08.02.2017 Views

Revista Dr. Plinio 227

Fevereiro de 2017

Fevereiro de 2017

SHOW MORE
SHOW LESS

You also want an ePaper? Increase the reach of your titles

YUMPU automatically turns print PDFs into web optimized ePapers that Google loves.

O cântico do

Bom Sucesso!


Francisco Lecaros David Ayusso

A ufania de

Santa Joana de Valois - Museu de

Belas Artes, Rouen, França

ser católico!

Santa Joana de Valois foi desprezada

por todo mundo, até pelo

pai e, por fim, repudiada pelo

marido. Mas ela conduziu a vida com

dignidade e serenidade. Fundou uma

Ordem Religiosa e governou muito

bem o feudo adquirido depois de sua

separação conjugal. Após sua morte,

recebeu a honra dos altares.

Apesar de tudo quanto pudessem

dizer dela, só uma coisa importava:

ela era católica, e isso bastava. Para

sua segurança, seu cartão de visita

estava pronto: católica apostólica romana.

É um título lindíssimo!

Essa ufania de ser católico é a raiz

daquilo que Camões chamava “os

cristãos atrevimentos”. Quando temos

essa ufania é que nos atrevemos

a nos lançar. Não porque sejamos

mais na ordem humana dos valores;

talvez até sejamos menos do que alguns.

Mas isso não importa. O que

tem importância é o fato de sermos

católicos, termos recebido o sinal do

Batismo na fronte, sermos filhos da

Santa Igreja Católica Apostólica Romana.

(Extraído de conferência de 15/6/1967)

2


Sumário

Ano XX - Nº 227 Fevereiro de 2017

O cântico do

Bom Sucesso!

Na capa, Nossa Senhora do

Bom Sucesso - Convento

das Concepcionistas,

Quito, Equador.

Foto: Henry Restrepo

As matérias extraídas

de exposições verbais de Dr. Plinio

— designadas por “conferências” —

são adaptadas para a linguagem

escrita, sem revisão do autor

Dr. Plinio

Revista mensal de cultura católica, de

propriedade da Editora Retornarei Ltda.

CNPJ - 02.389.379/0001-07

INSC. - 115.227.674.110

Diretor:

Gilberto de Oliveira

Conselho Consultivo:

Antonio Rodrigues Ferreira

Carlos Augusto G. Picanço

Jorge Eduardo G. Koury

Redação e Administração:

Rua Antônio Pereira de Sousa, 194 - Sala 27

02404-060 S. Paulo - SP

E-mail: editora_retornarei@yahoo.com.br

Impressão e acabamento:

Nywgraf Editora Gráfica

Rua Antônio Pinto Vieira, 322

02566-000 - São Paulo - SP

Tel: (11) 2238-4200

Editorial

4 O cântico do Bom Sucesso!

Piedade pliniana

5 Oração para pedir a troca de vontades

Dona Lucilia

6 “Vejam como estou em paz...”

A sociedade analisada por Dr. Plinio

12 Impulso do passado com vistas ao futuro - II

Dr. Plinio comenta...

17 Equilíbrio de alma

Calendário dos Santos

22 Santos de Fevereiro

Gesta marial de um varão católico

24 A batalha da caravela contra os submarinos

Preços da

assinatura anual

Comum............... R$ 130,00

Colaborador........... R$ 180,00

Propulsor.............. R$ 415,00

Grande Propulsor....... R$ 655,00

Exemplar avulso........ R$ 18,00

Serviço de Atendimento

ao Assinante

editora_retornarei@yahoo.com.br

Hagiografia

31 Modos de tratar os pecadores

Apóstolo do pulchrum

34 Harmonia na arte, harmonia na vida

Última página

36 A Virgem do Bom Sucesso

3


Editorial

O cântico do

Bom Sucesso!

AApresentação do Menino Jesus é um episódio único na história do Templo de Jerusalém. Maria

Santíssima, acompanhada de São José, entra tendo em seus braços o Verbo encarnado. Pode-se

imaginar que, nesse momento, os Anjos encheram o Templo e se puseram a cantar.

Cumprido o rito da Apresentação, que consagrava o bom sucesso da Virgem-Mãe na gestação de

seu Divino Filho, Ela ouve, encantada, Simeão profetizar a glória e a Cruz daquele Menino: Luz para

iluminar as nações e glória de Israel; causa de queda e reerguimento de muitos, sinal de contradição,

pelo qual seriam revelados os pensamentos de muitos corações (cf. Lc 2, 32; 34-35).

O sucesso é filho do esforço, da dedicação e do heroísmo.

Nossa Senhora do Bom Sucesso, no sentido mais amplo da palavra, é a padroeira de todos aqueles

que procuram um bom sucesso para o serviço da Causa d’Ela.

Todos quantos trabalhem a favor da Contra-Revolução, em última análise, esforçam-se para que

desponte o sol do Reino de Maria sobre o mundo. É algo parecido com uma geração, e o nascimento

desse Reino se parecerá admiravelmente com um bom, um magnífico sucesso!

Sóror Mariana de Jesus Torres para ser fiel à vocação dela – uma espécie de profetiza do Bom Sucesso

e do Reino de Maria – teve que passar por provações terríveis, entre as quais, sofrer por cinco

anos, em sua alma, os tormentos do Inferno.

Entretanto, quantas alegrias experimentava ela ao conversar com a Santíssima Virgem, passeando

pelo claustro do convento como Adão com Deus no Paraíso!

Durante os castigos previstos em Fátima, haverá momentos em que nos perguntaremos: “Não será

o Inferno?! Nossa Senhora do Bom Sucesso, rogai por nós!” Haverá também circunstâncias nas

quais sentiremos tanta alegria interior que diremos: “Já não é o Céu?! Nossa Senhora do Bom Sucesso,

rogai por nós!”

E especialmente nas horas mais difíceis deveremos suplicar: “Venha a nós o vosso Reino, seja feita

a vossa vontade, assim na Terra como no Céu!” É o Reino de Nosso Senhor Jesus Cristo na sua expressão

mais perfeita: o Reino de Maria!

Filhos indignos, mas amorosos, transidos de enlevo, quando raiar a aurora desse Reino, poderemos

dizer-Lhe: “Senhora, nós Vos apresentamos o mundo que Vós iluminais. A luz de vosso Reino é

o nosso e o vosso sucesso, Minha Mãe! Vós fizestes tudo, a começar por nos obter a imerecida graça

de sermos levados às fontes batismais. Que gratuidade assombrosa a desse dom!”

Por fim, chegará o momento em que tudo quanto é obra da iniquidade cairá por terra e não passará

de casca vil de uma cobra moribunda. Começará, então, o Reino de Maria e nós cantaremos o cântico

do Bom Sucesso! *

* Excertos adaptados de conferências de 2/2/1983 e 2/2/1985.

Declaração: Conformando-nos com os decretos do Sumo Pontífice Urbano VIII, de 13 de março de 1625 e

de 5 de junho de 1631, declaramos não querer antecipar o juízo da Santa Igreja no emprego de palavras ou

na apreciação dos fatos edificantes publicados nesta revista. Em nossa intenção, os títulos elogiosos não têm

outro sentido senão o ordinário, e em tudo nos submetemos, com filial amor, às decisões da Santa Igreja.

4


Piedade pliniana

Gustavo Kralj

Anunciação - Basílica de São Pedro, Vaticano

Oração para pedir

a troca de vontades

ÓCoração Sapiencial e Imaculado de Maria, que simbolizais a mentalidade sagrada,

a vontade santíssima, a perfeitíssima disciplina da Mãe de Deus, nós Vos pedimos:

abri-Vos para nós.

Considerai nossas mentes infiltradas de máximas revolucionárias! Tende em vista as nossas

vontades debilitadas por toda espécie de maus hábitos e pressões decorrentes do ímpeto

da Revolução! Olhai para a nossa sensibilidade trabalhada pelos mais nocivos fermentos do

mundo satânico que a Revolução vem desenvolvendo, e tende pena de nós!

Nós Vos pedimos que substituais nossas mentalidades revolucionárias, de maneira que

nossos princípios reflitam, com a fidelidade perfeita, a doutrina e o espírito da Santa Igreja

Católica Apostólica Romana. Trocai a nossa vontade corrompida, substituindo-a pela vossa

sem mancha, sem hesitação, sem concessões! Substituí nossa sensibilidade pela vossa, ordenada,

equilibrada, puríssima, em tudo obediente à vossa vontade e inteligência!

Vós sois, Coração Imaculado, o Sacrário do Espírito Santo. Habitai no meu coração para

que o vosso Divino Esposo habite em mim e eu seja um templo d’Ele!

Dai-me, assim, ó Coração Sapiencial e Imaculado de Maria, o Grand Retour tão desejado

e fazei-me um discípulo perfeito vosso! Amém.

(Composta provavelmente na década de 1980)

5


Dona Lucilia

Arquivo Revista

“Vejam

como estou

em paz...”

Devido à influência da Revolução, as pessoas têm uma

espécie de intolerância para com o sofrimento, ficando

inconformadas quando este se apresenta. Dona Lucilia, pelo

contrário, possuía uma total conformidade com a dor. Embora

sofresse muito, possuía uma doçura e uma luminosidade

dentro da alma que a tornavam a mestra da resignação.

ARevolução não é um fenômeno

atuante apenas nas

ideias, nos princípios, mas

também nas tendências. Estas, por

sua vez, têm subjacentes doutrinas

que, precisamente por estarem subjacentes,

o indivíduo tem dificuldade

em conhecê-las e identificar a que

doutrinas correspondem uma série

de tendências sentidas por ele.

Efeitos da Revolução

Industrial nas almas

O papel da tendência é muito especial,

e cabe à graça fazer desabro-

char nas almas dos homens as tendências

boas. Às vezes é pelo que eles

dizem, mas às vezes pelo que a graça

faz sentir de modo imponderável.

Por exemplo, a questão da música

sacra. Esta pode ser tocada como

melodia apenas, e não com palavras,

mas assim mesmo falar possantemente

às almas dos homens, incitando-os

à virtude. De que maneira? Por aqueles

sons e harmonias a música opera,

pela ação da graça, um efeito santificante

das tendências, tranquiliza, ordena,

por assim dizer limpa as tendências

dos homens, e nisso lhes faz

um bem muito grande para a alma.

Há qualquer coisa na Revolução

meio ligada ao seu caráter industrial

no ambiente em que vivemos – pois

estamos ainda sob o domínio da Revolução

Industrial –, com todas as

agitações, febricitações, ambições

despertadas por ela, como também

as friezas de alma, as faltas de afeto,

as durezas, os egoísmos deslavados

que ela suscita. E é muito difícil

para um homem – ainda que ele seja

dotado de uma tal ou qual capacidade

de discussão ou de exposição de

uma doutrina – remover essa disposição

de alma, criada às vezes quando

a pessoa ainda não está no uso da

6


azão, e já essas tendências erradas

vão se formando dentro dela.

Uma influência

sempre benéfica

Arquivo Revista

Arquivo Revista

Uma coisa que eu, em vida de

mamãe, notava muito – ela possuía

em alto grau – era uma forma

de presença que o simples trato comum

de uma dona de casa, quer dizer,

de uma senhora com o seu marido,

os seus filhos, a residência,

ela o fazia com uma ordenação interior,

do mais profundo do seu espírito

tão ordenado, harmonioso,

sério, elevado, mas tão afável, acolhedor,

virtuoso, que aquilo contagiava,

no sentido bom da palavra.

