />

Sunem ou Sulen. A cidade atualmente é chamada de Sulan. Sulamita é mais próxima a<br />

pronuncia do nome do rei Salomão. Neste estudo optou-se por chamála a maior parte do<br />

tempo de Sunamita.<br />

Importante observar que Jerusalém possui “salém” muito próxima a “sulem/sunem”<br />

escreve-se do mesmo modo. Yerou – Cidade – Salém – da paz. Salém é um modo<br />

carinhoso de chamar Jerusalém.<br />

Sulan/Sunem fazia parte da porção de terra dada aos descendentes de Issacar, de frente ao<br />

monte Gilboa onde o rei Saul realizou sua última batalha e onde morreram também seus<br />

filhos. Era Rodeada por cactos e pomares, logo a sua frente estava o monte Carmelo, onde<br />

um dia o profeta Elias lutaria com quatrocentos profetas de Baal. É parte da região que<br />

será chamada um dia de Galiléia. Sunem é a cidade onde, quatrocentos anos após a<br />

composição de Cantares, uma moça infértil terá um filho que morrerá e ressuscitará pelo<br />

ministério do profeta Eliseu. Bem próximo ao sul, podia se ver o caminho inclinado que<br />

levava ao monte Gilboa. A Sunamita vem de uma cidade que ao norte possui o vale de<br />

Jezreel, ao sul ao monte Gilboa. Cada pedaço da geografia da terra santa é coberto de<br />

significa<strong>dos</strong>. Um dia esse vale, o qual era uma propriedade agrícola na época de Salomão,<br />

será o palco da maior batalha feita pelo ser humano, profetizada por João em Apocalipse, a<br />

batalha de Ar-magedom. Ou Batalha do monte Megido, em referencia ao monte que fica no<br />

meio do vale de Jezrel. Nesse vale Jesus caminhará um dia e enfrentará os exércitos do<br />

mundo que se reunirão para destruir a Israel, segundo a profecia dada em Apocalipse.<br />

19


Sunem em 1914<br />

A Sunamita neste momento do cântico não evoca tantas realidades. Ainda. Mas é<br />

importante ver o futuro para compreender o caráter profético do Cântico.<br />

400 anos após:<br />

A cena da ressurreição do filho da Sunamita do futuro:<br />

"Sucedeu também um dia que, indo Eliseu a Suném, havia ali uma mulher importante, a<br />

qual o reteve para comer pão; e sucedeu que todas as vezes que passava por ali entrava para<br />

comer pão." 2 Reis 4:8<br />

"E ela disse a seu marido: Eis que tenho observado que este que sempre passa por nós é<br />

um santo homem de Deus." 2 Reis 4:9<br />

20


"Façamos-lhe, pois, um pequeno quarto junto ao muro, e ali lhe ponhamos uma cama, uma<br />

mesa, uma cadeira e um candeeiro; e há de ser que, vindo ele a nós, para ali se recolherá." 2<br />

Reis 4:10<br />

"Haverá alguma coisa de que se fale por ti ao rei, ou ao capitão do exército? E disse ela: Eu<br />

habito no meio do meu povo." 2 Reis 4:13<br />

"E concebeu a mulher, e deu à luz um filho, no tempo determinado, no ano seguinte,<br />

segundo Eliseu lhe dissera." 2 Reis 4:17<br />

"E, crescendo o filho, sucedeu que um dia saiu para ter com seu pai, que estava com os<br />

segadores, E disse a seu pai: Ai, a minha cabeça! Ai, a minha cabeça! Então disse a um<br />

moço: Leva-o à sua mãe." 2 Reis 4:18-19<br />

"Chegando ela, pois, ao homem de Deus, ao monte, pegou nos seus pés; mas chegou Geazi<br />

para retirá-la; disse porém o homem de Deus: Deixa-a, porque a sua alma está triste de<br />

amargura, e o SENHOR me encobriu, e não me manifestou." 2 Reis 4:27<br />

Retornado a época do Cântico:<br />

A beleza dessa moradora de Sunem devia ser impressionante. A moça passa a habitar o<br />

palácio agora pertencente a Salomão. Tão impactante é sua formosura ou talvez por<br />

motivos políticos, um <strong>dos</strong> irmãos de Salomão, Adonias, que havia pretendido ser o rei após<br />

a morte de Davi, solicita a Salomão que lhe envie a moça. Salomão Já tinha recebido ordens<br />

expressas de Davi para lidar com as artimanhas de Adonias. E por considerar a moça quase<br />

como “esposa” de seu pai, Salomão ultrajado nega-se a envia-la e ainda o condena com<br />

dura punição. Talvez Adonias quisesse maltratar da moça, e Salomão interpretou que ao<br />

envia-la estaria na verdade condenando-a a prisão, desterro ou mesmo a morte.<br />

Salomão praticaria durante sua vida a prática de unirem-se as famílias <strong>dos</strong> reis através de<br />

casamentos. Tornando-se parente <strong>dos</strong> soberanos, evitaria a guerra. Mas essa união se dava<br />

através de seu casamento com as filhas <strong>dos</strong> vizires, <strong>dos</strong> nobres e governantes de diversos<br />

povos.<br />

Quando Salomão escreve os Cânticos numa de suas linhas ele diz:<br />

“Sessenta são as rainhas, e oitenta as concubinas, e as virgens sem número”<br />

21


Isso coloca o tempo da Autoria de Cantares em sua Juventude, nos primeiros anos de seu<br />

reinado. Porque ao fim de seu reinado de mais de quarenta anos, Salomão terá acumulado<br />

cerca de 1000 mulheres!<br />

I Reis 11<br />

O rei Salomão casou com muitas mulheres estrangeiras, além da princesa egípcia. Muitas<br />

delas vieram de nações onde se adoravam ídolos — Moabe, Amom, Edom, Sidom e <strong>dos</strong><br />

heteus — 2 apesar do Senhor ter dado instruções expressas ao seu povo para que não<br />

casasse com pessoas dessas nações, porque as mulheres com quem eles casassem haviam<br />

de os levar adorar os seus deuses. Apesar disso, Salomão deixou-se levar pelo amor por<br />

essas mulheres. 3/4 Teve setecentas mulheres e trezentas concubinas; elas foram, sem<br />

dúvida, responsáveis por ele ter desviado o seu coração do Senhor, especialmente no<br />

tempo já da sua velhice. Encorajaram-no a adorar os seus deuses em lugar de confiar<br />

inteiramente no Senhor, como fazia seu pai David. 5 Salomão prestou culto a Asterote,<br />

deusa <strong>dos</strong> sidónios, e a Milcom, o abominável deus <strong>dos</strong> amonitas.<br />

E em troca do ganho politico Salomão teve que construir uma “cidadela” para abrigar suas<br />

esposas e concubinas. E de seu relacionamento com essas mulheres, podemos imaginar as<br />

intrigas palacianas, os festivais, as grandes comemorações, as danças, e a necessidade de<br />

aceitar a religiosidade, as culturas e as tradições destas mulheres. Elas não poderiam viver<br />

da “intimidade” com o rei, não poderiam desfrutar sequer de sua presença a sós, na maioria<br />

do tempo. Então elas tinham direito a tudo que pudesse tornar sua vida mais confortável.<br />

Mas ao curvar-se diante de tantos caprichos de tantas princesas Salomão praticou atos<br />

contrários a sua fé. Algumas das religiões apresentadas introduziam práticas abominadas<br />

por Deus. Incluindo sacrifícios de animais impuros, ritos de sangue, bebidas alucinógenas,<br />

cultos sexuais e até mesmo sacrifícios humanos, que se não realiza<strong>dos</strong> literalmente, eram no<br />

mínimo, ritualiza<strong>dos</strong> ou simula<strong>dos</strong>.<br />

Enquanto é jovem Salomão ainda teve condição de viver, de um modo milagroso, um<br />

grande amor. Depois ele se perderá em futilidades, em atos que necessitará repensar. Esse<br />

auto-julgamento, essa reavaliação de sua vida, de seus ideais, de seus valores e do que<br />

realmente importou após uma vida plena de recursos, num nível para a maioria de nós<br />

inimaginável, nós leremos no livro de Eclesiates.<br />

Enquanto é jovem Salomão ainda teve condição de viver, de um modo milagroso, um<br />

grande amor. Depois ele se perderá em futilidades, em atos que necessitará repensar. Esse<br />

auto-julgamento, essa reavaliação de sua vida, de seus ideais, de seus valores e do que<br />

realmente importou após uma vida plena de recursos, num nível para a maioria de nós<br />

inimaginável, nós leremos no livro de Eclesiates.<br />

Como então, você perguntaria, um homem que teve 700 esposas pode ter gerado um<br />

cântico tão profundo que fala sobre uma única grande paixão? E de que adiantou narrar<br />

tamanha história de amor se diante de tão grande poligamia um sentimento como este<br />

parece perder o sentido? Ou porque Deus permitiu que o Cântico de um sujeito com<br />

tantos envolvimentos, tão “mulherengo” servisse como pano de fundo de seu amor<br />

exclusivo?<br />

As Escrituras falam-nos de seres humanos, com defeitos, vícios e falhas que receberam a<br />

graça de serem portadores de voz de Deus, de sua Palavra, de seu Amor. Foi em meio a<br />

humanidade pecadora que Deus manifestou-se maravilhosamente, não levando em conta<br />

22


seus peca<strong>dos</strong>, mas abençoando e escolhendo momentos especiais de suas vidas para<br />

comunicar-nos a sua Palavra. O Espírito de Deus capturou um momento especial na<br />

vida de Salomão, um momento único, ainda que passageiro, e dele usou para falar<br />

de seu amor que nunca cessa. O que foi vivido por algumas semanas, meses ou<br />

anos, é retratado de modo magnifico, é relembrado e preservado pelo Espírito, de<br />

mil e cinco cânticos, somente este Deus escolheu para representar seu coração. Um<br />

momento da vida de um homem que ele abençoou, que refletem do mesmo modo UM<br />

MOMENTO da VIDA DE DEUS. Deus é eterno, toda a história humana equivale a<br />

momentos desta eternidade. Da criação até a Redenção, da Ressurreição até a Nova<br />

Criação, pode ser um longo período para nós que passamos como uma sombra.<br />

Mas, não para Ele.<br />

23


Cantares possui muitas dimensões. Ele é ao mesmo tempo o mais belo cântico de amor<br />

humano escrito e adorna os mais sublimes mistérios proféticos conti<strong>dos</strong> dentro das<br />

Escrituras.<br />

Perfaz uma viagem transcendental até o interior de Deus, evocando poeticamente toda a<br />

magia da beleza do amor divino, transmitindo os rubores e rumores, a excelência e a<br />

profundidade de um amor que excede ao nosso entendimento, através de um cântico<br />

tecido através de imagens, gestos, sentimentos, sombras, personagens e um amor que vai<br />

crescendo até atingir a mais poderosa expressão que já foi expressa sobre o seu significado,<br />

no capitulo oitavo. O livro cresce em intensidade e paixão, trafegando por paisagens<br />

belíssimas, transportando-nos a realidades que representam os céus, a terra, os anjos, ao<br />

espírito humano, a alma, aos sonhos, a vida e a morte, a eternidade e a profecia,<br />

desvendando através de uma singela história de amor, ao amor de um modo completo.<br />

24


O apogeu de Cantares é um grito enciumado que impressiona-nos profundamente:<br />

Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor<br />

é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de<br />

fogo, com veementes labaredas.<br />

O amor desafia afrontosamente ao poder que mais alvoroça os sentimentos <strong>dos</strong> homens,<br />

que desafia ao dinheiro, ao prestigio, à fama e ao poder que destroniza reis, que lança por<br />

chão a soberba humana, que enterra na cova <strong>dos</strong> pobres aos altivos desta terra e que nivela<br />

25


o arrogante ao humilde, o déspota ao servo errante. A morte afronta aos poderosos,<br />

afronta a sociedade, a ciência humana, a soberba do homem. Mas não é capaz de declararse<br />

vitoriosa diante do amor. E mesmo que o fosse por milênios, na ressurreição de Cristo a<br />

morte é afrontada com a verdade desta essência imortal, poderosa e deslumbrante. O<br />

cântico <strong>dos</strong> cânticos PROFETIZA a vitória de um poder que é tão grande quanto o poder<br />

da morte. E avança na declaração dizendo que este amor gera CIUME, um CIUME tão<br />

monstruoso, tão aterrador, tão poderoso, que as sepulturas não são mais resistentes do que<br />

ele. E que as suas brasas são maiores do que as sepulturas, cujo fogo é veemente,<br />

incansável, inextinguível. E é por causa deste CIUME que a morte não poderá SEPARAR<br />

do AMADO a vida de sua amada. A morte não resistirá a tamanho amor. Não poderá<br />

conter aos redimi<strong>dos</strong> em seu seio, ou os que morreram aguardando a vinda do Amado sob<br />

seu poder. Paulo declarará de outro modo esse epíteto:<br />

“Quem nos SEPARARÁ do AMOR de CRISTO? A morte, ou os principa<strong>dos</strong>?”<br />

Fruto de idêntica inspiração.<br />

Nossas vidas são limitadas aos nossos dias que passam ligeiro. Trazemos conosco<br />

memórias, carregamos a esperança no colo. Nosso mundo envelhece junatamente conosco,<br />

basta ver uma foto do jardim da infância ou das ruas de nossa cidade transformadas pela<br />

urbanização. Nossa história muda no decorrer <strong>dos</strong> anos, assim como nossos<br />

relacionamentos, nossos projetos. Alguns sonhos se realizam, outros se desfazem,<br />

sofremos perdas e alcançamos gisgantescas vitórias. Somos marca<strong>dos</strong> por pessoas.<br />

Marca<strong>dos</strong> por amizades, ou por inimizades, pelo afeto que deixou marcas ou pelas<br />

perseguições que do mesmo modo deixaram em nós marcas na alma. Cantares canta um<br />

momento da vida de dois jovens enamora<strong>dos</strong>. E se pudéssemos transcender a história <strong>dos</strong><br />

dois enamora<strong>dos</strong> até a história divina? Nosso ontem retrocede até nosso nascimento.<br />

26


Nosso amanhã vai até nossa sepultura, caso não aconteça algo sobrenatural, humanamente<br />

falando. Cristo muda dramaticamente essa métrica. Porém a história de Deus se inicia, por<br />

assim dizer, na eternidade passada, ou no passado da eternidade e finda...não. Não finda.<br />

Mas independente de não ter início e nem fim, Deus possui uma história. Ele também<br />

possui marcas deixadas por afetos e inimizades em sua essência. Em sua memória, em suas<br />

obras, em suas relizações. A história divina é profundamente impactada pela nossa. Por<br />

mais paradoxal que possa parecer este enunciado.<br />

Para torná-la inteligível, compreensível a nós Ele a retratou em Cantares. Toda ela. O amor<br />

de Salomão e Sunamita é uma dança, um cântico, um drama, uma canção. Nessa canção o<br />

Espírito entoará um cântico de amor, a sua própria canção. Em cada passo da dançarina<br />

de Cantares ele verá a dança da Sunamita Celestial, que representará o seu amor pela Igreja<br />

terrena e pela misteriosa e invisível Igreja Celestial. Aquela que aparece num momento<br />

assombroso lá no Livro de Hebreus, a multidão de espírito <strong>dos</strong> justos aperfeiçoa<strong>dos</strong> e aos<br />

incontáveis anjos.<br />

O livro acontece em 8 capítulos, que percorrem alguns dias. Talvez 7 dias mais um do<br />

casamento futuro e outro especial da recompensa <strong>dos</strong> guardas. Uma semana memorável,<br />

mágica. Um momento único da vida de um jovem e uma adolescente.<br />

Toda a história da Redenção, que compreende fatos anteriores a existencia do homem e<br />

fatos posteriores a história representam somente um instante, um momento da Vida<br />

daquele que Vive para Todo o Sempre. Mas que são profun<strong>dos</strong> para o seu coração.<br />

O livro então será um dueto. E uma dança. Anjos irão dançar nos céus testemunhando a<br />

dança da menina caçadora de raposas, o Espírito comporá a quatro mãos a melodia,<br />

juntamente com o apaixonado Salomão. Salomão olha para sua amada e nela Deus<br />

contemplará sua paixão.<br />

Cantares nos apresentará o amor de Deus pela Igreja, por Israel e pela Humanidade, de<br />

moneira:<br />

Ludica e Profética<br />

De modo Humano e de modo Sobrenatural<br />

Percorrendo a história e a eternidade.<br />

https://www.youtube.com/watch?v=O9CG_PoEWCg<br />

27


As Escrituras vertem vinho. O único livro do antigo Testamento que não menciona o<br />

vinho é o livro de Jonas. Por oito vezes Cânticos evocará figura do vinho para evocar os<br />

sentimentos do amado pela amada:<br />

Beije-me ele com os beijos da sua boca; porque melhor é o teu amor do que o<br />

vinho.<br />

Leva-me tu; correremos após ti. O rei me introduziu nas suas cámaras; em ti nos<br />

regozijaremos e nos alegraremos; do teu amor nos lembraremos, mais do que do vinho;<br />

os retos te amam.<br />

Que belos são os teus amores, minha irmã, esposa minha! Quanto melhor é o teu<br />

amor do que o vinho! E o aroma <strong>dos</strong> teus ungüentos do que o de todas as especiarias!<br />

Já entrei no meu jardim, minha irmã, minha esposa; colhi a minha mirra com a<br />

minha especiaria, comi o meu favo com o meu mel, bebi o meu vinho com o meu leite;<br />

comei, amigos, bebei abundantemente, ó ama<strong>dos</strong>.<br />

29


E a tua boca como o bom vinho para o meu amado, que se bebe suavemente,<br />

e faz com que falem os lábios <strong>dos</strong> que dormem.<br />

Levar-te-ia e te introduziria na casa de minha mãe, e tu me ensinarias; eu te daria a<br />

beber do vinho aromático e do mosto das minhas romãs.<br />

E compreender o significa<strong>dos</strong>, o simbolismo e as representações relacionadas ao vinho nas<br />

Escrituras será essencial para compreender a profundidade espiritual, além da dimensão<br />

humana contida em Cantares. Importante frisar que a semelhança da festa de Assuero em<br />

Susã, quando apresenta à emissários das províncias persas de todo o mundo, a glória de seu<br />

reino, Cânticos é banhado em vinho. É e´pca das festas de Benjamim, da festa das<br />

colheitas, da maturação da uva e em todo o oriente e além estão sendo realiza<strong>dos</strong> festivais<br />

movi<strong>dos</strong> a dança, canções e vinho. Muito vinho. A cor de Cântico <strong>dos</strong> Cânticos é purpura.<br />

No Egito festivais com um vinho preservado a base de uma química somente conhecida<br />

por sábios sacerdotes e de uso exclusivo de Faraó está sendo fartamente consumido. Os<br />

jônios, os aqueus, os eólios e os dórios festejam festas regadas a vinho. As primeiras<br />

famílias pastoris aryas, entraram na Índia aproximadamente no segundo milênio antes de<br />

Cristo, período em que os aqueus – com quem estavam, de certo modo, aparenta<strong>dos</strong> e cuja<br />

a língua pertence ao mesmo grupo linguístico do sânscrito – chegavam ao território que,<br />

posteriormente, formaria a Grécia. O Rig-Veda menciona um tipo de bebida (soma) que se<br />

assemelha ao vinho misturado com especiarias citado em Cantares. A India da época de<br />

Cânticos não possuía os preceitos de proibição ao vinho que vieram a posterior em sua<br />

coleção de livros religiosos, porém em to<strong>dos</strong> os épicos os personagens míticos e divindades<br />

estão festejando suas vitórias com vinho. Os povos semitas estão celebrando aos seus<br />

deuses com sacrifícios e oferendas de vinho derramado, chamado de libação, e também<br />

bebendo muito. O vinho possuía um simbolismo relacionado a ressurreição, ao sangue<br />

30


derramado, ao sacrifício, em muitas culturas da antiguidade. E incondicionalmente<br />

conectado às histórias de amor <strong>dos</strong> deuses do mundo antigo. As festas religiosas em<br />

Cânticos evocam nas terras estrangeiras os mitos de fertilidade, sempre envolvendo deusas,<br />

seus pares e a terra que recebia o efeito desse amor. Ou seja, o pano de fundo é um mundo<br />

literalmente embriagado durante a realização dessas festas.<br />

Poderia citar que as vestes do Messias cheiram a um vinho cheio de especiarias. Porque o<br />

vinho da época de Cânticos era comumente misturado a diversas especiarias. Isaías<br />

mostrará a libertação trazida por parte do Messias por meio de força descomunal, e que<br />

suas vestes estarão manchadas de vinho, após seu árduo trabalho no lagar.<br />

A cena de Isaias é de um trabalhador do lagar com as vestes completamente cor de vinho<br />

em virtude <strong>dos</strong> respingos. A cena é <strong>dos</strong> inimigos de Deus sendo destruí<strong>dos</strong>, esmaga<strong>dos</strong><br />

debaixo de grande ira, mas o resultado é que o sangue salpica suas vestes. É a cena de uma<br />

batalha transformada na cena de uma “batalha” no lagar.<br />

Para compreender a simbolismo do vinho nas Escrituras temos que estudar um pouco a<br />

história do vinho.<br />

31


A Babilônia já tinha leis que tratavam da exportação de vinhos e A Epopéia de Gilgamesh,<br />

mais antigo texto literário conhecido, data do século XVIII antes de Cristo. Na Grécia e em<br />

Roma, o vinho tinha sua origem cercada de lendas. Já no Egito antigo inscreviam nas jarras<br />

informações sobre a safra, a vinha de proveniência e o nome do vinhateiro – eram os<br />

primeiros rótulos. A terra <strong>dos</strong> antigos faraós nos legou listas com seus vinhos<br />

Os egípcios também se dedicavam ao vinho, fato que fora comprovado em 1922 por<br />

estudiosos. Na tumba do jovem faraó Tutankamon (1371- 1352 a .C.) foram encontradas<br />

36 ânforas de vinho. Algumas delas continham inscrições sobre a região onde fora<br />

produzido, a safra, nome do comerciante. Especialmente em uma havia até mesmo o<br />

seguinte comentário: "muito boa qualidade".<br />

Os médicos gregos foram os primeiros a prescreverem o vinho como medicamento,<br />

incluindo Hipócrates, considerado mais tarde o pai da medicina. Os gregos também<br />

aprenderam a adicionar ervas e especiarias ao vinho para disfarçar a deterioração.<br />

Se hoje os vinhos nos chegam engarrafado, e com o selo fiscal, no passado distante ele<br />

chegava em ânforas, fechadas com cera.<br />

Séculos antes de Cristo, o transporte de vinho e de azeite e, eventualmente, de figos e<br />

nozes era realizado em ânforas. Os gregos e depois os romanos transportavam e<br />

exportavam seus vinhos e azeites nessas ânforas. Uma vez chegadas ao destino, o líquido<br />

era colocado em recipientes menores. Barricas e barris, uma invenção <strong>dos</strong> gauleses ou<br />

celtas, chegaram muitos séculos depois.<br />

As ânforas eram feitas de terracota e revestidas por uma resina. Eram produzidas em<br />

massa e dentro de padrões de capacidade pré-estabeleci<strong>dos</strong>. Às vezes traziam como<br />

garantia o carimbo do artesão numa das alças ou no gargalo da ânfora.<br />

32


Os egípcios foram os primeiros a saber como registar e celebrar os detalhes da<br />

vinificação em suas pinturas que datam de 1.000 a 3.000 a.C. Nas tumbas <strong>dos</strong> faraós<br />

são vistas cenas mostrando como os vinhos eram bebi<strong>dos</strong>. O consumo de vinho<br />

estava limita<strong>dos</strong> aos ricos, nobres e sacerdotes. Os vinhe<strong>dos</strong> e o vinho eram<br />

ofereci<strong>dos</strong> ao deuses, especialmente pelos faraós, como mostram os registos do<br />

presente que Ramses III (1100 a.C.) fez ao deus Amun.<br />

Na Ilíada Homero fala de vinhos e descreve com lirismo a colheita durante o<br />

Outono.<br />

Entre as muitas evidências da sabedoria grega para o uso do vinho, são os escritos<br />

atribuí<strong>dos</strong> a Eubulus por volta de 375 a.C. : “Eu preparo três taças para o<br />

moderado: uma para a saúde, que ele sorverá primeiro, a segunda para o amor e o<br />

prazer e a terceira para o sono. Quando essa taça acabou, os convida<strong>dos</strong> sábios vão<br />

para casa. A quarta taça é a menos demorada, mas é a da violência; a quinta é a do<br />

tumulto, a sexta da orgia, a sétima a do olho roxo, a oitava é a do policial, a nona da<br />

ranzinzice e a décima a da loucura e da quebradeira <strong>dos</strong> móveis.”<br />

Columela, calculava que o cultivo de um hectare de cereal acarretava que uma só pessoa<br />

disponibilizasse quarenta e duas jornadas de trabalho ao longo do ano, enquanto uma<br />

mesma extensão de terreno ocupado por vinha, necessitaria de seis vezes mais jornadas, ou<br />

seja, duzentas e cinquenta e duas.<br />

Os egípcios criaram uma prensa tipo parafuso usando tiras vegetais e torção para extração<br />

do suco das uvas.<br />

33


Existiram vários sistemas de prensas e também os lagares rupestres onde as uvas eram<br />

batidas ou pisadas.<br />

( Lagar de Cortegaça – da época do império Romano – em Portugal)<br />

A mais citada de todas as lendas sobre a descoberta do vinho é uma versão persa que fala<br />

sobre Jamshid , um rei persa semi-mitológico que parece estar relacionado a Noé, pois teria<br />

construído um grande muro para salvar os animais do dilúvio. Na corte de Jamshid, as uvas<br />

eram mantidas em jarras para serem comidas fora da estação. Certa vez, uma das jarras<br />

estava cheia de suco e as uvas espumavam e exalavam um cheiro estranho sendo deixadas<br />

de lado por serem inapropriadas para comer e consideradas possível veneno. Uma donzela<br />

do harém tentou se matar ingerindo o possível veneno. Ao invés da morte ela encontrou<br />

alegria e um repousante sono. Ela narrou o ocorrido ao rei que ordenou, então, que uma<br />

grande quantidade de vinho fosse feita e Jamshid e sua corte beberam da nova bebida.<br />

34


A propósito, o código de Hammurabi e o código <strong>dos</strong> hititas são os dois primeiros livros<br />

sobre leis de que temos conhecimento e ambos fazem referência aos vinhos. No código de<br />

Hammurabi há três tópicos relaciona<strong>dos</strong> com as "casas de vinho". O primeiro diz que "a<br />

vendedora de vinhos que errar a conta será atirada à água"; o segundo afirma que "se a<br />

vendedora não prender marginais que estiverem tramando e os levar ao palácio seria<br />

punida com a morte"; a última diz que "uma sacerdotisa abrir uma casa de vinhos ou nela<br />

entrar para tomar um drinque, será queimada viva".<br />

Provavelmente havia predileção pelos vinhos doces (Homero descreve uvas secadas<br />

ao sol), mas haviam vários tipos diferentes de vinho. Laerte, o pai de Odisseu, cujos<br />

vinhe<strong>dos</strong><br />

eram seu orgulho e alegria, vangloriava-se de ter 50 tipos, cada um de um tipo diferente de<br />

uva.<br />

Com relação à prática de adicionar resina de pinheiro no vinho, utilizada na elaboração do<br />

moderno Retsina, parece que era rara na Grécia Antiga. No entanto, era comum fazer<br />

outras<br />

misturas com os vinhos e, na verdade, raramente eram bebi<strong>dos</strong> puros. Era normal<br />

adicionar-se<br />

pelo menos água e, quanto mais formal a ocasião e mais sofisticada a comida, mais<br />

especiarias<br />

aromáticas eram adicionadas ao vinho.<br />

Tudo que se queira saber sobre a vitivinicultura romana da época está no manual "De<br />

Re Rústica" (Sobre Temas do Campo), de aproximadamente 65 d.C, de autoria de um<br />

espanhol<br />

de Gades (hoje Cádiz), Lucius Columella. O manual chega a detalhes como: a produção<br />

por<br />

área plantada (que, surpreendentemente, é a mesma <strong>dos</strong> melhores vinhe<strong>dos</strong> da França de<br />

hoje), a técnica de plantio em estacas com distância de dois passos entre elas (mais ou<br />

menos<br />

a mesma técnica usada hoje em vários vinhe<strong>dos</strong> europeus), tipo de terreno, drenagem,<br />

colheita,<br />

prensagem, fermentação, etc.<br />

Galeno (131-201 d.C.), o famoso grego médico <strong>dos</strong> gladiadores e, posteriormente<br />

médico particular do imperador Marco Aurélio, escreveu um tratado denominado "De<br />

antídotos"<br />

sobre o uso de preparações à base de vinho e ervas, usadas como antídotos de venenos.<br />

Nesse tratado existem considerações perfeitas sobre os vinhos, tanto italianos como gregos,<br />

bebi<strong>dos</strong> em Roma nessa época: como deveriam ser analisa<strong>dos</strong>, guarda<strong>dos</strong> e envelheci<strong>dos</strong><br />

A maneira de Galeno escolher o melhor era começar com vinhos de 20 anos, que se<br />

esperava serem amargos, e, então, provar as safras mais novas até chegar-se ao vinho mais<br />

velho sem amargor. Segundo Galeno, o vinho "Falerniano" era ainda nessa época o melhor<br />

(tão<br />

famoso que era falsificado com freqüência) e o "Surrentino" o igualava em qualidade,<br />

embora<br />

mais duro e mais austero. A palavra "austero" é usada inúmeras vezes nas descrições de<br />

35


Galeno para a escolha <strong>dos</strong> vinhos e indica que o gosto de Roma estava se afastando <strong>dos</strong><br />

vinhos espessos e doces que faziam da Campania a mais prestigiada região. Os vinhe<strong>dos</strong><br />

próximos a Roma, que anteriormente eram desprestigia<strong>dos</strong> por causa de seus vinhos<br />

ásperos e<br />

áci<strong>dos</strong>, estavam entre os preferi<strong>dos</strong> de Galeno. Ele descreveu os "grands crus" romanos,<br />

to<strong>dos</strong><br />

brancos, como fluí<strong>dos</strong>, mas fortes e levemente adstringentes, variando entre encorpa<strong>dos</strong> e<br />

leves. Parece que o vinho tinto era a bebida do dia a dia nas tavernas.<br />

Após a queda do Império Romano seguiu-se uma época de obscuridade em<br />

praticamente todas as áreas da criatividade humana e os vinhe<strong>dos</strong> parecem ter permanecido<br />

em latência até que alguém os fizesse renascer.<br />

Chegamos à Idade Média, época em que a Igreja Católica passa a ser a detentora das<br />

verdades humanas e divinas. Felizmente, o simbolismo do vinho na liturgia católica faz<br />

com que a Igreja desempenhe, nessa época, o papel mais importante do renascimento,<br />

desenvolvimentoe aprimoramento <strong>dos</strong> vinhe<strong>dos</strong> e do vinho. Assim, nos séculos que se<br />

seguiram, a Igreja foi proprietária de inúmeros vinhe<strong>dos</strong> nos mosteiros das principais<br />

ordens religiosas da época, como os franciscanos, beneditinos e cistercienses (ordem de<br />

São Bernardo), que se espalharam por toda Europa, levando consigo a sabedoria da<br />

elaboração do vinho.<br />

Dessa época são importantes três mosteiros franceses. Dois situam-se na Borgonha:<br />

um beneditino em Cluny, próximo de Mâcon (fundado em 529) e um cisterciense em<br />

Citeaux, próximo de Beaunne (fundado em 1098). O terceiro, cisterciense, está em<br />

Clairvaux na região de Champagne. Também famoso é o mosteiro cisterciense de<br />

Eberbach, na região do Rheingau, na Alemanha. Esse mosteiro, construido em 1136 por 12<br />

monges de Clairvaux, envia<strong>dos</strong> por São Bernardo, foi o maior estabelecimento vinícola do<br />

mundo durante os séculos XII e XIII e hoje abriga um excelente vinhedo estatal.<br />

Os hospitais também foram centros de produção e distribuição de vinhos e, à época,<br />

cuidavam não apenas <strong>dos</strong> doentes, mas também recebiam pobres, viajantes, estudantes e<br />

peregrinos. Um <strong>dos</strong> mais famosos é o Hôtel-Dieu ou Hospice de Beaune, fundado em<br />

1443, até hoje mantido pelas vendas de vinho.<br />

Também as universidades tiveram seu papel na divulgação e no consumo do vinho<br />

durante a Idade Média. Numa forma primitiva de turismo, iniciada pela Universidade de<br />

Paris e propagada pela Europa, os estudantes recebiam salvo conduto e ajuda de custo para<br />

viagens de intercâmbio cultural com outras universidades. Curiosamente, os estudantes<br />

andarilhos gastavam mais tempo em tavernas do que em salas de aulas e, embora cultos,<br />

estavam mais interessa<strong>dos</strong> em mulheres, músicas e vinhos. Eles se denominavam a "Ordem<br />

<strong>dos</strong> Goliar<strong>dos</strong>" e, conheciam mais do que ninguém, os vinhos de toda a Europa.<br />

36


Hypocraz<br />

VINHO DE ESPECIARIAS (hipocraz)<br />

O Hipocraz é uma bebida medieval inventada por um médico grego do século 5 aC. Esta<br />

bebida é produzida a partir de vinho vermelho, mel e especiarias. Este vinho doce é criado<br />

com as especiarias reias como a canela, o cardamomo (tipo de gengibre), o cravo e o<br />

gengibre.<br />

É interessante observar que é da idade média, por volta do ano de 1.300, o primeiro<br />

livro impresso sobre o vinho: "Liber de Vinis". Escrito pelo espanhol ou catalão Arnaldus<br />

de Villanova, médico e professor da Universidade de Montpellier, o livro continha uma<br />

visão médica do vinho, provavelmente a primeira desde a escrita por Galeno. O livro cita<br />

as propriedades curativas de vinhos aromatiza<strong>dos</strong> com ervas em uma infinidade de<br />

doenças. Entre eles, o vinho aromatizado com arlequim teria "qualidades maravilhosas" tais<br />

como: "restabelecer o apetite e as energias, exaltar a alma, embelezar a face, promover o<br />

crescimento <strong>dos</strong> cabelos, limpar os dentes e manter a pessoa jovem". O autor também<br />

descreve aspectos interessantes como o costume fraudulento <strong>dos</strong> comerciantes oferecerem<br />

aos fregueses alcaçuz, nozes ou queijos salga<strong>dos</strong>, antes que eles provassem seus vinhos, de<br />

modo a não perceberem o seu amargor e a acidez. Recomendava que os degustadores<br />

"poderiam safar-se de tal engodo degustando os vinhos pela manhã, após terem lavado a<br />

boca e comido algumas nacos de pão umedecido em água, pois com o estômago<br />

totalmente vazio ou muito cheio estraga o paladar ". Arnaldus Villanova, falecido em 1311,<br />

era uma figura polêmica e acreditava na segunda vinda do Messias no ano de 1378, o que<br />

lhe valeu uma longa rixa com os monges dominicanos que acabaram por queimar seu livro.<br />

É importante mencionar um fato importantíssimo e trágico na história da<br />

vitivinicultura, ocorrido da segunda metade do século passado, em especial na década de<br />

1870, até o início deste século. Trata-se de uma doença parasitária das vinhas, provocada<br />

pelo inseto Phylloxera vastatrix, cuja larva ataca as raízes. A Phylloxera, trazida à Europa<br />

em vinhas americanas contaminadas, destruiu praticamente todas as videiras européias. A<br />

salvação para o grande mal foi a descoberta de que as raízes das videiras americanas eram<br />

resistentes ao inseto e passaram a ser usadas como porta-enxerto para vinhas européias.<br />

37


Desse modo, as videiras americanas foram o remédio para a desgraça que elas próprias<br />

causaram às vitis européias.<br />

Extraído em sua maior parte da obra de Hugh Johnson "The Story of Wine" da editora<br />

Mitchell-Beazley, Londres, 1989<br />

CICLO DA VIDEIRA<br />

Tal como todas as plantas de folha caduca, a videira depende da temperatura ambiente para<br />

suportar toda a actividade enzimática que está na base do seu ciclo vegetativo. Após a<br />

vindima, com o avançar do Outono e o consequente abaixamento das temperaturas, a<br />

videira vai deixando de ter condições que suportem a sua actividade, as folhas amarelecem<br />

e acabam por cair. Entre fim do Outono e o princípio do Inverno a videira entra em<br />

repouso vegetativo e só dele sairá quando as temperaturas médias do solo ultrapassarem os<br />

12°C. É durante este período de repouso vegetativo que se realiza a já referida poda.<br />

38


CHORO<br />

Dá-se nos últimos dias do Inverno ou início da Primavera e representa o fim do repouso<br />

vegetativo e o início de um novo ciclo vegetativo da videira, manifestando-se através da<br />

perda de seiva pelos cortes da poda. Tal só acontece porque as condições de temperatura<br />

começam a permitir a actividade enzimática da planta.<br />

39


ABROLHAMENTO<br />

Inicialmente os gomos <strong>dos</strong> nós deixa<strong>dos</strong> pela poda começam a intumescer, parecendo<br />

como que cobertos de algodão. Em seguida aparece uma ponta verde, ficando<br />

posteriormente as pequenas folhas perfeitamente visíveis e separadas<br />

40


PERIODO DE ANTERIOR À FLORAÇÃO<br />

Depois das pequenas folhas estarem visíveis, segue-se um período de expansão vegetativa<br />

durante o qual os factos mais importantes, por ordem cronológica, são: o aparecimento <strong>dos</strong><br />

cachos, a separação <strong>dos</strong> cachos e a separação <strong>dos</strong> botões florais.<br />

FLORAÇÃO<br />

Decorre durante cerca de uma semana e meia, normalmente na metade final da Primavera.<br />

É um período crucial para a definição de uma colheita. Se a floração decorrer debaixo de<br />

chuva, o pólen é lavado <strong>dos</strong> estames e das flores, não se dá a polinização e a consequente<br />

fecundação. A flor não “vinga” em fruto (desavinho) e a colheita será bastante afectada<br />

41


CRESCIMENTO DOS BAGOS<br />

É um período de grande expansão vegetativa coincidente com uma época de temperaturas<br />

mais elevadas. Os bagos passam pelo tamanho de "grãos de chumbo" e "bago de ervilha",<br />

até atingirem um certo tamanho que faz com que os cachos fiquem completamente<br />

fecha<strong>dos</strong>. Até esta fase os bagos das castas brancas e tintas mantêm a coloração verde<br />

opaca.<br />

MATURAÇÃO<br />

42


Podemos definir o início da maturação com o aparecimento do "pintor", que representa a<br />

fase do ciclo vegetativo da videira que coincide com o aparecimento da cor tinta nas<br />

películas <strong>dos</strong> bagos tintos e da película translúcida nas castas brancas. O "pintor" poderá<br />

durar de uma a duas semanas, mas um bago muda de cor em 24 horas. A partir do "pintor"<br />

inicia-se uma fase de 35 a 55 dias durante a qual a uva acumula açúcares livres (glucose e<br />

frutose), potássio, aminoáci<strong>dos</strong> e compostos fenólicos e vai perdendo ácido tartárico e<br />

ácido málico (dois áci<strong>dos</strong> que representam 90% <strong>dos</strong> áci<strong>dos</strong> presentes nos bagos de uva).<br />

Este período termina com a vindima, que poderá ocorrer no final do Verão ou no princípio<br />

do Outono.<br />

A partir daqui o ciclo repete-se e o viticultor passa a aguardar ansiosamente a nova colheita!<br />

43


A Adubação<br />

Ao solo<br />

Fazem-se normalmente no Inverno para que a água da chuva faça a incorporação <strong>dos</strong><br />

nutrientes no perfil do solo:<br />

1. Com matéria orgânica<br />

2. Com adubos minerais<br />

A PODA<br />

A poda é a operação realizada durante o período de repouso vegetativo da videira, que<br />

ocorre normalmente no Inverno. É o processo através do qual se contraria a tendência<br />

natural da videira para crescer, trepar, ocupar território e competir pela luz e que tem como<br />

objectivo obrigá-la a produzir equilibradamente e com qualidade. A poda consiste no corte<br />

das varas que se desenvolveram no ano anterior, deixando gomos na sua base que darão<br />

origem a novas varas carregadas de frutos. O número de gomos que se deixam durante a<br />

poda é função do sistema de condução, da densidade de plantação, da fertilidade do solo,<br />

da disponibilidade de água e do estado de vigor da videira.<br />

44


Detalhe da poda seca Os galhos mais frágeis são retira<strong>dos</strong> de modo a permitir a<br />

circulação da seiva apenas nos galhos fron<strong>dos</strong>os, diminuindo a produtividade e<br />

aumentando a qualidade das uvas em formação.<br />

EMPA<br />

Utilizado em sistemas de condução do tipo Guyot, a empa consiste em dobrar e amarrar a<br />

vara ao arame de forma a distribuir a vegetação que se vai desenvolver, contrariando a<br />

tendência natural que a videira tem para fazer abrolhar os gomos mais distantes, um<br />

fenómeno denominado "dominância apical". Ao dobrar a vara, dificulta-se a passagem da<br />

seiva, obrigando ao desenvolvimento <strong>dos</strong> gomos da base que, de outra forma, não<br />

frutificariam.<br />

45


REPLANTAÇÕES<br />

Caso haja plantas mortas há que substituí-las por plantas novas, normalmente sob a forma<br />

de enxertos prontos, que deverão ser planta<strong>dos</strong> no início da Primavera.<br />

Quinta de Azevedo – Vinhal – videiras verdes<br />

PRAGAS<br />

1. Pragas:<br />

1. Ácaros<br />

2. Coleópteros<br />

3. Cochonilha<br />

4. Cicadela<br />

5. Traça da vinha<br />

6. Moluscos<br />

1. Lesmas<br />

2. Caracóis<br />

7. Nemáto<strong>dos</strong><br />

8. Filoxera<br />

46


2. Doenças:<br />

1. Provocadas por Fungos<br />

1. Escoriose (Phomopsis vitícola)<br />

2. Míldio (Plasmopara vitícola)<br />

3. Oídio (Uncinula necator, Oidium tuckeri<br />

4. Podridão cinzenta (Botrytis cinérea)<br />

5. Doenças do lenho<br />

1. Eutipiose (Eutypa lata)<br />

2. Esca (Stereum hirsutum)<br />

2. Provocadas por bactérias<br />

Normalmente tendo insectos como vectores.<br />

3. Provocadas por vírus<br />

Normalmente tendo nemáto<strong>dos</strong> como vectores, são doenças facilmente<br />

transmissíveis de planta para planta através das tesouras de poda ou outro<br />

material de corte.<br />

Ácaro vermelho europeu Panonychus ulmi<br />

Efeito do ácaro nas folhas da vide<br />

47


Traça da vinha<br />

Doença – oido<br />

48


Doença - mildio<br />

49


Doença Mildio nas folhas<br />

Eutipiose.<br />

50


Antigo lagar de Vinho em Cafarnaum no mar da Galiléia<br />

No Jardim do local onde é considerada a tumba que guardou momentaneamente a Cristo<br />

Há significativamente um Lagar<br />

51


Bet Sames, escola infantil<br />

52


Em todo o Antigo Testamento bíblico, apenas o Livro de Jonas não tem referência<br />

à videira.<br />

As mulheres romanas foram proibidas de beber vinho, e um marido que encontrasse a sua<br />

esposa bebendo tinha liberdade para matá-la. Um divórcio com os mesmos fundamentos<br />

foi último gravado em Roma em 194 BCG<br />

O vinho muitas vezes cria uma "sinergia" interessante com alimentos Quando o vinho e<br />

comida são coloca<strong>dos</strong> juntos, eles têm "sinergia" ou geram um terceiro sabor além do que a<br />

comida ou bebida oferece sozinha.<br />

Nem to<strong>dos</strong> os vinhos melhoram com o tempo. Na verdade, a grande maioria <strong>dos</strong> vinhos<br />

produzi<strong>dos</strong> estão prontos para beber e não tem muito potencial para o envelhecimento.<br />

Apenas alguns raros vai durar mais tempo do que um decada. O vinho tem um efeito mais<br />

concentrado em mulheres do que em homens As mulheres estão mais susceptíveis aos<br />

efeitos de vinho do que nos homens, em parte, porque elas têm menos de uma enzima no<br />

revestimento do estômago, que é necessária para metabolizar o álcool eficientemente.<br />

No centro da vida social e intelectual grego existiu o Simpósio, que significa, literalmente,<br />

"beber juntos." De fato, o simpósio reflete carinho grego para a mistura de vinho e<br />

discussão intelectual. A combinação do tipo de solo, clima, grau de inclinação e exposição<br />

ao sol constitui o terroir de uma vinha eo que faz cada vinhedo e de cada vinho, unicos<br />

Os Odres eram uma forma comum para o transporte de vinho no mundo antigo. Peles de<br />

animais (geralmente cabras) eram limpas e cozinhadas e virando-se do avesso para que o<br />

lado peludo já tratado ficasse em contato com o vinho.<br />

Com a idade, os vinhos tintos tendem a perder a cor e eventualmente, acabar por uma cor<br />

de tijolo vermelho. Por outro lado, os vinhos brancos ganham cor, tornando-se de<br />

doura<strong>dos</strong>, eventualmente, marrom-amararela<strong>dos</strong>.<br />

53


Na lingua Inglesa a palavra "vinho" pode ser enraizada em “yayin” semita (significando<br />

lamentação e choro).<br />

Em árabe, a palavra para vinho é carroça. Em grego, é oinos. Nas línguas românicas é vin,<br />

vino, vina, vinho.<br />

No antigo Egito, a capacidade de armazenar o vinho até o vencimento era considerado<br />

alquimia ou magia e era privilégio apenas <strong>dos</strong> faraós. A viinificação é um tema importante<br />

em uma das mais antigas obras literárias conhecidas, a Epopéia de Gilgamesh. A divindade<br />

responsável pelo vinho era a deusa Siduri, cuja representação sugere uma associação<br />

simbólica entre o vinho ea fertilitilidade.<br />

Borra do vinho<br />

O Padrão de Ur é a mais antiga imagem do mundo representando o consumo do vinho.<br />

Possui cerca de 5000 anos de idade.<br />

54


Quarenta ânforas encontradas na parte interna de uma adega de um palácio israelense,<br />

contém resíduos de um <strong>dos</strong> mais antigos vinhos do mundo:<br />

Detalhes das ânforas encontradas. Fonte: scienze.fanpage.it<br />

Os arqueólogos, há muito tempo sabiam que se tivéssemos tido a oportunidade de provar<br />

o vinho como era feito antigamente, sentiríamos uma quantidade de aromas e especiarias<br />

que sem dúvida, o tornavam peculiar. Esses arqueólogos agora terão mais informações,<br />

devido ao que foi descoberto recentemente na adega de um palácio de uma cidade<br />

cananéia, em Israel setentrional, no sítio arqueológico de Tel Kabri: foi encontrada uma<br />

“reserva de garrafas” de 1.700 a.C! Arqueólogos israelenses e americanos foram os autores<br />

dessa descoberta, divulgada há alguns dias, em Baltimore, no encontro anual da .<br />

Sempre se soube que os vinhos da antiguidade era uma bebida da qual nos aproximaríamos<br />

com muita dificuldade: eram muitos os ingredientes coloca<strong>dos</strong> nele – um pouco por causas<br />

55


ligadas ao paladar da época, mas sobretudo porque alguns ingredientes tinham função<br />

bactericida. Mas é interessante lembrar que, para favorecer a conservação <strong>dos</strong> alimentos, a<br />

culinária <strong>dos</strong> nossos antepassa<strong>dos</strong>, muitas vezes, era rica de sal (sabemos, por exemplo, do<br />

molho que os romanos usavam na maioria <strong>dos</strong> seus pratos, o garum, que era obtido através<br />

da parte interna <strong>dos</strong> peixes e do peixe salgado), o que exigia que os pratos fossem<br />

acompanha<strong>dos</strong> por uma bebida de sabor bem marcante.<br />

Foram encontra<strong>dos</strong> restos de 40 ânforas, que foram conservadas na sala onde os antigos<br />

proprietários faziam as suas refeições ou festejavam juntos com seus hóspedes.<br />

Considerando a quantidade e a dimensão <strong>dos</strong> recipientes encontra<strong>dos</strong>, feitos em terracotta<br />

(argila), na adega cabiam 3.000 garrafas de vinho, brancos e tintos. Infelizmente a maior<br />

parte desses recipientes estava quebrada pro causa de um desabamento que, cerca de 3.600<br />

anos atrás, sepultou esse tesouro alcoólico. De acordo com os estudiosos, é muito provável<br />

que tenha sido um terremoto, a causa desse desabamento. Apesar do líquido das ânforas ter<br />

desaparecido com o tempo, traços desse liquido se revelaram extremamente interessantes.<br />

Os pesquisadores tiveram que trabalhar muito rapidamente nos resíduos encontra<strong>dos</strong>,<br />

antes que eles fossem contamina<strong>dos</strong> pela exposição ocorrida, após séculos dormindo<br />

secretamente.<br />

Assim, a pesquisa que tinha como objetivo encontrar um <strong>dos</strong> vinhos mais antigos da<br />

história, foi apresentado com orgulho pelos arqueólogos da George Washington University<br />

e da University of Haifa, que trabalharam juntos nessa grande descoberta. As análises<br />

químicas <strong>dos</strong> resíduos que resistiram ao tempo, restituíram o “sabor” do líquido que<br />

continha nas ânforas, ou pelo menos deram uma ideia aproximada de como o vinho da<br />

Antiguidade era diferente do nosso vinho: menta, mel, canela, zimbro e resinas estavam<br />

entre os ingredientes principais e eram utiliza<strong>dos</strong> principalmente para evitar a deterioração<br />

desses vinhos.<br />

Uma “receita” que pra nós parece insólita, não era para os contemporâneos desses<br />

senhores que viveram nessa terra israelense de 3.700 anos atrás, e também não era para<br />

aqueles que vieram logo depois deles, mesmo após muitos séculos. Basta pensar ao vinho<br />

que os romanos bebiam, cujos vestígios foram encontra<strong>dos</strong> no fundo de algumas ânforas,<br />

também analisadas quimicamente. Traços de um vinho que devia ser muito parecido com<br />

os traços <strong>dos</strong> vinhos <strong>dos</strong> romanos, foram encontra<strong>dos</strong> em odres (recipientes feitos de pele<br />

de cabra), provenientes também, da Palestina, na tumba do Rei Escorpião I, soberano que<br />

governou o Egito e morreu em torno de 3.150 a.C.. O uso de especiarias, aromas e resinas,<br />

além de servir para melhorar a conservação <strong>dos</strong> vinhos, deve ser visto do ponto de vista<br />

medicinal, que era atribuído à bebida “descoberta” por Noé: era utilizado normalmente<br />

como medicamento, e continha ingredientes que ajudavam a potencializar seus efeitos<br />

benéficos no organismo.<br />

Em resumo, usado nas festas e rituais da antiguidade, como meio de união de estudantes<br />

para debate, misturado como libações a divindades, usado como remédio e para despertar a<br />

paixão, para conquista feminina, como sinal de status e poder, como reminiscência das<br />

histórias de amor do mundo mítico da antiguidade, como referencia direta a pessoa do<br />

Messias, como moeda para compra de bens, produzido por vinhais exclusivos, e cuja<br />

qualidade dependia do clima, do terreno e <strong>dos</strong> cuida<strong>dos</strong>. O vinho de qualidade era um<br />

produto precioso na antiguidade, presença continua nos banquetes reais e nas grandes<br />

solenidades cívicas e religiosas. Os nobres e soberanos possuíam acesso a uma qualide<br />

especial de vinho, que na antiguidade era misturado com mel e preservado em ânforas de<br />

terracota, transporta<strong>dos</strong> em odres de peles de animais tratadas, que não sofriam<br />

deterioração com o tempo de uso, por isso Jesus afirma que não se guarda vinho novo em<br />

56


odres velhos, porque senão se rompem os odres velhos e se desperdiçaria o vinho novo. A<br />

generosidade das famílias era relacionada a quantidade do vinho oferecido nas festas e a<br />

estima <strong>dos</strong> convida<strong>dos</strong> relaciona<strong>dos</strong> à qualidade do vinho oferecido. O vinho novo era<br />

sempre o melhor, recém-colhido, recém fabricado. O melhor vinho de to<strong>dos</strong> pertencia a<br />

adega real. O vinho percorre as Escrituras ligando a época <strong>dos</strong> pais – Noé, passando por<br />

Abraão, testemunhando os grandes eventos da história de Israel. Votos especiais eram<br />

feitos à Deus em busca de bênçãos com a abstinecia de vinho, o chamado voto de<br />

nazireado. O mais fabuloso nazireu das Escrituras foi, divertidamente, um grande beberrão.<br />

Sansão. O vinho estava presente como testemunho da cura <strong>dos</strong> leprosos, derramado no<br />

chão, estava presente na morte <strong>dos</strong> sacrifícios pelo pecado, incluindo a grande oferta do dia<br />

da expiação. Quando a bezerra vermelha ou o cordeiro foi oferecido na hora nona, a<br />

segundo sacrifício da sexta-feira de páscoa, o vinho também era derramado. Jesus faz a sua<br />

ultima oração no Getsamani, um lagar de azeite. Mas que também poderia ser usado para<br />

esmagar uvas. Pouco antes Jesus levantava um cálice com vinho cheio de especiarias e dizia<br />

“este é o meu sangue, vertido por amor a vós” na ultima ceia. No mesmo getsamani Jesus<br />

intercede tão intensamente que de seus poros brotam sangue. E suas roupas ficam<br />

salpicadas dele. É a cena profetizada em Isaias.<br />

Jesus é a “videira verdadeira”, ele se compara a uma vinha, e usa as comparações com<br />

vinicultura, manutenção das vides, para nos ensinar sobre frutificação.<br />

A videira é um símbolo então para Cristo, assim como o foi para Israel e assim como o será<br />

para a Igreja de Cristo. A igreja é videira, é vide, é vinha.<br />

O processo de crecimento e o trabalho com uma vinha é repleto de símiles com o<br />

crescimento espiritual da Igreja.<br />

Como um <strong>dos</strong> símbolos mais profun<strong>dos</strong> do vinho é também o Espírito de Deus, e vinho<br />

se identifica com o sangue que é símbolo de vida, temos uma bela representação da<br />

E os processos de cuidado com a Vinha, to<strong>dos</strong> possuem paralelos com o crescimento<br />

espiritual. Tanto o individual como o do grupo, da congregação. E numa visão mais ampla,<br />

de todo a Igreja. E sendo mais abrangente a dimensão humana, sua história, suas<br />

conquistas e derrotas podem ser representadas pela videira.<br />

As pragas e as doenças refletem as questões que destroem a vinha. A doença é mais atroz,<br />

deixa marcas visíveis, se alastra com maior dificuldade em seu combate.<br />

Ministérios espirituais doentes são como casas assombradas.<br />

A parábola porém não se limita a Igreja. A sabedoria de Deus é extraordinária. E ilimitada.<br />

A aplicação <strong>dos</strong> paralelos se estendem a toda forma de relacionamento humano. Gerentes<br />

doentes pelo autoritarismo fruto do poder que sua organização lhes concede, políticos<br />

embriaga<strong>dos</strong> pelo poder usufruindo de bens que não lhe pertencem, astros que adoeceram<br />

em virtude da fama e por não terem raízes mais profundas na terra chamada vida,<br />

murcharam pela ausência de alimento espiritual para suas vidas. O Estado, vinha<br />

contaminada e doente se assenhorou do trabalho de muitos e em nome de preservar a si<br />

mesmo, matou a milhões. Politicos assenhora<strong>dos</strong> pela praga da ganancia, não deram fruto,<br />

antes os comeram sozinhos. A religigiosidade é uma vinha apodrecida, repleta de pragas e<br />

de doenças espirituais profundas, e hoje milhões são atraí<strong>dos</strong> por filosofias inúteis, rituais<br />

vazios, ou mesmo práticas espirituais que os aprisionam a falsos profetas ou a espíritos<br />

malignos. Na India procissões de pessoas se fragelam em nome de suas divindades, no<br />

Brasil milhões se escravizam a poderes que deles exigem oferendas, sacrifícios, rituais de<br />

feitiçaria e todo tipo de enfermidade espiritual. Famílias como videiras adoentadas,<br />

destruídas pela violência contra a mulher, contra os filhos, problemas de drogas,<br />

embriagues, brigas e dor. A videira da politica absolutamente contaminada por interesses<br />

57


de grandes empreiteiras. A videira do ensino contaminada pelo orgulho de muitos<br />

profissionais que confiaram mais em seus méritos que na cooperação com seus alunos.<br />

Milhares de alunos são destrata<strong>dos</strong> nas faculdades pela praga do orgulho acadêmico. O<br />

mundo humano parece viver embriagado, políticos e banqueiros agem como se estivessem<br />

bêba<strong>dos</strong>, sem considerar a dor de seus atos e os males às gerações futuras<br />

Mas de modo inigualável a vinha e o vinho nos traduz coisas espirituais. Realidades<br />

espirituais.<br />

Há um momento nas Escrituras que a escola de profetas se corrompe. Nas religiões da<br />

antiguidade era comum o uso de drogas alucinógenas para que alguns sacerdotes<br />

invocassem ou recebessem visões. Os profetas corrompi<strong>dos</strong> e usando de seus cargos<br />

como profissão, em dado momento na cidade de Jerusalém, embriagavam-se diariamente.<br />

Em Isaias capitulo 28 o Espírito concede um texto que lembra o andar de um bêbado, uma<br />

poesia que trata de profetas bêba<strong>dos</strong><br />

também estes erram por causa do vinho, e com a bebida forte se desencaminham: Os<br />

sacerdotes e os profetas erram por causa de bebida forte, e são absorvi<strong>dos</strong> pelo vinho;<br />

desencaminham-se (se envolve com coisas erradas) por causa da bebida forte (mas o inicio,<br />

se começa com bebida fraca), andam erra<strong>dos</strong> na visão (deixaram a visão de Deus), e<br />

tropeçam no juízo.<br />

Todas as suas mesas estão cheias de vômitos e de imundícia, e não há nenhum lugar<br />

limpo. Isaias 28. 7<br />

58


A: Mas também estes cambaleiam por causa do vinho,<br />

B: e com a bebida forte se desencaminham;<br />

C: até o sacerdote<br />

C: e o profeta<br />

B: erram por causa da bebida forte;<br />

A: são absorvi<strong>dos</strong> pelo vinho; desencaminham-se por causa da bebida forte;<br />

andam<br />

erra<strong>dos</strong><br />

na visão<br />

e tropeçam<br />

no juízo.<br />

Todas as suas mesas estão cheias de vômitos e de imundícia, e não há nenhum lugar limpo.<br />

Isaias 28. 7, 8<br />

Eles erravam, significava que AINDA que estivessem recebendo algo da parte de Deus ou<br />

ainda exercessem o ofício profético e o sacerdotal, erravam por causa da bebida, o profeta<br />

não entendia o que estava vendo, de tão alucinado e o sacerdote não dizia coisa com coisa.<br />

As funções do sacerdote do Velho Testamento era ensinar as Escrituras, intecerder, julgar<br />

causas em alguns momentos. Imagine um professor, um padre e um juiz bêba<strong>dos</strong> e você<br />

terá idéia da tragédia.<br />

A visão é pior ainda, quando passavam mal de tanto beber e o efeito era devastador.<br />

Porque as vezes eles faziam isso em grupo, centenas e até milhares.<br />

59


Em dado momento, num estado ainda mais degradante os profetas desacredita<strong>dos</strong> e já<br />

dependentes da bebdida começavam a “trocar” profecias por bebida.<br />

O que as Escrituras denominam “bebida forte” eram vinhos e misturas com forte teor<br />

alcólico.<br />

A “embriagues espiritual” significa para o teólogo a mistura de doutrinas expúrias e<br />

filosofias meramente humanas a interpretação das Escrituras. Para os que exercem<br />

ministérios proféticos, significa outra coisa muito mais grave.<br />

Num sentido restrito o vinho é símbolo do espírito.<br />

E sabemos que há pelos menos quatro qualidades de seres espirituais distintos.<br />

Deus – O espírito de Deus<br />

Anjos – espíritos ministradores<br />

Homens – espírito humano<br />

Demonios. – espíritos imun<strong>dos</strong>.<br />

Quatro tipo de bebidas. Quatro tipos de vinho.<br />

Quando uma igreja corrompe seu ministérios mistura o vinho do Espírito com o vinho de<br />

demônios. Significa que parte das garrafas na mesa da comunhão, uma parábola, é de bom<br />

vinho. Porém, outras estão envenenadas. Imagine um lugar onde profecias verdadeiras se<br />

misturam a falsas profecias. Onde o entendimento profundo das Escrituras se mistura a<br />

doutrinas malignas. Imagine um lugar em que há a unção, e em algum instante, uma<br />

falsificação humana. Uma mentira.<br />

Uma videira enferma simboliza uma igreja que possui doutrinas que a impedem de crescer,<br />

ou operações espirituais falsificadas. Em alguns casos o ministério de uma nação pode ser<br />

impactado com uma doutrina que contamine diversos ministérios, com alguma coisa<br />

expúria que impede o crescimento e o fortalecimento da verdadeira vinha.<br />

Cada vinha representa uma igreja ou determinado ministério. Cada vinha é única, nasce e<br />

cresce sobre certas condições. O que define a qualidade do vinho de uma vinha é o clima, o<br />

solo, os nutrientes, a umidade, as chuvas. Não há como existir uma única vinha com um<br />

tipo de vinho. Não existe uma doutrina, uma única revelação, um tipo de visão ou um<br />

grupo que se assenhore a vinha da terra. A igreja não possui dono que não seja CRISTO.<br />

To<strong>dos</strong> os pastores são trabalhadores e responsáveis pela sua vinha. Só dela. Assim como<br />

cada um de nós de sua videira particular, nossas vidas espirituais.<br />

A qualidade do vinho é dado pela pureza da água, pela nutrição adequada.<br />

Uma obra espiritual é marcada pelo grau de pureza e exatidão de seu evangelho, pela<br />

sinceridade e exatidão na interpretação e aplicação das realidades espirituais que fluem <strong>dos</strong><br />

céus. A Igreja é um organismo cujo crescimento está ligado a uma outra dimensão. Ela é<br />

necessariamente sobrenatural e dependente do Espírito de Deus que a VIVIFICA.<br />

