Revista Brasileira de Ornitologia - Sociedade Brasileira de Ornitologia

ararajuba.org.br

Revista Brasileira de Ornitologia - Sociedade Brasileira de Ornitologia

Revista

Brasileira de

Ornitologia

ISSN 0103-5657

VOLUME 15, NÚMERO 4 – DEZEMBRO DE 2007

PUBLICADA PELA

SOCIEDADE BRASILEIRA DE ORNITOLOGIA

São Paulo, SP


Revista

Brasileira de

Ornitologia

EDITOR: Luís Fábio Silveira, Universidade de São Paulo, São Paulo, SP (lfsilvei@usp.br).

EDITORES DE ÁREA: Ecologia: James J. Roper, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, PR e Pedro F. Develey, BirdLife/Save Brasil,

São Paulo, SP. Comportamento: Marcos Rodrigues, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG e Regina H. F. Macedo,

Universidade de Brasília, Brasília, DF. Sistemática, Taxonomia e Distribuição: Alexandre Aleixo, Museu Paraense Emílio Goeldi, Belém,

PA e Luiz Antônio Pedreira Gonzaga, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ.

CONSELHO EDITORIAL: Edwin O. Willis, Universidade Estadual Paulista, Rio Claro, SP; Enrique Buscher, Universidad Nacional de

Córdoba, Argentina; Jürgen Haffer, Essen, Alemanha; Richard O. Bierregaard, Jr., University of North Caroline, Estados Unidos; José Maria

Cardoso da Silva, Conservação Internacional do Brasil, Belém, PA; Miguel Ângelo Marini, Universidade de Brasília, Brasília, DF; Luiz

Antônio Pedreira Gonzaga, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE ORNITOLOGIA

(Fundada em 1987)

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(2007-2009)

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(secretaria.sbo@ararajuba.org.br).

2° SECRETÁRIO: Marcio Amorim Efe (marcio_efe@yahoo.com.br).

1° TESOUREIRO: Jan Karel Félix Mähler Jr. (jancibele@via-rs.net).

2° TESOUREIRO: Claiton Martins Ferreira (claiton.ferreira@ufrgs.br).

Conselho Deliberativo

2006-2010: Marcos Rodrigues, Universidade Federal de Minas Gerais; Fábio Olmos, Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos; Rafael

Dias, Universidade Católica de Pelotas.

2004-2008: Rudi Ricardo Laps, Universidade Regional de Blumenau; Joaquim Olinto Branco, Universidade do Vale do Itajaí.

Conselho Fiscal

(2006-2008)

Paulo Sérgio Moreira da Fonseca, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social; Celine Melo, Universidade Federal de Uberlândia;

Sérgio Pacheco, Universidade Federal de Viçosa.

A Revista Brasileira de Ornitologia (ISSN 0103-5657) é editada sob a responsabilidade da Diretoria e do Conselho Deliberativo da Sociedade

Brasileira de Ornitologia, com periodicidade trimestral, e tem por finalidade a publicação de artigos, notas curtas, resenhas, comentários,

revisões bibliográficas, notícias e editoriais versando sobre o estudo das aves em geral, com ênfase nas aves neotropicais. A assinatura anual

da Revista Brasileira de Ornitologia custa R$ 50,00 (estudantes de nível médio e de graduação), R$ 75,00 (estudantes de pós-graduação),

R$ 100,00 (individual), R$ 130,00 (institucional), US$ 50,00 (sócio no exterior) e US$ 100,00 (instituição no exterior), pagável em cheque

ou depósito bancário à Sociedade Brasileira de Ornitologia (ver www.ararajuba.org.br). Os sócios quites com a SBO recebem gratuitamente

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Vianna Mohr (secretaria.sbo@ararajuba.org.br) ou (61) 8142-1206).

Projeto Gráfico: Cecília Banhara Marigo

Diagramação: Airton de Almeida Cruz (airtoncruz@hotmail.com)

Capa: bicudinho-do-brejo macho (Stymphalornis acutirostris) (veja Reinert et al., pp. 493 a 519). Foto: Ricardo Belmonte-Lopes.

Cover: male of Marsh Antwren (Stymphalornis acutirostris) (see Reinert et al., pp. 493 to 519). Photo: Ricardo Belmonte-Lopes.


Revista

Brasileira de

Ornitologia

VOLUME 15, NÚMERO 4 – DEZEMBRO DE 2007

PUBLICADA PELA

SOCIEDADE BRASILEIRA DE ORNITOLOGIA

São Paulo, SP


Revista

Brasileira de

Ornitologia

Artigos publicados na Revista Brasileira de Ornitologia são indexados por:

Biological Abstract e Zoological Record.

Tiragem: 400 exemplares

FICHA CATALOGRÁFICA

REVISTA BRASILEIRA DE ORNITOLOGIA

(Sociedade Brasileira de Ornitologia)

São Paulo, Brasil, 1990-

1990-2006, 1-14

2007, 15 (4)

Trimestral

ISSN 0103-5657 CDU598.2

Distribuído em julho de 2008


Revista

Brasileira de

Ornitologia

Volume 15 – Número 4 – Dezembro de 2007

SUMÁRIO

ARTIGOS

Bianca Luiza Reinert, Marcos Ricardo Bornschein e Carlos Firkowski

Distribuição, tamanho populacional, hábitat e conservação do bicudinho-do-brejo Stymphalornis acutirostris Bornschein, Reinert e Teixeira, 1995

(Thamnophilidae)................................................................................................................................................................................................................... 493-519

Distribution, population size, habitat and conservation of the Marsh Antwren, Stymphalornis acutirostris Bornschein, Reinert e Teixeira, 1995

(Thamnophilidae).

Maria Antonietta Castro Pivatto, José Sabino, Silvio Favero e Ido Luiz Michels

Perfil e viabilidade do turismo de observação de aves no Pantanal Sul e Planalto da Bodoquena (Mato Grosso do Sul) segundo interesse dos visitantes 520-529

Profile and viability of birdwatching tourism in the South Pantanal and Bodoquena Plateau (Mato Grosso do Sul) according to visitors’ interests.

Leonardo Esteves Lopes e Vívian S. Braz

Aves da região de Pedro Afonso, Tocantins, Brasil............................................................................................................................................................... 530-537

Birds of Pedro Afonso region, Tocantins, Brazil.

Luiza Angelini Leal Domingues e Marcos Rodrigues

Área de uso e aspectos da territorialidade de Schistochlamys ruficapillus (Thraupidae) em seu período não-reprodutivo.................................................. 538-542

Areas of use and territoriality of Schistochlamys ruficapilus (Thraupidae) during its non-breeding season.

Francisco Voeroes Dénes, Caio José Carlos and Luís Fábio Silveira

The albatrosses of the genus Diomedea Linnaeus, 1758 (Procellariiformes: Diomedeidae) in Brazil.................................................................................. 543-550

Os albatrozes do gênero Diomedea Linnaeus, 1758 (Procellariiformes: Diomedeidae) no Brasil.

Robson Silva e Silva e Fábio Olmos

Adendas e registros significativos para a avifauna dos manguezais de Santos e Cubatão, SP.............................................................................................. 551-560

New and important records from the mangroves of Santos and Cubatão, SP.

Beatriz A. Ribeiro, Lucas A. Carrara, Fabrício R. Santos and Marcos Rodrigues

Sex-biased help and possible facultative control over offspring sex ratio in the Rufous-fronted Thornbird, Phacellodomus rufifrons............................... 561-568

Possível controle facultativo na razão sexual de ajudantes no joão-graveto, Phacellodomus rufifrons.

Nadinni Oliveira de Matos Sousa e Miguel Ângelo Marini

Biologia de Culicivora caudacuta (Aves: Tyrannidae) no Cerrado, Brasília, DF................................................................................................................. 569-573

Life history aspects of Culicivora caudacuta (Tyrannidae) in Brazilian Central Cerrado (Brasília, DF).

Alexandre Curcino, Carlos Eduardo R. de Sant’Ana e Neander Marcel Heming

Comparação de três comunidades de aves na região de Niquelândia, GO............................................................................................................................ 574-584

Comparison of three bird communities near Niquelândia, in the state of Goias.

Shayana de Jesus e Emygdio Leite de Araujo Monteiro-Filho

Frugivoria por aves em Schinus terebinthifolius (Anacardiaceae) e Myrsine coriacea (Myrsinaceae)................................................................................. 585-591

Frugivory by birds in Schinus terebinthifolius (Anacardiaceae) and Myrsine coriacea (Myrsinaceae).

Ivan Sazima

The jack-of-all-trades raptor: versatile foraging and wide trophic role of the Southern Caracara (Caracara plancus) in Brazil, with comments on

feeding habits of the Caracarini.............................................................................................................................................................................................. 592-597

O raptor pau-para-toda-obra: forrageio versátil e ampla função trófica do caracará (Caracara plancus) no Brasil, com comentários sobre hábitos

alimentares de Caracarini.

NOTAS

Daniel Tourem Gressler and Miguel Ângelo Marini

Nest, eggs and nestling of the Collared Crescentchest Melanopareia torquata in the Cerrado region, Brazil..................................................................... 598-600

Ninho, ovos e ninhego de Melanopareia torquata (Melanopareiidae) na região do Cerrado, Brasil.

Túlio Dornas e Renato Torres Pinheiro

Predação de Opisthocomus hoazin por Spizaetus ornatus e de Bubulcus ibis por Bubo virginianus em Tocantins, Brasil.................................................. 601-604

Predation of Cattle Egret by the Great Horned Owl and Hoazin by the Ornate Hawk-Eagle in western Tocantins State, Brazil.


Adrian Eisen Rupp, Cláudia Sabrine Brandt, Daniela Fink, Gregory Thom e Silva, Rudi Ricardo Laps e Carlos Eduardo Zimmermann

Registros de Caprimulgiformes e a primeira ocorrência de Caprimulgus sericocaudatus (bacurau-rabo-de-seda) no Estado de Santa Catarina, Brasil.... 605-608

Records of Caprimulgiforms and the first occurrence of Caprimulgus sericocaudatus (Silky-tailed Nightjar) in Santa Catarina State, Brazil.

Ana Cristina Venturini e Pedro Rogerio de Paz

Variação de cores da plumagem em indivíduos de Nemosia rourei com indicação de juvenis............................................................................................. 609-610

Diversification of the colors in Nemosia rourei plumage with indication of young birds.

Ivan Sazima

Frustrated fisher: geese and tilapias spoil bait-fishing by the Green Heron (Butorides striata) in an urban park in Southeastern Brazil............................ 611-614

Pescador frustrado: gansos e tilápias prejudicam pesca com isca do socozinho (Butorides striata) num parque urbano no sudeste do Brasil.

Charles Duca and Wellington Modesto

Spider web as a natural trap for small birds........................................................................................................................................................................... 615-616

Teia de aranha como uma armadilha natural para aves pequenas.

Ivan Sazima

From carrion-eaters to bathers’ bags plunderers: how Black Vultures (Coragyps atratus) could have found that plastic bags may contain food.............. 617-620

De necrófagos a saqueadores de sacolas de banhistas: como urubus-de-cabeça-preta (Coragyps atratus) podem ter descoberto que sacos plásticos

conteriam alimento.

RESENHA

Albatrosses, petrels and shearwaters of the world

Caio J. Carlos.......................................................................................................................................................................................................................... 621-622

CONGRESSOS

2009 - Animal Behavior Society Meeting

2010 - 25th International Ornithological Congress................................................................................................................................................................ 623-624

NORMAS PARA PUBLICAÇÃO

Instruções aos Autores............................................................................................................................................................................................................ 625-626

Instrucciones a los Autores..................................................................................................................................................................................................... 627-628

Instructions to Authors........................................................................................................................................................................................................... 629-630


ARTIGO

Revista Brasileira de Ornitologia 15(4):493-519

dezembro de 2007

Distribuição, tamanho populacional, hábitat e conservação

do bicudinho-do-brejo Stymphalornis acutirostris Bornschein,

Reinert e Teixeira, 1995 (Thamnophilidae)

Bianca Luiza Reinert 1 , Marcos Ricardo Bornschein 2 e Carlos Firkowski 3

1. Pós-Graduação em Ciências Biológicas, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” e Mater Natura,

Instituto de Estudos Ambientais. Avenida Senador Souza Naves, 701, Apto. 191, 80050‐040, Curitiba, PR, Brasil.

E‐mail: biancareinert@yahoo.com.br

2. Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos e Liga Ambiental.

Rua Olga de Araújo Espíndola, 1380, Bloco N, Apto. 31, 81050‐280, Curitiba, PR, Brasil. E‐mail: mbr@bbs2.sul.com.br

3. Departamento de Ciências Florestais, Universidade Federal do Paraná.

Rua Prefeito Ângelo Lopes, 565/11, 80050‐330, Curitiba, PR, Brasil. E‐mail: firko@ufpr.br

Recebido em 21 de dezembro de 2005; aceito em 25 de julho de 2006.

Abstract: Distribution, population size, habitat and conservation of the Marsh Antwren, Stymphalornis acutirostris Bornschein, Reinert e Teixeira,

1995 (Thamnophilidae). The Marsh Antwren (Stymphalornis acutirostris) is restricted to the lowlands between Antonina Bay, in the coastal plain of

the state of Paraná, and Itapocu river, in the northern coastal plain of the state of Santa Catarina (from 0 to c. 5 m a.s.l.). It doesn’t occur continuously in

this region, being found in eight populations that span over an total area of about 6,060 ha (= area of occupancy; 4,856.67 in Paraná and c. 1,200 in Santa

Catarina). Nine habitat types used by the Marsh Antwren were defined, based on vegetation physiognomy, localization, dominancy of botanical species,

dominant life-form and history of the region. Five of these are herbaceous (marshes), while four have an upper arboreal stratum and an herbaceous lower

stratum with marsh plants. According to the classification criteria of the Brazilian vegetation proposed by the Radambrasil Project, they were classified as

Pioneering Formation of Fluvial Influence, Pioneering Formation of Fluvial-marine Influence, and/or Pioneering Formation of Lacustrine Influence. They

occur as patches or narrow strips ranging from 0.001 to 203.0 ha in the state of Paraná. They are found mainly in the interior of bays, in the lower courses of

rivers that drain into bays, in alluvial plains, and between sand dunes in the coastal plain. Characteristic herbaceous species are cattail (Typha domingensis),

bulrush (Scirpus californicus), Crinum salsum, Panicum sp. cf. P. mertensii, saw grass (Cladium mariscus) and Fuirena spp. Hibiscus pernambucensis

is the characteristic bush species, and Calophyllum brasiliense, Tabebuia cassinoides, Annona glabra and Laguncularia racemosa are the characteristic

arboreal species. The Marsh Antwren lives in herbaceous vegetation, but also uses bushes and branches of small tress. It has low flight capacity and a single

flight of more than 25 m was never recorded. Territories of 0.25 ha were estimated in one kind of habitat (“tidal marsh”) (= 8 individuals per hectare) and of

3.2 ha in another one (“saw grass marsh”) (= 0.62 individual per hectare). The global population estimate is of about 17,700 mature individuals (13,700 in

Paraná and 4,000 in Santa Catarina). The species is really under threat of extinction, mainly because of it’s restricted geographical distribution and habitat

loss by human activities and biological contamination caused by invasion of exotic grasses (Urochloa arrecta and Brachiaria mutica).

Key-words: Stymphalornis acutirostris, Marsh Antwren, habitat, geographic distribution, area of occupancy, territory, population, conservation.

Resumo: O bicudinho-do-brejo (Stymphalornis acutirostris) é restrito à planície litorânea entre a baía de Antonina, no Paraná, e o rio Itapocu, em

Santa Catarina (de 0 a c. 5 m s.n.m.), sul do Brasil. Não ocorre continuamente nessa região, e sim em oito populações, cujas distribuições geográficas

totalizaram uma área de cerca de 6.060 ha (= área de ocupação; 4.856,67 no Paraná e cerca de 1.200 em Santa Catarina). Considerando-se a fisionomia,

localização, dominância de espécies botânicas, forma biológica dominante e histórico da região, definiu-se nove ambientes habitados por S. acutirostris,

sendo cinco herbáceos (brejos) e quatro que possuem um estrato superior arbóreo e um inferior herbáceo com espécies características dos brejos.

Denominam-se como Formação Pioneira de Influência Fluvial, Formação Pioneira de Influência Fluviomarinha e/ou Formação Pioneira de Influência

Lacustre, conforme os critérios da proposta de classificação da vegetação brasileira do Projeto Radambrasil. Ocorrem principalmente como manchas ou

faixas estreitas e que no Paraná variaram de 0,001 a 203,0 ha. Estão localizadas principalmente no interior de baías e nos trechos mais a jusante de rios

que nelas deságuam, em planícies aluviais e entre cordões de dunas em planície costeira. Herbáceas características são a taboa (Typha domingensis), piri

(Scirpus californicus), cebolama (Crinum salsum), capim-pernambuco (Panicum sp. cf. P. mertensii), capim-serra (Cladium mariscus) e Fuirena spp.

Arbustiva característica é a uvira (Hibiscus pernambucensis) e as arbóreas características são o guanandi (Calophyllum brasiliense), caxeta (Tabebuia

cassinoides), ariticum-do-brejo (Annona glabra) e mangue-vermelho (Laguncularia racemosa). Stymphalornis acutirostris vive na vegetação herbácea,

freqüentando também arbustos e galhos de árvores. Tem limitada capacidade de vôo; não se registrou um único vôo de mais de 25 m. Estimaram-se

territórios de 0,25 ha em um ambiente (brejo de maré) (= 8 indivíduos por hectare) e de 3,2 ha em outro (brejo de capim-serra) (= 0,62 indivíduo por

hectare). A estimativa populacional é de cerca de 17.700 indivíduos maduros (13.700 no Paraná e 4.000 em Santa Catarina). A espécie é realmente

ameaçada de extinção, principalmente pela reduzida distribuição geográfica e perda de ambientes, que é causada pelo homem e, sobretudo, por

contaminação biológica decorrente da invasão de capins exóticos (Urochloa arrecta e Brachiaria mutica).

Palavras-chave: Stymphalornis acutirostris, ambiente, distribuição geográfica, área de ocupação, território, população, conservação.

O bicudinho-do-brejo (Stymphalornis acutirostris), único Thamnophilidae

estritamente palustre (Zimmer e Isler 2003: 492),

foi descrito como espécie nova em um gênero novo no final

de 1995 (Bornschein et al. 1995) (capa, figura 1). Foi descoberto

em um fragmento de brejo em área bastante urbanizada

e distante cerca de 80 m de uma rodovia no balneário Ipaca-


494 Bianca Luiza Reinert, Marcos Ricardo Bornschein e Carlos Firkowski

Figura 1. Macho (esquerda) e fêmea (direita) do bicudinho-do-brejo (Stymphalornis acutirostris). Fotos: B.L.R.

Figure 1. Male (left) and female (right) of Marsh Antwren (Stymphalornis acutirostris). Photos: B.L.R.

ray, litoral do Estado do Paraná (Bornschein et al. 1995). Pesa

em torno de 10 g de massa corporal, mede cerca de 14 cm de

comprimento (Bornschein et al. 1995) e apresenta dimorfismo

sexual: o ventre é cinza-anegrado no macho adulto e manchado

de branco e preto na fêmea (Reinert e Bornschein 1996).

Logo após a descrição, várias ações visando a conservação da

espécie foram iniciadas. Dentre elas, solicitou-se sua inclusão

na lista de fauna ameaçada de extinção no Brasil, o que se

concretizou mediante a publicação da Portaria no. 62, de 17 de

junho de 1997, do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos

Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) (vide Paiva 1999).

Além da descrição original, baseada em uma fêmea e

macho jovem (Bornschein et al. 1995), e da descrição do

macho adulto (Reinert e Bornschein 1996), há informações

gerais sobre a espécie em Sick (1997), BirdLife International

(2000), Zimmer e Isler (2003) e Straube et al. (2004), onde ela

foi considerada ameaçada de extinção no Paraná. Brooks et al.

(1999) a consideraram endêmica do bioma Floresta Atlântica

e Naka et al. (2000) divulgaram duas localidades de registro

no litoral norte de Santa Catarina. Luiz P. Gonzaga efetuou

seu doutoramento com a filogenia de Formicivora a partir de

dados morfológicos e vocais, incluindo Stymphalornis. Na

publicação de um resumo do seu estudo, citou, entre algumas

conclusões, que Stymphalornis deve ser considerado sinônimo

de Formicivora (Gonzaga 2001). Na ausência de uma publicação

formal, com a necessária discussão acerca dos elementos

que sustentariam essa conclusão, o tratamento taxonômico

aqui utilizado segue Zimmer e Isler (2003) e Comitê Brasileiro

de Registros Ornitológicos (2005), que consideraram o arranjo

proposto na descrição original da espécie.

Diversas informações sobre a espécie foram divulgadas por

B.L.R. e M.R.B. em livros de resumos de congressos, artigos

de divulgação científica e livro de divulgação (Corrêa 2005),

sendo parte dessas fontes a origem de muitas das informações

gerais citadas nas obras mencionadas anteriormente. Estudos

com a espécie ainda foram o tema da dissertação de mestrado

de B.L.R. (Reinert 2001), e dados sobre ela foram utilizados

na de M.R.B. (Bornschein 2001). Grande parte dessas informações

é alvo do presente trabalho, no qual se aborda a distribuição

geográfica, tamanho da área de ocorrência, território,

estimativa populacional e caracterização dos ambientes de

ocorrência de S. acutirostris.

Material e Métodos

Em concordância com o termo popular adotado em muitas

regiões brasileiras e com a terminologia apresentada nos

resultados, os ambientes pioneiros em estágio herbáceo serão

denominados, doravante, de brejos, quando não houver necessidade

do uso de termos técnicos. Esses, por sua vez, citados

em maiúsculo, são aqueles propostos pelo Projeto Radambrasil

(in Veloso et al. 1991, IBGE 1992).

Distribuição geográfica e ambientes de ocorrência. Do final

de 1995 a 1997, realizaram-se diversas campanhas no litoral

do Paraná e do norte de Santa Catarina visando-se conhecer os

ambientes de vida e novas áreas de ocorrência de S. acutirostris.

Procurou-se por ele em Formação Pioneira de Influência

Fluvial, Formação Pioneira de Influência Lacustre, Formação

Pioneira de Influência Fluviomarinha e Formação Pioneira de

Influência Marinha nos estágios herbáceo, herbáceo-arbóreo

e arbóreo, em Floresta Ombrófila Densa das Terras Baixas e

em Floresta Ombrófila Densa Aluvial. De 1998 a 2000, realizaram-se

12 campanhas de busca pela espécie e caracterização

dos seus ambientes de ocorrência, as quais totalizaram

84 dias em campo, distribuídas do litoral sul de São Paulo ao

do norte de Santa Catarina. Nessas, procurou-se pela espécie

apenas nos ambientes anteriormente identificados como sendo

de sua ocorrência (Formações Pioneiras de Influência Fluvial,

Lacustre e Fluviomarinha nos estágios herbáceo e herbáceoarbóreo).

A região dos rios Una da Aldeia, Suá Mirim, Peropava,

da Ribeira do Iguape e da Momuna, entre outros, município

de Iguape, São Paulo, constitui o extremo norte traba-


Distribuição, tamanho populacional, hábitat e conservação do bicudinho-do-brejo

Stymphalornis acutirostris Bornschein, Reinert e Teixeira, 1995 (Thamnophilidae)

495

lhado (c. 24°30’S, 47°30’W), ao passo que os rios Camboriú

e Peroba, nos municípios de Camboriú e balneário Camboriú,

em Santa Catarina, o extremo sul (c. 27°00’S, 48°38’W). Em

cada ponto de amostragem, realizou-se 5 min de playback em

intervalos regulares de pausa, perfazendo cerca de 9 min de

espera por ponto. Também procurou-se pela espécie nas várzeas

do rio Paraná, especificamente no Parque Nacional de Ilha

Grande e arredores, oeste do Paraná e sudeste do Mato Grosso

do Sul (novembro e dezembro de 1995, janeiro de 1996, junho

de 1997, maio a junho de 1999, novembro de 2002 e fevereiro

de 2003), e no litoral sul de Santa Catarina (julho de 2003).

Os locais de pesquisa foram acessados a pé, por veículo e,

principalmente, por barco. Auxiliou no acesso a eles estudos

fitogeográficos, imagens de satélites, fotografias aéreas, base

cartográfica em diferentes escalas, entrevistas com moradores

locais e contratação de guias. De cada local amostrado, tomaram-se

as coordenadas geográficas mediante o uso de GPS e

identificou-se e descreveu-se o tipo de ambiente (vide abaixo).

Outras anotações também foram feitas, como localidade, data,

condições do tempo, croqui esquemático da paisagem, aves

observadas e a presença ou não de S. acutirostris, incluindo

modo de contato (visual e/ou auditivo), tempo de resposta ao

playback e o número, sexo e idade dos indivíduos registrados.

Os ambientes foram identificados conforme os critérios para

a classificação da vegetação brasileira propostos pelo Projeto

Radambrasil (in Veloso et al. 1991, IBGE 1992).

Território e população. Estimou-se a área (em ha) ocupada por

nove casais da espécie em dezembro de 1998 (= território, tipo

“Breeding Territory”, “A”, de Pettingill 1985), conforme Silva

(1988). Depois de acompanhados, os casais foram capturados

com auxílio de rede ornitológica e marcados com anilhas coloridas

e metálicas (conforme IBAMA 1994), essas do Centro de

Pesquisa para a Conservação das Aves Silvestres (CEMAVE).

A marcação com anilhas coloridas seguiu um código de cores

visando o reconhecimento individual das aves no campo. Uma

semana após o anilhamento, acompanharam-se novamente os

mesmos casais para a conferência dos perímetros dos territórios,

os quais tiveram a área estimada após medição em campo

auxiliada por uma trena (50 m). A determinação dos territórios

foi facilitada pela escolha dos locais (margem dos rios São

João e Boguaçu, município de Guaratuba, Paraná), os quais se

caracterizavam por faixas estreitas de brejo em meio a outros

ambientes não utilizados pela espécie. Avaliou-se o tamanho

de territórios em dois ambientes (“brejo de maré”, n = 6

casais, e “brejo de capim-serra”, n = 3 casais), considerados

representativos de um grupo de ambientes onde S. acutirostris

é comum e de outro onde ele é raro.

Para estimar o tamanho populacional de S. acutirostris,

tomaram-se os valores médios de densidades (indivíduos por

hectare) obtidas em cada ambiente. Cada qual foi multiplicado

pela área total do grupo de ambientes que representavam: densidade

no brejo de maré por grupo de ambientes onde a espécie

é comum e densidade no brejo de capim-serra por grupo

de ambientes onde ela é rara (vide “Estimativa de áreas, território

e população” abaixo). Para a estimativa da área dos

ambientes ocupados pela espécie, vide “Identificação e quantificação

dos ambientes de ocorrência”, adiante.

Caracterização da vegetação. Efetuaram-se caracterizações

quali-quantitativas da vegetação de ambientes de ocorrência

de S. acutirostris. A dos brejos foi efetuada conforme

Braun-Blanquet (1979). Utilizaram-se parcelas de 1 m 2 , que

foram delimitadas por um gabarito colocado sobre a vegetação

ao longo de um transecto guiado por uma trena de 50 m

de comprimento. Cada parcela de amostragem foi espaçada

da outra por 1 m. Utilizou-se um total de 50 parcelas por

ambiente trabalhado, valor determinado por meio de curva de

esforço amostral. As transeções (100 m) incluíram a zonação

eventualmente observada no brejo. Anotaram-se as espécies

registradas por parcela, suas alturas máximas, formas biológicas

e respectivos valores de cobertura e sociabilidade, que

foram estimados conforme os seguintes intervalos, adaptados

de Braun-Blanquet (1979). Cobertura: R = espécie rara,

com cobertura inferior a 1%; 1 = cobertura entre 1 e 5%;

2 = cobertura entre 5 e 25%; 3 = cobertura entre 25 e 50%;

4 = cobertura entre 50 e 75%; e 5 = cobertura superior a 75%.

Sociabilidade: 1 = indivíduos ou fustes isolados; 2 = indivíduos

formando pequenos grupos; 3 = indivíduos formando

grandes grupos; 4 = indivíduos formando grandes massas; e

5 = população contínua. A cobertura indica a proporção de

área ocupada pela projeção da porção aérea dos indivíduos de

cada espécie no trecho amostrado (Matteucci e Colma 1982)

e a sociabilidade a densidade de ocorrência desses indivíduos

(Braun-Blanquet 1979).

A caracterização qualitativa das arbóreas dos ambientes

onde havia um estrato superior arbóreo e um inferior herbáceo,

com espécies características de brejos, efetuou-se com a

alocação de parcelas de 100 m 2 demarcadas com estacas e distribuídas

sistematicamente ao longo de uma linha-mestra de

100 m paralela ao curso d’água (exceto no “manguezal com

herbáceas”; vide abaixo). Incluiu-se na amostragem indivíduos

com perímetro do(s) tronco(s), a 1,3 m do solo, igual ou

superior a 15 cm, dos quais se registrou a espécie, altura total

e perímetro na altura do peito (PAP), entre outras observações.

No “guanandizal com herbáceas” alocou-se 20 parcelas e no

“caxetal com herbáceas” 30 (vide “RESULTADOS” abaixo).

Nos mesmos locais onde se realizou a amostragem de arbóreas

realizou-se a de herbáceas, tal qual efetuada nos brejos.

O método de parcelas de 1 m 2 não foi aplicável para amostrar

o estrato herbáceo de um ambiente com cobertura arbórea,

o “manguezal com herbáceas” (vide “RESULTADOS”

abaixo), devido à grande altura de uma arbustiva. Por isso,

a caracterização qualitativa desse ambiente, tanto do estrato

arbóreo quanto herbáceo, foi efetuada com a utilização do

método de “linha de interceptação”, conforme Brower e Zar

(1984). Esse método consiste na amostragem de todos os

indivíduos que apresentam a projeção da cobertura das partes

aéreas sobre uma linha marcada com auxílio de uma trena

(transeção). Demarcou-se três linhas perpendiculares ao curso


496 Bianca Luiza Reinert, Marcos Ricardo Bornschein e Carlos Firkowski

d’água (duas com 30 m e uma com 40 m de extensão), totalizando

100 m de amostragem.

Não foram amostrados qualitativamente dois ambientes

com ocorrência de S. acutirostris (“brejo de meandro” e

“ariticunzal com herbáceas”; vide “RESULTADOS” abaixo).

Muitas outras áreas além daquelas trabalhadas por meio de

parcelas ou transeções foram avaliadas quanto aos parâmetros

fitossociológicos cobertura e sociabilidade, conforme a adaptação

de Braun-Blanquet (1979) detalhada anteriormente, mas

levando-se em consideração as espécies vegetais dominantes

encontradas.

Para permitir e/ou comprovar a identificação das plantas

observadas, realizou-se coleta de espécimes férteis. O material

botânico foi preparado em campo e, posteriormente, exsicatado

em conformidade com as técnicas de herborização descritas

em Fidalgo e Bononi (1984) e IBGE (1992). As exsicatas

foram depositadas nos herbários do Departamento de Botânica

(UPCB – Universidade Paraná Ciências Biológicas) e de Ciências

Florestais (EFC – Escola de Florestas de Curitiba) da Universidade

Federal do Paraná. Identificaram o material botânico

coletado diversos especialistas, a saber: A. O. S. Vieira

(Onagraceae), A. D. Faria (Eleocharis spp. – Cyperaceae),

C. Kozera (Cyperaceae e Poaceae), I. Boldrini (Poaceae), M.

Sobral (Myrtaceae), M. Kaheler (Bromeliaceae), R. Goldenberg

(Melastomataceae), V. A. O. Dittrich (Pteridophyta),

S. Menezes-Silva (diversas famílias) e M. Borgo (diversas

famílias). Esses dois últimos também identificaram espécies

observadas em campo. A classificação botânica está de acordo

com a proposta de Cronquist (1988), para Magnoliophyta, e

Tryon e Tryon (1982), para Pteridophyta. A forma biológica

das espécies foi definida em campo e, eventualmente, obtida

da literatura.

Identificação e quantificação dos ambientes de ocorrência.

Em fotoíndices, selecionaram-se as fotografias aéreas (pancromáticas)

que tinham ou supostamente tinham os ambientes

de ocorrência de S. acutirostris na região de sua distribuição

geográfica (apêndice 1). Do Paraná, utilizaram-se fotografias

do vôo de 1980 e escala 1:25.000, reveladas para o estudo. De

Santa Catarina, utilizou-se de fotos já reveladas da Fundação

do Meio Ambiente (FATMA), vôo de 1978 e escala 1:25.000,

disponíveis na Secretaria do Mercosul, em Florianópolis.

Todas as fotografias aéreas foram digitalizadas com resolução

de 600 dpi.

Foi feita interpretação da cobertura vegetal das fotografias

(fotointerpretação) comparando-se a posição, textura, impressões

de altura e nuanças de coloração. Para auxiliar nesse processo,

efetuou-se, em campo, anotações sobre a ocorrência dos

ambientes em fotografias aéreas e descrições (com documentação

fotográfica) de mais de 100 pontos georreferenciados. As

fotografias aéreas do Paraná foram fotointerpretadas mediante

observação direta auxiliada por lupa (20x) e na tela do computador,

onde cada foto foi ampliada até aproximadamente a

escala 1:8.000. As de Santa Catarina foram fotointerpretadas

com a sua ampliação na tela do computador. Foi feita conferência

em campo da fotointerpretação, constatando-se acurácia

de quase 100%.

Ambientes foram identificados e definidos, primariamente,

pelos seguintes atributos: forma biológica dominante (herbácea

ou arbórea), fisionomia (campestre ou florestal), localização

(em região com influência direta ou indireta do nível de

água pelo regime das marés; entre manguezal e floresta; entre

cordões de dunas; em meandros abandonados; ou sem correlação

com as formações vegetacionais do entorno), histórico

(no caso de brejo secundário) e dominância de espécie botânica

(no caso dos ambientes com estrato superior arbóreo).

Para nomear esses ambientes, uma vez que não se encontrou

uma nomenclatura totalmente aplicável, criaram-se termos e,

da literatura, tomaram-se alguns literalmente e adaptaram-se

outros.

Brejo secundário foi considerado para fotointerpretação

somente quando se localizava próximo dos demais ambientes

avaliados (distantes até cerca de 8 km). Tratou-se como

tal brejo surgido após a interferência humana em determinado

local ou que se tornou expressivo após a erradicação

de cobertura arbórea de ambientes onde antes não existia ou

estava oculto pelo sombreamento (e.g. sucessão regressiva de

caxetal, explorado, em brejo secundário). Não sendo possível

distingui-lo de brejo primário na fotointerpretação, o seu reconhecimento

foi feito somente pelo histórico da área.

Sobre os arquivos digitais das fotografias aéreas, utilizouse

do programa Auto CAD R14 para realizar a demarcação

(vetorização) dos perímetros das manchas de cada ambiente

fotointerpretado (polígonos). Posteriormente, os arquivos das

fotos e os das vetorizações foram georreferenciados no programa

ENVI 3.2, utilizando-se um mínimo de três pontos

notáveis, cujas coordenadas UTM foram tomadas mediante

leitura em base cartográfica (apêndice 2). Após o georreferenciamento,

efetuou-se a mosaicagem das fotografias e seus

respectivos vetores, utilizando os programas ENVI 3.2 para o

mosaico das fotos (base de dados Raster) e ArcView 3.2 para

o mosaico dos dados vetoriais. Ainda com o uso desse programa,

realizou-se o processo de edição, que consistiu em dar

integridade e a correta atribuição quanto ao tipo de ambiente

a todos os polígonos vetorizados. A partir de então, obteve-se

a área (em ha) desses polígonos. Esses processos foram feitos

apenas com o material do Paraná e de uma reduzida área adjacente

em Santa Catarina (rio São João).

Utilizando-se do programa ArcView 3.2, editou-se o

mosaico de fotografias aéreas e respectivos vetores do Paraná

e de uma reduzida área adjacente em Santa Catarina (rio São

João) para impressão em papel formato A‐3, ampliado na

escala 1:20.000 (fotocarta). Impressas, as fotocartas foram

dispostas em seqüência para possibilitar a análise da distribuição,

posição e dimensão (obtida em metros a partir da escala)

dos distintos ambientes. Nas fotocartas ainda delimitou-se a

efetiva área de ocorrência de S. acutirostris, uma vez que se

fotointerpretou ambientes que se verificaram sem registro da

espécie. Feito isso, restringiu-se o levantamento da área de

ambientes para aqueles ocupados ou supostamente ocupados


Distribuição, tamanho populacional, hábitat e conservação do bicudinho-do-brejo

Stymphalornis acutirostris Bornschein, Reinert e Teixeira, 1995 (Thamnophilidae)

497

pela espécie, obtendo-se a “área de ocupação” no Paraná (area

of occupancy, sensu BirdLife International 2000).

O levantamento da área de ocupação de S. acutirostris em

Santa Catarina, igualmente restringido conforme os resultados

sobre a distribuição da espécie no estado, estimou-se a partir

da inferência do percentual ocupado pelos ambientes fotointerpretados

em cada fotografia aérea analisada.

As atividades de fotointerpretação e vetorização foram efetuadas

por M.R.B., enquanto que as demais, acima mencionadas,

o foram por técnicos contratados (vide “Agradecimentos”).

A distribuição dos locais de ocorrência de S. acutirostris,

independente dos tipos de ambientes, foi esquematizada em

acetato sobre cartas topográficas na escala 1:250.000, visandose

gerar os menores polígonos que englobassem toda a região

de dispersão da espécie. Esses polígonos e aquelas cartas foram

digitalizados com o uso do programa Spring e, com o uso do

programa Microstation, quantificou-se a área dos polígonos,

gerando-se o dado “extensão de ocorrência” da espécie (extent

of occurrence, sensu BirdLife International 2000).

Definição do status de conservação. Confrontaram-se informações

sobre a distribuição geográfica de S. acutirostris, área

de ocupação, extensão de ocorrência, ambientes de ocorrência,

estimativa populacional e impactos observados com os critérios

para a definição de espécies ameaçadas de extinção da

União Internacional para a Conservação da Natureza – UICN

(in BirdLife International 2000). Atentou-se para a presença

de impactos nas áreas de ocorrência da espécie, tanto naturais

quanto de origem antrópica. Havendo presença de espécies

exóticas, o nível de contaminação biológica foi avaliado

da seguinte forma: percentual do ambiente invadido, valores

dos parâmetros fitossociológicos cobertura e sociabilidade das

exóticas, conforme a adaptação de Braun-Blanquet (1979),

detalhada anteriormente, e intensidade do impacto. Informações

sobre impactos foram colhidas em campo até 2005.

Resultados

Ambientes de ocorrência. Confrontando observações de

campo, informações da literatura e resultantes de fotointerpretação,

distinguiram-se oito ambientes primários ocupados

por S. acutirostris, dos quais quatro são herbáceos (brejos) e

quatro apresentam um estrato superior arbóreo e um inferior

herbáceo com espécies características de brejos. Conhecendo

o histórico de certos locais alterados pela ação humana, incorporou-se,

como um nono ambiente ocupado pela espécie, uma

formação herbácea secundária (brejo secundário). Segundo os

critérios para a classificação da vegetação brasileira do Projeto

Radambrasil (in Veloso et al. 1991, IBGE 1992), caracterizam-se

como Formação Pioneira de Influência Fluvial, Formação

Pioneira de Influência Fluviomarinha e/ou Formação

Pioneira de Influência Lacustre (tabela 1).

Os nove ambientes ocupados por S. acutirostris ocorrem

como manchas ou faixas estreitas, que, no Paraná, variaram

de 0,001 a 203,0 ha. No Paraná, totalizaram 4.856,67 ha, dos

quais 1.607,82 ha de ambientes herbáceos (33,1% do total no

estado) e 3.248,85 ha de ambientes com estrato superior arbóreo

e inferior herbáceo com espécies de brejos (66,9% do total

no estado; tabela 2). Localizam-se principalmente no interior

de baías e nos trechos a jusante de rios que nelas deságuam,

em planícies aluviais inundadas e entre cordões de dunas em

planície quaternária costeira.

Naqueles nove ambientes, na região de ocorrência de

S. acutirostris, registrou-se 134 espécies botânicas pertencentes

a 60 famílias (vide listagem em Reinert 2001), dentre as

quais Cyperaceae foi representada por 25 espécies, Poaceae

por 14, Asteraceae por nove, Fabaceae por seis e Myrtaceae

por cinco espécies. Quanto à forma biológica, 96 espécies

são herbáceas, 22 são arbóreas, 13 são trepadeiras e três são

arbustivas. Nos ambientes herbáceos (brejos), registraram-se

125 espécies botânicas (93% do total). Naqueles com estrato

superior arbóreo e inferior herbáceo com espécies de brejos,

registrou-se 46 espécies botânicas (34% do total) pertencentes

a 26 famílias, dentre as quais Cyperaceae foi representada por

11 espécies, Poaceae por oito e Myrtaceae por quatro espécies.

Dessas, 23 são herbáceas, 13 são arbóreas, três são arbustivas

e três são trepadeiras.

Stymphalornis acutirostris não foi registrado em locais,

próximos a manguezais, vegetados somente pela cebolama

(Crinum salsum) ou praturá (Spartina alterniflora), esses

denominados de marismas e campo salino (Veloso et al. 1991,

Angulo 1992, IBGE 1992). Também não foi registrado em

manguezais contendo somente as herbáceas C. salsum, outra

Tabela 1. Ambientes ocupados pelo bicudinho-do-brejo (Stymphalornis

acutirostris) e suas denominações segundo os critérios para a classificação

da vegetação brasileira propostos pelo Projeto Radambrasil (in Veloso et al.

1991, IBGE 1992).

Table 1. Habitats with occurrence of the Marsh Antwren (Stymphalornis

acutirostris) and its denomination according to the classification criteria of the

Brazilian vegetation, proposed by the Radambrasil Project (in Veloso et al.

1991, IBGE 1992).

Termo nesse estudo 1

Brejo de capim-serra

Brejo de maré

Brejo intercordão

Brejo de meandro

Manguezal com

herbáceas

Guanandizal com

herbáceas

Caxetal com herbáceas

Ariticunzal com

herbáceas

Termo segundo o Projeto Radambrasil

Formação Pioneira de Influência Fluviomarinha

Formação Pioneira de Influência Fluviomarinha

Formação Pioneira de Influência Fluvial

Formação Pioneira de Influência Lacustre

Formação Pioneira de Influência Fluvial

Formação Pioneira de Influência Lacustre

Formação Pioneira de Influência Fluviomarinha

Formação Pioneira de Influência Fluviomarinha

Formação Pioneira de Influência Lacustre

Formação Pioneira de Influência Fluvial

Formação Pioneira de Influência Lacustre

Formação Pioneira de Influência Fluviomarinha 2

Formação Pioneira de Influência Fluvial

1

“Brejo secundário”, citado no estudo, pode ser denominado pelos critérios do

Projeto Radambrasil considerando-se os locais onde se formaram.

2

De ocorrência muito local.


498 Bianca Luiza Reinert, Marcos Ricardo Bornschein e Carlos Firkowski

Tabela 2. Área de ocupação 1 do bicudinho-do-brejo (Stymphalornis acutirostris) por ambiente de ocorrência nas cinco populações da espécie no Estado do

Paraná (sul do Brasil).

Table 2. Area of occupancy of the Marsh Antwren (Stymphalornis acutirostris) per habitat of occurrence in the five populations of the species in Paraná state

(southern Brazil).

Ambiente

baía de

Antonina

rio

Nhundiaquara

Área por população (ha)

rio

Guaraguaçu

balneário

Flórida

baía de

Guaratuba

Área por

ambiente (ha)

(herbáceo)

Brejo de capim-serra 0,0 0,0 38,47 0,0 122,58 161,05

Brejo de maré 396,21 222,34 29,48 0,0 667,43 1.315,46

Brejo intercordão 0,0 0,0 0,0 6,38 0,0 6,38

Brejo de meandro 29,38 9,39 0,0 0,0 66,51 105,28

Brejo secundário 0,0 14,26 0,11 0,0 5,28 19,65

(com um estrato superior arbóreo e um inferior herbáceo com espécies dos brejos)

Manguezal com herbáceas 305,64 93,55 55,51 0,0 848,51 1.302,23

Guanandizal com herbáceas 560,97 208,28 0,0 0,0 327,85 1.098,08

Caxetal com herbáceas 38,87 0,0 7,64 0,0 793,87 840,38

Ariticunzal com herbáceas 0,0 0,0 0,0 0,0 8,16 8,16

Área de ambientes herbáceos 425,59 245,99 68,06 6,38 861,80 —

Área de ambientes arbóreos com herbáceas 905,48 301,83 63,15 0,0 1.978,39 —

Área total por população 1.331,07 547,82 131,21 6,38 2.840,19 —

Área total de ambientes herbáceos das cinco populações 1.607,82

Área total de ambientes com um estrato superior arbóreo e um inferior herbáceo das cinco populações 3.248,85

Área total de todos os ambientes das cinco populações 4.856,67

1

Área efetivamente habitada (area of occupancy) por uma determinada espécie dentro da extensão de ocorrência (extent of occurrence).

espécie de praturá (S. densiflora) ou samambaia-do-mangue

(Acrostichum danaefolium) no estrato inferior (para complementações

a respeito, vide “Brejo de maré” e “Manguezal

com herbáceas” abaixo). A seguir, os nove ambientes de

ocorrência de S. acutirostris são definidos e descritos quanto a

alguns aspectos. As descrições, distribuições, áreas e riquezas

florísticas apresentadas referem-se ao observado na região de

distribuição geográfica da espécie.

Brejo de capim-serra. Formação aberta dominada por herbáceas

situada entre floresta e manguezal (figuras 2 e 3),

na forma de longas e estreitas faixas. Não apresenta coluna

d’água, exceto quando ocorrem marés altas de sizígia e de

tormenta. Apresenta elevada densidade de indivíduos, cobre

quase sempre 100% da superfície do solo e mede entre 0,7 e

2,5 m de altura. No sentido da floresta ao manguezal, a vegetação

decresce em altura e densidade. O capim-serra (Cladium

mariscus) é a espécie dominante. São comuns samambaiado-brejo

(Blechnum serrulatum), paina (Cortaderia selloana)

próxima à floresta, Fimbristylis spadicea próximo ao manguezal,

arbustos de uvira (Hibiscus pernambucensis), arvoretas de

ariticum-do-brejo (Annona glabra), capororoquinha (Rapanea

parvifolia), aroeira (Schinus terebinthifolius) e jerivá (Syagrus

romanzoffiana). O termo foi adaptado do “zona de Cladium”,

de Angulo (1990) e Angulo e Müller (1990).

Ocorre disperso no Paraná e em Santa Catarina, normalmente

na forma de faixas que atingem mais de 1 km de

extensão e, conforme medição em campo no Paraná, apenas

1 m de largura. Na região de ocorrência de S. acutirostris no

Paraná, ocupou uma área de 161,05 ha (3,3% de todos os nove

ambientes e 10,0% dos herbáceos no estado; tabela 2). Nesse

ambiente, registraram-se 41 espécies botânicas pertencentes a

25 famílias, das quais Cyperaceae foi representada por sete

espécies, Myrtaceae por quatro e Asteraceae por três. Quanto à

forma biológica, 17 espécies são herbáceas, 16 arbóreas, cinco

trepadeiras e três são arbustivas.

Brejo de maré. Formação aberta dominada por herbáceas

(figura 4) localizada em regiões que sofrem influência direta

ou indireta do nível d’água devido ao regime das marés. A

vegetação desenvolve-se onde a presença de coluna d’água

é constante, periódica (de acordo com as marés) ou eventual

Figura 2. Vista aérea de brejo de capim-serra (A), entre manguezal (B) e

floresta (C) (município de Paranaguá, Paraná). Foto: T. de Mesquita Fialho.

Figure 2. Aerial view of saw grass marsh (A), between mangrove (B) and

forest (C) (municipality of Paranaguá, Paraná state). Photo: T. de Mesquita

Fialho.