E as pessoas com isso ficavam de

repente distendidas, acalmadas e

tranquilas.

Lembro-me, por exemplo, de que

quando eu era pequeno tive toda espécie

dessas doenças que criança

tem: crupe, coqueluche, caxumba. E,

naturalmente, quem tratava de mim

era Dona Lucilia. Mas, como toda

criança, começava a ficar torcendo

para não ter mais febre. E ela era

uma campeã do termômetro, vira e

mexe o usava.

Ela notava que eu me impacientava

com o termômetro, pois enquanto

não passasse a febre ela não me deixaria

sair da cama, e eu preferia não

ter esse controle e levantar logo. Então,

não querendo acentuar demais

o uso desse instrumento ela punha a

mão sobre a minha testa.

Só o sentir a mão de mamãe sobre

a minha fronte, em geral eu tinha

uma impressão de frescor, de

tranquilidade, de suavidade e todas

as minhas impaciências passavam.

Às vezes mamãe vinha até mim e

eu pensava: “Que bom, ela não vai

fazer baixar minha febre, mas aliviará

qualquer coisa em mim que está

fervendo!” Ela punha a mão na minha

testa e dizia: “Meu filho, você

ainda tem um pouco de febre...” Ela

fazia baixar a sensação de febre, e

era uma tranquilidade…

Muitas vezes a presença de Dona

Lucilia dava-me também a sensação

da proteção da Providência, pelo

modo de me sentir garantido de

tudo, pois ela me protegeria. Quando

pequeno, por ser ela minha mãe

e, portanto, uma pessoa mais poderosa

do que eu. Depois, com o tempo,

isso continuava, mas de uma maneira

diversa.

Por exemplo, eu não ia a um exame

no colégio sem pedir a ela que

me fizesse uma cruz na fronte. E isso

foi assim até as últimas provas da

Faculdade de Direito. Ela fazia, não

uma cruz, mas umas dez cruzes pequenas.

E eu me dirigia aos exames

acompanhado de um primo que estudava

comigo; e o que tem propósito

da parte de uma mãe para seu filho

já tem menor cabimento de uma

7


Dona Lucilia

tia para com seu sobrinho.

Entretanto, o

meu primo, que estava

junto a mim para nos

despedirmos de Dona

Lucilia e irmos para

a Faculdade, pedia

também, e ela igualmente

fazia várias cruzes

sobre a testa dele.

Íamos, então, para o

exame e passávamos

sempre! O que era

mais milagroso com o

meu primo do que comigo…

Quando eu ia viajar

– sempre que não

fossem as minhas viagens

às ocultas para

a Europa sem mamãe

saber; ela só sabia

depois –, ela me

fazia vários sinais da

Cruz na testa. E eu

sentia que aquilo me

protegia, me ajudava.

É Doutrina Católica

que a bênção de

uma mãe pode atrair

a proteção de Deus para um filho. E

ela, ciente disso, queria essa proteção

de todo jeito. Então várias cruzes,

etc.

Ela era um pouquinho baixa, e eu

para a minha geração, alto. E notava

que ela se punha um tanto na ponta

dos pés para fazer as cruzes. Então,

eu me curvava para facilitar. Depois

nos beijávamos e eu saía, às vezes osculando

sua mão também.

Arquivo Revista

Ação de presença de

Dona Lucilia

Tudo isso indicava uma ação de

presença que eu teria dificuldade em

explicitar. Dou outro exemplo:

A sede da Ação Católica era no

mesmo andar que o meu escritório

de advocacia. Após um dia de trabalho,

eu retornava para casa cansado,

porque de manhã dava aulas, à tarde

enfrentava os aborrecimentos próprios

a um escritório de advocacia e

os problemas da Ação Católica. Não

era tanto um cansaço físico comum,

de quem carregou um fardo, mas um

cansaço mais psicológico.

Apenas ao entrar – em geral eu

a encontrava sentada na cadeira de

balanço do meu escritório, lendo ou,

o mais das vezes, rezando – eu sentia

a atmosfera de tranquilidade que

a presença dela deixava naquele ambiente.

Só o fato de ela estar lá já me

valia por duas ou três horas de descanso.

Era uma ação imediata.

Essa ação de presença tem algo

de indiretamente contrarrevolucionário:

tranquilizar e aquietar tudo

quanto é o borbulhar de uma cidade,

que é uma das maiores do mundo, e

preparar para a luta, para a oração,

para a serenidade de

alma. Eis a tranquilidade

que Dona Lucilia

comunicava.

Embora ninguém

me tenha dito, creio

ser esse o fenômeno

que acontece com

as pessoas, principalmente

as mais jovens,

quando estão junto à

sepultura de mamãe

no Cemitério da Consolação.

Por vezes, vejo-as

paradas, algumas

recitam o terço, outras

não estão rezando

propriamente e parecem

estar absortas,

sem prestar atenção

em nada. O que fazem

ali? Estão recebendo

uma influência que, a

meu ver, é o prolongamento

daquela exercida

por ela em vida.

Pude notar que,

quando vão para o Cemitério,

as pessoas andam

com pressa; ao

voltarem, caminham devagar, tranquilas,

conversando. Seria impossível

atrair e reter tantos jovens lá se não

houvesse alguma coisa desse gênero.

Às vezes o Quadrinho 1 ou uma fotografia

de mamãe produz esse efeito.

Paciência com um

sobrinho surdo

Quantas vezes presenciei cenas

assim, na vida de família! Dona Lucilia

tinha um sobrinho surdo de nascença,

com um temperamento muito

difícil. Às vezes, ele ia à casa de minha

avó materna, onde morávamos,

e começava a brigar com ela. Mamãe

ficava olhando aquilo e quando percebia

ter chegado a um certo paroxismo,

aproximava-se dele, tranquilizava-o

e ia com ele para uma saleta

onde o entretinha durante mais de

8


Arquivo Revista

uma hora. Sendo surdo, não graduava

bem o volume de sua voz, e soltava

algumas palavras aos gritos. Ao

cabo de uma hora e tanto, o Tito –

era o seu apelido doméstico – saía

tranquilo, beijava-a e ia embora.

Isso acontecia quando ele e eu éramos

meninos, e até durante nossa

viagem a Paris. Os pais do Tito estavam

lá com Dona Lucilia. Mamãe demonstrava

uma tal paciência com o

Tito, sacrificando por vezes os atrativos

da viagem, que quando preparava

a mala a fim de voltar para São Paulo,

encontrou dentro um vestido muito

bonito, muito fino, que ela não havia

encomendado. Ergueu-o e viu que

estava de acordo com o tamanho dela

perfeitamente. Ficou intrigada e, mexendo

na vestimenta, caiu um cartãozinho,

escrito pela mãe do Tito: “À

querida Tia Lucilia, mil agradecimentos

de Tito.”

Ajudando a encontrar

os ovos de Páscoa

Mamãe organizava piqueniques

de Páscoa num lugar dos arredores

de São Paulo, e escondia os ovos de

Páscoa aqui, lá e acolá. Os sobrinhos

e os filhos dela chegavam depois e

cabia ao pessoal descobrir os ovos de

Páscoa. Alguns eram muito espertos,

saíam logo correndo e encontravam

os ovos.

Vendo minha dificuldade, ela me

dizia sorrindo: “Filhão, veja se você

encontra um ovo lá...”

Eu pensava: “Mas não era mais

fácil que ela me trouxesse o ovo de

uma vez?!”

Eu chegava até o local, e ela me

dizia: “Não, você não está procurando

bem. Procure lá…” Os outros estavam

longe e não ouviam o favorecimento.

Afinal de contas, eu encontrava

uns dois ou três ovos escondidos

por ela num lugar onde me ficasse

fácil encontrar.

Eu sentia o afeto com que isso era

feito e experimentava uma inundação

de alegria inocente e satisfeita,

cumulado e envolto nessa atmosfera

de proteção, de afago,

de bondade.

Mamma

Margherita e

Dona Lucilia

Recordo-me de

que o meu primeiro

movimento grande

de afeto a Maria

Santíssima foi diante

daquela imagem

de Nossa Senhora

Auxiliadora da Igreja

do Coração de Jesus.

Não houve milagre,

a imagem não

se moveu, mas recebi

a graça de esperar

que Ela agisse desse

jeito comigo. Pensei:

“Nossa Senhora

é incalculavelmente

boa! Tão boa, que é

melhor do que mamãe!

E o que mamãe

não está aturando,

Ela atura. Ademais,

me dá uma

força que não recebo

de mamãe. Então

vou pedir para Nossa

Senhora” 2 . Assim

9


Dona Lucilia

Dona Lucilia me preparava para a

devoção à Santíssima Virgem.

São João Bosco, fundador dos Salesianos,

levou sua mãe, Mamma

Margherita para morar no colégio

por ele fundado, onde ela trabalhava

na cozinha e em outros afazeres

de dona de casa. E assim, o quanto a

saúde permitiu, até o fim da vida ela

trabalhou.

São João Bosco dizia que Mamma

Margherita era uma verdadeira santa,

e a queria bem de um modo extraordinário.

Podemos admitir que São João

Bosco fosse canal – isto ele era, certamente

– de muitas graças para toda

aquela meninada, professores, sobretudo

padres, freiras, etc., mas que

algumas dessas graças eram recebidas

pelo pessoal por meio da Mamma

Margherita. Isto parece verdadeiro,

tanto é que a sepultura dela

é visitadíssima por toda espécie de

pessoas ligadas à obra salesiana, que

vão lá rezar, embora ela não tenha

sido canonizada.

E creio que se alguma pessoa, a

qual a Providência destinasse a receber

uma graça pela Mamma Margherita

e não pedisse a ela, podia

não receber aquela graça, porque

Deus indica o caminho que cada um

deve seguir.

Em ponto num certo sentido menor,

em certo sentido maior, dentro

de nosso Movimento uma coisa dessas

pode se repetir perfeitamente.

Não vejo nada de heterodoxo.

Tenho a impressão de que, ainda

que não tivéssemos infidelidades, a

época na qual vivemos é de tal maneira

oposta à fidelidade, que se não

houvesse em determinado momento

uma intervenção do Divino Espírito

Santo para nos elevar a uma altura

bem maior, por um modo pelo

qual o caminho comum da graça não

nos ergueria, não chegaríamos aonde

precisamos para enfrentar os castigos

previstos por Nossa Senhora

em Fátima.

Carlos Aguirre

Tenho a impressão de que a ação

de Dona Lucilia nos predispõe para

essa graça, nos dá serenidade para

esse efeito.

Doçura e luminosidade

de alma

Ela sofria muito, mas foi a melhor

mestra de resignação que encontrei

Mamma Margherita

em minha vida. E não houve homem

algum que me ensinasse a resignação

como mamãe. Porque ela tinha

uma espécie de doçura e de luminosidade

dentro da alma que a levava

a suportar dores que para outros seriam

insuportáveis, por uma espécie

de elasticidade interior, pela qual tinha

uma capacidade de sofrer cada

vez maior, e às vezes de um modo

10


Arquivo Revista

espantoso! Mas, achando tão natural

sofrer, e amando tanto uma certa

consolação interior que era a causa

da doçura dela, e a tornava a mestra

da resignação!