Plinio, o Velho ( História Natural XIV,22,2) ATRIBUI AOS VINHOS DO Libano “um<br />

aroma de incenso”, informa-nos que estes eram ofereci<strong>dos</strong> aos deuses. O vinho de Israel<br />

produzido pelas vinhas de Salomão eram tão aprecia<strong>dos</strong> que Hirão o rei de Tiro o exigia<br />

em seus acor<strong>dos</strong>, ainda que Tiro na antiguidade fosse exportadora de vinho e de azeite. Nas<br />

ruínas de Tiro foram descobertas ânforas palestinas, contendo restos de vinho.<br />

60


Sidon exportava seu vinho para o Egito na época do Império Persa.<br />

O vinho é revestido de profundo simbolismo nas Escrituras. Ele está presente na profissão<br />

de Noé, na cena de sua embriagues e nudez, é presente nas ofertas sacerdotais onde era<br />

derramado na terra junto com as libações, está atrelado a uma profecia que aponta para<br />

Cristo em Genesis.<br />

Gênesis 27:28<br />

Ele amarrará seu jumento<br />

a uma videira;<br />

e o seu jumentinho,<br />

ao ramo mais seleto;<br />

lavará no vinho as suas roupas;<br />

no sangue das uvas,<br />

as suas vestimentas.<br />

Era proibido aos sacerdotes entrarem embriaga<strong>dos</strong> na tenda da congregação. Haviam votos<br />

específicos de não bebe-lo, como o voto do nazireado do qual Sansão, que por sinal bebia<br />

muito, é um <strong>dos</strong> personagens mais conheci<strong>dos</strong>. Leremos em Jeremias a respeito de uma<br />

família que promete a seu patriarca jamais beber do fruto da videira e que quatro gerações<br />

depois os homens do clã ainda guardavam aquele preceito. O que gerou uma “enciumada”<br />

resposta profética. Deus usa o exemplo de uma única ordem emitida por um homem<br />

humilde, uma única vez, cumprida rigorosamente, a custa de certo sacrifício, por mais de<br />

quatro gerações! E suas centenas de ordens, dele, o Criador, Senhor, Todo-poderoso,<br />

Altissimo, que foram repetidas milhares de vezes, anos segui<strong>dos</strong>, por meio de ínumeros<br />

ministérios, incluindo o profético, serem ignoradas desreipetosamente. O sangue<br />

simbolizava alegria, vida e ao mesmo tempo o sangue. Era sinal de prosperidade, de festa e<br />

também alimento básico. Era usado para festejar o nascimento, para a oferta, para lamentar<br />

a morte. Presente do nascimento ao enterro, presentes em todas as festas judaicas,<br />

incluindo a páscoa. O bom nome era como o bom vinho. A angustia, a amargura, o fel,<br />

como o vinho estragado, como o vinagre. O vinho derramado como desperdício. O vinho<br />

novo indicava a prosperidade, a boa-colheita, sua venda era a base da economoa de<br />

milhares de vinhateiros. Um casamento era medido em importância pela quantidade do<br />

vinho distribuído. Se o vinho não fosse o suficiente para que os convida<strong>dos</strong> brindassem até<br />

o final da festa, simbolizava que o casamento estava sendo oferecido por uma família<br />

humilde. Se o vinho acabasse no meio da festa de casamento, que em Israel duraria por<br />

muitos dias, significava vergonha para os pais da noiva. Se terminasse no inicio, quase uma<br />

tragédia familiar. Nas bodas de Cana, após a água ser transformada em vinho, um <strong>dos</strong><br />

convida<strong>dos</strong> se espantará, não com a quantidade do mesmo. Mas com a qualidade, com sua<br />

excelência, porque de modo generoso e fabuloso quem os convidou para a festa guardou o<br />

melhor para o final e para os convida<strong>dos</strong>! Não para si próprios. Sentia-se honrado pela<br />

generosidade do casal, sem saber que aquilo era generosidade do Espírito de Deus. Os<br />

sacrifícios e os holocaustos eram acompanha<strong>dos</strong> pelo derramamento do vinho! Quando às<br />

três horas da tarde Jesus morrer no calvário, neste instante o segundo cordeiro do dia<br />

estava sendo morto. Num sacrifício único, o de Yom Kipur, o que representava toda a<br />

nação, que teria seu sangue derramado sobre a arca do concerto, se ela ainda existisse na<br />

época de Cristo. O Sumosacerdote degolaria o cordeiro, ou o bezerro de cor avermelhada,<br />

e entraria no santo <strong>dos</strong> santos. Porém, antes derramaria um litro de vinho no chão.<br />

61


Jesus o denominara na instituição da ceia de “meu sangue”.<br />

7,10 – “O céu da tua boca é como vinho bom” (wehikeké kéeyyn hatôv). O poema<br />

semelhante aos wasfs árabes, da Sulamita (7,3a) trata de um tipo de vinho chamado<br />

maseg. Ao citar a palavra “taça” (‘agan), indicará um ambiente refinado.<br />

É um vinho excelente. Um vinho que era usado pelos reis. Um vinho da adega real, usado<br />

em ocasiões especiais. No Livro de Ester o rei Assuero prepara uma festa de londa duração<br />

e quando o vinho está acabando, solicita aos seus oficiais que abram e distribuam á vontade<br />

o vinho especial, da maior adaga da história que poderia sustentar por anos o consumo de<br />

vinho <strong>dos</strong> palácios persas.<br />

Em Apocalipse oito vezes a figura do vinho será invocado. Denominado do “vinho da<br />

ira”. O vinho é inebriante e potencializa emoções. Ele “altera” os senti<strong>dos</strong> e se uma pessoa<br />

for dominada pela raiva enquanto estiver alcoolizada perde a capacidade de raciocinar.<br />

Milhares de lares brasileiros provaram do “vinho da ira” que é a tragédia causada por<br />

mari<strong>dos</strong> bêba<strong>dos</strong> que batem em seus filhos, filhas e esposas. Muitas foram mortas pelos<br />

seus esposos embriaga<strong>dos</strong> que só deram conta do que fizeram após siar do estado de<br />

embriaguez. Em Apocalipse é utilizada a sua figura no juízo, onde a repreensão e o juízo,<br />

agem sem repressão, sem interferência, sem poderem ser conti<strong>dos</strong>.<br />

Em Cantares veremos toda essa multiformidade do vinho. Basicamente os dois vão<br />

passar grande parte de Cantares, embriaga<strong>dos</strong>.<br />

Ela chora rui<strong>dos</strong>amente quando ele não chega, ele tece um milhão de elogios á amada, os<br />

guardas bêba<strong>dos</strong> a espancam, ele bebe pra ter coragem pra dar-lhe um beijão, ela bebe pra<br />

ter coragem pra roubar o grupo de cabritos e ir em direção a um grupo de desconheci<strong>dos</strong>,<br />

ele está meio embriagado na festa em que a moça irá dançar e depois eles que eles se casam<br />

há uma festança, regada, logicamente, a vinho da melhor qualidade.<br />

E dependendo do contexto o vinho adotará uma das muitas figuras que o referenciam na<br />

linguagem das Escrituras.<br />

Vida, Ira, Alegria, Amor, sangue derramado, comunhão.<br />

Incluindo o Espírito de Deus:<br />

E não vos embriagueis com vinho, no qual há dissolução, mas enchei-vos do Espírito,<br />

Paulo ordena que se alguém tiver que ficar bêbado, que fique embriado do Espírito de<br />

Deus.<br />

Vinho<br />

“E o vinho que alegra o coração do homem, e faz reluzir o seu rosto como o azeite,<br />

e o pão que fortalece o seu coração” (Sl 104.15).<br />

Este texto une o símbolo do Vinho ao do Azeite.<br />

O vinho nos fala de uma das características da presença do Espírito de Deus em nós. A<br />

ALEGRIA.<br />

Vinhal ou Vinha em Israel<br />

62


Mapa <strong>dos</strong> vinhas atuais em Israel<br />

63


https://maps.google.com/maps/ms?msa=0&msid=214578225427714183971.00<br />

04a2592f15a10f6bd85<br />

Vinho (7 times in 7 verses - Song 1:2; 1:4; 4:10; 5:1; 7:2; 7:9; 8:2)<br />

O vinho é parecido com o ser humano ser for de baixa qualidade, quando envelhece vira<br />

vinagre, de boa qualidade, ao envelhecer, enobrece.<br />

Ê condição básica, que as variedades destinadas ao preparo do suco de<br />

uva possuam a particularidade de conservar os seus cachos por longo tempo<br />

na planta, sem sofrerem estragos ou apodrecimento, a fim de que atinjam<br />

sua perfeita maturação e adquiram todas as características necessárias à<br />

obtenção de um produto de alta qualidade.<br />

64


Preludio a partir do livro O Homem Ludico de Johan Huizinga<br />

Existe uma terceira função, que se verifica tanto na vida humana como na animal, e é tão<br />

importante como o raciocínio e o fabrico de objetos: o jogo. Creio que, depois de Homo<br />

faber e talvez ao mesmo nível de Homo sapiens, a expressão Homo ludens merece um<br />

lugar em nossa nomenclatura. A antropologia e as ciências a ela ligadas têm, até hoje,<br />

prestado muito pouca atenção ao conceito de jogo e à importância fundamental do fator<br />

lúdico para a civilização. O jogo é fato mais antigo que a cultura, pois esta, mesmo em<br />

suas definições menos rigorosas, pressupõe sempre a sociedade humana; mas, os animais<br />

não esperaram que os homens os iniciassem na atividade lúdica. É-nos possível afirmar<br />

com segurança que a civilização humana não acrescentou característica essencial alguma à<br />

idéia geral de jogo. Os animais brincam tal como os homens. Bastará que observemos<br />

os cachorrinhos para constatar que, em suas alegres evoluções, encontram-se presentes<br />

to<strong>dos</strong> os elementos essenciais do jogo humano. Convidam-se uns aos outros para brincar<br />

mediante um certo ritual de atitudes e gestos. Respeitam a regra que os proíbe morderem,<br />

ou pelo menos com violência, a orelha do próximo. Fingem ficar zanga<strong>dos</strong> e, o que é mais<br />

importante, eles, em tudo isto, experimentam evidentemente imenso prazer e divertimento.<br />

Essas brincadeiras <strong>dos</strong> cachorrinhos constituem apenas uma das formas mais simples de<br />

jogo entre os animais. Existem outras formas muito mais complexas, verdadeiras<br />

competições, belas representações destinadas a um público Desde já encontramos aqui um<br />

aspecto muito importante: mesmo em suas formas mais simples, ao nível animal, o<br />

jogo é mais do que um fenômeno fisiológico ou um reflexo psicológico. Ultrapassa<br />

os limites da atividade puramente física ou biológica. É uma função significante, isto é,<br />

encerra um determinado sentido. No jogo existe alguma coisa "em jogo" que<br />

transcende as necessidades imediatas da vida e confere um sentido à ação. Todo<br />

jogo significa alguma coisa. Não se explica nada chamando "instinto" ao princípio ativo que<br />

constitui a essência do jogo; chamar-lhe "espírito" ou "vontade" seria dizer demasiado. Seja<br />

qual for a maneira como o considerem, o simples fato de o jogo encerrar um sentido<br />

implica a presença de um elemento não material em sua própria essência.<br />

Por que razão o bebê grita de prazer? Por que motivo o jogador se deixa absorver<br />

inteiramente por sua paixão? Por que uma multidão imensa pode ser levada até ao delírio<br />

por um jogo de futebol?<br />

65


A intensidade do jogo e seu poder de fascinação não podem ser explica<strong>dos</strong> por análises<br />

biológicas. E, contudo, é nessa intensidade, nessa fascinação, nessa capacidade de<br />

excitar que reside a própria essência e a característica primordial do jogo. O mais<br />

simples raciocínio nos indica que a natureza poderia igualmente ter oferecido a suas<br />

criaturas todas essas úteis funções de descarga de energia excessiva, de distensão após um<br />

esforço, de preparação para as exigências da vida, de compensação de desejos insatisfeitos<br />

etc., sob a forma de exercícios e reações puramente mecânicos. Mas não, ela nos deu a<br />

tensão, a alegria e o divertimento do jogo.<br />

Como a realidade do jogo ultrapassa a esfera da vida humana, é impossível que tenha<br />

seu fundamento em qualquer elemento racional, pois nesse caso, limitar-se-ia à<br />

humanidade. A existência do jogo não está ligada a qualquer grau determinado de<br />

civilização, ou a qualquer concepção do universo. Todo ser pensante é capaz de<br />

entender à primeira vista que o jogo possui uma realidade autônoma, mesmo que<br />

sua língua não possua um termo geral capaz de defini-lo. A existência do jogo é<br />

inegável. É possível negar, se se quiser, quase todas as abstrações: a justiça, a beleza, a<br />

verdade, o bem, Deus. É possível negar-se a seriedade, mas não o jogo.<br />

A própria existência do jogo é uma confirmação permanente da natureza supralógica da<br />

situação humana. Se os animais são capazes de brincar, é porque são alguma coisa<br />

mais do que simples seres mecânicos. Se brincamos e jogamos, e temos<br />

consciência disso, é porque somos mais do que simples seres racionais, pois o jogo<br />

é irracional. Só se toma possível, pensável e compreensível quando a presença do<br />

espírito destrói o determinismo absoluto do cosmos Se verificarmos que o jogo se<br />

baseia na manipulação de certas imagens, numa certa "imaginação" da realidade (ou seja, a<br />

transformação desta em imagens), nossa preocupação fundamental será, então, captar o<br />

valor e o significado dessas imagens e dessa "imaginação". Observaremos a ação destas no<br />

próprio jogo, procurando assim compreendê-lo como fator cultural da vida As grandes<br />

atividades arquetípicas da sociedade humana são, desde início, inteiramente<br />

marcadas pelo ludico. Como por exemplo, no caso da linguagem, esse primeiro e<br />

supremo instrumento que o homem forjou a fim de poder comunicar, ensinar e<br />

comandar. É a linguagem que lhe permite distinguir as coisas, defini-las e constatá-las, em<br />

resumo, designá-las e com essa designação elevá-las ao domínio do espírito. Na criação da<br />

fala e da linguagem, brincando com essa maravilhosa faculdade de designar, é<br />

como se o espírito estivesse constantemente saltando entre a matéria e as coisas<br />

pensadas. Por detrás de toda expressão abstrata se oculta uma metáfora, e toda<br />

metáfora é jogo de palavras. Assim, ao dar expressão à vida, o homem cria um outro<br />

mundo, um mundo poético, ao lado do da natureza. Em todas as caprichosas invenções da<br />

mitologia, há um espírito fantasista que joga no extremo limite entre a brincadeira e a<br />

seriedade. Se, finalmente, observarmos o fenômeno do culto, verificaremos que as<br />

sociedades celebram seus ritos sagra<strong>dos</strong>, seus sacrifícios, consagrações e mistérios,<br />

destina<strong>dos</strong> a assegurarem a tranqüilidade do mundo, dentro de um espírito de puro<br />

ludico, tomando-se aqui o verdadeiro sentido da palavra. Ora, é no mito e no culto que<br />

têm origem as grandes forças instintivas da vida civilizada: o direito e a ordem, o<br />

comércio e o lucro, a indústria e a arte, a poesia, a sabedoria e a ciência. Todas elas<br />

têm suas raízes no solo primevo do ludico.<br />

O jogo não é compreendido pela antítese entre sabedoria e loucura, ou pelas que opõem a<br />

verdade e a falsidade, ou o bem e o mal. Embora seja uma atividade não material, não<br />

desempenha uma função moral, sendo impossível aplicar-lhe as noções de vício e virtude.<br />

Antes de mais nada, o jogo é uma atividade voluntária. Sujeito a ordens, deixa de ser<br />

jogo, podendo no máximo ser uma imitação forçada. Basta esta característica de<br />

liberdade para afastá-lo definitivamente do curso da evolução natural. Chegamos,<br />

assim, à primeira das características fundamentais do jogo: o fato de ser livre, de ser<br />

66


ele próprio liberdade. Uma segunda característica, intimamente ligada à primeira, é que o<br />

jogo não é vida "corrente" nem vida "real". Pelo contrário, trata-se de uma evasão da vida<br />

"real" para uma esfera temporária de atividade com orientação própria. Toda criança<br />

sabe perfeitamente quando está "só fazendo de conta" ou quando está "só brincando". É<br />

possível ao jogo alcançar extremos de beleza e de perfeição que ultrapassam em muito a<br />

seriedade. É pelo menos assim que, em primeira instância, o ele se nos apresenta: como um<br />

intervalo em nossa vida<br />

quotidiana. Todavia, em sua qualidade de distensão regularmente verificada, ele se torna um<br />

acompanhamento, um complemento e, em última análise, uma parte integrante da vida em<br />

geral. Ornamenta a vida, ampliando-a, e nessa medida toma-se uma necessidade tanto para<br />

o indivíduo, como função vital, quanto para a sociedade, devido ao sentido que encerra, à<br />

sua significação, a seu valor expressivo, a suas associações espirituais e sociais, em resumo,<br />

como função cultural.<br />

O jogo distingue-se da vida "comum" tanto pelo lugar quanto pela duração que ocupa. Ê<br />

esta a terceira de suas características principais: o isolamento, a limitação. É "jogado<br />

até ao fim" dentro de certos limites de tempo e de espaço. Possui um caminho e um<br />

sentido próprios.<br />

É transmitido, toma-se tradição. Pode ser repetido a qualquer momento, quer seja "jogo<br />

infantil" ou jogo de xadrez, ou em perío<strong>dos</strong> determina<strong>dos</strong>, como um mistério. Uma de<br />

suas qualidades fundamentais reside nesta capacidade de repetição, que não se aplica apenas<br />

ao jogo em geral, mas também à sua estrutura interna. Em quase todas as formas mais<br />

elevadas de jogo, os elementos de repetição e de alternância (como no refrain) constituem<br />

como que o fio e a tessitura do objeto. A limitação no espaço é ainda mais flagrante do que<br />

a limitação no tempo. Todo jogo se processa e existe no interior de um campo<br />

previamente delimitado, de maneira material ou imaginária, deliberada ou<br />

espontânea. Tal como não há diferença formal entre o jogo e o culto, do mesmo modo o<br />

"lugar sagrado" não pode ser formalmente distinguido do terreno de jogo. A arena,<br />

a mesa de jogo, o círculo mágico, o templo, o palco, a tela, o campo de tênis, o tribunal<br />

etc., têm to<strong>dos</strong> a forma e a função de terrenos que o jogo igualmente representa, isto é,<br />

lugares proibi<strong>dos</strong>, isola<strong>dos</strong>, fecha<strong>dos</strong>, sagra<strong>dos</strong>, em cujo interior se respeitam<br />

determinadas regras. To<strong>dos</strong> eles são mun<strong>dos</strong> temporários dentro do mundo<br />

habitual, dedica<strong>dos</strong> à prática de uma atividade especial.<br />

67


Reina dentro do domínio do jogo uma ordem específica e absoluta. E aqui chegamos a<br />

sua outra característica, mais positiva ainda: ele cria ordem e é ordem. Introduz na<br />

confusão da vida e na imperfeição do mundo uma perfeição temporária e limitada,<br />

exige uma ordem suprema e absoluta: a menor desobediência a esta "estraga o jogo",<br />

privando-o de seu caráter próprio e de todo e qualquer valor. É talvez devido a esta<br />

afinidade profunda entre a ordem e o jogo que este, como assinalamos de passagem, parece<br />

estar em tão larga medida ligado ao domínio da estética. Há nele uma tendência<br />

para ser belo. Talvez este fator estético seja idêntico aquele impulso de criar formas<br />

ordenadas que penetra o jogo em to<strong>dos</strong> os seus aspectos. As palavras que empregamos<br />

para designar seus elementos pertencem quase todas à estética. São as mesmas palavras<br />

com as quais procuramos descrever os efeitos da beleza: tensão, equilíbrio, compensação,<br />

contraste, variação, solução, união e desunião.<br />

68


O jogo lança sobre nós um feitiço: é "fascinante", "cativante". Está cheio das duas<br />

qualidades mais nobres que somos capazes de ver nas coisas: o ritmo e a harmonia.<br />

O elemento de tensão, a que acabamos de nos referir, desempenha no jogo um papel<br />

especialmente importante.<br />

69


Tensão significa incerteza, acaso. Há um esforço para levar o jogo até ao desenlace,<br />

o jogador quer que alguma coisa "vá" ou "saia", pretende "ganhar" à custa de seu próprio<br />

esforço. Uma criança estendendo a mão para um brinquedo, um gatinho brincando com<br />

um novelo, uma garotinha jogando bola, to<strong>dos</strong> eles procuram conseguir alguma coisa<br />

difícil, ganhar, acabar com uma tensão.<br />

70


O jogo é "tenso", como se costuma dizer. É este elemento de tensão e solução que domina<br />

em to<strong>dos</strong> os jogos solitários de destreza e aplicação, como os quebra-cabeças, as charadas,<br />

os jogos de armar, as paciências, o tiro ao alvo, e quanto mais estiver presente o<br />

elemento competitivo mais apaixonante se torna o jogo.<br />

Esta tensão chega ao extremo nos jogos de azar e nas competições esportivas. Embora o<br />

jogo enquanto tal esteja para além do domínio do bem e do mal, o elemento de tensão<br />

lhe confere um certo valor ético, na medida em que são postas à prova as<br />

qualidades do jogador: sua força e tenacidade, sua habilidade e coragem e,<br />

igualmente, suas capacidades espirituais, sua "lealdade". Porque, apesar de seu<br />

ardente desejo de ganhar, deve sempre obedecer às regras do jogo. Por sua vez, estas<br />

regras são um fator muito importante para o conceito de jogo. Todo jogo tem suas<br />

regras. São estas que determinam aquilo que "vale" dentro do mundo temporário<br />

por ele circunscrito. As regras de to<strong>dos</strong> os jogos são absolutas e não permitem discussão.<br />

Uma vez, de passagem, Paul Valéry exprimiu uma idéia das mais importantes: "No que diz<br />

respeito às regras de um jogo, nenhum ceticismo é possível, pois o princípio no qual elas<br />

assentam é uma verdade apresentada como inabalável". E não há dúvida de que a<br />

desobediência às regras implica a derrocada do mundo do jogo. O jogo acaba: O apito do<br />

árbitro quebra o feitiço e a vida "real" recomeça. O jogador que desrespeita ou ignora as<br />

regras é um "desmancha-prazeres". Este, porém, difere do jogador desonesto, do batoteiro,<br />

já que o último finge jogar seriamente o jogo e aparenta reconhecer o círculo mágico. É<br />

curioso notar como os jogadores são muito mais indulgentes para com o batoteiro do que<br />

com o desmanchaprazeres; o que se deve ao fato de este último abalar o próprio mundo do<br />

jogo. Retirando-se do jogo, denuncia o caráter relativo e frágil desse mundo no qual,<br />

temporariamente, se havia encerrado com os outros. Priva o jogo da ilusão — palavra<br />

cheia de sentido que significa literalmente "em jogo" (de inlusio, illudere ou inludere).<br />

Torna-se, portanto, necessário expulsá-lo, pois ele ameaça a existência da comunidade <strong>dos</strong><br />

jogadores.<br />

71


A figura do desmancha-prazeres desenha-se com mais nitidez nos jogos infantis. A<br />

pequena comunidade não procura averiguar se o desmancha-prazeres abandona o jogo por<br />

incapacidade ou por imposição alheia, ou melhor, não reconhece sua incapacidade e acusao<br />

de falta de audácia. Para ela, o problema da obediência e da consciência é reduzido ao do<br />

medo ao castigo. O desmancha-prazeres destrói o mundo mágico, portanto, é um covarde<br />

e precisa ser expulso. Mesmo no universo da seriedade, os hipócritas e os batoteiros<br />

sempre tiveram mais sorte do que os desmancha-prazeres: os apóstatas, os hereges, os<br />

reformadores, os profetas e os objetores de consciência. Todavia, freqüentemente acontece<br />

que, por sua vez, os desmancha-prazeres fundam uma nova comunidade, dotada de regras<br />

próprias. Os fora da lei, os revolucionários, os membros das sociedades secretas, os hereges<br />

de to<strong>dos</strong> os tipos têm tendências fortemente associativas, se não sociáveis, e todas as suas<br />

ações são marcadas por um certo elemento lúdico.<br />

O caráter especial e excepcional do jogo é ilustrado de maneira flagrante pelo ar de<br />

mistério em que freqüentemente se envolve. Desde a mais tenra infância, o encanto do<br />

jogo é reforçado por se fazer dele um segredo.<br />

Representar significa mostrar, e isto pode consistir simplesmente na exibição, perante um<br />

público, de uma característica natural.<br />

72


O pavão e o peru limitam-se a mostrar às fêmeas o esplendor de sua plumagem, mas aqui o<br />

aspecto essencial é a exibição de um fenômeno invulgar destinado a provocar admiração.<br />

Se a ave acompanha essa exibição com alguns passos de dança passamos a ter um<br />

espetáculo, uma passagem da realidade vulgar para um plano mais elevado. Nada<br />

sabemos daquilo que o animal sente durante esses atos, mas sabemos que as exibições das<br />

crianças mostram, desde a mais tenra infância, um alto grau de imaginação.<br />

A criança representa alguma coisa diferente, ou mais bela, ou mais nobre, ou mais perigosa<br />

do que habitualmente é. Finge ser um príncipe, um papai, uma bruxa malvada ou um tigre.<br />

A criança fica literalmente "transportada" de prazer, superando-se a si mesma a tal ponto<br />

73


que quase chega a acreditar que realmente é esta ou aquela coisa, sem contudo perder<br />

inteiramente o sentido da "realidade habitual". Mais do que uma realidade falsa, sua<br />

representação é a realização de uma aparência: é "imaginação", no sentido original do<br />

termo.<br />

Se passarmos agora das brincadeiras infantis para as representações sagradas das<br />

civilizações primitivas, veremos que nestas se encontra "em jogo" um elemento espiritual<br />

diferente, que é muito difícil de definir. A representação sagrada é mais do que a simples<br />

realização de uma aparência é até mais do que uma realização simbólica: é uma realização<br />

mística. Algo de invisível e inefável adquire nela uma forma bela, real e sagrada. Os<br />

participantes do ritual estão certos de que o ato concretiza e efetua uma certa beatificação,<br />

faz surgir uma ordem de coisas mais elevada do que aquela em que habitualmente vivem.<br />

Mas tudo isto não impede que essa "realização pela representação" conserve, sob to<strong>dos</strong> os<br />

aspectos, as características formais do jogo. É executada no interior de um espaço<br />

circunscrito sob a forma de festa, isto é, dentro de um espírito de alegria e liberdade. Em<br />

sua intenção é delimitado um universo próprio de valor temporário. Mas seus efeitos não<br />

cessam depois de acabado o jogo; seu esplendor continua sendo projetado sobre o mundo<br />

de to<strong>dos</strong> os dias, influência benéfica que garante a segurança, a ordem e a prosperidade de<br />

todo o grupo até à próxima época <strong>dos</strong> rituais sagra<strong>dos</strong>.<br />

74


Segundo uma velha crença chinesa, a música e a dança têm a finalidade de manter o mundo<br />

em seu devido curso e obrigar a natureza a proteger o homem. A prosperidade de cada ano<br />

depende da fiel execução de competições sagradas na época das festas. Caso essas reuniões<br />

não se realizem, as colheitas não poderão amadurecer.<br />

O ritual é um dromenon, isto é, uma coisa que é feita, uma ação. A matéria desta ação é um<br />

drama, isto é, uma vez mais, um ato, uma ação representada num palco. Esta ação pode<br />

revestir a forma de um espetáculo ou de uma competição. O rito, ou "ato ritual",<br />

representa um acontecimento cósmico, um evento dentro do processo natural. Contudo, a<br />

palavra "representa" não exprime o sentido exato da ação, pelo menos na conotação mais<br />

vaga que atualmente predomina; porque aqui "representação" é realmente identificação, a<br />

repetição mística ou a representação do acontecimento. O ritual produz um efeito que,<br />

mais do que figurativamente mostrado, é realmente reproduzido na ação. Portanto, a<br />

função do rito está longe de ser simplesmente imitativa, leva a uma verdadeira participação<br />

no próprio ato sagrado7. É um fator helping the action out8. A psicologia poderá tentar<br />

arrumar a questão definindo o ritual como identificação compensadora, uma espécie de<br />

substituto, "um ato representativo devido à impossibilidade de levar a cabo uma ação real e<br />

intencional"9. O que é importante para a ciência da cultura é procurar compreender o<br />

significado dessas figurações no espírito <strong>dos</strong> povos que as praticam e nelas crêem.<br />

Tocamos aqui no próprio âmago da religião comparada: a natureza e a essência do ritual e<br />

do mistério.<br />

To<strong>dos</strong> os antigos sacrifícios rituais <strong>dos</strong> Vedas baseiam-se na idéia de que a cerimônia —<br />

seja ela sacrifício, competição ou representação, — representando um certo acontecimento<br />

cósmico que se deseja, obriga os deuses a provocar sua realização efetiva. Há, portanto, um<br />

jogo, no sentido pleno do termo. Deixaremos agora de lado os aspectos especificamente<br />

religiosos, concentrando-nos na análise <strong>dos</strong> elementos lúdicos nos rituais primitivos.<br />

O culto é, portanto, um espetáculo, uma representação dramática, uma figuração imaginária<br />

de uma realidade desejada. Na época das grandes festas, o grupo social celebra os<br />

acontecimentos principais da vida da natureza levando a efeito representações sagradas, que<br />

representam a mudança das estações, o surgimento e o declínio <strong>dos</strong> astros, o crescimento e<br />

o amadurecimento das colheitas, a vida e a morte <strong>dos</strong> homens e <strong>dos</strong> animais.<br />

Como escreve Leo Frobenius, a humanidade "joga", representa a ordem da natureza tal<br />

como ela está impressa em sua consciência10. Num passado remoto, segundo Frobenius, os<br />

homens começaram por tomar consciência <strong>dos</strong> fenômenos do mundo vegetal e animal só<br />

depois, adquirindo as idéias de tempo e espaço, <strong>dos</strong> meses e das estações, do percurso do<br />

sol e da lua. Passaram depois a representar esta grande ordem da existência em cerimônias<br />

sagradas, nas quais e através das quais realizavam de novo, ou "recriavam", os<br />

acontecimentos representa<strong>dos</strong>, contribuindo assim para a preservação da ordem cósmica. E<br />

há mais. As formas desse jogo litúrgico deram origem à ordem da própria comunidade, às<br />

instituições políticas primitivas. O rei é o sol, e seu reinado é a imagem do curso do sol.<br />

Durante toda sua vida o rei desempenha o papel do sol, e no final sofre o mesmo destino<br />

que o sol: deve ser morto, de forma ritual, por seu próprio povo.<br />

A concepção deste processo espiritual defendida por Frobenius é mais ou menos a<br />

seguinte: a experiência, ainda inexpressa da natureza e da vida, manifesta-se no homem<br />

primitivo sob a forma de "arrebatamento"13. "A capacidade criadora, tanto nos povos<br />

quanto nas crianças ou em qualquer indivíduo criador, deriva desse estado de<br />

arrebatamento. "Os homens são arrebata<strong>dos</strong> pela revelação do destino". "A realidade do<br />

ritmo natural da gênese e da extinção arrebata sua consciência e este fato leva-o a<br />

representar sua emoção em um ato, inevitável e como que reflexo"14. Assim, segundo ele,<br />

trata-se aqui de um processo espiritual de transformação que é absolutamente necessário. A<br />

emoção, o arrebatamento perante os fenômenos da vida e da natureza é condensado pela<br />

75


ação reflexa e elevado à expressão poética e à arte. É esta a maneira mais aproximada para<br />

dar conta do processo de imaginação criadora, mas está longe de poder ser considerada<br />

uma verdadeira explicação. Continua tão obscuro como antes o caminho que leva da<br />

percepção estética ou mística, ou pelo menos metalógica, da ordem cósmica até aos rituais<br />

sagra<strong>dos</strong>.<br />

Diríamos, então, que, na sociedade primitiva, verifica-se a presença do jogo, tal como nas<br />

crianças e nos animais, e que, desde a origem, nele se verificam todas as características<br />

lúdicas: ordem, tensão, movimento, mudança, solenidade, ritmo, entusiasmo.<br />

Só em fase mais tardia da sociedade o jogo se encontra associado à expressão de alguma<br />

coisa, nomeadamente aquilo a que podemos chamar "vida" ou "natureza". O que era jogo<br />

desprovido de expressão verbal adquire agora uma forma poética. Na forma e na função do<br />

jogo, que em si mesmo é uma entidade independente desprovida de sentido e de<br />

racionalidade, a consciência que o homem tem de estar integrado numa ordem cósmica<br />

encontra sua expressão primeira, mais alta e mais sagrada. Pouco a pouco, o jogo vai<br />

adquirindo a significação de ato sagrado. O culto vem-se juntar ao jogo; foi este, contudo,<br />

o fato inicial. Encontramo-nos aqui em regiões difíceis de penetrar, tanto pela psicologia<br />

quanto pela filosofia. São questões que tocam no que há de mais profundo em nossa<br />

consciência. O culto é a forma mais alta e mais sagrada da seriedade. Como pode ele,<br />

apesar disso, ser jogo? Começamos por dizer que todo jogo, tanto das crianças como <strong>dos</strong><br />

adultos, pode efetuar-se dentro do mais completo espírito de seriedade. Mas irá isto a<br />

ponto de implicar que o jogo continua sempre ligado à emoção sagrada do ato sacramentai?<br />

Quanto a isto, nossas conclusões são de certa maneira obstruídas pela rigidez de nossas<br />

idéias habituais. Estamos habitua<strong>dos</strong> a considerar o jogo e a seriedade como constituindo<br />

uma antítese absoluta. Contudo, parece que isto não permite chegar ao nó do problema.<br />

Prestemos um momento de atenção aos seguintes aspectos. A criança joga e brinca dentro<br />

da mais perfeita seriedade, que a justo título podemos considerar sagrada. Mas sabe<br />

perfeitamente que o que está fazendo é um jogo.<br />

Também o esportista joga com o mais fervoroso entusiasmo, ao mesmo tempo que sabe<br />

estar jogando. O mesmo verificamos no ator, que, quando está no palco, deixa-se absorver<br />

inteiramente pelo "jogo" da representação teatral, ao mesmo tempo que tem consciência da<br />

natureza desta. O mesmo é válido para o violinista, que se eleva a um mundo superior ao<br />

de to<strong>dos</strong> os dias, sem perder a consciência do caráter lúdico de sua atividade. Portanto, a<br />

qualidade lúdica pode ser própria das ações mais elevadas. Mas permitirá isto que<br />

prolonguemos a série de maneira a incluir o culto, afirmando ser também meramente lúdica<br />

a atividade do sacerdote que executa os rituais do sacrifício? À primeira vista isto parece<br />

absurdo, pois, aceitá-lo para uma religião nos obrigaria a aceitá-lo para todas.<br />

Assim, nossas idéias de culto, magia, liturgia, sacramento e mistério seriam todas<br />

abrangidas pelo conceito do LUDICO. Ora, quando lidamos com abstrações devemos<br />

sempre evitar o exagero de sua importância, e estender demasiado o conceito de jogo não<br />

levaria a mais do que a um mero jogo de palavras. Mas, levando em conta to<strong>dos</strong> os<br />

aspectos do problema, não creio que seja um erro definirmos o ritual em termos lúdicos. O<br />

ato de culto possui todas as características formais e essenciais do jogo, que anteriormente<br />

enumeramos, sobretudo na medida em que transfere os participantes para um mundo<br />

diferente. Esta identidade do ritual e do jogo era reconhecida sem reservas por Platão, que<br />

não hesitava em incluir o sagrado na categoria de jogo. A identificação platônica entre o<br />

jogo e o sagrado não desqualifica este último, reduzindo-o ao jogo, mas, pelo<br />

contrário, equivale a exaltar o primeiro, elevando-o às mais altas regiões do espírito.<br />

As Escrituras não DESQUALIFICAM a palavra jogo, mas em vista da sua<br />

conotação negativa e moderna associação do termo aos jogos de azar,<br />

principalmente nos meios religiosos, essa apostila usa a palavra “jogo” como<br />

76


sinônimo de LÚDICO, abordando toda sua essência, não limitando de modo<br />

algum o seus conceito ao caráter competitivo ou de apostas.<br />

Adotando este ponto de vista, podemos agora definir de maneira mais rigorosa as relações<br />

entre o ritual e o jogo. A extrema semelhança das duas formas não nos deixa mais<br />

perplexos, e nossa atenção continua presa ao problema de saber até que ponto to<strong>dos</strong> os<br />

atos de culto são abrangi<strong>dos</strong> pela categoria do jogo.<br />

Verificamos que uma das características mais importantes do jogo é sua separação espacial<br />

em relação à vida quotidiana. É-lhe reservado, quer material ou idealmente, um espaço<br />

fechado, isolado do ambiente quotidiano, e é dentro desse espaço que o jogo se processa e<br />

que suas regras têm validade. Ora, a delimitação de um lugar sagrado é também a<br />

característica primordial de todo ato de culto. Esta exigência de isolamento para o ritual,<br />

incluindo a magia e a vida jurídica, tem um alcance superior ao meramente espacial e<br />

temporal. Quase to<strong>dos</strong> os rituais de consagração e iniciação implicam um certo isolamento<br />

artificial tanto <strong>dos</strong> ministros como <strong>dos</strong> neófitos. Sempre que se trata de proferir um voto,<br />

de ser recebido numa Ordem ou numa confraria, de fazer um juramento ou de entrar para<br />

uma sociedade secreta, de uma maneira ou de outra há sempre essa delimitação de um lugar<br />

do jogo. O mágico, o áugure e o sacrificador começam sempre por circunscrever seu<br />

espaço sagrado. O sacramento e o mistério implicam sempre um lugar santificado. A<br />

extrema semelhança que se verifica entre os rituais <strong>dos</strong> sacrifícios de todo o mundo mostra<br />

que esses costumes devem ter suas raízes em alguma característica fundamental e essencial<br />

do espírito humano. É costume reduzir esta analogia geral das formas de cultura a qualquer<br />

causa "racional" ou "lógica", explicando a necessidade de isolamento e separação pela ânsia<br />

de proteger os indivíduos consagra<strong>dos</strong> de influências maléficas, pois eles, em seu estado de<br />

consagração, são particularmente vulneráveis às práticas <strong>dos</strong> espíritos malignos, além de<br />

constituírem eles mesmos um perigo para os que os rodeiam.<br />

O sábio húngaro Karl Kerényi publicou um estudo sobre a natureza da festa cuja ligação<br />

com nosso tema é das mais estreitas19. Segundo Kerényi, também as festas possuem aquele<br />

caráter de independência primeira e absoluta que atribuímos ao jogo. "Entre as realidades<br />

psíquicas", diz ele, "a festa é uma entidade autônoma, impossível de se assimilar a qualquer<br />

outra coisa que exista no mundo20. Tal como nós em relação ao conceito de jogo, também<br />

Kerényi considera que a festa foi tratada de maneira insuficiente pelos estudiosos da<br />

cultura. "O fenômeno da festa parece ter sido inteiramente ignorado pelos etnólogos21." O<br />

fato real da festa é ignorado, "como se não existisse para a ciência22". Exatamente da<br />

mesma maneira que o jogo, poderíamos nós acrescentar.<br />

Em resumo, a festa e o jogo têm em comuns suas características principais. O modo mais<br />

intimo de união de ambos parece poder encontrar-se na dança. Segundo Kerényi, os índios<br />

Cora, da costa oriental do México, chamam a suas festas religiosas realizadas por ocasião da<br />

trituração e da torrefação do milho o "jogo" de seu deus supremo23.<br />

Dos estranhos e bárbaros rituais <strong>dos</strong> indígenas da África, da América e da Austrália o olhar<br />

passa naturalmente para os sacrifícios rituais <strong>dos</strong> Vedas, os quais contêm já, nos hinos do<br />

Rig-Veda, toda a sabedoria <strong>dos</strong> Upanishads, para as profundamente místicas homologias<br />

entre deus, homem e animal na religião <strong>dos</strong> egípcios, para os mistérios de Orfeu ou de<br />

Elêusis. Tanto quanto à forma como quanto à prática, to<strong>dos</strong> estes estão intimamente<br />

liga<strong>dos</strong> às chamadas religiões primitivas, mesmo quanto aos pormenores mais cruéis e<br />

bizarros. Mas o elevado grau de sabedoria e de verdade que neles vemos, ou julgamos ver,<br />

nos impede de a eles nos referirmos com aquele ar de superioridade que, afinal de contas,<br />

era igualmente despropositado no caso das culturas '"primitivas". É preciso determinar se<br />

esta semelhança formal nos autoriza a aplicar a noção de jogo à consciência do sagrado, à<br />

crença que essas formas superiores contêm. Se aceitarmos a definição platônica do jogo,<br />

nada haverá de incorreto ou irreverente em que o façamos. Segundo a concepção de Platão,<br />

77


a religião é essencialmente constituída pelos jogos dedica<strong>dos</strong> à divindade, os quais são para<br />

os homens a mais elevada atividade possível. Seguir esta concepção não implica de maneira<br />

alguma que se abandone o mistério sagrado, ou que se deixe de considerar este a mais alta<br />

expressão possível daquilo que escapa às regras da lógica. Os atos de culto, pelo menos sob<br />

uma parte importante de seus aspectos, serão sempre abrangi<strong>dos</strong> pela categoria de jogo,<br />

mas esta aparente subordinação em nada implica o não reconhecimento de seu caráter<br />

sagrado.<br />

O hebreu sahaq também associa o riso e o jogo. Em aramaico la'ab significa rir e troçar.<br />

Além disso, em árabe e em sírio a mesma raiz significa "babar-se" (talvez devido ao hábito<br />

que têm as crianças de formar bolas com a saliva, o que pode muito bem ser interpretado<br />

como um jogo Por último, é curioso notar que em árabe la'iba serve para indicar o "jogo"<br />

de um instrumento musical, tal como em algumas línguas européias modernas. o latim<br />

cobre todo o terreno do jogo com uma única palavra: ludus, de ludere, de onde deriva<br />

diretamente lusus. Convém salientar que jocus, jocari, no sentido especial de fazer humor,<br />

de dizer piadas, não significa exatamente jogo em latim clássico. Embora ludere possa ser<br />

usado para designar os saltos <strong>dos</strong> peixes, o esvoaçar <strong>dos</strong> pássaros e o borbulhar das águas,<br />

sua etimologia não parece residir na esfera do movimento rápido, e sim na da nãoseriedade,<br />

e particularmente na da "ilusão" e da "simulação". Ludus abrange os jogos<br />

infantis, a recreação, as competições, as representações litúrgicas e teatrais e os jogos de<br />

azar. Na expressão lares ludentes, significa "dançar". Parece estar no primeiro plano a idéia<br />

de "simular" ou de "tomar o aspecto de". Os compostos alludo, colludo, illudo apontam<br />

to<strong>dos</strong> na direção do irreal, do ilusório. Esta base semântica está oculta em ludi, no sentido<br />

<strong>dos</strong> grandes jogos públicos que desempenhavam um papel tão importante na vida romana,<br />

ou então no sentido de "escolas". No primeiro caso o ponto de partida semântico é a<br />

competição; no segundo, é provavelmente a "prática". Ê interessante notar que ludus,<br />

como termo equivalente a jogo em geral, não apenas deixa de aparecer nas línguas<br />

românicas mas igualmente, tanto quanto sei, quase não deixou nelas qualquer vestígio. Em<br />

todas essas línguas, desde muito cedo, ludus foi suplantado por um derivado de jocus, cujo<br />

sentido específico (gracejar, troçar) foi ampliado para o de jogo em geral. É o caso do<br />

francês jeu, jouer, do italiano gioco, giocare, do espanhol juego, jugar, do português<br />

jogo, jogar, e do mesmo joc, juca8. Deixamos aqui de lado o problema de saber se o<br />

desaparecimento de ludus e ludere se deve a causas fonéticas ou semânticas. a tradução de<br />

Marcos X, 34, χαι εμπαιξονονσιν αΰτώ ("e eles troçarão dele") pelas palavras jah bilaikand<br />

ina faz parecer mais ou menos certo que o gótico exprimia a idéia do jogo com o mesmo<br />

laikan que está na origem da palavra que designa o jogo nas línguas escandinavas, e<br />

também aparece, no mesmo sentido, no inglês antigo e no alto e baixo alemão. Nos textos<br />

góticos, laikan só aparece no sentido de "saltar". Conforme já vimos, o movimento rápido<br />

deve ser considerado o ponto de partida concreto de muitos <strong>dos</strong> vocábulos que designam o<br />

jogo Nenhum exemplo da identidade essencial entre o jogo e o combate nas culturas<br />

primitivas pode ser mais decisivo do que aquele que aparece no Antigo Testamento. No<br />

Segundo Livro de Samuel (II, 14), Abner diz a Joab:<br />

"Que agora os jovens se ergam e joguem perante nós. (Reg. II, 2-14: Surgant pueri et<br />

ludant coram nobis.) E vieram doze de cada lado, e agarrou cada um deles seu<br />

companheiro pela cabeça, e cada um deles enterrou sua espada no flanco de seu<br />

companheiro, de modo que caíam juntos. E o lugar onde caíram se chamou desde então o<br />

Campo <strong>dos</strong> Fortes."<br />

78


A tradução ludant é impecável: "que joguem". O texto hebreu emprega aqui uma forma do<br />

verbo sahaq, que significa fundamentalmente "rir", assim como "fazer algo jocosamente",<br />

e também "dançar".<br />

Evidentemente é impossível que aqui se trate de liberdade poética; o fato é que é possível<br />

um jogo ser mortal sem por isso deixar de ser um jogo, o que constitui mais uma razão<br />

para não se estabelecer separação entre os conceitos de jogo e de competição21. Isto nos<br />

conduz a uma outra conclusão: dada a indivisibilidade entre o jogo e o combate, no espírito<br />

primitivo, segue-se naturalmente a assimilação entre a caça e o jogo. Esta se encontra em<br />

numerosos aspectos da língua e da literatura, e não há necessidade de nela insistirmos.<br />

Muitos <strong>dos</strong> heróis da mitologia conseguem ganhar por meio da astúcia ou graças a uma<br />

ajuda exterior. Pélops suborna o auriga de Enomeu para que ele coloque cravos de cera nos<br />

eixos das rodas. Jasão e Teseu passam suas provas com êxito graças à ajuda de Medéia e<br />

Ariadne. Gunther deve sua vitória a Siegfried. No Mahabharata, os kauravas alcançam a<br />

vitória fazendo trapaça nos jogos de da<strong>dos</strong>. Frigga engana Wotan para que este conceda a<br />

vitória aos lombar<strong>dos</strong>. Os Ases quebram o juramento que fizeram aos gigantes. Em to<strong>dos</strong><br />

estes casos, o ato de superar o outro em astúcia, fraudulentamente, tornou-se ele próprio o<br />

motivo da competição, como se fosse um novo tema lúdico5. A indeterminação das<br />

fronteiras entre o jogo e a seriedade tem um exemplo perfeito na expressão "jogar na<br />

Bolsa". O final da Idade Média assiste, tanto em Gênova como em Antuérpia, ao<br />

surgimento do seguro de vida sob a forma de apostas sobre futuras eventualidades de<br />

caráter não econômico. Apostava-se, por exemplo, "sobre a vida e a morte de pessoas, o<br />

nascimento de um menino ou uma menina, o resultado de viagens e peregrinações, a<br />

conquista de várias terras, praças, fortes ou cidades6. Este tipo de contrato, embora<br />

houvesse já assumido um caráter puramente comercial, foi diversas vezes proibido sob a<br />

alegação de tratar-se de jogo ilegal, entre outros por Carlos V7. Apostava-se sobre a escolha<br />

de um novo Papa tal como hoje se aposta em corridas de cavalos8. E ainda no século XVII<br />

os contratos de seguro de vida eram conheci<strong>dos</strong> pelo nome de "apostas".<br />

Os estu<strong>dos</strong> antropológicos têm mostrado de maneira cada vez mais clara que normalmente<br />

a vida social primitiva assenta na estrutura antagonística e antitética da própria<br />

comunidade, e que todo o mundo espiritual deste tipo de comunidade corresponde<br />

a esse profundo dualismo. Por todo o lado encontram-se vestígios desse fato. A tribo é<br />

dividida cm duas metades opostas, chamadas fratrias pelos antropólogos, as quais são<br />

separadas pela mais rigorosa exogamia. A distinção entre os dois grupos é estabelecida<br />

também pelo totem (termo de emprego um tanto duvi<strong>dos</strong>o fora do terreno específico a que<br />

pertence, mas muito útil para uso científico). Um indivíduo pode ser homem-corvo ou<br />

homem-tartaruga, adquirindo assim todo um sistema de obrigações, tabus, costumes e<br />

objetos de veneração próprios da ordem do corvo ou da tartaruga, conforme for o caso.<br />

Entre as duas metades da tribo as relações são de competição e rivalidade, mas ao mesmo<br />

tempo de ajuda recíproca e mútua prestação de bons serviços. O conjunto destas relações<br />

transforma toda a vida pública da tribo numa interminável série de cerimônias, formuladas<br />

com a maior precisão e cumpridas com o maior rigor. O dualismo que diversifica as duas<br />

metades se estende a todo o mundo conceptual e imaginativo da tribo. Todas as criaturas,<br />

todas as coisas têm seu lugar com um ou outro <strong>dos</strong> dois la<strong>dos</strong>, de tal modo que todo o<br />

cosmos é abrangido por essa classificação. Em nenhuma grande cultura a importantíssima<br />

influência civilizadora destas competições festivas foi mais claramente elucidada do que no<br />

caso da China antiga, graças aos trabalhos de Marcel Granet. Baseando sua reconstrução<br />

numa interpretação antropológica <strong>dos</strong> cantos rituais da China antiga, Granet conseguiu<br />

elaborar um estudo das fases primitivas da cultura chinesa, notável tanto por sua<br />

simplicidade quanto por seu rigor científico9.<br />

79


Segundo Granet, na fase mais primitiva os clãs rurais celebravam as festas das estações por<br />

meio de competições destinadas a favorecer a fertilidade e o amadurecimento das colheitas.<br />

É fato bem conhecido que essa<br />

é uma idéia subjacente à maior parte <strong>dos</strong> ritos primitivos. No espírito do homem primitivo,<br />

toda cerimônia corretamente celebrada, todo jogo ou competição ganho de acordo com as<br />

regras, todo sacrifício devidamente realizado, está intimamente ligado à aquisição pelo<br />

grupo de uma nova prosperidade. Se os sacrifícios e as danças foram concluí<strong>dos</strong> com<br />

sucesso, podemos ficar certos de que tudo está bem, que os poderes superiores nos são<br />

propícios, que a ordem cósmica está salvaguardada, que o bem-estar social está garantido<br />

para nós e os nossos.<br />

Evidentemente este sentimento não deve ser pensado como o resultado final de uma série<br />

de deduções racionais. Trata-se mais de uma consciência da vida, de um sentimento de<br />

satisfação cristalizado em uma fé mais ou menos formulada pelo espírito.<br />

Na China primitiva, quase todas as atividades assumiam a forma de uma competição ritual:<br />

atravessar um rio, escalar uma montanha, cortar árvores ou colher flores11. O esquema<br />

característico das lendas chinesas relativas à fundação tios reinos é o do herói derrotando<br />

seus adversários por meio de proezas espantosas e miraculosas demonstrações de força,<br />

provando, assim, sua superioridade. Regra geral, o torneio acaba com a morte <strong>dos</strong><br />

venci<strong>dos</strong>. Há muitos povos que colocam o jogo de da<strong>dos</strong> no número das práticas<br />

religiosas14. Por vezes, as sociedades divididas em fratrias exprimem sua estrutura dualista<br />

nas duas cores de seus tabuleiros de jogo ou de seus da<strong>dos</strong>. A palavra sânscrita dyutam<br />

significa ao mesmo tempo "lutar" e "jogar aos da<strong>dos</strong>".<br />

Existem grandes afinidades entre os da<strong>dos</strong> e as flechas15. No Mahabharata, o próprio<br />

mundo é concebido como um jogo de da<strong>dos</strong> que Siva joga com sua esposa16. As estações,<br />

rtu, são representadas sob a forma de seis homens jogando com da<strong>dos</strong> de ouro e prata.<br />

Também a mitologia germânica faz referência a um jogo jogado pelos deuses em seu<br />

tabuleiro: quando o mundo foi ordenado, os deuses reuniram-se para jogar aos da<strong>dos</strong>, e<br />

quando ele renascer de novo após sua destruição, os Ases rejuvenesci<strong>dos</strong> voltarão a<br />

encontrar os tabuleiros de jogo em ouro que originariamente possuíam1. A ação principal<br />

do Mahabharata assenta no jogo de (la<strong>dos</strong> joga<strong>dos</strong> pelo rei Yudhistira contra os kauravas.<br />

No livro acima referido, G. J. Held tira deste fato diversas conclusões de caráter etnológico.<br />

De nosso ponto de vista, o mais importante é o lugar onde o jogo é executado. Geralmente<br />

é um simples círculo, dyutamandalam, traçado no solo. O círculo enquanto tal, todavia,<br />

reveste-se de um significado mágico. É traçado com o maior cuidado, sendo tomada toda a<br />

espécie de precauções contra a possibilidade de haver batota. Não é permitido aos<br />

jogadores deixar o terreno antes de terem cumprido todas as suas obrigações. Mas, por<br />

vezes, é provisoriamente erigido um recinto especial para o jogo, e esse recinto é<br />

considerado terreno sagrado. O Mahabharata consagra todo um capítulo à ereção do<br />

recinto <strong>dos</strong> da<strong>dos</strong>, — sabha — no qual os Pandavas deverão defrontar seus adversários.<br />

Em conclusão, os jogos de azar têm o seu lado sério. Fazem parte integrante do ritual, e<br />

Tácito cometeu um erro ao se espantar por ver os germanos jogando da<strong>dos</strong> com todo o<br />

empenho, como se fosse uma ocupação séria.<br />

O POTLACH<br />

Os fundamentos agonísticos da vida cultural da sociedade primitiva só foram esclareci<strong>dos</strong> a<br />

partir do momento em que a etnologia foi enriquecida por uma rigorosa descrição <strong>dos</strong><br />

curiosos costumes de certas tribos índias da Colômbia britânica, que se tornaram<br />

conheci<strong>dos</strong> sob o nome de potlatch20. Em sua forma mais típica, encontrada na tribo <strong>dos</strong><br />

Kwakiutl, o potlatch é uma grande festa solene, durante a qual um de dois grupos, com<br />

grande pompa e cerimônia, faz ofertas em grande escala ao outro grupo, com a finalidade<br />

80


expressa de demonstrar sua superioridade. A única retribuição esperada pelos doadores, e<br />

que é devida pelos que recebem, consiste na<br />

obrigação de estes últimos darem por sua vez uma festa, dentro de um certo período, se<br />

possível ultrapassando a primeira. Este curioso festival de donativos domina toda a vida<br />

comunitária das tribos que o praticam: os rituais, as leis, as artes. Qualquer acontecimento<br />

importante pode servir de pretexto para um potlatch, seja um nascimento, uma morte, um<br />

casamento, uma cerimônia de iniciação ou de tatuagem, a construção de um túmulo etc. É<br />

costume o chefe oferecer um potlatch sempre que constrói uma casa ou um totem. No<br />

potlatch, as famílias ou clãs apresentam-se sob sua forma mais brilhante, cantando suas<br />

canções sagradas e exibindo suas máscaras, enquanto os feiticeiros, possuí<strong>dos</strong> pelos<br />

espíritos do clã, entregam-se a sua fúria. Mas o principal é sempre a distribuição de bens. O<br />

promotor da festa dissipa nesta todas as posses de seu clã. Contudo, o fato de participarem<br />

da festa dá aos outros clãs a obrigação de oferecer um potlatch em escala ainda mais<br />

grandiosa. Caso contrário, destroem seu nome, sua honra, seu emblema e seus totens, e até<br />

seus direitos civis e religiosos. O resultado de tudo isto é que as posses de toda a tribo vão<br />

circulando por entre as "grandes famílias", ao acaso. Supõe-se que, originariamente, o<br />

potlatch fosse sempre realizado entre duas fratrias da mesma tribo.<br />

Quem oferece um potlatch demonstra sua superioridade, não apenas devido à pródiga<br />

distribuição de riquezas mas também, e isto é ainda mais impressionante, pela destruição<br />

completa de seus bens, só para mostrar que pode passar sem eles. Além disso, essas<br />

destruições são levadas a efeito de acordo com um ritual dramático, e acompanhadas por<br />

altivos desafios. A ação assume sempre a forma de uma competição: se um chefe quebra<br />

um pote de cobre, ou queima uma pilha de mantas, ou estraçalha uma canoa, seu<br />

adversário fica na obrigação de destruir pelo menos o mesmo, e se possível mais. Os<br />

destroços são envia<strong>dos</strong> ao rival, como provocação, ou exibi<strong>dos</strong> como sinal de honra.<br />

Conta-se <strong>dos</strong> Tlinkit, tribo aparentada aos Kwakiutl, que quando um chefe queria defrontar<br />

um rival matava um certo número de seus escravos, e o outro, para vingar-se, tinha que<br />

matar um número ainda maior <strong>dos</strong> seus.<br />

Marcel Mauss fala da presença, na Melanésia, de costumes exatamente idênticos ao<br />

potlatch. Em seu Essai sur le don, aponta vestígios de costumes semelhantes nas culturas<br />

da Grécia, da Roma e da Germânia da antigüidade. Granet apresenta exemplos de<br />

competições tanto de doação como de destruição na tradição chinesa primitiva. Na Arábia<br />

pagã <strong>dos</strong> tempos pré-islâmicos, essas competições tinham um nome especial, o que prova<br />

sua existência como instituição formal. São chamadas mu'aqara, um nomen actionis da<br />

terceira forma do verbo 'aqara, que nos velhos dicionários, os quais nada sabiam do pano<br />

de fundo etnológico, recebe a definição de "rivalizar em glória cortando as patas <strong>dos</strong><br />

camelos". Mauss resume mais ou menos o tema tratado por Held da seguinte maneira: "O<br />

Mahabharata é a história de um gigantesco potlatch"24. O potlatch, e tudo quanto com ele<br />

se relaciona, tem como centro de interesse a vitória, a afirmação de superioridade, a<br />

aquisição de glória ou prestígio e, pormenor não destituído de importância, a vingança. Em<br />

to<strong>dos</strong> os casos, mesmo quando é apenas uma pessoa que oferece a festa, há dois grupos<br />

numa situação de oposição, mas liga<strong>dos</strong> por um espírito que é ao mesmo tempo de<br />

hostilidade e de amizade. Para compreender esta atitude ambivalente, é preciso reconhecer<br />

que o mais importante no potlatch é ganhá-lo. Os grupos adversários não disputam<br />

riquezas nem poder, competem apenas pelo prazer de exibir sua superioridade, em resumo,<br />

pela glória. No casamento de um chefe Ma-malekala, descrito por Boas25 o grupo anfitrião<br />

declara-se "pronto a iniciar o combate", querendo com isto designar a cerimônia no fim da<br />

qual o futuro sogro concede a mão de sua filha. O potlatch possui também alguma coisa de<br />

um combate, um elemento de provação e sacrifício. A solenidade decorre sob a forma de<br />

um ritual acompanhado de antífonas e danças de mascara<strong>dos</strong>. Esse ritual é extremamente<br />

rigoroso: basta a menor infração para invalidar tudo. A tosse ou o riso são castiga<strong>dos</strong> com<br />

81


severas penalidades. O mundo espiritual no interior do qual se realizam essas cerimônias é<br />

o mundo da honra, da pompa, da fanfarronice e do desafio. É um mundo de cavalaria e de<br />

heroísmo, dominado pelos brasões e nomes ilustres, onde prima a nobreza de linhagem.<br />

Não é o mundo <strong>dos</strong> cuida<strong>dos</strong> e da subsistência quotidiana, do cálculo das vantagens e da<br />

aquisição de bens úteis. Aqui, as aspirações voltam-se para o prestígio dentro do grupo,<br />

para um lugar de destaque, quaisquer sinais de superioridade. As relações e obrigações<br />

recíprocas das duas fratrias <strong>dos</strong> Tlinkit são designadas por uma palavra que significa<br />

"manifestar respeito". Estas relações estão constantemente sendo expressas em ações<br />

concretas, mediante a troca de serviços e presentes. Um <strong>dos</strong> mais fortes incentivos para<br />

atingir a perfeição, tanto individual quanto social, e desde a vida infantil até aos aspectos<br />

mais eleva<strong>dos</strong> da civilização, é o desejo que cada um sente de ser elogiado e homenageado<br />

por suas qualidades. Elogiando o outro, cada um elogia a si próprio. Queremos ser<br />

honra<strong>dos</strong> por nossas virtudes, queremos a satisfação de ter realizado corretamente alguma<br />

coisa. Realizar corretamente uma coisa equivale a realizá-la melhor que os outros. Atingir a<br />

perfeição implica que esta seja mostrada aos outros; para merecer o reconhecimento, o<br />

mérito tem que ser manifesto. A competição serve para cada um dar provas de sua<br />

superioridade. E isto se verifica principalmente na sociedade primitiva.<br />

A virtude de um homem de qualidade consiste numa série de propriedades que o tornam<br />

capaz de lutar e de comandar. Entre estas ocupam um lugar eminente a generosidade, a<br />

sabedoria e a justiça. É perfeitamente natural que em muitas línguas a palavra que designa a<br />

virtude derive da idéia de masculinidade ou "virilidade", como por exemplo no latim virtus,<br />

que durante muito tempo conservou seu sentido de “coragem" — até ao momento em que<br />

o pensamento cristão se tornou predominante. O mesmo se passa com o árabe muru'a, o<br />

qual, do mesmo modo que o grego άφετη, abrange todo o complexo semântico da força,<br />

valentia, riqueza, direito, boa conduta, moralidade, urbanidade, boas maneiras,<br />

magnanimidade, generosidade e perfeição moral. Em toda sociedade primitiva que seja<br />

saudável, baseada na vida tribal de guerreiros e nobres, floresce um ideal de cavalaria e<br />

conduta cavalheiresca, quer seja na Grécia ou na Arábia, no Japão ou na Europa cristã da<br />