Distribuição, tamanho populacional, hábitat e conservação do bicudinho-do-brejo

Stymphalornis acutirostris Bornschein, Reinert e Teixeira, 1995 (Thamnophilidae)

499

Figura 3. Fotocarta do interior da baía de Guaratuba, Paraná, com a identificação de cinco dos nove ambientes de ocorrência do bicudinho-do-brejo (Stymphalornis

acutirostris): brejo de maré (vermelho), brejo de capim-serra (azul), brejo secundário (verde-escuro), manguezal com herbáceas (amarelo) e guanandizal com

herbáceas (verde-claro).

Figure 3. Map of the interior of the Guaratuba Bay, Paraná state, with the identification of five of the nine Marsh Antwren (Stymphalornis acutirostris)

occurrence habitats: tidal marsh (red), saw grass marsh (blue), “secondary marsh” (dark green), mangrove with herbaceous plants (yellow) and “guanandizal”

with herbaceous plants (light green).

Figura 4. Brejo de maré, localmente dominado por piri (Scirpus californicus)

e cebolama (Crinum salsum) (base) (baía de Guaratuba, Paraná). Foto:

M.R.B.

Figure 4. Tidal marsh, locally dominated by bulrush (Scirpus californicus)

and Crinum salsum (bottom) (Guaratuba Bay, Paraná state). Photo:

M.R.B.

(como conseqüência de enchentes, no caso de brejos de maré

totalmente flutuantes). Apresenta de baixa à elevada densidade

de indivíduos, cobre entre 80 e 100% da superfície do

solo e mede entre 0,5 e 3 m de altura. Domina uma ou algumas

espécies, como piri (Scirpus californicus), Crinum salsum,

chapéu-de-couro (Echinodorus grandiflorus), capim-pernambuco

(Panicum sp. cf. P. mertensii), milho-d’água (Zizaniopsis

microstachya) e a exótica braquiária (Urochloa arrecta =

Brachiaria subquadripara). É esperado que em locais onde

o ambiente esteja se formando, possa haver outras espécies

dominando e com alturas inferiores ao citado. Ocorre com

certa expressividade, pontualmente, Cladium mariscus, Acrostichum

danaefolium, arbustos de Hibiscus pernambucensis e

árvores ou arvoretas de mangue-vermelho (Laguncularia

racemosa), guanandi (Calophyllum brasiliense), Annona glabra

e caxeta (Tabebuia cassinoides). O termo “brejo de maré”

foi criado por Angulo (1990) e Angulo e Müller (1990).

Pela presente definição, o brejo de maré deve ter pelo

menos duas espécies vegetais, ou uma só desde que locais com


500 Bianca Luiza Reinert, Marcos Ricardo Bornschein e Carlos Firkowski

duas ou mais ocorram nas proximidades. Assim, não se enquadram

como brejo de maré áreas associadas a manguezais, e

sem registro de S. acutirostris, onde ocorre apenas Spartina

alterniflora ou Crinum salsum. Essas áreas observaram-se nas

porções mais exteriores das baías, muito distantes de locais

com pelo menos duas espécies de herbáceas.

O brejo de maré ocorre no interior das baías (figura 3) e

em praticamente todas as áreas onde existem rios de água doce

ou salobra (vide Jakobi 1953), no Paraná e em Santa Catarina.

Apresenta-se como manchas ou faixas de diferentes tamanhos,

sendo que, como manchas, aparece muitas vezes na margem

de agradação dos rios e, como faixas, nas margens de rios

sinuosos, morfologia típica que assumem os rios influenciados

pelo regime das marés (Angulo 1992). Na região de ocorrência

de S. acutirostris no Paraná, ocupou uma área de 1.315,46 ha

(27,1% de todos os nove ambientes e 81,8% dos herbáceos

no estado; tabela 2). Registraram-se 85 espécies botânicas no

ambiente, pertencentes a 47 famílias, das quais Cyperaceae

foi representada por 12 espécies, Poaceae por nove, Asteraceae

por cinco e Fabaceae por quatro. Sessenta e duas espécies

são herbáceas, 12 arbóreas, nove trepadeiras e duas são

arbustivas.

Rumo ao interior dos estuários e à montante dos rios, os

brejos de maré sofrem um crescente incremento na riqueza de

espécies botânicas e, também, na densidade de vegetação. Em

uma análise florística realizada no interior da baía de Guaratuba

(ilha do Chapeuzinho, 25°52’00.4”S, 48°43’25.9”W),

detectaram-se apenas cinco espécies, tendo ocorrido de uma

a quatro por parcela de 1 m 2 . Já a 5 km deste local (ilha do

Jundiaquara, 25°52’27.9”S, 48°45’33.1”W), à montante no rio

São João, registraram-se 12 espécies, tendo ocorrido de uma

a oito por parcela de 1 m 2 . Mais à montante ainda no rio São

João (ponte da SANEPAR, 25°55’19.8”S, 48°46’57.0”W),

registraram-se 26 espécies, tendo ocorrido de cinco a 17 por

parcela de 1 m 2 . Local pobre em espécies botânicas dominado

por Scirpus californicus, como no interior das baías, recebe o

nome popular de “pirizal”.

Brejo intercordão. Formação aberta dominada por herbáceas,

localizada na planície costeira entre cordões de dunas de origem

marinha, onde acumula água pluvial raramente drenada

por riachos temporários ou mesmo perenes, e que não sofrem

influência do nível d’água pelo regime das marés. Desenvolve-se

onde a presença de coluna de água é constante, sazonal

(no período das chuvas) ou eventual (como conseqüência

de enchentes). Essa última situação, na qual normalmente

inexiste coluna de água superficial, ocorre quando o brejo

intercordão é flutuante. Apresenta elevada densidade de indivíduos,

cobre normalmente 100% da superfície do solo e apresenta

entre 1,5 e 3 m de altura. Compõe-se por uma ou várias

espécies dominantes, como taboa (Typha domingensis), Cladium

mariscus, Fuirena umbellata, Blechnum serrulatum e a

exótica braquiária (Brachiaria mutica). Quando esse ambiente

está se formando, é usual haver o domínio de outras espécies,

como Eleocharis interstincta e E. mutata, que podem apresentar

médias de altura inferiores ao citado. Árvores de Tabebuia

cassinoides e arvoretas de Annona glabra, Schinus terebinthifolius

e araçá (Psidium cattleianum), entre outras, muitas vezes

acham-se presentes. O termo brejo intercordão foi criado por

Angulo (1992), embora desacompanhado de uma definição

propriamente dita.

Brejo intercordão, na região de ocorrência de S. acutirostris,

ocorre ao longo dos cerca de 35 km de costa entre Pontal

do Sul e Matinhos, Paraná. Distribui-se na forma de manchas

e, principalmente, de longas e estreitas faixas. Originalmente,

a maior atingia 13,5 km (M.R.B. e B.L.R., inf. pess.; vide

Angulo 1992). Em 1980, a maior mediu 3,3 km de comprimento

por 80 m de largura máxima. Uma outra mais curta,

no entanto, a superou em largura, medindo 140 m. Totalizava,

originalmente, uma área de 274,74 ha (M.R.B. e B.L.R., inf.

pess.), reduzidos por ocupação urbana a 127,83 ha em 1980.

Dos quase 275 ha, supostamente ocupados por S. acutirostris

no passado, atualmente há ocorrência da espécie em 6,38 ha

(0,1% de todos os nove ambientes e 0,4% dos herbáceos no

Paraná; tabela 2) (vide “População do balneário Flórida”

abaixo). Registraram-se 54 espécies botânicas pertencentes a

29 famílias no brejo intercordão, dentre as quais Cyperaceae

foi representada por 12 espécies, Asteraceae por cinco e Poaceae

por quatro. Quarenta espécies são herbáceas, oito são trepadeiras

e seis são arbóreas.

Brejo de meandro. Formação aberta dominada por herbáceas

que ocorre em meandros e canais abandonados; por estarem

isolados, eles não recebem aporte de água do rio de origem,

exceto quando esse extrapola o seu leito em períodos de cheia.

A presença de coluna de água na vegetação é sazonal, dependendo

da pluviosidade, ou eventual, como conseqüência de

enchentes em brejos de meandro flutuantes (nessa situação, não

há coluna d’água superficial). Apresenta elevada densidade de

indivíduos, cobre normalmente 100% da superfície do solo e

tem entre 1,5 e 2,5 m de altura. Como espécies dominantes

tem-se Typha domingensis, Eleocharis interstincta, a exótica

Urochloa arrecta e o exótico lírio-do-brejo (Hedychium coronarium).

O termo brejo de meandro é aqui proposto.

O ambiente ocorre em meandros de rios como o Pequeno,

Cachoeira (município de Antonina), Nhundiaquara (município

de Morretes), Cubatãozinho e Cubatão (município de

Guaratuba), no Paraná, São João (municípios de Guaratuba e

Garuva), no Paraná e em Santa Catarina, e Itapocu (municípios

de Araquari, São João do Itaperiú e Barra Velha, pelo menos),

em Santa Catarina. Na região de ocorrência de S. acutirostris

no Paraná, totalizou-se 105,28 ha de brejo de meandro (2,2%

de todos os nove ambientes e 6,6% dos herbáceos no estado;

tabela 2). Registraram-se 13 espécies botânicas pertencentes a

nove famílias no ambiente, das quais 11 são herbáceas e duas

são trepadeiras.

Brejo secundário. Desenvolve-se da mesma maneira que os

brejos primários, tanto em composição de espécies como em

cobertura e altura. Por esse motivo, o seu reconhecimento é


Distribuição, tamanho populacional, hábitat e conservação do bicudinho-do-brejo

Stymphalornis acutirostris Bornschein, Reinert e Teixeira, 1995 (Thamnophilidae)

501

feito apenas pelo histórico da área. Identificaram-se locais

dispersos com esse ambiente no Paraná e em Santa Catarina

(figura 3), como nos leitos retificados da foz dos rios Sapetanduva

(divisa dos municípios de Antonina e Morretes) e Sagrado

(município de Morretes), no Paraná. Na região de ocorrência

de S. acutirostris nesse estado, totalizou-se 19,65 ha de brejo

secundário (0,4% de todos os nove ambientes e 1,2% dos herbáceos

no Paraná; tabela 2).

Na Fazenda Estrela (município de Guaratuba, Paraná),

registrou-se S. acutirostris em 1996 e 1997 em um brejo

secundário originado pelo corte de uma floresta e parcial alagamento

provocado pela drenagem deficitária do terreno em

conseqüência do aterro de uma estrada. A partir de 1998, a

espécie não foi mais registrada no local, possivelmente porque

as herbáceas do ambiente rarearam em função do sombreamento

ocasionado pelas arbóreas, já muito abundantes e

desenvolvidas na ocasião dos registros.

Brejos secundários se formaram após 1980 ao longo de um

trecho da PR 412 no município de Guaratuba (Paraná), quase

na divisa com o município de Itapoá (Santa Catarina). Até

1980, ocorriam somente algumas grandes manchas de caxetal

com herbáceas próximas da PR 412 (vide “Caxetal com herbáceas”

abaixo). Provavelmente parte desse ambiente e mesmo

trechos de floresta adjacente sofreram sucessão regressiva

para brejo secundário pela extração de Tabebuia cassinoides

e pela construção de estradas, as quais certamente alteraram a

drenagem do local. Stymphalornis acutirostris ocorre em parte

dos brejos secundários daquele trecho da PR 412, como em

Olaria (c. 25°58’S, 48°41’W).

Manguezal com herbáceas. Formação fechada caracterizada

por arbóreas típicas de manguezal no estrato superior e pela

existência de um estrato inferior de herbáceas e arbustivas,

localizada em terrenos que sofrem inundações regulares de

acordo com o regime das marés. As árvores apresentam o dossel

entre cerca de 3 e 5 m de altura e cobrem normalmente

100% da superfície do solo, mas em certos locais acham-se algo

espaçadas ou mesmo isoladas, cobrindo percentuais menores.

O estrato inferior tem em torno de 0,5 a 1,8 m de altura, mas

por vezes os arbustos, apoiados nas árvores, medem até 3,5 m.

Compõe-se de grupos de indivíduos isolados uns dos outros

por até alguns metros, ou mais adensados, quando cobrem até

aproximadamente 50% da superfície do solo, considerando

a área ocupada pelos grupos. Em algumas situações, onde a

cobertura arbórea é menor, ocorrem concentrações de herbáceas

e arbustivas, que chegam a cobrir 100% do solo. Os elementos

arbóreos são mangue-preto (Avicennia schaueriana),

canapuva (Rhizophora mangle) e Laguncularia racemosa, que

é dominante. As herbáceas dominantes são Acrostichum danaefolium

e Crinum salsum, e a arbustiva dominante é Hibiscus

pernambucensis. O estrato inferior deve ter pelo menos duas

espécies, ou uma só desde que locais com duas ou mais ocorram

nas proximidades. O termo manguezal com herbáceas foi

adaptado do “manguezal com Acrostichum e Hibiscus”, criado

por Angulo (1990) e Angulo e Müller (1990).

Em decorrência da definição, não se considerou como

manguezal com herbáceas os manguezais com estrato inferior

composto apenas por Acrostichum danaefolium, Spartina densiflora

ou Crinum salsum. As situações com essas duas últimas

espécies ocorrem em alguns pontos mais para o exterior

das baías, enquanto que as com a primeira em locais situados

mais para o interior das baías.

Esse ambiente distribui-se principalmente na forma de

manchas ou áreas mais contínuas na confluência dos rios do

Neves e Nhundiaquara (divisa dos municípios de Antonina e

Morretes) e no interior das baías de Antonina e de Guaratuba

(figura 3), no Paraná, e na baía da Babitonga (ou de São Francisco),

em Santa Catarina. Na região de ocorrência de S. acutirostris

no Paraná, totalizou-se 1.302,23 ha de manguezal com

herbáceas (26,8% de todos os nove ambientes e 40,1% dos

arbóreos com herbáceas no estado; tabela 2). Registraram-se

14 espécies botânicas pertencentes a 11 famílias no ambiente,

dentre as quais Cyperaceae foi representada por três espécies e

Poaceae por duas. Sete espécies são herbáceas, cinco arbóreas

e duas são arbustivas.

Guanandizal com herbáceas. Formação fechada caracterizada

pela arbórea Calophyllum brasiliense e pela existência de

estrato inferior dominado por herbáceas e arbustivas (figura 5),

principalmente Cladium mariscus, Crinum salsum, Panicum

sp. cf. P. mertensii e Hibiscus pernambucensis. Calophyllum

brasiliense quase sempre é a única arbórea existente, mas por

vezes ocorre com outras, das quais se destaca Annona glabra.

As árvores apresentam dossel entre cerca de 3,5 e 8 m e suas

copas podem estar isoladas umas das outras, embora próximas,

ou tocando-se parcial ou totalmente, situação que con-

Figura 5. Guanandizal com herbáceas. Observa-se uvira (Hibiscus

pernambucensis), piri (Scirpus californicus), cebolama (Crinum salsum),

capim-milhã-do-brejo (Hymenachne donacifolia) e troncos de guanandi

(Calophyllum brasiliense) (rio São Joãozinho Feliz, município de Antonina,

Paraná). Foto: B.L.R.

Figure 5. “Guanandizal” with herbaceous plants. It’s noted Hibiscus

pernambucensis, bulrush (Scirpus californicus), Crinum salsum, Hymenachne

donacifolia and Calophyllum brasiliense trunks (São Joãozinho Feliz river,

municipality of Antonina, Paraná stare). Photo: B.L.R.


502 Bianca Luiza Reinert, Marcos Ricardo Bornschein e Carlos Firkowski

fere uma cobertura de 100% ou pouco menos da superfície

do solo. O estrato inferior apresenta grupos de indivíduos que

podem estar isolados uns dos outros por curtas distâncias, ou

bem adensados, cobrindo normalmente entre 20 e 50% ou até

100% da superfície do solo, e tem cerca de 1 a 2 m de altura. O

ambiente normalmente ocorre em terrenos que sofrem inundações

regulares de acordo com o regime das marés, mas também

em meandros abandonados de rios. O termo guanandizal com

herbáceas substitui o “pântano de maré” de Angulo (1990) e

Angulo e Müller (1990).

Ocorre ao longo das margens de muitos rios, na forma de

manchas de diferentes tamanhos, ocupando uma posição intermediária

entre manguezais com herbáceas (mais a jusante) e

florestas (mais a montante) (figura 3). Ocorre, ainda, em alguns

meandros abandonados de rios. Os principais locais de ocorrência

do ambiente situam-se no interior da baía de Antonina

(foz dos rios Cachoeira, Barrela, Lagoinha, Cacatu, do Meio,

das Pedras, da Moenda e Curitibaíba), na região da foz do rio

São Joãozinho Feliz e confluência dos rios do Neves e Nhundiaquara

(municípios de Antonina e Morretes), no interior da

baía de Guaratuba (rio São João desde a sua porção inferior

até a foz, incluindo pequenos afluentes, e ilhas do Chapéu e

do Chapeuzinho) e no interior da baía da Babitonga (rio Palmital

no município de Garuva). Essa última área situa-se em

Santa Catarina e as demais no Paraná. Na região de ocorrência

de S. acutirostris no Paraná, totalizou-se 1.098,08 ha de guanandizal

com herbáceas (22,6% de todos os nove ambientes

e 33,8% dos arbóreos com herbáceas no estado; tabela 2).

Registraram-se 19 espécies botânicas pertencentes a 13 famílias

no ambiente, dentre as quais Cyperaceae foi representada

por quatro espécies, Poaceae por três e Myrtaceae por duas.

Dez espécies são herbáceas, seis arbóreas, duas arbustivas e

uma é trepadeira.

Caxetal com herbáceas. Formação fechada que se caracteriza

pela arbórea Tabebuia cassinoides, no estrato superior, e pela

dominância de herbáceas e arbustivas no estrato inferior, como

Rhynchospora sp. cf. R. corymbosa, Panicum sp. cf. P. mertensii,

Scleria sp., capororoca (Rapanea sp.) e Typha domingensis.

Além de T. cassinoides, outras arbóreas muitas vezes

acham-se presentes, como Annona glabra, cambuí (Myrcia

multiflora) e guamirim-do-brejo (Gomidesia palustris). As

árvores podem estar isoladas por curtas distâncias ou até adensadas

a ponto de cobrir 100% ou pouco menos da superfície do

solo, tendo o dossel entre 4 e 8 m de altura, aproximadamente.

O estrato inferior, com altura variando entre 0,8 e 1,5 m, apresenta

grupos de indivíduos isolados uns dos outros por curtas

distâncias, como mais adensados, cobrindo normalmente

entre 20 e 50% ou até 100% da superfície do solo. O ambiente

desenvolve-se em terrenos que sofrem alagamento de acordo

com os níveis de pluviosidade, ocorrendo na margem de rios,

em planícies de inundação e em depressões entre cordões

de dunas litorâneas. O termo caxetal com herbáceas foi aqui

proposto; local dominado por T. cassinoides é popularmente

designado de “caxetal”.

O ambiente é mais representativo no rio Copiúva (município

de Antonina), em afluentes do médio rio Guaraguaçu

(município de Paranaguá) e em três setores próximos da

baía de Guaratuba. O primeiro situa-se na região da lagoa do

Parado (município de Guaratuba), incorporando as lagoas do

Parado, do rio Preto e do Furta-maré, e os rios Furta-maré,

Rasgadinho e da Palha. O segundo inclui locais a montante do

rio Água Vermelha e Boguaçu, e arredores (município de Guaratuba,

próximo da PR 412 e da localidade Olaria). O último

setor localiza-se na região dos rios do Gelo e São João (município

de Guaratuba) e da vila São João Abaixo (município de

Garuva). Exceto Garuva, que se situa em Santa Catarina, os

demais municípios mencionados situam-se no Paraná. Em

locais com ocorrência de S. acutirostris, totalizou-se 840,38 ha

de caxetal com herbáceas (17,3% de todos os nove ambientes

e 25,9% dos arbóreos com herbáceas no Paraná; tabela 2), que

ocorre na forma de manchas com tamanhos muito discrepantes.

Registraram-se 32 espécies botânicas pertencentes a 19

famílias no ambiente, das quais Cyperaceae foi representada

por nove espécies, Poaceae por cinco e Myrtaceae por duas.

Vinte e uma espécies são herbáceas, sete arbóreas, três trepadeiras

e uma é arbustiva.

Ariticunzal com herbáceas. Formação fechada caracterizada

por Annona glabra e pela presença de estrato inferior composto

por herbáceas, das quais a dominante é Panicum sp.

cf. P. mertensii. Raros indivíduos de Tabebuia cassinoides

também podem ser encontrados. O dossel apresenta cerca de

4 m de altura e cobre 100% da superfície do solo; o estrato

inferior apresenta entre 0,6 e 1,5 m de altura, sendo composto

por grupos de indivíduos isolados ou algo agrupados, quando

cobrem aproximadamente entre 10 e 30% da superfície do

solo. O ambiente sofre diferentes níveis de inundação dependendo

da pluviosidade. O termo ariticunzal com herbáceas é

aqui proposto.

Ocorre apenas na lagoa do Parado (município de Guaratuba),

Paraná, onde ocupou 8,16 ha (0,2% de todos os nove

ambientes e igualmente 0,2% dos arbóreos com herbáceas no

estado; tabela 2). Registraram-se apenas cinco espécies botânicas

pertencentes a quatro famílias no ambiente. Poaceae

foi representada por duas espécies e as demais por uma. Três

espécies são herbáceas e duas são arbóreas.

O uso dos ambientes. Stymphalornis acutirostris vive em vegetação

herbácea e arbustiva. Nos ambientes com estrato superior

arbóreo, o seu local de permanência é o estrato inferior

herbáceo. Desloca-se pela vegetação herbácea e arbustiva com

vôos curtos e pequenos saltos, parando em caules, folhas, folíolos,

brácteas, pecíolos, inflorescências, ramos, galhos, etc.,

tanto em posição vertical, inclinada quanto horizontal. Ramos

e galhos (até 4‐5 m) de árvores são usualmente freqüentados,

principalmente para a emissão de vocalizações. Ainda deslocase

aos pulos no solo e sobre detritos de vegetação flutuante na

lâmina d’água. No entanto, o deslocamento é concentrado na

faixa com maior densidade de vegetação, normalmente entre


Distribuição, tamanho populacional, hábitat e conservação do bicudinho-do-brejo

Stymphalornis acutirostris Bornschein, Reinert e Teixeira, 1995 (Thamnophilidae)

503

20‐40 cm e 50‐90 cm sobre o solo, dependendo do tipo de

ambiente, composição florística e época do ano. Nessa faixa,

também é concentrada a atividade de alimentação. A porção

acima da faixa de maior densidade, normalmente até 2 m sobre

o solo, mas podendo chegar até 3 m, é usada principalmente

para deslocamento com vôos mais longos, disputa territorial

e emissão de vocalizações; raras vezes para a alimentação.

Nunca foi observado alçando longos vôos acima da vegetação.

Captura pequenos artrópodes como aranhas, mariposas e

moscas expostos sobre a vegetação, ocultos na vegetação e no

ar. Captura os ocultos vasculhando a porção imbricada entre

folhas e caules e entre bainhas e caules, bem como o interior

retorcido de folhas mortas, de onde comumente retira aranhas.

Constrói o ninho (n = 5) em plantas herbáceas e em arbóreas

de pequeno porte, normalmente abaixo de 1 m sobre o solo.

Folhas e brácteas da vegetação herbácea são o principal material

nidular utilizado.

Distribuição geográfica. Trabalhando-se do litoral sul de São

Paulo ao litoral norte de Santa Catarina, além de algumas

outras áreas no sul, sudeste e centro-oeste do Brasil, detectou-se

a espécie na faixa costeira desde a baía de Antonina,

no Paraná, ao rio Itapocu, em Santa Catarina, em altitudes

variando do nível do mar até cerca de 5 m. Nessa região, efetuou-se

o “mapeamento” dos nove ambientes de ocorrência

da espécie (escala 1:25.000). Confrontando os resultados da

distribuição desses ambientes com os da procura pela espécie,

identificaram-se zonas sem registros, as quais se consideraram

sem presença da espécie. Assim, a área de dispersão de

S. acutirostris está fragmentada em oito populações isoladas.

No mapa elaborado (figura 6), as distintas populações foram

representadas em duas cores. Uma indica local onde se registrou

a espécie e a outra local sem registro, mas onde a ocorrência

é provável devido à existência de ambiente adequado contínuo

com ou próximo de local onde a espécie foi registrada. A

ausência de registros, nesses casos, deve-se exclusivamente à

falta de amostragens.

Alguns ambientes daqueles de ocorrência de S. acutirostris

também existem ao norte e a sul dos limites estabelecidos

como de distribuição geográfica da espécie (B.L.R. e M.R.B.,

obs. pess.). Rumo a norte, por exemplo, ocorre brejo de maré

e de capim-serra em alguns locais nos municípios de Paranaguá

e Guaraqueçaba e brejo intercordão na ilha de Superagui

(município de Guaraqueçaba), no Paraná. No litoral sul de São

Paulo, por exemplo, ocorre brejo intercordão na ilha Comprida

(município de Ilha Comprida) e brejo de maré e de capimserra

em alguns locais desde Cananéia até Iguape, pelo menos.

Rumo a sul, por exemplo, ocorre brejo de maré e de capimserra

do rio Itapocu até Camboriú, pelo menos, em Santa Catarina.

Alguns ambientes daqueles de ocorrência de S. acutirostris

também existem entre as populações da espécie, o que será

comentado adiante, nas descrições dessas populações.

População da baía de Antonina. Ocorre no interior da baía

de Antonina (município de Antonina, Paraná), Paraná, por

exemplo, nos rios Cachoeira, Cacatu, do Meio, das Pedras e

Curitibaíba (figura 6). O limite norte situa-se em meandros do

rio Pequeno (25°15’15.2”S, 48°41’43.9”W; registro inferido),

afluente da margem esquerda do rio Cachoeira, o oeste no rio

Xaxim (25°22’54.2”S, 48°46’49.3”W), afluente do rio Curitibaíba,

o sul em um afluente da margem direita do rio Curitibaíba

(25°24’41.8”S, 48°44’56.10”W; registro inferido),

próximo da sua foz e o leste no rio Taquari (25°20’57.4”S,

48°41’18.2”W; registro inferido), afluente da margem esquerda

do rio Cachoeira. O local que congrega a maior área contínua

de ambientes de ocorrência da espécie na população situase

na confluência do rio do Meio no Cacatu e, deste ponto,

à leste até o rio Cachoeira (c. 25°21’29.9”S, 48°43’46.0”W).

Totalizou-se 1.331 ha de ambientes de ocorrência da espécie

nessa população, sendo 561 ha de guanandizal com herbáceas,

396 ha de brejo de maré, 305 ha de manguezal com herbáceas,

39 ha de caxetal com herbáceas e 29 ha de brejo de meandro

(tabela 2). A população está perdendo área principalmente de

brejos de maré e de meandro por conseqüência da invasão de

capins africanos (vide “Impactos” abaixo). Acredita-se que o

limite norte, inferido a partir da situação ambiental de 1980

(vide “Distribuição” abaixo), atualmente deva ser mais ao sul.

O limite norte detectado situa-se no rio Cachoeira onde ele é

cortado pela PR 405 (25°21’29.8”S, 48°43’46.0”W).

Florestas em planícies e em serras limitam a distribuição

geográfica da população em todo o setor setentrional e oeste.

No setor meridional, ocorre floresta em altitude mínima de

cerca de 20 m que isola essa população da do rio Nhundiaquara.

No setor leste, há ambientes propícios nos quais não

se registrou a espécie até o rio Faisqueira, a cerca de 6 km

de distância do ponto mais próximo com presença inferida

de S. acutirostris. Nesse rio, é possível que a espécie ocorra

e tenha sido subestimada em campo (vide “Distribuição”

abaixo). À leste do rio Faisqueira até a enseada do Itaqui, contornando

a baía de Paranaguá, ocorrem pequenas manchas de

brejo, mas na enseada do Benito e baía de Guaraqueçaba, a

nordeste, eles são abundantes (figura 6). Stymphalornis acutirostris

não ocorre nessas regiões, fato que se acredita ser inexplicável

com base no relevo e cobertura vegetal atual (vide

“Distribuição” abaixo).

População do rio Nhundiaquara. Ocorre ao longo de parte

do rio Nhundiaquara e em alguns de seus afluentes, como o

São Joãozinho Feliz, Sapetanduva e do Neves (ou Francês)

(municípios de Morretes e Antonina, Paraná; figura 6). O

limite norte situa-se no rio São Joãozinho Feliz (25°26’58.8”S,

48°45’05.7”W; registro inferido), o oeste em meandros do rio

Nhundiaquara (25°29’07.6”S, 48°49’23.9”W; registro inferido),

o sul em pequeno afluente da margem direita do rio do

Neves (25°30’13.1”S, 48°45’50.8”W) e o leste em um afluente

da margem esquerda do rio Nhundiaquara (25°28’23.1”S,

48°43’23.4”W; registro inferido). O local que congrega a

maior área contínua de ambientes de ocorrência da espécie na

região situa-se na confluência do rio do Neves no Nhundiaquara

(c. 25°28’57.0”S, 48°44’13.4”W). Totalizou-se 548 ha


504 Bianca Luiza Reinert, Marcos Ricardo Bornschein e Carlos Firkowski

Figura 6. Mapa esquemático da distribuição geográfica do bicudinho-do-brejo (Stymphalornis acutirostris), com a localização das oito populações da espécie,

das quais a mais ao norte situa-se na região da baía de Antonina, Paraná, e a mais ao sul na região do rio Itapocu, Santa Catarina (escala original 1:250.000). Em

rosa têm-se áreas onde se efetuou registros da espécie e em verde áreas sem registros, mas onde a ocorrência é provável devido a existência de ambiente adequado

contínuo com ou próximo de locais onde a espécie foi registrada.

Figure 6. Schematic map of the Marsh Antwren’s (Stymphalornis acutirostris) geographic distribution, illustrating the localization of the eight populations of

the species, the northernmost which occurs in the Antonina Bay region, state of Paraná, and the southernmost in the Itapocu river region, state of Santa Catarina

(original scale 1:250.000). Areas with records of the species are represented in pink, whereas areas without records but where its occurrence is presumable owing

to the existence of continuous adequate habitats with or near sites were the species was recorded is depicted in green.


Distribuição, tamanho populacional, hábitat e conservação do bicudinho-do-brejo

Stymphalornis acutirostris Bornschein, Reinert e Teixeira, 1995 (Thamnophilidae)

505

de ambientes de ocorrência da espécie nessa população, sendo

222 ha de brejo de maré, 208 ha de guanandizal com herbáceas,

94 ha de manguezal com herbáceas, 14 ha de brejo secundário

e 9 ha de brejo de meandro (tabela 2). A população está perdendo

área principalmente de brejos de maré e de meandro por

conseqüência da invasão de capins africanos (vide “Impactos”

abaixo). Acredita-se que o limite oeste, inferido a partir

da situação ambiental de 1980 (vide “Distribuição” abaixo),

atualmente deva ser algo mais à leste.

Planícies florestadas limitam a distribuição geográfica da

população a oeste e sudoeste, enquanto que a norte áreas florestadas

com altitude mínima de cerca de 20 m são o limite (vide

acima). Na planície a sul e sudeste existem rios com ambientes

propícios até próximo da cidade de Paranaguá (figura 6), mas

nos quais não se registrou a espécie. Não se descarta a possibilidade

de que ela ocorra em alguns desses rios e tenha sido

subestimada em campo.

População do rio Guaraguaçu. Distribui-se ao longo de grande

parte do rio Guaraguaçu e em alguns de seus afluentes, como

o rio Vermelho (municípios de Paranaguá, Pontal do Paraná e

Matinhos, Paraná; figura 7). Os limites norte e leste situamse

no sul da ilha Guaraguaçu (25°35’13.8”S, 48°27’52.9”W;

registro inferido), o sul no rio Indaial ou Sertão Grande

Figura 7. Planície de maré no rio Nhundiaquara, próximo da confluência com

o rio do Neves (A), com guanandizal com herbáceas (B), manguezal com

herbáceas (C) e brejo de maré (D), cujas bordas escuras referem-se a locais

onde o piri (Scirpus californicus) é alto e dominante (E). A letra “F” indica

floresta. Na ilha (do Pirizal, “G”) não há ocorrência do bicudinho-do-brejo

(Stymphalornis acutirostris), possivelmente por ele não ter podido colonizála

(27 m é a menor distância que a separa da margem do Nhundiaquara)

(divisa dos municípios de Antonina e Morretes, Paraná). Foto: T. de Mesquita

Fialho.

Figure 7. Tidal flat in Nhundiaquara river, near of the river of Neves

confluence (A), with “guanandizal” with herbaceous plants (B), mangrove

with herbaceous plants (C) and tidal marsh (D), whose dark borders are

related to places where the bulrush (Scirpus californicus) is high and dominant

(E). “F” indicates forest. In the island (Pirizal island, “G”) Marsh Antwren

(Stymphalornis acutirostris) do not occur, maybe by it incapacity to colonize

them (27 m is the minor distance between the island and Nhundiaquara river

margin) (boundary of the Antonina and Morretes municipalities, Paraná state).

Photo: T. de Mesquita Fialho.

(25°46’32.3”S, 48°33’24.0”W; registro inferido) e o oeste no

rio do Meio (25°45’55.0”S, 48°34’10.0”W; registro inferido).

Totalizou-se 131 ha de ambientes de ocorrência da espécie

na região dessa população, sendo 55 ha de manguezal com

herbáceas, 38 ha de brejo de capim-serra, 29 ha de brejo de

maré, 8 ha de caxetal com herbáceas e menos de 1 ha de brejo

secundário (tabela 2). Não há um local que congregue expressiva

área contínua desses ambientes na população. A população

está perdendo área de brejos de maré por conseqüência da

invasão de capins africanos (vide “Impactos” abaixo).

A distribuição geográfica da espécie é limitada a sul por

montanhas que atingem a linha da costa na parte externa da

baía de Guaratuba. Acredita-se que a leste a distribuição geográfica

da espécie foi retraída por ações de origem antrópica

(vide “Impactos” abaixo). Originalmente, é possível que a

presente população fosse contínua com a do balneário Flórida

(vide adiante). Na planície costeira a oeste e noroeste do limite

oeste mencionado existem rios com ambientes propícios até

próximo da cidade de Paranaguá (figura 6), mas nos quais não

se registrou a espécie (vide acima e “Distribuição” abaixo).

Não se descarta a possibilidade de que ela ocorra em alguns

desses rios e tenha sido subestimada em campo.

População do balneário Flórida. Essa é a menor (6 ha;

tabela 2) e mais ameaçada população de S. acutirostris. Praticamente

cercada por loteamentos, ocupa uma pequena faixa

de brejo intercordão no balneário Flórida (c. 25°46’39.0”S,

48°31’06.9”W; município de Matinhos, Paraná; figura 6),

com 1.080 m de comprimento por até 100 m de largura. É a

única das populações da espécie onde há brejo intercordão.

Acredita-se que essa população fosse contínua com a do rio

Guaraguaçu (vide acima), mas retraída por aterros e outros

impactos de origem antrópica (vide “Impactos” abaixo). O

brejo intercordão do balneário Ipacaray (localidade-tipo da

espécie), outrora contínuo com o do balneário Flórida, não foi

incluído na presente população, pois a espécie está extinta no

local.

População da baía de Guaratuba. Maior e mais importante das

populações da espécie, ocorre ao longo da baía de Guaratuba

e prolonga-se nos terços médios e inferiores de rios que nela

confluem (municípios de Guaratuba, Paraná, e Garuva, Santa

Catarina), por exemplo, no rio Preto, Cubatãozinho, Cubatão,

São João, Descoberto e Boguaçu (figura 6). O limite norte

situa-se em meandros abandonados do rio Cubatãozinho, na

Fazenda Estrela (25°43’32.9”S, 42°44’22.0”W), o sul em uma

mancha de caxetal com herbáceas próxima da margem direita

do rio São João (25°59’48.5”S, 42°49’34.2”W; registro inferido),

o oeste próximo desse ponto em meandros do mesmo

rio, em sua margem esquerda (25°59’43.1”S, 42°50’23.9”W;

registro inferido), e o leste na ilha do Veiga (25°49’45.0”S,

42°35’23.6”W). Totalizou-se 2.840 ha de ambientes de ocorrência

da espécie nessa população, sendo 848 ha de manguezal

com herbáceas, 794 ha de caxetal com herbáceas, 667 ha

de brejo de maré, 326 ha de guanandizal com herbáceas,


506 Bianca Luiza Reinert, Marcos Ricardo Bornschein e Carlos Firkowski

123 ha de brejo de capim-serra, 66 ha de brejo de meandro,

8 ha de ariticunzal com herbáceas e 5 ha de brejo secundário

(tabela 2). Os locais com mais área contínua de ambientes

de ocorrência da espécie situam-se nas ilhas do Chapeuzinho

e Ricardo (c. 25°51’13.2”S, 42°43’12.2”W) e na lagoa do

Parado (25°44’59.3”S, 42°49’1.4”W). Esse local é uma grande

planície de inundação vegetada por brejo de maré, caxetal com

herbáceas e ariticunzal com herbáceas com cerca de 600 ha.

Devido ao isolamento natural, sofreu poucos impactos, sendo

uma das áreas mais preservadas com ocorrência de S. acutirostris.

Principalmente por isso e mais pela área consideravelmente

vasta, considera-se o local de maior importância para a

conservação da espécie.

Áreas florestadas em serras limitam a distribuição geográfica

da população em todo o setor setentrional e oeste, enquanto

que áreas florestadas em planície a limitam no setor meridional.

Nesse setor existem ambientes propícios para a espécie no

rio Saí-guaçu, que se situa próximo das populações da baía de

Guaratuba e de Itapoá e onde não há registros da espécie. A

sua ausência nesse rio se acredita ser inexplicável com base no

relevo e cobertura vegetal atual (vide “Distribuição” abaixo).

A área de ocupação de S. acutirostris na presente população

pode estar se ampliando para o sul, em conseqüência da

formação de brejo secundário ao longo de estradas e rodovias

(e.g. PR 412; vide “Brejo secundário” acima). Com o passar

do tempo pode acontecer da espécie atingir o rio Saí-guaçu,

onde não havia registros dela pelo menos até 1998.

População de Itapoá. Consiste de duas pequenas áreas de

formações pioneiras, que totalizam menos de 50 ha. A maior

delas localiza-se no rio Braço do Norte (26°05’36.3”S,

48°38’56.4”W), Reserva Particular do Patrimônio Natural

Fazenda Palmital (também denominada como Reserva Volta

Velha), e a menor na sede da adjacente Fazenda Palmital

(26°05’02.6”S, 48°38’34.9”W) (município de Itapoá, Santa

Catarina; figura 6). A menor área caracteriza-se por uma mancha

de brejo secundário onde, inclusive, outros pesquisadores

reportaram a ocorrência da espécie (Naka et al. 2000, como

“Volta Velha, Itapoá”; vide “Ambientes e sucessão vegetacional”

abaixo). No rio Braço do Norte a espécie foi registrada

em um ambiente algo distinto dos demais anteriormente

descritos. Caracteriza-se por arbustivas (c. 2‐2,5 m de altura),

algumas arbóreas e umas poucas aglomerações de herbáceas

típicas de brejos. Provavelmente esse ambiente se tratava de

uma floresta (Floresta Ombrófila Densa das Terras Baixas)

que sofreu sucessão regressiva talvez pela queda de árvores,

vindo a assemelhar-se ao guanandizal com herbáceas (vide

“Ambientes e sucessão vegetacional” abaixo).

O isolamento desta população ocorre pela falta de ambientes

propícios para a espécie no entorno, predominantemente

vegetado por floresta (Floresta Ombrófila Densa das Terras

Baixas). Acredita-se que essa população seja relictual e

que esteja naturalmente em vias de extinção pela sucessão

dos ambientes de ocorrência da espécie para floresta (vide

“Ambientes e sucessão vegetacional” abaixo).

População da baía da Babitonga. Distribui-se ao longo da

baía da Babitonga, Santa Catarina, abrangendo diversos

municípios, a saber: Garuva, Joinville, Araquari e balneário

Barra do Sul (figura 6). O limite norte situa-se no rio Palmital

(26°02’36.1”S, 48°48’37.7”W; município de Garuva;

registro inferido), o leste próximo da foz do rio Perequê

(26°27’25.2”S, 48°36’50.9”W; município de balneário Barra

do Sul; registro inferido), o sul mais a montante do mesmo rio

Perequê (26°28’04.6”S, 48°38’41.2”W; município de balneário

Barra do Sul; registro inferido) e o oeste no rio Cavalinho

(26°06’29.0”S, 48°50’06.9”W; município de Garuva; registro

inferido). Dos ambientes de ocorrência da espécie, tem-se

brejo de maré, brejo de capim-serra, manguezal com herbáceas

e guanandizal com herbáceas. O local com mais área contínua

de ambientes de ocorrência da espécie situa-se no interior da

baía da Babitonga (rio Palmital e afluentes, c. 26°04’09.4”S,

48°48’58.9”W). A população está perdendo área por conseqüência

da invasão de capins africanos, aterro e retificação

de rios (vide “Impactos” abaixo), mas os limites geográficos

estabelecidos para a população não devem ter se alterado, à

exceção do limite leste, que atualmente acredita-se estar situado

um pouco mais a oeste. Áreas florestadas em planície limitam

a distribuição geográfica da população.

População do rio Itapocu. Distribui-se ao longo de parte dos

rios Itapocu e Piraí e no rio Poço Grande (municípios de Joinville,

Guaramirim, Araquari, São João do Itaperiú e Barra

Velha, Santa Catarina; figura 6). O limite norte situa-se em um

meandro do rio Piraí (26°22’45.7”S, 48°52’43.9”W; município

de Joinville; registro inferido), o sul na margem direita do

rio Itapocu, quase na sua foz (26°36’00.4”S, 48°43’01.8”W;

município de Barra Velha; registro inferido), o leste próximo

desse ponto, igualmente na margem direita do rio Itapocu,

junto à sua foz nas lagoas do Norte e do Sul (26°34’37.4”S,

48°40’47.8”W; município de Barra Velha; registro inferido)

e o oeste em um meandro do rio Itapocu, próximo da confluência

do rio Poço Grande (26°31’14.5”S, 48°53’58.6”W;

município de Guaramirim; registro inferido). Dentre os

ambientes de ocorrência da espécie, há naquela região brejo

de maré e, principalmente, brejo de meandro. Está ocorrendo

forte subtração de área dessa população por conseqüência da

invasão de capins africanos, aterro e drenagens (vide “Impactos”

abaixo), podendo a distribuição geográfica atual da espécie,

nessa população, estar muito retraída. Foram efetuados

somente dois pontos de registro de S. acutirostris nessa população,

ambos em meandros abandonados na margem esquerda

do rio Itapocu (município de Araquari), um próximo da BR

101 (26°35’48.0”S, 48°43’01.8”W) e outro próximo da lagoa

Itaum (26°31’27.6”S, 48°46’19.8”W). Em maio de 2005,

B.L.R. e M.R.B. retornaram a esses dois pontos e percorreram

boa parte do trecho do rio Itapocu inserido na área de ocupação

da presente população, mas não encontraram S. acutirostris

(vide “Impactos” abaixo).

Áreas florestadas em planície limitam a distribuição geográfica

da população, exceto no sul, onde se verifica locais


Distribuição, tamanho populacional, hábitat e conservação do bicudinho-do-brejo

Stymphalornis acutirostris Bornschein, Reinert e Teixeira, 1995 (Thamnophilidae)

507

com ambientes propícios para S. acutirostris ao menos até o

município de Camboriú. A espécie pode ter sido extinta recentemente

dessa região, em função da forte degradação de origem

antrópica (vide “Distribuição” abaixo).

Estimativa de áreas, território e população. No Paraná, estimou-se

a área de ocupação de S. acutirostris em 4.856,67 ha

(48 km²), dos quais 1.331,07 ha na população da baía de Antonina,

547,82 ha na do rio Nhundiaquara, 131,21 ha na do rio

Guaraguaçu, 6,38 ha na do balneário Flórida e 2.840,19 ha na

da baía de Guaratuba (tabela 2). Em Santa Catarina, estimouse

a área de ocupação da espécie em prováveis 1.200 ha, totalizando

uma área de ocupação global de 6.056,67 ha (60 km²).

A extensão de ocorrência da espécie, levantada unicamente

para comparações na discussão, foi estimada em aproximadamente

43.200 ha (430 km²) (vide “Distribuição” abaixo).

A espécie não ocorre com a mesma abundância em todos

os ambientes. A partir da análise do tempo de resposta ao playback

e do número de registros e não-registros em locais inseridos

nos limites geográficos das populações de S. acutirostris

no Paraná e Santa Catarina, reconheceram-se duas categorias

de ambientes: uma onde a espécie é comum e outra onde é

rara. Onde ela é comum, houve registro em 72,6% dos pontos

de amostragem (n = 62) e o tempo de resposta ao playback foi

de 5,2 min, em média (n = 45). Onde ela é rara, houve registro

em 47,1% dos pontos de amostragem (n = 51) e o tempo

de resposta ao playback foi de 7,5 min, em média (n = 24). O

número de indivíduos registrados em cada local normalmente

foi dois. Os ambientes onde S. acutirostris é comum são o

brejo de maré, brejo secundário, brejo de meandro e brejo

intercordão; no manguezal com herbáceas, guanandizal com

herbáceas, caxetal com herbáceas, ariticunzal com herbáceas

e brejo de capim-serra a espécie é rara. Os brejos de meandro

e intercordão foram considerados como sendo ambientes onde

a espécie é comum por causa da semelhança fitofisionômica

com certos brejos de maré, uma vez que foram poucos os locais

desses ambientes avaliados quanto à ocorrência de S. acutirostris

(vide “População do balneário Flórida” acima). O ariticunzal

com herbáceas, igualmente pouco avaliado em campo,

foi considerado como sendo um ambiente onde a espécie é rara

por conter um estrato superior arbóreo, tal qual o manguezal,

guanandizal e caxetal com herbáceas.

No brejo de maré, representativo do grupo de ambientes

onde a espécie é comum, detectaram-se casais ocupando territórios

de 0,25 ha (n = 6) (= 8 indivíduos maduros por hectare).

No brejo de capim-serra, representativo do grupo de ambientes

onde a espécie é rara, detectaram-se casais ocupando territórios

de 3,2 ha (n = 3) (= 0,62 indivíduo maduro por hectare).

Da área de ocupação de S. acutirostris no Paraná por tipo de

ambiente (tabela 2), cerca de 1.447 ha são do grupo de ambientes

onde ele é comum e 3.410 ha onde é raro. Dos cerca de

1.200 ha de ocorrência da espécie em Santa Catarina, cerca de

440 ha são do grupo de ambientes onde ela é comum e cerca

de 760 ha onde é rara. Tomando-se as densidades obtidas e

multiplicando cada qual pela área total do grupo de ambientes

que representam, tem-se a extrapolação de quase 13.700

indivíduos da espécie no Paraná e quase 4.000 em Santa Catarina,

resultando numa população global estimada em cerca de

17.700 indivíduos maduros. Por população no Paraná, tem-se

a estimativa de 3.966 indivíduos na da baía de Antonina, 2.155

na do rio Nhundiaquara, 300 na do rio Guaraguaçu, 51 na do

balneário Flórida e 7.217 na da baía de Guaratuba (tabela 3).

Potencial de vôo. Várias vezes observaram-se S. acutirostris

voando distâncias de até 10 m e raras vezes distâncias em

torno de 15 m. Em uma ocasião, observou-se um indivíduo,

excitado por playback, voar cerca de 25 m de um brejo a um

arbusto sobre uma pastagem. Foram feitas tentativas para atrair

indivíduos de um brejo a outro separado por estradas ou rios

mediante playback, não sendo observado distâncias maiores

do que 15 m cruzadas.

Na ilha do Pirizal, no rio Nhundiaquara (divisa dos municípios

de Antonina e Morretes, Paraná), com 6,4 ha, vegetada

por brejo de maré e distante 25 m da margem (menor distância;

figura 7), não ocorre S. acutirostris. Presente nas duas

margens do rio, ele aparentemente não foi capaz de colonizar

aquela ilha, que tem área suficiente para abrigar vários indivíduos

da espécie. Embora a distância entre ela e a margem seja

Tabela 3. Estimativa populacional do bicudinho-do-brejo (Stymphalornis acutirostris) nas cinco populações da espécie no Estado do Paraná (sul do Brasil).