Embora mamãe, às vezes, estivesse

muito aflita, uma pessoa podia falar

com ela e sair consolada, por essa

elasticidade para a dor, que eu não

vejo as pessoas de hoje terem. Elas

são rebarbativas, revoltam-se contra

a dor e a consideram quase uma vergonha.

A influência hollywoodiana torna

feio o sofrer. O bonito é estar continuamente

alegre e bem disposto,

ter uma espécie de intolerância para

com o sofrimento, o revés e a indisposição.

Por causa disso, se a dor se

apresenta, os homens ficam rebarbativos,

zangados, não se conformam.

Dona Lucilia não era assim. Por

exemplo, às vezes ocorria de mandarmos

vir um aparelho para verificar

como estava o coração, ou a

pressão, etc. E cada inspeção dessas

pode trazer uma notícia-bomba.

De maneira que a pessoa, em geral,

quando se sujeita a algo assim, sobretudo

uma senhora que é mais fraca

para essas coisas do que um homem,

fica meio preocupada.

Eu a vi mais de uma vez ser sujeita

a exame cardíaco, com uma naturalidade,

uma serenidade, uma coisa

única! Terminado, em geral dava

certo, porém ela não tinha um grande

júbilo. Mas não dando bom resultado,

ela não sofria uma grande

baixa; continuava a vidinha dela

tal e qual. A meu ver, a longevidade

dela se atribui, em parte, a isso. Porque

para uma pessoa que a propósito

de qualquer coisa fica alarmada,

isso não pode deixar de ser desgastante.

Ela tocava aquilo com uma serenidade,

mas que era a tal elasticidade

para a dor. Mamãe sofria muito,

mas com uma calma, achando natural

sofrer, e com uma bondade resultante,

creio eu, da sua devoção

ao Sagrado Coração de Jesus, que

nos aparece na iconografia católica

cercado com uma coroa de espinhos,

indicando o sofrimento que

Ele teve.

Em geral, quando uma senhora

tira uma fotografia, a expressão dela

é: “Olhe como eu estou bem sucedida,

bonita, contente.” Em mamãe

a expressão é sempre: “Vejam como

eu estou em paz, apesar de muitas

dores, e como a minha alma está

bem.” É a expressão do Quadrinho.


v

(Extraído de conferência de

22/9/1990)

1) Quadro a óleo, que muito agradou

a Dr. Plinio, pintado por um de seus

discípulos, com base nas últimas fotografias

de Dona Lucilia. Ver Revista

Dr. Plinio n. 119, p. 6-9.

2) Ver Revista Dr. Plinio n. 122, p. 18-23.

11


A sociedade analisada por Dr. Plinio

Impulso do passado com

vistas ao futuro - II

Os patriarcas têm o senso da realidade profunda,

representam todo o impulso do passado, levando a

sociedade a dar um passo para a frente com eles. Nenhum

homem merece o título de patriarca se não cumpre

duravelmente os Mandamentos da Lei de Deus.

Francisco Lecaros

Quando uma família é muito

antiga sua memória vai

se perdendo no passado;

por exemplo, a memória da família

de um nobre pode conservar-se desde

mil anos atrás. Mas uma família

mais modesta nem tem sentido conservar

o nome por tanto tempo. Esse

é o passado da família, e o rumo que

o presente carrega em direção ao futuro,

mas que ele recebeu do passado,

é tradição. Vai para a frente!

Grandes homens à

maneira de patriarca

Oração em família

Museu Saint-Loup,

Troyes, França

As famílias ilustres ou não, inclusive

pequenas, são animadas por uma

determinada tradição e, de vez em

quando, os parentescos entre elas já

são meio apagados, não se sabe mais

bem quem é parente de quem. Elas

têm uma parentela geral, mas difusa;

estão se transformando em país.

E aquela unidade que o patriarca

conservava vai-se borrando, generalizando;

o nexo patriarcal vai-se dissolvendo

ao longo das gerações. Então,

qual é a solução?

12


É aparecerem grandes homens

que fazem um papel à maneira do

patriarca, os quais representem toda

a meta, todo o impulso do passado;

dessa forma aquilo que se estava tornando

vago, por assim dizer, se precisa,

se define e dá um passo para a

frente com eles.

E assim essa longa sequência se

acentua.

Mas isto não quer dizer apenas formar

grandes homens cujos nomes

saiam nos jornais. Eu conheci gente

modesta – não do proletariado, mas

da pequena burguesia – constituindo

um grupo de famílias, que se percebia

serem parentes, e havia um que

eles respeitavam enormemente: Fulano.

“Vamos ouvir o Fulano, a opinião

dele é decisiva.” Ou então Da. Fulana,

aquela que sabe e é meio médica

daquele grupo de famílias. Quando

alguém adoece, perguntam para

ela qual é o melhor remédio, ou o melhor

médico, ou se aquela doença tem

perigo ou não. Quando há uma briga

na família, vão pedir conselho para

Da. Fulana. Se alguém da família está

desempregado, solicitam-lhe emprego

porque o marido dela arranja. Tais

pessoas são uma espécie de patriarca

nascido de um definido, mas pequeno,

aumento de valor. São grandes homens

de quarteirão, dos quais não se

deve rir; pode-se sorrir, mas não rir.

Nós sorrimos quando, ao olharmos

para um formigueiro, vemos uma formiga

carregar uma folha enorme para

dentro dele. Sorrimos e não achamos

ridícula, mas fenomenal a formiga,

porque pequenininha ela carrega uma

folha tão grande, e para aquele formigueiro

marca história.

Um velho professor

de música

professor de música, homem já idoso,

austríaco. A mãe parece-me que

era – não estou bem certo – alemã

ou francesa. Ele, como músico, tocava

violino… todo musical. E era, em

medida pequena, um homem respeitável

mesmo.

Sua mulher era vivíssima. Ele se

entregava a uma vida meio ideal, para

poder dar o que o talento musical

concede, e a mulher fazia um pouco

o papel do marido: ela trabalhava,

bordava, confeccionava rendas, fazia

bolos e vendia. O filho ficou médico,

as filhas todas se formaram, uma delas

em professora de música; todos

fizeram a vida. Tinham um respeito

por ele... Mas eu percebia que aquela

rua – e os dois quarteirões adjacentes

– era de pequena burguesia.

E havia naquela redondeza um respeito

pelo velho professor, quando

ele saía ou nos acompanhava ao jardim,

brincando com muita benevolência,

etc. Eu notava que o pessoal

da rua olhava para ele com respeito.

A molecada que jogava futebol na

via pública, quando passava o professor

parava e assim ficava até ele

terminar seu trajeto.

Era uma notabilidade de quarteirão,

de arrabalde. Feliz a cidade onde

cada arrabalde ou cada quarteirão

tem um grande homem, um patriarcazinho,

assim!

Diretor funcional de

repartição pública

Eu fui também funcionário público,

e notei que algumas repartições

tinham diretores patriarcais. E outras

possuíam diretores funcionais

apenas.

Arquivo Revista

Assim, por exemplo, eu imagino

que era, nos meus remotos tempos de

infância, o Largo do Coração de Jesus.

Eu conheci, numa rua próxima

do Largo, uma família cujo pai era

Igreja do Sagrado Coração

de Jesus, na década de

1920, São Paulo, Brasil

13


A sociedade analisada por Dr. Plinio

Numa seção de médicos

em que trabalhei,

o diretor era um homem

rico, morava inclusive

na Avenida Paulista.

Ele chegava de automóvel

à repartição, a

qual era distante da Avenida

Paulista. Ele ia três

vezes – ou duas, não me

lembro bem – por semana

à seção; de longe dava

um toque de buzina e

já vinha o porteiro para

lhe abrir a porta que dava

para um parque dessa

repartição.

Ele entrava com uns

olhos de caráter não definido

por detrás de uns

óculos esfumaçados, que

não permitiam bem ver

o que ele estava observando.

Um olhar bambo.

Ele passava por nossa

sala, dizia “boa-tarde”

para todo mundo, uma

pseudocortesia, e trancava-se

em sua sala.

Daí a instantes, o secretário ia

com o expediente para a sala e despachava

com ele. O diretor ficava

meia hora ou uma hora lá. Depois se

levantava, dizia “boa-tarde”, sem falar

com ninguém, e saía.

Havia medo dele. Inclusive porque

era um homem rico e poderoso.

Mas nele não existia patriarcalidade

nenhuma.

Diretor patriarcal

Divulgação (CC3.0)

Lembro-me de um outro homem

que era diretor de uma repartição

de engenheiros, mas diretor-patriarca:

um homenzinho baixinho, já idoso,

calvo com uma coroa de cabelos

brancos, e uma barbichinha branca

pontuda; e tesinho, representando

a personificação da consciência,

mas muito interessado por cada funcionário.

E nas horas vagas, do café,

Igreja de Santa Cecília, São Paulo, Brasil

etc., ele conversava com os funcionários,

sempre ditando altas sentenças

que os iluminavam pela sabedoria.

Eu as julgava umas vigorosas banalidades,

mas eles achavam o homem

formidável.

Um dia eu estava subindo as escadas

da Igreja de Santa Cecília – e como

não gostava de subir escadas, tinha

tomado o hábito de subi-las correndo,

porque assim se acaba a coisa

logo; era um modo de combater a

preguiça – e vejo a meu lado, a escada

é larga – o Doutor Fulano com a barbinha

dele, que ia com duas ou três filhas

já vetustas também, solteironas,

acompanhando o pai para a Missa.

Elas olhavam para o jeito do pai

subir a escada, mas cada passo dele

era um respeito, para evitar que o

“ídolo” não se quebrasse na ascensão…

E ele dando o braço para uma

e para outra e com ar digno. Elas encantadas

com o pai… Ele era o pa-

triarca daquela pequena

unidade como era o patriarca

da repartição. E,

mais ainda, ele merecia

ser: para o seu tamanhinho

estava perfeitamente

benzinho.

Onde entra a indústria

e a máquina, o patriarcado

desaparece; é uma

coisa mais ou menos intuitiva,

e creio que nem

sequer preciso explicar.

A questão do

“grande homem”

Então, podemos ter

mais ao vivo a ideia do

que seria uma sociedade

com um mundo de pequenos

patriarcas assim;

eles tendem a patriarcalizar

o patriarca maior,

de maneira a formar uma

hierarquia natural de patriarcas,

que é a própria

hierarquia do povo. E,

naturalmente, as famílias ilustres, nobres,

têm também seus patriarcas, e

há famílias que são patriarcais em relação

a outras. Não é só este que é patriarca

em relação àquele, mas há famílias

que são patriarcais em relação

a outras famílias.

Vejamos agora o ponto precioso

disso.

Um Demóstenes pode ser uma

grande honra para um país, mas é

possível também que ele seja um

grande malfeitor. Todo homem inteligentíssimo

e dotado de muita força

de vontade, ou tende para o santo

ou para o bandido. Porque, se ele

é voltado para um ideal verdadeiro e

bom, faz toda espécie de benefícios

e encaminha para o bem. Mas se é

direcionado para o interesse pessoal,

ele se serve de seu talento para guiar

para a direita ou esquerda, do modo

mais vil, a multidão que depende

dele. E tudo tem conexão com o di-

14


nheiro ou a imoralidade; ele leva as

pessoas de um lado para outro.

Qual é a defesa da sociedade contra

o “grande homem”? Porque a sociedade

precisa ter uma defesa, senão

o “grande homem” é um vendaval

que de vez em quando nasce e

destrói tudo. Este é o aspecto negativo

e positivo do “grande homem”.