Idade Média. E o ideal viril da virtude está sempre ligado à convicção de que a honra para<br />

ser válida, deve ser publicamente reconhecida, sendo este reconhecimento, se necessário,<br />

imposto pela força.<br />

Mesmo em Aristóteles a honra é ainda chamada "o preço da virtude". "Os homens aspiram<br />

à honra para se convencerem de seu próprio valor, de sua virtude. Aspiram a ser honra<strong>dos</strong><br />

por seu próprio valor por aqueles que têm a capacidade de julgar38." Portanto, a virtude e a<br />

honra, a nobreza e a glória encontram-se desde início dentro do quadro da competição, isto<br />

é, do jogo. A vida do jovem guerreiro de nobre extração é um permanente exercício de<br />

virtude, uma luta permanente pela honra de sua posição. Este ideal é exprimido de maneira<br />

perfeita no famoso verso de Homero: αιεν αφιστευειν χαι υφειφοχον έμεναι αλλων ("ser<br />

sempre melhor, ultrapassando os outros")39'. Por isso o interesse da epopéia não depende<br />

das proezas militares enquanto tais, e sim da αφιστεια <strong>dos</strong> heróis individuais. A formação<br />

em vista da vida aristocrática conduz à formação para a vida no Estado e para o Estado.<br />

Também aqui a palavra αφετη não possui ainda um sentido puramente ético. Continua<br />

significando antes a capacidade do cidadão para suas tarefas na polis, conservando ainda<br />

grande parte de sua importância primitiva a idéia nela originalmente contida de exercício<br />

por meio de uma competição. O nobre demonstra sua "virtude" por meio de proezas de<br />

força, destreza, coragem, engenho, sabedoria, riqueza ou generosidade. Na falta destas,<br />

pode ainda distinguir-se numa competição de palavras, isto é, ou ele mesmo louva as<br />

virtudes nas quais deseja superar seus rivais, ou manda que elas lhe sejam louvadas por um<br />

poeta ou um arauto. Esta exaltação da própria virtude, como forma de competição,<br />

transforma-se muito naturalmente em depreciação da do adversário, o que, por sua vez,<br />

passa a ser um outro tipo de competição. É extraordinária a importância do papel que estas<br />

82


fanfarronadas e ultrajes ocupam nas mais diversas civilizações. Seu caráter lúdico é<br />

indiscutível: basta lembrarmo-nos do comportamento <strong>dos</strong> garotinhos para classificarmos<br />

esses torneios de insultos como uma forma de jogo. Não obstante, é preciso estabelecer<br />

uma cuida<strong>dos</strong>a distinção entre os torneios formais de fanfarronadas ou insultos e as<br />

invectivas mais espontâneas que costumam iniciar ou acompanhar o combate armado,<br />

embora não seja nada fácil traçar essa linha divisória. Segundo antigos textos chineses, a<br />

batalha é uma confusa mistura de fanfarronadas, insultos, altruísmo e cumprimentos. Tratase<br />

mais de uma competição com armas morais, um choque de honras ofendidas, do que<br />

um combate armado40. Há toda uma série de atos, alguns <strong>dos</strong> quais de caráter bastante<br />

extraordinário, possuidores de um significado técnico como marcas de vergonha ou de<br />

honra para aquele que os pratica ou os sofre. Assim, o gesto de desprezo de Remo,<br />

saltando por cima da muralha de Rômulo na alvorada da história de Roma, constitui,<br />

segundo a tradição militar chinesa, um desafio obrigatório.<br />

Uma variante desse gesto mostra o guerreiro cavalgando até ao portão do inimigo e<br />

calmamente contando as tábuas com seu chicote41. Situam-se na mesma tradição os<br />

cidadãos de Meaux que, encontrando-se sobre as muralhas, sacudiram o pó <strong>dos</strong> chapéus<br />

quando os sitiantes dispararam seus canhões. Voltaremos mais adiante a tratar deste tipo de<br />

atitude, quando tratarmos do elemento agonístico, ou mesmo lúdico, da guerra. O que<br />

neste momento nos interessa é a joute de jactance em regra.<br />

Entre os indígenas das Trobriand, conforme relata Malinowski, encontram-se formas<br />

intermediárias entre os torneios de jactância e as competições de riqueza. O valor atribuído<br />

aos alimentos não depende apenas de sua utilidade, mas também de suas qualidades como<br />

meio de ostentação da riqueza. As habitações yam são construídas de maneira a permitir<br />

que se veja do exterior tudo o que encerram, e que se avalie sua riqueza olhando através<br />

<strong>dos</strong> largos interstícios das tábuas. Os melhores alimentos são postos em evidência e os<br />

exemplares especialmente valiosos são emoldura<strong>dos</strong>, ornamenta<strong>dos</strong> com cores vivas, e<br />

pendura<strong>dos</strong> do lado de fora da habitação. Nas aldeias onde reside um grande chefe, os<br />

membros comuns da tribo têm que cobrir suas habitações com folhas de coqueiro, para<br />

não competirem com a do chefe42. Encontramos nas lendas chinesas um eco de costumes<br />

semelhantes na narrativa do festim do mau rei Cheu-Sin, que mandou erguer uma<br />

montanha de alimentos sobre a qual podia passar um carro, e mandou escavar um lago<br />

cheio de vinho onde podiam navegar barcos à vela. Um letrado chinês descreve o<br />

desperdício que acompanha os torneios populares de fanfarronice44.<br />

A competição pela honra pode também, como na China, assumir uma forma invertida,<br />

transformando-se numa competição de boas maneiras. A palavra que designa esta última,<br />

jang, significa à letra "ceder o lugar a outrem"45. Derrota--se o adversário por ter melhores<br />

maneiras, ou por lhe dar precedência. Possivelmente é na China que a competição de<br />

cortesia é mais formalizada, mas pode ser encontrada em toda a parte do mundo.<br />

Podemos considerá-la uma competição de fanfarronice invertida, pois a razão desta<br />

exibição de delicadeza para com os outros é um profundo interesse pela própria honra.<br />

As competições formais de invectivas e vitupérios eram muito espalhadas na Arábia préislâmica,<br />

e são especialmente claras suas relações com as competições de destruição da<br />

propriedade, um <strong>dos</strong> aspectos centrais do potlatch. Já fizemos referência ao costume<br />

chamado mu'aqara, no qual os adversários cortavam os tendões de seus camelos. A forma<br />

básica do verbo ao qual mu'aqara pertence no terceiro grau significa ferir ou mutilar. E<br />

entre os significa<strong>dos</strong> de mu'aqara encontramos também: conviciis et dictis satyricis<br />

certavit cum aliquo — lutar com invectivas e linguagem insultuosa. O que lembra o<br />

torneio de destruição <strong>dos</strong> ciganos egípcios, que tem o nome de vantardise. Mas além de<br />

mu'aqara os árabes pré-islâmicos designavam os torneios de destruição e formas<br />

aparentadas com dois outros termos técnicos: munafara e mufakhara. Convém assinalar<br />

83


que as três palavras são formadas da mesma maneira. São substantivos verbais deriva<strong>dos</strong> da<br />

chamada terceira forma do verbo, e é talvez este o aspecto mais interessante de toda a<br />

questão. Porque em árabe existe uma forma verbal especial, que pode dar a qualquer raiz o<br />

sentido de competir em alguma coisa, ou ultrapassar alguém em alguma coisa. Quase<br />

poderíamos chamar-Ihe uma espécie de superlativo verbal da própria raiz. Além disso, a<br />

chamada "sexta forma", derivada da terceira, exprime a idéia de atração recíproca. Assim a<br />

raiz hasaba (contar, enumerar) dá muhasaba, competição pela boa reputação; e kathara<br />

(exceder em número) dá mukathara, competição em quantidade. Mas voltando a nosso<br />

assunto: mujakhara provém de uma raiz que significa "vangloriar-se", ao passo que<br />

munafara deriva do campo semântico de "derrota", "pôr em fuga". Existe em árabe<br />

um parentesco semântico entre honra, virtude, elogio e glória, exatamente como em grego<br />

as mesmas idéias gravitam em torno da αφετη47". No árabe a idéia central é 'irá, que pode<br />

ser traduzida por "honra", desde que seja tomada em sentido extremamente concreto. A<br />

principal exigência de uma vida nobre é a obrigação de preservar a integridade e a<br />

segurança de sua honra. De outro lado, supõe-se que o adversário esteja animado por um<br />

ardente desejo de destruir e degradar nosso 'ird com insultos. Tal como na Grécia, também<br />

aqui qualquer superioridade física, social ou moral constitui um fundamento de honra e de<br />

glória, sendo portanto um elemento de virtude. O árabe tira glória de suas vitórias e sua<br />

coragem, do número de seus filhos ou de seu clã, de sua liberdade, sua autoridade, sua<br />

força, a acuidade de sua vista ou a beleza de seu cabelo. Tudo isto compõe seu 'izz, 'izza,<br />

ou seja, sua superioridade sobre os outros e, conseqüentemente, sua autoridade e seu<br />

prestígio.<br />

Os ultrajes e insultos dirigi<strong>dos</strong> ao adversário ocupam um lugar importante nesta exaltação<br />

do 'izz pessoal, e possuem a designação técnica de hidja'. As lutas pela honra, os<br />

mufakhara, costumavam ser realizadas em datas préfixadas, ao mesmo tempo que<br />

as feiras anuais e depois das peregrinações. Os ultrajes e insultos dirigi<strong>dos</strong> ao<br />

adversário ocupam um lugar importante nesta exaltação do 'izz pessoal, e possuem a<br />

designação técnica de hidja'. As lutas pela honra, os mufakhara, costumavam ser realizadas<br />

em datas préfixadas, ao mesmo tempo que as feiras anuais e depois das peregrinações.<br />

As competições travavam-se entre tribos ou clãs inteiros, ou entre indivíduos.<br />

Sempre que acontecia dois grupos se encontrarem, tratava-se entre eles uma justa<br />

de honra. Havia um porta-voz oficial para cada grupo, o sha'ir (poeta ou orador),<br />

que desempenhava um papel importante. Esse costume possuía um caráter nitidamente<br />

ritual, servindo para manter acesas as poderosas tensões sociais que davam unidade à<br />

cultura árabe pré-islâmica. Mas, o surgimento do Islão veio atenuar este antigo costume,<br />

conferindo-lhe uma nova dimensão religiosa ou reduzindo-o a um divertimento de corte.<br />

Nos tempos do paganismo era freqüente o mufakhara terminar num massacre e numa<br />

guerra tribal. Na tradição grega, encontram-se numerosos vestígios de torneios de<br />

injúrias cerimoniais e solenes. Alguns autores afirmam que a palavra iambos significava<br />

originalmente "sarcasmo", estando especialmente relacionada com os cantos públicos de<br />

insultos e sarcasmos que faziam parte das lestas de Deméter e Dionísio. Julga-se que<br />

foi a partir desta tradição de troça em público que surgiu a sátira de Arquíloco, cuja<br />

recitação, acompanhada por música, era incluída nas competições. A poesia jâmbica<br />

passou, assim, de um costume imemorial de natureza ritual a instrumento de crítica pública.<br />

Mesmo o tema das diatribes contra as mulheres parece constituir um vestígio <strong>dos</strong> cantos<br />

alterna<strong>dos</strong> de sarcasmo entre os homens e as mulheres que eram realiza<strong>dos</strong> no decurso das<br />

festas de Deméter e Apoio. Deve estar na base desses costumes um jogo sagrado de<br />

emulação pública, o psogo0.<br />

Também a tradição da antigüidade germânica apresenta vestígios muito antigos de duelos<br />

de injúrias na história de Alboin, na corte <strong>dos</strong> gépidas, que foi manifestamente recolhida<br />

84


por Paulo, o Diácono, nas canções épicas. Os chefes lombar<strong>dos</strong> foram convida<strong>dos</strong> para um<br />

banquete real por Turisindo, rei <strong>dos</strong> gépidas. Quando o rei começa a lamentar seu filho<br />

Turismundo, morto em combate contra os lombar<strong>dos</strong>, outro de seus filhos levantasse e<br />

começa a cobrir os lombar<strong>dos</strong> de injúrias (iniuriis lacessere coepit). Chama-Ihes éguas de<br />

pés brancos, acrescentando que cheiram mal. Ao que um <strong>dos</strong> lombar<strong>dos</strong> responde: "Vai ao<br />

campo de batalha de Asfeld, onde poderás verificar a valentia com que essas 'éguas' de que<br />

falas sabem defender-se, lá onde estão os ossos de teu irmão, espalha<strong>dos</strong> pelo campo como<br />

os ossos de uma velha pileca". O rei evita que os dois passem a vias de fato, "e o banquete<br />

foi levado a um fim feliz" (laetis animis conviviam peragunt). Estas últimas palavras<br />

revelam claramente o caráter lúdico da altercação. Não resta dúvida que se trata de um<br />

exemplo de torneio de insultos. Este existe também na literatura nórdica arcaica, sob uma<br />

forma especial chamada mannjafnaôr, "comparação <strong>dos</strong> homens". Faz parte da festa do<br />

Jul, do mesmo modo que a competição de juramentos. Um exemplo é a saga de Orvar<br />

Odd. Orvar Odd está incógnit o de visita à corte de um rei estrangeiro e aposta sua cabeça<br />

que é capaz de vencer na bebida dois <strong>dos</strong> homens do rei. A cada vez que um deles passa o<br />

corno de beber ao seu rival, vangloria-se de qualquer heroico feito de guerra em que ele<br />

esteve presente, enquanto o outro se deixa ficar vergonhosamente ao canto do lume, junto<br />

com as mulheres52. À vezes, são dois reis que procuram vencer um ao outro em linguagem<br />

jactanciosa. Uma das canções <strong>dos</strong> Edda, o Harbarosljoô, trata de uma competição deste<br />

gênero entre Thor e Odin53. Devemos também incluir no mesmo gênero as disputas de<br />

Loki com os Ases, durante uma sessão de bebida54. O caráter ritual destas competições é<br />

revelado pela referência expressa ao fato de o recinto onde elas se realizavam ser "um<br />

grande lugar de paz" (griaastaar mikill), e de nele não ser permitido a ninguém exercer<br />

violência contra o outro, diga este o que disser. Embora to<strong>dos</strong> estes exemplos sejam<br />

redações literárias de temas pertencentes a um passado muito remoto, a existência de um<br />

pano de fundo ritualístico é demasiado evidente para que se possa considerá-los apenas o<br />

produto de uma ficção poética mais tardia. As lendas primitivas irlandesas do porco de Mac<br />

Datho e da festa de Bricrend apresentam uma "comparação de homens" semelhante. De<br />

Vries está certo da origem religiosa do Mannjafnaôr. A importância que era atribuída a este<br />

gênero de insultos é ilustrada de maneira evidente pelo caso de Harald Gormsson, que<br />

queria empreender uma expedição punitiva contra a Islândia por causa de um simples<br />

epigrama de que fora vítima. Durante todo o período de sua existência, os jogos helênicos<br />

permaneceram intimamente liga<strong>dos</strong> à religião, mesmo nas épocas mais tardias em que, à<br />

primeira vista, poderiam assumir a aparência <strong>dos</strong> esportes nacionais puros e simples. Os<br />

cantos triunfais de Píndaro, em honra das grandes competições, pertencem inteiramente ao<br />

quadro de sua rica poesia sagrada, da qual eles constituem a única parte conservada até<br />

nossos dias72. O caráter sagrado do agon (competição) manifesta-se em toda a parte. O<br />

zelo competitivo <strong>dos</strong> jovens espartanos em submeter-se a dolorosas experiências perante o<br />

altar é apenas um exemplo entre as muitas práticas cruéis relacionadas com a iniciação à<br />

vida adulta, semelhantes às que podem ser encontradas entre os povos primitivos de toda a<br />

Terra. Píndaro mostra um vencedor <strong>dos</strong> Jogos Olímpicos insuflando uma nova força vital<br />

nos pulmões de seu velho avô.<br />

A tradição grega estabelece uma divisão entre as competições: de um lado as públicas ou<br />

nacionais, militares e jurídicas, e, de outro, as relacionadas com a força, a sabedoria e a<br />

riqueza. Esta classificação parece refletir uma fase agonística, mais primitiva, da cultura. O<br />

fato de se chamar "agon" à disputa perante um juiz não deve ser tomado, ao contrário do<br />

que pensa Burckhardt74, como uma simples expressão metafórica de uma época mais tardia<br />

mas, pelo contrário, como prova de uma imemorial associação de idéias, à qual mais<br />

adiante voltaremos a fazer referência. De fato, houve um tempo em que o julgamento em<br />

tribunal foi um agon no sentido restrito do termo.<br />

85


Era costume entre os gregos organizar competições a propósito de tudo o que oferecesse a<br />

possibilidade de uma luta. Os concursos de beleza masculina faziam parte das Panatenéias e<br />

das festas de Teseu. Nos simpósios eram organiza<strong>dos</strong> concursos de canto, decifração de<br />

enigmas, de resistência em se conservar acordado e bebendo. Mesmo neste último caso, o<br />

elemento sagrado não está ausente: os πολυποσία e os αχφατοποσία (beber muito e sem<br />

mistura) faziam parte da festa de Coeno. Alexandre celebrou a morte de Calanos com um<br />

agon ginástico e musical, com prêmios para os melhores bebedores, tendo daí resultado<br />

que trinta e cinco <strong>dos</strong> competidores morreram na hora, e seis deles mais tarde, entre os<br />

quais o vencedor75. Notemos de passagem que as competições que consistiam em absorver<br />

grandes quantidades de comida e bebida estão também ligadas ao potlatch.<br />

O Ludico no Direito<br />

Um antigo juiz escreveu-me o seguinte: "O estilo e o conteúdo das intervenções nos<br />

tribunais revelam o ardor esportivo com que nossos advoga<strong>dos</strong> se atacam uns aos outros<br />

por meio de argumentos e contra-argumentos (alguns <strong>dos</strong> quais são razoavelmente<br />

sofistica<strong>dos</strong>). Sua mentalidade por mais de uma vez me fez pensar naqueles oradores <strong>dos</strong><br />

processos adat7' que, a cada argumento, espetam na terra uma vara, sendo considerado<br />

vencedor aquele que no final puder apresentar o maior número de varas". O caráter lúdico<br />

da prática judicial foi fielmente observado por Goethe em sua descrição de uma sessão do<br />

tribunal de Veneza, realizada no palácio <strong>dos</strong> Doges. Dada esta fraqueza <strong>dos</strong> padrões éticos,<br />

o fator agonístico (competitivo) vai ganhando imenso terreno na prática judicial à medida<br />

que recuamos no tempo. E, à medida que o elemento agonístico vai aumentando, o mesmo<br />

acontece com o fator sorte, e daqui resulta que depressa nos encontramos na esfera lúdica.<br />

Estamos perante um mundo espiritual em que a idéia da decisão por oráculos, pelo juízo<br />

divino, pela sorte, por sortilégio — isto é, pelo jogo — e a da decisão por sentença judicial<br />

fundem-se num único complexo de pensamento. E ainda hoje reconhecemos o caráter<br />

absoluto dessas decisões todas as vezes que, quando não conseguimos ser nós próprios a<br />

decidir qualquer coisa, resolvemos "tirá-la à sorte". A vontade divina, o destino e a sorte<br />

parecem a nossos olhos entidades mais ou menos distintas, ou pelo menos procurando<br />

estabelecer entre elas uma distinção conceptual. Mas, para o espírito primitivo, são mais ou<br />

menos equivalentes. Pode-se conhecer o "destino" fazendo que ele se pronuncie. Para<br />

conhecer o oráculo, é preciso recorrer à sorte. Pode-se jogar com paus, com pedras, ou<br />

abrir à sorte as páginas do livro sagrado, e o oráculo responderá. Assim o Exodo, XXVII,<br />

30, ordena a Moisés que "ponha no peitoral o urim e o tummin" (sejam estes o que forem),<br />

a fim de que Aarão "possa julgar os filhos de Israel em seu coração perante o Senhor<br />

continuamente". O peitoral é usado pelo grande sacerdote, e é por intermédio deste que o<br />

sacerdote Eleazar pede conselho, em Números, XXVII, 21, em favor de Josué, "segundo o<br />

julgamento de Urim". De maneira semelhante, em I Samuel, XIX, 42, Saul ordena que seja<br />

tirada a sorte entre ele e seu filho Jônatas. As relações entre o oráculo, a sorte e o<br />

julgamento são ilustradas de maneira perfeitamente clara nestes exemplos. Também na<br />

Arábia pré-islâmica, encontra-se este tipo de sortilégio9. E, afinal, não será<br />

fundamentalmente o mesmo a balança sagrada na qual Zeus, na llíada, pesa as<br />

possibilidades que cada homem, antes do início da batalha, tem de morrer? "Então o Pai<br />

estendeu os dois pratos de ouro e colocou neles as duas porções de morte amarga, uma<br />

para os troianos domadores de cavalos e outra para os aqueus cobertos de bronze”<br />

muito mais tarde. Umas das figuras que se encontram no escudo de Aquiles, segundo a<br />

descrição do oitavo livro da llíada, representa um julgamento com os juízes senta<strong>dos</strong> no<br />

interior do círculo sagrado, estando no centro da cena os "dois talentos de ouro" (δνό<br />

χφυσοίο τάλαντα), que se destinam àquele que proferir a sentença mais justa11. Em geral,<br />

consideram-se esses dois talentos como a quantia em dinheiro disputada pelas duas partes.<br />

Mas, bem vistas as coisas, eles parecem ser mais um prêmio que um objeto de litígio;<br />

86


seriam, portanto, mais adequa<strong>dos</strong> a um jogo do que a uma sessão de tribunal. Além disso,<br />

convém notar que originariamente talanta significava "balança". Creio, assim, que o poeta<br />

tinha em mente uma pintura em vaso que mostrava dois litigantes senta<strong>dos</strong> cada qual em<br />

um <strong>dos</strong> pratos de uma balança, a verdadeira "balança da justiça", na qual a sentença era<br />

dada mediante uma pesagem segundo o costume primitivo, isto é, por oráculo ou pela<br />

sorte. Este costume ainda não era conhecido na época em que foi composto o poema, e daí<br />

resultou que talanta, os dois pratos da balança, foi considerado, devido a uma transposição<br />

de significado, como dinheiro. O grego δίχη (direito, justiça) possui uma escala de<br />

significa<strong>dos</strong> que vai desde o puramente abstrato até o mais declaradamente concreto. Pode<br />

significar a justiça enquanto conceito abstrato, ou uma divisão eqüitativa, ou uma<br />

indenização, ou mais ainda: as partes num julgamento dão e recebem δίχη, os juízes<br />

atribuem δίχη. Significa também o próprio processo jurídico, o veredicto e a punição.<br />

Embora se possa supor que os significa<strong>dos</strong> mais concretos de uma palavra são os mais<br />

antigos, Werner Jaeger defende, neste caso, o ponto de vista contrário.<br />

Segundo ele, o significado abstrato é o mais primitivo, e o concreto deriva dele12. Isto não<br />

me parece compatível com o fato de serem precisamente as abstrações — δίχαιο,<br />

eqüitativo, e δίχαιοσύνη], eqüidade — formadas em seguida a partir de dikê. A relação<br />

acima discutida entre a administração da justiça e a prova da sorte deveria, pelo contrário,<br />

orientar-nos no sentido da etimologia expressamente rejeitada por Jaeger, a qual faz derivar<br />

δίχη de διχέίν, arremessar ou lançar, embora seja evidente a existência de uma afinidade<br />

entre δίχη e δείχνυμι. Em hebraico também há uma associação idêntica entre "direito" e<br />

"arremessar", pois thorah (direito, justiça, lei) possui evidentes afinidades com uma raiz que<br />

significa tirar à sorte, disparar, e a sentença de um oráculo. Também é significativo que, nas<br />

moedas, a figura de Dikê por vezes se confunda com a de Tykê, a deusa do destino incerto.<br />

Também ela segura uma balança. J. E. Harrison afirma em sua Themis: "Não é que haja<br />

um 'sincretismo' tardio entre estas figuras divinas; ambas partem de uma mesma<br />

concepção, e depois divergem". Também na tradição germânica verifica-se a presença . da<br />

associação primitiva entre a justiça, o destino e a sorte. A palavra holandesa lot conserva<br />

até hoje o sentido do destino do homem — aquilo que lhe é destinado ou enviado<br />

(Schicksal em alemão) — e designa também o sinal material da sorte, como por exemplo o<br />

palito de fósforo mais comprido ou mais curto, ou um bilhete de loteria. É difícil decidir<br />

qual <strong>dos</strong> dois significa<strong>dos</strong> é o mais original, porque no pensamento primitivo as duas idéias<br />

estão fundidas em uma só. Zeus segura os divinos decretos do destino e da justiça em uma<br />

mesma balança. Os Ases jogam aos da<strong>dos</strong> o destino do mundo15. O espírito primitivo não<br />

distingue, como manifestações da Vontade Divina, entre o resultado de uma prova de<br />

força, ou o de uma luta armada, ou a maneira como cai um punhado de pedras ou de<br />

pauzinhos. A leitura da sorte através das cartas é um costume com profundas raízes no<br />

passado humano, numa tradição que é muito mais remota do que as próprias cartas. Talvez<br />

o problema fique mais claro se dedicarmos agora nossa atenção a um <strong>dos</strong> aspectos mais<br />

notáveis da íntima relação entre a cultura e o jogo, a saber, os concursos de tambor e os<br />

concursos de canto <strong>dos</strong> esquimós da Groenlândia. Trataremos deste assunto um pouco<br />

mais detidamente, porque, neste caso, estamos perante uma prática ainda existente (ou que<br />

pelo menos ainda recentemente o era), na qual a função cultural que conhecemos como<br />

jurisdição não se separou ainda da esfera do jogo5.<br />

Quando um esquimó tem alguma queixa contra outro, desafia-o para um concurso de<br />

tambor (Troinmesang, em dinamarquês). O clã ou tribo se reúne festivamente, to<strong>dos</strong> com<br />

seus melhores trajos e num ambiente de alegria. Os dois adversários passam depois a<br />

atacar-se sucessivamente um ao outro com canções insultuosas acompanhadas por tambor,<br />

nas quais cada um censura os malefícios do outro. Não se estabelece distinção alguma entre<br />

acusações com fundamento, ditos de espírito destina<strong>dos</strong> a divertir o público e a calúnia<br />

pura e simples. Por exemplo, um cantor enumerou todas as pessoas que haviam sido<br />

87


devoradas pela mulher e a sogra de seu adversário durante um período de penúria, o que<br />

levou todo o público a desfazer-se em lágrimas. Estes cantos insultuosos são<br />

acompanha<strong>dos</strong> por toda a espécie de ofensas físicas ao adversário, como espirrar ou soprar<br />

na cara dele, dar-lhe cabeçadas, abrir-lhe os maxilares, amarrá-lo a uma estaca da tenda —<br />

tendo o "acusado" a obrigação de suportar sem protestar, permitindo-se apenas um riso de<br />

troça. A maior parte <strong>dos</strong> espectadores acompanha os estribilhos das canções, aplaudindo e<br />

incitando os adversários. Outros se limitam a dormir um pouco. Durante as pausas os<br />

contendores conversam em termos amigáveis. As sessões deste gênero de competição<br />

podem prolongar-se por vários anos, em que os adversários aproveitam para inventar<br />

novas canções e descobrir novas malfeitorias para denunciar. Por fim, são os espectadores<br />

que decidem quem é o vencedor. Na maior parte <strong>dos</strong> casos, a amizade é imediatamente<br />

restabelecida, mas, por vezes, acontece uma família emigrar devido à vergonha de ter sido<br />

derrotada.<br />

É possível a uma pessoa estar participando, ao mesmo tempo, em diversos concursos de<br />

tambor. As mulheres também podem participar.<br />

É aqui da maior importância o fato de, entre as tribos que as praticam, estas competições<br />

desempenharem o papel de decisões jurídicas. Não existe qualquer forma de jurisdição<br />

além <strong>dos</strong> concursos de tambor. Estes são os únicos meios de resolver as dissensões, e não<br />

existe qualquer outra maneira de influenciar a opinião pública.<br />

Mesmo os assassinos são denuncia<strong>dos</strong> desta curiosa maneira. A vitória num concurso de<br />

tambor não é seguida por qualquer espécie de sentença. Essas competições são, na grande<br />

maioria <strong>dos</strong> casos, provocadas pelos mexericos das mulheres. É preciso distinguir entre as<br />

tribos que praticam esse costume como meio de administração da justiça e aquelas para as<br />

quais ele constitui apenas um divertimento festivo. As violências autorizadas são<br />

estabelecidas de diferentes maneiras: permite-se bater ou apenas amarrar etc. Além do<br />

concurso de tambor, os conflitos são, por vezes, resolvi<strong>dos</strong> por uma luta a murro ou corpo<br />

a corpo. Trata-se aqui, portanto, de um costume cultural que desempenha a função judicial<br />

sob uma forma perfeitamente agonística, sem contudo deixar de constituir um jogo no<br />

sentido mais próprio do termo. Tudo decorre no meio de risos e da maior alegria, porque o<br />

que mais importa é conseguir divertir o público. "Da próxima vez", diz Igsiavik, "vou fazer<br />

uma canção nova. Vai ser muito divertido, e vou amarrar o outro a uma estaca da tenda".<br />

Não há dúvida que os concursos de tambor são a principal fonte de diversão para toda a<br />

população. Se não houver uma disputa que sirva de pretexto, os concursos mesmo assim se<br />

realizam, pelo puro divertimento que proporcionam. Em certas ocasiões, como<br />

demonstração de talento fora do comum, as canções assumem a forma de enigmas.<br />

Nas Atenas de Péricles e Fídias, a eloquência jurídica ainda era principalmente uma<br />

competição de habilidade retórica, na qual eram permiti<strong>dos</strong> to<strong>dos</strong> os artifícios de persuasão<br />

que fossem possíveis de imaginar. Considerava-se o tribunal e a arena política como os dois<br />

lugares por excelência onde a arte podia ser aprendida. Esta arte, juntamente com a<br />

violência militar, o roubo e a tirania, constitui a "caça ao homem" definida no Sofista de<br />

Platã31. Era possível aprender com os sofistas a transformar uma má causa numa boa causa,<br />

e até conseguir fazê-la prevalecer. O jovem que entrava na vida política geralmente iniciava<br />

sua carreira acusando alguém num processo escandaloso. Também em Roma durante<br />

muito tempo foi considerado legítimo todo e qualquer meio de prejudicar o adversário<br />

num julgamento. As partes vestiam-se de luto, suspiravam, gemiam, invocavam em altas<br />

vozes o bem comum, rodeavam-se de grande número de testemunhas e clientes,<br />

procurando impressionar o tribunal. Em resumo, faziam tudo aquilo que nós hoje fazemos.<br />

Basta lembrar o advogado que, no processo Hauptmann, deu palmadas na Bíblia e fez<br />

tremular a bandeira americana, ou seu colega holandês que, num sensacional processo<br />

criminal, reduziu a pedaços um relatório psiquiátrico. Littmann descreve da seguinte<br />

maneira um julgamento na Abissínia33: "Numa oratória cuida<strong>dos</strong>amente estudada e<br />

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extremamente hábil o acusador desenvolve sua argumentação O humor, a sátira, alusões<br />

sutis, provérbios apropria<strong>dos</strong> à circunstância, o escárnio e o frio desprezo, acompanha<strong>dos</strong><br />

de vez em quando pela mais viva gesticulação e por tremen<strong>dos</strong> berros, tudo isso tende a<br />

reforçar a acusação e a confundir o acusado".<br />

E assim ad infinitum<br />

Segundo a tradição, a guerra entre as duas cidades da Eubéia, Calcis e Eretria, no século<br />

VII antes de Cristo, desenrolou-se inteiramente sob a forma de uma competição. Um pacto<br />

solene contendo as regras estabelecidas foi previamente depositado no templo de Artemisa.<br />

Nele eram indica<strong>dos</strong> o momento e o local do combate. Eram proibi<strong>dos</strong> to<strong>dos</strong> os projéteis,<br />

dar<strong>dos</strong>, flechas, ou fundas, sendo permitidas apenas a espada e a lança. Há outro exemplo<br />

mais conhecido, embora menos ingênuo. Após a batalha de Salamina, os gregos vitoriosos<br />

navegaram para o Istmo, a fim de distribuir prêmios, aqui chama<strong>dos</strong> aristeia, àqueles que<br />

mais se haviam distinguido durante a batalha. Os chefes deviam depositar seus votos no<br />

altar de Poseidon, indicando um primeiro e um segundo candidato. Cada um <strong>dos</strong> chefes se<br />

colocou a si mesmo em primeiro lugar, e a maior parte deles votou em Temístocles para<br />

segundo, de modo que este último obteve a maioria. Mas os problemas de inveja surgi<strong>dos</strong><br />

entre eles impediram a ratificação deste veredicto<br />

Os acampamentos são sempre cuida<strong>dos</strong>amente orienta<strong>dos</strong> em direção aos quatro cantos do<br />

zodíaco. Tudo o que dizia respeito à organização de um acampamento militar, em épocas<br />

culturais como a China antiga, era prescrito da maneira mais rigorosa e possuía um<br />

significado sagrado, porque o acampamento seguia o modelo da cidade imperial, e esta por<br />

sua vez seguia o modelo do céu. Estes pormenores mostram claramente que tudo isto é<br />

abrangido pela esfera do sagrado19. Os acampamentos militares romanos também<br />

apresentavam vestígios de sua origem ritualística, conforme afirmam F. Muller e outros.<br />

Embora na Idade Média cristã esses vestígios tivessem desaparecido completamente, a<br />

suntuosidade e o esplendor da decoração do acampamento de Carlos, o Temerário, no<br />

cerco de Neuss, em 1475, prova a estreita relação existente entre a guerra e o torneio, e<br />

também, conseqüentemente, o jogo.<br />

O samurai japonês era de opinião que o que é sério para o homem comum não passa de<br />

um jogo para o valente. O supremo mandamento de sua vida é o nobre autocontrole em<br />

face do perigo e da morte. A competição de linguagem insultuosa, que anteriormente<br />

referimos, pode assumir a forma de uma prova de resistência, numa sociedade em que uma<br />

conduta sóbria e cavalheiresca é prova de um estilo de vida heróico. Um <strong>dos</strong> sinais deste<br />

heroísmo é o completo desprezo que o homem de espírito nobre professa por todas as<br />

coisas materiais. O nobre japonês mostra sua educação e a superioridade de sua cultura não<br />

sabendo, ou pretendendo não saber, o valor das moedas. Um príncipe japonês, Kenshin,<br />

que estava em guerra contra um outro príncipe chamado Shingen, soube que um terceiro<br />

senhor feudal, embora não estivesse em conflito aberto com o príncipe Shingen, havia<br />

cortado o fornecimento de sal deste último.<br />

Em vista disso, o príncipe Kenshin ordenou a seus súditos que enviassem sal ao inimigo,<br />

exprimindo seu desprezo por essa luta econômica através das seguintes palavras: "Não<br />

combato com sal, e sim com a espada”!<br />

O LUDICO E O ENIGMA<br />

A surpreendente semelhança que caracteriza os costumes agonísticos em todas as culturas<br />

talvez tenha seu exemplo mais impressionante no domínio do próprio espírito humano,<br />

quer dizer, no do conhecimento e da sabedoria. Para o homem primitivo as proezas físicas<br />

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são uma fonte de poder, mas o conhecimento é uma fonte de poder mágico. Para ele lodo<br />

saber é um saber sagrado, uma sabedoria esotérica capaz de obrar milagres, pois todo<br />

conhecimento está diretamente ligado à própria ordem cósmica. A ordem das coisas,<br />

decretada pelos deuses e conservada pelo ritual para a preservação da vida e a salvação do<br />

homem, esta ordem universal ou rtam, como era chamada em sânscrito, tem sua mais<br />

poderosa salvaguarda no conhecimento das coisas sagradas, de seus nomes secretos e da<br />

origem do mundo. É por isso que há competições nesse tipo de conhecimento nas festas<br />

sagradas, pois a palavra pronunciada tem uma influência direta sobre a ordem do mundo. A<br />

competição em conhecimentos esotéricos está profundamente enraizada no ritual, e<br />

constitui uma parte essencial deste. As perguntas que os sacrificadores fazem uns aos<br />

outros, cada um por sua vez ou mediante desafios, são enigmas no sentido pleno do termo,<br />

exatamente idênticos, salvo em sua significação sagrada, às adivinhas de salão. É na<br />

tradição védica que se pode ver mais claramente a função dessas competições rituais de<br />

enigmas. Nos grandes sacrifícios solenes, elas constituíam uma parte da cerimônia tão<br />

essencial como o sacrifício propriamente dito. Os brâmanes competiam em jatavidya<br />

conhecimento das origens, ou em brahmodya, cuja tradução mais aproximada seria<br />

"expressão das coisas sagradas". Estas designações mostram claramente que as perguntas<br />

feitas possuíam um caráter predominantemente cosmogônico. Vários <strong>dos</strong> hinos do Rigveda<br />

encerram a produção poética direta dessas competições. No hino Rigveda 1, 64, algumas<br />

das perguntas dizem respeito a fenômenos cósmicos, e outras às particularidades rituais do<br />

sacrifício:<br />

"Interrogo-vos sobre a extremidade mais longínqua da terra, pergunto-vos onde está o<br />

umbigo da terra. Interrogo-vos sobre o esperma do garanhão, pergunto-vos qual é a mais<br />

alta instância da palavra"1.<br />

No hino VIII, 29, dez enigmas típicos descrevem os atributos das principais divindades,<br />

seguindo-se a cada resposta o nome de uma dessas divindades2:<br />

"Um deles tem a pele marrom avermelhada, é multiforme, generoso, jovem; usa<br />

ornamentos de ouro (Soma). Em seu seio desceu um ser refulgente, o deus sábio por<br />

excelência (Agni), etc.".<br />

O elemento predominante destes hinos é sua forma de enigma, cuja solução depende do<br />

conhecimento do ritual e - de seus símbolos. Mas esta forma de enigma encerra a mais<br />

profunda sabedoria a respeito das origens da existência. Paul Deussen, com uma certa<br />

razão, chama ao Rigveda X, 129 "provavelmente o mais admirável texto filosófico que<br />

chegou desde os tempos antigos até nós".<br />

"Então, o ser não era, nem o não-ser. O ar não era, nem o firmamento acima dele. O que<br />

se movia? Onde? Sob a guarda de quem? E a profundeza do abismo era toda água? "Então,<br />

a morte não era, nem a não-morte; não havia distinção entre o dia e a noite. Nada respirava<br />

salvo Aquilo, cm si mesmo sem vento. Em parte alguma havia algo além de Aquilo". A<br />

forma interrogativa do enigma foi aqui em parte suplantada pela forma afirmativa, mas a<br />

estrutura poética do hino continua refletindo seu caráter original de enigma. Depois do<br />

verso 5 volta a aparecer a forma interrogativa:<br />

"Quem sabe, quem dirá aqui, de onde nasceu e de onde veio esta Criação?"<br />

Uma vez aceite que este hino deriva da canção-enigma ritual, a qual por sua vez é a redação<br />

literária de concursos de enigmas que efetivamente se realizaram, fica estabelecida da<br />

maneira mais convincente possível a ligação genética entre o jogo de enigmas e a filosofia<br />

esotérica. Em alguns <strong>dos</strong> hinos do Atharvaveda, como por exemplo em X, 7 e 8, parece<br />

haver séries inteiras de perguntas enigmáticas, agrupadas sob um denominador comum,<br />

pouco importando que a questão seja resolvida ou fique sem resposta:<br />

"Onde vão os meios meses, onde vai o ano a que eles se juntam? Onde vão as estações -—<br />

dizei-me qual é seu skambha!5 Para onde correm, em seu desejo, as duas donzelas de<br />

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formas diferentes, o dia e a noite? Para onde, em seu desejo, correm as águas? Dizei-me<br />

qual é seu skambha!<br />

"Como pode o vento não parar, nem o espírito repousar? Por que as águas, desejosas da<br />

verdade, jamais param de correr"?<br />

O pensamento arcaico, arrebatado pelos mistérios do Ser, encontra-se aqui situado no<br />

limite entre a poesia sagrada, a mais profunda sabedoria, o misticismo e a mistificação<br />

verbal pura e simples. Não compete a nós dar conta de cada um <strong>dos</strong> elementos particulares<br />

destas efusões. O poeta-sacerdote está constantemente batendo à porta do Incognoscível,<br />

ao qual nem ele nem nós podemos ter acesso. Sobre esses veneráveis textos, tudo o<br />

quepodemos dizer é que neles assistimos ao nascimento da filosofia, não em um jogo inútil,<br />

mas no seio de um jogo sagrado. A mais alta sabedoria é praticada sob a forma de uma<br />

prova esotérica. Pode-se observar de passagem que o problema cosmogônico de saber<br />

como o mundo surgiu constitui uma das preocupações fundamentais do espírito humano.<br />

A psicologia experimental infantil mostrou que uma grande parte das perguntas feitas pelas<br />

crianças de seis anos possui um caráter autenticamente cosmogônico, como por exemplo o<br />

que faz a água correr, de onde vem o vento, o que é estar morto etc.7.<br />

O concurso de enigmas está longe de constituir um simples divertimento, constitui um<br />

elemento essencial da cerimônia do sacrifício. A resolução <strong>dos</strong> enigmas é tão indispensável<br />

quanto o próprio sacrifício8. Ela exerce uma certa pressão sobre os deuses. Nas Celebes<br />

centrais, entre os Toradja, encontra-se um interessante paralelo com esse antigo costume<br />

védico9. Em suas festas a parte destinada aos enigmas é estritamente limitada no tempo,<br />

começando no momento em que o arroz fica "prenhe" e prolongando-se até à colheita, e<br />

naturalmente a resolução <strong>dos</strong> enigmas é considerada favorável a esta. De cada vez que um<br />

enigma é resolvido, o coro canta: "Sai, arroz, saiam, gordas espigas, do alto da montanha ou<br />

do fundo <strong>dos</strong> vales!" Durante a época que precede imediatamente<br />

este período todas as atividades literárias são proibidas, pois poderiam prejudicar o<br />

crescimento do arroz. A mesma palavra wailo significa tanto "enigma" quanto "painço", o<br />

cereal que foi substituído pelo arroz como alimento popular10. Pode-se acrescentar o<br />

exemplo exatamente paralelo <strong>dos</strong> grisões da Suíça, onde, segundo se diz11, "os habitantes se<br />

entregam às mais loucas excentricidades para ajudar o trigo a crescer melhor" (thorechten<br />

atentem treiben, dass ihnen das korn destobas geraten solle).<br />

O enigma é uma coisa sagrada cheia de um poder secreto e, portanto, é uma coisa perigosa.<br />

Em seu contexto mitológico ou ritualístico, ele é quase sempre aquilo que os filólogos<br />

alemães chamam de Halsrãtel ou "enigma capital", em que se arrisca a cabeça caso não se<br />

consiga decifrá-lo. A vida do jogador está em jogo. Um corolário disto constitui a formação<br />

de um enigma que ninguém consiga resolver como sendo considerada a mais alta<br />

manifestação de sabedoria. Ambos estes temas encontram-se reuni<strong>dos</strong> na velha lenda hindu<br />

do rei Yanaka, que realizou um concurso de enigmas teológicos entre os brâmanes que<br />

assistiam a seu sacrifício solene, oferecendo um prêmio de mil vacas13. O sábio Yajflavalkya,<br />

considerando certa a vitória, mandou que as vacas lhe fossem previamente<br />

entregues e, naturalmente, derrotou seus adversários. Um destes, Vidaghdha Sakalya,<br />

verificando ser incapaz de resolver um enigma, perdeu literalmente a cabeça, a qual se<br />

separou de seu corpo e lhe caiu no colo. Esta estória é sem dúvida uma versão pedagógica<br />

do tema segundo o qual a incapacidade de responder era punida com a pena capital.<br />

Finalmente, quando ninguém mais se atreve a fazer perguntas, Yajnavalkya triunfalmente<br />

exclama:<br />

"Reveren<strong>dos</strong> brâmanes, se algum de vós deseja fazer alguma pergunta que a faça, ou to<strong>dos</strong><br />

vós, se quiserdes; ou então permiti que eu faça uma pergunta a um de vós, ou a to<strong>dos</strong>, se<br />

quiserdes"! É claro como o dia o caráter perfeitamente lúdico desta competição. A própria<br />

tradição sagrada participa do jogo, e é impossível definir o grau de seriedade com que a<br />

estória foi aceita no cânon sagrado, grau que aliás em última análise é tão irrelevante como<br />

91


o problema de saber se efetivamente alguém perdeu a cabeça por ser incapaz de resolver<br />

um enigma. Não é este o aspecto mais interessante da questão. O principal, o que é<br />

realmente notável, é o tema lúdico enquanto tal.<br />

Também na tradição grega encontra-se o tema da solução de enigmas e da pena de morte<br />

na estória <strong>dos</strong> videntes Calcas e Mopsos. Alguém vaticinou que Calcas morreria se alguma<br />

vez encontrasse um outro vidente mais sábio do que ele. Um dia encontra Mopsos e<br />

disputa com ele um concurso de enigmas, que é ganho por Mopsos.<br />

Calcas morre de desgosto, ou mata-se de despeito, e seus discípulos tornam-se seguidores<br />

de Mopsos14. Creio ser evidente neste caso a presença do tema do enigma fatal, embora sob<br />

forma corrompida. O concurso de enigmas em que a vida é posta em jogo é um <strong>dos</strong> temas<br />

principais da mitologia <strong>dos</strong> Eddas.<br />

No Vajthrúdnismal, Odin mede-se em sabedoria com o sapientíssimo gigante Vafthrúdnir,<br />

cada um fazendo alternadamente perguntas ao outro. As perguntas são de caráter<br />

mitológico e cosmogônico, semelhantes às <strong>dos</strong> textos védicos que citamos: De onde vieram<br />

o Dia e a Noite, o Inverno e o Verão, e o Vento? No Alvissmã, Thor pergunta ao anão<br />

Alvis como são chamadas as diversas coisas entre os Ases, os Vanes (o panteão secundário<br />

<strong>dos</strong> Eddas), os homens, os gigantes, os anões, e por último no Hel; mas antes de terminar a<br />

competição o dia nasce, e o anão é posto a ferros. O Canto de Fjõlsvinn possui forma<br />

semelhante, assim como os Enigmas do rei Heidrek, o qual fez a promessa de perdoar<br />

todo condenado à morte que lhe apresentasse um enigma que ele próprio não pudesse<br />

resolver. A maior parte destes cantos são atribuí<strong>dos</strong> ao período final <strong>dos</strong> Eddas, e é<br />

provável que os especialistas tenham razão quando afirmam que se trata apenas de<br />

exemplos de um artifício poético deliberado. O que não impede, todavia, que sua relação<br />

com os concursos de enigmas de um passado remoto seja demasiado evidente para ser<br />

negada.<br />

Não é através da reflexão ou do raciocínio lógico que se consegue encontrar a resposta a<br />

uma pergunta enigmática. A resposta surge literalmente numa solução brusca — o desfazer<br />

<strong>dos</strong> nós em que o interrogador tem preso o interrogado. O corolário disto é que dar a<br />

resposta correta deixa impotente o primeiro. Em princípio, há apenas uma resposta para<br />

cada pergunta. Quando se conhecem as regras do jogo. é possível encontrar essa resposta.<br />

As regras são de ordem gramatical, poética ou ritualística, conforme o caso. É preciso<br />

conhecer a linguagem secreta <strong>dos</strong> inicia<strong>dos</strong> e saber o significado de to<strong>dos</strong> os símbolos —<br />

roda, pássaro, vaca, etc. — das diversas categorias de fenômenos. Se for verificada a<br />

possibilidade de uma segunda resposta, de acordo com as regras e na qual o interrogador<br />

não tenha pensado, este último ficará em má situação, apanhado em sua própria armadilha.<br />

De outro lado, é possível uma coisa ser figurativamente representada de tantas maneiras<br />

que pode ser dissimulada num grande número de enigmas. Muitas vezes, a solução depende<br />

inteiramente do conhecimento <strong>dos</strong> nomes secretos ou sagra<strong>dos</strong> das coisas, como o<br />

Alvissmál acima referido. Não nos interessamos aqui pelo enigma enquanto forma literária,<br />

mas apenas por sua qualidade lúdica e sua função na cultura. Não precisamos, portanto,<br />

investigar em profundidade as relações etimológicas e semânticas<br />

entre os termos alemães e holandeses Ratsel e raadsel (enigma; em inglês, riddle), Rat e<br />

raad (conselho), erraten. (adivinhar) e raden, verbo holandês que ainda hoje significa ao<br />

mesmo tempo "aconselhar" e "resolver" (um enigma). Também em grego existem<br />

afinidades entre alvos (sentença, provérbio) e αινιγμα (enigma). Há uma estreita interligação<br />

cultural entre palavras como conselho, enigma, mito, lenda, provérbio etc. Mas basta<br />

lembrar de passagem estes aspectos, para imediatamente passar às diversas direções<br />

seguidas pelo enigma em sua evolução. Podemos concluir que originariamente o enigma<br />

era um jogo sagrado, e por isso se encontrava para além de toda distinção possível entre o<br />

jogo e a seriedade. Era ambas as coisas ao mesmo tempo: um elemento ritualístico da mais<br />

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alta importância, sem deixar de ser essencialmente um jogo. À medida que a civilização vai<br />

evoluindo, o enigma bifurca-se em dois senti<strong>dos</strong> diferentes: de um lado a filosofia mística e<br />

de outro, o simples divertimento.<br />

Mas não devemos pensar que nesta evolução se tenha verificado uma decadência da<br />

seriedade, passando a ser jogo, ou uma elevação do jogo até o nível da seriedade. Pelo<br />

contrário, o que se passa é que a civilização vai gradualmente fazendo surgir uma certa<br />

divisão entre dois mo<strong>dos</strong> da vida espiritual, aos quais chamamos "jogo" e "seriedade", e<br />

que originariamente constituía um meio espiritual contínuo, do qual surgiu a própria<br />

civilização O enigma ou, em termos menos específicos, a adivinhação, é, considerando à<br />

parte seus efeitos mágicos, um elemento importante das relações sociais. Como forma de<br />

divertimento social se adapta a toda a espécie de esquemas literários e rítmicos, como por<br />

exemplo as perguntas em cadeia, onde cada pergunta conduz a outra, do conhecido tipo<br />

"O que é mais doce que o mel?" etc. Os gregos gostavam muito da aporia como jogo de<br />

sociedade, ou seja, de fazer perguntas às quais era impossível dar uma resposta definitiva.<br />

Isto pode ser considerado uma forma moderada do enigma fatal. O "enigma da Esfinge"<br />

ainda ecoa vagamente nas formas mais tardias do jogo de enigmas, o tema da pena de<br />

morte permanece sempre no pano de fundo. Um <strong>dos</strong> exemplos mais característicos da<br />

maneira como a tradição o modificou é a estória do encontro de Alexandre o Grande com<br />

os "gimnosofistas" indianos. O conquistador tomou uma cidade que ousara oferecer<br />

resistência, e mandou que trouxessem à sua presença os dez sábios responsáveis por essa<br />

decisão. Deviam eles responder a um certo número de perguntas insolúveis feitas pelo<br />

próprio conquistador. Cada resposta errada significaria a morte, e o que respondesse pior<br />

morreria primeiro. O juiz deste último aspecto deveria ser um <strong>dos</strong> dez sábios. Caso seu<br />

julgamento fosse considerado acertado, sua vida seria poupada. A maior parte das<br />

perguntas são dilemas de caráter cosmológico, variantes <strong>dos</strong> enigmas védicos sagra<strong>dos</strong>. Por<br />

exemplo: Quem é mais, os vivos ou os mortos? Qual é o maior, a terra ou o mar? Qual<br />

apareceu primeiro, o dia ou a noite? As respostas são artifícios lógicos, e não exemplos de<br />

sabedoria mística. Quando, finalmente, foi feita a pergunta: "Quem respondeu pior?", o<br />

juiz respondeu: "Cada um pior do que o outro", inutilizando assim todo o plano, pois se<br />

tornava impossível que algum deles fosse morto.<br />

A intenção de "pegar" o adversário é essencial no dilema, cuja resposta, obrigando o<br />

adversário a admitir alguma coisa que não estava prevista na formulação original,<br />

invariavelmente redunda em desvantagem para ele. O mesmo se verifica no enigma que<br />

comporta duas soluções, a mais óbvia das quais é obscena. No Atharvaveda encontram-se<br />

enigmas deste tipo.<br />

Merece especial atenção uma das formas literárias derivadas do enigma, por mostrar de<br />

modo muito expressivo a relação entre o lúdico e o sagrado. Esta forma é o diálogo<br />

interrogativo filosófico ou teológico O tema é sempre o mesmo: um sábio que é<br />

interrogado por outro sábio ou um determinado número de sábios. Como Zaratustra,<br />

obrigado a responder às perguntas <strong>dos</strong> sessenta sábios do rei Vistaspa, ou Salomão,<br />

respondendo às perguntas da rainha de Sabá. Na literatura brâmane, um <strong>dos</strong> temas mais<br />

freqüentes é o do jovem discípulo, o bramatchárin, chegando à corte do rei e lá sendo<br />

interrogado pelos mestres, até o momento em que a sabedoria de suas respostas leva a uma<br />

inversão <strong>dos</strong> papéis, passando ele a interrogá-los, revelando-se assim como um mestre e<br />

não um discípulo. Desnecessário seria assinalar a extrema afinidade existente entre este<br />

tema e os concursos de enigmas rituais da época arcaica. Um <strong>dos</strong> contos do Mahabharata<br />

é especialmente característico a este respeito. Os Pandavas, em sua peregrinação através<br />

das florestas, chegam às margens de uma bela lagoa. O espírito que mora em suas águas<br />

proíbe-os de beber antes de responderem a algumas perguntas. To<strong>dos</strong> os que desprezam<br />

esta exigência caem mortos por terra. Ao que Yudhisthira se declara pronto a responder às<br />

perguntas do espírito, seguindo-se um jogo de perguntas e respostas através do qual é<br />

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exposto quase todo o sistema ético <strong>dos</strong> hindus— notável exemplo da transição entre o<br />

enigma cosmológico sagrado e o jeu d'esprit. Uma visão correta das disputas teológicas da<br />

Reforma, com a de Lutero contra Zwingli em Marburgo, em 1529, ou a de Theodore Beza<br />

contra seus colegas calvinistas e alguns prela<strong>dos</strong> católicos em Poissy, em 1561, revelará que<br />

elas não passam de uma continuação direta de um imemorial costume ritualístico.<br />

Os aspectos literários do diálogo interrogativo são especialmente interessantes no caso do<br />

tratado Fali chamado Milindapanha — as Questões do rei Menandro, um <strong>dos</strong> príncipes<br />

greco-indianos, que reinou na Bactriana no século II A. C. Embora este texto não fizesse<br />

oficialmente parte <strong>dos</strong> Tripitaka, os textos sagra<strong>dos</strong> <strong>dos</strong> budistas meridionais, era<br />

altamente considerado tanto por estes últimos quanto por seus irmãos do Norte, e deve ter<br />

sido composto cerca do início da era cristã. Mostra-nos ele a disputa entre Menandro e o<br />

grande Arhat, Nagasena. A obra é de teor puramente filosófico e teológico, mas pela forma<br />

e pelo tom possui um parentesco com o concurso de enigmas. Quanto a este último<br />

aspecto, o preâmbulo é um exemplo típico:<br />

Disse o rei: "Venerável Nagasena, quereis conversar comigo?"<br />

Nagasena: "Fá-lo-ei, se Vossa Majestade conversar comigo da maneira como falam os<br />

sábios; mas não o farei, se Vossa Majestade conversar comigo da maneira como falam os<br />

reis."<br />

"E qual a maneira como conversam os sábios, venerável Nagasena?"<br />

"Ao contrário <strong>dos</strong> reis, os sábios não ficam irrita<strong>dos</strong> quando são postos entre a espada e a<br />

parede."<br />

E o rei consente em discutir com ele em pé de igualdade, tal como no gaber do duque de<br />

Anjou. Alguns <strong>dos</strong> sábios da corte também participam; e o público é formado por<br />

quinhentos yonakas, isto é, jônios e gregos, assim como por oitenta mil monges budistas.<br />

Em atitude de desafio, Nagasena propõe um problema "que implica dois aspectos, muito<br />

profundo, difícil de resolver, mais duro que um nó". Os sábios do rei queixam-se de que<br />

Nagasena os atormenta com perguntas astuciosas de tendência herética. Muitas delas são<br />

típicos dilemas, atira<strong>dos</strong> com um triunfante: "Veja Vossa Majestade se consegue sair desta!"<br />

E assim são passa<strong>dos</strong> em revista os problemas fundamentais da doutrina budista, expressos<br />

numa simples forma socrática.<br />

O tratado inicial da Snorra Edda, conhecido como Gyl-fagmning, também pertence ao<br />

gênero do discurso teológico interrogativo. Gangleri inicia sua disputa com Har sob a<br />

forma de uma aposta, depois de ter começado<br />

por atrair a atenção do rei Gylf com seus habili<strong>dos</strong>os malabarismos com sete espadas. O<br />

concurso de enigmas sagrado relativo à origem das coisas está ligado por transições<br />

graduais ao concurso de enigmas em que estão em jogo a honra, as posses ou a vida, e<br />

finalmente às discussões filosóficas e teológicas. Outras formas de diálogo se encontram<br />

intimamente relacionadas com estas últimas, tais como a litania e o catecismo das doutrinas<br />

religiosas. Não existe exemplo mais flagrante de inextricável mistura de todas estas formas<br />

do que o cânon do Avesta, onde a doutrina é apresentada sobretudo numa série de<br />

perguntas e respostas trocadas entre Zaratustra e Ahura Mazda18. Especialmente os<br />

Yasnas, os textos litúrgicos para os rituais de sacrifício, conservam ainda numerosos<br />

vestígios da forma lúdica primitiva. Típicas questões teológicas, relativas à doutrina, à ética<br />

e ao ritual, alternam com velhos enigmas cosmogônicos, como em Yasna, 44. To<strong>dos</strong> os<br />

versos iniciam-se pela frase de Zaratustra: "Isto te pergunto, dá-me a resposta certa,<br />

Ahura!" As perguntas iniciam-se por: "Quem é aquele que. . .?" Por exemplo: "Quem é<br />

aquele que sustentava cá em baixo a terra, e lá em cima o céu, para que não caíssem?"<br />

"Quem é aquele que uniu a rapidez ao vento e às nuvens?" "Quem é aquele que criou a<br />

bendita luz e a escuridão ... o sono e a vigília?" Ao fim, uma passagem notável mostra<br />

claramente que nos encontramos perante vestígios de um antigo concurso de enigmas:<br />

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"Isto te pergunto, dá-me a resposta certa, Ahura! Conseguirei eu o prêmio de dez éguas,<br />

um garanhão e um camelo que me foi prometido?" Além das questões cosmogônicas, há<br />

outras de natureza mais catequética, relativas às origem e à definição da piedade, a distinção<br />

entre o bem e o mal, a pureza e a impureza, as melhores maneiras de lutar contra o espírito<br />

do mal etc. Aquele pastor suíço que, no país e no tempo de Pestalozzi, escreveu um<br />

catecismo para crianças intitulado<br />

"Pequeno livro de adivinhas" (Ratselhüchleiit) não podia saber até que ponto sua idéia era<br />

próxima da verdadeira fonte de to<strong>dos</strong> os cre<strong>dos</strong> e catecismos.<br />

Os gregos da época mais tardia tinham plena consciência das relações existentes entre o<br />

jogo <strong>dos</strong> enigmas e as origens da filosofia. Clearco, um <strong>dos</strong> discípulos de Aristóteles,<br />

escreveu um tratado sobre os provérbios, o qual encerrava uma teoria <strong>dos</strong> enigmas,<br />

provando que originariamente o enigma fora um assunto filosófico. Diz ele: "Os antigos<br />

usavam-no como prova de sua educação (παιδεια)21, observação que nitidamente se refere<br />

ao jogo de enigmas de que acima tratamos. E, com efeito, não seria exagerado considerar<br />

os primeiros produtos da filosofia grega como deriva<strong>dos</strong> <strong>dos</strong> enigmas primitivos. Para<br />

Heráclito, o "filósofo obscuro", a natureza e a vida são um griphos, um enigma, e ele<br />

próprio é um decifrador de enigmas. As afirmações de Empédocles têm muitas vezes a<br />

ressonância da solução de enigmas místicos, e se revestem ainda de uma forma poética.<br />

A POESIA E O LUDICO<br />

Em qualquer civilização viva e florescente, sobretudo nas culturas arcaicas, a poesia<br />

desempenha uma função vital que é social e litúrgica ao mesmo tempo. Toda a poesia da<br />

antigüidade é simultaneamente ritual, divertimento, arte, invenção de enigmas, doutrina,<br />

persuasão, feitiçaria, adivinhação, profecia e competição. Praticamente, to<strong>dos</strong> os motivos<br />

característicos da poesia e do ritual arcaicos encontram-se no terceiro Canto da epopéia<br />

popular finlandesa Kalevala. O velho e sábio Vainamõinen encanta o jovem presunçoso<br />

que se atreve a desafiá-lo para uma competição de feitiçaria. A primeira competição é sobre<br />

o conhecimento das coisas naturais, a segunda sobre o conhecimento esotérico relativo às<br />

origens. Neste momento, o jovem Joukahainen pretende que parte da criação se deve a ele<br />

mesmo; ao que o velho feiticeiro canta-o para dentro da terra, para dentro do pântano,<br />

para dentro da água, e a água sobe-lhe até à cintura, até às axilas, depois até à boca, até que<br />

finalmente o jovem lhe promete sua irmã Aino. Só então Vainamõinen, sentado na "pedra<br />

da canção", canta durante mais três horas para desfazer sua poderosa mágica e libertar o<br />

ousado desafiante. Nesta façanha encontram-se unidas todas as formas de competição a<br />

que anteriormente nos referimos:<br />

concurso de insultos, de jactância, a "comparação <strong>dos</strong> homens", a competição em<br />

conhecimento cosmogônico, a competição pela noiva, o teste de resistência, o ordálio —<br />

uma prova/teste que os juristas da idade média infringiam aos acusa<strong>dos</strong>, que caso<br />

vencessem eram considera<strong>dos</strong> inocentes, segundo o juízo divino.- num jacto ao mesmo<br />

tempo selvagem e sóbrio de imaginação poética. A verdadeira designação do poeta arcaico<br />

