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historia do brazil.

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HISTORIA DO BRASIL

DESDE A SUA DESCUBERTA ATE' 1810,

A QUAL CONTE'M ^ J / -JJ

A oWgem da Monarchia Portuguesa ; o

qiiidro do reinado dos seus Reis , das

conquistas dos Portuguezes na Africa , e

na índia ; a descuberta , e descripção do

Brasil ; o numero , posição , e costumes

das povoações Brasileiras ; a origem , e

os progressos dos estabelecimentos Portuguezes

; o quadro das guerras successivas

tanto dos naturaes com os Portuguezes

, corrtp destes cqtn differentes

nações da Europa , que procurarão estabelecer-se

no Brasil; ém fim a historia

civil, politica , e commercial , as revoluções

, e o estado actual deste vasto paiz :

ESCRIPTA EM FRANCEZ

P O K

MR. AFFONSO D E BEAUCHAMP»

E TRADUZIDA EM PORTUGUEZ

PELO

PADRE IGNACIO FELIZARDO FORTES J

Professor de Lingva Latina , e natural do

Jiio de Janeiro.

Rio DE JANEIRO, NA IMPRESSAM REGIA.

1818.

Com Licença da Mesa do Dosembargo

do Paço,


III

PREFACIO DO AUTHOR.,

S expedições marítimas, e

a historia do estabelecimentos dos

Portuguezes na índia excitao a

lembrança da sua gloria antiga;

mas este grande , e bello episodio

dos seus annaes põem também

diante dos olhos o triste quadro

da deeadencia do seu poder , e da

sua Monarchie. Hum interesse o

mais vivo acompanha a historia

das vicissitudes, e dos progressos

dos seus estabelecimentos no Brasil

, da fundação, e do desenvolvimento

prodigioso deste novo<

império do hemisferio austral ,

hoje a Côrre da Potencia Portugueza

resuscitada, e o centro do


IV

seu commercio, e das suas rique- /

Nenhuma possessão do , 7 zas,

0

Mundo tem sido por tanto tempo

, nem tantas veies dispíatada

não só pelos naturaes, mas até

por nações formidáveis da Europa,

que se ttm dirigido alternadamente

ao Brasil, ou para o

roubarem, ou para nelle se estabelecerem.

Esta serie de emprê- «

sas, e de accontecimentos diffunde

hum duplicado interesse sobre*},

a historia da America Portugue- 7

za , que comprehende hum perio- ^

do de tres séculos desde a sua

origem até á emigração da sua

Família Real de Bragança.

Com tudo nenhuma historia

geral, e completa do Brasil ti- J

nha ainda apparecido nem em *

Françez, nem em outra alguma ,

Jin£ua da Europa ; porque em


Y ,

lugar de hum eorpo de historia

na


vr

morias, e de obras. Nesta somente

os factos devem encher o

quadro; naquella nada se dève

omittir para dar hum conhecimento

exacto dos homens, e das. coisas.

Tractava»se na historia do

Brasil de pintar a hum tempo

Portugal, e a America Portugueza;

de traçar o caracter dos Portuguezes,

e os costumes dos Brasileiros

sem todavia perder de

vista, que Portugal devia fazer

hum papel accessorio, e episodico:

era preciso unir ás noções,

e aos documentos da historia todas

as luzes dos viajantes, e dos

geógrafos, para que o leitor pudesse

fazer huma idéa do crescimento

progressivo, das relações

extensas, e da grandeza comparativa

do Brasil, e de Portugal.

Sete annos forão empregados

em ajuntar , pôr em ordem, e


VII

recopilar os materiaes necessários

para formar o corpo da historia,

quê nenhum outro escriptor tinha

ainda offerecido ao publico. No

intervallo , heverdade, foi retardada

, ou suspensa a conclusão

delia ; e obstáculos imprevistos

fizerao nascer novas demoras. A

derradeira parte da obra appresenjava

hum vácuo; era preciso enchê-o.

Hum uso authorisado em nossos

dias na litteratura, ou antes

nas impressões abona a publicação

parcial , e successiva das

obras menos volumosas. Apoiando-me

neste uso, eu teria podido

ciar á luz, ha muito tempo, os

dois primeiros volumes da historia

geral do Brasil: mas seguindo

o meu plano primitivo , eu me

decidi a publicar a obra completa,

e de huma vez.. Esta marcha


VIII

era lenta na verdade; mas era

mais segura , e sobre tudo mais

util, pelo que respeita á huma

composição, em cuja união, e

disposição se exigia tanta meditai

ção, como cuidado. Com efieito

coordenando os materiaes do meu

ultimo volume, eu conheci a necessidade

de o pôr ao nivel das

pescjuisações, que tinhao completado

a primeira parte da minha r

obra ; e de fortificar por meio de

informações recentes , e authenticas

os capítulos destinados a fa.

zer conhecer de hum modo positivo

o estado actual do Brasil:

nada foi despresado para chegar

a este resultado. Entre tanto appareceu

em Londres huma ccm.

pilação sobre a historia de Buenos.

Ayres , e do Brasil até 1640. K

Sem offerecer novas luzes o author

Inglez (M. Southey) fazia


IX

esperar, que o segundo volume,

annunciado paraiBio, completaria'

os annaes do Brasil» e daria

princípios inteiramente novos sobre

a geografia , e sobre a descripção

do estado desta vasta região.

Va esperança ! A expectação da

Europa litteraria foi ainda huma

vez encanada. Este segundo volume

tão emfaticamente promett»do

não tem sahido á luz : mas

nesta mesma época hum minera-

- logista Inglez (M. John Maw)

penetrava o interior do Brasil,

authonsado pelo Príncipe Regen.

te de Portugal. A relação da sua

viagem, posto que de nenhum

merecimento pelo que toca á relação

histórica, naohe todavia a

menos curiosa debaixo destes dois

pontos de vista ; da tepographia

interior , e do estado actual do

Império Brasiliense: tila he tam-


X

bem incontestavelmente a mais

moderna. Não restava pois outro

trabalho a completar, senão beber

nesta fonte verdadeiramente

original, tanto mais preciosa para

nós , por isso que não existia

então na França, senão hum só

exemplar da nova relação. Eu consegui

logo , que me fosse communicada

; graças ao procedimento

officioso, e á sollicitude de M.

de Hutnbold , membro associado

do Instituto, edeM. Pictet, Pro- .

fessor de Historia em Gênova;

sábios distinctos, animados hnm,

e outro do zêlo o mais nobre pelos

progressos dos conhecimentos

históricos, e geográficos. Eu não

trahirei sua modéstia , fazendo

brilhar publicamente os testemunhos

da minha estima, e do meu

reconhecimento: e confessarei sómente,

que devo á huma tão fe-


xr

liz communícação , e á outros

oiiginaes í/iteiramente não dados

á luz a vantagem depodt-r publicar

huma historia geral, e completa

do Brasil.

Eu seria culpado de ingratidão,

se não fizesse brilhar aqui

cs mesmos sentimentos de reconhecimento

para ccm outros Litteratos

, não menos estimáveis ,

taes como M. Durdent , e M.

Carios Botta, qne quizerão aju-

-dar-me muito com suas luzes, e

conselhos,

'Os eruditos censurar me-hao

sem duvida , por eu não fer marginado

as paginas desta historia

com citações, commentarios, e

notas: mas confessando eu , que

não sou hum erudito, respondo

com isto á quantas criticas possão

fazer-me. Eu teria podido facilmente

, bem como outro qualquer,


XII

ter o mérito de huma ostentação

de erudição , e citações: mas este

pequeno charlatanismo me pareceu

ridiculo , e inteiramente indigno

de hum escriptor , que faz

profissão da franqueza, e da boa

fé. Pode além disto oppôr-se ao»

syítema dascúações minuciosas a

authoridade dos historiadores da

antiguidade, únicos modêlos naconfissão

da sã critica, e segundo

o exemplo de muitos historiadores

modernos, que tem caminhado

sobre seus passos. De que

serve, p">r exemplo, citar asmesmas

paginas dos authores , qué hg

preciso muitas vezes conciliar, ou

contradizer , e cuja versão tem

necessidade de ser corregida, ou

completada por outras autoridades?

As memorias são para o

historiador , o que as cores são

para o pintor; não he se não peí*


XIII

sua mistura , e pela sua fusão ,

que o quadro da historia , que

dahi resulta, fôrma hurnacomposição

completa, e regular.

Não me resta agora, se não

fazer conhecer as authoridades ,

que tem servido de ha se iis minhas

exposições ; e mostrar as

fontes , donde tenho bebido as

luzes necessarias para evitar os

erros dos escriptores, que me tem

precedido.

Eisaqui as principaes obras,

"que tenho seguido , consultado,

ou ^.contradicto , oppondo-as , ou

comparando-as humas com as outras.

Viagem de Pinson, por Herrera.

O Padre Manuel Rodrigues.

Bernardo Pereira de Berredo.

Relação summaria de Simão Es¿

tacio da Silveira*


XIV

Zarate.

Pietro Martyre.

Gomara, hist. de las índias.

Viagem de Cabral, por Barros.

Castanheda.

Damião de Goes.

Lery.

Viagem de Américo Vespucio.

Rocha Pita.

Simão de Vasconcellos, Chron.

„ da Comp. de Jesus do Estado

do Brasil.

Antonio Galvão.

Vieira.

Hervas.

Don Christobal Eladera.

Maregraw, hist. nat. Bras.

Memorias para a historia do Ca»

bo de S. Vieente.

Vasconcellos, noticias do Brasil,

Annaes do Rio de Janeiro, mss.

Gaspar da Madre de Deos.

Noticia do Brasil, mss,


XV

J. de Laet.

Carta d ? EI-Rei D. João IIÍ.

Castrioto Lusitano, P. Rafael de

Jesus*

Tamoyo de Vergas.

Duarte Albuquerque, Conde de

Pernambuco.

Nova Lusitania ,• P. Brito Freire.

Manuel de Faria, e Souza.

Historia da descuberta , e das

guerras do Brasil por Jean

Nieuhoff.

Gasp. Baríoei rerum pér óCíei>

nium in Brasília etc.

Historia das ultimas desordens do

Brasil entre osHollandezeST-, e ;

Portuguezes, por Pedro Moreaüi

Historia da guerra do Reiríõ j dò'

Brasil, etc. por Giiiseppe di

Thereía.

Hans Stade ( o priméírí), qu^tétíí 1

escripto atgunéP detalhas 1 sibre

o Brasil.)


XV!

Chronica d* EI-Rei D. Manne!.'

Manuel Severim de Faria, vida

de joão de Barros.

Viagem de Diogo Garcia.

Argentina do Rei Dias de Gus-'

mão.

Pedro de Cieza.

Açuna in el Maranao, y Amazonas.

Nóbrega, e Anchieta.

Çondamine, viagem ao rio das

, Amazonas.

Claudio de Abbeville.

Huivet en Purchas.

Pedro Coi;rêa.

Ant. Pires.

Telles, Comp. de Jesus.

Ejficeira. '

Sfedman.

Bpnto Teixeira.

Relação annual para 1601.

Jor-nada da Báhia.

Viagens de Azara. .

— de Thomaz Líndeley. o


:

- xVíi

—- de Baron.

de Macarcney*


Memorias de Dugué-Trouinv

Viagem de Teixeira, etc.

Historia do Brasil, e de Buenos*

Ayres, por Southey.

5

Tavels, etc. Viagem ao interior

do Brasil, e particularmente

ao paiz, onde estão as minas

de oiro , e de diamantes, por

John Maw, author da Mineralogia

do Derbishire , Londres,

1812. (He o primeiro

Inglez , que tem penetrado o

interior do Brasil com autho*

risação , e apoio do Governo

Portuguez ).

Taes são as memorias, e as

numerosas viagens , que tenho

consultado , analisado , comparado,

e fundido, por assim dizer,

para formar hum corpo de histo-


ia completo a respeito do Brasil.

Possão meus trabalhos, e

meus cuidados não serem perdidos

! possa esta historia offerec^r

algum interesse , e satisfazer á

curiosidade do publico ! Verei satisfeitos

o» meus votos.


I N D I C E

Das materias, que se contém

nesta obra.

TOMO PRIMEIRO.

í Refacio pag. I

LIV. I. lntroclucção. Origem , e

progresso da Monarchia Portuqueqa.

Descubertas , e conguistas

dos Portugueses na A*

frica , e na Índia. pag. i

LIV. II. Descuberta do Brasil por

D. Pedro Alvares Cabral. Expedições

de Américo Vespucio , e

de Coelho. Descuberta do Rio

de Janeiro , e do Paraguay por

João Dias de Solis , Piloto mór

de Castella. Morte deste navegante.

Primeiras disputas

de Hespan/ia , e de Portugal

por motivo das descubertas• da

America. Morte d' El-Rei D.

Manuel o Afortunado. D. João


XX

III. lhe succede, e fôrma o

projecto de colo/usar o Bra-

S l

• P a g- 35

LIV. III. Estado do Bras il na época

da sua descuberta. Descrip,fão

geral desta vasta região.

Caracter , costumes , e usos ,

numero , e descripção geográfica

das povoações Brasilien"

ses. P a g.'í>9

LIV. IV Capitanias hereditárias

estabelecidas no Brasil no reinado

de D. João III. Origem

- das colonias de S. Vicente , Santo

Amaro , Tamaraca , Paraíba ,

- Espirito Santo , Porto Seguro ,

os Ilheos , e Pernambuco. Ex~

- pediçdes desgraçadas de Luir

• de Mello , e de Ayres da Cunha

ao Maranhão. pag. 139

LIV. V. Naufragio , e aventuras

• de Caramuru. Caracter da grande

povoação Brasileira dos Ttlpinambas

da Bahia. Descripção

do Reconcavo, e quadro das suas

revoluções. Primeira origem de

S. Salvador da Bahia. "Toma-

. da de posse da Capitania íla


XXI

Bahia por Francisco Pereira

Coutinho. Primeiras hostilidades

entre os Tupinambas , e os

^Portugueses. Expulsão , e morte

de Coutinho. pag. 171

Progresso da Capitania de S. Vicente.

Tentativas desgraçadas

de Aleixo Garcia, e de George

Sedenho pafa chegarem ao Brasil

por Paraguay. Primeiras

hostilidades entre os Hespanhoes

do Paraguay , e os Portugueses

do Brasil. Renovação

da guerra em Pernambuco. Sitio

do Garassú pelos Cahetés.

Chegada ao Brasil de D. Thomé

de Souqa , primeiro Governador

Geral. Fundação da

cidade de S. Salvador. Regularisação

politica da colonia.


£

b Kj?!-- 10'im QÍX{ epbt;invab

HISTORIA DO BRAZIL.

ivi;u .i) ; •> • Oibiüiiq 20

í ( ". ;h • ' :'•! ait.-.iJOU!

- .. . . , .' • -

• a-tiioq ta3 .oUítüffl ob z • iscj ES

LIVRO PRIMEIRO.

introdução. Origem , e progressos

da Monarchia Portuguesa.

Descubertas , e conquistas dos

Portugueses na Africa , e ná

Índia.

1139.—1499.

P

I. ORTUGAL , a Monarchia a mais

pccidental da Europa, trapo ainda,

pareceu levantar-se de repente no

íipi do decimo quinto século. Os

Tom. /. A


%_ Historia

grandes, o Monarcha , e o povo ,

devorados pelo amor das descubertas,

e pela sede das riquezas, asr

signalárSo por emprezas intrépidas

os primeiros ensaios da navegação

moderna ; e por meio de prodigios

fizerão livres ao seu accesso todas

as partes do mundo. Em poucos

annos as costas occidentaes de

Africa , até* então incógnitas, e

as índias orientaes passarão a ser

a preza dos navegantes conquistadores,

que sahião de Portugal:

a coragem , as virtudes destes intrépidos

Officiaes de Marinha se

jriostrárSo logo em todo o seu esplendor

; mas sua gloria foi logo

bffuscada pelos crimes da ambição,

e da avareza. O accaso só os dirige

ao mesmo tempo para o grande

hemisferio-Occidental, recentemente

descuberto : elles tocão o

Brazil, o reconhecem , e delle se

apoderão. Clima saudável, solo rico

, e fecundo , rios navegaveis ,

è numerosos , portos vastos , e

multiplicados, raças- vigorosas de

i


Do Brasil. i j

homens , e de animaes, bosques

profundos, e magníficos, monta»

¿»hass,encerrando em si todos os

'metaes preciosos; taes são as raras

^antagens, que huma feliz situai

ção geografica assegura ao BraziU

A nação Portngueza ahi leva logo

este mesmo ardor de descubertas *

e de domínio, que a tinha jáconr

duzido â Africa , e á Asia. Os

primeiros estabelecimentos , que

ella funda no Brazil , são marca*

dos, he verdade , pela oppressão ,

pelo assassínio de muitas tribns in»

digenas; mas também pela civili»

sação das mais bravas povoações ^

que cedem finalmente á voz , e

aos esforços sublimes de hum pequeno

numero deApostolos da Re*

ligião , e da humanidade. Então

erigem-se cidades em todos os pon»

tos da costa ; os campos roteados

se tornão férteis; a industria , e a

agricultura, prestando-se hum mutuo

soccorro , multiplícão as riquezas

pela circulação , e pelo commercio.

Novas descuberras, felizes

A 2


38

Historiei

tentativas esreiidem os estabelecii

mentos, ,e.a civilisação. Mas este

mesmo Brazil, que passa wnrii

quecer os navegantes Portugueses

, também excita a cubiça cte

Outras tres, nações da Europa , e

logo atêão-se guerras obstinadas ,

e sanguinolentas. De quando em

quando alguns exemplos de virtude

, t de heroísmo consolão as alternativas

da fortuna , e do horror

das batalhas. A' frequentes expedições

, á combates sem numero ,

á sitios importantes , á brilhantes

assaltos , á destruição de frotas , á

mudanças de domínio , e cie império

vê-se suceeder huma insurreição

memorável contra osHollandezes

, conquistadores d'ametade do

Brazil; insurreição feliz , que faz

outra vez entrar esta possessão

immensa no domínio dos Portuguezes.

Taes são os diversos quadros,

que formão a composição da historia

do Brazil, que prolongada até

os nossos dias comprehende • os

acontecimentos de. tres séculos. Sç


Do Brasil. i j

bem que a America Portugueza se

tivesse tornado o theatro de acon*

Je cimentos' memoráveis, com tudo

^etíniim escriptor cm França . se

«inha ainda proposto a reunir em

hum só corpo cie historia os isens

aunaes dispersos. Eu ousei emprehendel-a

, sem me desanimar pela

especie de incoherencia das diversas

partes, de que este assumpto

se compõe : tila he sem duvida

mais difficultosa de se tratar; mas

lie ao mesmo tempo mais variada %

mais nova, e até mais interessante;

porque offerece exemplos de

hum enthusiasmo heroico , e sempre

lições úteis. Vê-se a nação

Portugueza , fraca na sua origem *

mas que chegou pelo seu grande

caracter, e pela sabedoria das suas

leis ao mais alto grão cie poder monarchico

, medir-se ella só com nações

temiveis , e superar seus esforços;

eclipsar-se por meio século

na Monorchia Hespanhola para

brilhar de novo ella só ; vê-sé ficar

em fim triunfante , e senhora


38

Historiei

absoluta cleste immenso império ,

cuja riqueza parece têl-a convidado

á todas as fruições do J$xo fc

e á todos os generos de gloria.

Remontando á origem dos Portuguezes

, encontra-se a historia da

Lusitania constantemente ligada

nos seus princípios com a historia

da Hespanha , de que a Lusitania ,

ou Portugal nSo he de algum modo

, se não hum desmembramento.

Não pertence ao nosso assumpto

seguir circunstanciadamente as primeiras

revoluções , que a sorte das

armas, verdadeiro arbitro do poder

humano , lhes fez experimentar

em commum. Scipião o moço ,

terminando a guerra, que disputava

aos Carthaginezes a posse da

Hespanha , submetteu aos Romanos

a Península inteira. Agrippa

no tempo de Augusto consummou

de novo esta conquista pela reducção

dos Cantabros , e os Imperadores

perpetuarão em paz seu

domínio sobre a Península. No

tempo de Galba a Lusitania tinha


Do Brasil. i j

cinco colonias Romanas, e Olly*

sippo, hoje Lisboa, era huma cif

¿acle,privilegiada. O fim do quinto

isètalò vio começar a irrupção dos

povos do Norte, e a destruição

lenta do Império Romano. A Hespanha

foi successivamente invadir

da pelos Alanos, Suevos, e Visi7

godos. Estes últimos reinarão nelr

ía por tres séculos. Ao depois os

Árabes, ou Sarracenos se apoderarão

, e estabelecêrao nella : mas as

montanhas das Astúrias forão o

refugio das relíquias do poder dos

Godos; e vio-se hum punhado de

Christãos, commandados por Pelar

gio , resistir nas cavernas aos conquistadores

Árabes. Os successores

deste heroe , animados pelo seu

exemplo , restabelecem o sceptro

Godo , e fundão o reino de Oviedo

, e de Leão , berço da Monarchia

Hespanhola. Os feros Astures

estendem logo os limites, que

lhes oppõe os Musulmanos Árabes:

dilatão além das montanhas a confederação

cluistã , que sempre em


f •

8 • Historia

armas contra os infiéis se torna

cada vez mais temível. A lata he

então geral; e grandes esforçqs dè

coragem fazem logo os Christãos senhores

do Norte da Hespanha. Fortificados

contra o inimigo commum ,

elles não tardão em se dividir entre

si. Leão , Castella , Navarra ,

é ó Aragão tinhão visto levantarem-se

tantos thronos separados ,

mas reunidos por allianças politicas.

A Hespanha Musulmana experimentava

a mesma sorte. Aos

reinados brilhantes dos Califes Ommiades

de Cordova sticcedêrão as

dessolaçóes , e a guerra civil. Os

Emiros, ou governadores de Províncias

erigem seus governos em

outras tantas províncias independentes.

Este estado de anarchia

•serve de estorvo aos Árabes para

impedirem os progressos dos Christãos

, que do Norte da Peninsula

ameação o Meio dia.

Sendo S. Fernando só o Rei da

Hespanha chiista no principio do

-un de pi mo século , ousa levar seus


Do Brasil.

estandartes além do Tejo, eleVan*

do diante de si os Mu sul manos ,

Circyjnscreve seu dominio. Apartiílíàrdõs

seus estados faz nascer novas

divisões entre os Christãos;

mas Affonso , filho de Fernando ,

despojado logo por seu irmão Sancho

, reúne em fim na sua cabeça

todas as coroas de seu pai. As conquistas

sobre os Muçulmanos se

nmltiplicão , e se estendem. Affonso

chega a penetrar até a fértil Andaluzia

, e amplia cada vez mais

os seus clominios. Subjuga huma

parte das margens do Tejo, e debaixo

do titulo de Rei de Castella

adquire logo liuma celebridade tal,

que attrahe á Hespanha muitos

Cavalleiros Frencezes , desejosos de

se unirem ás suas armas.

Entre esta mocidade brilhante

se distinguio Henrique de Borgonha

, de origem Capetina, bisneto

de Roberto segundo Rei de França.

Depois de ter feito a sua primeira

campanha debaixo do cominando

do illusire Cid, em cuja

i j


38 Historiei

gloria desejava ter parte, assignalou

seu valor contra os Mouros da

Lusitania , e obteve do Rei dç Castella

, e de Leão , empenhado 'em

se unir com elle, o titulo de Conde

com a mão de D. Thereza , huma

das filhas naturaes deste Monarcha.

Unido estreitamente á Castella ,

Henrique se ennobreceu por huma

multidão de façanhas contra os

Mouros ; subjugou o fértil paiz

Entre Douro e Minho ; paiz, que

perdendo então o nome de Lusitania

, tomou o de Portugal. Segundo

a ethymologia a mais verosímil,

este nome moderno se formou do

da cidade do Porto , que o Conde

D. Henrique fez fundar , e da villa

de Cale , situada na margem

fronteira do Douro.

Feito Conde de Portugal , e

vassallo do reino de Leão, Henrique

de Borgonha firmou sua soberania

, que comprehendia só as cidades

do Porto* Braga, Miranda,

Lamego , Coimbra e Viseu : por


Do Brdqil. li

ftovos triunfos, e sem tomar o titulo

de rei, lançou os primeiros

nentos da Monarchia Portu-

Seu filho Affonso Henrique ,

herdeiro do seu valor , e da sua

gloria , alcançou sobre os Mouros

brilhantes vantagens: derrotou em

liu m só dia cinco de seus soberanos

, ou governadores , e foi acclamado

Rei pelos seus soldados no

campo de Ourique , onde deu a

batalha. Os Estados de Portugal

juntos em Lamego confirmarão o

augusto titulo , que elle não possuia

, se não entre o seu exercito.

Esta assembleia celebre , composta

de Prelados, de Nobres , e Deputados

da3 cidades , promulgou as

leis fundamentaes do Reino , declarado

-hereditário , e independente.

Ella deu também desde o duodeci"

mo século o exemplo notável de

vassallos limitando o poder soberano.

D. Affonso Henrique , fundador,

e legislador ao mesmo tempo , -ilius-


38

Historiei

trou hum reinado de quarenta e

seis annos com liuma administração

paternal , e com o zelo^ pelo

progresso das sciencias. A Dy vestia

deste fundador perpetuou-se

com brilhantismo até o fim do decimo

sexto século. No seu reinado ,

e por seus cuidados a Cavalleria ,

esta brilhante instituição , que desenvolveu

as mais nobres paixões

do homem , estabeleceo-se nas margens

do Tejo com todo o esplendor ,

que tinha tido em sua origem na

França, e na Inglaterra. Frequentes

relações com os Mouros imprimião

no caracter Portuguez hum

ar de urbanidade, e de galanteria:

bem depressa a linguagem do amor

tomou este tom exaltado , que parece

ser exclusivamente reservado

á imaginação brilhante dos Orienraes.

Os torneios forão numerosos;

as festas magnificas; a gravidade ,

a fereza , as paixões fortes se tornarão

o caracter distinctivo .dos

Cavalleiros , ou Nobres Portuguezes.

Se seus oclios erão profundos ,


Do Brasil. i j

suas affecçóes erSo também mais vivas.

Então se formou este espirito

aaci^nal , que os successores de

Iptonso I. não tardarão em elevar

ainda, seja pela especie de igual*

dade , que elles estabelecêrão eritie

si , e a Nobreza ; seja pelos limi*

tes , que elles mesmos assignárão

á authoridade Real. Os Estados

geraes forão muitas vezes juntos:

nelles se propozerão leis , que excitárão

o amõr das grandes virtudes.

A nobreza foi a recompensa

irão só dos serviços militares , mas

também de acções , que caracterisavão

o desinteresse, e nobreza

d' alma. As guerras dos Portugueses

erao ao mesmo tempo politicas

, e religiosas: sen zêlo era excitado

pelo duplicado interesse da

expulsão dos Mouros , e da propagação

da Fé.

Os successores de D. Affonso

fundarão cidades, creárão frotas,

animarão a população , e reunirão

á Portugal o pequeno Reino do

Algarve, tomado aqsMusulmanos.