Table 3. Population estimates of the Marsh Antwren (Stymphalornis acutirostris) in the five populations of the species in Paraná state (southern Brazil).

População Grupo de ambientes onde a espécie é comum e rara Área (ha) Estimativa populacional 1 Total 1

Baía de Antonina

comum 425,59 3.405

rara 905,48 561

3.966

Rio Nhundiaquara

comum 245,99 1.968

rara 301,83 187

2.155

Rio Guaraguaçu

comum 29,59 237

rara 101,62 63

300

Balneário Flórida

comum 6,38 51

rara 0,0 —

51

Baía de Guaratuba

comum 739,22 5.914

rara 2.100,97 1.303

7.217

Total geral 1 13.689

1

Número de indivíduos maduros.


508 Bianca Luiza Reinert, Marcos Ricardo Bornschein e Carlos Firkowski

a mesma da maior distância que se mediu para um vôo contínuo

da espécie, esse vôo foi feito sobre áreas vegetadas. Stymphalornis

acutirostris tem limitado potencial de vôo, ao menos

se comparado com a maioria das espécies com quem coexiste

(vide “Comunidade de aves” abaixo). Como conseqüência,

sugere-se que tenha limitada capacidade de dispersão.

Impactos. A invasão de vegetais exóticos é o mais comum e

mais preocupante impacto registrado, incidindo em ambientes

com ocorrência de S. acutirostris em todas as populações da

espécie. É muito freqüente em brejo intercordão, de meandro e

em brejo de maré localizado em região com menor influência

do nível de água pelo regime das marés, sendo incomum em

caxetal, guanandizal e manguezal com herbáceas. As exóticas

invasoras registradas são Hedychium coronarium, originário

da Ásia, e os capins africanos Brachiaria mutica e Urochloa

arrecta. Hedychium coronarium é mais agressivo em

brejo intercordão e de meandro, U. arrecta é mais agressiva

em brejo de meandro e B. mutica é mais agressiva em brejo

intercordão.

Urochloa arrecta e B. mutica espalham-se pelos brejos e

tornam-se cada vez mais abundantes, a ponto de restringirem

e, com o tempo, impedirem o desenvolvimento das plantas

nativas, aparentemente pela falta de espaço e sombreamento

provocado pelas inúmeras camadas acumuladas de estolões

e folhas. Urochloa arrecta ainda avança sobre a água como

um banco de vegetação parcialmente flutuante, que, às vezes,

é arrancado pelas enchentes e levado para outras áreas ainda

livres da sua presença. Na região de ocorrência de S. acutirostris,

essa espécie nunca foi observada como abundante na

parte inferior da zona entre marés, ou seja, em regiões com

maior influência das marés, sugerindo que a maior salinidade

seja um fator de restrição. No entanto, próximo da foz do rio

Ribeira de Iguape, em São Paulo, observou-se um manguezal

cujo solo estava completamente tomado por U. arrecta.

Hedychium coronarium desenvolve-se diferentemente dos

capins, com crescimento vertical. Assim, compacta menos

a vegetação nativa, em um primeiro momento. No entanto,

quando se torna abundante também limita o crescimento das

nativas, mas aparentemente não de U. arrecta. Em situações

extremas de invasão, H. coronarium forma densas massas

monoespecíficas, situação na qual o solo fica completamente

tomado por seus rizomas e raízes.

Brejos muito invadidos por aquelas três exóticas (normalmente

em agrupamentos monoespecíficos) tornam-se inabitáveis

para S. acutirostris. As causas são o desaparecimento da

estratificação para deslocamento e forrageio, desaparecimento

de espécies fornecedoras de material nidular, desaparecimento

de espécies que são usadas como suporte para a construção

do ninho e o empobrecimento da riqueza de espécies vegetais

nas quais S. acutirostris encontra seu alimento. Em meio às

exóticas, S. acutirostris se desloca e, mesmo, obtém alimento,

particularmente lagartas capturadas nas folhas de capins africanos,

mas isso em situações onde essas plantas não são muito

abundantes.

Como a contaminação biológica pelas exóticas pode culminar

na eliminação de S. acutirostris de brejos onde antes

ele existia, considera-se esse impacto como supressor de área.

A redução de áreas por contaminação biológica é o principal

impacto sobre S. acutirostris. Perda de área por essa causa

só não se registrou na população de Itapoá; na população do

balneário Flórida, esse impacto é menos importante do que o

aterro (vide adiante). Nas demais populações da espécie, esse

impacto está retraindo a distribuição geográfica de S. acutirostris

(vide “Distribuição” abaixo). Em particular nas populações

da baía de Antonina, do rio Nhundiaquara, da baía de

Guaratuba e no trecho norte da população da baía da Babitonga,

a distribuição geográfica da espécie está gradualmente

restringindo-se aos locais onde há grande influência do regime

das marés (vide “Conservação” na “Discussão”, abaixo).

O capim-elefante (Pennisetum sp. cf. P. purpureum), outra

espécie exótica africana, tem se tornado cada vez mais abundante

em regiões quentes do Sudeste e sul do Brasil. De terrenos

secos, aparentemente está se adaptando a terrenos úmidos,

havendo registros em brejos nos Estados de São Paulo e Santa

Catarina (M.R.B. obs. pess.). É incomum no litoral do Paraná

e abundante ao menos no litoral centro-norte de Santa Catarina.

É uma invasora cuja dispersão sobre brejos na região de

ocorrência de S. acutirostris necessita ser observada.

Canais para a drenagem de brejos observaram-se na região

de quase todas as populações de S. acutirostris, especialmente

na da baía da Babitonga e do rio Itapocu, em Santa Catarina

(vide Bornschein e Reinert 1997). Na região da população da

baía de Guaratuba, Paraná, em uma planície de inundação na

margem direita do rio Cubatãozinho (Fazenda Estrela), foi

feita uma grande obra de drenagem a fim de secar a lagoa do

Furta-maré e ambientes úmidos marginais, visando ampliar a

área de pastagem para búfalos, cujos efeitos não puderam ser

avaliados pelos autores. Canais de drenagem provocam escoamento

de água, podendo eliminar a água superficial e, por

conseqüência, alterar profundamente a comunidade biótica.

Normalmente, drenam-se áreas úmidas para formar pastagem

ou preparar o terreno para aterro. Inúmeros brejos intercordões

na faixa costeira entre Pontal do Sul e Matinhos, sem ocorrência

de S. acutirostris, foram drenados e, quando secaram,

foram aterrados. Dois, não aterrados, foram queimados. De

um deles, a vegetação tombou antes da queima, provavelmente

pela perda de sustentação dada pelos aerênquimas nas porções

submersas das plantas (vide Modesto e Siqueira 1981). Outro

foi incendiado, tendo queimado em algumas horas as folhas e

caules e, durante três dias, as raízes e rizomas da vegetação.

Um ano depois, espécies de rápido crescimento de ambos os

brejos já estavam crescidas, mas não se formou mais coluna

d’água superficial (ao menos até 11 anos depois).

Aterro é o mais grave impacto de subtração de brejo intercordão

(vide Bornschein et al. 1995, Bornschein e Reinert 1997).

Na região de ocorrência de S. acutirostris, esse ambiente existe

quase que exclusivamente ao longo da faixa costeira de 35 km

entre Pontal do Sul e Matinhos, Paraná. Embora a ocorrência

de S. acutirostris nessa região limite-se a somente um ponto


Distribuição, tamanho populacional, hábitat e conservação do bicudinho-do-brejo

Stymphalornis acutirostris Bornschein, Reinert e Teixeira, 1995 (Thamnophilidae)

509

(= população do balneário Flórida; vide acima), é provável

que no passado fosse contínua. Naqueles 35 km de costa, em

1953, brejo intercordão ocorria ao longo de 33,5 km ocupando

274,74 ha distribuídos em 32 manchas de ambiente, com 0,19

a 80,73 ha (média de 8,59 ha), das quais a maior tinha 13,5 km

de comprimento (estimativa de área por M.R.B. e B.L.R. a

partir de mapeamento de R. J. Angulo, na escala aproximada

de 1:31.000, efetuado com base em fotografias aéreas de 1953,

provavelmente na escala 1:25.000). Naquela época, a subtração

de área era inexistente ou insignificante, de modo que os

quase 300 ha estimados podem ser considerados o que existia

originalmente do ambiente na região (R. J. Angulo com.

pess., 1997). Em 1980, brejo intercordão, na região, ocorria

ao longo de 29,5 km de costa ocupando 127,83 ha distribuídos

em 81 manchas de ambiente, com 0,026 a 17,09 ha (média

de 1,58 ha), das quais a maior tinha 3,3 km de comprimento.

A subtração de área, no período, foi de 51,9% (não se contabilizou

14,03 ha de brejo intercordão do “mapeamento” de

1953, pois no de 1980 eles foram considerados como outro

ambiente; não se contabilizou 2,47 ha de brejo intercordão do

“mapeamento” de 1980, pois eles não foram identificados no

de 1953). Um estudo inédito de M.R.B. e B.L.R., com interpretação

da cobertura vegetal em fotografias aéreas de 1995,

permitiu evidenciar que a subtração de brejo intercordão na

região continuou muito acentuada, tendo-se perdido mais de

50% do que existia em 1980. A significativa subtração, redução

e fragmentação de brejo intercordão ocorreram por conseqüência

de aterros para a especulação imobiliária. Aterros

também vêm alterando manguezais com herbáceas na baía da

Babitonga, Santa Catarina (e.g. nas proximidades da marina

das Garças; população da baía da Babitonga).

Na faixa costeira de 35 km entre Pontal do Sul e Matinhos,

Paraná, brejos intercordões são queimados regularmente,

especialmente no inverno (vide Bornschein et al.

1995, 1998, Bornschein e Reinert 1997). Acredita-se que

esse impacto, associado com a subtração e fragmentação de

brejos por aterros (vide acima), limitaram a distribuição geográfica

de S. acutirostris, naquela região, à população do balneário

Flórida. Na localidade tipo de S. acutirostris, outrora

com brejo intercordão contínuo com o do balneário Flórida,

e onde a espécie extinguiu-se, incêndios queimaram parte do

brejo algumas vezes entre 1995 e 1997, pelo menos. Queimadas

ainda ocorrem em brejo de capim-serra e manguezal

com herbáceas na região da população da baía da Babitonga,

Santa Catarina. O fogo tem sido usado para “limpar” locais

de “cobras e ratos” e, em Santa Catarina, também para expor

animais alvo de caça (e.g. capivara Hydrochaeris hydrochaeris).

Provoca a eliminação temporária da vegetação herbácea

e arbustiva, ocasião em que se reduz ou mesmo elimina,

conforme o caso, território(s) de S. acutirostris. Herbáceas de

rápido crescimento, como Typha domingensis, crescem novamente

em uma área onde foram queimadas em poucos meses.

No entanto, ao menos em brejo intercordão, pode demorar três

anos para que a vegetação se torne tão densa quanto antes, ou

próximo disso.

Pastoreio registrou-se em caxetal com herbáceas e em

todos os tipos de brejo de ocorrência de S. acutirostris ao

longo de quase toda a sua distribuição geográfica. É impacto

grave na população da baía da Babitonga e muito grave na

do rio Itapocu, onde brejos de meandro têm sido parcial ou

totalmente descaracterizados por bovinos e, em menor escala,

eqüinos. Búfalos têm impactado brejos de maré e caxetais com

herbáceas localmente na população da baía de Guaratuba. Até

pelo menos 2003, S. acutirostris ocorria em um brejo na margem

esquerda do rio Itapocu, próximo da sua foz e da BR 101

(26°35’48.0”S, 48°43’01.8”W; município de Araquari). Em

2005, o brejo estava todo alterado por gado bovino e S. acutirostris

não se achava presente. Salienta-se que esse local era

um entre dois únicos com registro da espécie na população

do rio Itapocu. O pisoteio e pastoreio causado pela pecuária

reduzem a riqueza de plantas herbáceas e arbustivas, favorece

a instalação de plantas ruderais resistentes, em detrimento

de outras, e, principalmente, reduz a cobertura e densidade

da vegetação, diminuindo e até eliminando a capacidade do

ambiente em suportar S. acutirostris. Áreas pastoreadas ainda

tendem a ser contaminadas por capins exóticos, particularmente

Urochloa arrecta.

Em 16 de fevereiro de 2001, 52 mil litros de óleo vazaram

de um duto na serra do Mar, escoaram por um rio e, por

decorrência da variação das marés, espalharam-se por quase

toda a área de ocupação de S. acutirostris na população do

rio Nhundiaquara. O óleo aderiu no solo e na vegetação.

Dias após, a vegetação afetada ficou “queimada” e, posteriormente,

as herbáceas e alguns arbustos e árvores de pequeno

porte secaram e morreram (informação obtida localmente por

B.L.R. e M.R.B.). Quase 100 dias após, a vegetação herbácea

já tinha crescido novamente (B.L.R. e M.R.B., obs. pess.). Em

12 de junho de 2001, 15 mil litros de óleo diesel vazaram em

Corupá, Santa Catarina. O óleo atingiu o rio Itapocu e foi por

ele conduzido até a região de ocorrência de uma das populações

da espécie. Por intermédio de rios e/ou regime das marés,

vazamento de derivados de petróleo, bem como de outros produtos

químicos, pode atingir parte de sete das oito populações

de S. acutirostris (exclui-se a menor delas).

Extração de vegetais nativos foi verificada em pequena

escala em alguns pontos em brejo de maré nas populações da

baía de Antonina e da Babitonga. Limita-se à coleta de Scirpus

californicus e Typha domingensis para a confecção de esteiras.

Na região da população da baía de Guaratuba, segundo

informações de moradores locais, houve intensa exploração de

S. californicus há 20 anos.

A construção de atracadouros e a operação de extração

de areia causam a descaracterização pontual de brejos de

maré e de meandro em todas as populações de ocorrência de

S. acutirostris, exceto na do balneário Flórida e de Itapoá. Na

região da população da baía da Babitonga, esses impactos são

freqüentes. Como conseqüência, tem-se a subtração de áreas

de brejo e descaracterização de outras, nas quais a invasão de

capins exóticos torna-se comum. No rio São João (população

da baía de Guaratuba), dragas retiram areia adjacente ao brejo


510 Bianca Luiza Reinert, Marcos Ricardo Bornschein e Carlos Firkowski

de maré, o que pode provocar o desmoronamento de trechos

da margem do rio e de ilhas, suprimindo áreas com ambiente

de S. acutirostris.

Acúmulo de lixo, como material plástico (garrafas, potes,

etc.) e utensílios domésticos (móveis, bicicletas, refrigeradores,

etc.), foi observado em todas as populações de S. acutirostris,

exceto na de Itapoá. É freqüente em todos os tipos de brejos

de ocorrência da espécie quando próximos de habitações e

incomum em áreas de brejo de maré no interior das baías, onde

o lixo é levado pela maré. O acúmulo de lixo por vezes elimina

a vegetação herbácea localmente.

Rajadas de vento tombam grandes extensões de brejo de

maré, ao menos na população de S. acutirostris da baía de

Guaratuba e da Babitonga. Moradores do município de Guaratuba

informaram que isso ocorre anualmente nessa região,

podendo intensificar-se em certos anos por conseqüência de

períodos de estiagem durante o inverno. Comentam que a

redução do volume de água doce dos rios do interior da baía

de Guaratuba ocasiona o aumento da salinidade da água, causando

a morte de algumas espécies de plantas, especialmente

Scirpus californicus, o que facilita o tombamento da vegetação

pela ação do vento.

Conservação. Pelos critérios da UICN (in BirdLife International

2000), S. acutirostris enquadra-se como ameaçado de

extinção na categoria “em perigo” (= Endangered), tal como

foi alocado em outras publicações (vide “Conservação” na

“Discussão”, abaixo).

Das áreas com ocorrência de S. acutirostris, aquelas situadas

na parte inferior da zona entre marés, ou seja, em regiões

com maior influência das marés (= “planície de maré”;

vide adiante), estão entre as mais importantes para a conservação

da espécie. Isso porque é nelas onde se formam novos

brejos, ao menos com uma velocidade que permitiu constatar

isso em 10 anos de observações, porque estão menos

pressionadas pela especulação imobiliária e porque estão

pouco contaminadas por vegetais exóticos. Além do mais,

outras aves ameaçadas de extinção no Paraná (Straube et al.

2004) ocorrem, como espécies residentes, somente nessa

região (bate-bico Phleocryptes melanops e papa-piri Tachuris

rubrigastra; M.R.B. e B.L.R., inf. pess.). Planícies de

maré com presença de S. acutirostris ocorrem no interior

das baías de Antonina (c. 25°21’29.9”S, 48°43’46.0”W), de

Guaratuba (c. 25°51’13.2”S, 42°43’12.2”W) e da Babitonga

(c. 26°04’09.4”S, 48°48’58.9”W) e na confluência dos rios

do Neves e Nhundiaquara (população do rio Nhundiaquara;

c. 25°28’57.0”S, 48°44’13.4”W). Pelo tamanho e estado de

conservação, uma outra área destaca-se como importante para

a conservação da espécie, a lagoa do Parado (25°44’59.3”S,

42°49’1.4”W) (vide “População da baía de Guaratuba”

acima).

Stymphalornis acutirostris ocorre em três unidades de conservação

de proteção integral: Parque Estadual do Boguaçu,

Estação Ecológica do Guaraguaçu e Reserva Particular do

Patrimônio Natural Fazenda Palmital. A primeira engloba

apenas uma ínfima parte da população da baía de Guaratuba.

A Estação Ecológica do Guaraguaçu engloba a melhor área da

população do rio Guaraguaçu, mas essa população é pequena

(tabela 2) e muitas manchas de brejo de maré da unidade de

conservação estão bastante invadidas por capins exóticos. A

Reserva Particular do Patrimônio Natural Fazenda Palmital

engloba a maior parte da população de Itapoá, mas ela é bem

pequena e aparentemente acha-se em processo natural de extinção

(vide “População de Itapoá” acima). A Reserva Natural

do Cachoeira, de propriedade da Sociedade de Pesquisa em

Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS), engloba uma

pequena parte da população da baía de Antonina. Essa área

deverá ser titulada como Reserva Particular do Patrimônio

Natural e talvez também seja ampliada, podendo vir a englobar

área ainda maior com ocorrência da espécie.

A lagoa do Parado é limítrofe ao recém criado Parque

Nacional Saint-Hilaire/Lange, que engloba florestas acima de

20 m s.n.m. e campo de altitude. A lei de criação desse parque

prevê a sua redelimitação, o que motivou inúmeros esforços

para que fosse ampliado até o nível do mar, englobando a

lagoa do Parado, mas que resultaram infrutíferos até o presente

(e.g. Siedlecki et al. 2003).

Como ações e estudos objetivando a proteção da espécie,

mesmo que indiretos, sugerem-se os que seguem.

1) Criar pelo menos uma unidade de conservação de proteção

integral que inclua parcela significativa de uma população

da espécie em área importante para a sua conservação (vide

acima). Em ordem de importância, essas áreas são a lagoa

do Parado e as planícies de maré da baía de Guaratuba, baía

da Babitonga, baía de Antonina e confluência dos rios do

Neves e Nhundiaquara.

2) Implantar programa contínuo e ininterrupto de controle de

vegetais exóticos invasores de brejos na região de ocorrência

de S. acutirostris. Sugere-se que inicie na baía de

Guaratuba, pois é onde existe a maior população da espécie

e onde se localizam as duas áreas mais importantes para a

sua conservação.

3) Intensificar a fiscalização para evitar a subtração, drenagem

e uso (e.g. para pastoreio) de áreas de preservação

permanente na região de ocorrência de S. acutirostris.

4) Atualizar a quantificação da área de ocupação da espécie,

utilizando-se de fotografias aéreas ou imagens de satélite

atuais. Prioritariamente, deve-se rever a área de ocupação

em Santa Catarina. O estudo deve ser detalhado o suficiente

para se identificar e descartar áreas contaminadas por plantas

exóticas que outrora eram brejo. Ainda se recomenda

que trabalhos de campo complementem o estudo, para que

se descarte da quantificação de áreas locais com ambiente

propício sem registro e se adicione brejos secundários com

registro da espécie.

5) Reavaliar o tamanho da população de S. acutirostris,

determinando-se a área de territórios da espécie em cada

ambiente de ocorrência.

6) Estudar a ecologia da espécie.


Distribuição, tamanho populacional, hábitat e conservação do bicudinho-do-brejo

Stymphalornis acutirostris Bornschein, Reinert e Teixeira, 1995 (Thamnophilidae)

511

7) Efetuar estudo genético para se verificar a variabilidade

genética das populações de S. acutirostris.

Essas propostas, das quais as duas primeiras são prioritárias,

podem compor um plano de conservação da espécie,

que deve ser proposto e viabilizado em conjunto com ações

de cunho social de longo prazo dirigidas para comunidades da

região de ocorrência de S. acutirostris.

Discussão

Ambientes e sucessão vegetacional. Os Thamnophilidae são

pouco freqüentes em brejos (Willis 1985), sendo S. acutirostris

o único dessa família que os têm como ambiente preferencial

(Zimmer e Isler 2003). Outras espécies da família que

B.L.R. e M.R.B. observaram em brejos, no Paraná, são o papaformiga-vermelho

(Formicivora rufa), choca-barrada (Thamnophilus

doliatus), choca-da-mata (T. caerulescens) e chocade-chapéu-vermelho

(T. ruficapillus), essa com freqüência.

As menções de que S. acutirostris “eventualmente ocorre...

em capoeiras ou vegetações pioneiras em recomposição” e de

que “eventualmente deixa [áreas alagadas] e freqüenta... áreas

de restinga” (Straube et al. 2004) são imprecisas e vagas. Não

se descarta que esses registros em supostos ambientes distintos

dos aqui descritos como de ocorrência da espécie tenham

se baseado em indivíduos atraídos de seus locais de vida por

playback. O brejo onde se registrou S. acutirostris em “Volta

Velha, Itapoá”, Santa Catarina (Naka et al. 2000), citado como

distinto, é um brejo secundário com muitos arbustos (B.L.R. e

M.R.B., obs. pess., 1998). Nele, B.L.R. e M.R.B. assinalaram

a presença de um casal da espécie e, dentre as plantas, várias

herbáceas (e.g. Fuirena robusta, Eleocharis flavescens, Cyperus

haspan, Urochloa arrecta, Cortaderia selloana, Blechnum

brasiliense e Thelypteris interrupta), arbustivas (e.g. carqueja

Baccharis trimera, Baccharis sp., assa-peixe Vernonia beyrichii,

tucum Bactris setosa) e algumas arbóreas. A ocorrência

de S. acutirostris nesse ambiente não causa surpresa.

O fato de a espécie viver unicamente em ambientes pioneiros

resulta em grandes implicações na sua conservação e,

possivelmente, na sua distribuição geográfica pretérita. Sendo

pioneiros, esses ambientes são temporários, “preparando” um

determinado local para o desenvolvimento de outros tipos de

ambientes. Surgem iniciando a ocupação de solo exposto e/ou

água e “desaparecem” cedendo lugar à floresta, etapa final do

processo de sucessão vegetacional. Isso, por sua vez, implica

não existiam anos atrás nos lugares onde hoje se encontram

e que neles não existirão no futuro. Situação mais ou menos

similar ocorre com as espécies que vivem em manguezais e

ambientes primários tal qual capoeiras que se formam na beira

de rios em conseqüência do dinamismo fluvial, por exemplo.

Com base no exposto acima, assume-se que todos os

ambientes da espécie se transformarão em Floresta Ombrófila

Densa das Terras Baixas sob o atual padrão climático. Os

ambientes herbáceos, exceto o brejo de capim-serra, passam

antes por um estágio com estrato superior arbóreo e inferior

herbáceo com espécies de brejos. À medida que a sucessão

avança, o maior sombreamento vai rareando as espécies de

brejos, tipicamente heliófilas, e inicia a entrada de elementos

tipicamente florestais no ambiente. Ao se formar um estrato

vegetacional intermediário, o ambiente já pode ser considerado

florestal.

A velocidade de formação e o tempo de sucessão de

ambientes pioneiros são assuntos pouco conhecidos e, igualmente,

importantes para a conservação e entendimento da

distribuição geográfica de S. acutirostris. Confirmou-se o surgimento

de manchas de manguezal com herbáceas em áreas

de brejo de maré comparando-se fotografias aéreas de 1980 e

1996 (ilha do Chapeuzinho, baía de Guaratuba), como também

uma fotografia aérea de 1980 em campo, em 2001 (ilha do

Pirizal, rio Nhundiaquara). Manguezais adensados de Laguncularia

racemosa podem levar cinco anos do surgimento até

a altura de cerca de 3‐3,5 m, e mais outros cinco anos para

que o ambiente assuma uma forma mais típica, com árvores

mais robustas, esgalhadas e menos adensadas, o que ocorre

com a morte de indivíduos menores (M.R.B. e B.L.R., obs.

pess., baía de Guaratuba). Um caxetal que foi cortado, virando

brejo secundário (sucessão regressiva), voltou a ser caxetal em

oito anos, embora com altura menor e as árvores de Tabebuia

cassinoides perfilhadas (município de Morretes, Paraná). A

extração dessa espécie na lagoa do Parado (município de Guaratuba)

ampliou, igualmente por sucessão regressiva, a área

de caxetal com herbáceas do local, conforme se deduziu em

fotografias aéreas de 1980. Com o encerramento da exploração

comercial daquela espécie no início da década de 1980,

o componente arbóreo do ambiente se adensou, conforme se

avaliou em fotografias aéreas de 1996. Quatorze hectares de

brejo intercordão, considerados como tal a partir da análise de

fotografias aéreas de 1953 (por R. J. Angulo), foram considerados

como caxetal com herbáceas a partir da análise de fotografias

aéreas de 1980 (por M.R.B.). Em um local do acrescido

de marinha em Pontal do Sul (município de Pontal do Paraná,

Paraná), transcorreram quatro anos entre o surgimento dos primeiros

indivíduos de Typha domingensis até a formação de um

brejo propriamente dito (no caso, brejo intercordão). Brejos

secundários, dependendo das condições, podem se formar em

apenas dois anos. Isso indica que ambientes pioneiros podem

surgir e se modificar muito rapidamente, mas não quer dizer

que milhares de anos não sejam eventualmente necessários

para algumas transformações.

Ainda ocorrem modificações, em curto prazo de tempo, na

riqueza e domínio de espécies botânicas nos brejos independente

do processo de sucessão vegetacional. Já mencionado, é

o caso das invasoras exóticas. Brejos intercordões em Pontal

do Sul (município de Pontal do Paraná, Paraná; sem ocorrência

de S. acutirostris), muito queimados, tiveram aumento do

domínio da nativa Typha domingensis em detrimento de Cladium

mariscus (M.R.B. e B.L.R., obs. pess.). Ao menos os brejos

de maré, intercordão e de meandro são ocupados por inúmeras

espécies herbáceas e arbustivas ruderais quando áreas


512 Bianca Luiza Reinert, Marcos Ricardo Bornschein e Carlos Firkowski

marginais são convertidas em paisagens antropizadas, como

pastagens e zonas de plantios. Brejos do planalto paranaense,

particularmente os situados na região dos Campos Gerais,

estão sendo rapidamente alterados pela invasão de T. domingensis,

outrora ausente ou pelo menos muito local naqueles

brejos. Isso é um impacto para o recém descrito macuquinhoda-várzea

(Scytalopus iraiensis) (vide Bornschein et al. 1998),

que não sobrevivem nos locais invadidos por aquela planta

(M.R.B. e B.L.R., obs. pess.). De brejos estudados em 1997 e

1998, com ocorrência de S. iraiensis, pelo menos dois foram

invadidos por T. domingensis e dois tiveram a área invadida

aumentada oito anos depois. Outros inúmeros brejos do planalto

paranaense, sem ocorrência de S. iraiensis, foram invadidos

nos últimos anos. Isso denota a suscetibilidade a alterações

e conseqüente fragilidade dos brejos, o que, por sua vez, também

implica na conservação de S. acutirostris.

Planície de maré. Analisando o manguezal como unidade de

mapeamento, principalmente em cartas geológicas do litoral

do Paraná, Angulo (1990) constatou que o que se denominou

como tal, incluía, no estado, pelo menos sete ambientes (manguezal,

marismas, bancos arenosos e areno-argilosos, manguezal

com Acrostichum e Hibiscus, zona de Cladium, pântano

de maré e brejo de maré). Por isso, considerou inadequada

a denominação manguezal nas cartas geológicas, a não ser

quando utilizada em mapas cuja escala de trabalho permitisse

separar esse ambiente dos demais envolvidos. Para quando

não for necessário ou quando a escala pequena impossibilite

a separação dos distintos ambientes, o autor sugeriu a utilização

de um termo que os inclua, propondo “planície de maré”.

Referenciando outra obra, citou que esse termo “caracteriza

áreas desenvolvidas entre marés, em costas de baixo declive,

com marcado ciclo de marés, com suficiente sedimento disponível

e sem forte ação das ondas” (vide CNPq 1987). No

contexto de S. acutirostris (e da comunidade de aves), a planície

de maré designa uma região com inúmeras particularidades

em comum (e.g. questões ecológicas e conservacionistas),

motivo pelo qual se sugere o emprego do termo em assuntos

alusivos à espécie. Ambientes de ocorrência de S. acutirostris

que se situam em planície de maré são o brejo de maré (em

parte), brejo de capim-serra, manguezal com herbáceas e guanandizal

com herbáceas (em parte). Na figura 7, apresenta-se

uma vista aérea de uma planície de maré, que já constou em

mapeamentos como sendo constituída apenas por manguezal

(e.g. Herz 1991).

Comunidade de aves. A comunidade de aves dos ambientes

herbáceos (brejos) de ocorrência de S. acutirostris no Paraná,

alvo de um estudo futuro, compõe-se por mais de 100 espécies,

as quais apresentam diferentes hábitos, status de ocorrência

e distribuições na região. Há espécies que vivem na

proximidade de água parada (e.g. freirinha Arundinicola leucocephala),

na vegetação herbácea densa (e.g. joão-teneném

Synallaxis spixi) ou onde há reduzida densidade de vegetação,

alguma salinidade e maior tempo de inundação pelo regime

de marés. Esse é o caso de Phleocryptes melanops, Tachuris

rubrigastra e sargento (Agelasticus thilius), que ocorrem

junto com S. acutirostris, mas têm distribuições geográficas

muito mais reduzidas na região. Outras aves que convivem

com S. acutirostris são o socoí-vermelho (Ixobrychus exilis),

socoí-amarelo (I. involucris), saracura-matraca (Rallus longirostris),

sanã-parda (Laterallus melanophaius), saracura-sanã

(Pardirallus nigricans), joão-pobre (Serpophaga nigricans),

amarelinho-do-junco (Pseudocolopteryx flaviventris) e carretão

(Agelasticus cyanopus), por exemplo.

Distribuição. Como resultados do presente estudo, detectou-se

S. acutirostris ao sul do registro mais austral prévio e

a sua distribuição geográfica foi determinada e reconhecida

como dividida em oito populações. A extensão de ocorrência

da espécie foi estimada em 1.850 km² (BirdLife International

2000), certamente tendo-se considerado toda a área compreendida

entre os registros extremos citados em Bornschein e

Reinert (1997). Esse valor é muito acima dos 430 km² estimados,

nesse estudo, como extensão de ocorrência da espécie,

o qual também é muito acima dos 60 km² estimados, igualmente

nesse estudo, como área de ocupação da espécie. Os

três valores apresentados são muito discrepantes e destacam o

quanto pode não ser realista a estimativa da área de extensão

de ocorrência (vide Fraga 2003). Mesmo tendo-se partido da

área de ocupação de S. acutirostris para estimar a extensão de

ocorrência, e tendo sido feita fotointerpretação e mapeamento

na escala 1:25.000, a menor extensão de ocorrência que se

conseguiu estimar resultou 717% maior do que área de ocupação

da espécie. No caso, a extensão de ocorrência estimada de

S. acutirostris incluiu superfície d’água, florestas, manguezais

e usos do solo onde não há ocorrência da espécie (e.g. áreas

de agricultura).

Stymphalornis acutirostris é um dos Thamnophilidae com

menor distribuição geográfica (Zimmer e Isler 2003). A área

de ocupação da espécie representa 3,3% da área do Parque

Nacional do Iguaçu, no oeste do Paraná, menos do que o dobro

da área do Parque Nacional da Tijuca, no Rio de Janeiro, e um

pouco mais do que o dobro da área da Ilha do Mel, no litoral

do Paraná, por exemplo. A área da extensão de ocorrência de

S. acutirostris é comparada com a das 1.186 espécies ameaçadas

de extinção no mundo (BirdLife International 2000) na

tabela 4, na qual se agrupou os valores das áreas fornecidas

em intervalos. Somente 29% de todas as aves ameaçadas de

extinção do mundo têm uma extensão de ocorrência menor ou

semelhante à de S. acutirostris. A área da extensão de ocorrência

de todas as aves do mundo não é conhecida. Sendo o

reduzido tamanho de distribuição um critério da UICN, mas

não único, para considerar espécies como ameaçadas de extinção,

supõem-se que todas as aves que têm pequenas distribuições,

como a de S. acutirostris, sejam ameaçadas e constem

em BirdLife International (2000). Logo, as espécies não ameaçadas

provavelmente têm extensão de ocorrência pelo menos

maior do que 501 km², conforme intervalo de área apresentado

na tabela 4. Assim, das 9.797 espécies de aves do mundo


Distribuição, tamanho populacional, hábitat e conservação do bicudinho-do-brejo

Stymphalornis acutirostris Bornschein, Reinert e Teixeira, 1995 (Thamnophilidae)

513

(BirdLife International 2000), apenas 3,5% delas teriam extensão

de ocorrência menor ou semelhante à de S. acutirostris.

A área de ocupação de S. acutirostris foi estimada a partir

da realidade ambiental de 1978, em Santa Catarina, atual,

na faixa costeira entre Pontal do Sul e Matinhos (Paraná), e

de 1980, no resto do Paraná (os anos referem-se aos da realização

das fotografias aéreas utilizadas na fotointerpretação).

Devido à escala de trabalho (1:25.000), a estimativa de área

certamente foi em algo subestimada pela dificuldade, senão

impossibilidade, em detectar faixas de brejos com até 1 m de

largura na fotointerpretação. Por outro lado, a estimativa foi

superestimada pela impossibilidade de distinguir, na fotointerpretação,

locais tomados por capins exóticos que eram

brejos. Acredita-se que a área de ocupação da espécie, até os

anos da realização das fotografias aéreas, foi superestimada

em cerca de 3 a 5%. De 1978 e 1980 para o presente, houve

perda de área de ocupação, principalmente em Santa Catarina,

e ampliação da área de ocupação em um local, pela formação

e colonização pela espécie de brejos secundários. No período,

descontado o acréscimo, acredita-se que houve perda de área

de ocupação da ordem de 7 a 15%. Desse modo, projeta-se que

a área de ocupação de 6.060 ha de S. acutirostris possa ser, nos

dias atuais, entre cerca de 10 e 20% menor.

É possível que S. acutirostris ocorresse mais ao sul do que

detectado por esse estudo. Várias áreas visitadas, ao menos

até o município de Camboriú, têm ambientes propícios para

a espécie, porém, muito alterados por impactos de origem

antrópica. Não se descarta que a espécie tenha se extinguido

recentemente de locais mais austrais do que o rio Itapocu, ou

que ela ainda venha a ser registrada, ao sul desse rio, em algum

local mais protegido. Straube et al. (2004) mencionaram como

provável que existam populações não detectadas de S. acutirostris

no litoral norte do Paraná, na região de Guaraqueçaba,

ao norte do limite estabelecido nesse estudo. Embora haja

ambientes propícios nessa região (vide “População da baía de

Tabela 4. Extensão de ocorrência das 1.186 espécies de aves ameaçadas de

extinção no mundo, segundo BirdLife International (2000).

Table 4. Extent of occurrence of the 1,186 threatened bird species in the

world, according to BirdLife International (2000).

Número de espécies

Extensão de ocorrência (km²)

73 1 – 10

96 11 – 50

49 51 – 100

123* 101 – 500

64 501 – 1.000

86** 1.001 – 2.000

313 2.001 – 20.000

337 > 20.001

45 desconhecida

* O bicudinho-do-brejo (Stymphalornis acutirostris) deveria ser alocado

neste grupo, segundo a estimativa do presente estudo. Observação: a área

de ocupação da espécie é de 60 km² (vide “Estimativa de áreas, território e

população” e “Distribuição”).

** Stymphalornis acutirostris foi alocado neste grupo em BirdLife International

(2000).

Antonina” acima), o grande esforço de procura realizado por

B.L.R. e M.R.B. na região refuta a suspeita daqueles autores.

Outro local com possível ocorrência de S. acutirostris é o rio

Faisqueira, na baía de Antonina, município de Antonina. Se

confirmada a ocorrência da espécie no local, onde B.L.R. e

M.R.B. estiveram presentes, mas em condições climáticas desfavoráveis,

se projetaria para leste a área geográfica da população

da baía de Antonina.

Das duas localidades de registro de S. acutirostris em

Santa Catarina de Naka et al. (2000), uma se insere na população

de Itapoá. No ponto exato do registro dessa localidade,

inclusive, B.L.R. e M.R.B. observaram a espécie um ano antes

(vide “População de Itapoá” acima). A outra localidade de

registros foi citada como “...few metres [sic] from the Paraná

border (at 25°59´S 48°42´W), ...along the road from Garuva to

Itapoá, in different patches of Typha”. A coordenada geográfica

indicada situa a localidade em Santa Catarina, mas a 600 m

da rodovia. Brejos de Typha ao longo da rodovia (PR 412)

ocorrem logo à nordeste do ponto da coordenada (c. de 6 km),

como em Olaria, só que no Paraná e não em Santa Catarina.

Acreditamos que essa localidade de registros de Naka et al.

(2000) tenha sido efetuada na região de Olaria, Paraná, e equivocadamente

atribuída como situada em Santa Catarina. Olaria,

onde há registros da espécie por B.L.R. e M.R.B., se insere

na população de Guaratuba (vide “Brejo secundário” acima).

Naka et al. (2000) ainda se equivocaram ao mencionar que

S. acutirostris ocorre na bacia hidrográfica do rio Paraná.

A distribuição de S. acutirostris em populações isoladas e

a sua ausência em locais com ambiente propício entre essas

populações, e mesmo pouco além delas, deve estar relacionada,

ao menos em parte, com as variações do nível médio

do mar ocorridas nos últimos milhares de anos. Nas regressões

marinhas, rios podem ter formado deltas, espraiando-se

e até conectando-se com outros sobre o que hoje é a plataforma

continental. Nesse cenário, é possível que vastos brejos

tenham se formado e permitido que S. acutirostris expandisse

a sua distribuição geográfica. Por outro lado, nas transgressões

marinhas pode ter havido eliminação de brejos. Com os

níveis médios do mar acima dos atuais os brejos podem ter

“migrado” a locais propícios gradualmente mais elevados,

mas também desaparecido, o que provavelmente ocorreu nos

setores onde a linha de costa margeou encostas, por exemplo.

Ocorrendo isso, supõe-se que a espécie tenha se extinguido de

certas áreas. Com o subseqüente abaixamento do nível médio

do mar, brejos podem ter se formado novamente nessas áreas,

mas dessa vez distantes o suficiente de populações de S. acutirostris

para impedir que fossem por ele colonizadas.

“O abaixamento o nível do mar durante as épocas glaciais

do Pleistoceno expôs amplas extensões da plataforma continental.

...Durante as épocas interglaciais o levantamento no

nível do mar originou uma transgressão marinha que inundou

novamente as áreas anteriormente emersas da plataforma continental...”

(Bigarella et al. 1978). Segundo estudos de Fairbridge,

o nível do mar variou de cerca de 100 a pouco mais de

10 m abaixo do atual de 20.000 até 6.000 anos atrás (Bigarella


514 Bianca Luiza Reinert, Marcos Ricardo Bornschein e Carlos Firkowski

e Sanches 1966). No Paraná, o nível marinho do Pleistoceno,

bem documentado, mais elevado é de 12 a 13 m acima do atual

(Bigarella et al. 1978). Numa tentativa de correlação dos dados

de Fairbridge para o litoral do Sudeste e Sul do Brasil nos últimos

6.000 anos (Bigarella 1964, Bigarella e Sanches 1966),

demonstrou-se que o nível do mar alternou-se ciclicamente

acima e abaixo do atual. Entre 6.000 e 4.000 anos atrás, chegou

até cerca de 3,5 m abaixo e 3 m acima do atual; após, as

variações foram gradualmente menores (Bigarella 1964, Bigarella

e Sanches 1966). Em oposição, estudos recentes no litoral

de São Paulo ao de Santa Catarina, compilados em Angulo e

Giannini (1996), demonstraram que nos últimos 7.000 anos

houve somente ciclos de níveis do mar mais altos do que o

atual, e que eles foram cada vez mais baixos (o maior foi inferior

a 4 m). Inúmeros estudos de depósitos arenosos, sambaquis

e conchas, entre outros elementos, ainda foram efetuados

no litoral Sudeste e Sul do Brasil visando estimar a altura e

época de níveis pretéritos do mar (vide compilações desses

estudos em Bigarella 1964, Bigarella et al. 1978, Angulo

1994, Angulo e Giannini 1996, Angulo e Souza 2004).

A variação pretérita do nível do mar também foi relacionada

com a distribuição de peixes. Menezes (1988) apontou

que a distribuição de Oligosarcus hepsetus pode ter sido

limitada na altura do Cabo de Santa Marta, Santa Catarina,

por conseqüência da Transgressão Flandriana ocorrida entre

10.000 e 6.000 anos atrás. Como nos paralelos 24 a 27°S a plataforma

continental brasileira é larga e nela se formou extensa

rede de drenagem enquanto permaneceu emersa no último

máximo glacial, Grando (1999) sugeriu que um canal extravasor

comum uniu as bacias hidrográficas da vertente leste da

Serra do Mar naquela região e, conseqüentemente, populações

ictíicas hoje isoladas.

As áreas de ocorrência de S. acutirostris situam-se sobre

depósitos sedimentares recentes (Holoceno), tratando-se de

“sedimentos arenosos de origem marinha”, “aluviões” e “manguezais”,

conforme denominação no Paraná (Fuck et al. 1969),

e de depósitos marinhos, aluvionares e mistos, conforme denominação

em Santa Catarina (Santa Catarina 1986). No Paraná,

a espécie distribui-se em planície costeira e em planícies aluviais,

conforme Angulo (2004).

Densidade e população. A pouca densidade de S. acutirostris

nos ambientes com estrato superior arbóreo explica-se pelo

fato de que o sombreamento das árvores limita o desenvolvimento

da heliófila vegetação herbácea do estrato inferior, que

é onde a espécie vive. O sombreamento reduz o nível de cobertura

do solo (vide as definições desses ambientes acima) e a

densidade da vegetação, o que foi medido em análises fitossociológicas.

Assim, existe menos biomassa vegetal disponível

para alimentação, reprodução e proteção de S. acutirostris,

implicando redução de sua densidade. A menor insolação também

poderia influenciar reduzindo a quantidade de alimento

disponível. Aves tipicamente florestais que se registrou nos

ambientes com estrato superior arbóreo alimentam-se nesse

estrato da vegetação, além dos troncos das árvores (não há

estrato médio), o que descarta a eventual possibilidade de

competição com S. acutirostris.

Dentre os ambientes herbáceos, S. acutirostris também é

pouco denso no brejo de capim-serra. Esse ambiente localizase

na parte superior da região entre marés, aproximadamente

entre o nível médio de maré alta e maré alta de sizígia, e tem

uma freqüência de inundação menor que a do manguezal,

sendo inundado apenas pelas marés altas de sizígia e de tormenta

(Angulo 1990). Assim, normalmente é desprovido de

coluna d’água, fato que poderia influenciar na oferta de alimento.

Acredita-se que esse ambiente também é limitante para

outras aves, pois muitas espécies comuns nos demais tipos de

brejos são raras ou mesmo ausentes no brejo de capim-serra

(vide Bornschein 2001).

A densidade estimada da espécie no ponto com brejo de

maré não é a mesma em todos os lugares desse ambiente. Nas

áreas da planície de maré com maior tempo e altura de alagamento,

a densidade da espécie é menor, conforme sugerem

observações em campo. Isso era esperável, uma vez que a

altura de vegetação emersa durante as marés altas nesses locais

é bem menor do que a do ponto onde se realizou a avaliação da

densidade da espécie no brejo de maré. Já a densidade estimada

da espécie no brejo de capim-serra talvez seja menor do que a

de certos ambientes com estrato superior arbóreo, como o guanandizal

com herbáceas. A primeira situação revela que houve

superestimação da população de S. acutirostris e a segunda,

se confirmada, implicaria subestimação. Também implicou

subestimação da população da espécie o fato de não terem sido

contabilizados juvenis e adultos não pareados, assim como

implicou superestimação a consideração de uma área global

de ocorrência, para fins de cálculo, que se avalia estar de 10 a

20% menor atualmente (vide “Distribuição” acima).

A estimativa da população de S. acutirostris entre 2.500 e

10.000 indivíduos maduros (BirdLife International 2000), foi

arbitrada.

Em Thamnophilidae, os tamanhos dos territórios estudados

de Myrmotherula fulviventris e papa-formiga-de-bando

(Microrhopias quixensis), na ilha de Barro Colorado, Zona do

Canal do Panamá, foram de 1,5 ha, em média, na estação chuvosa

(Skutch 1996). Na estação seca, podem chegar a 3,2 ha

(Skutch 1996). Na mesma ilha, os territórios da choquinha-deflanco-branco

(Myrmotherula axillaris) variam de 1,5 a 4.5 ha

(2,5 ha em média) (Skutch 1996), os de casais de Hylophylax

naevioides, na década de 1960, foram de aproximadamente

4,7 ha (Willis 1972), e os de casais da choca-bate-cabo (Thamnophilus

punctatus), em 1969, foram pouco menores do que

1 ha (Oniki 1975). No Panamá, detectaram-se territórios do formigueiro-de-barriga-branca

(Myrmeciza longipes) de 0,73 ha,

em média, em local com grande densidade e de 2,38 ha, em

média, em local com baixa densidade de territórios (Fedy e

Stutchbury 2004). No mesmo país, 10 territórios do chororáescuro

(Cercomacra tyrannina) mediram, em média, 0,30 ha,

enquanto que outros três foram maiores, medindo 1,2 ha, em

média (a média dos 13 territórios foi de 0,49 ha) (Gorrell et al.

2005). No Pará, territórios de casais do papa-formiga-pardo


Distribuição, tamanho populacional, hábitat e conservação do bicudinho-do-brejo

Stymphalornis acutirostris Bornschein, Reinert e Teixeira, 1995 (Thamnophilidae)

515

(Formicivora grisea) mediram de 2,14 a 2,65 ha (média de

2,49 ha) (Silva 1988). Em Barro Colorado, a densidade média

de Hylophylax naevioides foi de 0,41 indivíduo adulto por

hectare, entre 1961 e 1970 (Willis 1974). No mesmo local e

período, Willis (1974) detectou redução populacional em duas

espécies de Thamnophilidae, Gymnopithys bicolor e Phaenostictus

mcleannani. A densidade dessas espécies foi de 0,06 e

0,04 indivíduo adulto por hectare, respectivamente, em 1961;

após, as densidades de ambas reduziram gradualmente pelo

menos até 1970 (Willis 1974). A densidade da mãe-de-taoca

(Phlegopsis nigromaculata), no Pará, variou de 0,10 a 0,17

indivíduo adulto por hectare (Willis 1979). Comparando-se

esses valores com os estimados para S. acutirostris (casais

com território de 3,2 e 0,25 ha; densidade de 0,62 e 8 indivíduos

maduros por hectare), destaca-se o quanto são díspares

os tamanhos de territórios nessa espécie e quanto eles podem

ser pequenos (semelhantes apenas aos menores territórios de

C. tyrannina).

Conservação. Logo após a descrição de S. acutirostris, B.L.R.

e M.R.B. deram início a várias ações visando à conservação

da espécie. Dentre elas, instrumentou-se dois processos que

foram protocolados no órgão ambiental do Estado do Paraná

(Instituto Ambiental do Paraná – IAP). Um objetivava a proteção

de remanescentes de ambientes litorâneos na faixa costeira

de 35 km de extensão entre Pontal do Sul e Matinhos,

incluindo áreas de ocorrência de S. acutirostris, e o outro a

inclusão da espécie na lista de fauna paranaense ameaçada de

extinção (protocolos 2.891.653‐1 e 2.891.654‐0). Na época,

vigia a lei estadual nº 11067, de 17 de fevereiro de 1995,

que previa a inclusão de espécies na lista estadual de fauna

ameaçada de extinção mediante manifesto da comunidade

científica, nos termos da respectiva lei, o que foi atendido no

processo mediante o posicionamento de dezenas de pesquisadores.