E os defensores são os patriarcas.

Porque eles têm o senso da seleção,

da escolha, da realidade profunda.

E esse senso faz com que, quando o

“grande homem” é um charlatão, no

comentário do âmbito dos patriarcas

eles o recebem com frieza. Tal frieza

explica aos outros, e, quando necessário,

eles falam, porque é preciso ter

desconfiança com aquele homem.

Portanto, o “grande homem” ou

afina com o que há na sociedade de

melhor, que são os patriarcas, ou

não tem carreira. Mas os patriarcas

não dependem dele.

O professor de música ao qual me

referi não dependia de ninguém: ele

exercia uma influência direta sobre

aqueles quarteirões. Mas o “grande

homem”, se quisesse ter influência

ali dentro, dependia dele, porque

nada havia como a aprovação do

professor para levantar a reputação

de um homem. E nada como a “maledicência”

dele para derrubar.

E era, por assim dizer, este cenáculo

invisível de patriarcas que servia

de rumo para que o país não fosse

como uma espécie de navio com

a carga muito leve, que as ondas podem

derrubar, “enlouquecendo” o

navio. Eles, os patriarcas, são a carga

sadia, a tradição.

Virtude primitiva dos

antigos patriarcas

Em relação a este todo, o que é o

Sagrado Coração de Jesus?

Nenhum homem merece esse

patriarcado verdadeiramente se

não pratica duravelmente todos os

Mandamentos. Os antigos patriarcas

das antigas tribos, muito frequentemente,

eram herdeiros de

vagas reminiscências do tempo de

Noé, talvez de Noé até Adão e Eva,

quando a humanidade ainda tinha

a marca dos ensinamentos de Deus

e do convívio com o Criador, feito

por uma revelação de que lhes

constava alguma coisa. E a pureza

das circunstâncias primitivas em

que eles viviam facilitava-lhes levar

uma vida que precariamente podia

ser chamada virtuosa. Daí a respeitabilidade

deles.

Mas hoje em dia acabou isso, porque

ninguém vive da revelação do

tempo de Noé, mas da Revelação

feita ao povo eleito e a realizada por

Nosso Senhor Jesus Cristo e pregada

para o mundo inteiro.

Francisco Lecaros

15


A sociedade analisada por Dr. Plinio

E quem recusa essa Revelação, se

pode conhecê-la, peca. Quem aceitou

a Revelação e a rejeita é um

apóstata. Para esses não há possibilidade

de ter a virtude primitiva dos

antigos patriarcas.

Eles são inimigos de Nosso Senhor

Jesus Cristo que é o Modelo de

todo o Bem. Todo homem, quando

tem vontade de ser santo, deseja imitar

Nosso Senhor Jesus Cristo, de ser

como Ele. E o Coração Sagrado de

Jesus nos revela, como no seu foco, a

própria santidade d’Ele.

Quando vemos uma imagem do

Sagrado Coração de Jesus temos

vontade de olhar para o Coração,

ajoelhar e dizer: Anima Christi, sanctifica

me!

O Sagrado Coração de

Jesus é o Patriarca, o

alfa e o ômega de tudo

De outro lado, o Sagrado Coração

de Jesus, enquanto tal, atua possantemente

sobre a vontade do homem.

Vê-Lo expresso pelo seu Coração,

pela sua bondade, sua generosidade,

desarma a nossa maldade.

Há qualquer coisa em nós em que os

arreganhos do egoísmo, do ceticismo,

da dúvida, das desconfianças, da

preguiça, da modorra, da ansiedade,

tudo isso entra em paz. Olhando para

o Coração de Jesus, dir-se-ia que

as virtudes cardeais vão renascendo.

É um mar de lama que vai secando

e se transforma em pó, deixando de

fora apenas a antiga catedral – isto é,

a nossa virtude –, outrora submergida

pelo lodo.

O Sagrado Coração de Jesus é o

Patriarca, a meta, o impulso originário,

a tradição, o começo e o fim, o

alfa e o ômega de tudo o que se fez

depois d’Ele.

A Santa Igreja Católica é o Corpo

Místico de Cristo. Ela reluz de tudo

quanto há n’Ele, quando vista na sua

autenticidade e não em contrafações

miseráveis como verificamos hoje.

Sagrado Coração de Jesus - Catedral de Santiago, Innsbruck, Áustria

Então, ver a Santa Igreja Católica

é ver a Nosso Senhor Jesus Cristo.

Assistindo a uma Missa, percebemos

o esplendor da Liturgia onde reluz

a santidade divina de Nosso Senhor

Jesus Cristo.

Daí nascem todas as condições

para uma sociedade virtuosa. E onde

há uma sociedade virtuosa, meio

como causa, meio como efeito, o tecido

patriarcal se compõe. Está feita

a Cristandade.

v

(Extraído de conferência de

11/01/1986)

Francisco Lecaros

16


Dr. Plinio comenta...

Equilíbrio de alma

A Revolução Industrial atentou contra as virtudes cardeais,

especialmente a da temperança. Ela promoveu o rompimento

de uma série de equilíbrios, que corresponde ao nascedouro

de uma revolução neurológica e psiquiátrica.

Arquivo Revista

Uma das razões pelas quais

o inocente vê as coisas

com clareza está no fato

de ter ele, na sua ordenação, uma

propensão natural para considerá-

-las em suas hierarquias. Como a

pessoa inocente, na própria retidão

de sua natureza, mesmo sem ter explicitado

nada, é dotada de espírito

muito hierárquico, tende a não misturar

uns elementos com os outros,

nem agrupá-los erradamente, ou seja,

a não fazer confusão.

Inocência e espírito

hierárquico

Em geral a confusão dos assuntos

provém, em larga medida, da falta

de espírito de hierarquia. Ora, esse

espírito emana da inocência, porque

o inocente distingue muito bem entre

o essencial e o acidental, aquilo

que tem maior ou menor importância.

Como ele não tem apegos nem

movimentos desordenados, o seu

olhar é hierárquico e as suas apetências

ordenadas. Por isso, ele toma

uma posição facilmente anti-igualitária.

Então, esse papel do espírito hierárquico

– visto fora do eterno problema

das classes e hierarquias so-

17


Dr. Plinio comenta...

Francisco Lecaros

Isabel, a Católica, sendo proclamada Rainha

Alcácer de Segóvia, Espanha

cidades. Sempre que se quer ou rejeita

uma coisa intemperantemente,

a própria intemperança daquela

posição de alma suscita o desejo de

uma velocidade falsa. A preguiça dá

a vontade das falsas lentidões e, pelo

contrário, os apegos favorecem

o gosto das velocidades super-rápidas,

excessivas e contínuas. O indivíduo

temperante gosta das velocidades

proporcionadas à rapidez e à

lentidão do raciocínio e da elaboração

ordenada, normal do ser humano,

apreciando o verdadeiro repouso

como a verdadeira ação, dentro das

medidas tomadas em função da natureza

dele.

Há uma velocidade na qual a natureza

do indivíduo legitimamente se

compraz, e que pode vir a ser uma espécie

de superpotência dele. Existe

também uma lentidão na qual ele se

regozija e que é uma grande capacidade

de recolhimento. Ou, o que é perfeitamente

legítimo e respeitável, um

homem sem esses extremos, mas com

as proporções normais das coisas.

Contudo, quando o homem perde

a inocência, e com ela esse equilíbrio,

começam a se formar nele cargas de

apetência ou de recusa da ação, que

já correspondem à ação pela ação

ou à inércia pela inércia. De maneiciais,

formas políticas e sociais de organização

– chega a este ponto: a inocência

é a condição para a formação

do verdadeiro espírito hierárquico.

Disso decorre outra consequência.

Em toda sociedade verdadeiramente

hierárquica paira certa inocência,

enquanto nas sociedades niveladas,

igualitárias, não.

Portanto, no tema das desigualdades,

é muito legítimo considerar

o lado socioeconômico ou político;

ademais, é um campo muito tangível,

onde se pegam com facilidade as

coisas como são, porém não é o mais

importante. O aspecto principal é ter

o espírito hierárquico, essa inocência

hierarquizante que paira nos lugares

onde esse espírito está dominando

adequadamente.

Eu não acredito, por exemplo,

que uma pessoa entregue à lubricidade

possa ter um verdadeiro espírito

hierárquico. Se tiver, é por hábitos

mentais oriundos do tempo em

que ela era inocente. Contudo, aquilo

está deperecendo como um sorvete

ao Sol: subsiste durante algum

tempo.

Assim, quando demonstramos

tanto empenho em que a nota hierárquica

refulja sobre toda a sociedade,

mais do que a ordenação hie-

rárquica das coisas, estamos desejando

a refulgência desse espírito sobre

todos os homens. Ora, é precisamente

este espírito que a Revolução procura

eliminar.

Isso se liga ao assunto do qual vínhamos

tratando 1 .

Temperança e velocidade

No fundo da alma humana inocente

estão contidas todas as formas

possíveis de temperança. Uma

dessas formas está ligada às velo-

Marcha comunista em 1917

Divulgação (CC3.0)

18


a que o indivíduo adquire um gosto

pela rapidez, não por ela o conduzir

diretamente ao fim, mas pela velocidade

enquanto tal. Do mesmo modo,

a lentidão não o agrada pelo gosto da

calma, mas pela pachorra em si.

fecristovao (CC3.0)

Delírio pela mudança

Durante o período desde o Humanismo

ou a Renascença até o começo

da Revolução Industrial, no fim do

século XVIII – naturalmente se nota

muito mais depois da Revolução

Francesa –, há o rompimento de uma

porção de velhos equilíbrios, que corresponde

ao nascedouro de uma revolução

neurológica e psiquiátrica.

No indivíduo pré-Revolução Industrial,

por haver nele apetências desregradas,

começam se desencadear

apegos fabulosos, os quais ele quer

satisfazer, mas que são reprimidos

pelas lentidões do compasso da vida.

Então, ele tem uma vontade doida de

velocidades desenfreadas.

Isso gera um efeito curioso: na Revolução

Industrial, as descobertas

que chamam mais a atenção do público

e o inebriam mais são as que permitem

correr. Quer dizer, as supervelocidades

inebriantes empolgam mais

do que, por exemplo, o encontro de

um novo remédio ou de um sistema

de fabricar e pôr ao alcance de muito

mais gente travesseiros cômodos.

Assim, a primeira coisa que salta

aos olhos na Revolução Industrial é

a mania da velocidade em todos os

aspectos, e foi para onde a atenção,

a confiança e o entusiasmo do público

por essa Revolução mais se acentuou.

Isso se deu por causa da carga

excessiva de calma que as pessoas

carregavam anteriormente.

O gosto pela trepidação entra aí

como uma espécie de subproduto do

horror à inação. Como a pessoa tem

aversão à inércia, ela tem horror a

que zonas de sua alma não estejam

continuamente solicitadas a alguma

forma de impressão ou de ação.

Entretanto, esse desejo de trepidação

é algo colateral. A meu ver,

uma prova disso está no seguinte:

tão logo são fabricados transportes

velozes com motores muito barulhentos,

os próprios fabricantes se

põem a inventar artefatos que diminuam

o barulho. E às vezes se sentem

triunfantes quando atenuam ou

eliminam o ruído, mas nunca quereriam

diminuir a velocidade.