38

Historiei

Deste modo nos primeiros séculos

da Monarchia vê-se a nação Portugueza

affugent*r os Mouros, firmar

suas fronteiras . combatei" 1>uc.

cessivamente com os infiéis, ecom

os Castelhanos , muitas vezes com

vantagem: vê-se este povo bellicoso

cultivar á hum tempo a agricultura

, o commexcio, e as artes:

vê-se também o Clero , e a Nobreza

, apoios naturaes do throno ,

exercitar 110 Estado liuma grandç

influencia , e oppôr hum dique

saudavel ás invasões do poder supremo

: vêm-se em fim os Monarchas

tentarem por muitas vezes ,

inas sempre em vão , despojar o

Clero , que se tinha feito rico , *¡

preponderante. Todos os seus es.

forços erão mal succedidos á vista

da resistencia combinada deste corpo

respeitado , que acha hum apoio

formidável no poder espiritual dos

Papas. Feridos successivamente pelos

raios da Igreja , muitos Reis

de Portugal compoem-se coma Santa

Sé, e se submettem á s.ua au-


Do Brasil. i j

thoridade. Desordens frequentes, e

guerras civis conservão á nação

sua vivacidade , e sua energia sem

Alterar suas virtudes. Os Nobres ,

retirados das cidades, t da Corte ,

entretém em seus castellos junto

ás imagens cle seus antepassados a

lembrança, e a imitação das empregas

, cujo exemplo elles deixárão-

Ihes por herança.

A nação inteira estava já preparada

para as grandes emprezas ,

quando no fim do decimo quarto

século D. Fernando 1., novamente

Mon are ha , morreu sem deixar

herdeiro varão, depois de ter-casado

D. Beatriz sua filha, nascida

de huma união illegitima , com D.

João I. , Rei de Castella ; crendo

assegurar assim o throno ao filho ,

que nascesse deste consorcio , e na

sua falta á D. João I. , seu genro;

Mas a aversão dos Portuguezes á

dominação Castelhana favoreceu

as vistas ambiciosas de D. João , irmão

natural do Rei. Este Príncipe

se apoderou do governo ;. e as


38 Historiei

Cortes, convocadas em Coimbra;

lhe defferírão a coroa. Elie firmou-a

em sua cabeça com a famosa batalha

de Aljubarrota a 14 de Agosto

de 1385 , onde , soccorrido pelos

Inglezes , derrotou os Francezes ,

e "Castelhanos reunidos. O novo

Rei , conhecido na historia pelo'

nome de D. João o Bastardo , foi

o tronco dc huma familia , que occupou

o Reiivo de Portugal duzentos

annos. Seu reinado foi illustrado

não só pela Victoria completa

de Aljubarrota , mas também pela

sua expedição contra os Mouros ,

que elte perseguio com huma frota

até a Africa.

Desde então os Portuguezes começátão

a sentir a necessidade da

navegação , e das descubertas. O

reinado de D. João I. se faz sobre

tudo notável pelo impulso , e movimento,

que o Infante D. Henrique

, digno filho deste Monarcha ,

dá ao espirito da sua nação para

vencer as preoccupaçóes, que até

então terião passado por invenci-


Do Braqit. 17

•eis. Versado na geografia , e na

mathematica activo , emprehentiedor

, illustrado , D. .¡Henrique

&Siví"á seus compatriotas a carreira

, em que a gloria os espera. Não

possuindo i se não hum domínio limitado

na extremidade occidental

do Algarve , elle ahi faz construir

embarcações á sua custa , e as manda

reconhecer as costas d'Africa.

Seu gênio , e a intrepidez do povo

, que elle dirige » vão fazer renascer

a arte da navegação, e darlhe

huma. elevação mais vasta.

Animados, e guiados por hum

tal Chefe, os Portuguezes, em todo

o tempo ferozes, bravos, attrevidos',

de í,um espirito penetrante

j e de huma imaginação ardente,

vão marcar derrotas , que

ainda não tinhão sido conjecturadas

: elles navegarão por mares desconhecidos:

dobrarão cabos, olha»

dos até então , como os limites do

mundo : e espantarão a Europa

pela intrepidez das suas emprezas:.

v He debaixo da influencia do

Tom. I. &


l8 "Historia*

Filho de D¡. ]oão I., e pela inápi*ração

do stu-genio, que elles des*

cubrírão--logó as ilhas da Madeira;

das Canarias , e do Cabo Verde ; e

ao depois aso dos Açores; e> que

dobrando 1 o cabo Bojador , elles avançâo-

«o longo da Costa occidental

da Africa, em maior disrancia *

do que nenhum navegante até en*

tão tinha ido: he debaixo dos sem

auspicio*, querelles descobrem mais

tarde ais 'costas de Gtiíné , e ahi

fazem sélVs primeiros-estubeleoimentos.

O'iUustre Infante-D. Henrique

mofreiv septuagenário pouco

ao depois da exaltação de D. João III

filho, de sen sobrinho , -ao throno

de Portugal: 'morreu na. V'illa de

Sagres nos Atgarves ,. >; donde elle

deixava cadiir 1 aí suas vistas -sobre

o mar Athlaíitico; feliz'!, por ter

aberto á sua nação hum tão v-ast©

campo de gloria. A mais simples

narração do qite elle meditou, e

do que elle émprehendeu ,:he bas*

Cante para o seu elogio. PortugaJ

se não O contou no numero de seus


Do Brajíl *9

Reis, Portugal, e a Europa inteira

o collocão na ordem dos maio,-*

rss homens. Devem-se-lhe incontestavelmente

as primeiras idéas »

que no fim do decimo quinto secu«.

lo conduzirão á descuberta dehum:

novq, hemisferio, e da passagem

ás Índias..; ..

O forte impulso „ que elle, ti-í

nha dado á seus compatriotas , lhe

sobreviveu. As emprezas , e asdesn

cuber tas se succedêrão humas ási

outras. Cada vez mais animados ,

mais ardentes, os Portuguezes costeião

a praia occidental da; Africa ,

« correm a immensa costa, que se

estende desde as columnas de Hercules

até o Zaire. He então , que

elles concebem o projecto de abri«r

«J\ huma passagem do Oceano

Africano ao Oceano Oriental: elles

se lisonjeão de remontar mesmo at£

as índias, de fazerem ahi hum

commercio directo, de estancar as*

sim a foiue da grandeza , e da oppulencia

de Veneza, de chegar

em fiin por sua perseverança , e co-


•zo' Historia'

ragem á este primeiro termo de tantas

espeianças, e esforços.

- Nesta época para sempre rnemot

sável, e na qual a influencia dos

Portuguez.es se dilatou com hum

novo brilho , a maior parte dos Estados

da Europa começavão a tomar

huma forma nova mais regular,

e a offerece'r paginas interessantes

á historia. A legislação , o

eommeroio , a politica , e a restanfação

das letras se união para estabelecer

relações felizes entre as

principaes nações. A Italia , centro

das luzes , deixava na verdade

ainda muito atraz de si os outros

paizes damais florescente parte do

globo. A Allemanha V posto que

privada da parte septentrional da

Italia, e por muito tempo agitada

pelas contendas dos Imperadores ,

t dos Papas, tomava em fim huma

situação mais tranquilla. A França

gosava igualmente de socego; os

grandes feudos acabavão de ser

reunidos á Coroa; reinava Carlos

VIII. A Hespanha , inteira?


Do Brasil. i j

mente livre do jugo dos Árabes ,

não conhecia mais , que hum só

dominio. O casamento de D. Fernando

, e de D. Isabel tinha unido

o Aragão, e a Castella. As finanças

deste Estado , suas forças,

e seus exercitos o igualavão á mesma

França. As primeiras Potencias

Europeas olhavão ao hum tempo

tom olhos rivaes para a Italia , á

respeito da qual tantas tentativas,

e pertenções devião se lhes tornar

funestas. A Inglaterra depois dos

longos , e sanguinolentos debates

das Casas de Yorck , e de Lancastre

respirava em fim, governando

Henrique VII. Os tres reinos do

Norte estavão reunidos: mas a Suécia

gemia com os grilhões , que a

sujeitavão á Dinamarca, e tratava

de quebral-os. A Polonia elegia

seus Reis; ella tinha de se defender

contra os Turcos ^ que talavão

seus campos ; e contra os Russos,

que já se tínhão tornado para ella

visinhos temiveis. O dominio do»

Turcos se espalhava ir* Europa, e


38 Historiei

na Asia sobre hum território immenso.

Portugal não .^e occupava , se

não com suas descnbertas, e com

seus estabelecimentos maritimos. D.

João II. era a alma das grandes

emprezas , e cios seus vassallos f


Do Brasil. i j

humanos. Tocado vivamente do eX-<

emplo dos navegantes Portuguezes ,

Christovão Colo mb) concebe o projecto

de abrir huma passagem ás

índias pelos mares do Occidente :

elle parte a offerecer suas esperanças

, e s u a s promessas ámuitQS soberanos-,

que o desprezão, As vis^

tas dos Portuguezes estavão então

exclusivamente voltadas, para a Ar,

frica; e D. João II. não fez a Co*

lomb melhor accolhimento , que os

Reis de França , e de Inglaterra.,

O illustre Genovez foi igualmente

rejeitado pelos soberanos.de;Castel+

la: mas o que os seus, planos vastos

prometi ião de lisonjeiro,lhe obtém

dç Isabel protçcção;, e soççorro.

Elie se aventura então aobte

mares desconhecidos , e descobre a

America. Voltando .ctas Antilhas ,

elle se avisinha ás costas de Portugal

v entra 110 Tejo , acompanha-:

do de alguns índios , .^trazendo

Oiro , C íruetos do ¡SIQ.VO Mundo.

Estes signaes não equivocos de hum

successo inaudito ; as narrações cm-


38 Historiei

faticas do feliz navegante excitâo^

arrependimentos, e o pezar da Corte

de Lisboa. O Monarcha reprimió

de repente com horror a proposição

de fazer perecer Colomb :

elle ao contrario o tratou com distinção

; e o illustre Genovez appareceu

cuberto de gloria na Corte

de Castella , onde recebeu o titulo ,

e as honras de Vice Rei do Novo

Mundo.

Os successos da sua primeira

expedição fez nos Portuguezes huma

sensação tão viva , ijue D.

João II. julgou dever equilibrar

os effeitos delia aos olhos da sua

nação por meio de alguma grande

empre?a. Elle fez immediatamente

preparativos d v armas para abrir em

fim a passagem ás Indias Orientaes.

Mas o Rei de Castella , vendo nas

suas disposições huma especie de

hostilidade , queixou-se disso por

seu embaixador. Os preparativos

forão suspendidos, e a contenda

foi submettida á authoridade da

Santa Sé , occupada então por Ale-


JDo Brasil. 48

Jcandre VI. O Papa, cujo poder

divino as chias Potencias reconhecião

, diviaio-lhes o mundo , assignantío

á ambição de cada huma seu

hemisferio á parte. Huma linha

imaginaria tirada de Norte á Sul,

cem léguas á Oeste das ilhas de

Cabo Verde , e dos Açores, dava

o Occiílente á Hespanha , e o Oriente

á Portugal ; convenção , que

desordenarão bem depressa as novas

descubertas, e que nenhuma das

nações marítimas respeitou.

D. João II. morreu no fim do

decimo quinto século , depois de

ter adquirido por sua justiça , por

suas virtudes , e por suas empregas

o appellico de Grande , e de

Perfeito : mas levou com sigo ao

tumulo, o duplicado sentimento de

ter recusado as offertas de Colomb ,

e de não ter consummado a expedição

das índias Orientaes. Todavia

esta expedição foi preparada no

seu reinado , e seu successor a realisou.

Aqui começa o século de vigor ,


38 Historiei

e de gloria de Portugal. D. Manuel

, chamado o Grande , neto

de D. Eduardo , tinha subido ao

throno por falta de filho legitimo

de D. João II. Dotado das mais

bejlas qualidades , elle se mostrou

bem depressa o amigo das artes *

o protector da navegação , o pai

do seu povo ; e não se deixou penetrar

da gloria de seus Predecessores

, se não para accrescental-a

çada vez mais ao esplendor do throno

, e á prosperidade da nação.

Elie faz logo conselhos frequentes

para reformar os abusos , pára traçar

hum plano geral de governo ,

e para se occupar com novas descubertas.

Algumas considerações de hurna

tin.ida politica , alguns restos

daqueiles prejuízos atacados for-»

temente pelos primeiros successos ,

mas não inteiramente destruídos ,

abalarão os sentimentos do gênio

de D. Manoel , e parecerão obter,

mesmo huma especie de prepondejrancia

, á qual teria cedido outro


Do Brasil. i j

qualquer , que não fosse o Neto

de D. Eduardo. Porém depois das

mais maduras deliberações nada

demoroxi mais o Monarcha ; e decidio-se

, que se abriria a derrota

das grandes índias pelo Occeano

Occidental em conformidade dos

planos já concebidos.

Huma frota de quarenta vasos

ne confiada ao commando de Vasco

pa Gama , oriundo de huma casa

•»Ilustre de Portugal: elle parre em

1497 com instrucções ordenadas

por D,. M*nuel mesmo. O Cabo

das Tormentas, reconhecido onze

annos antes, tinha apresentado a

Possibilidade de huma passagem ao

Oceano Indiatico , e tinha recebido

desde então o nome cle Cabo da

Boa Esperança , que o Gama devia

verificar.

Este grande navegante dobrou

o Cabo , ttiumfou de todos os perigos

, e os pavilhões dos Portu-

-guezes navegarão pela primeira vez

sobre aquelles mares . ao través

dos quaes clles tinhâo desejado tan-


38

Historiei

to abrir hura caminho. Gama proseguio

sua derroca ; correu a costa

oriental da Africa ; e ao depois de

ter errado milito tempo sobre hum

occeano desconhecido , encontra

á 14 gráos de latitude meridional

pilotos Mahometanos , com auxilio

dos quaes apporta no reino de Calecut.

Mais" de mil, e quinhentas

leguas de costa forão reconhecidas

nesta celebre viagem.

Na chegada dos P0rtugue7.es o

Indostão , este vasto , e bello paiz,

comprehenriido entre o Indo , e o

Ganges estava dividido entre muitos

soberanos mais, ou menos poderosos.

O rei de Calecut, mais conhecido

pelo nome de Çamorim ,

que corresponde á dignidade de Imperador

, possuía os estados , que

ficavão mais proximos ao mar: elle

estendia o seu dominio sobre todo

o Malabar , que em menos de tres

séculos ao depois a força das armas

devia submetter com toda a península

da India ao poder Británico.

Gama instruido da situação po-


JDo Brasil. 29

Utica da costa , apporta em Cale*

cut , onde o commercio florescia

com mais vantagem-, e propõe ao

Çamorim huma alliança , e hum

tractado de commercio com o Rei

seu soberano. O Monarcha índia* ,

tico accolhe logo a Gamai porém

excitado ao depois pelos Mahometanos

, encontra na intrepidez , na

actividade , na ambição dos navegantes

Portuguezes huma origem

de inquietações : elle os cerca de

laços , e de perigos. O Almirante

Portuguez não escapa delles, se

não pela sua firmeza impassível,

e por meio de represalias exercitadas

á proposito, Elle torna a tomar

a derrota da Europa , depois

de ter feito respeitar o nome Portuguez

na India, onde não tinha

encontrado disposições verdadeiramente

favoraveisu. senão em o Rei

de Melinda , que o fez acompanhar

por hum embaixador..

, Põde-se facilmente julgar , que

recebimento D. Manuel reservava

W iUustre Almirante. Sua chegada



•Historia

foi celebrada com festas brilhantes ¿

e com todos os testemunhos de.alegria

publica. Cheio de signaes d»

estima, e de reconhecimento dç>

seu Soberano, Vasco.-da Gama £oi

feito Conde da Vidigueira , creado

Grande de Portugal;y honrado com

o titulo de Duque para si


Do Brasil.

Veneza no decimo quinto século

tirava quasi sd da Alexandria ,

que no reinado dos Ptolomêos no

tempo dos Romanos , e c!os Árabes

ti-nlia Sido o empório do Egypto ,

da Etíropa , e das Índias. He assim ;

que-os Portuguezes romperão os

obstáculos , que se oppunhão aos

progressos da navegação , da industria

, e das luzes. Sua passagem is

Grandes Índias substituío logo Lisboa

á Veneza : e se , como não se

pôde duvidar, a grandeza dos acconr

tecimentos devfc medir-se pela sua

influencia sobre a sorte das nações ,

sobre suas relações commerciaes, e

politicas, a expedição do Gama , q

o reiijádo de D. Manuel são liúma

destas épocas memoráveis , que a

historia honra-se 'de-ter- cie assigr

nalar para .gloria da Europa , eipa-»

r ' d a instrucção do futuro. •'


38

Historiei

de Veneza , e o de Gênova, já enfraquecido

pelos Tnrcos, cahio rapidamente

: outas nações , até então

fracas , ou desconhecidas, se

levantarão alternativamente pela

navegação, e pelo commercio. A

idéa só de riquezas immensas , de

huma natureza inteiramente diversa

, de mares até então ignorados

de novas origens de riquezas

eleCtrisou os espiritos , excitou a

emulação., e accendeu a cubiça.

Desde que se tracjtou de tentar

conquistas na Africa , e na Asia ,

tanto a sède de enriquecer * como

o desejo de segurar o Estado , e de

propagar o Evangelho fez correr

os Portuguezes em tropel ás praias

estrangeiras. Immediatamente suas

frotas'cobrem , e dominão os mares

da Índia. D. Manuel não se occupa

, se não em submetter este rk.o

paiz ás suas armas. As emprezas

intrépidas, as victorias brilhantes

dos Almeidas ,.e dos Albuquerques

Jbe.segurão em menos de très aunes

aposse de G.^a áquem doGan-


JDo Brasil. 33

ges , de Malaca no Chersoneso do

Ciro , de Adem na costa da Arabia

feliz, e cie Òrmiii no Golfo

Per sico: seus navios frequentão a

Eihiopia oriental, o Mar Vermelho

, e todos os mares da Asia: suas

feitorias se estabelecem desde Ceuta

até ás fronteiras da China. Já

os Portuguezes tem descuberto cinco

mil léguas de costas; já o accaso

, e a tempestade lhes tem franqueado

o dominio de hurna das mais

vastas regiões do hemisferio Occidental

; do Brasil, que situado á

mil e quinhentas léguas da Metrópole

, e logo despresado , ha de vir

a ser hum dia , depois da ordem

eierna dos accontecimentos, hum

dos mais bellos impérios da America

, o refugio da Monarchia Portugueza,

c a verdadeira Séde do

seu Poder.

Tom. I. C


LIVRO SEGUNDO.

Bescuberta do Brasil por D. Pedro

Alvares Cabral. Expedif

ões de Américo Vespucio , e

cie Coelho. Descuberta do Rio

de Janeiro , e do Paraguay por

João Dias de Solis , Piïoto mór

de Castello. Morte deste navegante.

Primeiras disputas

de Hespan/ia, e de Portugal

por motivo das descubertas da

America. Morte d' El-Rei D.

Manuel o Afortunado. D. João

Hl' lhe succédé, e fôrma o

projecto de colomsar o Brasil.

15C0 r— 15ÛI.

A Penas a entrada do célebre Gama

no Tejo havia provado á Eu-


38 Historiei

ropa inteira, que as Grandes índias

erão dahi por diante accessiveis

aos Portuguezes , quando D.

Manuel , cheio de esperanças , concebeu

vastos projectos., que não

olhou mais como vans tentativas.

Frotas numerosas , e capazes de dar

leis, onde quer que apportassem ,

forão successivamente esquipadas

para as índias.

Nem o consummo das finanças ,

nem as perdas inseparáveis destas

navegações perigosas embaraçárão

o Rei. A perspectiva de hum futuro

glorioso , as conquistas , que

ellas promettião á Religião, e á

prosperidade de seus estados, não

lhe permittião mais calcular os sacrifícios.

.

Os Portuguezes , que não tixihão

ainda penetrado os projectos

deste Monarcha em toda a sua extensão

, se apresentarão então em

tropel para os realisar.

A primeira frota, composta de

treze vasos, apromptoii-se para dar

á vela no gaez de Março de 1500.


Do Brasil. i j

Ella era commandada por D. Pedro

Alvares Cabral, oriundo de

huma das primeiras familias do Reino

, Governador da Provinda da

Beira , e senhor de Belmonte. Cabral

teve por Lugartenente outro

fidalgo , chamado Sancho de Tavor.

A frota tinha de guarnição mil, e

quintos homens armados , além das

equipagens.

Segundo o theor das suas instrucções

, Cabral devia tocar Sofáta

, visitar os Reis da costa da índia

, fazer com elles alliança , e

formar alguns estabelecimentos ,

que pudessem servir á hum tempo

de escala , e de deposito para os

gêneros commerciaes na viagem, e

yolta das Grandes índias: elle

devia ao depois ir direito - á Cale-

; e depois de ter esgotado todos

os meios de brandura com o

Çamorim , para obter delle a faculdade

de estabelecer huma feitoria

na sua Capital, devia declarar-lhe

huma guerra aberta , no caso que

elle recusasse ás proposições de Por-

1 r

tugal.


38 Historiei

D. Manuel, querendo assignalar

a partida cie Cabral co n huma

grande solemnidade , ajuntou o povo

na Cathedral de Lisboa. O Bispo

de Ceuta pontificou , e recitou

âo depois huma oração , cujo principal

objecto foi o elogio de Cabral ,

que emprehendia com tanto valor

huma tão grande expedição marítima.

Acabada a oração , o Bispo

recebeu sobre o Altar o estandarte

com armas Portuguezas , o qual

durante as funções Ecclesiasticas

estivera fincado junto ao mesmo

Altar; e depois de o ter publicamente

benzido , deu-o ao Hei, que

o entregou á Cabral em presença

dos Grandes , e do povo. O Monarcha

poz-lhe ao depois na cabeça

hum chapéo bento , que o Papa

tinha enviado , e lhe prodigalisou

os signaes os mais honrosos de huma

confiança sem limites. A bandeira

foi então, levantada , e conduzida

processionalmente á praia,

aonde o Rei em pessoa acompanhou

a Cabral , querendo ser tes-


Do Brasil. i j

temunha do embarque, que se fez

c

om estrondo da artilheria do port0

» e com aoplausos geraes do

povo.

. A partida do Gama não tinha

81

do honrada com maior pompa;

tomo se a nação tivesse previsto ,

Çue o resultado desta segunda expedição

á índia devia grangear á

Portugal hum império ainda mais

rico, e mais extenso.

O Tejo estava cuberto de botes

, cheios de espectadores , que

ião , e voltavão da frota á praia,'

>> Todas estas chalupas (diz o liis-

» toriador Barros , testemunha oc-

» cular) estavão agaloadas de li-

'» krés, de galhardetes , e de armarias;

e davão ao rio huma

vista de hum jardim ornado d&

>» flores diversas em hum dos mais

" bellos dias cia primavera. Mas

>» o que exaltava mais os espíritos

» (continua o Historiador Portu-

" gnez , empregando hum estilo

« q u asi poético ) era o som armo-

T, nioso , e sonoro das flautas, dos-


38

Historiei

tambores, dos boés, das trom-

,, bètas, ao qual se unia o som o

„ mais suave da agreste charame-

„ la , que até então não tinha res-

,, soado , se não em prados, e val-

.„ les; e que pela primeira vez se

j, fazia ouvir sobre as aguas sal-

,, gadas do Vasto Occeano.

Depois desta época o Rei de

Portugal tez embarcar em cada huma

frota destinada para a America

, ou para as Grandes índias hum

Corpo de músicos , a fim de que

aquelles de seus vassallos , ^que emprehendessem

tão longas 'navegações

, não fossem privados de algum

dos Unitivos capazes de os

distrahir do enojo , e das fadigas

do mar.

Cabral fez-se á vela, e chegou

és ilhas cle Cabo Verde com 13

dias. Até ahi nenhum aceidente

havia perturbado sua navegação.

Elie percebeu então , que hum dos

seus navios lhe faltava ; esperou-o

dois dias inteiros, e não continuou

sua derrota , senão depois de per-


Do Brasil. i j

der a esperança de o reunir á sua

frota. Porém para evitar as calmarias

. e a costa da Africa , elle amarou-se

de tal sorte, que batido por

huma tempestade vio-se obrigado

a declinar para o Occidente. Iminediatamente

coin grande admiração

sua a 24 de Abril de 1500 descubrió

á Oeste huma terra desconhecida

a 10 gráos além cia Linha:

era o Brasil.

O bote , largado ao mar , chegou

á praia ; virão-se alguns selvagens

com a têz cõr de cobre,

inteiramente nús, com o nariz achatado

, e cabellos negros, e que arcados

de arco , e flexa se chegáó

10 , mas sem sensibilisar intenção

"alguma hostil. Fugirão , vendo desembarcar

os Portuguezes , e ajuntarão-se

sobre huma eminencia. O

vento contrario , e o mar agitado

obrig-árão a Cabral, durante a noite

. a alongar-se da costa , á que

acabava de approximar-se , e a buscar

outio ancoradouro ao sul: correu

até 15 grãos de latitude aus-


38

Historiei

trai , e iescobrinclo hum bello porto

, ancorou com segurança , e por

isso deu-lhe o nome de Porto Seguro.

Mandárão-se de novo chalupas

á praia: ellas trouxerão dois

naturaes apanhados em huma piroga

, em que andavão pescando.

Cabral os fez vestir com bellos vestidos

, ornou-os com bracelêtes de

latão , deu-lhes campainhas, e espelhos

, e tornou a mandal-os para

terra. Este expediente teve bom

êxito. Alguns selvagens inteiramente

nús, e de huma còr avermelhada

se appresentárão , e attrahidos

pelos presentes , e affagos , estabelecerão

com os Portuguezes communicações

amigaveis : trocárão

fructos , milho , e farinha de mandioca

pelas drogas da Europa , de

que os navios tinhão sido carregados

para traficar na costa da Africa.

O Almirante, Portuguez fez reconhecer

as terras , e soube com

alegria pelas relações dos seus espias

, que ellas paredão ferteis ,

cortadas de bellos ribeiros, cuber-


Do Brasil.

tas de diversas especies de arvores,

e de frucros , e povoadas de homens

, e de aiiimaes.

No dia seguinte (Domingo de

Páscoa ) Cabral sábio á terra com

seus pr ncipaes Officiaes , e hum a

parte das suas equipagens. Levantou

hum Altar para a celebração

de huma Missa solemne , arvorou

huma Cruz sobre huma grande arvore

copada , e mandau fazer huma

em pedra na praia mesmo. Daqui

he , que a nova terra tomou

o nome de Santa. Cru7t ; porque o

dia 3 de Maio , dia desta tomada

de posse , he dedicado á Santa Cruz:

mas o nome Brasil, pelo qual era

"y^.conhecida a preciosa madeira de

Untura , encontrada ao Norte desta

parte da America , não tem prevalecido

menos. Este nome traz a

etimologia da palavra Portugueza

frisas, dada á esta madeira do

brasil por causa de seu bello vermelho

còr de fogo vivo.

Desce modo Cabral começou

n ° Brasil o primeiro estabelecimento

i j


44

H istoria

Portuguez no cume de hum rochedo

esbranquiçado , fronteiro áhum

terreno , que elevando-se ao Norte

, aplanava-se ao Meiodia , e formava

pouco a pouco huma praia

arenosa.

Em quanto elle fazia celebrar

a Missa solemne ao som da musica

, e das salvas cla artilheria , os

índios, que chegavão em multidão

para verem hum espectáculo tão

novo , persistião no mais profundo

silencio , como tocados de espanto ,

e de admiração. Cabral, fiel aos

princípios do seu século , e ao systeraa

cie proselytismo , que se tornou

muitas vezes o pretexto dos

furores humanos , encarregou ao

Monge Henrique da Coimbra , superior

de sete Missionários , que

elle conduzia ás índias, que annunciasse

o Evangelho á estes povos.

Elle estava longe sem duvida

de esperar bom successo de huma

prégação , que não podia ser entendida

; mas cumpria com hum dever ,

que lhe impunhão as Bulias Apos-


Do Brazil.

tolicas. Fora destes sentimentos particulares

Cabral devia pensar com

huma especie de orgulho , que elle

er a o primeiro , que fazia pregar

a Fé nestas praias estrangeiras. As

equipagens não deixarão de applaudir

hum z,êlo , que por então justificava

, e parecia garantir tudo.