é Vates, o possesso, inspirado por Deus, em transe. Estas qualificações implicam ao<br />

mesmo tempo que ele possui um conhecimento extraordinário. Ele é um sábio, sha’ir,<br />

como lhe chamavam os árabes. Na mitologia <strong>dos</strong> Eddas o hidromel que é preciso beber<br />

para se transformar em poeta é preparado com o sangue de Kvasir, a mais sábia de todas as<br />

criaturas, que nunca foi interrogada em vão. O poeta-vidente vai gradualmente assumindo<br />

as figuras do profeta, do sacerdote, do adivinho, do mistagogo e do poeta tal como o<br />

conhecemos; e também o filósofo, o legislador, o orador, o demagogo, o sofista e o mestre<br />

de retórica brotam desse tipo compósito primordial que é o Vates. To<strong>dos</strong> os poetas gregos<br />

arcaicos revelam vestígios de seu progenitor comum. Sua função é eminentemente social;<br />

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falam como educadores e guias do povo. São os líderes da nação, cujo lugar foi mais tarde<br />

usurpado pelos sofistas A figura do antigo vates aparece sob muitos de seus aspectos no<br />

thulr da velha literatura nórdica, que corresponde ao thyle anglo-saxão. A moderna<br />

filologia alemã traduz essa palavra por Kultredner, que significa "orador do culto5. O<br />

exemplo mais típico do thulr é o starkaar, que Saxo Grammaticus corretamente traduz<br />

por vates. O thulr aparece, às vezes, como orador das fórmulas litúrgicas, em outras, como<br />

ator de um drama sagrado; em certas ocasiões, como sacerdote <strong>dos</strong> sacrifícios, e até como<br />

feiticeiro. Em outros casos, parece não passar de um poeta e orador de corte, tendo<br />

simplesmente a função do scurra — bobo ou jogral. O verbo correspondente, thylja,<br />

designa a recitação de textos religiosos, a prática da feitiçaria, ou simplesmente resmungar.<br />

O thulr é o repositório de todo o conhecimento mitológico e folclore poético. Ele é o<br />

velho sábio que conhece toda a história e tradição de um povo, que nas festas desempenha<br />

o papel de orador e é capaz de recitar de cor a genealogia <strong>dos</strong> heróis e <strong>dos</strong> nobres. Sua<br />

função específica é a peroração competitiva e o concurso de sabedoria. É sob esta forma<br />

que o encontramos como Unferd, no Beowulf. O mannjafnaar, a que antes nos referimos<br />

e os concursos de sabedoria entre Odin e os gigantes ou anões são abrangi<strong>dos</strong> pelo thulr.<br />

Os conheci<strong>dos</strong> poemas anglo-saxões Widsid e O vagabundo parecem ser típicos produtos<br />

do versátil poeta da corte. Todas as características acima referidas entram muito<br />

naturalmente em nossa descrição do poeta arcaico, cuja função foi em todas as épocas ao<br />

mesmo tempo sagrada literária. Mas, fosse sagrada ou profana, sua função sempre se<br />

encontra enraizada numa forma lúdica. Os habitantes da Buru central, também chamada<br />

Rana, praticam uma forma de antífona cerimonial conhecida pelo nome de Inga fuka. Os<br />

homens e as mulheres sentam-se uns em frente <strong>dos</strong> outros e cantam pequenas canções,<br />

algumas delas improvisadas, acompanha<strong>dos</strong> por um tambor. As canções são sempre de<br />

troça ou de desafio. São conhecidas nada menos de cinco espécies diferentes de Inga fuka.<br />

As canções assumem sempre a forma da estrofe e da antiestrofe, do ataque e da réplica, da<br />

pergunta e da resposta, do desafio e da desforra. Por vezes, assemelham-se a enigmas. O<br />

Inga fuka mais típico chama-se 'Inga fuka de preceder e seguir"; cada estrofe começa pelas<br />

palavras "perseguir" ou "seguir uns aos outros", como em certos jogos infantis. O elemento<br />

poético formal é constituído pela assonância que, repetindo a mesma palavra ou uma<br />

variação dela, estabelece uma ligação entre a tese e a antítese. O elemento puramente<br />

poético é constituído por uma alusão, por uma idéia brilhante surgida bruscamente, o jogo<br />

de palavras ou simplesmente o som das próprias palavras, sendo que neste processo o<br />

sentido pode perder-se completamente. Esta forma de poesia só pode ser descrita e<br />

compreendida em termos de jogo, embora obedeça a um complexo sistema de regras<br />

prosódicas. Quanto ao conteúdo, as canções são sobretudo de inspiração amorosa, ou<br />

pequenas homilias sobre a prudência e as virtudes, ou ainda de caráter satírico. Embora<br />

exista todo um repertório de Inga fukas tradicionais, a essência do gênero é a<br />

improvisação. Também acontece que os versos já existentes sejam aperfeiçoa<strong>dos</strong> por<br />

adições e correções. O virtuosismo é grandemente considerado, não faltando a habilidade<br />

artística. Quanto ao sentimento e ao tom, as traduções fazem lembrar o pantun malaio, o<br />

qual deve ter exercido uma certa influência na literatura de Buru, e também o muito mais<br />

remoto hai-kai japonês.<br />

Além do Inga fuka, existem em Rana outras formas de poesia, todas elas baseadas nos<br />

mesmos princípios formais, mas consistindo, por exemplo, em longas altercações entre as<br />

famílias da noiva e do noivo, durante a troca cerimonial de presentes que se realiza por<br />

ocasião do casamento a forma japonesa de poesia vulgarmente conhecida como hai-kai,<br />

pequeno poema de apenas três versos, com cinco, sete e cinco sílabas sucessivamente, que<br />

evoca uma delicada impressão do mundo das plantas ou <strong>dos</strong> animais, da natureza ou do<br />

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homem, às vezes com um toque de lirismo melancólico ou de nostalgia, outras, com um<br />

rasgo de ligeiro humor. Basta dar aqui dois exemplos:<br />

Quantas coisas<br />

Em meu coração!<br />

Deixa-as flutuar<br />

No fremir do salgueiro!<br />

Ao sol,<br />

secam quimonos.<br />

Oh,<br />

as pequenas mangas<br />

Da criança morta!<br />

O hai-kai foi certamente, em sua origem, um jogo de rimas em cadeia, iniciado por um<br />

jogador e continuado pelo seguinte. Um exemplo característico da fusão entre o jogo e a<br />

poesia é ainda hoje conservado no método tradicional de recitação do Kalevala finlandês.<br />

Lõnroth, que coligiu as canções, encontrou ainda em vigor o curioso costume de dois<br />

cantores se sentarem num banco um em frente do outro, segurando as mãos um do outro e<br />

balançando-se para a frente e para trás ao mesmo tempo que vão competindo em<br />

conhecimentos das estâncias. Ás sagas islandesas descrevem uma forma semelhante de<br />

recitação (Eddas escrito em nórdico antigo).<br />

Todas estas formas tiveram um grande desenvolvimento no extremo oriente. Em sua<br />

lúcida interpretação e reconstituição <strong>dos</strong> textos da China antiga, Marcel Granet oferece-nos<br />

um quadro de todo o sistema de competições poéticas entre rapazes e moças que floresceu<br />

na época pastoril. No Anam foi descoberto um sistema semelhante ainda vigente, o qual foi<br />

descrito com grande exatidão pelo erudito anamita Nguyen van Huyen12. Aqui, o<br />

"argumento" poético, que pouco encobre o namoro declarado, possui freqüentemente um<br />

caráter altamente sofisticado, baseado numa série de provérbios que, aparecendo no final<br />

de cada estância, servem como testemunhos irrefutáveis da causa do amante. Encontra-se<br />

uma forma idêntica nos débats da França do século XV. Todavia há outras formas de<br />

poesia, especialmente no Extremo Oriente, que devem ser consideradas atividades culturais<br />

realizadas dentro de um espírito agonístico. Como por exemplo quando se impõe a alguém<br />

a tarefa de improvisar um poema a fim de quebrar um "feitiço" ou sair de uma situação<br />

difícil. O que importa aqui não é que esse costume tenha ou não chegado a possuir alguma<br />

importância prática para a vida quotidiana, e sim que o espírito humano tenha inúmeras<br />

vezes visto neste motivo lúdico, que é aparentado tanto ao enigma "fatal" quanto à aposta,<br />

uma maneira de exprimir, e talvez de resolver, os intrinca<strong>dos</strong> problemas da vida, e que a<br />

arte poética, sem visar diretamente a um efeito estético, tenha encontrado neste jogo o mais<br />

fértil solo para seu desenvolvimento. Citemos alguns exemplos tira<strong>dos</strong> da obra de Nguyen<br />

van Huyen: Os alunos de um certo Dr. Tan precisavam sempre passar, em seu caminho<br />

para a escola, pela casa de uma moça que morava ao lado do professor. Quando passavam<br />

diziam sempre: "És adorável, és realmente um amor!"<br />

Isto enfurecia a moça, a qual um dia esperou por eles e lhes disse: "Bem, se vocês me<br />

amam, vou dar a vocês uma frase. Se algum de vocês for capaz de responder-me a frase<br />

correspondente dar-lhe-ei meu amor, caso contrário vocês se comprometem a dar sempre a<br />

volta para evitar passar diante de minha porta." Ela recitou a frase, e nenhum <strong>dos</strong><br />

estudantes foi capaz de dar a resposta certa, de modo que no futuro viram-se obriga<strong>dos</strong> a<br />

dar sempre uma volta à roda da casa do professor15.<br />

Trata-se de algo semelhante ao svayamvara épico, ou à corte feita a Brunilde, que aqui<br />

temos sob a forma de um idílio aldeão de estudantes anamitas.<br />

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Khanh-du, da dinastia Tran, foi demitido de seu cargo devido a uma falta grave, e tornouse<br />

vendedor de carvão em Chi Linh. Quando uma vez, durante uma de suas campanhas, o<br />

Imperador passou por essa região, encontrou o antigo mandarim e ordenou-lhe que fizesse<br />

um poema sobre o comércio do carvão. Khanh-du fez imediatamente o poema, ao que o<br />

Imperador, profundamente comovido, devolveu-lhe seus antigos títulos.<br />

A improvisação de versos em frases paralelas era um talento sem o qual ninguém podia<br />

facilmente passar no Extremo Oriente. O sucesso de uma embaixada anamita em Pequim<br />

podia por vezes depender do talento do embaixador para a improvisação em verso. To<strong>dos</strong><br />

os membros das embaixadas precisavam ser constantemente prepara<strong>dos</strong> para toda a<br />

espécie de perguntas, e saber as respostas para as mil e uma charadas e enigmas que ao<br />

Imperador ou a seus mandarins apetecia perguntar17. Era a diplomacia sob forma lúdica.<br />

O jogo de perguntas e respostas em forma de verso pode também ter uma função de<br />

armazenamento de toda uma massa de conhecimentos úteis. Uma moça acaba de dizer sim<br />

a seu noivo, e ambos pretendem abrir juntos uma loja. O noivo pede-lhe para lhe dizer os<br />

nomes <strong>dos</strong> medicamentos, e todo o tesouro da farmacopéia se segue em verso. A arte da<br />

aritmética, o conhecimento das diversas mercadorias e o uso do calendário na agricultura<br />

também podem ser transmiti<strong>dos</strong> de forma extremamente sucinta por este processo. As<br />

vezes, os namora<strong>dos</strong> interrogam-se mutuamente, sobre questões de literatura. Fizemos<br />

notar acima que todas as formas de catecismo se relacionam diretamente com o jogo <strong>dos</strong><br />

enigmas. O mesmo é também o caso do exame, que sempre desempenhou um papel<br />

extraordinariamente importante na vida social do Extremo Oriente. Toda civilização só<br />

muito lentamente vai abandonando a forma poética como principal método de expressão<br />

das coisas importantes para a vida da comunidade social. A poesia sempre antecede a<br />

prosa; para a expressão de coisas solenes ou sagradas, a poesia é o único veículo adequado.<br />

Não são apenas os hinos e os provérbios que são postos em verso, são também extensos<br />

trata<strong>dos</strong> com por exemplo os sutras e sastras da índia antiga, ou os primeiros produtos da<br />

filosofia grega. Empédocles encerra todo seu saber em um poema, e ainda Lucrécio<br />

continua utilizando a mesma forma. Talvez, em parte, a preferência pelos versos tenha sido<br />

determinada por considerações utilitárias: uma sociedade sem livros acha mais fácil<br />

memorizar seus textos desta maneira. Mas existe uma razão mais profunda, a saber que a<br />

própria vida da sociedade arcaica possui como que uma estrutura métrica e estrófica. A<br />

poesia continua ainda hoje sendo o modo de expressão mais natural para as coisas mais<br />

"elevadas". Até 1868, os japoneses costumavam escrever em forma poética as partes mais<br />

importantes <strong>dos</strong> documentos de Estado<br />

Os historiadores do direito prestaram uma atenção especial aos vestígios de poesia no<br />

direito, pelo menos na tradição germânica. Todo estudante das leis germânicas conhece o<br />

antigo texto jurídico frisão em que uma cláusula relativa às diversas "necessidades" ou<br />

ocasiões de necessidade nas quais é preciso vender a herança de um órfão, passa de repente<br />

a um estilo lírico aliterativo:<br />

"A segunda necessidade é quando o ano se torna custoso<br />

e a fome ardente invade a terra,<br />

e a criança vai morrer de fome.<br />

Pode, então, a mãe pôr à venda o patrimônio da criança,<br />

comprando para ela uma vaca, trigo etc.<br />

A terceira necessidade é quando a criança está nua<br />

e sem teto,<br />

e vem o escuro nevoeiro<br />

e o frio inverno, e cada homem se abriga em seu lar,<br />

num quente refúgio,<br />

e o animal selvagem procura a árvore oca<br />

98


e o refúgio das montanhas,<br />

para salvar sua vida.<br />

Então a criança menor chorará<br />

e gritará,<br />

e lamentará a nudez de seus membros<br />

e sua falta de abrigo,<br />

e a ausência de seu pai,<br />

que deveria tê-la defendido contra a fome<br />

e as frias névoas do inverno, e<br />

que agora jaz numa funda e escura cova,<br />

sob o carvalho e a terra,<br />

preso por quatro pregos."<br />

Creio que aqui estamos perante algo que não é apenas uma ornamentação deliberada, mas<br />

sobretudo a circunstância de a formulação da lei pertencer ainda àquela exaltada esfera do<br />

espírito em que a forma poética é o modo natural de expressão. Devido precisamente à sua<br />

brusca entrada na poesia, este exemplo frisão é típico de muitos outros; em certo sentido, é<br />

mais típico do que o Tryggdamal da antiga Islândia que, numa série de estrofes aliterantes,<br />

narra o restabelecimento da paz, comunica o pagamento de uma indenização, proíbe<br />

energicamente novas lutas e nesse momento, o propósito da declaração de que os<br />

"perturbadores da paz" serão em toda a parte considera<strong>dos</strong> fora da lei, passa a ampliar este<br />

"em toda a parte" por meio de uma série de imagens poéticas:<br />

"Onde quer que os homens<br />

cacem lobos,<br />

vão à igreja<br />

os cristãos,<br />

no recinto sagrado<br />

sacrifiquem os pagãos,<br />

arda o fogo,<br />

reverdesça o campo,<br />

a criança chame pela mãe,<br />

a mãe alimente o filho,<br />

se cuide o fogo da lareira,<br />

naveguem os barcos,<br />

cintilem os escu<strong>dos</strong>,<br />

brilhe o sol,<br />

caia a neve,<br />

cresçam os pinheiros,<br />

voe o falcão<br />

no longo dia de primavera<br />

(vento forte<br />

em ambas as asas),<br />

onde quer que o céu<br />

se eleve,<br />

se construa a casa,<br />

sopre o vento,<br />

corram para o mar as águas,<br />

semeiem o trigo os servos"<br />

99


Toda poesia tem origem no jogo: o jogo sagrado do culto, o jogo festivo da corte amorosa,<br />

o jogo marcial da competição, o jogo combativo da emulação da troca e da invectiva, o<br />

jogo ligeiro do humor e da prontidão.<br />

O que a linguagem poética faz é essencialmente jogar com as palavras. Ordena-as de<br />

maneira harmoniosa, e injeta mistério em cada uma delas, de modo tal que cada imagem<br />

passa a encerrar a solução de um enigma Na cultura arcaica, a linguagem <strong>dos</strong> poetas é o<br />

mais eficaz <strong>dos</strong> meios de expressão, desempenhando uma função muito mais ampla e vital<br />

do que a mera satisfação das aspirações literárias. Põe o ritual em palavras, é o árbitro das<br />

relações sociais, o veículo da sabedoria, da justiça e da moral. E faz tudo isto sem<br />

prejudicar seu caráter lúdico, pois o próprio quadro da cultura primitiva é um círculo<br />

lúdico. Nesta fase, as atividades culturais realizam-se sob a forma de jogos sociais; mesmo<br />

as mais utilitárias gravitam cm torno de um ou outro <strong>dos</strong> grupos lúdicos. Mas, à medida<br />

que a civilização vai ganhando maior amplitude espiritual, as regiões nas quais o fator<br />

lúdico é fraco ou quase imperceptível desenvolvem-se à custa daquelas em que ele tem livre<br />

curso.<br />

Nunca se perderam inteiramente as íntimas relações entre a poesia e o enigma. Nos skalds<br />

islandeses o excesso de clareza é considerado uma falha técnica. Os gregos também exigiam<br />

que a palavra do poeta fosse obscura. Entre os trovadores, em cuja arte a função lúdica é<br />

mais patente do que em qualquer outra, são atribuí<strong>dos</strong> méritos especiais ao trobardus — o<br />

que à letra significa "poesia hermética"<br />

A representação em forma humana de coisas incorpóreas ou inanimadas é a essência de<br />

toda formação mítica e de quase toda a poesia. Neste sentido, a personificação surge a<br />

partir do momento em que alguém sente a necessidade de comunicar aos outros suas<br />

percepções. Assim, as concepções surgem enquanto atos da imaginação.<br />

Haverá razões para chamar a este hábito inato do espírito, a esta tendência para criar um<br />

mundo imaginário de seres vivos (ou talvez um mundo de idéias animadas), um jogo do<br />

espírito ou um jogo mental?<br />

Tomemos como exemplo uma das formas mais elementares da personificação, as<br />

especulações míticas a respeito da origem do mundo e das coisas, nas quais a criação é<br />

concebida como obra de alguns deuses a partir do corpo de um gigante universal.<br />

Encontramos esta concepção no Rig-Veda c no primeiro Edda. Atualmente, a filologia<br />

tende a considerar os textos onde se encontra esta lenda como uma redação literária<br />

ocorrida em época relativamente tardia. O décimo hino do Rig-Veda nos oferece uma<br />

paráfrase mística de uma matéria mítica primordial, paráfrase feita pelos sacerdotes<br />

sacrificadores, que a interpretaram em termos ritualísticos. O Ser primordial, Purusha (isto<br />

é, o homem) serviu de matéria para o universo1. Todas as coisas foram formadas a partir<br />

deste corpo, "os animais do ar, e as florestas e as aldeias"; "a lua veio de seu espírito; o sol,<br />

de seu olho; de sua boca vieram Indra e Agni; de seu hálito, o vento; de seu umbigo, a<br />

atmosfera; de sua cabeça, o céu; de seus pés, a terra; e de seus ouvi<strong>dos</strong>, os quatro<br />

quadrantes do horizonte; assim eles (os deuses2) fizeram os mun<strong>dos</strong>". Queimaram Purusha<br />

como oferenda. O hino é uma mistura de antigas fantasias míticas e de especulações<br />

místicas de uma fase mais tardia da cultura religiosa. Note-se de passagem que num <strong>dos</strong><br />

versos, o décimo primeiro, surge repentinamente a nossa já conhecida interrogação:<br />

"Quando dividiram eles Purusha, em quantas partes o dividiram eles? Como foi chamada<br />

sua boca, e seus braços, e suas coxas, e seus pés?" Por que os homens subordinam as<br />

palavras à métrica, à cadência e ao ritmo? Se respondermos que é por causa da beleza ou da<br />

emoção, estaremos deslocando o problema para um terreno ainda mais difícil. Mas se<br />

respondermos que os homens fazem poesia porque sentem a necessidade do jogo social já<br />

100


estaremos mais próximos do alvo. A palavra rítmica nasce dessa necessidade. Só na<br />

atividade lúdica da comunidade a poesia desempenha uma função vital e possui seu pleno<br />

valor, e estes se perdem à medida em que os jogos sociais perdem seu caráter ritual ou<br />

festivo. Elementos como a rima e o dístico só adquirem sentido dentro das estruturas<br />

lúdicas intemporais e onipresentes de que derivam: golpe e contragolpe, ascensão e queda,<br />

pergunta e resposta, numa palavra, ritmo. Sua origem está inseparavelmente ligada aos<br />

princípios da canção e da dança, os quais por sua vez fazem parte da imemorial função do<br />

jogo. Todas as qualidades da poesia reconhecidas como próprias, como a beleza, o caráter<br />

sagrado, a magia, são desde início abrangidas pela qualidade lúdica fundamental. Segundo<br />

os imortais modelos gregos, distinguimos na poesia três grandes gêneros, o lírico, o épico e<br />

o dramático. O lírico é o que permanece mais próximo da esfera lúdica da qual to<strong>dos</strong><br />

derivam. Aqui, o lírico deve ser tomado cm sentido extremamente amplo, incluindo, além<br />

do gênero enquanto tal, to<strong>dos</strong> os mo<strong>dos</strong> que exprimem o arrebatamento. Na escala da<br />

linguagem poética, a expressão lírica é a mais distante da lógica e a mais próxima da música<br />

e da dança. É a linguagem da contemplação mística, <strong>dos</strong> oráculos e da magia. É nela que o<br />

poeta experimenta mais intensamente a sensação de ser inspirado de fora, é nela que se<br />

encontra mais próximo da suprema sabedoria, mas também da demência. O abandono<br />

total da razão e da lógica é característico da linguagem <strong>dos</strong> sacerdotes e <strong>dos</strong> oráculos entre<br />

os povos primitivos, chegando muitas vezes a ser uma algaraviada incompreensível.<br />

Emile Faguet refere-se algures a "le grain de sottise nécessaire au lyrique moderne". Mas<br />

não é só o poeta lírico moderno que precisa dela; todo o gênero forçosamente precisa não<br />

estar submetido às limitações do intelecto. Um <strong>dos</strong> traços fundamentais da imaginação<br />

lírica é a tendência para o exagero. A poesia precisa ser exorbitante.<br />

São necessárias mais algumas explicações sobre o papel da competição na evolução da arte.<br />

Praticamente to<strong>dos</strong> os exemplos conheci<strong>dos</strong> de competições em que foram dadas mostras<br />

de uma habilidade espantosa pertencem mais à mitologia, à lenda e à literatura do que<br />

propriamente à história da arte. O gosto pelo exorbitante e o miraculoso encontra seu<br />

terreno mais fértil nas estórias fantásticas contadas acerca <strong>dos</strong> artistas do passado. Os<br />

grandes portadores de cultura <strong>dos</strong> tempos primitivos, segundo as mitologias, inventaram<br />

todas as artes e ofícios que hoje constituem os tesouros da civilização em conseqüência de<br />

uma ou outra espécie de conquista, muitas vezes com risco da própria vida. Os Vedas dão<br />

a seu deus faber um nome especial: tvashtar, ou seja, aquele que faz. Foi ele que forjou o<br />

raio (vajra) para Indra. Participou de um concurso de destreza com os três rbhu ou<br />

artífices divinos, os quais fizeram os cavalos de Indra, o carro <strong>dos</strong> Asvins (os Dioscuru <strong>dos</strong><br />

hindus) e a vaca milagrosa de Brhaspati. Os gregos tinham uma lenda sobre Politecnos e<br />

sua esposa Aeden, os quais se gabavam de amar-se mais um ao outro do que Zeus e Hera,<br />

ao que Zeus lhes enviou Eris (a Emulação), que os induziu a competir um com o outro em<br />

toda a espécie de trabalhos artísticos. Os anões artífices da mitologia nórdica pertencem à<br />

mesma tradição, assim como Wieland o Ferreiro, cuja espada era tão afiada que era capaz<br />

de cortar novelos de lã flutuando num rio. Assim também Dédalo, que sabia fazer tudo:<br />

construiu o Labirinto, fez estátuas que caminhavam, e uma vez, perante o problema de<br />

fazer passar um fio pelas sinuosidades de uma concha, resolveu-o amarrando o fio a uma<br />

formiga. Aqui, a proeza técnica encontra-se ligada ao enigma; mas, enquanto o bom enigma<br />

encontra solução num contato espiritual inesperado e surpreendente, num espécie de curtocircuito<br />

mental, a primeira muitas vezes se perde no absurdo, como na lenda da corda de<br />

areia usada para coser pedaços de pedra relatos de milagres e o espírito lúdico.<br />

Além de ser um tema <strong>dos</strong> mais freqüentes no mito e na lenda, o artesanato competitivo<br />

desempenhou um papel perfeitamente claro no desenvolvimento efetivo das artes e das<br />

técnicas. A competição em destreza, narrada pelo mito, que se estabeleceu entre Politecnos<br />

e Aedon teve de fato seus correspondentes na realidade histórica, como a competição entre<br />

101


Parrhasios e seu rival na ilha de Samos, para ver quem era capaz de executar a melhor<br />

representação da luta entre Ajax e Ulisses, ou a que se realizou nas festas Pítias entre<br />

Panainos e Timágoras de Calcis. Um outro exemplo é o da competição entre Fídias,<br />

Policleto e outros para a execução da mais bela estátua de uma Amazona. O caráter<br />

autenticamente histórico desses duelos é comprovado por diversos epigramas e inscrições.<br />

No pedestal de uma estátua de Nice pode ler-se: "Isto foi feito por Panainos que foi<br />

também o autor da acrotheria do templo, tendo com isso ganho o prêmio<br />

O lúdico está presente em todas as atividades humanas. Está inserido na esfera do universo e na<br />

alma humana, sendo uma representação <strong>dos</strong> fatos espirituais que nos cercam, uma forma poética<br />

que faz parte da imaginação humana, indissociável da essência humana, concedido a nós como<br />

expressão de liberdade do espírito e da alma humana, assim como expressão da liberdade e da vida<br />

<strong>dos</strong> seres viventes. A brincadeira é a morte da predestinação absoluta, do determinismo, da<br />

soberania absoluta, do destino, fim da mentira da imutabilidade da existência ou da pré-existência<br />

de um roteiro que determine e delimite a essência da vida. O lúdico é uma realidade espiritual e<br />

psicológica, que transcende a vida, que apoia a capacidade de crescermos, aprendermos e<br />

amadurecermos, ele nos capacita à realidade, nos prepara para vivermos e representa numerosas<br />

faces do universo em que nascemos, vivemos e morremos. É uma dimensão da alma humana. A<br />

representação, o simbolismo, os arquétipos, o drama, a dramatização, o teatro, a dança, a musica, a<br />

poesia, o canto, as artes, a escrita, a linguagem, a jurisprudência, as relações humanas, incluindo a<br />

paixão, estão permeadas pelo lúdico.<br />

Nas Escrituras veremos a apresentação de inúmeras realidades espirituais através do lúdico.<br />

Quando Sansão elabora o enigma aos convida<strong>dos</strong> de seu casamento com a filisteia, quando ele<br />

arranca as portas da cidadela de Gaza está fazendo galhofa com seus habitantes, quando ele mente<br />

para Dalila por diversas vezes está brincando com ela. Quando Hamã o agagita lança sortes, ou<br />

da<strong>dos</strong>, para decidir a data da matança <strong>dos</strong> judeus, está num universo ludico. A ABERTURA DO<br />

LIVRO DE JÓ É PROPOSITADAMENTE LUDICA. Pela arbitrariedade com que a o homem<br />

moderno trata o lúdico, não compreende o “jogo” que está sendo “disputado” entre Deus e<br />

Satanás. O jogo é estigmatizado como algo ruim, é desprezado como brincadeira, mas ele é bem<br />

maior que algumas de suas percepções, ele é abrangente, ele é uma representação cósmica, “dentro<br />

de uma lampadazinha” parafraseando o Gênio de Aladim. O Espírito de Deus não lê ilegitimidade<br />

em representar a realidade espiritual como uma “disputa” porque é um pedagogo perfeito que<br />

“descomplica” para nós conceitos abstratos além de nossa capacidade e juízo. O lúdico representa o<br />

mistério, a alegria, o deslumbramento, de um modo soberbo, genial, envolvendo no mesmo<br />

instante nossos senti<strong>dos</strong> e nossa imaginação. Todo ENIGMA das Escrituras que solicita resolução<br />

é lúdico, assim como diversas profecias que adquirem caráter lúdico, propositadamente. Jeremias e<br />

Isaias emitem “zombarias” proféticas, como uma disputa de insultos, contra os falsos profetas; o<br />

falso profeta Ananias tece um colar de contas de madeira, e cria uma pequena peça teatral para<br />

representar uma profecia, colocando-o ao redor do pescoço de Jeremias. Davi se auto-convida para<br />

uma disputa entre campeões com Golias, quem vencesse representaria seu exército e teria outro<br />

como derrotado.<br />

Se ele puder pelejar comigo, e me ferir, a vós seremos por servos; porém, se eu o vencer, e o ferir,<br />

então a nós sereis por servos, e nos servireis. 1 Samuel 17:9<br />

Paulo fala que a carreia cristã é como uma prova e que só podem permanecer nelas aqueles que<br />

“militam segundo suas regras” declarando o universo ludico ao qual pertence a vida espiritual cristã.<br />

Anjos são vistos em visões dançando, cantando, tocando instrumentos, pulando de alegria,<br />

deslumbra<strong>dos</strong> com a salvação humana, em cenas de ludicas. Jesus disputava com os rabinos fariseus<br />

e saduceus utilizando sua linguagem técnica, suas técnicas de apodo, parábolas, questionamentos<br />

são de notório conhecimento rabínico, ele lança-lhes questões de acordo com suas regras de<br />

interpretação e ensino. Apocalipse lança mão de uma solene profecia em que a figura do vencedor de<br />

um jogo é o símbolo daqueles que receberão o premio maior que é a Vida Eterna.<br />

102


Quem vencer, herdará todas as coisas; e eu serei seu Deus, e ele será meu filho. Apocalipse<br />

21:7<br />

A Lei é o estabelecimento das regras e a vitória de Cristo contra o pecado é a vitória de um jogador<br />

que disputou contra o império das mortes segundo as regras humanas e o venceu dentro do<br />

domínio do tempo, num lugar determinado, a terra. Ele vence um terrível adversário sem quebrar<br />

as regras que ele mesmo impôs ao universo que em muitos aspectos é lúdico.<br />

Quem vence um jogo, recebe ao final uma recompensa, tal é o estabelecido no nosso ludico<br />

universo:<br />

Quem tem ouvi<strong>dos</strong>, ouça o que o Espírito diz às igrejas: O que vencer não receberá o dano<br />

da segunda morte. Apocalipse 2:11<br />

Quem tem ouvi<strong>dos</strong>, ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao que vencer, dar-lhe-ei a comer<br />

da árvore da vida, que está no meio do paraíso de Deus. Apocalipse 2:7<br />

Ao que vencer lhe concederei que se assente comigo no meu trono; assim como eu venci, e<br />

me assentei com meu Pai no seu trono. Apocalipse 3:21<br />

E ao que vencer, e guardar até ao fim as minhas obras, eu lhe darei poder sobre as nações,<br />

Jó lembra-se <strong>dos</strong> dias de sua felicidade como uma criança brincando diante de Deus e de seus<br />

adversários:<br />

Se eu ria para eles, não o criam, e a luz do meu rosto não faziam abater; Jó 29:24<br />

Jesus em uma de suas parábolas em Lucas dá o exemplo de uma atividade lúdica, uma batalha em<br />

que o vencedor despoja das roupas ao perdedor<br />

Mas, sobrevindo outro mais valente do que ele, e vencendo-o, tira-lhe toda a sua armadura em que<br />

confiava, e reparte os seus despojos. Lucas 11:22<br />

A zombaria <strong>dos</strong> derrota<strong>dos</strong> num jogo, como crianças que riem quando as outras perdem é retratada<br />

em Provérbios:<br />

Também de minha parte eu me rirei na vossa perdição e zombarei, em vindo o vosso<br />

temor. Provérbios 1:26<br />

Apocalipse faz clara referencia ao lúdico da existência, ao ludico da profecia, da profecia como<br />

ensino de caráter ludico quando declara:<br />

Quem tem ouvi<strong>dos</strong>, ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao que vencer darei a comer do maná<br />

escondido, e dar-lhe-ei uma pedra branca, e na pedra um novo nome escrito, o qual ninguém<br />

conhece senão aquele que o recebe. Apocalipse 2:17<br />

103


Quando Ester caminha corajosamente no jardim persa d Xerxes o fará contra todas as regras<br />

vigentes arriscando a sua vida num perigoso jogo, numa cartada triunfal, o prêmio é a salvação de<br />

seu povo e a derrota significaria a perda de sua cabeça. Cerca de três anos separam a ultima vez que<br />

Xerxes a visitara no palácio as mulheres, e ela sem ser convidada entrará num jardim proibido,<br />

exclusivo do rei, desejando obter uma audiência. Sua caminha é o inicio do jogo e existem dois<br />

possíveis resulta<strong>dos</strong>, mas necessitará que o rei interfira nas regras do jardim, com uma peça única,<br />

seu cetro, a única coisa em todo reino da persa que pode interferir no cumprimento de uma lei préestabelecida<br />

pelos persas. Para sorte de Ester, antes que toquem na moça, ele levanta seu cetro real.<br />

Isaías 25 concede uma visão lúdica e assombrosa da grande vitória do Cordeiro sobre a morte no<br />

monte calvário:<br />

Como o calor em lugar seco, assim abaterás o ímpeto <strong>dos</strong> estranhos; como se abranda o calor pela<br />

sombra da espessa nuvem, assim o cântico <strong>dos</strong> tiranos será humilhado.<br />

E o SENHOR <strong>dos</strong> Exércitos dará neste monte a to<strong>dos</strong> os povos uma festa com animais gor<strong>dos</strong>,<br />

uma festa de vinhos velhos, com tutanos gor<strong>dos</strong>, e com vinhos velhos, bem purifica<strong>dos</strong>.<br />

E destruirá neste monte a face da cobertura, com que to<strong>dos</strong> os povos andam cobertos, e o véu<br />

com que todas as nações se cobrem.<br />

Aniquilará a morte para sempre, e assim enxugará o Senhor DEUS as lágrimas de to<strong>dos</strong> os<br />

rostos, e tirará o opróbrio do seu povo de toda a terra; porque o SENHOR o disse.<br />

A ceia de Cristo é uma atividade lúdica, uma representação de um evento profético que simboliza a<br />

vitória de Cristo contra a morte. A páscoa é uma festa, uma grandiosa festa em que cordeiros eram<br />

imola<strong>dos</strong>, numa profunda representação. Antes do calvário o mundo mágico estava a mercê do<br />

cântico <strong>dos</strong> tiranos. Os grandes déspotas recebiam hinos em louvor a sua história e glória, eles se<br />

magnificavam, pois queriam ser lembra<strong>dos</strong> como deuses-na-terra, como potenta<strong>dos</strong>, tendo seus<br />

nome grava<strong>dos</strong> em rochas, suas imagens esculpidas em mármore para perpetuar a memória de seus<br />

grandes feitos. Para a população escravizada os cânticos <strong>dos</strong> tiranos era-lhes dolorosos. O mundo<br />

submisso a poderes malignos viu as civilizações praticarem atos de profunda indignidade. Atos de<br />

tremenda crueldade. Falsas religiões, falsos deuses, a escravidão, as guerras, as maldições rogadas<br />

pelos magos e feiticeiros. Na cruz o inferno é vencido e Deus concede sua Graça e sua<br />

Misericórdia, concedendo dons aos homens, e concede ao ser humano poder contra as hostes,<br />

potestades, poderes e soberanias. Paulo exaltará o momento do monte com um cântico de escárnio,<br />

uma zombaria profética:<br />

“Ó morte, ó morte, onde está teu aguilhão? E ó morte, onde deixastes cair as tuas armas?”<br />

O cântico <strong>dos</strong> tiranos foi substituído pelo cântico da vitória. Que é de caráter lúdico.<br />

Veja que apesar da dor e da vergonha da morte na cruz, ela simboliza um banquete. Jesus se refere<br />

ao banquete que celebra sua morte, a ceia. O Cordeiro era sacrificado no altar pelo sumo-sacerdote<br />

no dia de Yom Kipur às três horas da tarde, uma garrafa de vinho aromático, com especiarias, era<br />

derramado no chão no mesmo instante e logo após ter entrado com o sangue no lugar santíssimo<br />

ele repartiria o cordeiro com os familiares <strong>dos</strong> ofertantes, no caso do cordeiro da páscoa, com os<br />

sacerdotes auxiliares e seus familiares. O vinho derramado no chão após o sacrifício do cordeiro<br />

era um vinho antigo. Vinho guardado nas recamaras do templo por anos.<br />

A morte é ZOMBADA profeticamente. Uma imagem de uma criança rindo após a derrota de um<br />

adversário numa brincadeira. Para que entendamos o caráter lúdico das coisas criadas.<br />

A cena em que Rute é “resgatada” das mãos de um parente de Boaz é uma cena lúdica. A cerimonia<br />

do pé descalço é uma representação da exoneração voluntária do direito de casar com a viúva.<br />

O termo que Paulo usa em Romanos “Jactancia” é a parola <strong>dos</strong> competidores que exaltam sua<br />

próprias qualidades físicas e atléticas em detrimento <strong>dos</strong> adversários, numa competição esportiva.<br />

A poesia é filha da profecia, é baseada em jogos de palavras e nas Escrituras se reveste de<br />

solenidade, resolução de enigmas, formas e paralelismos especiais. A poesia das Escrituras é<br />

104


“formosa” ela possui dimensões estéticas profundas que vão desde a sonoridade das palavras, a<br />

construção das estrofes. Toda palavra <strong>dos</strong> profetas é em forma de poesia, incluindo as palavras de<br />

Jesus. Tudo que é Jesus fala ENSINANDO é inabalavelmente conectado com a poesia oriental e<br />

suas formas. È comum o uso do paralelismo hebraico, <strong>dos</strong> quiasmas, de provérbios numéricos, das<br />

perguntas enigmáticas, das pequenas histórias, o uso de parábolas. A ligação entre Jesus e a poesia,<br />

entre Cristo e o dom Palavra de Conhecimento, manifesto nas suas parábolas, que na verdade<br />

representavam ENIGMAS a serem interpreta<strong>dos</strong> para serem entendidas que uma profecia do<br />

Antigo Testamento define o modo com que Cristo proporá o seu ensino e doutrina:<br />

Abrirei a minha boca numa parábola; falarei enigmas da antiguidade. Salmos 78:2<br />

A linguagem profética é cheia de símiles e parábolas, essa lei é espiritual faz parte do mistério<br />

profético, do mistério da poesia e do mistério do ludico:<br />

Falei aos profetas, e multipliquei a visão; e pelo ministério <strong>dos</strong> profetas propus símiles. Oséias 12:10<br />

E aconteceu que Jesus, concluindo estas parábolas, se retirou dali. Mateus 13:53<br />

Então Jesus, tomando a palavra, tornou a falar-lhes em parábolas, dizendo: Mateus 22:1<br />

E ensinava-lhes muitas coisas por parábolas, e lhes dizia na sua doutrina: Marcos 4:2<br />

Tudo isto disse Jesus, por parábolas à multidão, e nada lhes falava sem parábolas; Mateus 13:34<br />

O LUDICO EM CANTARES<br />

105


A beleza divina evoca o lúdico. Toda a Escritura é permeada pelo lúdico, pela poesia, pelo ritmo,<br />

pela musica, pela harmonia, pelo mistério, utilizando do conceito do jogo, com to<strong>dos</strong> seus<br />

elementos, incluindo o mistério, o espaço delimitado, as regras, a representação, a tensão, a<br />

recompensa, a nobreza, o esforço, as dificuldades, a realização, a alegria, o limite de tempo, a<br />

vitória, a derrota, os adversários.<br />

Vemos isso nas danças de Miriã, na ritmada e longa conversa das moças na entrada de Siló, que<br />

propositadamente alogam a conversa para reter um pouco mais o belo jovem Saul, vemos isso nas<br />

tentativas de “burlar” os desígnios divinos pagando uma recompensa ao mago Balaão e na lúdica<br />

cena da repreensão de sua mula. Há em Cantares um jogo com o som das palavras, em que o<br />

poema é construído a partir da palavra Sunamita, que em hebraico é o feminino de Salomão.<br />

Shelomite, Shelomom. Em Isaias há uma profecia que imita uma cartilha de alfabetização,<br />

simulando os sons do aprendizado da língua aramaica. Há o lúdico da cena em que Ezequiel fica<br />

estático da manhã até o entardecer, paralisado como uma estátua viva, parando a emissão de uma<br />

profecia que inicia pela manhã e que só dará continuidade ao entardecer, recomeçando do exato<br />

ponto onde parou, como se o tempo não tivesse acontecido para ele.<br />

Cantares é em absoluto, lúdico. O romance é um jogo em que a alma usa to<strong>dos</strong> os recursos para<br />

conquistar a pessoa amada, disputando o coração desta segundo as regras do amor, que não são<br />

conhecidas por ninguém. O romance traduz um mistério, uma aceitação que depende de leis<br />

invisíveis, regras não escritas e sentimentos indetermina<strong>dos</strong>. Ele é frágil, possui um tempo<br />

determinado no qual acontece, que não é definido, casais se apaixonam em segun<strong>dos</strong>, minutos,<br />

horas, dias semanas! O livro é uma canção, nele ocorrerão danças e cantigas, está acontecendo uma<br />

semana de festas, o rei se disfarçará uma brincadeira, a moça correrá atrás de raposas, os irmãos<br />

correrão atrás da irmã fujona, Salomão fugirá <strong>dos</strong> afazeres, as raposas fugirão de Sunamita, Salomão<br />

fugirá de Sunamita que fugindo <strong>dos</strong> irmãos, correrá em direção do amado. A festa das vinhas que é<br />

o palco da maior de todas as Canções é banhada em vinho, cercada de banquetes, coroada de<br />

milhares de visitantes e cercada de intensa e frenética atividade na natureza, pastoris, na cidade, no<br />

palácio. O rei a conhecerá, BRINCANDO nas vinhas e ele correrá atrás dela BRINCANDO<br />

também. O jogo de palavras amorosas de cantares é uma paquera sem fim. A primeira frase que ela<br />

dirige a Salomão é uma paquera desavergonhada. “Porque seria eu como a que ERRA aos pés do<br />

rebanho de teus companheiros?”. Quando ela “conjura” as filhas de Jerusalém, é como uma cantiga<br />

de roda, em que o refrão é repetido para evitar que alguém seja tirado da brincadeira. O livro é um<br />

drama, se desenvolve como uma comédia, apresenta-se como uma canção, era recitado em<br />

casamentos e festas de Israel, era acompanhado de instrumentos e possuía uma melodia que hoje é<br />

por nós desconhecida.<br />

106


Cantares apresenta-nos através do lúdico uma realidade misteriosa e transcendente, de Deus<br />

amando sua Igreja brincando com ela. Dançando com ela. Festejando sua alegria, comunhão e<br />

amor.<br />

Nota:<br />

Reelendo o Evangelho a luz do lúdico na cultura mundial há muitas associações e representações<br />

que nos ajudam a compreender muitas realidades celestiais.<br />

A Cruz do calvário é mujakhara provém de uma raiz que significa "vangloriar-se", e o<br />

resultado de sua obra munafara, que significa “por em Fuga”. A Cruz é uma declaração<br />

insultuosa às hostes e potestades de Satanás, ela declara e expõe o inferno ao vitupério, ou<br />

a vergonha, ela é o sinal da derrota vergonhosa, eterna, de todo o exército adversário.<br />

Bilhões de demônios lutaram em vão. Foram to<strong>dos</strong> derrota<strong>dos</strong> por um só. A Profecia age<br />

como os argumentos num duelo de insultos, denegrindo as obras de Satanás e as<br />

destinando à destruição. Porque a história do ceticismo e das religiões é um insulto<br />

declarado, proposital as coisas de Deus. Quando em Romanos 1 lemos:<br />

107


23 E mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, e<br />

de aves, e de quadrúpedes, e de répteis.<br />

Tudo isso é uma zombaria. Um escárnio. Por detrás dessa caracterização inspirada pelos demônios<br />

há o eco da zombaria, do desprezo, do insulto, do ódio do inimigo que rejeita e minimiza a glória<br />

de Deus. Ele reduziu a nada, a coisas criadas, a animais, Àquele que é tudo, que é maior que tudo,<br />

que está acima de to<strong>dos</strong> e que não possui no universo algo que a ele se assemelhe, para que possa<br />

ser feita alguma comparação justa. Tudo que Satanás inspira tem o escárnio como uma de suas<br />

bases. Logo após, ainda em Romanos Paulo continua:<br />

26 Por isso Deus os abandonou às paixões infames. Porque até as suas mulheres mudaram o uso<br />

natural, no contrário à natureza.<br />

27 E, semelhantemente, também os homens, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em<br />

sua sensualidade uns para com os outros, homens com homens, cometendo torpeza e recebendo<br />

em si mesmos a recompensa que convinha ao seu erro.<br />

É uma outra zombaria. É engraçado para o inferno “mudar” o que por Deus foi estabelecido,<br />

contradizer a natureza, mudar o comportamento natural humano, alterar psicologicamente suas<br />

identidades de homem e mulher.<br />

108


Apresenta o romance de Salomão e a Sulamita. O rei Salomão, ao visitar a sua vinha do<br />

monte Líbano, na época das colheitas, da migração de pombas e de várias festas pastoris<br />

com milhares de moças dançando as antigas tradições das festas de Benjamim. Encontra-se<br />

por acaso com a formosa donzela Sulamita, que foi dançar contra a vontade <strong>dos</strong> irmãos.<br />

Deixará suas obrigações para dançar nas festas da primavera, nas festas de Benjamim. Ela<br />

procura sua liberdade nos braços de um esposo! Ela anseia agarrar algum jovem e com ele<br />

formar uma família e fugir daquela condição de servidão. E para tal irá beber muito vinho<br />

para ter a coragem de realizar a aventura do livro. É um romance regado a vinho. Em<br />

to<strong>dos</strong> os instantes o vinho jorra abundante, nas palavras, nas atitudes, no palácio. Os<br />

guardas que a espancam estão bêba<strong>dos</strong>. Só isso explicaria sua leviandade. Só que por ir à<br />

festa, desguarnecendo as vides permite que as raposinhas façam o maior estrago nas vinhas.<br />

Sunamita o observa atentamente a uma certa distancia. Em algum instante seus olhares de<br />

cruzam e mesmo diante de tamanha pompa ela foge dele. Foge também porque também vê<br />

nele um culpado por sua situação, porque ela trabalha como ESCRAVA numa das vinhas<br />

que pertence a ele.<br />

Ela é tratada como uma escrava por seus irmãos que a forçaram a trabalhar nas vinhas sem<br />

nenhum tipo de pagamento. O trabalho duro debaixo do sol fez com que ficasse diferente<br />

das suas irmãs e das antigas amigas da cidade que habitavam, Jerusalém. Uma de suas<br />

funções era armar armadilhas para capturar as raposinhas. Suas fugas e escapadelas durarão<br />

dias, a maior parte nas noites, e nesse tempo as raposinhas irão dar seu jeito de quebrar as<br />

grades ou roer as cordas. Salomão ao ver tamanha beleza se apaixona perdidamente.<br />

Poderia se dizer que ao vê-la perdeu em seu olhar ao próprio coração. Informando-se da<br />

situação o rapaz colocará a sua imensa sabedoria para trabalhar em proveito próprio. Ele a<br />

visita disfarçado de pastor e conquistará o seu amor. Do mesmo modo a moça se<br />

disfarçará de pastora para procura-lo. Passam uma noite de liberdade e de promessas,<br />

depois marcam um encontro frustrado. Abandonada, encrencada pela destruição causada<br />

na vinha pelas raposas, que fizeram lá um escarcel, seguirá à sua procura sem saber quem<br />

ele é.<br />

Ela vivia submetida ao poder <strong>dos</strong> guardas, tanto nos campos quanto na cidade de<br />

Jerusalém (cf. 5,7). O drama acontece com sua separação do amado. Preparou uma noite<br />

romântica no intuito de fisga-lo. Usará das artimanhas femininas que aprendeu, só que dá<br />

tudo errado. Ele não tinha tempo para aproximar-se sem ser reconhecido, e tem que se<br />

esconder porque o que Salomão fazia, o fazia na calada da noite. Sem despertar suspeitas o<br />

jovem rei fugira do palácio e agora necessitava correr de volta. Desesperada ela vai atrás<br />

dele, crendo que o encontrará na cidade, mas, ali é violentamente espancada.<br />

O tempo está terminando, Salomão em breve estará deixando o Líbano para voltar para as<br />

suas atividades, porque a primavera está terminando. Em algum momento a Sunamita<br />

descobre sua identidade após muito questionar. Após descobrir quem ele é o drama se<br />

intensifica. Ela descobriu quem era o amado, o homem mais importante de Israel e que ele<br />

está indo embora! Após muito buscá-lo ela o encontrará, através de um artificio. Entrará no<br />

palácio e dançará diante do rei e seus convida<strong>dos</strong>. Num plano ousado ela entrará<br />

corajosamente no palácio e se revelará a ele dançando diante <strong>dos</strong> convivas, na sala do<br />

vinho. (daí o paralelo com Ester). Ela descobriu quase no mesmo instante em que é<br />

desposada que seu amado é na verdade o rei de toda terra. Após reconhecer seu amor<br />

diante de to<strong>dos</strong>, Salomão casa-se com ela e no ultimo instante de Cantares veremos uma<br />

menina pequena, fruto dessa união.<br />

109


O rei Salomão possuía uma vinha, na região montanhosa de Efraim, a cerca de 50 km ao<br />

norte de Jerusalém, próximo a jezreel e do Libano, próximo as colinas de Golan. Song<br />

08:11.<br />

Ele arrendou-a a administradores, Canção 08:11, constituídas por uma mãe, dois filhos,<br />

Song 1:6, e uma filha a Sulamita, Song 6:13, e o que aparentava ser uma irmã mais nova, e<br />

é chamada de irmã é a grande surpresa final do livro.<br />

Ela é filha de Suunamita. Song 08:08.<br />

A Sulamita era "a Cinderela" da família, Song 1:5, naturalmente bela, mas despercebida.<br />

Seus irmãos eram prováveis meio-irmãos, Song 01:06. Eles lhe outorgaram um trabalho<br />

difícilimo cuidar das vinhas, de modo que ela teve pouca oportunidade de cuidar de sua<br />

aparência pessoal, Song 01:06.<br />

Ela podadas as vinhas e armadilhas para as raposinhas, Canção 2:15. Ela também manteve<br />

os rebanhos, Song 01:08. Sendo a céu aberto tanto, ela tornou-se queimado, Song 01:05.<br />

Um dia, um estranho bonito veio para a vinha. Foi Salomão disfarçado. Ele mostrou um<br />

interesse nela, e ela tornou-se constrangido a respeito de sua aparência pessoal, Song 01:06.<br />

Ela o levou para um pastor e perguntou sobre seus rebanhos, Canção 01:07. Ele respondeu<br />

evasivamente, Song 1:8, mas também falou palavras de amor a ela, 1:8-10, e prometeu ricos<br />

presentes para o futuro, Song 01:11. Ele ganhou seu coração e saiu com a promessa de que<br />

um dia ele voltaria. Ela sonhou com ele à noite e às vezes pensava que ele estava perto,<br />

Song 03:01. Por fim, ele voltou em todo seu esplendor real para fazê-la sua noiva, Song 3:6-<br />

7.3 (HA Ironside, endereços sobre o Cântico <strong>dos</strong> Cânticos, pp 17-21, resumido por Merrill<br />

Unger, Manual Bíblico de Unger, pp 299 -300)<br />

A ORDEM DE CANTARES<br />

O livro não conta uma história de modo linear. Por isso é tão complicado encontrar a<br />

diretriz da trama, entender o enredo de sua história.<br />

Ele é contado em forma de “Flashback” ele é contado a partir de lembranças, ele vai<br />

narrando uma história onde você vê coisas que acontecerão num tempo futuro, antes que<br />

aconteçam. E depois será contado um pedaço do passado para você se situar na história. O<br />

tempo não flui de modo LINEAR em Cantares.<br />

Para realizar esse trabalho de “linearização” da história o autor bebeu da fonte mais<br />

próxima na dramaturgia de nossos dias a esfera do livro de cantares:<br />

Os filmes românticos indianos.<br />

Segue uma lista de filmes imprescindíveis, na minha opinião, para ampliar ao leitor uma<br />

visão da narrativa, da poesia e do sentimento do livro de cantares, na dimensão humana:<br />

Rab ne Bana Jodi<br />

Veer Zaara<br />

Jab We Meet<br />

110


Acalme-se rabino! Aquieta-te teólogo! Arreda de mim profeta ignorante! Não te desesperes<br />

mestre! Não sou escravo da teologia sistemática. E nem da espiritualização errante. Esse<br />

capitulo não significa que vou reler Cantares com base de alguma doutrina mística, algum<br />

manual de praticas magicas ou percorrer o Caminho de Santiago do conhecimento bíblico,<br />

abraçar ternamente a maçonaria e numa bela visão ecumênica propor uma conciliação entre<br />

a Cabala e o Caminho. Acalme-se, respire fundo e acompanhe-me. Afinal, porque seria eu<br />

como a que caminha errante junto ao rebanho de teus companheiros... Jesus é Senhor, Salvador,<br />

ressurreto ao terceiro dia, manifestado na carne, justificado em espírito, nenhum outro<br />

nome há dado entre os homens pelo qual possamos ser salvos, todo joelho se dobrará e<br />

toda língua confessará que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai. Jesus que<br />

subindo, concedeu dons aos homens, no qual também temos a remissão <strong>dos</strong> peca<strong>dos</strong>.<br />

Pronto. Pode colocar o lenço de volta ao bolso. Toma um analgésico e sigamos.<br />

As Escrituras brotam, qual ramos de uma videira, num mundo absurdamente mágico. O<br />

homem busca dominar as forças naturais desde o início das civilizações. Ele não somente<br />

se curvava em adoração ás divindades da antiguidade, antes desejava em muitos casos<br />

receber dela poderes, virtudes, forças para destruição de seus inimigos. Lemos a batalha de<br />

Moisés contra os magos do Egito instruí<strong>dos</strong> em artes mágicas, em manuais desconheci<strong>dos</strong><br />

por nós no qual invocaram os poderes com os quais realizavam seus atos de magia. Lemos<br />

sobre o encontro com Balaão e sua invocação em meio a rituais desconheci<strong>dos</strong> de espíritos<br />

para lhe concederem o poder de amaldiçoar. Balaão utilizava-se de uma antiga crença em<br />

que cada nação possuía seus espíritos protetores, e que para que uma nação sobrepujasse a<br />

outra na guerra deveria ter deuses mais poderosos, ou negociar através de TRAPAÇA,<br />

COMPRAR a tal divindade da outra nação mediante sacrifícios (irresistíveis) para que a<br />

mesma deixasse de proteger sua nação. Não havia entre os povos na maioria <strong>dos</strong><br />

sacerdócios e crenças vigentes a figura de um Deus supremo, antes de um panteão de<br />

divindades que se equivaliam em força e poder. Mesmo as deidades ou divindades<br />

consideradas as chefes, maiores, as que reinavam sobre as outras de uma determinada<br />

mitologia, egípcia, suméria, acádica, babilônica, persa, grego-romana, semita, védica,<br />

nórdica, não eram soberanas no sentido em que consideramos Deus. O nível de poder<br />

entre elas era muito próximo, dando origem a toda sorte de semi-deuses, deuses<br />

intermediários e poderes que poderiam até impedir a atuação de determinadas divindades.<br />

Grande parte das oblações, ofertas, sacrifícios da antiguidade tinham um caráter de<br />

SEDUÇÃO. Os magos, os pajés, os sacerdotes de toda espécie usavam de artifícios para<br />

“seduzir” os deuses, inebriar seus senti<strong>dos</strong>, mudar suas sentenças, perverter suas ameaças,<br />

distraindo-as, comprando-as, e em ultimo caso, controlando-as. A base da magia antiga e<br />

mesmo moderna é uma tentativa humana de “controlar” os poderes espirituais. Através de<br />

palavras, atos, gestos, rituais. Os egípcios criam, assim como muitas civilizações no “poder<br />

oculto” das palavras. Evitavam citar os seus nomes pessoais na presença de estranhos<br />

porque o nome das pessoas estava conectada a sua essência e se a outra soubesse seu nome<br />

e fosse inimiga poderia usar o “nome” para invocar uma praga ou maldição sobre a pessoa.<br />

Palavras especiais deveriam ser escritas nas paredes <strong>dos</strong> túmulos para proporcionar ao<br />

morto poderes para ultrapassar os perigos do mundo <strong>dos</strong> mortos. Eram essas palavras<br />

mágicas escritas que seriam mais fortes que os delitos cometi<strong>dos</strong>, fazendo com que a<br />

balança da justiça divina pendesse ao seu favor. Veremos a Saul consultando uma pitonisa,<br />

111


uma necromante, uma moça espírita que consultava entidades que julgava falecidas, num<br />

macabro ritual. Leremos um estranho ritual praticado por “bruxas israelitas” ou “falsas<br />

profetizas” no livro de Ezequiel que faziam trabalhos de crochê e as amarravam às suas<br />

mãos e invocavam forças para “prender” ou “amarrar” almas às suas mãos (!), significava<br />

que elas realizavam atos mágicos para mudar o comportamento <strong>dos</strong> que as consultavam de<br />

maneira que elas fizessem aquilo que a “falsa profeta” as induzia, escravizando-as<br />

espiritualmente às suas vontades. Bruxas. Leremos sobre Jezabel, considerada pelas<br />

Escrituras como um padrão de feitiçaria, talvez a mulher mais opressa (inspirada,<br />

dominada, repleta de poderes das trevas) que já tenha pisado a terra, tão cheia de feitiçaria<br />

que é relembrada profeticamente em Apocalipse.<br />

Leremos sobre as atitudes mágicas, divinatórias, práticas de adivinhação do malfadado<br />

Hamã no livro de Ester que usando ritos de magia atirava runas, ossos, pedras místicas ou<br />

qualquer coisa similar para “sortear” o dia em que ele instituiria o decreto, que se<br />

cumprido, equivaleria ao holocausto nazista. Leremos sobre o patriarca Jacó, realizando um<br />

ato mágico! Na cena em que faz “riscas” em galhos de árvores consideradas sagradas pelos<br />

povos da região onde morava, fazendo com que as ovelhas se unissem diante delas para<br />

gerar crias fortes. Leremos sobre Léia correndo com um ramalhete de mandrágoras em<br />

suas mãos, planta desde a antiguidade considerada com poderes mágicos para conceder a<br />

fertilidade feminina. O tabernáculo para os povos da antiguidade era um lugar de magos.<br />

Moisés ao levantar as mãos sobre o mar Vermelho, e fazer com este abrisse diante <strong>dos</strong><br />

olhos trêmulos <strong>dos</strong> generais de Faraó, o faz como se fosse um poderoso mago. As pragas<br />

são “conjurações”, agem como se fossem e as palavras que Moisés falam possuem<br />

VERDADEIRAMENTE poder nelas contidas. Porque por detrás dela está a verdadeira<br />

magia, o PODER DIVINO.<br />

Toda magia da antiguidade e até a <strong>dos</strong> dias presentes é baseada na transmissão de um poder<br />

espiritual a partir de um espirito. Toda atividade mediúnica, toda manifestação de forças<br />

sobrenaturais tem como base a comunicação de forças de um ou de milhares de espíritos.<br />

Na Índia ainda existem escolas de magia, crianças são separadas em determinadas tribos e<br />

convocadas a serem treinadas na invocação e manifestação de poderes espirituais.<br />

Aprendem a praguejar, a amaldiçoar, a matar inimigos. Aprendem a contatar entidades. O<br />

misticismo árabe, judaico, africano, jamaicano, buscam poderes, normalmente invocando<br />

forças para roubar, matar ou destruir. Há neles uma herança maldita. E um destino pior<br />

que as maldições que invoca, para aqueles que tais artes praticam. Porém é assim que o<br />

ministério profético se apresenta, aparenta, aos olhos de uma mago. As manifestações do<br />

Espírito de Deus no Velho Testamento são extremamente mágicas, elas refletem a busca<br />

humana do “controle” de todas as coisas, e ao lermos sobre Samuel invocando a Deus e<br />

fazendo relampejar sobre toda a região, ao lermos sobre o poderoso raio (fogo que cai do<br />

céu) e consome o holocausto de Elias, ou lemos sobre o velo de lã que fica seco ao ser<br />

deixado ao sabor do orvalho, como prova solicitada por Gideão, são atos mágicos que<br />

estamos observando. Os mais mágicos atos que alguém poderia presenciar. A ressurreição<br />

de mortos no Velho Testamento foi buscada por todas as civilizações! Uma das coisas mais<br />

extraordinárias, mais cheias de magia divina verdadeira que ocorreu na terra <strong>dos</strong> viventes<br />

foiu a ressurreição do filho mulher de Sunem. Quando Elseu sabe de sua morte envia a<br />