Há uma espécie de adoração do

movimento dentro disso, relacionada,

por sua vez, com a mania de fazer

que é, ela mesma, a mania de

mudar. O delírio pela mudança para

satisfazer o gosto de novidade marca

não só a Revolução Industrial, mas a

mentalidade dos que vivem imersos

nessa Revolução.

Idade Média: explosão

de vitalidade

Se buscarmos as causas mais profundas

dessa transformação veremos

que, da vida aventureira da Idade

Média para a existência cada vez

mais caseira dos séculos posteriores,

houve um acúmulo excessivo de securitarismo.

O desaparecimento, a

fuga do heroísmo de dentro da existência

humana tinha que produzir

algum desequilíbrio nesse sentido.

É fácil compreender como a reação

proveniente desse desequilíbrio tenha

produzido, forçosamente, a mania

da velocidade.

Mas não é a única razão. A meu

ver, a causa preponderante está nas

apetências desregradas.

A posição verdadeira preconizada

por nós é, portanto, de um equilíbrio

no ponto de partida que se chama

inocência, e entra no nosso conceito

de Contra-Revolução, de hierarquia,

de pureza, etc. É uma espécie

de temperança primeira e fundamental.

Para compreendermos todo o estrago

perpetrado pela Revolução Industrial,

seria preciso termos a ideia

desse equilíbrio de alma primeiro,

originário, pré-existente à essa Re-

19


Dr. Plinio comenta...

Leopoldo Werner

como um inerte,

mas um superativo.

Na Idade Média

era tal a capacidade

de contemplação

e de

ação ao mesmo

tempo, que o povo,

ao construir

uma catedral, tinha

uma noção

global, implícita

ou explícita, de

como ela seria.

Eles a contemplavam,

mais ou menos,

como os judeus

a Terra Prometida.

Passavam

gerações trabalhando

naquele

edifício sagrado,

com calma, sem

exigir vê-lo concluído.

Morriam

em paz com a catedral

incompleta,

mas cuja edi-

Catedral de Reims, França

ficação eles, ativa

volução, já meio estragado pelo período

que vai do Humanismo a Dan-

realizar. Vejo nisso um equilíbrio ex-

e contemplativamente, procuraram

ton, e que só se vê inteiramente na traordinário! A eternidade era uma

Idade Média.

das dimensões do tempo para eles.

Eu compreendo bem terem havido

exceções no mundo medieval. descomunais, mas queriam produzir

Aliás, os medievais faziam coisas

Entretanto, de um modo geral, existiram

pujanças e atividades descon-

estático, e nem um pouco a do ester-

a impressão do proporcionado, do

certantes que não consistiam na intemperança

pela intemperança, nem estertor continuamente em tudo.

tor. A arte moderna visa produzir o

na fobia do repouso, mas correspondiam

à explosão da vitalidade de um que eles faziam eram voltados a pro-

As cores dos vitrais e tudo o mais

mundo extraordinariamente fecundo,

cuja temperança consistia em ção, a qual coabita harmonicamente

duzir no homem uma forma de sensa-

entrar opulentamente dentro do jogo

da vida, pelo desejo saudável de tas, mas não contraditórias. Essa é a

com todas as outras sensações opos-

gastar-se a si próprio, dando origem, melhor noção de repouso. Ao contemplarmos

as coisas medievais, sen-

por sua vez, ao gosto dos repousos

profundos. Por vezes, essa vitalidade

partia para as grandes contem-

dor, de candura e de profundidatimos

nossos anseios de alegria e de

plações. E o homem muito ativo venerava

o muito contemplativo, não atendidos ao mesmo tempo, de

de, de ação e de contemplação meio

ma-

neira a ter uma espécie de plenitude

onde a nossa vitalidade atinge o auge.

Galope para a loucura

A Revolução Industrial não tem

essa meta, mas pelo contrário rompe

com ela.

No século XIX houve quem se

perguntasse, em presença da Revolução

Industrial, se ela atentava contra

as virtudes teologais, e chegaram

à conclusão que não. Porém, ela

atentava contra as virtudes cardeais,

e isso eles não viram.

Ficam dados, assim, esses pressupostos

para uma análise da Revolução

Industrial, que são um ponto de

equilíbrio interno do homem, ou seja,

a inocência, na qual, proporcionadamente

com a natureza humana,

o homem sente, conforme as circunstâncias,

que todas suas paixões,

todos os seus instintos e impulsos

da alma podem aplicar-se e desenvolver-se,

mas nunca em detrimento

do equilíbrio entre si. Cada qual tem

um dinamismo por onde se move

sem violar os demais, sem procurar

ocupar um espaço que não lhe é devido,

e tendo seu gáudio em chegar

adequadamente à plena intensidade

de si mesmo nas ocasiões em que isso

se justifica. E fora disso, tendo um

gáudio em ocupar a proporção devida

na sã psicologia humana, o que é

a aplicação, nessa correlação interna,

dos princípios que regem a sociedade

hierárquica, harmônica, equilibrada,

pura e sacral.

A violação desse equilíbrio fundamental

é o ponto de partida de todas

as desordens, e produz esse galope para

a loucura que vemos hoje em dia.

A Revolução Industrial é, portanto,

um modo para produzir uma espécie

de desordem daquilo que, no sentido

literal da expressão, seria a infraestrutura

do pensamento humano, o pressuposto

pessoal, psicológico de equilíbrio

que deve ter o homem, quando

ele se põe a pensar, a querer, a viver.

20


Juan Manuel Besnes e Irigoyen (CC3.0)

Tendências: a ordem

natural, o sobrenatural

e o preternatural

O mundo das tendências não existe

apenas na ordem natural. Essas

tendências são muito visitadas pela

graça, que produz no homem esse

equilíbrio de que eu falo.

Também a tendência para os desequilíbrios

é muito visitada pelo

preternatural, e o homem também

sente algo do demônio dentro disso.

Daí decorre que, historicamente,

em cada indivíduo não há apenas o

fenômeno natural. Ele teve sensações

mais ou menos místicas que o

levaram a conhecer a graça, e essas

sensações ele recusou por uma coisa

do demônio, e os dois polos estão

implantados na alma dele; e a vida

inteira ele tem uma atração da graça

e do demônio, ou uma fobia do

demônio e da graça, que estão no

fundo da Revolução tendencial dele,

fazendo a luta concomitantemente

com os elementos naturais, interpenetrando-se

e dando o fundo das

origens da Revolução ou da Contra-

-Revolução.

Entretanto, o Humanismo deu ao

homem uma fobia do sobrenatural e

uma tendência ao comprazimento do

natural que, no fundo, tocava nesse

ponto. Então, o demônio entrou.

O fim da Idade Média foi precedido

por uns cem ou duzentos anos de

decadência, antes de aparecer o contrário

dela, que é o fruto do extremo

da decadência dela mesma. O período

da cavalaria andante, dos menestréis,

dos jograis, dos romances

de amor eram fugas do sobrenatural

graduais que preparavam o momento

em que viria a rejeição. O Humanismo

é, portanto, o brado de revolta

final de uma longa evolução anterior.

Em alguns ambientes entrava o

mal e começava a produzir esse desequilíbrio.

Os bons se deixavam

tentar, tiveram um pequeno esmorecimento

anterior ao pecado. Veio a

tentação, eles caíram.

Tendo sentido a ação da graça e

do demônio dentro de si, o homem

percebe que os meros padrões naturais

de equilíbrio não lhe bastam. Se

ele busca esse equilíbrio, quando encontra

a Igreja Católica ele procura

discernir isso nela e amá-la por essa

causa, e fazer com que isso se generalize

por sua alma.

Embora os estilos que foram penetrando

sucessivamente na arte religiosa

terem sido cada vez menos ricos

disso, houve um fenômeno pelo

qual, tomando por pretexto instrumentos

de expressão material menos

idôneos, entretanto a graça continuava

a fazer sentir integralmente

esse equilíbrio dela.

Portanto, essa impressão de equilíbrio

proveniente da graça, posso

dar testemunho de que senti em

todas ou quase todas as igrejas onde

estive. Com mais intensidade em

umas, menos noutras, com muito

mais intensidade no estilo medieval,

evidentemente.

Isso se aplica às pessoas também.

Quer dizer, os próprios clérigos tinham

um certo carisma no qual algo

disso transparecia.

De maneira

que, apesar de

talvez eles terem

Meister des Codex Manesse (CC3.0)

advertido pouco

a respeito da Revolução

nas tendências,

enquanto

contrária às virtudes

cardeais, a

Igreja irradiou esse

equilíbrio continuamente.

v

(Extraído de

conferência de

20/8/1986)

1) Ver Revista Dr.

Plinio n. 226, janeiro

de 2017,

p. 9-13

21


Andrea Barbiani (CC3.0)

C

alendário

dos Santos – ––––––

São Pedro Damião

1. São Sigisberto III, rei (†656). Filho

do rei merovíngio Dagoberto I.

Construiu os mosteiros de Stavelot,

de Malmedy, na Bélgica. Distribuiu

esmolas às igrejas e aos pobres. Morreu

em Metz, França, aos 26 anos.

2. Apresentação do Senhor.

Santa Joana de Lestonnac, viúva

(†1640). Após a morte de seu esposo,

fundou em Bordeaux, França, a Sociedade

das Filhas de Nossa Senhora,

à imitação da Companhia de Jesus,

para formação da juventude feminina.

3. São Brás, bispo e mártir

(†c. 320).

Santo Oscar, bispo (†865).

4. Santa Joana de Valois, rainha

(†1505). Ver página 2.

Santo Isidoro de Pelúsio, presbítero

(†c. 449). Ver página 31.

5. V Domingo do Tempo

Comum.

Santa Águeda, virgem e

mártir (†c. 251).

Beata Isabel Canori

Mora, mãe de família

(†1825). Sofreu com paciência

e caridade a infidelidade

e maus tratos de um

mau esposo. Ingressou na

Ordem Terceira da Santíssima

Trindade, em Roma,

oferecendo sua vida pela

conversão dos pecadores.

6. São Paulo Miki e

companheiros, mártires

(†1597).

São Brinolfo Algotsson,

bispo (†1317). Bispo

de Skara, na Suécia, célebre

por sua ciência e dedicação

à Igreja.

7. Beato Pio IX, Papa

(†1878). Proclamou os

dogmas da Imaculada Conceição e da

Infalibilidade Pontifícia. Estimulou o

florescimento das Congregações religiosas

e convocou o Concílio Vaticano

I.

8. São Jerônimo Emiliani, presbítero

(†1537).

Santa Josefina Bakhita, virgem

(†1947).

Beata Josefina Gabriela Bonino,

virgem (†1906). Fundadora da Congregação

da Sagrada Família de Savigliano,

Itália.

9. São Rainaldo, bispo (†1222).

Monge camaldulense na abadia de

Fonte Avellana, exerceu o ministério

episcopal em Nocera, Itália, conservando

os hábitos da vida monástica.

10. Santa Escolástica, virgem

(†c. 547).

Beato José Sánchez del Río, mártir

(†1928). Jovem de 14 anos morto

com um tiro na cabeça durante a

Guerra dos Cristeros, em Cotija, México,

após sofrer com sobranceria inúmeros

tormentos. Expirou sobre uma

cruz traçada por ele no solo com o

próprio sangue.