Durante" o Officio Divino os

«aturaes do Brasil derão signaes

de hum interesse muito grande,

que_ não era certamente, senão o

effeito da admiração , mas que agradou

tomar-se por hum recolhimento

de espirito. Elles seguirão com

exactidão todos os signaes de adoração

, e de humildade dos Padres,

,freios-assistentes ; puzerâo-se de

joelhos , levantárão-se, baterão nos

peitos , e imitarão em tudo os Portnguezes

com intenção de lhes agradar.

Estes virão em todas estas demonstrações

o presagio de hum futuro

feliz. Com efteito o accolhimento

prompto , e fácil , que lhes

faz ião os Brasileiros da costa , era

ttjijD agoiro favorável das disposi-


4 6

Histeria

çóes, e do caracter destes povos

Indiaticos. Com tudo não se percebeu

entre elles vestigio algum de

religião , nem de governo , nem

mesmo de civilisação traçada.

Cabral fez plantar na praia huma

columna de pão , assignalada

com as armas de Portugal , e apressou-se

em mandar á Corte de Lisboa

hum de seus Capitães, chamado

Gaspar de Lemos , para noticiar

sua descuberta , que dava á

nação Portugueza hum novo império.

Foi embarcado com Lemos hum

dos naturaes do Brasil , para fazer

conhecer á D. Manuel seus

novos vassallos. Cabral voltou para

bordo , deixando no paiz dS ; *

criminosos condemnados á morte ,

e cujo castigo tinha sido commutado

em desterro, Os Brasileiros o

acompanháráo até a sua chalupa ,

cantando , dançando, batendo as

palmas, disparando flexas ao ar ,

elevantando os braços ao Ceo para

significarem a alegria , que lhes

causava huma tal visita. Chegarão

i


Do Brasil.

& metter-se pelo mar dentro para

seguirem os Portuguezes: alguns

forão até a frota em suas pirogas:

outros , tanto homens , como mulheres

, se lançarão á nado com huma

cle streza espantosa , como se a agua

fosse seu elemento natural. Cabral

deixou a costa , dirigio-se ao Cabo

da Boa Esperança , e seguio para

as índias Orientaes, seu primeiro

destino.

D. Manuel recebeu cem alegria

a noticia , que lhe trouxe Lemos.

Elie via estender-se seu domínio

para o futuro não só nas tres antigas

partes do mundo , mas também

na quarta , apenas descuber«

.j&i. Os successos de Cabral na índia"

verifjcárão por outra parte todas

as suas esperanças. Era bastante

aos Portuguezes appresentarem-se ,

para darem leis; e aquelles mesmos

soberanos, cuja alliança elles tinhão

procurado , já não obtinhão a sua ,

se não reconhecendo-se vassallos

da Côjte de Lisboa. Estes interesses

erão tão grandes, que as des.

i j


48

H istoria

cubertas occidentaes não fizcrão poi*

então nos Portuguezes Iiuma diversão

considerável.

O Rei resolveu-se com tudo a

esquipar luima frota , destinada a

trazer de novo hum conhecimento

completo desta nova região , e segurar

a posse delia. Américo Vespucio

, hábil geografo , foi escolhido

por D. Manuel para acompanhar

Orejo na sua expedição ao

Brasil. Empregado logo pelos. Reis

cle Castel}a D. Fernando , e D. Isabel

, Vespucio não tinha recebido ,

depois de duas viagens ás índias

Occidentaes, se não hum írio accolhimento

, que elle devia naturalmente

notar de ingratidão. O. Rei

de Portugal empenhou-se em empregar

em utilidade o descontentamento

do celebre navegante , que.

podia servir-lhe. Deste modo o usurpador

da gloria cle Colomb foi chamado

á Lisboa , e encarregado da

navegação ao Brasil. A sua missão

era sobretudo assignalar os limites,

das terras, que Cabral tinha des-


Do Brasil. i j

cnberto , e explorar com cuidado 0$

portos , e costas della.

Teria sido fácil á Colomb , depois

de ter reconhecido na sua terceira

viagem a Ilha da Trindade,

a costa de Cumana, e as fozes do

Ourtnoque , o seguir estas mesmas

costas do hemisferio occidental, que

o terião conduzido , avançando paia

o Sul , até o Rio das Amazonas:

elle teria então infallivelmente

descuberto o Brasil. Porém chamado

a S. Domingos pelos seus primeiros

estabelecimentos , abandonou

para o Noroeste esta nova .derrota

, que teria ainda illustradp

s eu nome pela brilhante descuberta

- com que os accontecimentos imprevistos

devião enriquecer os Portuguezes.

Entretanto Vicente Ianez Pin-

Ç°n , que tinha acompanhado Colomb

na sua primeira viagem , passando

ao depois a Lisboa , descubrió

alguns mezes antes de Cabral

as costas do Brasil , visinhas

a embocadura 4o Amazonas. Mas

Tom. I. D *


Historiei

todos os navegantes estavSo persuadidos

então a se regularem pela

falsa tiledria , de que as novas

descubertas na America faziSo parte

do grande continente da India,

¿esté modo a costa , que Pinçon

je conheceu , era julgada na linha

de demarcação devolvida aos Portugnezes

pelo soberano Pontifice ;

e Cabral tomou posse delia antes

mesmo, que o navegante Castelhano

chegasse á Hespanha.

Ajudado na sua navegação pela

experiencia cie suas precedentes viagens

, Américo Vespucio partio

com tres vasos , e chegou á costa

do Brasil. Alguns homens daequi- {

pagem , enviados á descuberta , forão

apanhados, e devorados pelos

selvagens á vista mesmo dà frota.

Vespucio se apartou logo destes

antropophagos ; e chegando á altura

de oito gráos de latitude meridional

, estabeleceu com os índios

menos barbaros communicaçóes a*

migáveis. Reconheceu o paiz , en'

trou em alguns portos , certificou'


Do Brasil. i j

se de muitos ancoradouros" e poz

«as suas operações tanto cuidado ,

€ intelligencia , que se elle não

verificou inteiramente o enthusiasmo

dos povos, que derão seu nome

ao mundo novamente deicuber-

£ o, ao menos fez mais plausivel a

opinião vulgar , que privou Colomb

da gloria , que tinha merecido. Vespucio

avançou até trinta gráos além

do Rio da Prata ; ganhou outra

vez o mar alto , e entrou em Lisboa

depois de seis mezes de navegação.

Suas relações lisongeárão pouco

a ambição de D. Manuel: ellas no

geral não se ajustavão com as de

Cabral. O navegante Florentino

a Ppresentava a nova descuberta debaixo

de hum aspecto pouco favorável.

Ella não offerecia , segundo

as suas observações, senão vastos

desertos, terras pouco próprias para

a cultura , e selvagens pouco susceptíveis

de civilização.

Deste modo D Manuel não dava

á descuberta de Cabral todo o

D a


Historiei

valor , que ella merecia. Elle conheceu

sim , que não devia ser inteiramente

desprezada , mas que

erão precisas novas verificações para

estabelecer hum juizo ainda mais

seguro. Portanto determinou segunda

viagem , e Vespucio partió de

Lisboa' com huma frota de seis vasos,

deque Gonsalo Coelho eia

commandante em chefe. A discordia

ateou-se logo entre estes dois navegantes.

Ò Florentino se queixou

ao depois amargamente do commandante

Portuguez. A expedição estava

destinada para Santa Cruz,

onde Cabral tinha apportado: poíém

chegando ao Brasil, Coelho empresou

"os conselhos de Vespiici'o;

perdeu quatro de seus navios pelo

pouco conhecimento, que os pilotos

tinhão das correntes , e pela

ignorancia, que elle mesmo tinha

da costa. Elie reconheceu-a com tudo

, correu duzentas e sessenta leguas

ao Sul , apportou na altura

de dezoito gráos de latitude, con-

6çrvou-se muitos mezes em boa ia-


Do Brasil. i j

telligencia com os naturaes, e fazia

levantar hum forte na costa ,

onde deixou vinte e quatro homens,

escapos ao naufragio da Náo commandante.

Depois de ter corrido

as terras , e feito carregar de páu

brasil os navios, que lhe restavão ,

empregou muitos mezcs em visirar

Os portos , e rios , experimentando

grandes fadigas. Finalmente voltou

para a Europa , entrou com Vespucio

no Tejo , e foi recebido como

hum navegante intrépido , que

tinha triumfado dos maiores perigos

, e aquém a Metropole já não

esperava ver , havia muito tempo.

As observações de Coelho erão

màis conformes ás primeiras noticias

dadas por Cabral. As terras

1}l e tinhão parecido bôas , e ferteis ;

porém como não tinha podido descubrir

as minas do Brasil , fonte

das maiores riquezas do paiz , D.

Manuel não julgou dever-se occupar

por então do intento de estabelecer

nelle colonias permanentes.

Era difficil com tuclo , que lni-


54

H istoria

ma tão importante descuberta se

fizesse de repente a herança exclusiva

de huma Monarchia pouco temida

na Europa , sem fazer nascer

a concurrencia , ou a rivalidade

entre as potencias maritimas. A

Hespanha sobre tudo, que olhava

a America como seu proprio dominio

, mostrou-se logo invejosa do

dominio do Brasil , excitada por

Américo Vespucio , que vendo sen

tival prevalecer sobre elle na volta

á Lisboa , entrou indignado no

serviço do Rei de Castella , e instou

fortemente com este Monarcha ,

para que tomasse posse da costa ,

que elle acabava de reconhecer debaixo

do Pavilhão Portugués.

A grande reputação , que elle

devia a estas ulcimas viagens , lhe

grangeou logo a gloria de ciar o

seu nome de Américo ás partes septentrionaes

do Brazil: mas tendo

ao depois prevalecido so este ultimo

nome , elle teria sido despojado

de huma gloria justamente adquirida

, se os Geografos da Europa


Do Brasil. i j

Jíão tivessem estendido seu nome

á totalidade do novo continente.

He assim , que o accaso , ou o capricho

deu ao navegante de Florença

huma celebridade , que não

Pertencia , se não ao navegante Gelvez

, seu illustre rival.

Authorisado pela Corte de Hespanha

, Vespucio se embarcou de

novo para o Brasil com Ianez Pin-

Çon , e João Dias de Solis , piloto

mdr de Castella : mas estes tres navegantes

conservarão tão pouca

harmonia entre si em todo o cur-

«o da sua expedição , que nãq fizer

ão outra coisa , se não fincar algumas

Cruzes ao longo da costa. Esta

navegação infructuosa foi assignal

ft da pela deplorável morte de Solis.

Tendo partido de Hespanha era

l 5!6» elle tinha sido o primeiro,

que entrara no porto magnifico dp

Rio de Janeiro , onde tinha tomado

posse da costa em nome do Rei

de Castella , mas sem se demorar;

e tinha continuado sua derrota para


Historiei

o Sul. Chegando á entrada de hum

grande rio , ao qual deu o nome

de Rio da Prata , não ousou metter-se

nelle com medo de naufragar

nos rochedos , e escolhos. Não

querendo com tudo voltar á Hespanha

sem ter tomado hum conhecimento

exacto do rio , costeou a

praia occidental, e descobrio logo

índios, que paredão convidal-o a

desembarcar , lançando por terra

suas armas, e seus ornatos , como

para lhe render homenagem.

Enganado por estas demonstrações

, de que elle de certo não

tinha motivo de desconfiar , desembarcou

sem precaução , e com Iturria

comitiva pouco numerosa. A*

medida que se avançava , os sel-l

vagens se retiravão: elles o mettêráo

assim em hum bosque , aonde

o navegante Castelhano não

temeu seguil-os quasi só. Apenas

entrou no bosque , quando hum chuveiro

de flexas o lançou por terra

morto com todos os seus compa-»

nlieiros. Os Índios despojarão os


Do Brasil. i j

cadaveres , atteárão hum grande

fogo na praia , assarão-nos , e os

devorárão mesmo á vista dos Hespanhoes,

que tinhão ficado na chalupa,

ou que tinhão podido fugir

para ella : estes cheios dc horror

Voltarão para suas embarcações , e

se fizerão outra vez á vela para

a Hespanha.

Tal foi o destino de hum dos

mais hábeis navegantes do seu tempo

, mas que não era dotado da

prudência necessaria para formar

liuma empreza colonial.

Instruído da viagem de Vespucio

, e de Solis, o Governo Portuguez

queixou-se á Côrte de Castellá

, corno de hum a infracção dos

seus- limites. Estas duas Potencias

quasi sempre rivaes , e com quem

o Papa Alexandre VI. tinha tão

liberalmente repartido as terras ,

que se descubrissem , pareciao reconhecer

esta linha de demarcação

para todos, excepto no que dizia

respeito a. ellas mesmas.

.Estafamosa linha excluia real-.


58

H istoria

mente os Portuguezes do novo continente

; e sendo todavia a terra

de huma forma esferica , huma linha

de demarcação , traçada de

hum só lado do globo , tornava-se

inteiramente illusoria. Assim á força

de interpretações o Rei de Portugal

chegou a fazer comprehender

o Brasil no hemisferio , que o

Papa Alexandre VI. lhe tinha assignado.

Os navios de Solis tinhão entrado

na Hespanha carregados de

páo Brasil. D. Manuel exigio logo ,

que as carregações lhe fossem entregues

, bem como as equipagens ,

que elle queria punir, como contrabandistas

, e fraudulentos. Estas '

representações não for5o inteiramente

baldadas. Carlos V. acabava

de subir ao throno de Hespanha , |

e queria viver em paz com Portugal

, para tornar sua ambição contra

todo o resto da Europa. Elie

prometteu á D. Manuel, que não

procuraria dahi em diante estabelecer-se

no Brasil juntamente com

k


Do Brasil.

os Portugueses, a quem o accaso

desde estes primeiros tempos parecia

procurar a posse exclusiva de

hum tão vasto império , cujo merecimento

o Monarcha Hespanhol

sem duvida não conjecturava.

Assim logo que, tres annos ao

depois, Magalhães tocou o Rio de

Janeiro , não comprou aos Brasileiros

, se não viveres , para não

dar a D. Manuel motivos de queixas.

Entretanto o consummo lucrativo

das carregações de páo brasil ,

que Vespucio tinha importado , fez

lembrar logo a alguns especuladores

o emprehender este commercio ,

c empregar nelle navios mercantes

: seu fito era unicamente me-

Iborar em huma terra virgem hiiproducção

, que se fazia preciosa

ao commercio. Estas expedições

parciaes se mnltiplicárão , e

appresentou se em qualidade de interpretes

, de agentes, e de correspondentes

hum grande numero de

aventureiras, que forão voluntária-

i j


6o

Historia

mente habitar em hum paiz delicioso

, e abundante, onde se podia

gozar de hurna independencia

completa , entre selvagens , que

pela maior parte se mostrárão lo-'

go hospitaleiros. Estes primeiros

colonos" não forão os únicos. De

tempos a tempos o Governo Portuguez

fazia partir para o Brasil hum ,

ou dois navios carregados dos maiores

criminosos do reino. l?to era

hum meio cle fazel-o? em certo modo

passar debaixo do tropico pela

condemnação , que parecia , qutí

se lhes perdoava na Europa; porque

estes homens , condemnados

pelas leis, se mostrárão sem alguma

attenção para coin os naturaer

do Brasil; e estes abrindo em fim

os olhos sobre o perigo da escravidão

, que os ameaçava , se puzerão

em defeza por toda a parte.

Deste modo as primeiras relações

dos malfeitores Portuguezes com osselvagens

do Brasil forão inteiramente

fataes aos Europêos, e aos

indígenas. Aquelles, por isso que


Do Brasil.

erão depravados, perderão o sentimento

de horror , que os sacrifícios

humanos dos cannibaes lhes tinhão

feito experimentar ; e estes deixár

So logo de ter para com homens,

Çue elles tinhão julgado de Imma

Natureza superior , aquella venera

Ção , que poderia ter redundado

c m sua utilidade , conduzindo-os á

hum estado cie maior civilisação.

Por tanto , durante o reinado

de D. Manuel , as expedições ao

Brasil não tiverão por objecto , se

não pesquisaçóes , verificações , e

tentativas; e o Governo Portuguez

«ão enviou á sua nova possessão ,

se não forçados, e mulheres depravadas.

Os navios, que executavão

es ta especie de deportação , não

erão carregados, quando volta vão

para a Europa , se não de papagaios

, macacos, e madeiras de tintas.

^Posto que estas madeiras se tinhão

tornado hum dos primeiros

objectos do comraercio do Brasil ,

»s Portuguezes esta vão com tudo

i j


6o Historia

bem longe de encontrar então nas

producçòes desta immensa colonia

O cego attractivo, que as riquezas

da índia offerecião incessantemente

á sua cobiça. As emprezas as

mais illustres , os successos os mais

rápidos , as conquistas as mais brilhantes

absorbião , por assim dizer ,

no Orienre todos os votos , e todai

as esperanças da nação Portugneza ,

em quanto no Novo Mundo a incerteza

, e os perigos se appresentavão

á cada passo. Aquelles, que

erão para ahi transportados, não

podião se empregar , se não em huma

penosa agricultura , e na defeza

dos seus dias; e a maior parte

delles considerava esta viagem , como

hnma especie cle castigo infligido

á criminosos: não admirava

pois , que os Portuguezes não abrissem

os olhos mais sedo sobre as

vantagens reaes, que o Governo

affectava desconhecer.

Tal era ainda a situação do

Brasil vinte annos depois de descuberto

, quando D. Manuel, depoi«


Do Brasil. i j

hum grande reinado , terminou

su a gloriosa carreira , chorado como

o pai de seu povo , o amigo

das scitncias , e o protector da navegação.

Seus designios dignos de honra ,

é a prosperidade , que sempre os

acompanhou, lhe grangeárão o appelliclo

ele Affortunado. Foi com

effeito no seu reinado, que a India

se fez realmente tributaria a Portugal.

As conquistas de AfFonso

de Albuquerque ; os brilhantes estabelecimentos

, que forão as consequências

delias ; o commercio tão

rico , como differente , cujas fontes

elles abrirão á nação ; a immensa

extensão dos paizes, que forão subm

ettidos aos Portuguezes ; suas

possessões firmadas desde Ormuz

a té á China ; sua influencia no resto

das tres partes do mundo ; a descuberta

em fim de hum novo continente

> c «ja existencia parecia manifestar-se

para augmentar sua gloria

; taes íorão os grandes acconteciraentos

, que fi¿€rá© notável


64

H istoria

este reinado para admiração rival

dos contemporâneos, e para assombro

da posteridade.

Até esta época o merecimento

da desenberta do continente Brasiliense

tinha sido quasi desconhecido.

Occupado exclusivamente dos

negocios da Índia, Portugal pensava

pouco em hum paiz , onde os

producios , e as vantagens devião

provir muito menos do commercio ,

que da agricultura. Erão unicamente

as permutações , e o commercio

, que os Port11gue7.es procuravão

com tanto ardor, quanto os

Hespanhoes tinhão pela desenberta

das minas de oiro , e prata. Por

tanto o Brasil perseverou ainda

aberto ás outras nações da Europa

nos primeiros annos do reinado de

D. João III. , filho , e snccessor de

D. Manuel. Mas este Príncipe não

pertendeu todavia renunciar aos

frUCtos que elle não julgava impossíveis

de colher. Posto que mais

religioso , que politico , elle se occupou

essencialmente na prosperi-


Do Brasil. i j

dade das suas colonias , e principalmente

cio Brasil. Tranquillo sobre

as pertençóes cia Hespanha,

depois que terminara suas desavenças

com esta Potencia por meio de

s eu casamento com a irmã de Carlos

V. , elle não tinha que temer,

s e não a rivalidade dos Francezes ,

que já se mostravão sobre os mares

do Brasil com a intenção de

terem parte ao menos nas vantagens

, que esta nova descuberta

parecia offerecer. A Côrte de França

não tinha reconhecido a validade

da repartição das duas índias

entre Portugal , e Hespanha; e

armadores Normandos tinhão começado

a tempo a fazer emprezas

re motas , ou antes a exercitar huma

espécie de pirataria nos navios

•Portuguezes , que voltavSo da índia

carregados das riquezas do 0riente.

As expedições dos Francezes

ao Brasil tiverão hum caracter

mais honroso: elles procurárão estabelecer

relações amigaveis com os

ftaturaes , e procurar madeiras de

Tom. I. E


66

H istoria

tinta por meio de trocas sem alguma

violencia, nem vexações. Atemorisado

por esta concurrencia ,

D. João III. mandou fazer representações

por seu Embaixador em

Pariz: ellas não forão attendidas,

sendo a Potencia de Portugal muito

fraca para se fazer respeitar na

Europa. D. João III. resolveu-se

então a tractar como inimigos todos

os navios , que fossem encontrados

nas suas possessões da America.

Em consequência enviou huma

frota ao Brasil , commandada

por Christovão Jacques, muito hábil

navegante , que por instrucções

do Rei estava encarregado de

examinar de novo a costa , de excluir

os Francezcs, e de marcar os

pontos convenientes para levantar

feitorias , ou estabelecimentos estaveis.

Christovão reconheceu povoa' j

çóes novas, e novos povos: vísi'

tou sobre tudo a famosa Bahia .

que elle dedicou á Todos os Santos.

e cuja extensão, e importancia fí-


Do Brasil. i j

zerão no futuro dar este nome á

Metropole de todo opaiz. Dois navios

Francezes alii tinhão entrado

dois dias antes; e o Commandante

Portuguez , explorando as sinuosidades

, e portos deste immenso golfo

, descubrio estes navios em bum

delles , e os quiz aprezar, como

contrabandistas: elles quizerão resistir

, mas em vão ; Christovão

metteu-os ambos á pique com a

carregação , e equipagens. Estabeleceu

ao depois , porém mais lone

, ao Norte do continente na

arra da ilha de Itamaracá a primeira

feitoria Portugueza ; e voltando

a Lisboa , confirmou pela reação

da sua navegaçao as esperanças

, que D. João III. começa

a conceber relativamente ao Brasil,

•t-ste Principe applicou toda a sua

atenção á huma tão importante

colônia, edividio-a em muitas províncias,

e propoz-se a distribuil-as

com os fidalgos, ou nobres os mais

denodados do seu reino, com condição,

de que; elles se encarrega-


68

H istoria

rião de as submetter , e de as colonisar

em nome de Portugal. Esta

distribuição de terras com o titulo

de dominios , assim quanto á cultura

, como quanto ao senhorio feudatario

, devia estender-se á cincoenta

leguas de costa para cada

hum dos concessionários, accrescentando

accidentalmente, o que

pudessem adquirir de mais no interior.

A applicação ao Brasil deste

systema de concessão, posto já em

uso por D. Manuel, foi a fonte,

e a origem dos primeiros estabelecimentos

, que regularão em fon a

colonia em utilidade daMetropòle.

Mas antes de entrar nestas exposições

históricas, lie necessário ,

que nós façamos aqui a descripção

do paiz , cuja historia temos emprehendido';

o quadro da sua situação

, logo que foi descuberto ; o

dos costumes dos seus habitantes

naturaes com a posição respectiva

das differentes povoações Brasileiras.


LIVRO TERCEIRO.

Estado do Brasil na. época da descubería.

Descripyõo geral desta

vasta região. Caracter , costumes

, e usos , numeramento ,

e descripç-ão geográfica das povoações

Brasilienses.

1500. — 1521.

O Nome de Brasil, que não foi

c 'ado logo, senão á huma parte das

c ostas marítimas desde a embocadura

do Amazonas até o Rio de S.

Pedro , se estende hojfe á todas as

possessões Portuguezas da America

Meridional. Confinando á Este com

o Oceano , e á Oeste com o Perú,

esta vasta região parecia dever-se

comprehender para sempre de Norte

á Sul. pelos dois grandes rios odas


Historiei

Amazonas , e o cia Prata. Por elles

se marcavão ao menos seus. limites

naturaes: mas suas fronteiras, posto

que determinadas por diversos

tractados, não tem hoje limites,

principalmente para o Norte , depois

que o interesse , e a politica

não reconhecêrão nem pacto , nem

equilibrio.

O Brasil desde o Amazonas,

qttast debaixo do Equador na decima

parallela de latitude do Norte

até o rio da Prata aos 35 gráos

de latitude meridional , se estende

em longitude á perto de nove cenias

leguas communs : sua maior

largura de Este á Oeste he de perto

de sete centas leguas, e contém

na superficie exterior mais de dois

quintos da America Meridional. As

praias y e as sinuosidades do mar

lhe dão mais de duzentas leguas

de costa.

Observado do mar este continente

ao chegar á elle , parece de

longe elevado , agreste , e desigual:

mas de perfo nenhum aspecto do


Do Brasil. i j

mundo lie mais pictoresco , nem

mais admiravel : suas eminencias

são cubertas de bosques magniíicos,

e seus valles são de huma verdura

eterna.

O interior do Brasil não he ,

por assim dizer, se não liuma immensa

floresta; mas o centro he

formado de hum vasto terreno da

America Meridional, que he como

a bacia , ou base centrai do paiz ,

e que lie conhecido debaixo do nome

de Campos Pare xis , ou Planícies

de Pareais , assim chamado

de huma nação índia que o habita.

Esta vasta região , que se estende

de Oriente â Occidente, he

cuberta quasi por todas as partes

de terras leves, e de montões de

arêas, que de longe por effeito de

suas ondulações parecém-se com as

vagas do mar. O solo he friável;

tão arenoso , que as tropas de machos

, e as caravanas se subterrão ,

e dificilmente abrem caminho: elle

não mostra de huma, e outra parte

, se não huma erva rasteira com


72 H istoria

o tronco delgado , de hum pé de

altura , cujas folhas pequenas , e

redondas tem a forma de lancêtas.

Este immenso terreno de arêa se

encontra como enterrado para o

centro , e para o cume das cordilheiras

de montanhas do mesmo nome

, reputadas as mais altas do

Brasil, e que se estendem á huma

longitude de mais de duzentas léguas.

He esta a grande arca , donde

sahem não só todos os rios , que

desaguão no Amazonas, 110 Paraguay

, e no Occeano Meridional ,

mas também muitas correntes , que

produzem oiro, e outras, que correm

por hum terreno semeado cle

diamantes.

Ao Sudoeste o Paragaay , o

Marone , o Guarupe' , o Madeira ,

e mais de Kinta rios , que nelle

misturão SURS aguas, formão como

hum largo canal de perto de

500 léguas de circuito ao redor do

Brasil. Estas correntes immensas o

separão das províncias Hespanholas,

e lhe servem , como de baluarte


Do Brasil. i j

interior. Ahi são as partes centraes

da America Portugueza, tão ricas

por tantos thesoiros descubertos ,

oti ainda occultos no seio da terra ,

reservatório natural de tantos rios,

que se subdividem em canaes innumeraveis,

e offerecem aos possessores

do Brasil caminhos fáceis

para penetrar até o interior do

Per ii.

A principal massa das montanhas

se encontra ao Norte do Rio

de Janeiro nas cabeceiras dos tres

grandes rios S. Francisco , Paraná,

e Tocantins. Nellas não só lie

abundante o ferro , e o cobre , mas

também encerrão ricas minas de

°iro , e de diamantes: achão-se

também topázios, safiras , turmalin

as , cymophanes, e differentes

espécies de crystal derroca.