Geazi, seu aprendiz, discípulo, servo e companheiro até a criança morta, carregando nas<br />

suas mãos seu bordão.<br />

Eliseu disse a Giezi: Põe o teu cinto, toma na mão o meu bastão e parte. Se encontrares<br />

alguém, não o saúdes; e se alguém te saudar, não lhe respondas. Porás o meu bastão no<br />

rosto do menino.<br />

112


E as ordens são para que ele carregue um bastão, um cajado, não permitindo tocar ou<br />

abraçar a ninguém e que somente parasse ao encostar na face da criança morta o seu<br />

cajado.<br />

Os atos proféticos do Velho Testamento são extremamente mágicos. Eles são revesti<strong>dos</strong><br />

de uma profunda semelhança com atos de magia.<br />

Propositalmente.<br />

A magia é a tentativa humana de realizar aquilo que o Espírito de Deus realiza<br />

naturalmente.<br />

Ela é o anseio humano do PODER que pertence a DEUS e que ele concede<br />

GRATUITAMENTE a quem ele assim desejar.<br />

O mago anseia aquilo que a psique, a alma humana, o espírito humano, não é capaz de<br />

realizar nem com apoio de milhões de almas. Que não se obtém por invocação de palavras<br />

mágicas.<br />

Uma cena que ilustra isso é do mágico que ao ver os MILAGRES que Pedro realiza, tenta<br />

COMPRAR o dom que o apóstolo possui!<br />

O PODER das trevas é negociável. Mas o poder do Espírito é uma dádiva.<br />

Deus é um operador de milagres sui generis. Nele reside o PODER, nele reside a<br />

Autoridade, a Força. Pela palavra de DEUS o universo inteiro veio a existir. Pelo Nome de<br />

Jesus os espíritos malignos são submissos. Pela intercessão da Igreja, mudamos o coração<br />

de pessoas! Não para nossos propósitos, mas para que elas sejam LIVRES! O Poder do<br />

Espírito opera a magia <strong>dos</strong> MILAGRES. Opera a magia das Curas. Opera a magia da<br />

PROFECIA.<br />

A magia então, neste contexto, age como REPRESENTAÇÃO, um PERFEITO símbolo<br />

da operação divina. Poucas coisas poderiam representar poeticamente de modo tão<br />

deslumbrante ao PODER de Deus do que um ato mágico.<br />

Nós vivemos numa realidade transcendente, envoltos num universo divino onde anjos são<br />

reais, onde a profecia é manifesta, onde milagres operam o impossível. Nas igrejas vemos o<br />

poder da oração destruindo o câncer, restaurando a visão aos cegos, e operando<br />

livramentos fantásticos.<br />

Nós vivemos do mesmo modo cerca<strong>dos</strong> da mesmissima magia maligna vista no Velho<br />

testamento. Milhares de pessoas invocam hoje a entidades e a poderes. Em cada esquina de<br />

nossas cidades lê-se em alguma parede: “Trago seu amado em três dias”. “Joga-se búzios”.<br />

Alguns <strong>dos</strong> jornais descaradamente enaunciam bruxos que invocam “magia negra”. Nos<br />

carros das cidades brasileiras aumentam os decalques com as figuras de “São Jorge” ou<br />

uma figura que representa espíritos invoca<strong>dos</strong> em rituais. Vivemos num mundo que invoca<br />

as trevas. Que caminha orientado pelas vozes de seres cuja missão não é auxiliar ao ser<br />

humano. O livro de Apocalipse mostra o triste momento em que três indivíduos que<br />

dominarão os sistemas ecomomicos, religiosos e políticos em algum momento da história<br />

futura, vomitam aquilo que os CONTROLA.<br />

Em Cantares creio que o Espírito de Deus, parafraseando a linguagem mágica,<br />

INVOCARÁ uma imagem. CONJURARÁ uma visão de sua GLÓRIA. Evocará essa<br />

realidade do seu Poder, da AUTORIDADE que ele concedeu a Igreja.<br />

Numa espetacular Cena no Livro de Cantares.<br />

Antecedendo a cena sete vezes as filhas de Jerusalém aparecem no poema, e por quatro<br />

vezes serão “conjuradas”. Uma vez elas perguntarão, porque você nos “conjura” tanto!<br />

113


Conjura das filhas de Jerusalém, em Ct 2,7; 3,5; 5,8 e 8,4<br />

Conjuro-vos, filhas de Jerusalém,<br />

pelas gazelas ou pelas corças do campo,<br />

não agiteis e não inquieteis<br />

o amor até que deseje.<br />

Conjuro-vos, filhas de Jerusalém,<br />

pelas gazelas ou pelas corças do campo,<br />

não agiteis e não inquieteis,<br />

o amor até que deseje.<br />

Conjuro-vos, filhas de Jerusalém,<br />

se encontrardes o meu amado,<br />

que direis para ele?<br />

Que estou eu adoentada de amor.<br />

Conjuro-vos,<br />

filhas de Jerusalém,<br />

por que agitarias e por que inquietarias<br />

o amor antes que deseje?<br />

O que é teu amado mais do que um amado,<br />

ó bela entre as mulheres?<br />

O que é teu amado mais do que um amado,<br />

que assim nos conjuras?<br />

Em dado momento, escrevendo algo que JAMAIS seria escrito por um escritor<br />

“evangélico” nas Escrituras Salomão exclama:<br />

4.9 Enfeitiçaste-me o coração, minha irmã noiva.<br />

Enfeitiçaste-me o coração, com um olhar,<br />

com um adorno no teu colar.<br />

E finalmente a cena:<br />

Ventos no jardim<br />

4.16 Move-te Safon (vento norte) e vem Temã (vento sul),<br />

sopra no meu jardim para que fluam seus bálsamos.<br />

114


Que venha meu amado para seu jardim<br />

e que coma os seus deliciosos frutos<br />

As filhas de Jerusalém são amigas da cidade. Possivelmente filhas de nobres, mercadores,<br />

filhas de sacerdotes. Elas habitam a cidade com maior fama em Israel, vivem numa das<br />

maiores metrópoles da antiguidade. O livro de lamentações de Jeremias traça o perfil das<br />

jovens da cidade, de como, até para caminhar sobre o chão, realizavam toda ginástica para<br />

não sujarem muito os pés. Elas eram enfeitadas, de uma pele muito branca, e mimadas.<br />

Jamais foram submetidas a trabalhos força<strong>dos</strong> e aparentemente se vestiam muitisso bem.<br />

E prendadas na arte do amor. O texto nos conduz a mulheres que parecem ter o poder de<br />

“despertar o amor”, antes mesmo que o sujeito se apixone naturalmente. Evoca “sedução”.<br />

Elas usam seus atributos e dotes físicos para despertar paixões. Mas o desejo carnal, sexual<br />

não significa necessariamente a paixão, o amor, o despertar de um grande amor. Significa<br />

“forçar a barra”, substituir por estímulos químicos algo que necessita muitas vezes de<br />

tempo para acontecer. E como é algo “forçado” nos leva diretamente a outra situação.<br />

Desveladamente mágica. A das antigas poções do amor. O termo que a Sunamita utiliza-se<br />

é bem forte e carregado de significa<strong>dos</strong>. Saul fará um voto e usará uma “conjuração” de<br />

amaldiçoamento, e um <strong>dos</strong> homens de Isarel vira-se para Jonas e o comunica nestes<br />

termos:<br />

Então disse um do povo: Teu pai solenemente conjurou o povo, dizendo: Maldito o<br />

homem que comer pão hoje. E o povo ainda desfalecia.<br />

A conjuração de Saul consistia numa MALDIÇÃO. Uma única vez o termo é usado no<br />

Novo Testamento por Paulo. Significava uma ORDEM.<br />

7 Pelo Senhor vos conjuro que esta epístola seja lida a to<strong>dos</strong> os irmãos.<br />

A palavra conjuração também se aplicava a ENCANTADORES. Os que lançavam<br />

encantamentos ou maldições eram denomina<strong>dos</strong>, de CONJURADORES.<br />

עַ‏ בָׁש A palavra hebraica usada no texto é<br />

Shaba. Que é traduzida por jurar, juramento, conjurar, amaldiçoar.<br />

Conjurar vem do Latim, “jurar juntamente com”, é a cena final de muitos cursos de<br />

formação:<br />

115


É o instante em que a menina levanta o dedo mindinho e exige uma promessa.<br />

Evocando que a quebra de uma promessa geralmente causa a quebra da amizade, a quebra<br />

da confiança depositada, ou dá origem a uma divida ou maldição.<br />

A Sunamita está dizendo: - Jurem-me juntas que não vão tentar seduzir meu amor! A<br />

resposta depois do quarto refrão é divertidíssima:<br />

O que é teu amado mais do que um amado,<br />

que assim nos conjuras?<br />

- Quem é que disse que a gente está interessada nele? Quem é esse sujeito “maravilhoso”<br />

de quem você tanto fala?<br />

116


Elas DESDENHAM o amado de Sunamita porque jamais desconfiariam que tratava-se de<br />

Salomão.<br />

Mas deixando a dimensão humana do texto que é a rixa entre as meninas, entraremos na<br />

questão mágica, poeticamente falando, do texto.<br />

A Sunamita não CONJURA elas com base em algum texto das Escrituras. Não invoca o<br />

nome de Deus, ou qualquer coisa que sequer se pareça com o sacerdócio para legitimar sua<br />

“conjuração”. Ela diz, “pelas gazelas do campo”. Ela invoca a natureza. Ela pede que não<br />

façam aquilo, por amor aos animais da floresta. Parece uma fada <strong>dos</strong> filmes da Disney.<br />

Parece uma musa desses tempos de clamor ecológico no qual vivemos. Uma personagem<br />

de conto de fadas. Ela não usa termos sacerdotais, embora Cantares seja repleto de imagens<br />

que nos remete ao templo. Como se fosse uma velha que mora na floresta e faz magia<br />

campestre, como a figura de Baba Yaga, a bruxa <strong>dos</strong> contos russos. Ela não é uma feiticeira,<br />

mas ameaça como se fosse. Está enciumada. E se há algo que nos relembre uma bruxa, é uma<br />

avó com raiva. Em Cantares o nome de Deus só aparecerá de maneira sutil. Ele é uma<br />

canção amorosa e seu propósito principal não é a adoração. A canção não é sacerdotal. O<br />

objetivo da canção é ela. Sua musa. Sunamita é a inspiração. Salomão usa to<strong>dos</strong> seus<br />

recursos literários para ela. Do mesmo modo, essa canção não é da IGREJA para DEUS.<br />

É dele para a igreja. A maravilha de Cantares é que representa o Espírito de Deus cantando<br />

sua paixão pela sua Amada. E sua amada responde a luz do seu mundo, do seu universo,<br />

da esfera das coisas de sua vida. E o que vemos neste texto é uma bruxa dizendo para sua<br />

amiguinhas feiticeiras:<br />

- Se vocês se aproximarem...eu amaldiço-o vocês. Se usarem de magia pra tentar fisgar o<br />

coração de meu amado, suas bruxas, eu amaldiçoo vocês!<br />

Num sentido figurado.<br />

A moça pobre ameaça as moças ricas com um poder que não possui, já que não<br />

tem a MINIMA IDÉIA de como INVOCAR uma maldição.<br />

É só ler os textos das maldições sobre o monte Ebal concedidas por Moisés, as maldições<br />

da Lei, que você ficará “encantado” com a “suavidade” da maldição da Sunamita.<br />

Ela é uma “bruxinha boa”.<br />

Nem amaldiçoar ela sabe.<br />

117


O texto é muito divertido.<br />

Entendendo isso fica mais claro a expressão do noivo:<br />

4.9 Enfeitiçaste-me o coração, minha irmã noiva.<br />

Enfeitiçaste-me o coração, com um olhar,<br />

com um adorno no teu colar.<br />

O “feitiço” do qual Salomão fala é a paixão. Ele apaixonou-se perdidamente pela moça.<br />

Mas os termos que usa evocam a imagem da magia e da mágica. Como se fosse arrebatado<br />

por um “poder invisível” que ele não consegue explicar. O que também é muito<br />

engraçado. Porque ele é simplesmente o homem mais sábio que já existiu. E ainda assim<br />

não conseguia compreender ao amor. Nem depois. Já maduro ao escrever Provérbios<br />

tomará para si as palavras de um <strong>dos</strong> maiores sábios do oriente, Agur, que ele conheceu em<br />

vida, reunindo sua visão à sua coleção de provérbios,<br />

Estas três coisas me maravilham; e quatro há que não conheço: - O caminho da águia no<br />

ar; o caminho da cobra na penha; o caminho do navio no meio do mar; e o caminho do<br />

homem com uma virgem.<br />

Ele se diz “enfeitiçado” e “acusa” uma peça do colar do pescoço da amada. Ele brinca com<br />

ela dizendo que ela colocou uma “peça” enfeitiçada, um “talismã” em seu colar e que é por<br />

isso que ele ficou desse jeito.<br />

Mais uma vez a imagem de uma maga. De uma feiticeira. Ele não usa a palavra “feiticeira”<br />

de um modo pejorativo. Seria para nós como o uso de “fada” <strong>dos</strong> contos europeus.<br />

Porque ela para ele é uma fada. A fada pela qual se apaixonou. Eu particularmente prefiro<br />

maga. Desde pequeno lia as aventuras da “maga patológica” em busca da moedinha<br />

118


numero “um” do tio Patinhas, gosto do termo, que também é usado de modo neutro nas<br />

Escrituras pelo menos duas vezes: Na corte do rei Nabucodonozor, Daniel foi consagrado<br />

“mago” e quando Jesus é visitado pelos “magos” do Oriente. Os “magos” nada mais eram<br />

que conselheiros, com vasto conhecimento astronômico, linguístico, matemático, jurídico,<br />

administrativo, cultural, poético, poltico, social, somado a leitura de ciências divinatórias e<br />

religiosas.<br />

TUDO ISSO para chegarmos a este momento. Ao jardim. Agora podemos compreender a<br />

beleza da imagem:<br />

Ventos no jardim<br />

4.16 Move-te Safon! (vento norte)<br />

e vem Temã! (vento sul),<br />

119


sopra no meu jardim!<br />

Para que fluam seus bálsamos!<br />

120


Que venha meu amado para seu jardim<br />

e que coma os seus deliciosos frutos<br />

Agora sim. Essa é a cena que se desenvolve diante de nossos atônitos olhos. Para o mal<br />

essa moça não tem vocação, mas para o bem... Como pode, a “bruxinha de Sunem” (sim,<br />

bem notado, as bruxas de salém são um escárnio dessa passagem) que mal sabia fazer uma<br />

“conjuração” de maldição se levanta como uma profeta cheia da unção e profetiza<br />

poeticamente a beleza do Pentecostes onde um “som como de um vento impetuoso”<br />

enche o JARDIM onde estavam reunida (O cenáculo ficava envolto em magníficos jardins)<br />

a primeira igreja do Novo Testamento, e profetiza a Autoridade de Jesus quando repreende<br />

os ventos e o mar da Galiléia, diante de um grupo de discípulos aterroriza<strong>dos</strong>. Mais com a<br />

o poder manifesto do que com a tempestade. E diga-se de passagem, que essa passagem<br />

bíblica ocorreu no mar da galilléia, uma passagem marítma para a antiga torre de Sunem, de<br />

onde vem, ADIVINHA QUEM?<br />

A Sunamita.<br />

Fiquei tonto.<br />

Bom, a visão é de uma moça que poeticamente tem poder para invocar os elementos, com<br />

a intenção de encher de aromas e misturar as flagrâncias do inenarrável jardim.<br />

Os paralelos são impressionantes. A moça não sabe maldizer. Nem de longe. A Igreja<br />

não pragueja, não amaldiçoa, não fere em resposta a agressão. Ela não odeia ainda que<br />

invejada, ainda que odiada. Ela não uma fonte corrompida que ora verte água pura, e em<br />

outro instante água contaminada. Ela não anseia pela morte de seus opositores. Antes ora<br />

para que alcancem a Salvação. Ela não paga o mal com o mal. Porque não é a sua natureza.<br />

121


Essa figura dela não saber como amaldiçoar é belíssima. Sua palavra é sempre uma palavra<br />

de Salvação. O que me lembra como as ameaças da perdição invadiram as bocas <strong>dos</strong><br />

pregadores. E como dezenas de estu<strong>dos</strong> sobre proibir à igreja de assistir isso, ou aquilo e<br />

que como os olhos malignos de muitos só conseguem perceber o inferno em tudo que é<br />

feito pelo gênero humano, num ato de hipocrisia que beira a loucura.<br />

Não desperteis o meu amor até que queira é a vocação da Sunamita em relação a Salomão.<br />

E aplica-se para a Igreja. Não pela força e nem pela violência, mas pelo meu Espírito diz o<br />

Senhor. Ela não faz violência contra seu grandioso amor. Não força interpretações expurias<br />

das Escrituras para casar-se com sua ignorância. Não grita revelações falsas para granjear<br />

autoridade espiritual falsificada. Ela não usa de argumentos humanos em substituição<br />

aquilo que não depende dela. Mas dele.<br />

Algumas jovens viveram uma vida sexual precoce, imaginaram que através do prazer<br />

poderiam forçar seus namora<strong>dos</strong> a ficarem com elas. Do mesmo modo esposas desiludidas<br />

com seus esposos ofereceram-se a amantes, crendo que seu amor seria o suficiente.<br />

Profissionais de todo gênero se envolveram com colegas de trabalho em busca de<br />

promoção, reconhecimento, ou mesmo uma relação estável. Algumas meninas<br />

engravidaram para prender seus namora<strong>dos</strong>. Mas o amor necessita despertar por si<br />

mesmo. Ninguém pode amar no lugar de outra pessoa. Deve haver por parte da pessoa que<br />

se ama CORRESPONDENCIA. E isso é fruto da vontade desta pessoa.<br />

Não desperteis o meu amor até que queira, significa não “emular” uma revelação, não<br />

inventar uma visão, não impor uma doutrina, sem que haja a clara manifestação do espírito<br />

nas coisas que estão sendo compartilhadas. Sua paz, sua alegria, sua edificação, seu consolo,<br />

sua presença. É assim quando ele “desperta”.<br />

No jardim a moça é revestida de glória. Ela age de modo teatral, magnifica, PODEROSA.<br />

Ela representa uma Igreja revestida de Autoridade. “Esses sinais seguirão aos que crerem”<br />

em uma cena. “maiores obras do que estas farão”. O Espírito concedendo a Igreja a<br />

dispensação de seu Poder. Ela fala e realidades espirituais são manifestas! Ela profetiza e<br />

acontece. A realidade transforma-se através de sua oração, de sua intercessão. O universo<br />

ouve sua voz, e debaixo da unção do Espírito, lhe obedece! A fé plena, desenvolvida,<br />

manifestando de modo maravilhoso o Poder divino, seja em curas, seja em sinais, seja na<br />

alegria e no amor não fingido, na mistura das fragrâncias.<br />

É o momento da canção que correponde a um forte movimento orquestral.<br />

É a igreja na sua plenitude!<br />

É uma imagem de uma deusa. Não porque ela é uma divindade. O Espírito não vê nela<br />

uma menina que não mora nessa terra <strong>dos</strong> homens. Que aprendeu com Ele, a fazer coisas<br />

extraordinárias e incomuns. (Esse texto foi escrito para o bibliólatra acender a pira<br />

incendiária com meu nome dentro, o que me lembra outro estudo – Tens demônio!<br />

https://drive.google.com/file/d/0B_fUj9Htg3KaaEJZSVdWX0luQWM/edit?usp=sharin<br />

g<br />

O bibliólatra é o sujeito que “divinizou” a moral e as Escrituras... Ele sutilmente substituiu<br />

Cristo como seu Senhor e Salvador, pela Biblia como sua senhora e salvadora. Em vez de permitirse<br />

ter uma mente renovada em Cristo e ouvir a voz do Espírito ele deixou a MORAL ensinar-lhe o que<br />

era bom e o que era mal. Ele amou a letra e odiou ao Espírito de Deus; ele odiou aos dons<br />

espirituais, ele negou a palavra de Conhecimento, ele lacrou a interpretação bíblica como o<br />

fizeram os fariseus em seu tempo à sua pobre ortodoxia. Não conhecem a Cristo, se o<br />

conhecessem não negariam aos dons espirituais. Ninguém que conhece a Cristo e nega<br />

122


veementemente ao seu Espírito. Contudo conhecem os bibliólatatras alguma versão das<br />

Escrituras, morreriam por uma tradução baseada na stuggard pleolambum do Rei de Narnia e<br />

dariam a vida pela versão meta-paleo-massorética-setptuagintica ou por alguma versão baseada<br />

nos “melhores, mais belos, mais manusea<strong>dos</strong>, mais inspira<strong>dos</strong> e critica<strong>dos</strong> manuscritos” das Escrituras,<br />

odiando profundamente qualquer um que ouse discordar deles.<br />

Desejamos que to<strong>dos</strong> os estudiosos das Escrituras sejam versa<strong>dos</strong> nas duas áreas, na<br />

literária e nas coisas do Espírito, que manejem com excelência as ferramentas da erudição e<br />

as ferramentas da revelação. Que amem o estudo<br />

Depois deste doce momento... Representa-o com ela agindo como se não fosse deste<br />

mundo. Se você visse uma mulher invocando o vento e este lhe obedecendo, com certeza,<br />

pedia um autógrafo imaginando ser ela a Tempestade do X-men ou estaria correndo até<br />

agora. Não é uma coisa que se vê todo dia. Ela não pertence a este mundo. Ela possui<br />

características celestiais, como se provasse de poderes de alguma espécie de universo<br />

diferente do nosso.<br />

O Livro de Hebreus fala do dilema das pessoas que rejeitarão a Cristo mesmo após terem<br />

provado de poderes do MUNDO VINDOURO. Mas deixando de lado a crise anunciada<br />

neste versículo chama atenção a frase espetacular:<br />

Hb 6.5<br />

e provaram a boa palavra de Deus, e os poderes do mundo vindouro,<br />

Provaram <strong>dos</strong> poderes do mundo vindouro.<br />

Provaram – no passado - <strong>dos</strong> poderes do mundo vindouro – mundo do futuro.<br />

Que loucura é essa? Que mistério é esse, pessoas hoje exercendo poderes sobrenaturais,<br />

uma amostra, de um mundo que ainda não veio a existir?<br />

Essa é a cena representada belissimamente em Cantares. Do contato HOJE com a<br />

realidade mágica e maravilhosa a qual o crente em Cristo foi chamado, expressa de outro<br />

modo também lá em Hebreus:<br />

Hebreus 12:22-24<br />

Mas tendes chegado ao Monte Sião e à cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestial, e<br />

incontáveis hostes de anjos; à assembleia geral e igreja <strong>dos</strong> primogênitos, que estão inscritos nos<br />

céus, e a Deus, o juiz de to<strong>dos</strong>, e aos espíritos <strong>dos</strong> justos aperfeiçoa<strong>dos</strong>;<br />

e a Jesus, o mediador da nova Aliança, e ao sangue da aspersão, que fala coisas melhores do que o<br />

de Abel.<br />

Então agora você compreende a cena.<br />

Ventos no jardim<br />

Move-te Safon (vento norte) e vem Temã (vento sul),<br />

sopra no meu jardim para que fluam seus bálsamos.<br />

Que venha meu amado para seu jardim<br />

e que coma os seus deliciosos frutos<br />

123


Agora que eu já sei chamar o safon e convocar o temã, que meu amado venha ao seu<br />

jardim, absolutamente perfumado...<br />

Fluam seus bálsamos<br />

Bálsamo é uma resina conhecida muito antes de ser relatada na Bíblia; o comércio era progressivo<br />

principalmente entre os árabes, que guardavam segredo quanto à origem da manufatura inventada;<br />

costumavam assustar as pessoas dizendo que as árvores eram guardadas por serpentes ardentes. As<br />

árvores de En Gedi e Jericó eram famosas pela qualidade e o bálsamo foi trazido pela rainha de<br />

Sabá, em sementes, e dado ao rei Salomão juntamente com outros presentes.<br />

O uso do bálsamo era feito de 3 formas: Óleo santo, como um agente para cura de feridas e como<br />

antídoto para mordida de cobra e ainda um ingrediente para perfume, para o qual a resina pungente<br />

era espremida até transformar-se em óleo ou pasta. O arbusto do bálsamo chamado de bálsamo de<br />

Gileade, por engano, deve ter sido cultivado <strong>dos</strong> troncos nativos e produzi<strong>dos</strong> pelos camponeses de<br />

Jericó e En Gedi em variedades superiores, do qual deriva a reputação do bálsamo de Israel. O<br />

bálsamo servia para curar, embalsamar e como incenso.<br />

O bálsamo é um arbusto de uma pequena árvores que cresce nos desertos e em áreas semidesérticas.<br />

Pequenos cachos de flores brancas produzem fruto que são pequenas drupas contendo<br />

uma semente amarela e de muita fragrância. Aproximadamente umas 100 espécies de<br />

basamodendero como se diz do bálsamo, são resinas notáveis. As resinas são fragrâncias do<br />

bálsamo, transpiram espontaneamente ou são obtidas artificialmente pela incisão <strong>dos</strong> caules e<br />

galhos, gotas que se acumulam em blocos. Inicialmente a cor é de um verde claro brilhante que se<br />

torna marrom quando pingam no solo de onde são coletadas.<br />

Os bálsamos eram o que para nós equivale aos antibióticos, a penicilina, a água oxigenda e<br />

a anestesia, tudo junto. Eram a base do tratamento das feridas da antiguidade. O bálsamo<br />

para muitos era a diferença entre viver e morrer, dele se fazia o unguento, e ele era<br />

colocado em tiras e atado a ferida. Aquecido e inaladoem forma de vapores. Imagine um<br />

mundo em que o único remédio existente, ao menos para feridas, é o bálsamo e você<br />

entenderá sua importância para o mundo antigo.<br />

A moça invoca os ventos para que eles carreguem o bálsamo. A igreja invoca o poder do<br />

Espírito para que a cura milagrosa seja manifesta em meio ao jardim <strong>dos</strong> ama<strong>dos</strong>. Para que<br />

qualquer um que entre nesse jardim receba o benefício da cura, da operação milagrosa, da<br />

restauração. Os gregos buscaram por anos a “panaceia” uma planta mítica que tinha o<br />

poder de curar qualquer enfermidade. Só estavam olhando para o lado errado. Tal planta<br />

não cresce na terra. Ezequiel e Apocalispe falam da árvore cujo fruto concede cura para as<br />

nações. É Cristo.<br />

http://vimeo.com/100386164<br />

124


125


126


O ROMANCE DE CANTARES<br />

127


Muitos teólogos não compreenderam o caráter lúdico de Cantares. Não compreenderam<br />

que o pastor e o rei eram o mesmo personagem e ao interpretarem o livro colocam<br />

Sunamita apaixonada pelo pastor e sendo tomada a força para o harém do rei, criando uma<br />

trama insolúvel. Os discursos se confundiriam, o maior cântico de Salomão, cantaria, não<br />

o seu grande amor, mas o amor de outro, que roubou dele, seu grande amor. Há uma<br />

qualidade nos discursos do amado que o identificam como uma única pessoa. Sua unidade.<br />

Sua sabedoria, seu profundo conhecimento sobre as questões do palácio, seu tremendo<br />

conhecimento sobre os procedimentos da guarda. O modo como o amado a nomeia do<br />

início ao fim de Cantares. O modo como o amado ama Sunamita. Pode se ver até na<br />

generosidade a alegria de Salomão, que ao final recompensa regiamente aos guardas da<br />

Vinha, com uma comissãoassombrosa ao final do texto, que não condiz com a lamentação<br />

de alguém que perdeu o amor de sua vida.<br />

O livro não trata de uma farsa, Salomão não está “seduzindo” Sunamita. Em nenhum<br />

momento das Escrituras Salomão é retratado como possuindo caráter de sedutor. Mesmo<br />

porque seu passado se incia com uma tragédia familiar que certamente deixou marcas<br />

profundas em sua psique. O livro é de um autoria de um jovem e é a suprema poesia de<br />

Salomão, justamente porque é a suprema expressão de seu amor. Salomão guardou<br />

debaixo do travesseiro uma cópia dele, seu tesouro particular. Sua maior composição, seu mais<br />

belo cântico.<br />

As declarações de Salomão fora de Cantares estão em Provérbios, e Eclesiastes. Em<br />

Provérbios ele relembra o amor de sua juventude:<br />

Seja bendito o teu manancial, e alegra-te com a mulher da tua mocidade.<br />

Ele assume para si um provérbio egípcio de um grande amigo, Agur, no qual ele declara<br />

coisas que o maravilhavam<br />

Estas três coisas me maravilham; e quatro há que não conheço:<br />

O caminho da águia no ar; o caminho da cobra na penha; o caminho do navio no meio do mar;<br />

e o caminho do homem com uma virgem.<br />

O livro de Reis declara que em sua velhice suas mulheres é que o influeciaram, de tal<br />

maneira que ele construiu templos e foi com elas neles para oferecer incenso a divindades<br />

estrangeiras. E em Eclesiastes, no qual ele reclama que devia ter vivido com ela para<br />

sempre.<br />

Goza a vida com a mulher que amas, to<strong>dos</strong> os dias da tua vida vã, os quais Deus te deu<br />

debaixo do sol, to<strong>dos</strong> os dias da tua vaidade; porque esta é a tua porção nesta vida, e no teu<br />

trabalho, que tu fizeste debaixo do sol.<br />

O conhecimento geográfico do amado, sua visão perfeita sobre estações, ecológicas,<br />

correspondem ao conhecimento de um único personagem daquela época. Salomão. O<br />

único discurso do pastor deixa claro que ela não o conhece e anseia conhece-lo. Uma<br />

cantada aviltosa. Até na resposta do pastor há a mesma descrição que Salomão fará sobre<br />

ela, do início ao fim do poema. “Formosa”.<br />

Cantares 1:8<br />

Se tu não o sabes, ó mais formosa entre as mulheres, sai-te pelas pisadas do rebanho,<br />

e apascenta as tuas cabras junto às moradas <strong>dos</strong> pastores.<br />

Cantares 6:4<br />

Formosa és, meu amor, como Tirza, aprazível como Jerusalém, terrível como um<br />

exército com bandeiras.<br />

128


É indubitavelmente, Salomão.<br />

O Romance<br />

Algumas palavras preliminares. Esse livro é embebido em vinho. Se tivesse alguma cor nas<br />

páginas seria púrpura. A atmosfera ocorre nas vinhas, os enamora<strong>dos</strong> correme entre as<br />

vides, é a época das safras, da coleta, <strong>dos</strong> cantos <strong>dos</strong> pisadores de uva, do amadurecimento<br />

da safra antiga, da confecção do vinho novo, é tempo de PENTECOSTES! É a primavera<br />

israelita, são as festas <strong>dos</strong> camponeses e camponesas, é época do Templo Novo! Sunamita<br />

está literalmente embriagada e Salomão também, em alguns momentos do livro. Se<br />

espremer Cantares, pingará vinho.<br />

A moça que é a pesonagem principal do livro (Sunamita) é moradora de Sunem, uma<br />

cidade que fica localizada na região da Galiléia. Uma cidade pequena, porém de mulheres<br />

cujo caráter será exaltado mais que uma vez nas Escrituras. Ela é uma moça de uma família<br />

humilde, trabalhadora desde a infância, mas que participava das várias festividades agrícolas<br />

e festivais religiosos de sua época. Haviam sete festas instituídas por Moisés, mais os<br />

eventos da cidade de Jerusalém, incluindo as peregrinações de diversas regiões por ocasião<br />

das festas do recém-inaugurado templo, que substituía a antiquíssima tenda da congregação<br />

e mudava radicalmente os locais sagra<strong>dos</strong> de peregrinação, antes localizado na região<br />

agrícola de Betel para a paisagem urbana de Jerusalém. Era provavelmente a moça mais<br />

nova da família e foi forçada a tomar conta de uma vinha que era possessão hereditária de<br />

sua família. Em determinada cena do texto os irmãos colocam a menina para correr e<br />

apanhar as raposas que estão tentando comer as uvas das parreiras. Imagine o que é correr<br />

atrás de um bando de raposas famintas dentro de um imenso vinhal. Dona de uma beleza<br />

extraordinária e de uma ousadia inimaginada. Sua mãe ainda vivia, mas seu pai não é<br />

mencionado em Cantares.<br />

129


Salomão é o segundo personagem. Filho de Davi com Betseba, após uma tragédia familiar<br />

provocada por uma paixão seguida de um ato impensado e cruel de seu pai, conforme sua<br />

história de vida.<br />

Com a implantação da nova administração de Salomão os encargos e tributos aumentaram<br />

bastante sobre os israelitas em busca de financiar as extravagancias causadas pela vaidade<br />

do novo rei. Diferentemente de seu pai Davi, Salomão era dado a alguns excessos no que<br />

dizia a manutenção da pompa, na demonstração efusiva da “glória” de seu reinado.<br />

Salomão instituiu a primeira frota de navios de Israel, com to<strong>dos</strong> os barcos de projeto e<br />

tripulação estrangeira, composta a maioria de tirios e fenícios, construí<strong>dos</strong> de um tipo de<br />

madeira caríssimo para sua época, transportada por centenas de quilômetros a partir de<br />

troncos com dezenas de metros de comprimento. Salomão havia equipado a seu exército<br />

com um uma infantaria com cavalos de raça, importa<strong>dos</strong> da Arábia e do Egito. Os cavalos<br />

de Salomão eram importa<strong>dos</strong> do Egito e de Keve, Cilícia. O preço de cada cavalo era de<br />

1800 gramas de prata. E o gasto com sua cavalaria era imenso. Diz-se que no apogeu da<br />

cavalaria de Salomão o numero de estábulos para guardar os animais era da ordem de 4000.<br />

Israel: descoberta ruínas do palácio do rei Davi<br />

Pesquisadores dizem ter descoberto palácio do Rei Davi em Israel.<br />

Pesquisadores da Autoridade de Antiguidades de Israel e da Universidade Hebraica de Jerusalém<br />

descobriram o que seriam dois edifícios reais com cerca de 3 mil anos na antiga cidade fortificada<br />

de Khirbet Qeiyafa.<br />

Ruínas associadas ao lendário personagem bíblico têm cerca de 3 mil<br />

anos. Depósito real para guardar impostos também foi identificado.<br />

http://www.sci-news.com/ e http://g1.globo.com<br />

Atualizado em 21/07/2013 06h30<br />

Um desses edifícios foi identificado pelos cientistas como um palácio do lendário Rei Davi,<br />

importante figura para o cristianismo, judaísmo e islamismo, famoso pelo episódio bíblico<br />

da luta com o gigante Golias, entre outros. A segunda construção, afirmam os cientistas, é<br />

uma espécie de depósito real.<br />

130


Vista aérea da cidade murada (Foto: Divulgação/Sky View/Autoridade de<br />

Antiguidades de Israel/Universidade Hebraica)<br />

Os trabalhos arqueológicos da equipe de Yossi Garfinkel e Saar Ganor revelaram parte de<br />

um palácio que teria mil metros quadra<strong>dos</strong>, com vários cômo<strong>dos</strong> ao seu redor onde foram<br />

encontra<strong>dos</strong> recipientes de alabastro, potes e vestígios da prática de metalurgia.<br />

Acha<strong>dos</strong> de relíquias arqueológicas encontradas em Khirbet Qeiyafa (Clara Amit /<br />

Israel Antiquities Authority)<br />

O palácio é a construção mais alta da antiga localidade, permitindo o controle sobre todas<br />

as outras casas, bem como uma vista a grandes distâncias, chegando até o Mar<br />

131


Mediterrâneo.<br />

De acordo com nota da Autoridade de Antiguidades, o local é ideal para mandar<br />

mensagens por meio de sinais de fumaça.<br />

O palácio, no entanto, foi muito destruído cerca de 1.400 anos após seu surgimento,<br />

quando foi transformado em sede de uma fazenda, no período do Império Bizantino.<br />

Palacio do Rei David desenterrado em Khirbet Qeiyafa (Sky View / Hebrew<br />

University / Israel Antiquities Authority)<br />

O depósito identificado mais ao norte era um local para guardar impostos, na época<br />

coleta<strong>dos</strong> na forma de produtos agrícolas. Essa estrutura corrobora a ideia da existência de<br />

um reino estruturado, que cobrava tributos e tinha centros administrativos.<br />

1 Reis 4<br />

Durante toda a vida de Salomão, Judá e Israel viveram em plena paz e segurança em seus<br />

territórios, cada cidadão debaixo da sua videira e da sua figueira, desde Dã até Berseba.<br />

Salomão possuía quatro mil baias para os cavalos <strong>dos</strong> seus carros de guerra e doze mil<br />

cavalos de sua infantaria de guerra.<br />

Não satisfeito com sua cavalaria ele ainda solicitou a construção de 1400 carros de guerra,<br />

bigas para transporte de arqueiros e de armas.<br />

2 Crônicas 1:14<br />

132


Então Salomão juntou carros e cavaleiros; chegando a possuir mil e quatrocentos carros e<br />

doze mil cavaleiros. E os posicionou uma parte nas guarnições de algumas cidades e a outra<br />

próxima de si, em Jerusalém.<br />

Hermon<br />

Vista para o Hermon<br />

Quando a Sunamita andava pelas planícies do Líbano era comum ver centenas de carros de<br />

guerra desfilando diante de seus olhos. Milhares de cavaleiros percorriam todo o reino para<br />

133


vigilância das cidades e um enorme efetivo de solda<strong>dos</strong> ficava constantemente acampado<br />

ao redor de Jerusalém.<br />

Vale de Jezreel<br />

Diz o Josefo historiador: que havia 12.000 cavaleiros: 6.000 nas torres de atalaia, e 6.000<br />

andava com o rei pra todo lado. Os Cavaleiros: vestiam púrpura, tírias, andavam em<br />

cavalos brancos, to<strong>dos</strong> com cabeleiras compridas, e nelas eram coloca<strong>dos</strong> papelotes de<br />

ouro. E quando Salomão ia refrescar os pés, desciam as montanhas para o Riacho, 6.000 o<br />

acompanhavam, diz Josefo, que os raios do sol batiam na cabeleira e resplandeciam os<br />

rostos, por causa do brilho do ouro. Foram gastos13 anos para construir o palácio, por<br />

causa de sua vaidade, mais 7 anos para fazer o templo de Deus. Havia 1.400 carros de<br />

guerra, mesmo sem precisar, ninguém desafia tamanho poder na época. Diz a historia que<br />

60.000 pessoas freqüentavam seu palácio diariamente para assentar á grande mesa com o<br />

rei. Não eram ofereci<strong>dos</strong> copos de vidro, plásticos e prata, eram de ouro maciço.Para<br />

atender o numero de pessoas: 6.730 litros de farinha, mais 100 ovelhas, 30 bois e fora<br />

animais de caça.<br />

Como não havia guerras, to<strong>dos</strong> os reis vinham trabalhar no reinado de Salomão e<br />

mandavam trabalhadores. A bíblia diz: que eram 153.600 no governo do rei. Sendo que<br />

70.000 subiam montanhas para trazer madeiras de: Cedro, Acácia e Cetim, outros 80.000<br />

subiam montanhas para buscar ouro, prata e pedras preciosas, outros 3.600 eram<br />

inspetores.<br />

134


Além disso, a moça morava numa região próxima a um vale por onde passavam grandes<br />

caravanas, vindas de diversas nações para homenagear o ‘grande rei’ e para conhecer o<br />

mistério de sua sabedoria, herdada de modo sobrenatural. O grande mistério que envolvia<br />

o rei Salomão é que o que ele sabia e manifestava aos ouvi<strong>dos</strong> de to<strong>dos</strong> os que o conheciam<br />

é um saber que não recebera <strong>dos</strong> polos de conhecimento de sua época. Os nomes mais<br />

notórios de conhecimento de homens reconheci<strong>dos</strong> como sábios e que obtiveram essa<br />

sabedoria através de diversas escolas de conhecimento, que significa aprendizado e contato<br />

com diversas civilizações, incluindo os egípcios e os árabes, foram ultrapassa<strong>dos</strong> por um<br />

jovem de 23 anos que não teve contato com nenhuma escola ou grupo notável <strong>dos</strong> seus<br />

dias.<br />

Tabela Como referencia para a idade de Salomão à época de Cantares:<br />

A rainha de Sabá deve ter passado diante de seus olhos arregala<strong>dos</strong> quando da visita ao<br />

soberbo rei.<br />

Cafarnaum e Cesaréia cidades marítimas cujos portos ficavam a uns 60 km da habitação da<br />

Sunamita, onde chegavam os navios de Tarsis trazendo madeira de sândalo, pavões, tigres,<br />

macacos e aves raras.<br />

Salomão, tal como seu pai, foi exímio luthier (fabricante de instrumentos musicais).<br />

Percebendo a sonoridade da madeira de sândalo para uso de instrumentos projetou e<br />

construiu junto a um grupo de artesões, alaúdes.<br />

(exemplos de alaúdes da antiguidade)<br />

135


A árvore do sândalo (Santalum album) é originário da Índia e outras partes da Ásia<br />

Na Índia, o sândalo é uma árvore sagrada, e o governo a tem declarado como propriedade<br />

nacional para preservá-la da depredação ao qual tem sido exposta. Só é permitido o seu<br />

corte quando o exemplar possuir mais de trinta anos, momento em que naturalmente<br />

começa a morrer. Um tronco do sândalo demora 25 anos para adquirir uma espessura de<br />

6 cm.<br />

Salomão realizava obras grandiosas, incluindo fortificações, cidades, aquedutos (inferência)<br />

e utilizava-se de trabalhadores força<strong>dos</strong> em todo o reino.<br />

I Reis 9:20-22<br />

Salomão convocou para o trabalho forçado to<strong>dos</strong> os não israelitas, descendentes <strong>dos</strong><br />

amorreus, hititas, ferezeus, heveus e <strong>dos</strong> jebuzeus, sobreviventes de guerra e presos pelos<br />

israelitas, cujos descendentes continuam a trabalhar como escravos até hoje. Mas Salomão<br />

não impôs trabalho forçado a nenhum <strong>dos</strong> filhos de Israel; eles eram homens de guerra,<br />

136


seus capitães, os comandantes <strong>dos</strong> seus carros de guerra, oficiais, escudeiros e os<br />

condutores de carros.<br />

A menina que trabalhava nas vinhas era tratada como escrava por seus irmãos se sentia<br />

duplamente injustiçada. Enquanto seus irmãos eram honra<strong>dos</strong> pelo rei, que impunha<br />

trabalhos força<strong>dos</strong> Às nações conquistadas, ela era tratada como estrangeira, como uma<br />

presidiária, como uma capturada, como uma sobrevivente de guerra. Seus irmãos retiraram<br />

dela sua dignidade como israelita e agora ela trabalhava como escrava num vinhal de<br />

Salomão nas terras do Líbano.<br />

E com certeza absoluta, Salomão podia estar sendo venerado por toda a terra.<br />

137


Mas, não por ela.<br />

Para ela ele simbolizava usurpação. Tirania. Escravidão. O dono de toda a terra permitia<br />

que seus cruéis irmãos dela se servissem, dela abusassem com trabalho duro numa vinha<br />

que não lhe pertencia. Mas que eles diziam que era responsabilidade dela.<br />

Podemos imaginar a raiva com que ela via sem poder participar, das manifestações de<br />

pompa, de glória, de poder militar, econômico, que desfilavam diariamente diante de seus<br />

olhos.<br />

E eis que chegara a época da primavera nas terras libanesas. A ecologia de Israel explodia<br />

multicolorida, as neves derretiam sobre o monte Hermon, corredeiras e cascatas eram<br />

criadas em vários locais nas subidas das encostas, dava-se inicio a migração de diversas<br />

aves, ao tempo de acasalamento de diversos animais, incluindo as pombas selvagens e os<br />

gamos <strong>dos</strong> bosques cheios de figueiras, oliveiras e lírios. Os pastores iniciariam as<br />

atividades de retirada da lã <strong>dos</strong> carneiros e tinha início as festas primaveris, as festas das<br />

colheitas. Entre as comunidades não israelitas aconteciam festivais a Baal com referencia ao<br />

amor de sua esposa Anat que o traria de volta da morte, e com relação aos judeus as danças<br />

da vinha, as festas de Benjamim. As festas de benjamim não tinham origem na Lei, eram<br />

festividades civis, elas tinham um caráter cultural. “Estas festas das vinhas surgiram para<br />

festejar ou rir de uma ‘trapaça”. Ou rir de uma situação criada por uma promessa<br />

impensada fruto de tremenda hostilidade entre as tribos. A hostilidade envolveu uma<br />

tragédia, a morte da esposa de um levita, estuprada por cinco homens. Eram habitantes de<br />

uma cidade benjamita, os quais se recusaram a entrega-los a justiça. A situação gerou uma<br />

guerra cerca de 120 anos antes do reinado de Salomão, benjamim contra todas as demais.<br />

Depois de terríveis batalhas todas a tribo <strong>dos</strong> benjamitas (Binyāmîn,"filho da felicidade) é quase<br />

totalmente extinta, menos 600 homens que sobreviveram fugindo para uma montanha<br />

conhecida como rocha de Rimon, próximo a Galiléia,<br />

138


que é também palco de Cantares.<br />

Antes das batalhas os líderes das tribos amaldiçoaram a si mesmo e se ESCONJURAM<br />

dizendo “maldito aquele que oferecer uma de suas filhas em casamento a um benjamita”<br />

139


Após a guerra eles se arrependeram de terem dizimado a uma tribo inteira. Mas, como<br />

haviam conjurado uma maldição contra si mesmos, não podiam ceder mulheres para os<br />

sobreviventes. Fizeram um censo para ver se alguma tribo não havia participado da guerra<br />

contra os Benjamitas e descobriam que duas delas não haviam guerreado. Então eles<br />

enviaram uma carta de paz aos benjamitas e disseram que fossem e raptassem as moças que<br />

pudessem pegar entre os vinhais daquelas tribos e com elas casassem e pudessem crescer<br />

novamente. Afinal “raptar” não significa “oferecer”, elas não foram “dadas” foram<br />

“tomadas”. Os pais das moças “raptadas” vieram reclamar no conselho das tribos e os<br />

líderes os convenceram a não tentar retomá-las. Foram devidamente “recompensa<strong>dos</strong>” e<br />

assim que puderam visitaram suas filhas já casadas. Quando as viram tratadas como esposas<br />

e não como servas ou escravas, e que teriam netos e netas, se tranquilizaram. E então as<br />

moças de todas as tribos que ansiavam se casar também queriam a chance de serem<br />

raptadas. E começaram a correr no meio das vinhas brincando com seus futuros<br />

pretendentes. E assim nascia uma das mais engraçadas, festivas e alegres festas de Israel, a<br />

festa das vinhas. Milhares de adolescentes dançavam e cantavam em busca de seus amores.<br />

140


E não seria diferente para a Sunamita de cantares. Ela irá se misturar as milhares de jovens<br />

que irão entrar mesmo que os guardas não permitam, correndo pelo interior <strong>dos</strong> vinhais<br />

enquanto fogem de seus pretendentes. Um festival regado a cânticos, instrumentos<br />

musicais, danças, brincadeiras e muito vinho.<br />

E é no meio dessa bagunça toda, que chegará o rei Salomão.<br />

A Sunamita participa da festa regada a vinho, a danças, canções e gritaria. E o rei com seus<br />

solda<strong>dos</strong>, seus nobres, sua corte real, suas provisões e administradores, com inumeráveis<br />

camelos de provisões e protegido por centenas de cavaleiros e solda<strong>dos</strong> arma<strong>dos</strong>, cercado<br />

de carros de guerra.<br />

A moça vê ao cortejo real e em algum momento os olhos dela se encontram com o do rei,<br />

que curioso com a jovem deve ter parado a procissão. Só que ela foge. Não quer contato<br />

com o home que a explora através de seus irmãos. A noite chegará e Salomão em algum<br />

momento estará imerso na atmosfera das diversas festas e intentará ir até um de seus<br />

vinhais para participar da festa. Ao que entendemos do poema de amor ele não o faz<br />

declaradamente. Salomão sabe que não poderá participar das festas de seu povo<br />

declaradamente. Não poderia dar um passo sem estar literalmente cercado de centenas de<br />

oficiais do estado. Então ele se disfarça de pastor com um grupo de amigos e vai escondido<br />

para a grande festa.<br />

E é lá que comecará a aventura narrada em Cantares. Podemos imaginar ele observando as<br />

moças correndo, as brincadeiras e finalmente a jovem Sunamita dançando, que não<br />

reconhece ao rei, a quem na verdade odeia. Indo em direção a Vinha onde avistou a<br />

Sunamita, Salomão a virá correndo e dançando. Ao se aproximar dela descobrirá mais um<br />

encanto da moça. Sua voz maravilhosa. Ela é uma exímia cantora. Como ele é.<br />

Ela dança diante dele e o convida a correr atrás delas nas vinhas, após muito beber vinho.<br />

Ela se perde por entre as vides, e ele convidado por ela, a segue como um adolescente, e<br />

141


em algum instante ele a perde de vista. Quando ela começa a cantar. Ele se guia pela sua<br />

voz e a alcança... e a derruba no chão. E então beija a menina.<br />

Ele faaz aquilo que Ariel estava tentando com o príncipe sem ter sucesso<br />

E então foge!<br />

Deixando para trás de si uma moradora de Sunem, embriagada e absolutamente<br />

apaixonada.<br />

E assim começa o Cântico <strong>dos</strong> Cânticos.<br />

Beije-me ele com os beijos da sua boca; porque melhor é o teu amor do que o<br />

vinho.<br />

142


A moça tentará encontrar o jovem, procurando-o em virtude de suas roupas, junto aos<br />

grupos de pastores que estão nas festas.<br />

No inicio imaginei que não Salomão não soubesse quem era ela. Mas a medida que lermos<br />

Cantares veremos que ele investigou profundamente a “vitima” de sua paixão. E<br />

elaborou um estratagema minucioso para ficar com a moça. Usou to<strong>dos</strong> os seus recursos,<br />

sua juventude, seu charme, disfarçou-se e talvez tenha, tocou e cantou para ela em algum<br />

momento.<br />

Sunamita necessita encontrar o sujeito ousado. E da mesma forma ela vai ser ousada.<br />

Sabe-se lá como, a menina ROUBOU um bando de cabritos. Na pior hipótese, na melhor<br />

ela pediu emprestado. Com certeza os cabritos não lhe pertenciam porque cuidar das<br />

vinhas e correr atrás de raposas o dia inteiro não lhe dariam tempo para exercer um<br />

segundo oficio. A doce trapaceira usurpando o grupo de desnortea<strong>dos</strong> cabritos vai até onde<br />

fica o grupo de pastores e lá estará disfarçado Salomão. Ela o encontra com seus amigos.<br />

Tudo armação. A frase em que ela pergunta onde é que ele leva as ovelhas para beber água<br />

é uma desculpa esfarrapada, só para dar uma “cantada” nele. Na primeira frase que ela fala<br />

já insinua que sem não queria ficar “errante”que aos pés de seus companheiros...” sem você<br />

estou perdida”...Salomão percebe a deixa e ESTRATEGICAMENTE imagina um lugar<br />

longe <strong>dos</strong> olhos da multidão, mas que é conhecido de de facílimo acesso cuidando para que<br />

a moça não se perca! Marcarão um encontro entre eles na manhã seguinte, num lugar que<br />

eles escolhem, longe <strong>dos</strong> olhos da multidão, perto de onde ficam os rebanhos, em campos<br />

fora da cidade. Em dado instante em Cantares ela irá elogiar a voz melodiosa do amado.<br />

Salomão cantava para ela um <strong>dos</strong> seus primeiros 60 <strong>Cantico</strong>s...afinal ele ainda estava<br />

começando sua carreira de compositor. Lá o conquistador cantará, dançará e passará com ela<br />

a primeira noite de liberdade, para ambos. Ela, livre de seus afazeres na vinha (ela fugiu!) e<br />

ele das atividades administrativas reais. E ele pela primeira vez em sua vida, tem alguém ao<br />

seu lado não por causa de sua posição ou poder. Sequer conhece seu nome. Ele também<br />

não a chama pelo nome. Ela não sabe quem ele é ou de onde vem, e ele não leva em conta<br />

sua posição social, ou seu passado. Ela o amava de verdade, voluntária e espontaneamente<br />

e ele, apesar de ter um harém, se enamora da humildade, da franqueza, da beleza e da<br />

pureza do amor da Sunamita. Mas amanhece e o “Cinderelo” tem que deixar seu “disfarce<br />

ao contrário” para voltar a sua posição real. Porém marca com ela um segundo encontro.<br />

Um encontro onde a moça decide contra as condições sociais, assumindo riscos absur<strong>dos</strong>,<br />

entregar-se ao seu amado. Para fugir com ele daquela vida de opressão. O que ela fará será<br />

contra a vontade e sem o conhecimento de seus irmãos. Que se descobrirem são capazes<br />

de matá-la.<br />

Nesse interim várias coisas irão acontecer. As raposas farão a festa na vinha desguarnecida.<br />

A menina embriagada dormirá até tarde e só a muito custo Salomão irá acordá-la. A moça<br />

se desencontrará pelo menos duas vezes com Salomão, e duas vezes com os guardas da<br />

cidade, o primeiro de oficiais idôneos e o segundo com policiais truculentos e cruéis. As<br />

meninas de Jerusalém perceberão a beleza do pastor e intentarão paquerá-lo e ela<br />

enciumada usará de artimanhas, invocará mágicas que não sabe realizar para tentar<br />

intimidá-las com maldições inexistentes.<br />

Na noite chuvosa ele vai até o local determinado, mas a moça inventa uma desculpa<br />

esfarrapada para que ele não entre, sem saber que ele também não possui muito tempo<br />

para estar onde está. Quando ela finalmente se dispõe a abrir a porta, para não ser<br />

descoberto, Salomãoterá fugido para uma festividade que haverá no palácio. Ao ver que o<br />

rapaz por quem se apaixonou não está na porta ela vai até cidade mais próxima e o busca,<br />

mas estava vestida ainda do modo que se preparou para receber a Salomão, e é confundida<br />

e tratada como uma prostituta pelos guardas que cercam a cidade. Ela é atacada, fica quase<br />

despida e é ajudada pelas moças da cidade que se ajuntam, ou a encontram após sua<br />

desesperada fuga. É salva justamente pelas moças da cidade que a reconhecem. Ela dá<br />

143


uma descrição de seu amado, mas ele pode ser só um sonho. Ninguém sabe onde ele está<br />

ou para onde foi. Então em algum momento um cortejo passará, e dentre eles alguém que<br />

ela reconhece muito bem.<br />

O safado. Sem-vergonha. O bandido. Então ela cai em si. Tinha se apaixonado justamente<br />

pelo homem que ela mais desprezava. E sem retorno. Está, confusa, em vez de voltar para<br />

sua vida comum, em vez de retornar para a opressão da escravidão decide realizar um ato<br />

de insanidade. Maior ainda que a “fuga” que não deu certo. E numa grande comédia, ela<br />

que devia perseguir as raposas, agora é perseguida pelos seus irmãos, irá em perseguição de<br />

Salomão, fugindo <strong>dos</strong> guardas que também a perseguem e seguidas de perto pelas filhas de<br />

Jerusalém.<br />

A Sunamita entrará sem ser convidada no salão real, entrará dentro do palácio e ali dançará<br />

diante do rei e de to<strong>dos</strong> os seus nobres. O que ele fez encoberto pelas sombras, ela o<br />

publicará diante de to<strong>dos</strong>. A dança de Maanaim é um epíteto para a dança de dois exércitos,<br />

uma competição de dança, uma apresentação com dois coros ou duas fileiras de dançarinas.<br />

E assim ela o faz. Entrará no palácio de algum modo e conseguirá dançar diante do rei e de<br />

seus convida<strong>dos</strong>. E em algum momento ela tirará o véu e se revelará.<br />

E diante de tal ato de coragem, não resta ao rei nenhum outro artifício se não agir da<br />

mesma maneira. Declarar seu amor pela moça diante de toda a multidão e desposar um<br />

plebeia diante <strong>dos</strong> olhos atônitos das “filhas de Jerusalém”.<br />

O capítulo posterior, o 6 mostrará um casamento magnífico, a moça honrada e vestida<br />

como uma princesa que haveria de se tornar, o próximo, capitulo 7 a lua de mel do casal<br />

apaixonado<br />

144


e o capítulo 8 nos trará um surpresa.<br />

Uma maravilhosa surpresa.<br />

Uma menina. Uma menina nascida da união de Salomão com a Sunamita.<br />

145


146


147


O MISTÉRIO de CANTARES<br />

Deus moldou a existência e a percebe de um modo esplendido. O amor em toda sua<br />

dimensão é imaginado e exercido nele, por ele e para ele. Paulo afirma que tudo existe para<br />

Cristo, e que sem ele, nada do que foi feito, se fez. Cristo concede significado aos<br />

arcabouços, as galerias, aos fios que entreteci<strong>dos</strong> dão origem a realidade. Nele as dimensões<br />

divinas e a vida e a existência de to<strong>dos</strong> os seres vivos, e de to<strong>dos</strong> os seres viventes,<br />

convergem. Os mun<strong>dos</strong>, <strong>dos</strong> lugares celestiais aos confins do universo, das dimensões<br />

invisíveis e eternas as regiões da escuridão e da morte. Converge também o tempo, e o que<br />

existe além de seus domínios. A eternidade é contida nele, e seus pensamentos abarcam das<br />

coisas anteriores a criação do cosmos às coisas inexistentes e incriadas ainda, mas já<br />

antevistas, esperadas e de antemão convocadas a existir num tempo futuro predeterminado.<br />

O que para nós ainda é inexistente o coração de Cristo já visualizava antes que<br />

nascêssemos.<br />

Na dimensão das coisas criadas o amor e a paixão humana, o afeto, o carinho, a amizade, o<br />

desejo, a saudade, a leveza do coração, o maravilhamento, o deslumbramento, a epifania, o<br />

assombro, a admiração, a celebração, o ciúme, a ira, o ódio, o medo, o terror, a angustia, o<br />

regozijo, a euforia, a ternura, a compaixão, a candura, a doçura <strong>dos</strong> sentimentos e a<br />

mudança <strong>dos</strong> nossos senti<strong>dos</strong> diante da visão de coisas afetuosas, o impacto emocionante<br />

quando adiante de sonhos realiza<strong>dos</strong>, desejos manifestos, das coisas que tornam nosso<br />

coração um forno, ora uma caldeira, ora um incêndio, onde as palavras não descrevem o<br />

que percebemos ou o que transformamos em sentimentos. Deus tomou nas mãos a dádiva<br />

do sentimento e através dele revelou sua beleza, seus mistério e o seu amor. A alma<br />

humana transcende a física e a química na qual subsiste. O corpo e suas reações são<br />

somente o veículo, um presente para participarmos e percebemos o universo. Tudo na<br />

terra, as folhas, o vinho, o choro e o vento, a chuva e o trovão, o canto da aves ao barulho<br />

das onda, o reflexo do luar passando por entre as folhas, o tênue brilho das estrelas no<br />

rosto da pessoa amiga, cada pedaço do universo possui marcas, emoldurando e<br />

desvendando a sublime voz daquele que ama nossa alma, que ama nosso espírito que anseia<br />

pela reciprocidade deste grandioso amor.<br />

148


Welington Corporation<br />

149


A PROFECIA EM CANTARES<br />

Existe mais poesia fantástica e dramática, na história da eternidade do que poderíamos<br />

imaginar. Algumas vezes lírica, outras vezes um lamento, outras partes dramáticas, ou<br />

tecidas de vivas cores.<br />

A humanidade se inicia numa mulher. Numa única mulher. Esse argumento não é sujeito a<br />

refutação. Nem filosoficamente, nem cientificamente e nem religiosamente. Se contarem<br />

para você outra história estão tentando te enganar. To<strong>dos</strong> os seres humanos são parentes<br />

entre si. Fato. O resto é ficção. Somente por isso já somos, to<strong>dos</strong> nós e nós to<strong>dos</strong>, uma<br />

fantástica história. Se em algum lugar do universo você contasse para alguém que to<strong>dos</strong> os<br />

sete bilhões e meio de pessoas vieram de uma mulher só, essa criatura gargalharia, bateria<br />

nas suas costas e diria:<br />

- Essa foi ótima! Conta outra!<br />

Se estivesse em 1800 e te dissessem que em duzentos anos a população do mundo inteiro<br />

seria setes vezes maior, daqui a dois séculos, olhariam para você e procurariam alguma<br />

instituição psiquiátrica ao redor, local de onde, certamente, você fugiu.<br />

http://www.worldometers.info/br/<br />

Fantástico, maravilhoso, milagroso, perturbador, incrível, qualquer adjetivo ainda é pobre<br />

para classificar a maravilha do processo. O cético olha com desdém e diz “natural” e<br />

suspira um inexpressivo “interessante” diante da tremenda história humana. O ceticismo<br />

lança seu olhar depressivo diante da majestade da existência. Depressivo e ingrato, diga-se<br />

de passagem. O coração humano enfermo pela incredulidade não consegue deslumbra-se<br />

com a maravilha da existência. O deslumbramento é arte de um coração de uma criança. Já<br />

dizia assim O gato que renasceu do Yogurte.<br />

https://drive.google.com/file/d/0B_fUj9Htg3KaU2dwV0NiQm5TYVU/edit?usp=sharin<br />

g<br />

Mas voltando ao assunto da poesia fantástica, na mente divina ele propôs uma existência com<br />

enredo, uma história repleta de poesia. Preenchendo toda a história humana e também<br />

todas as histórias pessoais que dela fazem parte. A história do universo divino se entrelaça<br />

150


com a história humana, o celestial com o terreno, o invisível com o visível, o eterno com o<br />

temporal. Essa história que compõe a história da eternidade é trazida a existência, escrita,<br />

por assim dizer pelas mãos de um dextro escritor. O Salmo 45 assim afirmava a respeito<br />

das palavras da boca do Messias. “tuas palavras são como se tivessem sido escritas pela<br />

pena de um dextro escritor”.<br />

Melhor do que falar a respeito da excelência dessa história, invisvel aos olhos <strong>dos</strong> que não<br />

creêm, proclamada aos ouvi<strong>dos</strong> <strong>dos</strong> que creêm, melhor que exaltar a poesia fantástica<br />

presente na existencia, melhor demonstrá-la.<br />

O Espírito Santo tinha uma proposta em comunicar seu Ensino no Antigo Testamento.<br />