Inúmeras tentativas foram feitas no intuito de obter-se o

deferimento dos processos (vide Bornschein e Reinert 1997),

mas não se obteve qualquer posicionamento do IAP. Stymphalornis

acutirostris extinguiu-se na localidade-tipo, a maior

parte das áreas propostas para conservação foram destruídas e

a espécie foi considerada oficialmente ameaçada de extinção

pelo IBAMA (vide abaixo).

Stymphalornis acutirostris foi primeiramente considerado

ameaçado de extinção pelo IBAMA (portaria nº 62 do

Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais

Renováveis, de 17 de junho de 1997), sem indicação

de categoria de ameaça, o que foi resultado de um processo

aberto por solicitação de B.L.R. e M.R.B. junto a esse órgão

(nº 02001.000454/96‐30). Posteriormente, foi apontado como

ameaçado de extinção na lista de aves ameaçadas do mundo

(BirdLife International 2000, 2004), na nova lista de fauna

ameaçada do Brasil (Instrução Normativa nº 3 do Ministério

do Meio Ambiente, de 27 de maio de 2003) e na nova lista de

fauna ameaçada do Paraná (Mikich e Bérnils 2004). Nessas

listas, S. acutirostris foi considerado como ameaçado na categoria

“em perigo” (= Endangered), o que concorda com resultados

do presente estudo (vide “Conservação” nos “Resultados”

acima).

Das ações de âmbito global para a conservação da espécie

apontadas em Birdlife International (2000), resta, em nada

atendida, a proteção de áreas, especialmente em Guaratuba, o

que concorda com a principal reivindicação do presente estudo.

Como ações para a conservação da espécie no Paraná, Straube

et al. (2004) indicaram “fiscalização e criação de novas unidades

de conservação”, o que também está de acordo com o

presente estudo. Esses autores, no entanto, comentaram que

ambas são as “únicas alternativas viáveis para salvaguardar

as últimas populações desta espécie”, o que não é respaldado

pelo presente estudo. Straube et al. (2004) também apontaram

como possíveis ações para a conservação da espécie as propostas

sugeridas por Bornschein e Reinert (1997), mas elas não

se aplicam pois referem-se à proteção de uma área de 100 ha

no acrescido de marinha de Pontal do Sul, onde S. acutirostris

não ocorre. Straube et al. (2004) ainda indicaram o Parque

Nacional Saint-Hilaire/Lange como provável local de registro

de S. acutirostris, mas essa unidade de conservação não

inclui altitudes inferiores a 20 m s.n.m., onde se localizam os

ambientes de ocorrência da espécie.

Agradecimentos

Franklin Galvão, Miguel Â. Marini e Sandro Menezes-

Silva foram co-orientadores de B.L.R. enquanto ela desenvolveu

parte deste estudo como dissertação de mestrado,

pelo Curso de Pós-Graduação em Engenharia Florestal, da

Universidade Federal do Paraná (UFPR), recebendo bolsa do

Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico

(CNPq). Aspectos botânicos e de mapeamento foram

alvo da dissertação de mestrado de M.R.B., sob orientação de

Franklin Galvão, igualmente pelo Curso de Pós-Graduação

em Engenharia Florestal, da UFPR, para a qual obteve bolsa

da Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de

Nível Superior (CAPES). B.L.R. recebe bolsa de doutorado

da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo

(FAPESP) (Processo 04/13274‐20).

Estudos com S. acutirostris tiveram o patrocínio da Fundação

O Boticário de Proteção à Natureza (dois projetos), Fundação

MacArthur, American Bird Conservancy e Fundo Nacional

do Meio Ambiente (FNMA). O projeto sob esse último

patrocinador foi acompanhado por Ruy A. N. Machado Filho.

Mater Natura – Instituto de Estudos Ambientais, por meio de

Paulo A. Pizzi, e Liga Ambiental, por meio de José Álvaro Carneiro,

Shirlei Neundorf e Cilmar Ader, prestaram toda a forma

de auxílios para o bom andamento do projeto patrocinado pelo

FNMA. Maximino Gondro, Ana Maria de Oliveira, Ernesto e

Priscila de Veer e Irmandade Evangélica Betânia forneceram

acolhida durante os primeiros estudos com a espécie no litoral

do Paraná. José e Ivone Ananias dos Santos apoiaram muitos

dos estudos em Guaratuba (PR), inclusive fornecendo barco e

alojamento. Nesse mesmo município, também se obteve apoio


516 Bianca Luiza Reinert, Marcos Ricardo Bornschein e Carlos Firkowski

para alojamento do Corpo de Bombeiros de Guaratuba. Guadalupe

Vivecananda autorizou as pesquisas no Parque Nacional

de Superagui (PR). Lúcio A. Machado apoiou as pesquisas

no município de Itapoá (SC). O Instituto Brasileiro de Meio

Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA)

apoiou os trabalhos em Guaraqueçaba (PR).

Sandro Menezes-Silva, Marília Borgo e Ingo Isernhagen

auxiliaram nos trabalhos botânicos e análises fitossociológicas.

Eloy J. Allegretti auxiliou na obtenção de fotografias aéreas do

litoral do Paraná, disponíveis na AEROSUL – Levantamentos

Aeroespaciais e Consultoria S.A. (Curitiba). Amilton do

Nascimento e Aida R. Zappellini auxiliaram na obtenção de

fotografias aéreas do litoral de Santa Catarina, disponíveis

na Secretaria do Mercosul (Florianópolis). Beloni T. Pauli

Marterer descobriu e forneceu o contato para a obtenção das

fotografias desse estado. Luíz F. Silva da Rocha auxiliou no

uso de programa de computador para a vetorização de fotografias

aéreas. Maciel Paludo, Aurélio Suguimatti, Juliano

P. Kappeller e Paulo César Folli, da Senografia – Sensoriamento

Remoto, auxiliaram na elaboração do mapa na escala

1:250.000. Rodolfo J. Angulo emprestou o seu mapa geológico

do litoral do Paraná para a elaboração de fotocópia, cedeu

um estudo inédito de sua autoria sobre a distribuição dos “brejos

intercordões” paranaenses, prestou esclarecimentos sobre a

identificação de ambientes incluídos em sua tese e incentivou

os estudos no litoral. Franco Amato e Maria L. Sugamosto, utilizando-se

do laboratório da Sociedade de Pesquisa em Vida

e Educação Ambiental (SPVS), efetuaram os serviços cartográficos,

a quem devemos especiais agradecimentos, notadamente

ao primeiro.

Miguel S. Milano, Armando C. Cervi e André M. P. Carvalhaes

revisaram os primórdios do manuscrito, enquanto dissertação

de B.L.R. Franklin Galvão orientou a execução da

parte botânica e cartográfica do trabalho, cujos textos revisou

enquanto dissertação de M.R.B. Franco Amato revisou a parte

cartográfica do material e métodos. Rafael A. Dias, Giovanni

N. Maurício e Marco A. Pizo Ferreira revisaram o manuscrito

em sua versão final. Mauro Pichorim, Carlos V. Roderjan,

Yoshiko S. Kuniyoshi e Adalberto K. Miura auxiliaram com

críticas e sugestões a diversos aspectos temáticos do presente

estudo. Hostília R. G. de Araujo Gussoni revisou as legendas

traduzidas para o inglês. Célio F. B. Haddad, do laboratório

de herpetologia da Universidade Estadual Paulista “Júlio de

Mesquita Filho”, disponibilizou o scanner para slides. Jorge

Tavares Lucas, barqueiro em Guaratuba, prestou enorme apoio

como guia paciente e de muita presteza. Zig Koch, Roberto

Bóçon, Tom Grando-Jr., Luiz Gonzaga dos Santos Neto, Tiaraju

de Mesquita Fialho, Antônio Carlos Cordeiro da Silva,

Ricardo Belmonte-Lopes e diversas outras pessoas, com certeza

omitidas por lapso, colaboraram de diversas formas em

campo, cedendo fotos, propiciando equipamento e/ou orientando,

por exemplo.

A Miguel S. Milano, pelo grande incentivo na realização

dos estudos com S. acutirostris, Sandro Menezes-Silva, que

acompanhou muitos dos trabalhos de campo pelo projeto

patrocinado pelo FNMA, e a Bret M. Whitney, André M.

P. Carvalhaes e Mauro Pichorim, pelas valiosas sugestões e

amizade, somos imensamente gratos. B.L.R. e M.R.B. ainda

agradecem especialmente a Fred R. Bornschein e Anna L.

Bornschein pelo incansável apoio às suas pesquisas e amizade

incondicional.

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Elliott e D. A. Christie (eds.) Handbook of the birds of

the world. Volume 8. Broadbills to tapaculos. Barcelona:

Lynx Edicions.


Distribuição, tamanho populacional, hábitat e conservação do bicudinho-do-brejo

Stymphalornis acutirostris Bornschein, Reinert e Teixeira, 1995 (Thamnophilidae)

519

Apêndice 1. Fotografias aéreas fotointerpretadas que propiciaram a cobertura

vegetal mínima necessária para englobar toda a distribuição geográfica do

bicudinho-do-brejo (Stymphalornis acutirostris) no Paraná e no extremo norte

de Santa Catarina (sul do Brasil).

Appendix 1. Aerial photographs used for photointerpretation that propitiate the

minimal vegetative cover necessary to globe all the geographic distribution

of the Marsh Antwren (Stymphalornis acutirostris) in Paraná state and in the

extreme north of Santa Catarina state (southern Brazil).

Paraná (vôo de 1980, escala 1:25.000)

51310 51312 51313 51315 51342

51344 51378 51380 51382 51406

51408 51409 51411 51413 51450

51452 51454 51456 51457 51459

51461 51470 51472 51518 51520

51522 51524 51529 51531 53625

53646 55207 55209 55211 55215

55236 55239 55241 55243 55249

55251 55253 55255 55279 55281

55283 55285 55292 55293 55295

55298 55327 55334 55343 55349

55351 55381 55383 55435 55629

55631 55633 55634 55876 55878

Santa Catarina (vôo de 1978, escala 1:25.000)

12927

Apêndice 2. Base cartográfica utilizada para o georreferenciamento das

fotografias aéreas do litoral centro-sul do Paraná e do extremo norte de Santa

Catarina (sul do Brasil).

Appendix 2. Cartographic base used to geo-referencing the aerial photographs

from the central-south littoral of Paraná state and the extreme north of Santa

Catarina state (southern Brazil).

Paraná (IBGE, 1992, escala 1:50.000)

Morretes, MI‐2843/3

Antonina, MI‐2843/4

Mundo Novo, MI‐2858/1 Pedra Branca do Araraquara, MI‐2858/3

Guaratuba, MI‐2858/4

Paraná (IBGE, 1998, escala 1:25.000)

Alexandra, MI‐2858/2‐NO Paranaguá, MI‐2858/2‐NE

Serra da Prata, MI‐2858/2‐SO Colônia Pereira, MI‐2858/2‐SE

Santa Catarina (IBGE, 1981, escala 1:50.000)

Garuva, MI‐2870/1


ARTIGO 520 Maria Antonietta Castro Pivatto, José Sabino, Silvio Favero e Ido Luiz Revista MichelsBrasileira de Ornitologia 15(4):520-529

dezembro de 2007

Perfil e viabilidade do turismo de observação de aves no

Pantanal Sul e Planalto da Bodoquena (Mato Grosso do Sul)

segundo interesse dos visitantes

Maria Antonietta Castro Pivatto 1,2,3 , José Sabino 1 , Silvio Favero 1 e Ido Luiz Michels 1

1. Mestrado em Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional, Universidade para o Desenvolvimento do

Estado e da Região do Pantanal, Rua Ceará 333, 79003‐010, Campo Grande, MS. E‐mail: cmdr@uniderp.br

2. Instituto das Águas da Serra da Bodoquena, Rua Pilad Rebuá, 1186, 79290‐000, Bonito, MS.

E‐mail: tietta.pivatto@gmail.com

3. Autor para correspondência.

Recebido em 25 de julho de 2006; aceito em 19 de julho de 2007.

Abstract: Profile and viability of birdwatching tourism in the South Pantanal and Bodoquena Plateau (Mato Grosso do Sul) according to

visitors’ interests. The Pantanal Floodplain and the Bodoquena Plateau (Mato Grosso do Sul, Brazil) support a highly diverse avifauna and a relevant

potential for bird watching. In order to analyze the viability and interest in developing such activity in those regions, questionnaires were submitted to

tour guides and birdwatchers. Submissions were done via specialized websites and associations, besides printed copies distributed at tourism facilities

visited by target costumers. Results were then quantitatively analyzed. A total of 105 answered questionnaires was returned, being 57 from Brazilian

and foreigner bird watchers, 15 from Brazilian and foreigner specialized tour guides and 33 from local guides in Bonito. The analysis and comparison of

results has confirmed the region’s potential for the activity; 119 species were mentioned as of major interest for observations by the repliers, particularly

Harpia harpyja, Anodorhynchus hyacinthinus, Trogon curucui, Momotus momota, Ara chloropterus, Ramphastos toco, Sarcoramphus papa, Antilophia

galeata, Pyrrhura devillei e Pyrodelus scutatus. A need was identified to advertise the region and its species through the media normally used by birders,

with itineraries suited for such public, given that 75,8% of the foreigner repliers claim never having heard of the Bodoquena Plateau. Investments in

developing this segment may result in conservation efforts, considering that 52% of the bird watchers and 73% of the specialized tour guides declared

to prefer visiting areas where conservation actions are being held.

Key-words: Avifauna, birdwatching, ecotourism, conservation, regional development.

Resumo: O Pantanal e o Planalto da Bodoquena, no Mato Grosso do Sul, apresentam grande diversidade de avifauna e relevante potencial para o turismo

de observação de aves. Para identificar a viabilidade e o interesse em desenvolver esta atividade na região, foram distribuídos questionários para guias

de turismo e observadores de aves por meio de sites especializados e associações, além de cópias impressas disponibilizadas em pontos visitados

pelo público-alvo, sendo os resultados analisados quantitativamente. Foram recebidos 105 questionários respondidos, sendo 57 por observadores de

aves brasileiros e estrangeiros, 15 por guias especialistas brasileiros e estrangeiros e 33 por guias locais de Bonito. Com a análise e comparação

dos resultados, confirmou-se o potencial desta região com 119 espécies citadas pelos entrevistados como de maior interesse para observação, em

especial Harpia harpyja, Anodorhynchus hyacinthinus, Trogon curucui, Momotus momota, Ara chloropterus, Ramphastos toco, Sarcoramphus papa,

Antilophia galeata, Pyrrhura devillei e Pyrodelus scutatus. Foi identificada a necessidade de divulgação da região e das espécies presentes nos meios de

comunicação utilizados pelos observadores de aves e em roteiros especializados, visto que 75,8% dos entrevistados estrangeiros afirmaram nunca terem

ouvido falar do Planalto da Bodoquena. Investimentos no desenvolvimento deste segmento podem resultar em ações conservacionistas, considerando

que 52% dos observadores de aves e 73% dos guias especialistas afirmaram ter preferência por visitar áreas onde existem ações de conservação.

Palavras-chave: Avifauna, observadores de aves, ecoturismo, conservação, desenvolvimento regional.

As características naturais do Pantanal tornam este ambiente

favorável para uma grande diversidade de fauna, notadamente

aves, sendo uma das regiões mais procuradas por cientistas

e observadores de fauna para a prática desta modalidade de

turismo (Tubelis e Tomas 2003). São conhecidas 463 espécies

de aves no Pantanal (Tubelis e Tomas 2003), o que corresponde

a 25% do número total das espécies citadas pelo Comitê

Brasileiro de Registros Ornitológicos – CBRO (2006) para o

Brasil. Para o Planalto da Bodoquena, os levantamentos de

avifauna estão restritos a menções de certos táxons registrados

no passado por naturalistas viajantes ou por citações inseridas

em estudos gerais da região (e.g., Braz 2003). São conhecidas

atualmente 353 espécies para a região do Planalto da Bodo‐

quena, sendo algumas de relevante interesse turístico (Pivatto

et al. 2006).

A partir da década de 1970 a exploração econômica baseada

em desmatamentos e queimadas na região Pantaneira e

arredores, incluindo o Planalto da Bodoquena, reduziu suas

áreas de vegetação natural (Antas 2004). Desse modo, a busca

por alternativas sustentáveis para a exploração econômica da

região torna-se importante para auxiliar na conservação de

seus remanescentes florestais.

A observação de vida selvagem é, atualmente, um rentável

produto em muitas regiões do planeta, pois um número

significativo de pessoas paga valores expressivos pela oportunidade

de observar determinadas espécies (Tapper 2006).


Perfil e viabilidade do turismo de observação de aves no Pantanal Sul e Planalto da

Bodoquena (Mato Grosso do Sul) segundo interesse dos visitantes

521

Segundo este autor, um em cada cinco norte-americanos

indica a observação de aves como uma de suas atividades de

lazer, e quase 40% viajam para observar aves. A National Survey

on Recreation and the Environment – NSRE (2000) indica

que em 1996, 77 milhões de norte-americanos participaram

em alguma forma de lazer relacionado com a vida silvestre,

gerando US$ 100 bilhões em vendas de equipamento, transporte,

licenças, hospedagem, alimentação e outras despesas

relacionadas (Yourth 2001). Em outro levantamento, a U.S.

Fish & Wildlife Service (USFWS 2001) indica que observadores

de aves gastaram aproximadamente 32 bilhões de dólares

com esta atividade nos Estados Unidos em 2001. Cerca de 1

milhão de britânicos também praticam regularmente esta atividade,

sendo considerada a terceira maior categoria de lazer

daquele país (Yourth 2001).

De acordo Antas (2004), o desenvolvimento do turismo

de natureza, em moldes controlados, torna a atividade um

importante aliado para a conservação dos recursos naturais do

Pantanal e arredores. Diversas operadoras de turismo especializadas

oferecem pacotes para observação de aves na região

do Pantanal (Bird Quest 2006, Field Guides 2006, Tropical

Birding 2006), porém não estão disponíveis informações sobre

a demanda deste mercado. Whitney (2006) estima em cerca de

600 turistas vindo ao Brasil anualmente para observar aves.

Segundo Matos (2004), atualmente os principais guias especialistas

em observação de aves que visitam o Pantanal são

ornitólogos vindos de outros Estados, especialistas estrangeiros

e integrantes de Clubes de Observadores de Aves.

Wheatley (1995) lista 29 localidades brasileiras com

grande vocação para observação de aves, sendo o Pantanal

uma das melhores regiões brasileiras para a prática desta atividade

(Dias 2001). A conspicuidade de muitas das espécies

registradas nesta região facilita sua observação e aumenta o

interesse turístico. As imediações da Rodovia MT‐060 (Transpantaneira)

é amplamente divulgada em guias para observadores

(Wheatley 1995) e páginas da Internet específicas sobre

o assunto, encontrando-se, entretanto, poucas referências ao

Pantanal de Mato Grosso do Sul (Grosset 2006) e nenhuma

para o Planalto da Bodoquena, cujas atividades turísticas

exploram principalmente o turismo de natureza e aventura,

divulgado em páginas da Internet direcionadas a um público

mais generalista.

O incremento do turismo de observação de aves no Pantanal

sul e sua viabilização na região da Serra da Bodoquena

poderão complementar a exploração econômica sustentável

do ambiente natural, como tem sido feito em outras regiões.

A criação de um roteiro que possa unir sítios turísticos

no Pantanal Sul, ainda pouco explorado por esta atividade, à

região da Bodoquena, conhecida basicamente pela beleza de

seus ambientes naturais aquáticos e cavernícolas, poderia contribuir

para a consolidação do projeto de criação do Pólo de

Ecoturismo da Serra da Bodoquena, conforme propõe Magalhães

(2001a, b). A vocação para o turismo de natureza destas

regiões justifica esta opção turística ainda pouco difundida no

Brasil, sendo uma ferramenta para a preservação de duas áreas

consideradas prioritárias para a conservação e utilização sustentável

no Brasil (PROBIO 2003).

Assim, o objetivo deste estudo é identificar o perfil do

turista de observação de aves, seu interesse e disposição em

visitar o Planalto da Bodoquena e sul do Pantanal para observação

de aves. As informações poderão ser utilizadas no planejamento

de políticas públicas setoriais, estratégias e roteiros

turísticos para viabilizar a atividade na região estudada,

como forma de exploração sustentável dos recursos naturais

existentes, além de ferramenta para conservação e educação

ambiental.

Material e Métodos

Para identificar o perfil do observador de aves e seu interesse

pela região estudada, foram elaborados questionários,

adaptados do modelo utilizado pela American Bird Association

– ABA (1996) e Matos (2004), para os seguintes segmentos:

1. Observador de aves brasileiro; 2. Observador de aves

estrangeiro (texto em inglês); 3. Guia especializado em observação

de aves brasileiro; 4. Guia especializado em observação

de aves estrangeiro (texto em inglês) e 5. Guias de turismo

local do município de Bonito.

Os questionários foram distribuídos entre maio e outubro

de 2005, enviados diretamente para 83 páginas na Internet

direcionadas aos observadores de aves. O mesmo também

ficou disponível durante todo o período da pesquisa nas listas

de discussão na Internet Ornitobr, Birdwatchingbr e Observadores

de Aves, além dos sites Fotograma e Fatbirder. A

versão impressa foi distribuída para observadores de aves e

guias especialistas hospedados no Refúgio Ecológico Caiman

(Miranda, MS), local de visitação turística por parte deste

público na região do Pantanal Sul.

Para os guias de turismo do município de Bonito (Guias de

Turismo Regional especializados em Atrativo Natural) foi distribuída

uma versão impressa na região, disponibilizada para

os mesmos nos seguintes sítios turísticos entre maio e outubro

de 2005: Gruta do Lago Azul, Estância Mimosa Ecoturismo e

Aquário Natural Baía Bonita em Bonito (MS), Recanto Ecológico

Rio da Prata em Jardim (MS).

As respostas dos observadores de aves estrangeiros e brasileiros

foram tabuladas em separado em algumas questões ou

unificadas quando os resultados foram semelhantes. O mesmo

procedimento foi aplicado às respostas dos guias especialistas,

de forma a analisar as diferentes necessidades de cada público.

Nem todas as questões foram respondidas pelos participantes,

resultando em variação no número de respostas.

Para a questão 8 do questionário (ver Figura 2) direcionado

aos observadores de aves foi adotada uma nota de 1 a

5 para o valor das respostas, de forma a identificar os itens

mais relevantes dentro da questão proposta. Esta nota foi

somada ao número de vezes em que foi indicada, eliminando

diferenças quando esta questão era escolhida, mas não recebia

nota.


522 Maria Antonietta Castro Pivatto, José Sabino, Silvio Favero e Ido Luiz Michels

Uma lista com 49 espécies de aves ocorrentes na região

do Planalto da Bodoquena (Pivatto et al. 2006) foi disponibilizada

para que os observadores de aves e guias especializados

entrevistados selecionassem aquelas que em sua opinião fossem

mais relevantes, motivando sua visita à região, de forma

a valorar o grau de atratividade das mesmas. A seleção destas

espécies foi baseada nas seguintes características: (i) espécies

carismáticas; (ii) não ocorrentes no Pantanal ou de difícil

visualização neste ambiente e (iii) características da Serra da

Bodoquena. O objetivo era indicar ao entrevistado algumas

aves possíveis de serem observadas, facilitando o preenchimento

dos questionários, especialmente para aqueles que não

conhecessem a região.

Também foi solicitado aos guias especialistas que indicassem

as dez espécies mais procuradas pelos observadores de

aves. As respostas foram pontuadas de acordo com sua colocação

na lista (10 pontos para a espécie citada como primeira,

01 ponto para a última) e acrescentando 01 ponto para cada

vez que foi citada na lista. Aos guias locais, solicitou-se que

indicassem quais as espécies mais importantes em sua região,

sendo os dados tratados da mesma forma.

Os resultados destas questões foram analisados em conjunto.

O número de indicações para cada espécie foi identificado

por categoria de grupo (observadores de aves, guias

especialistas e guias locais), sendo que o total de indicações

foi transformado em um número correspondente à porcentagem

dentro do total de entrevistados por categoria. Para

identificar seu valor como atrativo para os observadores de

aves, estas quatro categorias foram transformadas em um

valor médio, correspondente à relevância desta espécie para

os entrevistados.

Resultados e Discussão

Foram recebidos 105 questionários, sendo 57 por observadores

de aves (22 brasileiros e 35 estrangeiros), 15 por guias

especializados (10 brasileiros e 5 estrangeiros) e 33 por guias

locais do município de Bonito.

Com relação à participação estrangeira, embora a maioria

de respostas norte-americanas corroborem o maior interesse

deste público pela atividade (USFWS 2001), os resultados

podem ter sido afetados pela participação de grupos americanos

hospedados no Refúgio Ecológico Caiman, que participaram

desta pesquisa no mesmo período.

A faixa etária predominante dos 57 participantes da pesquisa

ficou entre 21 a 40 anos para brasileiros e 41 a 60 anos

para estrangeiros. Em Ornitobr (2006) 57% dos participantes

também pertencem a esta faixa etária. Na pesquisa realizada

pela ABA (1996) e pela USFWS (2001) este público correspondia

a aproximadamente 60% e 54% dos entrevistados respectivamente.

Estes resultados mostram um perfil mais jovem

dos observadores de aves brasileiros entrevistados.

Os observadores estrangeiros praticam esta atividade

um tempo muito mais longo e constante que os brasileiros

(Figura 1). Este resultado está diretamente relacionado ao perfil

etário dos entrevistados e a maior tradição da prática desta

atividade no exterior, visto que os observadores de aves brasileiros

têm menos tempo de experiência com a atividade.

A maior parte dos observadores de aves tem formação

superior (95% dos brasileiros e 87% dos estrangeiros entrevistados),

o que pode indicar um grau de exigência maior quanto

à qualidade de informações e serviços prestados durante a atividade

turística.

Apenas seis dos 22 brasileiros entrevistados fizeram viagens

ao exterior nos últimos cinco anos, concentrando suas

observações no Brasil. Por outro lado, 31 estrangeiros observaram

aves em outros países dentre 35 entrevistados. Dados da

USFWS (2001) indicam que 40% dos entrevistados viajaram

para observação de aves em 2001, enquanto a pesquisa da ABA

(1996) indica que 49% de seus associados viajaram para fora

dos Estados Unidos. Estes resultados refletem a maior disponibilidade

deste público para viagens de longa distância para

observação de aves, enquanto que os resultados para o público

brasileiro refletem principalmente as dificuldades com custos,

conforme análise posterior. Também pode ser considerado que

a disponibilidade de sítios com alta riqueza de espécies pode

ser um fator relevante na escolha de viagens para observação

de aves dentro do Brasil.

O tempo médio dedicado a estas viagens varia entre 1 a

5 dias para brasileiros e 6 a 10 dias para estrangeiros. Considerando

as longas distâncias que os estrangeiros costumam

deslocar-se para praticar esta atividade, este período

torna-se adequado para permitir melhor aproveitamento da

viagem.

Observadores de aves - há quanto tempo praticam a atividade

20

15

brasileiros

estrangeiros

Observadores de aves

freqüência

10

5

0

1 a 10 11 a 20 21 a 30 31 a 40 41 a 50

anos

Figura 1. Tempo dedicado para turismo de Observação de Aves por 22

observadores brasileiros e 35 estrangeiros entrevistados entre maio e outubro

de 2005, em estudo de caso para a região do Pantanal e Planalto da Bodoquena,

Mato Grosso do Sul.

Figure 1. Time dedicated to bird watching by 22 Brazilian and 35 foreigner

bird watchers interviewed between May and October 2005, in a case study

for the region of the Pantanal and the Bodoquena Plateau, Mato Grosso do

Sul, Brazil.


Perfil e viabilidade do turismo de observação de aves no Pantanal Sul e Planalto da

Bodoquena (Mato Grosso do Sul) segundo interesse dos visitantes

523

Os entrevistados brasileiros viajam acompanhados de no

máximo até cinco pessoas, enquanto os estrangeiros variam

entre 3 a 15 pessoas no grupo. Isto reflete a tendência brasileira

de viajar em família ou entre amigos, organizando a viagem

por conta própria (83%), enquanto estrangeiros procuram

por operadoras especializadas (45%).

Os principais equipamentos utilizados em campo são binóculos

(26%), livros de campo (21%), câmera fotográfica (21%)

e listas de aves (18%). Não houve grande diferença entre

estrangeiros e brasileiros, com exceção da luneta, indicada por

43% dos estrangeiros e apenas uma vez por brasileiros. O gravador,

indicado por 50% dos brasileiros e nenhuma por estrangeiros,

pode estar associado à necessidade de registros sonoros

em trabalhos de pesquisa, desenvolvidos por alguns dos

entrevistados. Existe resistência por parte dos estrangeiros em

utilizar este último equipamento em locais de visitação constante

para observação de aves, devido aos impactos associados

ao uso freqüente de playback (Pivatto e Sabino 2005). Estes

resultados podem direcionar investimentos na aquisição de

equipamentos disponíveis nos sítios turísticos ou nas pousadas

para os visitantes, visto que muitos observadores não costumam

trazer livros e equipamentos maiores durante as viagens

devido ao peso da bagagem (F. P. Melo com. pess., 2006).

Em relação aos fatores que levam o entrevistado a escolher

determinada região ou roteiro para sua viagem de observação

de aves, a característica mais citada e mais valorizada para

os dois grupos foi a diversidade de avifauna na região. Já a

segunda característica mais citada pelos estrangeiros foi a segurança

e atendimento de emergência, enquanto que para os brasileiros

foi o custo total da viagem (Figura 2). Embora custos

de viagem tenham sido indicados também pelos estrangeiros,

estes se referem a viagens internacionais, enquanto que para o

brasileiro é uma despesa alta mesmo em viagens regionais. A

questão de segurança pode estar associada à idade média dos

entrevistados estrangeiros e também pela pouca informação

sobre os recursos de localidades distantes que pretendem visitar.

O perfil mais velho dos entrevistados estrangeiros sugere

mais tempo para acúmulo de bens materiais e também pessoas

já aposentadas, com mais tempo disponível para viagens,

inclusive em períodos de baixa temporada turística.

Um fato relevante foi o baixo número de entrevistados

que indicaram a presença de um guia especialista como fator

determinante na escolha de roteiros. Isto pode estar relacionado

ao fato de que 32% dos turistas estrangeiros costumam

viajar acompanhados de guias das próprias operadoras (ABA

1996), enquanto que para os brasileiros ainda existe a falta de

hábito de se contratar este profissional, tanto pelo custo extra

como pela pouca oferta destes profissionais especializados no

mercado (F. P. Melo com. pess., 2006).

As dificuldades com custos de viagem são endossadas com

a preferência dos brasileiros por viagens que tenham despesas

até R$ 1.000,00 (44%), enquanto que para os estrangeiros estes

valores variam entre US$ 2,000.00 até US$ 3,999.00 (51%).

A compra de suvenires de viagem é motivada principalmente

pela originalidade do objeto (52%), sendo que 28% afirmam

gostar de colecionar lembranças de viagem. Este dado é relevante

para o planejamento de roteiros nos quais se permita

o giro de capital em diversos setores da economia local, não

apenas hospedagem e transporte, mas também o comércio de

artesanatos, camisetas e alimentação, entre outros.

A relevância da observação de aves em locais com adoção

de práticas de mínimo impacto ambiental mostrou-se equilibrada

quanto às escolhas dos dois grupos, com preferência

para a questão que indica a visita de uma área sem cuidados

ambientais apenas no caso da presença de espécies mais valorizadas

(52%). Este dado pode ser comparado à disponibili‐

Observadores de aves - principais características para a escolha de um roteiro

conhecer novas culturas

ações locais de conservação ambiental

possibilidade de observar outros animais

indicação de amigos

novo local para observação de aves

facilidade de acesso

custo total da viagem

referência em guias e sites especializados

diversidade de aves

segurança e atendimento de emergência

guia especializado e bilíngüe no local

paisagem natural

conforto e facilidades durante a

hospedagem

distância do ponto de origem

3

0

17

17

14

19

22

38

32

32

37

40

24

33

51

47

61

64

67

58

62

79

77

80

98

99

122

135

0 20 40 60 80 100 120 140 160

relevância

estrangeiros

brasileiros

Figura 2. Características determinantes na escolha de roteiros e localidades

para observação de aves por observadores brasileiros e estrangeiros.

Resultados obtidos entre maio e outubro de 2005 em estudo de caso para a

região do Pantanal e Planalto da Bodoquena, Mato Grosso do Sul. O valor

final atribuído a cada item pelos entrevistados aparece indicado nas barras

correspondentes do gráfico.

Figure 2. Determinant attributes for the choice of itineraries and localities

for watching birds by Brazilian and foreigner bird watchers. Results obtained

between May and October 2005, in a case study for the region of the Pantanal

and the Bodoquena Plateau, Mato Grosso do Sul, Brazil. The final value

ascribed to each item by interviewees is shown in the corresponding bars at

the chart.


524 Maria Antonietta Castro Pivatto, José Sabino, Silvio Favero e Ido Luiz Michels

dade que 81% dos alemães têm em pagar mais para auxiliar

na conservação de espaços naturais que visitavam (Lachiondo

2000) e dos 83% de americanos que pagariam até 6,2% a mais

por serviços e produtos de viagem ambientalmente responsáveis

(Yourth 2001). Estes dados indicam a importância da

conservação ambiental em roteiros para observação de aves,

visto que estes ambientes abrigam as espécies desejadas pelos

observadores.

Houve pouca variação entre as respostas de brasileiros e

estrangeiros em relação ao número de espécies que se espera

avistar durante um dia de atividade (Figura 3). Um entrevistado

indica que o número de observações esperadas varia conforme

o roteiro visitado, enquanto que outro afirma que este

valor não tem importância, priorizando a experiência durante

a atividade.

Para o número de novas espécies encontradas em um novo

roteiro, os entrevistados brasileiros esperam encontrar em

sua maioria até 20 espécies, enquanto que a expectativa dos

estrangeiros é para um número superior a 60 novas espécies.

Esta expectativa pode estar relacionada à grande diferença de

biodiversidade existente entre os países do hemisfério norte e

as regiões tropicais e também pela originalidade de espécies

esperadas em um continente diferente. Wheatley (1995) considera

a América do Sul como o continente das aves, sendo que

o Brasil é atualmente o terceiro maior em riqueza de espécies

de aves, depois da Colômbia e Peru (Sabino e Prado 2006).

As localidades mais citadas por aqueles que já visitaram

a região pantaneira foram Miranda, rodovia Transpantaneira,

Poconé, Aquidauana, Estrada Parque e Serra da Bodoquena

(Tabela 1). As poucas respostas estrangeiras podem estar associadas

à dificuldade em se lembrar do nome correto da região

visitada. Embora não pertencente ao Pantanal, a Chapada dos

Tabela 1. Regiões pantaneiras visitadas pelos observadores de aves brasileiros

e estrangeiros entrevistados. Resultados obtidos entre maio e outubro de 2005

em estudo de caso para a região do Pantanal e Planalto da Bodoquena, Mato

Grosso do Sul.

Table 1. Pantanal regions visited by the interviewed Brazilian and foreigner

bird watchers. Results obtained between May and October 2005, in a case

study for the region of the Pantanal and the Bodoquena Plateau, Mato Grosso

do Sul, Brazil.

Regiões visitadas

Observadores

Brasileiros

Observadores

Estrangeiros

Aquidauana 8

Barão de Melgaço 1

Cáceres 2

Chapada dos Guimarães 3 2

Corumbá 4

Estrada-parque 5

Miranda 8 11

Passo do Lontra 1

Poconé 7

Rio Negro 1

Rio Paraguai 5

Rodovia Transpantaneira 7 2

Serra da Bodoquena/Bonito 8 1

Guimarães foi inserida na questão por constar com freqüência

nestes roteiros. Já a Serra da Bodoquena foi inserida para

verificar o conhecimento desta localidade pelos observadores

de aves. As principais justificativas citadas pelos entrevistados

que não visitaram a região do Pantanal foram os custos de viagem

(36%), falta de oportunidade (23%) e distância do local

de origem (15%).

Quando perguntados se conheciam a região da Serra da

Bodoquena ou Bonito, 75,8% dos estrangeiros disseram nunca

Observadores de aves - número de espécies esperadas por dia

12

total de entrevistados

10

8

6

4

2

0

20 40 60 80 100 120 acima de 120

número de espécies

Figura 3. Número de espécies que observadores de aves brasileiros e estrangeiros esperam observar durante um dia em campo. Resultados obtidos entre maio e

outubro de 2005 em estudo de caso para a região do Pantanal e Planalto da Bodoquena, Mato Grosso do Sul.

Figure 3. Number of species that Brazilian and foreigner bird watchers expect to see during one day in the field. Results obtained between May and October

2005, in a case study for the region of the Pantanal and the Bodoquena Plateau, Mato Grosso do Sul, Brazil.


Perfil e viabilidade do turismo de observação de aves no Pantanal Sul e Planalto da

Bodoquena (Mato Grosso do Sul) segundo interesse dos visitantes

525

motivação

Observadores de aves - motivação para visitar a região da

Serra da Bodoquena

facilidade de acesso aos locais de

observação de aves

existência de roteiros organizados por

operadoras especializadas

existência de Unidades de Conservação

na região

pouco aumento nos custos totais da

viagem

boa infra-estrutura hoteleira

acompanhamento de guias bilíngües

possibilidade de partcipar de outras

atividades turísticas na região

possibilidade de observar aves diferentes

das observadas no Pantanal

adoção de práticas de mínimo impacto

em ambiente natural

existência de uma lista de aves locais

facilidade de acesso à região

proximidade com o Pantanal

1

2

3

3

5

6

7

6

6

7

7

9

9

10

10

10

11

12

10

11

13

14

estrangeiros

brasileiros

18

19

0 5 10 15 20

total

Figura 4. Principais motivações para que os observadores de aves entrevistados

visitem o Planalto da Bodoquena para observação de aves. Resultados obtidos

entre maio e outubro de 2005 em estudo de caso para a região do Pantanal e

Planalto da Bodoquena, Mato Grosso do Sul. O total de indicações para cada

item aparece na frente das barras correspondentes.

Figure 4. Major motivating factors for the interviewed bird watchers to visit

the Bodoquena Plateau for bird watching. Results obtained between May and

October 2005, in a case study for the region of the Pantanal and the Bodoquena

Plateau, Mato Grosso do Sul, Brazil. The total of indications for each item is

shown in front of the corresponding bars.

ter ouvido falar, enquanto 24,2% afirmaram terem ouvido

falar, mas não conheciam (para brasileiros, esta resposta foi

de 50%), e apenas um entrevistado já esteve na região para

observação de aves. Estes dados indicam que, para a implantação

de um roteiro para observação de aves, será necessário um

investimento em divulgação e informação sobre os atrativos

desta região, em especial nos meios de comunicação utilizados

por este público.

As principais motivações que levariam os entrevistados

estrangeiros a visitar a região de Bonito/Serra da Bodoquena

seriam principalmente a possibilidade de observar aves diferentes

daquelas observadas no Pantanal, boa estrutura hoteleira

e a prática de ações de mínimo impacto ambiental. Para

os brasileiros seria a possibilidade de participar de outras atividades

turísticas, proximidade com o Pantanal e também a possibilidade

de observar aves diferentes desta região (Figura 4).

Estes dados indicam que um roteiro com facilidade de

acesso, pouco aumento de custos e boa oferta de espécies complementares

às ressaltadas no Pantanal seria bem aceito pelo

público estrangeiro. Para os entrevistados brasileiros, a possibilidade

de participar de outras atividades turísticas indica um

perfil não exclusivamente entusiasta de aves, mas com interesses

mais generalistas, conforme apontam Tourism Queenland

(2000) e Matos (2004). Esta possibilidade de roteiros complementares

possibilita que pessoas do grupo que não queiram

apenas observar aves possam participar destas outras atividades,

contribuindo para a diversificação de recursos financeiros

em outros setores.

Guias especializados em observação de aves

Dez guias especialistas brasileiros e cinco estrangeiros

responderam ao questionário, sendo onze homens e quatro

mulheres, com faixa etária predominante entre 21 a 30 anos.

Todos os guias especialistas entrevistados possuíam formação

superior, sendo que destes, 20% possuíam pós-graduação

e 33% eram mestres. Dos entrevistados, 53% praticam

esta atividade há até 10 anos, 7% entre 11 e 20 anos, 20%

entre 21 e 30 anos, 7% entre 31 e 40 anos e 13% entre 41 e 50

anos. O número de viagens ao exterior conduzindo grupos de

observadores de aves é de 1 a 10 (60%) sendo que o número

de pessoas varia entre 6 a 10 em cada grupo. A formação técnica

especializada e o tempo de experiência são fatores importantes

e valorizados pelos observadores de aves, que esperam

informações precisas sobre as aves e os ambientes visitados

(Mourão 1999).

A relevância da observação de aves em locais com adoção

de práticas de mínimo impacto ambiental apontou uma preferência

para a conservação ambiental, com 40% dos entrevistados

afirmando jamais visitar uma área sem cuidados

ambientais e 33% só visitariam uma área com estas características

se houvesse a possibilidade de observar uma espécie

importante. Com estes resultados, observa-se que a maioria

dos guias especialistas demonstra preocupação com práticas

conservacionistas.

As regiões mais citadas por aqueles que já visitaram o

Pantanal foram Miranda, Chapada dos Guimarães, Poconé

e Estrada Parque. Apenas quatro guias nunca estiveram na

região, e as justificativas mais citadas foram os custos da viagem

e a distância do seu local de origem.

Quando perguntados se conheciam a região da Serra da

Bodoquena ou Bonito, 19% disseram nunca ter ouvido falar,

27% afirmaram terem ouvido falar, mas não conheciam (apenas

um guia brasileiro optou por esta resposta), 27% já visitou

e 27% visitaram para observação de aves. Aqui novamente

aponta-se a necessidade de maior divulgação de roteiros de

observação de aves para esta região, visto que parte dos guias

que já visitaram a região para a atividade residem em Mato

Grosso do Sul.

As principais motivações que levariam os guias especialistas

estrangeiros a visitar a região de Bonito/Serra da Bodoquena

seriam principalmente a possibilidade de observar espé‐


526 Maria Antonietta Castro Pivatto, José Sabino, Silvio Favero e Ido Luiz Michels

cies diferentes das observadas no Pantanal e a facilidade de

acesso aos locais de observação de aves. Para os guias brasileiros

a possibilidade de observar espécies diferentes das encontradas

no Pantanal também foi a principal resposta, seguida

da existência de uma lista de aves locais e da proximidade do

Pantanal (Figura 5).

Guias de turismo local

Ao investigar o perfil dos guias locais, buscou-se informações

sobre o interesse dos mesmos em especializar-se em

observação de aves devido ao número reduzido destes profissionais

disponíveis no mercado. Assim, as questões foram

direcionadas às suas atividades principais, seu conhecimento e

interesse pelas aves da região.

Dos 33 guias de turismo local que responderam ao questionário,

22 eram homens e 11 mulheres, sendo que 49% do

total têm idade entre 21 a 30 anos, 42% entre 31 e 40 anos e

9% entre 41 e 50 anos. Destes, 58% possuem apenas o ensino

médio/técnico em guia de turismo, 36% possuem formação

motivação

Guias especialistas - motivação para visitar a região da

Serra da Bodoquena/Bonito

proximidade com o Pantanal

facilidade de acesso à região

existência de uma lista de aves locais

adoção de práticas de mínimo impacto em

ambiente natural

possibilidade de observar aves diferentes das

observadas no Pantanal

possibilidade de partcipar de outras atividades

turísticas na região

acompanhamento de guias bilíngües

boa infra-estrutura hoteleira

pouco aumento nos custos totais da viagem

existência de Unidades de Conservação na

região

existência de roteiros organizados por

operadoras especializadas

facilidade de acesso aos locais de observação

de aves

total

0 2 4 6 8 10 12

1

1

1

2

2

2

2

2

3

3

3

4

4

4

4

5

6

6

7

8

10

brasileiros

estrangeiros

Figura 5. Major motivating factors for the interviewed specialized tour guides

to visit the Bodoquena Plateau for bird watching. Results obtained between

May and October 2005, in a case study for the region of the Pantanal and the

Bodoquena Plateau, Mato Grosso do Sul, Brazil. The total of indications for

each item is shown in front of the corresponding bars.

Figura 5. Major motivating factors for the interviewed specialized tour guides

to visit the Bodoquena Plateau for bird watching. Results obtained between

May and October 2005, in a case study for the region of the Pantanal and the

Bodoquena Plateau, Mato Grosso do Sul, Brazil. The total of indications for

each item is shown in front of the corresponding bars.

superior e 6% são pós-graduados (latu sensu), sendo que 46%

dos guias locais exercem esta profissão há até cinco anos, 39%

de seis a 10 anos e 15% de 11 a 15 anos. Com relação à fluência

de línguas estrangeiras dos guias de turismo local entrevistados,

apenas 25% possuem conhecimento médio em inglês e

38% em espanhol.

As principais atividades turísticas exercidas pelos guias

de turismo local entrevistados são flutuação (mergulho livre),

visita a cachoeiras, caminhada em trilhas e visita a cavernas.

Estas atividades têm um perfil mais próximo ao turismo de

natureza em geral, com capacitação apenas para fornecer informações

básicas sobre espeleologia e técnicas de mergulho.

Com relação ao conhecimento da avifauna da região pelos

guias locais de turismo, 29% dizem conhecer até 20 espécies,

28% até 40 espécies e 22% afirmam conhecer até 60 espécies.

A maioria dos entrevistados mostrou-se positiva com relação

ao interesse específico sobre a avifauna (49%) e com interesse

em aprender mais sobre o assunto (67%).

Observa-se que o guia local identifica um interesse do

visitante pelas aves da região, ainda que este seja pelas aves

mais comuns como araras e tucanos. De acordo com os resultados,

os guias locais procuram apontar as aves para os turistas

(Figura 6), mas nem sempre o turista comum tem interesse

especial pelas mesmas. Assim, pode-se afirmar que os turistas

que visitam a região de Bonito atualmente poderiam ser considerados

como observadores generalistas, conforme o perfil

descrito por Tourism Queenland (2000).

As espécies de aves mais valorizadas pra a região da Serra

da Bodoquena, segundo os guias de turismo local, são Ara

chloropterus, Ramphastos toco, Momotus momota, Trogon

curucui, Cariama cristata, Icterus croconotus, Rhea americana,

Amazona aestiva, Tigrisoma lineatum, Jacana jacana,

Galbula ruficauda, Pitangus sulphuratus, Donacobius atricapilla,

Ardea alba e Theristicus caudatus. Além destas espécies,

também foram citados os grupos “martins-pescadores”

(Alcedinidae), “pica-paus” (Picidae), “beija-flores” (Trochilidae),

“arapaçus” (Dendrocolaptidae) e “pombas” (Columbidae).

Todas as espécies selecionadas pelos guias locais são

conspícuas e de fácil visualização durante a visitação turística

nos sítios turísticos da região de Bonito (Pivatto et al. 2006).