11. Nossa Senhora de Lourdes.

Santa Sotéria, virgem e mártir

(†c. 304). Por amor à Fé, renunciou às

honras e riquezas de sua nobre estirpe

e, recusando-se a imolar aos ídolos, foi

martirizada à espada, em Roma.

12. VI Domingo do Tempo Comum.

São Bento de Aniane, abade (†821).

Educado na corte de Carlos Magno,

fez-se monge sob a regra beneditina e

erigiu um mosteiro em Kornelimünster,

Alemanha.

13. São Martiniano, eremita

(†c. 398). Viveu como eremita próximo

a Cesareia, na Palestina. Mais tarde

viajou a Atenas, Grécia, onde faleceu.

14. São Cirilo, monge (†869) e São

Metódio, bispo (†885).

São João Batista da Conceição

Garcia, presbítero (†1613). Religioso

trinitário, empreendeu a renovação

da Ordem e a defendeu com ardor em

meio a dificuldades e tribulações, em

Córdoba, Espanha.

15. Santo Onésimo (†séc. I). São

Paulo o acolheu como escravo fugitivo

e na prisão o gerou como filho na

Fé em Cristo, como ele mesmo escreveu

a seu amo Filêmon.

16. Beato Francisco Toyama Jintaró,

mártir (†1624). Nobre samurai

cuja vida cristã exemplar, influenciou

na conversão de muitas pessoas. Por

não negar a Fé, foi decapitado em Hiroshima,

Japão.

22


––––––––––––––– * Fevereiro * ––––

GFreihalter (CC3.0)

17. Sete Santos Fundadores dos

Servitas (†1310).

São Flaviano, bispo (†449). Bispo

de Constantinopla, que por defender

a Fé Católica no Segundo Concílio de

Éfeso, foi agredido pelos partidários

de Dióscoro, morrendo pouco depois

no exílio.

18. São Teotônio, presbítero

(†c.1162). Após duas peregrinações

à Terra Santa, fundou em Coimbra,

Portugal, a Congregação dos Cônegos

Regrantes da Santa Cruz.

19. VII Domingo do Tempo Comum.

Santa Lúcia Yi Zhenmei, virgem e

mártir (†1862). Decapitada na aldeia

de Kaiyang, China por ter confessado

sua Fé.

São Sigisberto III

20. São Serapião, mártir (†c. 248).

No tempo do imperador Décio, teve

de suportar cruéis suplícios e depois

foi precipitado do alto de

sua própria casa, em Alexandria,

Egito.

21. São Pedro Damião,

bispo e Doutor da Igreja

(†1072).

Beato Noël Pinot, presbítero

e mártir (†1794). Pároco

de Le Louroux-Béconnais,

perto de Angers, guilhotinado

durante a Revolução

Francesa.

22. Festa da Cátedra de São

Pedro Apóstolo.

Beata Maria de Jesus d’Oultremont,

viúva (†1879). Após a morte do

marido, fundou e dirigiu na Bélgica a

Sociedade de Maria Reparadora, sem

em nada negligenciar os cuidados maternos

dos seus quatro filhos.

23. São Policarpo, bispo e mártir

(†c. 155).

Beato Vicente Frelichowski, presbítero

e mártir (†1945). Apesar de

passar por várias prisões, nunca fraquejou

na fé. Faleceu no campo de

concentração de Dachau, Alemanha,

após atender a muitos companheiros

enfermos.

24. Beato Marcos de Marconi, eremita

(†1510). Religioso da Ordem

dos Eremitas de São Jerônimo, em

Mântua, Itália, levou vida de estudo,

oração e mortificações.

São Policarpo

Gustavo Kralj

25. Beata Maria Ludovica De Angelis,

virgem (†1962). Italiana de nascimento,

ingressou na Congregação

das Filhas de Nossa Senhora da Misericórdia

e foi enviada à Argentina,

onde se dedicou ao cuidado e formação

de crianças e enfermos num hospital

de La Plata.

26. VIII Domingo do Tempo Comum.

São Porfírio de Gaza, Bispo

(†421). Filho de uma família da Tessalônica,

viveu como anacoreta no

deserto. Ordenado Bispo de Gaza,

Palestina, abateu muitos templos dedicados

aos ídolos e converteu numerosos

pagãos.

27. Beato José Tous y Soler, presbítero

(†1871). Religioso capuchinho,

fundou a Congregação das Irmãs Capuchinhas

da Mãe do Divino Pastor,

em Barcelona, Espanha, para a formação

cristã da infância e juventude.

28. Beato Carlos Gnocchi, presbítero

(†1956). Fundou em Milão, Itália,

a obra “Fundação Pro Juventute”,

hoje chamada Obra Don Gnocchi,

para ajudar aos mutilados pela Guerra

e aos filhos dos sobreviventes.

23


Gesta marial de um varão católico

Armada del Ecuador (CC3.0)

José Luís Ávila Silveira/Pedro Noronha e Costa (CC3.0)

24


A batalha

da caravela contra

os submarinos

Servindo-se de uma linguagem metafórica, Dr.

Plinio resume o itinerário de sua luta, desde a

infância, contra o pecado e a Revolução.

M

ais ou menos até os dez

anos, quando entrei no

Colégio São Luiz e comecei

a tomar contato com essa miniatura

da vida que é o colégio, eu tinha

a existência alegre, feliz, de uma

criança inocente que não enfrentara

seus primeiros embates.

Uma cordilheira

de felicidade

Vivia na felicidade da graça batismal,

da inocência, tendo naturalmente

o bem estar, o conforto material de

uma criança colocada, não em condições

de grande luxo nem de esplendor,

mas muito convenientes, adequadas

e confortáveis, proporcionadas

ao que era natural apetecer. Nesse

sentido, era uma criança que tinha

tudo. Inclusive saúde normal. Assim,

gozava de todos os prazeres de uma

normalidade dourada, não no sentido

do dinheiro, mas de uma luz de ouro

dentro dessa normalidade.

Mesmo no tocante ao relacionamento

com as pessoas, reservada

a primazia a Dona

Lucilia, era um ambiente

absolutamente

todo feito de harmonias,

mas no qual

as consonâncias terrenas

faziam cantar

no meu espírito outras

que eu não sabia

bem como exprimir.

Tantas alegrias,

tanta felicidade vinham-me

de perceber

a retidão, a veracidade,

a beleza,

a bondade das coisas

e de me sentir

um com elas. Parecia-me

tão natural

que a vida fosse

assim indefinidamente,

que nem

me passava pela

cabeça poder ser de outra maneira.

Ia se formando assim, no meu

espírito, uma espécie de padrão

de felicidade terrena católica que

Plinio, Ilka e Rosée no Jardim da Luz

consistia muito menos num passeio,

num brinquedo, enfim, nessas coisas

que divertem as crianças, do que em

ver a retidão, a harmonia de tudo, e

Arquivo Revista

25


Gesta marial de um varão católico

Arquivo Revista

Da esquerda para a direita: Rosée, Da. Zili, Da. Lucilia e Plinio

um imponderável e indescritível relacionamento

disso com a alma, mais

do que com o corpo.

Comprazia-me ver a virtude, ou

o que eu imaginava ser virtude, nos

outros. As aparências eram muito

mais saudáveis no mundo daquele

tempo do que no de hoje. Eu imaginava,

a julgar pela primeira vista, todo

mundo virtuoso, e me alegrava.

Havia qualquer imponderável

que me falava mais do Céu, sem que

eu fizesse incialmente essa correlação.

Eu sentia esse imponderável e

era como se existisse um outro mundo

do qual este nosso não é senão a

imagem. Eu acreditava no Céu, graças

a Nossa Senhora, mas não fazia

muito o relacionamento. Era um

mundo de imaginação, de ouro, de

nácar, que era a projeção deste e para

o qual tudo devia tender.

Tudo isso me dava uma ideia de

uma cordilheira de felicidade, onde

as razões de ser feliz se encaixavam

umas nas outras e faziam um cortejo

de felicidades.

Os submarinos

bombardeiam a caravela

Minha situação na vida se me afigurava

como a de uma linda caravela

antiga a navegar com o vento soprando

nas velas, tendo na proa

uma imagem de Nossa Senhora, por

exemplo, Regina Marium – a Rainha

dos Mares –, mas que de repente levasse

de um submarino uma bomba

tremenda, rangesse inteira e tudo

nela ameaçasse desconjuntar-se.

Dir-se-ia que as velas murchavam,

a madeira se encolhia, os ornatos e

as esculturas fanavam, tudo perdia a

cor na caravela e toda ela se crispava

pela violência do golpe.

Essa “bomba” foi, para mim, a súbita

revelação do seguinte: “O mundo

no qual você vai viver não é esse

desejado por você. Ele tem algo

disso, mas isso está moribundo. Pelo

contrário, você vai viver num mundo

que lhe oferece outra cordilheira

de prazeres, e o ameaça com uma

perseguição se você se manifestar de

acordo com seus primeiros anseios.

É preciso, portanto, entrar na cordilheira

dos prazeres ilícitos e proibidos,

meter-se nela completamente

e dizer: ‘Vós sois minha alegria’, e

fruí-la. Olhe como é gostoso! Tome!

Com uma condição: abandone esse

seu mundo dourado. Se você continuar

nesse caminho, nós o liquidamos!”

A metáfora escolhida por mim é

intencional. Caravela, torpedo, bomba,

submarino, são das coisas mais

anacrônicas e antagônicas que possa

haver. Mas é como se um homem

Palácio de Queluz (CC3.0)

26


Francisco Lecaros

A Virgem com o Menino - Mosteiro

de São Bento, Cuntis, Espanha

estivesse dirigindo uma linda caravela

com tropas de antigamente e, de

repente, tivesse a revelação de haver

submarinos com outro estilo de

guerra mais potente, mais eficiente

que liquida com ele. A caravela atingida

pela bomba representa toda essa

tradição, todo esse passado, todo

esse sobrenatural que recebe esse

impacto da Revolução.

A caravela contra-ataca

Imaginem, porém, uma caravela

sui generis, não feita de madeira, mas

viva. Dependeria dela dizer sim ou

não ao torpedo. Se dissesse “sim”, a

bomba entrava; se dissesse “não”, a

bomba não entrava. Mas no momento

em que ela dissesse “não”, ela veria

o mar coalhar-se de submarinos,

dos quais sairia o convite-gargalhada,

o convite-desprezo, convite-insulto

procedente de megafones míticos:

“Avance, se você ousar!”

Solução, concluiria ela: “Salve

Rainha, Mãe de misericórdia...

Não há outra saída, porque força

para enfrentar não tenho. Não sou

senão uma caravela. De outro lado,

não quero deixar de ser caravela!

Não consinto em me transformar

em submarino, não quero

que minhas esculturas desapareçam

e o nobre lenho de que sou

feita se transforme num vil metal.

Não quero que meu formato

– comparável ao de um imenso

cisne a flutuar na superfície

das águas – passe a ser o de um

vil tubo à maneira de um charuto

que afunda.

Começam, então, todos os

sofrimentos, todas as tristezas

da batalha. Quantas e quantas

vezes irá perguntar-se a si própria:

Será bem verdade que a

mim está acontecendo isso? Tudo

mudou de um momento para

o outro! E que terrível luta

para enfrentar! Mas, de outro

lado, a alternativa é clara: ou

deixo de ser uma caravela que singra

os mares, entre as ondas, à luz do

Sol e da Lua, com a bênção de Nossa

Senhora e me transformo num vil

charuto; ou enfrento e sigo para a

frente.