Deste gruppo de montanhas elevadas

se prolongão diversas cordilheiras

parallelamente ás costas do

Norte com o nome de Serra das

Esmeraldas , Serro do Frio. Partindo

outra ramificação do mesmo


74

H istoria

centro, segue huma direcção similhante

para o Sul: terceira cordilheira

com o nome de Matto Grosso

se encurva ao Noroeste até o terreno

central , dividindo suas aguas

entre os rios , que de huma parte

se perdem no Paraguay , e Paraná

, e da outra no Tocantins, e

Chingú.

Entre o Pará , e o Paraguay

estende-se de Norte á Sul huma

cadê a de montanhas muito extensa

, chamada Amambahy , que terminando

ao Sul do rio I guatimy ,

fôrma de Leste á Oeste outra cadêa

chamada Maracayer.

Outros differentes grnppos menos

conhecidos cingem o rio Tocantins

, e seus affluentes em longo

espaço , além da ltiapaba , huma

das cordilheiras de montanhas as

mais consideráveis do Brasil, que

se estende para a costa septentrional

entre o Maranhão , e Pernambuco.

Poucos paizes no mundo são

além disso banhados , e vivificados


Do Brasil. i j

com tanta profusão. O maior de todos

os rios, o Amazonas , que nasce

no Perú no seio das mais altas

montanhas da terra , entra á Noroeste

pelo território do Brasil, engrossa-se

com o Rio Negro , cujas

innundações o tem íeito comparar

á hum mar d'agua doce; com o

Mio da Madeira , ou Rio dos Bosques

, cujo curso he de mais de

700 léguas; com o Tapajóq , que

vem das alturas centraes , ou Campos

Pare xis , e cujo curso he cle

trezentas léguas ; e em fim com o

Chingú , que desce dos lados de

Matto Grosso. Este rio forma hum

dos mais bellos ramos do Amazonas,

no qual elle vê-se outra vez reunido

, depois de hum curso de mais

de quatrocentas léguas, interrompido

por muitos saltoáâ Suas margens

cubertas de impenetráveis bosques

são habitadas pjr índios indomáveis.

A maior parte destes rios do

interior são pertencentes ao continente

Brasiliense , correm com ra-


76

H istoria

piclez por terras inhabitadas , que

elles muitas vezes innundão , e acabão

augmentando as aguas do immenso

Amazonas , que não tem

menos de mil , e trezentas leguas

de curso.

Sobre este grande rio as tempestades

são tão perigosas , como

no mar largo. Suas margens não

appresentão de todos os lados , se

não huma vasta planicie pantanosa

, e na sua barra de doze leguas

de largura elle servia de limites naturaes

ao Brasil.

Rival do Amazonas , e augmentado

com as aguas do Araguaija ,

cujas margerts são povoadas por

-muitas tribus guerreiras, o Rio dos

Tocantins , magestoso na sua ori-

-gem , banha o Brasil no espaço de

quinhentas 'iegúa-s de Sul á Norte.

Suás ribas 9®o guarnecidas cie montanhas

, e bosques: na sua origem

numerosas catadupas indicão bastante,

que elle abre seu curso ao

través dos valles, e dos precipicios.

Mas reunido no Araguaya comi*


Do Brasil.

nua seu curso em lium leito commtira

, offerecendo a immcnsa vantagem

dehuma navegação não interrompida

desde a sua barra até

o centro do Brasil; barra , que estando

visinha á cio Amazonas , vem

misturar suas aguas por hum braço

de communicação com a vasta

corrente daquelle grande rio. A

agua , e a terra parecem disputarse

o clominio destas regiões , alternativamente

seccas , e alagadas.

Todas as costas circumvisinhas

são terrenos baixos , paludosos, ou

lodentos, formados pelas alluvioes

reunidas do Amazonas, do Tocantins

, e do Occeano : nenhum dique

, nenhum recife demora a violência

das ondas , e das marés«. Com

tudo bancos de arêa , e ilhas meio

submersas fechão as Vjanas destes

dois rios, que precip.vkmdo-se ambos

no Atlântico , cle .kodo differtnte

da corrente commum lutSo com as

vagas do Oceano ; porque nas marés

grandes o mar com a rapidez

das ondas reunidas produz lvuma

i j


78

H istoria

especie de fenomeno periodico chamado

Pororoca pelos Portugueses,

e pelos índios. Nada então se pode

oppôr ao Ímpeto das ondas do Occeano

, e dos dois rios , que se misturão

com estrondo. Hum ruido espantoso

annuncia , e acompanha

esta subita invasão : montanhas

d'agua doce se elevão , se abatem ,

succedem humas ás outras, e enchem

n'hum instante quasi toda a

immensa largura do canal. Estas

vagas espantosas saltão á praia,

arrancão grossas arvores , carregão

montões de terra, e submergem as

embarcações , que se oppõem ao seu

furor.

Desde a foz do Tocantins até

Pernambuco as costas desde Este

até Sul não tem 110 longo espaço

de perto de quatrocentas léguas outro

algum ri-o de dilatado curso. O

Maranhão ,«"(/ Rio Grande do Nor'

te, e o Paraíba, que desagua no

ponto o mais oriental, tem , lie verdade

, muito grandes barras e formão

na estação chuvosa torrentes,


Do Brasil. i j

de que os campos ficão innundados:

mas no tempo secco elles tem ape»

nas hum fio d'agua , e seu leito

serve de caminho aos naturaes do

Brasil.

Entre Pernambuco , e a Bahia

o Rio cie S. Francisco , que traz

a sua origem do lado das serras ,

que ficão ao Noroeste do Rio de

Janeiro , corre por hum terreno elevado

, e dirigindo-se ao Norte ,

volta circularmente á Este. Seu

curso de mais de trezentas léguas

he muitas vezes interrompido por

saltos.

Segue-se ao depois o Rio Grande

de Porto Seguro , até aqui mal conhecido

, e que sahindo rias montanhas

Pitnnquy , corre para o

Norte, ao depois para Este , quasi

sempre cercado de hurâ terreno rico

de madeiras preciosas, e de minas

de diamantes. %

Mais para o Meio dia misturase

nos mares cio Brasil o Paraíba ,

chamado do Sal , para distinção de

outros dois rios do mesmo nome: he


6o

Historia

notável pelo seu curso de mais cie

cento ecincoenta léguas, paraiello

ao mar, de que elle he separado

pela cordilheira de montanhas, que

formão o Cabo de S. Thome , e o

Cabofrio.

Desde estes dois cabos até a

3o.a paralella de latitude meridional

não desagua no Occeano algum

outro rio considerável , não fallando

no Rio Real , e no Rio Doce ,

que correm de Oeste á Este. Nestes

lugares quasi todas as aguas

correm para o interior , e se lanção

no Paraná , ou no Uraguay ,

os quaes ambos nascem das montanhas

centraes.

Não nos demoraremos aqui sobre

as particularidades naturaes do

Paraná ; porque a direcção do seu

curso o fafc. mais essencialmente

pertencer afr Paraguay , que ao

Brasil. V,

Toda a costa oriental não appresenta

, se não huma multidão

de bailias, e de promontorios. Entre

estes osprincipaes são Cabo de


Do Brasil. i j

Santo Agostinho em nove gráos

de latitude; o Cabofrio aos vinte

e cinco ; o de S. Vicente , o mais

meridional de todos.

A Bahia mais vasta he a de

Todos os Santos , cuja inteira descuberta

os Portuguezes devem ao

Capitão Jacques, terceiro navegante

do Brasil: ella terá , bem como

a barra magnifica do Rio de Janeiro

, sua descripção particular no

decurso desta obra.

As costas septentrionaes desde

o Pará até Olinda são semeadas

de recifes, e de ilhotas, nas quaes

se quebrão as vagas do Oceano ,

e que appresentão muitas vezes a

figura de hum molhe natural , que

se prolonga paralellamente pela

costa.

Ao vigésimo terceiro gráo de

latitude meridional com^ão em pouca

distancia de Porto Seguro os famosos

cachopos chamados Abrolhos,

que se estendem longe , e fazem o

terror dos pilotos. Ahi se descobrem

muitos canaes estreitos , por

Tom. I. F


6o

Historia

onde os navios podem navegar , mas

não sem grande risco.

O Brasil, situado inteiramente

debaixo da Zona tórrida ; e em

hum clima menos ardente , goza de

vantagens de muitos climas por esta Jr

duplicada situação: deste modo o

solo nelle he favoravel á quasi todas

as producçóes do globo. Em

huma tão vasta extensão as estações

, e a temperie offerecem precisamente

huma muito grande variedade.

Os calores nas visinhanças

do Amazonas são mitigados

pela humidade natural de suas ribas

paludosas. Remontando as origens

dos rios encontrão-se planícies

elevadas, ferteis valles, que gozão

de hum clima saudavel , e temperado

, principalmente em Minas

òeraes, Villa Rica , e S. Paulo.

Nestes paiass hum benigno calor

permitte aoKructos da Europa o

¿acerem entre as producçóes da

America.

Xal he também o clima da grande

ilha do Maranhão , que pertence (


Do Brasil. i j

ao Brasil , onde as quatro estações

se confundem, e aterra está sempre

florida , e as arvores sempre

Verdes. A abundancia de orvalho ,

a sombra dos bosques, e a frescura

deliciosa das noites formão huma

primavera perpetua.

Mas o frio he sensivel na extremidade

meridional do confinente

Brasiliense na costa de S. Vicente.

Ahi se achão as altas montanhas

de Parnabiacaba , donde

parte huma multidão de fontes

límpidas , que dão mais frescura

ao ar.

O vento do Oeste , passando

por cima de vastos bosques pantanosos

, se torna por isso pestilente

no interior. Muitas vezes o calor

excessivo , que segue o curso

sol, enche a athmoí fera de partículas

ígneas , que v', oduzem effeitos

funestos: mas o ar maligno

se corrige algumas Vezes pelo cheiro

balsamico de huma grande quantidade

de ervas aromaticas , que se

ta» sentir ainda alguma» legilas


84

H istoria

distante da praia , e que he trazido

pelos terraes.

Do mez de Março ao mez de

Agosto a estação chuvosa reina

sobre as costas marítimas ; e na estação

secca sopra o Norte quasi

sem interrupção. Então o ardor do

clima torna languida a vegetação ,

e os oiteiros não appresentão mais,

que huma terra crestada.

Todo o resto do anno os ventos

do mar refrescão a athmosfera , e

tornão a dar á natureza sua força ,

e sua primeira actividade. Huma

primavera perpetua embelleza os

lugares sombrios , e húmidos: as

arvores appresentão simultaneamente

flores, fructos verdes, e maduros

, e quasi em todo o anno huma

agradavel frescura cobre a Terra.

Ò interior do Brasil não sendo ,

se não hurí; vasto bosque primitivo,

tem as arvores entrelaçadas de

silvas, de arbustos sarmentosos ,

de cipos , que as enleião até os

derradeiros cumes , e que pela maior

parte brotão flores magnificas.


Do Brasil.

Estas plantas formão hum golpe

de vista singular na pintura do

Brasil : ellas sobem ao redor das

arvores , chegão ao cume , tornão

a buscar a terra, lanção raiZes , e

subindo de novo , se vão perdendo

cie ramo em ramo , de arvore em

arvore por toda a parte, para onde

o vento as lança , até que todas

as arvores ficão enlaçadas pelas

suas latadas , e tornadas quasi impraticáveis.

Os macacos viajão por

meio destes labyrinthos selvagens *

e nelles se balanção pela cauda.

Estas cordas vegetaes são tão es*

treitamente unidas entre si , que

tem a apparencia de huma recle , e

que nem as aves , nem as feras podem

attravessar. Algumas são tão

grossas, como a coxa de hum homem

; to mão différente; configurações

, e se faz impor ùvel o quebral-as:

muitas vezevdão a morte á

arvore , que as sustenta : clahi vem

chamarem-lhe os Portuguezes , Ma*

tapaLos. Algumas vezes ficão em pé,

como Iúima columna torcida , depoi^

i j


Historia

que o tronco, que ellas tem matado

, rem espalhado suas túnicas.

Algumas ha, que sendo cortadas,

lanção huma agua fresca , pura , e

agradavel. Estas produzem-se nos

pântanos do paiz do Orenoque,

e nos lugares arenosos, onde sem

«ste recurso o viajante morreria

de sede. A. hera sobe também

ás grimpas das mais altas arvores

, e cobre o bosque de hum

gazão de cor verde a mais bri*

Jhante.

Os mangues vermelhos (*) cobrem

as costas do Brasil: pouco

distante começão as numerosas es*

pefies de palmeiras, entre asquaes

se distingue a murta Brasiliense ,

que brilha por ter a casca cor de

(*) Foi a'.palavra, que julgámos corresponder

á ftviçeza = Palulvier , a que

não achámos èui Diccionario algum ; e

julgámos assim ; porque lie o mangue a

arvore > que se encontra em mais abuiiflancia

nas marinhas do Brasil; e porque

a mencionada palavra parece derivada de

PJus

i


Do Bra^iU 57

prata ; O coqueiro do Brasil; mais

grosso , mais alto , que o das índias

, e cujo fructo dá huma excellente

manteiga ; e o pequiá , qua

produz hum fructo grosso , eduro ,

similhante na forma , e na grossura

á huma bala de canhão; he perigoso

estar exposto á elle , quando

eahe: seus desmarcados cálices, e

suas dilatadas pétalas se elevão em

pirâmides floridas , revestidas de

cores variadas , e de hum a s P ect0

brilhante.

Nenhum paiz do mundo fornece

madeiras tão preciosas para tintas

, para a marcenaria , e para as

construcçóes navaes. A oliveira „ e

o pinheiro ahi são particularmente

próprios para a mastreação. A çe»

rejeira , o cedro , a canelleira selvagem

, o cardo penteador , o páo

campeche , e o cajá ,'iiegão a sçr

postos em obra , e Imma vez. trabalhados

resistem por mais tempo

á acção do ar, e da agua. He no

Brasil, que se admirão estas arvores

gigantescas , que se elevão á


88

H istoria

altura de Ro pés , e cujas raízes

xodeião o desmarcado tronco muitos

palmos acima da superfície da

terra: madeira nenhuma lie mais

própria para fazer curvas de navios.

A mais bella de todas as arvores

do Brasil , e mesmo da America

inteira he a Acabaya : lie principalmente

notável, quando ostentando

toda a sua pompa no mez de

"Julho , e Agosto , e no Outono da

Europa , ella se cobre de flores

brancas , e rosadas; e quando nos

tres mezes seguintes se enriquece

dos seus fructos , suspensos nos

seus ramos, como outras tantas pedras

preciosas: sua sombra he espessa

, e agradavel; suas flores tem

hum estame suave , e seus ramos

exalão hum >|j:heiro aromatico : produz

huma ¿?\mma , que iguala em

belleza á do oenagal: ella he tão

abundante , que apparece na arvore

, como muitas gotas de chuva.

Esta arvore admiravel não he commuin

no interior das terras; mais


Do Brasil. i j

para as marinhas ella cobre paizes

inteiros , aliás estereis. Quanto mais

arenoso he o terreno , e menos húmida

he a estação , mais parece florescer

, e prosperar. Seu frueto

esponjoso , e exquisito tem alguma

similhança com as pêras da Europa

; porém heunais comprido , e cie

alguma forma diafano: sua polpa ,

reduzida em farinha lie para os

Brasileiros huma iguaria deliciosa.

A possessão de hum terreno , onde

a Acabaya cresce , e multiplica ,

lie de tal valor , que muitas vezes

tem sido causa cie guerras entre as

populações indígenas.

O ibiripitanga , que produz a

famosa madeira de tinta , conhecido

debaixo do nome de páo brasil,

ou cie Pernambuco , não he menos

, que a altura de hum carvalho

da Europa. CrescJ nos rochedos

, e nos terrenos áridos. Carregado

déramos, lie de ordinário de

hum aspecto pouco agradavel. As

folhas assemelhão-se com as do buxo

, e a cortiça he muito grossa*


Historiei

As flores, similhanteS ás do junquilho

, são de hum encarnado muir

to lindo. O pezo especifico do seu

tronco he indicativo da sua bondade

, relativa á tintura: tira-se

delle huma especie de carmim , e

de laca própria para as tintas fir

nas, e delicadas. Esta arvore preciosa

não se encontra, se não no

Norte do Brasil.

Tudo muda para o Sul: outras

producções se crião debaixo de hum

clima , que he mais remoto do tro*

pico , e mais temperado.

Bem como em todo o resto da

America a raiz da mandioca , e

dos fructos selvagens era a principal

nutrição dos indigenas, antes

que os Europêos nella tivessem cultivado

, ou naturalisado os inhames ,

o arroz, o r^ilho , o trigo, e quasi

todos os fritetos do seu clima. O

arbusto chamado mandioca não

cresce , se não nos terrenos seccos,

e não exige quasi cultura alguma.

Sua raiz inestimável he da grossura

de hum braço , e tem alguma ,


Do Brasil. i j

similhança com as cinouras da Europa.

Crua , ou frescamente tirada

da terra he hum veneno mortal ;

enchuta , reduzida á farinha , e em

pão he huma nutrição substancial.

Encontra-se em todo o Brasil a

bauniiheira , que se apega , como

a hera , aos troncos das arvores;

suas folhas são espessas, e de hum

verde escuro ; seu fructo consiste

em huma bagem triangular de seis,

ou oito polegadas de comprimento ,

cheia de pequenas sementes lizas.

Estimão-se principalmente as bagens

compridas, delgadas, e aromaticas.

Aibiripitanga dá hum fructo , que

se parece com as cerejas. Entre os

espinheiros, e nos campos abandonados

produzem as figueiras ds

Surinam. Nos suburbios da Bahia

cresce a arvore rnangaba, que de

algum modo suppre á Vinha; pois

que delia se tira huma especie de

vinho. O cacao7,eiro forma bosques

immensos ao longo do Chingú , do

Tocantins , e do Madeira. Òs cipós

mesmo , ou plantas, que trepão ,


9*

Historia

produzem em parte fructos agradaveis

, e sãos. O Brasil produz também

hum grande numero de plantas

aromaticas de diversas especies,

Suas producções botânicas sãoinnumeraveis.

Mão faltão nem flores de

ornato , nem plantas medicinaes.

O arbusto tão util , conhecido com

o nome de ipicacuanha , não se

acha se não no Brasil: sua flor he

hum a especie de violeta: he na

raiz, que residem todas as suas

propriedades. Sendo o Brasil situado

debaixo de duas zonas as mais

felizes , a tórrida , e a temperada , o

que falta em huma , a outra produz

em abundancia.

Com muito poucas excepções o

contiuente Brasiliense não tinha

originariamente arvores , plantas , a

nem fructo^, que não differissem

essencialmente das arvores , das

plantas, e dos fructos da Europa:

mas tudo , o que se tem transportado

, tem-se naturalisado com successo;

e esta observação geral pôde

estender-se aos animaesv


Do Brasil.

O tapirussú lie o maior

quadrúpede , que se cem encontrado

no Brasil: sua forma lie analoga

á do porco , posto que se approxima

á grandeza de huma vacca:

os Brasileiros o matão a tiros

de flexas , ou apanhão no em laços

; comem-lhe a carne , e da pelle

fazem escudos firmes.

Os bosques são cheios de animaes

vorazes , taes , como o tigre ,

o lobo-hyena , o saratú , que lie

pouco mais ou menos da altura de

huma raponza , porém mais selvagem

, e mais brava. Encontra se

também o jaguar espeçie de onça ,

animal de huma ferocidade temível

, o terror dos Brasileiros, e o

porco espinho , ou ouriço caixeiro

de grande especie , o qual , estando

irritado , lança suas pontas , ou

Unhas com tanta força 5 , que podem

ferir . e até matar hum homem.

Não se deve confundir com o ar-

(*) U rnpirussú !ie huma espere de

Alce.

i j


94

H istoria

maJilíiò; ofi tatá, ou porco armado

de coiraça , que enrola-se

como o ,ouriço , e appresenta de

toda? as partes huma saia de malhas

impenetrável.

Não ha paiz , mesmo na Asia ,

ou na Africa , onde os macacos ,

habitantes dos bosques sejão em

maior numero , e em mais differentes

especies , que no Brasil: mas

elles fogem das povoações , e não

habita o , senão lugares solitários.

Posto que o Brasil corresponda

em latitude ao Perii , e offereça em

geral as mesmas producções , não

possue com tudo nem o Lhamu ,

nem o vigonho , animaes tão úteis

aos Peruvianos. Elie lie todavia

assollado por hurn maior numero cie

animaes ferozes , por enormes ser- .

pentes , por, sapos, por lagartos , e

por mil insectos , que multiplicão

com o calor lnimido. He principalmente

nos vastos bosques dos interiores

, que se encontrão por centenas

novas especies de insectos

desconhecidos na Europa. Ahi se


Do Brasil. i j

ouvem os longiquos gritos da on•

ffl, especie de panthéra , que faz

grandes estragos : ella , e as serpentes

são o principal flagello dos

lavradores.

Além da grande cobra cascavel,

que corre tão veloz , que parece

voar , o Brasil produz outras ainda

mais terríveis, taes , como a

ihibohoca , tão notável pelo perigo

da sua mordedura , como pela belleza

das suas côres: a bojobi , chamada

cobra de fogo por causa do

vivo brilhantismo de suas escamas :

a giboya, reptil desmarcado , grossa

, como o corpo de hum homem ,

e algumas vezes do comprimento

de quarenta pés, cuberta'de escamas

, e de manchas irregulares ,

tendo o costado verdenegro , e os

lados de côr amarella escura. Tem

a cabeça chata , e sua grande bocca

tem duas ordens de dentes agudos.

Ella he armada de duas fortes

unhas na barriga para empolgar

a preza. OsPortuguezrs a chamSc

cobra cabril• porque devora


96

H istoria

o cabrito montez com huma incrível

facilidade. Sua força, e sua

voracidade são taes, que obrigada

da fome investe , e devora os homens

, os javaliz , e até os tigres.

Apenas seus olhos tem visto a preza

, parecem lançar vivas centelhas ;

sua língua fendida se agita na larga

bocca. Ella empolga a victima

com as unhas, prende-a fortemente ,

erodilha-se ao redor delia , cobre-a

de huma baba viscosa para devoral-a

com mais facilidade , e gasta

hum grande numero de dias em digeril-a.

Esta cobra colossal, e araphibia

gosta de habitar no lodo ,

e n' agua. He o terror dos índios,

e dos Portuguezes. Os negros mais

astufos atácão-na muitas vezes com

bom êxito , quer com espingarda ,

quer com arco , e flexa. Se o monstro

fica só ferido , agita-se de todos

os modos, despedaça as silvas , e

as arvores pequenas, assobia , fazse

vermelha , volve a cauda n'agua

com violência , cobre aquelles , que

o combatem de hum lodo infecto ,


Do Brasil. i j

e de nuvens de poeira misturadas

de Jodo , como em hum furacão. Se

o golpe he mortal, continua a torcei-se

, ea enroscar-se sobre si mesma

, até que hum dos negros , que

a cercão , approxima-se á ella , e

'arrostando ò perigo , lança-lhe ao

pescoço huma corda com laçada. Senhor

em fim do enorme reptil, e

tendo na mão a ponta da corda, o

negro sobe a huma arvore, iça o

monstro, que fica suspenso; desce

ao depois , e levando nos dentes

huma faca forte , e calçada de aço ,

une-se ao corpo do reptil , que enrosca-se,

e agita-se; e nú , e ensanguentado

aperta com os braços,

e pernas a pelle luzente do monstro

ainda vivo ; fende-o junto ao

pescoço , e o esfolla. Ao depois tira

huma banha clara , de que faz

azeite , e com seus companheiros

regala-se com a carne deste monstro.

Porém o mais perigoso de todos

os reptis deste continente he a ibiracuhá

, cuja mordedura produz

Tom. I. G


Historiei

inevitavelmente a morte. Tal he a

violencia do sen veneno , que no

mesmo instante o sangue da pessoa

mordida sahe pelos olhos, pelos

ouvidos , pelo nariz , e pelas partes

inferiores do corpo.

Por huma especie de compensação

os bosques do Brasil servem de

hum asylo natural á huma infinidade

de encantadoras aves , deseos

nhecidas do resto do mundo , de

lindas figuras, e brilhantes pennas.

Os papaqaios são os mais bellos

¿as duas Indias , e se distinguem

tanto pela variedade , como pela

viveza das cores, com que a natureza

tem ornado suas pennas.

O tucano, ave, cujo bico he

quasi tão grande , como o corpo , he

procurado principalmente por causa

do brilhantismo de suas pennas,

que são em. parte côr de limão , e

em parte vermelhas, côr de carne,

e negras nos encontros das azas.

Í , Ò Ramis chi , grande ave negra

i -que os Brasileiros chamão

ankiima , he notável pela forçai


Do Brasil. i j

com que grita , e por huma espe*

cie de corno , plantado nomeio da

cabeça á maneira de coroa. Sua?

azas são armadas de valentes espon

roes, que a fazem temível ás outra?

aves , quando as attaca : mas sen?

do semi-aquatico , não faz guerra,

se não aos reptis.

O guaranthe-engerá , especiç

de canario , que os naturaes chamão

teitei, tem as pennas metadç

azúes ferretes , metade de hura

amarello doirado brilhante , e iguala

o gorgeio das aves as mais melodiosas.

Os bosques do Brasil servem

também de asilo ao papa-mosca ,

tão elegante pela sua figura , e cujas

pennas brillião , como a esmeralda

, e o rubim. Levados do brí*

lho deste ligeiro habitante do ar,

os Brasileiros o chamão faio do soL

Contão-se até vinte e quatro especies

, ou diversidades depapa-mos-f

cas. O rubim-topaqio he assim

chamado; porque tem as cores, e

lança os resplandores destas pedras

G 2


,0o Historia

preciosas. O papamosca da espe«

cie pequena apenas tem quinze linhas

de comprimento. A maneira

das borboletas do nosso paiz , elle

se deixa levar pelo impulso do ar ,

e volteja de flòr em flor para lhe

chupar o mel. .

Tão brilhante, tão ligeiro , como

o papamosca , adornado , como

elle , das mais vivas cores , o beijaflor

, que não differe , se não em

«er hum pouco mais grosso , busca

igualmente o seu sustento no cálice

das flores. Hum mesmo instincto

os anima ; e tal he a sua sinnlhança

que não só viajantes, mas também

hábeis naturalistas os tem confundido.

.

Encontrão-se também no ínteiior

do Brasil muitos avestruzes ,

que não differem dos das outras

regiões : ( mas as grandes aves de

rapina , taes, como as aguias, e

cs abutres, são tão vorazes, que

não tem sido possível submettei

alguma delias á mão do homem.

Os mares do Brasil ab.undão de


Do Brasil. i j

peixes de toda a especie ; huns nadão

na superficie das aguas; outros

habitão ño fundo. Em nenhuma

outra paragem se encontra maior

diversidade delles. As baleias , os

golfinhos ahi apparecem em grande

numero. Junto aos famosos ca^

chopos cios Abrolhos ss pesca huma

qualidade de peixe simiHiante

ao salmão, e que se chama garoupa.

Os rios dão igualmente aos Brasileiros

huma prodigiosa quantidade

de peixes d' agua doce , que pela

maior parte offerecem huma nutrição

tão sã , como deliciosa.

Tal he o Brasil, com o qual a

natureza parece ter prodigalisado

seus thesouros. Nós descreveremos!

mais particularmente no decurso

desta obra cada huma de suas Provincias

, as ilhas, que .lhe pertencem

, suas cidades principaes , e

daremos hum quadro completo deste

vasto imperio tão pouco conhecido.

Os usos , e costumes de seus


,0o Historia

habitantes naturaes offerecem sobre

tudo hum vivo interesse á vista

observadora.