Expectativa e viabilidade de observação

de aves na região estudada

Ao analisar o perfil geral dos observadores de aves entrevistados,

pode-se caracterizar o brasileiro como jovem, com

poucos recursos financeiros para viagens longas e distantes,

interesse mais generalista e com preocupações ambientais

mais presentes que o turista tradicional. O turista estrangeiro

está dentro do perfil de meia idade a idoso e com maior disponibilidade

de recursos financeiros, possibilitando viagens mais

distantes e demoradas. Possui interesse mais específico pela

observação de aves e também tem preocupações ambientais

relevantes.


Perfil e viabilidade do turismo de observação de aves no Pantanal Sul e Planalto da

Bodoquena (Mato Grosso do Sul) segundo interesse dos visitantes

527

Tanto o brasileiro quanto o estrangeiro procuram diversidade

de aves nos locais que visitam, mas a expectativa de

novas espécies é maior no estrangeiro. A segurança e o conforto

durante as viagens, feitas principalmente em grupos

organizados, é também característica do turista estrangeiro,

enquanto o brasileiro prioriza viagens próximas ao seu local

de origem organizadas por ele próprio.

Embora o Planalto da Bodoquena seja mais conhecido

pelo público brasileiro, ambos carecem de informações sobre

as oportunidades de observação de aves na região, mostrandose,

porém, dispostos a visitá-la caso possam aumentar a lista

de aves observadas no Pantanal. A integração de um roteiro

que una estas duas localidades foi bem aceita pelo público

entrevistado.

A falta de informações sobre a região foi destacada pelos

observadores de aves e guias especialistas, indicando a necessidade

de se aumentar esforços na divulgação deste destino para

observação de aves. Estes guias também mostraram interesse

em conhecer um roteiro que una as duas regiões, complementando

as observações feitas no Pantanal. Para este grupo, as

preocupações ambientais foram mais reforçadas do que para os

observadores, indicando que este deve ser um fator de exclusão

em roteiros que não tenham estes cuidados priorizados.

Este resultado está em acordo com as afirmações de Kerlinger

(2000) e Primack e Rodrigues (2002) de que a conservação

dos recursos naturais é uma das premissas para a sustentabilidade

da exploração econômica por meio do ecoturismo.

A pouca participação de guias especialistas na entrevista e

a ausência de especialização dos guias locais de Bonito reforça

a carência de guias especialistas para roteiros no Pantanal e

no Planalto da Bodoquena. Embora os observadores de aves

tenham dado pouca prioridade à contratação destes profissionais,

cabe lembrar que mesmo com a vinda dos guias acompanhantes

dos grupos estrangeiros há a necessidade de acompanhamento

de monitores nas fazendas pantaneiras e guias locais

credenciados no município de Bonito (Bonito 2002). Portanto,

investimentos na formação deste profissional podem aumentar

a oferta de roteiros, contribuindo para a melhoria da qualidade

deste serviço para observadores de aves que visitem a região.

Foram citadas no total 119 espécies de aves pelos entrevistados.

Embora originalmente tenham sido indicadas 49 espécies

para escolha nos questionários, os resultados acrescentaram

mais 70 espécies à lista de aves que se espera observar durante

um roteiro que integre a região do Planalto da Bodoquena e

Pantanal sul, diminuindo a tendenciosidade deste resultado.

As espécies mais valorizadas pelos observadores de aves,

de acordo com a pontuação descrita em Material e Métodos,

foram Harpia harpyja (75,4), Anodorhynchus hyacinthinus

(51,0), Ara chloropterus (42,1), Pyroderus scutatus (39,0),

Antilophia galeata (39,0), Pipra fasciicauda (39,0), Pyrrhura

devilei (37,0), Sarcoramphus papa (37,0), Trogon curucui

(35,1) e Aburria cumanensis (32,0). A lista das espécies citadas

pelos guias especialistas como sendo as mais valorizadas

pelos observadores de aves apresenta algumas diferenças

quando comparada com a anterior: Harpia harpyja (93,3),

Anodorhynchus hyacinthinus (60,0), Alipiopsitta xanthops

(60,0), Antilophia galeata (60,0), Pyroderus scutatus (53,3),

Sarcoramphus papa (47,0), Aburria cumanensis (40,0), Crax

fasciolata (40,0), Trogon curucui (40,0) e Ara chloropterus

(40,0). Para os próprios guias especialistas, as espécies mais

Guias de turismo local - relevância da avifauna durante as atividades turísticas

14

12

13

12

pouca, pois no geral apenas alguns turistas se

interessam pelas aves da região

10

pouca, pois conheço poucas aves para mostrar aos

turistas

total

8

6

6

média, pois mesmo eu conhecendo as aves, os

turistas em geral querem ver apenas as espécies

principais (tucano, arara, etc)

4

2

1 1

muita, pois mesmo quando os turistas não se

interessam, eu procuro mostrar as aves presentes no

roteiro turístico

0

relevância

muita, pois os turistas querem sempre ver aves

durante os roteiros turísticos

Figura 6. Importância das aves para o trabalho dos guias de turismo local. Resultados obtidos entre maio e outubro de 2005 em estudo de caso para a região do

Pantanal e Planalto da Bodoquena, Mato Grosso do Sul. O total de indicações para cada item aparece na frente das barras correspondentes

Figure 6. Importance of birds for the work of local tour guides. Results obtained between May and October 2005, in a case study for the region of the Pantanal

and the Bodoquena Plateau, Mato Grosso do Sul, Brazil. The total of indications for each item is shown in front of the corresponding bars.


528 Maria Antonietta Castro Pivatto, José Sabino, Silvio Favero e Ido Luiz Michels

valorizadas foram Anodorhynchus hyacinthinus (53,3), Formicivora

rufa (40), Crax fasciolata (20,0), Pyrrhura devilei

(20,0), Chloroceryle aenea (20,0), Momotus momota (20,0),

Melanerpes cactorum (20,0), Nyctibius griseus (20,0), Harpia

harpyja (13,3) e Trogon curucui (13,3).

Para os guias locais, as mais valorizadas foram aquelas cuja

observação é mais freqüente durante as atividades de turismo

convencional ou que despertam a atenção do visitante, sendo

as mais citadas Ramphastos toco (76,0), Momotus momota

(73,0), Trogon curucui (70,0), Cariama cristata (48,5), Tigrisoma

lineatum (42,4), Icterus croconotus (42,4), Rhea americana

(30,3), Ara chloropterus (30,3), Jacana jacana (30,3) e

Amazona aestiva (21,2).

Considerando-se apenas as espécies presentes no Planalto

da Bodoquena, a média geral das espécies que alcançaram

maior valoração, segundo o número de indicações em cada

categoria de entrevistados somados foram Harpia harpyja

(47,0), Anodorhynchus hyacinthinus (41,8), Trogon curucui

(39,6), Momotus momota (35,7), Ara chloropterus (29,8),

Ramphastos toco (29,3), Sarcoramphus papa (26,6), Antilophia

galeata (26,3), Pyrrhura devillei (24,6) e Pyroderus

scutatus (23,5) Ou seja, além da infra-estrutura física e organizacional,

os roteiros elaborados para a região devem levar

em conta a possibilidade de se observar a maior variedade de

espécies, com destaque para as citadas acima.

Conclusão

O crescimento desta atividade no Brasil e a busca por novos

roteiros despertam o interesse dos observadores de aves para a

região do Pantanal e do Planalto da Bodoquena. A diversidade

de aves e a presença de espécies de interesse dos observadores

também indicam que investimentos neste setor podem trazer

para a região uma modalidade de turismo com grande apelo

conservacionista.

Dessa forma, conclui-se que para aumentar a visitação

pelos observadores de aves as pousadas e sítios turísticos da

região estudada necessitam investir em roteiros direcionados e

também na divulgação das aves existentes em suas propriedades.

Deve-se, ainda, centrar esforços na capacitação de guias

especialistas e divulgação das espécies ocorrentes na região,

além de criar roteiros específicos que integrem Pantanal e Planalto

da Bodoquena.

A necessidade de um ambiente conservado para garantir

as condições de sobrevivência das aves e a inclusão de diversos

setores da economia regional são pré-requisitos para o

desenvolvimento do Ecoturismo. Assim, a conservação dos

remanescentes florestais e a recuperação de áreas degradadas

podem aumentar este potencial devido à ampliação e manutenção

de hábitats para a avifauna local, atrativo principal para

grupos de observadores de aves.

Portanto, considera-se que investimentos no turismo de

observação de aves na região do Planalto da Bodoquena e Pantanal

poderão acrescentar valor aos remanescentes naturais da

região e incentivar sua conservação para uso de roteiros específicos

para a atividade. Isto aumentará as opções turísticas

da região e poderá diversificar a distribuição de renda, além

de atender a demanda apontada pelos observadores de aves

entrevistados.

Agradecimentos

Ao professores Ademir Kleber Morbeck de Oliveira, Alexine

Keuroghlian, Eron Brum (UNIDERP) e Andréa Cardoso

de Araújo (UFMS) pelas valiosas contribuições. Ao Recanto

Ecológico Rio da Prata, Estância Mimosa Ecoturismo, Fazenda

da Barra e Pousada Olho d’Água pelo apoio operacional.

Agradecemos às contribuições de Fernando Costa Straube,

José Fernando Pacheco, Augusto José Piratelli, José Augusto

de Carvalho e Daniel De Granville Manço. E finalmente ao

apoio financeiro da UNIDERP e Japacanim Ecoturismo Ltda.

José Sabino agradece também ao apoio financeiro da Fundação

Manoel de Barros.

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ARTIGO 530 Leonardo Esteves Lopes e Vívian S. Braz Revista Brasileira de Ornitologia 15(4):530-537

dezembro de 2007

Aves da região de Pedro Afonso, Tocantins, Brasil

Leonardo Esteves Lopes 1 e Vívian S. Braz 2

1. Laboratório de Ornitologia, Departamento de Zoologia, ICB, Universidade Federal de Minas Gerais, 31270‐910, Belo

Horizonte, MG, Brasil. e‐mail: leo.cerrado@gmail.com

2. Programa de pós-graduação em Ecologia, Departamento de Ecologia, IB, Universidade de Brasília, 70910‐900, Brasília, DF,

Brasil. e‐mail: vsbraz@unb.br

Recebido em 13 de junho de 2006; aceito em 19 de agosto de 2007.

Abstract: Birds of Pedro Afonso region, Tocantins, Brazil. We report the results of rapid bird surveys in Pedro Afonso region, central Tocantins,

Brazil. Field work was conducted in three campaigns between November 2000 and April 2004, in a total sampling effort of 25 days. The local

vegetation is typical of Brazilian Cerrado (a kind of tropical savanna), and a wide spectrum of habitats was sampled, ranging from grasslands to tall

semideciduous forests. We recorded 254 species, the majority of them typical of the Cerrado region, with some Amazonian species along the riparian

and semideciduous forests. Accounts are presented for some noteworthy species and evidences of recordings of the Fiery-tailed Awlbill Avocettula

recurvirostris and the Smoke-coloured Pewe Contopus fumigatus are also presented, but they need to be documented.

Key-words: birds, cerrado, Rio Tocantins, Brazil.

Resumo: São apresentados os resultados de inventários rápidos na região de Pedro Afonso, centro do Tocantins, Brasil. Os trabalhos de campo foram

conduzidos ao longo de três campanhas entre novembro de 2000 e abril de 2004, em um esforço de amostragem total de 25 dias. A vegetação local é

típica do Cerrado, sendo amostrada uma ampla gama de habitats, compreendendo desde os campos limpos às florestas semidecíduas. Foram registradas

254 espécies, a maioria delas típicas do Cerrado, com algumas poucas espécies amazônicas ao longo das florestas ciliares e semidecíduas. Os registros

notáveis são discutidos, sendo apresentadas evidências não documentadas da ocorrência de Avocettula recurvirostris e Contopus fumigatus.

Palavras-chave: aves, Cerrado, Rio Tocantins, Brasil.

O conhecimento atual sobre a avifauna do Cerrado é ainda

extremamente deficiente, existindo estimativas de que cerca

de 70% de sua área ainda não foi amostrada satisfatoriamente

(Silva 1995, Silva e Santos 2005). Uma das regiões do Cerrado

mais carentes de inventários é o estado do Tocantins, que

até pouco tempo atrás, apresentava a quase totalidade de sua

superfície territorial ainda inexplorada por ornitólogos (Silva

1995, Silva e Santos 2005). Recentemente, alguns estudos

têm contribuído para reverter esse quadro (Buzzetti 2000,

Bagno e Abreu 2001, Santos 2001, Braz et al. 2003, Pacheco

e Olmos 2006), mas muito ainda resta por ser feito. Com o

intuito de contribuir para um maior conhecimento da avifauna

tocantinense, este trabalho apresenta os resultados de inventários

conduzidos na região de Pedro Afonso, região central

do estado.

Metodologia e Áreas Estudadas

Os inventários foram realizados durante três curtas campanhas

à região de Pedro Afonso, compreendendo também

os municípios de Bom Jesus do Tocantins e Centenário. VSB

visitou a área entre 9 e 11 de novembro de 2000 e entre 14 e 25

de janeiro de 2001. LEL visitou a região entre 24 de março e 2

de abril de 2004. A vegetação é típica do Cerrado, abrangendo

as mais diversas fitofisionomias, desde os campos limpos até

o cerradão (sensu Ribeiro e Walter 1998). Florestas semidecíduas

também se encontram presentes, com o dossel atingindo

30 m de altura em algumas áreas. No entorno da cidade de

Pedro Afonso, a vegetação nativa já se encontra descaracterizada

em diversos trechos, tendo as matas ciliares do rio

Tocantins e seus tributários sido suprimida total ou parcialmente

para o plantio de culturas de subsistência, ou formação

de pastagens. A entrada de gado nas matas ciliares também é

um fator preocupante, pois o pastejo e pisoteio pelos animais

causam grandes alterações no sub-bosque. Extensas formações

de cerrado em bom estado de conservação ainda podem

ser observadas, mas o futuro dessas áreas ainda é incerto, pois

a cultura de soja tem se expandido rapidamente na região, e

grandes áreas de vegetação nativa já foram suprimidas.

A metodologia de campo consistiu em caminhada ao longo

da área de estudo que buscaram cobrir todas as diferentes fitofisionomias

da região. Os registros foram efetuados por meio

de observação com o auxílio de binóculos e da identificação

dos cantos e chamados das aves. Em duas ocasiões, com o

auxílio de um barco, VSB percorreu trechos do rio Tocantins

para a observação de aves aquáticas. Ao todo foram amostradas

treze áreas (Figura 1), as quatro primeiras delas por VSB

e as demais por LEL. As localidades de amostragem são apresentadas

abaixo:

1. Rio Sono (09°09’S, 47°59’W; altitude: 240 m): áreas com

mancha de floresta semidecídua, com sinais de alteração

em alguns trechos, e cerrado adjacente.

2. Barra do Tranqueira (08°46’S, 48°08’W; altitude: 180 m):

margem esquerda do Rio Tocantins, na sua confluência


Aves da região de Pedro Afonso, Tocantins, Brasil 531

com o Ribeirão Tranqueira. Árvores baixas e cerrado adjacente

utilizado para pecuária extensiva.

3. Ribeirão Água Fria (08°25’S, 48°06’W; altitude: 179 m):

trechos florestais com dossel até 20 m, cerrado adjacente.

Presença de lagos e áreas alagadas.

4. Água Boa (08°24’S, 48°04’W; altitude: 176 m): mata com

dossel até 30 m, com sinais de alteração. Cerrado adjacente.

Trechos de veredas e banhados. Área no entorno utilizada

para pecuária extensiva.

5. Margem direita do rio Tocantins (08°59’S, 48°10’W; altitude:

190 m): área antropizada, com mata ciliar completamente

descaracterizada. Alguns trechos de cerrado alagado

e manchas de cerrado denso com gravatás.

6. Margem esquerda do rio Tocantins (08°59’S, 48°11’W;

altitude: 180 m): área antropizada, com chácaras, pastagens

e pequenas plantações. Mata ciliar alterada, rica em

babaçus. Alguns trechos de cerrado aberto alagado.

7. Fazenda Sítio Novo (09°03’S, 47°56’W; altitude: 243 m):

mosaico de cerrado, mata semidecídua baixa, taquaral

e mata ciliar. Em alguns trechos podem ser observadas

pequenas extensões de cerrado rupestre.

8. Rodovia BR‐235 (09°02’S, 47°56’W; altitude: 315 m):

cerrado fechado e mata semidecídua ao longo das drenagens,

dossel de até 20 m.

9. Córrego da Boa Esperança (09°03’S, 48°11’W; altitude:

189 m): cerrado e mata ciliar.

10. Fazenda Brejão (09°15’S, 48°09’W; altitude: 252 m):

pequenas fazendas com culturas, cerradão e um pequeno

trecho de veredas.

11. Entorno da Terra Indígena Xerente (09°25’S, 48°08’W;

altitude: 349 m): extensas áreas de cerrado aberto e campos

limpos e sujos, com capões de mata semidecídua e floresta

ciliar. Alguns trechos de cerrado sobre cascalho.

12. Fazenda Alto Alegre (09°04’S, 47°43’W; altitude: 318 m).

cerrado, mata semidecídua e veredas.

13. Fazenda Maravilha (08°57’S, 47°20’W; altitude: 312 m).

áreas de cerrado e floresta ciliar.

Foram registradas 254 espécies de aves neste estudo

(Tabela 1), um número certamente subestimado, dado ao reduzido

período de amostragem. A nomenclatura e a seqüência

taxonômica seguem proposta do Comitê Brasileiro de Registros

Ornitológicos (CBRO 2006).

A avifauna da região de Pedro Afonso pode ser considerada

típica do Cerrado, mas com certa influência amazônica,

conforme demonstrado pelos registros de Crypturellus cinereus,

Pteroglossus inscriptus, Melanerpes cruentatus e Tyranneutes

stolzmanni. A presença de tais espécies na área provavelmente

se deve às matas ciliares da bacia do rio Tocantins,

que atuariam como uma espécie de corredor de floresta úmida

em meio ao Cerrado (Silva 1996), proporcionando hábitat adequado

para estas espécies.

Apenas duas das aves registradas encontram-se listadas

como ameaçadas de extinção (BirdLife International 2004,

Machado et al. 2005), sendo elas Penelope cf. ochrogaster e

Anodorhynchus hyacinthinus, listadas na categoria “vulnerável”.

Nove espécies de aves registradas são consideradas endêmicas

do Cerrado (Silva e Bates 2002): Penelope cf. ochrogaster,

Alipiopsitta xanthops, Melanopareia torquata, Herpsilochmus

longirostris, Antilophia galeata, Cyanocorax cristatellus,

Porphyrospiza caerulescens, Charitospiza eucosma e

Saltator atricollis. Os registros notáveis são listados abaixo:

Penelope cf. ochrogaster – um grupo de três indivíduos foi

observado no dia 15 de janeiro de 2005 em uma mancha de

floresta semidecídua na área 1. Foi possível observar com

clareza as partes inferiores intensamente castanhas, a faixa

superciliar clara e sobrancelha negra. Em um trabalho realizado

na região sudeste do Tocantins (Pacheco e Olmos 2006)

foram realizados vários registros dessa espécie, que parece

não ser incomum na área. Considerada vulnerável à extinção

em níveis nacional (Machado et al. 2005) e mundial (BirdLife

International 2004).

Avocettula recurvirostris – um provável macho desta espécie

foi observado no dia 27 de março de 2004 pousado na borda

de uma mata galeria dominada por taquaras, na Fazenda Sítio

Novo, em uma região de mosaico de matas semidecíduas e

cerrado, com afloramentos rochosos. As precárias condições

de iluminação no momento da observação não permitiram a

precisa identificação, mas o bico curto e com a extremidade

ligeiramente orientada para cima, associado ao brilho cúpreo

de suas retrizes sugerem fortemente tratar-se desta espécie.

Avocettula recurvirostris é considerado um dos beija-flores

mais raros do Brasil (Grantsau 1988, Sick 1997), sendo listada

como quase ameaçada por Collar et al. (1992). O hábitat

em que a espécie foi observada parece ser o típico da espécie,

que é dita ocorrer em formações savânicas abertas próximas

de afloramentos de granito, em meio a florestas primárias

(Schuchmann 1999). Caso a identificação desta espécie se

confirme, este deverá ser o seu primeiro registro para o estado

de Tocantins.

Rostrhamus sociabilis – às 06:50 h do dia 26 de março de

2004, durante a travessia de balsa do rio Tocantins, na entrada

da cidade de Pedro Afonso, um grupo de mais de 1.000 indivíduos

desta espécie foi observado sobrevoando o Rio Tocantins,

provavelmente em migração. As aves voavam a mais de

100 m de altura, em um grupo compacto, atravessando o rio da

margem esquerda para a direita.

Spizaetus tyrannus – no dia 29 de março de 2004 um adulto

desta espécie foi observado vocalizando insistentemente no

dossel de um cerradão durante toda a manhã. A vocalização,

aparentemente um grito de alarme, era emitida toda vez que

um observador se aproximava da árvore onde o indivíduo se

encontrava pousado, sugerindo que ela abrigava um ninho

da espécie. Entretanto, a densidade do dossel, associado à

grande quantidade de lianas, impediu a visualização da copa

da árvore.


532 Leonardo Esteves Lopes e Vívian S. Braz

Tabela 1. Espécies de aves registradas na região de Pedro Afonso, Tocatins,

Brasil. A nomenclatura e a seqüência taxonômica seguem proposta do Comitê

Brasileiro de Registros Ornitológicos (2006).

Table 1. Bird species recorded in Pedro Afonso region, Tocantins, Brazil.

Bird names and species sequence follows the Comitê Brasileiro de Registros

Ornitológicos (2006).

Táxons

Áreas

Struthioniformes Latham, 1790

Rheidae Bonaparte, 1849

Rhea americana (Linnaeus, 1758) 2,4,10

Tinamiformes Huxley, 1872

Tinamidae Gray, 1840

Tinamus sp. 8

Crypturellus cinereus (Gmelin, 1789) 3

Crypturellus undulatus (Temminck, 1815) 4,7

Crypturellus parvirostris (Wagler, 1827) 1,2,3,4,5,7,10,11

Rhynchotus rufescens (Temminck, 1815) 1,2,3,4,10,11,12

Nothura maculosa (Temminck, 1815) 1

Anseriformes Linnaeus, 1758

Anhimidae Stejneger, 1885

Anhima cornuta (Linnaeus, 1766) 4

Anatidae Leach, 1820

Dendrocygna viduata (Linnaeus, 1766) 3,4,5,9

Dendrocygna autumnalis (Linnaeus, 1758) 3

Cairina moschata (Linnaeus, 1758) 4

Galliformes Linnaeus, 1758

Cracidae Rafinesque, 1815

Penelope superciliaris Temminck, 1815

Penelope cf. ochrogaster Pelzeln, 1870 1

Crax fasciolata spix, 1825 1

Pelecaniformes Sharpe, 1891

Phalacrocoracidae Reichenbach, 1849

Phalacrocorax brasilianus (Gmelin, 1789) 2

Anhingidae Reichenbach, 1849

Anhinga anhinga (Linnaeus, 1766) 2

Ciconiiformes Bonaparte, 1854

Ardeidae Leach, 1820

Tigrisoma lineatum (Boddaert, 1783) 3,5,7

Ixobrychus exilis (Gmelin, 1789) 3

Butorides striata (Linnaeus, 1758) 3,4

Ardea cocoi Linnaeus, 1766 4

Ardea alba Linnaeus, 1758 4,5

Syrigma sibilatrix (Temminck, 1824) 4

Pilherodius pileatus (Boddaert, 1783) 4

Egretta thula (Molina, 1782) 2

Threskiornithidae Poche, 1904

Mesembrinibis cayennensis (Gmelin, 1789) 2,4,13

Theristicus caudatus (Boddaert, 1783) 2,3,5

Ciconiidae Sundevall, 1836

Ciconia maguari (Gmelin, 1789) 2

Cathartiformes Seebohm, 1890

Cathartidae Lafresnaye, 1839

Cathartes aura (Linnaeus, 1758) 1,2,3,6,7,9,13

Coragyps atratus (Bechstein, 1793) 1,2,4,5,9,10,13

Sarcoramphus papa (Linnaeus, 1758) 2,10,13

Falconiformes Bonaparte, 1831

Accipitridae Vigors, 1824

Leptodon cayanensis (Latham, 1790) 2

Elanoides forficatus (Linnaeus, 1758) 1,4

Táxons

Áreas

Gampsonyx swainsonii Vigors, 1825 1

Elanus leucurus (Vieillot, 1818) 1

Rostrhamus sociabilis (Vieillot, 1817) 6

Ictinia plumbea (Gmelin, 1788) 2

Buteogallus urubitinga (Gmelin, 1788) 9

Heterospizias meridionalis (Latham, 1790) 3,4,5,7,10

Rupornis magnirostris (Gmelin, 1788) 2,3,4,5,7,8,9,10,11,12

Buteo albicaudatus Vieillot, 1816 10,11

Buteo nitidus (Latham, 1790) 2,7,10

Spizaetus tyrannus (Wied, 1820) 10

Falconidae Leach, 1820

Ibycter americanus (Boddaert, 1783) 5,7,13

Caracara plancus (Miller, 1777) 1,4,5,7,9,10

Milvago chimachima (Vieillot, 1816) 1,2,3,4,5,7,8,9,10,11

Herpetotheres cachinnans (Linnaeus, 1758) 1,2,4,9

Falco sparverius Linnaeus, 1758 3,4,9,11

Falco femoralis Temminck, 1822 3,9

Gruiformes Bonaparte, 1854

Rallidae Rafinesque, 1815

Aramides cajanea (Statius Muller, 1776) 4

Gallinula chloropus (Linnaeus, 1758) 3

Eurypygidae Selby, 1840

Eurypyga helias (Pallas, 1781) 3

Cariamidae Bonaparte, 1850

Cariama cristata (Linnaeus, 1766) 1,2,3,4,5,7,8,10,11,12

Charadriiformes Huxley, 1867

Charadriidae Leach, 1820

Vanellus cayanus (Latham, 1790) 5

Vanellus chilensis (Molina, 1782) 2,3,4,5,7,11,12

Charadrius collaris Vieillot, 1818 2

Scolopacidae Rafinesque, 1815

Tringa flavipes (Gmelin, 1789) 2

Tringa solitaria Wilson, 1813 4

Jacanidae Chenu & Des Murs, 1854

Jacana jacana (Linnaeus, 1766) 3,4

Sternidae Vigors, 1825

Phaetusa simplex (Gmelin, 1789) 2

Rynchopidae Bonaparte, 1838

Rynchops niger Linnaeus, 1758 2

Columbiformes Latham, 1790

Columbidae Leach, 1820

Columbina talpacoti (Temminck, 1811) 1,2,3,4,5,7,9,10

Columbina squammata (Lesson, 1831) 1,2,3,4,5,7,9,11,12,13

Claravis pretiosa (Ferrari-Perez, 1886) 12

Uropelia campestris (Spix, 1825) 1,3,6

Columba livia Gmelin, 1789 3

Patagioenas speciosa (Gmelin, 1789) 1

Patagioenas picazuro (Temminck, 1813) 3,4,5,7,9,10,11

Patagioenas cayennensis (Bonnaterre, 1792) 2,4,10

Leptotila verreauxi Bonaparte, 1855 2,3,4,5,7,8,10,11,12

Leptotila rufaxilla (Richard & Bernard, 1792) 1

Psittaciformes Wagler, 1830

Psittacidae Rafinesque, 1815

Anodorhynchus hyacinthinus (Latham, 1790) 4

Ara ararauna (Linnaeus, 1758) 2,3,4

Ara chloropterus Gray, 1859 3

Orthopsittaca manilata (Boddaert, 1783) 3

Diopsittaca nobilis (Linnaeus, 1758) 1,2,3,4,5,9,10


Aves da região de Pedro Afonso, Tocantins, Brasil 533

Táxons

Áreas

Aratinga jandaya (Gmelin, 1788) 3,4,6,9,10

Aratinga aurea (Gmelin, 1788) 1,2,3,4,5,7,9,10,11

Forpus xanthopterygius (Spix, 1824) 3,4,5,7

Brotogeris chiriri (Vieillot, 1818) 1,2,3,4,5,7,8,11,12

Alipiopsitta xanthops (Spix, 1824) 3,5

Pionus menstruus (Linnaeus, 1766) 4

Amazona aestiva (Linnaeus, 1758) 2,4,5,11

Amazona amazonica (Linnaeus, 1766) 1,2,3,4

Cuculiformes Wagler, 1830

Cuculidae Leach, 1820

Coccyzus melacoryphus Vieillot, 1817 2,5

Piaya cayana (Linnaeus, 1766) 1,2,4,5,7,8,11,12

Crotophaga major Gmelin, 1788 2

Crotophaga ani Linnaeus, 1758 1,3,4,5,7,11,13

Guira guira (Gmelin, 1788) 1,2,3,4,5,7,9,10,11,12,13

Tapera naevia (Linnaeus, 1766) 4,7

Strigiformes Wagler, 1830

Strigidae Leach, 1820

Megascops choliba (Vieillot, 1817) 2

Glaucidium brasilianum (Gmelin, 1788) 5,7

Athene cunicularia (Molina, 1782) 3,4,5,7

Caprimulgiformes Ridgway, 1881

Nyctibiidae Chenu & Des Murs, 1851

Nyctibius griseus (Gmelin, 1789) 9

Caprimulgidae Vigors, 1825

Chordeiles pusillus Gould, 1861 4

Nyctidromus albicollis (Gmelin, 1789) 1,4,5,7

Caprimulgus rufus Boddaert, 1783 1

Apodiformes Peters, 1940

Apodidae Olphe-Galliard, 1887

Chaetura meridionalis Hellmayr, 1907 6

Tachornis squamata (Cassin, 1853) 1,2,4,5,7,9,12

Trochilidae Vigors, 1825

Phaethornis ruber (Linnaeus, 1758) 1,7

Phaethornis pretrei (Lesson & Delattre, 1839) 1,2,4,10

Eupetomena macroura (Gmelin, 1788) 1,3,7,8

Anthracothorax nigricollis (Vieillot, 1817) 2,8

Avocettula recurvirostris (Swainson, 1822) (cf.) 7

Thalurania furcata (Gmelin, 1788) 8

Amazilia fimbriata (Gmelin, 1788) 1,2,4,5

Heliactin bilophus (Temminck, 1820) 3,11

Heliomaster sp. 7

Trogoniformes A. O. U., 1886

Trogonidae Lesson, 1828

Trogon curucui Linnaeus, 1766 2,5,7,8

Coraciiformes Forbes, 1844

Alcedinidae Rafinesque, 1815

Ceryle torquatus (Linnaeus, 1766) 2,3,4,5,9

Chloroceryle amazona (Latham, 1790) 4

Chloroceryle americana (Gmelin, 1788) 1,4,5

Momotidae Gray, 1840

Momotus momota (Linnaeus, 1766) 4,8,10,13

Galbuliformes Fürbringer, 1888

Galbulidae Vigors, 1825

Brachygalba lugubris (Swainson, 1838) 8,12,13

Galbula ruficauda Cuvier, 1816 1,2,3,4,5,8,9,10,11,12

Bucconidae Horsfield, 1821

Nystalus chacuru (Vieillot, 1816) 1,2,3,4,7,11

Táxons

Nystalus maculatus (Gmelin, 1788) 3

Áreas

Monasa nigrifrons (Spix, 1824) 1,2,3,4,5,7,8,10,11

Chelidoptera tenebrosa (Pallas, 1782) 2,4,8,12

Piciformes Meyer & Wolf, 1810

Ramphastidae Vigors, 1825

Ramphastos toco Statius Muller, 1776 2,3,4,9,10,11,13

Ramphastos vitellinus Lichtenstein, 1823 1,2,3,6

Pteroglossus inscriptus Swainson, 1822 4,8

Pteroglossus aracari (Linnaeus, 1758) 12

Picidae Leach, 1820

Picumnus albosquamatus d’Orbigny, 1840 3,5,7,9,10

Melanerpes candidus (Otto, 1796) 3,4,5,7,11

Melanerpes cruentatus (Boddaert, 1783) 12

Veniliornis passerinus (Linnaeus, 1766) 2,4,5,7

Piculus cf. chrysochloros (Vieillot, 1818) 8

Colaptes melanochloros (Gmelin, 1788) 3,12

Colaptes campestris (Vieillot, 1818) 1,4,9

Celeus flavescens (Gmelin, 1788) 1,2,4,5,7,10,12

Dryocopus lineatus (Linnaeus, 1766) 7

Campephilus melanoleucos (Gmelin, 1788) 2,3,7,8,10

Passeriformes Linné, 1758

Melanopareiidae Irestedt, Fjeldså,

Johansson & Ericson, 2002

Melanopareia torquata (Wied, 1831) 5,7,10,11

Thamnophilidae Swainson, 1824

Taraba major (Vieillot, 1816) 7

Thamnophilus doliatus (Linnaeus, 1764) 1,2,3,4,5,7,9

Thamnophilus pelzelni Hellmayr, 1924 1,2,4,5,7,11,12

Thamnophilus torquatus Swainson, 1825 1

Dysithamnus mentalis (Temminck, 1823) 10

Herpsilochmus atricapillus Pelzeln, 1868 4,5,8,10,11,12,13

Herpsilochmus longirostris Pelzeln, 1868 1,2

Formicivora grisea (Boddaert, 1783) 4,5,7,8,10,11

Formicivora rufa (Wied, 1831) 1,2,3,7,8

Dendrocolaptidae Gray, 1840

Sittasomus griseicapillus (Vieillot, 1818) 1,2,4,5,11

Xiphorhynchus picus (Gmelin, 1788) 2,4,5

Xiphorhynchus guttatus (Lichtenstein, 1820) 2

Lepidocolaptes angustirostris (Vieillot, 1818) 1,2,4,5,7,8,11

Campylorhamphus trochilirostris

(Lichtenstein, 1820)

Furnariidae Gray, 1840

Furnarius rufus (Gmelin, 1788) 1

Synallaxis frontalis Pelzeln, 1859 2,3,4,6,7,8

Berlepschia rikeri (Ridgway, 1886) 6

Xenops rutilans Temminck, 1821 2,8,10

Tyrannidae Vigors, 1825

Leptopogon amaurocephalus Tschudi, 1846 1

Hemitriccus margaritaceiventer

(d’Orbigny & Lafresnaye, 1837)

Poecilotriccus latirostris (Pelzeln, 1868) 6,7

Todirostrum cinereum (Linnaeus, 1766) 1,3,4,6,10

Myiopagis gaimardii (d’Orbigny, 1839) 5

Elaenia flavogaster (Thunberg, 1822) 1,4,5,10,11

Elaenia cristata Pelzeln, 1868 4,5,11

Elaenia chiriquensis Lawrence, 1865 1

Camptostoma obsoletum (Temminck, 1824) 1,2,4,5,8,11

Suiriri suiriri affinis (Burmeister, 1856) 11

7

5


534 Leonardo Esteves Lopes e Vívian S. Braz

Táxons

Capsiempis flaveola (Lichtenstein, 1823) 7,8

Sublegatus modestus (Wied, 1831) 5,7,11

Platyrinchus mystaceus Vieillot, 1818 8

Myiophobus fasciatus (Statius Muller, 1776) 2

Myiobius atricaudus Lawrence, 1863 7,8

Hirundinea ferruginea (Gmelin, 1788) 3

Cnemotriccus fuscatus (Wied, 1831) 7

Contopus cf. fumigatus (d’Orbigny

& Lafresnaye, 1837)

Xolmis cinereus (Vieillot, 1816) 1,2

Xolmis velatus (Lichtenstein, 1823) 9,13

Arundinicola leucocephala (Linnaeus, 1764) 3

Colonia colonus (Vieillot, 1818) 2,7

Myiozetetes cayanensis (Linnaeus, 1766) 1,2,5,7,11

7

Áreas

Pitangus sulphuratus (Linnaeus, 1766) 1,3,4,5,7,9,11,12

Myiodynastes maculatus (Statius Muller, 1776) 1,2

Megarynchus pitangua (Linnaeus, 1766) 1,2,4,5,7,8,11,12

Empidonomus varius (Vieillot, 1818) 1,2,3,4,5

Tyrannus albogularis Burmeister, 1856 9

Tyrannus melancholicus Vieillot, 1819 1,2,3,4,5,7,9,10,11,12

Tyrannus savana Vieillot, 1808 2,3,4

Sirystes sibilator (Vieillot, 1818) 7

Casiornis rufus (Vieillot, 1816) 7,8

Myiarchus ferox (Gmelin, 1789) 1,2,4,5,6,7,11

Myiarchus tyrannulus (Statius Muller, 1776) 8

Pipridae Rafinesque, 1815

Neopelma pallescens (Lafresnaye, 1853) 10

Tyranneutes stolzmanni (Hellmayr, 1906) 1

Antilophia galeata (Lichtenstein, 1823) 1,11

Tityridae Gray, 1840

Tityra cayana (Linnaeus, 1766) 1,2,4

Tityra semifasciata (Spix, 1825) 2,6,8

Pachyramphus viridis (Vieillot, 1816) 7

Pachyramphus polychopterus (Vieillot, 1818) 3,5

Vireonidae Swainson, 1837

Cyclarhis gujanensis (Gmelin, 1789) 1,2,3,4,5,7,13

Vireo olivaceus (Linnaeus, 1766) 1,4,5,8

Corvidae Leach, 1820

Cyanocorax cristatellus (Temminck, 1823) 1,2,3,4,5,10,11

Cyanocorax cyanopogon (Wied, 1821) 2,7,8,10,11

Hirundinidae Rafinesque, 1815

Tachycineta albiventer (Boddaert, 1783) 2,4,5

Progne tapera (Vieillot, 1817) 5,13

Progne chalybea (Gmelin, 1789) 1,2,3

Stelgidopteryx ruficollis (Vieillot, 1817) 2,3,4

Hirundo rustica Linnaeus, 1758 6

Troglodytidae Swainson, 1831

Troglodytes musculus Naumann, 1823 2,3,4,5,7,8,9,11,12

Thryothorus genibarbis Swainson, 1838 1,2,3,4

Thryothorus leucotis Lafresnaye, 1845 4,5,9,10

Donacobiidae Aleixo & Pacheco, 2006

Donacobius atricapilla (Linnaeus, 1766) 3

Polioptilidae Baird, 1858

Polioptila dumicola (Vieillot, 1817) 1,2,3,4,5,7,8,9,10,11,12

Turdidae Rafinesque, 1815

Turdus rufiventris Vieillot, 1818 1,2,3

Turdus leucomelas Vieillot, 1818 1,2,4,5,7,8,10,11

Turdus amaurochalinus Cabanis, 1850 1

Táxons

Mimidae Bonaparte, 1853

Áreas

Mimus saturninus (Lichtenstein, 1823) 1,2,3,4,5,7,8,9

Coerebidae d’Orbigny & Lafresnaye, 1838

Coereba flaveola (Linnaeus, 1758) 1,2,3,4,5,7,8,9,11

Thraupidae Cabanis, 1847

Schistochlamys melanopis (Latham, 1790) 2,4,5

Cissopis leverianus (Gmelin, 1788) 2

Neothraupis fasciata (Lichtenstein, 1823) 13

Nemosia pileata (Boddaert, 1783) 1,5,8

Cypsnagra hirundinacea (Lesson, 1831) 2,3,11

Piranga flava (Vieillot, 1822) 1,8,11

Eucometis penicillata (Spix, 1825) 8

Tachyphonus rufus (Boddaert, 1783) 1,5,7,11

Ramphocelus carbo (Pallas, 1764) 1,2,5,7,9,10,11,12

Thraupis sayaca (Linnaeus, 1766) 1,2,4,5,8,9,10,11

Thraupis palmarum (Wied, 1823) 1,2,4,5,7,9,10,12

Tangara cayana (Linnaeus, 1766) 1,4,5,7,8,9,11

Tangara cyanicollis (d’Orbigny

& Lafresnaye, 1837)

Dacnis cayana (Linnaeus, 1766) 1,2,4,5,7,8,11

3,4

Cyanerpes cyaneus (Linnaeus, 1766) 1,5

Hemithraupis guira (Linnaeus, 1766) 1,3,5,7,8,11

Conirostrum speciosum (Temminck, 1824) 5

Emberizidae Vigors, 1825

Zonotrichia capensis (Statius Muller, 1776) 2

Ammodramus humeralis (Bosc, 1792) 1,2,3,4,5,7,9,11

Porphyrospiza caerulescens (Wied, 1830) 11

Emberizoides herbicola (Vieillot, 1817) 1,2,3,4,11

Volatinia jacarina (Linnaeus, 1766) 1,2,3,4,7,11

Sporophila plumbea (Wied, 1830) 1,6

Sporophila nigricollis (Vieillot, 1823) 1,3

Sporophila leucoptera (Vieillot, 1817) 3

Sporophila bouvreuil (Statius Muller, 1776) 3

Sporophila angolensis (Linnaeus, 1766) 1,4,5,7,9,11

Arremon taciturnus (Hermann, 1783) 6,8,10

Charitospiza eucosma Oberholser, 1905 11

Coryphospingus pileatus (Wied, 1821) 2,5,7,8

Cardinalidae Ridgway, 1901

Saltator maximus (Statius Muller, 1776) 1,4,7,8,10

Saltator atricollis Vieillot, 1817 1,3,4,7,11

Parulidae Wetmore, Friedmann,

Lincoln, Miller, Peters, van Rossem,

Van Tyne & Zimmer 1947

Parula pitiayumi (Vieillot, 1817) 7

Basileuterus culicivorus (Deppe, 1830) 8,10,12

Basileuterus flaveolus (Baird, 1865) 1,4,7,8,10,11,12

Icteridae Vigors, 1825

Psarocolius decumanus (Pallas, 1769) 6,11

Cacicus cela (Linnaeus, 1758) 1,2,4

Icterus cayanensis (Linnaeus, 1766) 2,4,6,7,10

Gnorimopsar chopi (Vieillot, 1819) 1,3,5,7,8,10,11,12

Molothrus bonariensis (Gmelin, 1789) 4

Fringillidae Leach, 1820

Euphonia chlorotica (Linnaeus, 1766) 1,2,4,5,7,8,9,10,11,12

Euphonia violacea (Linnaeus, 1758) 2,4

Passeridae Rafinesque, 1815

Passer domesticus (Linnaeus, 1758) 3


Aves da região de Pedro Afonso, Tocantins, Brasil 535

Anodorhynchus hyacinthinus – esta espécie foi registrada em

duas ocasiões na área 4. No dia 20 de janeiro de 2001 um par

foi observado sobrevoando a área de estudo e, no dia seguinte,

foram registrados seis indivíduos em um local com a presença

de muitas macaúbas (Acrocomia sp.). Considerada ameaçada

de extinção em escala global (BirdLife International 2004) e

vulnerável pela lista nacional (Machado et al. 2005).

Alipiopsitta xanthops – Pequenos grupos com cerca de dez

indivíduos desta espécie foram observados em março de 2004

na margem direita do Rio Tocantins (localidade 5), sobrevoando

áreas bastante degradadas. Um grupo desta espécie foi

também observado forrageando em quintais arborizados dentro

da cidade de Pedro Afonso.

Berlepschia rikeri – esta espécie foi observada em duas ocasiões

no dia 26 de março de 2004 na mata ciliar do rio Tocantins

(localidade 6). A mata ciliar encontrava-se bastante descaracterizada,

abrigando inclusive mangueiras (Mangifera indica

L.) de grande porte no seu interior. A mata é rica em babaçus

(Orbignya sp.), que puderam ser observados nas pastagens

adjacentes, em áreas ocupadas originalmente por florestas. As

aves observadas forrageavam em meio às bainhas das folhas

do babaçu, voando mesmo entre as árvores isoladas nas pastagens.

Esta espécie foi também observada por LEL habitando

pastagens degradadas com babaçus na Fazenda Invernada

(15°14’S, 55°32’W), município de Chapada dos Guimarães,

Mato Grosso, em outubro de 2006.

Contopus cf. fumigatus – outra espécie de identificação

incerta, mas que pôde ser observada longamente na Fazenda

Sítio Novo, no mesmo local e instante que Avocettula recurvitrostris.

As características diagnósticas observadas, transcritas

das anotações originais, foram: “tamanho de Elaenia flavogaster.

Cinza uniforme, ventre mais claro, com crisso amarelado.

Mandíbula laranja rosada. Topete levemente esboçado.

Barras na asa praticamente indistintas, rêmiges margeadas de

branco. Voz: piados rápidos tc, tc, tc, tc...”. Tais características

sugerem tratar de C. fumigatus, pois o padrão de plumagem

observado é bastante semelhante ao da forma nominal

(Farnsworth e Lebbin 2004). A vocalização, insistentemente

emitida, também confere com os chamados típicos da espécie

(Mayer 2000). O único registro confirmado desta espécie para

o Brasil é para o Cerro Urutani, Roraima (Sick 1997), exis‐

Figura 1. Área de estudo. Números indicam as áreas amostradas na região de Pedro Afonso. As áreas cinza indicam limites de terras indígenas.

Figure 1. Study area. Numbers indicate sampled localities in Pedro Afonso region. Gray shaded areas indicate indigenous lands.


536 Leonardo Esteves Lopes e Vívian S. Braz

tindo também registros não documentados para o rio Urucuia,

em Buritis, MG (Mattos et al. 1991).

Tangara cyanicollis – um indivíduo observado em 17 de janeiro

de 2001 em uma mancha de floresta secundária em Água Boa.

Outro indivíduo observado na borda de uma mancha de floresta

secundária em 19 de janeiro de 2001 no Ribeirão Água

Fria. Espécie politípica, com sete subespécies reconhecidas

(Dickinson 2003). Duas subespécies encontram-se localmente

distribuídas pelo Brasil central (T. c. melanogaster e T. c. albotibialis),

sendo as demais subespécies distribuídas nos contrafortes

tropicais da cordilheira dos Andes (Marantz e Remsen

Jr. 1994). Das subespécies brasileiras, T. c. melanogaster pode

se encontrada no sul do Pará, oeste de Mato Grosso e leste da

Bolívia. Já T. c. albotibialis é conhecida apenas do exemplartipo

(Silva 1989), coletado em Alto Paraíso de Goiás (ex Veadeiros),

norte de Goiás (Traylor 1950). Os registros para Pedro

Afonso situam-se cerca de 580 km ao norte da localidade tipo

de T. c. albotibialis, enquanto que o registro mais próximo

de T. c. melanogaster (Cherrie e Rerichenberger 1923, Zimmer

1943, Pinto 1944, Pinto e Camargo 1948, Novaes, 1960,

Marantz e Remsen Jr. 1994) é para Conceição do Araguaia, a

130 km a oeste. Existe um interessante registro desta espécie

para a Serra do Lajeado (Bagno e Abreu 2001), mas para o qual

a subespécie não foi determinada. A Serra do Lajeado situase

cerca de 210 km ao sul do registro aqui apresentado, em

uma posição intermediária entre Conceição do Araguaia e Alto

Paraíso de Goiás. A distribuição ímpar de T. cyanicollis, associada

à raridade e distribuição local das formas brasileiras, torna

extremamente interessante a coleta de exemplares na região de

Pedro Afonso e da Serra do Lajeado para a correta determinação

da subespécie e estudo da sua variação geográfica.

Porphyrospiza caerulescens – no dia 30 de março de 2004 um

macho adulto desta espécie foi observado no entorno da Terra

Indígena Xerente, em uma área de cerrado sobre cascalho, forrageando

no solo, por entre as pedras. Esta observação mostra

que esta espécie não se encontra obrigatoriamente associada

aos campos rupestres (Parker III e Rocha 1991, Bates et al.

1992), mas que também habita os chamados “cerrados litólicos”

ou “cerrados rupestres”.

Sporophila angolensis – o curió mostrou-se razoavelmente

comum na área de estudo, sendo registrado em seis das doze

áreas amostradas. Um ninho desta espécie, um cesto baixo de

fibras vegetais, foi encontrado no dia 25 de março 2004, na

borda de uma mata ciliar da Fazenda Sítio Novo. O ninho continha

dois filhotes ainda jovens.

Agradecimentos

Os estudos de LEL foram realizados com o apoio do Instituto

DOMO de Tecnologias Sustentáveis. Dois revisores anônimos

apresentaram contribuições importantes a este estudo.