151


Como ensinar o homem, incapaz desde o nascimento de compreender os mistérios divinos,<br />

com limitações espirituais tremendas que lhe concedessem a aptidão necessária<br />

para discernir valores espirituais, valores eternos e ternos, distinguindo entre as milhares<br />

de vozes sem sentido uma mensagem única, profunda de um amor incomparável e<br />

gracioso,<br />

como dar ao ser humano a capacidade de ouvir o inefável, de conhecer o sublime, de<br />

compreender<br />

152


a ternura da vocação celestial, a beleza do caminho de Deus?<br />

Propôs Deus contar histórias, propôs Deus escrever revestido de humanidade, propôs<br />

Deus sublimar as lágrimas, recontar os contos e recantar os cantos, deixou-se manifestar de<br />

um modo extraordinário,<br />

chamativo, cheio de contrastes e fascínio, cheio de cores e rituais que representassem a<br />

essencia<br />

153


das coisas que o coração não pode captar e que os olhos humanos não podem ver.<br />

Essa é a proposta e esse video concede uma idéia da voz do espírito de Deus<br />

por detrás das versos e da poesia do Antigo Testamento.<br />

154


E é mais ou menos assim…<br />

http://www.youtube.com/watch?v=kdqtxEH59hE<br />

https://drive.google.com/file/d/0B54HJJ80jPtmSDlRb0pxbk1kd1U/edit?usp=sharing<br />

As Escrituras chamam a primeira mulher de Eva, mãe <strong>dos</strong> viventes. Com ela se inicia a<br />

história e dela to<strong>dos</strong> somos particípes. Ela recebe a primeira profecia “ele te morderá o<br />

calcanhar mas tua descendência lhe pisará a cabeça”. E Deus amou a humanidade como se<br />

amasse sua esposa. Israel é uma nação separada, porém representa também a humanidade.<br />

Uma mulher come do fruto proibido, a mesma que recebe a promessa de sua absolvição.<br />

Como nos contos onde a menina é amaldiçoada, mas uma porta de escape é deixada<br />

por quem faz a maldição, que quebrará o feitiço. Os contos de fada possuem uma mensagem<br />

subliminar...<br />

155


Uma mulher deixará o paraíso, guardado por querubins. Saindo ela dele, junto com ela,<br />

saímos to<strong>dos</strong> nós. Deus se apaixona pela humanidade no Éden. O namoro é a revelação<br />

dada a Abraão.<br />

“Sai da casa de tua parentela” é a primeira instancia do casamento ordenado em Genesis<br />

“E deixará o homem seu pai e a sua mãe e unir-se-á a sua mulher”<br />

Ou “E deixará a mulher seu pai e a sua mãe e unir-se-á ao seu homem”<br />

O namoro e noivado acontecerão no EGITO.<br />

Na entrega da Lei Israel é conduzido por Moisés, toda a nação, após três dias de<br />

preparação. E ali é anunciado um CONTRATO, a entrega da lei é o CASAMENTO.<br />

No momento em que Israel exigir um rei, o inicio do fim do relacionamento.<br />

O profeta Samuel fica irritado e Deus fala “ Não foi a ti que desprezaram, foi a mim”.<br />

Mas ela se prostitui com ídolos, divindades e demônios. Pratica toda sorte de culto, que<br />

coincidentemente tem caráter sexual. As liturgias a algumas divindades da antiguidade<br />

envolviam ingestão de drogas afrodisíacas, e a pratica de sexo com prostitutas cultuais que<br />

ofereciam seus serviços como oferta aos deuses. Ofereciam sua virgindade aos templos,<br />

que recebiam o pagamento das moças que o praticavam em nome da religião. Gore Vidal<br />

conta que em seu livro “Criação” que as moças de Babilonia se sentavam milhares delas,<br />

nas entradas das cidades na época <strong>dos</strong> festivais de Tamuz, e que era costume <strong>dos</strong> visitantes<br />

lançarem uma moeda de prta em seus colos, que significava marcar um encontro dentro<br />

<strong>dos</strong> Zigurates, templos babilônicos cuja arquitetura poderia ser a mesma ou inspiradas na<br />

antiga torre de babel, e lá separadas por véus ofereciam-se aos viajantes, doando o dinheiro<br />

arrecadado, a duras penas, à divindade. Em Babilônia parece que em determinado<br />

momento da história se tornou um padrão de conduta, um rito de passagem, de tal maneira<br />

que não já não existiam mulheres adultas que se casassem virgens. O que nos leva a<br />

um texto profético que é um contraste, quando Babilonia é chamada de “virgem”.<br />

Israel se prostitui com deuses, fere seu esposo, que a desposou no HOREBE.<br />

Espiritualmente Deus escolheu para si uma nação. Como um rapaz que se enamora. Como<br />

se ela fosse espiritualmente uma adolescente, uma escolhida, uma prometida.<br />

Esta é a palavra que o Senhor falou a respeito dele: A virgem, a filha de Sião, te despreza<br />

e te escarnece; a filha de Jerusalém meneia a cabeça por detrás de ti.<br />

Jeremias 14<br />

Diga-lhes isto: Que os meus olhos derramem lágrimas, noite e dia sem cessar; pois<br />

17<br />

a minha filha virgem, o meu povo, sofreu um ferimento terrível, um golpe fatal.<br />

Jeremias 18<br />

Portanto, assim diz o Senhor: Perguntem entre as nações se alguémjá ouviu uma<br />

13<br />

coisa dessas; coisa tremendamente horrível fez a virgem, Israel!<br />

Israel não se satisfaz com uma nova divindade. Uma só é pouco. Ela adota todas. Baal,<br />

Dagon, a rainha do céu, o panteão de divindades femininas, pratica as festas da fertilidade,<br />

156


queima filhos para Tamuz, importa deuses do Egito, restaura os terafins que trouxera<br />

escondi<strong>dos</strong> na bagaem de Raquel, aplica as leis de Balaão, aprende a feitiçaria e a pratica, a<br />

necromancia, se curva diante do sol, ergue objetos fálicos em toda Israel, faz procissões<br />

com imagens de toda espécie de deuses e ainda cria novos ministérios, novas ordens<br />

sacerdotais.<br />

Jeremias<br />

Que direito tem a minha amada na minha casa, visto que com muitos tem cometido<br />

grande abominação, e as carnes santas se desviaram de ti? Quando tu fazes mal, então<br />

andas saltando de prazer.<br />

Cria uma indústria nacional de fabricação de deuses. Institui sacerdócios das mais<br />

ignorantes entre os povos e desprezam absolutamente o culto levítico. Há uma triste cena<br />

em que depois de anos encontram o ultimo exemplar da LEI DE MOISÈS guardada a<br />

dezenas de anos dentro de um recinto abandonado do TEMPLO DE SALOMÃO.<br />

Santificam árvores, terebintos, cipestres, sândalos e ali criam árvores oraculares. Implantam<br />

postes ídolos em centenas de lugares. Estabelecem templos a diversas divindades em<br />

TODOS os montes de Israel. Mais de um.<br />

Guardam carros alegóricos das procissões dentro da área do santuário.<br />

E então Deus lhe concede uma carta de divórcio. Rasga o ministério Levitico e o rejeita.<br />

Jeremias 3<br />

Viu também que dei à infiel Israel uma certidão de divórcio e a mandei<br />

8 embora, por causa de to<strong>dos</strong> os seus adultérios. Entretanto, a sua irmã Judá, a<br />

traidora, também se prostituiu, sem temor algum.<br />

9<br />

E por ter feito pouco caso da imoralidade, Judá contaminou a terra, cometendo<br />

adultério com ídolos de pedra e madeira.<br />

Simboliza isso pela menina que perde a inocência, se prostitui por dinheiro e depois<br />

gananciosa vai se degradando até que chega o ponto em que vira uma ninfomanica. Já não<br />

necessita de pagamento, busca ser saciada em qualquer lugar, por qualquer tipo de<br />

religiosidade que possa lhe oferecer alívio. E esse espírito religioso é também tem reflexo<br />

social.<br />

Jeremias 29<br />

Porque cometeram loucura em Israel: adulteraram com as mulheres de seus<br />

23 amigos e em meu nome falaram mentiras, que eu não ordenei que falassem. Mas<br />

eu estou sabendo; sou testemunha disso”, declara o Senhor.<br />

Deus separou uma porção da humanidade para amá-lo e conhece-lo, só que ela o traiu.<br />

157


Desamparei a minha casa, abandonei a minha herança; entreguei a amada da minha<br />

alma na mão de seus inimigos.<br />

Ezequiel 16<br />

32 Você, mulher adúltera! Prefere estranhos ao seu próprio marido!<br />

Oséas 1<br />

Quando o Senhor começou a falar por meio de Oséias, disse-lhe: “Vá, tome uma<br />

2 mulher adúltera e filhos da infidelidade, porque a nação é culpada do mais<br />

vergonhoso adultério por afastar-se do Senhor”.<br />

Oséas 2<br />

Repreendam sua mãe, repreendam-na, pois ela não é minha mulher, e eu não sou<br />

2 seu marido. Que ela retire do rosto o sinal de adúltera e do meio <strong>dos</strong> seios a<br />

infidelidade.<br />

Oséas 3<br />

O Senhor me disse: “Vá, trate novamente com amor sua mulher, apesar de ela ser<br />

amada por outro e ser adúltera. Ame-a como o Senhor ama os israelitas, apesar de<br />

1<br />

eles se voltarem para outros deuses e de amarem os bolos sagra<strong>dos</strong> de uvas<br />

passas”.<br />

Oséas 4<br />

Sacrificam no alto <strong>dos</strong> montes e queimam incenso nas colinas, debaixo de um<br />

13 carvalho, de um estoraque[14]ou de um terebinto[15], onde a sombra é agradável.<br />

Por isso as suas filhas se prostituem e as suas noras adulteram.<br />

Não castigarei suas filhas por se prostituírem, nem suas noras por adulterarem,<br />

porque os próprios homens se associam a meretrizes e participam <strong>dos</strong> sacrifícios<br />

14<br />

ofereci<strong>dos</strong> pelas prostitutas cultuais — um povo sem entendimento precipita-se à<br />

ruína!<br />

Mateus 12<br />

Ele respondeu: Uma geração perversa e adúltera pede um sinal milagroso! Mas<br />

39<br />

nenhum sinal lhe será dado, exceto o sinal do profeta Jonas.<br />

Isaias e Ezequiel:<br />

Como se fez prostituta a cidade fiel! Ela que estava cheia de retidão! A justiça habitava<br />

nela, mas agora homicidas.<br />

Toma a harpa, rodeia a cidade, ó prostituta, entregue ao esquecimento; toca bem, canta<br />

muitos cânticos, para que haja memória de ti.<br />

E será consagrado ao Senhor o seu comércio e a sua ganância de prostituta; não se<br />

entesourará, nem se guardará; mas o seu comércio será para os que habitam perante o<br />

Senhor, para que comam suficientemente; e tenham vestimenta esplêndida.<br />

158


Já há muito quebraste o teu jugo, e rompeste as tuas ataduras, e disseste: Não servirei:<br />

Pois em todo outeiro alto e debaixo de toda árvore fron<strong>dos</strong>a te deitaste, fazendo-te<br />

prostituta.<br />

Quão fraco é teu coração, diz o Senhor Deus, fazendo tu todas estas coisas, obra duma<br />

prostituta desenfreada,<br />

edificando o teu prostíbulo de culto no canto de cada caminho, e fazendo o teu lugar<br />

alto em cada rua! Não foste sequer como a prostituta, pois desprezaste a paga;<br />

E queimarão as tuas casas a fogo, e executarão juízos contra ti, à vista de muitas<br />

mulheres; e te farei cessar de ser prostituta, e paga não darás mais.<br />

Todas as suas imagens esculpidas serão despedaçadas, to<strong>dos</strong> os seus salários serão<br />

queima<strong>dos</strong> pelo fogo, e de to<strong>dos</strong> os seus ídolos farei uma assolação; porque pelo salário<br />

de prostituta os ajuntou, e em salário de prostituta se tornarão.<br />

Sidom<br />

Isaías 23<br />

e disse: “Você não se alegrará mais, ó cidade de Sidom, virgem derrotada!<br />

12<br />

“Levante-se, atravesse o mar até Chipre; nem lá você terá descanso”<br />

Jeremias 46<br />

Suba a Gileade em busca de bálsamo, ó virgem, filha do Egito! Você multiplica<br />

11<br />

remédios em vão; não há cura para você.<br />

Tiro<br />

Is 47:8<br />

Agora pois ouve isto, tu que és dada a prazeres, que habitas descuidada, que dizes<br />

no teu coração: Eu sou, e fora de mim não há outra; não ficarei viúva, nem<br />

conhecerei a perda de filhos.<br />

Babilonia<br />

Desce, e assenta-te no pó, ó virgem filha de Babilônia; assenta-te no chão sem trono, ó<br />

filha <strong>dos</strong> caldeus, porque nunca mais seras chamada a mimosa nem a delicada.<br />

Apocalipse<br />

Revelation 18:7<br />

Quanto ela se glorificou, e em delícias esteve, tanto lhe dai de tormento e de pranto; pois<br />

que ela diz em seu coração: Estou assentada como rainha, e não sou viúva, e de modo<br />

algum verei o pranto.<br />

Veio um <strong>dos</strong> sete anjos que tinham as sete taças, e falou comigo, dizendo: Vem, mostrar-teei<br />

a condenação da grande prostituta que está assentada sobre muitas águas;<br />

159


Disse-me ainda: As águas que viste, onde se assenta a prostituta, são povos, multidões,<br />

nações e línguas.<br />

E os dez chifres que viste, e a besta, estes odiarão a prostituta e a tornarão desolada e<br />

nua, e comerão as suas carnes, e a queimarão no fogo.<br />

porque verdadeiros e justos são os seus juízos, pois julgou a grande prostituta, que<br />

havia corrompido a terra com a sua prostituição, e das mãos dela vingou o sangue <strong>dos</strong><br />

seus servos.<br />

Isaías: “Não temas, porque não serás confundida; não te envergonhes, porque não serás<br />

afrontada. Esquecer-te-ás da vileza da tua mocidade, e não te lembrarás mais do opróbrio<br />

da tua viuvez. Com efeito, o teu esposo é o teu Criador, que se chama o Senhor <strong>dos</strong><br />

exércitos; o teu Redentor é o Santo de Israel, chama-se o Deus de toda a terra. Sim, o<br />

Senhor te chamou como uma mulher abandonada e angustiada. Pode-se repudiar uma<br />

mulher desposada na juventude? —diz o Senhor teu Deus. Por uma hora, por um<br />

momento Eu te abandonei, mas, no Meu grande amor, volto a chamar-te. (…) Ainda que<br />

os montes sejam abala<strong>dos</strong> e tremam as colinas, o Meu amor jamais se apartará de ti, e a<br />

Minha aliança de paz não se mudará, diz o Senhor, compadecido de ti” i .<br />

Em deslumbrante amor Deus amou o ser humano de tal modo que violou suas próprias regras<br />

para poder amar sua Escolhida. Levítico determinava com quem o sacerdote não poderia se<br />

casar:<br />

Viúva, ou repudiada, ou desonrada, ou prostituta, destas não tomará; mas virgem<br />

do seu povo tomará por mulher.<br />

Então O Espírito escolherá uma virgem, que representará a prostituta. A virgem que<br />

representa a menina <strong>dos</strong> olhos de Deus, o modo como Ele almeja enxergar ao homem, não<br />

contaminado com nenhum outro amor espiritual que senão Ele.<br />

Uma mulher, uma menina, uma virgem, uma descendente de Salomão.<br />

Portanto o Senhor mesmo vos dará um sinal: eis que uma virgem conceberá, e dará à<br />

luz um filho, e será o seu nome Emanuel.<br />

Lucas 1<br />

a uma virgem prometida em casamento a certo homem chamado José,<br />

27<br />

descendente de Davi. O nome da virgem era Maria.<br />

Lucas 1<br />

34 Perguntou Maria ao anjo: “Como acontecerá isso, se sou virgem?”<br />

Jeremias 31<br />

Eu a edificarei mais uma vez, ó virgem, Israel! Você será reconstruída! Mais uma vez<br />

4<br />

vocês e enfeitará com guizos e sairá dançando com os que se alegram.<br />

2 Coríntios 11<br />

160


2<br />

O zelo que tenho por vocês é um zelo que vem de Deus. Eu os prometi a um único<br />

marido, Cristo, querendo apresentá-los a ele como uma virgem pura.<br />

Jesus é o noivo.<br />

Mas o noivo morrerá. Jesus será morto.<br />

Joel 1<br />

8<br />

Pranteiem como uma virgem em vestes de luto que se lamenta pelo noivo[2]da<br />

sua mocidade.<br />

Em Provérbios (15:25) Salomão dirá:<br />

O Senhor desarraiga a casa <strong>dos</strong> soberbos, mas estabelece a herança da viúva.<br />

A visão profética de Cantares.<br />

Prostituição infantil na Índia<br />

Posted by proudtobeawoman on Quinta-feira, Abril 12, 2012<br />

161


A prostituição infantil é uma barbaridade que nos choca e incomoda e, por vezes,<br />

preferimos pensar que esta é uma realidade distante de nós. Mas não é, a pedofilia, rapto,<br />

escravidão e prostituição infantil são dramas de todas as sociedades e culturas, <strong>dos</strong> países<br />

ricos e <strong>dos</strong> pobres. Um <strong>dos</strong> locais no mundo onde se verificam mais casos de abuso <strong>dos</strong><br />

direitos das crianças é a Índia, situação essa que é fruto da extrema pobreza. Muitas famílias<br />

de pequenas localidades, por ignorância e levadas por falsas promessas, ou até mesmo com<br />

conhecimento, acabam por vender por uma ninharia as suas filhas a desconheci<strong>dos</strong> que as<br />

vendem a bordéis em cidades grandes.<br />

A pequena quantia que leva familiares e conheci<strong>dos</strong> da criança a vendê-la pode fazer toda a<br />

diferença entre a morte e a vida de uma família que passa fome.<br />

A vida de uma prostituta na Índia é terrivelmente difícil e dolorosa. Quando primeiro<br />

chegam, as prostitutas são “domesticadas” através de espancamentos selvagens, estupros e<br />

outras formas de tortura psicológica e física. Aquelas que resistem são tratadas com<br />

punições ainda mais rígidas, e a vida ainda pode piorar, dependendo das condições do<br />

bordel. Os piores são chama<strong>dos</strong> de “casas de travesseiros”, onde prostitutas são separadas<br />

por panos que dividem os quartos minúsculos. Visitantes podem pagar $3 por alguns<br />

minutos e não é permitido que as prostitutas falem com seus clientes. O dono do bordel<br />

fica com o dinheiro e, pode até permitir, num único dia, quarenta visitantes.<br />

Escapar não é uma opção. Uma vez que a prostituta chega no bordel e o trato está feito<br />

entre o agente e o dono do bordel, a prostituta deve trabalhar para pagar o seu custo ao<br />

dono do bordel. Em alguns casos, juros são cobra<strong>dos</strong> para impedir a saída da prostituta,<br />

enquanto alguns donos de bordel simplesmente nunca diminuem a dívida da prostituta.<br />

Apesar de inicialmente comprada por alguns poucos dólares, a prostituta pode ser vendida<br />

por mais de mil, dando uma enorme margem de lucro para os agentes e tornando o tráfico<br />

de prostitutas um negócio extremamente lucrativo.<br />

A problemática da prostituição infantil é também preocupante. A situação é tão comum e<br />

grave que a UNICEF estima que há 500.000 prostitutas infantis só na Índia.<br />

http://www.vimeo.com/34598166<br />

162


As vinhas, neste caso, são acompanhadas por produtos finos, que eram importa<strong>dos</strong> por<br />

mercadores, menciona<strong>dos</strong> explicitamente em 3,6b. Debaixo da macieira, p.48, entende que<br />

a afirmação da propriedade da vinha em 8,12 deve ser entendida como “minha sexual idade<br />

não está à venda por siclos”.<br />

expectativa da chegada de mercadores era um sentimento bastante comum entre a<br />

população de Jerusalém, especialmente daqueles mercadores que traziam especiarias: “Os<br />

mercadores de Sabá e Ramá, eram eles os teus mercadores; em to<strong>dos</strong> os mais refina<strong>dos</strong><br />

aromas, e em toda pedra preciosa, e em ouro negociavam nas tuas feiras” (Ez 27,22).<br />

A festa do amor entre Baal e Anat, irmãos e noivos, era regada pelo vinho produzido<br />

graças às chuvas que caíram durante o inverno. A gratidão era dirigida principalmente à<br />

Deusa, grande heroína, cujo amor era representado pelo vinho.<br />

O contexto rural da festa também transparece com vigor em 4,12-15, que fala de rebentos,<br />

flores silvestres e correntes d’água. A água das chuvas, ou a neve derretida, parece ter sido<br />

um elemento muito celebrado na festividade que deu origem a estes poemas<br />

expressão beyt haáyiyn (Ct 2,4) só tem paralelos no livro de Ester (7,2 “casa de festas” e 7,8<br />

“casa de banquetes”). A vinculação da expressão “casa do vinho” com a “casa de festas” e<br />

a “casa de banquetes”, em Ester, pode ajudar a identificar o ambiente deste grupo, pois<br />

reúne vinho, cultura popular e presença feminina. O Cântico <strong>dos</strong> Cânticos, no século<br />

primeiro da era cristã, ainda era usado, conforme denunciava o Rabi Akiba, em adegas ou<br />

casas de festas, onde se bebia muito vinho228. Assim, estas mulheres responsáveis por<br />

organizar banquetes, como Ester, podem ter sido responsáveis pela preservação <strong>dos</strong><br />

poemas e sua releitura em Judá. Pode ser que, mesmo após o início do uso<br />

canônico, as mulheres continuassem cantando partes do Cântico <strong>dos</strong> Cânticos<br />

nas “casas do vinho”<br />

Aos indicativos do ambiente da corte podem ser acrescenta<strong>dos</strong>: o adjetivo<br />

“filha de nobre” (bat nádiyv), usado para a Sulamita, e a referência direta ao<br />

“artesão” (‘ámán) em 7,2. O contexto geográfico aponta para cidades como<br />

Hesbon e Damasco em 7,5, isto é, no centro e norte da Palestina.<br />

A dança da Sulamita parece, em função deste imaginário, estar<br />

acontecendo na corte, em um ambiente seleto e freqüentado pela elite. Assim,<br />

seu corpo é comparado com alguns <strong>dos</strong> elementos comuns nas festas da corte.<br />

Na coletânea do Líbano o imaginário está vinculado à paisagem das<br />

montanhas; há uma forte ênfase nas correntes de água e ao vinho que rega as<br />

festas da fertilidade (5,1); possivelmente se faça também alusão às oferendas<br />

líquidas colocadas sobre os altares ou libações. As montanhas do Líbano são<br />

163


também uma forte referência nos mitos de Baal-Anat-Mot. Segundo F.F.<br />

Hvidberg, rituais da fertilidade eram desenvolvi<strong>dos</strong> principalmente no outono,<br />

quando se lamentava a descida da divindade masculina da chuva ao “mundo<br />

<strong>dos</strong> mortos” (Xeol), ao mesmo tempo, que se invocava a aparição da divindade<br />

feminina que o resgataria<br />

a. Nas tradições de Sara e Abraão (Gn 12,10-19;14;19-20).<br />

b. Nas tradições de Rebeca e Isaque (Gn 26).<br />

c. Nas tradições de Raquel, Lia e Jacó (Gn 33,18-34,31).<br />

Dentre todas as referências veterotestamentárias que vinculam a vida<br />

pastoril com a vida urbana, uma das mais ilustrativas é a que descreve a<br />

relação entre Judá e Tamar, em Gn 38. No texto, Judá e Hira (pastores de<br />

ovelhas), se dirigem à cidade de Timna para a tosquia das ovelhas (cf. Gn<br />

38,12b.13). Nessa ocasião, Tamar espera por Judá, na entrada da cidade,<br />

vestida de “prostituta” (zonah).<br />

A referência à vida pastoril no primeiro poema das filhas de Jerusalém é<br />

dominada por perguntas: “Onde apascentas? Onde fazes repousar (o rebanho)<br />

ao meio dia?” (1,7). Estas perguntas são dirigidas diretamente ao pastor (1,8),<br />

o que parece distanciar a mulher que pergunta da atividade pastoril.<br />

A distância entre a mulher e a atividade pastoril não deve ser<br />

interpretada como parte da divisão social de tarefas, que a impossibilitaria de<br />

realizar este tipo de trabalho, já que no Antigo Testamento a função de<br />

“pastora” é mencionada explicitamente (cf. Gn 29,9; Êx 2,16-17).<br />

O próprio pronome interrogativo “onde” (‘eykáh), segundo indicam Ariel<br />

e Chana Bloch, é um aramaísmo equivalente ao termo hebraico antigo ’eyfoh<br />

(Jz 8,18;9,38;Jr 49,21).O caráter tardio deste texto fica ainda mais evidente<br />

pelo uso do hapax legomenon, shalámáh (“lá estarei”), derivado do hebraico<br />

“lemah” usado em Esd 7,23 e em Dn 1,10231.<br />

Este primeiro poema não permite, por si só, determinar se a mulher que<br />

pergunta sobre o pastor, seu rebanho e seus companheiros, pertence ao meio<br />

rural, suburbano ou urbano. No entanto, parece que, pelo menos, a mulher que<br />

pergunta, não participa diretamente da atividade pastoril.<br />

W. R. Smith<br />

indica que, em Dt 7,13, o produto da lã é chamado de “astarote da ovelha”<br />

(` shterot tzo’nêka), sendo esta uma expressão antiga, de origem religiosa. A<br />

231 Ar iel e Chana BLOCH. The Song of Songs, p.141-143.<br />

144<br />

ovelha-Afrodite foi especialmente adorada em Chipre232. Se a ovelha era<br />

diretamente identificada com divindades femininas, o pastor poderia ser um<br />

epíteto para seus sacerdotes e/ou adoradores. Em um antigo texto ugarítico, o<br />

seu subscritor Ilmilku se autodenomina “chefe <strong>dos</strong> sacerdotes e chefe <strong>dos</strong><br />

pastores”.<br />

O sincretismo diplomático oficial teria se deslocado para o ambiente da<br />

“religiosidade privada”, como entende R. Albertz, quando os cultos<br />

estrangeiros foram se instalando também na prática religiosa familiar em<br />

altares construí<strong>dos</strong> nos terraços (Sf 1,5; 2 Rs 23,12; Jr 19,13; 32,29). Entre<br />

estes hábitos sincretistas familiares, destacam-se os chama<strong>dos</strong> “rituais<br />

babilônicos de conjuro”, que já se praticavam em Jerusalém, de outras formas,<br />

164


desde os tempos antigos243<br />

Os carneiros (ha‘áyliym), menciona<strong>dos</strong> em 2,9;2,17 e 8,14, são<br />

geralmente traduzi<strong>dos</strong> como “corço”267, “gazela”268, “gamo”269 e “corça”270. No<br />

entanto, em to<strong>dos</strong> os outros textos do Antigo Testamento onde aparece o plural<br />

‘áyliym (Lv 8,2; Ez 40,49; 41,1) e o singular ‘aiyl (Ex 29,15s; Lv 8,18s; entre<br />

outros), referem-se a um animal doméstico usado principalmente nos rituais de<br />

sacrifício.<br />

CONJURO-VOS é uma invocação mágica. Em nome das gazelas,<br />

Por que as “filhas de Jerusalém” invocariam esses poderes?<br />

Um texto cuneiforme do terceiro milênio, contendo uma conjura de amor,<br />

vinculado por J. M. Sasson ao Cântico <strong>dos</strong> Cânticos, termina com a expressão:<br />

“Eu te conjuro, por Inanna e Ishara”.<br />

Gordis sugeriu que a expressão “pelas gazelas e pelas<br />

corças do campo” (bitzevá’ôt ‘ô be’aeylôt hasádéh) poderia ser uma<br />

“relutância deliberada de usar o nome divino (...) be’lohei sheb’aót ou be’el<br />

shaddai (...), escolhendo animais que simbolizam o amor como substituição<br />

A menção das gazelas e corças na conjura das filhas de Jerusalém<br />

aparece em 2,7 e 3,5<br />

Uma das explicações para o desenvolvimento da imagem da pomba em<br />

Jerusalém pode estar no adjetivo que a acompanha: “perfeita” (tamát). O<br />

adjetivo “perfeito/a” ou “sem defeito” foi usado em Judá para se referir aos<br />

animais aceitos para o sacrifício no Templo (Lv 1,3; 3,1.6; 4,21.23 entre outros<br />

e em Ez 43,22-23.25; 45,18.23). No entanto, nos textos do Antigo Testamento,<br />

este adjetivo nunca é aplicado às pombas rolas, mas aos quadrúpedes. Quando<br />

o profeta Ezequiel e o livro de Lamentações se referem à beleza “perfeita”<br />

usam o adjetivo keliylah e não tamát, como em Ct 5,2 e 6,9.<br />

O adjetivo “pomba perfeita” parece nascer da junção entre a linguagem<br />

de amor e a linguagem sacrifical em Jerusalém. As filhas de Jerusalém,<br />

acostumadas a conviver com o templo<br />

Cedros ‘aráziym 1,17; 5,15 8,9<br />

Ciprestes berôtiym 1,17;4,13;7,12<br />

Narcisos shôshaniym 2,1.16 4,5;5,13;7,3 6,2.3<br />

Lírio hávatzêlêt 2,1<br />

Nar<strong>dos</strong> néredeym 4,13.14 1,12;<br />

Macieiras/Maçãs tapûah 2.3.6;7,9 8,5<br />

Romãs/Romeiras rimôniym 4,13;7,13 4,3;6,7 8,2 6,11<br />

Tamareira támár 7,8.9* 5,11<br />

Mirra mir 4,14;5,1 5,13 5,5 1,13; 3,6<br />

Mandrágoras duda’iym 7,14<br />

Hena kofêr 1,14<br />

Espinheiros hôhiym 2,2<br />

Figueira/figo te‘énah 2,13;<br />

Olíbano levônáh 4,14; 3,6;<br />

Cana qanêh 4,14<br />

165


Cinamomo qinamôn 4,14<br />

Açafrão karekom 4,14<br />

Aloés ‘ahálôt 4,14<br />

Nozes ‘egoz 6,11<br />

Palmeira náhal<br />

É o caso de 1,17, onde se descreve uma casa verde de<br />

cedros e ciprestes vivos, descritos ali como o teto de uma cama verdejante. O<br />

mesmo acontece em 2,13, onde a figueira e seus figos pequenos fazem parte do<br />

ambiente primaveril.<br />

O uso feito no poema canônico das bodas de Salomão tem forte<br />

paralelo com o Sl 45, que também é um hino de bodas342. No entanto, em Sl<br />

45,9, onde a mirra é citada junto com aloés como em Ct 4,14, ela é<br />

usada como perfume para as vestes e não como bálsamo para o corpo<br />

A mirra como bálsamo aprece também em Ester 2,12 como parte <strong>dos</strong><br />

preparativos das moças no harém do rei persa:<br />

Ao fim de doze meses, chegava o momento de um jovem se aproximar do<br />

rei. O período <strong>dos</strong> preparativos se desenrolava assim: durante seis meses,<br />

ela se untava com óleo de mirra, depois, durante seis meses, com<br />

bálsamos e cremes femininos343<br />

Segundo explica W. Von Soden, a tamareira e a palmeira tiveram grande<br />

importância na Babilônia como espécie cultivada. Este tipo de árvore precisa<br />

de grandes quantidades de água e foi muito pouco cultivada na assíria e no<br />

corredor siro-palestinense. Um <strong>dos</strong> lugares mais antigos vincula<strong>dos</strong> às palmas<br />

foi Jericó “cidade das palmeiras” (cf. Dt 34,3; Jz 1,16; 3,13 e 2 Cr 28,15)345.<br />

Contudo, no Antigo Testamento existe uma referência à tamareira que, do<br />

ponto de vista das tradições camponesas femininas, é muito importante trata-se<br />

da “Palmeira de Débora”, ou “Tamareira de Débora” (tomêr debôrah) em Jz<br />

4,5346. W. R. Smith interpreta esta tamareira como uma das que ele chama de<br />

“árvores oraculares cananéias” (canaanite tree oracle) e afirma que “a crença<br />

em árvores como lugares de revelação divina deve ter sido muito comum em<br />

Canaã”347.<br />

A guarda real é mencionada de duas diferentes formas no Cântico <strong>dos</strong><br />

Cânticos: como escolta do rei nas suas bodas (Ct 3,7-8) e como metáfora para o<br />

corpo e seus enfeites (4,4).<br />

Segundo indica R. De Vaux, esta guarda pessoal do rei era geralmente<br />

formada por mercenários (cf. 2 Sm 20,7; 2 Sm 15,18 e 1 Rs 1,38-44). Outra<br />

forma de designar a guarda real foi rátziym ou “corredores” que marchavam na<br />

frente <strong>dos</strong> carros de guerra (cf. 1 Sm 22,17; 2 Sm 15,1 e 1 Rs 1,5). Estes<br />

guardas também tinham a função de vigiar as entradas do palácio real<br />

carregado escu<strong>dos</strong> de bronze (1 Rs 14,27-28 e 2 Dr 12,10-11) 367.<br />

No Cântico <strong>dos</strong> Cânticos o termo usado tanto em 3,7 quanto em 4,4 para<br />

os guardas é gibôryim, isto é, “valentes” ou “bravos”. Em 2 Sm 23,8 usa-se<br />

esta terminologia para falar do exército de Davi como “os valentes de Davi: ha<br />

gibôriym ‘esher ledavid.<br />

166


http://qbible.com/hebrew-old-testament/song-of-songs/<br />

Verse Idiom Meaning<br />

Gen 4:6 Face fallen sad<br />

Gen 6:8 Found grace in the eyes accepted<br />

Gen 22.17 Seed descendants<br />

Gen 24.60 Possess gates capture cities<br />

Gen 27.41 Said in heart thought to self<br />

Gen 31.35 The way of women menstruation<br />

Gen 40.13 Lift up your head restore to honor<br />

Ex 1.5 Loins ? descendants<br />

Ex 3.8 Flowing with milk and honey fertile<br />

Ex 3.19 Mighty hand force<br />

Ex 13.2 Open the womb be born<br />

Ex 15.25 Sweet water water fit to drink<br />

Ex 32.19 His anger burned very angry<br />

Ex 34.6 Long of anger slow to get angry<br />

Lev. 20.18 Her sickness her period<br />

Lev 22.6 Soul person<br />

Deut 5.6 House of bondage (land of) slavery<br />

Deut 8.14 Heart lifted up proud<br />

Deut 15.7 Close hand selfish<br />

Deut 20.8 Heart melt lose courage<br />

Deut 21.17 Beginning of his strength his firstborn<br />

Deut 23.13 Squat outside defecate<br />

Deut 23.13 What comes from you excrement<br />

Deut 28.28 Heart mind<br />

Josh 10.6 Slack hands abandon<br />

Judges 3.28 Deliver them into your hands defeat them for you<br />

Judges 13.5 From the womb from birth<br />

1 Sam 10.9 gave him another heart changed his attitude<br />

1 Sam 24.3 covered his feet relieved himself<br />

1 Sam 25.22 one who urinates against a wall male<br />

167


2 Sam 1.12 house nation<br />

2 Sam 18.25 good news is in his mouth he brings good news<br />

1 Ki 2.10 slept died<br />

2 Ki 2.7 sons of the prophets group of prophets<br />

2 Ki 4.29 gird up your loins get ready<br />

2 Ki 19.26 small of hand weak<br />

2 Chr 25.17 look each other in the face meet each other in battle<br />

2 Chr 36.13 stiffened his neck became stubborn<br />

Esther 1.7 Open hand generosity<br />

Esther 1.14 Saw his face had access to him<br />

Esther 2.21 Send a hand against assassinate<br />

Esther 6.10 let fall neglect (3)<br />

Job 1.12 Put hand on harm<br />

Job 20.20 Knew no quiet in their bellies greedy<br />

Job 23.16 Soft heart fearful<br />

Job 31.10 Kneel over have sex with<br />

Job 33.16 Opens the ear informs, reveals<br />

Job 35.8 Son of man other humans<br />

Ps 3.7 Break teeth make powerless<br />

Ps 4.1 Enlarge space set free<br />

Ps 5.9 Their throat is an open grave they speak deceitfully<br />

Ps 6.7 Eye is consumed vision is blurred<br />

Ps 7.3 Iniquity in my hands guilty<br />

Ps 7.9 Hearts and kidneys thoughts and emotions<br />

Ps 10.5 Snorts scoffs<br />

Ps 11.6 the portion of their cup their destiny<br />

Ps 12.2 double heart duplicitous<br />

Ps 17.8 Little man of the eye pupil<br />

Ps 24.4 Clean hands act purely<br />

Ps 25.1 Lift up my soul pray<br />

Ps 27.8 Seek my face seek me<br />

Ps 33.18 Eyes are upon watches over<br />

Ps 41.9 Lifted heel against turned against<br />

Ps 73.9 Tongue struts through the earth arrogantly order everyone<br />

Ps 75.5 Lift horn defy God<br />

Ps 89.13 Right hand might<br />

Ps 89.22 Son of wickedness wicked person<br />

Ps 90.12 Number days use time wisely<br />

168


Ps 94.9 Planted created<br />

Ps 102.2 Hide your face refuse to answer<br />

Ps 121.1 Lift up eyes look up toward<br />

Ps 124.3 Swallowed alive killed<br />

Pro 17.22 Dries bones drains strength<br />

Pro 22.9 Good eye generous<br />

Pro 23.6 Bad/Evil eye stingy<br />

Pro 18.20 Fruit of the mouth what someone says<br />

Pro 24.20 lamp will go out will die<br />

Song 2.4 His banner over me is love he loves me very much<br />

Song 2.17 Until the day breathes until dawn<br />

Song 4.2 none is bereaved none is missing<br />

Is 9.9 Arrogance of heart arrogant<br />

Is 14.12 Son of the morning morning star<br />

Is 35.10 Joy will crown their heads they will be joyful<br />

Is 52.7 Feet person<br />

Is 57.4 Open mouth wide sneer<br />

Is 60.16 Suck the milk of nations receive the wealth of other countries<br />

Is 61.3 Oil of gladness joy<br />

Jer 4.4 Remove the foreskin of your heart dedicate yourselves fully to God<br />

Jer 4.19 Walls pain<br />

Jer 4.30 Seek your life want to kill you<br />

Jer 5.5 Broken the yoke rejected God's authority<br />

Jer 6.10 Ears are uncircumcised don't listen<br />

Jer 7.12 Where I caused my name to dwell where I chose to be worshiped<br />

Jer 9.1 waters spring of water<br />

Jer. 25.15 Wine of wrath my anger<br />

Jer 50.33 Sons of people of<br />

Jer 51.37 Hissing scorn<br />

Lam 1.16 Eyes run down with water eyes flow with tears<br />

Ezek 3.7 Hard forehead stubborn<br />

Ezek 16.25 Spread feet offer self for sex<br />

Ezek 16.26 Big of phallus lustful<br />

Mal 1.11 My name me<br />

Mal 2.12 he who awakens and he who answers every single person<br />

El אל<br />

mighty one Genesis 14:19 Elo'ah אלוה<br />

power Deuteronomy 32:15 169


Elohiym אלהים<br />

powers Genesis 1:1 Yehu יהוה<br />

he exists Genesis 4:1 Ehyeh אהוה<br />

I exist Exodus 3:14 Adonai אדוני<br />

lords Genesis 18:27 Ehhad אחד<br />

one Zechariah 14:9 Melekh מלך<br />

king Psalm 47:6 Av אב<br />

father Isaiah 64:8 Moshi'ah מושיש<br />

deliverer Isaiah 45:15 Ru'ahh רוח<br />

wind Genesis 1:2 Borey בורא<br />

filler Isaiah 40:28 Ba'al באל<br />

master Isaiah 54:5 Oseh שושה<br />

maker Isaiah 54:5 El Shaddai שדי אל<br />

mighty breasts Genesis 17:1 Adonai Yehu יהוה אדוני<br />

Adonai of Yehu Genesis 15:2 Yehu Elohiym אלהים יהוה<br />

Yehu of Elohiym Genesis 2:4 Yehu Yireh יראה יהוה<br />

Yehu sees Genesis 22:14 Yehu Nisi נסי יהוה<br />

Yehu is my standard Exodus 17:15 Yehu Shalom שלום יהוה<br />

Yehu is completeness Judges 6:24 Yehu Tsid'qanu Yehu is our righteousness Jeremiah 23:6 צדקנו יהוה<br />

Yehu Tseva'ot צבאות יהוה<br />

Yehu of the armies 1 Samuel 1:3 Elohiym Tseva'ot Elohiym of the armies צבאות אלהים<br />

Psalm 80:7 Referencias Urbanas<br />

Os poemas que compõem o gênero wasf caracterizam-se pelo uso<br />

freqüente de imagens do meio urbano para exaltar aspectos do corpo humano:<br />

a. “Como torre de Davi é teu pescoço, construída em camadas de pedras,<br />

um esquadrão é a defesa; pendura<strong>dos</strong> sobre ela (estão) to<strong>dos</strong> os escu<strong>dos</strong><br />

<strong>dos</strong> guerreiros” (Ct 4,4).<br />

b. “As suas mãos são cilindros de ouro, incrusta<strong>dos</strong> de ‘pedras de Tarsis’. O<br />

seu abdome é lamina de marfim, que foi coberta de safiras. As suas<br />

coxas são pilares funda<strong>dos</strong> sobre bases de ouro puro” (Ct 5,14-15a).<br />

c. “Bela és tu minha amada como Tirza, graciosa como Jerusalém, pavorosa<br />

como quem carrega estandartes” (Ct 6,4).<br />

d. “As curvas <strong>dos</strong> teus quadris são como enfeites obra de mãos de artesão”<br />

(Ct 7,2b).<br />

e. “Teu pescoço é como torre de marfim, teus olhos são como as piscinas de<br />

Hesbon, sobre o portão da ‘filha de multidões’ (Bat-rabim).Teu nariz é<br />

como torre do Líbano, vigiando diante de Damasco.Tua cabeça sobre ti é<br />

como o Carmelo, e o cabelo da tua cabeça como púrpura, rei preso com<br />

tiras de couro” (Ct 7,5-6)<br />

I. The superscription 1:1<br />

II. The courtship 1:2—3:5<br />

A. The beginning of love 1:2-11<br />

170


1. Longing for the boyfriend 1:2-4<br />

2. The girl's insecurity 1:5-8<br />

3. Solomon's praise 1:9-11<br />

B. The growth of love 1:12—3:5<br />

1. Mutual admiration 1:12—2:7<br />

2. Increased longing 2:8-17<br />

3. The pain of separation 3:1-5<br />

III. The wedding 3:6—5:1<br />

A. The procession 3:6-11<br />

B. The consummation 4:1—5:1<br />

1. The bride's beauty 4:1-7<br />

2. The groom's request 4:8<br />

3. The bride's love 4:9-11<br />

4. The bride's purity 4:12-15<br />

5. The bride's surrender 4:16—5:1<br />

IV. The maturing process 5:2—8:4<br />

A. The problem of apathy 5:2—6:13<br />

1. Indifference and withdrawal 5:2-8<br />

2. Renewed affection 5:9-16<br />

3. Steps toward reconciliation 6:1-3<br />

4. Restoration of intimacy 6:4-13<br />

B. Communicating affection 7:1-10<br />

1. The wife's charms 7:1-6<br />

2. The husband's desires 7:7-9<br />

3. The ultimate unity 7:10<br />

C. The wife's initiative 7:11-13<br />

D. Increased intimacy 8:1-4<br />

V. The conclusion 8:5-7<br />

VI. The epilogue 8:8-14<br />

A. The past 8:8-12<br />

B. The present 8:13-14<br />

I. A inscrição 01:01<br />

II. O namoro 1:02-03:05<br />

A. O começo do amor 1:2-11<br />

1. Longing para o namorado 1:2-4<br />

2. Insegurança da garota 1:5-8<br />

3. Louvor de Salomão 1:9-11<br />

B. O crescimento do amor 01:12-03:05<br />

1. Admiração mútua 1:12-02:07<br />

2. Aumento saudade 2:8-17<br />

3. A dor da separação 3:1-5<br />

III. O casamento 03:06-05:01<br />

A. A procissão 3:6-11<br />

B. A consumação 4:01-05:01<br />

1. Beleza da noiva 4:1-7<br />

2. Pedido 04:08 do noivo<br />

3. Amor da noiva 4:9-11<br />

4. Pureza da noiva 4:12-15<br />

5. Rendição da noiva 4:16-5:01<br />

IV. O processo de amadurecimento 05:02-08:04<br />

171


A. O problema da apatia 05:02-06:13<br />

1. Indiferença e retirada 5:2-8<br />

2. Carinho Renovado 5:9-16<br />

3. Passos para a reconciliação 6:1-3<br />

4. Restauração da intimidade 6:4-13<br />

B. Comunicação carinho 7:1-10<br />

1. Encantos da esposa 7:1-6<br />

2. Desejos do marido 7:7-9<br />

3. A unidade última 07:10<br />

C. iniciativa da esposa 7:11-13<br />

D. Aumento da intimidade 8:1-4<br />

V. A conclusão 8:5-7<br />

VI. O epílogo 8:8-14<br />

A. O passado 8:8-12<br />

B. O presente 8:13-14<br />

II. CHIASTIC OUTLINE OF THE SONG OF SOLOMON<br />

III. A. PROLOGUE lz2-2:7<br />

IV. Scene: Solomon'Ps alace l:12, 17,2;4<br />

V. Pattem: Lovers Apart - l:2<br />

VI. Longing - l:7<br />

VII. LoversT ogether - l:9, 15,1 6<br />

VIII. Motifs: Vineyard - l:6, 14<br />

IX. Apple Tree - 2:3<br />

X. B. INVITATION 2:8-17<br />

XI. SceneS hift: Her home( inside) '2:9<br />

XII. Comet o thec ountrysid(eo utside) :2:l0ff.<br />

XIII. Pattern: Lovers APart - 2:8<br />

XIV. Longing - 2:10, 13, 14<br />

XV. LoversT ogether -2:16, 17<br />

XVI. Motifs: Flowersg, rapevinesb,l oomingv ineyards '2:12, 13' 15<br />

XVII. Spring has sprung - 2:l lff.<br />

XVIII. Possession: "my lover is mine" '2:16<br />

XIX. C. NIGHT 3:l-5<br />

XX. SceneS hift: Night-time - 3:l<br />

XXI. Pattem: Lovers APart - 3: I<br />

XXII. Longing - 3:1,2<br />

XXIII. Lovers Together - 3'.4<br />

XXIV. Motifs: Dream (?) on her bed - 3:l<br />

XXV. Searchesst reets - 3:1,2<br />

XXVI. Watchmen - 3:3<br />

XXVII.D. WEDDING 3:G5:1<br />

XXVIII. Scene Shift: Day-time at the edge of the wildemess - 3:6<br />

XXIX. Pattern: Lovers APart - 4:16-5:l<br />

XXX. Longing - 4:7-9<br />

XXXI. Lovers Together - 4:16-5:l<br />

XXXII. Motifs: Wasf - 4:l-5<br />

XXXIII. Palanquionf Solomon - 3:7<br />

XXXIV. Geographicaiml agery - 4:6<br />

XXXV. C'. NIGHT 522-7tl0<br />

XXXVI. Scene Shift: Night-time - 5:2<br />

172


XXXVII. Pattern: Lovers Apart - 5:2<br />

XXXVIII. Longing - 5:6<br />

XXXIX. Lovers Together -7:10<br />

XL. Motifs: Dream (?) on her bed - 5:2<br />

XLI. Searchesst reets - 5:6<br />

XLII. Watchmen - 5:7<br />

XLIII. Wasf - 5:10-16;6:4'9:7:l'5<br />

XLIV. B'. IIWITATION 7:ll-8:4<br />

XLV. SceneS hift: Day( inside) -7:ll<br />

XLVI. Comet o thec ountrysid(eo utside) - 7:ll<br />

XLVII. Pattern: Lovers APart - 7:11<br />

XLVIII. Longing - 8:1,2<br />

XLIX. Lovers Together - 8:3<br />

L. Motifs: Flowersg, rapevinesb,l oomingv ineyards ' 7:12<br />

LI. Springh ass prung '7:12, 13<br />

LII. Possession":I amm y beloved's" - cf. 7:10<br />

LIII. A'. EPILOGUE 8:5-14<br />

LIV. Scene Shift: Day-time at the edge of the wilderness - 8:5<br />

LV. Pattern: Lovers Apart - 8:5<br />

LVI. Longing - 8:6,7<br />

LVII. Lovers Together - 8:14<br />

LVIII. Motifs: Vineyard - 8:12<br />

LIX. Apple Tree - 8:5<br />

Song of Solomon refers to 15 geographical locations from<br />

Lebanon in the north to Egypt in the south.<br />

• Kedar (1:5)<br />

• Senir (4:8) Onde nascia o Rio Jordão!<br />

173


• Egypt (1:9)<br />

• Hermon (4:8)<br />

• En Gedi (1:14)<br />

• Tizrah (6:4)<br />

• Sharon (2:1)<br />

• Heshbon (7:4)<br />

• Jerusalem (2:7)<br />

• Damascus (7:4)<br />

• Lebanon (3:9)<br />

Lebanon<br />

174


-<br />

-<br />

-<br />

175


- -<br />

- -<br />

176


- -<br />

- -<br />

- -<br />

MONTE DE LEOPARDOS, Cnt. 4:8: Leopardo se traduce de la palabra hebrea<br />

namer que se<br />

deriva de una raíz que significa filtrar, ser limpio.<br />

MONTE DE MIRRA, Cnt. 4:6: Mirra se traduce de la palabra hebrea marar que<br />

significa<br />

amargura, angustia.<br />

MONTE GALAAD, Cnt. 4:1: Galaad significa región montañosa y se origina de<br />

Gal‘ed que significa testimonio acumulado.<br />

MONTE DE BETER, Cnt. 2:17: Beter significa divisible, división.<br />

177


• Carmel (7:5)<br />

• Mount Gilead (4:1)<br />

• Baal-Hamon (8:11)<br />

MONTE HERMON, Cnt. 4:8: Hermón significa un santuario<br />

178


Baal Hermon, Shirion, Sirion, Har Hermom. É a fronteira com o Libano<br />

Har Hermon, do hebraico, significa “Monte Sagrado”, completamente compatível com o<br />

“Monte Santo” citado por Pedro quando ele fala da Transfiguração. O Hermom, ponto<br />

culminante de Israel, fica no sul da cordilheira do Antilíbano, na fronteira de Israel com a<br />

Síria e o Líbano. Parte de sua encosta sul une-se às colinas de Golã. A importante elevação<br />

ganhou vários apeli<strong>dos</strong>, como “montanha das neves” ou “monte <strong>dos</strong> cabelos brancos”.<br />

Porém o mais conhecido é o de “Olhos de Israel”, pois, por ser bem alto, proporciona um<br />

mirante de onde sentinelas podiam ver à distância se algum exército inimigo se aproximava<br />

nos tempos bíblicos, como as Forças de Defesa de Israel fazem até hoje no chamado<br />

Mirante das Neves, a 2,2 mil metros de altura, de onde monitoram atividades na Síria e no<br />

Líbano. Hoje, a vista também é bastante apreciada por turistas em sua famosa estação de<br />

esqui.<br />

179


(...) “pois Ele recebeu, da parte de Deus Pai, honra e glória, quando pela Glória<br />

Excelsa Lhe foi enviada a seguinte voz: Este é o Meu Filho amado, em quem<br />

me comprazo.<br />

Ora, Esta voz, vinda do céu, nós a ouvimos quando<br />

estávamos com Ele no Monte Santo." – 2 Pedro 1:17-18<br />

• Amana (4:8)<br />

MONTE AMANA, Cnt. 4:8: Amana significa apoyo, constancia, perseverancia.<br />

Local onde era a nascente do rio Abana, em Damasco. O limpíssimo rio Abana.<br />

180


n “Shulamite” may have been derived from the town of<br />

Shunem, located southwest of the Sea of Galilee in<br />

the land assigned to Issachar.<br />

n 49 words appear in Song of Solomon that are not to be<br />

found any where else in the Bible<br />

A menção a Tirza em Ct 6,4 é interpretada, por J. Snaith e outros autores<br />

como um jogo de palavras constituído pela semelhança entre o termo tiretzah<br />

(“Tirza”) e o usado para beleza feminina rtzh370. No entanto, esta hipótese<br />

apresenta alguns problemas.<br />

A mesma expressão consonantal no Antigo Testamento, isto é, trtzh se<br />

repete nove vezes, das quais três denominam diretamente a cidade (Nm 36,11;<br />

Js 12:24; 1 Rs 16,17). Em outras quatro vezes (Lv 26,34; Dt 33,11; 1 Cr 29,17<br />

e Sl 51,18) trata-se da expressão tiretzêh que pode ser traduzida como “pagar,<br />

saldar, expiar (culpa); obter a restituição (<strong>dos</strong> sába<strong>dos</strong> cumpri<strong>dos</strong>)”371. É usada,<br />

duas vezes, entre os dez mandamentos com o sentido de “matar”. (Êx 20,13 e<br />

Dt 5,7), com uma composição consonantal e vocálica exatamente igual.<br />

} “love” There are several different words for “love” in Hebrew. They are all used in this<br />

book.<br />

1. The Book’s Structure Shows the Secrets of Romancing for Life<br />

It is written in a chiasm, which is a Hebrew poetry technique that rhymes ideas for<br />

emphasis.<br />

The chapters “rhyme” and parallel to point the reader to the central themes of the book.<br />

A. Home: Beginning of romance (Chapter 1)<br />

B. Developing love while dating (Chapter 2)<br />

181


C. Dream: Taking each other for granted in dating (Chapter 3)<br />

D. Wedding night (Chapter 4)<br />

C. Dream: Taking each other for granted in marriage (Chapter 5)<br />

B. Developing love in marriage (Chapter 6)<br />

A. Home: The lifelong romance (Chapter 7-8)<br />

1. A estrutura do livro mostra os segre<strong>dos</strong> de Romancing para a Vida<br />

Ele é escrito em um quiasma, que é uma técnica de poesia hebraica que rima idéias para dar<br />

ênfase.<br />

Os capítulos "rima" e paralelo para apontar o leitor aos temas centrais do livro.<br />

A. Início: Início de romance (Capítulo 1)<br />

B. Desenvolvimento de amor enquanto namoro (Capítulo 2)<br />

C. Dream: Tomando para si concedida em namoro (Capítulo 3)<br />

D. Noite de núpcias (Capítulo 4)<br />

C. Dream: Tomando para si concedida em casamento (Capítulo 5)<br />

B. Desenvolvimento de amor no casamento (capítulo 6)<br />

A. Home: O romantismo ao longo da vida (capítulo 7-8)<br />

"An ancient keyhole would form a large enough opening to<br />

place an adult's hand through because the key would be<br />

large."118 uh...<br />

A. This chapter has several commands and exhortations:<br />

1. “Kiss me,” v. 1, BDB 676, KB 730, Qal IMPERFECT, used in a JUSSIVE SENSE<br />

2. “Draw me after you,” v. 4, BDB 604, KB 645, Qal IMPERATIVE<br />

3. “Let us run together,” v. 4, BDB 930, KB 1207, Qal COHORTATIVE<br />

4. “We will rejoice,” v. 4, BDB 162, KB 189, Qal COHORTATIVE<br />

5. “Be glad,” v. 4, BDB 970, KB 1333, Qal COHORTATIVE<br />

6. “We will extol your love,” v. 4, BDB 269, KB 269, Hiphil COHORTATIVE<br />

7. “Do not stare at me,” v. 6, BDB 906, KB 1157, Qal IMPERFECT used in a JUSSIVE<br />

sense<br />

8. “Tell me,” v. 7, BDB 616, KB 665, Hiphil IMPERATIVE<br />

9. “Go forth,” v. 8, BDB 422, KB 425, Qal IMPERATIVE<br />

10. “pasture” (i.e. feed), v. 8, BDB 944, KB 1258, Qal IMPERATIVE<br />

gazelles and our inner life and our virtues, that is our behavior in Christ Jesus.<br />

In the book of Proverbs, the wife is compared to the gazelle and her children to the doe,<br />

being the image of the church, the true bride, the loving wife to her Bridegroom, full of<br />

grace.<br />

Therefore, it was said, "As a loving deer and a graceful doe…" (Prov. 5:19)<br />

Cidades<br />

A primeira cidade mencionada é Heshbon (hêshebôn). Em Js 21,38-39<br />

esta cidade é mencionada, junto com outras, como cidade refúgio para<br />

homicidas na tribo de Gade (cf, Js 13,25-26).<br />

Damasco, a segunda cidade citada no wasf da Sulamita, é a conhecida<br />

capital da Síria. Ela é nomeada como uma localidade distante que é vigiada a<br />

partir da chamada “torre do Líbano<br />

182


As jóias e Enfeites em CANTARES.<br />

É rica a ornamentação da moça, citada e elogiada por Salomão. Fruto de trabalho<br />

especializa<strong>dos</strong> de ourivesaria, joalheria, e diversos processos de fabricação envolvendo<br />

inclusive a fundição. O material era trabalhado por diversos artesãos que usavam<br />

instrumentos difíceis de fabricar. Imagine a arte da ourivesaria há milênios sem os recursos<br />

tecnológicos que hoje possuímos. As gemas vinham de minas subterrâneas, de lugares<br />

tenebrosos e escuros, escava<strong>dos</strong> por mineiros em situações de insalubridade que fariam um<br />

técnico de segurança da atualidade sofrer um enfarte do miocárdio. Os riscos nas minas<br />

eram tamanhos que a maior parte das gemas era escavada por escravos. Ainda é assim na<br />

escavação de minas de diamantes na africa, na aquisição e garimpo de ouro, como foi em<br />

serra-pelada. As pedras semipreciosas que compunham os braceletes, os anéis, colares e<br />

brincos vinham de diversos lugares da terra, importa<strong>dos</strong> de locais distantes. Parte das<br />

divindades da época era finamente ornada com tais jóias. As princesas e rainhas eram<br />

ricamente adornadas com jóias. Do mesmo modo que hoje, quanto mais rica, mais nobres,<br />

raras e preciosas as jóias. Existem hoje colares de milhões de dólares. Anéis de diamante<br />

que custam milhares de reais. Jóias que caracterizam a realeza britânica, as princesas e<br />

rainhas das monarquias da atualidade.<br />

O artesão mencionado no poema da dança da Sulamita (7,2b) é metaforicamente<br />

relacionado com “enfeites” (helá‘iym) que servem de imagem para ilustrar as curvas <strong>dos</strong><br />

quadris da dançarina. No livro do profeta Jeremias (10,9) a produção de enfeites por<br />

diversos tipos de artesãos também é vinculado aos cultos da fertilidade: “Seus ídolos não<br />

passam de prata laminada, importada de Tarsis, ouro de ufaz (záháb me’ûfáz), trabalhado<br />

pelo artista (hárash) e pel [a mão do] ourives (viydey tzôréf), revestido de púrpura (‘aregámán)<br />

violeta e vermelha. São apenas obras de artistas (hekámiyn)”381<br />

No poema da égua do faraó as bochechas são vistas “entre pingentes”, o pescoço “entre<br />

colares” (1,10). O “fio escarlate” (shániy), mencionado em 4,3, é também vinculado, em Êx<br />

26,1, ao “trabalho do artesão” (hosheb). Especialmente ilustrativa é a menção ao marfim<br />

(shén), em 5,14 e 7,5, já que este material foi uma marca reconhecida <strong>dos</strong> palácios da<br />

Samaria (6,4; cf. 1 Rs 17,1; 1 Rs 22,1-6). Enfim, o imaginário artesanal nos wasfs, poemas<br />

árabes, podem ser entendi<strong>dos</strong> como herdeiros desta tradição.<br />

IMPORTANTE<br />

As Escrituras se entrelaçam, to<strong>dos</strong> os seus livros, todas as passagens, formando um tecido<br />

multicolorido. Ela é como uma bandeira desfraldada tremulando ao vento, toda ela. Um<br />

boradado, uma obra de tecelação, como um tapete persa.<br />

183


Significa que necessito procurar as palavras e onde se aplicam, porque as citações de um<br />

vocábulo associam-no com eventos, com cenas, com significa<strong>dos</strong>. Se eu olho para um<br />

pedaço de um tapete, as linhas que possuem determinada cor seguem para formar uma<br />

figura. E as figuras se ajuntando forma um quadro, uma belíssima estampa.<br />

Cores, sentimentos, emoções, jóias, flores, árvores, roupas, não foram colocadas<br />

aleatoriamente pelo Perfeito Escritor nas Escrituras. Ele é um mago! o Espírito realiza<br />

magia quando escreve as Escrituras. (perceba que não tenho preconceito contra o<br />

termo mágico, mago ou magia – porém só o uso relacionado ao Espírito de Deus -)<br />

Dezenas de pessoas são o instrumento usado por Deus, que escreve a sua Palavra com a<br />

humanidade, com o choro, com o riso, com a alegria, com a dor. Sentimentos profun<strong>dos</strong>,<br />

sonhos. Amores. Mistura prosa, narrativa, descrição, crônicas, poesias, máximas,<br />

instruções, diálogos. A língua muda seus fonemas, a forma das letras (hebraico da<br />

antiguidade, paleo-hebraico, hebraico moderno), os sentimentos são entoa<strong>dos</strong> em forma de<br />

cânticos como em Samos. E a voz é a mesma, a essência é a mesma. É inacreditavelmente<br />

uma única grandiosa história, e os detalhes nos ajudam a compreender o todo.<br />

As jóias eram muitas vezes objetos sagra<strong>dos</strong> para muitos povos! E tão sagra<strong>dos</strong> que eram<br />

usa<strong>dos</strong> também como amuletos. E talismãs. Há uma pequena diferença entre o significado<br />

de amuleto e talismã. O amuleto era usado para proteção contra espíritos que intentavam<br />

fazer o mal. E o talismã para atrair espíritos que realizavam o bem. De onde vem o<br />

conceito de azar e sorte. Um para afastar coisas ruins e o outro para atrais coisas boas.<br />