O Brasil no tempo da sua descuberta

era dividido entre muitas

nações , ou povoações différentes ,

liumas embrenhadas pelos bosques,

outras estabelecidas nas planícies

nas margens dos rios, ou nas costas

marítimas ; algumas sedentarias,

e muitas outras errantes ; estas encontrando

na cassa , e na pescaria

sua principal subsistência ; aquellas

vivendo mais que tudo das produc*

ções da terra mais , ou menos cultivada

; a maior parte sem communicações

entre si , ou divididas por

odios hereditários, e sempre armadas.

Não tendo ainda a civilisação

Europêa penetrado nos bosques »

e montanhas do interior , o caracter

primitivo destes povos ainda se

conservão fielmente.

Em quanto os índios fracos , e

dóceis habitavão huma grande par*

te da America meridional, selva-


Do Brasil. í2t)

gens intrépidos, e ferozes erravão

no paiz , que nds descrevemos. A

força corporea , e lium valor impassível

são ainda hoje as primeiras

, ou antes as únicas qualidades,

de que se gloreião os naturaes do

Brasil.

Na chegada dos invasores Eu*

ropêos mais c!e cem nações Brasil

leiras occupavão , ou disputa vão a

immensa extensão comprehendida

entre os dois rios , da Prata, e As

mazonas ; porém muitas d'entre ella3

não tem sido bem conhecidas : ten*

do suas transmigrações successivas

feito alguma confusão no testerai«*

nho dos historiadores , e dos viajantes

, não daremos , se não os

detalhes , que se tem acclarado melhor.

,

A grande raça dos Tapuyas i

amais antiga do Brasil , tinha possuído

, ao que parece, toda acosta

desde o Amazonas até o rio da Prata

; ou somente., segundo outros

huma linha no interior , paralella

á costa desde o rio de S. Francis^


fli40

Historia

co até Cãbotrio. Ella foi excluída

desta posse pelos Tupis , raça ainda

mais formidável, em huma época

pouco remota ; pois que na chegada

dos Europêos os selvagens se

lembravão ainda deste accontecimento.

Deste modo os Tupis erão

os senhores absolutos das costas

maritimas, quando Alvares Cabral

descubrio o Brasil. Da palavra Tupan

, que quer dizer trovão , e pai

universal elles tinhão dado por huma

vaidade barbara o nome á sua

nação. Esta palavra encerrava toda

a sua theogonía , porque elles

não dirigião supplicas algumas ao

Creador do mundo , que não era

para elles hum objecto nem de odio ,

hem mesmo de temor. Esta grande

raça continha deseseis tribus differentes

, que não estando unidas por

laço algum/, e tendo nomes particulares

, e feições distinctivas, formão

outras tantas nações separadas.

Entre os Tupis , com quem os

Portuguezes tiverão mais frequentes

relações, ou guerras, assigna-;


Do Brasil. 127 ^

lavâo-se os Carijós , situados ao Sul

de S. Vicente , e senhores então

da ilha de Santa Catharina. Os Tamoyos

, que habitavão os arredores

do Rio de Janeiro , se estendião

ao Sul para S.Vicente, e não reconhecião

por alliados, se não os

TujÀnambás , seus visinhos, com

quem elles se parecião em muitos

de seus usos. Os Tupiniq uins possuhião

o paiz de Porto Seguro , e

a costa dos Ilheos desde o rio Cainaum

até o rio Cricaré na extensão

de perto cle cinco gráos: de todos

os selvagens cia raça dos Tupis

erão elles os mais tractaveis, os

mais fieis, e os mais bravos: os

Tupinás , que erão seus visinhos ,

tinhão huma especie de conformidade

com elles. A Bahia , e todas

as suas enseadas acabão de ser conquistadas

pelos Tupiqambás , a

maior , e a mais valente nação da

raça dos Tupis. Os C a fie te s , tribu

selvagem , e feroz , rinha em

seu poder quasi toda a costa de

Pernambuco , da qual os Tabaja-


Historia

rás , cia mesma raça. que os Cahetés

, porém mais ferozes, occupavão

também liuma parte: em fim

os Pitigáres , os mais cruéis da

raça Tupica , possuhia o continente

do Parahiba cio Norte entre este

rio , e o Rio Giande; taes eráo

as principaes tribus da raça dominante

do Brasil.

A antropopliagia reinava entre

todos estes selvagens, que devoravao

emceretnonia comliurna alegria

horrível seus prisioneiros de

guerra ; mas todos os Brasileiros

não erão cannibaes; e era a raça dos

Tupis , que parecia ter trazido do

interior este uso homicida, que os

Portuguezes acharão estabelecido

em todas as partes da costa.

O idioma dos Tupis era também

ornais divulgado nella , posto

que se fallassem até cento , e cincoenta

linguas barbaras no Brasil:

segundo se diz , lie hum dialecto

do guaranis , olhado como huma

língua mãi, cia qual se encontrão

vestígios em huma extensão de setenta

grãos.


Do Brasil. í2t)

Antes de descrever a posição

geografica , e de appresentar o numera

mento das outras tribus Brasileiras

as mais notáveis , vamos

mostrar em hum quadro geral os

traços principaes , que podem fazer

conhecer os usos, e os hábitos

guerreiros da raça selvagem ,

que dominava no Brasil na chegada

dos conquistadores Portuguezes.

Mais similhantes á brutos, que

á homens , os Tupis não reconhecião

divindade, alguma ; ao menos

seus usos não indica vão coisa alguma

, que annunciasse este sentimento

consolador quasi universalmente

inspirado á especie humana:

elles não parecião ter a menor noção

da vida futura. Na sua linguagem

nenhuma palavra exprimia o

nome de Deos , nem a idéa , que

se forma do Soberano do universo.

Os signaes de admiração , e cle respeito

, que elles dirigem ao sol,

á lua, ao trovão , não tem caracter

algum de culto ; e occasionados

somente pela admiração, ou pelo


fli40

Historia

espanto . não se elevão , a meu ver,

ácima dos objectos creados. Mas

os sonhos, as sombras , o pezadello

, e o delirio tinhão produzido

superstições , que os a evinhos ,

ou payés fizerão ter credito entre

os Tupis. Os payés , ao mesmo

tempo charlatães, e sacerdotes , affirmavão

a existencia de lntm espirito

malfeitor , cuja perigosa influencia

elles se lisongeavão de impedir

; por tanto erão consultados

nas enfermidades, nos casos cie importancia

, e sobre tudo para a

guerra , e para a paz. A. grosseira

credulidade , que estes impostores,

obtém por movimento , e gesticulações

, paredão indicar , que aquel-

Ies , que os interrogao , os suppóe

em relação com as intelligencias

invisíveis , e á cima da humanidade.

Os Ti'pis attribuem com effeito

nos seus adevinhos não só opoder

de fazer as terras ferteis »

mas também o de inspirar aos guerreiros

a força , e a coragem, que

elles tanto aprecião.


Do Brasil. í2t)

Cada hum payé vive só em huma

cabana sombria, onde nenhum

selvagem ousa entrar: ahi se lhe

leva tudo o que elle pede ; e tal

he o seu império sobre os ânimos,

que se elle prediz a morte daquelle

, que o ousa offender , o desgraçado

, feito o objecto desta fatal

predicção , poe-se immediatamente

na sua rede , e espera o seu damno

com tanta resignação, que nem

come , nem bebe , e realisa assim

o anathema.

Todos estes povos dão liuma

côr vermelha na pelle , excepto

no semblante; ajuntão â esta tinta

geral algumas mesclas de còres

em muitas partes do corpo , e mettem

n* hum buraco, que fazem no

beiço inferior , liuma especie de

jaspe verde , que os faz deformes.

As mulheres não furão o beiço ,

porém os grandes furos , que ellas

tem nas orelhas , sustentão hum

enfio de pequenos ossos brancos ,

e de pedras de côr , que pendem

sobre as espaduas. Os homens ras-


Historia

pão cuidadosamente todas as partes

do corpo: elles considerão como

o principal caracter da formosura

o ter o nariz chato ; assim o

principal cuidado de hum pai he

dar e- c ta fôrma ao nariz de seu filho.

Nas suas guerras , ou nas suas

festas elles applicão por meio de

hum a untura de gomma , ou de

mel selvagem pennas verdes, vermelhas

, e amarellas á testa, ás

faces , e aos braços. As pennas

são tecidas com muita arte : cobrem

também com ellas suas maças. Os

chefes se distinguem por hum grande

collar de embrechado.

Estes Brasileiros tem muitas mulheres

, que tomão , e deixão com

a mesma facilidade: a única condição

do casamento he , quanto ao

homem , ter apr.sionado , ou morto

algum inimigo; quanto á mulher ,

ter tido os primeiros signaes doestado

conjugal. Antes de se casarem •

as raparigas se entregão sem pejo

aos homens livres : seus pais mesmo

as entregão ao primeiro ,


Do Brasil. í2t)

chega ; de sorte que não he pouco ,

que a ceremonia do casamento

que consiste em simplices promesl

sas, a -ache no seu estado de virgindade

: mas huma vez ligadas

pelos laços do hymenêo , são fieis

á seus maridos; e o adulterio he

horroroso entre os Brasileiros. As

mulheres se tornão escravas, seguem

seus maridos á guerra, e

carregão os fardos , e provisões.

Mais, ou menos reunidas , as

povoações destes Brasileiros varião

de forma, e de tamanho. De ordinario

são choças, ou cabanas, distribuidas

em povoações, chamadas

o Ideias. Os povos mais avançados

em civilisação construem e elevão

muros de barrotes , cujos intervallos

são cheios de terra.

A principal occnpação das mulheres

he fiar algodão para fazerem

redes , e cordas. Elias fazem também

vasos de barro , qne servem

para diversos usos , e principalmente

para guardar bebidas, e ali-


fli40 Historia

A raiz da mandioca he adiaria

nutrição destes selvagens , á qual

elles ajuntão outras raizes , que

móem , ou reduzem á pó , para fazerem

delia bebidas , ou alimentos ,

que tem mais, ou menos consistência.

A cassa , e a pescaria supprem

o resto das suas necessidades. Elles

se abstém em geral da bebida , quando

comem , e da comida , quando

bebem; especie de habito commum

á quasi todos os povos da America.

Menos sujeitos ás enfermidades,

e ás doenças , do que as nações

consummidas pela civilisação , e pelo

luxo , elles não prescrevem ás

suas doenças , se não huma dieta

absoluta , e alguns simplices de seus

matos, ou de seus montes. Se a

doença se torna incurável, quebrão

a cabeça ao enfermo ; porque seguem

esta maxima , que he melhor

morrer de hum só golpe , do que

soífrei por muito tempo para morrer

ao depois.

Seus funeraes se celebião com-


Do Brasil. í2t)

prantos , e com cantos lugrubes ,

que ordinariamente contém o elogio

do morto. Se este he algum

chefe de família , enterão-se com

elle suas armas, pennas , e collares

; e lie este o único signal, pelo

qual se poderia suspeitar , que,

a idéa da outra vida. não lhes he

absolutamente estranha. Enterrão

os mortos em pé; erigem algumas

vezes sobre a cova, como em signal

de huma distincção honrosa,

pedras cubertas cle huma certa planta

, que se conserva muito tempo

secca; e não se chegão á estes monumentos

fúnebres, sem darem gritos

, e derramarem lagrimas.

Elles no geral não tem Reis ,

nem Principes; a única superioridade

, que elles reconhecem , he a

dos seus anciãos , ou velhos directores,

que são principalmente encarregados

, quando se prepara a

guerra , de excitar com seus discursos

os moços á pegarem em armas.

Dão o nome de Carbets aos

seus concelhos: nelles nacla de im-

Tom. /. H


fli40 Historia

portante se decide , se não pe!a

unanimidade de votos.

O homicídio he o único crime,

que elles punem. Os pais do matador

o entregão aos do morto , que

affogão ao criminoso , e o enterrão.

Fuma reconciliação prompta , e

sincera entre as duas famílias segue-se

de ordinário á esta especie

de reparação , ou de represália *

sendo nisso bem differeUtes das nações

cultas da Europa , entre as

quaes os odios das íamilias são algumas

vezes hereditários.

Sem outras leis , que os seus

lisos , e seguindo quasi sempre o

dictame da natureza , os Brasileiros

possuem com tudo algumas virtudes

sociaes , e domesticas. Exercitão

, e respeitão a hospitalidade ;

•vivem pacificamente entre si ; não

abandonão Ifuns aos outros nas suas

enfermidades, como fazem muitos

povos da America , e são fieis á

seus alliados.

f Mostrão em geral esta inclinação

á indolência , e á ociosidade »


Do Brasil. í2t)

que caracterisão os selvagens meri*'

dionaes; e sém esta relação seu genero

de vida ern tempo de paz pareceria

anntinciar inclinações suaves

, e apathicas. Tal he a sua in-

- dolencia , que muitas vezes dormem

Vinte e quatro horas successivas ;

mas passando de hum á outro extremo

, entregão-se apaixonadamente

á dança , e aos exercícios violentos.

He sobre tudo nos combates ,

que elles manifestão sua activa , e

horrivel ferocidade: então he que

o refinamento de crueldade se transforma

em huma especie de virtude

guerreira. Elles excitão , e entretem

esta disposição , quer em seus

hábitos diarios , quer mesmo em

seus banquetes , onde cuidadosos'

de desviar qualquer outra idéa ,

conversão com calor á respeito de

seus projectos contra os inimigos,

e principalmente sobre o prazer ,

que elles esperão em os engordar

para os matar , e devoral-os ao depois.

H a


Historia

Raras vezes a guerra entre elles

tem outro motivo'além cia vingança

; e por isso mesmo muitas vezes

não será íacil determinar a causa

cias primeiras aggressões. A arma

principal dos Brasileiros he huma

massa . que elles chamão tacapa ,

feita da mais dura madeira , muito

pesada , redonda na ponta, cortante

pelos dois lados. Seu comprimento

he de seis pés com hiVm de largura

na extremidade , e a grossura

he de huma poiíegada. Elles tem

arcos, feitos igualmente de madeira

muito dura, ciue chamão visapariba.

As cordas destes são de

algodão fiado , e as fiexas são de

canna selvagem, armadas de fortes

espinhas, ou dentes de peixes. Servem-se

delias com huma destreza

singular , e jamais deixão de acertar

em huifta ave voando. Huma

espécie de corneta , que elles charão

imbia, e flautas , ordinariamente

formadas dos ossos das pernas

das suas victimas, são seus instrumentos

de musica.


Do Brasil. í2t)

Apenas he dado o signal da partida

pelos seus anciãos , quando

todos, os guerreiros era numero de

cinco , ou seis mil põem-se em marcha

, excirando-se por expressões as

mais enérgicas de vingança , e de

odio. Batem nas mãos, e dão grandes

golpes sobre as espadoas, e

prornettem não poupar suas vidas.

Se em algumas expedições elles se

embarcão , suas canoas , que não

são feitas, se não de cascas de arvores

, não lhes permittem alongarem-se

muito cla costa.

Chegados ao paiz , que elles

querem assolar , occultao-se com

cuidado ; porque muito poucas vezes

attacão á força descuberta : esperão

ao depois a noite para penetrarem

até as habitações", que surprendem

, e cercão , para lançarlhes

fogo : ao depois, 'aproveitando-se

da primeira confusão , comettem

toda a especie de crueldades.

Seu principal objecto he com tudo

fazerem prisioneiros, sem os quaes

sua vingança se não satisfaria.


5x8 Historia

i • '

Quando se vêm obrigados a combater

em campo descuberto , ajun<

tão-se , formão huma especie de

batalhão , marchão apressadds, e

em cadencia , e algumas vezes suspendem

a marcha , para ouvirem

falias muito arrebatadas, que durão

horas inteiras. O ardor de combater

torna-se logo em hum furor

cem medida. Os dois partidos pro-j

curão-se , dando gritos horrendos ,

e uivos espantosos. Tocão suas coi -

jiêtas , estendem os braços, ameação-se

, insultão-se reciprocamente ,

mostrando huns aos outros os ossos

dos prisioneiros, que elles tem devorado.

Chegando á duzentos, ou

trezentos passos em distancia huns

dos outros attacão-se logo com fortes

tiros de íiexa. As pennas cie

que se tem cuberto , as que de suas

flexas saltão, das fileiras, espalhão

com os raios do sol hum tal brilhantismo

pela variedade das cores

, que seria difficil formar-se a

idéa de hum tão espantoso espectáculo.

Os guerreiros íeridos das


Do Brasil. í2t)

flexas arrancão-nas cia carne, quebrão-nas

, e as mcrclem com raiva,

e á medida da força , que lhes resta

, continuão a combater sem recuar

, nem voltar as costas hum sç>

momento. No calor da batalha elles

se servem cle suas massas, com que

dão golpes terríveis, e quasi sem»,

pre mortaes.

Logo que se decide a sorte do

combate , os vencedores atão os prisioneiros

com cordas , mostrando»

lhes os dentes , e movendo suas

massas , para que elles não duvidem

da sorte , que lhes he reserva»

da: mettem-nos ao depois no meio ,

e com esta preza entrão triumfau»

tes nas suas aldeias. Tractão-nos

logo com huma bondade apparente

, limitando seu cativeiro unicamente

ás precauções necessárias ,

para que elles não possão fugir:

até lhes dão mulheres , e cuidão

mais que tudo em os engordar bem.

Quando os vêm no estado de gordura

, que desejão , determinão 0

dia da sua morte. As mulheres pre-


fli40

Historia

parão os vasos de barro , fazem o

licor para a festa, e entranção a

mussurana , ou corda comprida

de algodão, que deve atar a victima.

Os principaes chefes corn o

corpo cuberto de gomma , e ornado

de pennas pequenas arranjadas com

arte , segundo suas côres; enfeitão

também com as plumas das pennas

a livarapema , ou massa , que ha de

servir para matar o prisioneiro. Todos

os*índios da aldêa convidados

para a ceremonia passão dois dias

inteiros em dançar , e beber com o

captivo mesmo , que parece não

fazer outro papel , se não o de

convidado ; e posto que certo da

sorte , que o espera , affecta distinguir-se

pela sua alegria. As mulheres

selvagens trazem a mussurana ,

lanção-na á seus pés , e a mais velha

d' entre£ ellas começa a canção

de morte , em quanto os homens

dão o nó no pescoço do prisioneiro.

A canção he alludida á esta acção

de atar a corda. „ Somos nós (can-

,, tão as mulheres selvagens) que


Do Brasil. í2t)

;; temos a ave preza pelo pesco-

,, ço : ,, e e carnecendo do captivo ,

que não pode escapar-lhes: ,, Se

tu (accrescentão ellas) fôras hum

papagaio , roubando os nossos

„ campos , tu terias voado. „ Então

muitos selvagens pegando pelas

pontas da mussurcina atão o captivo

pela cintura, e neste estado

o fazem passear como em Criumfo.

Elie com as mãos soltas não dá o

menor signal de abatimento , ou de

medo: ao contrario olha com fereza

para todos aquelles , que correm

a vêl-o passar; falia-lhes, lembra

as façanhas contra elles practicadas

, dizendo á hum , que matou

seu pai, á outro , que devorou seu

filho. Recommendão-lhe então , que

dirija os olhos ao sol ; porque não

o ha de ver mais: e he ateado logo

diante delle o fogosobre que

bem depressa os seus membros hão

rie ser estendidos. Chegada a hora ,

huma mulher traz dançando , e

cantando a lívarapema , ao redor

da qual se dançou , e cantou de-


fli40 Historia

pois de ter amanhecido. O executor

apparece então com quatorze , ou

quinze de «eus amigos, ornados para

a ceremonia com gommas , e

pennas. O que tem a massa , a ofierece

á personagem principal da

festa: nias o chefe da tribü , depois

de a ter tomado , a passa muitas

vezes por entre as pernas com

grandes gestos do costume, e a

dá ao executor , que avançando com

seus amigos, declara ao captivo,

que se lhe dá, antes que morra,

a faculdade de se poder vingar por

si mesmo. O captivo entra então

em furor , apanha pedras , e as

arremeça contra tudo , que o cerca:

mas logo caminha para elle com

a massa na mão , e preparado com

suas mais bellas pennas , aquelle ,

que o deve immolar. Hum enfadonho

dialogo, se fôrma entre elles. O

sacrificador, como vingador de seus

companheiros, pergunta ao captivo,

senão he verdade , que elle tem

dado á morte, e devorado a muitos

prisioneiros da sua tribu: estç


Dg Brasil. í^â

gloreia-se de fazer huma prompta

confissão , ainda acompanhada cie

ameaças. " Dá-rpe a liberdade (diz

,, elle) e devorarei a ti , e aos teus.

'„ — Está bem (replica o outro) nós

„ te previniremos. Eu te vou ma-

„ tar; porque tu , e teu povo tens

„ morto , e cleyorado muitos de

„ meus irmãos; e tu o serás hoje

,, mesmo. „ O çaptiv.o responde :

„ Esta lxe a sorte da vicia: mas

j, meus amigos são numerosos , e

,, me vingarão. „ Ergue-se logo

a massa ; e o cannibal Brasileiro ,

menos cruel, que os cannibaes do

Norte da America , quebra com

huma só pancada o cerebro da sua

victima. As mulheres lanção-se -ao

depois ao cadaver , despedação-no

com pedras cortantes , e esíregão

os filhos com o sangue. As mais

velhas limpão as entranhas, que

são assadas , e comidas no campo ,

bem como as diversas partes do corr

po. Durante este abominavel festim

os veliios exbortão os moços a

procurarem outros similhantes por


fli40

Historia

suas emprezas guerreiras; e não se

sabe , o que em toda esta horrível

festa deve causar maior admiração ,

se a engenhosa barbaridade cios

algozes, ou se a coragem exaltada

das victimas.

Estes Brasileiros , apezar da espantosa

inclinação , que os obriga

a nutrirem-se de carne humana tão

deliciosamente, não devorão , se

não os prisioneiros , e seguindo sempre

a especie de ceremonial , que

acabamos de descrever. Não se tem

visto , que elles devorem os mortos

no campo da batalha.

O uso commum clelles he amontoarem

nas suas aldeias as cabeças

dos prisioneiros , que forão devorados,

e mostrar com orgulho aos

estrangeiros estes monumentos de

suas façanhas , e de sua vingança.

Recolhem com o mesmo cuidado os

ossos mais grossos das co.vas, e dos

braços, para fazerem flautas, como

já dissemos , e principalmente

os dentes, que enfião em forma de

rosários, e pendurão ao pescoço.


Do Brasil. í2t)

Elles geralmente meclem a sua

gloria pelo numero dos prisioneiros

, que tem feito ; e tem hum

grande cuidado no dia mesmo , em

que ganhão alguma vantagem na

guerra , de fixar a memoria por

differentes incisões de formas diversas

, de que elles cobrem os braços ,

as coxas , o peito , e outras partes

do corpo.

Taes são as acções as mais gefaes

, que caracterisão a raça Brasileira

dos Tupis. Os costumes destes

povos se assemelhão em muitas

coisas aos de outras nações selvagens

do Brasil, mas todavia coin

differenças assas notáveis.

Os Guay anafes , e os Guayjacarés

, que possuião as planícies

do Piratininga , e as circumvisinhanças

de S. Vicente, differião

essencialmente das tribus dos Tupis

em não serem antropophagos.

Perto de oito léguas em distancia

ria Bahia habilão no interior

os Maraqués , qufe andão nús; porém

as mulheres trazem huma es-


ílistoria

pecie de avental: elles pescãó com

redes, uso ignorado pelos Tupis:

formaváo as redes de huma casca

de arvore comprida , e flexível , dá

qual parte se mettia n'agua , em

quanto a outra parte se tirava. Os

Maraqués conheciSó também o uso

de cavar a terra com encliada , de

fazer ferver as cinzas , e de tirar

delias os saes crystalisados.

Nas regiões centraês , e junto

ás margens do Syputaba , que desagua

no Parac/uay , encontra-se

a nação Brasileira dos Barbados ,

assim chamados pela grande barba ,

que os distingue tão particularmente

dos outros povos Indiaticos.

As costas de Porto Seguro , e

das Capitanias vizinhas tinhão sido

possuídas pelos Papana r /res , que

ácabaváo dé ser affugentados pelos

Goytaca^es, e Tupiniquitís depois

de longas guerras. Com tudo

a linguagem do? Papanaqes era

apenas entendida de seus inimigos

naturaes. Elles erão cassadores, e


Do Brasil. í2t)

pescadores, e dormião na terra

Sobre folhas.

Banidos para o Norte do Brasil

, de que tiuhão sido tanto tempo

os dominadores, os Tapuyas se

distinguião dos outros indígenas

por huma estatura alta , cabelítiS

negros, e compridos , pela côr do

rosto morena escura , e por huma

força prodigiosa. Seu nome significa

os inimigos : são assim chamados

do estado da guerra actual ,

em que estavão contra todos os naturaes

, e uiísmo entre si. De todos

os Brasileiros são estes os menos

cruéis; porque não dão á morte a

algum dos seus prisioneiros. São

com tudo canilibaes ; porém em lugar

de devorar seus inimigos , por

hum sentimento irresistível de odio ,

como os Tupis , elles devorão seus

proprios mortos, como huma derradeira

prova de affeição. Logo que

hum filho morre , lie comido por

seus pais; e se lie adulto , a família

inteira toma pWe no festim.

Bem como os Árabes , os Tapuyas


Historia

passão huma vida vagabunda ; mai

com esta differença , que elles se

conservão em limites particulares ,

e não mudão de habitações , se não

seguindo as différentes estações

do anno. Os cabellos cortados

em forma de coròa , e o comprimento

excessivo da unha do dedo

pollegar são os únicos signaes distinctivos

de seus chefes, ou Caci-

(jnés , que trazem também huma

especie de manto tecido de algodão :

lie trabalhado , como huma rede.,

ornado de pennas de différentes

espécies de aves ; ajuntão-lhe hum

capuz para cobrirem a cabeça. Mas

este vestuário de ostentação não

serve , se não nos dias de festas

publicas.

Na chegada do,s Portuguezes os

Tapuyas tinhão formado seus principaes

estabelecimentos , como os

Tabajarás , na Serra de Ibiapaba.

Contão-se entre esta raça de Brasileiros

perto de setenta e seis povoações

, todas., guerreiras, iodas

distinguidas por nomes différentes ,


Do Brasil. í2t)

e quasi todas espalhadas para ó

Paraíba do Norte, o Seará , e o

Rio Grande. Neste numero secomprehendem

os Guayaq que envenenão

suas flexas; os Jaboros - Apuyarés,

sempre errantes, e que

não tem por armas , se não bordões

queimados nas duas pontas ;

os Palies , que se vestem de lmma

túnica de linho eanhamo sem mangas

, e íallão huma lingua partiam

lar ; os Cuxaras , que habitão as

vastas planicies do interior ; os

Mandevés e os ¿Vaporás , que

exercitão a agricultura. Até as costas

maritimas, e perto da Bahia

de todos os Santos se encontrão ao

depois os Guigvõs, que tem também

seu idioma proprio ; e os Aratnitos

, que habitão nas cavernas ;

os Cancaire's , cujas mulheres tem

os peitos pendentes até as coxas ,

e vêm-se precisadas a atai-os guando

correm. No meio de todos estes

antrõpophagos os Campehós são

quasi os únicos ,M£lue não comem

carne humana; maVelles cortão a

Tom. I. I


fli40 Historia

cabeça á seus inimigos, e trazemna

atada á cintura. Distingue-se

também na nação dos Tapuyas os

Aquigiros , que por huma excepção

notável são verdadeiros pigmêos

; também os Europêos lhes

tem dado este nome: elles não são

com tudo nem menos valorosos,

nem menos robustos. Os Mariquitas

, que cobrião huma parte da

costa entre a Bahia, e Pernambuco

, e vivião nos bosques. De ordinário

atacão seus inimigos á força

descuberta: mas empregão tamjbem

a astúcia com hum successo,

que lhes assegurão a agilidade; e

destreza , de que são dotados. Suas

mulheres , de huma figura muito

agradavel, tem parte nas suas disposições

guerreiras. Os Mar gaiatas

, situados entre o Espirito Santo

, e o Rio de Janeiro, procuião

o ar livre , fogem dos bosques, e

não procurão suas cabanas, se não

para dormirem. Senhores do interior

das terras eltre a Bahia, e o

Rio Doce , os Â'y mares são de to-


Do Brasil. í2t)

cios os -indígenas os mais selvagens

, e os mais ferozes. Elles ,

bem como os seus alliados os Igicjracufos

, causão hum grande terror

pelo arrnido extraordinario ,

que fazem , batendo huns contra

os outros em bordões de madeira

sonora. Taes são as principaes diversidades

da grande nação dos Tapuyas.