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ARTIGO 538 Luiza Angelini Leal Domingues e Marcos Rodrigues Revista Brasileira de Ornitologia 15(4):538-542

dezembro de 2007

Área de uso e aspectos da territorialidade de Schistochlamys ruficapillus

(Thraupidae) em seu período não-reprodutivo

Luiza Angelini Leal Domingues 1,2 e Marcos Rodrigues 1,3

1. Departamento de Ornitologia, Instituto de Ciências Biológicas, Universidade Federal de Minas Gerais, Caixa Postal 486,

30161‐970, Belo Horizonte, MG, Brasil.

2. E‐mail: luiza.angelini@gmail.com

3. E‐mail: ornito@icb.ufmg.br

Recebido em 05 de novembro de 2006; aceito em 20 de dezembro de 2007.

Abstract: Areas of use and territoriality of Schistochlamys ruficapilus (Thraupidae) during its non-breeding season. We investigate areas of

use and territorial behavior of the Cinnamon Tanager Schistochlamys ruficapillus during its non-breeding season. Field work was carried out at Serra

do Cipó, a mountainous region in southeastern Brazil. Observations were made between February and May, the non-breeding season for most of

the bird species that occurs in the area. The study area is a plot of 100 ha dominated by rocky outcrops and open grasslands at 1100‐1300 m altitude

approximately. Two groups (A and B) of birds were color banded and spot-mapped using a GPS device. Areas of use were estimated using the largest

polygon and the real polygon method. We measured song and call rates at dawn, noon and dusk to evaluate possible relationship between song output

and territoriality. Group A held an average of 6.5 ha area, while group B held 10.3 ha. The areas of use for both groups were not over imposed and only

one agonistic encounter were reported after 147 h of field work. Song rate were at its minimum, while call rate were not related to time of the day. The

data suggest that these birds use these areas as their territories, despite the large area they would have to defend. Probably, these birds occupy a stable

neighborhood with areas well established along the years, where defense against cospecific intruders is not needed, at least during the non-breeding.

Key-words: agonistic behavior, song rate, spot-mapping, tanagers, territory.

Resumo: Dois bandos de Schistochlamys ruficapillus foram estudados em uma área de campo rupestre com aproximadamente 100 ha, na Serra do

Cipó, Minas Gerais. O estudo foi conduzido nos meses de fevereiro a maio, que correspondem ao período não-reprodutivo do bico-de-veludo. As

áreas de uso e a defesa dos territórios foram descritas bem como o padrão de canto e taxa de chamado. As áreas de uso determinadas pelo método do

polígono convexo foram de 6.5 hectares para um bando e 10,3 hectares para outro. As áreas não se sobrepuseram evidenciando o estabelecimento de

territórios, enquanto somente um confronto foi observado em 147 h de observação. A taxa de canto obteve valor zero sendo que a taxa de chamado

não apresentou relações significativas com nenhum período do dia. Os resultados sugerem que o bico-de-veludo utiliza sua área de uso como território,

pelo menos durante o período não-reprodutivo. É provável que esta população tenha uma vizinhança estável e que os limites territoriais estejam bem

estabelecidos.

Palavras-chave: comportamento agonístico, sanhaços, taxa de canto, território.

A maioria das aves realiza suas atividades diárias em uma

área específica que é definida como área de vida (Burt 1943).

Durante um determinado período do ano, a maioria das aves

restringe suas atividades diárias em uma área específica que

pode ser definida como área de uso (Odum e Kuenzler 1955).

Se qualquer área é defendida ou essa área é de uso exclusivo

de um indivíduo ou grupo, ela é chamada de território (Noble

1959, Pitelka 1959). A territorialidade está relacionada à

defesa de recursos importantes para a sobrevivência, e para o

sucesso reprodutivo da maioria das aves (Davies 1978). Nos

últimos anos muita atenção tem sido dada para os estudos de

área de vida, devido à importância na conservação e no manejo

que eles proporcionam (Caro 1998, Pasinelli et al. 2001, Bellis

et al. 2004). Além disso, conhecimentos sobre a área de vida

e o comportamento territorial são importantes para uma maior

compreensão da biologia das espécies (Rodrigues 1998, Powell

2000). Entretanto, poucos estudos dessa natureza têm sido realizados

com as espécies de Oscines das regiões tropicais (veja,

por exemplo, a revisão de Stutchbury e Morton 2001). Para os

traupídeos – grupo caracterizado como Oscines de nove pri‐

márias – os poucos trabalhos de área de vida foram realizados

com as espécies da América do Norte (Riviera et al. 2003,

Hanowski et al. 2002, Roberts e Norment 1999). Com relação

à territorialidade, a maioria dos estudos a relaciona com a presença

de bandos mistos (Alves 1990, Munn e Terborgh 1979)

e com a época reprodutiva (Willis 1960, 1966, Shy 1984, Vanderwerf

1998), sendo praticamente inexistentes informações

sobre comportamentos territoriais na época não reprodutiva

(Moynihan 1962). Sabe-se que o aparecimento de agressões

e estabelecimento de territórios coincide com a época reprodutiva,

que é a estação de maior freqüência de produção de

canto para os Passeriformes Oscines das regiões temperadas.

Esta relação de sazonalidade do canto com a atividade reprodutiva,

definida pelo padrão anual de canto, é caracterizada por

machos que geralmente cantam durante a estação reprodutiva

e, fora dela, emitem apenas chamados (Catchpole 1973).

O objetivo deste trabalho foi o de estabelecer a área de uso

do bico-de-veludo Schistochlamys ruficapillus durante o período

não reprodutivo, e verificar se ele apresenta neste período,

este padrão anual de canto característico das espécies Oscines


Área de uso e aspectos da territorialidade de Schistochlamys ruficapillus (Thraupidae) em seu período não-reprodutivo 539

das regiões temperadas. O bico-de-veludo é um traupídeo que

possui ampla distribuição em regiões campestres, como cerrado

e caatinga, mas ocorre preferencialmente em altitudes elevadas

(Isler e Isler 1987). Uma vez que a palavra “área de vida”

considera a totalidade da área de uso dentro da área de vida da

espécie e durante toda a sua vida, e que o estudo foi realizado

em um curto período, adota-se aqui o termo “área de uso”.

Material e Métodos

O estudo foi realizado na localidade conhecida como Alto

da Boa Vista, na Serra do Cipó (43°30’40W, 19°10’20S),

dentro da APA Morro da Pedreira, no município de Santana

do Riacho, próximo à rodovia MG‐10 e adjacente ao Parque

Nacional da Serra do Cipó (veja detalhes em Ribeiro e Fernandes

2000, Costa e Rodrigues 2007). A região de estudo, que

consiste de uma área de aproximadamente 100 ha, está situada

numa altitude de 1100 a 1300 m, sendo caracterizada como

campo rupestre. Trata-se de uma região ainda muito pouco

explorada cientificamente, cuja vegetação apresenta um alto

grau de diversidade, endemismo e especiação (Giulietti et al.

1987, Rodrigues et al. 2005, Rodrigues e Costa 2006).

A coleta de dados foi realizada nos meses de fevereiro a

maio de 2006 que corresponde à estação não reprodutiva para

S. ruficapillus bem como para a maioria das espécies da área

(dados não publicados). Para a determinação da área de uso,

dois grupos de S. ruficapillus, um composto por um casal e um

filhote e o outro por um casal, foram capturados com auxílio

de redes de neblina e marcados com uma combinação única

de anilhas coloridas. Os bandos, denominados A e B, foram

acompanhados com auxílio de binóculo 10 x 50 mm (Bushnell)

e GPS (Garmim III plus).

O método utilizado consistiu na observação contínua dos grupos

durante períodos de sete horas (05:00 h às 10:00 h e 16:00 h

às 18:00 h), e na demarcação de pontos independentes através de

registros diretos com GPS à medida que os indivíduos se deslocavam

para locais diferentes. Doze períodos de observação foram

realizados para o bando A e nove períodos para o bando B. Os grupos

foram acompanhados durante 147 h sob observação efetiva.

Porcentagem acumulada

das áreas (%)

100

80

60

40

20

0

1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12

Número de Períodos de Observação (7 horas)

% área A

% área B

Figura 1. Curva de esforço amostral mostrando o aumento das áreas ocupadas

pelos bandos A e B de S. ruficapillus ao longo dos períodos de observação.

Figure 1. Sample size effort showing the increase of used areas by the two

groups of S. ruficapillus along the study period.

O tamanho das áreas de uso foi determinado utilizando-se o

método do polígono convexo (Odum e Kuenzler 1955), no qual

a área do maior polígono formado pela união de pontos extremos

em que o animal foi visualizado é considerada sua área de

uso. Tendo em vista que este método assume igualdade na utilização

pelos indivíduos de todas as áreas, o que pode não ser verdade,

foi utilizada uma adaptação do método anterior, chamada

‘polígono real’ (Ribeiro et al. 2002). O ‘polígono real’ é o valor

da área total formado pela união dos pontos mais extremos utilizados

pelo animal e não representa o polígono de maior área

possível. O cálculo das áreas totais ocupadas pelos indivíduos

foi obtido utilizando-se o software ArcGis 9 (ArcView 2004).

Para verificar o padrão sazonal de canto, que é associado

à defesa de território (revisão em Rodrigues 1996), quantificou-se

a atividade de canto e dos chamados em três intervalos

do dia: madrugada (M) (05:10 h às 06:10 h), meio-dia

(MD) (11:30 h às 12:30 h) e tarde (T) (17:00 h às 18:00 h).

De acordo com a metodologia de ‘Pontos de Escuta’ (Bibby

et al. 1993), foram demarcados na área de uso de cada grupo

30 pontos distantes 150 m entre si. Destes 30 pontos quatro

eram escolhidos aleatoriamente para serem amostrados em

cada período do dia. Em cada ponto, durante dez minutos, o

observador quantificou o canto contando quantas vezes que o

macho de cada bando vocalizou. Para o período da madrugada

amostrou-se 1020 min, para o meio-dia 720 min e para o período

da tarde 780 min, obtendo-se no total 42 h de amostragem.

Fez-se a somatória de todas as amostras, calculando-se a taxa

média e o desvio-padrão, obtendo-se assim, a taxa de canto.

Para a atividade de chamado, durante cada um dos períodos

do dia acima definidos, o macho de cada bando era observado

continuamente e, a intervalos de dez minutos, fazia-se

à contagem do número de vezes que o chamado era vocalizado

durante dez minutos. Desta forma, para cada período de

uma hora 30 min eram amostrados. Obtiveram-se 680 min

de amostragem para o período da madrugada; 480 min para

o meio-dia; e 520 min para o período da tarde, totalizando

1680 min de amostragens. Para se calcular a taxa de chamado,

primeiramente quantificou-se o número de chamados ouvidos

durante as amostragens de dez minutos e, posteriormente, fezse

à somatória do número de chamados de todas as amostras

de cada período. Em seguida, foram calculadas as taxa média

de emissão do chamado e o desvio-padrão por período do dia,

para todos os dias amostrados. Foi feita análise de variância

(ANOVA) utilizando-se o programa Statistica (StatSoft 2004)

para verificar se as taxas de chamados nos três períodos do

dia apresentavam diferenças significativas. A distribuição dos

dados foi ajustada à distribuição normal usando-se o logaritmo

de (X + 1) para casos com valores iguais a zero (Zar 1999).

Resultados e Discussão

A área de uso de ambos os grupos aumentou ao longo do

tempo de acompanhamento dos bandos, tendo se estabilizado

no décimo período de observação para o bando A, e no sétimo


540 Luiza Angelini Leal Domingues e Marcos Rodrigues

período para o bando B (Figura 1). Isso representa uma evidência

de que a área definida seja provavelmente a área total

ocupada pelos bandos, durante o período de estudo (Odum e

Kuenzler 1955).

As áreas totais de cada bando calculadas de acordo com o

método do polígono máximo apresentaram valores diferentes

(6,5 ha bando A e 10,3 ha bando B), enquanto as áreas calculadas

segundo a metodologia do polígono real apresentaram

valores próximos (6,3 ha bando A e 7,3 ha bando B). A

área fornecida pelo cálculo do polígono real é aparentemente

a mais precisa, uma vez que a área do bando B apresenta

uma maior quantidade de campo aberto, e é cortada ao meio

pela rodovia MG‐10, podendo desta forma, ter tido um valor

superestimado.

As médias das áreas de uso (8,4 ha bando A e 6,4 ha bando

B), determinadas pelos dois métodos, mostraram-se maiores do

que as áreas de vida de outros traupídeos. Em áreas secundárias

de Floresta Ombrófila Densa, em Belize na América Central,

Willis (1960) determinou para Habia rubica e Habia gutturalis,

as seguintes áreas de vida: 4.5‐5.2 ha (n = 16) e 5.7 ha

(n = 12) respectivamente. Posteriormente, o mesmo autor

(1966), determinou em áreas de Floresta Ombrófila Densa,

com altitudes de 700 a 2000 m, no oeste dos Andes, Colômbia,

uma área de 5‐8 ha (n = 6) para H. cristata. Riviera et al.

(2003) também encontraram esta similaridade em Piranga olivacea

(2.6‐5.6 ha, n = 19), porém ocupando áreas de Floresta

Decídua no nordeste da Virgínia nos Estados Unidos.

Schistochlamys ruficapillus é uma ave territorialista, o

que foi sugerido pela ausência de sobreposição entre as áreas

adjacentes ocupadas pelos bandos (Figura 2), e pela observação

de um confronto nas bordas destas áreas. No dia 26/03

os indivíduos do bando A se encontravam muito próximos de

um dos pontos limites da área do bando B, cujo casal energicamente

expulsou-os através de contatos físicos assim que os

avistaram. Nenhum outro conflito entre os indivíduos de cada

bando foi observado, fato que pode estar relacionado com o

Figura 2. Mapa das áreas de uso dos bandos A e B de Schistochlamys ruficapillus de acordo com o método do polígono real na Serra do Cipó. Ao lado, uma visão

da área de estudo dentro da APA Morro da Pedreira (delimitação mais exterior) e adjacente ao Parque Nacional da Serra do Cipó (delimitação mais interior),

Minas Gerais.

Figure 2. Areas of use of groups A and B of Schistochlamys ruficapillus according the real polygon method at Serra do Cipó. Right maps show the study area at

the state of Minas Gerais, southeastern Brazil (up) and ‘APA Morro da Pedreira’ (exterior line) and ‘Parque Nacional da Serra do Cipó (interior line).


Área de uso e aspectos da territorialidade de Schistochlamys ruficapillus (Thraupidae) em seu período não-reprodutivo 541

tempo de residência dos indivíduos e, portanto, a estabilização

da vizinhança. A manutenção de um território é uma atividade

que está ligada diretamente à densidade de competidores e a

estabilidade da sua vizinhança. Quanto maior o número de

vizinhos não estabilizados na área, ou quanto maior o número

de indivíduos satélites, mais tempo os machos tenderão a perder

com atividades tais como o patrulhamento de território e o

comportamento de guarda de parceiro (Whiting 1999). Assim,

espera-se que a freqüência dos conflitos seja baixa em área

cujos territórios já foram estabelecidos há muito tempo.

Os territórios estudados de S. ruficapillus parecem corresponder,

pelo menos em grande parte, à sua área de vida. Diante

da classificação proposta por Hinde (1956), territórios do tipo

A são aqueles dentro dos quais os indivíduos realizam todas as

suas atividades, inclusive reprodução, como constatado pela

nidificação do casal A na estação de 2005 (dados não publicados).

Riviera et al. (2003) ao estudar Piranga olivacea nos

períodos reprodutivo e não-reprodutivo, verificou pouca diferença

no tamanho das áreas de uso (> 300 m para a época nãoreprodutiva),

o que reforça a possibilidade de representantes

da família utilizarem territórios do tipo A.

A taxa de canto de S. ruficapillus apresentou para o período

não-reprodutivo valor zero. Somente nos dias 27/03 (T),

23/04 (M) e 22/04 (M) o canto completo foi escutado (Tabela 1).

Isto é um indício que a espécie apresenta o mesmo padrão

de canto anual das espécies Oscines das regiões temperadas,

que emitem apenas os chamados na estação não-reprodutiva

(Catchpole e Slater 1995). Este mesmo padrão foi observado

para outros traupídeos, que iniciaram suas atividades de canto

apenas na época reprodutiva (Willis 1966, Moynihan 1962).

Os chamados foram quantificados, porém não houve concentração

dos mesmos em nenhum período do dia (F = 1,16;

gl = 150, P > 0,05;). Isto era de se esperar, uma vez que as

emissões davam-se quando um indivíduo não era visualizado

pelo outro, ou quando o macho se deslocava para outro local

de alimentação e vocalizava até que a fêmea e o filhote (esse

presente somente no bando A) se apresentavam no local, cessando

assim o chamado. Desta forma, os chamados demonstraram

ter a função de localização e coesão dos indivíduos

dos bandos, sendo emitidos em todos os períodos do dia. Este

mesmo comportamento também foi observado para o tangarádo-dorso-vermelho

Ramphocelus dimitiadus, cujos indivíduos

emitiam chamados durante todo o ano, em todos os períodos

do dia, sugerindo que eles eram produzidos para agregar os

indivíduos do bando e poderiam ter a função de atração ou

reconhecimento parental (Moynihan 1962).

Tabela 1. Taxa de canto (min) em cada período do dia. M (período da

madrugada), MD (meio-dia) e T (tarde).

Table 1. Song rate (min) for each period of the day. M (Dawn period), MD

(midday), T (afternoon).

M (05:10 h

– 06:10 h)

MD (11:30 h

– 12:30 h)

T (17:00 h

– 18:00 h)

Total

Nº amostras (min) 1020 720 780 2520

Nº Canto/10 min 0,3 0 0,1 0,4

Os resultados aqui apresentados sugerem que a área de uso

e o território de S. ruficapillus podem vir a ser congruentes (território

do tipo A de Hinde 1956), apesar da grande área que os

indivíduos teriam que defender. É provável que esta população

tenha uma vizinhança estável e os limites territoriais estejam

bem estabelecidos. Assim, a ausência de encontros agonísticos

e a não sobreposição de áreas possa ser explicada pelo menos

durante a estação não reprodutiva. Mais dados quantitativos e

estudos em longo prazo são necessários para melhor compreensão

do comportamento territorial e do estabelecimento da

área de vida utilizada pelo bico-de-veludo.

Agradecimentos

Somos gratos a R. Young e L.S. Guimarães, pela leitura

e sugestões ao manuscrito original. L.M. Costa, J.D. Ferreira,

E.P. Mesquita e T.S. Chausson pela ajuda no trabalho de campo.

G.W. Fernandes pela autorização e incentivo a trabalhar em sua

propriedade. J.S. Nascimento pela confecção dos mapas e auxílio

com o ArcView. A todos os funcionários do IBAMA Parna

Cipó, principalmente K.T. Ribeiro, J. Madeira e H. Coulet pelo

apoio incondicional. Este trabalho teve patrocínio da ‘Fundação

O Boticário de Proteção à Natureza’ e apoio financeiro do

CNPq (processo n. 473428/2004‐0). MR agradece ao CNPq

pela bolsa de produtividade (processo n. 300731/2006‐0).

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ARTIGO

Revista Brasileira de Ornitologia 15(4):543-550

dezembro de 2007

The albatrosses of the genus Diomedea Linnaeus, 1758

(Procellariiformes: Diomedeidae) in Brazil

Francisco Voeroes Dénes 1 , Caio José Carlos 2 and Luís Fábio Silveira 1,3

1. Departamento de Zoologia, Instituto de Biociências, Universidade de São Paulo, Caixa Postal 11461, 05422‐970, São Paulo,

SP, Brasil. E‐mail: fvdenes@gmail.com

2. Laboratório de Elasmobrânquios e Aves Marinhas, Departamento de Oceanografia, Fundação Universidade Federal do Rio

Grande, Caixa Postal 474, 96201‐900, Rio Grande, RS, Brasil. E‐mail: cjcarlos@bol.com.br

3. E‐mail: lfsilvei@usp.br

Recebido em 20 de novembro de 2006; aceito em 15 de setembro de 2007.

Resumo: Os albatrozes do gênero Diomedea Linnaeus, 1758 (Procellariiformes: Diomedeidae) no Brasil. Recentemente, o gênero Diomedea

passou por uma série de revisões taxonômicas que resultaram na divisão de D. epomophora (lato sensu) e D. exulans (lato sensu) em seis espécies

distintas, sendo D. exulans e D. dabbenena aquelas com o maior número de registros no Atlântico Sul. As medidas de exemplares anteriormente

identificados como D. exulans de três coleções brasileiras foram analisadas através de função discriminante disponível na literatura recente. Verificouse

que sete dos 15 espécimes estudados são na realidade D. dabbenena. Um crânio de D. exulans também foi reidentificado como, muito provavelmente,

Thalassarche cauta (lato sensu). A reidentificação desses exemplares concorda com trabalhos recentes, que indicam que D. dabbenena é freqüente em

águas brasileiras. Caracteres morfométricos devem ser utilizados para a identificação de espécimes em museus e de aves capturadas pela pesca com

espinhel. Isso trará informações detalhadas sobre sua distribuição espaço-temporal e sobre o real impacto das atividades pesqueiras.

Palavras-chave: Procellariiformes, Diomedea exulans, Diomedea dabbenena, albatroz-errante, albatroz-de-tristão, Brasil, taxonomia, conservação.

Abstract: Recently, the genus Diomedea has undergone several taxonomic changes, resulting in the split of D. exulans (lato sensu) and D. epomophora

(lato sensu) into six different species. Of these, D. exulans and D. dabbenena are the most common in the South Atlantic. The measurements of

specimens originally identified as D. exulans from three Brazilian collections, were applied in the discriminat functions avaliable in the literature.

We concluded that seven of the 15 specimens refer to D. dabbenena. We confirm the original identification of an old specimen (currently identified

as D. exulans) at MZUSP as D. epomophora. One skull of D. exulans was also re-identified as being a likely “Shy Albatross” Thalassarche cauta

(lato sensu). Our data support the view that D. dabbenena is as common off Brazil as D. exulans. Morphometric characters should be used for the

identification of museum specimens and of birds killed on long-lines, thus providing detailed information on spatial and temporal distribution of both

species, and on the true impact of fishing operations.

Key-words: Procellariiformes, Diomedea exulans, Diomedea dabbenena, Wandering Albatross, Tristan Albatross, Brazil, taxonomy, conservation.

Since the study of Alexander et al. (1965), only two genera of

albatrosses (Diomedeidae) have been traditionally recognized:

Diomedea Linnaeus, 1758 and Phoebetria Reichenbach, 1852.

However, recent molecular studies (Nunn et al. 1996, Nunn

and Stanley 1998, Robertson and Nunn 1998) introduced radical

changes by increasing the number of species from 14 to

24, and placing them into four genera, namely, Diomedea

(great albatrosses), Thalassarche Reichenbach, 1852 (southern

mollymawks), Phoebastria Reichenbach, 1852 (North-

Pacific albatrosses) and Phoebetria (sooty-albatrosses). The

great albatrosses have been strongly affected by these revisions,

expanding from three species (Wandering D. exulans

Linnaeus, 1758, Royal D. epomophora Lesson, 1825, and

Amsterdam Albatrosses D. amsterdamensis Roux et al. 1983)

to six, with two of “Royal” (D. epomophora and D. sanfordi

Murphy, 1917) and four of “Wandering” Albatrosses (D. exulans,

D. dabbenena Mathews, 1929, D. gibsoni Robertson and

Warham, 1992 and D. antipodensis Robertson and Warham,

1992) (Nunn and Stanley 1998, Robertson and Nunn 1998).

Recoveries of ringed birds and/or measurements of specimens

incidentally captured by long-lines or found dead on

beaches (Croxall and Prince 1990, Grantsau 1995, Neves

and Olmos 2001, Ryan et al. 2001, Olmos 2002a), confirm

that both D. exulans from the South Georgia Islands and

D. dabbenena from Gough and Inaccessible Islands (Tristan

da Cunha group), occur in Brazilian waters. At sea identification

at the species level of birds within the “Wandering

Albatross complex” is difficult, if not impossible (Ryan

2000). In the hand, D. dabbenena is known to be smaller

than D. exulans, especially in bill length (Murphy 1936,

Swales 1965). More recently, Cuthbert et al. (2003) presented

detailed morphometric measurements of males and

females of D. exulans and of D. dabbenena. Their results are

useful by allowing for the specific separation of birds killed

on long-lines or stranded on the beaches along the Atlantic

Ocean.

Historically, D. exulans is considered more common

off Brazil when compared to D. dabbenena. However, most

specimens in Brazilian museums were obtained before recent

taxonomic revisions. This study provides the re-identification

of specimens from Brazilian museums based on current

taxonomy.


544 Francisco Voeroes Dénes, Caio José Carlos and Luís Fábio Silveira

Methods

We examined a total of 24 specimens (skins and skulls),

consisting of seven D. dabbenena (see Neves and Olmos 2001)

and 17 others originally identified as D. exulans (Appendix).

Specimens are housed in the Museu de Zoologia da Universidade

de São Paulo (MZUSP) São Paulo, São Paulo; Fundação

Universidade Federal do Rio Grande (FURG) Rio Grande, Rio

Grande do Sul, and Museu Oceanográfico do Vale do Itajaí

(MOVI) Itajaí, Santa Catarina. Each specimen was analyzed

as to cranial morphology and body plumage, and the following

measurements (after Cuthbert et al. 2003) were taken: (1) bill

length (from bill tip to start of feathering), (2) minimum bill

depth (measured halfway along the bill), (3) bill depth at the

nail (gonys), and (4) tarsus length (from the back of the tibiotarsus

joint to the front edge of the bent foot). These measurements

were then applied to the following discriminant functions

(Cuthbert et al. 2003):

1. For separating species: (1.215 * bill length) + (0.500 *

minimum bill depth) – (0.831 * bill depth at nail), with

values greater than 175.34 indicating a bird from South

Georgia (D. exulans);

2. For determining the sex of D. dabbenena specimens:

(0.772 * tarsus length) + (0.693 * bill depth at nail), with

values greater than 117.66 indicating a male;

3. For determining the sex of D. exulans specimens: (0.649

* tarsus length) + (0.726 * bill depth at nail), with values

greater than 113.92 indicating a male.

According to Cuthbert et al. (2003), these functions

separated 98% of the individuals (n = 120) of the two species

examined by the authors, and determined the sex of

99% (58 out of 60) of D. dabbenena and 100% (n = 60) of

D. exulans. Bill length alone is the best measurement for

separating species (as proposed early by Murphy [1936] and

Swales [1965]), and “birds with bills longer than 158 mm

were likely to be from South Georgia” (Cuthbert et al.

2003).

Diomedea epomophora

Results and Discussion

A Diomedea specimen (MZUSP 16098; taken off

the Arcatrazes archipelago, São Paulo; Appendix), was

identified by Pinto (1938) as D. epomophora longirostris

Mathews, 1934 (= D. epomophora), and by Grantsau

(1995) as Diomedea exulans exulans (= D. exulans). After

re-examining the MZUSP specimen, we confirm this as

being D. epomophora. This result was based on the form

of the nostrils openings (elliptic in D. exulans [lato sensu]

and circular in D. epomophora and D. sanfordi; figure 1),

and the presence of a conspicuous black line along the cutting

edge of the upper maxilla (figure 2). These characters

are considered diagnostic of both species of Royal Albatrosses

(Murphy 1936, Marchant and Higgins 1990). Furthermore,

the specimen in question has white upper-wing

coverts, hence excluding D. sanfordi, wherein the upperwing

is entirely black (Harrison 1985, Marchant and Higgins

1990, Brooke 2004). This latter species is known in

Brazil from only two records (Olmos 2002b, Carlos et al.

2004).

Figure 1. Frontal head view of specimens MZUSP 76455, Diomedea exulans (left), MZUSP 16098 D. epomophora (right). Note shape of the nostril openings,

elliptic in D. exulans and circular in D. epomophora (Photo: FVD and H. Marianno).


The great albatrosses of the genus Diomedea Linnaeus, 1758 (Procellariiformes: Diomedeidae) in Brazil 545

Thalassarche cauta (lato sensu)

One “D. exulans” skull (MOVI 33262), without the horny

ramphotheca, is more likely referable to a Thalassarche mollymawk.

We placed this specimen in the genus Thalassarche

on the basis of culmen length (127.3 mm), which is considerably

below the known range of any Diomedea albatross (cf.

measurements in Murphy 1936 and Marchant and Higgins

1990), as well as several osteological characters.

In Thalassarche mollymawks, the caudal portion of the

maxilla has four openings, these formed by the ventral portion

of the maxilla, the lateral-ventral region of the nasal

bone, and the rostral-dorsal portion of the palatine. The

two most lateral openings are vertically aligned, with the

jugal bar extending between them. The superior opening

has an elliptic shape, with the longer axis in vertical position,

whereas the inferior opening has an irregular shape.

The other two openings are medial, one inferior with an

obliterated bottom, the other, superior, which, together with

the other two lateral openings, give access to a pneumatised

chamber inside the bill. At the caudal-ventral end of

the upper jaw there is a thin process that extends caudally

over the rostral portion of the palatine (Dénes and Silveira

2007).

On the other hand, in Diomedea albatrosses, the openings

are of different size and alignment. The assemblage is slightly

rotated toward the medial region in a way that the openings are

in lateral, superior, medial and inferior positions, corresponding

to the lateral inferior, lateral superior, medial superior

and medial inferior openings in the Black-browed Albatross

T. melanophris (Temminck, 1828). The lateral superior opening

in T. melanophris is the smallest, whereas in Diomedea

albatrosses this is the most developed, being separated from

the medial superior opening by a small bone column (Dénes

and Silveira 2007).

An analysis of this skull reveals that it has characteristics in

common with Thalassarche mollymawks. Other cranial features

include the non-occluded olfactory nerve foramen and

the absence of a pneumatic foramen in the caudal end of the

lower jaw (figure 3), indicating a similarity to Thalassarche

(Dénes and Silveira 2007).

Assuming the specimen in question is a Thalassarche,

the bill length suggests it could not be assigned to the smallsized

mollymawks occurring in the Atlantic Ocean (Marchant

and Higgins 1990, del Hoyo et al. 1992): Black-browed

T. melanophris, Grey-headed T. chrysostoma (Foster, 1785),

and Atlantic Yellow-nosed Albatrosses T. chlororhynchos

(Gmelin, 1789). Bill length of the MOVI skull places it within

the known range for the species of the “Shy Albatross complex”:

Shy T. cauta (Gould, 1841), White-capped T. steadi

(Falla, 1933), Salvin’s T. salvini (Rothschild, 1893) and Chatam

Albatross T. eremita (Murphy, 1930) (Murphy 1936,

Marchant and Higgins 1990, Double et al. 2003; table 1).

There are several records of “Shy Albatrosses”, most immatures

of undetermined species, in south-western Atlantic, but

only T. steadi and T. salvini have been confirmed (Marchant

and Higgins 1990, Phalan et al. 2004). The identity of the two

Brazilian specimens, identified as “Diomedea cauta cauta”

(Petry et al. 1991, Grantsau 1995, Lima et al. 2004) should be

investigated.

Figure 2. Lateral bill view of specimen MZUSP 16098, Diomedea epomophora. Note dark line along cutting edge of upper maxilla (Photo: FVD and H.

Marianno).


546 Francisco Voeroes Dénes, Caio José Carlos and Luís Fábio Silveira

Figure 3. Dorsal view of the caudal region of the mandible of Diomedea dabbenena (MZUSP 3592; left), of Thalassarche cauta (lato sensu) (MOVI 33262;

center) and T. melanophris (MZUSP 3; right). Note presence of a large pneumatic foramen in D. dabbenena, which is absent in T. melanophris and in T. cauta

(lato sensu). Pictures not to scale (Photos: FVD).

Table 1. Culmen lengths (mm) for males and females of species within the

“Shy Albatross complex” – Thalassarche cauta, T. steadi (Double et al. 2003),

T. salvini (Robertson & van Tets 1982 in Marchant and Higgins 1990) and

T. eremita (Robertson in Marchant and Higgins 1990) – and of skull MOVI

33262. The data are: mean (± SD; range) and n = sample size.

Species Males Females

136.1 125.8

Thalassarche cauta (3.5; 129.7‐143.3) (3.1; 125.8‐140.7)

n = 24 n = 41

137.5 133.5

Thalassarche steadi (1.3; 130.9‐146.5) (4.0; 129.5‐139.9)

n = 12 n = 26

129 127

Thalassarche salvini (124‐135) (123‐135)

n = 17 n = 12

121.7 119.8

Thalassarche eremita (116‐130) (113‐124)

n = 13 n = 10

Diomedea dabbenena

MOVI

33262

127.3

From the results obtained with the discriminant functions,

three “D. exulans” specimens from MZUSP (74158, 74237

and 76562), two from FURG (2 and 359), and two from MOVI

(06610 and 16227), refer to D. dabbenena (table 2; Appendix).

As a result, seven “new” D. dabbenena specimens are added to

the nine currently known in the Brazilian collections. Of these,

three are skulls; one is a complete skeleton; and the remainder,

study skins. Amongst the skins, three correspond to males and

nine to females (table 2; Appendix). For D. exulans, six out of

seven specimens are females. The specimens are likely adults

and/or sub-adults, considering that their plumage is relatively

white (corresponding to types 4‐5 of Harrison 1985: 222 and

Marchant and Higgins 1990: 265). Exceptions are two D. exulans

(MOVI 16222 and MZUSP 76455) and one D. dabbenea

(MOVI 16430), with very dark plumage (type 2 of Harrison

1985: 222 and Marchant and Higgins 1990: 265). For further

details on plumage categories, see Harrison (1985), Weimerskirch

et al. (1989) and Marchant and Higgins (1990).

Diomedea exulans (lato sensu) displays a complex series

of age-related plumage changes. Fledglings are entirely darkbrown,

except for the under-wings, face and throat. With each

successive moult, the bird’s plumage becomes progressively

paler until it reaches 20‐30 years of age (e.g., Weimerskirch

et al. 1989, Marchant and Higgins 1990). On the Crozet

Islands in south-west Indian Ocean, D. exulans begins breeding

at 10‐12 years (e.g., Weimerskirch and Jouventin 1987),

while D. dabbenena begins slightly earlier, with the average

age of first breeding being from eight to nine years (Ryan et al.

2001). Some birds, however, breed when still in dark plumage,

Table 2. Specimens re-identified as Diomedea dabbenena. Both re-identification and sex determination were based on results obtained through the discriminant

functions presented by Cuthbert et al. (2003). Measurements are given in mm and all specimens are study skins, except for MOVI 06610 (skull).

Specimen Culmen Minimum bill depth Gonys Tarsus Sex

MZUSP 74158 150.66 34.13 37.39 107.86 Female

MZUSP 74237 142.6 31.01 34.18 107.95 Female

MZUSP 76562 146.61 33.56 37.72 104.7 Female

MOVI 06610 145.45 29.55 32.65 – –

MOVI 16227 147.95 34.38 40.21 105.1 Female

FURG 2 150.2 32.87 35.54 108.12 Female

FURG 359 143.2 32.15 35.27 109.59 Female


The great albatrosses of the genus Diomedea Linnaeus, 1758 (Procellariiformes: Diomedeidae) in Brazil 547

especially in the case of female D. dabbenena (Ryan 2000).

Consequently, plumage coloration pattern cannot be used by

itself to attribute age categories of specimens captured and/or

observed away from their breeding grounds.

Until recently, the at-sea distribution of D. dabbenena was

relatively poorly known. Results from satellite-telemetry studies,

however, showed that breeding individuals are mainly

restricted to the South Atlantic Ocean, between 15°E‐50°W

and 29‐50°S (Cuthbert et al. 2005). Recoveries of ringed birds

killed on long-liness (e.g., Ryan et al. 2001, Neves and Olmos

2001, Olmos 2002a) and our data indicate that D. dabbenena

habitually forage throughout waters off the Brazilian-Uruguayan

coasts. This region constitutes a highly productive area

due both to the Subtropical Convergence and discharges from

the Lagoa dos Patos and Río de la Plata estuaries (see Seeliger

et al. 1998). The Brazilian records of D. dabbenena are concentrated

between October-January, and refer to juvenile and

non-breeding adults, as well as breeding birds (figure 4A).

The pelagic distribution of D. exulans from South Georgia

has long been studied (Croxall and Prince 1990, Prince et al.

1998). During the austral winter (April-September), breeding

birds forage over the entire south-west Atlantic, particularly

between 33°S (south Brazil) and 55°S (southernmost Argentina).

The longest foraging trips, however, occur between

January-February (incubation) and June-September (chickrearing;

Prince et al. 1998), this presumably explaining the

summer (January) records off Brazil. Furthermore, according

to Vooren (in Seeliger et al. 1998), this species’ occurrence

off south Brazil during the winter coincides with abundance

peak of the squid Illex argentinus (Castellanos, 1960), which

constitutes part of the bird’s diet (Marchant and Higgins 1990,

del Hoyo et al. 1992, Cherel and Klages 1998).

In D. exulans, only adult males forage over Antarctic waters

(50‐65°S), while adult females and juveniles tend to frequent

subtropical latitudes (35‐45°S) (Weimerskirch and Jouventin

1987, Prince et al. 1998, BirdLife International 2004a). Shaffer

et al. (2001) determined that wing loading in adult males

D. exulans was significantly higher than adult females, and

that differences in wind conditions affect the at-sea distribution

of both sexes. Because wing loading determines the flight

speed (Pennycuick 1987), the windier regions of the Antarctic

and sub-Antarctic may provide better conditions for males to

travel at faster flight speeds required by their larger body size

and heavier wing loading. In contrast, the smaller body size

and lower wing loading of females would allow them to exploit

subtropical and even tropical waters, where winds are lighter,

thus reducing inter-sexual competition (Shaffer et al. 2001).

Therefore, it is not surprising that five out of seven D. exulans

specimens (Appendix) were females, as the occurrence of

males off Brazil appears to be less frequent (figure 4B). The

main areas of long-lines fisheries in the South Atlantic overlap

extensively with the foraging range of females from South

Georgia, and this is believed to contribute significantly to their

lower survival rate (BirdLife International 2004a).

To conclude, our data support the view that D. dabbenena

is at least as common off Brazil as D. exulans, as previously

suggested (Neves and Olmos 2001). It is important to note that

all studied specimens were killed by long-liness. Diomedea

exulans and D. dabbenena are threatened, the first considered

as “Vulnerable” and the latter as “Threatened” (BirdLife International

2004a, b). So far, few studies (e.g., Olmos et al. 2001)

have attempted to evaluate the capture-rates of D. dabbenena/

D. exulans off Brazilian coast. The use of the discriminant

functions of Cuthbert et al. (2003) allows fishing observers to

Figure 4. Records of Diomedea dabbenena (A) and Diomedea exulans (B) off Brazil based on specimens examined in the Museu de Zoologia da Universidade

de São Paulo, Museu Oceanográfico do Vale do Itajaí, and Fundação Universidade Federal do Rio Grande. All specimens were incidentally captured by

long-lines.


548 Francisco Voeroes Dénes, Caio José Carlos and Luís Fábio Silveira

correctly identify specimens killed by long-liness in the South

Atlantic, thus providing accurate information on the spatial

and temporal distribution of both species, as well as the true

impact of fishery operations.

Acknowledgments

We are grateful to C. M. Vooren (FURG), J. M. R. Soto

and M. Mincarone (MOVI) for allowing us to study the specimens

under their care. T. Neves (Projeto Albatroz) donated

specimens to MZUSP. H. Marianno assisted with the photographs.

F. Olmos, C. E. Fedrizzi, and two anonymous referee

kindly read the typescript and made useful comments. F.V.D.

and C.J.C. respectively received support from Fundação de

Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) and

Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior

(CAPES).

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550 Francisco Voeroes Dénes, Caio José Carlos and Luís Fábio Silveira

Appendix. List of specimens examined in the Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZUSP), Museu Oceanográfico do Vale do Itajaí (MOVI), and

Fundação Universidade Federal do Rio Grande (FURG). Specimens indicated with (*) were re-identified (see text). Re-identifications and the sex (F = females

and M = males) determination (for the skins) were based upon results of the discriminant functions of Cuthbert et al. (2003), (NA = not available).

Species Register Specimen Sex Location Date

Diomedea exulans MOVI 16222 Skin M South Atlantic, Brazil, Rio Grande do Sul:

03‐07.i.1998

33°S, 49°30’W‐35°S, 51°25’W

D. exulans MOVI 16223 Skin F South Atlantic, Brazil, Rio Grande do

11.xi.1999

Sul: 34º30’02”S, 50º18’08”W

D. exulans MOVI 16224 Skin M South Atlantic, Brazil, Rio Grande do Sul:

03‐07.i.1998

33°S, 49°30’W‐35°S, 51°25’W

D. exulans MOVI 16225 Skin F South Atlantic, Brazil, Rio Grande do Sul:

03‐07.i.1998

33°S, 49°30’W‐35°S, 51°25’W

D. exulans MOVI 16226 Skull F South Atlantic, Brazil, Rio Grande do Sul:

03‐07.i.1998

33°S, 49°30’W‐35°S, 51°25’W

D. exulans MOVI 16228 Skin F South Atlantic, Brazil, Rio Grande do Sul:

03‐07.i.1998

33°S, 49°30’W‐35°S, 51°25’W

D. exulans MZUSP 76455 Skin F South Atlantic: 35°05’S‐30°52’W 26.i.2006

D. dabbenena MZUSP 2 Complete skeleton NA NA NA

D. dabbenena MZUSP 3592 Skull NA South Atlantic, Brazil, Rio Grande do Sul: 35°52’S, 45°00’W 9.v.2003

D. dabbenena MZUSP 74158* Skin F South Atlantic, Brazil, Rio Grande do Sul: 34°07’S, 50°58’W 26.xi.1996

D. dabbenena MZUSP 74237* Skin F South Atlantic, Brazil, Rio Grande do Sul: 34°S, 50°W xi.1995

D. dabbenena MZUSP 75182 Skin F South Atlantic, Brazil, Rio Grande do Sul: 31°S, 48°50’W 29.x.1999

D. dabbenena MZUSP 75183 Skin F South Atlantic, Brazil, Santa Catarina: 29°S, 45°W 5.xi.1999

D. dabbenena MZUSP 75184 Skin M South Atlantic, Brazil, Santa Catarina: 29°S, 45°W 5.xi.1999

D. dabbenena MZUSP 76452 Skin F NA ix.2001

D. dabbenena MZUSP 76453 Skin M NA 26.i.2006

D. dabbenena MZUSP 76562* Skin on display F NA NA

D. dabbenena MOVI 06610* Skull NA South Atlantic, Brazil, Rio Grande do Sul: Rio Grande, 36 05.xii.1996

km south of Rio Grande jets, 32°23’10’’S, 52°19’00’’W

D. dabbenena MOVI 16221 Skull M South Atlantic, Brazil, Rio Grande do Sul:

03‐07.i.1998

33°S, 49°30’W‐35°S, 51°25’W

D. dabbenena MOVI 16227* Skin M South Atlantic, Brazil, Rio Grande do

vi.2000

Sul: 31°33’14’’S, 47°53’18’’W

D. dabbenena MOVI 16430 Skin F South Atlantic, Brazil, Rio Grande do Sul: 30°25’S, 47°16’W 7.xi.2000

D. dabbenena FURG 2* Skin F South Atlantic, Brazil, Rio Grande do Sul: 33º49’S, 49º49’W 26.viii.1990

D. dabbenena FURG 359* Skin F South Atlantic, Brazil, Rio Grande do Sul: 33º51’S, 51º15’W viii.1999

D. epomophora MZUSP 16098* Skin on display NA South Atlantic, Brazil, São Paulo: “off Alcatrazes Island” 1933

Thalassarche

cauta (lato sensu)

MOVI 33262* Skull NA South Atlantic, Brazil, Rio Grande do Sul: 33°56’S, 44°4’W 1997‐1998


ARTIGO

Revista Brasileira de Ornitologia 15(4):551-560

dezembro de 2007

Adendas e registros significativos para a avifauna dos

manguezais de Santos e Cubatão, SP

Robson Silva e Silva 1 e Fábio Olmos 2

1. Rua Amaral Gurgel 63, Apto. 51, 11035‐120, Ponta da Praia, Santos, SP, Brasil. E‐mail: rsilvaesilva@uol.com.br

2. Largo do Paissandu 100/4C, 01034‐010, São Paulo, SP, Brasil. E‐mail: f-olmos@uol.com.br

Recebido em 04 de dezembro de 2006; aceito em 17 de setembro de 2007.

Abstract: New and important records from the mangroves of Santos and Cubatão, SP. We report records of new and poorly known species from

the mangroves and associated habitats of Santos-Cubatão, in the central coast of São Paulo, southeastern Brazil. Anas discors, Theristicus caudatus,

Mycteria americana, Chondrohierax uncinatus, Accipiter bicolor, Buteo nitidus, Buteo brachyurus, Laterallus viridis, Laterallus exilis, Arenaria

interpres, Calidris melanotos, Calidris himantopus, Phalaropus tricolor, Thalurania glaucopis, Leucochloris albicollis, Melanerpes candidus, Piculus

flavigula, Synallaxis ruficapilla, Phacellodomus ferrugineigula, Xenops minutus, Hemitriccus nidipendulus, Todirostrum cinereum, Lessonia rufa,

Myiarchus swainsoni, Ilicura militaris, Cyanocorax cristatellus, Corvus albus, Tachyphonus cristatus, Thraupis cyanoptera, Tangara peruviana,

Hemithraupis ruficapilla, Haplospiza unicolor, Sporophila frontalis, Sporophila leucoptera, Phaeothlypis rivularis, Euphonia violacea and Euphonia

pectoralis are additions to the local list, A. discors, C. himantopus and L. rufa being reported for the first time for the state and the probably ship-assisted

exotic Corvus albus for Brazil.

Key-words: birds, Brazil, Cubatão, mangroves, new records, Santos, São Paulo.

Resumo: Apresentamos registros de novas espécies e outras pouco conhecidas para os manguezais e ecossistemas associados na região de Santos-

Cubatão, no litoral central de São Paulo, sudeste do Brasil. Anas discors, Theristicus caudatus, Mycteria americana, Chondrohierax uncinatus, Accipiter

bicolor, Buteo nitidus, Buteo brachyurus, Laterallus viridis, Laterallus exilis, Arenaria interpres, Calidris melanotos, Calidris himantopus, Phalaropus

tricolor, Thalurania glaucopis, Leucochloris albicollis, Melanerpes candidus, Piculus flavigula, Synallaxis ruficapilla, Phacellodomus ferrugineigula,

Xenops minutus, Hemitriccus nidipendulus, Todirostrum cinereum, Lessonia rufa, Myiarchus swainsoni, Ilicura militaris, Cyanocorax cristatellus,

Corvus albus, Tachyphonus cristatus, Thraupis cyanoptera, Tangara peruviana, Hemithraupis ruficapilla, Haplospiza unicolor, Sporophila frontalis,

Sporophila leucoptera, Phaeothlypis rivularis, Euphonia violacea e Euphonia pectoralis são adições à lista local, A. discors, C. himantopus e L. rufa

sendo registrados pela primeira vez para o Estado de São Paulo e o exótico Corvus albus, provavelmente vindo de navio, para o Brasil.

Palavras-chave: aves, Brasil, Cubatão, manguezais, novos registros, Santos, São Paulo.

Os manguezais dos rios, canais e largos de drenagem das baías

de Santos e São Vicente formam um dos maiores complexos

de manguezais e hábitats associados no estado de São Paulo

(Lamparelli 1998), estando próximos às grandes aglomerações

humanas da Baixada Santista, nas cidades de Santos, São

Vicente, Cubatão, Guarujá e Praia Grande. A parte do sistema

associado ao Canal de Piaçaguera e Largo do Caneu (aproximadamente

23°54’S, 46°22’W), pertencente aos municípios

de Santos e Cubatão, tem sido objeto de estudos sobre sua avifauna

desde o início do século XX (Luederwaldt 1919) até a

presente década, o que permite detectar mudanças na ecologia

local ao longo do tempo (Olmos e Silva e Silva 2001, 2003).