Daí a necessidade de fabricar, pela

experiência diante das decepções,

ciladas, violências, toda uma arte

“náutica” própria. Não a de Colombo,

que com suas naus Santa Maria,

Pinta e Niña veio descobrir a América

atravessando mares desertos, onde

o terror consistia apenas no deserto

aquático aparentemente indefinido

e infinito; mas a de navegar

em um mar cheio de inimizades, perigos

e ciladas de todos os lados.

Qual era o segredo dessa luta?

Primeiro: conservar o estandarte

bem alto. Segundo: saber por onde

avançar. Terceiro: avançar!

Desventuras e alegrias

em meio à batalha

Porém, não é fácil avançar. Quanto

jeito, quanto trabalho, quantas reflexões,

quanta experiência e coordenação

isso exige! Oh, dificuldade!

Era uma desventura que tomava a

vida inteira. Por vezes, eu pensava: se

ao invés de estar colocado nessa situação,

eu tivesse, por exemplo, um defeito

físico notável, como uma perna ou

um braço amputado, talvez algumas

pessoas me evitassem, mas eu ainda

Em pé, no centro, Plinio, pouco

depois de seu ingresso nas

Congregações Marianas

Arquivo Revista

27


Gesta marial de um varão católico

Arquivo Revista

Plinio entre congregados marianos

encontraria caminho por toda parte,

pois ter-se-ia pena de um estropiado

assim. Mas como isso é diferente, nas

minhas condições, com todas as aparências

da normalidade. O prestígio, a

posição de família, as relações e tudo

o que eu quisesse estariam ao meu alcance,

mas a este preço: Você terá tudo

despreocupadamente se, prostrado,

adorares o demônio.

Haveria lados bons, agradáveis da

vida que compensassem esses sofrimentos?

Seria, talvez, muito bonito

se eu dissesse que não. Mas devo dizer

a verdade.

Tenho uma tendência natural a

alegrar-me, a tomar as coisas pelo seu

lado bom, dando muito valor àquilo

que pode ser bom e me contentar.

Por outro lado, não me sentia chamado

a ser um religioso que deixa todas

as coisas da Terra para levar apenas

a vida de seu próprio convento. Sentia-me

propenso a levar a vida

de uma pessoa que percebe

existir no mundo, como era naquele

tempo, muita coisa apreciável,

agradável, deixada pela

tradição, resto de um passado

que falava daquela felicidade

da “caravela”. Quer dizer, vinham

brisas e luzes do mar sereno.

Eram as horas nas quais

a caravela se rejubilava!

“A Contra-Revolução

é a alegria de

minha alma!”

Nesse sentido, Nossa Senhora

me favoreceu obtendo-

-me a graça de compreender

bem o nexo entre todas as coisas

legítimas, boas. De maneira

que fruindo essas coisas, eu

não o fazia pelo lado animal,

Arquivo Revista

mas sobretudo pelo prazer de alma

que elas proporcionavam.

Por exemplo, o mar. Sem dúvida,

ele me causava um prazer dos sentidos:

estar dentro do mar, sua beleza

física, o agradável da praia. Tudo

isso era profundamente notado

e apreciado por mim. Mas por cima

disso havia uma ideia da grandeza,

da vastidão, do significado simbólico

do mar, de tudo aquilo para que

o mar convida; a ideia de que ele me

ligava à terra de todas as belezas e

de todas as tradições: a Europa.

Aquela onda que ali chegava, talvez

tivesse batido na Torre de Belém!

Quem sabe proviesse, pelo estreito

de Gibraltar, da Côte d’Azur,

celestial e magnificamente azul, no

sul da França. Quiçá da baía de Nápoles...

Teria aquela água, que eu via

se mover diante de mim, passado pelo

Canal da Mancha, estado no Mar

do Norte, roçado icebergs mais para

o norte ou mergulhado, mais para

o sul, nas brumas prateadas e azuladas,

representadas nas porcelanas

dinamarquesas? Que maravilha!

Que magnificência!

Dr. Plinio contempla o mar, em 1993

Ubatuba, São Paulo, Brasil

28


Carlos Luis M C da Cruz (CC3.0)

Torre de Belém

Lisboa, Portugal

A alegria de imaginar-me envolto

por esse azul e esse prateado tinha seu

suporte de realidade nos sentidos, mas

se referia principalmente a estados de

alma já vislumbrados por mim em menino,

e que a maturação da idade foi

tornando mais definidos e ricos, permitindo-me

discerni-los melhor.

Havia nisso uma capacidade de

ser mais espiritual e, portanto, de

participar da felicidade que é irmã

da virtude. Porque fora do estado de

graça a alma não entende nem frui

essas alegrias.

Assim, no meio de todas as asperezas

das batalhas, de todos os episódios

intrincados da luta, havia momentos

nos quais eu sentia a união, a

coesão da virtude com todos os prazeres

ordenados nesta Terra.

Revendo, como homem maduro,

minha reação ante as carruagens

de Versailles 1 , tenho certeza de que

aquele gosto tão enfático, fruído em

estado de graça, dava-me uma felicidade

que me levaria a dizer: A Contra-Revolução

é, na Terra, a alegria

de minha alma!

Marcha triunfal sobre os

escombros dos submarinos

Ao longo de toda a vida pode-se

ser tentado a cometer pecados mortais.

Nos meus primeiros embates

nessa guerra contra as tentações, vinha-me

instintivamente ao espírito

a ideia – maturada e aprofundada

mais tarde – de que, analisando apenas

o grau de prazer nesta vida, o homem

prevaricador é um bobo, porque

todo o deleite que o pecado pode

dar não é comparável a essa felicidade

vinda da retidão do sentir e

do fruir o universo, essa integridade

da alma voltada para a virtude e para

Deus.

Isso me levava a concluir: o felizardo

sou eu! Não segundo os critérios

do mundo, ou seja, sem luta e

sofrimento. Eu vergo sob o peso da

luta e quase racho sob o fardo do sofrimento.

Mas há um lado da realidade

para a qual eu olho e minha alma

se expande inteira.

Quem se entrega a uma vida pecaminosa

tem fogachos de deleites

físicos, estremecimentos, frêmitos de

prazeres sensíveis que passam. Mas

sente, depois, o lixo e horror de sua

situação. O que o demônio promete,

isso mesmo é o que ele quer tirar.

Ele oferece, com o pecado, a felicidade,

mas o pecador experimenta

a frustração.

Essa verdade tornou-se inteiramente

patente para mim, com sonoridades

de marcha triunfal, quando

deixei o mundo e entrei para o movimento

católico. Isso se estendeu,

atingiu um ápice com minha eleição

para deputado. Conservou-se muito

alto na minha condição de professor

na Faculdade de Direito, em

cujas cátedras famosas, veneradas

por São Paulo inteira, eu lecionava

para alunos quase de minha idade.

Ademais, liderava um movimento

religioso, cuja importância na vida

temporal ia ficando cada vez mais

clara aos olhos de todo mundo, e isso

ainda em minha extrema mocidade.

Era uma vitória! Propriamente a

marcha triunfal sobre os escombros

dos submarinos.

29


Gesta marial de um varão católico

www.nmm.ac.uk (CC3.0)

“O estandarte está no

alto e o dia da justiça

está chegando!”

Arquivo Revista

Assim foi até o momento em que

comecei a notar os problemas denunciados

em meu livro Em Defesa

da Ação Católica 2 , ou seja, a serpente

imunda que se esgueirava, difundindo

a sonoridade ruim dos seus

guizos, com sua dança lúbrica e indecente,

no salão magnífico, nobre como

um tabernáculo, da Santa Igreja

Católica Apostólica Romana. Travaram-se,

então, outros combates.

Restava, por fim, uma coisa muito

importante: por mais que caíssem

as pedras, por mais que o mar se tornasse

turvo e revolto, se a caravela

não afundasse, ela constituía parte

marcante no panorama, e era um

pedestal digno para o estandarte que

ela mantinha bem alto.

Continuava, portanto, a haver no

cenário da luta um lugar de honra

para esse pedestal. Enquanto o estandarte

ficasse içado bem no alto da

caravela, ele seria honrado ad majorem

Dei gloriam, ad majorem Mariæ

gloriam, ad majorem Ecclesiæ gloriam

3 . Isso feito, o navegar da caravela

se justificava por si. Para frente!

Vieram, mais tarde, outras compensações:

a caravela, que outrora navegava

sozinha, viu aparecer junto a si

escaleres que constituíam seu ornato e

sua alegria. Restava ainda a felicidade

de ver as “naus” se multiplicando.

Em determinado momento, a integridade

física da “caravela”, um desastre

a levou... 4 No total, convivendo

com a dor, uma alegria se conserva.

Essa alegria, qual é? Ainda que nenhuma

outra restasse, esta permaneceria:

o estandarte está no alto e o dia

da justiça está chegando! v

(Extraído de conferência de

11/4/1981)

1) Ver Revista Dr. Plinio n. 17, p. 28-29.

2) Ver Revista Dr. Plinio n. 129, p. 19-20.

3) Do latim: Para a maior glória de Deus,

para a maior glória de Maria, para

a maior glória da Igreja.

4) Dr. Plinio se refere ao desastre de automóvel

sofrido por ele em 3 de fevereiro

de 1975.

30


Hagiografia

Modos de tratar

os pecadores

Aos pecadores que se

arrependem de suas faltas

devemos tratar com doçura.

Mas aos que não sentem

pesar de suas culpas e

são petulantes, é preciso

mostrar toda firmeza para

quebrar seu orgulho.

Divulgação (CC3.0)

V

amos tratar de Santo Isidoro

de Pelúsio, grande lutador

contra as heresias, que

viveu no século V.

Vingar a injúria

feita a Deus

Um sofista, Asclépio, em uma de

suas cartas a Santo Isidoro, recomendava-lhe

que moderasse sua linguagem.

Então respondeu o Santo:

Não creias que mudarei de tom e

que me tornarei um fraco bajulador.

Ao contrário, ou cessas de me dar tais

conselhos ou eu te expulsarei do número

de meus amigos.

Que admirável! Isto é o cumprimento

do preceito de Nosso Senhor,

constante do Evangelho: “Seja vossa

Santo Isidoro de Pelúsio

31


Hagiografia

Sergio Hollmann

linguagem sim, sim, não, não!” (Mt

5, 37). Esse Asclépio recomendou

a Santo Isidoro que atacasse menos

fortemente os arianos e obteve essa

resposta. Ou seja, se quiser me dar

um conselho idiota que importa uma

traição à causa católica, eu o corto

do número dos meus amigos.

Trecho de uma carta de Santo Isidoro

ao Bispo de Teón:

Somos igualmente culpados. Tanto

quando vingamos nossas injúrias

como também quando não sentimos

as que são feitas a Deus. Tratando-se

de nós, usemos de toda a indulgência

quando nos ofenderem. Entretanto se

foi Deus ultrajado, não devemos suportar.

Ele diz que há duas formas de

culpa, em matéria de injúrias: uma

quando nos injuriam pessoalmente e

nós nos vingamos; não devemos nos

vingar das injúrias que nos fazem.

Outra forma de culpa é quando não

vingamos as injúrias feitas a Deus. A

essas injúrias nós devemos vingar; é

uma obrigação. Essas são palavras

de um Santo canonizado pela Igreja

para servir de modelo para nós.