Jóias eram assim usadas pela maioria das mulheres do mundo da antiguidade. Em israel<br />

perderam o vínculo mágico que possuíam nas demais culturas. Mas não perderam tal<br />

vínculo todas as jóias. A coroa ainda simbolizava autoridade concedida por meio da unção<br />

e era cheia de jóias. O sumo-sacerdote usava um peitoral denominado peitoral do juízo<br />

184


com doze pedras semipreciosas, e ele era absolutamente sagrado só usado em dias<br />

especiais.<br />

As safiras ou “lápis lazúli” (Ct 5,14) são muito mencionadas nos textos<br />

palacianos da fertilidade no Antigo Oriente. No Egito esta pedra é<br />

especialmente reverenciada. Na descrição do corpo do Deus Re, no mito da<br />

criação do ser humano, se afirma: “seus ossos eram de prata, sua carne de ouro,<br />

e seu cabelo de genuíno lápis lazúli"382. Outro texto que apresenta o drama de<br />

Osíris em Abi<strong>dos</strong>, onde o lápis lazúli aparece formando o enfeite da divindade:<br />

“Eu adornei o peito do Senhor de Aby<strong>dos</strong> com lápis lazúli e turquesa, ouro<br />

fino, e todas as mais custosas pedras que existem para adornar o corpo de um<br />

deus”383.<br />

Em Ugarite também se encontram descrições semelhantes, como a de Ludingir-<br />

185


a estudada por M. Civil e os textos sumério-acádicos estuda<strong>dos</strong><br />

Cooper, cujas conclusões foram registradas e discutidas por M. Pope. Cooper<br />

observou que os metais e pedras preciosas faziam parte <strong>dos</strong> ornamentos da<br />

Deusa Ishtar:<br />

Minha mãe é brilhante nos céus,<br />

Uma corça nas montanhas,<br />

Uma estrela da manha aparecendo ao meio dia,<br />

Preciosa cornalina, um topázio de Marhasi (...)<br />

Um bracelete de estanho (...)<br />

Uma peça brilhante de outro e prata (...)<br />

Uma estatueta de alabastro colocada em um pedestal de lápis-lazúli,<br />

Um bastão vivo de marfim; cujos braços foram rechea<strong>dos</strong> de encanto384.<br />

A discussão provocada pela observação de Cooper foi se estas imagens<br />

A linguagem militar em Cantares<br />

Waṣf is an ancient style of Arabic poetry. In waṣf love poems, each part of a lover's body is<br />

described and praised in turn, often using exotic, extravagant, or even far-fetched<br />

metaphors.<br />

. As imagens encontradas nestes poemas são:<br />

a. Os carros de guerra, no singular rêkêb (1,9).<br />

b. Torre (migedol), em 4,3 e 7,5, ou torres (migedelôt) com em 5,13.<br />

c. Estandartes (nidegálôt) como em 6,4.<br />

d. Esquadrão (‘êlêf), defesa (hamáén), escu<strong>dos</strong> (shileteiym) e guerreiros<br />

(gibôriym), todas em 4,4.<br />

Em Ne 5,5b há indicativos de abusos sexuais contra as moças pobres<br />

usando o termo hebraico koveshiym, que em Est 7,8 é usado como<br />

“violentar/forçar” sexualmente397. A violência sexual contra a mulher que busca<br />

seu amado pode estar presente na denúncia de Ct 5,7a: “Encontraram-me os<br />

guardas, bateram-me, feriram-me, tiraram o manto de sobre mim”. A venda<br />

das mulheres com finalidade sexual também parece ser denunciada na conjura:<br />

“não agiteis, não acordeis o amor até que deseje” (Ct 2,7;3,5;8,4) e<br />

396 Tradução própr ia.<br />

397 Rudi TÜNNERMANN – A reconstrução de Jerusalém, p.116 (nota de rodapé 107) .<br />

201<br />

especialmente no poema contra os irmãos, em 8,8-10. Esta advertência pode ser<br />

um convite à resistência contra a violência sexual ou a venda de jovens<br />

mulheres para saldar dívidas familiares.<br />

No entanto, especialmente com Esdras, parece que todas as mulheres que<br />

não faziam parte da “golah”, isto é, das famílias exiladas e repatriadas da<br />

Babilônia, eram consideradas “estrangeiras”441. Em Esd 10,11 a segregação se<br />

dirige a dois grupos: “os povos da terra” e “as mulheres estrangeiras”. T.<br />

Ezkenazi e E. Judd entendem que as mulheres banidas podiam também ter sido<br />

judaítas ou israelitas que não pertenciam às famílias da “golah” e que diferiam<br />

do grupo <strong>dos</strong> descendentes <strong>dos</strong> exila<strong>dos</strong> por diversas razões, inclusive por<br />

186


práticas religiosas (cf. Jr 52,16)442. Neste caso as mulheres banidas, quando<br />

naturais de Judá, podiam ser classificadas dentro <strong>dos</strong> “povos da terra”. Deve-se<br />

considerar que, de toda a população de Jerusalém na metade do século 5o,<br />

apenas dez por cento eram da “golah”, o que pode dar uma noção da dimensão<br />

da repressão perpetrada contra as mulheres e suas famílias nesta época443.<br />

O trabalho forçado nas vinhas (Ct 1,7 e 8,11-12) também pode ser<br />

compreendido neste mesmo contexto. Segundo indica a pesquisa de R.<br />

Tünnermann, na época de Neemias “o império ainda podia recrutar pessoas<br />

para trabalhos na agricultura ou nas construções”, assim os detentores das<br />

terra, isto é as famílias da golah, possivelmente chama<strong>dos</strong> de “filhos da minha<br />

mãe” em Ct 1,7, “ganhavam uma renda pela administração e repassavam ao rei<br />

o valor pelo arrendamento”. A moeda oficial para o pagamento deste<br />

“arrendamento” era uma moeda de ouro, chamada “dárico” sob Dario I sendo<br />

que as moedas locais eram de prata. Os valores <strong>dos</strong> arrendamentos passaram a<br />

serem calcula<strong>dos</strong> em moedas de prata444. Este contexto explica melhor do que<br />

nenhum outro o sentido da denúncia de Ct 8,11: “Havia uma vinha de Salomão,<br />

em Baal-Amon, deu a vinha para os cuidadores, cada um trazia pelo seu fruto<br />

mil pratas”.<br />

A denúncia de uma possível “venda” da irmã moça por parte do seus<br />

irmãos pode refletir à situação vivida pelas famílias empobrecidas no pósexílio<br />

persa. Para R. Tünnermann, algumas famílias se viram obrigadas a<br />

vender filhos e filhas como escravos. Em Ne 5,5b, segundo interpreta este<br />

autor, se “indica que muito provavelmente as moças eram abusadas<br />

sexualmente445.<br />

6:11-13 Verses 11-12 are probably the Shulammite's words. She had gone down to<br />

Solomon's garden (v. 2), more to see if his love for her was still in bloom,<br />

than to examine the natural foliage (v. 11). Immediately, because of his<br />

affirmation of his love (vv. 4-10), she felt elevated in her spirit, as though<br />

she were chief over all the 1,400 chariots in Solomon's great army (1<br />

Kings 10:26). Evidently, in her fantasy, she rode out of the garden in a<br />

chariot accompanied by Solomon. As she did, the people they passed<br />

called out to her to come back, so they might look on her beauty longer (v.<br />

13a). However, Solomon answered them, "Why should you gaze at the<br />

Shulammite as you do at the dance at Mahanaim?" Perhaps he was<br />

referring to a celebration held at that Transjordanian town that drew an<br />

especially large crowd of onlookers. However, we have no record that<br />

such an event took place there.<br />

C. THE WIFE'S INITIATIVE 7:11-13<br />

Secure in her love, the Shulammite now felt free to initiate sex directly, rather than<br />

indirectly as earlier (cf. 1:2a, 2:6). The references to spring suggest the freshness and<br />

vigor of love. Mandrakes were fruits that resembled small apples, and the roots possessed<br />

narcotic properties.131 They were traditionally aphrodisiacs (cf. Gen. 30:14-16).<br />

"The unusual shape of the large forked roots of the mandrake resembles<br />

the human body with extended arms and legs. This similarity gave rise to<br />

the popular superstition that the mandrake could induce conception and it<br />

was therefore used as a fertility drug."<br />

She asked to be his most valued possession; she wanted him to be jealous<br />

over her in the proper sense (cf. Prov. 6:34).<br />

187


"The word 'seal' (hotam) refers to an engraved stone used<br />

for authenticating a document or other possession. This<br />

could be suspended by a cord around the neck (over the<br />

heart) as in Genesis 38:18. The word hotam can also refer<br />

to a 'seal ring' worn on the hand (in Song of Songs 5:14<br />

'hand' is used to mean 'arm'). The hotam was something<br />

highly precious to the owner and could be used<br />

symbolically for a person whom one valued [cf. Jer. 22:24;<br />

Hag. 2:23]. . . . The bride was asking Solomon that he<br />

treasure her, that he regard her as a prized seal."134<br />

A. THE PAST 8:8-12<br />

8:8-9 These words by the Shulammite's older brothers (cf. 1:6) reveal their<br />

desire to prepare her for a proper marriage. Comparing her to a wall may<br />

mean that she might use self-restraint and exclude all unwarranted<br />

advances against her purity. If she behaved this way, her brothers would<br />

honor her by providing her with various adornments. However, if she<br />

proved susceptible to these advances, as an open door, they would have to<br />

guard her purity for her by keeping undesirable individuals from her.<br />

Palavras Chaves<br />

Amado (31 usos em 26 versos - <strong>Cantico</strong>s 1:13; 1:14; 1:16; 2:3; 2:8; 2:9; 2:10; 2:16; 2:17;<br />

4:16; 5:2; 5:4; 5:5; 5:6; 5:8; 5:9; 5:10; 5:16; 6:1; 6:2; 6:3; 7:9; 7:11; 7:13; 8:5; 8:14)<br />

Formosa (15 uses in 13 verses - Song 1:8; 1:15; 2:10; 2:13; 4:1; 4:7; 4:10; 5:9; 6:1; 6:4;<br />

6:10; 7:1; 7:6)<br />

Vem! (14 times in 9 verses - Song 2:10; 2:13; 4:2; 4:8; 4:16; 5:1; 6:6; 6:13; 7:11)<br />

Amada (9 uses in 9 verses - Song 1:9; 1:15; 2:2; 2:10; 2:13; 4:1; 4:7; 5:2; 6:4)<br />

Medo (in KJV) (11 times in 9 verses - Song 1:15; 1:16; 2:10; 2:13; 4:1; 4:7; 4:10; 6:10;<br />

7:6)<br />

Buscar (4 uses - Song 3:1; 3:2; 5:6; 5:8)<br />

Fruto (4 uses in 4 verses - Song 2:3; 7:8; 8:11; 8:12),<br />

Rei (5 times in 5 verses - Song 1:4; 1:12; 3:9; 3:11; 7:5)<br />

Amor (28 times in 25 verses {in every chapter!} - Song 1:2; 1:3; 1:4; 1:5; 1:7; 1:10; 2:4;<br />

2:5; 2:7; 2:14; 3:1; 3:2; 3:3; 3:4; 3:5; 4:3; 4:10; 5:1; 5:8; 6:4; 7:6; 7:12; 8:4; 8:6; 8:7)<br />

Salomão (5 times in 5 verses - Song 1:5; 3:9; 3:11; 8:11; 8:12)<br />

Vinha (9 times in 6 verses - Song 1:6; 1:14; 2:15; 7:12; 8:11; 8:12)<br />

188


ESBOÇO DO LIVRO<br />

I. Cenas de abertura 1.1-2.7<br />

Lembrando o amor do rei de bom nome 1.1-4<br />

A morena e agradável guarda de vinhas 1.5,6<br />

Procurando amor nas pisadas do rebanho 1.7,8<br />

Removendo as marcas da escravidão 1.9-11<br />

A linguagem do amor 1.12-17<br />

O espírito e a árvore 2.1-6<br />

A primeira súplica 2.7<br />

II. A busca por abertura 2.8-3.5<br />

Começando a busca 2.8-15<br />

A alegria do amor no frescor do dia 2.16,17<br />

A procura determinada pelo objetivo principal 3.1-4<br />

A segunda súplica 3.5<br />

III. A busca por mutualidade 3.6-5.8<br />

A carruagem matrimonial real do amor da aliança 3.6-11<br />

Conhecendo Sulamita 4.1-7<br />

Uma visão sobre a terra de cima do monte Hermom 4.8<br />

Uma vida de união íntima num banquete no jardim 4.9-5.1<br />

A queda da Sulamita 5.2-7<br />

A terceira súplica 5.8<br />

IV. A busca por unidade 5.9 –8.4<br />

Conhecendo Salomão 5.9-6.3<br />

A glória triunfante da Sulamita 6.4-10<br />

O nobre povo da Sulamita 6.11-12<br />

A dança memorial de Maanaim 6.13-7.9<br />

O início do novo amor de iguais 7.9 –8.3<br />

A quarta súplica 8.4<br />

V. Últimas cenas com resumo de realizações 8.5-14<br />

Alcançando o objetivo principal 8.5<br />

Alcançando o amor autêntico 8.6,7<br />

Alcançando a maternidade e a paz 8.8-10<br />

189


Obtendo uma vinha igual a de Salomão 8.11-12<br />

Obtendo a herança 8.13-14<br />

Cântico <strong>dos</strong> cânticos<br />

(tradução João F. Almeida Corr.e Revis., Fiel)<br />

190


Capítulo 1 O Encontro<br />

1. O banquete<br />

2. {The Shulamite}<br />

‏ׁשיר הׁשירים אׁש ר לׁשלמה׃ .3 1:1<br />

4. Shir hashirim asher liShlomo:<br />

1 Cântico <strong>dos</strong> cânticos, que é de Salomão.<br />

Salomão, Shelomo, paz, aquele que cuja natureza é pacífica. Ele simboliza a pessoa do<br />

Espírito, assim como Davi simboliza a pessoa de Cristo. O Espírito é chamado de Espírito<br />

de sabedoria. Salomão lembra e guarda a sua maior criação, sua mais bela canção. A<br />

melodia original de Cantares se perdeu, embora muitos estudiosos tenham visto nos sinais<br />

musicais ao lado do texto E o Espírito Santo narra seu mais profundo cântico. Derrama<br />

seus mais profun<strong>dos</strong> pensamentos e sentimentos nesse cântico em que empresta toda a<br />

beleza de seus sonhos, toda a poesia de seu coração, para narrar a mais importante, a mais<br />

memorável, a mais transcendente história de amor de sua existência eterna.<br />

191


יׁשקני מנׁשיקות פיהו כי־טובים דדיך מיין׃ 1:2<br />

Yishakeni minshikot pihu ki-tovim dodeikha miyayin:<br />

Beije-me ele com os beijos da sua boca; porque melhor é o teu amor do que o<br />

vinho.<br />

A menina recebeu de sopetão um beijo de um jovem rei apaixonado. Estava embriagada<br />

ainda pelo excesso de vinho da festa de Benjamim e até da vinha que deveria estar<br />

guardando... das raposinhas.<br />

A Sunamita é aquela moça de caráter esplendido que tipifica a amada de Cristo, a igreja que<br />

considera a intimidade com Cristo uma das coisas mais preciosas que já provou. É o inicio<br />

de uma vida maravilhosa, quando Cristo desfila seus sinais e prodígios diante de uma<br />

humanidade deslumbrada com sua tremenda glória. A boca desde a antiguidade é um<br />

símbolo para falar de voz. Da palavra. Sua palavra é apaixonante. Maravilhante.<br />

Transformadora. Num determinado contexto, esse amor que a Sunamita sente é melhor<br />

que o mundo que festeja as festividades da primavera, as celebrações do vinho, da alaegria e<br />

da colheita. Essa é a cena de Jesus na mesma festa mil anos depois quando no dia de maior<br />

alegria e embriaguez, no dia das mais intensas danças e <strong>dos</strong> mais apaixona<strong>dos</strong> cânticos,<br />

grita em João 7:<br />

“quem tem sede, venha a mim e beba!”<br />

A Sunamita fica deslumbrada. O primeiro beijo foi arrebatador.<br />

192


A festa parou no dia em que Jesus gritou. Até os bêba<strong>dos</strong> ficaram sóbrios. O impacto é tão<br />

violento que mudou a dinâmica da festa. No mesmo instante em que Jesus gritou, alguns<br />

solda<strong>dos</strong> romanos haviam sido envia<strong>dos</strong> para prende-lo, E retornam de mãos vazias.<br />

Quando interroga<strong>dos</strong> sobre o fracasso de sua missão tudo o que conseguem expressar é:<br />

“Nunca homem nenhum falou como aquele homem!”<br />

Havia mais poder embriagante na palavra ungida de Cristo do que todo o vinho da festa<br />

que acontecia.<br />

Para muitos este é o instante em que seus olhos são abertos para entenderem quem é Jesus.<br />

Quando os olhos se abrem para entender sua Soberania, seu reino, sua eternidade, seu<br />

Poder e sua realidade. Quando os olhos se abrem para compreender que ele é o Dono de<br />

todas as coisas e que a visão de Apocalipse, quando João o enxerga com olhos de chama de<br />

fogo e CABELOS BRANCOS COMO A NEVE é só o eco de “Este é meu filho Amado,<br />

a Ele eu ouvi” quando Jesus é transfigurado sobre o BAAL-HERMOM, sobre o har<br />

Hermom, a montanha sagrada eternamente coberta pela neve cujo apelido é “cabelos<br />

brancos”. Há um momento em que uma paixão se inicia. Esse momento é distinto para<br />

muitos casais, mas a partir dele ambos passam a estar uni<strong>dos</strong> em seus pensamentos.<br />

Carregam dentro de si a pessoa amada, a pessoa querida, ela é pensada e repensada,<br />

imaginada, lembrada, torna-se o refrão de uma musica impossível de ser esquecida. Passa a<br />

ser desejada como um sonho, e o afastamento já não é uma opção prazeirosa. O encontro<br />

e do despertar a fé na pessoa de Cristo produz em nós emoções profundas. Suas palavras<br />

reverberam vida, suas obras e atitudes nos trazem intima alegria. E surge a necessidade que<br />

antes não existia de termos comunhão com ele. Amar a Cristo não é amar uma história,<br />

uma carta ou abraçar uma fé. Ressurreto <strong>dos</strong> mortos e assentado a direita do Pai, numa<br />

dimensão invisível está o Amado. E por ser vivo e ter poder para tal pode comunicar-se,<br />

revelar-se, manifestar-se, tornar-se presente e interagir conosco espiritualmente. Ele pode<br />

encher-nos de sua paz, pode compartilhar a sua alegria. Pode conceder-nos sentir o amor<br />

com que nos ama. Esse mistério é denominado “comunhão”.<br />

לריח ‏ׁשמניך טובים ‏ׁשמן תורק ‏ׁשמך על־כן עלמות אהבוך׃ 1:3<br />

Lereiakh shemaneikha tovim shemen turak shemekha al-ken alamot ahevukha:<br />

Suave é o aroma <strong>dos</strong> teus ungüentos; como o ungüento derramado é o teu<br />

nome; por isso as virgens te amam.<br />

Unguento era o uma mistura de ervas que eram utilizadas para cura de feridas. Há um jogo<br />

com as palavras unguento e nome, possuem uma sonoridade próxima sem, shem, e a raiz<br />

de onde vem Semente. O nome de Jesus é como um bálsamo que foi dado para curar<br />

feridas que o mundo e o inferno causaram. Ele é revestido de um poder sobrenatural<br />

capaz de curar as feridas da alma, do coração e mesmo físicas. A Igreja <strong>dos</strong> primeiros dias<br />

invocava o poder do Nome, a Autoridade que havia no nome, de modo que Pedro para<br />

diante de um paralítico diante do templo, que lhe pede esmola e lhe declara: dinheiro eu<br />

não possuo. Mas tenho algo muito mais PRECIOSO. Porque o unguento da antiguidade<br />

era uma coisa muito cara, rara, preparada em lugares especiais, segundo técnicas que eram<br />

passadas somente às famílias médicas que os preparavam. Pedro cheio de “unguento” ou<br />

completamente cheio de fé na Autoridade da SEMENTE declara: Em NOME de JESUS,<br />

levanta e anda! E a Autoridade escondida no nome, assim como o poder de vida escondido<br />

na semente, faz germinar uma fé sobrenatural no coração do paralítico e este é curado<br />

imediatamente.<br />

193


מׁשכני אחריך נרוצה הביאני המלך חדריו נגילה ונׂשמחה בך נזכירה דדיך מיין מיׁשרים אהבוך׃‎1:4‎<br />

Mashkheni akhareikha narutza heviani hamelekhkha darav nagila venismekha bakh<br />

nazkirah dodeikha miyayin meisharim ahevukha:<br />

Filhas de Jerusalém: Leva-me tu; correremos após ti.<br />

Sunamita: O rei me introduziu nas suas cámaras;<br />

Filhas de Jerusalém: em ti nos regozijaremos e nos alegraremos; do teu amor nos<br />

lembraremos, mais do que do vinho;<br />

Sunamita: os retos te amam.<br />

‏ׁשחורה אני ונאוה בנות ירוׁשלם כאהלי קדר כיריעות ‏ׁשלמה ׃ 1:5<br />

Shekhorah ani venavah benot Yerushalayim keaholei kedar kiriot Shelomo:<br />

I [am] black, but lovely, ye Daughters of Yerushalayim, as the tents of Kedar, as<br />

the curtains of Shlomo.<br />

Eu sou morena, porém formosa, ó filhas de Jerusalém, como as tendas de Quedar, como as<br />

cortinas de Salomão.<br />

אל־תראוני ‏ׁשאני ‏ׁשחרחרת ‏ׁשׁשזפתני הׁשמׁש בני אמי נחרו־בי ‏ׂשמני נטרה את־הכרמים כרמי 1:6<br />

‏ׁשלי לא נטרתי׃<br />

Al- tiruni sheani shekharkhoret sheshezafatni hashamesh benei imi nikharu – vi<br />

samuni noterah et-hakeramim karmi sheli lo natarti:<br />

{to her beloved - Shephard}<br />

194


Não olheis para o eu ser morena; porque o sol resplandeceu sobre mim; os filhos de minha<br />

mãe indignaram-se contra mim, puseram-me por guarda das vinhas; a minha vinha, porém,<br />

não guardei.<br />

São ínumeras dimensões da Sunamita. Uma é a identidade da própria moça. Outro é a<br />

representação da comunidade judaica, em relação ao seu passado, a lembrança da<br />

escravidão no Egito. E a que desenvolvo nesse verso é a a da universal assembléia, da<br />

Igreja sem restrição de raça, tribo ou nação. Que vou denominar por simplificação de<br />

gentílica.<br />

Nossos agradecimentos a Deepika Padukone...<br />

...sem a qual...<br />

...o estudo bíblico deste verso<br />

...não seria<br />

...o mesmo...<br />

195


Na Índia a tonalidade branca da pele feminina ainda é valorizada em muitas regiões. Na<br />

antiguidade as mulheres de tez branca gozavam de prestígio também. A maioria das moças<br />

de famílias menos abastadas eram invariavelmente morenas. Quanto mais escura a pele<br />

196


mais ela aproximava-se de pertencer a uma descendência que traria à memória: povos<br />

conquista<strong>dos</strong>, diversas tribos nômades do deserto. Certamente traria à memória duras<br />

condições do deserto. Lembraria ao sol escaldante, ao calor, lembraria duras condições de<br />

vida das moças morenas, castigadas pelo sol, numa sociedade em que tinham que realizar<br />

muitas atividades sob o sol, tais como cuidar de crianças, carregar água, lavar roupa. Isso as<br />

envelhecia antes do tempo. O pano de fundo do cântico <strong>dos</strong> cânticos é a sociedade pastoril<br />

israelita, e os povos que habitam na terra que hoje denominamos oriente médio.<br />

A moça de Cantares de Salomão possui um trunfo que a torna superior a todas as questões<br />

culturais que envolvem sua situação.<br />

Ela é linda.<br />

Ela reconhece sem parcimônia que é formosa ao extremo. Tão bela de corpo que as moças<br />

da cidade olham com inveja para ela. Ardem de inveja. E sem falsa modéstia diz que é<br />

maravilhosa. Que não seria a cor de sua pele que diminuiria a beleza que reconhecia que<br />

tinha e que lhe tornava tão esplendida como as mais belas tendas das tribos de Cedar. Ela<br />

que é morena de nascimento trata com desdém a quem a desdenha. Seus irmãos invejosos<br />

a colocaram para tomar conta de uma vinha, serviço de homens, perigoso, e ela zomba das<br />

que a tratam mal dando uma desculpa esfarrapada a respeito de sua cor. A ultima frase ecoa<br />

um sentimento de perda. Forçada a trabalhar nas vinhas alheias, de quem não teve<br />

responsabilidade, acabou por perder o cuidado com a que lhe pertencia. A moça de beleza<br />

sem par é parte de um poema de amor composto a quatro mãos. É um dueto da alma<br />

humana e do coração divino. O Espírito Santo inspira o amor apaixonado e nele celebra<br />

igualmente seu amor por nós. Pelo ser humano. Pelo mundo. E pela amada por quem se<br />

apaixonou a quem chama de Igreja. Sua Igreja. A Igreja é a soma <strong>dos</strong> que amam ao Espírito<br />

de Deus, daqueles que o recebem e permitem serem transforma<strong>dos</strong> por ele. Que amam o<br />

que ele falou, sua carta escrita ao coração <strong>dos</strong> homens, as Escrituras.<br />

A mulher que foi desprezada pelas filhas de Jerusalém sabe o quanto é formosa. As filhas<br />

de Jerusalém são as filhas <strong>dos</strong> nobres, <strong>dos</strong> principes e da realeza; são filhas de mercadores e<br />

de sacerdotes.<br />

197


Pertenciam ao lugar mais caro para se morar na terra santa. E era caríssimo morar ali, desde<br />

a antiguidade. Ali habitavam os músicos e a corte de Salomão.<br />

As filhas de Jerusalém retratadas no poema são soberbas, altivas, criam estar acima de todas<br />

as outras mulheres.<br />

Elas nos lembram, neste instante ao menos, aos ricos do mundo, aos políticos que ao<br />

assumirem seus cargos usam ao poder como um escudo, aos religiosos que proclamam<br />

uma vida que não possuem, aos intelectuais e seu desprezo por Deus e pela extrema beleza<br />

espiritual da igreja que ama a Cristo. Estes últimos riem da busca da pureza, da necessidade<br />

da santidade, do chamado ao arrependimento pelos peca<strong>dos</strong>. Eles desprezam a necessidade<br />

de Deus, e olham para os que anseiam pela eternidade e pelo Reino <strong>dos</strong> Céus com<br />

tremendo desdém.<br />

A Igreja gentílica, nascida da antiquíssima promessa dada a Abraão " Em ti serão benditas<br />

todas as famílias da terra" foi desprezada pelos irmãos mais velhos. Os judeus perderam a<br />

universalidade do evangelho a eles confiado e advogaram somente para si uma promessa<br />

que pertencia a to<strong>dos</strong>. Trataram a irmã mais nova como um serviçal. Entenderam a si como<br />

herdeiros e não entenderam que ela era dona de direitos que não podiam ter negado. A<br />

igreja gentílica vem de homens e mulheres de toda a terra que viram seu mundo espiritual<br />

ruir. As nações não guardaram as antigas visões ou revelações dadas por Deus. Elas<br />

transformaram as palavras de seus profetas em imagens de animais e diante delas se<br />

encurvaram. As nações adoraram a deuses que não eram deuses. A vinha que lhe pertencia<br />

ela não guardou.<br />

198


Mas algo mudou nessa moça atrevida. Ela tem um olhar diferente, uma postura diferente.<br />

A Igreja de Cristo sabe que sua herança espiritual a torna tão formosa aos olhos de Deus<br />

como os pavilhões de Salomão! Mas Salomão não habitava uma tenda. Pavilhão é o espaço<br />

coberto interior ou exterior de uma tenda. Ou um amplo salão de uma construção.<br />

199


200


A moça se compara à casa com gigantescos salões, a fabulosa casa do bosque, a casa que<br />

Salomão construiu para si feita de madeira de cedro do Líbano.<br />

E ao mesmo tempo aos pavilhões do templo de Salomão. Ela é tão formosa quanto o mais<br />

sagrado templo construido na terra.<br />

201


Cedar (Quedar) era uma antiga região da arábia, significa "cedro", uma região onde<br />

deveriam haver bosques fron<strong>dos</strong>os de árvores de cedros. Os Cedros permanecem verdes<br />

durante todas as estações. Numa padraria coberta de neve eles se destacariam como as<br />

únicas árvores verdes. Ela irrita as filhas de Jerusalém com a suprema ousadia,<br />

comparando-se ao mesmo tempo com as tendas <strong>dos</strong> árabes que descendem de Ismael e<br />

com aquilo que elas consideram mais sagrado na capital de Israel, ao templo.<br />

Ismael era filho que Abraão teve de uma escrava, Hagar. Hagar foi expulsa de casa por sua<br />

senhora, Sara, esposa de Abraão. Vagando no deserto da arábia ela se aproxima do bosque<br />

de cedros sem provisões, sem destino e sem condições de alimentar a crainça que agora<br />

desfalece sobre uma rocha próximo a Cedar. Hagar se afasta para não ver o jovem morrer.<br />

Então um anjo aparece a jovem escrava e lhe provê as condições de sobrevivencia para ela<br />

e seu filho. E ainda lhe concede uma promessa. Da promessa concedida a Hagar hoje<br />

temos o mundo árabe (em árabe: عرب ي ال عال م ‏,ال transl. al-'Alam al-'Arabi), relativo ao<br />

conjunto de países que falam o árabe e se distribuem, geograficamente, do oceano<br />

Atlântico, a oeste, até o mar Arábico, a leste, e do mar Mediterrâneo, a norte do Corno de<br />

África, até o nordeste do oceano Índico. É constituído por 22 países e territórios com uma<br />

população combinada de 360 milhões de pessoas abrangendo o Norte de África e a Ásia<br />

Ocidental.<br />

202


Eu sou tão bela quanto as tendas de Hagar! Aquela escrava que os vossos pais<br />

desprezaram... Eu sou tão linda como as tribos de Ismael!<br />

Eu sou árabe (calma judeu messiânico!) e formosa como o templo de Salomão!<br />

Quando Cristo anunciava o evangelho os escribas saduceus e os fariseus cheios de orgulho<br />

e desprezando até onde puderam o que ele lhes ensinava perguntavam-lhe:<br />

- Quem te deu tal autoridade? Porque imaginavam-se como sendo os únicos que tinham o<br />

direito de falar e ensinar sobre as coisas contidas nas Escrituras. Imaginavam como<br />

legítimos intépretes da Lei e viam a si mesmos como representantes oficiais de Moisés.<br />

Logo após a ressurreição de Cristo a Igreja anuncia o evangelho e relê as profecias do<br />

Velho Testamento e grita que tem direito as promessas dadas aso judeus, manifestando a<br />

presença divina de tal modo que nela há profetas, visões, revelações, visitações angelicais e<br />

toda sorte de milagres como os judeus só conheciam ao ler as antigas páginas do canon<br />

hebraico.<br />

Quem deu a Cristo a sua Autoridade é o mesmo que inspirou as formas do templo de<br />

Salomão. Uma noite a três mil anos atrás Davi, pai de Salomão o chamou e abriu diante de<br />

seus olhos a planta de uma magnifico edificio. Um edifício que fora sendo-lhe inspirado<br />

gradativamente e que planejara construir. A planta do prédio fora concedida a ele como<br />

uma revelação é dada a um profeta. Os planos não vieram de sua mente. Davi acumulou<br />

materiais para o projeto por cerca de 14 anos. Antes de morrer ele passou os desenhos para<br />

seu filho Salomão que levou sete anos para edificá-lo.<br />

A igreja possui a beleza do ministério do Espírito Santo, de múltiplas formas, concedendolhe<br />

uma imagem tão bela quanto os pavilhões do templo mais belo que já existiu. Ela é<br />

estrangeira mas é adornada com graça e unção, ela ora com convicção e fé ela adora com<br />

emoção e sinceridade.<br />

203


204


(nossos agradecimentos aos pais d Padukone)<br />

הגידה לי ‏ׁשאהבה נפׁשי איכה תרעה איכה תרביץ בצהרים ‏ׁשלמה אהיה כעטיה ע ל עדרי חבריך׃ 1:7<br />

Hagidah li sheahava nafshiei khatir eeikha tarbitz batzahorayim shalama ehye<br />

keotyah al edrei khavereikha:<br />

Tell me, O thou whom my soul loves, where thou feed, where you make your flock<br />

to rest at noon: for why should I be as one that turns aside by the flocks of thy<br />

companions?<br />

Dize-me, ó tu, a quem ama a minha alma: Onde apascentas o teu rebanho, onde o fazes<br />

descansar ao meio-dia; pois por que razão seria eu como a que anda errante junto aos<br />

rebanhos de teus companheiros?<br />

אם־לא תדעי לך היפה בנׁשים צאי־לך בעקבי הצאן ורעי את־גדיתיך על מׁשכנות הרעים׃ 1:8<br />

Im-lo tedi lakh hayafah banashim tzei-lakh beikvei hatzon urei et-gediyotayikh al<br />

mishkenot haroim: If thou know not, O thou fairest among women, go thy way<br />

forth by the footsteps of the flock, and feed thy kids beside the shepherds' tents.<br />

Se tu não o sabes, ó mais formosa entre as mulheres, sai-te pelas pisadas do rebanho, e<br />

apascenta as tuas cabras junto às moradas <strong>dos</strong> pastores.<br />

A moça foi procurar a Salomão que estava disfarçado de pastor. E não perde seu tempo.<br />

De alguma maneira ela encontrou algum grupo de cabritos e para se aproximar sem<br />

levantar suspeitas do grupo de pastores vai arrastando com certa dificuldade o grupo de<br />

animais, fingindo ser pastora. Uma engraçadíssima cena. Para não levantar suspeitas de sua<br />

verdadeira intenção. Então ela o avista. E mais uma vez perde arespiração e<br />

205


OUSADAMENTE ela é que lhe dá uma cantada! Onde você está indo, me leva! Eu não<br />

quero mais ninguém (porque seria eu ‘como a que anda errante” junto ao rebanho de teus<br />

companheiros). Não quero andar “errante”. Porque com você...eu me encontrei! Não<br />

tenho que correr atrás de mais ninguém. Onde você vai estar “descansando” para que ali<br />

eu possa “descansar” também?<br />

Uma belíssima parábola do amor da Igreja por Cristo. Lembra a ousadia da moça que vai<br />

empurrando a multidão para tocar as vestes de Jesus, da outra que para toda a multidão que<br />

segue a Jesus com seus gritos e que é convocada as pressas pelos discípulos e mesmo<br />

destratada por Jesus não permite que ele continue seu caminho sem atende-la, fazendo os<br />

olhos de Jesus brilharem de alegria com sua fé desmedida e ousada:<br />

- Mulher! Grande é a tua fé! Nem emsmo em Israel encontre uma fé como a tua!<br />

A menina é ousada. Ousada como Jesus espera que a Igreja seja para com as coisas<br />

celestiais. Paulo, apóstolo, rabino, mestre, reivindica: “tendo pois ousadia entremos dinate<br />

do trono de Deus!<br />

Ela anseia conhece-lo! Saber o que vai fazer enquanto há luz. Ela não quer perder-se! O<br />

coração da igreja fiel não anseia um evangelho qualquer. Uma revelação qualquer. Uma<br />

direção que a distancie do amor de Cristo. Não quer andar errante. Como tantos estão.<br />

Milhares de igrejas caminham sem nehuma orientação divina, desviando-se, errante,<br />

porque não segue os conselhos do Senhor:<br />

Aquele que tem ouvi<strong>dos</strong> ouça o que o espírito hoje diz ás igrejas.<br />

“porque seria eu como a que CAMINHA errante”<br />

Andar é um símbolo nas Escrituras, Salmos exorta: “Bem-aventurado aquele que não<br />

ANDA no caminho <strong>dos</strong> pecadores e nem se ASSENTA na roda <strong>dos</strong> escarnecedores”.<br />

A menina não quer andar perdida. Ela não anseia PERDER-SE. Ela não quer errar o<br />

caminho.<br />

Vivemos hoje num mundo de controvérsias, de milhares de doutrinas julgadas bíblicas,<br />

movimentos espirituais falsifica<strong>dos</strong>.<br />

Ontem ouvia a rádio (01/julho/2014) e alguém falava a respeito de uma “substancia”<br />

exatamente usando o termo “substancia” a ser misturada ao “sangue do cordeiro” para<br />

libertação de vícios. A rádio fm, ao menos no RJ, protagoniza um assassinato da<br />

interpretação bíblica, que chega a ser dolorosa. Dezenas de pregadores que desconhecem a<br />

beleza e a profundidade das Escrituras, palestrando sobre coisa alguma. O nada é nada não<br />

importa se veio da boca de um Querubim ou da minha. Porcaria é sempre porcaria. Lixo<br />

espiritual é sempre lixo. Imagina-se que se um sujeito diz que recebeu uma visão dada por<br />

um anjo em meio a pelo menos uma miríade de anjos, essa tal palavra, escrita em papel<br />

celestial, seja algo maravilhoso. Se não é, não importa o pacote. O falso profeta parece um<br />

bruxo. Ele ameaça até arrancar o seu nome do livro da vida se você não crer no que ele<br />

fala. E se a porcaria que ele fala é lixo, sem sentindo, destituída de qualquer coisa nova,<br />

uma REPETIÇÃO de algo que uma criança de 6 anos aprende numa noite qualquer numa<br />

escola bíblica dominical, ele diz que você não compreendeu o mistério. O que é intrigante.<br />

A tal revelação parece morta, tá em putrefação, tá fedendo, tá de desfazendo e ele diz a<br />

coisa que ele está trazendo da parte de Deus, está viva! E se você diz que não, ele te<br />

condena ao inferno.<br />

A Sunamita não deseja andar errante. Ela quer ouvir a voz de seu amado e ir descansar em<br />

seus braços. Não quer uma interpretação expuria, pobre, inexata, um evangelho que a<br />

confunda. Que a deprima.<br />

Um <strong>dos</strong> anseios do coração da Igreja é ACERTAR. É saber o que está fazendo, é orientarse<br />

corretamente! A voz do Espírito é essencial para que ela não se perca. Para que ela não<br />

206


vá parar num lugar que pregue um “outro” evangelho. Para não se tornar como a Igreja de<br />

Laodicéia. Pobre, miserável, cega e nua. No final deste estudo tem uma visão mais<br />

abrangente sobre as duas faces de Laodicéia.<br />

Neste momento vemos que a moça está acompanhada de um grupinho de cabritos. Gente!<br />

Onde ela arranjou esses cabritos? Salomão sabe quem ela é. É tudo uma armação. Ele<br />

montou a cena, ele está atuando e não perde a chance e as portas abertas e manifestas do<br />

amor da bela moça. Nem pisca, a resposta é imediata. “mais formosa entre as mulheres” é<br />

mais que um elogio. É assim que ele a enxerga. É assim que ela o impacta, é assim que ele<br />

enxerga do balançar <strong>dos</strong> seus cabelos ao modo como ela caminha. Salomão possui dois<br />

cuida<strong>dos</strong>, o primeiro é se afastar <strong>dos</strong> outros pastores num lugar em que possa ficar a sós<br />

com a moça. O segundo é que ele não quer que ela SE PERCA. Ele não cita um lugar<br />

desconhecido, distante demais, impossível de se acessar. Mas um caminho conhecido, com<br />

pistas á vista, de facílimo acesso. Um que mesmo uma “leiga” em atividades pastoris<br />

pudesse reconhecer e percorrer.<br />

Ele a chama de Formosa, que é a mesma designação dada a Raquel e a Ester, e ao próprio<br />

Messias que virá:<br />

Salmos<br />

45.2 Tu és o mais formoso <strong>dos</strong> filhos <strong>dos</strong> homens; nos teus lábios se extravasou a graça;<br />

por isso, Deus te abençoou para sempre.<br />

Salomão no futuro publicaria em Eclesiastes: “Tudo Deus fez formoso em seu tempo”<br />

Isaías relatará centenas de anos depois:<br />

52.7 Que formosos são sobre os montes os pés do que anuncia as boas-novas, que faz<br />

ouvir a paz, que anuncia coisas boas, que faz ouvir a salvação, que diz a Sião: O teu Deus<br />

reina!<br />

A beleza da moça o constrange. O conceito de formosura da antiguidade se estabelece por<br />

harmonia, graça, leveza, beleza, luminosidade e é parente do conceito de perfeição. Elas se<br />

misturam e completam. Inclusive uma PROFECIA ume os dois conceitos numa única<br />

visão:<br />

Ezq: 27.3<br />

3 e dize a Tiro, que habita na entrada do mar, e negocia com os povos em muitas ilhas:<br />

Assim diz o Senhor Deus: Ó Tiro, tu dizes: Eu sou perfeita em formosura.<br />

E<br />

Ezq 16.14<br />

14 Correu a tua fama entre as nações, por causa da tua beleza, pois era perfeita, graças<br />

ao esplendor que eu tinha posto sobre ti, diz o Senhor Deus.<br />

A Sunamita celestial, a Igreja universal de Cristo é de uma beleza única aos olhos do<br />

Espirito de Deus. Porque se vê refletido em seus atos de justiça, mansidão, paciência, amor<br />

não fingido, ternura, fé. A igreja é dentre a humanidade a parcela de homens e mulheres<br />

que se apaixonaram pelo Pastor Supremo, que ouviram sua voz e deixando para trás o<br />

207


mundo e tudo que nele há, o seguiram. Ela não compreende nenhum assunto desta<br />

existência como tão maravilhoso como o amor de Cristo. E por ter dele se aproximado foi<br />

transformada, recebeu um esplendor de justiça, foi feita morada de Deus, habitação do<br />

Espírito e em virtude disso, suas palavras e atitudes são diferentes. Ela não pragueja e nem<br />

amaldiçoa! Ela não deseja e nem planeja o mal. Ela anseia por não portar-se<br />

inconvenientemente. Essa idoneidade do coração <strong>dos</strong> separa<strong>dos</strong> é vista por Deus como<br />

algo de extrema beleza.<br />

Tito chama a lealdade, para com to<strong>dos</strong>, da Igreja de Cristo de “ornamentos da doutrina”<br />

10 nem defraudando, antes mostrando perfeita lealdade, para que em tudo sejam<br />

ornamento da doutrina de Deus nosso Salvador.<br />

Quando a Igreja vive a doutrina de Cristo é uma figura belíssima. Porque sua doutrina<br />

torna a humanidade belíssima aos olhos de Deus. Vivemos num mundo de políticos<br />

corruptos, de pastores que pastoreiam para si mesmos, numa realidade em que nos leva as<br />

portas do templo em Jerusalém quando um grupo de malfeitores se assenhorou do<br />

Sinédrio, quando o sacerdócio corrompido enche o templo de Jerusalém de vendilhões<br />

com intenso comércio <strong>dos</strong> animais que seriam necessários para as festas da páscoa,<br />

cobrando preços exorbitantes pelos animais que seriam sacrifica<strong>dos</strong>, inflaciona<strong>dos</strong> pela<br />

festa e pela ganancia. Os judeus eram quase que dirigi<strong>dos</strong> ao monopólio de animais que<br />

pertencia a família de Caifás para terem o que oferecer nos dias antecedentes ao Yok Pur, o<br />

dia da expiação nacional, que era encerrado solenemente pelo segundo sacrifício do<br />

cordeiro vespertino, exatamente as três horas da tarde.<br />

A beleza <strong>dos</strong> ministérios das igrejas é justamente medida pela idoneidade desse ministério.<br />

Como é feio um escândalo financeiro, moral. Como é feio um evangelho distorcido, uma<br />

manifestação espiritual falsificada. Como é feio quando profetas entregam profecias que<br />

não existem, contam visões que jamais tiveram e impõem à congregação obrigações<br />

espirituais as quais o Espírito Santo jamais ordenou.<br />

Politicos destroem seus nomes e sua carreira em busca de ganhos financeiros. A corrupção<br />

enfeia as cidades, a desonestidade desvia o dinheiro necessário para as reformas que trariam<br />

educação, cultura, emprego, prosperidade. A amargura humana, a maldade, a<br />

desonestidade, destroem a beleza que Deus anseia ver nos homens. O afastamento <strong>dos</strong><br />

ideais divinos, da compaixão; do amor não fingido; da amizade verdadeira e de to<strong>dos</strong> os<br />

caminhos agradáveis ao coração de Deus tornam ao ser humano, absurdamente feio.<br />

A Sunamita é abusivamente formosa e agradável a vista. È extremamente agradável<br />

contempla-la. Fitá-la. Olhar para seus passos, ve-la dançar, correr, rir, brincar.<br />

È assim que da eternidade Deus contemplou um grupo de pessoas que ouviria sua voz,<br />

infelizmente não to<strong>dos</strong>. Não que ele não os amasse. Não que não fosse da vontade divina<br />

que to<strong>dos</strong> fossem formosos como seu Jesus é a seus olhos.<br />

O contraste com a beleza é a imperfeição, o distorcido. O que não é agradável, o que não<br />

desejamos ver. O abominável.<br />

20 Abominação para o Senhor são os perversos de coração; mas os que são perfeitos em<br />

seu caminho são o seu deleite.<br />

E para que to<strong>dos</strong> fossem formosos, Deus concedeu-nos o Desejado das nações, o Messias,<br />

o Cristo, o seu único Filho. Concedendo-lhes um caminho fácil de ser encontrado<br />

:<br />

208


Como diz a versão de Welington (o sujeito que escreve este texto) de João 3:16<br />

Jo 3:16<br />

Porque Deus amou-nos de tal modo que enlouqueceu. Abraçando uma causa louca<br />

com coragem inadmissivel, lançando-se numa empreitada suicida, sob a égide de<br />

riscos incalculáveis, apoiando-se de modo inusitado na fragilidade da esperança<br />

humana dando ao homem o que tinha de mais absoluto dentro de si sua Vida, seu<br />

sonho, sua essencia, seu Filho Amado, tão precioso a si quanto o unico de sua<br />

espécie, Para que todo aquele que vier a nascer na terra e crer nesse ato impossivel<br />

da mais absurda viagem transcendental cheia de humilhação, tormento, loucura e<br />

confiança, já realizada com sucesso indescritivel, possa receber o direito inalienável<br />

de viver para toda a eternidade.<br />

Evangelho do apóstolo João, capitulo Terceiro, Décimo Sexto Versiculo.<br />

Ele amou a humanidade e a ela quis formosear. O que me lembra de como é abominável<br />

aos olhos de Cristo uma doutrina distorcida. O uso <strong>dos</strong> dons espirituais para domínio ou<br />

proveito próprio. O anuncio de falsos milagres. Salomão anseia a beleza de uma moça que<br />

não o busca por causa de sua riqueza. Por causa de sua glória. O Espírito de Deus anseia<br />

por corações que almejem a sua presença.<br />

E seu anuncio é um anuncio de Graça, de Favor. Salvação. Uma das preocupações de<br />

Salomão com a moça é que enquanto a orienta, enquanto a conduz para perto de si, ela<br />

NÃO SE PERCA.<br />

Porque é desejo dele que todo ser humano se salve. Não há e nunca houve em tempo<br />

algum algum grupo separado para a perdição. Jamais nasceu na terra um homem sem<br />

esperança dessa formosura.<br />

Basta seguir o caminho das ovelhas. O pastor oriental vai à frente do rebanho cantando, ou<br />

falando, ou citando o nome das ovelhas. Ele as chama, faz carinho nelas e segue em frente,<br />

e elas vão se guinado pela sua voz. O caminho das ovelhas é a participação da counhão<br />

com os irmãos, de sua alegria, de suas lutas. É aprender com a experiência, com o<br />

testemunho, com o aprendizado <strong>dos</strong> que já estão um pouco a frente. É o lugar onde a voz<br />

do Espírito Santo é ouvida. Se uma ovelha não ouvisse o grito do pastor, ela se dispersa, ela<br />

sai do caminho em busca dele! Pulpitos sem unção não norteiam ovelhas. Ensino sem<br />

base espiritual, sem profundidade não as mantém no caminho. Revelações sem sentido,<br />

sem verdade, sem discernimento espiritual não pode guiá-las! Exegese expuria,<br />

hermenêutica torta, meramente humana, palavras dadas fora de seu tempo.<br />

Uma das grandiosas lutas de to<strong>dos</strong> os pregadores é de serem porta-vozes de Deus. Eles<br />

anseiam falar palavras que o Espírito de Deus dirigirá à Igreja. Anseiam ser “canais” serem<br />

mensageiros <strong>dos</strong> desígnios divinos, ministros de um evangelho não contaminado, profundo<br />

e transformador. O efeito de uma pregação ungida, de uma meditação profunda, de uma<br />

palavra entregue no tempo e segundo a vontade de Deus, ou segundo uma revelação é algo<br />

extraordinário.<br />

A moça da canção se ‘disfarça’ de pastora. Mas é assim que O Espírito enxerga a Sunamita<br />

celestial. Pastoreando. Cristo chama a igreja para participar de seu pastorado. Para do<br />

209


mesmo modo aprender a cuidar de ovelhas, aprender a cuidar de vidas, a alimentar<br />

espiritualmente aos que se tornarem parte do rebanho, do mesmo modo que o pastor cuida<br />

e ama suas ovelhas.<br />

לססתי ברכבי פרעה דמיתיך רעיתי׃ .1 1:9<br />

2. Lesusati berikhvei Paroh dimitikh rayati:<br />

3. I have compared thee, O my love, to a mare of Pharaoh's chariots.<br />

As éguas <strong>dos</strong> carros de Faraó te comparo, ó minha querida.<br />

As éguas <strong>dos</strong> carros de Faraó.<br />

As éguas<br />

As variações básicas <strong>dos</strong> árabes puro sangue a entre muitas variações são o Muniqi,<br />

Saglawi, Abayyan e Kuhailan, to<strong>dos</strong> descendo do Kuhaylan, que significa "puro-sangue".<br />

Cada cepa apresentou características distintas, não há dúvida que o resultado das<br />

necessidades individuais ou tipo preferência <strong>dos</strong> membros da tribo. O cavalo árabe de hoje<br />

é um produto de cruzamento constante dessas cepas. Como nenhum indivíduo carrega o<br />

sangue de um único, não diluído. Isso não quer dizer que um árabe do deserto puro, não<br />

diluído. É aí que reside uma das principais diferenças entre o árabe egípcio e os de outras<br />

linhagens. Seus descendentes são um padrão internacional para a raça <strong>dos</strong> puros-sangue<br />

árabes.<br />

210


As éguas de faraó são animais de guerra. Usa<strong>dos</strong> por tribos árabes à milênios. As forças<br />

inglesas compreenderam que seria impossível combater aos árabes monta<strong>dos</strong> em purossangue.<br />

Dos primeiros cavalos documenta<strong>dos</strong> no Egito haviam se estabelecido como de maior<br />

importância. Eles foram ama<strong>dos</strong>, admira<strong>dos</strong> e queri<strong>dos</strong> da nobreza aos nômades do<br />

deserto. O Alcorão de Mohamed ensina que: "todo homem deve amar seu cavalo."<br />

Guerreiros beduínos monta<strong>dos</strong> em seus melhores cavalos árabes provaram serem<br />

invencíveis como a propagação de energia do Islã em todo o mundo civilizado. Ahmad Ibn<br />

Tuleu, (1193-1250), um cavaleiro extraordinário mameluco construíu jardins palacianos e<br />

um magnífico hipódromo para abrigar sua coleção de cavalos árabes escolhi<strong>dos</strong>. Os<br />

cavalos de Saladino impediram Ricardo Coração de Leão de conquistar ao Egito e foram<br />

sauda<strong>dos</strong> por Sir Walter Scott em The Talisman. "Desprezavam a areia atrás deles - pareciam<br />

devorar o deserto diante deles".<br />

Os carros de Faráo<br />

Somente 11 carruagens de faraós foram preservadas da antiguidade. Seis delas na tumba de<br />

Tuntankamon. Este rei é de aproximadamente 340 anos antes da época de Cantares (1.327<br />

ou 1.323 a.C.), então temos uma excelente base para comparação <strong>dos</strong> carros das dinastias<br />

egípcias posteriores.<br />

Os carros de faraó se dividiam em dois tipos, os de guerra/caça e os cerimoniais. Eles<br />

eram de exclusivo uso do faró e de sua familia. No carro de guerra havia as imagens no<br />

interior e no exterior, com asas da deusa Isis que segundo a mitologia egípcia protegia o<br />

corpo de seu marido Osíris <strong>dos</strong> ataques de uma outra divindade. Há neste carro uma<br />

representação do céu com um sinal que simbolizava as duas terras do Egito, e figuras de<br />

escravos que circudam as duas terras. O deus Horus do qual o faraó invocava sua<br />

sacendencia divina estava ali representado também. Com duas significativas inscrições: O<br />

grande Deus e Senhor <strong>dos</strong> céus.<br />

O falcão que representava Horus segurava um símbolo chamado shen que significava<br />

ETERNIDADE. Sob as figuras o nome de Faró e de sua esposa. Debaixo do nome de<br />

Faró o titulo: Imagem viva de Amom e Senhor da Existencia. Ao lado do nome de sua<br />

esposa: Aquela que vive para Amon.<br />

211


Depois a figura de um pássaro ( RKHYT) com as asas levantadas e o sina tb (to<strong>dos</strong>) Na<br />

frente do pássaro uma estrela. A cena inteira significava que todas as pessoas do Egito<br />

deveriam adorar ao rei que era ao mesmo tempo OSIRIS e 'TUTANKHAMUN'.<br />

Na parte inferior há uma representação do sinal SEMATAWY que se refere à unificação<br />

do Alto e do Baixo Egito, há também dois cativos emaranha<strong>dos</strong> dentro do sinal Sematawy.<br />

O segundo carro é decorado com padrões em espiral e esta é a principal diferença na<br />

decoração da estrutura destes dois carros. Ele é semelhante ao primeiro, porém o corpo<br />

inteiro é coberto com folhas de ouro e incrustada com pedras semi-preciosas.<br />

Seu nome em egípcio antigo foi wrrt ou mrkbt.<br />

O Carro de Tutankamon<br />

Após a reconstrução <strong>dos</strong> carros deste faraó, foi possível distinguir entre dois tipos<br />

diferentes de carros. Estes dois tipos são os seguintes:<br />

Estaduais ou cerimoniais<br />

De caça ou guerra.<br />

A carruagem cerimonial foi usada pelo rei durante as cerimônias ou ao visitar diferentes<br />

partes do país para verificar o seu povo. Temos cenas do reinado de Akhenaton<br />

representando o rei andava de carro seguido por outros carros que transportam sua esposa<br />

e filhas, eo resto de seus funcionários.<br />

Esses carros eram mais pesa<strong>dos</strong> do que os carros de guerra e foram incrusta<strong>dos</strong> com<br />

pedras semi-preciosas, ouro, prata e bronze e decorado com desenhos, altamente<br />

ornamentado. Estes carros não foram construí<strong>dos</strong> para serem velozes; Foram construí<strong>dos</strong><br />

para causar efeito. Também foram construí<strong>dos</strong> para o conforto com grandes guarda-chuvas<br />

anexa<strong>dos</strong> para oferecer sombra para aqueles que andavam neles.<br />

Salomão compara a moça a um <strong>dos</strong> mais cobiça<strong>dos</strong> bens de consumo de sua época. Um<br />

<strong>dos</strong> animais mais notáveis que a terra do Egito havia presenciado e cuja descendencia<br />

originaria toda a família de puro-sangues árabes da terra. Mas numa época em que ainda<br />

não havia mistura de raças, representam uma puríssima raça de cavalos, superiores às<br />

melhores raças que possuimos na atualidade. Cavalos ama<strong>dos</strong> por sua força, lealdade,<br />

beleza, habilidade e coragem. Não havia na época as questões éticas sobre ‘inferioridade’<br />

<strong>dos</strong> animais e da ‘supremacia’ do homem de tal modo que houvesse indignidade em ser<br />

chamado pelas virtudes <strong>dos</strong> animais. Até hoje possuimos adjetivos, ‘forte como um touro’,<br />

graciosa como uma ‘gazela’ rápido como um ‘guepardo’. Fiel como um ‘pombo’. A moça<br />

é elogiada de modo espetacular. E não é uma égua puro-sangue qualquer. Faz parte de um<br />

grupo <strong>dos</strong> mais seletos cavalos da terra, os mais puros, raros e caros cavalos de sua raça,<br />

que sãos certamente os reprodutores ou principais de sua linhagem, separa<strong>dos</strong> somente<br />

para uso do Faraó. Somente dele. Cavalos destina<strong>dos</strong> àquele que era considerado “Deus”<br />

na terra do Egito. E ainda associado a uma das obras de arte mais cobiçadas da<br />

antiguidade. Os carros de faraó. As éguas que puxavam o carro de faraó desfilavam<br />

constantemente pelas terras do egito sendo reverencia<strong>dos</strong> pela multidão. Era o faraó que<br />

era o supremo sacerdote da terra do egito e graindiosos cermoniais eram presidi<strong>dos</strong> por ele.<br />

Ele desfilaria com os mais belos cavalos que o mundo pode contemplar, num carro<br />

preciosíssimo, para realizar atos tais como invocar a cheia do Rio Nilo. Tudo em seu carro<br />

era representativo. Nele estava simbolizado, domínio, poder, autoridade, filiação divina,<br />

natureza divina e proteção do amor de uma esposa. Até no carro de faraó havia uma<br />

história de amor.<br />

212


A Sunamita era comparada a uma raça única, separada a serviço de um homem que era<br />

tratado como uma divindade. Uma moça pobre, serva, com roupas de uma pastora, cercada<br />

no meio de cabritos rouba<strong>dos</strong>, com a pele descascando de tanto sol, que foi forçada a adiar<br />

sua infancia e a colocar de lado sua adolescencia recebia queima-rosto simplesmente que<br />

era maravilhosa, corajosa, determinada, única, invejada, belíssima, forte, digna de estar<br />

desfilando diante de milhares de pessoas. Uma <strong>dos</strong> bens mais valiosos da terra. E que ele<br />

sabia de sua luta e de seu trabalho servil. Na carruagem de Faraó tinha pintado algiuns<br />

escravos. Ou seja, mesmo te tratando como uma escrava, observação ao detalhe, ele está<br />

disfarçado de pastor, como se fosse um homem igual a ela, um trabalhador. Ele diz que ela<br />

é algo que vai muito além de tudo que ele um dia imaginaria possuir. Uma égua de Faraó<br />

não possuia valor. Eram 7 vezes mais caras que o mais precioso cavalo da terra de todo<br />

Egito. E tá dando uma indireta. Desde a antiguidade é o pai que dá o dote da filha. Há um<br />

"preço" a ser pago pelo casamento dela. "ele sutilmente diz que é ele que está disposto a<br />

pagar o dote, mas que sabe que não possui os recursos porque para ele ,ela é de valor<br />

inigualável, acima de suas posses .<br />

Não é pouco elogio não.<br />

Não é pouco elogio não.<br />

Nunca em tempo algum em qualquer romance uma moça foi tão elogiada em tão poucas<br />

palavras. Lesusati berikhvei Paroh dimitikh rayati, foram QUATRO palavras em<br />

hebraico para dizer isso tudo!<br />

Se alguém algum dia questionou a sabedoria de Salomão, desafio a fazer o mesmo.<br />

É claro que com a ajuda do Espírito de Deus fazer poesia é um ato de suprema covardia.<br />

Deixando de lado as reclamações invejosas da minha parte, podemos ver a alta estima e como o<br />

Espírito de Deus vê sua mada, ou anseia ve-la. No carro do Faraó há a figura de uma<br />

deusa protegendo o corpo de seu amado!<br />

Na madrugada do domingo Maria irmã de Lázaro (posso ter errado de Maria) vai até o<br />

sepulcro para ungir o corpo de Jesus. Nardo ela tinha bastante. Quando chega lá se<br />

desespera ao ver que a pedra fora removida e (com certeza absoluta) ter entrado lá e<br />

vasculhado o lugar em busca do corpo do amado mestre e nada encontrar. Ela se senta em<br />

desespero e chora em meio ao jardim, gritando de dor em sua alma. Então alguém que ela<br />

pensa ser o jardineiro se aproxima dela e ela vê nele a possibilidade de saber onde haviam<br />

levado o corpo de seu Senhor. Ela o convoca e cai aos seus pés dizendo clamando para<br />

que ele lhe indique onde levaram o corpo dele e que se ele lhe mostrar ira lá e SOZINHA o<br />

trará de volta ser for necessário.<br />

O mesmo tipo de amor é evocado na cena do carro de Faraó. Jesus vê na Igreja coragem e<br />

ousadia. Os apóstolos são açoita<strong>dos</strong> e coagi<strong>dos</strong> pela alta corte israelita, o sinédrio, que<br />

inclusive havia condenado injustamente à morte a Cristo e quando saem de lá pregam mais<br />

ainda. Milhares seriam os testemunhos <strong>dos</strong> atos de coragem desmedida <strong>dos</strong> que amam a<br />

Cristo ao redor da terra. O Espírito de Deus não nos vê como nós nos vemos a nós<br />

mesmos. A moça está mal vestida, fugindo do trabalho forçado e é chamada de única em<br />

toda a terra. O Espírito vê os dons, os ministérios, as operações celestiais e coisas<br />

invisiveis presentes na igreja de valor inestimável. O carro cerimonial do faraó era coberto<br />

de ouro e cravaejado de jóias. É assim que Deus nos vê, preciosos diante dele, revesti<strong>dos</strong><br />

de valor, cobertos de riquezas celestiais. E é essa a visão que quer que tenhamos de nós<br />

mesmos.<br />

Uma coisa invisivel, propositalmente invisvel no texto, um tesouro escondido. Os Carros<br />

de faraó eram carrega<strong>dos</strong> por 4 animais. Quatro animais magníficos, de valor inestimável<br />

213


treina<strong>dos</strong> para andar em perfeita harmonia e sincronismo. O quatro é muito usado em<br />