A presença de populações de espécies regional ou nacionalmente

ameaçadas como Eudocimus ruber, Anas bahamensis,

Parabuteo unicinctus e Thalasseus maximus, migrantes

neárticos e colônias reprodutivas de Ciconiiformes (Olmos e

Silva e Silva 2001, 2003), entre outros atributos, fazem com

que a área seja considerada como prioritária para a conservação

da biodiversidade da zona costeira e marinha brasileira

(MMA 2002).

A última listagem de aves publicada apontava a presença

de 210 espécies nos manguezais da área ao redor do Canal de

Piaçaguera e hábitats associados, como ilhas de restinga e brejos

de água doce (Olmos e Silva e Silva 2003). Aqui são apre‐

sentados registros de 37 adendas à essa lista, além de novos

registros de espécies para as quais existia pouca informação

quanto a seu status regional. A maior parte dos registros foi

documentada fotograficamente ou com gravações, estas sendo

depositadas no arquivo aberto do site Xeno-Canto, acessível

em http://www.xeno-canto.org.

A ordenação taxonômica está de acordo com o

CBRO(2007).

Dendrocygna bicolor – Espécie com menos de cinco registros

anteriores na área, embora seja um visitante regular em lagos na

área urbana da cidade de São Paulo (Willis e Oniki 2003, Carvalho

2005). Um grupo de 36 indivíduos, provavelmente em migração,

observado em vôo e depois pousado em um grande banco

de sedimentos na margem leste do Canal de Piaçaguera (Lodo

Direito, 23°54’20”S, 46°22’17”W) em 19 de maio de 2006, e

um exemplar isolado junto a um grupo de Anas bahamensis no

rio Cascalho (23°53’20”S, 46°24’08”W) no mesmo dia. No dia

12 de junho de 2006 encontramos 24 aves no mesmo banco de

sedimentos do Canal e 57 exemplares no rio Cascalho. É uma

espécie raramente registrada na Baixada Santista (Olmos e Silva

e Silva 2001, 2003). Sua presença, e provavelmente a de Anas

versicolor (veja adiante), parece estar associada à ocorrência de

frentes frias e à queda acentuada de temperatura no sul do país.


552 Robson Silva e Silva e Fábio Olmos

Figura 1. Adendas e registros significativos para a avifauna dos manguezais de Santos e Cubatão – SP. A) Podicephorus major; B) Anas discors; C) Lessonia

rufa; D) Chondrohierax uncinatus; E) Calidris himantopus; F) Phalaropus tricolor; G) Rallus longirostris; H) Arenaria interpres; I) Gallinula melanops.

Fotos: Robson Silva e Silva.

Figure 1. Records of new and poorly know species from the mangroves of Santos e Cubatão – SP. A) Podicephorus major; B) Anas discors; C) Lessonia rufa;

D) Chondrohierax uncinatus; E) Calidris himantopus; F) Phalaropus tricolor; G) Rallus longirostris; H) Arenaria interpres; I) Gallinula melanops. Photos:

Robson Silva e Silva.


Adendas e registros significativos para a avifauna dos manguezais de Santos e Cubatão, SP 553

Anas versicolor – Indivíduos isolados observados nos dias 12

de junho e 06 de setembro de 2006, dois exemplares fotografados

em 18 de maio de 2006 e outro par (o mesmo) no dia 13

de junho de 2006, todos associados a grupos de A. bahamensis

às margens do rio Cascalho, constituem os novos registros

deste migrante oriundo do Cone Sul para a região. Em São

Paulo, tem sido encontrada recentemente apenas nos manguezais

de Santos-Cubatão (onde é registrada regularmente) e no

Parque Ecológico do Tietê (Willis e Oniki 2003).

Anas discors – Um macho adulto foi observado e fotografado

(Figura 1B) junto a um grupo de 95 Anas bahamensis, todos

pousados nos bancos de sedimentos próximos à confluência

dos rios Cascalho e Cubatão (23°53’01”S, 46°24’16”W) no

dia 22 de agosto de 2005. A área apresenta árvores de mangue

esparsas, arbustos de Hibiscus pernambucensis (Malvaceae) e

densa cobertura de herbáceas halófitas. A espécie é migratória,

proveniente da América do Norte, sendo este o primeiro registro

para o estado de São Paulo.

Podicephorus major – Espécie meridional que sempre foi

considerada um visitante em São Paulo (Willis e Oniki 2003),

embora com vários registros em Santos-Cubatão (Olmos e Silva

e Silva 2001, 2003). Registros adicionais foram feitos nos últimos

anos, mostrando que a espécie é um visitante regular na

região. Aves com plumagem imatura foram observadas em 12

de março de 2003 (rio Quilombo: 23°53’05”S, 46°22’12”W),

19 de março de 2003 (foz do Rio Cubatão: 23°53’43”S,

46°22’48”W), 20 de março de 2003 (rio Quilombo), 15 de

abril de 2003 (baixo rio Cubatão: 23°53’47”S, 46°23’21”W),

09 de maio de 2003 (rio Quilombo), 20 de novembro de 2003

(rio Cascalho) e 12 de março de 2004 (duas aves no Canal de

Piaçaguera: 23°54’10”S, 46°22’30”W).

Exemplares adultos em plumagem reprodutiva e vocalizando

foram observadas no Canal de Piaçaguera (Largo do

Caneu) (23°54’34”S, 46°22’16”W) em 24 de junho de 2005

(três aves juntas), 22 de agosto de 2005 (aparentemente as

mesmas três aves) (Figura 1A), 28 de setembro de 2005 (uma

ave), 30 de setembro de 2005 (três aves), 13 de junho de 2006,

04 de setembro de 2006 (uma ave em ambas as ocasiões), duas

aves em 3, 4 e 5 de julho de 2007, uma em 6 de julho de 2007,

três aves juntas em 14 de agosto de 2007, duas aves em 15 de

agosto de 2007, uma no dia 17 de agosto de 2007, uma em 27

de setembro de 2007 e duas nos dias 8, 9 e 10 de outubro de

2007. Os registros parecem se referir aos mesmos indivíduos

observados repetidamente. Vários dos registros, incluindo os

de trios, foram documentados fotograficamente.

Plegadis chihi – Um exemplar solitário foi observado durante

vários anos associado à grupos de Eudocimus ruber, inclusive

exibindo-se em plumagem reprodutiva na colônia reprodutiva

dos últimos (Olmos e Silva e Silva 2001, 2003). Inesperadamente,

seis indivíduos (três em plumagem juvenil) foram fotografados

juntos no rio Cascalho em 20 de abril de 2004. Posteriormente,

quatro aves foram observadas no rio Quilombo

em 19 de maio de 2007 e três fotografadas no rio Piaçaguera

(23°52’10”S, 46°23’35”W), junto a um grupo de Eudocimus

ruber em 03 de setembro de 2006.

Theristicus caudatus – Três indivíduos foram observados

sobrevoando a área urbana da Ilha Caraguatá (23°56’09”S,

46°25’36”W), entre a Rodovia dos Imigrantes e a margem do

rio Casqueiro, na manhã do dia 22 de maio de 2007. Logo

em seguida, um destes exemplares cruzou o manguezal do rio

Casqueiro, indo em direção a São Vicente, sendo perseguido

por um Vanellus chilensis. Em 29 de janeiro de 2007, no final

de tarde, foi visto um casal desta espécie sobrevoando a orla

da praia do Boqueirão (23°58’28”S, 46°19’21”W), na área

insular de Santos. Um dos exemplares foi perseguido por um

Falco peregrinus, macho adulto, que ali possui seu território

de invernada. Durante a perseguição os dois exemplares de

T. caudatus vocalizavam, e logo depois continuaram a sobrevoar

a orla da praia. Embora seja uma espécie comum em áreas

abertas do interior de São Paulo (Willis e Oniki 2003), ainda

não havia sido registrada na área de estudo.

Mycteria americana – Um exemplar ferido proveniente do

pátio da Companhia de Engenharia de Tráfego, no bairro

Rádio Clube (zona noroeste de Santos, próximo à região dos

manguezais), foi doado ao Parque Zoobotânico Orquidário

Municipal de Santos em 23 de novembro de 2005, onde veio

a óbito, sendo incorporado à coleção do Museu de Zoologia

da Universidade de São Paulo (MZUSP 76727). Esporadicamente

registrado no município de São Paulo (p. ex. Carvalho

2005), não muito distante da planície litorânea, é uma adenda

à avifauna regional.

Leptodon cayanensis – um indivíduo adulto observado voando

a partir do Morro do Casqueirinho (23°52’35”S, 46°22’45”W),

antiga ilha revestida de floresta atlântica secundária, hoje ligada

ao continente por aterros. A ave cruzou o Canal de Piaçaguera

no final de tarde de 03 de setembro de 2006, deslocando-se em

direção ao rio Quilombo. Um exemplar imaturo foi observado

sobrevoando o rio Morrão (23°52’12”S, 46°21’54”W), bem

ao lado da estrada de acesso ao Terminal Marítimo da Fosfertil

na tarde do dia 5 de junho de 2007. Na manhã do dia 3 de

julho de 2007 um casal adulto foi visto sobrevoando a área do

Morro do Casqueirinho, onde um destes mergulhou em grande

velocidade na vegetação de mangue na margem do canal de

Piaçaguera, aparentemente caçando, enquanto o outro exemplar

permanecia planando numa corrente termal.

No dia 24 de setembro de 2007 observamos um exemplar

imaturo que estava pousado numa árvore seca, sobre uma bromélia

que ficava no topo. No mesmo local, duas Cyanocorax

cristatellus estavam vocalizando e muito incomodadas pela

sua presença, saindo logo em seguida da área. A área do registro

é uma ilha de restinga alterada situada entre os rios Diana e

Sândi (23°55’07”S, 46°18’51”W).

Registros de L. cayanensis, em geral aves em planeio, não

são incomuns nas áreas florestadas ao longo da planície lito‐


554 Robson Silva e Silva e Fábio Olmos

rânea entre Santos e Bertioga, mas havia apenas um registro

anterior nos manguezais (Olmos e Silva e Silva 2001, 2003).

Chondrohierax uncinatus – Vários registros foram feitos

em uma grande área de manguezal aterrado (23°52’59”S,

46°22’57”W), hoje coberta por um mosaico de brejos, campos

úmidos e capoeiras que se limitam com os manguezais do rio

Cubatão e do Canal de Piaçaguera. Três indivíduos (macho

e fêmea adultos e um imaturo) foram observados planando

juntos em 16 de maio de 2006 (Figura 1D) e depois interagindo

com um Buteo nitidus (veja adiante). Seis indivíduos

(pelo menos um juvenil) planavam na mesma corrente termal

na manhã do dia seguinte. Em 9 de junho de 2006, quatro

indivíduos voavam a baixa altitude, um deles sendo fotografado.

Cinco exemplares foram registrados no dia 2 de setembro

de 2006, e dois no dia seguinte. Em outra área próxima

(23°51’40”S, 46°21’31”W), foi visto um exemplar sobrevoando

um brejo dominado por taboas, na propriedade da Fosfertil

(Terminal Marítimo), em 9 de fevereiro de 2007. Dois

exemplares foram observados sobrevoando uma área no rio

Piaçaguera (23°52’35”S, 46°23’59”W) no dia 27 de março de

2007. Os registros sugerem uma população residente na área e

que as aves mantém grupos sociais.

Chondrohierax uncinatus é um gavião incomum, com

poucos registros em São Paulo (nenhum na Baixada Santista,

Willis e Oniki 2003) e que se alimenta, em grande parte, de

caracóis terrestres. Embora seu consumo não tenha sido observado,

é possível que se beneficie da abundância do caramujoafricano

Achatina fulica, espécie exótica invasora extremamente

comum na área utilizada pelos gaviões e também em

toda a área do pólo industrial de Cubatão, incluindo o sopé da

Serra do Mar. É uma adenda à lista local.

Rostrhamus sociabilis – Seis indivíduos, sobrevoando o Rio

Cascalho em grupo no dia 20 de abril de 2004, provavelmente

estavam em migração. Registrado na área anteriormente em

uma única ocasião. A ausência de banhados com populações

de grandes caracóis aquáticos (existentes mais ao sul da área

de estudo, p. ex. em Mongaguá), impede a permanência da

espécie na área.

Accipiter bicolor – Um indivíduo jovem, possivelmente um

macho, sobrevoando uma área entre os rios Diana e Sândi,

composta de manguezais, campos de ciperáceas e restinga

alterada (23°54’51”S, 46°18’47”W), no dia 11 de outubro de

2007, às 08:05 hs. Sua presença foi notada quando um Pitangus

sulphuratus e um beija-flor vocalizavam e perseguiam o

gavião. Adenda à lista local.

Leucopternis lacernulatus – Um exemplar adulto planando

sobre a mesma área onde foi registrado Chondrohierax uncinatus

em 20 de abril de 2004. Registrado anteriormente em

uma única ocasião, quando um par foi observado sobrevoando

o rio Cascalho (Olmos e Silva e Silva 2001, 2003). Esporadicamente

registrado nas encostas próximas da Serra do Mar

e nos morros isolados ao longo da planície costeira, mesmo

na proximidade de áreas urbanas (p. ex. no Parque Estadual

Xixová-Japuí: 23°59’29”S, 46°23’22”W). A espécie é considerada

ameaçada de extinção nacionalmente (MMA 2003).

Buteo nitidus – Um exemplar juvenil observado pousado em

uma Cecropia sp., em capoeira sobre área de manguezal aterrado

(23°53’15”S, 46°22’47”W) nos dias 16 e 17 de maio

de 2006. Na manhã do dia 16 a ave foi hostilizada por três

Chondrohierax uncinatus (um casal de adultos e um juvenil),

o macho realizando rasantes sobre o B. nitidus e depois

pousando em uma árvore próxima juntamente com o juvenil,

enquanto a fêmea permanecia em vôo. Sem reação aparente

por parte da ave agredida, o trio deixou a área.

Buteo nitidus é uma ave associada à hábitats abertos, com

distribuição ampla no Brasil, mas não em São Paulo, onde é

um invasor recente, associado ao desmatamento, com registros

no norte (Sales de Oliveira) e sudeste (Capivari e Sorocaba) do

Estado (Willis e Oniki 2003). Sua presença na planície litorânea

é algo inesperada.

Buteo brachyurus – No dia 25 de setembro de 2007 um exemplar,

morfo escuro, foi observado voando ao lado do manguezal

do rio das Neves (23°53’58”S, 46°21’10”W), saindo da

mata adjacente e retornando para o interior desta. Interessante

citar que o Orquidário Municipal de Santos já recebeu, nos

últimos 6 anos, pelo menos 5 indivíduos desta espécie provenientes

da Baixada Santista, e todos eram morfos escuros.

Adenda à lista local.

Aramus guarauna – Ave incomum na Baixada Santista (Olmos

e Silva e Silva 2003), uma pequena população parece estabelecida

na mesma área de brejos e capoeiras onde Chondrohierax

unicinatus foi observado, sendo que as aves também foram

vistas no rio Piaçaguera e Canal de Piaçaguera em várias ocasiões

em maio, junho e setembro de 2006. Um máximo de quatro

indivíduos foram observados juntos, em 3 de setembro.

Na manhã do dia 16 de maio um exemplar foi observado

caminhando ao longo de uma trilha aberta em capoeira

(23°53’04”S, 46°22’48”W). À aproximação, a ave deixou cair

um caracol Achatina fulica que levava no bico. O exame mostrou

que a ave havia ferido o molusco e danificado o lábio de

sua concha. Outro A. guarauna foi encontrado predando um

caracol africano no final da tarde do dia 25 de maio na mesma

área (23°53’00”S, 46°24’00”W).

A abundância de conchas vazias de A. fulica no local sugere

que predadores estão consumindo grande número desta espécie

invasora, que ali é abundante. As observações mostram que

A. guarauna, ave especialista em caçar moluscos aquáticos

(Bryan 1986, Olmos e Silva e Silva 2001), está utilizando esta

nova presa e mudando seus hábitos alimentares.

Rallus longirostris – Sua ocorrência na região era baseada

em apenas um espécime coletado na década de 1910 no rio

Piaçaguera (Luederwaldt 1919). Registrada em outras locali‐


Adendas e registros significativos para a avifauna dos manguezais de Santos e Cubatão, SP 555

dades vizinhas, como Praia Grande, e mais ao sul, em Iguape

e Cananéia (Willis e Oniki 2003, Olmos e Silva e Silva 2001,

2003). Na manhã do dia 30 de março de 2007, às 07:15 h,

num trecho do rio Cascalho (23°54’01”S, 46°23’55”W), em

Cubatão, observamos e fotografamos (Figura 1G) dois indivíduos

desta espécie correndo sobre o banco de lama durante

a maré baixa. Ao mesmo tempo, ouvimos a vocalização de

outro indivíduo neste local e também mais dois exemplares

vocalizavam na margem oposta, totalizando assim 5 indivíduos.

Esta área é caracterizada pela presença de árvores de

mangue esparsas, arbustos de Hibiscus pernambucensis e

densa cobertura de herbáceas halófitas. Posteriormente, na

manhã do dia 24 de abril, neste mesmo local, 3 exemplares

responderam ao play-back e também foram observados. Dois

indivíduos foram atraídos pelo play-back de Laterallus melanophaius

numa área de transição entre o manguezal e uma

ilha de restinga alterada, com campos de gramíneas Spartina

sp., entre os rios Diana e Sândi (23°55’04”S, 46°18’47”W),

em Santos, no inicio da manhã do dia 30 de julho de 2007.

No dia seguinte, no mesmo local, 3 exemplares foram atraídos

pelo play-back, sendo fotografados. Foram registrados

novamente neste mesmo local em outras ocasiões: no dia 8 de

agosto de 2007, um casal, 26 e 27 de setembro de 2007 um

casal, onde se alimentavam de caranguejos Uca spp. na maré

baixa, em 28 de setembro de 2007 um indivíduo, em 8 de

outubro de 2007 um casal e um jovem, em 9 e 10 de outubro

de 2007 um casal.

Logo em frente a esta área, na Ilha Diana (23°55’02”S,

46°18’33”W), registramos no dia 26 de setembro de 2007

pelo menos 8 indivíduos numa área de aproximadamente 1 ha

dominada por gramíneas Spartina sp., cercada por manguezais,

que foram detectados utilizando-se o play-back. Alguns

exemplares se aproximaram e outros vocalizavam a certa distância.

Em 11 de outubro de 2007 registramos 4 exemplares na

mesma área, na Ilha Diana, já no manguezal, quando responderam

ao play-back.

Amaurolimnas concolor – Dois exemplares ouvidos e gravados

(Xeno-Canto 7890) no dia 15 de maio de 2006, em um ecótono

manguezal/brejo com muitas ciperáceas e Hibiscus pernambucensis

(23°52’57”S, 46°22’48”W). Este é o primeiro registro

depois de mais de uma década desta espécie associada a brejos

de água doce em restingas e florestas na área dos manguezais

de Santos-Cubatão (Olmos e Silva e Silva 2001).

Laterallus viridis – Vários exemplares ouvidos em maio,

junho e setembro de 2006, em um mosaico de brejos e capinzais

adjacentes ao manguezal (aproximadamente 23°53’15”S,

46°22’45”W). Parece ser localmente comum. Pelo menos dois

exemplares diferentes foram visualizados após serem atraídos

por play-back. Uma gravação feita em 11 de junho de 2006

documenta o registro (Xeno-Canto 7892).

Uma esperada adenda à lista local, esta pequena saracura

ocorre em trechos dominados por gramíneas e herbáceas densas,

não sendo necessariamente associada a áreas úmidas.

Laterallus exilis – Um total de 15 exemplares (sete ouvidos

simultaneamente) detectados em 3 de setembro de 2006 em

manguezal aterrado com densa cobertura de capim (Paspalum

sp.) com moitas da samambaia Acrostichum aureus

em 23°53’04”S, 46°22’52”W. O registro foi documentado

por gravações (Xeno-Canto 7891). Em outra área próxima

(23°51’40”S, 46°21’31”W), em um brejo dominado por taboas,

na propriedade da Fosfertil (Terminal Marítimo), foram ouvidos

2 exemplares que responderam ao play-back no dia 21 de

setembro de 2006.

Laterallus exilis parece ocorrer em populações disjuntas

na América do Sul, uma das quais isolada no litoral sudeste do

Brasil, sendo pouco conhecida e local (Taylor 1998). Em São

Paulo, foi registrada em Iguape, Sertãozinho e Pontal (Willis

e Oniki 2003). Estes são os primeiros registros para a Baixada

Santista.

Neocrex erythrops – Assinalada para a região apenas a partir

de um registro visual no rio Cascalho (Olmos e Silva e Silva

2001), um espécime foi encontrado na área urbana de Santos

no dia 26 de junho de 2006, depois de forte chuva e vendaval,

vindo a óbito e sendo depositado no Museu de Zoologia da

Universidade de São Paulo (MZUSP 76726). Este é o primeiro

registro documentado para o Estado.

Gallinula melanops – Anteriormente registrada durante a

década de 1980 na área do Dique do Furadinho (23°53’19”S,

46°26’34”W), um sítio de manguezais aterrados onde existiam

várias lagoas de água doce (Uchôa et al. 1988, Olmos e

Silva e Silva 2003). Um exemplar foi fotografado (Figura 1I)

alimentando-se de algas crescendo sobre as margens lodosas

do rio Cubatão, próximo à confluência com o rio Cascalho

(23°52’50”S, 46°24’22”W) em 18 de setembro de 2006, e

observado no mesmo ponto no dia seguinte. Raramente registrada

no Estado de São Paulo, este parece ser o primeiro registro

documentado para a Baixada Santista (Willis & Oniki 2003).

Fulica armillata – Antes residente na área, tornou-se bastante

rara com a deterioração das lagoas de água doce do Dique

do Furadinho, onde nidificava, bem como a regeneração dos

manguezais do rio Cascalho, que tornaram o hábitat subótimo

para a espécie (Olmos e Silva e Silva 2003). Ainda são feitos

registros esporádicos desta espécie regionalmente ameaçada, a

maioria no rio Cascalho (exceto onde indicado): um exemplar

em 3 de julho de 2003; quatro em 2 de outubro de 2003; dois

em 9 de outubro de 2003; um em 20 de novembro de 2003;

dois em 23 de dezembro de 2003; um em 21 de janeiro 2004;

um em 25 de março de 2004; oito em 20 de abril 2004; dois em

22 de junho de 2004 (próximo à confluência dos rios Cascalho

e Cubatão) e dois fotografados em 2 de julho 2004 (rio Cubatão).

O padrão de ocorrência não parece apoiar a possibilidade

de que as aves sejam visitantes vindas de estados sulinos do

Brasil, de onde se deslocariam nos meses mais frios, sendo

possível que os manguezais recebam aves de outras áreas úmidas

no leste do estado de São Paulo.


556 Robson Silva e Silva e Fábio Olmos

Pluvialis dominica – Raramente registrada na região, 11 indivíduos

foram fotografados no rio Cascalho em 30 de setembro

de 2003, junto a uma grande concentração de Tringa flavipes,

T. melanoleuca, Charadrius semipalmatus e C. collaris. No

mesmo local, 10 indivíduos ainda estavam presentes em 2 de

outubro de 2003. Em 24 de novembro de 2006 foram fotografados

dois exemplares no rio Piaçaguera, em meio a um grande

bando de Charadrius semipalmatus.

Pluvialis squatarola – Também incomum nos manguezais,

embora freqüente nas praias arenosas do sul do Estado, especialmente

entre Peruíbe e Ilha Comprida. Dois indivíduos

foram fotografados no rio Piaçaguera em 4 de setembro de

2006, e novamente, em 24 de novembro de 2006, dois exemplares

foram observados nesta mesma área. Nos dias 8 e 10 de

outubro de 2007 um exemplar foi observado se alimentando

num banco de mexilhões coberto de algas, exposto na maré

baixa, localizado entre a Ilha Diana e a Base Aérea de Santos

(23°55’16”S, 46°18’38”W).

Gallinago paraguaiae – Entre quatro e seis indivíduos observados

nos dias 2 e 3 de setembro de 2006 realizando vôos

de exibição sobre a mesma área de manguezal aterrado onde

L. exilis foi encontrado. Este comportamento sugere que nidifica

na região.

Limosa haemastica – Os poucos registros recentes desta rara

espécie no estado de São Paulo ocorreram na área dos manguezais

de Santos-Cubatão (Willis e Oniki 2003, Olmos e

Silva e Silva 2001, 2003). Visitante migratório da América do

Norte, foi registrado pela última vez no rio Cascalho, perto do

rio Cubatão, em 2 de outubro de 2003, quando foi observado

um exemplar.

Arenaria interpres – Um indivíduo fotografado (Figura 1H)

nos bancos de lama do rio Cascalho próximo à confluência

com o rio Cubatão em 2 de outubro de 2003, estava associado

a 10 Pluvialis dominica, 125 Tringa flavipes, 88 Charadrius

semipalmatus e 3 Calidris fuscicollis. Espécie mais comum

nas praias arenosas do sul do Estado (Ilha Comprida), sendo

uma adenda à listagem local.

Calidris pusilla – Indivíduos solitários observados junto a

algumas dezenas de Charadrius semipalmatus nos rios Cascalho

(18 de maio de 2006) e Piaçaguera (no dia seguinte).

Outro no mesmo local, fotografado com um grande grupo de

C. semipalmatus, em 5 de setembro de 2006. É um migrante

oriundo da América do Norte e pouco numeroso ao sul do

Rio de Janeiro, com apenas duas localidades no estado de São

Paulo (Willis e Oniki 2003). Havia sido observado poucas

vezes na região (Olmos e Silva e Silva 2001).

Calidris melanotos – Um indivíduo fotografado no rio Cascalho

próximo à confluência com o rio Cubatão em meio a

outras espécies de maçaricos (maioria Tringa flavipes), em 9

de outubro de 2003, e outro observado no rio Cubatão junto a

dois T. flavipes e nove T. melanoleuca em 20 de novembro de

2003. Espécie registrada especialmente no interior do Estado

(Willis e Oniki 2003), é uma adenda à listagem local.

Calidris himantopus – Um indivíduo fotografado (Figura 1E)

junto a mais de 200 Tringa flavipes se alimentando nos bancos

de lodo no Rio Piaçaguera, em 6 de setembro de 2006, constitui

o primeiro registro para São Paulo, já esperado, uma vez

que a espécie ocorre no litoral do Paraná (Bornschein et al.

1997).

Phalaropus tricolor – Um indivíduo em plumagem de repouso

foi fotografado (Figura 1F) em meio a outros maçaricos e

batuíras no rio Cascalho, próximo à confluência com o rio

Cubatão, em 2 de outubro de 2003. Adenda à listagem local e

segundo registro para o Estado, o anterior tendo sido feito por

RSS na Ilha Comprida (Willis e Oniki 2003).

Larus maculipenis – Sua ocorrência na região é baseada em

apenas um espécime coletado em 1910 no rio Piaçaguera (Luederwaldt

1919). Em 1 de junho de 2005 um indivíduo adulto

foi observado pousado, na maré alta, no Lodo Direito, na área

do Largo do Caneu, como parte de um grupo formado por 11

Thalasseus maximus e 25 Larus dominicanus, os últimos mostrando

comportamento agressivo contra L. maculipenis.

Thalurania glaucopis – Dois machos observados na borda da

ilha de restinga alterada do lado do manguezal, entre os rios

Diana e Sândi (23°54’51”S, 46°18’46”W), no dia 10 de agosto

de 2007. Adenda à lista local.

Leucochloris albicollis – Um macho adulto foi capturado em

rede de neblina numa ilha de restinga alterada na foz do rio

Sândi (23°55’10”S, 46°18’52”W) no dia 14 de agosto de 2007.

Adenda à lista local.

Melanerpes candidus – Amplamente distribuído no Estado,

inclusive em áreas abertas no alto da Serra do Mar, é incomum

no litoral (Willis e Oniki 2003). Dois exemplares registrados

em 16 de maio de 2006 em capoeira próxima ao Morro do Casqueirinho,

e novamente dois indivíduos em mosaico de capoeiras

e áreas industriais ao lado do rio Piaçaguera (23°51’59”S,

46°23’31”W) em 3 de setembro de 2006. Nos dias 7 e 15 de

agosto de 2007 três exemplares foram registrados no manguezal,

e na ilha de restinga alterada adjacente, numa área entre

os rios Diana e Sândi (23°54’53”S, 46°18’51”W), e em 10 de

outubro de 2007 dois indivíduos vocalizando no interior da

mesma ilha de restinga. Compartilha seu hábitat na borda dos

manguezais com Colaptes campestris, outro colonizador de

áreas abertas.

Piculus flavigula – Um macho adulto foi observado e fotografado

forrageando no manguezal entre os rios Diana e Sândi

(23°54’54”S, 46°18’51”W) ao lado de uma fêmea de Venilior-


Adendas e registros significativos para a avifauna dos manguezais de Santos e Cubatão, SP 557

nis spilogaster no dia 10 de agosto de 2007. Na mesma região

(23°55’15”S, 46°19’07”W), no manguezal, foram capturados

com redes de neblina e anilhados com anilhas do CEMAVE

uma fêmea adulta e um macho jovem no dia 14 de agosto de

2007. Adenda à lista local.

Synallaxis ruficapilla – Alguns indivíduos registrados numa

pequena ilha de restinga alterada entre os rios Diana e Sândi

(23°54’52”S, 46°18’52”W), vocalizando e um capturado

em rede de neblina em 14 de agosto de 2007. Adenda à lista

local.

Phacellodomus ferrugineigula – Um exemplar vocalizando

numa área dominada por ciperáceas Cladium jamaicensis,

entre ilhas de restinga alterada e manguezal, localizada entre

os rios Diana e Sândi (23°55’03”S, 46°18’50”W) foi atraído

pelo play-back e capturado em rede de neblina, sendo encaminhado

ao MZUSP. Adenda à lista local.

Xenops minutus – Registrado nas ilhas de restinga alteradas

na área entre os rios Diana e Sândi. Um exemplar capturado

em rede de neblina em 5 de julho de 2007, encaminhado ao

MZUSP, e outros dois vocalizando nos dias 14 e 15 de agosto

de 2007. Adenda à lista local.

Hemitriccus nidipendulus – Até 5 indivíduos registrados numa

área dominada por ciperáceas Cladium jamaicensis, entre

ilhas de restinga alterada e manguezal, localizada entre os rios

Diana e Sândi (23°55’03”S, 46°18’50”W). Foram observados

exemplares vocalizando nos dias 15 de agosto de 2007, 28 de

setembro de 2007, 9, 10 e 11 de outubro de 2007. Um espécime

encaminhado ao MZUSP. Adenda à lista local.

Todirostrum cinereum – Um casal observado nos dias 2 e 3

de setembro de 2006 construindo seu ninho, já quase completo,

em uma Rhizophora mangle às margens do rio Cubatão

(23°53’30”S, 46°23’36”W). Já havia sido observada por RSS

nidificando na área urbana de Santos (Orquidário Municipal:

23°57’56”S, 46°21’00”W), desde 1994. Esta é uma nova adição

à avifauna local e, aparentemente, os primeiros registros

para o litoral de São Paulo.

Lessonia rufa – Um indivíduo imaturo fotografado (Figura 1C)

em 4 de setembro de 2006 enquanto se alimentava sobre um

banco de lama no rio Piaçaguera (23°51’58”S, 46°23’24”W),

aparentemente apanhando insetos pousados, juntamente com

Charadrius semipalmatus e Tringa flavipes. Espécie com distribuição

no Cone Sul que, no Brasil, limita-se ao Rio Grande

do Sul, tendo status de visitante migratório (Bencke 2001).

Este é o primeiro registro para o Estado de São Paulo.

Hymenops perspicillatus – Uma fêmea fotografada junto a

uma poça de água em uma estrada de serviço, em área industrial

ao lado do rio Piaçaguera (23°52’35”S, 46°23’41”W) nos

dias 3 e 4 de setembro de 2006. Apanhava insetos em vôo a

partir do chão e da vegetação baixa, juntamente com um par

de Fluvicola nengeta.

A espécie é conhecida de apenas quatro registros no Estado

de São Paulo, em Iguape, Pontal, Serra da Cantareira (Willis e

Oniki 2003) e no rio Cascalho, Cubatão (Olmos e Silva e Silva

2001), este sendo o primeiro registro documentado em mais

de uma década.

Myiarchus swainsoni – Dois exemplares observados vocalizando

no manguezal entre os rios Diana e Sândi (23°54’59”S,

46°18’48”W) no dia 28 se setembro de 2007. Adenda à lista

local.

Ilicura militaris – Uma fêmea foi capturada em rede de neblina,

e anilhada com anilha do CEMAVE, numa ilha de restinga

alterada na área entre os rios Diana e Sândi (23°55’02”S,

46°18’52”W) no dia 6 de julho de 2007. Adenda à lista local.

Cyanocorax cristatellus – Dois exemplares foram registrados

no dia 24 de setembro de 2007 numa ilha de restinga alterada

entre os rios Diana e Sândi (23°55’07”S, 46°18’51”W). As

gralhas foram notadas quando vocalizavam insistentemente

no alto de uma árvore seca. As aves demonstravam comportamento

agressivo contra um Leptodon cayanensis imaturo pousado

numa árvore na restinga. Adenda à lista local.

Corvus albus – Em 20 de julho de 2006 um indivíduo foi

observado e fotografado sobrevoando a região do rio Cubatão,

próximo a foz do rio Piaçaguera (23°52’48”S, 46°24’05”W),

logo depois ascendendo uma térmica sobre o manguezal da

vizinha ilha Piaçaguera, juntando-se a cinco Coragyps atratus.

Novamente, em 30 de março de 2007, um indivíduo desta

espécie foi visto na mesma área. O primeiro registro desta

espécie exótica no Brasil foi efetuado por Bruno Lima em

julho de 2004, na região portuária de Santos, quando foram

observados e fotografados 3 exemplares. Outro indivíduo foi

reportado nas proximidades, em 26 de março de 2006, na área

do ferry-boat (23°59’11”S, 46°17’40”W) que realiza a travessia

entre Santos e Guarujá (Bruno Lima, com. pess. 2006).

Próximo a este mesmo local, em 28 de janeiro de 2007, às

16:45 h, numa rua onde existe o comércio permanente de pescados

provenientes do Terminal de Pesca de Santos, foram

observados 2 exemplares pousados num dos telhados de uma

das lojas. Um dos exemplares estava comendo um pedaço de

peixe (aparentemente a cauda), enquanto que o outro indivíduo

apresentava comportamento agressivo, abrindo o bico,

quando algum exemplar de Ardea alba passava voando por

perto. A. alba é visitante comum nestes locais onde sempre

podem encontrar restos de peixes para sua alimentação. Às

16:57 h os dois exemplares de C. albus voaram em direção ao

ferry-boat (Bruno Lima, com. pess. 2007).

Corvus albus é uma espécie com ampla distribuição na África

ao sul do Saara, onde pode ser um comensal humano abundante

em áreas urbanas e na costa (Madge e Burn 1994, Borrow e Demey

2001), sendo seu registro no litoral brasileiro algo inesperado.


558 Robson Silva e Silva e Fábio Olmos

Tachyphonus cristatus – Uma fêmea observada numa ilha

de restinga alterada, na área entre os rios Diana e Sândi

(23°54’52”S, 46°18’51”W), no dia 13 de agosto de 2007.

Adenda à lista local.

Thraupis cyanoptera – Dois indivíduos capturados em rede

de neblina, e anilhados com anilhas do CEMAVE, numa

ilha de restinga alterada, na área entre os rios Diana e Sândi

(23°55’03”S, 46°18’51”W), no dia 5 de julho de 2007. Adenda

à lista local.

Tangara peruviana – Uma fêmea capturada em rede de neblina,

numa ilha de restinga alterada na foz do rio Sândi (23°55’10”S,

46°18’52”W), no dia 8 de agosto de 2007. (Espécime encaminhado

ao MZUSP). Adenda à lista local.

Hemithraupis ruficapilla – Uma fêmea capturada em rede de

neblina, e anilhada com anilha do CEMAVE, numa ilha de restinga

alterada na foz do rio Sândi (23°55’10”S, 46°18’52”W),

no dia 15 de agosto de 2007. Adenda à lista local.

Euphonia violacea e Euphonia pectoralis – Diversos exemplares

observados, e alguns capturados em redes de neblina e

anilhados, nas ilhas de restinga alteradas localizadas na área

entre os rios Diana e Sândi, nos meses de julho e agosto de

2007. Adendas à lista local.

Haplospiza unicolor – Associada a frutificações de bambu

(Olmos, 1996), diversos exemplares registrados na Mata

Atlântica do Sítio das Neves (23°54’09”S, 46°20’36”W), na

região do Largo de Santa Rita, após o início da frutificação de

um bambu escandente de pequeno porte (aparentemente um

Chusquea), juntamente com Sporophila frontalis, pelo menos

entre os dias 24 de setembro e 10 de outubro de 2007. Em certas

ocasiões alguns indivíduos pousavam sobre a vegetação do

manguezal (Rhyzophora mangle) adjacente.

Sporophila frontalis – Como H. unicolor, um especialista em

frutificações de bambu, muitos indivíduos foram registrados

na mesma área, pelo menos entre os dias 20 de agosto (Bruno

Kamada, com. pess. 2007) e 10 de outubro de 2007. Sua forte

vocalização é facilmente identificada a distância, onde foi possível

efetuar algumas gravações (Xeno-Canto 15237). No dia

20 de setembro de 2007 um indivíduo foi registrado numa área

de restinga alterada, entre os rios Diana e Sândi (23°55’07”S,

46°18’52”W) (Bruno Kamada, com. pess. 2007). Neste período

alguns exemplares foram capturados por moradores da

Ilha Diana, para ficarem em gaiolas.

Sporophila collaris – Espécie com ocorrência pontual no litoral

de São Paulo, incluindo Cubatão (Willis e Oniki 2003, Olmos

e Silva e Silva 2001, 2003), podendo ser considerada regionalmente

rara. Foram feitos três registros: de casais e de um trio,

respectivamente, em 11 de junho e 2‐3 de setembro de 2006,

em áreas brejosas dominadas por taboas e ciperáceas que se

desenvolveram sobre manguezais aterrados em 23°52’59”S,

46°22’57”W. Os exemplares mostravam plumagem com tons

fortemente acanelados, como S. c. ochrascens do oeste de São

Paulo, Pantanal e Bolívia, e S. c. melanocephala do sul do

Brasil e países vizinhos.

No entanto, em 2 de setembro de 2006, o macho de um casal

observado banhando-se em uma poça de água, numa estrada

vicinal da mesma área, apresentava partes inferiores e colar

nucal brancos, sem vestígio algum de canela na plumagem,

lembrando a forma nominal de S. collaris, ou mesmo S. americana.

Não foi possível confirmar a presença ou não de barras

nas asas, de forma que o registro permanece incerto. Se este

registro se deve à co-ocorrência de duas formas na região ou a

aves de gaiola soltas na área ainda precisa ser esclarecido.

Sporophila leucoptera – Um macho adulto observado em um

brejo dominado por taboas, próximo ao manguezal no Terminal

Marítimo da Fosfertil (23°51’40”S, 46°21’32”W) em 8 de

março de 2005. Na ferrovia localizada ao lado do rio Sândi

(23°55’10”S, 46°18’56”W) foi visto um macho adulto no dia

31 de julho de 2007. Aparentemente não registrada anteriormente

na Baixada Santista, embora com ocorrência esparsa

no interior do Estado, onde parece ser um colonizador recente

(Willis e Oniki 2003).

Phaeothlypis rivularis – Um par observado e gravado em 8 de

março de 2005, em mata secundária de restinga encharcada,

adjacente a um brejo dominado por taboas e contíguo ao manguezal

no Terminal Marítimo da Fosfertil. Visitas posteriores

mostraram que a espécie é residente nas margens do brejo,

perto do manguezal, bem como em vegetação secundária na

parte central da ilha do Cardoso, sendo registrado regularmente

desde então.

Em 8 de outubro de 2007, registramos dois exemplares

vocalizando no rio das Neves (23°53’58”S, 46°21’10”W),

numa área de transição entre o manguezal e a mata atlântica.

Adenda à listagem local.

Agelasticus cyanopus – Espécie relativamente incomum no

litoral paulista, obrigatoriamente associada a brejos com juncos

e taboas. Há registros prévios para Santos-Cubatão (Olmos

e Silva e Silva 2001, 2003). Casais desta espécie foram observados

nas mesmas áreas úmidas onde S. collaris foi encontrado,

em 14‐16 e 25‐26 de maio e 9‐11 de setembro de 2006.

A população local é atribuível à subespécie atroolivaceus,

forma disjunta restrita à faixa costeira entre o Rio de Janeiro

e o norte do Paraná. Esta forma é diagnosticável pela coloração

amarronzada quase uniforme das fêmeas, em comparação

ao padrão amarelado com estrias escuras da forma nominal,

encontrada no interior (Jaramillo e Burke 1999, Willis e Oniki

2003).

Entretanto, em 2 de setembro de 2006, uma fêmea solitária

da forma nominal foi observada na mesma área. É interessante

notar que exemplares anteriormente capturados com redes

de neblina no mesmo sítio, em janeiro de 1998, pertenciam à


Adendas e registros significativos para a avifauna dos manguezais de Santos e Cubatão, SP 559

forma nominal. A situação lembra aquela reportada por Bornschein

et al. (1994) para o litoral do Paraná, onde tanto a forma

nominal como atroolivaceus co-ocorrem.

Carduelis magellanica – Um macho adulto observado no

dia 2 de setembro de 2006 em uma estrada de serviço cortando

o ecótono manguezal/capoeira no mesmo local onde

T. cinereum foi registrado constitui o primeiro registro para

a área. Sua presença já era esperada, já que ocorre em várias

localidades próximas, incluindo São Vicente (Willis e Oniki

2003).

A região onde estes registros foram obtidos tem sido estudada

com regularidade desde 1993, incluindo vários períodos

onde pelo menos duas visitas mensais foram realizadas anualmente.

O encontro de um número significativo de espécies

novas para a região (e para o Estado) nos últimos anos é um

testemunho tanto da dinâmica da avifauna de hábitats aquáticos

e da tendência de várias espécies (inclusive Passeriformes)

vagarem, quanto ao fato de que listas definitivas para determinada

localidade só podem ser obtidas sob circunstâncias muito

incomuns. Comparativamente à Olmos e Silva e Silva (2003),

as adendas aqui reportadas, 37, elevam a listagem local para

247 espécies de aves.

O encontro de Theristicus caudatus, Buteo nitidus, Melanerpes

candidus, Todirostrum cinereum, Cyanocorax cristatellus

e Sporophila leucoptera demonstra o fenômeno de colonização

de áreas no domínio da Mata Atlântica por espécies

de hábitats abertos, que estão expandindo sua área de distribuição.

Algumas já se estabeleceram com sucesso na Baixada

Santista, como Patagioenas picazuro (Olmos e Silva e Silva

2003), enquanto outras ainda parecem não ter tido sucesso.

Por exemplo, Nothura maculosa, que não é incomum em áreas

abertas nos arredores da cidade de São Paulo e na região do

Alto Tietê (Mogi das Cruzes e Biritiba-Mirim), foi observada

uma única vez no sopé da Serra do Mar em 19 de agosto de

2001, em um capinzal junto a uma área industrial (23°50’05”S,

46°23’26”W).

A aparente co-ocorrência de duas formas de Sporophila

collaris e Agelasticus cyanopus na região levanta questões

taxonômicas e biogeográficas que merecem maior atenção,

embora seja possível que se trate do encontro de uma forma

residente com outra migratória, presente de forma sazonal na

região.

Corvus albus não é uma espécie habitualmente comercializada

como animal de estimação e é provável que os exemplares

observados tenham chegado à região a bordo de navios

provenientes da África Ocidental, que regularmente também

trazem imigrantes ilegais (humanos) para o Porto de Santos,

especialmente da Nigéria.

O possível estabelecimento da espécie levanta preocupações,

já que Corvus spp. são predadores importantes de colônias

de aves aquáticas e a avifauna local pode não saber reagir

a um predador exótico.

Muitas das adendas aqui relatadas correspondem a aves

típicas da Mata Atlântica que visitam as ilhas de restinga ou

mesmo as colonizam em caráter permanente, embora a viabilidade

de suas populações provavelmente dependa da conexão

com a Serra do Mar próxima. É interessante que neste hábitat

ocorram espécies ameaçadas de extinção como Tangara peruviana

e Sporophila frontalis.

Agradecimentos

Somos gratos ao apoio financeiro da Fosfertil S.A., que

patrocina nossas pesquisas nos manguezais da Baixada Santista

desde 1997. À Bruno Lima pelas informações inéditas

sobre Corvus albus em Santos e pelo apoio nos trabalhos

de campo na área da Embraport. Bruno Kamada, biólogo da

Embraport, foi fundamental no auxílio dos trabalhos de campo

na área da Embraport, resultando numa diversidade de registros

raros e inéditos para a região. Greicilene Regina Pedro

e José Fontenelle (Orquidário Municipal de Santos) forneceram

dados referentes a algumas espécies, bem como permitiram

a doação de exemplares ao MZUSP. À Luiz Fernando de

Andrade Figueiredo, pela revisão do manuscrito.

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ARTIGO

Revista Brasileira de Ornitologia 15(4):561-568

dezembro de 2007

Sex-biased help and possible facultative control over offspring sex

ratio in the Rufous-fronted Thornbird, Phacellodomus rufifrons

Beatriz A. Ribeiro 1 , Lucas A. Carrara 1 , Fabrício R. Santos 1 and Marcos Rodrigues 2

1. Departamento de Biologia Geral, ICB, Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil.

2. Departamento de Zoologia, ICB, Caixa Postal 486, Universidade Federal de Minas Gerais, 31270‐901, Belo Horizonte, MG,

Brasil. E‐mail: ornito@icb.ufmg.br

Recebido em 17 de dezembro de 2006; aceito em 29 de dezembro de 2007.

Resumo: Possível controle facultativo na razão sexual de ajudantes no joão-graveto, Phacellodomus rufifrons. Foi examinada a estrutura social e a

demografia de uma população de joão-graveto Phacellodomus rufifrons, uma espécie de furnarídeo que exibe reprodução cooperativa. Foram estudados

aspectos potencialmente associados aos mecanismos seletivos que caracterizam a reprodução cooperativa: a origem do sexo dos ajudantes, a razão

sexual de jovens e adultos e os padrões de dispersão de cada sexo. O trabalho foi feito no Parque Nacional da Serra do Cipó, estado de Minas Gerais no

sudeste do Brasil. Foram monitoradas oito a 10 famílias entre os anos de 2000 e 2003 em uma área de cerrado de aproximadamente 80 ha. Amostras de

tecido sanguíneo foram coletadas nos indivíduos marcados com anilhas coloridas. Foi aplicada a técnica molecular para determinar o sexo dos filhotes e

adultos, uma vez que o dimorfismo sexual é ausente nesta espécie. A população estudada apresenta reprodução cooperativa de parentesco, com grupos

sociais compostos de um casal reprodutor e seus filhotes que prorrogam a dispersão. O comportamento de ajuda foi detectado principalmente entre os

jovens machos. As fêmeas jovens tendem a dispersar antes, permanecendo no território natal por não mais que um ano. Os machos jovens prorrogam a

dispersão, permanecendo nos territórios natais por pelo menos três anos. A razão sexual desviada a machos resulta principalmente da tendenciosidade

do recrutamento de jovens. A primeira ninhada de casais reprodutores é tendenciosa em relação a machos, o sexo ajudante. Estas descobertas sugerem

que as fêmeas de P. rufifrons podem estar exibindo controle facultativo sobre a razão sexual dos seus filhotes.

Palavras-chave: Cuidado parental, dispersão tardia, filopatria, reprodução cooperativa, suboscines.

Abstract:We examined the social structure and demography of a cooperative breeding population of the Rufous-fronted Thornbird Phacellodomus

rufifrons, a neotropical ovenbird that inhabits open scrublands in South America. We focused on aspects potentially associated with the selective

mechanisms underlying cooperative breeding: the origin and sex of helpers, the sex ratio of young and adult population, and the dispersal patterns

of young of each sex. The study was conducted at ‘Parque Nacional da Serra do Cipó’, a natural reserve in southeastern Brazil. Eight to ten social

groups were monitored on a scrubland area of about 80 ha, during 2000‐2003. Individuals were color-banded and blood or feather shafts were sampled.