É preciso tremer de indignação

quando se vê Deus injuriado.

Tremer quer dizer estremecer de

indignação.

Vede, entretanto, como somos fracos.

Somos sensíveis a ponto de não

querer perdoar nossos inimigos, e só

temos doçura com aqueles que se elevam

contra Deus.

Moisés não agia assim, embora

fosse o mais suave dos homens. Ele

não deixou de se encolerizar contra

os israelitas quando fizeram o bezerro

de ouro, e sua cólera nessa ocasião foi

bem mais santa do que toda a doçura

que acaso houvesse mostrado. Elias

levantou-se contra os idólatras. João

Batista contra Herodes. São Paulo

contra Elimas. Isto sempre para

vingar a injúria feita a Deus.

Quanto a eles, esqueciam-se

sem dificuldade das injúrias

que lhes eram dirigidas.

É verdade que Deus é poderoso

bastante para Se fazer justiça,

mas Ele quer que as pessoas

de bem detestem o pecado e o

façam detestar. E é nesta conduta de zelo

que os Santos faziam consistir a virtude

e a verdadeira Filosofia.

Um pequeno exame

de consciência

Santo Elias - Paróquia

São João da Cruz, Alba

de Tormes, Espanha

O que Santo Isidoro acaba

de dizer, em duas palavras,

é o seguinte: era bom que as

pessoas a quem ele se dirigia

vissem como eram fracas. Diz

ele:

Vede, entretanto, como somos

fracos.

Esse é o modo antigo de

dizer “como vocês são fracos”.

É muito desagradável

chegar num auditório

e declarar: “Vocês são fracos,

vocês têm tais defeitos.”

Então, é uma maneira

educada de dizer “nós somos

fracos”. É claro que o Santo não

era fraco, mas o modelo de fortaleza.

Entretanto, por bondade se colocava

no meio dos outros.

Lembro-me de um Santo que pregava

para leprosos e, quando falava

com eles, dizia “Nós leprosos…”,

porque fica muito desagradável afirmar

“vocês leprosos”. Dá a impressão

que empurra de lado...

Então Santo Isidoro dizia “somos”.

Mas não devemos supor que um Santo

pudesse ter essa fraqueza; é impossível,

a Igreja não o teria canonizado.

Vou pôr na linguagem que exprima

o fundo das coisas: “Vede como sois

fracos, vós sois sensíveis a ponto de

não querer perdoar vossos inimigos.”

Quer dizer, “Quando vos fazem uma

ofensa pessoal, ficais muito sentidos,

e não conseguis perdoar. Entretanto,

contra aqueles que ofendem a Deus,

vós apenas tendes doçura.”

Sergio Hollmann

Moisés - Basílica da Estrela,

32 Lisboa, Portugal


É o caso de fazermos aqui um pequeno

exame de consciência.

Nos quatro ou cinco últimos dias, é

impossível que alguém não nos tenha

feito uma ofensa, por pequena que seja,

um atrito qualquer. Nós vimos pecados

contra Deus de toda ordem,

basta sair à rua. O que mexeu mais

com os nossos nervos: o pecado contra

Deus ou a desatenção feita a nós?

Esse é um bom exame de consciência.

Nesses últimos dias, não teremos

ficado exacerbados com alguma desatenção

que nos foi feita? É bem

provável... Ficamos igualmente exacerbados

diante de algum pecado

que presenciamos? Quem sabe se

nós merecemos as palavras de Santo

Isidoro de Pelúsio? É bem possível!

Eu volto a dizer: é uma boa ocasião

para um exame de consciência.

Não se ganha todo mundo

com métodos iguais

Depois ele dá exemplos de Santos

que não eram assim, mas violentos

no castigar as ofensas feitas a Deus,

e sabiam perdoar as injúrias cometidas

contra eles, como por exemplo,

Moisés que, sendo o mais suave

dos homens, entretanto encolerizou-se

com os israelitas quando fizeram

o bezerro de ouro. Elias levantou-se

contra os idólatras e pediu fogo

do céu, que os exterminou. São

João Batista indignou-se com Herodes.

São Paulo com Elimas.

Por quê? Porque esses eram pecadores,

idólatras, homens de vida impura.

Deus se indignou contra eles,

e também os profetas se indignaram.

Quanto às ofensas feitas a esses Santos

pessoalmente, eles se esqueciam

sem dificuldade.

Em outra ocasião, Santo Isidoro

de Pelúsio afirmou que com as pessoas

de bem é preciso mostrar-se suave,

paciente, humilde, mas com os

arrogantes e orgulhosos deve-se saber

usar um tom firme.

Quer dizer, com as pessoas que

veem com tristeza o mal que fizeram,

podemos ser bons. Quando o indivíduo

vem se jactando do mal que fez,

é preciso pular em cima dele.

Continua o Santo:

Aqueles olham a doçura como

uma virtude; eis por que devemos usá-

-la para consolá-los.

Quer dizer, os que se arrependem

de seus pecados são pessoas inclinadas

à doçura. Os que não se arrependem

são petulantes e só entendem a

força. É preciso mostrar-lhes toda a

firmeza para quebrar seu orgulho.

Com essa conduta sábia e prudente

sustentamos uns e humilhamos outros.

Não se ganha todo o mundo com

métodos iguais.

É uma esplêndida consideração.

Ao pecador arrependido trata-se de

um jeito; ao não arrependido, de outro.


v

(Extraído de conferência de

7/10/1968)

Gustavo Kralj

Francisco Lecaros

São João Batista increpando Herodes

Museu de Navarra, Pamplona, Espanha

Episódios da vida de São Paulo Apóstolo

Basílica São Paulo Extra-muros, Roma, Itália

33


Apóstolo do pulchrum

A.Savin (CC3.0)

Harmonia na arte,

harmonia na vida

Fachada principal

da Academia de

Atenas, Grécia

Ao considerar a arte grega, Dr. Plinio discerne a

profunda tendência desse povo para a harmonia.

Dotados de bom gosto extraordinário, os gregos

tinham o talento de fazer coisas lindíssimas, até

imortais, sem gastar muito dinheiro. O que custa,

por exemplo, levantar uma coluna? Não é muita coisa.

Colunas que ficaram imortais

Com um muito bom golpe de vista, eles entendiam o

que precisa ter uma coluna para ser maravilhosa. Que relação

deve haver entre a base e o topo, por exemplo. Ela

precisa ir estreitando lentamente, de tal maneira que em

cima seu diâmetro seja menor do que o da base, e o observador

tenha a impressão de que a coluna é mais alta,

porque afinou e está longe da vista dele.

É feia a coluna gorducha em baixo e que vai ficando,

de repente, mais fina. É preciso que ela vá adelgaçando-

-se de tal maneira que a pessoa, à primeira vista, não perceba

que ela afinou.

Coluna lisa, sem graça, é um tubo que não vale nada.

Deve-se fazer coluna com adornos, com reentrâncias e

saliências. Que profundidade devem ter as reentrâncias,

que largura os bordos das saliências para serem bonitas?

Qual é o tamanho de cada gomo da coluna em comparação

com a altura e a largura? Como precisa ser a base

para dar a impressão de que a coluna é forte? Como deve

ser o capitel para causar a impressão de que ela é graciosa?

Por que razão a coluna precisa proporcionar a impressão

de forte na base e graciosa no alto? Não seria bonita

uma coluna graciosa na base e pesadona no alto? Não

pode ser assim, a sugestão é desagradável. Uma coisa

graciosa que aguenta uma pesadona é um pesadelo!

Que proporção de força e de leveza deve ter uma coluna

para agradar ao homem? Há colunas que ficam

imortais. Às vezes, com o passar dos séculos, o templo inteiro

cai, e uma coluna que reste é um monumento histó-

34


Onkel Tuca! (CC3.0)

G Da (CC3.0)

rico, guardado hoje em dia com todo o cuidado, estudado

nos álbuns de arquitetura do mundo inteiro.

Que indicam essas colunas? A tendência profunda

desse povo para a harmonia, a capacidade de estabelecer

as relações entre os vários elementos de um todo, de

maneira a ficar agradável de ver. Esta é a harmonia dentro

da obra de arte.

Mesmo as praças de aldeolas eram de uma beleza, de

uma harmonia célebre até o fim do mundo. Os gregos viviam

ladeados, inundados pela harmonia, mas uma harmonia

inteligente que exigia trabalho para perceber, e

era filha do desejo de perfeição.

Vivacidade e distinção em ânforas de barro

As ânforas de barro fabricadas pelos gregos são admiradas

até hoje em todos os museus bem equipados da

Europa, porque se conservaram muitas. Ânforas de uma

cor de terra avermelhada com uma faixa preta em cima,

na ponta mais larga da ânfora. Eles não pintavam a parte

que não tinha figura, de maneira que esta ficava com a

cor vermelha do barro.

Eram as coisas mais comuns. Por exemplo, um homem

levando um bezerro pela corda para vender no mercado.

Nota-se a elegância do homem, o bezerro anda com classe

e a própria corda tem uma linha extraordinária! O indivíduo

que puxa o bezerro tem um estilo natural ao de um

homem do campo, não é um nobre. Mas é todo distinto.

Na porta da casa está a mulher esperando. É uma figura

de tragédia grega: uma Penélope qualquer com aquelas

saias sucessivas e aquele ar, ao mesmo tempo simples,

natural e distintíssimo. De maneira que se tem a impressão

de um teatro vivo. Entretanto, é apenas uma moringa

comprada na feira!

A harmonia na arte era a meta deles para ter harmonia

na vida.

v

(Extraído de conferência de 11/1/1986)

Ruínas do Partenon, Atenas, Grécia

Ruínas do templo de Zeus, Atenas, Grécia

Teatro de Herodes Ático,

Acrópole de Atenas, Grécia

G Da (CC3.0)

qwesy qwesy (CC3.0)

Andrew Baldwin (CC3.0)

Vista noturna das ruínas do Partenon

Giovanni Dall’Orto. (CC3.0)

35


Timothy Ring

Apresentação do Menino Jesus

no Templo - Pro-Catedral de

Santa Maria, Hamilton, Canadá

A Virgem do Bom Sucesso

Nosso Senhor Jesus Cristo foi gerado pelo Espírito Santo em Maria Santíssima, virgem antes,

durante e depois do parto. Quando a gestação tem como resultado o bom nascimento

do filho, chama-se “bom sucesso”. Assim, Nossa Senhora do Bom Sucesso é o título conferido

a Ela enquanto tendo dado à luz, maravilhosamente e do modo mais feliz possível, o Filho Divino

que o Espírito Santo gerou em suas entranhas virginais.

A Lei mosaica ordenava que todo primogênito fosse apresentado no Templo e oferecido a Deus.

Embora não precisasse cumprir esse preceito, pois seu Filho era o próprio Deus, Nossa Senhora nos

deu um lindo exemplo de amor e de obediência à Lei, levando o Menino Jesus ao Templo onde o Profeta

Simeão O aclamou como “luz para iluminar as nações” e “sinal de contradição” (Lc 2, 32 e 34).

O Bom Sucesso da Santíssima Virgem foi assim consagrado pela Apresentação do Menino Jesus no

Templo.

(Extraído de conferências de 2/2/1983 e 1/2/1984)

Hooray! Your file is uploaded and ready to be published.

Saved successfully!

Ooh no, something went wrong!