Cantares. Neste verso esse numero aparece de forma visivel, quatro palavras e de forma<br />

invisvel (poucos sabem que eram uma quadriga de cavalos que arrastava o carro). Os<br />

cavalos só podiam estar ali após treina<strong>dos</strong> para trotarem como se fosse um unico animal.<br />

Essa belíssima imagem nos conduz a quatro Querubins que possuem face de animais, que<br />

andam SINCRONIZADAMENTE lá no Livro de Ezequiel. E que são chama<strong>dos</strong> de<br />

animais viventes lá em Apocalipse.<br />

Porque o Espírito enxerga a Igreja tão gloriosa quanto os Querubins.<br />

Tem uma outra questão no texto. Em todo o texto.<br />

O Espírito Santo suplantará espiritualmente a qualidade <strong>dos</strong> elogios de Salomão na<br />

dimensão humana. É como uma competição santa. Mas neste dueto, a voz do Espírito<br />

canta mais alto que a voz de Salomão.<br />

נאוו לחייך בתרים צוארך בחרוזים׃ 1:10<br />

Navu lekhayayikh batorim tzavarekh bakharuzim:<br />

Thy cheeks are comely with rows [of jewels], thy neck with chains [of zahav].<br />

Formosas são as tuas faces entre os teus enfeites, o teu pescoço com os colares.<br />

Tua face e o teu pescoço tem linhas tão graciosas como jóias.<br />

214


215


Moça do Exército Israelense<br />

Salomão observa-a por inteiro. E diferente de alguns namora<strong>dos</strong>, noivos e esposos, vê cada<br />

parte da beleza da futura esposa. Ele diz que ela é tão bela quanto as jóias que está usando.<br />

Mais detalhadamente, que o rosto dela é uma jóia engastada entre outras jóias. O rei está<br />

maravilhado com sua beleza e seus olhos ultrapassam os enfeites que a cobrem porque ela<br />

aos seus olhos é mais bela do que tudo que usa para tornar-se aos seus próprios olhos, mais<br />

bonita. Desde a antiguidade as mulheres usam jóias e enfeites. Elas se enfeitavam mais ou<br />

menos como hoje, porém com uma variedade maior de enfeites, e com mais motivos. As<br />

jóias eram cobertas de significa<strong>dos</strong>, as pedras faziam referencia em alguns casos a<br />

divindades, eram usadas como amuletos também. Tidas com poderes mágicos por diversas<br />

civilizações, ou como peças que atraima a sorte e que afastavam os espíritos maus.<br />

Algumas designavam a origem de quem usava, assim como a sua classe social. Ou seja,<br />

ainda encontramos nos nossos dias os mesmos varia<strong>dos</strong> simbolismos das jóias do passado.<br />

As jóias que ela usa são trabalhos de exímios artesãos, como poderemos perceber na leitura<br />

de Cantares. Como era uma moça pobre deduzimos que ela as usa por empréstimo da mãe<br />

que a enfeitou, ou das amigas.<br />

216


Mais uma vez O Espírito de Deus vê a preciosidade da Igreja. Sua beleza espiritual vale<br />

mais que as obras da criação. O valor da alma humana é tamanho que Davi, pai de<br />

Salomão cantava uma outra canção com este tema:<br />

Sl 49:8<br />

pois a redenção da sua vida é caríssima, de sorte que os seus recursos não dariam;<br />

O pescoço é usado nas Escrituras em diversas cenas e dependendo de como é tratado, há<br />

um significado difente. Como símbolo de reencontro, que agarrado quando irmãos se<br />

abraçam após a briga, símbolo da própria pessoa, o equivalente a expressão idiomática com<br />

palavra ‘costas’ na frase “sai de cima de minhas costas’, ‘colocam tudo nas minhas costas’.<br />

Os prisioneiros cativos eram acorrenta<strong>dos</strong> pelo pescoço, colocar a mão no pescoço de<br />

alguém ainda hoje é considerado um ato de extrema descortesia e violência. Quando Josué<br />

vence uma batalha contra vários reis, estes são trazi<strong>dos</strong> e coloca<strong>dos</strong> no chão, os chefes das<br />

tribos pisam simbolicamente seus pescoços, significava que os dominadores haviam sido<br />

domina<strong>dos</strong>. Que estavam subjuga<strong>dos</strong>. Jesus é chamado de o cabeça da igreja por Paulo.<br />

Vendo na Sunamita a Igreja podemos chamá-la de o Corpo de Cristo. O pescoço é aquilo<br />

que liga o corpo a cabeça e que ferido, pode matar ao corpo. Salomão irá elogiar ao<br />

pescoço da amada pelo menos QUATRO vezes no texto de Cantares. E aparecerá quatro<br />

vezes nos Evangelhos e saiba que não é coincidência. A diferença é que aqui Salomão olha<br />

para a Sunamita. Representando o olhar amoroso de deus pela sua Igreja, Lá nos<br />

evangelhos Cristo olha não para um “pescoço” amigo. Olha para o pescoço de inimigos. E<br />

de um inimigo que aparentemente deveria estar cuidando de sua amada. Nas<br />

considerações finais que abordam a profecia deste estudo a gente aprofunda o tema. De<br />

mo<strong>dos</strong> distintos. Ele ama aos enfeites nele, aos adornos dele. O Espírito ama aquilo que<br />

sustenta a cabeça de sua amada. Aquilo que liga a cabeça ao corpo, Cristo à sua igreja. A<br />

comunhão, a adoração, a intercessão, o louvor, os afetos, a alegria, a santidade, a justiça, o<br />

amor, a fé. O pescoço simboliza espiritualmente a todas essas realidades em conjunto, que<br />

aos olhos dele é um conjunto admirável, belíssimo.<br />

Que necessita de perfeição. Que ele almeja ver cheio de beleza. Enfeitado. Com obras de<br />

exímios artesões. O Espírito de Deus quer ver sua igreja do modo apaixonado com que<br />

Salomão se deslumbra com a beleza don pescoço de sua amada.<br />

Anel grego com selo Beaded Armlet Period: New Kingdom Dynasty: Dynasty 18<br />

Date: ca. 1550–1525 B.C. Geography: Country of Origin Egypt Medium: Gold, carnelian,<br />

lapis lazuli, blue and green glass, faience on bronze or copper wire<br />

217


Filhas de Jerusalém<br />

תורי זהב נעׂשה־לך עם נקדות הכסף׃‎1:11‎<br />

Torei zahav naase-lakh im nekudot hakasef:<br />

We will make thee borders of gold with studs of silver.<br />

Enfeites (tranças) de ouro te faremos, com incrustações de prata.<br />

Cantares é uma peça que era interpetrada por um coro de vozes com vários personagens.<br />

Temos diversos personagens em Cantares e quatro vozes distintas:<br />

A amada – a Sunamita<br />

O amado – Salomão<br />

Os irmãos de Sunamita<br />

As filhas de Jerusalém<br />

Quem canta este trecho são as filhas de Jerusalém. Elas querem enfeitar seus cabelos para<br />

que ela se encontre com Salomão. Intentam fazer tranças douradas, ou enrolar fios de ouro<br />

em seus cabelos, trata<strong>dos</strong> com hena. Seus cabelos ganham um tom avermelhado com fios<br />

doura<strong>dos</strong> e pontos trechos pratea<strong>dos</strong>. A simplicidade da menina ganha contornos de uma<br />

princesa. Ela está sendo enfeitada como uma princesa egípcia. Como uma noiva indiana.<br />

Como uma menina da alta sociedade israelita de sua época. Ouro e a prata são materiais<br />

raros, trazi<strong>dos</strong> de minas que ficam na Africa e na Asia. O processo de fabricação de<br />

pingentes de prata e correntes de ouro envolve fogo, fundição, altíssimas temperaturas e<br />

moldes, e posterior trabalho de ourivesaria. O ouro e a prata são revesti<strong>dos</strong> de significa<strong>dos</strong><br />

sacerdotais, intimamente relaciona<strong>dos</strong> ao templo e ao culto nos dias do templo de Salomão.<br />

O ouro simbolização a riqueza de uma nação, seu poderio econômico e logo seu poderio<br />

militar, pela capacidade de manutenção de exércitos, uma atividade extremamente<br />

dispendiosa. Os solda<strong>dos</strong> de elite eram geralmenete mercenários, solda<strong>dos</strong> estrangeiros<br />

que vendiam seus serviços de proteção por meio de altos salários. Até hoje o ouro<br />

simboliza poder. Mobiliza o poder politico, é lastro de diversas moedas. A prata era o<br />

material <strong>dos</strong> incensários, dela se faziam várias peças do santuário, material das moedas<br />

israelitas. Lemos sobre o preço de um escravo 30 moedas, restituição por um escravo<br />

ferido por uma chifrada ou coice de um boi, 30 moedas, o preço pelo resgate do homem,<br />

imposto pagao ao templo, do israelita ao atingir 20 anos, uma moeda de prata, meio siclo.<br />

Lemos sobre Abimeleque pagando mil moedas a Abraão como pedido de desculpas por ter<br />

tocado em Sara sem saber que era sua esposa. E lemos sobre a traição do Messias por 30<br />

moedas, cada moeda valia meio-siclo. Metade do valor da multa por uma chifrada de um<br />

boi. A prata associas-se com o preço pago pela nossa salvação. Ela representa preço de<br />

resgate, ela simboliza divida sendo paga, multa. Prata nas Escrituras lembra-nos remissão<br />

218


de peca<strong>dos</strong>, lembra-nos preço pago pela nossa Salvação. A Igreja de Cristo tem seus<br />

cabelos enfeita<strong>dos</strong> pelas riquezas celestiais, pelo PODER tremendo que o Espírito lhe<br />

concede e pelo preço do sacrifício.<br />

Este momento em que as amigas da noiva a enfeitam os cabelos da Sunamita com ouro<br />

e prata, vem nos a mente os anjos que Jesus avisou a Natanael que desceriam sobre seu<br />

ministério.<br />

João 1:48-51<br />

Perguntou-lhe Natanael: Donde me conheces? Respondeu-lhe Jesus: Antes que Felipe te<br />

chamasse, eu te vi, quando estavas debaixo da figueira. Respondeu-lhe Natanael: Rabi, tu<br />

és o Filho de Deus, tu és rei de Israel. Ao que lhe disse Jesus: Porque te disse: Vi-te debaixo<br />

da figueira, crês? Coisas maiores do que estas, verás. E acrescentou: Em verdade, em<br />

verdade vos digo que vereis o céu aberto, e os anjos de Deus subindo e descendo<br />

sobre o Filho do homem.<br />

A igreja possui amigos que dela cuidam e a ela enfeitam. Espíritos ministradores que<br />

descem e trazem dons e talentos, que adornam-na com Poder para herdar a Salvação.<br />

Nesse momento a voz do cântico reflete um cuidado, um presente, uma dádiva que a deixa<br />

ainda mais bela. Ainda mais preparada para seu grande propósito.<br />

Que é CONQUISTAR ao noivo! Sem entender ainda que o coração de Salomão já lhe<br />

pertence. Mas, ainda que a Sunamita neste ponto do livro não saiba, a Igreja deve saber,<br />

que o coração de Cristo já se enchia de amor por ela antes que ela viesse a existir.<br />

O Ouro é uma dimensão de PODER e AUTORIDADE Espiritual presente nos<br />

pensamentos, que enfeitam a cabeça da Amada. E a prata fala da Redenção, que a torna<br />

humilde. Ela não se ensoberbece, não se enaltece ainda que opere milagres, ainda que<br />

expulse demônios e ainda que ressuscite mortos. Ela não se contamina com o ouro que<br />

usa. Porque tão importante para enfeitá-la são os pingentes de prata. É isso que estabelece<br />

o contraste. Todas as jóias são engastadas em materiais de cores diferentes, criando um<br />

belíssimo efeito pelo contraste ou combinação das cores. Eu quase me senti um design de<br />

jóias agora. Uma perfeita combinação entre Poder e Gratidão, Autoridade exercida com<br />

humildade. Porque pelo sacrifício de Cristo é que alcançamos o direito as riquezas<br />

celestiais.<br />

עד־ׁשהמלך במסבו נרדי נתן ריחו׃‎1:12‎<br />

Ad-shehamelekh bimsibo nirdi natan reikho:<br />

While the melekh [sitteth] at his table, my spikenard sendeth forth its fragrance.<br />

Enquanto o rei está assentado à sua mesa, o meu nardo exala o seu perfume.<br />

219


Nem sempre há uma ordem cronológica <strong>dos</strong> eventos em Cantares, as vezes há um contracanto,<br />

há um acontecimento que se nós tivéssemos escrito, teríamos colocado mais adiante.<br />

Mas é propositalmente poético. E descaradamente profético. Nes caso é uma janela de seu<br />

amanhã... que irá chegar mais adiante na canção. Como um trecho antecipado de um conto,<br />

de uma narrativa. Como se ela “percebesse” o futuro. Esse movimento do texto é uma<br />

forma poética de mostrar o amanhã. E no amnhã ela estará assentada na mesa do Rei<br />

enquanto seu nardo dará o seu perfume. O nardo era uma substancia aromática raríssima e<br />

importada da India. Há um mistério em Israel que envolve a India. E que nos envolve. Um<br />

amor profundo do Senhor pela nação que HOJE vive a atmosfera de divindades, a<br />

atmosfera espiritual na qual Israel viveu a três mila nos atrás. O nardo era usado para o<br />

embalsamamento <strong>dos</strong> mortos, para evitar o mal-cheiro <strong>dos</strong> cadáveres, e também para ungir<br />

os cabelos de homens e mulheres, em sinal de profundo respeito, em ocasiões especiais.<br />

Era um perfume caríssimo, guardado em vasos cerâmicos, alguns de alabastro.<br />

Ela se vê perfumada com uma preciosa essência. Essência que um dia será abundantemente<br />

derramada sobre a cabeça de Cristo. Com a qual ele ainda estará perfumado ao ressuscitar<br />

<strong>dos</strong> mortos! Jesus cheirava a nardo! O lugar onde ele estava sepultado estava impreganado<br />

ainda pela essência quando os apóstolos desceram para ver se o corpo ainda estava lá.<br />

Maria após abraçar a Cristo ressurreto no Jardim do sepulcro fica cheirando a nardo! Nas<br />

escrituras associamos pequenos detalhes. Memórias, sonhos, atitudes. Reminiscencias.<br />

Tendo em vista a eternidade de seu Escritor, o Espírito de Deus, ele a teceu como exímio<br />

roteirista. De Genesis a Apocalipse são deixadas pistas, eventos e ligações que só vamos<br />

conectar lendo a história completa. O nardo vai ganhando significa<strong>dos</strong> na medida em que<br />

nós o vemos presentes em tantos momentos significantes. Como os presentes de uma<br />

amigo, de uma amiga, a lembrança de uma viagem, os artefatos encontra<strong>dos</strong> após muitos<br />

anos, que tem um significado especial porque fazem parte de importantes eventos de nossa<br />

vida. O rei assentado a mesa nos dá a impressão que está ceando, ou conversando. Com os<br />

olhos volta<strong>dos</strong> para a Sunamita. Mas mesmo que ela estivesse num ponto em que ele não<br />

pudesse ve-la, ele sentiria sua presença pelo seu perfume!<br />

Esta passagem de Cantares é repetida por Paulo de outro modo:<br />

ll Cor. 2:15, 16<br />

“… porque para Deus somos o aroma de Cristo entre os que estão salvos e os que estão<br />

perecendo. Para estes somos cheiro de morte, para aqueles, fragrância de vida…”<br />

220


Cheiro de vida, perfume da ressurreição. Cheiro de morte, preparo para o sepultamento.<br />

Jesus afirma que o mundo JAZ no maligno. Que está morto espiritualmente. Jazer é um<br />

terrível tempo verbal. A ressurreição aponta para a recompensa, para o significado de ser<br />

agradável a Deus. Fala-nos de vida que suplanta a morte. E ao mesmo tempo vindica a<br />

autoridade e a verdade de que os homens amaram mais as trevas que a luz. Que a um<br />

principio de vida e um de morte, que há uma diferença para os que busacam a Deus e os<br />

que não fazem. Uma lembrança de que haverá um juízo e que há uma herança, mas não os<br />

que viverem na maldade não a herdarão.<br />

צרור המר דודי לי בין ‏ׁשדי ילין׃‎1:13‎<br />

1. Tzeror hamor Dodi li bein shadai yalin:<br />

2. A bundle of myrrh is my beloved unto me; he shall lie all night between my breasts.<br />

13 O meu amado é para mim como um ramalhete de mirra, posto entre os meus seios.<br />

A moça pensa nele de modo intimo, anseia carrega-lo próximo do coração. Junto a sua<br />

respiração. A moça da antiguidade se perfumava de muitos mo<strong>dos</strong>. Um deles era<br />

carregando um saquimho de linho com um pouco de folhas de mirra moídas, e por dias<br />

este exalaria o perfume da mirra. Perfumando-a.<br />

M I R R A<br />

As especiarias têm grande sentido na Bíblia. A mirra foi usada de diversas formas. Cantares<br />

usa essas especiarias, é como se o livro destilasse as mais variadas fragâncias, e é verdade. O<br />

tema leva à consideração desses famosos perfumes do Oriente e da terra de Israel. Vimos<br />

Jacó enviando em tempo de seca, dessas especiarias ao Faraó do Egito.<br />

Sobre as vestes do Messias, profeticamente o livro de Salmos anunciaria:<br />

“To<strong>dos</strong> os teus vesti<strong>dos</strong> cheiram a mirra e a aloés, a cassia”. Salmo 45:5,<br />

Mateus 2:11 fala da mirra com a qual os magos presentearam a Jesus.<br />

A vida de Jesus está muito entrelaçada com a mirra.<br />

O nome mirra com leves variações, é encontrado em várias linguas: murru (acadiano),<br />

marra (árabe); myrra (grego). Em português “amargo”. Provavelmente trata-se de gosto<br />

amargo da resina. Paradoxalmente este arbusto deleitável foi encontrado no mercado em<br />

forma cristalina, o mor dror, um <strong>dos</strong> ingredientes do incenso do Templo (Êxodo 30:23).<br />

Dror significa - como pérola.<br />

Os cristais eram vendi<strong>dos</strong> em saquinhos, dai a expressão “um saquitel de mirra” (Cantares<br />

1:13). Dissolvi<strong>dos</strong> em óleo, os cristais se tornam mais amargos que a mirra líquida ou fluída<br />

- Cantares 5:5).<br />

221


A Mirra aparecerá sólida num saquitel entre os seios da moça e liquida gotejando pelas<br />

mãos dela ao abrir a porta para seu amado.<br />

A mirra foi como que a preferida de Salomão que a cita 7 (sete) vezes no livro de Cantares.<br />

A mirra é uma resina derivada da planta de mesmo nome.<br />

A mirra verdadeira era valiosa e estimada pelos antigos tanto como perfume como incenso<br />

nos templos. Era também usada como unguento e bálsamo. Natural das costas orientais da<br />

África, Abssinia, Arábia e Somália. Antigamente a substância obtida de sua resina era<br />

comercializada. Hoje cresce em áreas rochosas, nos montes calcáreos do Oriente Médio e<br />

em muitas partes do norte da África.<br />

Em Cantares 5:13, a mirra é proeminente: a mirra foi usada por Davi e Salomão e também<br />

é descrita em Mateus 2:11, Marcos, João e em Salmos 45:8.<br />

A Bíblia descreve a mirra como a mais popular e preciosa resina. Os egípcios antigamente<br />

usavam a mirra como incenso nos templos e como embalsamento para seus mortos.<br />

Apocalipse 18:13 fala do comércio <strong>dos</strong> grandes impérios do Oriente. A mirra está ligada a<br />

Jesus do seu nascimento à sua morte.<br />

Mateus 2:11 e ainda na crucificação Jesus provou dela. Marcos 15:23<br />

Nicodemos trouxe um mistura de mirra e aloés com lençóis para enrolar o corpo de Jesus<br />

(João 19:39-40, Êxodo 30:23, Ester 2:12, Salmos 45:8, Provérbios 7:17, Cantares 1:3, 3:6,<br />

5:5-14, Mateus 2:11, Marcos 15:23, João 19:39 e Apocalipse 18:13).<br />

São arbustos baixos, do tipo moita, galhos grossos e duros. As folhas crescem em cachos e<br />

no caule encontram-se espinhos afia<strong>dos</strong>.<br />

A resina é abundante e é obtida pela incisão artificial. A madeira e a casca são fortemente<br />

odoríferas. Logo que é exçudada a resina é macia, clara, dura, branca ou amarela-escuro.<br />

Por um pouco é oleosa, solidificando-se rapidamente quando pinga sobre as pedras em<br />

baixo <strong>dos</strong> galhos. É amarga e levemente pungente ao paladar. Já se usou em medicina<br />

como tônico adstringente externamente como um agente de limpeza. Nos paises orientais é<br />

muito apreciada como substância aromática, medicinal e como perfume.<br />

As mulheres que foram ao sepulcro de Jesus também levaram, entre as especiarias, a mirra.<br />

Era embalada em vasos. Os israelitas também usavam-na muito como perfume e Davi a<br />

canta pela sua fragrância e Salomão deliciou-se nela. Foi um <strong>dos</strong> ingredientes do santo óleo,<br />

como aloés, cássia e canela.<br />

Cantares se refere a um canho de mirra em vez de um pedaço como se poderia esperar de<br />

uma tal resina.<br />

Como dissemos, Jesus provou dela no Gólgota, talvez uma bebida existente entre os<br />

solda<strong>dos</strong>, mas seja qual fosse, era de um gosto amargo. Jesus quando ferido na cruz,<br />

quando no Getsêmane suou sangue, foi como se pedaços de mirra se lhe tivessem atingido.<br />

A igreja de Jesus se orna com mirra e to<strong>dos</strong> os unguentos aromáticos. Então esta especiaria<br />

se associa a ele do nascer ao morrer. Sua vida foi pontilhada de pedaços amargos, de mirra.<br />

O Gólgota foi para Jesus o jardim da mirra. A semelhança da extração da mirra através da<br />

incisão, Jesus também foi ferido ali. O sangue de Jesus ensopou aquele lugar - era a mirra<br />

que pingava em gotas brilhantes como água e sangue - a água da vida e o sangue da<br />

salvação. Foi a hora mais amarga de Jesus mas também de onde se desprendeu o precioso<br />

perfume de Cristo. Era a hora da amargura, a hora do perfume, a hora do incenso no<br />

Templo, a hora da oferta da tarde da minhah - presente de Deus para o homem, a hora em<br />

que Ele garantiu nossa entrada no Santuário e no Santo <strong>dos</strong> Santos. Foi a hora do rasgar-se<br />

do véu por inteiro, como Jesus por inteiro se deu ao mundo. A hora mais sublime para o<br />

Pai, porque o Filho cumpriu tudo o que dele exigiu.<br />

222


E tudo isso a Sunamita celestial guarda entre os seus seios. Os seios falam desde a<br />

antiguidade da intimidade nupcial. As mulheres orientais não descobriam sequer a fronte<br />

diante de estranhos. Que se dirá <strong>dos</strong> seios. Todas as estátuas de divindades antigas são<br />

retratadas com seios desnu<strong>dos</strong>. Com grandes seios. A beleza de uma moça era julgada pela<br />

beleza de seus seios, a fertilidade dela estabelecida pelo tamanho deles e de sua capacidade<br />

de amamentação. A pobreza e a fome representa<strong>dos</strong> pela magreza <strong>dos</strong> mesmos, a infância<br />

por sua ausência. A moça está falando de algo que não é visível aos olhos de ninguém.<br />

Porque nessa época ao menos, ela está recoberta de vesti<strong>dos</strong> que não permitem ver um<br />

decote. Simboliza que ela está contando um segredo. Um mistério. A igreja revela que<br />

no coração guarda o sofrimento de Cristo, de modo profundo, intimo e por isso, por amar<br />

seu sacrifício, cheira a mirra.<br />

223


אׁשכל הכפר דודי לי בכרמי עין גדי ׃ 1:14<br />

1. Eshkol hakofer Dodi li bekharmei Ein Gedi:<br />

2. My beloved is unto me as a cluster of henna blossoms in the vineyards of Ein Gedi.<br />

224


14 Como um ramalhete de hena nas vinhas de Engedi é para mim o meu amado.<br />

Engedi.<br />

225


En Gedi (em hebraico: עין ‏,גדי lit. Nascente do Cabrito; é um oásis localizado a Oeste do Mar<br />

Morto, perto de Massada e das cavernas de Qumran. Localização 31° 27' N 35° 23' E. É<br />

conhecido pelas suas grutas, nascentes, e a sua rica diversidade de fauna e flora. Engedi<br />

Significa – Fonte do cabrito. Lá atualmente existe um Jardim Botanico<br />

226


A cidade judaica de Ein Gedi era uma importante fonte de bálsamo para o mundo Greco-<br />

Romano.<br />

227


Ramalhete de Henna.<br />

228


229


Sunamita compara Salomão a um ramalhete de Henna, um produto precioso para as<br />

mulheres da época, usado por diversos motivos, de um lugar especial. Engedi ainda possui<br />

hoje, passa<strong>dos</strong> milhares de anos, um excepcional jardim Botanico. Podemos imaginar o que<br />

foi a 3000 anos atrás. Ou melhor. Não podemos. Basicamente, o paraíso em terras<br />

Israelenses. A hena era na época uma das poucas opções para o exercício da cidadania<br />

feminina de seus cabelos. A pintura. Temos hoje no mercado centenas de produtos, talvez<br />

mais que mil tinturas diferentes. Mas na época de Cantares só existia uma. A henna. A<br />

moça que leu essas linhas até aqui tem agora a PERFEITA noção da PRECIOSIDADE<br />

daquele produto para uma menina daquela época. Sunamita afirma que seu amado é como<br />

um produto raro, indispensável para que ela se sinta mais bela, se torne agradável à vista. E<br />

trate de sua longa cabeleira. Era moda, prática comum entre as jovens de Israel, assim<br />

como das meninas <strong>dos</strong> povos de todo o Oriente e além. E ela era uma moça pobre, que<br />

dificilmente tinha acesso a produtos de beleza de tamanha qualidade. Alguns produtos de<br />

beleza são tão caros que até escrever o preço aqui nestas folhas traria escândalo. Ela<br />

orgulhosamente fala de algo que está nos limites de sua economia, mas que lhe traria<br />

imensa alegria. Essa parte da canção é o refrão da Igreja que ama a Cristo. Por muitos<br />

230


anos dezenas de igrejas entoaram um cântico que dizia “como é precioso, ó Deus, estar<br />

junto de ti” e entoam dezenas de cânticos com o mesmo teor. A henna penetra os fios do<br />

cabelo e os restaura. Regenera o cabelo danificado. Eu não vou continuar dado as minhas<br />

limitações nessa área capilar. Mas relembra imediatamente, reconstrução, cura, restauração.<br />

Uma das grandiosas faculdades do Espírito de Deus em comunhão com a Igreja de Cristo é<br />

seu poder de restaurar. De regenerar. De curar feridas, de refazer laços familiares parti<strong>dos</strong>,<br />

de reconstruir a mente de uma pessoa castigada pelo vício, pelo medo, pela angustia. Sua<br />

presença é restauradora. Ministérios bíblicos são conheci<strong>dos</strong> e ama<strong>dos</strong> quando uma de suas<br />

grandes características é de ter pessoas restauradas. Gente reconciliada com a vida, lares<br />

onde havia violência sendo uma morada de paz. A grande obra do Espírito Santo é<br />

justamente a restauração de nossas vidas, reconstruindo que se destruiu com o tempo,<br />

trazendo esperança onde só havia desespero. Não há a presença do Espírito onde não há<br />

restauração. Não há visão verdadeira ou dom verdadeiro se não existir restauração, cura,<br />

maravilhamento, deslumbramento, vida abundante e alegria indisfarçável. Ele é hena para<br />

nossos cabelos, ele é paz para nosso coração.<br />

231


1. {The Beloved}<br />

הנך יפה רעיתי הנך יפה עיניך יונים׃ .2 1:15<br />

3. Hinakh yafarah rayati hinakh yafah einayikh yonim:<br />

4. Behold, thou are fair, my love; behold, thou are fair; thou have doves' eyes.<br />

15 Eis que és formosa, ó meu amor, eis que és formosa; os teus olhos são como os das<br />

pombas. (Ou teus olhos são como pombas)<br />

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http://www.tatzpit.com/site/en/pages/inPage.asp?catID=9&subID=27<br />

http://www.tatzpit.com/site/en/pages/inPage.asp?catID=9&subID=27<br />

Israel possui uma variedade de pombas, mas Salomão caracteriza uma que habita nas<br />

rochas, que morava em alats montanhas e se abrigava do inverno nas fendas do penhasco.<br />

A pomba era uma o anima que os pobres sacrificama no templo, por não disporem de<br />

recursos para disporem de uma ovelha, cabrito ou bezerro. Os olhos de Salomão fitam os<br />

olhos de Sunamita e dizem que eles são pareci<strong>dos</strong> com o da pomba. Que algo neles<br />

lembrava o olhar deste pássaro. A pomba não possui expressão, não é capaz de demonstrar<br />

nem alegria e nem sofrimento através de seus olhos. Os animais apresentam-se por vezes<br />

com expressões na qual enxergamos emoções.<br />

Mas a pomba não.<br />

234


O modo como um pombo expressa suas emoções é movendo-se ou urrulando. Correndo,<br />

voando, dançando. Um pombo apaixonado realiza uma engraçadíssima dança diante da<br />

amada. Os pombos tem um caráter pacífico. Não veremos um filme de terror baseado em<br />

pombos (bem...). Salomão está dizendo que pagaria para saber o que ela está pensando.<br />

Quando uma namorada fica em silencio é um momento de grande temor para o homem.<br />

Os olhos dela não descortinavam seu interior, não transmitiam nem sua dor, nem sua<br />

alegria e nem sua paixão. Um olhar chio de mistério. Quando chegar o dia em que Jesus<br />

for dar inicio ao seu ministério sobre ele será visto pela primeira, e quase ultima vez, o<br />

Espírito Santo em forma de um ser vivo. A primeira vez que ele, o Espírito Criador, se<br />

deixa ENXERGAR, o faz em forma de uma pomba. O Espírito vê na amada sua natureza,<br />

sua simplicidade, sua paz. Note que o Espírito de Deus não desce na forma de um<br />

POMBO. Mas de uma Pomba, a mesma palavra usada em Cânticos. Em hebraico o gênero<br />

da palavra “espírito” é feminino. É ruah. No grego também. A pneuma. Alma, outra<br />

palavra relacionada à nossa formação espiritual é também feminino, tanto em grego como<br />

em hebraico. Psique e Nefesh, respecticamente.<br />

O Espírito se vê INTEGRALMENTE refletido na Igreja. Em Cristo não há diferença,<br />

servo, livre, judeu, gentio, homem ou mulher. To<strong>dos</strong> somos trata<strong>dos</strong> de modo semelhante,<br />

com os mesmos direitos, herdeiros da mesma vocação, das mesmas riquezas. Ouvi sobre<br />

determinadas igrejas que impedem das mulheres ensinarem ou pregarem em seus púlpitos.<br />

Não é assim que o Espírito enxerga o ministério feminino, ou a condição espiritual da<br />

mulher em Cristo. O olhar da amada não permite que ela expresse o que sente, é uma<br />

CORTESIA. A Sunamita está vermelha e seus olhos brilham. A moça apaixonada se<br />

denuncia até pela dilatação das pupilas.<br />

235


Mas Salomão de modo cortês não a deixa envergonhada. Há uma bela representação dessa<br />

relação entre a Igreja e o Espírito de Deus. Paulo afirma em Romanos que nós não<br />

sabemos nos expressar diante de Deus. Não sabemos na maioria das vezes como orar,<br />

como pedir e nem o que pedir. Oramos para que Deus modifique em nós aquilo que nem<br />

sequer conhecemos. Falamos coisas em orações e ajuntamos trechos das Escrituras ás<br />

nossas súplicas, confundimos realidades espirituais, e é dito que o mesmo Espírito<br />

conhecendo a nossa incapacidade de nos expressarmos corretamente diante de Deus,<br />

reconhecendo profundamente a intenção de nosso espírito, intercedendo a Deus<br />

juntamente conosco com gemi<strong>dos</strong> inexprimíveis. A pomba não precisa dizer nada. Ele<br />

percebe seus sentimentos. Uma bélissima<br />

representação de nossa condição. A pomba da paz, (Sunamita também significa paz).<br />

Existem duas possibilidades para o texto. A segunda é traduzir por “seus olhos são como<br />

pombas”.<br />

Significaria nesse momento que eles não param quietos. Nunca estão imóveis. Estão<br />

sempre a procura de algo. E que ela estava intencionalmente desviando os olhos dele por<br />

que estava com vergonha.<br />

Se traduzirmos deste modo teremos outro belíssimo paralelo. Inquietação lembra<br />

ansiedade. Não andeis ansiosos e nem preocupa<strong>dos</strong> com que haveis de beber, comer ou<br />

vestir. Conduz-nos ao sermão do Amado diante de uma inquieta multidão no Sermão do<br />

monte. E a vergonha que ela sente conduz-nos a outra passagem das Escrituras: “porque<br />

não se envergonha de nos chamar de filhos”.<br />

Os olhos nas Escrituras representam o espírito humano. O interior do ser humano. As<br />

intenções mais profundas da alma.<br />

Gênesis 3.5 Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se vos abrirão os<br />

olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal.<br />

Jesus declarará:<br />

São os teus olhos a lâmpada do teu corpo; se os teus olhos forem bons, todo o teu<br />

corpo será luminoso; mas, se forem maus, o teu corpo ficará em trevas.<br />

Olhos são representações da alma, do coração, da consciência. “abrir os olhos” é sinônimo<br />

compreender profundamente. Daí as “visões” <strong>dos</strong> profetas, que “enxergam” a realidade<br />

invisível. Na antiguidade a revelação era tão intimamente ligada a visão espiritual que o<br />

profeta era chamado de “vidente”. Antes de se chamar profeta, os profetas eram<br />

chama<strong>dos</strong> de “videntes”: Aqueles que enxergam; aqueles que veem.<br />

Os olhos da moça são como as pombas. Salomão se encanta com o movimento <strong>dos</strong> olhos<br />

da amada. O Espírito se encanta com o mover do coração da Igreja. Com a mudança de<br />

consciência. Quando a alma, o coração, o caráter, as atitudes e visão espiritual da Igreja<br />

236


efletem a ele mesmo. Parecem pombas! E não pombas comuns. São pombas imaculadas.<br />

Ou no hebraico: PERFEITAS. Nossos textos traduzem o adjetivo “tamát” por Imaculada.<br />

As ofertas deveriam ser “tamát” para Deus. A moça é chamada de “perfeita” mas, a<br />

palavra que Salomão usa é quase de uso exclusivo do sacerdócio. Quando o profeta<br />

Ezequiel e o livro de lamentações se referem à beleza “perfeita” usam o adjetivo keliylah e<br />

não tamát, como em Ct 5,2 e 6,9.<br />

O Espírito de Deus olha nela um caráter sacerdotal. Ele vê uma pomba que é usada para o<br />

sacrifício <strong>dos</strong> pobres. E na verdade ele se vê assim. Porque o sacrifício de Cristo está nas<br />

suas recordações, profundamente gravado na pessoa do Espírito. Porque ele estava em<br />

Cristo reconciliando o mundo com Deus, poderia afirmar. Ela é perfeita e aperfeiçoada<br />

nele. Com base num Sacerdócio Eterno. Mesmo porque as pombas não recebiam “tamat”<br />

quando eram sacrificadas. Somente os cordeiros, bezerros e cabritos. A igreja é inferior aos<br />

anjos. Humanamente somos inferiores a Cristo, na carne. Ele venceu a morte porque na<br />

nossa imperfeição não poderíamos. Jesus viveu e morreu sem pecado, mas nós fomos<br />

inclusos nessa perfeição mediante seu sacrifício.<br />

Em Cânticos Salomão chamará sua amada sete vezes de Pomba.<br />

Eis que és formosa, ó amada minha, eis que és formosa; os teus olhos são como<br />

pombas.<br />

Pomba minha, que andas pelas fendas das penhas, no oculto das ladeiras, mostra-me<br />

o teu semblante faze-me ouvir a tua voz; porque a tua voz é doce, e o teu semblante<br />

formoso.<br />

Eu dormia, mas o meu coração velava. Eis a voz do meu amado! Está batendo: Abre-me,<br />

minha irmã, amada minha, pomba minha, minha imaculada; porque a minha cabeça está<br />

cheia de orvalho, os meus cabelos das gotas da noite.<br />

Mas uma só é a minha pomba, a minha imaculada; ela e a única de sua mãe, a<br />

escolhida da que a deu à luz. As filhas viram-na e lhe chamaram bem-aventurada; viram-na<br />

as rainhas e as concubinas, e louvaram-na.<br />

Como és formosa, amada minha, eis que és formosa! Os teus olhos são como pombas<br />

por detrás do teu véu; o teu cabelo é como o rebanho de cabras que descem pelas colinas<br />

de Gileade.<br />

Os seus olhos são como pombas junto às correntes das águas, lava<strong>dos</strong> em leite,<br />

postos em engaste.<br />

237


1. {The Shulamite}<br />

הנך יפה דודי אף נעים אף־ערׂשנו רעננה׃ .2 1:16<br />

3. Hinkha yafeh Dodi af naim af-arsenu raananah:<br />

4. Behold, thou are handsome, my beloved, yea, pleasant: also our bed is green.<br />

16 Eis que és formoso, ó amado meu, e também amável; o nosso leito é verde.<br />

A Sunamita contempla o jovem Salomão. O rapaz é lindo aos seus olhos. Não só aos seus,<br />

mas aos olhos de toda uma geração de moças. Não parece ter existido muita oposição por<br />

parte de várias princesas em se casarem com o belo rei. A começar da mais poderosa<br />

princesa de sua época. A filha do faraó. E agora Sunamita tem a chance de estar sozinha<br />

com um <strong>dos</strong> homens mais cobiça<strong>dos</strong> de sua época. Como a lei permitia o casamento com<br />

várias esposas, apesar dela ainda não saber de quem se tratava o moço, equivaleria em<br />

nossa cultura a um <strong>dos</strong> solteiros mais requisita<strong>dos</strong> do momento. E na conversa com ele,<br />

musico, cantor, poeta, ensaísta e só Deus sabe mais o que, ela descobriu mais uma virtude.<br />

Ele era uma pessoa amável. Ele a tratava com imenso carinho. Sentada no gramado,<br />

perto das cabras roubadas, ao lado de belíssima floresta, como no próximo verso, ela está<br />

admirada com a ternura do rapaz.<br />

Prestai atenção nesse fato, ó homens de toda terra.<br />

Na dimensão espiritual lemos o encontro com a beleza da Palavra de Cristo. Com a ternura<br />

do convite da salvação. Com a amabilidade do perdão, com a visão de um Espírito que<br />

conhece as nossas fraquezas. Nossos me<strong>dos</strong>. Nossas dores. E que fala-nos suavemente, a<br />

maior parte do tempo. O leito é verde. Sunamita está num campo verdejante. Talvez numa<br />

colina. Evoca imediatamente o mais famoso e conhecido Salmo das Escrituras, o Salmo de<br />

Davi, quando o mesmo fala: “deitar-me faz em VERDES campos!” Lembrando que<br />

Salomão está “metamorfoseado” de pastor! O termo “deitar” nas Escrituras evoca<br />

repouso, segurança, o sono. Deitamos-nos para repousar. Os campos são verdejantes, não<br />

são feitos de palha seca, reverberam vida, novidade de vida. A grama sempre se renova. O<br />

Espírito não nos convida para repousar sobre um mundo morto de regras religiosas. Não<br />

nos convida a seguir a letra das Escrituras vivendo com base nas experiências já vividas por<br />

aqueles que a escreveram. TODOS OS ESCRITORES E PERSONAGENS DAS<br />

ESCRITURAS ESTÃO MORTOS. Com a exceção de três, talvez quatro (Enoque<br />

transladado, Elias raptado, Jesus ressurreto e possivelmente Moisés, ludibriando a morte.<br />

Oficialmente declarado morto, mas pode ter sido só por questões burocráticas celestiais,<br />

por assim dizer. Lembre-se que Satanás e Miguel discutiram a respeito do corpo de Moisés?<br />

Basicamente Satanás questionava a Miguel:- Onde está a evidencia? Onde está o cadáver?<br />

Cade o corpo? – o que nos leva a questão..como o sujeito que tinha nas mãos a chave da<br />

morte, pelo menos á época <strong>dos</strong> acontecimentos, não sabia onde estava o corpo do<br />

falecido...). Deixando de lado esses quatro personagens, to<strong>dos</strong> os demais estão devidamente<br />

enterra<strong>dos</strong>. A LETRA É MORTA. Ela relata o PASSADO. Nós vivemos no<br />

PRESENTE. As Escrituras nos indicam o CAMINHO da VIDA PLENA, a partir de<br />

experiências pessoais com Cristo e seu Espírito. Nós vivemos as Escrituras em nós. Não<br />

vivemos NELA. Não resumimos nossa vida ao que está ESCRITO. Nós vivemos em<br />

NOVIDADE DE VIDA, inspira<strong>dos</strong> pelas ESCRITURAS, coisas novas, experiências<br />

novas, na dimensão humana e na dimensão espiritual. Uma das maiores LOUCURAS <strong>dos</strong><br />

238


teólogos é tentar NORMATIZAR a revelação divina, ou criar REGRAS para manutenção<br />

do STATUS QUO da BIBLIA SELANDO NELA a VOZ do ESPÍRITO de DEUS.<br />

Vivemos no ESPÍRITO inspira<strong>dos</strong> na PALAVRA, alicerça<strong>dos</strong> NELA, podendo receber<br />

INCLUSIVE novas visões sobre as coisas de Deus. Em qualquer momento. Isso se chama<br />

LIBERDADE, se não CONTRADIZEREM frontalmente aquilo que está ESCRITO.<br />

II Corintios 3:17<br />

Ora, o Senhor é Espírito; e onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade.<br />

RECLAMAÇÕES<br />

Desde que, claro, não inventem um segundo Messias, uma quinta pessoa da trindade, uma<br />

Obra Espiritual qualquer que substitua a Cristo como Salvador, e a instituição de coisas<br />

mágicas originalíssimas, tais como a unção do sal, como subsídio para péssimo uso desta<br />

liberdade.<br />

A imaginação humana não é substituta do Espírito de Deus. O espírito humano não<br />

recebeu poderes mágicos. Nem a capacidade de “profetizar” ou de “declarar” aquilo que<br />

não saiu da boca de Deus. Isso se chama de “alucinação”. A mentira espiritual é uma<br />

PRAGA que pode se desdobrar e em vários aspectos.<br />

DOUTRINÁRIOS – Evangelho expúrio, antologicamente errado, grosseiro no<br />

conhecimento da Palavra em vários níveis, contaminado pela incredulidade, pelo<br />

materialismo, pela rejeição <strong>dos</strong> dons, pela escravidão teológica a um sistema doutrinário<br />

qualquer, carecendo de integridade intelectual. No outro extremoindo às raias da<br />

interpretação espiritualista, mítica, alegórica, imaginativa, desprovida de fundamentos de<br />

interpretação, literários, por desprezo completo do vasto trabalho intelectual <strong>dos</strong> estudiosos<br />

das Escrituras.<br />

ESPIRITUAIS - Em substituição a liberdade espiritual em CRISTO que necessita de<br />

SUBMISSÃO a voz do Espírito, a criação de um monstro espiritual qualquer. Uma<br />

BRUXA. Um dragão. Um monstro em que é misturado a cobiça humana, à perversão<br />

sexual, ao fanatismo, à falácia, e a dons falsifica<strong>dos</strong>.<br />

No meio termo há igrejas em que há desejo de ter experiências verdadeiras e que possui<br />

dons espirituais, onde há curas, mas a liderança é corrompida pelo amor ao dinheiro, que<br />

como to<strong>dos</strong> já deviam saber, é o que rege o mundo, e não as conjecturas do Adam Smith.<br />

No livro “Hitler ganhou a guerra” – Graziliano Ramos os leitores podem ter uma profunda<br />

noção do significado da frase “o amor ao dinheiro é a raiz de to<strong>dos</strong> os males”. Outra<br />

situação é onde os dons espirituais são manifestos, juntamente com outras situações<br />

espirituais falsificadas. Fake. Um misto entre joio e trigo na seara <strong>dos</strong> dons espirituais.<br />

Uma fonte de água contaminada, que é a coisa MAIS VENENOSA que a terra já viu. A<br />

diluição das coisas de Deus com uma doutrina amaldiçoada é algo TENEBROSO. Por<br />

demais tenebroso.<br />

COMPORTAMENTAIS – Boa doutrina, coerente, abrangente, dons espirituais<br />

verdadeiros e falta de uma visão amorososa, escrava de usos e costumes, presa a questões<br />

menores, escravidão ministerial, criação de obrigações em relação a Igreja,intromissão na<br />

vida pessoal de membros, individualismo exarcebado, desvios de conduta em função do<br />

“endeusamento” do grupo em relação aos demais.<br />

239


A chave para a profundidade das Escrituras é a meditação nela, é a aplicação das verdades<br />

nela contidas em nossa vida. Um manual de vida só faz sentido aplicado, corretamente.<br />

Como não tinha exatamente onde encaixar essa frase, coloquei aqui, dái a quebra de<br />

contexto. Não reclame não.<br />

Isso tudo porque a grama é verde. Porque os pastos são verdejantes. A brisa passa pelo<br />

gramado em rajadas vibrantes, lá do alto da colina Sunamita vê a dança das folhas verdes<br />

das árvores, a beleza da natureza cheia de vida. A igreja é permeada de Vida, que se<br />

manifesta HOJE, que a alegra, renova, energiza, fá-la suspirar, hoje.<br />

קרות בתינו ארזים רחיטנו ברותים׃ .1 1:17<br />

2. Korot bateinu arazim rakhi tenu rahi tenu berotim:<br />

The beams of our house are cedars, and our rafters and panels are cypresses or pines<br />

17 As traves da nossa casa são de cedro, as nossas varandas de cipreste.<br />

Cedro-do-líbano pertence à família das Pináceas. O seu principal habitat é nas cordilheiras<br />

do do Líbano, sendo esta última o seu limite mais meridional. O tronco <strong>dos</strong> maiores<br />

exemplares, que desta árvore existem na floresta do Líbano, mede 15 metros de<br />

circunferência, sendo a sua altura de quase 30 metros. Os poetas hebreus consideravam o<br />

cedro-do-líbano, como o símbolo do poder e da majestade, da grandeza e da beleza, da<br />

força e da permanência (is 2.13 – Ez 17.3,22,23 – 31.3 a 18 – Am 2.9 – Zc 11.1,2). O cedro,<br />

no seu firme e contínuo crescimento, é comparado ao progresso espiritual do homem justo<br />

(Sl 92.12). Nas suas florestas naturais, a madeira do cedro é de superior qualidade. O<br />

principal madeiramento do primeiro templo e <strong>dos</strong> palácios reais, como o de Davi (1 Cr<br />

14.1) era de cedro, sendo este último edifício chamado ‘a Casa do Boaque do Líbano’ (1 Rs<br />

7.2). O cedro tornou-se tão comum em Jerusalém durante o reinado de Salomão que<br />

substituiu a madeira do sicômoro, considerada de qualidade inferior. (1 Rs 10.27 – 2 Cr<br />

9.27 – Ct 1.17). Os posteriores reis de Judá, os imperadores da Assíria tinham habitações<br />

igualmente feitas daquela preciosa madeira (Jr 22. 14,15 – Sf 2.14). Os navios de Tiro<br />

tiveram os seus mastros feitos de troncos <strong>dos</strong> cedros-do-líbano (Ez 27.5). Foi ainda o<br />

Líbano que forneceu a madeira <strong>dos</strong> seus cedros para o segundo templo de Zorobabel (Ed<br />

3.7), e para o templo de Herodes.<br />

Quando Jesus entrar no templo em Jerusalém, mil anos após Cânticos, pisará uma<br />

habitação feita de Cedros. Sunamita olha a imensidão cercada de florestas com cedros,<br />

cipestres, tamareiras, palmeiras. O céu estrelado por telhado, as colunas erguidas são os<br />

cipestres e debaixo de sua sombra era o lugar em que gostaria de passar grnde parte de seus<br />

dias. A varanda de sua humilde e majestosa residência. Os cedros evocam a justiça, que os<br />

profetas ansiavam plena. Um pedaço de Cedro era usado nos rituais do tabernáculo:<br />

Levítico 14:52<br />

240


Assim expiará aquela casa com o sangue da ave, e com as águas correntes, e com a<br />

ave viva, e com o pau de cedro, e com o hissopo, e com o carmesim.<br />

Um bastão de madeira trabalhada. O Cedro unia-se ao hissopo e ao carmesin, misturava-se<br />

ao sangue da ave e aspargia gostas de seu sangue nos aposentos da casa que se desejava<br />

santificar. No hebraico, o termo "expiação" é kaphar. Segundo a definição <strong>dos</strong> estudiosos,<br />

significa "cobrir". Este conceito está descrito em textos como Sl 32:1 e 85:2, no texto<br />

hebraico. Além disto, a palavra "expiação" é definida como: "aplacar", "apaziguar",<br />

"perdoar", "purificar", pacificar", "reconciliar por".<br />

A união dessas figuras aponta para A crucificação. Os solda<strong>dos</strong> romanos oferecerão uma<br />

bebiba à base de vinagre e mirra ao crucificado numa esponja de hissopo.<br />

Tito Lívio (em latim: Titus Livius; Pádua c. 59 a.C.) ,Marco Túlio Cícero, em latim Marcus<br />

Tullius Cicero (Arpino, 3 de Janeiro de 106 a.C. — Formia, 7 de Dezembro de 43 a.C.),<br />

Públio (Caio) Cornélio Tácito ou simplesmente Tácito, (55 - 120 d.C.), Tito Mácio Plauto<br />

(cerca de 230 a.C. - 180 a.C E Julius Firmicus Maternus nos concedem relatos sobre a<br />

crucificação romana na antiguidade. Ao usar o “cedro” para “expiar” unindo-o ao sangue,<br />

ao hissopo, águas correntes e ao carmesim, vemos uma cena profética, uma representação<br />

diária das realidades espirituais que se tornariam reais naquela fatítica páscoa onde Jesus<br />

morreu.<br />

O Cedro vinha de longe, era usado nas naus de Tiro, a mais orgulhosa cidade da<br />

antiguidade que ficava numa ilha a 600 mestros da costa, servia para construção das casas<br />

<strong>dos</strong> Israelitas, na época do cântico poderia dizer que Jerusalém era praticamente feita de<br />

madeira de cedro. A bela moça não mora na cidade, na riquissima cidade, mas ali deitada<br />

sob o toldo das estrelas fez sua casa da terra e das árvores as vigas de sua residência.<br />

O Espírito santo cercou a Igreja de justiça. Equipou-a com justos ou justifica<strong>dos</strong>. A base da<br />

justiça é a fé, fé num sacrifício que para nós é passado, mas para a Sunamita era futuro. Os<br />

241


cedros evocam majestade. Força. Grandiosidade. As Escrituras afirma que Deus<br />

demonstra a grandeza de seu poder na ressurreição de Cristo. Imaginariamos que seria isso<br />

na criação do universo. Mas na mente de Deus, a maior manifestação de seu poder é a<br />

ressurreição do pedaço de cedro misturado com sangue de aves, hissopo e carmesim. Há<br />

um poder que emana da ressurreição que ultrapassa nossos entendimentos. Isso concede<br />

PODER ao justo, FORÇA que lhe dá robuztes no frio, ao vento, á geada. O que<br />

aconteceu no calvário nos colocou em uma condição de grande poder, acima de TODO<br />

PODER QUE SE LEVANTA NESTE MUNDO.<br />

O cedro é muito forte. Porque ele representa o poder estabelecido pela justiça, fruto da<br />

expiação, que está e atua sobre nós.<br />

E qual a sobreexcelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a<br />

operação da força do seu poder,<br />

Que manifestou em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e pondo-o à sua direita<br />

20<br />

nos céus.<br />

Acima de todo o principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo o nome que se<br />

21<br />

nomeia, não só neste século, mas também no vindouro;<br />

E as varandas são de Cipestre<br />

242


Onde há muita sombra, muito refrigério. Muito agradável é a vida a qual o Espírito<br />

convidou-nos a viver.<br />

I am the rose of Sharon, and the lily of the valleys<br />

1 Eu sou a rosa de Sarom, o lírio <strong>dos</strong> vales.<br />

1. {The Shulamite}<br />

אני חבצלת הׁשרון ‏ׁשוׁשנת העמקים׃ .2 2:1<br />

3. Ani khavatselet haSharon shoshanat haamakim:<br />

243


244


Sulamita morava na Galiléia e se chamava pelo nome de duas flores uma das redondezas de<br />

Nazaré e outra de um vale que ficava na região que um dia seria chamada de SAMARIA: O<br />

havatzélet era da planície de Samaria e os shoshanim das redondezas de Nazareth<br />

(Nivalda os coloca ambos como pertencentes á região de Nazareth, podem estar ali<br />

presentes também, – mas é importante que compreender ela nãopensava numa uma planta<br />

da região de Nazareth, mas numa flor da planície de Sarom). O lírio (havatzélet), existe em<br />

Israel há mais de 3.000 anos. Esta palavra vem de uma raiz relativa a flores nativas batzal e<br />

a maior característica é que ela é planta de bulbo (as rosas não o são). De acordo com o<br />

targum o havatzélet, é o narciso (tradução também preferida pela Bíblia de Jerusalém).<br />

Shoshanat, shoshanim (pl) são lírios, bem como a palavra havatzélet, que quer dizer lírio, se<br />

assemelha aos crocus de outono que eram vermelhos como os lírios do oriente, lilazes ou<br />

brancos. Os shoshanim lírios comuns <strong>dos</strong> vales profun<strong>dos</strong> entre montanhas, enquanto que<br />

o primeiro (havatzélet), é lírio das montanhas conforme já dissemos. O lírio tem 6 pétalas e<br />

shoshana vem da raiz de shesh que quer dizer seis. O havatzélet é um lírio diferente, citado<br />

juntamente com os lírios <strong>dos</strong> vales. Os lírios <strong>dos</strong> vales são plantas também de bulbo e<br />

ambas se identificam plenamente. O havatzélet, é portanto, um lírio <strong>dos</strong> montes da Galiléia<br />

e os shoshanim são os lírios do vale. A brancura do havatzélet chamou a atenção da noiva.<br />

(Extraido do Livro - Jesus na Ecologia de Israel - Nivalda Gueiros Leitão).<br />

Sunamita é se compara a uma flor de Sarom. Está revelando um grande segredo. Ela<br />

aponta para a terra de seu NASCIMENTO. Quem diria! Viveu sua vida toda em Sunem,<br />

mas suas origens são de outro lugar. Ali era a região onde viviam os descendentes da tribo<br />

de Manassés. Ela é natural da tribo de Manassés! E se ela é descente de Manassés nos<br />

reserva uma grande surpresa.<br />

Gênesis 46:20<br />

E nasceram a José na terra do Egito Manassés e Efraim, que lhe deu Asenate, filha de<br />

Potífera, sacerdote de Om.<br />

Ela é descendente de José, e tem como ancestral uma egípcia! Que era filha de um<br />

sacerdote. Sua herança espiritual vinha de um sacerdócio egípcio! Israel viveu uma<br />

profunda ligação com o Egito.<br />

E agora vemos a profundidade do elogio que Salomão lhe fez ao associá-la aos carros de<br />

Faraó!<br />

Jacó ao morrer abençoa a José:<br />

21<br />

Depois disse Israel a José: Eis que eu morro; mas Deus será convosco, e vos fará tornar<br />

para a terra de vossos pais.<br />

22<br />

E eu te dou um pedaço de terra a mais do que a teus irmãos, o qual tomei com a<br />

minha espada e com o meu arco da mão <strong>dos</strong> amorreus.<br />

José recebeu um pequeno pedaço de terra que seu pai havia conseguido numa batalha. É<br />

uma batalha invisível, nós não a percebemos em Genesis, porque dela nada foi escrito. É<br />

para nós uma revelação. Não imaginamos Jacó com uma espada nas mãos, além da cena da<br />

luta com o anjo. Além das terras prometidas a Abrãao e a Moisés, descobrimos uma<br />

pequena propriedade que já pertencia legitimamente aos descendentes de Israel. Um<br />

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pequeno sítio. Fora da palestina. A igreja é uma grandiosa propriedade tomada das mãos<br />

<strong>dos</strong> amorreus, pela força e poder de Cristo.<br />

A Planície de Sarom é mencionada na Bíblia (1 Crônicas 5:16, 1 Crônicas 27:29; Isaías 33:9,<br />

Isaías 35:2, Isaías 65:10), incluindo a famosa referência à "rosa de Sarom" (Cântico 2:1). Ela<br />

pertence a Samaria da época de Cristo. Nos tempos antigos, a planície foi particularmente<br />

fértil e populosa. Imigrantes sionistas chegaram no início do século 20, e povoaram a região<br />

com muitos assentamentos. Sharon, Sarom ou Sarona (em hebraico: ‏(ןֹורָׁן é a metade<br />

norte da planície costeira de Israel, norte de Gush Dan e sua maior cidade é Netanya. As<br />

outras maiores cidades nesta região são Ra'anana, Ramat Hasharon e Kefar Sava.<br />

Sunamita se compara a uma flor de uma planície costeira, de uma região célebre, onde ao<br />

fundo se vê o Carmelo, monte da luta entre os profetas de Baal e Elias.<br />

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O distrito de Cesaréia de Filipe se encontra aos pés do monte. É uma área preciosa. Ali<br />

havia muitos cervos. O Salmo 42 foi escrito aqui: “Como o cervo brama pelas correntes das águas,<br />

assim clama por ti, Oh Deus, a minha alma. A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo; quando<br />

virei, e me apresentarei diante de Deus?”. Esses cervos desejavam águas vivas, onde podiam<br />

achá-las?<br />

Esta área está muito próxima do Mar da Galiléia, para o norte. Em Isaías 9:1 lemos:<br />

“Mas não haverá sempre escuridão para a que está agora em angústia, tal como a aflição que lhe veio no<br />

tempo que levianamente tocaram a primeira vez à terra de Zabulom e à terra de Naftali; pois ao fim<br />

encherá de glória o caminho do mar, daquele lado do Jordão, na Galiléia <strong>dos</strong> gentios”.<br />

Esta é uma profecia maravilhosa. Um dia, o Messias viria, e ele faria deste lugar – O mar<br />

da Galiléia– o centro da sua obra. “O povo que andava em trevas viu grande luz; os que moravam na<br />

terra da sombra de morte, luz resplandeceu sobre eles”. Por que diz “terra de sombra”? Porque essa<br />

era uma zona de vulcões. Toda a terra nesse lugar é de uma cor escura, e por isso absorve<br />

muito a luz solar. Por essa razão, também o trigo cresce muito rapidamente, porque recebe<br />

muita energia do sol. Por isso, quando os sacerdotes ofereciam as primícias no templo, eles<br />

tinham muito claro que os primeiros frutos vinham da terra da Galiléia. Se você olhar à<br />

distância todas as casas estão construídas com rocha escura. Quando o Senhor estava em<br />

Cafarnaum, ou no mar da Galiléia, olhando à distância via uma terra escura. É a “terra de<br />

sombra”.<br />

Planicie de Sarom. Cidade de Cesaréia. Ao fundo o monte Carmelo.<br />

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É nessa planície que ocorreram eventos muito significativos. Depois de uma visão<br />

extraordinária que teve enquanto estava em Jope, Pedro iniciou o ministério entre os<br />

gentios, pregando a um centurião romano chamado Cornélio na Cesaréia (Atos 10) que fica<br />

situada em Sharom. Filipe pregou e viveu aqui e teve quatro filhas que profetizavam (Atos<br />

8:40; 21:8–9). Paulo foi prisioneiro na cidade durante dois anos, na mesma planície (Atos<br />

23–26). Ele pregou a Félix, Festo e a Herodes Agripa II, que disse: “Por pouco me queres<br />

persuadir a que me faça cristão!” (Atos 26:28).<br />

É em Sarom que se inicia o ministério do Espírito a to<strong>dos</strong> os povos da terra, através de<br />

Pedro. Lá o primeiro gentio será batizado com Espírito Santo e abrirá as portas do<br />

Evangelho aos povos, raças, tribos e nações. Em Sharom finalmente se inciará o<br />

cumprimento da antiga promessa “Em ti serão benditas todas as famílias da terra”, dito<br />

para Abrãao. Em Sarom Pedro terá a visão extraordinária <strong>dos</strong> animais puros e impuros<br />

sendo desci<strong>dos</strong> até ele num lençol por quatro vezes. Porque Deus amou o mundo de tal<br />

maneira que o santificou. Cada pedaço dele. Cada animal.<br />

Quando Jesus morre no calvário seu sangue purificava a terra inteira. Toda ela foi<br />

comprada para Deus através de Cristo. Cada centro de tortura, cada prisão, cada zona de<br />

prostituição, cada cidade destruídas pelas drogas, cada lugar onde corpos são lança<strong>dos</strong><br />

mutila<strong>dos</strong>, cada pedaço de chão onde um monge budista cai incendiado depois de um<br />

suicídio ritual, cada pedaço de terreiro que é usado para rituais macabros de magia negra.<br />

Toda a terra foi santificada para Deus. Já não existem lugares sagra<strong>dos</strong>, como no Velho<br />

Testamento. Nem coisas separadas como flores ou púlpitos. O chão de uma igreja não é<br />

mais sagrado que um pedaço de cemitério de indigentes. Este é o mistério revelado<br />

a mulher Samaritana que cria que o único local sagrado da terra, o único em que poderia<br />

“cultuar” a Deus, eram as ruínas de um antigo templo samaritano, no monte de Samaria. É<br />

o segredo contado por Jesus “onde quer que ouverem dois ou três reuni<strong>dos</strong> em meu nome,<br />

ai eu estarei”. Todo o UNIVERSO físico foi impactado pela morte de Jesus. E preparado<br />

por ele. Basta que a sunamita chegue. Baste que ela pise.<br />

Josué é obrigado a tirar as sandálias para pisar um lugar santo, porque ali o anjo do senhor<br />