Os Ovaitanhassés habitão os

arredores de Cabofrio entre o Rio

de Janeiro , e Paraíba do Sul: são

de estatura alta; deixão crescer os

cabellos , e não tem por camas redes

de algodão , como os outros

povos; deitão-se na terra sobre hum

pouco de linho caiihamo. Os maiores

inimigos dos Ovaitanhassés

erão seus visinhos os Outacaqes *

ou Goytaca^es , que se estendem

desde a planicie , á que dão o nome

, ao longo da riba srptemtrional

do Paraiba cio Sul até a margem

meridional do rio Xipotó nas

circumvisinhançasKde Villa-Rica.

Elles não clevorão seus prisionei-

I £


fli40 Historia

ros; e mais bravos, que os outros

Brasileiros > elles batião seus inimigos

em campo descuberto. Esta

nação, que cubria hum paiz de

perto de duzentas leguas, era inimiga

implacavel das outras povoações

Brasileiras. Não podia suppor-

«ar a idéa de captiveiro , nem tem

sido jamais subjugada ; e conserva

ainda presentemente sua independencia

em hum territorio menos extenso.

Quando não se julgavão os

mais fortes , fugião com a ligeireza

de cervos. Tudo , o que possuem ,

ile commum: vivem em huma especie

de igualdade: distinguem-se

pelo reconhecimento , fidelidade, e

união , que prestão hnns aos outros.

Seu cabello esparzido , seu

olhar feroz , sua porcaria asquerosa

os fazem a nação a mais deforme

do LfniVerso.

Os Onayanarés habitão a Ilha

Grande á desoito leguas da barra

do Rio de Janeiro. Elles tem a barriga

grande estatura pequena ,

são fracos , c frouxos , e por isso


Do Brasil. 133 ^

mesmo formão como huma naçã


í'34 • Historia

íeóes, e aos leopardos, que no antigo

continente espallião o terror

nos vastos bosques da Africa , e da

Asia.

Os Molopaques occupão hum

muito vasto continente além do rio

Paraiba do Sul. Elles se distinguem

dos outros Brasileiros por-costumes

mais humanos, posto que não tenhão

renunciado nem á guerra,

nem aos abomináveis festins , que

se lhe seguem. Tem grandes aldeias,

aio recinto das quaes cada família

habita em liuma cabana separada.

Suas terras contém minas de oiro,

que elles não tem jamais tido nem

vontade , nem meios de cultivar ;

mas apanlião , depois que chove ,

folhetas d'oiro, que achão nas torrentes

, e nos ribeiros, principalmente

junto ás montanhas. Deixão

crescer as barbas : cobrem decentemente

o corpo , para que nada

offenda a modéstia nos seus usos.

Não são polygamos , posto que suas

mulheres sejão^llas. Seu chefe ,

que elles chta&o Morotova , he o


Do Brasil. í2t)

niiico , que gosa exclusivamentaV

do privilegio de ter mais de huma

mulher. Não comem senão em horas

determinadas; e parecem ser

de entre es outros povos do Brasil

os menos apartados da civilisação

Europêa.

Mais longe encontrão-se os Lápis

, montanhezes, que se nutrem

de fructos. Esta nação lie numerosa

, feroz , de hum accesso difficil;

e seu paiz abunda em metaes,

e pedras preciosas.

Os Curumarés habitão huma

ilha de Araguaya. Elles chamSo o

Ente Supremo Aunim , e pronuncião

esta palavra com respeito. Os

G negues , Timbirás , Jeicós , e

Aucapuras habitão o vasto paiz

do Piaithy para a parte do Maranhão.

Os Guamarés , Arahís , e

Caica7.es avisinhão-se < ao Amazonas.

Na outra extremidade meridional

do Brasil perto de Matto Grosso

liabitão os Guacures , que são provavelmente

da r^jma raça dos

Guaycurts do Faragüay. Em fini


fli40 Historia

«aos vinte e quatro gráos de-latitude

austral entre o Rio Grande de

S. Pedro , e S; Vicente está o paiz

dos Carijós , os mais humanos cie

todos os selvagens do continente

occidental, e os que a civilisação

Europea achou mais accessiveis.

Convertidos facilmente á Fé Catholica

, fizerão-se auxiliares úteis aos

Portugueses contra outras muitas

nações dos índios , que estes conquistadores

tiverão de combater ,

e subjugar.

Aqui se termina , o que temos

colhido de mais averiguado á res*

peito dos diversos povos do Brasil.

No longo curso de tres séculos,

depois de tantas emigrações , ou

guerras successivas , estes povos

indígenas, a maior parte errantes ,

tem-se visto precisados a passar

frequentemente de hum territorio

á outro , e a mudar de habitação :

deste modo ou suas mesmas mudanças

, ou seu enfraquecimento, ou

sua inteira destruição faz com que

presentefflcrífe não sejão encontra.


Do Brasil.

í2t)

dos todos na posição geográfica prk

mitiva. Com tudo jamais os Europêos,

apezar da superioridade de

suas armas , e de sua disciplina ,

terião tomado á tantas nações ferozes

suas possessões , e sua liberdade

, se estas tropas errantes,

formando huma liga para adefeza

commum, tivessem formado hum

só povo. Porém divididas sem cessar

, não se auxiliando humas ás

outras , e atacadas separadamente ,

forão submetticlas, despojadas dos

seus domínios , expulsadas, e destruídas

: poucas d'entre ellas escapárão

á morte , ou á escravidão.

Algumas com tudo abandonarão voluntárias

seus costumes selvagens

para se submetterem á civilisação

Européa. As relações successivas

destes différentes povos , quer com

os Portuguezes, quer> com outras

nações, que tem apportado ao Brasil

, se appresentaráõ no decurso

desta obra , segundo a ordem dos

factos , o progresso cios estabelecimentos

, edas conquistas: ellas se-


fli40 Historia

yâo acompanhadas de outros detalhes,

que completarão o quadro dos

costumes, e dos usos das principaes

tribus do Brasil.


livro quarto.

Capita nías hereditarias estabelecidas

no Brasil no reinado ds

D. João III. — Oriqem das colonias

de S. Vicente , Santo Amaro

, Tamaracá , Paraíba , Espirito

Santo , Porto-Seguro , l-

Ihéos , e Pernambuco. — Expedições

desgranadas de Lui%

de Mello , e de Ayres da Cunha

ao Maranhão.

1521 — 1540.

X Lmstrado em fim sobre a importancia

do Brasil, D. João III. . q"®

nós vimos succeder á D. Manuel -

seu pai, applicotyi¿ás suas posses'

iões da America b sysíèma de civi-


fli40 Historia

lisação imaginada então para as

ilhas da Madeira , e dos Açores.

Elie dividio o continente do Brasil

em capitanias hereditárias , e as

concedeu á titulo de domínios aos

senhores de seu reino , que se offerecêrão

para irem formar estabelecimentos.

Esta especie de contracto

entre os Grandes, e o Monarcha

se concluio com tanto maior

felicidade , quanto elle tinha por

mutuo garante , de liuma parte a

cubiça , e ambição dos Nobres Portugnezes,

e da outra o ordente desejo

, que animava o Rei para fundar

hum império no Novo Mundo.

Preparando suas tropas, seu exercito

, e seus thesoiros, D. João III.

se lisongeava de conseguir o inteiro

domínio do Brasil, objecto constante

de seus votos. Porém se os

colonos Porruguezes tinhão podido

estabelecer-se sem obstáculo nas

ilhas visinhas da Metrópole , não,

era o mesmo á respeito do Brasil,

tão remoto dajjjortugal. Grandes

tribus selvagens estavão de posse


Do BrayJL 141.;

deste continente , cujos estabelecimentos

coloniaes então forão tão

apartados huns dos outros , que não

só se fez difficil, mas muitas vezes

impossível, que os colonos prestassem

soccorro huns aos outros, 011

o recebessem da Metropole.

Os senhores concessionários devião

gozar de huma jurisdicção civil

, e criminal quasi absoluta. O

Rei de Portugal, não se mostrando

zeloso , se não de huma soberania

titular, lhes deu , conforme

o plano de D. Manuel * a liberdade

de conquistarem hum espaço de

quarenta, ou cincoenta léguas de

costa com huma extensão illimitada

para o interior. Seu decreto os

authorisava além disso para imporem

aos povos submettidos as leis

que melhor lhes conviesse. Elles

podião dispôr , na fórmtf da sua concessão

, dos terrenos, que tivessem

conquistado , e encarregar do cuidado

de os fazer valiosos aos Portuguezes,

que qy.iz«ssem seguil-os

ao Novo M u * A baior partt


14« Historia'

dos concessionários tomarão este

partido para tres gerações somente,

e com a condição de algumas rendas.

Devião gozar cie todos os direitos

Reaes: o Monarcha exceptuou

com tudo o direito de infligir

a pena de morte , a fabricação das

moedas , e o dizimo territorial, cujas

prerogativas reservou á Coroa.

Taes condições não podião deixar

de lisongear o orgulho, e a ambição

dos feudatarios do Brasil. Mas

elles podião perder estes feudos ,

menos honrosos , que lucrativos,

se desprezassem sua cultura , ou o

cuidado da sua defeza, se commettessem

algum crime capital, ou em fim

se elles não tivessem filhos varões. \

Tantas vantagens fizerão desappa- i

recer aos olhos da cubiça não só

as prevenções, que se tinhão excitado

contra a nova colonia , mas

lambem huma multidão de perigos

muito mais reaes, do que então

já deixavão de passar por insupeiaveis.

Os senhores Portuguezes, que


Do Brasil. í2t)

ambicionavão estes meios de elevação

, e de fortuna , não virão en«

tão em seus vastos domínios , se

não terras, cuja cultura pouco dispendiosa

provava a fertilidade delias

; e nações estúpidas, que elles

poderião subjugar sem perigo, e

submetter sem esforços.

Elles não se enganavão , senão

neste ultimo ponto. A resistencia

obstinada da maior parte das tribus

selvagens , os combates sanguinolentos

, que foi preciso sustentar

contra ellas; seu odio implacavel;

sua vingança feroz destruirão muitas

vezes as mais bellas esperanças.

Porém nada podia desgostar homens

, cujas emprezas erão fundadas

sobre os motivos irresistíveis

cle domínio , e de riquezas.

A maior parte das capitanias

forão concedidas á ser?hores poderosos

, que por meio das armas emprehendêrão

, ou acabárão a conquista

sobre os naturaes. Não estabelecerão

ao principio se não

pequenos auebalaes, que augmen-


fli40

Historia

tando-se tomarão o nome de Vil•<

•las , e se fizerão como as capitaes

de ontros tantos destrictos . 011 provincias.

S.Vicente, Santo Amaro ,

Tarnaracá , Paraiba , Espirito Santo,

Porto-Seguro , Ilheos, e Pernambuco

forão as primeiras capitanias,

qu« o Rei de Portugal concedeu ao

longo da costa do Brasil.

Martim Alfonso de Souza , cujo

nome he citado honrosamente na

historia das Indias Portuguezas,

foi o primeiro possuidor de huma

capitania cio Brasil. D. João III.

lhe deu , bem como á seu irmão Pedro

Lopes de Souza , a permissão de ir

formar 110 novo continente hum

estabelecimento colonial. Martim

Affonso partió em 1531 com hum ,

armamento considerável , explorou

a costa nos circuitos do Rio de Janeiro

, á qival elle deu este nome ,

porque a descubrió no primeiro de

Janeiro ; ao depois avançou para o

Sul até o Rio da Prata , e designou

successivamen/e os portos , ou as

ilhas, que achou na sua derrota,


Do Brasil.

Segundo os dias do Calendario , com

os quaes se conformava cada hum

dos da sua descuberta. Deste modo

a Ilha Grande foi chamada a 11 ha

dos Magos , porque foi reconhecida

á 6 de Janeiro. A vinte do mesmo

mez descubrió a ilha , á que

deu o nome de S. Sebastião: a

vinte e dous ancorou em S. Vicente

, que para o futuro veio a

ser sua capitania , e huma das mais

florescentes colonias do Brasil. Depois

de ter examinado attentamente

a costa , demorou-se aos quatorze

grãos e meio de latitude meridional

, e formou seu primeiro estabelecimento

em huma ilha , que similhante

á Gôa , ou á antiga Ty~

ro , não he separada do continente

, se não por hum braço de mar.

Os naturaes a chamão Guaíba , de

huma arvore assim chamada , que

ahi cresce em abundancia

Os índios da costa , vendo homens

desconhecidos se estabelecer

tão perto delles , ajuntarão suas

pirogas, reunírão:ée pat a excluir«;«

Tom. /. ' K


14


Do Brasil.

tinha dado sua filha em casamento*

Ramalho julgou , que os que de

novo tinhão vindo , e cuja exclusão

setentava, era huma tropa de

seus compatriotas , que destinados

então para a índia , elançados pelos

temporaes na costa do Brasil ,

tinhão procurado hum abrigo nesta

ilha , que era visinha da mesma

costa. Persuadió á seu bemfeitor ,

que os favorecesse em vez de os

destruir : veio elle mesmo encon-»

trar-se com Martim Affonso , econcluio

entre elle, e os Guayana^en

huma alliança perpetua. O terreno

escolhido então para os Portugueses

não se tendo julgado conveniente

, os colonos se transportárão

á ilha de S. Vicente , que ficava

visinha , e que deu o nome á toda

a Capitania. Seus progressos forão

rápidos. Souza presidia á tudo com

intelligencia, e sabedoria. Fes plantar

as primeiras cannas de assucar

, que forão trazidas da Madeira

: fez criar o primeiro, rebanho s

e foi ahi, que as outras capitanias

K a


fli40

Historia

se aprovisionárão ao depois. Os índios

da Costa erão ichtyophagos 2

elles fabricão suas cabanas em hum

terreno cheio de mangues, e tão

abundante de conchinhas , que sua

accumulação prodnzio nas praias

especies de humas chamadas ostreiras

, que tem fornecido toda a cal,

de que se tem feito uso nesta capitania

desde a sua fundação até

õ presente, Martim Affonso empregou

as dadivas , e as caricias para

se unir com estes Brasileiros, com

quem teve frequentes communicaçóes

, vantajosas á colonia.

Seu irmão Lopes foi menos feliz

nas suas empresas. Elie escolheu

para seu dominio cincoenta léguasde

costa , que dividio em duas grandes

fazendas muiro apartadas hurna

da outra , querendo fundar dois

estabelecimentos distinctos, e separados.

Situou o primeiro em lnijna

ilha perto de S. Vicente, muito

visinlía da costa , e deu-lhe o

come de. Santo Amaro. Estas duas

primeiras colónias do Brasil não


Do Brasil. í2t)

er5o distantes , se não três léguas

huma da outra , o que teria feito

nascer queixas , e contendas entre

os colonos, se os dois chefes , estreitamente

unidos pelos vínculos

do sangue , e unanimes nos seus

projectos, não tivessem constantemente

vivido em bôa armonía. No

longo espaço , que durou este estado

de coisas , a visinhança destes

dois colonos foi proveitosa á ambos

: mas quando pelo tempo adiante

passarão a ser outros os possessores

, que não erão unidos por

vínculos tão estreitos, o ciúme , è

o interesse desunirão os colonos

até a época, em que os dois estabelecimentos

, reunidos em hum

sc5 , passárão em fiir. , como os outros

, depois de muitas vicissitudes

ao domínio da Corôa.

Foi na ilha de Tanlaraca , ou

Tamaríca , alguns gráos mais perto

da linha , que Lopes de Souza

fundou seu primeiro estabelecimento

colonial. Provida»de hum porto

muito bom , está illiá não teai,


Historia

99 não tres léguas de comprimento,

e duas de largura , e he separada

do continente apenas por hum es*

treito canal. Lopes vio-se obrigado

a sustentar nella frequentes ataques

feitos pelos Pitaguarés , que

vierão cercal-o na sua mesma ilha,

Elie por então conseguio rechaçai-os

, e excluil-os da cosra visijiha

; mas pouco tempo depois nau»

fragou , e morreu na foz do Kio

da Prata.

Hum de seus companheiros, que

escapou deste desastre , não perdeu

o valor , nem pela sorte de seu

desgraçado amigo , nem pelo risco ,

porque el'e mesmo tinha passado,

Era hum Fidalgo , ou Nobre Portuguez

, chamado Pedro de, Góes,

que apaixonado pelas descubertas

do Brasil sollicitou huma capitania

em huma época , em que o Rei de

Portugal as dispunha com prodigalidade.

Porém Góes tinha muito

pouco credito na Corte de Lisboa ;

por isso o dominio , que se lhe deu,

foi apenas de trinta légua« de cos«


Do Braqit. a


fli40 Historia

annos, e foi funesta para a colônia

nascente. Hum carto intervallo

de paz não deu tempo á Góes de

fazer prosperar seu estabelecimento.

Os colonos fracos , e desanimados

instárão fortemente com Goes

para deixarem a desgraçada situação

do Paraiba. Góes opprimido

pelos selvagens , que lhe ficavão

perto , cedeu aos clamores de seus

compatriotas, evacuando a colônia ,

e embarcando-se em navios, que

obteve do visinho estabelecimento

de S. Vicente.

Esta capitania tinha sido pedida ,

e obtida pelo Fidalgo Vasco Fernandes

Coutinho , que depois de

ter passado sua mocidade na índia

, onde tinha ajuntado grandes

riquezas, aventurou todos os seus

teres, e perdeu-os nos seus projectos

de fazer colonia no Brasil. Coutinho

metteu-se ao mar com hum a

expedição considerável, tendo com

sigo sessenta Fidalgos, muitos obreiros

, e artistas.; elle estava encarregado

alem disso pela Corte de-


Do Brasil. í2t)

L i s b o a a-transportar ao Brasil , como

degradados , a D. Simão da

Castelío Branco , e a D. ]orge de

Menezes. Este ultimo , que era

qualificado de senhor das Molucas,

onde tinha sido Governador , devia

ter commettido grandes crimes, para

merecer o desterro ao Brasil no

momento mesmo , em que os primeiros

authores das crueldades excita-,

das nas índias Portuguezas escapavão

ao castigo do Governo. A.

expedição chegou depois de huma

feliz viagem ao porto do seu destino

, sessenta léguas ao Norte do

Rio de Janeiro, e ancorou em huma

bahia de medíocre grandeza,

cuja entrada se faz conhecer ao

longe por huma montanha configurada

á maneira de hum pao de

assucar , que serve como de alvo

aos pilotos. Os colonos Portuguezes

derão ahi principio ao seu estabelecimento

, fundando huma villa ,

que elles chamárão Nossa Senhora

da Victoria, ainda mesmo antes

de terem entrado e.m combates i


fli40 Historia

mas este titulo foi logo verificado;

Os Guayanafes , seus primeiros

inimigos , forão completamente derrotados

, bem como todos os selvagens

da America , no primeiro encontro

pela superioridade das armas

de fogo. Os vencedores , huma

vez. senhores da costa , começárão

a fundar casas, e edifícios, a cul*

tivar as terras, a plantar cannas ,

e a estabecer engenhos. Logo que

Coutinho vio, que tudo prosperava

rapidamente , voltou á Lisboa

para ajuntar hum grande numero

de colonos, e sollicitar tudo, oque

lhe era necessário para emprehender

huma expedição ao interior do

Brasil em busca das minas. Os limites

da sua província devião começar

onde acabava ao Sul a capitania

de Porto Seguro.

Esta tinira sido dada a Pedro de

Campos Tourinho , nascido em Vianna

de Foz de Lima , de huma família

distincta. Votado felizmente

á arte da navegação, elle amava

as viagens, e as novas empresas;


Do Brasil.

í2t)

por tanto apressou-se em vender

tudo, o que tinha em Portugal,

para vir fundar no Brasil hnma

colônia , de que devia ser o chefe

; e fazendo-se á véla com sua

mulher, e filhos, e hum grande

numero de colonos, apportou felizmente

na mesma enseada , em

que Cabral tinha tomado posse cio

Brasil. Hum dos dois criminosos,

que este Official ahi havia deixado

, vivia ainda , e sérvio de interprete

á Tourinho , e aos Portugueses

da expedição. No cume de

hum rochedo, situado na barra de

hum rio , fundarão a villa de Porto

Seguro , hoje o lugar principal

da provinda , que tem conservado

çste nome dado por Cabral á costa

por causa da bondade de. seu

porto. Tres léguas separão Porto

Seguro de Santa Cruz , onde apportou

Cabral, quando descubrio o

Brasil. Os Tupiniquins , que possuião

o paiz , se oppuzerâo Ioga

ás empresas dos companheiros de

Tourinho não só nesta provincía


Historia

mas também nas duas capitanias

visinhas. Porém elles tentarão debalde

defender seu territorio contra

os invasores. Seja porque elles reconhecessem

a superioridade dos

Europeus , seja porque estes os ti*

vessem attrahido por negociações

astutas, e presentes , elles fizerão

a paz , observárão-na fielmente ,

voltárão suas armas contra os Tujjinacs

, tribu Brasiliense da mesma

raça , e que acabando em alliança

, e mistura com os Tupiniquins ,

compõem hum só, e mesmo povo.

ToUrinho teve muita influencia sobre

estes naturaes á ponto de os

ajuntar em suas aldeias, e amoldai-os

á disciplina, e aos hábitos

da civilisação. Isto he hum a pro va ,

de que elle portou-se com sabedoria

, e de que não deve ter parte

na accusaçao de tirannia , que merecerão

muitas vezes os primeiros

colonos Portuguezes. Elle fundou

engenhos cie assucar em Porto Seguro

com tal felicidade , que em

pouco tempo a exportação dos assu-


Do Brasil. í2t)

eares para a Metropole se fez considerável

, e lucrativa.

Em meio do continente do Brasil

se levantou quasi ao mesmo tempo

a Capitania dos Ilheos , que

deve o seu nome ao Rio das Ilhas ,

assim chamado, porque tem tres

ilhas na sua íoz. Jorge de Figueiredo

Corrêa , historiographo de D.

João III. , foi o concessionário delia.

Retido em Lisboa pelas suas occupações

, e trabalhos , elle enviou

hum Cavalleiro Castelhano , chamado

Francisco Romera , para tomar

posse da sua provinda. Romera

fundeou no porto de Tinharé , e

fundou huma nova villa na eminência

, ou Morro de S. Paulo :

ella foi ao depois transferida para

a extremidade da bailia , onde está

presentemente. Deu-se-lhe então o

nome de S. Jorge em honra do

concessionário , porém o nome de

Ilheos prevalesceu , e communicouse

ao depois , bem que impropriamente,

á toda a capitania. Os Tupiuiquins

, senhores então da coita,


fli40 Historia

erão os mais tractaveis de todos os

povos do Brasil. Por tanto viverão

em paz com os colonos Portugueses,

eemhuma tão estreita união,

que a colonia se levantou sem perturbação

, e prosperou logo. O filho

de Figueiredo , tendo herdado esta

capitania , vendeu-a á Lucas Giraldes,

que melhorou-a com grandes

augmentos, e a fez tão florescente ,

que nella se estabelecêrâo em pouco

tempo oiro , ou nove engenhos

de assucar.

Na mesma época levantou-se ao

Norte do continente do Brasil a

capitania de Pernambuco , erradamente

chamada Pernambuco pelos

Europêos. Seu nome quer dizer

Bocca cio Inferno por causa de hum

vasto recife , que guarnecendo a

costa , occulta abismos , e escolho»

na entrada do porto , onde está

afundada a cidade capital. Neila se

havia erigido provisoriamente liuma

feitoria. Hum corsário de Marselha

se fez senhor delia , e deixou

setenta homens para conservarem a


Do Brasil. í2t)

posse. Porém tendo sido o sen navio

tomado na volta á França , a

Côrte de Lisboa tomou medidas 'immediatas

para recobrar a colon ia

nascente. Eduardo Coelho Pereira

pedio-a em propriedade , como recompensa

dos seus serviços na índia..

Deu-se-lhe a extensão da costa

situada entre o Rio de S. Francisco

j e o Rio Juruva.

Coelho embarcou-se logo com

sua mulher » e filhos, e hum grande

numero de parentes, e amigos,

para irem fundar hurna colonia ao

Norte do Brasil, Navegando com

venta favoravel para a costa , cuja

posse o Rei lhe havia conferido

, chega em fim á vista da entrada

practicada no immenso recife,

que cobre a costa ue Pernambuco

, e grita maravilhado: " Oh í

„ linda situação para^ se fnndac

„ huma villa! „ e o nome de O-

1 lá da , formado das primeiras palavras

da sua exclamação , deu-se á

cidade , de que ellç foi a fundador.


fli40 Historia

Quasi toda a costa de Pernafflj

buco estava então em poder cios

Cahetés , tribn barba»a, e selvagem

, notável entre todas as outras ;

porque fazia uso de canoas muito

grandes , capazes de suster dez á

doze pessoas. Coelho, diz o historiador

Rocha Pita, vio-se obrigado

a conquistar toeza por toeza á esta

tribu temivel, o que se lhe dera

por léguas; Os Cahetés o atacárão

, e cercárão na sua nova villaí

Elles erão numerosos , e dirigidos

pelos Francezes, que vinhão com

navios armados para traficar nesta

mesma costa. A colonia teria sido

ariiquillada no seu mesmo nascimento

, se Coelho tivesse menos experiência

da guerra. Foi ferido nc

sitio: hum grande numero dos seus

colonos mouêrão á sua vista cora

as armas nas mãos: vio a praça reduzida

aos últimos extremos ; mas

sua firmeza , e sua coragem o livrarão

finalmente do perigo: bateu

, e rechaçou o inimigo ; fez alliança

com os 'Taba] ar as , e teve


Do Brasil. í2t)

então muitas forças para se sustentar

, e zombar de todos os ataques.

Os Tabayarés forão os primeiros

naturaes do Brasil , que se ligarão

com os Portuguezes. Hum de

seus chefes, chamado Tabyra , tinha

grandes talentos para a guerra.

Era o terror dos selvagens inimigos

: ia elle mesmo espial-os em seu

campo para descubrir seus projectos

; porque a tribu delle , sendo da

mesma raça , que os Cahetés , fallava

o mesmo idioma. Tabyra armava-lhes

ciladas , atacava-os de

noite, e fatigava-os com rebates

continuados. Por fim os Cahetés

ajuntarão todas as suas forças, marchárão

sobre elle , e o cercárão.

Huma flexa vasou-lhe hum Olho.

Tabyra sem se abalar arrancou-a

com a pupilla ; e voltando-se para

os que o seguião , disse-lhes, que

com hum só olho Tabyra via bem

para combater seus inimigos: com

effeito apezar do grande numero

elle os poz em fugida.

Seu lugar-tenente , ,e séu digpo-

Tom• l> k


fli40 Historia

emulo Hagyse ( braço de ferro')

foi hum dos Tabayarés , que se

distinguirão mais no mesmo partido:

e Piragyba (braço de peixe)

fez tantos serviços aos Portugueses

, que em recompensa recebeu

o Habito da Ordem de Christo , e

huma pensão cio Governo.