Molecular techniques were used to determine the sex of adult and fledgling, as sexual dimorphism is absent in the species. Kin-based cooperative

breeding occurs, with social groups composed of a breeding pair and offspring that delayed dispersal. Help was mainly due to young males. Female

offspring tended to disperse earlier and remain in the natal territory up to one year, while males, delayed dispersal for up to three years. Sex ratio skews

towards male in the adult population resulted mainly from biases in the sex ratio of recruited young. The first brood of breeding pairs was biased towards

males, the helper sex. Our findings suggest that Rufous-fronted Thornbird female may exhibit facultative control of offspring sex ratio.

Key-words: Cooperative breeding delayed dispersal, parental care, philopatry, suboscines.

Cooperative breeding occurs whenever more than two individuals

help rear the offspring of one pair (Emlen and Vehrencamp

1985), and has been reported for 308 bird species across

27 families, accounting for ~3% of all 9672 bird species

described (Arnold and Owens 1998). Despite this generally

accepted definition, cooperative breeding includes a diverse

array of mating and social systems (Ligon and Burt 2004).

A general observation in cooperative species is that one

sex usually helps more than the other (Cockburn 1998). Helping

is often expressed by sons (Emlen 1997, Ewen et al. 2001),

but may also be exhibited predominantly by daughters or by

both sexes (see references in Cockburn 2004). Sex ratio biases

towards the sex that helps to rear offspring were previously

reported for cooperative breeders such as the red-cockaded

woodpecker (Picoides borealis) (Gowaty and Lennartz 1985)

and the Seychelles warbler (Acrocephalus sechellensis) (Komdeur

1996, Komdeur et al. 1997). The control over offspring

sex ratio gives support to the local resource enhancement

hypothesis (review in Komdeur 1996), which predicts biases

in offspring sex ratio when one sex contributes more to the

parental fitness through the helping behavior.

The Rufous-fronted Thornbird Phacellodomus rufifrons,

an endemic neotropical Furnariidae (ovenbird) is a cooperative

breeder, where more individuals than just the breeding pair

helps in territory maintenance, nest building and feeding the

nestling (Rodrigues and Carrara 2004). Here, we investigate

the structure of cooperative breeding system and demography

of the population studied by Rodrigues and Carrara (2004). We

focused on those aspects of greater relevance to understanding

the mechanisms of expression or maintenance of cooperative

breeding in this species, namely: 1. The sex and origin of helpers:

is one sex more prone to help than the other, and is helping

behavior expressed by retained offspring only 2. Dispersal

behavior of young: do male and female offspring have similar


562 Beatriz A. Ribeiro, Lucas A. Carrara, Fabrício R. Santos and Marcos Rodrigues

dispersal patterns, is there a philopatric sex 3. The sex ratio

of the adult population and recruited young: is there a bias

towards the helper sex in any of these levels

Methods

The Species – The Rufous-fronted Thornbird is a monomorphic

ovenbird that inhabits thorny scrublands of South America

(Ridgely and Tudor 1994). It lives in pairs or groups of up

to ten individuals, on all-purpose territories maintained throughout

the year. Territory size ranges from about two to four

ha (Rodrigues and Carrara 2004). Rufous-fronted Thornbirds

build one of the largest nests of the Neotropical ovenbirds

(Sick 1993); nests may be up to 2 m long and approximately

0.4 m wide. The nest is made of sticks and usually has two

or three independent chambers, each with its own entrance.

Nests are usually at the extremities of thin branches of isolated

trees. More than one nest can be built and maintained in a

single territory. They are used not only for breeding, but also

as an overnight roosting site throughout the year (Carrara and

Rodrigues 2001). In southeastern Brazil, the breeding season

starts at about mid September and lasts until early April. Nests

are very asynchronous, clutch size ranges from 2 to 3, and

reproductive success is generally low (Carrara and Rodrigues

2001). Several group members participate in territory defense,

nest-building, nest-lining, and nestling provision (Rodrigues

and Carrara 2004).

The study was conducted from June 2000 to June 2003 at

‘Parque Nacional da Serra do Cipó’, city of Jaboticatubas, in

the central region of Minas Gerais state, southeastern Brazil.

The study site (19°12’ to 19°35’S and 43°27’ to 43°38’W)

encompasses about 80 ha of area within the park, and includes

gallery forests and cerrado (an open scrub savannah-like vegetation,

see Rodrigues et al. 2005 for details).

With a dry period from April to September and a wet period

from October to March, the average annual precipitation is

approximately 1500 mm, falling primarily between December

and March. Mean annual temperature varies between

17°C‐18.5°C (Antunes 1986).

Sixty-three individuals occupying twelve territories were

captured with mist-nets and banded with metal bands provided

by the Brazilian Environmental Agency (CEMAVE-IBAMA).

A unique combination of color plastic bands was assigned to

each bird.

As nests chambers are almost closed, with only a small

opening, nestlings could only be captured after they had left the

nest. They were captured during the first week out of the nest to

enable tissue sampling, as the first month is the period of highest

mortality among the young (Carrara and Rodrigues 2001).

Group Composition and Parental Care – During the breeding

seasons (September to April), ten territories were monitored

every two weeks. Group composition was determined

by observation of activities on territories during the day, and

nest roosting behavior, which was important for confirming

the identity and number of territory occupants.

Feeding activity of young was monitored from early morning

and sessions ranged from four to six hours. Attempts were

made to reduce the influence of the investigators by hiding

behind shrubs or woodpiles, when possible, and artificial hides

10 m from the nests were used in some cases.

Dominance Status – Dominance was attributed to breeding

pairs in territories that most actively fed the young. Other birds

were referred to as subordinates, as they usually consisted

of offspring, and presumably were not involved in breeding

attempts in their natal territory. When a subordinate individual

helped dominants in feeding the young, it was referred to as a

helper (Rodrigues and Carrara 2004).

Molecular Sexing – One of the problems faced by researchers

studying social behavior in the Furnariidae is the lack of

sexual dimorphism in almost all species of the family (Remsen

2003, Faria et al. 2007, but see Roper 2005). To overcome this

drawback, here we employed molecular technique for sexing

individual birds.

Feather shafts or blood samples were taken from 60 birds.

Blood samples of 25 to 50 µL were collected by wing venipuncture,

using BD 30x3 dischargeable needles and capillary

tubes. The samples were stored in 1.5 mL tubes containing

500 µL of absolute ethanol (Caparroz et al. 2001) that were

kept at 4°C until being processed. Feather shafts were stored

in 70% ethanol at room temperature.

DNA was extracted from blood and feather shafts by

standard phenol-chloroform methods and stored in TE buffer

(Sambrook et al. 1989). DNA samples were used in molecular

sexing method with P2 and P8 primers for PCR as described by

Griffiths et al. (1998). Following the PCR reaction, 5 µl were

submitted to electrophoresis in an 8% native polyacrylamide

gel in TBE 1X, at 125V for about four hours, after which they

were visualized by silver staining (Santos et al. 1996).

Statistical analysis – We tested for a bias in adult sex ratios

during the three years with the log likelihood ratio test (the

G‐test). Differences in dominance turnover rates and the sex ratio

of recruited young were analyzed using the Student’s t‐test.

Fisher’s exact test was used to test for a bias in the sex

ratio of the young produced in first broods compared with that

found in broods produced by pairs with tenure, accompanied

by male offspring. We defined tenured pairs as those that had

already produced one brood together in the study site.

Results

Mean observation time of feeding activity of young was

6.3 (± 6.08) hours/group in the first two years. In the third year

it was increased to 24.3 (± 12.8) hours/group, as fieldwork

efforts could be enlarged.


Sex-biased help and possible facultative control over offspring sex ratio in the Rufous-fronted Thornbird, Phacellodomus rufifrons 563

Sex and the Origin of Helpers – Only subordinate males were

observed acting as helpers, with one exception during an unusual

circumstance of brood parasitism. During the three breeding

seasons, eight males were observed helping the dominant

pair feed the young: of these, six were certainly young

that delayed dispersal, two of which expressed helping behavior

already in the same breeding season they were produced

(Table 1).

Subordinate females were present in the study site in one

breeding season. These were three one-year-old females that

delayed dispersal and were in the natal territory when their

parents reproduced again. No subordinate female helped in

the rearing offspring, although two were seen near the nest

with food in their beaks; this food was either consumed or was

dropped.

Social groups were composed of one breeding pair and

offspring that delayed dispersal, and remained in the natal territory.

Sometimes, immigrants associated with family groups

for short periods, such as overnight roosting. In one instance,

an immigrant male was in a territory when nestlings were

being reared, and while seen adding sticks to the nest, he did

not help feed the nestlings. This was the only instance in which

a subordinate male did not feed the nestlings

When Daughters Helped – A female offspring helped in one

unusual circumstance, which was when a parasitic cuckoo

was being reared by the group. The group involved included

the dominant pair (third year breeding here) and offspring

(one yearling female and two young born in the same year).

Although the dominant female used the nest for overnight

roosting, she was not seen feeding the cuckoo. The dominant

male delivered food, helped by two daughters (observation

effort = 28 hours). When females were not found in the group,

males exclusively cared for the young. This occurred in two

territories when the dominant female disappeared during the

nestling period.

Routes to become dominant – Thornbirds became dominant by

following one of at least three different ways: 1) dispersal in

the first year and immediate occupation of an unoccupied territory,

only females (n = 2); 2) delayed dispersal and occupation

of a nearby territory as dominant, seen in both, males and

females (n = 2); 3) dispersal and occupation of subordinate

position in an alien territory until finding a nearby vacancy,

observed only in one female. Territory inheritance may also

have occurred twice in the study area, but no breeding was

observed. These territories were occupied by a mother and her

male offspring.

Males that delay dispersal may benefit from the security

provided by the use of their parental territory while searching

for territory vacancies. In his third year in his natal territory,

a subordinate male crossed two territories and was captured

in an area where the dominant single male had recently lost

its mate. During the same breeding season, this subordinate

male was successful in occupying a neighboring territory as

dominant after the previous dominant male disappeared. Also,

a return to the natal territory occurs, as noted for a male helper

that had left its original territory early in a breeding season,

returning two months later at the end of the breeding season.

Turnover rates of dominant individuals – Eighteen dominant

individuals disappeared from the study site: 11 females, and

seven males. Disappearance rate of dominant females was

twice that of males in the first two years, reaching 50% of

dominant females in the third year (Table 2). Average turnover

rates, however, were equal among the sexes (t = 1.29, n = 6,

d.f. = 4, p > 0.05). Territory openings as dominants occurred

at 38% per year for females and 24% per year for males.

Dominance positions for females became vacant on an annual

mean rate of 38% of existing territories, while for males this

value was 24%.

Sex Ratio – With P2 and P8 primers, males and females were

successfully distinguished. The PCR products showed two

bands for females and a single band for males, corresponding

to distinct gene targets: CHD‐Z from Z chromosomes which

Dispersal Patterns

Among young – Female offspring dispersed predominantly

just before or during the breeding season following their birth

(11.1 ± 5.2 months; n = 7), while males tended to remain in

the natal territory for periods ranging from one to three years

(16.5 ± 10.8 months; n = 11; Fig. 1). We observed 14 dispersal

events: offspring dispersal, change of territories by adults and

immigration. In most cases, individuals occupied the territory

as dominants (79%). In three cases, immigrants in occupied

territories with a dominant pair were subordinate and briefly

stayed in the territory (three to four months). The only female

in the latter group became dominant in an adjacent territory.

70

60

50

40

30

20

10

0


564 Beatriz A. Ribeiro, Lucas A. Carrara, Fabrício R. Santos and Marcos Rodrigues

Table 1. Behavior of subordinate Rufous-fronted Thornbird individuals, as recorded along the nestling-feeding period. Only events of co-specific broods were

considered.

Breeding season Number of breeding groups sampled

Helpers

Non-helpers

Males Females Males Females

2000/01 02 04 0 0 0

2001/02 03 04 0 0 0

2002/03 04 04 0 01 03

Table 2. Disappearance rate of dominant Rufous-fronted Thornbird males and females at the study site.

Year

Territories occupied

Disappeared Dominants Frequency (%)

Females Males Females Males

2000/01 10 4 2 40.0 20.0

2001/02 8 2 1 25.0 12.5

2002/03 10 5 4 50.0 40.0

Average (SD) — 3.67 (1.53)† 2.33 (1.53) 38.3 (12.6) 24.2 (14.2)

(†) t = 1.29, n = 6, d.f. = 4, p > 0.05

Table 3. Sex ratio of the Rufous-fronted Thornbird adult population at the study site. Sex ratio is described as the proportion of males in the population.

Year Number of territories

Number of subordinates

Total number

Males Females Males Females

Adult sex ratio

2000/01 10 9* 1 19 11 0.63

2001/02 8 6* 1 14 9 0.61

2002/03 10 7 4 17 14 0.54

(*) G test: D = 7.24, n = 10, d.f. = 01, p < 0.05 (2000/01); D = 3.88, n = 07, p < 0.05 (2001/02)

Table 4. Total number of Rufous-fronted Thornbird males and females

recruited in territories at the study site. Recruitment means offspring survival

until the end of the breeding season.

Year

Recruited young

Males

Females

Ratio of males

2000/01 05 02 0.71

2001/02 04 03 0.57

2002/03 04 02 0.67

Total 13** 07 0.65

(**)T test: t = 5.08, n = 06, d.f. = 04, p < 0.01

Table 5. Sex ratio (at fledgling) of first broods, and broods of tenured breeding

pairs. Pairs were sampled only once in each condition. Only broods for which

all fledglings were sampled were considered. Sex ratio is described as the

proportion of males in the brood.

Brood sex ratio

Pairs first brood Tenured pairs brood

Broods sampled 1.0 0.0

1.0 0.5

1.0 1.0

1.0 0.5

1.0 0.0

Average (SD) 1.0 (0)** 0.4 (0.42)

appear as a pair in males, and CHD‐W from W chromosomes

which appear only in females that bear also a copy of the Z

chromosome. The size difference between the distinct chromosome

genes is about 20 base pairs.

The adult sex ration was 50:50 (G = 2.12, n = 30, d.f. = 1,

p > 0.05 (2000/01); G = 1.07, n = 23, d.f = 1, p > 0.05;

G = 0.29, n = 31, d.f. = 1, p > 0.05 (2002/03). In subordinates,

a bias toward males occurred in the first two years [G = 7.24,

n = 10, d.f. = 1, p < 0.05 (2000/01); G = 3.88, n = 07, d.f. = 01,

p < 0.05 (2001/02); G = 0.82, n = 11, d.f = 1, p > 0.05

(2002/03)]. In the three years of the study, the frequency of

subordinate males was 0.9, 0.86, and 0.64, respectively.

The difference in the frequency of subordinate males and

females is due to the sex ratio of recruited young (Table 4).

Thirteen males were recruited over the three breeding seasons,

(**) Fisher exact test: n = 21, p = 0.01

while only seven females were recruited. More males than

females were recruited in every year. On average, 65% of the

young recruited in any one year were males, a percentage significantly

higher than that of females (t = 5.08, n = 6, d.f. = 4,

p < 0.01). Stronger deviations were recorded in the first (0.71)

and the third year (0.67) of the study.

Sex ratio biases produced by non-tenured pairs – The analysis

of offspring sex ratio data taking into account the tenure of

breeding pairs (namely, if individuals had already bred in the

area) revealed a striking bias towards males in the broods produced

by non-tenured pairs (Table 5). Pairs that matched this

condition produced young males in a higher frequency than


Sex-biased help and possible facultative control over offspring sex ratio in the Rufous-fronted Thornbird, Phacellodomus rufifrons 565

tenured pairs, whose brood sex ratio averaged equality, with a

slight deviation towards female production (Two-tailed Fisher

exact test: n = 21, p = 0.0124). All first broods generated by

monitored pairs were composed exclusively by males, in clutches

of 2,0 ± 0,71 young (n = 5).

Discussion

The Rufous-fronted Thornbird exhibits kin-based cooperative

breeding, with social monogamy (sensu Hasselquist and

Sherman 2001). The social groups were composed of a breeding

pair and undispersed offspring, usually males. Female offspring

dispersed up to one year from birth, sooner than males,

which remains for up to three years. Male biased sex ratio in

the adult population resulted mainly from biases in the sex

ratio of recruited young. Biases in the sex ratio of young were

high among the first brood of breeding pairs, favoring males,

the helping sex. Our findings thus suggest that females may

exhibit facultative control of offspring sex ratio.

Sex-biased Helping Behavior – In the Rufous-fronted Thornbird,

male offspring are essentially the only young that help.

Accordingly, it has been shown that in cooperative species

usually one sex helps more than the other (review in Cockburn

1998).

Female Rufous-fronted Thornbird apparently may help,

as seen in one case, but even so, it is rare. Additional efforts

are necessary to verify the extent of bias in helping behavior

between offspring of both sexes under different social circumstances,

for instance, after a dominant (male or female) disappearance.

Here, female offspring became helpers when their

mother was not involved in rearing young activity, what suggests

that dominant behavior may play a determinant role in

the expression of helping behavior by the offspring.

Dispersing Patterns – Delayed dispersal is a very frequent

strategy in cooperative breeders, largely considered as a prerogative

for the development of kin-based cooperative systems

(Koenig et al. 1992, Dinckinson and Hatchwell 2004).

It reflects the common interests of the offspring and their

parents, which usually results in increased parental productivity

through higher young or parental survival (Cockburn

1998). In the Rufous-fronted Thornbird, all observed young

(12 males, 6 females) had a great tendency to remain in the

natal territory during most of the non-breeding season. This

prolonged association with the natal territory and parents may

bring important benefits to the offspring (Emlen 1982), especially

along the dry season when insect availability, the main

diet component of this species (Sick 1993), may be severely

reduced in the area (Ekman et al. 2004). The retained offspring

may have access to those feeding areas used by their

parents or familiar group, and may benefit from an elevated

protection against predators offered by an efficient group

guarding, as indicated by the immediate alarm vocalizations

produced when observers were located (Rodrigues and Carrara

2004).

Constraints to Adult Dispersal and Independent Breeding

– Delayed dispersal is often associated with shortage of

resources required to independent breeding, such as vacant

areas or mates (Emlem 1982a, Koenig et al. 1992, Hatchwell

and Komdeur 2000). Cooperative breeding populations frequently

live in saturated habitats (Arnold and Owens 1998),

where breeding vacancies constitute a limiting resource to

reproduction (Pruett-Jones and Lewis 1990, Komdeur 1992,

Walters et al. 1992). The availability of breeding vacancies

seems indeed to play an important role in dispersion decision

of the Rufous-fronted Thornbird offspring. When dominance

positions became available in neighbor territories, yearling

females left their natal group and moved to these territories.

The same was noted for a male that dispersed – after having

spent 36 months in the natal territory – to acquire a breeding

vacancy in a neighbor group. The shortage of this resource

in the study site is a consequence of the low turnover rates

of dominants and the scarcity of suitable areas for the establishment

of new territories. Habitat saturation thus could be a

key factor inducing Rufous-fronted Thornbird young to delay

dispersal.

In the population studied, male offspring is probably facing

higher constraints to obtain breeding opportunities than

females, as suggested by the strong contrast between the number

of subordinates of both sexes in the area and the frequency

of dominance vacancies arising. Not only was the number of

individuals competing for a breeding vacancy much higher

among males, but also the likelihood of a dominance position

to become available was lower. These conditions probably

promote the longer permanence of male offspring with their

parents, favoring the expression of helping behavior.

Skutch (1969), who was the pioneer in studying the Rufousfronted

Thornbird breeding system, did not detect cooperative

breeding in a population inhabiting the Venezuelan scrubland.

Territories were occupied predominantly by one pair, but in

some cases groups of three birds were formed by the retention

of young for up to one year. This finding sharply contrasts to

the high cooperative breeding levels detected in the population

studied here, that ranged around 60% of extant territories. In

the carrion crow (Corvus corone), another species with kinbased

cooperative breeding, helping behavior was demonstrated

to respond to environmental conditions. In a transplantation

experiment, Baglione et al. (2002) transferred carrion

crow eggs originated from a population of non-cooperatives

to a population with high level of cooperative breeding. Five

out of six transplanted young delayed dispersal, and two of

those expressed helping behavior in the following breeding

season. Variation in cooperative breeding between Rufousfronted

Thornbird populations indicates that helping behavior

in this species is flexible, and probably arises from differences

in ecological circumstances, as habitat saturation and territory

quality, experimented by young.


566 Beatriz A. Ribeiro, Lucas A. Carrara, Fabrício R. Santos and Marcos Rodrigues

Sources of Imbalance in the Sex Ratio of the Adult Population

– The sex ratio of the adult population was biased towards

males, especially in the first two years of the study. Although

the observed biases did not significantly differ from the expected

frequency of 1:1 when the adult population was considered

as a whole, significant biases were detected among subordinate

individuals in the first two years. This finding indicates

that sources of imbalance in the sex ratio were present and to

some extent influenced the population studied. Some of potential

sources are the sex ratio of young produced, the turnover

rate of adults (resulting from death or secondary dispersals), as

well as immigration and dispersal rates.

Immigration into the monitored area occurred in low frequencies

(three males and five females along the three years),

mainly to fill dominance vacancies, and did not contribute to

the observed skews, as immigrant females exceeded immigrant

males in number. In contrast, adult turnover rates played

some role in biasing the sex ratio towards males, with dominant

females yearly disappearing from the study site with a

frequency 1.75 times higher than that observed males. Such a

turnover rate contributed to the reduced number of subordinate

females in the area. The strongest factor inducing biases in

the sex ratio of adults, however, was the skewed sex ratio of

young produced. Male offspring surpassed female offspring

in all the monitored breeding seasons. Their frequency was

significantly higher than that of females, averaging 65% of

the annual recruited young. At the end of the study, young

males had been produced in numbers almost twice as high as

females.

These observations indicate that offspring sex ratio and

adult turnover rates additively influenced the sex ratio of the

Rufous-fronted Thornbird adult population, producing biases

of varying strength towards males along the years.

Facultative Control over Brood Sex Ratio – Despite the small

number of broods sampled in this study, we observed a significant

difference between the sex ratio of offspring raised

by tenured and non-tenured pairs. The latter raised offspring

composed exclusively of males. In contrast, the sex ratio of the

offspring of tenured pairs averaged equality.

The biases detected in the sex ratios of those broods

from non-tenured pairs may have resulted from an adaptive

strategy of sexual allocation. Pairs that were breeding for

the first time in the study area used to live alone in their territories.

It is noteworthy that in their first brood all of them

have favored young males, the sex prone to remain in the

natal territory and to help rearing the nestlings. The assistance

of helpers seems to have a positive effect on parental

productivity, enhancing their success in raising young

(Rodrigues and Carrara 2004). Philopatric males also have

an important role in group enlargement, enhancing territory

defense, nest building (Carrara and Rodrigues 2001), and

vigilance (Rodrigues and Carrara 2004). By overproducing

young males in their first brood, breeding pairs increase their

chances of obtaining benefits from the helpers’ presence in

the following years, thereby increasing their likelihood of

reproductive success.

Biases in the sex ratio of young were not evident among

tenured pairs. All the birds sampled on this breeding class were

being assisted at least by one subordinate male, supporting the

idea that the probability of helper assistance in the breeding

season following the first brood is high. The balance achieved

in the sex ratio of young on subsequent breeding may reflects

the influence of ecological and demographic constraints over

the allocation strategy of females, possibly the food availability

(territory quality) or sibling competition for vacancies. Successive

overproductions of males (the more philopatric sex)

would quickly strengthen both limitations, reducing female

reproductive success.

Strong biases in the sex ratio of the first brood were previously

reported for two cooperative breeders, the red-cockaded

woodpecker (Picoides borealis) (Gowaty and Lennartz 1985)

and the Seychelles warbler (Acrocephalus sechellensis) (Komdeur

1996, Komdeur et al. 1997). As observed in the Rufousfronted

Thornbird, in both species the biases favored the helper

sex, reaching levels of absolute presence of only this sex in the

brood (brood composed 100% by the helping sex).

Both in the red-cockaded woodpecker and in the Seychelles

warbler, the presence of helpers has a marked influence on the

reproductive success of parents. In the red-cockaded woodpeckers,

helping behavior seems to increase considerably the

fledgling success of females that breed for the first time in a

given area, but not of those females with prior tenure (Gowaty

and Lennartz 1985). In the Seychelles warbler, individual fitness

is affected both by the number of helpers and by territory

quality. The presence of helpers enhances the reproductive

success of pairs living in high quality territories, but decreases

the fitness of parents in low quality areas, as a result of food

depletion (Komdeur 1994). Accordingly, intensive skews

toward helpers (females) were recorded in brood sex ratios of

pairs on high quality territories, while breeding pairs on low

quality territories invested more in the dispersing (male) sex

(Komdeur 1996).

The skews in offspring sex ratio described for those species

clearly have an adaptive role, suggesting that facultative

control over the sex ratio of broods was possibly occurring

(Gowaty and Lennartz 1985, Komdeur 1996). Experimental

evidences confirmed that Seychelles warbler female indeed

has the ability of adjusting the offspring primary sex ratio in

an adaptive manner (Komdeur 2002). The facultative variation

of brood sex ratio seems to occur in some other cooperative

breeding species (references in Komdeur 2004), and was additionally

demonstrated in the Bell miner (Manorina melanophrys:

Ewen et al. 2003). Rufous-fronted Thornbird females

may exhibit facultative control over their offspring sex ratio,

supporting the local resource enhancement hypothesis (Clark

1978, Emlen et al. 1986, Lessells and Avery 1987, Komdeur

1996), which predicts biases in offspring sex ratio when one

sex contributes more to the parental fitness through the helping

behavior.


Sex-biased help and possible facultative control over offspring sex ratio in the Rufous-fronted Thornbird, Phacellodomus rufifrons 567

Acknowledgements

We are indebted to A. Nemésio and C. Schuck-Paim, J.

Roper and one anonymous referee for comments on the original

manuscript; E.A. Ribeiro and J.P.A. Ribeiro and all the

volunteer students for their help in the fieldwork. We also

thank P.E.M. Guimarães and R.A.F. Redondo for technical

help in molecular biology. This study was partially supported

by ‘Fundação O Boticário de Proteção à Natureza’, FAPEMIG

and PRPq-UFMG. F.R.S. and M.R. are research fellows of the

Brazilian Research Council (CNPq) and their laboratory was

supported by the grants 301144/2003‐6 and 473428/2004‐0

respectively. L.A.C. received a student fellowship from CNPq

(PIBIC-UFMG). We thank the staff of the Brazilian Environmental

Agency (IBAMA and CEMAVE) for banding facilities

and allowing us to work in the Park.

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ARTIGO

Revista Brasileira de Ornitologia 15(4):569-573

dezembro de 2007

Biologia de Culicivora caudacuta (Aves: Tyrannidae) no Cerrado,

Brasília, DF

Nadinni Oliveira de Matos Sousa 1 e Miguel Ângelo Marini 2

1. Programa de Pós-Graduação em Biologia Animal, IB, Universidade de Brasília, 70.910‐900, Brasília, DF, Brasil.

E‐mail: nadinnisousa@hotmail.com

2. Departamento de Zoologia, IB, Universidade de Brasília, 70.910‐900, Brasília, DF, Brasil. E‐mail: marini@unb.br

Recebido em 22 de dezembro de 2006; aceito em 29 de dezembro de 2007.

Abstract: Life history aspects of Culicivora caudacuta (Tyrannidae) in Brazilian Central Cerrado (Brasília, DF). Culicivora caudacuta

(Tyrannidae) is considered vulnerable by international and national conservation agencies and as such appears in the red lists for the World and Brazil.

This species is a conservation priority due to its population decline caused by the continuous degradation of its habitat. The objective of this study was

to characterize morphometric, reproductive and behavioral aspects of the species, as well as its home range and habitat use. The study was conducted

between September 2004 and December 2007 in the Estação Ecológica de Águas Emendadas, Distrito Federal, Brazil. Mist netted birds were banded

with metal and color rings, weighted, measured, and checked for molt and brood patch presence. Observations of groups containing banded birds were

made mostly in the morning up to three times a week on a 100 ha study plot. Adult average (± 1 SD) measurements (n = 10) were: mass 5.8 ± 0.6 g; wing

36.8 ± 1.7 mm; tail 48.0 ± 2.8 mm; tarsus 14.8 ± 1.3 mm; nostril 5.7 ± 0.4 mm. Molt of flight feathers was observed in five individuals in December,

January, April and June. The breeding season was between October and April when three birds presented brood patch and when two fledglings and

three active nests were found. We observed three groups composed of two to seven birds. The species was mostly observed in ‘campo limpo’, ‘parque

cerrado’ and ‘campo sujo’. The home range size of C. caudacuta was more than 17.5 ha. Our study improves the knowledge about life history and social

behavior of this species; however, more information is needed in order to elaborate conservation strategies for the species.

Key-words: home range, life history, reproduction, endangered species.

Resumo: Culicivora caudacuta (Tyrannidae) é considerada uma espécie vulnerável em listas vermelhas do Brasil e do mundo que requer prioridade

de conservação devido ao rápido declínio populacional causado pela contínua degradação de seu hábitat. O objetivo deste estudo foi caracterizar

aspectos morfométricos, reprodutivos, comportamentais, de uso de hábitat e de área de vida da espécie. O estudo foi conduzido entre setembro de

2004 e dezembro de 2007 na Estação Ecológica de Águas Emendadas, Distrito Federal. As aves capturadas foram pesadas e medidas, verificadas

quanto à presença de muda e placa de incubação e marcadas com anilhas metálicas e coloridas. As observações de grupos que continham indivíduos

marcados foram feitas até três vezes semanais durante a manhã. As medidas dos adultos (média ± DP) foram: massa 5,8 ± 0,6 g; asa 36,8 ± 1,7 mm;

cauda 48,0 ± 2,8 mm; tarso 14,8 ± 1,3 mm; narina 5,7 ± 0,4 mm. Mudas de penas de vôo foram observadas em cinco indivíduos em dezembro, janeiro,

abril e junho. A estação reprodutiva compreendeu os meses de outubro a abril, período em que foram observados três indivíduos apresentando placa de

incubação, dois jovens e três ninhos ativos. Foram observados três grupos formados por dois a sete indivíduos, encontrados com maior freqüência em

áreas de campo limpo, parque cerrado e campo sujo. A extensão da área de vida dos grupos amostrados foi maior do que 17,5 ha. Este estudo contribui

para o conhecimento acerca da história de vida e comportamento social de C. caudacuta, mas revela a necessidade de informações mais detalhadas,

necessárias para subsidiar medidas de conservação para a espécie.

Palavras-chave: área de vida, história de vida, biologia reprodutiva, espécie ameaçada.

O papa-moscas-do-campo (Culicivora caudacuta: Tyrannidae)

é uma ave típica de paisagens abertas, incomum, de ocorrência

pontual (Stotz et al. 1996, Machado et al. 1998, Fontana

et al. 2003, Mikich e Bérnils 2004) e com ampla distribuição

no Cerrado brasileiro (Sick 1997). Sua distribuição abrange,

além do Brasil, outros países como a Argentina, Paraguai,

Uruguai, Bolívia e Peru (Stotz et al. 1996, Sick 1997, Birdlife

International 2006). É considerada uma espécie vulnerável

nos estados da Bahia, Goiás, Maranhão, Minas Gerais, Mato

Grosso do Sul, Mato Grosso, Paraná, São Paulo, Tocantins e

Distrito Federal (Machado et al. 1998, MMA 2003, Mikich e

Bérnils 2004), sendo essa também sua categoria mundial de

ameaça, proposta pela IUCN (BirdLife International 2006).

No entanto, em listas oficiais de estados brasileiros o grau de

ameaça da espécie varia. No estado do Rio Grande do Sul,

essa espécie foi considerada criticamente em perigo (Fontana

et al. 2003) e em São Paulo, em perigo de extinção (Mikich e

Bérnils 2004).

Culicivora caudacuta requer prioridade de conservação

devido ao rápido declínio populacional causado pela contínua

degradação e destruição de seu hábitat (Stotz et al. 1996,

Mikich e Bérnils 2004, BirdLife International 2006). Entretanto,

pouco se sabe acerca da sua história de vida, sendo por

isso considerada uma espécie de elevada prioridade de pesquisa

(Stotz et al. 1996). O estudo mais detalhado sobre esta

ave foi a respeito de sua biologia reprodutiva, realizado por

Di Giacomo (2005). Demais estudos pouco aprofundados

abordam aspectos da sua distribuição geográfica, área de ocorrência,

uso de hábitat e comportamento e outros aspectos da

sua biologia reprodutiva (Stotz et al. 1996, Parker III e Willis

1997, Sick 1997, Machado et al. 1998, Tubelis e Cavalcanti

2000, Tubelis e Cavalcanti 2001, Fontana et al. 2003, Mikich


570 Nadinni Oliveira de Matos Sousa e Miguel Ângelo Marini

e Bérnils 2004, Silva e Silva 2006). Considerando a existência

de poucos estudos sobre C. caudacuta e sua importância para

conservação, esse trabalho buscou caracterizar aspectos morfométricos,

reprodutivos, comportamentais, de uso de hábitat

e de área de vida da espécie.

Metodologia

O estudo foi realizado entre os anos de 2004 e 2007 na Estação

Ecológica de Águas Emendadas (ESECAE), Distrito Federal,

Brasil (15°29’12”‐15°36’57”S e 47°31’36”‐47°41’19”W),

com uma área de 10.500 ha. A coleta de dados foi feita em

uma grade demarcada por 400 quadrados de 50 x 50 m, totalizando

100 ha, e em seu entorno. A área compreende regiões de

cerrado típico, cerrado ralo, campo sujo, campo limpo e parque

cerrado (classificação segundo Ribeiro e Walter 1998).

Para a localização inicial de grupos de C. caudacuta dentro

da grade foi utilizado o método de procura ativa através do

uso de playback. A partir desse procedimento inicial foi possível

efetuar uma captura direcionada dos indivíduos e iniciar

as observações dos grupos. A captura dos indivíduos foi feita

com o uso de redes de neblina (12,0 m de comprimento, 2,5 m

de altura, malha 36 mm) montadas nos locais de registro dos

grupos. Eventualmente, os animais foram atraídos até a rede

através do playback. Foram capturados também indivíduos

durante anilhamentos de rotina na área de estudo. As aves capturadas

foram pesadas, medidas e marcadas com anilha metálica

numerada, cedida pelo CEMAVE/IBAMA, e combinação

única de duas anilhas coloridas, para permitir identificação

individual com o auxílio de binóculos.

Os grupos foram observados entre uma e três vezes por

semana durante a manhã. Essas observações ocorreram com

maior freqüência de outubro/2004 a janeiro/2005 e de abril a

julho/2005. As áreas de ocorrência da espécie eram percorridas

e assim que um indivíduo ou grupo era detectado estes

eram seguidos pelo maior tempo possível. Apenas três grupos

tiveram suas áreas de vida demarcadas e aspectos comportamentais

anotados. Os grupos observados continham pelo

menos um indivíduo marcado. Quando necessário, a coleta de

dados foi direcionada de acordo com a carência de dados de

cada grupo.

Os ninhos deste estudo foram encontrados ao acaso na área

de estudo. Uma vez encontrado, o ninho era marcado com uma

fita colorida posicionada a uma distância mínima de cinco

metros do ninho. Os ninhos foram monitorados com intervalos

de três a quatro dias. Os ovos foram pesados com o auxílio de

um dinamômetro de 10 g de precisão e tiveram o comprimento

e largura medidos por meio de um paquímetro. Foram identificadas

as espécies das plantas suporte e a altura dos ninhos em

relação ao solo.

Os locais percorridos durante as observações foram demarcados

com o auxílio das linhas da grade de 100 ha e principalmente

com um aparelho de GPS (Global Positioning System).

Para a delimitação das áreas de vida, os pontos de observação

foram marcados dentro dos quadrados de 50 x 50 m da grade.

O tamanho das áreas de vida dos três grupos observados foi

determinado pelo método de polígonos convexos (Odum e

Kuenzler 1955).

Resultados e Discussão

Foram capturados e marcados 13 indivíduos de C. caudacuta

nas redes de neblina, dos quais um era jovem e quatro

foram posteriormente recapturados. A massa corporal média

(± 1 DP) dos indivíduos adultos (n = 12) foi de 5,7 ± 0,6 g,

variando entre 5,0 g e 6,7 g. Essas medidas foram menores

do que as encontradas por Di Giacomo (2005) na Argentina,

que obteve 6,7 g (n = 6) de massa média (mínima 5,8 g

e máxima 7,2 g). Este padrão pode representar um efeito da

Regra de Bergman, que define que animais de regiões mais

frias tendem a ser maiores, possivelmente por razões de termoregulação

(Ridley 1993). As médias de tamanho (± 1 DP)

da asa, cauda, tarso e narina dos adultos (n = 11) foram de

36,8 ± 1,7 mm, 48,0 ± 2,8 mm, 14,8 ± 1,3 mm e 5,7 ± 0,4 mm,

respectivamente.

A espécie parece ter um longo período de mudas de penas

de vôo, pois estas foram registradas entre dezembro e junho.

Mudas de penas de vôo, sempre conjugadas com mudas de

corpo, foram observadas em cinco indivíduos nos meses de

dezembro, janeiro (n = 2), abril e junho. A substituição de

penas de contorno foi registrada em 10 indivíduos no período

de abril a janeiro, com exceção dos meses de maio, agosto, e

novembro. Considerando que é a substituição de penas de vôo

que melhor indica o período de mudas pós-nupcial, estes dados

sugerem um aparente prolongamento do período de realização

de mudas em relação a outras aves da região (Marini e Durães

2001) e a não concentração desta atividade em um período

do ano. O padrão de ocorrência de mudas de vôo em aves do

Cerrado compreende o período de dezembro a abril, com um

pico entre fevereiro e março (Piratelli et al. 2000, Marini e

Durães 2001). Foi registrado um indivíduo de C. caudacuta

realizando muda de penas de contorno e de vôo em janeiro

e no início de abril de um mesmo ano. E ainda, foram observados

dois indivíduos apresentando simultaneamente placa de

incubação e muda em todo o corpo. Este dado parece ser atípico,

pois estudos com aves tropicais demonstram que a ocorrência

dessa sobreposição é baixa, devido aos elevados gastos

energéticos desses dois eventos (Stiles e Wolf 1974, Foster

1975, Piratelli et al. 2000, Stutchbury e Morton 2001, Marini

e Durães 2001).

O período reprodutivo de Culicivora caudacuta no Distrito

Federal foi entre outubro e abril. Esse período foi estimado

pela captura de três indivíduos com placa de incubação, em

outubro/2004, abril/2005 e janeiro/2007, pela presença de

dois filhotes acompanhando seus grupos em novembro/2004

e em abril/2005 e pela observação de três ninhos ativos, sendo

um encontrado em novembro/2005 e outros dois em novembro/2007.

As evidências encontradas indicam que o período


Biologia de Culicivora caudacuta (Aves: Tyrannidae) no Cerrado, Brasília, DF 571

reprodutivo no cerrado do Brasil Central é semelhante ao que

foi encontrado na Argentina (Di Giacomo 2005). Deste modo,

esta espécie parece se reproduzir a partir do final da estação

seca, início do período chuvoso, assim como outras espécies

do Cerrado (Alves e Cavalcanti 1990, Marini e Durães 2001,

França 2005, Lopes e Marini 2005, Medeiros e Marini 2007),

entretanto, terminando a reprodução mais tardiamente do que

a maioria das espécies insetívoras.

O ninho encontrado no dia 10 de novembro/2005 foi acompanhado

durante 15 dias, até a sua predação, que ocorreu logo

após o nascimento dos filhotes. Continha três ovos translúcidos;

ou seja, em estágio inicial de desenvolvimento, e estava

situado em campo sujo, a 0,34 m de altura em relação ao solo

em um arbusto de Esenbeckia pumila (Rutaceae) de 0,50 m

de altura. Os outros dois ninhos encontrados nos dias 22 e

24 de novembro/2007 estavam a aproximadamente 150 m de

distância um do outro no campo limpo. Ambos tinham como

planta suporte arbustos de Eremanthus glomerulatus (Compositae)

de altura aproximada de 0,55 m e estavam a 0,34 m e

0,53 m de altura em relação ao solo. O primeiro foi encontrado

com três ovos opacos, que vieram a eclodir, sincronicamente,

quatro dias depois. O ninho foi predado dois dias depois do

nascimento dos filhotes. O segundo foi acompanhado durante

19 dias até a sua predação. Inicialmente continha um ovo, que

não eclodiu, apesar da presença do adulto no ninho. Após 16

dias de monitoramento do ninho, foi constatada a postura de

um segundo ovo na ninhada. Os ovos de forma ovóide apresentaram

massa média (± 1 DP) de 0,9 ± 0,1 g e comprimento

de 14,6 ± 0,9 mm e largura de 11,2 ± 0,4 mm. O tamanho da

ninhada e a descrição dos ovos foram semelhantes ao registrado

em Di Giacomo (2005). No mesmo estudo, os ninhos

encontrados foram construídos em plantas herbáceas anuais,

principalmente das famílias Compositae e Leguminosae,

mas apresentavam em média 1 m de altura, com extremos

de 0,45 m e 1,8 m, um padrão diferente do ninho encontrado

neste estudo. A altura de três ninhos encontrados em uma área

de campo limpo e remanescentes da Mata Atlântica em Minas

Gerais variou de 0,45 m a 1 m do solo (Silva e Silva 2006).

Os dois filhotes, de grupos distintos, observados em

novembro/2004 e em abril/2005, apresentavam face totalmente

cor de canela, poucas penas na cauda e pouca habilidade

no vôo. Após dois meses e meio, foi observado que um

deles já apresentava a máscara preta da face definida e algumas

vocalizações de chamado, assim como o que foi descrito

em Parker III e Willis (1997). Durante esse período, o filhote

foi observado acompanhando um grupo de três indivíduos e

uma vez sendo alimentando por todos os indivíduos do grupo,

sendo que um adulto oferecia alimento com maior freqüência.

A existência de um grupo com três indivíduos adultos e um

filhote e o comportamento dos adultos em relação ao filhote

é um indício de reprodução cooperativa nesta espécie. Assim

como neste estudo, Silva e Silva (2006) observou três adultos

alimentando os filhotes fora do ninho. Além disso, ele observou

que todos esses adultos participaram da incubação e da

alimentação no ninho.

O tamanho dos três grupos (A, B e C) estudados variou

de dois a sete indivíduos. O grupo A, acompanhado desde

outubro/2004, era composto de um casal, um filhote e eventualmente

outro indivíduo. O grupo B foi acompanhado entre

abril/2005 e junho/2005 e era composto de sete indivíduos,

sendo um filhote. O grupo C, composto por um integrante do

grupo B anilhado e outro indivíduo não conhecido, foi formado

em meados de julho/2005, sendo acompanhado apenas

durante esse mês. O indivíduo anilhado foi capturado e observado

sozinho no ano anterior nessa mesma área em que passou

a defender com o seu parceiro. De acordo com Di Giacomo

(2005), C. caudacuta pode formar grupos entre sete e oito ou

até 15 indivíduos durante o inverno, mas são também encontrados

sozinhos, aos pares ou próximos entre si. Essa descrição

pode explicar a presença de um grupo grande (grupo B)

observado em maior parte durante a estação não reprodutiva,

e a possível preparação para a estação reprodutiva, com a formação

de casais (grupo C). Esses dados contrariam Parker III e

Willis (1997), que afirmam que essa ave vive aos pares ou em

famílias de três a 10 indivíduos, formadas na estação reprodutiva,

permanecendo unidas durante o inverno.

Culicivora caudacuta é uma ave territorialista, o que foi

demonstrado pela observação da constante vocalização feita

durante a movimentação ao longo do território, pelas sucessivas

respostas ao playback durante a estação reprodutiva e

por um confronto observado entre grupos nos limites de três

territórios. Esse confronto envolveu os residentes das áreas A

e C e um outro casal com área não demarcada. Os indivíduos

dominantes se empoleiravam em pontos mais altos e cantavam

intensamente, comportamento que também pôde ser visto em

resposta ao playback. Foi notado que esse tipo de defesa territorial

ocorre mais no início da manhã e de forma mais intensa

durante a estação reprodutiva.

A área de vida dessa ave compreende regiões de campo

limpo, parque cerrado, campo sujo, cerrado ralo e eventualmente

de cerrado típico, sendo que um único grupo pode

ocupar todas essas fitofisionomias. No entanto, observa-se na

figura 1 que ela é mais comumente encontrada em áreas de

campo limpo e campo sujo, assim como constatado por um

estudo de comunidades de aves de áreas abertas do Cerrado

(Tubelis e Cavalcanti 2001), e em áreas de parque cerrado

(campo de murunduns).

A extensão da área de vida de C. caudacuta é maior do

que 17,5 ha. À medida que mais pontos eram marcados para

os grupos A e B, registrou-se um aumento das suas áreas de

vida, no entanto, as observações feitas não foram suficientes

para que as curvas dessas áreas se estabilizassem (Figura 2).

Isso indica que a área delimitada para os grupos ainda não está

completa e que mais observações seriam necessárias para a

determinação de seu tamanho correto. A área de vida do grupo

C não foi comparada à dos outros grupos devido ao baixo

número de observações.

Os resultados preliminares da extensão da área de vida de

C. caudacuta no cerrado do Brasil Central mostram a importância

da preservação de áreas de campos do cerrado. Estes cam-


572 Nadinni Oliveira de Matos Sousa e Miguel Ângelo Marini

Área de vida (ha)

20

18

16

14

12

10

8

6

4

2

Grupo A

Grupo B

0

0 12 22 32 42 52 62 72

Número de pontos de observação

Figura 2. Tamanho das áreas de vida de dois grupos de Culicivora caudacuta

demarcados na Estação Ecológica de Águas Emendadas, DF.

Figure 2. Home range sizes of two groups of Culicivora caudacuta from

Estação Ecológica de Águas Emendadas, DF.

bouvreuil não são capazes de se adaptar a pastagens (Tubelis

e Cavalcanti 2000).

Este estudo amplia o conhecimento sobre C. caudacuta,

mas revela a necessidade de uma caracterização mais detalhada

da história de vida e comportamento social desta ave

dentro e entre regiões geográficas, necessária para subsidiar

medidas de conservação para a espécie.

Figura 1. Áreas de vida (linhas contínuas) de três grupos (A, B e C) de

Culicivora caudacuta demarcadas na grade de 100 ha (linha tracejada)

na Estação Ecológica de Águas Emendadas, DF. Os pontos pretos (●)

representam locais de captura de casais/indivíduos que não tiveram suas áreas

de vida demarcadas.

Figure 1. Home range (solid lines) of three groups (A, B and C) of Culicivora

caudacuta plotted in a 100 ha grid (dashed line) located at Estação Ecológica

de Águas Emendadas, DF. The black dots (●) represent capture sites of pairs/

individuals which did not have their/its home range(s) measured.

pos são redutos de um considerável número de espécies raras

e endêmicas (Stotz et al. 1996), e vêm sofrendo forte pressão,

causando um declínio de diversas aves de campo maior do que

qualquer outra guilda ecológica ou comportamental (Knopf

1994). Ameaças a essa espécie incluem introdução de gramíneas

exóticas, queimadas anuais, sobrepastejo e conversão de

campos naturais em monoculturas de soja e eucalipto (Parker

III e Willis 1997, Fontana et al. 2003, BirdLife International

2006), estas últimas atividades sendo intensamente observadas

no Cerrado (Klink e Machado 2005), principal reduto da

espécie (Fontana et al. 2003). Vale ressaltar que espécies obrigatórias

de capinzais, como C. caudacuta, Cistothorus platensis,

Alectrurus tricolor, Coryphaspiza melanotis e Sporophila

Agradecimentos

Ao CNPq pelas bolsas de Produtividade em Pesquisa e do

edital Universal a M. Â. Marini, ao CEMAVE/IBAMA pela

concessão das autorizações de anilhamento, à administração

da Estação Ecológica de Águas Emendadas (GDF), a Birder’s

Exchange pela doação dos binóculos e aos demais integrantes

do Laboratório de Ornitologia da UnB pela ajuda nas atividades

de campo.

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de filhotes de Neothraupis fasciata. Ararajuba,

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