Ajudado destes intrépidos alijados

lançou Coelho os fundamentos

da cidade de Olinda , e da Capitania

de Pernambuco , situada cem

léguas ao Norte da Bahia , e hoje

linma das mais ricas Províncias da

America Portugueza. Alguns annos

de paz permittírão á Coelho fundar

engenhos de assucar , e cortar

o precioso páo brasil de íórma , que

esta Capitania quasi só forneceu

delle a Europa inteira.

Mas estas differentes colónias

não podião conservar , e estender-se

se não peia chegada successiva de

novos colonos. Huma circunstancia

pouco honrosa ao reinado de D.

João III., e desgraçada para Portugal

, se tornou em pouco tempo


Do Brasil. í2t)

favorável ao augmento da populalação

Europea do Brasil. A Inquisição

Religiosa , estabelecida na

Hespanha em 1482 , acabava de

ser aclmittida em Lisboa por D.

João III. , que deslustrou , entregando-se

á bum systema pernicioso ,

as "bellas qualidades , pelas quaes

elle se tinha mostrado digno dos

seus predecessores. Numerosas victimas

da nova instituição , Judeos

principalmente , que o Tribunal da

Inquisição perseguia incessantemente

, forão desterrados em multidão

para o Brasil, onde acharão

meio de estabelecer alguma cultura.

A nova colonia se povoou rapidamente

ranto pelos Judeos , como

pelos vassallos catholicos, e por

outros Europeus , attrahidos pelos

felizes trabalhos de seus antepassados.

.

Bem depressa o Governo Portuguez

deixou de menoscabar, como

ao principio , a immensa possessão ,

que a sorte tinha unido ás suas

conquistas. A popoiução Européa

L 3


fli40

Historia

não cessou de crescer , e passou a

dividir successivamente entre si as

marinhas do Brasil, onde ella podia

esperar manter-se com mais vantagem.

He ás guerras continuadas , suscitadas

contra os novos colonos pelos

antropophagos , que se deve principalmente

attribuir a aversão , que

os Portuguezes mostrarão desde o

principio aos estabelecimentos formados

no interior. Por isso a maior

parte forão situados beira mar em

distancias desiguaes , e muitas vezes

muito consideráveis.

Ao Norte de Pernambuco , no

Equador , os Portuguezes não tinlião

ainda reconhecido o bello rio

do Maranhão , ou Amazonas , que

pela primeira vez tinha sido aescuberto

em 1499 por Ianez Pinçon ,

que deu-lhe o nome de Mar d"agua

doce , crendo então , que o

concurso de muitos rios tinha realmente

alterado , e adoçado o mar

nesta costa. O navegante Castelhano.tinha

descuberto ao depois, que


Do Brasil. í2t)

estava na embocadura do grande

rio Maranhão , e que os natura es

chamavêo a este continente Mariatambal:

porém ehe tinha passado

outra vez a linha , sem adiantar

suas investigações. Quarenta

annos depois da descuberta do continente

Brasiliense, restando ainda

muita incerteza á respeito do Maranhão,

os Portuguezes não tinhão

ainda , se não noções vagas , e confusas

sobre este grande rio , e sobre

as costas visinhas da sua foz.

Mão obstante isso a Côrte de Portugal

comprehendeu o Maranhão

nos limites da America Poitugueza ;

e D. João Hl. deu em 1539 esta

Província, ou Capitania em propriedade

á João de Barros , historiador

, e homem de estado , com

a condição de fazer nella estabelecimentos.

* >

Porém João de Barros, não era

nem muito oppulento , para fazer

só as dispezas de hum armamento

marítimo, nem muito moço, para

ir e'le mesmo á huma expedição ar-


fli40 Historia

riscada , e remota: não tinha além

disso noção alguma positiva do continente

, de que acabava de ser

nomeado senhor feudatario No tempo

, era que elle tractava de se informar

, chegou á Portugal Luiz

de Mello da Silva , que vinha do

Maranhão sollicitar a authorisação

de fazer nelle hum estabelecimento

estável. Este mancebo Portuguez ,

immediatamente depois que Orellana

em a sua espantosa expedição

ao Amazonas primeiro, que todos ,

desceu por este rio até a sua foz ,

tinha-se feito á véla de Pernambuco

, e impellido para o Norte ao

longo da costa , approximou-se á

este mar d* agua doce. Cheio de espanto,

e de admiração ao olhar para

estas praias magnificas , chegou

á ilha de Santa Margarida , onde

yio os companheiros de Orellana ;

deste intrépido aventureiro, que

apaixonado pelas descubertas tinha

abandonado os conquistadores do

Perú. Pouco desanimados pelos seus

soüri.mentos, aconselharão á Silva ,


Do Brasil. í2t)

que renovasse as tentativas sobre

o Amazonas, que tinhão sido para

elles tão desgraçadas : tal era o

projecto , que o levava á Portugal.

João de Barros cedeu-lhe os seus

direitos á Capitania do Maranhão ;

e o mesmo Rei o aijudou , não tendo

elle meios sufficientes. Deu á

véla , acompanhado cie dois filhos

cle João de Barros, e tendo debaixo

cias suas ordens tres náos , e

duas caravellas: mas o armamento

se perdeu nas baixias á vista do

•Brasil, cem léguas abaixo do grande

rio. Huma só caravella escapou

ao naufragio , e salvou o Commandante

, e os dois filhos cie João de

Barros. Silva foi para a índia , onde

enriqueceu , e tornou a embarcar-se

para Lisboa com a resolução

de aventurar outra vez sua fortuna

, e sua pessoa , para.se estabelecer

no Maranhão: porém não se

ouvio mais fallar do seu navio , que

se chamava S. Francisco , que provavelmente

naufragou em huma

passagem tempestuosa."


fli40 Historia

Neste intervallo João de Barros,

que outra vez tinha entrado em

seus direitos , repartió a propriedade

da sua provincia com Fernando

Alvares de Andrade, e Ayres da

Cunha; e formando todos tres hum

plano de colonisação , fizerão hum

armamento mais considerável, que

todos os precedentes. Cunha tomou

o commando da expedição , levando

com sigo os dois filhos de Barros

, que tinhão escapado ao primeiro

naufragio. Toda a frota , chagando

ao Brasil , foi destruida nas

mesmas baixias , onde se tinha perdido

o armamento de Mello da Silva.

Cunha foi hum , dos que se

aífogárão. Os desgraçados naufragantes

, que crião estar na entrada

do Maranhão , posto que estivessem

pouco mais, ou menos cem

leguas ao ,Sul , ganhárão a ilha,

que depois do seu engano chamarão

a Ilha Maranhão , nome que

ella perdeu , passado meio século ,

para tomar o de Ilha das Vaccas.

Chegarão á salvar do naufragio


Do Brasil. í2t)

apenas alguns effeitos; e para terem

viveres traficarão com os Tapui]as

, que então habitavâo 11a ilha.

Porém elles forão muito tempo miseráveis

, em quanto não purlerão

fazer ver sua triste situação ao estabelecimento

mais visinho. ]oão

de Barros enviou-lhes soccorros ,

logo que soube da sua desgraça:

porém'o navio, que sahio de Lisboa

, partio muito tarde. Seus dois

filhos acabav§o de ser mortos no

Rio Pequeno pelos Pítaguares , e

todos os naufragantes tinheo deixado

a ilha, Victima de hum duplicado

desastre , o Historiador Barros

mostrou huma firmeza , e huma

sublimidade d'alma , dignas de melhor

sorte. Pagou todas as dividas

dos seus socios , que tinhão perecido

; e ficou devedor á Coròa de

perto de stis centos mil,réis , procedidos

da artilhtria , e de ourros

objectos do armamento ; quantia ,

que El-Rei D. Sebastião lhe perdoou

muito tempo ., ao depois por

huma liberalidade , de" que Barros


fli40 Historia

teria tirado mais vantagem , se ella

tivesse sido menos tardia.

Estas tentativas desgraçadas á

embocadura do Amazonas , e ás

costas visinhas desanimarão o Governo

, e os armadores Portuguezes.

Passou-se muito tempo , até

que os colonos do Brasil, illustrados

em fim pela experiencia, e pela

frequentação destas paragens ,

fundárão no Maranhão estabelecimentos

duráveis , e villas florescentes.

Com tudo os esforços dos primeiros

colonos não tinirão sido todos

infructuosos : a imprudencia , e a

desgraça não tinhão destruido inteiramente

as esperanças destes homens

emprehendedores, e valorosos

, e que nenhum obstáculo podia

desgostar. Vio-se também 'no

espaço de dea annos a maior parte

dos primeiros estabelecimentos se

augmentar , prosperar , e espalharse

, para formar , tres séculos mais

tarde , hurr: dos mais bellos imperios

do mundo.


livro quinto.

Naufragio , e aventuras de Caramurú.

Caracter da qrande povoação

Brasileira dos Tupinambos

da Bahia. Descripção do

Reconcavo , e quadro das suas

revoluções. Primeira origem de

S. Salvador da Bahia. Tomada

de posse da Capitania da

Bahia por Francisco Pereira

Coutinho. Primeiras hostilidades

entre os Tupinambos , eos

Portugueses. Expulsão , e morte

de Coutinho,

o

I5I0—-1540.

A Origem de S. Salvador da Bailia

, posto que romanesca, não sç


fli40 Historia

perde na noite cios tempos , nem

nas tradições fabulosas. Esta cidade

celebre , successivamente destruida,

reedificada , tomada, e retomada

, tem sido no decurso cie

mais de dois séculos a Metropole

do Brasil. Hoje mesmo , que o Rio

de Janeiro lhe rouba a sua preeminencia

, ella he ainda por sua

extensão , fortificações , e edificios ;

pela sua população, estaleiros , armazéns

, e vasta bailia , huma das

mais importantes cidades do Novo

Mundo.

Logo que o navegante Christovão

Jacqnes visitou esta bailia

magnifica, e suas paragens, como'

vimos no segundo livro, deu disso

conta á D. João 111. , bem como

da belleza , e da fertilidade do territorio

adjacente.

Porém foi somente alguns anuos

depois da viagem deste navegante

, que o systema de concessões

foi definitivamente ordenado. Então

o Rei de Portugal deu a provincia

marítima , comprehendida


Do Brasil. í2t)

desde o grande Rio de S. Francisco

até a Ponta do Padrão da Bahia

ao fidalgo Francisco Pereira

Coutinho com a condição de fundar

nella liuma cidade , e estabelecimentos

permanentes, quer subjugando

os naturaes, quer civilisando-os.

A mesma Bahia com todas

as suas enseadas foi ao depois

addida á esta graça verdadeiramente

Real. Coutinho, que havia pouco

, chegara da índia, "onde se tinha

distinguido , familiarisaclo além

disso com as descubertas, e expedições

, de mais animado pelo desejo

de ser conquistador , e fundador

, aprestou logo liuma pequena

esquadra em Lisboa , e ajuntou hum

numero muito grande de soldados ,

e de aventureiros , para ir emprehencler

a colonisação da Bahia.

No em tanto hum caso singular

tinha já posto estes sitios em poder

de hum mancebo compatriota de

Coutinho , inflamado , como elle ,

pela paixão das viagens , e descubertas.

Este Portuguez?, chamado


fli40

Historia

Dioqo Alvares Corrêa Vianna ¿

ia para as índias Grientaes. Batido

por huma tempestade, bem como

tinha sido Cabral, foi do mesmo

modo irapeliido ao Occidente

para o Brazii. Menos feliz , ou

menos hábil , que este celebre navegante

, e não podendo mais governar

seu navio , Diogo Alvares

naufragou nas baixias ao Norte da

barra da Bahia. Hurna parte da

equipagem pereceu ; os que escapárão

ás vagas, soffrêrão huma morte

mais horrorosa. Fazendo força

para ganharem a costa , e aventurando-se

sem precaução , os naturaes

os apanharão , e devorárão á

vista de Diogo Alvares, que tinha

ficado perto do navio , que dera á

costa , não com a esperança de o

concertar , mas para recuperar differentes

objectos próprios para lhe

conciliar a benevolencia dos selvagens.

Então elle conheceu perfeitamente

, que não lhe restava outro

partido para salvar a vida , se

não fazer-se á hum tempo util , e


Do Brasil. í2t)

temível á estes cannibaes; e teve

a felicidade de salvar entre outros

efteitos naufragados hum mosquete

que poz em estado de servir , e aí-'

guns barris de pólvora. Os selvagens

depois do seu abominavel banquete

entrarão para a sua aldeia,

ou habitação; e Diogo Alvares,

subtrahido como por milagre á voracidade

delles , e ao furor das vagas

, ousou avançar-se só sobre esta

costa liumicida para reconhecer

o paiz.

Rochedos dentados, costas verdejantes,

bosques espessos, huma

bailia profunda , porém mansa , taes

são os objectos , que íerem sua vista.

Penetrando ao longo deste immenso

golfo , que fôrma á direita

o continente, e ã esquerda a ilha

oblonga de Itajwrica , elle o vê arreclondar-se

, e estender-se para o

Norte á perder de vista , tendo ao

Sul três léguas de largura , doze

de diâmetro, c trinta eseis decircumferencia.

Ahi bem como no Rio

de Janeiro na mesma ecteta , o mar


fli40

Historia

parece ter penetaado as terras: póde-se

mesmo conjecturar, que hum

grande lago , quebrando sua barreira

, abrio huma communicação

com o Occeano. Seis grandes rios

navegáveis desaguão neste golfo ,

ou antes neste lago pacifico , e crystalliuo

, que se divide em muitos

braços, e entra também pelas terras

, formando difterentes direcções,

•Huma cadeia cle ilhas vivificão este

pequeno Mediterrâneo do Brasil.

Diogo Alvares , encantado da

belleza, e da magnificência deste

sitio , cuja existencia elle não suspeitava

, deu-lhe o nome de S. Salvador

; porque ahi tinha achado a

sua salvação. Porém não percebendo

mais vivente algum , temia verse

em hum lugar selvagem , exposto

á todas as necessidades , e á discrição

da£ íeras; quando appareceu

cle repente huma multidão de

Brasileiros armados cle flexas , e de

massas, sem todavia mostrar intento

algum hostil. Muitos d'entre elles.

tinhão visco como s ali ir do mar a


Do Brasil.

joven Alvares, tendo então se conservado

occultos; porém avançando

ao depois cheios dc espanto,

elles correspondêrSo aos signaes de

benevolencia , e de paz , que lhes

fez Diogo Alvares, aproximárãose

para receberem os presentes, e

o tractarão com amizade. Conduzido

á mais próxima aldeia , foi

appresentado ao Chefe , ou Cacique

, de quem elle foi feito captivo:

mas recebeu delle, bem como

de roda a povoação , tanta consideração

, como cuidados.

Estes índios erão da raça dos

Tupinambás , cujo nome significa

Bravos , e que de todos os naturaes

do Brasil são os mais zelosos

da sua independência. Elles reúnem

no mais alto gráo os caracteres

communs , debaixo dos quaes

lemos representado as Nações Tiipicas.

Sua estatura , que não excede

a ordinaria , he em geral bem

proporcionada. São cio numero dos

Brasileiros, que tracem o cabello

comprido. O oleo de rotu , de quc

Tom. /. M

r


fli40

Historia

elles íazem hum uso continuado ,

dá huma côr de azeitona á sua pel*

le , naturalmente tão branca , como

a dos Europeos.

Os Tupinambos se estabelecem

de ordinario no meio dos bosques ,

que hcão mais visinhos ao mar , e

aos rios. Começão por formar ,

queimando as arvores, huma praça

proporcionada ao numero , em que

para ahi concorrem , e construem

neste espaço vastas , e longas cabanas

, cuberías de folhas cie palmeira

, e que nenhum tabique, ou

separação divide no interior. Estas

grandes cabanas de cento e cin»

eoenta pés de comprimento com

quatorze de largura , e doze de altura

contém huma vintena de familias

alliadas humas ás outras; e

tilas são construidas de maneira ,

que vão .cercar 110 centro huma

praça , onde se matão os captivos.

Cada cabana tem tres portas, toclas

tres para a parte da praça da matança,

A aldeia lie composta de

hum pequeno numero de cabanas,


Do Brasil. í2t)

c sempre estacada com intervallos

regulados para atirar flexas, e femados

com hum primeiro circulo de

grossas estacas , menos cerradas,

que a paliçada do centro. Os Tupinambás

põem na entrada sobre

estas estacas algumas das cabeças

dos inimigos, que elles cem devorado.

EUes não habitão mais , do que

cinco , ou seis annos na mesma aldeia:

destroem, passado este tempo

, seus estabelecimentos , e vão

em pouca distancia formar outros

novos , aos quaes elles com tudo

tem o cuidado de dar o nome cia»

quelles , que acabão de abandonar.

Esta mudança tem por objecto o

utilisarem-se da fertilidade de hum

terreno , ainda não cansado pela

vegetação das raizes , que fazem a

base da sua nutrição. *

As familias se distinguem pela

união a mais terna. Em parte nenhuma

o amor paternal pôde ser

elevado á mais alto gráo v este sen?

timento hepago da parte dos filhe-s-

M 2


fli40

Historia

por hum respeito inviolável. A amizade

, a liberalidade , a hospitalidade

apertão sem cessar entre clles

laços indissolúveis ; e sua ferocidade

, que não se pode desconhecer »

se reserva inteiramente para a vingança

, de que elles fazem contra

os seus inimigos o maior dos gozos,

e o primeiro dos deveres.

Seu sentimento natural he exquisito

, seu juizo recto , seu espirito

justo. A rasão , e a persuasão

encontrão nelles hum accesso fácil,

com tanto que não se pertenda

subjugal-os. Seus orgãos finos , e

delicados; sua memoria segura , e

fácil os fazem susceptíveis cie instrucção.

Por isso elles se tem elevado

por si mesmos á alguns conhecimentos

prácticos , cujo uso

não deixa de ser util. Não só elles

tem dado ñomes ás estrellas, mas

também tem conhecido sua posição

relativa. Depois de ter notado o

curso annual do sol, elles tem dividido

o tempo ou pela marcha deste

astro, ou pelas chuvas , pelas


Bo Brasil. i8i

fcrizas e pelos ventos. Conhecem

também algumas das propriedade?

dos seus vegetaes , e das suas prochicçóes

mineraes. Pelo que toca á

Religião , ou antes á falta de Religião

, á guerra , á politica , e ao

pequeno numero de hábitos, que

compõem a única legislação , que

elles conhecem , pode se formar a

idéa de seus usos , olhando para o

quadro geral dos costumes primitivos

dos indígenas do Brasil.

Estes selvagens passão em hum a

ociosidade quasi absoluta o tempo ,

em que a guerra cessa de os occupar.

A cassa, e a pescaria, cujos

productos elles ajuntão á mandioca

, e ás outras substancias vegetaes

, enchem com tudo huma parte

do seu ocio. Elles dizem , segundo

huma clas suas tradições as mais

acreditadas, que duai? personagens

desconhecidas , das quaes huma se

chamava Zomé , lhes ensinára a

colher, e a preparar a mandioca:

accrescentão , que .seus antepassados

, procurando motivo de dispu-


fli40 Historia

ta contra estes bemfeitores, atirárão-lhes

flexas ; mas que estas, voltando

atraz , matarão os que as tinirão

vibrado. Os bosques abrirão

caminho a Zomé na sua fugida ,

e os rios se abrirão igualmente para

lhe oíferecerem passagem. Pertendem

também que as duas personagens

mysteriosas promettêião visital-os

de novo, e mostrarão seus

vestígios milagrosos , impressos na

arêa.

A recreação quasi única dos

Tupin ambas he a dança : são muito

dados á elia, e se ajuntão muitas

vezes nas suas aldeias , para se

entregarem ao som da voz , e de

hum instrumento chamado maraca ,

espécie de roquinha , feito de hum

fructo ôco , no qual introduzem

pequenos grãos , e o agitão como

hum tambor de biscainho , acompanhando

orhythmo de suas canções.

O maraca serve também de guiso

de adevinhação aos seus adevinho?.

Nas. sitas, festas , . e sobre tudo


Do Brasil. í2t)

si a ceremonia da matança dos captivos

os Tupinambos bebem em

abundancia çumo defriictos, e cías

raízes fermentadas. Além do licor ,

que elles extrahem da mandioca ,

e de que fazem bum uso immoderado

, preparão outro ainda melbor

do fructo da acayaba. Porém posto

que apaixonados pelas bebidas

fermentadas, elles não são menos

melindrosos na escolha cl' agua :

preferem a mais doce , mais leve ,

e que não deposita sedimento algum

, e a conservão constantemente

fresca pela transudação em

vasos de barro poroso. Agua pura ,

exposta ao orvalho de manha, era

O sen remedio favorito.

Ta es erão os Brasileiros , que

accolhêrão Pedro Alvares Correa.

Elles tiverão logo occasião cle admirar

sua intelligencia e sua destreza.

Hum dia tendo com seu mosquete

matado huma ave perante

estes selvagens, as mulheres, e os

filhos gritarão: Carjimurúl Caramuru

! que quer dizei'.homem-dc


fli40 Historia

fogo ; e testemunhárão o temor de

perecerem também ás mãos delle.

Pedro Alvares voltando-se então

para os homens, cujo espanto estava

misturado com hum temor menor

, lhes fez saber , que iria com

elles á guerra , e que mataria seus

inimigos. Elles marcharão logo contra

os Tapuyas. A fama da arma

terrível do homem de fogo os precedia

, e os Tapuyas fugirão. Caramurú

foi o nome , com que Pedro

Alvares foi conhecido dahi em

diante entre os Portuguezes.

Tocados dos effeitos espantosos

das armas de fogo , e de outras invenções

Européas, que Caramurú

tinha o cuidado de appresentar a

seus olhos, os Brasileiros da Bahia

lhe attribuírão hum poder sobrenatural

, que lhe attrahio logo suas

homenagens t e até mesmo suas

adorações. Deste modo aquelle mesmo

Alvares, que se tinha julgado

em circumstancias de ser devorado ,

como os seus compatriotas, que tinliao

cabido nas mãos destes stlva-


Do Brasil. í2t)

gens antropopliagos, vio-se poucos

dias depois ainda mais poderoso ,

que seus próprios chefes , felizes

em lhe obedecerem , e em fazerem-

110 acceitar suas filhas por esposas.

Então foi firmada a estreita alliança

, que unio Caramará com os

Tupinambas , de quem elle se fez ,

por assim dizer , soberano absoluto.

Em signal de respeito elles o vestirão

com huma especie de manto ,

ou túnica de algodão; fizerão-lhe

offerta de suas mais bellas pennas ,

e de suas melhores armas , e lhe

prodigalisárão o producto de suas

cassadas, e dos fructos os mais deliciosos

dç> seu paiz. Caramurú estabeleceu

sua habitação no lugar ,

onde foi ao depois fundada a Villa

Velha. Tornou-se o pai de hinna

numerosa familia ; e ainda hoje as

casas mais distinctas da, Bahia referem

á elle sua origem. Fez levantar

logo algumas cabana^ sobre

a praia desta bahia espaçosa , e

commoda , onde se poz em seguro ,

açiianao em huma pescaria *buu-


fli40 Historia

dante , e nas provisões , que Ih«

trazião os índios, huma nutrição

sã ; provisões na verdade sobrepujantes

á necessidades da sua colonia

nascente.

As primeiras cabanas feitas á

pressa forão logo substituidas por

habitações mais convenientes: huma

especie de politica , eu de disciplina

foi introduzida , e conservada

por Cararnurú , chefe, e regulador

do novo estabelecimento. Dos

pedaços de hum navio naufragado

eUe fez construir barcas mais sólidas

, que as pirogas dos Brasileiros ;

não porque elle esperasse servir-se

delias para huma navegação longa ;

mas elle se lisongeava de reconhecer

logo todo o golfo , de que não

tinha ainda idéa , por não ter tido

noticia alguma da relação de Christovão

Jacques. Com effeito desde o

instante , em que naufragou , elle

tinha suspeitado, que estava no

Brasil , onde seus compatriotas começavão

a estabelecer-se; porém

perdendo a espeiança de se unir á


[

Do Brasil. 187

elles, julgava-se para sempre separado

deli es , e da Europa.

Familiarisado logo com o idioma

dos Tupis , achou-se em estado

de interrogar aos naturaes sobre a

sua origem, e sobre o paiz , que

habita vão. Os velhos conservavão

•a lembrança de tres revolnçoes

accontecidas 110 Reconcavo ; he este

o nome , que elles dão á Bahia com

todas as suas enseadas. Segundo a

mais remota lembrança, que os homens

podião ter entre estes selvagens

, elles tinhão per hum facto

certo , que os Tapuyas tinhão possuído

o Reconcavo: mas como esta

•parte do Brasil he , debaixo de algumas

relações, hum dos lugares

mais favorecidos cla tetra , estes

•não podião esperar o go^.ar pacificamente

de huma possessão tão desejável,

principalmente não havendo

entre elles outras leis , se não

a da força. Por tanto os Tapinaes

expellírão os Tapuyas , e conser-

•várão o Reconcavo oor muitos an^

nos bem que sempre' em gueira


fli40 Historia

com os que elles havião desempossado,

e que ainda queriao lançar

mais para o interior. Os Tupinambas

, passando ao depois o Rio de

S. Francisco, invadirão também

o Reconcavo , donde excluirão os

Tupinaes , que lançando-se de novo

sobre os Tapuyas , levarão-nos

diante de si. Os últimos conquistadores

estavão senhores do continente

, quando Caramurú chegou

entre elles; porém já se tinhão dividido

sobre a posse da sua preza.

A povoação , que tinha ficado entre

o Rio de S. Francisco , e Rio

Real fazia huma guerra sanguinolenta

ás tribus, que acabavão de

tomar posse do Reconcavo; e estes

mesmos se tractavão como inimigos,

os que habitavão de huma parte

da bahia dos que habitavão da outra

: cada partido exercia hostilidades

por mar , e por terra , e devorava

seus prisioneiros. Hum novo

motivo de discórdia acabava de excitar-se

entre os Tupinambas , q«e

¡habitavão a costa oriental ; e era.


Do Brasil.

í2t)

ó que nas épocas semibarbaras,

que nós chamamos heróicas , tem

dado assumpto á poesia ,• e á histoiia.

A filha de hum chefe tinha

sido roubada á seu pai, e o raptor

tinha recusado entregál-a. O

pai. , não tendo bastantes forças

para o obrigar á isso, tinha-se retirado

com a sua tribu para a ilha

de ltaporica. As povoações habitantes

das margens do grande rio

Paraguassú , tendo feito liga com

os fugitivos, travarão huma guerra

obstinada com o outro partido. A

Ilha de Nodo, ou da Pena traz

este nome das emboscadas, e dos

combates frequentes, de que ella

foi então o theatro. A tribu emigrada

augmentou-se, e estendeuse

ao longo da costa dos llheos ,

e a contenda se prolongou com

muita energia. • „

Tal era a situação dos Tupinambas

no Reconcavo , quando

Caramuru com seu temivel mosquete

veio fazer inclinar-se a balança

á favor da tribu hospitalei-


fli40 Historia

ra , de que elle se tinha tornado

chefe. Feliz , e tranquillo entre

estes selvagens , elle fazia esforço

por civilisai-os: fazia mesmo disposições

para dar á seu estabelecimento

mais consistencia , e huma forma

, que íosse mais regular , erendo-se

desterrado para sempre entre

os Tupinambüs, quando appareceu

de repente na entrada da Babia

hum navio Normando , que

partira de Dieppe para fazer no

Brasil huma viagem de descubertas

, e commercio. Depois de ter

entrado na bahia , lançou ancora

á vista de Caramuru , e dos Indios

reunidos: poz-se logo em correspondencia

com elles , de quem recebeu

viveres , e hum accolhimento

amigavel. De parte á parte fizerao-se

trocas de huma utilidade

reciproca. chegada imprevista,

do navio Francez fez nascer em

Caramuru 0 projecto de voltar á

Europa, e ir á Lisboa dar conta

ao Rei cle Portugal de seu naufragio

, e de seu feüz estabelecimento


Do Brasil. í2t)

em S. Salvador. Elie esperava merecer

por este meio a protecção , e

a animação do Monarcha. Caramiirü

facilmente obteve passagem

para si, e para Paraguazú , sua

mulher estimada , de quem elle não

queria separar-se. Prometteu á seus

hospedes, que voltaria logo , eembarcou-se

, levando com sigo amostras

da riqueza , e das curiosidades

do Brasil: mas as outras suas mulheres

índias não puderão supportar

este abandono, posto que* por

hum tempo limitado: ellas á nado

seguirão o navio com a esperança

de serem recebidas abordo. Amais

valorosa , ou a mais apaixonada

avança tão longe , que antes de

poder chegar á praia , suas forças

a abandonão. Em vão pede ella

soccorro ; Cciramurú não ouve mais

suas vozes : em vão'intenta ella

sustentar-se ainda sobre as va«as:

fraca , desfalecida , desesperada ,

ella succumbe , e morre nas ondas

victirfm do seu amor para com Caramuru,.


Historia

O navio apporrou com feliz

viagem nas costas da Normandia.

Henrique II. reinava então na

França. Altivo , generoso . e bemfazejo

, elle convidava os prazeres ,

e as artes á sua Corte. Caramurâ

appareceu nella debaixo cios auspícios

do Capitão , a quem elle devia

sua volta á Europa. Elle foi accolhido

, bem como sua mulher Paraguaia

, junto do Hei , e da Rainha.

Henrique , e Catharina cie

Medicis receberão estes viajantes

com hum prazer occulto ; por que

a Europa inteira então retumbava

com o arruido das descubertas maravilhosas

feitas nas duas índias

pelos Hespanhoes, e Portuguezes.

As outras Potencias marítimas não

vião sem hum sentimento de inveja

tantos paizes , e riquezas

exclusivamente invadidas , e cultivadas

, por duas únicas Nações

, que em outro tempo encantoadas

na Península Hespanhola ,

se estendião agora sobre os pontos

os mais remotos do globo. Henri-


Do Brasil. í2t)

que II. não se tinha esquecido das

palavras do Rei seu Pai á respeito

da America. " Eu quizera ( tinha

„dito Francisco I.) que se me

„ mostrasse o artigo do testamento

„ de Adão , que divide o Novo

„ Mundo entre meus irmãos olm-

„ perador Carlos V., e o Rei cie

,, Portugal , excluindo-me da suc-

„ cessão. ,, O Monarcha Francez

manifestou evidentemente a intenção

de participar da conquista do

novo hemisferlo , soüicitada além

disso pelos navegantes de Dieppe ,

que espreitavão as occasiões de terem

accesso á America. Henrique ,

e Catharina testemunhárão o desejo

de favorecer suas emprezas distantes.

Por tanto prodigalisárão com

os estrangeiros vindos do Brasil os

signaes do mais vivo interesse. A

moça índia attrahia principalmente

a curiosa attenção dos Cortezãos

Francezes , admirados de verem a

filha de hum chefe dos selvagens

no meio da Côrte a mais polida da

Europa. Deu-sç pressá á ganhal-a

Tom, /. N


fli40 Historia

para a Religião , e ParacjuaÇÜ foi

baptizada solemnemente. A Rainha ,

dando o seu nome de Catharina á

esta nova Christã , servio-lhe de

Madrinha , e o Rei de Padrinho.

Fez-se-lhe conhecer, não sem trabalho

, mas com feliz successo , a

Religião , que ella acabava de abraçar

, e os usos da Europa. Seu marido

Caramuru , bem que lisongeado

pelo accolhimento , que lhe fazia

a Côrte de França , não perdia

de vista Lisboa , sua patria, e se

dispunha a partir para ella : porém

o Governo Francez lhe negou o

consentimento. As honras , que se

lhe tinirão dado , não erão nada

menos, que gratuitas: o Rei pertendia

servir-se delle no paiz , que

elle tinha descuberto. Caramuru

deixou-se facilmente persuadir a

conduzir hurra expedição mercante

á Costa dos Tupinambas da Bahia

, e de favorecer nella as relações

de troca , e commercio entre

os Francezes, e os naturaes. Com

effeito elle chegou a enviar á D.


Do Brasil. í2t)

João III. por intervenção de Pedro

Fernandes Sardinha , joven Portuguez

, que tinha concluído os

seus estudos em Pariz , e que ao

depois foi o primeiro Bispo do Brasil

, as informações , que não se

permittia , que elle mesmo levasse:

elle por cartas exhortava o Rei de

Portugal para colonisar o paiz delicioso

, que tinha cahido em seu

poder de hum modo tão estranho.

Ao depois com hum rico commerciante

Francez fez huma convenção

, em virtude da qual os navios

carregados de objectos úteis para

o trafico com os naturaes do Brasil

forão sujeitos á sua disposição ,

bem como as munições , e a artilheria

destes navios , logo que chegassem

á Bahia. Caramarú obrigou-se

da sua parte a carregal-os

de pio brasil, e de oatros generos

uteis ao commercio para a volta.

Elle partio com estes dois navios

, conduzindo com sigo sua mulher

Catharina ; e .favorecido por

huma navegação rapida, ancorou

N 2


içô Historia

logo em S. Salvador , achando sua

pequena colonia no mesmo estado, 4

em que a tinha deixado. Os Tupinambos

tornárão a ver com transportes

de alegria aquelle, que elles

consideravão ao mesmo tempo

como seu pai, e seu chefe supremo.

Sua primeira operação foi fortificar

seu pequeno estabelecimento.

Sua mulher Paragua^u , entusiasmada

com o nome de Catharina ,

e com os talentos , que tinha adquirido

na Europa, fez todos os

esforços para converter , e para civilisar

seus selvagens compatriotas.

]á no meio das primeiras cabanas

se acaba de fundar huma Igreja:

já o mesmo Caramuru tinha distribuido

muitas plantas de cannas,

começado a cultura das terras , attrahido

, e ajuntado por meio de

beneficios o? naturaes , até então

errantes, e dispersos, quando appareceii

na Bahia a expedição preparada

em Lisboa , e commandada

' por Pereira Coutinho , para vir

tomar posse da provincia inteira;

I


Do Brasil. í2t)

apparição funesta , que espalhou a

consternação em toda a colonia.

Armado da authoridade real ,

Coutinho assentou o seu estabelecimento

na Bahia no lugar agora

chamado Villa Velha , que era a

habitação de Caramuru , á quem

recorreu logo para ter bom êxito

na sua empreza colonial. Dois de

seus companheiros, que erão de

prigem nobre , casarão se com duas

das filhas de Caramurú ; e por

causa deste forão seus compatriotas

estimados pelos naturaes de sorte ,

que tudo continuou em socego por

algum tempo. Mas Coutinho não

vio logo em Caramuru , se não

hum occulto inimigo de seu poder:

elle tinha servido nas Grandes índias

; e se fazia então muito preciso

, que as índias fossem para

os Portnguezes huma escolla de humanidade

, e de politica. Coutinho

servio-se do meio da força; condemnou

tudo , o que se tinha feito

até então , e censurou principalmente

os meios de doçura , empre?


Historia

gados para captar a benevolencia ,

e a amizade dos naturaes. Estes

não virão neste novo cheíe , se

não hum senhor intractavel , despótico

, decidido a se estabelecer

no seu paiz pelo direito de conquista.

Seus soldados , ou antes

seus aventureiros , que elle tinha

ajuntado , e trazido em seu seguimento

, assignalárão sua chegada

com todas as especies de violencias ,

e de rapinas: hum delles matou o

filho de hum chefe dos naturaes.

Coutinho pagou caro esta cruel

offensa. Os ferozes Tupinambas ,

os mais temiveis de todos os selvagens

Brasileiros , não respirárão

mais, que vingança. Então começou

huma longa perseguição contra

toda esta horda , tão pouco acostumada

ase ver á prova de actos de

severidadee de rigor. Em vão

Caramuru pertendeu livrar da oppressão

os índios hospitaleiros , ao

mesmo tempo seus alliados, seus

' hospedes, e seus amigos. Olhado

como importuno , e suspeito, foi


Do Brasil.

preso por ordem de Coutinho, tirado

de sua mulher , e passado para

bordo de huma embarcação. O

rumor cia sua morte falsamente espalhado

, lançou a desesperação na

alma de Paragua^á , que para vingal-a

armou não só os selvagens

da sua nação , mas até chamou em

seu soccorro os Tamoyós , seus

visinhos.

Aos dias felizes, e tranquillos

que tinhão acompanhado a chegada

, e o estabelecimento de Caramurá

na Bahia, succedêrão dias

de tristeza, e de carnagem. Apezar

da superioridade, que as armas de

fogo parecião dever assegurar aos

Portuguezes , os Brasileiros , furiosos

, e reunidos em grande numero ,

inflammados além disso pelos clamores

de raiva de Paraguaia , queimarão

os engenhos de sssucar , destruirão

as plantações, matarão hum

filho de Coutinho ; e depois de huma

guerra sanguinolenta, que durou

muitos annos „ arrasárão em

fim. as. obras erigidas pelos Porfu-


fli40

Historia

guezes, e obrigárão seu chefe a

procurar sua salvação nos navios.

Reduzido á esta vergonhosa extremidade

, Coutinho se retirou com

os restos da sua equipagem , e com

os seus dois navios para a visinha

Capitania dos Ilheos, que Jorge de

Figueiredo começava a colonisar.

Caramuru , sempre preso , foi conduzido

oelos Portuguez.es. Mas apenas

se tinhão retirado , quando os

Tupinambas sentirão a falta das

mercadorias da Europa , que consideradas

por elles ao principio como

objectos de luxo , e de ornato,

se tinhão ao depois tornado em necessidades.

Logo que se socegárão

as differenças , concluio-se huma

convenção entre os enviados de

Coutinho , e alguns chefes dos Tupiri

ambas , que tractárão com tudo

sem participação de todas as povoações.

Coutinho, tendo procurado ai*

guns reforços, embarcou-se em huma

caravella e deu á vela para

a Bahia. Caramurá seguio-o em.


Do Brasil. í2t)

outra caravella. Mas apenas chegárão

a avistar o golfo, quando

huma tempestade , que se levantou

de repente , assaltou as embarcações

, e as fez encalhar , antes de

passar, a barra nas baixias da illia

A de ltaporica. Os Tupinambos ,

que presenceavão este naufragio ,

eque tinhão conhecido, e assignalado

seu oppressor , avanção se com

suas massas de guerra , apezar cía

opposição dos chefes , que tinhão

chamado Coutinho , e embarcándose

em tropel nas suas canoas , unemse

com os da ilha, queestavão em

peleja com a equipagem de Coutinho.

Este Capitão tinha já ganhado

a praia ; mas elle não acabava

de escapar ao furor das ondas

, se não para soffrer a vingança

dos Brasileiros. Atracado rodeado

por huma multidão de inimigos

furiosos , morreu ferido de hum

grande golpe de massa. Sua cabeça ,

separada do corpo , e ornada de

pennas , foi levada em triumfo pelos

vencedores, que manifes árão

l


fli40

Historia

huma alegria acompanhada de grir

tos, devorarão seus prisioneiros, e

se regozijarão de terem principalmente

fartado sua raiva contra o

mais cruel inimigo da sua povoa»

ção. As equipagens de Caramurá

forão poupadas em attenção á elle

que tornou a entrar em sua antiga

povoação, e a levantar sua colonia

com o soccorro dos Tupinambas ,

sobre os quaes elle tornou a tomar

seu antiga ascendente. A mulher ,

e os filhos! de Coutinho não perecerão

com elle ne*ta luta cruel;

por que he provável, que elles tivessem

sido deixados nos Ilheos ;

mas perderão seu dominio , e tudo ,

que Coutinho havia obtido dos Brasileiros.

Passárão o resto da vida

miseravelmente ; porque não tinhão

outro recurso , se não a caridade

publica; e morrerão victimas da

imprudente tyranaia de Coutinho.


livro sexto.

Progresso da. Capitania de S. Vicente.

Tentativas desgraçadas

de Aleixo Garcia , e de George

Sedenho para chegarem ao Brasil

por Paraguay. Primeiras

hostilidades entre os Hespanhoes

do Paraguay , c os Portugueses

do Brasil. Renovação

da guerra em Pernambuco. Cerco

do Garassú pelos Cahetés.

Chegada de D. Thomé de Sou-

7,a , primeiro Governador Geral

, ao Brasil. Fundação da

cidade de S. Salvador. Regularisação

politica la. colonia.

1540 —1550.

Ei M quanto os Tupinamba? da

Bahia sahião vencedores da su? " i-


204 Histori a

meira luta com os Portugueses , a

cobiça, e a inveja sopravao a discordias

e a guerra entre os colonos

de S. Vicente, e os Hespanhoes

seus visinhos , já senhores

das margens do Paraguay , e do

rio da Prata. <

Estas contendas entre duas Nações

, quasi sempre rivaes , terião

ensopado de sangue os dois hemis-

. ferios ^ se os laços da benevolencia,

e d r parentesco não tivessem

unido estreitamente Carlos V. , e o

Rei de Portugal.

Apenas tinhão-se passado deseseis

annos depois da descuberta do

Brasil, e já florescia a colonia de

S. Vicente , situada em hum pequeno

golfo á quarenta leguas ao

Sul do Rio de Janeiro.

Hum clima temperado , altas ,

e ricas montanhas, rios límpidos ,

e abundantes de peixe , valles ferteis,

e habitados por naturaes mansos,

e sociáveis , muitos golfos profundos

, e sobre toda a costa hum

gY Je numero de ilhas pictorescas,


Do Brasil. í2t)

taes erão as numerosas vantagens,

que esta bella parte do Brasil offerecia

á seus novos possessores.

Por tanto o estabelecimento de S.

Vicente foi hum , dos que mais rapidamente

chegárão a colonisar-se.

Ao Sul , e á Oeste estão as

fronteiras do Paraguay , ou o paiz

da Prata , que recebe este duplicado

nome de dois rios . ciue o régão.

O Paraguay recoii decido por

Solis , foi submettido á Gorda de

Castella quasi no mesmo tempo ,

em que o Brasil entrava no dominio

Portuguez : elle ainda mais particularmente

passou a ser liuma

conquista dos Missionários da Companhia

de Jesus , aos quaes deveu

em parte sua civilisação. Desde a

sua origein as províncias do Paraguay

, limitrophes do Brasil , forão

muitas vezes o obj, ;ro , e o theatro

de mais de hum debate politica

entre as duas Nações rivaes. As

novas possessões Hespanholas, podendo

servir de passagem pa*a ir

do Brasil ao Peru , era princ' i-


Historia

mente por este motivo , que o conhecimento

geográfico , e a frequentação

do Paraguay se fazião de hum

grande interesse para os Portugueses

de S.Vicente. Começava então

a espalhar-se o rumor , que os Hespanlioes

tiravão immensas riquezas

do Perú , e logo os Portuguezes

conceberão o desejo de terem nellas

parte com JS seus visinhos da America.

• Afto'iso de Souza , Capitão

General^ a colonia, julgando dever

ceder ás instancias deseuscom¿

patriotas , permirtio á Aleixo Garcia

que unia a actividade á intrepidez

, que partisse acompanhado

de seu filho , e de outros tres Portuguezes

, para indagar as minas

dtí^oiro , e abrir á colonia hum caminho

até o Perú. Garcia dirigióse

para o Occidente , e encontrou

nas* margens ) Paraná a grande

povoação dos Chanai^es, índios

hospitaleiros , aos quaes elle se nnío

pelos laços da amizade , e do casamei

to. Perto de mil se resolverão

a ¿nil-o na sua espantosa expe-


Do Brasil. í2t)

dição. Alguns índios Tarupecocios

e Chiri guanos engrossárão seu pe*

queno exercito. Garcia passou 0

rio ; e abrindo a derrota ou á força

descuberta , ou alliando-se á novas

povoações , ajuntou oiro , e

penetrou até as fronteiras doPerú.

Na volta para o Paraná , no ponto

intermedio cia sua partida , concebeu

o projecto deform _ _Jii hum

estabelecimento estável , q lt- servisse

de pouso á seus com -atriotas ,

que qnizessem aproveitar-se de suas

descubertas. Com esta intenção envioit

ao Brasil dois Portuguezes da

sua comitiva para informarem a

Affonso de Souza do successo da

sua viagem , e para lhe communicar

seus planos ulteriores: além

disso enviou também algumas barras

de oiro para convencer a

seus compatriotas, sua viagem

tinha sabido á medida dos seus desejos.

Apenas os dois emissários de

Garcia se apartáráo delle , quando

os índios, que o acompanha vi ^ ,

6 assassináruo , se apoderárão >


fli40

Historia

seu thesoiro , e aprisfòiiárão s»tt

filho. Eisaqui ao menos, o que a

tradição tem conservado com mais

verosimilhança entre os índios Chanaipes

á respeito da historia deste

aventureiro Portuguez: deve sentir-se

o não se terem recolhido todas

as relações á este respeito. Garcia

devia ser dotado de talentos

extraor-Aries; pois que não sendo

a^ n ip-.iihado , se não por cinco

Europêoí, , tinha chegado a levantar

hum exercito entre os selvagens

, e a abrir até o meio do caminho

, no continente da America

Meridional, derrotas até então desconhecidas.

O respeito , que os índios

destes paizes tributão á sua

memoria, prova bem , que elle era

tão hábil , e tão denodado , como

nenhum dos co r quistadores da America

; e he r> jvavcl , que os excedesse

em humanidade. Os velhos

índios dizião ainda muito tempo

depois da sua morte , que erão ami-

¿[os Ch,í*sCãos, depois que Garc

viera visital-o?, e fazer trocas.


Do Brasil. í2t)

Depois de ter feito celebrar huma

Missa ao Espirito Santo , Souza

lançou os fundamentos da nova cidade

meia - legua pouco mais . ou

menos distante cio estabelecimento

antigo , ao laclo direito do golfo ,

sobre huma eminencia escarpada,y

abundante de agitas perennes , e

que se eleva em p'brttai distancia

cia praia. Elle deu o 'nome de S.

Salvador á esta Metrop >ie,dn Brasil

, situada aos treze gi^js de latitude

austral, perto de ,mm porto

vasto, e comino cia., que se dilata

na Bahia de Todos os Santos. A

cidade clevia occupan lium grande

espaço por causa cjá'desigualdade

do terreno., e dos Jardins numerosos

, que se tinh&o poupado. LevantárSo-se

duas baterias cía parte

do mar , e quatro ('a parte de tetra.

Os 'Tnpinembas , ciliciados pela

influencia de Caramu 1 , pela conducta

circumspecta do Governador >•*,

e pelos generos de troca., que os

colonos oíferecião sem uas

necessidades, e á ¡>na „uiáos.», >

p a » :


228 fíistoríd.

trabalharão com deligencía na edificação

da cidade nascente. Huma

Cathedral, o palacio do Governador,

ea Alfandega forão os primeiros

edifícios traçados , e começados

logo. Em quatro mezes fundarão.se

cem cazas com cercas , e

plantações em utilidade da agricultura.

Não se poupou á dispcza alguma

para a prompta edificação

das I^rejfc >. Elias forão traçadas

sobre ln' r ia escada espaçosa , para

que ein CÍ.SO de necessidade pudessem

servir como de trincheiras , e

de cidadellas. Sua posição bem escolhida

dominava á bahia , e á todo

o campo circumvisinho. Os Missionários

jesuitas obtiverão aposse

de hum terreno immenso , onde

logo fundarão huma Igreja , e hum

Collegio magnif.cos , para os quaes

a Coroa ao d pois lli^s assignou

rendimentos

Reinava a maior actividade na

fundação d-« nova capital. O Gove,'^Uor

r-ral presidia pessoal-

V ao: trabalhos ; elie pen?


Do Braqit. a


fli40 Historia

liç^.o terrível , se abstiverâo de ir

aftoutamente ao meio dos selvagens.

Dentro em pouco tempo levantou-se

hutn muro de terra ao redor

da cidade , como huma fortificação

temporaria de huma força sufficiente

contra as hordas dos índios. Os

colonos , pacíficos possuidores do

-territoric ^. costa , virão a Capital

do Br a, J levantar-se, dominar

á hum poi o espaçoso , e commodo ,

tendo de hum lado o vasto mar ,

e de outro hum lago , que se alargava

, e terminava na praia , cercava

, e defendia a cidade pela

parte do Norte. Huma tão feliz

situação a fazia naturalmente muir

o forte. Fossos , paliçadas , e muitas

peças de artilheria a puzerão

logo á abrigo de qualquer surpreza.

Passou 9 ..er o centro do governo

, e da colônia , e se estabeleceu

nella h:.m Tribunal Real. Thomé

de Souza voltou logo sua att^jjík}

par as differentes capitanj';?.

c|ue se tinhão successivamente


Do Brasil. í2t)

levantado em todas as partes da

marinha do Brasil. Visitou-as, examinou

suas fortificações, regulou a

administração cia ]usriça , e ordenou

aos clifferentes Commandantes,

ou senhores concessionários , que

não emprehendessem descnberta alguma

nova , ou expedição alguma

hostil sem huma ordt-m especial ,

emanada delle ; porque não queria

(dizia elle) oppôr , senãihuma defeza

legitima ás aggressnp/ das povoações

selvagens. Restringidos assim

em justos limites os privilégios

dos grandes concessionários não

servirão de obstáculo á acção

do governo geral, que desde então

pôde dar hum impulso uniforme ao

systema de defeza commum , e á

administração colonial.

No anno seguinte a Corte de

Lisboa enviou soccc-os de toda a

qualidade á Capital cu.s novas posi

sessões. A dispeza total dos dois

armamentos foi avaliada em trezentos

mil cruzados.

Chegou igualmente outra- iro» a


Historia

de Lisboa á Bahia no terceiro anV

no, Neila tinha a Rainha de Portugal

feito embarcar muitas órfãs

de famílias nobres, que devião ser

casadas com officiaes , ou com sugeitos

, que tivessem empregos públicos.

Derão-selhes em dote, á

custa da Fazenda Real , negtos ,

vaccas, e cavallos: erão estes os

objectos, que constituião a primeira

riqueza da colônia nascente. Forão

também enviados de Lisboa meninos

orfãos para serem educados

pelos Missionários Jesuítas; e todos

os annos chegavão á Bahia navios

, que trazião os mesmos soccorros

, as mesmas addiiçoes de

meios, e de forças. Taes medidas

fizerão prosperar rapidamente tanto

a Capital do Brasil , como as

cidades , e víllas da costa , que participavão

do seu augmento súccessivo.

Mas isto não era , por assim dizer

, se não huma prosperidade mater'

' , e p 'itica ; por que a mo-

& a Religião são os únicos fun-


Do Brasil. í2t)

damentos reaes das sociedades. Debaixo

desta ultima relação tndo estava

ainda por crear no Brasil;

todas as desordens , os excessos de

toda a qualidade estavão levados

ao maior gráo entre os colo ios. Para

impedir o curso desta devassidão

nada menos era preciso , que restabelecer

o. império dos costumes.

Este triumfo estava reservado á

Religião , e aos Missionários Jesuítas.

"Nós vamos vêl-os esnalhar por

todas as partes as luzes da civili»

sação , e como verdadeiros Apóstolos

multiplicar seus esforços , para

leprimir a cubiça feroz dos invasores

Portuguezes, e a vingança

talvez muito justa dos povos selvagens.

FIM DO PRIMEIRO TOMO.


M

(« i

h\


L I S T A

Dos Senhores Subscritores

para a Historia do Brasil.

.Â. Gostinho Coelho de Almeida."

Alexandre Fortes de Bustamante

Sá.

Alexandre Gil Vaz Lobo.

Angelo de Proença Unhão.

Antonio Alves.

Antonio Alves de Brito.

Antonio de Abreu Froes.

Antonio Firmino Chaves.

Antonio Garcia Pacheco de Almeida.

Antonio Gomes Fogaça.

Antonio José Lopes de Araujo ,

filho.

Antonio José de Medeiros.

Antonio José Moreira .Guimaraens.

Antonio José Pinto.

Antonio Manoel dos Santos.

* Antonio Mauricio Salgueiro Nogueira.

' ;

Antonio Nascentes Pinto.

«i


Antonio Pereira Gonçalves.

Antonio Pinheiro de S. Paio

Bernardo, Carneiro Pinto de Almeida.

Bernardo Joaquim da Costa.

Bbpo Eleito de Meliapor.

Camillo Caetano dos Reis.

Candido Lazaro de Moraes.

Carlos dos Santos de Oliveira Pinto.

Cezareo Marianno.

Claudiano José cie Matos.

Claudio José dos Santos.

Damião Pereira da Costa.

Domingos Alves Loureiro.

Emiliano Faustino Lins.

Estanisláo Francisco Lopes,

Eugénio Martins Pimentel.

Felizardo Joaquim da Silva Moraes.

Fernando Carneiro Leão.

Fidelis Honorio da Silva dos Santos

Pereira.

Filipp e J 0sé fie Medeiros.

Francisco Antonio da Fonceca Cunha.

Francisco Caetano da Silva.

Francisco Claudio Pinto da Cunha t,

f Souza.

Francisco Joaquim de Lima.

fA


Francisco ]osé Alves da Silva.

Francisco José de Brito.

Francisco José Gomes da Silvai

Francisco José Guimarães.

Francisco José Nicoláo.

Francisco ]o é Rodrigues.

Francisco Julio Xavier.

Francisc de Lemos de Faria Pereira

Coutinho.

Fra ncisco Maria Gordilho Velozo

Barbuda.

Francisco Manoel da Silva e Mello.

Francisco de Paula Cominho.

Francisco Pinto de Barros.

Francisco da Silva Alves.

Francisco da Silva Barros.

Francisco Xavier Dantas Moreira.

Gaspar Jose de Matos Ferreira Lucena.

Geraldo Carneiro Belleus.

Henrique José Pinto Ribeiro de Vasconcellos

, e Sousa.

Jacinto de Mello Menezes Palliares.

Januário Mathtns do Kego.

Jeronimo Gonçalves Guimarães.

João Alves de Souza Guimarães.

João Antonio Airoza.

João Baptista de. Almeida.


JoSo Baptista c!e Freiras.

João Baptista Trancozo de Lira.

João Carneiro de Campos.

João Coireia de Figueiredo.

João ria Cruz dos Reis.

João Diniz Vieira.

João Francisco Leal.

Jof.o )osé rle Mello. > '

j ão Manoel Martins da Costa,

jnão Martins Lourenço Viana.

João Nt-pomuceno de Souza.

João de Oltveira Cunha.

João Pedre de Carvalho.

João Rodiigues da Costa.

João de Souza Murça.

Joaquim Caetano Fernandes Pinheiro.

Joaquim Dias Medronho.

Joaquim Dias Moreira.

Joaquim Gonçalves de Moraes.

Joaquim Ignacio Moreira Dias.

Fr. Joaquim de S. José.

Joaquim José Cardo?o.

Joaquim José da Cruz Secco.

Joaquim Jqeé Cornet da Silva , filho-

Joaquim José Pereira do Faro.

Joaquim José ¡da Silva.

JoaOTim José de Siqueira,

joa^r.im d?,. Mtilo Rodrigues.

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